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INTERPRETAÇÃO DA MÚSICA CALICE

(Pai, afasta de mim esse cálice)


Sintetiza uma súplica por algo que se deseja ver à distância. Boa parte da música faz uma analogia entre
a Paixão de Cristo e o sofrimento vivido pela população aterrorizada com o regime autoritário. O refrão faz
uma alusão à agonia de Jesus no calvário, mas a ambigüidade da palavra “cálice” em relação ao
imperativo “cale-se”, remete à atuação da censura.

(De vinho tinto de sangue)


O “cálice” é um objeto que contém algo em seu interior. Na Bíblia esse conteúdo é o sangue de Cristo, na
música é o sangue derramado pelas vítimas da repressão e torturas.

(Como beber dessa bebida amarga)


A metáfora do verso remete à dificuldade de aceitar um quadro social em que as pessoas eram
subjugadas de forma desumana.

(Tragar a dor, engolir a labuta)


Significa a imposição de ter que agüentar a dor e aceitá-la como algo banal e corriqueiro. “Engolir a labuta”
significa ter que aceitar uma condição de trabalho subumana de forma natural e passiva.

(Mesmo calada a boca, resta o peito)


Os poetas afirmam que mesmo a pessoa tendo a sua liberdade de pronunciar-se cerceada, ainda lhe resta
o seu desejo, escondido e inviolável dentro do seu peito.

(Silêncio na cidade não se escuta)


O silêncio está metaforicamente relacionado à censura, que, desta forma, é entendida como uma quimera,
um absurdo inexistente, porque, na medida em que o silêncio não se escuta, o silêncio não existe.

(De que me vale ser filho da santa / Melhor seria ser filho da outra)
Não fugindo à temática da religião, Chico e Gil usam de metáforas para mostrar suas descrenças naquele
regime político e rebaixam a figura da “pátria mãe” à condição inferior a de uma “prostituta”, termo que fica
subentendido na palavra “outra”.

(Outra realidade menos morta)


Seria uma outra realidade, na qual os homens não tivessem sua individualidade e seus direitos anulados.

(Tanta mentira, tanta força bruta)


O regime militar propagandeava que o país vivia um “milagre econômico” e todos eram obrigados a aceitar
essa realidade como uma verdade absoluta.

(Como é difícil acordar calado / se na calada da noite eu me dano)


O eu-lírico admite a dificuldade de aceitar passivamente as imposições do regime, principalmente diante
das torturas e pressões que eram realizadas à noite. Tudo era tão reprimido que necessitava ser feito às
escondidas, de forma clandestina.

(Quero lançar um grito desumano / que é uma maneira de ser escutado)


Talvez porque ninguém escutasse as mensagens lançadas por vias pacíficas e ordeiras, uma das
possibilidades, por conta de tanto desespero, seria partir para o confronto.

(Esse silêncio todo me atordoa)


Esse verso denuncia os métodos de torturas e repressão, utilizados para conseguir o silêncio das vítimas,
fazendo-as perderem os sentidos.
(Atordoado, eu permaneço atento)
Mesmo atordoado o eu-lírico permanece atento, em estado de alerta para o fim dessa conjuntura, como se
estivesse esperando um espetáculo que estaria por vir.

(Na arquibancada, pra a qualquer momento ver emergir o monstro da lagoa)


Entretanto, o espetáculo pode ser, ironicamente, somente o surgimento de mais um mecanismo de
imposição de poder do regime, representado pelo monstro da lagoa.

(De muito gorda a porca já não anda)


Essa “porca” refere-se ao sistema ditatorial, que, de tão corrupto e ineficiente, já não funcionava. O porco
também é um símbolo da gula, que está entre os sete pecados capitais, retomando a temática de
religiosidade e elementos católicos.

(De muito usada a faca já não corta)


Demonstra inoperância, ou seja, mostra o desgaste de uma ferramenta política utilizada à exaustão.

(Como é difícil, pai, abrir a porta)


É expresso o apelo para que sejam diminuídas as dificuldades, mas ao mesmo tempo apresenta a tarefa
como sendo muito difícil. A porta representa a saída de um contexto violento. Biblicamente, sinaliza um
novo tempo.

