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PRINCÍPIO DA ADAPTAÇÃO DO TREINAMENTO ESPORTIVO

Prof. Ms. Aldemir Teles

ADAPTAÇÃO – CONCEITO E APLICAÇÃO AO TREINAMENTO ESPORTIVO

Adaptação é a capacidade que tem os seres vivos de manter o equilíbrio diante dos
estímulos que incidem sobre eles, graças às modificações que se produzem em seus órgãos e
sistema. Adaptação pode ser entendida também como um processo através do qual o homem se
adéqua às condições naturais, de vida, de trabalho, etc., que leva a uma melhora morfológico-
funcional do organismo, assim como um aumento da potencialidade vital e de sua capacidade não
específica de resistir aos estímulos ambientais (objetivo maior do treinamento).
A adaptação ao treinamento, segundo Bompa (2002), é a soma das transformações
estruturais e fisiológicas, ocorridas em virtude da repetição sistemática de exercícios, que resultam
de uma exigência específica que os atletas impõem aos seus organismos, dependendo do volume,
da intensidade e da freqüência do treinamento.
Segundo Platonov, (1989) as reações adaptativas crônicas compreendem quatro etapas:
1. A primeira etapa mobiliza sistematicamente os recuros funcionais do organismo
quando submetido a programas de treinamento com determinada finalidade, para
estimular mecanismos de adaptação crônicas, a partir da soma dos efeitos da
adaptação aguda obtidas reiteradamente. As reações rápidas de adaptação estão
condicionadas pela magnitude dos estímulos, pelo nível de treinamento do sujeito e
pela capacidade de seus sistemas funcionais de recuperar-se de modo efetivo e
rápido.
2. A partir das cargas que vão sendo incrementadas sistematicamente, se produz uma
série de transformações estruturais e funcionais nos órgãos e nos tecidos do sistema
funcional correspondente. Ao final desta etapa se observam necessariamente uma
hipertrofia dos órgãos e uma harmonia das atividades e mecanismos que assegurem
a atividade do sistema funcional em novas condições.
3. A terceira etapa se caracteriza por uma adaptação crônica estável que se traduz pela
presença de uma reserva indispensável para proporcionar um novo nível de
funcionamento do sistema, de estabilidade das estruturas funcionais e uma estreita
relação entre órgãos reguladores e executores.
4. A quarta etapa aparece quando o treinamento está organizado de forma irracional,
quando é muito forte ou quando a alimentação ou recuperação são insuficientes. Se
caracteriza pelo desgaste dos componentes do sistema funcional. Esta etapa é um
desafio para o profissional do treinamento que deve evitar este tipo de ocorrência.

Dessa forma, a adaptação pode ser de dois tipos:


1. Progressiva (ou positiva) – Conforme o treinamento é conduzido as adaptações vão
ocorrendo, obtendo níveis mais altos de aptidão física; os estímulos aplicados corretamente
se refletem logo através da melhora dos vários sistemas e órgãos, na sua economia
funcional e na recuperação.
2. Regressiva (ou negativa) – Se o treinamento for interrompido por longo período de tempo
a adaptação se perde; a aplicação distorcida dos estímulos, por exemplo, com a relação
esforço e recuperação inadequadas.
O treinamento é um estímulo que se aplica ao sujeito para produzir adaptações. As leis da
adaptação formam a interface entre a metodologia do treinamento e a teoria da adaptação. O
processo de adaptação pode ser compreendido com base nas três leis básicas de adaptação e os
princípios do treinamento, como mostrado na figura 1.

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Intensidade
SAG ou
ótima do
Teoria do
estímulo
(reserva stress
funcional)

