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CONDUTOS FORÇADOS

2.1. Revisão Geral

Antes do estudo da perda de energia em condutos forçados e canais é necessária a apresentação


de conceitos gerais, que, em parte, já devem ter sido vistos em cursos introdutórios de Mecânica dos
Fluidos, bem como de conceitos específicos da Hidráulica.

Embora o modo de abordagem dos problemas correntes de Hidráulica seja feito através de
abordagens macroscópicas, para o estudo dos coeficientes globais de perda de carga ou para a
compreensão da forma de variação dos mesmos é imprescindível uma análise mais elaborada das
micro-estruturas que os regem, portanto, conceitos simples de Turbulência e Camada Limite deverão
ser abordados.

2.1.1. Conceitos Básicos

Condutos Forçados (escoamentos internos e externos)

Quando o escoamento é envolvido totalmente por contornos sólidos ele é denominado


escoamento interno em contraposição ao escoamento externo que envolve corpos sólidos que
obstaculizam o movimento do fluido. São exemplos de escoamento interno o escoamento em condutos
e de escoamentos externos os escoamentos sobre uma placa plana ou ao redor de um cilindro..

Os condutos com perímetro aberto são denominados Canais, e os de perímetro fechado são
denominados propriamente Condutos.

Quando as seções transversais de um conduto, em determinado trecho, são preenchidas


inteiramente por um líquido e sua parte superior está submetida a uma pressão que não é a atmosférica,
diz-se que o escoamento ocorre em Conduto Forçado. Tais escoamentos só podem ocorrer em
condutos com perímetro fechado.

Quando o escoamento ocupa apenas uma parte da seção transversal de um conduto com
perímetro fechado e apresenta a superfície livre do líquido praticamente horizontal, estamos na
presença de um escoamento à Superfície Livre.

Todo escoamento de líquido que não ocorre em conduto forçado, ocorre à superfície livre.

A diferenciação de escoamento em Conduto Forçado com escoamento à Superfície Livre não


está somente na diferenciação dos elementos hidráulicos que os compõem (área, perímetro molhado,
etc.) mas também nas dinâmica do funcionamento de um ou outro tipo de escoamento. A força motora
que provoca o movimento em um escoamento a superfície livre é essencialmente a força da gravidade.

Para um problema de dimensionamento ou de verificação de um escoamento a superfície livre


é indispensável o conhecimento da diferenças de cotas entre as superfícies das duas seções, enquanto
nos condutos forçados a cota do eixo do conduto por si só não indica nada, sendo importante o
conhecimento da energia total, onde a cota deverá ser somada à pressão nos trechos considerados.
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-- Elementos Hidráulicos

Para o cálculo do movimento de líquidos em condutos é importante distinguir os seguintes


elementos (elementos hidráulicos) da seção transversal: a área (área molhada), o perímetro molhado e
o raio hidráulico.

A área (A) é a superfície em que escoa o líquido, traçada de tal forma que qualquer linha de
corrente seja a ela perpendicular. Na prática, a área é geralmente a seção transversal de um conduto.
D
Chama-se perímetro molhado (PM) a linha ao
longo da qual o escoamento toca as paredes do A
C
conduto.

No caso de condutos circulares sob pressão,


o perímetro molhado coincide com seu perímetro
P =π D B
geométrico, isto é, PM=2πR=π.D. Em condutos M P = ABC
M
circulares a superfície livre, o perímetro molhado é
igual ao comprimento do arco ABC (figura 2.1). (a) Forçado (b) Aberto
Figura 2.1 Perímetro molhado em condutos
fechados

É ao longo do perímetro molhado que ocorre o contato do fluido com as paredes das
canalizações, sendo, portanto, ao longo deste que a natureza do material que constitui o conduto
influencia o escoamento do líquido, ou seja, o efeito de resistência das paredes é proporcional à
extensão do perímetro molhado.

Denomina-se raio hidráulico 1 (RH) a relação entre a área da seção transversal e o perímetro
molhado: R H = A PM .
O raio hidráulico fornece uma ordem de grandeza da relação entre o volume de fluido que
escoa e a área de contato entre as diferentes superfícies: líquida e sólida. Um alto raio hidráulico
significa que a área de escoamento é muito grande em relação ao perímetro, ou seja, que há pouca
influência das paredes do conduto no escoamento.

Conceitua-se vazão volumétrica (ou dl


simplesmente vazão) como sendo o volume 1 2
que, por unidade de tempo, atravessa a área V1
da seção transversal do escoamento. O dA 1
volume de fluido é igual ao volume gerado 2
1
pela seção deslocando-se paralelamente a si
mesma durante o tempo em que transcorre o Figura 2.2 Vazão que passa entre duas linhas de
movimento. corrente.
Como o elemento de volume é dado por:

dV1 = dA.dl (2.1)

1 O Raio Hidráulico não tem o mesmo valor do que o raio de um conduto circular cilíndrico, para este tipo de conduto o
( )
raio hidráulico será equivalente a R H = A PM = πR 2 2 πR = R 2 = D 4
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--
a vazão volumétrica associada a esta variação de volume é:

dV1 dA1 .dl1 dl


dQ = = = dA1 . 1 (2.2)
dt dt dt

sendo dl1 dt = V1 a velocidade instantânea de deslocamento da seção transversal. Integrando a


expressão (2.2), chega-se à expressão da vazão em função da velocidade.

dl1
Q = ∫ dQ = ∫ dA1 .
dt ∫A
A A
= V1 .dA1 (2.3)

Conceitua-se velocidade média como sendo o quociente entre a vazão volumétrica e a área da
seção transversal. Desta forma, a equação (2.3) pode ser reescrita como:

Q 1
A A ∫A
VM = = V1.dA1 (2.4)

onde VM é a velocidade média e A é a área da seção transversal. A velocidade média do escoamento é


uma velocidade “imaginária” que, animando de maneira uniforme as linhas de corrente do
escoamento, produziria a mesma vazão que aquela produzida pelo perfil de velocidade real.

