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14-08460 ___________ '_________________________________ CDD^284. CALVINO Categoria: Biografia / Igreja / Teologia Copyright © 2014. M G T e le fo n e : 31 3 6 1 1 -8 5 0 0 Fax: 31 3 8 9 1 -1 5 5 7 www. alem de outros fontes de origem controlada. ISBN 978-85-7779-113-2 1. 2014. M G : Editora Ultimato. Lenz César. João.ultim ato. Calvinismo 2. Lenz Sou eu. Reforma I. . Bastos Diagram ação: Bruno Menezes Capa: Rick Szuecs D ados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câm ara Brasileira do Livro. Elben M. Calvino / Elben M. Calvinismo : Teologia: Cristianismo 284.SOU EU. Lenz César Primeira edição: Setembro de 2014 Coordenação editorial: Bernadete Ribeiro Revisão: Natália Superbi Délnia M . — Viçosa. C. Elben M.2 índices para catálogo sistemático: 1.br A marca FSC 6 a garantia de que a madeira utilizada na fabricação do papel deste livro provém de florestas que foram gerenciadas dc maneira ambientalmentc correta. Título. Calvino. Protestantismo 4.com. 1509-1564 3.2 PUBLICADO NO BRASIL COM AUTORIZAÇÃO E COM TODOS OS DIREITOS RESERVADOS E D IT O R A U L T IM A T O L T D A C a ixa P o s ta l 4 3 3 6 5 7 0 -0 0 0 V iç o s a . socialmente justa e economicamente viável. Brasil) César. SP.

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mas àquele que era mestre de CaCvino. Kjirí(Bartíi (1886-1968) . os dois primeiros ôisnetos meus e de Ejanira. peCa influência do Espírito Santo e na hora certa. o soía gratia e o soíafi. * st st O verdadeiro discípulo de CaCvino só tem um caminho a seguir não obedecer ao próprio CaCvino. ahracem os “três somentes” da (Reforma: o soía Scriptura.j i Judâ e Jlna. com o desejo de que.de.

0 voo que não se realizou 39 5 . O francês Jacques Lefèvre redescobre o sola gratia antes de Lutero 105 . O livro transformado em catecismo 33 4. O doutor que não tinha mais fé do que um porco 59 8. Dependendo do espelho o ser humano se vê feio demais 73 10. O absolutamente santo e o absolutamente pecador 85 11. Luxo.SUMARIO Prólogo 9 Prefácio 13 Apresentação 15 1. A Europa pega fogo mais peia palavra escrita do que pela palavra falada 91 12. extravagância e consumismo 51 7. capítulo por capítulo. A igreja de Genebra 45 6. Genebra: luz após trevas 25 3 . A eleição requer evangelização 97 13. verso por verso 65 9 . A súbita conversão de um licenciado em leis 19 2 . Livro por iivro.

Cidades da França e da Suíça onde Calvino viveu 165 Cronologia de Calvino e eventos paralelos 166 Bibliografia 169 índice onomástico 173 . A igreja de Genebra na França Antártica 111 15. O nobilíssimo e cristianíssimo protetor da Inglaterra e Irlanda 127 1 7 .0 Diabo vira tudo de cabeça para baixo 133 18.14. 0 humanismo e a peste negra 121 16. O cristão não deve correr da fogueira nem correr para a fogueira 141 Última página 147 ANEXOS De pai para filho 151 0 que se diz de Calvino 157 0 que se diz de A s Institutas 161 Genebra no mapa 163 .

Tendo assim recebido alguma experiência e conhecimento da verdadeira piedade. embora não tivesse abandonado totalmente os outros estudos. ao ponderar que a profissão jurídica comumente promovia aqueles que saíam em busca de riquezas. Mas Deus. porém. essa visão o induziu a subitamente mudar seu propósito. . CALVINO! Q U A N D O EU ERA BEM PEQ U ENO . por um ato súbito de conversão. me ocupei deles com menos ardor. pela secreta orientação de sua providência. Mais tarde. A essa atividade me diligenciei a aplicar-me com toda fidelidade. imediatamente me senti inflamado de um desejo tão intenso de progredir nesse novo caminho que.PRÓLOGO SOU EU. subjugou e trouxe minha mente a uma disposição suscetível. em obediência ao meu pai. E assim aconteceu de eu ser afastado dos estudos de filosofia e encaminhado aos estudos de jurisprudência. meu pai me destinou aos estudos de teologia.

exceto os anabatistas e pessoas seciiciosas. por seus perversos desvarios e falsas opiniões. Mas qual! Enquanto me escondia em Basiléia. a buscar algum canto isolado onde pudesse furtar-me da opinião pública. de fato me refugiei na Alemanha. tendo alcançado as nações distantes. antes de haver-se esvaído um ano. me transformasse em atenção pública. passei. pareceu-me que. incitavam a mais forte desaprovação entre uma boa parte dos alemães. A fim de conter tal indignação. usando o máximo de minha habilidade. antes de tudo. Meu objetivo era. estavam transtornando não só a religião. conhecido apenas de umas poucas pessoas. mas ainda toda a ordem civil. fizeram-se circular certos panfletos ímpios e mentirosos. Deus me guiava através de crises e mudanças.CALVINO Fiquei totalmente aturdido ao descobrir que. declarando que ninguém era tratado com tal cruel­ dade. embora eu mesmo não passasse ainda de mero neófito e principiante. enquanto meu único e grande obje­ tivo era viver em reclusão. o qual me fora sempre negado. Possuidor de uma disposição um tanto rude e tímida. todos quantos nutriam algum desejo por uma doutrina mais pura vinham constantemente a mim com o intuito de aprender. Essa foi a consideração que me induziu a publicar minhas lnstitutas da Religião Cristã (1536). Deixando meu país natal.10 • SOU EU. cuja indignação acendeu-se contra os autores de tal tirania. provar que tais notícias eram falsas e caluniosas. a despeito de minha natural disposição. a França. então. Em suma. meu silêncio não poderia ser justificado ante a acusação de covardia e traição. E a notícia dessas mortes em fogueira. muitos fiéis e santos eram queimados na França. com o expresso propósito de poder ali desfrutar em algum canto obscuro o repouso que eu havia sempre desejado. sem ser conhecido. e assim . de modo a jamais me permitir descansar em lugar algum. a menos que eu lhes fizesse oposição. que. Frente a tudo isso. até que.

Embora o que tenho feito não corresponda aos meus desejos. Ao serem publicadas. na verdacie. JOÃO CALV1NO • GENEBRA. não passavam de um pequeno tratado contendo o sumário das primeiras verdades da religião cristã. a menos que eles. Quando alguém ler os meus escritos. verá claramente que não busquei ser agradável. 22 DE JULHO DE 1557 (P a la v r a s d e jo à o C a l v in o D O LIVRO D O S SALMOS. Como essas mesmas crueldades poderíam muito em breve ser praticadas contra muitas pessoas infelizes e indefesas. As Institutas não eram essa obra ampla e bem trabalhada de agora. r e t ir a d a s d e su a d e d ic a t ó r ia d o C O M E N T Á R IO . cuja morte era preciosa aos olhos do Senhor. ao mesmo tempo. Tenho labutado fielmente para abrir o tesouro das Sagradas Escrituras a todo o povo de Deus.) . a tentativa que empreendí merece ser recebida com certa medida de simpatia. eu alimentava a esperança de sensibilizar nações estrangeiras para que elas tivessem um mínimo de compaixão e solicitude pelas próximas vítimas.PRÓLOGO • defender meus irmãos. sejam pro­ veitosos a outrem.

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Lenz César. a complexidade e am plitude de seu pensam ento e o grande contingente de escritores que têm discorrido sobre ele. Digo isto porque. Calvino. as informações recebidas foram tantas. num a época de poucos recursos tecnológicos. teológico. mais me sinto perplexo ante o fato de que ele viveu tão pouco e exerceu. parece que nunca chega. lido e traduzido sobre Calvino me faz sentir como um nadador em alto-mar-.PREFÁCIO É MUITO DIFÍCIL escrever sobre joão Calvino. Tudo o que tenho escrito. pedagógico e. ao ler os originais de Sou Eu. Q uanto mais vivo com ele. mais distante se sente da praia. social. Pelo menos por três motivos: o grande volume de obras que ele produziu. um imenso m inistério literário. de Elben M. particularm ente. quanto mais nada. administrativo. Tenho tido um a vasta experiência proveniente da longa vivência com este misterioso personagem. e com tanta .

parece que as mentes cristãs do uni­ verso literário voltaram-se para João Calvino. 10 DE JUNHO DE 2014 . certamente desistiría da façanha depois de acompanhar o autor deste livro em sua tão minuciosa e bela apresentação do grande reformador genebrino na forma de diálogo. estas páginas que certamente irão fasciná-lo. dando graças ao Senhor da Igreja pela vida e ministério de Elben César. Já li quase tudo o que foi escrito sobre ele no vernáculo. Nestes últimos anos.14 • SOU EU. que era como se eu nunca houvesse lido nada sobre o que João Calvino escreveu. Que o leitor tire a limpo pessoalmente. mas sinceramente dou boas-vindas ao livro que ora prefacio. Se eu estivesse me programando escrever um livro sobre ele. Poucos livros foram escritos sobre ele até a última década do século passado. CALVINO exatidão. Eis um livro digno de ser lido e relido por todos! VALTERGRAC1ANO MARTINS GOIÂNIA. lendo com reflexão e oração.

No século seguinte. em Genebra. ensinar-nos a maneira do bom viver e do bom morrer”. escritor francês que lançou as bases das ciências sociais e econômicas. . Alguns chegam perto do exagero. no mesmo instante o sol se pôs e o maior luzeiro que houve neste mundo para a direção da igreja foi recebido no céu. em nosso tempo. Theodoro de Beza (1519-1605). escreve: “No dia da morte de Calvino.APRESENTAÇÃO UMA IGREJA REFORMADA TEM DE SER CONSTANTEMENTE REFORMADA O FR A N C Ê S JO Ã O C A LV IN O merece mais uma biografia. Montesquieu (1689-1755). E podemos afirmar com acerto que em um só homem aprouve a Deus. afirma que “os genebrinos deveríam tornar bendito o dia em que Calvino nasceu”.até hoje.meados do século 16 . Ele tem sido apreciado por muitos desde o seu tempo . seu substituto no púlpito da Catedral Saint Pierre. É um reconhecimento atrás do outro.

As Institutas são um livro que fornece não apenas o melhor compêndio de teologia cristã jamais escrito. diz que Calvino “provou ser uma figura de extrema influência na história da Europa. de Tomás de Aquino. influência e qua­ lidade. talvez. cientista da religião.Luz para o Caminho e Editora Cultura Cristã -. de Karl Barth. declara que Calvino saiu vitorioso “sim­ plesmente por ser o maior cristão de seu século”. professor da Universidade de Oxford. confidencia: “Eu poderia. No século 20. Além das três traduções de As Institutos em português publicadas por editoras evangélicas . Spurgeon (1834-1892) chega a dizer que Calvino “era. de longe. seu maior legado. “em importância. temos uma quar­ ta. à medida que a civilização ocidental começou a assumir sua forma característica”. Karl Barth (1886-1968). a todas es­ sas obras a obra-prima de Calvino supera. E agora. Elas poderiam ser comparadas. o também francês EmestRenan (1823-1892). segundo Daniel-Rops. assentar-me e passar o restante de minha vida somente com Calvino”. CALVINO No século 19. Entretanto. ilustre teólogo suíço que morreu quatrocentos anos depois de Calvino. mas também a base de uma cosmovisão . o maior dos reformadores no que diz respeito aos talentos que possuía. feliz e proveitosamente. no início do século 21. de Agostinho. mudando a perspectiva de indivíduos e instituições. lançada em 2007 pela Editora Unesp.16 • SOU EU. o livro mais lido durante o século 16. O que tem tornado Calvino uma pessoa respeitada nestes 450 anos entre a sua morte (1564) e os dias de hoje são As Institutos. à influência que exercia e ao serviço que prestou para o estabelecimento e difusão da importante verdade!”. ou à Surraria. Alister McGrath. E o famoso pregador inglês Charles H. As Institutos não possuem rival na história da teologia. Segundo o professor Ricardo Quadros Gouvêa. no início da era mo­ derna. à Cidade de Deus. possivelmente à Dogmática Eclesiástica.

sem usar aspas nem citar os nomes dos autores. seus companheiros e admiradores mais próximos.APRESENTAÇÃO • 17 cristã cuja abrangência e consistência são sem igual na história da fé cristã”. se Guilherme Farei. e não anjo alado. As fontes destas são muitas. Pierre Viret e Theodoro de Beza. Optei por não fazer uso das aspas para sepa­ rar umas das outras por causa do estilo de perguntas e respostas. assim como são você e seus irmãos que continuam fiéis à verdade revelada por Jesus” (Ap 19. posto num ataúde de madeira e sepultado sem pompa nem aparato numa cova não identificada. A Providência Secreta de Deus. coloco na boca de Calvino quase ipsis litteris. Mesmo correspondendo-se com reis e rainhas e outras autoridades. João Calvino era de carne e osso.15). simples homem e não super-homem. Calvino nunca perdeu a noção de que. O Catecismo de Genebra. Quando morreu. Ou como Paulo e Barnabé fizeram com a multidão de Listra: “Ami­ gos. se ajoelhassem diante dele. Cartas de João Calvino e os comentários de Calvino de quase todos os livros da Bíblia. Nestas páginas. Em alguns casos. como As Institutos. Meu maior trabalho foi formular as perguntas e não as respos­ tas. ele e os outros eram iguais. Apesar de toda a importância dada à vida e à obra de Calvino. o que eles escreveram. Assumo uma dívida com alguns dos muitos biógrafos de Calvino. Carta ao Cardeal Sadoleto e. todos formados do barro (Jó 33. o reformador reagiría bruscamente como o anjo do Apocalipse fez com o apóstolo João: “Não faça isso! Pois eu sou servo de Deus. Entre eles menciono três: Alister McGrath (A Vida . por que vocês estão fazendo isso? Nós somos apenas seres humanos como vocês” (At 14. diante de Deus. seu corpo foi envolto num lençol.6).10). desde o da Carta de Paulo aos Romanos até o do livro do profeta Ezequiel. principalmente. coloco na boca de Calvino palavras que ele mesmo escreveu em seus muitos livros e palavras que fazem jus ao seu pensamento.

CALVINO de João Calvino). Genebra e Reforma) e Hermisten Maia Pereira da Costa (João Calvino . publicados nos últimos vinte anos pelas Edições Parakletos. Contudo. abri mão desse intento. por ser o tradutor perseverante e apaixonado de quase todos os comentários bíblicos e outros livros de João Calvino.18 • SOU EU. Aliás. LENZ CÉSAR VIÇOSA (MG). com os princípios e com a história e a vocação da igreja. Além do mais. mas. Convidei Valter Graciano Martins para escrever o prefácio deste livro porque ele é a pessoa que mais tem divulgado Calvino no Brasil. Porque João Calvino escreve seu primeiro livro . não só por meio de palestras em vários lugares. com as tradições. com a liturgia. tem uma experiência de “conversão súbita” antes dos 26. 27 DE M A IO DE 2014 (D IA D O 450° A N IV E R SÁ R IO DA M ORTE DE C ALVIN O ) . publica a primeira edição de As Institutos aos 27 e inicia seu ministério em Genebra antes de completar 28 anos . por ele fundada. principalmente. É algo operado por Deus mesmo de modo soberano e eficaz”. com os dogmas. Ronald Wallace (Calvino. e pela Editora Fiel (a maior parte das traduções). ELBEN M.De Clementia aos 23 anos. com a moralização. para não limitar o alcance da obra. uma das heranças da Reforma do Século 16 é a famosa declaração de Lutero “Ecclesia reformata semper reformanda” (a igreja reformada tem de ser constantemente refor­ mada). da Cruzada Estudantil para Cristo e da Jornada Mundial da Juventude. Tive a ousadia de colocar na pena de Calvino o que eu entendo por reforma no capítulo onze: “A reforma mexe com as estruturas. da Mocidade Para Cristo.500 anos). pro­ testantes e católicos sabem que a igreja está precisando de fato de uma reforma.tive uma enorme vontade de dedicar este livro sobre o notável re­ formador francês aos jovens da Aliança Bíblica Universitária. com a pregação.

meu pai.1 A SÚBITA CONVERSÃO DE UM LICENCIADO EM LEIS Toi com muita má vontade e muita dificuídade que eu me identifiquei com a (Reforma A O senhor escreve cartas para pessoas nobres de seu país e de outros países. De onde vem essa habilidade. Tanto em Noyon como em Paris fui colega dessas crianças privilegiadas. Graças a isso e à providência de Deus. meu pai de fato era de origem modesta. o que tem colaborado muito com o meu ministério. conversa e prega para elas com naturalidade. já que sua família é modesta? Embora minha mãe tenha vindo de uma família abastada. Essa solidariedade me ajudou . tive o privilégio de receber a mesma educação que os nobres davam aos seus filhos. sem o menor constrangimento. por ser secretário do bispo de Noyon e procurador fiscal do município. Foi nesse período que adquiri minha primeira educação e modos refinados para posteriormente transitar em todos os meios sociais com polidez. tinha muito boas relações com as famílias nobres. Porém. por bondade deles.

onde havia faculdades. o meu primeiro livro. um irmão mais velho e três irmãos menores.talvez mais de 4 mil (na época Paris devia ter 300 mil habitantes). Fiz questão de dedicar a Claude de Hangest. escrito quando eu tinha 23 anos. Á 0 senhor nasceu em Noyon? Nasci em Noyon. Estou endividado com sua mui nobre família por meu primeiro aprendizado na vida e nas letras”. Erasmo tinha razão: era um colégio infestado de piolhos.• SOU EU. Passei muito aperto nessa escola. quando eu tinha seis anos apenas. Ficava no labirinto de ruelas estreitas e sujas (o mau cheiro era enorme). autor da sátira Gargântua e Pantagruel. livrarias e até bordéis. matriculei-me no Collège de Montaigu (Morro Agudo). como alguns pensam. no dia 10 de julho de 1509. Na dedicatória mostrei minha gratidão à família: “Devo a você tudo o que sou e tudo o que tenho. A comida e as instalações eram péssimas. Sou francês e não suíço. á Suponho que em Paris o senhor tenha estudado na Sorbonne. ainda menino. Depois de passar alguns meses no Collège de La Marche estudando humanidades e latim com o grande humanista Mathurin Cordier. hotéis. igrejas. um comentário sobre Sêneca. Não. a famosa e tricentenária escola de teologia. capelas. E a cidade da famosa catedral Notre-Dame (não a Notre-Dame de Paris nem a de Reims nem a de Amiens). uma escola menos requintada. fui educado em sua casa e iniciado em meus estudos junto com você. mosteiros. CALVINO também a lidar com a morte prematura de minha mãe. mas pela qual passaram Erasmo de Roterdã e François Rabelais. construída há mais de três séculos. meu contro­ vertido patrício. A disciplina era muito rígida e estudávamos . um dos meus amigos de infância. O número de alunos era muito grande . pois desde bem cedo.

em nome de Deus. á Em Montaigu. sem muito entusiasmo. Para beber não as águas estagnadas. mas as águas frescas dos clássicos e das Escrituras. que morreu pouco depois. fui estudar jurisprudência em Orléans. comemorávamos os 100 anos da vitória de Joana d’Arc. onde passou por experiências misticas. ao sul de Paris. Foi nesse colégio que concluí minha licenciatura em artes.A SÚBITA CONVERSÃO DE UM LICENCIADO EM LEIS • 21 muito . medicina e humanidades. O que o levou a achegar-se a Deus foi a leitura de um livro sobre a história de Jesus quando estava se recuperando de graves ferimentos recebidos numa guerra com os franceses em Pamplona em 1521. direito. derrotou os ingleses que a cercavam. Orléans é uma cidade bem menos agitada que Paris e na época tinha apenas uma faculdade. durante e depois das refeições. 25. em 1429. conhecido como “o príncipe dos advogados franceses”. Ele tinha uma história muito bonita: antes de vir a Montaigu em 1528. A minha verdadeira vocação . à semelhança de Davi ao enfrentar o gigante Golias. passou quase um ano inteiro orando e jejuando numa caverna perto de Manresa. uma mocinha de 17 anos que. Essa cidade é muito conhecida por causa de Joana d’Arc. uma região de castelos ao longo do rio Loire. Por um ano.4% dos estudantes de teologia que não pertenciam às ordens religiosas receberam seu treinamento em humanidades nessa universidade.na verdade antes. sob a supervisão de um amigo chamado Melchior Wolmar. por influência de meu pai. em direito. Justamente naquele ano (1529). a de direito civil (não canônico). Qual delas escolheu? Seria um bom lugar para cursar teologia. Tive o privilégio de estudar com Pierre de L’Estoile. mesmo sem completar o curso. fui colega de um espanhol chamado Inácio de Loyola. No início de 1531 graduei-me. aproveitei a oportunidade para estudar grego por conta própria. Mas. dezoito anos mais velho. Nos 25 primeiros anos de nosso século. o senhor poderia continuar os estudos e optar por teologia.

tinha enlouquecido ao ler a Bíblia. que estava grávida. Outros pregadores começaram a imitar o estilo e as idéias de Roussel. Mas o conservadorismo mantinha as portas fechadas. Dois anos depois. deu início a uma perseguição por heresia contra Roussel. um comentário sobre a obra de Sêneca. Mas o tempo que passei em Orléans me fez amar a literatura. Sem o conhecimento do grego e do hebraico . que tinha a cobertura de Marguerite d’Angoulême. du­ quesa de Alençon e rainha de Navarra. CALVINO era outra. O livro foi publicado às minhas custas em Paris em 1532. Os simpáticos à Reforma de Lutero queriam a princípio uma reforma interna. recém-eleito reitor. Para aumentar a tensão de um lado e de outro. o discurso de abertura do novo ano acadêmico da Universidade de Paris. feito por Nicolas Cop.22 • SOU EU. o evangélico Gérard Roussel começou a atrair multidões com suas pregações durante a quaresma (1533). o que me obrigou a pedir algum dinheiro empresta­ do a alguns amigos. Embora .línguas originais das Escrituras eu não poderia ter escrito o comentário de muitos livros da Bíblia. De Orléans voltei para Paris. Hoje vejo a mão de Deus em tudo isso. A mesma faculdade. Lá mesmo comecei a escrever De Clementia. O impacto foi tão grande que a faculdade de teologia ordenou que seis de seus membros pre­ gassem contra “os erros e a perversa doutrina dos luteranos”. foi sobre a necessidade de reforma e renovação dentro da Igreja. Rabelais dizia que “quem não sabe grego não pode considerar-se sábio”. Dizia-se que Marguerite. Talvez houvesse alguma dose de vaidade tanto no estudo do grego como no preparo do livro. Á O que acontecia em Paris? Cheguei a Paris em abril de 1531. O caldo estava quase derramando. Porém não teve a saída que esperava. no dia Io de novembro de 1533. Estudei também hebraico por conta própria. Mas não ficou só nisso. autorizada pelo vigário de Paris.

