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EDNA HEIDBREDER

Doutora em Filosofia, professora emérita da

Universidade de WeUesley (Mass., Estados Unidos)

PSICOLOGIAS DO SÉCULO XX

Tradução de:

LAURO S. BLANDY

Primeira edição em inglês • 1933

Segunda edição em inglês 1956

primeira edição em espanhol 1953

Primeira edição em português 1967

Quinta edição em português 1981

Titulo original:

SEVEN PSYCHOLOGIES

Capa de:

WILSON TADEI

SEVEN PSYCHOLOGIES, 1' edition, by Edna Heidbreder. Copijright, 1933, The Century Company.
Traduzido e publicado com permissão de AppletonCentury-Crofts, Division of Meredith

Publishing Company.

Direitos reservados para os países de língua portuguesa pela EDITORA MESTRE JOU PREFÁCIO

Este livro não foi escrito para os psicólogos profissionais,

mas sim para aqueles que se interessam pela psicologia e que, tendo feito uma incursão
preliminar no assunto, estão admirados pelo fato de haver tantas escolas diferentes de
pensamento em psicologia e desejam saber mais sobre o assunto.

O estudo refere-se especificamente à psicologia norte-


-americana; não tenta descrever as coisas por meio do pensamento psicológico europeu. Isto
não significa, naturalmente, que a psicologia norte-americana possa considerar-se isenta de
influências européias. Aliás, três dos sete sistemas aqui apresentados - o estruturalismo, a
psicologia Gestalt e a psicanálise - são importações diretas da Europa. Foram, entretanto,
considerados não como movimentos do pensamento europeu, mas como influências na
psicologia norte-

-americana.

Tampouco a descrição dos sistemas aqui apresentados procura mostrar um panorama da


psicologia nos Estados Unidos. Por um lado, apresenta somente lampejos ocasionais da
atividade que é mais peculiar à psicologia norte-americana, a pesquisa experimental. De outro,
não considera, nem mesmo enumera, todos os sistemas atualmente em voga na psicologia
americana. Os nomes de Bentley, Dunlap, Hunter, Kantor, McDougal.l, Spearinan, Tolman,
Weiss e Wheeler dão uma idéia do que está faltando. Por último, apresenta apenas uma
descrição parcial, mesmo dos sistemas escolhidos para estudo. Qualquer escola importante do
pensamento dá origem a interpretações relacionadas à sua própria, embora sejam diferentes, e
essas interpretações não foram consideradas. No estudo da psicanálise, por exemplo, os
sistemas de Jung e Adier receberam pouca atenção; e o do behaviorismo rest,-ingiu-se aos
ensinamentos de Wa.tson, embora tenham surgido importantes modificações de sua teoria.

Este método de escolha tem desvantagens inegáveis. Para apresentar um sistema sem um
acompanhamento de interpretações correlatas, poderia dar a impressão de que seus adeptos
formam um grupo único, coeso e uniforme, cujas

Edna Heidbreder

idéias são cópias fiéis das de seu chefe. Tal impressão seria completamente falsa. De maneira
idêntica, a escolha de sete sistemas pode parecer que a psicologia americana esteja
organizada em sete escolas; e esta impressão também seria falsa. A seleção pode ainda
significar que, de todos os sistemas atuais em psicologia, estes sete são os mais dignos de
estudo; e não se deseja dar esta idéia.

Ainda mais, apesar de suas reconhecidas desvantagens, o plano de apresentar alguns sistemas
e de mostrá-los como concepções simples e bem definidas, deixando de lado, sempre que
possível, suas interpretações e concepções correlatas, foi adotado com o risco de cairmos em
uma simplificação excessiva, como um dos mais adequados para a presente finalidade; pois o
propósito não é de se fazer um estudo exaustivo dos sistemas de psicologia, nem de
apresentar, ainda que em resumo, uma descrição completa da psicologia norte-americana; ao
contrário, destina-se a permitir ao leitor ainda leigo no assunto tornar-se familiarizado com
alguns dos diferentes pontos de vista dos quais podem ser encarados os fatos psicológicos. Com
esse propósito em mente, pareceu-nos mais lógico apresentar sete sistemas do que setenta.

Os sistemas, além disso, foram tratados como sendo fatores que produzem diferenças reais no
desenvolvimento da psicologia. Por esse motivo, cada sistema foi apresentado em seu
fundamento histórico e em relação à continuidade histórica que pode ser discernida através das
várias interpretações da psicologia. Pela mesma razão, foi feita uma tentativa para avaliar a
influência do sistema sobre o progresso real da psicologia, embora os cálculos sejam de fato
prematuros e experimentais. A escolha dos sete sistemas foi determinada também pela
concepção dos sistemas como sendo influências úteis ao desenvolvimento da psicologia. Os
sistemas estudados foram adotados em alguns casos porque representam pontos cruciais no
desenvolvimento da psicologia norte-americana; em outros, porque foram associados com
importantes centros de pesquisa; e finalmente, porque quando considerados em conjunto, suas
diferenças demonstram que são possíveis muitos caminhos diferentes para o problema da
psicologia. Talvez ninguém mais teria escolhido somente estes sete; confesso que esta escolha
representa urna opinião pessoal. Mas para o propósito indicado não é essencial escolher todos
os sistemas e nem os mais importantes. Apresentar sete concepções diferentes da psicologia,
que estejam em uso corrente, significa não só escolher a função e

Psicologuzs do Século XX

o significado daquelas sete, mas também sugerir a função e o significado de todos os sistemas
de um modo geral.

Apresento este livro com certa apreensão. As dificuldades inerentes ao fato de tentar descrever
de modo preciso ou avaliar exatamente os pensamentos dos outros dispensam comentários. A
maior dessas dificukktdes é a de não existir um padrão objetivo pelo qual os sistemas possam
ser julgados e comparados. Portanto, não posso nem desejo considerar o estudo que escrevi
como sendo imparcial ou impecável. Acredito, entretanto, que isto não seja prejudicial à
utilidade do livro. Os leitores perspicazes perceberão as minhas falhas melhor do que eu; e
fazendo a. sua correção, embora sem abandonar as suas próprias parcialidades, tomarão parte
num método que, como tentei demonstrar através de todos os capítulos seguintes, é um passo
útil e praticamente necessário no processo de revelar um conhecimento objetivo.

Muitas pessoas me auxiliaram a escrever este livro. Alguns dos meus alunos fizeram-me
sugestões que achei estimulantes e úteis. Os professores Josephine Curtis Foster, Kate Hevner
e Heinrich Klüver leram algumas partes do livro; a Srta. Amy Armstrong e o professor R. M.
Elliott leram todo o manuscrito. Todos deram sugestões que me foram úteis. A Sra. Nancy
Johnson Fugene, as Srtas. Dreda Harper e Marian Greenham prestaram um grande auxílio
preparando o manuscrito para os editores. A Clark University Press, Henry Holt & Co., a J. B.
Lippincott Company, Longmans, Green & Co., a Macmillan Company e a W. W. Norton &
Company deram-me permissão para citar trechos de seus livros. Por todos estes auxílios desejo
reconhecer o quanto devo e expressar meus sinceros agradecimentos.

EDNA HEJDBREDER

Mineapolis, Minessota
INTRODUÇÃO

SISTEMAS DE PSICOLOGIA: SUA FUNÇÃO E SIGNIFICADO

É um pouco paradoxal o fato de surgirem tantos sistemas de psicologia no solo norte-


americano. A psicologia, principalmente nos Estados Unidos, tem-se empenhado a fundo para
tornar-se uma ciência; e a ciência por natureza abstém -s de indagações que não sejam
baseadas e constituídas por fatos. Apesar disso não existe número suficiente de fatos em toda
a psicologia para formar um sistema único e completo.

Ninguém sabe disso melhor que os próprios psicólogos. Verificam, pelo processo comum de
associação, não somente a inegável pobreza de sua ciência, como também a fragilidade e a
falsidade de grande parte da matéria que são solicitados a aceitar como verdadeira. Os
psicólogos estão constantemente examinando os trabalhos de seus colegas e achando que não
são bons. E, quase sem hesitar, expõem os pontos fracos e as falhas que encontram.

Mal atravessamos o limiar dessa jovem ciência prática e já desconfiamos não ser tudo paz e
harmonia à sua sombra; vemos que os grupos de trabalhadores que encontramos representam
não só uma divisão de trabalho necessária mas também um estado de luta interna. O mais
positivo dos grupos em luta talvez seja composto por jovens estudantes de psicologia animal e
comparada que, em sua maior parte, se orgulham de ser obstinados e realistas e de se haver
descartado das insignificâncias de uma psicologia que tratad ihentes. D Am,atÍifã d
o,iêrriõr6saniite cientííieos e alguns1wpacéi estãr convencidõWdi que afiié11iõï ifianeira de
realizar esta ambição é parecerem o mais exatamente possível com seus vizinhos próximos, os
fisiologistas. São, em sua maioria, jovens confiantes e resolutos, imbuídos

-J

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da fé que, fazendo experiências nas origens da matéria e do músculo, estão-se aprofundando


no âmago das coisas.

Um grupo menos ativo, mas nem por isso menos convicto, e consciente da sinceridade de sua
ciência, é o formado pelos psicólogos experimentais. Para estes, a palavra "expe(2 1 rimental"
não é aplicada no sentido de incluir todos os que \, realizam pesquisas pelo método
experimental comum à ciência natural em geral, mas naquele especial e oculto de indicar
aqueles que estão na linha de descendência que provéffi mais

eficiente do mundo, tund oõiWilhie1Wundt, em Leipzig. A psicologia experimental, neste


sentido, refere-se à matéria especial, aperfeiçoada na Alemanha, e liderada nos Estados
Unidos principalmente por Edward Bradford Titchener, um dos alunos ingleses de Wundt. Seus
representantes típicos são os "introspeccionistas treinados", que acreditam ser o exame da
consciência a verdadeira função da psicologia. Seu trabalho, segundo afirmam, exige
treinamento especial e máximo cuidado; devido aos aparelhos que conceberam e montaram
para servir-lhes de auxílio, são, às vezes, chamados de "psicólogos de instrumentos de metal".
Representam a aristocracia existente na geração passada. Alimentam a idéia que a sua
psicologia, que eles desejam conservar, é a que tem resistido e continuará a resistir aos embates
do tempo.

Os dois grupos olham, um tanto desconfiados, para um terceiro, que se ocupa da


experimentação e medição das características mentais; pois exi&te pouco ma,térTal dãs outras
ciências tradicionais nos redutos dos psicometristas (mental -testers) - poucos instrumentos de
metal que dêem um ar da dignidade austera da física e tampouco ratos brancos para dar a
impressão das coisas palpáveis da biologia. Entretanto, existe uma grande quantidade de dados
numéricos. Pois, talvez mais do que qualquer outro grupo de psicólogos, os

psicometristas aperfeiçoaram o modo matemático de pensar, ue a cien1gtonsidera tão


apropriado; e, lidando com curvas

de distribuição, coeficientes de correlação e dispositivos estatísticos mais profundos,


empreenderam a tarefa de medir a inteligência e outras características mentais, e de obterem
a maior soma possível de informação sobre as mesmas, na forma que o tratamento
quantitativo permitisse.

Intimamente associados a este grupo, na realidade não se distinguindo claramente dele, estão
os que trabalham em

psicologia aplicada. Entre eles encontram-se os que enfren ta

os problemas do comércio e da indústria - a seleção de empregados, a administração do


pessoal, a eliminação da fadiga industrial, os métodos mais eficientes de publicidade, a
iluminação e o arejamento das fábricas. Aí também estão os psicólogos clínicos, que trabalham
em escolas, nos juizados

(q' de menores, nas clínicas de orientação infantil, bem como em '-é" instituições para os
débeis mentais, os psicopatas e os loucos,

procurando contribuir, pela melhor compreensão das pessoas sob seus cuidados, a facilitar- lhes
a adaptação à vida normal. Na psicologia aplicada encontram-se também os psicólogos
educacionais, ocupados não só com os vários problemas da aprendizagem e do ensino, mas
tentando, ultimamente, medir as capacidades e as aptidões dos alunos e a eficiência dos vários
métodos educacionais.
Estes grupos, nenhum dos quais apresenta uma delimitação exata, juntamente com outros
grupos ainda menos bem definidos e muitos indivíduos isolados, formam o conjunto dos
psicólogos. Embora cada grupo possa ligar-se imperceptivelmente com outros de um modo
completo, desde os mais exatos, constituídos pelos estudiosos da psicologia experimental e
animal até o mais recente e mais novato dos paicometristas, todos eles discutem
reciprocamente o valor e a validez de seus trabalhos. Além disso, debatem a validez do trabalho
dos outros membros de seu próprio grupo. Ninguém é capaz de criticar tão bem um psicólogo
que estuda o animal, como outro estudante de psicologia animal; os ataques mais acirrados
contra os psicometristas provêm de outros psicometristas. Quem estiver empenhado na tarefa
complicada de procurar fatos, sabe - e sabe com especial convicção quando o
assunto pertence ao seu próprio campo - como é raro eles serem obtidos do manancial da fé,
da esperança e das hipóteses em que se baseiam, como é freqüente desaparecerem em mera
ilusão, e se persistirem, como é pequeno o seu valor provável, quando comparados com o seu
valor aparente na alegria da descoberta. Tal pessoa, naturalmente, não acredita, de imediato,
em qualquer porção maior do suposto conhecimento que um seu colega de trabalho lhe
apresente como fato provado. Acredita somente quando o tiver verificado completamente,
submetendo-o a todas as provas críticas que conheça.

Isso tudo é muito bom para a jovem ciência psicológica. Porque qualquer coisa que suna deste
tratamento como sendo fato, passando pela crítica mais ardente, belicosa e persistente, deve
ter no seu cerne o traço de teimosia que torna um fato real. Se os testes de inteligência ou as
leis do aprendi-

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zado ou Gestalten ou ainda os reflexos condicionados sobrevivem à manipulação de seus


críticos ativos, é porque existe neles alguma coisa, assim como havia na pedra arremessada
pelo Dr. Johnson em sua réplica motora ao Bispo Berkeley; porque oferecem uma resistência
real à violência e intelig cia humanas.

E, felizmente, a pujança da nova ciência é evidente não só nos debates como em seus esforços.
Os contendores são parecidos pelo menos em um ponto; são todos incansavelmente ativos.
Com uma dedicação quase incrível, contam os erros de seus ratos, calculam os coeficientes de
correlação e registram as indicações de pesos suspensos. E o resultado de toda essa aplicação
e de toda essa crítica é o estabelecimento ocasional de um fato, ou o que é mais freqüente e
quase tão bom, a queda de um dogma.

Além disso, no desenrolar dessa luta desenvolveu-se um profundo respeito para com a ciência
em si. Em presença de ciências mais antigas, a psicologia sente um pouco do respeito do noviço
pelo seu mestre, algo da admiração invejosa dos nouveaux riches pela aristocracia existente.
Sente também o mesmo interesse ansioso temendo que o seu modo de viver deixe de seguir os
padrões do meio social e o seu próprio desvelo em manter aqueles padrões
transparece, às vezes, em uma superioridade jactanciosa em relação às práticas que há tão
pouco tempo havia aprendido a desprezar. Mas essa j actância é compensadora e superficial.
Pois, esta jovem ciência frágil, assim como muitas outras coisas novas e frágeis, está bem
consciente de seus defeitos. Ela compara os seus gráficos toscos e suas correlações duvidosas
com a notável precisão da física, e chega a duvidar de que tudo esteja bem. Porque sob sua
agitação, existe o anseio de fatos concretos e de uma técnica segura. A intolerância arrogante
que às vezes demonstra em relação a qualquer coisa que não tenha recebido o sinete da
ciência é, pelo menos em parte, um certo cuidado e ciúme que sente pela integridade de seu
conhecimento, quase igual ao desprezo sutil de Bacon pelas pretensões dos aristotélicos de
sua época. Pois, em seus poucos anos de existência, a psicologia adquiriu não só atividade
como também ceticismo, que para uma ciência é o começo da sabedoria. Sabe que conhece
pouco e que esse pouco é experimental. A psicologia não pode mostrar nenhum acervo
imponente de fatos; sabe que sua maior virtude é a decisão em seguir o método científico, e
que na melhor das hipóteses, tenta introduzir aquele método em urna região, onde até

agora as perquirições da ciência não haviam penetrado. Acima de tudo, a psicologia está a par
da grande necessidade do elemento concreto, do qual qualquer ciência é, em grande parte,
constituída e aprendeu a olhar com desaprovação, quase com temor, toda indagação que não
seja fortemente apoiada em fatos.

Então, por que se formaram todos estes sistemas? Por que a psicologia, que está tão
empenhada em se tornar uma ciência, constrói estruturas de pensamento especulativo que
não poderá, durante anos, verificar por meio de fatos existentes?

Em suma, porque atingiu uma posição onde tal conduta é de todo inevitável. Ninguém é capaz
de afirmar atualmente as circunstâncias exatas que estimulam o pensamento - a palavra
"pensamento" é usada neste caso para indicar as atividades refletoras e criadoras do intelecto
quando em confronto com a observação e a experimentação - porém as condições gerais são
bastante conhecidas para tornar evidente que a psicologia não seguiria caminhos
intelectualistas se não tivesse sido estimulada. Sofreu a ação dos três mais poderosos
incentivos ao pensamento: um conhecimento cada vez maior, um interesse profundo e uma
dúvida persistente.

O conhecimento estimula, às vezes, o pensamento, porém a sua dosagem deve ser levada em
conta - nem demasiado muito nem demasiado pouco. Se uma pessoa estivesse de posse de
todos os fatos de um determinado assunto, seu pensamento sobre ele cessaria
automaticamente. Seu problema estaria resolvido; não mais haveria motivo para pensar. O
adulto culto não precisa pensar quando responde a perguntas como: Quanto são sete vezes
cinco? Qual é a composição química da água? Quais são as leis do movimento de Newton? Já
estará de posse desses conhecimentos ou os mesmos estarão facilmente ao seu alcance. Já
houve uma época, na história da raça humana e quem sabe mesmo na dos indivíduos, em que
essas perguntas suscitaram um grande esforço mental, porém atualmente despertam apenas
as associações adequadas, de modo mais ou menos rápido. De maneira idêntica, um indivíduo
nada pensa se não possuir nenhum fato. A maioria das pessoas, provavelmente, pensa muito
pouco, ou mesmo não pensa, sobre diferenciais ou a escrita uncial e sobre as atuais intrigas
políticas em Montenegro. Na maior parte delas, os fatos importantes estão ausentes e temos,
portanto, falta dos próprios materiais com os quais o pensamento age. Este é, sem dúvida, o
motivo pelo qual a

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nossa maioria não pensa mais sobre a teoria da relatividade de Einstein, pelo menos sobre
seus princípios fundamentais. De fato, existem alguns aspectos da teoria sobre os quais
pensamos; encaramo-la como uma idéia revolucionária, como um feito intelectual brilhante,
como uma descoberta que exige uma revisão dos modos fundamentais de conceber o universo
físico, como uma outra indicação do que o pensamento matemático é capaz de realizar. Mas
isto acontece em parte porque nós conhecemos alguma coisa sobre idéias revolucionárias,
feitos intelectuais, revisões de conceitos fundamentais, e a capacidade de raciocínio
matemático. Podemos seguir satisfeitos até onde o conhecimento nos conduza, mas não nos
leva muito longe; sabemos que há alguma coisa por trás disso. Realmente, o interesse
provocado pela teoria de Einstein é uma excelente amostra do grau de conhecimento que tem
probabilidade de estimular o pensamento. Sabemos que existe alguma coisa estimulante; não
sabemos exatamente o que seja. Nossa curiosidade é espicaçada; temos um começo, sentimos
um impulso para seguir até o fim. E o fato do impulso não nos levar a adquirir suficiente
conhecimento da física e da matemática que nos conduza a uma compreensão total, não
significa que não tenha sido despertado em nós o impulso para pensar, mas sim que o mesmo
não é bastante forte para nos permitir afastar os obstáculos, ou ainda que estes são superiores
às nossas forças. Isto não quer dizer que o pensamento cesse quando atinge os limites do
conhecimento; ele supre o conhecimento com a criação; tem forte tendência para completar o
quadro inacabado de algum modo - a todo o custo. Uma cultura limitada é perigosa
justamente porque desperta o pensamento criador, e este, embora possa, muitas vezes,
conduzir à verdade, em outras leva ao ridículo ou a um erro perigoso.

Mas o pensamento, naturalmente, não é simplesmente uma ocorrência do intelecto. O


interesse também é importante. Pensamos a respeito das coisas a que damos importância, e
possivelmente os nossos pensamentos mais vigorosos e claros são aplicados nos assuntos que
mais diretamente se relacionem com nossos interesses pessoais. É por isso que a totalidade
dos melhores pensamentos do mundo - consideran do nesse caso o pensamento da
humanidade em geral, e não a de poucos pensadores consagrados - consiste provavelmente de
assuntos tais como realizar algum empreendimento muito desejado, o que os amigos e os
inimigos estarão fazendo. e como conseguir alguma espécie de salvação, tempo-

ral ou eterna. O pensamento que produz maior estímulo no mundo é aquele que tem algum
apoio no destino do homem e de seus afazeres. A teoria de Copérnico chamou a atenção não
tanto por exigir uma nova concepção do universo quanto por pedir uma nova visão do homem,
daí em diante não mais como personagem central. E o darwinismo é interessante,
principalmente pelas suas conseqüências para a humanidade; porque apresenta o homem não
como objeto de uma atenção especial, mas simplesmente como uma das muitas formas que o
protoplasma adquiriu em um mundo que não foi feito especialmente para nenhuma delas.
Qualquer assunto que os homens considerem como incluindo o seu próprio bem-estar, tem
boa probabilidade de estimular o pensamento, embora a qualidade deste seja determinada por
outras condições além da natureza e da magnitude de sentimento nele contido.

O pensamento relaciona-se também com a ação, e por meio dela, com a dúvida. Pensamos o
que vamos fazer, principalmente quando nossas maneiras antigas de fazer as coisas sofrem
interferência, ou quando descobrimos que não têm mais utilidade. É então que duvidamos e a
dúvida - a descoberta de que o que parecia conveniente pode deixar de sê-lo - é prova de que
um novo ajuste deve ser feito. Talvez num animal perfeitamente ajustado fossesupérfluo o
pensamento. Mas quando alguma coisa vai mal, o pensamento pode ser útil e é provável que
apareça. Quando um motor pára, o seu dono procura saber por que parou; quando seu
trabalho vai mal, ele analisa a situação; e quando seu Weltanschauung (cosmovisão) sofre
modificação de tal forma que se veja, não mais num papel desejado, e sim num outro que é
ridículo ou insignificante, é lançado em seu Sturm und Drang de uma agitação intelectual de
proporções ainda maiores. A dúvida significa que um novo ajuste deve ser feito, e na solução
dos ajustamentos humanos o pensamento é muitas vezes utilizado, embora nem sempre isso
aconteça.

Existem inúmeros exemplos, fora do campo da psicoloê gia, que apresentam estas condições
em funcionamento. Não

foi por acaso que os grandes sistemas racionalistas de Des cartes, de Leibniz e de Espinosa
foram estabelecidos após a

Renascença haver colhido os seus primeiros frutos do conhecimento e da dúvida sobre


assuntos intimamente ligados com

a felicidade e a salvação humanas. É especialmente interesb sante que a própria desconfiança


para com o intelectualismo

medieval tenha provocado uma resposta do mesmo gênero. Bacon, por ser um crítico dos
métodos racionalistas da

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Idade Média, deixou sua contribuição para a ciência não tanto pela utilização do novo método
que preconizava, quanto

por seguir outro mais parecido com o antigo método que desprezava, O Novum Organum,
embora seja um argumento

e uma orientação para o método indutivo, não representa bom

exemplo daquele método. É uma análise ponderada do que


deve ser feito se desejamos obter o conhecimento científico;

e não o resultado de um acúmulo sistemático de casos observados e registrados, positivos e


negativos, dos problemas

reais tratados pelo pensamento humano. Mesmo o empirismo ti crítico de Locke e Hume foi
obtido menos pela observação 9 real da mente em ação, do que por uma análise retrospectiva

e racional do intelecto em relação às pretensões, sobre as quais aqueles autores eram tão
céticos. O empirismo desacreS ditou as pretensões excessivas do intelecto por meio de um

exame das mesmas, feito de uma forma mais intelectual do que empírica em sua essência.
Portanto, não é de admirar que a psicologia que, de acordo com suas normas vigentes, deveria
contentar-se com a sóbria conquista de fatos, tenha-se empenhado, às vezes, em discussões e
produzido sistemas de pensamento para os quais os fatos comprovados estão
reconhecidamente ausentes e serão obtidos somente em um futuro remoto. Pois a psicologia
está cercada pelas condições de tal pensamento. Os seus fatos são bastante numerosos para
serem sugestivos, mas não o suficiente para serem conclusivos; as dúvidas são inúmeras; o seu
tema está próximo dos interesses pessoais que não existem no caso da ciência pura, mas que
têm grande probabilidade de despertar o interesse dos seres humanos. Nestas circunstâncias, é
natural para um psicólogo entrar em indagações como o seria para um físico cair em direção ao
centro da Terra, se o centro de gravidade de seu corpo não estivesse entre seus pontos de
apoio.

Mas, o que significa tudo isso para os sistemas de psicologia? Basicamente, significa que eles
devem ser encarados como produtos de seres viventes, trabalhando em meio à dúvida, aos
interesses e aos conhecimentos incompletos, a fim de conseguirem melhores ajustamentos às
circunstâncias especiais que os circundam. A natureza, a função e as limitações dos sistemas
estão todas presentes nesta maneira de concebê-los.

Isto significa, pelo menos, que os sistemas de psicologia não devem ser considerados como
formações totalmente imparciais ou não emotivas, determinadas somente pela lógica e

pela evidência. Em nenhum caso é prudente considerar os sistemas como separados das
situações especiais que lhes de. ram origem - ou seja, das tradições, convenções, padrões,
preconceitos e, às vezes, dos vigorosos sentimentos pessoais que constituem a sua bagagem. A
origem mais comum dos sistemas está na insatisfação com um sistema mais antigo, a quebra de
um modus vivencli científico; e o abandono de um modus vivendi, que abrange a
desorganização do hábito e da emoção, bem como o estímulo do intelecto, dificilmente dará
origem a uma atividade totalmente serena e desinteressada. A resposta normal à descoberta de
que a maneira de viver de um indivíduo falhou é a de tentar outra, apesar de a nova maneira
poder estar baseada em um conhecimento incompleto, como era a anterior. Talvez o método
puramente racional de enfrentar a situação fosse o de suspender o j ulgamento até que se
tivesse toda a evidência, porém suspendê-lo indefinidamente é uma ação muito sofisticada,
nem sempre apropriada às maneiras rudes e inéditas de uma ciência nova. Atualmente o
progresso científico tem sido obtido muitas vezes pela aceitação de respostas erradas,
incompletas ou experimentais baseadas nos dados disponíveis, e corrigindo as
respostas à medida que mais dados são obtidos. A psicologia, pelo menos, tem tido pouco
êxito em sustar o seu pensamento a meio caminho; tem respondido às ques. tões que lhe são
dirigidas formando sistemas, cada um dos quais é para os seus adeptos um prenúncio da
verdade e im programa de ação - ao mesmo tempo uma coisa com a qual se trabalha e para
quem se trabalha. Por conseguinte, um sistema de psicologia não é somente uma norma de
conduta, mas também de moral. É possível que para os adeptos de um dado sistema a
justificativa para a sua aceitação deva ser encontrada em algo parecido com a filosofia do
"como se" de Vaihinger. Mas aquele que observa e estuda o sistema deve vê-lo da mesma
maneira que um psicólogo vê as ações de um rato em um labirinto: como um conjunto de
ações complexas e variadas que são as maneiras mais ou menos eficientes de atingir um
determinado objetivo.

Isto significa por sua vez que os sistemas de psicologia devem ser encarados não como
postulados do conhecimento científico, mas sim como instrumentos com os quais o
conhecimento científico é produzido; não como descrições de um fato científico, mas como
meios de adquirir um fato científico. Representam a armação dentro da qual a estrutura da
ciência psicológica está sendo erguida, tão necessária e provisória

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como a própria armação; não é identificada com a estrutura em si, todavia não poderia existir
sem ela. São os instrumentos mediante os quais o conhecimento é obtido, porém tão
diferentes dele como os instrumentos são diversos do minério de que provêm. Infundem
entusiasmo nos que neles trabalham, mas são tão diferentes do trabalho, como a inspiração o
é da produção. Oferecem um programa de ação típico e, às vezes, atraente, mas o programa
não deve ser confundido com a realização. É difícil saber o que mais ressaltar: se a
indispensabilidade do instrumento ou se o fato de ele ser um instrumento.

Talvez se deva ressaltar a primeira hipótese, se considerarmos a condição da psicologia na


atualidade. Pois a psicologia, com sua extremada devoção ao- método científico, torna-se, às
vezes, rigidamente antiintelectualista. Reconhece, naturalmente, que a especulação
desempenha um papel legítimo no pensamento científico, que a distinção entre observação e
especulação não é absoluta, e que as duas realmente se complementam. Mas a sua atitude
ativa não é tão simplesmente racional. Talvez devido à atualidade da separação entre psicologia
e filosofia, ou devido a um sentimento agudo da necessidade de fatos observados, muitos
psicólogos encaram a especulação com suspeita e desagrado, quase com ressentimento e
pavor. Pois muitos deles estão ainda um tanto temerosos de serem metafísicos, e chamam de
metafísico, de modo certo ou errado, quem estabelece teorias sem verificá-las por meio de
fatos. O que temem naturalmente não é o pensamento, mas aquele que se afasta dos fatos e
fica além de seu alcance. Porém todo pensamento antecipa-se ao fato; isso faz parte de sua
própria natureza; e a diferença entre pensamento científico e "mera especulação" está na
diferença da relação entre as criações do pensamento e os fatos pelos quais precisam ser
provados. O pensamento que mantém sua linha de comunicação com o
fato de um modo franco e ativo, é científico; o que assim não é, não passa de "mera
especulação".

Nenhum sistema de psicologia pode, nem pretende, no momento, ser estabelecido por fatos.
Assim como nenhum sistema age com indiferença total em relação aos fatos. A verdade é que
a psicologia não possui, no momento, número suficiente de fatos com os quais possa testar
seus sistemas. Sua carência de fatos faz com que evite a especulação; a sua falta de fatos faz
com que recorra à prática, e assim o faz de maneira forçada.

E surge novamente a pergunta: Por que a psicologia não abandona os seus sistemas e se
dedica a coligir os fatos de que tem tanta necessidade? A resposta para tal pergunta é a
justificativa dos sistemas: que sem eles poucos fatos seriam acessíveis. Pois o conhecimento
científico não é simplesmente acumulado; é mais provável que se desenvolva sobre hipóteses
que apresentam questões definidas e que atuam como centros de organização em busca do
conhecimento. Aliás, segundo a História, a ciência não progrediu por ter seguido o método
descrito por Bacon - isto é, pela constante

coletânea de dados e o aparecimehto de generalizações. O próprio Bacon declarou que a


simples acumulação não é suficiente; porém nem mesmo a acumulação sistemática e cuidadosa
que Bacon delineou, com suas cuidadosas comparações de casos positivos e negativos, e suas
anotações dos graus variáveis de qualidade nas várias circunstâncias, foi realmente a fonte de
muitas das descobertas da ciência. Quase sempre a introspecção precede a evidência
sistemática; é mais provada do que sugerida por ela; é, sem dúvida, a
oportunidade para a aquisição da evidência. Freqüentemente as vitórias da ciência são obtidas
por meio de hipóteses ainda não confirmadas pelos fatos e que depois se tornam a base de uma
pesquisa ativa e inteligente orientada particular- mente no sentido de um determinado corpo
de evidência, o qual provará ou não o assunto em debate. As suposições baseadas em
evidências impróprias têm tido grande influência e, na prática real, são instrumentos
indispensáveis, utilizados regularmente pela ciência.

É por esse motivo que os sistemas aparecem de modo tão evidente e tão associados à
psicologia contemporânea. Um sistema pode desempenhar a sua função provando ser certo
ou errado ou, o que é mais provável, provando ser, em parte, certo e, em parte, errado. Os
próprios erros de um sistema, sendo principalmente bem definidos e decisivos, podem
fomentar a causa da ciência revelando erros que não precisam ser repetidos. Os sistemas
proporcionam forma, acabamento e direção a um empreendimento que sem isso seria
impreciso e sem objetivo; e mais ainda, transmitem interesse e desvelo pelo empreendimento.
Pois a ciência não vive só de fatos, nem mesmo de fatos e hipóteses apenas. Precisa da alegria
do combate e da esperança da realização, e, evidentemente, às vezes do tempero da malícia e
da excitação de concorrer com os outros; e para a psicologia atualmente isto significa escolas e
sistemas.

24 Ecina Heidbredet

Considerados sob esse aspecto, como programas de ação e bases de moral, os sistemas podem
ser considerados como sintomas significativos da situação da psicologia em certos lugares, em
certas épocas e nas mãos de determinados grupos de pesquisadores; e também como
indicações dos aspectos da psicologia que parecem estar recebendo maior ênfase do que o
necessário, num dado conjunto de circunstâncias. Não é o caso de se lastimar o fato de haver
uma valorização excessiva da psicologia, pois ela atrai a atenção para assuntos importantes,
estimula a crítica e, quase certamente, é compensada por uma valorização excessiva no
sentido oposto em outras épocas e lugares. Pois o progresso da ciência não pode ser
considerado o trabalho de um só homem ou de um grupo de homens, a ciência é um grande
empreendimento social, no qual as contribuições mais valiosas de um indivíduo podem ser os
seus maiores erros.

É desse ponto de vista, então, que os sistemas de psicologia serão considerados neste estudo;
não como certos ou errados, nem como aproximações mais ou menos completas ao
conhecimento, mas na medida de sua influência no desenvolvimento real da ciência
psicológica. Podem ser melhor compreendidos não como afirmações de um fato científico, nem
como resumos do conhecimento existente, mas como processos e maneiras de chegar ao
conhecimento, como etapas provisórias, porém necessárias ao desenvolvimento de uma
ciência, como criações de trabalhadores que, num empreendimento confuso e, às vezes,
depressivo, devem conservar não só o seu garbo mas também a sua energia. Pois nunca é
demais repetir que a ciência não age somente à luz da razão, mas assim como outros
empreendimentos, é uma aventura incerta, que se passa

"as on a darkling piam

"como numa planície escura,

Swept with confused alarms of struggle and fligth

Varrida por alarmes confusos da luta e debandada,

Where ignorant armies clash by night". *

Onde ignorantes exércitos se chocam à noite."

* Versos finais da cé1ebr poesia de Matthew ArnOld, "Dover Beach".

(N. da Ed.)

II

PSICOLOGIA PRÉ-CIENTÍFICA

Tales (640-548 a.C.); Heráclito (535-475 a.C.); Demócrito (460-

-370 a.C.); Anaxágoras (499-428 a.C.); Sócrates (436-338 a.C.); Platão (427-348 a.C.);
Aristóteles (384-322 a.C.); Descartes (1596-
-1650); Hobbes (1588-1679); Locke (1632-1704); Berkeley (1685-

-1753); Hume (1711-1776); Kant (1724-1804); Reid (1710-1796);

Hartley (1705-1757); Brown (1778-1820); Hamilton (1788-1856); James MIII (1773-1836); J.


Stuart Miii (1806-1873); Spéncer (1820-1903); Espinosa (1632-1677); Leibniz (1646-1716);
Lamettrie (1709-1751); Cabanis (1757-1808); Condillac (1715-1780); Rousseau (1712-1778);
Wolff (1679-1754); Herbart (1776-1841); Volkmann (1822-1877).

uando estudamos os sistemas de psicologia é quase obrigatório investigar o seu passado. O


próprio fato de eles aparecerem tardiamente no pensamento humano significa que os
problemas que apresentam estiveram durante longos anos formando afinidades mal definidas
e alianças comprometedoras, quase despercebidas pela atenção observadora da ciência. Esta
nova ciência da psicologia está continuamente descobrindo que seus problemas prediletos
possuem história; que os termos que utiliza apresentam implicações que os ligam com pontos
de vista anteriores, e que suas conclusões são, muitas vezes, determinadas pelo hábito e pela
associação. Seu caminho nunca é uma linha reta; está sempre sendo arrastada de um lado para
outro pela atração de algum conjunto de conhecimentos ou de opinião, do qual nem sempre
tem consciência. Muitas vezes as mudanças de seu pensamento e o próprio conteúdo de seus
conceitos são determinados por fatos históricos que sucederam há centenas de anos.

Teoricamente, e em sua forma final, um sistema de psicologia é uma visão conjunta de todo o
campo da psicologia como um todo consistente e unificado. Admite que as minúcias
aparentemente caóticas que existem dentro de seu âmbi

26

Edna Heidbreder

Psicologias do Século XX

27

to, se forem bem compreendidas, podem ser postas em ordem e clareza: que é possível definir
a matéria estudada, estabelecer o problema principal, conciliar os métodos de investigação,
determinar as relações com outros tipos de conhecimento, identificar os elementos ou
processos básicos, determinar as características próprias e indicar o seu esboço geral ou
orientação característica. Conhecer um sistema é saber como ele se porta em relação a todos
estes assuntos e principalmente saber o ponto de vista do qual os considera. Pois o ponto
principal de um sistema de psicologia é a posição da qual ele engloba o seu campo, a posição
privilegiada a partir da qual examina os dados concretos da ciência e da qual distingue um
padrão coerente que lhes dá unidade.

Mas, sejam quais forem os sistemas de psicologia, não são simplesmente estruturas lógicas
estáticas, completas, que possam ser consideradas como tantas outras coisas independentes,
separadas e completas, para serem analisadas fora das condições que lhes deram origem. Pois
os sistemas de psicologia atualmente existentes - os conjuntos de fatos e suposições que agem
como sistemas - não são, muitas vezes, sistemas no exato sentido da palavra, nem,
certamente, formações de pensamento, herméticas e completas, elaboradas de modo
consistente em todos os seus detalhes. 1 Pelo contrário, resultam de longas e, às vezes,
obscuras correntes de desenvolvimento histórico; porque a psicologia, como qualquer outro
empreendimento do intelecto humano

- talvez mais do que a maioria - tem estado sujeita a confusões, compromissos, e mal-
entendidos, muitos dos quais têm sua origem em passado remoto.

É particularmente significativo o fato de o interesse pela psicologia desenvolver-se não só


tarde, mas também por acaso. O pensamento evoluiu aparentemente sem introspecção; a
filosofia começa com a cosmologia, e a ciência com a astronomia e a física. Isto não quer dizer
que os seres humanos não estejam desde o início interessados neles mesmos. Estão
interessados pelo mundo em primeiro lugar porque o habitam, porque este contém as coisas
que acham importantes. Porém a sua própria existência e natureza, embora for-

1 A expressão "sistema de psicologia" da forma em que é usada neste livro não Indica
necessariamente uma construção completa e hermética. Refere-se antes a qualquer esforço em
abranger o campo da psicologia sob um ponto de vista definido e assim reunir os fatos. Por esse
motivo, foram Incluldas algumas interpretaões da psicologia que os próprios autores não
consideram "sistemas" no sentido exato do termo.

mem o centro do qual todos os interesses humanos irradiam, foram, no início, simplesmente
supostas como certas. O pensamento, no começo, não tem consciência de seu ego, porque isto
implica um modo de observá-lo de certa forma como quem observa outros objetos, uma
percepção do ego que nunca está livre do interesse próprio mas que, não obstante, dá indícios
de desprendimento intelectual. Exigir uma explicação do ego e de seus modos de agir significa
inquirir a seu respeito, e isto só poderá ser feito depois que a primeira impressão de considerá-
lo como uma certeza tiver até certo ponto desaparecido.

É por isso que a psicologia, que no início é humana, começa com observações que são ao
mesmo tempo secundárias em relação às tarefas superiores do intelecto. Em filosofia, é mais
provável que se encontre a psicologia como epistemologia. Em seus esforços para
compreender o universo, os filósofos deparam-se, mais cedo ou mais tarde, com o
pensamento: "Comopodemos conhecer?", e esta pergunta dá origem a um exame dos
processos humanos de conhecimento. As indagações psicológicas surgem, também, na ética e
na teoria social e política; as questões referentes à conduta do homem para com seus
concidadãos e para com o Estado orientam facilmente a atenção para a própria natureza do
homem. Em ciência, a psicologia proveio da fisiologia, principalmente da fisiologia dos órgãos
dos sentidos, que pareciam ser as vias de comunicação entre o mundo exterior e o da
experiência pessoal e íntima. Por outro lado, também em suas vidas diárias e no trato com
seus semelhantes, os seres humanos são obrigados a aprender, pelo menos dentro das normas
imediatas e simples do bom senso, algo sobre as maneiras humanas. Além disso, seja qual for
o ponto de partida do qual os seres humanos se considerem, são de modo quase irresistível,
envolvidos em questões relativas ao seu próprio valor e bem-estar - sobre a sua posição na
natureza, sua origem e destino, o significado da existência e
suas possibilidades de salvação. Desde o início, as observações dos homens sobre a natureza
humana são provavelmente eivadas - do ponto de vista da ciência pura - pelas esperanças,
desejos e temores humanos. Mesmo quando a psicologia surge como disciplina isolada, traz
alguma coisa de filosofia, de ética e de senso comum. Como resultado, o primeiro passo no
sentido de compreender os sistemas psicológicos da atualidade consiste numa visão geral,
embora bre

28

Edna Heidbreder Psicologias do Século XX

29

ve, de alguns dos relevantes pontos de vista psicológkfos do passado.

Isto não significa ser possível retornar ao princípio. Mesmo nas primitivas cosmologias gregas,
antes de ter sido feita a distinção entre a mente e o corpo, muitas das concepções encontradas
na moderna psicologia, muitas das suas maneiras peculiares de lidar com seu material, já
existiam e, em geral, já tinham amadurecido. Uma dessas foi a tentativa, feita durante todo o
período cosmológico, no sentido de reduzir o universo a seus elementos mais simples. Os
antigos gregos, com a mais absoluta honestidade, queriam saber de que era feito o mundo,
Encontraram uma resposta quando analisaram a sua complexidade como era vista em algum
elemento isolado - agua, ar, átomos -- ou num sistema de elementos. A tarefa a que se
propuseram era a de reduzir o complexo ao simples, e sua afirmação era a de que o complexo
e a variedade constituem o mundo da aparência, em contraste com a realidade subjacente,
que é simples. Estas duas coisas nunca deixaram de impressionar o intelecto humano.
Implicam que o universo ou alguma parte do mesmo que esteja sendo estudada podem ser
compreendidos se descobrirmos as unidades de que se compõem. A física encontrou tais
unidades no átomo; a biologia, nas células; e a psicologia, dependendo do ponto de vista
adotado, nas idéias simples, sensações, ou traços do comportamento que incluem as
associações elementares de estímulo-resposta. Mas, seja qual for a unidade, o princípio de
construção é sempre o mesmo; inclui de alguma forma, grosseira ou sutil, a concepção do
universo como sendo composto de partes, ou mistura de elementos simples. Para um ser
perquiridor, como é o homem, isto constitui um longo passo no sentido de tornar o mundo
inteligível. Sabe do que este é feito; pode ver como as partes se ajustam umas às outras; se
tivesse as partes, poderia colocá-las juntas. A verdade é que a simpli. cidade atraente que
caracteriza este ponto à primeira vista, torna-se menos perceptível quando o examinamos;
surgem dificuldades que não são de imediato evidentes. O método é satisfatório e útil desde
que não se olhe com muita curiosidade além dos limites do bom senso. Sua eficácia tem sido
provada várias vezes por meio de realizações bem sucedidas; e não resta dúvida que é uma
das respostas mais prontas e eficazes dos seres humanos em face de situações complexas. É
um método que aparece amiúde, de uma forma ou de outra, na tentativa de tratar com
material psicológico.

• Demócrito, o último dos antigos cosmólogos, é um exemplo desta maneira de encarar as


coisas na forma mais completa conseguida pelo pensamento grego. A sutileza dos gregos não
havia permitido que as especulações cosmológicas prosseguissem sem crítica. No começo do
século VI a.C., Tales, o primeiro filósofo grego que a história registra, havia encontrado a sua
unidade em uma substância concreta, a água. Mas esta posição era somente um ponto de
partida, e a história do desenvolvimento que se seguiu foi sempre de especulação sujeita à
crítica. Como conseqüência desse desenvolvimento, cerca de um século e meio mais tarde,
surgiu a afirmação de Demócrito, isenta das dificuldades mais comuns das primitivas
especulações, clara, inteligível, completa e abstrata. Segundo Demócrito, o universo é
constituído por átomos. Estes são pequenas partículas de matéria em movimento; elas se
movem de várias maneiras; são diferentes em tamanho e forma, porém movem-se de acordo
com uma necessidade ou uma lei. O homem, assim corno o resto do mundo, é composto de
átomos da alma e átomos do corpo, ambos materiais mas que diferem uns dos outros por
serem os primeiros mais sutis e mais ativos. Os pensamentos e atos do homem, todos os
acontecimentos de sua vida são determinados de forma tão rígida como os cursos das estrelas.
Em Demócrito o atomismo está ligado ao materialismo e ao determinismo de um modo bem
definido, os quais em seu pensamento surgem em seus aspectos mais claros e menos ambíguos
e com suas implicações lógicas nas ações e destinos do homem, perfeitamente identificados.

Um segundo desenvolvimento surgiu corno urna crítica do primeiro. Muito antes da época de
Dernócrito, houve filósofos que perceberam as dificuldades do artifício aparentemente simples
de reduzir o mundo em seus elementos. Um deles foi Heráclito, que expressou o seu
desagrado de um modo um tanto paradoxal em sua tese segundo a qual toda a natureza era
formada pelo elemento fogo. Mas, embora Heráclito se referisse ao fogo num sentido literal -
do mesmo modo como Tales considerava a água - via, como sua característica principal, a
instabilidade ou a variação. No cerne do universo não encontrou nenhuma substância
duradoura, nada sólido, nada permanente, que pudesse servir como elemento estável. As
próprias montanhas, observou ele, não são as mesmas de uma época para outra, nem de um
dia para outro, ninguém pode pisar duas vezes no mesmo curso de água. Somente a variação é
real: "Todas as coisas

30

Ednci Heidbrejer

fluem"é o seu ensinamento principal. Em sua essência, esta doutrina é uma crítica do senso
comum. "As coisas" não são reais; estão continuamente se desvanecendo, transformandose
em seus opostos. Os sentidos podem indicar o que parece ser corpos concretos, mas o
pensamento, indo além das aparências, percebe a realidade, que é variação. Enquanto o bom
senso via coisas, Heráclito via processos, e ao assim fazer empregou uma teoria idêntica
àquela usada pela física atual, que está despojando a matéria de sua estabilidade e solidez. A
importância deste modo de pensar para a psico.. logia é logo percebida. Um psicólogo não
pode ter o menor conhecimento novo da matéria que estuda, sem que perceba não estar
tratando com partes ou partículas de qualquer coisa estável ou concreta, mas sim com
processos mutáveis. Mesmo nos sistemas de psicologia que reduzem o seu material a
elementos, estes, quer sejam fases da consciência ou de um comportamento, são definidos
como processos. É verdade que, tendo sido definidos como processos, são muitas vezes na
prática tratados como unidades fixas, porque é forte o hábito de pensar em termos de
unidades fixas. Porém, quando a atenção é dirigida diretamente para um material psicológico,
o caráter de variação apresenta-se como sendo um fato inevitável. A psicologia está
continuamente chamando a atenção para o fato de estar tratando com processos e
acontecimentos.

Um terceiro desenvolvimento foi aquele iniciado por Anaxágoras. Como Heráclito, ele
acreditava que uma redução a elementos simples não explicava completamente o mundo, mas
a sua crítica foi menos radical do que a de Heráclito. Não ficou perplexo por pensar que não
existe substância, e que, portanto, não existem elementos. Anaxágoras, realmente, defendia a
existência de um número indefinido de elementos qualitativos diferentes. Seu problema surgiu
da suposição de que, embora os elementos fossem conhecidos, ficar-

-se-ia ainda incapaz de descrever o mundo como o vemos. Considerava a disposição dos
elementos tão importante quanto sua existência. A ordem do mundo deve ser explicada, bem
como as partes que o constituem, e esse princípio ordenador ele encontrou no nous, algo
semelhante à inteligência ou razão humana, mas não ainda em contraste com a matéria. Esta
doutrina é importante para a psicologia, em parte porque escolhe um processo psicológico que
recebe atenção especial e também porque, ao chamar a atenção para o problema da
disposição, da ordem, do padrão, apresen Psicologia

do Século XX

31

ta um problema que freqüentemente reaparece em psicologia. É este último detalhe - o


protesto contra o fato de considerar a redução dos elementos como uma explicação completa

- que dá à filosofia de Anaxágoras o seu principal significado para a moderna psicologia. É uma
opinião intimamente relacionada com os contínuos protestos contra as várias formas do
sensacionismo, e não difere muito da revolta que o movimento da Gestalt, um dos mais
recentes em psicologia, está dirigindo contra o atomismo psicológico de nossos dias.

Um quarto movimento representa um modo muito diferente de descrever o universo. Sua


origem está associada ao nome de Pitágoras, e sua doutrina ensina que a realidade pode ser
compreendida por meio dos números. Na escola pitagórica, esta doutrina assumiu o caráter de
uma religião. Foi cercada por ensinamentos místicos, fantásticos e, às vezes, triviais, e fez-se
acompanhar por certas regras específicas e aparentemente sem sentido, como, por exemplo, a
proibição do uso do feijão. Mas a tentativa para conhecer o mundo em termos quantitativos é
em si mesma da mais alta importância, sendo interessante que tenha surgido tão cedo. A
ciência, em seu esforço para obter um conhecimento exato, sempre se tem unido avidamente
ao pensamento quantitativo e, como veremos mais adiante, a aplicação bem sucedida dos
métodos quantitativos ao material psicológico foi, dentro da história, um dos fatores decisivos
que fizeram da psicologia uma ciência.

Mas aos poucos, no transcurso dessas investigações sobre a natureza do universo, em meio a
todas essas teorias, cada qual considerando-se certa e todas provando a sua exatidão com um
certo grau de plausibilidade, surgiu uma dúvida de outra espécie - a pergunta "Como podemos
conhecer?". Em primeiro lugar, isto não era uma pergunta psicológica; não era "Como
conhecemos?" mas "Como podemos conhecer ?" e provocada menos por curiosidade sobre o
processo do conhecimento do que pelo interesse sobre a validade do mesmo. No entanto, este
interesse pela validade do conhecimento provocou investigações sobre os seus processos. Já de
há muito os filósofos haviam feito distinção entre o conhecimento adquirido pelos sentidos
daquele obtido pela razão. Haviam também observado que o conhecimento é relativo, que é
humano, conseguido a partir de um ponto de vista humano, eivado de maneiras humanas de
obter o conhecimento. O próximo passo seria investigar se qualquer método humano de
'conceber o mundo poderia ter validade

Edna Heidbreder

Psicologia. do Século XX

33

objetiva; se a investigação sobre a natureza última da realidade não é, em última análise, um


tanto inútil.

Os sofistas, partindo deste ponto de vista, deram uma direção inteiramente nova ao
pensamento grego. Passaram de modo definitivo da cosmologia para as coisas humanas, e
assim vieram a interessar-se por assuntos que podem ser chamados, em sentido amplo,
psicológicos. Além disso, seu estudo era prático. Era inevitável que a própria abundância de
especulações sobre o universo, a exibição de explicações sucessivas, todas igualmente
plausíveis, acabasse por impressionar algumas mentes, principalmente pela inutilidade de tal
especulação. Os sofistas, de qualquer forma, recusaram-se a se ocupar com tentativas de
compreender a natureza fundamental da realidade. Dedicaram-se, em vez disso, à sua
profissão, que era o ensino da filosofia como norma de vida, e da retórica e dialética como
habilidades práticas. De modo deliberadamente superficial e habilmente prático, aceitaram,
mediante pagamento, treinar os jovens nas artes da persuasão - as quais eram muito úteis na
Grécia onde os homens subiam ao poder convencendo os seus semelhantes e dominando as
massas. Havia, naturalmente, sofistas e sofistas, representando uma escala de integridade
intelectual que ia desde o gosto pelo exercício livre da inteligência crítica até o desejo de "fazer
o pior parecer melhor". Porém, quaisquer que fossem as suas idéias sobre a utilidade ou não da
dialética, estavam interessados pelo processo em si. Encontravam nele alguma coisa em
que se ocupar, algo que podia ser exercido, cultivado e controlado, e além disso, que - não
importando a natureza última da realidade - era de valor no mundo dos assuntos da vida diária.
Com uma atitude curiosamente idêntica à da moderna psicologia aplicada, dedicaram- se a
realizações específicas e situações concretas, muito mais interessados em manipular o imediato
e o real do que em mergulhar no fundamental e no profundo. Seria um erro, naturalmente,
atribuir aos que atualmente trabalham em psicologia aplicada as idéias associadas aos sofistas
gregos, mas qualquer que fosse o ponto de partida teórico de suas atividades, alguma coisa é
idêntica no temperamerito de ambos. A grande virtude da psicologia aplicada é a sua ligação
benéfica com o real e o imediato, o seu hábito de manter-se próxima, ou pelo menos, à vista de
materiais que os seres humanos podem manejar e controlar.
Uma conseqüência indireta dos ensinamentos dos sofistas foi a filosofia de Sócrates, uma das
figuras mais pito resca

da brilhante sociedade de Atenas, no século V antes de Cristo. Sócrates era feio, encantador,
excêntrico, sociável e generoso; a principal atividade de sua vida fora atrair os jovens para as
conversas filosóficas e daí, por meio de uma hábil argumentação, fazê-los ver que suas idéias
sobre os assuntos fundamentais da vida, mesmo os mais triviais, eram confusas e
contraditórias. O seu objetivo era colocar seus ouvintes ante a necessidade de definir as suas
palavras de maneira exata, e obrigá-los a descobrir o que a razão mostrava como verdadeiro.
O sucesso que obteve fazendo aqueles que o ouviram duvidar de verdades aparentemente
óbvias, foi tão grande que, em sua velhice, foi julgado e condenado à morte, sob acusação de
minar a religião do Estado e corromper a juventude.

Da mesma forma que os sofistas, Sócrates acreditava que a investigação sobre a natureza do
universo é inútil mas, ao contrário deles, acreditava que um tipo de conhecimento pode ser
obtido - o do próprio eu. Além disso, acreditava que é este tipo de conhecimento que os
homens realmente necessitam, e que lhes pode indicar o que devem fazer, permitindo-lhes
assim levar vida virtuosa. Sócrates acreditava que a virtude é o resultado do conhecimento e
que o mal é basicamente ignorância - um antigo exemplo da crença encontrada amiúde em
psicologia que afirma ser o princípio racional ou intelectual o que prevalece no homem.
Acreditava, ainda, que a verdade está implícita no intelecto humano; que ela necessita apenas
ser extraída e purificada. Para demonstrar esta asserção, conseguiu que um escravo não
ensinado, auxiliado somente por perguntas hábeis, descobrisse por si mesmo que o quadrado
da hipotenusa de um triângulo é igual à soma dos quadrados dos outros dois lados.

Apesar disso, Sócrates estava mais interessado na natureza integral do homem do que em
qualquer de suas habilidades individuais. Em essência, seu interesse pelos seres humanos era
ético, e este fato é responsável por um dos traços característicos de sua abordagem
psicológica. Considera os homens não como unidades isoladas, mas sempre em relação com
seus semelhantes e o Estado. De certo modo, esta idéia é a mesma dos atuais behavioristas,
que acreditam no estudo do organismo total em suas relações com o meio ambiente.
Realmente, o behaviorismo em seus primeiros tempos pretendeu interessar-se muito pelo
ambiente físico, ao passo que Sócrates estava interessado principalmente pelo ambiente
social; mas ultimamente o behaviorismo tem dado

34

Edna Heidbreder Psicologias do Século XX

35

cada vez maior ênfase às influências sociais na vida humana e está cada vez mais se
aproximando dos problemas éticos.

• O mais famoso aluno de Sócrates foi Platão, que estabeleceu pela primeira vez uma distinção
definida entre a mente e a matéria, distinção essa que tem aparecido de modo bastante
destacado na pskologia até os nossos dias. Platão era um aristocrata, tanto por nascimento
quanto por temperamento, um homem que tinha pouco interesse pelas coisas comuns da
existência diária, e que se dedicou de modo mais completo possível à vida intelectual, pois
acreditava que vivendo pelo intelecto, o homem estaria exprimindo as suas maiores
possibilidades. Em sua vida de contemplação, impressionou-se profundamente pela diferença
entre as idéias, que são manifestadas pela razão e os objetos que são revelados pelos sentidos;
e colocando as idéias num mundo a elas pertencente, considerava-as tão reais quanto as do
mundo conhecido pelos sentidos. As idéias, observou Platão, possuem uma perfeição que nunca
é encontrada nas coisas concretas. A idéia da beleza, por exemplo, é permanente, sem defeitos,
imutável, absoluta; ao passo que as coisas belas, que são bonitas somente em relação a uma
outra, são imperfeitas, mutáveis e contingentes. Para Platão parecia evidente que tudo que é
permanente, perfeito, imutável e absoluto deveria ser mais real do que os corpos perecíveis,
mutáveis e imperfeitos os quais, por mais beleza que pudessem conter, poderiam apenas se
aproximar da beleza pura. Portanto, pressupôs um mundo de idéias, do qual o mundo "real" -
aquele revelado pelos sentidos - é apenas uma cópia imperfeita. A matéria é a substância na
qual as idéias se expressam por si mesmas, mas a sua própria natureza torna impossível a suá
perfeita expressão, porque impõe suas próprias limitações sobre elas e as despoja de sua
pureza. Assim, Platão não somente estabeleceu uma distinção entre a mente e a matéria, mas
também associou tais termos a conjuntos de valores opostos. A mente foi identificada com o
bem e o belo. A matéria era o inimigo, a parte mais inferior do homem e do universo, algo para
ser combatido e subjugado. Esta distinção, juntamente com os valores atribuídos por Platão aos
termos, tem permanecido até hoje. Existe ainda uma tendência no pensamento diário para
considerar a mente como sublime e a matéria como inferior. Em alguns setores, entretanto,
houve uma curiosa inversão. Os triunfos da ciência moderna têm sido os da ciência física; o
método e o ponto de vista científicos têm estado associados com o estu d

da natureza física; e para aqueles que adquiriram um conjunto de valores diferente do de


Platão - que confrontam o que é científico com aquilo que não é, em lugar do nobre e do vil - a
mente e a matéria trocaram de lugar na escala de valores. É a matéria que se entrega à
ciência; é a mente que perturba e é intratável. Por etapas simples, a mente é identificada em
primeiro lugar com o mais elevado bem, em seguida com o que é inefável e inacessível, e
finalmente com o que é místico e não científico; e em conseqüência, a distinção platônica, em
grande parte através dos valores que ainda se atêm às suas palavras, até hoje repercute na
ciência.

Quando Platão considerava os homens, pensava neles naturalmente do ponto de vista de seu
próprio interesse pela vida do intelecto. Classificando as forças humanas desde a mais elevada
até à mais baixa, citava em primeiro lugar a razão, que reside na cabeça; depois, a coragem,
que se encontra no peito; os sentidos e os desejos, que ficam no abdome. Platão considerava
essas forças como partes da alma e por isso utilizou um modo de pensar idêntico ao que seria
mais tarde chamado de faculdade psicológica. Reconheceu também as diferenças individuais
entre os homens. No Estado ideal, a República, os homens deveriam ser escolhidos para seus
vários misteres de acordo com suas habilidades. Os dotados de razão superior seriam
dirigentes; os que possuíssem coragem seriam guerreiros; o resto da humanidade seria
composta de artesões, comerciantes, trabalhadores e escravos
- necessários ao Estado, porém de classe inferior aos militares e estadistas, da mesma forma
em que os desejos e os sentidos são inferiores à coragem e à razão. Esta parte do pensamento
de Platão, entretanto, teve pouca influência sobre a psicologia moderna. A principal fonte de
sua influência está na distinção entre a mente e a matéria e sua identificação da mente com o
extraterreno - e que ainda persiste na crença mantida por alguns psicólogos de que o mental
nunca poderá ser objeto de conhecimento científico.

Mas os próprios gregos não desistiram de tentar compreender a mente. Aristóteles, aluno e
sucessor de Platáo, e até certo ponto seu rival, ao tentar fazer uma avaliação compreensível do
ser humano, dirigiu-se às coisas da mente, de maneira idêntica a tudo o mais na ordem
natural. Entretanto, sua distinção entre a mente e a matéria não foi a mesma de Platão.
Pensou mais em termos de matéria e forma. No modo de ver as coisas e em temperamento,
Aristó.

36

Edna Hetdbreder

P8icologias do Século XX

37

teles era muito diferente de Platão. Estava interessado pelo concreto e pelo real ao contrário de
Platão, e desviando sua atenção naquela direção, não encontrou uma diferença marcante entre
a matéria e a mente ou, como dizia, entre a materia e a forma. Tinha a impressão de que uma
não podia existir sem a outra. A forma existe no objeto concreto, afirmava ele, não como uma
entidade separada. A matéria é forma potencial, o objeto real é a forma atualizada na matéria,
é a união de forma e matéria. O mármore é matéria para a estátua; esta é a forma atualizada no
mármore. Além disso, a distinção entre a forma e a matéria não é absoluta; o mármore, que é
matéria para a estátua, é forma para as organizações inferiores da matéria. Desse modo a
realidade concreta dispõe-se em uma seqüência na qual é impossível indicar um ponto qualquer
e dizer que de um lado há matéria, e de outro, forma. Este conceito de continuidade, embora
descrito num contexto muito diferente do de Aristóteles também é o mesmo encontrado,
muitas vezes, na psicoIogi atual. Os psicólogos modernos da mesma
forma que Aris tóteles, quando em presença de dados concretos, acham im possível fixar
limites rígidos e estáveis; não podem indicar uma linha divisória entre os processos
conscientes e inconscientes, entre a inteligência e a debilidade mental, a raiva e o temor, a
sanidade e a insanidade mental, o instinto e a razão, a infância e a maturidade, a psicologia e a
fisiologia. Lidam muito menos com diferenças absolutas do que com seqüências nas quais
existem gradações contínuas entre os extremos.

/ Relacionado intimamente com o conceito de matéria e forma está o costume de explicar os


fenômenos em função de suas causas últimas. Aristóteles fez uma exceção à regra de que a
forma nunca existe isolada. A forma final, o Ser Supremo, não pode de maneira alguma ser
matéria. É, portanto, forma pura; e desde que a matéria se esforça para resultar em forma, esta
forma final é o alvo para o qual toda a natureza se encaminha. Por conseguinte, a natureza
toda, incluindo a humana, é explicada teleologicamente como tendendo para um fim
ou objetivo. Mas como a ciência trata com causas próximas, com acontecimentos
imediatamente anteriores a um dado efeito, não foi favorável a esta noção da teleologia.
Outra implicação do esquema geral de Aristóteles, entretanto, apareceu de modo pronunciado
na psicologia moderna. No mundo da natureza, Aristóteles descobre que a matéria e a forma
sempre se relacionam. Se o corpo

todo fosse um olho, a alma seria a vista. O corpo existe por causa da alma, porém, a alma existe
somente no corpo e através do corpo. Em outras palavras, as atividades da alma são aquelas
dos órgãos corporais. É tão impossível desejar e ter impulsos sem as estruturas físicas
adequadas cõmo enxergar sem olhos. Considera os processos psicológicos individuais como
atividades e funções das estruturas físicas, que se realizam em um mundo onde tal atividade é
definitivamente relacionada com uma certa constituição física.

Mas na alma, Aristóteles faz distinção entre a parte mortal e a imortal. As atividades que são
funções das estruturas do corpo perecem com o mesmo, porém existe no homem um
intelecto ativo que não é uma função do corpo. É este intelecto ativo que Aristóteles declara
ser simples, imaterial e imortal, e foi esta parte de seu ensino, o seu reconhecimento do
intelecto ativo, que exigiu o maior interesse dos teólogos medievais.

Em acréscimo ao seu tratamento dos processos psicológicos dentro do esquema geral das
coisas, Aristóteles fez uma contribuição definida à teoria psicológica em seu estudo da memória,
principalmente em sua famosa enunciação dos princípios da associação. Estes princípios -
associação por contraste, por igualdade e por contigüidade no tempo e no espaço - foram dados
como regras empíricas. Na maneira aparentemente causal das idéias se apresentarem,
Aristóteles não via o acaso, mas sim uma lei. Tanto a concepção geral de associação quanto as
regras próprias que formulou exerceram uma grande influência no desenvolvimento da
psicologia séculos mais tarde.

Aristóteles foi o último dos grandes filósofos da antigüidade. Sua morte, no último quartel do
quarto século antes de Cristo, assinala o encerramento do período mais original e produtivo do
pensamento grego. Entre as filosofias que floresceram durante os séculos finais do mundo
antigo, as idéias sustentadas pelos estóicos e epicuristas são as mais interessantes para a
psicologia devido às atividades contrastantes que eles assumiam naquilo que pode ser
considerado uma aplicação prática da psicologia. As duas escolas se ocuparam principalmente
com o problema de conseguir o máximo da vida humana. Em geral, os estóicos apoiavam a
supressão, e os epicuristas eram favoráveis à expressão dos impulsos naturais. Os estóicos
acreditavam na submissão do desejo à razão por amor à virtude, que devia ser buscada

39

38

Edita Hed,breder

pelo seu valor intrínseco; os epicuristas acreditavam na disciplina da expressão dos impulsos
naturais a fim de obter a felicidade e a tranqüilidade. É interessante observar que os processos
dessas duas escolas rivais persistem até hoje nas modernas teorias sobre o controle da natureza
humana, e na obtenção da felicidade e da virtude.
Dessa maneira, quando a psicologia era ainda uma parte da filosofia, muitos dos padrões de
pensamento que deveriam tornar-se proeminentes mais tarde, já haviam aparecido. Isto não
quer dizer que os atuais modos de pensar foram conscientemente emprestados dos antigos,
nem que as descobertas da ciência moderna já estivessem implícitas nas antigas especulações.
Antes significa que os mesmos problemas surgiram na vida humana, foram percebidos da
mesma maneira, e deram origem aos mesmos métodos para resolvê-los. Naquela época, como
agora, existiam os problemas dos elementos e da forma, das partes e do todo, da relação entre
a mente e o corpo, da função e da estrutura, dos processos e da substância, e do controle e
orientação da natureza humana para obter a realização, a virtude e a felicidade.

Do ponto de vista das contribuições positivas para a psicologia científica, a Idade Média é
relativamente sem importância. Sua contribuição característica aos problemas psicológicos
acha-se nos estudos escolásticos sobre a natureza e os atributos da alma. Mas, como todos
sabem, esses estudos foram muitas vezes mencionados como sendo a própria antítese do
método científico. Não começam com perguntas, mas com uma verdade já aceita, baseada na
autoridade. Ao avançar, não se utilizavam da observação e da indução, mas se apoiavam no
desenrolar minucioso das implicações dos conceitos e na dedução lógica das conseqüências.
Não buscavam, enfim, a evidência dos fatos mas a sua validade lógica. Seu método de pensar
tem sido usado como o exemplo par excelience da especulação sem base, do raciocínio
trabalhando sem o lastro dos fatos empíricos. Todavia, os efeitos negativos dessa mesma
prática foram da mais Ita importância para a ciência. Muitas das características da ciência - de
fato, não a sua natureza essencial, mas um número apreciável de seus traços acidentais -
podem ser explicadas como uma revolta contra os excessos de tal método. A sua aversão pelo
dogmatismo e o seu temor pelas especulações não provadas são perfeitos sobreviventes das
atitudes emocionais desenvolvidas na luta necessariamente violenta contra o apelo à
autoridade e a urática da deducão v. au o

Psicologias do Século XX

escolasticismo medieval havia tornado a moda intelectual vigente.

O período moderno da filosofia, entretanto, está repleto de antecipações das psicologias da


atualidade. Contém, realmente, tantas previsões de problemas e teorias que estão sendo
estudados hoje em dia, que é impossível tentar fazer uma descrição ampla dos mesmos. Muitos
pontos de vista interessantes e sugestivos em si mesmos devem ser postos de lado, e a atenção
deverá se limitar às linhas de pensamento que possuem alguma relação histórica evidente com
o desenvolvimento do ponto de vista científico em psicologia. O que apresenta maior seqüência
lógica é a linha de investigação crítica que se refere a Descartes, aos empiristas ingleses e a
Kant, e que teve entre os seus subprodutos o surgimento de duas escolas de psicologia pré-
científica, o associacionismo na Grã-Bretanha e o herbartismO na Alemanha.

Muito perto da fonte deste movimento estava René Descartes, cuja obra na primeira metade
do século XVII é inteiramente típica do início do período moderno pela sua revolta contra o
dogmatismo da tradição escolástica. O próprio Descartes, entretanto, não passava de um
rebelde por temperamento. Era um homem extremamente razoável, sincero, muito cauteloso,
que, embora se tivesse devotado à procura do saber, descobriu, ao atingir a maturidade, que
nada existia que ele soubesse com certeza. Verificando que podia duvidar de algumas das
maiores crenças dos homens, decidiu deliberadameflte utilizar a dúvida como um método -
duvidar de tudo que fosse possível duvidar, na esperança de chegar ao evidente por si e ao
indubitável. Descobriu que podia duvidar bastante: da existência de Deus, do mundo, e mesmo
da existência de seu próprio corpo. De uma coisa não podia duvidar: era o fato de que estava
duvidando, e a certeza de que sua dúvida - isto é, seu pensamento - existia, deu-lhe

o fundamento para seu sistema. Estabeleceu sua convicção na famosa frase: "Penso, logo
existo", e a considerou como um axioma. Estabeleceu, portanto, a crença em sua própria
existência como um ser pensante, e daí por um processo de raciocínio dedutivo, a crença na
existência de Deus e do mundo, incluindo o seu próprio corpo físico. Sua prova da existência
de Deus consistia no argumento que ele, que duvidava e era um ser imperfeito, não obstante
possuía a idéia de Deus, um ser perfeito. E uma vez que o perfeito não pode depender do
imperfeito, é necessário admitir a existência de Deus para poder ter a idéia Dele. Então, se
Deus

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Edna HeidLreder psicologias do Século XX

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existe, o mundo deve existir, porque as idéias que nós percebemos clara e distintamente como
verdades - não aquelas que aceitamos simplesmente pela evidência da imaginação e dos
sentidos - devem ser verdadeiras, "porque do contrário não poderia ser que Deus, sendo
totalmente perfeito e veraz, as tivesse colocado em nós". Assim Descartes chegou com o seu
raciocínio a tudo aquilo que a sua dúyida havia destruído. A diferença entre o seu primeiro
estado e o último não era uma diferença nos objetos da crença, mas no fato de que os
mesmos estavam agora estabelecidos racionalmente.

Este ponto é significativo. Quer dizer que embora Descartes combatesse o dogmatismo do
pensamento escolástico, não atacou os seus métodos intelectualistas. Recorria à razão em lugar
da experiência. Se existe algo em Descartes mais notável do que o esforço deliberado de um
completo ceticismo, é a sua fé serena no poder do intelecto humano para esclarecer a confusão
reinante. À primeira vista, parece que Descartes não leva em conta a possibilidade de a razão
ser inadequada para tal tarefa. Quando descobriu que não podia ter certeza de nada, lançou
mão da razão como uma coisa natural e dedicou-se sistematicamente à tarefa de elaborar um
fundamento intelectual estável para o universo. Desferiu um notável golpe na subserviência
medieval à autoridade, mas, ao assim fazer, utilizou o método dedutivo que é
tão característico do pensamento medieval quanto o seu dogmatismo.

-N Existem várias afirmações de Descartes que são de especial interesse para a psicologia. A de
maior alcance entre elas é o seu dualismo que, embora diferente do de Platão em sua origem, é
idêntico em seus efeitos. De acordo com Descartes, existem duas substâncias: mente e matéria,
a substância pensante e a extensa. Esta concepção colocou-o em algumas
dificuldades interessantes e esclarecedoras; havia separado a mente e a matéria de modo tão
completo que achava difícil juntá-las novamente de forma harmônica. Um resultado desta
situação foi a teoria de que os animais, por não possuírem res cogitans, ou substância pensante,
são autômatos - uma interpretação dos organismos vivos complexos que é especialmente
interessante à luz das recentes interpretações mecanicistas do comportamento animal e
humano. Descartes foi, na realidade, um completo mecanicista em referência a todo o mundo
material. Acreditava que todas as ações do corpo humano - os movimentos dos músculos e
tendões, as atividades da respiração, mesmo os pro cesso

da sensação - podem ser explicadas de acordo com princípios mecânicos. Foi Descartes, de
fato, que introduziu o conceito de ação reflexa, tão largamente usado desde então nas
explanações mecanicistas dos processos corporais. Todavia, Descartes se absteve de
considerar os seres humanos como meros autômatos; acreditava que em cada pessoa havia
uma alma provida de razão, uma substância pensante, que tinha o poder de dirigir e alterar o
rumo mecânico dos acontecimentos. Esta alma age através da glândula pineal na base do
cérebro, e influencia os movimentos do corpo, agindo sobre os espíritos animais no sangue, o
qual entrando por um nervo ou outro determina que movimento deve ser efetuado. Mas, a
ação do corpo em si, embora sujeita à direção da alma, é puramente mecânica. A relação entre
a mente e o corpo, como Descartes a via, é, portanto, de interação. A mente age sobre o corpo
da maneira que acabamos de descrever, e sofre a influência do corpo através da sensação,
emoção e ação. Descartes deixou de explicar como duas substâncias tão diferentes podem se
influenciar reciprocamente, porém estabeleceu a posição do dualismo e do interacionismo com
a máxima clareza e assim reafirmou a distinção entre a mente e a matéria no pensamento
moderno.

Outro ponto dos ensinamentos de Descartes que tem uma conexão direta com a psicologia é a
sua crença nas idéias inatas. Descartes, que era tão bom matemático quanto filósofo, admitiu
que existem certas verdades necessárias ou axiomas que constituem a base do conhecimento
demonstrável. Tais verdades, segundo admitia, são inerentes à natureza humana e quando
percebidas são evidentes por si mesmas. Apesar de sua intenção de duvidar de tudo, Descartes
não argumentou sobre a existência das idéias inatas. Esta questão da dúvida, entretanto, foi
suscitada por alguns de seus críticos, e alcançou tal importância que se tornou o ponto de
partida da longa série de investigações, pelas quais os filósofos da Grã-Bretanha desenvolveram
o seu empirismo crítico.

Um deles, contemporâneo mais velho de Descartes, foi Thomas Hobbes, monarquista


britânico, rude e obstinado, que escreveu um certo número de tratados sobre a natureza
humana, nos quais deu especial atenção às relações do homem com o Estado. O Leviatã,
publicado em 1651, dois anos após a execução de Carlos 1, foi talvez o mais importante deles.
Este livro é em primeiro lugar um tratado de política, mas ao lado de seu tratamento das
questões políticas existe

42

Ecina Heidbreder

uma tendência que é de especial interesse para a psicologia, ou seja, a de super-racionalizar a


conduta humana, O principal objetivo de Hobbes era justificar o poder absoluto do governo.
Assim o fez explicando antes de tudo que há um impulso natural em todos os homens para
conseguir o que querem e tudo o que podem obter. Este impulso, entretanto, conduz
inevitavelmente ao conflito. Cada um está em luta com todos os outros; ninguém está seguro;
cada um está, até certo ponto, derrotado em seus objetivos. Esta situação intolerável termina
quando os homens, impelidos pelo medo e pelo egoísmo, percebem que podem conseguir
segurança e maior proveito das coisas boas da vida, desistindo de seu direito natural de tomar
tudo o que podem, e percebendo em troca a garantia de proteção contra as agressões e
depre-. dações de seus semelhantes, Porém, este estado de coisas só pode ser mantido se
houver um poder bastante forte para impô-lo, e este é estabelecido quando os componentes
do Estado concordam em abrir mão de seus direitos e poderes, em favor de uma autoridade
central. Este acordo voluntário é a justificativa para o poder absoluto daquele que governa.

Do ponto de vista da psicologia, é significativo no estudo de Hobbes o uso que faz da idéia de
"homem racional", isto é, de que a conduta humana é dominada pela razão. Embora o medo e
o egoísmo, de fato, sejam considerados os motivos da ação, a razão sugere "condições
convenientes de paz" e orienta a forma da conduta. O medo e o egoísmo atuam de uma forma
calculada e não se manifestam às cegas. Em outras palavras, é a razão que controla a situação.
Dessa maneira, Hobbes fornece outro exemplo da tendência geral de pensarmos no homem
çomo sendo um animal racional, de explicar a seqüência de suas ações como planejadas e
previstas, em lugar de determinadas pelo acaso; e como sendo dirigidas finalmente por
considerações intelectuais, ao invés de por alguma coisa tão irracional como o sentimento, a
emoção, e os incidentes da vida. A psicologia está continuamente descobrindo que os seres
humanos gostam de atribuir à razão o maior papel nos seus afazeres; e é um sinal evidente do
poder desta tendência o fato de ela aparecer no cínico e realista Hobbes, que nunca foi acusado
de tentar descrever a natureza humana de uma forma lisonjeira, por mínima que fosse.

Porém, a atitude de Hobbes em relação ao homem racional foi menos uma expressão
propriamente sua do que do modo de pensar corrente na época. De fato, isto é significa-

Psicologias do Século XX

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tivo porque é uma expressão daquele modo de pensar. Outras contribuições de Hobbes para a
psicologia, entretanto, abriram novos horizontes. Uma delas é um tratamento geral dos
processos psicológicos que os coloca de modo inequívoco na corrente dos acontecimentos
naturais. Hobbes havia-se impressionado pela obra de Galileu e, aproveitando-se da
possibilidade sugerida de uma explicação naturalista, tentou descrever toda a atividade
humana, inclusive a psicológica, em função do movimento. A sensação, que é a fonte do
conhecimento, é movimento comunicado pelo objeto externo ao cérebro. A imaginação e a
memória são continuações daquele movimento; "sentido decadente" é a expressão usada por
Hobbes. A mente não tem conteúdo, por mais complexo que seja, que não possa ser reduzido a
estes termos. Mesmo as seqüências de pensamento, por mais ocasionais que possam parecer,
são parte da lei natural. Da mesma forma que as idéias são determinadas pelos objetos agindo
sobre os sentidos, assim também as transições de uma idéia para outra são determinadas pelas
relações que elas mantêm entre si na experiência inicial. Naturalmente,
isto implica o princípio básico do associacionismo: isto é, que uma idéia sucede a outra não por
acaso, mas de acordo com uma lei. Foi em relação a isto que Hobbes fez uma distinção entre as
duas espécies de pensamento que foram desde então chamadas associação livre e controlada.
Na primeira, "diz-se que os pensamentos vagueiam e parecem não ter relação entre si, como
acontece no sonho"; na segunda, existe algum "pensamento interno para governar e dirigir os
outros que vêm a seguir". E ainda, mesmo no "ordenamento confuso" aparente da associação
livre, Hobbes considerava o curso do pensamento como determinado. Sua psicologia foi
materialista, mecanicista e determinista em seu todo, na qual mesmo as mais causais
imaginações do homem têm o seu lugar em uma corrente ordenada de acontecimentos que
constituem o mundo da natureza.

Não foi Hobbes, entretanto, mas seu continuador, John Locke, quem suscitou a questão
específica que deu impulso ao empirismo britânico. Do ponto de vista da psicologia, Locke situa-
se no ponto de partida de dois movimentos. Um deles, uma série de investigações críticas
efetuadas por Berkeley, Hume e Kant, resultou na destruição da antiga psicologia racional, um
sistema de pensamento que, pretendendo um conhecimento da alma baseado na intuição e na
dedução, sustentava que o seu conhecimento é demonstrável como

P8icologias do Século XX

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44

Edna Heidl'reder

absolutamente válido, O outro foi um movimento mais positivo, o qual, manifestando-se em


parte na filosofia do senso comum da escola escocesa, e em parte nos ensinamentos dos
associacionistas britânicos, resultou em uma psicologia que, embora fosse empírica por ser
oposta à racional, não chegou a se tornar experimental.

A origem do problema de Locke é bastante interessante. Durante um debate com alguns


amigos, ocorreu-lhe que, como não estivessem chegando a um acordo, sua primeira tarefa
seria descobrir quais os assuntos que estão à sua altura, e quais os que estão além de sua
alçada. Sugeriu, portanto, essa questão e concordou em apresentar seu modo de pensar sobre
ela, na próxima reunião do grupo. Dessa forma, reuniu suas idéias sobre o assunto em forma
resumida, mas este problema, apresentado assim de forma tão inteligente, o manteve ocupado
por várias vezes durante vinte anos de sua vida laboriosa. Sua resposta final foi dada no Essay
concerning Human Understandin,q, publicado em 1690, quando o autor tinha 58
anos de idade.

O problema de Locke, é preciso notar, não era exclusivament psicológico. Como os filósofos
gregos, estava interessado principalmente na validadE' do conhecimento; não examinava o
processo do conhecimento pelo seu valor intrínseco. Foi puramente ocasional sua pergunta
"Como conhecemos'?". Em essência, a pergunta era "O que concordamos em aceitar como
conhecimento verdadeiro?". Em primeiro lugar, o empreendimento de Locke foi uma
investigação epistemológica, mas desviou a atenção para os problemas psicológicos.
Quando Locke examinou a constituição do conhecimento, convenceu-se de que todo
conhecimento é derivado de uma única fonte, a experiência. Mas a experiência em si é de duas
espécies: uma provém da sensação, outra da reflexão; em outras palavras, uma parte é
proveniente dos objetos sensíveis do mundo exterior, e outra da percepção das funções de
nossa própria mente. Não existem outras fontes de conhecimento. Não existem idéias inatas.
Um ponto em que Locke insiste de modo especial é o de que nós não começamos a vida com
uma reserva de axiomas ou verdades necessárias. Através de páginas e mais páginas,
desencadeia uma guerra contra a noção de que a mente esteja provida de idéias independentes
da experiência. Inicialmente a mente é "um papel em branco, desprovida de atributos, sem
nenhuma idéia". "Nada existe no intelecto que não tenha passado antes pelos

sentidos": esta frase é, às vezes, considerada uma formulação da teoria do conhecimento de


Locke. A sensação e a reflexão nos dão idéias simples, as quais são o material com que é
formado todo o pensamento humano.

Para Locke, tudo isso era de interesse e importante, porque mostrava as capacidades e,
principalmente, as limitações da compreensão humana. Isso lhe deu um critério para provar a
validade do conhecimento. Se pudéssemos descobrir a origem real de uma idéia, a experiência,
tal idéia seria aceitável; se não se pudesse encontrar um fundamento na experiência, ela seria
ilusória - teria entrado furtivamente e não seria baseada em fatos. A análise do conhecimento
de Locke, entretanto, teve um significado tanto epistemológico quanto psicológico.
Estabeleceu no pensamento da época uma concepção atomística da mente - uma concepção
da mente como sendo composta de unidades combinadas de vários modos. Proporcionou um
conjunto de idéias simples e um plano de organização mental que mostrou ser necessário
somente descobrir como as idéias simples são reunidas, a fim de compreendermos a mente
humana e todas as suas possibilidades. É este aspecto positivo do ensino de Locke, sua
esperança de tornar a mente inteligível em função de unidades e suas combinações, que levou
ao aperfeiçoamento da escola do associacionismo psicológico.

Porém, os lados negativo ou crítico do pensamento de Locke também tiveram conseqüências


importantes. A explicação do conhecimento feita por Locke, como sendo composto de idéias
simples, juntamente com sua tentativa de descrever o conhecimento de um mundo real
exterior, levou-o a distinguir entre qualidades primárias e secundárias. As primárias são
aquelas tais como o movimento, a extensão, a forma, a solidez e o número, que existem no
objeto em si. As secundárias são, por exemplo, as cores, sabores e sons, que dependem do
aparelho sensorial do organismo. Assim, a solidez realmente existe no mundo exterior; mas
não a cor; porque ela é algo para a qual nós contribuímos, por serem os nossos órgãos dos
sentidos de um certo tipo.

Mas, existe alguma diferença real entre as qualidades primárias e secundárias? Esta pergunta
foi feita por George Berkeley, notável jovem irlandês, que se tornou mais tarde bispo de
Cloyne. Berkeley formulou esta pergunta em 1710, no livro A Treatise concerning the
Principies of Human Knowledge. De inteiro acordo com Locke, salientou que o nosso
conhecimento do mundo exterior nos chega através

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Edna Heidbreder

dos sentidos. Tudo o que sabemos sobre uma maçã, por exemplo, é aquilo que os nossos
sentidos nos transmitem. Sabemos que é vermelha, doce e aromática porque temos sensações
de visão, paladar e olfato; sabemos que é sólida e possui volume, porque temos sensações de
tato - porque sentimos sensações na pele e nos músculos quando oferecem resistência à
pressão, ou quando fazemos movimentos dos músculos ao tocá-la. Existe, então, alguma
diferença entre o nosso conhecimento de solidez e volume, que são qualidades primárias, e as
da vermelhidão e do aroma, que são secundárias? Todas são provenientes da sensação e de
nenhuma outra fonte. O próprio Locke declarou: "Dando-se o caso de impedir o olho de ver a
luz ou as cores; o ouvido de ouvir o som; o paladar, de saborear e o nariz, de cheirar; provar-
se-á que todas as cores, sabores, odores e sons, em sua forma de idéias individuais,
desaparecem e cessam". Berkeley levou simplesmente o raciocínio de Locke um passo adiante.
A solidez, o volume e todas as outras qualidades primárias são igualmente conhecidos
somente através da percepção, e estão exatamente no mesmo caso das qualidades
secundárias. A maçã é, toda ela, sensação; nada mais é senão sensação; o seu esse é percipi. A
doutrina principal de Berkeley é a de que ser consiste em ser percebido, e para estabelecer esta
circunstância recorreu diretamente à experiência. Confiante em que a façanha é impossível,
pede ao leitor para imaginar qualquer das qualidades dos objetos - tanto primárias quanto
secundárias - sem uma mente que as perceba Retirai a percepção, diz ele, e a qualidade
desaparece. Assim como não pode existir vermelho sem a percepção do vermelho, não pode
haver solidez sem a percepção da mesma. Para tornar mais claro, não existe substância
material. Conhecemos somente as qualidades sensoriais; nunca vamos além delas; e se o
tentarmos e concluirmos que existe uma substância imanente nelas, algo que as mantém e que
lhe é próprio, nada estaremos acrescentando. Estaremos fazendo simplesmente uma
declaração vazia, completamente gratuita e sem fundamento e, em última análise,
inconcebível. Locke, que se apegou ao senso comum, conservou um núcleo de
substância material no mundo exterior; Berkeley, que aderiu a um método de raciocínio lógico,
deixou-o de lado.

