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IDENTIDADE E SEXUALIDADE:
Reformando nossa visão de conceitos fundamentais

Pedro Dulci
3

Sumário
PREFÁCIO .................................................................................................................................. 4
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................ 8
1. BEM-VINDO À ERA DAS QUESTÕES DE GÊNERO, SEXO E SEXUALIDADE ..................................... 10

O que é gênero, sexo e sexualidade? ............................................................................................. 12


O que é a teoria queer? ............................................................................................................... 14
Por que a identidade de gênero tornou-se uma ideologia? .................................................................... 15
A filosofia de Judith Butler como paradigma contemporâneo................................................................ 18
E agora, como viveremos? .......................................................................................................... 20

2. A SEXUALIDADE HUMANA COMO ESTRUTURA E DIREÇÃO ....................................................... 22

Os parâmetros básicos da visão de mundo cristã ............................................................................... 22


Estrutura e direção da sexualidade humana ...................................................................................... 23
Pensando a partir de estrutura e direção ......................................................................................... 25
A natureza dinâmica da sexualidade humana .................................................................................... 26
Respostas honestas a perguntas honestas ......................................................................................... 28

3. A SEXUALIDADE HUMANA FOI TOTALMENTE AFETADA PELO PECADO ...................................... 30

O pecado como uma caricatura das estruturas criacionais .................................................................... 30


Não se trata de homossexualidade versus heterossexualidade ................................................................. 32

4. NOSSA MORAL SEXUAL PRECISA SER RETIRADA DAS ESCRITURAS ............................................. 35

Dona Hermínia como estudo de caso da moralidade brasileira .............................................................. 35


A vitória da revolução sexual no imaginário social ............................................................................. 37
O que significa cultivar virtudes morais? ......................................................................................... 40
Dar nomes na cidade jardim ........................................................................................................ 43

5. NEGAR A SI MESMO NÃO É SINÔNIMO DE REJEIÇÃO PSICOLÓGICA ........................................... 45

A carga emocional de se sentir inadequado ...................................................................................... 45


A visão reformada de santidade e da luta contra o pecado .................................................................... 47

CONCLUSÃO ............................................................................................................................ 50

Provando agora do banquete que será completo na glória .................................................................... 50

PROSA, CAFÉ E PÃO DE QUEJO .................................................................................................. 53


4

PREFÁCIO

Escrevendo na década de 1970, certo teólogo lamentou que, num período de 30


anos, visitando diversas igrejas, de variadas denominações, em dezenas de cidades dos
Estados Unidos, jamais ouvir nem sequer um único sermão sobre a Trindade. Se uma
doutrina cardinal como essa, que é “a base indispensável para a doutrina da Expiação”,1
pode ser ignorada de tal forma, não é de estranhar que outros temas tampouco ocupem
nossos púlpitos. Um desses temas, ausente não somente nos sermões mas em livros
teologicamente sadios, é a homossexualidade.

Por certo existem inúmeros livros, artigos e pregações que demonstram que a
prática homossexual é um pecado grave aos olhos de Deus. Não é aqui que reside a
nossa carência. A despeito dessa abundância de materiais (nem todos biblicamente fiéis,
desnecessário dizer), não há praticamente nada acerca, por exemplo, de como um
cristão deve lidar com os desejos homossexuais, aparentemente por causa de uma
pressuposição (por vezes oculta) de que tal coisa não existe. Em outras palavras, um
cristão lida com muitos desejos pecaminosos, mas não com esse tipo específico.

Peter Hubbard, no livro Love into Light,2 constata o seguinte:

Tenho falado com dezenas de homens e mulheres que estão há anos adorando a
Deus numa igreja, enquanto lutam sozinhos contra a atração por pessoas do
mesmo sexo. Eles tinham pavor de contar a alguém, e estavam convencidos de
que, se outros cristãos soubessem do seu segredo, seriam marcados e descarta-
dos. Imagine o trauma de acreditar que sua luta é diferente de qualquer outro pe-
cado. O pregador faz aplicações em seus sermões sobre mentira, roubo ou ego-
ísmo conjugal. E periodicamente um homem pode testificar sobre a sua luta com
a lascívia heterossexual. Ou uma mulher pode pedir oração por causa da sua an-
siedade. Mas esses pecados parecem normais, compreensíveis. E há esperança e
ajuda para que a mudança ocorra. Mas a homossexualidade parece diferente.

1
Gordon H. Clark, The Trinity (Unicoi, Tennessee: The Trinity Foundation, 2010), p. 10.
2
Alerta de spoiler: em breve pela Monergismo!
5

Quando ela é mencionada na igreja, em geral está associada com abominação,


ativismo ou antagonismo.

Você, leitor, talvez já tenha ouvido muitos sermões ou aulas sobre a Trindade.
Afinal, em anos recentes tem havido um resgate da importância da bendita doutrina da
Santíssima Trindade. Livros como Deleitando-se na Trindade, de Michael Reeves, são
um testemunho dessa renovação. Contudo, você alguma vez ouviu uma aplicação
durante um sermão destinada àqueles que lutam contra o pecado da homossexualidade?
Algum ensino ou admoestação aplicado àqueles que, a despeito de crerem em Jesus, a
despeito de acreditarem no que a Escritura afirma sobre a homossexualidade,
permanecem tendo desejos que não deveriam estar ali? Infelizmente, suponho que não.

Este livreto do jovem pastor Pedro Dulci lida exatamente com essa questão.
Dulci, juntamente com outros autores que têm se dedicado ao tema, nos ajuda a
entender que o pecado da homossexualidade não é tão diferente de outros pecados,
como costumamos presumir. É claro que há diferença de grau 3 nos pecados que
cometemos contra Deus e contra o próximo, conforme nos lembra o Catecismo maior
de Westminster.4 Além disso, Paulo claramente demonstra a singularidade do pecado
sexual: “Fugi da impureza. Qualquer outro pecado que uma pessoa cometer é fora do
corpo; mas aquele que pratica a imoralidade peca contra o próprio corpo. Acaso, não
sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes
da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço.
Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo” (1Co 6.18-20).

Contudo, não existe nenhum respaldo bíblico para supor que um crente
regenerado será tentado em várias áreas da vida, exceto no que diz respeito à atração por
pessoas do mesmo sexo. Da mesma forma que um homem piedoso pode lutar contra
desejos heterossexuais desordenados durante toda a vida, alguém genuinamente

3
A Escritura é clara a esse respeito, como em Pv 6.16-19: “Seis coisas o Senhor aborrece, e a sétima a
sua alma abomina: “olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que
trama projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras e o
que semeia contendas entre irmãos”. Uma das primeiras coisas que deveríamos fazer é proibir
sumariamente que tolices sejam ensinadas às nossas crianças por meio de músicas como “Pecado,
pecadinho, pecadão, isso não!”.
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Pergunta 150: “São todas as transgressões da lei de Deus igualmente odiosas em si mesmas à vista de
Deus?”. R: “Todas as transgressões da lei de Deus não são igualmente odiosas; mas alguns pecados em si
mesmo, e em razão de diversas circunstâncias agravantes, são mais odiosos à vista de Deus do que outros.
Ed 9.14; Sl 78.17,32,56; Hb 2.2,3”. Cf. também a pergunta e resposta 151.
6

alcançado por Cristo pode travar uma batalha intensa contra desejos impróprios por
pessoas do mesmo sexo. Ou seja, não existe diferença entre os pecados nesse sentido,
pois todos eles podem ser a “fraqueza” de determinado cristão.

Também não podemos dizer algo como: “Um crente de verdade não lutaria
contra isso; isso é coisa de réprobo”. Ora, por causa do pecado original, a diferença
entre um cristão e um incrédulo não é o desejo em si, mas o que fazemos com tais
sugestões malignas (da nossa carne, do mundo e do diabo). Um ímpio dará vazão aos
seus desejos mais vis, enquanto aquele que teme a Deus lutará, na força do Espírito
Santo, para mortificá-los. É claro que Deus nos transformará ao longo da caminhada,
mas isso não significa que estaremos totalmente imunes às tentações. Aliás, esse é um
dos motivos pelos quais uma comunidade da fé se torna vital, pois é o ambiente onde
poderemos exortar e encorajar uns aos outros.

Como cristãos, precisamos entender urgentemente que nossas batalhas e pecados


específicos podem ser diferentes, mas nosso coração é o mesmo: coração de criatura,
caída, carente da graça e da assistência divina. Todos nós, com ou sem atração por
pessoas do mesmo sexo, precisamos diária e igualmente da graça de Jesus. Não há
acepção de pessoas aqui!

De forma alguma estamos minimizando o pecado, mas apenas reconhecendo que


nossa santificação é progressiva e independe dos pecados que mais nos assediam.
Espera-se que dia a dia sejamos mais semelhantes à imagem de Cristo, mas isso
dificilmente acontecerá numa comunidade cristã que negue ou ignore as tentações e
dificuldades que seus membros experimentam. Logo, este livreto não é uma discussão
abstrata, mas tem relevância imediata para a saúde espiritual do povo de Deus,
individual e coletivamente.

O texto de Dulci é controverso em alguns pontos, mas trata-se de algo quase


inevitável quando abordamos temas ignorados ou pouco explorados. Esta obra é um
convite à reflexão e ao debate, para que, juntos, levando nosso pensamento cativo a
Cristo, cheguemos a uma visão bíblica da sexualidade.

E não se engane o leitor. Este livro é para todo cristão, visto que a solução para o
problema da atração por pessoas do mesmo sexo é a mesma para qualquer outro tipo de
pecado. Uma vida de santidade não será possível sem que nossas afeições sejam
redimidas, e aqui reside uma necessidade de todos nós. Devemos trocar os nossos
7

amores menores por Deus. Precisamos, como diria Thomas Chalmers, do poder
expulsivo de uma nova afeição. Afinal, como já dissera Agostinho, “ama-te menos
aquele que, ao mesmo tempo que a ti, ama alguma coisa, que não ama por causa de ti”.

Sejam quais forem as nossas tentações ou nossas dificuldades, de ordem sexual


ou não, o que devemos buscar e o que Deus nos oferece no Evangelho é a redenção dos
nossos desejos. Ai de nós se negarmos essa esperança àqueles que foram alcançados
pelo sangue de Cristo! E ai de nós se não servimos de amparo e socorro para aqueles
que amam a Cristo, mas estão com as mãos descaídas e os joelhos trôpegos na luta
contra o pecado!

Como editor, alegro-me em ter o nome de Pedro Dulci como autor da


Monergismo. Como cristão, oro para que este livro seja usado por Deus para que muitos
mancos não se extraviem, mas, antes, sejam curados (Hb 12.12).

— Felipe Sabino de Araújo Neto


Brasília, 18 de julho de 2019
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INTRODUÇÃO

Existem muitas formas de abordar a chamada “ideologia de gênero” ou “identi-


dade de gênero”. De fato, na própria maneira de colocar o nome da questão já ficam
explícitos os pressupostos de nossa abordagem. Aqueles que optarem por chamar de
“ideologia” as questões de gênero, sexo e sexualidade estão deixando claro o viés polí-
tico que esses tópicos assumiram contemporaneamente — e vou explicar por que isso
aconteceu no primeiro capítulo.

Minha opção foi abordar as questões de sexualidade em sua relação com a nossa
identidade. Originalmente, o conteúdo deste livro foi uma série de palestras que proferi
em variados contextos — igrejas, seminários teológicos, escolas, etc. Ele tinha um no-
me mais provocativo — Problemas de Gênero — e era uma clara referência ao livro da
filósofa norte-americana Judith Butler, que se tornou uma referência incontornável para
quem procura compreender e discutir sexualidade, feminismo e subversão das identida-
des hoje. 5

Assim como os ambientes em que proferi essa série de palestras foram distintos,
as reações ao conteúdo deste livro também foram as mais díspares. Uns me disseram
que se tratava da melhor abordagem já ouvida sobre alguns dos tópicos mais espinhosos
de nossos tempos. Outros me acusaram de utilizar relativismos filosóficos e teológicos
para anestesiar a consciência dos meus ouvintes. As diferentes reações foram muito
instrutivas para mim. Recebi críticas e elogios de todos os lados do espectro ideológico
que a discussão pode assumir — e isso, para mim, é um excelente sinal! Apesar da mi-
nha satisfação com o conteúdo que estou apresentando, caro leitor, muitas pessoas iden-
tificaram minha palestra como uma tentativa insidiosa de fazer meus ouvintes aceitarem
que a atração por pessoas do mesmo sexo é um pecado como outro qualquer — chegan-
do ao cume de comparar as tentações sexuais a que qualquer heterossexual está sujeito
com as tentações oriundas da atração por pessoas de mesmo sexo. Ora, que absurdo!

Particularmente, as críticas não afetaram minhas convicções teológicas e filosó-


ficas, que estou certo de que fazem parte de uma longa trajetória intelectual cristã re-
formada. Entretanto, foi um exercício intelectual muito interessante observar como um

5
Judith Butler, Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity (Routledge, 1990).
9

conteúdo tão atrativo pode ser assimilado e aparelhado pelas ideologias preferidas de
cada ouvinte. Nesse sentido, as questões de gênero, sexo e sexualidade apontam para
outra fragilidade da formação intelectual da igreja evangélica brasileira: a ausência de
lentes bíblicas para enxergar toda a realidade. Enquanto não for feito um trabalho pro-
fundo de análise e crítica das nossas idolatrias políticas, muitas discussões no interior da
cristandade, bem como na esfera pública, estarão profundamente prejudicadas.6

Diante de tudo isso, acredito que o mérito deste livreto é, justamente, estimular
os leitores a reformar alguns dos pressupostos mais bem estabelecidos que a cultura
ocidental sustenta a respeito de nossa identidade e sexualidade. Não podemos nos en-
volver no debate público, nem tentar contribuir em situações privadas, com a caixa de
ferramentas conceituais da cultura moderna. Nesse sentido, temos aqui a necessidade de
um trabalho de Reformador. Não tenho nenhuma pretensão de que meu raciocínio esgo-
te as questões que orbitam o núcleo dessa discussão. Entretanto, busquei ser bastante
preciso nos pontos mais básicos que devem ser levados em estreita consideração quando
formos abordar a sexualidade humana de um ponto de vista genuinamente cristão.