Exemplo de cálculo de vazão e y


velocidade média: Suponha que num u(r)
conduto circular cilíndrico escoe água a
u(r)
uma velocidade tal que o perfil de
velocidades em relação à distância ao
eixo seja dado por:
r x
1/ 2
 r dr
u( r ) = U centro 1 −  (2.5)
 R Perfil de
Ucentro velocidades

Para este perfil de velocidades (ver Figura 2.3 Cálculo da vazão e velocidade média
figura 2.3) determina-se a vazão e a
velocidade média como segue;

i) Cálculo da vazão

Na equação (2.3) para um elemento de área r.dr.dθ , substitui-se a lei de variação da


velocidade na expressão geral da vazão
1 1
2π R R R
 r 2  r 2
Q= ∫ V1 .dA1 = ∫
A ∫ u(r )r.dr.dθ =2.π ∫ U centro 1 − R  r.dr =2.π.U centro ∫  1− R  r.dr
0 0 0 0
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-- ( )
Com a seguinte troca de variáveis 1− r R = t , tem-se r = R (1 − t ) e dr = − Rdt e limites de
0
integração 0=>1 e R=>0, ficando a integral reduzida a Q = −2.π.U centro ∫ t 1/ 2 R 2 (1 − t ).dt , resultando
1
finalmente em:

 2 2   8
1

Q = 2. π . U centro . R 2  t 3 2 − t 5 2   = π . U centro . R 2 (2.6)


 3 5  0  15

ii) Cálculo da velocidade média:

Q 8
Da equação (2.4) dividindo-se a vazão pela área, tem-se: VM = 2
= U centro
π.R 15

VM = 0,533.U centro (2.7)

Regimes de Escoamento : Permanente e Variável

Se em um ponto genérico de um escoamento de coordenadas x, y e z referidas a um triedro, o


vetor velocidade e outras propriedades (pressão, nível, etc.) variam com o tempo em módulo e/ou
direção, estamos na presença de Regime não permanente. Se, ao contrário, em cada ponto de
coordenadas x, y e z, as propriedades são invariáveis com o tempo (em direção, módulo e sentido),
diz-se que o escoamento é permanente, nesse intervalo de tempo.

Na maior parte dos casos dos escoamentos reais, o regime é permanente somente em média,
pois suas propriedades em cada ponto podem variar com o tempo em torno do valor médio. A
invariabilidade tanto em média como em termos de valores instantâneos pode ocorrer somente quando
o escoamento for laminar, no caso de escoamento turbulento o regime só poderá ser permanente em
média.

Quando o regime é permanente, a velocidade em cada ponto é constante, mesmo para uma
seção transversal do escoamento. Como a seção transversal do escoamento é invariável (conduto
indeformável), a vazão através da seção transversal será constante (sempre considerando a média).

Distribuição hidrostática de pressões na seção transversal de um escoamento externo.

Em um escoamento permanente, as linhas de corrente2, de trajetórias3 e de emissão4 coincidem.


Em cada ponto do espaço pode-se decompor a velocidade em suas componentes tangencial e normal.

De um ponto a outro - mesmo em regime permanente - a velocidade pode variar em módulo e


direção. A aceleração tangencial é responsável pela mudança do módulo da velocidade de um ponto a
outro e a aceleração normal, pela sua mudança de direção. O módulo da aceleração normal é:

V2
an = (2.8)
R

sendo V o módulo da velocidade no ponto considerado e R o raio de curvatura da trajetória no mesmo


ponto.

2Linha de corrente é a linha formada pela união dos vetores velocidade do escoamento, num dado instante.
3Linha de trajetória é a linha formada pela trajetória das partículas ao longo do tempo.
4Linha de emissão é a linha formada pela união das partículas que passaram por um mesmo ponto ao longo do tempo.
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-- Em um trecho de trajetória retilínea, o raio de curvatura em todos os pontos é infinito e,
portanto, a aceleração normal é nula. Como conseqüência importante, quando as trajetórias médias são
paralelas temos:

* a seção transversal é plana e normal às trajetórias, independente da distribuição de


velocidades;

* a variação de pressão na seção transversal é a mesma que ocorreria em uma superfície plana
mergulhada em um líquido em repouso, isto é, diz-se que a variação de pressão na seção
transversal é Hidrostática. Portanto, entre dois pontos A e B quaisquer da mesma seção
transversal é válida a expressão de Stevin5:
p A − p B = γ (Z B − Z A )

No estudo de condutos forçados subdivide-se o cálculo do escoamento entre os trechos em que


as trajetórias são retilíneas e os trechos em que nas trajetórias são admitidas curvas, o segundo caso,
quando o estudo geral parte de uma hipótese unidimensional, deve ser tratado como uma singularidade
no escoamento.

