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A filha de Gabriel em busca de outros nortes: partidas e retornos

Será que entrando na semente da sua vida estarei como que violando
o segredo dos faraós? Terei castigo de morte por falar de uma vida
que contém como todas as nossas vidas um segredo inviolável? Estou
procurando danadamente achar nessa existência um topázio de
esplendor. Até o fim, talvez o deslumbre, ainda não sei, mas tenho
esperança.

A hora da Estrela, Clarice Lispector

A história de vida que venho investigando tem me ajudado a compreender a


relação entre o patrimônio disposicional do sujeito, seus afetos e suas escolhas de vida.
Juscelina, minha biografada, é uma migrante nordestina e uma “transfuge”1 de classe,
ou seja, uma mulher que realizou deslocamentos tanto no espaço geográfico quanto no
espaço social. Filha de camponeses paraibanos pobres, ela partiu, aos 15 anos, de
Caiçara, a cidade paraibana onde foi criada. Durante a caminhada que será relatada
brevemente neste texto, construiu uma carreira de sucesso no mundo corporativo,
ocupando cargos de liderança no que ela chama de Sistema Coca-Cola2, onde trabalhou
por 35 anos. Tenho procurado compreender quais aprendizados, tensões e disposições
foram sendo incorporados e reestruturados nessa trajetória vital. Algumas de minhas
construções hipotéticas giram em torno da ideia de que as experiências vividas na
comunidade de origem e nos universos que Juscelina frequentou na vida adulta levaram
à incorporação de disposições, valores e crenças cujas combinação e recombinação
possuem uma dinâmica particular.

A particularidade dessa dinâmica se deve ao fato de esses dois grandes universos


(o da socialização primária numa comunidade camponesa e o da socialização
profissional nas metrópoles) serem radicalmente distintos. Trata-se, portanto, de uma
mulher cuja subjetividade construiu-se a partir de uma fratura central, qual seja, aquela
entre o mundo de origem, não escolhido, e o mundo da vida adulta. Esse último sim,

1
O conceito bourdieusiano mobiliza uma rede de ideias, conceitos e processos ligados à sociologia
disposicionalista, perspectiva que direciona em boa medida a nossa investigação. O “transfuge” é aquele
que, em virtude de uma transição de classe, apresenta um “habitus” cindido, marcado por contradições
disposicionais. A palavra transfuge também designa pessoas que mudam a orientação partidária e, no
vocabulário militar, designa desertores. A dimensão normativa do conceito, centrada na ideia de traição,
nos interessa especialmente, já que muitos dos conflitos do transfuge estão ligados ao processo de
abandono da cultura paterna. Obviamente as matizes e especificidades do referido processo são muito
variadas. Alguns dos principais estudos em que o conceito é mobilizado estão em Bourdieu (2001, 2005,
2007a) e Lahire (2004, 2006).
2
Os termos em itálico são expressões nativas e as palavras entre aspas são conceitos teóricos.

1
esse foi escolhido, já que ela não só realizou seu primeiro movimento migratório, mas
também persistiu num caminho muito distante daquele que seu universo de origem
viabilizava. Procurando os princípios sociológicos que poderiam orientar a
compreensão dessa trajetória, tenho localizado as condições de possibilidade de
incorporação das disposições de uma mulher que teve uma vida improvável se
consideramos as expectativas sociológicas que recaem sobre uma filha de camponeses.
Porém, a compreensão de como ela adquiriu habilidades que possibilitaram uma
extraordinária ascensão profissional e a vivência em ambientes muito diferentes do
universo camponês não me diz muito sobre um conjunto de questões fundamentais para
a pesquisa e às quais o pesquisador só pode ter acesso se privilegiar uma perspectiva
narrativa. Algumas dessas questões são: quais eram suas tensões morais?; quais
sentimentos estavam entrelaçados às suas práticas e ações?; quais reflexões eram feitas
nos momentos de crise e de grandes realizações?; como era encarada a solidão e
sensação de ser sempre uma estrangeira?

Uma trajetória com rupturas tão significativas não pode ser realizada sem que
se faça “avaliações fortes” (FRANKFURT, 2007; TAYLOR, 2005) sobre a comunidade
em que se vive, a vida que se quer ter e o tipo de pessoa que se quer ser. Por outro lado,
somente uma postura normativa e epistêmica que conceda espaço à narrativa e à
expressividade do agente é capaz de acessar a dimensão das escolhas pessoais relativas
ao caminho que se decide tomar tendo em conta os “constraints” e “enablements” que
contornam uma trajetória individual (ARCHER, 2007). Entendo que a narrativa é um
espaço privilegiado para compreensão das escolhas e dos projetos de vida, que não são
construídos de forma racional (seja em termos de cálculo de custos e benefícios ou em
termos de ações cotidiana e metodicamente planejadas) nem linear, mas que subjazem
às ações e por isso podem ser reconstituídos por meio de um acesso retrospectivo a
acontecimentos marcantes cuja busca na memória é estimulada pelas perguntas e
demonstrações de interesse do pesquisador.

O caso de Juscelina coloca desafios à tese de que a ação individual é produto de


uma adaptação pré-reflexiva a uma situação objetiva. É claro que a tematização
cotidiana de questões existenciais (quem eu sou, porque escolhi essa vida, etc.)
paralisaria a ação cotidiana. Por outro lado, sem a tematização de escolhas existenciais
que motivassem uma ação interventora sobre o mundo, a trajetória não seria possível.

2
São motivações afetivas que levam a que a ação de Juscelina tenha uma eficácia causal
(ARCHER, 2007) sobre sua trajetória.

O fato de se ter em mente um sonho, uma meta ou um plano não leva,


entretanto, a que a trajetória seja linear. As crises, frustrações ou obstáculos
incontornáveis podem levar a que se faça uma curva ou a um retorno. Por outro lado,
pode ser que um ideal tome diferentes formas ao longo do caminho. Juscelina saiu de
casa com o sonho de ser independente (viver longe da família, com autonomia
financeira, etc.). Após tantos aprendizados e reconfigurações de valores ao longo do
caminho, ela alcançou esse objetivo, mas retraduziu o valor da independência após as
experiências vividas em busca dela. É o que tenho observado na fase atual dessa
biografia.

Recentemente, para minha surpresa, a pesquisa e uma série de circunstâncias a


ela relacionadas direta ou indiretamente desencadearam, pelos motivos que vou expor
adiante, uma situação de crise que colaborou para numa guinada na vida pessoal e
profissional de Juscelina. Isso fez com que eu tivesse a oportunidade de acompanhar um
processo reflexivo muito profundo. Eu pude então observar determinados eventos que
levaram a uma modificação importante não só das narrativas, mas do comportamento e
do estado de coisas objetivo. Parece-me que o momento definitivo para a emergência da
referida crise se deu quando viajamos para Caiçara, a cidade onde foi criada. Juscelina
me acompanhou em Caiçara por três para me apresentar à sua família. Em Caiçara
permaneci por duas semanas. Antes dessa viagem a vida de Juscelina e a pesquisa
seguiam caminhos paralelos que de vez em quando se encontravam para depois
seguirem sozinhos novamente. Depois da viagem, o percurso da pesquisa e a trajetória
da biografada passaram a estar mais fortemente entrelaçados.

Explicando melhor: a situação de pesquisa trouxe à tona conflitos, angústias,


receios, esperanças e descobertas que agiram sobre práticas, comportamentos, crenças e
valores de Juscelina. Mudanças objetivas e uma torrente extraordinária de reflexões têm
agido sobre as disposições. O processo que observo é aquele da ação dos afetos3 sobre

3
Ao longo do texto, uso as palavras emoção e afeto de formas distintas. A emoção é a ressonância íntima
e episódica de um acontecimento passado, presente ou futuro. O afeto é a “emoção instalada no tempo”
(LE BRETON, 2003). Uma emoção, portanto, transforma-se em afeto quando perdura, seja porque
acontecimentos similares e recorrentes propagam no sujeito as mesmas emoções, seja porque
determinados acontecimentos, mesmo que não recorrentes, são tão significativos que passam a habitar a

3
as disposições e crenças sedimentadas. As elaborações sobre a vida moral surgidas no
curso das “avaliações fortes” têm guiado, corrigido, observado, repreendido e
reelaborado antigas disposições e crenças que agora são tidas como incorretas,
inseguras, inadequadas ou moralmente/espiritualmente inferiores.