Aproveito para agradecer imensamente à Editora Monergismo, na pessoa de Fe-


lipe Sabino de Araújo Neto, que prontamente acreditou neste projeto e recebeu meu
primeiro trabalho nessa distinta editora com um tema tão polêmico. Poucos editores
teriam essa coragem. Também gostaria de agradecer ao João Marcos de Morais Oliveira
e ao Daniel Estevão de Brito, que me incentivaram e me ajudaram a transformar as pa-
lestras em um texto publicável. A Deus a Glória pela vida desses amigos!

Boa leitura,

— Pedro Dulci

6
Para esse trabalho intelectual de análise e crítica das idolatrias políticas, recomendo fortemente a obra
do cientista político David T. Koyzis, Visões e Ilusões políticas: uma análise e crítica cristã das
ideologias contemporâneas (São Paulo: Vida Nova, 2014). Koyzis faz parte de uma tradição intelectual
chamada Reformacional, que conta com outros autores e publicações importantes para reformarmos nossa
visão de mundo e de vida. Sugiro entusiasticamente a leitura de Herman Dooyeweerd, J. M. Spier, Hans
Rookmaaker, entre outros. Todos estes publicados pela Editora Monergismo.
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1. BEM-VINDO À ERA DAS QUESTÕES DE GÊNERO, SE-


XO E SEXUALIDADE

Em 2018, a BBC Brasil publicou uma reportagem sobre o cantor brasileiro Pa-
bllo Vittar. A reportagem falava da preparação do novo álbum do artista e de como a
produção desse material tinha um público bem específico: os adolescentes. Na época, eu
trabalhava como coordenador de ensino religioso em uma escola presbiteriana, e a re-
portagem me chamou a atenção. Vejam o que diz um trecho da reportagem:

Os empresários da cantora drag queen (expressão artística que envolve a cons-


trução de um personagem, geralmente do sexo oposto) de 23 anos estão termi-
nando de formatar uma turnê, ainda sem nome, voltada ao público menor de 18
anos, para o segundo semestre deste ano. “A Pabllo tem um público adolescente
grande, tem até crianças, que acompanham ela e não podem ir ao show. É um
público sedento, engajado e que forma a base de fãs. Serão poucos shows e não
ficaremos no eixo Rio-SP, queremos fazer em várias regiões do Brasil”, adianta
à BBC Brasil o empresário da cantora, Yan Hayashi. […] Hayashi diz que a can-
tora e toda a equipe estão preparados para eventuais ataques por parte de conser-
vadores ou até para possíveis tentativas de impedir as apresentações de Pabllo. E
que isso não os fará desistir do projeto. “Não temos medo de ataques. Nessa so-
ciedade em que vivemos não tem como fugir disso. O conservadorismo está
crescendo e as pessoas com as redes sociais acabam ampliando essa voz, esse
discurso conservador. Mas antes de tudo a Pabllo e nós pensamos muito nos fãs.
Tem garotos que estão crescendo e começando a entender a identidade de gêne-
ro e se espelham na Pabllo. Então, a mensagem que queremos passar para eles é:
podemos ser o que quisermos”, diz. “E temos que mostrar que é preciso aceitar
as diferenças, o caráter, os valores não mudam por causa do gênero, opção sexu-
al. Independentemente do que venha de ataques, vamos segurar a barra como
seguramos o tempo todo”.7

7
Lígia Mesquita, Pabllo Vittar quer mirar público adolescente em 2018 – e diz não temer críticas.
Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-42513721. Acessado em: 12 de jul de 2019.
11

Gostaria de destacar como uma produção cultural, de caráter bem popular, não
só está inteirada do assunto, mas também tem um viés muito específico. Os produtores
dizem que têm uma mensagem muito clara e querem passá-la adiante. No caso específi-
co, o núcleo da produção desse artefato cultural é: “nós podemos ser o que nós quiser-
mos”. Existe aqui uma lição muito importante sobre arte, política e cultura pop. Muitas
vezes, somos muito mais flexíveis com nossos valores do que as pessoas que estão na
linha de frente da produção cultural. Quem nos ensina isso didaticamente é Steve Tur-
ner, no livro Engolidos pela cultura pop:

Ouço pessoas justificando o consumo acrítico a partir da ideia de que o que es-
tão assistindo, lendo, jogando ou ouvindo é apenas “para relaxar” ou “não deve
ser levado a sério”. Acham que avaliar o que estão consumindo envolve muito
esforço e vai contra o espírito do entretenimento. Dizem que não querem ser sé-
rias demais ou muito “rígidas”. Essa atitude subestima seriamente a inteligência
e a motivação daqueles que produzem a cultura popular. Esses profissionais não
são crianças brincando com giz de cera. Predominantemente, são pessoas treina-
das com um profundo conhecimento de sua forma de arte e de sua história. Eles
tendem a ser pessoas bastante inflexíveis com relação à visão de mundo que
querem expressar.8

Não existe diagnóstico mais preciso da condição de muitas pessoas em nossos


tempos: foram engolidos por sua cultura. Nossa ingenuidade cultural nos fez ser arras-
tados pelo espírito do tempo. E não se enganem: até mesmo adolescentes crescidos nas
programações de nossas igrejas e que vão regularmente aos cultos todos os fins de se-
mana conhecem Pablo Vittar e sabem cantar algumas canções. Enquanto confundirmos
entretenimento evangélico com formação cristã, não conseguiremos obter resultados
melhores nessa disputa da cultura pela lealdade de nossos corações. Quem nos alerta
enfaticamente quanto a isso é James K. A. Smith, filósofo canadense e professor do
Calvin College:

Manter nossos jovens entretidos no prédio da igreja não é de modo algum sinô-
nimo de formá-los como membros dinâmicos do corpo de Cristo. O que se en-
tende por ministério para jovens muitas vezes não é uma forma séria de forma-

8
Steve Turner, Engolidos pela cultura pop: Arte, mídia, e consumo: uma abordagem cristã (Viçosa, MG:
Ultimato, 2014), p. 27.
12

ção cristã, mas, sim, um esforço pragmático e desesperado de manter os mais


jovens como membros de carteirinha de nosso clube evangélico. Temos confun-
dido manter os mais jovens dentro dos prédios com mantê-los “em Cristo”.

Em muitos casos, já cedemos sua formação às liturgias seculares precisamente


quando importamos essas liturgias para dentro da igreja sob a bandeira da rele-
vância sentida. Assim, apesar de os jovens estarem presentes em nossos eventos
dirigidos a eles, estão na verdade participando de algo veladamente relacionado
a visões rivais de boa vida. A própria forma das práticas de entretenimento em
torno das quais esses eventos são montados reforça um narcisismo e um egoís-
mo profundos, que são o oposto de aprender a negar a si mesmo e a tomar a
cruz.9

O que é gênero, sexo e sexualidade?

Assim prossegue a reportagem da BBC Brasil sobre Pablo Vittar:

Pabllo, que nasceu Phabullo Rodrigues da Silva, em São Luís, no Maranhão, e


vive em Uberlândia (MG), muitas vezes usa o pronome masculino quando fala
de si mesma, apesar de ser uma drag mulher. E diz que as pessoas podem cha-
má-la de ela ou ele, como queiram. “Contanto que seja com respeito”, diz ela,
que é gay e se define como sendo de gênero fluido, se identificando tanto com o
masculino quanto com o feminino. O fato de ser drag, diz Pabllo, não é o que a
fez se tornar um sucesso. “Minha carreira se sobressai a isso. Não é só por ser
drag, é porque a música é boa. E quando é boa, meu amor, todo mundo gosta”.10

Sem dúvida, esse é o paradigma da cultura pop: bem-vindos à era das questões
de gênero, sexo e sexualidade. Cada um desses conceitos é uma entidade distinta. Ex-
plicaremos a classificação que vem sendo usada pela grande mídia quando aborda esse
tema. Embora eu não concorde com os pressupostos nem com os desdobramentos de
alguns desses conceitos, vou utilizá-los para que tomemos consciência das categorias
em uso e possamos compreender o debate público sobre essas questões.

9
James K. A. Smith, Você é o que você ama: o poder espiritual do hábito (São Paulo: Vida Nova, 2016),
p. 193.
Lígia Mesquita, Pabllo Vittar quer mirar público adolescente em 2018 — e diz não temer críticas.
Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-42513721. Acessado em: 12 de jul de 2019
13

Gênero tem a ver com a maneira como a pessoa se enxerga, identificando-se


com os padrões de comportamento masculino ou feminino — ou ainda oscilando entre
um e outro, o que costuma ser classificado como gênero fluido — esperados por uma
determinada sociedade. Para algumas pessoas, essa identidade de gênero corresponde a
seu sexo biológico (são pessoas cisgênero); para outras, não existe essa correspondência
(são os trangêneros).

Sexo, por sua vez, diz respeito apenas ao corpo masculino ou feminino — em
especial, à genitália —, podendo também contemplar exceções como os intersexuais
(por serem hermafroditas). Ou seja, trata-se de uma referência estritamente biológica e
física.

Por fim, sexualidade ou orientação sexual pode ser compreendida como o que
fazemos tanto com o nosso corpo quanto com o nosso gênero. Isto é, refere-se à vida
sexual de uma pessoa, tanto em seu lado subjetivo, como a atração que sente, quanto em
seu lado objetivo, como a prática sexual em que está envolvida. A orientação homosse-
xual pode referir-se tanto à relação quanto à atração por pessoas do mesmo sexo. É im-
portante ressaltar que comumente se faz uma distinção entre sexualidade e gênero, uma
vez que não estão, necessariamente, relacionados. Uma pessoa trans pode ser heterosse-
xual, homossexual ou bissexual. Reparem em como a reportagem apresenta Pabllo Vit-
tar: ele não fez nenhum tipo de cirurgia, então sua genitália é masculina; no entanto,
veste-se como mulher — ou seja, uma drag mulher ou cross-dresser. Já sua identidade
de gênero é fluida, compreendendo-se tanto como homem quanto como mulher.

Alguns leitores podem ter sentido certo mal-estar ou algum tipo de vertigem
com tantas variações e com a complexidade de um assunto que parecia ser tão mais
simples. Realmente, o tempo em que vivemos é marcado por uma sensibilidade supera-
guçada a essas questões – o que as transforma em objeto de crises pessoais, culturais e
até políticas. Seja como for, a compreensão desses conceitos básicos, à revelia de nossa
concordância, é fundamental nos jogos de linguagem hoje em circulação. Na forma co-
mo uma notícia é veiculada, um estudo acadêmico é publicado, entre outras produções
de artefatos culturais, gênero é tratado como diferente de sexo, e este é tratado como
diferente de orientação sexual. O conjunto de pesquisas e publicações que descreve,
contemporaneamente, o interesse nesses assuntos recebeu o nome de queer studies —
ou, simplesmente, teoria queer.
14

O que é a teoria queer?

Queer é uma palavra que em inglês significa “estranho”, “esquisito” ou, sim-
plesmente, “inadequado” e começou a ser usada como adjetivo pejorativo. Tratava-se de
uma crítica quando alguém era chamado de queer! No entanto, o movimento LGBT
apropriou-se dessa palavra e assimilou-o como conceito para instalar-se como um con-
junto de iniciativas “inadequadas” ao padrão social que queriam questionar — a hete-
rossexualidade como norma. Tudo que era heteronormativo passou a ser questionado
pelas performances e pessoas queer.11

Hoje em dia, os queer studies são uma espécie de “guarda-chuva” de pesquisas e


disciplinas acadêmicas que se ocupam dos diversos modos de análise que gênero, sexo e
sexualidade podem assumir na realidade. São estudos que englobam uma série de disci-
plinas, como biologia, psicologia, sociologia, filosofia, ciência política, antropologia e,
com certeza, teologia. 12

Veja, por exemplo, o editorial da Revista Cult de novembro de 2015. A revista


Cult é uma das mais bem elaboradas e difundidas publicações brasileiras sobre diversos
temas do espectro político progressista. Nesse aspecto, é um dos veículos de massa que
melhor consegue fazer circular discussões a respeito de feminismo, teoria queer e iden-
tidade de gênero. E não seria diferente a postura que assumiram quanto à teoria queer.

Tornar-se um sujeito feminino ou masculino não é uma coisa que aconteça num
só golpe; antes, implica uma construção que, efetivamente, nunca se completa
[…] a Cult se sente muito orgulhosa de ter se transformado em uma grande di-
vulgadora da cultura queer no Brasil. 13

É possível acompanhar o raciocínio na primeira parte do editorial. Tornar-se


homem ou mulher, um sujeito feminino ou masculino, é encarado como algo que não
acontece em um golpe só. Ou seja, há um rompimento com a ideia tradicional de que
identificamos um sujeito masculino ou feminino de uma vez só, quando, por exemplo, o

11
Quanto à origem e ao significado do conceito em uma perspectiva não cristã, recomendo a leitura de
Guacira Lopes Louro, Um corpo estranho: Ensaios sobre sexualidade e teoria queer (Belo Horizonte:
Editora Autênica, 2007).
12
Uma das pesquisas teológicas mais significativas no Brasil é do teólogo e professor André S.
Musskopf.
13
Editorial da Revista Cult de novembro de 2015.
15

ultrassonografista ou o obstetra diz “é menino!” ou “é menina!”, conforme a presença


do órgão genital masculino ou feminino. Claramente, o que está em questão aqui, outra
vez, é a dissociação entre gênero, sexo e sexualidade. A teoria queer tem como pressu-
posição o fato de que ser mulher, por exemplo, é algo construído, não uma estrutura
estática.14 Além disso, pode ser que essa construção nunca se efetive por completo. Ou,
ainda, pode acontecer também que a identidade de gênero ou a sexualidade se construa
de uma forma que em dado momento da vida deixe de fazer sentido e, então, venha a
ser desconstruída e reconstruída de outra maneira. Uma das características dos estudos
queer é justamente sua fluidez, que faz com que antigas estruturas estáveis dissolvam-se
e escorram por entre os nossos dedos.

No interior dessa discussão, as questões de identidade e sexualidade deixam de


assumir contornos minimamente estruturais e passam a figurar na esfera pública com a
reivindicação de construir sua identidade para além do sexo de nascimento. Ou, ainda,
segundo a formulação inspirada na obra da filósofa norte-americana Judith Butler: é a
reivindicação de poder construir sua identidade para além do seu gênero de nascimen-
to. Fica evidente, portanto, que, no interior das pesquisas e publicações dos queer studi-
es, não há ligação necessária entre o sexo de nascimento, a genitália, e os papéis de gê-
nero que você assumirá na sociedade, nem com a forma como você se orientará sexual-
mente. Uma vez mais, ressoa o veredito do empresário de Pabllo Vittar: “Você pode ser
quem você quiser”.

