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ARTHUR RAMOS E A MESTIÇAGEM NO BRASIL: MEMÓRIA DA CIÊNCIA

NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX.

Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros

Antropóloga Professora de Graduação e Pós-graduação em Ciências


Sociais – IFCH - UERJ

O ano de 2004 marca uma efeméride na história das Ciências Sociais no Brasil:
Há setenta anos o médico psiquiatra e psicanalista alagoano, Arthur Ramos, se projeta
no mundo intelectual brasileiro e estrangeiro como antropólogo, com o lançamento do
livro O Negro Brasileiro, em 1934.

Intelectual reconhecido nos debates sobre educação, psicanálise e problemas da


infância, com “O Negro Brasileiro” ele passa a discutir o pensamento social brasileiro, a
formação de nossa sociedade a partir de sua constituição étnica, apontando a
importância das contribuições dos grupos negros a nossa cultura, tanto quanto sua
presença na mestiçagem que nos caracteriza, precisando o conceito de sincretismo
religioso.

Repudiando qualquer explicação biologizante dos comportamentos sociais, faz a


revisão crítica, ao mesmo tempo que divulga a obra de Nina Rodrigues, o primeiro
intelectual a fazer pesquisas acadêmicas sobre as populações negras, registrando
hábitos, religião e doenças dos negros na Bahia, em finais do século XIX. Ramos
embasa sua obra na denúncia das teorias racistas dominantes em correntes intelectuais
do país desde o século XIX, percorrido pelas idéias profundamente discriminatórias de
Gobineau, Lombroso e Lapouge. Começa a abordagem dos problemas da sociedade
brasileira pelos efeitos da escravidão desestruturadora da cultura africana, acarretando
efeitos desarticuladores, cultural e psiquicamente sobre os escravos recém-chegados ao
Brasil e seus descendentes, constitutivos de importante segmento da população
brasileira.

Articulando saberes das metodologias médico-psiquiáticas e psicanalistas com


estudos antropológicos de autores como o africanista Frobenius e os pressupostos
teóricos de Lévy-Brhul, o antropólogo brasileiro desconstrói as análises do social no
campo das chamadas características atavicamente transmitidas pelos indivíduos de cada
raça humana presente na população estudada.

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Meses antes, em 1934, Gilberto Freyre lançara Casa Grande e Senzala,
expurgando o complexo de inferioridade nacional pela presença do então nominado
“sangue negro” da população, apontando elementos otimizadores do comportamento
social do brasileiro, a partir de características do negro, do índio e do branco, caldeadas,
de forma lúdica e libidinosa em sua concepção, pelas relações entre os grupos
formadores.

Discutindo os mesmos elementos étnicos, Ramos se deterá no estudo dos


“efeitos” da escravidão sobre escravos e escravizadores, dedicando-se, ao longo de 25
anos, até sua morte, a uma revisão contínua e metódica de seus próprios paradigmas de
análise, afirmando, desde esse primeiro livro sobre o negro brasileiro, a provisoriedade
do conhecimento científico e a necessidade contínua de pesquisas para o
aprofundamento ou revisão das conclusões. Anuncia esse livro como o primeiro de uma
série que escreveria sobre o problema racial no Brasil e na América.

Seu último artigo, publicado no Correio da UNESCO em 1949, é sua última


abordagem sobre o tema que o transformou no antropólogo convidado a ser o 1º Diretor
do Departamento de Ciências Sociais da UNESCO, e se intitula “La question raciale et
le monde démocratique”. Neste artigo Arthur Ramos, numa linguagem concisa, analisa
os efeitos danosos das ideologias racistas vistas, no período de reconstrução do mundo
pós-guerra, como fortes elementos que incentivaram, a partir da idéia de existência de
raças superiores e inferiores, a aventura nazi-fascista, que resultou na hecatombe da
segunda guerra mundial.

Pela educação, principalmente pelo desmascaramento das falsas teorias racistas,


Ramos afirma nesse texto, ser possível denunciar todas as ideologias justificadoras da
dominação em qualquer instância, seja cultural, religiosa, política ou econômica.
Engajado na tarefa assumida pela UNESCO de reconstruir as bases da civilização,
fortemente abaladas pelos crimes de guerra como os guetos, desenvolve a luta pela
igualdade entre todos os povos, desmascarando os mitos raciais, o que se efetiva no
respeito às diferenças étnicas e culturais entre todas as nações, preservando-se o direito
de cada povo a suas singularidades culturais.