A partir dos fatos por mim observados no trabalho de campo e das narrativas de
Juscelina e de alguns de seus familiares, procurarei relatar o caminho que resultou na
crise sobre a qual me referi. Nessas fontes empíricas foram selecionados eventos e
discursos mais diretamente ligados a) à história da família de Juscelina; b) às
disposições incorporadas na socialização primária e às motivações e afetos que
impulsionaram o percurso desta transfuge; c) ao giro inesperado em sua trajetória,
ocorrido recentemente.

O passado

Quando eu vim do sertão,


seu môço, do meu Bodocó
A maleta era um saco
e o cadeado era um nó
Só trazia a coragem e a cara
Viajando num pau de arara
Eu penei, mas aqui cheguei.

Pau de Arara, Luiz Gonzaga.

Juscelina nasceu em 1957 na fazenda Miritueira pelas mãos de Maria Agrião, a


parteira mais famosa da região de São Miguel do Guamá, no interior do Pará. A família
era, à época, proprietária da fazenda localizada no pequeno lugarejo de Panelas. Seus
pais, Gabriel e Satina, eram paraibanos, mas quando a décima nona filha do casal
nasceu eles já viviam no Pará há quatro anos. O casal migrou para Belém em 1953,
época de uma rigorosa seca que levou para o norte do país mais de 800 nordestinos
(JUCÁ, 2003). O fluxo migratório para a região era incentivado pelo governo Getúlio
Vargas, que pretendia consolidar o “batalhão da borracha” e fornecer mão de obra
barata para os latifundiários daquela região. O casal não pretendia trabalhar nos

alma (ou o inconsciente) de forma durável. Os afetos são, portanto, os sentimentos mais estruturantes do
sujeito.

4
seringais, mas se dirigiram para o Norte seguindo as esperanças ecoadas das notícias de
riqueza do Pará e do Amazonas.

Na Paraíba, Gabriel era tropeiro e negociante4. Transportava peixes e camarões


do litoral para o interior e vendia em feiras das cidades localizadas nos limites dos
estados da Paraíba e Rio grande do Norte. Também vendia o excedente de legumes e
grãos cultivados no roçado da família e outros alimentos negociados nos caminhos e
estradas. Na época da grande seca de 1953, Gabriel e a família moravam em Pedro
Velho/ Rio Grande do Norte. Como não conseguia compradores para suas mercadorias
e recusava veementemente a condição de morador5, resolveu tentar a vida no Norte, já
que o transporte de Ceará para Belém era financiado pelo governo. Gabriel vendeu sua
tropa de burros e pagou a passagem no pau de arara pra ele, sua esposa gestante e os
seis filhos. No caminhão foram até Fortaleza, onde ficaram por alguns dias na famosa
hospedaria Getúlio Vargas (mais conhecida como hospedaria dos aflagelados),
administrada pelo Departamento Nacional de Imigração do Ministério do Trabalho. O
filho mais velho, Demétrio, vendia macaxeira cozida pra ajudar a sustentar a família
nos dias em que ficaram no Ceará.

No período em que estavam lá, em meados de 1953, os jornais fortalezenses


publicavam notícias sobre as péssimas condições de recepção e sustento dos flagelados.
Por falta de medicamentos, dez crianças haviam morrido. Muitos migrantes passavam o
dia mendigando e dormiam sob os cajueiros do Alagadiço6. Havia notícias das
condições terríveis dos flagelados, dos boatos de espancamento de migrantes que se
recusavam a trabalhar de graça e da extorsão daqueles que chegavam com algum
dinheiro (JUCÁ, 2003). Diante de todas essas circunstâncias, os camponeses
organizaram um grande assalto ao Mercado São Sebastião. A revolta foi reprimida após
a intervenção do exército, mas forçou o transporte de emergência dos imigrantes.
Ramos, um dos irmãos de Juscelina, que tinha cinco anos quando viajou com a família

4
As palavras em itálico no corpo do texto são trechos de discursos dos irmãos de Juscelina. Em alguns
momentos eu não identificarei o falante porque essas memórias foram narradas em várias conversas
fragmentadas entre várias pessoas: irmãos, sobrinhos, sobrinhos netos de Juscelina, etc.
5
O morador é alguém que vende sua força de trabalho em troca da ocupação de um pedaço de terra do
proprietário. Além de trabalhar a maior parte da semana para o dono da terra, o morador, sob a ameaça de
ser expulso, se submete a uma série de exigências impostas muitas vezes violentamente pelo proprietário.
A condição análoga a de escravo é esclarecida na expressão nativa utilizada para caracterizar um não
morador: homem livre.
6
Bairro de Fortaleza/Ceará.

5
para o Norte, narra suas lembranças sobre a intervenção do exército e a viagem de
Fortaleza para Belém:

Quando o exército tomou de conta aí melhorou tudo. Houve a


invasão do mercado dos aflagelado, né? Num tinha médico,
tudo cabeludo, aí o exército chegou com aquelas máquinas, né,
aquelas riiiiiiiiiii... Aí era dois minutos pra fazer o cabelo. Só
não dava acabamento, mas era ligeira a máquina. Aí dizia: “abre
a boca!” Abria a boca: dentes ruins. “Entra aí!”. Entrava o
dentista, extraia os dentes. Aí arrumaram de comer e barraca de
lona. O navio do exército encostou e resolveu tudo. A gente
viajou nesse navio. O nome dele era Poconé. Já ouviu falar no
nome desse navio? (Entrevista com Ramos, fevereiro de 2012)

No porão do Poconé7, a família viajou por oito dias. Chegaram a Belém e foram
novamente para uma hospedaria do Governo Federal, a Tupanã, onde Gabriel recebeu
propostas de emprego dos fazendeiros que buscavam mão de obra barata. Ramos narra
a chegada em Belém e o caminho até a estabilização financeira e geográfica da família:

Aí todo dia chegava muita gente atrás de papai [na hospedaria]


pra trabalhar na vacaria, mas ele não queria. Já que tava lá
queria um negócio melhor, né. Aí chegou um senhor com nome
de Zé Guedes e ajeitou com ele pra ir pra fazenda dele. Aí ele
foi, ajeitou e marcou o dia na quarta feira que ele vinha, que ele
era proprietário do caminhão naquela época e vinha apanhar a
gente. Foi chegar era 6 horas da noite, aí nós viemos e fomos
chegar era 12 horas na fazenda. Aí ele ficou lá um ano, mas
com um ano ele não queria mais ser sujeito mais, sabe? Ele
queria crescer. Aí falou com homem que queria botar 3 hectares
de terra, mas só se fosse de mata virgem..aí ele exigiu isso
porque ele sabia que o homem não tinha essa terra lá, sabe?
Num tinha como arrumar, né. Era pra ele poder sair fora, né? Aí
disse: “Dom João que tem esses terreno todo, mas ele é muito
bravo”. Só que ele falava alto por ele mesmo, sabe? Não tinha
nada disso não, não era bravo não. Aí ele foi lá com Dom João
e levou um outro ano, mas lá ele já montou comércio, começou
a subir, né. Aí no fim do ano ele colheu 360 sacos de arroz... eu
lembro ainda. Colheu muito arroz e depois comprou a terrinha
dele.

7
A narrativa de Ramos sobre a viagem para o Norte é rica em detalhes: sensações, nomes, datas, preços,
etc. Fiquei muito emocionada quando, realizando uma pesquisa em vários sites dedicados à história naval
brasileira, encontrei uma fotografia do lendário Poconé. O navio foi confiscado na expedição do General
Mena Barreto em represália ao afundamento de navios mercantes brasileiros por submarinos alemães. O
Poconé foi utilizado, dentre outras coisas, para o transporte dos migrantes na década de 50. Foi vendido
como sucata em 1960.

6
Priscila: E depois que ele se ajeitou lá no Pará, é verdade que
ele fez uma escola pra vocês estudarem?

Ele fez um grupozinho e botou a professora por conta dele.


