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O MARTELO DE DEUS

A Bíblia e Seus Críticos

Gordon H. Clark

TRADUÇÃO: EDU MARQUES & STÉLIO SALVADOR

REVISÃO: LUCAS LEMOS

Projecto : Cosmovisão Escrituralista

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Moçambique: Maputo – Cidade
Projecto: Cosmovisão Escrituralista
1ª Edição - 31 de Agosto de 2019
Contactos: +258 824333272 / +55 349954-1610
E-mail - steliosalvadornaete@gmail.com
Publicado originalmente em inglês sob o título:
God‟s Hammer: The Bible and Its Critics
Publicado pela: Trinity Foundation, EUA
Primeira Edição Copyright © 1982 John W. Robbins
Segunda Edição Copyright © 1987 John W. Robbins
Terceira Edição Copyright © 1995 John W. Robbins
Quarta Edição Copyright © 2011 Laura K. Juodaitis
Todas as citações Bíblicas foram extraídas da
Versão: João Ferreira de Almeida – Corrigida, Fiel ao texto original. Excepto em casos
indicados.

Você está autorizado e incentivado a reproduzir e/ou distribuir este material em


qualquer formato, desde que informe o autor, as fontes originais e o tradutor, e que
também não altere o seu conteúdo nem o utilize para quaisquer fins comerciais.

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ÍNDICE

Prefácio por Harold Lindsell

Agradecimentos

Introdução por John W. Robbins

1. Como Posso Saber Que a Bíblia é Inspirada?

As Reivindicações Bíblicas
O Significado da Inspiração
Inspiração Plenária
Inspiração Verbal
Uma Revelação Escrita
A Prova da Inpiração
O Testemunho do Espírito Santo
O Fator do Pecado

2. A Bíblia como Verdade


O Efeito do Pecado no Conhecimento do Homem
Limitações Epistemológicas do Homem
O Conhecimento do Homem em Relação com o de Deus
A Verdade é Proposicional

3. Inspiração Verbal Ontem e Hoje


A Objeção do Ditado
Teorias Contemporâneas

4. A Sociedade Evangélica Teológica de Amanhã


A Visão que a Bíblia tem de si Mesma
Podemos Apelar à Bíblia?
A Presente Tarefa
Os Golpes da Batalha
A Infalibilidade é Inútil?
Doutrinas Evangélicas

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Autoridade Bíblica
Necessidade Humana
O Critério
A Sociedade Evangélica Teológica

5. Revelação Divina Especial como Racional


Inadequação da Revelação Geral
Defesa da Revelação como Racional
A Tentativa da Escolástica Medieval
O Ataque Renascentista
O Compromisso Neo-Ortodoxo
O Caminho da Reforma
Alguns Problemas Contemporâneos

6. Religião Revelada
Teologia Natural Estrita
Mais ou Menos
Teologia Natural Solta
O Encontro
Revelação Verbal

7. As Escrituras Sagradas

8. O Conceito de Autoridade Bíblica


O que é Autoridade?
Inerrância e Infalibilidade
Jack Rogers
Bernard Ramm
David Hubbard

9. Teoria da Linguagem e Inspiração de Hamilton


Mito
Linguagem
Revelação
João Calvino

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Verdade Literal
Parábola

10. O Que é a Veradade?


Epistemologia
Idéias e Proposições
A Bíblia

11. A Fé Reformada e a Confissão de Westminster


Ateísmo
Neo-Ortodoxia
Arminianismo e Calvinismo

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PREFÁCIO

Atualmente, duas áreas da doutrina Cristã estão na vanguarda da discussão por


acadêmicos em faculdades e universidades e por pessoas nos bancos: Cristologia e
Bibliologia. Uma tem a ver com a Palavra de Deus escrita - que é a Bíblia, e a outra, a
Palavra de Deus encarnada - que é Jesus Cristo.

No centro da discussão Cristológica está a questão: De onde obtemos o nosso


conhecimento sobre a pessoa e a obra de Jesus Cristo? A resposta é simples o suficiente.
O único Jesus que a Igreja conheceu ou pode conhecer é o Jesus da Escritura. Assim, se
a Escritura nos diz o que precisamos saber sobre a segunda pessoa da Trindade, ainda
nos resta outra pergunta: É a fonte (isto é, a Bíblia e seus sessenta e seis livros), dos
quais obtemos nosso conhecimento sobre Jesus um livro confiável? Isto abre a porta
para três possibilidades:

1. A Bíblia está livre de todos os erros no todo e nas partes.

2. A Bíblia está livre de erros em algumas de suas partes, mas é falsa em outras partes.

3. A Bíblia não é totalmente confiável e não pode ser confiada a qualquer verdade.

Quem escolhe qualquer uma destas proposições depende de algum pressuposto básico a
partir do qual o investigador começa. Em nosso mundo moderno há basicamente duas
maneiras pelas quais os homens escrevem teologia, e cada uma delas envolve um
pressuposto que acaba de forma bem diferente.

Com toda a probabilidade, a maioria dos estudiosos no Ocidente de hoje escolheria a


opção 2. Marxistas e muitas pessoas que aderem à denominação Universalista Unitária,
escolheriam mais provavelmente a opção 3.

Mas quem escreve teologia corretamente começa com a pressuposição de que a Bíblia é
um livro divino. Eles não negam que houve autores humanos que estavam envolvidos
na escrita da Palavra de Deus. Os escritores da Sagrada Escritura foram divinamente
inspirados pelo Espírito Santo, de modo que foram impedidos de escrever qualquer
coisa que fosse falsa. A autoria divina do Espírito Santo garantiu que o produto final

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seria a Palavra de Deus sem erros, exatamente como o Jesus histórico foi o Filho de
Deus sem pecado que foi concebido pelo mesmo Espírito Santo no ventre da Virgem
Maria. visto que Deus não pode mentir, nenhuma parte da Escritura é falsa. Deus
onipotente das Escrituras não gaguejou em seu discurso.

Isto nos leva a Gordon H. Clark e suas muitas contribuições para a defesa da ortodoxia
histórica. Neste volume, a caneta erudita deste gigante do século XX é usada para
explicar e defender a doutrina de uma Escritura inerrante. Os insights do Dr. Clark são
instruídos pelas Escrituras. Ele é o homem por excelência daquele Santo Livro, a Bíblia.

Existem poucos sistemas filosóficos, se é que existem, que não estão sob o escrutínio
deste homem de Deus, e em todos os casos ele olhou para eles através dos óculos da
revelação divina. Ele tem o raro dom de ser um logicista consumado. Ele usa a lei da
contradição com efeito revelador. Ele sabe e emprega todas as leis da lógica, e ele pode
detetar um erro em qualquer silogismo que desafia essas leis. Ele é implacável em sua
busca da verdade, e ele brilhantemente demonstra as falácias lógicas daqueles que
denigrem a Escritura ou que pelo uso da hermenêutica casuística minam a Palavra de
Deus e a fazem parecer dizer o que não diz.

É sem dúvida lamentável que aqueles que se opõem à ideia de que a Bíblia não tem
erro não estão familiarizados ou não chegaram a um acordo com os escritos deste
expositor destemido. O Dr. Clark foi para a sua eterna recompensa no seu octogésimo
terceiro ano, mas apesar de estar morto, continua a falar através do legado que nos
deixou - um legado que resistirá ao teste do tempo até que aquele que é a Verdade
venha novamente em glória.

Harold Lindsell

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AGRADECIMENTOS

Nossa gratidão é estendida aos seguintes proprietários dos direitos de cópia por sua
permissão para reimprimir o ensaio incluído neste volume:

The Moody Press, Instituto Bíblico de Chicago Moody, Chicago, Illinois, pela
permissão para reimprimir “Como Posso Saber que a Bíblia é Inspirada?” de Posso
confiar na Bíblia? Editada por Howard Vos, copyright 1963.

Biblioteca Sacra, Seminário Teológico de Dallas, Dallas, Texas, pela permissão para
reimprimir “A Bíblia como Verdade”, copyright 1957.

O Jornal Presbiteriano, Asheville, Carolina do Norte, pela permissão para reimprimir


“Inspiração Verbal: Ontem e Hoje”, copyright 1956.

A Sociedade Evangélica Teológica, Jackson, Mississippi, pela permissão para


reimprimir “A Sociedade Evangélica Teológica de Amanhã”, copyright 1966; “As
Escrituras Sagradas”, copyright 1963; e “Teoria da Linguagem e Inpiração de
Hamilton”, copyright 1972.

Editora Zondervan, Grand Rapids, Michigan, pela permissão para reimprimir “Religião
Revelada”, de Fundamentos da Fé, editado por Carl F.H. Henry, copyright 1969.

Editora Baker Book, Grand Rapids, Michigan, pela permissão para reimprimir
“Revelação Divina Epecial como Racional”, de Revelação e Bíblia, editado por Carl
F.H. Henry, copyright 1958.

Editora Presbiteriana e Reformada, Phillipsburg, New Jersey, pela permissão para


reimprimir O Conceito de Autoridade Bíblica, copyright 1979.

Seminário Teológico da Aliança, St. Louis, Missouri, pela permissão para reimprimir
“O Que é a Verdade?” da edição de Outono de 1980 de Presbuterion.

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O ensaio final, “A Fé Reformada e a Confissão de Westminster”, é um endereço
entregue em Weaverville, Carolina do Norte, 17 de agosto de 1955.

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INTRODUÇÃO

O século XX pode ser um período crucial na história da humanidade, pois as doutrinas


da justificação somente pela fé e da verdade somente pela Bíblia sofreram um ataque
tão severo e contínuo. Esse ataque, que tem sido contrariado por apenas algumas
dezenas de milhões de Cristãos professos, na América, veio principalmente de dentro da
própria igreja. Ele demonstrou que os lobos estão dentro do aprisco das ovelhas, e em
muitos casos, estão na verdade se fazendo passar por pastores.

Ao longo das décadas, o maior defensor da fé Cristã no século XX escreveu uma série
de ensaios que defenderam a autoridade, a necessidade, a clareza e a suficiência da
Palavra de Deus - ensaios que reunimos neste volume. O foco deste livro não está na
arqueologia ou na história, mas nos ataques filosóficos que foram levantados contra a
idéia da revelação divina, a adequação da linguagem humana, a noção da verdade literal
e a confiabilidade da lógica humana. Os críticos da Bíblia do século XX não se
contentaram apenas em impugnar a veracidade de Deus, eles negaram sua capacidade
de revelar-se aos homens em proposições inteligíveis e afirmaram que a mente do
homem é constitucionalmente incapaz de compreender as coisas divinas.

Aqui, esses críticos são respondidos, e com efeito devastador. A Bíblia é infalível, a
lógica é indispensável, a linguagem é adequada e Deus, sendo onipotente, é capaz de
revelar a verdade aos homens. Da mesma forma e à vontade na filosofia e teologia
secular e teologia e filosofia Cristã, o Dr. Clark martela os críticos de Deus com as
ferramentas da Escritura e da lógica. Quando ele termina, os críticos são achatados, suas
vozes silenciadas. Dr. Clark, emitando os métodos de Cristo para lidar com os seus
críticos e defender a verdade, alcança o mesmo efeito, que é o efeito que todos os
defensores da fé Cristã devem procurar alcançar: “E ninguém podia responder-lhe uma
palavra.”

John W. Robbins
Março de 1995

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COMO POSSO SABER QUE A BÍBLIA É INSPIRADA?

A questão deste capítulo diz respeito à inspiração da Bíblia. Deve ser claramente
distinta da outra questão, com a qual pode ser confundida: Como posso saber que a
Bíblia é verdadeira? Essas duas questões estão realmente relacionadas, mas não são a
mesma. Elas foram até respondidas de maneiras opostas. O movimento contemporâneo
de teologia chamado Neo-ortodoxia afirma que a Bíblia é inspirada, mas também afirma
que ela não é completamente verdadeira. E, obviamente algum outro livro, como The
Gathering Storm de Churchill, poderia ser inteiramente verdadeiro sem ser inspirado.
Esse livro pode até ser chamado de infalível. A verdade e a inspiração devem ser
distinguidas.

No entanto, essas duas ideias, estão intimamente relacionadas, especialmente no caso da


Bíblia. Os escritores Neo-ortodoxos podem tentar manter uma Bíblia inspirada, mas
apenas equivocada, porque mudaram o significado de inspiração. Quando a definição
Bíblica de inspiração é usada, não pode haver inspiração sem verdade, embora haja
frequentemente verdade sem inspiração. Para o Cristão, portanto, a questão da verdade é
uma questão a prior, e a menos que a Bíblia seja verdadeira, não há muita utilidade em
discutir inspiração.

Algumas das evidências de que a Bíblia é verdadeira são apresentadas em outros


capítulos deste livro. Pesquisas arqueológicas e históricas confirmam a história Bíblica
em numerosos casos. Esse material será aqui assumido.

Além da evidência histórica da verdade da Bíblia, há também um suporte lógico para a


conclusão. Se a Bíblia faz declarações contraditórias, então, independentemente da
arqueologia e da história, parte da Bíblia deve ser falsa. Podemos não saber qual metade
da contradição é falsa e qual é a verdadeira, mas estaremos logicamente certos de que
as ambas partes não podem ser verdadeiras.

Não é o propósito deste capítulo discutir em detalhes qualquer das alegadas


contradições. A maioria delas é baseada em interpretações errôneas bastante confusas.
Algumas permanecem como enigmas porque não sabemos o suficiente sobre as

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condições antigas. Embora possamos supor como elas podem ser explicadas, não temos
evidências objetivas de que nossas suposições estejam corretas. No
entanto, para condenar a Bíblia de inconsistência, deve haver (1) várias, (2) claras
e (3) instâncias importantes. Mas as instâncias não resolvidas não são muitas e não são
claras ou sem importância. Somos livres, portanto, de supor que elas não serão, em
última instância, insolúveis.

Agora, então, a Bíblia é inspirada? Sua verdade, ou pelo menos sua confiabilidade geral,
é assumida; mas queremos saber se a Bíblia - como The Gathering Storm de Churchill -
é simplesmente um livro de história que é verdadeiro, ou se ela é a Palavra de Deus.

As Reivindicações Bíblicas

A primeira razão para crermos que a Bíblia é inspirada é que a Bíblia afirma ser
inspirada. Quando esse motivo é oferecido a um incrédulo, quase sempre sua reação
imediata é o escárnio. Para ele é como colocar um mentiroso no suporte das
testemunhas e fazer com que ele jure dizer a verdade. Mas porquê um mentiroso? As
testemunhas honestas também juram dizer a verdade? No entanto, até mesmo um
Cristão com um pouco de lógica pode se opor a este procedimento porque parece
implorar a questão. Isto é um argumento circular. Acreditamos que a Bíblia seja
inspirada porque faz a reivindicação, e acreditamos na reivindicação porque é
inspirada e, portanto, verdadeira. Esse não parece ser o caminho certo para argumentar.

Deve ser garantido que nem toda afirmação é ipso facto1 verdadeira. Houve falsas
testemunhas no tribunal, houve falsos Messias, e houve revelções falsas e fraudulentas.
Mas ignorar a reivindicação da Bíblia, ou de testemunhas em geral, é tanto uma
simplificação excessiva quanto um erro. Por exemplo, suponha que a Bíblia realmente
diga que não é inspirada. Ou suponha simplesmente que a Bíblia é completamente
silenciosa sobre o assunto - que não faz mais reivindicação de inspiração divina do que
Churchill. Nesse caso, se o Cristão afirma que o livro é inspirado, o incrédulo
certamente responderá que ele está indo longe da evidência.

1
[Expressão latina que significa – pelo próprio facto]

13
Essa é certamente apenas uma resposta. Não há motivos para fazer afirmações além
daquelas que podem ser inferidas de forma válida das declarações da Bíblia. Mas,
porque esta resposta é tão simples, segue-se que o escárnio do incrédulo na nossa
primeira observação foi sem fundamento. O que a Bíblia afirma é uma parte essencial
do argumento. O Cristão está bem dentro dos limites da lógica para insistir que o
primeiro motivo para se acreditar na inspiração da Bíblia é que ela faz essa afirmação.

A verdade de uma conclusão depende da verdade de suas premissas. Isso significa que o
próximo passo é mostrar que, de fato, a Bíblia faz essa afirmação. Muitas pessoas boas
que têm um conhecimento justo dos conteúdos da Bíblia seriam inclinadas a omitir este
passo como desnecessário. É claro que a Bíblia faz essa afirmação. No entanto, nem
todos estão tão familiarizados com o que a Bíblia diz. Mesmo aqueles que têm um
conhecimento justo podem não perceber o quão insistentemente a Bíblia faz essa
afirmação. E há outros que, preocupados com problemas críticos e supostas imprecisões
e ainda desejosos de manter a Bíblia como muito importante ou mesmo como um
documento religioso necessário, pensam que podem descartar a inspiração, enquanto
mantêm a Bíblia como uma fonte razoavelmente confiável de conhecimento religioso.
Tais pessoas podem pensar que há apenas alguns pequenos erros na Bíblia ou muitos
erros ou - como é particularmente o caso neste período do meio do século XX - que a
Bíblia é inteiramente uma fábula. No entanto, elas defendem-na como, em certo sentido,
um guia religioso. Esta visão muito difundida perde toda aparência de lógica quando
confrontada com as reivindicações reais de inspiração que encontramos em toda a
Bíblia.

O Significado da Inspiração

Há outra razão para analisar as reivindicações Bíblicas da Inspiração. Fazendo isso,


vamos ver o que a Bíblia quer dizer por inspiração. Recentemente na teologia, a Bíblia
foi chamada de inspirada no sentido de que as peças de Shakespeare podem também ser
chamadas de inspiradas. Ou seja, elas são inspiradoras; elas nos excitam, elas elevam
nossas ideias, elas ampliam nossos pontos de vista e nos dão uma compreensão da
natureza humana. Sobre este significado de inspiração, geralmente é dito que nem todas
as partes da Bíblia são igualmente inspiradas. As genealogias são desnecessárias e sem
inspiração.

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Mas isso é o que a Bíblia quer dizer por inspiração? Nós, certamente deveríamos ser
muito cautelosos com o que queremos dizer quando discutimos esse assunto. Se duas
pessoas tiverem dois significados diferentes em mente, sua conversa terá objectivos
cruzados e um não poderá entender o outro. Da mesma forma, se uma pessoa por si
mesma estuda sobre a inspiração (ou qualquer outro assunto) e não tem um conceito
claro do que está estudando, ela não pode confundir ninguém por tanto tempo visto que
mantêm seu pensamento para ela mesma; mas seus pensamentos em sua própria mente
serão confusos, e lhe vai faltar compreensão. Infelizmente, isso é muitas vezes o que
acontece nesse caso.

Talvez a reivindicação mais conhecida da Bíblia sobre a inspiração seja 2 Timóteo


3:16: “Toda a Escritura é dada por inspirção de Deus, e é proveitosa para a doutrina”2, e
assim por diante.

A palavra Inglesa inspiração, com o seu prefixo in, dá a impressão de que depois da
Bíblia (ou um livro da Bíblia) ter sido escrita, Deus soprou nela. No entanto, a palavra
Grega não significa inspirar, significa expirar. Deus soprou as Escrituras. Podemos
dizer metaforicamente que as Escrituras são o sopro de Deus. Assim, a reivindicação é
realmente mais forte do que parece em Inglês.

Inspiração Plenária

Também é notável a referência em todas as partes das Escrituras. Essa ideia devemos
chamá-la de inspiração plenária da Escritura. Deus soprou tudo dela. As diferenças na
tradução não afetam esse ponto. A Versão Americana Padrão, Weymouth e a Bíblia
Alemã têm “todas as Escrituras”; a tradução Francesa, a Versão Padrão Revisada e a
Moffatt concordam com a King James. É uma reivindicação clara de inspiração
plenária. A este versículo pode ser adicionado João 10:35, “a Escritura não pode ser
anulada”. O ponto exato da observação de Cristo é que toda a Escritura é autoritária.
Outra passagem que envolve a mesma coisa é 2 Pedro 1:20,21: “Sabendo primeiramente
isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia

2
[Nota do Tradutor] Tradução direta da versão do autor.

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nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus
falaram inspirados pelo Espírito Santo.” Pode-se a princípio, imaginar se há
alguma “Escritura” que não é “profecia”, que, caso este verso não se aplicasse a toda a
Bíblia; seria aplicável apenas as profecias na Bíblia e não ao resto das Escrituras. Uma
resposta parcial é que Moisés foi um profeta e que, portanto, mesmo o livro de Levítico
pode ser chamado de profecia. A profecia não é necessariamente predição; é qualquer
mensagem de Deus. A frase “profecia da Escritura” significa simplesmente a mensagem
divina como escrita. Note depois o negativo universal: o verso diz que, “nenhuma
profecia”. Isso abrange tudo.

Outra dificuldade é a palavra particular. O contraste pretendido, no entanto, não é com


uma suposta interpretação pública, mas com uma interpretação divina. É por isso que o
versículo 21 explica o versículo 20; Caso contrário, o segundo versículo não teria uma
razão inteligível para o primeiro. Nenhuma profecia da Escritura é de particular
interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas
os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo. Assim, a passagem é
uma forte afirmação da origem divina da mensagem.

Uma vez que a última referência levantou a questão de saber se toda a Escritura é uma
profecia, alguns outros versículos relativos a Moisés podem ser adicionados aqui. O
ponto principal, no entanto, não é mostrar que Moisés foi um profeta, mas sim mostrar a
afirmação da inspiração da Bíblia. É claro que Moisés foi um profeta. “Este é aquele
Moisés que disse aos filhos de Israel: O Senhor vosso Deus vos levantará dentre vossos
irmãos um profeta como eu; a ele ouvireis.” (Atos 7:37). “E nunca mais se levantou em
Israel profeta algum como Moisés, a quem o SENHOR conhecera face a face”
(Deuteronômio 34:10). Este último versículo indica que Josué era inferior a Moisés, de
modo que Moisés só poderia ser comparado com Cristo. O próprio Cristo
disse: “Porque, se vós crêsseis em Moisés, creríeis em mim; porque de mim escreveu
ele. Mas, se não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?” (João
5:46, 47).

A autoridade profética mencionada em 2 Pedro 1:21 se aplica a todo o Antigo


Testamento, e é mostrada não apenas em João 10:35, anteriormente citado, mas também
em muitas outras passagens. Romanos 3:2 designa todo o Antigo Testamento como os

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oráculos de Deus. Em Lucas 24:44, Jesus coloca a Lei de Moisés, os Profetas e os
Salmos no mesmo nível. Da mesma forma, Todas as designações inclusivas são
encontradas em Lucas 24:25, 27; Mateus 5:17; 7:12; 11:13; Atos 3:21, 22; 26:22, 27;
28:23; Romanos 3:21. Uma vez que estes e outros versículos reúnem-se em todo o
Antigo Testamento, em uma unidade, torna-se possível estender a qualquer autoridade
que seja afirmada de qualquer parte.

Algumas afirmações muito interessantes são feitas em várias partes. Pedro em Atos 2:30
chama Davi de profeta, e o próprio Davi diz: “O Espírito do SENHOR falou por mim, e
a sua palavra está na minha boca.” (2 Samuel 23:2). Cristo também (Marcos 12:36)
disse que Davi falou pelo Espírito Santo. Citando o segundo Salmo, Atos 4:25 afirma
que o Senhor falou pela boca de Davi. Isso não é verdade apenas para Davi, como foi
explicado, mas Deus “falou pela boca dos seus santos profetas, desde o princípio do
mundo” (Lucas 1:70).

Sem dúvida, algumas referências específicas aos profetas posteriores devem ser
adicionadas. Frases simples, como “a Palavra do Senhor veio a mim” e “o Senhor me
disse” e “assim diz o Senhor” são muito numerosas paras se listar. Elas implicam que
foi o Senhor que falou através da boca do profeta (compare Mateus 1:22; 2:15; Atos
3:18). Há, no entanto, vários casos em que esta ideia é explicitamente declarada: “E
estendeu o SENHOR a sua mão, e tocou-me na boca; e disse-me o SENHOR: Eis que
ponho as minhas palavras na tua boca” (Jeremias 1:9; compare 9:12; 13:15; 30: 4; 50:1).
A mesma ideia é expressa em Ezequiel 3:1,4,11, tanto figuradamente quanto
literalmente. Depois de mandar Ezequiel comer um pergaminho que estava escrito por
dentro e por fora, disse-lhe o Senhor “dize-lhe as minhas palavras.”

Tais são as reivindicações feitas pelo e para o Antigo Testamento. Mas o Antigo
Testamento aguarda uma revelação mais completa, uma na qual as profecias do Antigo
Testamento encontram seu ponto culminante e, portanto, se não superior em autoria,
certamente não é inferior. Se a inspiração do Antigo Testamento pode ser defendida, o
caso para o Novo Testamento deve ser concedido sem mais argumentos. No entanto,
para uma maior completude, algo será dito sobre as reivindicações do Novo Testamento
para si.

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Visto que o material é extenso, apenas algumas passagens serão selecionadas para
comentar. Jesus (Mateus 11: 9-15) afirmou que João Batista era um profeta e mais do
que um profeta. Ele era superior a todos os profetas do Antigo Testamento. No entanto,
o profeta que era o menor nos tempos do Novo Testamento foi um profeta maior do que
João. Segue-se que não é verdade que os profetas do Novo Testamento não foram
menos inspirados do que seus precursores.

Romanos 16:25-27 e Efésios 3:4-5 são similares. A primeira passagem fala de um


mistério que não foi revelado no Antigo Testamento, mas agora é revelado nos escritos
dos profetas do Novo Testamento. Na segunda passagem, Paulo reivindica para si e para
os outros apóstolos e profetas um conhecimento mais completo do que o revelado nas
eras anteriores.

Em seguida, 1 Coríntios 12:28, ao listar os ofícios da igreja, coloca os apóstolos acima


dos profetas. Efésios 4:11 faz o mesmo. Portanto, esses versículos são tão claros quanto
as passagens anteriores que implicam que o Novo Testamento não é menos autoritário
do que o Antigo.

Em 1 Coríntios 14:37, Paulo diz: “Se alguém cuida ser profeta, ou espiritual, reconheça
que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor”. Isto tem essencialmente o
mesmo significado que a afirmação de Jeremias de que Deus colocou suas próprias
palavras na boca dele.

Uma outra ideia é encontrada em Colossenses 4:16. Aqui Paulo ordena a leitura de suas
cartas nas igrejas. Assim como Isaías ou Jeremias foram lidos nas sinagogas, então pelo
mandamento apostólico, as epístolas foram feitas parte do culto da igreja. Se alguém
objeta que isso se aplica apenas às letras e às igrejas de Colossos e Laodicéia,
1Tessalonicenses 5:27 estende essa ideia. Aqui também temos um exemplo da
imposição apostólica das Escrituras do Novo Testamento.

Existem muitas passagens pertinentes, mas 2 Pedro 3:15-16 será usado como um
exemplo final. Neste lugar, Pedro está falando sobre as epístolas paulinas: “E tende por
salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo
vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; Falando disto, como em todas as

18
suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e
inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição”. Do
jeito como Pedro fala de todas as epístolas de Paulo, parece que elas são consideradas
como uma seção do cânon do Novo Testamento, assim como pode-se falar dos
principais profetas. Pedro claramente as considera como uma unidade. Além disso, ele
classifica-as com “outras Escrituras”; isto é, ele as coloca pelo menos no mesmo nível
com o Antigo Testamento. E uma vez que, no versículo 2 do mesmo capítulo, Pedro
classifica a si mesmo e aos outros apóstolos com os santos profetas, pode-se inferir de
forma válida que a Bíblia como um todo, tanto o Antigo como o Novo Testamento,
afirma ter sido inspirada por Deus e que não pode ser anulada.

Antes de avançarmos das reivindicações Bíblicas para a próxima etapa do argumento, o


significado das passagens citadas acima, ainda precisa de alguma elucidação adicional.
Já foi demonstrado que a Bíblia ensina a inspiração plenária. A inspiração
plenária significa que a Bíblia é inspirada em todas as suas partes. Não há nenhuma
parte dela que não foi inspirada por Deus. Neemias 7 com todos os seus nomes e
números, é tão inspirado quanto João 14.

Inspiração Verbal

No próximo argumento, a Bíblia ensina a inspiração verbal. Deus colocou palavras na


boca de Jeremias. Possivelmente, Jeremias ou algum outro profeta não conseguiu
entender o pensamento, como 1 Pedro 1:11 indica; mas as palavras eram as palavras de
Deus. Isto é o que se entende por inspiração verbal.

Infelizmente, a inspiração verbal foi caricaturada por seus inimigos, e os ensinamentos


do Protestantismo histórico foram mal interpretados. Uma vez que, portanto, desejamos
ser claros em nossas próprias palavras, bem como expor os erros dos incrédulos, é
necessário um pretexto.

Os oponentes afirmam falsamente que a inspiração verbal é uma teoria do ditado


mecânico. Eles supõem que, quando Deus falou em Deuteronômio 18:18: “porei as
minhas palavras na sua boca” o profeta deve ser considerado como uma espécie de

19
ditafone3, ou, na melhor das hipóteses, como um estenógrafo cuja personalidade é
apenas minimamente envolvida na transação. Isso obviamente não é verdade, porque o
estilo de Jeremias não é o de Isaías, e Paulo não escreve como João. Nem Martinho
Lutero nem João Calvino, nem teólogos ortodoxos mais recentes como Benjamin
Warfield, defenderam a teoria do ditado mecânico. É uma caricatura inventada por
incrédulos.

Ao mesmo tempo, incumbe ao crente explicar como Deus poderia colocar suas próprias
palavras na boca de um profeta sem o reduzir ao nível de um estenógrafo
desinteressado. Isso não é nada difícil. A mínima compreensão da relação entre Deus e
um profeta leva-nos rapidamente à ideia de um procedimento de um escritório moderno.

Quando Deus desejou fazer uma revelação (no momento do Êxodo ou do cativeiro), ele
de repente não olhou em volta como se tivesse apanhado alguém despreparado e
perguntou-se sobre como ele poderia usa-lo. Não podemos supor que ele procurou por
um estenógrafo, e, quando Moisés e Jeremias solicitaram o cargo, Deus ditou sua
mensagem. A relação entre Deus e um profeta não era assim. Um chefe deve tomar o
que pode obter; ele depende da escola secundária ou da faculdade que ensinam a
taquigrafia e digitação ao seu candidato. Mas se considerarmos a onipotência e a
sabedoria de Deus, surge uma imagem muito diferente. Deus é o Criador. Ele fez
Moisés. E quando Deus queria que Moisés falasse por ele, ele disse: “Quem fez a boca
do homem?... Não sou eu, o SENHOR?”

Coloque isso desta forma: Deus, que trabalha de acordo com a vontade dele e faz o que
quiser, pois ninguém pode deter-lhe a mão ou dizer o que fazes? Desde toda a
eternidade decretou expulsar os Judeus da escravidão pela mão de Moisés. Para este
fim, ele controlou os eventos de forma que: Moisés tinha que nascer em um
determinado lugar, colocado na água para salvá-lo de uma morte precoce, encontrado
pela filha de Faraó, dado a melhor educação Egípcia possível, levado ao deserto para
aprender a ter paciência e em todos os detalhes preparado de acordo com a
hereditariedade e com o ambiente, que, quando chegasse o momento, a mentalidade de
Moisés e os estilos literários seriam instrumentos precisos e adaptados para falar as

3
[Nota do Tradutor] Ditafone é um aparelho fonográfico com fins comerciais, inventado por Thomas
Edison, que grava em tubos de cera o ditado de cartas, que devem ser reproduzidas por datilografia.

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palavras de Deus. Entre Moisés e Deus havia uma união interior, um propósito na
identidade, uma cooperação da vontade, de modo que as palavras que Moisés escreveu
foram as próprias palavras de Deus e as próprias palavras de Moisés ao mesmo tempo.

Este foi um ligeiro pretexto com o propósito de expor uma falsa representação liberal da
inspiração verbal e, portanto, esclarecer ainda mais a posição Cristã. Agora é hora de
retornar à linha principal do argumento. A inspiração plenária foi definida; A inspiração
verbal já foi explicada; ainda há um ponto a seguir em torno das reivindicações da
Bíblia sobre ela mesma.

Uma Revelação Escrita

A revelação Bíblica, a mensagem que foi inspirada por Deus, é uma revelação escrita. A
ideia não é, ou pelo menos não apenas, que os profetas foram inspirados. É verdade,
claro, que eles foram dirigidos pelo Espírito Santo; mas a afirmação Bíblica é que Deus
inspirou o que foi escrito. Em 2 Timóteo 3:16, os escritores nem sequer são
mencionados. Nem é a verdade total que a fala em público dos profetas e apóstolos era
inspirada. São as Escrituras, os escritos, que não podem ser negados. A doutrina da
inspiração verbal e plenária é atribuída em primeiro lugar à palavra escrita.

No final do século XIX, uma frase entrou em uso com o objetivo de minimizar e de fato
negar a inspiração plenária. Os modernistas liberais costumavam dizer que a
Bíblia “contém” a Palavra de Deus. É claro que, em certo sentido, isso é verdade. A
Bíblia contém o Evangelho de João, por exemplo, e este Evangelho, ou pelo menos o
capítulo 14, é a Palavra de Deus. Assim, a Bíblia contém a Palavra de Deus. Mas isso
não é o que os modernistas liberais quiseram dizer. Eles explicaram que algumas partes
da Bíblia não são a Palavra de Deus. E porque a frase era verdadeira em um sentido,
serviu como um disfarce sagaz para a intenção modernista. Poucos crentes da Bíblia são
enganados por essa linguagem. Eles sabem que “a Bíblia contém a Palavra de Deus” é
uma negação de que “a Bíblia é a Palavra de Deus”.

Mas agora, em meados do século XX, o modernismo tornou-se um pouco antiquado, e a


Neo-ortodoxia tomou seu lugar. Este movimento inventou uma nova frase enganosa. As
pessoas Neo-ortodoxas dizem que a Bíblia é um registro da revelação de Deus. Esta

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frase também é verdadeira em certo sentido. Deus se revelou a Moisés e a Jeremias, e a
Bíblia é o registro desses eventos. Este verdadeiro sentido, no entanto, é um disfarce
enganoso para cobrir o repúdio da posição Bíblica. Os escritores Neo-ortodoxos, assim
como os modernistas, pretendem negar que a Bíblia é a Palavra de Deus. Moisés e
Jeremias podem ter recebido revelações, dizem esses escritores; mas essas revelações
podem ter consistido apenas em eventos históricos, ou possivelmente em emoções
subjetivas, mas não em palavras. Assim, a Bíblia se torna um registro da experiência de
Moisés em vez de uma mensagem de inspiração verbal.

No momento, muitas pessoas ainda são enganadas por esta frase Neo-ortodoxa. Sem
dúvida, no futuro, o reconhecimento do seu significado anti-Bíblico se tornará comum.
Enquanto isso, a atenção deve ser pacientemente chamada para todas as passagens
citadas acima. Elas mostram que a Bíblia não se considera um mero registro de uma
revelação passada. É a própria revelação. Ela é a própria Palavra de Deus. São as
palavras escritas que Deus inspirou. São os Escritos que não podem ser anulados.

O argumento até agora mostrou que a Bíblia afirma ser inspirada e, assim, explicou o
que é a inspiração. Se o leitor já aceita a Bíblia como a Palavra de Deus, a questão que
constitui o título deste capítulo - “Como posso saber que a Bíblia é inspirada?” - foi
respondida. Mas possivelmente o “eu” no título, um leitor deste capítulo, não aceite a
Bíblia como a Palavra de Deus. Tal pessoa dirá: “Sem dúvida, a Bíblia afirma a
inspiração, mas a afirmação é verdadeira?” A questão então se torna: como se pode
provar a inspiração Bíblica para um inquiridor?

A Prova da Inspiração

O ponto que já foi feito para convencer uma pessoa da inspiração da Bíblia, é adequado
e praticamente indispensável para mostrar que a Bíblia afirma a inspiração. Se a Bíblia
não fizesse tal afirmação, seria muito difícil defender a doutrina da inspiração. Agora,
embora nem todas as afirmações sejam verdadeiras (algumas pessoas e alguns livros
fazem afirmações falsas), a maneira pela qual a Bíblia afirma ser inspirada limita-nos a
uma escolha muito estreita. Apenas uma fração menor das afirmações foram citadas
explicitamente neste capítulo. Se todas as referências da Bíblia à sua própria inspiração
fossem citadas, seria claro que essa afirmação é completamente penetrante. Ela não

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pode ser considerada um erro acidental em um ou dois livros, nem como um excesso de
entusiasmo temporário em um ou dois escritores. A afirmação da inspiração permeia
toda a Bíblia.

Se Moisés e os profetas se enganaram ao fazer essa afirmação, se os apóstolos também


enganaram-se, e se o próprio Senhor se entretinha de ideias erradas de inspiração verbal,
qual a certeza de alguém em relação a outros assuntos sobre os quais eles escreveram?
Existe algum motivo para supor que os homens que estavam tão uniformemente errados
quanto a fonte de sua mensagem poderiam ter tido uma visão superior e um
conhecimento exato da relação do homem com Deus? Por que deverímos hoje crer que
Deus tanto amou o mundo ou que um pecador é justificado pela fé, se não fosse Deus
quem deu a João e Paulo esta informação? E, finalmente, quem pode professar um
apego pessoal à Jesus Cristo e, no entanto, contradizer consistentemente sua afirmação
de que as Escrituras não podem ser anuladas? Portanto, a pessoa está limitada a uma
escolha muito estreita. Ou a Bíblia é uma fraude sem valor e Jesus foi um mártir
enganado, ou a Bíblia é na verdade a Palavra de Deus escrita.

Quando as pessoas percebem que estão limitadas a essas duas escolhas, algumas delas -
porque não podem negar a confiabilidade geral da Bíblia como evidenciada pela
arqueologia, e porque se sentem compelidas a reconhecer sua excelência espiritual -
serão induzidas a aceitar a inspiração verbal e plenária. Outras, no entanto, escolherão o
contrário. Reconhecendo mais claramente que os ensinamentos da Bíblia formam um
vestuário sem costura, elas, na consistência, rejeitarão a Bíblia na totalidade, repudiarão
suas ideias e verão com pena ou desprezo o seu Messias iludido.

Se um crente deseja defender as reivindicações do Cristianismo diante de uma rejeição


tão consistente e, claro, o crente tem a obrigação de fazê-lo, ele deve, antes de tudo,
considerar a natureza da prova e do seu argumento. Seria um erro confiar em um
argumento inválido. É uma estratégia fraca subestimar a força do inimigo. Devemos
saber exatamente o que a prova diz. Devemos conhecer as condições necessárias de um
argumento válido. Em que premissas a conclusão pode ser baseada? E se encontramos
uma premissa satisfatória, como podemos ensinar o incrédulo a aceitá-la? Tudo isso faz
parte da defesa geral do Cristianismo conhecida como apologética. Mas, visto que a

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apologética geral é muito extensa, a discussão atual será limitada, na medida do
possível, à inspiração.

Há quase um século, Francis L. Patton, proeminente por cinquenta anos na causa do


Cristianismo conservador, defendeu a inspiração por um argumento de quatro etapas:
Primeiro, a crítica histórica mostra que a história da Bíblia é geralmente correta. Em
segundo lugar, descobrimos a partir do estilo, a informação e a harmonia das partes que
elas foram escritas por um controle sobrenatural. Em terceiro lugar, observamos que os
escritores afirmaram a inspiração. E em quarto lugar, inferimos que a Bíblia é
infalivelmente inspirada. Patton apoiou o ponto dois da seguinte forma: “Sabemos que
as doutrinas da Bíblia têm a aprovação de Deus. O que é a história Hebraica, senão uma
longa lição do monoteísmo?...O que foi o sistema sacrificial, senão uma exposição
divina da doutrina do pecado?... Sua excelência inerente testemunha sua origem
celestial”.

Hoje, esse argumento parece ingênuo. O ponto essencial de Patton é fraco e seu apoio é
ainda mais fraco. Sua visão da história Hebraica, do seu monoteísmo, do propósito do
sistema sacrificial, bem como do estilo e da excelência inerente, não são as premissas
que um incrédulo aceitará. As pessoas de hoje simplesmente não acreditam que o
sistema de sacrifício seja uma exposição divina de culpa - elas podem pensar que a
culpa é um sinal de doença mental - não concordam que a doutrina Bíblica é
inerentemente excelente.

A harmonia das partes é um ponto mais valioso. Pois, embora o incrédulo afirme que
existem inúmeras inconsistências em toda Bíblia, a exposição paciente pode convencê-
lo de que seu ensino é mais consistente do que ele pensa.

Mas o público moderno tem uma crença enraizada de que a Bíblia é autocontraditória, e
é extremamente difícil convencê-lo de outra forma. No entanto, por razões que se
tornarão mais claras à medida que prosseguirmos, a tentativa de mostrar a consistência
lógica da Bíblia é, creio eu, o melhor método de defesa da inspiração.

Mas, porque é tão intrincado e difícil, é natural que se pergunte sobre um método mais
fácil. Mais uma vez, devemos considerar a natureza e os limites da “prova”. A prova

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demonstrativa, como ocorre na geometria, depende de axiomas não provados. Por mais
válida que seja a demonstração, se duas pessoas não aceitarem os mesmos axiomas, não
serão convencidas pela mesma prova. Existe, então, alguma proposição que o crente e o
incrédulo aceitarão sem prova?

Em tempos passados, houve áreas de acordo. Os não-Cristãos admitiriam que Deus


existe. Durante a Reforma, a veracidade da Escritura foi tão amplamente aceita, que as
evidências pareciam fornecer provas conclusivas a qualquer mente normal. Mas essa
situação não existe mais. Não só a maioria das pessoas rejeita a veracidade da Bíblia,
mas muitas também rejeitam a crença em Deus. Lutero e Calvino não tiveram que
encarar o Instrumentalismo e o Positivismo Lógico. Hoje, essas duas filosofias são
amplamente influentes. Nos tempos passados, geralmente concordava-se que os padrões
morais de Jesus eram admiráveis. Mas hoje suas ideias sobre o casamento e os
problemas trabalhistas são rejeitadas até mesmo por algumas igrejas chamadas de
igrejas Cristãs, e o resto de sua moralidade é, na melhor das hipóteses considerado
inadequado.

Quanto mais consistente a incredulidade for, menos acordo pode ser obtido. Contanto
que o incrédulo seja inconsistente, podemos forçá-lo a fazer uma escolha. Se ele
inconscientemente admira Jesus Cristo ou valoriza a Bíblia, ao mesmo tempo em que
nega a inspiração verbal e plenária, podemos, pela lógica, insistir que ele aceite ambas -
ou nenhuma delas. Mas não podemos, pela lógica, impedi-lo de escolher, nem de negar
uma premissa comum. Segue-se que, na teoria lógica, não existe proposição na qual um
crente consistente e um incrédulo consistente podem concordar. Portanto, a doutrina da
inspiração, como qualquer outra doutrina Cristã, não pode ser demonstrada para a
satisfação do pensamento claro de um incrédulo.

Se, no entanto, pode-se mostrar que a Bíblia - apesar de ter sido escrita por mais de
trinta e cinco autores durante um período de mil e quinhentos anos - é logicamente
consistente, então o incrédulo teria que considerá-la como um acidente extremamente
importante. Parece mais provável que uma única mente superior possa produzir esse
resultado do que ele acontecer acidentalmente. A consistência lógica, portanto, é a
evidência da inspiração; mas não é a demonstração. Os acidentes estranhos realmente

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ocorrem, e não há provas de que a Bíblia não é um acidente. Talvez improvável, mas
ainda assim possível.

Como um incrédulo pode ser levado a admitir a inspiração da Escritura? Ou, pois é a
mesma pergunta, como “eu” venho a aceitar a inspiração?

O Testemunho do Espírito Santo

Na época da Reforma, quando Lutero e Calvino apelaram para as Escrituras, a Igreja


Romana argumentou que acreditava nas Escrituras e que, portanto, os Protestantes não
podiam usar as Escrituras legitimamente sem antes submeter-se a Roma. As pessoas
deveriam aceitar a Palavra de Deus somente sobre a autoridade da igreja.

Contra esta afirmação, os Reformadores desenvolveram a doutrina do testemunho do


Espírito Santo. Então eles ensinaram a crença de que a Bíblia é a Palavra de Deus, e que
isso não é o resultado de um pronunciamento papal nem de uma conclusão inferida de
premissas anteriores. É uma crença que o próprio Espírito Santo produz em nossas
mentes. Calvino escreveu: “É, portanto, uma persuasão que não requer nenhum outro
motivo; Tal conhecimento é suportado por um motivo maior no qual a mente se baseia,
em maior segurança e consistência do que em qualquer motivo; bem, um sentido que
não pode ser produzido, senão por uma revelação do céu” (Institutas, I.vii.5).

Hoje esta doutrina é facilmente incompreendida. O Protestantismo do século XX é


largamente infectado pela incredulidade - quase nada é Cristão. Muitos pequenos grupos
que professam fidelidade à Palavra de Deus se perderam, esqueceram ou descartaram
seções inteiras da teologia rica do século XVI e do início do século XVII. Eles ensinam
um Cristianismo diluído e empobrecido. E a base desses dois fatores é o secularismo
essencial e o paganismo da nossa civilização. Portanto, a ideia do testemunho do
Espírito Santo, se conhecida, está sujeita a mal-entendidos. Vamos então tentar explicar
ela em termos simples.
A primeira frase na citação de Calvino inclui e segue o que já foi enfatizado. Razões ou
premissas para provar a autoridade da Escritura não podem ser usadas porque o
incrédulo consistente não aceita nenhuma premissa Cristã. Além disso, mesmo um
Cristão em seu próprio pensamento não pode construir uma demonstração formal da

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autoridade da Escritura porque todos os sistemas Cristãos são fundamentados nessa
autoridade. Podemos crer na doutrina da expiação somente pela autoridade da Escritura,
mas não podemos crer na Bíblia sob a autoridade da expiação.

A segunda frase na citação de Calvino diz que, a mente pode descansar neste
conhecimento com maior segurança do que em qualquer motivo. Isso é óbvio porque a
segurança de uma conclusão não pode ser superior à da premissa em que se baseia. Que
a soma dos quadrados nos outros dois lados é igual ao quadrado da hipotenusa não pode
ser mais seguro do que os axiomas a partir dos quais é deduzida.

Mas a terceira frase da citação chega ao ponto mais importante. Ao longo do tempo, o
problema foi, como aceitar uma premissa. As conclusões seguem automaticamente, mas
o que faz com que um homem aceite uma proposição inicial? A resposta de Calvino é
clara: a crença na Escritura “não pode ser produzida, senão por uma revelação do
céu”. E neste ponto mais importante, a possibilidade do mal-entendido é maior.

O que é uma revelação do céu? Poderia ser uma mensagem entregue por anjos, assim
como Abraão recebeu. Poderia ser o dedo de Deus escrevendo em tabuletas de pedra ou
na parede de um palácio. Poderia ser uma visão, como João teve em Patmos. E,
infelizmente, essas coisas são o que a maioria das pessoas pensa quando ouve falar do
testemunho do Espírito. Os obreiros Cristãos imprudentes, descuidados de sua língua, as
vezes descrevem sua experiência em termos brilhantes e embelezam-na acima da
realidade. Quando os Cristãos mais jovens não vêem tais visões ou sonham com tais
sonhos, sofrem desilusão.

Mas existem outras formas de revelação. Jesus perguntou uma vez: “E vós, quem dizeis
que eu sou? E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E
Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não
revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus”(Mateus 16:15-17). Pedro
não teve um transe ou visão, nem ouviu uma voz audível. Na gíria Americana moderna,
diríamos que isso “ficou claro para ele”. O que aconteceu foi que o Espírito produziu
essa convicção na mente de Pedro. Eu deveria julgar que Pedro não estava consciente
do funcionamento do Espírito. É claro que Pedro estava consciente de ter ouvido os
sermões de Cristo e de ter visto seus milagres. Mas o significado de tudo isso chegou a

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ele naquele momento. Assim também quando alguém aceita a Bíblia como a Palavra de
Deus, ele não está consciente de nenhuma ruptura no processo psicológico. Ele
provavelmente já leu a Bíblia por algum tempo, ou quando criança ele tinha ouvido as
aulas da escola dominical, e um dia ele percebe que acredita que a Bíblia foi dada por
Deus.

A frase “ficou claro para ele” é uma frase tão boa que pode ser encontrada em uso
comum. Muitos dos teólogos comparam a experiência com a sensação e a percepção.
Um estudante do ensino médio raciocina sobre seu problema da geometria, mas ele
simplesmente vê o lápis e o papel. A visão, portanto, faz um rápido contraste com o
raciocínio. No entanto, quando alguém estuda teorias da sensação e aprende as várias
maneiras em que é explicada, e quando a sensação se distingue da percepção, esse uso
metafórico da sensação para ilustrar a obra do Espírito é mais confuso do que
esclarecedor. É melhor (assim me parece) dizer simplesmente que Deus produziu a
crença na mente.

Até agora, esta exposição foi restrita à lógica da situação. Ela tem sido uma questão de
relação entre premissas (ou razões) e conclusões. Nada até então foi dito sobre o pecado
e seus efeitos na mente do homem. Houve dois motivos para essa demora. Primeiro, a
lógica da situação exige uma discussão simplesmente porque é uma parte do assunto. É,
além disso, parte do assunto que tem sido menos discutido pelos teólogos. Eles
passaram a maior parte do tempo no pecado, e é claro que isso era necessário, mas eles
negligenciaram a lógica. Esta negligência é infeliz porque nestes dias é particularmente
a lógica que é usada contra a posição Cristã.

O Cristianismo é muitas vezes repudiado com o argumento de que é circular: a Bíblia é


autoritária, porque a Bíblia autoritativamente diz isso. Mas essa objeção não se aplica
mais ao Cristianismo do que a qualquer tronco de sistema filosófico ou mesmo à
geometria. Todo sistema de proposições bem organizadas depende da necessidade de
premissas indemonstráveis, e cada sistema deve fazer uma tentativa de explicar como
essas premissas primárias passam a ser aceitas.

A segunda razão para adiar a menção do pecado se encaixa na primeira. A situação na


lógica continua a ser a mesma, com pecado ou sem pecado. Adão enfrentou-a antes da

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queda. Claro que Adão não tinha uma Bíblia escrita, mas ele era o destinatário de uma
revelação. Deus falou com ele. Como então ele poderia atribuir autoridade aos
mandamentos de Deus? Será possível no jardim fazer o que é impossível agora,
demonstrar a autoridade de Deus? Evidentemente que não. Supor assim, seria o mesmo
que supor que Adão poderia deduzir os axiomas da geometria. Nem Adão poderia ter
perguntado a Eva e tomado a palavra dela para isso. E certamente não deveria ter
apelado a Satanás para estabelecer a autoridade de Deus. Pelo contrário, porque Deus é
soberano, a autoridade de Deus pode ser tomada somente na autoridade de Deus. Assim
como a Escritura diz: “Porque, quando Deus fez a promessa a Abraão, como não tinha
outro maior por quem jurasse, jurou por si mesmo.” (Hebreus 6:13).

O Fator do Pecado

Contudo, o pecado é agora um fator; e, embora não altere a situação básica da lógica,
suas complicações não podem passar despercebidas. Além disso, é em relação ao
pecado e à redenção que a Bíblia dá algumas informações importantes aplicáveis à
questão da crença na inspiração.

Quando Adão caiu, a raça humana não tornou-se estúpida, de modo que a verdade ficou
difícil de ser entendida, mas hostil à aceitação da verdade. Os homens não gostam de
reter Deus em seu conhecimento e mudaram a verdade de Deus em mentira, pois a
mente carnal é inimiga de Deus. Daí a pregação da cruz é loucura para aqueles que
perecem, pois o homem natural não entende as coisas do Espírito de Deus, porque elas
são discernidas espiritualmente. Para aceitar o Evangelho, portanto, é necessário nascer
de novo. O intelecto anormal e depravado deve ser refeito pelo Espírito Santo; o
inimigo deve ser feito amigo. Esta é a obra da regeneração, e o coração de pedra pode
ser tirado e um coração de carne pode ser dado somente pelo poder do próprio Deus.
Ressuscitar o homem que está morto no seu pecado e dar-lhe uma vida nova, longe de
ser uma conquista humana, requer nada menos que um poder onipotente.

Portanto, é impossível por meio de argumentos ou pregações, fazer com que alguém
acredite na Bíblia. Somente Deus pode causar tal crença. Ao mesmo tempo, isso não
significa que esse argumento seja inútil. Pedro nos diz para “estarmos sempre
preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que nos pedir a razão da

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esperança que há em nós.” (1 Pedro 3:15). Esta foi à prática constante dos apóstolos.
Estevão disputou com os Libertinos; e o conselho de Jerusalém disputou; Em Éfeso,
Paulo disputou três meses na sinagoga e depois continuou a disputar na escola de um
certo Tirano (Atos 6:9; 15:7; 19:8,9; compare Atos 17:2; 18:4; 19; 24:25). Qualquer um
que não esteja disposto a argumentar, disputar a razão, é desleal ao seu dever Cristão.