Por que a identidade de gênero tornou-se uma ideologia?

Agora, por que as questões de identidade e gênero assumiram facetas ideológi-


cas? Por que algumas pessoas hoje insistem em falar na famigerada ideologia de gêne-
ro? Qual é a conotação política e ideológica que a teoria queer assumiu contemporane-
amente? Quem explica esse processo de polinização e ideologização de um aspecto da
vida é o cientista político canadense David T. Koyzis. Em Visões e ilusões políticas,
Koyzis desenvolve um raciocínio que liga as antigas idolatrias religiosas às ideologias
políticas modernas. Basicamente, ele diz que todas as vezes que uma ideologia política
surge no interior de nossas sociedades contemporâneas, ela tem a mesma estrutura bási-

14
Decerto há aqui uma referência à obra de uma das precursoras do moderno movimento feminista, a
filósofa francesa Simone de Beauvoir, que, em seu livro O Segundo Sexo (1949), popularizou a ideia de
que ninguém nasce mulher, mas torna-se uma.
16

ca do que a Bíblia descreve como o processo de idolatria religiosa. Em linhas gerais,


trata-se de erigir um elemento da criação em um falso deus e atribuir a ele o lugar que
somente o Deus verdadeiro pode ter. Veja como o próprio Koyzis descreve esse proces-
so:

O que é, afinal, uma ideologia? Quero deixar claro desde já que vejo as ideolo-
gias como tipos modernos do fenômeno perene da idolatria, trazendo em seu bo-
jo suas próprias teorias sobre o pecado e a redenção […] Como as idolatrias bí-
blicas, cada ideologia se fundamenta no ato de isolar um elemento da totalidade
criada, elevando-o acima do resto da criação e fazendo com que esta orbite em
torno desse elemento e o sirva. A ideologia também se fundamenta no pressu-
posto de que esse ídolo tem a capacidade de nos salvar de um mal real ou imagi-
nário que há no mundo.15

Descrição interessantíssima de como o processo de constituição de um ídolo po-


de ser elucidativo para compreendermos como surgem nossas ideologias. Pense nas
idolatrias bíblicas. Como é que a adoração à deusa Astarte ou Astarote surgiu? Os fení-
cios elegeram um elemento da boa realidade criada por Deus — a saber, a fertilidade,
ou mesmo a sexualidade — como aquele que controlaria todos os processos da socieda-
de em que viviam. Astarte, filha de Baal, era a principal deusa dos fenícios porque era a
deusa da fertilidade, da sexualidade, da guerra e, por sua personificação, carregava os
aspectos da realidade mais importantes para aquela cultura. Evidentemente, isolaram
esse elemento dos outros e disseram “este é o nosso Deus, que legisla sobre todos os
outros aspectos da realidade”. Além disso, qualquer outra entidade que queira usurpar
seu lugar será julgada como um agente do mal ao qual temos de resistir.

É assim que as idolatrias funcionam e é assim também que funcionam as ideolo-


gias políticas. Quando um idólatra político, ou um ideólogo, recorta (abstrai) do campo
social um aspecto dessa trama e o transforma no principal elemento avaliador de todos
os demais aspectos da realidade — dizendo que todo o resto tem menos valor ou está
em oposição ao verdadeiro desenvolvimento que uma sociedade pode alcançar — ele
gera uma ideologia política. Por exemplo, quando alguma expressão dos socialismos
elege para si uma parte da realidade criada por Deus — que é a sociedade ou as ativida-

15
David T. Koyzis, Visões e Ilusões políticas: uma análise e crítica cristã das ideologias
contemporâneas (São Paulo: Vida Nova, 2014), p. 18.
17

des comunitárias — e diz que esse é o fim supremo de todos os esforços não só políti-
cos, mas da existência temporal humana, estamos diante de uma formulação perfeita de
idolatria política em forma ideológica. Não é de assustar que, para a ideologia socialista,
a iniciativa privada seja um grande mal social a ser combatido — pois qualquer entida-
de ou dinâmica social que ameace a estabilidade do ídolo deve ser combatida.

O mesmo acontece com o liberalismo, quando elege para si a iniciativa privada


como o aspecto privilegiado da realidade criada por Deus e se opõe a tudo que faça
frente a seu desenvolvimento sem limites; com o nacionalismo, que transforma a nação
em um ídolo político; com o conservadorismo, que toma a tradição como um bem into-
cável de uma sociedade, e assim por diante. Koyzis trabalha detalhadamente cada uma
dessas expressões idolátricas, respondendo-as com uma perspectiva genuinamente cristã
de ação política e de presença fiel na sociedade. Entretanto, a despeito de detalhes que
não exporemos aqui, o que precisa ficar evidente para nós é como as discussões de gê-
nero, sexo e sexualidade podem ser cooptadas e aparelhadas ideologicamente na socie-
dade contemporânea. Compreender por que as questões de gênero se tornaram uma ide-
ologia é compreender o processo de idolatria que engoliu nossa identidade e sexualida-
de.

O que aconteceu com os estudos queer foi exatamente a mesma coisa. Escolhe-
ram um âmbito da experiência temporal, que é um âmbito bom e criado por Deus, ou
seja, um aspecto da criação importante para nossa vida — as nossas relações com outras
pessoas e com nós mesmos, o entendimento sobre quem somos, a identidade que temos,
como lidamos com nossa economia afetiva e libidinal — e o transformaram no principal
assunto da vida, isto é, no elemento definidor de nossa existência. As lutas e conflitos
sociais, agora, são todos medidos unicamente pelos critérios da sexualidade, do gênero e
do sexo — mesmo que vários outros fatores estejam envolvidos em cada uma das cir-
cunstâncias. Além disso, qualquer outro âmbito da sociedade que toque nessas questões
está tocando no Bezerro de Ouro, no ídolo — o que justificaria a agressividade e vio-
lência contra qualquer tentativa de profanar essa divindade.

É precisamente por isso que as discussões públicas sobre esses temas são sempre
viscerais e carregadas de paixão. Um comentário ou crítica sobre esses âmbitos soa co-
mo um sacrilégio. As reações são agressivas porque envolvem afetos religiosos. Por
exemplo, quando a família tenta dizer o que devo fazer com meu corpo, ou quando a
igreja tenta dizer o que devo fazer com meu desejo sexual, ou, ainda, quando escola e o
18

Estado tentam legislar sobre meus afetos. Nada disso é bem-vindo, pois “meu corpo,
minhas regras”. Assim como toda ideologia política, também quando as questões de
gênero são idolatradas, uma palavra de ordem passa a evidenciar o caráter ideológico de
minha visão sobre o assunto.

A filosofia de Judith Butler como paradigma contemporâneo

Assim como os queer studies são amplos e envolvem várias disciplinas acadê-
micas diferentes, eles também têm pesquisadores e representantes de correntes intelec-
tuais diversas. Não obstante, um nome se destaca nos últimos anos por sua capacidade
de popularizar ideias fundamentais para a teoria queer e o feminismo: a filósofa norte-
americana Judith Butler. Professora do departamento de retórica e literatura comparada
da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Butler também ministra seminários na cá-
tedra Hannah Arendt de Filosofia no European Graduate School (EGS), na Suíça. Escri-
tora prolífera, ficou conhecida mundialmente com seu livro Problemas de Gênero
(1990), obra em que aplica os princípios gerais do pós-estruturalismo francês ao femi-
nismo e à identidade de gênero. Sob forte influência de Michel Foucault e Jacques Der-
rida, Butler apropria-se dos desafios que esses filósofos fizeram à hermenêutica e à teo-
ria literária e constrói uma teoria de subversão da identidade e da sexualidade. Sem exa-
geros retóricos, trata-se de uma versão corporal da desconstrução textual de Derrida. Da
mesma forma que o filósofo franco-argelino buscava superar o logocentrismo insistindo
em uma hermenêutica dos textos que dispensasse a intenção autoral e os significados
únicos,16 Butler também busca ultrapassar construções sexuais heteronormativas e iden-
tidades de gênero fixadas por princípios estruturantes.

Em uma entrevista recente à Revista Cult, Butler explicita em sua própria condi-
ção pessoal o significado e os desdobramentos de sua filosofia:

É por isso que, apesar de ser chamada de lésbica, e de chamar a mim mesmo as-
sim (embora não diariamente e não em todas as circunstâncias), relutaria em ins-
talar o lesbianismo na ordem do ser. Isso não porque as lésbicas não existam –
estamos em toda parte. É porque devemos ser cuidadosas sobre aquilo que que-

16
Para entender esse desafio hermenêutico, sugiro Kevin J. Vanhoozer, Há um significado nesse texto?
(São Paulo: Editora Vida, 2009).
19

remos expressar com o termo, deixando-o ser um campo de contestação e dei-


xando-o como parte de uma situação histórica na qual ele se efetiva. Isso é dife-
rente da ontologia, e a desconstrução nos ajuda a percebê-lo.17

Em outras palavras, Judith Butler está em uma condição de silêncio, que caracte-
riza as visões de mundo não cristãs contemporâneas.18 Ela não pode se declarar nada
porque, se assumisse alguma identidade minimamente estável, cairia em contradição
com a fluidez da filosofia que propõe. O que seu raciocínio nos oferece, portanto, é
apenas uma filosofia do silêncio, uma filosofia que impede os indivíduos de falar quem
somos e o que queremos com nossa identidade e sexualidade.

Judith Butler é um paradigma intelectual porque sua proposta de subversão fe-


minista de identidades é muito diferente do feminismo “velha guarda” de Simone Beau-
voir, por exemplo. A filósofa francesa, ainda que seja um ícone perpétuo das lutas femi-
nistas europeias, almejava algo bem diferente de Butler. Quando Beauvoir escreveu O
Segundo Sexo (1949), seu propósito era pensar o que significava ser mulher em radical
diferença do ser homem. Entretanto, ela não negava a estabilidade dessas duas categori-
as. Ou seja, não estava preocupada em desconstruir o “ser” das identidades estabiliza-
das, como propõe Judith Butler. Na teoria queer de Butler, “ser mulher” ou mesmo “ser
lésbica” já é uma violência de gênero e algo que não deve ser instituído na ordem do
ser.

O resultado dos esforços de Judith Butler para recolocar o feminismo em uma


chave de total desconstrução e subversão da identidade e da sexualidade é a sua defini-
ção de gênero, tomada como modelar para os queer studies:

Gênero é a estilização repetida do corpo, um conjunto de atos repetidos no inte-


rior de uma estrutura reguladora altamente rígida a qual se cristaliza no tempo
para produzir a aparência de uma substância, de uma classe natural de ser.19

Podemos compreender melhor o que ela está argumentando se pensarmos em


um exemplo prático. Pense o que é ser homem: é uma estilização, é um jeito de ser e de

17
J. Butler, “A filósofa que rejeita definições” (Revista Cult, Edição 185, 2013), p. 23.
18
Cf. Francis Schaeffer, O Deus que se revela (São Paulo: Cultura Cristã, 2018), p. 90.
19
J. Butler, Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (Rio de janeiro: Civilização
Brasileira, 2003), p. 59.
20

se vestir, de falar e de querer, de cultivar um corpo, repetindo uma série de ações no


interior de uma estrutura reguladora muito rígida — essa estrutura reguladora é um pa-
drão cultural sobre o que homem faz, pensa e sente. Ou seja, “ser homem é usar roupa
desse jeito, dessa cor, falar dessa forma, gostar disso, colocar a mão naquilo, poder fazer
isso e nunca querer fazer aquilo…”.

A construção de uma identidade de gênero e de uma sexualidade masculina é um


processo que se estende por tanto tempo que se cristaliza com o passar dos dias, produ-
zindo uma aparência de substância, uma aparência de estrutura masculina, mas que, na
realidade, não existe em substância, não tem nenhuma estrutura que diz o que é ser ho-
mem — porque, se eu quiser mudar esses atos e quiser começar a construir o meu gêne-
ro de outra forma, eu posso, mudando as roupas, o jeito de falar, o jeito de organizar a
vida sexual e assim por diante.

E agora, como viveremos?

Diante dessa situação, fica a pergunta: qual é a melhor abordagem cristã para li-
dar com essas questões? Não podemos permanecer superficiais aqui. Existe uma ten-
dência na igreja evangélica brasileira a tentar lidar com essas questões sem fazer o tra-
balho intelectual sério de repensar categorias e conceitos fundamentais.

Não podemos ser ingênuos e pensar que essa batalha está no começo e que ainda
há tempo de reagir. Nesse aspecto, eu sou mais pessimista. A igreja demora muito para
discernir o Zeitgeist [espírito de seu tempo]. Estamos continuamente envolvidos com a
luta contra o marxismo cultural — algo que foi, com certeza, um grande problema para
a igreja cristã na década de 1980 no Brasil, mas que hoje simplesmente não faz mais
nenhum sentido para nossos jovens e adolescentes. Como estudante e pesquisador da
faculdade de filosofia de uma universidade federal durante dez anos, tive apenas 2 aulas
sobre Karl Marx. Na filosofia elas não eram ministradas. Já não havia interesse nisso.
No entanto, pergunte-me: a quantas aulas de pós-estruturalismo você assistiu? Quantos
seminários sobre Michel Foucault? E sobre pós-marxismo? Sobre a escola de Frankfurt?
Dezenas! Centenas de publicações, congressos, seminários e minicursos.

Quando a Igreja evangélica descobrir o pós-estruturalismo, daqui a 50 anos, será


tarde demais. Não porque estaremos intelectualmente defasados, mas porque teremos
perdido uma geração inteira para os padrões intelectuais deste século. Minha maior pre-
ocupação, abstraindo de questões teóricas e pensando nas pessoas, é responder: como
21

podemos honestamente oferecer aconselhamento e ajuda cristã a quem sofre com ques-
tões de gênero, sexo e sexualidade? Que alternativa estamos apresentando aos adoles-
centes que cresceram vendo e ouvindo Pabllo Vittar? Como a grande tradição teológica
e filosófica reformada pode esclarecer essas questões? Tenho algumas sugestões.
22

2. A SEXUALIDADE HUMANA COMO ESTRUTURA E


DIREÇÃO

A primeira reforma que precisa acontecer no interior de nossa caixa de ferra-


mentas conceitual é compreender que a sexualidade humana é tanto estrutural quanto
direcional. Essa lição é muito importante! Se você tiver de abandonar a leitura deste
livro sabendo uma única coisa, que seja esta: a sexualidade humana deve ser compreen-
dida, ao mesmo tempo, como estrutura e como direção. O que isso quer dizer? Essa não
é meramente uma forma de pensar identidade e sexualidade. Na verdade, pensar a partir
de estrutura e direção é o primeiro passo para construir uma maneira de enxergar toda a
realidade. Significa que temos de olhar para todas as coisas na realidade buscando en-
xergar sua estrutura bem como a direção para onde essa estrutura aponta.