por um ato súbito de . confesso. Deus. Antes de minha conversão eu me achava obstinadamente devotado às superstições do papado de tal modo que não conseguia desvencilhar-me com facilidade de tão profundo abismo de lama. graças ao temor do Senhor e graças à herança religiosa. o discurso foi considerado ofensivo e radical por aqueles que o ouviram. resisti com energia e irritação. A Foi nessa época que o senhor teve a sua experiência de con­ versão? Na década de 1520. A Bíblia que recebi de presente de um dos meus fami­ liares me arrebatou do catolicismo. Foi com a maior dificuldade que fui induzido a confessar que por toda a minha vida eu estava na ignorância e no erro”. Não me con­ vertí do mundanismo para Cristo. do humanismo para o cristianismo. eu ouvia com muita má vontade e. Mas não foi como a conversão da mulher pecadora nem como a do ladrão na cruz. no início. não escondi essa dificuldade: “Contrariado com a novidade. em toda a Europa ninguém nascia pro­ testante. do tradicionalismo escolástico para a simplicidade bíblica. Ela não é meramente uma experiência religiosa privada e interna. em busca de refúgio. sou pecador. Muitas vezes conversão nada mais é do que romper com o passado. da superstição para a fé evangélica. como o filho pródigo. porém abrange uma mudança exterior. No dia 19 de novembro. Cop foi substituído no cargo e pouco depois foi parar em Basiléia. mas nunca fui um pecador de sarjeta. Minha conversão foi do romanismo para o protestantismo. escrita quando eu tinha 30 anos. Deixe-me ser o mais claro possivel. visível e radical da lealdade institucional. Em carta ao cardeal Saduleto. A conversão aconteceu mesmo e foi tremendamente marcante.A SÚBITA CONVERSÃO DE UM LICENCIADO EM LEIS • 23 o orador tenha sido modesto em suas propostas. Graças ao bom Deus. Afinal o grito nascente da Reforma era recentíssimo (31 de outubro de 1517) e acontecera em outro país. Não foi uma mudança fácil.

entre os quais nomeio dois dos meus melhores amigos. ^ Quando tirou a máscara. como era o meu caso. Por ser uma cidade de língua alemã e por eu não falar a língua de Lutero. No prefácio de meu Comentário aos Salmos. Guilherme Farei e Pierre Viret. acontecida na metade exata de minha existência! Por um pequeno período de tempo. fui parar em Basiléia. subjugou e trouxe minha mente a uma disposição suscetível. morava na cidade e morrería no ano seguinte. me senti inflamado de um desejo tão intenso de progredir que. embora não tenha abandonado totalmente os outros estudos. Com esse toque soberano e misericordioso. meus contatos eram com os que falavam francês ou latim. Finalmente.24 • SOU EU. a idade limite citada no Salmo 90. eu conto essa experiência tão notável quanto inesperada e imprevisível. em janeiro de 1535. fui obrigado a deixar Paris e perambulei por Angoulême e Poitiers. aos 70 anos. Erasmo de Roterdã ainda era vivo. CALVINO conversão. . na França. me ocu­ pei deles com menos ardor. Depois. tentei ser um reformado por dentro sem tirar a máscara católica. o senhor começou a sofrer persegui­ ção? Em outubro de 1534. conhecida como um centro de le­ tras e um lugar seguro p$ra aqueles que eram simpatizantes da causa evangélica ou já participantes dela. passei algum tempo na Itália e em Estrasburgo.

no final de 1563. se incluir o pequeno período do verão de 1536 a abril de 1538 que passei na cidade. não posso dizer que estou aqui por acaso. a caminho de Estrasburgo. Para ser honesto. Não sei como. tivemos de pernoitar em Genebra. pareceu-me que a mão de <Deus me trazia para Çeneôra Á Há quantos anos o senhor mora em Genebra? Moro aqui desde setembro de 1541. estou completando 22 anos de Genebra. Como assim? Eu estava só de passagem por Genebra. Farei soube disso e veio ao meu encontro. ^ O senhor está dizendo que Farei o obrigou a mudar-se para Genebra. na segunda vez. seriam 24 anos. Era o verão de 1536. Tenho certeza que foi o Senhor da Seara quem me trouxe para essa cidade. ou porque Farei me obrigou a mudar-me para cá. Porém. ou porque o Pequeno Conselho de Genebra me obrigou a voltar. na primeira vez.2 GENEBRA: LUZ APÓS TREVAS Movido peCafuíminante imprecação de <Fare(. Eu tinha 27 anos quando meu irmão e eu. que aprendi a amar intensamente. Ele não me . Agora.

moram em Genebra para escapar à perseguição religiosa. Padres. Outro foi transformado em hospital. ficam cobertas de neve. visitada por Júlio César cin­ quenta anos antes de Cristo. Somos uma cidade-estado e não pertencemos aos cantões de Berna nem Friburgo. Desde então a missa não é mais celebrada. Não falamos nem alemão nem italiano. Um dos mosteiros foi transformado numa escola primária.100 para 21.26 • SOU EU. Em janeiro de 1537. É uma cidade muito antiga. ^ Quando Genebra se tornou protestante? Sob o ponto de vista histórico e jurídico. a população subiu de 13. no inverno. foi no dia 27 de agosto de 1535. Farei tinha quase o dobro da minha idade e me meteu medo. monges e freiras não . Quase 70% da população é formada de artesãos. Movido mais por essa fulminante imprecação. Nossa língua oficial é o francês. Deus amaldiçoaria os meus estudos. Por ser uma das encruzilhadas da Europa. que. o que acontece em outras partes da Suíça. Vários estrangeiros. principalmente franceses. pareceu-me que dos céus a mão divina estava me aprisionando para sempre na cidade do lago. logo após um debate público entre católicos e protestantes do qual os reformados saíram vitoriosos. muita gente passa por Genebra. Se eu não me mudasse para Genebra. Nos últimos dez anos. pus as mãos no arado. Até a primeira metade do século passado notáveis feiras internacionais eram realizadas aqui. CALVINO pediu para ficar nem me convidou delicadamente a associar-me a ele em seu ministério na cidade. á Genebra é uma cidade bonita? Poucas cidades têm uma localização tão bela como Genebra. Ele apenas me ameaçou. com matrícula obrigatória para crianças. por ela ter se tornado uma das cidades de refúgio da Europa. Estamos à margem de um lago de águas azuis chamado Léman e rodeados de montanhas.400 habitantes.

GENEBRA: LUZ APÓS TREVAS • 27

foram expulsos da cidade. A maior parte foi embora por decisão
própria. A reforma de Genebra, em certo sentido, começou com
o pé direito, pois reconheceu a liberdade de culto e as dimensões
sociais do evangelho. Porém, em outro sentido, começou da
estaca zero, pois houve mudança de rótulo e não mudança de
vida. Farei e outros tiveram de enfrentar o tremendo desafio
de pregar o evangelho e o novo estilo de vida a uma multidão
de protestantes até então só de nome. Foi por causa disso que,
um ano depois, ele me procurou na estalagem em que eu estava
hospedado e me constrangeu a permanecer em Genebra.
Á 0 que levou o povo a votar a favor da Reforma na tal assembléia
pública?

Para chegar a esse ponto da história nada foi fácil nem tão
rápido. Eu tinha 23 anos e concluía o curso de direito em
Orléans, na França, quando Guilherme Farei e Antoine Froment
começaram seu ministério em Genebra (outubro de 1532).
Os dois tinham uma audácia fora do comum e eram muito
espertos. Numa ocasião, estando em Roma, Farei subiu ao
púlpito de uma igreja e gritou mais alto do que o padre que
estava entoando a missa. Noutra, ele entrou numa procissão e
arrancou algumas relíquias das mãos de um padre e as jogou no
rio. Froment, por sua vez, portou-se com muita criatividade: ele
colocou em vários pontos de Genebra o seguinte aviso: “Um
jovem recém-chegado nesta cidade dará instrução na leitura e
na maneira de escrever a língua francesa a todos que quiserem,
grandes e pequenos, homens e mulheres, mesmo aqueles que
nunca foram à escola. Caso não aprendam a ler e a escrever
dentro de um mês, ele não deseja nenhuma recompensa pelo
seu trabalho”. O professor acrescentou: “Esse homem também
cura muitas doenças de graça”. Foi um sucesso! De fato ele en­
sinava e medicava os doentes, mas não perdia a oportunidade
de incluir pequenos sermões e comentários sobre a Bíblia em

28 • SOU EU, CALVINO

suas aulas. Várias vezes tentaram matar Farei e Froment, mas
sempre em vão. Em abril de 1535, a empregada da casa onde os
pregadores estavam hospedados, subornada por alguns padres,
colocou veneno na sopa de espinafre de um deles. Meu amigo
Pierre Varet quase morreu. Piores ainda foram os embates
violentos entre uma multidão de católicos e uma multidão
de protestantes. Essa fase difícil terminou com o edital dos
conselhos de Genebra dando grande causa aos reformadores.
A partir daí a cidade de Genebra passou a ter a tranquilizante
divisa: Post tenebras Lux (Luz após trevas).
A O senhor está com 55 anos. Portanto, já viveu mais da meta­
de do presente século. E vive na parte ocidental e no hemisfério
setentrional, onde estão 95% de todos os cristãos. O que pensa
do século 16?

Não sei o que virá depois deste século. Porém considero o sé­
culo atual um presente de Deus. Não só por causa da Reforma
e da Contrarreforma, mas por causa de muitas outras coisas,
a começar com as fantásticas descobertas marítimas. Fernão
de Magalhães acaba de fazer a primeira viagem ao redor do
mundo (1519-1522). Antes dele, Vasco da Gama descobriu o
caminho das índias (1498) e Cristóvão Colombo descobriu a
América (1492). Esses eventos bem-sucedidos provocam tremen­
das mudanças geográficas. Na área da astronomia, que muito
me atrai, o polonês Nicolau Copérnico acaba de publicar De
Revolutionibus Orbium Caelestium [Das revoluções dos mundos
celestes]. Na área da matemática, o avanço é enorme no que
diz respeito às frações decimais, à trigonometria retilínea e es­
férica, às equações de terceiro e quarto graus e ao livro Trattato
de Numeri e Misure [Tratado sobre os números e medidas], do
italiano Tartaglia, publicado em 1545. No ramo da medicina,
o mais importante, creio, é o livro do meu patrício Ambroise
Paré, de 1545, intitulado Méthode de Traicter les Playes [Método

GENEBRA: LUZ APÓS TREVAS • 29

de tratar as feridas], que pode abrir portas para salvar muitas
vidas. Curiosamente foi o herege Miguel Serveto, que nós
queimamos vivo em Genebra, que distinguiu as cavidades
direita e esquerda do coração, isto em 1533, pouco antes de
morrer. Acho que devo mencionar ainda o formidável traba­
lho do flamengo Gerardus Mercator, que fez um grande mapa
da Europa e uma representação plana da Terra. O que ele fez
pode nos ajudar a entender melhor o desafio da última ordem
de Jesus: “Vão a todos os povos do mundo e façam com que
sejam meus seguidores” (Mt 28.19). A impressão que eu tenho
é que esses nossos arautos da ciência moderna trabalham para
Deus. Copérnico, por exemplo, entende que os astrônomos são
sacerdotes de Deus e que, no exame da natureza, eles devem
glorificar o Criador.
Á No campo das artes, o atual século tem sido pródigo?

Muito pródigo. Ainda estamos sob o impacto do polivalente
Leonardo da Vinci, que morreu em Amboise, na França,
quando eu tinha apenas nove anos. Ele empregou seu gênio
em quase todas as artes e ciências. Foi pintor, escultor, arqui­
teto, inventor, botânico, geólogo, engenheiro e músico. Além
de tocar alaúde e outros instrumentos por ele inventados, da
Vinci era um repentista, capaz de improvisar letra e música
conforme ia tocando. Tinha também suas excentricidades:
escrevia com ambas as mãos e fazia suas anotações de trás
para frente com a mão esquerda. Dizem que ele deixou um
caderno de 7 mil páginas com desenhos, esboços de invenções
e comentários sobre pinturas, anatomia e filosofia. Embora
tenha pintado o mural A Ultima Ceia no refeitório de um
mosteiro na Itália, o artista, ao contrário de muitos outros,
não demonstrava interesse algum pela religião. Temos tido
artistas notáveis que produzem muito mais pinturas religiosas
do que de outra natureza. Um dos mais impressionantes é o

O primeiro fez um quadro abordando um dos temas mais queridos por nós. Por muito tempo ele esteve batendo à porta e prometendo: “Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta. Em resumo. Sem medo de exagerar. estamos abrindo a porta da igreja para que Jesus entre outra vez e ocupe o seu lugar no púlpito e na vida dos fiéis. Estamos produzindo centenas de livros da mais pura teologia e muitos co­ mentários bíblicos. sob o toque do Espírito Santo. A Em sua opinião. como Albrecht Dürer.30 • SOU EU. alguns se comprometem com a Reforma de Lutero. Por quê? Depois de permanecer todo o ano de 1537 e o primeiro trimes­ tre de 1538 em Genebra. Entre os pintores do presente século. algo muito mais amplo e universal que qualquer outra reforma na história religiosa de Israel ou da igreja. A Queda do Homem (1504). em 1511.20). E o segundo pintou A Crucificação (1503). Muitos estão dando a própria vida para que isto aconteça e continue a acontecer. graças à invenção da imprensa. de tudo o que tem acontecido na primeira metade do presente século o que mais vai influenciar o mundo daqui para frente? Muito mais importantes que as descobertas marítimas e tudo o mais foram a redescoberta da Bíblia. exatamente há cem anos. pintado na Capela Sistina. a redescoberta da graça e a redescoberta da justificação pela fé. e Lucas Cranach. amigo de Filipe Melâncton. eu entrarei na sua casa e nós jantaremos juntos” (Ap 3. do italiano Michelangelo. o maior evento de todos foi aquele que estamos chamando de reforma religiosa. mas numa dessas conversas o senhor me contou que foi expulso de Genebra. eu e Farei fomos expulsos de lá pelo . Já temos Jesus em nossa mesa e estamos “jantando” com ele e convidando o mundo inteiro para vir comer conosco! Á Não me lembro qual. CALVINO afresco A Criação de Adão.

meu temperamento. que foi para Neuchâtel . A divisa da cidade “luz após trevas” era apenas uma afirmação profética e não uma realidade presente. Cinco meses depois de ter chegado. adultérios etc. onde passei os três anos mais feli­ zes da minha vida. havia coisas bem mais reprováveis. Foi em . O caldo acabou entornando. A prostituição era san­ cionada e oficializada pelas autoridades. Tive muitas atividades literárias: publiquei a segunda edição de As Institutos em latim e a primeira em francês. bebedeira. Amadurecí bastante. Era um otimismo demasiado! Foi aí que surgiram as primeiras divergências entre mim e o Pequeno Conselho. fui convidado a pastorear uma comunidade de língua francesa e a lecionar na Escola Alta (setembro de 1538). Começaram a ter antipatia por mim: afinal. muita pompa (e não austeridade).embora amigos. mais conhecido como o Catecismo de Genebra. Além de coisas menores. á Voltou para Basiléia? Não. Entendo que tivemos pressa demais para mudar as coisas. éramos muito diferentes. até que Farei e eu fomos expulsos oficialmente de Genebra em abril de 1538. meu estilo. além de ser um jovem de 28 anos. e comecei a pregar sobre ele.GENEBRA: LUZ APÓS TREVAS • 31 Pequeno Conselho. se submetessem a esse documento apondo a ele a sua assinatura. passei a mudar as minhas atitudes. Fui para Estrasburgo. Foi nessa ocasião que escrevi Instrução na Fé. que eu chamo de “meus anos dourados”. Não tive a paciência necessária para lidar com certos costumes arraigados na sociedade que não combinavam com a moral evangélica. como a san­ tificação do domingo e os jogos de azar. Nosso desejo era que cada genebrino. tais como festas sem recato. e não suíço. Veja só: a supervisora dos prostíbulos era uma mulher eleita pelo Pequeno Conselho. eu era um cidadão francês. homem e mulher. e escrevi a Carta ao Cardeal Sadoleto e o Comentário da Epístola de Paulo aos Romanos. Com a experiência de Genebra. Separei-me de Farei.

que. naturalmente o senhor se esqueceu de Genebra. e Martin Bucer. Foi meu irmão Antoine quem descobriu Idelette e me aproximou dela sutilmente: como minha futura mulher não falasse francês. morreu poucos dias depois. em 1549. CALVINO Estrasburgo que aprendi a lidar com pessoas de todas as classes. ele me pediu para ser o professor dela. Fui muito aplaudi­ do porque todo mundo achava estranho que eu fosse solteiro sendo absolutamente contrário ao celibato sacerdotal. Eles queriam que eu voltasse à ci­ dade e recomeçasse o meu ministério de pastor. três anos e meio depois de expulso. Quando eu estava começando a me esquecer. Convidei Farei para celebrar nosso casamento. tivemos nosso único filho. onde estou até hoje! Infelizmente sem Idelette.. Tornei-me de uma hora para outra seu professor. Johannes Sturm. de humildes refugiados a mestres e teólogos. dei um grande passo à frente: casei-me no dia 14 de agosto de 1540 com uma jovem viúva chamada Idelette de Bure e me tornei padrasto de um menino (Jacques) e uma menina (Judith). Dois anos depois. o fundador do Gymnasium de Estrasburgo. que morreu há quatorze anos. o cura da catedral da cidade. Sabe de quem? Era do Pequeno Conselho de Genebra. um teólogo da altura de Lutero. Em meio a tudo isso. No dia 13 de setembro de 1541. J Em Estrasburgo. recebi um surpreendente convite. fixei residência outra vez em Genebra. em julho de 1542. . esposo e pai de seus filhos. pregador e professor. Deus me usou para despertar muitos jovens para o ministério..32 • SOU EU. como Matthieu Zell. para tristeza nossa.

o que se deve evitar e o que se deve desejar e esperar. voltado à instrução religiosa.3 O LIVRO TRANSFORMADO EM CATECISMO JL igreja jamais preservará a si mesma sem um catecismo á O que o senhor chama de catecismo? Trata-se de um manual da doutrina cristã. o concilio de Tortosa. . o que se deve pedir. geralmente em forma de perguntas e respostas. segundo um programa sistemático. o que se deve observar. á Quando se usou pela primeira vez o termo “catecismo”? Foi em 1375. Eu diria em linguagem menos simples que é um método racional de en­ sino da fé e da moral cristã. ordenou a elaboração de um breve compêndio que bem poderia chamar-se catecismo. na Espanha. publicou o texto Lay Folks Catechism. Meio século depois. para levar especialmente as crianças a professarem sua fé em Jesus de modo consciente e convincente. na Inglaterra. quando o arcebispo de York. pois ensinava o que se deve crer.

sobre o Antigo Testamento. do Credo Apostólico e da Oração do Senhor. sobre os símbolos da fé e sobre o Pai-Nosso. sobre o homem. o catecismo não passa .“não conhecem nem a Oração do Senhor. o mestre pergunta e o discípulo responde.34 • SOU EU. Mais ainda. Para o reformador alemão. CALVINO A Sempre é o mestre que faz as perguntas e as crianças que respondem? Não. por causa de sua ênfase considerável na educação religiosa não só das crianças. vivendo como pobres animais e porcos sem inteligência.como podem abusar de sua liberdade”. Doze anos depois de romper oficialmente com Roma (1517). sobretudo nas aldeias. E o caso do catecismo Disputatio Pueronim.escreve Lutero no prefácio de seu catecismo . embora saibam muito bem agora que o evangelho lhes veio . que muitos pastores eram quase totalmente ignorantes e incapazes de ensinar. O que o levou a preparar o catecismo e difundir o seu uso o máximo possível foi a constatação de que o povo de Deus nada conhecia da doutrina de Deus. sobre a igreja. Mas foi a Reforma que de fato popularizou o uso do catecismo. sobre os anjos. que substituiu o Catecismo Maior. Já no catecismo de Honório de Autun. “Embora todos se chamem cristãos e participem dos santos sacramentos” . O uso universal do batismo infantil após o século 6o incentivou o preparo dos catecismos para firmar as crianças já batizadas. As perguntas e as respostas giravam normalmente em torno dos Dez Mandamentos. á Desde quando a igreja tem feito uso do catecismo? Provavelmente a partir do século 2o. pode ser o contrário: a criança pergunta e o mestre responde. publicado no século 11. disposto em dez capítulos: perguntas sobre a criação. sobre os sacramentos. Lutero publicou o seu Catecismo Menor. mas também dos jovens e adultos. Embora não muito comum. nem o credo. nem os Dez Mandamentos. sobre a pessoa de Deus. sobre o Novo Testamento. do ano anterior (1528).

por exemplo. a resposta é “O matrimônio é a união vitalícia instituída por Deus e contraída. a resposta é “A Santa Ceia não se deve dar aos ímpios e impenitentes manifestos. a de número 374 (“A quem se não deve dar a Santa Ceia?”). O catecismo era levado para dentro dos lares e o chefe da família tinha de ensiná-lo à sua família. a resposta é “Nenhum homem pode alcançar a salvação mediante as obras da lei. porque desde a queda no pecado o homem natural é de todo incapaz para guardar a lei de Deus e o próprio cristão só a cumpre imperfeitamente”. mas é dever dos pastores treinar e impelir a grande massa a saber o que é errado e o que é certo em matéria de fé. Para a penúltima pergunta. entre um homem e uma mulher para uma só carne”. para terem uma explicação mais profunda e mais completa. os pastores tinham de passar para o catecismo mais longo. como. mais de uma para cada dia do ano. quantas perguntas e respostas tem o “ Breve Catecismo” . a resposta é “Lutero tirou essa doutrina da Escritura Sagrada ou Bíblia”. Para a pergunta 42 (“Quem é o nosso próximo?”). a resposta é “Nosso próximo é todo aquele que necessita do nosso amor”. Vou dar alguns exemplos. Para a pergunta 5 (“Donde tirou Lutero essa doutrina?”). mediante esponsais legítimos. . Ninguém é forçado a crer. Depois de ministrar o Catecismo Menor. aos hereges. de 1529? São 375 perguntas e respostas.0 LIVRO TRANSFORMADO EM CATECISMO • 35 de “um livro que instrui por meio de perguntas e respostas”. á Pór curiosidade. á O catecismo era ensinado apenas nas igrejas e pelos pastores? De forma alguma. crianças e pessoas sem sentidos”. Para a pergunta 95 (“Homem qualquer pode alcançar a salvação mediante as obras da lei?”). aos que deram escândalo e ainda não o removeram e aos que não podem se examinar a si mesmos. Para a pergunta 56 (“Que é matrimô­ nio?”).