Neste ponto, a questão natural é: Qual é o objetivo de toda essa exposição e explicação
se não produz crença? A resposta deve ser claramente compreendida. O depoimento ou
o testemunho do Espírito Santo é testemunho de algo. O Espírito testemunha a
autoridade da Escritura. Se nenhum apóstolo ou pregador expusesse a mensagem, não
haveria nada na mente do pecador para o qual o Espírito testemunharia. O Espírito não
pode produzir crença em Cristo, a menos que o pecador tenha ouvido falar de Cristo.
“Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem
não ouviram?... De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus.”
(Romanos 10:14,17).

Sem dúvida, Deus em sua onipotência poderia revelar a informação necessária a cada
homem individualmente sem uma Bíblia escrita ou uma pregação ministerial. Mas isso
não é o que Deus faz. Deus deu aos apóstolos e aos pregadores o dever de expor a
mensagem; mas a produção da crença é obra do Espírito, pois a fé é o dom de Deus.

Isso faz parte da razão pela qual foi dito acima que o melhor procedimento para nós, se
quisermos que alguém aceite a doutrina da inspiração verbal e plenária, é expor
detalhadamente as Escrituras. Podemos também usar a arqueologia e a crítica histórica,
mas a tarefa principal é comunicar a mensagem da Bíblia em linguagem compreensível
que possamos gerenciar.

É de notar também que o pecador, sem qualquer obra especial do Espírito, pode
entender a mensagem. A crença na verdade e a compreensão do seu significado são
duas coisas diferentes. A Bíblia pode ser entendida pelos mesmos métodos de estudo
utilizados em Euclides ou Aristóteles. Apesar de algumas desculpas piedosas, é verdade
que os incrédulos antagonistas muitas vezes entendem a Bíblia melhor do que os
Cristãos devotos. Os Fariseus compreenderam o significado das reivindicações de
Cristo sobre a divindade mais rapidamente e mais claramente do que os discípulos.

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No momento em que Paulo perseguiu os Cristãos em Jerusalém e partiu para Damasco,
ele entendia as palavras “Jesus é Senhor”, bem como qualquer um dos doze. Foi
precisamente porque ele entendia tão bem, que ele perseguiu com tanto zelo. Se ele
estivesse inseguro sobre o significado, ele não teria feito tanto exercício. Mas o
problema era que ele não acreditava nisso. Pelo contrário, ele acreditava que isso era
falso. Em seguida, na estrada de Damasco Cristo apareceu para ele e fez com que ele
acreditasse que a afirmação era verdadeira. Paulo não entendeu melhor a frase, no
momento posterior à sua conversão do que no momento anterior. Sem dúvida mais
tarde, Deus revelou mais informações a ele para o uso nas epístolas. Mas, naquele
momento, Cristo não ampliou seu entendimento um pouquinho; ele o fez receber,
aceitar ou crer no que ele já entendia bastante bem. Assim, o Espírito testifica a
mensagem previamente comunicada.

É preciso colocar forte ênfase na obra do Espírito Santo. O homem está morto no
pecado, é um inimigo de Deus, contrário a toda justiça e verdade. Ele precisa ser
transformado. Nem o pregador, muito menos o próprio pecador podem causar essa
tranformação. Mas: “Bem-aventurado aquele a quem tu escolhes, e fazes chegar a
ti” (Salmo 65:4). “tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de
carne” (Ezequiel 11:19; 36:26, 27). “Creram todos quantos estavam ordenados para a
vida eterna” (Atos 13:48). “Deus... Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos
vivificou juntamente com Cristo” (Efésios 2:4-5). “Porque Deus é o que opera em vós
tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Filipenses 2:13). “Mas
devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do SENHOR, por vos ter
Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da
verdade” (2 Tessalonicenses 2:13). “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra
da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas” (Tiago 1:18).

Esses versículos, que se referem principalmente a regeneração, são aplicáveis à nossa


aceitação da Bíblia como a própria Palavra de Deus. De fato, a nova vida que o segundo
nascimento inicia - a vida da que ressuscitamos da morte do pecado - é precisamente a
vida de fé; e uma fé plena que inclui a inspiração verbal e plenária da mensagem da
salvação. É o dom de Deus.

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É por isso que o maior de todos os credos provenientes da Reforma, a Confissão de
Westminster, diz:

A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não
depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de Deus (a
mesma verdade), que é o seu autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a Palavra de
Deus.
…nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provêm
da operação interna do Espírito Santo, que pela palavra e com a palavra testifica em
nossos corações. (I: iv e v)

Na última análise, portanto - embora a confirmação histórica e arqueológica da precisão


da Bíblia seja de grande interesse para nós e de grande constrangimento para os
incrédulos - a convicção de que a Bíblia é realmente a Palavra de Deus não pode ser a
conclusão de um argumento válido baseado em premissas mais claramente evidentes.
Esta convicção é produzida pelo próprio Espírito Santo.

Deve sempre ser mantido em mente que a proclamação do Evangelho faz parte de uma
luta espiritual contra os poderes sobrenaturais do maligno, e a vitória vem apenas pela
graça onipotente de Deus. Assim, como Jesus explicou sua missão tanto a Pedro como
aos Fariseus, então nós hoje devemos expor e explicar a Escritura em toda a sua
plenitude a todos os tipos de homens; e podemos então ter certeza de que nosso Pai
Celestial revelará sua verdade a alguns deles.

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A BÍBLIA COMO VERDADE

Em um jogo de xadrez, um jogador pode ficar tão envolvido em uma situação


complicada que, depois de examinar várias possibilidades e projetar cada uma delas
com a maior antecedência possível, ele finalmente vê uma brilhante combinação pela
qual pode possivelmente ganhar um peão em cinco movimentos, apenas para descobrir
que perderia a sua rainha. Então, também, quando as investigações teológicas forem
realizadas durante um tempo considerável e em grande detalhe, é possível ignorar o
óbvio. No estado atual das discussões sobre a revelação, é minha opinião que o que
mais precisa ser dito é algo óbvio e elementar. Este artigo, portanto, é uma defesa da
tese simples de que a Bíblia é verdadeira.

Esta tese, no entanto, não deriva sua motivação principal de qualquer ataque a
historicidade das narrativas Bíblicas. A crítica destrutiva do século XIX ainda tem
ampla influência, mas recebeu uma ferida mortal com a mão da arqueologia do século
XX. Uma nova forma de descrença, embora possa ser forçada a aceitar a Bíblia como
um relato excepcional preciso de eventos antigos, nega agora por motivos filosóficos
que ela seja ou possa ser uma Revelação verbal de Deus. Tão persuasivos são os novos
argumentos, não apenas suportados por um raciocínio impressionante, mas até mesmo
fazendo apelo aos princípios Bíblicos que todo Cristão ortodoxo admitiria, que os
teólogos conservadores professos aceitaram mais ou menos e, assim, traíram ou
viciaram a tese de que a Bíblia é verdadeira.

Visto que a discussão é filosófica em vez de arqueológica e, portanto, pode ser levada
a cabo em durações intermináveis, alguns limites e algumas omissões devem ser
aceites. As teorias da verdade são notoriamente intrincadas, e todavia, evitar considerar
a natureza da verdade é impossível se desejarmos saber a nossa intenção quando
dizemos que a Bíblia é verdadeira. Para Começar, que se diga que a verdade em
relação as declarações na Bíblia, é o mesmo tipo de verdade que é alegada para
declarações comuns, tais como: Colombo descobriu a América, dois mais dois são
quatro, e um corpo caindo acelera a trinta e dois pés segundo por segundo. No que diz
respeito ao significado da verdade, a declaração “Cristo morreu pelos nossos pecados”
está no mesmo nível com qualquer afirmação comum e diária que seja verdadeira.

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Esses são exemplos, é claro, e não constituem uma definição da verdade. Mas
incorporado nos exemplos, é a suposição de que a verdade é uma característica apenas
das proposições. Nada pode ser chamado de verdadeiro no sentido literal do termo
exceto a atribuição de um predicado para um sujeito. Existem, sem dúvida, usos
figurativos, e pode-se falar legitimamente de um homem como um verdadeiro
cavalheiro ou um verdadeiro erudito. Também tem sido discustido sobre qual é a
verdadeira igreja. Mas esses usos, embora legítimos, são derivados e figurativos.
Agora, a tese simples deste artigo é que a Bíblia é verdade no sentido literal da
verdade. Após uma compreensão completa do significado literal ser adquirida, os
vários significados figurativos podem ser investigados; Mas seria uma tolice começar
com figuras de linguagem antes que o significado literal seja conhecido.

Esta tese de que a Bíblia é literalmente verdadeira não implica que a Bíblia seja
verdadeira literalmente. Figuras de fala ocorrem na Bíblia, e não são literalmente
verdadeiras. Elas são verdadeiramente figurativas. Mas elas são literalmente
verdadeiras. As declarações podem estar em linguagem figurativa, mas quando são
chamadas de verdadeiras, o termo verdadeiro deve ser entendido literalmente. Esta
simples tese elementar, no entanto, seria praticamente sem sentido, sem uma tese
associada. Se as declarações verdadeiras da Bíblia não pudessem ser conhecidas pelas
mentes humanas, a ideia de uma revelação verbal seria inútil. Se Deus falasse uma
verdade, mas falasse para que ninguém pudesse ouvir, essa verdade não seria uma
revelação. Daí a tese dupla deste artigo, dupla, mas ainda elementar, é que a Bíblia -
além de questões e mandamentos - consiste em declarações verdadeiras que os homens
podem conhecer. Na verdade, isso é tão elementar que pode parecer incrível que
qualquer teólogo conservador negá-lo-ia. No entanto, há alguns professos
conservadores que negam explicitamente, e outros que, sem negar explicitamente,
enfraquecem e corrompem isso por meio de outras afirmações. A primeira coisa a ser
considerada, então, serão as razões, supostamente derivadas da Bíblia, para negar ou
corromper o conhecimento humano de suas verdades.

O Efeito do Pecado no Conhecimento do Homem

A doutrina da depravação total ensina, que nenhuma parte da natureza humana escapa
da devastação do pecado, e entre as passagens sobre as quais esta doutrina se baseia,

34
estão algumas que descrevem os efeitos do pecado no conhecimento humano. Por
exemplo, quando Paulo em 1 Timóteo 4:2 diz que certos apóstatas têm suas
consciências cauterizadas com um ferro quente, ele deve querer dizer não só que
cometem atos perversos, mas também que eles tem pensamentos perversos. A sua
capacidade de distinguir o certo do errado está prejudicada, e assim eles prestam
atenção aos espíritos enganadores e às doutrinas de demônios. Portanto, sem, no
mínimo, negar que o pecado afetou sua vontade, deve-se afirmar que o pecado também
afetou seu intelecto. E, apesar de Paulo ter em mente uma classe de pessoas, sem
dúvida, mais perversa do que outras, ainda assim, a semelhança da natureza humana e
a natureza do pecado força a conclusão de que as mentes de todos os homens,
embora talvez não na mesma medida, estão prejudicadas. Novamente, em Romanos
1:21,28 fala de gentios que se desvaneceram em seus discursos e cujos corações
insensatos obscureceram-se; Quando não queriam mais reter Deus em seu
conhecimento, Deus os entregou a uma mente reprovada. Em Efésios 4:17, Paulo
novamente se refere a vaidade da mente e a compreensão obscura dos gentios, que se
alienaram da vida de Deus através da ignorância e da cegueira. O fato de que a
ignorância e a cegueira não são apenas traços de gentios, mas também caracterizam os
Judeus, e, portanto, a raça humana como um todo, pode ser visto na condenação
sumária de todos os homens em Romanos 3:10-18, onde Paulo diz que não há quem
entenda. E, é claro, há declarações gerais no Antigo Testamento: “Enganoso é o
coração, mais do que todas as coisas, e perverso” (Jeremias 17:9).

Estes efeitos noéticos do pecado têm sido utilizados para sustentar a conclusão de que
o homem não pode compreender o significado de qualquer frase na Bíblia. A partir da
afirmação “não há quem entenda”, pode parecer seguir-se que quando a Bíblia diz:
“Davi ... atirou uma pedra ... e atingiu o filisteu na sua testa”4, um incrédulo não pode
entender o que essas palavras significam. Os primeiros representantes desta opinião, a
serem discutidos aqui, estão centrados na faculdade de Westminster Theological
Seminary em Filadélfia, Pensilvânia. Cornelius Van Til e alguns de seus colegas
prepararam e assinaram um documento no qual repudiam uma determinada declaração
da habilidade epistemológica de um homem não-regenerado. Um certo professor,
reclamam eles, “não faz nenhuma distinção qualitativa absoluta entre o conhecimento

4
[Nota do Tradutor] Tradução direta da versão do autor.

35
do homem não regenerado e o conhecimento do homem regenerado” (The Text of a
Complaint, 10, column 2). Esta afirmação não implica apenas que um incrédulo ache
menos fácil entender que Davi feriu o filisteu, mas, ao afirmar uma distinção
qualitativa absoluta entre o conhecimento que ele deriva dessa declarção e o
conhecimento que um homem regenerado deriva, a citação também sugere que o
homem não regenerado simplesmente não consegue compreender as proposições
reveladas ao homem.

Num outro artigo, dois dos associados de Van Til declaram que é “errado” dizer que “a
regeneração ... não é uma mudança na compreensão dessas palavras” (A.R. Kuschke,
Jr. e Bradford, A Reply to Sr. Hamilton, 4). Segundo eles, é também errado dizer:
“quando ele é regenerado, sua compreensão da proposição não pode sofrer nenhuma
mudança [mas] que um homem não regenerado pode colocar exatamente o mesmo
significado nas palavras... como o homem regenerado” (ibid. , 6). Uma vez que estas
são as posições que eles repudiam, sua visão deve ser precisamente o contrário; Ou
seja, um homem não regenerado nunca pode colocar exatamente o mesmo significado
nas palavras como um homem regenerado, essa regeneração sempre e necessariamente
muda o significado das palavras que um homem conhece, o regenerado e o não
regenerado não podem compreender uma sentença no mesmo sentido. Esses
cavalheiros apelam para 2 Coríntios 4:3-6, onde é dito que o Evangelho está encoberto
para os que estão perdidos, e para Mateus 13:3-23, onde as multidões ouvem a
parábola, mas não a compreendem. Estas duas passagens da Escritura devem
supostamente provar que o “entendimento de um Cristão nunca é o mesmo que o do
homem não regenerado”.

Como uma resposta breve, pode-se notar que, embora o Evangelho esteja encoberto
para os perdidos, a passagem não afirma que os perdidos são completamente
ignorantes e não sabem nada. Da mesma forma, as multidões compreenderam o
significado literal da parábola, embora nem eles nem os discípulos compreendessem o
que Cristo estava ilustrando. Concedamos que o Espírito Santo, pela regeneração,
ilumina a mente e nos leva gradualmente a mais verdade, mas a Escritura certamente
não nos ensina que os Filisteus não conseguiam entender que Davi havia matado
Golias. Tal visão não tem sido comum entre os escritores Reformados; Apenas um, no

36
entanto, será citado como exemplo. Abraham Kuyper, em sua Enciclopédia da
Teologia Sagrada (110-111), depois de especificar oito pontos em que estamos sujeitos
a erro por causa do pecado, acrescenta:

O obscurecimento da compreensão... não significa que perdemos a capacidade de


pensar logicamente, no que diz respeito ao impulso de sua lei da vida, a logica não foi
prejudicada pelo pecado. Quando isto acontece, surge uma condição de insanidade... o
pecado tem enfraquecido a força do pensamento... [mas] a consciência humana
universal é sempre capaz de superar essa lentidão e corrigir esses erros no raciocínio.

Ao defender assim a capacidade epistemológica do homem pecador, Kuyper pode ter


subestimado os efeitos noéticos do pecado. Talvez a consciência humana não seja
sempre capaz de superar a lentidão e corrigir os erros de raciocínio. O ponto em que
desejo insistir é que às vezes isso é possível. Um homem não regenerado pode
conhecer algumas proposições verdadeiras e pode por vezes raciocinar corretamente.

Para evitar fazer uma injustiça a Van Til e seus associados, deve-se afirmar que, por
vezes, eles parecem fazer afirmações contraditórias. No decorrer de seus livros, pode-
se encontrar um parágrafo no qual eles parecem aceitar a posição que atacam, e então
prosseguem com o ataque. Qual pode ser a explicação? Exceto que eles estejam
confusos e tentando combinar duas posições incompatíveis? A objeção está em
harmonia substancial com o Existencialismo ou a N e o - ortodoxia. Mas a
discussão dos efeitos noéticos do pecado na mente não regenerada, não precisa mais
continuar porque um assunto mais sério usurpa a atenção. A influência Neo-ortodoxa
parece produzir o resultado de que até mesmo o homem regenerado não pode conhecer
a verdade.

Limitações Epistemológicas do Homem

Que o homem regenerado, bem como o não regenerado, está sujeito a certas limitações
epistemológicas, que essas limitações não são totalmente o resultado do pecado, mas
são inerentes ao fato de que o homem é uma criatura, e que mesmo na glória, estas
limitações não serão removidas, está declarado ou implícito em várias passagens
Bíblicas. O que estas limitações têm a ver diretamente com qualquer teoria da
revelação, pois podem ser tão insignificantes visto que o homem é quase divino, ou

37
podem ser tão extensas de modo que o homem não pode entender nada sobre Deus.
Em primeiro lugar, algumas das passagens Bíblicas usadas neste debate serão listadas:
“Porventura alcançarás os caminhos de Deus, ou chegarás à perfeição do Todo-
Poderoso?” (Jó 11:7); “Eis que Deus é grande, e nós não o compreendemos, e o
número dos seus anos não se pode esquadrinhar” (Jó 36:26); “Tal ciência é para mim
maravilhosíssima; tão alta que não a posso atingir.” (Salmo 139:6); “Porque os meus
pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus
caminhos” (Isaías 55:8); “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da
ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus
caminhos! Porque, quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu
conselheiro?” (Romanos 11:33-34); “Assim também ninguém sabe as coisas de Deus,
senão o Espírito de Deus” (1Coríntios 2:11).

Estes versos são simplesmente amostras, e muitos versos semelhantes são facilmente
lembrados. Vários deles parecem dizer que é impossível para o homem conhecer a
Deus. Não podemos buscá-lo; Não o conhecemos; Não podemos alcançar esse
conhecimento; os pensamentos de Deus não são nossos; Ninguém conhece a mente do
Senhor, e ninguém conhece as coisas de Deus. Poder-se-ia facilmente concluir que o
homem é totalmente ignorante e, por mais diligente que ele procure nas Escrituras, ele
nunca conseguirá o menor reflexo do pensamento de Deus. Claro, na própria passagem
que diz que o homem não conhece as coisas de Deus, há a afirmação mais forte de que
o que o olho do homem não viu e o que o coração do homem nunca compreendeu foi
revelado a nós pelo Espírito de Deus “para que conheçamos as coisas que nos foram
dadas gratuitamente por Deus”. Não será surpreendente, portanto, se algumas
tentativas de expor a posição Bíblica forem tão confusas como o material Bíblico
parece ser. Em relação a muitas declarações de tais teólogos, todos nós devemos
concordar; Mas outras declarações, interpretando erroneamente as Escrituras no
interesse sobre alguma visão esotérica da verdade devem ser rejeitadas.

O Conhecimento do Homem em Relação com o de Deus

Os professores acima mencionados afirmam que: “há uma diferença qualitativa entre o
conteúdo do conhecimento de Deus e o conteúdo do conhecimento possível ao

38
homem” (The Text, 5:1). Que há uma diferença qualitativa mais importante entre a
situação do conhecimento no caso de Deus e a situação do conhecimento para o
homem não pode ser negada sem repudiar todo o Cristianismo. Deus é onisciente; Seu
conhecimento não é adquirido, e seu conhecimento, de acordo com a terminologia
comum, é intuitivo, enquanto o do homem é discursivo. Estas são algumas das
diferenças e, sem dúvida, a lista poderia ser estendida. Mas se Deus e o homem sabem,
deve haver, com as diferenças, pelo menos um ponto de semelhança; pois, se não
houvesse nenhum ponto de semelhança, seria inapropriado usar o mesmo termo
conhecimento em ambos os casos. Se este ponto de semelhança deve ser encontrado no
conteúdo do conhecimento, ou se o conteúdo é diferente, depende do significado do
termo conteúdo. Portanto, as declarações mais especificamente formuladas são
necessárias.

A teoria em discussão continua dizendo: “Nós não ousamos sustentar que o seu
conhecimento e nosso conhecimento coincidem em qualquer ponto” (The Text, 5:3).
Os autores repudiam outro ponto de vista com o fundamento de que “uma proposição
teria que ter o mesmo significado para Deus e para o homem” (O Texto, 7:3). Estas
afirmações não são de modo algum vagas. A última identifica o conteúdo e o
significado para que o conteúdo do conhecimento de Deus não seja seu caráter
intuitivo, por exemplo, mas o significado das proposições, tais como Davi matou
Golias. Por duas vezes é negado que uma proposição pode significar a mesma coisa
para Deus e para o homem, e para torná-la inconfundível eles dizem que o
conhecimento de Deus e o conhecimento do homem não coincidem em qualquer
ponto. Aqui ficará a repetição para dizer que se não houver um ponto único de
coincidência, não faz sentido usar o único termo conhecimento para Deus e o homem.
Espinoza, ao atacar o Cristianismo, argumentou que o termo intelecto como aplicado à
Deus e aplicado ao homem era completamente equívoco, assim como o termo cão
aplicado à um animal de quatro patas que ladra e à estrela no céu. Em tal caso,
portanto - se o conhecimento for definido - ou Deus conhece e o homem não conhece,
ou o homem conhece e Deus não conhece. Se não há um único ponto de coincidência,
Deus e o homem não podem ter a mesma coisa, isto é, conhecimento.

39
Depois que estes cinco professores assinaram este pronunciamento cooperativo, alguns
deles publicaram uma explicação sobre isso na qual diziam: “O homem pode e
conhece a mesma verdade que está na mente divina... [mas] quando o homem diz que
Deus é eterno, ele não pode possivelmente ter em mente uma concepção de eternidade
que seja idêntica ou que coincida com o próprio pensamento de Deus sobre a
eternidade” (A Committee for the Complainants, The Incomprehensibility of God, 3).
Nesta exposição de motivos, afirma-se que a mesma verdade pode ocorrer e ocorre na
mente do homem e na de Deus. Isto, é claro, significa que há pelo menos um ponto de
coincidência entre o conhecimento de Deus e o nosso conhecimento. Mas enquanto
eles parecem retrair sua antiga posição em uma linha, eles reafirmam-na no que se
segue. Parece que quando o homem diz que Deus é eterno, ele não pode ter em mente
o que Deus quer dizer quando afirma a sua própria eternidade. Presumivelmente, o
conceito de eternidade é um exemplo que representa todos os conceitos, de modo que
a posição geral seria que nenhum conceito pode ser predicado de um sujeito pelo
homem no mesmo sentido em que é predicado por Deus. Mas se um predicado não
significa para o homem a mesma coisa que significa para Deus, então, se o significado
de Deus é o correto, segue-se que o significado do homem é incorreto e ele é portanto
ignorannte em relação a verdade que está na mente de Deus.

Esta negação da predicação unívoca não é peculiar aos professores citados, nem deve
ser considerada particularmente Neo-ortodoxa. Embora a abordagem seja diferente, o
mesmo resultado é encontrado em Tomás de Aquino. Este estudioso medieval, cuja
filosofia recebeu a sanção papal, ensinou que nenhum predicado pode ser aplicado
univocamente a Deus e aos seres criados. Mesmo a cópula não pode ser usada
univocamente nestas duas referências. Quando, portanto, um homem pensa que Deus é
bom ou eterno ou todo-poderoso, ele não só quer com isso dizer algo diferente do que
Deus quer dizer por bom ou eterno ou onipotente, mas, pior (se alguma coisa pode ser
pior) ele quer dizer algo diferente ao dizer que Deus é. Já que como criaturas temporais
não podemos conhecer a essência eterna de Deus, não podemos saber o que Deus quer
dizer quando ele afirma a sua própria existência. Entre o significado da existência de
Deus e o significado do homem não há um único ponto de coincidência.

40
Os Escolásticos e Neo-escolásticos tentam disfarçar o ceticismo desta posição
argumentando que, embora os predicados não sejam unívocos, nem equívocos, são
analógicos. Os cinco professores também afirmam que “O conhecimento deve ser
análogo ao conhecimento que Deus possui” (O Texto, 5:3). No entanto, um apelo à
analogia - embora possa disfarçar - não remove o cepticismo” (The Text, 5:3). As
analogias comuns são legítimas e úteis, mas são tão somente porque há um ponto
unívoco de significado coincidente nas duas partes. Um remo de uma canoa pode ser
considerado análogo às pás de um vaporizador de roda de remo; o remo de uma canoa
pode ser considerado análogo mesmo ao parafuso da hélice de um transatlântico, mas é
assim por causa de um elemento unívoco. Estas três coisas - o remo da canoa, a roda
do remo e o parafuso da hélice - são dispositivos unívocos para aplicação da força
para mover barcos através da água. Sem um elemento unívoco uma alegada analogia é
puramente equívoca, e o conhecimento análogo é ignorância total. Mas se há um
elemento unívoco, até mesmo um selvagem primitivo, quando lhe dizem que uma
hélice de parafuso é análoga ao remo de sua canoa, terá aprendido alguma coisa. Ele
pode não ter aprendido muito sobre hélices de parafuso e, comparado com um
engenheiro, ele é quase completamente ignorante - quase mas não completamente. Ele
tem alguma idéia sobre hélices, e sua idéia pode ser literalmente verdadeira. O
engenheiro e o selvagem têm um pequeno item de conhecimento em comum. Mas sem
sequer um item em comum, não se poderia dizer que ambos sabem. Para que as duas
pessoas saibam, a proposição deve ter o mesmo significado para os dois. E isso vale
igualmente entre Deus e o homem.

Se Deus tem a verdade e se o homem tem apenas uma analogia, segue-se que ele não
tem a verdade. Uma analogia da verdade não é a verdade; ainda que o conhecimento
do homem não seja chamado uma analogia da verdade, mas uma verdade analógica, a
situação não é a melhor. Uma verdade analógica, exceto aquela que contém um ponto
unívoco de significado coincidente, simplesmente não é a verdade. Em particular (e a
resposta mais esmagadora de todas) se a mente humana estivesse limitada à verdades
analógicas, nunca poderia saber a verdade unívoca de que estava limitada a analogias.
Mesmo que fosse verdade que os conteúdos do conhecimento humano são analogias,
um homem nunca poderia saber que tal era o caso; ele só podia ter a analogia de que o
seu conhecimento era analógico. Esta teoria, portanto, se encontrada em Tomás de

41
Aquino, Emil Brunner, ou professos conservadores, é ceticismo não dedutível e é
incompatível com a aceitação de uma revelação divina da verdade. Esse ceticismo não
dedutível é claramente indicado em uma declaração feita numa reunião pública e
relatada numa carta datada de 1 de Março, 1948, aos Directores da Covenant House. A
declaração foi feita, questionada, e reafirmada por um dos escritores acima
mencionados, de que a mente humana é incapaz de receber qualquer verdade; a mente
do homem nunca recebe qualquer verdade. Esse ceticismo deve ser completamente
repudiado, se quisermos salvaguardar uma doutrina da revelação verbal.

A Verdade é Proposicional

A revelação verbal - com a idéia de que a revelação significa a comunicação de


verdades, informações, proposições - traz à tona outro fator na discussão. A Bíblia é
composta de palavras e frases. Suas afirmações declarativas são proposições no sentido
lógico do termo. Além disso, o conhecimento que os gentios possuem de uma
revelação original pode ser expressa em palavras: “São dignos de morte os que tais
coisas praticam.” A obra da lei escrita nos corações dos gentios resulta em
pensamentos, acusações e desculpas que podem ser e são expressos em palavras. A
Bíblia em nenhum lugar sugere que existem verdades inexprimíveis. Com certeza, há
verdades que Deus não expressou ao homem, porque “As coisas encobertas pertencem
ao SENHOR nosso Deus”; mas isto não quer dizer que Deus é ignorante em relação
aos sujeitos, predicados, cópulas e concatenações lógicas destas coisas secretas. Mais
uma vez enfrentamos o problema do equívoco. Se houvesse uma verdade inexprimível
em forma lógica, gramatical, a palavra verdade aplicada a ela não teria mais em
comum com o significado usual da verdade do que o Dog Star tem em comum com o
Fido. Seria outro caso de uma palavra sem um único ponto de coincidência entre os
seus dois significados. Os cinco Professores, pelo contrário, afirmam: “não podemos
concluir com segurança que o conhecimento de Deus é de carácter proposicional.” E
uma tese de doutorado de um dos seus alunos diz: “Parece uma tremenda suposição
sem a justificação da Escritura e, portanto, repleta de especulação perigosa que se
impingia sobre a doutrina de Deus para evitar que toda a verdade na mente de Deus
seja capaz de ser expressa em proposições.” Para mim, a tremenda suposição sem
justificação da Escritura é que Deus é incapaz de expressar a verdade que conhece. E

42
que o seu conhecimento é um sistema lógico que parece ser requerido por três
evidências indiscutíveis: primeiro, a informação que ele revelou é gramatical,
proposicional e lógica; segundo, o Antigo Testamento fala sobre a sabedoria de Deus e
no Novo Testamento Cristo é designado como o Logos em quem estão escondidos
todos os tesouros da sabedoria e doconhecimento; e, terceiro, somos feitos à imagem
de Deus, Cristo, sendo a luz que ilumina a todos os homens.

Certamente, o ônus da prova recai sobre aqueles que negam a construção proposicional
da verdade. O seu fardo é duplo. Não só devem dar provas para a existência de tal
verdade, mas antes de tudo, eles devem deixar claro o que eles querem dizer por suas
palavras. Pode ser que a frase verdade não posicional seja uma frase sem significado.

O que eu receava que esta confusão quanto à natureza da verdade se torna-se, se


espalhou pelo grupo criticado acima. O pensamento de Edward J. Carnell
presumivelmente não seria favorável a eles, e, nesse ponto, ele parece ter adotado a
mesma posição. Considere seu argumento em A Philosophy of the Cristian Religion
(450-453). Ele começa por distinguir duas espécies de verdade: primeiro, “a soma total
da própria realidade”, e segundo, “a consistência simétrica sitemática ou
correspondência proposicional à realidade.” Não é irrelevante para o argumento
considerar a teoria da verdade da correspondência, mas ela pode levar a uma discussão
também estendida para o propósito imediato. Basta dizer que se a mente tem algo que
só corresponde à realidade, não há realidade; e se ela conhece a realidade, não há
necessidade de algo extra que lhe corresponda. A teoria da correspondência, em
resumo, tem todas as desvantagens da analogia. Carnell ilustra a primeira espécie de
verdade ao dizer: “As árvores no jardim são verdadeiras árvores.” Sem dúvida que são,
mas isso não convence ninguém de que uma árvore é uma verdade. Dizer que as
árvores são verdadeiramente árvores é meramente colocar ênfase literária na
proposição, as árvores são árvores. Se alguém dissesse que as árvores não são
verdadeiras árvores, ou que as árvores são falsamente árvores, o significado seria
simplesmente, as árvores não são árvores. Em tais ilustrações nenhuma verdade que
não seja proposicional é encontrada, e nenhuma evidência para duas espécies de
verdade é fornecida. Carnell então descreve um estudante fazendo um exame de ética.
O aluno pode saber as respostas, mesmo que ele mesmo não seja moral. Mas a mãe do

43
aluno quer que ele não saiba a verdade, mas que seja a verdade. Carnell insiste que o
aluno pode ser a verdade. Agora, obviamente a mãe quer que seu filho seja moral, mas
que significado pode ser atribuído à frase de que a mãe quer que o filho seja a
verdade? Deixa que o pensamento seja apenas preparatório para ser moral, como diz
Carnell, mas o que pode significar ser a verdade; isto é, o que mais pode significar do
que ser moral? O estudante não poderia ser uma árvore. Parece, portanto, que Carnell
está usando linguagem figurativa em vez de falar literalmente. Ele então se refere às
palavras de Cristo: “Eu sou... a verdade.” Agora, seria pouco generoso concluir que
quando Cristo diz “Eu sou... a verdade”, e então o estudante pode ser dito ser a
verdade, que Cristo e o estudante são identificados. Mas para evitar essa identificação,
é necessário ver o que Cristo quer dizer pela sua declaração. Como foi dito antes, a
Bíblia é literalmente verdadeira, mas nem toda a frase é literalmente verdadeira. Cristo
disse: “Eu sou a porta”; mas ele não quis dizer que ele era feito de madeira. Cristo
também disse: “Este é o meu corpo”. Os Romanistas pensam ele falou literalmente; Os
Presbiterianos tomam a sentença figurativamente. Da mesma forma, a afirmação, “Eu
sou... a verdade,” deve ser interpretada como significando, Eu sou a fonte da verdade;
Sou a sabedoria e o Logos de Deus; as verdades são estabelecidas pela minha
autoridade. Mas isso não poderia ser dito em relação ao aluno, de modo que chamar
um aluno de a verdade é ou extremamente figurativo ou completamente desprovido de
significado.

Carnell também diz: “Uma vez que os seus sistemas [os sistemas de pensamento de
mentes finitas] nunca estão completos, no entanto, a verdade proposicional nunca pode
passar além da probabilidade.” Mas se isto é verdade, em si mesmo não é verdade, mas
apenas provável. E se isto é verdade, as proposições da Bíblia, tais como Davi matou
Golias e Cristo morreu pelos nossos pecados, são apenas prováveis - podem ser falsas.
E sustentar que a Bíblia pode ser falsa é obviamente inconsistente com a revelação
verbal. Inversamente, portanto, deve ser mantido que qualquer grande ignorância pode
caracterizar os sistemas do pensamento humano, tal ignorância de muitas verdades não
altera as poucas verdades que a mente possui. Há muitas verdades da matemática,
astronomia, gramática grega e teologia Bíblica que eu não sei; mas se eu souber
alguma coisa, e especialmente se Deus me deu apenas um item de informação, a minha
ignorância extensa não terá efeito sobre essa única verdade. Caso contrário, estamos

44
todos envolvidos em um ceticismo que faz da argumentação uma perda de tempo.

No século XX não é Tomás de Aquino, mas Karl Barth, Emil Brunner, Neo-ortodoxos,
e existencialistas que são a fonte deste ceticismo em detrimento da revelação. Brunner
escreve:

Aqui se torna inequivocamente claro que o que Deus quer nos dar não pode ser
verdadeiramente [eigentlich] dado em palavras, mas só por meio de uma dica
[hinweisend]... Portanto, porque ele [Jesus] é a Palavra de Deus, todas as palavras têm
um significado meramente instrumental. Não só o conteúdo linguístico das palavras,
mas também o conteúdo conceitual não é a coisa em si, mas apenas a sua forma,
recipiente e meios.

O ceticismo total desta posição - em que não só o símbolo verbal mas também o
conteúdo conceitual em si não é o que Deus realmente quer nos dar - é disfarçado em
frases piedosas sobre uma verdade pessoal, ou Du-Wahrheit, distinto da relação
sujeito-predicado chamado Es-Wahrheit. Deus não pode ser um objeto de pensamento;
ele não pode ser um Gegenstand para a mente humana. A verdade, em vez de ser uma
questão de proposições é um encontro pessoal. Quaisquer que sejam as palavras que
Deus possa falar, Brunner não só as reduz em sugestões ou dicas, mas também
sustenta que as palavras de Deus podem ser falsas. “Deus pode, se quiser, falar a sua
Palavra ao homem, mesmo através de doutrina falsa.” Esta é a culminação, e o
comentário deve ser supérfluo.

Em conclusão, desejo afirmar que uma teoria satisfatória da revelação deve envolver
uma epistemologia realista. Por realismo neste contexto, quero dizer uma teoria de
que a mente humana possui alguma verdade - não uma analogia da verdade, não uma
representação ou correspondência da verdade, não um mero indício da verdade, não
um verbalismo sem sentido sobre uma nova espécie de verdade, mas a própria
verdade. Deus tem falado sua palavra em palavras, e essas palavras são símbolos
adequados do conteúdo conceitual. O conteúdo conceitual é literalmente verdadeiro, e
é o ponto de coincidência unívoco, idêntico no conhecimento de Deus e do homem.

45
INSPIRAÇÃO VERBAL ONTEM E HOJE

A inspiração das Escrituras, tendo como referência a verdade e a autoridade da Palavra


de Deus, é de tão óbvia importância para o Cristianismo que nenhuma justificação
elaborada é necessária para discutir o assunto. Na verdade, é até perdoável começar
com um material muito elementar. Não só perdoável, mas de fato indispensável.
Nenhuma discussão sobre inspiração pode contribuir com muito valor sem ter em
conta os dados elementares das Escrituras. Estes dados devem ser mantidos em mente.
No entanto, infelizmente, alguns desses detalhes podem ter desaparecido de nossas
memórias envelhecidas. Mais infelizmente, a geração mais Jovem - devido aos baixos
padrões de muitos seminários - pode nunca ter aprendido os dados Bíblicos. Portanto,
desejo antes de tudo fazer algumas afirmações simples sobre a doutrina da inspiração
como era comumente explicada há cem anos atrás.

Foi em 1840 que Louis Gaussen publicou seu famoso livro Theopneustia. Gaussen foi
um teólogo Suíço que, como J. Gresham Machen neste século, foi deposto do
ministério e expulso da igreja por causa de sua adesão à verdade das Escrituras. E seu
livro Theopneustia é uma defesa da inspiração. Nele, Gaussen acumula a espantosa
quantidade de material que as Escrituras têm a dizer sobre si mesmas. E embora isso
tenha sido há um século atrás, ninguém deve abordar a questão da inspiração sem um
bom conhecimento do trabalho de Gaussen, ou pelo menos sem um bom conhecimento
do que a Bíblia tem a dizer sobre si mesma.

O efeito é cumulativo; e é lamentável que em vez de examinarmos e determinarmos o


significado de uma centena de referências, devemos selecionar apenas algumas.

Por exemplo, Gaussen percebe as três vezes que Isaías diz: “A boca do Senhor falou”,
assim como outras expressões semelhantes em Isaías. Gaussen chama atenção a 2
Samuel 23:1-2, “O Espírito do SENHOR falou por mim, e a sua palavra está na minha
boca.” Novamente, “No sétimo mês, ao vigésimo primeiro dia do mês, veio a palavra
do SENHOR por intermédio do profeta Ageu.” A Moisés disse Deus: “Eu serei com a
tua boca”. E Atos 4:25 afirma que o Senhor “Que disseste pela boca de Davi, teu

46
servo”.

O efeito cumulativo de várias dezenas de tais versículos é a conclusão de que os


profetas não afirmam falar por sua própria autoridade, mas que testificam que o
Espírito dá-lhes a sua mensagem e fá-los falar.

Deve-se notar bem que a mensagem dada pelo Espírito Santo não é meramente a ideia
geral da passagem, mas sim as próprias palavras.

Deuteronômio 18:18-19: “Eis que lhes suscitarei um profeta... e porei as minhas


palavras na sua boca... E será que qualquer que não ouvir as minhas palavras, que ele
falar em meu nome, eu o requererei dele.”

Jeremias 1:9: “E estendeu o SENHOR a sua mão, e tocou-me na boca; e disse-me o


SENHOR: Eis que ponho as minhas palavras na tua boca”.

Há tempo para apenas mais uma referência para mostrar que os profetas afirmam que
falam as palavras de Deus. Ouçam, pois, a declaração do nosso próprio Senhor:
“Porque, se vós crêsseis em Moisés, creríeis em mim; porque de mim escreveu ele.
Mas, se não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?” (João 5:46-
47).

Mais uma vez, eu digo, o efeito é cumulativo. Deve-se ler todas as passagens de
Gaussen e notar cuidadosamente o significado de cada uma delas. Só assim se terá
uma base adequada para a doutrina da inspiração.

A última referência nos leva um passo adiante neste material elementar. Alguém na
ignorância poderia objetar que, apesar de Deus ter dado aos profetas as suas palavras e
os fez falar, o falar cessou nestes milhares de anos, e temos apenas relatos desses
discursos. Esta pergunta, relativa à relação da palavra falada à palavra escrita, foi
respondida por Cristo na última referência. Note cuidadosamente, nosso Senhor diz:

47
“Porque, se vós crêsseis em Moisés, creríeis em mim; porque de mim escreveu ele.
Mas, se não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?”

Quando as palavras que Deus deu aos seus profetas foram escritas, elas se tornaram os
Escritos, ou seja, as Escrituras. E são as Escrituras, os Escritos, que Jesus diz para
procurarmos neles a vida eterna. Na sua tentação, Jesus repele Satanás ao dizer: “Está
escrito”. Também em João 6:45, 8:17, 12:14, 15:25, a frase, “Está escrito”, estabelece
os pontos em questão.

Permitam-me, finalmente, que me refira a mais uma passagem excepcionalmente


importante. Em João 10:34-35, Jesus está defendendo sua reivindicação à Deidade. Ele
cita o Salmo 82. Será que ele cita este Salmo porque o Salmo 82 é mais inspirado e
mais autoritário do que qualquer outra passagem do Antigo Testamento? De forma
alguma. Ele diz: “Não está escrito na vossa lei?... e a Escritura não pode ser anulada”.
Cristo aqui apelou para Salmo 82 porque é uma parte da Escritura, e visto que toda a
Escritura é dada por inspiração de Deus, esta passagem também é inspirada, pois a
Escritura não pode ser anulada.

Deixe-me repetir pela terceira vez que o efeito é cumulativo. Deve-se ter em mente as
centenas de casos em que a Bíblia reivindica inspiração verbal. Agora, para concluir
esta primeira seção, esta pesquisa de detalhes elementares, eu gostaria de fazer uma
pergunta contundente. Se os profetas que falaram, se os autores que escreveram e se o
próprio Senhor estiverem enganados nestas centenas de vezes, que segurança pode
haver em relação às outras coisas que disseram e escreveram? Existe alguma razão
para supor que os homens que foram tão uniformemente enganados quanto à fonte da
sua mensagem poderiam ter tido qualquer insight superior e conhecimento exato da
relação do homem com Deus? Mais ainda: alguém pode professar uma relação pessoal
com Jesus Cristo e contradizer consistentemente a sua afirmação de que as Escrituras
não podem ser anuladas?

48
A Objeção do Ditado

Visto que este relato elementar e abreviado de inspiração verbal tem sido baseado num
volume de um século atrás, o próximo passo, antes de trazer assuntos completamente
atualizados, será o exame de uma objecção antiga de um século.

A idéia de que Deus deu suas palavras aos profetas parece a muitos liberais uma teoria
mecânica e artificial da revelação. Deus, dizem-nos eles, não deve ser imaginado como
um chefe a ditar palavras ao seu estenógrafo. E mais ainda, os escritos dos profetas
mostram claramente a liberdade e a espontaneidade da individualidade pessoal. O
estilo de Jeremias não é o de Isaías, nem João escreve como Paulo. As palavras são
obviamente as palavras de João e Jeremias, não as de um chefe ditando a vários
estenógrafos. Os estenógrafos de um chefe mostrarão letras do mesmo estilo literário;
eles não corrigem ou não deveriam corrigir seu inglês. Agora, portanto, se Deus
ditasse as palavras da Bíblia, as diferenças pessoais não podiam ser explicadas - do
qual segue-se que a doutrina da inspiração verbal é falsa.

Em resposta a esta objeção, e a muitas outras objeções contra várias fases do


Cristianismo, é útil notar que os antagonistas de modo bastante uniforme deturpam as
doutrinas que atacam. Assim, o primeiro e indispensável passo em elaborar uma
resposta, é mostrar claramente o que pertence e o que não pertence a doutrina da
inspiração verbal.

Agora, vamos manter na mente certos fatos bem claros. Em primeiro lugar, as
diferenças do estilo - e são tão óbvias que mesmo uma tradução não pode obscurecê-
las - mostram decisivamente que a Bíblia não foi ditada como um chefe dita a um
estenógrafo. Houve realmente alguns teólogos que usaram a ideia do ditado. Se todos
eles falaram de ditado no sentido em que ocorre em um escritório moderno de
negócios, ou se para alguns deles o ditado tinha a ver com o sentido mais geral de
comando e imposição autoritária, não precisamos de discutir. O que é principal para o
ponto é que a grande maioria dos teólogos que possue e têm mantido a inspiração
verbal nunca aceitou a teoria do ditado. Pode-se facilmente supor que os incrédulos

49
acham mais fácil ridicularizar o ditado do que compreender e discutir a inspiração
verbal como ela é realmente ensinada pelos teólogos evangélicos.

Como, então, as diferenças de estilo devem ser consideradas, e o que significa


inspiração verbal? A resposta a estas questões, envolvendo a relação entre Deus e os
profetas, leva-nos rapidamente para longe da imagem de um chefe e um estenógrafo.

Quando Deus quis fazer uma revelação (no momento do êxodo ou do cativeiro) ele não
olhou em volta, como se fosse pego despreparado, e perguntando-se sobre que homem
poderia usar para esse fim. Não podemos supor que ele procurou por ajuda e quando
Moisés e Jeremias se dispuseram, Deus os constrangeu a falar as suas palavras. E esta
visão depreciativa fundamenta a objecção à inspiração verbal. A relação entre Deus e o
profeta é totalmente diferente daquela entre um chefe e um estenógrafo.

Se considerarmos a onipotência e a sabedoria de Deus, uma representação muito


diferente emerge. O chefe deve levar quem puder; ele depende do colégio ou da
faculdade de negócios de ter ensinado ao candidato taquigrafia e digitação. Mas Deus
não depende de nenhuma agência externa. Deus é o Criador. Ele fez Moisés. E quando
Deus quis que Moisés falasse por ele, disse: “Quem fez a boca do homem?... Não sou
eu, o SENHOR?”

A inspiração verbal, portanto, deve ser entendida em conexão com o sistema completo
da doutrina Cristã. Não pode ser separada dele, e uma fortiori5 pode não ser
enquadrada numa visão alheia de Deus. A inspiração verbal é integral com as doutrinas
da providência e da predestinação. Quando os liberais negam secretamente a
predestinação ao retratar Deus como ditador de estenógrafos, eles deturpam a
inspiração verbal de forma que suas objeções não se aplicam ao Deus da Bíblia. O
problema não é, como pensam os liberais, que o chefe controla completamente o
estenógrafo; pelo contrário, a analogia erra o ponto porque o chefe mal controla o
estenógrafo.

5
[Nota do Tradutor] Expressão latina que significa: “por causa de uma razão mais forte” ou “com muito
mais razão”; representa também um raciocínio que contém certos enunciados que se supõem reforçarem a
verdade da proposição que se tenta demonstrar.

50
Digamos assim: Deus, desde toda a eternidade, decretou tirar os Judeus da escravidão
pela mão de Moisés. Para isso, ele controlou tanto os acontecimentos que: Moisés
nasceu em uma determinada data, foi colocado na água para salvá-lo de uma morte
prematura, foi encontrado e adotado pela filha de Faraó, com a melhor educação
possível, conduzido para aprender a paciência, e em todos os sentidos tão preparado
pela hereditariedade e pelo ambiente que, quando chegou a hora, a mentalidade e o
estilo literário de Moisés eram os instrumentos precisamente adaptados para falar as
palavras de Deus.

É bem diferente com ditado. Um chefe tem pouco controle sobre um estenógrafo
excepto quanto às palavras que ele (o estenógrafo) dactilografa para ele. O chefe não
controlou a educação do estenógrafo. O estenógrafo pode estar totalmente
desinteressado em relação ao negócio do chefe. Eles podem ter muito pouco em
comum. Mas entre Moisés e Deus havia uma união interior, uma identidade de
propósito, uma cooperação de vontade tal, que as palavras que Moisés escreveu eram
as próprias palavras de Deus e as próprias palavras de Moisés ao mesmo tempo.

Assim, quando vemos a presença e a providência de Deus penetrantes na história e na


vida de seus servos, reconhecemos que o ditado do escritório de negócios não faz
justiça às Escrituras. O Espírito Santo habitava dentro destes homens e os ensinava o
que escrever. Deus determinou qual devia ser a personalidade e o estilo de cada autor,
e ele determinou-o com o propósito de expressar a sua mensagem, as suas palavras. As
palavras da Escritura, portanto, são as próprias palavras de Deus.

Teorias Contemporâneas

Embora esta exposição elementar e a defesa da inspiração verbal tenha sido


inadequada, um pouco de tempo deve ser reservado para uma terceira e última seção
no estado contemporâneo das coisas. Com o declínio do liberalismo Ritschliano e a
ascensão do Existencialismo, Neo-ortodoxia e Positivismo Lógico, o ponto de ataque
mudou. Não é mais uma questão de saber se as palavras da Bíblia são as palavras de
Deus ou simplesmente as palavras falíveis de um homem; hoje uma objeção mais

51
abrangente é feita com base numa teoria da linguagem. Os filósofos se interessaram
pela semântica, e alguns de seus pontos de vista alterariam assim o significado das
palavras que com toda a inspiração verbal imaginável, a Bíblia seria esvaziada do seu
significado Cristão. De acordo com vários escritores, ou toda a línguagem é metafórica
e simbólica ou pelo menos toda a linguagem religiosa é. Nenhuma declaração religiosa
deve ser tomada literalmente. Por exemplo, John Mackintosh Shaw, professor de
Teologia Sistemática no Queen's College, refere-se à termos: resgate, justificação,
propiciação, expiação e reconciliação como metáforas ou figuras de linguagem
(Christian Doctrine, 207). A partir deste tipo de visão, pode e conclui-se que a
revelação divina não pode ser uma comunicação da verdade.

Falando dos primeiros capítulos de Gênesis, William M. Logan, pastor da University


Presbyterian Church, Austin, Texas, em seu livro In the Beginning, God, diz,

São parábolas, não histórias ou explicações... não há nenhuma tentativa de formular


proposições intelectuais para afirmar verdades básicas. Em vez disso, o método é o da
imagem poética e do simbolismo... Isto não é o que estou lendo sobre Adão; Este sou
eu... Por essa razão, nenhuma mudança em nosso conhecimento da verdade física
pode, de qualquer forma, afetar o ensino destes capítulos mais do que poderia afetar as
fábulas de Esopo. (15-17)

Mais tarde ele diz,

A questão realmente importante sobre a história do Jardim do Éden não é se ela é


literal e fatualmente verdadeira na mesma ordem de verdade com a qual a história,
geografia, astronomia ou geologia tratam… Esta história está lidando com a verdade
última que... pode ser expressa apenas pela imagem e simbolismo… Alguém já
perguntou se o Bom Samaritano aconteceu literalmente? (35-36)

A queda é simbolismo... O Éden não está em nenhum mapa, e a queda de Adão não se
encaixa em nenhum calendário histórico. Moisés não está mais perto da queda do que
nós estamos, porque ele viveu 3000 anos antes do nosso tempo. A queda não se refere
a alguma calamidade aborígene datável no passado histórico da humanidade, mas a
uma dimensão da experiência humana que está sempre presente... Cada homem é seu
próprio Adão. (47-48)

52
Que a linguagem religiosa não pode ser verdadeira literalmente tem sido apoiado pelos
seguintes argumentos. Um autor dá a ilustração de um pregador muito comum
pregando um sermão muito comum. Mas embora banal e enfadonho, este sermão ou
uma frase neste sermão torna-se uma mensagem vital para alguém na congregação. A
vida da pessoa muda. No entanto, a vida transformada não pode ser o resultado do
significado literal de uma frase indistinta. As palavras devem ter transmitido um
conteúdo religioso muito diferente de qualquer significado literal. Esse conteúdo
religioso, assim conclui o argumento, é o significado - o significado metafórico,
simbólico, ou religioso - das palavras; e se por acaso as palavras tivessem qualquer
significado literal, isso estaria completamente fora de questão.

Embora esse argumento seja encontrado em uma revista científica publicada pelo
Conselho Nacional de Igrejas, a sua análise deficiente e a sua incapacidade de provar
que a linguagem religiosa não pode ser literal, são tão óbvias que nenhum tempo será
desperdiçado explicando isso.

Outro autor, que afirma que todos os termos religiosos são metafóricos ou simbólicos,
esboça uma epistemologia religiosa que é baseada em imagens. Deus, ele diz, sempre -
e nota o sempre - fala ao homem através de imagens, e “a experiência religiosa é um
processo de ser atingido por tais imagens.” Este processo, que pode ser chamado de
uma espécie de idolatria mental, é então assimilado à arte e à mitologia. A
especificação do mito como a forma de escrita religiosa é, naturalmente um tema
contemporâneo proeminente.