Os parâmetros básicos da visão de mundo cristã

Quem conseguiu explicar muito bem e popularizar essa ideia foi o teólogo canadense
Albert Wolters, em A Criação Restaurada, livro que todo cristão deveria ler. Nesse li-
vraço, curto e direto ao ponto, Wolters apresenta os rudimentos mais fundamentais da
maneira como os discípulos de Cristo devem enxergar, compreender e pensar todas as
coisas — ou seja, a cosmovisão cristã. Em determinado momento, Wolters diz o seguin-
te a respeito dessa tarefa cristã:

Devemos argumentar que em todos os casos a tarefa do cristão é discernir estru-


tura e direção. Como já observamos, a estrutura denota a “essência” de algo
criado, o tipo de criatura que é pela virtude da lei criacional de Deus. A direção,
em contraste, refere-se a um desvio pecaminoso dessa ordenança estrutural e à
conformidade a ela renovada em Cristo. Uma análise reformada de cada área da
vida aplicará essa distinção bíblica de modo consistente e colocará uma ênfase
igual na criação (estrutura) e na antítese espiritual (direção) que penetra toda a
criação.20

20
A. Wolters, Criação restaurada: base bíblica para uma cosmovisão reformada (São Paulo: Cultura
Cristã, 2006), p. 98.
23

O que Wolters está argumentando aqui é que toda a realidade tem um aspecto
duplo. Quando criou todas as coisas por sua Palavra, Deus deu leis à realidade — inclu-
indo nossa sexualidade — que podem ser compreendidas como uma estrutura inegociá-
vel do mundo real. Ou seja, quando falamos de estrutura, temos um jogo de soma zero,
não há possibilidade de variação. Como Deus criou o ser humano, e a sexualidade, e a
sociedade e o trabalho cultural, cada uma dessas esferas da existência temporal assume
um caráter estrutural — essas ordenanças estruturais vindas da divindade foram chama-
das pelos teólogos da Reforma de leis criacionais. A ordem criacional é o primeiro pilar
da visão cristã de mundo e define a estrutura essencial de todos os aspectos da realidade
a partir do Logos divino.

Entretanto, “criação” é só o primeiro elemento da forma cristã de enxergar o


mundo. A narrativa bíblica também diz que a “Queda” do ser humano no pecado intro-
duziu um novo elemento em nossa consideração da realidade. A partir de então, passa-
mos a enxergar todos os entes da realidade como criação de Deus, mas uma criação
afetada pelo pecado. No pensamento cristão, o pecado não é visto como algo que con-
seguiu destruir a boa criação de Deus. Na verdade, o que ele fez foi colocar as boas es-
truturas criacionais de Deus em uma direção apóstata, isto é, em uma direção rebelde.
Em outras palavras, isso significa que a doutrina da Queda do ser humano no pecado fez
com que as boas estruturas de Deus fossem colocadas em oposição a Deus — em uma
direção de antagonismo e alienação.

Estrutura e direção da sexualidade humana

Essa é a forma cristã de enxergar toda a realidade em seu sentido mais amplo.
Agora pense, por exemplo, em nosso tema específico: a sexualidade humana. A sexua-
lidade é uma boa estrutura criada por Deus para sua glória. Ou seja, somos seres estrutu-
ralmente sexualizados e fomos feitos assim para viver nossos relacionamentos, sexuali-
dade e afetividade de uma determinada forma. Entretanto, a nossa história contém outro
elemento, que é igualmente definidor de nossa identidade e de nossa sexualidade: a pre-
sença do pecado. Este é real, ainda que não destrua nossa sexualidade. Sendo incapaz de
destruir as estruturas criacionais de Deus, ele pode deturpá-las e colocá-las para operar
em uma direção totalmente oposta aos desígnios eternos de Deus. O pecado coloca nos-
sa sexualidade em uma direção contrária e faz com que ela saia de um estado de ordem
24

para a total desordem — afetando, consideravelmente, quem nós somos, isto é, nossa
identidade.

É esse o raciocínio que fundamenta a compreensão da sexualidade humana co-


mo estrutura e direção. Albert Wolters argumenta sobre isso um pouco mais:

O desafio para os cristãos é abrir um caminho entre o falso dilema que dá ori-
gem aos extremos. Mais uma vez, a questão não é “a sexualidade é basicamente
boa ou má?”, mas “O que é estrutural e o que é direcional na sexualidade huma-
na?”. Se estrutura e direção são os termos de referência, é possível ao mesmo
tempo afirmar sinceramente a sexualidade humana e opor-se às suas perversões
com igual convicção e vigor.21

Segundo essa importante descrição de Wolters, podemos compreender basica-


mente que o que é estrutural conserva as características da boa criação de Deus e que o
que é direcional aponta para o pecado e revela a marca do pecado na criação de Deus. A
partir dessas lentes, que foram retiradas do grande drama narrado nas Escrituras (cria-
ção, queda e redenção), temos a possibilidade de reformar a maneira como enxergamos,
pensamos e agimos em toda a criação. Deixamos de fazer perguntas tolas e erradas —
se a sexualidade é boa ou má, se homoafetividade é algo do bem ou do mal, e assim por
diante — e passamos a fazer perguntas biblicamente orientadas. Essa é a primeira gran-
de lição que aprendemos para abordar honestamente as questões de gênero, sexo e se-
xualidade de maneira minimamente orientada pela visão cristã de mundo. Trata-se de
fazer perguntas da seguinte maneira: “o que é estrutural e o que é direcional na homos-
sexualidade?” ou, ainda, “o que que é estrutural nas questões de gênero e o que que é
direcional?”. Em vez de insistir em uma polarização reducionista e empobrecedora que
enxerga tudo como uma infinita luta de bem e mal, passamos a pensar biblicamente
todas as questões que nos tangenciam de alguma forma. Isso porque, se acreditamos que
visão de mundo cristã retirada das Escrituras — de Criação, Queda e Redenção — é
uma espécie de óculos através dos quais nós podemos enxergar tudo, é indispensável
que todo discípulo de Jesus procure discernir a estrutura e a direção de todas as coisas.
Se tudo foi criado por Deus e se a queda no pecado afetou todas as coisas, então em

21
Ibidem, p. 118.
25

tudo existe a boa estrutura de Deus que foi redirecionada segundo os padrões rebeldes
do pecado.

Quando essa forma de enxergar o cosmo é aplicada às questões de gênero, sexo


e sexualidade, temos uma maneira muito mais rica e honesta de abordar tais questões.
Deixamos de pensar em algumas práticas e condições pessoais como a atração por pes-
soas do mesmo sexo e até mesmo conflitos pessoais de gênero e sexualidade como in-
trínseca e totalmente maus, para pensá-los como, simultaneamente, reflexos das boas
estruturas de Deus e das corrupções do pecado. Mais diretamente, em outras palavras,
isso significa que no desejo homoafetivo existe tanto estrutura boa quanto direção apos-
tata. Que nos desejos de subversão das identidades de gênero, nos descontroles afetivos
dos heterossexuais e até mesmo nas reivindicações feministas existem manifestações
das boas estruturas de Deus — que não podem ser silenciadas — misturadas com as
desordens e disfuncionalidades do pecado. Essa, e tão somente essa, é a forma cristã de
tratar tais fenômenos que nos tangenciam tão direta e pessoalmente.

Pensando a partir de estrutura e direção

É urgente que a igreja evangélica brasileira contribua para o enriquecimento das


discussões públicas sobre gênero, sexo e sexualidade com a introdução de novos termos
que sirvam de quadros referência para repensarmos e reformarmos nossa visão da iden-
tidade e da sexualidade humanas. Se estrutura e direção são termos de referência, é pos-
sível afirmar a sexualidade dos seres humanos de todo o coração, ao mesmo tempo que
também nos opomos, de todo coração, às suas perversões. Com igual convicção e vigor,
a fé biblicamente orientada afirma e celebra nossos corpos, nossos desejos, nossa von-
tade de pertencer uns aos outros, de nos relacionarmos e de nos completarmos na inti-
midade uns dos outros, ao mesmo tempo que reconhece, rejeita e resiste às desordens e
disfuncionalidades que o pecado trouxe às nossas relações, aos nossos desejos e até
mesmo aos nossos corpos. Essa maneira de pensar, além de enriquecer nosso vocabulá-
rio, também nos liberta do medo de ter em nós algum elemento — como um desejo,
uma afeição ou uma parte do nosso corpo — que seja totalmente impura ou abominável
ao Senhor. Esse tipo de entidade totalmente pecaminosa não existe, ainda que seja um
elemento que tenha sido afetado pelo pecado.

A contribuição que essa maneira de pensar traria não só para a Igreja, mas para
toda a sociedade brasileira, é imensa. Trata-se de uma maneira de colocar velhos pro-
26

blemas sob novas perspectivas, de um modo mais fiel à revelação de Deus, sem perma-
necermos presos e limitados pelos clichês da nossa cultura. Nas palavras do próprio
Wolters:

A fertilidade da distinção estrutura e direção não se encontra tanto em dar res-


postas (fáceis ou não), mas em sugerir perguntas biblicamente embasadas. Estru-
tura-direcão não é uma fórmula fácil para produzir a solução cristã correta para
os problemas éticos e culturais; em vez disso, fornece um caminho de discussão,
um modo de investigar de acordo com a perspectiva revelada do Criador a res-
peito das coisas. Na nebulosa área da ética sexual, então, não devemos desistir
de procurar o caminho no qual o Senhor quer que andemos nem declarar que as
questões envolvidas são eticamente indiferentes ou neutras.22

A natureza dinâmica da sexualidade humana

Outro nome importante para nos auxiliar a reformar nossa compreensão da iden-
tidade e da sexualidade humanas é o do teólogo anglicano Sam Allberry. Ele é um dos
editores do site The Gospel Coalition e um dos pastores da Igreja Anglicana St. Mary,
em Maidenhead, no Reino Unido. Além de conferencista de dimensões internacionais,
Allberry também é autor de um pequeno — mas poderoso — livro intitulado Deus é
contra os homossexuais? (2013). Trata-se de uma obra em que ele apresenta argumen-
tações bíblicas preciosas sobre a visão cristã da atração por pessoas do mesmo sexo, ao
mesmo tempo que nos dá testemunho de sua própria trajetória. É um livro fininho e
meio autobiográfico. Entre seus argumentos, ele também fala um pouco sobre estrutura
e direção:

É importante entender que a sexualidade não é necessariamente algo estático.


Nossos desejos em uma fase do desenvolvimento podem não ser os mesmos em
outra. Talvez isso seja especialmente verdadeiro na puberdade, quando as atra-
ções sexuais mudam de forma considerável. […] É muitíssimo importante que

22
Ibidem, p. 120.
27

alguém que sinta essa atração pela primeira vez não presuma que ela consista
agora na “orientação” com que viverá pelo resto da sua existência.23

Talvez uma das coisas mais importantes que aprendi no tempo em que trabalha-
va diariamente com crianças em uma escola tenha sido ensinar os meninos a não crista-
lizarem (transformarem em uma estrutura irrevogável) expressões direcionais de sua
identidade e sexualidade. Isso é algo muito fácil de perceber em nossos filhos ou crian-
ças ao nosso redor. Geralmente, quando eles são pequenos, as polarizações entre meni-
nos e meninas é muito forte. Os meninos simplesmente não querem saber das meninas,
não brincam com meninas, não querem nada atrelado a elas e não há nada mais ofensivo
a um menino pequeno que chamá-lo de menininha. Claro, essa polarização acontece
quando eles são bem pequenos, pois, quando o tempo passa, de repente, parece que eles
se descobrem e passam a se enxergar de uma nova forma — e aí todas as novidades
típicas da adolescência começam a borbulhar. Com isso, somando-se à argumentação de
Allberry acima, estou querendo defender que nossa identidade e os elementos constitu-
tivos de nossa sexualidade são muito dinâmicos e complexos. Nossas percepções do
mundo, afeições e desejos vão sofrendo não só as mudanças típicas de nossas fases de
desenvolvimento, mas também são influenciados pelo pecado que constantemente nos
assedia. Nesse contexto de natureza dinâmica de nossa sexualidade, é muitíssimo im-
portante ajudarmos os mais novos e imaturos a lidar com essas transformações estrutu-
rais e pressões direcionais.

Vamos pensar em alguns exemplos bem práticos. Quando um adolescente de 10


ou 11 anos se abre conosco e diz que, pela primeira vez, está sentindo atração por al-
guém do mesmo sexo, precisamos ajudá-lo a discernir o que é estrutural e o que é dire-
cional na experiência que ele está vivenciando. De certa forma, é bom (estrutural) ele se
descobrir afetiva e sexualmente. Fomos criados para isso, e Deus é glorificado quando
sentimos atração sexual. Entretanto, é necessário ensiná-lo que uma relação afetiva com
outro menino não conseguirá satisfazer suas expectativas de complementação física,
afetiva e significativa. De uma forma que esteja ao alcance do raciocínio de nossas cri-
anças — sem menosprezar suas capacidades, pois a cultura não os encara como incapa-

23
Sam Allberry, Deus é contra os homossexuais? A homossexualidade, a Bíblia e a atração pelo mesmo
sexo (Brasília, DF: Editora Monergismo, 2018), p. 49.
28

zes de compreender tais questões —, precisamos ajudá-los a entender que a prática ho-
mossexual, por exemplo, nunca conseguirá ser compatível com as expectativas cristãs
para a identidade e para a sexualidade do ser humano.

Respostas honestas a perguntas honestas

Conseguem perceber, caros leitores, o tipo de abordagem que estamos fazendo?