Lei da Princípios do
supercompensação Treinamento

Figura 1- Leis básicas de adaptação e os princípios do treinamento

Lei da intensidade ótima do estímulo ou Mobilização das reservas funcionais

Para que exista adaptação deve haver um estímulo, já que a adaptação é a resposta que tem
o organismo diante dos estímulos que vem do meio. Se o estímulo for adequado a adaptação
ocorrerá positivamente. Fig. 2
Limiar é o estimulo básico do treinamento capaz de provocar respostas adaptativas. Tem
como referencia a intensidade que deve ser maior que o limiar mínimo para que se produza
adaptação.
Os estímulos, dependendo da intensidade podem ser:
1. De baixa intensidade – O estímulo não provoca resposta do organismo. Não há desgaste,
nem recuperação, nem adaptação.
2. Estímulos de intensidade média – O estímulo aplicado provoca desgaste e recuperação,
porém o desgaste é tão pequeno que não produz adaptação.
3. Estímulos de intensidade forte – O estímulo aplicado provoca um desgaste, uma
recuperação e um incremento das possibilidades, produzindo-se, assim, uma adaptação.
Esses são os tipos de estímulos que deverão ser utilizados no treinamento (os que estão no
limiar) já que provocam o aumento de reservas funcionais.
4. Estímulos de intensidade muito forte – O estímulo produz um desgaste tão grande ao
organismo que não possibilita a recuperação adequada, no tempo necessário, até a carga
seguinte. Esse estímulo ultrapassa o limiar para o qual o organismo estaria apto a
responder positivamente.

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Grau de mobilização das reservas funcionais


Zona de Reserva
100%
Carga máxima (de choque)
80%

Cargas de desenvolvimento
60%
Cargas estabilizadores
40%
Cargas recuperativas de apoio
20%
Cargas recuperatórias

0% Cargas diárias cotidianas

H1 H2 H3
Grandeza da carga

Figura 2 – Dependência do grau de mobilização das reservas funcionais do organismo de


acordo com a grandeza da carga (GOMES e ZHAKAROV, 1992)

Respostas adaptativas de acordo com a grandeza da carga:

H1 – Quando a grandeza da carga ultrapassar esse valor, num diapasão bastante amplo, vai ser
acompanhada de alguma reação do organismo, mas não necessariamente que possam assegurar as
respostas adaptativas esperadas do treinamento.

H2 – A grande limiar da carga/estímulo suficiente para a ativação dos sistemas orgânicos para
produzir adaptações esperadas com o treinamento representa valores a partir de 50-60% da
grandeza individual.

H3 – Limite individual de mobilização das reservas funcionais do organismo. Se a carga


ultrapassar o nível máximo ocorrem duas vias de reação do organismo:

A primeira via é característica das situações extremas e pressupõe a mobilização da


reserva de “emergência”. Estas reservas não podem ser utilizadas nas condições normais de treino,
mesmo com o esforço máximo da vontade. “Só as condições extremas de atividade ou a utilização
de substâncias consideradas doping são capazes de mobilizar estas reservas. Esta via representa
um grande risco para a saúde.” (GOMES e ZHAKAROV, 1992)
A aplicação de cargas próximas das máximas (mas que não as superam) estimula o
mecanismo de adaptação, o qual leva paulatinamente à ampliação da zona de reserva funcional
dos órgãos e sistemas do organismo por conta da redução da reserva de emergência.
A segunda via possível de reação do organismo à carga superior à máxima é caracterizada
pela criação de uma reação paradoxal: com o aumento da carga, a reação de resposta do organismo
diminui devido ao desenvolvimento expresso da “frenagem protetora” e resulta na perda de
coordenação das funções. Esta reação é caracterizada como “fracasso de adaptação” (Idem)

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Como definir, então, a grandeza da carga (estímulos) que conduzam a adaptação eficiente?
Primeiramente, é interessante distinguir, para melhor compreensão, os dois tipos de carga:
– Carga externa – está representada por diferentes meios e métodos de treinamento e
pela descrição metodológica dos componentes da carga capaz de produzir reações
tanto no plano somato-funcional quanto psicológico.
– Carga interna – que é o processo individual interno para assumir e tolerar a carga
aplicada e que depende de vários fatores, como o nível de treinamento, idade, etc.
O conhecimento das relações mútuas e afins entre a carga externa e interna, de como
ocorrem as reações internas do organismo em função da qualidade e magnitude da carga externa
(grau de influência) é determinante para o bom desempenho do professor e na consecução dos
objetivos do treinamento.
Martin, Carl e Lehnertz (2001), em lugar do conceito de carga interna e carga externa,
preferem o conceito de exigência da carga, definido pelos autores como um “parâmetro ou
magnitude descritiva na metodologia do treinamento.” Os componentes utilizados para a
organização do treinamento são: o tipo de exercício, o volume, a intensidade, a duração, a
frequência e a densidade da carga. (Quadro 1)
A definição da grandeza da carga deverá ser definida a partir da avaliação criteriosa da
capacidade do sujeito. Assim, é necessário conhecer os seus limites através dos testes para, em
seguida, definir os valores da carga relativos à capacidade máxima demonstrada no teste. Por
exemplo, se no teste de força máxima no exercício de leg press for de 80 kg., a carga relativa a
60% da força máxima será de 48 kg. O mesmo princípio pode ser utilizado para a definição de
carga de treino de outras capacidades condicionais, como o treino aeróbico. É possível, por
exemplo, definir a velocidade da caminhada/corrida de treino conhecendo o VO2 máximo obtido
no teste e atribuindo um valor percentual do máximo.