Ou talvez nem isto, pois Berkeley não ignorou a diferença entre os objetos percebidos e os
imaginados. Os primeiros, afirmou, são independentes de nossa vontade; existem, quei
psicologia

cio Século XX

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ramos ou não; mais ainda, possuem uma ordem, uma coerência e firmeza que não lhes são
impostas por nós. Não estão sujeitos aos nossos caprichos; possuem uma realidade fora de nós.
Mas esta realidade, insiste Berkeley, não pode ser corporal. A sua análise mostrou que a
substância material não é real; que a existência das coisas depende de serem percebidas; que
os objetos externos não possuem um núcleo de substância corporal; que não há necessidade
de tal núcleo e nem mesmo é imaginável. Ainda mais, a coercitividade, a independência, a
ordem e a estabilidade dos objetos são fatos que precisam ser levados em conta; e Berkeley
explica essas qualidades dizendo que elas residem na mente perceptiva de Deus - um conceito
que para ele está livre da contradição e da vacuidade que encontra na idéia de substância
material. Assim como nossas idéias estão para as nossas mentes, a natureza toda está para a
mente divina. A existência das coisas, finalmente, consiste na percepção de Deus. Para
Berkeley, este era o ponto essencial de todo o seu tratado. Assim como Locke, ele estava
interessado em sua análise psicológica principalmente pelas suas conseqüências metafísicas.
Mas do ponto de vista da evolução histórica, o lado positivo de seu pensamento teve pouca
influência. Foi o lado crítico e destrutivo de sua filosofia que produziu fruto no pensamento
subseqüente.

E no entanto, apesar do fato de serem seus interesses principalmente metafísicos, Berkeley é o


autor do que é provavelmente o primeiro tratado exclusivamente psicológico - podemos quase
dizer, da primeira monografia psicológica. Seu livro New Theory of Vision, publicado um ano
antes do Treatise, enfrenta um problema psicológico pelo seu valor intrínseco, o de mostrar
como "percebemos pela visão a distância, a grandeza e a posição dos objetos". Berkeley tenta
neste estudo mostrar como percebemos a distância ou terceira dimensão, e assim o faz não por
causa das implicações éticas ou filosóficas do problema, mas simplesmente porque o problema
existe. Berkeley adverte que não podemos perceber a distância diretamente porque
"a distânia, sendo uma linha dirigida de ponta para os olhos, projeta somente um ponto no
fundo do olho. Este ponto permanece invariavelmente o mesmo quer a distância seja maior ou
menor". Sua explicação é a de que nós percebemos a distância como resultado da experiência;
de modo mais definido, certas impressões visuais tornam-se associadas com as sensações do
tato e do movimento que se verificam quando fazemos os

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Edna Heidbreder psicologias do Século XX

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ajustes oculares necessários para olhar objetos próximos ou distantes, ou quando movemos
nossos corpos ou partes deles ao nos aproximarmos ou ao nos afastarmos dos objetos vistos.
Esta é provavelmente a primeira aplicação do princípio da associação a um problema
exclusivamente psicológico. Talvez deva ser mencionado de passagem que Berkeley parecia, em
um grau fora do comum, estar ciente do papel desempenhado pelas sensações musculares e do
tato nos processos psicológicos. Por algum motivo, as sensações que nos fazem cientes de
nossos próprios movimentos corporais são mais facilmente omitidas do que são aquelas
provenientes da vista e do ouvido, e chamaram a atenção um pouco tarde no
desenvolvimento da psicologia. E, todavia, Berkeley utilizou estas sensações não somente para
explicar a percepção da distância, como também para mostrar que as qualidades primárias,
assim como as secundárias, consistem em última análise em serem sentidas ou percebidas. O
reconhecimento das sensações musculares e tácteis fazia, portanto, parte da doutrina
principal de sua filosofia.

Berkeley suscitou ainda um outro problema psicológico diferente, o da existência de idéias


abstratas. Neste caso, entretanto, o problema foi considerado devido a ter relação com a sua
posição metafísica. Locke, que havia condenado a noção das idéias inatas, reconheceu não
obstante a existência de idéias abstratas. Porém, Berkeley negava a existência de idéias
abstratas, e assim o fez tão abertamente devido à relação deste assunto com a sua alegação
de que a idéia de substância material quando intimamente verificada torna-se inconcebível. O
estudo de Berkeley é interessante do ponto de vista psicológico, porque identifica, de modo
evidente, a idéia com a imagem. Uma vez que não pode formar a idéia de um homem a não
ser que seja um "homem branco, preto ou amarelo, direito ou curvo, alto, baixo ou de estatura
mediana", já que não pode fazer uma idéia do movimento que é diferente daquele do corpo, e
que não é rápido nem lento, retilíneo ou curvilíneo, considera a crença em idéias abstratas um
"jogo de palavras". Embora essa questão não tenha surgido claramente em seu estudo, a
diferença entre Berkeley e Locke sobre a possibilidade de idéias abstratas, inclui realmente a
questão da possibilidade de pensamento sem imagens. No fundo figuravam as perguntas:
podem nossas idéias ser cópias das coisas em que estamos pensando? Ou, em caso contrário,
devem elas apresentar algum conteúdo sensorial que as represente de certa maneira? Podem
exis ti

pensamentos que não possuam nenhum conteúdo sensorial e que, não obstante, tenham uma
função real como pensarnento? Questões como estas estavam implícitas na investigação de
Berkeley; porém só surgiram como problemas estritamente psicológicos dois séculos mais
tarde, quando a controvérsia do pensamento sem imagem deu-lhe a clareza de enunciado que
um ambiente experimental possibilita.

Naturalmente, Berkeley havia feito uma análise crítica de Locke muito além do que este havia
esperado, mas o filó-

• sofo escocês David Hume foi ainda mais longe. Berkeley havia tratado o conceito de
substância material, negando a existência objetiva das coisas ou dos objetos fora das mentes
que as pesquisam ou da Mente. Não havia, entretanto, duvidado da existência da mente em si,
nem posto em dúvida o princípio da causalidade. Ao contrário, tinha admitido as duas coisas,
dando como causa das características que distinguem as percepções das imagens, a mente
divina que as percebe. O universo, na concepção de Berkeley, possuía ainda algum apoio; não
era um simples caleidoscópio de idéias. Hume pretendeu retirar este apoio, pondo em dúvida
tanto a existência do eu pensante como o princípio da causalidade.

A crítica do eu feita por Hume é extremamente igual à de Berkeley a respeito da substância


material. Quando tenta examinar o eu, diz Hume, nada encontra senão percepções isoladas -
amor ou ódio, prazer ou dor, luz ou sombra - nada que corresponda ao eu que os filósofos
descrevem como uma substância simples que persiste através de toda transformação. Na idéia
do eu, ele vê uma adição sem base e desnecessária aos fatos observados, a mesma espécie de
idéia sem fundamento que Berkeley encontrou na substância material.

De maneira idêntica, Hume trata da causalidade. A idéia de causa, diz ele, contém a idéia da
conexão necessária, porém quando ele procura ligá-la de novo com as experiências das quais
ela possivelmente provém, nada encontra que dê idéia de necessidade, apenas contigüidade e
sucessão. A experiência não nos fornece nada além de uma seqüência invariável dentro do
tempo; tudo o que nós realmente vemos é que quando acontece A, B vem em seguida. A
necessidade em que a idéia de causalidade implica nunca é encontrada na experiência. A idéia
de causalidade, portanto, não possui validade objetiva. É produzida na mente, e não descoberta
no objeto. Permanece o fato, entretanto, que temos uma crença arraigada na causalidade, fato
que Hume nunca nega,
50

Edna 11 dbr der

e que tenta explicar. Nossa crença na causalidade é considerada por ele uma questão de
costume ou hábito, ou ainda uma associação muito forte. Tudo o que sabemos é que certas
seqüências se verificam do modo invariável, mas que, com a repetição, provocam na mente
uma forte disposição para ligar os acontecimentos que as compõem. Se A foi sempre seguido
por B, o aparecimento de A nos leva a esperar B. O princípio da causalidade, portanto, é
baseado num hábito, tendência ou disposição em nós existentes: não se garante que possua
validade objetiva.

Assim, pela crítica de Hume, o mundo reduzia-se a um agregado de idéias, sem substância que
as mantivesse, e sem nenhuma lei que as ligasse. A crítica de Berkeley havia afastado a
substância material, porém havia deixado um mundo de acontecimentos bem ordenados, sob a
dependência de uma substância espiritual. Aplicando a mesma espécie de crítica usada pelo
próprio Berkeley, Hume desfez tudo o que restara de ordem e de substância que aquele havia
deixado no mundo. Segundo Hume, o mundo era uma torrente de idéias, sem conexão,
permanência, unidade ou sentido, apenas presentes e passageiras. Mesmo para o seu autor,
havia algo de f orçado e antinatural nesta concepção. Ninguém viu melhor que Hume a
discrepância entre o extremo ceticismo a que seu raciocínio o havia conduzido e as exigências
da vida diária; mas não apresentou uma compensação lógica para isso. ",Tanto, jogo uma
partida de gamão, converso e divirto-me com meus amigos", comenta ele, "e quando, após três
ou quatro horas de diversão, retorno a essas indagações, elas me parecem tão frias, forçadas e
ridículas, que não encontro mais disposição para iniciá-las novamente".

O continuador de Hume no movimento crítico foi Emanuel Kant. Porém, Kant achou impossível
aceitar com a equanimidade de Hume o resultado das especulações destrutivas daquele. Não
podia concordar com uma situação na qual as cogitações do estudo dos filósofos levavam a uma
visão do mundo diferente daquela das exigências da vida diária. Afinal de contas, insistia Kant, o
mundo como nós o conhecemos é um mundo ordenado; e esta ordem, como Hume havia
claramente percebido, não podia ser proveniente da experiência. Nem podia ser negada. Nesse
caso, deveria provir da própria mente, a qual, em lugar de refletir a ordem de um
mundo exterior, impõe suas próprias leis sobre a natureza. Esta é a tese que, em 1781, Kant
apresentou em seu livro Crítica da Razão Pura, que fez de seu autor, até então

P8icologias cio Século XX

51

obscuro professor na Universidade de Künigsberg, a figura principal no mundo filosófico de sua


época.

A experiência, de acordo com Kant, é proveniente de duas fontes: as coisas como elas são em
si mesmas, e a mente. A experiência é um produto, uma criação das duas. Ela começa quando
as coisas em si agem sobre os sentidos, mas no momento em que isso acontece, um
mecanismo complexo é posto em movimento, o que torna para sempre impossível que
conheçamos as coisas como elas são, independente da nossa maneira de conhecer. Não
somente é o conteúdo de nossa experiência determinado pelos nossos modos de sentir

- fato este que foi suficientemente reconhecido - como também a sua forma e disposição, sua
ordem e organização são determinadas pela mente que as recebe e as modela. Nada pode
fazer parte de nossa experiência sem se dispor de acordo com as leis de nossa natureza: 2 em
primeiro lugar, de acordo com as formas de percepção imediata ou intuição, espaço e tempo,
que são puramente subjetivas; em segundo, conforme uma ordem lógica imposta pelas
categorias do entendimento, das quais a causalidade é uma delas; e finalmente, naquele
mundo unificado que se torna necessário pela unidade lógica do eu que percebetodosos
conteúdos da experiência. A ordem e a coerência que vemos na natureza são as que impomos
sobre ela. As coisas em si mesmas, portanto, nunca podem ser conhecidas como realmente
são; podem ser conhecidas somente como aparecem na experiência, determinadas pelas
formas de nosso pensamento. A natureza não pode nunca ser descoberta; a realidade, na
forma em que existe fora de nossa experiência, está para sempre além de nosso alcance. O
verdadeiro conhecimento metafísico é impossível; apenas o conhecimento empírico pode ser
adquirido. Não podemos jamais conhecer o mundo como é em si mesmo, como existe fora de
nossos modos de conhecer. Mas também não podemos conhecer a alma que percebe, de
forma direta

- e este é o ponto particularmente significativo para a psicologia - porque a conhecemos não em


si mesma, mas apenas como ela aparece no tempo, uma de nossas formas de intuição. É tão
impossível conhecer a alma como é conhecer o mundo. Portanto, a psicologia racional, que
pretende ter um conhecimento direto da alma, é tão impossível quanto a metafísica. Resta
somente uma psicologia empírica, que não pode tentar responder questões finais, mais do que
uma ciên Kan refere-se a uma ordem lógica e não temporal.

52

Edna Heidbreder

psicologias do Século XX

58

eia empírica poderá fazer, no caso da natureza física. Nem o mundo nem o eu podem ser
conhecidos pela mente humana em sua verdadeira natureza. É inútil tentar obter uma
resposta absoluta e final sobre qualquer um deles. A psicologia, assim como a física, é uma
ciência empírica, ou como diria Kant, uma mera ciência empírica.

O próprio Kant escreveu, sob o título de Antropologia, o equivalente a uma psicologia empírica;
mas, em sua opinião, a psicologia não poderia nunca atingir uma posição de destaque mesmo
como ciência empírica, porque o seu conteúdo não é redutível a termos quantitativos e,
portanto, não é suscetível de ser tratada com a exatidão que caracteriza uma verdadeira
ciência. Não foi como psicólogo, entretanto, que Kant influiu sobre a psicologia. Foi como
filósofo crítico que declarou serem sem fundamento as pretensões da psicologia racional. Sua
importância para a psicologia reside no fato de ele permanecer no extremo de
uma série de investigações críticas na qual, pelo exame de seu próprio instrumento, o intelecto
humano, a filosofia tornou cada vez mais evidente que a psicologia, qualquer que seja, não é
metafísica. Descartes iniciou o movimento com seu apelo da autoridade para a razão. Hobbes,
Locke, Berkeley e Hume, efetuando suas análises através de etapas sucessivas, chegaram a um
ponto onde não se podia dar nenhuma justificativa absoluta para a autoridade do intelecto.
Kant, ao mesmo tempo que afirmava o papel do intelecto na experiência, declarou que este era
válido somente dentro do campo da experiência, e que todo conhecimento que pretendesse
transcender a mesma, ser absoluto e de certeza final, não tinha fundamento. A psicologia
racional fazia parte desse conhecimento sem base. Não havia mais tanta esperança, seja na
psicologia, seja na física, para se obter um conhecimento certo e absoluto. A psicologia, como a
física, somente podia existir como ciência empírica.

Neste ínterim, o interesse pelos aspectos psicológicos da experiência em si não esperou por
essa justificação metaf ísica. Devemos lembrar que lado a lado com a crítica do conhecimento
havia um outro movimento, de caráter mais positivo, que tinha sua origem na análise empírica
do conhecimento, que Locke e seus continuadores utilizaram. Uma parte desse movimento
expressou-se na filosofia do senso comum da escola escocesa. O seu ponto de partida foi Hume,
como o havia sido de Kant, mas os filósofos escoceses trataram seus ilustres conterrâneos de
modo muito mais drástico do que o

diligente Kant. Os resolutos realistas escoceses firmaram-se num mundo sólido que se
recusava a ser banido por especulações sutis. Estas lhes pareciam menos reais do que os
objetos dos sentidos e da vida diária, e se a análise racional deixava uma impressão de coisas
tão claramente em contraste com a realidade como ela aparece ao senso comum, achavam
que isso era muito nocivo à análise racional. Thomas Reid, professor de filosofia em Edimburgo
e contemporâneo de Hume, foi o fundador dessa escola. Baseava sua posição no "instinto" e no
"senso comum". Os sentidos, afirmava, nos fazem imediatamente conscientes de um mundo
exterior e despertam em nós uma "crença inabalável" na existência dos objetos externos.
Embora seja verdade não ser possível justificar nossa crença, a sua presença é indiscutível, e ela
própria deve ser explicada, portanto, como devida a uma tendência inicial e instintiva
implantada na natureza humana. Foi lembrado que as idéias de Hume e Reid não
são, afinal, muito diferentes, uma vez que ambos sustentam que a crença não possui uma base
racional, mas não obstante existe. Conta-se que quando este assunto foi sugerido ao Dr.
Thomas Brown, um dos seguidores de Reid, Brown respondeu: "Sim, Reid proclamou aos gritos
que nós devemos crer num mundo exterior; mas acrescentou4 em voz baixa, não termos
motivos para esta crença. Hume alardeia que não temos motivo para tal idéia; e, a meia voz,
reconhece que não podemos nos livrar dela."3

Mas a diferença em ênfase teve enormes conseqüências práticas. A atitude da escola do senso
comum não só chamou a atenção para o mundo dos fatos empíricos, como também justificou o
sentido daquela atenção. Ao assim fazer, adotou a posição que é, em essência, a que a ciência
compartilha com o senso comum - ou seja, aceitar como certo, como ponto de partida, o
mundo como parece ser para a percepção ingênua. A filosofia do senso comum adotou o
mesmo processo para o caso da religião revelada. Era, de fato, um dos objetivos da escola
escocesa protestar contra as implicações do ceticismo de Rume que pudessem minar a fé
religiosa. Afirmar que a fé e a crença são atitudes verdadeiras e necessárias em relação ao
mundo exterior era dar um passo no sentido de justificar essas atitudes com respeito à
religião. Para a escola escocesa, religião era sinônimo de calvinismo, e como esta escola uniu-
se, logo depois, ao

3 G. H. Lewes, The B4ographicai Hstory of Philosophy, 521.

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Edna Heidbreder

associacionismo britânico, estabeleceu-se uma aliança, de particular interesse para a


psicologia norte-americana. Pois uma psicologia, que se combinava harmoniosamente com o
calvinismo, era especialmente adaptada às necessidades das primeiras universidades norte-
americanas. Foi, de fato, esta psicologia - associacionismo britânico mesclado de senso comum
escocês - a mais ensinada nos primeiros e devotados tempos da educação norte-americana,
quando a psicologia foi incluída nos currículos das universidades com o nome de filosofia da
mente, quando a filosofia era, por via de regra, ensinada pelo diretor da universidade, sendo
muito provável este haver sido treinado para o ministério cristão numa das seitas calvinistas.
Era este tipo de psicologia que predominava quando James e Titchener apresentaram suas
respectivas inovações.

Mas o associacionismo britânico provinha, ainda mais diretamente que a filosofia da escola
escocesa, do modo de pensar que caracterizou Locke e seus continuadores. É difícil dizer o
nome do fundador do associacionismo - pode ter sido Hobbes, Locke, Berkeley ou Hume -
porém não resta dúvida que, na obra de Daniel Hartley, esta doutrina básica foi formulada com
toda a integridade e clareza que qualquer escola poderia exigir. Hartley, como Reid, foi o
contemporâneo de Hume; era médico, e talvez em sua profissão adquiriu o interesse, nem
sempre encontrado em outros associacionistas, pelos aspectos fisiológicos do assunto.
Segundo Hartley, existem dois tipos de acontecimentos que devem ser considerados, os
mentais e os físicos. Estas duas classes não são idênticas, mas seguem paralelas uma à outra,
de maneira que uma mudança numa delas é seguida por uma mudança na outra. Do lado
mental, existem sensações e idéias; do lado físico, existem vibrações e infravibrações. As
primeiras são movimentos extremamente pequenos nas partículas do sistema nervoso; e as
segundas são ainda menores e da mesma espécie, e ocorrem somente no cérebro. Enquanto
as sensações incluem a ação tanto dos nervos quanto do cérebro, as idéias exigem a ação
apenas do cérebro. As vibrações, que são ativas na sensação, dão início às infravibrações, que
são ativas na ideação. Existe assim uma conexão direta entre a sensação e a idéia. A lei geral
da associação consiste em que as sensações que tenham sido experimentadas juntas terão as
idéias correspondentes tendendo a ocorrer em conjunto; se A esteve associada com B, C, e D
na experiência sensorial, A ocorrendo sozinha, tenderá a despertar as idéias de B, C

Psicologias do Século XX

55

e D, que a acompanham. A associação pode ser sucessiva ou simultânea. A primeira determina


a seqüência do pensamento dentro do tempo; a segunda é responsável pela formação das
idéias complexas. Esses poucos princípios formam a base do associacionismo. Naturalmente, os
associacionistas diferem entre si, em detalhes. Uns inclinam-se para uma certa forma de
associação, outros para formas diferentes; alguns reconhecem a associação por semelhança,
outros, não; e alguns tentam reconciliar a crença na unidade do eu com uma explicação de
processos mentais derivados do atomismo lockiano. Mas apesar das modificações introduzidas
por alguns, a linha principal de desenvolvimento foi uma tentativa para mostrar, às vezes
minuciosamente, que, partindo de idéias e do princípio geral de associação, é possível explicar
todas as formações mentais, seja qual for o seu grau de complexidade.

Com Thomas Brown, a escola escocesa e o associacionismo britânico combinaram de modo


definitivo. Brown, que havia sido aluno de Dugald Stewart, sucessor de Reid em Edimburgo, foi
também professor de filosofia nessa cidade. Seguindo a escola escocesa, que aceitava os eus do
mesmo modo como aceitava o mundo exterior, Brown admitiu uma psicologia que realçava a
unidade da mente. Acreditava, ao mesmo tempo, que a análise oferecida pelos empiristas
britânicos contribuía muito para o conhecimento das formas peculiares em que a mente
funciona. É conhecido em psicologia principalmente por sua tentativa de estabelecer aS
condições específicas sob as quais age o princípio geral de associação. As leis de recenticidade,
freqüência e intensidade - esse trio muito usado - figuram entre elas.

Depois de Brown, a principal série de sucessores vai de Sir William Hamilton aos Mills, Spencer
e Bain, que representam o associacionismo em seu apogeu. Sir William Hamilton, homem
notavelmente capaz, foi inicialmente um filósofo e um lógico. É mais conhecido em psicologia
por sua definição de "reintegração total", ou seja, a tendência que uma idéia possui de
restabelecer na mente todas as coisas que a ela estão ligadas na experiência inicial. James MuI
é algumas vezes mencionado como o associacionista par excellence, porque em seus escritos os
princípios associacionistas foram aplicados em toda a sua inteireza e com tal minúcia que suas
limitações se tornam evidentes a par de suas possibilidades. Mill era infatigável em seu esforço
para mostrar que os processos associativos são adequados para as mais

fi6

Ednct Heidbreder P8iCOlOgWS do Século XX

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altas complexidades da vida mental. Suas observações a respeito da idéia do "Todo" são
muitas vezes citadas como exemplo de até onde desejava levar seu princípio.

"Tijolo é uma idéia complexa", escreveu ele, "reboco é outra; essas idéias, junto com as de
posição e quantidade, formam minha idéia de parede. Minha idéia de uma tábua é complexa, a
de viga é complexa, a de prego também o é. Essas, unidas com as mesmas idéias de posição e
quantidade, compõem minha idéia composta de assoalho. De maneira Idêntica, minhas idéias
complexas de vidro, madeira e outras formam minha idéia composta de janela; e essas idéias
compostas, todas juntas, formam minha idéia de uma casa, que é formada de várias idéias
compostas. Quantas idéias complexas ou compostas estão juntas na idéia de mobilia? E
quantas mais na de mercadoria? E ainda mais na idéia do Todo ?"
John Stuart Mill, filho de James Mili, achou difícil explicar as idéias complexas em termos de
idéias mais simples "todas juntas" mesmo se fosse admitido, como seu pai admitira, que os
elementos não retêm sua distinção, O filho, entretanto, continuou associacionista, pelo menos
de nome, e sobrepujou sua dificuldade por meio do conceito de "química mental". As idéias
complexas, dizia, nem sempre são destinadas à composição; pode-se dizer que resultam de
idéias simples ou são geradas por elas, mas não formadas por elas, assim como nos compostos
químicos aparece alguma coisa no composto que não está presente nos elementos tomados em
separado. Da forma em que a sensação do branco não é composta. das sete cores do prisma,
mas é gerada por elas, assim uma idéia complexa pode ser gerada, e não composta, de idéias
simples. Nos dois Miils, também, os princípios do utilitarismo de Bentham foram combinados
com as doutrinas do associacionismo, dando como resultado que o associacionismo trazia, em
si, um conceito de motivação que explica a conduta humana na condição um tanto super-
racional de "egoísmo esclarecido", uma crença de que os atos humanos podem ser explicados
em função da busca do prazer e da fuga da dor.

Herbert Spencer, catorze anos mais jovem do que John Stuart Mill, é importante para o
associacionismo principalmente porque adotou o ponto de vista da evolução em seu
pensamento psicológico. Spencer, que acreditava na herança dos caracteres adquiridos,
sustentava que os traços complexos evoluem na raça da mesma forma que as idéias
complexas se desenvolvem nos indivíduos a partir das idéias sim-

4 James Miii, Ãnalyais o, the Pflenomena o! the Human Mmd, 1, 115.

pies - que os instintos, por exemplo, são formados a partir dos reflexos. Alexander Bain,
contemporâneo de Spencer, é mais conhecido pelos seus dois livros The Sense8 and the
Intellect e The Emotions and the Will. Sua importância reside não tanto por qualquer
contribuição definida, nem devido a uma doutrina ou teoria particular, quanto pelo fato de seus
dois livros constituírem uma explicação sistemática e didática do associacionismo clássico em
seu apogeu. Estes livros, publicados logo após a primeira metade do século XIX, assinalam o
ponto culminante do associacionismo britânico e, portanto, podem ser considerados como
marcos da história da psicologia.

De certo modo, o associacionismo foi a primeira "escola" de psicologia. Seus adeptos formavam
um grupo de homens que trabalhava sob a mesma orientação e que encarava os maiores
problemas da psicologia quase da mesma forma. Não concordavam em todos os pontos - na
relação entre a idéia e a sensação, por exemplo, e em pontos tais como se a associação por
semelhança deveria ser reconhecida junto com a associação por contigüidade - porém estavam
todos ocupados com os mesmos tipos de questões e seu pensamento apresentava um
desenvolvimento contínuo. E de modo bem definido, os associacionistas estavam escrevendo
psicologia em lugar de filosofia. Examinavam os problemas na forma fatual das ciências
naturais, buscando o seu objeto na experiência real, nas formações de pensamento que
podiam ser observadas. Em suas mãos, a mente perdia muito de sua aura de mistério e
infalibilidade, e a psicologia torna-se evidente, despretensiosa e empírica. A principal tarefa da
escola era a mesma que em toda parte a ciência realiza - a tentativa de descobrir as leis
naturais nunÇ mundo de fatos naturais e observáveis.
Até agora pouco falamos sobre os filósofos da Europa continental. Somente Descartes e Kant
foram mencionados, e foram incluídos devido às suas ligações com o pensamento crítico e
empírico da Grã-Bretanha. Ainda mais do que os seus contemporâneos britânicos, os filósofos
do Continente estavam só ocasionalmente interessados em psicologia. Não havia, certamente
no Continente, uma linha contínua de investigação psicológica que persistisse, como no caso do
associacionismo e empirismo britânicos, através das personalidades e dos problemas mutáveis.
No entanto, muitas das concepções dos filósofos continentais, embora se tivessem
desenvolvido em tentativas de resolver problemas que não eram

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59

EtLna Heidbreder

em si psicológicos, influenciaram a psicologia de modo definitivo.

Uma dessas concepções é o paralelismo de Espinosa, contemporâneo de Descartes e, como


este, o autor de um dos grandes sistemas racionalistas do século XVII. Em alguns dos seus
escritos, Espinosa tratou de problemas especifica- mente psicológicos; mas, de forma bastante
estranha, é somente através de sua doutrina metafísica do paralelismo que ele faz parte da
psicologia na atualidade. E mesmo essa doutrina tem sido usada em psicologia de uma forma
que não parece representar o pensamento de seu autor. Pois o paralelismo de Espinosa fazia
parte de sua concepção da realidade, como uma unidade que tudo incluía e que, embora tendo
um número infinito de qualidades, é uma só em si e se apresenta à percepção humana somente
através de dois de seus atríbutos, matéria e mente. Basicamente, Espinosa foi um monista; a
crença na unidade do mundo e que se situa na base de sua filosofia era algo para a qual sentia
tanto uma necessidade emocional quanto intelectual. Mas, em psicologia, o conceito de
paralelismo, extraído do contexto que deu seu significado ao seu autor, foi usado por algumas
escolas como um meio adequado para tratar do problema mente-corpo. Seu mérito, assim
como tal método, reside no fato de permitir a um pesquisador levar em conta tanto os
acontecimentos físicos quanto os mentais e observar sua relação de modo empírico sem
envolver-se na metafísica de sua relação última. O paralelismo de Espinosa foi considerado
realmente útil em psicologia, exatamente porque pode ser tomado em separado de seu
contexto e usado sem se considerar as suas implicações metafísjcas. O mental e o físico podem
ser encarados como duas correntes de acontecimentos, nenhuma agindo como causa da outra,
mas juntamente constituindo um sistema, no qual a variação de uma é normalmente
acompanhada de uma variação da outra. Esta concepção torna possível preservar o dualismo da
mente e matéria e ainda evitar as dificuldades da interação das duas. Um modo de pensar um
tanto parecido encontra-se no ocasionalismo de Malebranche e na harmonia preestabelecida
de Leibniz, representando ambos, como Espinosa, o racionalismo do século XVII.

Leibniz, realmente, como Descartes e Espinosa, estabeleceu o último dos três grandes sistemas
racionalistas do século. Sua concepção de realidade era a de um "universo pulverizado",
composto de um número infinito de centros de
força imateriais, sem dimensão, chamados mônadas. Seu hábito mental de "pulverizar" está
também presente em suas contribuições às ciências especiais; no cálculo infinitesimal, do qual
foi um dos inventores, e nas petites perceptions que estão incluídas em uma de suas
contribuições à psicologia. Esta doutrina das petites perceptions é virtualmente a doutrina do
inconsciente, e da continuidade do inconsciente com o consciente. Da mesma forma em que o
mundo visível pode ser reduzido a mônadas invisíveis, assim também nossa consciência clara
retorna à consciência obscura ou mesmo a estados mentais inconscientes. Leibniz utilizou o
bramido do mar para exemplificar o significado disto. É um fato inegável que ouvimos este som;
todavia, os "pequenos sons" dos quais ele deve ser composto - aqueles produzidos pelas ondas
isoladas que constituem o mar - não seriam ouvidos se cada um deles ocorresse sozinho. Não
obstante, devemos ser um pouco afetados pelas ondas isoladamente, porque
"do contrário não teríamos a percepção de centenas de milhares de ondas, pois uma centena
de milhar de nadas não pode produzir alguma coisa". Talvez a moderna psicologia devesse
preferir, em seu todo, explicar este fenômeno em função da soma total dos estímulos, do que
em função da soma total das percepções inconscientes. Mas o ponto significativo é que em
Leibniz há um reconhecimento definido dos processos mentais inconscientes, uma região da
psicologia que, é escusado dizer, tem provocado o mais vivo interesse na psicologia atual. As
doutrinas dos psicanalistas, por mais que possam diferir em forma e caráter das indagações de
Leibniz, não obstante possuem algo em comum com os raciocínios exatos e as percepções
penetrantes de um dos fundadores do cálculo.

Leibniz estava por demais interessado no problema das idéias inatas. Locke, deve ser lembrado,
negava a existência delas, mas baseava seu argumento na hipótese de que tais idéias eram
tanto presentes quanto ausentes, completamente formadas ou inexistentes. Locke levou muito
em conta o fato de os axiomas básicos não se encontrarem nas mentes das crianças, dos
selvagens e dos não instruídos, e só aparecerem quando o indivíduo vive as experiências que
são capazes de produzi-los. Para Leibniz, tudo isso podia ser verdade, e todavia o conceito da
mente como um "papel em branco" ou "tabula rasa" não poderia ser a única explicação
possível. Sugeriu o "mármore com nervuras" como uma alternativa. Assim como um bloco de
mármore pode ser mar-

Psicoløgias do Século XX

60

P8woZogias do Sdoulo XX

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Edna Heidreder

cado com nervuras a fim de torná-lo mais adequado para a estátua de Hércules do que para
qualquer outra, também o ser humano pode nascer com idéias não completamente formadas,
mas com tendências e predisposições que tornam o desenvolvimento de certas idéias
altamente provável e adequado à sua natureza. Esta concepção não difere daquela dos
instintos livremente organizados, que é aceita por um certo número de psicólogos hoje em dia
- isto é, que certos tipos de comportamento são inatos, não no sentido de surgirem
completamente formados, perfeitos, e com a regularidade mecânica de uma cadeia de reflexos,
mas no de existirem como tendências à reação, cujos detalhes são adquiridos por um processo
de aprendizagem por ensaio e erro, em resposta às características de situações reais. De acordo
com este modo de pensar, os tipos de ação conhecidos como instintos são produzidos por dois
conjuntos de fatores, os que fazem parte da constituição inata e aqueles proporcionados pelo
meio ambiente.

No século XVIII, persistia o racionalismo do século anterior, não como uma tendência para
formar sistemas fechados como os de Espinosa e Leibniz, mas no formalismo, classicismo e no
prazer da construção lógica que caracterizou o pensamento desse período. Na França, as duas
principais correntes de pensamento psicológico foram tentativas para levar as teorias existentes
até suas conclusões lógicas. Uma delas foi a representada por Lamettrie e Cabanis. Descartes,
como vimos, explicava os animais como sendo autômatos e utilizou os princípios mecanicistas
de forma bastante extensa para explicar o comportamento humano. Em 1748, Lamettrie em
seu livro L'Homme Machine tomou a decisão que Descartes não queria tomar e afirmou que
todas as ações dos seres humanos podem ser explicadas mecanicamente. Cinqüenta anos mais
tarde, o médico Cabanis reafirmou e desenvolveu a mesma opinião. Declarou que a mente é
simplesmente uma função do corpo, mais propriamente do cérebro, e que as ações humanas,
inclusive as mais complicadas funções do intelecto e as mais avançadas expressões de sua
natureza moral, não são nada mais do que as conseqüências inevitáveis de uma lei natural
agindo em seu corpo físico. O materialismo e o mecanicismo eram aceitos de bom grado como
constituindo uma explicação inteiramente adequada da conduta humana.

Da mesma forma, Condillac, abade de Mureaux, escrevendo na metade do século, levou a


teoria do conhecimento

de Locke ao extremo de um completo sensacionismo. Locke havia reconhecido duas fontes de


conhecimento: a sensação e a reflexão. Condillac reduziu todo o conhecimento a uma única
fonte: a sensação. Apresentando sua teoria, imaginou uma estátua, formada por dentro como
um ser humano, porém coberta com uma camada de mármore. Em primeiro lugar, removeu o
mármore do nariz e colocou uma rosa à sua frente. A estátua tem agora uma sensação de
olfato; a fragrância da rosa representa sua consciência total. A rosa é retirada e a sensação
torna-se memória. Outros objetos são colocados em frente à estátua - uma violeta, um jasmim
e uma assa-fétida. Os seus odores característicos são desta vez comparados com a imagem -
memória da rosa e com as imagens - memória de cada uma das outras, resultando que algumas
são percebidas como agradáveis e outras desagradáveis. Dessa forma surge o desejo por
algumas e aversão por outras, e as paixões e a vontade aparecem como conseqüência da
comparação entre as sensações agradáveis e desagradáveis. De maneira idêntica são
produzidas todas as funções do intelecto; da comparação das sensações surgem a reflexão, o
juízo, a abstração, a generalização e o raciocínio. Quando permitimos outras sensações para a
estátua

- as de paladar, audição, visão e tato - a sua vida psíquica torna-se muitíssimo mais complexa. O
sentido do tato tem importância especial, uma vez que proporciona o ponto de partida para a
idéia de um corpo, e portanto, do mundo exterior. Porém, tudo o que acontece na mente e
todas as idéias por ela produzidas são derivados da sensação. O conteúdo integral da mente,
inclusive suas operações, nada mais é do que sensação que se transforma de várias maneiras. A
tese de Condillac é a última palavra em sensacionismo, e também em empirismo, considerando
este termo como indicativo de uma teoria do conhecimento que se forma e se desenvolve
através da experiência. Mas, é importante observar que o sistema de Condillac não é empírico
no sentido de oposto ao racional. É sempre até o fim uma construção lógica; e não uma
descrição de fatos observados. Talvez deva-

-se notar também que Condillac não era materialista. Partindo de sua convicção de que todos os
fatos mentais são apenas sensação transformada, poderia ter acreditado facilmente, com os
materialistas franceses de sua época, que a sensação é produzida pelo funcionamento dos
órgãos dos sentidos e do cérebro. Mas o abade de Mureaux não fez isto. De modo claro e
definido, supôs uma alma que, embora dis

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Edna Heidbreder

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tinta do corpo, era, no que diz respeito à psicologia, nada mais do que a simples capacidade
para sentir. Entretanto, este ponto não é importante em seus ensinamentos. Condillac é
lembrado principalmente por afirmar que a sensação isolada é suficiente para explicar as mais
complexas funções da mente humana.

No mesmo século, Jean Jacques Rousseau fez pesquisas em um setor do pensamento


psicológico totalmente diverso. A notável contribuição de Rousseau para a psicologia foi sua
insistência no papel desempenhado pelo sentimento e pela emoção na formação humana. A
psicologia teve sempre a tendência para ser intelectualista. Tanto os empiristas quanto os
racionalistas haviam analisado o ser humano como sendo uma criatura, cuja atividade
primordial seria o saber, o pensamento e a descoberta da verdade. Mas, era evidente para
Rousseau que a natureza real do homem era a emocional. A idéia de que o homem é
essencialmente um ser possuidor de idéias e razão, Rousseau considerava não somente falsa,
como ainda uma falsidade unida a todos os males da civilização, pois ele acreditava no
"selvagem nobre" e no "retorno à natureza", e encarava a civilização como sinônimo de
escravidão. A seu ver, as convenções e as restrições da sociedade eram prejudiciais à parte
mais íntima do homem; e por seu próprio caráter abusivo aos olhos de seus contemporâneos

- e que se expressou em palavras e atos - Rousseau permaneceu em franco protesto contra o


formalismo e a artificialidade de sua época. Entretanto, a sua influência na psicologia não é fácil
de estabelecer, pois foi principalmente como teórico político e como individualista sem peias
que impressionou o mundo. Certamente ele não se enquadra em nenhuma das correntes de
desenvolvimento bem definidas que conduziram à ciência psicológica. Porém o homem que
lançou as sementes da revolta na França do século XVIII, e que protestou contra o frio
intelectualismo da filosofia, bem como contra o convencionalismo artificial na sociedade
humana, tornou impossível para a psicologia, mesmo a acadêmica, negligenciar completamente
o lado emocional da natureza humana. A emoção havia permanecido por muito tempo como
um campo ignorado e pouco explorado, e a psicologia ficara por muitos
anos acentuadamente intelectualista. Agora, no entanto, o campo das emoções tinha sido
francamente indicado e reconhecida sua enorme importância.

Porém as correntes que estavam impelindo a psicologia em direção ao empirismo e ao


naturalismo não deixavam de

ter concorrentes. Eram, na realidad, reações contra o pensamento oficialmente aceito. Na


Alemanha, por exemplo, havia Christian Wolff, protótipo do racionalismo, formalismo e
dogmatismo, cuja escola de pensamento floresceu durante a primeira metade do século XVIII.
Wolff é importante para a psicologia moderna, mormente em razão de seus ensinamentos
exemplificarem tão claramente dois hábitos do pensamento que tinham de ser extirpados se a
psicologia quisesse se tornar uma ciência. O primeiro é a afirmação de que a psicologia racional
procurou o caminho para a verdade e a realidade de urna forma inacessível à ciência natural; e
que a verdade absoluta e demonstrável a respeito da alma é conseguida pelo exercício da razão
pura. Esta é a crença que, como já foi observado, Kant atacou do ponto de vista da filosofia
crítica. O segundo hábito é a concepção da psicologia das faculdades, a qual afirma que a alma
é dotada de um certo número de poderes - o raciocínio, a memória e o juízo, por exemplo - e
que explica as realizações típicas da mente em função do exercício dessas faculdades. Tem
havido queixas contra a psicologia das faculdades por parte de vários setores. O empirismo
britânico, em sua totalidade, opunha-se obviamente a esta concepção, e principalmente Locke
foi contra a mesma. Porém a psicologia das faculdades da Alemanha no
século XVIII, como era representada por Wolff, encontrou o seu maior e mais direto adversário
na psicologia herbartiana que a destronou. Pois Johann Friedrich Herbart despertou o
interesse alemão com um modo de pensar que se opunha definitivamente e dispensava as
faculdades ou poderes da alma. A psicologia de Herbart tratava com idéias ou Vorstellungen,
unidades mentais um tanto semelhantes às idéias simples usadas pelos associacionistas
britânicos e também parecidas com as mânadas de Leibniz.

Herbart foi o sucessor de Kant em Kinigsberg, e como o pensamento deste é um


desenvolvimento do lado crítico da filosofia empírica britânica, assim também as teorias de
Herbart parecem-se com o lado mais positivo do mesmo movimento. Como os associacionistas
britânicos, Herbart empreendeu a tarefa de explicar os mais complexos fenômenos mentais em
função de idéias simples. Estava impressionado pelo pensamento de que cada idéia possui um
certo grau de força, e salientou o fenômeno da inibição, assim como o de associação. Explicou
alguns fatos mentais em função de idéias que formam compostos ou misturas, porém fez da mi-

PswoZogzas do Século XX

64 Edna Heidbreder

bição, em vez da associação, a tônica de seu sistema. Toda idéia, de acordo com Herbart, possui
a tendência de se conservar e afastar as outras com as quais seja incompatível; e variam em
poder. Quando uma idéia encontra outra mais forte ou um grupo de idéias com as quais é
incompatível, é lançada abaixo do limiar da consciência. A idéia não é destruída, entretanto, mas
persiste, embora no momento seja inconsciente. Aquela que seja em si mesma fraca pode
adentrar a consciência e aí se conservar no caso das outras acima do limiar da consciência
serem afins. As idéias, já de posse do campo da consciência, geralmente repelem aquelas com
as quais não tenham afinidade; porém as idéias não inibidas, seguindo a tendência geral de
subir à tona da consciência, são assimiladas pelas que estejam na consciência naquela ocasião.
Herbart chama este processo de apercepção, e o grupo no qual a idéia que chega é introduzida
é conhecido como massa de apercepção. A vida mental é assim principalmente uma luta entre
idéias, todas ativas, esforçando-

-se para conseguir e conservar um lugar na consciência, e cada uma repelíndo todas as outras
com as quais não seja compatível.

Esta concepção permitiu a Herbart pensar nos fenômenos mentais em função da mecânica
mental, e também em termos quantitativos. As idéias variam tanto em tempo de duração
quanto em força ou intensidade; portanto, o material psicológico apresenta duas variáveis
mensuráveis independentes. Aplicando este princípio, Herbart escreveu fórmulas matemáticas
para exprimir as leis da mente. Acreditava, entretanto, que a psicologia jamais se tornaria
experimental. É importante observar este fato como indicativo da maneira bastante gradual
pela qual evoluiu o conceito de psicologia como ciência. Kant, na segunda metade do século
XVIII, embora considerasse a psicologia uma ciência empírica, era de opinião que ela nunca se
tornaria quantitativa. Herbart, na primeira metade do século XIX, acreditava que embora a
psicologia pudesse se tornar quantitativa nunca seria experimental. E, contudo, foi parcialmente
através da concepção da psicologia quantitativa de Herbart que a mesma se desenvolveu como
ciência experimental durante o mejo século após sua morte.

Herbart estava também interessado em educação e o interesse generalizado em aplicar a sua


teoria na técnica do

5 'Principalmente pela intluncla de Fechner, que será estudado no próximo capitulo.

_ Psicologias do Século XX

ensino representa um importante passo no sentido de reconhecer a psicologia como ciência


tendo algo para servir aos afazeres práticos da vida diária. Durante algum tempo os
professores em toda parte travaram conhecimento com as famosas cinco etapas da técnica
herbartiana, método destinado a construir na mente do aluno uma massa de apercep- ção
apropriada à recepção do novo material a ser apresentado. Desde a época de Herbart, a
educação e a psicologia têm estado intimamente relacionadas, e mesmo hoje em dia a
educação é provavelmente o ramo mais extenso da psicologia aplicada.

É importante observar também que a psicologia de Herbart exigia o reconhecimento dos


processos inconscientes ativos. Sua concepção das idéias como sendo ativas, e persistindo
abaixo do limiar da consciência quando inibidas e esforçando-se continuamente para
conseguir completa expressão, lutando com outras idéias, é notavelmente idêntica às teorias
do inconsciente admitidas pelos psicanalistas.

Um dos discípulos de Herbart em psicologia, W. F. Volkmann, escreveu um livro didático que


possui com a psicologia herbartiana quase a mesma relação que existe entre os dois livros de
Bain e o associacionismo britânico. Assinala o ponto culminante e aprèsenta as principais
contribuições de uma linha de pensamento característica. Até que a psicologia experimental
fosse bem estabelecida, o Lehrbuch de Volkmann foi amplamente usado como livro didático na
Alemanha. A data de sua publicação é 1856, um ano após o aparecimento do livro The Senses
and the Intellect e quatro anos antes da publicação do livro The Emotions and the Will. É
interessante que, por volta da metade do século, a Alemanha e a Grã-Bretanha produziram
cada uma em separado um tratado apresentando a psicologia pré-experimental em sua forma
mais avançada. É conveniente, portanto, considerar esses livros como assinalando o fim de um
período na história da psicologia. William James, ao comentar a psicologia deste período - ainda
não tocada pelo método experimental descreveu a obra de Bain com palavras que podem ser
também aplicadas à de Volkmann, como sendo 'o ultimo marco da juventude de nossa ciência,
ainda não técnica e geralmente intelectual, como a química de Lavoisier, u a anatomia, antes da
invenção do microscópio".

a metade do século XIX, a longa era da psicologia pre-c)entífica chegara ao fim. Porém, no
decurso desse pe ríodo tinha avançado muito. Começando com especulações

65

67

66

Edna He:dbreder

acidentais ligadas aos problemas práticos da humanidade e das sociedades e à busca da verdade
final, surgiu como um corpo de conhecimentos estudados pelo seu valor intrínseco e existindo
por sua própria conta. Entre os gregos, antes da psicologia existir como uma disciplina isolada, a
cosmologia e a epistemologia, a ética, a teoria política e as atividades práticas haviam todas
enfrentado questões sobre a natureza humana. Nessa ocasião, entretanto, estas questões não
foram objeto de um interesse psicológico real. Não foram estudadas pelo seu valor intrínseco,
mas pela luz que lançavam sobre outros problemas; foram estudadas porque faziam parte de
tentativas para compreender o universo ou planejar a maneira racional de viver. Além disso,
foram solucionadas menos na base da observação do que da especulação, e as observações
sistemáticas que delas se originaram eram gerais e abstratas. Mas, por essa mesma razão, as
primeiras observações permanecem nos esboços definidos dos conceitos racionais, ainda não
maculados pela minúcia dos fatos que foram posteriormente revelados pela observação
cuidadosa e que, mais do que nunca, não se coadunam com o modelo conceitual. Em
conseqüência, muitos dos problemas tratados pelos gregos - de substância e processo, das
partes e do todo, da mente e da matéria, do indivíduo e da sociedade, das causas próximas e
remotas, da abordagem matemática para o entendimento, e o problema geral do conhecimento
- foram estabelecidos de tal maneira que têm servido desde então de pontos fixos de referência
e como instrumentos conceituais nas cogitações da psicologia.

Na época atual, na Europa Ocidental, surgiram novamente os problemas psicológicos. Por algum
tempo, a filosofia esteve bastante interessada pela crítica do conhecimento, e daí surgiu um
interesse psicológico ativo. Em suas linhas gerais, o movimento crítico iniciou-se partindo do
apelo à autoridade eclesiástica para o apelo à razão e, em seguida, do apelo à razão, como
é concebida pelos metafísicos, ao da evidênciâ dos fatos como existem na ciência. Um dos
frutos desse movimento foi o interesse pela psicologia em si, e que eventualmente expressou-
se pela formação de duas escolas, o associacionismo e o herbartismo. Nesse ínterim, surgiram
problemas típicos da psicologia - os da possibilidade de idéias inatas e abstratas, da natureza da
percepção do espaço, das leis de associação, da relação entre os processos conscientes e
inconscientes. Haviam surgido poucas tendências bem definidas, entre elas a possibilidade de
explicar as ati Psicokgia

do Século XX

vidades humanas de forma mecanicista, e de analisar a natureza humana de modo atomístico.


Na maioria dos casos, durante este período, a psicologia havia superintelectualizado e super-
racionalizado o seu material, porém havia também recebido bastante evidência de que a vida
afetiva do homem poderia ser muito importante, e tinha vislumbrado por acaso a possibilidade
de que dar atenção ao aspecto motor da natureza humana poderia ser muito esclarecedor.
Havia sucedido tudo isso de uma forma longe de ser sistemática; além disso, haviam sido
aperfeiçoados uma atitude e um método definido de estudo. Na metade do século XIX, a
psicologia havia aprendido a considerar o seu material de estudo como parte da natureza e a
tentar explicá-lo em termos naturais. Estava aprendendo, também, a observar o seu material,
bem como pensar sobre o mesmo. Em resumo, a psicologia estava prestes a se tornar uma
ciência. Tanto na matéria como no método havia-se tornado empírica; faltava pouco para
passar a ser experimentaL.

SISTEMAS DE PSICOLOGIA

O ESTRUTURALISMO 1: TITCHENER ;1

Titchener (1867-1927); Boring (a. 1884); Cattell (1860-1944).

A. nova psicologia foi desde logo importada pelos Estados Unidos. Vários jovens norte-
americanos figuravam entre os primeiros alunos do laboratório de Leipzig, e quando
regressaram para a América do Norte, logo dirigiram seus próprios laboratórios e ensinaram
psicologias que, embora possam diferir entre si, e do modelo wundtiano, trazem sinais
inconfundíveis de terem procedido de Leipzig. Hali, Cattell, Wolfe, Pace, Scripture e Frank AngeIl
foram os primeiros dentre estes. Porém, o mais ardoroso campeão da nova psicologia nos
Estados Unidos não era norte-americano. Edward Bradford Titchener, notável jovem inglês que,
em 1892, tornou-se diretor do laboratório da Universidade de Cornell, trabalhou tão rigorosa e
conscienciosamente na tradição wundtiana que veio a ser o representante autorizado daquele
sistema dos Estados Unidos. Apesar de divergir em certos pontos, Titchener estava
decididamente ao lado da ortodoxia wundtiana. Foi ele quem se empenhou
mais resolutamente para estabelecer a nova psicologia no novo mundo e que, com um desvelo
parecido com o do profeta pela integridade de sua mensagem, lutou para conservá-la imune
às doutrinas desse mundo.

A posição de Titchener na psicologia norte-americana é extraordinária e única. Num país onde


era um estranho, e no qual sempre permaneceu um estranho, sua influência durante anos foi
sempre dominadora; e mesmo quando seu

1 Em todo este capitulo, a psicologia de 'ritchener é chamada de estruturalismo. A rigor, esta


prática não é correta, uma vez que a palavra "estruturalismo" foi usada principalmente para
distirlgui-lo do funcionalismo, sistema rival que surgiu um pouco mais tarde. Por conveniência,
entretanto, e na falta de outra palavra de uso corrente para designar a psicologia de Titchener,
é usada a palavra "estruturalismo" para esta finalidade, neste Uvro.

108

Edna Heidbrede'r

Psicologias do Século XX

109

prestígio havia diminuído visivelmente, sua escola permaneceu um ponto de referência


especial na psicologia norte-americana. Ela era contra. o que muitos dos movimentos
tipicamente norte-americanos reivindicaram. Quando faleceu, seu ex-discípulo e colega, E. G.
Boring, escreveu:

"A morte de nenhum outro psicólogo poderia alterar tanto o panorama psicológico na América
do Norte. . . ele era um ponto cardeal na orientação metódica nacional. A oposição bem
definida entre o behaviorismo e seus aliados por um lado, e alguma outra escola por outro,
torna-se clara somente quando a oposição é entre o behaviorismo e Titchener. A sua morte,
dessa forma, de certo modo, cria um caos classificatório na psicologia sistemática norte-
americana." 2

É significativo o fato de Titchener nunca ter corrido o mínimo risco de americanizar-se, embora
tivesse ido para os Estados Unidos quando tinha somente vinte e cinco anos de idade e ali
tivesse permanecido até sua morte, trinta e cinco anos mais tarde. Todavia, uma permanência
de somente dois anos em Leipzig o tinha germanizado. Até mesmo parecia alemão e era, às
vezes, tomado por um deles; a ciência para a qual trabalhou era toda alemã; e no que pareceu-
lhe uma universidade atrasada no outro lado do Atlântico, presêrvou com uma devoção firme
e meticulosa o cerimonial com o qual tinha visto cercada a psicologia numa universidade alenlã.
Ê evidente que encontrou na cultura alemã, pelo menos na ciência alemã, alguma coisa
profundamente adequada à sua natureza. Porém Titchener nunca combinou com o ambiente
norte-americano. Afastou-se e opôs-se aos empreendimentos tipicamente norte-americanos
em psicologia os quais, trazendo todos os indícios da origem nativa, firmaram-se e prosperaram
naquele país. A psicologia' aplicada, o estudo das diferenças individuais, o movimento a favor
dos testes mentais, em todos os quais o interesse norte-americano era espontâneo e vivo,
parecia a ele de segunda classe, e do ponto de vista da ciência pura, até um
pouco desprezível; e quando surgiram e prosperaram escolas definidas como o funcionalismo e
o behaviorismo, combateu-as de forma realmente jupiteriana. Era evidente que ele não
combinava com a mentalidade norte-americana. Achou mesmo difícil continuar como sócio da
Associação Americana de Psicologia, organização da qual os maiores psicólogos da América
eram tradicionalmente sócios. Certa ocasião, não conseguiu o apoio da Associação, num
assunto que, a seu ver, era uma

2 E. G. Borlng. Amer'can Journal of Psychology (1927) 38, 489-506.

questão de ética profissionaL Demitiu-se, então, da sociedade e embora renovasse a sua


inscrição alguns anos depois, nunca mais compareceu às reuniões - nem mesmo à célebre
reunião de ítaca - e chegou a deixar caducar o seu título de sócio. Neste ínterim, havia
formado um grupo próprio, conhecido como "os experimentalistas". Este grupo mal podia ser
chamado uma organização. Não possuía sede e nenhum estatuto, os seus títulos de sócio eram
determinados por meio do convite de Titchener, e suas publicações e debates se restringiam aos
tópicos que recebiam sua aprovação ou pelo menos que escapavam do seu amável porém.
autoritário "Verboten!" (proibido). Era formado por ele e o trazia na palma da mão. Tanto a
existência do grupo e o prazer que este lhe proporcionava caracterizavam a relação de Titchener
com a psicologia norte-americana. Parecia encarar os experimentalistas como um grupo de
eIeitos, uns poucos escolhidos como merecedores ou quase merecedores, de servir à psicologia
como uma ciência pura - um grupo de salvadores, separado por ele da turbamulta dos
psicólogos nativos.

Como resultado dessa atitude, desse hábito de contrastar a psicologia experimental com a
norte-americana em geral, criou-se uma situação interessante. De certo modo, as condições
no novo país eram francamente favoráveis ao desenvolvimento de uma psicologia
experimental. À medida que o método experimental implicava a tendência de preferir fatos a
teorias, em lançar mão da evidência ao invés da especulação, provar os elementos e
"demonstrá-los" em lugar de aceitá-los em confiança, o temperamento americano era
inteiramente receptivo ao movimento experimental. E apesar disso a psicologia experimental
nos Estados Unidos, na forma em que era considerada como autêntica, foi cuidadosamente
protegida das influências norte-americanas mais típicas. Tornou-se uma coisa à parte, quase
preciosa, completamente afastada da corrente principal dos interesses norte-americanos. A
própria expressão "psicologia experimental" adquiriu um significado especial. Nos Estados
Unidos, a psicologia experimental podia ser descrita quase como aquela formada na Alemanha
e importada por Titchener. Seus adeptos eram naturalmente estudiosos norte-americanos,
porém, em sua maioria, haviam sido treinados sob a influência de Titchener e sob um sistema
de mores eruditos importados, que dificilmente poderiam deixar de impressioná-los.

110

Edna Heidbreder Patcologias do Século XX

111

Na Universidade de Comeu não se punha em dúvida que a psicologia fosse um assunto de


grande importância. O próprio Titchener lecionou nas classes de principiantes para garantir a
sua orientação adequada nesta ciência. Essas aulas são famosas, não só pelo seu conteúdo e
influência, como também pelo cerimonial imutável com que se cercavam. Titchener lecionava
com o seu traje de doutor de Oxford. "Ele nos dá o direito de sermos dogmáticos", explicava. O
costume que se desenvolveu em relação às aulas foi descrito por Boring, que foi assistente de
Titchener durante algum tempo.

"No primeiro semestre, nas terças e quintas, às 11 horas, ele lecionava aos estudantes na nova
sala de leitura do Goldwin Smith Hall, sala que possuia um laboratório profissional para
demonstrações e um escritório anexo especialmente construído e cujas cadeiras estavam na
altura determinada para combinar com a estatura de Titchener. A demonstração havia sido
escolhida uma hora antes e Titchener chegava logo depois das dez horas para fiscalizá-la. Mais
tarde, os assistentes reuniam-se aos poucos em seu escritório. Quando chegava a hora da aula,
ele vestia a sua beca, um assistente a escovava para remover as cinzas do seu infalível charuto,
os assistentes transpunham a porta aparatosamente e tomavam lugar na primeira fila. Titchener
subia então na plataforma, vindo da porta de seu escritório. Todo esse ritual era executado com
prazer e algumas vezes de forma humorística, contudo era seguido escrupulosamente. O
pessoal reunia-se, após a aula, na sala de Titchener durante uma hora para conversar e às 13
horas dispersava-se para almoçar." 3

Todo esse ritual era baseado naquele que Titchener havia prenciado em Leipzig, como
discípulo de Wundt. Embora tives.e trazido sua psicologia para um país distante, conservava
não só a matéria como também o sistema da tradição de Leipzig.

As aulas em si eram precisas e eficientes, e de ano para ano atraíam multidões de estudantes.
Não somente apresentavam a psicologia erudita pura no sentido exato da palavra, como
também incluíam prescrições para acautelar-se dos falsos profetas. Os assistentes as ouviam no
mínimo com o mesmo interesse que os estudantes, pois nestas aulas, às vezes, ouviam o
primeiro pronunciamento de Titchener a respeito de uma nova teoria ou descoberta, e sobre a
forma em que deveria ser incorporada, no caso de ser aceita, no conjunto principal da
psicologia.

Tudo isso era para os principiantes. Os estudantes graduados também achavam impressionante
a psicologia em Corneil. Durante o segundo semestre, Titchener dirigia um seminário do qual
participavam os assistentes e os estudantes graduados e onde, é escusado dizer, ele dominava a
situação. Com exceção dessas reuniões para os exames de doutoramento, e aquelas ocasiões
em que fazia o papel de anfitrião de visitantes ilustres, não ia ao laboratório. Nas raras ocasiões
em que os estudantes conferenciavam com ele, faziam-no em sua casa, através de entrevistas.
Suas horas de trabalho em casa eram cuidadosamente protegidas, e era sabido que somente
uma verdadeira emergência justificaria uma tentativa de chamá-lo pelo telefone.

Porém Titchener era um homem possuidor de fascínio e influência, e a admiração que os seus
discípulos sentiam por ele não era exclusivamente pela sua perícia em sua especialidade. Era
um homem de interesses múltiplos e contagiantes, um notável conversador e um anfitrião
simpático. Podia ser tanto amável, quando imponente, tão prestimoso como autoritário. Não
há dúvida de que o sentimento por ele despertado em seus discípulos e colaboradores era
mais do que de simples respeito.
Embora fosse 'raramente visto na universidade, a influência de Titchener era considerável; e a
psicologia em Cornell tornou-se aquela interpretada por uma única pessoa influente, por uma
presença completa porém invisível. Nos bastidores havia sempre uma autoridade final que
conservava o destino e as teorias dos homens em suas mãos, que traçava uma linha definida
entre a ortodoxia e a heterodoxia, que fazia da distinção o primeiro requisito da casta erudita e
que dispunha os elementos de seu mundo erudito no sentido de defesa e progresso da nova
psicologia - da nova e única psicologia em toda a sua pureza.

Em suas obras, Titchener também fala caracteristicamente. Principalmente nos livros que
escreveu para os esta- dantes o seu tom é de autoridade. Pois os livros didáticos de Titchener
são pouco mais notáveis pela competência científica e poder de exposição do que pela falta
absoluta de tato pedagógico. Raramente dá uma oportunidade à inteligência do leitor.
Considera que, como autor, deve salientar tudo até os mínimos detalhes; que deve livrar-se
das implicações; que deve explicar, ao máximo, as classificações e restrições. Nem uma única
vez pede ao leitor para aceitar suas idéias sem evidência ou argumento, porém a sua própria
maneira

3 E. G. Borlng, op. cst., 500.

Psicologias do Século XX

113

112

Edna Heidbreder

de ordenar os fatos, de acumular uma explicação sobre outra e um argumento após outro, é
didática. Não resta dúvida que muito do cuidado meticuloso que caracteriza a explanação de
Titchener é devido a seu próprio amor pela clareza e explicação, e a necessidade premente de
integridade em sua própria natureza. Chega-se a suspeitar, também, que uma parte disto se
origina de uma apreciação sensível fora do comum de todas as objeções que possam ser
argumentadas contra a sua atitude; que suas convicções não apareceram com a tranqüilidade
inalterável que caracteriza os temperamentos menos críticos; e que suas conclusões, quando
estabelecidas, eram declaradas do modo mais claro e mantidas da maneira mais firme porque
não eram obtidas sem resistências internas. Porém, existe além disso mais de uma insinuação
do seu estilo normativo de ensinar. Por fim, o modo característico de Titchener apresentar um
assunto é o de expor as suas próprias operações intelectuais a esse respeito; implicando isto
em que o leitor deverá observar de perto, e produzir a melhor reprodução que puder. Em
dissertações dedicadas aos seus colegas de profissão e para auditórios possuidores de algum
conhecimento técnico psicológico, ele é menos mestre-escola, mas com a mesma autoridade.
Mesmo neste caso - nas duas séries de aulas publicadas sob o título de Experimental
Psychology of the Higher Thought Processes e Psychology of Feeling and Attention, por
exemplo, - realmente não pede ao público para tratar do assunto junto com ele; examina o
terreno, organiza os fatos e aponta o caminho a seguir.

E o sistema em si? E a psicologia que era o motivo para todo este impressionante dispositivo, o
objeto de toda esta exposição cuidadosa e defesa vigorosa? É uma psicologia que não possui
um nome aceito por todos, mas que às vezes é chamada de estruturalismo, outras de
introspeccionismo, às vezes de existencialismo, 5e ocasionalmente de titchenerismo. Exposta
em sua forma mais completa e sistemática no livro Text-book of Psychology de Titchener, é a
psicologia que, nos Estados Unidos, principalmente após o aparecimento do behaviorismo, tem
sido geralmente carac4 Devido à importância que atribuí à introspecção como método de

estudo.

5 "Existencialismo", como "estruturalismo", é uma palavra usada para diferençar a psicologia


de Tltchener das Outras que, como o funcionalismo e a psicologia do ato, tentam estudar os
processos mentais como atos e funções, e não simplesmente como conteúdos conscientes ou
realidades existenciais.

terizada como "tradicional" e "reacionária". Tem sido às vezes declarada animista, porque trata
com a mente. Tem sido também chamada de metafísica em contraste com a científica,
aparentemente devido ao curioso conjunto de pressupostos de que o mental é sinônimo de
sobrenatural, de que a diferença entre a ciência e a metafísica é a mesma que entre a matéria
e a mente, e ainda de que qualquer investigação que se dirija aos processos mentais está ipso
facto fora do campo da ciência natural.

Seria difícil, entretanto, encontrar outra atitude que com mais certeza empanasse o significado
de todo o movimento do qual a psicologia de Titchener faz parte, ou que servisse melhor como
exemplo de falácia histórica. Nada poderia ser mais enganoso do que aplicar a palavra "não
científica", como é usada por um certo grupo de psicólogos hoje em dia, a uma escola que há
meio século atrás ajudou a combater e a vencer a batalha travada pela independência da
psicologia em relação à metafísica. A questão toda com a nova psicologia estava em ser esta um
prolongamento do método científico dentro de um novo setor. Quando se recorda que no
século XIX mesmo as ciências físicas eram relativamente novas, e que a fisiologia era
considerada uma aventura ousada pela aplicação dos princípios científicos à matéria viva, e
que os processos mentais, tais como a sensação e a percepção, gozavam de bom conceito nos
laboratórios de fisiologia, torna-se evidente que logicamente o passo seguinte seria estender o
método científico aos processos mentais - tratá-los como fatos naturais em um mundo natural e
submetê-los ao tipo de pesquisa experimental que caracterizava as outras matérias científicas.
A nova psicologia estava baseada na fé extrema do método científico, a saber, em seu poder de
revelar as leis dos processos mentais como ela os havia descoberto e os da natureza física que
ainda estava descobrindo. Foi por esse motivo que a nova psicologia se considerava como o
impulso mais corajoso e de maior alcance do movimento científico e por ter-se tornado
consciente, mesmo autoconscientemente científica. Ao definir o seu objeto, ao determinar os
seus métodos, e ao estabelecer os seus princípios, seus seguidores mantinham sempre
presente a pergunta: Isto é uma ciência? A tônica do empreendimento todo era a tentativa de
considerar o material psicológico da maneira como a ciência trata normalmente os seus
elementos. Deixar de reconhecer esta tentativa como básica para o esforço todo é perder de
vista o significado mais profundo do movimento.

Psicologias do Sáculo XX

115
"4

Edna Hekibrede'r

A tarefa inicial de Titchener, ao apresentar o seu sistema, 6 era demonstrar que o objeto da
psicologia era merecedor de estudo científico. Talvez a maneira mais fácil de compreender o
seu significado é dizer que ele encara a psicologia como a ciência da "consciência" ou "mente",
e então se apressa em acrescentar que não se deve ver nessas palavras os sentidos que o senso
comum provavelmente lhes atribui. Titchener, sem hesitação, garante ao leitor que as antigas
noções sobre a mente são impróprias para uso científico. O que a ciência chama de consciência
e mente pode ser melhor compreendido mostrando-se como o objeto da psicologia difere do da
física.

Toda ciência, explica Titchener, tem o seu ponto de partida na experiência. Basicamente, o
objeto da física e o da psicologia são idênticos. As duas ciências diferem, não porque tratam de
assuntos diferentes, mas porque encaram o seu objeto comum, o mundo da experiência, sob
pontos de vista diferentes. A física estuda o mundo sem considerar o homem. A psicologia
estuda o mundo em relação ao indivíduo que o experimenta. O objeto da física é a experiência
independente da pessoa que percebe; o da psicologia é aquela que depende de quem a sente.
Na física, por exemplo, o espaço, o tempo e a massa são sempre os mesmos; o centímetro, o
segundo e o grama são unidades constantes, não afetadas pela pessoa que as maneja. Na
psicologia, entretanto, um espaço pode ser grande ou pequeno, uma hora longa ou curta, um
peso leve ou pesado, de acordo com as condições que afetam a pessoa que os observa. O
mesmo é verdade em relação ao calor, ao som e à luz. Psicologicamente, eles variam de
acordo com os fatores que afetam a pessoa que os experimenta; porém, fisicamente, o calor é
sempre movimento molecular, o som um movimento ondulatório do ar, a luz um movimento
ondulatório no éter. No mundo da física, não existem cores, nem sons, nem sabores, odores e
"sentidos", porque tudo isso depende da pessoa que os experimenta. Do ponto de vista da
psicologia, um certo detalhe no mundo da experiência é vermelho; do ponto de vista da f ísica,
é uma vibração do éter de um determinado comprimento de onda. O mesmo acontece com
todo o material da experiência. Concebida como independente da pessoa que a sente, é o tema
da física; em caso contrário, é assunto da

- 6 O seguinte relato baseia-se principalmente no Text-book e no livro A Beginner's Psychology


e nio pretende levar em conta idéias posteriores, nRO ncluidas formalmente no sistema.

psicologia. Daí a definição textual de Titchener do objeto da psicologia como "experiência


dependente de um sujeito experienciante ", ou o que dá na mesma, "o mundo com o homem
dentro dele". Esta experiência, ou este mundo, devemos observar de modo especial, é
formada de conteúdos que podem ser observados e descritos.

Titchener explica ainda que o "sujeito experienciante" significa o corpo vivo e que, para as
finalidades do psicólogo, este corpo vivo pode ser reduzido ao "sistema nervoso e seus anexos".
Faz também distinção entre a mente e a consciência. A mente refere-se "à soma total dos
processos mentais que ocorrem durante a vida de um indivíduo"; a consciência, "à soma total
dos processos mentais que ocorrem agora, em algum dado momento". Porém, a mente e
a consciência devem ambas ser consideradas como experiência humana, dependentes de um
sistema nervoso, e podendo ser descritas em função dos fatos observados.

Ao definir seu objeto em função do ponto de vista, Titchener estava seguindo Wundt; ao
defini-lo como "uma experiência que depende de um sujeito experienciante" estava
introduzindo modificações que eram provenientes de seu tempo de estudante em Leipzig.
Wundt havia também feito distinção entre o objeto da psicologia e o da física somente após
haver insistido que ambos provêm da mesma fonte, a experiência humana, e que ambos estão
sujeitos à observação humana. A diferenciação de Wundt, entretanto, era baseada na diferença
entre a experiência imediata e mediata. Um indivíduo fica direta e imediatamente consciente
de sua sensação de vermelho; as ondas do éter que o explicam, consideradas como objetos no
mundo físico, são construídas baseadas na sensação e são percebidas somente através dela. A
sensação do vermelho que é percebida imediatamente, pertence à psicologia; as ondas do éter,
que são percebidas mediatamente, pertencem à física. Wundt não aprofunda a questão que
algumas vezes surgiu sobre este assunto, qual seja a de que o conhecimento psicológico é,
portanto, mais seguro e mais correto, menos sujeito aos deslizes de conclusão, do que o
conhecimento mediato da física. Sua principal finalidade era a de mostrar que a psicologia,
assim como a física ou qualquer outra ciência natural, trata de um
assunto que é dado pela experiência, e seu principal interesse era o de justificar a afirmação de
que a psicologia é uma ciência

Experiencing person, no original. Compreende-se como pessoa sujeita à experiéncia.

116

Edna Heidbreder

Psicologias do Século XX

117

natural. Porém, alguns discípulos de Wundt, tão completamente convencidos quanto ele, da
possibilidade de uma psicologia científica, escolheram outra explicação. Külpe, influenciado
pelas obras de Mach e Avenarius, acreditava que a diferenciação entre a física e a psicologia
podia ser feita melhor em função da experiência como dependente ou independente de um
sistema nervoso; e foi esta idéia que Titchener aceitou. É interessante observar que ambas as
teorias exprimem a mesma convicção básica de que a consciência e os processos mentais
podem ser objetos de observação científica. Em seus princípios básicos, ambas são tentativas
para mostrar que a psicologia é uma ciência da experiência e, como tal, diferente da
metafísica.

Mas para Titchener, não bastava manter o objeto da psicologia livre da metafísica; era
necessário também conservá-lo isento do senso comum. Considerava francamente as idéias de
mente e consciência dadas pelo senso comum como inimigas, talvez as mais poderosas inimigas
que a psicologia científica poderia enfrentar, O senso comum, explica ele, considera a mente
como "um boneco imaterial vivendo dentro da cabeça", uma espécie de homem
interno fantasmagórico que dirige as ações do homem visível exterior, e que, por sua vez, é
afetaddpelas experiências sofridas pelo homem externo. Isto, insiste Titchener, é o que
significa a idéia da mente dada pelo senso comum, quando apresentada abertamente, e ele
nunca se cansou de ridicularizar as inconsistências e absurdos dessa idéia. Contra a concepção
da mente como boneco, concepção esta completamente adversa, em sua opinião, a qualquer
compreensão verdadeira da psicologia, nunca cessou de combater.

E à medida que se esforçava para conservar o objeto da psicologia isento da metafísica e do


senso comum, assim também o fez em relação ao interesse utilitário. Titchener foi abertamente
contra o ponto de vista de que a psicologia, ao sondar as profundezas do coração humano,
existe para trazer auxílio e conforto às "almas doentes". A função da psicologia, assevera ele,
não é diminuir o sofrimento ou realizar melhorias, mas sim descobrir fatos sobre o seu objeto e
compreendê-los. Para Titchener, a ciência nada tem a ver com valores. Para ela, o ego
combativo do homem concebido

7 Para evitar confusão, deveria talvez ser mencionado nesta altura que Titchener não seguiu
Külpe nas idéias que este último desenvolveu mais tarde no emprego da introspecção. É
provável que Titchener não tenha aceitado a interpretação dada por Külpe, baseado em seus
estudos introspectivos.

da maneira como o senso comum o faz, valendo-se das simpatias e interesses humanos,
simplesmente não existe. Da mesma forma impessoal e imparcial pela qual um físico estuda
um bloco descendo por um plano inclinado, o psicólogo estuda os processos mentais. É
verdade que os resultados da ciência podem ser utilizados na vida diária e podem assim
adquirir importância aos olhos do senso comum; porém, para a ciência como tal, os seus
valores são irrelevantes. Ninguém deve estar menos preocupado com interesses pessoais ou
particulares do que um psicólogo treinado que esteja tentando descobrir exatamente como
uma sensação difere de outra em qualidade, ou de que é feito um suposto pensamento sem
imagem.

De todos os pontos de vista, realmente. Titchener era a favor da psicologia pura em lugar da
aplicada. Assim como Wundt, ele estava interessado na "mente humana em geral" e não em
mentes ou diferenças individuais, que são assuntos de inegável importância nos afazeres
práticos da vida diária. É verdade que tanto Wundt como Titchener reconheceram
explicitamente que a psicologia pode incluir o estudo dos animais, das crianças, das sociedades e
dos loucos, porém, para ambos, os pontos de partida e final de referência eram sempre a
consciência do homem adulto, da qual o psicólogo tem ime-liata consciência. A psicologia pode
reunir seu material a partir de muitas fontes, porém o seu alvo é compreender a mente humana
em geral; compreender a mente, insistiu sempre Titchener, e não alterá-la ou
melhorá-la, ou tentar utilizá-la de qualquer forma. E isto é sintomático tanto de seus gostos
quanto de sua ascendência, pois num país que se inclina mais fortemente a valorizar o
conhecimento menos pelo seu valor intrínseco do que pelo que este pode realizar, Titchener
defendeu a idéia de que o único trabalho próprio ou adequado à verdadeira ciência é o estudo
desinteressado de sua matéria.

Para Titchener, pois, o objeto da psicologia é a consciência; não como o senso comum a
concebe, não como um boneco animando o corpo, nem como a substância de que são feitos
os espíritos, mas sim como "experiência que depende do organismo experienciante". Tal
experiência consiste de processos observáveis no mundo da natureza, livre dos interesses
humanos e separada das dificuldades práticas da vida diária. É algo que pode ser estudado da
mesma forma impessoal que a ciência adota comumente em relação ao seu material. Não está
ligada de nenhum modo ao sorenatural.

118

Edna Heidbreder Psicologia$ do Século XX

119

Nada poderia ser mais isento da nódoa do animismo do que a consciência que Titchener
inspeciona e analisa.

A definição do objeto como "experiência que depende de um sujeito experienciante" foi


acompanhada pela doutrina do paralelismo psicofísico, que Titchener extraiu especificamente
de Wundt. Realmente Titchener não estava muito interessado no problema da mente-corpo
pelo seu valor intrínseco; mas havendo feito uma distinção entre o mental e o físico, encontrou
nesta teoria a forma mais conveniente de conceber a relação entre eles. De acordo com esta
concepção, os processos mentais e físicos fluem lado a lado como correntes paralelas. Uma não
é a causa da outra, não há interação entre elas, porém a mudança em uma delas é sempre
seguida por uma mudança na outra. É possível, portanto, referir uma à outra; além disso, como
salienta Titchener, é possível "explicar" uma pela outra - isto é, explicar os processos mentais
colocando-os em relação aos fatos do mundo físico, que formam um sistema coerente e
fechado. Titchener aceita, portanto, o paralelismo psicofísico como um esquema que lhe
permite tomar conhecimento dos elementos tanto mentais quanto físicos, e assim fazer justiça
a todos os fatos da experiência com o mínimo de atenção à metafísica. Ao que parece, este era
o seu único interesse no assunto. Suas emoções não estavam envolvidas no problema pelo seu
valor intrínseco, como estão aquelas de alguns de seus colegas psicólogos. Da maneira em que
o usava, o paralelismo psicofísico era um artifício explanatório adequado

- e nada mais - para que um homem, suficientemente fiel aos dados da experiência, insistisse
em fazer inclusão dos fatos mentais e físicos e fosse suficientemente cônscio das reflexões
racionais para sentir-se desconcertado sem uma explicação sistemática. O fato de que ele não
argumentava sobre isto e de que pretendia apenas servir-se dela pela sua utilidade mostra
quão definidamente a psicologia se havia separado de sua base metafísica. Ele é quase
perfuntório na discussão deste tópico. É óbvio que achou todo este problema de muito menor
interesse do que as questões exclusivamente psicológicas, tal como se as imagens e as
sensações fossem diferentes em sua estrutura, ou existissem outros processos afetivos
primários além do prazer e do desprazer.

8 Aliás, Titchener aproveitou-se da doutrina de Wundt um tanto sem critica, aparentemente


sem considerar que esta concepção - que Wundt tinha apresentado em relação a uma
diferenciação entre experinc1a mediata e imediata - não poderia se aplicar sem alteração à
distinção entre as exnsrlências oue deoendem ou nao de quem as sente.

A questão dos métodos que a psicologia pode legitimamente empregar é um dos pontos
importantes do sistema de Titchener; e uma vez que o sistema é, às vezes, chamado de
introspeccionismo, basta dizer sem mais delongas que o método típico é a introspecção.
Porém, tal proceder seria tão errôneo como dizer sem comentar que a matéria estudada é a
colsciência. Porque neste caso novamente Titchener acha necessário indicar com grande
exatidão o que a ciência entende, e o que não, com essa palavra.

O método comum a toda ciência, observa Titchener, é a observação, e a introspecção é uma


forma de observação. A introspecção, ou observação dos conteúdos da consciência, pode ser
diferençada da inspeção ou da observação do mundo físico; mas, basicamente, os dois
métodos são iguais. A introspecção, sustenta Titchener do princípio ao fim, é uma forma de
observaão.

A introspecção, além disso, é uma espécie muito especial de observação. Por algum tempo,
muito se ouviu falar, na nova ciência, sobre o "introspeccionismo treinado". À medida que a
psicologia se tornou consciente de sua posição como ciência, tendeu fortemente a dar ênfase
à introspecção, de modo que, ao substituir a especulação pela observação, separou-se da
psicologia racional do passado pré-científico. Ao que parece, alguns dos psicólogos da época se
deliciaram com a posse de um método, técnico e esotérico, que distinguia a psicologia das
outras ciências, sem todavia excluí-la da ilustre comunidade científica. Insistiram, portanto,
que a introspecção não pode ser considerada de modo superficial. Salientaram a dificuldade em
observar os processos conscientes, os quais não se detêm para serem observados, que estão tão
emaranhados com outros processos conscientes que se torna difícil separar um deles para
exame, e se de fato devem ser vistos como na realidade são, exigem uma atitude que vai de
encontro aos hábitos de toda uma existência. Pois os hábitos comuns de observação
determinam que vejamos os objetos e fatos do senso comum e da vida diária, e não os
conteúdos da consciência. Ver a coisa em si, em lugar do conteúdo consciente, foi
posteriormente chamado de "erro de estímulo". Quando um indivíduo observa ingenuamente,
de acordo com o senso comum, vê, por exemplo, uma mesa; porém, se um introspeccionista
vê a mesa ao fazer uma observação científica da percepção que ele tem da mesma, estará
cometendo o erro de estímulo. Estará respondendo ao estrrnulo ao invés do processo cons

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Edna Heidbreder

Psicologiaa do Século XX

123

com a empírica, e assim mantiveram a distinção que remonta à diferença entre Wundt e os
psicólogos do ato. O destaque dado por Titchener ao método experimental dispensa
comentários quando se recorda que nos Estados Unidos a própria expressão "psicologia
experimental" passou a significar, na mente de muitos, o tipo de psicologia que Titchener
aprovara.

Com seu objeto definido, estabelecida a relação mente-

-corpo, entendidos os métodos, pode ser apresentado o problema da psicologia na forma em


que era visto por Titchener, de um modo definitivo. Toda ciência, diz ele, estabelece três
questões em relação a seu objeto: "O quê?", "Como?", e "Por quê?". A pergunta "O quê?" é
respondida pela análise, reduzindo-se o material aos seus elementos e descobrindo
exatamente o que existe neles. A pergunta "Como?" é respondida pela síntese, mostrando
como os elementos estão dispostos e combinados, e descobrindo as leis que regem as suas
séries e combinações. A pergunta "Por quê?" investiga a causa. As duas primeiras são
respondidas por meio de descrição; a terceira procura uma explicação.

De acordo com Titchener, a explicação em psicologia é feita em função do sistema nervoso.


Mesmo no caso de termos uma descrição que respondesse de modo completo às perguntas "O
quê?" e "Como?", nosso conhecimento seria incompleto até que fosse descoberta a causa do
fenômeno em questão. Porém, como pode ser dado esse passo final em psicologia? Um estado
mental não pode ser considerado como a causa de outro somente porque uma mudança no
ambiente físico pode ser acompanhada por conteúdos conscientes completamente novos.
"Quando visito Atenas ou Roma pela primeira vez," escreve Titchener, "recebo impressões que
são devidas aos estímulos atuais e não à consciência anterior". A impressão consciente não
pode também ser provocada por processos no sistema nervoso, ou por outros fatos no mundo
físico; a doutrina do paralelismo psicofísico exclui esta possibilidade. Ainda mais, Titchener
afirma que, embora o sistema nervoso não seja a causa da mente, pode ser utilizado para
explicá-la. "Ele explica a mente assim como um mapa de um país esclarece os vislumbres
fragmentários de colinas, rios e cidades que captamos em nossa viagem através dele." Pois os
processos mentais não constituem a cadeia ininterrupta de fatos que a explicação causal exige.
A sua continuidade é interrompida por fatos, tais como o sono, o coma e os lapsos da
memória. Porém, o mun d

físico, precisamente por ser independente do indivíduo que o percebe, não contém tais
lacunas e rupturas. Devido a isso e também porque as correntes mental e física fluem paralelas
uma à outra - torna-se possível observar quais os fatos físicos que normalmente acompanham
determinados processos mentais e assim atribuir a cada processo mental um lugar definido em
uma seqüência uniforme e contínua. É nesse sentido, mas somente nele, que a menção do
corpo esclarece os fatos mentais.

É importante observar que este método de explicação não significa que o sistema nervoso seja
indispensável à consciência ou que seja de qualquer forma mais real do que esta. Titchener
esclarece que o conhecimento do sistema nervoso não é em si psicologia; que nada acrescenta
aos elementos da psicologia, que são os conteúdos da consciência aberta à introspecção. A
psicologia, de fato, busca suas explicações fora do mundo de seu objeto próprio; porém, assim o
faz não porque o mundo físico seja mais verdadeiro ou mais fundamental, mas porque é mais
contínuo e mais intato do que o mundo revelado pela introspecção.

Então, este é o fundamento do sistema de Titchener: o objeto é a consciência; a relação


mente-corpo é o paralelismo; o método característico é a introspecção; e a questão é
descobrir o "O quê?", o "Como?" e o "Por quê?" de seus elementos. A tarefa seguinte é reduzir
o material aos seus elementos mais simples.

Obviamente, a tarefa é de tremenda importância, pois os seus elementos são o próprio


material de que é feita a consciência. É também um empreendimento de grande dificuldade e
delicadeza, porque a psicologa é incompleta e a escolha importante deve ser feita baseada em
conhecimento parcial. Deve ser feita, não obstante, e baseada na evidência disponível;
Titchener opta por três processos elementares:

sensação, afecção e imagem. As sensações são definidas como sendo os elementos típicos das
percepções; verificam-se nas visões, nos sons, nos odores, nos paladares, nas "sensações"
musculares e do tato, e em outras semelhantes observações dos objetos físicos reais. As
imagens são os elementos característicos das idéias; aparecem nos processos mentais que
retratam, ou de certa forma representam, experiências não presentes atualmente, tais como as
lembranças do passado e as concepções do futuro. As afecções são os elementos
característicos da emoção; acham-se em experiências, tais como o amor e o ódio, na alegria e
tristeza. Titchener

Pascologias do ScuZo XX

125

124

Edna Heidbreder

não está completamente seguro de que a sensação e a imagem pertençam a classes diferentes.
Chega a acreditar que a afecção tem muita semelhança com a sensação, o bastante para dar a
impressão de terem um "ascendente mental comum". Porém, em sentido global, prefere
encará-las separadamente e reconhecer três tipos de processos elementares - sensação,
imagem e sentimento.

Os elementos, na qualidade de processos mais simples a que a consciência pode ser reduzida,
são absolutamente simples, do ponto de vista da psicologia. Entretanto, possuem atributos. As
sensações e as imagens têm sempre pelo menos quatro atributos: qualidade, intensidade,
duração e clareza. A afecção tem os três primeiros, porém não possui o atributo de clareza.

A qualidade é definida como o atributo que distingue os processos elementares entre si. O frio,
o azul, o sal e o si bemol são exemplos. A intensidade é o atributo que coloca a percepção de
uma determinada qualidade em uma escala que vai do mais alto ao mais baixo grau de seu
tipo característico, o que torna possível dizer que uma sensação é mais forte ou mais fraca,
mais clara ou mais confusa, mais intensa ou mais débil do que outra. A duração é o atributo
que dá a um processo sua posição característica dentro do tempo

- a sua "ascensão, seu ponto de equilíbrio e seu declínio". O atributo de clareza determina o
lugar de um dado processo na consciência; se está próximo ou afastado do fato principal. Se for
claro, o processo predomina e é notório, como no caso dos sons que alguém ouve atentamente;
em caso contrário, desaparece em segundo plano, como acontece com os ruídos desconexos
qüe mal percebemos quando estamos absortos em uma tarefa interessante. A afecção,
entretanto, carece de clareza. É impossível fixarmo-nos diretamente sobre o prazer e o
desprazer; quando tentamos fazer isto, a própria qualidade da afecção desaparece. O prazer e o
desprazer são sentidos mais de perto quando atendemos às sensa'ções e às imagens com as
quais as próprias qualidades da afecção estão associadas.
Estes atributos, entretanto, não constituem uma lista exaustiva. Certos processos possuem
seus atributos próprios. A visão e o tato, por exemplo, possuem o atributo da extensão; estão
espalhados no espaço. Além disso, existem "atributos de segunda classe" formados pela
junção do dois ou mais atributos. Um desses é a "insistência" que Titchener encontra na
"penetrabilidade dos odores, tais como o da

cânfora e o da naftalina; a premência ou incômodo de algumas dores ou do gosto amargo; a


agudeza e o resplendor de certas luzes, cores e sons". A insistência, entretanto, não é
considerada por ele como um novo atributo primário, mas sim uma combinação de dois ou
mais atributos primários - talvez a clareza e a qualidade, ou clareza, qualidade e intensidade
juntas.