2.1.2. Soma de Bernoulli

O escoamento em condutos sob pressão contém energia sob três formas: cinética, potencial de
posição e potencial de pressão. A soma de Bernoulli expressa a conservação destas formas de energia
do líquido em movimento sendo a equação assim denominada em homenagem a Daniel Bernoulli
(1700-=1782), matemático francês que obteve a primeira equação correlacionando energia cinética
com potencial de pressão.

Examinemos um tubo de corrente6 como aquele mostrado na figura 2..


L2 = V 2 ∆ t
L 1= V 1 ∆t A energia cinética de uma massa (m) de
líquido é a medida de sua capacidade em realizar
E2 trabalho devido à velocidade (V) que anima suas
partículas, sendo comumente expressa por
E1 A2 ½.m.V2.
A1 V2
V1

Figura 2.4 Tubo de corrente.

Num escoamento em conduto com área da seção transversal A, a massa total que atravessa essa seção
& = ρ. V. A e a energia cinética total por unidade de tempo fica:
na unidade do tempo é m
EC 1 1 1
& 2 = ( ρ. V. A )V 2 = ρ. A. V 3
= mV
∆t 2 2 2

5 Ver Capítulo 1. Propriedades dos fluidos e hidrostática.


6Tubo de corrente é o tubo gerado por um conjunto de linhas de corrente traçadas, apoiadas sobre uma curva fechada no
espaço.
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--
Expressando a energia em unidades de energia por vazão em peso, temos:

EC ρ.A.V 3 V2

= =
2.ρ.g.A.V 2.g
W
A energia de posição é a medida pela altura da localização da massa líquida acima de um plano de
referência, ou seja, é o trabalho necessário para elevar o fluido até aquela posição. Se a massa de água
é elevada até uma altura h, a energia requerida é o peso W = γ.V , onde V é o volume de fluído, vezes
a altura h, ou seja:

E PW = ρ.g.V.h
Expressando-se esta energia em relação à vazão em peso conduz a:

E PW ρ.g.V.h ρ.g.V.h

= = =h
ρ.g.A.V ρ.g.V
W

onde h é a distância medida desde o plano de referência até o centro de gravidade do conduto.

A energia potencial de pressão é a medida do trabalho feito pela força de pressão na massa
líquida. Se a pressão que atua na massa líquida é simbolizada por P, o empuxo total na seção
transversal é P.A. Na unidade de tempo, a massa líquida avança uma distância proporcional a V, que é
a velocidade média do escoamento. O trabalho efetuado pela força de empuxo, por unidade de tempo,
é dado por P.A.V:

E P = P.A.V

Da mesma forma das energias anteriores, a expressando em relação à vazão em peso conduz a:

EP P.A.V P.A.V P

= = = .
W ρ.g.A.V γ
W

A soma algébrica dessas três formas de energia, fornece a energia por unidade de peso contida
na água em escoamento através de uma dada seção do conduto.

V2 P
H =h+ + (2.9)
2g γ

A expressão 2.9 é conhecida como Soma de Bernoulli ou Equação de Bernoulli.

Carga em uma Seção Transversal de um Conduto Forçado

Em uma seção transversal de um conduto forçado define-se a carga da seção transversal como
sendo a soma:

V2 P
H = Z+ +
2g γ

onde Z é a cota do centro de gravidade da seção transversal com relação a um plano de referência
horizontal arbitrário.
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--

O termo (P γ ) é denominado Altura  (força.deslocamento ) / tempo 


H= 
Piezométrica, pois tem a dimensão de um  (volume / tempo)(força / volume) 
comprimento.
H = [deslocamento] = m
A soma (Z + P γ ) denomina-se Cota
Linha de energia
Piezométrica.
v12/2g v22/2g
O termo (V 2
2g ) denomina-se linha piezométrica
Taquicarga e também tem a dimensão de um p2/γ
comprimento.Como as três parcelas acima têm a p1/γ
dimensão de um comprimento, é possível somá-
las, gerando uma grandeza chamada Carga
linha de corrente
Hidráulica, a qual também tem a dimensão de
um comprimento. Cabe ressaltar que a dimensão z2
comprimento é, na realidade, a simplificação das
z1
grandezas que compõem o quociente, isto é, Plano de referência

 energia   (força.deslocamento ) / tempo 


 =  Figura 2.5 Representação gráfica da
 vazão em peso   vazão. peso específico 
soma de Bernoulli

Soma de Bernoulli Aplicada às Correntes Líquidas : Coeficiente de Coriolis.

Na prática, interessa conhecer as condições de movimento das correntes líquidas. Estas


correntes são massas líquidas com dimensões definidas, deslocando-se numa dada direção e que
podem ser supostas como sendo compostas por uma série de filetes líquidos paralelos entre si e
paralelos ao eixo do conduto.

Na aplicação da soma de Bernoulli às correntes líquidas, é conveniente considerar o eixo do


conduto como referência para o valor da cota piezométrica. Deve-se, também, calcular a taquicarga
considerando a variação de velocidade dos filetes líquidos que compõem a seção transversal do
escoamento.

Quando a curvatura dos filetes líquidos é muito pequena, de tal forma que é possível considerá-
los como retilíneos, paralelos e atravessando normalmente a seção transversal, a pressão varia na seção
hidrostaticamente. Assim, a cota piezométrica é a mesma para qualquer filete.