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Composição da carga Características

Volume  Se refere a quantidade de trabalho realizado


 Pode ser representado por: 1) quantidade de km percorrido; 3)
quantidade somada de kg. Trabalhado; 4) número de
repetições de determinado exercício.
Intensidade  Relaciona-se com a velocidade de execução, ou grau de
exigência de uma carga em relação ao percentual do seu
máximo. Ex.: % da FC máx.; velocidade da corrida em m/seg.
Duração  Relaciona-se com tempo para realizar uma carga.
 Deverá guardar relação com a intensidade.
 Sua atribuição baseia-se na via metabólica a ser enfocada.
Freqüência  Refere-se ao número de vezes que se repete um estímulo
 Pode ser: na sessão de trabalho; no microciclo; no mesociclo e
no macrociclo.
Densidade  É a relação entre esforço e pausa; carga e recuperação
 A cada intensidade e duração deverá haver uma pausa
correspondente
 São três funções para a pausa: 1) recuperação energética; 2)
promover a adaptação; 3) normalização da atividade do
sistema nervoso
Quadro 1 – Composição dos estímulos para aplicação de cargas de treino

Síndrome Geral de Adaptação (SGA) ou Teoria do Stress

O termo stress foi introduzido por Hans Selye, médico endocrinologista canadense em
1953. O stress é um estado de luta que tem o individuo para manter um equilíbrio entre a situação
do seu organismo em relação ao agente que provoca esse stress, como é o caso do exercício. As
sensações incômodas provocadas pelo estímulo (agente do stress) se manifestam através de uma
síndrome (reações), conhecida como síndrome geral de adaptação (SGA).
O SAG é uma resposta adaptativa, sequencial e não especifica do organismo, diante de
qualquer estímulo estressante que põe em perigo sua homeostase ou equilíbrio biológico. Selye
dividiu a SAG em três fases: alarme, resistência e adaptação ou esgotamento (HEGEDÜS, 1984).
1. Fase de alarme: ocorre quando os estímulos começam a ser aplicados no organismo de
forma continuada. É uma resposta do organismo ao estimulo que alterou a situação de
repouso em que se encontrava (homeostase). A reação de alarme pode ocorrer antes
mesmo do estímulo, propriamente dito. Por exemplo, em situações cotidianas de risco
aparente a freqüência cardíaca se eleva automaticamente. É uma forma encontrada pelo
organismo para adaptar-se à nova situação, preparando-se para a fuga o enfrentamento da
situação. Esta fase é composta ainda de duas fases:
 Fase de choque: nesta fase se produz um grande gasto energético. O estimulo
agride o organismo produzindo um desgaste de suas reservas.

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 Fase de contrachoque: se o estimulo continua sendo produzido, o organismo se


adapta ao estimulo voltando aos seus níveis iniciais; esta fase possibilita o estado
de desenvolvimento.
2. Fase de resistência: nesta fase o organismo supera os estímulos estressantes e o individuo
segue ampliando suas reservas acima do nível em que se encontravam no inicio do período
de treinamento, sendo capaz de resistir ao stress de forma rápida.
3. Fase de adaptação: se o estimulo deixa de ser aplicado o organismo recupera a energia de
adaptação e torna estável o que era passageiro. As adaptações esperadas só ocorrerão se o
organismo for submetido à estimulação crônica por um longo período de tempo. Dessa
forma é possível minimizar o desequilíbrio homeostático a ser provocado pelos estímulos
subsequentes, garantindo que a homeostase se mantenha próxima aos valores compatíveis
com a vida.
4. Fase de esgotamento: se o estimulo continua sendo aplicado, o organismo esgota toda a
energia para adaptar-se, o que é chamado de reserva de adaptação, ocorrendo o
esgotamento. Isso pode ocorrer com estímulos muito intensos e aplicados continuamente
ou quando a recuperação é inadequada. Nesse caso pode ocorrer a “síndrome do
supertreinamento”.