Eu o dividi em quatro partes: a primeira é sobre a fé de um modo geral (130 perguntas). e a última parte se refere à Palavra e aos Sacramentos. a segunda trata dos Dez Mandamentos (102). num verdadeiro catecismo. á O senhor mesmo nunca elaborou um catecismo em francês? Durante o inverno de 1536-1537. A partir de 1561. eu lhe disse francamente que a igreja de Deus jamais preservará a si mesma sem um catecismo. resolvi transformar esse livro. Foi minha primeira exposição teológica sistemática em língua francesa (As Institutas haviam sido escritas em latim). quando ele era regente da Inglaterra durante a menoridade de Eduardo VI. que é como a boa se­ mente impedindo a extinção do bom cereal e multiplicando o trigo na seara do mundo. era após era. publiquei o meu primeiro catecismo. como o senhor avalia o catecismo? Em minha longa carta de outubro de 1548 ao duque de Somerset. a ponto de provocar maior unidade entre as igrejas reformadas. CALV1NO á Pessoalmente. visto que daí em diante cada novo ministro da igreja devia jurar fidelidade aos ensinos nele expressos e comprometer-se a ensiná-los. a terceira é só sobre a oração (63). pois não era em forma de perguntas e respostas. . creio que isso não é problema. esse cate­ cismo ganhou mais importância. deve providenciar que as crianças sejam instruídas num bom catecismo que mostre resumidamente a elas. Cinco anos depois. que não entre logo em decadência. principalmente quando se pensa no leitor mirim? Pela aceitação que ele teve. em que consiste o verdadeiro cristianismo. no início de 1542. já traduzido para o latim. Quem pretende construir um edifício duradouro. em linguagem apropriada à sua idade. A obra intitulava-se Instrução e Confissão de Fé e era para o uso da igreja de Genebra.36 • SOU EU. A Um catecismo de quase quatrocentas perguntas e respostas não é grande demais. se é que se pode chamá-lo de catecismo. com 373 perguntas e respostas (duas a menos que o de Lutero).

e está plenamente fundamentado no trabalho dos apóstolos e dos concílios ecumênicos da igreja antiga (não romana). está isento de definições dogmáticas e é notavelmente não sectário. evangélico e reformado. pois reúne três correntes do pensamento reformado. Além do meu catecismo e dos catecismos de Lutero e de Ursinus. Ademais. acentuando a sua importância para a vida diária.0 LIVRO TRANSFORMADO EM CATECISMO • 37 Á O seu catecismo e o “Catecismo Menor” . Trata-se do Catecismo de Heidelberg. para prepararem um catecismo a fim de ensinar a doutrina bí­ blica aos jovens da igreja. professor da Faculdade de Teologia de Heidelberg. Possui um caráter inteiramente bíblico. saíram vários outros: os catecismos de Oecolampadius. o Catecismo de Heidelberg (a cidade da Alemanha Ocidental onde foi escrito) é o mais ecumênico de todos. Tem apenas 129 perguntas e respostas. Em sua posição teológica. não seriam suficientes? Parece que está saindo outro catecismo. publicado em fevereiro de 1563. Porque Frederico queria um catecismo conci­ liador que pudesse combinar o melhor da sabedoria luterana e reformada. Foi elaborado para ser ao mesmo tempo um guia para a instrução . de Allen e do rei Eduardo VI. dispostas de tal modo que podem ser estudadas durante os 52 domingos do ano. apresenta a fé cristã de maneira pro­ fética. O melhor é que ele é um manual da religião prática. Em vez de levantar problemas especulativos. Considero-o superior ao meu catecismo e ao de Lutero. na Alemanha. Ele convidou Zacarias Ursinus. A Qual é a sua opinião sobre o “Catecismo de Heidelberg”? É a melhor possível. É um catecismo três vezes menor do que o meu. ele é cristão. Eu diria que esse catecis­ mo deixa a Escritura falar e não procura substituí-la. de Cranmer. ambos com menos de 30 anos. que havia se convertido à fé reformada três anos antes. e Gaspar Olivianus. de Bullinger. por iniciativa do príncipe eleitor Frederico III. de Lutero. Toda a sua estrutura é moldada pela perspectiva bíblica.

para crianças e pes­ soas ignorantes que estavam aprendendo a ler. teológico.38 • SOU EU. A A Contrarreforma não produziu catecismo algum? Eu soube que o Concilio de Trento. primeiro nas áreas reformadas e. “Nossa redenção e liberdade” (segunda parte) e “Nossa gratidão e obediência” (terceira). a Igreja Católica produziu algum catecismo? Em 1555 surgiu a Suma da Doutrina Cristã. . nomeou uma comissão presidida pelo cardeal Carlos Borromeu. em seguida. Por fim. sobrinho e secretário do papa Pio IV e arcebispo de Milão. teria escrito um catecismo bilíngue (na língua portuguesa e na língua dos nativos daquele continente recénvdescoberto). Dos três. o Catecismo de Heidelberg tornou-se imediatamente popular. este último foi o que obteve maior êxito em virtude da sua pedagogia e da precisão das perguntas e respostas. Ele tem três divisões principais: “Nosso pecado e culpa” (primeira parte). intitulado Diálogo das Coisas da Fé. Estou sabendo também que o jesuíta José de Anchieta. nas áreas luteranas. encerrado agora em 1563. veio a lume o Pequeno Catecismo dos Católicos. No ano seguinte apareceu o Catecismo Mínimo. CALV1NO religiosa das crianças e dos jovens e uma confissão para toda a igreja. Por seu quádruplo propósito (catequético. A Nos quarenta anos que separam o Breve Catecismo de Lutero (1529) e o catecismo da Contrarreforma. com perguntas e respostas. em 1558. para estudantes de nível médio. litúrgico e querigmático). Entendo que a última parte deste abençoado cate­ cismo constitui-se em um pequeno clássico da vida devocional. com perguntas e respostas. Talvez seja o primeiro catecismo escrito fora da Europa e para um público não cristão. em forma de abecedário. destinada aos jovens estudantes de nível superior. para preparar um catecismo que expresse a reação católica à Reforma. missionário espanhol no Brasil. aos clérigos em formação e aos leigos cultos. em preparo.

. O movimento que empreendeu dois anos depois de redescobrir o valor da fé no sacrifício vicário de Jesus não foi uma tentativa frustrada de reforma. o senhor refere-se a ele como “excelentíssimo pastor da igreja cristã” .4 O VOO QUE NÃO SE REALIZOU (podar pe(a metade os a6usos do cristianismo não resoCve o proèCema /é Em sua carta de 28 de junho de 1545 a Melâncton. Ele enfrentou papas e soberanos poderosos com absoluto sucesso. “ notabilíssimo ministro do Criador” e “ meu pai res­ peitadíssimo e sempre honorável”. menos de seis meses antes. quando ele tinha apenas 34 anos. sua firmeza e suas bases. Todavia. o senhor diz que “temos de estar sempre em guarda para não prestar deferência demasiada aos homens” . “ celebérrimo senhor” . mas uma autêntica e imorredoura reforma da igreja cristã. mas não posso negar sua coragem. em sua carta a Lutero. O senhor deixou de montar guarda? Não posso concordar com a agressividade de Martinho Lutero.

40 • SOU EU, CALVINO

/> O senhor é parecido com Lutero?

Sou tão pecador e tão salvo quanto ele. Temos o mesmo zelo
pela igreja, a noiva de Cristo. Enfatizamos sempre os três “somentes”: o “sola Scriptura”, o “sola gratia” e o “sola fide”. Tanto
eu como Lutero não fomos até o final do curso de direito e
estudamos hebraico por conta própria. Ambos nos dedicamos
ao ministério, ambos somos professores universitários, ambos
fazemos sermões expositivos versículo por versículo, ambos
gostamos mais do livro dos Salmos, ambos devemos muito da
nossa caminhada teológica à Carta de Paulo aos Romanos,
ambos nos casamos depois dos trinta anos. Tanto Lutero como
eu sabemos que precisamos oferecer continuamente resistência
à pecaminosidade latente e temos consciência de que estamos
dando muito trabalho a Satanás. Em nossa admoestação con­
tra os perversos, usamos os mesmos termos trava ou freio: as
autoridades devem não somente restringir, mas também dirigir
o povo. Por fim, nós somos parecidos porque nem ele nem eu
gostamos dos adjetivos luteranos e calvinistas, aplicados aos nos­
sos irmãos reformados. Mas Lutero é 26 anos mais velho que
eu. Ele é alemão e eu, francês. Ele nasceu no final do século 15
e eu, no início do século 16. Ele fala uma língua germânica e eu,
uma língua latina. Ele viveu na Alemanha e eu vivo na Suíça.
Ele é da primeira geração de reformados e eu, da segunda (eu
era um menino de apenas oito anos quando Lutero rompeu
oficialmente com Roma). Ele se casou com uma freira e eu,
com uma viúva. A maior diferença entre nós dois é quanto ao
temperamento.
á

Como assim?

Sou menos expansivo, menos impetuoso, menos arrojado.
Tenho um temperamento tímido. Sou acanhado por natureza.
Jamais teria coragem de atacar os papas com palavras tão

O VOO QUE NÂO SE REALIZOU •

insolentes quanto Lutero. Ele chamava o papa Clemente VII de
“arquipatife”. Em sua obra Advertência a seus Estimados Alemães,
publicada em abril de 1531 (ano em que meu pai morreu), o
“javali da floresta” (nome que o papa Leão X deu a Lutero em
sua encíclica Exsurge Domine, de 1520) diz que os papas “não
têm juízo nem vergonha”, são “dez vezes piores que os turcos”,
“verdadeiros diabos”, “miseráveis patifes”, “assassinos sangui­
nários”, “miseráveis inimigos de Deus” e assim por diante.
^ Apesar dos mesmos três “somentes” , parece que há diferentes
tendências entre a reforma feita por Lutero e a reforma que está
sendo feita por sua instrumentalidade.

Embora haja muita unidade entre uma e outra, há algumas
diferenças entre nós. Para Lutero, a lei de Deus serve para
revelar a santidade de Deus e conduzir o pecador a Cristo;
para mim, além disso, a lei mostra ao crente o caminho da
santificação. Para Lutero, o arrependimento conduz à fé;
para mim, o arrependimento flui da fé. Para Lutero, a “ordo
salutis” (a ordem da salvação) segue o seguinte itinerário:
vocação, iluminação, conversão, regeneração, justificação,
santificação e glorificação; para mim, começaria com a eleição,
a predestinação e união com Cristo, sem excluir os demais.
Para Lutero, o batismo regenera e remove a culpa e o poder
do pecado; para mim, o batismo incorpora o fiel na aliança
da graça. Para Lutero, Cristo está presente objetivamente no
sacramento da Ceia do Senhor; para mim, Cristo também
está presente, mas de modo espiritual, não físico. Quanto ao
princípio regulador da vida do crente, é mais uma ‘questão
de palavras’ (a posição luterana admite muitas coisas no culto
que a posição reformada não admite).
Na citada carta a Lutero, o senhor escreve: “Quisera poder
voar até você para desfrutar da felicidade de sua companhia ao

J

42 • SOU EU. CALV1N0

menos por algumas horas e conversar com você acerca de várias
questões” . O senhor chegou a estar com Lutero?

Infelizmente, não. Na época eu estava com 36 anos e Lutero,
com 62. Um ano e um mês depois de minha carta, ele entregou
o seu espírito a Deus em Eisleben, para onde tinha ido a fim
de apaziguar os dois condes de Mansfeld. Isso aconteceu no dia
18 de fevereiro de 1546. No entanto, tenho esperança de me
encontrar com ele no reino de Deus em breve.
á Na mesma ocasião, o senhor enviou alguns de seus pequenos
livros, pedindo que, nas horas vagas, ele os examinasse “superfi­
cialmente” , ou que solicitasse alguém que o fizesse em seu lugar
e depois conversasse com ele sobre o conteúdo dos livros. Este
seu gesto demonstra alguma timidez ou modéstia demasiada?

Penso que não. Apenas levei a sério as tantas e pesadas respon­
sabilidades de Lutero.
A Parece que tanto Lutero como o senhor de vez em quando têm
uma crise de depressão...

Quem não as tem? Depressão é a quase completa capitulação de
ânimo, de bem-estar, de segurança emocional, de autoconfiança,
de energia, de alegria e até mesmo da vontade de viver. Veja a
experiência de Elias. Depois de experimentar vitórias estrondosas
em seu ministério, de enfrentar a terrível Jezabel, seu marido
Acabe e os quatrocentos profetas de Baal no monte Carmelo, o
profeta passou por uma crise de depressão. Ele ficou com medo,
refugiou-se no deserto, teve vontade de morrer, chegou a pedir
que Deus o levasse e ainda experimentou uma autoavaliação
extremamente negativa (“eu sou um fracasso”). Veja também Jó.
Por causa de seu intenso sofrimento, o homem da terra de Uz pas­
sou por uma profunda depressão. A certa altura, ele desabafou:
“Agora já não tenho mais vontade de viver”; “O desespero tomou
conta de mim”; “O meu coração está agitado e não descansa”;

Á Dizem que o senhor. Não somos melhores do que Asafe quando vemos que tudo parece ir bem com os libertinos. Os poderes que não querem a reforma da igreja nos ameaçam. apesar do apoio de algum fidalgo ou monarca. o primeiro mártir protestante executado por ordem de Maria. Em 1552. os opositores. uma Igreja Católica reformada de acordo com a Escritura. no recénvencerrado Concilio de Trento. Apesar da oração. os traidores e os que fazem questão de trazer a esposa e os filhos para assistir a morte por fogueira do esposo e do pai. De minha parte. os orgulhosos. ela tenha aberto algumas janelas. A Sanguinária. Somos homens. como um dia sem sol”. e “Minha harpa está afinada para cantos fúnebres”. de mudança. no cadafalso. Lutero e outros reformadores são cismáticos muito relutantes. por exemplo. e não anjos alados. os mentirosos. nos colocam nas masmorras. E pura verdade. apesar das promessas das Escrituras. como aconteceu em 1555 com John Rogers. Somos pessoas de carne e osso. nos perseguem. na Torre de Londres. escrevi para Thomas Crammer. não hesitaria em cruzar dez mares se isso resolvesse a questão. Nem Lutei-o nem eu queríamos deixar a Igreja Católica. que a separação da igreja estava “entre as maiores desgraças do nosso século”.há momentos em que todos nós caímos em depressão. .0 VOO QUE NÀO SE REALIZOU • 43 “Levo uma vida triste. na estaca. Pelo contrário. embora agora. apesar das alegrias da comunhão com o Senhor e com os irmãos. apesar da alegria de viver e de morrer para o Senhor . sonhávamos com um catolicismo reformado. arcebispo de Canterbury. na forca. pelo menos no que diz respeito à moral do clero. Roma não abriu as portas para a reforma. e não super-humanos. As potestades do ar não desistem de nós. Estávamos interessados tanto na sua pureza como na sua unidade. da Igreja da Inglaterra. de reforma. Vivemos numa época de transição.

com fé não fingida em corpo. de modo a produzir seu fruto. Falo sobre eles em quase todas as cartas. 2) Gostaria que a doutrina de Deus fosse proclamada com eficácia e poder. prevalecesse em tudo. 4) Gostaria que a reforma da igreja fosse completa. . Porém. prestando-lhe reverência sincera. ao duque de Somerset. 6) Gostaria que o nome de Deus fosse sempre mais e mais glorificado por todos os fiéis. não me custa fazer uma lista dos meus ideais: 1) Gostaria que todos os nobres e aqueles que administram a justiça se submetessem em retidão e total humildade ao grande rei Jesus. Tomemos por exemplo a carta que escrevi no desastroso ano de 1548 (foi nesse ano que meu querido irmão Antoine ficou sabendo que sua esposa o traía). que na época era a maior autoridade do governo da Inglaterra. não a da carne. CALV1NO ^ Qual ideal norteia sua vida? Meus ideais não estão ocultos. alma e espírito.44 • SOU EU. 5) Gostaria que a sabedoria do Espírito. pois podar os abusos do cristianismo pela metade jamais irá restaurar a situação ao estado de pureza. 3) Gostaria que o escândalo e a conversão frívola não virassem hábitos de modo' que o nome de Deus não venha a ser blasfemado. levando to­ talmente a cabo uma notável e completa reforma da igreja.

esse e outros mitos representam uma grave distorção da realidade. Foram dez dias de intenso trabalho. que ficou conhecida pelo nome de Ordenanças Eclesiásticas. Cheguei a Genebra em setembro de 1541. Logo ao chegar.5 A IGREJA DE GENEBRA Vícios secretos devem ser repreendidos secretamente á Dizem que o senhor é “o grande ditador de Genebra” e teria introduzido na cidade uma espécie de terrorismo religioso. filhos do primeiro matrimônio de Idelette. dois meses depois de completar 32 anos. o manual foi adotado no dia 20 de novembro. Depois de examinado pelos outros pastores e pelo Pequeno Conselho. Quando não é uma completa invenção. Eu não tomei Genebra de assalto. Eu morava até então em Estrasburgo e estava feliz da vida. entreguewne à tarefa de redigir uma espécie de constituição para a igreja e a cidade. Tinha um ano de casado e dois enteados. Nesta constituição . Fui convidado a voltar e assumir a liderança da igreja cedendo às fortes insistências do conselho genebrino.

Se o can­ didato não possuir conhecimento bom e sólido da Escritura e capacidade para comunicá-la ao público de maneira edificante. Á Qualquer membro da igreja pode tornar-se pastor? Ninguém pode fazer parte deste ofício sem um chamado da parte de Deus. O ofício do pastor é proclamar a Palavra de Deus e então instruir. Para saber se ele está apto para ensinar é preciso sabatiná-lo. encontra-se uma forma democrática representativa e republica­ na de governo da igreja. presbíteros e diáconos. conforme se lê no livro de Atos. eleito e empossado. juntamente com os presbíteros e assistentes. ele não será ordenado pastor. Não sei como posso ser considerado ofensivamente “o grande ditador de Genebra” se várias vezes eu sofri oposição e minha voz não foi ouvida em alguns pontos! Á Quantas ordens de ofício vocês têm em Genebra? Existem quatro ordens de ofício instituídas por nosso Senhor para o governo de sua igreja: pastores. inspirada basicamente nas Escrituras e na prática da igreja primitiva.46 • SOU EU. á Exige-se algum juramento da parte do candidato caso ele seja ordenado? Ao ser ordenado. exortar e repreender. CALV1NO aparentemente simples. tanto em público como em particular. devemos observar esta forma de governo. além de administrar os sacramentos e exercer fraternalmente a disciplina. Entendo que. doutores. o novo pastor fará o seguinte juramento perante o Conselho: “Eu prometo e juro . Ele também não alcançará o mi­ nistério sagrado caso não tenha bons hábitos e comportamento adequado à luz do ensino de Paulo. se quisermos uma igreja bem organizada e preservada. Aquele que se diz chamado deve ser examinado pelo Conselho quanto à doutrina e quanto à conduta. admoestar.

Uma vez por semana nós nos reunimos para juntos discutirmos a Escritura e verificar se todos estamos conservando a pureza doutrinária e a concordância entre nós. cisma.A IGREJA DE GENEBRA • 47 que. a grosseria. servirei fielmente a Deus. a difamação. simonia. rebelião contra a ordem eclesiástica. ministrando de forma pura a sua Palavra para edificação desta igreja à qual ele me uniu. Por último. sem ódio. blasfêmia notória. apropriação indébita. de presbíteros. a ira incontida. danças e outros vícios similares. de diáconos. ele promete servir à igreja e ao povo de tal maneira que não seja impedido de prestar a Deus o serviço que de acordo com sua vocação lhes deve. O ofício . contendas e até a frouxidão nos modos e maus gestos. Além desse primeiro compromisso. no ministério para o qual sou chamado. que de forma alguma farei mau uso de sua doutrina para servir às minhas paixões carnais nem para agradar homem algum. rixas. Consideramos crimes intoleráveis coisas como heresia. corrupção. bebedeiras. perjúrio. quais são? A primeira ordem é formada de pastores. o candidato aceito e aprovado promete comportar-se com lealdade. repudiamos também a negli­ gência na leitura e no estudo da Palavra. de douto­ res. favoritismo. a avareza. A O Conselho exerce algum tipo de supervisão sobre os pastores? E claro que sim. no sentido de mantê-los no cumprimento de seu dever. a bajulação. Condenamos também qualquer intriga com o objetivo de um pastor ocupar o lugar do outro. a terceira. lascívia. vingança ou qualquer outro sentimento carnal no afã de exortar os que caem em pecado. e a quarta. a segunda. mas a aplicarei com consciência para o serviço de sua glória e para proveito deste povo do qual sou devedor”. Embora não coloquemos no mesmo nível. Á E os outros ofícios.

48 • SOU EU.e outros três durante a semana apenas na primeira igreja. aos órfãos. enquanto cumprirem com fidelidade o seu dever. O ofício próprio dos presbíteros é supervisionar a vida de cada pessoa para admoestar amigavelmente os que estão errando ou vivendo uma vida desordenada. Os que passam necessidades unicamente porque são preguiçosos não devem receber assistência. Esse ofício não deve se limitar aos pobres da comunidade eclesiástica. às viúvas. O ofício próprio dos diáconos é receber. Todo domin­ go. há uma aula de catecismo para crianças nas . Eles têm de ser homens de vida honesta e reta. mas também aos doentes do hospital. ao meio-dia. aos detentos e outras pobres criaturas.um ao raiar do dia e os outros às nove e às três da tarde . Esse ministério precisa desencorajar a mendicância até o ponto de vir a ser observada a total proibição de pedir esmola. Eles devem ser escolhidos e remunerados para terem sob sua responsabilidade professores tanto para línguas como para dialética. mas ser advertidos contra a preguiça. pessoas especializadas no Antigo Testamento e no Novo Testamento. Propus e foi aprovado que tivéssemos três cultos por do­ mingo nas três igrejas (São Pedro. Madalena e São Gervásio) . Á Em suas “Ordenanças Eclesiásticas” há alguma norma sobre o culto? Sim. Não é conveniente que sejam substituídos com frequência sem motivos. CALVINO próprio dos doutores é a instrução dos fiéis na verdadeira doutrina. que é a nossa catedral (nas segundas. a fim de que a pureza do evangelho não seja cor­ rompida pela ignorância ou por más opiniões. administrar e manter bens para os pobres e cuidar dos doentes. aos idosos que não podem trabalhar. senão na caridade. quartas e sextas). Esses homens são preletores em teologia. sem mancha e acima de suspeitas. Os que contribuem para esse fim precisam estar seguros de que as doações não serão empregadas de outra maneira.

ele acontece antes do culto. Ninguém deve trazer o seu vizinho perante a igreja a fim de acusá-lo de faltas que não sejam pelo menos notórias ou escandalosas. Toda disciplina deve ser feita com tal moderação que não haja rigor pelo qual alguém possa ser magoado. pois mesmo as correções são apenas remédios para se trazer pecadores de volta a nosso Senhor. Só então poderá professar a fé diante da igreja e passar a participar da Santa Ceia. á Vocês realizam cerimônias nupciais e fúnebres? Por que não? Celebramos o casamento tanto em dia de semana como no domingo. Á A igreja de Genebra é a favor da disciplina? Entendemos que vícios secretos devem ser repreendidos secre­ tamente. nós a submetemos a um teste: ela deve recitar solenemente um resumo do que aprendeu. á O senhor não acha impróprio oferecer o catecismo para crianças no horário de meio-dia? Pode ser. Quando uma criança for suficientemente bem instruída no catecismo.A IGREJA DE GENEBRA • 49 três igrejas. As crianças são importantes. Para dar conta deste programa semanal têm sido necessários cinco ministros e três auxiliares. Mas não celebramos no domingo de Santa Ceia. a menos que ele se mostre contumaz. Distribuímos um formulário para ser preenchido pelos pais a fim de verificar se as crianças estão entendendo e decorando as respostas. Insis­ timos que os cidadãos ou moradores de Genebra devem levar seus filhos ao catecismo todos os domingos. Quanto aos funerais. . Os que não se corrigem devem abster-se da Santa Ceia até o momento em que retornam com disposição e ânimo melhor. Mas vale a pena. em honra ao sacramento. Se for no dia do Senhor. Fazemos questão de introduzir cânticos sacros para alegrar e incentivar o louvor.