Estudava os filhos e os vizinhos, quem quiser estudar lá. Meu
pai foi um herói. O único homem que eu vi construir um grupo.
Tinha uma professora por conta disso. Foi... ele montou um
grupo. Eu me lembro até o nome da professora: era Oswalda.
Tinha um campo de futebol também, que ficava em frente à
casa lá. A escola dele era muito boa. Lá tinha espaço, tinha
mesa, tinha quadro negro. (Entrevista com Ramos, fevereiro de
2012)

A época que a família viveu no Pará, na visão dos filhos mais velhos, foi muito
próspera. Gabriel era um homem alegre, gentil e carismático. Ele se adaptou com
relativa facilidade ao lugar e conseguiu exercer funções que lhe asseguravam algumas
prerrogativas. Na região onde comprou sua terra, ele conseguiu uma espécie de
concessão oficial para ser algo com um chefe de diligências local, um oficial de justiça.
O prestígio e os privilégios dessa colocação garantiram uma vida mais confortável e
segura. Gabriel, lembra a filha mais velha, Comprou um cavalo preto bonito, uma boa
cela, comprou uns gados. Os meninos brincavam e estudavam na escola que o próprio
Gabriel montou para atender as crianças da região. Seus filhos andavam todos muito
bem calçados. No Norte, o casal Satina e Gabriel criaram os sete filhos que haviam
migrado com eles e lá tiveram mais 14 filhos. Juscelina foi a décima nona. Satina era
filha única e havia deixado sua mãe na Paraíba. Como esse afastamento causava muito
sofrimento a ela, a família resolveu voltar para a Paraíba em 1960, quando Juscelina
tinha dois anos de idade.

Dentre os 21 filhos nascidos, muitos morreram na infância. Alguns, segundo


Darci, a quarta filha da família, morreram de gasto e de susto. O susto era uma causa
frequentemente atribuída não só à morte de bebês, mas também a abortos involuntários.
A morte muitas vezes era causada pela recusa dos pais a medicarem as crianças.
Segundo Darci, acreditava-se que o uso de medicamentos para curar crianças doentes
poderia enlouquecê-las. Os bebês doentes, tidos como condenados, não deveriam ser
medicados. A criança que nascia fraca, apresentando sintomas como vômitos e diarreias

7
(sintomas de gasto), deveria morrer porque assim ela iria para o céu como um anjo8 e lá
ficaria com os familiares. A morte de menino pequeno era de tal forma incorporada ao
cotidiano da família que Darci costumava brincar de enterrar crianças mortas feitas de
sabugo de milho. Os sabuguinhos eram enfeitados de pedregoso (nome popular de
flores da região) e as cruzes e capelinhas eram feitas de pequenos gravetos.

Dentre as crianças que morreram, muitas tinham o nome Maria porque havia o
costume de dar às crianças nomes santos - o que também evitava eventuais recusas dos
padres em batizá-las. Morreram Maria Salete, Maria do Socorro, Maria do Rosário9.
Elas foram enterradas em caixõezinhos coloridos fabricados em casa. Na procissão,
acompanhada por crianças e moças, o caixão era carregado com a tampa aberta e
coberto de flores. Dizia-se que as flores que caiam no caminho anunciavam a morte de
mais bebês. Essa era uma ocasião de interação entre as crianças da região. Era também
uma cerimônia para crianças e moças (as futuras mães), algo como uma brincadeira que
promovia, desde a infância, a naturalização da morte precoce.

Encontrei uma grande proximidade entre a descrição de Scheper – Hughes


(1992) das cerimônias de morte das crianças pequenas na zona da mata pernambucana
e as descrições dessas mesmas cerimônias- e os sentimentos a elas associados- nas
narrativas de irmãs de Juscelina. A análise feita pela antropóloga americana de alguns
dos significados particulares dessas cerimônias demonstra ser reveladora quanto aos
impactos psicológicos das mortes das crianças para a família de Juscelina. Como afirma
a antropóloga americana, o bebê seria considerado um anjo que, com sua morte,
agradaria a Deus - ao dar-lhe companhia - e salvaria a família de possíveis infortúnios.
Por isso, quando nasce fraco, deve morrer e ficar perto de Deus e dos familiares que já
foram para o céu, ou será castigado com uma vida marcada por doenças e desventuras.
Compreendendo o sentido que as mães atribuem à morte de seus filhos pequenos, o que
poderia ser considerado descuido (a recusa em medicá-los) ou indiferença toma a forma
de um sentimento de resignação cuja complexidade só é esclarecida se considerarmos as

8
As referências e descrições da morte e dos velórios de anjinhos podem ser encontradas em alguns dos
nossos maiores clássicos, como o Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre e Os sertões, de Euclides da
Cunha.
9
De todas as Marias nascidas sobreviveram duas, a Maria, primeira menina a nascer, e a Maria Irmã.
Maria Irmã foi a décima oitava filha a nascer. Segundo Juscelina, depois de tantos filhos e de tantas
Marias nascidas, a criatividade para os nomes já se esgotava. Colocar o “Irmã” no registro de nascimento
foi a solução encontrada por Gabriel. Como os filhos normalmente são chamados por apelidos (Maria
Irmã é Ninha), o problema de um nome oficial só surgiu no momento do registro do nascimento.

8
condições materiais de existência às quais estava submetida a família, e as práticas e
crenças místicas e devocionistas constitutivas da comunidade10.

Gabriel, Satina e os 12 filhos sobreviventes retornaram à Paraíba em 1960 e


foram morar no Sítio Cancão, região rural da cidade de Caiçara, numa terra herdada por
Satina. No sítio criaram seus filhos. Cada um deles foi seguindo sua vida nas
redondezas da cidade. Alguns realizavam trabalhos temporários nas metrópoles (São
Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Salvador, João Pessoa) e voltavam por motivos
comuns: o término do contrato temporário na construção civil, o medo e o risco de vida
imposto pela criminalidade das metrópoles, a instabilidade do mercado de trabalho
informal- única possibilidade de sustento na cidade para alguns deles. Eles partiam com
o objetivo de conseguir algum dinheiro e voltar para a Paraíba com condições de
comprar uma casinha e um pedaço de terra11.

Dentre os filhos que partiram e não voltaram estão Daniel, José e Juscelina.
Daniel deixou Caiçara depois de um acontecimento brutal. Ele, sua esposa, recém-
casados, e seu filho de seis meses moravam no sítio Cancão. Certo dia Daniel foi à feira
e sua esposa foi se banhar no lajedo próximo a casa. Um vizinho adolescente tido como
louco viu a casa vazia, pulou a janela do quarto do bebê e o espancou até a morte.
Daniel e sua esposa partiram de desgosto. Seguiram para o Rio de Janeiro e
reconstruíram suas vidas no bairro Bangu, na comunidade de Vila Kennedy.

Quanto à partida de José, esse é um assunto delicado para a família. Alguns


dizem que ele era muito namorador, farrista, inquieto, e que partiu porque queria

10
A experiência de ter uma vida em que a morte está sempre perto, à espreita, mostrando a face poderosa
de um destino do qual não há meios de escapar, dada a impossibilidade simbólica de fugir dela (a fuga
acarreta um castigo) e as dificuldades materiais de afastá-la, faz com que a sobrevivência adquira um
significado específico e ambíguo: é ao mesmo tempo um ato de resistência e uma manifestação da
permissão de Deus (“Deus permita que o menino cure”). Esse agonismo constitutivo da vida de muitos
nordestinos é muito bem expresso na famosa frase de Euclides da Cunha: “o sertanejo é, antes de tudo,
um forte”.
11
Muitos estudos sobre migrações ainda costumam explicá-las a partir da chave interpretativa que opõe
atraso e desenvolvimento ou expulsão do campo e atração da cidade. As migrações internas, nessa
perspectiva, são vistas como um movimento decorrente das desigualdades regionais criadas pela
industrialização nos moldes capitalistas. Porém, como já defenderam Afrânio Garcia (1989), Marilda
Menezes (2002) e Klaas Woortmann (1990), a “migração de camponeses não é apenas consequência da
inviabilidade de suas condições de existência, mas é parte integrante de suas próprias práticas de
reprodução. Migrar, de fato, pode ser condição para a permanência camponesa” (MENEZES, 2006). Não
só familiares de Juscelina, mas muitas outras pessoas com quem conversei em Caiçara me disseram que
iam para as capitais do sul com o objetivo de conseguir algum dinheiro e comprar uma terrinha pra fazer
um roçado.

9
conhecer Copacabana. Outros dizem que José partiu depois de ter levado uma surra do
irmão mais velho, Demétrio. A virilidade é um os elementos mais importantes da
dignidade masculina nordestina e uma surra12 publicamente conhecida - e em cidades
muito pequenas brigas de família são brigas públicas - é o tipo de humilhação que
motiva a partida de casa. As notícias de José vieram em poucas cartas. Uma delas
contava que ele havia se casado com uma mulher de nome Júlia. A última, enviada de
Brasília, anunciava duas notícias: uma triste e uma feliz. A feliz era que no dia da
postagem da carta um filho de José havia nascido; a triste era o anúncio de sua morte.