Lei da supercompensação

O modelo teórico da supercompensação explica as adaptações ocorridas no


organismo e, portanto, os efeitos do treinamento. Segundo este modelo, todos os órgãos e sistemas
do corpo em repouso se encontram em um estado de disponibilidade para a reação. (MARTIN,
CARL, LEHNERTZ, 2001). Todo organismo tende a manter o equilíbrio dinâmico, a homeostase,
inclusive diante de exigências de rendimento elevadas. O desgaste da carga aplicada desencadeia
imediatamente um processo de fadiga ao qual se segue uma fase de recuperação. Em seguida, as
reservas de energia e os mecanismos metabólicos e de regulação não apenas se normalizaram nos
níveis anteriores à aplicação da carga como ultrapassaram esses níveis. Isto tem como
consequência que a capacidade energética de rendimento do organismo que foi submetido ao
desgaste seja também temporariamente mais alta. Este mecanismo biológico recebe o nome de
supercompensação. (Idem) A sequência passa a ser então carga fadiga recuperação
supercompensação.

Figura 3 – Fases da supercompensação

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A duração para a recuperação e a ocorrência da supercompensação depende de fatores


como o nível individual de treinamento, a grandeza e da especificidade (orientação) da carga. Por
exemplo, o tempo para a recuperação e ocorrência de efeitos das cargas de treino visando à força
explosiva é diferente do tempo de recuperação para cargas com o objetivo na força máxima
(Quadro 2). A justificativa fisiológica para essa ocorrência é a heterocronicidade (diferentes
tempos) existente entre as diversas capacidades físicas quanto ao tempo de recuperação.

Orientação Recuperação completa (h.) Nº de sessões

Anaeróbico alático 5-8 3–4


Anaeróbico glicolítico 48 - 72 2–3
Anaeróbico Aeróbico 48 - 72 2–3
Aeróbico 48 - 100 1–2
Força Rápida e Explosiva 8 - 12 2–3
Força Máxima 24 - 72 1–2
Força – Resistência 24 - 72 2

Quadro 2 – Diferentes tempos de recuperação de acordo com a orientação da carga (BOMPA,


2002)

O entendimento do conceito de supercompensação, e a sua aplicação, é fundamental para


obtenção dos objetivos do treino. Dependendo de quando o estimulo é aplicado e do tempo de
recuperação teremos três tipos de respostas:
1. Aplicação correta do estimulo, quando ocorreu a recuperação e supercompensação
adequada, produz um efeito positivo no rendimento.

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2. Quando o estimulo seguinte ocorre tardiamente (o efeito da supercompensação é


temporário), não ocorrerão novas adaptações.

3. A busca de resultados imediatos ou a inadequação do planejamento pode provocar


respostas indesejáveis de adaptação, por exemplo, a aplicação de cargas subsequentes sem
que tenha ocorrido a recuperação adequada.

Fadiga

PRINCÍPIOS GERAIS DO TREINAMENTO ESPORTIVO

Os princípios do Treinamento Esportivo (TE) podem ser definidos como “uma série de
instruções hierarquicamente superiores para a atividade do treinamento” (MARTIN, CARL,
LEHNERTZ, 2001). Eles servem como base geral para a orientação do treinamento, guiando a
ação de treinadores e esportistas na elaboração do programa da atividade.
A evolução do TE e os seus princípios ocorreram paralelamente com o crescimento do
fenômeno esportivo ao longo dos últimos cinquenta anos, especialmente em função do
desenvolvimento científico nesse campo. Inicialmente visando o rendimento no esporte, mais
recentemente, os conceitos do TE foram sendo incorporados aos programas de exercícios visando
tanto à promoção de saúde quanto à reabilitação.
Assim, vários conceitos como adaptação e sobrecarga, por exemplo, passaram a fazer parte
do conhecimento necessário para lidar com o desenvolvimento de programas de exercícios para
promoção da saúde ou reabilitação.
Há, entretanto, várias questões metodológicas a serem superadas. A principal é adequar os
princípios do TE à sua aplicação em programas de exercícios com objetivos que não sejam
exclusivamente o rendimento esportivo.
Na literatura, vários autores (Tubino, 1982; Weineck, 1989; Bompa, 2002; Pereira e Souza
Jr., 2002), diferem quanto à denominação dos princípios. Segundo Martin, Carl e Lehnertz (2001),
até agora não se conseguiu elaborar um esquema de princípios gerais do treinamento aceito pela
maioria dos especialistas. Isto parece dever-se tanto a diferentes concepções sobre a importância