Aqueles que vão levar o caixão até a sepultura que chamamos de carregadores .50 • SOU EU. na Escócia de John Knox. . ^ Todas essas instruções e normas foram criadas pelo senhor em dez dias de trabalho? Exatamente. por exemplo. CALV1NO temos algumas normas. como. Tenho informações de que elas estão sendo adotadas fora de Genebra. Escritas por mim e aprovadas pelo Pequeno Conselho. O irmão que faleceu deve ser sepultado não antes de doze horas após a morte nem depois de vinte e quatro horas.devem desencorajar quaisquer superstições contrárias à Palavra de Deus e devem cumprir o horário do sepultamento.

as obras. As boas obras não causam a salvação. (Deus é despojado de sua dominação A salvação somente pela graça de Deus e não pelas obras. não desobriga o crente reformado das boas obras? De modo nenhum. Cuidamos das coisas grandes e das pequenas. como o senhor insiste sempre. EXTRAVAGÂNCIA E CONSUMISMO Vma coisa é certa: quando as riquezas dominam o domem. é proibido acender uma lareira em quartos sem chaminés. É uma questão de ordem: primeiro a salvação e. Por exemplo. Intrometemo-nos em tudo: . Em Genebra damos muita importância à ação social. é proibido jogar lixo ou excrementos humanos nas ruas. pois arranca delas a chaga da barganha e as torna uma expressão da gratidão e louvor a Deus.6 LUXO. é proibido construir uma sacada sem grades (para evitar que as crianças caiam dela). mas devem ser a causa dela. Daí as leis até sobre saúde e segurança. depois. Temos exerci­ do grande influência sobre o governo civil da cidade. Pode-se dizer que a doutrina do sola gratia santifica as obras.

Na época das eleições. a presença aos cultos dominicais era obrigatória. colocou rédea curta em todo mundo. na tentativa de moralizar a cidade. o dia de ir à igreja. a venda de pão e vinho a preços acima dos estipulados. a prática do jogo de cartas (que tirava o dinheiro de muitos em favor de poucos) etc. os negociantes não podem cobrar demais pela sua mercadoria. Guilherme Farei. tanto para não pesar demais como para não pesar de menos. os vigias noturnos devem fazer suas rondas com responsabilidade. Naturalmente algumas leis foram necessárias para disciplinar Genebra e torná-la uma cidade reformada não só nominalmente. tais como a estocagem de trigo na esperança de que ele suba de preço. Por exemplo. para proibir a blasfêmia contra Deus. Acabamos com os muitos dias santos herdados da Igreja Católica e devolvemos ao domingo a importância que ele deve ter. Em nossas exposições bíblicas. Quan­ do o primeiro dentista montou seu consultório em Genebra. Embora nossas intenções fossem as melhores possíveis. tornando-o verdadeiramente o dia do Senhor. Á Antes de sua primeira chegada a Genebra. o pregador da Catedral de Saint Pierre deve pregar sobre a necessidade de eleger homens piedosos. o dia de descanso semanal. não é pecado aquilo). CALVINO uma enfermeira não pode levar consigo para a cama os bebês. Temos de pedir sabedoria a Deus. Não podemos cair nem no legalismo (não faça isso. Temos de apelar mais ao coração do que à coerção. descobrimos que leis por demais .52 • SOU EU. Leis severas demais dão resultado? Minha experiência diz que não funcionam nem em curto nem em longo prazo. não faça aquilo) nem na frouxidão (não é pecado isso. a especulação financeira e o monopólio. Fizemos leis para regulamentar o uso de bares. eu mesmo fiz a primeira consulta para testar sua competência. Tornamos obrigatória a instrução pública. sob pena de pesadas multas. e os eleitos são exortados a governar sob a direção de Deus e para a glória dele. apontamos como contrárias à ética cristã as habituais manobras para aumentar o lucro.

eu e Farei. tomou a decisão de repartir a metade de seus bens com os pobres. Os proprietários de grandes extensões de terra. esforço e dinheiro com aquele semimorto à beira da estrada. e pecado grave. em abril de 1538. de modo nenhum ele deve esbanjar o seu dinheiro com o consumismo desenfreado. tanto na antiga dispensação como na nova. Jesus mostra que tanto o sacerdote como o levita não quiseram gastar tempo. Zaqueu. Uma vez convertido. E pecado porque ao redor dele há muitos que não têm teto. Isso é pecado. além de separar algum dinheiro para restituir aos que porventura tivessem sido lesados por ele. A ex­ travagância é sinal de egoísmo e. seja irmão na fé ou não. que excedem os limites do razoável. ele não tem o direito de gastar o seu dinheiro como bem entende? Mesmo não havendo a menor suspeita sobre a origem da fortuna de alguém. mesmo entre os crentes verdadeiros. provocam insatisfação. Os mandamentos de Deus em favor dos pobres. escolas e hospitais. Os fazendeiros do Antigo Testamento não deveríam colher todos os frutos de seus campos. se a pessoa que se entrega a isso é alguém honestamente rico. segundo a lei da rebusca da qual as viúvas Noemi e Rute se valeram. das viúvas.LUXO. que pendiam para o lado oposto. para não usar a palavra crime. abrigos para os sem moradia. portanto. Mas. a extravagância e os gastos supérfluos. Á O senhor tem sido contra o luxo. O que os ricos perdulários gastam com o luxo e o supérfluo daria para construir orfanatos. acabaram nos expulsando de Genebra. Os libertinos. não têm o que comer nem o que vestir. Na parábola do bom samaritano. mas deixar pelo menos os cantos das plantações para os necessitados. poderiam dividir uma parte delas ) . pecado. EXTRAVAGÂNCIA E C0N SU M 1SM 0 • 53 severas. muitas vezes abandonadas. dos imigrantes e dos incapacitados para o trabalho aparecem com impressionante frequência em toda a Bíblia. dos órfãos.

ocorre o caos. porque ela pode ser torcida e generalizada. em desobediência ao rei do Egito. O caso é sério! ^ No seu entender. por causa da Queda. Todavia. Entendo que cometemos um crime contra o próprio Deus quando obedecemos a ordens e exigências de um governo contrário à vontade expressa de Deus. Sou a favor da hierarquia na área conjugal (a liderança do marido). luz e ar. Deus é despojado de sua dominação. Os donos de grandes fortunas deveriam abrir novas empresas. Por esta razão. o oitavo mandamento da lei de Deus . não temo em afirmar que Daniel não pecou ao desobedecer a ordem dada por Nabucodonosor para que toda a população do vasto império babilônico adorasse a estátua que ele mandou erguer. deixaram vivos os filhos das mulheres hebreias. Sem essas lideranças. CALVINO em pequenos sítios e doar a famílias pobres e desempregadas.“não roube” . Também diria o mesmo a respeito da desobediência .significa apenas subtrair alguma coisa alheia? Defraudamos o próximo de seu bem quando deixamos de cumprir com os deveres dos quais somos incumbidos.54 • SOU EU. Se sou contra ou a favor da desobediência civil. incluindo Moisés. Diria o mesfho a respeito das parteiras Sifrá e Puá que. dando mau testemunho e fazendo sofrer ainda mais os que já sofrem. tanto pela omissão como pelo abuso. na área familiar (a liderança dos pais) e na área social (a liderança dos magistrados). não para obterem mais dinheiro. Trocando por miúdos: ele está quebrando o oitavo mandamento. tenho de tomar muito cuidado com a resposta. o senhor é contra ou a favor da desobediência civil? O governo civil é tão necessário quanto pão e água. Uma coisa é certa: quando as riquezas dominam o homem. Estou certo de que aquele que não se desincumbe para com os outros das obrigações que sua vocação inclui retém o que pertence a outrem. todas elas podem falhar. ^ Afinal. mas para criar mais ofertas de trabalho.

então. feita na noite de quinta para sexta-feira. essa é uma tentação muito forte para os nossos jovens. Ganhar uma guerra religiosa pela força não nos é lícito. como se vê claramente na história de Jó. Na chamada oração sacerdotal. EXTRAVAGÂNCIA E CONSUMISM O • 55 religiosa dos apóstolos que não deixaram de anunciar o evangelho. Nossas armas são diferentes. para ser morto ele próprio. Sou igualmente contrário ao engajamento do crente num exército mercenário. á Para ser verdadeiramente piedoso.15). Mas o ensino de Jesus é exatamente o contrário. o crente precisa evitar qual­ quer contato com a sociedade. como será luz do mundo e sal da terra? . com o mundo secular? A piedade de alguns anos atrás preconizava isso. mas que os guardes do Maligno” (Jo 17. Tudo quanto sustentarmos temerariamente sem a aprovação do Mestre não pode ter um resultado feliz. Zuínglio em Zurique e eu aqui em Genebra temos lutado contra isso. Os tormentos são uma provação e os tiranos não podem sobre nós mais do que Deus lhes permite. E sobre que condição? Para matar e ferir ou. Quando os tiranos lançam suas baforadas. Em algum momento. Por causa da oferta . Temos de aprender a esperar a mão de Deus.é muito comum hoje convocar soldados mercenários -. Se o crente fugir do ambiente não cristão. ele freará o furor dos tiranos e os fará cessar a despeito de seus dentes e fúria.LUXO. desprezando a decisão quase unânime do sinédrio. Se há gente no mundo que seja desregrada é aquele que. devemos volver nossos olhos para contemplar o socorro que Deus dá aos seus. em vez de aplicar-se a algum trabalho honesto e legítimo. Á O senhor é contra o serviço militar? Sou absolutamente contra o uso bélico em defesa da fé e em defesa dos perseguidos por sua fé. Sofrer perseguição não significa ser abandonado por Deus. Jesus orou ao Pai: “Não peço que os tires do mundo. corre atrás de um soldo a quem mais lhe dá.

1 Coríntios 1.17 em latim. Entre eles. e Tiago 3. e Theodoro de Beza. medicina ou direito. na Itália. cito os nomes de Pierre Viret. de 40. não com dinheiro de algum príncipe ou cardeal. construída numa pequena colina próxi­ ma à catedral. todas sobre sabedoria: Salmo 111. Trata-se da universidade de Al-Azhar. Quase todos vieram de Lausanne. Após a conclusão do curso secundário. especialmente do meu país. fundada no Cairo no ano de 970. Todos os professores eram protestantes e muito competentes.24 em grego. como tem sido comum até então. mandamos colocar três passagens bíblicas em três línguas. que são os cursos mais procurados. Dou graças a Deus porque a Reforma redescobriu o significado pleno da desobediência de nossos primeiros pais. sustentada por pilares de granito. A primeira universidade protestante é a nossa Academia de Genebra. Beza assumiu a reitoria. de 48 anos. Lembro-me de uma pobre senhora que deu somente cinco moedas e de um tipógrafo bem-sucedido que doou a maior parte de sua fortuna. á O tempo todo o senhor se refere à Queda. Eu mesmo levantei a maior parte dos recursos com os moradores da cidade. Ela foi inaugurada no dia 5 de junho de 1559. e a de Paris.10 em hebraico. onde estudei.56 • SOU EU. Do conceito . poucos dias depois do meu quinquagésimo aniversário. Isso não seria superestimar o evento? Tudo o que eu pregar ou escrever sobre a Queda será pouco. na França. alguns permanecem para estudar teologia. A matrícula está aumentando muito de ano em ano. As duas primeiras universidades cristãs e europeias são a de Bolonha. No teto da varanda. Grande parte dos estudantes vem de várias nações da Europa. CALVINO " \ Á Foi o senhor que fundou a Academia de Genebra? A primeira universidade de que temos notícia não era cristã nem europeia. Todos os alunos se comprometem oficialmente com a confissão de fé reformada.

A Bíblia chega a dizer que o leão viverá sem causar dano e não mais se lançará à presa. por dentro e por fora. partimos para o conceito de queda total e absoluta. O ser humano em sua totalidade é obra de Deus. Depois do acontecimento que o capítulo três de Gênesis narra. e o pecado dele trouxe consigo a morte a todos os homens” (Rm 5. em estado como era antes da Queda. o pecado entrou na raça humana inteira. conhecido como Doctor Angelicus. A desgraça da Queda ajuda a entender a glória da salvação. o mundo. ao fim do mundo. ao fim da história. Tudo foi desmantelado pela Queda. inclusive o intelecto e a vontade. A Jesus Cristo incumbe restaurar todas as coisas à boa ordem. Nunca deixo os rapazes da academia nem o povo de Genebra sem a esperança que está diante de nós. e não ferirá com sua picada venenosa. ao fim do tempo. de que o Senhor é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo? Convido-o a ouvir as minhas pregações na Catedral de Saint Pierre. Dou igual ênfase à Queda e ao levantamento do ser humano. Isso significa que a presente confusão rei­ nante será desfeita pela vinda de Jesus. Caminhamos em direção ao fim do mal. Estamos aguardando o dia em que seremos semelhantes a Jesus. EXTRAVAGÂNCIA E CONSUMISM O • 57 incompleto da Queda. Seremos . expresso na teologia de Tomás de Aquino. ^ O senhor porventura gasta a mesma quantidade de saliva para pregar sobre a esperança apontada pelo precursor de Jesus. a assistir às minhas aulas de teologia na academia e a ler os meus livros. ele tornou-se um ser caído em toda a sua natureza. que viveu três séculos atrás. e que a serpente contentar-se-á de seu pó e nele se esconderá. Paulo resume: “Quando o pecado entrou no mundo por meio de um só homem. a sociedade. Enfim. e não mais sujeitos à humilhação e à servidão do pecado.LUXO.12). Foi uma ruína sem medida que atingiu o homem. a história e a criação. tudo quanto está em confusão e desordem será restaurado à sua ordem primitiva. prin­ cipalmente a relação da criatura humana com a criação.

os céus e a terra que hoje existem serão destruídos e substituídos por novos céus e nova terra. Depois dos sete selos.14). à impaciência. depois das sete trombetas e depois das sete taças. mas também de que a igreja é uma antecipação do reino de Cristo em sua vinda. o Diabo será lançado fora. acorde!” (Ef 5. Não temos apenas duas boas novas para dar .5). governada pelas leis de Cristo. aquela que um dos 24 anciãos disse a João: “Pare de chorar! O Leão da tribo de Judá. Quanto aos livros do Antigo Testamento. ^ Pena que o senhor não tenha escrito um comentário do Apocalipse. Apocalipse foi o único livro do Novo Testamento sobre o qual não escrevi comentário algum. . Há uma terceira boa nova. a Raiz de Davi. à irritação. os pecadores serão julgados por suas obras más.a boa nova de que Jesus nasceu e a de que ele ressuscitou. antes da consumação de tudo. Vem a calhar a citação de Paulo que aparece na Carta aos Efésios: “Você que está dormindo.. á A única coisa a fazer agora é esperar a plenitude da salvação? Esperar só não! Isso nos levaria à indolência. faltaram nove. Jesus descerá do céu em poder e muita glória. Somqs como uma sociedade provisória. os vivos serão transformados. mesmo imperfeita. um ministério político (a igreja precisa vigiar o Estado) e um ministério social (a igreja precisa socorrer os necessitados). nesta ou em outra ordem. Esse é o evangelho que Jesus mandou pregar agora no mundo inteiro..58 • SOU EU. CALV1NO plenamente restaurados e integralmente remidos. Precisamos adquirir a consciência não só da grande comissão. os mortos vão ressuscitar. De fato. Temos um ministério didático (a igreja precisa pregar e ensinar). venceu e mostrou que é digno de abrir o livro e quebrar os sete selos” (Ap 5.

Ou­ tros. o senhor é a favor da tortura? á Sou obrigado a admitir que pelo menos uma vez eu me mani­ festei favoravelmente à tortura de alguém. Foi em 1555. Não nego. pelo menos estranha. escrevi: “Veremos o que a tortura pode arrancar deles”. numa carta a Farei. Por exemplo. Certa vez eu disse que fulano de tal “não tinha mais fé do que um cachorro ou do que um porco”. á Disseram-me que o senhor às vezes usa expressões muito duras com seus oponentes. Naturalmente alguma coisa é juízo temerário ou intriga.7 O DOUTOR QUE NÃO TINHA MAIS FÉ DO QUE UM PORCO 0 Mafigno tem triunfado so6re nós deforma a nos oôrigar a aèai^gr a ca6eça Tenho ouvido aqui e ali alguns rumores a seu respeito. Referindo-me à prisão do chefe deles. expressam mesmo alguma conduta senão repreensível. por ocasião da queda dos libertinos. quem sabe. O pior é que eu .

Por exemplo.60 • SOU EU. com toda pureza (lTm 4. Nos outros. Eu estava fazendo a mesma confissão de Paulo: “Não faço o bem que quero. mas justamente o mal que não quero fazer é o que faço” (Rm 7. passei a usar o pronome na primeira pessoa do plural: “De fato o Maligno tem triunfado sobre nós de forma que temos sido forçados a gemer com isso. Eu estava lamentando essa propensão pecaminosa permanente. j A Parece-me que o senhor fica no alto da escada para repreender alguém lá embaixo.12.2). . Perdi a paciência com ele por causa de algumas de suas idéias não muito ortodoxas. á Uma dessas propensões pecaminosas seria na área sexual? Por que não? Se Paulo adverte a Timóteo a ser um exemplo na pureza e a tratar as mulheres jovens da igreja como irmãs. a qual só pode ser vencida por Jesus Cristo. Não é verdade. a abaixar nossa cabeça e a não fazer mais perguntas”. o senhor teria escrito à duquesa de Ferrara uma carta muito clara. Você leu apenas o primeiro parágrafo da minha carta. Á A propósito. um doutor da Sorbonne que havia se tornado protestante e fora residir em Genebra. dizendo que ela havia se desviado do reto caminho a fim de agir de acordo com o mundo. por que eu estaria livre de alguma tentação nesta área? Lutero dizia que “a castidade não é tão fácil quanto calçar e descalçar os sapatos”. no primeiro degrau. 5. Eu estava me referindo à carga pecaminosa que todos carregamos dentro de nós.19). é verdade que o senhor teria dito ter uma “besta selvagem feroz” em sèu interior que ainda não havia conseguido dominar? Sim. CALV1NO estava me referindo a Pierre Caroli.

e não da classe A. não podem portar armas nem assumir posto público. alguém me passou a informação de que o senhor é vítima de tendências homossexuais. Bolsec formou-se em medicina e exerceu por algum tempo a profissão numa cidade perto de Genebra. Quanto à outra acusação. logo no capítulo um. por meio das minhas pregações na Catedral de . Os habitants não têm nenhum direito de voto. é inteiramente composto de citoyens. O responsável por essa maledicência irresponsável é um ho­ mem chamado Jérôme-Hermès Bolsec. á Chamam-no às vezes de o “grande ditador de Genebra”. Se nem citoyen eu era. Estes eram chamados de citoyens (cidadãos) e aqueles de habitants (habitantes). formada pelos nativos. como você pode ver em meu Comentário aos Romanos. Durante quase toda minha vida. Ele também diz que tenho o hábito de flertar com qualquer mulher que se aproxima de mim. Eventualmente. a minha convicção é que ela é uma escolha per­ vertida e execrável. Quanto à prática homossexual. podem tornar-se pastores ou dar aulas. ela também não procede. uma completa invenção que representa uma grave distorção dos fatos. como seria o grande ditador de Genebra? Pode ser que. com a idade de 50 anos. eu fazia parte da classe C. responsável por todos os aspectos da vida de Genebra. Isso expressa a verdade? É apenas um mito. Somente em 1559. mas somente em razão da ausência praticamente absoluta de outras pessoas nascidas em Genebra e qualificadas. é que eu fui promovido a cidadão de Genebra.0 DOUTOR QUE NÃO TIN HA MAIS FÉ DO QUE UM PORCO • 61 À boca pequena. aqui em Genebra. formada pelos estrangeiros residentes na cidade. O corpo diretivo do Petit Conseil (Pequeno Conselho). ex-monge carmelita que virou protestante e depois voltou para o seio da Igreja Católica. Além de teólogo e polemista.

sim. A Mas o enforcamento do médico herege Miguel Serveto aconteceu. O homem foi queimado numa estaca no dia 27 de outubro de 1553.. Mas sem o menor conteúdo político. Tenho sido obrigado a confessar tristemente a Deus as vezes em que não sou capaz de me manter nos limites. ao redor da qual a cidade está construída. a Andreas Osiander foi agressivo e arrogante. A É verdade que uma criança foi decapitada em Genebra por ter agredido os pais dela? Ao que eu saiba. E na disputa com Miguel Serveto cheguei a gritar com ele. Fui eu que pedi a prisão dele. eu tenha exercido algu­ ma influência sobre a população e nos destinos de Genebra. A Por falar em testemunho. o seu testemunho é sempre bom? Não tanto quanto o meu dever e o meu desejo. fiz de tudo para que ele fosse morto de outra maneira que não pelas chamas. Embora eu não tivesse paciência com Serveto. Algumas ve­ zes perco as estribeiras e deixo a carne aparecer. isso nunca aconteceu em Genebra. e eu não posso negar a minha participação. a condenação e a execução de Serveto foram obra do Pequeno Conselho. O tratamento que dispensei. com a idade de 42 anos. fui eu que fiz acusações contra ele. Certo ou errado. dos meus livros e do meu testemunho. Nem sempre domino a minha irritabilidade e controlo o meu pavio curto. derramando amargura por todos os lados. das minhas aulas na academia.62 • SOU EU. era isso que fazíamos com os hereges em toda a Europa. CALV1N0 Saint Pierre. mas . Mas o julgamento. Aconteceu. por exemplo. fui eu que debati perante o Pequeno Conselho para provar que as heresias dele estavam ameaçando a igreja de Cristo.. deixando que minha bílis assuma o controle da minha mente. dos meus atendimentos pastorais.

