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Direitos Reais

(casos práticos resolvidos)

1.A e C são proprietários de terrenos contíguos.

A adquiriu por usucapião, invocada em 1983, uma servidão de passagem sobre o prédio
agora pertencente a C. Tal como resulta da respectiva escritura de justificação, a servidão é de
“passagem a pé e com carros de bois”.

Aquela escritura nunca foi levada a registo.

a) Na altura em que foi invocada a usucapião, o proprietário do prédio serviente era B. C


alega agora que quando comprou o terreno, em 2014, desconhecia a existência da
servidão.Decidiu, por isso, impedir A de passar colocando umas pedras no caminho. Terá
fundamento para tanto?

Tópicos de resolução:

- O registo da aquisição por usucapião tem efeito enunciativo [artigo 5º/n.º 2/a),
Cód.Reg.Predial];

- O registo de constituição de servidões aparentes tem o mesmo efeito [artigo 5º/n.º 2/b),
Cód.Reg.Predial];

- Em geral, as servidões de passagem têm carácter aparente.

Ainda que assim não fosse, esta tinha também sido constituída por usucapião. Por isso,
C nunca poderia invocar o seu desconhecimento. A servidão era-lhe assim oponível.
b) Processualmente, como poderá A reagir?

Tópicos de resolução:

Uma vez que foi privado da sua passagem, A poderia:

i) recorrer à acção de restituição (artigo 1281º), caso a servidão fosse aparente (artigo
1280º);

ii) recorrer à acção de reivindicação (artigos 1315º e 1311º).

c) Suponha que C alega também que Aefectua a passagem utilizando tractores e outra
maquinaria agrícola pesada e não carros de bois. Se porventura o tribunal entender que a
servidão deve permanecer, C pretende, contudo, que a A seja unicamente permitido passar pelo
modo original. Terá fundamento?

Tópicos de resolução:

- Em princípio as servidões são imutáveis (artigo 1568º).

- E (artigo 1564º) são reguladas pelo respectivo título (no caso, a usucapião). Por isso,
se esta tinha sido constituída como de “passagem a pé e com carros de bois”, não pode o seu
titular efectuar a passagem de outro modo.

- É verdade que a servidão “entender-se-á constituída a servidão por forma a satisfazer


as necessidades normais e previsíveis do prédio dominante com o menor prejuízo para o prédio
serviente” (artigo 1565º). Mas isso apenas “em caso de dúvida”.

- Portanto, para A passar de outra forma torna-se necessário que constitua outra
servidão com o acordo de C.
2.Desde 1994 que A e B são comproprietários de um terreno agrícola com dois hectares.
Para evitar conflitos, decidiram demarcá-lo em dois lotes de um hectare cada, separados por um
muro de pedra.

Em 1999, A construiu uma vivenda no lote que vinha utilizando desde 1994.

a) Estará A em condições de agora invocar usucapião relativamente a esse lote?

Tópicos de resolução:

- Os comproprietários não são obrigados a permanecer na indivisão (artigo 1412º). Mas


a divisão de imóveis supõe que se recorra a processo ou, em alternativa, que se faça (em geral)
por intermédio de escritura pública ou de documento autenticado (que são as formas
habitualmente exigidas para a alienação onerosa de coisa imóvel).

- A e B apenas demarcaram o terreno sem cumprirem mais formalidades. Por isso


permanecem em compropriedade.

- A possibilidade de invocarem usucapião dependeria:

1º: de ter havido inversão do título da posse de algum deles contra o outro (já
que os comproprietários são possuidores na medida da sua quota e, em simultâneo, são
detentores em relação à quota dos demais);

2º: depois, de os restantes pressupostos da usucapião estarem preenchidos;

3º: por fim, de os lotes assim obtidos respeitarem a unidade mínima de cultura, se
tivessem destino agrícola, ou de os consortes terem conseguido autorização de loteamento, se
eles se destinassem à edificação.

b)Bquer aproveitar o muro divisório para nele apoiar um armazém que pretende construir.
Dependerá para o efeito de consentimento de A?

Tópicos de resolução:
- Dado que A e B permanecem em compropriedade até eventualmente invocarem
usucapião, o muro é comum (mas não para efeitos do artigo 1370º porque se aqui pressupõem
prédios pertencentes a distintos donos)

- Portanto B poderia apoiar a construção do armazém no dito muro sem necessidade


autorização de A desse que não o privasse “do uso a que igualmente tem direito” (artigo 1406º)

3.A deixou em 2008, por testamento, a propriedade do apartamento x a B e o respectivo


usufruto, em simultâneo, a favor de C e de D (pai de B).

Estando numa idade avançada, D abdicou agora do usufruto a favor de B na condição de


este lhe prestarassistência na velhice.

a) Quem beneficiaria da abdicação: B ou C?

Tópicos de resolução:

- A renúncia pura e simples tem carácter abdicativo, determinando em geral a extinção


do direito a que se abdica. É esse o efeito que D obteria se renunciasse.

- Havendo usufruto em simultâneo, a renúncia do usufrutuário beneficia, em princípio,


os co-usufrutuários (artigo 1442º). Mas admite-se estipulação em sentido contrário. Assim:

i) em princípio, o beneficiário da renúncia de D seria C

ii) somente seria B se houvesse cláusula testamentária a estabelecer tal consequência

b) Suponha que, quando D abdicou, o apartamento necessitava de reparações na


totalidade da canalização e na instalação eléctrica. Após a renúncia,D permaneceria vinculado a
contribuir para elas?

Tópicos de resolução:
- O proprietário de raiz é a pessoa em cujo interesse se estabelece a obrigação de
efectuar as reparações impostas ao usufrutuário pelo artigo 1472º. É, portanto, o seu credor.

- D apenas se pode eximir do cumprimento – na parte que lhe corresponde – das


referidas obrigações se renunciar liberatoriamente a favor de B.

- Por isso, para D obter este efeito, não pode renunciar pura e simplesmente, porque isso
vale como renúncia abdicativa. Ao invés, deve declarar que renuncia a favor de B como forma
de se desonerar da execução da referida prestação. Se assim fizer, produz a extinção do usufruto
na sua parte (efeito real) e deixa de estar vinculado a proceder às referidas reparações (efeito
obrigacional).

4. António é proprietário de um terreno no qual construiu, em 1990, uma vivenda de dois


andares. Na altura, deixou em relação ao terreno vizinho, pertencente a Bernardo, uma distância
de cinco metros.

Entretanto, agora pretende construir uma garagem anexa justamente no espaço que
medeia entre a sua vivenda e a estrema com o terreno de Bernardo.

a) Para poder construir a garagem, António necessita colocar andaimes no terreno de


Bernardo. Dependerá, para o efeito, de consentimento deste último ou não?

Tópicos de resolução:

A colocação de andaimes no terreno vizinho não depende do consentimento de Bernardo


por força do disposto no artigo 1349º. Está aqui prevista uma limitação legal ao direito de
propriedade estabelecida a favor daquele vizinho que necessita de utilizar provisoriamente o
prédio alheio para algum dos efeitos aí identificados; não se trata de uma servidão (caso em que
o consentimento do afectado seria indispensável) na medida em que deriva automaticamente da
lei e não requer um específico acto constitutivo.
De qualquer modo, pelos danos de que Bernardo venha eventualmente a padecer,
António é objectivamente responsável (artigo 483º, n.º 2).

b) Para poder utilizar mais facilmente a garagem, convinha-lhe obter acesso para a
mesma através do terreno de Bernardo. Como deverá proceder para o efeito?

Tópicos de resolução:

Das duas, uma: ou António tem comunicação suficiente com a via pública ou não tem.

Em caso afirmativo, para poder constituir uma servidão de passagem, não sendo esta
legal (artigo 1550º, a contrario), depende de contrato a celebrar com António, a menos que (em
função das circunstâncias do caso concreto) pudessem estar reunidos os pressupostos da
usucapião ou da destinação do pai de família (artigo 1547º, n.º 1). Deveria, assim, tentar chegar
a acordo com Bernardo, formalizá-lo por escritura pública ou documento autenticado, e registá-
lo. O efeito do registo tanto poderia ser o consolidativo (artigo 5º, n.º 1, Cód.Reg.Predial) como
o enunciativo [artigo 5º, n.º 2, b), Cód.Reg.Predial] em função, respectivamente, do carácter
não aparente ou aparente da servidão.

Em caso negativo, poderia constituir a servidão legal de passagem a que se refere o


artigo 1550º, pelo que, na falta de algum dos títulos constitutivos enumerados no n.º 1 do artigo
1547º, poderia obtê-la através de decisão judicial (artigo 1547º, n.º). O efeito do respectivo
registo variaria igualmente em função do carácter aparente ou não aparente da servidão.

c) Desde a altura em que construiu a vivenda, António mantém instalado, no rés-do-chão,


um lagar de azeite. Acontece que os líquidos residuais provenientes da sua exploração são
despejados directamente sobre o solo formando um leito que entra pelo terreno de Bernardo.
Passados todos estes anos, ainda poderá este opor-se à actuação de António ou não?

Tópicos de resolução:

Nos termos do artigo 1346º, o proprietário de um prédio não pode aí produzir emissões
que, atingindo prédio vizinho, nele causem “prejuízos substanciais”. Em princípio, tal seria o
caso da hipótese.
Trata-se, contudo, de uma limitação legal de vizinhança imposta no interesse particular
(dos vizinhos). Razão pela qual estes, nisso consentindo, podem ficar sujeitos a suportar as
referidas emissões. O único modo, porém, com eficácia real, através do qual a anuência poderia
ser dada, consistiria na constituição de uma servidão (voluntária) de sinal contrário (isto é, que
tivesse por conteúdo a submissão à realização da conduta que ultrapassasse a restrição legal).
Diz-se então que a servidão é desvinculativa.

Assim, se os pressupostos da usucapião estivessem preenchidos (posse durante, em


princípio, vinte anos – artigo 1296º – por inexistir “justo título”), constituir-se-ia uma servidão
que autorizaria António a prosseguir com as emissões em causa.

5. A, proprietário, constituiu usufruto a favor de B, sobre um apartamento, por escritura


pública datada de 1/1/2008 não registada.

A faleceu em 2009 e sucedeu-lhe o seu filho C. Este, por escritura datada de 1/1/2010,
constituiu usufruto a favor de D, sobre o mesmo apartamento, o que foi registado em 1/2/2010.

Qual a situação de B e de D?

Tópicos de resolução:

O contrato contido na escritura pública em causa, na data, não estava ainda sujeito a
registo obrigatório. Todavia, a falta de inscrição, na altura ou hoje, implica que os efeitos
jurídicos do facto não registado, produzindo-se, têm carácter precário, na medida em que estão
sujeitos a resolução, caso seja registado um facto incompatível.

De facto, tal acabou por suceder em virtude de D ter inscrito um outro usufruto,
constituído por outro título, de natureza inconciliável como aquele de que B beneficiava.

B e D são entre si terceiros (artigo 5º, n.º 4, Cód.Reg.Predial) na medida em que:

1º: adquirem ambos por negócio jurídico os respectivos direitos;


2º: e fazem-no a partir de um autor comum, dado que o herdeiro C se considera,
juridicamente, como um simples continuador de A, pelo que, por isso, tudo se passa como se
fossem uma única pessoa.

Nenhum dos actos constitutivos de usufruto é inválido, na medida em que, por via do
princípio da elasticidade, o proprietário não perde os respectivos poderes de uso e de fruição
quando institui o primeiro usufruto. O que certamente sucede é que o acto posterior de
constituição de usufruto (a favor de D) é ineficaz enquanto subsistir a eficácia do primeiro.

Logo, há analogia com as situações em que é inválido o acto posteriormente realizado


mas primeiramente inscrito. Significa isto, por outras palavras, que D poderia exercer o seu
usufruto em primeiro lugar (e assim prevalecer sobre B) desde que estivesse nas condições do
artigo 291º.

6.A constituiu um usufruto a favor de B, sobre o prédio x, através de contrato de doação


contido em escritura pública lavrada em Notário. O registo correspondente foi pedido passados
cinco dias.
Entretanto, antes de a apresentação de tal registo ter sido efectuada, A foi objecto de uma
penhora requerida por C, a incidir sobre o mesmo prédio x, cujo registo se realizou de imediato.

1ª: B e C serão terceiros entre si?

Tópicos de resolução:

a) Conceito amplo e conceito restrito de terceiro registal;


b) O disposto no artigo 5º, n.º 4, do Cód.Reg.Predial;
c) No conceito amplo B e C seriam terceiros entre si; no conceito restrito, C não seria
terceiro e, portanto, não beneficiaria de protecção pelo registo.
2ª: Se a penhora tiver desembocado em venda executiva (artigo 824º) e, nesta, tiver
surgido D como comprador, será este terceiro perante B?

Tópicos de resolução:

a) O comprador na venda executiva adquire através de um acto que não tem natureza
negocial; assim, será terceiro registaladoptando o conceito amplo e não o será seguindo o
conceito restrito;

b) Todavia, o Acórdão Uniformizador n.º 3/99, entendeu que, em qualquer circunstância,


o comprador na venda executiva é terceiro para efeitos de registo.

3ª: Se C ou D forem considerados terceiros, prevaleceriam sobre B (obtendo,


designadamente, a extinção do usufruto)?

Tópicos de resolução:

a) O vício existente no acto de constituição da penhora ou na venda executiva é a


ilegitimidade do A;

b) Ambos os actos são, por isso, nulos;

c) Cabe, assim, discutir se é aplicável (por analogia) a favor dos adquirentes o disposto no
17º/2 ou no 291º;

d) caso algum destes preceitos possa funcionar, o respectivo beneficiário adquire o direito
que pretendia;

e) sendo certo que se isso suceder a favor do C, o D já beneficia de uma aquisição isenta
de vícios (e, portanto, não depende do preenchimento das disposições em causa).
7.A, proprietário de duas fracções autónomas de um edifício em propriedade horizontal (a
do 1º esquerdo e a do 5º direito), concedeu procuração a B para ele as vender, conferindo-lhe
também poderes para este, querendo, as comprar para si próprio.