Assim, torna-se evidente que os elementos com seus atributos são as unidades com as quais é
formada toda a estrutura psíquica. Os elementos, entretanto, não são unidades estáticas. São
processos; sua "essência é ser processo" (processence). Formam um mosaico, porém em
movimento, no qual são formados padrões intricados e fugazes. E contudo, no meio de toda
essa complexidade, existe um princípio simples de organização. Tudo que sucede na consciência
é redutível a três espécies de elementos e suas combinações. Evidentemente, uma
compreensão dos diferentes tipos de ele-. mentos torna-se o próximo passo no sentido de se
compreender a psicologia.

A maior parte do Text-book é dedicada a essa tarefa. As sensações são consideradas em


primeiro lugar e tratadas de modo exaustivo porque constituem um dos setores mais estudados
da nova psicologia da atualidade. Cada categoria é estudada por sua vez - a visual, a auditiva, a
olfativa, a gustativa, a cutânea, a cinestésica, a orgânica; e para cada uma delas o plano de
estudo é o mesmo. O método vai normalmente da descrição até a explicação. Em primeiro
lugar, são analisadas e descritas as próprias qualidades senso- riais; e depois, através de uma
explicação, as percepções são relacionadas com seus correspondentes fisiológicos. Como um
meio de avaliar a psicologia ortodoxa de sua época, estes capítulos do Text-book são
provavelmente sem igual. Pois neles existem debates sobre a pirâmide de cor e o lápis sonoro
de pressões que são "vivas" ou "trêmulas" ou "granulares"; de misturas de paladar e visão
crepuscular; de partes frias e quentes do corpo e da dor punctiforme. Neles se faz referência
aos aparelhos clássicos - misturadores de cor e moldes de adaptação, diapasão e caixas de
ressonância, olfatômetros, variômetros, perímetros e apitos de Galton. Neles se encontram
também as teorias atuais sobre a visão, audição e outras formas de sensação, com relatos
descritivos das estruturas em questão. A lei de Weber está incluída no capítulo sobre
"Intensidade da Sensação", onde é interessante encontrar-se, sob o tópico "Medição Mental",
uma referência

126

Edna Heidbreder Pawojogjczs do SécuZo XX

127

sobre assuntos, tais como estímulos terminal e limiar e diferenças mínimas perceptíveis, ao
invés dos Q. 1. (quociente intelectual) e I.M. (idade mental) que a expressão atualmente
sugere. As referências para leituras adicionais no fim dos capítulos são o ponto mais típico
deste livro. Cheio de títulos em alemão e com os grandes nomes da época, nos trazem à
memória de modo muito claro os dias produtivos, laboriosos e cheios de esperança, quando a
psicologia estava se impondo como ciência independente.

Pouco há que dizer sobre a imagem. No Text-book, é tratada num só parágrafo reduzido. A sua
grande semelhança com a sensação é aceita e mesmo ressaltada, porém sua "diferença em
contextura" - o fato de ser "mais tênue, vaporosa e transparente" - constitui a base para o seu
reconhecimento como um processo elementar diferente daquela.

A afecção é tratada em maior extensão do que a imagem, porém não tanto quanto a sensação.
Os processos da afecção representam um dos campos mais confusos e controvertidos em toda
a psicologia, e ninguém estava mais a par do que Titchener das dificuldades do assunto.
Estabeleceu, entretanto, sua posição com clareza típica. "A afecção", insistia sempre, "não é
sensação". Difere dela em parte porque lhe falta o atributo de clareza, e também porque suas
duas qualidades básicas, o prazer e o desprazer, não são somente diferentes uma da outra,
como também são opostas; são "incompatíveis" na consciência, ao contrário das sensações de
vermelho e azul, por exemplo. As qualidades elementares da afecção são o prazer e o
desprazer, e são as únicas. Titchener tinha essa opinião, contrária à teoria tridimensional dos
sentimentos de Wundt, pela qual "o sentimento movimenta-se primeiro entre os pólos opostos
do prazer e do desprazer; em segundo, entre os pólos opostos do excitamento e da depressão;
em terceiro, entre a tensão e o relaxamento". Após uma consideração detalhada desta teoria,
Titchener rejeitou-a sob a alegação de que não está construída de forma lógica e que não é
apoiada pela evidência dos fatos. A idéia de Titchener sobre a afecção levou-o, também, a
rejeitar a teoria das emoções de James-Lange, que diz ser a emoção a soma total das sensações
estabelecida pela agitação corporal que se origina em certas situações excitantes. A emoção
reduz-se, portanto, à sensação, principalmente à orgânica. Embora Titchener admitisse que a
sensação orgânica está presente na emoção, que é uma parte importante da experiência
emocional em seu todo, não acredi L

tava ser possível desprezar o elemento sentimental. A sensação orgânica, dizia, é simplesmente
orgânica e muito diferente da afecção em si. Não pode ser responsável pelo prazer e desprazer
em si, e estas são as qualidades que dão o seu tom característico à experiência emocional. Os
processos da afecção em si não são redutíveis a nada mais. O prazer e o desprazer são
elementos conscientes, relacionados com as sensações e as imagens.

A partir desses elementos - sensação, imagem e afecção - forma-se toda a estrutura da vida
psíquica; e nesta idéia está incluído o plano geral, o esquema arquitetônico básico do sistema
como um todo. O próprio esquema é simples ao extremo - isto é, em sua concepção geral; os
detalhes concretos são muitas vezes de enorme complexidade. A afirmação básica é a de que
de alguma forma os estados de consciência mais complexos são sempre formados a partir de
processos elementares, isto é, que as diferentes combinações dos elementos, reunidos em
diversos graus de intimidade, constituem experiências conscientes, tais como a percepção, a
imaginação, a emoção e o pensamento. Às vezes, as combinações são muito estreitas, como
acontece na fusão da nota fundamental e os sobretons em um som musical; outras vezes, as
ligações são menos íntimas, como na percepção de uma melodia que é um padrão, ao mesmo
tempo qualitativo e temporal; e, às vezes, a associação é muito fraca, como na lembrança do
nome de uma melodia que está sendo executada. Porém, os estados mais complexos são
sempre, até certo ponto, composições de elementos; e a tarefa da psicologia é de mostrar
como os processos mentais mais elevados podem ser assim explicados.

No limiar desta tarefa, encontra-se o problema da atenção. O modo de Titchener tratar este
problema é bastante característico, revelando distintamente os traços "estruturais" de sua
psicologia. No caso da atenção, mais do que em qualquer outro processo mental, parece haver
algo realmente em ação, daí a origem do "poder da atenção" da psicologia popular, e a
"faculdade da atenção" da psicologia pré-científica. Porém, na psicologia de Titchener não há
lugar para "poderes" e "faculdades" nem, por esse motivo, para "ações" e "funções" das escolas
rivais da época. Em suas mãos, a própria atenção torna-se uma questão de conteúdo; e a
introspecção é consultada de modo natural, a fim de descobrir a sua natureza. A consciência
atenta típica, na sua opinião, tem como traço característico um arranjo de conteúdos cons

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Edna Heidbreder

Pstcologiczs do Século XX

129

cientes de tal modo que os observados estão em primeiro plano. No estado de atenção, a
consciência admite um foco e urna margem, sendo a diferença essencial entre ambos uma
questão de clareza. A atenção é, pois, essencialmente clareza, e referindo-se a um atributo da
sensação e da imagem, Titchener é capaz de descrever a atenção sem recorrer a "forças" e
"ações", sem precisar de nada que não esteja dado nos elementos e seus atributos, e assim
descrevê-la toda como um conteúdo. Em resumo, a atenção é uma padronização da
consciência. Esta idéia remonta ao conceito de apercepção de Wundt. De acordo com ele, a
consciência não é disposta de modo uniforme sobre todo o seu campo. Existe um foco, no qual
os processos são apercebidos, dentro de um campo total que inclui o alcance integral da
consciência. É este o padrão wundtiano, esta disposição em foco e margem, que Titchener
adota para explicar a atenção. Quanto à sua natureza exata, ele não está inteiramente certo,
mas não duvida que seja um padrão. De um modo geral, tende a acreditar que o padrão tem
dois níveis, com uma diferença bem def inida entre o nível de clareza e o de obscuridade.
Considera a possibilidade de haver um obscurecimento gradual do foco para a margem, mas em
seu todo apóia aquelia que tem dois níveis principais e sugere que onde houver mais graus de
clareza, trata-se de diferenças existentes entre um dos dois níveis principais, "ranhuras" nas
suas superfícies e nada mais. Do ponto de vista do sistema em seu todo, entretanto, o ponto
importante é o reconhecimento da atenção como um arranjo - como conteúdo e clareza - sem
recorrer a nada que os elementos não possam suprir; isto é, sem referência a nada que não seja
"estrutural". Esse ponto é significativo porque a atenção, que mais do que qualquer outro
processo mental parece fazer realmente alguma coisa, tem grande probabilidade de escapar
dos limites do conteúdo.
Com a mesma consistência, Titchener trata de outros processos mentais. O problema difícil do
significado, por exemplo, ele reduz a uma questão de contexto. Psicologicamente, o significado
de um processo mental é a reunião de processos na qual estes permanecem; nada mais do
que isso. Por exemplo, uma percepção significa perigo se ocorrer num contexto de sensações
cinestésicas que acompanham a tendência para fugir de processos orgânicos e emocionais que
caracterizam o medo. Assim o significado, como a atenção, pode ser descrito como conteúdo.
Assim pode ser também a emoção, que é um processo transitório, "iniciado de re pente"

"altamente complexo", "fortemente emocional", "insistentemente orgânico", e


"predeterminado" no sentido de se dirigir para um fim natural. A emoção, também, é um
padrão; realmente de máxima complexidade, e no qual o fator temporal é extremamente
importante, mas é, não obstante, um padrão de conteúdos conscientes. A própria ação, de
acordo com a psicologia, na forma em que é mostrada por ele em relação à "consciência da
ação" nas experiências clássicas, é uma questão de conteúdo consciente. Mesmo neste caso,
embora ele esteja tratando com um fato que muita gente tomaria de início por um movimento
manifesto, Titchener prossegue sem errar no sentido das experiências conscientes que
considera o âmago do processo. Nas primeiras experiências do tempo de reação, explica ele,
havia pouco interesse pelos aspectos psicológicos do problema. Mas, em sua opinião, a reação
simples, que é a ação reduzida à sua expressão mais simples, proporciona uma ótima
oportunidade para o estudo da consciência da ação. Nesta, ele encontra "uma fase preliminar
na qual as coisas importantes são cinestésicas e a idéia de fim ou resultado; a fase central, na
qual algum objeto é percebido em relação com a idéia de fim; e uma fase final, na qual a
percepção do resultado se destaca em um fundo de cinestesia, de sensações despertadas pelo
movimentà real". Assim, mesmo no estudo do tempo de reação, onde o estudo óbvio - e neste
caso, o estudo histórico real - é bem diverso, Titchener atacou o problema por meio da
introspecção e em função do conteúdo consciente.

Não há necessidade de mais exemplos. O tratamento é sempre o mesmo em sua essência. A


matéria de estudo da psicologia é a consciência; seu método típico é a introspecção; seus
fenômenos podem ser explicados em relação aos processos corporais, porém os conteúdos da
consciência em si são os principais. Esta afirmação é, naturalmente, muito simplificada e seria
totalmente falsa se desse a impressão de que Titchener era capaz de ignorar as coisas
complexas. Pois, devido à sua sensibilidade em face das dificuldades sutis que existem mesmo
nos problemas psicológicos mais simples, possuía algo da relutância de Wundt em fazer uma
declaração sem cercá-la de classificações. Porém, Titchener nunca permitiu que as classificações
empanassem a descrição principai; parece que se esforçou para tornar o assunto principal
compreensível em parte porque estava ciente das muitas razões que poderiam tê-lo
modificado. Como conseqüência, avesar dos parágrafos bem compostos que garantem o texto

130

Edna Heü1breder

Psicologuzs do Século XX

131
principal; apesar da cuidadosa explicação das razões pró e contra; apesar dos repetidos
lembretes de que a psicologia é incompleta, que não pode fazer afirmações em forma
dogmática, que suas conclusões devem estar prontas a ser modificadas pela evidência dos
fatos de que ela tanto necessita; a despeito de tudo isso, o plano geral é inconfundível. A
imperfeição da psicologia é admitida continuamente, mas não com a implicação de que o
projeto principal seria alterado. As experiências futuras preencherão as lacunas do
conhecimento e resolverão pontos controversos, porém o plano de ataque é conhecido. O
Text-book finaliza com uma nota confidencial. "O método experimental, tendo conquistado
todo o domínio da natureza e da vida, está impulsionando, para as maiores alturas da mente, o
próprio pensamento. Não é preciso ter o dom da profecia para predizer que a primeira metade
deste século marcará época na história da psicologia científica." E não é necessário ser
adivinho para suspeitar que, segundo Titchener, estes progressos que fazem época não
exigirão alterações profundas nas concepções básicas de seu sistema.

Isso se aplica mais ao que o sistema é. É importante observar, também, o que ele não é. Até o
fim, Titchener se absteve de consagrar ao trabalho, com os testes de inteligência, um
empreendimento que os psicólogos americanos, com seu interesse prático pelas diferenças
individuais, haviam prontamente adotado. A psicologia aplicada, outra empresa que os
psicólogos americanos estavam desenvolvendo com energia e entusiasmo, também ficou fora
de seu âmbito. E, ao que parece, Titchener nem ao menos cogitou em incluir na sua psicologia
geral, o que McDougall chamara de "fragmentos de psicologia anormal", materiais que estão
enconttando aceitação em muitos cursos de psicologia geral, e que exercem grande atração
sobre os jovens perturbados. Também se opunha à teoria das emoções de James-Lange, que
considerava a emoção, sem reconhecer um elemento emocional específico. Era, também,
inteiramente contrário ao movimento do pensamento sem imagem, que lançou dúvidas
quanto à interpretação do pensamento sob o ponto de vista das sensações, imagens e
conteúdos conscientes em geral, e que utilizou um método de introspecção 12 não ortodoxo,
para não dizer pior. E conclui-se que fez oposição às escolas

12 Já no fim de sua vida, Titchener demonstrou grande interesse pela fenomenologia, porém
não fez nenhuma declaração definida de mudança de opinião em relação a este assunto.

do funcionalismo e do behaviorismo, 13 que foram categoricamente dirigidas contra a sua


interpretação da psicologia. "Vejo menos possibilidade de progresso por meio de uma
revolução, do que pelo trabalho persistente sob o regime atual", declarou ao comentar os
novos trabalhos sobre os mais altos processos do pensamento, e este comentário é extensivo
à sua atitude em relação à psicologia no sentido global. Não via motivo para mudança nem
expansão radical; o seu sistema era "pequeno e certo, pequeno e conciso" ("right little, tight
little").

A psicologia de Titchener exerceu, de fato, a sua maior influência nos Estados Unidos, como
concepção bem definida e como atitude positiva. Era um método com forma e código
definidos. Pura, mas enérgica, desinteressada de propósitos, conscientemente exata,
sobressaía visivelmente como ponto de referência fixo e inconfundível no panorama
rapidamente cambiante da psicologia norte-americana.
Porém, apesar de toda a sua força e lealdade, Titchener não podia deter a marcha do tempo.
Novas psicologias, de vários graus de heterodoxia, surgiam em toda parte à sua volta. Em
Colúmbia, Cattell estimulava constantemente o estudo das diferenças individuais, e afirmava
abertamente que a maioria dos estudos realizados em seu laboratório poderiam dispensar a
colaboração do introspeccionista treinado. Thorndike, também em Colúmbia, fez experiências
com animais e escolares, preferindo reconhecidamente pesquisas em larga escala que tratam
de milhares de casos em lugar das observações minuciosas de alguns psicólogos treinados. Em
Chicago, desenvolveu-se um novo movimento conhecido como funcionalismo, uma escola que
tratava os processos mentais como funções dos organismos vivos. Para Titchener, tal idéia
sobre a psicologia significava um desvio cômodo na direção do senso comum, em contraste com
os modos de pensar científicos, uma fuga às exigências da psicologia rigorosamente
experimental, e um namoro perigoso com a teleologia; significava uma confusão entre a ciência
e a tecnologia, por um lado, e a filosofia, por outro. Considerava a mesma como o tipo de
psicologia representada por Brentano, um modo de pensar que se opunha geralmente à
verdadeira psi13 A posição de Titchener quanto ao funcionalismo pode ser encontrada em seu
artigo "Postulates of a Structural Psychology" PkUosoiical Review (1898). 7. 449-465. e em
"Structural and Functlonal PgycholOgy", ibid. (1899), 8, 290-297. Sua réplica à proclamação do
behaviorlsmo de Watson foi dada num trabalho intitulado 0n Psychology as the Behavlorist
Vlews It' ", Proceedings o! t1e Ameri.can Philosophtcal Bociety, 53, 1-17.

132

Edna Heidbreder Pswologias 1o Século XX

133

cologia científica de Wundt. O behaviorismo, também, surgiu e progrediu apesar de sua


declaração que o mesmo era logicamente sem importância para a psicologia e que, embora
pudesse fazer contribuições valiosas ao conhecimento dos mecanismos do corpo, não poderia
jamais suplantar a própria psicologia.

O trabalho dos que eram favoráveis ao "pensamento sem imagem" era especialmente
inquietante, porque neste caso havia homens, alguns dos quais educados na escola a que
pertencia, proclamando descobertas que faziam a psicologia da época parecer inadequada.
Külpe e seus discípulos na Alemanha, Binet na França, e Woodworth nos Estados Unidos
haviam, em separado e quase ao mesmo tempo, apresentado provas indicativas de que o
pensamento não é uma questão de imagens e sensações, como se havia pensado. Os seus
estudos, baseados no exame direto de vários processos do pensamento, mostravam que o
pensamento pode produzir-se, às vezes, sem qualquer conteúdo de imagem ou sensação
observável, e o que pode ser notado nessas ocasiões consiste quase sempre de atitudes ou
"estados de consciência" geralmente imprecisos e impossíveis de ser analisados e bem diversos
dos esperados "conteúdos" conscientes. Alguns autores sugeriram que devia ser incluído um
elemento do pensamento. Titchener não podia aceitar este ponto de vista. Acreditava que os
estados de consciência "não analisáveis" simplesmente não podiam ser analisados; e baseado
em suas próprias introspecções e em estudos feitos em seu laboratório, achava que estes
"estados de consciência", "sentimentos de relação" e "pensamentos sem imagem" eram, de
fato, complexos de sensações e imagens cinestésicas facilmente omitidas,
as quais representam as atitudes motoras na consciência. Dessa forma, incorporou esta
descoberta ao seu sistema, sem alterá-lo: o pensamento consciente, embora ainda continuasse
sendo uma questão dé imagens e sensações, continha faixas onde os conteúdos eram em
grande parte cinestésicos; reconheceu também "disposições motoras" e "tendências
determinantes" que não possuem acompanhamento consciente. Porém, embora Titchener
tenha assim, de certo modo, superado esta dificuldade, muitos psicólogos acreditavam que o
fato importante no movimento do pensamento sem imagem era o de que, mesmo no
pensamento, a atividade motora e as bases nervosas parecem ser de máxima importância, e
que a introspecção pode não dar as indicações mais apropriadas com relação ao que está
realmente acontecendo.

De qualquer maneira, a controvérsia do pensamento sem imagem revelou um desejo, mesmo


uma avidez, entre os psicólogos americanos no sentido de tentar métodos para estudar e
interpretar o seu material, que não eram rigorosamente ortodoxos.

Seja qual for o motivo, a influência de Titchener e aparentemente o próprio grau de seu
interesse em psicologia diminuíram durante a última década de sua vida. Istava nessa época
trabalhando em sua obra Prole gomena, um livro que, feito com a intenção d ser uma
exposição final dos princípios básicos de seu método, iria ser o seu magnum opus. Porém, o
trabalho permaneceu inacabado devido à sua morte, e os quatro capítulos terminados,
formando uma exposição ainda mais completa que as suas primeiras conclusões daquilo que
considerava como princípios fundamentais da psicologia, não contêm nada de novo. Era quase
como se a psicologia, como a concebia, fosse inadequada para manter capacidade de trabalho
do homem que havia labutado tão conscienciosamente a seu favor. Passou a estudar moedas
antigas e com honestidade típica tornou-se perito no assunto. Tendo-se dedicado a uma das
aventuras mais recentes do pensamento humano, passou os últimos anos de sua vida, embora
não fosse um velho, absorto com as relíquias de civilizações extintas.

Porém, sejam quais forem as oposições internas e externas por ele encontradas, Titchener
combateu-as a ponto de produzir um grande..volume de trabalho. Em diversas épocas de sua
carreira, escreveu quatro dos livros didáticos mais famosos de seu tempo, An Outline of
Psychology, Primer of Psychology, Text-book of Psychology e Beginner's Psychology. Destes, o
Text-book é de primordial importância porque encerra a apresentação mais bem elaborada de
seu método, em sentido global. O seu livro Expeimental Psychology: A Manual for Laboratory
Practice é geralmente considerado sua maior realização isolada. Compõe-se de quatro volumes,
dois sobre experiências qualitativas e dois sobre quantitativas, um manual para o aluno e outro
para o instrutor, em cada conjunto. Este trabalho, um monumento à erudição do seu autor, é
muitas vezes citado como uma espécie de evidência documentada a favor da existência real de
uma ciência psicológica experimental. O livro Psychology

14 Titchener faleceu a 3 de agosto de 1927, vitima de um tumor cerebral. porém não houve
indicação de qualquer diminuição em sua capacidade intelectual.

1J4

Ecina Heidbreder Psicologws do Século XX


135

of Feeling and Attention e o Experimental Psycholotjy of the HiQher Thought Processes expõem
a sua maneira característica, tanto conscienciosa quanto autoritária, de lidar com grandes
quantidades de provas interligadas de forma intricada a respeito de assuntos altamente
controvertidos. Além de seus livros, escreveu rtumerosos artigos, polêmicos ou não, e por meio
de sua influência sobre os estudantes e seus trabalhc(s, e rios debates sobre psicologia em geral,
desempenhou um papel preponderante na formação da psicologia nos Estados Unidos.

Não há dúvida de que o capítulo que Titchener escreveu sobre a psicologia norte-americana é
importante. Talvez a sua maior realização tenha sido submeter o método por ele representado a
um teste completo. Esta afirmação faz referência não somente à sua exposição sistemática
pessoal, mas também ao tipo geral de psicologia que seu método representava para aquela
psicologia que era "experimental" em sentido restrito, resultado de movimentos científicos
específicos que culminaram nos laboratórios alemães. Mesmo para Titchener, este tipo de
psicologia era a psicologia científica. Em sua essência, era uma tentativa para estudar, não pelas
indagações da filosofia, nem pelos instrumentos toscos do senso comum, mas sim pela
observação precisa e pela experiência, os fenômenos da consciência. Foi salientado no início
deste capítulo que este era quase de modo inevitável o passo seguinte que a ciência deveria dar.
Tendo ela revelado em primeiro lugar as peculiaridades da matéria inorgânica, depois dos
corpos vivos, iria agora revelar aquelas dos procesos mentais. E desde que essa probabilidade se
apresentou tão a propósito, era desejável que fosse sincera- mente testada. Ninguém poderia
melhor revelar as experiências da nova psicologia do que alguém que a aceitara com bastante fé
e a tratara o mais seriamente possível. Se a psicologia na forma em que Titchener a interpretava
não pudesse se manter nos Estados Unidos sob a liderança de uni homem com
sua habilidade; se, com o prestígio da prioridade e o de uma honrosa tradição acadêmica, ela
não se pudesse estabelecer como a base da futura psicologia e assimilar os futuros
desenvolvimentos - este próprio fato seria significativo. E ter revelado isto já não foi fácil. Se a
psicologia como Titchener a definia e dirigia nada mais tivesse feito que revelar suas próprias
deficiências, ao ampliar ao máximo suas forças e pretensões, ainda assim a tentativa teria
valido a pena. Haver mostrado por seu próprio exem plo

por meio de uma experiência completa, corajosa e definida, que a psicologia científica, como
fora concebida de início, era inadequada às exigências de seu material de estudo, já era
prestar honroso serviço a uma ciência em evolução.

É fora de dúvida que a escola fez importantes contribuições à psicologia. É simples realidade
histórica que o tipo de psicologia ensinada por Titchener, empreendimento que se concentrou
nos laboratórios alemães, foi o primeiro a conseguir para a psicologia o reconhecimento como
ciência. E é também verdade que esta disciplina, importada da Alemanha, foi um dos meios
pelo qual a psicologia norte-americana fez a transição da filosofia mental para a ciência,
aprendendo a confiar menos na especulação e mais na observação, a estar menos preocupada
com valores éticos ou de outra espécie, e a prestar mais atenção aos fatos como tais. Além
disso, o método preconizado pela nova psicologia era justificado pelos estudos cuidadosos
provenientes dos laboratórios. Em sensação e percepção, tinha a seu favor eminentes
realizações; fez algum progresso ao explorar os processos emocionais; até certo ponto
penetrou mesmo nos campos difíceis da memória, pensamento e vontade. Todavia, a
psicologia experimental, como Titchener a entendia, não permaneceu como sendo (1
psicologia científica nos Estados Unidos:

e o que é mais notório, os novos empreendimentos da psicologia norte-americana não foram


frutos de seu modo de pensar, mas sim protestos contra suas limitações.

Talvez o motivo principal para este estado de coisas estivesse na paixão pela precisão
sistemática que caracterizava a escola titcheneriana. Por seu próprio desvelo em ser científica
estabeleceu limitações que cercearam o seu desenvolvimento. Tendo definido certos materiais
e métodos como cientificamente exatos, limitou-se a problemas dentro do escopo dessas
definições. Porém, a curiosidade, mesmo a científica, começa com situações concretas e não
com definições exatas; e se for ativa e verdadeira, não será dominada por definições. Se existe
um desejo forte e verdadeiro para saber, por exemplo, como os seres humanos agem e por que,
e se essas perguntas vão além dos limites impostos por um determinado código científico
- em pesquisas sobre músculos e glândulas, por exemplo, ou sobre o comportamento animal,
ou diferenças individuais, ou ainda sobre as funções e utilidade das atividades mentais - a
curiosidade legítima não será barrada pela afirmação de que seu interesse não é científico.
Embora a pergunta seja feita de modo im

136

Edna Heidbreder Psicologias do Século XX

157

preciso - e as perspectivas são de que a exposição sistemática será imprecisa no início - a


curiosidade incipiente baseada na pergunta não será satisfeita por aquilo que esteja fora de
seu principal interesse. Afinal de contas, tal curiosidade é a base da ciência e não deve ser tão
severamente reprimida. Se ela se envolver em luta com um determinado código científico, é
bem provável que vença, em parte porque a ciência não pode passar sem ela, e também
porque um determinado código, mantido por um certo grupo em algum lugar e tempo, é
constituído não somente pelas exigências básicas e essenciais da ciência, como também pelas
circunstâncias locais e um tanto acidentais da situação. Foi em tal conflito entre a curiosidade e
a exatidão rigorosa que a psicologia de Titchener tomou parte. Quando teve de escolher entre
apegar-saos problemas que lhe eram afins ou modificar a sua es utura para se adaptar a outros
novos, escolheu sem titubear o primeiro caso. Reconheceu os novos problemas como tais,
porém não como psicologia; e foi em grande parte esta atitude que tornou o movimento
representado por Titchener, nos Estados Unidos, uma escola de psicologia em vez de um ponto
de partida da psicologia norte-

-americana em geral.

Realmente, os comentários mais importantes alusivos à psicologia de Titchener são aqueles


relativos às sucessivas revoltas contra a mesma. Muitas das declarações contra sua doutrina
são, de fato, exageradas; e algumas das reações contra ela são baseadas na má compreensão
do próprio sistema. Houve, por exemplo, dificuldade em considerar o objeto por ele descrito
como pertencendo à ordem natural, em aceitar a introspecção como observação genuína, em
interpretar o seu sistema como de "elementos" e "conteúdo" e, apesar disso, considerá-lo
como sistema no qual os elementos são processos. Houve, às vezes, tendência a dar ênfase
demasiada à superficialidade do conteúdo real do sistema e a ver, em seu desinteresse,
apenas irrelevância e futilidade. Também houve, às vezes, uma tendência para exagerar a
intolerância de Titchener; e para esquecer que ele desejava reconhecer o valor dos
movimentos que lhe eram antagonistas, contanto que não se intitulassem de psicologia.
Porém, o sentido geral do movimento por ele representado é evidente; e foi contra tal
movimento que as novas escolas protestaram - acreditando que uma psicologia rigorosamente
estrutural deixava de reconhecer o material psicológico na forma em que existe na
experiência; que uma psicologia tão

pura como essa deveria ser estéril; e que as exposições sistemáticas atuais não devem ser
levadas tão a sério a ponto de excluir problemas importantes que não estão preparadas para
enfrentar. É verdade que muitas das objeções podiam ser refutadas por argumentos lógicos
pelos titchenerianos; outras, sem importância devido à maneira como foram estabelecidas, em
nada a modificaram ou abalaram. Porém, foi contra o sistema, pera maneira com que realizava
os seus empreendimentos e pelas suas rejeições diligentes, que as psicologias mais recentes se
opuseram em protestos sucessivos, e não simplesmente pelo que pudesse estar declarado ou
definido em seus escritos.

E, no entanto, o movimento que Titchener dirigiu nos Estados Unidos representa uma
realização definida no sentido de tornar a psicologia uma ciência. À medida que sua matéria era
algo realmente presente na experiência, e até o ponto em que sua pureza chamou a atenção
mais para os fatos do que para os valores, a psicologia de Titchener assinalou um verdadeiro
progresso em direção ao ponto de vista científico. Se levou muito a sério suas definições e
rejeições, assim o fez numa tentativa de firmar-se como um empreendimento diferente do
senso comum, da tecnologia e da metafísica. Se tentou, sem êxito, colocar toda psicologia
dentro do seu molde - ou melhor, afirmar que coincidiam os seus limites com os da verdadeira
psicologia - o seu fracasso demonstrou tanto as possibilidades quanto as limitações de seus
princípios. Não resta dúvida que a psicologia de Titchener desempenhou um papel
preponderante no desenvolvimento da psicologia norte-americana, não somente como
realização eminente e duradoura, mas também como fracasso heróico e esclarecedor.

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II

A PSICOLOGIA DE WILLIAM JAMES

James (1842-1910); Lange (1834-1900).

INJ este ínterim, houve William James. De certo modo, James tanto precede como segue
Titchener na psicologia norte-americana. Era vinte cinco anos mais velho que Titchener;
publicou o livro The Principies of Psycho(ogy, sua maior obra, em 1890, dois anos antes de
Titchener ingressar em Comeu e faleceu em 1910, quando a influência daquele estava em seu
apogeu. Entretanto, os dois são responsáveis por influências que eram mais paralelas do que
sucessivas e que, realmente, nunca se encontraram.
Os ensinamentos de William James indiscutivelmente remontam mais ao passado do que os de
Titchener, ou seja, à antiga psicologia metafísica que este abandona completamente; mas, ao
que parece, estão destinados a se prolongar mais além no futuro, porque continuam a
prosperar com um vigor e um viço que os torna importantes em face dos novos problemas. A
psicologia de James é a de transição:

mostra os sinais da metafísica, porém, é um movimento orientado para a ciência. Pois James,
menos preocupado com a exatidão rigorosa do que em compreender o material que estudava,
desviou-se em suas pesquisas em direção à experiência concreta tanto em relação às sugestões
quanto à evidência. Enquanto Titchener estava concentrado principalmente em fazer da nova
psicologia uma ciência, James se interessava mais em que a nova ciência fosse psicologia.

i! impossível situar William James em qualquer das linhas bem definidas do desenvolvimento
psicológico em curso na sua época. Não era nem fundador nem adepto de qualquer escola.
Antes de tudo era um indivíduo, e foi como tal que exerceu sua influência na psicologia.
Embora se tor

140

Psicologias do Século XX

Edna Heidbreder

141

nasse absorto num movimento, embora se entusiasmasse pela sua importância, nunca se
deixou subjugar por ele; permanecia sempre ele mesmo; estava bem atento a todos os
empreendimentos psicológicos em progresso no seu tempo - sempre interessado e, por vezes,
simpatizante, satisfeito, crítico e admirador. Fazia a escolha e elogiava, rejeitava e aceitava,
porém, nunca se desorientou, tanto em seus entusiasmos quanto em suas antipatias. Todavia,
não era de nenhuma forma indiferente. Encontrava-se no centro da jovem psicologia
turbulenta e revoltada, mas nunca perdeu sua individualidade e sua indepeidência.

A relação entre William James e a nova psicologia experimental da escola wundtiana é bem
característica dessa atitude. Para a maioria dos psicólogos de sua época, a psicologia
experimental aprovada por Wundt era, de certa forma, decisiva. Tanto os adeptos quanto os
dissidentes eram levados pela torrente de seu pensamento. Mesmo homens como Brentano e
Stumpf recebem parte de sua importância, de sua relação com ele, e suas posições são
significativas com referência a esse pensamento. É a psicologia com a qual as suas opiniões são
comparadas e postas em confronto. Porém, tais afirmações dificilmente podem ser feitas com
relação a James. Seu pensamento desenvolveu-se independentemente da nova psicologia
experimental, inteirou-se completamente dela, retirou certas partes, acrescentou e assimilou
grandes porções da mesma; mas não foi modificado por ela. Há um quê de isolamento ianque
na psicologia de James, e mais do que um pouco do espírito de independência ianque em sua
recusa jovial a sucumbir aos apelos da fama.
Atitude idêntica assinala suas relações com as outras escolas - em especial ao associacionismo
britânico e à psiquiatria francesa. As páginas do livro The Principies estão repletas de nomes de
autores britânicos e juncadas de expressões de gratidão pelas suas observações e opiniões.
Entretanto, James não escreveu segundo a tradição britânica; e decididamente não era
associacionista. Com esse mesmo espírito de aprovação, bastante entusiasta, porém imparcial,
tratou da obra dos psiquiatras franceses. Acreditava que ao tratarem com as personalidades
psicopáticas, especialmente por seu trabalho com a dissociação e a personalidade múltipla,
estavam fazendo descobertas da máxima importância; estava bastante convencido de que a
sicologia dos doentes tem muito a contribuir para a psicologia em geral. Porém, embora
mergulhasse no estudo dos casos dos anor mai

e dos quase normais, nunca limitou sua atenção a tais problemas. Novamente mostrou aquela
mistura de compreensão e independência, que o fizeram ao mesmo tempo o mais universal e o
mais individual dos psicólogos.

Existe, realmente, algo da mesma atitude independente na forma de William James tratar a
psicologia como um todo. Ele equipara-se aos grandes psicólogos - alguns o colocam em
primeiro lugar - todavia mesmo como profissão, a psicologia não o ocupou de forma exclusiva.
Iniciou sua carreira, deve ser lembrado, não como psicólogo, mas como biólogo e foi quando
ensinava anatomia na escola de medicina de Harvard que reservou lugar em seu laboratório
para experiências psicológicas, e assim iniciou quase por acaso o primeiro laboratório
psicológico. A mudança definitiva de seu interesse em direção à psicologia deu-se em 1878,
quando começou a escrever The Principies of Psychoiogy, trabalho que o ocupou por doze anos.
Durante este tempo, entretanto, interessou-se pela filosofia; ou melhor, a filosofia, que o havia
atraído desde tenra idade, reclamava cada vez mais sua atenção. Como é natural, os seus
cargos oficiais em Harvard não correspondiam exatamente aos seus diversos interesses.
Quando era instrutor de anatomia em Harvard, realizava experiências psicológicas. Quando
trabalhava em seu livro The Principies of Psychology, foi nomeado professor de filosofia. Um
ano antes do The Principies ser publicado, seu cargo foi mudado para professor de psicologia;
mas, nessa altura, seu interesse havia mudado tão completamente para a filosofia que o seu
cargo voltou a ser professor de filosofia. Não há dúvida de que após publicar The Principies
deixou de se interessar pela psicologia. Todas as perguntas merecedoras de resposta, dizia,
estavam na filosofia. Para ele, a psicologia havia sido uma fase. Embora fosse uma das
influências mais poderosas na formação da nova ciência da psicologia, e embora durante algum
tempo a tivesse servido bem e com ardor, ao final chamou-a de "cienciazinha irritante".

Não é de admirar, portanto, que William James seja, às vezes, embaraçoso para alguns
psicólogos. É reconhecido como um dos maiores entre seus pares, entretanto, violou
abertamente algumas de suas maiores proibições; vagueou por campos de pesquisa
considerados suspeitos - na região dúbia da pesquisa psíquica, por exemplo, a qual foi sempre
considerada um tanto desacreditada. James nunca se deixou intimidar pelos tabus acadêmicos.
Se desejava investi-

142

Edna Heidbredcr
P8wologias do Século XX

143

gar a possibilidade de comunicação com o mundo dos espíritos, assim o fazia; se se sentisse
impelido para debater de espontânea vontade um capítulo sobre a atenção, seguia seu impulso;
e ao deparar com um problema para o qual não havia ainda dados estatísticos ou experiências
definitivas, não recuava prudentemente da especulação. Costumava observar com perspicácia,
e depois opinava ao sabor da evidência disponível, confiando em seu intelecto para preencher
as lacunas - às vezes muito grandes - e compreender o porquê da situação da melhor forma
possível. Pela adoção deste método, possuía um modo de desenvolver concepções, tal como a
teoria de James-Lange das emoções, que foram de grandq valor para a pesquisa. Sabia também
de certo modo prever as futuras descobertas; seu capítulo sobre os fluxos de pensamento
contém excelentes descrições dos "pensamentos sem imagem" posteriormente descobertos
nas experiências psicológicas. E, apesar deste hábito, James não poderia ser acusado de
manejar incorretamente os fatos. Admitia um fato como tal e a indagação também, e embora
muitas vezes tivesse desobedecido às restrições específicas da ciência da época, era
essencialmente possuidor de mentalidade científica. Qualquer que fosse a matéria de estudo,
atirava-se à mesma em busca de fatos inéditos e com um dom para a observação fiel que os
mais austeros cientistas reconheceram. Mas, sabia também ficar do lado certo em um problema
que a ciência não podia resolver. Era tão sensível aos desejos e esperanças da humanidade que
não podia deixar de lhes dar uma oportunidade.

Realmente, a personalidade de William James difunde-

-se em seu pensamento, e seus escritos trazem a marca inconfundível de seu temperamento.
Porém, isto não quer dizer que seu pensamento fosse assoberbado pela emoção. Ninguém
poderia reconhecer com maior segurança do que James a diferença entre o intelecto e a
emoção, ou entre um fato e sua escolha. Foi, realmente, a percepção da diferença, e não uma
dúvida sobre a mesma, que o fez tão convicto no reconhecimento do papel do temperamento e
das inclinações nas atividades intelectuais. Sua lealdade para com os fatos o fez reconhecer este
entre outros, porém, tornou também impossível para ele concordar com as pretensões do
intelecto quanto a um raciocínio puro e absoluto.

Não é fácil descrever a personalidade de William James. Talvez o melhor como ponto de
partida seja a sua posição sobre este mesmo assunto do papel exercido pelo intelecto

nos afazeres humanos. Na questão do intelectualismo versus empirismo, James era a favor do
segundo contra o primeiro, colocando o assunto em termos de um contraste absoluto. Tinha
plena convicção de que a experiência pode servir de ponto de partida e de verificação do
pensamento. Esta crença aparece em sua filosofia bem como em sua psicologia, pois a atração
para o imediatismo situa-se tanto na base de sua lógica quanto de sua metafísica - do
pragmatismo e do empirismo radical; e embora a publicação do The Principies antecedesse a
elaboração dessas teorias, as tendências que elas representam estavam presentes com
evidência em seu pensamento psicológico. Devido a motivos relacionados com este mesmo
ponto de vista, James opunha-se ao determinismo em contraste com o livre arbítrio; tinha
propensão para confiar no sentimento imediato de que a atenção e a vontade efetivamente
decidem algo, e que a vida humana não é o "arrastar penoso de uma corrente". Reconhecia o
determinismo como uma simplificação bastante conveniente do universo e, portanto, como um
instrumento que exerce grande atração sobre o intelecto. Porém, para James o intelecto,
apenas um dos muitos fenômenos em um mundo complexo, não tinha o direito de impor suas
exigências sobre o caráter da realidade em geral. Considerava-o como uma das muitas formas
do homem tratar com o seu meio ambiente; mas reconhecia o mesmo como um entre muitos e
que possuía um lugar delimitado e definido na natureza humana como um todo. Sua recusa em
aceitar as pretensões do intelecto muito a sério - em particular se se tratava da expressão de
opiniões acadêmicas oficialmente aceitas - o fez muitas vezes o campeão das causas
perdidas contra a firme honorabilidade intelectual de sua época. Achava que nada que surgisse
como possibilidade deveria ser abandonado sem lhe dar atenção. Santayana, um de seus
colegas de filosofia em Harvard, pronunciou-se a seu respeito, nos seguintes termos:

"A filosofia era para ele como a constituição polonesa; bastava um só voto contra a maioria
para que uma lei não fosse aprovada. A abstenção de julgar que se impusera como um dever,
tornou-se quase uma necessidade. Acho que ficaria deprimido se precisasse confessar que
alguma questão importante havia sido resolvida por completo. Teria ainda esperado que algo
surgisse de outra parte, como se fosse um carrasco da ciência, prestes a executar um pobre
condenado e que estivesse almejando a chegada repentina de urna testemunha inesperada,
trazendo provas da inocência do réu."'

1 George Santayana, Character and Opinion in the United States, 82.

144

Edna Heidbreder

Psicologas do Século XX

145

Tudo isto remonta à existência de sentimentos radical- mente democráticos no espírito de


James. Todo indivíduo, toda idéia, todo instante de experiência deve ter a oportunidade de se
manifestar e ser reconhecido. Esta democracia, este desejo sincero de que tudo fosse
considerado de alguma forma - todas as experiências, todos os homens, não importando quão
desacreditados sejam aos olhos dos sábios

- era talvez a sua maior preocupação. Parecia impulsionado pelo desejo de ser fiel para com
todos e este desejo se revela não só em suas relações com os outros - seus colegas, discípulos
e amigos - como também ao tratar com idéias.

Pois a atitude de James em relação às idéias é, acima de tudo, democrática. Recebe-as com
cortesia, trata-as com interesse, realmente inclinado em conhecê-las tais quais são. Não pode
aceitá-las todas, não pretende gostar de todas, porém, está decidido a examiná-las
indiscriminadamente; e quando rejeita as que deve rejeitar, abandona-as às vezes quase com
pesar, com pleno conhecimento do poder e da fraqueza dessas idéias. Tem a mesma maneira
cativante de tratar com todos em termos de igualdade, inclusive com os leitores de suas obras.
Admite de forma lisonjeira que o leitor é seu igual no intelecto e que o leitor, o autor, os
doutos cientistas cujas idéias estão sendo debatidas, estão todos empenhados na tarefa comum
de tentar atingir o âmago de qualquer assunto absorvente que esteja sendo considerado. Por
serem todos iguais, é possível ser ao mesmo tempo generoso e severo. Numa sociedade onde
todos são iguais, ninguém precisa ter excesso de consideração com respeito às suscetibilidades
dos outros. A todos podemos pedir satisfações, porque todos podem se defender. O caráter da
obra polêmica de James é o de justiça entre iguais, de imparcialidade
no plano intelectual. Por esse motivo, James, como se tem afirmado muitas vezes, pode expor a
posição de um adversário melhor do que ele próprio; e, pela mesma razão, pode criticá-lo com
inexorável meticulosidade. Na crítica, como em tudo o mais, sua minuciosidade obriga-o a
empenhar-se ao máximo. Dá ao inimigo a honra de exercer todo o seu poderio contra ele.

Talvez a eficiência com que James trata determinado assunto, exija uma palavra de
observação, principalmente porque a fluidez e o viço de seu estilo, às vezes, dão a impressão
de que suas opiniões não são bem fundamentadas. Suas rápidas caracterizações, suas visões
vivamente esclare cedoras

seus rompantes, tudo dá a idéia de alguma coisa correndo a alta velocidade, dirigida somente
pelo impulso do momento; porém, nenhuma outra impressão poderia estar mais distante da
realidade. Os trabalhos de James são perfeitamente exatos. Era de um escrúpulo excessivo a
esse reBpeito. Guardava os seus manuscritos e os burilava, recusando entregá-los até que
dissessem exatamente o que deviam. Sempre se ressentiu da crítica de que seus escritos não
eram cuidadosamente planejados. Apesar de todo o seu prazer nas inspirações do momento,
não poupava esforços, quer trabalhando com grandes quantidades de fatos materiais
enfadonhos, quer acompanhando longas séries de argumentos e especulações que
considerava pretensiosos e inúteis. Apesar de sentir que grande parte do trabalho dos
laboratórios alemães era de penosa futilidade - costumava chamar algumas de suas
dissertações de "elaborações do óbvio" - tornou-se um especialista neste ramo da literatura
psicológica. Quem quer que examine as notas do livro The Principies verá quão profundamente
James dominava a psicologia de sua época; e quem examinar as partes
controvertidas de seu livro - seu exame da teoria do autômato, a da substância da alma, o livre
arbítrio, e as localizações cerebrais - verá quão meticulosamente examinava as hipóteses
sugeridas pelos outros pontos de vista além do seu. Há uma exatidão surpreendente na obra de
James, que sem dúvida se relaciona com o fato dc ter achado difícil aceitar qualquer coisa que
não fosse provada e definitiva. Sua tolerância, sua perfeição, sua exatidão e sua alta seriedade
constituem partes de sua personalidade complexa tanto quanto a sua vivacidade e agudeza.

Em suas relações pessoais diretas, James era tão eficiente quanto em seus escritos. Suas
Letters 2 mostram quantos pontos de contato manteve com seus amigos; e essa
correspondência revela também o objetivo de seus interesses. Seus discípulos achavam-no
extraordinariamente encoraja- dor. Em sua sala de aula, como em seus livros, admitia um
convívio sem distinção entre os alunos. Não estava habituado a fazer preleções solenes e,
muitas vezes, mergulhava em notáveis divagações sugeridas pela ocasião. ÀS vezes, afastava-
se bastante de seu sistema em busca de um assunto que achava absorvente, e um dia um
aluno, tentando fazê-lo voltar a si de uma dessas divagações, exclamou: "Mas, professor,
falando sério por um momento. . ." Naturalmente, o
2 The Letters of William James, ed. por seu filho Henry James.

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Psicologias do Século XX

Edna Heidbreder

147

ambiente da sala de aula de James era tal, a ponto de faze1 com que se esquecessem os
procedimentos de uma classe qualquer. Nada é mais típico de James do que o fato de não ter
fundado uma escola. Encorajava os alunos para que pensassem - não propriamente os seus
pensamentos. Preferia lançar os seus pensamentos e teorias no mundo e deixá-los ter uma
oportunidade em relação a outros pensamentos e teorias. Não procurava dar-lhes o apoio de
uma escola; deixava-os confiar em suas próprias forças desprotegidas.

A psicologia de James é apresentada em sua forma mais completa nos dois volumes do The
Principies of Psychology. Tem-se dito com freqüência que este trabalho não é sistemático, que
tem falta de organização ou, pelo menos, que qualquer organização que possua não é de muito
valor. De fato, o livro não dá a idéia de uma estrutura intimamente articulada; dá mais a
impressão de uma série de intuições, de lampejos penetrantes nas profundezas do assunto.
Quase todos os capítulos podem ser lidos isoladamente como ensaios em separado, sobre o seu
assunto particular; e, com raras exceções, cada capítulo se apresenta como se o seu tema fosse
o mais importante da psicologia, como se neste caso, por este estudo, fosse encontrado o
caminho para o próprio âmago do assunto. O próprio James acreditava ser, antes de tudo, uma
"criatura de aperçus" e o livro The Principies é claramente o trabalho de tal criatura. Embora
fosse o tratado mais exaustivo sobre psicologia geral em sua época, é, na melhor das hipóteses,
uma série de percepções agudas e visões penetrantes dentro de um setor do conhecimento
novo e pouco explorado.

Tudo isto é verdade, todavia não deve ser ressaltada a falta de organização. Pois, através do
livro todo existe um padrão, fracamente indicado e nunca imposto, mas não obstante
significativo. Sem dúvida, algumas das observações, no sentido de que o livro não foi planejado
com cuidado, tiveram origem no fato de que êle não segue o sistema convencional de começar
com unidades, tais como sensações e idéias simples e, a partir dessas unidades, construir os
estados de consciência mais complexos. Porém, uma parte essencial do ensinamento de James
destinava-se justamente a provar que este método não é justificado; e que o ponto de partida
certo é a experiência na forma em que se apresenta, a torrente como flui perante a percepção,
e não a simples sensação. A "sensação simples" ou "idéia simples", insistia sempre James, não se
encontra na experiência não analisa-

da e não intelectualizada; é o resultado da abstração, à qual se chega após um estudo longo e


exigente. Além disso, acreditava que antes da psicologia poder ser debatida, era preciso
preparar o terreno. Pois, não podia aceitar, como fizera Titchener, que a psicologia já fosse
uma ciência, depois escrever uma curta declaração da relação mente-corpo e, sem maiores
dificuldades, escrever psicologia. James era norte-
-americano e filósofo, bem como psicólogo e conhecia muito bem a tradição filosófica dos
Estados Unidos para acreditar pudesse ela ser descartada com facilidade. Considerava a
psicologia norte-americana não como esta deveria ser, porém, como a encontrou; na forma de
filosofia mental baseada no associacionismo, muitas vezes ligada ao calvinismo, e às vezes em
suas formas mais intelectuais, ao transcendentalismo e ao idealismo absoluto. James não só
conhecia a tradição norte-americana, mas esta era uma parte dele próprio. Para ele, era
impossível deixar de lado os problemas da mente na forma em que se apresentavam ao povo
norte-americano de sua época.

Em resumo, este é o esboço do livro The Pri'ncipies. Os primeiros seis capítulos do primeiro
volume são bastante úteis no sentido de preparar o terreno para a psicologia propriamente
dita. Considerando como sua primeira tarefa colocar as concepções biológicas necessárias
perante o leitor, James debate os aspectos da atividade nervosa que considera mais
importantes à vida mental; e a esse respeito, inclui o seu famoso capítulo sobre o hábito - o
qual desenvolve, a tese de que a vida mental, na realidade, toda a conduta humana, é, em
grande parte, determinada pela tendência do sistema nervoso em ser modificado de tal forma
em cada ação, que toda ação subseqüente da mesma espécie se torna um pouco mais fácil do
que a anterior. A seguir, James predispõe o leitor para o ponto de vista científico debatendo as
principais concepções metafísicas da mente. Trata da teoria do autômato, a da mente corpórea,
a da mônada material e a da alma; porém, finaliza rejeitando todas as hipóteses metafísicas
relativas à relação mente-corpo, contentando-se, para as finalidades da psicologia, com uma
"correspondência simples imediata, termo por termo, entre a sucessão de estados de
consciência e a sucessão dos processos cerebrais totais". Em outras palavras, aceita tanto os
estados de consciência quanto os processos cerebrais como fenômenos de um mundo natural;
e acredita que sendo a psicologia uma ciência natural e não um sistema de metafí

'1

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Edna Heidbreder

Psuologias do Sáculo XX

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sica, pode observar e aceitar quaisquer relações que encontre sem se sentir obrigado a
esclarecer porque existem.

No resto do livro, James trata da psicologia propriamente dita. Debate os métodos de pesquisa
num capítulo ao mesmo tempo perspicaz e tolerante, com o título sugestivo de "Os Métodos e
as Ciladas da Psicologia". Um capítulo intitulado "O Fluxo do Pensamento" - quase na metade do
livro - descreve o objeto da psicologia como James o considera. O tema do capítulo é o de que a
consciência não é formada de pedacinhos reunidos, mas sim de uma corrente, a fluir
continuamente. O fluxo do pensamento é descrito como possuindo cinco características
principais: é pessoal; mutável; sensivelmente contínuo; trata com objetos exteriores a ele
mesmo; e está sempre escolhendo entre eles, aceitando, rejeitando, destacando, selecionando.
De certo modo, o resto do primeiro volume é um desenvolvimento deste
capítulo. O caráter imediatamente pessoal da consciência é debatido num capítulo sobre o eu -
e que vem logo a seguir ao do fluxo do pensamento, em vez de ser posto no final do livro,
onde é comumente encontrado nos tratados de psicologia. A natureza seletivá da consciência é
tratada em três capítulos, "Atenção", "Concepção" e "Discriminação e Comparação"; e o resto
do volume trata dos vários aspectos da mudança e da continuidade do fluxo de pensamento. O
capítulo sobre "Associação" trata dos processos associativos não como união de "idéias
simples" ou partes discretas da consciência, mas como combinação de processos fisiológicos no
sistema nervoso. Este capítulo, em seu ataque à teoria da consciência composta de partes
discretas, repete e põe em destaque a afirmação de que a consciência é sensivelmente contínua
e mutável. No capítulo intitulado "A Percepção do Tei'npo", James salienta novamente a
mudança e a continuidade, ressaltando que em nossa experiência direta e imediata do tempo -
como sentimos e não como o conceituamos - o passado, o presente e o
futuro estão todos contidos no "presente ilusório". O último capítulo, sobre a "Memória", trata
dos fatos no tempo ideal, e não no tempo dado ou imediato. Este capítulo é importante
principalmente por sua pretensão de que a faculdade de reter inata é jâ estabelecida e não
pode ser melhorada pelo exercício. Em apoio deste argumento, James relata uma de suas
poucas experiências psicológicas, a única que foi influente. Embora sua experiência sobre o
treinamento da memória não. tivesse

sido bem controlada, despertou grande interesse e levou a maiores pesquisas sobre este
problema.

No segundo volume, a organização parece, à primeira vista, seguir a ordem convencional. O


primeiro capítulo trata da sensação e os seguintes da percepção, crença, raciocínio, instinto e
vontade, no que parece ser a maneira usual de partir do simples para o complexo. Porém, esta
disposição é decepcionante se dá a entender que James acredita na composição de estados de
consciência complexos partindo de elementos simples. É o caminho para, através, e do sistema
nervoso central que lhe fornece a estrutura do livro. A sensação é considerada em primeiro
lugar porque corresponde ao processo nervoso mais imediatamente despertado pelo estímulo
da periferia e que é, provavelmente, o primeiro processo nervoso no cérebro. A percepção
corresponde às primeiras etapas na formação dos processos sensoriais; a crença e o raciocínio, à
sua mais completa formação. Num curto capítulo sobre a produção do movimento,
apresenta-se o fato geral de que as correntes aferentes encontram sua saída pelas vias
eferentes e produzem os movimentos corporais, pequenos ou grandes. Daí por diante, são
tratados os processos relacionados com as correntes eferentes. A emoção e o instinto são
ambos tratados do ponto de vista do movimento corporal, e a vontade é debatida como uma
atividade que abrange o movimento sob condições que podem se tornar particularmente
complexas. Esta é a parte principal do livro. No que diz respeito à organização geral, os dois
últimos capítulos são quase apêndices. Um deles é sobre o hipnotismo, assunto que, na época
em que foi tratado por James, estava chamando bastante a atenção. O capítulo final,
"Verdades Necessárias", trata da psicogênese. Neste passo, James examina os problemas do
desenvolvimento racial e individual, tentando descobrir de que maneira algumas das
características mais estáveis das funções do conhecimento chegaram ao ponto atual.

Esta é a estrutura dentro da qual é apresentada a psicologia de William James. Embora o


esquema de organização não esteja salientado, está presente e possui um significado especial.
James não diz somente por meio de palavras que a consciência não é uma reunião de pequenas
unidades; diz isso no movimento total de seu pensamento. Não somente reconhece
solenemente a relação íntima entre a psicologia e a biologia; o reconhecimento desta relação
forma a base da organização de seu material. Não somente afirma

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Psicologias do Século XX

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Edna Heid&reder

que a psicologia está se afastando da metafísica e tornando-

-se uma ciência natural; a transição é visível em seu modo de tratar o assunto.

Os dois volumes do The Principies estão tão cheios de detalhes - com observações,
argumentos, teorias, achados experimentais, interpretações, intuições - que seria loucura
tentar uma descrição compreensível de seus ensinamentos. O melhor que se pode fazer é
selecionar algumas partes que são mais representativas do total.

Talvez o caminho mais curto a uma compreensão do conceito que James tinha a respeito da
psicologia, é considerar a sua posição nas questões básicas do objeto e dos métodos, e da
relação entre a vida mental e o resto da natureza. Em relação a estes temas, a tendência de
James era a de ser inclusivo, mais que exclusivo. O livro começa com a frase "A psicologia é a
ciência da vida mental, tanto em seus fenômenos quanto em suas condições". As palavras
"fenômenos" e "condições" são ambas importantes: "fenômenos" porque indica que o seu
objeto é encontrado iia experiência, e "condições", porque para James as condições imediatas
da vida mental estão no corpo humano, principalmente no cérebro. A partir deste ponto de
vista, as estruturas físicas que constituem as condições da vida mental formam uma parte real
da psicologia; não são simplesmente o material de estudo de uma ciência afim. James escreveu
tendo em mira o ser humano integral; o foco de seu interesse estava no fluxo da consciência,
mas da consciência tal como existe em seu "habitat" natural, o homem físico. Esta reviravolta
biológica do pensamento, realmente, é um dos traços distintivos da psicologia de James. A
partir do novo e controvertido material representado pela fsiologia do cérebro - pois James
escreveu quando a fisiologia do cérebro era novidade e quando todo este assunto estava ainda
menos estabelecido do que agora - aceitou a idéia do sistema nervoso como sendo um
aparelho no qual os fluxos iniciados pela estimulação dos órgãos dos sentidos atravessam os
nervos sensoriais até ao sistema nervoso central, de lá passam através das vias de ligação de
vários graus de complexidade, e daí fluem para fora através dos nervos motores para os
músculos. Na opinião de James, é a ação do cérebro que está associada com a consciência, de
forma imediata.

A outra palavra em sua definição, "fenômenos", possui também implicações importantes, pois
estudar os fenômenos
da vida mental é estudar a consciência tal como existe na experiência real e imediata. Isto
significou para James o "fluxo do pensamento". Acreditava que o verdadeiro ponto de partida
da psicologia é a experiência sentida de forma imediata - não uma alma ou mente que se
manifesta pela e através da consciência, não porções de material consciente aglomeradas, mas
sim a experiência como a conhecemos no momento. A descrição do fluxo de pensamento feita
por James é um dos mais famosos trechos de toda a literatura psicológica. É um clássico, em
parte porque descreve com vivacidade e fidelidade algo que é muito difícil de ser descrito, e em
parte porque tem valor histórico por ser um ataque ao atomismo do associacionismo e do
herbartismo.

William James observa como primeira característica do fluxo de consciência ser ela pessoal, e
esta característica é aceita por ele como um fato básico. Não iniciamos com pensamentos e
terminamos com eus. O eu está presente desde o início; não como uma alma, nem espírito
imanente, nem como um conjunto de idéias, nem como uma construção lógica, mas sim como
um fato empírico evidente - o de que "todo pensamento tende a ser parte de uma consciência
pessoal". Ou melhor, nem todo pensamento é invariavelmente uma parte da consciência
pessoal. Janet demonstrou que o pensamento pode ser dissociado da personalidade principal.
Porém, mesmo essas partes separadas da consciência, se possuírem uma porção considerável
de conteúdo, tenderão a adquirir a forma pessoal e a se tornarem personalidades secundárias,
que existem lado a lado com a principal.

Ao observar a segunda característica do fluxo de pensamento, que está sempre se


modificando, James chega mais próximo do âmago de sua doutrina. Diz claramente que nós
nunca temos o mesmo pensamento, idéia ou sentimento duas vezes; e que "nenhum estado
de consciência uma vez desaparecido pode jamais repetir-se ou ser idêntico a outro". Podemos
ver o mesmo objeto, ouvir o mesmo som, até examinar sempre a mesma realidade ideal,
porém, não devemos confundir o objeto do pensamento com ele próprio. É, realmente, uma
impossibilidade física a repetição da mesma sensação corporal; pois cada uma corresponde a
certa atividade cerebral, e para que fosse idêntica à sua anterior, esta deveria
ocorrer pela segunda vez em um cérebro que não se alterasse, uma condição que é impossível.
Tudo isso quer dizer que "uma 'idéia' ou 'Vorsteliung' que exista de modo permanente e que
suna à luz da consciência a intervalos pe dA

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Ed,'a Heidbre4er

riódicos, é um ser tão mitológico como o valete de espadas do baralho".

A terceira característica, a de que o pensamento é sensivelmente contínuo, conduz James à


importante distinção entre estados de consciência essenciais e transitórios, e à doutrina da
"orla", de grande alcance. O seu principal argumento é o de que não há quebras ou interrupções
no fluxo da consciência; que existe uma continuidade que é sentida e experimentada. O que dá
a aparência de falhas ou quebras, o que nos faz pensar em função de objetos e fatos com
intervalos entre os mesmos, é a cadência diferente das diversas partes do fluxo. Quando a
média de variação é baixa, temos consciência de um objeto ou fato em que o pensamento pode
fixar-se; quando é elevada, percebemos uma passagem, uma transição, uma
relação. James se refere às duas médias de variação como "pontos de parada" e "vôos" e como
estados de consciência "essenciais" e "transitários". Os estados essenciais - a percepção de uma
mesa, ou de uma pessoa andando - são aqueles que percebemos facilmente e de modo natural.
São literalmente impressivos. Porém, os estados transitórios, insiste James, são igualmente
reais, e ao reconhecê-los, está apto a descobrir relações bem como coisas no material real da
experiência. "Deveríamos dizer uma sensação de 'e', uma de 'se', uma de 'mas' e uma de 'por',
tão prontamente como dizemos uma sensação de 'azul' ou de 'frio'." As sensações de tendência
são também estados transitários. As sensações de "Espere !",
"Escute!", "Veja!"; a sensação de que um nome esquecido está quase ao nosso alcance; a
sensação de "compreender" um sigmficado antes deste ser formulado em palavras - são
exemplos de sensação de tendências. Tais estados não são fora do comum. Cada palavra
essencial, na realidade, é cercada por uma orla de relações, que podem não ser conscientes mas
que são, não obstante, verdadeiras. Esta doutrina da orla é de grande utilidade. Por meio dela,
James explica as idéias gerais e abstratas, pois a orla torna possível a uma idéia ter um sentido
ou um significado, ou seja, um grande volume de conotações latentes, sem todos os detalhes
claros e reais que Berkeley e sua escola exigiam. James emprega a mesma concepção para
descrever a experiência psicológica do tempo, mostrando como o passado, o presente e o
futuro podem todos existir juntos como o "presente ilusório". Faz também uso dele para
mostrar por que o curso do pensamento realiza as surpreendentes variações que às vezes
executa, e co-

P8wologias do Século XX

153

mo algo que há apenas um instante atrás era vagamente presente na orla da consciência pode
crescer e tornar-se domin.ante e dar uma nova direção ao curso total do pensamento.

A quarta característica do fluxo de consciência, o fato de que o pensamento trata com objetos
distintos de si mesmo, James a considera como um fato fundamental, do ponto de vista da
psicologia. Refere-se em outro trecho ao "dualismo irredutível!' entre a mente e seus objetos,
os quais simplesmente aceita como psicólogo. Porém, o objeto não deve ser considerado,
psicologicamente, em um sentido tão simples quanto o comum. Quando se pede para designar
a finalidade do pensamento expresso pelas palavras "Colombo descobriu a América em 1492", a
maioria das pessoas responde "Colombo", ou "América", ou ainda "a descoberta da América".
Em outras palavras, escolhem algum termo relativo a um estado essencial do pensamento e
esquecem a orla. Porém, realmente, a finalidade do pensamento, insiste James, não é Colombo,
nem a América nem a descoberta da América; é nada menos do que a frase toda, "Colombo
descobriu a América em 1492" com todo o seu conjunto de relações. E, contudo, apesar de toda
a sua complexidade, o estado da mente que conhece o objeto é simples. Não é uma idéia de
Colombo, ligada à de descoberta, e a da América ligada à de 1492. Novamente James insiste na
unidade e continuidade do pensamento, embora a sua finalidade seja complexa.

Finalmente, a quinta característica do fluxo de pensamento é a de estar sempre selecionondo.


Os próprios órgãos dos sentidos são aparelhos seletivos; respondem somente a vibrações de
uma amplitude limitada. A percepção também é seletiva; a partir de todas as idéias que
fazemos de uma tábua de mesa retangular, real e possível, uma delas sobressai como típica e a
tábua da mesa é vista retangular. O mesmo tipo de seletividade ocorre nos processos mais
elevados e se torna mais evidente nas atividades que denominamos ponderação e escolha.
Deve ser entendido, entretanto, que James não reconhece em todas estas atividades seletivas
da mente aquelas ao nível da sensação e da percepção, por exemplo, as características dos atos
da vontade. Acha é que o fluxo mental está sempre pleno de conteúdos e que a cada instante
existe um sem-número de possibilidades, das quais somente algumas se tornam reais.

1d

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Edna Heidbreder Psicologias do Século XX

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Este fluxo de pensamento é o objeto da psicologia como é visto pela introspecção do ser
humano adulto. Porém, William James não limitou o objeto da psicologia ao que pode ser
observado dessa maneira. Reconheceu como psicologia o estudo dos animais, dos selvagens,
das crianças e dos loucos. Sempre se interessou pela psicologia dos anormais; dizia amiúde
que muito poderia ser aprendido das 'mentes enfermas. Naturalmente, desejava dar lugar
para tudo que pudesse ser acrescentado talvez à soma total do conhecimento psicológico. O
estudo da fisiologia, o exame da consciência, pesquisas das mentes maduras e imaturas,
normais e anormais, humanas e animais - tods essas pesquisas ele as acolhia como possíveis
fontes de conhecimento. Tinha suas preferências e aversões, porém, não há notícia de haver-
se recusado a dar atenção a qualquer assunto.

Quando William James examina a questão dos métodos, intitula de modo significativo o capítulo
de "Os Métodos e as Ciladas da Psicologia". Pois embora aceite a psicologia como uma ciência
natural, avalia inteiramente as dificuldades que o seu objeto apresenta à observação científica.
Dos métodos de pesquisas, menciona a introspecção em primeiro lugar como absolutamente
fundamental. Aceita como fato básico, que nunca foi posto em dúvida, o descobrirmos estados
de consciência quando examinamos nossas próprias mentes. Admite que a crença nesse fato
representa o postulado mais básico da psicologia, e rejeita "todas as investigações curiosas
sobre a sua exatidão, por serem demasiado metafísicas para a
finalidade deste livro". Sua declaração de que a "existência de estados de consciência não foi
posta em dúvida por nenhum crítico" soa de modo estranho aos ouvidos dos estudantes de
psicologia de nossos dias. Porém, é importante observar que tais dúvidas são, para James,
demasiado metafísicas para um livro sobre ciência natural; para ele nada poderia ser mais real,
mais evidente, menos necessitado de prova metafísica do que o fluxo de consciência como
surge de forma imediata.

Porém, embora William James considerasse a introspecção como o método fundamental em


psicologia, e estivesse a esse respeito de acordo com Wundt e Titchener, a espécie de
introspecção que preconizava não era a mesma que a do "introspeccionista treinado". Para
James, a introspecção era o exercício de um dom natural; consistia em apreender um
momento da própria vida, à medida que passa, em fixar e descrever este fato fugaz na forma
em que sucedeu em

seu "habitat" natural. Não era a introspecção de laboratório, auxiliada por instrumentos de
metal; era a rápida e segura apreensão de uma impressão feita por um observador sensível e
perspicaz. Porém, James não estava menos cônscio das dificuldades da introspecção do que o
estavam os mais ferrenhos adeptos dessa fé ortodoxa. Examinava os dois extremos da atitude
com respeito à introspecção. Um deles, representado por Brentano entre outros, é a crença na
infalibilidade da introspecção; de que na apreensão de nossos próprios estados de consciência,
experimentamos a realidade de forma imediata e sem deformação, não na maneira
reconstruída pela qual tomamos conhecimento dos objetos do mundo exterior. O outro
extremo é representado por Comte. "O pensador", afirma Comte, "não pode se dividir em
dois, um dos quais raciocina enquanto o outro o observa raciocinar. O órgão observado e o
órgão que observa, neste caso, são os mesmos; então, como se pode produzir a observação?"
James não adotou nenhuma dessas idéias radicais. Aceitou a introspecção como uma forma de
observação que não é infalível e nem impossível. Admitia que ela estava cercada de
dificuldades, próprias à sua natureza, porém, acreditava que, como as outras formas, pode ser
examinada por meio de verificações apropriadas e comparando-se as descrições de vários
observadores. Este tipo de verificação é normalmente aceito pela ciência, e o tipo de
conhecimento obtido dessa maneira é tudo o que James exige para a introspecção.

Embora não fosse ele próprio um experimentador, James tinha confiança também no método
experimental em psicologia. Sua própria descrição do método constitui a melhor prova da sua
atitude.

"Porém, a psicologia está entrando numa fase mais complicada. Há poucos anos o que se
poderia chamar de psicologia microscópica surgiu na Alemanha, realizada por métodos
experimentais, reclamando naturalmente a todo instante dados introspectivos, mas eliminando
a sua incerteza por meio da ação em larga escala e da utilização de recursos estatisticos. Este
método exige o máximo de paciência e dificilmente poderia ter aparecido num país onde seus
habitantes pudessem ficar oborrecaios. É óbvio que tal não ocorre com alemães como Weber,
Fechner. \Tierordt e Wundt. e o sucesso que obtiveram trouxe para este campo um cortejo de
jovens psicólogos experimentais, propensos a estudar os elementos da vida mental,
dissecando-os dos resultados brutos nos quais estão incluídos, e reduzindo-os o mais possível a
valores quantitativos. Esgotado o método de ataque simples e franco, tenta- se o da paciência,
da submissão pela fome, da atormentação até à morte: a mente deve ser submetida a um
perfeito cerco, no

ii

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Psicologias cio Século XX

157
qual as menores vantagens obtidas cada dia pelas forças que a assediam vão-se somando até à
sua derrota final. Pouco existe de estilo nobre nesses novos filósofos de relógio, pêndulo e
prisma. Eles não estão brincando e não se preocupam com o cavalheirismo, O que no
conseguiram fazer a generosa intuição e a superioridade em virtude, que Cícero considerava
necessárias para dar ao homem a melhor visão da natureza, será sem dúvida conseguido algum
dia pelas investigações e seleções, pela terrível tenacidade e habilidade quase diabólica dos
novos filósofos."

Não é preciso dizer que esta atitude meio divertida não era aquela adotada comumente pelos
devotos da nova psicologia. Porém, para William James, grande parte deste ataque organizado e
penoso, grande parte da tarefa de selecionar elemento por elemento, parecia forçada e
artificial. O método experimental, entretanto, era tido por ele como um dos meios possíveis de
se chegar ao conhecimento psicológico. "Fatos são fatos", dizia, "e se os conseguirmos em
número suficiente, certamente hão de se combinar". Como sempre, estava decidido a conhecer
todas as fontes do conhecimento.

O método comparativo era incluído por William James como suplemento aos métodos
introspectivo e experimental. Sua utilidade, achava ele, estava em revelar a vida mental em
suas variações. Realiza investigações na psicologia dos animais, das crianças, das raças
primitivas, dos selvagens e dos loucos, e na história de instituições, tais como a linguagem, os
costumes e o mito. O método, entretanto, não é exato, e as interpretações baseadas em seus
achados estão sujeitas a muitos deslizes. A esse respeito, James faz um comentário no qual diz
que as pesquisas posteriores provaram ser verdade que os estudos comparativos, para darem
bom resultado, devem ser feitos, com a finalidade de provarem alguma hipótese específica. E
acrescenta que "a única coisa a fazer então é usar a maior perspicácia possível e ser o mais
sincero que se puder".

Em seus comentários sobre os vários métodos, William James mostra amiúde que está a par
das dificuldades em seu uso: a introspecção é, às vezes, imprecisa; a experiencia é, por vezes,
cansativa e inútil; a interpretação dos resultados da psicologia comparada pode tornar-se um
"trabalho estafante". Porém, existem duas dificuldades neste metodo que acha tão profundas
e tão sérias que sentiu ser preciso considerá-las à parte.

3 Wllliam James, The Principies o! Psychoiogy, 5, 192-193.

Uma delas provém do uso da linguagem. Nossas palavras são forjadas pelo senso comum e não
pela ciência; foram feitas para servir às necessidades práticas da vida diária e não para refletir
os pensamentos e os sentimentos. Como resultado, não existe uma correspondência digna de
confiança entre as palavras e os fatos da consciência, e as palavras deformam nossa visão do
material psicológico. Se não existe uma palavra para designar um fato mental, somos
inclinados a omitir o próprio fato; achamo até difícil acreditar que tal fato exista. Por outro
lado, se existe uma palavra que pretenda significar um processo mental, somos levados a crer
neste, mesmo que não haja prova introspectiva de sua existência. Além disso, uma vez que as
palavras do senso comum têm habitualmente uma significação concreta, é provável que
achemos que nossos pensamentos são idênticos aos objetos que representam. Assim, somos
inclinados a encarar o pensamento das diversas coisas isoladas como porções separadas de
pensamento; e devido aos objetos do pensamento irem e virem sem cessar, julgamos os
pensamentos como indo e vindo, permanecendo e retendo sua identidade como cremos que
ocorra com os objetos. Esta ilusão, de acordo com James, encontra-se na base de todas as
escolas associacionistas e herbartistas e da concepção atomística da psicologia em geral - uma
ilusão contra a qual o psicólogo deve estar sempre alerta.

A outra grande dificuldade é a "ilusão do psicólogo". Em sua essência, é uma confusão entre o
ponto de vista do psicólogo e o do estado mental que o mesmo está estudando. O psicólogo,
como tal, está fora do estado mental que estuda, mesmo do seu próprio. Conhece não só o
estado mental, mas também o seu objeto, e o mundo da realidade no qual o pensamento e o
objeto existem. Poderá, portanto, extrair de um estado mental, por exemplo, a percepção de
uma árvore, o que ele conhece a respeito dela além da percepção; isto é, pode supor que tudo
que sabe a respeito da mesma está nesta percepção atual. Pode ainda supor que esta
percepção da árvore se pareça com ela. AlémÀlsso, pode admitir que a percepção tem
consciência de si mesma como ele, enquanto psicólogo, tem dela; e que ao invés de se conhecer
somente de dentro para fora, conhece também suas próprias relações com os outros
pensamentos e coisas comó ele, o psicólogo, as conhece. Porém, se nós considerarmos a
própria consciência e virmos como ela realmente é, descobriremos que a consciência de um
certo objeto não tem que

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Psicologias do Século XX

159

ser igual ao objeto a que se refere, e que, em si mesma, não tem que estar consciente de suas
relações externas. Novamente James insistia num apelo à experiência imediata. Este apelo,
realmente, é a base verdadeira de sua advertência contra a "ilusão do psicólogo". O que estava
instando, para que a psicologia fizesse, era examinar a sua matéria sem preconceitos - para
verificar tudo o que ali existe e nada mais do que ali existe, e ver isso não deformado pelo
hábito, pelo saber, ou pelos costumes não-críticos do senso comum.

A relação entre a mente e o corpo, como William James a considerava em psicologia, pode ser
descrita em poucas palavras. Como uma ciência natural a psicologia deve começar pelo ponto
de partida comum a todas as ciéncias, ou seja, o mundo como é visto pela observação singela
de todos os dias. A partir deste ponto de vista, as mentes estudadas pelo psicólogo são objetos
num mundo de objetos; são as mentes de determinados indivíduos, existindo no tempo e no
espaço. "Com qualquer outra espécie de mente, com a Inteligência Suprema, com a Mente
não ligada a um determinado corpo, ou com a Mente não sujeita à passagem do tempo, o
verdadeiro psicólogo nada tem a ver". Aceita simplesmente, e como fato empírico, que as
condições imediatas das mentes são organismos vivos e cérebros; a natureza final da relação
entre eles é um problema de metafísica, e não de psicologia.
As mentes possuem uma outra relação com o mundo dos objetos no qual elas existem - a de ter
consciência desses objetos, de conhecê-los e de aceitá-los ou rejeitá-los. Com referência a esta
relação, nada se pode dizer a não ser a simples afirmação de que existe. Para o psicólogo, o
conhecimento é uma "relação primária que precisa ser aceita, quer seja explicada ou não, de
forma idêntica às diferenças e semelhanças que ninguém procura explicar". De fato, existem
problemas que giram em torno da relação do conhecimento, porém, são epistemológicos e não
psicológicos. A atitude do psicólogo é simplesmente a de que a relação do conhecimento existe,
e que não pode ser reduzida a termos mais simples ou mais inteligíveis, e deve ser aceita assim
como a ciência aceita qualquer outra relação que, a seu ver, seja básica.

É importante observar que foi William James, o psicólogo, que tomou essa posição em relação
ao problema mente-corpo. Como filósofo estava profundamente interessado no problema que
ele separou da psicologia por ser metafísi co

Em sua teoria do empirismo radical - mais exatamente no seu ensaio "Existe a Consciência ?" -
introduz, como filósofo, uma concepção original sobre a relação mente-corpo. Porém, embora
muitas de suas atitudes, que foram mais tarde explicadas em sua filosofia, possam ser notadas
em sua psicologia, James, como psicólogo e como autor do The Principies, manteve a posição
que formulara.

O mesmo se diga sobre a atitude de William James no tocante aos problemas básicos de seu
objeto e método e da relação das mentes com o mundo em que existem. O seu modo de tratar
os problemas especiais deve ser examinado a seguir. Aqui, de modo ainda mais claro do que em
seu debate dos princípios básicos da psicologia, seu estilo característico é revelado. Seria
impossível apreciar tanto o viço como a extensão de seu tratamento, sem se notar sua
maneira de lidar com alguns dos assuntos especiais da psicologia.

No capítulo sobre o eu, William James mostra alguns de seus hábitos mentais mais típicos. Não
trata do eu como se fosse uma simples abstração, que persiste através da experiência, dando-
lhe unidade; trata com os eus percebidos que vivem no mundo real. Em sua forma mais
evidente, o eu é material, porém, esta matéria é variável. O eu material é o corpo, porém, é
mais do que isso; inclui as roupas, a casa, as propriedades e a conta no banco - todas as posses
que o eu pode considerar suas. Todas essas coisas despertam as mesmas espécies de
sensações, embora não necessariamente no mesmo grau. Quando aumentam e prosperam,
produzem júbilo e uma sensação de triunfo; quando diminuem ou acabam, produzem
abatimento e depressão, e uma sensação de "conversão parcial. . . ao nada, que é, em si
mesmo, um fenômeno psicológico".

Em acréscimo ao eu material, existe o eu social - ou melhor, há um conjunto de eus sociais,


pois cada pessoa possui tantos eus sociais quantas sejam as pessoas que a conhecem e têm
uma opinião ou idéia a seu respeito. Porém, uma vez que essa gente pertence a diversas
classes ou grupos, é possível dizer que uma pessoa tem tantos eus sociais quantos forem os
grupos de pessoas cuja opinião é importante para ela - um eu familiar, um profissional, um no
clube, um que mostra aos de sua idade, aos mais velhos, aos seus patrões, aos seus
empregados, a todos que conhece. Mes4 WiIliam James, 'Does Consciousness Exlst?" Essajs in
Radical Empirtci.sm, 1-38.
dA

Psicologias do Século XX

161

160

Edna Heidbreder

mo a sua "fama" ou "honra" são eus sociais. Os triunfos e as desgraças de seus eus sociais
provocam as mesmas espécies de subidas e quedas na emoção, e os mesmos tipos de júbilo ou
depressão, como o fazem as eventualidades do eu material.

Mais íntimo do que qualquer desses eus é o espiritual - as capacidades intelectuais, os


sentimentos, a vontade, "todas as faculdades psíquicas ou disposições em seu todo". É o eu
espiritual que sentimos ser o mais verdadeiro, e por esse eu James queria significar o que é
realmente sentido na experiência - não uma simples abstração, não uma necessidade lógica de
pensar, não algo fora ou além da realidade imediatamente sentida. Encontra o seu foco num
sentido de atividade, algo interno mesmo aos pensamentos e sensações, algo que parece sair
para encontrar todas as qualidades e conteúdos da experiência, enquanto estes parecem vir a
ele sendo recebidos pelo mesmo. Porém, este eu espiritual James acha que não é de todo
espiritual no sentido comum em que a palavra é aceita. Não nega que o sentido de atividade
está presente; também não duvida um só momento da legitimidade da experiência; porém,
quando observa a experiência psicologicamente, acha que esta sensação é sempre da
atividade física, em sua maior parte se efetuando dentro do crânio. Os ajustes dos órgãos dos
sentidos, as aberturas e fechamentos da glote, a contração do músculos das mandíbulas e da
testa, os movimentos da respiração - estes e outros processos semelhantes contrib'iem para a
sensação. E a percepção dessas atividades, indefinidas mas sempre presentes, constantes em
comparação a outras atividades, é responsável de certa forma pelas características que nós
sentimos como a natureza mais íntima do eu - para este, como uma atividade que persiste
através de todas as outras, porém, não se identificando coh as mesmas. O fato de que os
processos são indefinidos, monótonos e sem interesse em si, explica por que não são
reconhecidos pelo que são, por que passam quase despercebidos, e todavia constituem um
substrato de sensação verdadeira que conhecemos como o eu espiritual.

Tomados em conjunto, o eu material, o social e o espiritual formam o eu empírico,


constituindo assim uma associação het6rogênea, na qual os diversos componentes nem
sempre estão em paz. Ninguém descreveu de modo mais real do que James os numerosos
impulsos, as possibilidades de conflito e rivalidades, dentro de um único eu:

"Como acontece com muitos motivos de desejo, a natureza física restringe nossa escolha para
um só entre muitos bens apresentados, e assim também acontece neste caso. Deparo com
freqüência com a necessidade de ficar com um dos meus eus empiricos e renunciar aos outros.
Não significa que eu não queira, se pudesse, ser ao mesmo tempo elegante e gordo, bem
vestido, grande atleta, ganhar um milhão de dólares por ano, ser humorista, bon-vivant,
conquistador e também filósofo; filantropo, estadista, guerreiro e explorador africano, assim
como músico romântico e santo. Porém, isto é simplesmente impossível. Os interesses do
milionário iriam de encontro aos do santo; o bonvivant e o filantropo não poderiam andar de
acordo; o filósofo e o conquistador não poderiam viver na mesma habitação. Tais caracteres tão
diferentes podem ser concebidos como possíveis para um homem no começo de sua vida.
Porém, tornar qualquer um deles real exige que os restantes sejam mais ou menos suprimidos.
Assim, aquele que busca o seu eu mais real, mais forte e mais profundo, deve rever esta lista
com atenção e escolher aquele com o qual possa garantir seu futuro. Todos os outros eus por
isso tornam-se irreais, mas os acontecimentos deste eu são reais. Seus fracassos também, assim
como suas vitórias, levando vergonha e alegria com eles.

"Eu, que até agora me apliquei inteiramente em ser um psicókzgo, sofro se outros conhecem
muito mais psicologia do que eu; porém, estou satisfeito em chafurdar-me na maior ignorância
do idioma grego. Neste caso, as minhas deficiéncias não me fazem sentir humilhado. Tivesse
eu pretensóes' de ser um lingüista, teria sido exatamente o contrário. Assim, podemos observar
o paradoxo de um homem que se sente envergonhado só por ser o segundo pugilista ou o
segundo remador do mundo. O fato de que ele seja capaz de derrotar toda a população do
globo, menos um, nada significa; comprometeu-se a derrotar aquele único homem; e enquanto
não o fizer, nada mais importa. Aos seus próprios olhos, ele é incapaz de derrotar quem quer
que seja; e, se ele assim pensa, ele assim é."

Naturalmente, o eu empírico, de acordo com James, carece daquela unidade absoluta que o
pensamento popular, a teologia e muitos sistemas de filosofia consideram como sua
característica essencial.

Tudo o que dissemos, entretanto, é aplicável ao eu empírico, aquele que é conhecido


diretamente pela experiência. Resta o eu puro, como pensador, não como objeto do
pensamento. Porém, ainda quando considera o eu puro, James não encontra evidência de
unidade absoluta. De fato, é criada a impressão de unidade; parece haver qualquer coisa no
próprio centro do ser que se conserva através de todas a mudanças da experiência. Porém,
esta impressão de unidade é explicada por James em função de certos estados transitórios da
consciência, certos sentimentos de relação no fluxo do pensamento. Cada instante da
experiência vem à luz

5 Wllliam James, The Princples of Psycholog3/, 1, 309-310.

Ij

16!

Edna Heidbreder

Psicologias do Século XX

163 11

em seguida a outro que, embora esteja passando, ainda não o fez por completo; sente a sua
continuidade com o seu anterior, apropria-se dele e, por sua vez, é apropriado pelo que lhe
sucede. Existe assim uma sensação contínua de propriedade, mas não é devida a algo unitário
por detrás da experiência, é devida a relações de apropriação na experiência e que transmitem
a sensação de propriedade de um instante para o outro. Essa explicação da identidade pessoal é
mantida por James contra a teoria de uma alma imaterial e substancial, contra a doutrina do eu
dos associacionistas, como sendo estados sucessivos de consciência e que "se colam uns aos
outros", e contra a doutrina kantiana de um eu transcendental de apercepção que está
logicamente subentendido em todo pensamento. Tudo o que é preciso para explicar a unidade
do eu, é por ele encontrado no fluxo da consciência, mais propriamente nas relações de
apropriação que são estados transitórios que podem ser encontrados na experiência imediata.

William James conclui seu capítulo sobre o eu relatando casos de notáveis mudanças de
personalidade - aqueles fenômenos de personalidades múltiplas, estados de consciência
cindidos e dissociação que sempre o interessaram. Para ele, isso parecia representar a
evidência empírica de que o eu não é a unidade absoluta que freqüentemente dizem ser. Para
ele, o fenômeno da dissociação parecia ter implicações de grande alcance com respeito
organização dos eus reais.