resolveram enforcá-lo ali mesmo na estaca. Á Por falar em heresia.. aliás. Com esse mesmo intuito.0 DOUTOR QUE NÀO TIN HA MAIS FÉ DO QUE UM PORCO • não obtive sucesso. atiçar o fogo para queimar mais rapidamente. de maio de 1547 a março de 1550. Pergunte ao cardeal Sadoleto qual foi a impressão dele do meu estilo de vida quando ele veio me visitar pouco tempo atrás. Aliás. tentei demovê-lo de seus erros. minha posição é totalmente contrária a elas. Enquanto em muitos outros lugares da Europa a condenação de hereges ou pseudo-hereges à pena máxima é algo rotineiro. ele achava que eu tinha um monte de pessoas para me servir.39 pessoas foram para a fogueira na França pelo mesmo motivo. Serveto foi o único indivíduo executado em Genebra desde que eu vim para cá. Isso é mentira. Venha até minha casa aqui na rua do Canhão e veja como eu vivo. ^ Na cidade francesa de Poitiers ouvi dizer que o senhor enrique­ ceu-se em Genebra. mas outra vez sem sucesso. está cercado de pompa e faz todo mundo beijar seus pés. jogando feixes de lenha sobre ele a fim de apressar o processo da morte. tentavam. Meia hora depois Serveto era um homem morto. Por meio de muitas cartas. a sexta-feira. Sou verdadeiramente rico no sentido de estar abundantemente satisfeito com meus . horrorizados com os prolongados gritos da vítima em agonia. Nunca demonstrei o menor sinal de desejar tais mudanças.) Não comparecí à execução de Serveto. (No período de três anos. e não um criado. o já citado Jérôme Bolsec tem espalhado a notícia de que o senhor quer abolir o domingo a fim de observar. publicada secretamente em Viena naquele ano. em lugar dele.. Mandei as minhas Institwtas para ele e ele me enviou as suas Restitutas. por piedade. mas soube que foi uma cena horrível: os executores eram inexperientes e os espectadores. Ele estranhou que eu mesmo houvesse aberto a porta da casa para ele entrar.

tenho sofrido dos seguintes problemas de saúde que cito em ordem alfabética. lassidão renal. pleurisia. . Só me casei aos 31 anos. A despeito de tudo.64 • SOU EU. en­ xaqueca. A impressão que tenho é que sou realmente uma pessoa doente e uma das minhas doenças seria a tal hipocondria a que o amigo se refere. mas fiquei viúvo nove anos depois. glória à sua vida e glória à sua graça! Isso tem me bastado. gota. CALVINO escassos recursos. quando havíamos sido expulsos da cidade. indigestão. Porém. Acresce que eu sou de temperamento tímido. hemorragias. A Sem mudar de um assunto para outro. Disseram-me também que eu tenho um tipo de tuberculose. tenho trabalhado incansavelmente pelo evangelho . tosse e úlcera. na época. e não em ordem de acometimento: artrite. mas vamos a ele. dificuldades respiratórias. Talvez eu seja muito emotivo. Já me consultei com eminen­ tes médicos parisienses. Talvez o meu erro seja pensar demais e falar demais em doenças e me preocupar demais com elas. ministrando aulas. como o doutor Acatus e o doutor Tagante. ascarídeos intestinais. calafrios. Tenho pensado no assunto. nefrite. tenho sempre dado glória a Cristo: glória à sua palavra. estabelecer limites para o meu pesar. mais no passado do que agora. o pastor de Genebra que nos havia abençoado muito. abateu-me de tal maneira que não consegui. Foi uma luta enorme não ficar esmagado com a morte de Idelette. febre. A morte de Courrault. asma. Eu me realizo com riquezas do tipo que o dinheiro não pode comprar. a mim e a Farei. glória à sua pessoa. escrevendo e participando de reuniões. cálculos renais. Deixe-me tocar agora num ponto delicado: o senhor é hipocondríaco? De fato é um ponto delicado.pregando. Valendo-me dos diagnósticos médicos e da minha própria observação. como é o seu temperamento? De vez em quando sofro de melancolia.

8 LIVRO POR LIVRO. CAPÍTULO POR CAPÍTULO. na leitura das Escrituras. como Paulo ensina na Epístola aos Romanos. a igreja perdeu de vista não só o “somente a graça” como também o “somente as Escrituras”. Há muito tempo. porém . o “sola Scriptura" é mais importante do que o “sola gratia”? Não digo que um é mais importante do que o outro. Estamos colocando a Europa em chamas a partir da redescoberta da autoridade da Bíblia. Isto é. á O que houve com a Bíblia antes do presente século? Ela ficava bem guardadinha nas celas dos mosteiros e nas sacristias das catedrais. VERSO POR VERSO A DaCavra de (Deus é tão sagrada para mim como se eu a ouvisse dos (aôios do próprio Deus -4 Para a reforma em curso. A reforma está sendo feita graças à redescoberta da Bíblia. redescobrimos que a salvação é um dom gratuito. Não muito longe do povo. Prefiro dizer que o primeiro “somente” (o sola Scriptura) nos leva ao segundo “somente” (o sola gratia). Essa foi a redescoberta inicial.

então. principalmente nas coisas que dizem respeito à salvação e às necessidades”. uma semana sim e uma semana não. Sem interrupção? Só deixo de pregar por motivo muito forte. Por ter ficado gravemente enfermo na primeira semana de outubro de 1559. fiquei seis meses sem pregar. Dessa data até hoje devo ter pregado mais de 3. um livro de difícil interpretação. passei a pregar todos os dias. Gosto de afirmar que as Escrituras são o cetro do reino de Cristo e que manter o povo na ignorância é uma atitude contrária e altamente prejudicial. não tenho podido caminhar normalmente e então alguém me carrega e me coloca no púlpito da Catedral de Saint Pierre. continuo pregando. o que a igreja deve fazer é exatamente o contrário: encorajar a leitura da Bíblia. nestes últimos dias. maneira permanente desde 1541. muito mais clara que o próprio sol. pouco depois de comemorar o meu quinquagésimo aniversário. considerou-me digno de ser investido no sublime ofício de pre­ gador. Vez e outra. Nos primeiros oito anos. Lutero dizia que “as Sagradas Escrituras são uma luz especial.66 • SOU EU. O mínimo que se pode dizer é que a igreja tem privado o povo comum das Santas Escrituras sob o pretexto de serem elas um mistério oculto. ou seja. . CALVINO não nas mãos do povo. Estou aqui de.500 vezes. á O que o senhor faz em Genebra em favor do conhecimento da Palavra por parte do povo? Havendo Deus me tirado de minha origem obscura e humilde. Prego em média 170 sermões por ano. pregava três dias por semana e duas vezes aos domingos. E. A partir de 1549. o que me causou muito incômodo. No entanto.

sua eloquência. seu porte e seu conhecimento de línguas originais. Fiz 149 sermões sobre Ezequiel. só sobre o livro de Atos. ele tenha a sua atenção capturada e seja convencido. 353 sobre Isaías. a reforma da igreja só será bem-sucedida se o poderoso instrumento da pregação for cada vez mais desenvolvido. ao voltar a Genebra em setembro de 1541. versículo por versículo. algum problema na igreja ou por sugestão de alguma ovelha? Costumo pregar sobre um livro da Bíblia. limite-se a pregar a . VERSO POR VERSO • Á Seu sermão é inspirado por algum acontecimento de Genebra. depois de ter sido banido da cidade três anos antes. A pregação não é para chamar a atenção para o pregador. Por exemplo. Quando acabo um dos livros. sua retórica. reprovar de tal modo que. 159 sobre Jó. Mas há um porém: a pregação não pode ser desprovida de vigor. preguei 89 sermões entre 1549 e 1554. Paulo exorta: “Se você prega. Ao terminar cada sermão. Deve ser vivida. pois o seu pro­ pósito é ensinar. Alguns extrapolam todos os limites e pregam fantasias tolas. Á Tudo indica que o senhor dá uma relevância enorme à pregação. 87 sobre 2 Samuel. Faço tanta questão de não quebrar a sequência que. exortar. se algum incrédulo entrar no recinto. 200 sobre Deuteronômio. reiniciei minhas pregações exatamente onde havia parado em abril de 1538. Parece haver hoje em dia pouquíssima pregação vigorosa. Fiz o mesmo depois de me ausentar do púlpito por meio ano por motivos de enfermidade. A maioria dos pastores lê um discurso escrito. passo para outro. CAPÍTULO POR CAPÍTULO.LIVRO POR LIVRO. Trata-se de uma pregação sequencial. e assim por diante. Por que não o faria se “a fé vem por ouvir a mensagem e a mensagem vem por meio da pregação a respeito de Cristo” (Rm 10. capítulo por capítulo. Tenho feito assim a vida inteira.17)? Em minha opinião. 107 sobre 1 Samuel. 123 sobre Gênesis. digo às minhas ovelhas: “Continuo no próximo culto”.

7). o senhor é. depois da Bíblia. Gosto muito de pregar e gosto muito de escrever. com autoridade bíblica (ele começa a pregação com as palavras “assim diz o Senhor”). o apóstolo continua: “O que ensina. Além do mais. Uma vez bem alimentado. esmere-se em fazê-lo”. na opinião dele. Mas há algumas diferenças notórias. eu sei quem está ouvindo os meus sermões. eu não sei quem está lendo os meus escritos. eu dou de comer aos outros. nem todos os ouvintes têm a mesma capacidade de prestar atenção. com humildade (ele não se esquece da sua dependência da Videira). com clareza (ele leva a sério a exortação de Hc 2. porque. No verso seguinte. seja pela palavra pregada. CALVINO X mensagem de Deus” (Rm 12. com simplicidade (ele não usa palavras complicadas). Ao pregar. Mas o que vem primeiro mesmo são as minhas leituras devocionais das Escrituras. “incomparável na interpretação das Escrituras”. á Theodoro de Beza.68 • SOU EU.2). O esmero é necessário porque em geral o sermão não goza de boa reputação. O que o senhor aprecia mais: pregar ou escrever? Realizo-me de ambas as maneiras. com substância (ele oferece algo para matar a fome e a sede da alma faminta e sedenta) e com unção (ele não deixa o Espírito Santo de lado). com paixão (tanto pelo conteúdo da mensagem como pelo ouvinte). seja pela palavra escrita. seu colega de ministério. V O que acontece primeiro: as mensagens bíblicas verbais ou os comentários bíblicos escritos? Os comentários de vários livros da Bíblia que escrevi são frutos das minhas pregações na catedral e das minhas aulas na academia. Ao escrever. a não ser algumas . Há quem chegue a dizer que o sermão “é um arrazoado longo e enfadonho com que se procura convencer alguém”. costuma exortar os estudantes de Genebra a lerem os seus comentários. Temos de pregar com autenticidade (o pregador faz o que prega).

Alguém podería pensar que é o maior por ser o comentário do livro mais longo da Bíblia (uma coleção de 150 salmos). condenar . Dediquei-o aos leitores piedosos e sinceros. as dores. Á Qual dos 66 livros da Bíblia o senhor mais aprecia? O meu comentário mais longo é o de Salmos. todas as emoções perturbadas com as quais a mente humana se agita. Tenho por costume chamar esse livro prático de uma anatomia de todas as partes da alma. pois não há sequer uma emoção da qual alguém porventura tenha participado que não esteja nele representada como num espelho. Ou melhor. as dúvidas. individualmente. um exame de nós mesmos. São mais de 2. parece que minha predileção recai mesmo sobre os Salmos. As demais partes das Escrituras contêm os mandamentos. CAPÍTULO POR CAPÍTULO. as perplexidades. pelo menos os meus alunos da academia me ouvem e me leem. VERSO POR VERSO • 69 poucas vezes. Embora eu tenha grande estima pela Carta de Paulo aos Romanos. no livro de Salmos. os temores.600 páginas impressas em quatro grandes volumes. os quais Deus ordenou a seus servos que nos anunciassem. Mas em Genebra. os salmistas (gosto de chamá-los de profetas porque falam com Deus e expõem aberta­ mente todos os seus íntimos pensamentos e afeições) atraem cada um de nós a fazer. quando estava com 48 anos. o Espírito extirpa da vida todas as tristezas. por ser a porta amplamente aberta para a sólida compreensão de todo o restante das Escrituras. a fim de que nenhuma das nossas debilidades e nenhum dos nossos muitos vícios permaneçam ocultos. um ano antes de adoecer gravemente. as provocações. as expectativas.LIVRO POR LIVRO. porém. Á A Bíblia é de fato inspirada por Deus? A resposta está na própria Bíblia: “Toda a Escritura Sagrada é inspirada por Deus e é útil para ensinar a verdade. Nos Salmos. Escreví esse comentário em 1557. enfim.

assim como os avós fazem com as crianças. Em sua Palavra. A Palavra de Deus é tão sagrada para mim como se eu a ouvisse dos lábios do próprio Deus. O conheci­ mento das Escrituras desde a tenra infância é uma bênção especial da parte de Deus. boca e assim por diante. ele não tem braços. balbuciando-a a nós. nas Escrituras e nos sacramentos. que a Escritura é proveitosa não só para consolar e encorajar. Vez e outra . corrigir as faltas e ensinar a maneira certa de viver” (2Tm 3. o seu autor. por meio da Palavra. corresponde-nos inclinar nossas cabeças para receber o juízo de Deus. Tenho insistido que nem tudo o que a Bíblia diz sobre Deus ou sobre o mundo deve ser entendido literalmente. mas também para apontar os nossos erros. como Paulo ensina. É verdade. Deus se acomo­ da à nossa capacidade. Vemos isso na encarnação. Eu entendo que a revelação é um ato de condescendência divina. O nosso Deus é aquele que desce ao nosso nível e se adapta à nossa capacidade. Por exemplo. A A Escritura fora da sacristia e nas mãos do povo comum pode vir a constituir um problema? Com Escritura ou sem Escritura. sempre há aqueles que não sabem lidar com bom senso em matéria de religião. A O que é o “conceito de acomodação” que é atribuído ao senhor? É algo muito simples. Essa maneira de expressar são apenas metáforas vivas e memoráveis usadas para ele se comunicar conosco. Se somos reis e príncipes.16). A pregação é para todos. CALVINO o erro. põem o dedo na ferida. como se vê na Bíblia.70 • SOU EU. Tenho instruído os cristãos a não serem soberbos na hora de ouvir uma advertência nem a se aborrecerem e se revoltarem quando os pregadores. sobretudo se for alguém da classe alta. Deus não pode se revelar a nós de nenhuma outra maneira senão por meio de comparações com coisas que conhecemos.

tenho por certo que é ímpia e danosa a con­ duta da igreja em privar qualquer pessoa das Santas Escrituras. Diziam que o cultivo da teologia era uma forma de idolatria e consideravam os eruditos como falsificadores da Palavra. na certeza de que estava devolvendo à igreja os profetas! Os abecedarianos nutriam um desprezo absoluto por qualquer forma de conhecimento e incentivavam inclusive o analfabetismo. quero frisar que a Escritura é a melhor intérprete de si mesma. cha­ mado Nicholas Storch. podemos entender melhor as passagens que nos parecem mais difíceis. a única luz de que o ser humano precisa promana do Espírito Santo por meio de visões e êxtases. VEIISO POR VERSO • 71 descambam para o extremismo. A religião é um campo fértil para o comportamento fanático.LIVRO POR LIVRO. Na França e em outros lugares. E. por falar nisso. Na junção e na comparação dos textos bíblicos. Porém. como tem acontecido. CAPÍTULO POR CAPÍTULO. Acho extraordinário o elogio que o autor dos Atos dos Apóstolos faz aos novos convertidos de Bereia: eles são mais nobres que os tessalonicenses porque diariamente examinam as Escrituras “para ver se elas davam apoio ao que Paulo dizia” (At 17. Mesmo havendo em seu tempo aqueles que deturpavam as Escrituras a seu bel-prazer. os quais deram muito trabalho a Lutero e causaram grandes estragos à Reforma. Cito.16). sob o pretexto de serem elas de difícil interpretação. Por isso eu digo: problema maior que as distorções é trancar a sete chaves na gaveta de algum armário da casa paroquial as Escrituras. Pedro nunca mandou esconder a Palavra dos crentes (2Pe 3. inclusive o povo comum.11). Um deles. Para eles. mesmo com estas distorções. os profetas de Zwickau e os abecedarianos. nossa única regra de fé e prática! . a igreja fica livre para cometer muitos erros. Sem a vigilância dos que leem a Bíblia. por exemplo. teve a audácia de escolher 12 apóstolos e 72 discípulos. alguns irmãos entendem que devem quebrar todas as imagens dos templos católicos para cumprir à risca o que está no Antigo Testamento.

mudança de comportamento. Depois. Foi então que Jerusalém pegou fogo. quan­ do ele começou a ler a Bíblia. os levitas foram ao encon­ tro do povo para explicar o que havia sido lido. a entender a Bíblia e a ensinar a Bíblia. Houve choro. desde o nascer do sol até o meio-dia. arrependimento. Quando chegou a ocasião oportuna. e o papel das Escrituras fica evidente.72 • SOU EU. A reforma começou no coração de Esdras. CALV1N0 á O senhor chamaria de reforma religiosa o que aconteceu em Jerusalém na época de Esdras e Neemias? Por que não? Foi uma reforma e tanto. redescobertas de coisas importantes esquecidas com o tempo. confissão de pecado. Algo muito parecido com o que está acontecendo 11a Europa desde a década de 1510! . alegria e exultação. o povo reuniu-se para ouvir a leitura pública da Bíblia feita por Esdras.

Estamos totalmente tomados pelo veneno do pecado. Para qualquer parte da alma e do corpo que olhemos. Porém é a mais apropriada. O profeta Isaías é mais candente e contundente do que eu. Somos incapazes de quaisquer boas obras. ele declarou ao povo de Israel: “Vocês estão doentes da cabeça aos pés”.9 DEPENDENDO DO ESPELHO O SER HUMANO SE VÊ FEIO DEMAIS 0 homem peca com o consentimento de uma vontade pronta e disposta á Quando o senhor fala em depravação total. Quando pecamos. Nossa vontade é má e cheia de afetos corrompidos. Por volta do ano 700 antes de Cristo. profano e abominável diante de Deus. Somos oprimidos por uma grande . é impossível ver algo que não seja impuro. pecamos constrangidos por uma premente necessidade e com o consentimento de uma vontade bastante pronta e inclinada a isso. um dos seus temas prediletos. coberta de erros infinitos e sempre contrária à sabedoria de Deus. confesso que acho a palavra forte demais. inclinando-nos impetuosamente para a iniquidade. A inteligência do ser humano é cega.

nossa natureza . o ser humano é viciado no pecado. Zaqueu levantou-se e declarou que daquele dia em diante não seria amante do dinheiro e devolvería o que havia roubado dos outros. A consciência dessa pessoa está silenciada. O ministério cristão é este: abrir os olhos dos pecadores a fim de que possam voltar-se das trevas para a luz. Veja o que aconteceu com o filho mais novo da parábola de Jesus: a certa aluira. o ladrão da cruz: às 9h da manhã ele dizia impropérios a Jesus. O seu pecado maior é o orgulho. Adão e Eva. por fim. no paraíso. Veja. CALVINO carga de pecados e maculados por uma infinita corrupção. Veja o que aconteceu com o publicano de Jericó: a certa altura da conversa com Jesus. De uma hora para outra. mas antes do meio-dia ele já havia reconhecido os seus crimes e apelado para o Senhor. naquele chiqueiro.74 • SOU EU. naquela terra distante. incapaz de abrir os olhos para suas próprias misérias (para a miséria alheia pode ser que não tenha dificuldade algu­ ma). calada. A Definitivamente? Até que a maravilhosa graça de Deus a alcance. cauterizada. totalmente depravado? Além de ser um expediente cie defesa. ^ A depravação total tem uma história? A depravação total vem da Queda e da desobediência dos nossos primeiros pais. anestesiada. por que o ser humano não se enxerga assim. o Espírito é capaz de acordar. de tal forma que ela não presta para mais nada. encostada. da justiça e do juízo. Não há o que tirar nem pôr. A Então. E a maior barreira para a pessoa se reconhecer depravada. Ali. pois está definitivamente morta. o rapaz caiu em si e declarou-se pecador tanto ao Pai lá de cima quanto ao pai cá de baixo. aposentada. Um dos ministérios do Espírito Santo é convencer o pecador do pecado. A palavra é forte demais para o orgulhoso. ressus­ citar e descauterizar a consciência. Essa é a verdade nua e crua.