Mas se o conteúdo religioso não pode ser literalmente falado e deve ser expresso na
linguagem pictórica do mito, alguma explicação é necessária quanto à escolha dos
mitos. Um grupo de pessoas escolhe a mitologia grega e outro grupo escolhe a
mitologia Cristã. Sem dúvida, tais escolhas são muitas vezes feitas irrefletidamente sob
a influência da sociedade. Mas chega o momento de pensar; chega um tempo de
conflito entre duas religiões, e uma pessoa é convidada a escolher deliberadamente.
Então não faz diferença? Se nenhum dos mitos é verdadeiro literalmente, se ambos são
igualmente simbólicos, não é um tão satisfatório quanto o outro?

53
Agora, a mitologia grega é uma escolha tão improvável hoje que o autor a referiu por
último, convencido provavelmente de que os tempos modernos são superiores aos
antigos, afirma a possibilidade de fazer uma escolha racional entre mitos sobre a base
da sua adequação para explicar os fatos da existência à medida que os confrontamos na
vida e na acção quotidiana.

Parece-me, no entanto, que nem esta nem qualquer outra tentativa de justificar uma
escolha entre os mitos, pode ser bem sucedida. Se os mitos fossem verdades literais,
um seria mais adequado que outro. O mito grego do método de Zeus de produzir chuva
pode ser considerado mais adequado ou menos adequado do que o mito sobre as
janelas do céu, atribuído aos Hebreus. Mas se essas histórias são ambas mitológicas e
simbólicas, simplesmente simbólicas do fato literal que chove, é difícil de julgar o que
a adequação pode exigir. Uma declaração literal das nuvens de Aristófanes pode
explicar, mas o mito não explica nada. Além disso, se a linguagem é simbólica, parece
claro que um símbolo (antes de eventos históricos fixarem o seu significado) é tão bom
como outro. Hoje a suástica simboliza o Socialismo Nacional; o martelo e a foice, o
Comunismo; mas, no início, não havia razão para os Comunistas não escolherem a
suástica e Hitler o martelo e a foice. Para levar esta crítica preliminar um passo
adiante, poderiamos fazer a pergunta: Um símbolo religioso, é símbolo de que
símbolo? A cruz, sem dúvida é o símbolo da crucificação de Cristo, mas pode a
própria crucificação ser um símbolo ou metáfora de alguma coisa? O significado prima
facie6 das afirmações sobre a crucificação é literal. E se alguém disser que a linguagem
religiosa não pode ser literal, parece não haver nenhum método racional para
determinar em relação a o quê a crucificação é símbolo. É pessimisticamente símbolo
de um universo inerentemente injusto, ou é símbolo do amor de Deus? Com que
fundamentos se poderia decidir se nada na narrativa pode ser tomado literalmente?

Mas suponha agora que alguém decida sem fundamentos racionais. Suponha que a
crucificação, embora nunca tenha ocorrido literalmente, fosse símbolo do amor de
Deus. Então devemos perguntar, é uma verdade literal que Deus ama os homens, ou
isso é também simbólico? Obviamente isto deve ser simbólico também, se toda a
linguagem for simbólica. E do que é o simbolismo do amor de Deus? Sem dúvida é

6
[Nota do Tradutor] Expressão latina que significa: à primeira vista.

54
símbolo de outro símbolo - que é símbolo de outro - ad infinitum7.

Embora, sem dúvida, estejamos principalmente interessados no efeito da semântica


moderna sobre o significado literal da Bíblia, seria um erro supor que o ministério
Cristão não deveria preocupar-se com as várias teorias seculares das quais derivam as
implicações religiosas. Embora uma análise detalhada dessas filosofias não pode ser
empreendida aqui, um aspecto fundamental delas não deve passar em silêncio. Refiro-
me ao estatuto da lógica nessas filosofias e, em particular, à lei da contradição. Embora
a lógica acadêmica pareça um pouco distante da mitologia e metáfora religiosa, a
questão principal da inspiração verbal e seu efeito imediato sobre o trabalho Cristão é
apenas, de forma ligeira, velada pela terminologia profissional.

Ainda nesta primavera recebi uma carta do campo missionário na qual o meu
correspondente lamentou o fato de que tantos de seus associados que estavam
envolvidos na tradução da Bíblia, aceitaram ou foram profundamente influenciados
pelo relativismo linguístico contemporâneo. Agora, parece-me que a melhor maneira
de lidar com esta filosofia é mostrar o que ela faz com a lei da contradição.

Esta filosofia da análise, como às vezes é chamada, não só repudia a revelação divina,
mas toda a metafísica também. Em particular, ela nega qualquer revelação inata ou
formas a priori da mente, tradicionalmente consideradas como necessariamente
verdadeiras. A lógica e a matemática são explicadas como convenções linguísticas que
foram arbitrariamente selecionadas. A história passada exemplificou diferentes
seleções. A lógica de Alfred North Whitehead e Bertrand Russell é uma, e a lógica de
Aristóteles é outra. Para citar A.J.Ayer, “É perfeitamente concebível que deveríamos
ter empregado convenções linguísticas diferentes daquelas que realmente
empregamos.”

Positivista, humanista ou ateísta, como esta filosofia é, aparentemente, atrai tradutores


Bíblicos e até mesmo professores em escolas Bíblicas Americanas. Em Setembro
passado, um instrutor em um dos mais respeitados colégios Bíblicos publicou um

7
[Nota do Tradutor] Expressão latina que significa: “até ao infinito”.

55
artigo em que (juntamente com o que parecia ser uma teoria mecanicista da sensação)
ele rejeitou a lógica aristotélica como uma verbalização injustificada e anti-natural, e
aceitou pelo menos um pouco do Instrumentalismo de Dewey. Este tipo de coisa é
vista também, embora talvez de uma forma menos consciente e com graus variáveis,
na depreciação pietista de uma chamada lógica humana, em oposição à alguma
incognoscível lógica divina.

Em defesa da chamada lógica humana, em defesa do significado literal das palavras e,


portanto, em defesa da inspiração verbal, desejo desafiar o ponto de vista oposto para
enfrentar o argumento e responder de forma inequívoca. Desejo desafiá-los a declarar
a sua própria teoria sem fazer uso da lei da contradição.

Se os princípios lógicos são arbitrários, e se é concebível empregar diferentes


convenções linguísticas, estes escritores devem ser capazes de inventar e respeitar
alguma convenção diferente. Agora, a lógica Aristotélica, e em particular a lei da
contradição, exige que uma dada palavra não deve significar apenas algo, deve
também não significar algo. O termo cão deve significar cão, mas não deve significar
montanha; e montanha não deve significar metáfora. Cada termo deve se referir a algo
definitivo e, ao mesmo tempo, deve haver alguns objetos em relação aos quais ele não
se refere. O termo metafórico não pode significar literal, nem pode significar canino ou
montanhoso.

Suponha que a palavra montanha significasse metáfora, e cão, e Bíblia, e o Estados


Unidos. Claramente, se uma palavra significasse tudo, não significaria nada. Se, agora,
a lei da contradição é uma convenção arbitrária, e se os nossos linguísticos teóricos
escolhem alguma outra convenção, desafio-os a escreverem um livro em conformidade
com os seus princípios. Na verdade, não será difícil para eles fazerem isso. Nada mais
é necessário, do que escrever a palavra metáfora sessenta mil vezes: Metáfora
metáfora metáfora metáfora…

Isto significa que o cão subiu a montanha, pois a palavra metáfora significa cão, subiu,
e montanha. Infelizmente, a frase “metáfora metáfora metáfora” também significa,

56
Próximo Natal é Ação de Graças, pois a palavra metáfora tem estes significados
também.

O ponto deve ser claro: Não se pode escrever um livro ou falar uma frase sem usar a
lei da contradição. A lógica, portanto, não é uma convenção arbitrária que pode ser
descartada à vontade. E toda a conversa piedosa sobre a nossa lógica humana falível,
assim também como todas as teorias metafóricas modernas da linguagem religiosa,
tornam a revelação verbal impossível. Mas, felizmente, essas teorias tornam-se
impossíveis também.

Portanto, o Cristão ortodoxo pode muito bem concluir, em minha opinião, que a
inspiração verbal não tem objeções para temer. As objeções mais antigas foram
refutadas com sucesso há um século atrás. As objeções mais recentes são ainda mais
fáceis de descartar. Mas, visto que do ponto de vista intelectual ou acadêmico, não
temos objeções para temer, então, um dos efeitos é a propaganda imposta aos
estudantes em universidades e seminários, de que há uma grande necessidade de tornar
a posição Calvinista universalmente conhecida e amplamente compreendida.

57
A SOCIEDADE EVANGÉLICA TEOLÓGICA DE AMANHÃ

A Sociedade Evangélica Teológica é uma organização notável. O termo evangélico,


uma herança da Reforma, recorda-nos o chamado princípio formal e o chamado
princípio material da origem do Protestantismo. Justificação pela fé somente foi o
princípio material, e as condições religiosas do século XVI exigiram uma grande
ênfase nesta questão essencial do Evangelho.

A Sociedade Evangélica Teológica, no entanto, não fez muito com a doutrina da


justificação. Não é porque a justificação pela fé somente é menos essencial agora, mas
sim porque a batalha de hoje (de uma forma diferente da do século XVI) gira em torno
do chamado princípio formal da Reforma, ou seja, a própria Escritura. Ambos os
princípios são, é claro, essenciais em todas as épocas. Ninguém que rejeita um ou
outro pode apropriar-se justamente do termo evangélico. Mas embora ainda hoje haja
muitos que rejeitam a justificação e que a decretam como um conceito forense, legal,
irreligioso, a principal a batalha centra-se na veracidade das Escrituras.

É por esta razão que a Sociedade Evangélica Teológica é uma organização notável.
Num dia em que o ataque principal contra o Cristianismo é centrado na verdade da
Palavra de Deus, e quando os liberais afirmam em voz alta que nenhuma defesa erudita
da Bíblia pode ser feita, esta Sociedade que conta com professores de faculdades e
seminários foi organizada com o propósito de propagar a doutrina da infalibilidade das
Escrituras.

Assim, acontece que a nossa Sociedade inclui os melhores estudiosos conservadores


do mundo, e para este fim nossas discussões examinam todas as fases conhecidas da
Bíblia, da literatura, da arqueologia, da teologia e da apologética. Em nossa primeira
reinião, que pode ser chamada de nossa convenção constitucional, vimos claramente
que se a Bíblia é a Palavra de Deus - uma frase que até mesmo os Neo-ortodoxos às
vezes usam - ela não pode conter erros, pela simples razão de que Deus não pode errar.
Por outro lado, se a Bíblia contém erros, não pode, certamente não em sua totalidade,
ser a Palavra de Deus. Por isso a base sobre a qual a Sociedade foi fundada e o

58
princípio sobre o qual funciona até hoje, e a declaração que todos subscrevemos é: “A
Bíblia somente e a Bíblia em sua totalidade é a Palavra de Deus escrita, e portanto
inerrante nos autógrafos.”

Note que a declaração foi deliberadamente lançada na forma lógica de uma


implicação. A premissa da implicação é a proposição de que a Bíblia é a Palavra de
Deus escrita. Portanto, a conclusão a seguir é que a Bíblia é inerrante. Deus não pode
mentir.

A Visão que a Bíblia Tem de Si Mesma

Esta plataforma da nossa Sociedade não é o resultado de uma decisão arbitrária.


Escolhemos este princípio básico porque é a visão que a Bíblia tem de si mesma. Em
The Divine Human Encounter, Emil Brunner diz, “A Bíblia... não contém nenhuma
doutrina da Palavra de Deus” (45). Mas Brunner está completamente enganado. A
Bíblia tem uma grande ideia sobre si mesma. É claro que há um versículo bem
conhecido, “Toda a Escritura é divinamente inspirada.” Este versículo obviamente,
afirma a inspiração plenária; e quando o citamos, muitas vezes enfatizamos a palavra
toda. Toda a Escritura é inspirada. A inspiração plenária é importante: Devemos
insistir que a Bíblia em sua totalidade é a Palavra de Deus. Mas o que às vezes escapa
à observação é que a ênfase poderia cair igualmente na palavra Escritura. Toda a
Escritura é inspirada. Ou seja, este versículo afirma a inspiração, não os pensamentos
dos profetas - embora seus pensamentos também possam ter sido inspirados - nem as
palavras faladas dos profetas - embora seu discurso oficial possa ter sido inspirado
também - mas este versículo afirma a inspiração das palavras escritas no manuscrito.
Deus “soprou” as palavras escritas.

Este verso não é um hapax legomenon8. Ele não é solitário e excepcional. Há muitas
passagens em que a Bíblia descreve sua própria natureza. Uma dúzia de vezes ou mais

8
[Nota do Tradutor] Um hápax ou hápax legómenon é uma palavra que aparece registrada somente uma
vez em um dado idioma. Esta expressão designa uma palavra que se utilizou ou registrou apenas uma vez
num corpus. Também se pode entender como um vocábulo do qual só se tem um exemplo numa época
dada, num autor ou na totalidade de uma obra.

59
a Bíblia prefacia ou conclui sua mensagem com a frase: “A boca do Senhor falou.” Em
um lugar lemos: “O Espírito do Senhor falou por mim, e a palavra dele estava na
minha língua.” Ou ainda: “Senhor, tu és Deus... que disseste pela boca de Davi, teu
servo”, e outra vez, “Esta Escritura tinha que ser cumprida, o que o Espírito Santo
falou antes pela boca de Davi sobre Judas.”

O significado desses versículos é inconfundível. Nenhuma exegese poderia torná-los


mais simples. Dizem explicitamente que as palavras que saíram da boca de Davi e
foram escritas no manuscrito foram as palavras do Espírito Santo. Visto que essas
palavras são as próprias palavras de Deus, nós estamos plenamente justificados para
concluir que são, portanto, verdadeiras - infalivelmente verdadeiras. Deus não pode
mentir.

Não se deve pensar que os cinco versículos citados são os únicos versículos nos quais
a Bíblia afirma a sua própria inspiração. De fato, os versículos citados são apenas um
pequeno número selecionado a partir das declarações surpreendentemente amplas que
a Bíblia faz sobre a sua própria natureza.

Podemos Apelar à Bíblia?

O Dr. Dewey M. Beegle em The Inspiration of Scripture contesta este apelo à Bíblia.
Ele reclama que a doutrina da inspiração verbal depende de alguns textos de prova, em
vez de seguir o verdadeiro método científico de indução a partir de fenômenos
Bíblicos.

Agora, em primeiro lugar, a doutrina da inspiração verbal não se baseia em poucos


textos de prova. Depende de um fornecimento incrivelmente amplo. Essas referências
que Beegle diz ser apenas alguns textos de prova, dão a impressão de que os nossos
adversários nunca leram Theopneustia de Louis Gaussen. Se a memória de alguém é
obscura em relação à própria explicação extensa que a Bíblia dá de sua própria
natureza, a Teopneustia de Gaussen é o corretivo.

60
Em segundo lugar, uma indução dos fenômenos Bíblicos não pode obvimente produzir
a conclusão que o Dr. Beegle deseja. Ele considera que uma indução resultaria em uma
lista de versículos que são indiscutivelmente errôneos. Wellhausen quase há um século
atrás, forneceu essa lista. Mas desde o seu tempo, um após o outro tem sido riscado da
lista dele. As investigações dos membros desta Sociedade têm trazido à luz muitos
casos em que o alegado erro se demonstrou não ser erro. Então, também, fora da nossa
Sociedade, o Dr. Albright e o Dr. Glueck, apesar de não se apegarem à inspiração
verbal e estarem longe de ser fundamentalistas, têm eliminado conclusivamente a
rápida e fácil suposição de que a Bíblia é duvidosa. Portanto, nós que nos apegamos à
doutrina temos boas razões para esperar que quaisquer dificuldades que permanecem
podem igualmente ser eliminadas à medida que a investigação avança.

Então, em terceiro lugar, rejeitamos o contraste injusto que o Dr. Beegle traça entre
alguns textos de prova e o verdadeiro método científico de indução. Deixe qualquer
um que deseja dar à arqueologia o título honorífico de científico. Não nos oporemos.
Pelo contrário, estamos encantados com a tendência da investigação arqueológica. Mas
não é científica ou acadêmica - na verdade é totalmente ilegítimo - ignorar o que a
Bíblia diz sobre si mesma, como o Dr. Beegle quer que façamos. Sobre este ponto em
particular “The Inspiration of Scripture” do Dr. Roger Nicole (The Gordon Review,
Volume VIII, Números 2, 3) merece o maior louvor.

A Presente Tarefa

A doutrina da inspiração verbal não é apenas a plataforma sobre a qual a Sociedade


Evangélica Teológica está de pé, é também a questão crucial na teologia debatida nos
dias de hoje. Dr. John Warwick Montgomery, no Boletim da nossa Sociedade (Volume
8, Número 2), começa seu extenso artigo sobre “Inspiração e Inerrância” recordando
que James Orr tomou nota do fato de que a Igreja em cada época da sua história teve
de se confrontar com uma doutrina particular de significado crucial. No início do
século IV, a questão crucial era a doutrina da Trindade. Agora, no final do século XX,
a controvérsia centra-se na natureza da Palavra de Deus.

61
Uma grande evidência de que a veracidade das Escrituras é o presente centro da
controvérsia, é a situação atual na Igreja Presbiteriana Unida. Há trinta anos atrás, por
ação judicial, essa denominação recusou-se a fazer valer o seu credo e fez da
Confissão de Westminster uma carta morta. Este ano, o procedimento formal e legal
foi iniciado para substituir a Confissão por uma nova declaração em que praticamente
nada do velho credo permanece. O motivo reconhecido na literatura é o desejo de ser
livre da infalibilidade Bíblica. Com a infalibilidade indo embora, as outras doutrinas
da Escritura caem automaticamente no mesmo caminho. Assim, a satisfação vicária de
Cristo e outras doutrinas não são mais consideradas como verdades, mas apenas como
“imagens de uma verdade que permanece ao alcance de todos” ou do conhecimento.

Na controvérsia deste século sobre a inspiração, a Sociedade Evangélica Teológica


deve assumir a liderança. Não há dúvida de que há homens bons e capazes que não são
membros desta Sociedade, mas não há outra associação profissional organizada nesta
base. Portanto, esta é a nossa tarefa atual.

Os Golpes da Batalha

Em um concurso vigorosamente disputado, não é comum que qualquer um dos lados


surja completamente ileso. A Sociedade Evangélica Teológica sofreu algumas perdas e
pode sofrer ainda mais. Apenas esta vez um de nossos membros se retirou, porque,
citando a sua carta, “eu achei... intelectualmente impossível aceitar a última cláusula
da base doutrinária da Sociedade.”

Por detrás desta afirmação está, muito provavelmente, a ideia de que a investigação
histórica descobriu erros indubitáveis nas Escrituras. Como foi dito, um momento
atrás, esta grande confiança parece estranha, tendo em vista o fato de que, assim,
muitas alegações particulares de erro foram expostas.

A carta de demissão também sugere outra razão pela qual é intelectualmente


impossível aceitar a inspiração verbal. Nosso membro falecido acredita que a idéia de
infalibilidade, mesmo que fosse verdade, seria inútil porque, citando de novo, “a

62
história secular pode ser infalível no sentido de um registro irrepreensível de fatos
históricos, mas ela não será verdade salvadora.”

O que significa este argumento? Aparentemente, a ocorrência de afirmações


verdadeiras em livros de história secular é tomada para implicar que a Bíblia não
precisa de verdadeiras declarações. Agora, se alguma coisa é intelectualmente
impossível, não é a infalibilidade Bíblica, mas este argumento estranho contra a
infalibilidade Bíblica. Só porque certas afirmações verdadeiras sobre a história
Americana ou Chinesa não estão salvando verdades, como se segue que o
conhecimento salvador não precisa ser verdadeiro? É muito estranho a forma de
intelecto que argumenta contra a infalibilidade, ou contra a utilidade da verdade, ou a
necessidade da verdade com base no fato de que as histórias seculares são por vezes
verdadeiras.

A Infalibilidade é Inútil?

Pela sua afirmação de que as verdades da história secular não são verdades salvadoras,
a carta de resignação parece depender mais da ideia de que a infalibilidade é
espiritualmente inútil do que intelectualmente impossível. Para completar uma citação
já dada em parte, o escritor diz, “Eu achei espiritualmente desnecessário e
intelectualmente impossível aceitar a base doutrinal da Sociedade.”

Um forte divórcio entre o que é intelectual e o que é espiritual, um divórcio


proclamado pelos Neo-ortodoxos e pelos fundamentalistas pietistas semelhantemente,
está de acordo com a nossa herança da Reforma. Dr. Beegle, mencionado
anteriormente, acusa o dogma da inerrância de conduzir a uma relação fria e impessoal
com a Escritura como um corpo de verdade objetiva e proposicional, desvalorizando
assim a resposta experiencial. O uso das palavras frio e impessoal é simplesmente um
dispositivo de propaganda. Em um inverno gelado, a palavra frio nos faz tremer; mas
em verões de calor tropical, algo frio é muito apelativo. Se agora colocarmos de lado
as metáforas enganadoras da propaganda, o que resta é a aversão do Dr. Beegle pela
verdade objetiva e proposicional. Aparentemente, ele acha a verdade espiritualmente

63
desnecessária. Aqueles que foram influenciados por Kierkegaard e pelo
Existencialismo moderno adotam uma visão da natureza da religião que é bastante
diferente da religião de Lutero e Calvino. Esses Reformadores, como o Apóstolo
Paulo, não tinham nenhuma antipatia com respeito a verdade objetiva e proposicional.

Talvez o cavalheiro que se demitiu não vá tão longe no Existencialismo como


Bultmann ou Beegle foram. O que ele realmente diz é: “A história secular pode ser
infalível... mas não será a verdade salvadora.” Portanto, ele parece manter que a
infalibilidade é espiritualmente desnecessária porque um pecador pode ser
verdadeiramente salvo sem acreditar nisso. Outras coisas que ele diz indicam que ele
considera a infalibilidade espiritualmente desnecessária porque várias outras doutrinas
evangélicas ainda podem ser defendidas depois da infalibilidade ser abandonada.

O argumento de que a inspiração verbal é inútil porque um pecador pode ser salvo sem
acreditar nela, é um argumento de grande confusão. Verdade, o ladrão na cruz não
sabia (e portanto não podia acreditar) no nascimento virginal, na doutrina da
santificação, e no segundo advento. É, portanto, a doutrina da santificação inútil? Os
Cristãos comuns, para não falar dos pastores e teólogos, devem restringir o seu
conhecimento às limitações do ladrão na cruz? Ousa qualquer estudioso falar tão
estupidamente? É preciso ensinar novamente os rudimentos dos primeiros princípios
para aqueles que deveriam ser professores, mas que regressaram da carne forte para o
leite da infância? Certamente, a teologia não se limita ao conhecimento mínimo
essencial para a fase inicial de qualquer indivíduo no caminho da salvação.

Isto faz-me lembrar um professor de uma faculdade Cristã a quem ouvi opondo-se a
inclusão de um curso de Teísmo no currículo, na base de que um curso de Teísmo
nunca salvou ninguém.

Doutrinas Evangélicas

Se, no entanto, estivermos dispostos a avançar para a fase mais elementar da vida
Cristã, e aprender, discutir e pregar várias doutrinas adicionais, a próxima pergunta é:

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Podemos manter essas várias doutrinas além da doutrina da inspiração verbal e
plenária? Historicamente, pouca evidência pode ser encontrada em favor de uma
resposta afirmativa. Exemplos de indivíduos e de organizações eclesiásticas que
abandonam a infalibilidade e outras doutrinas são suficientes, seja em sucessão ou
simultaneamente. Acima, foi notado que a Igreja Presbiteriana Unida, motivada por
um desejo de evitar o efeito chamado de cãibra da Bíblia, está descartando
virtualmente todas as doutrinas de Westminster.

Isto não é nenhuma anomalia. É um desenvolvimento perfeitamente consistente. Se a


Bíblia em umas centenas de passagens diferentes, está equivocada em sua
consideração de si mesma, por que o resto da sua mensagem deveria ser aceite como
verdadeira? Se os profetas falavam falsamente quando diziam que suas palavras eram
as palavras de Deus, colocadas em suas bocas pelo Espírito Santo, assim que Deus que
não pode mentir falou através deles - se eles estavam assim em erro, que confiança
podemos ter em qualquer outra coisa que eles disseram? Se as palavras de Davi e
Jeremias são as palavras de Deus, então somos obrigados a aceitá-las. Mas se essas
palavras são apenas de Davi ou de Jeremias, não seria mais proveitoso estudar
Aristóteles ou Plotino? E se, como o novo credo da Igreja Presbiteriana Unida diz, “as
palavras das Escrituras são as palavras dos homens, condicionadas por uma linguagem,
formas de pensamentos e estilos literários dos lugares e dos tempos em que foram
escritas”, e se “elas refletem visões da vida, história e cosmos que eram então atuais”,
pode a Bíblia ser qualquer coisa mais do que um livro de sociologia do antigo Israel?
Eu acho que não. Um livro que dá uma falsa narrativa de sua própria origem e natureza
(ou um profeta que confunde as visões atuais da história e do cosmos com a Palavra de
Deus) não é um guia confiável na religião. Sua doutrina da expiação, sua narrativa da
ressurreição, sua promessa do Céu não poderia então ser confiada.

Autoridade Bíblica

Se agora alguém insiste que uma declaração casual de Jeremias ou a doutrina da


santificação em Paulo pode ser acidentalmente verdadeira e pode ser aceita mesmo
depois de rejeitar a infalibilidade, gostaríamos de saber em que base e por que método
estas outras doutrinas são mantidas. Não é suficiente afirmar que este versículo e
65
aquela doutrina podem ser salvas de uma Bíblia errada. A afirmação deve ser
substanciada. Com que direito Brunner pode aceitar, “O Verbo se fez carne”, quando
ele rejeita “Eis que uma virgem conceberá”? Como Bultmann pode desmitologizar os
Evangelhos e reter um Deus transcendente? O argumento cosmológico pode, baseado
na mera observação da natureza, provar a existência de um Deus quem ouve as nossas
orações? Será que a história, incluindo as guerras mundiais deste século, demonstra
que a morte de Cristo satisfaz a justiça divina? Será que as frustrações humanas
implicam o segundo advento? Ou, talvez, os Neo-ortodoxos chamem essas sugestões
de uma paródia e caricatura. Sinto muito; Peço desculpa. Mas visto que eles nunca
descreveram o seu método, só se pode fazer palpites selvagens. No entanto, devo
continuar a insistir que a sua pretensão de salvar algumas doutrinas não é suficiente.
Eles devem apresentar um procedimento de exame claramente articulado.

Em vez de tornarem claros os seus princípios e procedimentos, parecem satisfeitos por


chamar a Bíblia de autoritária. A carta de renúncia acima mencionada faz isso. De fato
a carta diz que a Escritura é “totalmente inspirada”, da qual pode-se muito bem
concluir que os erros nas Escrituras também são totalmente inspirados. A carta
prossegue redefinindo a inerrância de modo que uma Bíblia cheia de erros possa ser
chamada de inerrante. Se isto é ou não honestidade intelectual e necessidade espiritual,
é pelo menos lexicografia pobre. Não podemos legitimamente perguntar como um
livro erróneo pode ser inerrante e espiritualmente autoritário?

Suponha que devo chamar a sua atenção para este livro que tenho em minhas mãos. É
um livro antigo sobre Sócrates, escrito por Simmias, um dos amigos de Platão.
Simmias avança a opinião incomum de que Anaxágoras foi o pai de Sócrates, e não
Sophroniscus como diz Platão. Além disso, o autor nos diz que Sócrates foi morto em
batalha e recebeu o funeral de um herói em Atenas, e existem muitos outros erros de
fato nesse livro. Infelizmente, também, o autor foi tão favoravelmente impressionado
pela personalidade de Sócrates, que ele atribuiu à Sócrates a teoria do behaviorismo
que Sócrates estimulou na sua mente. E no presente tempo, visto que na história
Sócrates não escreveu nada, a pesquisa histórica não pode ter certeza de uma única
coisa que Sócrates disse.

66
No entanto, deixe-me dizer enfaticamente que este livro é a fonte autorizada da
Filosofia Socrática. Devemos aceitá-lo, ou pelo menos grande parte dele visto que
estimula nossas próprias reações autênticas. Este livro é a palavra infalível de Sócrates.

Agora, se eu te tivesse dito tudo isto com toda a seriedade, não suspeitarias que eu
fosse ligeiramente demente? Naturalmente, eu poderia ser sensato o suficiente em
assuntos como beisebol e mercado de ações; mas se você estivesse interessado em
filosofia eu acho que você acharia intelectualmente necessário e filosoficamente útil
olhar em outro lugar.

Necessidade Humana

O único critério que a carta de renúncia usa para selecionar algo fora da confusão do
erro é uma necessidade espiritual. Se há algum outro método para reter uns poucos
fragmentos da Bíblia, este também deve ser examinado depois de ter sido claramente
articulado. A carta menciona apenas a necessidade espiritual.

Este método prova ser um fracasso por causa de duas objeções relacionadas. O escritor
da carta acha a inspiração verbal e plenária espiritualmente desnecessária. Uma outra
pessoa que eu poderia nomear acha que necessita, espiritualmente e intelectualmente,
de uma mensagem infalível de Deus. Nesta situação, devemos dizer que um versículo
ou doutrina é falso para um homem e verdadeiro para outro? O Sr. A. precisa da
doutrina de santificação, mas o Sr. B. - ou porque é um antinomiano ou porque já
alcançou a perfeição sem pecado - não precisa da doutrina. Aqueles que adotam este
procedimento reconhecem e defendem o relativismo da verdade que é subjacente a
isto?

A carta de demissão dá a impressão otimista de que um bom número de doutrinas


evangélicas pode ser mantido, e que as igrejas evangélicas podem continuar nesta base.
No entanto, é evidente que algumas pessoas pensam que precisam de mais, e algumas
pessoas acham que precisam de menos. Será que a demissão permitirá que estas
últimas pessoas descartem mais e finalmente descartem toda a Bíblia? Que argumentos

67
ele poderia apresentar para elas, que não sentem sua necessidade, de reter o que ele
deseja reter? Se ele tem a liberdade de rejeitar algumas doutrinas, não deve ele
conceder-lhes a mesma liberdade para rejeitarem o que acham que não precisam?

Agora, há uma segunda e relacionada objeção à este critério de necessidade espiritual.


A objeção diz respeito à determinação da necessidade. Se os escritores da Bíblia não
eram infalíveis, qualquer um de nós poderia ser um percipiente infalível das nossas
necessidades? Atreve-mo-nos a afirmar que não temos cometido nenhum erro na nossa
auto-análise? A Bíblia nos fornece uma análise da natureza e da necessidade humana.
Ela nos diz que a culpa da primeira transgressão foi imediatamente imputada a nós
com o resultado de que nascemos em iniquidade e que o nosso coração é enganador
acima de qualquer medida. Se esta afirmação Bíblica é verdadeira, qualquer análise
meramente humana da natureza humana não é confiável. E se a Bíblia não é
verdadeira, que razão há para pensar que temos uma compreensão mais exata do que
os profetas, que mesmo nos princípios Neo-ortodoxos ficaram tão perto das fontes da
fé? Posso sugerir, portanto, que qualquer um que diz que não precisa da doutrina da
infalibilidade não compreendeu a sua própria necessidade?

O Critério

Se em face desta objeção tais teólogos ainda afirmam que muitas ou até mesmo
algumas doutrinas Bíblicas podem ser retidas a partir de uma Bíblia errada, temos,
pelo menos, o direito de saber como eles decidem as doutrinas que precisam. Nós os
pressionamos pelo seu método de reter algumas enquanto rejeitam outras.

Recentemente, um escritor liberal referiu-se a este desafio com desprezo. Ele disse que
os conservadores ganham uma vitória barata pedindo aos liberais que declarem seu
critério anti-Bíblico de aceitação e rejeição. Por que este desafio é barato, eu não sei.
Por que não é uma vitória, ele não disse. Se um teólogo aceita uma doutrina
simplesmente porque a Bíblia a ensina, ele aceita a infalibilidade Bíblica; mas se ele
rejeita a infalibilidade Bíblica, ele não pode aceitar a doutrina simplesmente porque a
Bíblia ensina isso. Portanto, ele deve usar algum outro critério. Eu não vejo qualquer

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coisa barata em perguntar qual é este critério. Na verdade, os ideais do conhecimento
são abandonados - e o fundamento da fé é disfarçado - a menos que este critério seja
claramente declarado.

Os Neo-ortodoxos, no entanto, parecem muito relutantes em responder à pergunta.


Eles escondem o seu critério debaixo de um alqueire. Mas é “intelectualmente
impossível” se dar bem sem nenhum substituto para o critério das Escrituras. Em
teologia, como em engenharia automóvel, se você tirar as velas de ignição, você terá
que usar algum substituto ou o carro não se move.

A Sociedade Evangélica Teológica

Agora, é claro, se uma pessoa rejeita a inerrância, não tem lugar legítimo na Sociedade
Evangélica Teológica. A pessoa que se demitiu, tendo mudado a sua teologia depois de
se juntar a nós, é moralmente louvável pela sua retirada. Demasiadas vezes os votos de
ordenação são exercícios de perjúrio, e os professores que procuram as posições nas
faculdades Cristãs às vezes recorrem a mentiras quando questionados sobre sua fé
religiosa. Em contraste com esta desonestidade liberal, expressamos admiração por um
homem que honestamente se demite.

Sua renúncia nos perturba, porém, quando ele sugere que há vários de nossos membros
que não são tão honestos como ele. Talvez nos últimos dois ou três anos nossa filiação
se expandiu muito rapidamente, mas eu evito acusar qualquer um de nossos membros
de tentar subverter isso.

Mas, de qualquer forma, não aceito o conselho do nosso falecido membro de alterar o
propósito da nossa Sociedade por medo de perder outros membros por resignação. Esta
pode ser a política do liberalismo, mas não é a voz da Reforma. A voz da Reforma diz,

Deixem os bens e os parentes irem.

Alguns membros também.

69
Esta Sociedade não estruturou a sua plataforma com base em considerações de
extensão e dinheiro. Em vez disso, sentimos uma necessidade espiritual de uma
mensagem de Deus, e sabíamos intelectualmente que uma mensagem de Deus deve ser
verdadeira. Por esta razão nós dissemos, “Só a Bíblia, e a Bíblia na sua totalidade, é a
Palavra de Deus escrita, e portanto, inerrante nos autógrafos.”

70
REVELAÇÃO DIVINA ESPECIAL COMO RACIONAL

A criação e a glória de Deus mostrada pelos céus e pelo firmamento tem sido chamada
de revelação divina geral. Nesta categoria, pode-se também incluir a constituição da
personalidade humana, pois o próprio homem é uma criação de Deus e, em certo
sentido, ostenta as marcas do seu Criador. Essa “luz da natureza, e as obras da criação
e providência, manifestam até agora a bondade, sabedoria, e o poder de Deus, de modo
a deixar os homens indesculpáveis; mas não são suficientes para dar o conhecimento
de Deus e da sua vontade, o que é necessário para salvação.” É assim que a Confissão
de Westminster brevemente nos adverte que a revelação geral é inadequada. Esta
inadequação é, em parte, resultado dos efeitos noéticos do pecado, mas há também
uma inadequação prévia e inerente.

Inadequação da Revelação Geral

Os efeitos obscuros do pecado sobre a mente ao tentar descobrir Deus e a salvação na


natureza, podem ser melhor visualizados nos resultados divergentes obtidos entre as
religiões pagãs. Os Babilônios, Egípcios e Romanos antigos, observavam a mesma
natureza que é vista pelos Muçulmanos, Hindus e Budistas modernos. Mas as
mensagens que pretendem receber são consideravelmente diferentes. Isto, que é tão
evidente quando estas religiões distantes são mencionadas, é também verdade dentro
da civilização Ocidental. O que o humanista e o positivista lógico vêem na natureza é
completamente diferente do que o Cristão ortodoxo acredita sobre a natureza. Mesmo
que o humanista professe descobrir na experiência certas idéias morais e valores
espirituais que são pelo menos superficialmente semelhantes aos da Bíblia, pode muito
bem ser que ele realmente tenha os aprendido com a sua herança Cristã e não com um
estudo independente da natureza e do homem. A atmosfera amável do humanitarismo
está notavelmente ausente das sociedades às quais a mensagem Cristã não foi levada.

A existência de conceitos divergentes de Deus, de ideais morais e, acima de tudo, de


esquemas de salvação, mostra o poder do pecado na mente do homem; e também a
inerente inadequação da revelação geral. Não é apenas por causa do pecado que o

71
homem não consegue receber a mensagem de Deus. A verdade é que a natureza tem
menos mensagem do que algumas pessoas, particularmente algumas pessoas Cristãs,
pensam.

Os planetas acima e as plantas abaixo mostram alguma sabedoria e poder de Deus, isto
é, mostram isso àqueles que já crêem que Deus criou-os. Mesmo para um Cristão
devoto, no entanto, o universo não mostra o pleno poder e sabedoria de Deus, pois
Deus não se esgotou em sua criação. Sem dúvida, o sistema estelar exibe um poder
vasto e inimaginável, e um maior número de estrelas com movimentos mais
complicados é concebível. Portanto, a onipotência não é uma conclusão necessária das
estrelas.

Tampouco a justiça. Os atributos morais que a Bíblia atribui a Deus são ainda menos
dedutíveis de uma observação da natureza. Na verdade, o problema do mal -
calamidades físicas como terremotos e tragédias causadas por homens perversos -
levou alguns filósofos a negarem Deus completamente ou a postularem um deus finito.
John Stuart Mill pensava que o universo tendia imperfeitamente para a produção do
bem; os humanistas modernos são mais propensos a dizer que o universo é neutro com
respeito às esperanças e aspirações do homem; enquanto Bertrand Russell e Joseph
Wood Krutch aconselham a bravura perante a derrota inevitável. Estas várias opiniões,
embora em parte devido à pecaminosidade humana, dependem, assim como, acredito,
da inadequação da revelação geral em si mesma. A mensagem de Deus nos céus
simplesmente não é suficientemente extensa para cobrir estas questões.

Novamente, a visão Hebraico-Cristã de que “os céus declaram a glória de Deus” não
significa, na minha opinião, que a existência de Deus pode ser formalmente deduzida
de um exame empírico do universo. Se por algum outro motivo cremos no Deus de
Abraão, Isaque e Jacó, podemos ver que os céus declaram a sua glória; mas isso não
quer dizer que uma pessoa que não acredita em Deus pode demonstrar a sua existência
através da natureza. Outras referências a este ponto serão feitas um pouco mais tarde.

72
Agora, finalmente, a inadequação da revelação geral é mais óbvia no caso de ideais ou
normas éticas. E esta inadequação não é apenas o resultado do pecado, mas é uma
inadequação inerente. A exposição de crianças na Grécia, a prostituição no templo em
Babilônia, e o sacrifício humano em Canaã e em outros lugares não eram práticas que
essas sociedades condenavam; tinham total aprovação social. Estas eram as suas
normas; estes eram os seus ideais morais. Da mesma forma, o humanismo
contemporâneo, embora alguns de seus valores sejam superficialmente semelhantes
aos preceitos Cristãos, diverge cada vez mais da identificação Bíblica do certo e do
errado. Jesus não é mais considerado sem pecado, mas é acusado de minimizar os
valores da inteligência científica, de manter visões sociológicas inferiores sobre o
trabalho e a propriedade, e mesmo de insistir num padrão sexual demasiado rígido.

Se, agora, alguém quiser argumentar que essa divergência ética não indica a
inadequação da revelação geral, mas apenas a escuridão da mente pecaminosa, a
resposta decisiva para um Cristão é que Deus falou com Adão antes da queda e deu-lhe
ordens que ele não podia saber de outra forma.

Quando Adão foi criado e colocado no Jardim do Éden, ele não sabia o que fazer. Nem
um estudo do Jardim teria levado à qualquer conclusão necessária. O seu dever foi-lhe
imposto por uma revelação divina especial. Deus disse-lhe para ser fecundo e
multiplicar-se, para dominar a natureza, para fazer uso dos animais, e comer dos frutos
das árvores (com uma excepção fatídica). Assim, normas morais, ordens e proibições
foram estabelecidas por uma revelação especial e não geral. Só assim o homem
poderia conhecer as exigências de Deus, e só mais tarde poderia aprender o plano da
salvação.

Esse é o ponto de vista Cristão. Os filósofos seculares de hoje afirmam que a história
de Adão é um mito e que a ideia de uma revelação especial é irracional. A dependência
é colocada na razão, não na revelação. Toda a verdade deve ser obtida por um método,
o método da ciência. A Bíblia é alegadamente auto-contraditória e historicamente
imprecisa; sua moral é a de uma época passada; e a evolução é creditada com a
negação da criação. Estes temas têm sido bem divulgados e amplamente aceitos. O
Cristão pode portanto, enfrentar a acusação de desonestidade intelectual,
73
frequentemente trazida contra ele, e refutar a objeção de que a revelação é irracional?

Defesa da Revelação como Racional

Na história do pensamento Cristão, a antítese entre fé e razão tem sido abordada por
vários métodos diferentes. O debate, seja entre Cristãos ou entre Cristãos e
secularistas, as vezes gera confusão porque os termos nem sempre estão claramente
definidos. Não só Agostinho e Kant diferem quanto à natureza da fé, mas o termo
razão em si mesmo tem comportado significados diferentes. Depois de fornecer um
mínimo de antecedentes históricos, o escritor espera evitar essa confusão, sugerindo
uma definição de razão que possa ajudar na defesa da revelação como racional.

A Tentativa da Escolástica Medieval

Nesta breve pesquisa histórica, o primeiro método de relacionar fé e razão a ser


discutido será a filosofia Tomista da Igreja Católica Romana. Fora do assentimento
pessoal do crente, a fé neste sistema significa a informação revelada contida na Bíblia,
na tradição e, presumivelmente, na voz viva da igreja Romana. A fé, então, é a verdade
revelada. Razão significa a informação que pode ser obtida por uma observação
sensorial da natureza, conforme interpretada pelo intelecto. Considerando que os
racionalistas do século XVII contrastavam a razão com a sensação, Tomás contrasta a
razão com a revelação. As verdades da razão são as verdades que podem ser obtidas
pelo equipamento sensorial e intelectual natural do homem sem a ajuda da graça
sobrenatural.

Estas definições de fé e razão tornam a revelação “irracional” apenas de uma maneira


verbal; a revelação não pode ser considerada irrazoável ou irracional em qualquer
sentido pejorativo. As vezes, suspeita-se que os secularistas se apoderam do
verbalismo para sugerir algo mais sinistro.

74
O Tomismo insiste, de fato, numa incompatibilidade entre fé e razão, mas é uma
incompatibilidade psicológica. Se a Bíblia revela que Deus existe, e se nós cremos na
Bíblia, nós temos essa verdade da fé. É possível, no entanto, de acordo com o
Tomismo, demonstrar a existência de Deus a partir da observação ordinária da
natureza. Aristóteles fez isso. Mas quando uma pessoa demonstra racionalmente isso
não mais “acredita”, não mais aceita isso em autoridade; ela “sabe”. É
psicologicamente impossível “acreditar” e “saber” a mesma proposição. Um professor
pode dizer à um estudante que um triângulo contém 180 graus, e o estudante pode
acreditar no professor; mas se o estudante aprende provando, ele não mais aceita o
teorema sobre a palavra do mestre: Ele sabe por si mesmo. Nem todas as proposições
da revelação podem ser demonstradas na filosofia racional; mas, por outro lado,
algumas verdades capazes de demonstração foram também reveladas ao homem, pois
Deus bem sabia que nem todos os homens têm a capacidade intelectual de Aristóteles;
portanto, Deus revelou algumas verdades, ainda que demonstráveis, para o bem da
maior parte da humanidade.

Os conteúdos não-demonstráveis da revelação (tais como as doutrinas da Trindade e os


sacramentos), embora fora do alcance da razão como definido, não são irracionais ou
absurdos. Os Maometanos medievais e humanistas modernos podem afirmar que a
Trindade é irracional, mas a razão é bastante competente para mostrar que esta
doutrina não contém qualquer auto-contradição e que as objecções à mesma são
falaciosas. As verdades mais elevadas da fé não violam nenhuma das conclusões da
razão; pelo contrário, as doutrinas da revelação concluem o que a razão poderia não
concluir. Os dois conjuntos de verdades, ou melhor, as verdades obtidas por estes dois
métodos diferentes, são complementares. Longe de ser um obstáculo à razão, a fé pode
avisar um pensador de que está cometendo um erro. Não se deve imaginar o crente
como um prisioneiro de sua fé que deve ser liberto; a fé se restringe apenas do erro.
Assim, a fé e a razão estão em harmonia.

Apenas uma crítica à esta construção será feita, mas é uma que tanto os Tomistas
quanto os objectores admitirão ser crucial. Se o argumento cosmológico para a
existência de Deus é uma falácia lógica, o Tomismo e sua visão da relação entre fé e

75
razão não pode subsistir.9

As dificuldades com o argumento cosmológico recordam os comentários anteriores


sobre a inadequação da revelação geral. Se for assumido que todo o conhecimento
começa na experiência sensorial e que, portanto, se observa a natureza na ignorância
de Deus, as calamidades manifestas dos homens e a finitude e mudança da natureza -
por mais vastas que as galáxias possam ser - impedem qualquer conclusão necessária
para a existência de um Deus omnipotente que também é bom.

Em relação a estas objeções, que David Hume declarou com tanta veemência, podem
ser acrescentadas críticas específicas à formulação aristotélica de Tomás. Três serão
mencionadas. Primeiro, o Tomismo não pode sobreviver sem os conceitos de
potencialidade e atualidade, e Aristóteles nunca conseguiram defini-los. Em vez disso,
ele os ilustrou pela mudança de fenômenos e, em seguida, definiu mudança ou
movimento em termos de atualidade e potencialidade. Para justificar esta objeção, seria
necessário muito aparato técnico para o presente propósito; e, se o leitor desejar, não
precisa de se preocupar com este primeiro ponto.

Segundo, Tomás argumenta que se rastrearmos as causas do movimento, a regressão


não pode ir para o infinito. A razão explicitamente dada na Summa Theologica para
negar uma regressão infinita é que em tal caso não poderia haver um primeiro motor.
Mas esta razão, que é usada como premissa para concluir a negação, é precisamente a
conclusão que Tomás põe no final do argumento completo. O argumento é suposto
provar a existência de um primeiro motor, mas este primeiro motor é assumido para
negar uma regressão infinita. Obviamente, portanto, o argumento é uma falácia.

Há uma terceira crítica ainda mais complicada. Na medida em que isso envolve o
material que recentemente se tornou objeto de amplo debate, é digno de atenção mais
detalhada.

9
Alguns Romanistas tomam o argumento cosmológico, não como logicamente demonstrativo, mas como
um método de direcionar a atenção para certas características de seres finitos a partir dos quais a
existência de Deus pode ser vista sem um processo discursivo. Compare E. L. Mascall, Words and
Images, 84. Mas, julgo eu, este não é o Tomismo normal.

76
Para Tomás de Aquino há duas maneiras de conhecer a Deus: Primeiro, o caminho da
teologia negativa, que não discutiremos; e segundo, o método da analogia. Uma vez
que Deus é puro ser, sem partes, cuja essência é idêntica à sua existência, os termos
que lhe são aplicados não podem ser utilizados precisamente no sentido de que se
aplicam às coisas criadas. Se for dito que um homem é sábio e que Deus é sábio, deve
ser lembrado que a sabedoria do homem é uma sabedoria adquirida, enquanto que
Deus nunca aprendeu. A mente humana está sujeita à verdade; a verdade é sua
superioridade. Mas a mente de Deus é a causa da verdade pensando nela, ou, talvez,
Deus seja a verdade. Portanto, o termo mente não significa precisamente a mesma
coisa no caso de Deus e do homem. Não só estes termos, mas também a noção de
existência, não é a mesma. Uma vez que a existência de Deus é a sua essência - uma
identidade não duplicada em qualquer outra instância - mesmo a palavra existência não
se aplica univocamente à Deus e ao mundo da criação.

Ao mesmo tempo, Tomás não quer admitir que os termos são equívocos. Quando se
diz que o menino brincalhão leva uma vida rápida, enquanto os ascetas jejuam, a
palavra não tem nenhum significado comum10. Embora as letras e a pronúncia sejam as
mesmas, os conteúdos intelectuais nas duas instâncias são totalmente diferentes. Entre
tal equívoco e univocidade estrita, Tomás afirma que as palavras podem ter um uso
analógico; e que no caso de Deus e do homem, os predicados são aplicados
analogicamente.

Se, agora, os significados analógicos de sábio ou de existência tivessem uma área


comum de significado, essa área comum poderia ser designada por um termo unívoco.
Este termo então seria aplicado univocamente a Deus e ao homem. Mas Tomás insiste
que nenhum termo pode ser assim aplicado. Isto, na verdade, remove todos os
vestígios de significado idêntico nas duas instâncias. Mas se assim for, como pode um
argumento - o argumento cosmológico - ser formalmente válido, quando as suas
premissas utilizam termos num sentido e a conclusão usa esses termos num sentido
completamente diferente? As premissas do argumento cosmológico falam da
existência de motores dentro do alcance da experiência humana; a conclusão diz

10
[Nota do Tradutor] Na língua inglesa os termos rápido e jejum são representados pela mesma palavra
fast.

77
respeito à existência de um primeiro motor. Mas se estes termos não são tomados
univocamente, o argumento é uma falácia.

Portanto, a tentativa Tomista de relacionar fé e razão - mais por causa do seu ponto de
vista sobra a razão do que o seu ponto de vista sobre a fé - deve ser considerada um
fracasso, e outra tentativa deve ser feita para defender a racionalidade da revelação.

O Ataque Renascentista

A dominância do ponto de vista escolástico medieval, do qual Tomás era o exemplo


mais brilhante, cessou com a Reforma e o Renascimento. Visto que este capítulo visa
defender a posição da Reforma, o Renascimento será discutido primeiro. A discussão
deve ser extremamente breve; pois, uma vez que o Renascimento deu origem à
filosofia secular moderna, o assunto é demasiado vasto; a filosofia moderna, além
disso, não é um método de harmonizar fé e razão, mas de negar a fé em favor da razão.
No entanto, algo deve ser dito para indicar que este ataque moderno à revelação não
foi completamente bem sucedido.

Certos detalhes do ataque - tais como as alegações de que Moisés não poderia ter
escrito o Pentateuco porque a escrita não tinha sido inventada no seu tempo, e que os
Hititas nunca existiram - são mais apropriadamente tratados sob o tópico da Alta
Crítica. Aqui, apenas os princípios orientadores de sua filosofia podem ser mantidos
em vista.

Estes princípios orientadores foram aqueles empregados no problema crucial do


conhecimento. Epistemologia é a tentativa de mostrar que o conhecimento é possível, e
a filosofia moderna é fortemente epistemológica. Será que essas escolas tiveram
sucesso em estabelecer o conhecimento racional além da fé ou da revelação?

A primeira escola principal foi a escola do Racionalismo do século XVII. Sua crença
básica era de que todo o conhecimento é derivado apenas da lógica. Deve-se notar que
por razão estes homens se referiam à lógica em oposição à sensação. A experiência, na
opinião deles, foi a fonte do erro. Apenas aquilo que podia ser demonstrado como os

78
teoremas da geometria são demonstrados (isto é, sem apelo à experimentação) é
confiável.

Em geral, estes pensadores (dos quais Descartes, Espinoza e Leibniz eram de longe os
maiores) se basearam no argumento ontológico para provar a existência de Deus. O
argumento ontológico sustenta que Deus tem o atributo da existência exatamente como
um triângulo tem o atributo de conter 180 graus. Negar que Deus existe é tanto uma
auto-contradição quanto negar o teorema geométrico. Assim, a existência de Deus é
provada apenas pela razão, isto é, pela lógica pura, sem apelo à experiência sensorial.
Então, a partir da existência de Deus, os racionalistas tentam deduzir as leis da ciência.

Não são muitos os filósofos contemporâneos que pensam que o argumento ontológico
é válido; nenhum pensador contemporâneo admite que Descartes ou Espinoza
conseguiram deduzir o conteúdo da ciência da maneira indicada. Por mais estimulante
que os racionalistas podem ser, por mais informativos que sejam em alguns pontos,
eles são universalmente considerados como tendo falhado na questão principal de
mostrar que o conhecimento é possível. Portanto, um Cristão pode legitimamente
afirmar que o seu ataque à revelação colapsa com o seu sistema como um todo. Este é
um tratamento breve e resumido do Racionalismo, mas ninguém esperará uma história
completa da filosofia moderna nestas páginas.