B vendeu a fracção do 1º esquerdo a C e comprou a do 5º direito para si. Os contratos


ficaram documentados numa única escritura pública. Com base nela foram pedidas as
competentes inscrições prediais a favor de B e de C.

Passados quatro anos, ao pedir uma certidão do registo predial, C verificou que ambas as
fracções estavam inscritas em seu nome. Deduzindo ter havido algum lapso da Conservatória
mas pretendendo aproveitar-se da situação, vendeu de imediato a fracção do 5º direito a D.

Qualifique a situação jurídica de D.

Tópicos de resolução:

A inscrição realizada a favor de C relativa à fracção correspondente ao 5º direito


padece de nulidade por força do que se estabelece na alínea b) do artigo 16º do
Cód.Reg.Predial: inexistência de documento (suficiente) com base no qual pudesse ter sido
lavrada. Contra esta nulidade (de natureza exclusivamente registal) D poderia invocar a seu
favor o disposto no n.º 2 do artigo 17º do mesmo diploma, caso estivessem preenchidos a seu
favor os requisitos aqui enumerados.

O problema, porém, é mais profundo: C não dispõe de legitimidade para vender a D na


medida em que a propriedade do 5º direito pertence a B. A venda de C a favor de D está viciada,
portanto, por ilegitimidade do primeiro; nessa medida é nula nos termos do artigo 892º CC.

Contra esta invalidade (dita substantiva), a protecção de D depende de o disposto no


artigo 291º CC estar verificado. Ou seja:

1º) Existir registo a favor daquele de quem o terceiro adquire;

2º) O terceiro estar de boa fé: isto é, o terceiro ter acreditado, sem culpa, na fidelidade
do registo à realidade substantiva. Sendo certo, porém, que o terceiro não está obrigado a
averiguar (nem isso faria qualquer sentido) tal fidelidade. Daí que existindo o registo a favor
daquele de quem o terceiro adquire, se presuma a sua boa fé;

3º) O terceiro actuar investido na expectativa gerada pelo referido registo. Quer isto
dizer que a sua tutela depende de ter praticado actos cuja destruição implique precisamente a
frustração da fé subjacente a essa prática. Na disposição em causa, esses actos deverão
consistir:

– na celebração de um acto oneroso capaz de, em abstracto, proporcionar uma aquisição


de posições jurídicas;

– e, além disso, na realização do seu registo;

4º) Embora não se diga explicitamente, supõe-se também que a deficiência de que padece
a posição do terceiro deriva precisamente dos vícios da posição do seu causante (vícios
relativos ao título de aquisição deste). Ao invés, se existirem vícios específicos do acto de
aquisição a favor do terceiro (ou relativos ao respectivo registo), a sua posição já não poderá
prevalecer pela simples razão de que, em relação a estes vícios, ele não é terceiro;

5º) Por fim, a tutela da expectativa do terceiro depende ainda (n.º 2) do decurso de um
prazo de três anos após a conclusão do acto de que beneficia o terceiro, sem que seja registada
a propositura de acção de declaração de nulidade ou anulação ou sem que seja registado o
"acordo entre as partes acerca da invalidade do negócio" que favorece o seu causante.

Em princípio, os requisitos que ficam enumerados estariam verificados.

8. “Cabe decidir no presente recurso de constitucionalidade se a norma dos n.ºs 2 e 3


do artigo 1569.º do Código Civil, interpretados no sentido de que a servidão predial constituída
por destinação de pai de família não é susceptível de extinção por desnecessidade, viola o
artigo 62.º (garantia constitucional de propriedade privada) e o n.º 2 do artigo 18.º (princípio da
proporcionalidade das restrições).
A recorrente argumenta … que esta interpretação, permitindo quesobre o prédio
serviente continuem a incidir servidões que se revelam absolutamente desnecessárias para o
prédio dominante, se traduz numa restrição manifestamente irrazoável do direito à
propriedade privada consagrado no artigo 62.º e consiste numa valoração do direito do titular
da servidão, no confronto com o direito do titular do prédio serviente, que viola o n.º 2 do
artigo 18.º da Constituição” (acórdão do Tribunal Constitucional n.º 484/2010,Processo n.º
535/10).

QuidJuris?

Tópicos de resolução:

As servidões prediais distinguem-se, numa classificação possível, em legais e


voluntárias. As primeiras podem constituir-se coercivamente, por via judicial ou administrativa;
as segundas, não.

Uma servidão constituída por destinação do pai de família (artigo 1549º CC) tanto pode
ser legal como voluntária, dependendo de saber, caso não tivesse ocorrido este modo de
constituição, se poderia ter sido instituída por via decisão judicial ou administrativa. Não é o
concreto modo constitutivo que qualifica a servidão como legal ou voluntária, mas antes a
susceptibilidade de constituição coerciva; a menos que, em concreto, a servidão tenha sido
efectivamente constituída por uma daquelas vias compulsivas. Assim, em geral, é irrelevante
determinar se o acto de constituição da servidão tem natureza voluntária ou não; e se, tendo-a,
ele assume carácter de negócio jurídico ou não.

As servidões legais podem sempre extinguir-se por desnecessidade, qualquer que tenha
sido o respectivo título constitutivo (n.º 3 do artigo 1569º CC). As voluntárias extinguem-se por
desnecessidade somente quando hajam sido constituídas por usucapião (n.º 2 do artigo 1569º
CC).

Seja como for, todavia, a verdade é que o artigo 18º da Constituição tem em vista apenas
as restrições legais a “Direitos, Liberdades e Garantias” ou a direitos análogos (artigo 17º,
Constituição). Ora, a servidão constituída por destinação do pai de família funda-se, em última
análise, numacto jurídico voluntário de Direito Privado (a falta de declaração em contrário a
que se refere a parte final do artigo 1549º CC) e não certamente numa Lei parlamentar ou num
Decreto-Lei autorizado [artigo 165º, n.º 1, alínea b), e n.ºs 2, 3 e 4, Constituição].

Por isso, em conclusão inexiste, no caso concreto, qualquer inconstitucionalidade.

9. “1. Na 2.ª Conservatória do Registo Predial de Vila Nova de Gaia, encontra-se


descrito sob o n° ............., um prédio urbano sito à Rua ................... em Vila Nova de Gaia, com
a inscrição da aquisição a favor da autora pela ap. 03/120 167 - certidão de fls. 12 a 14.
2. Na 2.ª Conservatória do Registo Predial de Vila Nova de Gaia, encontra-se descritos
sob os n.ºs .....,....., .....,....., ....., ..... e....., de 18.12.96, por desanexação do prédio descrito sob o
nº ................, 8 prédios urbanos identificados por Lotes C1, C2, C3, C4, C5, C6, C7 e C8,
respectivamente, sitos à Rua ..................., em Vila Nova de Gaia, com a inscrição da aquisição
(g-l), por compra a favor de "DD - Britagens e Construções, Lda", pelas apresentações nº 14 de
22-09-1987 e inscrição de aquisição (G-"), por compra, a favor da ré São CC pelas aps...........-
Certidão de fls. 147 a 165.
3. Sob as aps. ........ dos prédios descritos sob os nºs.......2 e ..... e referidos em 2°),
encontra-se inscrita a aquisição, por compra, a favor de EE e marido GG, ora RR.
4. O terreno que integra os prédios referidos em 2) confronta, do seu lado nascente, com
o prédio referido em 1).
5. No terreno que integra os prédios referidos em 2), foram realizados trabalhos de
escavação e terraplanagem, com vista ao loteamento do mesmo.
6. Os trabalhos referidos em 5) foram executados pela interveniente "DD-Britagens e
Construções, Lda.".
7. Os trabalhos referidos em 5) ocorreram em data indeterminada dos anos de 1997 a
2001.
8. Por força dos trabalhos referidos em 5), o terreno objecto dos mesmos desceu a uma
cota 4 metros, inferior à cota do terreno referido em 1).
9. Como consequência dos trabalhos referidos em 5), verificou-se, em 25/03/2001, o
aluimento de um anexo existente no prédio referido em 1).
10. E ruiu parte do muro divisório existente no prédio referido em 1), desmoronando-se
as terras que o mesmo sustentava.
11. Ainda como consequência dos trabalhos referidos em 5), as construções e vedações
integradas no prédio referido em 1) ficaram em perigo iminente de ruína.
12. Entre as quais figurava a estação de bombagem de esgotos instalada no prédio
referido em 1).
13. Em consequência da instabilidade do prédio referido em 1) provocada pelos
trabalhos referidos em 5°), a EDP retirou um poste de suporte de condutores de alta tensão,
transferindo-o para outro terreno.
14. Para evitar outras derrocadas, a autora procedeu à realização de obras de remoção
de entulho e terras desmoronadas, reconstrução e levantamento do muro de sustentação.
15. O prédio referido em 2) passou a pertencer à R. em 09/11/2004” (Acórdão do
Supremo Tribunal de Justiça de 13/11/2008, Processo n.º 08B3485).

A A. pretende a condenação da R. no pagamento da quantia de €35.289,32 e juros de


mora desde a citação até integral pagamento, por danos (aluimentos de um anexo e a ruína de um
muro, ocorridos em 25/03/2001) decorrentes de escavações feitas no prédio descrito em 2), em
Março de 2001.

Quem deve ser considerado responsável pelas despesas efectuadas pela A.?

Tópicos de resolução:

A questão básica que aqui se ergue é a relativa à determinação das pessoas obrigadas à
reparação dos danos causados em prédio vizinho por causa de escavações realizadas em prédio
próprio.

Nos termos do n.º 1 do artigo 1348º CC, “o proprietário tem a faculdade de … fazer
escavações, desde que não prive os prédios vizinhos do apoio necessário para evitar
desmoronamentos ou deslocações de terra”. Se, porém, não obstante terem sido tomados os
cuidados indispensáveis, estes prédios sofrerem danos, fica o autor daquelas obrigado a
indemnizar os proprietários confinantes (n.º 2 do artigo 1348º CC). Trata-se de um caso de
responsabilidade objectiva pelo risco (artigo 483º, n.º 2, CC).

Esta qualificação já é suficiente para responder à questão colocada.

Há, de facto, algumas obrigações (as propter rem e as que emergem de ónus reais)
relativamente às quais se pode colocar a questão da sua ambulatoriedade; isto é, a questão da
sua cessão (pelo lado passivo) juntamente com a transmissão do direito real cujo conteúdo
integram. Mesmo aí, no entanto, a regra vai no sentido de não reconhecer semelhante
característica.

Na hipótese do n.º 2 do citado artigo 1348º, contudo, é uma obrigação de indemnizar que
está em causa e não uma obrigação propter rem ou um ónus real.

As obrigações propter rem identificam-se por serem:


- vínculos obrigacionais não autónomos;

- funcionais (ligadas à conservação/manutenção da coisa sobre a qual incidem);

- de conteúdo positivo (facere ou dare);

- excepcionalmente, ambulatórias.

Os ónus reais demarcam-se por serem:

- vínculos obrigacionais não autónomos;

- de conteúdo positivo (facere ou dare);

- não funcionais;

- com o respectivo cumprimento assegurado por uma garantia real implícita.

Ora, no caso concreto, estas marcas típicas não estão presentes. Mas, acima de tudo,
tratando-se de um caso de responsabilidade civil, esta, como sempre sucede, incide sobre o
autor da conduta geradora do dano e não sobre qualquer outra pessoa (salvos casos de
responsabilidade indirecta – como a do comitente – que, de todo o modo, não sucedem na
hipótese).

Assim, em conclusão, os responsáveis pela reparação dos danos ocasionados pelas


escavações em consideração no presente caso prático seriam, não os RR, mas antes as pessoas
que na altura em que elas foram realizadas eram proprietárias do prédio descrito em 2).

10. Há alguns anos, C, com o consentimento de D,construiu um lagar de azeite num


prédio rústico pertencente ao segundo.

Tendo D falecido, o seu herdeiro único, E, está a exigir a C que lhe pague o valor do
prédio em que o lagar foi construído, nos termos do artigo 1340, n.º 1, do Código Civil.
Sabendo que C não quer adquirir o prédio, apesar de, efectivamente, as obras por ele
feitas terem trazido ao prédio um valor maior do que ele tinha antes, diga se C se pode recusar a
adquiri-lo, bem como, se, em tal caso, tem direito a exigir a E alguma compensação pelo valor
da construção.

Tópicos de resolução:

A acessão pressupõe:

– duas coisas;

– que não sejam propriedade da mesma pessoa;

– e que essas coisas se unam de um certo modo.

As duas coisas que acedem podem ser ambas móveis, ou pode ser uma móvel e a outra
imóvel. Assim (artigo 1326º, n.º 2): no primeiro caso, a acessão diz-se mobiliária; no segundo,
imobiliária.

Essas coisas devem unir-se de forma inseparável (daí que na avulsão – artigo 1329º –
não haja acessão, mas se verifique apenas uma aplicação da regra meumest,
quoadexremeasuperest – Celso, D.6.1.41.1). Pressupõe-se, pois, que dessa união resulta uma
(nova) coisa indivisível (artigo 209º).

É hoje indisputável que, por regra, a acessão não faz adquirir a propriedade da coisa
adjunta por mero efeito da união correspondente. Se por outra razão não for, em virtude de a
solução contrária infringir, sem justificação plausível, o princípio “invito beneficium non datur”
(Paulo, D.50.17.69). É de exigir para o efeito, por isso, uma declaração (expressa ou tácita),
proferida pelo beneficiário da acessão, manifestando a vontade de adquirir, acrescida do
pagamento de compensação ou indemnização (quando a ela haja lugar).

A aquisição por acessão é, pois, como normalmente se diz, potestativa. Depende do


exercício de um direito real de aquisição, conferido ao beneficiário da acessão, e que emerge da
ocorrência dos respectivos factos constitutivos (união inseparável de duas coisas pertencentes a
diferentes donos).