á 0 senhor é o detentor da doutrina da depravação total? É a minha pregação. a pregação de Agostinho. a pregação de Martinho Lutero. Ela pode ser abafada. O curioso é que o tema da depravação total é debatido por autores não necessariamente comprometidos com o cristianismo. a não ser pela morte física. HUM ANO SE VÊ FEIO DEMAIS • 75 tornou-se tão envenenada que todos nós somos concebidos e nascidos em pecado. Na verdade. pois ela vive enquanto vivemos. e que o pecado desse homem trouxe consigo a morte. Tanto um (o pecado) como o outro (a morte) começaram a dominar a raça humana. É assim que ensina também Eclesiastes: “O coração do homem está cheio de maldade e de loucura. todos decaímos da nossa retidão original e da nossa comunhão com Deus. estamos plenos da concupiscência e da inclinação má desde a concepção. declarou há cerca de um milênio e meio: “Somos todos perversos. desde o ventre materno. o delito de seus pecados foi imputado a seus filhos de geração em geração até chegar a nós. O filósofo latino Sêneca. mas não é. O apóstolo Paulo explica que o pecado entrou no tempo (logo após a criação do homem) e no espaço (no mundo) por meio de um só homem (Adão). O que .DEPENDENDO DO ESPELHO 0 SER. a pregação de John Knox. mas um mal irrequieto de dia e de noite. Lutero lembra que a inclinação ou propensão para o mal parece uma coisa de pouco peso. Sendo eles (os nossos primeiros pais) o tronco de toda a huma­ nidade. a pregação de Paulo. não uma qualidade quiescente. Dessa corrupção original ficamos totalmente indispostos. mas jamais aniquilada por completo. a pregação das Santas Escrituras. Neles. Essa inata pestilência nos coloca numa situação muito incômoda diante de Deus. absolutamente todos. A má inclinação não morrerá de todo antes que a carne se torne pó e seja criada de novo. durante toda a vida”. incapazes e adversos a todo bem e inteiramente inclinados a todo mal. desde o nascimento. essa dolorosa pecaminosidade humana é um impulso contínuo. por exemplo. E preciso frisar que todos.

como afirmei antes.2). ele é sempre capaz de encontrar algum bem em si mesmo ou nos outros. Á Em vista da depravação total. antes de voltar para casa. Ele se vê feio demais e culpado demais. Ele eleva os olhos para o monte e pergunta: “De onde virá o meu socorro?”. ele o achará em seu próprio peito. Então ele não mais enxerga a ira de Deus. mais por dentro do que por fora. Porém. eles estão mortos em delitos e pecados. ele pode encher de alpiste as gaiolas dos passarinhos da casa daquele que ele acaba de matar. Depravação total não significa que o ser humano seja incapaz de realizar algum bem humano. CALVINO um reprova no outro. . Quando o ser humano se mede por outro ser humano. mas a sua misericórdia com tanta clareza que pode exclamar profundamente: “O meu socorro vem do Senhor Deus. que fez o céu e a terra” (SI 121. como expressa Paulo. há alguma esperança para o pecador? A única esperança da vítima da depravação total.76 • SOU EU. O homem iníquo pode construir escolas. o assassino pode socorrer uma criança que acaba de cair do cavalo e. sendo nós mesmos perversos”. E preciso fazer distinção entre depravação total e depravação absoluta. o pecador se vê noutro espelho e percebe o quanto é horroroso. creches e hospitais. Á A doutrina reformada da depravação total impede que se veja alguma coisa boahp ser humano? De forma nenhuma. Vivemos entre perversos. Quando ela o alcança. está na maravilhosa graça de Deus. Antes de cometer um crime de morte. porque. insisto que ela significa que o homem e a mulher são tão degradados quanto podem ser e estão ambos distantes de toda capacidade de se autoajudarem. ou: “Graças a Deus por Jesus Cristo!”.

J o ã o C a lv in o (1 5 0 9 -1 5 6 4 ): “ O m itir C a lv in o d a s fo rç a s d a e v o lu ç ã o o c id e n ta l é in te rp re ta r a h is tó ria c o m u m o lh o fe c h a d o ” (L o rd J o h n M o rle y ) .

c id a d e d e 3 0 0 m il h a b ita n te s .P a ris. o n d e C a lv in o fo i c o le g a d e V ille g a ig n o n e L o y o la . D o o u tro la d o d o rio S e n a v ê -s e a C a te d ra l d e N o tre D a m e Genebra. Aqui Calvino viveu a medade de sua vida . cidade-estado à margem do lago Léman e rodeada de montanhas.

J a c q u e s L e fè v re D ’ É ta p Ie s ( 1 4 5 5 -1 5 3 6 ). p r im o d e C a lv in o e c o n v e rtid o à fe r e fo rm a d a a n te s d e le . o p ro fe s s o r d a S o rb o n e q u e re d e s c o b riu o s o la g ra tia a n te s d e L u te ro e C a lv in o < \T IN \ II íft IS | ISLI\ VI t MP M P ie rre R o b e rt O liv é ta n ( 1 5 0 6 -1 5 3 7 ). t r a d u to r d a B íb lia e m fra n c ê s .

aos 43 anos A n to in e F ro m e n t (1 5 1 0 -1 5 8 4 ) e s u a e s c o la d e lín g u a fra n c e s a e m G e n e b ra c o m a in te n ç ã o d e c o n q u is ta r a c id a d e p a ra a R e fo rm a .G u ilh e rm e F arei (1 4 8 9 -1 5 6 4 ) c o m e ç a a p re g a r o e v a n g e lh o e m G e n e b ra e m 153 2.

A p ó s u m d e b a te p ú b lic o . a c id a d e d e G e n e b ra re s o lv e a d e rir à R e fo rm a (27 d e a g o s to d e 153 5) D e p o is d e s e r e x p u ls o d e G e n e b ra e m a b ril d e 1 5 3 8 . C a lv in o v o lta à c id a d e e m s e te m b ro d e 1541 a c o n v ite d o P e q u e n o C o n s e lh o .

P ie rre V ire t (1 5 1 1 -1 5 7 1 ). u m d o s a m ig o s m a is T h e o d o re d e B e z a (1 5 1 9 -1 6 0 5 ). J o ã o C a lv in o . re g e n te E d u a rd o VI (1 5 3 7 -1 5 5 3 ). filh o d a te rc e ira e s p o s a d a In g la te rra d u ra n te a m e n o rid a d e d e E d u a rd o d e H e n riq u e V III e rei d a In g la te rra e d a Irla n d a VI. c o m o q u a l s e c o rre s p o n d ia re lig iã o e s ta ta l . m o rto n o p a tíb u lo d o z e a n o s a n te s d a m o rte na é p o c a e m q u e o p ro te s ta n tis m o to rn a -s e a d e C a lv in o . s u b s titu to d e c h e g a d o s d e C a lv in o e p ro fe s s o r d a A c a d e m ia C a lv in o n o p ú lp ito d a c a te d ra l d e G e n e b ra e d e G e n e b ra . d u q u e d e S o m e rs e t. F ie l S e r v id o r d e J e s u s C ris to E d w a rd S e y m o u r. in a u g u ra d a e m a u to r d e A H is tó ria d a V id a e M o r te d o F in a d o ju n h o d e 1 5 5 9 Sr.

J a c o p o S a d o le to (1 4 7 7 -1 5 4 7 ). te ó lo g o e c a rd e a l. la tinista. e n tre g o u p e s s o a lm e n te a C a lv in o u m a c a r ta d e 4 8 p á g in a s C o m o p a s to r d a C a te d ra l d e S a in t Pierre. N a te n ta tiv a d e re c o n q u is ta r G e n e b ra p a ra o c a to lic is m o . C a lv in o n ã o p e rm ite q u e o s lib e rtin o s p a r tic ip e m d a C e ia d o S e n h o r .ETO . filó s o fo . VÍMT» | CALVIN.CARDINAL SADOI.

N o d ia 6 d e fe v e re iro d e 1 5 6 4 . 1878 . P a ris e N o v a Y o rk: C a s s e i & C o m p a n y . L o n d e s . L im ite d . v. The H is to ry o f P r o te s ta n tis m . ÍEKMOX I S SXrFCTATIOM o r 2AMSUUEST. J a m e s A itk e n . J o ã o C a lv in o p re g a p e la ú ltim a v e z n a c a te d ra l d e G e n e b ra T o d a s a s Ilu s tra ç õ e s fo ra m re tira d a s d e : W Y L IE . c in c o m e s e s a n te s d e c o m p le ta r 5 5 a n o s e trê s m e s e s a n te s d e m o rre r.1.C JttT E r-ntM C H B ÍÒ -lU S rAIIBWEI. 2.

Mas um cérebro não cativo às Escrituras e ao Espírito é uma desgraça.. Á Costuma-se dizer que o senhor é mais um cérebro do que uma pessoa. teríamos mais alguns livros e mais algumas páginas. sem pestanejar.. Se fossem impressas suas centenas de cartas. A minha pergunta é: para conhecer melhor suas idéias religiosas qual deles seria mais indicado? Como deixo bem claro no próprio livro. O cérebro foi criado por Deus e é uma bênção. eu indicaria. tentei fornecer ao leitor de As Institutas a maior clareza .10 O ABSOLUTAMENTE SANTO E O ABSOLUTAMENTE PECADOR Nunca tente ôuscar a (Deus em outro fugar senão em sua (Pafavra -4 Seus comentários bíblicos enchem não sei quantos volumes nem quantas páginas. Pensar é tam­ bém crer. As Institutas. Uso meu cérebro para servir a Deus. Por ter cérebro. A edição de 1541 de “As Institutas” tem quatro volumes e quase mil páginas.

Se todo cristão reformado tem a obrigação de reconhecer Cristo no centro de sua fé. A primeira e mais relevante fonte de minhas idéias religiosas é a Bíblia. é acolher e reconhecer Cristo como dádiva e presente que nos foi dado pessoalmente por Deus”. Se ele realmente leu o livro. Deixando-me influenciar pela Bíblia e sendo fiel ao que ela diz. CALVINO possível e escrever uma obra a mais abrangente possível. A Europa está cada vez mais cheia de livros religiosos. um escritor bíblico. Á O senhor dedicou a primeira edição de “As Institutas” a Francisco I. Sinto-me um obediente expositor das Sagradas Escrituras. Á 0 que significa ter um cérebro cativo às Escrituras? IsscTquer dizer que eu sou um teólogo bíblico. de suas . não apenas pelo fato de que ele se centraliza na revelação de Deus em Jesus. de seu cérebro. rei da França de 1515 a 1547. Meu pensamento é dominantemente cristocêntrico. como seria possível deixar Jesus em outro lugar que não fosse o primeiro? A ênfase dem asiada que temos dado à filosofia tem equiparado Aristóteles a Cristo. Se meu livro trata das institutas da religião cristã. há autores que “enchem livros inteiros de baboseiras e poluem todas as igrejas com essa conversa fiada e inútil que eles próprios não entendem”. mas também porque essa revelação desvenda um paradigma que governa outras áreas centrais do pensamento cristão. ele teria descoberto o ponto central de seu pensamento religioso? A primeira edição era muito pequena e parecia mais um cate­ cismo. tenho alma. Outra vez cito Lutero: “O ponto principal do evangelho. não tenho como nem quero produzir mais uma coleção de baboseiras. Como dizia Lutero. Mas o ponto central de todas as edições de As Institutas é Jesus Cristo. tenho coração.86 • SOU EU. um professor bíblico. Além de cérebro. um pregador bíblico. além de corpo. seu fundamento.

. mais obrigação ainda tem os seus pastores e os seus teólogos! Não podemos permitir o eclipse de Cristo. cada um deles tratando de um tema geral.000 críticas e réplicas. sem nos conhecer­ mos. eleição) e contém um pequeno manual da vida cristã. O conhecimento de um Deus perdoador me obriga a conhecer um ser humano culpado. Cada livro é dividido em capítulos e cada capítulo.669 artigos e mais de 10. e vice-versa. As duas formas de conhecimento estão unidas por muitos vínculos. O que me levou a organizar o livro dessa maneira foi minha preocupação pe­ dagógica. Embora sejam distintas.seu ministério. o ensino e as citações. justificação. tem a seguinte estrutura: 512 questões. e. de Jesus Cristo. arrependimento. seus sacramentos e sua relação com o Estado. e vice-versa. isto é. Á A “Suma Teológica” . não podem ser separadas. publicada em 1271. Como assim? O que tenho dito é que. Exemplifico: o conhecimento de um Deus absolutamente santo me obriga a conhecer um ser humano absolutamente pecador. o manuseio. dividido em seções. a releitura. Isso facilita a leitura. não podemos conhecer a Deus verdadeiramente. da sua criação e providência. Á O senhor insiste em dizer que “o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos são interligados” . 2. Qual é a estrutura de “As Institutas”? A edição de 1559 divide-se em quatro livros. sem o conhecimento de Deus. O Livro 1 trata da doutrina de Deus. O Livro 3 trata da aplicação da obra de Cristo (fé. do pecado e da pessoa e obra de nosso Redentor. O Livro 2 trata dos fundamentos da doutrina da redenção. não podemos nos conhecer verdadeiramente. E o Livro 4 trata da doutrina da Igreja .0 ABSOLUTAMENTE SANTO E O ABSOLUTAMENTE PECADOR • 87 emoções e de sua vida. É impossí­ vel alcançar qualquer uma delas isoladamente. de Tomás de Aquino.

a maravilhosa ordem da criação e a sabedoria divina que ela aponta. deve ser capaz de alcançar o conceito de Deus. vejo três fenômenos: a universalidade da religião. É por isso que eu tenho apego à astronomia e a outras ciências naturais. Apesar de imperfeito e confuso. por meio de uma reflexão racional e inteligente a respeito da criação. com maior profundidade. de sua natureza e seus atributos. devido à sua origem. sobre as quais pesa a autoridade divina. á Uma simples leitura da Bíblia pode nos levar a Deus? As Escrituras somente podem ser lidas e compreendidas de forma adequada por meio da iluminação do Espírito Santo. a consciência de alguma culpa e o temor servil de Deus. Deus dotou os seres humanos de um senso ou pressentimento inato sobre sua existência. É necessário ter em mente que as Escrituras representam a pala­ vra de Deus mediada na forma de palavras humanas. que disse: “Ver a mim é ver o Pai” (Jo 14. Embora tanto invi­ sível como incompreensível. É como se algo sobre Deus já estivesse gra­ vado no coração de cada pessoa.• SOU EU. Elas são capazes de ilustrar.9). Por quê? Porque não é algo produzido no . Como consequência. É como Pedro explica: “Nenhuma profecia das Escrituras é assunto de opinião particular. CALVINO Á Como se pode chegar ao conhecimento de Deus? O conhecimento genérico de Deus pode ser discernido por meio da criação. A criação é como um teatro ou um espelho através do qual se demonstra a presença de Deus. Chamo isso de sensws divinitatis (senso de divindade) ou semen religionis (semente de religião). esse conhecimento inicial de Deus já é suficiente para privar a humanidade de qualquer desculpa de ignorá-lo. O conhecimento mais completo e mais pormenorizado de Deus vem pelo conhecimento das Escrituras e do próprio Jesus. Deus se faz conhecer pelo fato de vestir a roupagem da criação. Qualquer pessoa. Além disso. Esse seria o primeiro degrau a subir.

á O senhor tem preferência pelo Antigo Testamento ou pelo Novo Testamento? Não existe. adotar outro procedimento totalmente diferente no Novo Testamento. Existe uma semelhança e uma continuidade fundamentais entre o Antigo e o Novo Testamento. Isso porque ambos celebram e proclamam a graça de Deus. Minha regra é: nunca tentar buscar a Deus em outro lugar que não for a sua Santa Palavra. essa rivalidade entre um e outro. Primeira: o Antigo Testamento evoca o medo e o temor.0 ABSOLUTAMENTE SANTO E O ABSOLUTAMENTE PECADOR • 89 coração humano. corrigir as faltas e ensinar a maneira certa de viver” (2Tm 3. como nosso guia. que impulsionou homens e mulheres a proclamar a Palavra de Deus” (2Pe 1. enquanto o Novo Testamento evoca uma resposta baseada na liberdade e na . ou não deveria existir. nem falar ou pensar a seu respeito além daquilo que a Bíblia.16). como afirmei na resposta anterior. condenar o erro. Em termos de substância e conteúdo. Deus não pode ter um tipo de procedimento no Antigo Testamento e. depois do período intertestamentário. a seguir.21). Se Deus só pode ser plenamente conhecido por meio de Jesus Cristo. os Testamentos são efetivamente idênticos. esse testemunho da vinda de Jesus é real. A profecia resulta da ação do Espírito Santo. só pode ser conhecido pelas Escrituras. No entanto. manifestada em Jesus Cristo. Reporto-me a Paulo: “Toda a Escritura Sagrada é inspirada por Deus e é útil para ensinar a verdade. Entre elas. por sua vez. O que ocorre é que o Antigo Testamento ocupa uma posição cronológica diversa do Novo Testamento no plano da salvação. Existem algumas diferenças entre um e outro. Não há descontinuidade radical alguma entre eles. nos apresenta. mantendo a consciência cativa. Jesus Cristo. cito somente duas. Pode ser que o Antigo Testamento seja capaz de testemunhar sobre Jesus somente à distância e de maneira obscura. O divino e o humano coexistem sem que comprometam nem destruam um ao outro.

circuncisos e incircuncisos foi abolida. de acordo com as limitações impostas à compreensão humana. CALVINO alegria. Cristo é revelado e a graça do Espírito Santo é oferecida tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento. Cristo apresentou ao seu Pai um sacrifício que remiu todo pecado. É por tudo isso que insisto em minhas pregações. antes da fundação do mundo. em minhas cartas. ele libertou a raça humana do poder da morte e foi capaz de nos trazer de volta ao favor divino por meio do oferecimento de sua morte como redenção pelos nossos pecados. que somente se tornou claro quando o Verbo se fez carne. V Qual a obra mais importante realizada por Jesus Cristo: revelar o Pai ou trazer a salvação aos pecadores? Aí está outra dicotomia desnecessária. anulando toda dívida e pagando toda sanção que pudesse ser devida por esse motivo. de forma radical. Por meio de sua obedi­ ência a Deus como um ser humano. Por meio de sua vitória sobre a morte. tanto ao rei da França como ao rei da Inglaterra. essa diferem ça entre judeus e gentios. Concluindo. tanto aos nobres como aos plebeus. que a salvação ocorre somente por meio de Cristo! . em minhas aulas. Já que nos era impossível alcançá-la. em meus livros. O que ocorreu foi o avanço progressivo do plano divino. Jesus veio tanto para nos revelar o Pai como par.a propiciar a salvação para os condenados. por causa da Queda e em razão de nosso pecado. porém de forma mais clara e plena neste último. seus propósitos. Com a vinda de Cristo. Segunda: a revelação do Antigo Testamento se restringia à nação de Israel enquanto a revelação do Novo Testamento é universal em seu propósito. A pessoa e a obra de Jesus Cristo são de importância central para o plano da salvação arquitetado na eternidade. Por meio de seu sofrimento. Cristo pagou a dívida.90 • SOU EU. Em momento algum Deus mudou de ideia ou alterou. Ele simplesmente os tomou mais claros. Deus optou por descer até nós na pessoa de seu Filho.

Um avivamento revigora a igreja e torna a dar a ela paixão missionária. É a passagem da fé menor para a fé maior. da entrega parcial para a entrega total. da posse do Espírito para a plenitude do Espírito. A Bíblia é lida com mais regularidade e proveito. É um período de convicção de pecado. da mesmice de sempre para a novi­ dade de vida. do cálice pela metade para o cálice cheio. de arrependimento. despertando-a. geralmente menos durável do que uma reforma. tirando-a do marasmo. de confissão. das obras da carne para os frutos do Espírito. de restauração. .11 A EUROPA PEGA FOGO MAIS PELA PALAVRA ESCRITA DO QUE PELA PALAVRA FALADA 0 que nos Cevou a escrever As Institutas fo i o desejo de treinar estudantes de teoíogia Á A reforma é um avivamento religioso? E muito mais do que um avivamento. O avivamento é uma onda que varre a igreja de tempos em tempos. Ora-se mais e melhor.

da Suécia. e Catarina de Sena. Por mais de trezentos anos. com a liturgia. na Inglaterra. CALVINO Á O que é reforma? Uma reforma na igreja proporciona tudo aquilo que um avivamento provoca e muito mais. Á Torno a perguntar: esse insistente desejo de reforma estaria sendo satisfeito hoje? O marco histórico mais visível de que estamos vivenciando uma reforma nos dias de hoje aconteceu na cidade alemã de Wittenberg no dia 31 de outubro de 1517. Gerhard Groote (1340-1384). No século 14. nos Países Baixos.92 • SOU EU. A reforma é um banho muito mais amplo e completo do que aquilo que acontece em tempo de avivamento. respectivamente. João Gerson (1363-1429) e o formidável Tomás de Kempis (1380-1471). ainda monge. Poderia citar. com a doutrina. Deus nunca desampara a sua igreja. Henrique Suso (1295-1366). com os princípios e com a história e a vocação da igreja. como Brígida. A reforma mexe com a estrutura. como exemplo e em ordem cronológica. na Bélgica e até mesmo no meu país. com os dogmas. divulgou . com as tradições. apareceram aqui e ali. em várias partes da Europa. ela tem sido desejada. os mais notáveis nomes: João Ruysbroeck (1293-1381). Foi quando Martinho Lutero. eu citaria também algumas mulheres. com a pre­ gação. na véspera do Dia de Todos os Santos. João Tauler (1300-1361). que morreu em 1543. O mais recente é João Eck. porque moravam longe uns dos outros . Além destes. no alvorecer e na metade do século 14. Talvez eles nunca tenham se encontrado.na Alemanha. Florentino Radewijns (1350-1400). nasci­ das. A O mundo está experimentando uma reforma em nossos dias? Muito certamente. com a moralização. E algo operado por Deus de modo soberano e eficaz. focos de verdadeira piedade e desejo ardente de reforma.

Além de promover a reforma em Genebra. Guilherme Tyndale (1484). O quanto consigo me lembrar. quero admitir . não posso deixar de fora aqueles que chamamos de pré-reformadores. nem ali nem na carta escrita ao pontífice no mês seguinte. quando soube que os agostinianos de Heidelberg tinham lhe dado apoio. é claro. Johann Bugenhagen (1485). de Josué e Calebe. Por uma questão de justiça histórica. ^ O senhor fez mais pela Reforma como pastor da igreja de Genebra ou como escritor? Dei a minha contribuição tanto como pastor quanto como autor de livros. como o inglês John Wycliffe (nascido em 1320) e o boêmio Jan Hus (nascido 50 anos depois). E. pela graça de Deus. Veja os exemplos de Moisés e Arão. o monge não capitulou. Leão X. de Pedro e João. cito os nomes de Erasmo de Roterdã (nascido em 1467). Eles são da Alemanha. Filipe Melâncton (1497) e John Knox (1505). há outros homens comprometidos com a Reforma? Dificilmente Deus faz alguma coisa por meio de uma pessoa só. eu também. Mais ainda. de Paulo e Barnabé. Inglaterra e Países Baixos.A EUROPA PEGA FOGO MAIS PELA PALAVRA ESCRITA • 93 as suas famosas Noventa e Cinco Teses por toda a Alemanha (dez dias depois ele comemoraria seu 34° aniversário). Entretanto. Mas. de Ester e Mordecai. á Além de Lutero. Guilherme Farei (1489). centenas de reformados vieram morar em Genebra para escapar da perseguição religiosa em seus países. de Débora e Baraque. Então a Europa pegou fogo. Suíça. a igreja de lá se tornou um modelo de igreja reformada na Europa. me incluo entre os atuais reformadores. de Esdras e Neemias. Escócia. não se preocupou muito com o gesto de Lutero. o papa da época. por ordem cronológica. País de Gales. Contudo. Hugo Latimer (1487). mandou chamá-lo a Roma. na esperança de fazê-lo calar e se desculpar por ter escrito aquele documento revolucionário.