O Empirismo permanece hoje como uma filosofia viva. Portanto, não se pode dizer
que Locke, Berkeley e Hume são universalmente considerados como completos
fracassos. No entanto, o Empirismo de hoje é visivelmente diferente da variedade do
século XVIII; e em alguns casos em que apresenta maior semelhança, pergunta-se
sobre quais respostas o empirista daria às objeções-padrão contra Hume.

Há três objeções principais ao Empirismo. Primeiro, a impossibilidade de descobrir


qualquer “conexão necessária” entre eventos ou idéias (isto é, a negação da
causalidade) torna inútil a investigação histórica e científica. Na melhor das hipóteses,
o conhecimento não poderia estender-se entre as próprias impressões atuais e os seus
vestígios na memória. Em segundo lugar, a desintegração do “eu” resulta num mundo
de percepções que nenhum percipiente percebe. Com efeito, isto aniquila a memória.

79
Terceiro e fundamental, o Empirismo faz uso do espaço e do tempo sub-repticiamente
no início do processo da aprendizagem, enquanto que, explicitamente, estes conceitos
são aprendidos apenas no final. Assim as objeções empíricas à revelação, e em
particular a de Hume contra os milagres, são privados de qualquer fundamento.

Immanuel Kant tentou corajosamente remediar os defeitos do Empirismo, atribuindo à


mente certas formas a priori. Era suposto que o espaço e o tempo deveriam preservar o
sentido da experiência sensorial, e as categorias a priori eram para tornar o
pensamento possível. As obras de Kant são um monumento ao seu gênio, mas
dificilmente os volumes posteriores teriam sido publicados se Jacobi não tivesse
colocado o seu dedo sobre um assunto muito delicado. Para entrar no sistema de Kant
é necessário assumir a “coisa em si”, mas a teoria completa das categorias torna a
suposição impossível. Este conflito entre as formas a priori da mente e a matéria dada
na sensação iniciou o avanço para Hegel.

Durante sua vida G. W. F. Hegel alcançou o auge do reconhecimento profissional, e


por setenta e cinco anos mais o seu pensamento foi extremamente influente. No
entanto, hoje vemos que dois de seus alunos que rejeitaram completamente o seu
idealismo absoluto, Karl Marx e Søren Kierkegaard, ganharam a batalha decisiva
contra ele. Ainda há idealistas, é claro, e Hegel ainda pode contar com alguns
seguidores. Mas a afirmação da falência Hegeliana não pode ser descartada como um
dispositivo Cristão preconceituoso para manter uma teoria da revelação.

No entanto, enquanto Hegel tiver alguns discípulos e enquanto os resquícios do


Empirismo permanecerem, pode-se insistir que essas filosofias não têm sido
conclusivamente refutadas. Portanto, embora estes pontos de vista não sejam, na
minha opinião, a posição característica do século XX, uma defesa Cristã da revelação
tem provavelmente alguma obrigação de mostrar como eles devem ser tratados.
Infelizmente, não mais do que um exemplo pode ser incluído.

O falecido Edgar Sheffield Brightman elaborou uma filosofia da religião junto com
linhas principalmente empíricas, embora mantendo algumas ideias de Kant. Valores e

80
ideais religiosos deviam ser descobertos na experiência; a revelação não desempenha
nenhum papel, ou, se for teoricamente possível, ainda assim deve ser julgada com base
na razão. A revelação, diz ele, deve ser testada pela razão, não a razão pela revelação.
O termo razão de Brightman não tem a ver com os processos da lógica tal como o dos
racionalistas; para ele, a razão é um conjunto de princípios derivados empiricamente
pelos quais organizamos o universo da nossa experiência. Ele fala da razão concreta,
empírica em oposição à uma lógica formal e nua. A revelação, afirma ele, não pode ser
usada como o princípio básico pelo qual a experiência é organizada.

Historicamente, é claro, a revelação tem sido tão usada; e Brightman nunca mostra
porquê, se há um Deus vivo, a revelação não poderia nos fornecer informações que nos
permitissem compreender o mundo e organizar as nossas vidas. Falhas graves na
concepção de Brightman sobre Deus, discuti em outro lugar (compare A Christian
View of Men and Things).

O que talvez seja a dificuldade básica é aquela que Brightman compartilha com os
humanistas, embora geralmente ele e eles estejam em desacordo radical. Sua
concordância quanto a este ponto dá-lhe, pois, uma importância considerável, na
medida em que fornece um teste que se estende para além da visão de um homem.

O ponto vulnerável do método empírico de Brightman e de todo o Empirismo


contemporâneo, é a derivação professada do valores genuínos da experiência. Que
existem fatores na experiência que as pessoas realmente apreciam não deve ser
negado. Mas o problema é ir dos prazeres reais e diversificados para os valores que
têm uma reivindicação legítima sobre todas as pessoas. Um homem gosta de orar;
outro gosta de uísque. Um homem aprecia a vida de um erudito aposentado; outro
aprecia ser um ditador brutal. A experiência pode mostrar que estas coisas são mais do
que preferências pessoais? A experiência pode fornecer uma base para uma obrigação
moral universal? É a minha conclusão, apoiada por um argumento detalhado no
volume que acabei de citar, que isto é impossível. Por tais razões, então, essas
filosofias remanescentes falham em minar a revelação Bíblica.

81
A filosofia Pós-Hegeliana é um fator importante para se chegar a este julgamento
negativo sobre a “razão” de Espinoza, Hume e Hegel. As críticas de Marx, Nietzsche,
e dos instrumentalistas contemporâneos prejudicaram esta razão além de reparar. Na
medida em que estes homens assinalaram o fracasso da filosofia moderna em resolver
os problemas epistemológicos, suas conclusões parecem incontroversas. Mas visto que
se opõem violentamente à revelação, foram forçados a adotar um ceticismo tão
profundo que nem mesmo a razão, no sentido das leis da lógica, está isenta.

Em antecipação a Freud, Nietzsche diz-nos que todo o pensamento é controlado por


funções biológicas. A distinção entre verdade e falsidade como tal é sem importância:
Uma falsa opinião que sustenta a vida, é melhor do que uma verdade que não sustenta.
De fato, a verdade pode muito bem ser definida como o tipo de erro sem o qual uma
espécie não pode viver. A lógica, com a sua lei da contradição, é o resultado de uma
evolução cega que poderia ter sido diferente. De qualquer forma, a lógica falsifica a
natureza; ela coloca coisas diferentes na mesma categoria, ignorando as suas
diferenças; e quanto mais grosso o órgão, mais semelhanças ele vê. O fato de usarmos
a lógica, significa apenas a nossa incapacidade de examinar mais de perto, e o
resultado é que a lógica só é válida apenas para as existências assumidas que criamos e
não para o mundo real.

F.C.S.Schiller, A.J.Ayer, Jean-Paul Sartre - cada um à sua maneira ataca a necessidade


da lógica. Assim, a posição filosófica típica do século XX não deve ser tanto
considerada ceticismo, mas sim irracionalismo absoluto.

O Compromisso Neo-ortodoxo

Embora estes homens sejam abertamente anti-Cristãos, há também uma forma de


irracionalismo do século XX, derivada diretamente do estudante de Hegel,
Kierkegaard, que se veste com a terminologia Cristã e tenta evitar os excessos de
Nietzsche por meio de um apelo à revelação. Por vezes, afirma ser um retorno ao
ponto de vista da Reforma. É preciso perguntar não apenas se esta reivindicação pode
ser historicamente justificada, mas, mais particularmente, se esta filosofia fornece uma

82
validação adequada do conceito Cristão de revelação.

Este assim chamado movimento Neo-ortodoxo ou existencial admite de bom grado


que a razão chegou ao luto. Até mesmo a natureza inanimada está além do
entendimento intelectual, porque não há movimento na lógica e nenhuma lógica em
movimento.

O vir a ser está aberto e a realidade é o acaso. Se a lógica tropeça no movimento físico,
é ainda mais impotente nas questões da vida. O que é necessário não são conclusões,
mas decisões. Devemos, portanto, dar um salto de fé e aceitar uma revelação de Deus.

Para muitas pessoas devotas perturbadas pela popularidade do cientificismo secular,


oprimidas pela influência mortífera do Modernismo, e (injustificadamente) assustadas
pelas negações da Alta Crítica, a Neo-ortodoxia parecia como um maná do alto. Agora,
a revelação havia sido salva; a razão havia sido derrotada!

Entretanto, antes que os herdeiros de Lutero e Calvino possam se regozijar


apropriadamente, eles devem saber exatamente o que é esta revelação, que tipo de fé se
quer dizer, e se alguma coisa de valor permanece após a derrota da razão. O fracasso
do racionalismo do século XVII não causa alerta; o destino de Hume e Hegel pode ser
tomado com calma; a razão concreta e empírica de Brightman pode muito bem ser
dispensada - mas o que resta se a razão, no sentido das leis da lógica, tiver que ser
abandonada? De que valor seria uma revelação irracional ou ilógica?

A principal lei da lógica é a lei da contradição, e é esta lei que mantém a distinção
entre verdade e falsidade. Se esta distinção não pode ser mantida, então (como
mostraram os antigos Sofistas) todas as opiniões são verdadeiras e todas as opiniões
são falsas. Qualquer proposição é tão credível como qualquer outra. Se, portanto
Nietzsche ou Freud usaram o raciocínio para chegar à sua posição, e se o raciocínio
distorce a realidade, e se uma teoria não é mais verdadeira que outra, segue-se que
estes homens não têm boas razões para afirmar suas teorias. Negar a razão, no sentido
das leis da lógica, é esvaziar a conversa ou o argumento de todo o significado.

83
Isto é o que a Neo-ortodoxia (assim como Nietzsche) faz. Em sua conclusão de um
Postscript não científico, Kierkegaard diz que não faz diferença se um homem ora à
Deus ou à um ídolo, desde que ore apaixonadamente. A verdade, diz ele, está no
interior Como, não no exterior O quê. Se ao menos o Como da relação do indivíduo é
“verdadeiro”, então o indivíduo está na verdade - mesmo que ele esteja assim
relacionado com a mentira.

Brunner também aboliu a distinção entre verdade e falsidade. Primeiro, ele se refere a
uma espécie de “verdade” que não pode ser expressa em palavras ou compreendida em
conceitos intelectuais. O que esta verdade é, ninguém pode dizer. Em segundo lugar,
as palavras e frases, e o conteúdo intelectual que “apontam para” esta verdade oculta
podem ou não ser verdadeiros. Deus pode revelar-se através de falsas proposições,
bem como através de verdadeiras (Wahrheit als Begegnung - Truth As Encounter, 88).
Nós nunca podemos ter certeza, portanto, que o que Deus nos diz é verdade. Falsidade
e verdade têm valor igual.

Certamente, esse valor deve ser muito pequeno. Por um lado, isso nos alivia da
responsabilidade de sermos consistentes. Nosso credo pode conter artigos
contraditórios. Brunner argumenta que a “inferência em linha reta” deve ser refreada.
Não ousamos seguir os nossos princípios para as suas conclusões lógicas. Nem
sempre, pelo menos. Brunner, com efeito, aponta a contradição de Schleiermacher ao
insistir tanto no absolutismo do Cristianismo e na descoberta de um elemento comum
em todas as religiões. Ele também é consistente quando argumenta que o homem deve
ter sido criado justo porque de outra forma não poderia haver queda. Mas quando
Brunner chega a Romanos 9 e acha desagradável seu significado óbvio, ele declara que
a eleição é ilógica e que, se dela extraíssemos inferências, concluiríamos que Deus não
é amor. Não se pode ter amor e lógica. Portanto, a Bíblia é consistentemente ilógica.11

Mas se a Bíblia é ilógica e se Brunner é ilógico, não temos o direito lógico de ignorá-
los, pois não há necessidade ilógica de que a nossa fé pule em sua direção?

11
Para uma análise completa do pensamento de Brunner, veja o excelente volume, Brunner’s Concept of
Revelation, de Paul King Jewett, James Clarke & Co., 1954

84
O propósito de todo o argumento para esta conjuntura foi de fazer três pontos: A
defesa irracional da revelação na Neo-ortodoxia é autodestrutiva; O ataque racional da
filosofia moderna à revelação deixou a si mesma sem um fundamento epistemológico;
e o tipo de razão que o Tomismo usou para defender a revelação estava cheio de
falácias. Mas agora, para continuar o argumento, o procedimento geral do pensamento
da Reforma oferece outra possibilidade para uma revelação racional.

O Caminho da Reforma

Neste caso, uma revelação racional é aquela que preserva a distinção entre verdade e
falsidade. E sua totalidade é autoconsistente. Em outras palavras, a razão é identificada
como as leis da lógica. O Cristianismo não tem obrigação de se justificar como
racional em qualquer outro sentido, pois a história da filosofia mostrou que todos os
outros sentidos resultam em ceticismo. Portanto, afirmar que eleição, ou expiação, ou
qualquer outra doutrina é “irracional” não é nada mais do que afirmar que estas
doutrinas são desagradáveis para o objector. A acusação não é uma acusação
intelectual fundamentada, mas uma antipatia emocional. Se as doutrinas Bíblicas são
auto-consistentes, elas encontraram o único teste legítimo da razão. Este teste de lógica
é precisamente o requisito para que um conjunto de proposições seja significativo, seja
ele falado por Deus ou pelo homem. E se as proposições não têm significado,
obviamente elas não revelam nada.

Agora, é justo perguntar se esta construção é historicamente o ponto de vista da


Reforma. Martinho Lutero e João Calvino aceitaram a Bíblia como consistente em si
mesma, e reconheceram o único teste de lógica?

A primeira destas duas perguntas é a mais fácil de responder. Que a Bíblia apresenta
um sistema intelectual consistente em si mesmo e que Calvino estava convencido
disso, ficou suficientemente claro nas suas Institutas e Comentários. A Confissão de
Westminster é um testemunho adicional. O amor Calvinista para com a lógica é bem
conhecido; e, como já foi visto, foi um desgosto pelo Calvinismo que levou Brunner a
rejeitar a lógica. Este ponto, portanto, é característico da Fé Reformada.

85
A segunda destas duas perguntas é mais complicada porque os Reformadores não
discutiram explicitamente a lógica como o único teste de uma revelação racional. Seu
silêncio é compreensível, no entanto, pois o irracionalismo é principalmente um
fenômeno do século XX que eles não anteviram. No entanto, que a construção
precedente está implícita nas suas opiniões pode ser plausivelmente inferido a partir
dos seus métodos. Eles abandonaram a filosofia escolástica; não perderam tempo a
tentar provar a existência de Deus, muito menos a origem sensorial do conhecimento;
o contraste entre as Institutas e a Summae de Tomás é inconfundível. Portanto, eles
não usaram nenhuma “razão concreta e empírica.” Então, também, o princípio de que
as Escrituras são o seu próprio intérprete e infalíveis, e que o que não está claro em
uma passagem pode ser entendido por uma comparação com outras passagens, nada
mais é do que a aplicação da lei da contradição. A lógica, portanto, deve ter sido o
único teste que os Reformadores usaram.

Eu admito francamente que algumas passagens em Calvino parecem permitir uma


reação menos cética ao curso da filosofia do que este capítulo apresenta. Eles devem,
no entanto, ser entendidos à luz de outras afirmações muito concretas encontradas nos
mesmos contextos.

Um dos mais generosos reconhecimentos de Calvino pela aprendizagem pagã é feito


nas Institutas, II.ii.14ff. O seguinte resumo e interpretação pode ser facilmente
resumido comparado com o original. Depois de rejeitar a preexistência Platônica da
alma, Calvino afirma que a engenhosidade humana nos obriga a reconhecer um
princípio intelectual inato na mente humana. Uma vez que isso não poderia ser a razão
empírica concreta de Brightman, não é mais provável que Calvino tivesse as leis da
lógica em mente? Com este equipamento inato, os legisladores Romanos entregaram
apenas os princípios da ordem civil; os filósofos descreveram a natureza com uma
ciência requintada; aqueles que, pela arte da lógica, nos ensinaram a falar
racionalmente, não podem ter sido desprovidos da compreensão; a matemática pagã
não poderia ter sido o delírio dos loucos. Não, os escritos dos antigos são excelentes
porque procederam de Deus.

Isto é de fato um grande elogio. De fato, é um elogio tão alto que seu objeto
dificilmente pode ser a verdade teórica absoluta das filosofias pagãs. É verdade que

86
Calvino não sabia quão equivocada era a aprendizagem antiga; nem se pode supor que
ele tenha elaborado uma teoria instrumental da ciência. No entanto, a sua admiração
pela física, lógica, matemática e outras artes e ciências da antiguidade pode
confortavelmente e mais plausivelmente ser dividida entre o brilho intelectual e as
aplicações e possibilidades práticas. É a energia, a engenhosidade, o requinte dos
antigos que ele admira, mais do que a verdade dos seus sistemas.

Na sequência imediata, Calvino corrige alguns equívocos de sua intenção. No que diz
respeito ao reino de Deus e à sabedoria espiritual, os mais sagazes da humanidade são
mais cegos que toupeiras12. A mais pertinente de suas observações traz a confusão.
Eles viram os objetos apresentados à sua vista de tal maneira que, pela visão, eles nem
sequer foram direcionados para a verdade, muito menos chegaram a ela.
Fortuitamente, por acidente, algumas frases isoladas podem ser verdadeiras; mas a
razão humana não se aproxima, nem tende, nem dirige seus pontos de vista para a
verdade de Deus.

Que Calvino não baseou a verdade e a racionalidade das Escrituras no exterior é


melhor visto em um capítulo anterior (I, viii). O título é: “Prova Racional para
Estabelecer a Crença da Escritura.” Em um cenário do século vinte, este título é
enganoso. Hoje tal título sugeriria um apelo à autoridade superior de, talvez,
experiência religiosa. Essa não era a intenção de Calvino.

Ele diz que sem uma certeza prévia da revelação - uma certeza mais forte do que
qualquer juízo de experiência - a autoridade da Escritura é defendida em vão por
argumentos, pelo consentimento da igreja ou por qualquer outro apoio. A fé é
fundamentada, não na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus. A verdade é
vindicada de qualquer dúvida, quando, sem ajuda externa, é suficiente para o seu
próprio apoio. O pensamento desta frase significativa é repetido no final do mesmo
capítulo. Embora existam muitas razões subsidiárias pelas quais a dignidade da
Escritura pode ser justificada, ele diz, tais somente não são suficientes para produzir
uma fé firme, até que o Pai celestial - revelando o seu próprio poder (isto é, na própria

12
[Nota do Tradutor] Pessoas pouco inteligentes.

87
Escritura) - coloque a sua autoridade além de toda a controvérsia.

À estas palavras de Calvino gostaria de acrescentar apenas que a lei da contradição, ou


razão, não é um teste externo das Escrituras. A consistência lógica é exemplificada na
Escritura, e assim a Escritura pode ser uma revelação significativa para a mente
racional do homem. Proposições auto-contraditórias seriam sem sentido, irracionais,
e não poderiam constituir uma revelação.

Alguns Problemas Contemporâneos

Se agora Calvino não pudesse ter-se dirigido explicitamente aos problemas do século
XX, a obrigação seria mais pesada sobre nós. Claro que são muitos, mas há um ataque
imediato à possibilidade de uma revelação racional que não deve ser ignorado.

As teorias sobre a origem, natureza e propósito da linguagem foram desenvolvidas


recentemente para impedir que Deus falasse a verdade ao homem, com base no fato de
que a linguagem não pode transmitir a verdade literal. Alguns escritores dizem que
toda linguagem é simbólica ou metafórica. Por exemplo, Wilbur Marshall Urban
(Language and Reality, 383, 433) afirma: “Não há frases estritamente literais... não há
tal coisa como verdade literal... e qualquer expressão na linguagem contém algum
elemento simbólico.” Outros escritores fazem afirmações mais restritas e dizem apenas
que toda linguagem religiosa é metafórica; da qual se segue que se Deus usa
linguagem, ele não pode dizer a verdade literal, mas deve falar em simbolismo ou em
mitos.

Aqueles que defendem a Bíblia como uma verdadeira revelação devem insistir que ela
transmite a verdade literal. Isto não significa que Deus não possa às vezes usar
símbolos e metáforas. Claro que há símbolos em Ezequiel, há parábolas nos
Evangelhos e metáforas espalhadas por todo o lado. Deus poderia ter usado até mitos e
fábulas. Mas a menos que haja declarações literais junto com estas figuras de
linguagem - ou, pelo menos, a menos que as figuras de linguagem sejam traduzidas em
verdade literal - um livro não tem nenhum significado definido.

88
Suponha que a cruz seja selecionada como um símbolo Cristão, e suponha que algum
orador florido dissesse: “Vivamos à sombra da cruz”. O que é que ele pode querer
dizer? O que é que a cruz simboliza? Ela simboliza o amor de Deus? Ou simboliza a
ira de Deus? Simboliza o sofrimento humano? Ou será que simboliza a influência da
igreja? Se não há declarações literais para dar informações sobre o que a cruz
simboliza, estas perguntas não podem ser respondidas.

Deixe uma pessoa dizer que a cruz simboliza o amor de Deus. No entanto, se toda
linguagem ou toda linguagem religiosa for simbólica, a afirmação de que a cruz
simboliza o amor de Deus é em si mesma um símbolo. Um símbolo de quê? Quando
esta última pergunta for respondida, descobriremos que esta resposta é novamente um
símbolo. Então será necessário outro símbolo, e outro. E todo o processo será sem
sentido.

Esta teoria contemporânea da linguagem está aberta às mesmas objeções que foram
levantadas contra a noção Tomista de conhecimento analógico. A fim de ter
significado, uma analogia, uma metáfora, ou um símbolo deve ser suportado por
alguma verdade literal. Se Sansão era tão forte como um boi, então um boi deve ser
literalmente forte. Se Cristo é o leão da tribo de Judá, então algo deve ser literalmente
verdadeiro sobre leões e sobre Cristo também. Não importa com que embelezamento
literário a comparação é feita, deve haver uma declaração estritamente verdadeira que
tenha dado origem a ela. E uma teoria que diz que toda a linguagem é simbólica é uma
teoria que não pode ser tomada como literalmente verdadeira. Suas próprias
declarações são metafóricas e sem sentido.

Além disso, uma teoria da linguagem tem de ser tomada como parte de um sistema
filosófico mais geral. Enquanto alguns linguistas podem estudar alguns detalhes
minuciosos, uma teoria que diz respeito à origem, à natureza e à finalidade da
linguagem pressupõe uma visão geral da natureza humana e do mundo, na qual a
humanidade existe. As teorias contemporâneas são muitas vezes baseadas em uma
filosofia evolutiva na qual a linguagem humana, supostamente originou-se nos gritos e

89
grunhidos de animais. Estas teorias evolutivas da linguagem, e algumas que não são
explicitamente evolutivas, revelam sua conexão com a epistemologia por fazer das
impressões sensoriais a fonte imediata da linguagem. As primeiras palavras eram
supostamente substantivos ou nomes produzidos pela imitação do som que um animal
ou uma cachoeira produzia; ou se um determinado objeto não produziu nenhum ruído,
algum método mais arbitrário foi usado para anexar um substantivo à ele.

Quando esta visão é aceita pelos Tomistas, eles herdam o problema da passagem de
uma linguagem de base sensorial para um modo próprio de expressar proposições
teológicas. Os positivistas lógicos, por outro lado, concluem com mais demonstração
da razão que isto não pode ser feito, e que a linguagem teológica é um disparate. Mas
em qualquer caso, uma teoria da linguagem deve ser colocada em um sistema
completo de filosofia. Ela não pode ficar isolada.

Tanto o evolucionista naturalista como o Cristão evangélico têm seus princípios


orientadores. O primeiro não tem escolha senão desenvolver a linguagem a partir de
gritos de animais - não importa quais sejam as dificuldades (e elas são insuperáveis).
Este último, por causa da doutrina da criação, deve manter que a linguagem é
adequada para todas as expressões religiosas e teológicas - não importa quais sejam as
dificuldades (mas não são muito grandes). A possibilidade de uma comunicação
racional entre Deus e o homem é facilmente explicada com base em pressupostos
teístas.

Se Deus criou o homem à sua própria imagem racional e o dotou com o poder da fala,
então, o propósito da linguagem - de fato, o propósito principal da linguagem - seria
naturalmente a revelação da verdade para o homem e as orações do homem para Deus.
Em uma filosofia teísta não se deve dizer, como um Tomista recente disse, que toda a
linguagem foi concebida para descrever e discutir os objectos finitos da nossa
experiência sensorial (E. L. Mascall, Words and Images, 101). Pelo contrário, a
linguagem foi concebida por Deus; isto é, Deus criou o homem racional para o
propósito da expressão teológica. A linguagem é, naturalmente, adaptável à descrição
sensorial e à rotina diária da vida, mas é desnecessário inventar o problema de como as
expressões sensoriais podem ser transmutadas em um método apropriado de falar
90
sobre Deus.

Isso imediatamente anula a objeção à inspiração verbal que é baseada na suposta


finitude e imperfeições da linguagem. Se a razão, isto é, a lógica, que torna possível a
fala, é uma faculdade dada por Deus, ela deve ser adequada à sua tarefa divinamente
designada. E sua tarefa é a recepção de informações divinamente reveladas e a
sistematização destas proposições na teologia dogmática.

Resumindo: A linguagem é capaz de transmitir verdades literais porque as leis da


lógica são necessárias. Não há substituto para elas. Os filósofos que as negam,
reduzem as suas próprias negações à sílabas sem sentido. Mesmo onde a necessidade
da lógica não é negada, se a razão é usada em algum outro sentido como fonte da
verdade, o resultado tem sido o ceticismo. Portanto, a revelação não é apenas racional,
mas é a única esperança de manter a racionalidade. E isto é corroborado pela
consistência real que descobrimos quando examinamos a revelação verbal inspirada
chamada de Bíblia.

91
RELIGIÃO REVELADA

Poucas perguntas, se é que há algumas, são tão importantes quanto o estatuto da


religião revelada. De um ponto de vista imediatamente prático, a revelação é a divisão
que separa os sentimentos de Bertrand Russell, o desespero ateísta da esperança Cristã
da vida eterna.

Mesmo um positivista como Herbert Feigl, nas frases iniciais de seu importante
Logical Empiricism, escreve:

Provavelmente, a divisão mais decisiva entre as atitudes filosóficas é a que existe entre
os tipos de pensamento secular e outros transcendentais... Muito provavelmente há
aqui uma divergência irreconciliável. Ela vai mais fundo do que a discordância na
doutrina; no fundo é uma diferença no objetivo e interesse básico... A própria questão
do poder jurisdicional do apelo à lógica e à experiência (e com ela a questão de saber
que tipo de evidência empírica pode estabelecer) está em jogo.

Agora, a esperança da vida eterna em outro mundo depende de Deus; e negar a


existência de Deus é reduzir o universo à uma máquina desumana impiedosa, ou, uma
vez que o mecanismo científico não pode, na realidade, ser sustentado por um caos
sem propósito em que a vida humana é uma trágica futilidade.

De um ponto de vista mais acadêmico, e imediatamente tão prático, o status da


revelação determina a natureza específica da religião. Ao fazê-lo, não só estabelece os
padrões éticos da vida diária, mas também modifica ou controla a teoria da psicologia
e da política e da filosofia da história. Por exemplo, um bom argumento pode ser
enquadrado para mostrar que, na teoria política, o ateísmo e até mesmo algumas
formas de religião implicam em tirania, ao passo que a justificação dos direitos das
minorias e a autoridade de um governo limitado dependem de um tipo específico de
revelação (ver a minha A Christian View of Men and Things, capítulos 3 e 4).

Estes poucos parágrafos são suficientes para indicar a importância da religião revelada.
Nenhum esforço será feito aqui para provar a existência de Deus ou a possibilidade de

92
uma revelação divina, ainda que, na medida em que as objeções sejam removidas, o
seguinte argumento terá uma influência indireta sobre estas questões. O que a situação
contemporânea exige é que o termo revelação seja explicado. Num bom inglês, a
palavra é usada em vários sentidos. Cada um tem mais ou menos conteúdo. Um
significado pode revelar-se virtualmente inútil; outro pode servir de base para uma
multiplicidade de conclusões pormenorizadas; e um terço pode ser colocado a meio
caminho entre os dois em fecundidade.

O que se segue começa com este terceiro tipo de significado - um significado, no


entanto, que é cronologicamente primário. Em seguida, vêm algumas visões
contemporâneas da revelação que se revelam logicamente estéreis. E, finalmente,
haverá um exame de uma que é cronologicamente primária e satisfatoriamente
produtiva, tanto logicamente quanto na prática.

Que Deus se revela ao homem na natureza é uma visão muito prematura do modo de
revelação. Ela é encontrada em Aristóteles e em outros filósofos pagãos, com os quais
não teremos muito o que dizer, e é claro que está expressa em muitas partes da Bíblia.
Mas o reconhecimento de que os céus declaram a glória de Deus foi desenvolvido em
duas formulações bastante diferentes.

Teologia Natural Estrita

A primeira delas pode ser chamada de teologia natural no sentido mais estrito. Tomás
de Aquino e a Igreja Católica Romana sustentam, não apenas que Deus pode ser
conhecido na natureza, mas que a existência de Deus pode ser irremediavelmente
demonstrada sem qualquer equipamento a priori dos dados da percepção sensorial.
Para remediar esta situação Tomás, seguindo o exemplo de Aristóteles, elaborou um
sistema incrivelmente complexo de filosofia.

Esta conquista tremenda merece um exame profissional e meticuloso. Os limites do


presente argumento, no entanto, impossibilitam qualquer análise elaborada desse tipo.

93
Em outro volume (Thales to Dewey, 274-278)13, tentei mostrar que a análise técnica
pode indicar vários pontos (por exemplo, os conceitos de potencialidade e movimento,
o argumento circular sobre a regressão infinita, a teoria da analogia) em que a cadeia
de silogismos de Tomás se desfaz. Certamente é extremo afirmar, como fazem os
Tomistas, que o Apóstolo Paulo em Romanos 1:20 garante a validade do argumento
completo. Agora, se as provas Tomistas são falaciosas, como muitos não-Romanistas
estão dispostos a admitir, isso eliminaria a teologia natural de qualquer consideração
adicional.

Mas para aqueles que desconfiam ou não estão familiarizados com a filosofia, há uma
objeção teológica mais óbvia ao Tomismo. Karl Barth, em nossos, dias tornou-se bem
conhecido por sua rigorosa oposição à toda teologia natural; e uma parte de seu
argumento, na forma de um simbolismo hipotético destrutivo, sustenta que se as
provas teístas fossem de fato válidas, demoliriam todo o Cristianismo.

O conhecimento significativo de Deus não pode ser obtido, argumenta Barth, se


“reservarmos a pergunta para a qual a doutrina da Trindade é a resposta (isto é, Quem
é Deus) e lidarmos primeiro com a sua existência e a sua natureza, como se esse
Aquilo e Uquê pudesse ser determinado de outra forma do que na pressuposição do
Quem” (Church Dogmatics, I, 345). Na página seguinte ele continua: “Se não
conhecemos Deus da maneira em que ele se revela como aquele, isto é, distincte in
tribus personis, o resultado inevitável é que nudum et inane duntaxat Dei nomen sine
vero Deo in cerebro nostro volitat” (Calvino, Institutas, I.xiii.2). Ou, em Inglês, se não
conhecemos Deus como uma substância em três Pessoas, o resultado inevitável é um
nome vazio, flutuando nos nossos cérebros sem qualquer ideia do verdadeiro Deus.

Uma terceira referência a Barth, na qual ele cita C. J. Nitzsch com aprovação, nos leva
um passo adiante. “Enquanto o teísmo 'só distingue Deus e o mundo e nunca Deus de
Deus, ele está sempre preso na reversão ou transição para o panteísmo ou outra
negação do ser absoluto. Uma defesa perfeita contra o ateísmo, politeísmo, panteísmo,
ou dualismo só pode existir com a doutrina da Trindade”‟ (Church Dogmatics, I, 347).

13
217-221 na edição mais recente da Thales to Dewey. - Editor.

94
Se parece estranho acusar Tomás de ajudar e ser cúmplice do ateísmo e do panteísmo,
a direção da teologia natural pode ser melhor vista como ela mesma se desenvolveu em
Hegel e nos teólogos que o seguiram. A conexão com Tomás reside no fato de que
seus termos que denotam Deus são todos neutros: ens perfectissimum, primum movens,
e assim por diante. Essa construção aristotélica, essencialmente pagã, obscurece a
personalidade de Deus, com o resultado de que a elevação deste neutro ao status da
Trindade Cristã torna-se uma dificuldade insuperável. Com o advento do absolutismo
Hegeliano, uma pessoa torna-se um modo individual do Espírito Absoluto; enquanto o
Espírito, sendo Absoluto, não pode ser uma pessoa.

Teólogos como Rudolph Siebeck, Hermann Lotze, Richard Rothe e Albrecht Ritschl,
que tentaram preservar a personalidade de Deus, encontraram seus princípios desiguais
para a tarefa. Deus tornou-se meramente o conteúdo dos mais altos valores humanos,
de modo que, no Modernismo, o objeto de adoração se tornou o próprio homem.
(compare Church Dogmatics, I, 2, 286-97). Neste ponto, três conclusões podem ser
tiradas: (a) As provas teístas são destrutivas para o Cristianismo (b) mas, felizmente,
elas são inválidas, de modo que o Cristianismo escapa desse perigo; e (c) na medida
em que a teologia natural é uma impossibilidade, a necessidade de uma religião
revelada torna-se mais clara.

Mais ou Menos

Friedrich Schleiermacher representa um tipo de teologia menos rigorosa logicamente


falando do que a alegada por Tomás, mas que, ao mesmo tempo, esperava estender-se
à mais doutrinas. Tomás, é claro, acrescentou a revelação Bíblica à sua teologia
natural; e só assim ele poderia encontrar a verdade da Trindade, criação, expiação, e
assim por diante. Schleiermacher vira-se do aparato aristotélico do movimento e do
primeiro motor e espera revelar todo o Cristianismo por meio de uma análise da
natureza humana, ou, mais precisamente, da consciência Cristã.

Influenciado pelo Pietismo, Schleiermacher fez da emoção a essência da religião.


Considerando que os Reformadores basearam a experiência Cristã em idéias e

95
doutrinas, para ele, a teologia é precisamente a descrição da experiência religiosa. O
centro desta experiência é um sentimento de dependência absoluta, e Deus existe
porque nós nos sentimos dependentes dele. Não é que o sentimento seja dependente de
um conhecimento prévio de Deus, mas sim que o conhecimento depende do
sentimento. Doutrinas, para dizer isso novamente, são descrições deste sentimento.

Schleiermacher era de fato um panteísta, e sua influência combinada com a de Hegel


em negar a personalidade de Deus, como explicado acima. Karl Barth mostra como o
modernismo se desenvolveu a partir de Schleiermacher, e por que esse tipo de religião
substituiu Deus pelo homem, como objeto de adoração. A natureza empírica de sua
teologia afastou-se da consciência “Cristã” original para uma psicologia indescritível
da religião e tornou-se a base do humanismo contemporâneo. A história é interessante
e complexa.14

No que diz respeito ao status lógico, no entanto, o procedimento de Schleiermacher,


uma vez que não pode ser classificado com as supostas demonstrações irrefragáveis de
Tomás, deve ser julgado falacioso ou ser classificado com a forma solta da teologia
natural no parágrafo seguinte.

Teologia Natural Solta

Existe outro sentido mais solto da teologia natural, para o qual os argumentos
precedentes não parecem se aplicar. Em vez de tentar uma demonstração irrefragável
da existência de um ens perfectissimum, poder-se-ia dizer apenas que os céus declaram
a glória de Deus. Certamente, isto é natural, embora talvez não devesse ser rotulado
como teologia. A teologia é supostamente comumente um tanto sistemática, e essa é
um conhecimento de Deus muito mais anti-sistemático.

Não só é anti-sistemático, como também é bastante inadequado e mínimo na melhor

14
Compare Richard B. Brandt, The Philosophy of Schleiermacher, Harper and Brothers, 1941; Edwin A.
Burtt, Types of Religious Philosophy, edição revisada, capítulo 2; e para um resumo das críticas de Barth,
Gordon H. Clark, Karl Barth's Theological Method, [1963] 1997.

96
das hipóteses. Sem examinar muito de perto a lógica envolvida, vamos perguntar o que
pode ser conhecido de Deus por um exame da natureza. Antes de tudo, será dito que os
planetas conforme se movem de acordo com as três leis de Kepler, mostram que Deus
é um grande matemático - pelo menos um matemático tão bom como Kepler, e talvez
até mesmo melhor.

Visto que esta quantidade de conhecimento não é igual à onisciência, alguém pode
afirmar que a criação dos planetas e estrelas é prova de omnipotência. Essa afirmação,
no entanto, deve ser rejeitada - não porque a criação seria uma evidência insuficiente
da omnipotência, mas porque não temos nenhuma evidência empírica da criação. Nós
realmente vemos as estrelas, mas não vemos Deus criá-las. Sim, agora, em vez de
dependermos da observação, o reivindicador tenta argumentar que a existência visível
das estrelas prova que elas foram criadas, teríamos de regressar a um exame de
teologia natural no seu sentido estrito. E nós deveríamos ter que fazer isso com ainda
menos esperança de sucesso, pois um argumento que prova a criação é
consideravelmente mais difícil de construir do que aquele que prova apenas a
existência de algum Deus. Na verdade, o próprio Tomás de Aquino, que trabalhou com
tantos detalhes e colocou tanta ênfase em suas provas teístas, diz explicitamente:
“Mantemos apenas pela fé que o mundo nem sempre existiu: Isso não pode ser
provado demonstrativamente (Summa Theologica, I, Q. 46, Art. 2).

Se, evidentemente, tivermos alguma outra fonte de conhecimento - uma revelação


autêntica - que nos assegura a criação divina, podemos então atribuir ao Criador a
quantidade de poder exibida nos céus. Mas mesmo assim - e além do fato de que agora
nós dependemos da revelação especial - esta quantidade de poder, por maior que seja,
não pode ser omnipotência. Além da quantidade que observamos, pode haver sempre
mais.

A observação da natureza é um método muito insatisfatório de obtenção do


conhecimento de Deus. Os Cristãos muitas vezes não estão dispostos a enfrentar as
dificuldades envolvidas, e por vezes tentam ignorar o que os seus adversários vêem tão
claramente. A teoria da evolução descreveu a natureza como vermelha nos dentes e nas
garras. Como podemos ver Deus nas dores de animais? Os seres humanos também
97
fazem parte da natureza; e as brutalidades de Hitler e Stalin, o massacre violento dos
Tibetanos pelos chineses, e quase todo o resto da história humana causam um triste
retrato. Com estas observações, Voltaire escreveu sua estranha Candide; Hume, seus
Dialogues on Natural Religion diálogos (capítulos 10 e 11); e Julian Huxley, com um
ar de superioridade, sua Religion Without Revelation.

Novamente, vamos insistir - se tivermos alguma fonte de informação que não seja a
observação da natureza, se Deus revelou algumas partes de uma filosofia da história -
podemos lidar com estes fatos desagradáveis. Os opositores sinceros do Cristianismo
admitem essa possibilidade. Mas a teologia natural não pode lidar com eles, e os
Cristãos sinceros devem admitir isso.

Para fazer o melhor por esta forma solta de teologia natural, podemos muito bem dizer
que os céus fazem alguma demonstração do poder e da glória de Deus; que a
brutalidade dos tiranos provoca uma insatisfação que atesta a existência de uma
consciência fraca e débil que pode servir de base para a responsabilidade moral; mas
que nada no caminho com planos práticos de melhoria está por vir.

Apesar de obscuro e restrito, este conhecimento natural de Deus não deve ser negado.

Romanos 1:20 pode não garantir a validade das provas teístas, mas afirma claramente
algum conhecimento de Deus derivado das “coisas que estão criadas”. Romanos 2:15
mostra um conhecimento a priori mínimo de princípios morais. A responsabilidade
humana depende de tal conhecimento natural. Quando Karl Barth argumenta que os
pagãos que Paulo tem em vista não são os pagãos em geral, mas apenas aqueles a
quem ele tinha pregado o Evangelho, de modo que todos os outros não têm
conhecimento de Deus, lamentamos que os seus poderes exegéticos tenham lhe feito
falhar (compare com Church Dogmatics, II:1:119ff ). No entanto, esse conhecimento
natural é mínimo em extensão e praticamente inútil no comunicação da salvação.
Quem pode negar que as tribos selvagens das selvas sabem muito pouco sobre Deus?

Em vista dessas considerações, a posição do Protestantismo ortodoxo parece


solidamente fundamentada, conforme expressa na Confissão de Westminster, que –
combinando a observação da natureza com o que considero ser uma referência de
ideias morais inatas - pronuncia este julgamento definitivo sobre a teologia natural em

98
sua sentença de abertura: “Embora a luz de natureza e as obras da criação e da
providência, até agora manifestam a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, de modo
a deixar os homens indesculpáveis; eles não são suficientes para dar esse
conhecimento de Deus e de sua vontade, o que é necessário para a salvação.” Parece,
portanto, que algum tipo de religião revelada é uma necessidade.

O Encontro

Tal é a flexibilidade da língua Inglesa que não há nada de impróprio numa afirmação
de um Tomista ou de um modernista de que a natureza (física ou humana) é uma
“Revelação” de Deus. Este significado de revelação, no entanto, dá origem a um
escolasticismo seco e deísmo estéril que, mesmo que a validade dos seus argumentos
não seja questionada, parece, na melhor das hipóteses, enfraquecer a religião
verdadeira e vital. Assim, sem desaprovar o uso do Inglês, alguns escritores devotos
preferem indicar pelo termo revelação algo mais direto e pessoal. Tendo repudiado a
teologia natural, eles equiparam a revelação com um “encontro”.

Esta ideia contemporânea de revelação - revelação como encontro vivo - é prenunciada


em movimentos anteriores. Os Pietistas buscavam uma religião mais pessoal do que a
teologia intelectual parecia oferecer. Os Quakers falavam de uma luz interior e
esperavam que o Espírito os levasse a falar em uma reunião. Até mesmo a
terminologia Bíblica permite um testemunho do Espírito Santo, que pode ser
interpretado como uma revelação viva. Sempre houve pessoas que buscaram a
orientação imediata de Deus, tanto para os detalhes práticos da conduta diária, assim
como para formas adequadas de adoração divina. Algumas pessoas viram visões e
sonharam sonhos, enquanto Joana d'Arc ouvia vozes.

Então, haviam os místicos que caíam em transe. As gotas de sua personalidade eram
derramadas no oceano do ser de Deus. Como o ar quando é assim impregnado de luz
que é mais leve que o ar, e como o ferro, que no fogo se parece mais com fogo do que
com ferro, a alma torna-se inefavelmente divina. Nenhuma informação conceitual é
assim recebida, mas é uma experiência profundamente satisfatória.

99
Esse tipo de mente tímida ou pietista, exemplificada em todas as idades, proporciona
um terreno fértil para os desenvolvimentos mais recentes. No entanto, o movimento
contemporâneo que paira sua religião vital em um evento ou encontro, não é um
movimento linear e descendente direto do misticismo ou pietismo. Certas
complicações modernas devem ser levadas em conta. Estas serão consideradas mais
tarde. Mas, antes de mais nada, um ponto de semelhança mais importante entre os
movimentos anteriores e os atuais requer ênfase. A semelhança é o seu anti-
intelectualismo. Assim como Bernardo ficou angustiado pelo “racionalismo” de
Abelardo, Søren Kierkegaard reagiu contra a onisciência de Hegel.

O Hegelianismo pretende fornecer-nos uma explicação completamente racional de


todo o universo. O filósofo havia começado o seu sistema com o mais vazio e o mais
geral de todos os conceitos. Uma análise deste conceito deu origem ao seu oposto ou
contraditório. Então o gênio de Hegel descobriu como harmonizar a contradição numa
síntese superior. A síntese, por sua vez, dá origem à seu contraditório, e estes são então
harmonizados, e assim por diante até que o Absoluto Concreto Universal sintetize
todas as coisas. Na filosofia Hegeliana, nenhum problema escapa dessa solução
dialética.

Kierkegaard rejeita o esquema de tese-antítese-síntese em favor de uma dialética


paralela. Cada conceito tem seu contraditório, mas nenhuma síntese é possível. A
palavra final não é Absoluta, mas Paradoxal.

A motivação para o ataque contra Hegel foi fornecida pela hipocrisia, complacência e
estupidez da igreja estatal. Kierkegaard estava farto da comida de serragem com a qual
os pastores Hegelianos alimentavam seus paroquianos. Literalmente e simbolicamente,
os pastores reduziram o milagre de Cristo dos pães e peixes à um piquenique comum;
o pecado original tornou-se um distúrbio hereditário de estômago causado pela comida
envenenada ingerida por Adão. Em tal teologia, Deus e o sobrenaturalismo não
desempenham qualquer papel. O espírito da época havia substituído o Espírito Santo e
o tempo havia engolido a eternidade. A pessoa adquiria seu Cristianismo como alguém
que adquiri sua cidadania - por ter nascido na Dinamarca. A piedade estava em
conformidade com o costume, e a sociedade tinha submergido o indivíduo. Foi em
100
oposição a hipocrisia, cidadania, Cristianismo e socialismo que Kierkegaard chorou
por uma decisão individual e apaixonada. A filosofia Hegeliana havia ampliado o
conhecimento abstrato conceitual; mas a verdadeira religião, diz Kierkegaard, não
consiste em compreender nada: a religião é uma questão de sentimento, de paixão anti-
intelectual. O que alguém acredita não tem importância; O modo como se acredita é
que faz toda a diferença no mundo.

Em uma passagem Kierkegaard descreve dois homens em oração. Um deles está em


uma igreja Luterana e tem uma verdadeira concepção de Deus. Mas porque ele ora em
um falso espírito, ele está na realidade orando a um ídolo. O outro homem está num
templo pagão orando aos ídolos; mas visto que ora com uma paixão infinita, ele está
na verdade orando a Deus - pois a verdade está no interior, não no exterior.

Duas citações da conclusão de um Postscript não científico de Kierkegaard indicam a


seguinte posição geral:

Uma incerteza objetiva mantida rapidamente em um processo de apropriação da


interioridade mais apaixonada é a verdade, a mais alta verdade alcançável por um
indivíduo existente.

Se alguém pergunta subjetivamente sobre a verdade, está refletindo subjectivamente


sobre a relação do indivíduo; se ao menos o Como desta relação está na verdade, então
o indivíduo está na verdade, mesmo que ele esteja assim relacionado a falsidade.

Kierkegaard falou em vão à sua geração. Ninguém prestou atenção. Cada um


permaneceu complacente e hipócritica. Isso levou à eventos de outro carácter –
eventos que não tinham paralelo no dia em que Bernardo se opôs ao racionalismo de
Abelardo – para forçar o significado de Kierkegaard no século XX. Hoje, o otimismo
modernista do século XIX, um modernismo que via o pecado original como uma
desordem estomacal a ser curada pelo avanços da ciência médica, foi destruído pela
incrível devastação de duas guerras mundiais. A complacência deu lugar à ansiedade.
Tragédia, tortura e morte tem sido o nosso destino, e uma Terceira Guerra Mundial
ainda pior paira sobre nós. Desesperados por soluções intelectuais num mundo de caos
insano, os teólogos do século XX lembram-se do dinamarquês iconoclasta.

101
O primeiro deles foi Karl Barth, que se apoderou da noção do paradoxo e enfatizou a
oposição entre o tempo e a eternidade, mas nos seus escritos posteriores atenuou os
temas. Emil Brunner foi seu companheiro inicial, embora mais tarde tenha havido uma
racha entre eles. Brunner fez mais do paradoxo e permaneceu mais aberto contra a
lógica. Rudolf Bultmann, profundamente influenciado pelo filósofo Heidegger, é uma
cor ainda diferente no mesmo espectro. Bultmann pode ser chamado apropriadamente
de existencialista, embora Barth explicitamente rejeite o Existencialismo. E,
finalmente, deve-se mencionar Jean-Paul Sartre, que exemplifica a ala ateia deste
movimento.

As diferenças entre estes homens tornam impossível enquadrar qualquer resumo que se
aplique com precisão a todos eles. Mas há uma tese básica que une eles. Todos são
anti-Hegelianos; todos concordam que o intelectualismo é superficial; eles ou seus
seguidores estão aptos para usar os slogans do Romantismo - tais como, a vida é mais
profunda do que a lógica, e a experiência é mais real do que o pensamento; e
finalmente todos eles mais ou menos explicitamente, colocam o paradoxo e a
contradição no coração da realidade e afirmam que alguns problemas são
inerentemente insolúveis.

Esta Neo-ortodoxia, este Neo-supernaturalismo, ou - em linguagem filosófica – este


Existencialismo não deve ser definido simplesmente como um interesse em assuntos
de último interesse. Alguns existencialistas tentam fazer isso e depois afirmam que
Agostinho e Lutero eram existencialistas. Isto é uma lógica ruim e uma erudição ruim.
O importante é que o Existencialismo repudia o pensamento racional, como Agostinho
e Lutero nunca o fizeram. Às vezes, Pascal é chamado de precursor do
Existencialismo; mas Pascal escreveu o que Brunner e Sartre nunca puderam escrever,
“Toda a nossa dignidade consiste em pensamento.” O ponto essencial sobre esses
teólogos do século XX é que eles repudiam o pensamento e exaltam a experiência não-
intelectual.

Jean-Paul Sartre tenta dar um resumo mais positivo e mais técnico do Existencialismo.
Ele afirma que sua tese comum é “existência precede a essência”. Essa frase anti-
Platônica e anti-Hegeliana significa que o Aristotélico precede o que é Aristotélico.
102
Por exemplo, se um carpinteiro quer fazer um armário, ele deve primeiro saber o que é
um armário e qual o tamanho e a forma particular do armário que ele pretende fazer.
Aqui o o quê precede o aquilo: A essência precede a existência. Assim também, a idéia
Cristã de Deus inclui a noção de que Deus sabia o que iria criar antes de criá-lo. A
doutrina da Providência atribui a Deus um conhecimento ou plano da história que
antecede os acontecimentos. Isto é o que Sartre nega. Não há plano pré-existente da
história, nem mesmo uma determinada natureza humana que todos os homens devem
ter. Cada homem faz a si mesmo o que ele se torna. O o quê segue o aquilo.

Há boas razões para escolher este princípio como o princípio definitivo do


Existencialismo mesmo nas suas formas teológicas. Estes autores enfatizam a
liberdade humana, um universo aberto e uma natureza indeterminada, de tal forma que
por - implicação, pelo menos - Deus não pode ter nenhum plano. Por exemplo,
Langdon Gilkey, embora não seja um existencialista exaustivo, absorveu o suficiente
para escrever:

A existência, ao mesmo tempo que revela uma coerência e um significado final, não
será completamente reduzida a qualquer sequência clara e precisa de relacionamentos.
Há profundezas de liberdade da criatividade, e até mesmo da incoerência, dentro do
mistério do ser, que desafiam a tentativa de organizar a vida em padrões racionais
simples. Assim, o próprio objetivo da filosofia é fatal para a plena compreensão. As
intuições insistentes de que nossos propósitos são eficazes e nossa individualidade é de
valor, desmentem sistemas em que tudo é determinado a partir de nós mesmos...
(Maker of Heaven and Earth, 145)

Apesar da frase “uma coerência suprema” e da palavra “simples” na frase “padrões


racionais simples”, o pensamento nega a ordem final, inclusiva, e recusa-se a
reconhecer que um Deus acima de nós que preordenou tudo o que acontecerá.
Negações semelhantes e talvez ainda mais fortes da providência e da predestinação
podem ser encontradas em outros escritores.

Enquanto Sartre vê claramente as “implicações ateístas” da sua definição de


Existencialismo e sua defesa da liberdade, os teólogos tentam escapar delas.
Repetindo, Karl Barth, em particular, afirma que ele não terá parte em “gritos
existenciais e coisas do género.”

103
No entanto, Barth dificilmente pode escapar à acusação de anti-intelectualismo, e
Brunner ainda menos. Estes homens e aqueles que eles influenciaram argumentam que
o intelecto lida com abstrações e conceitos de classe; ele não pode lidar com o único.
Mas cada indivíduo, especialmente cada indivíduo humano, é único. Nós não
conhecemos as pessoas da mesma forma que conhecemos as coisas. Há um Isto-
Verdade e um Tu-Verdade; há conhecimento sobre e há conhecimento por
familiaridade. Agora, Deus é uma pessoa. Por isso, não podemos conhecê-lo; devemos
encontrá-lo em um confronto face a face. Como disse Kierkegaard, verdade - verdade
não-intelectual, verdade real - é subjectiva. Não é conhecimento, mas uma experiência
apaixonada.