Se o autor da adjunção “construir obra em terreno alheio, ou nele fizer sementeira ou


plantação”, o todo pertencer-lhe-á caso o conjunto das coisas que incorporou seja de valor
(económico) superior ao valor do terreno (n.º 1); na situação inversa, o todo caberá ao dono
deste (n.º 3). “Se o valor acrescentado for igual” ao valor do terreno, abrir-se-á licitação entre
o seu proprietário e o autor da incorporação (n.º 2).

De harmonia com o disposto no n.º 4, haverá boa fé se:

– “o autor da obra, sementeira ou plantação desconhecia que o terreno era alheio”, ou

– se “foi autorizada a incorporação pelo dono do terreno”.

A primeira hipótese não suscita dúvidas de monta; constitui um critério obviamente


extraível a partir do próprio conceito de boa fé em sentido subjectivo. Ao invés, a segunda, se
levada à letra, poderá facilmente conduzir a soluções irrazoáveis. Crê-se não poder estar aqui
em causa uma autorização propriamente dita, pois, quando assim for, devem seguir-se os seus
termos, ou seja, aquilo que em concreto tenha sido permitido. Aliás, se o dono do terreno apenas
autoriza outrem a nele incorporar algo, haverá em princípio constituição (formalmente) inválida
de direito de superfície; e é inadmissível que o autor da incorporação fique, potencialmente, em
melhor situação não tendo direito de superfície do que tendo-o.

A «autorização» em causa somente pode ter, por isso, o sentido de «falta de oposição»,
de «autorização tácita» (ou equivalente), do dono do terreno (ou de quem o aparenta ser)
perante uma actuação do autor da incorporação cognoscível pela “pessoa de normal
diligência”. Tratar-se-á, por exemplo, da autorização explícita ou implícita na tradição de um
lote de terreno para construção efectuada ao abrigo de um contrato-promessa de compra e
venda do mesmo.
11.A 1 de Novembro de 1990, A constituiu, em benefício de B, através de documento
particular, um direito de usufruto vitalício sobre um prédio rústico de grandes dimensões sito em
Trancoso.

B aproveitou tal situação para começar, de imediato, a explorar o prédio em causa, tendo
efectuado benfeitorias no valor de € 10.000,00.

Em Setembro de 2005, A ocupou o dito prédio, impedindo B de o continuar a explorar.


Questionado acerca das razões que o levaram a tomar tal atitude, o primeiro alegou que o
usufruto não havia sido constituído por escritura pública, e, por isso, não assistiria qualquer
direito a B.

a) Teria A legitimidade para actuar assim, ou poderia B reagir, designadamente por via
judicial, contra tal conduta?

Tópicos de resolução:

O usufruto sobre coisa imóvel deve ser constituído por escritura pública ou por
documento autenticado quando o título seja contratual. Como não sucedeu assim na hipótese, B
não teria qualquer direito de usufruto.

B teria, no entanto, posse (formal) sobre o terreno. A não poderia assim sem mais, uma
vez que não se verificam os requisitos da acçãodirecta, proceder ao despejo daquele.

Para o efeito, B poderia recorrer à acção de restituição da posse nos termos do artigo
1278º.

b) Poderia B ter intentado acção de reivindicação para defesa da sua situação?

Tópicos de resolução:

O usufrutuário pode defender a sua situação através da acção de reivindicação nos


termos conjugados do artigo 1315º e 1311º. Todavia, B não tinha adquirido qualquer direito de
usufruto. Pelo que, em conformidade, não tinha fundamento para recorrer à acção de
reivindicação.

12.A, dono e possuidor de um prédio rústico, prometeu vendê-lo, em 20 de Maio de 1994,


a B, que prometeu comprá-lo pelo preço total de € 100.000,00.

No momento da celebração do contrato-promessa, B entregou a A, a totalidade do preço e


A entregou a B as chaves do portão do prédio.

Entre 1994 e Dezembro de 2009, e salvo no período de Janeiro de 2006 a Janeiro de


2007, B lavrou, colheu feno e criou gado no terreno, que também vedou com uma rede.

Em Janeiro de 2010, B intenta contra Aacção judicial em que pede seja declarado
adquirido a seu favor o direito de propriedade sobre o prédio com fundamento em usucapião.

Aopõe-se alegando que, por virtude do contrato-promessa, B não pode invocar usucapião.

Quem terá razão?

Tópicos de resolução:

A classificação da situação possessória do promitente-comprador não pode deixar de ser


feita por intermédio da aplicação dos critérios gerais ínsitos nos preceitos contidos nos artigos
1253º, alínea b), e 1252º, n.º 2. Assim: se houver indícios claros de que a traditio se funda em
cortesia ou deferência, o promitente-comprador terá detenção; na dúvida sobre a razão de ser
da entrega, ele será possuidor.

Quando ao promitente-comprador caiba posse, ela é (por aplicação dos critérios


definidos no artigo 1259º) não titulada. De facto, a posse diz-se titulada quando a sua aquisição
se funda na existência de um acto jurídico (não necessariamente negócio jurídico; pode ser, por
exemplo, uma decisão judicial) translativo ou constitutivo de um direito real que, a ser válido,
seria a causa (aquele direito, entenda-se) dessa posse. Exige-se que tal acto tenha observado, no
mínimo, a forma legalmente prescrita para o efeito (ilação que se tira a contrario a partir do
que se preceitua na parte final do n.º 1). Ao invés, a posse será não titulada se a sua aquisição:
i) Não se fundar num acto com a referida eficácia translativa ou constitutiva [como sucede, de
um modo geral, nos casos de aquisição originária da posse – artigo 1263º, alíneas a) e d) –
excepto no caso de inversão do título por acto de terceiro – artigo 1265º, 2ª parte]; ii) Se fundar
num actojuridicamente inexistente (v.g. viciado por coacção física ou por falta de consciência
da declaração – artigo 246º);iii) Se fundar num acto existente, com eficácia translativa ou
constitutiva de um direito real, mas formalmente inválido. Se o acto em causa for
substancialmente inválido sob a forma de nulidade (artigo 286º) a posse é titulada. Sendo
substancialmente inválido mas sob a forma de anulabilidade (artigo 287º), enquanto não for
anulado, a posse é causal; pelo que só uma vez feita a anulação será a posse titulada (no óbvio
pressuposto de o beneficiário do acto anulado manter, apesar da anulação, a posse da coisa).

Sendo a posse do promitente-comprador não titulada, presume-se de má-fé. Por


consequência, em Janeiro de 2010 ainda não estariam cumpridos os prazos para que o
promitente-comprador pudesse invocar a usucapião, a menos que ele tivesse conseguido ilidir
aquela presunção.

13. Há alguns anos, C, com o consentimento de D,construiu um lagar de azeite num


prédio rústico pertencente a este último.

Tendo D morrido, o seu herdeiro único, E, exigiu a C que lhe pagasse o valor do prédio
em que o lagar foi construído.

Sabendo que C não quer adquirir o prédio, diga se ele o pode recusar, bem como, se, em
tal caso, tem direito a exigir de E alguma compensação pelo valor da construção.

Tópicos de resolução:

Se o autor da adjunção “construir obra em terreno alheio, ou nele fizer sementeira ou


plantação”, o todo pertencer-lhe-á caso o conjunto das coisas que incorporou seja de valor
(económico) superior ao valor do terreno (n.º 1); na situação inversa, o todo caberá ao dono
deste (n.º 3). “Se o valor acrescentado for igual” ao valor do terreno, abrir-se-á licitação entre
o seu proprietário e o autor da incorporação (n.º 2).

De harmonia com o disposto no n.º 4, haverá boa fé se:

– “o autor da obra, sementeira ou plantação desconhecia que o terreno era alheio”, ou

– se “foi autorizada a incorporação pelo dono do terreno”.

A primeira hipótese não suscita dúvidas de monta; constitui um critério obviamente


extraível a partir do próprio conceito de boa fé em sentido subjectivo.

Ao invés, a segunda, se levada à letra, poderá facilmente conduzir a soluções


irrazoáveis. Não pode estar aqui em causa uma autorização propriamente dita, pois, quando
assim for, devem seguir-se os seus termos, ou seja, aquilo que em concreto tenha sido permitido.
Aliás, se o dono do terreno apenas autoriza outrem a nele incorporar algo, haverá em princípio
constituição (formalmente) inválida de direito de superfície; e é inadmissível que o autor da
incorporação fique, potencialmente, em melhor situação não tendo direito de superfície do que
tendo-o. A «autorização» em causa somente pode ter, por isso, o sentido de «falta de oposição»,
de «autorização tácita» (ou equivalente), do dono do terreno (ou de quem o aparenta ser)
perante uma actuação do autor da incorporação cognoscível pela “pessoa de normal
diligência”. Tratar-se-á, por exemplo, da autorização explícita ou implícita na tradição de um
lote de terreno para construção efectuada ao abrigo de um contrato-promessa de compra e
venda do mesmo.

A ser assim, o consentimento de D não valeria para efeitos do artigo 1340º. O que
significa que se aplicaria à situação o disposto no artigo 1341º.

Por outro lado, é hoje indisputável que, por regra, a acessão não faz adquirir a
propriedade da coisa adjunta por mero efeito da união correspondente. Se por outra razão não
for, em virtude de a solução contrária infringir, sem justificação plausível, o princípio “invito
beneficium non datur”. É de exigir para o efeito, por isso, uma declaração (expressa ou tácita),
proferida pelo beneficiário da acessão, manifestando a vontade de adquirir, acrescida do
pagamento de compensação ou indemnização (quando a ela haja lugar).

A aquisição por acessão é, pois, como normalmente se diz, potestativa. Depende do


exercício de um direito real de aquisição, conferido ao beneficiário da acessão, e que emerge da
ocorrência dos respectivos factos constitutivos (união inseparável de duas coisas pertencentes a
diferentes donos). Salvaguardam-se evidentes excepções:

– normalmente, a acessão natural produz o seu efeito de forma automática (por exemplo,
o caso previsto no artigo 1320º, n.º 1);

– os casos em que o automatismo da aquisição tenha sido directamente determinado pela


própria lei, como sucede, por exemplo, na acessão industrial na hipótese do artigo 1339º.

Na hipótese, não se verificando qualquer das excepções, o beneficiário da acessão


invocá-la-ia se assim o pretendesse. Mas isto, no pressuposto de aplicação do artigo 1340º.
Caso contrário, C apenas teria direito, na melhor das hipóteses, a ser compensado pelas regras
do enriquecimento sem causa (artigo 1340º).

14. Em 2005, A comprou a B, com um financiamento hipotecário do banco X, um


terreno. Nem a aquisição de A nem a hipoteca a favor do banco X, foram registadas,
permanecendo o imóvel inscrito a favor de B, sem que haja menção a quaisquer ónus.

C tem pendente um processo de execução contra A.

Diga:

a) Se C pode fazer penhorar o imóvel na referida execução.

Tópicos de resolução:

É indiscutível, face à corrente doutrinal e jurisprudencial subjacente à fórmula literal


adoptada pelo n.º 4 do artigo 5º, que se pretendeu consagrar o chamado conceito restrito de
terceiro. Nas palavras do autor da fórmula que se vulgarizou, "terceiros para efeitos de registo
predial são as pessoas que do mesmo autor ou transmitente adquiram direitos incompatíveis
(total ou parcialmente) sobre o mesmo prédio". Neste sentido, C não é terceiro para efeitos de
registo, quer tenha quer não tenha inscrito a penhora, e, por isso, nada pode invocar perante A,
mesmo não tendo este registado a sua aquisição.

Por oposição, ante o chamado conceito amplo de terceiro, segundo o qual "terceiros,
para efeitos de registo predial, são todos os que, tendo obtido registo de um direito sobre
determinado prédio, veriam esse direito ser arredado por qualquer facto jurídico anterior não
registado ou registado posteriormente", C já é terceiro registal e, portanto, se tiver promovido a
inscrição da penhora antes de A ter registado a compra, poderá prevalecer desde que consiga
preencher a seu favor os requisitos de protecção enumerados pelo artigo 291º.~

Neste caso concreto, a particularidade resulta de o exequente (C) ser credor do


comprador (A) e não do vendedor (B), ao contrário, portanto, do que habitualmente surge
prefigurado.

Aplicando a fórmula correspondente ao conceito restrito de terceiro, C continua a nele


não se integrar (não adquire o seu direito – a penhora – por negócio jurídico). Solução que
claramente não faz sentido porque a questão da protecção do terceiro registal coloca-se quando
existam pretensões incompatíveis, problema que aqui não se coloca.

O que sim se põe é um problema de ordem exclusivamente registal: por força do


princípio do trato sucessivo (artigo 34º, Cód. Reg.Predial), enquanto não for lavrada a
inscrição de aquisição a favor de A não pode ser lavrada a inscrição de penhora a favor de C.

b) Se o banco X pode ir a essa execução exercer direitos na qualidade de credor


hipotecário.

Tópicos de resolução:

O registo de constituição de hipoteca tem carácter constitutivo (artigo 687º). Esta


somente se considera existente a partir do instante em que a competente inscrição registal se
encontrar definitivamente realizada (artigo 4º, n.º 2, Código do Registo Predial). Assim,
inexistindo registo, são os próprios efeitos tipicamente associados à verificação do facto
registável que ficam impedidos, dado que, para todos eles, tudo se passa como se ainda não
tivesse ocorrido; ou, que é o mesmo, considera-se estar incompleto. Logo, se o banco X não
inscreveu a hipoteca, nem sequer é dela titular e, portanto, não a pode fazer valer em juízo.

c) Se a situação tivesse ocorrido actualmente, a quem caberia promover os registos em


falta.

Tópicos de resolução:

Uma coisa é registo obrigatório, outra é registo oficioso: o registo só é verdadeiramente


obrigatório em sentido estrito, desde que:

1º – a falta da apresentação correspondente seja punida através de alguma sanção;

2º – a pessoa sancionada seja o interessado na respectiva realização – ou, por outras


palavras, seja o beneficiário dos efeitos do facto registável.