A briga entre Demétrio e José é um episódio isolado na família, cuja economia


moral não contava com modalidades violentas de inculcação da autoridade dos pais.
Seguindo a tradição da ética do trabalho camponesa, a educação era fortemente baseada
numa “pedagogia do sofrimento” (COMEFORD, 2003), a qual professa que o
aprendizado da honestidade e a garantia de respeitabilidade só podem ser conseguidas
ao custo de muito trabalho. Esse tipo de formação ética, como assinala Comeford
(2003), é também uma forma de perpetuação de um determinado modelo familiar
baseado na obediência aos pais, na solidariedade e no respeito aos irmãos e à
comunidade. Os pais ensinavam o trabalho aos filhos e procuravam fazer com que eles
os vissem trabalhando porque assim, além de ensinarem o trabalho também davam o
exemplo. Satina coordenava o trabalho dos filhos no roçado, acompanhando-os,
enquanto as filhas maiores cuidavam dos pequenos. Gabriel procurava ensinar aos
meninos mais velhos o trabalho de tropeiro e negociante. Ramos tentou a vida de
tropeiro, mas, diante das dificuldades, abandonou as estradas. Ele se lembra de quando
desistiu da vida de tropeiro. O dia ficou marcado não só pelo sofrimento que causou em
Ramos, mas também por ter sentido em seu corpo o sacrifício pelos quais seu pai
passava para sustentar a família:

Seu pai zangava muito com vocês?

Meu pai não reclamava com a gente não, não era grosseiro não.
Mas o que ele mandava fazer a gente fazia. Todo mundo
obedecia. Quando dava uma ordem era lei. Eu me lembro um

12
Luiz Gonzaga também partiu de sua terra, Exu, em Pernambuco, depois de uma surra: “Tudo isso (a
carreira musical) que aconteceu comigo foi por causa de uma surra, uma surra bem dada, aquele castigo
que, quando é bem aplicado, na hora exata, dá bons resultados”. O trecho integra um depoimento de Luiz
Gonzaga ao Museu da Imagem e do Som de Juiz de Fora/ MG, disponível em:
http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4313.

10
dia que ele me mandou pra Pirpirituba [localizada a 30 km de
Caiçara] pra entregar duas caixas de camarão. Aí eu disse: “pai
eu não vou não que eu não conheço a estrada, não conheço o
caminho”. Ele disse: “você começa a agir [conduzir a tropa de
burros] 3 horas da manhã. Você encontra os matuto e
acompanha eles e chega lá”.

E chegou?

Cheguei, mas nesse dia eu sofri muito. Peguei muito inverno


esse dia, sabe? Sofri muito. E os burros daqui são acostumados
com o curimataú [vegetação de caatinga típica do agreste
paraibano] Lá eu peguei muito brejo, muita ladeira na serra.
Ficava escorregando, virando, caindo em cima... Ih Nossa
Senhora.

Demorou muito tempo pra chegar lá?

Cheguei lá onze horas do dia pra doze e cheguei aqui 3 horas da


manhã. E de volta foi pior. Aí nesse dia abandonei de tanger
burro.

Por quê?

Sofri muito nesse dia. Levei chuva o dia todinho. Aí eu entendi


o que ele sofria né? Porque ele saia daqui e ia até o Rio
Grande13 tangendo burro. (Entrevista de fevereiro de 2012)

Ramos realizou vários tipos de trabalho ao longo da vida e hoje em dia é um


negociante de frutas da região. Vai buscá-las em sítios e revende em mercearias,
padarias e pequenos mercados. Ramos aprendeu com o pai o comportamento camarada
e gentil. Ele é uma pessoa querida e muito habilidosa no trato com os colegas de
serviço, com seus fornecedores e consumidores. O lirismo presente em suas narrativas e
o comportamento afetuoso e generoso também guardam semelhanças com o de seu pai.
Ramos tem orgulho de dizer que todos acham que ele é o filho mais parecido com o pai.
Demétrio diz a mesma coisa e segundo ele, que é o filho mais velho, o pai tinha uma
palestra boa, muito conversador, gostava muito de piada, contava muita piada. Gabriel
era um homem muito bom, diz Ramos:

Meu pai era um homem muito bom, muito bom coração. Teve
um rapaz que faleceu aqui da Paraíba que a esposa dele era cega
e não tinha nenhum filho. Meu pai botou ela dentro de casa
porque era cega, ficou lá uns 6 meses e por ele não tinha saído
de lá nunca.

13
Gabriel comprava peixes e camarões na praia da Pipa, no Rio Grande do Norte, para vender em Caiçara
e nas cidades da região. A distância entre as duas localidade é de mais ou menos 120 km.

11
Era generoso quando achava necessário, mas segundo Maria, e com isso todos
concordam, ele não gostava muito de pobre não:

Ele gostava era de rico. Gente com bigode enrolado era com ele
mesmo. Pra juiz era festa e jantar que ele dava. Pra pobre não,
pra pobre era bom dia, boa tarde e até logo. Papai dizia que
quando um rico morria o sino tocava: “peeena, peeena, peeena”,
e quando um pobre morria o sino tocava: “se dane, se dane, se
dane”. (Entrevista com Maria, fevereiro de 2012)

Maria diz que seu pai era um besta sabido. Andava sempre muito arrumado,
estufando a barriga pra mostrar saúde. Ele sabia muito bem com quem se relacionar.
Conseguia favores políticos sem se humilhar porque construía amizades com pessoas
influentes. Apesar da pobreza da família e das grandes dificuldades enfrentadas na
reprodução da vida (a água era buscada nas poças dos lajedos próximos à casa, a fossa
substituía o banheiro, a comida do dia a dia era feijão com farinha, não havia artigos
básicos de higiene pessoal, etc.), Gabriel era um homem respeitado e conseguiu
construir uma reputação favorável. O fato de ser primo de políticos importantes da
Paraíba, de ser amigo de autoridades e de ser um homem livre (dono de sua terra) e
alfabetizado dava a ele um “status” social que, não obstante a pobreza da família, o
distinguia positivamente dentre a população da região rural.

Numa época em que o “espaço social” (BOURDIEU,2007) nordestino ainda era


fortemente estruturado pelo capital social de relações pessoais, a possibilidade de um
chefe de família livre (proprietário de sua terra) obter favores de pessoas influentes
poderia ter um impacto expressivo no volume e estrutura dos capitais econômico e
cultural de uma família. Isso ocorreu na família de Gabriel. Darci estudou para ser
professora com a ajuda dos primos ricos, (donos de uma fábrica de biscoitos e políticos
influentes da região). Os mesmos primos viabilizaram a construção de uma escola na
região rural, onde ela lecionou como professora do município. Obras de emergência em
épocas de seca (construção de barreiras nos lajedos para armazenamento de água) foram
realizadas no sítio de Darci em troca de uma indenização a ela paga. Nos relatos dos
filhos de Gabriel, há inúmeros exemplos de favores corriqueiros conseguidos por ele e
pela família.

12
Foi através de um favor, condicionado, que Juscelina estudou no Ginásio
Comercial de Caiçara, colégio particular onde completou o ensino fundamental. A
condição era que ela trabalhasse no sindicato dos trabalhadores rurais e apresentasse
boas notas. Ela havia sido alfabetizada em casa, por sua irmã, mas queria continuar os
estudos. Juscelina, desde minhas primeiras entrevistas, disse que não gostava de brincar,
preferia estudar e ouvir a conversa dos adultos. É essa também a lembrança que os
irmãos guardam dela: ela era muito devagar, diz Ramos; a bichinha era assim quieta,
desgostosa...até hoje ela é assim. Você não vê? Fica assim calada pelos cantos, diz
Maria.

Juscelina reconduz o sentimento de ser uma estrangeira em sua própria terra ou,
como ela diz, uma inconformada, até a sua infância. O que ela rejeitava fortemente era o
destino que a comunidade lhe reservava, cuja representação máxima era a vida da sua
mãe, Satina. Se pouco falei sobre Satina, é porque o brilho de Gabriel nas memórias de
seus filhos a ofusca. Todos disseram a mesma coisa sobre a mãe: era muito
trabalhadeira, devota, séria e muito limpa. Mas ela era feliz, pergunta Juscelina a
Maria. Eu acho que era porque ela tinha muito filho e quem tem filho tem amor no
coração. Juscelina não pensa assim. Amor no coração pode não ser o mesmo que
felicidade. Ela não via felicidade na vida de sua mãe, apesar de achar que a missão dela
na terra foi ter filhos. Foram 25 gravidezes, quatro abortos, nove filhos pequenos
falecidos e dois filhos adultos mortos.