Não estamos virando para um adolescente que está tendo sua primeira percepção afetiva
e dizendo “isso aí que você está sentindo e querendo é do Diabo!”. Além de insensível e
desonesta, essa forma de conversar sobre identidade e sexualidade é absolutamente er-
rada do ponto de vista bíblico. É exatamente o mesmo raciocínio do apóstolo Paulo que
Allbery nos lembrou. Quando o apóstolo fala alerta seus leitores em 1 Coríntios 6.9-11
quanto a uma série de atos que eles cometiam antes de estar em Cristo e de fazer parte
da Igreja e os orienta a não voltar ao antigo modo de vida, podemos compreender, sem
desrespeitar a Bíblia, que o apóstolo está sugerindo que ainda existe entre eles o desejo
de voltar à prática desses hábitos característicos da vida sem Jesus. Entretanto, Paulo
não condena esse desejo. É algo que eles precisam reconhecer, rejeitar e resistir. Da
mesma forma que acontece como o nosso adolescente com desejo homoafetivo, aquelas
pessoas em Corinto estavam lutando contra o desejo de voltar a mentir, roubar e tam-
bém de ter relações sexuais de uma maneira que não glorificava a Deus. Esse desejo
permanecia, mas em Cristo já não somos mais quem éramos e buscamos satisfazer nos-
sas carências, desejos de pertencimento e marcas definidoras da nossa identidade de
uma forma que evidencie que estamos sob a influência do Espírito de Cristo que produz
em nós as virtudes que são fruto da obra consumada de Jesus aplicada a nossos cora-
ções. Tão somente assim conseguiremos reconhecer a mobilidade estrutural e direcional
que têm nossa sexualidade e como isso deve ser abordado de uma maneira que não
comprometa o processo, que o Espírito Santo iniciou em nosso coração, de restaurar a
imagem e semelhança divina em nossa nova identidade em Cristo.

Acredito que lidar honestamente dessa forma com as perguntas honestas das
pessoas que sofrem com confusões dessa natureza não será apenas de grande valor. An-
tes, um aconselhamento dessa forma, com o poder do Espírito Santo, tem condições de
libertar para sempre um indivíduo das cadeias da culpa, do medo e da incerteza que o
pecado produz em nós. É um feito incrível para a saúde emocional e espiritual não per-
mitir que um indivíduo que está percebendo, pela primeira vez na vida, uma atração
29

homoafetiva presuma, a partir disso, que agora esse desejo determinará sua identidade
para o resto da vida. Desassociar atração, afeição e sexualidade de identidade é uma
necessidade urgente, e o raciocínio de estrutura e direção nos ajuda muito nessa tarefa.
Não podemos permitir que nossos amigos, nossos filhos, nem nós mesmos, transfor-
memos variações, tentações e desejos direcionais em marcas estruturais de nossa identi-
dade. Quem diz quem nós somos, o que nos qualifica e nos fornece a estrutura de nossa
identidade não é nosso gênero, nem nosso sexo, nem nossa sexualidade. Antes, é nossa
nova aliança com Cristo!
30

3. A SEXUALIDADE HUMANA FOI TOTALMENTE AFE-


TADA PELO PECADO

Após entendermos bem o aspecto geral da forma cristã de enxergar todos os


elementos da realidade a partir de sua estrutura e direção, podemos caminhar para o
segundo passo necessário na reforma de nossas ideias sobre a identidade e a sexualidade
humanas. Diferentemente da primeira, essa lição é mais específica. Trata-se de compre-
ender que, além de ser estrutural e direcional, todos os aspectos da sexualidade humana
foram totalmente afetados pelo pecado. A queda radical do ser humano no pecado foi
compreendida pelos teólogos reformados como a depravação total da boa criação de
Deus. A “totalidade” dessa depravação é um conceito horizontal e vertical. Ou seja, não
só toda a criação de Deus foi depravada (horizontalmente), mas a profundidade dessa
depravação (verticalmente) é total.

Essa é uma das realidades mais fáceis de perceber em nossa experiência tempo-
ral. Estamos muito acostumados a falar da graça comum de Deus — que derrama chuva
sobre bons e maus, sobre justos e injustos —, mas a desgraça também é comum, afetan-
do todos os entes da criação e afetando-os totalmente. Em suma, o pecado não diz res-
peito apenas à vida de algumas poucas pessoas nem afeta somente os aspectos religiosos
da vida. Antes, atingiu toda a criação, colocando-a numa direção contrária a Deus, e
isso inclui nossa sexualidade.

O pecado como uma caricatura das estruturas criacionais

Vou me valer, uma vez mais, das contribuições de Albert Wolters:

A queda de Adão e Eva em pecado não foi apenas um ato isolado de desobedi-
ência, mas um acontecimento de significado catastrófico para a criação como
um todo. […] Biblicamente falando, o pecado não anula a criação nem se identi-
fica com ela. Criação e pecado permanecem distintos, mas intimamente entrela-
çados em nossa experiência. A prostituição não elimina a bondade da sexualida-
de humana. […] Podemos dizer que o pecado e o mal têm sempre o caráter de
31

uma caricatura — ou seja, de uma imagem distorcida que contém certas caracte-
rísticas reconhecíveis. 24

Já falamos bastante a respeito de estrutura e direção, mas agora o exemplo que


Wolters dá sobre a prostituição nos ajuda a materializar o raciocínio abstrato. Novamen-
te, a pergunta não é “a prostituição é boa ou má?”, mas, em vez disso: “o que é estrutu-
ral e o que é direcional na prostituição?”. Algumas pessoas podem estranhar a forma
dessa pergunta, pois pressupõe que existam coisas boas (estruturais) na prostituição. E
isso é verdade, ainda que os evangélicos não estejam acostumados a pensar assim. Até
na prostituição existem aspectos que apontam para a boa criação de Deus — podemos
pensar, simplesmente, nos relacionamentos interpessoais, nas relações sexuais e no pra-
zer. Tudo isso é estrutura criacional e está presente de alguma forma nas experiências de
prostituição. Entretanto, como todas as dinâmicas da criação foram afetadas pelo peca-
do, nada escapa ao seu poder deformador — nem nossa sexualidade. É aqui que surgem
os aspectos direcionais de nossa sexualidade que podem acabar em prostituição, por
exemplo: a objetificação de quem se prostitui, a mercantilização de quem se prostitui, a
vituperação da pessoa humana, o vício, o tráfico e tudo de degenerado e disfuncional
que está envolvido na prostituição.

O que precisa ficar claro é que ter uma compreensão robusta dos efeitos do pe-
cado na realidade vai nos ajudar a analisar toda a criação de uma maneira muito mais
precisa. Ainda que estejamos concentrados em questões de gênero, sexo e sexualidade,
essa maneira de enxergar o mundo vale para tudo: para a arte, para a política, para a
ciência e tecnologia, e assim por diante.

Albert Wolters está nos ajudando a entender que o pecado, a forma de vida pe-
caminosa, o abuso da criação, sempre tem uma natureza caricatural. Ou seja, o pecado
funciona de modo muito a uma caricatura. Geralmente, quando querem produzir a cari-
catura de alguém, os cartunistas aumentam alguma característica que já é uma marca
chamativa de quem está sendo representado — uma orelha, um nariz, uma boca. Mesmo
que a gente olhe e veja que se trata de uma caricatura, também conseguimos reconhecer
a quem ela se refere. Com o pecado acontece exatamente o mesmo. Quando olhamos
para a prostituição, por exemplo, conseguimos enxergar sexualidade, relacionamento,

24
A. Wolters, Criação restaurada: base bíblica para uma cosmovisão reformada (São Paulo: Cultura
Cristã, 2006), p. 67-68.
32

desejo, mas algumas características desses elementos de nossa experiência foram desfi-
gurados pelo pecado gerando a caricatura: a prostituição. A prostituição, bem como
todas as outras desordens sexuais e de gênero, são meras caricaturas das intenções ori-
ginais de Deus para nossa vida. São experiências de estruturas boas que foram hipertro-
fiadas pelo pecado, de forma que produziram uma representação deformada do que era
a imagem e semelhança divina.

Nesse sentido, podemos compreender melhor o que o pecado faz quando afeta
totalmente nossa sexualidade. Ele dá dimensões equivocadas a aspectos bons da nossa
identidade e sexualidade e, por isso, não consegue produzir vida, uma vez que não tem
as dimensões adequadas, as condições apropriadas para satisfazer as expectativas cria-
cionais dos seres humanos. É por isso que o salário do pecado é a morte, nunca a vida.
Buscar na prostituição, ou em qualquer outra orientação sexual que subverta os desíg-
nios originais de Deus, a satisfação de nossos anseios relacionais, físicos e emocionais é
tentar matar a sede com Coca-cola. É pecaminoso esperar de alguma coisa — seja nossa
vida sexual, seja nossa identidade — mais do que esta pode oferecer. O pecado não con-
segue suprir nossos anseios.

Não se trata de homossexualidade versus heterossexualidade

Uma das mais importantes modificações que essa compreensão do pecado traz
para nossa discussão sobre gênero, sexo e sexualidade é a percepção de que devemos
abandonar outra tendência equivocada: a de reduzir as discussões sobre identidade e
sexualidade a uma conversa sobre homossexualidade versus heterossexualidade. Esse é
um empobrecimento muito grande do testemunho da igreja na esfera pública como tam-
bém uma ausência total de compreensão bíblica da questão. Quando afirmamos que o
pecado afetou horizontal e verticalmente toda a sexualidade humana, as orientações
heterossexuais não podem ficar de fora. Não podemos pensar, nem por um segundo, que
a marca do pecado na sexualidade se restringe às orientações homoafetivas, bissexuais,
transexuais e assim por diante. Não é o indivíduo com atração homoafetiva que está em
rebeldia contra Deus, é o ser humano! Todos nós temos em nossa experiência temporal
as marcas do pecado. Além de desonesto e insensível, seria biblicamente incorreto não
reconhecer as marcas do pecado nas várias experiências heterossexuais.

Infelizmente, testemunhamos da parte dos cristãos muito combate contra a teoria


queer e a guerra cultural contra o movimento LGBT, mas não vemos a mesma indigna-
33

ção com os abusos e as caricaturas pecaminosas que existem em muitas práticas hete-
rossexuais celebradas no interior da comunidade cristã. Somente uma compreensão bi-
blicamente orientada do pecado tem condições de fornecer a capacidade de questionar
práticas heterossexuais comuns em nosso meio que são igualmente pecaminosas e apon-
tam da mesma forma para a depravação de alguma área da nossa vida.

Lisânias Moura, pastor da Igreja Batista do Morumbi, em São Paulo, escreveu


um livro interessante intitulado O Cristão Homoafetivo? (2017) que, na verdade, é uma
série de conversas, em tom de aconselhamento, que ele teve e transformou numa narra-
tiva ficcional — em que ficcionais são só os nomes das pessoas, pois as situações des-
critas são absolutamente reais. Em linhas gerais, a trama gira em torno de um indivíduo
que se identifica genuinamente com a fé cristã, entende que Jesus realmente o alcançou,
mas, ainda assim, luta com a atração por pessoas do mesmo sexo. Veja um trecho im-
portante de sua argumentação:

Existe uma luta no interior de quem quer honrar a Deus com o corpo e a mente.
O desejo em si mesmo, seja do homoafetivo em relação ao seu igual, seja do he-
terossexual pelo sexo fora o casamento, não é pecado. O heterossexual não pos-
sui um botão mágico que desliga nele o sentimento de atração sexual por outra
mulher quando está longe da esposa. Deus nos fez pessoas sexuais. Para o ho-
moafetivo, esse desejo sexual foi direcionado para a pessoa do mesmo sexo. No
entanto, enquanto a questão se restringe à tentação, a batalha não foi perdida.25

Essa é mais uma forma de reiterar o núcleo do argumento que está sendo apre-
sentando aqui. O que é estrutural em nós? Dentre muitas outras coisas, a nossa sexuali-
dade, com certeza. Agora, o que é direcional? Sem sombra de dúvidas, o nosso descon-
trole referente a essa sexualidade. Uma terceira pergunta que poderia ser feita é: o que é
contextual?26 Ou seja, como essa estrutura e essa direção se manifestam em contextos

25
Lisânias Moura, Cristão homoafetivo? Um olhar amoroso à luz da bíblia (São Paulo: Mundo Cristão,
2017), p. 67.
26
O raciocínio de Estrutura e Direção foi enriquecido por outros dois intelectuais reformados de primeira
importância para nossa tradição, a saber: o professor de filosofia da Universidade Livre de Amsterdã,
Sander Griffioen, e o teólogo norte-americano Richard J. Mouw. Além de pensar em termos de Estrutura
e Direção, eles também colocaram a ideia de “contexto”. Foge ao espaço e aos propósitos do presente
livro apresentar detalhadamente essa contribuição dos dois autores, mas eu já reconstruí sua
argumentação em outro lugar. Para quem tiver interesse em aprofundar-se nessas questões, recomendo a
leitura de Pedro Dulci, Fé cristã e ação política: a relevância pública da espiritualidade cristã (Viçosa,
MG: Ultimato, 2017), p. 101 ss.
34

específicos? Bem, aqui vem aquele refinamento necessário para as discussões cristãs:
em relações heterossexuais esse descontrole se mostra de certos modos; em relações
homoafetivas, de outros. Seja como for, nenhum de nós tem um botão em si que, ao ser
acionado, automaticamente nos faz parar de desejar — ou quando nos casamos, ou
quando somos batizados, ou quando entramos para o ministério e “Pronto! Parei de sen-
tir aquela atração”. Isso não acontece com ninguém, pois a santificação — ou o proces-
so que os indivíduos que estão em Cristo experimentam, no poder do Espírito, de reor-
denar todos os aspectos que foram desordenados pelo pecado — não trabalha dessa
forma.

Vamos falar mais sobre santificação no último capítulo. Por hora, o que é neces-
sário deixar claro aqui é que distinções que não reconhecem as marcas do pecado em
toda sexualidade humana — inclusive nas experiências heteronormativas — precisam
ser descartadas pelos cristãos. Para a renovação de nossa visão sobre identidade e se-
xualidade, não podemos manter esses clichês da cultura predominante na igreja evangé-
lica brasileira que só enxergam pecaminosidade em certas práticas e orientações sexu-
ais, enquanto outras formas de vida são encaradas como livres de direcionamento rebel-
de contra Deus. Não é isso que a visão de mundo retirada da narrativa bíblica nos orien-
ta. Ademais, pensar dessa forma apenas alimenta uma condescendência com certos tipos
de pecado. Se a santificação e a glória de Cristo são nossos objetivos, o lugar onde vigo-
ra o erro e o pecado precisa passar pelo processo purificador da verdade e do arrepen-
dimento.
35

4. NOSSA MORAL SEXUAL PRECISA SER RETIRADA


DAS ESCRITURAS

Toda a argumentação que está sendo construída é uma trajetória em que cada
passo leva ao próximo. Nesse sentido, os dois capítulos anteriores necessariamente me
levam, agora, para o terceiro aspecto necessário para reformar nossa visão de sexualida-
de e identidade. A terceira compreensão basilar que precisamos assumir é que nossa
ética sexual deve ser retirada das Escrituras. Sabendo que nossa sexualidade é tanto
estrutural quanto direcional e sabendo que ela foi totalmente afetada pelo pecado, incon-
tornavelmente precisamos de parâmetros éticos e morais para nos reordenarmos sexu-
almente. Nessa altura, a pergunta que surge é: de onde a gente tira esses parâmetros? Se
nosso interesse é construir uma ética genuinamente cristã, precisamos retirar tais parâ-
metros da revelação do Senhor em sua Palavra. Parece simples e óbvio, mas não é.