No que se refere à carga devida à velocidade, como a velocidade de cada filete é diferente, sua
energia cinética também será diferente. O cálculo dessa energia através da velocidade média do
escoamento produz um valor menor do que aquele calculado através da média das energias cinéticas
de cada filete líquido. Entretanto, pode-se introduzir um coeficiente de correção no valor da energia
cinética calculada a partir da velocidade média. Esse coeficiente de correção, chamado Coeficiente de
Coriolis (α), depende da forma da distribuição do perfil de velocidades que se desenvolve na seção
transversal do escoamento.
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Assim, a verdadeira carga em uma seção transversal, calculada a partir da velocidade média, se
escreve:

 V2  P
H = Z +α  +
 2g  γ

onde α é o coeficiente de Coriolis.

Da definição do coeficiente de Coriolis obtêm-se a sua expressão matemática dada por:


3
1  v
α = ∫   dA (2.10)
A  V

onde v é a velocidade de um elemento de filete e V a velocidade média na seção transversal.

Para condutos forçados, α normalmente varia entre 1 e 2. No caso de escoamento laminar em


condutos circulares, o valor do coeficiente de Coriolis é igual a 2 e, para escoamento turbulento,
apresenta valores mais próximos de 1 (em geral, 1,01 a 1,15). Nos cálculos usuais, utiliza-se,
freqüentemente, a unidade, uma vez que a taquicarga representa, na maior parte das vezes, apenas uma
pequena parcela da carga. Para canais abertos o valor de α varia normalmente entre 1,10 e 2,00. Ven
Te Chow (1959) cita casos excepcionais onde o coeficiente de Coriolis chega a atingir o valor 7,4.

Como exemplo, supondo que o escoamento turbulento, num conduto circular cilíndrico, possa
ser expresso por um perfil do tipo Lei da Potência de Prandtl

17
 r
u (r ) = U Centro 1 −  (2.11)
 R

onde: Ucentro é a velocidade máxima junto ao eixo do conduto, a velocidade média poderá ser
obtida por processo análogo ao empregado para o caso de escoamento laminar, ou seja:
2π R R 17
1 2U  r
V=
π. R2 ∫0 ∫0 u( r)r.dr.dθ = Rcentro
2 ∫0 1 − R  r.dr
que, integrando, resulta em:
17
98 u 120  r
V= U Centro ou = 1 −  (2.12)
120 V 98  R 

Aplicando-se a equação (2.12) na definição de coeficiente de Coriolis (equação 2.10), tem-se:


2π R 3 37
1  120   r
α=
π.R 2 ∫0 ∫0  98  1 − R  r.dr. dθ

que integrada resulta:

α ≈ 1,06
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Traçado geométrico das linhas de energia e piezométrica

É comum confundir-se a declividade da linha de energia, definida como a declividade da linha


traçada entre a energia de dois pontos desenhados num perfil de desenvolvimento do conduto, com a
perda de carga unitária J (perda de energia por unidade de comprimento). Para condutos simples de
seção constante, a coincidência só pode existir em trechos horizontais de canalização. Em trechos não
horizontais teremos a variação da linha de energia dada pelo ângulo δ da figura 2.6.

Ao se representar graficamente trechos retilíneos do mesmo conduto, com inclinações


diferentes em relação ao plano horizontal, surgem linhas de energia e piezométrica quebradas, pois por
definição

hp
J= e L' = L cos δ L'
L δ hp
V2
e, por conseqüência, tem-se: 2.g

hp hp J.L J P2
tan δ = = = =
L' L cos α L cos α cos α P1 γ
2
γ
α = 0° tan δ = J
1 α
α = 45° tan δ = 1,414. J
Para
α = 60° tan δ = 2.J
L
α = 75° tan δ = 3,864.J
Figura 2.6 Traçado das linhas de energia e
piezométrica.

A figura 2.7 ilustra o traçado correto da linha de energia para dois trechos de um único conduto
com o mesmo comprimento L.
Linha de energia correta
Linha de energia incorreta
β
hp/2
β' hp/2
L

L
α=0
H0 H1 H2
α≠0

Figura 2.7 Traçado de uma linha de energia para um conduto único com diferentes declividades de
linha de eixo.

Apenas o cálculo analítico permite conclusões sobre o valor da carga, da cota piezométrica, da altura
piezométrica e da pressão em cada seção transversal de um escoamento
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Influência da velocidade de aproximação

Quando o conduto sob pressão parte de um reservatório, sendo a área deste muito grande em
relação às dimensões do conduto, o valor da velocidade de abaixamento do nível da linha d'água no
reservatório (velocidade da água no reservatório) poderá ser desprezada. A hipótese citada causará
uma variação no resultado insignificante, como pode se ver no exemplo, da figura, onde se determina a
vazão considerando ou não a velocidade de aproximação.

* Solução (a) V1 ≠0 (considerando a velocidade do reservatório).

Aplicando Bernoulli entre 1 e 2 tem-se (V1≠0) :


20,00m 1 H1 = H 2 + h p

V1 2 V 2
hp=2,00m 20,0 + = 5,0 + 2 + 2,0
2g 2g

5,00m Da equação da continuidade sabe-se que


Q1 = Q 2 ou V1 A 1 = V2 A 2
∅=0,20m 2 Q
ou ainda V1 2 = 0,0016 V2 2
∅=1,00m Substituindo na equação de Bernoulli:
V2 = 15,981 m / s e Q = 0,502 m 3 / s (Q = 0,502047 m 3 / s)
Figura 2.8 Exemplo da influência da velocidade de
aproximação
* Solução (b): V1=0 (desconsiderando a velocidade do reservatório).
V22
V1 = 0 ; = 13 ⇒ V2 = 15,968 m / s e Q = 0,502 m 3 / s (Q = 0,501645 m 3 / s) ; ∆Q Q = 0,08%
2g

Portanto, o fato de desconsiderar a velocidade de rebaixamento do nível do reservatório causa


no exemplo em questão, um erro absoluto de 0,08%, erro este insignificante.