Até o momento. na Inglaterra. publicado pela Universidade de Paris. Minha obra é um dos 250 livros proibidos de se ler na França.94 • SOU EU. comentários bíblicos. holandês. de seis capítulos passou a ter dezesseis.a primeira que escrevi. que o meu livro era “um catecismo dedicado ao rei da França. alemão. A maior delas foi na segunda edição. á Como explicar o sucesso da Reforma na Europa? A Reforma provocou um fenômeno curioso: as complexidades da exegese bíblica. três anos depois da primeira. Meus livros foram traduzidos do latim ou do francês para cinco diferentes línguas (inglês. Lembro-me de que certo homem chamado Marcus Bersini fez pouco caso dela ao escrever ao re­ formador Joachim von Watt. A primeira edição saiu em 1536 e foi publicada pelos editores Thomas Platter e Balthasar Lasius. a política eclesiástica e a dogmática teológica. CALVINO que eu tenho feito mais pela Reforma por meio da palavra escrita do que pela palavra falada. em Basiléia. Desenvolví quatro gêneros literários: produzi livros de teologia. O que me levou a escrever esse livro foi o desejo de preparar e treinar estudantes de teologia para o estudo da Palavra de Deus. qual a que mais fez pela Reforma? Estou convencido de que foi As Institutas . no domínio . Ela é três vezes maior. subitamente. penetraram. por volta de 1540. Tive contato com mais de trinta editores na França. de autoria de algum francês”. tratados e escrevi milhares de cartas de conteúdo bíblico. italiano e espanhol). quando ainda era um moço de 27 anos. Tenho feito várias revisões e acréscimos no decorrer dos anos. já fizemos 25 edições. até então nas mãos do alto clero. Não esperava que As Institutas fizessem o que estão fazendo. Ele está no Catalogue des Livres Censurés. na Alemanha e na Suíça. de modo que eles tivessem acesso a ela e fossem capazes de prosseguir nessa estrada sem quaisquer obstáculos. ^ De todas as suas obras.

A EUROPA PEGA FOGO MAIS PELA PALAVRA ESCRITA • 95 público. se o fossem. filho de uma das mais proeminentes famílias da cidade. cuja reforma só mexeu com os vícios e os escândalos da igreja. ele teve menos sucesso. 32 anos depois. isto é. Creio que o problema de Vadian é que a reforma ■ por ele realizada estava voltada principalmente para a alteração do modo de vida e da moralidade e visava mais a cidade e a região onde vivia. O zelo mis­ sionário que eu tenho era praticamente ausente na perspectiva de Vadian. que durou até sua morte. por exemplo. Nesse sentido. Lutero. onde exerceu o seu curto ministério de 1490 a 1498). não foram publicadas. Aos 45 anos. E. Traduzimos a Bíblia para a língua do povo e incentivamos a sua leitura. que era um acadêmico humanista de fama internacional e que che­ gou a ser reitor da Universidade de Viena. Eu ainda estudava em Paris quando Vadian já havia colocado sua cidade nos trilhos da Reforma. permanecem em sua forma manuscrita. a partir de 1520. Enquanto eu era um mero estrangeiro em Genebra. . ele se parece muito com o dominicano Jerônimo Savonarola. ele ocupava uma posição de muita autoridade. Gallen. Aproveitamos ao máximo a invenção da imprensa. mais conhecido por Vadian. alcançariam mais os convertidos do que os não reformados. ocorrida na metade do século passado (chega-se a dizer que a Reforma é “filha da imprensa”). Outra diferença é que as obras escritas por ele. Ele morava numa cidade suíça que apresentava diversas semelhanças em relação a Genebra. e não com as doutrinas (ele foi degredado. era 25 anos mais velho do que eu e morreu em 1551. Por quê? Watt. Á Embora o reformador Joachim von Watt tivesse bem mais chan­ ce em St. enforcado e queimado aos 46 anos na cidade italiana de Florença. deixou de ser reformador acadêmico (que argumentava em latim para um público acadêmico) para ser um reformador popular (que argumentava em alemão para um público mais extenso). Gallen do que o senhor em Genebra. ele era um cidadão de St.

virando-se de um lado para o outro” (2Rs 21. No período de algumas centenas de anos. Pois é preciso levar a sério o drama da fraqueza humana. A As cartas às sete igrejas da Ásia Menor sugerem alguma reforma? Das sete. de Ezequias (2Cr 29-31). o povo eleito passou pelas reformas de Asa (2Cr 15). Sua pergunta me faz lembrar a promessa feita por Deus durante o reinado de Manassés: “Limparei Jerusalém como se limpa um prato por dentro e por fora” ou “como um prato que se esfrega. A de Sardes precisa recuperar o entusiasmo perdido. Assino embaixo.96 • SOU EU. . apenas as igrejas de Esmirna e Filadélfia não preci­ sam de restauração. A de Pérgamo precisa recuperar a ortodoxia perdida. Há sujeiras na igreja? Muitas. A. A de Tiatira precisa recuperar a ortopraxia perdida. no baixo clero. Reforma é o movimento permanente na igreja para restaurar a energia e a espiritualidade nas suas instituições. nos papas.13). E a de Laodiceia precisa recuperar a seriedade perdida. a igreja reformada tem de ser constantemente reformada. CALVINO A Lutero dizia que reforma deve ser uma constante na vida da igreja. Uma limpeza de alto a baixo. A igreja de Éfeso precisa recuperar o amor perdido ao longo dos anos. Qualquer pessoa que leia o Antigo Testamento encon­ trará duas histórias. É uma oportunidade ímpar para se rever qualquer desvio não só de comportamento. isto é. de Josias (2Cr 34-35) e de Esdras (Ed 8-10). O senhor concorda? A famosa frase de Lutero é “Ecclesia reformata semper reformanda”. mas também de ordem dogmática. Cada reforma é uma limpeza. uma atrás da outra: a triste história do desvio e a bela história da volta. do sacerdote Joiada (2Cr 23). No povo. no alto clero.

que inclui tanto os eleitos como . o senhor é o primeiro a escrever sobre o assunto? Respondo a sua pergunta com esta declaração de Agostinho. seus contem­ porâneos que pregavam o absurdo de que os seres humanos são capazes de merecer a salvação.12 A ELEIÇÃO REQIJER EVANGELIZAÇÃO Se não entramos no santuário da sabedoria divina para entender a predestinação. Como eu. emprestando assim uma ênfase considerável sobre o papel e o valor das obras e minimizando o conceito bíblico da graça divina. que viveu na segunda metade do século 4o e no início do século seguinte. em certa ocasião. eu declarei que “Agostinho é totalmente nosso!”. Depois de Paulo. retirada de sua obra A Graça: “Ninguém conseguiu discorrer contra a predestinação que de acordo com as Santas Escrituras defendemos. É por isso que. Agostinho fazia distinção entre a igreja visível. Ele combateu duramente Pelágio e seus companheiros Celéstio e o bispo Juliano de Eclano. empolgado. a não ser incorrendo em erro”. entraremos em um íáôirinto sem saída A Um dos seus ensinos mais conhecidos é o que diz respeito à predestinação.

11). é o mais pecador que aceita o evangelho. por volta de duzentos anos atrás. que a eleição alcança mais o inve­ terado pecador do que os demais pecadores. Se há um arauto particular. CALVINO os reprovados. á Como o senhor resolve a delicada questão da diferente recepti­ vidade do evangelho por parte daqueles que ouvem o anúncio das boas novas na mesma ocasião. os ex-caluniadores e os ex-homossexuais da igreja de Corinto (ICo 6. ou seja. Voltou à tona.47). de acordo com a qual Jacó é escolhido e Esaú. sem que se faça qualquer referência a seus méritos e deméritos. que inclui apenas os eleitos.• SOU EU. que chegaram a ensinar a dupla predestinação absoluta. a ideia de predestinação ficou adormecida. segundo a qual Deus destina alguns para a vida eterna e outros para a condenação eterna. segundo a eleição. quando ambos ainda estavam no ventre de Rebeca e não tinham feito nem o bem nem o mal “para que o propósito de Deus. esse homem é Paulo. É um grande engano pensar que fui eu o arauto da predestinação. os ex-idólatras. ficasse firme” (Rm 9. como Gregório Rimini (morto por volta de 1358) e Hugolino de Orvieto (morto por volta de 1457). e como os ex-assaltantes. A história mostra que. da qual participaram teólogos proeminentes. com a chamada Escola Agostiniana Moderna. . rejeitado. e a igreja invisível. Jesus dizia que os publicanos e as meretrizes eram mais suscetíveis ao arrependimento do que os legalistas. os ex-adúlteros. no mesmo lugar e do mesmo modo? A explicação não é porque um é mais ou menos pecador do que o outro. A começar (quem sabe?) com a famosa explicação contida na Carta aos Romanos. Na parábola do filho pródigo. Também não se pode afirmar o contrário. às vezes. A única explicação para esse complexo problema. penso. é a prévia eleição dos que deveríam ser salvos. “homem direito e sincero” (Jo 1. por exemplo.9-11). A igreja visível e invisível está cheia de pessoas como Natanael. aqui na Europa. Por algum tempo. foi o que mais se distanciou que caiu em si e se converteu.

com o arrependimento.quantos são? -. vestidos de roupas brancas. e tinham ramos de palmeiras nas mãos. antes do mandato da grande comissão. não devo. Mas não obrigatoriamente! . com a boa vontade inicial de aceitar o evangelho. tida como uma mulher virtuosa e piedosa. e nem quero responder. e do Cordeiro vem a nossa salvação’” (Ap 7.A ELEIÇÃO REQUER EVANGELIZAÇÀO • 99 Á Quem é eleito? Quantos são? Quanto à primeira pergunta. com a conversão e muito menos com o batismo do pecador. O eleito é aquele que é misteriosamente tocado por Deus em algum tempo de sua vida para desejar ser salvo. Em 1557. O processo da salvação não começa aqui nem agora. O eleito não é aquele que foi escolhido porque Deus sabia de antemão que ele desejaria. sua cunhada Ana foi apanhada em adultério com seu mordomo Pierre. tribos. que ninguém podia contar. que está sentado no trono. Essa questão de números é uma intromissão desnecessária e até mesmo irreverente. Minha pergunta é: Ana e Judite fazem parte dos chamados eleitos? Não sei. raças e línguas. E gritavam bem alto: ‘Do nosso Deus. eu não sei e ninguém sabe. Estavam [todos] de pé diante do trono e do Cordeiro. na eternidade de Deus. O processo da salvação não começa com a pregação do evange­ lho. O fato de terem caído em pecado pode significar que elas não tenham sido eleitas para a salvação. Cinco anos depois. respondo positiva e negativamente. Prefiro reportar-me à experiência de João na ilha de Patmos: “Depois disso olhei e vi uma multidão tão grande. antes da descida do Espírito. Só Deus sabe. ser salvo. em algum tempo de sua vida. o mesmo aconteceu com sua enteada Judite. antes da criação dos céus e da terra. com a fé salvadora. A Perdoe-me tocar num assunto familiar.9-10). antes de o Verbo se fazer carne. Eram de todas as nações. Ele começa lá em cima. Quanto à segunda pergunta . antes da chegada da Bíblia e de qualquer missionário pioneiro.

O apóstolo refere-se aos eleitos? á Paulo refere-se a todas as criaturas. nem levados ao arrependimento e à fé. ^ Qual a sua definição de eleição? Eleição é o imutável propósito de Deus. Paulo declara que. aos vivos e aos mortos. a todo filho de Adão no tempo e no espaço. na terra e no mundo dos mortos vão cair de joelhos diante dele. antes da fundação do mundo. estão todos os eleitos e todos os constrangidos. em homenagem a Jesus. à criatura angelical e à criatura humana. Nem ainda daquele endemoninhado de Gadara que também chamou Jesus de “o Filho do Deus Altíssimo” (Mc 5.24). escolheu um número grande e definido de pessoas para a salvação. Nem daquele homem possesso na sinagoga de Cafarnaum que tratou Jesus tanto como o nazareno como “o santo de Deus” (Mc 1. Chamo de constrangidos os que não foram esco­ lhidos. como explica Tiago (Tg 2. por pura graça. Não podemos nos esquecer daquela moça possuída por um espírito imundo que gritava o tempo todo que Paulo e Silas eram servos do Deus Altíssimo e pregadores do caminho da salvação (At 16. Esses constrangidos são como os demônios que creem que há um só Deus e tremem de medo.19). Entre essa inumerável multidão. mas que não têm como hão admitir que Jesus Cristo é o Senhor. CALVINO Ninguém duvida da eleição de Davi. Chamo de eleitos os que foram escolhidos.7). declarando abertamente que ele é o Senhor (Fp 2. pelo qual ele. chamados. embora tenha cometido adultério com a mulher de Urias e mandado matar o marido dela. levados ao arrependimento e à fé e salvos. Esses agraciados . todas as criaturas no céu. O fato daquele homem em Corinto ter se arrependido do adultério cometido com a mulher de seu pai mostra que ele é um dos eleitos.17). nem salvos.9-11).100 • SOU EU.

assim. até o fim.livre.12). no de­ correr da história. como o ouro e a prata. A eleição não ocorre alheia à pessoa e ao sacrifício de Jesus. conjunta­ mente caído.A ELEIÇÃO REQUER. juntamente com Cristo. alguém teria de tomar sobre si o pecado e a culpa dos eleitos. Porque. mas envolvidos na mesma miséria. soberana e misericordiosamente . A eleição depende do sacrifício vicário de Jesus? Não bastaria o decreto da eleição em si? A eleição custa um preço muito alto. à mensagem redentora de Cristo. eleição é o ato eterno de Deus por meio do qual ele decretou . jovens e adultos. aplicando. capacitando homens e mulheres. Deus já nos havia escolhido para sermos dele por meio da nossa união com Cristo” (Ef 1. sendo preservados. Os eleitos não são melhores ou mais dignos que os outros. Note bem: porque . Veja a explicação de Paulo: “Antes da criação do mundo. EVANGELIZAÇÃO • 101 foram escolhidos de acordo com o soberano e bom propósito da vontade de Deus dentre todo o gênero humano. os eleitos foram crucificados. mas para o próprio Deus e para o Senhor Jesus Cristo. pela ação do Espírito Santo.19). não há eleição. ressuscitados e assentados à mão direita de Deus. sem defeito e sem mancha (lPe 1. mas o precioso sangue de Cristo. À parte do Filho. Reforçando. judeus e gentios. Esse preço não foi algo que perde o seu valor. por sua própria culpa. Á O senhor acaba de usar a expressão “salvar em Cristo Jesus”. Veja o que Pedro diz: “A salvação só pode ser conseguida por meio de Jesus Cristo” (At 4. pecadores mais pecadores e pecadores menos pecadores a responderem com fé. não para os eleitos. não há vida eterna. não há perdão. mortos. não há salvação. a sua graça redentora. sepultados. Para que ela acontecesse.salvar em Cristo Jesus um determinado número de pessoas dentre toda a raça humana voluntariamente caída. Deus nos escolheu em Cristo. o Cordeiro de Deus. de sua integridade original para o pecado e a perdição.4).

Veja também a trabalheira que Deus teve para que os eleitos de Cesareia. a voz do evangelho. ele precisa ouvir a boa nova. Saiba de uma coisa: a eleição requer a evangelização.26-39). em algum tempo e de alguma maneira. Uma e outra fazem parte daquilo que chamo de a vontade secreta de Deus. Diria que a eleição é o clímax da predestinação. da igreja. progressiva­ mente revelada a seu bel-prazer. á Se Deus já escolheu os que devem ser salvos. da civilização.olhe só . isto é. somos também herdeiros dele e . na predestinação.1-23). A predestinação diz respeito ao controle absoluto da história do ser humano. como Jesus ordena? Porque evangelização e missões fazem parte da eleição. ^ Há diferença entre eleição e predestinação? Entendo que a palavra predestinação é mais ampla e a palavra eleição é mais particular. A eleição diz respeito à soteriologia. pela qual naquele preciso momento passaria a carruagem oficial. Deus é o Senhor da Salvação.coerdeiros com Cristo! (Rm 8. A doutrina da eleição não torna a evangelização . ouvissem o anúncio do evangelho (At 10. por meio de Jesus. o Senhor da Seara fará chegar a ele. da criação.17). Para o eleito ser salvo.102 • SOU EU. E precisamente por se tratar de um eleito. posso afirmar que. Deus é o Senhor da História e. por que ir pelo mundo inteiro e anunciar o evangelho a todas as pessoas. Veja o exemplo do alto funcionário da rainha da Etiópia: Filipe estava em Samaria quando o Espírito Santo mandou que ele fosse para um determinado ponto da estrada que ligava Jerusalém a Gaza. Quem sabe. à doutrina da salvação. na eleição. já tocados pelo Espírito. cujo único passageiro já estava com a Bíblia aberta na passagem que mais fala sobre Jesus no Antigo Testamento (At 8. Mas ambas têm igual importância. CALVINO os eleitos foram feitos filhos de Deus.

Por não termos essa listagem da predestinação. não sabe se seu nome está ou não está entre os eleitos.A ELEIÇÃO REQUER EVANGELIZAÇÃO • desnecessária. muito mais gente. Na maior parte dos casos. por que orar por conversões: a conversão do marido. Porque Deus não nos fornece uma ficha com nome e endereço dos eleitos. a conversão de uma família. Mas é uma teme­ ridade. porque sempre haverá entre eles um ou mais já tocados por Deus para nos ouvir. A eleição já foi feita. pode estar fugindo . essa pessoa pode estar zombando da eleição. portanto. muito mais esforço e muito mais dinheiro. Valendo-me do mesmo raciocínio da resposta anterior. A Repito a pergunta anterior com uma pequena nuança. o que gasta muito mais tempo. De uma coisa estou plenamente convicto: Deus não vai eleger pessoa alguma agora só porque estou orando pela salvação dela. Preguei e escrevi muito mais sobre a oração do que sobre a predestinação. Digo-lhe. temos de anunciar as boas novas da morte vicária e da ressurreição de Jesus em todas as nações e em todas as línguas. Se Deus já escolheu os que devem ser salvos. ainda que o direito e o poder dela sejam-lhe expressamente atribuídos. porém. á O que o senhor diz do pecador que justifica sua rebeldia à aceita­ ção do evangelho sob a alegação de que não está entre os eleitos? Isso pode acontecer. pode estar com medo de negar-se a si mesma. O nome de ninguém pode ser acrescentado nem retirado. a conversão de um filho. sugiro que a oração intercessória em favor da salvação de alguém já esteja no bojo do processo de eleição. a eleição deixaria de ser apanágio divino. a conversão de um povo? A eleição parece tornar infantil esse tipo de oração intercessória. porque ele não tem acesso ao livro da vida e. devemos pregar com entusiasmo e paixão missionária a todos. que sou um entusiasta da oração. A pessoa pode ter razão. Caso pudesse o homem fazer algo para antecipar a graça de Deus.

como aconteceu com um dos ladrões crucificados com Jesus. Tenhamos humildade. mais na frente. o outro ladrão teve mais uma oportunidade preciosa: assistir a conversão do primeiro e ouvir a exortação dele. entraremos em um labirinto do qual nunca se achará saída. pode estar mostrando o quanto é preguiçosa. quando vier o que é perfeito. se a predestinação for estudada e discutida sem se entrar no santuário de Deus para ouvir a voz dele.104 • SOU EU. Mais tarde. chamado erradamente de “bom ladrão”. aproveitando a oportunidade. E preciso muita prudência para não extrapolar o que está escrito na Palavra. subitamente ou não. CALV1NO de Deus. Além das vantagens em comum. na mesma companhia de Jesus (um à esquerda e outro à direita) e ouviram as mesmas primeiras palavras de Cristo na cruz. conheceremos as­ sim como somos conhecidos por Deus (IC o 13. agora. No en­ tanto. apenas um deles. confessou seus pecados e abraçou a salvação. veio a obter a promessa de vida eterna. ela torna-se confusa e até mesmo perigosa. no mesmo lugar. Admitamos. depois de zombar do Senhor na companhia do outro.12). o espelho está embaçado e não vemos tudo com clareza. como aconteceu com Asafe. em ocasião oportuna. Á Tudo é explicável na predestinação? Em minha opinião. porém. vai mudar por completo. Caso não haja humildade e o devido cuidado. aí está um clamoroso exemplo de eleição. calma e paciência! . que. é-nos vedada tanto a retirada como a introdução de alguma coisa. como escreve Paulo. Os dois ladrões estavam na mesma situação. que. o seu coração. Se ela for um dos eleitos. A propósito. A nós.

não me esqueço da minha terra natal. que meus dedos sequem e caiam como folhas e que minha língua fique grudada no céu da boca”.13 O FRANCÊS JACQUES LEFÈVRE REDESCOBRE O S O L A G R A T I A ANTES DE LUTERO 0 governo tem vaciíado muito. Por questões de segurança. . Em abril de 1555. Por eu ter sido pastor de uma comunidade francesa em Estrasburgo e por haver muitos refugiados franceses em Genebra. tudo foi feito com a maior discrição possível. Imediatamente. Permita-me fazer uma paráfrase do Salmo 137: “Se algum dia eu me esquecer do lugar onde nasci e cresci e também me convertí. ora recua á O seu interesse por uma Genebra realmente cristã diminui o seu interesse pela França? Por maior que seja o meu interesse por Genebra. meus olhos se voltaram para a França. organizou uma espécie de junta de missões e começou a enviar obreiros de Genebra para a França. quando os libertinos (os partidários de Ami Perrin) me deixaram em paz. Ora se mostra simpático aos reformados. a Venerável Companhia de Pastores de Genebra (uma espécie de conselho de pastores reformados).