Este resumo omitiu naturalmente grande parte dos detalhes concretos que dão ao capítulo o
seu tom característico. Em nenhuma prte do livro The Principies, o estilo de James é melhor
apresentado do que quando trata do eu. As observações perspicazes e compreensivas, as
descrições pitorescas, o estudo empírico, a explicação da unidade do eu em função das
sensações transitórias de relação, a explanaç .o cuidadosa de sua posição com o devido
respeito às teorias correntes, tanto psicológicas como metafísicas, o interesse pelos fenômenos
recentemente investigados das personalidades anormais - tudo revela o seu toque
característico. E através de todo o capítulo que percorre toda a gama da observação direta até
a especulação metafísica abstrata, do exame minucioso até à generalização ampla, o eu
permanece como uma coisa vivente. Não é tratado como abstração, como alma, ou como
sucessão de idéias simples, ou necessidade lógica de pensar, mas sim como realidade
psicológica, não apenas imaginada mas também sentida.

Outra das atitudes características de William James é encontrada em seu modo de tratar os
processos intelectuais. Foi uma de suas maiores crenças a de que a psicologia havia
intelectualizado em excesso o seu material; e, às vezes, parecia que o seu principal interesse,
ao discutir a natureza do homem racional, era o de mostrar como este é, em grande parte,
irracional. Na base de seu modo de tratar a definição, a crença e o raciocínio, assenta-se a
profunda convicção de que as atividades intelectuais estão presentes no animal humano
porque possuem utilidade biológica; fazem parte das maneiras práticas pelas quais a criatura
humana se mantém no mundo.

Assim, as definições são criações dos seres viventes aplicadas em determinadas empresas e
objetivos. São secções retiradas do fluxo da experiência, recebendo nomes e adaptadas para
atender às finalidades humanas. São maneiras humanas de tratar com a experiência, que em si
nunca fica imóvel. As definições, entretanto, são fixas e imutáveis; são tornadas fixas e
imutáveis por meio do intelecto. Constituem o "âmago" de nosso pensar, uma vez que somente
se referindo à sua estabilidade somos capazes de tratar com a experiência, a qual de outra
forma nos escaparia para sempre. Quando, por exemplo, pensamos sobre o papel como algo
para ser escrito, nós isolamos e fixamos este fato a seu respeito e, ao assim fazer,
transformamo-lo em alguma coisa na qual podemos agir de certa forma. Porém, tal concepção
é de nossa própria autoria; é um instrumento talhado para uma certa necessidade; não quer
dizer que o papel seja essencialmente algo para ser escrito. Não existe, insiste James, nenhuma
propriedade completamente exclusiva de unia determinada coisa. Enquanto estamos
escrevendo, o papel é concebido como uma superfície para escrever, porém, se o estivermos
usando para acender fogo, é imaginado como material combustível. O mesmo papel pode ser
concebido de inúmeras maneiras: "um corpo delgado, um hidrocarboneto, um corpo de oito
por dez polegadas, um objeto próximo a uma pedra no quintal de meu vizinho, um produto
norte-

-americano" são alguns exemplos. A concepção, acrescenta ele, é necessariamente parcial.

'Qualquer um desses aspectos de seu ser que eu classificar pro\'isoriamente, torna-me injusto
para com os outros. Porém, como estou sempre classificando-o sob um aspecto ou outro, sou
sempre injusto, sempre parcial, sempre exclusivista. Minha desculpa para isso é a da
necessidade que a minha natureza prática e limitada me impõe.

164

Edna Heidbreder

Meu pensamento existe, sempre, e do princípio ao fim, em consideração com o que faço, e só
posso fazer uma coisa de cada vez." 6

William James considera uma idéia contrária ao senso comum o fato de não haver uma
qualidade inteiramente exclusiva de um objeto, nem uma coisa que seja ele verdadeiramente. O
senso comum admite que deve haver algo no âmago de um objeto que constitua a sua essência
e da qual suas várias características sejam simplesmente propriedades. A essência do objeto é o
que lhe dá o nome. O objeto é o papel, e sua forma retangular, sua propriedade de combustão,
sua distância de uma certa pedra são propriedades que lhe são inerentes. Porém, esta atitude é
em si devida a uma de nossas finalidades práticas e determinadas, qual seja a de dar nome aos
objetos. É de grande utilidade ter nomes para as coisas, algo por meio do qual elas possam ser
representadas, mesmo quando ausentes. Como resultado, o hábito de dar nomes tornou-se tão
corriqueiro que os nomes mais comuns nos vêm à mente para significar o que tal coisa é, sob as
maneiras mais raras de concebê-las. Ou então, se adotarmos a atitude da ciência popular,
podemos pensar sobre a água como sendo real e essencialmente H20. Porém, a água não é mais
verdadeira como 1120 do que como algo a ser bebido, ou que conserva viçosas as flores.
Concebê-la sob sua fórmula química é útil em algumas circunstâncias, e sob outras formas, é útil
em outros casos; porém, nenhuma definição representa de modo invariável a sua realidade
separada de certas finalidades. "Toda a função de definir, de fixar, de se ater aos significados,
nada representa além do fato de que aquele
que define é um ser com propósitos limitados e objetivos próprios.""

O raciocínio, assim como a definição, está baseado em necessidades irracionais, e desde o


início está sujeito a condições não racionais. O raciocínio, sem dúvida, não é uma ocorrência de
um intelecto que está fora do corpo. É, por um lado, uma questão de associação; deve usar o
que oferecem os processos associativos e, está, portanto, na dependência do mecanismo do
cérebro. É também uma questão de seleção. A partir de todos os materiais apresentados, um
determinado tipo é extraído como essencial. Este processo de seleção foi há pouco debatido
como concepção; e a habilidade de escolher uma matéria de maneira adequada, captar e iso6
Wllliam James, op. cit., II, 333.

T William James, op. cit., 1, 482.

P8icologiczs do Século XX

165

lar os elementos essenciais para as necessidades do caso, é o passo mais importante em todo o
processo do raciocínio. Conceber de maneira adequada pressupõe a habilidade de dividir uma
situação completa em partes, ver o que é importante e - o que possui a mesma importância -
ignorar o restante, o caráter selecionado provoca então associações que levam à
conclusão. Estas associações são, naturalmente, resultados do aprendizado. Assim, se o calor é
imaginado como movimento, os fatos já conhecidos sobre movimento são agora associados ao
calor. Para se compreender o calor de forma mecânica, existem dois estágios. Um deles abrange
o que James denomina sagacidade; é a concepção do calor como movimento. O outro inclui o
aprendizado; é o despertar do conhecimento associado à idéia de movimento. Em forma de
silogismo, o ato de imaginar fornece a premissa menor, a de que o calor é movimento. A
premissa maior, a proposição sobre movimento, origina-se pela associação.

Isto não significa que James queira dar a impressão de que o raciocínio, do ponto de vista
psicológico, siga o padrão do silogismo. Uma vez que o raciocínio depende da associação, está
sujeito a todos os imprevistos, restrições, irregularidades e impropriedades da associação. A
associação por igualdade é especialmente importante para o raciocínio porque está presente
na concepção, na percepção da essência. A escolha, também, desempenha um papel
importante no raciocínio. Surge primeiro na formação de conceitos - isto é, na escolha das
coisas principais; porém, os processos, pelos quais as associações importantes para o elemento
escolhido são despertadas, também incluem a escolha. E esta, não é demais repetir, é uma
atividade de seres com finalidades parciais e práticas que estão em busca de fins particulares.
James sublinha o fato de que o raciocínio ocorre no interesse da ação.

Finalmente, a crença, assim como a conceituação e o raciocínio, é determinada por fatores


irracionais. Para James, a crença está mais próxima da emoção do que de tudo o mais; e a
credulidade, o sentido imediato e indiscutível da realidade, é considerado por ele como a
nossa primeira resposta às nossas próprias percepções e pensamentos. A credulidade não é o
resultado de uma prova; ela surge antes de aparecer a necessidade de provar. Temos forte
tendência para aceitar como verdadeiro tudo que nos é apresentado; somente quando algo
interfere com a crença, ou vem contra

166

Edna Heidbreeler 1 P8icologias do Século XX

167
ela, é que começamos a duvidar. Isto significa que existem muitas formas de realidade, muitos
tipos de crença, e que devemos escolher um como real e desprezar os outros. Devemos
resolver, por exemplo, se numa determinada percepção, estamos vendo um fantasma, um
nevoeiro ou uma alucinação. Existem, realmente, vários tipos de realidade que muita gente
reconhece e seleciona uma das outras. Há, em primeiro lugar, o mundo dos sentidos ou coisas
físicas na forma como as percebemos de imediato, com suas cores, sons e temperaturas. Existe
também o mundo da ciência, do qual as cores, os sons e outras qualidades secundárias estão
excluídos. Existem mundos de relações abstratas, dos quais são exemplos os mundos da lógica e
da matemática. Existem vários mundos sobrenaturais, tais como o Céu e o Inferno dos cristãos,
e o mundo da mitologia clássica. Existem mundos de ficção intencional, como o de Pickwick
Papers, o qual, embora admitido como ficção, possui uma realidade própria tão peculiar que a
idéia de uma alteração qualquer é percebida logo como própria ou imprópria. Existem todos os
mundos da opinião pessoal. Existem até mundos da loucura, que possuem o seu tipo especial de
realidade.

Face a tantas possibilidades, deve haver uma escolha. Tais possibilidades não são, entretanto,
reciprocamente exclusivas. Aceitamos o mundo dos sentidos, e o da ciência, e o do Pickwick
Papers em diferentes estados de humor e para fins diversos. Contudo, nos deparamos amiúde
com a tarefa de distinguir o real do irreal, e o mais verdadeiro do menos; e, ao assim fazer, não
usamos um critério único mas vários. James escreve:

"Por via de regra, a persistência com a qual um objeto contraditório se conserva em nossa
crença é proporcional a várias qualidades que deve possuir. Dessas, uma que deveria ser posta
em primeiro lugar por muita gente, porque caracteriza objetos de sensação, é sua - "(1)
Coercitividade sobre a atenção, ou o simples poder de ter

consciência; a seguir, vem:

"(2) Vivacidade, ou pungência sensível, em especial no sentido de despertar prazer ou dor;

"(3) Efeito estimulante sobre a vontade, isto é, capacidade de provocar impulsos ativos,
quanto mais instintivos melhor;

"(4) Interesse emocional, como objeto de amor, temor, admiração, desejo etc.;

"(5) Congruência com certas formas de contemplação - unidade, simplicidade, estabilidade e


coisas parecidas;

"(6) Independência de outras causas e seu próprio valor como causa." 8

Porém, subjacente a todas essas condições de crença esta o fato de que uma coisa, para ser
acreditada, deve possuir alguma relação vital com o eu. Deve causar prazer ou dor, ou
conduzir à ação. Do ponto de vista exclusivo do intelecto, damos uma certa realidade a um
objeto no qual pensamos; aceitamo-lo como real pelo menos como objeto de pensamento.
Porém, não somos simples seres intelectuais; somos criaturas dotadas de emoção e vontade
também; e atribuímos maior grau de realidade às coisas que despertam nossa natureza
emocional e volitiva. Só é verdadeiramente real aquilo que tem alguma ligação com o eu, que
o atinge com alguma palavra "pungente", que o estimula emocional- mente e que o impele à
ação. A relação entre a vontade e a crença é de especial significado para James. Ele mantém
que o objeto da crença não é somente determinado pela evidência, mas em grande parte pelo
desejo e finalmente pela decisão do que crê. O que nós desejamos acreditar, determina em
grande parte o que nós acreditamos.

Assim, os processos do pensamento, como James os encara, não são de forma alguma racionais
num sentido absoluto. As conceituações formam-se a partir do ponto de vista de fins
particulares; o raciocínio é exercido no interesse da ação; e as crenças são determinadas pelo
desejo e pela vontade tanto quanto pela prova e pela evidência, O pensamento é uma
atividade de seres ue estão em busca de programas de ação práticos e limitados. O intelecto
humano se assenta nas necessidades dos organismos vivos, que têm algo a realizar no mundo.

Em seu capítulo sobre o instinto, James comenta outro aspecto não racional da conduta
humana:

"Pois bem, por que os diversos animais fazem o que nos parece estranho, em presença de tais
estímulos esquisitos? Por que a galinha. por exemplo, submete-se ao incômodo de incubar esse
conjunto de coisas tão desinteressante como uma ninhada de ovos, a menos que possua
alguma espécie de visão profética do resultado? A única resposta é ad hominem. Só podemos
interpretar os instintos dos seres brutos pelo que sabemos dos nossos próprios instintos. Por
que os homens sem pre se deitam, quando podem, em camas macias, em vez de chãos duros?
Por que se sentam perto da lareira num dia frio? Por que, numa sala, se colocam, em 99% dos
casos, com os rostos na direção do meio desta, em vez da parede? Por que preferem costeletas
de carneiro e champanha em vez de pão seco e água suja? Por que a jovem interessa tanto ao
moço, de forma que tudo a respeito dela lhe pareça mais

8 WiIIiam James, op. cit., II, 300.

- 9 Id..The WUI lo Be!ieue aniL Other Essays in Popular PhiloSOpkii,

1-32.

168

Edna Heicibreder

Psicologias do Século XX

169

ii

importante e significativo do que qualquer outra coisa no mundo? Nada mais se pode dizer
senão que assim se comportam os seres humanos e que cada criatura goeta de seus próprios
modos e os segue como coisa natural. Pode acontecer que a ciência examine essas maneiras e
verifique que a maioria delas é útil. Porém, não é por causa de sua utilidade que são seguidas,
mas porque na ocasião de adotá-las esta é a única coisa conveniente a fazer. Nem um só
homem dentre um bilhão, ao fazer sua refeição, pensa jamais sobre sua utilidade. Come
porque o alimento lhe parece bom e o faz desejar mais. Se você lhe perguntar por que deseja
comer mais daquela comida saborosa, em vez de considerar você como um filósofo, há de
dizer, rindo, que você é um idiota. A relação entre a sensação de sabor e o ato que ela
despertar é para ele absoluta e selbstverst,finlZich., ou seja, uma 'síntese a priori' do tipo mais
perfeito, não requerendo nenhuma prova a não ser a sua própria evidência. Em resumo, é
preciso ter o que Berkeley chama de mente corrompida pela cultura para fazer com que o
natural pareça estranho, a ponto de perguntar o porquê de qualquer ato humano instintivo.
Somente para o metafísico podem ocorrer perguntas como estas:

Por que sorrimos quando satisfeitos, e não franzimos a testa? Por que somos incapazes de
falar a uma multidão como falamos a um único amigo? Por que determinada moça nos
transtorna tanto? O homem comum pode dizer somente: 'naturalmente nós sorrimos,
naturalmente nosso coração palpita à vista da multidão, naturalmente amamos a moça,
aquela bela alma encarnada em forma perfeita, tão palpável e feita evidentemente para ser
amada eternamente!'

"E assim, provavelmente, sente cada animal a respeito de certas coisas que tem tendência a
fazer em presença de determinados objetos. Essas coisas são também sinteses a prori. Para o
leão, é a leoa que foi feita para ser amada; para o urso, a ursa. Para a galinha choca pareceria
monstruosa a idéia de que houvesse alguém no mundo que não considerasse atraente uma
ninhada de ovos para deitar-se em cima dias a fio com a maior satisfação." 10

Este trecho, mostrando a natureza impulsiva e irracional do instinto, contém o ponto essencial
do ensino de James a este respeito. Talvez devêssemos observar que a ênfase dada ao instinto
na época de James tinha significado muito diferente do qué teria nos dias atuais. Existe hoje, na
psicologia, uma tendência para afastar-se do conceito de instinto, em desconfiar dele porque
poderia talvez subentender idéias inatas, ou mesmo alguma força misteriosa, não analisável
pela ciência, que forçaria o organismo a comportar-se de determinadas maneiras, algo que
desencorajaria a pesquisa porque seria aceito como um "dom". Porém, na geração de James,
um destaque dado ao instinto, principalmente se fosse associado às suas idéias sobre a
natureza dos processos intelectuais, significava chamar a atenção para o fato de que as espécies
estudadas pela psicologia humana

são, em última análise, biológicas; significava um abandono da psicologia de idéias simples e


Vorstellungen, e um passo no sentido de considerar o homem como um organismo vivo no
mundo da natureza.

Realmente, é interessante observar que alguns dos comentários de James sobre o instinto,
publicados em fins do século passado, estão estreitamente de acordo com as tendências da
psicologia atual. James dizia que os instintos não são obrigatoriamente "cegos e invariáveis"
como afirmava o conceito histórico de instinto, e que podem ser modificados pelo hábito. Neste
ponto, suas observações estão em harmonia com a melhor das evidências experimentais
disponíveis atualmente, que mostram que quando as atividades comumente classificadas
como instintivas são submetidas à observação sob condições controladas, verifica-se que elas
não são as realizações "perfeitas", imutáveis e inevitáveis que se poderia esperar, de acordo
com o antigo conceito. Além disso, sua idéia de que os seres humanos têm um grande número
de instintos - realmente, mais do que os possuem os animais inferiores - está também de
acordo com as críticas contemporâneas, pois inclina-se no sentido da especificidade. A
partição do instinto em modos típicos de comportamento foi, de fato, o primeiro passo no
sentido de abandonar a antiga idéia de instinto como uma grande força, incerta, carregada de
misteriosa potência. As forças enormes e incertas que são, por definição, misteriosas não se
prestam para os estudos práticos da ciência; mas em face de realizações definidas e típicas, a
ciência pode agir imediatamente. Como resultado, quando os pesquisadores resolveram dividir
entidades maiores, como o instinto de conservação, em atividades particulares, como a
locomoção e a fala, ou mesmo em atividades definidas menores, como a criatividade, a
curiosidade e a combatividade, o espanto e o pavor, em presença do desconhecido, começaram
a dar lugar às pesquisas sobre ocorrências concretas e definidas.

Em seu modo de tratar as emoções, James desenvolveu a teoria que é talvez a sua
contribuição mais famosa para a psicologia. Trata-se do conceito conhecido como teoria das
emoções de James-Lange. Ao considerar o problema dó ponto de vista psicológico, convenceu-
se de que a emoção nada mais é que a sensação da atividade corporal despertada por via
reflexa por certas circunstâncias estimulantes. O fisiólogo dinamarquês Lange, estudando em
particular o

10 Willlam James, The Principies of Psychoiogy, II, 386-387.

1I

170

Edna Hei4breder

sistema circulatório, chegou à conclusão de que as sensações das mudanças vasomotoras


constituem a base das emoções. Os dois cientistas publicaram a teoria em separado e quase
ao mesmo tempo.

William James expôs sua teoria, opondo-a ao ponto de vista do senso comum:

"O senso comum afirma que ao perdermos nossas riquezas, ficamos tristes e choramos;
encontramos um urso, ficamos com medo e corremos; somos insultados por um inimigo,
ficamos com raiva e brigamos. A hipótese a considerar neste caso diz que a ordem desta
seqüência está errada, que um dos estados mentais não é imediatamente induzido pelo outro,
que os sintomas corporais devem primeiramente interpor-se entre eles, e que uma afirmação
mais racional é a de que nós ficamos tristes porque choramos, zangados porque brigamos,
medrosos porque trememos, e não que choramos, brigamos ou trememos porque estejamos
tristes, zangados ou medrosos, conforme o caso. Sem os estados corpóreos sucedendo à
percepção, esta última seria puramente cognitiva, pálida e incolor, destituida de calor
emocional. Poderíamos então ver o urso, e decidir se é melhor correr, receber o insulto e achar
que devemos brigar, mas não sentiriamos realmente medo ou raiva."

Nas emoções mais grosseiras, tais como a raiva, o temor, o pesar e o amor, as perturbações
corpóreas são óbvias; naquelas mais sutis, as respostas do corpo, embora não tão fáceis de
descobrir, estão, não obstante, presentes. A não ser que se sorria ante um fato humorístico, a
menos que vibremos em face de um ato de justiça ou coragem, não teremos uma apreciação
emotiva da situação; teremos simplesmente uma percepção intelectual de que o objeto de
nossa atenção é engraçado, justo ou corajoso. Sem a perturbação corporal, forte ou fraca, não
existe emoção.

Esta teoria, como James a expõe de modo explícito, é diretamente oposta à concepção do
senso comum. De acordo com este, vemos primeiro o urso, a seguir sentimos medo, e depois
corremos; a ordem dos fatos é a percepção, a emoção e o movimento do corpo. James inverte
a seqüência temporal dos dois últimos fatos; o movimento corporal precede a emoção e
constitui a sua base. O que sentimos realmente como emoção é o conjunto de sensações
ocasionadas pelos movimentos do corpo. A sensação desses movimentos é a emoção.

Porém, a teoria, assim exposta, está numa forma muito crua e ousada. São necessários certos
requisitos para fazer com que esta exposição descreva o pensamento de James de

11 WilIiam James, The Principies o! Psychoiogy, fl, 449-450.

Psicoogias do Sdculo XX

171

maneira mais exata. Em primeiro lugar, James não quer dizer que existem três fatos
psicológicos separados - a percepção do estímulo, os movimentos do corpo e a sensação dos
mesmos - separados por intervalos apreciáveis de tempo. A seqüência é tão rápida, e a
superposição é tão grande, que não se pode esperar nenhuma introspecção exata de ordem
temporal. O que ele quer dizer é que a emoção possui uma

base orgânica, e que sem a sensação do movimento do corpo

não haverá emoção, e que além e acima das sensações provo cada pelo estímulo do corpo não
existe substância da mente

ou puramente mental fazendo parte da emoção. Em segundo

lugar, embora insista na ligação imediata entre a percepção

e os movimentos do corpo, James não nega o papel desem penhad pela resposta cortical ao
influir na reação total.

Ao contrário, insiste nisso. Um urso na floresta e outro

numa jaula provocam reações diferentes; isto porque repre senta circunstâncias diferentes e a
situação global é a que

tem valor. James, sem dúvida, admite uma ligação imediata

e instintiva entre o objeto e a reação; declara que "os obje to estimulam as mudanças corporais
por meio de um me canism preestabelecido"; mas insiste também que a situa çã total, e não
determinada parte dela, é que produz o resul tado; e a captação da situação global implica uma
resposta

cortical. Na realidade, James mostra-se vago em relação à


natureza exata da ligação entre o objeto estimulante e a

perturbação corporal; porém, levando em conta que tanto

o conceito de instinto quanto o conhecimento do sistema ner vos eram muito imprecisos na
época em que estava escre vendo o fato não causa surprIM4 É evidente, entretanto,

que ao salientar a proximidade cra ligação entre a percepção

e o movimento, descreve a emoção mais para o lado instintivo

da natureza humana, do que para o intelectual. O fato que

deseja deixar claro é o de que, embora a idéia ou a aprecia çã intelectual do perigo possa estar
presente e, nesse caso,

faça sua contribuição típica ao tom emocional, aquela idéia

não é em si a base do medo.

O ponto de vista de James foi criticado de modo adverso

tanto pelos psicólogos como pelos fisiólogos. A principal obje çã feita pela psicologia de sua
época proveio do fato de que

aquele ponto de vista abolia um elemento tipicamente afeti vo Se James houvesse sido um
psicólogo que formasse esta do de consciência a partir de elementos, poderia ter cons truíd
um sistema inteiro, usando de um só elemento, a sen sação pois havia reduzido a emoção e o
sentimento a sen

172

Edna Heidbreder

sações das mudanças corporais, orgânicas e outras. Alguns de seus contemporâneos se


opuseram fortemente a esse ponto de vista, entre eles, Titchener, 12 que lutou em defesa de
um elemento afetivo, insistindo que a afecção é intrinsecamente diferente da sensação
orgânica ou outra de qualquer tipo. Achava que a teoria confundia a afecção com a sensação
orgânica, e tinha certeza de que uma diferença irredutível entre a afecção e a sensação de
qualquer espécie é revelada de forma inconfundível pela introspecção.

Naturalmente, a teoria de James-Lange interessava aos fisiólogos, bem como aos psicólogos.
Sherrington ' e Cannon, 14 para mencionar dois dos autores mais conhecidos, procuraram
testar esta teoria através de experiências de laboratório. Sherrington, trabalhando com cães,
seccionou o trato espinal que transmite ao cérebro os impulsos nervosos que provêm das
vísceras do tronco. Verificando que a vocalização, as expressões faciais e os movimentos deste
gênero, geralmente associados com a emoção, ocorriam mesmo após a operação em
circunstâncias que normalmente causariam emoção, concluiu que esta não poderia ser
produzida na maneira descrita por James. Cannon encontrou os sinais habituais de raiva e
medo em gatos, após haver retirado a parte do sistema pervoso autônomo que se relaciona
com a estimulação das reações viscerais normalmente presentes durante aquelas emoções.
Descobriu, também, por uma série de experiências, que as mesmas mudanças fisiológicas
estavam presentes no medo, raiva, fome e dor; em outras palavras, que as diversas emoções
não podiam ser diferençadas com base em suas característiW fisiológicas próprias. Encarou
este fato como mais uma prova contra a teoria.

Os defensores da teoria de James-Lange argumentam que aquelas experiências não são


decisivas. Criticam os que tentam a eliminação pela cirurgia por não eliminarem todas as
fontes possíveis de sensações corporais que possam servir de base para a emoção. Têm como
certo que aquilo que Ja12 E. B. Titchener, A Text-book of Psijchology, 473-487.

13 C. G. Sherrington, The Integrcrtive Action of the Nervous Spstem,

255-268.

14 W. E. Cannon, Bodily Changes in Pain, Hunger, Fear and Rage; "A Teoria das Emoções de
James-Lange: estudo critico e teoria explicativa", Ãmerican Journal of Psychologp (1927), 39,
106-124. A própria teoria das emoções de Cannon também salienta o papel do tálamo na
emoção e dá uma explicação mais detalhada, baseada em pesquisas experimentais dos
processos nervosos incluldos na emoção. Uma curta exposição da teoria de Cannon e um
resumo da evidéncia dos fatos em apoio da mesma podem ser encontrados em um estudo de
Philip Bard, "A Base Neuro-Humoral das Reações Emotivas", The Foundations of Experimental
Fsychology, compilado por Carl Murchison, 449-487.

Psicologias do Século XX

173

mes considerava a principal base orgânica foi eliminado, mas acreditam que talvez tenham
ficado intactas bases fisiológicas menos visíveis e que estas podem ser suficientes para iniciar
as respostas emocionais observadas. Salientam, além disso, que estas respostas podem ter
estado associadas com determinadas circunstâncias por meio do aprendizado, e que, na
ocasião em que foram notadas, não incluíam emoção real. Foi também sugerido que o fracasso
de Cannon, em encontrar condições fisiológicas que diferençassem as emoções entre si, não
vai obrigatoriamente contra esta teoria; que pode haver condições fisiológicas não investigadas
em suas pesquisas - diferenças devidas à atitude corporal, postura, expressão facial, ou
mudanças fisiológicas muito rápidas - que distinguem as emoções na forma em que nós
comumente as consideramos. Foi também sugerido que os distúrbios encontrados por Cannon
são os comuns às emoções em geral, as quais, afinal de contas, não são tão diferentes entre si
como as julgam nossos modos de pensar habituais.

Aliás, embora a teoria de James-Lange não haja sido aprovada ou desaprovada de modo
absoluto pelas provas experimentais, o consenso geral, hoje em dia, é o de que ela não explica
de maneira adequada os fatos conhecidos; principalmente, que não explica a relação entre a
percepção e a sensação, e que é um tanto imprecisa ou totalmente errada quanto às conexões
nervosas entre o cérebro e as vísceras. Entretanto, não se discute ter exercido esta teoria
grande influência. É geralmente admitido que o lado orgânico da emoção é muitíssimo
importante, mesmo por aqueles que discordam que a emoção seja somente a sensação do
distúrbio corporal. A teoria foi aceita também em suas linhas gerais, porque dá uma razão de
ser biológica à emoção e lhe confere um lugar e uma função na economia total da natureza
humana. Acima de tudo, estimulou a pesquisa sobre as emoções, mais do que qualquer outra
concepção. Seja qual for a resposta da evidência experimental, a teoria de James-Lange terá
desempenhado um papel importante em sua revelação.

A maneira como James tratou destes assuntos demonstrou as principais tendências de seu
pensamento. Poderia ter sido escolhido qualquer outro tópico. O seu famoso capítulo sobre o
hábito poderia ter sido usado para exemplificar sua pronunciada vocação fisiológica,
mostrando a seu modo com que entusiasmo defendeu a tese de que as vias formadas no
sistema nervoso pelos nossos próprios atos determinam

di

P8woZogias do SécuZo XX

174

Edna Heidbreder

175

a própria estrutura de nossa conduta - o tom em que falamos, as roupas que usamos, nossas
características profissionais, nosso comportamento social, nossas simpatias, nossos
julgamentos, e mesmo nosso caráter moral. O capítulo sobre associação poderia ter sido
escolhido para exemplificar o mesmo ponto, pois nele o autor trata da associação em função
das vias neurais. Tendo primeiro reduzido a associação por semelhança a um caso especial de
associação por proximidade, reduz esta última às conexões funcionais do sistema nervoso.

Existem diversos capítulos que poderiam servir de exempio do hábito inveterado do autor em
se utilizar da experiência imediata para responder aos seus problemas. O seu "inatismo" a
respeito da percepção do espaço e do tempo é um exemplo a considerar, pois encara a
continuidade do tempo como "dado" no "presente ilusório" e a percepção de profundidade
como proveniente da "extensividade imperfeita" de nossas impressões imediatas. James, de
fato, é propenso a dar uma interpretação inatista a muitas reações humanas. A crença, por
exemplo, é baseada na credulidade inata; a própria vontade em suas manifestações mais
elevadas nada mais é do que uma modificação da atividade ideomotora, que não passa de uma
impulsividade inata das idéias, uma tendência a se tornarem expressas por meio da ação.
Atualmente a tendência da psicologia está distante do inatismo; muitos pesquisadores acham
que aceitar uma coisa como "dada" é quase o mesmo que aceitá-la como milagre. Porém, o
inatismo de James originou-se de uma aversão pelo que considerava milagres que o intelecto
era chamado a realizar na filosofia empírica. Não era evidente para ele, por exemplo, a maneira
pela qual as qualidades próprias do volume espacial poderiam provir de elementos não
espaciais, e a sua lealdade para com o valor intrínseco da experiência fê-lo recusar-se a reduzir
isto a uma forma diferente dela mesma. É significativo que, ao enfrentar esta circunstância e
outras parecidas, tivesse preferido reconhecer dados fornecidos pela experiência imediata em
lugar de aceitar um resultado, fruto do intelecto.
Por último, existem tópicos nos quais o tratamento dado por James mostra uma tendência que
tem sido muito pouco assinalada neste livro - a tendência para o voluntarismo. Até certo ponto,
sua posição a respeito deste problema está implícita no seu relato sobre a conceituação,
raciocínio e crença como estando intimamente associados à natureza ati v

e emocional do homem. Porém, em seu capítulo sobre a atenção, aborda o problema de forma
mais direta. Ali salienta que se, através da atenção voluntária, uma determinada idéia pudesse
ser prolongada apenas por um instante - o suficiente para permitir a entrada de associações
reforçadoras e para que essas desempenhassem o seu papel - estaria assegurada a vitória
daquela idéia, O esforço da vontade realizaria então o que ele parece fazer, e James admite esta
possibilidade. O problema do livre arbítrio, salienta ele, está fora do âmbito da ciência; ela não
pode ser contra nem a favor do mesmo. James, porém, como pessoa, preferiu a teoria do livre
arbítrio ao invés do determinismo e, portanto, teve grande dificuldade para mostrar que uma é
tão cientificamente respeitável quanto a outra.

A publicação de The Principies foi aclamada no país e no exterior como acontecimento de


primeira grandeza no mundo psicológico. Não só era uma descrição compreensível de um novo
campo do saber, não só era uma nova síntese dos fatos da psicologia; representava uma
verdadeira contribuição à psicologia. Desde o início, foi reconhecido como mais do que um
simples livro sobre o assunto. Devido ao seu viço e poder, devido às suas atitudes definidas e
sugestões estimulantes, constituía um acontecimento na história da psicologia.

Talvez a característica mais marcante deste livro seja o fato de haver tratado definitivamente a
psicologia como ciência natural, especialmente como ciência biológica. A psicologia,
naturalmente, estava sendo tratada como ciência em toda parte, principalmente pelos
experimentalistas na Alemanha. A de James, porém, tomou direção muito diferente. Ele estava
interessado em processos conscientes não só pelo seu valor intrínseco, como também por
serem atividades dos organismos vivos nos quai ocorrem, modificando as suas vidas. Foi a sua
vocação científica generalizada, naturalmente, que o fez passar da contemplação especuladora
da mente para a observação direta da experiência imediata e de suas condições; porém, foi o
seu interesse biológico específico que o fez ver os processos mentais como atividades de seres
viventes conservando-se no mundo da natureza - como atividades, possivelmente úteis,
deveras, para os seres que as exercem. Esta idéia sobre a vida mental tem tido conseqüências
importantes para a psicologia norte-americana. De fato, ao tratar os processos mentais como
arraigados nas necessidades e práticas dos organismos vivos, James

II

176

Edna Heidbreder

estava escrevendo o que desde então se tem demonstrado ser uma psicologia tipicamente
norte-americana. Expressava uma atitude que, quando se tornou explícita, veio a ser a da
primeira escola de psicologia definitivamente norte-americana, o funcionalismo.

Intimamente relacionado com esta atitude em relação à vida mental, está o destaque que
James deu ao lado irracional da natureza humana. Através de todo o livro, nunca deixa que o
leitor esqueça que o ser em questão é uma criatura dotada de emoção e ação, bem como de
conhecimento e razão. Mesmo quando examina os próprios processos intelectuais, assinala os
fatores irracionais incluídos. Descreve com a máxima clareza, principalmente em seus capítulos
sobre o hábito e a associação, sua certeza de que o intelecto funciona sob condições fisiológicas
definidas. E vai mais longe. A crença, insiste, é determinada por fatores emocionais e volitivos; a
conceituação e o raciocínio, surgindo sob a influência de desejos e necessidades individuais,
ocorrem em vista da ação. O pensamento, na forma descrita por James, é um tipo de reação
desenvolvida por um ser empenhado com a questão prática de reagir ao seu meio ambiente. O
ser humano que surge na psicologia de James pouco se parece com o homem racional dos anos
anteriores.

E, entretanto, apesar de todo o seu empenho em tratar a psicologia como ciência e não como
metafísica, apesar de sua má vontade em superestimar o papel do intelecto na natureza
humana, James não se eximiu, pessoalmente, das exigências do intelecto para definir a vida que
se prolonga além da ciência. É bastante evidente que o autor do The Principies of Psychology é
um homem tremendamente interessado pelos problemas metafísicos. Pode-se distinguir
claramente em seu estudo da psicologia as tendência que deveriam surgir mais tarde em sua
filosofia, como o pragmatismo, o pluralismo e o empirismo radical. É significativo, entretanto,
ter James conservado a sua filosofia e psicologia separadas uma da outra; ou melhor, quando
incluiu a filosofia em seus debates, reconheceu-a como filosofia. Como resultado, veio a ser
vantajoso para a psicologia norte-americana que James possuísse interesses filosóficos. Foi,
realmente, em grande parte por seu intermédio que a psicologia norte-americana passou de
filosofia mental para ciência, e o fez integralmente com compreensão. Pois James não somente
rompeu com

Psicologia.s do Século XX

177

o passado; não tratou de modo superficial as maneiras mais comuns de lidar com o material
humano. Considerou seriamente a posição da psicologia que estava representando dentro das
idéias filosóficas a que os seus leitores estavam acostumados e, ao assim fazer, tornou
inteligível e justificável a mudança para o novo ponto de vista. Realmente, a inteireza com que
James trata desses problemas de filosofia mental, que a psicologia como ciência tem o direito
de ignorar - os problemas da alma e da substância mental, por exemplo - é urna das razões que
tornaram desnecessário que os tratados de psicologia considerassem atualmente este assunto.

Finalmente, a imperfeição, a improvisação, as próprias inconsistências da psicologia de William


James tiveram profundo significado do ponto de vista do desenvolvimento desta ciência, O seu
modo de tratar dos assuntos, mais insinuante que conclusivo, mais contribuiu para criar
problemas do que pari resolvê-los. Os ensinamentos de James, certamente, não representam a
forma que a psicologia tomará como ciência desenvolvida. Falta-lhes o fundamento de fatos
sólidos, inequívocos, próprios de uma ciência amadurecida, e que teoricamente possam ser
expressos em termos quantitativos e submetidos à verificação experimental. É igualmente
certo, porém, que a psicologia de James contém muito do material informe que compõe uma
ciência. Pelo menos é uma psicologia que passou diretamente à experiência em busca de
respostas para os seus problemas, e que é inteiramente fiel às suas observações individuais,
harmonizemse ou não umas com as outras ou com um plano que deve incluir todas. Talvez
seja esta fidelidade aos fatos individuais o traço marcante da psicologia de James; e
certamente este dá ao seu tratamento um caráter de ciência autêntica. É esta fidelidade aos
fatos, também, que dá à sua psicologia seu caráter experimental, uma vez que é sabido que
nem todos os fatos são disponíveis. É, portanto, muito apropriadamente que James encerra o
seu livro com um trecho que diz respeito diretamente ao tema do último capítulo, mas que
representa uma atitude mais geral em si mesma.

"Mesmo nas partes mais claras da psicologia, nossa penetração Intima (insight) é bastante
insignificante, E quanto mais sinceramente procuramos traçar o caminho verdadeiro da
psicogênesc, ou seja, as etapas pelas quais, como raça, podemos ter adquirido os atributos
mentais típicos que possuímos, mais claramente percebemos o crepúsculo, tentamente
formado, a fechar-se em noite profunda."

.178

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Edna Heidbrede,

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III

O FUNCIONALISMO: J. R. ANGELL, HARVEY

CARR, JOHN DEWEY

Dewey (1859-1952); Carr (n. 1873); B&dwin (1861-1934); Judd

(1873-1946); Ward (1843-1925); Stout (1860-1944); Hiffding (1843-

-1931): Angeli (1869-1949); G. H. Mead (1871-1936).

Em 1894, James Rowland Angeil, na ocasião um jovem de vinte e cinco anos, ingressou na nova
Universidade de Chicago como diretor do recém-formado departamento de psicologia. No
mesmo ano, John Dewey, que foi seu superior durante dez anos, veio para Chicago como
professor de filosofia. Ambos eram competentes, nos diversos campos pelos quais se
interessavam. Dewey, embora tivesse sido antes filósofo, havia trabalhado num dos primeiros
laboratórios psicológicos dos Estados Unidos, o de G. Stanley Hali, na Universidade John
Hopkins, e já estava desenvolvendo a linha de pensamento que o conduziria ao seu trabalho
sobre educação e sobre as ciências políticas e sociais. Angell havia estudado em várias
universidades alemãs, tinha sido discípulo de William James em Harvard, e estava agora em
Chicago acumulando deveres administrativos com o interesse pela psicologia. Ambos eram
também de uma eficiência fora do comum como professores - isto é, eficientes no sentido de
excitar o pensamento do estudante, impelindo-o à ação e em despertar verdadeiro entusiasmo
intelectual por seus programas e pontos de vista. Devido em grande parte à sua influência
conjunta, a Universidade de Chicago tornou-se rapidamente um centro florescente de estudo
da psicologia e sede de uma nova escola, o funcionalismo.

Com o funcionalismo, a psicologia norte-americana fez

a sua primeira resistência definida e organizada contra o

180 Edna Heidbreder

domínio exercido pelas escolas titcheneriana ou wundtiana. Como o próprio nome indica, o
funcionalismo estava interessado principalmente em atividades - em processos mentais não
simplesmente como conteúdos mas também como operações. Além disso, estava interessado
em estudá-las em seu habitat natural e do ponto de vista de sua utilidade. Aproveitando a
sugestão de Darwin, e considerando Os processos mentais tão úteis talvez ao organismo vivo
quanto à sua adaptação ao meio ambiente, o seu estudo foi, de início, tipicamente biológico.
Dava também a impressão de senso comum, não perturbado pelos tabus acadêmicos. Ao
examinar os processos mentais, formulava as perguntas do homem prático: "Para que servem
?", "Que diferença fazem?", "Como funcionam?". Naturalmente tais perguntas não podem ser
respondidas se estudarmos os processos mentais em si e por si mesmos. Embora tal análise
possa ser completa, o estudo de um processo, do ponto de vista de conteúdo somente, não
pode revelar o que o processo realiza. Para responder a esta pergunta, é necessário ir além do
próprio processo e considerar as ligações que este possui: investigar os seus antecedentes e
conseqüentes, descobrir que diferença faz para o organismo, e levar em conta a sua posição
complexa global no mundo complexo no qual surge.

Torna-se quase evidente de imediato que tais pesquisas divergiram amplamente da psicologia
oficial da época. Em primeiro lugar, havia o destaque dado pelo funcionalismo ao processo
como tal - ao evento em seu desenrolar-se. E verdade que Wundt e Titchener também
destacam este ponto, insistindo amiúde que os elementos mentais podem ser considerados
como processos. Porém, ao que parece, na prática real de conceber os elementos como
processos, existe uma dificuldade quase insuperável. Os elementos costumam ser considerados
como coisas ou pedaços estáticos, sejam quais forem os protestos do ponto de vista da teoria;
e este fato, juntamente com o interesse pelos conteúdos conscientes como tais, deu à
psicologia ortodoxa da época, pelo menos como era interpretada de modo não oficial, um
caráter estático e
1-uma impressão "granular". Os funcionalistas, entretanto, estavam empenhados em estudar
os processos mentais não

como elementos participando de uma composição, mas como

\ atividades conduzindo a resultados práticos. Ao passo que

o estruturalismo, de forma deliberada e intencional, a bem da ciência pura, fazia abstração de


seu material em relação a seu meio ambiente, o funcionalismo, da mesma forma, no

Psicoiogkzs do Século XX 181

interesse do problema que havia escolhido, conservava o seu material no ambiente natural no
qual aparecia. Implícita neste caso está a segunda diferença marcante entre as duas escolas - a
diferença em suas atitudes com respeito às aplicações da ciência. O funcionalismo, unindo-se
abertamente ao senso comum, estava desde o início interessado em utilidades. Uma vez que
seu problema era "O que realizam os processos mentais no mundo?" mal podia se livrar
daquelas considerações de valor - neste caso, utilitárias - que Titchener havia afirmado com
insistência estarem fora do domínio da ciência pura. Portanto, era inevitável que o
funcionalismo se dirigisse no sentido da ciência aplicada, e realmente assim o fez quase
imediatamente, com a entrada de Dewey no setor da educação. Tudo isso representou uma
terceira grande diferença entre o estruturalismo e o funcionalismo, uma diferença em suas
concepções básicas do objeto e método. Desde a época de Wundt e Brentano havia sido
asseverado que as funções não podem aparecer na experiência direta e, portanto, não podem
ser objetos de observação introspectiva. Além disso, pesquisar as funções dos processos
mentais significava considerar muito mais do que a própria consciência. Em outras palavras, a
introspecção não poderia continuar a ser considerada como método distintivo da psicologia,
nem a consciê?icia o seu objeto específico. Assim, mesmo uma descrição preliminar do
programa do funcionalismo mostra grandes afastamentos das escolas consagradas.

É interessante que Dewey e Angeli não estavam inte-' ressados em fundar uma escola. É
provável que nenhum deles tivesse o jeito e o gênio de defensores fervorosos de uma nova
causa. Dewey, apesar de todo o seu prestígio e originalidade, era meditativo e ponderado.
Angeil, mesmo em seus mais veementes protestos contra o antigo estado de coisas, era afável
e tolerante. Todavia, o movimento que patrocinaram desafiava abertamente a autoridade, e se
desenrolou numa atmosfera estimulante de combate com um inimigo valoroso. O
funcionalismo tornou-se uma escola definida em parte porque as suas próprias declarações
permitiam abertamente heresias, e também porque Titchener decididamente o excomungara.
De certo modo, permaneceu assim até aos nossos dias. Os psicólogos treinados em Chicago
estão perfeitamente cônscios de sua linhagem psicológica; ainda encaram sua psicologia em
função de comparações e contrastes; e entre eles existe ainda hoje uma identidade de

7/

182

Edna Hedbreder
P8k,oZog*aS do Século XX

183

sentimento que não se encontra em nenhum outro grupo do país.

O fenômeno de uma escola surgindo de si mesma, com chefes que não estavam querendo
fundar uma escola, é, em si mesmo, significativo. Talvez algo no ambiente da nova Universidade
de Chicago fosse responsável pelo fato. É notório, certamente, que a primeira escola de
psicologia exclusivamente norte-americana tenha surgido na nova universidade que era
também uma expressão de tudo o que é tipicamente ianque. O fato quase inacreditável da
criação de uma grande universidade completa - de atualizar um plano, de reunir um corpo
docente notável, de tornar realidade uma organização complexa inteira, em corpo e alma deu
ao local um ar de grandes feitos realizados e por realizar; e não é de admirar que uma escola de
pensamento, começando em tais circunstâncias, prosperasse e crescesse.

Porém, o ambiente local, embora adequado, não é uma explicação suficiente. A formação
quase espontânea de uma nova escola de psicologia significava em primeiro lugar que muita
coisa estava preparada para ter início. Em muitos setores dos Estados Unidos existia a
impressão de que a psicologia, definida na forma convencional, era muito mesquinha e restrita.
Aliás, o progresso real da psicologia nos Estados Unidos não seguiu as regras para ela
estipuladas. A psicologia educacional, a da criança, a do animal, o estudo das diferenças
individuais e do desenvolvimento mental - nenhum desses movimentos poderia ser obrigado a
seguir o modelo convencional, todavia estavam todos progredindo. William James,
naturalmente, havia representado sempre uma influência poderosa fora do âmbito titcheriano.
G. Stanley Hail, embora houvesse estudado algum tempo em Leipzig, nunca ficara
impressionado de modo favorável por Wundt; e seu crescente entusiasmo pela psicologia
genética, aliado a uma predileção caprichosa pelo que se pode chamar de psicologia em geral,
significava que a psicologia em Clark havia superado amplamente os seus limites convencionais.
Em Colúmbia, Cattell insistia em seu interesse pelas diferenças individuais, e
Thorndike realizava experiências em animais e seres humanos com pouca atenção pelas regras
de Comeu. James Mark Baldwin era bastante franco com as críticas severas da psicologia
ortodoxa. Em sua opinião, uma ciência jovem e progressista não deve se limitar aos processos
sancionados por alguma escola, e seu próprio interesse pelas àferenças individuais e
desenvolvimento mental, aliado a

uma firme convicção do valor dos debates teóricos irrestritos, sem dúvida, muito contribuiu
para a firmeza de sua convicção.• Ele e Titchener brigaram abertamente numa controvérsia
sobre a interpretação da diferença entre os tempos de reação sensorial e motora, debate esse
menos importante pela questão em si do que pela franca oposição em que colocava as
interpretações mais amplas e as mais estritas da psicologia. Estes casos, além disso, são
somente sintomas de uma tendência geral. Nos Estados Unidos havia um desejo generalizado
de dar ouvidos à doutrina que afirmava que a função do psicólogo não se limita
necessariamente à dissecção minuciosa dos estados de consciência. Os empreendimentos
tipicamente norte-americanos em psicologia, por serem diferentes daqueles da tradição alemã,
se ajustaram prontamente ao plano do funcionalismo. As tendências já existiam,
prontas para serem centralizadas e colocadas dentro de uma fórmula que as unificaria e as
justificaria.

Não foi só nos Estados Unidos, entretanto, que a psicologia do tipo de Wundt e sua escola havia
deixado de exercer um controle incontestável. Na Alemanha, a psicologia do ato de Brentano,
exposta quase ao mesmo tempo que a de conteúdo de Wundt, nunca deixara de ter seus
adeptos importantes. Grande parte da psicologia francesa, também, com seu interesse pelas
anormalidades mentais, adaptou-se depressa aos conceitos funcionais. Na Inglaterra, James
Ward, em seu famoso artigo "Psychology" na Encyclopaedia Britannica, não só reconheceu
como também ressaltou a atividade do eu ou do sujeito; e G. F. Stout, influenciado por Ward,
desenvolveu uma psicologia na qual encarava como modos básicõs do ser consciente três
formas de atividade

- não conteúdos, diga-se de passagem - cognição, afecção e conação. O filósofo dinamarquês,


Harold Hõffding, tratou também de forma definitiva os processos psicológicos como tipos de
atividade. Em seu livro Outlines of Psychology, adotoda antiga divisão tripartida da mente em
cognição, sentimento e vontade, empregando assim uma classificação que fazia lembrar
bastante a psicologia das faculdades. Para Hiffding, entretanto, essas categorias não
significavam nem "forças" nem "divisões" da mente, mas sim maneiras pelas quais a mente
toda age em diversas oportunidades.

O funcionalismo em Chicago não se mostrou disposto a menosprezar estas antecipações de


seus ensinamentos. Pelo

184

Edna Hei4ibreder Psicologias, do Século XX

185

contrário, deu-lhes mais ênfase, usando-as para demonstrar que o seu estudo era muitas vezes
levado a sério pelos estudiosos, e assim sugeriu que as limitações convencionais da época
eram artificiais. Realmente o funcionalismo não pretende haver descoberto algo de novo
debaixo do sol. Angeli insistia sempre que o funcionalismo não deveria ser identificado com a
psicologia que era ensinada em Chicago, e afirmou mesmo que não representava exatamente
uma esco la A seu ver, o movimento significava algo mais vasto do que qualquer culto científico
ou seita. Acreditava que os princípios funcionalistas haviam sempre feito parte da psicologia, e
que o estruturalismo, por estabelecer suas próprias qualidades, tinha sido realmente a
primeira escola a se separar do corpo principal da psicologia. Não há a menor dúvida que o
trabalho de Titchener, "The Postulates of a Structural Psychology", 1 por realçar o contraste
entre os pontos de vista estrutural e funcional, e por insistir que somente o primeiro era
legitimo numa verdadeira ciência psicológica, muito contribuiu para dar clareza e
individualidade ao novo empreendimento.

Porém, a nova escola se estabeleceu, e não pode haver dúvida que ela cresceu e prosperou e,
apesar dos protestos de Angell, o funcionalismo veio a se identificar com o tipo de psicologia
que estava se desenvolvendo na Universidade de Chicago. Desde o início, recebeu apoio
entusiástico da mesma. G. H. Mead e A. W. Moore, ambos da secção de filosofia, e também,
como Dewey, interessados pela psicologia, apoiaram claramente as novas idéias. Em 1902, o
próprio Dewey tornou-se diretor da Escola de Educação da Universidade de Chicago,
aproveitando a oportunidade, bastante lógica, de pôr em prática os princípios da sua filosofia e
da sua psicologia. Após exercer seu cargo durante dois anos, seguiu para o Teachers College da
Universidade de Colúmbia, como professor de filosofia. Charles H. Judd, que veio a ser diretor
da Escola de Educação alguns anos após a saída de Dewey, estava também bastante interessado
pelo novo movimento. Embora tivesse defendido sua tese de graduação em
Leipzig e assim devesse a sua formação à antiga escola, seu livro Psychology, publicado dois
anos antes de seguir para Chicago, foi escrito tão embebido no espírito do funcionalismo, que
o seu modo de tratar as reações motoras é muitas vezes citado como o melhor exemplo de
interpre taçã

funcionalista. Nesta época, Angell, como chefe do departamento de psicologia, tornara-o um


dos mais influentes do país. Permaneceu em Chicago pelo espaço de vinte e seis anos, e mais
tarde tornou-se diretor da Universidade de Yale. Desde a saída de Angeli, Harvey Carr, o
segundo estudante a se doutorar em psicologia em Chicago e o atual chefe da cadeira,
prosseguiu a. obra que Dewey e Angeil haviam iniciado.

É significativo não haver um livro ou tratado que represente o funcionalismo na forma em que
o Text-Book de Titchener representava o seu sistema, ou os Principies de W. James, a sua
psicologia. Dewey nunca escreveu uma exposição sistemática da psicologia funcional, embora
seus princípios estejam implícitos em seus mUitQS escritos. O seu livro Text-Book of Psychology
foi publicado em 1884, antes que houvesse elaborado suas idéias psicológicas típicas e doze
anos antes de haver sido lançado definitivamente o movimento funcionalista. Angeli publicou
seu Text-Book of Psichology em 1904 e seu Introduction (o Psychology em
1918, porém, embora os dois livros estejam escritos do ponto de vista funcionalista, nenhum
deles tem como seu principal objetivo a apresentação do funcionalismo como sistema. O
mesmo se pode dizer dos outros textos em geral escritos com tendência funcionalista. Além
disso, mesmo que existisse uma apresentação sistemática, nenhum livro, nenhum fruto do
pensamento funcionalista, poderia representar fielmente aquilo que era essencialmente um
movimento e uma atividade. Pois o funcionalismo, bem como o seu próprio objeto de estudo,
era um processo com uma função, uma transformação na psicologia norte-americana em
geral; e o que representou para esta, pode ser melhor discernido acompanhando-se o
processo de sua formação e desenvolvimento. Por comodidade, as três fases deste movimento
podem ser separadas assim: seu início com Dewey, seu desenvolvimento sob a liderança de
Angell e sua conservação como uma influência bem definida, com Carr.

O artigo de Dewey, "The Reflex Are Concept in Psychology" 2, publicado em 1896, assinala o
ponto de partida do funcionalismo como movimento definido. A importância desse estudo tão
debatido é a de que a atividade psicológica não pode ser dividida em partes ou elementos, mas
sim deve

1 Ver nota 13, Cap. IV, pãg. 125.

2 John Dewey, 'The Reflex Arc Concept In Psychology", Psychologica

Review (1896), 8, 357-370.


186

Edna Heidbreder

ser encarada como um todo contínuo. Assim como William James, Dewey estava atacando o
atomismo psicológico. James, devemos estar lembrados, havia mostrado que as "idéias
simples" como porções de consciência não possuem existência real. Porém, Dewey acreditava
que o erro do elementarismo havia apenas mudado de lugar. No conceito de arco reflexo, com
sua distinção entre estímulo e resposta, entre sensação e movimento, entre as porções motora,
sensorial e central do arco, via a antiga tendência para pensar em função de unidades
separadas - o antigo atomismo sob nova forma. A tese de Dewey sustentava que distinções, tais
como entre estímulo e resposta, são puramente funcionais, e não são baseadas nas diferenças
reais da realidade existente, mas sim nos diferentes papéis desempenhados por certos atos no
processo total.

Dewey expôs seu caso referindo-se ao exemplo comum da criança que vê uma chama, procura
atingi-la e queima seus dedos. Esta atividade não é uma simples seqüência de três fatos: ver,
aproximar-se e queimar-se. Não se pode af ir- mar que, na primeira etapa da atividade, a visão
seja o estímulo e a busca seja a resposta; e que a sensação de ver venha em primeiro lugar e o
ato motor de busca venha a seguir. A sensação não precede o movimento, porque ver não pode
ser separado de olhar. Os ajustes motores da cabeça e dos olhos fazem parte da percepção da
luz. De maneira idêntica, a busca não vem depbis da visão e não pode ser considerada separada
dela. A busca não pode vir antes, a menos que a visão, sempre continua, iniba algumas reações
motoras e dê início a outras, controlando assim a ação. Ao mesmo tempo, a busca controla a
visão, determinando a sua direção durante todo o tempo. De modo exato, a atividade não é
simplesmente ver, mas sim "ver-para-atingir".

Então, por que foi feita esta distinção? Se a atividade é, de fato, um processo contínuo, por que
temos forte tendência em pensar como se ela fosse composta de partes separadas? E por que
esta tendência se tornou um hábito empedernido, a ponto de estarmos sempre prevenidos
contra ele?

O estímulo e a resposta foram distinguidos, responde Dewey, por causa dos papéis diferentes
que desempenham na coordenação total da busca ou para manter um fim ou objetivo; por
causa de seu significado prático de adaptar o organismo às circunstâncias do momento. A
distinção é do tipo funcional, baseada no que os processos realizam, e não do tipo existencial,
baseada no que os processos são.

Pscologkis do Século XX

187

Isto se torna claro se compararmos duas etapas da adaptação: uma sendo a adaptação
completa, tal como um instinto bem desenvolvido; a outra, uma adaptação em seu processo
de formação, como a atividade de uma criança aprendendo a não tocar a chama da vela. Na
adaptação completa, não se leva em conta o estímulo como estímulo e a resposta como
resposta. Existe apenas uma seqüência lógica de atos, na qual um deles pode ser encarado
como o estímulo do seguinte; porém, mesmo esta afirmação é verdadeira somente se a
coordenação for considerada como um ato e como um processo em direção a um fim ou
objetivo. Sem referência a uma finalidade e a seu papel em atingir o objetivo, ,os atos não
passam de uma seqüência dentro do tempo.

Porém, num ato de adaptação ainda não totalmente organizado, tal como o da criança em
busca da chama da vela, não há uma ordem de eventos fixos e certos. Nada se estabilizou
como estímulo ou resposta. O problema, segundo Dewey, é descobrir ou definir o estímu.lo,
tanto quanto descobrir ou definir a resposta. Na experiência anterior da criança, a busca de
objetos brilhantes algumas vezes terminou em prazer, outras, em dor. Agora depara com a
pergunta:

Que espécie de objeto brilhante é este? O problema está em definir o estímulo e justamente
neste caso é feita a distinção entre o estímulo e a resposta. Os movimentos de busca que
haviam sido iniciados são agora inibidos pela imperfeição da coordenação; o ato de definir o
estimulo, isto é, determinar a natureza da luz, tem que se dar antes que a busca possa ter lugar
sem conseqüências dolorosas. A atenção é assim orientada para ver, e aquela parte da
coordenação torna-se, portanto, separada da busca, não existencial mas funcionalmente, para
os fins práticos do momento. O perigo é o de que uma diferenciação teleológica, desenvolvida
no transcurso de um ato prático, possa ser tomada como representativa de um fato existencial.

Então é a coordenação total, e não qualquer parte da mesma, que o psicólogo deve tomar
como sua unidade. Isto não significa, entretanto, que Dewey substitua simplesmente uma
unidade maior por outra menor. Ele não crê que as coordenações, colocadas de princípio ao
fim, possam explicar a conduta, mais do que o estímulo e a resposta o podem fazer, nas
mesmas condições. A coordenação total que, por acaso, estejamos considerando no momento
não pode ser separada de seu ambiente, do mesmo modo que o estímulo e a resposta não
podem ser separados da coordenação completa

188

Edna Heidbreder Psicologias do Século XX

189

na qual se verificam. A coordenação total se relaciona com seu passado e futuro e com a
atividade total do organismo, da mesma forma em que as diferentes fases do ato reflexo se
relacionam entre si. Não há divisões entre as atividades do organismo. Quando um ato
manifesta unidade e perfeição, sua unidade é funcional, pelo que não apresenta separação
existencial.

Como é natural, o primeiro efeito deste ensinamento pode causar confusão; ele suprime as
discriminações usuais. Os limites evidentes que separam um conceito de outro demonstram
não ter uma correspondência na realidade existencial para a qual são utilizados. Aí, tudo é
continuidade. Entre o estímulo e a resposta, entre um movimento e outro, entre o organismo e
o seu meio ambiente, não existe solução de continuidade real. De fato, nós podemos e mesmo
devemos incluir separações ao pensar neles; mas não devemos esquecer nunca que as
discriminações que usamos são de nossa própria autoria, e não estão apoiadas na natureza das
coisas, porém são dispositivos convenientes que as pessoas inventam para fins práticos. As
linhas de demarcação que parecem fixas e estáveis não são realmente mais duradouras que as
nossas próprias finalidades; e no momento em que confundimos nossas discriminações
funcionais com a realidade existente, no momento em que esperamos que o real seja
encerrado dentro dos limites por nós estabelecidos - como quando ficamos surpresos porque o
abismo que fizemos entre as coisas e os pensamentos não é insuperáeLna natureza - estamos
completamente enganados a respeito da realidade. Podemos usar estas distinções funcionais
como dispositivos práticos, porém, sem jamais perder de vista o fato de que são simples
mecanismos e que, por baixo dessas distinções, existe continuidade.

Esta conceituação exige uma revisão muito mais completa do pensamento psicológico do que
pode parecer à primeira vista. Em primeiro lugar, é atacado o atomismo psicológico de uma
forma particularmente radical. É profundamente significativo que, em sua crítica ao
elementarismo, Dewey não tenha escolhido para seu objetivo sensações e afecções
elementares, mas sim o conceito de arco reflexo - o mesmo que havia sido incluído na
psicologia para acomodar o material que não se ajustava ao padrão convencional, e que parecia
se afastar da separação descritiva e estática dos elementos em estados de consciência. Dewey
mostrou, entretanto, que enquanto o arco reflexo fosse considerado

uma unidade à parte, ou como uma questão de partes separadas, estaria vulnerável às
mesmas objeções que haviam sido levantadas contra a antiga psicologia. Sua crítica resultava
em encurralar o velho inimigo em novo esconderijo inesperado e aparentemente seguro.

O ponto de vista de Dewey também implicava uma mudança de opinião a respeito do problema
mente-corpo. Em seu esquema, desaparece o antigo dualismo. Os aspectos mental e físico da
experiência são igualmente admitidos, mas não são tratados como uma série de fatos separados
e diferentes. Não existe divisão entre a sensação e o movimento, entre pensamentos e coisas. A
distinção entre a mente e o corpo não é também uma distinção existencial do mesmo modo
como aquela feita entre o estímulo e a resposta. Os atos mentais não são fatos psíquicos puros
e simples; são fatos nos quais estão presentes o físico e o psíquico. Surgindo em meio ao mundo
da natureza, desempenham seu papel no mundo como quaisquer outros fatos naturais.

Os ensinamentos de Dewey demonstravam também uma atitude de simpatia em relação à


psicologia aplicada. Significavam que os processos mentais não podem ser separados de suas
condições e conseqüências e que são atividades de seres em busca de fins, nutrindo
propósitos, empenhados em empreendimentos "relevantes" e "sérios". A passagem para a
psicologia aplicada era inevitável e o próprio Dewey a fez quando se tornou diretor da Escola
de Educação. A sua influência, não é preciso dizer, foi tão grande na educação como na
psicologia.

É claro que Dewey não é primacialmente psicólogo ou educador. É um filósofo cuj a maneira de
encarar a humanidade e seus problemas conseguia conduzi-lo a setores especiais - nas ciências
políticas e sociais bem como na psicologia e na educação. Seu modo de pensar, em geral, foi
descrito como um hábito de considerar o homem "como uma espécie animal seguindo o seu
caminho pelos únicos processos do sistema nervoso central num planeta insignificante com um
clima péssimo e variável". Os seus dois livros mais famosos foram talvez
How We Think e Human Nature and Conduct. No primeiro, salienta a posição do pensamento
no mundo do real, chamando a atenção para o fato de que o pensamento vai para o passado e
o futuro sem maiores difi

C. E. Ayres, "Phhlosophle au Naturel", New Republzc (1925), 42,

129-131.

190

Edna Hedbrc der Psicologas do Século XX

191

culdades através do "abismo" por nós criado de modo artificial. No livro Human Nature and
Conduct, ressaltando a íntima relação entre o indivíduo e o ambiente que o cerca, e utilizando
o hábito como a solução para a psicologia social, mostra como os hábitos são formados na
"interação das aptidões biológicas com o meio ambiente social".

Durante a direção de Angeil em Chicago, o funcionalismo tomou corpo como escola realmente
átuante. Não se tratava mais apenas de uma esperança e de uma teoria, mas sim de um
empreendimento progressista visível num laboratório ativo, com crescente acervo de pesquisas,
dispondo de um corpo docente entusiasta e de um conjunto de estudantes também entusiasta.
É curioso que a contribuição de Angeli para a psicologia, talvez a sua principal contribuição,
tivesse adquirido esta forma, pois Angeil sempre achou que o funcionalismo não devia ser
identificado com a psicologia da escola de Chicago. Todavia, o aparecimento de tal escola foi da
maior importância prática; pois, sem uma escola, faltaria ao funcionalismo a centralização que
foi uma das razões de sua eficiência. Qualquer movimento se beneficia quando tem um local e
um nome; e com um locus operandi definido, o funcionalismo tornou- se uma viva realidade
que não podia ser desprezada. Com Angeli, o trabalho em Chicago logo se destacou. Em 1906,
quando foi eleito presidente da Associação Americana de Psicologia, pronunciou como discurso
de posse o seu agora famoso trabalho, "The Province of Functional Psychology". Da mesma
forma que o artigo de Dewey sobre o conceito do arco reflexo ("The Reflex Arc Concept"), o
discurso de Angeli é uma das declarações clássicas dos princípios do funcionalismo. O artigo de
Dewey deu ao funcionalismo sua primeira formulação; o de AngeIl delineou seus princípios
quando o movimento já vinha se desenvolvendo havia mais de uma década.

No artigo de Angeli, são considerados três aspectos do movimento. Primeiro, o funcionalismo


é confrontado com

o estruturalismo. Este se interessa pelos conteúdos; o funcionalismo, pelas operações. A tarefa


principal do estruturalismo é analisar um estado de consciência decompondo-o em seus
elementos; a do funcionalismo é a de descobrir como age um processo mental, o que ele
realiza, e sob que condições aparece.

4 J. R. Angeli, 'The Province of FunctiOnal Psychology", PswhnlogIca Revew (1907), 14, 61 -91.
Embora não seja preciso insistir na questão, deve-se observar que o estudo de Angell sobre
este assunto lembra em parte a crítica de William James às "idéias" do associacionismo. O
"momento de consciência" que o estruturalismo analisa é uma coisa perecível. Uma sensação
ou uma idéia, quando não está realmente na experiência, não existe. Porém, as funções
mentais persistem. São tão duradouras como as estudadas pelos biólogos. Assim como a
mesma função fisiológica pode ser executada por estruturas diferentes, também a mesma
função mental pode ser realizada por idéias que diferem grandemente em seu conteúdo. Não
podemos nunca ter a mesma idéia duas vezes; porém, uma função pode ser identificada
através de suas repetições, cada vez representada na consciência por uma idéia que, em sua
composição existencial, pode ser muito diferente das outras, que em outras ocasiões serviram
ao mesmo fim. Angeil estabelece uma analogia entre as funções mentais e as do protoplasma
não diferençado; em ambos os casos, uma dada função pode aparecer seguidamente, embora
as estruturas provisórias utilizadas possam não ser as mesmas duas vezes. O material do
funcionalista é assim uma coisa mais constante do que aquela utilizada pelo estruturalista.

Além disso, mesmo o conteúdo mental que o estruturalista analisa não pode realmente ser
tratado como independente e isolado. O próprio estado de consciência que o estruturalista
estuda - uma sensação, por exemplo - depende das circunstâncias especiais em que ocorre,
tanto no paciente que a percebe como no ambiente real. Na terminologia de Titchener, o "o
que" não é de fato independente do "como" e do "por que". Porém, estudar as condições em
que surge uma atividade já é tarefa do funcionalismo. Qualquer investigação completa do
material estruturalista exige o ponto de vista e o processo do funcionalista.

Em segundo lugar, o funcionalismo pode ser considerado como um movimento que se interessa
pela utilidade dos processos mentais, O funcionalismo estuda a atividade mental não em si e
por si, mas como parte de todo o mundo da atividade biológica, como parte do movimento
integral da evolução orgânica. Por via de regra, as estruturas e as funções de um organismo vivo
são o que são, porque, de algum modo, permitiram a sobrevivência do organismo; porque
auxiliaram a sua adaptação às condições que constituem o seu meio ambiente; não há razão
para que a consciência seja uma exceção a esta regra. Uma vez que a consciência sobre-

192 Edna Heidbreder

viveu, é provável que faça alguma coisa para o organismo que de outra forma não seria
realizado. Q funcionalismo tenta descobrir precisamente qual é esta fundão, não só para a
consciência em geral, mas também para piocessos específicos, como o juízo, a sensação e a
vontade. A partir deste ponto de vista, o problema do funcionalismo pode ser def inido como o
que descobre as utilidades básicas das atividades conscientes. Ao tratar mais especificamente
da função da consciência, Angeli observa que tanto os biólogos como os psicólogos tendem a
tratar a consciência como sendo "substancialmente sinônimo" das reações de adaptação às
novas situações. É quando o organismo está formando um hábito, quando a coordenação não
está ainda sob controle, que a consciência geralmente aparece. Por outro lado, a consciência
tende a se afastar de um hábito fixado; é sabido que as reações inteiramente aprendidas
tendem a se tornar automáticas. E a consciência não só está normalmente presente quando o
organismo está se adaptando ao seu meio ambiente, mas o seu sinal característico no
comportamento visível é a "variação seletiva da resposta ao estímulo". Inspirando-se nestes
fatos, o funcionalismo encara a "acomodação seletiva" como o papel da consciência em geral.
Os processos específicos - de percepção, vontade, sensação e coisas parecidas

- podem ser classificados de várias formas, mesmo do ponto de vista funcional, uma vez que a
classificação é sempre teleológica. Porém, todos esses processos demonstram possuir Jguma
forma de "acomodação seletiva".

7- Em terceiro lugar, o funcionalismo pode ser considera- do como um método típico de tratar
com o problema "mente-

-corpo". Encarando a consciência do ponto de vista darwiniano, como tendo alguma utilidade
no adaptar o organismo ao seu meio ambiente, o funcionalismo admite uma intera ção entre o
psíquico e o físico. A possibilidade de uma inte' ração entre os dois, da mesma espécie da
existente entre as forças do mundo físico, é explicada com base no fato de não haver distinção
verdadeira entre o físico e o psíquico. O funcionalismo encara a relação mente-corpo "como
capaz de receber um tratamento em psicologia, mais como distinção metodológica do que
como distinção metafisicamente existencial". Isto é, o funcionalismo abandona o dualismo que
afirma ser o físico e o mental dois tipos de acontecimentos diferentes. Encara a distinção entre
a mente e o corpo como uma conveniência para o nosso pensamento, como uma "arma
teleológica", no dizer de James; como um instrumento útil pa. Psicologia

do Século XX 193

ra tratar com a experiência, mas não como um que nos levasse a crer que a mente e a matéria
são duas entidades diferentes. Deveras, a distinção entre a mente e o corpo faz-se sentir
somente após a reflexão; não está presente nos estágios mais primitivos da experiência. Além
disso, se tomada em caráter absoluto e existencial, conduz a dificuldades metafísicas que são
insolúveis. Por estas razões, é preferível tratar a distinção mente-corpo como metodológica,
encarar o físico e o psíquico como pertencendo à mesma categoria, e admitir uma passagem
fácil de um para o outro. Esta idéia não nos compromete com nenhum sistema de metafísica,
porém é compatível com qualquer uma das interpretações metafísicas.

O discurso de Angeli foi pronunciado quando o funcionalismo estava no auge de sua influência,
e a facilidade e a clareza que caracteriza o seu tratamento são, em parte, o resultado do sucesso
obtido pelo funcionalismo desde a crítica de Dewey sobre o conceito de arco reflexo. Angeli se
referia a um movimento já estabelecido; Dewey estava desenvolvendo uma idéia que era o
germe do movimento. Dewey, de propósito, mergulha o leitor no esforço e na fadiga de
conceitos remodeladores do trabalho. Coloca a idéia de arco reflexo no avesso para expor suas
inconveniências; e então, havendo despojado o leitor de seus recursos habituais, convida-o para
a tarefa de reconstrução. Quando Dewey escreveu o seu estudo, foi necessário conduzir o leitor
para dentro de seu próprio local de trabalho, onde estavam sendo forjados os conceitos básicos
da escola; Angeli poderia deixá-lo permanecer fora do movimento e vê-lo do lado de fora. Na
época do discurso de Angeli, o funcionalismo era uma empresa estabelecida e próspera, na qual
a juventude e o vigor estavam associados à realização.
A obra de Carr representa o funcionalismo já estabelecido e reconhecido como escola, e não
mais como uma renascença ou uma reforma. É, de fato, um dos sinais mais evidentes da
verdadeira vitalidade deste movimento ter ele persistido após a excitação da luta haver se
dissipado e haver mantido firmemente a sua produtividade nas pesquisas. A obra de Carr,
assim como a de Angeli, é insuperável de seus deveres como administrador; a direção das
atividades reais de cada dia do departamento de psicologia de Chicago constitui uma de suas
maiores contribuições à psicologia.

No início deste capítulo foi dito que os livros didáticos escritos pelos funcionalistas, em regra,
não apresentam o

1i4

Edna Hei4breder 1 Psicologias do Século XX

195

funcionalismo como sistema. A Psychology de Carr não constitui exceção a esta regra; é uma
manifestação mais do que uma exposição do funcionalismo. Além disso, é feita por um homem
cuja ligação com esta escola foi longa e íntima, e que havia trabalhado durante anos com
conceitos funcionais. Assim como os estudos de Dewey e Angeli representam etapas primitivas
do movimento, a Psychology de Carr representa o funcionalismo de nossos dias.

Neste livro, Carr define o objeto da psicologia como atividade mental. Esta é a expressão
genérica para processos, tais como a percepção, memória, imaginação, sensação, juízo e
vontade. A atividade mental relaciona-se com "a aquisição, fixação, retenção, organização e
avaliação das experiências, assim como com sua ulterior utilização para orientar a conduta".
Esta conduta, na qual surge a atividade mental, é chamada comportamento adaptativo ou de
ajustamento.

Neste caso, nas palavras sóbrias e tradicionais de uma escola que atingiu a maturidade,
incluem-se os conceitos que o funcionalismo do século XIX manteve contra a tradição que lhe
era oposta. O objeto da psicologia é definido como atividade, e uma descrição mais definida
não se refere a elementos e conteúdos, mas sim a processos, tais como perceber e sentir. A
natureza da atividade mental é descrita em função do que ela realiza desde a "aquisição" da
experiência até ao seu "emprego na orientação da conduta". O tipo de comportamento no qual
ocorre a atividade mental é descrito como tipicamente "adaptativo". Tudo isso é calmamente
apresentado na primeira página, de nenhuma forma como assunto para debates, mas
simplesmente como a exposição de um fato num livro didático.

A relação entre a mente e o corpo também é tratada de modo simples e incontestável. A


atividade mental é descrita como psicofísica. É psíquica por ter o indivíduo geralmente algum
conhecimento de sua atividade, e porque ele não raciocina, não sente, nem quer estar a par dos
fatos; é física por ser uma reação do organismo físico. Não se tenta explicar a ligação entre o
físico e o psíquico; a relação é apenas aceita como uma característica da atividade mental na
forma em que surge na experiência. Carr esclarece em especial, entretanto, que os atos
mentais não devem ser identificados com o aspecto puramente psíquico das ações adap tativas
O adjetivo "mental" refere-se ao processo integral, psíquico e físico. O psíquico considerado
isoladamente não passa de uma abstração; "possui tanta existência quanto o largo sorriso de
um gato de Cheshire". *

São adotados vários métodos para estudar a atividade mental. Tanto a introspecção quanto a
observação objetiva são admitidas. As experiências são consideradas altamente desejáveis,
porém, considera-se impossível um completo controle experimental da mente humana. Inclui-
se, também, o estudo dos produtos sociais. Assim como Wundt, Carr acredita que através do
estudo da literatura, arte, linguagem, invenções, instituições políticas e sociais que a raça
humana tem produzido, algo pode ser aprendido sobre a mentalidade que as criou. Acredita,
também, que como a estrutura e a função estão intimamente relacionadas, um conhecimento
das estruturas anatômicas e dos processos fisiológicos, incluídos nos atos mentais, é
freqüentemente muito esclarecedor. Finalmente, admite que a observação comum é um meio
de se chegar ao conhecimento psicológico, embora também reconheça que a psicologia
científica difere do senso comum por ser mais sistemática e cuidadosa, por usar o método
experimental sempre que possível, por reunir seus fatos de um grande número de fontes e por
estabelecer uma estrutura sistemática mais adequada para a organizaçãq de seus dados. É
evidente que, para o funcionalismo, são numerosas as vias de acesso ao conhecimento
psicológico, que não está associado a um método em particular, como acontece com a
introspecção no caso do estruturalismo. Na prática real, entretanto, houve uma tendência
definida a favor da objetividade. Muitas partes das pesquisas realizadas em Chicago são feitas
sem recorrer à introspecção, e onde ela é usada, é verificada por meio de controles objetivos.
Este processo, naturalmente, é determinado de acordo com os problemas considerados; para
estudar um processo em seu ambiente e do ponto de vista de sua utilidade, é necessário
examiná-lo de fora. Na prática, portanto, embora não haja sido abandonada a introspecção, foi
dado uru destaque considerável à observação externa.

No capítulo intitulado "Some Principles of Organic Behavior", Carr dirige-se para o próprio
núcleo de sua concepção de psicologia. Considera primeiro o arco reflexo, porém,

N. da Editora: Gato lendário de Cheshire, na Inglaterra, especialmente descrito em "Alice no


Pais das Maravilhas", conhecida obra de Lewis Carroil.

5 Harvey Carr, Psychology, 1925.

196 Edna Heidbreder

nem mesmo ao apresentar o assunto - e seu livro é destinado aos principiantes - recorre à
simplicidade esquemática que às vezes empregava como recurso explicativo. O conceito de arco
reflexo, na forma por ele usada, implica três princípios. O primeiro é o de que "todo estímulo
sensorial deve exercer algum efeito sobre a atividade do organismo". A resposta não precisa ser
evidente, nem aparecer obrigatoriamente como movimento visível; porém, sempre ocorre
alguma resposta, talvez uma mudança na respiração ou nas pulsações, ou ainda uma variação
das tensões musculares. O segundo princípio é o de que "toda atividade, tanto ideativa como
motora, é iniciada por estímulos sensoriais". Este ponto é apresentado como axioma. Assim
como não há estímulo sem uma resposta correspondente, também não há resposta sem o seu
estímulo. O estímulo, note-se, não se acha obrigatoriamente no ambiente
exterior; pode estar dentro do organismo, como aqueles que se referem à fome, à sede e às
sensações de movimento muscular. O terceiro princípio é o de que existe "um processo
contínuo de interação entre os estímulos sensoriais e as respostas motoras". Cada movimento,
que é uma resposta a uma circunstância sensorial, modifica por sua vez a atividade
subseqüente. Para dar um exemplo simples, uma pessoa pode ter um vislumbre de um objeto
com o rabo dos olhos e responder focalizando diretamente o objeto. Porém, essa própria ação
alterou o campo de visão de tal maneira que os olhos estão agora sujeitos a um conjunto
diferente de estímu'os; e uma vez que o estímulo é agora diferente, a resposta também o será,
e assim por diante, indefinidamente. Destacando como o faz, a interação contínua entre o
estímulo e a resposta, e a complexidade e a sutileza de ambos, Carr não corre o risco de
apresentar a ação reflexa de uma forma simplista e decepcionante.

Estes fatos, entretanto, não explicam o comportamento ackzptativo. Apenas explicam sua
atividade 6 no sentido de que um organismo dotado de aparelho reflexo agirá de alguma
forma se for colocado num meio ambiente capaz de estimulá-lo. Porém, tal atividade não é
obrigatoriamente adaptativa. Uma pessoa que estiver tentando fugir de um edifício em
chamas pode espirrar, porém o espirro não é uma

6 Carr acredita não caber ao psicólogo considerar a atividade no sentido de explicar o porquê
de sua ocorrência. O psicólogo parte de um organismo nascido no mundo vivo e ativo. Seu
trabaiho consiste em estudar a forma e a direção da atividade, e não o porquê de sua
ocorrência. Carr, Psyc1otogy, 72-73.

Psicoiogias do SécuZo XX 197

resposta adaptativa. Um ato adaptativo possui três características: "um estímulo motivador,
uma circunstância sensorial e uma resposta que altera aquela circunstância de forma que
satisfaça as condições motivadoras". Se um homem faminto procura alimento e come até que
sua fome fique saciada, estará reagindo de forma adaptativa. Neste caso, a fome é o estímulo
motivador; o alimento, uma parte da circunstância sensorial, é o objeto estimulante; e o ato de
comer é a resposta adaptativa.

Um motivo, note-se, é um estímulo. Carr define o motivo como "um estímulo relativamente
persistente que domina o comportamento de um indivíduo até que este reaja de maneira a
não ser mais afetado por ele". Os motivos, Carr insiste, não são essenciais à atividade; não
determinam qw esta deva ocorrer; determinam apenas a sua direção. N4 exemplo citado, a
fome é o motivo no sentido de provoca:

uma certa espécie de atividade. Se a pessoa não estivesse f a- minta, poderia responder ao
alimento de qualquer outro modo - sem ingeri-lo.

O objeto estimulante, neste caso o alimento, deve também ser considerado, pois o ato
adaptativo é determinado não só pelo motivo, mas também pelo objeto para o qual é dirigido.
Este objeto é referido como o incentivo, o objetivo ou a finalidade. Um ato adaptativo é aquele
que afeta diretamente o objeto estimulante de alguma forma.

O ato adaptativo, uma vez despertado, prossegue até que suas condições motivadoras sejam
satisfeitas e o estímulo não seja mais eficiente. No exemplo dado, o ato de comer aplaca a
fome, alterando dessa maneira as condições motivadoras e tornando o alimento ineficiente
como objeto estimulante. Porém, existem outras maneiras pelas quais um ato adaptativo pode
ser anulado. A própria continuidade de um ato pode alterar as condições motivadoras; uma
criança pode parar de brincar porque ficou exausta. Ou o ato pode provocar conseqüências
sensoriais que o interrompam; uma pessoa que segura um ferro quente pode deixá-lo cair
devido à dor em suas mãos. Sempre que o ato cessa isso acontece porque a circunstância foi
alterada de tal maneira que as condições motivadoras e o objeto estimulante não são mais
eficientes.

Porém, não se deve supor um só momento que o estímulo motivador e o objeto estimulante
sejam os únicos fatores que determinam o ato adaptativo. Está incluída a circunstância
sensorial total. É muito diferente ver um urso nu-

198

Psicologias do SécuZo XX

Edna Reidbreder ______________________

199

ma jaula e um solto. Geralmente, a pessoa executa uma resposta adaptativa a um só aspecto


do ambiente por vez, principalmente porque em muitos casos isso atinge toda a musculatura
do corpo, mesmo nas reações relativamente simples. Porém, embora a resposta seja dada a
uma característica em particular, não deixa de ser influenciada pelas outras. Alguns elementos
no caso podem agir como distrações, prejudicando a eficiência do ato ou mesmo
interrompendo-o. Outros podem inibir ou alterar profundamente a resposta costumeira ao
objeto estimulante. O próprio executar do ato muitas vezes altera a situação, e situações
repetidamente alteradas demandam reações diferentes. O ato adaptativo não é nada simples;
inclui uma interação contínua entre estímulos e respostas complexas.

Além disso, um ato adaptativo nos organismos superiores geralmente abrange duas etapas:
uma preliminar de ajustamento cuidadoso e uma final de reação completa em relação ao
objeto. A etapa preliminar inclui atividades, tais como o início e a manutenção de dispositivos
motores apropriados e de ajustes dos órgãos dos sentidos - atividades que tendem a impedir a
distração e preparar o organismo para as respostas mais eficientes, motoras e sensoriais.

Finalmente, ao se considerar o ato adaptativo, deve ser feita uma distinção entre duas séries de
conseqüências. Uma delas já foi mencionada, ou seja, a satisfação das condições motivadoras. A
outra é a produção de certos resultados ulteriores. O comer não satisfaz somente a fome, mas
também nutre o corpo; e as duas séries de conseqüências não devem ser confundidas. Os
efeitos ulteriores de um ato não são o seu motivo. Nem são também o seu objetivo. Carr é
muito claro ao afirmar que um ato não pode ser explicado em função de suas ulteriores
conseqüências. Dizer que nós comemos para nutrir nossos corpos não é uma explicação
científica. O ato de comer, ou qualquer outro adaptativo, deve ser explicado não
em função de suas conseqüências, mas sim de suas condições próximas, dos fatores que o
causam e da situação sensorial. Este ponto é importante porque não deixa lugar para a
suposição que às vezes se faz, de que, por estar interessado na utilidade, o funcionalismo
explica os atos mentais de forma teleológica.

Com esta explicação do ato adaptativo, Carr expõe esquematicamente a sua idéia sobre o
material psicológico em geral. O principal significado de seu modo de tratar reside em que sua
idéia é, em todos os sentidos, um conceito ativo. Em

todo o capítulo, ele reduz o material do funcionalista - atividade ajustadora - a uma análise
minuciosa que equivale praticamente a um plano de pesquisa, e que, de certo modo, assinala a
evolução do funcionalismo, desde revolta até a plena atividade. Além disso, sua concepção do
ato adaptativo revela o ponto de vista geral em que apresenta os fatos reais da psicologia no
resto do livro. Os processos psicológicos são funções dos organismos vivos empenhados no
problema de sua adaptação ao meio ambiente. Estes processos são determinados tanto pelo
estímulo do exterior quanto do interior do organismo. Os organismos são ativos simplesmente
porque nasceram no mundo dotados de vida e de sensibilidade aos estímulos, porém, sua
atividade torna-se adaptativa somente quando um estímulo motivador determina a direção de
um ato que age com referência a um objeto estimulante e produz efeitos que satisfazem às
condições motivadoras. Não existem, entre o organismo e o seu meio ambiente, interrupções
ou abismos intransponíveis; ao contrário, há um permanente e complexo pôr e tirar. A
psicologia trata com fatos que não são redutíveis a termos estáticos, e que por atenderem e
conservarem o organismo, se ajustam ao esquema total da atividade biológica.

O funcionalismo, naturalmente, deparou com muitas objeções. Algumas, conseqüências diretas


de seu atrito com o estruturalismo, logo se transformaram em debates a respeito da definição
da psicologia. Um estudo das funções, utilidades, valores - nenhum dos quais pode ser
observado introspectivamente - não tem, de acordo com os estruturalistas, nada de psicologia.
Naturalmente, se as funções estão, por definição, excluídas da psicologia, o seu estudo não é
psicologia. Porém, este assunto dificilmente poderia ser resolvido de maneira tão simples. O
próprio fato de que os funcionalistas estão bem a par do que estão fazendo, por estarem de
olhos abertos a seus afastamentos das convenções estabelecidas, significa que foi
a própria definição que estiveram debatendo. Afirmar que o funcionalismo estava errado
porque não se coadunava com o padrão que intencionalmente abandonou, seria deixar o
principal problema sem solução, e à medida que o estruturalismo efetuava a sua campanha
naquele setor, estava em grande parte defendendo e explicando o seu próprio modo de
pensar. O resultado disso foi um confronto direto dos dois conceitos de psicologia e um
esclarecimento cada vez maior dos pontos em debate.