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do TE na vida social como a um estado de conhecimento ainda incompleto acerca do próprio


sistema de treinamento.
Diante dessas questões optou-se neste texto pela adaptação da proposta de Martin, Carl e
Lehnertz (2001), pelo fato de contemplar aspectos mais gerais que extrapolam o âmbito exclusivo
do TE, por exemplo, os Princípios pedagógicos. Dessa forma, tais princípios podem ser utilizados
na perspectiva do treinamento para a saúde. Os princípios comumente citados na literatura
(individualidade biológica, sobrecarga, continuidade ou reversibilidade e especificidade) estão
contemplados, embora com denominação diferente.
Assim, esses autores diferenciam os princípios em três classes. Neste texto, preferimos
adaptar a proposta em duas classes:
 Princípios pedagógicos gerais, que, à parte do treinamento, tem validade em diferentes
processos da atividade pedagógica, necessária em qualquer programa de exercício.
 Princípios da estruturação e da organização do treinamento

11.. Princípios pedagógicos do treinamento:

1.1 Princípio dos condicionantes sociais das decisões sobre a atividade. Os autores consideram
que é necessário ter em conta o marco de condições vigentes para o conjunto da sociedade. Em
outras palavras, os autores referem-se à adequação das atividades as necessidades individuais e
sociais, respeitando-se as evidências científicas e os métodos apropriados, além das questões
éticas.
1.2 Princípio da primazia da evolução pessoal sobre a evolução do rendimento. As decisões
acerca da atividade física devem estar em harmonia com os objetivos do desenvolvimento
equilibrado do indivíduo. A busca desenfreada do rendimento pode conduzir a alterações
indesejadas e prejudicar a saúde.
1.3 Principio da racionalidade da atividade de treinamento. A atividade e suas condicionantes
contextuais devem manter-se sempre no plano da consciência. Ou seja, atividades elaboradas
com base no conhecimento e na experiência.
1.4 Principio da manutenção e melhoria da saúde. As decisões sobre as atividades devem ser
tomadas no sentido de afastar os riscos para a saúde.
1.5 Principio da orientação das tarefas para as necessidades e interesses dos sujeitos. Deve-se
procurar, de acordo com as possibilidades, atender as motivações das pessoas considerando,
por exemplo, os seus objetivos e suas preferências, melhorando a aderência do sujeito.
1.6 Principio da adequação da atividade a idade evolutiva. As decisões sobre a atividade devem
orientar-se segundo o estado de desenvolvimento individual de quem treina. Com adolescentes
deve-se aproveitar as condições especialmente favoráveis em cada uma das etapas de
desenvolvimento.
1.7 Principio do desenvolvimento da responsabilidade dos sujeitos. As concepções e decisões
sobre a atividade devem se aplicar de modo que fomentem cada vez mais a responsabilidade
dos praticantes. É necessário proceder com amplo diálogo entre professores e os participantes.
1.8 Principio da apresentação clara e factível das decisões sobre a atividade. Deve-se apresentar
aos praticantes as metas, os protocolos etc. de forma clara e transparente, e eles devem ser
capazes de cumpri-las não apenas quanto à sua realização, mas também tendo em conta a sua
significação. Procura-se, assim, elevar a cultura do praticante quanto à forma de realizar o
exercício, seus fundamentos etc. Ainda que a atividade seja realizada sob supervisão é
importante desenvolver a autonomia do sujeito.