O tipo de reflexão sobre a figura de sua mãe realizada atualmente por Juscelina,
uma mulher de 54 anos, naturalmente não era o mesmo que uma menininha fazia aos
oito ou dez anos, mas qualquer criança é capaz de sentir tristeza, alegria, nostalgia ou
solidão, assim como de compreender as manifestações sentimentais do outro. Ela sentia
a tristeza de sua mãe e procurou fugir de uma vida em que a mulher só tinha a
permissão de cuidar dos filhos e da vida doméstica. Era a infelicidade de sua mãe que
ela rejeitava e o modo de vida de sua mãe que ela negava.

A força da relação de Juscelina com sua mãe é manifestada em duas dimensões


aparentemente contraditórias. Por um lado ela se posicionou reativamente à sua
identificação com a mãe, fugindo de forma obstinada do fado ela achava que lhe era
reservado. Por outro lado, pelo que pude perceber após muitas entrevistas com
familiares e antigos moradores de Caiçara, os quais descreviam o comportamento de

13
Satina de forma bastante similar, Juscelina tem disposições muito parecidas com as de
sua mãe, tais como sua rigidez moral, austeridade, ascetismo e excessiva preocupação
com a organização e higiene doméstica. Podemos compreender a relação entre essas
duas dimensões (proximidade com a mãe por meio da incorporação das disposições nela
personificadas e por ela ensinadas e rejeição do destino da mãe pela sensibilização ao
seu sofrimento) se consideramos que todo aprendizado consciente ou semiconsciente
ocorre pela mediação do afeto. Se é assim, um “habitus” primário consiste na
cristalização dos afetos socializados na família mediante um trabalho de inculcação
cujos mecanismos mais eficazes situam-se nos limites da busca e da doação de afeto.

No universo camponês, onde há um grande peso dos princípios de divisão de


gênero na estruturação das práticas, há um trabalho específico de socialização das
pulsões primárias dirigido às mulheres. A “pedagogia do sofrimento” (Comeford,
2003) sobre a qual falei anteriormente toma contornos característicos quando o que se
pretende é educar uma mulher. A respeitabilidade da mulher implica um rígido controle
sobre sua sexualidade, exercido pela família, pela comunidade e pela igreja14 (cujos
princípios direcionam a censura da família e da comunidade) sob a forma de um
conjunto de permissões e proibições que moldam a noção de mulher honesta. Juscelina
narra que era proibida de se aproximar de mulheres separadas, de usar roupas curtas,
maquiagem e calça comprida. As atividades de lazer se restringiam à participação em
atividades religiosas e em alguns poucos bailes organizados durante o ano, onde havia o
controle atento da comunidade sobre as moças. O controle explícito e implícito sobre a
sexualidade feminina foi apreendido por ela na forma de um comportamento sério e
recatado, além de um puritanismo, como ela mesma diz, que se chocou com as práticas
e discursos sexuais mais liberais que foram conhecidos no tempo em que foi para
metrópoles.

Juscelina rejeitou o destino que sua mãe personificava, mas incorporou o


aprendizado por ela professado por meio de ensinamentos cotidianos (como pegar na
enxada, caçar o alimento da família nas pequenas cavernas dos lajedos, equilibrar na
cabeça o pote de água que abastece a casa diariamente, etc.). Ao contrário de suas
irmãs, Juscelina não reproduziu o modo de vida em que utilizaria essas práticas, mas

14
Essas afirmações, apesar de corroboradas pela literatura sobre o universo camponês, baseiam-se na
minha experiência etnográfica. A igreja a qual me refiro é a igreja católica, cujos princípios são matizados
por traços culturais regionais.

14
extraiu delas o sentimento de saber viver no limite (eu aprendi a lutar, eu caçava pra
comer), o que dá segurança sobre sua coragem e capacidade de autodefesa:

As pessoas não acreditam que eu vim de uma classe social tão


no limite, que tinha que lutar pela subsistência. A gente tinha
que lutar, a gente caçava pra comer. Ninguém, ninguém que me
afrontou achando que eu ia recuar me viu recuar. Pelo contrário,
aí que eu pulo na frente igual um bicho: autodefesa. O ser
humano é assim: acuado ele reage. (Entrevista concedida em
novembro de 2012)

Se as condições materiais de existência eram tão limitantes e se o horizonte


moral da comunidade restringia a mulher ao espaço doméstico e à maternidade, quais
são os elementos de que Juscelina se vale para explicar o fato de ter tido um destino tão
diferente? Há um elemento sempre recorrente e valorizado: a relação com seu pai:

Ah, meu pai (...) meu pai era de externar. Ele gostava, ele era
uma figura que ele gostava de coisas bonitas, de coisas boas, no
fundo ele achava que socialmente era melhor do que de fato era,
ele agia como se fosse, mas não era. Ele sempre queria, se ele
comprava um chapéu ele queria o melhor chapéu, ele queria o
que era bom, ele gostava de viver, era um bon vivant. (...) meu
pai... eu era a princesa do meu pai, se existe adoração de um pai
pela filha, era o que meu pai tinha comigo. Ele me tratava, isso
era estranho, ele me tratava totalmente diferente dos demais
filhos, desde pequenininha. (Entrevista concedida em Julho de
2012)

Essa relação, que perpassa muitas dimensões da vida, parece ter contribuído
para que ela tivesse se tornado tão autoconfiante. Gabriel costumava repetir que seu
sonho era que ela fosse advogada, e a filha procurava corresponder às suas expectativas,
conciliando o trabalho e o estudo e afirmando aos familiares e amigos que não queria
casar e que precisava conhecer o mundo. Juscelina fala do pai com muito amor, sua
expressão se modifica quando fala sobre ele. Esse amor que Gabriel demonstrava por
pela filha caçula teve reflexos importantes em vários momentos de sua vida. Devido a
essa adoração ele teve atitudes transgressoras: permitiu que ela trabalhasse fora do
ambiente doméstico aos 12 anos e permitiu que, aos 15 anos, ela fosse estudar e
trabalhar em João Pessoa:

ele falava sempre que queria que eu fosse advogada, aí eu


falava pra ele assim: “como é que você quer que eu seja
advogada se eu moro no meio do mato? (...) quando eu tinha 15
anos ele me chamou e me autorizou. Disse que confiava em
mim e que ele ia deixar eu seguir o meu rumo, que aquilo ia ser
muito difícil pra ele porque os amigos que que iam pensar,

15
porque uma menina...imagina, deve ter sido uma decisão muito
difícil. (Entrevista concedida em julho de 2011)

Num contexto tradicional de organização da hierarquia familiar, em que ao


homem são atribuídos os poderes da força, da autonomia e da lei, a palavra do pai tem a
capacidade de construir a representação da realidade e de moldar projetos de vida.
Como afirma Bourdieu (2007, p. 88), “(...) as proposições paternas têm um efeito
mágico de constituição, de nominação criadora porque falam diretamente ao corpo”.

Sair de casa com a permissão e apoio do pai, apesar da pouca idade e da


condição de mulher, certamente tem um grande peso na construção da coragem e
segurança para enfrentar os desafios da vida solitária na capital do Estado.

A ascensão

É de ferro e em espiral, dando a impressão que


bem em cima se estreita não permitindo a
passagem. Mas, à medida que subo, sinto os
degraus mais largos e firmes e a claraboia
luminosa de onde se devem avistar infinitos
horizontes. O ar se torna cada vez mais leve o
que me dá a certeza de que só há aquela saída, e
mesmo sendo perigosa a subida, meus passos
vão se tornando seguros.

Ascensão, Maria Lúcia Simões

Ao chegar a João Pessoa, Juscelina se hospedou numa casa de conhecidos e foi


trabalhar como datilógrafa do jornal “O Momento”, um importante jornal de esquerda
da Paraíba. Em João Pessoa ela começou a aprender a lidar com as novidades da cidade.
Ela trabalhava de dia e estudava durante a noite. Após terminar o ensino médio, ela
passa num concurso para o Serviço de Processamento de Dados (SERPRO). Nesse
emprego ela conhece Anita, que sonhava conhecer o Rio de Janeiro. Juscelina disse que
um de seus irmãos, Daniel, morava no Rio e elas decidiram, num impulso aventureiro,
ir para lá. Deixaram o emprego, disseram para família que iam fazer um curso e
partiram de ônibus para o Rio.

Juscelina e Anita empregaram-se temporariamente em grandes empresas como


secretárias, saíram da casa de Daniel e alugaram um quartinho em Copacabana.