200

Edna He8dbreder Psog do Século XX

201

Num plano um tanto diverso, situa-se a crítica de que o funcionalismo não definiu os seus
termos, e que, em especial, deixou impreciso o seu conceito básico de "função". Aceitando o
problema sugerido por este caso, Ruckmick, discípulo de Titchener, procedeu a um exame
cuidadoso dos textos ingleses e norte-americanos, a fim de descobrir como a palavra "função"
é usada na prática real. Encontrou duas classes gerais, nas quais os vários usos da palavra
podem ser classificados. Na primeira, "função" é empregada como sinônimo de atividade; neste
sentido, o perceber e o rememorar são funções. Na segunda classe, esta palavra é usada para
indicar a utilidade de uma atividade para o organismo; assim, pode-se dizer que a função da
ideação é servir como substituto econômico para o sistema motor de tentativa e erro. Este
duplo emprego da palavra foi mencionado por alguns críticos como sinal de confusão e
inconsciência; salientaram que parece possível se referir a uma "função de uma função". Carr,
porém, num recente estudo, 8 argúi sobre os mesmos fatos com uma argumentação bem
diferente. Para ele, o fato de todos os empregos dessa palavra pertencerem a uma dessas duas
categorias, parece indicar um acordo considerável. Alegando, além disso, que os dois usos não
são incompatíveis, observa que os mesmos usos desses termos são feitos em biologia, onde a
palavra "função" indica. às vezes, uma atividade, como a respiração ou a digestão, e em outras
denota a utilidade de uma atividade, como no declarar que a oxidação é uma função da
respiração. Além disso, Carr acha que os dois usos do termo podem ser reduzidos a um único,
pelo emprego do conceito matemático de função, que indica uma relação de contingência sem
dar maiores detalhes dessa relação. Afirmar que a oxidação do sangue é função da respiração
é referir-se a uma espécie de relação, a de utilidade; dizer que a respiração é função dos
pulmões é referir-se a outra espécie de relação, aquela do tipo de função com respeito à
estrutura que age. De maneira idêntica, a psicologia pode falar da função do raciocínio, a fim
de referir-se à utilidade do mesmo em relação a todo o conjunto orgânico. Ou então pode
referir-se ao raciocínio como a uma função para designá-lo como a operação de alguma
estrutura; e quando, como no caso do raciocínio,

7 C. A. Ruckmick, "The Use of the Term Functiøn In English Text -Book of Psychology",
American Journal o! Psychology (1913), 24, 99-123.

8 Harvey Carr, "Functionalism", Psycholog,.es of 1930, compiladas por Cari Murchison, 59-78.
tais estruturas não são bem conhecidas, pode usar o termo "função" para significar alguma
relação com as condições fisiológicas. Porém, a análise de Carr, é importante observar, foi
efetuada depois do fato. O funcionalismo usou primeiro o conceito e definiu-o mais tarde; e
esta seqüência de fatos é característica do movimento. Pois o funcionalismo é antes de tudo
uma tendência numa direção geral; não é um sistema definitivamente esboçado e
intimamente articulado. Para o bem ou para o mal, o funcionalismo nunca se dispôs a colocar
a definição e a sistematização em primeiro plano.

O funcionalismo enfrentou também a crítica, às vezes uma vaga imputação apenas, de que
foge um pouco dos limites estritamente científicos. Esta atitude, ao que parece, remonta à
antiga oposição entre a psicologia do ato e a do conteúdo, na Alemanha - ao contraste entre
os métodos empírico e experimental, entre a observação feita fora do laboratório e os
processos controlados no mesmo, e à crença por parte da psicologia do conteúdo de que a
psicologia do ato é obrigatoriamente de menor rigor científico do que ela. Entretanto, esta
atitude é inaceitável, pois os funcionalistas norte-americanos, tanto quanto os de qualquer
outro grupo, estiveram interessados na experimentação. De fato, não utilizam os processos
padrões da escola titcheriana, mas pesquisam seus problemas sob condições experimentais.
Em seus estudos dos animais, por exemplo, o pesquisador não confia na simples observação
geral; insiste na necessidade de uma disposição cuidadosa e um controle das condições que
revelarão os fatos importantes para determinado problema. Se dermos à palavra
"experimento" o significado que possui na ciência em geral, e não a interpretação de uma
determinada escola de psicologia, o funcionalismo não precisa se desculpar seja pela
quantidade ou pela qualidade dos estudos experimentais que tem a seu favor.

Além dessas críticas, encontra-se a leve suspeita de que o funcionalismo, uma vez que trata com
utilidades, está um tanto eivado de teleologia; e a ciência de há muito tem desconfiado da
teleologia quando ela é incluída em suas explicações. Explicar o que são os olhos dizendo que
foram feitos para enxergar, os ouvidos para ouvir, tem demonstrado ser menos eficiente do que
descobrir as condições próximas que respondem pela estrutura e funcionamento daqueles
órgãos. É ainda assunto de animado debate a questão das explicações teleológicas poderem ser
ou não permitidas na ciência; porém, a questão é sem importância no presente caso porque

202

Edna Heidbreder

Psicologias do Século XX

203

o funcionalismo, na realidade, não usa explicações teleológicas. Naturalmente, utiliza


conceitos teleológicos ao descrever os seus dados; assim procede toda vez que observa a
utilidade de um processo. Porém, existe uma diferença entre utilidade como fato observado
na experiência e utilidade como conceito explicativo. É bem possível observar, por exempio,
que uma atividade como comer é útil para a conservação do corpo e, ao mesmo tempo,
explicar o mecanismo desta atividade sem mencionar aquele fato. Carr, deve ser lembrado, faz
exatamente isso. Explica o ato de comer em função de suas condições imediatas - os estímulos
internos da fome e a circunstância ambiental que inclui o alimento; e previne-se
cuidadosamente para não confundir as conseqüências ulteriores da alimentação com seus
estímulos motivadores.

O funcionalismo foi naturalmente acusado, do ponto de vista da ciência pura, de ser apenas
tecnologia e, portanto, de estar num plano inferior ao da busca desinteressada da verdade. É
fato que o funcionalismo nunca tentou livrar-se da utilidade; demonstrou pouco interesse em
conservar-se "puro", e nunca pediu desculpas pelo seu conhecimento ter tido alguma
aplicação prática. Em psicologia, assim como em outras ciências, os prós e os contras da ciência
pura em confronto com a ciência aplicada sempre tiveram os seus adeptos; e em psicologia,
como em tudo o mais, o problema é geralmente resolvido baseado em uma preferência
caprichosa. A esse respeito, Carr faz um comentário interessante sobre a posição
da ciência pura. Se ela é, de fato, "desinteressada", diz ele, não demonstrará nenhum interesse
no que se refere à utilidade ou não de suas descobertas; nem pode reclamar se suas
descobertas sejam de utilidade, ou ter orgulho por serem inúteis no mais alto grau. Uma
predileção pelos resultados que sejam rigorosamente não utilitários representa uma violação
do espírito da ciência pura, que desconhece preferências. Afinal de contas, salienta Carr, é a
adesão ao método científico que torna um estudo científico

- não o assunto com o qual ele trata, nem o ambiente onde se realiza. Certas pesquisas levadas
a efeito nos laboratórios industriais ilustram de modo admirável o espírito da ciência, algumas
mesmo da ciência pura; e teoricamente é bem possível obter-se conhecimentos inúteis dos usos
das

9 Isto não significa que Carr considere a explicação e a descrição como basicamente diferentes.
Apóia a idéia de que a explicação é uma descrição de uma espécie completa fora do comum.

funções orgânicas. Se o funcionalismo tendeu a se interessar pelas utilidades, este interesse


não provocou uma violação dos princípios científicos. Quer sejam encontradas na ciência pura
ou na aplicada, as características essenciais do processo científico são as mesmas.

Porém, o funcionalismo de modo geral demonstrou menos interesse em replicar de forma


eficiente as críticas de seus adversários, do que em manter em andamento o seu programa; e a
sua maior influência na psicologia norte-americana provém de haver dado uma expressão
positiva aos seus princípios. Titchener, devemos estar lembrados, definiu o objeto da psicologia
como "o mundo com o homem dentro dele"; e é em grande parte devido ao êxito do
funcionalismo, que a psicologia norte-americana trata agora com o "homem dentro do
mundo". Estudar as funções é o mesmo que estudar as atividades que se ligam ao mundo por
seus dois extremos, atividades que são iniciadas pelos estímulos externos e que terminam em
operações no mundo exterior. Assim a contribuição marcante do funcionalismo foi a sua
concepção dos processos psicológicos não como algo remoto e isolado, mas sim alicerçados
nas condições em que realmente se encontram; eficientes no mesmo sentido que as outras
atividades biológicas, fazendo alguma modificação no mundo pelas suas operações, e não
apenas refletindo ou marcando passo com a sucessão de fatos que eles acompanham.

Não obstante, o funcionalismo atualmente não se destaca na psicologia norte-americana como


uma escola e um sistema isolado. Assim o foi somente nos primeiros tempos, quando e
destacava como movimento novo - em especial, quando se opunha ao estruturalismo. Várias
circunstâncias contribuíram para que perdesse o seu destaque primitivo. Por um lado,
movimentos mais recentes e mais ativos haviam despertado a atenção. O behaviorismo que
fez questão de ser radical e a psicologia da Gestalt, que desfrutou o prestígio de coisa
importada, o haviam afastado de sua posição de destaque. Mais importante talvez seja o fato
de que o funcionalismo não seja divulgado com facilidade; e que não se coadune com os modos
de pensar habituais do senso comum. Bastante curioso é o fato de que o funcionalismo,
partindo do interesse do senso comum nas utilidades dos processos mentais, achou necessário
modificar certas concepções do mesmo senso comum. O seu interesse pelas atividades forçou-
o a pensar em processos propriamente ditos - não só em teoria como na prática; e desde a
época de Heráclito, os

204

Edna Heuibreder

Psicoiogias do Século XX
205

processos considerados como a base da experiência pareceram fazer com que esta perdesse
por completo o seu valor. O senso comum dá preferência a algo que possa ser apreendido,
alguma coisa palpável, que possa ser tratado como elemento do mesmo modo que um tijolo é
considerado elemento de uma parede. Além disso, a posição do funcionalismo, com respeito à
questão mente-corpo, empanou um pouco a distinção mente-corpo que está hoje em dia
profundamente arraigada no pensamento humano. Embora o funcionalismo seja dualista no
sentido de admitir os aspectos físico e psíquico da experiência, não o é no sentido de separá- los
na forma que o senso comum herdou do passado. Não define o seu material como psíquico,
nem como físico mas como psicofísico e para muitos esta definição tem falta de clareza. É fácil,
por ser comum, pensar assim em função da mente e matéria, ou da mente ou matéria, e o
funcionalismo, abandonando este modo de pensar, corta um vínculo de entendimento com o
senso comum. Porém, sejam quais forem as dificuldades para conceber o seu material de forma
teórica, o funcionalismo provou pelas suas realizações que o seu estudo pode dar bons
resultados; e isto, é curioso, é o principal motivo por que não se destaca como uma escola em
separado. Os seus métodos e pontos de vista foram aceitos de forma tão
generalizada, que existem atualmente apenas como parte do patrimônio comum da psicologia;
não são mais propriedade exclusiva de uma determinada escola.

Assim, com o funcionalismo, a psicologia norte-americana passou por uma fase de seu
desenvolvimento na qual reuniu e organizou muitas tendências já existentes, utilizando-as com
tal êxito, que passaram para a prática generalizada. Considerar as atividades mentais bem como
os conteúdos, pensar em função de adaptações e ajustamentos, observar os processos
psicológicos em relação ao seu ambiente, encarar o homem como um organismo biológico
adaptando-se ao seu meio ambiente - todos estes processos foram tão amplamente aceitos
em psicologia que já não atraem atenção especial.

Ainda mais, há uma tendência em alguns setores em pensar no funcionalismo como algo do
passado; e de certo modo, este ponto de vista é justificado. Como escola e sistema, o
funcionalismo, embora conservasse algo do seu antigo esp'rit de corps, deixou de ser novidade
e perdeu muito de sua distinção. Porém, se os funcionalistas não estavam querendo fundar uma
escola, mas sim tornar legítimos certos

modos de pensar e de pesquisa, e assim ampliar o alcance da pesquisa psicológica, realizaram


exatamente o que haviam proposto. Viram seus problemas e métodos ingressar tão
completamente na psicologia, de forma a não mais se distinguirem como propriedade de uma
única escola. Do ponto de vista dos princípios básicos do sistema em si, não poderia ter havido
melhor final.

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Iv

O BEHAVIORISMO: JOHN BROADUS WATSON

(Psicologia do Comportamento)

Watson (1878-1958); Lashley (1890-1958).

Em 1903, a Universidade de Chicago concedeu o seu primeiro título de doutor em psicologia 1


a John Broadus Watson, fundador, dez anos depois, do behaviorismo .
De acordo com esta doutrina, o funcionalismo é uma medida tímida, fraca e incompleta, que
traz confusão e ineficiência porque concordou com um inimigo que deveria ter sido eliminado.
Pois o behaviorismo é contrário a toda psicologia que se refira à consciência. Considera todo
conceito de consciência como sendo inútil e incorreto, não sendo outra coisa senão a
sobrevivência da superstição medieval a respeito da alma e toda ela não merecedora de
consideração científica. Sua teoria tem tanto de simples quanto de rigorosa. A psicologia deve
romper com o passado, livrar-se inteiramente do conceito de consciência, começar do início e
formar uma nova ciência.

Seria difícil exagerar a simplicidade da visão com a qual o watsoniano ortodoxo encara a
posição atual da psicologia. De um lado está o behaviorismo, e de outro, a "psicologia
tradicional". As psicologias não behavioristas podem diferir entre si, mas a não ser o fato
surpreendente de serem

1 O primeiro psicólogo a receber o grau de doutor na Universidade

de Chicago foi Helen Thompson Wooley, que recebeu o seu diploma no

departamento de filosofia.

2 O behaviorismo descrito neste capitulo é o watsoniano. Existem naturalmente multas


variantes do behaviorlsmo, porém o debate neste capitulo

refere-se àquele divulgado por Watson.

208 Edna Heidbreder

todas mentalistas, as suas diferenças são insignificantes. Têm a mesma base, são todas
dualistas, lidam com a mente e a matéria, e por essa razão não podem ser científicas. Pois, para
Watson, a mente significa claramente algo de extra- natural, sendo que o dualista é alguém que
tenta misturar o que é natural com o que não o é, cometendo, por conseguinte, erro
imperdoável contra a ciência, de não fazer suas descrições em termos totalmente naturais. Se a
psicologia dever algum dia tornar-se uma ciência, precisará seguir o exemplo das ciências
naturais: tornar-se materialista, mecanicista, determinista e objetiva. Pressupor o mental é abrir
caminho para o místico e para a magia. Em vista do behaviorismo procurar fazer da psicologia
uma ciência no sentido exato da palavra, insiste para que a noção de mente seja rejeitada de
modo inequívoco.

É importante notar a veemência e a minuciosidade com que o conceito de consciência é


rejeitado. Os processos mentais, a consciência, as almas e os fantasmas são todos do mesmo
estofo, e inteiramente impróprios para uso científico. A existência da consciência é uma
"hipótese evidente". Não pode ser provada por nenhuma experiência científica, porque a
consciência não pode ser vista, nem mostrada em um tubo de ensaio. Mesmo que exista, não
pode ser estudada cientificamente porque todos admitem que esteja sujeita somente a uma
verificação individual. Finalmente, uma crença no mental está unida a modos de pensar que
são completamente incompatíveis com os métodos usados pela ciência. Refere-se ao que é
religioso, ao místico e às interpretações metafísicas do mundo. A noção de consciência é o
resultado de histórias antigas e da tradição monacal, dos ensinamentos dos feiticeiros e
sacerdotes. A consciência é apenas mais um nome para a alma da teologia, e são
completamente vãs as tentativas da psicologia mais antiga para torná-la parecida com outra
coisa. Aceitar o mental na ciência é abrir a porta aos inimigos da ciência - ao subjetivismo, ao
sobre- naturalismo e, de um modo geral, ao sentimentalismo. Com a mesma simplicidade e
objetivo do Juízo Final, o behaviorismo separa as ovelhas dos bodes. À direita, ficam o
behaviorismo e a ciência com todas as suas produções; à esquerda, ficam as almas, a
superstição e uma tradição confusa; e a linha de demarcação é clara e inconfundível.

3 Ver em especial o capitulo 1 do livro de Watson, Behavwrism, edições de 1925 ou 1930.

P8icologiw? do Século XX 209

Talvez isso tudo pareça um tanto sentimental, porém, seria um erro supor que o behaviorismo
progrediu baseado em simples sentimentalismo. Desde o início, contou com realizações
definidas para apoiar as suas pretensões e apresentou um programa de ação prático. Pois o
behaviorismo, embora iconoclasta, não é somente isso: basicamente, é responsável pela
medida construtiva e decidida de aplicar os métodos e o ponto de vista da psicologia animal à
humana; e em 1913, quando foi fundado oficialmente, a psicologia animal havia conquistado
uma posição que impunha respeito.

As origens da psicologia animal, entretanto, quase podem ser censuradas, pois a mais
importante delas situa-se nas argumentações dos antigos darwinianos que, em sua ânsia de
demonstrar que não existe solução de continuidade entre as espécies humana e animal,
atribuíram irrefletidamente processos mentais complexos aos animais. Na época, a psicologia
animal confiava mais no método anedótico, porém, suplantou aos poucos esta prática
discutível. Sob a influência de Lloyd-Morgan, foi submetida à disciplina da lei da parcimônia, e
os pesquisadores aprenderam logo a se abster de atribuir idéias aos animais, enquanto fosse
possível explicar o seu comportamento de modo mais simples. Além disso, Lloyd-Morgan,
desgostoso com o método anedótico, aperfeiçoou uma forma de observação que se
aproximava da experimental. Fazendo com que os animais realizassem habilidades ou tarefas
em circunstâncias especialmente criadas, observou com cuidado o que eles podiam e o que
não podiam fazer, sob determinadas condições. O progresso

portante a seguir quanto ao método, foi feito por Thorndik, que levou os problemas animais
ao laboratório e concebeu circunstâncias, tais como labirintos e caixas-problemas/que
tornaram possível observar, registrar e mesmo medir as proezas do animal com pormenores.
I1ais tarde, as obras de Pavlov e Bechterev começaram a atrair a atenção dos psicólogos, e
finalmente - nos Estados Unidos, porém, principalmente após o aparecimento do
behaviorismo - os estudiosos do comportamento animal acrescentaram com satisfação o
método do reflexo condicionado aos outros dispositivos que haviam aproveitado dos
laboratórios de fisiologia. Nos Estados Unidos, o interesse pela psicologia animal foi
particularmente intenso e as obras de Margaret Floy Washburn e Robert M. Yerkes muito
contribuíram para mantê-lo. Os processos para estudar a atividade animal melhoraram

i
í.

210

Psicologias do Século XX

Edna Heidbreder

211

em precisão e na suficiência do controle experimental, e por volta de 1913 a psicologia animal


estava bem adiantada.

A vantagem principal em u,lizar os animais na pesquisa psicológica é a possibilidade 4& um


controle mais completo das condições da experiência. É muito mais fácil em animais do que no
homem regular a alimentação, as horas de repouso e ativide, e as condições de vida em geral.
Assim também, porque os animais são talvez mais simples em sua organização, o número de
fatores adversos na experiência é automaticamente menor, e um dado problema pode ficar
mais próximo da simplicidade que farece a clareza e a exatidão de tratamento. Torna-se
mesmó'possível estudar a vida inteira de um animal e, nas espécies de vida curta, estudar o
mesmo processo através de gerações sucessivas. Além disso, é possível em animais recorrer a
processos que não podem ser praticados em seres humanos: por exemplo, lesar órgãos dos
sentidos ou partes do cérebro, a fim de determinar o seu papel em determinadas ações, ou
submeter o organismo a outras influências possivelmente perigosas, a fim de descobrir os seus
efeitos no comportamento subseqüente. Os estudiosos da psicologia animal, por via de regra,
orgulham-se da semelhança entre seus métodos e os das ciências físicas; e alguns deles
desprezam bastante os seus colegas psicólogos que estão satisfeitos em tratar com
"intangíveis" e "imponderáveis".

Grande parte do caráter típico do behaviorismo provém de sua ligação íntima com a psicologia
animal. Esta é forçosamente objetiva no sentido de que o observador, assim corno o
astrônomo, o físico, ou o botânico, ficam obrigato;a rieite fora do material que estudam. De
fato, enquanto a psIcologia foi definida como ciência da consciência, a consciência do animal foi
normalmente pressuposta como provindo do comportamento motor; porém, mesmo os fatos
sobre o comportamento - sobre aprendizagem, sobre reações inatas, sobre a capacidade de
responder às várias classes de estímulos e coisas parecidas - foram os pontos que mais
interessaram à maioria dos pesquisadores; as indagações sobre a consciência animal estavam
propensas a ser superficiais. E, basicamente, é a tentativa de estudar os animais humanos, na
forma em que os outros animais são estudados, que representa a originalidade verdadeira do
behaviorismo. O materialismo que, às vezes, ele ostenta como radical é, afinal de contas, uma
filosofia muito antiga. Não há nada de novo em dizer que o homem é pó, ou mesmo que é um
animal;

porém, quando isso parte de um behaviorista, está a salvo de uma simples repetição oca de
um velho refrão, por estar defendendo um modo muito prático e definido de perceber e
estudar a natureza humana. Sua declaração significa que o homem deve ser encarado como
uma espécie animal, apenas como uma entre as muitas espécies do mundo animal, sem
representar um caso especial em nenhum sentido básico. Dá a entender ainda um desejo de
estudar as reações humanas exatamente como os outros fatos da natureza são estudados

- como um mecânico pesquisa o funcionamento de uma máquina, ou um fisiólogo estuda as


funções das glândulas supra-renais de um cão. Quer dizer, também, que o estudante deve
considerar o homem como um organismo reativo completo, e deve estudá-lo em relação à
natureza. E como é visto em confronto com o conhecimento da psicologia "tradicional", isto
significa que o psicólogo deve pôr de lado a dissecação dos estados de consciência e estudar o
ser humano como um organismo vivo integral, reagindo à totalidade de seu meio ambiente,
tanto físico como social.

Que a psicologia norte-americana estava preparada para tal plano ficou bem claro pela
aceitação que deu ao funcionalismo. Pois as mesmas condições que asseguraram ao
funcionalismo uma atenção especial, prepararam o caminho para a vitória ainda mais
espetacular do behaviorismo. Praticamente, este fez o mesmo que o funcionalismo, e de forma
mais impressionante. Cortou o nó górdio, que o funcionalismo havia apenas afrouxado para dar
à psicologia um âmbito maior. O próprio Watson, para ser exato, faz objeção a todas as
tentativas de associar o behaviorismo com o funcionalismo; por mais que os dois movimentos
possam diferir em mentalidade e concepções básicas, são parecidos por exigirem um alcance
maior para a pesquisa psicológica. A questão toda é que os psicólogos norte- americanos
tornaram-se inquietos devido às coibições habituais. Estavam achando os antigos problemas
fracos e sem interesse, estavam "meio enjoados de sombras" e, dirigindo-se para algo que
parecia mais vivo e real, adotaram uma revolta clara e franca. Pois o behaviorismo era muito
melhor do que o funcionalismo como válvula de escape para repressão. Conclamou
os seus seguidores para combater um inimigo que deveria ser completamente destruído, e não
apenas parlamentar com quem pudesse ser induzido a mudar de idéia.

Watson formou-se pela Universidade de Chicago na época em que o funcionalismo estava no


auge da fama. Seu

212

Ecina Heidbreder

Pscologsas cio Sóculo XX

213

principal interesse, ainda nessa ocasião, estava na psicologia animal. Ele próprio formou o
laboratório animal e, após diplomar-se, permaneceu um ano em Chicago como membro do
corpo docente, encarregando-se do trabalho sobre psicologia animal. Em 1904, seguiu para a
Universidade Johns Hopkins, como professor de psicologia.

Foi durante sua estada em Chicago, entretanto, e com referência ao seu trabalho sobre
psicologia animal, que desenvolveu as concepções básicas do behaviorismo. Como já foi
mencionado, o próprio Watson é contrário a qualquer tentativa de procurar as origens do
behaviorismo no funcionalismo. Para ele, a diferença em suas atitudes quanto ao
reconhecimento da consciência separa, profunda e essencial mente, os dois pontos de vista.
Todavia, foi bem típico do funcionalismo considerar o homem como um animal reagindo ao
seu meio ambiente, e esta atitude é uma das que o behaviorismo aceita como certa. Foi,
também, a mesma que tornou o funcionalismo tão favorável à psicologia animal, solo onde
cresceu o behaviorismo.

Em seus estudos dos animais, Watson tornou-se cada vez mais convencido de que a psicologia
animal é uma ciência por direito próprio, totalmente apta a manter-se por suas próprias forças e
sem nenhuma obrigação de traduzir suas descobertas em termos mentalistas. Convenceu-se,
ainda mais, que os métodos da psicologia animal poderiam ser aplicados com proveito à
psicologia humana; e que esta realniente melhoraria muito se, pondo de lado toda alusão à
consciência, estudasse os seus pacientes como os animais são estudados. Em primeiro lugar,
expôs as suas idéias em palestras com seus colegas. Angeil, nessa época diretor do
departamento de psicologia da Universidade de Chicago, embora inteiramente de acordo com
algumas idéias de Watson, aconselhou-o a não ser responsável por uma psicologia humana
desprovida de consciência. Watson, entretanto, manteve a sua posição e, em 1912, expôs suas
idéias mima série de palestras na Universidade de Colúmbia. A primeira declaração publicada de
sua posição apareceu em 1913, em arti. go intitulado "Psychology as the Behaviorist Views It".
Um estudo, "The Image and Affection in Behavior", 6 veio

4 A tese de doutoramento de Watson intittilava-se "Klnaesthetlc and OrganIc Sensations: their


Róle In tfle Reactions ot the White Rat to the Maze", Psychological Review (1907), 8,
Monograph Supplement, n.° 2, 1-100.

5 Psychologi,cal Review (1913), 20, 158-177.

6 Journal of Philosophy, Psijchology and Scientific Method (1913), 10,

421-428.

logo a seguir - tendo constituído importante contribuição, porque a imagem e a afecção,


ambas concebidas como afastadas dos estímulos externos e da resposta manifesta, eram
consideradas as fortalezas do introspeccionismo. Watson, tendo reduzido as imagens a
respostas orais implícitas, e a afecção a ligeiras reações criadas pela tumescência e
detumescência dos órgãos genitais, afirmava que ambas podem ser estudadas como
movimentos corporais, e que, portanto, não existia nenhuma parte da matéria estudada pela
psicologia para a qual não fossem adequados os métodos do behaviorismo.

Titchener não pôde deixar de se manifestar a este respeito. Em uma de suas polêmicas mais
decisivas, definiu-se dizendo que as descobertas não expostas em função da consciência,
simplesmente não são psicológicas. Podem ser interessantes, importantes e mesmo valiosas
para a psicologia; mas não são psicologia propriamente dita. Watson replicou que a única
psicologia digna do nome de ciência deve provir dessas descobertas; e que uma psicologia da
consciência é apenas falsa ciência. E como acontecera no caso do funcionalismo mais de dez
anos antes, Titchener deu distinção e significado impressionante ao movimento a que se
opunha, tomando uma posição decisiva contra o mesmo.

A trajetória do behaviorismo, na forma em que se desenvolveu no pensamento de Watson,


pode ser estabelecida com maior objetividade por meio de seus três tratados gerais. O
primeiro deles, Beha.vior, an Introcluction to Comparative Psychology, surgiu em, 1914. Neste
livro, pelo seu modo de dispor o trabalho experimental neste setor, demonstrou com notável
êxito que a psicologia comparada ou animal tem seu lugar independente entre as ciências.

Seu livro seguinte, publicado em 1919, foi Psychokgy from the Standpoint of a Behaviorist. Aí,
os princípios da psicologia animal são decididamente ampliados para abranger a humana. A
tese principal do livro é a de que o ser humano e todas as suas atividades podem ser explicados
se considerarmos o indivíduo como máquina que responde aos estímulos. As palavras que
implicam consciência são escrupulosamente evitadas. O livro é notável, também, pela inclusão
que faz das descrições das pesquisas que Watson havia realizado sobre as reações inatas das
crianças e das

7 E. B. Tttchener, "On 'Psychology as the BehaviOrlSt Vlews It' ", Proceedings of the American
PhLosophicat Society (1914), 58, 1-17.

Psscologias do Século XX

214

Edna Heidbreder

215

suas primeiras aquisições pela experiência. O destaque dado a este material demonstra o
reconhecimento concedido pelo behaviorismo à importância da infância no desenvolvimento
humano e à do método genético de estudar as reações humanas.

O terceiro livro de Watson, Behciviorism, surgiu em 1925. 8 Embora seja uma apresentação
mais popular de seu ponto de vista, tem a mesma seriedade que os anteriores. "Todos os
esforços, escreve o autor no prefácio, foram feitos para apresentar os fatos sem deformações e
relatar posições teóricas com exatidão." Este livro difere dos anteriores em dois pontos
principais, O primeiro é o de que a atitude de aprovação com respeito à psicologia aplicada é
visivelmente mais pronunciada do que antes. Mesmo em 1919, apresentando o seu problema
como a "predição e o controle" do comportamento, Watson tornou-se responsável de modo
inequívoco por uma psicologia que apresenta resultados na prática; porém, no livro publicado
em 1925, demonstra um interesse ainda maior pelas aplicações práticas do conhecimento
psicológico. Não satisfeito em apenas compreender a máquina humana, apresenta sugestões
para alterá-la e melhorá-la. A segunda nova posição adotada neste livro diz respeito à
hereditariedade. Negando completamente a existência dos instintos, da inteligência inata e dos
"dons" inatos de qualquer espécie, Watson declara que aquilo que comumente chamamos de
instintos, dons especiais e habilidades inatas são, na realidade, resultado do meio ambiente e
do treinamento. Esta atitude naturalmente dá enorme ênfase à importância da infância e
dos primeiros anos de vida como o período de formação mais importante da vida humana.
Os contornos do behaviorismo são diagramaticamente claros. O objeto da psicologia é o
comportamento - e não conteúdos conscientes, nem funções mentais ou processos
psicofísicos de nenhuma espécie, mas sim movimentos no tempo e no espaço. O
comportamento é a atividade do organismo como um todo, assim como a digestão, a
respiração e a secreção são atividades de determinados órgãos. Da mesma forma que a
fisiologia estuda as funções do estômago, dos pulmões e do fígado, a psicologia estuda as
atividades dos corpos vivos completos. Os pulmões respiram, o corpo todo

8 Uma edição revista foi publicada em 1930.

Em 1920, Watson tornou-se profissionalmente Identificado com a psicologia aplicada. Saiu da


Universidade Johns Hopkins e foi trabalhar em psicologia publicitária.

comporta-se. Tanto a respiração como o comportamento são atividades das estruturas físicas
e, como tais, podem ser estudadas pelos métodos objetivos que caracterizam toda a ciência.

São aceitos como válidos somente os métodos objetivos. A introspecção é de todo rejeitada;
sua pretensão esmerada de observação cuidadosa é fútil e irrealizável desde o início. Mesmo
que houvesse estados de consciência para o introspeccionistà observar - e sua existência nunca
pode ser provada cientificamente - é sempre impossível que dois observadores vejam a mesma
coisa. Ninguém pode ver os pensamentos e os sentimentos de outra pessoa, e nada do
que seja acessível somente pela inspeção individual chegará a produzir conhecimento objetivo.
A psicologia possui vários métodos objetivos à sua disposição. A observação é, naturalmente,
básica para todos os processos, e as observações científicas podem ser feitas com ou sem
instrumentos. O primeiro caso pode ser exemplificado pelos estudos fotográficos dos
movimentos dos olhos durante a leitura, o segundo no clássico trabalho de Fabre sobre os
insetos. Os testes psicológicos são também aceitos, mas sem entusiasmo, e com a compreensão
clara de que não são testes "mentais" - que não testam a "inteligência" ou as
"aptidões especiais" como aspectos da "mente". Quando um behaviorista utiliza testes,
considera-os apenas como medidas do comportamento - das respostas do paciente, verbais ou
outras, às circunstâncias objetivas que os testes apresentam. O behaviorismo chega a aproveitar
alguns dos métodos da antiga psicologia. A medida do tempo de reação, por exemplo, é aceita
como tõtalmente objetiva. O mesmo se dá com as experiências sobre a memória, pois
Ebbinghaus e seus seguidores estudaram a formação, a retenção e o declínio das associações
em função de atos e circunstâncias objetivas. A aceitação das experiências sobre a memória é
acompanhada naturalmente pelo indispensável aviso de que não existe nada "mental" a
respeito da "memória"; que esta significa apenas a reprodução de reações após um certo tempo
durante o qual não foram praticadas. O behaviorismo reconhece, também, os métodos da
psicologia aplicada, educacionais e industriais, uma vez que certos problemas, como determinar
os lucros da publicidade e medir a eficiência do aprendizado ou de operações industriais em
certas circunstâncias, podem ser pesquisados comparando-se
atos objetivos definidos com circunstâncias objetivas específicas. O pró-

216

P8icologia8 do Século XX

Edncz Hekibreder

217
prio "relato verbal" é aceito como fonte de informação, mas nas mãos do behaviorista o
comentário do paciente sobre o seu próprio estado ou sua atividade recebe exatamente a
mesma atenção dada a quaisquer outras reações manifestas. Elas não são, certamente,
consideradas como estados de consciência. Se alguém diz "estou triste", sua declaração é tida,
juntamente com sua postura lânguida, talvez como sintomática do estado de todo o seu
sistema de reação. Nunca é aceita como um indício de um estado "mental".

Um método objetivo, entretanto, é tão importante na concepção behaviorista que deve ser
destacado para receber uma atenção especial. Esta é a técnica do reflexo condicionado
desenvolvida por Pavlov e seus discípulos. A menção do reflexo condicionado é a proclamação
de um tema que se torna rapidamente predominante na psicologia behaviorista. Pois o
processo de "condicionar" não só revela um novo meio de pesquisar o comportamento; é
também, em grande parte, responsável pelo seu caráter.

Uma resposta é "condicionada" quando se torna asso" ciada a um estímulo que anteriormente
não a provocava. Uma experiência de laboratório de Pavlov tornou-se o exemplo clássico. Em
cães, a resposta salivar é primeiramente despertada pela presença de alimentos sobre a língua;
isto é, o alimento é o "estímulo apropriado" para a resposta da salivação. Na experiência, uma
campainha é tocada toda vez que o alimento é apresentado, e após um certo número de
repetições, a campainha sozinha, sem o alimento, provocava a resposta. Em outras palavras,
um estímulo que micialmente não eliciava a resposta, passa a fazê-lo depois de participar
seguidamente da circunstância para a qual a resposta foi feita. Esta experiência, embora
encerre um caso muito simples de reflexo condicionado, ilustra o princípio de todo o
condicionamento. Às vezes, como no exemplo dado, a resposta permanece a mesma e um novo
estímulo é apresentado. Outras vezes, o estímulo permanece o mesmo e uma nova resposta é
apresentada, como no caso da criança que, em vez de indicar um objeto, aprende a chamá-lo
pelo nome. Porém, em ambos os casos, deu-se modificação do comportamento; em cada caso,
a associação inicial entre o estímulo e a resposta foi alterada.

Do ponto de vista do método, o processo de condicionamento é importante porque


proporciona um modo objetivo de analisar o comportamento. Na hipótese do comportamento
ser composto de unidades simples como os reflexos, e que

todas as unidades maiores do comportamento sejam integrações das associações estímulo-


resposta, é teoricamente possível através da técnica do condicionamento estudar os próprios
processos pelos quais o comportamento é elaborado e desfeito. Seria possível também, por
meio do condicionamento, enfrentar alguns dos problemas que à primeira vista parecem
inacessíveis a qualquer outro método a não ser à introspecção. A sensação deu sempre a
impressão de ser uma fortaleza do introspeccionista, porém, a possibilidade do
condicionamento sugere um meio de pesquisar um problema tão "subjetivo", como o de
descobrir até onde pode a vista humana distinguir os limites do vermelho e violeta do
espectro. Watson aconselha o seguinte procedimento:

"Começamos com qualquer comprimento de onda intermediário e por meio do choque


elétrico estabelecemos um reflexo condicionado. Toda vez que surge a luz, dá-se o reflexo.
Aumentamos, então, o comprimento da onda bruscamente e se aparecer o reflexo
aumentamos novamente o comprimento da onda. Atingimos, por fim, um ponto onde o
reflexo se interrompe, mesmo quando usamos punição para restaurá-lo - mais ou menos a 760
mícrons. Este comprimento de onda representa o alcance espectral do ser humano no limite do
vermelho. Adotamos, a seguir, o mesmo procedimento com relação ao limite do violeta
(397 mícrons). Dessa forma, determinamos o alcance individual de maneira tão segura como se
houvéssemos estimulado o paciente com luzes monocromáticas, variando os comprimentos de
onda e

perguntando se este os via." 10

A grande vantagem deste método é a sua completa objetividade - de grande valor nos
primeiros tempos quando o behaviorismo ansiava em mostrar que não havia setor da
psicologia, nem a própria sensação, que lhe fosse inacessível. Na prática real, entretanto, o
reflexo condicionado não demonstrou ser uma unidade de comportamento bastante estável
para servir como instrumento de pesquisa. Porém, a idéia de usá-lo tem valor como exemplo
da posição inflexível que o behaviorismo assume a favor dos métodos objetivos de pesquisa.

O problema geral da psicologia, segundo o behaviorista, é o de prever e controlar o


comportamento. De modo mais exato, a tarefa da psicologia é a de determinar os estímulos
que provocam certas respostas, e as respostas provocadas por quaisquer estímulos.
Teoricamente, o psicólogo deveria compreender o animal humano assim como o engenheiro
compreende uma máquina; deveria saber de que é feito o corpo,

10 J. B. Watson, Psijchology from the $tandpont of a Behaviorist, 35-36.

218

Psicologias do Século XX

Edna Hei4jbreder

como é formado, e como funciona. E uma vez que o comportamento é a atividade do


organismo como um todo, o psicólogo se interessa principalmente por três conjuntos de
aparelhos: os receptores ou órgãos dos sentidos, pelos quais o organismo recebe todo o
estímulo que o faz funcionar; os efetores, isto é, músculos e glândulas, que são órgãos de
resposta; e o sistema nervoso, através do qual são feitas todas as ligações entre os receptores
e efetores.

O ponto de partida correto para o estudo psicológico do organismo humano é o nascimento. É


preciso, em primeiro lugar, descobrir quais as reações que o bebê pode ter através de sua
constituição inata, e então descobrir como, aos poucos, são acrescentadas as outras reações; ou
mais exatamente, como são "condicionadas" as primeiras reações e como, por meio do
condicionamento, as formas cada vez mais complexas de comportamento são "elaboradas", O
behaviorismo verifica que o equipamento de reação inicial do animal humano é extremamente
limitado em comparação com as suas atividades futuras. A criança humana tem à sua disposição
um certo número de reflexos; pode efetuar movimentos corporais desordenados
(embora não sem causa) e se utiliza de seus vários tecidos orgânicos e órgãos, por exemplo, a
secreção glandular e a contração muscular. Em outras palavras, herdou apenas as estruturas
de seu corpo e seu modo de funcionamento. Mas não herdou "características mentais", como
tampouco inteligência nem habilidades especiais, nem dons ou talentos. Não herdou nem
mesmo algum "instinto". Watson nega peremptoriamente que qualquer ser humano esteja
dotado de instintos, de inteligência inata, de dons ou talentos inatos, ou de qualquer
tendência ou talento especial. É a este respeito que faz a sua declaração muitas vezes
mencionada:

"Dêem-me doze crianças sadias, de boa constituição e a liberdade de poder criá-las à minha
maneira. Tenho a certeza de que, se escolher uma delas ao acaso, e puder educá-la,
convenientemente, poderei transformá-la em qualquer tipo de especialista que eu queira --
médico, advogado, artista, grande comerciante, e até mesmo em mendigo e ladrão,
independente de seus talentos, propensões, tendências, aptidões, vocações e da raça de seus
ascendentes." Ii

Realmente, muito cedo na infância forma-se o condicionamento. Esta é a maneira mais


simples de aprender; é, de fato, o processo elementar para o qual se pode reduzir

219

todo o saber. A partir de poucas respostas simples que a criança tem acumuladas, em grande
parte através do aprendizado ou condicionamento, porém, parcialmente através do
crescimento e da maturidade, são elaboradas todas as atividades complexas que os adultos
manifestam. Os chamados instintos são produzidos desse modo. A combatividade, a confiança
em si, a curiosidade e coisas parecidas - todas as atividades que normalmente chamamos de
instintos - são integrações extremamente complexas de reações que, por meio do
condicionamento, foram reunidas e associadas a determinados estímulos. Este processo, quase
sempre muito trabalhoso, é do tipo no qual o meio ambiente social é muito importante e em
que o período da infância é de vital importância. Porém, do princípio ao fim, o processo é de
aprendizagem. Os "instintos" não são herdados.

As emoções, também, são em grande parte reações aprendidas. Três espécies de respostas
emocionais, e somente três

- o medo, a raiva e o amor - podem ser despertadas na criança antes do aprendizado,


aplicando apenas o estímulo apropriado. Naturalmente, fica entendido que as palavras
"medo", "raiva" e "amor" não se referem a nada "mental". As emoções não são questões de
sensação ou qualidade afetiva; são reações corporais. Distinguem-se das outras reações
corporais por serem predominantemente viscerais incluindo principalmente as glândulas e os
músculos lisos ou "involuntários", como os existentes nas paredes intestinais e nos vasos
sangüíneos. As respostas emocionais, também, estão sujeitas à mesma espécie de
condicionamento que se dá com os músculos estriados ou "voluntários", como os dos braços,
pernas e mãos. Da mesma forma como se adquire habilidades motoras - escrever a máquina,
patinar, tocar violino - uma pessoa adquire suas respostas emocionais complexas, suas
simpatias e aversões, seus vagos temores e simpatias inexplicáveis. Suas vísceras aprendem
assim como suas mãos, braços e pernas, e talvez mais depressa. As emoções complexas são
construídas baseadas nas poucas reações não aprendidas. De forma inata, o medo pode ser
provocado em uma criança por meio de ruídos fortes, porém, o medo provocado dessa maneira
pode estar ligado a um estímulo inicialmente "impróprio", como no caso do coelho, se
a criança ouvir um ruído forte toda vez que vê um coelho. Por meio de transferência e
contágio, o medo pode tornar-se associado a outros objetos peludos, à sala na qual foi visto o
coelho, à pessoa que segurava o coelho. As próprias

11 J. B. Watson, Behaviorism, 82.

221

220

Edna Heidbreder

respostas primitivas de medo - seu início, choro, e fuga - podem se modificar bastante pela
substituição de outras reações por meio do condicionamento. Porém, embora haja muitas
ramificações, embora sejam intricadas as ligações, o padrão emocional complexo resulta do
aprendizado ou condicionamento.

Assim são também os sistemas complexos dos hábitos e das habilidades motoras aos quais
Watson chama de "hábitos manuais". Estes distinguem-se por um lado das atividades
emocionais ou "viscerais", e por outro dos hábitos "laríngeos", expressão que os behavioristas
aplicam comumente aos pensamentos Os hábitos manuais incluem habilidades definidas, tais
como escrever, datilografar, pintar e guiar um carro, e os modos de comportamento gerais,
como os que fazem uma pessoa ser pontual, ordeira e perseverante. Os hábitos manuais são
formados pelos movimentos "ao acaso" do tronco, braços, pernas, mãos e dedos. Embora
aceitando que a maior parte do processo da aprendizagem motora continua até agora
desconhecida, Watson acreditava firmemente que todo o processo pode ser reduzido ao
mecanismo da resposta condicionada. Por exemplo, numa atividade, como a de tocar escalas ao
piano, cada resposta isolada é, de início, convertida em estímulo visual, seja no teclado ou na
nota impressa na música. Porém, à medida que esta atividade é praticada cada vez mais, o
movimento de um dedo torna-se o estímulo do movimento do dedo seguinte e, às vezes, a
escala toda pode ser executada sem o estímulo visual das notas ou teclas. Cada movimento foi
condicionado ao precedente e a indicação visual não mais é necessária. O resultado disso é que
as reações de início separadas umas das outras foram reunidas para formar um padrão
unitário. Se forem usadas as duas mãos, as ligações tornam-se mais complexas, e se tocarem
acordes com ambas as mãos, serão formados sistemas de ligações ainda mais altamente
organizados. Porém, a unidade é sempre a reação condicionada. Além disso, a simples
repetição ou proximidade no tempo do exercício são suficientes para explicar a formação do
hábito. Watson é inteiramente contrário à teoria de que o "prazer" ou a "satisfação" tendam a
fixar reações agradáveis e o "aborrecimento" ou "insatisfação" a eliminar as desagradáveis. Sua
crítica dessa teoria inclui vários pontos técnicos, porém, sua objeção principal surge do fato de
que o "prazer"

Psicologvls do Século XX

e a "satisfação" lhe parecem implicar a intervenção de uma força mental. A aprendizagem, sei
a qual for a sua natureza exata, é uma questão completamente material e mecânica.
"Hábitos laríngeos" é a expressão do behaviorista para significar pensamento. Desenvolvem-se
pela vocalização ao acaso, não aprendida, exatamente da mesma forma que os hábitos manuais
se formam dos movimentos ao acaso dos músculos e do tronco. A linguagem manifesta-se em
primeiro lugar. Por um processo de condicionamento, a criança aprende palavras; e estas, por
poderem ser substituídas por coisas ou situações concretas, dão-lhe o poder de manejar o seu
meio ambiente sem fazer os movimentos reais visíveis. Isto é tudo o que significa pensar. Um
homem pensa - isto é, realiza reações verbais implícitas - da mesma forma que um rato faz
movimentos musculares visíveis em um labirinto. As palavras do homem e os chiados do rato
através do labirinto são atividades por meio das quais o animal realiza uma adaptação a uma
circunstância para a qual de início lhe falta uma resposta adequada. A grande vantagem de
pensar está em ser mais econômico, em parte porque exige uma porção muito menor da
musculatura do corpo, e também porque pode ser realizada uma ação implicitamente sem risco,
perda de tempo e esforço, e sem o possível acidente que a
ação real poderia provocar. Novamente é feita a advertência inevitável; não há nada de
misterioso sobre o pensar. Suas operações, para ser exato, são internas e, portanto, invisíveis
para quem olha de fora, porém, nada existe dentro do corpo que seja diferente do mundo
externo - certamente nada "mental" ou imaterial. Além disso, a linguagem só aos poucos se
torna interna ou "implícita". De início, a criança utiliza os movimentos visíveis da linguagem
falada; depois, em grande parte devido ao seu meio ambiente social, aprende a reprimir sua
linguagem por gestos e os substitui por movimentos implícitos. Porém, aqueles continuam,
sub- vocais e implícitos, e representam tudo que se relaciona com o pensamento.

Embora haja sido feita uma distinção entre o comportamento manual e o laríngeo, ela não é
absoluta. A função da linguagem pode ser efetuada por qualquer movimento do corpo por um
encolhimento de ombros, um franzir da testa, um gesto, uma inclinação da cabeça, um
estiramento geral dos músculos; por qualquer movimento que seja, bastando que represente
um objeto ou circunstância, como no caso de uma palavra ou frase. É realmente a regra, e não

222

Edna Heidbreder

a exceção para o corpo todo, estar incluído numa atividade. O behaviorjsmo formula a
pergunta: "É o pensamento exclusivamente uma questão de mecanismo da linguagem?" A
resposta é "não" se a expressão "mecanismo da linguagem" se refere à linguagem somente,
com exclusão das atividades viscerais e manuais. Porém, se a expressão é usada para contrastar
o pensamento com a atividade mental, se se refere a qualquer movimento do corpo que realiza
a função da linguagem, a qualquer movimento que, como uma palavra, pode ser substituído por
algum objeto ou circunstância, a resposta é enfaticamente "sim". Além disso, as reações
manuais não se efetuam comumente sem uma verbalização implícita. É esta, de fato, que as
mantém sob controle. Podemos orientar nossos atos quando podemos fornecer sugestões
verbais; "sabemos" o que estamos fazendo, e como fazemos, quando podemos falar sobre isso,
implícita ou abertamente. Por via de regra, os três fluxos de atividade, manual, laríngea e
visceral, realizam-se ao mesmo tempo. Quando a laríngea está ausente, a atividade acha-se
descontrolada; daí ser a presença da verbalização da máxima importância prática.
Existem duas classes de reações, entretanto, das quais a verbalização está geralmente ausente
- as respostas emocionais e o comportamento da infância e da primeira infância. Naturalmente,
a verbalização não se pode verificar antes da linguagem ser aprendida; e, mesmo no caso de
adultos, uma vez que a linguagem foi criada em grande parte referindo-se a um mundo externo,
os seres humanos têm falta de palavras para a maioria dos fatos que se dão dentro de seus
corpos, principalmente para aquelas reações incertas e difíceis de localizar de que se constituem
as emoções. Assim, desenvolveu-se um sistema de reações não verbalizadas, principalmente
infantis e viscerais, as quais, por não serem faladas, influenciam o comportamento de seu
paciente de uma forma incontrolável. A este sistema pertencem as aversões vagas, temores,
preferências, saudade, preconceitos, todas as espécies de atitudes, infantis e emocionais, que
podem ser injustificáveis de forma intelectual e mesmo irreconhecíveis, porém, que não são
menos tenazes e certamente não menos potentes. Na terminologia de Watson, o "não
verbaaura

Todas essas reações reunidas - verbal, visceral, manual, real e potencial - constituem a
personalidade. Não há nada de misterioso a respeito da personalidade. Ela não é

Psicologias do Século XX

223

"algo indefinível" mas sim um sistema de respostas, a soma total das reações e tendências à
reação, de um indivíduo. O termo personalidade é usado muitas vezes para significar
especialmente o valor social de um indivíduo; em tais casos, se caracteriza por palavras, como
"dominador", "encantador", "repelente", "magnético" ou "fraco". Porém, este aspecto da
personalidade, como todos os demais, é explicável em função do estímulo e resposta. A
personalidade dominadora, por exemplo, é a que através de seus próprios traços e conduta -
por um modo autoritário de falar, um ar de segurança, uma estatura que se impõe, um porte
digno - desperta nos outros as respostas de submissão que na infância apresentaram, sem
refletir, diante dos adultos. Por ser a personalidade apenas um sistema de reações, pode ser
estudada pelos métodos tradicionais da ciência. Só não pode ser estudada de modo completo
na atualidade, porque não foram ainda desenvolvidos métodos adequados; nada existe na
personalidade que necessariamente se esquive à consideração científica. Conhecer uma
personalidade é possuir informação específica sobre os hábitos de trabalho do indivíduo, sua
educação, atitudes, realizações, tendências emocionais dominantes, adaptabilidade social,
recreações e desportos favoritos, vida sexual, reações aos padrões convencionais, traços
especiais e compensações para os ajustamentos não satisfatórios. Isso não quer dizer que seja
possível analisar a personalidade de uma vez por todas. A personalidade modifica-se à medida
que as antigas reações são abandonadas e se adquirem outras novas. Na psicologia do
behavioris, personalidade não subsiste raite através detQ4 as vicisitüdj.daçomo acontece com a
alma da teologia. Iorém, os conjuntos de hábitos predominantes em qualquer ocasião
representam a personalidade nessa época.

Todo o sistema de comportamento, a personalidade completa, portanto, é constituído a partir


de poucas reações simples pelo processo de condicionamento. Um repertório limitado de
respostas inatas, o processo de condicionamento, os estímulos fornecidos pelo corpo e pelo
meio ambiente, social e físico - isto é tudo o que necessita o behaviorista. Seu estudo não
exclui nenhum setor da atividade humana. Pode explicar o pensamento e a emoção bem como
os movimentos visíveis do corpo. Finalmente, apresenta um ser humano completo mca
montada, pronta pai tiincionar", segundo as palavras de Watson.

224

Edncj Heidbreder

Isto é o behaviorismo em seus aspectos fundamentais; porém, quase da mesma importância


para descrever a sua trajetória e a sua influência são as características secundárias com as
quais o seu autor o colocou no mundo.

Uma delas é a sua atitude especial em relação ao sistema nervoso. Na opinião de Watson, a
psicologia convencional deu, sem razão, uma importância exagerada, e também inútil, à
estrutura corporal. Realmente, pouco se conhece a respeito das funções do sistema nervoso.
Os "quadros de quebra-cabeças" nos livros didáticos e as legendas que os acompanham são,
em sua maioria, resultado de especulação gratuita, feitos de propósito para se adaptar aos
fatos que pretendem explicar. O sistema nervoso, diz Watson, é uma "caixa de segredos", um
lugar no qual uma psicologia mentalista lança seus problemas para criar a ilusão de que foram
explicados. Além disso - e essa objeção é bem típica - a preocupação com o sistema nervoso é
puro exagero; é o hábito de uma psicologia interessada em mentes e talvez com o que se
passa na cabeça e no cérebro. Porém, um dos ensinamentos mais destacados do behaviorismo
é o de que a psicologia deve estudar o corpo todo - músculos lisos e estriados, vísceras e
glândulas, receptores e conexionadores, carne, sangue e ossos." Deve estudar o sistema
nervoso, é evidente, porém, apenas como uma das estruturas do corpo, e não como a principal.
Se existe algum conjunto de órgãos que o behaviorista isola para dar uma atenção especial, são
os músculos e as glândulas, pois os efetores são os órgãos da conduta par exceilence. É bastante
significativo Watson explicar a aprendizagem associativa em função do que acontece nos
músculos mais do que no cérebro. Se um movimento muscular se torna o estímulo do seguinte,
o fenômeno todo lhe parece evidente - mais acessível e, portanto, menos misterioso do que as
associações efetuadas no interior do cérebro. Watson está bastante interessado em que os
músculos lisos e glândulas, órgãos da emoção, recebam, também, a sua parte de atenção; os
seres humanos, diz ele, estão "terrivelmente à mercê" de suas glândulas. A sua recusa em
destacar o sistema nervoso é, de fato, uma expressão de suas opiniões básicas. Uma delas é a
sua convicção de u

cologia deve estudar o organismo como um o o ; outra e a áua aver ioi ii uearnvjsivejnacessível
niesmo quando a invisibilidade e a inacessi 1 1 a

P8icologias do Século XX

225

O behaviorismo tem também uma opinião especial com respeito à hereditariedade. Em 1919,
no livro Psychology from the Standpoint of a Behaviomst, Watson, em uníssono com a maioria
dos psicólogos da época, admitiu a emoção e o instinto como um comportamento hereditário,
em contraste com os hábitos ou comportamento aprendidos. Porém, mesmo então, ainda de
acordo com muitos psicólogos, demonstrou um completo ceticismo em considerar os padrões
superiores de comportamento como hereditários. Admitiu como inatas somente três emoções,
o medo, a raiva e o amor; e considerou como reações instintivas somente coordenações
ssimples, como as existentes no amamentar e alguns movimentos primitivos de defesa. Logo
após o aparecimento de seu livro, entretanto, o conceito global de instinto foi submetido a uma
crítica sem precedentes. A pergunta foi feita:

"Existem instintos?" Z. Y. Kuo, 12 tomando posição na extrema esquerda, sustentou que o


conceito de instinto deve ser totalmente rejeitado, frisando entre os seus argumentos, contra o
mesmo, que a teoria do instinto foi baseada na antiga doutrina reprovada das idéias inatas, e
que implicava a ação de uma força mental ou espiritual. Kuo afirmou que os chamados instintos
são comportamentos aprendidos, e que mesmo os reflexos são reações aprendidas, adquiridas
no útero. Em seu livro seguinte, Behaviorism, Watson foi bastante a favor de uma psicologia
sem instintos. Sempre havia criticado o conceito de instinto, e quando o viu associado ao
mentalismo e a uma tradição ultrapassada, opôs-se francamente ao mesmo. Além disso, para
quem estava interessado na previsão e no controle do comportamento, uma psicologia sem
instintos apresentava vantagens indiscutíveis. Quanto menos houvesse de inato no organismo
como "dom", mais oportunidades haveria para compreendê-lo e melhorá -lo para compreendê-
lo mediante o estudo das reações complexas conforme são elaboradas ou destruídas, ponto por
ponto; melhorá-lo pela adição, eliminação e combinação de reações, tornando dessa maneira o
organismo uma máquina melhor.

O último ponto sugere outra característica do comportamento, isto é, o seu interesse pelo
controle prático dos assuntos humanos. Devido ao seu desprezo por tudo que não seja
estritamente científico, o behaviorismo não possui

12 Z. Y. Kuo, Glvlng up Instlncts In Psychology', Journal of Philosohj (1921), 18, 645-663; °HOw
Are Our Instincts Acquired", Psychoiogical Reinew (1922), 29, 344-365.

226

Edna Heidbreder Paicologias do Século XX

227

um só traço do escárnio com o qual a ciência pura às vezes encara a ciência aplicada. O
behaviorismo está decididamente interessado no bem-estar e na salvação - a salvação
estritamente secular - da raça humana. O behaviorista não examina o seu material com o
desinteresse que desconhece valores; sabe distinguir o bem do mal. Watson, por exemplo, não
se contenta apenas em observar os temores das crianças e verificar as condições pelas quais são
adquiridos e perdidos; considera a maioria desses temores como infortúnios evitáveis, e procura
meios e maneiras de afastá -los Não observa também com calma desinteressada que existem
falsos profetas na terra - ledores do caráter, psicanalistas, e falsos psicólogos que recebem paga
pelos seus falsos trabalhos. Lamenta com palavras grifadas que isto seja assim e sente que é seu
dever e prazer denunciá-los. Naturalmente, num estudo inteiramente desinteressado do
comportamento humano, nem o covarde ou o fanático, bem como o introspeccionista e a
fraude, provocariam o mais leve estremecimento de desaprovação ou compaixão. Porém, o
behaviorisrno não pretende ser uma psicologia desinteressada. É
francamente uma ciência aplicada, que procura colocar a eficiência do engeheiro a serviço dos
problemas da reforma. É verdade que a direção exata da reforma não está totalmente
estabelecida. Às vezes, com a sabedoria proverbial do homem prático, o behaviorismo parece
dizer que a sociedade estabeleceu os padrões aos quais a humanidade deve se adaptar; porém,
outras vezes indica que aqueles mesmos padrões foram estabelecidos com uma ignorância
total das limitações e das possibilidades da máquina humana. Às vezes, a crença na
possibilidade de melhorar a conduta humana atinge alturas espantosas. No parágrafo final do
livro Behaviorism, no qual o autor denuncia muitas vezes a loucura das crenças que não se
baseiam nos fatos provados da ciência, diz Watson:

"Estou tentando provocar um estímulo nos leitores, um estímulo verbal que, se obedecido,
mudará aos poucos todo o universo. Pois este se modificará se educardes os vossos filhos, não
na liberdade dos devassos, mas sim na do behaviorista - a qual não podemos nem descrever
por meio de palavras, tão pouco sabemos a seu respeito. Essas crianças, por sua vez, com suas
melhores maneiras de viver e pensar, não nos substituirão na sociedade, e por sua vez, não
educarão também os filhos de uma forma ainda mais científica, até que o mundo se torne
finalmente um lugar digno para ser habitado pelos seres humanos?"

Porém, se os seres humanos devem ser melhorados, é necessário começar nos primeiros
momentos da vida, e o reconhecimento da importância da infância é outra das características
notáveis do behaviorismo. A infância é interessante para o behaviorismo em parte do ponto de
vista da metodologia. Observando as crianças, o estudante pode ver a conduta em formação;
pode observar o acervo de reações que um ser humano possui ao nascer e descobrir as
maneiras pelas quais são modificadas. Porém, a infância é também importante do ponto de vista
do controle prático do comportamento, pois nela são estabelecidos os próprios fundamentos do
comportamento. Nestes primeiros anos, certamente antes de ter seis anos de idade, uma
pessoa é formada ou arruinada. É durante esses anos que ela aprende a enfrentar
o mundo com temor ou confiança, com hostilidade ou amizade, a sucumbir às dificuldades ou a
dominá-las, a esperar sucesso ou derrota; estes anos, em resumo, são um período durante o
qual ela adquire suas atitudes e hábitos, em grande parte viscerais e também não verbalizados,
que irão constituir sempre o âmago de sua personalidade, e que formam os alicerces da
poderosa parte "não verbalizada" de seu ser. O próprio interesse de Watson neste
setor é inconfundível. Algumas de suas pesquisas mais importantes foram sobre as reações das
crianças, e seu livro The Psychologiccil Care of the' Infant and Chitd é dedicado ao primeiro casal
que conseguir criar uma criança feliz.

Porém, sob estes traços específicos do sistema, encontra-se uma característica tão difundida
que não se adapta de modo especial a nenhuma outra doutrina. Talvez deva ser descrita em
primeiro lugar como uma reação de recuo, equivalendo quase a um afastamento de qualquer
coisa que sugira a palavra "mental". Esta atitude é mais do que uma calma convicção de que a
psicologia foi prejudicada por um interesse pela consciência e introspecção; é uma forte aversão
por todo o conceito de mente. Pois, para Watson, o mental significa aquilo que não é natural, e
até sobrenatural. Representa um modo de encarar as coisas totalmente antitético ao da ciência.
Significa almas e animismo, milagres e mistério. Sugere credulidade e espanto, em lugar de
ceticismo e pesquisa; um mundo invisível, em vez de fatos de observação;
especulação e palavras, ao invés de experimentação direta. Assim que Watson vê uma teoria
que inclui o mental, já a considera como fracassada. Naturalmente, ele não prescinde da
evidência e da avaliação crítica da mesma.

228

Edna Heidbreder

Porém, não se pode deixar de ter a impressão de que as suas investidas contra a consciência,
imagem, sentimento e instinto são determinadas antes de tudo pelo fato de vê-los como
implicando algo de imaterial e, portanto, sobrenatural; e que a questão já está de fato
resolvida para ele no momento fatal em que vê o conceito como algo abrangendo uma
aceitação do mental.

Por causa desta atitude, o behaviorismo tornou-se mais do que uma simples escola de
psicologia; veio a ser uma cruzada contra os inimigos da ciência, e neste papel ela assumiu,
mesmo num grau maior do que muitas escolas de psicologia, algo do caráter de uma religião.
Seus adeptos são dedicados a uma causa; estão de posse de uma verdade que nem todos os
homens têm a coragem, a sabedoria, ou a inteligência para aceitar; e grande parte do poder
do behaviorismo, como um movimento ativo, provém desse fato. Pois, a maioria dos jovens
norte-americanos sofreram, de algum modo, a influência do fundamentalismo, manifesto ou
sutil, e alguns, em sua revolta contra o mesmo, encontraram um maior sentimento de
liberdade ao aceitar o credo bem definido, obstinado, inequívoco do behaviorismo ortodoxo. É
interessante a esse respeito observar que as palavras, para muitos behavioristas, assumem algo
da importância que adquirem nos cultos primitivos; em especial que algumas são consideradas
tabu. Toda ciência, naturalmente, tem cuidado com sua terminologia; porém, há mais do que
interesse costumeiro de evitar significados secundários que confundem, mais do que a
exigência comum de exatidão, no desvelo com que o behaviorismo conserva pura a sua
terminologia. Está disposto a recorrer a todos os tipos de rodeios para evitar palavras como
"consciência", "sensação", "idéia", "vontade", "prazer" e "imagem"; e, se numa necessidade, é
forçado a empregá-las, cerca-as escrupulosamente com o cerimonial de notas explicativas. É, de
fato, uma das coisas curiosas e significativas do behaviorismo o fato de ter adquirido algumas
das atitudes emocionais geralmente associadas com o conceito de vida, que considera seu maior
inimigo. Suas proibições não são apenas as medidas preventivas da ciência; são meios de defesa
contra uma idéia rejeitada a respeito da vida.

Porém, o tom dominante do behaviorismo não é bem repressivo. O behaviorismo é acima de


tudo expansivo e enérgico. Protegido pela confiança alegre que resulta da visão clara do
mundo, ele aceita ou rejeita; mas não se compromete. E o que lhe falta em sutileza, sobra em
poder, na ca Psicologia

do 2culo XX

229

pacidade para se entregar sem reservas às suas tarefas. Alinhando o certo de um lado e o
errado de outro, o behaviorismo conseguiu um sistema com contornos definidos e claros.
Como concepção, possui a firmeza e a exatidão que caracterizaram o estruturalismo, e em
parte por este motivo tornou-
-se, como aquele, um ponto de referência indispensável na psicologia norte-americana.
Existem, naturalmente, behaviorismos e behaviorismos. O que foi dito se aplica ao
behaviorismo watsoniano, porém, modificações deste sistema surgiram em toda parte. Aliás,
poucos psicólogos intitulam-se behavioristas sem uma classificação. Alguns aprovam de bom
grado o afastamento da consciência, porém, recusavam-se a aceitar as idéias de Watson sobre
a hereditariedade. Alguns argumentam contra a doutrina da formação pelo condicionamento,
porém, acreditam que devem ser usados somente métodos objetivos. Às vezes, tentou-se
sobrepujar o próprio Watson, e aceitações e rejeições foram experimentadas em toda espécie
de combinações. Como resultado, a psicologia behaviorista é absorvida aos poucos pela
psicologia em geral e, o que é estranho, o resultado não é a desordem. Graças à clareza dos
ensinamentos de Watson eles

em ra não ermanente elo qua o os os desvios odem ser ava ia os. O resultado é uma me or
comunicação entre as psicologias behavioristas e não-behavioristas que, com uma integração
pacífica, resultou em enormes conquistas para o behaviorismo. Pois, nem mesmo o
behaviorismo, com toda a sua audácia e caráter pitoresco, tomou a psicologia de assalto. De
fato, ela conquistou a imaginação pela violência; porém, sua influência nas práticas reais da
ciência foi obtida por um processo muito mais eficiente no sentido de provocar modificações
duradouras - por uma infiltração constante nos costumes.

O behaviorismo realmente superou os limites da psicologia propriamente dita. Apareceu em


artigos de fundo, na crítica literária, nos debates sociais e políticos e em sermões. Atraiu a
atenção, em alguns casos favoravelmente, dos filósofos. Holt o apoiou no livro The Freudian
Wish, Santayana o contrapõe, com simpatia, à "psicologia literária", e Russeli, impressionado
pelo fato de que a introspecção lança tão pouca luz sobre o próprio ego, mostra-se
interessado, apesar de criticar a epistemologia implicada no sistema, numa tentativa de
estudar o comportamento humano a nartir do exterior. E mais do aue oualauer outra inter-

230

Psicologias do Século XX

231

Edna Heidbreder

pretação da psicologia, com exceção da teoria psicanalítica, o behaviorismo despertou o


interesse popular nos Estados Unidos. Em especial, seu programa para melhorar a humanidade
pelos métodos mais eficientes da ciência fez um apelo total, quase irresistível, à atenção do
povo norte-americano.

Dentro da própria psicologia norte-americana, a ascensão do behaviorismo foi importante e


notável. Como um meio de estabelecer debate, de apresentar problemas, de estimular a
pesquisa, de excitar o entusiasmo, nada se compara ao mesmo, desde o aparecimento dos
primeiros laboratorios e ïtiblitação do The Principies de William James. P.girn tempo, o
behaviorisrno e dividiu a psicologia norte-ameois campos, beli iõifã nacb aviorista, e aidWójéó
aiiiiiihô i iicãito êTmais segui êWefiiiTr a posição psicológica nos Estados Unidos consiste em
referi-Ia ao behaviorismo. Para melhor ou pior, o behaviorismo afetou profundamente os
costumes tradicionais e os mores da psicologia norte-americana.

A linha de influência do behaviorismo mais direta foi a que resultou de sua insistência para que
fossem usados somente métodos objetivos, O behaviorismo, naturalmente, não introduziu os
métodos objetivos na psicologia. Desde a época de Fechner e Helmholtz, esses métodos haviam
tido um lugar de destaque, e assim foi mesmo nos dias em que a introspecção era proclamada
como um método típico da psicologia. O behaviorismo certamente não significa apenas o uso de
mais instrumentos de metal; já os havia muitos na psicologia mais antiga. Porém, por insistir em
métodos objetivos e no seu uso exclusivo, o behaviorismo provocou uma variação de ênfase
que equivale a uma revolução. Penetrou tão a fundo nos costumes prevalecentes de forma a
modif icar os próprios problemas que surgem em psicologia. Com suas origens na psicologia
animal e com seu hábito de observar o organismo todo em atividade, o behaviorismo apoderou-
se de problemas que são mais evidentes, de alcance mais amplo, e muito mais prováveis de
serem considerados como vitais do que as dissecações incrivelmente minuciosas dos estados de
consciência para as quais os introspeccionistas dedicaram o melhor de seus esforços. Mesmo
em sua mesquinhez e intolerância, o behaviorismo foi importante; pois não somente justifica
novos problemas, como também denuncia os antigos como ridículos. Tomando a posição do
vigoroso senso comum, congratula- se por ter algo melhor que fazer do que duvidosas
discriminações entre os matizes do

azul, e determinar se existe ou não um efeito vítreo nas imagens. Francamente orgulhoso por
manter o campo de observações aberto para todos - em tratar com movimentos visíveis e
registráveis, com traçados de folhas quimográficas, e com leituras de ponteiros que todos
podem ver - o behaviorismo se compraz em limitar seus estudos ao material que desperta a
convicção imediata de que realmente existe "alguma coisa ali". Como resultado de sua atit'ide
enérgica, mesmo aqueles estudos que ainda fazem uso n,jderado da introspecção apresentam
traços da influência behaviorista. De fato, um dos sinais do vigor deste movimento de
extraordinário poder é a maneira pela qual tentou conseguir que suas atitudes fossem
reconhecidas por aqueles que se opunham às suas doutrinas básicas. Mesmo os seus tabus são
circunspectos, talvez de um modo especial. Existe uma tendência, mesmo entre os psicólogos
que acreditam pia- mente no seu direito de levar em conta a consciência, em dar ênfase aos
registros objetivos de suas descobertas, e às vezes a explicar que, embora incluam a consciência
em seu próprio pensamento, suas declarações se aplicam igualmente para a conduta com a
consciência deixada à parte. Desde o aparecimento do behaviorismo, a introspecção e os seus
resultados têm menos probabilidade de se sustentar por si sós; são completados e mesmo
apoiados por dados objetivos. Não só entre os seus adeptos, como também na psicologia norte-
americana em geral, o behaviorismo aumentou grande- mente o destaque dado aos métodos
objetivos de pesquisa.

Existe um conjunto de experiências que possuem um destaque especial em relação à teoria


behaviorista, as experiências de K. S. Lashley, que foi o melhor discípulo de Watson. Estas
experiências, que constituem o maior corpo de pesquisas dedicado por um behaviorista a um
único problema, apóiam-se diretamente na hipótese de Watson de que as reações simples,
como o reflexo, condicionado ou não, são as unidades de que se compõe o comportamento.
A pesquisa de Lashley concentra-se nas atividades cor- ti ca isen vi as naaprenïiagem. eu pan ei
lera o e treinar animais - geralmente usava ratos - em algum desempenho especial, tal como
atravessar um labirinto ou fazer discriminações visuais; em seguida, destruir uma ou várias
partes do córtex; e, por último, após o animal se refazer da operação, determinar em que grau e
de que maneira o desempenho havia sido prejudicado. Em todas as experiências, os
desempenhos dos animais observados eram compa

Pswologias do Século XX

233

232

Edna Heidbreder

rados com os de grupos adequados de controle. Estes estudos, na linha divisória entre a
fisiologia e a psicologia, exigiram o uso de técnicas das duas ciências; e muitos psicólogos,
impressionados pelo uso direto dos recursos da fisiologia por um de seus colegas, sentiam-se
inclinados, às vezes, a esquecer o fato de que, sob o ponto de vista do método, o caráter
distintivo desse estudo é a determinação experimental e quantitativa do comporta.mento do
animal, através de toda a pesquisa - prática essa proveniente da psicologia. Este ponto é
importante porque, em muitos dos antigos estudos, os pesquisadores se satisfaziam em confiar
na observação geral em suas descrições do comportamento; em observar, por exemplo, se um
animal parecia desajeitado, indiferente ou hesitante. Porém, nos estudos de Lashley, a
observação geral foi substituída pelos métodos experimentais da psicologia animal e pelos
métodos quantitativos iguais aos usados na medição objetiva da inteligência. É especialmente
importante notar que os métodos eram quantitativos, bem como experimentais; pois, através
das medidas definidas do comportamento durante toda a pesquisa, foi possível determinar
matematicamente as relações entre a perda ou a diminuição de certas habilidades e a
localização e o grau das correspondentes lesões cerebrais.

O resultado dessas pesquisas foi um conjunto de provas, mostrando que, em muitos casos, uma
dada porção do córtex cerebral não está invariavelmente associada a um determinado ato; em
outras palavras, que a localização rigorosa de uma função não é a regra geral. Para Lashley, isto
significava não ser mais possível conceber o sistema nervoso como uma estrutura na qual o arco
reflexo é a unidade, ou como um sistema no qual algumas vias definidas e fixas ligam certos
pontos de estímulo com certos órgãos de resposta. Para ser exato, algumas vias têm maior
probabilidade de serem utilizadas em uma dada atividade do que outras - e que são de certa
maneira mais convenientes - porém não existe, em regra, exigência quanto à disposição. Se
essas vias forem destruídas, as suas funções não se perdem para sempre, mas são ao que
parece assumidas por outras partes do cérebro. Em lugar de uma localização exata da função no
córtex, existe uma igual potencialidade de suas várias

l3Lashley não foi o primeiro pesquisador a fazer cuidadosas determinações experimentais do


comportamento animal durante experiências abrangendo a extirpacão. As pesquisas de
Shepherd Ivory Franz, iniciadas em 1902, são consideradas o trabalho pioneiro neste setor.
Lashiey, entretanto. ressaltava mais o lado quantitativo dos dados, do que Franz.
partes para as atividades em que é utilizado. Existe, taI1to.eeseesteo cojjuto positivo do
trabalhdLashle

- uma relç treagua e a area crtcaj.4çruí- da e o grau de deteriora ão do com ortamento. Uma
ljgçj lesao cere ral, geralmente, não produz uma diminui ão senesão aumenã em grandeza, o
ato torna-ãiiãda vez

diõsãtãïsciiiiiIéxoS exigemüiãifaiitidie maior de tecido cerebral, do que as tarefas simples.


Baseado nesta evidência, Lashley concluiu que o córtex age como um todo, ao invés de por
partes isoladas; destacou a ação conjunta em lugar da transmissão isolada, eqüipotencialidade
em lugar de localização exata. 14

A relação entre a obra de Lashley e o behaviorismo é interessante sob vários pontos de vista.
Antes de mais nada, desacredita decididamente a concepção específica da atividade nervosa
que Watson supõe em todo o seu pensamento; nega que o comportamento seja "construído"
ou formado parte por parte na base do reflexo condicionado. Porém, ao mesmo tempo, deixa
inalterado o conceito behaviorista básico de que somente os métodos objetivos deveriam ser
usados; é realmente uma prova notável do valor de tais métodos na pesquisa psicológica. A
partir deste ponto de vista, a relação entre Lashley e o behaviorismo é um tanto parecida com a
de Külpe e as doutrinas de Wundt, pois tanto um quanto outro, por usarem os métodos
próprios de suas respectivas escolas, depararam com fatos que contrariavam os ensinamentos
daquelas escolas. Neste particular, eles exemplificam a função das escolas e sistemas na prática
real. O trabalho de ambos mostra que a pesquisa estimulada por um sistema e controlada pelo
método científico pode revelar fatos que discordam dele; e que um sistema estabelece
problemas definidos e estimula a pesquisa, porém não determina o seu resultado.

Até agora, entretanto, pouco se falou sobre o ponto que para muitos é básico, e que é
certamente a mais interessante questão levantada pelo behaviorismo: a possibilidade de uma
psicologia sem consciência. Alguns especialistas, absortos em

14 Isto não significa absolutamente que Lashiey exclua a local1zaço exata. Descobriu, de fato,
que a função do padrão visual se localiza num ponto exato do cõrtex. Acredita que tais fatos
de localização, juntamente com ratos Indicando ação conjunta, devem ser levados em conta
ao Interpretar a ação cortical. A tendência geral de seu próprio trabalho, entretanto, foi a de
destacar a teoria da ação conjunta, K. S. Lashley, 'Mass Action in Cerebral Function", Science
(1931), 73, 245-254.

234

Edna Heidbreder

suas pesquisas, podem considerar importante o behaviorismo, principalmente do ponto de


vista da metodologia; porém, para o mundo em geral, bem como para a maioria dos
psicólogos, o significado mais profundo da concepção behaviorista reside na alegação de que
não há lugar, nem necessidade, para a consciência.

E é bastante curioso que, na hora em que esta questão fundamental é diretamente focalizada,
o sistema comece a perder a clareza que à primeira vista parecia de forma acentuada
caracterizá-lo. Pois, o behaviorismo não proporciona realmente uma descrição da psicologia que
dispense ao indivíduo a consciência de suas próprias ações. Esta é, naturalmente, a sua
finalidade e, assim fazendo, pretende despojar a psicologia de seus últimos vestígios de
metafísica e subjetivismo. Os behavioristas geralmente admitem que quem se opõe às suas
idéias assim procede porque pensa ter o behaviorismo avançado demais ao insistir muito nos
rigores de um ponto de vista estritamente científico. Parecem não haver levado em conta que
sua posição poderia estar vulnerável ao ataque vindo de um outro setor; e que o behaviorismo
pode ser criticado por não seguir muito a ciência, e por não ser de bom grado obetiv2
coetambém por não ficar bastante liberado de uma atitude metafísica com resoaa Eco.

Se essa exposição do assunto parece uma contradição de palavras, tal fato é testemunha da
forte associação que o behaviorismo estabeleceu entre a concepção de uma psicologia
estritamente científica e o seu próprio ponto de vista. O behaviorismo, foi dito muitas vezes, é
psicologia científica. Qualquer atitude que esteja em contraste com ele é, por dedução, menos
científica. Querer que uma psicologia seja mais científica, equivale a querer que seja mais
behaviorista.

E todavia, na base do pensamento behaviorista está a distinção mente-corpo no sentido


metafísico - não como uma classificação adequada de fatos da experiência, mas como uma
divisão entre a aparência e a realidade. Encaixada no próprio âmago da doutrina behaviorista,
encontra-se a distinção platônica entre a mente e a matéria; e o behaviorismo, assim como
Platão, encara um dos termos como real e o outro como ilusório. A sua própria questão contra
o dua - lismo é exposta em função daquela distinção e é feita pelo processo metafísico clássico
de reduzir um termo ao outro. Esta distinção metafísica, mais do que uma evidência empírica, é
a base na qual o behaviorismo tanto aceita como rejeita

Psicologia. do Século XX

235

dados para consideração científica e forma conceitos para tratar com eles. Os processos do
pensamento, por exemplo, são considerados mecanismos da linguagem, não porque haja
evidência experimental para provar essa afirmação, mas porque assim se adaptam ao conceito
preferido, a matéria. O behaviorismo aceitou uma metafísica para acabar com a metafísica.

Talvez se faça a objeção de que o materialismo do behaviorismo é apenas uma hipótese de


trabalho; que não se destina a ser uma observação sobre a natureza última da realidade e,
portanto, nada tem a ver com a metafísica. Porém, existem sinais mais convincentes do que as
afirmações diretas de que o behaviorismo não encara o problema mente-

-corpo apenas como uma questão de conveniência metodológica. Um deles é a necessidade


emocional com a qual o behaviorista perfeito admite suas crenças e tabus. Um outro é a sua
atitude com respeito aos psicólogos que estudam a consciência. Pois para o behaviorista, o
exame da experiência imediata não é apenas corriqueiro, não é somente um método
superficial e ineficiente de estudar o animal humano, nem somente sai fora da linha principal
dos problemas humanos vitais, embora naturalmente seja tudo isso e ainda mais; é um gesto
sem significado, no vácuo. A atitude do behaviorista em relação aos introspeccionistas não é
completamente a mesma que apresenta quanto aos outros cientistas, cujo trabalho não o
interessa de modo especial - como poderia ser, por exemplo, em relação aos conquiliólogos,
uma vez que, do ponto de vista dos problemas básicos do behaviorismo, os trabalhos do
conquiliólogo são triviais, sem importância e irrelevantes com referência aos problemas vitais
dos seres humanos como são aqueles do introspeccionista. Porém, o behaviorista acredita nas
conchas do conquiliólogo, mas não crê na consciência do introspeccionista; não considera que o
conquiliólogo se deixa enganar por uma ilusão. A mesma crença na realidade mais profunda do
material é admitida como uma hipótese subjacente em alguns dos debates teóricos do
behaviorismo. No estudo teórico por excelência de Lashley, "The Behavioristic Interpretation of
Consciousness", 15 a maior parte do debate é dedicada à tarefa de mostrar que toda
característica que tenha sido atribuída à consciência pode ser explicada em função de
mecanismos corporais; e a implicação é a de que se tudo que é chamado mental pode ser
reduzido a físico, o conceito de consciência é supérfluo. Po 1

Psychological Revieu' (1923), 30, 237-272, 329-439.

236

Pscolog2a. do Século XX

Edna Heicjbreder

237

rém, a menos que se considere o material como mais real, não se chega invariavelmente a esta
conclusão. Sem esta hipótese, a estreita correspondência pode significar um sem-número de
coisas - entre as mais óbvias a de que o material possa ser reduzido a mental, como queria
Berkeley e os idealistas alemães; ou, em nível menos pretensioso e mais empírico, que as
descrições sob o ponto de vista da consciência e do comportamento, dada sua estreita
concordância, completam-

-se e se auxiliam ao invés de se oporem.

Uma vez que a ciência não se interessa pela natureza úl tima da realidade, não faz diferença, do
ponto de vista puramente científico, qual o tipo de metafísica em que um cientista creia, desde
que a sua metafísica não intervenha em sua ciência. Porém, no momento em que um cientista
dá preferência aos seus conceitos metafísicos em relação aos fatos da experiência, estará
fugindo da ética científica. Pois o ideal da ciência é o de formular conceitos que resistam à prova
da experiência; e o caráter distintivo do método científico é o de que ele completa o apelo à
razão com a experiência, recusando-se a reconhecer a validade dos conceitos por ele forjados
até que tenham sido verificados pelos dados da observação. E o behaviorismo desobedece a
esta regra do cdigo; julga os dados concretos aplicando o conceito metafísico de matéria como
uma pedra de toque. Quando depara com descrições que pretendem tratar com certos
acontecimentos, tais como imagens, idéias, ou sentimentos de satisfação, sabe de antemão que
estão errados. Uma vez que esses pretensos fatos da experiência não se coadunam com um
modo preferido de conceber, não há necessidade de examiná-los.
Mas como é possível que o behaviorismo, que está disposto antes de tudo a ser científico, tenha
esse modo de pensar? Através da exigência inteiramente legítima de que o conhecimento
psicológico seja objetivo; por insistir que sem essa objetividade, a psicologia nunca poderá ser
levada a sério como ciência. Watson estava visivelmente perplexo pelas diferenças de opinião
em psicologia, pela falta de um corpo de conhecimento fidedigno que obrigasse à aceitação,
como o que se encontra nas ciências físicas; e admitindo, ao que parece, que o conhecimento
objetivo é o conhecimento do mundo físico externo que pela sua própria natureza está aberto à
verificação de todos, tentou remediar o mal, afastando da psicologia toda consideração pelos
processos mentais.

Todavia, será que conhecimento objetivo é obrigatoriamente conhecimento sobre o mundo


físico? A objetividade

do conhecimento das ciências físicas, como Watson parece dar a entender, depende do fato
de tratar com um mundo material? E existe alguma certeza de que esse mundo esteja aberto
ao exame de todos? A resposta a estas perguntas exige um exame mais íntimo da palavra
"objetivo".

Esta palavra, quando aplicada ao mundo físico, refere-

-se naturalmente à distinção entre o sujeito que experimenta e o objeto experimentado, o eu e


o não-eu, e à organização de todos os fatos experimentados entre esses dois extremos. Alguns
fatos, tais como os pensamentos e os sentimentos, referem-se ao eu; outros, tais como as
árvores e as tempestades de neve, referem-se a um mundo externo ao eu. Este mundo
externo, além disso, é considerado independente do eu ;não é admitido como propriedade de
nenhum eu, porém, é imaginado como um objeto comum a todos eles. Os seus fatos são
notórios. Para ser exato, a distinção entre o sujeito e o objeto não é de forma alguma absoluta,
porém, tal fato pode ser desprezado no momento, uma vez que o mundo físico na forma em
que é concebido é um objeto típico no sentido em que é considerado. 16

Quando o mundo "objetivo" é aplicado ao conhecimento, seu significado é semelhante


embora não idêntico. Quando aplicado ao conhecimento, a distinção entre subjetivo e objetivo
é aquela entre opinião e fato, entre a crença, que é influenciada pelas contingências do que é
pessoal e particular, e as afirmações verdadeiras para todos. O conhecimento objetivo, assim
como o mundo objetivo, é impessoal e público; não é determinado por peculiaridades na
natureza ou circunstâncias de qualquer pessoa; não sofre a influência dos desejos, esperanças e
preconceitos do eu. O senso comum possui algumas provas diretas e grosseiras para a
objetividade do conhecimento, tais como o acordo entre diferentes observadores, a coerência
com outras partes do conhecimento e a eficiência prática quando aplicados a circunstâncias
reais. E a ciência, apurando e ampliando os métodos do senso comum, desenvolveu todo o
processo ao qual chamou de método científico como um meio de assegurar a objetividade de
seus conceitos.

É lógico que o conhecimento científico seja objetivo no sentido de ser independente da


opinião particular ou de pre16 A palavra 'objetivo" foi usada, at agora neste capitulo, com
respeito à dlstincáo feita neste parágrafo. As observações objetivas, por exemplo, sio as de
coisas e objetos no mundo externo; os métodos objetivos so orientados para os objetos e
acontecimentos no mundo fora do eu.