Ora, isto apenas sucede, e em parte, nas hipóteses previstas nas alíneas a), c) e f) do n.º1
do artigo 8º-B do Cód.Reg.Predial. E mesmo na hipótese da alínea c), o caso é, no fundo, de
registo indirectamente obrigatório (embora num outro sentido da expressão) para as instituições
de crédito: estas devem promover o registo v.g.. da hipoteca a seu favor para, ao mesmo tempo e
acima de tudo, promoverem o registo de aquisição a favor do mutuário/comprador (artigo 8º-
B/n.º 4, Cód.Reg.Predial).

Nos demais casos “a responsabilidade pelo agravamento (para o dobro – artigo 8º-D/n.º
1, Cód.Reg.Predial) do emolumento … recai sobre a entidade que está obrigada a promover o
registo e não sobre aquela que é responsável pelo pagamento do emolumento” (artigo 8º-D/n.º
3, Cód.Reg.Predial), não sobre o beneficiário dos efeitos do facto registável.

Em todos as situações da hipótese, o registo deveria ser promovido por entidade distinta
do respectivo beneficiário: aquela que fosse eleita para formalizar a compra e venda ou o
contrato de constituição da hipoteca; o próprio tribunal, através do agente de execução, no caso
do registo da penhora.

15. Ao passar repetidamente por uma rua de Lisboa, A apercebeu-se que determinada
vivenda se encontrava desabitada. Feitas as devidas averiguações veio a saber que o proprietário
residia no estrangeiro há longos anos e que, provavelmente, não voltaria a Portugal.

A decidiu instalar-se na referida vivenda com a sua família.

Passados três anos e julgando confirmadas as suspeitas de que o proprietário não tornaria,
acrescentou diversas divisões à casa e construiu uma piscina.

Quando o proprietário, contrariando as expectativas de A, acabou por regressar, deparou-


se com a ocupação da casa a qual, nesse instante, se prolongava há já quinze anos.

QuidIuris?

Tópicos de resolução:

A ocupação de coisas imóveis não dá lugar à aquisição da respectiva propriedade


(artigo 1318º a contrario) mas conduz apenas, no máximo, à aquisição da sua posse (formal)
nos termos do artigo 1263º, alínea a).

O apossamento é o efeito da "prática reiterada ... dos actos materiais correspondentes


ao exercício do direito". É uso salientar que a aludida "reiteração" não deve ser literalmente
entendida. Antes importa que o ou os actos materiais em causa tenham intensidade suficiente
para demonstrar uma intenção de apropriação. Assim, e em tese geral: para ocorrer o
apossamento de uma coisa móvel, bastará normalmente o próprio acto de apreensão material
(v.g., a subtracção); já para ocorrer o apossamento de uma coisa imóvel se suporá, em
princípio, um conjunto de actos. O que realmente interessa é que seja ou sejam suficientemente
significativos. Em princípio, tal sucede na hipótese, não só por causa da ocupação em si mesma,
mas também em virtude das benfeitorias entretanto incorporadas no imóvel.
A «publicidade» exigida só pode entender-se como um requisito de eficácia da posse
entretanto adquirida. Entendendo-se deste modo o requisito em causa, isso implica que ele só
pode ter o exacto conteúdo que à «publicidade» é conferido pelo disposto no artigo 1262º.
Assim, a ocultação do apossamento acarretará a ineficácia perante os interessados da posse
adquirida. Pelo que não começam a correr, contra o anterior possuidor, os prazos de perda da
posse [artigo 1267º, n.º 1, alínea d) e n.º 2], nem os prazos de caducidade das acções
possessórias (artigo 1282º), nem os prazos da usucapião (artigos 1297º e 1300º, n.º 1). Para a
caracterização da posse como pública ou oculta exige-se, por um lado, que o possuidor não
esconda (intencional ou inintencionalmente) a sua actuação. Mas, por outro lado, para compor
o conceito, impõe-se aos interessados um ónus de percepção, o qual se traduz na necessidade de
agirem diligentemente em relação à coisa sobre a qual conservam direitos. Assim, a posse de A
seria, em princípio, pública.

No que toca aos demais caracteres da posse de A, pode concluir-se que ela é não titulada
– porque não a sua aquisição não se funda na existência de um acto jurídico translativo ou
constitutivo de um direito real que, a ser válido, fosse a causa dessa posse – e, logo,
presumivelmente de má fé (artigo 1260º, n.º 2).

Ora, assim sendo, o prazo de usucapião aplicável ao caso seria de vinte anos (artigo
1296º), que, portanto, não estariam ainda cumpridos. A deveria restituir o imóvel embora tivesse
direito a ser compensado por benfeitorias se estas fossem úteis, de acordo com as regras do
enriquecimento sem causa (artigos 1273º).

16. i) O prédio rústico X, sito na freguesia da Pala, com a área de 6.200 m², encontra-se
descrito na Conservatória do Registo Predial sob o n.º 2176/20041213 com inscrição a favor de
A.
ii) O prédio rústico Y, sito também na freguesia da Pala, com a área de 1.739 m²,
encontra-se descrito na Conservatória do Registo Predial sob o nº 00082/130487.
iii) Em parte do prédio mencionado em 1), A tem árvores de fruto e cultiva produtos
agrícolas.
iv) A maior parte do prédio mencionado em 2) destina-se à cultura agrícola.
v) Este prédio confronta do lado sul com o prédio rústico referido em 1).
vi) Por volta do ano de 1976, a mãe e o padrasto de B construíram uma fábrica de blocos
e, para tal, utilizaram uma parcela de terreno referido em 2).
vii) Tal fábrica funcionou ininterruptamente desde o ano mencionado em 6) até ao ano de
2002.
viii) O padrasto e a mãe de B, ainda em vida, fizeram partilhas verbais dos seus bens
pelos dois filhos desta última.
ix) Em consequência de tal, no ano de 1991, foi acordado que o terreno supramencionado
em 2) bem como a fábrica ficariam para B.
x) Desde então, B suporta a limpeza do terreno referido em 2), procede ao seu amanho,
tratando das árvores aí plantadas, das oliveiras e videiras, colhendo os seus frutos que utiliza em
proveito próprio, fazendo ali as suas hortas sazonais, que vai plantando, semeando, cuidando e
colhendo todos os seus frutos.
xi) Tais condutas foram igualmente praticadas desde 1976 até 1991 pela mãe e padrasto
de B.
xii) Em 2010, B vendeu a C (por 300.000,00€) o prédio descrito em 2).

A intentou acção contra B e C pretendendo que lhe seja reconhecido o direito de preferir
na compra e venda referida em 12), nos termos do artigo 1380º, já que ambos os prédios têm área
inferior à unidade mínima de cultura.

C contrapôs que adquiriu a propriedade sobre o referido prédio por usucapião.

QuidJuris?

Tópicos de resolução:

Nos termos do artigo 1380º, o direito (legal) de preferência que através dele se confere
aos proprietários confinantes assemelha-se, no que respeita aos pressupostos da sua atribuição,
àquele que pelo artigo 1409º se outorga aos comproprietários: só existe em caso de venda ou
dação em cumprimento a quem não tenha tal qualidade (“estranho” ou terceiro, neste sentido).
Por isso, caso C tenha adquirido por usucapião, o direito de preferência de A inexistiria.
Essencial é, portanto, saber se os respectivos pressupostos estariam preenchidos a seu favor.

A venda de B para C é inválida. Aquele não adquiriu o direito de propriedade sobre o


prédio em causa na medida em que as partilhas efectuadas pela sua mãe não observaram a
forma legalmente exigida (escritura pública ou documento autenticado). Por isso: B é simples
possuidor formal e C (por consequência) igualmente. A posse de C é não titulada e, por isso,
presumivelmente de má fé. A posse de C tanto pode ser de titulada como não titulada (e, por
conseguinte, tanto se pode presumir de boa como de má fé) pois não se sabe se a compra que o
beneficia foi outorgada com observância da forma legalmente exigida.

C poderia, nos termos do artigo 1255º, juntar o seu tempo de posse ao de B e ao da mãe
deste dado que aqueles dois adquiriram as respectivas posses derivadamente [em princípio,
mediante entrega da coisa – artigo 1263º, alínea b)]. Assim, o tempo necessário para usucapir
já estaria cumprido.

17. B (promitente-comprador) instaurou contra A (promitente-vendedor) acção de


execução específica do contrato-promessa de compra e venda entre ambos anteriormente
celebrado, relativo à fracção designada pela letra “F”, correspondente a uma loja de um edifício
em regime de propriedade horizontal (sito em Matosinhos).Tal acção foi registada na
Conservatória do Registo Predial de Matosinhos em 9 de Abril de 2003.

Em 17 de Março de 2005, o Banco C acordou com A conceder-lhe um empréstimo no


montante de 200.000,00€.Para garantia das obrigações daí emergentes, A constituiu a favor do
referido banco, na mesma data, uma hipoteca voluntária sobre a aludida fracção. Esta foi
provisoriamente inscrita em 10 de Fevereiro de 2005.

Em 22 de Março de 2007, foi verificada pelo Conservador a caducidade do registo da


acção de execução específica, o que implicou o respectivo cancelamento.

Na mesma data de 22 de Março de 2007, foi convertido em definitivo o registo da


hipoteca.

Se a acção de execução específica prosseguisse e fosse julgada procedente, não obstante a


caducidade da respectiva inscrição, B adquiriria com ou sem hipoteca?

Tópicos de resolução:

Os direitos emergentes do contrato-promessa e do contrato de constituição de hipoteca


hierarquizam-se observando a regra da prioridade temporal. Mas estando os respectivos factos
constitutivos sujeitos a registo predial, ela é substituída pela prioridade registal (artigo 6º,
Cód.Reg.Predial). Por isso, em princípio, prevaleceria o registo da execução específica por ser
anterior. Se não se tivesse dado a sua caducidade, a resolução seria simples: prevaleceria o
promitente-comprador e seria a inscrição de hipoteca a caducar. Como, porém, sucedeu aquela
caducidade, a única inscrição em vigor (daquelas duas) seria a de hipoteca. Todavia, o credor
hipotecário, pese embora a inscrição da execução específica ter cessado os seus efeitos, não
podia desconhecer a sua existência. Ela só não poderia valer contra outros interessados que,
depois disso, tivessem eventualmente constituído os seus direitos. Mas o credor hipotecário, não
seria neste caso, contudo, terceiro para efeitos do registo, pois a execução estava anunciada à
data em que inscreveu o seu direito.

18. D vendeu a E, em 1990, por escritura pública, um terreno agrícola com 5.000 metros
quadrados.

A compra não foi registada.

E faleceu e sucedeu-lhe o filho F, o qual continuou a utilizar o dito terreno para fins
agrícolas.

Entretanto, os sucessores de D, como não tiveram conhecimento da venda efectuada a E


(ou, pelo menos, assim o dizem), registaram, quando aquele faleceu, sobre o referido terreno, a
aquisição mortis causa a seu favor.

Desde 2005 que F tem o terreno ao abandono. Acontece, porém, que agora chegou ao seu
conhecimento que um dos filhos de D construiu um edifício de três andares no terreno em causa.

QuidJuris?

Tópicos de resolução:

Ao não inscrever a aquisição, E não a consolidou. Adquiriu a propriedade (artigo 408º,


n.º 1, CC) mas não a confirmou (artigo 5º, n.º 1, Cód.Reg.Predial), pelo que deixou aberta a
possibilidade de outrem registar facto incompatível com a sua compra. A aquisição sucessória
por parte de F deveria igualmente ter sido inscrita; ao não suceder assim, é agora este último se
sujeita ao registo de facto incompatível.

Por seu turno, os sucessores de D, ao inscreverem a seu favor a respectiva aquisição,


presumem-se titulares do direito de propriedade sobre o referido terreno (artigo 7º,
Cód.Reg.Predial): fé pública registal em sentido negativo.

Quando um dos filhos de D constrói o edifício no referido terreno, está, em princípio, a


edificar em terreno alheio. Mas cabe a F prová-lo; se não conseguir, a obra considera-se
realizada por quem, para o efeito, tinha legitimidade. Se conseguir, haveria fundamento para
aplicar as regras sobre acessão industrial imobiliária: o artigo 1340º CC, caso o incorporador
esteja de boa fé; o artigo 1341º, se estiver de má fé.

19. - A, proprietário do imóvel y, constituiu usufruto sobre o mesmo a favor de B;

- Pela respectiva escritura de constituição proibia-se a transmissão do usufruto;

- B concedeu servidão de passagem a favor de C, proprietário de um prédio vizinho;

- Na correspondente escritura de constituição constava uma cláusula segundo a qual B


deveria efectuar as reparações necessárias à manutenção da referida passagem.

a) Se o prédio y necessitar da realização de obras de manutenção e B preferir renunciar ao


seu direito em vez de as fazer, como ficaria a situação de C?

b) QuidJuris se, ao invés, B pretender renunciar ao seu direito para não realizar as
reparações eventualmente exigidas por C?

Tópicos de resolução:
A transmissão do usufruto pode ser proibida através do respectivo título constitutivo por
força do disposto no artigo 1444º CC. O poder de constituir servidões passivas é concedido ao
usufrutuário por via do disposto no artigo 1460º CC (a menos que através do título lhe tenha
sido retirado – artigo 1444º CC). A possibilidade de impor ao titular do prédio serviente a
obrigação de efectuar reparações na passagem resulta do preceituado no artigo 1467º, n.º 4,
CC.

a) Quando B decide abandonar o seu direito, sem mais, dá-se a chamada renúncia
abdicativa. Esta produz a extinção do usufruto [artigo 1469º, n.º 1, alínea d), CC] em favor do
proprietário de raiz e não do credor (C). Consequentemente, não resultando dela qualquer
benefício a favor do proprietário do prédio dominante, B permaneceria vinculado à realização
daquelas obras.

b) Ao invés, se B renuncia ao usufruto a favor de C como forma de se livrar do


cumprimento da obrigação de custear as obras, ocorre a chamada renúncia liberatória. Esta
produz a extinção daquela adstrição, desvinculando o B, e colocando o seu direito ao dispor do
ex-credor (C): se esta aceita a renúncia, dá-se a transmissão do usufruto para C; caso
contrário, B permanece usufrutuário, mas libera-se em qualquer hipótese.