(Essa palavra presa na garganta)


É a dificuldade para encontrar a liberdade, a livre expressão. É o desejo de falar, contar e descrever a
todos a repressão que está sendo imposta.

(Esse pileque homérico no mundo)


Refere-se ao desejo de liberdade contido no peito de cada cidadão dos países vivendo sob os vários
regimes autoritários existentes no mundo.

(De que adianta ter boa vontade)


É um autoquestionamento sobre a ânsia de lutar pela liberdade, uma vez que o mundo estava ao avesso.
Refere-se a uma frase bíblica: “paz na terra aos homens de boa vontade”.

(Mesmo calado o peito resta a cuca dos bêbados do centro da cidade)


Mesmo sem liberdade o homem não perde a mente e pode continuar pensando.

(Talvez o mundo não seja pequeno nem seja a vida um fato consumado)
A partir deste verso o eu-lírico sugere a possibilidade de a realidade vir a ser diferente, renovando suas
esperanças.

(Quero inventar o meu próprio pecado)


Expressa a vontade de libertar-se da imposição do erro por outros para recriar suas próprias regras e
definir por si só, quais são seus erros, sem que outros o apontem. Tem o significado de estar fora da lei. O
verbo aproxima-se do desejo urgente e real de liberdade.

(Quero morrer do meu próprio veneno)


Neste verso está implícito que ele deseja ser punido pelos erros que ele vier a praticar seguindo o seu
livre-arbítrio, e não, tendo seu desejo cerceado, punido por erros que o sistema acha que ele poderá vir a
cometer.

(Quero perder de vez tua cabeça / minha cabeça perder teu juízo)
Traz a idéia de que o eu-lírico deseja ter seu próprio juízo e não o do poder repressor. Quer decapitar a
cabeça da ditadura e libertar-se do juízo imposto por ela, para ser dono de suas próprias idéias.
(Quero cheirar fumaça de óleo diesel / me embriagar até que alguém me esqueça)
Para encerrar, Chico e Gil usaram uma imagem forte das táticas de tortura. Para fazer com que os
subjugados perdessem a noção da realidade, dentro da sala os repressores queimavam óleo diesel, cuja
fumaça deixava-os embriagados. Entretanto, os subjugados também possuíam táticas antitortura, e uma
das artimanhas era justamente fingir-se desmaiado, pois, enquanto nesta condição, não eram molestados
pelos torturadores.

Análise da letra
Refrão
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

A música começa com a referência de uma passagem bíblica: "Pai, se queres, afasta de mim este cálice"
(Marcos 14:36). Lembrando Jesus antes do calvário, a citação convoca também as ideias de perseguição,
sofrimento e traição.

Usada como forma de pedir que algo ou alguém permaneça longe de nós, a frase ganha um significado
ainda mais forte quando reparamos na semelhança de sonoridade entre "cálice" e "cale-se". Como se
suplicasse "Pai, afasta de mim esse cale-se", o sujeito lírico pede o fim da censura, essa mordaça que o
silencia.

Assim, o tema usa a paixão de Cristo como analogia do tormento do povo brasileiro nas mãos de um
regime repressor e violento. Se, na Bíblia, o cálice estava repleto do sangue de Jesus, nesta realidade, o
sangue que transborda é o das vítimas torturadas e mortas pela ditadura.

Primeira estrofe
Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Infiltrada em todos os aspectos da vida, a repressão se fazia sentir, pairando no ar e atemorizando os


indivíduos. O sujeito expressa a sua dificuldade em beber essa "bebida amarga" que lhe oferecem, "tragar
a dor", ou seja, banalizar o seu martírio, aceitá-lo como se fosse natural.

Refere também que tem que "engolir a labuta", o trabalho pesado e mal remunerado, a exaustão que é
obrigado a aceitar calado, a opressão que já se tornou rotina.

No entanto, "mesmo calada a boca, resta o peito" e tudo o que ele continua sentido, ainda que não possa
se expressar livremente.

Propaganda do regime militar.