Nesse mesmo 2004 a EDUFAL publica em português, numa homenagem ao


centenário de nascimento do antropólogo em 2003, seu último livro, “A Mestiçagem no
Brasil”, traduzido da edição francesa “Le Métissage au Brésil”, publicado
postumamente por Hermann et fils. Éditeurs – Paris, 1952. No pós-guerra, uma

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corrente intelectual se constituiu entre estudiosos de vários países, em poderosa rede de
conhecimentos científicos, para planejar e lutar pela construção de uma nova civilização
baseada na paz. Esse novo mundo incorporaria numerosos estoques populacionais de
negros, mestiços e indígenas de todos os continentes, o que exigiria um esforço
concentrado para o estudo dos problemas da humanidade, fossem antropológicos,
geográficos, econômicos e sociais, principalmente nas regiões tropicais do mundo.
Produto desse esforço é a coleção “Problemas de Ecologia Tropical”, dirigida em Paris
pelo cientista brasileiro Josué de Castro, então presidente do Conselho Executivo da
Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. Castro convidou
Arthur Ramos a escrever o primeiro volume da Coleção, dirigida a leitores europeus,
com o objetivo de esclarecê-los sobre a importância do mundo tropical, não só pela
riqueza de elementos naturais (florestas, água potável), como pela população mestiça
que habita e constrói esse universo plural, onde a humanidade vive a concretude das
relações étnicas e culturais, desde o século XVI.

Fazendo um mapeamento da produção intelectual estrangeira e nacional, sobre


essas relações interétnicas no Brasil, Ramos procura mostrar a presença do preconceito
racial e das idéias etnocêntricas dos pensadores ocidentais, demonstradas desde o
filósofo Kant que, no século XVIII, afirmava que misturas raciais não seriam favoráveis
à espécie humana. Desdobramento desse raciocínio, na perspectiva de Arthur Ramos é
o pensamento filosófico alemão pós-Kant, que desenvolve a idéia de “capacidade
desigual das raças”, divididas entre superiores e inferiores. Esse debate percorre o
campo intelectual brasileiro nas décadas de 20, 30, 40 e 50 do século XX.

Colocando-se frontalmente contra esse raciocínio, Ramos encabeça no Brasil a


corrente que, aliando-se a intelectuais anti-racistas em todo o mundo, irá ocupar espaços
nos campos científico e político, exercendo forte oposição ao ideário nazi-fascista, que
galvanizou milhões de pessoas em torno do projeto de um mundo dirigido pelas
chamadas “raças superiores”. Se intelectuais como Gramsci exercitavam o discurso
político sobre as concepções ditatoriais desse projeto, Ramos, como Boas, recorre às
análises científicas, às teorias antropológicas e às conquistas da genética, desde Mendel,
para desmoralizar os discurso de uma, segundo ele pseudo-ciência, ideologia
discriminatória e belicista, que apagava conhecimentos já consolidados na ciência, com
afirmações como “sangue negro”, “povo inferior” e tantos outros slogans repetidos,
divulgados como teorias científicas.

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A partir de “O Negro Brasileiro: Etnografia religiosa e psicanálise”, até
“Mestiçagem no Brasil”, Ramos produzirá extensa bibliografia sobre temas ligados a
raça, cultura, adaptação cultural, sincretismo religioso e, finalmente, as relações entre
racismo, violência e guerra, quando da explosão, de 1939 a 1945, dos conflitos
generalizados na Europa, Ásia e África, com envolvimento das Américas.

A bibliografia científica sobre a temática ligada ao negro no Brasil e na América,


por ele produzida, mostra as diferentes revisões teóricas que caracterizam sua obra após
“O Negro Brasileiro”:

1935 - “O Folclore Negro do Brasil. Demopsicologia e Psicanálise”. Rio de Janeiro.


Civilização Brasileira S. A. (Biblioteca de Divulgação Científica, vol. IV) 279 p.

1937 - “As Culturas Negras no Novo Mundo. Antropologia Cultural e Psicologia


Social”. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira S. A. Editora (Biblioteca de
Divulgação Científica, vol. XII) 399 p.

1940 - “Culturas Negras: problemas de aculturação no Brasil”. II Congresso Afro-


Brasileiro (Bahia). Rio de janeiro, Civilização Brasileira S. A. Editora
(Biblioteca de Divulgação Científica, vol XX) 147 – 159 p.

1940 - “O Negro Brasileiro. Etnografia Religiosa”. 2ª edição aumentada. São Paulo.