20. A, proprietário do apartamento x, celebrou com B contrato-promessa de compra e


venda relativo ao mesmo.

Após o pagamento da quantia acordada a título de sinal, A entregou a B das respectivas


chaves.

B não ocupou de imediato o apartamento.

Entretanto, como B deixou de cumprir com o pagamento das prestações acordadas, A


comunicou-lhe que considerava o contrato resolvido.

Acontece, porém, que, até ao mês passado, B ainda não tinha procedido à restituição do
apartamento a A.
Em 13/01/2013, A, arrombando a porta do apartamento em causa, mudou-lhe a fechadura
e colocou as pertenças de B na via pública.

Na sequência, B intentou acção de restituição contra A.

Aprecie a viabilidade – fundamento e legitimidade (activa e passiva) – desta acção.

Tópicos de resolução:

A primeira questão a dilucidar é a da natureza da situação possessória do promitente-


comprador.

A concepçãoobjectiva da posse apenas faz depender a sua existência da presença do


corpus. Este é sinónimo de domínio de facto sobre uma coisa. Pelo que, portanto, haverá posse
sempre que se encontre o referido corpus, e só haverá detenção quando a lei como tal o
qualifique. Por esta perspectiva, o promitente-comprador é possuidor.

Na concepçãosubjectiva, a existência de posse supõe, como se disse, a presença não só


do corpus mas também do animuspossidendi (intenção de agir como titular do direito
correspondente ao corpus que se exerce). Pelo que haverá detenção sempre que tal animus
inexista. A demonstração da sua comparência pode fazer-se em abstracto, atendendo à causa de
aquisição do corpus, ou caso a caso, em função dos actos concretamente praticados por aquele
que exerce o domínio de facto. Por esta óptica, na segunda modalidade, o promitente-
comprador nunca é possuidor; na primeira, depende dos actos que efectivamente haja praticado
sobre o apartamento.

Supondo B que possa ser havido como possuidor, o que se afigura muito incerto
atendendo aos dados da hipótese, a actuação de A não pode ser considerada como violenta. É
que o conceito de violência, ao ligar-se à coacção moral ou física (artigo 1261º CC), pressupõe
um coagido: e só uma pessoa pode ser coagida, nunca uma coisa. Consequentemente o
procedimento cautelar de restituição provisória da posse (artigo 1279º CC) ficaria excluído.
Restaria ao B (artigo 1281º, n.º 2 CC) recorrer (como fez) à acção de restituição (artigo 1278º
CC) contra o A, mas como este é o proprietário do apartamento, aquele certamente iria ficar
“convencido na questão da titularidade do direito” (artigo 1279º, n.º 1, in fine, CC); por outras
palavras, a acção improcederia.

21. A é dono de uma fração autónoma de um edifício constituído em propriedade


horizontal. Sabendo que o titular da outra única fração do mesmo piso pretende vendê-la, está
interessado na compra da mesma, desde que lhe seja lícito fazer obras que unam as duas frações,
sem contudo pôr fim à sua autonomia jurídica (por entender que esta possibilidade retiraria valor
ao conjunto).

A poderá fazer as obras em causa sem consentimento dos restantes condóminos?

Tópicos de resolução:

De acordo com o n.º 1 do artigo 1422º-A, a junção de fracções, ao provocar a


diminuição da sua quantidade, determina o surgimento de uma realidade que não se conforma
com o conteúdo original do título constitutivo da propriedade horizontal e com a consequente
inscrição predial que o espelha. Nessa medida, pese embora a reunião, numa única, de duas ou
mais fracções (antes autónomas entre si), poder ser livremente executada pelo condómino a
quem todas pertençam, cabe-lhe, de seguida, promover a competente alteração do título
constitutivo “por acto unilateral constante de escritura pública ou de documento particular
autenticado”. O exercício deste poder potestativo apenas depende, em geral, da contiguidade
das fracções. Justamente como se trata de um direito, nada impede o condómino interessado de
não proceder à junção juridica, ainda que obtenha a junção material.

22. B e C herdaram de seu pai um prédio rústico que, há 30 anos, dividiram em dois,
ficando um para B (o prédio x)e outro para C (o prédio y). A divisão foi feita de tal modo que o
acesso ao prédio y implica a passagem pelo prédio x.
Desde a divisão, C, a sua família e as demais pessoas interessadas em aceder ao prédio y
usaram para tanto um caminho existente no prédio x que possibilita a circulação a pé e de
automóvel.

Recentemente, C vendeu a D o prédio y.

Zangado por C não lhe ter comunicado a venda e dado preferência nela, B vedou a
entrada no caminho que era usado para aceder ao prédio y e pretende impor que, para o fim em
causa, passe a ser usado um outro caminho, cujo piso impossibilita o trânsito de automóveis.

D pretende continuar a usar o caminho que era usado. Tal pretensão será viável?

Tópicos de resolução:

Em princípio, a servidão de passagem constituiu-se (há 30 anos) por contrato desde que
a forma indispensável para o efeito tenha sido observada (escritura pública). Caso contrário, já
teria decorrido tempo suficiente para a considerar instituída por usucapião desde que C ou D a
tenham invocado nos termos do artigo 1287º e desde que ela tivesse carácter aparente (artigo
1548º).

Para B poder alterar o local de exercício da servidão seria necessário que se


verificassem os requisitos do artigo 1568º.

A mudança do local, do modo ou do tempo de exercício da servidão, podem dar-se por


iniciativa do titular do prédio serviente ou do titular do prédio dominante.

No primeiro caso, e tirando a hipótese de se procurar fazer a transferência para prédio


de terceiro por obviamente tal depender do respectivo consentimento, ao titular do prédio
serviente é concedido o poder de a pretender se demonstrar que:

– a mudança lhe é conveniente;

– não prejudica os interesses do proprietário do prédio dominante;

– e contanto que a faça à sua custa.


No segundo caso, ao titular da servidão é igualmente conferida pretensão de similar
conteúdo desde que:

– dela lhe advenham vantagens;

– não acarrete prejuízo para o proprietário do prédio serviente;

– se faça à sua custa.

Num caso ou no outro, na falta de acordo, caberá recorrer a tribunal para que este
eventualmente decrete a mutação.

23. D e E eram comproprietários de um imóvel. Nessa qualidade, celebraram um acordo


pelo qual se obrigaram a não se exigir reciprocamente a divisão do imóvel durante o prazo de
cinco anos, sem que, contudo, tivessem registado esse acordo.

Há três meses, E, sem nada dizer a D, vendeu a F a sua quota no imóvel, estando agora F
a exigir a D a divisão do mesmo.

Diga:

a) Se a exigência de F tem base legal.

b) Se D tem algum modo de reagir contra a aquisição por F.

Tópicos de resolução:

a) A norma que concede o poder potestativo de extinguir a comunhão (artigo 1412º) não
tem natureza imperativa; ao invés, admite-se que se estipule cláusula da qual resulte a
proibição, imposta a todos, de fazer a divisão, ainda que temporalmente limitada a um prazo
máximo quinquenal. Permite-se, todavia, a sua renovação, sucessiva e ilimitada, por novos
períodos máximos de cinco anos. Quando esta cláusula não seja unanimemente estipulada,
vinculará apenas aqueles entre os quais foi estabelecida.
Artigo 94º, Código do Registo Predial: “Do extracto das inscrições constarão
obrigatoriamente as seguintes convenções ou cláusulas acessórias: (…) d) A convenção de
indivisão da compropriedade, quando estipulada no título de constituição ou aquisição”.

Assim, se a cláusula de indivisão não foi registada, ela é inoponível a F que, por isso,
pode exigir de imediato a divisão, no instante em que se torna comproprietário.

D somente pode impedir o exercício desse direito se conseguisse provar que F, não
obstante a falta de registo, conhecia a existência daquela cláusula.

b)D poderia, querendo, intentar acção de preferência nos termos dos artigos 1409º e
1410º. O direito de preferência que se concede através do primeiro, está sujeito, antes de mais, e
como todas as preferências legais, ao regime do artigo 416º. Quer isto dizer que os restantes
consortes, quando um deles decida vender o seu direito “a estranhos”, ou dá-lo em
cumprimento, são titulares de uma pretensão: exigir que este último lhes comunique os
“elementos essenciais” do “projecto de venda” arquitectado com terceiro.

Se, porventura, o obrigado à preferência proceder à referida venda ou dação em


cumprimento a favor de estranho:

– não tendo cumprido a correspondente obrigação;

– executando-a, mas não tendo esperado, todavia, pelo termo do prazo que o preferente
dispunha para responder (oito dias, supletivamente – n.º 2 do artigo 416º);

– cumprindo-a e tendo, inclusivamente, obtido resposta atempada no sentido da


aceitação,

contituir-se-á então, a favor do preferente, um direito real de aquisição que lhe serve de
fundamento para intentar a acção de preferência aqui identificada.

Procedendo a acção, a decisão que vier a ser proferida promove uma substituição de
pessoas na venda ou na dação em cumprimento: sai o “estranho” e entra no seu lugar –
subrroga-se – o preferente. Ou, por outras, palavras, decreta-se, nos mencionados actos, uma
modificação subjectiva do lado do adquirente.

A aquisição que desta forma se produz a favor do preferente opera retroactivamente, na


medida em que, com a decisão judicial que promove a sua subrrogação na posição do terceiro
adquirente, o primeiro assume a posição do segundo (e, portanto, a titularidade do direito em
causa), desde a data da celebração do contrato com o obrigado à preferência.

24. A construiu no terreno de B um armazém agrícola com a autorização deste, a qual lhe
conferida em 1990.

Até ao ano passado a situação permaneceu nestes termos. No princípio deste ano, porém,
os herdeiros de B intentaram acção contra A pedindo-lhe a devolução imediata do terreno.

Que direitos poderá A eventualmente fazer valer contra eles?

Tópicos de resolução:

O caso é, em princípio, de acessão industrial imobiliária.

A acessão (artigo 1325º) pressupõe:

– duas coisas;

– que não sejam propriedade da mesma pessoa;

– e que essas coisas se unam de um certo modo.

As duas coisas que acedem podem ser ambas móveis, ou pode ser uma móvel e a outra
imóvel. Assim (artigo 1326º, n.º 2): no primeiro caso, a acessão diz-se mobiliária; no segundo,
imobiliária.

Se o autor da adjunção “construir obra em terreno alheio, ou nele fizer sementeira ou


plantação”, o todo pertencer-lhe-á caso o conjunto das coisas que incorporou seja de valor
(económico) superior ao valor do terreno (n.º 1, artigo 1340º); na situação inversa, o todo
caberá ao dono deste (n.º 3). “Se o valor acrescentado for igual” ao valor do terreno, abrir-se-á
licitação entre o seu proprietário e o autor da incorporação (n.º 2, artigo 1340º).

De harmonia com o disposto no n.º 4, haverá boa fé se:

– “o autor da obra, sementeira ou plantação desconhecia que o terreno era alheio”, ou

– se “foi autorizada a incorporação pelo dono do terreno”.

A primeira hipótese não suscita dúvidas de monta; constitui um critério obviamente


extraível a partir do próprio conceito de boa fé em sentido subjectivo.

No segundo, não poder estar em causa uma autorização propriamente dita, pois, quando
assim for, devem seguir-se os seus termos, ou seja, aquilo que em concreto tenha sido permitido.
Aliás, se o dono do terreno apenas autoriza outrem a nele incorporar algo, haverá em princípio
constituição (formalmente) inválida de direito de superfície; e é inadmissível que o autor da
incorporação fique, potencialmente, em melhor situação não tendo direito de superfície do que
tendo-o.

A «autorização» em consideração somente pode ter, por isso, o sentido de «falta de


oposição», de «autorização tácita» (ou equivalente), do dono do terreno (ou de quem o aparenta
ser) perante uma actuação do autor da incorporação cognoscível pela “pessoa de normal
diligência”. Tratar-se-á, por exemplo, da autorização explícita ou implícita na tradição de um
lote de terreno para construção efectuada ao abrigo de um contrato-promessa de compra e
venda do mesmo.

Quer isto dizer, como parece mais razoável, que a regra é no sentido de o risco dever
correr por conta de quem beneficia da autorização para implantar e não por conta de quem a
dá. Ou seja: cabe a quem se aventura implantar em solo alheio, considerar a possibilidade de o
respectivo dono derrogar dita autorização, e não há-de ser ao segundo que compete levar em
conta a eventualidade de, ao consentir no implante, estar a conceder ao incorporador o direito
de este (futuramente) invocar acessão.
Assim, A estaria, em princípio, de má fé. Por consequência, tendo o autor da
incorporação actuado de má fé, nos termos do n.º 4 do artigo 1340º, o dono do terreno fica com
a seguinte opção:

– exigir “que o terreno seja restituído ao seu primitivo estado à custa” daquele (mas
dentro dos limites decorrentes do artigo 334º; cf. artigo 829º, n.º 2);

– fazeractuar a regra “superficies solo cedit”, adquirindo “a obra, sementeira ou


plantação pelo valor que for fixado segundo as regras do enriquecimento sem causa”.

Eventualmente, poderia colocar-se, em alternativa, a hipótese de A estar em condições


de invocar usucapião do direito de superfície, desde que tivesse havido inversão do título da
posse (artigo 1265º), dado que inicialmente a sua actuação se funda num acto de tolerância de B
[artigo 1253º, b)]. Mas é pouco provável.

25. A, proprietário de um lote de terreno para construção, concedeu, em 01/01/2000,


direito de superfície a B, pelo prazo de vinte e cinco anos, para este aí proceder à implantação de
uma vivenda.

Sobre esse mesmo terreno, C, dono de um terreno contíguo, vinha efectuando passagem
para a via pública desde 1991. Em 2011, invocou usucapião da correspondente servidão de
passagem.

a) Extinguindo-se o direito de superfície por caducidade, a servidão constituída a favor


de C subsistirá?