Propaganda do regime militar.
Mantendo o imaginário religioso, o eu lírico se diz "filho da santa" o que, neste contexto, podemos
entender como a pátria, retratada pelo regime como intocável, inquestionável, quase sagrada. Ainda
assim, e numa atitude desafiadora, afirma que preferia ser "filho da outra".
Pela ausência de rima, podemos concluir que os autores queriam incluir um palavrão mas foi necessário
alterar a letra para não chamar a atenção dos censores. A escolha de uma outra palavra que não rima
deixa implícito o sentido original.

Se demarcando totalmente do pensamento condicionado pelo regime, o sujeito lírico declara sua vontade
de ter nascido em "outra realidade menos morta".

Queria viver sem ditadura, sem "mentira" (como o suposto milagre econômico que o governo aclamava) e
"força bruta" (autoritarismo, violência policial, tortura).

Segunda estrofe
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Nestes versos, vemos a luta interior do sujeito poético para acordar em silêncio a cada dia, sabendo das
violências que aconteciam durante a noite. Sabendo que, mais cedo ou mais tarde, também se tornaria
vítima.

Chico faz alusão a um método bastante usado pela polícia militar brasileira. Invadindo casas durante a
noite, arrastava "suspeitos" das suas camas, prendendo uns, matando outros, e fazendo sumir os
restantes.

Perante todo esse cenário de horror, confessa o desejo de "lançar um grito desumano", resistir, combater,
manifestar sua raiva, na tentativa de "ser escutado".

Protesto pelo fim da censura


Protesto pelo final da censura.
Apesar de "atordoado", declara que permanece "atento", em estado de alerta, pronto para participar da
reação coletiva.

Sem poder fazer outra coisa, assiste passivamente na "arquibancada", esperando, temendo ,"o monstro
da lagoa". A figura, própria do imaginário das histórias infantis, representa aquilo que nos foi ensinado que
devemos temer, servindo de metáfora para a ditadura.

"Monstro da lagoa" também era uma expressão usada para referir os corpos que apareciam boiando nas
águas do mar ou de um rio.

Terceira estrofe
De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade
Aqui, ganância é simbolizada pelo pecado capital da gula, com a da porca gorda e inerte como metáfora
de um governo corrupto e incompetente que não consegue mais operar.

A brutalidade da polícia, transformada em "faca", perde seu propósito pois está gasta de tanto ferir e "já
não corta", sua força vai desaparecendo, o poder vai enfraquecendo.

Pichação num muro onde se lê abaixo a ditadura


Homem pichando muro com mensagem contra a ditadura.
Novamente, o sujeito narra sua luta quotidiana em sair de casa, "abrir a porta", estar no mundo silenciado,
com "essa palavra presa na garganta". Além disso, podemos entender "abrir a porta" como sinônimo de se
libertar, nesse caso, através da queda do regime. Numa leitura bíblica, é também símbolo de um novo
tempo.

Mantendo o tema religioso, o eu lírico questiona para que adianta "ter boa vontade", fazendo outra
referência à Bíblia. Convoca a passagem "Paz na terra aos homens de boa vontade", lembrando que não
tem paz nunca.

Apesar de ser forçado a reprimir palavras e sentimentos, continua mantendo o pensamento crítico, "resta a
cuca". Mesmo quando deixamos de sentir, existem sempre as mentes dos desajustados, os "bêbados do
centro da cidade" que continuam sonhando com uma vida melhor.

Quarta estrofe
Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça

Contrastando com as anteriores, a última estrofe traz um laivo de esperança nos versos iniciais, com a
possibilidade do mundo não se limitar apenas àquilo que o sujeito conhece.

Percebendo que sua vida não é "fato consumado", que está em aberto e pode seguir diversas direções, o
eu lírico reclama seu direito sobre si mesmo.

Querendo inventar seu "próprio pecado" e morrer do "próprio veneno", afirma a vontade de viver sempre
segundo as próprias regras, sem ter que acatar ordens ou moralismos de ninguém.

Para isso, tem que derrubar o sistema opressor, a que se dirige, no desejo de cortar o mal pela raiz:
"Quero perder de vez tua cabeça".

