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O feminismo decolonial

Edição do mês
Susana de Castro
31 de julho de 2019

Obra da série Geometria Brasileira, de Rosana Paulino (Foto: Reprodução/ Isabella


Matheus)

O feminismo decolonial surge no bojo da discussão trazida pelo feminismo negro


estadunidense a respeito da invisibilidade das demandas das mulheres negras na luta pela
igualdade de direitos. Ignoradas como representantes das mulheres, por causa da
predominância do feminismo liberal branco, e ignoradas como representantes das pessoas
negras, pela predominância do ativismo negro masculino, as feministas negras cunharam o
termo interseccionalidade para destacar a especificidade da dupla opressão à qual estão
submetidas: a racial e a de gênero. Além disso, as “mulheres de cor” (women of colour), isto
é, latinas, asiáticas e indígenas que vivem nos Estados Unidos, sofrem também da
intersecção da dupla opressão – racial e de gênero –, mas a opressão racial que sofrem
tem um caráter étnico-racial; seus corpos racializados representam o pertencimento a uma
cultura periférica, subdesenvolvida, atrasada. Assim como as mulheres negras eram
solidárias aos homens negros, pois compartilhavam com eles a experiência do racismo
estrutural, as mulheres latinas compartilhavam com os homens latinos a pouca valorização
das culturas não europeias. Negras, latinas, indígenas, asiáticas criticam o feminismo
branco da segunda onda que se arvorava a falar em nome de todas as mulheres, ignorando
os diversos matizes (raça, etnia, orientação sexual) da opressão de gênero.

No final da década de 1990, intelectuais latino-americanos que lecionavam nos Estados


Unidos criaram o grupo Modernidade/Colonialidade, que reivindicava a tese segundo a qual
a modernidade europeia surgiu graças à ação colonial nas Américas. Para esses autores, o
conceito marxista de classe não conseguia explicar satisfatoriamente o fenômeno da
desigualdade social nos países latino-americanos, porque lhe faltaria a dimensão da
experiência colonial. A estratificação social contemporânea dos países latino-americanos
reflete uma herança colonial na medida em que segue um padrão racial. Para Aníbal
Quijano, um dos intelectuais mais importantes desse grupo, a modernidade europeia forja o
conceito de raça para diferenciar os nativos dos europeus. Desde a “invenção” da América,
a diferença colonial, entre colonizado e colonizador, determinava a distribuição dos cargos
na administração colonial. Essa diferença colonial perdura após a independência desses
países na medida em que os chamados “nacionais” reproduzem a mentalidade do
colonizador: supervalorizam os hábitos e costumes europeus (colonialidade do ser),
supervalorizam o suposto saber acadêmico, científico, europeu, pois “universal”,
subestimando o alcance dos saberes locais (colonialidade do saber) e, finalmente, mantêm
a economia desses países submetida à mesma lógica colonial de divisão internacional do
trabalho, subordinando os países periféricos aos ditames do capitalismo global
(colonialidade do poder).

O giro decolonial promovido pelo grupo Modernidade/Colonialidade representa certamente


um marco fundamental para a teoria e a crítica do pensamento social e filosófico do
continente latino-americano, mas havia entre seus formuladores uma cegueira com relação
à importância da questão de gênero. Assim como os marxistas, os decolonialistas não
levavam em consideração que a permanência da diferença colonial pode estar fundada
tanto na ordem econômica capitalista e na geopolítica do conhecimento, como nas relações
de gênero. Em outras palavras, não questionam o papel subalterno das mulheres nas
relações sociais e políticas, como se isso fosse algo intrínseco ao sexo e não o resultado de
uma ação política colonial. Para a filósofa Maria Lugones, a introdução das expressões de
gênero marcadas pela oposição entre as tarefas e comportamento dos dois sexos, cabendo
à mulher o ambiente doméstico separado do ambiente social e político, foi mais um dos
instrumentos de dominação colonial, visto que com a introdução do patriarcado se
conseguiu silenciar uma parcela significativa da população que certamente possuía outro
entendimento sobre a economia, a agricultura e a política.

Causa espanto a Lugones que os homens vitimados pela violência da colonialidade do


poder sejam indiferentes ao sofrimento das mulheres de suas comunidades, sobre as quais
pesam tanto a opressão e o controle do poder capitalista eurocêntrico e global a seu corpo
racializado como a opressão e o controle por causa de seu gênero. Para ela, os homens
vítimas do poder capitalista não percebem as transformações profundas que a opressão de
gênero trouxe a suas comunidades, o que agrava ainda mais a situação de dependência e
subalternidade diante do capitalismo global.