O problema principal é a definição de quando se está na presença de um reservatório ou de uma


estrutura em que a velocidade de aproximação é importante, pode-se definir em termos práticos que
para situações usuais, quando o diâmetro do reservatório ultrapassa determinado limite a velocidade de
aproximação pode ser desprezada, ou seja, isto é possível quando

D Reservatório ≥ 3.D Conduto (2.13)

nestes casos a área do reservatório será 9 vezes maior do que a do conduto e a velocidade 9 vezes
menor, resultando numa energia cinética 81 vezes menor no reservatório que no conduto, logo,
desprezível.
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2.1.3. Escoamento Laminar e Turbulento

Reynolds (1842-=1912) através de análise experimental, constatou que o fluido num conduto
pode estar se movimentando em dois regimes distintos de escoamento, o laminar e o turbulento (figura
2.9).

A experiência de Reynolds pode ser descrita em rápidas palavras como segue: a partir de um
reservatório a nível constante, a água (ou um líquido de viscosidade conhecida) escoa por um conduto
de vidro. Através de uma entrada bem ajustada (cônica) e de uma manobra da válvula de controle feita
lentamente provoca-se um escoamento permanente dentro do conduto de vidro.

Estando o escoamento bem estabelecido (após uma distância equivalente a 10 a 40 diâmetros


da entrada), injeta-se um corante no eixo do conduto de vidro de diâmetro D. A água escoa com uma
velocidade média V e sua viscosidade é ν. Variando a velocidade, o diâmetro e a viscosidade,
Reynolds constatou a presença dos dois regimes de escoamentos:

um primeiro tipo de escoamento, ordenado, onde o corante não se dispersava, que Reynolds
denominou Escoamento Laminar;

um segundo tipo onde o corante se dispersava com rapidez, aparentando desordem nas suas
linhas de corrente, que Reynolds denominou Escoamento Turbulento ;

e, entre os dois, Reynolds detectou uma zona de transição em que ocorre ora uma situação ora outra.
Injeção de corante
Escoamento Laminar

Válvula de
controle
Zona de transição
Entrada bem
ajustada

Escoamento turbulento

Figura 2.9 Experiência de Reynolds

O surgimento de um ou outro tipo de regime se dá com as seguintes condições:

a) Para um diâmetro constante, com baixas velocidades ou fluido com viscosidade elevada, a dispersão
do corante não existirá em grande escala, permanecendo individualizado no interior do escoamento.
Este escoamento é constituído por linhas de corrente perfeitamente definidas, que se deslocam
paralelamente ao eixo do conduto sem se misturarem (escoamento laminar).

b) Não variando o diâmetro do conduto, com o acréscimo da velocidade ou a diminuição da


viscosidade, os filamentos de corante começam a oscilar, variando a sua posição com o tempo e
espaço, aparecendo eventualmente pequenas perturbações

c) Aumentando mais ainda a velocidade ou diminuindo ainda mais a viscosidade, os filamentos de


corante se misturam ao escoamento (escoamento turbulento).
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d) Mantendo constante a velocidade e a viscosidade e variando o diâmetro, com o aumento deste a
tendência de obter-se escoamentos desordenados aumenta.

As três características acima mencionadas, indicam dois regimes distintos de escoamento: laminar e
turbulento, os quais podem ser identificados expressando as grandezas hidráulicas que os definem de
forma adimensional.Reynolds estabeleceu uma relação, que deu origem a um parâmetro adimensional,
relacionando as forças de inércia e os efeitos viscosos do escoamento, denominado em sua
homenagem de Número de Reynolds, definido pela seguinte relação:

Re = ρ.V .D ou Re = V .D (2.14)
µ ν
onde V = velocidade média do escoamento,
ρ = massa específica do fluido,
µ = coeficiente de viscosidade dinâmica,
ν = coeficiente viscosidade cinemática e
D = diâmetro do conduto.

Em outras palavras, em função da magnitude deste número adimensional, para dada


geometria, pode-se definir a possibilidade de existência de um ou outro tipo de escoamento.

Utilizam-se as expressões "dada geometria" e "possibilidade de existência", pois a definição de


tipo de escoamento dado pelo número de Reynolds não é de toda absoluta. Em função da geometria do
escoamento (graus de liberdade do escoamento) e de perturbações que possa haver, os valores limites
sofrerão variação e, no caso, a definição da existência ou não do escoamento turbulento dependerá
também dessas outras variáveis.

Embora o número de Reynolds em que começa a haver escoamento turbulento não seja
perfeitamente definido, é possível estabelecer, com um bom grau de aproximação, um valor crítico
abaixo do qual o escoamento sempre será laminar, ou seja, mesmo que se introduza perturbação no
escoamento estas serão amortecidas pela viscosidade e o escoamento volta a ser ordenado.

A determinação analítica do número de Reynolds crítico não é simples de ser obtida; teorias
lineares7 resultam em números muito altos em relação aos valores experimentais, por exemplo no caso
de escoamento entre duas chapas planas obtêm-se como número de Reynolds Crítico o valor 5772 e,
através da experiência é notório que para valores próximos de 1000 pode se ter escoamento turbulento.
Teorias mais sofisticadas, não lineares, que levam em conta a presença de instabilidades secundárias,
se aproximando mais da realidade física, atingem valores de transição mais próximo dos valores
experimentais entretanto, mesmo estes modelos matemáticos mais sofisticados ainda não dão respostas
plenamente satisfatórias. Devido a isto tudo se utiliza, ainda, dados experimentais para definir a
transição.