Sonhando com a liberdade, demonstra a extrema necessidade de pensar e se expressar livremente. Quer
se reprogramar de tudo o que a sociedade conservadora lhe ensinou e deixar de estar subjugado a ela
("perder teu juízo").

Protesto contra os crimes do regime militar


Protesto contra a violência do regime.
Os dois versos finais fazem alusão direta a um dos métodos de tortura usados pela ditadura militar (a
inalação de óleo diesel). Ilustram também a uma tática de resistência (fingir perder os sentidos para que
interrompessem essa tortura).
História e significado da música
"Cálice" foi escrita para ser apresentada no show Phono 73 que reunia, em duplas, os maiores artistas da
gravadora Phonogram. Quando submetido ao crivo da censura, o tema foi reprovado.

Os artistas decidiram cantá-la, mesmo assim, murmurando a melodia e repetindo apenas a palavra
"cálice". Acabaram sendo impedidos de cantar e o som dos seus microfones foi cortado.

Gilberto Gil partilhou com o público, muitos anos depois, algumas informações sobre o contexto de criação
da música, suas metáforas e simbologias.

Chico e Gil se juntaram no Rio de Janeiro para escrever a canção que deveriam apresentar, em dupla, no
show. Músicos ligados à contracultura e à resistência, partilhavam a mesma angústia perante um Brasil
imobilizado pelo poder militar.

Gil levou os versos iniciais da letra, que tinha escrito na véspera, uma sexta-feira da Paixão. Partindo
desta analogia para descrever o suplício do povo brasileiro na ditadura, Chico continuou escrevendo,
povoando a música com referências da sua vida cotidiana.

O cantor esclarece que a "bebida amarga" que a letra menciona é Fernet, uma bebida alcoólica italiana
que Chico costumava beber naquelas noites. A casa de Buarque ficava na Lagoa Rodrigues de Freitas e
os artistas ficavam na varanda, olhando as águas.

Esperavam ver emergir "o monstro da lagoa": o poder repressivo que estava escondido mas pronto para
atacar a qualquer momento.

Conscientes do perigo que corriam e do clima sufocante vivido no Brasil, Chico e Gil escreveram um hino
panfletário sustentando no jogo de palavras "cálice" / "cale-se". Enquanto artistas e intelectuais de
esquerda, usaram suas vozes para denunciar a barbárie do autoritarismo.

Assim, no próprio título, a música faz alusão aos dois meios de opressão da ditadura. Por um lado, a
agressão física, a tortura e a morte. Por outro, a ameaça psicológica, o medo, o controle do discurso e, por
conseguinte, das vidas do povo brasileiro.

UM POUCO DE MÚSICA: INTERPRETAÇÃO DE O BÊBADO E A EQUILIBRISTA

João Bosco (melodia) e Aldir Blanc (letra), gravam em 1979 esta música, interpretada por Elis Regina. Seu
lançamento ocorre em um momento de intensa repressão ideológica e consequente perseguição política.
Esse período que inicia em 1964 e vai até fins da década de 1980 é conhecido como Ditadura Militar.
Nessa época, era preciso usar-se uma grande transferência de sentidos, ou seja, linguagens metafóricas.
Essas linguagens conferem a determinados objetos de pensamento atributos pertencentes a outro.
Pensando nisso, os artistas faziam, assim, músicas repletas de linguagens figuradas, cujas informações
subliminares precisam ser conhecidas por aqueles que as recebem, para compreender o real manifesto da
música, como no caso a ser analisado.

Caía a tarde feito um viaduto


E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos...

Na primeira estofe da canção, há referências ao otimismo que o Brasil vivia até a da primeira metade da
década de 1960. Aldir Blanc pode ter recorrido a uma figura poética calcada em velhos temas, como o
filme Luzes da Ribalta com Carlitos, uma das personagens mais conhecidas de Charlie Chaplin. Um
andarilho de chapéu-coco, bigode e um paletó muito apertado que, apesar de pobre, agia como um
cavalheiro. Fica clara a contradição entre “bêbado” e “luto”: a alegria do vagabundo que tenta driblar a
situação e o estado melancólico da sociedade brasileira.