16
Juscelina se emprega na Texaco e depois do término do contrato nessa multinacional
conseguiu ocupar o mesmo cargo na Coca-Cola. O início da vida profissional numa
multinacional obriga-a a enfrentar o fato de que aquele é um lugar todo feito contra ela.
Seu corpo, seus hábitos, suas maneiras, sua linguagem, seu sotaque: tudo isso é motivo
de estranhamento e deboche. Os seguranças seguem-na nas lojas que passa a frequentar,
os colegas riem da forma como ela atende ao telefone, todos debocham da linguagem
regional impregnada em seu discurso.

Ela costuma caracterizar a si mesma, nessa fase da vida, como um bicho: um


bicho começando no Rio de Janeiro, um bicho estranho, um bicho diferente, uma
aberração da natureza. Diz que nasceu aos dezoito anos: uma vida civilizada teria
começado quando ela abandonou o Nordeste. Aqui começa a fase mais importante de
sua trajetória de ascensão. Nos primeiros anos ela trabalha e estuda sem parar,
esforçando-se para ser o contrário de tudo que remetia ao local de origem. Prefere não
participar da rede de relações de migrantes, pessoas que, segundo ela, não teriam nada
a acrescentar naquele momento de sua vida, e opta por ter amizades com pessoas por
ela consideradas mais refinadas e bem sucedidas. Juscelina realiza um duro trabalho
afetivo de recusa de sua origem, como se reagir ao seu passado pudesse libertá-la dele.
Porém, como nossa estrutura afetiva é muito mais complexa do que as nossas decisões
conscientes mais imediatas, algumas vezes ela tentou uma reaproximação com suas
raízes.

Uma delas foi quando recebeu uma proposta para se mudar para Fortaleza nos
seus primeiros anos de Coca-Cola. Ela levou seu pai, sua mãe e seu irmão mais novo,
Chico, para morarem com ela. Eles foram, mas a convivência entre eles gerou alguns
problemas. O momento mais marcante dessa época para ela foi um dia em que fez, em
sua casa, uma macarronada para alguns colegas de trabalho. Quando todos de sentaram
à mesa e começaram a se servir, Satina perguntou onde estava a farinha. Juscelina sentiu
muita vergonha e chegou a pensar que sua mãe teria feito isso de propósito, para
constrangê-la, porque, na visão dela àquela época, qualquer um seria capaz de saber que
não se come macarronada com farinha.

A sensação de vergonha desse momento acompanhou Juscelina por muitos anos.


A experiência de retorno à família não deu certo e ela voltou para o Rio, mas comprou
uma casa para seus pais em Caiçara, o que levou a que eles tivessem uma enorme

17
melhora de vida. A compra da casa foi também a primeira grande prova de sucesso
financeiro e isso causou um grande impacto na família e na comunidade. A moça da
Coca-Cola, como é conhecida lá, deu a primeira grande prova de ter enricado.

Mais obstinada ainda a seguir sua vida na capital carioca, ela se torna uma
secretária reconhecida por sua eficácia e consegue uma promoção de carreia. Juscelina
foi uma das primeiras mulheres a ter um cargo de supervisora na Coca-Cola. Naquela
época, às mulheres era destinado somente o cargo de secretária e Juscelina odiava ser
secretária. Seu trunfo era a enorme disposição de trabalho, a obsessão por subir na
carreira e a habilidade para atividades operacionais. A disciplina, o rigor e a ambição,
além da inteligência e da grande disposição para enfrentar desafios, foram as
características mais acentuadas do início de sua carreira. O ambiente fortemente
meritocrático e o tipo de ligação moral que ela desenvolveu com o trabalho fizeram com
que assimilasse muito eficazmente os valores liberais ligados ao individualismo, à
liberdade, à construção de uma vida de sucesso por merecimento próprio. Esses valores,
por sua vez, funcionavam como uma forma de legitimar a tentativa sistemática de negar
a divisão moral de sua comunidade de origem, fortemente baseadas na ideia de “família
como espelho” (MENEZES, 2002).

Ela aplicou os aprendizados da “pedagogia do sofrimento” da vida camponesa à


sua carreira no mundo corporativo e ao mesmo tempo procurou se distanciar do
universo moral da família e da comunidade. Essa reação aos valores e práticas do
universo de sua infância manifesta- se em várias dimensões de sua vida. Enquanto o
mundo do trabalho em Caiçara segue o “tempo da política” (PALMEIRA, 1997 ), ela
defende e professa a meritocracia; enquanto seus irmãos vivem a vida de Caiçara ou
fazem viagens temporárias para voltar à terra, ela busca uma vida cosmopolita;
enquanto ela aprimora sua disciplina, seus irmãos se adaptam naturalmente a uma vida
sem horários rígidos; enquanto ela se preocupa com o português hiper correto e com o
aprendizado de outras línguas, seus irmãos se valem da linguagem formalmente
incorreta mas eficaz dentro do círculo de relações e dos poucos espaços que frequentam;
enquanto a família defende uma visão política assistencialista e populista, ela defende
os mais altos ideais republicanos.

Tendo desenvolvido uma moralidade liberal, o esforço pessoal na busca por


melhores condições materiais de existência é, para ela, diretamente ligado à noção de

18
dignidade. A acomodação de seus irmãos em uma situação precária associa-se, então, à
negligência moral. Esse embate de visões de mundo bloqueia a possibilidade de
diálogo. Na nossa primeira entrevista eu perguntei a ela se havia algum irmão que tinha
visões de mundo próximas a dela:

Nenhum. Eu sou a única diferente. Eles se contentam, todos se


contentaram com muito pouco. [respira fundo e embarga um
pouco a voz]. E eu nunca quis me contentar com nada disso. Eu
não me contento com nada. Eu até hoje, se eu faço algo eu olho
e digo: poderia fazer diferente. Eu tenho que entregar algo, eu
entrego 100 por cento, mas eu penso: ah, eu poderia ter feito
diferente. Eu sempre busco me modificar, fazer com que as
coisas não sejam normais. Eu penso: o que eu posso fazer
diferente? Ah, isso aqui tá brilhante, mas nada é tão brilhante
que não possa enxergar novas possibilidades. Então como
natureza minha eu sempre gosto de enxergar novas
possibilidades, eu gosto de ver até aonde as coisas vão, dentro
de uma segurança lógica porque eu sou muito pé no chão, mas
eu gosto de ver novas possibilidades eu não me contento com o
óbvio. (Entrevista concedida em julho de 2012)

Nas visitas que fazia a Caiçara na época em que seus pais ainda estavam vivos
(Satina faleceu em 1995 e Gabriel em 2006), Juscelina se fechava num quarto, com a
desculpa de que tinha que estudar. Seu pai, muito orgulhoso da filha, insistia pra que ela
andasse de braços dados com ele pela cidade para apresentá-la e reapresentá-la a todos
com quem encontrava. Os laços de amor e admiração com o pai continuaram muito
fortes mesmo depois que ela se afastou geográfica e afetivamente da família. Gabriel
ficava sempre a postos esperando o momento de ir a um telefone público receber o
telefonema de Juscelina. Porém, ela foi se tornando cada vez mais intolerante com o
modo de vida de sua família e ao mesmo tempo se ressentia do fato de não ter tido o
carinho que precisava nos momentos mais difíceis de sua trajetória.

A família, por sua vez, cada vez mais distante, passou a ver Juscelina não só
como a irmã caçula que partiu e de quem sentem saudade, mas também como alguém
que poderia oferecer uma vida melhor a eles, além de ser aquela de quem eles podem
conseguir algum prestígio derivado, por serem irmãos da moça da Coca-Cola. A falta
de diálogo e a incompreensão mútua faziam com que os aspectos mais evidentes dessa
complexa relação fossem aqueles manifestados pelas emoções mais explícitas nos
momentos em que estavam juntos. Juscelina ia para Caiçara cheia de presentes e
alimentos para a família, entregava-os e se trancava no quarto os poucos dias em que
19
ficava lá. A família, por sua vez, demonstrava empolgação e alegria pelo recebimento
dos presentes e não conseguia se comunicar eficazmente com Juscelina. O conflito
central se dava da seguinte forma: Juscelina sentia-se instrumentalizada pela família e a
família se sentia rejeitada por ela.