Rigorosamente pode-se dizer:

*que abaixo de um valor crítico pré-determinado de número de Reynolds, para uma


determinada geometria, ter-se-á certamente escoamento laminar (ReCRÍTICO
LAMINAR≈2100±500);
*que acima deste valor crítico a tendência a surgir escoamento turbulento aumenta
exponencialmente com o aumento do número de Reynolds do escoamento e

7 O grau das instabilidades que levam a turbulência ainda não está perfeitamente determinado. Para uma abordagem
rigorosa e inicial do assunto ver SHERMAN, Frederick S. 1990, Viscous Flow. McGraw Hill 438-577 e para uma visão
amais física ver TRITTON, D.J. 1988. Physical Fluid Dynamics. Oxford Science Publications Capítulo 18.
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*que entre o escoamento laminar típico e o escoamento turbulento, haverá uma zona de
transição onde poderá ocorrer um ou outro tipo de escoamento. Esta zona poderá apresentar
escoamento laminar que, com fortes oscilações que poderão degenerar em turbulência caso o
conduto tiver comprimento suficiente para tal (para ReCRÍTICO TURBULENTO≈4700 a 5900 tem-se
um fator de intermitência8 da ordem da unidade e praticamente sem chance para existir
escoamento laminar para ReCRÍTICO TURBULENTO≈50000).

Em aplicações práticas, as “perturbações ao escoamento", tais como vibrações, condições de


entrada irregulares, imperfeições na geometria do conduto, etc..., fazem com que a zona de transição
fique mais restrita, podendo ser atingido rapidamente regimes de escoamento turbulento.

Para o caso de condutos circulares cilíndricos pode-se adotar como limites para a transição do
escoamento laminar para turbulento, em aplicações práticas, os seguintes valores:
Regime Laminar : ReCRÍTICO LAMINAR ≈ 2100
Regime Turbulento: ReCRÍTICO TURBULENTO ≈ 4500

Entre esses dois limites, tem-se a zona de transição, variando com outros parâmetros que não
estão representados no número de Reynolds.

Só o número Reynolds não é suficiente para descrever o escoamento turbulento num conduto
qualquer, para o caso de condutos de paredes9 onde a rugosidade é relativamente insignificante ante o
efeito da viscosidade junto às mesmas, eles sozinho serve para caracterizar as condições de
semelhança do escoamento em condutos sob pressão, porém, quando a rugosidade das paredes for
importante, para caracterizar o escoamento necessitando-se de outro parâmetro, a rugosidade relativa.

2.2. Camada limite

Mesmo supondo a priori um conhecimento teórico dos conceitos de camada limite, é necessário
uma introdução sobre as peculiaridades desta quando se trata de condutos forçados.

2.2.1. Conceito de camada limite

Na maior parte das situações reais de escoamentos a influência da presença de contornos


sólidos provocando um retardo no fluxo, somente é perceptível numa região bem próxima à parede,
sendo a condição do fluido de não sofrer deslizamento junto à parede10 responsável por este retardo.

A partir da constatação anterior em escoamentos de baixa viscosidade11 é possível dividir o


escoamento em duas regiões distintas: uma região externa, onde a influência da parede não é
significativa e outra região interna, onde os efeitos da viscosidade do fluido deverão ser levados em
conta.

8 Fator de intermitência relaciona para uma dada região do espaço o tempo em o escoamento permanece em regime
turbulento com o tempo total do escoamento, fator de intermitência zero significa escoamento puramente laminar,e fator
unitário significa escoamento completamente turbulento.
9 Paredes hidraulicamente lisas.
10 Condição de não deslizamento.
11O conceito de escoamento de baixa viscosidade não implica diretamente na classificação dos fluidos em fluidos de alta
ou de baixa viscosidade, implica, isto sim, em um número de Reynolds alto, ou seja, para uma dada geometria, as
velocidades são preponderantes sobre a viscosidade do fluido.
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A vantagem da divisão do escoamento em duas regiões é que na região externa o
comportamento do fluido pode ser simulado por hipóteses de escoamento potencial sem que haja erros
significativos no seus cálculos que serão extremamente simplificados. Na região interna, a viscosidade
terá que ser levada em conta porém, como a espessura desta região é pequena, a pressão que nela atua
será igual à pressão obtida pelo cálculo da camada externa.

Este conceito de divisão do escoamentos de baixa viscosidade em duas regiões distintas foi
enunciado pela primeira vez por Ludwig Prandtl12 em 1904. Antes de ser postulada a teoria da camada
limite, as fronteiras entre a zona de influência da parede e a zona potencial não eram claros. A
simplificação introduzida pela teoria da camada limite permite a solução de escoamentos a altos
números de Reynolds através da adoção de hipóteses simples como a do comprimento de mistura, a
qual não exige modelos matemáticos complicados.
Perfil de escala vertical (y) exagerada
velocidades

U∞ U∞

Zona externa
y
x δ(x ) Zona interna u ( x , y)

Placa plana de bordos agudos


δ( x) = espessura da camada limite
Figura 2.10 Esquema geral do início do desenvolvimento da camada limite em regime laminar.