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22.. Princípios para a organização e planificação do treinamento

2.1 Princípio da mútua sintonia das decisões sobre o treinamento. As decisões necessitam de uma
harmonização entre as distintas tarefas, que em parte podem divergir uma das outras
(treinamento concorrente); essas discrepâncias podem ocorrer quando não são observadas
corretamente a especificidade dos objetivos, as particularidades da idade e necessidades
individuais.
2.2 Princípio da eficácia. O treinamento deve buscar sempre o maior grau de eficácia possível
com vistas à consecução dos objetivos previstos. Esse é um fator importante na motivação e
aderência do sujeito aos programas de exercício.
2.3 Principio da planificação (periodização). A promoção da saúde ou a reabilitação requerem a
realização de atividades físicas e exercícios cotidianos ao longo da vida do sujeito. Programas
de exercício, nesse caso, deverão ser subdivididos em etapas, relativamente independentes uns
de outros, contendo, cada um, objetivos específicos e pontos relevantes quanto à metodologia
e conteúdo.
2.4 Principio da especificidade. Os processos de treinamento devem ser dirigidos a uma meta
especifica, pelo menos em algumas situações especiais.
2.5 Princípio do incremento progressivo da carga de treinamento (sobrecarga). Para conseguir a
melhora progressiva das aptidões é necessário o incremento sistemático das cargas, seja quanto
ao volume, à intensidade, à duração e à densidade.
2.6 Principio da individualização (individualidade biológica). Para a obtenção de adaptações
relativas ao treinamento de forca, assim como outras capacidades condicionais, devem ser
observadas inicialmente as características individuais do sujeito, que podem ser obtidas através
de avaliação criteriosa. A não observância dos aspectos individuais pode conduzir a várias
distorções na condução do treinamento, subestimando ou superestimando a aplicação de
cargas que, num caso ou noutro, provocam prejuízos quanto aos resultados.
2.7 Principio da direção e regulação permanente do treinamento. As decisões sobre a conduta do
treinamento, os objetivos etc., ao longo do programa, têm de se adequar continuamente ao
planejamento estabelecido com base nas comparações sistemáticas das aptidões adquiridas
através de avaliações
2.8 Princípio da adequação do treinamento à evolução dos resultados (sobrecarga). Com o
passar dos vários períodos de treinamento e com a consecução dos objetivos iniciais, as formas
de treinamento orientadas para novas adaptações deverão ser revistas.
2.9 Princípio da continuidade (reversibilidade). Para manter ou melhorar os estágios de adaptação
deve-se evitar períodos de pausa prolongadas de treinamento. As adaptações podem ser
perdidas se não houver regularidade na aplicação das cargas de treinamento.
2.10 Principio da complexidade dos efeitos do treinamento. No momento de tomar decisões
deve-se considerar que determinadas formas de treinamento nunca atuam isoladamente sobre
condições particulares de rendimento/aproveitamento, mas sobre o estado complexo de
rendimento.

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EXEMPLOS DE ADAPTAÇÒES AO TREINAMENTO DE FORÇA

Principio fundamental do treinamento de força

Segundo Verkhoshansky (2006), a produção e o incremento da força dependem de


processos neuromusculares. A força não depende fundamentalmente do tamanho muscular, mas
dos músculos adequados potencialmente contraídos por uma efetiva estimulação neural. Esta é a
base para todo o treinamento de força. “A estrutura é uma consequência da função, a hipertrofia é
uma resposta de adaptação a estimulação neuromuscular a um determinado mínimo de
intensidade” (Idem). Dessa forma, a estimulação neural produz dois efeitos básicos de adaptação
no corpo:
 Uma ação muscular funcional (efeito funcional)
 Uma hipertrofia muscular (efeito estrutural)
O treinamento funcional conduz aos seguintes procesos (Fig. 4):

1. Coordenação intermuscular entre diferentes grupos musculares. Incluindo a sincronização


de ações entre diferentes grupos musculares. Alguns músculos podem ser inibidos e outros
excitados para contribuir com o movimiento.
2. Coordenação intramuscular de fibras dentro do mesmo grupo muscular. Isto implica em
um um mais mecanismos de controle como: número de fibras recrutadas, frequência da
estimulação e da sincronía dos impulsos dos diferentes tipos de fibra.
3. Processos reflexos facilitadores ou inibidores nas vías neurais atuando em varios níveis no
sistema nervoso podem ser modificados para otimizar o desenvolvimento da força.
4. Aprendizagem motora, que é o proceso de programação do cerebro/sistema nervoso central
para ser capaz de conduzir a movimentos específicos. Uma grande parte da rápida melhora
da força e do rendimento é atribuída à aprendizagem motora.