As ligações telefônicas com o objetivo de pedir ajuda financeira eram frequentes


e assim a sensação de estar sendo instrumentalizava era cada vez mais forte,
principalmente quando a esse sentimento somava-se o ressentimento provocado pelas
lembranças dos momentos em que ela sentiu profunda tristeza por se sentir sozinha e
esquecida pela família. Os natais e os momentos em que Juscelina se adoentava eram as
ocasiões em que essa sensação de solidão era mais pungente. Certa vez ela ficou doente
e a Coca-Cola enviou uma assistente social para acompanhá-la. Ao invés de encarar
essa assistência como uma política trabalhista da empresa, sentindo-se sozinha, encarou,
à época, como uma demonstração de carinho e reconhecimento. Como investia sua vida
quase inteiramente ao trabalho e sentia a falta do apoio e da segurança da família, a
socialização profissional de Juscelina teve uma dinâmica particular, caracterizada por
uma grande devoção à instituição. Pelos valores da instituição e pela defesa do que ela
considera um tratamento honesto com a empresa ela inclusive comprou brigas pessoais.

Juscelina se recusava a participar de greves, por achar que numa sociedade de


mercado o empregado deve aceitar as regras do jogo ou se retirar se não estiver
satisfeito. Ela já sofreu retaliações dos colegas por esse comportamento. Depois que
alcançou cargos de gerência, ela se recusava, por exemplo, a receber os bônus por
produtividade, o que levava a discussões com seus colegas. Ela argumenta que já era
muito bem paga e que não tinha que receber nada a mais por fazer o seu trabalho. Ela
procurou se afastar da dominação pessoal de uma sociedade coronelista e patriarcal,
mas a dominação impessoal do capitalismo, exemplarmente representada por uma
corporação como a Coca-Cola, não era vista de forma negativa, já que, afinal de contas,
foi a submissão às regras desse jogo que a libertou definitivamente da dominação
pessoal a que estaria sujeita se tivesse permanecido em Caiçara.

A sincera devoção à empresa, garantidora da autonomia que Juscelina desejava,


algumas vezes descompassava com a intolerância com seus colegas de trabalho. A
grande ambição e a dedicação a um trabalho sempre realizado sob muita pressão trouxe
inquietação, impaciência e intolerância. Nas duas primeiras décadas de vida

20
profissional (ela trabalhou na empresa por 35 anos), ela se define como uma pessoa
muito eficiente, mas também intolerante e cruel. O corte brusco do discurso de seus
subordinados ocorria com frequência. Ela não tinha paciência nem pra ouvir o que
tinham pra dizer, e conta que chegava a fechar os olhos para não observar os
movimentos labiais dos falantes.

A vida acelerada no trabalho era reproduzida nos shoppings. Juscelina se tornou


uma pessoa muito consumista e com as compras gastava também boa parte de suas
horas vagas. No shopping ela dava continuidade ao ritmo frenético do trabalho. O
comportamento consumista guardava um agonismo caracterizado pelo entusiasmo no
ato da compra e pela culpa da acumulação. Ela se auto justificava quando comprava
com a ideia de que o trabalho lhe deu esse merecimento, mas se culpava por acumular
futilidades enquanto sua família e muitos seus conterrâneos nordestinos passavam fome.
Essa mesma culpa, somada a uma sensação de injustiça, ela sentia quando vivia uma
experiência prazerosa e pensava que sua família estava privada disso, seja por faltar a
eles meios materiais, seja por faltar os modos (o “habitus”) que habilitam o sujeito a
determinados tipos de fruição:

Eu tive duas grandes culpas na minha vida. Uma eu sentia


quando eu realmente quando eu tinha acesso, podia comprar.
Quando eu chegava em casa com aquelas sacolas todas, ligava a
tv e sempre tinha umas coisas tristes do nordeste. Agora graças
a Deus melhorou, mas antes era só desgraça, né? Aí eu tinha
uma culpa danada porque como é que tinha pessoas sofrendo
tanto e eu poderia gastar não sei quantos mil reais numa rodada
de compras? Me dava muita culpa. A outra culpa eu carreguei
foi mais profunda ainda. A culpa era que eu queria que a minha
família fosse igual a mim. Eu queria que agissem como eu... o
meu maior sonho era poder levar minha mãe pra tomar um chá
no fim da tarde porque eu sou louca por chá. Essa é maior
frustração porque ela nunca ia tomar um chá. Ia tomar um café
comer lá aquele bolo e olhe lá, mas um chá completo onde você
conversa, troca ideia, isso ela nunca faria. Eu carreguei muito
um sentimento de, assim: mas porque eu não consegui ter uma
família assim? Isso foi muito complicado na minha vida, mas aí
com o amadurecimento você vai aquietando a cabeça, deixa de
ser mais crítica, vai tendo uma observação maior sobre o que te
cerca. Aí eu percebi que eu tava querendo demais, que não eram
eles que tinham que chegar até a mim, que eu que tinha que
chegar até a eles. (Entrevista concedida em maio de 2012)

21
O processo de arrefecimento da dor por não poder compartilhar sua vida com a
família ocorreu, segundo ela, após a fase de maior aceleração da carreira e também a
fase mais intolerante de sua vida: o período entre os trinta e quarenta anos, quando ela
queria ter, ter, ter. No fim dessa fase, aos quarenta anos, ela foi promovida para um
cargo que deveria exercer em São Paulo. Aceitou o desafio de um cargo de gerência, no
qual mais do que realizar atividades operacionais, ela deveria planejar estratégias e gerir
pessoas. A necessidade de se adaptar a um novo lugar e a um cargo que exigia, além de
todas as habilidades já adquiridas na vida profissional, características pouco
desenvolvidas por ela - tolerância, paciência, compreensão, etc- foi fundamental,
segundo ela, para que crescesse como ser humano e passasse da fase do ter, ter, ter
para a fase do ser. Nos últimos quinze anos de sua vida, a fase próxima da
aposentadoria, em que um determinado ciclo da vida se completa, tem procurado se
conhecer melhor. Desde aproximadamente os 40 anos ela tem feito o processo de
autoanálise que deu forma à construção das narrativas a mim (e a ela mesma) dirigidas.

Tendo tido a sorte de encontrar uma narradora habilidosa, com o ânimo para me
contar sua vida e a coragem necessária para vasculhar suas dores, eu pude compreender
melhor a força do mais básico princípio da metodologia psicanalítica: é preciso falar de
suas dores e angústias para compreendê-las e, quem sabe, cicatrizá-las. Como defende
Paul Ricoeur (2000), a narrativa estima, avalia, julga, aprova, condena e, assim, serve de
laboratório para a compreensão das tensões e orientações éticas do sujeito, assim como
da constituição de auto- percepções e representações. É pela escala de uma vida inteira
que o sujeito pode articular as ações curtas (que no momento em que foram realizadas
tinham suas análises reduzidas à gramática do contexto de ação) a um quadro mais
complexo de descrição das características do local de origem, das ações e projetos mais
significativos da vida (profissionais, afetivas, expressivas, etc.), das relações afetivas
mais determinantes, etc.

Juscelina é uma narradora inteligente e sensível, o que leva a que sua narrativa
tenha um encadeamento coerente entre os fatos vividos e as sensações a eles associados.
Isso é possível porque o enredo, ele mesmo, tem um determinado sentido, uma intenção
consciente ou não, algo como o que Bourdieu (1986) chamaria de "ilusão biográfica".
Porém, essa intenção, assim como o enredo, não são fixos. Eles vão sendo remodelados,
repensados ou modificados conforme o tipo de interação estabelecida com o interlocutor
e os ânimos gerados pelas narrativas e pela situação de pesquisa. A narrativa de si não é

22
somente uma ilusão porque o sujeito não é somente a personificação de um "habitus";
ele é também o conjunto de "personas" criadas para dar inteligibilidade à subjetividade
e ele é a soma das emoções variáveis, descontínuas, instáveis que emanam de sua
estrutura afetiva e remodelam não só seus horizontes, expectativas e desejos, mas
também seu passado.

A relação de amor com os pais, por exemplo, mediou a incorporação de


disposições, mas, sendo um afeto profundo, estruturante, esse amor deu origem a muitas
outras dimensões de sua identidade. Sentimentos como ressentimentos, culpas, saudades
e alegrias não deram forma somente a disposições, mas a emoções e reflexões que
foram tecendo sua vida moral. Conforme esse amor fundante vai sendo compreendido
mais densamente (por meio do acesso às memórias) também são mais bem
compreendidas as emoções e as disposições a partir dele geradas.

Desde que nos conhecemos15, impulsionada pela situação de pesquisa, Juscelina


tem se dedicado com afinco a refletir sobre sua vida, desde sua infância até a presente
fase. Esse fato em si já poderia gerar modificações nos comportamento e nas visões
sobre si e sobre o mundo. Porém, o processo reflexivo impulsionado pelas narrativas foi
potencializado pela viagem a Caiçara para realização da pesquisa de campo. Havia pelo
menos quatro anos que ela não ia até lá e a viagem permitiu que ela conhecesse melhor
o passado de sua família e a forma como seus irmãos e sobrinhos a veem. Percebi que
essas novas informações levaram a uma mudança no tom das narrativas, e também a
mudanças objetivas em sua vida.