238

Edna Heidbreder Psicologias do Século XX

239

ferência, das peculiaridades da interpretação e das idiossincrasias pessoais de toda espécie. O


método utilizado é uni recurso para torná-lo assim. Porém, esse método não se baseia em
certeza alguma de que dois ou mais observadores vejam o mesmo objeto, ou que qualquer
objeto exista independente de sua percepção. Nem mesmo na física, a objetividade do
conhecimento se baseia na certeza de que dois ou. mais observadores vejam realmente o
mesmo objeto. Um f ísico, ao observar a posição de um ponteiro numa escala, naturalmente
não pode ver um ponteiro independente de sua própria percepção do mesmo. Assim como
não pode também perceber de imediato a percepção de qualquer outro observador e
compará-la diretamente com a sua. Se vinte físicos estiverem observando a posição de um
ponteiro numa escala, nenhum deles poderá ver diretamente a leitura do ponteiro feita pelo
seu colega, tanto quanto não pode sentir diretamente os amores e os ódios dos outros
dezenove. A esse respeito, o físico é tão limitado à sua própria percepção quanto o é o
psicólogo. É tão difícil provar a existência de um mundo físico independente, como também a
dos estados de consciência da humanidade em geral, e o físico nem mesmo tenta fazer isso.
Nem acha necessário tentá-lo. O problema todo é de tal índole que ele, como cientista, o
abandonou de bom grado e deliberadamente. A objetividade de seu conhecimento não se
baseia em nenhuma prova de ser proveniente de um mundo objetivo, mas sim na forma com
que enfrenta as provas normais da ciência. Não é a fonte do conhecimento e sim a sua
verificação que determina a objetividade de uma ciência. O físico não pára ao final, para
perguntar: "Estes fatos que observo existem somente em minha percepção?" Ele pergunta:
"Eles conduzem a juízos transmissíveis baseados em experiências repetidas e verificadas ?" Da
mesma forma que o psicólogo, não tem certeza absoluta de que suas observações representam
algo fora de sua própria experiência. E se a física não é excluída da possibilidade de obter
conhecimento objetivo apenas por causa dessa falha, o mesmo se dá com a psicologia - isto é,
se ela se satisfaz com o critério de objetividade e não julga os seus dados pela aplicação de uma
teoria metafísica da realidade.

Este debate não implica, entretanto, que a psicologia deva se ater à noção de mental, seja como
um conceito explicativo ou como uma descrição de seu objeto. Ao contrário, sugere que a
distinção mente-corpo já recebeu demasiado destaque pela psicologia. Aliás, nem o conceito de
matéria ou

aquele da mente parecem atender às necessidades do presente caso na ciência. Já tem sido
muitas vezes notado que estão sendo rejeitados pela física e pela psicologia, as duas ciências
que, à primeira vista, achamos que deveriam considerá-los muito úteis. Os físicos não mais
tratam com a matéria como se fossem pequenas esferas ou substâncias sólidas, e os
psicólogos - behavioristas e não - deixaram de tratar com as mentes que Watson tão
enfaticamente condenava. Muito antes do aparecimento do behaviorismo, os estudiosos da
consciência haviam deixado de empregar a concepção imperfeita do mental na forma que
Watson lhes atribuía. 17

Apesar disso, há uma grande diferença entre a maneira pela qual a física tem colocado este
ponto e a questão que o behaviorismo está argumentando com a psicologia. Quando os físicos
descobriram as limitações do pensar em função de modelos mecânicos reais, que foram outrora
considerados como o ideal para explicar, lançaram mão de um novo tipo de explicação própria
para se ajustar aos fatos observados. Em lugar de modelos mecânicos, usaram fórmulas
matemáticas que deram informações quantitativas das relações observadas. Em outras
palavras, a física adotou uma nova forma de conceptualizar os seus dados. Porém, quando o
behaviorismo se convenceu de que o conceito da mente era inadequado para a tarefa da
psicologia, não fez, como a física, o ajustamento do método sugerido pelos próprios dados. Ao
contrário, reteve e utilizou a distinção entre a mente e a matéria. Achando um dos termos sem
aplicação, apenas o substituiu pelo outro, supondo que se um não servisse, o outro serviria. Em
vez de abandonar a distinção ment-corpo, o behaviorismo ressaltou-a e preservou-a.

As razões para este procedimento não são difíceis de descobrir. Em primeiro lugar, existe a
maior facilidade para pensar em termos comuns, para usar conceitos já disponíveis ao invés de
conceber novos modos de pensar. E desde que os problemas da psicologia animal, dos quais
surgiu o behaviorismo, aderiram prontamente ao conceito de matéria, pouco havia no caso que
estimulasse radicalmente modos de pensar diferentes. Em segundo lugar - e este é
provavelmente o motivo principal - o estudo do mundo físico tem sido associado, comum e
historicamente, ao método impessoal e imparcial da ciência. A partir desse ponto de vista, há de
fato

17 A. critica de Titchener sobre o "boneco" do senso comum, citada no capitulo IV deste


volume, é um exemplo comum deste fato.

240

Edna Heidbreder Psicologias do Século XX

241

uma justificação prática para pensar exclusivamente em função da matéria. Se uma pessoa foi
assim condicionada, emotiva e intelectualmente, associando de modo inevitável à matéria
todas as atitudes da ciência, então, como um meio de conservar a posição científica, é
inteiramente legal para ela conceber todos os elementos psicológicos em termos físicos antes
de tentar agir sobre os mesmos, de modo científico. Porém, neste caso, a prática se torna uma
medida de precaução para aqueles que dela necessitam, e não uma parte essencial do processo
científico. Se um psicólogo pode estudar um desejo ou um pensamento tal como se dá de
maneira imediata na experiência original apenas como um fato natural num mundo natural -
assim como olha uma trovoada ou uma indigestão, por exemplo, quando as está examinando
de um ponto de vista científico impessoal - não é necessário que ele tente fortalezer esta
atitude convencendo-se de que todos estes acontecimentos estão de acordo com um conceito
para o qual a física encontrou um uso restrito. Existe tanta razão para que
todos os psicólogos se submetam a este processo como há para todos os pedreiros
executarem os gestos que os técnicos achem que os mais hábeis representantes daquela
profissão estão fazendo comumente, porém, sem serem necessários.

Talvez estas reflexões pareçam muito distantes dos problemas pelos quais o behaviorismo ou
qualquer outro sistema de psicologia esteja interessado de imediato. Porém, a conservação
pelo behaviorismo da diferença entre matéria e mente como sendo entre o real e o ilusório -
verdadeira, embora não declarada preservação dessa distinção - teve certos efeitos positivos
em suas práticas reais.

Um deles foi a tendência para tolerar certos aspectos da interpretação e, ao que parece, às
vezes considerar a mesma como uma explicação. Quando lemos algumas descrições dos
behavioristas, é difícil evitarmos a impressão de que os autores consideram explicação afirmar
que um desejo tem uma base orgânica, que o significado é uma atitude corporal, e que os
pensamentos são mecanismos da linguagem. Todavia, pouco é acrescentado ao conhecimento
dos desejos, significados e pensamentos por essas declarações, que afinal consistem em grande
parte no aproveitar o que já se conhece sobre estes acontecimentos pelo senso
comum e pela psicologia mais antiga e imaginar, muitas vezes sem se basear em fatos
conhecidos, alguma possível descrição fisiológica dos mesmos. Tais métodos podem
facilmente criar a ilusão de que há uma ex-

plicação, quando não há nenhuma, e, ao fornecer à psicologia um suprimento de fórmulas


verbais com as quais possa responder às suas perguntas, ocultam o fato de que ela não sabe as
respostas. Naturalmente, em muitos casos, este procedimento não tem a intenção de explicar,
mas apenas de servir como um passo inicial no sentido de explicar, ou seja, tratar os dados de
forma a tornar possível a explicação científica. Em tais casos, a prática consiste na medida de
precaução, antes mencionada, para garantir o tratamento científico do problema. Em outros
casos, o procedimento tem um valor mais positivo. É usado, às vezes, como meio de ver os fatos
sob nova vestimenta que sugere relações ainda não suspeitadas e novas possibilidades
de explicação. O procedimento então se torna definitivamente produtivo e não há,
naturalmente, objeção alguma ao seu uso. Porém, sempre que a interpretação substitui a
explicação, a psicologia fica imediatamente exposta aos perigos que advêm de ter à disposição
um suprimento de fórmulas verbais prontas, com as quais pode fazer face às pesquisas
específicas à medida que surgem.

Outra conseqüência da atitude behaviorista com respeito ao problema mente-corpo é a de que


o behaviorismo tem dificuldade em tratar com fatos que não se prestam à explicação do tipo
modelo mecânico. O behaviorismo clássico, inspirando-se na física clássica, concebe o ser
humano como máquina orgânica, e procura analisar todas as reações humanas dentro de
ligações estímulo-resposta. Em sua aplicação a este problema, muitos behavioristas adquiriram
o modo de pensar de que, a não ser que uma reação possa ser pensada em função de
processos fisiológicos definidos, a menos que possa ser analisada no mínimo pela imaginação e
experimentalmente em relação a certas atividades musculares e glandulares, ela é um tanto
irreal ou, pelo menos, menos real do que as próprias reações musculares e glandulares. Mesmo
no próprio campo da aprendizagem animal, existe algo desta atitude. Muitas vezes os
behavioristas ficam tão impressionados pela importância de relacionar as suas
descobertas ao conhecimento fisiológico, que se esquecem de que a fisiologia tem uma
obrigação idêntica quanto aos fatos da psicologia; e que o fisiólogo que se propõe explicar o
funcionamento do sistema nervoso e dos músculos deve explicar, entre outras coisas, como
funcionam estas estruturas quando o animal aprende; e que sua explicação deve levar em
conta os fatos da aprendizagem como determinados por psicólogos competentes, tão
certamente quanto o psicólogo deve considerar os fatos sobre

242

Pswologias do Século XX

Edna Heidbreder

243

os órgãos dos sentidos, músculos e nervos como determinados por fisiólogos competentes. O
relato do psicólogo não é apenas um substituto temporário para ser usado somente enquanto o
conhecimento fisiológico for incompleto, algo que se resolverá em fisiologia quando as
descrições dos órgãos dos sentidos, músculos e nervos estiverem completas até em seus
mínimos detalhes. Mesmo se fosse conhecida cada contração muscular, cada ligação estímulo-
resposta e cada reação sensorial, o processo total da aprendizagem do animal seria uma parte
necessária da descrição. Cada termo - o psicológico e o fisiológico - apresenta uma parte do
problema; cada um age como uma verificação do outro; nenhum pode ser considerado mais
importante do que o outro pelo conhecimento; ambos são indispensáveis. Os behavioristas
podem dizer que sempre reconheceram este fato e que, ao definirem o comportamento como
atividade do organismo como um todo, levaram o seu reconhecimento ao próprio foco da
psicologia. Mas, é muito significativo que, apesar deste fato, muitos behavioristas em sua
prática real considerem suas descobertas como respeitáveis cientificamente, somente quando
podem pensar nelas em função de processos fisiológicos definidos. É óbvio que existe uma forte
associação entre a concepção behaviorista do objeto da psicologia e a explicação do tipo
modelo mecânico.

E se esse modo de pensar surge no trabalho da psicologia animal, é muito mais pronunciado na
atitude com respeito aos estudos que nem ao menos pretendem oferecer explicação da
espécie modelo mecânico. Um exemplo disso é a atitude tíbia, quando não zombeteira, de
muitos behavioristas a respeito do trabalho sobre a inteligência. Uma vez que esta não pode
ser apresentada em função de processos corporais específicos, a noção global de inteligência é,
de acordo com os padrões do behaviorismo, vaga e nebulosa mesmo quando definida sem se
referir à consciência. Por outro lado, a psicologia foi igualmente mal sucedida na tentativa de
analisar a inteligência em componentes mentais. O problema da inteligência é, de fato, um
exemplo excelente do tipo de circunstância na qual a psicologia teve que conceber métodos

IS Watson define o comportamento como a atividade do organismo corno um todo. Declara,


de modo claro, que o behaviorismo se interessa não apenas pelas 'contrações musculares",
mas também por atividades importantes, tais como 'alimentar-se", "escrever uma carta" e
"construir uma casa" Porém, é evidente que pensa em tais atividades como integrações de
processos constituintes, podendo eventualmente ser reduzidas a ligações estimulo-resposta
especificas.

prescritos pelas exigências reais dos dados, ao invés de confiar nas técnicas existentes e
exposições sistemáticas.

É muito significativo que todo o movimento no sentido de testar e medir a inteligência


desenvolveu-se sem o apoio de qualquer escola ou sistema específico, tendo-se originado em
grande parte nas exigências de circunstâncias da vida prática. É também significativo que a
psicologia, ao deparar com esse problema, desenvolveu espontaneamente um tipo de
explicação por meio de equações matemáticas. Ou, mais exatamente, os pesquisadores de
início tentaram um processo analítico mais convencional. Binet, em seus primeiros estudos
sobre a inteligência, tentou medir em separado e depois reunir o que acreditava serem
processos integrantes, e Cattell baseou suas pesquisas no mesmo #lano. Porém, o êxito
apareceu somente quando Binet, pondo de lado temporariamente o problema de conteúdo e
análise, tentou medir a inteligência em geral, em função de sua relação com outros fatos. É
importante observar que ao conceber testes de inteligência, o psicólogo não decide primeiro o
que seja a inteligência e em seguida aplica arbitrariamente sua definição. Experimenta certo
número de testes, que presumivelmente exigem atividades comumente consideradas
inteligentes, e deste número seleciona, como testes de inteligência, somente aqueles que dão
resultados que variam quantitativamente, quando observados por critérios externos, daquilo
que é geralmente considerado como inteligência, ou seja, a maturidade, a habilidade para fazer
trabalhos escolares, os juízos de pessoas qualificadas, a categoria de trabalho e outras coisas do
mesmo gênero. Como resultado, ele define a inteligência não em função de seu conteúdo ou
composição, mas sim no de suas relações com outros fatos. Em outras palavras, está usando
uma concepção do tipo equação matemática, e não a do tipo modelo mecânico. A psicologia
deve admitir a contragosto, de fato, que muito de seu trabalho para medir a inteligência e
outros traços não está isento de crítica; porém, o trabalho realmente respeitável neste setor
demonstrou que pelo menos é possível medir uma reação, cujos conteúdos não são
determinados, de forma a dar resultados constantes e dignos de confiança expostos em função
de relações quantitativas com outros fatos.19

Os dados que se obtêm de tais estudos podem ser e são interpretados de várias maneiras por
diversos pesquisadores; e uma vez que uma das interpretações evidentes é a de que a

19 Os processos matemáticos, naturalmente, não foram incluidos na ,slcologia pelo


movimento a favor dos testes. Desde a época de Fechner.

244

Edna Heidbreder

inteligência e as outras atividades complexas medidas matematicamente são reações corporais


complexas, os behavioristas, se desejarem, poderão explicitamente deixar lugar, em seu
sistema, para esta parte da psicologia. Porém, é provável que assim procedam um tanto
contrariados, achando que tal trabalho não é de primeira classe, ou pelo menos que não pode
ser considerado uma pesquisa "básica". Todavia, os estudos desta espécie não violam nenhum
item do código behaviorista: não se interessam pela consciência, não usam a introspecção, e
lidam com atividades visíveis de organismos vivos integrais. Entretanto, os fatos que obtêm
não parecem tão reais para o behaviorista como aqueles a respeito dos músculos e glândulas.
O behaviorismo, com a sua preferência orientada para modelos mecânicos, acha realmente
difícil assimilar este vasto setor da psicologia, o qual, pela lógica, não pode deixar de lado.

Existe ainda uma outra dificuldade, e mais séria, que provém da atitude do behaviorista em
relação ao problema mente-corpo: a incapacidade para descrever com precisão o que se
entende por rejeição da consciência. Algumas vezes o behaviorismo parece negar francamente
que se verificam fatos conscientes, e afirma que quem acredita neles é vítima de uma ilusão.
Porém, às vezes parece dizer que a questão de saber se ocorrem ou não fatos conscientes foge
do seu objeto principal - e que podem ou não existir, mas que se existem, são essencialmente
inacessíveis à investigação científica e que, portanto, não podem ter lugar em uma psicologia
científica. Adotando a segunda alternativa, o behaviorista pode conservar a sua ciência
completamente livre da consciência; mas, ao assim fazer, ele se entrega a um dualismo e a um
indeterminismo que vai de encontro aos princípios básicos de seu pensar. Se aceita que existe
algo na composição do homem que seja essencialmente - não apenas temporariamente e por
falta de técnica - inacessível à investigação científica, afirma uma dualidade da natureza humana
ao dizer que a atividade humana é de duas espécies diferentes, uma das quais está sujeita à
pesquisa científica e outra que está além da mesma. Porém, esta hipótese é tudo o que
necessita o mais ardoroso defensor do livre arbítrio. Com um constituinte, embora diminuto, da
estrutura humana que a ciência

a psicologia usa métodos quantitativos. Porém, a tentativa para medir a

inteligéncia resultou no uso crescente da matemática como instrumento,

revelou cada vez maiores possibilidades de ssu uso e salientou claramente

a possibilidade de definir os termos psicológicos através de suas relações

quantitativas com o padrão exterior.

P8tcologias do Século XX

245

nunca pode conhecer, tem à sua disposição algo que não está sujeito às leis da ciência, alguma
coisa que o cientista não pode prever e controlar. E este é um resultado que o behaviorista
naturalmente não deseja obter.

A solução é negar inteiramente a consciência, dizer que o organismo humano vive e se move
sem qualquer consciência do que está fazendo. Porém, se o behaviorista aceita esta solução,
acha extremamente difícil explicar o que significam alguns dos termos que utiliza. Quando diz
que pensar se trata apenas de uma questão de mecanismos de linguagem, ou que a emoção é
uma questão de respostas viscerais e glandulares, tem dificuldade pari explicar onde arranjou as
palavras "pensar" e "emoção". Não pode obtê-las a partir de sua própria consciência, de sua
própria voz interior ou dos batimentos cardíacos descontrolados, pois, por hipótese, é
impossível tal consciência. O coração e a laringe, de fato, pertencem ao mundo físico, porém a
consciência imediata que se pode ter de seu funcionamento pode se basear somente nas
sensações individuais e próprias de cada um. Então, será que o behaviorista quer dizer que uma
pessoa não pode estar consciente de sua própria raiva exceto através de traçados do
quimógrafo, ou de exames de sangue, ou alguma outra prova de suas reações corporais que
seja acessível aos outros tanto quanto a ele - avistando, por exemplo, em um espelho seu rosto
enrubescido, ou vendo diretamente seu próprio punho cerrado? Porém, o behaviorista admite
que não conhece ainda especificamente os padrões da reação corporal que constituem os
pensamentos e as emoções. E mais ainda, de acordo com a interpretação rigorosa de sua
hipótese, a consciência do mundo exterior - a habilidade para ler os registros do quimógrafo,
por exemplo - seria tão inexplicável como uma consciência imediata de sua voz interior ou das
contrações musculares, ou ainda dos batimentos cardíacos. Porém, o behaviorista não discute a
validade das observações do mundo exterior. Não exclui os exteroceptores, principalmente os
olhos, como fontes de informação. Na prática real, o behaviorista rejeita a percepção
proveniente dos interoceptores e proprioceptores; mas aquela que provém dos exteroceptores
é admitida sem discussão.

Neste ponto está a chave para as admissões e rejeiçõeS que caracterizam o behaviorismo. O
behaviorista, como qualquer outro cientista, depende de sua própria experiência imediata.
Mas aquelas que se referem a um objeto externo são aceitas na hipótese de tais objetos
poderem participar da

246

Edna Heidbreder

Psicolcigias do Século XX

247

experiência de todos os observadores e, a esse respeito, dar origem ao conhecimento que


possui validade objetiva. As experiências referentes ao eu são rejeitadas porque não podem ser
observadas por ninguém a não ser pela pessoa que as percebe de imediato, e porque se supõe
que não podem, conseqüentemente, dar origem a um conhecimento que seja ma. nifesto e
objetivo. Alguns fatos dentro do corpo podem ser revelados por registros que os representam.
Vários dispositivos mecânicos registram as mudanças respiratórias, contrações musculares,
velocidade do pulso, e coisas semelhantes, e elementos químicos dão informação de outro
gênero. Tudo isso é aceito de bom grado pelo behaviorismo. Porém, existem certos fatos que
podem ser revelados somente por meio de descrições verbais 20 dadas pela própria pessoa
que as experimenta, ou por algum sinal preestabelecido, tal como libertando uma reação em
cadeia para indicar a sua presença. Serão aceitáveis como dados científicos tais registros? Do
ponto de vista da ciência, a resposta a esta pergunta deveria ser determinada pelo mesmo
critério com o qual os dispositivos mecânicos ou outro meio qualquer de pesquisar a
experiência são considerados apropriados ou não para uso científico. Darão eles resultados
consistentes que possam ser verificados pelas observações repetidas e que resultem num
acordo entre observadores competentes?
Porém, não é isto o que interessa ao behaviorismo. A esta altura, ao invés de utilizar os testes
científicos para a validade objetiva do conhecimento, ele ostenta a distinção entre o físico e o
mental que emprega para diferençar a realidade da ilusão. Fatos como as sensações sentidas de
imediato e as variações da atenção são classificados como mentais, e pela própria afirmação do
behaviorista, o mental é considerado como sujeito a objeções por ligar-se com o misterioso e o
sobrenatural. Tais conotações surgem somente porque a distinção mente-corpo é utilizada num
sentido pré-

-científico. Sem esses reflexos de um passado, do qual o behaviorismo reconhecidamente se


descartou, os fatos da experiência seriam todos da mesma espécie, embora pudessem ser
classificados de várias maneiras sob diferentes pontos de vista. Basicamente seriam todos
apenas acontecimentos na

20 o relato verbal' que o behaviorismo admite como método não inclui tais descrições. O
behaviorista trata um relato verbal apenas como uma reação vislvel e não como uma descrição
de algo fora dela mesma. Aceitar um relato verbal como descrição de uma experiência que um
individuo observou seria admitir a consciência de uma experiência inacessivel a um observador
externo e emnreear limo formo 1p introçnpr'cn

experiência, e seria uma questão de valor secundário saber se abrangiam exteroceptores,


interoceptores ou proprioceptores; se se referem a um mundo externo comum ou a uma
experiência interna e pessoal; ou ainda, se eram ou não classificados, por comodidade, como
físicos ou mentais. Se algo como o terror do sobrenatural não rondasse pelas vizinhanças, não
haveria motivo para que tais fatos, como sensações, emoções e pensamentos, na forma em que
se apresentam de imediato, para quem os sente, não devessem ser concebidos apenas como
fatos naturais em um mundo também natural. E neste caso não há razão para que um cientista
não os utilize como fontes de informação, ou para que não encontre algum dado da experiência
de todo desconcertante; e também para que não considere um pensamento ou um sentimento
de prazer com o mesmo desinteresse calmo com o qual aprendeu a considerar os terremotos,
febres e secreções glandulares. Só tem medo de fantasmas quem neles acredita. É verdade que
alguns fatos da experiência, tais como pensamentos e emoções, são muito mais difíceis de
observar que outros; e que, atualmente, na falta de técnicas adequadas, são acessíveis somente
aos métodos que, sob o ponto de vista científico, estão longe de ser satisfatórios. É verdade
também que os problemas que apresentam podem parecer totalmente sem interesse e sem
importância para certos cientistas, que neste caso não têm qualquer obrigação, seja qual for, de
investigá-los. Mas isto não significa que essas experiências não sejam investigáveis ou que o seu
estudo cuidadoso não seja recompensado.

Também não significa que a tentativa de estudar tais processos equivaleria a uma simples
restauração do status quo em psicologia, um retorno ao costume da época, quando a psicologia
considerava sua função principal o estudo dos processos conscientes. A importância de estudar
o organismo como um todo, e a partir do exterior, foi demonstrada com tanto êxito que não é
preciso insistir no assunto. Não se trata de saber se a psicologia pode ser absorvida pelo
misticismo e pelo sobrenatural, mas sim se deve ampliar os métodos da ciência em regiões
consideradas como pertencentes ao misticisnio e ao sobrenatural. Seria uma reviravolta curiosa
e irônica se a escola que combateu com tanta bravura a favor de um estudo
totalmente científico dos processos psicológicos se tornasse, negando ou desprezando alguns
deles,

248

Edna Heidbreder Psicoiogias do Século XX

249

um obstáculo a um modo científico de concebê-los, ou impedisse à psicologia o uso de


instrumentos e métodos pelos quais fosse possível um estudo científico dos mesmos.

Mas seria um absurdo e um erro flagrante dar a impressão de que a influência do


behaviorismo tenha sido principalmente restritiva. Pelo contrário, é justamente porque o
behaviorismo adquiriu um prestígio tão grande através de sua luta bem sucedida no sentido de
ampliar os objetivos da psicologia, que são importantes mesmo os seus efeitos secundários, e
talvez não esperados.

A realização inegável, notável e imediata do behaviorismo foi a de libertar a psicologia norte-


americana de uma tradição inibidora. Assim como o funcionalismo, e mais acentuadamente do
que ele, recusou-se a ser limitado pelas restrições de uma ciência da consciência. Sob a
influência do behaviorismo, a psicologia norte-americana fortaleceu o seu hábito de encarar os
processos psicológicos em relação ao seu ambiente biológico, e tornou-se cada vez mais
consciente da importância de estudar o organismo como um todo, e reconheceu mais
claramente do que nunca as vantagens de aplicar na psicologia humana o ponto de vista e os
métodos da animal. Acima de tudo, manteve sempre presente sua exigência de que fosse aceito
como científico somente o conhecimento objetivo.

Entretanto, o behaviorismo estabeleceu a objetividade referindo-se ao conceito metafísico de


matéria, e não aplicando os testes realmente usados pela ciência. Em lugar de livrar-se da
distinção mente-corpo, o behaviorismo a colocou no próprio centro de seu pensamento e fez
as suas inclusões e exclusões baseado nela. Como resultado, foi obrigado a não aceitar certos
dados, cuja ausência torna a sua descrição in completa e mesmo ininteligível. Porém, esta
situação assim criada não foi de fato um impasse. Continua sendo um impasse só enquanto o
mental for concebido como extranatural, e enquanto a distinção entre o mental e o material
for usada não como uma classificação cômoda dos fatos da experiência, mas sim como uma
distinção metafísica entre a realidade e a ilusão. Tomando todos os fatos da experiência
apenas como dados, como acontecimentos na ordem natural das coisas, e pela determinação
da objetividade de seu conhecimento por meio dos testes que a ciência comumente aplica, a
psicologia pode conservar o seu conhecimento inteiramente científico sem ser obrigada a fazer
exclusões embaraçosas.

É possível que uma parte do serviço prestado pelo behaviorismo tenha sido confrontar a
psicologia com esta situação. É possível também que, ao tentar escolher entre duas
alternativas, matéria e mente, conseguiu que a psicologia percebesse que não é obrigada a
aceitar esses conceitos, seja em conjunto ou isoladamente, como maneiras definitivas de
tratar com o seu objeto; mas que ela, assim como a física ou qualquer outra ciência natural,
face a uma situação para a qual são indequados os seus modos de pensar comuns, deve
revisar seus conceitos e conceber outros novos em formas determinadas pelos próprios dados
mais do que pelas formulações preexistentes.

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A PSICOLOGIA DINÂMICA: WOODWORTH

Woodworth (1869-1948); Cattell (1860-1944); Thorndike (1874-

-1949); Hollingworth (1880-1939); Poffenberger (n. 1885).

A. psicologia dinâmica, na forma em que é concebida por Robert Sessions Woodworth, é um


sistema modesto, prático e pouco audacioso, apresentado oficialmente pela primeira vez
numa série de palestras que, quando publicadas, formaram um volume despretensioso de
pouco mais de duzentas páginas. Ao invés da maioria dos sistemas, a psicologia dinâmica não
se fundamenta num protesto; não extrai a sua força motriz daquilo que lhe é oposto. Pelo
contrário, nutrida pelas contribuições de muitas escolas, aperfeiçoou-se dentro do campo da
psicologia, valorizando o trabalho levado a efeito sob outros muitos pontos de vista e grata
pelos resultados de um esforço científico sadio, onde quer que fossem encontrados. E,
todavia, este sistema não é meramente eclético. Sua tolerância não provém da falta de um
ponto de vista definido e peculiar, mas do fato de discernir, entre as muitas atividades
incluídas na psicologia, muitas vezes opostas e aparentemente irreconciliáveis, interesses e
objetivos comuns. Confessa que os psicólogos, apesar das evidentes diferenças. estão
realmente orientados na mesma direção; e que seu trabalho é de equipe, apesar das
divergências. A esse alvo e

1 As palestras foram efetuadas em 1916-17. O livro Dynamic Psychøtoç ,y, que apareceu em
1918, embora fosse a primeira afirmação que aplica os métodos de trabalho do autor ao
campo total da psicologia, não foi a sua primeira publicação desses principios. Em seu artigo
'Dynamte PsychOlogy" (Psycholoqjes o! 1930, 327-336), encontramos a frase 'Psicologia DoiS-
mica, expressão que usei durante vinte anos".

Psicologias do Século XX

253

252

Edna Heidbreder

interesses comuns Woodworth dá o nome de "as operações da mente". 2

Esta expressão, extraída da antiga psicologia, faz lembrar principalmente as pesquisas de


Locke, Berkeley e Hume. Estes homens, de acordo com Woodworth, diferem dos psicólogos
científicos de hoje menos pela intenção do que pelo método, O seu método era o de tirar
conclusões baseadas na experiência que haviam tido a possibilidade de acumular; ao passo
que a ciência, embora possa estabelecer hipóteses da experiência casual do passado, tira
conclusões somente quando as hipóteses foram testadas pelas experiências feitas
especialmente para ressaltar as informações relevantes. Porém, apesar desta diferença, os
psicólogos do passado e os de hoje unem-se pelo seu interesse comum ao mesmo tipo de
fatos. Assim também as muitas escolas existentes na atualidade, embora aparentemente
opostas, estão unidas pela tentativa conjunta de compreender o mesmo problema, "as
operações da mente".

A caracterização de seu objeto por meio desta expressão extraída do passado chama a atenção
para outro traço característico da psicologia dinâmica; não pretende ser novidade. Não foi
feita para destruir nenhum inimigo e não possui nenhum plano de salvação para oferecer.
Havendo descoberto que a psicologia seguiu um caminho uniforme no passado, e crendo que
realizou e continua a realizar resultados de valor científico, a psicologia dinâmica tenta tornar
claros os princípios que sempre a nortearam. É, portanto, conservadora, no sentido literal do
termo. A sua finalidade não é a de fundar uma nova escola, mas sim tornar claro o que a
psicologia tem feito até agora. Muitos sistemas de psicologia surgem como tentativas para
começar algo de novo. Seus fundadores, sentindo que aprenderam do passado primeiro o que
não devem fazer, estão interessados principalmente em inovações que serão comprovadas
pela experiência no futuro. A psicologia dinâmica, por outro lado, tenta reunir as colaborações
do passado, e conduzir suas pesquisas baseada em princípios que já provaram ser úteis. Não é
um sistema de juventude, pela juventude e para a juventude. É um sistema que se delineou
baseado numa experiência frutuosa, numa interpretação apoiada na esperança, que foi
forjada e fortalecida pelas realizações passadas.

Especificamente, a psicologia dinâmica é a psicologia da causa e efeito. Esta é a definição que


Woodworth estabelece como básica para o sistema e que defende com calma e firmeza. O que
o psicólogo realmente deseja saber, afirma ele, é por que nós fazemos as coisas - como
aprepdemos e pensamos, por que sentimos e agimos de uma c( a forma. A fim de compreender
estas atividades do pon't de vista de causa e efeito, é preciso obter a mais completa visão do
processo a ser estudado - segui-lo em todo o seu percurso, descobrir os
seus mínimos detalhes e suas principais tendências, examiná-lo de fora para dentro e de
dentro para fora, e, baseado neste conhecimento, observar as uniformidades e formular leis.
Somente um conhecimento deste tipo torna possível dizer que um fato é a causa de outro.

Quem quer que apresente um sistema em função de causa e efeito será certamente advertido
de que, na ciência refinada de nossos dias, estes conceitos não são mais usados. Woodworth
examina este ponto de modo específico. Não é preciso dizer que não está à procura das causas
finais; é sabido que as ciências só tratam das causas próximas. A objeção que tem de enfrentar é
a de que a ciência não usa mais o conceito de causa. Woodworth admite que numa descrição
completa do universo como sistema incluindo tudo, não haveria necessidade da noção de causa
nem para as idéias associadas a esta, de força e explicação. Observa, entretanto, que
não existe ainda tal descrição; e que em seu trabalho real, os cientistas empregam ainda algo
muito parecido com aqueles velhos conceitos, embora ainda definam força como o produto da
massa pela aceleração, se refiram a causas como estímulo, condições e situações, e considerem
a explicação tão simplesmente como uma descrição completa fora do comum. Na física, por
exemplo, embora a força seja definida em função do movimento, e ao ser assim tratada como
movimento parece desaparecer como força, apesar disso a força, que age num dado sistema A,
não é definida em função das mudanças naquele sistema, mas sim em função das mudanças em
um outro, B. O ponto crítico do assunto reside no fato de que, para
qualquer sistema dado, a força é algo que age naquele sistema vindo de fora. Este modo de
tratar cheira fortemente a causa e efeito; e Woodworth acredita que todos os que tratam com
sistemas que não são auto-suficientes - isto é, que variam de acordo com as mudanças no meio
am3 R. S. Woodworth, "Dynamlc PsychOlOgy", Psychologses of 1930,

328-329.

12 2 R. S. Woodworth "Dynamic Psychology", Psijchologies of 1925, 111-

254

Edna Hedbreder

Psicologias do Século XX

255

biente - pensarão realmente em função de causa e efeito, embora possam melhorar a sua
terminologia. E o psicólogo está sempre tratando com um objeto que não é completo nem
auto-suficiente. Se trabalha com o organismo como um todo, deve levar em conta o meio
ambiente; se estuda uma determinada atividade, como a aprendizagem, não pode
desconhecer uma atividade concomitante, como a fome. Por esse motivo, Woodworth sente-
se justificado ao conservar o conceito de causa e efeito e prefere, em seu todo, assim fazer
sem lançar mão de uma terminologia modificada. Acredita, é evidente, que os problemas
prementes da psicologia podem ser buscados sem demasiada consideração pelas descobertas
revolucionárias da física e da astronomia. A largueza de visão da psicologia dinâmica em
relação às muitas escolas de pensamento psicológico é acompanhada por um propósito firme
em se ater aos problemas na forma em que se apresentam em termos concretos e em sua
etapa real e atual de desenvolvimento.

É possível que uma psicologia dinâmica seja solicitada, também, para se pronunciar sobre
questões de mecanismo e vitalismo, de livre arbítrio e determinismo. ' Porém, Woodworth
acredita que a ciência psicológica nada tem a ver com qualquer dessas questões. A questão do
mecanismo versus vitalismo, enquanto se restringe a ser um assunto científico, diz respeito aos
processos vitais das células e será solucionada, se alguma ciência a resolver, por meio da
fisiologia da célula. A psicologia, diz Woodworth, "não se aproxima muito dela". E o problema
do livre arbítrio versus determinismo, enquanto abrange a questão do finalismo, como uma
filosofia da natureza, é um problema metafísico e está, portanto, fora do âmbito da psicologia
ou de qualquer outra ciência natural. O que a psicologia dinâmica tenta fazer é a tarefa mais
imediata e mais modesta de determinar as seqüências observáveis de causa e efeito dentro de
um determinado campo.

Obviamente, ao estudarmos um sistema que admite que a psicologia teve um passado


honroso, e que o considera como algo para ser usado em vez de rejeitado, é importante
conhecer o passado onde aquele sistema surgiu. A psicologia dinâmica desenvolveu-se na
Universidade de Colúmbia, mas não está vinculada a ela na forma em que o estruturalismo
está a Cornell, ou o funcionalismo a Chicago.

A psicologia de Colúmbia não é fácil de ser descrita. Não se relaciona com nenhum corpo
definido de doutrina,

4 R. S. WoOdworth, Dynamlc Psychology". Pst,chologies o! 1925. 115-

120.

nem é ensinada com a consistência e o paternalismo encontrados em escolas mais bem


organizadas. Todavia, mostra ela características definidas e reconhecíveis. Um estudante
forn'iado em psicologia não poderá passar muitas semanas em Colúmbia sem ficar a par da
enorme importância naquele ambiente desempenhada pelas curvas da distribuição, das
diferenças individuais, da medida da inteligência e outras capacidades humanas, dos processos
experimentais e dispositivos estatísticos e da subcorrente do pensamento fisiológico. Descobre
imediatamente que a psicologia não leva uma vida isolada; que se ombreia com a biologia, a
estatística, a educação, o comércio, a indústria e o mundo dos negócios. Depara com muitas
tendências diferentes de pensamentos, e muitas vezes alcança as mesmas a partir de ângulos
diferentes. Porém, a trama do ensino não está unida formando um tecido firme e padronizado.
Ninguém se importa pela forma com que ele dispõe os fios colocados em suas mãos;
certamente não existe um modelo que lhe peçam para copiar. Os estudantes de Colúmbia são
tão típicos como os de qualquer outro grupo, mas essa distinção é geral e irregular. As mesmas
unidades - os mesmos "elementos idênticos" - tendem a surgir em cada membro do grupo,
porém em disposição variam muito de um para outro, e só raramente constituem um
verdadeiro modelo.

Nos primeiros tempos da psicologia de Colúmbia, a figura predominante era, sem dúvida, a de
James McKeen Cattell. Este, como se recorda, foi um dos primeiros discípulos de Wundt no
laboratório de Leipzig. Já passou para a história e, a conselho de Wundt, tornou-se primeiro
assistente deste. No laboratório de Wundt, onde a finalidade do estudo era a mente humana
em geral, e onde Wundt geralmente designava aos estudantes os problemas para as suas teses
de formatura, Cattell escolheu seu próprio problema e incluiu em seu plano um estudo das
diferenças individuais. Wundt chamou o programa ganz Amerikanisch, e é muito importante
para a psicologia dos Estados Unidos o fato de Cattell haver permanecido ganz Amerikanisch e,
ao mesmo tempo, membro ativo do grupo de Leipzig. Sua atenção contínua às diferenças
individuais significava, entre outras coisas, que havia se tornado bastante interessado no estudo
de Galton sobre psicologia. Durante um ano, no qual fez preleções na Universidade de
Cambridge, associou-se pessoalmente a Galton e assim aliou à sua experiência direta com a
psico

256 Edncz Heidbrcder

logia experimental de Leipzig um conhecimento direto dos métodos galtonianos.

Não é de admirar, portanto, que quando Cattell fundou um laboratório psicológico em


Colúmbia, o estudo das diferenças individuais tenha se tornado proeminente. No início, este
trabalho consistiu principalmente em medir, nas diversas classes de calouros do Columbia
Coilege, as capacidades individuais, tais como acuidade visual, tempo de reação e de associação,
numa tentativa de conseguir medidas de aptidão escolar. Porém, os êxitos alcançados pelos
testes de Binet provocaram uma renovação completa. Os testes de Cattell, atacando o problema
de forma analítica medindo as capacidades isoladas em separado, deram resultados nos quais
não havia correspondência com a habilidade do estudante. Binet, desistindo da tentativa de
analisar a inteligência em seus componentes, e apresentando um certo número de tarefas que
possivelmente exigiam uma inteligência geral para a sua execução, construiu uma escala que
realmente estabelecia uma diferença entre os vários graus de inteligência nas crianças, quando
aquela era julgada pelo critério disponível fora dos próprios testes. O êxito da escala de Binet fez
lembrar que a maneira de medir a inteligência, pelo menos por enquanto, era dirigir-se a ela em
seu todo, e não por partes. Portanto, o método de. Binet foi adotado entusiasticamente em
Colúmbia, e o Teachers Coilege tornou-se um dos centros mais ativos do movimento de testes
na América do Norte.

O trabalho com testes, entretanto, mostra somente um aspecto da influência de Cattell. O seu
interesse pela psicologia experimental, em sentido mais restrito, é representado não só por
suas próprias pesquisas, principalmente em tempo de reação, associação e psicofísica, como
também pelo trabalho de seus alunos. Mesmo após a saída de Cattell, continuou a emergir do
laboratório de Colúmbia um fluxo permanente de estudos experimentais; e se tiveram menor
repercussão no mundo do que o movimento de testes, isso não é senão o destino comum dos
estudos, onde o valor prático não é evidente e talvez inexistente. Porém, mesmo dirigidos por
Cattell os proilemas experimentais clássicos assumiam uni aspecto fora do comum. A
introspecção não foi tratada corno doutrina inviolável, a estatística cansava-se cada vez mais
do encargo de verificar e organizar os resultados, e as diferenças individuais foram
devidamente observadas e examinadas em seus estudos que empregavam os métodos
desenvolvidos em Leipzig, para a pesquisa da mente humana em

Pstcologias do Século XX 257

geral. A psicologia experimental, segundo Cattell, não era uma disciplina esotérica que devia
medir forças com o senso comum. Já em 1904, cerca de uma década antes do aparecimento
oficial do behaviorismo, Cattell, numa alocução ao Congresso Internacional de Artes e Ciências,
fez a seguinte declaração com respeito ao papel desempenhado pelo "introspeccionista
treinado" em psicologia:

"Não estou convencido de que a psicologia deva limitar-se ao estudo da consciência


propriamente dita.. Não existe conflito entre a análise introspectiva e a experiência objetiva. ..
pelo contrário, elas devem cooperar e realmente cooperam entre si. Porém, a idéia bastante
difundida de que não há psicologia sem introspecção é refutada pelo argumento inflexível do
fato realizado. Parece-me que a maior parte dos trabalhos de pesquisa realizados por mim ou
pelo meu laboratório é quase tão independente da introspecção como o é a da fisica ou a da
zoologia."

Este é somente um exemplo do fato de que nos Estados Unidos, assim como em Leipzig, o
estudo de Cattell sobre os problemas psicológicos foi assinalado por independência e retidão.
Cônscio de seu meio ambiente, sutilmente suscetível ao mesmo, tomando parte ativa nos
acontecimentos ao seu redor, conservou, não obstante, seus interesses particulares e suas
maneiras típicas de fazer as coisas. Como resultado, a tradição de Cattell em Colúmbia é
responsável por uma certa independência, uma certa heterodoxia e tolerância de
interpretação ao tratar com material psicológico. Isto não significa, entretanto, que Cattell
desse margem a uma grande incerteza no pensamento e prática psicológicos, e nem que
faltasse exatidão e expressividade em suas opiniões pessoais. As histórias propaladas à boca
pequena pelos seus antigos discípulos, a respeito das suas concessões com o que considerava
falhas da retidão científica, não dão a mínima impressão de tolerância excessiva em face de
tais violações.

Poderíamos acrescentar de passagem que a influência de Cattell excede a de suas próprias


pesquisas e a de seus contatos diretos com os alunos - realmente, ela se estende além das
fronteiras da psicologia. Suas habilidades como organizador e administrador, aliadas ao seu
desejo de abrir caminho para o progresso da ciência em geral, lançaram-no ao trabalho
diretivo e editorial nem sempre diretamente relacionado com a psicologia.

5 James McKeen Cattell, "The Conceptions and Methods of PsychO1A v" Ponular E1cience
MOntkZi, (1904). 66. 176-186.

1
Psicologias do Século XX

258

Edncz Heidbre4er

Na geração acadêmica seguinte, em Colúmbia, a primeira pessoa a se destacar foi Edward Lee
Thorndike. A sua originalidade logo se impôs. Em 1898, quando tinha vinte e quatro anos de
idade, publicou a sua monografia clássica Animal Intelligence. Esta obra é importante em parte
porque descreve o primeiro estudo sistemático da inteligência animal por meio de experiências
de laboratório, e também porque conduziu à teoria da aprendizagem que desempenhou um
papel muito importante na pesquisa e teoria posteriores. Em seu estudo, Thorndike interpreta o
comportamento dos animais não em função de idéias, mas sim segundo a "fixação" e a
"eliminação" das ligações nervosas entre os estímulos e a resposta - o fortalecimento e a fixação
de certos elos e o enfraquecimento e a eliminação de outros até se formar um padrão de
comportamento que atenda às circunstâncias. O fortalecimento e o enfraquecimento são
explicados em função de duas leis principais: a lei do exercício e a lei do efeito. De acordo com a
primeira, quanto mais freqüentemente, mais recentemente e mais vigorosamente um vínculo é
exercido, mais efetivamente fica fixado; e ao contrário, quanto mais for exercido, é mais
provável que se torne enfraquecido eàs vezes desapareça. De acordo com a segunda, a lei do
efeito, as respostas que levam a estados de satisfação tendem a ser retidas, e as que conduzem
a estados de aborrecimento tendem a ser eliminadas; em outras palavras, as ligações nervosas
são influenciadas pelos efeitos da reação. A tendência desta teoria como um todo é explicar a
aprendizagem de forma mecanicista; e a definição pela qual o faz é tão definida e real, e trata
tão diretamente com um problema vital que se tornou um dos pontos pacíficos de referência no
setor bastante estudado da aprendizagem e da inteligência. O próprio Thorndike ampliou a
teoria para abranger a inteligência humana, a qual explicou como havia feito com a animal, em
função dos vínculos especiais de ligação entre o estímulo e a resposta. Posteriormente, admitiu
dimensões diferentes da inteligência, como altitude, amplitude, extensão e rapidez, e também
tipos diferentes, tais como a abstrata, a social e a concreta. Ainda mais tarde, admitiu o
princípio de "pertencer a uma mesma classe
ou categoria", além e acima de uma simples "associação" no tempo e no espaço. 6

6 As idéias mais recentes de Thorndtke sobre a aprendizagem e a inteligéncia humanas podem


ser encontradas nas obras: The Measurement o! Intefllgence (1926) Adult Learnrng (em
colaboração com E. O. Bregman, S. W. Tilton, E. Woodyard) (1928) e Hutnae Leandna (1931).

A concepção primitiva de Thorndike, deve-se notar, sofreu um desenvolvimento considerável,


porém ainda é basicamente uma teoria de vínculos definidos. Assim como a da aprendizagem,
com a qual se relaciona, esta teoria da inteligência tm sido estimulante não só para a pesquisa,
como também para a controvérsia. Seu maior adversário era Charles Spearman, que sustentou
a teoria de que existe um fator geral na inteligência além dos específicos. A controvérsia
resultante sobre a organização da inteligência foi uma das mais animadas que a psicologia já
teve e, o que é mais importante, uma das mais proveitosas na verdadeira pesquisa.

Thorndike havia-se interessado, também, pelas mensurações no campo da educação, não


apenas do ponto de vista dos testes de inteligência, mas também daquele da medição dos
resultados da educação em geral. Evidentemente, Thorndike é, por temperamento, oposto à
imprecisão e às coisas indefinidas. Qualquer problema que passa por suas mãos é quase
automaticamente reduzido a termos concretos e quantitativos. Quando se tornou interessado
pela educação, portanto, procurou imediatamente descobrir o que e quanto havia sido feito na
tentativa de educar. Parecia-lhe evidente que os problemas relacionados com as diferenças
individuais, a fadiga mental, o aprendizado e a transmisão dos conhecimentos exigiam
tratamento quantitativo e experimental. Mesmo antes dos testes mentais ficarem em moda,
Thorndike havia adotado o sistema de mensuração no terreno educativo e havia levado os seus
problemas para o laboratório, Os três volumes de seu livro Ecluccitional Psychology, publicado
em 1913 e 1914, resumem os resultados de seus primeiros trabalhos neste setor. Porém,
embora seu método fosse essencialmente experimental, tanto seus problemas como o seu
temperamento levaram-no para longe da psicologia experimental no sentido convencional do
termo. Em lugar das introspecções minuciosas de alguns observadores treinados, estudou as
realizações de grande número de pacientes, obtendo resultados que puderam ser postos em
tabelas e tratados estatisticamente pelo experimentador. Assim, sob a infiuên7 C. Spearman,
The Natufe o! Inteliigence and the Principies o! COgnltion (1923), e The Abilities o! Man: The(r
Nature and Measuremeflt (1927). (Desta última existe edição em espanhol: Las habilidades dei
hombre, Buenos Aires, Paldós, 1955).

260

Edna Heidbreder Paicologias do Século XX

261

cia de Thorndike, como sob a de Cattell, a experiência psicológica saiu dos caminhos batidos, e
como resultado surgiu não somente uma concepção modificada da experiência psicológica,
como também uma atmosfera de positivismo e eficiência técnica na pesquisa educacional. É
verdade que o culto do quantitativo na educação não havia sido realmente uma bênção.
Conduziu, às vezes, a trabalhos de pesquisa nos quais o desvelo pelo quantitativo,
acompanhado por curiosa falta de visão da situação pesquisada, expressou-se na fé cega e
quase hostil de que nenhum fator que não obedeça aos métodos de medição existentes possa
ser importante. Mas, em sentido global, a educação lucrou com a tentativa de medir seus
resultados e assim substituiu o conhecimento exato pela vaga esperança que algo de bom
poderia ser realizado.

É quase desnecessário acrescentar que, neste ambiente, as aplicações da psicologia não foram
desprezadas, e que outros campos além daquele da educação foram invadidos.

H. L. Hollingworth e A. T. Poffenberger figuram entre 0$ primeiros que trabalharam ativamente


na psicologia vocacional, na da publicidade, e com os problemas da psicologia aplicada em
geral. A Universidade de Colúmbia não se destaca em psicologia aplicada, na mesma medida
em que Comeu, por exemplo, sobressai em psicologia pura. Apenas admite a psicologia
aplicada, juntamente com a pura, como um campo autêntico de pesquisa científica.

Como resultado, o panorama psicológico em Colúmbia apresenta um aspecto heterogêneo, o


qual pode parecer descuidado e mesmo confuso para quem esteja habituado com uma
organização mais rigorosa. A psicologia animal, a dos testes e medidas, as várias espécies de
psicologia aplicada, as variedades ortodoxa e heterodoxa da psicologia experimental, os
debates teóricos sobre aprendizagem, inteligência, medição e posição da psicologia em geral -
estão todos representados e seguem todos seus caminhos separados. Os diferentes
empreendimentos não são sempre harmoniosos; colidem uns com os outros - às vezes,
intencionalmente - porém, prosseguem todos. Alguns deles podem parecer ao observador bem
menos valiosos do que outros, porém todos se mantêm em certo grau, como partes da
psicologia.

Este é o pano de fundo convencional e imediato da psicologia dinâmica de Woodworth;


porém, este sistema não é o resumo das tendências em seu meio ambiente nem a
interpretação autorizada da psicologia em seu âmbito. Não é certamente ensinada como
psicologia oficial da universidade.

Não é exagero dizer que não chega mesmo a ser ensinada, e que é apenas encontrada como
uma entre várias formas em que a psicologia se expressa na Universidade de Colúmbia.
Todavia, no grau em que toma conhecimento das várias tendências em psicologia, antigas e
modernas, e acha algo de valor em todas, a psicologia dinâmica é representativa do mundo do
qual é parte, mundo onde muitos empreendimentos estão em andamento e onde nenhum
adquiriu bastante ascendência sobre os outros para ser capaz de afirmar que somente o seu
caminho conduz à verdade científica.

Para o próprio Woodworth, o caminho para a psicologia

- ou melhor, grande trecho desse caminho - encontra-se na fisiologia. Desde o início,


Woodworth esteve interessado nos fenômenos do movimento; sua tese de formatura
intitulou-se The Accuracy of Voluntary Movement. É significativo também que sua colaboração
no estudo da controvérsia do pensamento sem imagem fora de início ligada ao seu estudo do
movimento; e que a tentativa de descobrir uma orientação para a ação voluntária levou-o
primeiramente à evidência de que as imagens e sensações exigidas pela teoria ortodoxa dos
processos mentais mais elevados não faziam parte das experiências reais de seus pacientes. De
fato, o seu estudo todo em relação a este problema é bastante característico. Assim como
muitos psicólogos, Woodworth é levado a pensar em função de estímulo e resposta, porém
prefere começar com a resposta e não com o estímulo, e então pesquisar as condições que a
antecedem. No início de sua carreira, estudou com o fisiólogo inglês Sherrington, e a obra deste
influiu profundamente em seu pensamento. Woodworth utiliza normalmente conceitos, tais
como estímulo e resposta, reações preparatórias e concludentes, failitação, inibição e
integração. Sua psicologia é, de modo acentuado, de reações. Considera o conhecimento das
relações estímulo-resposta como "ponto básico essencial em qualquer descrição exata de todo
o campo da atividade" e mantém essa posição apesar das críticas a que estava sujeito o conceito
estímulo-resposta - com as quais, em muitos casos, está de pleno acordo, e em
outras, feitas por ele mesmo. A psicologia dinâmica, embora seja de estímulo e resposta, não é
de modo algum simples tradução dos estímulos e respostas em causa e efeito.

Existem, realmente, três pontos principais que Woodworth acredita que devem sempre ser
levados em conta ao
8 Psychological Revew (1899) Monograph supplement.

262

Edna Heidbreder Psicolog ias do Século XX

263

pensarmos em função das ligações estímulo-resposta, O primeiro é o de que o estímulo não é


a causa da resposta, mas somente uma parte da causa. A estrutura do organismo, suas
reservas de energia, as atividades em andamento, seu estado geral - tudo isso toma parte na
determinação da resposta. Mesmo num engenho como num revólver carregado, a ação não é
determinada apenas pelo estímulo (o apertar do gatilho); a estrutura da arma e sua energia
acumulada (a pólvora) devem também ser levadas em conta. No organismo humano, assim
como na arma carregada, o estímulo correspondente ao apertar do gatilho é necessário para
iniciar a ação; porém, a natureza desta é determinada tanto pela estrutura e o estado do
próprio organismo quanto pelo estímulo que a inicia, O organismo que intervém entre o
estímulo e a resposta nunca é desprezado na psicologia de Woodworth.

Um segundo ponto que deve ser reconhecido claramente é o de que nenhuma reação
estímulo-resposta pode ser considerada como um fato isolado, separado. Às vezes, o reflexo ou
alguma outra reação simples é, por conveniência, tratado como se fosse o único fato que
ocorresse no sistema nervoso na ocasião ou, pelo menos, como se se desenvolvesse
completamente sem ser influenciado por outros fatos. Realmente, o que se passa não é tão
simples. Qualquer fato nervoso está sujeito à influência de uma multidão de outros que o
precedem e o acompanham. Nenhum estímulo age sobre um organismo no qual não haja outra
atividade em andamento. É por isso que a psicologia deve estar sempre alerta contra a
simplicidade ilusória do conceito de arco-reflexo considerado teoricamente. Woodworth
concorda, de bom grado, com os protestos contra a tendência em considerar o arco de reação
separado de seu ambiente, como um fato isolado ocorrendo num outro organismo inativo.

Seu terceiro ponto - e esta é uma das críticas características de Woodworth - é o de que o arco
de reação não é uma unidade indivisível. Não só a reação não é isolada de suas circunstâncias;
sua unidade interna não é absoluta. Pode ser dividida ao meio. De acordo com Woodworth, há
uma vantagem em pensar em função de meios arcos, principalmente ao considerar a resposta
ou o lado motor da reação como uma unidade adequada, e em pensar que as respostas

9 Ele menciona especialmente e. S. Sherrington, The Integrattve Action of the Nervous System;
J. Dewey, "Tfle Reflex Are Concept In Psychology" (ver este livro, Capitulo VI); e L. L. Thurstone,
"The Stlmulus-Response Fallacy in Psychology", Psijchologjca( Review (1923), 30, 354-369. foram
provocadas por vários estímulos e acessíveis por diversas vias. Sherrington demonstrou que
mesmo os reflexos não incluem uma ligação fixa e invariável entre o estímulo e a resposta, mas
que cada reação motora possui um campo receptivo bem amplo. O reflexo de coçar, por
exemplo, pode ser eliciado pelo estímulo sobre uma vasta área lateral do corpo. Os estudos
sobre o reflexo condicionado dão as mesmas indicações. Uma resposta como a da salivação
que, de início, é eliciada por uma substância saborosa na língua, pode, por meio de treino, ser
despertada por um estímulo associado, tal como uma luz azul. Se a ligação primitiva fosse fixa
e inalterável, se o arco de reação fosse de fato uma unidade imutável, se não houvesse meio de
fazer novas ligações no meio, tal condicionamento simplesmente não poderia se realizar. A
psicologia incorre em erro, portanto, se tenta explicar o comportamento complexo como se
fosse uma construção ou elaboração de unidades complexas de conduta nas quais as reações
de arco completas aparecem como unidades. Woodworth acredita que se dão modificações
dentro dos próprios arcos, dentro do sistema nervoso central mais do que na periferia.

E, todavia, apesar dos perigos que rondam os seus arredores, Woodworth acredita que o
conceito de estímulo-

-resposta, quando considerado com as devidas precauções, é o instrumento mais útil que a
psicologia pode empregar para analisar o seu material. Isto não significa, entretanto, que não
haja nada mais para a psicologia do que a análise do comportamento em ligações de estímulo-
resposta. Mesmo que fosse possível, ao estudar uma atividade relativamente simples, como ver
um alfinete e apanhá-lo, localizar cada ligação estímulo-resposta, em detalhe minucioso, desde
a colisão da luz na retina, através de todas as reações, sensoriais, nervosas, musculares e
glandulares, exigidas para se chegar ao alfinete, curvar o corpo, e estender o braço até a
oposição do polegar com o indicador e o endireitamento do corpo, tal conhecimento não daria
à psicologia tudo o que ela deseja saber. O conhecimento mais minucioso não é
obrigatoriamente o mais completo. Ao descrever a atividade de ver e apanhar um alfinete, já se
deixou o nível das ligações estímulo-resposta minuciosas. Neste nível existe somente
diminuta sensação, nervosa, muscular e glandular, passando de uma para a outra, funcionando
juntas em seguida ou em

P8icologa8 do Século XX

265

264

Edna Heidbreder

grupos, facultando ou inibindo umas às outras. Se um observador realmente se encerrasse


naquele nível, nunca saberia que alguém tinha visto e apanhado um alfinete.

Ou, usando os próprios exemplos de Woodworth:

"Um chimpanzé, por exemplo, junta duas varetas de bambu e usa a vara comprida assim
formada, para alcançar uma banana. Esta é uma descrição psicológica; poderiamos acrescentar
muito mais detalhes, porém, a descrição continuaria no mesmo nivel psicológico. Agora, o
fisiólogo pode resolver fazer a descrição desta mesma série de fatos, em função da ação de
diferentes músculos, ou fibras musculares isoladas, sinapses em centros nervosos localizados,
e assim por diante. Estaria descrevendo o mesmo processo real - não um processo 'paralelo'

- porém, sua descrição utilizaria conceitos diferentes e seria, em geral, muito diversa da do
psicólogo. Seria muito mais minuciosa do que aquela, mas não obrigatoriamente mais
verdadeira. Não incluiria as relações observadas pelo psicólogo, e não seria tão útil para as
finalidades de precisão e controle, se quiséssemos saber o que faria o chimpanzé em uma
dada circunstância." ''

Em outras palavras, algum conhecimento permaneceria inacessível quando a observação se


restringisse às relações mais detalhadas; conhecimento que pode ser descoberto somente
quando as observações são ampliadas sobre uma área maior. O conhecimento da fórmula
química da água, por exemplo, não exaure nosso conhecimento sobre a água. A compreensão
maior sobre a sua composição química, dos elementos e suas relações, não nos familiariza com
fatos tais como se a água sacia a sede, limpa os corpos, cai em forma de chuva, flui pelos rios,
sobe e desce nas marés, desgasta a rocha, e põe as máquinas em movimento. Todavia, estes
fatos sobre a água são tão reais e importantes como os de sua composição. A tendência para
considerar o conhecimento mais detalhado como o mais fundamental é, em parte, uma ilusão.
Isso não quer dizer que Woodworth faça objeção à análise minuciosa ou que tenha a mínima
intenção de diminuir a sua importância; assim o faz, entretanto, a bem da autenticidade e
também pela necessidade de observações que tratem com outras relações além das mais
minuciosas. A geologia serve de exemplo. Ela não é uma ciência "básica"; adapta suas
descobertas às normas de outras ciências, a física e a química. Todavia, a geologia descobre
fatos que aquelas não revelam. Assim, a psicologia, embora recorra à fisiologia para uma análise
mais completa de seus dados, revela fatos que esta não descobre - e que, além disso, são tão

importantes, reais e auto-suficientes como aqueles estudados pela fisiologia.

Isto significa que o objeto da psicologia não pode ser separado daquele da fisiologia em função
do material de que é formado. As expressões "processo mental" e "vida mental", como
Woodworth as usa, não se referem a uma ordem de fatos diferentes daquela que constitui o
objeto das ciências físicas; o psicólogo e o fisiólogo estudam "o mesmo processo real" e não
"processos paralelos". Nem o psicólogo, nem qualquer outro cientista, como tal, têm a ver
alguma coisa com a natureza última deste processo. Basta dizer que a psicologia dinâmica se
interessa pelas sucessões de causa e efeito abrangendo relações mais amplas do que as
estudadas pela fisiologia e mais limitadas do que as da sociologia.

O que Woodworth quer significar como objeto da psicologia torna-se mais evidente quando
define a sua posição com referência às duas escolas que a psicologia norte-americana
comumente confronta entre si, o introspeccionismo e o behaviorismo. O objeto da psicologia
dinâmica não é nem consciência nem comportamento; inclui ambos. O ponto principal na
determinação de uma seqüência causal é conseguir uma série contínua de fatos, e para fazer
isso, tanto os fatos da consciência quanto os do comportamento devem ser levados em conta.
Através de observações do comportamento, é possível descobrir tanto os estímulos externos,
que dão início a uma reação, quanto a resposta visível pela qual ela finaliza; porém, o que
acontece entre os dois extremos do processo é conhecido, pelo menos por enquanto, em
grande parte por meio da introspecção.

Com referência à introspecção, a atitude de Woodworth não é nem de franca rejeição nem de
aceitação entusiástica. Neste caso, como em outros, pouco existe de caráter exclusivista em
sua resposta. Considerando as formas mais sim- pies da introspecção, não alimenta dúvidas
graves. Acredita que quando se pergunta a alguém "Qual dessas duas cores ihe parece mais
clara ?" esta observação não difere, em essência, da observação de um fato no mundo
exterior. Porém, o tipo mais complexo de introspecção é um assunto mais difícil e diferente.
Neste caso, o observador é, de fato, solicitado a fazer duas coisas ao mesmo tempo - seguir
através de um processo metal e observá-lo ao mesmo tempo; ou, uma vez que isto é uma
tarefa muito difícil e talvez impossível, deve captar, com um rápido olhar retrospectivo, o
conteúdo e o caráter do processo que acabou de completar.

10 R. S. Woodworth, "Dynamic Psychology", Psijchologies of 1925, 120.

266

Psicologias do Século XX

267

Eáno Heidbreder

Woodworth acredita que esta espécie de introspecção não está isenta de dúvidas, porém,
verifica que alguns resultados foram obtidos com tal regularidade que reclamam aceitação
geral. Há, por exemplo, uma observação que diz ser a consciência inclinada a abandonar um ato
praticado à medida que este se torna habitual, até que por fim a sua execução torna-se
automática. Woodworth acha difícil não concordar com tais descobertas e acredita que "em
seu íntimo, mesmo os mais fanáticos behavioristas acreditam nelas". A seu ver, a introspecção
não é infalível nem sem valor; realiza o que pode realizar. O pesquisador não deve esperar
muito dela; não deve exigir da mesma uma análise muito rigorosa e, onde for possível, deve
aplicar verificações objetivas. A introspecção é um método que a psicologia dinâmica aceita
como suscetível de usos e limitações definidas.

Woodworth aceita a introspecção, portanto, como método legítimo, mas não como o método
por excelência da psicologia. Certamente não apóia a idéia de que a psicologia seja
propriamente o estudo da consciência pelo método da introspecção. Acredita, além disso, que
esta doutrina não fazia parte da psicologia experimental no seu início; e que não era uma parte
essencial da "nova" psicologia; e que o papel do psicólogo como "introspeccionista treinado"
começou a ser ressaltado na década de 1890, quando homens como Titchener e Külpe,
interessados em conseguir um lugar para a psicologia entre as ciências, ansiavam para lhe dar
um bom método e um campo de experiência não reclamado por qualquer outra ciência natural.
Woodworth acredita que a história real da psicologia dá pouco apoio a esse ponto de vista.
Salienta que grande parte do primitivo trabalho em psicologia experimental não era um estudo
introspectivo da consciência, e menciona como prova as experiências de Fechner em psicofísica,
os estudos do tempo de reação, o trabalho sobre a memória, os costumes, as diferenças
individuais, a hereditariedade, o desenvolvimento mental e as condições anormais. Se existe um
método característico em psicologia, Woodworth acredita ser o "dispositivo para medir o êxito",
que consiste na "atribuição de uma tarefa e a medida do êxito com o qual a mesma é executada;
com a variação das circunstâncias e as observações das mudanças resultantes na execução da
tarefa". 11 Quer seja o processo estudo da consciência ou

comportamento, a questão é relacionar uma dada execuçãc


com suas circunstâncias - em outras palavras, descobrir as relações que comumente
chamamos de causa e efeito.

Woodworth é bastante favorável ao behaviorismo em. sentido global, talvez mais do que ao
introspeccionismo. É certo que o behaviorismo se lhe adapta melhor devido à sua tendência
em considerar o movimento do organismo e descobrir as condições que provocam certos
movimentos. Porém, não pode concordar que seja necessário abandonar o método
introspectivo e todos os trabalhos a seu respeito. Encara a rejeição da introspecção não como
o resultado inevitável de uma incompatibilidade básica entre o estudo da consciência e o do
comportamento, mas como conseqüência de uma rixa local - a do conjunto específico de
circunstâncias que forçaram a admissão do behaviorismo. Desde que a psicologia foi definida
como ciência da consciência, os estudiosos do comportamento animal tornaram-se não-
psicólogos por definição; e os behavioristas, não satisfeitos em revisar a definição para incluir a
sua própria obra, se desforraram afirmando que somente a sua psicologia era verdadeira e que
a mais antiga era apenas uma falsa ciência.

A luta que se seguiu foi notável, porém, segundo Woodworth, ficou fora do plano principal do
desenvolvimento psicológico. Encarando o problema da psicologia desta forma, como uma
tentativa de descobrir as relações de causa e efeito nas atividades mentais, considerava
incompletos tanto o introspeccjonismo quanto o behaviorismo. Mesmo que fosse possível fazer
uma descrição exaustiva da consciência, haveria lacunas no conhecimento das operações da
mente por alguma razão ou outra e, pelo menos, porque a consciência não acompanha todos os
fatos mentais. Da mesma forma, o comportamento considerado como uma série de reações
motoras aos estímulos externos, tomados isoladamente, não fornece uma descrição completa;
deixa de lado o que acontece no organismo entre o estímulo externo e a resposta motora. ÀS
vezes, uma análise minuciosa do processo existente pode ser feita pela fisiologia,
principalmente pela do cérebro; mas, nesse ínterim, muito poderá se aprender acompanhando
a atividade do princípio ao fim, usando a observação tanto do comportamento quanto da
consciência. Seria fugir do assunto, portanto, definir a psicologia sei a como ciência da
consciência ou como a do comportamento.

Acontece, assim, de forma interessante, que a psicologia dinâmica, que é essencialmente


conservadora, pouco se utiliza das classificacões convencionais ao dpfinir n v-øii ,n..

11 R.SWoodworth, Dynarnic Psychology, 31.

268

Edna Heidbreder

terial. Os fatos que ela apresenta, quando vistos de seu ponto de vista, aparecem sob um
prisma diferente. A psicologia dinâmica não é dualista. As expressões como "vida mental" e as
"operações da mente" não se referem a nada especial, diferente do material que as outras
ciências pesquisam. Indicam atividades, tais como aprender, pensar e sentir, que são, de
comum acordo e sem muita pesquisa sobre a sua natureza íntima, admitidas como objeto da'
psicologia. Aliás, Woodworth não se interessa muito pela definição de psicologia; considera a
definição de uma ciência não essencial ao seu desenvolvimento, nem como seu ponto de
partida adequado. A melhor definição de uma ciência, diz ele, é a descrição dos problemas que
ela realmente pesquisa. A identificação mais do que a definição do seu objeto é o ponto de
partida real de uma ciência, e o material usado pela psicologia pode ser identificado sem que
seja formalmente definido. 12 Afinal de contas, a pergunta feita pela psicologia dinâmica, em
relação ao seu objeto, não é "O que é isto?" mas "Como funciona?"

Todo esse debate teve mais que ver com a estrutura da psicologia do que com ela própria; e
muito mais ênfase foi dada a tais assuntos do que Woodworth geralmente lhes empresta. É
provável que Woodworth concorde o mais depressa possível com o que considera o
verdadeiro assunto da psicologia - os problemas típicos que seu objeto apresenta.

Quando empreende a tarefa especial de localizar os encadeamentos causais no


comportamento real, faz uma distinção entre duas espécies de fatos, mecanismos e impulsos.
O problema do mecanismo é aquele de como é feita uma coisa; o do impulso é o de saber por
quê. A ação de um jogador de basebol serve de exemplo. "O problema do mecanismo é o de
saber como ele visa, calcula a distância e a altura da curva e coordena seus movimentos para
chegar ao fim desejado. O problema do impulso inclui questões, tais como saber por que,
afinal, está realizando este exercício, por que joga melhor num dia do que no outro, por que
lança mais para um batedor do que para outro e muitas perguntas desse teor." 13 Ou, se essa
distinção se refere a uma máquina, o impulso é a força

12 Tratar com material psicolÓgico dessa forma exige que este seja concebido muito abstrata
ou muito concretamente. No primeiro caso, os fatos devem ser tratados apenas como tais,
sem referéncia ao seu conteúdo. No segundo caso, devem ser tratados como surgem na
experiãncia, com O menor número possivel de pressuposições quanto à sua forma final. Os
extremos não são afastados como parece; ambos se apólam no desejo de ignorar, para as
finalidades do momento, as questões mais profundas de saber com o que se está tratando.

13 R. S. Woodworth, Dynamic Psychology, 36-37.

Psicologias do Século XX

269

aplicada, o vapor, eletricidade ou força hidráulica que faz a máquina funcionar. O mecanismo é
aquilo que é feito para funcionar; é a estrutura acionada por qualquer força que seja utilizada.

Os gatos de Thorndike, em suas lutas para escapar das caixas-problema, exemplificam tanto o
mecanismo como o impulso. Suas unhadas, arranhões, mordidas e empurrões são mecanismos
- formas de reação de que o animal dispõe quando estimulado de certos modos. O impulso é a
fome. O estímulo externo - talvez um pedaço de peixe fora da gaiola - nem sempre provoca
uma eclosão de atividade no gato que, fechado dentro da mesma, veja e fareje o peixe. Um
gato, estando farto, pode enrodilhar-se e dormir. Os mecanismos são acionados não só pelos
estímulos externos, mas também pelo impulso interno.

A experiência convencional do tempo de reação também serve de exemplo de mecanismo e


impulso. Neste caso, o mecanismo é o movimento do dedo que libera a chave de reação como
resposta a um determinado sinal, tal como um feixe de luz. O impulso é o conjunto
neuromuscular em relação àquele movimento que é despertado no paciente pelas instruções.
Neste caso, novamente o estímulo externo sozinho não provoca a resposta; um feixe de luz não
leva invariavelmente a um certo movimento do dedo. O impulso - neste caso, uma questão
altamente artificial dificilmente encontrada f ora do laboratório - é, sob muitos aspectos, bem
diferente do estado inteiramente "natural" de fome; todavia, a sua relação com a atividade que
se lhe segue é exatamente a mesma. Cria condições propícias para a ação dos mecanismos
apropriados; sem a sua presença, os mecanismos não agiriam.

Fora do laboratório, os impulsos humanos são de uma complexidade muito maior, porém,
mesmo uma atividade altamente complexa como ler a Crítica da Razão Pura pode ser explicada
em função de mecanismo e impulso. Naturalmente, o leitor adquiriu os mecanismos
necessários, o conjunto complicado de reações chamado leitura. A página impressa fornece o
estímulo e a leitura é a resposta. Porém, novamente a resposta não é sempre eliciada; a
simples presença da Crítica da Razão Pura não desperta a vontade de ler em todas as pessoas
alfabetizadas. Mais uma vez torna-se necessário levar em conta o impulso. Uma pessoa pode
ler a Crítica da Razão Pura por ser estudante com um exame a

rniiø um filógofo gui deseja aduzir novas pro

270

P8icologias do Século XX

271

Edna Heidbreder

o livro é de difícil leitura e deseja ver o que pode fazer a respeito, ou devido a mil e uma
razões. Pode ser impulsionado pela ambição, pela curiosidade, pela afirmação de si mesmo,
pelo interesse, pelo seu humor atual, ou pelo plano geral de toda a sua vida. O impulso que o
faz ler a Crítica da Razão Pura pode atuar durante longos períodos de sua vida e pode
determinar ampla variedade de atividades. Se assim o fizer apresentará muitos motivos
humanos, pois estes agem geralmente sobre períodos bastante longos de tempo, O
comportamento aparece de forma contínua, diz Woodworth, e não em parcelas isoladas de
estímulo-resposta; o problema do impulso abrange as atividades de longo e de pequeno
alcance da vida. Faz, surgir os problemas de necessidades e anseios, desejos e finalidades,
desde as formas mais amplas e evidentes, até às mais complexas e mais sutis.

Talvez isso tudo pareça um tanto afastado da fórmula simples do estímulo-resposta com a qual
a psicologia dinâmica principiou. E, todavia, é uma parte essencial da tese de Woodworth que as
maiores complexidades do comportamento humano, incluindo os motivos e as finalidades, têm
o seu lugar na cadeia normal de causa e efeito, e principalmente que se adaptam ao padrão
estímulo-resposta.

Ao sustentar sua tese, Woodworth salienta primeiro que a distinção entre mecanismo e
impulso não é absoluta. Este ponto é muito importante em seu sistema. Significa, em primeiro
lugar, que o próprio impulso é um mecanismo, uma resposta do organismo vivo. Um impulso
não é uma deux ex machina, algo inexplicável que dirige o organismo pelo lado de fora. Não é
também um deus in machina; é parte integrante do próprio organismo. O impulso pode ser um
estado orgânico, tal como a fome, a fadiga ou a euforia, que predispõe o organismo para agir
de certa forma. Pode ser uma disposição neuromuscular como aquela das experiências de
reação retardada; 14 ou, se preferirmos um exemplo tirado da vida esportiva, como aquela do
corredor em seu posto, curvado e pronto para partir assim que seja dado o tiro de pistola.
Pode ser também uma predisposição de uma espécie muito menos evidente e periférica - uma
ambição política ou um interesse pela matemática - a qual dificilmente pode

14 A reação retardada uma resposta feita após um intervalo de tempo haver passado entre a
presença do estimulo fisico e o inicio da resposta

wIgttrAl A nacn,,f.,, .-, ,I...,...,..1 A.,.*... 41...-. 1.

ser mantida por uma postura corporal adequada, mas que, não obstante, é representada por
processos no organismo, entre os quais aqueles situados nos centros nervosos que
possivelmente desempenham papel preponderante. Mas, em todos os casos, a própria
atividade é uma resposta a um estímulo e um impulso devido à sua função - em virtude de
facilitar alguns mecanismos e inibir outros.

Porém, um mecanismo é também um impulso. Mesmo quando não se pode negar que seja um
mecanismo, quando é mais claramente movido por algo mais, um mecanismo só é
relativamente passivo; a sua própria natureza determina a da resposta. As unhadas de um gato,
dadas para escapar de uma caixa-problema, são ações determinadas em parte pelos
mecanismos à disposição do animal - pela estrutura de seus ossos, músculos e sistema nervoso.
Mesmo que a fome humana e a do gato fossem exatamente iguais, o comportamento do
homem e dos gatos seria diferente nas mesmas circunstâncias, porque os mecanismos do
esqueleto, os musculares, glandulares, nervosos e sensoriais são diferentes nas duas espécies.
Além disso, um mecanismo pode manter o seu próprio impulso. As reações da leitura foram
citadas como mecanismos, porém, uma vez adquiridas, tendem a entrar em ação e exigem
expressão própria. Podem até servir como impulso para outras atividades, tais como comprar
livros, procurar lugares sossegados, com boa luz, ou freqüentar bibliotecas. Woodworth acredita
que, com exceção de alguns reflexos simples, qualquer mecanismo pode adquirir o poder de
manter o seu próprio impulso, ou pode tornar-se um impulso para outras atividades. O homem
de negócios, que se sente infeliz quando se aposenta, é um exemplo excelente. Suas
atividades diárias tornaram-se tão completamente uma parte de seu ser que exigem expressão
própria.

Os mecanismos e impulsos, portanto, são basicamente iguais por serem respostas de um


organismo - um ponto importante ao adaptá-los no esquema estímulo-resposta. Devemos
lembrar que, mesmo no nível do reflexo, Woodworth é cauteloso com respeito a uma
simplificação excessiva da relação estímulo-resposta; está sempre prevenido para não deixar o
organismo fora de seus cálculos. Seu esquema não é apenas estímulo-resposta, mas estímulo-
organismo-resposta; não E-R, mas E-O-R.

A maneira pela qual o mecanismo e o impulso se ajustam a este padrão pode ser
exemplificada por urna ocorrên
272

27

Edna Heidbreder

o impulso é a fome, algo que é, em si, uma resposta orgânica a um estímulo - ou melhor, a um
certo número de estímulos

- e que constitui uma disposição do organismo no sentido de um grupo específico de


mecanismos incluídos no ato de comer. Porém, esses mecanismos não se verificam apenas
porque o impulso foi despertado, ou porque o organismo tem fome; não ocorrem a menos
que esteja presente o estímulo para os mecanismos específicos relacionados com o ato de
comer. Os movimentos de mastigar e engolir não são comumente feitos, a menos que haja
alimento na boca. Portanto, um certo número de reações preparatórias deve primeiro ser feito
para colocar o organismo em presença do estímulo que desperte as reações que completam o
ato de comer. Porém, cada uma dessas reações preparatórias deve também se ajustar no
esquema de estímulo-resposta. Suponhamos que o homem faminto vá até a despensa, e abra
armários e caixas, até encontrar algo para comer. Todas essas reações (o mecanismo) são
facilitadas pela fome (o impulso); porém, o impulso sozinho não é reonsável por suas atividades
específicas. Cada reação preparatória requer um estímulo próprio

- um assoalho para andar, um botão para girar, uma porta para abrir. O padrão de estímulo-
resposta age através de toda a atividade. O próprio impulso é uma resposta ao estímulo; as
reações preparatórias e de acabamento são respostas aos estímulos; e todas são integradas
numa unidade de comportamento pela ação permanente do impulso. Mesmo uma ocorrência
tão simples apresenta uma organização altamente elaborada, porém, a unidade toda é
redutível a respostas aos estímulos.

O esquema E-O-R é adequado, segundo Woodworth, mesmo para os casos mais complexos de
motivação. Todos os motivos são estados orgânicos ou reações em desenvolvimento e, como
tais, auxiliam algumas reações e inibem outras, assim como fazem todas as reações em curso.
Sua intenção é mostrar que todo o comportamento humano, mesmo em suas formas mais
complexas e sutis, pode ser explicado em função do mecanismo e do impulso.

Ao empreender esta tarefa, Woodworth enfrenta diretamente um problema que a psicologia


em seu todo tendeu a

evitar - o problema de saber por que se faz o que se faz; o

problema dos motivos, das fontes e dos móveis da ação. A

ciência, observa Woodworth, tende a afastar-se da pergunta

"Por quê?" Pois ela desistiu de tentar descrever a natur&za

última das coisas, e a pergunta "Por quê?" leva sempre a

Pswologuis do Século XX
outro "Por quê"?, ao passo que a resposta à pergunta "Como ?" é completa até o máximo
possível. A psicologia, portanto, tem-se ocupado principalmente com problemas de mecânica,
mais do que com problemas de dinâmica; com perguntas tais corno se dão as associações,
corno progride a aprendizagem, como o tempo de reação é afetado pelas várias circunstâncias.
Porém, nas atividades animais, e especialmente no comportamento humano, a pergunta por
quê se fazem certas coisas está presente tão amiúde ao senso comum que mais cedo ou mais
tarde deve ser tratada pela ciência. E Woodworth tenta mostrar que um reconhecimento da
pergunta "Por quê?" e dos fatos do motivo e da finalidade não leva necessariamente quem
pergunta a buscar forças fora do mundo da causa e efeito e fora da ordem natural.

Entretanto, Woodworth não foi o principal responsável pela apresentação desta questão na
psicologia contemporânea. Quando fez as suas preleções sobre psicologia dinâmica, o
problema dos móveis da ação já estava no ar. William McDougall tinha-lhe dado especial
destaque em seu livro Introduction to Social Psyckology," que defendia uma teoria do instinto,
que imediatamente despertou a atenção.

Do lado negativo, a doutrina de McDougall era uma negação acentuada de duas noções: a
concepção do homem racional, utilizada na teoria convencional social e política; e a idéia de
que a psicologia na forma em que existia - a mecanicista, por exemplo, que se dedicava às
funções minuciosas da associação - não tinha contribuição alguma a fazer ao problema dos
móveis da ação. O seu ensinamento positivo era o de que os instintos são as grandes forças
propulsoras da atividade humana. Nos seres humanos existem sete instintos primários: fuga,
combatividade, curiosidade, desgosto, comportamento paterno, auto-afirmação e
autonegaçãO. Além disso, existem tendências, como o gregarismo e a imitação, que carecem
de algumas das características dos instintos primários, mas que são, apesar disso, móveis
naturais da ação. Existem também sentimentos, como a lealdade e o patriotismo, que são
produtos complexos do instinto, do intelecto e da emoção, e que obtêm toda a sua força
motivadora a partir de seus componentes instintivos. Cada um dos instintos primários forma
um par com uma emoção primária, por exemplo, a fuga com o medo, a combatividade com a
raiva. O instintivo e o emocional na natureza humana estão

t5 Ver espectalmente os quatro primeiros capitulos.

274

Edna Heidbreder

assim intimamente relacionados. A emoção, de certa forma. é o âmago invariável do


comportamento instintivo. Os pontos receptores da ação instintiva podem variar, a resposta
motora pode ser modificada, porém o tom emocional conserva o seu caráter peculiar.

O ponto mais desafiador na teoria de McDougall era a sua insistência em que os instintos são
as grandes forças propulsoras da conduta humana; e que direta ou indiretamente são os
principais impulsores de toda a atividade humana, inclusive a intelectual; e que, somente com
o toque vitalizante dos instintos, os mecanismos humanos são impelidos à ação. A conação -
esforço propositado em direção a um objetivo, e que não é em si redutível a um mecanismo - é
para McDougail a categoria fundamental em psicologia.

Woodworth está de pleno acordo com a convicção de McDougall de que é necessário levar em
contar os impulsos, os anseios, como agentes motivadores no comportamento humano. Porém,
discorda profundamente da teoria que diz haver um conjunto especial de atividades, os
instintos, que fornecem obrigatoriamente o impulso para toda a conduta humana; e que alguns
poucos anseios poderosos formam a base dc toda a atividade humana. Woodworth argumenta
que não existe uma classe especial de atividades que forneça de modo obrigatório a força
motivadora para a conduta; e que a distinção entre o mecanismo e o impulso é puramente
funcional; e que qualquer mecanismo (com exceção de alguns reflexos simples) é capaz de
tornar-se o impulso para outros mecanismos; e que o impulso é em si um mecanismo que,
somente em virtude de suas relações funcionais com outros mecanismos, se tornou, por sua
vez, seu próprio impulso. Enquanto McDougall considera o instinto como possuindo uma única
força impulsora, Woodworth acredita que os impulsos não são dotados de nenhuma força
peculiar a si próprios, porém são mecanismos que se distinguem dos outros unicamente em
virtude de suas relações funcionais.

O desacordo de Woodworth com a teoria de McDougall começa a surgir quando, na Dynamic


Psychology, apresenta a sua relação das reações humanas inatas. Neste livro, o seu plano
geral, após expor o fundamento de seu sistema, consiste primeiramente em se utilizar das
reações inatas do ser humano e, então, mostrar como, baseado em seus recursos imelais, se
desenvolve o resto do comportamento. Começa por enumerar os processos mais minuciosos:
a sensibilidade dos receptores, a contractjlidade dos músculos, os reflexos,

Psicologia8 do Século XX

?75

certas coordenações de reflexos e funções orgânicas, tais como a respiração e a digestão.


Prossegue então mencionando atividades maiores, tais como as emoções e os instintos, e
embora a sua relação de instintos e a de McDougall não coincidam totalmente, não há um
desacordo importante a esse respeito. Mesmo neste caso, entretanto, há uma característica
geral da lista de Woodworth que é importante. Não há interrupção em sua classificação entre
reações minuciosas, como deglutir e falar, e os impulsos poderosos que McDougall classifica
como instintos primários. Ao contrário, há um aumento gradual, de um extremo a outro da
lista, em complexidade e no que se pode chamar de amplitude das reações. Porém, quando
Woodworth inclui "capacidades inatas" em sua lista, relaciona-as com o aspecto intelectual da
natureza humana, e sustenta que elas são também impulsos à ação, o seu desacordo, então,
com McDougall sobressai de forma clara e inconfundível.

As capacidades inatas significam para Woodworth "aptidões" ou "dons" para realizar certas
respostas ou para lidar com certas coisas. Uma pessoa que tenha dom para a música ou para a
matemática é especialmente suscetível a certos tipos de objetos. Woodworth conclui que estas
capacidades são inatas a partir de evidências tais como tenderem a ocorrer em famílias, e
brotarem em indivíduos afastados de uma geração ou mais de outros membros da família que
possuíam o dom, e que certos indivíduos são mais suscetíveis do que a massa da
humanidade ao treinameito de um certo tipo e desenvolvem maior interesse em tal
treinamento do que o habitual. As capacidades inatas diferem dos instintos por serem menos
desenvolvidas e menos prontas a serem utilizadas. Seja qual for o grau em que uma pessoa é
dotada para a música ou para a matemática, ela não nasceu com os mecanismos apropriados
para uma ótima execução em qualquer uma dessas atividades. Nasceu com uma suscetibilidade
para certa classe de materiais que a torna mais rápida, mais pronta e mais eficiente na aquisição
dos mecanismos para lidar com estes materiais. Outra alusão feita por Woodworth com
respeito às capacidades inatas é a de que não são "faculdades" especiais, tais como a
percepção, a imaginação ou raciocínio, mas sim respostas a certas coisas ou relações. Numa
pessoa bem dotada, existem respostas imediatas- a certas classes de objetos - aos sons
musicais, ou às relações matemáticas, por exemplo. Finalmente, e o que é mais notável,

276

Psicoiogias do Século XX

77

Edita Heidbreder

as capacidades estão relacionadas com o aspecto intelectual da natureza humana mais do que
com o emocional ou com o conativo; estão, portanto, fora do campo dos instintos, como é
descrito por McDougall.