A figura 2.10 apresenta, de forma esquematizada, o início do desenvolvimento da camada


limite para o escoamento de um fluido sobre uma chapa plana com gradiente de pressão nulo. O fluido,
que no bordo agudo da placa apresenta um perfil uniforme de velocidades, quando começar a escoar
sobre a placa apresentará, junto à superfície sólida da parede uma velocidade nula. Esta situação,
condição de não deslizamento, é válida tanto para velocidades baixas como para velocidades muito
altas (até 4 a 5 vezes a velocidade do som). O espessamento da camada limite sobre um perfil plano
em regime laminar, ocorrerá até o momento que instabilidades perturbarem este escoamento, a figura
2.11. mostra, de forma idealizada, um possível cenário de transição para a turbulência na camada
limite.

O cenário descrito na figura 2.11 necessariamente não ocorre em todas as situações de


transição para a turbulência, ele mostra os eventos possíveis que podem ocorrer na transição entre
camada limite laminar e camada limite turbulenta plenamente desenvolvida.

De acordo com o cenário proposto, a primeira perturbação do escoamento laminar é produzida


por efeitos lineares sobre o escoamento laminar. Estas perturbações, descritas pela equação de ORR-
SOMMERFELD são denominadas ondas de Tolmien-Schlichiting ou de perturbações primárias. Elas
se comportam de forma laminar, porém com componentes bidimensionais.

12PRANDTL, Ludwig. 1904. Über Flüssigkeitsbewegung bei sehr kleiner Reibung. Proc. Third Intern Math. Congress,
Heidelberg, p484-91
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À medida que o escoamento evolui de montante para jusante, o perfil de velocidade junto à
camada limite (mais veloz longe da parede do que próximo a ela) provoca um avanço da crista das
ondas de Tolmien-Schlichiting em relação à cava da mesma onda. Este avanço criará uma componente
rotacional com eixo paralelo à superfície do contorno sólido. A tendência à rotação do escoamento cria
diferenças localizadas de pressão que tendem a ampliar as ondas de Tolmien-Schlichiting.
Planta baixa
Escoamento laminar

Vórtices tipo λ

Ondas de Tolmien- Ondas tridimensionais Zona de eclosão da Manchas de Turbulência


Schlichiting (laminares). turbulência (Burst) turbulência plenamente
(bidimensionais) Vórtices tipo λ (Spots) desenvolvida
Perturbações primárias

Fluxo uniforme de baixa Corte


intensidade turbulenta.
Atenção: As escalas estão distorcidas.
Figura 2.11. Esquema de transição à turbulência na camada limite (WHITE,1974)

Com as ondas de Tolmien-Schlichiting ampliadas a um determinado nível, surgirão


instabilidades normais a estas ondas e instabilidades secundárias, criando um segundo tipo de vórtices
com eixo de rotação não mais paralelo às ondas primárias. Estes vórtices são denominados vórtices
tipo λ (lambda).

Desde o início do escoamento na camada limite até o surgimento dos vórtices tridimensionais
tipo lambda o escoamento é inteiramente laminar, ou seja, é um escoamento ordenado e perfeitamente
previsível. A partir deste ponto é que começam a surgir, de forma intermitente no tempo e no espaço,
perturbações tridimensionais turbulentas.

A região em que começam a surgir às perturbações tridimensionais turbulentas é denominada


região ou zona de eclosão da turbulência onde "explosões" ("burst") de turbulência surgem em
diversos pontos sendo transportados pelo escoamento. Após essa, de eclosão tem-se pontos junto à
parede onde a geração de turbulência é ainda mais intensa, sendo estes pontos de geometria mais ou
menos regular, denominados manchas de turbulência ("spots").

A divisão das regiões de geração de turbulência em zona de eclosão e zona de manchas de


turbulência não é rigorosa. O padrão de geometria das manchas de turbulência ("spots") é mais ou
menos regular e podem ser identificados no escoamento, porém elas poderão surgir ao longo de toda a
região de geração de turbulência e nesta região também poderão aparecer outras estruturas turbulentas,
com outros padrões, semelhantes aos padrões dos “spots”.
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2.2.2. Camada limite em escoamentos internos

O descrito no item anterior é válido para escoamentos externos sobre placas planas, entretanto
no caso de escoamentos confinados em condutos, onde o desenvolvimento da espessura dessa camada
fica limitado às dimensões do conduto e, no momento em que a camada limite já estiver plenamente
desenvolvida, às características dessa camada, será função somente de uma variável (distância à
parede).

Apesar das equações da camada limite serem mais simples no caso de escoamentos internos do
que nos externos, tem-se dificuldade na definição do ponto em que a influência da entrada do
escoamento não é mais atuante e também na descrição desta região. Enquanto o escoamento sofrer
influência das condições de entrada ele deve ser tratado como um caso tridimensional

A figura (2.12) representa o caso da entrada do escoamento em um conduto e divido-o em


quatro regiões distintas, sendo que as três primeiras são regiões de estabelecimento do escoamento e a
última, a região de escoamento plenamente desenvolvido.
Vista geral do conduto

Efeitos da entrada Escoamento desenvolvido

Zonas I, II e III Zona IV


Lest ≈ 40.D
I II Núcleo Potencial III D/2 IV
D

δ δ= espessura da
Núcleo Potencial camada limite
δ Camada limite

Figura 2.12. Desenvolvimento da camada limite em um conduto cilíndrico circular.

A seguir detalha-se o comportamento de cada região uma das regiões na entrada de um


escoamento num conduto.