Cinco anos antes do início da pesquisa, em julho de 2011, Juscelina foi a João
Pessoa com o objetivo de comprar um apartamento na capital. Ela pensava que a cidade
poderia ser um dos lugares onde ela moraria após a aposentadoria. Porém, como se
incomodava com algumas características que via na cidade à época (como o, por ela

15
Minha intenção inicial no doutorado era a de estudar mulheres que haviam migrado de regiões
ruralizadas para regiões urbanizadas e, nas metrópoles, haviam realizado uma trajetória de ascensão
social. Falei sobre isso com uma amiga e ela disse que poderia me apresentar à Juscelina, com quem
trabalhou na Coca-Cola. A trajetória excepcional de Juscelina era relativamente famosa na empresa. Fui
até São Paulo (onde Juscelina trabalhava em julho de 2011) e, após uma primeira entrevista, pensei na
possibilidade de me aprofundar em somente uma trajetória. Tive o consentimento do meu orientador e da
própria Juscelina em fazê-lo, e comecei a pesquisa biográfica em setembro de 2012.

23
considerado, baixo desenvolvimento da cidade), e não se sentia preparada para ficar
mais próxima da família, desistiu da empreitada.

Porém, para a minha surpresa, dois meses após a nossa visita à Paraíba me
encontro com ela para saber das últimas decisões importantes que havia tomado. Após
um desentendimento com a empresa ela decidiu pedir demissão, entrar com o pedido de
aposentadoria, vender seu apartamento no Rio, (comprado há oito meses e onde,
segundo o que havia me dito há oito meses, pretendia passar os próximos anos de sua
vida) e ir morar em João Pessoa. Eu, como todos que a conhecem, fiquei muito
surpresa. Ela justificou que não teve infância, mas que decidiu ter terceira idade, ficar
mais próxima da família e realizar projetos sociais em Caiçara.

Às vésperas de nossa viagem, Juscelina dizia enfaticamente: de Caiçara só quero


distância. Por outro lado, ela já tinha pensado sobre a possibilidade de morar em João
Pessoa. Questionei-a sobre essas dúvidas, que expressam a relação ambígua com o
passado, e Juscelina disse que estava sempre guerreando consigo mesma para fazer essa
escolha e que após a viagem à Caiçara, decidiu que fazer o retorno para a Paraíba.
Agora passo a falar de alguns dos motivos que a impulsionaram a tomar essa decisão.

O retorno

A mulher acreditava tanto que a pessoa é sua própria casa que,


pensando em se reformar, traçou uma planta com as medidas
rigorosamente dentro do esquadro e pintou portas, paredes e janelas.
Plantou flores e passarinhos esvoaçaram em seus olhos. Por eles
avistava-se o brilho dos lustres de cristal acesos, mas mesmo assim,
muitas vezes, embora as cortinas estivessem no lugar e se ouvisse
música, percebia-se que a casa estava vazia e que ela se retirara
discretamente para o porão onde, entre baús e teias de aranha,
folheava velho álbum de fotografias e relia antigas cartas de amor.

O porão, Maria Lúcia Simões.

Iniciei a pesquisa biográfica em julho de 2011. Um mês depois Juscelina me


escreve contando que recebeu uma proposta e por isso sairia da empresa de São Paulo
para trabalhar no Rio. Depois de sua transferência para a capital carioca tivemos muitos
encontros. Eu conheci alguns de seus primos e sobrinhos que moram no Rio e
entrevistei alguns de seus amigos mais próximos. Quando nos conhecemos e travamos
os primeiros contatos, Juscelina e seus colegas de trabalho por mim entrevistados

24
encaravam minha pesquisa como o estudo de um case de sucesso. Aos poucos,
conforme fomos estreitando as nossas relações, ela percebeu que o que procurava
compreender estava muito além disso. Meu interesse era mais dirigido às questões que
nas primeiras entrevistas ficavam silenciadas ou subdesenvolvidas, a maioria ligada à
sua relação com a família.

Depois de algumas entrevistas com amigos íntimos, pude perceber que muitas de
dos conflitos de Juscelina não eram nem mesmo com eles discutidos. Havia um
interdito quando perguntava sobre a relação dela com sua família. Diziam-me que não
costumavam conversar sobre isso, que ela não falava muito sobre o assunto ou que o
que sempre souberam era que ela sempre ajudou a família o tanto quanto pode. Um de
seus amigos chegou a afirmar, sabendo do meu interesse em fazer a pesquisa de campo
em Caiçara, que não haveria o que encontrar lá porque a vida dela estava toda aqui (no
Rio e em São Paulo, mais especificamente no trabalho), e que sua subjetividade se
resumia ao seu trabalho.

Porém, quando expliquei o porquê de eu precisar conhecer sua família e


comunidade de origem para realizar a pesquisa, ela consentiu generosamente com que
eu fosse até lá. Partimos para Caiçara em fevereiro de 2012. Combinamos que ela iria
comigo, ficaria lá por seis dias (três em João Pessoa e três em Caiçara) e me
apresentaria às pessoas. Imbuída da função de me ciceronear, Juscelina visitou algumas
casas por onde nunca tinha passado, como a casa de Francisca, localizada num sítio
próximo a Caiçara, e mostrou para a família uma disposição nova para o diálogo.
Querendo iniciar os assuntos mais delicados para que eu pudesse aprofundá-los depois,
iniciamos nossa jornada de visitas na casa de sua irmã mais velha, Maria.

Na conversa com Maria ela teve sua primeira surpresa quando ouviu sua irmã
caracterizá-la como uma criança muito calada e desgostosa. Pensando que não era
observada e que esse era um segredo somente dela, Juscelina começou, a partir daí, a
ressignificar as memórias de sua infância. Quando ouviu as narrativas sobre a
prosperidade de seu pai no Pará, surpreendeu-se novamente e muitas foram as situações
de uma nova descoberta de seu passado. Um rapaz que conheci por minhas andanças
aos sítios contou-me que Juscelina havia sido sua professora na infância, uma
professora tão boa que ele torcia para que a professora oficial, Darci, faltasse para ter de
ser substituída pela irmã caçula. Segundo ele, Darci era autoritária e Juscelina era doce e

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compreensiva. Pedi a ele que contasse isso a ela e, quando soube, ela se surpreendeu
novamente: Eu já ensinei? Nunca poderia imaginar isso!

Certo dia visitamos as ruínas do sítio onde foi criada e também a casa de uma de
suas irmãs. Uma de suas sobrinhas iniciou uma conversa sobre a relação da tia com a
família. Tiveram uma discussão aberta e Juscelina confessou se sentir instrumentalizada
e esquecida. Sua sobrinha, por sua vez, afirmou que ela era vista como a tia rica porque
essa era a única imagem que ela permitiu que fosse construída sobre ela. As visitas de
Juscelina mobilizavam toda a família: todos deveriam ser muito educados e finos todos
deveriam fazer o possível para não incomodá-la. Deveriam, enfim, ter uma rotina
artificial nos dois ou três dias da visita. Depois disso todos voltavam à rotina normal e
ficavam esperando pela ajuda financeira e pelas visitas, cada vez mais raras, de
Juscelina. Esta, de outro lado, tentava justificar a raridade de suas visitas afirmando que
não se sente amada, mas usada pela família.

A controvérsia chegou a um bom termo quando ambas admitiram que somente


uma maior proximidade afetiva poderia fazer com que esses ressentimentos mútuos
fossem curados. Controvérsias com esse mesmo padrão de argumentos foram repetidas
nos três intensos dias em Caiçara. Se quando chegamos lá Juscelina parecia convencida
de que era alguém que a família só queria explorá-la, no dia em que partiu ela já
pensava em se reaproximar da família.

A ressiginificação do passado, as reflexões causadas pela situação de pesquisa,


os afetos mobilizados na pesquisa de campo e as emoções suscitadas em Caiçara foram
catalizadores de um processo de mudança subjetiva. Juscelina entende que esse
processo viabilizaria uma evolução espiritual. Para evoluir, ela tem procurado cultivar a
paciência (o que exige um grande esforço de contenção de sua inquietação e
intolerância), refrear seus impulsos consumistas, amenizar sua seriedade e rigidez,
controlar sua tendência a fazer julgamentos imediatos e inflexíveis e, a mais difícil de
todas as tarefas, abrir-se para as relações com sua família.

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