Tópicos de resolução:

O superficiário a prazo não tem direito para além dele e, portanto, não pode constituir
onerações que excedam a duração do seu direito. A contrario poderia pretender-se tirar uma
ilação: seriam susceptíveis de manutenção os direitos constituídos pelo superficiário em
benefício do fundeiro, uma vez que, em rigor, este não é terceiro (ou, ao menos, não é um
terceiro na mesma posição dos demais). O fenómeno da consolidação, porém, bem como a
ocorrência das eventuais excepções impeditivas da sua entrada em funcionamento, desautorizam
semelhante conclusão.

Uma coisa é certa, todavia: a regra nemo plusiuris somente vale no domínio da
aquisição derivada de direitos; por isso, aqueles que tenham sido obtidos por terceiro a título
originário (v.g. por usucapião) manter-se-ão não obstante a extinção do direito de superfície
pelo decurso do respectivo prazo de duração.

Por conseguinte, a servidão permaneceria, não obstante a extinção do direito de


superfície, qualquer que fosse a sua natureza (legal ou voluntária).

b) Tal servidão teria natureza legal ou voluntária?

Tópicos de resolução:

As servidões legais são aquelas em que o titular do prédio que virá a ser o dominante
beneficia da possibilidade de as estabelecer coercivamente, no exercício de um poder
potestativo constitutivo, através de declaração unilateral da sua vontade e mediante o recurso
ao competente procedimento judicial (acção declarativa constitutiva) ou administrativo. As
servidões voluntárias são todas as demais.

Assim sendo, se a servidão tiver sido constituída por decisão judicial ou por acto
administrativo é certamente legal. Ao invés, se a servidão tiver sido instituída por outro modo
qualquer (basicamente, algum dos enumerados pelo n.º 1 deste artigo), será legal se, não fora
esse concreto acto de constituição, pudesse ter sido coercivamente criada; caso contrário, será
voluntária.

No caso concreto, desconhece-se se o prédio de C estava encravado. Por conseguinte, a


resposta é alternativa: encontrando-se verificados os requisitos do artigo 1550º, a servidão
seria legal; caso contrário, seria voluntária.

c) Deveria C pagar alguma indemnização pela constituição da servidão?


Tópicos de resolução:

O pagamento desta indemnização a que se refere o artigo 1554º pressupõe,


naturalmente, que a servidão tenha sido constituída por “sentença judicial ou por decisão
administrativa”; sendo estabelecida por negócio jurídico, o pagamento de alguma compensação
dependerá da respectiva natureza (gratuita ou onerosa); e sendo instituída por destinação do
pai de família ou por usucapião, não há obviamente lugar ao pagamento de qualquer
indemnização.

26.Em 2005, B comprou a A, mediante crédito hipotecário prestado pelo Banco X, um


apartamento. Nem a aquisição de B nem a hipoteca a favor do Banco X, foram registadas,
permanecendo o imóvel inscrito a favor de A, sem que haja menção a quaisquer ónus.

C, credor de A, tem pendente contra este um processo de execução.

Diga:

a) Se C pode fazer penhorar o referido imóvel nesta execução.

Tópicos de resolução:

Pelo sentido negativo da fé pública registal, o terceiro pode partir do princípio segundo
o qual toda a sucessão de factos registáveis foi efectivamente inscrita e que, portanto, tudo o que
devia ser dado a conhecer foi realmente publicitado. É de acordo com este sentido que se
justifica, por exemplo, a protecção conferida ao segundo adquirente na dupla alienação do
(pretenso) mesmo bem.

C não pode obter a realização da penhora sobre o imóvel vendido a B, porque este já é
seu proprietário desde a data da celebração da compra e venda que o favorece (artigo 408º).

Como, todavia, esta não foi inscrita, os seus efeitos são inoponíveis a terceiros registais
em geral (artigo 5º, n.º 1, Código do Registo Predial). Todavia, segundo o entendimento literal
do artigo 5º, nº 4, do Código do Registo Predial (conceito restrito de terceiro registal), o credor
exequente não é terceiro para efeitos do registo. É, por isso, irrelevante que registe a penhora a
seu favor.

Para quem, ao invés, adopte o conceito amplo de terceiro registal, C pode prevalecer
sobre B desde que:

1º) Exista registo a favor daquele de quem o terceiro adquire (A).

2º) O terceiro (C) esteja de boa fé: isto é, o terceiro tenha acreditado, sem culpa, na
fidelidade do registo à realidade substantiva.

3º) O terceiro (C) investir na confiança gerada pelo referido registo. Quer isto dizer que
a sua tutela depende de ter praticado actos cuja destruição implique frustração de expectativas
assentes precisamente nessa prática. Eles deverão consistir:

– na celebração de um acto oneroso capaz de, em abstracto, proporcionar uma


aquisição de posições jurídicas;

– e, além disso, na realização do competente registo.

4º) Embora não se diga explicitamente, supõe-se, também, que a deficiência de que
padece a posição do terceiro (C) deriva precisamente dos vícios da posição do seu causante
(vícios relativos ao título de aquisição deste). Ao invés, se existirem vícios específicos do acto de
aquisição a favor do terceiro (ou relativos ao respectivo registo), a posição deste já não poderá
prevalecer, pela simples razão de que, em relação a estes vícios, ele já não é terceiro.

5º) Por fim, para as situações que se enquadrem no disposto no artigo 291º, a tutela da
confiança do terceiro depende ainda, especificamente (n.º 2), do decurso de um prazo de três
anos após a conclusão do acto de que beneficia o terceiro, sem que seja registada a propositura
de acção de declaração de nulidade ou anulação ou sem que seja registado o "acordo entre as
partes acerca da invalidade do negócio" que favorece o seu causante.
b) Se o Banco X, pode ir à execução exercer direitos na qualidade de credor
hipotecário.

Tópicos de resolução:

A hipoteca não implica a atribuição da posse da coisa ao credor hipotecário


precisamente por, qualquer que seja o seu título de aquisição, esta somente se considerar
existente a partir do instante em que a competente inscrição registal se encontrar
definitivamente realizada (artigo 4º, n.º 2, Código do Registo Predial). Trata-se de um caso
exemplar (talvez o único) de registo com efeito puramente constitutivo.

O efeito associado à realização da inscrição registal é constitutivo quando a sua


efectivação esteja configurada como um requisito de que depende a própria produção da
eficácia típica de um determinado facto aquisitivo. Neste contexto, inexistindo registo, são os
próprios efeitos tipicamente associados à verificação do facto registável que ficam impedidos,
dado que, para todos eles, tudo se passa como se ainda não tivesse ocorrido; ou, que é o mesmo,
considera-se estar incompleto.

O Banco X não pode, portanto, ir à execução na medida em que inexiste hipoteca


constituída a seu favor.

27. A, proprietário do automóvel x, acordou com B a venda do mesmo pelo preço de €


10.000.

De acordo com o convencionado, o preço seria pago três meses após a conclusão do
contrato. A entregou o automóvel a B no prazo acordado, mas este não pagou o preço.

Entretanto, B havia doado o automóvel ao seu sobrinho C, que desconhecia a existência


do contrato entre A e B.

A pretende agora que C lhe restitua o carro, alegando que o contrato de compra e venda
celebrado com B não foi cumprido.
Esclareça quem é o proprietário do automóvel.

Tópicos de resolução:

- Em geral, por aplicação do princípio do consentimento (408º), o automóvel pertenceria


a B mesmo não tendo este pago o respectivo preço

- Por outro lado, também em geral, a compra e venda não pode ser resolvida com
fundamento em falta de pagamento do preço (886º), a menos que haja cláusula em sentido
inverso ou haja estipulação de reserva de propriedade

- Assim:

- se funcionasse a regra, o automóvel pertenceria sempre a B e a doação por ele feita a


C seria válida;

- se houvesse sido estipulado algo em contrário nos termos do artigo 886º, resolvendo A
a compra e venda tornaria a doação em negócio sobre bem alheio e, por isso, nula (956º)

- se houvesse reserva de propriedade, o automóvel pertenceria sempre a A enquanto B


não pagasse e, por isso, a doação incidiria igualmente sobre bem alheio mas logo desde a sua
celebração

28. Em 01/11/1999, A constituiu, em benefício de B, através de documento particular, um


direito de usufruto vitalício sobre um prédio rústico de grandes dimensões sito em Palmela.

B aproveitou a situação para começar, de imediato, a explorar o prédio em causa na


qualidade de usufrutuário, tendo efectuado benfeitorias no valor de € 30.000,00.

Em Setembro de 2014, A ocupou o dito imóvel, impedindo B de o continuar a explorar.


Questionado acerca das razões que o levaram a tomar tal atitude, o primeiro alegou que o
usufruto não havia sido validamente constituído, e, por isso, não assistiria qualquer direito a B.
a) Terá A fundamento para a sua actuação, ou poderá B reagir, designadamente por via
judicial, contra aquele?

b) De qualquer modo, teria B direito a ser indemnizado pelas benfeitorias realizadas?

Tópicos de resolução:

- Os negócios sobre imóveis dependem, em geral, da observância de forma especial:


normalmente, escritura pública ou documento autenticado [artigos 875º, 947º/n.º1 e
204º/n.º1/d)]

- Assim, sendo o pretenso usufruto de B constituído sido instituído por documento


particular, qualquer que fosse o negócio nele incorporado seria nulo por vício de forma (220º)

- Logo inexistiria o usufruto – na melhor das hipóteses, B teria posse de usufruto (1251º)

- Teoricamente, B poderia, em Setembro de 2014, invocar usucapião do usufruto – mas


como a sua posse é não titulada (1259º/a contrario) e, portanto, presumivelmente de má-fé, só
em 2019 [1296º] é que poderia efectivamente fazê-lo (a menos que conseguisse ilidir a
presunção do n.º 2 do 1260º)

- Teoricamente também, B poderia reagir contra A através da acção de restituição mas


certamente haveria de ficar vencido na questão da titularidade do direito de fundo (1281º/n.º1/in
fine)

- Restar-lhe-ia, por isso, o direito a ser compensado pelas benfeitorias realizadas desde
que elas fossem necessárias ou, pelo menos úteis (1273º)

29. A, proprietário de um terreno para construção, concedeu a B o direito de este aí


construir um edifício de seis andares.

B decidiu edificar apenas três andares.


Passados anos, B concedeu a C o direito de este construir mais três andares sobre os três
iniciais.

Tópicos de resolução:

a)B poderia conceder a C o referido direito sem consentimento de A?

b) Suponha que C pretende alienar um dos andares que construiu em sobrelevação. A ou


B teriam direito legal de preferência?

- Tem legitimidade para conceder direito de sobrelevação quem for dono do edifício a
sobrelevar

- Assim, como A é apenas proprietário do solo e B é que tem propriedade sobre o edifício
é ele que pode conferir a C o direito de construir mais três andares – o consentimento de A
somente seria necessário se ele não tivesse dado a B o direito de contruir seis andares

- Concluída a sobrelevação, o edifício fica, na sua totalidade submetido ao regime da


propriedade horizontal (1526º) – consequentemente B e C tornam-se condóminos, razão pela
qual não dispõem do direito de preferência legal (1423º)

30. A é proprietário de um prédio que utiliza para fins turísticos.

Para maior comodidade no acesso, obteve a constituição de uma servidão de passagem


sobre o prédio vizinho de B.

Devido, contudo, a diversos desentendimentos, B acabou por instalar, em toda a extensão


da linha divisória entre os dois prédios, uma vedação com estacas de madeira e rede com uma
altura de 1,50m.

a) A intentou procedimento cautelar de restituição provisória de posse contra B, alegando


ter sido interrompida a servidão de passagem para o seu prédio por causa da referida vedação.
Teria fundamento para tanto?

Tópicos de resolução:
- Entendendo-se violência (1261º) em sentido próprio, só há violência sobre pessoa
porque só ela pode ser coagida.

- Entendendo-se violência em sentido amplo (impróprio), também se pode falar em


violência sobre coisas.

- Em conformidade, o procedimento de restituição provisória da posse (1279º) terá um


âmbito menos ou mais alargado.

- A visão mais lata leva a confundir esbulho com esbulho violento (“não pode deixar de
se considerar esbulho violento a vedação com estacas de madeira e rede com uma altura de
1,50m executada pelos requeridos como um obstáculo que constrange, de forma reiterada, a
posse dos requerentes, impedindo-os de a exercitar como anteriormente faziam, merecendo, por
conseguinte, tutela possessória cautelar no âmbito do procedimento de restituição provisória de
posse”! – acórdão do STJ de 19/10/2016, Proc. n.º 487/14.4T2STC.E2.S1).

- No caso, não vejo como se pode caracterizar o esbulho como violento. Portanto,
haveria lugar a restituição provisória, mas com processo comum. Não se trataria, pois, de
aplicar o 1279º.

b) Aquela servidão teria natureza legal ou voluntária?

Tópicos de resolução:

Tudo dependeria de saber se o prédio de A estava nas condições do artigo 1550º. Em


caso afirmativo, a servidão seria legal. Caso contrário, seria voluntária. Independentemente do
modo de constituição.

c) Antes de tal procedimento ter sido requerido, B vendeu o seu prédio a C. A servidão
subsistiria?

Tópicos de resolução:

A oponibilidade perante C dependeria, primeiro, de saber se a servidão era aparente. Em


caso afirmativo seria oponível independentemente de registo (porque este tem efeito
enunciativo). Se fosse não aparente, a oponibilidade dependeria de inscrição no registo, uma vez
que, então, este tem efeito consolidativo. Se esta fosse a hipótese, não havendo registo, a
servidão tornar-se-ia inoponível a C caso ele se encontrasse nas condições do artigo 291º.

31. A e B adquiriram compropriedade sobre o edifício x em 1989.

Em 01/02/1995, A doou a C, por escritura pública, o usufruto sobre a sua ½ indivisa.