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Adaptações estruturais e funcionais


Estimulo de Treinamento

Efeitos Efeitos Aprendizagem


Estruturais Funcionais Motora

Hipertrofia Coordenação Coordenação Mudanças


Intermuscular Intramuscular Reflexas

·Sincronização ·Número de códigos


·Sequenciação ·Taxa de códigos ·Facilitação
·Inibição ·Padrão de códigos ·Inibição
·Desenibição

Figura 4 - Efeitos estruturais e funcionais do estímulo no treinamento de força.


Todo treinamento, em maior ou menor grau, afeta os sistemas relacionados aquí
e a todos os outros sistemas, incluindo o cardiovascular, endócrino e metabólico.

Debito cardíaco e volume sistólico

Tabela 1 – Adaptações cardiovasculares a treinamentos prolongados de resistência aeróbia e força


(CHANDLER e BROWN, 2009)

 Debito cardíaco - O treinamento de força resulta em pequena ou nenhuma alteração no


débito cardíaco.
 Pressão arterial – em indivíduos normotensos, participantes de programas de exercício de
resistência, as pressões sistólica e diastólica em repouso geralmente não são responsivas; já

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em indivíduos hipertensos, o exercício parece ser um estimulo potencial para reduzir a


pressão arterial. O treinamento de força parece resultar em nenhuma alteração ou em leve
diminuição da PA em repouso; mas também em uma redução significativa da resposta da
PA durante o exercício de força com a mesma carga absoluta. Qualquer decréscimo na PA
em repouso subseqüente ao treinamento provavelmente é resultado da diminuição da
gordura corporal e da possível redução no impulso simpático para o coração (de forma
semelhante ao estimulo provocado pelo exercício aeróbio) (FLECK e KRAMER, 1999).
 Morfologia cardíaca – Pessoas que praticam exercícios de força possuem o diâmetro
interno do ventrículo esquerdo normais, diferentemente daquelas pessoas que treinam
especialmente a resistência aeróbia; entretanto, possuem as paredes significativamente
mais grossas (em média 45% maior do que sujeitos-controle da mesma idade), esse efeito é
denominado de hipertrofia concêntrica (o aumento do diâmetro interno do ventrículo é
chamado de hipertrofia excêntrica) (CHANDLER E BROWN, 2009).

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REFERÊNCIAS

BOMPA, T. Periodização, teoria e metodologia do treinamento. 1ª ed. São Paulo, Phorte


Editora, 2002.
CHANDLER, T. e BROWN, L. Treinamento de força para o desempenho humano. Artmed,
Porto Alegre, 2009.
FLECK, S. e KRAMER, A. Fundamentos do treinamento de força muscular. São Paulo, Artes
Médicas, 1999.
HEGEDÜS, J. La ciencia del entrenamiento deportivo. Stadium, Buenos Aires, 1984

MARTIN, D., CARL, K. e LEHNERTZ, K. Manual de Teoria do Treinamento Esportivo. São


Paulo. Phorte 2008.
PEREIRA, B. e SOUZA Jr., T. Dimensões biológicas do treinamento físico. Phorte, São Paulo,
2002.
PLATONOV, V. N. La adaptación en el deporte. Paidotribo, Barcelona, 1989.

TUBINO, M. G. Metodologia Científica do treinamento esportivo. IBRASA, 1980.

VERKHOSHANSKY, Y. e SIFF, C. Supertrenamiento. Paidotribo, Barcelona, 2006

WEINECK, J. Treinamento Ideal. São Paulo, Manole, 1991.

WILMORE, J.H., COSTILL, D. L. E KENNEY, W. L. Fisiologia do Esporte e do Exercício. 4a.


Ed. Manole, Barueri, 2010.

ZAKHAROV, A. e GOMES, A. C. Ciência do treinamento esportivo. Palestra Sport, Rio de


Janeiro, 1992.

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