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ESCOLA SECUNDÁRIA DE LATINO COELHO DE LAMEGO

DISCIPLINA DE FILOSOFIA
10 º ANO Abril/2014
A FILOSOFIA POLÍTICA DE RAWLS

John Rawls (1921-2002) foi um filósofo moral de destaque e o principal


responsável pelo crescimento da filosofia política contemporânea. A sua maior obra,
Uma Teoria da Justiça, representa uma separação de águas nas discussões sobre como
podemos e devemos viver em sociedade. Nesta obra, Rawls tem como principal
objetivo explicar como seria possível uma sociedade justa e propõe que os princípios
da justiça sejam aqueles que as pessoas livres e racionais escolheriam em condições
que garantissem a imparcialidade da sua escolha. Isso seria possível numa situação
hipotética de igualdade, a posição original, em que tais pessoas escolheriam
contratualmente os princípios da justiça. Estes princípios regulamentariam instituições
sociais básicas como a atribuição de deveres e direitos, a distribuição de riquezas, a
constituição política, o mercado e a propriedade.

O contrato da posição original é justo, pois seria realizado sob um véu de


ignorância no qual os participantes do contrato, apesar de interessados em atingir os
seus próprios objetivos, não sabem quais serão as suas posições: sociais, raça, sexo,
talentos naturais e conceções do bem nessa sociedade; poderiam ser pobres ou ricos,
negros ou brancos, homens ou mulheres, inteligentes ou não, utilitaristas ou
kantianos.
Como todos os participantes do contrato estão numa situação semelhante,
equitativa, isso impede que eles possam utilizar raciocínios egoístas ou arbitrários ao
decidir o que é justo para a sociedade, pois se eles não sabem se serão ricos ou
pobres, por exemplo, não poderão escolher regras arbitrárias que privilegiam uma
classe social e prejudique as demais. O que essas pessoas logo constatariam é que em
qualquer modo de vida possível alguns bens sociais seriam fundamentais para elas, tais
como os direitos, as liberdades, as oportunidades, a renda, a riqueza e as bases sociais
da autoestima. As regras escolhidas imparcialmente nesse contrato levam tais bens em
consideração e são os princípios da justiça:
- Princípio da liberdade igual: cada pessoa deve ter um direito igual ao mais
extenso sistema de liberdades básicas iguais que seja compatível com um sistema de
liberdades idêntico para as outras.
- Princípio da diferença: as desigualdades sociais e económicas devem ser
ordenadas de tal modo que sejam ao mesmo tempo a) consideradas como vantajosas
para todos dentro dos limites do razoável, e b) vinculadas a posições e a cargos
acessíveis a todos.
Deste modo, uma sociedade justa estabelecida de modo racional e imparcial
asseguraria os direitos políticos reconhecidos nas democracias liberais, tais como: a
liberdade de expressão, a liberdade de religião, o direito à justiça, o direito de votar,
etc. Nessa sociedade justa também haveria uma grande distribuição de riqueza exceto
nos casos em que a desigualdade fosse justificada como um incentivo que beneficia e
está aberto a todos, como pagar mais aos médicos, por exemplo. Em qualquer caso há
uma distribuição justa e igualitária e uma desigualdade de oportunidades, renda e
liberdade só seria aceitável se beneficiasse os menos favorecidos.

A teoria da justiça de Rawls é interessante por várias razões sendo uma delas
captar algumas de nossas intuições morais básicas acerca da justiça. Trata-se de uma
teoria influente e precisamente por isso foi imensamente discutida, sendo alvo de
várias objeções. Uma das objeções, apresentada por Dworkin, é que a sua teoria não
corresponde às nossas intuições acerca da justiça, pois implica que certas escolhas
devem injustamente subsidiar outras.