Em 02/03/1996, B vendeu a D, por € 15.000, através de escritura pública, a sua ½


indivisa, mas reservando para si o respetivo usufruto.

a) Em 04/05/2016, D invocou usucapião da propriedade plena mediante escritura de


justificação. (i) Quem terá legitimidade para, eventualmente, a impugnar e (ii) com que
fundamento?

Tópicos de resolução:

Cada comproprietário é possuidor em relação à sua quota e é detentor em relação à/s


do/s demais. Portanto, para invocar usucapião da propriedade plena, seria necessário que se
desse inversão título (1265º). O que não parece ter ocorrido. Pelo que o fundamento da
oposição residiria na inexistência de posse exclusiva.

Quanto à legitimidade, dependeria de saber o significado da invocação de “propriedade


plena”. Se esta valesse como sinónimo de propriedade exclusiva, o único afectado seria o outro
comproprietário, pelo que somente este poderia impugnar. Se, ao invés, “propriedade plena”
valesse como sinónimo de propriedade livre de encargos, os usufrutuários seriam também
afectados e, por isso, também disporiam de legitimidade para impugnar.

b) Quem teria direito de preferência na venda de B a D? Se fosse exercido, que efeitos


produziria?

Tópicos de resolução:

O titular da preferência seria somente o outro comproprietário (1409º), uma vez que ele
não é concedido aos usufrutuários. Nem faria falta, na medida em que os seus direitos
persistiriam independentemente de quem fosse proprietário e de quantos fossem os donos.
Se a venda já, porventura, tivesse sido efectuada, a procedência da respectivaacção
produziria a sub-rogação do preferente no lugar do terceiro comprador.

c) Entretanto, tornou-se necessário proceder a reparações nas paredes exteriores e nas


escadas do edifício x. Como não se encontrava disponível para a despesa, C renunciou ao seu
direito. Conseguiria assim liberar-se?

Tópicos de resolução:

Tudo depende de saber se se tratava de renúncia liberatória ou de renúncia abdicativa.

Sendo a renúncia liberatória, produzindo-se ela, por definição, a favor do credor – ou


seja, no caso, dos comproprietários –, extinguir-se-ia o usufruto na parte relativa a C, mas este
liberar-se-ia da obrigação.

Sendo a renúncia abdicativa, ela beneficiaria, em caso de contitularidade, o outro co-


usufrutuário (por aplicação das regras da compropriedade – 1404º). Mas, não sendo o credor
beneficiado, o renunciante não se liberaria.

Em todo o caso, não haveria usufruto simultâneo por falta de constituição em


simultâneo.

32. 1.A e C são proprietários de terrenos contíguos.

A adquiriu por usucapião, invocada em 1983, uma servidão de passagem sobre o prédio
agora pertencente a C. Tal como resulta da respectiva escritura de justificação, a servidão é de
“passagem a pé e com carros de bois”.

Aquela escritura nunca foi levada a registo.

a)Na altura em que foi invocada a usucapião, o proprietário do prédio serviente era B. C
alega agora que quando comprou o terreno, em 2014, desconhecia a existência da
servidão.Decidiu, por isso, impedir A de passar colocando umas pedras no caminho. Terá
fundamento para tanto?
Tópicos de correcção:

- O registo da aquisição por usucapião tem efeito enunciativo [artigo 5º/n.º 2/a),
Cód.Reg.Predial];

- O registo de constituição de servidões aparentes tem o mesmo efeito [artigo 5º/n.º 2/b),
Cód.Reg.Predial];

- Em geral, as servidões de passagem têm carácter aparente.

Ainda que assim não fosse, esta tinha também sido constituída por usucapião. Por isso,
C nunca poderia invocar o seu desconhecimento. A servidão era-lhe assim oponível.

b) Processualmente, como poderá A reagir?

Tópicos de correcção:

Uma vez que foi privado da sua passagem, A poderia:

i) recorrer à acção de restituição (artigo 1281º), caso a servidão fosse aparente (artigo
1280º);

ii) recorrer à acção de reivindicação (artigos 1315º e 1311º).

c) Suponha que C alega também que Aefectua a passagem utilizando tractores e outra
maquinaria agrícola pesada e não carros de bois. Se porventura o tribunal entender que a
servidão deve permanecer, C pretende, contudo, que a A seja unicamente permitido passar pelo
modo original. Terá fundamento?

Tópicos de correcção:

- Em princípio as servidões são imutáveis (artigo 1568º).


- E (artigo 1564º) são reguladas pelo respectivo título (no caso, a usucapião). Por isso,
se esta tinha sido constituída como de “passagem a pé e com carros de bois”, não pode o seu
titular efectuar a passagem de outro modo.

- É verdade que a servidão “entender-se-á constituída a servidão por forma a satisfazer


as necessidades normais e previsíveis do prédio dominante com o menor prejuízo para o prédio
serviente” (artigo 1565º). Mas isso apenas “em caso de dúvida”.

- Portanto, para A passar de outra forma torna-se necessário que constitua outra
servidão com o acordo de C.

33. Desde 1994 que A e B são comproprietários de um terreno agrícola com dois hectares.
Para evitar conflitos, decidiram demarcá-lo em dois lotes de um hectare cada, separados por um
muro de pedra.

Em 1999, A construiu uma vivenda no lote que vinha utilizando desde 1994.

a) Estará A em condições de agora invocar usucapião relativamente a esse lote?

Tópicos de correcção:

- Os comproprietários não são obrigados a permanecer na indivisão (artigo 1412º). Mas


a divisão de imóveis supõe que se recorra a processo ou, em alternativa, que se faça (em geral)
por intermédio de escritura pública ou de documento autenticado (que são as formas
habitualmente exigidas para a alienação onerosa de coisa imóvel).

- A e B apenas demarcaram o terreno sem cumprirem mais formalidades. Por isso


permanecem em compropriedade.

- A possibilidade de invocarem usucapião dependeria:


1º: de ter havido inversão do título da posse de algum deles contra o outro (já
que os comproprietários são possuidores na medida da sua quota e, em simultâneo, são
detentores em relação à quota dos demais);

2º: depois, de os restantes pressupostos da usucapião estarem preenchidos;

3º: por fim, de os lotes assim obtidos respeitarem a unidade mínima de cultura, se
tivessem destino agrícola, ou de os consortes terem conseguido autorização de loteamento, se
eles se destinassem à edificação.

b)B quer aproveitar o muro divisório para nele apoiar um armazém que pretende
construir. Dependerá para o efeito de consentimento de A?

Tópicos de correcção:

- Dado que A e B permanecem em compropriedade até eventualmente invocarem


usucapião, o muro é comum (mas não para efeitos do artigo 1370º porque se aqui pressupõem
prédios pertencentes a distintos donos)

- Portanto B poderia apoiar a construção do armazém no dito muro sem necessidade


autorização de A desse que não o privasse “do uso a que igualmente tem direito” (artigo 1406º)

34.A deixou em 2008, por testamento, a propriedade do apartamento x a B e o respectivo


usufruto, em simultâneo, a favor de C e de D (pai de B).

Estando numa idade avançada, D abdicou agora do usufruto a favor de B na condição de


este lhe prestar assistência na velhice.

a) Quem beneficiaria da abdicação: B ou C?

Tópicos de correcção:
- A renúncia pura e simples tem carácter abdicativo, determinando em geral a extinção
do direito a que se abdica. É esse o efeito que D obteria se renunciasse.

- Havendo usufruto em simultâneo, a renúncia do usufrutuário beneficia, em princípio,


os co-usufrutuários (artigo 1442º). Mas admite-se estipulação em sentido contrário. Assim:

i) em princípio, o beneficiário da renúncia de D seria C

ii) somente seria B se houvesse cláusula testamentária a estabelecer tal consequência

b) Suponha que, quando D abdicou, o apartamento necessitava de reparações na


totalidade da canalização e na instalação eléctrica. Após a renúncia, D permaneceria vinculado a
contribuir para elas?

Tópicos de correcção:

- O proprietário de raiz é a pessoa em cujo interesse se estabelece a obrigação de


efectuar as reparações impostas ao usufrutuário pelo artigo 1472º. É, portanto, o seu credor.

- D apenas se pode eximir do cumprimento – na parte que lhe corresponde – das


referidas obrigações se renunciar liberatoriamente a favor de B.

- Por isso, para D obter este efeito, não pode renunciar pura e simplesmente, porque isso
vale como renúncia abdicativa. Ao invés, deve declarar que renuncia a favor de B como forma
de se desonerar da execução da referida prestação. Se assim fizer, produz a extinção do usufruto
na sua parte (efeito real) e deixa de estar vinculado a proceder às referidas reparações (efeito
obrigacional).

35. A é proprietário de um terreno com cerca de 3.500 m² junto à EN212.

Em 02/03/1996 concedeu, sobre ele, direito de superfície a favor de B por cinquenta anos.
Este instalou aí, conforme o respectivo contrato de constituição, um posto de abastecimento de
combustíveis.
Através de uma escritura denominada “Cessão do direito de superfície”, B transmitiu a C
o direito de superfície sobre o referido prédio, pelo preço de € 500.000 e pelo prazo que medeia
entre 10/05/2008 e 30/06/2019.

a) O Conservador recusou o registo da referida “Cessão do direito de superfície” com


fundamento na alínea d) do n.º 1 do artigo 69.º do Cód.Reg.Predial. Consegue descortinar
justificações para tanto?

Tópicos de correcção:

A questão que fundamentalmente se coloca consiste em saber se a transmissão do direito


de superfície por um prazo inferior ao da sua duração – com a consequente reversão, no seu
termo, para o superficiário original (B) – viola a regra da taxatividade instituída pelo n.º 1 do
artigo 1306.º do CC. Aquilo que B e C contrataram ajustar-se-á ao modelo do artigo 1524.º
CC?

Quando a lei imponha um numerus clausus de modelos admissíveis, qualquer hipótese


concreta que se pretenda enquadrar no modelo legal ou se subsume inteiramente a esse modelo
ou então não se subsume, por mínima que seja a falta de consonância. É o que sucede,
designadamente, com os (modelos de) direitos reais por força da regra contida no n.º 1 do
artigo 1306.º CC. A consagração do numerus clausus a que se alude na epígrafe, implica que,
ou o acto jurídico em consideração dá origem a um dos direitos reais constantes do elenco legal
ou, então, na melhor das hipóteses, o direito eventualmente constituído não é real.

A lei optou por limitar a intervenção dos particulares, na criação de direitos reais, às
hipóteses nela própria previstas. Quer dizer: a lei não se limitou a enunciar e a descrever certos
modelos de direitos reais; excluiu também a possibilidade de, designadamente através de
negócio jurídico, se criarem modelos nela não previstos. Nisto consiste a taxatividade.

Esta ideia, que sem dúvida está subjacente ao disposto no artigo 1306º, n.º 1, nele não
encontra, todavia, fácil apoio literal.
Neste preceito distinguem-se, formalmente, as figuras parcelares do direito de
propriedade das restrições a ele impostas. Ora, isto faz logo surgir a dúvida acerca do seu
domínio de aplicação: atingirá também a criação de figuras parcelares de outros direitos reais
ou a imposição de restrições aos mesmos? Dúvida que, no entanto, tem sido claramente
resolvida, por quem tem encarado a questão, no sentido afirmativo.

A verdadeira dificuldade surge na determinação do exacto conteúdo das referidas


expressões. As teses, que são as mais diversas, seriam relativamente indiferentes não fosse a
parte final do n.º 1, através da qual se manda operar uma espécie de conversão automática
apenas quando se tenha pretendido constituir, com carácter real, restrições não previstas (na
lei).

A expressão figura parcelar faz apelo, quase intuitivo, à chamada teoria do


desmembramento ou fraccionamento. E, embora não se possa dizer que a mesma tenha sido
adoptada pelo Código, dela ainda surgem alguns resquícios dispersos, os quais, pelo menos,
servem para a colocar historicamente. Como, grosso modo, as «parcelas» da propriedade
correspondem, para aquela teoria, aos chamados direitos reais menores ou iura in re aliena, já
fica assim indiciado o seu significado. O confronto com a expressão restrição mais realça esta
conclusão.

Considerando que, para o titular do direito atingido pela constituição da figura parcelar
ou da restrição, qualquer uma das duas implica uma limitação ao exercício do seu direito, não
pode ser atendendo ao seu «lado» que a distinção há-de fazer-se. Deve, ao contrário, atender-se
à posição em que terceiro fica eventualmente investido por força da sua constituição.

Assim, a figura parcelar supõe que ao titular de determinado direito real se tenha
imposto uma limitação ao seu exercício através da atribuição a terceiro de um direito subjectivo
real relativo à mesma coisa – somente este direito pode representar, em sentido figurado, uma
«parcela» daquele. Inversamente, a restrição supõe que tal limitação não é o efeito da
atribuição a terceiro de qualquer direito real sobre a coisa; o que significa, além do mais, que
esta se destaca daquela por exclusão de partes.
Certo é, no entanto, que a atribuição de eficácia real (ou seja, de oponibilidade erga
omnes) ao facto constitutivo de uma figura parcelar ou de uma restrição depende de assim
estarem previstas na lei. O que é sempre, dada a inexistência de uma «listagem» legal, um
problema da natureza qualificativa.

No caso, o simples estabelecimento ao transmissário de um prazo de duração inferior ao


do transmitente não altera os poderes que essencialmente caracterizam a situação do primeiro.
Ele é superficiário. E a lei prevê a possibilidade de a superfície ter carácter temporário. Não
parece, por isso, existir infracção da taxatividade.

Para quem, eventualmente, entenda o contrário, estar-se-ia então a pretender constituir


uma figura parcelar da propriedade não prevista na lei. Consequentemente, o contrato entre B e
C seria nulo, mas passível de conversão, nos termos do artigo 293.º CC, num direito de gozo de
carácter obrigacional. Como, em geral, os actos dotados desta eficácia não têm acesso ao
registo predial, a recusa do Conservador teria fundamento.

b) Os € 500.000 que C deveria pagar constituiriam um ónus real?