No entanto, a luz do progresso chega ao fim, pois “caía a tarde feito viaduto”. Essa passagem alude a
duas tragédias semelhantes:
Uma, que ocorreu no Rio de Janeiro, em janeiro de 1971, foi o desabamento, durante sua construção,
sobre ônibus, pedestres e carros, de parte de uma imensa elevada que se estendia por quilômetros, o
Viaduto Paulo Frontin.
Outra, em Belo Horizonte, em fevereiro de 1971, foi um pavilhão que, projetado por Oscar Niemaier sob a
ordem do governador de Minas Gerais, Israel Pinheiro, também desabou sobre os operários, durante a
hora de folga, no meio-dia.

Viaduto Paulo Frontin desabou quando ainda estava em construção

Imagens do Viaduto Paulo Frontin, no Rio de Janeiro, após seu desmoronamento, em 1971

Esse conjunto de construções correspondia ao “milagre econômico” que a ditadura tentava apresentar à
população brasileira, para recuperar as antigas euforias dos períodos populistas. Porém, seus equívocos e
acidentes, como estes dois denunciados metaforicamente na música não eram divulgados pela mídia da
época e as vítimas dificilmente eram indenizadas pelo governo responsável. Além disso, “caía a tarde” nos
remete ao horário do dia quando as sessões de tortura do DOI-CODI (Destacamento de Operações de
Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) começavam.

A lua
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

A lua apenas reflete a luso do sol. Esse é o tema da segunda estrofe, que faz menção aos reflexos do
passado. Assim, segue a noite, referida na terceira, quarta e quinta estrofe, denunciando em linguagem
figurada e elaborada as consequências da ditaduras: torturas, exílios, desaparecimentos e famílias
dilaceradas. Ademais, a Lua não tem brilho próprio, mas como proprietária do prostíbulo, rouba-o das suas
empregadas; um brilho falso, que pode representar os políticos que se “venderam” ao regime militar, em
troca de benefícios pessoais, com os recursos “roubados” do país.

E nuvens!
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!

mata-borrão

Anterior à caneta esferográfica, mata-borrão era um papel que absorvia a tinta em excesso das canetas-
tinteiro para evitar erros. Saber disso permite compreender que havia determinados controles e atitudes
punitivas para aqueles que “manchassem” a ordem presente na ditadura. Ressalta-se que os ditador pode
ser ironizado como o “louco” apontado nesta estrofe da música.

"Suicídio" de Vladimir, em 25 de outubro de 1975


Meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu num rabo de foguete
Chora a nossa pátria mãe gentil,
Choram Marias e Clarisses no solo do Brasil

Henfil, que rima com Brasil, é um apelido ou pseudônimo do cartunista e jornalista Henrique Filho que,
exilado, era irmão de Herbert de Souza, o Betinho, sociólogo e ativista de direitos humanos, também
perseguido e exilado, como tantos outros brasileiros.

Chora!
A nossa Pátria
Mãe gentil
Choram Marias
E Clarisses
No solo do Brasil...

Clarice era esposa do jornalista Vladimir Herzog, que fazia parte do movimento de resistência contra o
regime e teve um suicídio por enforcamento muito mal forjado em uma cela do DOI-CODI. Maria, por sua
vez, era esposa do metalúrgico Manuel Fiel Filho, torturado até a morte sob a acusação de fazer parte do
Partido Comunista Brasileiro, embora seu real crime tenha sido ler o jornal A Voz Operária. No plural,
“Marias e Clarisses” são todas as mulheres, sejam mães, filhas ou esposas, que sofreram por alguém que
fora torturado ou exilado. Além disso, destaca-se o tom de ironia ao rimar um refrão do Hino Nacional com
Brasil, neste refrão, onde apresenta justamente um Estado que deveria nos proteger, mas que nos tortura.

Mas sei, que uma dor


Assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança...

Dança na corda bamba


De sombrinha
E em cada passo
Dessa linha
Pode se machucar...