Estas caracterizações - embora forneçam pouca informação sobre os detalhes dos vinte
volumes de Church Dogmatics de Barth ou sobre o Being and Nothingness de Sartre -
são, creio eu, tão precisas quanto possível. Com elas em mente, é agora a altura de
examinar mais de perto a ideia da revelação como um encontro. Primeiro, vamos
retornar a Kierkegaard por um momento.

O tipo da religião de Kierkegaard enfrenta uma pergunta óbvia e inevitável. Se ela não
faz diferença no que se acredita, se apenas o Como é importante, e se orar aos ídolos é
satisfatório, não seria uma apropriação apaixonada do Diabo tão louvável quanto uma
decisão por Cristo?

Kierkegaard percebe esta pergunta e faz uma fraca tentativa de respondê-la. Ele tenta
distinguir entre a interioridade do infinito e a interioridade do finito. A primeira é uma
interioridade Cristã e é baseada em Deus; a segunda se relaciona com algum outro
objecto.

Esta resposta, no entanto, é de cabeça para baixo. Se houvesse um conhecimento


prévio e objetivo de Deus, uma pessoa poderia usar este conhecimento objetivo como
base para julgar que a sua apropriação apaixonada era infinita. Mas se não há um
prévio conhecimento objetivo de Deus, e se, portanto, alguém está limitado à
introspecção de seus próprios sentimentos, nenhuma diferença qualitativa entre os dois

104
atos apaixonados da apropriação pode ser discernida. Se, além disso, um ídolo é tão
satisfatório quanto Deus, por que o socialismo de Hegel e Marx não seria tão aceitável
quanto o individualismo de Kierkegaard? Os comunistas são bastante apaixonados,
não são?

É esta incapacidade de justificar uma decisão em contradição com a decisão oposta, é


o valor igual do encontro com Deus e do encontro com um ídolo, é a ênfase no Como e
na rejeição do Como e do o Quê, que tem de uma forma e de outra atormentado o
movimento existencialista até ao presente. Por exemplo, os defeitos no subjetivismo de
Kierkegaard não foram removidos no desenvolvimento de Emil Brunner em relação ao
mesmo tema. Sem dúvida, Brunner melhora sobre Kierkegaard na medida em que ele
interpreta a apropriação apaixonada e o momento de decisão de ser, o que Kierkegaard
não disse claramente, um encontro pessoal. No entanto, esta experiência religiosa não
dá nenhum conhecimento teológico. Ela difere do conhecimento comum por causa da
distinção entre Isto-Verdade e Tu-Verdade. No campo religioso esta bifurcação do
conhecimento foi antecipada por Ferdinand Ebner e Martin Buber; na filosofia secular,
Brunner estranhamente se encontra na companhia de Moritz Schlick, que separou
Erleben de Erkennen, e Bertrand Russell, que distinguiu o conhecimento por
familiaridade do conhecimento por descrição.

Na verdade, a forma religiosa desta bifurcação é mais devastadora para o


conhecimento do que a forma secular. Ela nos impede até de pensar em Deus. Brunner
escreve,

Deus e o meio de conceitualidade são mutuamente exclusivos. Deus é pessoal e revela-


se apenas no meio da personalidade, portanto, de uma forma pessoal, não através do
pensamento... Não se pode relacionar com Deus pela forma de pensar... Conhecer a
Deus não significa meramente conhecer Deus, mas ser encontrado pessoalmente por
Ele (Philosophie und Offenbarung, 50)

O quão pouco de pensamento e conhecimento Brunner deixa para a religião pode ser
visto em seu argumento em The Divine-Human Encounter. Ele inicia com o lamento
de que a igreja primitiva tenha sucumbido à má influência grega que fez da revelação
uma comunicação da verdade, e fez da fé uma aceitação destas verdades; depois, quase

105
cem páginas mais tarde, ele conclui: “Todas as palavras têm apenas um valor
instrumental. Nem as palavras faladas nem o seu conteúdo conceitual são a palavra em
si, mas apenas a sua moldura” (19, 110, itálico meu).

Nesse anti-intelectualismo, a fé - se é que existe tal coisa - torna-se um paradoxo. Os


paradoxos da fé, diz Brunner, não são apenas problemas difíceis de resolver, mas são
“contradições necessárias em si mesmas e, portanto, também, contradições contra a lei
fundamental de todo o conhecimento, a lei da contradição, por conseguinte nenhum
conhecimento” (Philosophie und Offenbarung - Philosophy and Revelation, 34).
Especificamente, ele identifica a Trindade e as duas naturezas de Cristo como
“monstruosidades lógicas” - bens preciosos da igreja, sem dúvida, mas ainda assim
monstruosidades lógicas. A teologia - isto é, a teologia de Brunner - não está
preocupada com a verdade unívoca da razão; a revelação não deve ser equacionada a
um sistema de doutrina revelada; pelo contrário, a teologia tem a ver com a unidade
pessoal incompreensível que une as suas contradições.

Em outras palavras (minhas palavras), a fé é insanidade.

Uma crítica da teoria da revelação do encontro não precisa gastar muito tempo com as
complexidades filosóficas de Martin Heidegger ou Jean-Paul Sartre, porque todos os
detalhes estão sujeitos à teoria abrangente do conhecimento e da verdade. A bifurcação
da verdade em Isto-Verdade e Tu-Verdade torna o termo verdade equívoco; e além
disso, se preserva qualquer coisa do lado do encontro ou Erlebnis, preserva-o como um
Ding an sich15 desconhecido. Confusão ou engano então, surge por falar sobre a
verdade e por fazer crer que a conversa, ou os livros, são de certa forma, inteligíveis.
Eles não são inteligíveis, pois a verdade como encontro não é verdade.

Além do dualismo insustentável e não resolvido, a evidência apresentada na verdade


fala contra a conclusão. Frases tais como, “Analisamos racionalmente as coisas, mas
encontramos pessoas”, podem ser uma boa retórica; mas negar que uma pessoa pode
ser um objecto de pensamento contraria os nossos procedimentos diários. É verdade

15
[Nota do Tradutor] Expressão alemã que significa a coisa em si.

106
que embora o nosso melhor conhecimento das pessoas não provenha da nossa
observação delas como objectos físicos, mas da sua auto-revelação voluntária, esta
auto-revelação é bem feita falando e falando inteligivelmente. Se uma pessoa se
recusar a falar, que bem haveria em encontrá-la? Isto é igualmente verdade no caso de
Deus.

Concedido novamente (ou melhor, exigido e insistido) que qualquer conhecimento que
um homem pode ter de Deus dependa da auto-revelação voluntária de Deus, quão bom
seria para a religião, para a conduta diária, para a teologia ou para a filosofia -
encontrar Deus, se ele nada revelou? É claro que as pessoas devem ser encontradas,
mas elas devem ser encontradas para conversar com elas.

Por esta razão, a noção aparentemente piedosa de que Jesus Cristo é a revelação de
Deus e que toda a nossa religião e teologia deriva do encontro com Cristo, exclui a
teologia sistemática e toda a religião definida.

É claro que Jesus é a Palavra viva de Deus. Nós não negamos isso por um momento. É
claro que Deus nestes últimos dias revelou-se a nós em seu Filho. Mas se a pessoa de
Cristo é divorciada do que Jesus de Nazaré disse, e se a pessoa de Cristo é divorciada
do que Deus disse sobre ela através dos apóstolos, como podemos saber o que Cristo
fez por nós? Um mero encontro deixaria os termos regeneração, imputação e
justificação sem sentido. De fato, se não houvesse de um discurso ou pensamento
inteligível, nunca poderíamos saber se um encontro foi um encontro com Cristo, o
Filho de Deus, ou se foi o encontro de Kierkegaard com um ídolo. A própria
identificação de Jesus como o Filho de Deus não pode ser feita sem pensamento
inteligível.

Conhecimento por familiaridade, no sentido anti-intelectual do encontro, Begegnung,


ou Erlebnis, não resultará em nenhuma outra religião além de algum entretenimento
emocional. A teologia não pode existir.

107
Este ponto precisa de alguma ênfase e repetição. Um encontro no qual nenhum
conhecimento conceitual ou conteúdo intelectual foi transmitido não daria ao sujeito
qualquer razão para pensar que tinha encontrado Deus. Tampouco uma experiência tão
inarticulada poderia apontar para qualquer coisa definida além dela mesma. Embora a
experiência possa ainda ser teimosamente chamada de religião por aqueles que pensam
ou, melhor, sentem que a emoção é a essência da religião, ela nunca poderia ser
identificada como o Cristianismo, Judaísmo, ou Islamismo. Estes três exigem ideias -
um O quê e não apenas um Como.

Que o Existencialismo é uma nova religião completamente diferente do Cristianismo é


inconscientemente deixado claro em Pittsburgh Perspective, uma publicação do
Seminário Teológico Pittsburgh. Em um artigo, “The Bible, Orthodoxy, and Karl
Barth” (Março de 1963), o autor, depois de ter apresentado várias razões detalhadas
em oposição à doutrina ortodoxa de inspiração, leva o seu argumento ao cume
contrastando dois tipos de religião. Uma é “racionalista”: Sua concepção do
“conhecimento pessoal é dolorosamente estéril”; “o caráter da palavra reveladora
como um discurso existencial é quase inteiramente ignorado em favor da ideia de que a
palavra fornece informações verdadeiras”; um escritor ortodoxo menciona a
necessidade da adoração para a conduta ética, e “isso ajuda a mitigar o intelectualismo
do seu conceito de teologia. Mas eles não carregam seu pensamento para a faixa de
problemas que surgem na forma existencialista-personalista de pensar.” O autor está
obviamente contrastando dois tipos de religião, e o tipo que ele prefere não é o
Cristianismo histórico.

A fraseologia existencialista sobre o encontro e a personalidade parece atraente para


muitos que não pensam na linguagem da propaganda. Exemplos de frases
impressionantes mas completamente vazias, são abundantes. Outro autor insistiu que a
religião é um assunto “intensamente pessoal”. Sem dúvida que sim. Assim é o estudo
do cálculo - ninguém o pode fazer por ti. Assim como escovar os dentes. Mas
nenhuma conclusão quanto à natureza, características, valor ou importância da
atividade - ou sobre o que devemos fazer corretamente a respeito - pode ser extraída da
frase “intensamente pessoal.” Essa linguagem é meramente uma explosão emocional.
É uma frase vazia de uma mente vazia.

108
Esse Existencialismo e a maneira personalista de pensar, ou melhor, a maneira
personalista de não pensar, são a antítese do Cristianismo, todos precisam ficar
impressionados. O fato de que Nietzsche foi um dos precursores do Existencialismo, o
fato de Heidegger ser um nazista que encerrou seus discursos com “Heil Hitler”, e o
fato de Sartre ser um ateu, pode ficar aquém da prova total de que o Existencialismo é
anti-Cristão. Mas as considerações estritamente teológicas não ficam aquém da prova
completa.

O antagonismo fundamental entre Existencialismo e Cristianismo é fundamentado pela


análise da relação entre o encontro e a crença numa vida futura. O Existencialismo, em
sua reação contra as verdades abstratas e eternas, enfatizou a morte - a minha morte - a
morte do indivíduo. Heidegger fala da morte como o fim pelo qual a existência de um
homem se torna completa. Sua capacidade de antecipar a morte, não como um
fenômeno comum, mas como sua própria morte, é a base da sua capacidade de
compreender a sua existência como um todo. No que diz respeito à sociedade, um
homem pode ser substituído por outro. Quando um banqueiro se aposenta, outro
continua com as mesmas funções. Mas o homem não é uma função, e eu devo ter a
minha própria morte. Sem antecipar a morte, um homem não pode viver
“autenticamente”.

Mas o que a revelação como encontro pode nos dizer sobre a morte e a vida futura?

Particularmente, o que pode o encontro nos dizer sobre uma ressurreição corporal da
morte? Um encontro não-conceitual, ininteligível, nunca nos poderia dar a informação
de que Cristo voltará para ressuscitar os mortos. Ele não pode sequer nos dar a garantia
mínima de algum tipo de vida futura. Suponha que com paixão infinita eu me
comprometa com a liberdade ou decida viver autenticamente em vez de cometer
suicídio ou submergir-me nas massas: Como essa experiência emocional poderia
possivelmente me informar que estarei consciente cem anos depois da minha morte e
qual será a qualidade dessa consciência? Diante da morte, o que precisamos não é de
paixão infinita, mas de informação definida.

109
Outros detalhes da teologia Cristã e da eclesiologia desaparecem. Como o Erlebnis me
convence do batismo infantil ou da imersão de adultos? Por qual padrão eu determino
o número de sacramentos e as formas da sua administração? Além das informações
reveladas, o papado, o episcopado, o Presbiterianismo, ou congregacionalismo podem
ser defendidos ou atacados? Não está claro que a religião anti-intelectual pode resolver
a natureza da igreja somente por uma decisão arbitrária por parte de seus oficiais
humanos?

E para um último ponto, a mesma dificuldade é encontrada em questões de moralidade


também. Que isso seja verdade para o Existencialismo ateu de Sartre não precisa ser
surpreendente. O que surpreende são as recomendações explícitas de Sartre de um tipo
de vida acima do outro. Se tudo é permitido, se o homem é a única fonte de seus
valores, se ele é responsável até pela sua composição psíquico-psicológica e pela
situação em que se encontra (tudo o que Sartre aparentemente afirma), então como
Sartre pode implicitamente exigir que todos os homens escolham a liberdade e vivam
autenticamente?

O teísmo atenuado dos outros escritores Neo-ortodoxos não fornece um fundamento


melhor para a distinção entre o certo e o errado. É verdade que Brunner diz “Deus...
revela-se... através do discurso, convocação, mandamento real.” De fato, ele diz isso
na própria passagem em que ele afirma: “Deus e o meio de conceitualidade são
mutuamente excludentes”, e onde ele também diz, “Ninguém pode se relacionar com
Deus pela forma de pensar” Mas o pensamento é necessário se Deus quiser dirijir-se a
nós através do mandamento. Um Deus que fala inteligivelmente pode emitir os Dez
Mandamentos, mas um encontro de mandamentos tão pouco trás informações. Mais
uma vez, todas as formas de adoração são deixadas à política eclesiástica (e todas as
formas de moralidade também).

A grande dificuldade, como deve ficar claro agora, é a recusa em aceitar a lei da
contradição. O Erlebnis, a fé, ou o encontro restringem à lógica. O resultado é uma
inconsistência sem desculpas. Só as pessoas que Alice encontrou no País das
Maravilhas podem acreditar em contradições e monstruosidades lógicas.

110
Revelação Verbal

Agora é hora de voltarmos para algo lógico, consistente e inteligível. A visão Cristã da
revelação - ao mesmo tempo em que ela admite uma demonstração empírica do poder
de Deus na astronomia, e requer o a priori da imagem divina no homem, e enquanto
ela, sobretudo, torna possível um “encontro” com a mente de Deus - identifica
principalmente a revelação de Deus com as palavras das Escrituras. Deus nos disse
algumas coisas; ele falou; deu-nos informações.

Em vários escritores Neo-ortodoxos há afirmações de que a idéia de uma revelação


verbal, segundo a qual Deus dá ao homem informações verdadeiras, foi uma invenção
de um escolasticismo Protestante tardio que havia perdido a religião original fervorosa
dos Reformadores.

Agora, deve ser admitido - na verdade, deve ser insistido que os credos posteriores,
que (escolásticos ou não) representam as conclusões mais autoritativas e mais maduras
do pensamento da Reforma, ensinam a doutrina da infalibilidade Bíblica. De todos os
credos, a Confissão de Westminster é a mais longa e cuidadosamente composta. A
posição doutrinária oficial de todas as denominações Presbiterianas declara que a
Sagrada Escritura ou Palavra de Deus (que ela define ao nomear os sessenta e seis
livros) deve ser crida e obedecida por causa da autoridade de Deus, seu autor. A Bíblia
deve ser recebida, a Confissão continua, porque é a Palavra de Deus, que é a própria
verdade. Visto que todo o conselho de Deus é encontrado na Bíblia, nada do que quer
que seja deve ser acrescentado. Em todas as controvérsias a igreja deve fazer seu apelo
final à Bíblia, e ao Juiz Supremo, pelo qual todos os concílios e opiniões devem ser
examinados, não é outro, senão o Espírito Santo falando nas Escrituras. Para evitar a
objeção hipócrita de que o Espírito pode falar em algumas partes da Bíblia, mas não
em outras, a Confissão não só define a Palavra de Deus como os sessenta e seis livros,
mas também explica a fé salvadora da seguinte forma: “Por meio desta fé, um Cristão
crê ser verdadeiro tudo o que é revelado na Palavra, pois a autoridade do próprio Deus
fala nela.”

111
Uma confissão anterior, a Confissão Belga de 1561, afirma a mesma doutrina da
Escritura: “Cremos que as Escrituras Sagradas estão contidas em dois livros, ou seja, o
Antigo e o Novo Testamento, que são canônicos, contra os quais nada pode ser
alegado.” Esta é uma afirmação de inerrância; e para deixar claro que a inerrância
carateriza toda a Bíblia e não apenas algumas porções, a Confissão Belga, depois de
nomear os sessenta e seis livros, acrescenta as palavras: “Nós recebemos todos estes
livros... crendo, sem qualquer dúvida, em todas as coisas neles contidas...”

A Segunda Confissão Helvética diz: “Credimus et confitemur Scripturas Canonicas


sanctorum Prophetarum et Apostolorum utriusque Testamenti ipsum verum ease
verbum Dei… Nam Deus ipse loquutus est Patribus, Prophetis, et Apostolis, et loquitur
adhuc nobis per Scripturas Sanctas…ne ei aliquid vel addatur vel detrahatur.”
(“Cremos e confessamos que as Escrituras canônicas dos santos apóstolos e profetas e
de ambos os testamentos são a própria Palavra de Deus... Pois o próprio Deus falou
pelos pais, profetas e apóstolos, e ainda nos fala através das Sagradas Escrituras... às
quais nada pode ser acrescentado ou subtraído.”)

Estas posições credíveis são clara e explicitamente incompatíveis com a visão Neo-
ortodoxa da Bíblia. Mas é verdade que essa posição do credo pode ser adequadamente
referida pelo termo depreciativo “escolasticismo”? Os credos acrescentam doutrinas
artificiais que diferem da pregação de Calvino e Lutero? Será que os Reformadores
negaram que a Bíblia é a própria Palavra de Deus? Será que eles negaram a inerrância
da inspiração verbal?

Primeiro, vamos olhar para Calvino. Uma vez que a veracidade das Escrituras não era
formalmente negada pelos Romanistas, o assunto é menos completamente tratado nos
escritos dos Reformadores do que a doutrina da graça livre. Mas as observações
incidentais de Calvino são suficientemente claras.16 Num lugar ele diz,
Deus é o seu Autor. A principal prova, portanto, das Escrituras é em toda parte,
derivada do carácter Divino. Os profetas trazem o sagrado nome de Deus para
compelir a submissão do mundo inteiro... Este uso do nome divino não é nem

16
Para um relato mais completo do assunto veja “Calvin and the Holy Scriptures”, por
Kenneth S. Kantzer, em Inspiration and Interpretation, editado por John W. Walvoord, Eerdmans, 1957.

112
imprudente nem falacioso... A Escritura exibe as evidências mais claras de que é Deus
que fala nela. (Institutas, I.vii.4)

De fato, ao invés de atribuir a Calvino uma visão mais frouxa da Escritura do que a da
Confissão de Westminster, é mais fácil compreendê-lo ou entendê-lo mal como tendo
uma visão mais rigorosa. Ao descrever o método de inspiração, Calvino usa a palavra
muito difamada “ditado”. Ele diz: “O Espírito Santo ditou aos profetas e apóstolos”
exatamente o que ele queria que a escrita final contivesse.

E esta não é uma referência solitária. O trabalho de Calvino está repleto de referências
ao ditado divino das Escrituras.

Algumas amostras da fraseologia de Calvino, que podem ser conferidas no livro de


Kantzer são estas: “Deus se agradou de comprometer sua palavra com a escrita...
Foram acrescentados detalhes históricos, que são também a composição dos profetas,
mas ditados pelo Espírito Santo.” “Porque a Palavra de Deus não se distingue das
palavras do profeta, como se o profeta tivesse acrescentado alguma coisa de sua
própria autoria.” Calvino se refere à Escritura como “registro certo e infalível” e como
“padrão infalível”, “livre de cada mancha ou defeito.” Com relação aos Salmos
imprecatórios, Calvino diz, “Davi não proferiu precipitadamente ou imprudentemente
maldições contra os seus inimigos, mas aderiu estritamente ao que o Espírito ditou.”

A visão de Calvino sobre a natureza do ditado e a doutrina ortodoxa da inspiração


verbal, tem sido tão frequentemente mal-entendida, e o mal-entendido tem sido tão
frequentemente apontado, que se é forçado a supor que a deturpação é deliberada.
Aqueles que atacam a doutrina Protestante ortodoxa tentam reduzir o ditado divino ao
chamado ditado mecânico de um escritório de negócios. Os liberais querem que
pensemos que os teólogos ortodoxos nunca sequer sonharam que Deus podia usar a
personalidade de um profeta. Eles, os liberais, constantemente e erroneamente
argumentam que a inspiração verbal torna as diferenças de estilo inexplicáveis. Mas
esta afirmação é historicamente falsa, como qualquer um pode ver lendo os teólogos
ortodoxos desde Warfield neste século, até o próprio Calvino.

113
No entanto, o mal-entendido só mostraria que as confissões posteriores não foram
“acréscimos escolásticos” às doutrinas da Reforma. Qual é o sentido que os liberais
querem? Calvino ensinou o ditado mecânico ou os credos são escolásticos? Eles não
podem ter os dois.

Por outro lado, o reconhecimento de Calvino da crítica textual e seu comentário sobre
a canonicidade foram usados para atribuir a ele uma visão mais frouxa da inspiração.
Isso pode manter os credos escolásticos, mas vai contra todas a sua ênfase no ditado.
No entanto, esta atribuição à Calvino de uma visão mais frouxa é também baseada
num mal-entendido. O tipo de passagens a partir das quais a alegada evidência é
obtida, mostra claramente que Calvino ensinou a inspiração verbal e plenária da
Palavra de Deus.

O mesmo se aplica à Lutero. J. Theodore Mueller escreve,

Quando os historiadores da igreja atribuem a Lutero o mérito de ter estabelecido o


Schriftprinzip, isto é, a verdade axiomática de que a Santa Escritura é o único princípio
pelo qual a verdade divina é verdadeiramente inconfundivelmente conhecida, eles
fazem isto em plena justiça ao Reformador de Wittenberg, cuja alegada “atitude
liberal” em relação às Escrituras, os teológicas liberais, contrariamente ao fato
histórico, em vão tentam demonstrar.17

Quenstedt, a quem os liberais citam como um teólogo que corrompeu a mais livre
doutrina Reformada da inspiração, escreveu,

As Sagradas Escrituras canônicas no texto original são a infalível verdade e estão


livres de qualquer erro; em outras palavras, nas Sagradas Escrituras canônicas não há
mentira, nem falsidade, nem erro, nem mesmo em menor quantidade, seja no assunto
ou nas expressões, mas em todas as coisas e em todos os detalhes que são transmitidos
nelas, são certamente verdadeiras, quer digam respeito à doutrina ou à moral, à história
ou à cronologia, à topografia ou à nomenclatura. Nenhuma ignorância, nenhuma falta
de consideração, nenhum esquecimento, nenhum lapso de memória pode e ousa ser
atribuído ao amanuenses do Espírito Santo nos seus escritos sagrados.

17
Inspiration and Interpretation , 88; ver todo o Capítulo 3 para a justificação dos detalhes seguintes.

114
Apesar do que dizem os liberais, estas afirmações de Quenstedt não são corrupções
posteriores. Tudo o que está na citação acima pode ser encontrado no próprio Lutero.

Por exemplo, “As Escrituras nunca erraram” e “É impossível que as Escrituras se


contradigam; parece assim apenas para os insensatos e obstinados hipócritas.” Outros
exemplos são: “As Escrituras são divinas; nelas Deus fala e elas são a sua Palavra,” e

A menos que eu esteja convencido pelo testemunho da Escritura ou por razões


evidentes - porque não creio nem no Papa nem nos Concílios, visto que é estabelecido
que muitas vezes eles erraram e se contradisseram - eu estou dominado pelos escritos
citados por mim, e a minha consciência está cativa pela Palavra de Deus. Portanto eu
não vou e não posso me retratar de nada, pois não é seguro nem honesto fazer nada
contra a consciência.

Separada de seu contexto, esta última citação pode parecer mostrar que Lutero poderia
apelar à “razões evidentes” além e fora da relação com a Bíblia. Uma análise do
contexto e da situação histórica exige que reconheçamos que “razões evidentes”
significa deduções corretas das Escrituras, e que consciência significa a sua
consciência como vinculada pela Bíblia. A famosa declaração é, portanto, uma
afirmação do Sola Scriptura.

Se isto for suficiente para convencer um deles do que a posição Reformada realmente
era, o próximo passo é ver se a doutrina era uma nova invenção ou se ela pode ser
encontrada mais antes. Ou, mais pertinentemente, o próximo passo é ver se a doutrina
da inspiração verbal é o ensino da própria Bíblia. Se os Neo-ortodoxos afirmam ser
teólogos Bíblicos, se sua teologia é chamada de teologia da Palavra, é mais importante
ver o que a Palavra diz sobre si mesma. Felizmente, esta é uma das doutrinas Bíblicas
mais fáceis de determinar. Afirmações ou implicações da inspiração plenária e verbal
abundam desde Gênesis até o Apocalipse.

A mais conhecida, é claro, é: “Toda a Escritura é divinamente inspirada”. Uma


tradução melhor e mais literal seria: “Toda a Escritura foi soprada por Deus.” É de se
notar, como teólogos ortodoxos têm apontado repetidamente, que o que Deus soprou
foram as palavras escritas no manuscrito. O verso não diz que Deus inspirou os
pensamentos dos autores, nem mesmo o seu discurso. É a Escritura, as palavras

115
escritas, que Deus soprou.

É claro que o versículo não nega que Deus inspirou os pensamentos dos autores. A
questão simplesmente é que, tudo o mais que Deus fez, ele também soprou as palavras
escritas. Por causa da persistente deturpação da inspiração verbal por parte dos liberais,
como ditado mecânico, pode ser bom neste momento repetir que os processos mentais
dos profetas permaneceram normais por toda parte. A idéia de que a inspiração verbal
conflita com o estilo literário de um profeta, depende de uma concepção deística de
Deus, que os liberais detêm para si mesmos ou atribuem erroneamente aos teólogos
ortodoxos. Esta concepção deística de Deus o retrata no papel de um executivo de
negócios cujo controle sobre o estenógrafo é externo e limitado. Ele não dirigiu a
educação dele nem o controla a cada pensamento. Nada de sua personalidade é
transferida para o texto datilografado. Mas a visão Cristã de Deus é de alguém em
quem vivemos, nos movemos e temos o nosso ser. Ele cria nossa personalidade e
forma o nosso estilo literário. Ele predestina a nossa educação e guia todos os nossos
pensamentos. Por isso Deus, desde toda a eternidade, decretou que os Judeus fossem
tirados da escravidão pela mão de Moisés. Para isso, ele determinou a data do
nascimento de Moisés e providenciou seu treinamento principesco e assim por diante,
até que, quando chegou a altura, a mentalidade e o estilo literário de Moisés eram os
instrumentos adequados para falar e escrever as palavras de Deus. Entre Moisés e Deus
Omnipotente havia uma união interior, uma identidade de propósito, uma cooperação
de vontade tal que as palavras que Moisés escreveu eram as palavras de Deus e as
palavras de Moisés ao mesmo tempo.

Algumas vezes é objetado que o versículo em 2 Timóteo se aplica somente ao Antigo


Testamento. Talvez sim, mas é engraçado ver os liberais tão determinados a exaltar a
autoridade do Antigo Testamento a fim de rebaixar o Novo. De qualquer forma, o
Novo Testamento afirma repetidamente a verdade do Antigo. Pode-se examinar o
tratamento do Senhor para com as Escrituras, isto é, o Antigo Testamento. Ele derrota
o diabo, confunde os Saduceus, e reduz os Fariseus à um silêncio, irado, citando as
Escrituras.

116
O Antigo Testamento também ensina a sua própria infalibilidade, e isto empurra a
doutrina para o passado. Além disso, muitos exemplos de frases como “O Senhor
falou” e “A boca do Senhor falou”, um composto de Jeremias 1:9 e Deuteronômio
18:19 dirão: “Porei as minhas palavras na sua boca”, e “será que qualquer que não
ouvir as minhas palavras, que ele falar em meu nome, eu o requererei dele”.

Lá se vai o Antigo Testamento. A questão agora é se o Novo Testamento faz as


mesmas afirmações para si mesmo. Em primeiro lugar, o Novo Testamento pressupõe
a sua superioridade em relação ao Antigo. Explicitamente, João o Batista é dito ser um
profeta maior do que os do Antigo Testamento, e os profetas do Novo Testamento são
maiores que João.

A superioridade, é claro, não residia em uma maior veracidade, pois eles não podiam
ter. No entanto, se tivessem sido menos verdadeiros, não poderiam ter sido superiores.
Note que Pedro diz, “nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que
lhe foi dada… como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de
entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras,
para sua própria perdição” (2 Pedro 3:15, 16). Aqui Pedro coloca todas as epístolas de
Paulo na categoria de Sagrada Escritura. O próprio Paulo afirma ser um profeta: “Por
isso, quando ledes [o que ele tinha escrito antes em poucas palavras], podeis perceber a
minha compreensão do mistério de Cristo… como agora tem sido revelado pelo
Espírito aos seus santos apóstolos e profetas” (Efésios 3:4,5). O termo “profeta” coloca
Paulo em um nível com o Antigo Testamento; o termo “apóstolo” o coloca acima
deles, pois “pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas,
em terceiro doutores.” (1 Coríntios 12:28).

Se uma lista quase exaustiva de reivindicações semelhantes para a Escritura é


desejada, pode-se ler a Theopneustia de Louis Gaussen. O pequeno número citado aqui
apenas confere confiança no número extremamente grande e facilmente localizado.

Mas se alguém preferir ter uma citação final, que seja 2 Pedro 1:21: “Porque a profecia
nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus

117
falaram inspirados pelo Espírito Santo.” Inspiração verbal e plenária - isto é,
infalibilidade, inerrância - é a afirmação que a Bíblia faz para si mesma; e se a Bíblia
não se representa corretamente, parece não haver uma boa razão para tomá-la muito
seriamente sobre qualquer outro assunto.

No entanto, esta doutrina da qual dependem todas as outras doutrinas é a mais


violentamente atacada de todas. Por um instinto satânico, a batalha contra o
Cristianismo é dirigida contra a sua cidadela. Barth escreve: “Os profetas e apóstolos
como tais, mesmo em seu ofício... foram... realmente culpados de erro em sua palavra
falada e escrita” (Church Dogmatics, I:2:528, 529). Brunner afirma que a Bíblia “está
cheia de erros”, contradições, opiniões errôneas sobre todos os tipos de situações
humanas, naturais, históricas. Contém muitas contradições nos relatos sobre a vida de
Jesus, é repleta de material lendário mesmo no Novo Testamento”. (Philosophy of
Religion, 155). Bultmann torna isso ainda menos incontestado que Brunner. Com uma
opinião tão depreciativa da Bíblia, o uso deles para qualquer propósito religioso, é
outro dos seus paradoxos insolúveis.

Mas as suas acusações são verdadeiras? A Bíblia está realmente “cheia de erros,
contradições e opiniões erradas”? A Bíblia é tão totalmente indigna de confiança como
Brunner e Bultmann dizem?

No que diz respeito às acusações de erro doutrinário, nenhuma resposta geral pode ser
feita. Seria preciso saber em que base filosófica a acusação se baseava. Por exemplo,
as doutrinas do pecado original e da depravação total foram em grande parte negadas
pelo Modernismo com base num otimismo evolucionário. Os teólogos do século XIX
pensavam que o mal estava quase erradicado da face da Terra e que o socialismo,
talvez o socialismo nacional, introduziria o Reino de Deus. As idéias de pecado
original e depravação total, portanto, eram erros doutrinários. Da mesma forma,
algumas vezes são feitas tentativas de minar a doutrina da predestinação, quer através
de uma interpretação particular do amor divino, quer por um recurso ao princípio da
indeterminação que Heisenberg tentou introduzir na física.

118
Um argumento completo para mostrar que estas doutrinas Bíblicas são verdadeiras e
que os liberais estão errados, não pode ser incluído aqui. No caso da predestinação,
certamente ninguém quer neste local uma discussão sobre física teórica. Até onde os
liberais dependem de sua interpretação do amor divino, seria necessário examinar que
fonte de informação usam para obter o seu conceito de Deus. Não é o Conceito
Bíblico. Eles, então, têm outra revelação? Deveria ser uma revelação melhor, já que
consideram as Escrituras tão indignas de confiança. No caso da depravação total
versus a bondade inerente da natureza humana, um argumento pode tentar refutar a
evolução biológica; ou pode negar que os princípios da evolução biológica podem ser
estendidos à sociedade e à religião; ou pode mostrar que essa evolução, longe de ser
otimista, retrata a natureza vermelha em dentes e garras. Visto que os antecedentes da
acusação são tão variados, os argumentos completos seriam demasiado longos para o
presente propósito, e a questão do erro doutrinário deve se basear nessas sugestões.

Se, no entanto, a Bíblia for acusada de erro com base no fato de que ela contém relatos
de milagres, uma resposta diferente seria necessária. Embora a negação de milagres
impugne a onipotência e nos retorne à fonte do nosso conhecimento de Deus, o
argumento mais comum contra os milagres é que a ciência refutou a sua possibilidade.
Aqui é necessária uma filosofia da ciência para questionar a finalidade da Mecânica
Newtoniana. Tal argumento eu publiquei em outro lugar.18

Quando, em seguida, Brunner afirma que o Novo Testamento é falso porque é repleto
de material lendário, pode-se indicar que as primeiras datas dos Evangelhos não
permitem que as lendas cresçam. Se o Antigo Testamento for criticado neste terreno,
pode-se perguntar, o que é uma lenda? Se uma lenda se distingue da história
simplesmente por causa de seu caráter fragmentário, Brunner terá que provar que tudo
o que é fragmentário deve ser falso. Pressione isto consistentemente e o resultado é
que todos os livros de história são falsos porque todos são fragmentários. Nenhum
livro contém todas as coisas.

18
The Philosophy of Science and Belief in God, The Trinity Foundation, 1987 [1964]; agora incluída em
Modern Philosophy, The Trinity Foundation, 2008.

119
Em seguida, a crítica destrutiva de datilografia de Wellhausen tem sido uma base ainda
mais popular para acusar a Bíblia de erro. Os alegados erros são de natureza histórica e
cultural, embora por vezes sejam vagamente chamados de contradições.

Em geral, as respostas à estas acusações não são difíceis de dar. Algumas das
“contradições” existem apenas na mente do crítico. Por exemplo, Edwin A. Burtt,
professor de filosofia na Universidade de Cornell, em seus Types of Religious
Philosophy (2ª edição, 311) - um livro que foi aclamado por sua imparcialidade - alega
a seguinte contradição:

Em Ezequiel 26, o profeta proclama como uma revelação divina a mensagem de que a
cidade de Tiro enfrentaria a destruição nas mãos de Nabucodonosor, Rei da
Babilônia... Depois de um duro assalto, no entanto, Nabucodonosor não conseguiu
capturar Tiro. Consequentemente, em Ezequiel 29 o profeta anuncia outra revelação na
qual Deus promete a conquista de Egipto a Nabucodonosor como recompensa por sua
derrota pelos Tírios. Não há nenhum indício no final destas passagens de que ele agora
duvida da autenticidade da revelação anterior, porque a profecia que elas continham
falharam na verificação de como e quando ele esperava. Aparentemente, o que é
essencial para uma revelação divina, em sua mente, não é sua infalibilidade fatual, mas
a verdade da lição moral que nela incorpora.

Se isso é uma erudição imparcial, a erudição e a imparcialidade estão em um mau


caminho. A acusação de Burtt é baseada na completa ignorância do que a Bíblia diz.
Ezequiel 26 em nenhum lugar profetiza que Nabucodonosor conquistará Tiro.

De fato, isso definitivamente implica que ele não irá, pois Ezequiel 26:3 diz: “Eis que
eu estou contra ti, ó Tiro, e farei subir contra ti muitas nações.” Então segue uma
descrição do dano (considerável o suficiente) que Nabucodonosor infligirá (versículos
7-11), após o que eles - as muitas nações - completarão a destruição de tal forma que
Tiro será uma rocha nua. Daí a contradição entre Ezequiel 26 e Ezequiel 29 existe
apenas na mente imparcial e erudita de Burtt.

Ou, novamente, a afirmação dos críticos de que a nação Hitita nunca existiu, de que os
camelos eram desconhecidos no Egipto no tempo de Abraão, de que as lâmpadas de
sete hastes foram feitas no final do Império Persa, e numerosas outras negações da

120
Bíblia, foram tão completamente refutadas pela arqueologia, que os liberais deviam
ficar envergonhados.

De natureza diferente destes itens históricos e culturais são os casos em que o termo
“contradição” é usado no seu sentido estritamente lógico. Por exemplo, se um
Evangelho disser que havia um anjo e não mais no túmulo na manhã de Páscoa e outro
Evangelho disser que haviam dois, isto seria uma contradição lógica. Ou, novamente,
se duas passagens diferem quanto ao número exato da família de Jacó que desceu para
o Egipto, as duas passagens produziriam uma contradição lógica formal.

Tais supostas contradições, no entanto, podem ser facilmente tratadas, ainda que em
alguns casos podemos não saber qual das duas ou três possibilidades é a correta. Elas
são facilmente manipuladas porque, na maioria dos casos, os textos reais não estão em
contradição formal. Nenhum Evangelho diz que só havia um anjo no túmulo em toda a
manhã da Páscoa.

Mesmo as duas genealogias de Cristo podem se mostrar como não contraditórias, por
mais difícil que seja reconstruir a história real (ver J. Gresham Machen, The Virgin
Birth, Harper and Brothers, 1932).

Estas considerações e os vários volumes mencionados são suficientes para demonstrar


boa razão para aceitarmos a Bíblia como verdadeira; elas são conclusivas contra a
plausibilidade da teoria liberal sobre estes pontos.

Devemos agora considerar um tipo diferente de objeção à inspiração verbal das


Escrituras. Resumidamente, a objeção é que Deus não pode falar.

Mais uma vez esta objeção à inspiração verbal depende de um conceito não-Bíblico de
Deus. Com sua herança de Friedrich Schleiermacher e G. W. F. Hegel, o Modernismo
mais antigo negou que Deus pudesse falar porque tinha uma visão essencialmente
panteísta de Deus. Deus era inteiramente imanente ou realmente identificado com os
processos da natureza. Ele foi proibido de interromper estes processos por qualquer
121
milagre, qualquer intrusão na história, qualquer evento de uma vez por todas, do qual
falar seria um exemplo.

Os novos liberais não são tão afeiçoados por Hegel; eles falam da transcendência de
Deus; eles tentam achar uma ação divina em algum lugar da história, mesmo se apenas
em um ponto não estendido. Mas eles evitam a idéia de que Deus pode usar palavras,
tais como, “Eis que a virgem conceberá”, e “Ao qual Deus propôs para propiciação
pela fé no seu sangue.”

O que eles afirmam é que Deus produziu algum estado emocional ou um estado de
espírito no profeta obscurantemente definido, e então o profeta confiou na sua própria
sabedoria para falar sobre a sua experiência.

Uma vez que esta negação de que Deus pode usar palavras é outra negação de sua
onipotência, a questão do conhecimento religioso deve ser novamente levantada com
ênfase crescente. Onde é que esses teólogos obtêm a sua informação sobre o que Deus
pode ou não pode fazer? Suas idéias não vêm da Bíblia. Têm então outra “revelação”,
ou eles juntamente com Schleiermacher reduziram “Deus: à uma descrição do seu
próprio estado de consciência? Os teólogos ortodoxos fazem bem em pressionar esta
pergunta e impedir que os liberais escapem de uma resposta. Essa estratégia ortodoxa
é boa porque as respostas liberais, quando explicitadas, são tão obviamente
inadequadas.

Além de implicar um conceito não Bíblico de Deus, a tese de que Deus não pode falar
depende de uma teoria da línguagem. Espera-se que a linguagem humana, nesta teoria,
tenha supostamente evoluído do chilrear de pássaros e grunhidos de porcos, ou pelo
menos de ter uma origem totalmente sensorial. Como, portanto, todos os termos
derivam das coisas visíveis e tangíveis do universo material, a linguagem é inadequada
para expressar a verdade divina. Quando a linguagem é altamente desenvolvida por
figuras de linguagem, metáforas e analogias, palavras como expiação ou justificação
podem ser usadas simbolicamente para sugerir ou apontar algo divino. Mas seus
significados literais são espiritualmente falsos porque nunca podem ser completamente
desligados de sua origem na sensação. Wilbur Marshall Urban tem um volume de 700

122
páginas e E. L. Mascall é um notável pensador Inglês que apoia vigorosamente tais
pontos de vista.

Para defender a Bíblia como a Palavra de Deus, uma confiança na onipotência de Deus
é suficiente. É preciso um homem muito corajoso para negar que Deus pode falar. Mas
é mais persuasivo se um teólogo conservador forneça também uma teoria alternativa
de linguística. As Escrituras estabelecem os princípios dessa teoria. Em vez de a
linguagem ser uma extensão evolutiva da tagarelice dos macacos, a Escritura ensina
que o homem foi criado à imagem de Deus. Basicamente, esta imagem é a razão
humana. E a linguagem é a sua expressão. Sem dúvida, Deus quis que a linguagem
fosse aplicável às partes visíveis e tangíveis da natureza; mas também não há dúvida
de que Deus pretendia que a linguagem fosse usada para adorá-lo, para conversar com
ele, e na sua conversa com Adão e os profetas subsequentes. Naturalmente, uma teoria
linguística não-teísta tem dificuldades com uma revelação verbal. Naturalmente,
também não há dificuldades numa base teísta.19

Agora, finalmente, a tese de que Deus não pode falar implica não só um conceito não-
Cristão de Deus e da linguagem, mas também uma forma não-Cristã de religião. É
uma religião sem verdade. O profeta teve sua experiência emocional e descreveu para
nós. Sua descrição pode estar muito equivocada. Mas não importa, Brunner assegura-
nos que Deus pode “falar” a sua palavra ao homem mesmo por meio de falsas
doutrinas. O único problema é que a doutrina é falsa e Deus não fala. Em concordância
com a teoria da linguagem que acabamos de discutir, Brunner escreve: “Todas as
palavras têm apenas um valor instrumental. Nem as palavras faladas, nem o seu
conteúdo conceitual são a própria Palavra, mas apenas o seu quadro (The Divine-
Human Encounter, 110).

Este tipo de religião é anti-intelectual e completamente irracional. Pode consistir em


uma sensação emocional, experiência estética, ou transe místico; mas é totalmente
desprovida de conhecimento. O que Brunner chama de Palavra de Deus não tem
nenhum conteúdo conceitual. Isso despreza a lógica, gloria as contradições e deifica o

19
Veja a minha Religion, Reason and Revelation, capítulo 3, “Inspiration and Language”; 3ª ed., The
Trinity Foundation, 1995 [1961]; agora incluída em Christian Philosophy, The Trinity Foundation, 2004.

123
paradoxo.

Mas o Cristianismo afirma que Deus é o Deus da verdade; que ele é sabedoria; que o
seu Filho é o seu Logos, a Lógica, a Palavra de Deus. O homem foi criado como um
ser racional para que pudesse entender a mensagem de Deus para ele. E Deus lhe deu
uma mensagem soprando toda a Escritura, tendo predestinado o processo completo -
incluindo as três fases dos pensamentos da mente do profeta, as palavras na sua boca e
o manuscrito acabado. O Cristianismo é uma religião racional. Tem um conteúdo
intelectualmente apreensível. Sua revelação pode ser entendida. E porque Deus fala em
palavras inteligíveis, Ele pode dar e deu mandamentos. Sabemos o que esses
mandamentos significam, e por isso devemos obedecê-los.

Se, agora, alguém prefere um simbolismo que aponta para algo incognoscível, se
qualquer um tem prazer no paradoxo irracional, se alguém desfruta de encontros sem
palavras, mais palavras e ideias não mudarão as suas emoções.

124
AS ESCRITURA SAGRADAS

Para o problema filosófico do conhecimento de Deus, para a construção de uma


teologia, e também para a estabilidade religiosa, uma visão da Bíblia como revelação é
o mais importante. Atualmente, muitos autores, tanto na Europa como na América,
estão tentando atender as necessidades para isso.

Na edição de 24 de Dezembro de 1962, de The Presbyterian Outlook, quatro


professores do sul uniram forças para propagar uma visão particular. Os quatro são:
Dr. Kenneth J. Foreman, Professor Emérito de Teologia Doutrinária no Seminário
Presbiteriano de Louisville; Dr. James H. Gailey, Jr., Professor do Antigo Testamento
no Columbia Seminary; Dr. James L. Mays., Professor de Interpretação Bíblica no
Union Seminary (Virgínia); e Dr. John F. Iansen, Professor de Interpretação do Novo
Testamento no Seminário Presbiteriano de Austin. Eles escrevem sob o título geral
“Precisamos de uma Bíblia Infalível?”

Os quatro artigos são parte do ataque contemporâneo generalizado contra a veracidade


da Bíblia. É instrutivo ver como seus argumentos são construídos.

Dr. Foreman, no primeiro artigo, se dirige principalmente à questão da (alegada)


necessidade de uma Bíblia infalível. Ele pergunta: “Preciso de uma Bíblia infalível
para me convencer do pecado?” Em toda a plausibilidade a resposta é Não. É claro que
um homem pode ser convencido do pecado sem jamais ter visto uma Bíblia; ele pode
simplesmente ouvir um evangelista e o Espírito Santo pode convencê-lo. Tal
consideração indica que a pergunta inicial não é exatamente a pergunta correta a ser
feita, se estivermos interessados na veracidade da Bíblia.

Depois de algumas perguntas um pouco mais irrelevantes, o Dr. Foreman pergunta: “É


necessário que a geografia da Bíblia seja irrepreensível antes que eu deposite minha
confiança no Deus da Bíblia?” A série de perguntas irrelevantes com suas respostas
negativamente plausíveis, supostamente condicionam o leitor a continuar com um
negativo aqui também. Mas se a questão é examinada um pouco, o negativo não é tão
125
plausível. Se a Bíblia está errada em relação à geografia, o que deveria ter sido fácil
para os escritores escreverem corretamente, pode muito bem ser um erro de teologia, o
que é muito mais difícil do que a geografia. Para essa pergunta uma resposta
afirmativa é pelo menos tão plausível quanto a resposta negativa à primeira pergunta.

Há outra parte deste primeiro artigo que depende mais de insinuações do que de lógica.
O autor escreve sobre (alegadas) discrepâncias nas Escrituras: “Muitos crentes nesta
teoria (da inerrância) sobre a Bíblia, quando tais discrepâncias são apontadas, porque
não podem explicar sem argumentos que parecem suspeitosamente distorcidos,
recorrem à proposição de que quaisquer erros podem ser encontrados nas nossas
Bíblias, nos quais não havia nenhum nos manuscritos originais. Esta afirmação não
pode ser provada; não pode ser refutada. Vale a pena discutir quando tivermos os
originais.” A implicação parece ser a de que não vale a pena agora discutir, e ficamos
com as Bíblias falíveis que temos.

Este argumento é um excelente exemplo de como levantar a questão. A insinuação


começa com a sugestão de que as tentativas de explicar as discrepâncias são
(geralmente, sempre) suspeitosamente torcidas. Assim, a mente do leitor é prejudicada
contra a veracidade das Escrituras. O autor esconde o fato de que o ônus da prova recai
sobre o crítico para mostrar que nenhuma explicação é possível. Tantas discrepâncias
alegadas já foram removidas por descobertas arqueológicas, que a pessoa que aceita a
Palavra de Deus não precisa mais ser aterrorizada pelas dúvidas não fundamentadas do
crítico descrente.

Há também outra falha no argumento. O autor sugere que não adianta discutir se o
alegado erro estava ausente no original, até que tenhamos o original. Isto parece
revelar um esquecimento da crítica textual. As diferenças entre o Novo Testamento
Grego que temos e os autógrafos são poucas em número e de ligeiras consequências. A
maioria delas são diferenças na ortografia, ou na ordem das palavras, ou em algum
pequeno detalhe que não afeta o sentido. Supor que somos tão ignorantes sobre o texto
original como este argumento requer, é deixar de lado toda a ciência da crítica textual.

126
Pode ser que não possamos provar a veracidade de alguma afirmação em particular na
Bíblia, mas a razão não é que o autógrafo esteja desaparecido. O que falta é uma
evidência corroborativa de fontes históricas ou arqueológicas, sem as quais o incrédulo
recusa-se a aceitar a declaração da Bíblia. Portanto, nós não concordamos com a
afirmação do Dr. Foreman de não discutir esses assuntos até que o original seja
encontrado - uma exigência que ele está seguro em fazer. Pelo contrário, devemos
lembrar ao mundo que os críticos uma vez afirmaram que a nação Hitita nunca existiu.

Admitimos que a arqueologia nunca poderá provar a verdade de cada afirmação na


Bíblia, nem mesmo todas as declarações históricas. Mas a nossa certeza da veracidade
da Bíblia não depende do tipo de prova que esses professores querem. Depende de
uma consideração encontrada no capítulo um, seção cinco, da Confissão de
Westminster, ao qual esses professores Presbiterianos não acharam adequado referir.
Este excelente resumo do ensino Bíblico diz, “Nossa plena persuasão e certeza da sua
verdade infalível e autoridade divina provêm da obra interior do Espírito Santo,
testemunhando pela palavra e com a Palavra em nossos corações.”

O Dr. James L. Mays, afirmando ostensivamente a “autoridade” da Bíblia, ataca a sua


infalibilidade. E o que é estranho para um professor de um seminário Presbiteriano, ele
fá-lo recorrendo a um argumento Católico Romano. “Se tivéssemos um livro cujo
valor consistisse na sua infalibilidade, não poderíamos usar este valor a menos que
houvesse homens infalíveis para acompanhá-lo.” Esta é essencialmente a reivindicação
do Papa, de que um texto infalível requer um intérprete infalível. Mas que Protestante
honesto alguma vez aceitou este dito papal? Onde está a compulsão na afirmação?
Como é que o Papa ou o professor justificam a sua exigência de um intérprete
infalível? Os Protestantes esqueceram a sua herança ao ponto de serem enganados por
velhas superstições Romanistas?

Suponhamos que fosse verdade que um texto infalível exigisse um intérprete infalível.
Então, é claro, a Bíblia exigiria uma encíclica papal para a sua interpretação. Mas visto
que a encíclica, nesta teoria, é em si mesma um texto infalível, ela também requer um
intérprete infalível. Quem quer que seja, sua interpretação, também infalível, exigiria
outro intérprete infalível; e assim por diante ad infinitum. Obviamente, a alegação
127
papal deste professor Presbieriano é absurda. Quando, então, o professor conclui: “A
autoridade da Bíblia é melhor recomendada ao mundo, não por uma defesa temerosa
de sua infalibilidade, mas por vidas que mostram a realidade dessa autoridade”,
respondemos, sem minimizar a vida dos santos que obedecem à Bíblia, que não temos
medo da nossa defesa da infalibilidade contra esta falácia da falsa disjunção. O
professor deveria ter medo da sua falta de lógica.

De fato, queremos perguntar a esses homens que autoridade a Bíblia pode ter, se não
for verdadeira. Os Neo-ortodoxos, ou o nome que melhor lhes convier, falam muito
sobre a Bíblia e sua autoridade. Mas eles não são claros quanto à razão pela qual
devemos crer, nos submeter, ou honrar um livro que esteja marcado por discrepâncias
e erros. Karl Barth, deve ser lembrado por atribuir à Bíblia, não apenas erros
geográficos e números místicos, mas erros em teologia. Mas se uma doutrina é falsa,
por que deveria ser pregada com autoridade? A lógica de tal posição é mais do que
intrigante.

Agora, o Dr. Mays afirma que a Bíblia é autoritária. E ao fazer isso, ele faz algumas
declarações que são tão louváveis, que ele próprio deve prestar atenção para elas. Ele
diz

Os Presbiterianos devem construir a sua fé na Bíblia, para obter o que é dito na


teologia das Escrituras. E isso inclui a crença sobre a Bíblia. Temos que olhar para ela
e examiná-la para aprendermos o que é certo dizer na fé. É presunçoso recusar-se a
olhar e dizer a Deus o que necessitamos sem considerar o que ele nos tem dado em sua
graça e sabedoria.

