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17/10/2019 "O fardo do homem branco": ode ao imperialismo

“O FARDO DO HOMEM BRANCO”: ODE AO IMPERIALISMO


4 de fevereiro de 2015

No nal do século XIX, a Europa controlava a maior parte do mundo e, nesse domínio, sobressaia o poderoso Império Britânico.
 Vivendo em uma ilha com limitados recursos naturais e uma população em rápido crescimento, os britânicos tinham colonizado
diferentes partes do globo a partir do século XVI. Suas colônias na América e na Índia forneciam importantes matérias primas
para as indústrias britânicas e, ao mesmo tempo eram mercado consumidor dos produtos fabricados no Reino Unido.

Por essa época, a África voltava a ser fonte de interesse de industriais e políticos europeus, não mais para explorar o comércio de
escravos como nos séculos anteriores, mas sim para se apoderar de seus recursos naturais – borracha, petróleo, carvão, cobre,
ouro, cacau -, muitos dos quais eram essenciais para a orescente economia industrial europeia.

África devassada
Se, até 1870, o interior da África permanecia desconhecido dos europeus e era
governado por seus próprios reis, rainhas e chefes de clãs, a partir daquela
década rapidamente a situação começou a mudar. A miragem de tesouros
fabulosos e de uma natureza desa adora e ainda intocada estimulou aventureiros
transformados em heróis pela imprensa europeia e norte-americana. Entre eles,
destacou-se o médico e missionário escocês David Livingstone que, de 1849 até
sua morte, em 1873, fez diversas expedições à África Central convertendo nativos
e curando doentes.

Já o jornalista galês-americano Henry Morton Stanley não tinha a mesma


preocupação humanitária. Suas expedições à África central, de leste a oeste, entre
1874 e 1878,  revelaram o sistema de navegação da bacia do Congo – informação
valiosa que, repassada a Leopoldo II, da Bélgica, mediante generosa soma em
dinheiro, permitiu ao rei belga encontrar uma saída a oeste, pelos portos suaílis,
A França, simbolizada pela mulher com armadura, é
recebida pelas populações coloniais. Em seu escudo para as riquezas extraídas do Congo Belga. A população nativa, submetida ao
está escrito: “progresso”, “civilização” e “comércio”. trabalho forçado para entregar mar m e borracha aos colonizadores belgas,
Capa de livro escolar, ilustração de G. Dasher, 1900.
quase foi exterminada.

A violência dos métodos da exploração belga, considerada mais e caz e rentável,


foi seguida por outras potências europeias presentes no continente: França no Congo francês, Portugal em Angola, Alemanha em
Camarões e na África Oriental Alemã (atual Tanzânia).

 A Conferência de Berlim
A Conferência de Berlim, realizada entre 19 de novembro de 1884 e 26 de fevereiro de 1885 o cializou a partilha da África.  A ata
geral foi assinada pela Alemanha, Áustria-Hungria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Itália, Noruega, Países Baixos, Portugal, Reino
Unido, Rússia e Suécia, e reconhecida pelo Império Otomano e pelos Estados Unidos.

As autoridades europeias assinaram “em nome de Deus onipotente” e sob uma justi cativa “civilizadora” e “humanitária” que
jamais foi aplicada no continente africano.

O artigo 6 da ata geral alertava para as “disposições relativas à proteção dos autóctones, dos missionários e dos viajantes, assim
como à liberdade religiosa”. Estabelecia que todas as potências “comprometiam-se a velar pela conservação das populações
autóctones e pelo aperfeiçoamento de suas condições morais e materiais de existências, assim como a concorrer para a
supressão da escravidão e sobretudo do trá co de negros”.

As potências colonizadoras comprometiam-se “a proteger e favorecer, sem distinção de nacionalidades nem de cultos, todas as
instituições e todos os empreendimentos religiosos, cientí cos ou caritativos criados ou organizados para tais ns ou tendentes a

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instruir os autóctones e a fazê-los compreender e apreciar as vantagens da civilização”.

A África foi repartida entre as potências europeias. Ao iniciar o século XX, só


restavam dois Estados independentes: a Etiópia e a Libéria.

Leopoldo II, o hipócrita


Nessa retórica de hipocrisia, Leopoldo II revelou-se imbatível. Perante a opinião pública nacional e internacional tratava de
aparentar atitudes humanitárias. Organizou, em Bruxelas, uma Conferência Geográ ca Internacional (1876) dando entender que
seu interesse na África limitava-se a explorações geográ cas e cientí cas. Poucos anos depois, Bruxelas sediou a Conferência
Antiescravagista (de novembro de 1889 a julho de 1890) durante a qual, Leopoldo apresentou-se como campeão da luta contra os
tra cantes árabes.