Há uma história brasileira do início do século XX, baseada na vida de Zequinha de Abreu, compositor de
Tico-Tico no Fubá, um músico que se apaixona pela trapezista de um circo e compõe uma valsa
homônima à moça chamada Branca. Assim, ele rompe seu noivado para seguir a caravana circense, mas
se decepciona e volta à terra natal, onde vive seu casamento deprimido e começa a tocar em bailes de
carnaval seu grande sucesso (Tico-tico no Fubá). Eis que um dia a vê entrando no salão com o marido e
interrompe o chorinho que dá nome ao filme e começa a tocar Branca. Tocada pela emoção de ouvir sua
música ela vai a seu encontro, mas Zequinha abandona o piano e sai desesperado pelos fundos do clube
e acaba morrendo em seus braços num ataque cardíaco fulminante.

Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show
De todo artista
Tem que continuar...

Protestos na década de 70 contra a Ditadura Militar

Os artistas, não conformados com a opressão, usariam assim a expressão artística, como uma arma
disponível para defender a democratização, em meio ao comportamento da sociedade, que vivia na corda
bamba, sempre por um triz a ser pega fora da linha estipulada pelos militares. Mas em meio a essa corda
bamba de incertezas, todos prosseguem com sua lida cotidiana. E a esperança é o que faz eles
prosseguirem com a luta para seguir adiante; afinal, “… o show tem que continuar…

ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO
Com a sonoridade de um hino, o tema segue um esquema rimático simples (A-A-B-B, ou seja, o primeiro
verso rima com o segundo, o terceiro com o quarto e assim por diante). Utiliza também um registro de
linguagem corrente, com uma letra fácil de memorizar e transmitir a outras pessoas.

Assim, parece fazer referência às canções que eram usadas em passeatas, protestos e manifestações
contra o regime, que se espalhavam pelo país no ano de 1968. A música era, então, usada como um
instrumento de combate, que pretendia divulgar, de forma direta e concisa, mensagens ideológicas e de
revolta.

Caminhando e cantando e seguindo a canção


Somos todos iguais braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção

A primeira estrofe assinala isso, com os verbos "caminhando e cantando", que remetem diretamente para
a imagem de uma passeata ou um protesto público. Lá, os cidadãos são "todos iguais", mesmo não
existindo relação entre si ("braços dados ou não").

Foto de um protesto de 1968, jovem segura um cartaz pedindo o final do militarismo.


Protesto em 1968 pelo fim da ditadura militar.
Referindo "escolas, ruas, campos, construções", Vandré pretendia demonstrar que pessoas de todos os
extratos sociais e com diferentes ocupações e interesses estavam juntas e marchavam pela mesma
causa. É evidente a necessidade de união que é convocada e a lembrança de que todos queriam a
mesma coisa: liberdade.

Vem, vamos embora, que esperar não é saber


Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

O refrão, repetido várias vezes ao longo da música, é um apelo à ação e à união. Geraldo fala diretamente
com quem escuta a música, chamando para a luta: "Vem". Com o uso da primeira pessoa do plural (em
"vamos embora"), imprime um aspeto coletivo à ação, lembrando que seguirão juntos no combate.

Ao afirmar que “esperar não é saber”, o autor sublinha que quem está consciente da realidade do país não
pode aguardar de braços cruzados que as coisas mudem. A mudança e a revolução não serão entregues
de bandeja para ninguém, é necessário agirem rapidamente (“quem sabe faz a hora, não espera
acontecer”).

Pelos campos há fome em grandes plantações


Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão

Nesta estrofe, é denunciada a miséria em que os agricultores e camponeses viviam e a exploração a que
estavam sujeitos ("fome nas grandes plantações"). Existe também uma forte crítica aos pacifistas que
pretendiam resolver a crise política com diplomacia e comum acordo, organizados em "indecisos cordões".

Retrato de mulher nos anos 60 segurando uma flor diante dos militares.
Retrato de Jan Rose Kasmir, que enfrentou os soldados norte-americanos com uma flor, em 1967.
Os ideais de "paz e a amor" promovidos pelo movimento da contracultura hippie, o flower power, são
simbolizados pelas flores (o "mais forte refrão"). É sublinhada a sua insuficiência contra o "canhão" (a
força e a violência da polícia militar).