Exemplo:
Imagine dois professores de filosofia que dão aulas na mesma escola. Ambos
também têm os mesmos recursos financeiros, talentos naturais e antecedentes sociais.
Um dos professores é, no seu tempo livre, um boémio que esbanja o seu dinheiro em
discotecas caras. Como ele também tem uma família para sustentar, muitas vezes fica
sem dinheiro para pagar as contas. Nessas situações de apuros financeiros ele recorre
ao apoio social do Estado.
O outro professor, por sua vez, dedicou-se no seu tempo livre a estudar mais
filosofia. Com muito esforço e dedicação ele passa até mesmo a fazer palestras para
complementar o seu vencimento, ganhando duas vezes mais do que antes. De acordo
com o princípio da diferença as desigualdades de rendimento só são permitidas se
beneficiam os menos favorecidos. Isso implica em dizer que nesse caso o professor
boémio deve ser beneficiado pelo professor dedicado, mas esta consequência é
inaceitável, pois vai contra as nossas intuições morais e fundamentais de justiça.
Pensamos que é justo compensar os custos que não são escolhidos como as
doenças e deficiências de algumas pessoas, mas é injusto compensar os custos
escolhidos pelas pessoas. A teoria de Rawls diz-nos que o professor dedicado deve
sustentar não apenas as suas próprias escolhas, mas também as escolhas do professor
esbanjador, por meio dos impostos. Essa consequência inaceitável ocorre porque o
princípio da diferença proposto por Rawls não faz distinção entre custos escolhidos e
não escolhidos. Cada pessoa pode ter o estilo de vida que preferir e por isso temos a
intuição de que é legítimo que cada um deva ser responsável pelo custo das suas
escolhas, mas a teoria de Rawls não apreende essa intuição fundamental.

Outra objeção é que o contrato da posição original é muito limitado como um


fundamento ético, pois deixa fora do âmbito da moralidade uma série de problemas
éticos importantes como a relevância moral dos animais não-humanos e a preservação
do meio ambiente. Admitindo a teoria de Rawls, que sentido há em perguntar se os
animais não-humanos têm relevância moral ou não, já que os bens que determinam os
princípios da justiça são apenas bens sociais para animais humanos? E por que
deveríamos preocupar-nos em preservar o meio ambiente se os princípios da justiça
nada dizem a seu respeito? Ao longo de sua trajetória filosófica, Rawls irá tentar
responder a essas e outras objeções, além de reformular e explorar as consequências
de alguns de seus principais argumentos.

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A maior parte dos filósofos políticos importantes, como Robert Nozick e Michael
Walzer, vão tentar responder a estas questões.

A SOCIEDADE JUSTA SEGUNDO RAWLS


John Rawls (1921-2002) escreveu a sua principal obra - Uma Teoria da Justiça (1971),
numa altura que o mundo estava dividido entre dois blocos políticos com diferentes conceções
sobre a justiça social, a igualdade, liberdade ou a propriedade. O Bloco liderado pela antiga
União Soviética subordina a justiça social ao princípio da igualdade económica (comunismo). O
Bloco liderado pelos EUA, subordina a justiça social ao princípio da liberdade económica
(liberalismo).
Rawls está comprometido com o modelo económico liberal e procura fundamentar a
legitimidade das sociedades liberais, assentes na desigualdade na distribuição da riqueza. As
questões que aborda por ser sintetizada da seguinte forma:

- É possível conciliar a Princípio da Igualdade de Direitos numa sociedade marcada


pelas desigualdades entre os indivíduos? A igualdade de direitos não implica o fim das
desigualdades sociais? Os indivíduos mais empreendores e talentosos tem que ser limitados
nas suas aspirações? O progresso nas sociedades liberais implica necessariamente a riqueza de
uns e a pobreza de outros?

John Rawls, tem uma clara visão otimista dos homens, confiando nas suas capacidades
racionais para resolver estes dilemas. Ele acredita que a solução está na criação de uma
Sociedade Justa, que promova a Justiça Social.

Há um ponto que nenhuma sociedade justa pode abdicar: o respeito pelos Direitos e
as Liberdades que gozam os cidadãos. Estes direitos são invioláveis e não podem ser
instrumentalizáveis sob nenhum pretexto, ao contrário do que admitiam os utilitaristas.
A Justiça deve ser a regra de qualquer sociedade humana bem ordenada, o que implica
uma distribuição equitativa dos direitos e dos deveres entre os cidadãos de modo a gerar a
máxima cooperação entre eles e uma correta distribuição dos benefícios alcançados.
A sua filosofia política assenta numa conceção universalista da Justiça (deontológica),
seguindo um modelo inspirado em I. Kant. John Rawls estabelece os princípios de uma
sociedade justa, tendo por base uma situação inicial hipotética. Ele irá mostrar que todo o
homem razoável, colocado nesta situação imaginária, apenas pode desejar pertencer a um
sistema social o mais equitativo possível.