Este é um excelente conselho. Mas nenhum dos quatro professores o segue. Como é o
caso com Barth também, sua teoria da Bíblia não é o que a Bíblia diz sobre si mesma.
É algo que eles impuseram à Bíblia de fora dela. A citação que acabamos de fazer diz
que devemos enquadrar a nossa visão da Bíblia - a sua inspiração, a sua autoridade - a
partir do que a própria Bíblia diz. O que então ela diz?

128
A Bíblia diz que toda a Escritura, isto é, todas as palavras que foram escritas no Antigo
Testamento (pelo menos), é soprada por Deus. Os homens santos falaram - eles
falaram palavras - foram movidos pelo Espírito Santo. O Antigo Testamento tem
muitos exemplos da frase, “a boca do Senhor falou”. Muitas outras vezes lemos: “A
palavra de Deus veio.” Deuteronômio 18:18 diz: “porei as minhas palavras na sua
boca”, e uma frase semelhante ocorre em Jeremias 1:9. Em toda parte onde a Bíblia
fala de si mesma, ela ensina a inspiração verbal. As palavras são as palavras de Deus.
Não é dito em nenhum lugar que as palavras contêm discrepâncias geográficas e erros
teológicos. Nenhum exame do texto em si pode produzir provas de que as palavras não
são inspiradas. Se tomarmos nossa crença sobre a Bíblia do que a Bíblia diz sobre si
mesma, devemos concluir que as palavras são as palavras de Deus que não pode
mentir.

A inspiração verbal é uma doutrina impopular em muitos seminários de hoje. Das


muitas coisas desagradáveis que a Bíblia diz, seu ensino de inspiração verbal é talvez a
mais desagradável de todas. Tentativas engenhosas são feitas para evitá-la, negar ou
substituí-la por outra coisa qualquer. Ela é severamente criticada como mecânica -
embora a maneira como o falar de Deus possa ser chamado de mecânico seja difícil de
ver. É chamada de estática, e presumivelmente estático é um ruído que obscurece a
mensagem. Em vez de inspiração estática e verbal, uma teoria de inspiração dinâmica
é proposta. O único problema é que não é uma teoria. É simplesmente uma palavra que
carrega uma conotação atraente, para que o leitor desavisado possa ser enganado a
pensar mal do ponto de vista verbal, sem ter nenhuma visão definida para substituí-la.
Em resumo, os pontos de vista Neo-ortodoxos sobre a inspiração não são Bíblicos.
Eles não chegam ouvindo o que a Bíblia diz, mas impondo noções preconcebidas da
Bíblia sobre o que a revelação deve ser.

Em particular, os pontos de vista Neo-ortodoxos da Bíblia são uma negação e


contradição do ensinamento do próprio Jesus Cristo. Cristo alguma vez admitiu erros -
geográfico ou não - no Antigo Testamento? Alguma vez ele fez tentativas complicadas
de harmonizar a infalibilidade divina da Bíblia com a sua falibilidade humana? Ele
alguma vez ensinou que Deus pode revelar-se em declarações falsas, assim como em
afirmações verdadeiras, como Brunner faz? Qual foi o ponto de vista de Cristo sobre a

129
Bíblia?

A visão de Cristo sobre a Bíblia pode ser rapidamente indicada. Cristo disse: Porque,
se vós crêsseis em Moisés, creríeis em mim; porque de mim escreveu ele. Mas, se não
credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?

Precisamos de uma Bíblia infalível? Precisamos de uma Bíblia infalível, a menos que
sejamos dispostos a contradizer os ensinamentos de Cristo. Precisamos da inspiração
verbal, se quisermos crer no chamado ao arrependimento e na doutrina da justificação.
Precisamos da inerrância se quisermos ter algum conhecimento confiável de Deus.
Pois, se a Bíblia está equivocada em sua doutrina da inspiração, por que deveríamos
pensar que ela está correta em sua doutrina sobre Deus, arrependimento, ou qualquer
outra coisa? Nossas únicas alternativas seriam crermos em nada do que a Bíblia diz, ou
como na maioria dos liberais e Neo-ortodoxos, adotarmos algum princípio pelo qual
determinamos o que na Bíblia escolhemos crer e o que preferimos rejeitar. Em ambos
os casos, devemos admitir que a Bíblia não é uma autoridade para nós. Nós não
cremos numa doutrina porque a Bíblia ensina essa doutrina, mas porque em algum
outro terreno - racional, místico ou outro, reconhecemos a sua verdade.

Nosso Senhor tinha uma visão muito diferente da Bíblia. Ele ordenou seus discípulos a
crerem em tudo isso (Lucas 24:25). E se Cristo não nos diz a verdade quando ele diz
que a Escritura não pode ser anulada e que as palavras de Moisés são tão verdadeiras
quanto as dele, porque devemos acreditar nele quando ele diz: Vinde a mim, todos os
que estais cansados?

Por todos os meios devemos tomar nossa visão da Escritura de nosso Senhor Cristo e
da autoridade da própria Escritura. E isto é o que os críticos liberais recusam fazer,
mesmo quando dizem que isso deve ser feito.

130
O CONCEITO DE AUTORIDADE BÍBLICA

Em 1924, um grupo de ministros Presbiterianos publicou um documento chamado


Auburn Affirmation. Este afirma que a Bíblia contém erros. Estes 1300 Presbiterianos
diferiam entre si sobre as doutrinas não essenciais e periféricas do nascimento virginal,
milagres, expiação e ressurreição. Eles estavam de acordo que a Bíblia não era
infalível. Em 1977, Paul Rees, Jack Rogers (editor), Clark Pinnock (uma exceção
peculiar), Berkeley Mickelsen, Bernard Ramm, e David Hubbard publicaram o livro
Biblical Authority com o propósito de defender uma Bíblia errada. Obviamente, seu
conceito de “autoridade” difere do conceito do evangelicalismo histórico, pois é difícil
ver como a falsidade pode ser autoritária.

A batalha pela Bíblia neste século XX (mais a década anterior) pode ser dividida em
três períodos. Primeiro (1893) foi a condenação e suspensão da Igreja Presbiteriana
nos EUA de Charles Augustus Briggs, por manter que a Bíblia afirma falsidades. O
segundo foi o Auburn Affirmation. O terceiro é a renovação destas posições no livro
agora em consideração. Este livro foi estimulado pela publicação do livro de Harold
Lindsell The Battle for the Bible (Zondervan, 1976). Mas o presente ataque à Bíblia
começou com a reorganização do Seminário Fuller e com a demissão de todos ou da
maioria dos seus membros ortodoxos do corpo docente.

O que é Autoridade?

Assim resumido, é o esquema histórico. O primeiro ponto substancial na análise do


livro de Rogers é o significado de autoridade. Qual é precisamente o seu conceito de
autoridade, uma autoridade que comporte falsidade, é difícil de determinar. Seria de se
esperar que um livro com este título, um livro que não está de acordo com os pontos de
vista da Reforma Protestante, tornasse claro o significado do termo fundamentalismo.
No entanto, apenas um autor tenta definí-lo.

O capítulo de Berkeley Mickelsen tem o título “The Bible‟s Own Approach to


Authority.” O mais próximo do livro como um todo que explica o termo autoridade,
131
encontra-se na página 89 deste capítulo. “Authority, power, right to exercise rule….
God‟s authority or power includes” uma série de coisas que Mickelsen menciona como
exemplos, tais como, regular o destino eterno de todas as pessoas, mostrar o amor,
santidade e ira. Sem dúvida, tudo isso é verdade, e é bom até onde vai. Mas a
passagem dificilmente é uma definição formal. Mais para o ponto, não é uma definição
de autoridade Bíblica. É uma enumeração de alguma autoridade de Deus, e isto não é
suficiente para o propósito do livro. O que o livro precisa é de uma definição de
autoridade Bíblica, pois esta omissão deixa o leitor se perguntando sobre como um
livro que contém erros pode ser autoritário. Entre os exemplos que Mickelsen dá, ele
não listou o direito de expressar as falsidades. Mas se - como estes autores afirmam - a
Bíblia não é inerrante, ou não é a Palavra de Deus ou Deus tem autoridade para nos
dizer o que não é assim.

Este é o defeito fundamental do volume como um todo. Mesmo sobre a suposição de


que os outros autores aceitam a definição de Mickelsen - e eles não o aceitam
explicitamente - eles nunca mostram como as falsidades podem ser autoritárias. Eles
nunca esclarecem a sua noção de autoridade. Seu uso da palavra é uma espécie de
dispositivo de propaganda que depende de capricho e da ambiguidade. Não só este
termo fundamental permanece sem sentido, mas os argumentos são muito vagos. Uma
análise dos vários capítulos tornará isto evidente.

O primeiro ponto desta análise é a definição de outro termo: evangélico.


Historicamente este termo foi usado nos títulos de várias sociedades Luteranas. Foi
aplicado à teologia Reformada e foi reivindicado pelos Metodistas, embora talvez haja
dúvidas quanto à sua aplicabilidade aos Remonstrantes. O primeiro uso do termo
visava distinguir essas igrejas do Romanismo. A distinção não repousava sobre a
infalibilidade Bíblica, pois o Romanismo concordava com esse ponto. Note bem que
os Romanistas concordavam que a Escritura era infalível e a justificação era por meio
da fé. A discordância estava na negação dos Romanistas e na afirmação dos
evangélicos do Sola Scriptura e Sola Fide. Estes dois pontos definem o
evangelicalismo. Somente aqueles que crêem na infalibilidade das Escrituras - sem
qualquer apelo ao papa, à tradição, ou à outras fontes não Bíblicas - e que também
crêem na justificação somente pela fé, podem apropriadamente ser chamados de

132
evangélicos. Negar qualquer uma destas coisas é renunciar a Reforma Protestante.

Visto que a verdade das Escrituras não era uma questão de disputa entre o Romanismo
e a religião evangélica, os primeiros credos Protestantes não a enfatizaram tanto quanto
os teólogos posteriores fizeram em seus documentos mais completos. No entanto,
mesmo os credos mais antigos não toleram qualquer afirmação de que a Bíblia ensina a
falsidade. Por exemplo, a Confissão de Augsburgo (1530) não tem nenhum artigo na
Escritura como tal, mas, no contexto do conflito, contenta-se com a negação de outra
autoridade na religião, particularmente na tradição (Artigo V). Seus autores não viram
a necessidade de insistir que a Escritura era a Palavra de Deus porque não estava em
questão. A Fórmula de Concórdia (1576), no entanto, é mais explícita:
“Acreditamos... que a única regra e norma à que todos os dogmas... devem ser
estimados e julgados, não é outra senão o Antigo e o Novo Testamento.” Este é tão
completo quanto os credos posteriores, mas não há indício de que os dois Testamentos
ensinam o erro. Como eles poderiam ser a única norma de doutrina se ensinassem
algumas falsidades?

Os credos Reformados eram desde o princípio, mais sistemáticos, e até mesmo os


primeiros beneficiaram-se de um estudo da luta Luterana contra o papado. Assim, a
Primeira Confissão Helvética (1536) diz, “Die heilige, göttliche, biblische Schrift, die
da ist das Wort Gottes, von dem heiligen Geiste eingegeben…ist die allerälteste,
vollkommenste und höcheste Lehre (omnium perfectissima…sola perfecte).”20

A Segunda Confissão Helvética (1566) é um pouco mais explícita. Mas dizer que os
credos posteriores são mais explícitos não é dizer que os credos anteriores consideram
a Bíblia falível. O capítulo I do credo de 1566 é: “Credimus et confitemur Scripturas

20
“A santa, divina, Escritura Bíblica, que é a Palavra de Deus inspirada pelo Espírito Santo... é o
ensinamento mais perfeito e sublime, e só só lida com tudo o que serve ao verdadeiro conhecimento,
amor e honra de Deus, bem como a verdadeira piedade e a construção de uma vida piedosa, honesta e
abençoada” (tradução da edição alemã aumentada por Arthur C. Cochrane, Reformed Reformed
Confessions of the Sixteenth Century, Westminster John Knox Press, [ 1966] 2003, 100). “A Escritura
Canônica é a Palavra de Deus, dada pelo Espírito Santo... a mais perfeita e filosofia antiga; só ela contém
perfeitamente toda a religiosidade [e] todo modo de vida razoável” (tradução do texto latino em Niemeyer
por James T. Dennison, Jr., Reformed Confessions of the 16th and 17th Centuries in English Translation,
Volume 1, 1523-1552, Reformation Heritage Books, 2008, 343). - Editor

133
Canonicas…ipsum verbum Dei…. Nam Deus ipse loquutus est Patribus, Prophetis, et
Apostolis, et loquitur adhuc nobis per Scripturas Sanctas.”21 Nota que este credo ou
confissão apresenta a Escritura como a própria Palavra de Deus, pois o próprio Deus
falou aos Apóstolos e ainda nos fala pela Escritura.

A Confissão Francesa de 1559, alguns anos antes da anterior, no parágrafo cinco


dizia: “Cremos que a Palavra contida nestes livros [o parágrafo três enumerou os
sessenta e seis livros]... é a regra de toda a verdade...” Se é a regra de toda a verdade,
deve ser a regra da verdade para os detalhes geográficos, cronológicos e históricos que
ela contém.

Dois anos mais tarde, a Confissão Belga disse: “Nós recebemos todos estes livros...
crendo sem qualquer dúvida em todas as coisas neles contidas...” A palavra inerrância
não é usada, nem a palavra infalível, mas a idéia é clara: “crendo sem qualquer dúvida
em todas as coisas neles contidas.” O reinado de Peca é uma das coisas contidas no
mesmo.

Estes credos do século XVI são suficientes para mostrar que a veracidade das
Escrituras em tudo o que afirma não foi uma invenção do “escolasticismo” do século
XVII, malévolamente imposto à uma igreja inocente por aquele servo de Satanás,
Francisco Turretini. Francisco Turretini, pelo contrário, foi um santo que apenas
expandiu o significado preciso dos primeiros Reformadores.

O grande credo do século XVII, que até hoje não tem igual, tem um parágrafo bem
conhecido no capítulo um: “A autoridade da Sagrada Escritura, pela qual deve se
acreditar [com numerosas exceções?] e obedecida, depende....totalmente de Deus (que
é a própria verdade), o seu Autor; e, portanto, deve ser recebida, porque é a Palavra de
Deus.” O próximo parágrafo fala da sua “verdade infalível”. Há, no entanto, um
capítulo posterior não tão amplamente conhecido. As duas primeiras seções do
capítulo XIV são as seguintes: “A graça da fé, pela qual os eleitos são capacitados a

21
Cremos e confessamos que as Escrituras canônicas... são a própria Palavra de Deus... Porque o próprio
Deus falou pelos pais, profetas, apóstolos e ainda nos fala através das Escrituras Sagradas. (Veja acima
137). - Editor.

134
crer na salvação de suas almas, é a obra do Espírito de Cristo. Por essa fé, um Cristão
crê ser verdadeiro o que quer que seja revelado na Palavra, por causa da autoridade do
próprio Deus que fala.”

Em vista desta última citação da posição oficial do Presbiterianismo, não se pode


evitar a questão solene e perturbadora de saber se aqueles que deliberadamente negam
a veracidade completa da Bíblia realmente têm fé salvadora. Esses homens, esperamos,
nunca se enganaram ao subscrever a Confissão de Westminster. Eles estão livres para
escolher um credo ou religião ao seu gosto. O livro sob escrutínio, em nenhum lugar
declara o quanto da Bíblia eles acreditam, ou em que base ou por qual autoridade eles
rejeitam uma doutrina ou outra. Uma coisa, no entanto, é certa: além da questão de
saber se a fé salvadora inclui uma crença de que “tudo o que é revelado na Palavra” é
verdadeiro, a posição unânime da sociedade Luterana e Reformada nos séculos XVI e
XVII era a infalibilidade, a inerrância, a verdade das Escrituras. Portanto, estes homens
não têm o direito de se auto-denominarem evangélicos.

Os documentos oficiais das igrejas evangélicas, citados acima, são, portanto, a base
dogmática e histórica para condenar o volume de Rees-Rogers-Ramm-Hubbard. A
análise será agora dupla: (1) O contraste dogmático entre as duas teologias, e (2) a
explicação do raciocínio falacioso dos oponentes.

Inerrância e Infalibilidade

O “Prefácio” do volume tenta distinguir entre inerrância e infalibilidade. No mínimo,


isto é um mau uso da língua Inglesa. Merriam Webster's Unabridged Dictionary diz:
“Infalível... não capaz de errar, isento de responsabilidade de errar... Syn... inerrante,
infalível.” Daí o Dr. Rees faz uma declaração falsa quando diz: “O falecido B.B.
Warfield e G.C. Berkouwer... estão comprometidos com a infalibilidade com a qual a
Sagrada Escritura reflete e revela o propósito salvador de Deus.” O Dr. Rees sustenta
que a diferença entre Warfield e Berkouwer, é “uma diferença de entendimento quanto
à maneira e a forma com a qual Deus tem trabalhado para nos dar... a autoridade da
Palavra.” Mas estes termos forma e maneira “que a Escritura reflete” são muito vagos.

135
Dr. Rees pode possivelmente acreditar que a forma da infalibilidade refletida na
Escritura não é a infalibilidade histórica e da língua inglesa Merriam Webster e dos
credos evangélicos. Mas seria tão imprudente argumentar. Se fosse mantida, a
implicação seria que os credos Reformados interpretaram erroneamente a Bíblia. O
livro poderia então afirmar ser Bíblico, mas não poderia afirmar ser evangélico. Se o
Dr. Rees não é tão imprudente, então, com base nos credos e no dicionário deve-se
declarar falsa a sua declaração de que os autores deste livro “são classicamente
evangélicos” (10), pois é claro que a diferença entre Warfield e Berkouwer é que o
primeiro acredita que a Bíblia é verdadeira e o segundo não.

O raciocínio defeituoso acompanha este inglês defeituoso. O Dr. Rees deprecia a


“mentalidade” e “estigmatiza o raciocínio” argumentando que, “se conseguires
encontrar uma imprecisão na Bíblia que você está usando, então, de uma só vez, você
tornou impossível dizer com segurança que qualquer coisa na Bíblia é confiável”(12).
Esta é a linguagem da propaganda. Note bem a frase: “a Bíblia que você está usando.”
Esta frase inclui uma tradução King James com um erro de impressão, um RSV com
os seus radicais hebraicos alterados, e até mesmo as paráfrases do tipo hippie. Mas
nenhum credo evangélico afirma que traduções ou erros de impressão são infalíveis.
Portanto, duas coisas: A frase é uma deturpação da Teologia da Reforma, e é também
um meio de confundir o leitor. Um evangélico diria, se os manuscritos originais
publicados pelos próprios profetas contêm uma falsidade, então podem conter outras.
Esta é uma inferência perfeitamente boa. Se uma testemunha em um julgamento
criminal for detetada numa só falsidade, todo o seu testemunho torna-se suspeito.
Possivelmente, muito do que ele diz é verdade, mas só pode ser acreditado se alguma
outra testemunha ou prova clara apoiá-lo. Por isso, se os apóstolos em seus escritos
canônicos não dissessem a verdade, aqui ou ali, tudo o que eles escreveram precisaria
de corroboração externa. Aqueles que adotam a posição do livro em questão devem
explicar o critério pelo qual decidem quais afirmações Bíblicas são verdadeiras e quais
são falsas. Eles não podem permitir que seus iniciantes na escola dominical cantem,
“Jesus me ama, isto eu sei, porque a Bíblia assim o diz.” Em sua posição, mais ou
menos da Bíblia é falsa, e não podemos aceitar qualquer coisa simplesmente porque a
Bíblia nos diz. Mas os autores não declaram seu critério de verdade. Esta é uma
omissão grave. Não apenas falharam em indicar se acreditam ou não no nascimento

136
virginal; nos milagres; na Trindade; ou na pré, média ou pós-tribulação, mas, o que é
pior, eles falharam em dizer aos seus leitores em que base eles acreditam num e não no
outro.

As opiniões do Dr. Rees levam-no na próxima página a dizer, a respeito de uma


conferência realizada em Wenham, Massachusetts, em 1966, “No entanto, é uma
surpresa ler em The Battle for the Bible, de Harold Lindsell (32): 'Alguns dos maiores
partidários que defenderam a inerrância Bíblica desistiram da conferência. Eles
acharam que a sua presença não serviria a nenhum propósito útil e que pouco serviria
discutir a inerrância com os presentes, cujas mentes já haviam sido feitas contra ela.”‟

Por que o Dr. Rees deveria ficar surpreso? Lindsell acabou de dizer a verdade. Embora
eu não seja um dos “maiores partidários”, foi precisamente pelas razões apresentadas
por Lindsell que eu recusei o convite para participar.

Mais uma vez a afirmação do Dr. Rees sobre Warfield e Berkouwer, em seu parágrafo
final, de que sua “atitude para com a Bíblia é idêntica”, é simplesmente falsa - a menos
que eu não saiba o significado da palavra atitude. Mas se o uso do Dr. Rees da palavra
atitude está em algures perto do Inglês comum, parece-me que a atitude em relação a
uma revelação inerrante e a atitude em relação a um livro cheio de erros não são de
forma alguma idênticas. Ou é a palavra idêntica que eu não entendo?

Jack Rogers

Depois do prefácio, o primeiro capítulo principal do livro tem como autor Jack Rogers.
Sua primeira frase é: “Os evangélicos acreditam que a Bíblia é a Palavra de Deus
autorizada”, e, imediatamente admite que entre eles “há uma discordância significativa
[quanto à] natureza da autoridade da Bíblia.” O leitor então espera que ele declare as
duas definições ou teorias do termo autoridade. Ele não o faz, pelo menos não
claramente. Ele comenta: “A Bíblia era autoritária para Orígenes”, e cita-o como
dizendo que a Bíblia era “sobrenaturalmente perfeita em todos os aspectos”. Estas
palavras dificilmente podem significar outra coisa que não seja inerrante; mas já que o

137
Dr. Rogers rejeita a inerrância, a frase de Origenes não pode ser tomada pela definição
de autoridade do Dr. Rogers. Além disso, para diluir a força das palavras de Origenes,
o Dr. Rogers também cita sua declaração de que Deus “condescende e se abaixa...
falando 'pouca linguagem' aos seus filhos” (19). Deve-se notar, no entanto, que “pouca
línguagem" usada por um pai aos seus filhos, não é uma linguagem falsa. Muitos de
nós “falamos para as crianças pequenas, mas não lhes dizemos falsidades. Chry sostom
disse quase a mesma coisa; e fazemos a mesma observação, além disso, estes dois
exemplos mostram que os pais da igreja primitiva acreditavam na inerrância, não o
contrário. A sugestão subjacente, lida nas entrelinhas, de que uma revelação restrita
deve conter erros, é uma inferência inválida.

O Dr. Rogers também tenta minimizar o compromisso de Agostinho com as


Escrituras. Seu exemplo, particularmente, é a famosa declaração de Agostinho, “Creio
para compreender.” Isto, diz o autor, é onde “a integração dos dados Bíblicos e da
filosofia Platônica pode ser vista” (20). Agora, ninguém nega que Agostinho foi
resgatado do cepticismo pela filosofia de Plotino, antes da sua conversão. Ninguém
deveria negar que Agostinho, ao estudar as Escrituras, se afastou cada vez mais do
Neo-platonismo. Mas o que é pertinente é a ausência completa do lema de Agostinho
das Enéadas Plotínicas. Esta tentativa de fazer com que os pais da igreja primitiva -
por mais que tenham ficado aquém de uma teologia Reformada completa - defensores
de uma Bíblia errada, é um fracasso. O autor cita Agostinho: “Nem o próprio João
apresentou essas coisas exatamente como são, mas da melhor maneira que pôde... mas
porque aquele que foi inspirado permaneceu um homem, não podia apresentar a
realidade plena, mas apenas o que um homem poderia dizer sobre ela” (22).22 Isto
levanta a questão. Concordamos que Deus não revelou toda a verdade aos apóstolos. A
questão é, a revelação dada era totalmente verdadeira ou parcialmente falsa?
Concordamos que “as coisas secretas pertencem ao Senhor nosso Deus”, e que,
portanto, os apóstolos não podiam apresentar a realidade completa. Mas insistimos que
“Aquelas coisas que são reveladas” podem, foram, e são ditas verdadeiras. Lembre-se
também que até mesmo algumas das revelações inteligíveis de Deus “não podiam ser
ditas”, pois Deus ordenou à Paulo que não as anotasse nem divulgasse aos outros. As

22
Para Agostinho, compare Ep. 82, 4, 3; 137: De Doutrine Christiana 1:39; 2:8; 2:42; De Civitate Dei
11:3, Enchiridion 1:4; De Utilitate Credendi 6.

138
palavras que Deus disse à Paulo, Deus não permitiu que ele repetisse. A questão não é
que a verdade de Deus se torna falsa na linguagem humana, nem mesmo que
transcenda tanto a mente humana que seja ininteligível para o homem, mas...
simplesmente que Deus não escolheu revelar isso à ninguém além de Paulo. Portanto,
qualquer que seja a revelação de condescendência ou restrição, ela, de modo algum
impugna a verdade daquilo que Deus torna público.

Se os pais da igreja primitiva acreditavam que a Bíblia era inerrante, ou se os primeiros


Reformadores acreditaram ou não, é, no entanto, uma questão secundária. Assim, se
Lutero for citado como um expoente da visão do livro, podemos discordar de Lutero.
Certamente, não consideramos Lutero inerrante. Mas Agostinho, Lutero e Calvino
eram teólogos importantes e estamos mais em dívida para com eles do que para com a
maioria dos outros. Mesmo que não estivéssemos tão endividados para com eles, eles
merecem um reconhecimento histórico; e isso eles não recebem no capítulo do Dr.
Rogers. Ele tenta conectar Lutero com “a forma imperfeita em que a Bíblia vem a nós”
(24). Por nós, ele quer dizer Cristãos ao longo dos tempos, para os quais a revelação
veio diretamente na forma oral? Ou será que ele quer dizer por nós, Cristãos do século
XX com suas várias traduções em Inglês? Este tipo de ambiguidade, onde a resposta
num caso é diferente da resposta no outro caso, permeia o volume. É intolerável usar
Lutero como defesa para afirmar erros na Bíblia. O Dr. Rogers diz: “Quando Lutero
disse das Escrituras, 'Não há nenhuma falsidade nela,' ele estava falando não sobre a
precisão técnica”; e ele cita o contexto. Mas não há nada no contexto que justifique a
inferência de que Lutero rejeitou a “precisão técnica” da Bíblia. A palavra técnica é
usada para evitar a acusação de deturpar Lutero, permitindo a resposta de que Lutero
realmente admitiu a exatidão das Escrituras, mas não a exatidão “técnica”? De
qualquer forma, o Dr. Rogers não dá provas da rejeição e mesmo da precisão técnica
de Lutero. O contexto diz apenas que aceitar a Palavra com fé elimina a injustiça. Ele
até diz: “Nesta doutrina não há falsidade.” Que propósito, então, o Dr. Rogers pode ter
para chamar Lutero como uma de suas testemunhas?

É claro que o fato de que o Dr. Rogers não conseguiu provar seu ponto de vista, a
saber, que Lutero negou a inerrância, por si só, não prova que Lutero aceitou a
inerrância. Um pouco mais é necessário. J. Theodore Mueller, no capítulo “Luther and

139
the Bible”. (Inspiration and Revelation, editado por John W. Walvoord, Eerdmans,
1957), repreende o apelo dos liberais à Lutero:

Quando os historiadores da igreja atribuem à Lutero o mérito de ter estabelecido o


Schriftprinzip, isto é, a verdade axiomática de que a Santa Escritura é o único princípio
pelo qual a verdade divina é inequivocamente conhecida, eles fazem isto em plena
justiça ao Reformador de Wittenberg, cuja alegada „atitude liberal‟ em relação aos
teólogos liberais das Escrituras, contrariamente ao facto histórico, em vão estão
tentando demonstrar. (88)

Depois de citar vários historiadores que concordam com esta condenação do


liberalismo, o próprio Dr. Mueller diz que um deles “falha em fazer justiça à Lutero,
para quem toda a Bíblia era a Palavra inspirada e inerrante de Deus” (95). Então ele
cita várias passagens do próprio Lutero, uma das quais é: “Eu faço uso dos escritores
seculares de tal maneira que não sou obrigado a contradizer as Escrituras. Pois Creio
que nas Escrituras o Deus da verdade fala” (99). E na mesma página, “As Escrituras
nunca erraram.” Com citações como estas, o Dr. Mueller ousou repreender os liberais

que vergonhosamente pervertem fatos históricos, citam mal Lutero, deturpam suas
declarações, recusam-se a ler e examinar os escritos de Lutero honestamente e
conscienciosamente, mas citam alegre e acriticamente o que os liberais da falsidade
escreveram falsamente diante deles, a fim de fazer de Lutero um defensor do seu
próprio ensino. (102)

Claro que o Dr. Mueller não tinha o Dr. Rogers em mente. Ele falou de um grande
número de liberais anteriores. Nem todas as suas acusações se aplicam ao Dr. Rogers,
mas uma certamente que sim: Ele “deturpa suas declarações... para fazer de Lutero um
campeão” ou pelo menos um defensor do seu próprio ensino.

Se é uma questão de contar votos, contamos com Lutero do lado da inerrância Bíblica:
“O conteúdo da Escritura é verdadeiro e certo em si” (108). A Escritura é “Deus
falando ao homem” (110). Mas deixe o leitor interessado ler todo o capítulo do Dr.
Mueller.

140
Em seguida, o Dr. Rogers dedica quatro páginas à Calvino. Por que? Não deve ser para
lançar dúvidas sobre a inerrância? Outro capítulo do livro de Walvoord cita Calvino
em favor da inerrância, mas certamente, não é essa a intenção do Dr. Rogers. Ele deve
desejar mostrar que Calvino pelo menos hesita e tem dúvidas quanto à veracidade da
Bíblia. Ele realmente cita as Institutas (I. vii. 2), “As Escrituras exibem como
evidência clara de sua verdade como coisas brancas e pretas fazem de sua cor.” Talvez
as coisas brancas e pretas não sejam muito boas evidências da sua cor, mas Calvino
não tinha teorias da luz do século XX em mente. Se o Dr. Rogers tivesse citado alguns
dos parágrafos anteriores sobre a autoridade da Escritura, ele teria ainda mais
enfraquecido a sua posição. Ele diz:

Uma vez que não somos favorecidos pelos oráculos diários do céu, e uma vez que é
somente nas Escrituras que o Senhor tem o prazer de preservar a sua verdade na
lembrança perpétua, elas obtém o mesmo crédito completo e autoridade com os
crentes quando estão satisfeitos com a sua origem divina, como se ouvissem as
próprias palavras pronunciadas pelo próprio Deus... eterna e inviolável verdade de
Deus. (I. vii. 1)

Em I. vii. 5, Calvino diz, “os profetas estavam certos de que Deus tinha falado sem a
menor falácia ou ambiguidade.” Será que isso soa como se Calvino pensasse que a
Bíblia ensina falsidades? Não; Calvino baseia a autoridade da Escritura em sua
verdade.

É inútil para o Dr. Rogers reivindicar Calvino por suas visões com base no fato de que
os profetas usaram antropomorfismos. Ele diz: “O método de Deus, para Calvino, era
'representar-se a nós, não como ele é em si mesmo, mas como nos parece”. A nota de
rodapé no verso do livro modifica radicalmente, na verdade remove, a generalidade no
texto. A citação vem de uma seção sobre antropomorfismos. Mas a página 28 por si só
faz parecer que nada na Bíblia representava Deus como ele realmente é. Citar Calvino
como testemunha, precursor ou expoente de uma teoria da falibilidade Bíblica é
injustificado.

Agora vem uma seção intitulada “Escolasticismo Pós-Reforma”. Visto que o termo
Escolasticismo tem sido um mau cheiro há muito tempo entre os Protestantes, hoje em

141
dia, os liberais têm usado este termo frequentemente para menosprezar os Protestantes
do século XVII. É verdade que o estilo de Turretini pode ser chamado de escolástico.
É muito sistemático, e seus argumentos são claramente (alguns diriam dolorosamente )
delineados. O estilo, no entanto, não é a coisa importante; o conteúdo é que é
importante. Neste ponto, ninguém ousa afirmar que a teologia de Turretini reproduz
Pedro Lombard, Tomás de Aquino, Duns Scotus, ou muito menos os teólogos
Romanistas que escreveram depois do Concílio de Trento. Até mesmo o Dr. Rogers,
talvez inconscientemente, certamente inconsistentemente, cita Turretini para o efeito
de que a Escritura é “o único princípio da teologia” (30). Isto não é escolasticismo,
pois os Romanistas sempre sustentavam que a tradição também era autoritária. Se
Turretini, portanto, não é um escolástico, seja qual for o seu estilo intricado, ele é
ainda menos um liberal. O próprio Dr. Rogers na mesma página reconhece duas vezes
que Turretíni considerava a Bíblia inerrante: seus escritores humanos “agiram assim e
foram inspirados pelo Espírito Santo, tanto no que diz respeito às próprias coisas, e
quanto às palavras, para se manterem livres de todos os erros... Os profetas não
cometeram erros nem mesmo no mais pequeno detalhe.”

Porquê então o Dr. Rogers cita Turretini? Certamente, não como um precursor de seus
próprios pontos de vista. Para o presente escritor, a única maneira de entender a
inclusão de Turretini neste livro é o argumento não expresso: Turretini acreditava na
inerrância; Turretini era um escolástico; o escolasticismo é mau; portanto a Bíblia não
é inerrante.

O Dr. Rogers pode de fato marcar um ponto contra Turretini, como muitos liberais
fizeram; a saber, que ele acreditava que os pontos dos vogais hebraicos eram
inspirados. Mas Turretin fez isso porque achou que os pontos dos vogais hebraicos
foram inspirados. Este era um defeito comum de ignorância nos séculos XVI e XVII.
Mas o fato de que Turretini, Voetius e Owen (na página 36) não sabiam o que só foi
descoberto na próxima geração, não é nenhum argumento contra a inerrância.

Não há necessidade de comentar sobre a seção em que o Dr. Rogers discute a


Confissão de Westminster. A maior parte do que ele diz é verdadeiro e irrelevante.
Suas últimas quatro linhas são um mal-entendido sutil. Pode-se ler a própria
142
Confissão, previamente citada.

A seção “A Teologia de Princeton” é muito interessante. Naturalmente, como


Turretini, Princeton com o seu Alexander, Hodges, e Warfield manteve a plena
veracidade das Escrituras, até 1929. O Dr. Rogers observa que Princeton estava então
reorganizada (37, 41). Ele se regozija, “Assim, a falsa equação da teoria da inerrância
com a posição da Confissão de Westminster nunca foi repudiada. Pelo contrário, a
igreja simplesmente concordou em não fazer qualquer interpretação da Confissão de
Westminster.” (41).

Isto é muito interessante em vários aspetos. Primeiro, o julgamento da heresia de


Charles Augustus Briggs mostra que a igreja naquela data, como sempre o fez,
compreendeu que a Confissão exigia a aceitação da veracidade da Bíblia. Segundo,
embora as palavras explícitas “Repudiamos a inerrância” não ocorram nos documentos
oficiais de 1929, a inerrância foi repudiada. Note que o Presbitério da Filadélfia
recusou-se a permitir a apresentação de acusações contra o Auburn Affirmationists.
Terceiro, a reorganização do Seminário de Princeton não incluiu apenas a demissão de
sua junta ortodoxa de diretores, mas a instalação de uma nova junta com um
representante da lista Auburn Affirmation. Assim, a igreja e o seminário procederam na
base de que a Escritura não é infalível e que o nascimento virginal, os milagres, a
expiação e a ressurreição não são essenciais. O Dr. Rogers aparentemente acha que
isto é progresso. Por que outra razão ele usa isto em apoio a sua posição? Esta posição
não é evangélica, e sua Bíblia não é autoritativa.

Bernard Ramm

O capítulo de Bernard Ramm, um cavalheiro de habilidade escolástica considerável,


(para mim escolástico não é um termo de opróbrio) começa com uma pergunta sobre a
essência do Cristianismo. Ele se refere tanto a Feuerbach como a Harnack's Wesen des
Christentums. O primeiro subtítulo de Ramm é: “Is sola scriptura the Wesen of
Christianity?”

143
Esta é uma pergunta bastante enganosa. Ramm pretende mostrar que a infalibilidade
Bíblica não é o Wesen ou a essência do Cristianismo. Mas tal, tomado estritamente, é
enganoso e irrelevante. Suponha que alguém pergunte: O nascimento virginal é a
essência do Cristianismo? Presumivelmente, muitos dos mais ortodoxos diriam: Não.
A expiação é a essência do Cristianismo? Muitos diriam, sem dúvida, Sim; mas outros
diriam: Não. A ressurreição é a essência do Cristianismo? Como é que eles respondem
àqueles que disseram que a expiação era a essência? A questão importante não é a
essência do Cristianismo; mas a inerrância, o nascimento virginal, a ressurreição são
essenciais para o Cristianismo? E todas estas questões devem ser respondidas, sim. A
Auburn Affirmation respondeu: Não.

Deve ficar claro que a essência ou definição de uma religião, uma filosofia ou um
partido político pode ser complexa. Uma única parte de uma definição não é a
definição. Certamente, o Cristianismo é uma teologia complexa. Muitos fatores são
essenciais, embora um deles não seja por si só a definição. A pergunta de Ramm é,
portanto, enganosa.

Depois de citar uma dúzia de expressões de Warfield - tais como “absolutamente


infalível”, “absolutamente sem erros”, “absoluta liberdade de erro”, etc. - Ramm
comenta, “Seria impossível dizer que ele identificou o Wesen do Cristianismo com sua
visão da Sagrada Escritura. Ele era um historiador de teologia o suficiente para evitar
dizer isso” (112). Esta última frase indica uma falha no método de Ramm. Não é um
historiador, é um lógico que determina a essência ou definição do seu objecto de
estudo. É o lógico também que determina o que é básico num sistema complexo de
pensamento. Os diálogos de Platão e da Bíblia contêm muitas afirmações. Ambos
contêm afirmações históricas. Em relação aos últimos também, nem todos estão no
mesmo nível lógico. Qual é então a definição de Platonismo? Qual era a crença
fundamental de Platão? Um Cristão pode pensar que a doutrina da Trindade é a única
doutrina Cristã básica. Mas mesmo que um Cristão torne a inerrância básica - pois a
menos que a Escritura seja verdadeira, ninguém pode chegar à doutrina da Trindade -
há outros assuntos que, embora não sejam a essência, são de fato wesentlich -
essenciais. Assim, duas questões, embora intimamente relacionadas, devem ser
distintas: A inerrância é básica? A inerrância é essencial? Qual é a essência do

144
Cristianismo? Não é a questão. A essência é realmente essencial, mas nem tudo o que
é essencial é a essência.

A inclinação de Ramm para o historicismo, em vez da análise lógica, resulta em


algumas irrelevâncias e mal-entendidos. Ele observa que a história da doutrina da
inspiração da igreja inclui teorias divergentes: “Afirmar que há uma teoria de
inspiração altamente especializada que percorre ininterruptamente na história da igreja,
é um argumento que não pode ser mantido” (113).

Ora, é verdade que a história da igreja visível nos apresenta vários teólogos que
diferiam em muitos pontos. Isto é verdade, não só em relação a doutrina da inpiração
mas também em relação a doutrina da expiação. Por exemplo, Bernardo sustentava que
a morte Cristo foi um resgate pago à Satanás, que legitimamente exigia a lealdade dos
pecadores; mas Abelardo sustentava que a morte de Cristo foi um resgate pago ao Pai.
Tais diferenças individuais ou não oficiais, no entanto, são irrelevantes. Os Auburn
Affirmationists fizeram afirmações semelhantes. Eles tentaram se defender dizendo que
aceitaram o fato da expiação, mas não a doutrina. Este historicismo, no entanto,
enfrenta duas objeções. Em primeiro lugar, a expiação não é um fato, um evento
histórico. A expiação é em si mesma uma doutrina. A morte de Cristo é o fato ou
evento. Segundo, os Auburn Affirmationists haviam todos subscrito a doutrina da
Confissão de Westminster. A doutrina da expiação foi incluída nos seus votos de
ordenação. Rejeitar os oito parágrafos do Capítulo VIII, de Cristo, o mediador - ou
simplesmente rejeitá-los como não essenciais - era uma violação de seu compromisso
solene.

Esta é a história da igreja. Tem havido de fato teorias discordantes sobre a expiação e
inspiração. Mas a posição oficial da igreja, ou das igrejas, é encontrada - não na
opinião de teólogos individuais - mas nos credos oficiais das denominações. Que
credo, pelo menos, que credo anterior a 1967, nega a inerrância? Se não houver
nenhum, e se todos concordarem com os credos citados anteriormente neste artigo,
pode ser mantido, contrariamente à afirmação do Dr. Ramm, que há uma teoria
ininterrupta ao longo da história da igreja.

145
Talvez, entretanto, alguma organização que se chame uma igreja pode possivelmente
negar a inerrância das Escrituras. Neste caso é preciso lembrar que as igrejas, elas
próprias, assim como os indivíduos, devem ser julgadas pelas Escrituras. É preciso
julgar, não com base na história, mas com base na revelação verbal. É por isso que a
Confissão de Westminster identificou o papado como o Anticristo, a igreja Romana
como uma sinagoga de Satanás, e seus membros como idólatras (24.3; 25.5 e 6).
História como tal, a mera ocorrência de eventos, não confere qualquer princípio
normativo de avaliação. Se isso “reduz a um grupo muito pequeno, o número de
pessoas realmente fiel ao Cristianismo”, assim seja. Diremos, para aumentar o número,
que Mórmons e Moonies são realmente fiéis ao Cristianismo? Ambos são encontrados
na história .

Os defeitos do historicismo são evidentes na próxima página também. Ramm diz,


“Todos as doutrinas baseadas nos acontecimentos da história baseam então a sua
realidade no leito da história, sejam elas registradas ou não” (114). Pelo contrário,
todos as doutrinas baseam a sua realidade ou verdade na mente eterna de Deus. Não há
doutrinas baseadas na história; especialmente, não há doutrinas baseadas em eventos
de história não registrados. A morte física de Cristo é um evento da história; é
essencial para a verdade do Cristianismo; mas a doutrina do sacrifício propiciatório
não é baseada no evento; o evento é baseado na doutrina dos planos eternos de Deus.
Dizer que “Cristo foi crucificado por nossos pecados, com ou sem registro disso em
um livro ” é difícil de entender. O ordo essendi, que Ramm deseja tanto distinguir do
ordo cognoscendi, começa com o decreto eterno, não com eventos no tempo. Mas no
que diz respeito ao Cristianismo na história, no que diz respeito à aplicação da
salvação de pessoas individuais, o ordo cognoscendi é decisivo. Se a fé é necessária
para a salvação - permitindo que a fé seja um dom de Deus - então, uma pessoa deve
conhecer o Evangelho para poder crer nele. Uma expiação não escrita não permitiria a
possibilidade de fé. Esses liberais de forma regular contrastam uma “fé” sincera, de um
encontro, ou algo assim, com uma Bíblia inerrante. Mas de que serviria uma Bíblia de
páginas em branco? Será que Ramm pretende dizer que os pagãos podem ser salvos
sem nunca aprederem sobre Cristo? Será que Ramm afirma alguma doutrina? Se sim,
pode-se perguntar: Como é que ele sabe? O ordo cognoscendi é essencial para um
Hindu, um Muçulmano e um Cristão também.

146
A confusão nesta parte do argumento de Ramm é generalizada. Olhe cuidadosamente
para o parágrafo do meio da página:

Tornar uma certa visão das Escrituras o Wesen do Cristianismo significa que todas
essas doutrinas são doutrinas de segunda ordem. Pois se o Wesen do Cristianismo é
uma certa teoria de inspiração, então todas as doutrinas são apenas tão boas como a
nossa teoria da inspiração. (114)

Este parágrafo repete o mal-entendido fundamental exemplificado no termo Wesen.


Mas, além disso, a frase “doutrinas de segunda ordem” é pejorativa. Ela dá a
impressão de que a expiação e a ressurreição são de alguma forma sem importância -
elas não são o Wesen, mas apenas não essenciais. Isto é, claramente, uma completa
deturpação das opiniões daqueles que, como Hodge e Warfield, apegaram-se à
inerrância. No entanto, embora o texto possa ser melhorado, é de fato verdade que a
doutrina da expiação é tão boa quanto a doutrina da inspiração. Uma afirmação de que
a Escritura contém erros, permite a possibilidade de que a expiação seja um deles. A
doutrina da inerrância implica a verdade da expiação. As doutrinas da morte e
ressurreição de Cristo não podem ser afirmadas com maior grau de segurança do que a
visão de inspiração dos afirmantes permite. Se alguém acredita que a Bíblia é
verdadeira, ele afirma a ressurreição como uma verdade. Se alguém acredita que a
Bíblia ensina falsidades aqui e ali, então ele não pode basear a verdade da ressurreição
apenas na Bíblia. De fato, muitas pessoas acreditaram, e muitas pessoas agora
acreditam, que os relatos da ressurreição estão errados.

O próximo parágrafo de Ramm é uma falácia lógica. Ele diz: “Se uma certa visão da
Escritura é o Wesen do Cristianismo, e os cultistas e sectários acreditam nessa visão da
Escritura, pela lógica somos obrigados a admitir que eles são evangélicos”. Não é
surpreendente que um erudito reconhecido possa cometer um erro tão elementar na
lógica? O todo é uma falácia. Há dois requisitos, não apenas um, para que o termo
evangélico seja devidamente aplicado: Sola Scriptura e Sola Fide. Uma pessoa que
aceita uma, mas não outra, não é evangélica. “Cultistas”, portanto, quem quer que eles
sejam, que aceitam a inerrância, mas que também negam a justificação pela fé
somente, não são evangélicos.

147
Ramm realmente diz algumas coisas que são verdadeiras e importantes, mas ele afirma
a verdade para ridicularizá-la. No final da página, lemos:

Inversamente, se um teólogo aceita todas as grandes afirmações que nós geralmente


associamos ao título evangélico, mas tem uma visão de inspiração divergente de seu
crítico, então, toda a sua teologia é suspeita e por isso ele não é um evangélico.

Ramm acha que isso é ridículo. Não com uma exceção, é verdade. A pessoa referida
não é, de fato, um evangélico. A exceção é que sua própria teologia não pode ser
suspeita, pois o evangélico pode aceitá-la com base na Bíblia infalível. Mas a pessoa é
suspeita, e seu domínio sobre essa teologia é infundado porque ele não reconhece
nenhuma base infalível para ela. Se um Mórmon acredita na ressurreição de Cristo,
isso não torna a ressurreição suspeita. Mas suspeitamos do Mórmon por causa da sua
rejeição do Sola Scriptura.

Ramm continua:

Novamente, isso leva à estranheza de que na teologia uma pessoa de mente e


educação medíocre é de confiança, mas um homem com uma mente brilhante e
fé evangélica como Thomas Torrance é suspeito porque a sua visão da
Escritura é essencialmente Barthiana. (114)

Thomas Torrance não é um evangélico e não é de confiança. O brilho não substitui a


verdade doutrinária. Naturalmente, nós não damos total confiança à uma mente
medíocre; pois, embora a mente medíocre aqui considerada opere em uma base sólida,
ela pode ser ignorante de algumas coisas e também cometer erros no raciocínio.
Assim, Ramm faz comparações confusas; essa é uma segunda razão por não
confiarmos no Dr. Ramm.

A confusão se aprofunda. Na página 116, Ramm escreve: “O Sola Scriptura não afirma
que, com referência à escrita da teologia, todo o conhecimento que não seja o
conhecimento Bíblico é desnecessário.” Presumivelmente, ele quer dizer que um
conhecimento da gramática Grega é útil para escrever teologia. Assim é; mas visto que
o Novo Testamento está escrito em Grego, pode-se incluir gramática grega na esfera
148
do Conhecimento Bíblico. Se ele pretende dizer um conhecimento de arqueologia ou
sociologia da cultura Hitita, nós respondemos que os Protestantes aceitam as Escrituras
como perspicuosas e suficientes. “Toda a Escritura é dada pela inspiração de Deus...
Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa
obra.” Escrever teologia, teologia ortodoxa, é um bom trabalho. O conhecimento
extra-Bíblico é, portanto desnecessário, mesmo que tenha algum valor próprio.

Provavelmente Ramm acredita que guardou seu ponto de vista de forma suficiente,
acrescentando, “Sola Scriptura... significava que quando se tratava de tomada de
decisões em controvérsias, o apelo à Escritura era o maior apelo possível, e que, onde a
Escritura falava em um ponto, o veredito da Escritura é definitivo.” Isto é excelente,
mas eu tenho dúvidas de que o Ramm acredite nisso. Este livro em geral não especifica
o quanto da Bíblia os autores acreditam e o quanto eles não acreditam. Mas podemos
usar um exemplo de Dewey Beegle. Um de seus pontos para mostrar erro na Bíblia, é
o reinado de Peca. A Bíblia fala sobre este ponto. Há uma controvérsia. Cada pessoa
interessada na controvérsia deve eventualmente tomar uma decisão. Mas Beegle não
toma as Escrituras como a mais alta corte de apelação. Ele decide contra as Escrituras.
Assim como Ramm, se não neste ponto, então em algum outro. A negação da
inerrância é ipso facto23, uma negação de que o veredicto das Escrituras é definitivo.

Ramm continua a criticar “a mentalidade da Bíblia”. Ela “torna o registro da revelação


mais primordial do que a revelação original.” Agora, concordamos que Deus falou
com Abraão. Isto servirá como exemplo de uma “revelação primordial”. Cerca de
cinco séculos depois, Moisés registrou essa revelação. Nenhum evangélico nega isto,
embora o ordo cognoscendi nos dê a informação através de Moisés. No entanto,
Moisés faz mais do que relatar revelações primordiais de séculos anteriores. Nem a
Bíblia é um mero relatório. A Bíblia é em si mesma revelação. Deus escreveu os Dez
Mandamentos na pedra. Moisés escreveu-os em algum pergaminho. Estes dois escritos
são, a menos que Moisés fosse um mentiroso, idênticos. Ambos são revelação, mas a
última é a única revelação que temos. Nem toda a revelação primordial (?) foi tão
direta quanto a de Abraão e Moisés. Os livros históricos são revelação, até mesmo
revelação primordial, porque Deus não escreveu primeiro os acontecimentos em pedra;

23
[Nota do Tradutor] Expressão latina que significa “pelo próprio facto”.

149
eles são revelação, portanto, e não relatos de uma revelação anterior. Mas Ramm faz
da Bíblia apenas um relatório, um relatório errôneo, de uma revelação de outra forma
incognoscível, para que a Bíblia seja apenas um indicador ou testemunha de uma
realidade não revelada. Nós, portanto, pressionamos a pergunta: Se a Bíblia não é uma
revelação, mas apenas uma testemunha falível, como é que alguém descobre o que na
Bíblia é verdadeiro e o que é falso?

David Hubbard

Este artigo não discute todos os capítulos do livro, e agora conclui com “As Tensões
Atuais: Existe uma saída?” Do Dr. Hubbard. Visto que o Seminário Fuller (Dr.
Hubbard é seu presidente e Dr. Rogers é um de seus professores) parece ser o iniciador
e o fator mais poderoso neste recente ataque à Escritura dentro dos grupos que têm
sido comumente considerados como evangélicos, este capítulo é de grande
importância.

O capítulo do Dr. Hubbard é talvez mais insidioso do que o do Dr. Rogers, porque ele
fala da Bíblia e até de Hodge e Warfield em termos tão louváveis. Mas um leitor
cuidadoso, antes de terminar estas páginas, verá que o Dr. Hubbard não acredita que a
Bíblia é a Palavra de Deus: “Como podemos ler a Bíblia para verdadeiramente
ouvirmos a Palavra de Deus através dela?” (153). Assim, a Palavra de Deus é
identificada com algo diferente da Bíblia. A Bíblia é uma espécie de canal através do
qual a Palavra vem até nós. Mas os canais não são o que fluem através deles. O cano
que traz a água não é a água. Um evangélico diria: A Bíblia é a Palavra de Deus. Como
evidência, pode-se citar a plataforma doutrinária da Sociedade Evangélica Teológica:
“A Bíblia somente e a Bíblia em sua totalidade é a Palavra de Deus escrita, e portanto
inerrante nos autógrafos.”

