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Referência: CÂNDIDO, Antônio; O DIREITO À LITERATURA. In:______.

VÁRIOS ESCRITOS. 5. ed. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul,


2011. p. 171-183.

Antônio Cândido, escritor, sociólogo, amante da literatura, faz um breve


apanhado sobre os direitos humanos e a sua relação com a Literatura. Segundo ele o
desenvolvimento da racionalidade técnica trouxe juntamente com o progresso uma certa
contradição, uma vez que os elementos responsáveis por proporcionar conforto e
resolução dos problemas de maneira mais rápida e eficaz, também possibilita que uma
grande parte dos seres humanos seja relegado à miséria. É uma balança sem equilíbrio,
quanto mais a riqueza aumenta, a má distribuição de renda do Brasil torna-se mais
pungente. “[...] podemos dizer que os mesmos meios que permitem o progresso podem
provocar a degradação da maioria”. (CÂNDIDO, 2011, p. 171).

As ideias geradas nos séculos XVIII e XIX deram origem ao liberalismo e acabou
criando expectativas de solução para os grandes problemas envolvendo a sociedade e seus
dramas mais profundos. Por conta disso durante muito tempo acreditou-se que removendo
a ignorância e os sistemas de governos despóticos “as conquistas do progresso seriam
canalizadas no rumo imaginado pelos utopistas, porque a instrução, o saber e a técnica
levariam necessariamente à felicidade coletiva” (CÂNDIDO, 2011, p.172).

No entanto a remoção dos obstáculos que impediam a concretização dos sonhos


não eliminou o comportamento bárbaro da humanidade, é por isso que a luta pelos direitos
humanos chega até a nossa época como um harmonizador das injustiças sociais, que
garante aos homens de boa vontade, "[...] à busca, não mais do estado ideal sonhado pelos
utopistas racionais que nos antecederam, mas no máximo viável de igualdade e justiça,
em correlação a cada momento da história” (CÂNDIDO, 2011, p. 172). Um ponto
positivo é que as barbáries anteriormente celebradas como atos dignos de elogio
atualmente são vistas com horror. Embora coisas piores possam ser praticadas, não são
proclamadas, o que segundo Cândido, “é um sinal favorável, pois se o mal é praticado,
mas não proclamado, quer dizer que o homem não o acha mais tão natural”. (CÂNDIDO,
2011, p. 173).

Uma outra mudança está na postura do rico diante dos pobres que alguns anos
atrás afirmava que por vontade divina é que a pobreza existia e que os menos favorecidos
eram inferiores, não possuíam as mesmas necessidades dos abastados, que não se
cansavam e só morreriam de fome se fossem preguiçosos. “Existe em relação ao pobre
uma nova atitude, que vai do sentimento de culpa até o medo” (CÂNDIDO, 2011, p. 173).
Do mesmo modo os negros e maltrapilhos não estampam as páginas do jornal com tanta
frequência e não são objetos de piada, pois de certa forma, houve uma progressão nas
conquistas por meio do temor.

Um outro fato diz respeito a postura dos políticos e empresários que não mais se
declaram conservadores e sim de centro, pois ser conservador não possui atualmente,
nenhum mérito. As consciências estão sendo despertadas para enxergar o outro e firmada
a convicção de que a desigualdade é algo insuportável, mas quando a convicção vem
acompanhada de uma falta de disposição para mudar, os direitos humanos encontram um
problema.

Por quê? Porque pensar em direitos humanos tem um pressuposto: reconhecer


que aquilo que consideramos indispensável para nós é também indispensável
para o próximo. Esta me parece a essência do problema, inclusive no plano
estritamente individual, pois é necessário um grande esforço de educação e
autoeducação a fim de reconhecermos sinceramente este postulado. Na
verdade, a tendência mais funda é achar que os nossos direitos são mais
urgentes que os do próximo (CÂNDIDO, 2011, p. 174).

Então surge a questão: o que determina quais são os direitos de cada indivíduo e
porque uns podem ter determinados direitos e outros não? Porque se há uma seletividade
nos direitos significa que não há igualdade.

O fato é que cada época e cada cultura fixam os critérios de


incompressibilidade, que estão ligados à divisão da sociedade em classes, pois
inclusive a educação pode ser instrumento para convencer as pessoas de que o
que é indispensável para uma camada social não o é para outra (CÂNDIDO,
2011, p. 175).