Zona I: Zona de efeito de forma da entrada (x<D)

Na primeira zona o efeito das paredes sobre o


escoamento e, por conseqüência o efeito da camada
limite, não se faz notar. O efeito do retardo do
escoamento provocado pela influência da
viscosidade junto às paredes não provoca variações
significativas no núcleo potencial do escoamento,
sendo o efeito da forma da entrada o mais
predominante. Esta região deve ser tratada como Zona I
uma região de escoamento potencial, desprezando-se
o efeito da viscosidade. Figura 2.13. Perfil da velocidade
média na entrada do conduto.
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Condutos muito curtos, onde L≈D, são estudados como bocais ou orifícios, permitindo a sua
solução mediante a aplicação de metodologias desenvolvidas para estes, ignorando-se por completo o
efeito das paredes na obstução do escoamento, tratando-se, em última instância, como uma
singularidade no escoamento.

Zona II: Zona de desenvolvimento da camada limite

Na segunda zona o efeito da viscosidade junto a parede (camada limite) não é suficiente para
atingir o eixo do conduto, mas o retardo do escoamento junto as paredes é de tal ordem que
causa uma aceleração significativa no centro, introduzindo uma queda na pressão dinâmica da
ordem de 0,1V2ρ a 1V2ρ nesta região.
Incremento da velocidade no núcleo
Denomina-se esta região de zona de
potencial devido a influência da camada
interações por deslocamento devido aos
efeitos na pressão e na tensão de
cisalhamentos causados pela a
aceleração do núcleo. O fim desta
região é função do tipo de escoamento,
sendo maior no caso de escoamento
laminar na entrada e menor no caso de
escoamento turbulento. Zona II
Figura 2.14. Perfil de velocidades na região do cone
potencial.

No caso de escoamento laminar estima-se o comprimento (lE) desta região a partir da entrada
do conduto, em função do número de Reynolds, em:

lE = 0,05.Re.D 0 (2.15)

este valor é resultado de uma aproximação assintótica onde o perfil atinge praticamente o perfil
totalmente desenvolvido.

Para um número de Reynolds da ordem de 2000 este valor atinge um comprimento de 100D0.

No caso de escoamento turbulento além do número de Reynolds o comprimento será função da


rugosidade na entrada e ao longo do conduto, SOLODKIN & GUINEVSKY para condutos lisos o
comprimento apartir da entrada é dado por:

lE = [7,88. ln(Re ) − 4,35].D0 (2.16)

Para um número de Reynolds da ordem de 5x105 este valor atinge um comprimento da ordem
de 40D0, que é relativamente menor do que na caso laminar.
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Zona III: Zona de interação da camada limite

Para o caso de escoamento turbulento, no fim da zona II, a camada limite desenvolvida pelas
paredes se encontra no centro do conduto não causando mais acelerações, porém este encontro
criará interações, entre elas. Esta interação que se imaginava produzir efeitos exclusivamente
na camada externas da camada limite, pode provocar influência das paredes vizinhas (estrutura
global do escoamento) e até na sub-camada-viscosa, como se tem demonstrado em trabalhos
científicos mais recentes. Por este motivo à análise desta região não é muito conhecida.

τ
τ

Zona III
Figura 2.15. Perfil de velocidade média na região de interação da camada limite.

O comprimento desta região não está bem definido, porém medidas experimentais estimam em
30% a 40% o comprimento da Zona II, ou seja da ordem de 20D0. Nesta região a pressão varia num
primeiro momento de forma positiva e da sua metade para diante de forma negativa atingindo a
pressão de regime.

A Zona III, sob o ponto de vista de dimensionamento de condutos pode ser ignorada, pois o seu
efeito é muito pequeno em relação as alterações das zonas I e II.

Zona IV: Escoamento plenamente desenvolvido

A partir da distância de aproximadamente quarenta diâmetros, o escoamento encontra-se


estabilizado e, caso não haja variação na geometria ou mudança de direção, toda a perda de
energia deverá ser compensada exclusivamente pela variação da energia potencial (pressão ou
posição).

Quando o escoamento estiver estabilizado, suas características variarão somente com a


distância à parede, simplificando em muito a teoria e as equações que descrevem esta região.
As equações de perfil de velocidades, tensão de cisalhamento ou perda de carga que aparecem
nos textos básicos de Mecânica dos Fluidos e Hidráulica são deduzidas para esta região.

A descrição acima feita tem por objetivo demonstrar que todo o desenvolvimento de cálculo de
perda de carga linear terá seu pleno sentido quando o comprimento da canalização for maior do que
150 a 200 diâmetros, pois a partir deste comprimento os efeitos da perda distribuída em relação aos
efeitos da entrada são completamente preponderantes. Para comprimentos menores do que estes, a
singularidade tem mais importância que o efeito da perda linear ao longo do conduto,, devendo-se dar
ênfase aos cálculos de perdas singulares quanto menor for o comprimento do conduto.

Após uma mudança de diâmetro (brusca ou gradual com ângulo forte) ou mudança de direção,
haverá também um efeito desta singularidade sobre o escoamento, criando entre dois regimes
estabelecidos uma zona de transição, que será tanto maior maior quanto for à diferença de diâmetros
ou mais abrupta fora mudança de direção.

Esta descrição também é importante no momento em que se instala um equipamento para medir
velocidade ou vazão num conduto fechado, devendo-se respeitar uma distância de no mínimo 40 a
50D0 em relação a qualquer singularidade.