O Presidente Hubbard, pelo contrário, pensa que a Sociedade Evangélica Teológica,


Charles Hodge, Benjamin Warfield, Harold Lindsell, Carl Henry e outros abafam a sua
mensagem e obscurecem o seu propósito. Ou, mais precisamente e mais absurdamente,
ele sustenta que a crença na verdade da Bíblia tende a abafar a sua mensagem ou

150
obscurecer o seu propósito. Isto não significa que quanto mais firmemente alguém se
apega à veracidade do que a Bíblia diz, menos interessado ele está nessa verdade?
Quem no seu perfeito juízo pode acusar Hodge de ter a tendência de abafar a Bíblia ou
restringir seu alcance? Pense não só em seus três grandes volumes sobre Teologia
Sistemática, mas também em seus comentários e numerosos artigos. O que realmente
abafa a mensagem da Bíblia é a crença de que partes dela não são verdadeiras. É fácil
acusar Orígenes e até Agostinho de terem cometido erros de interpretação ou de
exegese, mas a causa de tais erros não foi sua crença na inerrância. A alegorização é de
fato um erro; não foi a resposta certa para Marcion, mas a verdade não implica
alegoria.

Da mesma forma, o presidente de Fuller repete as observações equivocadas de Rogers


sobre os pontos dos vogais hebraicos. A inerrância não requer que se acredite que eles
foram inspirados. O que exigiu a ideia de que eles foram inspirados foi a crença de que
os pontos dos vogais são partes dos autógrafos. Isso foi um erro, mas foi devido a
ignorância geral; não é uma consequência da inerrância.

Não é difícil enumerar vários erros que os crentes da Bíblia cometeram. Todos nós
cometemos erros. Qualquer um com um pouco de conhecimento da história da
doutrina poderia listar mais do que o Dr. Hubbard. Mas o argumento é falacioso. Mais
valia argumentar: Os Romanistas e os ortodoxos gregos cometeram erros fatais em
suas teologias; eles acreditam na doutrina da Trindade; portanto, uma crença na
doutrina da Trindade tende à apostasia.

O Dr. Hubbard também afirma que a crença na inerrância e, portanto, na consistência


interna da Bíblia tem, levado à tentativas tolas de “harmonizar toda as afirmações
Bíblicas umas com as outras e com os resultados da descoberta científica e
arqueológica”. (156). Naturalmente, ninguém precisa negar que os resultados de tais
tentativas foram por vezes equivocados e até tolos. Mesmo as tentativas de pregar o
Evangelho e explicar a expiação têm sido às vezes tolas. Isso implica que ninguém
deve pregar a expiação?

151
Com relação às tentativas de harmonização, tolas ou sábias, os dois pontos a serem
considerados são a consistência lógica e as descobertas arqueológicas e sociológicas da
cultura.

A harmonização é tentada para descobrir ou preservar a consistência lógica da


Escritura. O objetivo é mostrar que a Bíblia não se contradiz; pois se o fizesse, um
lado da contradição seria necessariamente falso. Por que então o Dr. Hubbard deprecia
a harmonização? Ele mesmo diz,

Passagens difíceis devem ser estudadas em comparação com outras passagens -


semelhantes e diferentes; as passagens claras deviam ser utilizadas para esclarecer
porções menos claras... Qualquer interpretação deve ser questionada de acordo com os
temas centrais da fé... Assim, doutrinas mesquinhas e ensinamentos morais duvidosos
deveriam ser evitados. (169)

Os tempos passados desses verbos se referem à Segunda Confissão Helvética, com a


qual o Dr. Hubbard parece concordar nestes pontos em particular. Mas com essas
admissões, porque é que o Dr. Hubbard se opõe em termos de deixar clara a auto-
consistência do texto Bíblico? Há alguma outra razão além da suposição de que as
inconsistências impedem esta harmonização? Com relação à consistência Bíblica,
parece que o Dr. Hubbard quer na Bíblia alguma harmonia, mas não completa. Por esta
razão, ele não deveria ter citado a Segunda Confissão Helvética, pois, como foi
indicado no início desse artigo, essa confissão diz, “Confessamos que as Escrituras
canônicas são a verdadeira e verdadeira palavra de Deus… pois o próprio Deus falou
aos pais e ainda nos fala pelas Sagradas Escrituras.” Não há espaço para falsidade no
discurso de Deus. Portanto, um evangélico deve, por necessidade, tentar harmonizar
todas as declarações Bíblicas entre si. Às vezes ele pode falhar, seja porque não vê
solução ou porque a solução dele é um erro. Mas ele deve tentar, a menos que deseje
acusar as palavras de Deus de falsidade.

Agora, em segundo lugar, embora nesta página o Dr. Hubbard também repreenda os
evangélicos por tentarem “harmonizar todas as declarações Bíblicas… com os
resultados da descoberta científica e arqueológica”, em uma página posterior, ele os
repreende por não estarem interessados em arqueologia. De acordo com ele, eles não

152
têm interesses acadêmicos e se recusam a interpretar a Bíblia em seus “contextos
históricos, sociais, culturais e linguísticos” (161). Ele insiste que “onde um sistema
rígido de apologética [a crença de que a Bíblia é verdadeira] torna-se a definição
básica de ortodoxia, a verdadeira erudição Bíblica torna-se difícil, se não impossível”
(176). Em outras palavras, para ser um estudioso, é preciso acreditar que a Bíblia
ensina algumas falsidades.

É engraçado ver como os liberais acusam os evangélicos de falta de erudição, e ao


mesmo tempo são provocados quando os evangélicos usam a arqueologia para expor
os erros dos liberais.

Agora, os autores deste livro tiveram o cuidado de não dizer quanto da Bíblia está
errado. Mas o Seminário Fuller, na pessoa de um de seus professores, mostra como as
considerações sociológicas, se não linguísticas e arqueológicas, impugnam as
orientações Bíblicas práticas e normativas para a vida Cristã, particularmente, como
elas entram em conflito com a vida Cristã na própria igreja. O Dr. Jewett entende qual
papel Paulo atribui às mulheres na igreja. Sua exegese é tudo o que um crente Bíblico
poderia exigir. Nisso, ele é mais honesto, certamente mais preciso do que aquela seção
das mulheres feministas que exige um pouco de interesse no Novo Testamento. Mas o
Dr. Jewett simplesmente insiste que Paulo estava errado. Paulo impôs à igreja os
costumes culturais e sociológicos da sua época. Ele não tinha autoridade para
estabelecer regras para a igreja no século XX. Os nossos costumes diferem dos do
antigo Israel, Grécia e Roma. Por isso, nesta época, a igreja deve repudiar as normas
do Novo testamento. Os autores deste livro têm o cuidado de não listar as contradições
da Escritura, nem indicar o quanto é “culturalmente condicionada”, mas os seus
associados são mais abertos. Porquê o Presidente Hubbard não se aplica ao Professor
Jewett as suas próprias palavras? “A teologia que se une à filosofia de sua época, acaba
ficando viúva na próxima época” (166). Ele diz: “Nos séculos XVII e XIX, a verdade
era o interesse.” A verdade não é um interesse no século XX? Se não for, ninguém
precisa considerar se as opiniões deste livro são verdadeiras ou não. Mas se a verdade
é de interesse eterno, então devemos condenar essas visões como falsas. Falando de
verdade, é errado dizer: “O Espírito Santo não é atormentado por tais limitações”
(166).

153
Da mesma forma, na próxima página, é amplo dizer, “a marca Hodge-Warfield da
Teologia Reformada... chega perto de comprometer o princípio sólido de que as
Escrituras são suficientes.” Muito pelo contrário: O que põe em risco - na verdade,
nega - a suficiência da Escritura, é a sua rejeição com base no “condicionamento
cultural”.

A acusação mais surpreendente do condicionamento cultural, no entanto, não é


dirigida contra a Bíblia, mas contra Hodge e Warfield e os evangélicos do século XX.

Uma forma em que este perigo [comprometendo a suficiência da Escritura] se mostra


nas perguntas atuais sobre a Escritura, está na definição de erro. Como usada na
delicada [note a terminologia de propaganda] discussão em que os evangélicos estão
agora engajados, o erro deve certamente ser definido em termos teológicos derivados e
limitados da própria Bíblia. No entanto, uma e outra vez, nos argumentos apresentados
por aqueles que pretendem seguir a posição de Hodge-Warfield, palavras como erro,
inerrância, ou infalibilidade são definidas por padrões seculares do século XX, às
vezes com um apelo ao dicionário de Webster para suporte. Erro teologicamente deve
significar aquilo que nos desvia da vontade de Deus ou do conhecimento da sua
verdade. (167-168)

De acordo com isso, a população em geral, assim como Hodge e Warfield, não sabe o
que o termo erro significa. Nós, pessoas comuns, usamos o dicionário Webster. Minha
cópia diz, “Erro: Crença no que é falso... uma ofensa moral, pecado... um ato
envolvendo um afastamento da verdade ou da precisão.” Assim, as pessoas que usam
Inglês comum, se acham que a Bíblia se afasta da verdade, dizem que a Bíblia contém
erros. Visto que a Bíblia é um livro, não dizemos que a Bíblia peca. Se o termo erro,
ao contrário do dicionário e do Novo Testamento, é restrito para evidenciar ações
pecaminosas, obviamente, a Bíblia não pode ser acusada de erro, porque os livros não
pecam. Mas se o erro inclui qualquer desvio da verdade, então um livro pode afirmar
proposições erradas. O Dr. Hubbard não quer falar do Inglês comum do dicionário. Ele
supõe que a Bíblia tem uma definição diferente de erro, de modo que se ela se afasta
da verdade, não contém nenhum erro.

O Dr. Hubbard substitui outra definição e dá alguns exemplos. “Erro teologicamente,


deve significar aquilo que nos desvia da vontade de Deus ou do conhecimento de sua

154
verdade.” Ele cita a Bíblia: “„Quem pode entender os seus erros? … Aquele que fizer
converter do erro do seu caminho um pecador... guardai-vos... pelo engano dos homens
abomináveis... Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus‟ - estes são
os usos das Escrituras que nos dão pistas sobre o que significa erro” (168).

Que a Bíblia usa o termo erro para denotar pecado é algo que nem mesmo Webster
nega. Mas esta é apenas uma definição parcial. Neste sentido, nenhum livro erra,
porque objectos inanimados não podem pecar. Mas até mesmo o Dr. Hubbard
testemunha, talvez inconscientemente, outra forma de erro, a saber, o afastamento do
conhecimento da verdade de Deus. Agora, uma das duas coisas: Ou ele quer dizer que
um livro como este não pode pecar, assim também não pode saber, e portanto não pode
ser “desviado”; ou então, o que a Bíblia dize sobre Peca e a história de Israel não é a
verdade de Deus. O Dr. Hubbard não menciona Peca. Ele não pensou que fosse
necessário apontar as “imprecisões técnicas” da Bíblia. Ele simplesmente, em termos
gerais, rejeita os “detalhes minuciosos da cronologia, geografia, história ou
cosmologia.” Então ele acrescenta,

As falsas alternativas muitas vezes postas entre a inerrância Bíblica e a situação


Bíblica de erro não são, elas próprias, escolhas Bíblicas. Elas são impostas de um
modo que tenta forçar a Bíblia a dar respostas que Deus, que inspirou o Livro,
aparentemente não tinha intenção de dar. (168)

Isto está longe de ser aparente. Se não era a intenção de Deus que devêssemos
conhecer a história de Israel, incluindo uma infinidade de “detalhes minuciosos” em
Reis e Crônicas, porquê ele inspirou todos esses capítulos? Ou esses quatro livros não
fazem parte da revelação de Deus? Se acreditarmos em um desses detalhes, e o detalhe
for falso, não estamos nós e a Bíblia errados? Não está a Bíblia, sob tal suposição, nos
desviando da verdade de Deus?

O erro não é simplesmente um ato manifesto de pecado. O erro e o pecado podem ser
interiores e mentais. Isto não é apenas Merriam-Webster: é a Bíblia também. Até
mesmo os versículos citados pelo Dr. Hubbard incluem as citações de uma referência a
uma inferência incorreta baseada em um mal-entendido das Escrituras. O erro foi um

155
pensamento que era falso. Parece estranho que neste século XX, depois de dois
milénios de estudo Bíblico, se deva trabalhar para mostrar que a Bíblia aprova a
verdade e desaprova a falsidade. Mas a situação exige uma referência aos versos que o
Dr. Hubbard não cita. Abraão disse duas vezes uma meia verdade e meia mentira sobre
sua esposa. A desaprovação de Deus é evidente. Os Dez Mandamentos proíbem o falso
testemunho. Em 1 Reis 13:18 um falso profeta mentiu e resultou em morte. Dois
versículos em Jó fazem uma comparação interessante. Jó 6:24 diz: “Fazei-me entender
em que errei.” Uma vez que isso provavelmente se refere a uma suposta má conduta, o
Dr. Hubbard poderia usá-lo como exemplo do seu sentido de erro. Mas quatro
versículos abaixo, Jó insiste que ele está a dizer a verdade: “vede se minto em vossa
presença.” Realmente no versículo 25 ele diz: “Quão fortes são as palavras da boa
razão!” É claro que as mentiras e as falsidades são repreensíveis. E podemos supor que
o Espírito Santo inspirou seus profetas a dizer mentiras? Jeremias condena os profetas
que falaram mentiras (5:31; 14:14; 20:6; 23:25). Por outro lado, Deus é um Deus da
verdade. Cristo disse: “Eu digo a verdade”. Paulo disse a mesma coisa em referência a
um detalhe cronológico (Gálatas 1:18-21). Ananias e a Safira mentiram sobre uma
transacção financeira. E João diz: “E não entrará nela [na Nova Jerusalém] coisa
alguma que… cometa… mentira.”

O Dr. Hubbard anexa uma nota de rodapé incrível à última citação feita. Ele havia
falado de “falsas alternativas... não são escolhas Bíblicas.” A nota de rodapé diz na
íntegra: A recente interação entre Harold Lindsell e Robert Mounce ilustra o meu
argumento de que a questão chave entre os evangélicos não é a errância ou inerrância,
mas o que queremos dizer com erro? As iscas de Lindsell Mounce em uma carta à
Eternidade (Novembro de 1976, página 96): „Deixe o Dr. Mounce dizer claramente
que acredita que “a Bíblia está livre de todos os erros no todo e nas partes”, ou deixe-o
dizer que acredita que há alguns erros, ainda que poucos, na Bíblia. Mounce, teólogo
perceptivo que ele é, recusa-se a morder:‟ A Bíblia é sem erro no todo e nas partes. A
controvérsia é sobre o que constitui um erro”.

Esta nota de rodapé é incrível por sua falsidade e engano. A questão chave - não entre
evangélicos, mas entre crentes Bíblicos e liberais - é precisamente se tudo o que a
Bíblia ensina é verdade ou não, incluindo detalhes históricos. Nós sabemos o que

156
queremos dizer por erro. Declarações falsas são erros. Este é um bom uso do Inglês, e
bom uso do Grego e Hebraico. Quando Wellhausen negou a historicidade dos Hititas,
ele estava acusando a Bíblia de erro. A questão chave é certamente a questão da
verdade versus falsidade. Então o Dr. Mounce tem a ousadia de dizer: “A Bíblia é sem
erros no todo e nas partes.” Se isto não for engano, não existe tal coisa como engano.

Considere o descaramento desta linguagem. Embora os autores deste livro se


abstenham de dar exemplos de falsidades na Bíblia, estamos justificados em supor um
caso particular. Se Ezequias fosse um de seus exemplos não expressos, eles diriam
algo assim: 2 Crônicas 32:30 diz: “o mesmo Ezequias tapou o manancial superior das
águas de Giom.” Claro que Ezequias não fez tal coisa. O alegado evento não ocorreu.
No entanto, isso não é um erro na Bíblia, pois a afirmação é verdadeira na medida em
que ela cumpre e expressa a mensagem principal da Bíblia.

Harold Lindsell fez uma pergunta direta ao Dr. Mounce em Inglês simples. O Dr.
Hubbard diz, “Mounce, teólogo perceptivo que ele é, recusa-se a morder.” Pelo
contrário; pode-se dizer que ele mordeu muito mais do que ele tinha o direito de fazer.
Pergunte a qualquer cracker da Geórgia24, qualquer Indiana Hoosier25, qualquer
lenhador do noroeste, qualquer graduado de Vassar ou Bryn Mawr - eles responderiam
que “A Bíblia é livre de erros no todo e nas partes” significa que ela contém falsidades
históricas, cronológicas e geográficas? Provavelmente a InterVarsity Fellowship
permite aos seus funcionários negarem a inerrância; “A Associação Nacional de
Evangélicos optou pela palavra “infalibilidade” em vez de “inerrância”, embora, como
vimos, as duas palavras são sinónimas: Mas o que poderia melhor exemplificar a
propaganda enganosa do que a sugestão de que o Instituto Bíblico Moody de alguma
forma descartou a inerrância quando dizia, “Os autógrafos originais - foram
verbalmente inspirados pelo Espírito Santo” (179)? Tal sugestão só pode ser feita
através de um mau uso consistente do Inglês comum.

24
[Nota do Tradutor] Pioneiros Americanos originais da Província da Geórgia.
25
[Nota do Tradutor] Indiana Hoosiers é a equipe de basquete da Universidade de Indiana, Bloomington,
Indiana.

157
Em vista da falta de franqueza deste livro, seus difusos mecanismos de propaganda, de
sua indagação e esquiva da questão, sua distorção do significado das palavras, a
questão de sua moralidade, não podem ser evitadas. J. Barton Payne trouxe esta
questão claramente em primeiro plano em suas “thical Issues in the Responses to The
Battle for the Bible” (Presbuterion, III, 2, 95ff ). Seu argumento deve ser considerado
muito seriamente e solenemente. Estas respostas são compatíveis com os padrões
Cristãos de veracidade?

Na contracapa do livro, o anúncio diz: “A „batalha pela Bíblia de hoje ameaça o


evangelismo com o cisma.” Em certo sentido, sim. Isto é sobre o que os Auburn
Affirmationists também disseram. Isso lembra 1 Reis 18:17: “E sucedeu que, vendo
Acabe a Elias, disse-lhe: És tu o perturbador de Israel?”

158
TEORIA DA LINGUAGEM E INSPIRAÇÃO DE HAMILTON

Kenneth Hamilton, autor de Words and the WORD, inicia seu estudo de linguagem e
inspiração contrastando o Empirismo e Idealismo. A teoria empírica restringe as
palavras à função de descrever coisas físicas, e, como o Positivismo Lógico, torna a
teologia um disparate. A teoria idealista estende a linguagem para a realidade
transfenomenal, mas como resultado perde o mundo do sentido onde a história toma o
tempo e espaço.

No capítulo dois, o autor explica como estas duas teorias avaliam o mito. Obviamente,
o empirismo sustenta que o mito é um erro a ser superado, servindo apenas a algumas
exigências subjetivas infantis de um eu inseguro. Para o idealista, com sua visão
diferente da natureza da realidade, o mito é o método pelo qual as pessoas alienadas
lembram-se de uma totalidade original que foi perdida, e não apenas uma língua
primitiva a ser ultrapassada. É uma espécie de indicador para o Ser transpenomenal.

Em oposição às teorias empíricas e idealistas, Hamilton propõe uma teoria histórica.


Mas deve-se ter cuidado de não falar de empirismo, idealismo, para depois concluir
que Hamilton aceita o Historicismo. A linguagem parece nesta altura fracassar o autor.

Há também outro fracasso. Hamilton tem tratado o Empirismo e o Idealismo como


mutuamente exclusivos. É como se fosse um zoólogo que classifica os animais como
paquiderms ou mamíferos. A classificação é ruim porque alguns animais são ambos.
Da mesma forma, alguns filósofos são ambos. O mais conhecido (provavelmente ) de
todos os idealistas modernos foi um empirista vigoroso - o Bispo Berkeley. No
presente século Edgar A. Singer publicou o Empirical Idealism (Parte II de Mind as
Behavior, 1924).

Não só a classificação falha porque alguns filósofos são ambos, empiristas e idealistas,
falha também porque as duas classes não são exaustivas. Ela permanece uma falha
mesmo quando o “histórico” é adicionado como uma terceira classe. Leibniz,
presumivelmente, é um idealista não-empírico, mas ele também é “histórico”, tal como
159
sua definição de Alexandre o Grande mostra. Descartes e Espinoza não são empíricos,
nem idealistas, nem “históricos” também. Esse fracasso na classificação lança todo o
estudo fora do equilíbrio, resultando numa ambiguidade penetrante que é provável que
o leitor superficial é não capaz de detetar.

Mito

Embora o autor rejeite o Idealismo, ele mantém uma visão um pouco semelhante da
linguagem mítica. Na página 87, onde ele deixou de lado suas descrições dos outros
pontos de vista e permaneceu totalmente empenhado em explicar o seu próprio ponto
de vista, ele diz: “No entanto, como temos visto, toda a linguagem desenvolve-se a
partir do pensamento mítico e não obstante, continua carregando as marcas de sua
origem.” Esta é uma afirmação surpreendente por duas razões. A primeira está nas
palavras “como temos visto.” Isto é surpreendente porque o leitor não viu isso em
parte alguma. No capítulo dois, Hamilton expõe a visão de Ernst Cassirer “sem seguir
ele até ao fim” e mais tarde dedica três páginas para Mircea Eliade. Se este material é
simplesmente uma exposição, não pode servir como prova para a sua declaração
posterior de que “toda a linguagem desenvolve-se a partir do pensamento mítico.” Mas
se estas exposições forem incluídas porque Hamilton as adota como suas próprias, o
que se pode fazer com a sua qualificação, “sem o seguir até ao fim”? O autor não nos
dá nenhuma afirmação precisa do quanto ele aceita. Portanto, devemos assumir que ele
aceita todos os relatórios dele. Mesmo assim, está longe de ser claro que Cassirer, com
a ajuda de Eliade, tenha produzido um argumento plausível para a origem mítica da
linguagem. Existem muitas afirmações, mas poucas razões.

Por exemplo, Hamilton, expondo Cassirer, diz,

A inteligência… não é a característica decisiva do homem. O que realmente o


distingue dos outros animais é a sua capacidade de construir símbolos... Ele não
entende primeiro o mundo, e depois aprende como colocar o seu conhecimento em
palavras. Em vez disso, sua invenção de símbols verbais oferece a possibilidade dele
ter conhecimento... Cassirer argumenta portanto que o mítico (como a forma primitiva
de pensar) e a linguagem estão de mãos dadas na educação do homem para dar sentido
a sua existência. (45)

160
Visto que o autor, até ao fim restante do seu livro, parece depender inteiramente de
Cassirer, uma atenção imediata deve ser dada a esta citação. Em primeiro lugar, este
crítico não considera o que “Cassirer argumenta”. Ele simplesmente afirma e suas
afirmações são implausíveis. Pelo menos uma delas é também anti-Bíblica. Cassirer
tenta construir um homem inteligente a partir de um homem não inteligente, mas
simbolizante. Agora além do fato de que isso contradiz a doutrina Bíblica da imagem
divina no homem e torna a visão anti-Cristã, supõe que um ser ininteligente ou não-
racional pode construir palavras ou símbolos para se referir a objetos. Isto é
patentemente o contrário. É preciso inteligência para construir símbols e, em
particular, antes de construir o símbolo, o homem deve ter algo em mente para
símbolizar. Um homem primitivo nunca inventaria o som ou o símbolo vocal gato, a
menos que tivesse visto pela primeira vez uma pequena cauda e escutado a outra ponta
dizendo “miau”. Alguém acredita que ele disse a si mesmo: “O gato é um som tão
bom; vou usá-lo para simbolizar o que quer que eu veja amanhã ao meio-dia?”

Consequentemente, a afirmação de que “toda a linguagem desenvolve-se a partir do


pensamento mítico” é sem fundamento. Sem fundamento também é a afirmação de que
a linguagem “continua carregando as marcas de sua origem.” Daí a afirmação de
Cassirer da qual Hamilton depende, a saber, “A invenção dos símbols verbais fornece
a possibilidade de se ter conhecimento”, é bastante implausível. Certamente, a verdade
é o que Cassirer nega: O homem primeiro entende o mundo e depois inventa símbolos
para expressar os seus pensamentos.

Em segundo lugar (e aqui não precisamos simplesmente adivinhar o quanto Hamilton


aceita de Cassirer, pois estas são suas próprias palavras), é igualmente implausível
afirmar, sem provas, que toda a linguagem continua carregando as marcas de sua
origem mitológica. É verdade, Hamilton admite que o pensamento científico “tenta
tanto quanto possível escapar das subjetividades da linguagem usando a linguagem
gestual da matemática” (87). Mas não basta remover a matemática além de uma
admissão tão breve. O que é necessário é a evidência de que as palavras dois e três têm
as marcas da origem mítica. O que são essas marcas? Elas devem ser especificadas.

161
Pode parecer que o assunto é demasiado complicado, se mencionarmos também a raiz
quadrada de menos um. Mas esta não é apenas desprovida de marcas de origem
mitológica, reforça também um ponto anterior, pois o símbol √-1 não foi primeiro
inventado e depois algum objecto encontrado para aplicá-lo. Os matemáticos
entenderam primeiro que todas as equações quadráticas devem ter duas raízes, e essa
compreensão fez com que inventassem (uma tarefa extremamente simples) um
símbolo para denotar as raízes de x2 + 1 = 0.

Mas para incomodar as mentes não matemáticas, note-se que Hamilton não faz
nenhum esforço para mostrar que mesmo a palavra gato tem uma origem mitológica e
ainda assim, carrega vestígios discerníveis da mesma.

O segundo capítulo, onde Hamilton aparentemente tenta justificar sua visão mítica, é
repleto de asserções não fundamentadas. Exemplos disso são: (1) “Míto, então não é
na primeira instância uma ficção imposta à um mundo já concebido” - penso que sim.
(2) “Cada vida reencena em parte a história da raça humana” - suficientemente vago
para ser verdade em algum sentido ou outro, mas Hamilton pretende dizer “a ontogenia
recapitula a filogenia? ou que cada menino às vezes sofre um Napoleônico complexo?
(3) “A estreita relação entre o mítico e a consciência religiosa é muito visível aqui”
[itálico meu], isto é, no fato de que as “excursões pessoais das crianças ao mito, que
fazem com que elas sejam acusadas de serem mentirosas deliberadas!” - onde existe
aqui qualquer relação entre a consciência religiosa e o míto? Será que a citação
conjunta da poesia Wordsworth é suficiente como razão ou argumento? (4)
Similarmente a um pensamento anterior, “Antes de se dar um nome à uma coisa [como
um gato], ela permanece desconhecida... Nomeá-la faz com que ela 'seja' no sentido de
que ela agora entra na consciência humana como uma entidade que existe em seu
próprio direito” - era esta a verdade do planeta Netuno depois de ter sido descoberto e
antes de ser nomeado ou do continente agora chamado de América?

Aqui estão quatro exemplos em que Hamilton não deu nenhuma razão para afirmar
que “toda a linguagem desenvolve-se a partir do pensamento mítico e continua tendo
as marcas da sua origem.”

162
Embora a mitologia seja a base da teoria da linguagem e da inspiração, não se deve
supor que ele é uma simples “mitologista”. Ele está longe de endossar o programa de
“desmitologização” de Bultmann. Para se chegar à linguagem Bíblica, dois passos da
mitologia devem ser tomados. O primeiro é diluir, ou refinar, o mito em poesia. Este
avanço, diz ele, dá-nos um Deus que realmente existe, ao contrário dos deuses
mitológicos que não existem.

Aqui está novamente uma classificação com o mesmo defeito que viciou sua divisão
empírica-idealísta-histórica... dos filósofos. Ele fala como se a poesia e a mitologia
fossem mutuamente exclusivas - a poesia é uma forma mais elevada de linguagem do
que a mitologia. Obviamente, não é esse o caso: Homero e Hesíodo escreveram poesia
e a sua poesia é mitologia. Por causa da falsa disjunção, o pensamento de Hamilton é
difícil de desembaraçar. Ele parece pensar que a mitologia foi primeiramente expressa
em prosa (o que pode muito bem ser verdade) e então a poesia foi um refinamento
remoto do mito. Mas então deve haver algo mais do que prosa e poesia para dar uma
expressão adequada e madura da religião?

Em todo caso, a poesia não pode nos dar nenhuma verdade literal sobre Deus. Ela
ainda retém muito mito. Naturalmente, a retenção não é de todo ruim. Mito, diz o
autor, não é meramente superstição (63). “A verdadeira religião nasce no meio das
muitas falsas religiões.” Da qual o crítico conclui que a mitologia tinha que funcionar
em direção à um conceito de Jeová antes que Adão pudesse ter essa idéia. Nenhuma
evidência para a declaração citada é dada. Ela, parentemente, depende do princípio
evolucionário de que o monoteísmo é um desenvolvimento social tardio.

Mesmo assim, a influência da antiga linguagem mitológica continua, seja em poesia


ou no segundo passo de Hamilton. “As Escrituras não caíram do céu” (63). Bem, é
claro. Os manuscritos (exceto as tábuas de pedra em que Deus escreveu os Dez
Mandamentos) não caíram do Céu. Moisés usou uma caneta para escrevê-los.
Portanto, o que o autor diz expressamente, é literalmente verdadeiro. Mas ele não
pretende sugerir que a mensagem verbal das Escrituras não veio do Céu? “A Palavra
de Deus vem a nós como palavras de homens, homens enraizados em seus tempos e
que falam a língua de seu país.” Novamente, é literalmente verdade, para além do seu
163
contexto. As Escrituras vêm até nós no século XX, traduzidas para o Inglês. Elas não
caíram do céu para nós em nossa vida. Mas e quanto as revelações à Adão, Abraão e
mesmo à Moisés antes dele escrevê-las? Deus não poderia ter usado o hebraico? Deus
deve ter usado a linguagem formada pela mitologia? Será que Deus é incapaz de
revelar a verdade literal? Hamilton afirma claramente que a linguagem humana é
incapaz de expressar a verdade literal sobre Deus. Sua última frase no segundo
capítulo teria sido desnecessária e impossível se ele tivesse pensado que a linguagem
das Escrituras era literal. A última frase é: “Como a linguagem humana, formada em
padrões que se desenvolvem a partir do mito, pode nos transmitir a verdade da própria
revelação de Deus: este é o assunto das minhas próximas duas palestras” (63).

Linguagem Humana

Antes de resumir os capítulos três e quatro, pode-se fazer uma pausa para considerar a
frase “linguagem humana”. Quando Paulo, em Grego humano, diz que Deus justifica
crentes, ele falou a verdade literal ou algum outro tipo de verdade incognoscível que
não é verdade? Uma frase semelhante a “linguagem humana” ocorre frequentemente
em outros autores. Eles contrastam “lógica humana” com “lógica divina”. Mas será
que eles ousam tornar explícito o que significa esta frase? A lógica humana diz, Se
todos os homens são mortais, e se Sócrates é um homem, então Sócrates é mortal. Mas
se a lógica divina é diferente, então todos os homens são mortais e Sócrates é um
homem, e todavia Sócrates não é mortal. Ou, novamente, se a matemática humana diz
que dois mais dois são quatro, e se a verdade divina difere da nossa, então para Deus
dois e dois são cinco ou dez ou qualquer número menos quatro. O ponto aqui é que a
lógica humana e a lógica divina são idênticas. A lógica humana é uma parte da
imagem divina no homem. É a marca registrada de Deus estampada em nós. Somente
rejeitando a doutrina Bíblica da imagem de Deus se pode contrastar a linguagem
humana com a linguagem divina e a lógica divina com a humana.

Finalmente, se a linguagem humana não pode ser literalmente verdadeira, qualquer


afirmação de que “a linguagem não é literal” não pode ser literalmente verdadeira. A
posição é auto-refutável, e pode-se ter pouca esperança de explicar como a “linguagem
formada nos padrões míticos” pode transmitir a verdade de Deus.
164
O capítulo três começa com um resumo: O Empirismo dá-nos a realidade sem Deus. O
Idealismo tem Deus sem a realidade (capítulo um); o Empirismo faz do mito uma
estrada sem saída na jornada da ignorância ao conhecimento, enquanto o Idealismo faz
do mito a forma básica do discurso humano que não consegue descrever o mundo
fenomenal, mas em vez disso simboliza o significado do mundo transcendental
(capítulo dois).

Neste ponto, Hamilton começa a dar seu segundo passo para longe do mito. Ele vai do
mito, poesia à parábola. “A fé Cristã... admite de bom grado que o melhor
conhecimento da palavra objectiva fez com que as religiões se baseassem na aceitação
literal do mito insustentável (67).26 No entanto, ele terá o homem, em razão da
linguagem simbólica, permanecerá uma “criatura que faz mitos ”. Então, ele continua,
A fé Cristã não dá “nenhum conhecimento privilegiado sobre „um determinado caso‟
no mundo criado”, por exemplo, que Davi era o Rei de Israel, “no entanto [ela] dá-lhe
conhecimento essencial sobre o mundo como divinamente criado. Ela também dá a
garantia do significado humano da sua existência. Ela medeia este significado além
dos limites de sua própria consciência.”

Mas se a fé ou a revelação não pode nos falar sobre Davi, como pode nos falar sobre a
criação divina do mundo? Certamente, esta última é mais difícil de descobrir. Então,
também, como a fé pode “mediar” algum significado além da consciência? A fé não é
um elemento da consciência?

Mas vamos continuar com o segundo passo, afastando-nos da linguagem mítica para a
linguagem parabólica que supostamente revela a verdade divina melhor do que uma
simples declaração literal pode. Porquê e como Hamilton chega à parábola? O como
não é nada claro. Nenhuma teoria é trabalhada para mostrar que a linguagem,
supostamente originada no mito, deve, pelas leis da evolução, tornar-se poesia e depois
por essas mesmas leis tornar-se parabólica. O porquê de Hamilton é mais claro do que

26
Por mundo objetivo aqui Hamilton parece pretender dizer mundo sensorial, como se o mundo do
significado ou da inteligibilidade fosse subjetivo. No entanto, na página 68, ele fala da própria Palavra -
certamente não um objeto sensorial - como objetivo. É difícil dizer com precisão qual é o seu argumento
nestas duas páginas.

165
o seu como. A razão é que ele não quer ficar tão longe da mitologia a ponto de chegar
à verdade literal. Ele quer preparar o terreno rejeitando a inspiração plenária e verbal.
“As teorias de „ditado‟ da revelação às vezes parecem assumir que Deus comunica sua
Palavra por meio de vocábulos27, de modo que a compreensão do sentido exato de um
conjunto de proposições é receber a Palavra de Deus. Isto é certamente, vincular a
Palavra divina à medida das palavras humanas.”

Aqui, mais uma vez, a teoria evolutiva é assumida. As palavras humanas e lógica
humana são produtos naturalistas da sociedade. Elas não são reconhecidas como a
imagem de Deus no homem. Sem dúvida Hamilton chama-lhes dádivas de Deus, mas
apenas como unhas e a Constituição dos Estados Unidos são dádivas de Deus. O
elemento da imposição normativa divina é inexistente. Este tipo de argumento é
essencialmente semelhante a acusação Pentecostalista de que aqueles que repudiam
falar em línguas “vinculam o espírito divino à medida da sua teologia humana.” A
resposta da Reforma é que as Escrituras descrevem a função do Espírito no que diz
respeito a línguas e milagres como limitada à certas épocas. Dizer o que o Espírito
opera não é limitar o poder de Deus. Portanto, a ênfase nas proposições da Escritura
não impede que Deus diga qualquer coisa que ele escolha: Apenas aponta o que ele
escolheu dizer.

Revelação

Hamilton, por outro lado, aparentemente, deseja revelações além da Escritura. O


restante da metade da sua sentença citada acima é: “pois isto é para dizer que já temos
as palavras que podem dizer tudo o que Deus pode possivelmente querer que
conheçamos. “Pode possivelmente” é a linguagem da propaganda. A questão não
preocupa-se com o que Deus pode fazer: É uma questão do que Deus realmente fez. A
visão da Reforma é que as Escrituras dão-nos todas as informações sobre a salvação
que Deus quer que conheçamos. Como diz 2 Pedro 1:3, “o seu divino poder nos deu
tudo o que diz respeito à vida e piedade.” E o bem conhecido 2 Timóteo 3:16-17 diz

27
Por exemplo, Deus ordenou a Abraão que sacrificasse Isaque, ou Deus ordenou a Ananias que fosse à
casa de Judas na rua chamada Direita e perguntasse por um homem chamado Saulo de Tarso. Ou não são
estas passagens, com suas direções específicas, a Palavra de Deus?

166
que a Escritura instrui o homem perfeitamente para “Toda a boa obra.” Nada mais é
necessário. Por esta razão, a palavra de Hamilton “estado” também é um dispositivo de
propaganda. Nunca foi o ponto de vista da Reforma que a Bíblia declara,
explicitamente, tudo o que Deus quer que saibamos. Mas como a Confissão de
Westminster diz: “Todo o concelho de Deus concernente a todas as coisas necessárias
para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado
na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela”, isto é, pela lógica humana
que é lógica, porque ela é primeiro lógica divina.

Portanto, o que Hamilton contesta parece ser a verdade divina Bíblica, a saber “a fé em
Deus consiste essencialmente na recepção da fé” e não talvez de “toda e qualquer
declaração Bíblica”, pois isso exigiria uma memória prodigiosa, pelo menos para a
teologia básica “como objetivamente verdadeira” (75).

É bastante claro que Hamilton não aceita a Bíblia como Palavra de Deus: “O fato de
que as palavras estão na Bíblia... não significa que nossa leitura delas deve
necessariamente conter declarações autoritárias das quais podemos proceder de
imediato a identificar-nos com a Palavra de Deus.” Bem, é claro, não necessariamente,
algumas pessoas, as vezes não entendem as palavras que lêem; de modo que “nossa
leitura” das palavras, se somos tais pessoas, não necessariamente tem proposições
corretas. A fraseologia aqui é mais uma vez propaganda, pois a questão importante não
é se algumas pessoas lêem mal a Bíblia, mas se as palavras e sentenças da Bíblia são
declarações de autoridade porque são verdadeiras, porque são as palavras de Deus.
Obviamente, é um pensamento pobre atacar a teoria da inspiração e da verdade das
Escrituras com base no fato de que algumas pessoas não entendem as palavras. Deve-
se tomar um livro de cálculo como mitológico, poético, ou parabólico e não
literalmente verdadeiro porque alguns estudantes do ensino médio não conseguem
compreendê-lo? É por tal raciocínio inválido que Hamilton rejeita a Escritura como
revelação. Ele diz, “Se fosse esse o caso [identificar as palavras da Bíblia com a
Palavra de Deus] então a Bíblia, ao invés de ser esse registro inspirado... seria a lei
escrita de Deus.”

167
Agora há um sentido em que a Bíblia é um registro inspirado. Ela inerrantemente
regista a revelação de Deus à Abraão e as guerras de Davi, Rei de Israel. Mas além de
ser um registro das revelações divinas, ela é em si mesma a completa revelação. Tal
como a seção de abertura da Confissão de Westminster (determinativa da posição
evangélica) diz, “foi o Senhor servido... fazêla escrever toda... Escritura Sagrada…
tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade.” Assim, em
contraste com a negação de Hamilton, a Bíblia é realmente a lei escrita de Deus.

O uso do termo lei por Hamilton ao invés do termo palavra pode ser pejorativo. A lei
de Deus tem conotações restritivas em oposição à graça. Um leitor descuidado pode
muito bem ficar impressionado porque ele não gostaria de limitar a Bíblia excluindo a
mensagem da graça. Mas se a lei é usada num sentido mais amplo - se ela significa a
mensagem escrita de Deus, se, como Hamilton diz no próximo parágrafo, a lei é “Algo
posto, colocado, fixo, estabelecido” - assim, um evangélico aceitaria a sua declaração
como verdadeira e não tão falsa como ele pretendia. A Bíblia, certamente, é algo fixo e
estabelecido. Desta feita, a justificação de Hamilton em rejeitar a visão da Reforma
acaba por ser uma justificação para aceitá-la.

Antes que o próximo parágrafo seja concluído, entretanto, Hamilton reverte para o
sentido de lei mais estreito e mais usual, como uma lei que prescreve certas condutas e
punições especificas por desobediência. A graça é deixada de fora. Portanto, o autor
interpreta erroneamente 2 Coríntios 3:6 para significar que Paulo “está falando de si
mesmo como um ministro de um novo testamento, não da letra, mas do espírito” (77).
Esta é uma falsa disjunção, pois a aliança da graça é tanto uma aliança da palavra
escrita - em Gênesis, Ezequiel e Gálatas - e uma a aliança do Espírito. Obviamente, os
argumentos dependentes de falsas disjunções são inválidos. Um exemplo semelhante
de raciocínio falacioso é o uso de uma afirmação universal que é apenas verdadeira
algumas vezes. Hamilton afirma: “Adoração em espírito e em a verdade inclui o
reconhecimento de que as palavras humanas são inadequadas, de modo que o Espírito
deve dar à nossa oração um significado que não podemos verbalizar.” Mas pode-se
seriamente acreditar que toda a adoração deve incluir tal reconhecimento? Ou que
todas as orações devem ter um significado diferente que não podemos verbalizar? Da
minha parte, eu prefiro supor que a mulher do poço adorava a Cristo em espírito e em

168
verdade sem tal reconhecimento. Também me parece que quando eu oro à Deus para
aliviar os sofrimentos de um amigo idoso, o Espírito não muda o sentido em algo que
não consigo verbalizar. Mas então pode ser que quando eu oro para que um amigo seja
aliviado do sofrimento ou que Deus conceda o arrependimento à milhões, não estou
adorando em espírito e em verdade. Mas eu oro a favor disso, e para este propósito eu
acho a linguagem literal completamente adequada.

João Calvino

Deve-se enfatizar que Hamilton rejeitou a posição histórica do Protestantismo e, ao


fazê-lo, compreendeu mal essa posição. Ele fala de “um lapso no legalismo entre os
seguidores de Calvino que haviam ido além da compreensão prática e robusta de
Calvino em relação a fé Cristã para erguer, como ele não fez [itálico meu], teorias de
inspiração verbal inerrante.”

Agora, além do uso pejorativo das palavras lapso e legalismo em contraste com
robusto, deve-se anotar a referência histórica nas palavras “como ele não fez”.

A posição de Calvino, que é um pouco diferente do que Hamilton quer que


acreditemos, é apresentada em profundidade por Kenneth Kantzer na Publicação da
Sociedade Evangélica Teológica, Inspiration and Interpretation (editado por John F.
Walvoord, Eerdmans, 1957). No capítulo quatro, “Calvin and the Holy Scriptures,”
Kantzer cita as Institutas de Calvino,

Deus teve o prazer de entregar e consignar a sua Palavra à escrita... Ele ordenou
também que as profecias fossem escritas e que fossem parte da sua Palavra. A estas, ao
mesmo tempo, foram acrescentados detalhes históricos, que são também a composição
dos profetas, mas ditados pelo Espírito Santo. (137)

De fato, como Kantzer aponta, Calvino frequentemente afirmava que Deus “ditava” o
texto. É verdade que Calvino não usou o verbo como se aplica num escritório
comercial moderno. Mas a sua frequência deve advertir a todos contra atribuir a
Calvino a visão de que Deus dita erros. Kantzer refere-se a Calvino chamando os

169
profetas de “escrivães” e “escritores”, “confiantes e autênticos amanuenses do
Espírito; e, portanto, os seus escritos devem ser considerados como os oráculos de
Deus.” Ele também os chama de “órgãos e instrumentos”. Ele se refere à Escritura
como “registro seguro e infalível”, “o padrão infalível” - aqui está a inerrância - “a
Palavra pura de Deus” e “a infalível regra da sua santa verdade”. Citando nada menos
que treze outras passagens, Kantzer comenta, “A mais simples olhada nos comentários
de Calvino demonstrará quão seriamente o Reformador aplicou a sua rígida doutrina
verbal de inerrância à sua exegese das Escrituras” (142).

Permitam-me acrescentar também uma citação das Institutas I.vii.1: “Os crentes...
estão satisfeitos da sua origem divina, como se ouvissem as próprias palavras
pronunciadas pelo próprio Deus”.

Por tudo isso, o leitor pode supor que o crítico estará menos entusiasmado com o
quarto e último capítulo de Hamilton.

Aqui Hamilton observa que a denúncia do Antigo Testamento sobre a idolatria (e ele
poderia ter acrescentado 2 Pedro 1:16: “Porque não seguimos fábulas engenhosamente
inventadas”. [ KJV ]) requer a rejeição do mito. A “revelação Cristã deve ter aspeto
proposicional à ele.”28 No entanto, “toda a linguagem... carrega as marcas de sua
origem mitológica... A Bíblia não nos tira do alcance da linguagem mitológica,
todavia, ela permite-nos evitar a inverdade do mito” (86).

O modo pelo qual a Bíblia, ou então Xenofonte, permite-nos evitar a inverdade do


mito pode não ser muito importante. Pois se Paulo e Heródoto substituem
simplesmente alguns outros tipos de inverdade em prol da inverdade do mito, e se
nunca chegarmos a verdade literal, porque não descartamos tudo isto como histórias
fantasiosas?

28
Este tipo de afirmação não faz sentido. Declarações Míticas também são proposicionais. A distinção
importante deve ser verdadeira versus falsa, ou literal e exata versus fantástica e imprecisa. Mas todas as
afirmações têm um “aspeto” proposicional, qualquer que seja o aspeto que possa significar.

170
Verdade Literal

Apesar do fato de que Hamilton quer escapar do mito para a parábola através da
poesia, ele continua a dizer: “A linguagem da Escritura... seria incompreensível de
outra forma”, isto é, a menos que os padrões míticos tenham sido usados. Ananias não
teria entendido as direções para a rua reta, se não tivessem sido feitas na forma
mitológica. “Os mitos da Suméria, Babilônia, Fenícia e Egípto [foram] incluídos nos
relatos Bíblicos da criação” e “os mitos Gnósticos estão presentes nas descrições de
Cristo do N.T.29 ... A linguagem Bíblica emprega as imagens do mito, transformando o
seu conteúdo.30 Os mitos da criação nos quais os deuses arrancaram a terra e o céu do
corpo do monstro Caos, explicam alguns termos do relato Bíblico da criação” (89).

Claramente, por mais que Hamilton queira ir além do mito, ele não parece estar muito
longe, pois na próxima página ele diz: “Na falta do padrão mítico [do Gnosticismo]
que originalmente produziu a terminologia necessária, não devemos ser capazes de
falar da morte e ressurreição de Cristo” (90).

Isso não é um completo disparate? Sou eu dependente de mitos gnósticos ou de outros


mitos quando falo de soldados Romanos que colocam Jesus numa cruz e cravam
pregos nas suas mãos e pés? Com certeza entendi isso na juventude muito antes de
ouvir do Gnosticismo. Nem tenho a certeza de que Mateus sabia de alguma coisa sobre
o Gnosticismo. Se alguém agora responde que Mateus e eu não precisávamos saber do
Gnosticismo porque usamos a linguagem já formada, deixe-o explicar-nos como a
mitologia formou as palavras pregos, soldados, cruz, lança e morte. Da mesma forma,
que mitologia é necessária para Pedro ver que a tumba estava vazia e então, ver Jesus
na Galileia e falar com ele? Não é, portanto, um completo disparate dizer que não
podíamos falar da morte de Cristo se a mitologia não nos tivesse dado estas palavras?

Neste ponto, alguém provavelmente objetará que, uma vez que Hamilton não permite

29
Para uma refutação definitiva, ver The Origin of Paul's Religion, de J. Gresham Machen.
30
Acha? Como? Com que resultado?

171
linguagem literal, ele não quer dizer o que diz. Ele disse que não podíamos falar sobre
a morte de Cristo. O que ele quis dizer (embora não literalmente) foi que Paulo não
podia explicar a expiação sem depender do Gnosticismo. A explicação de Paulo
começa por afirmar que os homens trocam a glória de Deus por ídolos. Bem, é claro,
Paulo não poderia ter dito isso (na verdade) a menos que houvesse idolatria. Neste
sentido algumas afirmações das Escrituras dependem de falsas religiões. Mas isto está
longe de provar que o monoteísmo é um produto social tardio, e igualmente longe de
provar que esta é uma linguagem mitológica e não literária. Quando, além disso, Paulo
diz que Deus colocou Cristo como uma propiciação para que Deus pudesse ser justo e
justificador de alguns pecadores, o fato de que houve sacrifícios pagãos não prova que
eles precedem o sacrifício de animais no Éden e o sacrifício posterior de Abel, nem
que nenhuma destas línguas seja diferente da literal. Que Deus deve estar satisfeito
com a morte de Cristo é tão literal como aquele soldado que espetou pregos nas mãos e
pés de Jesus.

Dificilmente se escapa à impressão de que o autor não trata os seus oponentes


razoavelmente. Ele diz,

No entanto, porque a revelação é dada em palavras humanas, não pode ser mais
precisa do que a linguagem permite. [Que verdade! Uma tautologia perfeita. Mas é
Deus, que produziu a linguagem, incapaz de usá-la com perfeita precisão?] A crença
de que a Bíblia consiste em afirmações de verdade literal [itálico seu], portanto, é mal
concebida. [Portanto, é uma falácia lógica.] A noção de verdade literal é bastante
correta se nos opusermos literalmente ao míto... Neste sentido, devemos dizer que
Deus literalmente criou o mundo... Mas é outra questão, se insistirmos que todas as
declarações da Escritura são literalmente verdadeiras. (91)

Este tipo de argumento é dificilmente justo para o ponto de vista da Reforma porque
ninguém desde o tempo de Moisés até o presente, já disse que todas as declarações são
estritamente literais. Lutero, Quenstedt, Gaussen ou Warfield alguma vez disseram
isso? Claro que há figuras de linguagem, metáforas, antropomorfismos e afins. Mas
estes não fariam sentido se não houvesse declarações literais para lhes dar significado.
Por exemplo, 2 Crônicas 16:9 - “Porque, quanto ao SENHOR, seus olhos passam por
toda a terra” - é absurdamente ridículo se tomado literalmente: pequenos olhos rolando
sobre o chão. Mas a menos que a declaração, Deus é onisciente, seja literal, a figura

172
não tem nada a que se referir. Certamente, Hamilton não publicou seu livro para
lembrar que a Bíblia contém algumas figuras de linguagem. E ainda assim, o seu
argumento aqui depende do fato alegado de que alguém disse que “todas as afirmações
das Escrituras são literalmente verdadeiras.”

Considere a nota de rodapé desta página:

“Literal” não é sinónimo de “histórico”. A inspiração não implica que o que é


inspirado deve ser entendido literalmente, e menos ainda que tudo deve ser visto como
tendo realmente acontecido... Colocando sem rodeios, para aceitar todas as coisas
relatadas na Bíblia como tendo realmente acontecido, é preciso adulterar o texto.

Estas palavras de Hamilton com citações de aprovação de H. M. Kuitert não são claras.
A linguagem é típica de liberais que querem parecer conservadores para pessoas
ortodoxas, enquanto minam a verdade das Escrituras. Quando Kuitert diz “todas as
coisas relatadas”, ele refere-se a metáforas? Às declarações feitas por Satanás? Será
que “cada coisa relatada” se refere a cada coisa relatada como tendo realmente
ocorrido? As duas primeiras possibilidades são pueris. A terceira é um repúdio da
religião evangélica. É difícil evitar a conclusão de que esta última é o significado
pretendido. Por exemplo, 2 Pedro declara que foi escrito por Pedro. Sobre tal
declaração Hamilton escreve: “Há já muito tempo que, todos os autores têm sido
considerados como tendo um direito de propriedade sobre as suas obras. Mas os livros
Bíblicos saíram de um ambiente em que tal conceito era desconhecido, e onde não
havia nenhuma questão de verdade ou falsidade envolvida no uso de um nome
reverenciado em conexão com escritos de outras mãos.” Esta afirmação não é
verdadeira nem mesmo para a erudição pagã, pois os filósofos Alexandrinos
distinguiram cuidadosamente entre trinta e seis genuínos Diálogos Platónicos e dez
espúrios. Veja também E. M. B. B. Green, Second Peter Reconsidered (Tyndale
Press, 1960), onde escreve no sentido de que as falsificações não foram recebidas
cordialmente como os críticos afirmam, mas que as sub-apostólicas e até mesmo
Apólo se distinguiram dos apóstolos, e depuseram o autor de Paul e Thekla pela sua
impostura. Outro exemplo foi Serapião, que baniu o Evangelho de Pedro da sua igreja,
porque, através de uma investigação cuidadosa, ele descobriu que era uma falsificação.

173
Parábola

Depois de suas observações sobre a autoria de escritos espúrios, Hamilton chega


rapidamente à sua solução para o problema de como a linguagem com sua herança
mítica pode expressar a verdade divina. Ela é feita por parábolas. O livro de Jónas, ele
diz, não relata ocorrências reais. Sua forma literária mostra que é uma parábola.
(Nunca houve um Jónas. Acho que também não houve Nínive.) Cada um reconhece
que Cristo ensinou em parábolas.31 Nem tudo na Bíblia, Hamilton reconhece, é uma
parábola; as visões apocalípticas não o são. Mas “se quisermos procurar um modo
„chave‟ do uso da linguagem nas Escrituras, então as parábolas se encaixam nesta
posição, muito mais apropriadamente do que os mitos” (100).