Cia Editora Nacional (Biblioteca Pedagógica Brasileira. Série V: Brasiliana, vol
188) 437 p.

1942 - “A Aculturação Negra no Brasil.” São Paulo, Cia Editora Nacional (Biblioteca
Pedagógica Brasileira. Série V: Brasiliana, vol 224) 376 p.

1943 - “Las Culturas Negras en el Nuevo Mundo.” Versión Española de Ernestina de


Champourein. Glosario de voces por Jorge A. Vivó. México. Fondo de Cultura
Económica (Sección de Obras de Sociología I – Manuales Introductorios) 390 p.

1943 - “Introdução à Antropologia Brasileira”. 1º volume: as culturas não européias.


Rio de Janeiro. Edição da Casa do Estudante do Brasil (Coleção Estudos
Brasileiros da C.E.B. Série B) 540 p.

1944 - “Las poblaciones del Brasil” México. Fondo de Cultura Econômica. 212 p

1945 – “O Negro no Brasil: escravidão e história social”. Tese apresentada à V


Assembléia Geral do Instituto Pan-americano de Geografia e História. Caracas,
28 de novembro a 11 de dezembro.

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1946 - “A mestiçagem é favorável ao Brasil”, in Revista Brasileira da Medicina Pública
nº 10, ano II, Rio de Janeiro, novembro-dezembro, 5-23 p.

1947 - “Introdução à Antropologia Brasileira: 2º volume: As Culturas européias e os


contatos raciais e culturais. Rio de Janeiro. Edição da Casa do Estudante do
Brasil. (Coleção Estudos Brasileiros da C.E.B. Série B) 641 p.

1949 - “A arte negra no Brasil”, in Cultura. nº 2. Rio de Janeiro. Serviço de


Documentação do Ministério da Educação e Saúde. Janeiro-abril. 189-212 p.

1949 - “La question raciale et le monde démocratique”, in Bulletin Internationale des


Sciences Sociales. Paris, vol. I, nº 3-4 (Edição póstuma).

1951 - “The Negro in Brazil”, in Brazil Portrait of Half a Continente. Edited by T.


Lynn Smith and Alexander Marchant. New York. The Dryden Press Inc.
(Edição póstuma).

1952 - “Le métissage au Brésil”. Paris, Hermann et fils Éditeurs. 142 p (Edição
póstuma)

1952 - “Estudos de Folk-lore. Definição e limites. Teorias de interpretação” Rio de


Janeiro. Casa do Estudante do Brasil. (Coleção Gaivota) 191 p.

Procurando demonstrar a estreita vinculação entre racismo, violência e guerra,


procura divulgar essa teoria não só em livros acadêmicos, mas também em veículos de
penetração mais ampla, como revistas e jornais, além de forte militância, junto à UNE,
para que o Brasil entre na guerra contra o nazi-fascismo, principalmente após os
bombardeios de navios cargueiros e de passageiros brasileiros por submarinos alemães.

Nesse esforço de guerra, publica:

1943 - “Escola livre para o estudo das ciências do homem e da cultura”, in O Jornal.
Rio de Janeiro, 13/6

1943 - “O papel do Antropólogo no mundo de pós-guerra”, in A Noite. Rio de Janeiro,


25/11

1943 - “As Ciências Sociais e os Problemas de Após-Guerra (FBN – Seção de


Manuscritos. Inventário Analítico Arthur Ramos. 38, 4, 6

5
S/d - “Ainda Gobineau” ( Coluna Movimento Cultural do Jornal Diretrizes, do Rio de
Janeiro) (FBN – Seção de Manuscritos: Arthur Ramos – Inventário Analítico)
38, 4, 32

S/d - “Uma Alemanha pan-germânica (Coluna Movimento Cultural do Jornal


Diretrizes, do Rio de Janeiro – FBN, Seção de Manuscritos: Arthur Ramos –
Inventário Analítico) 38, 4, 33

1943 - “Guerra e relações de raça”. Rio de Janeiro, Departamento Editorial da União


Nacional dos Estudantes. 184 p

1944 - “Fascismo: doença e imunidade”, in Folha Carioca, Rio de Janeiro, 26/01

S/d - “Mito do século XX. FBN, Seção de Manuscritos: Arthur Ramos – Inventário
Analítico. 38, 4, 52

S/d - “Novos e velhos racismos”. FBN, Seção de Manuscritos: Arthur Ramos –


Inventário Analítico. 38, 4, 53

S/d - “As origens feudais do racismo”. FBN, Seção de Manuscritos: Arthur Ramos –
Inventário Analítico. 38, 4, 54