É neste ponto que se torna mais flagrante a diferença entre as teorias de Woodworth e
McDougall. As capacidades inatas, uma vez que são em grande parte intelectuais, pertencem ao
aspecto da natureza humana que McDougall considera como impotente quando desprovido de
instintos, como aparelhos que ficariam paralisados, a menos que se lhes infundisse vida
pela sua poderosa força impulsora. Porém, Woodworth considera estes dons ou capacidades
como participantes, como todas as outras reações inatas, da força motivadora necessária para
entrar em ação. Escreve ele:

"Este é o ponto principal sobre o qual o atual debate se estabelece com McDougall - de fato, o
desacordo neste ponto é o principal argumento em todo o seu livro, O maior objetivo do livro
é, digamos, tentar mostrar que qualquer mecanismo - com exceção talvez de alguns dos mais
rudimentares que formam os reflexos simples - uma vez despertado, é capaz de fornecer seu
próprio impulso e também de transmiti-lo a outros mecanismos a ele associados,

"O problema é saber se os mecanismos para as mil e uma coisas que o ser humano tem
capacidade para fazer são em si mesmos totalmente passivos, exigindo o impulso destes
poucos instintos, ou se cada um desses mecanismos pode ser diretamente despertado e
prosseguir agindo sem o auxílio da fome, sexo, autoconfiança, curiosidade e tudo o mais." 16

Woodworth aceita, sem hesitar, que os principais instintos fornecem impulso para outras
atividades e que se pode obter maior atividade de um sujeito suscitando-lhe a auto- confiança, a
liderança ou a curiosidade. Porém, afirmar que os principais instintos podem reforçar a prática
de um dom inato é muito diferente do que dizer que são as únicas fontes de energia pelas quais
tais atividades podem ser acionadas. Woodworth acredita que a força impulsora
dos instintos' não pode ser responsável por certos traços marcantes que a prática de um dom
apresenta. Por um lado, ela não explica a especialização tão evidente no indivíduo bem
dotado; e, também, por exemplo, por que o motivo dominante numa criança pode ser ativo
em certo setor, digamos, no dos números e não em outro, como no da música. Também não
explica por que o motivo dominante permanece inativo ou pode ser racionalizado para outro
setor, se procurarmos ape la

para o brio da criança e interessá-la em alguma atividade que nada tenha a ver com o seu dom
especial. Por último, ela não explica a absorção de uma pessoa em uma certa atiwdade.
Woodworth atribui grande importância a esta característica, pois sua presença sugere
fortemente que esta atividade é uma réação conclusiva. Além disso, sem a absorção, sem uma
completa atenção ao assunto em mãos, não existe uma realização perfeita. Quando estamos
empenhados ao máximo em uma realização, qualquer interesse alheio, qualquer consciência do
motivo dominante, ou da fome e do sexo, torna-se uma distração. Um matemático trabalha
melhor quando está interessado só pela matemática. E, todavia, se os instintos são os únicos
móveis da ação, a sua inclusão deveria auxiliar a reação, e o que é mais importante, deveria
ser necessária à sua prática. Porém, a opinião de Woodworth é a de que a atividade pode
prosseguir por conta própria; e prossegue, realmente, melhor por si mesma. Uma vez iniciada,
a execução continua sozinha. O motivo não é algo além ou fora da atividade que se realiza. É
parte integrante da própria atividade.

Esta atitude em relação à prática da capacidade inata é apenas um caso especial da atitude de
Woodworth com respeito à atividade em geral. Ele não acha sempre necessário considerar
impulsos poderosos como os instintos, para explicar a atividade de um organismo vivo. A criança
bem alimentada, bem descansada, esperneando e gritando, agitando os braços, não lhe parece
estar sob a influência de um impulso poderoso; parece estar agindo porque existem estímulos
no meio ambiente e em seu próprio corpo que despertam mecanismos que representam parte
de seu equipamento; e uma afirmação idêntica se pode fazer dos mecanismos mais altamente
desenvolvidos, inatos e adquiridos. De fato, qualquer'
mecanismo, com exceção talvez dos reflexos mais simples, uma vez despertado, não apenas
fornece o seu próprio impulso como também pode servir de impulso a outros mecanismos -
quaisquer que sejam, note-se, não só aqueles emocionais ou instintivos. 17 Isto significa que a
psicologia dinâmica, como Woodworth emprega essa expressão, não se limita a uma classe
especial de atividades psicológicas, mas inclui toda a psicologia. Os conceitos de mecanismo e
impulso se aplicam a atividades como aprendizagem, memória e associa-

17 A expressão "psicologia dinâmica" é às vezes usada para indicar os processos afetivos e


conativos principalmente. Deve-se notar que não é neste sentido que Woodworth emprega o
termo.

16 R. S. WoOdworth, Dijnamjc Psi.icholoqtj, 67.

278

Edna Heidbreder

Psi.cologas do Século XX
279

ção de idéias, bem como à emoção e ao instinto. É bastante significativo que num de seus
estudos 18 Woodworth utilize os fatos da percepção para ilustrar os princípios do mecanismo
e do impulso e até mesmo de toda a sua concepção de psicologia dinâmica.

Tudo isso conduz de novo à afirmação de que não existe uma diferença absoluta entre o
mecanismo e o impulso. Toda a atividade humana é da mesma espécie. A distinção é útil porque
torna possível uma afirmação clara dos problemas da psicologia, principalmente dos difíceis
problemas da motivação. Porém, a base para a distinção é funcional: um mecanismo é um
impulso, se auxilia ou reforça outro mecanismo. Não existe conjunto algum de atividades que
sirvam invariavelmente como impulsos. Os mesmos princípios estão ativos em todas as espécies
de comportamento. As atividades mais complexas podem ser explicadas em função do padrão
E-O-R. Todos os tipos de respostas, não somente as que se relacionam com o instinto e a
emoção, são capazes de se tornarem impulsos. Existe uma continuidade não interrompida
desde a espécie de facilitação e reforço que se observa nos reflexos espinhais até os casos mais
complexos que incluem finalidade.

A maior parte da Dynamic Psychology é uma tentativa para demonstrar a adequação do


conceito de mecanismo e impulso para todo o campo do comportamento humano. A
abordagem do problema é genética. Como dissemos, Woodworth começa por fazer um
balanço das reações inatas como base para todo o desenvolvimento futuro. Considera em
seguida o problema do aprendizado, ou o modo pelo qual o indivíduo modifica e amplia a sua
bagagem inata; o problema do controle ou de como, numa dada circunstância, entre muitas
respostas possíveis algumas são escolhidas e realizadas e outras rejeitadas ou suspensas; o
problema da originalidade, ou como a partir de suas reservas ou bagagem e formas de reação
o indivíduo produz novas respostas; os problemas do comportamento anormal ou como, de
acordo com as mesmas leis que dão origem às respostas normais, se desenvolvem as respostas
anormais; e os problemas do comportamento social, ou de como se desenvolvem as reações
complexas que são efeito e causa das circunstâncias sociais. Para Woodworth, os problemas
específicos, incluídos nestes tópicos, constituem a verdadeira função da psicologia, e o exame
de

IS R. S. WoOdwOrth. DynamIc Psychology', Psajchologses o! 1925.

qualquer um deles mostrará os conceitos da psicologia dinâmica realmente atuando no


material psicológico.

O seu modo de tratar a questão da aprendizagem é um exemplo tão bom como qualquer outro.
Neste caso, o problema consiste em explicar o grande acréscimo que o indivíduo faz à sua
bagagem original de conhecimentos através da prática e da experiência. Ou talvez a palavra
modificação seja melhor do que acréscimo, pois a pessoa adquire novas reações por meio da
alteração de suas ligações inatas de estímulo-resposta quando reage aos estímulos de seu meio
ambiente.

Deve-se observar, de passagem, que, segundo Woodworth, isso abrange tanto a


hereditariedade quanto o meio ambiente. Uma vez que a aprendizagem é uma reação do
organismo ao meio ambiente, tanto um como outro colaboram na determinação da resposta.
O comportamento inato pode ser modificado de cinco maneiras: uma ligação de estímulo-

-resposta de caráter inato pode ser reforçada e estabilizada por meio de exercício; um novo
estímulo pode ser associado a uma dada resposta na forma de reflexo condicionado; uma nova
resposta pode ser associada a um dado estímulo de forma semelhante; uma ligação existente
de estímulo-resposta pode ser interrompida por meio da dor, do fracasso, ou por adaptação
negativa, de forma que o estímulo não mais provoque a resposta a ele associada; e um certo
número de respostas isoladas pode ser superado por uma única resposta unitária, como no caso
da formação de "unidades superiores" na datilografia - neste caso referindo-se à escrita de uma
palavra ou frase completa em um só ato coordenado, em vez de bater as letras uma por uma,
em uma série de movimentos simples e isolados.

Vários pontos deste modo de tratar a ação de aprender são especialmente dignos de nota. Um
deles é a interpretação das "unidades superiores" - os "hábitos verbais" ou "frases habituais" do
datilógrafo exímio que suplantam os "hábitos de letras" do principiante. Conforme Woodworth,
o organismo adquire uma "unidade superior" executando uma única resposta unitária para uma
infinidade de estímulos. O datilógrafo exímio escreve a palavra "and" por
um único ato coordenado, e não apenas fazendo mais depressa os três movimentos isolados
necessários para bater as letras a, n, d. Enquanto que no caso do principiante, cada letra exige
um movimento isolado, no datilógrafo treinado as três letras (grande número de estímulos)
provocam os

SU

Ednu Hc id breder Psicologias do Século XX

281

movimentos organizados em série para bater as letras a-n-d (a resposta unitária simples). O
ponto importante desta explicação é o destaque dado à resposta; a intima ligação dos três
primeiros movimentos separados é explicada não em função das características dos itens
associados - tal como contigüidade no tempo e no espaço - mas sim em função da atividade do
próprio organismo. Entretanto, este é somente um caso particular de aplicação da fórmula
estímulo-respos.ta, segundo a concepção da psicologia dinâmica, aos fatos da associação. Pois,
não é somente nos atos motores que a associação é explicada em função da resposta. As
atividades, tais como a percepção e a memória, são interpretadas de forma semelhante. A
percepção de uma mesa, por exemplo, é 'uma organização mais elevada dos processos
sensoriais - e não uma simples reunião dos mesmos - permanecendo na mesma relação com as
respostas sensoriais básicas, como a existente entre os "hábitos verbais" e os "hábitos de
letras". A percepção, em suma, é uma resposta ativa, e não algo "impresso nos sentidos", ou
uma simples reunião de elementos sensoriais. É muito interessante que Woodworth chame a
atenção para o fato de que os itens isolados de uma percepção não precisam surgir em primeiro
lugar - que uma palavra impressa, por exemplo, possa ser vista primeiramente como um todo, e
que as letras possam ser analisadas depois. A esse respeito e em outros - no seu
reconhecimento, por exemplo, da totalidade e integridade das unidades motoras mais elevadas
- está tratando com alguns dos fatos aos quais a psicologia da Gestalt dá grande
destaque. Mas para Woodworth, estes fatos não exigem a revisão completa da psicologia que
a escola da Gestalt acha necessária.

Outra característica do tratamento de Woodworth é a sua insistência em que a aprendizagem é


a mesma para os impulsos e os mecanismos. Na ira, por exemplo, as respostas emocionais
primitivas podem ser associadas a novos estímulos; podem ser destacadas dos estímulos que
inicialmente as provocaram; podem ser transformadas em suas expressões visíveis; ou podem
ser organizadas em "unidades superiores", como os sentimentos de indignação e lealdade.
Novamente os mecanismos e os impulsos comportam-se de maneira idêntica. Além disso, ao
debater a relação entre os impulsos e a aprendizagem, Woodworth acha oportuno, como o fez
em seu tratamento dos dons e capacidades especiais, salientar a especificidade dos impulsos;
afirmar de novo que uma certa atividade pode produzir o seu próprio impulso;

insistir que não é necessário supor a existência de alguns instintos ou tendências principais,
sem os quais o organismo não poderia entrar em ação. Observa, também, que é próprio do
organismo vivo responder a uma dificuldade maior por um esforço maior - e que a atividade
torna-se de especial interesse quando, embora estando dentro das habilidades do indivíduo,
não está tanto sob controle, nem tão fácil a ponto de ser automática. É nesta altura que a
atividade se torna interessante por si mesma; em outras palavras, começa a agir pelo seu
próprio impulso.

O exame desses assuntos mostra como Woodworth aplica os conceitos da psicologia dinâmica a
alguns dos principais problemas da aprendizagem. Os outros problemas principais - os que se
referem ao controle, originalidade, comportamento anormal e conduta social - são igualmente
estudados, e por fim o campo total da psicologia surge esboçado esquematicamente em função
de mecanismos e impulsos. Em sua análise, Woodworth enfrenta alguns dos problemas mais
complexos do comportamento humano; e através dessa análise, tenta mostrar que esses
problemas podem ser tratados de forma adequada por meio dos conceitos práticos e funcionais
da psicologia.

Este sistema, é bastante evidente, não atinge um ponto culminante. Não oferece uma síntese
nova ou revolucionária, e não conduz a uma posição privilegiada de onde os fatos da psicologia
apareçam sob uma perspectiva nova e imediatamente significativa. Pelo contrário, absorto
com o trabalho diário na oficina da ciência, tenta apenas mostrar que um princípio unificador
esteve sempre presente na psicologia e sempre tomou parte em suas realizações. A psicologia
dinâmica, não prometendo mais que as lentas conquistas da ciência, permanece
extremamente despretensiosa e calma.

Nem mesmo se envolve na excitação que se produz quando tomamos partido nas alternativas
tradicionalmente opostas em psicologia. O behaviorismo e o introspeccionismo, a
hereditariedade e o meio ambiente, a parte e o todo, o livre arbítrio e o determinismo, o
mecanismo e o vitalismo - em nenhuma dessas questões, o sistema apóia sem reservas um lado
em detrimento de outro. Woodworth tem sido muitas vezes criticado a esse respeito. Para
muita gente, existe algo de franco e satisfatório numa afirmação que suna nitidamente, pró ou
contra uma determinada proposição - talvez porque reduza o caso à expressão definida de luta.
Porém, para Woodworth, a questão não é de luta. Não se trata de
282

Edna Heidbreder

___________ P8icologia8 do Século XX

conseguir uma vitória, mas sim de empreender uma tarefa, e as alternativas, na forma que
assumiram através dos tempos, mostraram não ser compatíveis com este empreendimento.
Assumir uma atitude seria abandonar a tarefa e cair no irrelevante. E Woodworth não desiste. A
recusa em se decidir é realmente uma conseqüência obrigatória da empresa a que se propôs e
de toda a sua concepção da psicologia. Tomando como ponto de partida as atividades
concretas, individuais e observáveis dos organismos vivos, comprometeu-se a conseguir uma
descrição a mais completa possível das operações desses processos em função de causa e efeito

- não se apegando resolutamente à consciência em contraste com a conduta, à hereditariedade


oposta ao meio ambiente, ao vitalismo contra o mecanicismo, ou a qualquer outra hipótese
que estivesse fora do plano principal de sua pesquisa. É verdade que algumas das maiores
conquistas da ciência foram obtidas através de luta - pelo apoio a uma hipótese contra toda
espécie de oposição, até que fosse provado estar, total ou parcialmente, certa ou errada.
Porém, esta é só uma das maneiras pela qual a ciência é bem sucedida. Algumas vezes obtém
suas vitórias por meio de trabalhadores que estão tão interessados em certos problemas de
uma certa classe de fatos que, de propósito, adiam ou desprezam temporaria - mente o exame
das implicações mais remotas e de maior alcance daqueles problemas.

De fato, em seu interesse pelos processos específicos que está estudando, Woodworth segue o
método que sempre caracterizou a ciência em confronto com a metafísica. Mais do que se
pensa, as alternativas logicamente opostas que se confrontaram através dos séculos, atraem a
atenção da hunianidade seja direta ou indiretamente, através das implicações metafísicas que
as cercam. Porém, seja qual for o progresso que a ciência tenhà realizado, provém de haver
deliberadamente afastado sua atenção dos problemas metafísicos. Por esse motivo, a
psicologia, especialmente por ser uma ciência nova, que até há pouco fazia parte da filosofia,
está prevenida contra a metafísica; a tal ponto, de fato, que um sistema de psicologia pode
adotar, deliberadamente ou não, uma metafísica para justificar o seu abandono dos problemas
que considera metafísicos. Porém, Woodworth pressupõe que uni cientista tem Q direito, como
tal, de seguir os seus problemas até onde eles o conduzam no mundo da experiência, sem
oferecer uma justificação metafísica para a sua prática. A esse respeito, sua psicologia mostra
ser mais in 285

dependente da dominação metafísica do que aqueles sistemas que proclamam mais


intensamente a sua liberdade.

Provavelmente, esta atitude, este interesse pelos detalhes concretos de uma nova ciência,
também contribui para uma outra característica da psicologia de Woodworth. Seu sistema
nada tem de hermético. É uma psicologia que, mais do que a maioria das outras, reconhece a
imperfeição e o caráter experimental da ciência, e não impõe nenhuma simplicidade,
harmonia prematura ou finalidade aos seus diversos fatos. Conseqüentemente, não é um
sistema que se destaca com contornos nítidos. É um sistema, realmente, no qual há sempre o
perigo de não ver o todo devido às partes; de fato, a atenção é freqüentemente atraída para
certas partes ou mesmo para determinados conjuntos de partes. É, portanto, fácil perder de
vista as contribuições específicas do autor. Woodworth acredita piamente que existe uma
ciência psicológica independente de qualquer sistema particular, um corpo de conhecimentos
razoavelmente bem estabelecidos e aceitos pelos psicólogos em geral, e este é o objeto de seu
interesse. Há, portanto, uma interação muito íntima entre o seu próprio pensamento e o da
psicologia em geral. O resultado é que as suas contribuições e mesmo os seus trabalhos estão
entrelaçados com o contexto da psicologia formando um todo; não figuram como algo à parte.

Naturalmente, um sistema como esse não serve como ponto de concentração, seja para ataque
ou defesa. O seu caráter reflete a possibilidade de progresso da ciência, não por revolta mas por
crescimento, não por correção drástica mas por acúmulo gradual de conhecimentos e o
aparecimento de novos princípios e pontos de vista. Entre os muitos sistemas em luta na
psicologia de hoje, este caráter tem também o seu lugar. Pois a ciência acha-se muitas vezes
levada por linhas convergentes de evidência, não para os extremos de uma alternativa bem
definida, mas rumo a uma posição, não necessariamente entre as duas, da qual percebe que
ambas têm a sua parte de verdade.

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A PSICOLOGIA DA GESTALT: WERTHEIMER,

KÕHLER, KOFFKA

Wertheimer (1880-1943); Kõhler (1887-1949); Koffka (1886-1941).


Se duas linhas, não muito afastadas uma da outra, são expostas de forma instantânea e
sucessiva a uma certa velocidade ótima, o observador não verá duas linhas, mas apenas uma só
movendo-se da posição da primeira para a da segunda. Não há movimento nem continuidade
no objeto externo; as duas linhas são estáticas e estão separadas no tempo e no espaço. O que
o observador vê, entretanto, é sem dúvida um movimento - e mais ainda, um movimento
notoriamente presente e não apenas deduzido; às vezes tão imediato e real como qualquer
coisa percebida diretamente pelos sentidos. Além disso, uma pequena mudança nas condições
externas altera completamente o caráter da percepção. Se o intervalo de tempo for
suficientemente reduzido, o paciente vê ao mesmo tempo duas linhas paradas, lado a lado; se
o intervalo for aumentado em grau suficiente, vê primeiro uma linha, e depois a outra,
separadas no tempo e no espaço.

A tentativa para explicar estes acontecimentos aparentemente simples foi, historicamente, o


ponto de partida da psicologia da Gestalt. Os fenômenos em si são bastante comuns;
verificam-se em todos os filmes cinematográficos. Naturalmente, os psicólogos sabiam, desde
algum tempo, que a percepção do movimento apresentava um problema, mas em 1910, Max
Wertheimer, trabalhando com situações como as descritas, viu o problema através de um
prisma que o levou a uma completa dúvida sobre os próprios fundamentos da ciência. Tornou-
se profundamente convencido de que as ex-

287

286

Edna Heidbreder

plicações habituais em função dos elementos sensoriais e suas combinações eram inteiramente
inadequadas; e que qualquer que fosse a experiência do movimento percebido, não era uma
composição de sensações visuais, nem um mosaico de partes combinadas, misturadas,
fundidas de alguma forma. Estava principalmente impressionado pelo fato de que as
explicações comuns não faziam justiça aos dados psicológicos na maneira em que são
imediatamente percebidos; e que não levavam em conta a simplicidade, a inteireza, a desunião
e a fluidez da experiência imediata. Para Wertheimer parecia que os psicólogos que acharam
satisfatórias as explicações existentes estavam ofuscados pelos modos de pensar habituais; e
que, partindo, como coisa natural, de idéia de sensações elementares, deixavam de considerar
o caráter real da experiência que se lhes deparava, em sua preocupação com a teoria que se
havia tornado tão corriqueira, a ponto de não ser posta em dúvida. A fim de se precaver contra
um erro dessa natureza, Wertheimer resolveu dar um nome especial à experiência que estava
pesquisando. Portanto, denominou a impressão do movjmento aparente de fenômeno phi, em
parte para isolá-lo como um fato único a ser explicado, e também para designá-lo por uma
palavra neutra que não o envolvesse com as teorias existentes.

O seu problema, além disso, tinha implicações fisiológicas. Tendo posto em dúvida a
explicação da percepção como uma soma de sensações, duvidou também da concepção dos
processos fisiológicos correspondentes como sendo uma soma de atividades em unidades
neurais separadas. Para Wertheimer parecia que nem o processo psicológico ou o fisiológico,
nem a percepção ou a excitação nervosa poderiam ser concebidos como uma simples soma de
partes; e que o processo cerebral, assim como a percepção, deveria ser um todo unificado, não
sendo mais uma integração de atividades isoladas de unidades nervosas, distintas, assim como a
percepção é tampouco uma composição de sensações separadas.

Os dois psicólogos que serviram como sujeitos no estudo de Wertheimer, Wolfgang Kihler e
Kurt Koffka, tornaram-se tão convencidos quanto aquele de que a psicologia mais antiga era
totalmente imprópria para os fatos deste caso - e na Alemanha, em 1910, a "psicologia mais
antiga" significava a psicologia experimental que trazia a marca wundtiana. Os três estavam
inteiramente cônscios de que tomando esta posição estariam se opondo a uma poderosa
tradição acadêmica. Sabiam que, ao atacarem o costume de

Psicologias do Século XX

explicar os fenômenos psicológicos em função dos elementos e suas combinações, estavam


atingindo os próprios fundamentos da ciência. Assim, a psicologia da Gestait na Alemanha,
como também o behaviorismo nos Estados Unidos, surgiu conscientemente como uma
psicologia de protesto.

Este protesto não era suave em caráter nem limitado em seu objetivo. A nova escola exigia
nada menos que uma completa revisão da psicologia. Os chefes do movimento viram logo que
o problema existente no fenômeno phi estava presente em outros casos comuns de percepção.
Por exemplo, estamos vendo sempre certos objetos como retangulares - tábuas de mesa,
molduras, portas e janelas, folhas de papel; porém, somente em casos realmente excepcionais
a imagem projetada na retina é realmente retangular. Vemos um objeto preto à luz solar como
preto, e um objeto branco na penumbra, como branco, mesmo quando as condições tenham
sido cuidadosamente dispostas de forma que fisicamente a mesma porção de luz seja refletida
pelos dois objetos. Vemos um homem como tendo a mesma estatura, esteja a cinco ou a dez
jardas de distância, embora num caso a imagem na retina seja quatro vezes maior do que no
outro. Em todos esses casos, assim como no fenômeno phi, e em milhares de outros idênticos, a
diferença óbvia e quase desenhável entre

o caráter da percepção real e o do estímulo sensorial local põe em evidência o problema que,
na opinião dos gestaltistas, a escola antiga havia sido completamente incapaz de resolver. E os
mesmos casos mostram com a máxima clareza a dependência da percepção da totalidade das
condições estimulantes.

Os gestaltistas naturalmente se apoderaram de casos desta espécie em apoio de sua tese de


que as antigas explicações haviam praticado um erro desastroso; e que haviam deixado de levar
em conta as próprias qualidades que pretendiam explicar - o movimento realmente percebido,
a retangularidade, a diferença de brilho e a constância em tamanho. certo, afirmam os
gestaltistaS, que, em nenhuma dessas percepções, a experiência real é apresentada como um
conjunto de elementos ou como uma soma de partes. A própria percepção mostra um caráter
de totalidade, uma forma, uma Gestalt, a qual é destruída na própria tentativa de ser analisada;
e esta experiência, na maneira direta em que se apresenta, constituiu o problema para a
psicologia. É esta experiência que apresenta os dados brutos que a psicologia deve explicar, e
que nunca deve se cansar de explicar satis
PscoZogios do Século XX

289

288

Edna Heidbrecler

fatoriamente. Começar com elementos é principiar pelo lado errado; porque os elementos são
resultantes da reflexão e da abstração, remotamente derivados da experiência imediata que se
lhes pede para explicar. A psicologia da Gestalt tenta remontar à percepção ingênua, à
experiência imediata "não corrompida pela aprendizagem"; e insiste em encontrar aí não uma
montagem de elementos, mas conjuntos unificados; árvores, nuvens e céu, em vez de massas
de sensações. E convida quem quiser para verificar esta afirmação, apenas abrindo os olhos e
vendo o mundo que o cerca, na forma comum da vida diária.

A Gestolt, é importante observar, é um todo que não é apenas a soma de suas partes. É
essencial para as partes e básico para as mesmas. A Gestalt não pode ser imaginada como uma
composição de elementos, declaração esta que os gestaltistas procuraram imediatamente
provar pela evidência experimental. Suas primeiras pesquisas foram feitas no campo da
percepção, porém, logo se estenderam a outros campos. A aprendizagem, a memória, o
discernimento (insight) e as reações motoras foram todos estudados como atividades que não
eram simples integrações de ações parciais. Toda a matéria da psicologia foi arrastada por este
movimento, e a escola, que havia começado como uma tentativa para justificar um certo
problema de percepção visual, acabou por exigir uma revisão completa dos princípios
fundamentais da ciência. E não parou, de fato, com a psicologia em si, mas expandiu os seus
princípios até às ciências físicas.

Não existe uma palavra inglesa (ou portuguesa) que corrresponda exatamente à alemã
Gestalt. Várias traduções. entre elas "forma", "contorno" e "configuração", foram propostas,
mas nenhuma delas foi aceita sem reservas. "Contorno" foi criticada por dar idéia de um
campo limitado, o visual. "Configuração" foi usada, porém com muita precaução, talvez
porque a sua derivação sugere, embora de leve, uma composição de elementos que é a
própria antítese da Ges&lt. "Forma" é, sem dúvida, a mais aceita, e estí tendo um uso
generalizado; mas, ao assim fazer, está adquirindo significados secundários derivados do
alemão Gestalt.

Segundo Kôhler, Gestalt é usada de duas maneiras em alemão. Às vezes, indica contorno ou
forma como uma propriedade das coisas; outras vezes, indica "uma entidade real, individual e
típica, existindo como algo à parte e tendo um

contorno ou forma como um de seus atributos". 1 Os dois usos exigem alguma explicação.
Como uma propriedade das coisas, Gestalt é usada com características, tais como a quadratura
ou a triangularidade das figuras geométricas, ou a aparência espacial diferente dos objetos
concretos, tais como mesas, cadeiras e árvores. É aplicada também às características das
seqüências dentro do tempo, tais COmo melodias, OU das que são tanto espaciais como de
tempo, como dançar, andar, arrastar-se ou pular. Neste sentido, Gestalt significa as
propriedades menos específicas das coisas, as qualidade expressas por adjetivos, tais como
"angular" ou "simétrico" em relação às figuras espaciais; "maior" ou "menor", às frases
musicais; "gracioso" ou "desajeitado", a movimentos, como andar e dançar. Tais propriedades,
é importante observar, nunca podem estar presentes lia experiência "punctiforme". Não são
circunscritas; abrangem, de alguma forma, "totalidades" extensas.

No segundo sentido, sendo aplicada a uma entidade que tem forma, a palavra Gestalt refere- se
a triângulos ou quadrados em contraste com a triangularidade e a quadratura, e a mesas e
cadeiras em contraste com as formas características daqueles objetos. Neste sentido, Gctalt
refere-se à qualquer "todo" separado e circunscrito. Segundo Kihler, há uma tendência para
preferir este significado do termo, uma yez que o mesmo processo que descreve a formação dos
todos, também explica as suas propriedades. Novamente devemos observar que a aplicação
desta palavra não se restringe ao campo visual, ou mesmo ao sensorial como um todo. O
aprender, o pensar, a luta, a ação, todos foram tratados como Gestulten. O conceito introduziu-
se em todo o campo da psicologia. Foi mesmo ampliado além de suas fronteiras. Kõhler vê
Gesto Iten nos processos biológicos como a ontogênese e nos processos físicos como a
polarização de um elétrodo. Na evolução das estruturas orgânicas a partir do protoplasma não
diferençado, e na padronização de um campo elétrico em pólos positivo e negativo, Kõhler
encontra a prova de que a natureza física, assim como a experiência psicológica, é imaginada e
"formada".

O estudo de Wertheimer 2 sobre a percepção do movimento aparente, editado em 1912, foi a


primeira publicação da escola da Gestalt e Wertheimer é, portanto, considerado o

1 WK(jhler, Gestait PsyChOiO9y, 191-194.

'2 M. Wertheimer, Experimentel]e Studlen Uber das Schen von Be\egungen", Zeitschrft fir
Psyehologw, 61, 161-265.

Edno Hcidhretjer PStCOtOgí(Ls (10 Sëculo XX

291

seu fundador. Porém, Kihler e Koffka, ambos iritimamente associados ao movimento desde o
inicio, não foram menos ativos do que ele ao elaborar os conceitos da Gestalt e ao organizar a
nova escola. Koffka dirigiu imediatamente seus esforços e os de seus discípulos para OS
problemas da percepção visual do movimento. Aplicou também os princípios da psicologia da
Gesfalt aos problemas do desenvolvimento mental. Kiihler é talvez mais conhecido nos Estados
Unidos pelo estudo relatado em seu livro Thc Menfolitq of Ajus. Este estudo foi feito na ilha de
Tenerife, para onde havia si(lQ mandado, para realizar esta pesquisa, pela Academia Prussiana,
e onde ficou isolado durante os quatro anos da Primeira Guerra Mundial. O ambiente na ilha era
extremamente favorável a um estudo completo dos nove macacos que eram seus pacientes, e
quantidade enorme de informações sobre os seus hábitos foi trazida à luz. Porém, talvez a
maior contribuição desse estudo, talvez o maior desafio do ponto de vista da
psicologia contemporânea tenha sido a aplicação do conceito da Gestalt aos processos mentais
mais elevados nos animais - à maneira pela qual os macacos resolveram problemas, e
mais particularmente à sua "compreensão repentina" de uma situação. * Kõhler é conhecido,
também, pela sua aplicação da teoria da Gestult à biologia e à física.

Além disso, ambos foram notavelmente eficientes ao apresentar as novas idéias perante o
público de língua inglesa. Koffka publicou vários artigos em inglês. Um de seus estudos,
especialmente, um relatório da literatura experimental da escola da Gsta1t, teve influência
notória no despertar o interesse dos psicólogos norte-americanos. Realmente, é em grande
parte devido a Kõhler e a Koffka que existe o atual interesse por este movimento nos Estados
Unidos. Ambos lecionaram naquele país e Koffka está atualmente realizando pesquisas no
Smith College. Os três livros mais lidos rios Estados Unidos sobre este assunto são The Grouth
o! the Mmd, (le Koffka, e The Mentality of Apes e Gestalt l's!/ehology, de Kihler, sendo este
último uma exposição geral destinada ao leigo, bem como ao psicólogo profissional.

N. da Editora: A essa eapaidade de penetrar a essência de um problema, de compreender, de


repente, uma situação deu-se o nome de "insight" palavra que tem sido usada sob esta forma
em nossa lingua

3 W. Káhler, Die physsschen Gestalts'n in Ruhe und it station(zres Sus tand, 1920.

4 K. Koffka, "Perception: an Introduction to the (Jestalt-tkeorie", Pstjchoiogicaj Builetin (1922),


19, 531-585.

Naturalmente, os problemas que deram origem à escola da Gestult não haviam passado
completamente despercebidos aos antigos psicólogos. Tornou-se realmente moda descobrir
antecipações da psicologia da Gestalt na obra dos antigos autores - como também antecipações
do behaviorismo. da psicanálise e de tudo o mais. Não é de todo surpreendente que tais
antecipações tenham ocorrido, e que os problemas tratados diretamente por uma determinada
escola tenham atraído a atenção, embora às vezes de modo vago e superficial, de outros
especialistas no mesmo assunto. As antecipações, de certo modo, evidenciam a autenticidade
do próprio problema, mostrando que nele havia algo realmente. Além disso, ao lado de seu
significado sob este ponto de vista, as antecipações de um conceito muitas vezes o ampliam à
luz das semelhanças e contrastes. Isto é especialmente verdadeii'o em relação a duas das
antecipações da psicologia da Gestalt.

Uma delas se concentrou na questão da "qualidade da forma" ou Gestaltqu(' litÜ t. problema


que despertou considerável atenção ria segunda metade da década de 1890 e chegou a
provocar o crescimento de uma escola de psicologia, a de Graz. A idéia da qualidade da forma
realmente remonta a 1845, mencionada que foi no livro The Aralysi.s' of Sunsationx, de Ernst
Mach. A sua principal tese era a de que a sensação constitui a base de toda a ciência, tanto
física como psicológica; mas, no caso em questão, o ponto significativo de seus ensinamentos é
o que admitiu sensações de espaço -form e senso çies de tempo-forma. Isto é, Mach incluiu,
entre as sensações, padrões espaciais, tais como figuras geométricas, e padrões de tempo,
como melodias, que são independentes, quanto à forma, de qualquer das qualidades senso-
riais particulares, como a cor e a intensidade, nas quais elas aparecem. Esta idéia foi
desenvolvida por von Ehrenfels, que em 1890 lhe deu a formulação pela qual é mais
largamente conhecida. Von Ehrenfels deixou claro que existem qualidades na experiência não
explicadas pelas propriedades das sensações geralmente aceitas. Chamou as mesmas de
(;(t&tq1wtitãten ou qualidades da forma. O exemplo clássico é o da melodia, uma forma
temporal ou padrão que é independente dos elementos particulares de sensação dos quais se
compõe. Em outras palavras, uma melodia pode ser tocada em claves diferentes, em
instrumentos que diferem em timbre, com diversas intensidades de som, e continua a ser a
mesma melodia, perfeitamente reconhecível através de

292

Edna Hedbreder

todas as mudanças. A melodia é, portanto, "transponível":

é independente das sensações próprias nas quais ocorre; pode surgir em um outro conjunto no
qual nenhum elemento do primeiro esteja presente. O mesmo é verdade quanto ao padrão
espacial. Um triângulo, assim como urna melodia, também pode ser "transposto". As linhas de
que é formado podem ser curtas ou longas; podem ser pretas, vermelhas ou azuis; e contudo, a
figura continua sendo um triângulo. O problema da forma é assim definitivamente apresentado.
A forma indiscutivelmente é. porém, mo está em nenhum dos elementos da sensação. Para vou
Ehrenfels e para a escola de Graz, que adotou o problema, isto significava que a forma é em si
mesma um elemento, mas um elemento que não é uma sensação. É um novo elemento criado
pelo intelecto atuando nos elementos sensoriais. Estes são indispensáveis. A partir dos
mesmos, o intelecto cria a forma. Para a escola de Graz, portanto, a forma era um flOvo
eiemeiito, formado na base das sensações, uma criação por ato do intelecto. Os psicólogos que
adotaram esta idéia resolveram o problema sem rejeitar elementos, mas acrescentando um
novo, derivado de forma diferente. Diferiam dos wuridtiat- ios não por negar os elementos, mas
pelo acréscimo de elementos que os wundtianos não incluíam, e que eram gerados pelos atos
mentais que eles não admitiam.

Outra antecipação da psicologia da Gestolt deu-se com o Protesto de William ,James contra o
elen1entarismo. Não é preciso repisar o fato de que James considerava os elementos dos
associacionistas como abstrações artificiais, e que na sua insistência de que a COflSciência é um
fluxo, não urna seqüência ou um mosaico, salientava não somente a continuidade da
experiência, como também o fato de que a continuidade é priniacial. Para James, as distinções
são secundárias. As "coisas" são deslindadas, para fins parciais e práticos, do fluxo da
experiência, que é inicialmente "uma grande, exuberante e barulhenta confusão". A concepção
de James é assim muito diferente daquela de von Ehrenfels. Este começava com elementos e
terminava com novos elementos; James principiava com continuidade e terminava com objetos
retirados de seu contexto pelas necessidades práticas e finalidades da vida.

A psicologia da Gestalt discorda enfaticamente dessas duas interpretações. E também da


escola de Graz porque é inteiramente oposta ao elementarismo. Embora perfeitamente de
acordo com o argumento de que a forma é essencial-

Psicologia8 do Século XX

293
mente diferente dos elementos sensoriais geralmente aceitos, de que é transponível, e que
não pode ser reduzida aos próprios elementos, a psicologia da Gestalt não soluciona o
problema pelo acréscimo de novos elementos. Discorda de James em sua crença de que as
coisas, objetos, unidades de toda espécie, são criadas por terem sido arrancadas de seu
contexto. Acredita em totalidades, mas em totalidades segrega4a s - que são assim desde o
início. Quando olhamos para o mundo, dizem os gestaltistas, vemos objetos definidos, tais
como árvores e pedras, que são percebidos tão distinta e rapidamente de seus arredores,
quanto a cor verde é vista diferente da cinzenta.

Porém, estas diferenças de opinião são apenas ocasionais. É a psicologia experimental do tipo
wundtiano que os gestaltistas consideram a sua maior inimiga, e foi com referência a esta que
se tornaram logo independentes e estabeleceram o seu programa. Viam na "teoria do
significado" daquela escola um ótimo exemplo de seus vícios, e como resultado, uma das
melhores maneiras de compreender o ponto de vista dos gestaltistas é examinar as objeções
que eles apresentam contra aquela teoria.

O caso da persistência da forma na percepção servirá para fins de exemplo, tão bem como
qualquer outro. Como todos sabem, uma pessoa sentada a uma mesa retangular vê a parte de
cima desta realmente retangular, da mesma maneira què a vê quando está de pé ao seu lado,
ou olhando para a mesma de certa distância. Porém, em nenhum desses exemplos, a imagem
na retina é em si mesma um retângulo. Pode ser demonstrado em laboratório que a imagem na
retina é, em cada um desses casos, um quadrilátero irregular, e que varia de formato conforme
a posição dos olhos em relação à mesa. A psicologia, então, tem que responder à pergunta:

De que modo a percepção real se relaciona com uma imagem retinal tão diferente de si
mesma?

De acordo com a teoria do significado, a essência do que é percebido é a massa de sensação


correspondente exatamente a este quadrilátero irregular de pontos da retina, incluído na
imagem projetada ponto por ponto na mesma, pelo objeto. Porém, a superfície da mesa não é
realmente vista como um quadrilátero irregular porque tais sensações visuais foram associadas
repetidas vezes com outras experiências; porque a pessoa aprendeu, através de incontáveis
acontecimentos do mesmo tipo, que os objetos daquele formato aparente, colocados na
mesma relação com os olhos, são de

294

Edna Hedbreder Psicolouius do Século XX

95

fato retangulares. Os movimentos dos olhos, as impressões táteis, os movimentos gerais do


corpo, e centenas de outros acontecimentos também contribuíram. Uma experiência após
outra foi acumulada, até que os itens isolados se tornaram tão intimamente interligados e,
dessa forma, imediatamente associados com um estímulo sensorial específico, que todo o
conjunto é atingido quando o ponto central da sensação é despertado. Todavia, tudo se
resume em elementos e associações. O centro de sensação adquiriu um contexto elaborado;
esse contexto é significado; e este caracteriza o que é percebido.

Tudo isso, de acordo com os gestaltistas, é um excelente exemplo do que a percepção não é. A
sua primeira objeção é dirigida contra a doutrina do elementarismo. A psicologia da Gestatt
assume uma posição inequívoca contra a idéia de que os elementos, como existem na realidade,
sejam o material que forma uma percepção ou outra qualquer experiência psicológica. Nega
positivamente que os elementos reunidos, misturados, fundidos, ou associados de qualquer
maneira, produzam as percepções que realmente vemos. Um núcleo de sensações, formando o
centro de uma multidão de imagens ou de quaisquer outros processos elementares,
simplesmente não é o que percebemos de imediato. Wertheimer empregou o termo "hipótese
de ligação" para caracterizar a teoria segundo a qual a experiência é uma composição de
elementos; e os gestaltistas dirigiram grande parte de sua crítica, principalmente nas primeiras
fases da sua luta, contra esta concepção. Os elementos, têm eles afirmado amiúde, existem
somente como resultadoa da análise. Em lugar de surgirem de imediato como material primitivo
que constitui a experiência, são encontrados somente após uma reflexão completa e como
resultado do que é reconhecidamente uma atitude especial, ou seja, a do introspeccionista
treinado. Um exame direto da experiência não revela nenhum elemento - segundo Kõhler,
"coisas diminutas locais que ninguém jamais viu". Além disso, o conceito de elementos é
discutível porque não nos deixa ver aquilo que realmente existe. Ficamos tão concentrados em
reduzir a percepção a seus elementos, que a alteramos, a destruímos, e privamos de sua
integridade e singularidade, na tentativa de fazê-la harmonizar- se com um plano preconcebido.
O elementarismo não nos dá apenas uma visão falsa; ele se interpõe em nossa observação
direta daquilo que realmente vemos.

Um segundo protesto, realmente já subentendido no primeiro, dirigido contra o


associacionismo. Os elos de conexão, assim como os próprios elementos, são irreais. Os
"laços" são mantidos por simples liames verbais, por meras "e-conexões", para usar outra
expressão de \Vertheimer. O erro dos elementos tem como conseqüência necessária o erro
das associações. Se a experiência é dividida em partes artificiais, algum meio artificial deve ser
concebido para juntá -la novamente, e o resultado são os elos de associação. Com a negação
dos elementos e da associação, a teoria do signif icado é naturalmente rejeitada; ou melhor,
quando despojada de seu conteúdo, os elementos e as conexões, ela entra inevitavelmente em
colapso.

Uma vez que os elementos e associações e a hipótese de ligações foram rejeitados, não é de
admirar que os gestaltistas estejam bem alertas contra os perigos da análise. O intelecto,
atuando sobre a nossa experiência, pode separá-la em partes; porém, daí não se conclui que a
experiência tenha realmente se formado das partes nas quais foi dividida. Pelo contrário, os
gestaltistas insistem que o resultado da análise não é inteiramente o mesmo que o da
experiência inicial. A análise altera os dados que destaca para examinar; destrói a própria coisa
que a ciência tem por função explicar. O caráter global e a sua singularidade perdem-se na
dissecação, assim como um músculo deixa de o ser, quando é cortado em pedaços para ser
estudado no microscópio. E mesmo se um músculo for dividido menos artificialmente, se for
dissecado em partes reais e naturais, em suas fibras musculares que podem ser vistas como
partes reais da estrutura, ele deixa de ser músculo. Ninguém tentaria explicar o que é um
músculo dizendo que provém da soma de tais partes, artificiais ou naturais, reunidas como
estavam antes. Entretanto, coisa muito parecida com tal tentativa é feita por uma psicologia
que explica o seu material como sendo realmente composto de elementos nos quais possa ser
dividido.

Um quarto protesto mal pode ser feito à parte dos outros, porque os apóia e inclui. É o ataque
feito à "hipótese de persistência". Conforme a escola gestaltista, esta hipótese se difunde no
pensamento psicológico sem ser definidamente admitida. Supõe uma localização estrita no
estímulo sensorial, uma relação ponto por ponto entre o estímulo periférico e a experiência
imediata. Enquanto houver uma correspondência entre os dois, supõe-se que nada existe para
ser explicado; e quando surge uma diferença, arranja-se uma

296

Edna Heicibreder

explidação que mantém a correspondência por meio de algum liame medidor.

No livro Gestait Psychology. Kohler expõe, com o máximo cuidado, a hipótese de persistência.
Tão delicadamente como um cirurgião sondando um ferimento grave, ele disseca o tecido do
pensamento, onde jaz mergulhada a hipótese de persistência. Novamente a mesa retangular
pode ser usada como exemplo. Este objeto, como foi dito muitas vezes, geralmente parece
retangular e, todavia, é bem possível ver a superfície da mesa como o quadrilátero irregular
descrito pelo introspeccionista. Qual dessas é a experiência sensorial real ou verdadeira?
Naturalmente ambas são reais no sentido de que as duas se verificam na experiência.
Certamente é possível ver a mesa tanto como o senso comum a vê, quanto sob a forma em
que o introspeccionista treinado a observa. Porém, qual delas é a mais real? Qual é a
verdadeira experiência psicológica? A pergunta quase l)Ode ser feita assim: Qual é a real e qual
a ilusória?

De acordo com o introspeccionjsta treinado, a verdadeira experiência sensorial é aquela à qual


ele chega por meio de sua atitude especial: o núcleo da sensação ao qual aderem as
contribuições secundárias do significado. Mas é certo, salieiita Kõhler, que do ponto de vista do
senso comum, exatamente essas experiências é que são excepcionais. Vemos a mesa como
sendo retangular, praticamente milhares de vezes para cada vez que a vemos como
quadrilátero irregular, e essas milhares de experiências são as que realmente usamos quando
nos referimos às mesas. Além disso, a mesa do introspeccionista tem valor secundário, porque é
derivada da percepção que ocorre imediata e espontanearnente, provenieiite do tipo de
experiência que tanto o senso comum quanto a ciência devem tomar como ponto de partida.
Isso não quer dizer que o senso comum faça objeção à teoria do significado. Pelo contrário, ele
a aceita imediatamente como inteiramente razoável. Chega mesmo a mencioná-la quando
depara com os fatos. O senso comum não se surpreende em absoluto com o aspecto que a
explicação tomou; apenas fica surpreso de que haja tão grande diferença entre a experiência
diária que conhece tão bem e o caráter do "verdadeiro" estímulo sensorial que constitui a sua
base.
Kohler considera muito significativa esta surpresa. Evidentemente, é muito natural supor que
exista uma correspondência ponto por ponto entre a experiência imediata e o estímulo
periférico - tão natural que quando se mostra

Psicoloçjiaç do Scu1o XX

297

a diferença entre os dois, procura-se imediatamente uma explicaçao para restaurar a


concordância. É esta tendência que se expressa como a hipótese de persistência; e, baseada
como está numa disposição fundamental de nosso modo de pensar, esta hipótese foi aceita
como provada. Existe na psicologia como pressuposto não testado, e descobrir uma suposição
não testada na base de urna ciência equivale a revelar um escândalo científico.

De fato, não há prova, insiste Kiihler, pelo menos na grande maioria dos casos, de que as
experiências explicadas pela teoria do significado ocorram porque realmente adquiriram
significado. É verdade que existem uns poucos casos onde é possível mostrar que o significado
foi acrescentado a algum núcleo central. O símbolo + inegavelmente é aceito corno "mais", e
isto acontece claramente porque esta noção foi aprendida. Porém, exemplos deste tipo não são
a regra geral. A teoria do significado nunca foi demonstrada quanto às mil e uma percepções da
vida diária para as quais é aplicada sem hesitação. Um extenso aprendizado teria de ser feito,
se a teoria do significado fosse verdadeira, antes que um objeto complexo, como é o rosto
humano, pudesse ser reconhecido como sendo o mesmo de todos os pontos
de vista e em todas as condições possíveis de luz e sombra; todavia, o rosto humano é uma das
primeiras coisas que a criança mostra sinais de reconhecer. E este é apenas um exemplo entre
muitos. A teoria do significado foi aceita não porque seja apoiada por provas, mas porque a
necessidade de provas não foi sentida.

Porém, quando esta circunstância é apresentada ao introspeccionista, é quase certo que se


mostre ressentido; e, para Kihler, o ressentimento do introspeccionista é tão significativo como
a surpresa do senso comum. Ambos significam que os fundamentos da convicção foram
atingidos. A psicologia tradicional aceitou a teoria do significado com todas as suas implicações,
apenas porque se baseia numa tendéncia muito natural do pensamento humano que, quando
tornada explícita, é exposta como a hipótese de persistência. Essa própria hipótese foi aceita
sem discussão - mesmo sem ser reconhecida - e toda a superestrutura erigida sobre ela se
apóia num alicerce que nunca foi testado.

Uma quinta objeção que a psicologia da Gestalt apresenta contra as suas rivais é dirigida
contra a fisiologia delas. É, de certo modo, uma objeção ao emprego da hipótese de
persistência à atividade do sistema nervoso. Pois, junta-

Edna Heicibreder

mente com o elementarismo, o associacionismo, a teoria do significado e a hipótese de


persistência, caminha a concepção que considera o sistema nervoso como um mecanismo
complicado de condutores separados. De acordo com esta teoria, as correntes nervosas fluem
a partir de pontos de estímulo de localização exata nos órgãos dos sentidos até aos órgãos
específicos de resposta, através de vias definidas no sistema nervoso nas quais as linhas de
condução são fixas e determinadas em todo o percurso. Em outras palavras, o sistema nervoso
é concebido analogamente a uma máquina construída pela mão do homem com "dispositivos
rígidos" - a expressão é de Kiihler - na qual cada parte é capaz de apenas uma espécie de
atividade. Esta concepção adapta-se de modo admirável a uma psicologia que trata com
elementos e associações, que expõe a teoria do significado, e que admite a hipótese de
persistência. Os gestaltistas muito naturalmente a rejeitam, junto com as teorias psicológicas
que a acompanham. As explicações fisiológicas propostas em substituição pelos gestaltistas
poderão ser melhor apreciadas, depois que os ensinamentos positivos daquela escola tenham
sido apresentados de modo mais completo.

Antes de examinarmos, todavia, estes ensinamentos positivos, convém observar que as


objeções que acabamos de debater são, com muita propriedade, todas relacionadas entre si; e
que todas fazem parte de forte e primordial objeção ao costume de explicar a experiência
psicológica em fragmentos. São partes de um protesto que é mais do que a soma das mesmas,
e que deve ser reconhecido como de máxima importância na psicologia da Gestalt. Pois, grande
parte do caráter do movimento da Gestatt, certamente em seus primeiros tempos, foi
determinada por estar anunciando uma revolução. A sua primeira tarefa consistiu em denunciar
as impropriedades da psicologia existente e o seu caráter insurrecional era
evidente. Quase na mesma época em que o behaviorismo lançou o seu desafio nos Estados
Unidos, a psicologia da Gestalt insurgiu-se contra a tradição estabelecida na Alemanha. Assim
como o behaviorismo, lutava de fato para abrir caminho contra a firme resistência de uma
tradição entrincheirada em suas posições. E assim como o behaviorismo definiu a sua posição
em grande parte em função daquilo a que se opunha, a psicologia da Gestait deu a tônica de
sua campanha ao declarar que era contra a ordem estabelecida. Su programa incluía a
proclamação de uma lista de proscrição, que se iniciava pelo elementarismo, o

Psicologuis do SéçuZo XX

associacionismo, a hipótese de persistência, a teoria do significado, a confiança na análise e a


concepção de um sistema nervoso na forma de mecanismo de dispositivos rígidos no qual vias
definidas e fixas ligam pontos também fixos e definidos.

É evidente, entretanto, considerando esta simples enumeração de protestos, que a psicologia


da Gestuit não surge com a aparência de retidão evidente, prática e de senso comum que deu
ao behaviorismo muito de sua popularidade. O homem comum compreende imediatamente o
que significa encarar o ser humano como se fosse máquina, e o que significa transformá-lo em
máquina melhor por meio de melhor ajuste de suas peças. Precisa somente utilizar os hábitos
de pensar já em seu poder, após rejeitar aqueles que lidam com a consciência; mas a psicologia
da Gestait não pode recorrer a medidas assim tão simples. Embora chamando a psicologia de
volta às experiências comuns, às claras observações da vida diária, começa imediatamente a
pesquisar por que aquela experiência tem essa forma, e assim se afasta do plano do senso
comum em sua tentativa de compreendê-lo e explicá-lo. É verdade que os behavioristas bem
como os gestaltistas começam a estudar o mundo como aparece à observação comum, e não
como surge para o introspeccionista treinado. Ambos fazem a psicologia passar do nível familiar
do senso comum para o mundo da percepção comum. A diferença está em que a psicologia da
Gestalt começa a examinar e a explicá-lo, e o
behaviorismo a manejá-lo e a agir sobre o mesmo. Em conseqüência, a psicologia da Gestait
tem maior probabilidade do que o behaviorismo de mergulhar o leitor dentro dos detalhes
técnicos fora do comum de um problema de laboratório - e que são desconhecidos, deve-se
observar, pois o behaviorismo também possui suas características técnicas e é tão insistente
quanto a psicologia da Gestalt na questão da pesquisa de laboratório. Os gestaltistas, por
exemplo, estão interessadíssimos em problemas de percepção, e se existe qualquer coisa que
uma pessoa mediana aceita como verdadeira são os objetos que se vêem e os sons que se
ouvem. O problema de como e por que essas coisas corriqueiras surgem desta forma são, para
o homem comum, coisas confusas e tolas. É certo que os processos do behaviorista parecem
mais práticos e mais inteligíveis. Mesmo quando lida com problemas de percepção, o
behaviorista age de uma forma que de imediato se recomenda ao senso comum. Se deseja
saber por quais órgãos dos sentidos (ou

298

299

sol

800 Edna Heidbreder

receptores) um rato encontra o seu caminho através de um labirinto, ele priva os ratos de seus
receptores, grupo por grupo, e em várias combinações, e observa em cada caso como foi
afetada a sua atividade. Se deseja saber se uma certa parte do cérebro é utilizada para ver,
remove ou dimiflui aquela parte e verifica o que acontece. Não se ocupa, como o gestaltista,
com as fases sutis da percepção humana em condições ligeiramente variadas que, para o
homem prático, parecem não fazer nenhuma diferença no mundo. Além disso, a psicologia da
Gestalt tem uma consciência da epistemologia que o behaviorismo acha uma virtude não
possuir. O behaviorismo resolve seus problemas epistemológicos introduzindo-se neles
brutalmente e assumindo o realismo do sênso comum. A psicologia da Gestalt, porém, escolhe
o seu caminho deliberadamente através dos labirintos da epistemologia, explicando os motivos
da sua fé. Dispensa grande cuidado ao estabelecer seu direito à sua posição; ou melhor, ao
mostrar que, do ponto de vista da epistemologia, sua posição não é inferior à das ciências
físicas. Finalmente, o fato de a psicologia da Gestait pedir ao leitor para abandonar o
seu antigo hábito de pensar em função de uma parte ligada à outra, deixa-o com a sensação de
espanto que naturalmente acompanha a mudança de antigas maneiras de fazer as coisas. A este
respeito, principalmente, a psicologia da Gestalt exige uma mudança que é com certeza mais
fundamental e íntima do que qualquer coisa sugerida pelo behaviorismo. Exige uma alteração
nos modos de perceber e conceber. O radicalismo do behaviorismo é principalmente prático e
moral, porém, a visão da Gestalt exige um reajuste intelectual. E exigindo, como faz, uma
mudança nos modos habituais de pensar, a psicologia da Gestalt carece da inteligibilidade
imediata de uma concepção que exige apenas um novo e notável reajuste dos antigos modos de
pensar.

Quando os gestaltistas apresentam o aspecto positivo de sua hipótese, novamente recorrem à


experiência imediata, ao mundo como é visto na percepção comum.
Quem quer que olhe para o mundo ao seu redor, dizem os gestaltistas, verá no campo visual
um certo número de objetos, talvez mesas, cadeiras, janelas e portas, ou quem sabe árvores,
pedras, água e nuvens. Porém, em todos os

5 É interessante observar que, na Alemanha, a psicologia da Gestatt tem sIdo muitas vezes
criticada por sua falta de complexidade eplsteinológlca, e nos Estados Unidos por um interesse
demasiado profundo pelos problemas epistemológicos.

Psicologia8 do Século XX

casos verá objetos, e há duas implicações para este simples fato. A primeira é a que ele não vê
conjuntos de sensações, mas sim totalidades unificadas. A segunda, é a que as totalidades são
isoladas e separadas de um fundo. Não são somente totalidades, mas totalidades separadas.

Os mesmos fatos podem ser demonstrados em termos ainda mais simples, onde as unidades
não são objetos no sentido em que a palavra é comumente utilizada. 6 Um exemplo disto é a
disposição das linhas na figura 1.

FIGURA 1

Neste caso, o observador, espontanealfleflte e sem sugestão, vê as linhas em grupos de dois;


porém, seja o agrupamento determinado por proximidade espacial ou pela propriedade de
incluir espaço, não pode ser determinado por este caso isolado. Não há dúvida, entretanto, de
que a tendência para formar grupos, e justamente esses grupos, é muito forte. Se o observador
tentar formar outros grupos, verifica quão forte é a tendência que age contra ele. É muito fáci1
formar

11

11

11

liii

'III

1111

FIGURA 2

6 Os desenhos seguintes foram adaptados de figuras usadas no livro de WerUielmer,


untersuchungen zur Lebre von der Gestalt, Ps,jckOlOgtSCke Forachi6flg (1923), 4, 301-350 e
também usados por Kóhler em '5ome Tasks of Gestalt Psycflology", Psyckologiei of 1930, 143-
160. O debate no texto, embora baseado em descriçôes de Wertheimer e Kdhler, não
pretende ser uma reprodUçãO resumida de suas expOSlCêeS. Foi modificado para se adaptar
às finalidades da presente obra.
302

Edna Hejdbreder

um único par com as linhas mais afastadas, porém, muita gente acha impossível ver realmente
este agrupamento sobre todo o campo visual.

Pode ser facilmente demonstrado que cada agrupamento está intimamente relacionado com a
percepção das totalidades e dos objetos. Se forem acrescentadas outras linhas, como na figura
2, o fenômeno do agrupamento torna-se mais pronunciado. Os grupos ressaltam mais
distintamente como unidades. Se os espaços forem assim completamente cheios com linhas,
de maneira a termos uma imagem contínua, como na figura 3, não há dúvida de que as
unidades cheias são unidades; e se os retângulos que elas formam forem projetados para a
frente de modo a formarem sólidos, tornam-se imediatamente objetos no sentido comum da
palavra.

FIGURA 3

PsLrniojias do Scu1o XX

303

sas reações, mas é tão intensa que quando a circunstância externa não está inteiramente
"formada", a reação psicológica tende a completá-la. A "completação" é um caso particular da
"lei da pregnância", de acordo com a qual a experiência, quer seja espacial ou temporal, e seja
qual for a região sensitiva, tende a assumir a melhor forma possível, de modo que as formas
tendem a se tornar mais exatas e mais bem definidas - a tornarem-se o que elas são, de modo
mais completo e típico.

A figura 4 exemplifica também um outro fato. Mostra que a formação de totalidades não é
uma questão de um único conjunto de fatores. Neste caso, incluem-se tanto a proximidade
espacial como a propriedade de completar o espaço. Para muitos, a tendência para formar
espaços fechados é maior nesta circunstância do que a de proximidade espacial. Entretanto, o
fato de ser possível ver três grupos de figuras como a seguinte 1 [, mostra que esta tendência
não é invariavelmente dominante. A figura 5 mostra uma disposição onde mais outro fator
determina o agrupamento. Neste caso, nem a proximidade espacial ou o espaço fechado são
decisivos; os grupos são determinados pela semelhança qualitativa de seus elementos.

Porém, supondo-se que a figura 1 seja alterada não pelo enchimento dos espaços, mas pela
adição de linhas horizontais, como na figura 4,

ooofl

FIGURA 5

oociH

FIGURA 4
a percepção agora muda. Há uma tendência diferente para considerar como unidades os
espaços mais largos, limitados pelos pares de linhas mais afastados, e para ver os colchetes
que se confrontam um com o outro, formando retângulos. Este fenômeno serve de exemplo
do princípio de "completação". Não somente há uma tendência para a "forma" em nos-

A percepção clara é fluente e plástica, são várias as condições que determinam a formação dos
grupos.

Qualquer dos arranjos apresentados nestas cinco figuras exemplifica um outro fato observado
pela psicologia da Gestalt, qual seja o da figura e fundo. Mesmo na figura 1 os pares de linhas
com seus espaços delimitados são figuras em comparação com o resto do espaço, que serve de
fundo. Este fenômeno torna-se mais claro à medida que o agrupamento fica mais estável, e é o
mais percebido de todos, em formas inteiras como os retângulos da figura 3. Em alguns
padrões, a figura e o fundo são reversíveis - um fato que é

304

Edita Heidbrecjer

exemplificado por muitos desenhos decorativos. Muitas vezes o efeito total é muito diferente
quando a figura e o fundo são intercambiados. A figura e o fundo apresentam características
diferentes. A figura parece mais sólida; ela se "destaca", O fundo é apenas espaço vazio.
Somente a figura é "formada". Por exemplo, na figura 3 os retângulos são vistos como formas,
e o fundo é apenas espaço. O fundo não é visto como uma superfície plana com retângulos
extraídos da mesma, como é geometricamente possível.

Grupos soltos e estáveis, figuras completas e incompletas, formas geométricas e objetos


sólidos - são todos Gestalten; e mesmo estes casos bem simples mostram os princípios que
fundamentam a experiência. Basicamente, existe a tendência para a experiência ser
"formada"; e para os componentes formarem grupos; para as figuras incompletas serem
completadas e tornadas mais definidas e exatas; e para o campo total ser organizado - quase
se poderia dizer estratificado - em figura e fundo. É como se um processo estivesse em
andamento em busca de um estado de equilíbrio, no qual as formas alcançam o máximo de
estabilidade e no qual a organização total é mais completa. Este processo não inclui a
composição de elementos. As formas que aparecem não podem ser explicadas em função de
um fragmento acrescentado a outro, O fato de duas linhas serem vistas como um par não
pode ser explicado tomando-se as linhas isolada- mente nem pela análise das mesmas em
fragmentos. É a disposição do campo total que determina que devam ser vistas em pares.
Pode-se ver mais depressa que é a configuração total que determina a experiência quando a
adição ou a alteração de uma única parte muda o caráter de toda a percepção. Gestaiten não
são estruturas rígidas compostas de unidades também rígidas; apresentam diversos graus de
estabilidade. É esta espécie de experiência que a psicologia deve explicar - não os elementos
justapostos no tempo e no espaço, mas sim a experiência na qual as totalidades "formadas"
surgem e tendem a surgir.

Talvez pareça forçado extrair tanta teoria sobre algumas linhas e figuras. Porém, a psicologia da
Gesta2t, deve ser lembrado, está sempre prevenida contra a teoria do significado, e ao usar
exemplos tão claros quanto possível, está evitando a crítica de que seu material apresenta as
características que tem porque o significado lhe deu previamente essas características. Os
objetos comuns da vida estão repletos de significado, o que não acontece com os espaços e
linhas

Pswologias cio Século XX

305

simples. Além disso, os gestaltistas, tendo apresentado seus princípios neste meio sem
sentido, não têm dificuldade em mostrar que os mesmos princípios fazem parte da experiência
diária.

Qualquer objeto é um todo isolado. Não é uma reunião de partes, e também não é uma porção
indistinta de uma continuidade não diferençada; é uma unidade separada e imediatamente
sentida como tal. Qualquer objeto com a sua base demonstra figura e fundo e, em alguns casos,
as diferenças típicas entre figura e fundo são especialmente flagrantes. Kõhler salienta que o
céu visível entre os edifícios de uma rua não é geralmente visto como
"formado". Todavia, com os contornos definidos que o cercam, o céu poderia muito bem formar
uma "figura" geométrica, embora, psicologicamente, raramente o faça. Geralmente, os edifícios
são vistos como formas, e o céu como fundo. Um mapa marítimo, também, mostra a
importância da figura e fundo. Muita gente, ao olhar pela primeira vez tal mapa do mar
Mediterrâneo, não o reconhece como tal. O contorno é, naturalmente, exatamente o mesmo
do apresentado num mapa terrestre; mas não é reconhecido porque, no mapa marítimo, o mar
é apresentado como a forma, e não apenas como fundo, como nos mapas terrestres comuns da
área mediterrânea. Neste caso, a inversão da figura e fundo altera tanto a percepção que um
contorno habitual não é reconhecido. Os psicólogos da Gestait estão também interessados nos
casos de formas embutidas, tais como as que se encontram nos quadros de quebra-cabeças, nos
quais um cão, uma boneca ou qualquer objeto comum devem ser descobertos em alguma parte
do desenho. Segundo os gestaltistas, estas formas
embutidas mostram o triunfo da organização sensorial imediata, sobre o significado; pois tais
formas possuem tudo o que a teoria do significado requer, e todavia não são reconhecidas de
imediato. Têm contornos vistos seguidamente na experiência; acumularam um grande
estoque de informação; todavia, perdem-se nestas circunstâncias.

O agrupamento, também, é visto de inúmeras maneiras na vida diária. Não é preciso


especificar os muitos exemplos nos quais o agrupamento dos objetos comuns segue os
princípios mostrados nas figuras do exemplo - distância relativa, a inclusão do espaço,
acabamento das formas sugeri7 A maioria dos exemplos que se seguem sào extraidos do livro
Gestalt

Psychology de Khler e The Growtk of the Mtnd de Koffka.

306

Edna Hei ci breder

Psicologias do Século XX
307

das, e assim por diante. O agrupamento pode ocorrer em formas mais sutis, mas nem por isso
menos reais. Se três homens estão empenhados numa discussão, dois contra um, os dois serão
vistos como um grupo e o terceiro como uma unidade separada deles. A atividade do debate
pode determinar a percepção da cena toda, e pode ser dominante sobre as outras condições,
tais como proximidade espacial e igualdade de raça ou idade.

Uma formação de Gestalt que seja temporal e espacial é exemplificada pela padronização da
experiência que se verifica quando uma pessoa está travando conhecimento com uma cidade
que nunca fora por ela visitada. Nem mesmo um único ponto de referência é visto isolado,
porém surge de um modo vago. Logo a seguir, alguns outros pontos de referência se
destacam, alguns lugares se tornam definidos, e aos poucos toda a cena ganha em clareza e
entrosamento até ser obtido um conjunto definido.

Muitos casos como esse abrangem a percepção visual, porém os Gestalten, naturalmente, não
se resumem ao campo visual. Um padrão simples de toques

exemplifica, no campo auditivo, vários dos princípios que acabamos de debater; o fenômeno
do agrupamento, no qual os conjuntos de três são ouvidos como todos isolados; o fenômeno
da figura e fundo, no qual os grupos de toques são as figuras e os intervalos de silêncio, o
fundo; o fenômeno da "completação", no qual existe a tendência em adicionar um toque ao
último grupo para formar grupo completo. A propósito, a passagem do padrão visual para o
campo auditivo, que é feita sem a menor dificuldade, exemplifica a "transponibilidade" da
forma e demonstra sua independência de qualquer conjunto especial de elementos.

O trabalho de Koffka sobre desenvolvimento mental fornece alguns exemplos muito


significativos de Gestalten não originalmente perceptuais. Os reflexos envolvidos nos
movimentos dos olhos, por exemplo, são explicados não em função de ligações nervosas de
um terminal a outro, como no esquema do arco reflexo típico, mas em função de atividades
num único sistema físico, no qual estruturas especiais, como a retina e os músculos, não são
partes independentes do aparelho, mas sim elementos de um todo no qual todas as partes
estão

intimamente relacionadas e respondem uma à outra, e no qual nenhuma parte deixa de ser
influenciada pelo que está acontecendo nas outras. Os instintos, também, são Gestalten. Uma
ação instintiva, insiste Koffka, não é uma cadeia de reflexos, nem uma simples sucessão de
atividades parciais, mas sim um processo contínuo, um todo unificado no qual cada atividade
parcial é determinada não somente pela atividade que imediatamente a precede, mas também
pela atividade total e cada fase da mesma - principalmente pela natureza do ato que finaliza o
processo. Uma das notáveis características do instinto, a sua tendência na direção de um fim ou
alvo, é um excelente exemplo de "completação" numa Gestalt temporal.
Os estudos dos macacos feitos por Kõhler mostram que os Gestalten ocorrem no processo de
resolver problemas. A resolução de um problema, Kühler considera uma ação contínua - nada
parecida com a fixação e a eliminação de liames definidos preexistentes de Thorndike, mas uma
atividade visando a um fim, e que é um todo contínuo, e na qual cada atividade parcial se ajusta
ao padrão total que é o único a lhe dar significado. Este fato torna-se aparente pelo
comportamento visível do animal. Na verdadeira resolução de problemas, os próprios
movimentos corporais formam uma seqüência temporal que mostra claramente continuidade,
direção no sentido de um objetivo, e conclusão. Porém, ainda mais importante é o fato de que o
ponto crítico na solução do problema, o "insight" da situação, é também concebido como a
formação de uma Gestalt. O "insight" é uma padronização do campo perceptual de tal maneira
que as relações importantes são óbvias; é a formação de uma Gestalt na qual os fatores
relevantes se ajustam em relação ao todo. Para apresentar a questão de modo mais definido,
um animal tem um "insight" de seu problema quando concebe uma caixa como algo em que
pode subir para alcançar uma fruta que está suspensa fora de seu alcance; ou quando, por
acaso, consegue juntar duas varas para formar uma só de comprimento suficiente para obter a
fruta que cada vara isolada é muito

curta para alcançar.

Finalmente, os Gestalten são encontrados em processos inteiramente fora do campo


psicológico. Em biologia, o processo da ontogênese mostra exemplos flagrantes. Neste caso,

8 Uma critica da teoria da aprendizagem de Thorndike representativa do ponto de vista da


Gestalt pode ser encontrada no livro de lCoftka The Growtk o! the Minei, 163-174.

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Paicologias do Sécu'o XX

309

Edna Heidbreder

o desenvolvimento ordenado das estruturas orgânicas definidas provenientes das primeiras


camadas do embrião fornece Gestalten temporais e espaciais bastante semelhantes àqueles
encontrados em psicologia. Apresentam a mesma seqüência bem ordenada, a mesma
continuidade, o mesmo avanço no sentido de um fim determinado, a mesma relação de
processos específicos com o todo no qual estão incluídos. A física, também, apresenta
Gestalten. Todos sabem que o óleo e a água não se misturam, e todos que viram as duas
substâncias permanecerem separadas uma da outra viram a formação de Gestalten físicos,
neste caso pela interação de forças físicas nos limites dos dois líquidos. Outro exemplo mostra
ainda de modo mais flagrante a formação de uma Gestalt física. Se um laço de fio de seda é
lançado sobre uma camada de sabão tão de leve, de maneira a não quebrar a camada, e se a
área abrangida pelo laço é picada por um alfinete, o furo resultante tomará a forma de um
círculo, seja qual for o formato original do laço. Neste caso, uma forma constante é sempre
produzida pela interação das forças físicas acionadas pelo furo do alfinete. Todo o sistema
solar, de fato, pode ser considerado como uma Gestalt, na qual nenhuma parte do mesmo é
independente do todo ou de qualquer outra parte, e em seu todo mostra uma padronização
tanto temporal como espacial em alto grau de organização que é mantido pela interação das
forças físicas. E em todos esses casos, tanto no sistema solar quanto na camada de sabão, no
crescimento dos órgãos do corpo, como no caso da água e óleo que não se misturam, o
processo é ordenado e a forma obtida sem qualquer mecanicismo visível para fazer isso - sem
nenhum dos arranjos especiais das estruturas mecânicas que costumamos ver nas máquinas
construídas pelo homem.

Sem arranjos especiais, deve-se principalmente observar. A frase é importante porque fornece
a chave para os princípios explicativos que os gestaltistas propõem para substituir aqueles que
rejeitam. A psicologia da Gestalt tem dificuldade para mostrar que os Gestalten físicos podem
ser explicados através da interação das próprias forças físicas, e que as estruturas rígidas que
caracterizam as máquinas construídas pelo homem não são essenciais. A rejeição do
mecanicismo é geralmente considerada como implicando urna aceitação do vitalismo; porém, a
psicologia da Gestalt, afirma-se claramente, é tão oposta ao vitalismo como ao mecanicismo. O
mecanicismo e o vitalismo ignoram o campo da dinâ mica

a parte da física que estuda a interação das próprias forças físicas; e é neste campo da ciência
física que a psicologia da Gestalt encontra a oportunidade de explicar os seus fenômenos. Uma
explicação física, salientam os gestaltistas, não é obrigatoriamente uma explicação mecânica; e
uma explicação não-mecanicista não é necessariamente uma explicação mística. Uma psicologia
que não pode aceitar a antiga noção do sistema nervoso como sendo uma máquina
- como um arranjo de unidades de condução fixas - não é expulsa das ciências naturais em
busca de uma explicação. Tem todo o campo da dinâmica à sua disposição.

Nas máquinas feitas pelo homem há dois conjuntos de fatores incluídos; as forças que as
propulsionam e os arranjos especiais que as fazem andar de uma certa forma. Na máquina a
vapor, a força é a pressão exercida pelo vapor; os arranjos especiais são o cilindro e o pistão
que se adapta ao cilindro. A máquina a vapor é típica das máquinas feitas pelo homem no
sentido em que a força é guiada pelos dispositivos rígidos que tornam a ação possível em
apenas uma única direção.

Os seres humanos são inclíhados a pensar que as forças da natureza - as chamadas forças
"cegas" - se abandonadas a si mesmas, produzem somente caos e destruição. Raciocinando por
analogia com suas próprias máquinas, eles supõem que se as forças naturais devem produzir
alguma espécie de ordem, precisam ser dirigidas segundo normas rígidas assinaladas por
dispositivos especiais. Os homens demoraram para crer que as forças da natureza, atuando
umas sobre as outras, podem, em si mesmas e por si, produzir harmonia e ordem.

E, todavia, as máquinas feitas pelo homem são apenas um caso particular dos sistemas físicos
em geral. Em todos os sistemas físicos existem dois conjuntos de fatores: as próprias forças e
aquelas propriedades do sistema que podem ser chamadas as condições invariáveis de sua
ação. Os dispositivos rígidos, tais como os encontrados nas máquinas, são apenas um tipo
especial de condições invariáveis; e nos sistemas físicos realmente encontrados na natureza,
existe uma enorme variação na influência relativa das forças reais e das condições invariáveis.
Às vezes uma predomina, e por vezes, a outra. As máquinas feitas pelo homem são um caso
excepcional, no qual os dispositivos rígidos são muitíssimo importantes porque excluem todas
a possibilidades de ação, menos uma. Em contraste, existe a ordem do sistema solar, que é
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Edna Heidbreder Psscologia8 do Século XX

311

mantida pela interação das forças físicas; neste caso, não há dispositivos rígidos - não existem
"esferas de cristal", como as da astronomia aristotélica, não existe estrutura alguma, de fato -
para manter os planetas em suas órbitas. E quando dois átomos se unem para formar uma
simples molécula, formam um todo bem ordenado, também sem arranjos especiais, somente
através da interação dinâmica.

A concepção do sistema nervoso, como um conjunto de condutores isolados por meio do qual
os impulsos nervosos são levados de um determinado ponto a outro ao longo de vias fixas,
corresponde à teoria da máquina. Um sistema concebido desta maneira é naturalmente uma
questão de dispositivos especiais; e como nas máquinas feitas pelo homem, os dispositivos
especiais - tecido fibroso especial, centros nervosos especiais, e coisas desse teor - são fatores
preponderantes. É a esta concepção que os gestaltistas se opõem. A psicologia da Gestalt
sustenta que a experiência revelada pela observação, padronizada, plástica e "formada" como
é, não pode ser obtida a partir de tais dispositivos rígidos; na interação das próprias forças
físicas, mais do que nas estruturas iguais à máquina que excluem todas as possibilidades,
menos uma, ela vê a explicação para o caso. A psicologia gestáltica supõe que exista no sistema
nervoso uma interação de forças análogas às da interação dinâmica, a qual, sem estruturas
especiais para restringir o seu raio de ação, produz organização no átomo e no sistema solar. O
gestaltista não pensa em função de sistemas de fibras ligando determinadas áreas sensitivas
com certos órgãos motores através de vias fixas no sistema nervoso central. Acredita que por
mais bem feitas e numerosas que as possibilidades de ligação se tornem, são inadequadas para
explicar a experiência como ela é. Pensa mais em função de padrões de forças para mudar e
em tensões como aquelas que dão a forma circular numa película de sabão. O sistema nervoso,
insiste ele, ou melhor, o sistema nervoso e seus anexos devem ser considerados como um
todo. O que acontece na retina, por exemplo, não pode nunca ser
considerado em si e por si mesmo; pois ela é apenas uma das superfícies do sistema nervoso, e
tudo o que nela acontece influencia e é influenciado pelo desenrolar total dos fatos no sistema
nervoso. É bastante significativo que a formação de Gestalten na experiência imediata é
determinada por fatores, como a distância relativa e as relações das propriedades qualitativas
- como se demonstra de forma mais simples pelos pares de linhas e outras figuras

dadas no início deste capítulo; pois são justamente tais fatores que a física acha serem decisivos
na interação das forças. Para os gestaltistas a concepção da atividade nervosa em função da
interação dinâmica parece não somente ser reclamada pelo caráter da experiência imediata,
como também apoiada pelos fatos das ciências físicas. Os detalhes da concepção não foram
formulados, porém, o contraste entre a teoria da interação dinâmica e a dos
dispositivos tipo máquina é claro e inconfundível.

É possível que tudo isso pareça muito pretensioso. É certo que os gestaltistas progrediram
depressa e avançaram muito. Começando com fenômenos especiais da percepção, ampliaram
os seus conceitos através de todo o campo da psicologia e mesmo além, na biologia e na física.
Surge a pergunta inevitável: Existe alguma prova em apoio dessas especulações?

Ninguém mais do que os próprios gestaltistas poderia estar a par mais seriamente da
oportunidade dessa pergunta, pois, embora apresentem o seu caso com desvelo, a sua escola
não é a do tipo que se estende em apresentação e argumento. Tomando como ponto de
partida um estudo experimental, a psicologia da Gestalt nunca pretendeu que seus problemas
pudessem ser resolvidos de qualquer outra maneira a não ser por um apelo à evidência
científica. Desde o início, os gestaltistas se aplicaram assiduamente à experimentação. Algumas
de suas pesquisas mais importantes foram sobre a percepção e, infelizmente do ponto de vista
da apresentação, a maior parte desse trabalho foi por demais técnico; porém, um experimento
de percepção, que é tão sim- pies na técnica como é típico no método geral, servirá de
exemplo do seu modo de atacar o problema.

Kõhier, fazendo experimentos com galinhas, acostumou-

-as a tirarem grãos de um papel de certa tonalidade de cinzento. Foram usados dois tons de
cinzento, sendo espalhados os grãos nos dois. Quando as aves apanhavam os grãos do
cinzento mais escuro podiam comê-los; quando apanhavam os do papel mais claro, eram
afugentadas. Às vezes, o cinzento escuro estava à direita e outras à esquerda do mais claro.
Finalmente, as galinhas aprenderam a comer os grãos do cinzento escuro.

9 A teoria que acabamos de esboçar é um breve relato da descric&o de Khler na Geatalt


Pychoiogy capitulo IV. Wertheimer da mesma maneira opôs-se à antiga teoria, substituindo-a
pela do curto-circuito cortical.

312

Edna Heicibreder Psicologias do Século XX

313

Esta parte do experimento foi apenas preparatória. Seguiu-se uma série de testes, que colocou
o problema crucial. Novamente os grãos foram espalhados em papéis de dois tons diferentes de
cinzento, porém, aquele que tinha sido o mais escuro na série preliminar era o mais claro
na nova série de testes. Se as galinhas agora comessem deste papel, estariam reagindo a um
elemento específico, a um cinzento determinado; se procurassem alimento no cinzento mais
escuro, estariam reagindo a uma situação global, a uma relação, ao lado mais escuro do
padrão. As galinhas reagiram apanhando, por via de regra, os grãos no lado mais escuro dos
dois cinzentos, e não no cinzento que haviam aprendido a preferir na série prévia, O seu
comportamento foi uma reação à cor relativa. Esta descrição dá apenas o esboço mais simples
do experimento e não faz justiça à maneira pela qual as condições foram variadas e controladas
de modo sistemático, nem ao exame feito dos problemas subsidiários. Mostra, entretanto, o
plano geral que é típico de muitos dos experimentos sobre percepção. As circunstâncias são
dispostas de tal forma que é possível reagir tanto a um elemento isolado, como à Gestalt total,
e as reações dos sujeitos decidem a favor de uma das alternativas.
Seguindo o mesmo plano geral, foram empreendidas experiências de reconhecimento para
determinar se um dado elemento ou a situação global são decisivos. Sobre a memória em geral,
a escola da Gestalt tentou mostrar, pelas suas próprias experiências e pela reinterpretação dos
estudos anteriores, que a organização integral, mais do que as associações específicas entre
certos elementos, deteimina se um certo conteúdo é conservado ou reproduzido. O trabalho de
K5hler feito com macacos é o experimento clássico sobre os processos mais elevados que
incluem o "insight". Kurt Lewin contribuiu com estudos sobre a ação e o comportamento. O
conceito de figura e fundo, que os gestaltistas adotaram, derivou do trabalho de Edgar Rubin.
Do princípio ao fim, a pesquisa ativa desempenhou sempre um papel importante no programa
da escola da Gestalt.

É significativo, além disso, que os gestaltistas tenham encontrado provas em favor de suas
teorias, fora do campo da própria psicologia. Os psicólogos norte-americanos têm estado
particularmente interessados no fato de que uma parte dos recentes trabalhos sobre biologia -
levados a efeito de modo completamente independente da escola gestáltica e sem qualquer
relação com seus ensinamentos - deu resulta-

dos que se coadunam com as teorias gestálticas. O trabalho de Child, por exemplo, mostra que o
estabelecimento de um gradiente fisiológico é da máxima importância quando se determina o
padrão do organismo em desenvolvimento; e que este padrão pode ser alterado, alterando- se
o gradiente. Isto significa, usando a terminologia dos gestaltistas, que o desenvolvimento de um
organismo é uma questão de forças e tensões cambiantes - de interação dirrâmica mais do que
dispositivos rígidos. O trabalho de Coghill atinge mais diretamente os problemas da psicologia.
Estudando o comportamento motor dos organismos em desenvolvimeito com relação ao
crescimento nervoso, Coghill descobriu no amblistoma que os movimentos do
corpo todo surgem primeiro, e que os movimentos exatos e restritos como os reflexos
aparecem depois, os mais limitados diferenciando-se a partir dos maiores no decorrer do
desenvolvimento. Minkowsky e colaboradores encontraram indicações do mesmo tipo de
desenvolvimento no feto humano. Examinando as reações de fetos abortados, descobriram que
as atividades dos menores e mais jovens eram difusas, abrangendo o organismo como um todo,
mas naqueles que apresentavam uma etapa mais avançada de desenvolvimento, podiam ser
conseguidos reflexos bem definidos.

Assim também os estudos de Franz e Lashley mostram, pelo método de extirpação nos cérebros
de animais e pelo método de reeducar os soldados portadores de lesões cerebrais, que a
destruição de áreas limitadas no cérebro não impede definitivamente o comportamento
comumente atribuído àquelas porções do cérebro; ou, novamente usando as palavras dos
gestaltistas, que não existem "disposições rígidas" obrigatória e invariavelmente incluídas na
execução de determinados atos. É de particular interesse observar, a esse respeito, que foi o
exame da experiência imediata, mais do que a pesquisa direta no próprio sistema nervoso, que
levou os gestaltistas à sua teoria da natureza da atividade nervosa. Tendo observado certas
propriedades na experiência imediata - sua organização, sua susceptibilidade à soma total dos
estímulos - e achando a teoria da máquina inadequada para explicá-las, desenvolveram uma
nova teoria em harmonia tanto com suas próprias observações quanto com as leis físicas
conhecidas. Em outras palavras, os gestaltistas preferiram a sua teoria principalmente' porque
ela fornecia melhor descrição dos fatos da experiência imediata, e não porque houvessem
feito experiências com o próprio sis

314

Edna Heidbreder

Psicologia8 do Século XX

315

tema nervoso. ° Ao trabalhar dessa forma, participaram em uma das mais interessantes
convergências de pontos de vista em psicologia. A semelhança entre a interpretação gestáltica
da atividade nervosa e aquela difundida por Lashley, entre a "interação dinâmica" e a "ação de
massa" é imediatamente percebida, como também o fato de que esta prova fornecida por duas
fontes é complementar. É altamente significativo que dois planos de trabalho tão diversamente
motivados e surgindo de problemas e pontos de vista tão diferentes, chegassem tão próximos
um do outro; e que uma teoria da ação nervosa baseada, como era o caso, de acordo com a
observação da experiência imediata, concordasse tanto com uma teoria que, baseada na
experimentação direta com o próprio sistema nervoso, da mesma forma rejeitava a teoria da
ação com localização definida ao longo de caminhos rigidamente determinados e substituía o
conceito de ação de massa.

Do debate precedente é óbvio que a psicologia da Gestalt reconhece o comportamento e a


consciência, e que não tem qualquer dúvida em dirigir suas observações seja para o mundo
físico ou para a experiência imediata. Mas, para os estudiosos norte-americanos, qualquer
descrição desta escola parecerá vaga e imprecisa até que ela declare expressamente a posição
dos gestaltistas com relação a dois pontos de referência que se tornaram tão comuns, o
estruturalismo e o behaviorismo.

De diversos modos, a psicologia da Gestalt se opõe a ambos. A psicologia experimental


tradicional da Alemanha, da qual o estruturalismo titcheneriano foi o representante norte-
americano, era, naturalmente, o inimigo figadal na opinião dos gestaltistas; e mesmo hoje em
dia, várias décadas após sua declaração de independência, * se qualquer animosidade
perceptível se insinua nas palavras dos gestaltistas, é mais provável que se encontre em seus
ataques à escola titcheneriana do que a qualquer outra. A sua objeção, é quase desnecessário
dizer, é contra o elementarismo da escola e os hábitos de pensamento que o mesmo implica e
não contra a tentativa de estudar a consciência. A psicologia da Gestalt aceita a

10 Isto não significa, naturalmente, que os gestaltistas agiram sem considerar os trabalhos
sobre a fisiologia do sistema nervoso. Em especial, Os estudos alemães baseados nas vitimas
da guerra vieram em apoio de suas idéias. As suas próprias contribuições tipicas, entretanto,
Provieram dos estudos experimentais dos próprios processos psicológicos.

* N. da djtora: Para a exata cronologia da psicologia da Gestalt, ver as datas das Obras citadas
na bibliografia deste capitulo.
experiência imediata como dados concretos nem um pouco menos discutíveis do que os dados
brutos das ciências físicas. Ela se opõe, entretanto, às limitações que a psicologia mais antiga
impõe ao estudo científico da experiência direta. Opõe-se ao uso exclusivo do tipo de
observação desenvolvido pelos "introspeccionistas treinados"; opõe-se ao uso exclusivo de uma
técnica na qual é assumida uma atitude especial de laboratório, e na qual a experiência como e
apresenta na observação diária (a mesa retangular como parece ser) é rejeitada em favor da
experiência "corrigida" (o quadrilátero irregular que o introspeccionista descreve). Os
gestaltistas insistem enfaticamente que a experiência ingênua do senso comum tem direito de
ser ouvida na psicologia. Acreditam no tipo de observação "não corrigida" que se chama
fenomenológica. E, mais ainda, acreditam que o introspeccionista exclui os problemas mais
urgentes e significativos de sua ciência ao considerar como "verdadeiros" dados psicológicos
somente as experiências, tais como as que resultam de sua atitude peculiar. A psicologia da
Gestalt não faz nenhuma objeção, seja qual for o estudo da experiência direta. A sua quizília
com o introspeccionista treinado é contra o artificialismo de seu método, e não contra sua
tentativa de estudar a consciência.