A teoria política decolonial de Aníbal Quijano acerca do padrão capitalista de colonialidade


do poder teve papel central em denunciar a finalidade política e econômica do racismo no
contexto do capitalismo global. A criação do conceito moderno de raça no bojo da expansão
mercantil europeia serviu aos interesses “do controle do sexo e seus produtos, do trabalho,
da subjetividade/intersubjetividade e do conhecimento”. Nesse sentido, é historicamente
incompleta a classe como categoria que explica o sistema exploratório capitalista. Os
explorados não são apenas os trabalhadores brancos assalariados, mas antes deles os
corpos racializados e escravizados de índios e negros. Lugones reconhece a dívida do
feminismo decolonial para com a teoria do padrão colonial do poder de Quijano. Sua
explicação da origem da categoria de raça como ferramenta de dominação dos povos não
europeus pelo sistema capitalista global é essencial para a crítica decolonial ao feminismo
branco eurocêntrico hegemônico. Mas, para a filósofa argentina, sua abordagem das
relações de gênero a partir apenas da disputa pelo “controle do sexo e seus produtos” está
comprometida com a perspectiva heterossexualista e patriarcal do capitalismo global
eurocentrado.
Tanto a teoria feminista interseccional como a teoria da colonialidade do poder abordam a
questão da dupla violência, racial e de gênero, vivida pelas mulheres de cor, mas suas
perspectivas são muito generalistas, faltando-lhes a dimensão da vivência concreta. A
proposta de Lugones é unificar as duas análises teóricas em torno do que chamou de
sistema colonial moderno de gênero. Para Lugones: “A redução do gênero ao privado, ao
controle sobre o sexo e seus recursos e produtos é uma questão ideológica apresentada
ideologicamente como biológica, parte da produção cognitiva da modernidade que
conceitualizou a raça como ‘generificada’ e o gênero como ‘racializado’, de modo
particularmente diferenciado entre os/as europeus/brancos/as e as pessoas colonizadas
não brancas/os. A raça não é nem mais mítica nem mais fictícia que o gênero – ambos são
ficções poderosas”.

Num primeiro momento, Quijano não se deu conta de que, ao definir o âmbito do “controle
sexual e dos seus produtos” como a marca da dominação capitalista global, estava
assumindo a perspectiva “clara”, “hegemônica”, que reduz a mulher a seu caráter biológico,
reprodutivo, ignorando completamente sua participação na vida social e política.

A conclusão de Lugones é poderosa demais para ser ignorada. Trata-se da necessidade de


homens e mulheres de cor realizarem uma mudança total de paradigma a fim de
compreenderem “a magnitude do gênero na desintegração das relações comunitárias e
igualitárias, do pensamento e da autoridade no processo coletivo de tomada de decisões e
na economia”. A exclusão sistemática das mulheres do âmbito social e político das
comunidades foi uma forma estratégica do capitalismo global de exercer seu controle e
domínio nas sociedades coloniais, desestruturando suas formas de organização comunitária
e política. Desqualificar a capacidade cognitiva da mulher e reduzir seu papel ao de mãe,
definir sua personalidade e caráter como sendo essencialmente passivo por oposição ao
modo ativo e masculino de ser, facilitou a dominação capitalista na medida em que
inferiorizou as mulheres colonizadas, representadas como fêmeas, e não como mulheres,
enquanto não seguissem o modelo monogâmico, heterossexual e passivo do patriarcado.
Nada disso, entretanto, se fazia presente nas sociedades pré-coloniais. Os gêneros não
estabeleciam entre si essa relação hierárquica e excludente na divisão das tarefas e as
relações não eram definidas pela escolha sexual.

O patriarcado, portanto, é um elemento fundamental do capitalismo eurocêntrico global.


Graças a ele, foram introduzidas entre os povos colonizados as categorias biologizadas e
binárias de gênero, nas quais não havia espaço para uma expressão de gênero que não
estivesse em conformidade com a norma europeia. Todos os comportamentos desviantes
eram colocados no lado oculto, marginalizado.

Acredito que o feminismo decolonial nos oferece ferramentas hermenêuticas poderosas


para resgatarmos de dentro do campo das ciências sociais, da literatura e da filosofia as
vozes esquecidas e ocultadas dessas mulheres que negaram o mandamento patriarcal de
que se retirassem da vida pública, e que por isso deixaram registros de outras formas de
viver e encarar a vida em sociedade.

SUSANA DE CASTRO é doutora em Filosofia pela Ludwig Maximilian Universität München


e professora da UFRJ