1948 - “Qual será o destino da raça negra no Brasil?”, in Gazeta – São Paulo, 05/10

S/d - “Um racismo natimorto”. FBN, Seção de Manuscritos: Arthur Ramos –


Inventário Analítico. 38, 4, 62

S/d - “Os racistas e Guilherme II”. FBN, Seção de Manuscritos: Arthur Ramos –
Inventário Analítico. 38, 4, 63

Atribuindo ao Estado a tarefa de equacionar as desigualdades impostas pelo


sistema colonial e mantidas com a legitimação ideológico-racista de intelectuais,
políticos, proprietários e o senso comum no Brasil pós-colonial, Ramos se engajou, com
a ferramenta dos conhecimentos científicos e do discurso político, numa empreitada,
numa rede intelectual, de ativismo político e de trabalho oficial, para intervir em
diferentes instâncias da sociedade.

Denuncia o preconceito racial presente em diferentes produções e procedimentos


científicos. Ao trabalhar com Anísio Teixeira na Secretaria de Educação do Distrito
Federal, entre 1934 e 1937, chefia o Serviço de Ortofrenia e Higiene Mental, analisando

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os testes de QI empregados na avaliação dos alunos da Rede Pública, muitos dos quais
eram classificados como anormais, o que os impedia de freqüentar as escolas, por serem
vistos como incapazes de aprendizado.

Abrindo prontuário para cada aluno, Ramos incorpora o estudo das condições
sócio-econômicas de suas famílias, ampliando os elementos componentes do perfil
classificatório dos estudantes. Com essa metodologia o foco de análise do rendimento
escolar estudantil ultrapassa os dados exclusivamente biológicos, o que leva a uma
revisão drástica dos diagnósticos estudantis das escolas, numa proporção significativa.

Considerando as instâncias sociais intervindo no comportamento humano,


Ramos demonstrará que muitos alunos considerados anormais, mais de 70% deles, eram
“crianças-problema”, isto é, com dificuldades de adaptação ao ambiente escolar. Eram
pessoas portadoras de traumas de origem familiar, como pais desempregados,
alcoolismo na família, falta de alimentação correta, além de outras marcas sociais, todas
sanáveis com eficaz apoio das equipes de educação, saúde e atendimento social,
organizadas e financiadas pela prefeitura do Distrito Federal. Era a aplicação do projeto
modernizador da sociedade, da equipe governamental do prefeito Pedro Ernesto.

Nessas pesquisas com familiares e alunos da Rede Pública, principalmente entre


os classificados como anormais, imenso percentual deles, a maioria absoluta, Ramos
constata que se encontram entre a população mais pobre da cidade, constituída de
negros e mestiços, com baixíssimos índices de alfabetização e de emprego. Esses
diagnósticos subsidiam o planejamento do governo Pedro Ernesto, que se notabiliza
pela profunda reforma com a construção de escolas e hospitais, num esforço de
reconstrução da cidade em função do soerguimento das camadas sociais impedidas de
participação nos benefícios do processo modernizador do país.

A partir das reformulações teóricas na explicação da sociedade brasileira, Arthur


Ramos pode participar, como médico-antropólogo, funcionário público, das profundas
mudanças que determinaram a modernização do Brasil pós 1930.

Bibliografia

Barros, Luitgarde Oliveira Cavalcanti – “Um projeto de modernização do Rio de


Janeiro: a contribuição de Arthur Ramos (1933 – 1949)”, in Weyrauch e outros

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(Org) Forasteiros Construtores da Modernidade. Rio de Janeiro, Editora
Terceiro Tempo, 2003. p 40-65

“Arthur Ramos e as Dinâmicas Sociais de Seu Tempo”. Maceió, EDUFAL,


2000

Ramos, Arthur – “O Negro Brasileiro: Etnografia Religiosa e Psicanálise”. Rio de


Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1934 e São Paulo, Cia Editora nacional, 1940

“A Criança Problema”. São Paulo, Cia Editora Nacional, 1939

“Guerra e Relações de Raça”. Rio de Janeiro, Departamento Editorial da União


Nacional dos Estudantes . UNE, 1943

Sarmento, Carlos Eduardo – “O Rio de Janeiro na era Pedro Ernesto. Rio de Janeiro,
F.G.V, 2001

Silva, Selmo Nascimento – “A educação infantil numa reflexão antropológica. Niterói,


ANPUH – UFF, 2001.