Contra o behaviorismo, a escola gestáltica apresenta duas objeções principais. Uma é a de que
os behavioristas sem necessidade rejeitam a consciência - sem necessidade, porque a
consciência é um fato da experiência, não mais nem menos justificável, lógica e
epistemologicamente, do que o mundo físico. É significativo que em Gesta.lt Psychology, livro
escrito em inglês para ser publicado nos Estados Unidos, Kõhler, dirigindo-se ao que chama o
fundamentalismo que o behaviorismo estabeleceu naquele país, utiliza todo o primeiro capítulo
para salientar a inconsistência entre a "ingenuidade sadia" dos behavioristas ao aceitar o
mundo físiço, e a sua "pureza epistemológica" ao rejeitar a consciência. Neste capítulo,
tomando a experiência ingênua como ponto de partida de toda ciência, mostra como é feita a
distinção entre o objetivo e o subjetivo, e explica que é tão impossível provar a existência de
um mundo físico independente como provar a consciência de uma pessoa vizinha. E uma vez
que a física tem ido para adiante apesar deste fato, argumenta que é possível para a psicologia
agir de forma idêntica; que é melhor adotar uma "ingenuidade sadia" do que ser limitado pelos
escrúpulos da "pureza epistemológica". A segun

316

Edna Heidbreder

da objeção ao behaviorismo é a de que ele emprega exatamente o mesmo processo que


caracterizou a psicologia mais antiga no que se refere à construção de grandes totalidades a
partir de processos elementares. Pois embora o behaviorismo não produza estados complexos
de consciência a partir de sensações e sentimentos elementares, constrói padrões complicados
de comportamento pela integração de reações simples. E o resultado, segundo os gestaltistas,
tanto no behaviorismo como na psicologia mais antiga, é uma lamentável esterilidade quanto
à produção de conceitos positivos. A psicologia da Gestalt nada vê de realmente novo no
behaviorismo; nada a não ser a mesma fórmula monótona, E-R; nada mais do que reflexos,
condicionados ou não, reunidos em formas cada vez mais complexas.

Além disso, a psicologia da Gestctlt discorda com o behaviorismo e com o estruturalismo


quando se recusa a copiar servilmente os processos das ciências mais antigas e mais
desenvolvidas, tal como a física. Uma das características de uma ciência altamente desenvolvida
como a física é a exatidão com a qual faz as suas determinações. Mas, afinal de contas, dizem os
gestaltistas, a psicologia é uma ciência nova, e grande parte de seu esforço no sentido de obter
medidas e determinações exatas é imprópria à sua atual etapa de desenvolvimento. O interesse
imediato da psicologia está em problemas iniciais; deve estabelecer primeiro os modos gerais de
reação; deve realizar o primeiro esboço grosseiro de seus problemas como a física fez há muito
tempo. Kohler tentou fazer isto em seu estudo dos macacos; e considera característico do
temperamento predominante na psicologia que uma das críticas feitas ao seu estudo foi a de
que ele não conseguira reduzir as suas observações a termos quantitativos. Tal processo,
segundo Kbhler, teria sido inteiramente fora de propósito. Sua finalidade era a de descobrir que
espécies de atividades ocorreriam; e os resultados significativos, longe de serem mais claros,
teriam sido mesmo obscurecidos se os tivesse apresentado na forma de tabelas e de gráficos.
Obrigar uma ciência imatura a seguir caminhos que não são próprios à sua etapa de
desenvolvimento já é anticientífico. Os gestaltistas acreditam que a psicologia não está ainda
preparada para muitas das determinações quantitativas exatas que está tentando, e que grande
parte de seu trabalho sobre medições é perdida porque não sabe ainda o que está medindo.

Psicologias do Século XX

317

Mas não se pode ocultar o fato de que a principal objeção da psicologia da Gestalt ao
behaviorismo e ao estruturalismo é contra o hábito que eles têm de considerar o seu material
por partes, de supor que as suas unidades maiores nada mais sejam do que as menores
reunidas em determinadas combinações. Afinal de contas, a psicologia da Gestalt não está
principalmente interessada em questões tais como se a consciência ou a conduta são o objeto
da psicologia, ou se a introspecção ou a observação objetiva são o método apropriado. O seu
principal argumento é o de que por meio do conceito de Gestalt ela chamou a atenção para as
características da experiência que têm sido desprezadas e que não podem legitimamente ser
ignoradas; e todas as suas diferenças com outras escolas derivam de sua posição com respeito
a esse ponto crítico.

Qualquer movimento que atacasse a ordem em vigor, como fez a escola gestáltica, provocaria
naturalmente oposição; pois bem, a psicologia da Gestalt tem recebido todas as vantagens que
se podem obter da crítica enérgica e variada.

Em primeiro lugar está a objeção inevitável de que a psicologia da Gestalt não é realmente nova.
Esta objeção é logo mantida se se refere ao modo geral de pensar no todo como não sendo
equivalente à soma de suas partes, na forma e organização como características da experiência
não explicável em função de elementos. Neste sentido, a psicologia da Gestalt, como admitem
os gestaltistas, é pelo menos tão antiga como Heráclito e Anaxágoras, e não pode nem mesmo
alegar que redescobriu o problema na atualidade. Autores como James e Dewey protestaram
contra o elementarismo tão energicamente como qualquer gestaltista. Mas se a psicologia da
Gestalt for considerada num sentido mais específico como introduzindo certos conceitos que
revelaram problemas definidos obscurecidos pelas práticas da época, tem o mesmo direito de
ser chamada novidade como qualquer outro movimento; pois ela incluiu
na psicologia da época uma forma de considerar as coisas e um modo de fazer as coisas que não
estava sendo tentado ou que, pelo menos, não era reconhecido. Neste particular, a psicologia
da Gestalt é tão nova como os novos usos são novos, ou como a moda, os costumes, ou como as
mudanças de governo, a invenção de máquinas industriais, ou qualquer outra inovação que não
é nova em sentido absoluto mas que, não obstante, muda o curso dos acontecimentos na
época. Afinal de contas, do ponto de vista do progresso da ciência, o importante não é saber se

319

318

Edna Heidbreder

uma idéia é nova, mas se é importante para as necessidades da situação existente. E a maneira
como a psicologia da Gestalt tem sugerido problemas e planos de investigação para os
pesquisadores estranhos a essa escola, ou mesmo opostos a ela, representa uma das melhores
provas de que os seus "insights" estabeleceram uma diferença nas práticas reais da ciência.

Existe, entretanto, uma outra forma um tanto mais sutil, na qual a objeção de que não há nada
de novo na psicologia da Gestalt às vezes aparece. Fala-se por vezes que os gestaltistas deram
uma importância exagerada à doutrina do elementarismo na forma em que é defendida pela
escola experimental mais antiga; afirmam que realmente enfrentaram um espantalho. Uma das
referências ao assunto é a seguinte:

"Também não se deve pensar que a psicologia ortodoxa tenha jamais levado a sua crença
sobre os elementos muito a sério. Estava habituada a prestar homenagem aos elementos e
aos seus atributos, vamos supor, aos domingos, e tratar com o que era de fato Gestalten
durante o resto da semana. A força da psicologia da Gestalt a esse respeito estava em que
pedia a todos para fazer o que já estavam fazendo quase sempre e que desejava, portanto,
confirmar a psicologia da pesquisa real, mais do que instaurar uma nova psicologia." 11

Porém, se este for o caso, é grande vantagem que a situação tenha sido esclarecida, pelo
menos pela destruição do espantalho. Afinal de contas, a ciência não pode consentir
seriamente em não deixar a mão direita saber o que faz a esquerda. A ciência, naturalmente,
não pode desprezar os resultados obtidos por métodos confusos ou empíricos. A prática
científica muitas vezes antecipa-se à teoria; freqüentemente lida de forma não intencional e
inconsciente com hipóteses que só descobre depois de haver utilizado. Mas esse procedimento
justifica-se porque, por meio da aquisição e interpretação desses dados, estas hipóteses
aparecem finalmente à luz do dia. Em algum lugar do plano há um ponto onde o cientista
depara com fatos obstinados que o obrigam a estudar as hipóteses que os fatos se recusavam a
aceitar. Tais pontos são sempre importantes no desenvolvimento de uma ciência. Como a
própria psicologia ensina, é a coisa mais natural do mundo que as hipóteses comuns deixem de
chamar a atenção, ficando, porém, a influenciar de forma oculta os trabalhos dos
pesquisadores. Se a psicologia da

Psicologias do Século XX
Gestalt fez apenas a apresentação de hipóteses que estão incluídas nas práticas da psicologia e
que não estavam definitivamente aceitas, já justificou a sua existência. Quer os seus ensinos
estejam certos ou errados, e sejam novos ou antigos, já contribuíram para esclarecer a situação.

A posição dos gestaltistas a respeito da hipótese de persistência foi criticada de um modo um


tanto semelhante. Alguns perguntaram se era verdade que a hipótese de persistência estava na
raiz do pensamento da psicologia mais antiga. De fato, grande parte do trabalho sobre a
fisiologia dos sentidos e sobre a psicofísica derivou-se das constantes provas de que não existe
uma correspondência clara, ponto por ponto, entre o estímulo periférico e a experiência
psicológica. De certo modo, isto pode significar que a psicologia sempre soube que a hipótese
de persistência não tem valor; ou pelo menos que a experiência psicológica não é uma cópia fiel
do estímulo sensorial local. Mas em outro sentido, pode significar que a hipótese de
persistência apenas se retirou para um nível mais profundo. Se o estímulo local e a resposta
psicológica não correspondem de uma forma óbvia e expressiva então a correspondência deve
estar conservada de algum outro modo. As circunstâncias globais devem ser divididas em seus
elementos, e por meio deles, uns despertados pelo estímulo sensorial imediato e outros por
associação, conserva-se a correspondência essencial com o estímulo local. A concepção do
sistema nervoso como conjunto complexo de fibras de ligação está completamente de acordo
com esta idéia. O mesmo acontece com as explicações mecânicas do funcionamento dos órgãos
dos sentidos que chamaram a atenção dos estudiosos, na linha divisória entre a fisiologia e a
psicologia. As vias de ligação podem ser extremamente complicadas, as funções mecânicas
bastante intricadas, porém, a correspondência é conservada pelas ligações estruturais durante
todo o processo. A antiga persistência ali se encontra, embora seja obtida por meios menos
evidentes.

Porém, esta linha de raciocínio sugere que mesmo nas explicações da psicologia da Gestalt
aparece a hipótese de persistência. Foi sugerido realmente que, de uma forma ou de outra, a
hipótese de persistência não é apenas urna tendência muito natural do pensamento, como
Kõhler salienta, mas também uma tendência necessária no pensamento científico. A própria
psicologia da Gestalt começou como uma tentativa para descrever a experiência como ela
surge de imediato em

11 E. G. Boring, A History of Experimental Psyckology, 577.

Edna Heidlreder

relação às condições de estímulo. Foi, de fato, porque Wertheimer não encontrou a


correpondência esperada - isto é, do ponto de vista das antigas explicações - que se
desenvolveu o novo plano de pensamento. O que os primeiros gestaltistas procuraram fazer
foi encontrar um modo realmente adequado de mostrar como a experiência imediata, em toda
a sua plenitude, se relaciona com as condições estimulantes; e abandonar a explicação ilusória
que descrevia somente a conexão desprezando algumas das características da experiência
imediata. A psicologia da Gestalt descobriu que a dita conexão pode ser explicada melhor em
função da interação dinâmica. Porém, não será a interação dinâmica apenas uma forma mais
sutil de conexão - e que não inclui liames estruturais, mas que exige uma
organização, cujo resultado seja uma correspondência mais real entre a experiência imediata e
as condições de estímulo? Será que a psicologia da Gestalt não substitui apenas planos mais
sutis de conexão por aqueles visíveis em estruturas mecânicas concretas? E ao fazer isso, não
estará usando a hipótese de persistência?

Isso é verdade se a hipótese de persistência déve significar qualquer tentativa que seja para
estabelecer planos de relação entre a experiência e suas condições estimulantes, entre uma
situação e outra. Neste sentido muito geral, a psicologia da Gestalt está utilizando um método
sempre usado em psicologia e em todas as outras ciências. Porém, o termo "hipótese de
persistência", na forma em que é usado pela escola gestáltica, tem um significado muito mais
específico. Refere-se definidamente a uma "persistência" entre a experiência imediata e o
estímulo local definido, a uma teoria que está associada com a concepção do sistema nervoso
como uma estrutura de "disposições especiais" e com a concepção da experiência;imediata
como sendo composta de elementos. Se a hipótese de persistência é tomada neste sentido, a
psicologia da Gestalt, ao chamar a atenção sobre ela, colocou uma alternativa bem definida
perante a ciência. De um lado, estão os elementos e associações e um sistema nervoso de
arranjos especiais; de outro, estão as Gestalten e a interação dinâmica. Nas coisas reais, o
contraste é definido e claro. Pouca diferença faz o grau de novidade da situação; tampouco faz
diferença se existe uma semelhança básica no pensamento subjacente à hipótese de
persistência e à teoria de interação dinâmica. A questão é que, ao chamar a atenção para a
hipótese de persistência num sentido específico, a psicologia da Gestatt trouxe à luz do dia um
tema impor-

Psicologias do Século XX

321

tante, forçou a psicologia a examinar algumas de suas hipóteses, obrigando-a assim a purificar
o seu pensamento.

Esta questão, entretanto, sugere que a psicologia da Gestalt foi também acusada de falta de
clareza em alguns de seus conceitos fundamentais. O conceito central, o de Gestalt, foi
mencionado como o exemplo mais flagrante. Os críticos salientaram que o termo tem sido
aplicado aos fenômenos mais diversos - aos padrões visuais, tanto espaciais como temporais, à
experiência imediata em outros campos sensoriais, à memória e ao pensamento, ao instinto e a
outras formas de comportamento motor visível; observaram que, em acréscimo, a palavra
Gestalt tem sido usada para se referir à totalidade, unidade e organização; e que com a junção
de tanto material sob o mesmo tópico, houve uma tendência para generalizar de um campo
para outro, nem sempre com a devida cautela. Nos primeiros tempos deste movimento, esta
crítica foi ouvida com maior freqüência do que agora, pois, à medida que foram sendo
formulados os problemas experimentais, as condições nas quais se verificam certos
fenômenos foram melhor determinadas e as afirmações se tornaram mais exatas. A acusação
de falta de clareza foi também feita contra as teorias fisiológicas propostas pela escola da
Gestalt. Certamente a psicologia da Gesta,lt não apresenta uma descrição da atividade nervosa
que possa ser visualizada e diagramada como a concepção que lhe é contrária e de acordo com a
qual é teoricamente possível seguir uma dada excitação do princípio ao fim por meio de
caminhos que se tornam bastante complicados, mas nos quais o princípio é sempre o mesmo, o
das unidades de condução colocadas de uma ponta a outra. Se falta de clareza significa
incapacidade para apresentar uma descrição bem esboçada e completa, a psicologia da Gestalt
pode considerar-se culpada. Ela admite abertamente que o seu conhecimento do sistema
nervoso é inadequado para a tarefa de acompanhar detalhadamente a interação dinâmica que
ela supõe existir. Os gestaltistas estão também a par de que o problema da interação dinâmica
apresenta mais dificuldades do que os conceitos mais antigos. Admitem também que deduziram
este processo dos fenômenos psicológicos e dos princípios da dinâmica e que a evidência
apresentada pela fisiologia é apenas confirmativa. Acreditam, entretanto, que é totalmente
legítimo seguir este método. Além disso, para os gestaltistas o fato de que sua explicação é
necessariamente in- . completa não significa que, até onde lhe diz respeito; seja

322

Edna Heidbreder Psicologias do Século XX

323

imprecisa. A direção para a qual se inclina é claramente assinalada; e não vêem motivo por que,
principalmente sendo trabalhadores de uma ciência muito jovem, devam se recusar a seguir as
sugestões de seus dados, mesmo quando indiquem que a maioria de seus problemas ainda
está pela frente.

A psicologia da Gestalt foi também criticada pela sua posição quanto à análise. Podem os
gestaltistas querer seriamente desacreditar a análise como método científico de pesquisa? Às
vezes parecem assim fazer em suas declarações de que a análise destrói a própria realidade
que procura explicar; e que reduzir uma coisa a seus elementos e estudá -l por partes é perder
de vista a própria coisa. Tais declarações fizeram parte do ataque dos gestaltistas contra o
elementarismo, e da sua insistência de que o todo não é apenas a soma de suas partes.
Naturalmente os críticos não perde. ram tempo em salientar que sem análise experimenta] a
ciência não poderia existir, e que mesmo a escola da Gestalt, deve usar a análise ao isolar,
variar e controlar experimentalmente diferentes conjuntos de fatores. Havia também muita
confusão quanto ao que os gestaltistas queriam exatamente significar com seus ataques à
análise. Em algumas de suas primeiras advertências contra os perigos da análise, eles
evidentemente se excederam. Entretanto, Kõhler recentemente considerou a questão de modo
específico. Ele explica que a psicologia gestáltica, pelo seu destaque aos todos, não pretende de
modo algum abandonar a análise como método científico. Salienta que os gestaltistas
reconhecem bem os todos segregados e que assim empregam um método de análise que trata
com partes genuínas, embora possam se recusar terminantemente a ter qualquer coisa a ver
com elementos de sensação que não possuem existência como partes separadas da
experiência. Por exemplo, toda vez que tratam com um campo no qual existem todos e
subtodos segregados, como num grupo em que existem vários membros, os gestaltistas
utilizam tais análises. A psicologia da Gestalt reconhece também uma forma de análise, na qual,
através da adoção de uma atitude definida pelo observador, dá-se a escolha de algumas partes
do campo e a supressão de outras

- uma espécie de aiiálise que pode provocar uma mudança na organização do' campo, de
maneira que a impressão total é visivelmente alterada. Porém, este tipo de análise é também
bastante freqüente na experiência real. Finalmente, a psicologia da Gestolt aceita mesmo uma
análise que não trate com .partes reais. Esta é uma espécie de análise "difereii cial"

na qual o material estudado é dividido em partes adequadas, ficando subentendido claramente


que estas não representam o real e que desaparecerão nos resultados finais, como acontece no
processo do cálculo diferencial. Esta análise é admitida como um processo necessário no
trabalho científico, completamente inócua enquanto é aceita pelo que é - um instrumento
intelectual. A análise a que se opõe a psicologia da Gestalt é a que reduz a experiência a
elementos mentais que são produtos da abstração ao invés de dados de observação, e que
então os trata como materiais verdadeiros, como unidades reais, de que se compõe a
experiência. Esta idéia é, às vezes, expressa dizendo-se que os gestaltistas não
fazem objeção à análise, mas sim à síntese.

Entre muitos psicólogos norte-americanos, entretanto, a objeção fundamental à psicologia da


Gestalt pouco tem a ver com a sua posição em qualquer dessas questões; provém mais de uma
suspeita generalizada de que os ensinamentos dos gestaltistas estão um tanto eivados de
metafísica ou pelo menos se relacionam com um tipo de psicologia que já abandonaram
definitivamente. Devido à tremenda influência do behaviorismo nos Estados Unidos, há uma
corrente subterrânea de sentimento de que tratar com a matéria é a finalidade precípua da
ciência e que tratar com a mente é se envolver com a metafísica. Os behavioristas, havendo
banido OS fantasmas, estão prevenidos contra esta escola que se refere à experiência direta
livremente e sem cerimônia. E quando um gestaltista os acusa de "pureza epistemológica" por
sua recusa em ter qualquer relação com a consciência, eles francamente não compreendem.
Tampouco tentam responder um argumento com outro. Simplesmente se mantêm em sua p0-
sição, recusando ser envolvidos em qualquer coisa que parece tão medieval, e sempre
suspeitando que esta é a psicologia da qual se libertaram. Estão interessados, é verdade, nas
experiências da Gestalt sobre psicologia animal, pois acham isto inatacavelmente objetivo.
Desejam e mesmo estão ansiosos para experimentar os novos problemas naquele campo
sugerido pelas doutrinas gestálticas. Estão, realmente, dispostos a dar a devida consideração a
qualquer aspecto do assunto que não os obrigue a aceitar a consciência, ou qualquer coisa que
considerem como misteriosa. Porém, não estão dispostos a serem convencidos por qualquer
estranho que apareça empunhando argumentos da epistemologia. Para eles tais argumentos,
embora hábeis, parecem muito me-

324

Edna Heidbreder

Psicologias do Século XX

325

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nos verdadeiros do que as coisas naturais, claras, palpáveis e inegáveis com as quais estão
acostumados a lidar.

Essas não são de nenhuma forma as únicas objeções argumentadas contra a psicologia da
Gestalt, porém representam alguns dos principais temas. Neste ínterim, não pode haver
dúvida que esta escola imprimiu a sua marca sobre a ciência. Fez com que muitos psicólogos
pusessem em dúvida as hipóteses fundamentais com as quais estavam trabalhando, e
estudassem de forma crítica certas limitações formais que, em parte devido à tradição
acadêmica e também porque estavam sendo aceitas como verdadeiras, se estavam tornando
indevidamente influentes. Deu origem a problemas tão reais e significativos que despertaram
vivo interesse nos psicólogos, dentro e fora da escola. Acima de tudo, a psicologia da Gesta.lt
defende hipóteses definidas e métodos de experimentação e é direta e indiretamente
responsável por um grande volume de pesquisas. Assim como outras escolas, que se
rebelaram contra a ordem estabelecida, os gestaltistas exerceram uma influência renovadora
na psicologia em seu todo. Basicamente, a sua tentativa foi a de livrar a psicologia de um
profissionalismo rígido, levando-a para uma visão direta e clara da experiência. Muitas escolas,
uma após outra, têm de certa maneira tentado fazer a mesma coisa; e é sintomático das
dificuldades inerentes à psicologia o fato de ser sempre necessária uma nova tentativa.

326 Edna Heidbreder

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VII

A PSICANÁLISE: FREUD

Breuer (1842-1925); Charcot (1825-1903); Freud (1859-1939); Adier

(1870-1937); Jung (1875-1962); Breuler (1857-1939).

Passar para a interpretação psicanalítica da psicologia é passar a um movimento muito diferente


daqueles considerados até aqui. Os sistemas que acabamos de ver, sejam quais forem as suas
divergências, são parecidos por serem acadêmicos. Estão saturados da atmosfera das
bibliotecas e dos laboratórios, de seminários e salas de conferência. Ou são ciência pura ou o
que mais se assemelhe à mesma. Até aqueles que com maior desvelo justificam as aplicações da
ciência surgiram juntos em íntima ligação na tentativa de considerar o objeto da psicologia com
um certo desprendimento, libertos no momento da necessidade de fazer algo em seu favor.
Nenhum deles teve a sua origem real na ciência aplicada. Todos nasceram nas salas das
academias, e formaram seus hábitos e caracteres pelas suas primeiras ligações com o mundo
erudito. Porém, a psicanálise não é acadêmica, nem pura.. Com seus fundamentos no solo da
prática clínica, é, tanto pela origem quanto em sua principal finalidade, uma tentativa para
realizar o que Titchener havia tão ardentemente negado fosse um objetivo próprio para a
psicologia científica - a cura das almas doentes.

O fundador deste movimento foi Sigmund Freud. Iniciou sua carreira estudando medicina em
Viena e durante algum tempo esteve interessado pela fisiologia, principalmente a do sistema
nervoso. Finalmente, entregou-se à prática da medicina, associando-se com um homem um
pouco mais velho, o Dr. Josef Breuer. Freud interessou-se logo pelas desordens neuróticas, e
foi em sua prática real com casos desta natureza - Freud salienta principalmente este

328 Edita Heidbreder

ponto - nas suas observações diretas abrangendo anos de experiência, que aos poucos elaborou
a prática e a teoria da psicanálise. Pois embora Freud afirme com convicção e, às vezes,
amargamente que ele, e só ele, foi o fundador da psicanálise, nunca pretendeu ter chegado a
esta concepção quer por uma visão repentina ou por uma criação definitiva. Menciona amiúde
a longa prática que pouco a pouco e em fragmentos desconexos lhe revelou a personalidade
humana na forma em que conseguiu vê-la.

Em 1885, Freud seguiu para Paris a fim de estudar sob a direção de Charcot, na época a
autoridade de maior projeção em desordens mentais, na Europa. Freud ficou bastante
impressionado com Charcot e interessou-se principalmente pelo seu modo de tratar a histeria.
Charcot acreditava que a histeria e a hipnose estão intimamente associadas; e que a verdadeira
hipnose é, de fato, essencialmente um fenômeno histérico e pode ser provocada somente em
pacientes histéricos. Muito naturalmente, aconselhava o seu uso tanto para as pesquisas
quanto para o tratamento dos sintomas histéricos. Essa idéia geral não era nova para Freud. Em
grande parte devido ao prestígio de Charcot, o tratamento da histeria pela hipnose tornara-se
amplamente difundido, e o próprio Freud havia-se familiarizado com a prática da mesma em
seus trabalhos em Viena.

Houve um incidente, entretanto, fora das aulas normais de Charcot, que sobressaiu com
memorável clareza nas experiências de Freud, quando estudante em Paris. Certa noite, numa
recepção, ouviu Charcot debatendo um caso que lhe havia chegado às mãos na sua prática
daquele dia. Falando com a maior ênfase possível, Charcot declarou que em tais condições havia
sempre um problema sexual. "Sempre, sempre, sempre", repetia ele. 1 Freud ficou perplexo,
não apenas pelo conteúdo da declaração, mas também pelo fato de que Charcot não revelara
este conhecimento aos seus alunos quando já o possuía. Posteriormente, quando sua própria
atividade o estava levando a descobrir sua teoria da origem sexual das neuroses, recordou-se da
declaração de Charcot, naturalmente a considerando como uma opinião técnica que vinha a
favor de suas próprias descobertas. Porém, antes mesmo de seguir para Paris, Freud tinha
vislumbrado uma

1 Charcot negou ter feito tal declaração. Freud relata tanto a declaração quanto a sua negativa
em seu trabalho sobre "The History or the Psychoanalytic Movement", Psychoaaalytical Review
(1916), 3, 406-454. A histÓria do desenvolvimento da psicanálise dada neste capitulo baseia-se
principalmente nesse relato escrito por Freud.

Pswologias do Século XX 329

idéia que, como a teoria da origem sexual das neuroses, estava destinada a ser uma das
doutrinas básicas da psicanálise. Um dos casos de Breuer lhe parecia principalmente
significativo. A paciente era uma jovem senhora, cujos sintomas histéricos haviam surgido de
um incidente em sua infância. Naturalmente, ela havia ficado fortemente impressionada,
entretanto, havia esquecido completamente o incidente. O tratamento de seu estado foi
essencialmente uma catarse, uma liberação de emoção reprimida, realizada fazendo-se com
que ela se recordasse e reproduzisse sob hipnose a experiência que jazia na base de sua
perturbação. A interpretação tanto de Freud como de Breuer era a de que a experiência inicial
tinha provocado um distúrbio emocional que havia sido impedido de se manifestar na forma
direta e normal; e que esta emoção, encontrando bloqueada a sua saída natural, havia
procurado uma outra e se exprimia pelos sintomas. Freud chamou este processo de conversão,
e se referiu aos sintomas como sendo a conversão do efeito original. Este caso é importante no
desenvolvimento da teoria psicanalítica porque indica as funções subterrâneas das tensões
psíquicas. A descoberta de que um incidente, que está no inconsciente e de há muito esquecido,
era não obstante a fonte de acentuados distúrbios do comportamento, não só chamou a
atenção para o papel exercido pelo inconsciente, como também deu a entender que o
inconsciente é acentuadamente dinâmico.

Todavia, este caso, embora altamente significativo para o desenvolvimento da teoria, não
abrangia a verdadeira psicanálise. A hipnose havia sido usada e, segundo Freud, a verdadeira
psicanálise somente começa quando a hipnose é rejeitada. Freud havia estudado sua paciente,
devemos lembrar, antes de seguir para Paris, e o desenvolvimento da verdadeira psicanálise
deu-se muito mais tarde. Ao regressar a Viena, após haver estudado com Charcot, Freud
associou-

-se novamente a Breuer e adotou de novo a prática da hipnose juntamente com o processo de
catarse. Porém, não achou este método inteiramente satisfatório. Era bastante eficaz na
remoção dos sintomas, porém no final não realizava a cura. Muitos pacientes que haviam
recebido alta voltaram mais tarde, muitas vezes com outros sintomas. Um exame subseqüente
geralmente revelava que a verdadeira causa da perturbação não havia sido descoberta; e que se
ocultava muito mais profundamente no passado do paciente do que até onde havia chegado o
primeiro exame. Estes fatos fize Ii

330

Edna Hekibreder

ram com que Freud considerasse o método hipnótico como superficial, como instrumento
inadequado para aprofundar-

-se nas origens reais da perturbação.

Neste ínterim, Freud e Breuer estavam aperfeiçoando, de forma um tanto informal, um método
inventado por Breuer no qual o paciente era incitado a falar de si mesmo ao médico - um
processo às vezes chamado o método da conversa. O paciente era mantido desperto
normalmente - isto é, não ficava sob hipnose - e era instado para se expressar livremente como
lhe aprouvesse, a dizer o que lhe viesse à cabeça, e a não ocultar nada que lhe parecesse
embaraçoso ou sem valor, ou porque não seria normalmente mencionado. Nessas palestras os
pacientes recordavam-se às vezes de experiências de há muito esquecidas, que constituíam
importantes pistas para a descoberta de suas perturbações.
A princípio, foram usados tanto a hipnose quanto o método da conversa, porém com o passar
do tempo Freud passou cada vez mais a depender deste último. Considerava principalmente
uma enorme vantagem trabalhar com a colaboração e o conhecimento ativos do paciente. Pois
sob hipnose o paciente não estava, por assim dizer, totalmente presente. Somente uma parte
dissociada de sua personalidade se achava presente; a restante estava mergulhada em sono
hipnótico. Ao dspertar, podia estar completamente alheio ao que acontecera durante o
tratamento, e como resultado não era completamente curado. Para Freud o método hipnótico
parecia um processo muito mais incompleto do que aquele em que o paciente, sob a orientação
do médico, porém, baseado em suas próprias contribuições, era levado a perceber a verdadeira
causa de sua perturbação.

Este procedimento foi o começo da técnica psicanalítica. A catarse foi incluída como essencial,
porém, a hipnose foi rejeitada como superficial, e o método da conversa ou, como foi mais
tarde chamado, o método de associação livre, a substituiu. Esta descrição não implica,
entretanto, que o desenvolvimento da técnica psicanalítica consistiu apenas em escolher e
juntar processos que estivessem disponíveis. A psicanálise progrediu lentamente e, através de
tentativas, conseguiu a sua forma adulta somente após haver vencido dificuldades obstinadas.

Mas, as próprias dificuldades foram úteis. Duas delas foram consideradas particularmente
significativas para Freud. A menor chamou de transferência. Este termo re Paicologia

do Século XX

351

fere-se ao :fato de que o paciente, durante as conversações longas e intimamente pessoais, nas
quais suas emoções estão sendo provadas e estimuladas, desenvolve uma forte ligação afetiva
pelo analista - ou fica apaixonado por ele claramente e sem subterfúgios, ou então desenvolve
uma atitude hostil e pessimista que Freud considera apenas como o inverso de se apaixonar, e
em essência é a mesma espécie de reação Quando Breuer se convenceu de que a transferênçia
era regularmente provocada, sentiu-se na obrigação de rejeitar o processo analítico. Também
se opôs ao destaque dado por Freud ao papel do sexo na gênese das neuroses. Desistiu,
portanto, deste método que tanto contribuíra para iniciar, e os dois médicos seguiram seus
caminhos profissionais em separado.

Para Freud, o surgimento da transferência representava mais uma prova da natureza sexual das
dificuldades do paciente. Significava que a emoção removida pela análise havia se apegado ao
analista. A transferência tornou-se em sua opinião uma parte necessária do processo - a ponto
de ser um dos traços característicos da verdadeira psicanálise. Porém, esta
circunstância, embora indispensável, era realmente só temporária. Fazia parte da tarefa cio
médico hábil destacar a emoção de si mesmo e dirigi-la outra vez para canais onde sua
presença fosse adequada, e onde favorecesse a saúde mental do paciente.

A outra dificuldade estava na resistência que o paciente desenvolve inevitavelmente no


transcorrer da análise; pois o processo de associação livre em psicanálise nada mais é do que
uma passagem fácil de uma lembrança para outra até que se encontre a causa do distúrbio.
Maís cedo ou mais tarde, atinge-se um ponto de onde o pacient'è não deseja ou é incapaz de
prosseguir: não desejoso, porque chegou a algo muito doloroso ou odioso e chocante para ser
enfrentado; incapaz, porque sua mente se tornou vazia e ele está completamente em ponto
morto. A falta de desejo e a incapacidade de prosseguir são apenas dois graus de resistência,
este último mais grave. Ambos são formas pelas quais o paciente se protege contra a dor, e a
presença desta significa que a análise está sondando um ferimento real. A resistência,
portanto, mostra que o tratamento está no rumo certo, está atingindo um ponto crítico, e
deve ser continuado no caminho que tomou. Seja qual for a intensidade de seus sofrimentos, o
paciente deve se colocar face a face com a situação que foi encoberta, afastada ou distorcida.
Somente a enca

222

Edna Heidbreder

rando como é na realidade, com todas as suas implicações ocultas, somente reagindo à mesma
de modo completo e sem subterfúgios, poderá encontrar alívio para as suas emoções
recalcadas. No decorrer de uma análise completa, a resistência é encontrada não apenas uma
vez, porém, com freqüência, e todas as vezes deve ser vencida sem esmorecimento. Além disso,
deve ser vencida sem hipnose. Seria mais fácil, realmente, tanto para o paciente como para o
médico, se as lembranças dolorosas pudessem ser evocadas sob hipnose. Os incidentes
esquecidos seriam então reproduzidos sem fazer ligação com a personalidade consciente, e,
portanto, sem provocar resistência. Porém, a experiência de Freud tornara-o cada vez mais
cético em relação à hipnose como meio de penetrar nas camadas realmente profundas da
personalidade. Ademais, a finalidade básica da psicanálise é trazer de volta o conteúdo rejeitado
para a vida consciente, preencher a lacuna criada pela sua rejeição, e assim curar a ferida que
divide a personalidade contra si mesma. Isto só pode ser conseguido quando o paciente
considera a situação de forma consciente em sua absoluta clareza; não há outra maneira de
obter verdadeiro alívio.

A descoberta da resistência ensejou também a descoberta do recalque, - ou melhor, o


aparecimento da resistência levou Freud a descobrir a teoria do recalque ou repressão como a
única explicação plausível. A teoria do recalque diz, em suma, que um fato esquecido porém
incômodo, quer sei a uma lembrança ou um desejo, tornou-se inconsciente não apenas por
haver sido esquecido ou porque saiu da consciência, mas porque foi forçado a isso. E tendo sido
empurrado para fora, é ali mantido à força. Pois a experiência recalcada não é uma idéia ou
uma lembrança no sentido comum da palavra; está carregada de emoção e desejo. Porém, o
desejo é essencialmente impulsivo; tem forte tendência para expressar-se de forma visível; e o
conteúdo recalcado não está de forma alguma extinto. Age no inconsciente, exercendo a sua
influência de forma encoberta, distorcendo a conduta em formas fora do comum. O eu
consciente ou ego não rode eliminá-lo ou mesmo torná-lo inativo; o ego pode apenas
conservá-lo no inconsciente. "A teoria do recalque", diz Freud, "é a coluna mestra onde se
assenta o edifício da psicanálise". 2 Os traços característicos da teo2 S. 'reud, °The Hlstory of
the Psychoanalytlc Movement", Psychoanalytical Revew (1916), 3, 413.

Psicologias do Século XX

332
ria psicanalítica estão nele implícitos - a concepção do iiconsciente como ativo e lutador, e da
guerra entre o eu coisciente ou ego e o desejo inconsciente.

A psicanálise como técnica estava agora bem encaminhada e se achavam estabelecidos os


pontos fundamentajs da teoria. A associação livre foi aceita como método; a resistência e o
seu significado foram compreendidos; a compreensão pelo paciente de sua situação e a
catarse através da liberação emocional que a acompanha foram admitidas como a parte
principal da terapia. Porém, enquanto esta técnica estava ainda em formação - de fato, antes
de Breuer e Freud se separarem - Freud havia começado a suspeitar que os sonhos de seus
pacientes eram significativos. A teoria dos sonhos, assim como a própria técnica da psicanálise,
progrediu lentamente, porém, logo que Freud completou a sua concepção, passou a
considerá-la como um dos pontos principais da teoria psicanalítica. Não é de admirar que
Freud tomasse essa atitude, pois assim como o conceito de recalque realça a atividade do
inconsciente, a teoria dos sonhos indica os caminhos indiretos que este toma para se
expressar. Nos sonhos, as forças reprimidas são vistas burlando as resistências por caminhos
tortuosos e a todo custo obtendo satisfações proibidas.

De acordo com Freud, o sonho é essencialmente uma satisfação disfarçada dos desejos que
foram recalcados durante o estado de vigília. Os sonhos são muito mais significativos e muito
mais complexos do que parecem. Cada sonho possui um conteúdo manifesto e outro latente.
O conteúdo manifesto é a descrição que se faz ao relembrar o sonho - o sonho em sua
aparência; porém, o conteúdo latente possui o seu significado verdadeiro. O conteúdo
manifesto pode ser fornecido pelos acontecimentos do estado de vigília de cada um - de fato,
é comumente extraído das experiências das vinte e quatro horas anteriores; mas, apesar de
tudo isso, o sonho não é um simples e casual jogo de associações triviais. O conteúdo
manifesto é simples material empregado pelas forças psíquicas reprimidas. Os desejos que
foram lançados no inconsciente durante o dia têm oportunidade de se exprimir à noite,
quando o sono enfraquece a vigilância do "censor", figura de retórica usada por Freud para
denominar as inibições que o ego impõe ao inconsciente. Mas mesmo quando o ego dorme e a
censura é diminuída, os desejos afastados não ousam se expressar abertamente. Se fossem
francamp,if øvii,ic, 1y,-mp nr1rii

P8icologias do Século XX

335

334

Edna Heidbreder

mente, quando o significado de um sonho se torna muito evidente, a pessoa desperta.


Portanto, os desejos proibidos utilizam disfarces e se esgueiram pelo censor até à consciência,
sem serem reconhecidos.

Os disfarces são vários e engenhosos ao extremo. Um deles é o simbolismo. As pessoas,


objetos e fatos que apa- - recem rio conteúdo manifesto do sonho realmente significam
alguma outra coisa. A festa pública da qual uma paciente participou em seu sonho
representava o enterro de seu marido. A fuga aterrorizada de um inimigo comumente
representa a busca há muito desejada de um amante. Alguns símbolos extraem o seu
significado de experiências pessoais íntimas de quem sonha; outros são comuns a toda a
humanidade e têm sempre o mesmo significado. Jardins, sacadas e portas significam o corpo
feminino, e as flechas de campanários, velas e serpentes, os órgãos sexuais masculinos.

Entretanto, o simbolismo não realiza sozinho o trabalho do sonho; há outras maneiras de


encobrir o verdadeiro significado do sonho. Parece não haver limites para a engenhosidade do
inconsciente em seus artifícios para iludir o censor. Um item importante pode ser disfarçado a
fim de parecer uma parte trivial do todo e, contudo, ser realmente o principal motivo para o
sonho. Ou a emoção importante pode ser associada a um objeto de aparência neutra. E mesmo
depois que o sonho foi completamente disfarçado, o trabalho do mesmo não está completo.
Quando quem sonha desperta, não deve saber o que de fato esteve fazendo. Então se dá uma
segunda elaboração. Ao recordar e relatar o seu sonho, a pessoa que sonha inconscientemente
coloca-o em forma lógica e coerente, de maneira a possuir alguma semelhança com uma
história ou fato real. Porém, no próprio sonho a lógica e a coerência não estão presentes nem se
sente a sua falta, pois sonhar é a expressão de uma forma profunda e primitiva de pensar, na
qual as maneiras lógicas e críticas do pensamento não foram ainda implantadas. Assim, os
sonhos revelam não só a linha tortuosa do inconsciente, mas também o caráter alógico de suas
funções.

Foi também durante o período formativo da psicanálise que a teoria da sexualidade infantil se
desenvolveu. A prática de Freud o havia convencido completamente da base sexual das
neuroses; e embora a manifestação franca de sua crença lhe trouxesse a maior impopularidade
e algo muito parecido com o ostracismo profissional - circunstância que

i,- ia qt tporia e

sentiu-se mesmo na obrigação de levá-la adiante. Aos poucos, mas cada vez com maior
firmeza, tornou-se convencido de que os impulsos sexuais atuam fortemente antes da idade
da maturidade sexual; às vezes, concluía que atuam até mesmo na infância.

A evidência sobre a qual Freud baseava suas conclusões foi mencionada de passagem. Havia
desistido da hipnose em sua clínica porque sentira que ela deixava de atingir a causa subjacente
do problema do paciente. Um fato havia muitas vezes reclamado sua atenção, o de que cada
mal psíquico ou trauma possuía uma história. Uma pesquisa completa levava sempre o paciente
cada vez mais para o passado, e, às vezes, referia o seu mal a uma sedução ocorrida na infância.
Porém, paralela a esta descoberta, surgiu uma outra que parecia uma franca contradição. Em
muitos casos, pesquisas posteriores revelaram que as seduções eram simples fantasias; e que
simplesmente não haviam ocorrido. Freud ficou completamente perplexo durante algum
tempo. As análises conduziam invariavelmente aos choques sexuais na infância, e a pesquisa
mostrava que estes não tinham uma existência objetiva. Então, ocorreu-lhe a idéia de que se os
seus pacientes imaginavam seduções de forma tão regular, este fato em si era importante;
haver produzido fantasias de sedução parecia-lhe tão significativo, a seu modo, como se tivesse
ocorrido a sedução real. Para Freud, esta situação significava que os desejos sexuais da criança
eram satisfeitos pelas práticas auto-eróticas e que tais práticas,
proibidas e já consideradas como vergonhosas, eram afastadas do ego consciente por fantasias
de sedução, que eximiam o ego de toda a culpa. Esta interpretação deu-lhe a chave para
compreender a importância da vida sexual da criança; e a teoria da sexualidade infantil foi
acrescentada aos fundamentos de seu sistema juntamente com as doutrinas do recalque e do
inconsciente. Nenhuma escola ressaltou tanto como a psicanalista a tremenda importância da
meninice e mesmo da tenra infância na determinação do caráter do adulto.

Com essas descobertas, a teoria, bem como a técnica da psicanálise, havia completado a etapa
de formação. Porém, não se deve supor que o verdadeiro processo de desenvolvimento tenha
sido tão sistemático ou tão coerente, como a descrição posterior pode sugerir. Freud comenta
várias vezes os períodos de dúvida e perplexidade pelos quais passou, o fato de não haver
previsto as teorias para as quais as suas observações o conduziam. Todavia, pouco a pouco os
princi•

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Edna Heidbreder

Psicologias do Século XX

337

pais conceitos tomaram corpo e concordaram entre si. O inconsciente foi concebido como
sendo ativo, lutador e poderoso. O recalque foi considerado como indicação de conflito entre o
ego e os desejos inconscientes. A direção tortuosa do insconsciente e seu caráter primitivo e
alógico foram ambos indicados pelos sonhos. Reconheceu-se a importância dos desejos
sexuais, mesmo na infância. Freud considera estes pontos de vista como os primeiros frutos da
análise; e insiste sempre que são resultados arduamente obtidos pela observação direta, e não
simples devaneios ou especulações.

A teoria psicanalítica pode ser considerada como a estrutura para explicar estas descobertas e
as futuras. Os ensinamentos de Freud, entretanto, nunca foram um corpo fixo e rígido de
doutrina. O próprio Freud estava, continuamente, modificando-os e ampliando-os, e sempre
explicando que não eram completos e finais. Contudo, os principais contornos permanecem
bastante invariáveis e podem ser rapidamente mostrados.

A vida psíquica dos seres humanos consiste de duas partes principais, o consciente e o
inconsciente. O consciente é pequeno e relativamente insignificante. O que uma pessoa sabe
sobre os seus próprios motivos e conduta dá apenas um aspecto superficial e fragmentário de
sua personalidade total. Por baixo do ego consciente está o vasto e poderoso inconsciente,
fonte das grandes forças ocultas que constituem a verdadeira força impulsora das ações
humanas. Entre o consciente e o inconsciente está o pré-consciente, que se funde
gradualmente com ambos, mas que se parece mais com o consciente do que com o
inconsciente em conteúdo e caráter e é acessível à consciência sem resistência emocional. O
pré-

-consciente não é formado pelo material que foi fortemente rejeitado e recalcado; em
conseqüência, os seus conteúdos podem ser evocados pelos processos comuns de associação.
A censura localiza-se geralmente no pré-consciente.
Tanto o consciente como o inconsciente são concebidos como ativos. Freud naturalmente
considera como um assunto de observação diária e evidente, assim como um fato que não
necessita ser provado, que os egos conscientes possuem desejos e anelos; e é um dos traços
característicos de sua teoria que o inconsciente é concebido também como ativo e impulsivo.
Neste sentido, Freud dá um caráter antropomórfico ao inconsciente. Refere-se a ele como se
fosse estritamente pessoal, como as pessoas que encontramos diariamente. Descreve o
inconsciente principalmente não em função

de traços nervosos ou engramas, não como conjuntos de hábitos, não como fragmentos
espalhados, destacados da personalidade - para mencionar somente algumas das concepções
menos antropomórficas que têm sido usadas pelos estudiosos do inconsciente - mas como um
agente ativo, impulsivo e cheio de desejos, muito parecido com as pessoas que o senso comum
reconhece e entende. O inconsciente, na forma em que Freud o imagina, é sempre dinâmico;
toda a estrutura psíquica, seja consciente ou não, é basicamente um misto de impulsos e
desejos.

Entre o consciente e o inconsciente há uma luta incessante. Um ser humano aprende,


praticamente desde a infância, que tudo o que se relaciona com a vida sexual é vergonhoso.
Desde o início, a sociedade impõe poderosos tabus, e o ego consciente reage reprimindo todas
as manifestações do sexo, forçando-as para o interior do inconsciente como vergonhosas.
Porém, abaixo do nível da consciência, os desejos continuam a existir, e, embora frustrados,
lutam com todo o su poder e com toda a sua habilidade para frustrar as proibições do ego. A
vida psíquica é assim organizada em volta de dois centros: o ego ou eu consciente, que
desenvolve a "consciência" como uma expressão de aprovação social; e o inconsciente ou libido,
que abriga os poderosos desejos sexuais, alguns dos quais o ego nem mesmo suspeita que
existam, e outros que ele afasta mas não pode destruir.

A atenção de Freud foi primeiro orientada principalmente para a libido. Sempre considerou a
influência do impulso sexual como ponto essencialmente crucial em sua teoria. Considera
qualquer esforço para fugir do assunto como débil tentativa para tornar a verdade mais
suportável e como tímida concessão às maneiras convencionais de pensar e sentir. É esta,
essencialmente, a acusação que faz contra Jung e Adler, ambos seus antigos discípulos e
sócios, e ambos fundadores de escolas que divergiram da sua. Jung considera que a grande
força propulsora da humanidade é um ímpeto vital geral, que não deve ser confundido com o
impulso exclusivamente sexual, embora possua grande e importante componente sexual. O
papel que Freud atribui ao sexo, Adler concede ao desejo de dominação, à aspiração de "ser
um homem completo". Freud denuncia essas duas idéias como débeis e viciosas fugas do
assunto; não deixa a menor dúvida de que considera o impulso sexual como sendo de
esmagadora imnortância na conduta humana.

338

Edna Heidbreder

Psicologias cio Século XX

339
Freud usa a palavra "sexo" num sentido muito geral. Inclui nele não só os interesses e atividades
sexuais propriamente ditos, como também toda a vida amorosa - poderíamos quase dizer, tudo
o que abrange o prazer - dos seres humanos. A lista das atividades que ele e seus adeptos
consideram como possuindo um significado sexual é quase infinita; porém, o seu alcance e
variedade podem ser indicados pelo fato de incluírem práticas tão simples como andar, f umar e
tomar banho, e atividades tão complexas como a criação artística, as cerimônias religiosas, as
instituições políticas e sociais, e mesmo o desenvolvimento da própria civilização.

A luta entre a libido e o ego tem início na mais tenra infância. O primeiro prazer da criança
recém-nascida é o de mamar, e este prazer Freud considera como sexual. Desde o berço, a
criança ama a sua mãe; porém, a sociedade age de forma a que o interesse sexual não seja
expresso nem admitido como tal. É certo que o prazer que a criança sente por sua mãe não se
produz sem obstáculos. Por um lado, o pai tem direito à mãe e nesse ponto é o rival da criança,
O resultado é o complexo de Édipo: a criança ama sua mãe e odeia o pai. É verdade
que a criança pode também amar o pai, e nesse caso sua atitude é ambivalente - ama e odeia a
mesma pessoa. O mesmo complexo, desenvolvido de forma um tanto diferente, também se dá
com a menina: ela ama o pai e odeia a mãe ou desenvolve uma atitude ambivalente em
relação a ela. Toda esta situação, com seus amores e ciúmes violentos, com seus conflitos e
repressões inevitáveis, determina uma quantidade enorme de esforço e tensão psíquicos que
pode dar origem a desordens emocionais intermináveis.

Naturalmente, a vida sexual da criança difere da do adulto. A princípio, é auto-erótica; as


satisfações estão concentradas no próprio corpo da criança e são provenientes da estimulação,
de início acidental, das zonas erógenas. Entre a primeira infância e a puberdade há um período
de latência, durante o qual os desejos sexuais são expressos em formas de sentimentos que a
sociedade aprova, e no qual a criança passa a maior parte de seu tempo com companheiros

3 Durante algum tempo, o amor da menina pelo pai foi chamado "complexo de Eletra", mas,
atualmente, por ser o princIpio subjacente o mesmo nos dois sexos, o termo "complexo de
adipo" é aplicado a ambos, O desenvolvimento do complexo de Êdipo na menina é mais
indireto e mais comflh1, ,fl ifl ciiip no ranaz.

de sua mesma idade e sexo. Na adolescência, o interesse sexual torna-se novamente


acentuado e é definitivamente orientado para as pessoas do sexo oposto.

O desenvolvimento normal mostra comumente estas etapas sucessivas, mas também pode
acontecer que esse desenvolvimento não ocorra. Todas as espécies de complicações provêm
do fato de que a criança é uma "perversa polimorfa"

- isto é, o seu impulso sexual não é rigorosamente delimitado; pode expressar-se numa grande
variedade de formas, e associar-se a uma grande variedade de objetos. Uma conseqüência
muito provável e comum desta situação é o homossexualismo; a libido encontra o seu objeto
numa pessoa do mesmo sexo que o ego. Uma forma branda de homossexualismo, de fato, pode
mesmo ser considerada uma fase do desenvolvimento normal, formando uma transição fácil ou
pelo menos 'cômoda das práticas auto-eróticas, que exigem apenãs o ego, para o verdadeiro
heterossexualismo, que requer uma pessoa do sexo oposto. Há outras formas,
também, nas quais o desenvolvimento normal da vida emocional pode sofrer interferência. A
"fixação" pode ocorrer em qualquer ponto. Um certo ajustamento pode ser tão satisfatório que
a próxima etapa não é sequer tentada; pelo menos pode ser preferido em lugar da aventura e
do risco existente ao enfrentar uma situação nova. Um menino pode ser tão dedicado à sua
mãe e estar tão satisfeito com essa relação, principalmente se o amor da mãe se concentra
nele, que deixa de se interessar por outras mulheres; ou, uma menina pode estar tão absorta
com suas companhias femininas, tão entretida com os altos e baixos emocionais proporcionados
pelas suas "paixonites" com colegas do mesmo sexo, que não faz sua transição para o amor dos
homens. Estas fases podem ou não incluir intimidade física, e podem ser passageiras ou
duradouras. Cada transição é feita com certa dificuldade; em conseqüência, uma pessoa tímida,
ou outra hipersensível ou com um trauma físico, pode achar inteiramente mais agradável
permanecer em um dado ponto, do que concentrar suas forças para um novo ajustamento.
Mesmo uma pessoa que haja conseguido com êxito uma transição, não está segura no nível
mais maduro. Existe sempre a possibilidade de "regressão" a uma etapa mais fácil e mais
primitiva. Uma criança que não se dá bem com os companheiros da sua idade pode
ensimesmar-se, ou procurar o abrigo confortante do círculo familiar. Um amante desgostoso
pode voltar nara a comoanhia de seu urónrio sexo ou para o ca

Psicologia.s do Século XX

341

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Edna Heidbreder

rinho de sua mãe, ou mergulhar em seus próprios pensamentos e sentimentos.

Ninguém, nem mesmo o mais feliz, pode escapar do conflito entre o desejo e a repressão. Cada
um que nasce na sociedade humana está fadado a ter algum de seus impulsos contrariado; e
como resultado, a conduta, mesmo das pessoas normais, dá mostra de atritos e tensões. A
psicologia da vida cotidiana mostra ser isto verdade, e Freud nunca acha difícil encontrar provas
para as suas teorias nos incidentes comuns que nós desprezamos como insignificantes ou
atribuímos ao acaso. As falhas da linguagem e as da escrita, nomes e encontros esquecidos,
presentes e objetos perdidos, todos indicam o papel desempenhado pelo desejo e pela
motivação. Tais acontecimentos, insiste Freud, nunca são acidentais. A mulher que perde o seu
anel de casamento desejaria nunca tê-lo possuído. O médico que esquece o nome de seu
concorrente, na realidade deseja ver aquele nome riscado da existência. O jornal que imprime
"Clown Prince" em lugar de "Crown Prince" e corrige o seu erro afirmando que naturalmente
quis dizer "Clown Prince", de fato quer dizer isso mesmo. * Mesmo o senso comum inculto tem
a suspeita astuta de que os esquecimentos são significativos; raramente uma pessoa declara,
sem embaraço, que deixou de comparecer a um encontro porque o esqueceu. Os fatos dessa
espécie são sempre determinados. São mesmo superdeterminados. Diversas linhas de
causalidade podem convergir sobre o mesmo incidente desagradável, e determinantes físicos
bem como psíquicos podem estar incluídos. Os erros no falar, por exemplo, podem ser devidos
em parte a dificuldades de coordenação muscular, à transferência de letras, à igualdade das
palavras, e coisas desse teor. Mas tais circunstâncias
não dão a explicação completa. Elas não explicam por que certa falha e não outra foi cometida
- por que foi pronunciada tal combinação de sons e não outra. Um jovem comerciante, por
exemplo, esforçando-se para ser educado a respeito de um concorrente, e pretendendo dizer
"Sim, ele é muito eficiente" ("efficient") realmente disse: "Sim, ele é muito intrometido"
("officious"). Naturalmente, ele estava incorrendo em uma fácil confusão de palavras; mas,
também estava exprimindo a sua verdadeira opinião. Dese4 A maioria dos exemplos dados
neste parágrafo são extraidos do livro The Psychopathology of Everyday Life.

N. da Editora. "Crown Prince' (prlnclpe da coroa) era o titulo do prlncipe herdeiro em certas
monarquias da Europa central. Clown Prince"

jo e satisfação indireta estão na base da conduta normal como da anormal, e até os


acontecimentos que atribuímos ao acaso são determinados por motivos.

Além disso, as pessoas normais sonham, e os sonhos, é quase desnecessário repetir, dão
bastante prova das maquinações do inconsciente. Os devaneios bem como os sonhos noturnos
são comuns entre as pessoas normais e, como aqueles, são modos de satisfação dos desejos e
das maneiras primitivas de pensar. Os devaneios, de fato, dão a chave para uma das mais
interessantes teorias freudianas: a interpretação do papel do intelecto nos assuntos humanos.

Nas mãos de Freud, o intelecto recebe escasso respeito. A noção de "razão entronizada"
transforma-se em mito e o homem racional entra em colapso no meio dos desejos freudianos.
O pensamento e a razão podem ser tudo menos forças dominantes na natureza humana;
existem somente para servir aos grandes impulsos e desejos primaciais, que são os verdadeiros
donos da conduta humana. O intelecto é o seu servo, e muitas vezes servo corrupto, não se
pejando em torcer, esconder e manipular a verdade no interesse de seus poderosos donos. A
razão é sempre motivada por necessidades afetivas; ela existe para executar as suas ordens;
direta ou indiretamente, trabalha para conseguir as satisfações dessas necessidades. É verdade
que o intelecto, a fim de servir efetivamente, deve aprender a tratar com o mundo como ele é,
competir com os fatos reais e, portanto, assumir as maneiras críticas, lógicas e realistas que
reconhecemos como pensamento verdadeiro. Mas, essas são formas secundárias de reação
inculcadas sobre o pensamento primitivo e alógico pelo fato de que os anseios instintivos, para
conseguir sua verdadeira satisfação, devem atuar no mundo real. Mesmo o pensamento mais
lógico e realista é determinado pelo desejo pessoal e primitivo.

Além disso, o intelecto nem sempre faz caso das lições que aprendeu. Às vezes, esquivando-se
das dificuldades do ajustamento às situações reais, ele provê alegrias e triunfos imaginários que
não podem, na ocasião, ser obtidos na realidade. Bleuler deu o nome de "pensamento
autístico" a esta espécie de intelecção, da qual o devaneio é o melhor exemplo possível. Em
contraste com o pensamento realista, o autístico acredita no que quer acreditar, detendo-se
nas satisfações imediatas e imaginadas que podem ser obtidas sem o custo e o risco do
compromisso real com o mundo verdadeiro. O pensamento autístico, claramente motivado
pelo princípio do

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Edna Heidbreder

P84cologias do Século XX

prazer, revela que o intelecto está inconfundivelmente sujeito ao instinto e ao desejo. Outra
prática que denota o papel secundário do intelecto é a que Ernest Jones chama de
racionalização. Ela consiste em achar bons motivos para um ato, quando a pessoa não está
querendo revelar ou admitir o motivo real - ou quando, o que é perfeitamente possível, ela
própria desconhece qual seja o motivo verdadeiro. A ocorrência da racionalização significa qüe
nós fazemos as coisas primeiro porque desejamos fazer, e depois encontramos motivos para
as mesmas. O homem que de fato quer jogar golfe pode achar muitos bons motivos para assim
proceder, nas horas de trabalho e fora delas. O golfe é um bom exercício; desanuvia a mente
para o trabalho; muitas vezes fecha um negócio no campo de golfe; tanto trabalho sem
distração faz dele uma pessoa zangada. Os seres humanos gostam de pensar que são dirigidos
pela razão, e a racionalização é um artifício que alimenta esta ilusão.

Porém, tudo isso, pode-se argumentar, é bastante comum. 'Falhas de linguagem e lapsos de
memória, sonhos e erros, irregularidades do pensamento, tais como o devaneio e a
racionalização, não são afinal as maiores atividades da vida. Podem os princípios da psicanálise
explicar os problemas mais graves da conduta humana?

Os freudianos com certeza não se esquivam dessa tarefa. As neuroses não podem ser
consideradas coisas sem importância, e a teoria psicanalítica tem como sua própria origem a
tentativa de compreender e curar as neuroses. De acordo com os freudianos, exatamente as
mesmas forças estão em ação no comportamento normal e no anormal, porém, neste último,
estão exaltadas e seus efeitos são mais perceptiveis. Os sintomas neuróticos são expressões
indiretas de desejos reprimidos. A cegueira histérica pode ser uma fuga a um dever intolerável;
um soldado que não pode suportar a luta nem a fuga pode resolver seu problema ficando cego
- uma solução medíocre, de fato, mas que pelo menos resolve o conflito entre a consciência e
o desejo, sem ferir o amor-

-próprio. A paralisia histérica pode ser uma defesa contra uma estarrecedora tentação; os
membros, não podendo se mover, podem conservar o seu dono fora de perigo. Um
maneirismo ou excentricidade de conduta aparentemente sem significado pode ser a
satisfação substitutiva de um desejo não satisfeito; em certo caso, o hábito motor
estereotipado de uma moça neurótica representava a profissão do amante

que ela havia perdido. Isto não quer dizer que o caminho do desejo até o sintoma seja simples
e direto. Quase sempre o paciente não sabe o que está fazendo. Os mecanismos estão no
inconsciente; e este, atuando por vias indiretas características, torna incrivelmente difícil
descrever a verdadeira situação. Sempre, porém, na base da perturbação está o desejo - ao
qual foi negada a expressão direta e que aparece torturado na forma de alguma deformação
da conduta.
O próprio Freud, como médico, tratou das neuroses e psiconeuroses. Mas seus adeptos
ampliaram as suas interpretações, muitas vezes com acréscimos próprios, àqueles afastamentos
mais pronunciados do comportamento normal, que são classificados como psicoses. O primeiro
a fazer esta ampliação foi o psiquiatra suíço Bleuler, que explicou a esquizofrenia, a mais
desconcertante das psicoses, como uma cisão ou "fragmentação" da personalidade, resultante
de um conflito tão intenso que reduz a personalidade a frangalhos. A orientação de Bleuler foi
seguida com entusiasmo por outros elementos de sua profissão; e atualmente não há setor da
psicologia anormal no qual as interpretações psicanalíticas não hajam penetrado. Nenhum
sintoma é tão sem importância, nenhuma desordem é tão grande, para o desvelo, a diligência e
a completa e incrível habilidade daqueles que tentam adaptar a psicanálise para todos os casos.

As graves preocupações da conduta normal foram também explicadas em função dos


mecanismos freudianos. Naturalmente, a profissão, as atividades do trabalho que têm tanta
importância na vida de cada dia não podem ser desprezadas por nenhuma teoria que tente dar
urna explicação correta da conduta humana. Os freudianos consideraram este problema de
vários pontos de vista. Urna teoria diz que

o impulso pela realização, pelo sucesso, por considerações de toda a espécie, é basicamente o
desejo de possuir um companheiro do sexo oposto, e que por baixo de toda a luta pelo poder,
pela riqueza e pela fama, está o desejo de chamar a atenção de um companheiro adequado.
Através do trabalho do artista, do cientista, do estadista, do capitão de indústria, flui o motivo
do exibicionismo, - um exibicionismo certa-

5 A palavra "mecanismos" é empregada pelos psicanalistas com referénda aos processos


especificos pelos quais o inconsciente age. Healy, Bronfler e Eowers, no livro The Stri4cture
and Meaning of Psijchoanali,sis, 1939, sugerem a adoção do termo "dinamismo" em lugar da
palavra "mecanismo". "A psiquiatria", dizem eles, "e em particular a psicanálise estão
especialmente Interessadas na dlnãmlca da vida mental, nas forcas atuantes e nas leis que lhes
dizem respeito. Então, como diria um tisico, o dinamismo é uma forca especifica agindo numa
direção ou maneira especifica".

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Psicologias do Século XX

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mente sublimado e reorientado, mas que é, basicamente, um desejo primitivo de ser notado.
Explicações mais específicas foram apresentadas em abundância. O cientista, foi sugeri-. do, é
um voyeur. Sua busca da verdade, embora possa parecer desinteressada e impessoal, tem sua
origem na curiosidade sexual contrariada na infância, que persiste e se une a objetos sem
ligação aparente com as circunstâncias que primeiramente a despertaram. Grande parte da
atenção foi dada às artes, porém a mais franca e famosa tentativa de explicar a produção de
um artista em função de conceitos psicanalíticos é o livro Leonardo da Vinci de Freud. Para o
autor, não poderia haver exemplo mais perfeito de complexo de Édipo do que aquele sofrido
por Leonardo, filho ilegítimo, dedicado à sua infeliz mãe, mesmo na idade adulta obsedado
pela sua fisionomia, e reproduzindo-a sempre em suas pinturas. Um modo um tanto diverso
de aplicar os princípios freudianos vê-se nos comentários de Freud a respeito do romance
Gra4iva de Jensen. Neste caso, um simples trabalho literário é usado para revelar não o motivo
da obra do autor, mas sim a interpretação psicanalítica da situação por ele descrita. O caráter
e a conduta do jovem arqueólogo, que é o herói do romance, mesmo o seu interesse pela
arqueologia, são apresentados como expressão de seus desejos inconscientes.

E as mesmas forças subterrâneas que agem nos indivíduos, também atuam na sociedade como
um todo. De mil maneiras, a energia sexual é sublimada - dirigida para canais aprovados pela
sociedade. O mito, as cerimônias religiosas, os tabus tribais, as instituições sociais - todos eles,
através do simbolismo ou algum outro disfarce, revelam a satisfação de desejos proibidos. As
práticas de que se servem, embora muito convencionais devido ao uso e a repetição, têm suas
raízes no inconsciente e estão carregadas de emoção. Toda a contextura da civilização está
marcada pelo padrão freudiano - com conflito, repressão, interposição de resistência e
caminhos indiretos para a satisfação.

Até então, supunha-se que havia uma oposição bastante simples entre o consciente e o
inconsciente, entre as tendências do ego e as do sexo. Porém, mais tarde, Freud apresentou
teorias que dizem ser essa oposição muito menos simples e definida do que parecia. Dirigindo
a atenção para as tendências do ego, impressionou-se pelo grande conteúdo libidinoso que
encontrou; pelo amor de si mesmo expressando-se de forma mais complexa e sutil do que a
encontrada no simples

auto-erotismo. O resultado disso foi uma nova teoria de organização da psique, girando em
volta de três conceitos, o id, o ego e o superego. A relação entre esta nova teoria e a antiga
não ficou bem esclarecida. Freud parece considerar ambas como aspectos da mesma
realidade, como panoramas da psique vistos de ângulos ligeiramente diferentes de visão.
Reconhece abertamente que as relações entre elas são obscuras, mas acredita que a falta de
clareza é devida ao conhecimento incompleto; além disso, ele acredita firmemente que um
desejo de coerência não deve impedir o registro dos "insights" a que um sistema existente -
principalmente um que se reconhece incompleto - não se adapta prontamente.

-Dos três conceitos, o id (o id latino) é talvez o menos rebelde. Corresponde mais de perto à
antiga noção de inconsciente. Alguns analistas, de fato, acreditam que ele suplantou o conceito
de inconsciente, embora outros o considerem como uma interpretação complementar. O id é
a parte mais primitiva e profunda da personalidade. Ê profundo, obscuro, inconsciente e
poderoso. Contém como seus maiores componentes os impulsos sexuais instintivos, mas inclui
também tendências de hábitos que o indivíduo suprimiu, e uma espécie de sabedoria cega
herdada da raça. O id, embora poderoso, é completamente desprovido de percepção; é
amoral, inculto, despótico e audacioso. Buscando somente os prazeres do momento, exige sua
satisfação insistente mas cegamente.

O ego se desenvolve a partir do id pelo contato do eu com a realidade externa, e torna-se o


mediador entre o eu e o mundo exterior. O ego conhece a realidade de modo diferente ao do
id - percebendo, ao passo que o id deseja cegamente. A percepção, juntamente com a
capacidade para manipular o meio ambiente e regular o id com referência ao mesmo, é a
atividade característica do ego. O ego desta nova teoria é realmente muito menos o opressor
cego que era o ego do passado. Embora ponha freio ao id, muitas vezes resistindo firmemente
às suas exigências, o ego, seja aproveitando ou criando oportunidades, realiza quaisquer
satisfações verdadeiras que o id admite. Nestas atividades, o ego torna-se algo como um
oportunista, mesmo um tanto diplomata. Torna-se também objeto de amor por parte do id.
Freud encontra no amor a si próprio um componente libidinoso fornecido diretamente pelo id.

A mais impressionante das novas concepções é, sem termo de comparação, a do superego.


Talvez a melhor maneira

346

Edna Hejdbreder

de descrever o superego seja dizer que ele é a concepção da consciência, segundo Freud, e,
então, acrescentar imediatamente que se trata de uma consciência que é infantil, inculta, em
grande parte inconsciente e poderosa ao extremo, O superego é formado quando a criança,
em seus primeiros contatos com o mundo ao seu redor, incorpora em si mesma o pai ideal -
que representa de certo modo ambos os pais

- e adota como parte de si mesma as proibições inculcadas pelos pais na meninice e na tenra
infância, O superego tem sido chamado de "herdeiro do complexo de Édipo". Provém da
tentativa infantil de autodisciplina, de resistência contra os atos proibidos, pelo
estabelecimento dentro do eu dos padrões do mundo dos pais. O superego, portanto, inclui as
emoções que caracterizam o completo de Édipo e está organizado na base dos "Faça isto" e
"Não faça isto" que provêm das circunstâncias morais impensadas, incompreendidas e
confusamente emocionais da infância. Por sua intensidade emocional e pela 4nsistência cega
de suas exigências, assemelha-se mais ao id do que ao ego; comunica-se com o id mais
livremente do que o ego. E, contudo, desde cedo, o superego adquire um enorme poder sobre
o ego; é capaz de severidade a ponto de crueldade ao infligir punição pela violação de seu
código. Um curioso arranjo existe às vezes, no qual o superego permite ao ego afastamentos do
código à custa de agonias de remorso e sofrimento futuro, O superego, em suma, é a
moralidade inconsciente do indivíduo, a qual, muitas vezes em desacordo com suas crenças e
princípios conscientes, inflige sofrimento e exige expiação por atos dos quais a pessoa não sabe
conscientemente que o mesmo desaprova. Esta situação aumenta muito a probabilidade da
formação de conflitos; Freud acredita que uma quantidade incalculável de energia psíquica é
gasta pelas confusões nas quais o superego se envolve.

Devemos lembrar, também, que Freud não foi o único a revisar e desenvolver o seu sistema.
As modificações de seus ensinanentos surgiram em toda parte, muitas vezes asperamente
opostas entre si. Algumas das sugestões de seus adeptos foram aceitas por Freud, porém
outras - notadamente as de Jung e Adier - foram condenadas e rejeitadas por ele. É
surpreendente que, na exuberância da doutrina que se desenvolveu, os princípios de Freud se
destaquem tão claramente como o fazem. Pois, apesar das modificações que ele está
continuamente introduzindo, e a despeito das alterações e ampliações - tão freqüentes como

Psicologias do Século XX
347

não oficiais - que outros realizaram em seu nome, os contornos principais de sua concepção
são claramente percebidos. Existe sempre o padrão básico de um eu em luta com os desejos
inconscientes, embora as relações entre eles sejam intricadas e nem sempre claras. As
correntes de impulso e repressão percorrem toda a estrutura psíquica - linhas de resistência,
de burla da resistência e de satisfação indireta do desejo.

No limiar de qualquer tentativa para avaliar as doutrinas da psicanálise há uma dificuldade


curiosa e significativa. Se a teoria for verdadeira, a simples questão de examinar os prós e os
contras já pode ser uma expressão de motivos inconscientes, e quaisquer objeções que surjam
e sejam objeto da atenção do crítico podem ser defesas inconscientes contra rebeldias
indesejáveis. Neste caso, as próprias objeções constituem evidência da exatidão essencial do
sistema; pois o seu aparecimento significa que o crítico acha o significado da psicanálise
objetável e está se protegendo na forma prevista pela teoria. Esta possibilidade pode ser
determinada e admitida desde o início.

Esta situação, de fato, é um caso particular de dificuldade lógica que surge em qualquer
tentativa para avaliar a teoria do ponto de vista da ciência: é impossível tanto provar como
desaprovar as teorias psicanalíticas, baseando-se em evidência científica. É, realmente,
impossível provar que estão certas porque é impossível provar que estão erradas. A ciência, no
final, apela para a evidência experimental, e um experimento decisivo é o que dá uma clara
resposta af irmativa ou negativa a alguma pergunta, O experimento, portanto, deve ser feito de
tal forma que torne possível uma resposta de "Sim" ou "Não"; ou de "Sim - em uma certa
porcentagem de casos". É por este motivo que a ciência insiste em computar os casos negativos.
Porém, a teoria psicanalítica, na forma em que é agora exposta, torna impossível um caso
negativo. Por exemplo, se a análise revela um complexo sexual, a teoria fica confirmada. Em
caso contrário, deixa de o revelar porque a análise encontrou uma resistên6
Para ser mais especifico, se o critico rejeita a teoria, pode estar agindo

em defesa própria. Se ele simpatiza com a teoria em seu todo, reservando suas objeções para
um ou outro ponto, pode estar apenas usando uma defesa mais sutil, tentando proteger seus
pontos mais sensiveis fazendo concessões sobre pontos que não lhe dizem muito respeito.
Mesmo que apresente boas razões para a sua posição, nunca pode ter certeza de não estar
racionalizando. E o critico pode não ter certeza de não estar adotando tais artificlos, porque os
seus motivos podem estar profundamente situados em seu inconsciente,

348

Edna Heidbreder

cia obstinada, daí a existência de um complexo sexual bastante grave; e outra vez a teoria é
confirmada. Este exemplo é menos sutil que muitos outros que poderiam ser escolhidos,
porém, indica a natureza essencial da dificuldade.

Do ponto de vista da ciência, esta questão da evidência representa o mais sério obstáculo na
maneira de julgar a teoria. Foram feitas tentativas, para ser exato, em alguns casos por
psicanalistas, mas em sua maior parte pelos psicólogos acadêmicos, para submeter alguns dos
conceitos deste sistema aos processos experimentais e estatísticos da ciência. O experimento
sobre associação livre é um dos dispositivos que foram usados para este fim. Este experimento,
um dos clássicos do laboratório de Wundt, foi levado a efeito por Jung no campo da psicanálise;
e embora a associação livre na psicanálise e a de laboratório sejam
reconhecidamente um tanto diferentes, o método foi aproveitado por muitos psicólogos como
possível meio de colocar em forma experimental alguns dos problemas da psicanálise. A
psicologia animal sugere outras linhas de ataque. Por exemplo, foi feita uma tentativa para
determinar o poder relativo da fome e do sexo como impulsos, criando-se situações que
mostrarão para qual de duas alternativas, o alimento ou uma fêmea, o animal suportará
choques elétricos dolorosos. Com os seres humanos, questionários e tabelas foram usados para
descobrir até que ponto acham-se presentes condições específicas - por exemplo, a preferência
do rapaz pela mãe em lugar do pai - mas tais dados, mesmo quando positivos, são indiretos e,
na melhor das hipóteses, são apenas corroborativos. Além disso, há uma impressão, bastante
comum entre os psicanalistas, de que tais estudos são inúteis e mesmo condenáveis. Para
muitos deles parece claramente impossível incluir os verdadeiros fatores vitais numa
experiência de laboratório ou num questionário; não lhes parece apenas fora de propósito mas
francamente errôneo examinar médias estatísticas e curvas de distribuição e tirar conclusões
sobre tabelas de dados estudados quantitativamente. Tais práticas, eles insistem, empanam a
personalidade; e esta, cujas mínimas idiossincrasias podem ser importantes, deve ser sempre
mantida como centro da atenção.

Tudo isso significa que os psicanalistas oferecem um tipo de evidência diferente daquele aceito
pela ciência. Isto não quer dizer que não ofereçam evidência. A deles, entretanto, é a do tipo
acumulado na experiência conforme surge, e não em situações especialmente preparadas para
pôr à pro Psicologia

do Século XX

349

va as proposições na forma de perguntas. Os psicanalistas depositam a sua fé naquilo que


observaram diretamente em suas análises e no que realizaram na prática. É como se apenas
dissessem "olhem e vejam", certos de que os que viram o que eles viram devem ficar
convencidos como eles ficaram. Inevitavelmente, ao tentar examinar a psicanálise do ponto de
vista científico, o crítico depara com dois tipos de evidência: por um lado, observações imediatas
"não tratadas" que se acumularam e que produziram convicção no decorrer da experiência
prática diária; de outro, observaç es submetidas a processos especialmente dispostos para
testar as hipóteses em que são relevantes. Naturalmente, o fato de que a evidência
apresentada em apoio da teoria psicanalítica não $eja rigorosamente científica, não significa que
a teoria seja falsa. Também não quer dizer que os cientistas tenham se recusado a aceitá-la, pois
um dos fatos notáveis dessa importante teoria foi que ela abriu caminho mesmo entre
cientistas, sem o apoio da evidência que é estritamente científica. Significa apenas que quando é
mantida uma crença na teoria psicanalítica, é apoiada em outros fundamentos além da prova
científica. Quer dizer que a crença não se baseia em evidência verificada de forma sistemática,
mas na impressão de que existe algo na mesma; e que esta explica razoavelmente as coisas que
toda a gente realmente faz; e que as especulações estranhas, por chocantes que
sejam, coincidem de maneira convincente com a observação comum e contribuem para tornar
coerentes e inteligíveis as atividades que de outra forma seriam caóticas e sem sentido e que
constituem uma parte tão grande do comportamento humano. Quem quer que aceite ou não as
teorias psicanalíticas, assim procede através do mesmo tipo de raciocínio que lhe fornece os mil
e um juízos que é forçado a fazer na vida diária baseado em evidência inadequada e insuficiente
- os tipos de juízo, realmente, aos quais é obrigado a se adaptar, mas que não têm lugar na
ciência. Tais estimações, derivadas de uma multidão de impressões e interpretações, conjeturas
e intuições, transformam-se muitas vezes em convicções inabaláveis, que podem estar certas ou
erradas mas que, do ponto de vista da ciência, não podem ser confirmadas ou negadas.

Além dessas críticas de natureza geral, têm sido feitas objeções a determinados pontos da
teoria psicanalítica. A mais comum é a de que Freud exagerou demais o papel desemoenhado
nelo sexo. Ouvimos, às vezes, a obiecão infun

350

Edna Heidbrcder

Psicologia8 do Século XX

351

dada de que Freud reduz tudo a sexo - sem fundamento, porque isto não coincide com os fatos.
Freud nunca pretendeu que o motivo sexual fosse o único impulso que leva à atividade.
Admitiu sempre as tendências autoconservadoras, e desde o início atribuiu ao ego forças que
são capazes de reprimir os desejos sexuais. Mas, o impulso sexual, saliente, está sujeito a uma
forte e contínua repressão, e devido a isso leva a distúrbios acentuados da conduta. Tudo isso,
entretanto, não altera o fato de que Freud atribui ao sexo o papel preponderante na conduta
humana, e que a doutrina da tremenda e universal potência do sexo é uma das suas mais
notáveis hipóteses de trabalho.

A resposta de Freud à objeção de ter supervalorizado o sexo é por demais evidente para exigir
explicação. Foi principalmente porque Jung e Adier tentaram alterar o seu ensinamento neste
particular que ele se afastou tão amarguradamente de ambos. Todavia, Jung e Adier, ambos
colocando o impulso geral no lugar do interesse sexual, estão muito mais próximos de Freud do
que a maioria de seus críticos. Para muitos psicólogos, parece um erro supor que a vasta e
variada gama da atividade humana seja tão largamente dependente, como acredita Freud, de
qualquer motivo geral simples, seja de autoconservação, autoconfiança. impulso sexual ou
força vital em geral. Consideram tal modo de proceder como uma tentação para entregar-se a
longas e vagas especulações; um convite para que qualquer tipo específico de conduta seja
relacionado à única fonte que se aceita. Observam que a psicologia, como qualquer outra
ciência, tem progredido em proporção direta à sua descoberta das condições específicas que
determinam certos fatos. Preferem, portanto, começar de forma mais singela, tomando as
diferenças visíveis pelo seu valor aparente, e tentando descobrir as condições especiais que
provocam a conduta que o senso comum atribui a uma variedade de motivos mais específicos
- medo, raiva, curiosidade, vingança, desejo de dominar e uma infinidade de outros. Acreditam
piamente que uma explicação verdadeira inclui uma descrição das condições particulares que
levaram a determinada ação; e que a disponibilidade sempre presente de uma explicação geral
- a possibilidade permanente de dizer a respeito de qualquer ação "é devida ao motivo sexual"
- pode facilmente desencorajar a pesquisa dos pormenores circunstanciados.

Será imediatamente objetado - e com razão - que os freudianos não se detêm, na prática, com
as exposições ge neralizadas

e que insistem na importância de conhecer com detalhes completos como a condição


perturbadora surgiu numa certa pessoa. Porém, existe uma grande diferença entre pesquisar os
detalhes que ligam uma dada condição com uma causa que é conhecida em sua natureza geral
e pesquisar os detalhes que cercam aquela condição a fim de determinar a natureza da própria
causa. Além disso, a ampliação feita por Freud do termo "sexo", muito além do uso geralmente
aceito, foi criticada como desconcertante. É difícil saber, quando uma atividade foi
caracterizada como sexual, até onde chega o que é especificamente sexual. E, contudo, apesar
dessas objeções, não é de todo lamentável que Freud tenha dado tanta ênfase ao sexo cqmo o
fez. O assunto foi notavelmente esquecido pelos psicólogos acadêmicos; e o exagero de Freud
foi possivelmente um passo necessário no sentido de dar ao sexo o seu lugar legítimo na
explicação do comportamento humano.

Não obstante, pode-se perguntar se os dados de Freud sobre a sexualidade infantil, mesmo
como ele próprio os apresenta, sustentam necessariamente suas conclusões. A teoria,
devemos lembrar, derivou do fato de que em suas primeiras análises sempre achou que uma
análise aparentemente acabada não estava realmente completa; que tinha de remontar cada
vez mais à história do paciente até alcançar a época de sua meninice ou tenra infância, onde
geralmente acabava por descobrir uma suposta sedução. Mas, esta série de fatos indica
necessariamente uma sexualidade infantil? Não poderia uma série de malogros em atingir a
raiz da perturbação significar isto mesmo - uma série de malogros - e nada mais? Não seria
necessário mudar o significado do termo "sexual" à medida que a análise retrocedesse cada
vez mais em direção à infância? E desde que as seduções na infância provaram ser fantasias,
não seria possível que algo no processo de análise tivesse sugerido a sua produção ou
ampliado o seu significado para os pacientes? Pelo menos são possíveis interpretações
diferentes dos dados citados por Freud. Isto não significa, naturalmente, que Freud não
estivesse sinceramente convencido, nem que sua convicção não estivesse baseada em
evidências. Mas é bem possível que sua convicção fosse o resultado de um conjunto de
impressões tão sutis que não pudessem ser observadas e formuladas em separado. É possível
que as bases reais de suas convicções fugissem à sua própria observação e descrição, e que
suas conclusões fossem o resultado de uma soma inconsciente de

352

Edna Heidbreder

respostas na mente de um observador muito perspicaz. É lugar-comum em psicologia que as


convicções surgem desta maneira, seja em assuntos científicos ou em outros. Mas, a base
dessa convicção é particular e pessoal, e a sua expressão verbal não pode ser admitida como
conhecimento científico enquanto não for apoiada por provas demonstráveis a terceiros.
Novamente aparece a velha dificuldade; a prova é de uma natureza diversa da que é admitida
pela ciência.

Intimamente relacionada com este problema da relação entre a evidência e a convicção está a
crítica de que a associação livre empregada pela psicanálise não é de fato "livre". Observou-se
que, por mais cuidadosamente que o analista se subtraia, por mais que se esforce em evitar as
sugestões que possam influenciar o andamento das reflexões do paciente, a este deve de
alguma forma ser dado a entender que, ao deixar que seus pensamentos o conduzam para onde
quiserem, não deve tentar reter nada que pareça sem importância ou embaraçoso, ou que não
seja comumente mencionado nas conversas educadas. Mas este entendimento, como se sabe,
representa já uma influência no sentido de provocar uma tendência definida de pensamento.
Além disso, de vez em quando durante a análise, o médico intervém, às vezes para sugerir
interpretações, outras vezes para auxiliar o paciente a vencer uma resistência e outras para aj
udar no problema de transferência. Esta situação torna possível para o pesquisador exercer uma
influência contra a qual é particularmente difícil organizar defesa. Os próprios analistas estão
cientes dessas dificuldades e conceberam vários métodos pelos quais tentam superá-las. E com
certeza devemos dizer, a favor de Freud, que seu desejo de alterar as suas opiniões que foram
publicadas, indica que, pelo menos quanto a ele, as convicções teóricas não foram
impenetráveis às impressões causadas por fatos surgidos nos contatos
reais com os pacientes.

O sistema foi também criticado por possuir inconsistências internas e pontos obscuros. O
complexo de Édipo principalmente tem sofrido muitos ataques. De que maneira a criança
recém-nascida aprende a reprimir seus desejos libidinosos? De onde provém a sua força de
repressão? Como é que a atitude do meio ambiente social é exatamente transmitida à criança?
Das tendências do ego? Então elas são mais fortes do que a libido? Qual é a relação exata
entre os desejos sexuais e o ego? As mais recentes teorias de Freud sobre as tendências do
ego, indicando como o fazem

ISI(OlH)I(l' (l Século XX

uma ação recíproca e complexa entre a libido e o ego, e com um amor a si próprio no qual se
envolve a libido, tornam a distinção entre as duas menos clara do que antes. Tais reflexões,
entretanto, não perturbam seriamente os psicanalistas. Consideram como virtude de seus
líderes que não mostrem pressa em concretizar as crenças em sistemas completos e finais; que
conservem, ao contrário, uma suscetibilidade aos fatos como os vêem, mesmo se forem
aparentemente inconsistentes; e que mantenham uma disposição a admitir as tendências que
reconhecem estarem em atividade, mesmo que não possam ser representadas graficamente
as inter-relações das mesmas. Acreditam que muitas destas dificuldades são temporárias, que
algumas são artificiais e que, além disso, são, sem motivo, consideradas importantes por
aqueles cujos hábitos acadêmicos de pensamento deixam os seus possuidores desassossegados
até conseguirem estabelecer uma estrutura nitidamente articulada para as suas concepções de
trabalho. Acreditam, também, que para aqueles que tiveram uma experiência de primeira mão
com a psicanálise - novamente o apelo é para a observação direta e intuitiva - as imperfeições,
inconsistências e falhas do sistema parecem insignificantes ao
lado da relevância imediatamente visível da teoria como um todo, em relação aos fatos que se
apresentam na vida humana.

Assim, a diferença entre os psicólogos acadêmicos e os psicanalistas é, amiúde, nada mais que
diferenças nos hábitos de pensamento provocados pelos seus respectivos problemas.
Certamente, grande parte da circunspecção dos psicólogos acadêmicos tem sua origem numa
aversão pelo que consideram uma falta de clareza da linguagem - da simples e natural
expressão literal - nas declarações freudianas. A nuvem da mitologia e da personificação que
paira sobre os conceitos desta escola foi particularmente desagradável. As figuras de retórica,
como "censor" ou "complexo de Édipo", ou mesmo aquelas subentendidas em "conflito",
"recalque", "elaboração on