A) Situação Original.

- Nome que designa a situação imaginada por John Rawls, onde os indivíduos
estabelecem um contrato social sob certas condições. Trata-se uma situação idêntica ao
estado natureza ou estado natural imaginado por John Locke, no qual os indivíduos
estabeleceram o Contrato Social que passou a reger as suas relações sociais. Para que as
decisões, tomadas nesta situação original, sejam inteiramente justas é necessário respeitar as
seguintes regras:

- Véu da Ignorância. Os indivíduos deverão ignorar quem são e esquecerem os seus


interesses particulares. Só nesta situação de imparcialidade e equidade os indivíduos podem
estabelecer os princípios de justiça que devem reger uma sociedade justa que concilie a

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máxima liberdade individual com a igualdade de direitos para todos. Os princípios que forem
estabelecidos deverão atender apenas ao interesse geral.

- Critério "Maximini". Os indivíduos colocados na "situação original" devem imaginar-


se na pior de todas as situações sociais, isto é, como pobres e marginalizados.

Maximini designa o critério que deverá ser seguido na escolha dos princípios da justiça:
maximizar todas as oportunidades e calcular o risco previsível para as diferentes opções. De
acordo com este princípio é sempre preferível escolher a opção mais segura que implica o
menor risco para todos.

Rawls defende, assim, que todos os indivíduos que abordem a questão da justiça da
forma anteriormente descrita, só podem chegar aos princípios que a seguir enunciaremos.

B) Princípios de uma Sociedade Justa

1. Princípio das Liberdades.

Cada pessoa tem um igual direito a um sistema plenamente adequado de liberdades e


de direitos fundamentais, iguais para todos, e compatível com o mesmo sistema para todos.
As liberdades individuais deverão ser tão extensas quanto possível, tendo apenas
como exigência que as mesmas sejam compatíveis com a liberdade de outros indivíduos. As
liberdades básicas são iguais para todos os indivíduos. O regime democrático decorre
naturalmente deste princípio.

2. Princípio da Diferença.

As desigualdades sociais e económicas devem cumprir duas condições para serem


admissíveis:

A) Ligarem-se a funções e posições abertas a todos em condições de justa igualdade de


oportunidades (princípio da oportunidade justa).

B) Servirem para o maior benefício dos menos favorecidos (princípio da diferença).

Independentemente da condição social, todos os homens deveriam gozar do mesmo


estatuto, isto é, ter as mesmas oportunidades básicas. Esta igualdade de direitos não deve
constituir uma limitação ao seu desenvolvimento.

A desigualdade só pode ser socialmente existir na condição da mesma se traduzir em


benefícios para os mais carenciados. Uma sociedade onde os mais talentosos e
empreendedores sejam os únicos beneficiados é uma sociedade injusta.

John Rawls sustenta que compete ao Estado promover a igualdade de oportunidades


dos indivíduos, reduzindo as desigualdades naturais e sociais. Deverá atuar sobre o mercado
livre corrigindo as distorções e proceder à redistribuição das riquezas de modo a proporcionar

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aos mais desfavorecidos as condições para melhorarem as suas condições de vida. Uma
sociedade justa, baseada nestes princípios aceita a desigualdade entre os indivíduos, mas
garante a todos eles as mesmas oportunidades básicas.

C) Estado e Cidadãos.

O Estado deve organizar a sociedade de modo a compatibilizar as liberdades e garantir


as mesmas oportunidades-básicas. Os cidadãos devem acatar as leis da sociedade, mas têm
toda a legitimidade para não o fazerem (Desobediência Civil) no caso dos princípios da justiça
estarem a ser violados.

- Rawls admite a legitimidade de ações militares contra Estados opressores que violem
os direitos dos seus cidadãos. A filosofia política de John Rawls tem para muitos dos seus
críticos apenas um objetivo: contribuir para atenuar as desigualdades das sociedades
capitalistas propondo formas mais equitativas de distribuição da riqueza, numa perspetiva
muito próxima da social-democracia europeia.

Professor: Vítor Rodrigues