No imaginário social brasileiro, para falarmos com Charles Taylor, 27 muitos


usos e costumes arraigados na cultura ou práticas retiradas da família tradicional brasi-
leira são confundidos com moralidade cristã. Talvez nenhum erro seja o maior respon-
sável pela descredibilização pública das virtudes cristãs do que sua associação com mo-
ralismos humanos. Costumo usar uma ilustração para clarear esse ponto.

Dona Hermínia como estudo de caso da moralidade brasileira

Você já ouviu falar da Dona Hermínia? É a protagonista de uma peça de teatro,


que posteriormente se tornou um filme de longa metragem, chamada Minha mãe é uma
peça (2013). Trata-se de uma comédia engraçadíssima cujo roteiro foi escrito por Fil
Braz e pelo ator Paulo Gustavo, que interpreta a dona Hermínia. Essa personagem é
uma mulher de meia idade, divorciada do marido, que a trocou por uma mulher muito
mais jovem. Diante disso, Hermínia concentra-se em ser uma mãe presente, que não
larga o pé dos filhos — mesmo quando estes já são jovens adultos. Toda a comédia do
filme é a própria personalidade hiperativa de Hermínia que nos faz rir com muitas falas,
gestos e atitudes típicas de muitas mães brasileiras.

27
Charles Taylor, Imaginários Sociais Modernos (Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2005).
36

O contrassenso que existe nessa história — e que ilustra o meu argumento sobre
a moralidade sexual de muitos evangélicos — é que Hermínia foi concebida e interpre-
tada pelo talentoso ator brasileiro Paulo Gustavo, que não esconde sua orientação sexual
homoafetiva e sua união estável com o dermatologista Tales Bretas. Ou seja, apesar de
uma orientação absolutamente distinta da personagem que criou, Paulo Gustavo conse-
guiu levar milhões de pessoas ao teatro e ao cinema justamente porque sua personagem
consegue nos remeter aos usos e costumes das mães mais desajeitas e conservadoras
que conhecemos. Por meio de um clichê sobre as mulheres brasileiras de meia-idade,
Paulo Gustavo conseguiu criar uma ponte perfeita com os costumes e preconceitos mais
tradicionais da cultura brasileira — a mãe que cria dois filhos sozinha, que foi deixada
por um marido de práticas heterossexuais descontroladas, cheia de sexismos e precon-
ceitos em suas falas com os filhos e parentes, etc.

A minha hipótese é que muito do que se chama de moralidade cristã no Brasil é


semelhante à Dona Hermínia: humanismos seculares pagãos travestidos de costumes
conservadores heterossexuais. Ou seja, moralismo humano travestido de virtude sexual
cristã. Essa é a maior tragédia no interior das nossas comunidades cristãs. Não somos
atentos o suficiente para perguntar se nossos hábitos, pensamentos e padrões morais de
sexualidade são fruto da cultura ou do discipulado bíblico. Não estamos preocupados
em entender quem nos forma moralmente na sexualidade.

Essa deformação em nossas práticas morais se manifesta de formas muito sutis


em nossas famílias, escolas e igrejas. Quando pegamos um livro, como esse que você
tem em mãos, sobre homoafetividade, teoria queer e subversão das identidades sexuais
cristãs, imediatamente pensamos: “Isso é pecado! As Escrituras condenam esses racio-
cínios da Judith Butler! Precisamos reconhecer os desvios morais que existem nas rela-
ções homoafetivas!”. No entanto, as mesmas pessoas que são velozes para fazer a crítica
teológica e cultural desses temas são aquelas que têm um filho ou uma filha, menino
principalmente, e o vestem de uma forma bem bonita, passam perfume e, então, quando
alguém vem fazer um elogio do tipo “Nossa, como está cheiroso, hein!”, nós batemos
em suas costas e declaramos: “Sim! Ele está mal intencionado com as meninas!”. Você
consegue reconhecer esse tipo de situação, caro leitor? Já presenciou ou mesmo prota-
gonizou um comentário dessa natureza? Você sabe o que é isso? Chama-se lascívia. É
pecado!
37

Infelizmente, muitos membros de nossas comunidades que se identificam com a


fé cristã reproduzem esses hábitos diariamente. Condenamos a homossexualidade, mas
celebramos a lascívia heterossexual. Nós condenamos o feminismo, mas celebramos
expressões culturais sexistas. Quando pais são chamados para uma conversa em que
será relatado algum incidente envolvendo os seus filhos, com namoros precoces ou por-
nografia, é recorrente ouvirmos: “Graças a Deus meu filho gosta de mulher, né, pas-
tor?”, ou “Pelo menos ele não é gay, não é, pastor?”. Esse tipo de alívio vem de pais
desesperados, que não sabem mais como contribuir de maneira genuinamente cristã
para a formação da identidade e da sexualidade de seus filhos. Não podemos celebrar a
heterossexualidade a qualquer custo. Uma sexualidade construída à base de pornografia,
abusos infantis e sexismos culturais, mesmo que seja hétero, está longe dos padrões
morais bíblicos para a sexualidade humana. De onde as nossas meninas retiraram seus
padrões morais e aprenderam a ser mulher? Das Escrituras ou dos videoclipes da Anit-
ta? Com quem os nossos meninos estão aprendendo a ser homens? Com o apóstolo Pau-
lo ou com o Neymar? Isso é moralismo humano travestido de virtude sexual cristã. Não
existe nada mais distante da proposta de Cristo para uma nova vida segundo os valores
do Reino de Deus.

A vitória da revolução sexual no imaginário social

Wesley Hill, professor da Trinity School for Ministry in Ambridge, na Pensilva-


nia, é um dos mais importantes teólogos norte-americanos que tem sido preciso na edi-
ficação da igreja com seus escritos sobre discípulos de Jesus que lutam a vida toda por
causa de sua orientação sexual e sua identidade em Cristo. Junto a Sam Allbery, Rosaria
Butterfield e outros nomes importantes no diálogo contemporâneo sobre questões de
sexualidade e identidade, Hill nos ajuda principalmente a enriquecer nosso vocabulário
teórico com conceitos esquecidos pela igreja evangélica — tais como castidade, celibato
e continência. Infelizmente, na busca de construir nossa identidade protestante em opo-
sição às formas de vida católico-romanas, nós abrimos mão de uma série de conceitos
que são próprios à fé cristã e que nos auxiliariam muito na resistência à revolução sexu-
al. Wesley Hill é um testemunho vivo de como uma existência vivida em fidelidade ao
Senhor, e não aos nossos desejos, glorifica muitíssimo o nome de Jesus — que era um
homem completo, com desejos, hormônios e tentações, mas que nunca se casou e nem
por isso foi menos homem ou tinha menos plenitude da divindade. O matrimônio fala
de uma união mística qualitativamente diferente daquela que conseguimos ter com nos-
38

so cônjuge. Quando mencionava sua espera pelas bodas e pela sua noiva, Cristo falava
no sentido mais profundo que o casamento pode apontar: para nossa aliança mística de
pertencimento a Cristo — que relativiza todo o resto de nossa existência temporal.

Em um artigo intitulado Homossexualidade, a Bíblia e a Igreja (2016), Wesley


Hill nos leva a pensar um pouco sobre o que realmente está envolvido na rejeição de
valores morais seculares e no cultivo de uma moralidade genuinamente cristã. Veja o
que ele diz:

Nós também podemos nos perguntar se a compreensão bíblica do casamento e


da sexualidade nos convida a questionar alguns de nossos pressupostos mais bá-
sicos acerca do que constitui a identidade humana. O argumento de Robert Song
lida com a noção de que há uma classe de pessoas — “pessoas gays e lésbicas”
— cujos desejos sexuais são mais ou menos permanentemente dirigidos a mem-
bros do mesmo sexo e que, consequentemente, vivenciam a si mesmos como
chamados a expressar esse desejo sexual ao formar relacionamentos de fidelida-
de semelhantes ao casamento tradicional. [...] Tudo isso representa, quase indis-
cutivelmente, o triunfo do movimento pelos direitos gays e lésbicos na era mo-
derna. Antes do triunfo cultural desse movimento, o que recebia atenção ética na
tradição cristã eram os atos sexuais entre pessoas de mesmo sexo.28

O que está em questão no argumento de Hill é justamente a necessidade de des-


conectar a construção de nossa identidade pessoal dos nossos desejos e orientações se-
xuais. Quando aceitamos os termos da discussão pública contemporânea e vinculamos
desejos e orientações sexuais à nossa identidade, perdemos de vista a proposta cristã
para a compreensão de quem realmente somos com e sem Cristo. O surgimento de uma
identidade como “pessoas homossexuais” ou até mesmo “pessoas trans” é a maior prova
do triunfo da revolução sexual e de seus conceitos em nosso imaginário social. Falar
disso há 100 anos em qualquer parte do globo era, simplesmente, impensável.

A moralidade cristã não vincula a nossa orientação sexual à nossa identidade.


Era muito difícil alguém ser chamado de homossexual só porque sentia atração por pes-
soas do mesmo sexo ou, até mesmo, porque praticava relações sexuais com pessoas do

28
Wesley Hill, “Christ, Scripture and Spiritual Friendship”. In: Preston SPRINKLE (org.), Two views on
Homosexuality, the Bible and the Church (Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 2016), p. 143.
39

mesmo sexo. Nossa identidade é bem maior que nossas práticas. Novamente, o raciocí-
nio do apóstolo Paulo nos ajuda a entender como os autores do Novo Testamento enca-
ravam essas questões e construíram uma moralidade que não limitava nossa identidade
aos nossos sentimentos e afetos. Quando o apóstolo dos gentios faz uma lista de práticas
de indivíduos que não herdarão o reino de Deus, além de tratar de maneira igual menti-
rosos e homossexuais, ele deixa claro: “assim foram alguns de vocês” (1Co 6.11a), mas
a identidade de vocês foi mudada; “vocês foram lavados, foram santificados, foram jus-
tificados, no nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito de Deus” (1Co 6.11b). A iden-
tidade de vocês agora não está atrelada ao que faziam ou continuam desejando fazer.
Vocês morreram, e agora a sua identidade está escondida com Cristo em Deus (Cl 3.3).
Essa forma de enxergar nossa identidade e sexualidade é libertadora.

Infelizmente, estamos muito desabituados a pensar biblicamente na hora de


construir nossas orientações morais e éticas. Qualquer adolescente de nossas famílias,
escolas e igrejas rapidamente chega à conclusão oposta à do texto bíblico. Qualquer
experiência incipiente de atração por pessoas do mesmo sexo ou desejo sexual desorde-
nado, eles já concluem: “descobri que sou gay”, ou, então, como já ouvi de um adoles-
cente de 11 anos, “eu sou bissexual”. Eu sou? O que é isso? A primeira pergunta que
sempre faço é: “O que é isso, ser gay?”. Que pacote é esse que você comprou para sua
identidade? Minha orientação pastoral mais básica para todos que se encontram em uma
situação semelhante, de ouvir de alguém uma identificação tão direta e sem fundamento
entre sexualidade e identidade, é: diga que não entendeu e peça que expliquem! O des-
conforto será visível depois de alguns segundos, quando se perceber que essa entidade
chamada “pessoa gay” não existe como um universal bem estabelecido em torno do
qual podemos construir toda a nossa identidade. Depois que o absurdo ficar evidente,
ajude a pessoa a entender que é insustentável compreender-se a partir de uma pequena
parte de si. Ainda que nossos desejos e atrações sejam importantes, eles nunca podem
ser os critérios definitivos para estabelecer nossa identidade — especialmente a de um
cristão.

Essa guerra de imaginários e cosmovisão sexual é muito sutil. O que acontece


no coração de um adolescente, tal como mencionei acima, é que ele realmente está vi-
venciando uma nova experiência afetiva (a parte genuína com a qual devemos ser muito
cautelosos ao lidar), mas, ao mesmo tempo, faz parte de uma cultura que diz que quan-
do você é atraído de uma determinada forma ou quando se sente de determinada manei-
40

ra com o seu corpo, só há um caminho: identificar-se como homossexual, bissexual ou


como alguém que precisa subverter seu gênero. É um pacote muito estreito que é assi-
milado rapidamente. Mesmo sem nunca ter encostado em ninguém, um adolescente se
identifica com uma entidade chamada “bissexual”, seja lá o que isso signifique cotidia-
namente.

Além disso, as consequências religiosas também são igualmente sutis e velozes.


Após ser informado pela cultura de que agora tem uma nova identidade, esse mesmo
adolescente constrói um argumento lógico muito simples em sua mente:

Premissa 1: Na igreja só se pode desejar e fazer sexo de uma forma X;

Premissa 2: Eu não desejo dessa forma;

Conclusão: Logo, não posso mais me manter na igreja.

O raciocínio é simplório, mas fatal para um adolescente que está se descobrindo


enquanto ser desejante, sexualizado e espiritual. Em um silogismo básico, de duas pre-
missas e uma conclusão, a gente perde esse jovem para sempre. É claro que não estou
defendendo aqui que Cristo não possa alcançar quem ele quiser, da forma como quiser.
O calvinismo me liberta dessa preocupação. O que estou querendo mostrar aqui é que
precisamos, urgentemente, melhorar nossos conceitos para conseguirmos ser uma pre-
sença fiel na esfera pública e também alívio e renovação espiritual para quem está sexu-
al e identitariamente confuso.

O que significa cultivar virtudes morais?