Vamos concordar imediatamente. Há também outras frases no livro, que, se separadas


do seu contexto, podem ser entendidas em um sentido ortodoxo. Então, é verdade que
essa parábola é mais adequada do que a mitologia. Mas a parábola é mais adequada e
substituta da linguagem literal? Hamilton fez a comparação errada. Ele evitou aqui
mencionar o elo fraco em seu argumento; pois se não houver nenhuma verdade literal
da qual a parábola é uma ilustração, ela não tem qualquer referência e torna-se inútil.

Parece que Hamilton tornou as parábolas inúteis e sem significado. Ele disse,

Uma parábola... assume que a realidade divina que suas palavras humanas abrem para
nós, embora literalmente além de nossa compressão, pode realmente ser revelada a nós
por meio de palavras humanas. Assim, muitas das parábolas de Jesus começam: “o
reino dos céus é semelhante…” Certamente, a comparação não é mais do que uma
comparação. O reino dos céus não pode ser trazido à terra para nossa inspeção; ele
permanece sempre um mistério. Ainda assim, Jesus poderia dizer... “É-te dado a
conhecer os meus mistérios...” (96)

31
Um critério comum para distinguir uma parábola de Cristo de algo que ele relata ter acontecido é a
ausência no primeiro nome e a presença no segundo nome: Um homem que era proprietário saiu cedo
para contratar trabalhadores, ou um certo rei fez uma festa de casamento para seu filho, contra o sangue
de Abel... de Zacarias, filho de Berequias, a quem você assassinou, ou outras referências à eventos do
Antigo Testamento.

174
Esta citação é peculiar. Começa por dizer que o sentido da parábola, que é, a realidade
divina que ela revela, é literalmente diferente da nossa compreensão, mas termina com
a afirmação de Cristo de que os discípulos devem entendê-la. No meio está a palavra
mistério: O reino permanece sempre um mistério. Mas mistérios não são
necessariamente impossíveis ou mesmo difíceis de entender. Poder-se-ia mesmo dizer
que normalmente são fáceis de entender. No Novo Testamento, o mistério não refere-
se a algo à que chamamos misterioso em Inglês. Por exemplo, 1 Coríntios 15:51
afirma um mistério: Pode ser difícil para algumas pessoas acreditarem, mas não há
dificuldade em compreendê-lo.

Então também é falso dizer que “o reino dos céus não pode ser trazido à Terra para a
nossa inspeção.” Cristo fez exatamente isso. O reino Também permanece conosco, e
inspecionámo-lo diariamente.

Mas uma vez mais, se “a comparação não é mais do que uma comparação”, ou,
melhor, se é tanto como uma comparação, a verdade particular ilustrada pela
comparação deve ser compreensível, pois caso contrário a linguagem da parábola não
revelaria a verdade para nós.

Em conclusão, primeiro, a teoria da linguagem de Hamilton é destrutiva da verdade


Cristã. Certamente, a linguagem, como dom de Deus a Adão, tem como propósito, não
apenas a comunicação entre os homens, mas comunicação entre o homem e Deus.
Deus falou palavras a Adão e Adão falou palavras a Deus. Uma vez que esta é a
intenção divina, as palavras ou a linguagem são adequadas. Com certeza, de vez em
quando - mesmo em ocasiões frequentes - o homem pecador não consegue encontrar
as palavras certas para expressar o seu pensamento; mas isso é um defeito do homem,
não uma inadequação da linguagem. A Bíblia não aceita uma teoria que origine a
linguagem na mitologia pagã com o efeito de que a verdade divina seja ininteligível.

Da mesma forma, segundo, na teoria de Hamilton, Deus permanece incognoscível. A


principal dificuldade com os mitos, não é que eles são literalmente falsos, mas sim que

175
a sua alegada “verdade” não literal não tem sentido. Hamilton fugiu do mito para a
poesia e depois para a parábola, a fim de chegar a algum tipo de revelação, mas ele
nunca teve sucesso em mostrar como as parábolas transmitem a verdade ou o que as
parábolas transmitem. Sua “mensagem” permanece ininteligível.

Terceiro, Hamilton rejeitou a doutrina da inspiração verbal e plenária e colocou-se fora


dos limites do Evangelicalismo histórico.

Quarto e último, é mais apropriado para a Sociedade Evangélica Teológica, tomar nota
disto e reafirmar pela sua prática constante, que “a Bíblia somente e a Bíblia em sua
totalidade é a palavra de Deus escrita, e portanto inerrante nos seus autógrafos.”

176
O QUE É A VERDADE?

O Jornal Reformado de Maio de 1980 (páginas 27ff) traz a crítica de James Daane do
God, Revelation and Authority de Carl F. H. Henry. Sua rejeição da visão de Henry
gira em torno de certas teses, alegadamente mantidas por Gordon H. Clark, e adotadas
ou adaptadas por Henry. Surge uma ou duas vezes na critica, mas subjacente ao todo, o
conflito entre a defesa Henry-Clark da inerrância Bíblica e as afirmações que Daane-
Fuller de que o que a Bíblia ensina é às vezes falso. A menos que este conflito seja
claramente entendido, a crítica de Daane será facilmente mal interpretada.

O título da critica é bem escolhido: What is Truth? Não há mais três palavras que
poderiam expressar melhor a pergunta em questão. Henry e Clark dizem
definitivamente o que querem dizer por verdade, ou pelo menos, definem a forma da
verdade. Daane claramente rejeita a visão deles. A conclusão desta réplica será que
Daane - enquanto pretende defender uma forma radicalmente diferente de verdade -
em nenhum lugar descreve a forma de verdade que ele defende, nem sequer esboça
uma epistemologia de apoio.

Epistemologia

O ataque de Daane à Henry começa de forma muito plausível: “Na teologia assim
como em qualquer ciência, o que deve ser conhecido dita os termos pelos quais pode
ser conhecido.” Embora plausível, Kant negou isso. Mas vamos supor que isso seja
meramente ambíguo, ou pelo menos incompleto. Os físicos (pois Daane, menciona a
ciência) muitas vezes pensaram que conheciam um objeto, quando seu método de
conhecer - as limitações do que eles não reconheciam - deu-lhes um objecto
completamente diferente. Por causa de tais complexidades, e ainda mais simples, a
aplicação do princípio de Daane ao método do Henry não tem peso. Daane inferiu que,
portanto, Henry - em vez de começar com epistemologia - deveria ter escrito sua
teologia primeiro, e a sua epistemologia em último lugar. Pelo contrário, em qualquer
assunto - filosofia ou teologia - não só o método pode ser explicado primeiro, mas é
melhor fazê-lo. Suponha que um físico diga que o espaço é curvo, ou um botânico diga

177
que uma ocotila não é uma cacto. O estudante inquiridor perguntará: “Como você
sabe? O estudante ou o colega crítico desejará saber se o método utilizado poderia
chegar a conclusão indicada. Os físicos costumavam dizer que a luz consistia em ondas
de éteres. Hoje em dia é geralmente aceite que os métodos utilizados eram defeituosos,
e que a luz é outra coisa (eles não sabem bem o que é). Assim, mesmo que a botânica
ou a teologia seja escrita primeiro, não podem ter aceitação por parte de um estudioso
até que a questão crucial seja respondida: Como você sabe? Em um tratamento
sistemático, a metodologia deve vir em primeiro lugar. Em vez de perguntar: O que é
um cacto? ou o que é luz? alguém pergunta, O que é Deus? Como é que alguém pode
responder a essa pergunta? Nós consultamos o Alcorão ou os Vedas? Será que
estudamos as estrelas? Enviamos um questionário para mil professores universitários?
Um método deve ser escolhido (ou usado involuntariamente) antes que qualquer
resposta seja dada. O método de Henry é consultar a Bíblia e deduzir que Deus é um
espírito, infinito, eterno, imutável. Não podemos começar com Deus; devemos
começar com a Bíblia. Por que não dizer isso primeiro e depois proceder para a
teologia que a Bíblia ensina.

A confusão de Daane neste ponto é considerável. A premissa de sua inferência é, “Se


quisermos compreender a Deus, temos de nos submeter aos termos pelos quais ele
pode ser conhecido.” O leitor tropeça nesta premissa mesmo antes de chegar à
conclusão. Como é que alguém pode ficar sob ou submeter-se voluntariamente a
termos antes de saber quais são os termos? Daane ignora completamente o problema
de descobrir os termos. Para usar seu literalismo rude, uma decisão de ficar sob certos
termos em vez de outros levanta o problema de como selecionar os termos. Como
Daane tão bem insiste, “Isto não é mera questão metodológica”; Daane em vez de
Henry “cumpriu este requisito, ele pode não nos ter dado o que está no meu
julgamento, uma teologia e apologética não evangélica bastante [confusa].” Para
afirmar o ponto mais claramente, a premissa confusa de Daane não pode nos
convencer da verdade de sua conclusão.

178
Idéias e Proposições

No entanto, a discordância básica e determinante entre Daane e a visão de Henry-Clark


é a natureza ou forma da verdade. Para citar (página 27, coluna 3, inferior): “Para
Henry assim como para Gordon Clark a natureza da verdade é uma ideia.”

Aqui um esclarecimento parentético é necessário. O termo idéia é muito vago e no


sentido platónico incorreto. Em Tales a Dewey Clark argumentou contra a visão de
Hegel, e por implicação contra a de Platão, de que a realidade consiste em conceitos ou
ideias. Daane está de fato certo de que não se trata de um mero subterfúgio
metodológico. Não se trata de subterfúgio: É no entanto metodológico, e distingue
Platão e Hegel de Agostinho e quaisquer outros que dependam de proposições ou
verdades. Lá se vai o parêntese; voltemos agora ao parágrafo anterior.

Para Henry como para Gordon Clark a natureza da verdade é uma idéia. A verdade
Bíblica é o que Deus pensa... Este conteúdo ideacional do divino se encarnou em Jesus
de Nazaré. Para Henry isto significa que Jesus expôs ou revelou a verdade, mas não
que ele mesmo é a verdade.

Presumivelmente esta não é uma afirmação verdadeira da posição de Henry, e é


certamente falsa no caso de Clark. Os últimos parágrafos do presente artigo explicarão
em maior detalhe porque é falsa. E se, além disso, a declaração de Daane foi concebida
como uma conclusão de uma inferência, a inferência é inválida.

A próxima frase de Daane também é falsa, a menos que seja ininteligivelmente


ambígua. A frase é: “O fato de que este Logos se tornou carne não significa que este
tornar-se é em si mesmo um ingrediente essencial da verdade.” Uma vez que Henry e
Clark aceitam a Bíblia como verdade infalível, e já que a Bíblia diz: “O Verbo se fez
carne”, ambos aceitamos a declaração como um “ingrediente” essencial da verdade -
isto é, como uma verdade particular e essencial no sistema completo da verdade.

O ponto de discórdia subjacente é a natureza da verdade. Embora Daane cita


corretamente, ele não parece entender as implicações das citações de Henry e as

179
palavras de Clark. Na página 28, no topo da coluna, Daane escreve: “Henry concorda
com Gordon Clark que „somente as proposições são o objecto do conhecimento.
Apenas proposições têm a qualidade da verdade‟, diz ele, explicando ainda mais que „a
única visão significativa da revelação é a revelação racional-verbal‟(430). Ele cita com
aprovação do que diz Clark: „A palavra verdade só pode ser usada metaforicamente ou
aplicada incorretamente à qualquer outra coisa que não seja uma proposição.‟”

Em Tales a Dewey (455) Clark, depois de algumas páginas de detalhes técnicos, chega
ao subtítulo “Proposições e Conceitos”. Mas a razão mais simples pela qual a verdade
deve ser proposicional é que um substantivo por si só não pode ser nem verdadeiro
nem falso. Suponha que alguém diga, sem qualquer contexto implícito, “Dois”, ou
“Gato”, ou “Estrela”. Ninguém poderia entender; nem a verdade nem a falsidade foram
faladas. Somente quando um predicado está ligado a um sujeito por uma cópula, a
expressão pode ser verdadeira ou falsa. “Dois é um número par” é verdadeiro; “Dois é
um número ímpar” é falso; mas apenas um simples “Dois” é ininteligível. Portanto,
Clark insiste que quando um botânico diz, “O cacto não tem folhas verdadeiras”, ele
usa a palavra verdade num sentido metafórico, contrastando os espinhos de um cacto
com as folhas normais de uma ocotila ou de uma roseira brava. O que a metáfora
significa, um bom botânico pode explicar em proposições literalmente pretendidas.

Que qualquer um deve ficar ofendido com o uso metafórico da palavra verdade é
bastante estranho porque tanto a Bíblia como a nossa linguagem comum de todos os
dias contêm metáforas frequentes. No entanto, quando a próxima frase de Daane diz,
“O que então Jesus afirma, „Eu sou a verdade‟”, parece querer dizer que isso não
poderia ser metafórico. Mas a sentença de Jesus não contém também a frase: “Eu sou o
caminho”? Certamente, o caminho é metafórico, pois Jesus não era um caminho
empoeirado, repleto de pedras. Se, então, o caminho deve ser metafórico, por que é
impossível que a verdade seja assim? Também? No entanto, a título de antecipação, a
verdade neste caso pode ser literal num sentido que Daane ignorou.

Para prosseguir e desenvolver este sentido e comparar as frases de Daane com a


Escritura, note primeiro que ele diz: “A verdade das proposições [Bíblicas] não é que a
proposição é, digamos, a ressurreição e a vida... Não reconhecer isso é por um lado
180
negar que Jesus é a verdade, e por outro reduzir a verdade à linguagem, às proposições
verbais, ao pensamento que pode ser escrito.” Aqui Daane contradiz tanto as Escrituras
e cai numa confusão sistemática. A Escritura diz, “as palavras que eu vos disse são
espírito e vida” (João 6:63). Este verso é ainda mais conclusivo porque a palavra de
João ou de Jesus para palavras é rhema, não logos. Este último poderia ter sido
interpretado em algum sentido metafísico, tal como se encontra em Filo ou Heráclito;
enquanto que rhema carrega a conotação mais literal de palavras, exemplificada por
dois, gato, ou estrela - isto é, como sons no ar ou manchas de tinta no papel. Não que
Jesus realmente quisesse dizer manchas de tinta no papel, mas que a insistência de
Daane no literalismo é mais embaraçada pela rhema do que seria pelo logos.
Obviamente, Henry e Clark não “reduzem” a verdade à linguagem, especialmente aos
sons do ar e às manchas de tinta no papel. (Veja a citação de Clark de Abraham
Kuyper em Language and Theology.) Antes das verdades ou pensamentos poderem ser
“escritos”, isto é, simbolizados no papel, os pensamentos devem ser pensados.
Palavras literais diferentes podem expressar o mesmo pensamento. Por exemplo, “Das
Mädchen ist schön”, “La jeune fille est belle”, e “Essa moça é bonita”, são três frases
diferentes com todas as palavras diferentes, mas são as mesmas, únicas, proposições
idênticas. O argumento de Daane parece ser baseado na desatenção à distinção entre
pensamentos e seus substitutos simbólicos.

A Bíblia

Com este mal-entendido da posição Henry-Clark, Daane pode dizer,

A visão de Henry... reduz a forma suprema, final e pessoal da Palavra de Deus, ou


seja, Jesus Cristo, no mesmo nível da Bíblia. Tal Bíblia não é uma testemunha do fato
de que Jesus Cristo é o derradeiro e a forma final da Palavra de Deus para o homem,
mas é em si mesma a forma final e a verdadeira natureza da Palavra de Deus. Tal visão
da Bíblia é a fonte da insistência de que a Bíblia original deve ser absolutamente
inerrante. Se a Bíblia como proposicional é uma forma mais elevada de verdade do
que Jesus, então a impecabilidade de Jesus é menos importante do que a inerrância da
Bíblia. (28)

Este parágrafo importante suscita quatro observações. Primeiro, o argumento de Daane


depende e parece ser iniciado por uma negação da inerrância Bíblica. Em segundo

181
lugar, ele contém uma ou duas confusões infelizes. Terceiro, uma de suas inferências é
uma falácia lógica. Em quarto lugar, Daane, em nenhum lugar explica a chamada
forma pessoal de verdade que ele opõe à visão de Henry Clark.

Primeiro, como os Afirmacionistas Auburn de 1924, os professores do Seminário


Fuller Jack Rogers e David Hubbard - com a cooperação de Paul Rees e Berkeley
Mickelsen do Seminário de Bethel da Visão Mundial no livro deles Biblical Authority,
e Dewey Beegle do Seminário de Wesley em Scripture, Tradition, and Infallibility,
adicionando Jack Rogers novamente em uma crítica a Carl Henry - e agora James
Daane anteriormente ao Seminário Fuller, atacaram vigorosamente a veracidade da
Bíblia. Este esforço cooperativo atual - para os vários colaboradores da Autoridade
Bíblica estavam certamente cooperarando, mesmo se Beegle e Daane agissem de
forma independente - é digno de nota porque nada parecido ocorreu desde a Afirmação
Auburn. Naqueles dias J. Gresham Machen encontrou poucos para apoiá-lo em sua
defesa das Escrituras, do nascimento virginal, dos milagres, da expiação e da
ressurreição. Hoje, em defesa da veracidade da Bíblia, existem cerca de mil membros
da Sociedade Evangélica Teológica, uma comissão recentemente formada em que
James Boice da Filadélfia é proeminente, e alguns autores individuais como Carl
Henry e Harold Lindsell. Ao avaliar o artigo de Daane sobre What is Truth? É preciso
manter esta cena maior à vista.

Segundo, há alguma falta de clareza quando Daane fala de diferentes formas e níveis
de verdade. Pelo menos cinco vezes na página 28 ele usa o termo “forma”. Estas cinco
instâncias podem diferir ligeiramente em suas conotações, mas em duas a frase é “uma
forma mais elevada de verdade”, e em uma “forma menor de verdade”. Visto que a
verdade proposicional tem a forma de sujeito-copula-predicado, que Daane considera a
menor, a sua forma superior deve ser desprovida de sujeitos, cópulas e predicados. A
dificuldade com uma verdade que não tem sujeito torna-se uma grande consideração
no ponto cinco abaixo. Se Daane tivesse dito, uma verdade maior e uma verdade
menor, em vez de uma verdade maior e menor, e se por estas frases ele quisesse dizer
que uma verdade pode ser logicamente subordinada a outra verdade, e o décimo
teorema de Euclides é subordinado à seu quinto e aos seus axiomas, não haveria
confusão. Não importa como um teorema subordinado pode ser para outro, eles não só

182
têm a mesma forma, mas também são igualmente verdadeiros. Daí que quando Daane
acusa Henry de insinuar que “a Bíblia como proposicional é uma forma mais elevada
de verdade do que Jesus”, um leitor tropeça na confusão, pois Daane nunca explica o
que é esta forma estranha.

Em terceiro lugar, esta confusão, não inesperadamente, leva Daane a uma inferência
falaciosa. Se a Bíblia é uma forma mais elevada de verdade, ele de fato diz, então a
pecaminosidade de Jesus é menos importante que a inerrância. Como Daane obtém de
sua premissa, sua conclusão não é de modo algum evidente. Nem o significado da sua
palavra é “Importante”. Se uma afirmação é mais importante do que outra, depende da
sua aplicação específica. Um princípio de engenharia é mais importante para um
problema de engenharia do que um princípio de química orgânica, mas este último
pode ser mais importante para a investigação do câncer. Em todo o caso, o único
método pelo qual poderíamos aprender que Jesus era sem pecado é o método da
revelação Bíblica. Nem Josefo, nem Tácito, nem alguma “verdade pessoal” nos diz
que Jesus estava sem pecado. E se a Bíblia contém erros aqui e ali, como aqueles que
negam a inerrância não podemos confiar nas afirmações da Bíblia sobre a ausência de
pecado em Jesus, pois estes podem ser alguns dos seus erros. Se aqueles que rejeitam a
inerrância afirmam que esses versículos não são erros, perguntamos, como é que
sabem? Por qual critério epistemológico distinguem entre as verdades da Bíblia e os
erros da Bíblia? Pois se a Bíblia faz afirmações falsas, deve haver um critério
independente e superior a a Bíblia pelo qual suas afirmações devem ser julgadas.
Desafiamos nossos oponentes a afirmarem o seu critério epistemológico. A menos que
conheçamos seu método primeiro, não podemos aceitar a sua teologia.

Os quatro pontos indicados acima estão intimamente relacionados. Os pontos dois e


três, confusões e falácias, estão juntos exemplificados no topo da segunda coluna,
página 28: “Este reducionismo é a consequência de um método teológico que primeiro
decide a natureza do nosso conhecimento de Deus e então decide que Deus deve ser de
tal natureza para que seja conhecido por nós.” A idéia aqui, uma confusão e uma
inferência inválida condensada no termo “reducionismo”, parece ser que o método de
Clark-Henry requer que se determine primeiro, à parte de qualquer revelação, a
natureza do conhecimento, e depois, novamente à parte da revelação, concluir que a

183
natureza de Deus deve conformar-se com ela. De modo algum; a realidade é
completamente diferente. Uma das críticas frequentes contra Clark, mesmo por aqueles
que aceitam a inerrância, é que ele restringe o escopo do conhecimento, limitando-o ao
que “ou é expressamente estabelecido nas Escrituras, ou por boa e necessária
dedução, pode ser deduzido das Escrituras” (Confissão de Westminster, I.vi). Será que
Daane deixou de notar esta tese bastante proeminente? De qualquer forma, quando um
homem começa a ler a Bíblia, ele descobre que ela contém muitas proposições -
proposições sobre estrelas, sobre Abraão, a lei levítica, a conquista de Canaã. Mas ele
não pode ir longe, sem aprender algo sobre Deus e o homem. Ele aprende que Deus é
um espírito racional, um Deus de verdade, em quem estão todos os tesouros da
sabedoria e do conhecimento. Ele aprende que o homem - em contraste com os
animais - é uma criatura racional, que esse homem pecou e que Deus providenciou um
método de expiação.

Mas voltar ao assunto principal: O que se aprende primeiro da Bíblia e o que ele
aprende em segundo e terceiro, variam de homem para homem. Uma pessoa começa
com Gênesis; outra começa com Mateus. Da mesma forma, um homem pode aprender
várias proposições sobre Deus sem refletir sobre o método pelo qual ele aprendeu tais
proposições. Músicos e pintores geralmente produzem boas obras de arte antes de
compreenderem a teoria. Daí que na psicologia temporal, um conhecimento de Deus
precede um conhecimento do método. Mas para explicar este processo, um apologista
deve começar com a metodologia. Pois enquanto o leitor irrefletido pode não ter
consciência da metodologia - ele pode não perceber como ele faz o que faz - ele no
entanto, usa o método. E para Clark e Henry o método é Bíblico.

Suponha que uma pessoa reflexiva e inteligente comece com Mateus. Ela vem através
das palavras genealogia, Abraão, gerou, catorze, e assim por diante. Ela então percebe
que cada frase, na verdade, cada palavra na Bíblia, depende da lei lógica da
contradição em virtude da sua inteligibilidade. Sem esta lei, cada palavra teria um
número infinito de significados: Davi não significaria apenas Moisés e Judas,
significaria também funda, pedra, átomo e datilografar. E Deus significaria diabo. Fora
da lógica, um substantivo significaria o que não significa; e se uma palavra significa
tudo, não significa nada. Para significar algo, uma palavra também não deve significar

184
algo. Não há significado sem a lei da contradição. Assim, ao adquirir o conhecimento
de que Deus é cognoscível, a criatura racional de Deus - até onde possa escapar dos
mal-entendidos e falácias dos efeitos noeticos do pecado - deve usar as leis da lógica.
Dr. Daane deve tentar responder à pergunta: Como podemos saber que Deus é
cognoscível, ou que ele é omnisciente, sem usar as leis racionais da lógica? Se não
usássemos (primeiro) as leis da lógica, como poderíamos saber alguma coisa sobre
Deus? E primeiro é palavra errada, pois conhecer a Deus e usar a lógica são o mesmo
ato idêntico.

Chegamos agora ao ponto quatro, onde a ininteligibilidade da crítica de Daane é mais


evidente. Daane utiliza uma espécie de teoria da verdade dupla. Não é precisamente a
teoria medieval desse nome, mas antes de Kierkegaard, Buber, Brunner, os Neo-
ortodoxos e existencialistas. Mas Daane não nos dá muita teoria: Ele está satisfeito em
afirmar uma grande diferença entre a verdade proposicional e a verdade pessoal. Há
dois pontos que devem ser focados: Primeiro, a verdade pessoal é ininteligível; e,
segundo, Daane parece não ter nenhuma idéia clara do que é uma pessoa.

Primeiro, pode-se fàcilmente indicar e explicar a forma da verdade proposicional.


Como dito acima, consiste num sujeito ligado por uma cópula à um predicado. Por um
método claro definido, podemos organizar proposições em sistemas válidos e
facilmente distingui-las de silogismos inválidos. Mas qual é a forma da verdade
pessoal? Existem universais e particulares? Existem inferências válidas e inválidas?
Presumivelmente não, pois ninguém jamais derivou vinte e quatro silogismos pessoais
válidos nem 232 inválidos. A verdade pessoal não pode ter sujeitos, predicados, ou
cópulas. O que é então? Como é que se distingue entre uma verdade pessoal e uma
falsidade pessoal? Quando com Brunner se diz que Deus e o meio de conceitualidade
são mutuamente excludentes, a pessoa torna Deus completamente incognoscível. Se
falamos de Deus, não estamos falando de Deus. Isto não é o que a Bíblia inerrante
ensina.

Então, em segundo lugar, subjacente ao acima exposto, está um conceito deficiente ou


completamente inexistente de uma pessoa. Para Platão uma pessoa humana era uma
alma que conhecia as idéias. O mundo das idéias era em si mesmo uma mente viva,
185
como explicou no O Sofista. Para Aristóteles, a alma era a forma do corpo orgânico, e
sua individualidade dependia da sua matéria incognoscível. Locke fez da alma uma
idéia abstrata, uma substância espiritual, também incognoscível; ele chamou-lhe “algo
que eu não sei o quê”. Hume “reduziu” a pessoa a uma coleção de sensações e imagens
de memória - uma coleção que, de acordo com Kant, nunca tinha sido coletada. Por
isso, Kant substituiu a sua unidade transcendental de percepção - também
incognoscível. Qual deles Daane prefere? Ou será que ele tem uma teoria diferente?
Receio que isto seja incognoscível também.

Em 1 Coríntios 2:16 Paulo diz “nós temos a mente de Cristo”. A palavra mente é nous.
Como é possível que tenhamos o nous de Cristo, a menos que sua mente seja a
verdade? Temos a mente de Cristo na medida em que pensamos os seus pensamentos.
Claro que não somos oniscientes; não pensamos todos os seus pensamentos; e pior,
pensamos algumas falsas proposições também. Nós somos o que pensamos, assim
como Cristo é o que ele pensa. Sua doutrina ou ensino nos salva da morte eterna (João
8:51). Ele é a verdade! Não é isso que a Escritura ensina? Cristo é o Logos, seus
rhemas são a verdade; ele é a Sabedoria de Deus; e 1 Samuel 2:3 diz: “O Senhor é o
Deus do conhecimento.” A teoria de Daane parece implicar que estas proposições são
alguns dos erros em nossa Bíblia não confiável. Henry e eu acreditamos que a Bíblia é
confiável.32

32
Embora Henry e eu estejamos em grande acordo, não tenciono vinculá-lo... a qualquer um dos
materiais acima, além do que ele declarou explicitamente em suas publicações.

186
A FÉ REFORMADA E A CONFISSÃO DE WESTMINSTER

A convite do Jornal Presbiteriano do Sul, tenho o privilégio de me dirigir a esta


distinta e consagrada audiência sobre o tema “A Fé Reformada e a Confissão de
Westminster.” Este título não deve ser interpretado como a introdução de uma
exposição dos trinta e três capítulos da Confissão com os seus vários artigos. Nem
anuncia um relato histórico da Assembleia Westminster e o papel posterior do seu
grande credo. Pelo contrário, proponho-me falar do significado da Confissão de
Westminster como um documento existente, um documento que os ministros e as
igrejas subscrevem como definindo a sua política e declarando a sua razão de ser, um
documento que distingue o Cristianismo Bíblico de todas as outras formas de
pensamento e crença. Além disso, espero indicar, muito brevemente, o seu significado
com referência a circunstâncias contemporâneas. Para este propósito, parece melhor
dividir o documento em duas partes, Capítulo I e todo o resto.

O Capítulo I da Confissão de Westminster afirma que as Escrituras do Antigo e Novo


Testamento são a Palavra de Deus escrita. Seus sessenta e seis livros são todos dados
pela inspiração de Deus. A autoridade pela qual a Sagrada Escritura deve ser crida e
obedecida depende inteiramente de Deus, o seu autor. Nestes livros Todo o conselho
de Deus concernente a todas as cousas necessárias para a salvação do homem é
expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela.
Portanto, conclui o Capítulo I, O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias
religiosas têm de ser determinadas e por quem serão examinados, em cuja sentença nos
devemos firmar não pode ser outro senão o Espírito Santo, falando na Escritura.

Um dia eu estava ao lado de um pequeno lago nas Montanhas Rochosas de Wyoming.


A água escorria do lago de ambas extremidades. A água que corria por uma
extremidade descia até os cânions sufocantes e desertos sufocantes de Utah e Arizona;
a água que escorria do outro lado deste lago atravessava os campos férteis do Centro-
Oeste. Eu estava de pé sobre a grande divisão continental.

187
Metaforicamente, o primeiro capítulo da Confissão de Westminster é uma divisão
continental. Embora a Palavra de Deus escrita tenha sido a pedra de toque da doutrina
pura em todas as épocas, o século XX mostra ainda mais claramente que este capítulo
forma a grande divisão entre dois tipos de religião, ou para torná-lo de uma aplicação
mais ampla, entre dois tipos de filosofia. Talvez seja mais claro dizer que a aceitação
da Bíblia como a revelação escrita de Deus separa o verdadeiro Cristianismo de todos
os outros tipos de pensamento. Para ser específico e para enfrentarmos as nossas
responsabilidades imediatas, selecionemos duas escolas de filosofia contemporânea,
cada uma das quais, à sua maneira, contrasta nitidamente com o primeiro capítulo da
nossa Confissão.

Ateísmo

O primeiro destes dois - e o movimento mais obviamente anti-Cristão - é chamado de


naturalismo, secularismo ou humanismo. Estes nomes são simplesmente títulos mais
elogiosos para o que antes se chamava diretamente de ateísmo. O propósito desta
reunião pode não parecer exigir uma discussão sobre o ateísmo; com a sua negação de
Deus e, portanto, da revelação, o naturalismo pode parecer ser um desenvolvimento
filosófico que a igreja pode se dar ao luxo de ignorar. Mas uma igreja que ignora o
humanismo secular está simplesmente fechando os olhos para a situação ao redor e
falhando em manter o primeiro capítulo da Confissão contra todos os adversários.
Infelizmente, a brevidade é necessária, e, portanto, sem qualquer referência ao
Comunismo, a forma mais flagrante de ateísmo, será mencionada apenas em certos
eventos políticos e educacionais no cenário americano.

Na vida civil e pública recente, desenvolveu-se uma oposição à prática do


Cristianismo. De acordo com relatórios da Associação Nacional de Evangélicos, uma
agência de adoção carimbou “Psicologicamente inapto” nos documentos de
candidatura de um ministro esperto e sua esposa. Um capelão da Marinha fala de
tentativas, tentativas bem sucedidas, de liberar homens Cristãos ativos como
psicóticos. Em outro campo público, a cidade de Indianápolis recusa o uso de seus
parques para grupos Cristãos, se tiverem a intenção de pedir uma bênção na hora da
refeição ou cantar um hino. Outros grupos podem manter seus programas, mas os
188
grupos Cristãos são discriminados. Então, novamente, o programa de tempo liberado
para a instrução religiosa é o objecto do ataque. A estratégia do humanista é ocupar o
tempo e a atenção das crianças de tal forma que elas não tenham oportunidade de ouvir
o Evangelho. As escolas públicas com obrigatoriedade devem ser usadas para a
inculcação do secularismo. E aqueles que se opõem ao secularismo e que querem dar
aos seus filhos a instrução Cristã, são marcados como anti-sociais, antidemocráticos e
divisivos. Tais eventos são palhinhas que mostram como os humanistas usam as
agências governamentais para reduzirem a liberdade religiosa.

Por trás desses acontecimentos particulares, está a filosofia naturalista que é ensinada -
quero dizer, ela é inculcada - em várias faculdades e universidades Americanas. Que
não se pense que os professores são uniformemente objetivos e indiferentes, ensinando
todos os pontos de vista da mesma forma. O secularismo é ativamente imposto aos
estudantes. Por exemplo, considere o depoimento de Millard S. Everett, um professor
em Roosevelt College, Chicago, citado em Philosophy in the Classroom, página 27,
por J. H. Melzer:

Nosso curso é construído e conduzido de acordo com linhas liberais. Além disso, nós
não confundimos liberalismo com indiferentismo ou neutralidade no que diz respeito à
questões básicas, mas organizamos o curso definitivamente com o propósito de
aumentar a aceitação do aluno da atitude científica, da moralidade liberal e secular e
da meta democrática da liberdade e igualdade. Nós... não deixamos nenhuma dúvida
na mente do estudante ao final do prazo em que estamos com as forças da democracia,
da ciência e da cultura moderna.

Com essa adoção do secularismo em preto e branco, é mais fácil dar credibilidade ao
rumor de que existem duas universidades que não irão conscientemente formar um
estudante que seja um fundamentalista.

Do nosso ponto de vista Cristão benevolente, estes humanistas não parecem ter muita
compreensão das leis da lógica. Eles tomam o princípio da separação da Igreja e do
Estado e consideram repreensível o uso das instalações das escolas públicas para
educação no tempo liberado. A União Americana das Liberdades Civis vai a tribunal

189
contra o tempo libertado, mas nunca ouvi falar da sua oposição ao uso de dinheiro dos
impostos para a instrução anti-Cristã. Eles nunca processaram uma universidade por
ensinar o secularismo. Eles defenderão os comunistas; eles defenderão os editores de
quadrinhos obscenos; mas quando é que alguma vez defenderam a liberdade religiosa
ou protestaram contra a inculcação do humanismo em instituições apoiadas por
impostos? A coerência não parece ser uma das suas virtudes.

A oposição Cristã em relação ao humanismo tem sido normalmente ineficaz do ponto


de vista político, e tem sido muitas vezes inútil filosoficamente. Ao atacar um
materialista ou cosmovisão mecanicista, os Cristãos têm às vezes pontificado que
ninguém pode acreditar que o universo é o resultado do acaso. Infelizmente isso não é
verdade. Há muitas pessoas que acreditam nisso; e até que os pensadores Cristãos
enfrentem a realidade da situação, não se pode esperar uma melhoria razoável.

Nem todos os ministros, nem todas as igrejas, têm uma ocasião proveitosa para
combater as fontes do humanismo. Somente em casos excepcionais é que um ministro
pode enfrentar os professores e autores naturalistas. Raramente um ministro pode
responder estes homens por escrito. Há algumas igrejas, situadas em cidades
universitárias, que têm oportunidades de trabalhar com estudantes. É de esperar que
elas também tenham o equipamento para serem eficazes. Cada um de nós deve
examinar sua própria situação para ver quais são as suas possibilidades. Infelizmente, a
miopia ou o egoísmo as vezes produz uma tragédia. Havia uma igreja em uma cidade
universitária cujo ministro queria trabalhar com os estudantes. Havia também um
grupo de estudantes disposto a ajudá-lo. A situação era ideal - mas por um lado: a
congregação não podia ver a universidade como um campo missionário, queixou-se de
que o seu ministro negligenciava-os e forçou a sua demissão.

Toda a honra para as congregações e pastores que levam a sério esta parte das suas
responsabilidades. E toda a honra para as poucas faculdades que são Cristãs, não
apenas em nome, mas na instrução real. E toda a honra para aqueles que estão
fundando Escolas primárias Cristãs onde Deus não é ignorado ou tratado como
insignificante ou inexistente. A oportunidade e responsabilidade de estabelecer escolas
primárias Cristãs é uma que eu gostaria de exortar a vocês, mas o tempo e o meu
190
assunto proíbem.

Neo-Ortodoxia

No início deste artigo, afirmei que o primeiro capítulo da Confissão sobre a revelação
divina, é a grande divisão entre dois tipos de pensamento. Num lado desta divisão está
o naturalismo, o secularismo ou o humanismo. Mas ele não está sozinho. Também no
mesmo lado da grande divisão está outro sistema de pensamento. Este sistema afirma
vigorosamente a existência de Deus - pelo menos algum tipo de deus - e chega ao
ponto de falar da revelação; mas o que ele diz sobre Deus e a revelação é tão oposto ao
primeiro capítulo da Confissão que o Cristianismo, longe de acolher o seu apoio, deve
considerá-lo como um inimigo mais sutil e enganoso. Refiro-me ao que é muitas vezes
chamado de Neo-ortodoxia.

O originador da Neo-ortodoxia foi o pensador Dinamarquês Søren Kierkegaard. Com


sua mente penetrante ele viu que o Absoluto Hegeliano não era o Deus de Abraão,
Isaque e Jacó. Com sua natureza apaixonada, ele se revoltou contra o formalismo
eclesiástico impassível de sua época. A igreja do estado Luterano estava morta. Alguns
poderiam descrever a situação como ortodoxia morta. Mas Ludwig Feuerbach,
contemporâneo de Kierkegaard, diagnosticou a situação, não como ortodoxia morta,
mas como hipocrisia viva. As pessoas iam a igreja no domingo e falavam com os
lábios o que não acreditavam. Não eram ortodoxas, mas pagãs de coração. No entanto,
a forma vazia permaneceu. Contra esta doença mortal, Kierkegaard enfatizou a
apropriação apaixonada e a decisão pessoal. Com um sarcasmo mordaz, ele esfolou a
hipocrisia, contrastando os Cristãos desprezados do primeiro século com a farsa
respeitável da Europa do século XIX, apelou a mais emoção e menos intelecto, mais
sofrimento e menos complacência, mais subjetividade e menos objetividade.

Sem dúvida, Kierkegaard estava substancialmente correto ao ver a igreja como


excessivamente formal, excessivamente hegeliana, excessivamente pagã. E nenhuma
pessoa devota pode discutir com a necessidade de decisão e apropriação pessoal. Mas,
e este é o ponto importante, se uma pessoa é apropriada, deve haver algo a ser

191
apropriado. Kierkegaard e os seus seguidores de hoje, em todo o seu discurso sobre
Deus e revelação, oferecem-nos pouco ou nada a apropriar. O próprio Kierkegaard
disse: “Cristo não propôs qualquer doutrina; ele agiu. Ele não ensinou que há redenção
para os homens; ele redimiu-os.” Ora, é verdade que Cristo redimiu os seus eleitos; é
verdade que ele agiu; é até verdade que sua missão principal não era ensinar; mas não
é verdade que Cristo não propôs nenhuma doutrina. Kierkegaard escreveu um livro
chamado Qualquer um - Ou, e ele demasiadas vezes praticava tal princípio. Um
princípio melhor é Tanto-Como. Cristo agiu tanto como ensinou. Além disso, ele
especialmente comissionou seus discípulos para ensinarem, para ensinarem muitas
doutrinas encontradas em Romanos, Coríntios e no resto do Novo Testamento.

Visto que Kierkegaard não nos oferece nada para nos apropriarmos e coloca toda a sua
ênfase no sentimento subjectivo de apropriação, não faz diferença se adoramos a Deus
ou a ídolos. Em seu estilo literário envolvente, Kierkegaard descreve dois homens: Um
está em uma igreja Luterana e tem uma verdadeira concepção de Deus, mas porque ora
com um espírito falso, está na verdade orando à um ídolo. O outro homem está num
templo pagão orando aos ídolos, mas como ora com uma paixão infinita, ele está na
verdade orando à Deus. Mais uma vez Kierkegaard age sobre o princípio de Qualquer
um - Ou em vez de Tanto-Como. Tanto os Luteranos que oram com um espírito falso,
assim como os pagãos que oram aos ídolos estão desagradando a Deus. Só porque um
pagão tem experiências apaixonadas intensas, não se segue que ele esteja adorando o
Deus verdadeiro. Mas para Kierkegaard a verdade é encontrada no interior Como, não
ni exterior O quê. O que um homem adora não faz diferença. É a sua paixão que conta.
“Uma incerteza objectiva”, diz Kierkegaard,

em um processo de apropriação dos mais apaixonados, a interioridade é a verdade, a


verdade mais elevada que se pode alcançar por um indivíduo existente... Se apenas o
Como desta relação está na verdade, então o indivíduo está na verdade, mesmo que
esteja relacionado com a mentira.

Por mais peculiar que este tipo de filosofia possa ser, o Protestantismo contemporâneo
é largamente dominado por ele. Os ministros Neo-ortodoxos podem falar sobre Deus e
revelação, mas eles não têm em mente o Deus objetivo e a revelação objectiva da
Confissão de Westminster. Eles não acreditam que a Bíblia diz a verdade. Por

192
exemplo, Emil Brunner, que através de seus livros e através da sua posição única no
Seminário Teológico de Princeton tornou-se popular nos Estados Unidos, está tão
distante da Confissão que ele não concidera nem as palavras da Escritura, nem os
pensamentos da Escritura como sendo verdadeiros. Para citação: “Todas as palavras
têm apenas um significado instrumental. Não só as expressões linguísticas, mas
mesmo o conteúdo conceitual não é a coisa em si, mas apenas a sua estrutura, o seu
receptáculo e o seu meio.” Algumas páginas depois ele continua, “Deus pode... falar a
sua palavra a um homem mesmo através de falsas doutrinas.” Deus então revela-se em
falsidades e mentiras. Que revelação!

Este erro teológico deve ser explicado, em parte, como uma reação ao imanentismo de
Hegel, para quem Deus ou o Absoluto não é outra coisa senão a unidade do universo
total. Para Hegel, sem o mundo não poderia haver nenhum Deus. Kierkegaard,
Brunner, e seus discípulos querem um deus transcendente. Ou imanência, ou
transcendência, não Tanto-Como. Ao insistirem na transcendência de deus, eles são
capazes de se cobrir com a pseudo-piedade da sua paixão infinita e enganar muitos
Cristãos que sabem pouco sobre a teologia Alemã. Eles podem citar as Escrituras:
Claro que ela pode ser falsa, mas ainda é uma revelação. Por exemplo, ao exaltarem a
Deus acima de todas as limitações humanas, eles nos lembram que os pensamentos de
Deus não são os nossos pensamentos. Portanto, eles dizem, a mente divina está tão
acima das nossas mentes finitas, que não há um único ponto de coincidência entre o
seu conhecimento e o nosso. Quando um Calvinista tenta argumentar com eles
logicamente, contrastam depreciativamente a lógica humana com o paradoxo divino.
Deus é Totalmente Outro. Ele nunca é um objeto de nosso pensamento. Num encontro
eclesiástico ouvi um ministro dizendo que a mente humana não possui nenhuma
verdade. E no ano passado na Europa visitei um certo professor que afirmou que não
podemos ter nenhuma verdade absoluta. Quando ele disse isso, peguei num pedaço de
papel e escrevi sobre ele, não podemos ter nenhuma verdade absoluta. Eu mostrei a ele
a escrita, a sentença - não podemos ter nenhuma verdade absoluta - então eu perguntei:
“Essa sentença é verdade absoluta? Você não vê que se a mente humana não pode ter
nenhuma verdade, ela não poderia ter a verdade de que não há verdade? Se não
soubessemos nada, não poderíamos saber que não sabemos nada. E se não há ponto de
coincidência entre o conhecimento de Deus e o nosso, segue-se rigorosamente, visto

193
que Deus sabe tudo, que não sabemos absolutamente nada.

Com tal ceticismo, não é de surpreender que sua religião consista em uma interioridade
apaixonada que não se apropria de nada que seja objetivo. Infelizmente, o ceticismo,
particularmente quando discutido num tom tão acadêmico como este discurso, não
provoca uma reação tão apaixonada entre os evangélicos como deveria. Mas é preciso
perceber que mesmo o ceticismo mais gentil e inofensivo é suficiente para derrotar o
Evangelho. Para acelerar a dissolução do Cristianismo, não é necessário dizer que
sabemos que uma filosofia contrária é verdadeira; é igualmente eficaz dizer que não
sabemos que nada é verdade. O Evangelho é uma mensagem de conteúdo positivo, e se
ele é dogmaticamente negado ou simplesmente silenciado faz pouca diferença.

O que é mais lamentável é que o ceticismo da Neo-ortodoxia é especialmente


insidioso. Homens que adotam a posição de Kierkegaard e Brunner não só fazem uso
de termos como Deus e revelação, mas também falam de pecado e justificação. Alguns
deles podem até mesmo pregar um sermão toleravelmente bom sobre a imputação da
justiça. Isto engana os crentes de mente simples. Quando as pessoas ouvem palavras
familiares, elas naturalmente assumem que as idéias familiares são significativas. Elas
não vêem que os Neo-ortodoxos não consideram nem as palavras nem mesmo o
conteúdo intelectual como sendo a verdade.

Embora o sermão possa ser sobre Adão e a Queda, o ministro Neo-ortodoxo


compreende as palavras no sentido mitológico. Adão é o mito através do qual somos
estimulados à uma paixão infinita.

Embora seja de se esperar, é ainda desencorajador ver pessoas de mente boa enganadas
por este tipo de conversa. Na reunião do Conselho Mundial em Evanston, os teólogos
Europeus apoiaram a ideia de um regresso apocalíptico de Cristo. Em contraste com os
teólogos Americanos que colocam a sua esperança num governo socialista futuro, a
conversa de um apocalipse parecia refrescante; e os mal informados, aqueles que não
estudaram a história do pensamento Alemão no último século felicitavam-se pelos
sinais de um regresso ao pensamento Bíblico. Nessa imaginação vã, os evangélicos são

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completamente enganados. Eles precisam ser alertado para as artimanhas do diabo.

Mas se é lamentável ser enganado, o que se pode dizer sobre os enganadores? Desde
que Ário distorceu a linguagem Bíblica para evitar os argumentos esmagadores de
Atanásio, incrédulos na igreja têm usado a fraseologia Bíblica para disfarçar o seu
significado subjacente. Que contraste com a política dos divinos de Westminster! Eles
não pouparam esforços para deixar suas declarações claras, inequívocas e
completamente honestas. Seu propósito não era enganar ou ocultar mas explicar e
esclarecer. E com tanto cuidado eles definiram seus termos, que é quase impossível
para uma inteligência normal confundir o significado. Não apenas o conteúdo
intelectual foi claramente apresentado, mas foi tornado claro e inteligível por uma
cuidadosa atenção às palavras que escolheram.

Os Reformadores e seus sucessores no século seguinte foram honestos; muitos dos


líderes eclesiásticos do presente século não são. Eles tomam votos solenes de
ordenação, subscrevendo a Confissão de Westminster; mas eles não acreditam que é a
verdade. Perjuros no púlpito! Que tragédia para as pessoas nos bancos! E que tragédia
também para esses ministros!

O falecido J. Gresham Machen era um homem honesto e um estudioso brilhante. Em


1925, publicou um volume salutar intitulado What Is Faith? Embora ele não estivesse
particularmente preocupado com a Neo-ortodoxia naquela época, seu primeiro capítulo
é um ataque incisivo ao ceticismo e ao anti-intelectualismo. Ele enfatizou a verdade, a
verdade objetiva da Bíblia e a primazia do intelecto. Hoje, trinta anos depois mais
tarde, o livro deveria ser relido, pois a Neo-ortodoxia é ainda mais anti-intelectual do
que o antigo modernismo. E se o ceticismo prevalece, se não há verdade - nenhum
Evangelho que a mente humana possa compreender - podemos também adorar ídolos
em um templo pagão.

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Arminianismo e Calvinismo

Do outro lado da divisão continental, a água flui para o sentido oposto. Em vez dos
desertos sufocantes do Arizona, o Vale do Mississippi com o seu trigo e milho, entra
em cena. Aqui temos a vida e os frutos do solo. No entanto, nem todo o solo, nem
todos os rios ao leste da divisão são igualmente frutíferos. Se houvesse tempo hoje,
seria possível dar uma ampla descrição das duas correntes, entretanto, visto que é
assim, apenas uma indicação pode ser tentada. Há uma corrente que, aceitando a
Escritura como a única e infalível regra da fé e prática, não aceita todos os outros trinta
e dois capítulos da Confissão. Embora possa aceitar vários, e ser chamado amplamente
de evangélica, ela rejeita o capítulo três e outros capítulos que são definitivamente
Calvinistas. As águas desta corrente fluem na mesma direção geral, e regozijamo-nos
com o fato de que elas eventualmente alcançam o mesmo oceano celestial; mas fluem
através do solo pedregoso com vegetação esparsa, ou por vezes escorrem através de
pântanos onde a vegetação é densa o suficiente, mas insalubre e inútil. Esta corente no
seu curso rochoso, fala sobre fé e arrependimento sendo a causa ao invés do resultado
da regeneração; e afirma que seu “livre arbítrio” pantanoso pode bloquear ou tornar
eficaz o poder Todo-Poderoso de Deus. Tudo o que há tempo para dizer sobre esta
corrente de pensamento é que as suas inconsistências tornam-na uma presa fácil para
os ataques do humanismo. Ela não pode defender o princípio da revelação porque
entendeu mal o conteúdo da revelação.

Por outro lado, aquela corrente abençoada da salvação, que flui através da terra do alto
milho e gado robusto, deve ser identificada com as doutrinas dos grandes
Reformadores. Estes homens e seus discípulos no século seguinte estudaram e
escreveram o sistema de doutrina que os Presbiterianos e as igrejas Reformadas ainda
professam. A Confissão de Westminster não é um credo abreviado escrito por homens
de fé abreviada. Pelo contrário, é a abordagem mais próxima que os homens já fizeram
de uma declaração completa de todo o conselho de Deus que Paulo não deixou de
declarar. Os divinos de Westminster foram os melhores estudiosos Bíblicos do seu
tempo e como grupo não foram ultrapassados até então. Por um total de cinco anos ou
mais, eles trabalharam incessantemente para formular seu resumo do que a Bíblia
ensina. E foram tão bem sucedidos que o seu documento é justamente a base de muitas

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denominações. A existência fatual da Confissão de Westminster testifica que várias
dessas convicções de nossos antepassados espirituais, e três dessas convicções podem
servir de conclusão para esta conversa.

Primeiro, nossos antepassados estavam convencidos, a Confissão de Westminster


afirma, e a Bíblia ensina que Deus nos deu uma revelação escrita. Esta revelação é a
verdade. Como o próprio Cristo disse: “A tua palavra é a verdade.” Não é um mito,
não é uma alegoria, não é mero indicador da verdade, não é uma analogia da verdade,
mas é literalmente e absolutamente verdadeira.

Em segundo lugar, os nossos antepassados estavam convencidos e a Fé Reformada


afirma que esta verdade pode ser conhecida. Deus criou-nos à sua imagem com os
poderes intelectuais e lógicos de compreensão. Ele dirigiu aos homens uma revelação
inteligível; e espera que a leiam, compreendam o seu significado e acreditem nela.
Deus não é Totalmente Outro, nem a lógica é uma invenção humana que distorce as
declarações de Deus. Se assim fosse, como dizem os Neo-ortodoxos, então seguir-se-
ia, como os Neo-ortodoxos admitem, que a falsidade seria tão útil como a verdade na
produção de uma emoção apaixonada. Mas a Bíblia espera que nos apropriemos de
uma mensagem definitiva.

Terceiro, os Reformadores acreditavam que a revelação de Deus pode ser formulada


com precisão. Não estavam apaixonados pela ambiguidade; não identificaram a
piedade com uma mente confusa. Eles queriam proclamar a verdade com a maior
clareza possível. E assim devemos nós.

Atrevemo-nos a permitir que a nossa herança Bíblica se perca numa ecumenicidade


nebulosa onde foi reduzida à mais curta declaração doutrinária possível, na qual a paz
é preservada por uma ambiguidade abrangente? Ou devemos ponderar o fato de que
quando os Reformadores pregavam a mensagem Bíblica completa em todos os seus
detalhes e com a maior clareza possível, Deus concedeu ao mundo o seu maior
despertamento espiritual desde os dias dos apóstolos? Não podemos esperar da mesma
forma bênçãos surpreendentes se voltarmos com entusiasmo à todas as doutrinas da

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Confissão de Westminster?

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