Há soldados armados, amados ou não


Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão

Embora as forças militares simbolizassem o inimigo, o poder ditatorial, a música não desumaniza os
soldados. Pelo contrário, lembra que estavam “quase todos perdidos de armas na mão”, ou seja, usavam
da violência, matavam, mas nem eles mesmos sabiam porquê. Apenas obedeciam ordens cegamente, por
causa da lavagem cerebral que sofriam: a "antiga lição / De morrer pela pátria e viver sem razão".

Soldados durante a ditadura militar.


Soldados brasileiros durante a ditadura militar.
Os soldados, levados por um espírito de falso patriotismo, tinham que dedicar suas vidas e muitas vezes
morrer em função do sistema que protegiam e do qual eram também vítimas.

Nas escolas, nas ruas, campos, construções


Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição

Na última estrofe, é reforçada a mensagem de igualdade entre todos os cidadãos e a urgência de partirem
juntos para a luta, porque só através do movimento organizado poderia chegar a revolução.

A música lembrava que deviam avançar com os "amores na mente", pensando nas pessoas que amavam
e foram vítimas da repressão militar. Para serem vitoriosos, era necessário deixarem "as flores no chão",
ou seja, abandonarem as abordagens pacifistas.

Estava nas suas mãos "a história", a possibilidade de mudar a realidade do país e o futuro para todos os
brasileiros . Deveriam continuar "caminhando e cantando" e "aprendendo e ensinando uma nova lição",
transmitindo o seu conhecimento, despertando outras pessoas para a militância.

Significado da música
"Pra não dizer que nao falei das flores" é um convite à resistência política radical, um chamamento para
todas as formas de luta necessárias para derrubar a ditadura.

Geraldo Vandré fala de flores para tentar mostrar que não é suficiente usar "paz e amor" para combater
armas e canhões, sublinhando que a única forma de vencerem era a união e o movimento organizado.

Contexto histórico
1968: repressão e resistência
Em 1968, o Brasil enfrentava um dos piores momentos de repressão política, a instituição do AI-5: um
conjunto de leis que conferiam poderes quase ilimitados ao regime.
Face ao autoritarismo e diversos episódios de violência policial, os estudantes universitários começaram a
se mobilizar, fazendo protestos públicos que eram recebidos com agressões, mandatos de prisão e, por
vezes, assassinatos.

Aos poucos, esses protestos foram se espalhando pelo país e outros grupos se juntaram ao movimento:
os artistas, os jornalistas, os padres, os advogados, as mães, etc.

Censura
Retrato de atrizes brasileiras em protesto contra a censura militar
Retrato de atrizes brasileiras em protesto contra a censura.
Apesar da censura que ameaçava, proibia e perseguia, a música se tornou um dos veículos artísticos
usados para transmitir mensagens de cariz político e social.

Os interpretes estavam conscientes do perigo que corriam quando divulgavam publicamente as suas
opiniões, mas arriscavam sua vida para desafiar o poder instituído e passar uma mensagem de força e
coragem para os brasileiros.

Muitos anos depois do Festival Internacional da Canção de 1968, um dos jurados confessou numa
entrevista que "Pra não dizer que não falei das flores" teria sido o tema vencedor. Vandré ficou em
segundo lugar devido às pressões políticas que a organização do evento e a TV Globo, rede que emitia o
programa, sofreram.

Geraldo Vandré: exílio e afastamento da vida pública


Geraldo Vacré no Festival da Canção de 1968.
Geraldo Vandré no Festival Internacional da Canção em 1968.
As consequências possíveis para quem desafiava o poder militar eram a prisão, a morte ou, para quem
conseguia escapar, o exílio.

Por causa de "Pra não dizer que não falei das flores", Geraldo Vandré começou a ser vigiado pelo
Departamento de Ordem Política e Social e teve que fugir.

Viajou por vários países como Chile, Argélia, Alemanha, Grécia, Áustria, Bulgária e França. Quando
regressou ao Brasil, em 1975, preferiu se afastar das luzes da ribalta e se dedicar à carreira de advogado.

Sua canção e a mensagem política que ela transmitia, no entanto, entraram para a história da música e da
resistência política brasileira.