Enquanto isso, as populações congolesas tiveram suas terras con scadas, foram obrigadas a pagar impostos, a fornecer víveres
aos colonizadores, e caram proibidas de explorar suas riquezas em benefício próprio – o mar m e a borracha foram declarados
monopólio do Estado belga.

O transporte das mercadorias era feito às costas de centenas de nativos, e continuou assim mesmo depois da construção da
ferrovia entre Léopoldville (Kinshasa) e Matadi (1890-1898). Uma testemunha, descreve a respeito desse trabalho  forçado:

“Incessantemente encontramos esses carregadores, isolados ou em fila indiana, negros, miseráveis, tendo
como única vestimenta uma tanga horrivelmente imunda, a carapinha nua suportando a carga, caixote,
fardo, presa de marfim, cesto atulhado de borracha, barril, franzinos em sua maioria, cedendo sob o peso
multiplicado pelo cansaço e pela comida insuficiente, feita de um punhado de arroz e de peixe seco
infecto (…) morrendo ao longo do trajeto ou, terminando este, indo morrer em suas aldeias.”

“O fardo do homem branco”


Foi nesse contexto histórico que o poeta britânico Rudyard Kipling, conhecido pelos ensaios e poemas favoráveis ao
imperialismo incluindo The Jungle Book (1894), publicou, em 1899 seu poema The white man’s burden, “O Fardo do Homem
Branco” (abaixo, em tradução livre).

The White Man’s Burden   O fardo do homem branco

Take up the White Man’s burden Tomai o fardo do Homem Branco


Send forth the best ye breed Enviai vossos melhores lhos
Go, bind your sons to exile Ide, condenai seus lhos ao exílio
To serve your captives’ need; Para servirem aos vossos cativos;
To wait, in heavy harness, Para esperar, com chicotes pesados

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On uttered folk and wild– O povo agitado e selvagem


Your new-caught sullen peoples, Vossos cativos, tristes povos,
Half devil and half child. Metade demônio, metade criança.

Take up the White Man’s burden Tomai o fardo do Homem Branco


In patience to abide, Continuai pacientemente
To veil the threat of terror Ocultai a ameaça de terror
And check the show of pride; E vede o espetáculo de orgulho;
By open speech and simple, Ao discurso direto e simples,
An hundred times made plain, Uma centena de vezes explicado,
To seek another’s pro t Para buscar o lucro de outrem
And work another’s gain. E obter o ganho de outrem

Take up the White Man’s burden Tomai o fardo do Homem Branco


The savage wars of peace– As guerras selvagens pela paz 
Fill full the mouth of Famine, Enchei a boca dos famintos,
And bid the sickness cease; E proclamai o cessar das doenças
And when your goal is nearest E quando o vosso objetivo estiver
(The end for others sought) próximo
Watch sloth and heathen folly (O m que todos procuram)
Bring all your hope to nought. Assisti a indolência e loucura pagã
Levai toda sua esperança ao nada
Take up the White Man’s burden
No iron rule of kings, Tomai o fardo do Homem Branco
But toil of serf and sweeper– Sem a mão de ferro dos reis,
The tale of common things. Mas o trabalho  penoso de servos
The ports ye shall not enter, A história das coisas comuns 
The roads ye shall not tread, As portas que não devei entrar,
Go, make them with your living As estradas que não devei passar,
And mark them with your dead. Ide, construí-as com as suas vidas
E marcai-as com seus mortos.
Take up the White Man’s burden,
And reap his old reward– Tomai o fardo do Homem Branco
The blame of those ye better E colhei vossa recompensa de sempre
The hate of those ye guard– A censura daqueles que tornais melhor
The cry of hosts ye humour O ódio daqueles que guardais
(Ah, slowly!) toward the light:– O grito dos reféns que vós ouvi
“Why brought ye us from bondage, (Ah, devagar!) em direção à luz:
Our loved Egyptian night?” “Por que nos trouxeste da servidão,
Nossa amada noite no Egito?”
Take up the White Man’s burden–
Ye dare not stoop to less– Tomai o fardo do Homem Branco
Nor call too loud on Freedom Não tendais impedir
To cloak your weariness. Não clameis alto pela Liberdade
By all ye will or whisper, Para ocultar sua fadiga
By all ye leave or do, Por tudo que desejai ou con denciai
The silent sullen peoples Por tudo que permitir ou zer
Shall weigh your God and you. Os povos soturnos e calados
Medirão vosso Deus e vós.
Take up the White Man’s burden!
Have done with childish days– Tomai o fardo do Homem Branco!
The lightly-pro ered laurel, Acabaram-se vossos dias de criança
The easy ungrudged praise: O prêmio leve ofertado
Comes now, to search your manhood O louvor fácil e glorioso:

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Through all the thankless years, Vinde agora, procura vossa virilidade


Cold, edged with dear-bought wisdom, Através de todos os anos difíceis,
The judgment of your peers. Frios, a ados com a sabedoria adquirida,
O reconhecimento de vossos pares.

Nascido em Bombaim, na Índia britânica, em uma família aristocrática, Rudyard Kipling (1865-1936) teve uma infância marcada
pelas histórias de encantamento contadas pelos criados indianos que serviam à família. Essas, com certeza, in uenciaram seu
trabalho de escritor e  lhe renderam o Prêmio Nobel de Literatura, em 1907.

O Fardo do Homem Branco talvez seja o trabalho mais curto de Kipling. Mas aquelas sete estrofes, tornaram o poema
emblemático e o mais criticado até hoje.

A mensagem era bastante simples: Kipling justi cava o imperialismo não pela busca e exploração dos recursos naturais, mas sim
como uma necessidade para levar a “civilização” aos lugares mais “atrasados” do planeta.

A línguas europeias, a religião cristã, as técnicas, a educação, a medicina e até mesmo noções de higiene deveriam ser levadas
aos “selvagens”, isto é, os não-brancos. Este era o “fardo”, a missão difícil e pesada do homem branco “civilizado” para os “tristes
povos, metade criança, metade demônio”.

Charge faz apologia ao poema de Kipling mostrando um americano e um britânico carregando seus respectivos fardos.

O poema traduzia a mentalidade progressista do nal do século XIX.  Apresentava uma certa generosidade em relação aos povos
conquistados – “levar a paz”, “encher a boca dos famintos”, por m às doenças e “levar a esperança ao nada” – o que, naquele
contexto histórico soava como um eufemismo, uma idealização distante da brutalidade do que então ocorria nas colônias
europeias da África e Ásia. As teorias do darwinismo social, da eugenia e do racismo cientí co forneciam justi cativas à expansão
imperialista.

O poema de Kipling passou a ser visto como um símbolo do imperialismo. Em resposta à sua publicação, missionários
evangélicos e padres foram enviados a todos os cantos do planeta determinados a difundir o cristianismo a qualquer custo.
Escolas sob padrão europeu foram abertas para ensinar a árabes, africanos, chineses e indianos a língua da potência imperialista.
Estilos de vida e moda europeia foram introduzidos em todo planeta.

A partilha da África deixou um legado dramático que as nações africanas tiveram de lidar a partir da  segunda metade do século
XX e que persiste ainda hoje. Estabeleceu fronteiras que não respeitaram grupos étnicos, que misturaram povos rivais ou
separaram culturas. A monocultura, o trabalho forçado e o abandono da produção familiar provocaram subnutrição, fome e
epidemias, destruíram as trocas internas no continente e deixaram os Estados africanos dependentes do mercado externo.

Questões para debater em classe à luz do poema:

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1. Quem seria o “homem branco”? A quem ele se opõe?


2. Que palavras e expressões o poeta usa para se referir aos povos colonizados pelo “homem
branco”?
3. Como o “homem branco” é apresentado no poema?
4. Em que contexto histórico esse poema foi escrito?
5. Por que o autor denomina o imperialismo de “o fardo do homem branco”?
6. Qual era o “ m que todos procuram” (3ª estrofe)?
7. Em que ideias, crenças ou visão de mundo o poema se baseia?
8. Quais as consequências sociais resultantes desse pensamento?
9. Qual seria o fardo enfrentado pelos africanos que têm que lidar com os brancos europeus?

Fonte
O sabonete Pears, de fabricação
inglesa, anunciava seu poder de
FERRO, Marc (org.). O livro negro do colonialismo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.
limpeza luminosa aos cantos
escuros (isto é, “sujos”) da terra 4.1 226
por onde a “civilização”
avançava. Início do séc. XX.

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