Para entender melhor isso , Cândido apropria-se de dois termos, utilizados pelo
grande sociólogo francês, Padre Louis-Joseph Lebret, que fundou o movimento
Economia e Humanismo - “bens compressíveis” e “bens incompressíveis”. Os bens
incompressíveis são aqueles indispensáveis para a sobrevivência humana e que não
podem ser negados. Em contrapartida os bens compressíveis são aqueles aos quais
denominamos supérfluos e que só se destinam a uma classe específica da sociedade, a
saber, os ricos que acreditam que os pobres não necessitam desses bens.

São bens incompressíveis não apenas os que asseguram a sobrevivência física


em níveis decentes, mas os que garantem a integridade espiritual. São
incompressíveis certamente a alimentação, a moradia, o vestuário, a instrução,
a saúde, a liberdade individual, o amparo da justiça pública, a resistência à
opressão etc.; e também o direito à crença, à opinião, ao lazer e, por que não,
à arte e à literatura (CÂNDIDO, 2011, p. 176).

Ele então passa a defender a ideia de que não há um ser humano sequer que viva
sem alguma espécie de ficção, pois ninguém é capaz de ficar um dia sem momentos de
entrega ao que ele chama de “universo fabulado” (CÂNDIDO, 2011,p.177) . Se
ninguém passa o dia todo sem mergulhar no universo da ficção e da poesia, a literatura
“parece corresponder a uma necessidade universal, que precisa ser satisfeita e cuja
satisfação constitui um direito” (CÂNDIDO, 2011, p. 177). A literatura é então, para os
indivíduos, “o sonho acordado da civilização” (CÂNDIDO, 2011, p. 177), e da mesma
forma que não é possível haver equilíbrio psíquico se não sonhamos durante o sono,
“talvez não haja equilíbrio social sem a literatura” (CÂNDIDO, 2011, p. 177).

É por esta razão que a literatura é fator indispensável de humanização e confirma


o ser humano na sua humanidade, por atuar tanto no consciente quanto no inconsciente.
Cândido também chama a atenção para o papel formador de personalidade da literatura.
Não pode ser vista como uma experiência inofensiva, pois a literatura tem papel formador
de personalidade, mas não segundo as convenções tradicionais. Na verdade, a literatura
torna-se “a força indiscriminada e poderosa da própria realidade” (CÂNDIDO, 2011, p.
178). Dessa forma a literatura, seria um meio de humanização e não de perversão,
tampouco seria de edificação, mas de organização.

Se fosse possível abstrair o sentido e pensar nas palavras como tijolos de uma
construção, eu diria que esses tijolos representam um modo de organizar a
matéria, e que enquanto organização eles exercem papel ordenador sobre a
nossa mente. Quer percebamos claramente ou não, o caráter de coisa
organizada da obra literária torna-se um fator que nos deixa mais capazes de
ordenar a nossa própria mente e sentimentos; e em consequência, mais capazes
de organizar a visão que temos do mundo (CÂNDIDO, 2011, p. 179).

A literatura vem de certa forma contribuir para desenvolver em nós os elementos


essenciais humanizadores que nos torna tão peculiares, ou seja, a reflexão, a obtenção do
saber, a empatia para com o próximo, o aprimoramento das emoções, “a capacidade de
penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do
mundo e dos seres, o cultivo do humor” (CÂNDIDO, 2011, p.182), nos tornando mais
receptivos e compreensivos.

Há na literatura níveis de conhecimento internacional, isto é, planejados pelo


autor e conscientemente assimilados pelo receptor. Estes níveis são o que
chamam imediatamente a atenção e é neles que o autor injeta as suas intenções
de propaganda, ideologia, crença, revolta, adesão etc. ( CÂNDIDO, 2011, p.
182).

Em suma, toda produção literária carrega em si as impressões do autor. “Disso


resulta uma literatura empenhada, em parte, de posições éticas, políticas, religiosas ou
simplesmente humanísticas. ” (CÂNDIDO, 2011, p.183). Por isso que ele (o autor) busca
assumir uma posição diante dos problemas sociais e se manifesta criticamente,
imprimindo em seus escritos a sua visão de mundo. E é também por estas razões, que a
literatura está relacionada com a luta pelos direitos humanos, pois contribui em certa
medida para o despertar das ideias e do racionalismo, levando os indivíduos a uma
reflexão profunda sobre suas atitudes e escolhas.