Um exercício histórico pode nos ajudar muitíssimo nessa tarefa. Quando pensa-
mos que há 150 anos era inconcebível uma pessoa atrelar sua identidade às suas práticas
sexuais ou desejantes, fica mais fácil ultrapassar nosso próprio tempo e pensar de ma-
neira extemporânea. Para não falarmos só sobre a moralidade bíblica — nosso padrão
imutável — pense, por exemplo, em como Sócrates, Platão ou Aristóteles compreendi-
am identidade e sexualidade. Apesar da pederastia dominante em sua época, nenhum
deles se apresentava como tal. Não era distintivo, não constituía o paradigma de sua
identidade. Ou passe os olhos pela obra de Friedrich Nietzsche. Veja o que ele fala de
identidade, transvaloração dos valores e sexualidade. Nem a atração nem a orientação
sexual são fundamentais para a constituição da figura identitária fundamental de sua
filosofia, o Übermensch [Super-homem].
41

Pense, por outro lado, em como a abordagem de vários teólogos importantes da


Igreja de Cristo era bem distinta dessa assimilação sexual pela identidade. Quanto lidou
com a questão dos atos sexuais incompatíveis com a moralidade cristã, Tomás de Aqui-
no, o Doutor Angélico da igreja romana, o fez sob a rubrica da luxúria. Esse termo que,
para muitos evangélicos, não significa nada, servia como um guarda-chuva para Aquino
lidar com diversas práticas imorais — como relações sexuais fora do casamento, prosti-
tuição, homossexualidade, etc. Dessa forma, ele mantinha a discussão no plano em que
ela deve ficar: dos vícios e virtudes morais, de fruto da carne ou do Espírito, e não no
nível de nossa identidade pessoal. É luxúria, ou seja, é uma direção equivocada da estru-
tura sexual que Deus nos deu. Não é preciso criar um novo tipo de identidade para des-
crever esse aspecto da nossa experiência temporal.

E eu poderia multiplicar imensamente os exemplos aqui em toda a história do


pensamento ocidental. Não é necessário, pois o que quero mostrar é que não precisamos
submeter nossos raciocínios às categorias recentíssimas de identidade e gênero. Todas
as vezes que caímos nesse erro, nos tornamos escravos de uma série de processos e arte-
fatos culturais que apenas complicam nossa vida em sociedade. Pense em toda a indús-
tria cultural por traz das políticas de identidade sexual: uma nova linguagem, roupas
para vestir, lugares para frequentar, preferências ideológicas, práticas éticas, e assim por
diante. Cristãos sem discernimento da história se complicam, pois procuram afirmar a
diferença moral cristã com base em aspectos que são absolutamente relativos e frutos
dessa indústria cultural — tal como declarações infantis sobre “menino usar azul e me-
nina rosa” quando, na verdade, luxúria e todos os aspectos do fruto da carne são comba-
tidos com mortificação, disciplina espiritual e cultivo do fruto do Espírito. Se foi a onda
cultural da chamada Revolução Sexual que lançou uma batalha para o reconhecimento
da existência de algo como uma classe de “pessoas gay”, então precisamos questionar
por que a moralidade Bíblica não atrela a nossa sexualidade a nossa identidade. Até
mesmo intelectuais não cristãos já descobriram o poder titânico da afirmação do apósto-
lo Paulo de que a nossa identidade está em Cristo e que, por isso, não existe mais ho-
mem ou mulher, escravo ou livre, judeu ou gentio (Gl 3.28) — ou seja, distinções étni-
cas, distinções culturais e até mesmo as famigeradas distinções de gênero, em Cristo,
foram relativizadas, pois Ele é tudo em todos!

Essa é uma lição fundamental para a igreja evangélica brasileira. Nossa moral
sexual precisa ser retirada da tradição cristã que foi fundada sobre as Escrituras. Isso vai
42

mudar até mesmo a forma como nós mesmos tratamos nossas lutas e dilemas de ordem
afetiva e sexual. Um dos exemplos de que mais gosto dessa mudança vem de um gigan-
te da teologia: Agostinho, bispo de Hipona. Em um trecho belíssimo das suas Confis-
sões, ele ora a Deus confessando seus próprios pecados. Veja como ele enxergava a si
mesmo e tratava seus pecados:

Quero recordar as minhas torpezas passadas, as corrupções da minha alma, não


porque as ame, ao contrário, para te amar, ó meu Deus. E por amor ao teu amor
que retorno ao passado, percorrendo os antigos caminhos dos meus graves erros.
[...] Desde a adolescência, ardi em desejos de me satisfazer em coisas baixas,
ousando entregar-me como animal a vários e tenebrosos amores! Desgastou-se a
beleza da minha alma e apodreci aos teus olhos, enquanto eu agradava a mim
mesmo e procurava ser agradável aos olhos dos homens. Quem desembaraçará
este nó assim tão complicado e emaranhado? E uma ação indigna; nela não que-
ro pensar, não a quero analisar. Eu quero a ti, ó justiça, ó inocência, ó beleza que
atrai o olhar dos virtuosos, que em ti se satisfazem sem jamais se saciar. Junto de
ti existe paz profunda e vida imperturbável. Quem mergulha em ti, entra no gozo
do seu Senhor, não terá mais receio, e permanecerá sumamente bem no Bem su-
premo. Desandei longe de ti, meu Deus, e na minha adolescência andei errante
sem teu apoio, tornando-me para mim mesmo um antro de miséria. 29

É incrível como Agostinho não usa nenhum dos termos que se tornaram cotidia-
nos de nossa época para falar sobre sexualidade e, mesmo assim, seu discurso é muito
mais rico do que o nosso. Não existe aqui nenhuma associação de sexualidade com
identidade. Na verdade, é justamente a consciência sólida de Agostinho de que sua iden-
tidade está alicerçada em sua relação com Deus que lhe permite encontrar auxílio e per-
dão em oração. Mais do que isso. Nem mesmo os seus pecados ocupam muito de sua
atenção. Ele se concentra menos nas práticas em si mesmas — para onde olhou, o que
desejou, onde colocou a mão, etc. — do que nas suas motivações. Seu interesse e a ra-
zão de sua confissão é que ele reconhece que seu coração, por muito tempo, ficou divi-
dido por amores antagônicos — o amor a Deus e o amor a si mesmo. Essa percepção é
fundamental para toda a filosofia de Agostinho, não só em termos antropológicos, mas
até mesmo políticos, como podemos ver em A Cidade de Deus. Agostinho ensinou para

29
Agostinho, Confissões (São Paulo: Paulus, 2014), p. 49-50.
43

o ocidente que as motivações mais profundas dos corações humanos determinam quem
somos. Nossas práticas, desejos e crenças são reflexos dos nossos amores — que for-
mam duas cidades, alicerçadas em dois amores distintos. Essa antropologia agostiniana
tem muito potencial para transformar, de cima a baixo, não só nossa compreensão iden-
titária, como também nossa visão da politização da sexualidade.

Dar nomes na cidade jardim

Séculos mais tarde, Sam Allberry, agora em linguagem contemporânea, explica


um pouco mais sobre a necessidade de sermos criativos ao pensar conceitos alternativos
para nos referirmos às nossas questões sexuais e identitárias. Veja o que ele diz sobre
suas próprias preferências:

Usei o termo “atração por pessoas do mesmo sexo”, porque o desafio imediato é
a descrição de mim mesmo. Na cultura ocidental de hoje, o termo óbvio para al-
guém com sentimentos homossexuais é “homossexual”. Todavia, na minha ex-
periência, ele muitas vezes se refere a muito mais que à orientação sexual de al-
guém. O termo descreve uma identidade e um estilo de vida.

… Essa descrição é uma forma de reconhecer que o tipo de atração sexual que
experimento não é fundamental para a minha identidade. 30 É parte do que sinto,
mas não é quem sou, no nível mais básico. Eu sou muito mais que a minha sexu-
alidade.

Tomemos outro tipo de apetite. Eu amo carne. Considero que haja algo de erra-
do quando vejo um prato sem o pedaço de um animal. Contudo, meu amor à
carne não significa que eu gostaria de ser definido por alguém pela principal ca-
tegoria de “carnívoro”. 31

As opções de Allbery são muito inteligentes. Ao dar nomes corretos para ques-
tões diferentes, ele desarticula uma série de conflitos que poderiam ser enfrentados sem
necessidade. O desafio de quem sente atração por pessoas do mesmo sexo é diferente do
desafio de encontrar em Jesus o paradigma de sua identidade. É claro que o segundo

30
Há uma mudança importante na terminologia empregada: ao falar de atração por pessoas de mesmo
sexo, em vez de homossexualidade, Allbery enfatiza que a fonte de nossa identidade é o relacionamento
com Cristo, não o tipo de atração que sentimos.
31
Sam Allberry, Deus é contra os homossexuais? A homossexualidade, a Bíblia e a atração pelo mesmo
sexo (Brasília, DF: Editora Monergismo, 2018), p. 14-15.
44

transforma totalmente o primeiro; entretanto, mesmo relacionados, são diferentes. Des-


vincular apetites de identidades é uma das maiores necessidades de nosso tempo —
pense, por exemplo, nos juristas que precisam conceituar família e uma de suas grandes
lutas é mostrar que vínculos afetivos não são suficientes para constituir a identidade
familiar.
A capacidade de libertação e significado que essa separação entre apetite e iden-
tidade traz é muito grande. Quando formos honestamente ao encontro de nossos amigos
que estão lutando sinceramente com as necessidades mais diversas na ordem sexual,
podemos auxiliá-los muito dizendo: “Pera aí, você não é isso. Você é muito mais do que
você sente, você não é seu descontrole emocional. Você não é seu descontrole libidinal.
Você é bem mais que isso”. Uma moralidade bíblica tem condições de libertar nossas
estruturas identitárias das pressões direcionais da cultura marcada pela rebeldia e pela
apostasia.
Vale lembrar, por fim, que esse trabalho de dar nomes diferentes às entidades
específicas é uma das ordenanças mais primitivas que Deus nos deu. A primeira tarefa
que Adão recebeu no jardim foi nomear os animais. Essa distinção no interior da cultura
é fundamental para o testemunho cristão. Não podemos continuar chamando de cachor-
ro o que é uma raposa. Ainda é mandamento divino para nós darmos nomes específicos
para entidades diferenciadas na cidade-jardim que estamos cultivando para a volta do
Noivo.
45

5. NEGAR A SI MESMO NÃO É SINÔNIMO DE REJEIÇÃO


PSICOLÓGICA

A última contribuição que gostaria de trazer com esse material será de grande
valia, principalmente para pessoas que lidam diretamente com o sofrimento pessoal
causado por desordens sexuais e, por conseguinte, identitárias. Trata-se da defesa da
ideia de que o imperativo bíblico de rejeitar o pecado que afetou toda a sexualidade hu-
mana não é sinônimo de negar a si mesmo enquanto rejeição psicológica de si. Nova-
mente, é fundamental fazer distinções aqui para não chamar raposa de cachorro.

O cuidado com essa diferenciação não é meramente teórico. Talvez seja o que
tem consequências mais imediatas e danosas para quem sofre de maneira pessoal com
as questões de gênero, sexo e sexualidade. A incompreensão dessa distinção entre o
imperativo bíblico e uma recado psicológico doentio de rejeição de si mesmo pode levar
desde à automutilação até ao suicídio.

A carga emocional de se sentir inadequado

A própria cultura pop tem dado sinais de incapacidade de distinguir o que está
em jogo nessas situações. O recente filme Girl: Trans-formação (2018) é uma excelente
peça da cultura que nos ajuda a entender alguns aspectos da pressão psicológica envol-
vida nos procedimentos de formação e deformação sexual e identitária. A narrativa do
filme conta a história de Lara, uma adolescente transexual que aparece já no início do
filme com todo o fenótipo feminino — e uma grande aceitação da comunidade em que
está inserida, como seu pai, médicos e psicólogos. Não existe jornada de descoberta até
aquele ponto da sua vida. A película já se inicia com o estado de coisas estabelecido.
Entretanto, a virada do filme, que o deixa interessante, é que o diretor Lukas Dhont pro-
põe o caminho inverso dessa trajetória de descoberta: tudo que estava indo bem percorre
o sentido contrário. Cena após cena, a situação fica mais complexa e angustiante. Vou
parar por aqui para não dar spoiler, mas toda a discussão que o filme levanta é a carga
física e emocional pesadíssima que um adolescente naquela circunstância enfrenta para
“estabelecer a correta relação entre sua sexualidade e sua identidade”. É justamente do
que acontece no interior do coração de um indivíduo em situações semelhantes à do
protagonista de Girl que o presente capítulo se ocupa.
46

Quanto a isso, quem nos ajuda a compreender um pouco mais o estado emocio-
nal de alguém que enxerga a si mesmo como “inadequado”, “estranho” e, por que não,
“queer” é, uma vez mais, Sam Allberry:

Conheci vários cristãos que disseram que suas experiências de atração por pes-
soas do mesmo sexo fizeram-nos sentir-se profunda e espiritualmente impuros.
Alguns mencionaram sentir-se como “produtos danificados” (eu vim com erro
de fábrica), como se estivessem além do reparo e fossem desagradáveis a Deus
para sempre.32

Quando um indivíduo nessas circunstâncias emocionais escuta em nossas igrejas


um conselheiro bíblico ou mesmo um sermão sobre “negar a si mesmo” ou “rejeitar o
pecado”, de maneira automática ele ligará isso aos seus conflitos sexuais e, consequen-
temente, à sua identidade. Dificilmente alguém que não esteja familiarizado com o lin-
guajar teológico ou com as imagens bíblicas associarão a rejeição e a mortificação da
carne com o processo de santificação. Como filho daquela cultura contemporânea que
não consegue desassociar sexualidade e identidade, ele entenderá o imperativo bíblico
da seguinte forma: “Tenho que negar tudo, quem eu sou, toda a minha identidade”. Só
que, na verdade, mais uma vez estamos falando do pecado – da rejeição ao pecado –,
não da rejeição de si mesmo enquanto identidade consolidada. Aliás, é o contrário. Com
um conselho bíblico ou com a pregação do evangelho, queremos que as pessoas parem
de olhar para si mesmas e de se acharem totalmente impuras, absolutamente fora de
conserto ou mesmo sem salvação. Já dissemos que, por mais rebeldes que possamos ser,
existem estruturas em nós que são boas e também que, apesar da direção rebelde que
essas estruturas tenham assumido, o Evangelho é poderoso para reordenar a direção do
nosso coração.