Tópicos de correcção:

O cânon superficiário, estando próximo de representar uma figura de ónus real, não o é,
contudo.

É ónus real a situação, estruturalmente obrigacional, da qual deriva a adstrição do


titular de certo direito real, nessa qualidade, à realização de prestações de dare, por cujo não
cumprimento responda preferentemente a coisa objecto do referido ónus (ou seja, responda em
primeiro lugar a própria coisa onerada). À complexidade da figura não obsta o reconhecimento
de que o seu traço mais característico reside no facto de, pelo inadimplemento, responder o
valor de troca do direito em cujo conteúdo o ónus se inscreve.

É frequente exigir-se que essa prestação tenha um carácter reiterado e periódico. A


reiteração é praticamente imprescindível. Mas, não é teoricamente inconcebível um ónus real do
qual resultasse a adstrição a uma única prestação, desde que esta seja fraccionada no tempo ou,
desde que se verifique um diferimento entre o momento da sua constituição e o momento do seu
vencimento. Já quanto à periodicidade não se vê razão alguma para a erigir em elemento
constitutivo do ónus real.

Tal como a obrigação propter rem, o ónus real é igualmente um elemento acessório do
conteúdo do direito real em que negativamente se inscreve. Mas, ao contrário da obrigação
propter rem, é também um elemento puramente acidental. Na verdade, enquanto aquela se
caracteriza, ao menos tipicamente, pela funcionalidade, o ónus real representa apenas (mais)
um encargo sobre a propriedade que, para além do benefício que atribui ao respectivo credor,
não tem qualquer utilidade específica. Daí que a lei o admita tão limitadamente, submetendo-o a
um «numerus clausus». Aliás, do ponto de vista da taxatividade, o ónus real surge até como
socialmente inconveniente, pelo duro encargo que pode implicar. Na realidade, no ónus real não
está só implícita a oponibilidade erga omnes – isto é, a possibilidade de o cumprimento da
obrigação correspondente poder ser exigido a quem quer que seja o titular do direito onerado.
Para além disso, e ao contrário da regra a que a obrigação propter rem se submete, está
pressuposto que o devedor não pode limitar a responsabilidade às obrigações que se venceram
na sua titularidade.

Qual a razão que leva a dizer que o adquirente do direito atingido pelo ónus real se não
pode livrar das obrigações vencidas antes desse direito ingressar na sua titularidade? Não há,
de facto, uma adstrição do adquirente àquelas obrigações, já que a lei não determina qualquer
transmissão, cessão, sub-rogação, etc., automática. Todavia, como é o próprio (valor de troca
do) direito onerado que responde pelo eventual inadimplemento das obrigações emergentes do
ónus, o respectivo adquirente está numa situação idêntica à de qualquer terceiro que adquira
bens onerados com alguma garantia real (hipoteca, consignação de rendimentos, etc.). Isto é,
não estando pessoalmente vinculado a cumprir a obrigação assegurada, se, no entanto, não
satisfizer o interesse do credor, sujeita-se à execução que este venha eventualmente a mover.

O ónus real supõe, pois, que o direito real em cujo conteúdo se integra esteja a garantir
o cumprimento das obrigações dele emergentes; só assim se pode considerar o ónus como exre,
ou seja, como "adstringindo" a própria coisa.
Quando é que verifica esta responsabilidade exre? Por vezes, é a própria lei que
explicitamente estabelece um privilégio creditório ou uma hipoteca legal sobre o direito atingido
pelo ónus real: é o que sucede, por exemplo, com a contribuição predial (artigo 122º, n.º 1,
Código do Imposto Municipal sobre Imóveis; artigo 744º, n.º 1) ou com a prestação a que o
titular do direito real de habitação periódica se encontra submetido perante quem administre o
empreendimento turístico respectivo (artigo 23º, n.º 1, Decreto-Lei n.º 275/93, de 5 de Agosto);
o mesmo sucede na hipótese da chamada propriedade plural sobre empreendimentos turísticos
nos termos do artigo 56º, n.ºs 1 e 7 do Decreto-Lei n.º 39/2008 de 7 de Março. Outras vezes isso
resulta implicitamente da letra da lei: é o que acontece v.g. nas situações previstas pelos artigos
959º, n.º 1, e 2018º.

Ora, nada resultando do artigo 1530.º que permita inferir que o direito do superficiário
responde exre pelo inadimplemento do cânon, pode asseverar-se não estar ele dotado das
marcas distintivas próprias do ónus real. Não obstante isso, por se tratar de uma obrigação do
superficiário, como tal susceptível de inscrição no registo predial [artigo 95º, n.º 1, alínea b),
Código do Registo Predial], pode, nesta medida, tornar-se eficaz (oponível) perante os
sucessivos adquirentes do direito de superfície, vinculando-os ao respectivo cumprimento a
partir da data da aquisição.

No caso concreto, porém, o problema nem se punha. A constituição do direito de


superfície pode ser acompanhada da estipulação, a favor do proprietário do solo (fundeiro), do
chamado cânon superficiário, se o titular da superfície, a título de contraprestação, ficar
obrigado ao pagamento de “certa prestação anual, perpétua ou temporária”. Ora, C
encontrava-se simplesmente obrigado a pagar um preço. Inexistia a reiteração que no ónus se
pressupõe.

36. Entre 2008 e 2010, A, artista plástico, teve acesso privilegiado às instalações da
Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa em virtude de ter sido contratado para, a
partir de cadáveres, desenhar modelos anatómicos a utilizar no treino de cirurgiões. Em 2009, A
retirou da faculdade uma série de partes de cadáveres. Com cerca de quarenta (incluindo três
cabeças humanas, parte de um cérebro, seis braços, dez pernas ou pés, e três torsos) criou
diversas esculturas que foram, depois, exibidas numa galeria de arte.

Teria a Universidade fundamento para exigir a Aa devolução das referidas partes de


cadáveres?

Tópicos de correcção:

Se a personalidade do ser humano cessa com a sua morte (artigo 68.º, Cód.Civil), e
tendo em conta que, juridicamente, o que não for pessoa só pode ser objeto (de direitos), o
cadáver há de ter a natureza de res. Só assim se explica que, por exemplo, se possa doar, para
estudo, às faculdades de medicina. Não sendo havido como coisa e, como tal, não sendo objeto
de propriedade, a que título terão estas instituições o direito de o dissecar? Conceber-se-á a
concessão de um poder de transformação ao abrigo de algum outro direito que não o de
propriedade? O entendimento contrário parece assentar sobretudo em razões de ordem
sobretudo religiosa, padecendo, por isso, de algum irrealismo. Tornará necessário idealizar
alguma outra espécie de soberania plena sobre um objeto apenas para nela incluir o cadáver.

Devido, porém, ao respeito pela dignidade da pessoa que no corpo agora sem vida antes
existiu, a sua simples equivalência às demais coisas é inaceitável. É res, embora com estatuto
especialíssimo.

O cadáver, a ser objeto de direitos, há de adquirir natureza de coisa fora do comércio?


Ainda que de modo limitado, ele pode ser objeto de direitos reconhecidos ao seu titular. A
questão, a partir daqui, consiste em saber se eles serão “privados”. De bem pertencente ao
domínio público não se trata certamente. Será bem “insuscetível de apropriação individual”?
Para quem entenda que o corpo “isincapableofbeingowned” parece ser esta a explicação mais
plausível. Para qualquer outra conceção – quer a que afirma a propriedade pura e simples
sobre o corpo, quer a que sustenta distinta espécie de senhorio sobre ele –, o corpo humano e,
sobretudo, os elementos que dele hajam sido separados, enquanto assim se mantiverem,
constituem coisas dentro do comércio. O facto de as relações jurídicas privadas que os podem
ter por objeto serem comparativamente pouco numerosas, escassas até, não impede a
qualificação. Ou seja, o facto de o cadáver – ou as suas partes – apenas poder ser atingido por
actos de transmissão em raras hipóteses (v.g. cessão às Faculdades de Medicina), e dentro de
condicionalismos muito apertados, não impede a sua qualificação como coisa dentro do
comércio.

A ser assim, pode o cadáver, como qualquer outra coisa, ser adquirido por outrem
mediante os actos normais de aquisição da propriedade. Entre eles, a especificação. Nos termos
do artigo 1336.º do Cód.Civil, a specificatio é o modo de aquisição da propriedade, a favor,
consoante o caso, do dono da matéria-prima ou do especificador, que resulta da transformação
de coisa móvel alheia por força de trabalho próprio, sem consentimento do proprietário
daquela. Diz-se especificador justamente aquele a quem esse trabalho for imputável. Tendo ele
atuado de boa-fé (ou seja, ignorando estar a lesar o direito de outrem) ao conferir nova forma à
matéria-prima alheia, torna-se necessário distinguir consoante o que valha mais: o trabalho ou
a coisa transformada. “Se o valor da especificação não exceder o da matéria”, a coisa
pertencerá ao dono desta se assim o pretender. Na hipótese inversa, ela caberá ao
especificador. Em qualquer caso, “o que ficar com a coisa é obrigado a indemnizar o outro do
valor que lhe pertencer”.

Aplicando estas ideias às partes do corpo humano que dele hajam sido apartadas e que
tenham sido objeto de alguma transfiguração atribuível à habilidade e à competência alheia,
teríamos que o quid que se obteve através da transformação operada (as esculturas, no caso)
passaria a pertencer ao escultor (A) se a parcela de valor económico atribuível ao trabalho
fosse de importância superior ao das partes não manipuladas dos cadáveres empregados. Em
qualquer outra hipótese – incluindo a de má-fé do especificador (A) – as referidas partes de
cadáveres continuariam a pertencer à Faculdade de Medicina. Ela poderia, por isso, reivindicá-
las.

37. A é dono do prédio urbano composto de casa de habitação de r/chão, 1.º andar, águas
furtadas e quintal, com superfície coberta de 64,5 m², sito na Rua das Flores, n.º 3, em Vizela.

B é dono do prédio urbano composto por casa de três pisos para habitação, anexo e pátio,
com superfície coberta de 96,75 m², sito na Rua das Flores, n.º 5, em Vizela.
Os dois prédios confinam a sul e a nascente.

Encontra-se aberta uma janela na parede sul do edifício de A que confina com um saguão
existente no prédio de B. Tem 69 cm. de largura por 82 cm. de altura. A abertura foi realizada há
cerca de cem anos quando se construiu o r/chão da edificação existente no prédio de A. De início,
contudo, ela tinha grades.

Algures em 2009, B emparedou a referida janela com tijolo, tendo colocado em parte do
seu vão dois tijolos de vidro translúcido.

QuidJuris?

Tópicos de correcção:

O CC não impõe qualquer distância mínima obrigatória entre construções realizadas em


prédios contíguos.

Quer isto dizer, portanto, que aquele que construir o pode fazer até às estremas do seu
prédio (salvaguardando-se, evidentemente, as distâncias impostas por planos urbanísticos, onde
existam; deve ter-se especialmente em conta o PDM – Plano Director Municipal). Acontece,
porém, que, quando assim seja, o construtor não poderá, em princípio, manter quaisquer
aberturas dirigidas ao prédio vizinho.

A este propósito, a regra geral está contida no artigo 1360.º CC: no essencial, proíbem-
se as aberturas situadas a menos de metro e meio do prédio vizinho que permitam devassá-lo.

A janela do prédio de A, tinha grades, de início.

As janelas gradadas (artigo 1364.º CC) são aberturas que não possibilitam, ou
possibilitam em medida mínima, a indiscrição visual sobre o vizinho que as deve suportar.
Entende-se que o devassamento, nestas circunstâncias, é tolerável desde que tais aberturas se
façam dentro dos parâmetros fixados. Tudo o que exceda tais limites e dimensões cairá no
âmbito do artigo 1360.º CC. O vizinho eventualmente afectado por tais aberturas legalmente
toleráveis, se a elas não quiser sujeitar-se, tem bom remédio: vedá-las, com qualquer obra ou
plantação própria (n.º 1, in fine). Ao invés, tratando-se das aberturas a que se refere o artigo
1360.º, e caso possam ser mantidas a distância inferior ao interstício legal por força da
constituição de servidão (desvinculativa) "de vistas", o vizinho atingido só poderá
(eventualmente) construir se o fizer em altura reduzida, não perturbando, em todo o caso, a
obtenção de luz e de ar pelo titular da servidão, ou então se respeitar uma distância mínima de
metro e meio entre as ditas aberturas e a nova construção (artigo 1362º, n.º 2; salvaguardando-
se, naturalmente, qualquer cláusula negocial de conteúdo diverso).

Com fundamento em qualquer modo normal de constituição de servidões (artigo 1547.º


CC), pode dar-se origem a servidão capaz de libertar o prédio sujeito à restrição decorrente do
artigo 1360.º CC, dando-lhe a possibilidade de manter alguma das aberturas aí identificadas a
distância inferior a metro e meio (artigo 1362.º CC). Precisamente por isso ela é qualificável
como desvinculativa.

Por força do estabelecimento desta servidão, fica o prédio serviente (n.º 2) adstrito,
como se disse, a não levantar construção ou plantação susceptível de impossibilitar ou estorvar
a obtenção de luz e ar pelo prédio dominante; para o efeito, deve observar uma distância
mínima de metro e meio entre a mencionada construção ou plantação e a janela, porta, varanda,
terraço, eirado ou obra semelhante que beneficie da servidão.

Como inexiste título aquisitivo da servidão a favor de A (artigo 1259.º CC) e como, por
isso, a respectiva posse se presumiria de má-fé (artigo 1260.º CC), a questão que cumpria
resolver seria a seguinte: por se considerar que a remoção das grades marcaria o início da
posse de servidão, restaria saber se tal sucedeu há mais de vinte anos (artigo 1294.º CC). Em
caso afirmativo, A poderia invocar usucapião da servidão de luz e ar a que se refere o artigo
1362.º. Caso contrário, estaria impedido. Na primeira hipótese, A poderia acudir à acção de
reivindicação (artigos 1311.º/1315.ª CC) para exigir que a parede entretanto construída por B
fosse demolida.