Talvez um testemunho pessoal nos ajude a sair um pouco da abstração teórica e


a ancorar nossa abordagem na experiência temporal ordinária. Para isso, vou me valer
do testemunho de Wesley Hill, que conta sua trajetória pessoal e nos mostra como essas
questões estavam latejando em seu coração:

32
Sam Allberry, Deus é contra os homossexuais? A homossexualidade, a Bíblia e a atração pelo mesmo
sexo (Brasília, DF: Editora Monergismo, 2018), p. 47.
47

Quando tinha cerca de 13 anos, comecei a perceber que aquilo que meus amigos
estavam sentido por meninas — um deleite vertiginoso, um anseio emocional e
físico comumente chamado de “atração romântica”, “ter um crush” ou, mais se-
riamente, “estar apaixonado” — eu sentia por meninos, por homens. Encontrava-
me observando-os de uma forma que eu nunca havia feito antes. [...] Ao mesmo
tempo, também sabia que eu era cristão — e que queria viver minha vida tanto
quanto possível em agradecida obediência ao presente de Deus que é Jesus Cris-
to, cuja vida, morte e ressurreição alcançou para mim o perdão dos pecados e a
promessa da vida eterna. E, à medida que ficava mais velho, ambas as realidades
começaram a mostrar-se mais centrais no desenvolvimento da noção de quem eu
era. [...] Como um homem ou mulher gay deveria viver, como uma pessoa com
atração por pessoas do mesmo sexo como eu deveria expressar sua sexualidade,
em vez de simplesmente reprimi-la ou de tentar negar sua existência?33

Sempre que leio o relato de Hill, lembro-me da janela 4x14, uma janela missio-
nária que não é geográfica, mas etária. É incrível quantas experiências formativas acon-
tecem durante esses dez anos da nossa vida. Estatísticas dizem que mais de 80% das
conversões à fé cristã ocorrem nesses anos — como aconteceu com Hill. Imagino que
também seja uma fase importantíssima para toda sorte de questões sexuais e seus refle-
xos na formação de nossa identidade. Seja como for, veja que Hill lidou com essas duas
dimensões simultaneamente. Na mesma época que percebeu que se sentia atraído por
pessoas do mesmo sexo, ele também compreendeu que Cristo o alcançou. À medida que
crescia, essas duas realidades mostravam-se competindo pela lealdade de seu coração;
então ele levantou uma série de perguntas que, infelizmente, não são respondidas em
muitas comunidades de fé que conhecemos. Ele queria saber como um homem ou mu-
lher com atração sexual por pessoas do mesmo sexo deveria viver de forma que Deus
glorificasse — sem que essa pessoa precisasse reprimir, negar ou tentar rejeitar o que
estava experimentando.

A visão reformada de santidade e da luta contra o pecado

33
Wesley Hill, “Christ, Scripture and Spiritual Friendship”. In: Preston SPRINKLE (org.), Two views on
Homosexuality, the Bible and the Church (Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 2016), p. 124.
48

Imagine que situação terrível para um adolescente. É fundamental encontrar pes-


soas com sensibilidade suficiente para ouvir nossas queixas e dúvidas sinceras e que
tratem nossas carências com honestidade. Isso pode livrar a muitos de fins trágicos.
Sendo assim, é urgente perceber como uma doutrina robusta do pecado — conforme
apresentamos anteriormente — precisa caminhar junto com uma compreensão igual-
mente encorpada de santificação. Somente as distinções que as Escrituras apresentam
para a nova vida daqueles que estão em Cristo têm condições de nos livrar desse peso
desmedido de culpa e inadequação.

Quanto a isso, acredito que a tradição que melhor sistematizou os ensinamentos


bíblicos é, uma vez mais, a teologia reformada. Anthony Hoekema, teólogo e professor do
Calvin Theological Seminary, pode contribuir de maneira muito especial nesse assunto.
Apresentando o que seria a compreensão reformada de santificação, ele explica como o
ensino bíblico está longe da mera repressão psicológica de si:

Podemos definir santificação como a ação graciosa do Espírito Santo – que im-
plica nossa participação responsável – mediante a qual Deus liberta a nós, peca-
dores justificados, da contaminação do pecado, renova toda a nossa natureza
conforme a sua imagem e nos permite viver de forma a agradá-lo.34

Esse é um trecho bem técnico, mas existem muitas lições condensadas aqui. Ve-
ja que a santificação é uma obra do Espírito de Deus através da qual Deus nos liberta da
contaminação do pecado. Isso ele faz renovando a nossa natureza conforme sua imagem
— ou seja, aquelas estruturas criacionais que mencionamos anteriormente, que estavam
em uma direção rebelde, são redirecionadas pelo Espírito para apontarem outra vez para
a imagem e semelhança divina à qual fomos criados. É como se o Espírito Santo nos
despertasse para enxergar esse direcionamento equivocado e nos dissesse: “É para cá,
nessa direção, que você vai caminhar agora… e eu vou te ajudar!”.

É por isso que Hoekema diz que, na santificação, Deus não nos concede novos
poderes ou capacidades diferentes das que tínhamos anteriormente. As estruturas são as
mesmas. Nós continuamos desejando, amando, querendo da mesma forma. A diferença é

34
A. Hoekema, “A Perspectiva Reformada”. In: S. Gundry (org.), Cinco perspectivas sobre santificação
(São Paulo: Editora Vida, 2006), p. 69.
49

que agora tenho a condição de possibilidade (o Espírito Santo operando em nosso cora-
ção) de sentir e querer de uma maneira que glorifique a Deus. Não nascem asas angelicais
em nossas costas, nem uma auréola dourada sobre nossa cabeça. As estruturas permane-
cem, mas a direção é alterada segundo a eficácia do poder do Espírito, que nos redirecio-
na e começa em nós a obra da redenção. Conforme Hoekema continua explicando:

Além disso, a santificação realiza uma renovação de nossa natureza, ou seja, faz-
nos mudar de direção, em vez de transformar nossa essência. Santificando-nos,
Deus não está nos concedendo poderes e capacidades totalmente diferentes dos
que já tínhamos. Antes, ele nos permite usar de forma correta, não de forma pe-
caminosa, os dons que nos concedeu. A santificação nos capacita a pensar, dese-
jar e amar de forma que glorifique a Deus, isto é, a pensar no que Deus pensa de
si mesmo e a fazer o que se harmoniza com sua vontade.35

A santificação nos capacita a pensar, desejar e amar de forma que glorifique a


Deus, isto é, a pensar no que Deus pensa de si mesmo e a fazer o que se harmoniza com
sua vontade. Ficar reprimindo a pessoa para que não tenha determinado comportamento,
não se vista assim ou assado ou não reproduza determinadas falas é farisaísmo e apenas
simula a vida em verdadeira santidade, que é obra do Espírito. Santificação não é aquele
discurso superficial de moralidade travestido de paixão pela pureza. É algo que Deus
está fazendo, e nós devemos reconhecer tal processo à medida que o Espírito nos dá
condições de entender que ele nos criou como seres desejantes, seres sexualizados, mas
agora sob o reinado de Cristo. Qualquer outra proposta é mera caricatura. Tão somente
assim não precisarei mais me mutilar ou até mesmo me matar por não ser agradável a
Deus. O Espírito Santo regenera-nos o coração e aplica a nós a obra consumada de Cris-
to, fazendo com que sejamos novamente agradáveis a Deus, independentemente de ca-
pacidade para isso. Essa formulação graciosa da doutrina da salvação tem condições
privilegiadas de fornecer alívio, misericórdia e amparo a quem sofre de todo tipo de
angústias — incluindo as que envolvem gênero, sexo e sexualidade.

35
Ibidem, p. 70.
50

CONCLUSÃO

Provando agora do banquete que será completo na glória

Existem muitos aspectos que ainda poderíamos tratar aqui. Acredite, deixei al-
guns assuntos mais polêmicos para depois. No entanto, eu gostaria de terminar esse pe-
queno livro da forma como todas as nossas conversas deveriam terminar. Ainda que boa
teologia e filosofia sejam fundamentais para nossa vida enquanto discípulos de Jesus,
existe algo que é o mais profundo diferencial da fé cristã em nossa experiência tempo-
ral: o fato de que nossa esperança não se limita à nossa experiência temporal. Ainda que
habitantes da Cidade dos Homens, somos mesmo cidadãos da Nova Jerusalém. Essa
perspectiva deve regular toda a nossa compreensão dos afetos, desejos e pensamentos.
Lidar de forma escatológica com nossas experiências pessoais significa trans-
formar nossa vida agora à luz de toda a certeza quanto aos eventos que nos aguardam no
futuro. Especificamente falando sobre sexualidade e identidade, quem nos lembra de
tudo isso é o pastor Sam Allberry:

Na eternidade, seremos mudados para sempre a fim de sermos como Cristo. Es-
sa é a esperança inabalável do cristão. Mas e nessa vida? É possível que Deus
mude nossos desejos sexuais antes de alcançarmos a nova criação? Acredito na
possibilidade de mudança; no entanto, a Bíblia jamais promete a mudança com-
pleta da orientação sexual. Não há dúvida de que Deus pode mudar nossos dese-
jos sexuais, e há numerosos relatos de que ele o fez. Precisamos nos lembrar de
que, como cristãos, vivemos entre duas realidades. Recebemos uma nova identi-
dade (Ef 4.24). Entretanto, ainda não recebemos a plenitude da nossa salvação
como povo de Deus. Por essa razão, Paulo diz que gememos (Rm 8.23) e, por-
tanto, a desejamos em toda a sua plenitude. Algo como receber uma colher para
experimentarmos uma refeição deliciosa que está sendo preparada e, de imedia-
to, percebermos o tamanho da fome e quão maravilhoso será se sentar à mesa e
comer até não poder mais. 36

36
Sam Allberry, Deus é contra os homossexuais? A homossexualidade, a Bíblia e a atração pelo mesmo
sexo (Brasília, DF: Editora Monergismo, 2018), p. 50-51.
51

Em se tratando dos desafios que envolvem nossa sexualidade e dos desdobra-


mentos disso em nossa identidade, nenhuma conclusão poderia ser melhor. A eternidade
é invocada aqui como aquele último aspecto de toda a ordem de nossa salvação — a
glorificação de nossos corpos com Cristo. Por mais difícil que sejam os desafios que
enfrentamos, as dores que sentimos e os conflitos que vivenciamos, não podemos ter
outra esperança que não esta: as bodas do Cordeiro, a celebração final do nosso casa-
mento cósmico com Cristo!

Por outro lado, essa esperança última precisa orientar e transformar nossa vida
penúltima, isto é, nossa experiência temporal no presente. Nesse aspecto, ainda é rele-
vante perguntar se pessoas com subversões profundas de gênero, ou indivíduos com
atração por pessoas do mesmo sexo, podem experimentar uma vida transformada desde
já. Isso significa a transformação do nosso desejo? Deixar de sentir-se atraído por pes-
soas do mesmo sexo e passar a ser atraído por pessoas do sexo oposto? Junto com All-
berry, acreditamos que é possível. Deus pode fazer isso. Entretanto, precisamos dizer:
não sabemos se ele vai fazer isso com todos. Uma pessoa legitimamente alcançada por
Jesus pode passar a vida toda lutando com sua atração por pessoas do mesmo sexo. Por
mais doloroso que seja, isso não é uma exclusividade dos cristãos homoafetivos. Os
indivíduos heteroafetivos que são alcançados por Cristo também têm aspectos do peca-
do que serão lutas constantes até o encontro final com Jesus. Assim como o hétero não
se liberta de uma vez por todas de seus conflitos de ordem sexual quando é convertido à
fé bíblica, quem luta contra o desejo homoafetivo também não o será.

Além disso, veja que Allberry faz uma segunda diferenciação muito esclarece-
dora e importante para nossos objetivos. Ele mostra a diferença abismal que existe entre
aquele que sente atração por pessoas do mesmo sexo, mas não efetiva os seus desejos, e
aqueles que vivem na prática do pecado. No núcleo dessa diferenciação existe a convic-
ção teológica de que ser tentado não é pecado! É uma luta, e o próprio Senhor Jesus,
que habitou entre nós, até o fim também teve de lidar com tentações. Nossa cristologia
afirma que Jesus era plenamente Deus e, ao mesmo tempo, plenamente homem. A dou-
trina da dupla natureza de Cristo nos ajuda muitíssimo a lidar com nossas tentações e
lutas sexuais. Jesus era homem igual a todos os que você conhece: sentia desejos, tinha
hormônios, órgão genital, etc. Não existe nada na revelação bíblica que nos faça duvidar
de que Jesus sentia os mesmos desejos e carências que nós. Assim como sentia fome,
tristeza e alegria, ele também deveria sentir atração e desejo. A diferença é que Jesus
52

estava livre do pecado, que distorce e põe a estrutura sexual numa direção rebelde. Ain-
da assim, ele não se casou e, portanto, não pôde efetivar de maneira legítima esses dese-
jos numa relação temporal. No entanto, a solteirice de Jesus não o fez menos humano do
que eu e você. Ele continuava plenamente humano. Tudo isso precisa nos ajudar a com-
preender melhor o que Deus quer para nós, enxergando em Jesus um exemplo de al-
guém que, apesar de tentado, nunca pecou. Precisamos, então, enquadrar melhor nossos
problemas para que não tenhamos um olhar viciado ao pensar em nossas dores e desafi-
os como coisas difíceis demais de enfrentar. Temos um sumo sacerdote que conhece a
condição humana e tem muito o que nos dizer e nos ajudar.

É precisamente por tudo isso que a imagem que Alberry usa de “provar um pou-
co da refeição que será servida em breve” é muito significativa. Talvez você já tenha
experimentado isso na infância. Sabe quando estamos famintos à beira do fogão e al-
guém da está cozinhado e, então, a pessoa nos dá só uma colherada para experimentar?
Quando provamos aquela pequena porção, imediatamente percebemos o tamanho de
nossa fome: “Meu Deus, que coisa maravilhosa! Você pode me dar mais?”. Geralmente
a pessoa nos diz: “Espere mais um pouco, porque ainda não está na hora do almoço”.

Não é sem motivo que o Novo Testamento usa a analogia dos alimentos para
comunicar dimensões da vida com Deus. Essa é, com certeza, uma das melhores formas
de entender uma experiência escatológica do “já e ainda não”. Assim como acontece à
beira do fogão, nós já provamos da nova vida com Jesus e como isso afeta nossa identi-
dade e sexualidade. No entanto, “ainda não é hora do almoço”. Precisamos esperar um
pouco mais, até que o Noivo venha nos buscar e então provemos daquilo que é perfeito!
53

PROSA, CAFÉ E PÃO DE QUEJO

Este livro é parte de uma série de iniciativas sobre gênero, sexo e sexualidade
que estou desenvolvendo nos últimos anos. Se você quiser continuar recebendo gratui-
tamente mais conteúdos como este, adicione o número +55 62 8160-2134 e me chame
no WhatsApp. Essa foi uma forma bem simples que encontrei de continuarmos conec-
tados para que eu possa enviar para você mais estudos complementares.