As obras de Lutero encontraram um público substancial e entusiasta entre a elite intelectual de Paris. destacam-se a tradução latina das Escrituras e os comentários das Epístolas de Paulo. a faculdade de teologia de Paris. rei da França. cinco anos an­ tes do grito de Lutero em Wittenberg. As origens da influência de Lutero em Paris podem ser datadas do final de 1519. principalmente por causa do movimento luterano. em 1512. Três semanas depois. Paris e Poitiers. dois anos depois da publicação das famosas teses contra as indulgências. Curioso é que ele começou a falar sobre o sola gratia (só pela graça o pecador pode ser salvo) antes de nós. teve 101 reuniões. cidadãos comuns. rodeado de homens vestidos como doutores em teologia. Em 1523. que se reunia cerca de trinta vezes por ano. professor da Sorbonne. Lefèvre exerceu uma grande influência sobre seus alunos. CALVINO construí uma rede de contatos pessoais em cinco cidades: Angoulême. com a palavra “luteranos” cravada na frente e nas costas. Bourges. o monge agostiniano Jean Vallière foi queimado vivo por haver lido e comentado as obras de Lutero.106 • SOU EU. Entre eles. Á Havia algum vestígio da Reforma na França antes de Lutero? Entre os livros publicados na França. Em 4 de dezembro de 1526. a Reforma de Lutero já havia chegado à França. puxando um cavalo montado por uma mulher. de autoria do sacerdote Jacques Lefèvre. representante de Francisco I. entre . Orléans. Na reunião de 14 de julho daquele ano. em Paris. denunciou os males da reforma ale­ mã. Muita gente se sentiu atraída pelas propostas da Reforma de Lutero. clérigos e acadêmicos. A As missões a partir de Genebra foram as primícias da igreja reformada na França? Antes da nossa presença e influência. Pierre Lizet. de 57 anos. sete homens vestidos como demônios desfilaram por Paris.

pro­ movem reuniões evangélicas de forma clandestina. especialmente aqui em Genebra. a Companhia estava . nas casas. Aqueles que. Que seita é essa? Não se trata de uma seita. provavelmente exagerados. Á Quantos pastores a tal Venerável Companhia de Pastores de Genebra mandou para a França? O primeiro. aquela autoridade entre os judeus que foi ao encontro de Jesus à noite (Jo 3. Procuravam fazer mudanças graduais dentro da estrutura da igreja. em resposta a um apelo vindo da própria congregação que lá se reunia. Briçonnet veio a ser bispo em Meaux. 44 quilômetros a noroeste de Paris. e realizou um trabalho magnífico em favor da Reforma naquela cidade.0 FRANCÊS JACQUES LEFÈVRE REDESCOBRE O SO LA G RATIA • 107 eles os três Guilhermes: Guilherme Budé. o senhor denunciou o nicodemismo. Guilherme Briçonnet e Guilherme Farei. cinco estudantes evangélicos foram martirizados em Lyon. em 1554. O Livro dos Mártires. mas declaravam coisas ousadas. Têm esse nome por causa de Nicodemos. cujo nome não me lembro agora. Não queriam provocar divisão. Nicodemistas são os simpatizantes da Reforma Protestante que não rompem com a Igreja Católica. publicado aqui em Genebra. á Em 1543 e no ano seguinte. foi enviado a Poitiers. A perseguição aos crentes reformados era e ainda é um fato. Segundo os cálculos de Nicolas Colladon. Não era fácil ser reformado numa França cada vez mais hostil ao evangelho. provocou medo em muitos discípulos do Senhor. Seis anos mais tarde. Esses homens fizeram traduções da Bíblia e encorajaram as pessoas a estudar a Bíblia por conta própria. O último implantou a Reforma em vários lugares da Suíça. nesse ano. Em 1555. 151 indivíduos foram enviados em missões para a França em 1561. frequentemente à noite. temendo a reação das autoridades católicas.1). de Jean Crespin. houve o massacre dos valdenses. O fato é que.

providencialmente cortadas pelas principais rotas comerciais. Além dos bem preparados pastores. na qualidade de missionário? Não é bem assim. um dos nossos pastores simplesmente desaparecia. CALV1NO atolada de requisições de pastores vindas só da França. Até mesmo a cidade de Lausanne ficou sem pastores por um período. um pastor podia arrumar sua mala e se mandar para a França. Esse “algum canto remoto da França” do qual o senhor fala indica uma área rural? Lamentavelmente nossos missionários atingem mais a classe mé­ dia do que a classe camponesa. Outra razão é que a lingua francesa . em algum canto remoto da França. Chegamos a ter falta de pastores em Genebra para suprir a crescente demanda das igrejas francesas.108 • SOU EU. Á De uma hora para outra. Éramos muito sensíveis à con­ vocação de voluntários para auxiliar na evangelização da França. sem qualquer aviso. Uma das razões é que quase todos os obreiros pertencem e se identificam mais com as necessidades das classes médias urbanas. no dia 5 de junho de 1559. Eles levavam folhetos sobre a Reforma escondidos em meio a mercadoria a ser vendida e os distribuíam nas cidades francesas por onde passavam. Uma das razões pelas quais eu fundei a Academia de Genebra. Acontecia uma coisa muito interessante em Genebra: de vez em quando. /> A implantação da Reforma na França foi feita apenas pelos pastores de Genebra? Deus usa quem quer e como quer. o Senhor da Seara usou humildes mascates que via­ javam para lá e para cá. Tenho feito pesadas exigências educacionais. foi para treinar pastores segundo nossos altos padrões. o que restringe seriamente o número de qualificados para ocuparem tal posição. e reaparecia posteriormente.

a evangelização na França estava confinada em uma espiral social da qual a classe camponesa estava excluída. com uma membresia em torno de 2 milhões. mas os oficiais precisam ser mem­ bros da igreja local. Em Languedoc. Esquecemo-nos da chamada “teologia do tanto como” do livro de Atos: tanto Jerusalém como Judeia. nosso mais influente reformado na França. fala-se o langue d’oc e o francês é visto quase como uma língua estrangeira. com presbíteros e diáconos.0 FRANCÊS JACQJJES LEFÈVRE REDESCOBRE O SO LA CRAT1A • 109 é pouco conhecida no meio rural. isto é.150 igrejas em todo o território francês. Na ocasião. Orléans. região ao redor de Toulouse. diz haver 2. Assim. numa lista preparada em março de 1562. ^ Quantas igrejas há hoje na França? O almirante Coligny. tanto o homem como a mulher.250. Chamamos a congregação de église plantée e a igreja propriamente dita de église dressée. essa congregação vira uma igreja organizada segundo o padrão de Genebra. O pastor pode ser alguém de Genebra. desde o início. A congregação é pouco mais do que uma reunião informal e clandestina para estudo bíblico e oração. para as camadas mais baixas da população. Diz-se que um terço da nobreza seria cristã reformada. o que significa 10% da população avaliada em 20 milhões. por exemplo. Os camponeses ainda falam seus dialetos. . social e linguisticamente. As primeiras igrejas organizadas são as de Poitiers. Com o cres­ cimento. La Rochelle e Nimes. tanto judeus como gentios. Pessoalmente acho mais razoável pensar em 1. Infelizmente não ensinamos os nossos missio­ nários a descer das camadas mais altas. O primeiro sínodo nacional da Igreja Reformada na França foi realizado sigilosamente em Paris de 25 a 29 de maio de 1559. tanto o rico como o pobre. Que tipo de igrejas os missionários de Genebra organizam na França? Eles começam organizando uma congregação que mais tarde torna-se igreja.

graves e intoleráveis das práticas papais”. CALV1NO foi elaborada uma confissão de fé semelhante à de Genebra. Orléans e Amboise. Muitos de nós nos esquecemos da exortação de Zacarias: “Não por força nem por poder. antes de ser queimado vivo. inclusive eu e Farei.110 • SOU EU. Certo professor de Paris.000 protestantes teriam sido mortos. Ora ele nos é simpático. quatorze homens foram enforcados e depois queimados em Meaux. idosos e crianças nos vales do sudeste da França. no château de Amboise. permaneceu seis semanas numa cova tão estreita que nem deitar ele podia.6)! . 50.000 franceses assinaram essa confissão. Era domingo e os ca­ tólicos a caminho da missa foram obrigados a ler o que neles estava escrito . as prisões começaram a se encher e a fumaça de protestantes queimados ou lentamente assados começou a subir. Muitos franceses crentes mudaram-se da França para outros países para escapar da morte. que acabou com a vida de 3 mil homens. Além do já citado massacre dos valdenses. á Que incidente de cartazes é esse? Na manhã de 18 de outubro de 1534. durante os 44 anos do reinado de Francisco I e Henrique II. A consequência dessa barulhada é que Francisco I regressou depressa a Paris para iniciar uma vigorosa perseguição a todos os suspeitos de serem simpatizantes da causa evangélica. Um deles estava do lado de fora do quarto do próprio rei. o famoso panfletista de Neuchâtel. Depois.uma denúncia anônima que atacava “os abusos horrendos. Calcula-se que. onde moravam. Cerca de 15. cartazes escritos em francês foram achados nas paredes das principais ruas de Paris. Depois do incidente dos cartazes. mas pelo meu Espírito” (Zc 4. / í Por que sigilosamente? Porque o governo tem vacilado muito em torno da nossa liber­ dade de culto. ora ele recua. descobrimos que essa provocação havia partido de um protes­ tante radical chamado Antoine Marcourt.

escrevi que todos “devemos ser especialmente pos­ suídos deste desejo. por exemplo.14 A IGREJA DE GENEBRA NA FRANÇA ANTÁRTICA (Deus deseja que o evangeCHo seja procíamado para todos sem exceção á Diz-se que os reformadores reformaram a igreja. para . depois de sermos libertados da tirania do Diabo e da morte eterna”. A crítica não é justa nem procede.23). No meu caso. mas até mesmo a ideia de missões”. Ao comentar a belíssima passagem de Ezequiel na qual Deus afirma que não tem prazer na morte de um homem mau. Ao comentar o texto de Isaías de que o mundo inteiro precisa conhecer a grandeza de Deus (Is 12.4-5). escrevi: “Deus certamente nada mais deseja. mas não se preocuparam com a grande comissão dada por Jesus. dei a minha contribuição não só para o movimento missionário em si como também para a reflexão missionária. antes prefere vê-lo arrependido e salvo (Ez 18. Basta ler os meus comentários bíblicos. Um dos críticos chega a afirmar: “Perdemos com os reformados não apenas a ação missionária.

Como pastor da igreja de Genebra. Tenho para mim que haverá um progresso ininterrupto na expansão do reino de Cristo até que ele apareça uma segunda vez para nossa salvação. . aponta o caminho da salvação. E a prática de missão? Não fiquei só na teoria. Os réprobos sempre vão negar o domínio de Cristo e os eleitos serão trazidos pela graça para prestar uma reverente e alegre obediência a ele. E a tarefa da igreja é pregar a Palavra de Deus.112 • SOU EU. E uma das implicações desse reino crescente é a destruição da distinção entre judeus e gentios e a necessidade conseguinte da proclamação do Evangelho entre todos os gentios do mundo. porque Deus quis testemunhar por todas as épocas que ele se inclina grandemente para a misericórdia”. a Inglaterra. por sua própria voz. deixei a França e vim como missionário para a Suíça. Nada poderá desviar o avanço do governo de Cristo. posso citar ainda a Holanda. A A teoria de missão é muito bonita. fixando-me em Genebra. Na época eu era um rapaz solteiro de 27 anos. ajudei a enviar dezenas de missionários principalmente para a França. O quanto me lembre. expliquei que “não há nenhum povo e nenhuma classe no mundo que seja excluída da salvação porque Deus deseja que o evangelho seja proclamado para todos sem exceção”. onde o mesmo Deus. com poder e muita glória. senão que retornem para o caminho da segurança”. no bendito ano de 1536. pois não existe outra forma de edificar a igreja senão pela luz da Palavra. como já comentei. O que nos motiva a pregar o evangelho é o zelo pela glória de Deus. o norte da Itália e até a Polônia. Vou dar mais um exemplo: ao comentar o texto de Paulo a Timóteo de que Deus “quer que todos sejam salvos e venham a conhecer a verdade” (lTm 2. a Escócia. Eu mesmo.4). CALV1N0 aqueles que estão perecendo e correndo para a morte. E ainda acrescentei: “Por isso o evangelho é pregado hoje por todo o mundo.

Aí está outro equívoco sério. Eles deram conta apenas do início da obra. Passado pouco mais de meio século desde a viagem do navegador português Pedro Álvares Cabral. que des­ cobriu no outro lado do oceano e abaixo da linha do Equador a Terra de Santa Cruz. entre as quais haverá também os eleitos de Deus. Entendo que a ordem da evangelização foi dada aos apóstolos. a igreja de Genebra já tem missionários nesse país habitado por homens e mulheres totalmente nus. o qual havia sido meu colega quando estudávamos na Universidade de Paris nos idos de 1523. precisaríamos começar tudo de novo por causa das novas gerações. Eles trouxeram a surpreendente notícia de que o novo continente é habitado. Ela me dá a oportunidade de contar as maravilhas que estão acontecendo em Genebra em relação às recentes des­ cobertas marítimas. como se lê no livro de Atos. sendo alguns deles até antropófagos.A IGREJA DE GENEBRA NA FRANÇA ANTÁRTICA • 113 á Há quem entenda que a grande comissão de Jesus foi dada aos apóstolos e por eles foi cumprida. A evangelização mundial é uma tarefa contínua até que o chamado “dia da salvação” se complete no final dos tempos. hoje chamada Terra do Brasil. Entre esses “americanos” há pecadores eleitos? Esses povos precisam de missionários? Boa pergunta. mas eles não a concluíram. do qual pouco me lembrava. Villegaignon contava-me as novidades da França Antártica. á O senhor veio ao mundo pouco depois das famosas viagens marítimas empreendidas especialmente por navegadores por­ tugueses e espanhóis e depois da descoberta do Novo Mundo. Nessa longa carta. Mesmo que conseguíssemos evangelizar todos os seres humanos em todos os quatro cantos do mundo. Acho que foi em 1556 que eu recebi uma carta assinada por um francês chamado Nicholas Durand de Villegaignon. Dizia ainda de sua vontade . uma província ultramarina que ele havia fundado numa bela baía (que antes supunha ser a desembocadura de um rio qualquer) localizada no Brasil.

o líder do partido protestante. na distante Terra do Brasil. aos 45 anos. o senhor atendeu o clamor missionário de Villegaignon? Em julho de 1556. Tornou-se vice-almirante da Bretanha e ingres­ sou na Ordem de Malta. é um dos maiores responsáveis . onde pudessem gozar da plena liberdade de consciênci^sem perder a cidadania francesa. Villegaignon é um vira-casaca. Mas. além de escrever em latim. na época com 6 anos e noiva do futuro Francisco II. O plano dele era fundar uma França americana. lutou com as tropas de Carlos V no norte da África e participou da expedição que raptou a princesa escocesa Maria Stuart. Para tanto. Embora formado em direito. Como tal. Deus me deu coragem para fazer um dramá­ tico apelo aos irmãos de Genebra: “Necessitamos de voluntários para fazer crescer a França Antártica. uma espécie de asilo aos franceses convertidos à fé reformada. Villegaignon pediu-me que lhe enviasse alguns missionários da igreja de Genebra. capaz de falar italiano. além de apostatar da fé. de onde trazemos o pau-brasil. patrulhou as águas do Mediterrâneo. O almirante Gaspar de Coligny. Quanto à religião. tornou-se um perseguidor inclemente dos protestantes e ali mesmo na França Antártica mandou matar três dos nossos missionários. por incrível que pareça. tornou-se protestante em 1555. não exerce a profissão. á Então.114 • SOU EU. participou do primeiro culto reformado realizado na América (10 de março de 1557) e da primeira celebração da Santa Ceia. infestadas de piratas argelinos. espanhol e grego. muito culto. Filho de uma importante família católica. CALVINO de empregar todos os seus esforços no incremento do reino de Jesus Cristo naquela terra tão inóspita e distante. pouco depois. Á Villegaignon é um reformado? Villegaignon é um homem da alta sociedade. Dedicou-se à arte náutica.

Jean Gardien. E por essa razão que o forte construído na ilha de Serigipe chama-se Forte Coligny. Poucos dias depois. Léry nasceu em La Margelle. Jean du Bourdel. Foi ele quem conseguiu o patrocínio do rei Francisco II. Era um adolescente de 18 anos quando veio para Genebra como candidato ao ministério. Este Jean de Léry é aquele que escreveu “Histoire d’un Voyage Fait en Ia Terre du Brésil”? á Sei que ele escreveu este livro. Jean de Léry. Richier e Chartier são ministros ordenados. A Viagem à Terra do Brasil promete muito. homem de idade e de pouca saúde. Pierre Bourdon e Pierre Richier. uma contendo provisões e as outras duas carregadas com peças de artilharia e materiais de construção. é alfaiate).A IGREJA DE GENEBRA NA FRANÇA ANTÁRTICA • 115 por essa aventura. Du Pont é um cavalheiro muito respeitado. os quais são em ordem alfabética: André Lafon. Nicolas Raviquet. Philippe de Corguilleray (cognominado Du Pont). Alguns estão deixando na Suíça esposa e filhos. Léry passou muito tempo com os naturais da terra e fez centenas de anotações nos campos de antropologia e etnografia. que ainda não foi publicado por ter perdido os originais. na França. . Nicolas Carmeau. são missionários biocupacionais. uma grande parte formada de degredados?”. Matthieu Verneuil. Quantos querem ir para esse paraíso protestante para evangelizar os indígenas e os patrícios que foram para lá. que cedeu três naus. em 1534. Martin David. Por ter fugido do Forte Coligny para a terra firme para se proteger de Villegaignon. pois trabalham como operários (o primeiro da lista. dei credenciais aos quatorze voluntários. isto é. Mas estou por dentro do conteúdo da obra por se tratar de uma espécie de relatório minucioso de tudo o que aconteceu e tudo o que ele viu durante o tempo que passou na França Antártica. Guillaume Chartier. Jacques Rousseau. por exemplo. os quais ele está procurando por toda a parte. Quase todos os demais são como “fazedores de tendas”. Nicolas Denis.

voltou dois anos depois. Dessa festa brasileira participaram trezentos figurantes. Aliás. Hoje ele deve ter uns 30 anos. Representaram cenas de amor. como se explica esta aproximação com os franceses? Três anos depois da viagem de Pedro Alvares Cabral ao Brasil e seis anos antes de eu nascer. chamado LIEspoir. Foi uma propa­ ganda sensacionalista da Terra do Brasil. de guerra e de uma abordagem a um navio . todos nus. Entre eles esta­ vam cerca de cinquenta guerreiros tamoios trazidos do Brasil. foi como sapateiro que. Mais tarde. Ao voltar para a Europa. o comércio entre os franceses e os brasis (nome dado aos habitantes das terras americanas) era. CALV1N0 Tornou-se meu aluno de teologia e prédicas e. ^ Considerando que a Terra do Brasil foi descoberta. mas foi afundado por navios corsários já no litoral da França. O fato é que. reiniciou seu estudos de teologia aqui em Genebra e dois anos depois já era pastor em Belleville-sur-Saône. filho de um cacique guarani. isto é. em maio de 1558. com sessenta homens a bordo e sob o comando do capitão Paulmier de Gonneville. Isso aconteceu em Rouen em outubro de 1550. de caça. O navio de 120 toneladas e praticamente novo. mais intenso do que o dos próprios portugueses. Entre os 28 sobre­ viventes estava o índió Essomeriq.16 • SOU EU. batizado durante a travessia do oceano. desta ocasião e nas duas décadas se­ guintes. colonizada. catequizada e ocupada por portugueses desde 1500. ele foi para o Brasil. á Parece que houve uma “fête brésilienne” na França para sensi­ bilizar o rei a criar um império colonial no Ultramar. porto de Lyon. marinheiros normandos e prostitutas. filha do capitão Gonneville. de longe. um modesto sapateiro. em junho de 1503. ao mesmo tempo. uma nau francesa zarpou em direção à Terra de Santa Cruz. aos 20 anos. o jovem casou-se com uma francesa chamada Susana.

vejam que Satanás se esforça por todos os meios para nos impedir de. chamado André Lafon. Ho­ mens e mulheres sendo queimados em lugares públicos por sua fé. defender exatamente hoje. . com muitas lágrimas. havia muitos macacos e papagaios. 9 de fevereiro de 1558. a causa de Cristo Jesus. No cenário. os conterrâneos e irmãos na fé dos três mártires.A IGREJA DE GENEBRA NA FRANÇA ANTÁRTICA • português. na úl­ tima hora. que os venceu por nós. Mas um deles. Eram por ordem de execução Jean du Bourdel. Nossas vidas estão nas mãos de Deus e ninguém poderá tirá-las sem a determinação dele. e ao mesmo tempo orgulhoso. o Diabo e a carne -. Por que viemos para cá? Quem nos moveu a atravessar as 2 mil léguas deste oceano? Quem nos preservou de tantos perigos? Acaso não é aquele que tudo go­ verna. resolutamente. pediram que eles evitassem o martírio. Senhor nosso. deixou-se persuadir pelos dois pajens que o assistiam e. Para tornar o ambiente bem indígena. Jean du Bourdel. para escapar à morte. Quem são eles? Estou acostumado a ver mártires por toda parte da França. ao saber da morte de três dos quatorze missionários genebrinos enviados a pedido de Villegaignon à terra dos brasis. Havia um quarto. e nós mesmos não podemos resistir a esta tríade. reagiu: “Meus irmãos. Matthieu Verneuil e Pierre Bourdon. Mas. se nos agarrarmos ao Senhor Jesus.o mundo. prometeu abrir mão de suas idéias de reforma. que dirige todas as coisas. Quando ainda estavam no continente. ele nos assistirá consoante a sua promessa. Naturalmente a criação da França Antártica (ou França Americana) tem muito a ver com a festa de 1550. Mas fiquei muito emocionado. que ampara os seus por meios admiráveis? É certo que contra nós militam três inimigos podero­ sos . Su­ ponho também que aquele carnaval brésilien tenha despertado ainda mais nossa paixão missionária. que. O senhor disse que três dos missionários enviados por Genebra foram mortos por Villegaignon. viam-se ocas adornadas com bananas.

onde Villegaignon estava à espera. E este. as crueldades e as riquezas deste mundo não nos embaracem de irmos a Cristo”. um barco os levou até o Forte Coligny. Coragem. É aquele velho mito de que homem não chora. que preferiu manter silêncio. Á Consta que Villegaignon teria dado uma bofetada em Jean du Bourdel? Isso de fato aconteceu. o protomártir do cristianismo brasileiro foi chamado de homem efeminado por Villegaignon. o vice-rei da França Antártica foi entregando um por um nas mãos do carrasco. Quando pergun­ tados se manteriam suas assinaturas na confissão de fé refor­ mada que haviam escrito e assinado. um de cada vez. por sua vez. Verneuil teve a coragem de lembrar-lhe: “Há apenas oito meses o senhor fez ampla e pública profissão desses mesmos pontos doutrinários pelos quais hoje nos leva à morte!”. os três genebrinos estavam no fundo do mar. CALV1NO Apeguemo-nos a ele e nele inteiramente repousemos. pois. quando o almirante. Então. num acesso de cedera. os estrangulava e os afogava no mar. Ao ser interrogado por Villegaignon. Tão violenta foi a agressão física que o sangue jorrou da boca e do nariz do nosso querido irmão. o desmente e lhe aplica uma tremenda bofetada em pleno rosto. e não o seu corpo. á E depois? Logo após a palavra de Bourdel. Ia Bourdel citar a passagem bíblica para confirmar a asserção de Agostinho de que o pão e o vinho são sinais do corpo e do sangue de Jesus. sous le Gouvernment de . todos se mantiveram firmes. ^ A que confissão de fé o senhor se refere? A confissão de fé a que me refiro encontra-se na Histoire des Choses Mámorables Advenues en la T'erre du Brésil. Por ter chorado. irmãos! Que os enganos.18 • SOU EU. Antes do meio-dia.

A IGREJA DE GENEBRA NA FRANÇA ANTÁRTICA • 119

N. de Villegaignon, publicada em 1561, por Jean Crespin, um
historiador de 43 anos, autor de várias obras de martirologia.
Se há algo que me deixa muito orgulhoso é exatamente essa
confissão de dezessete artigos, escrita com sangue no primeiro
campo missionário da igreja de Genebra no além-mar, por or­
dem do próprio Villegaignon, em 1558. Por se tratar da primeira
confissão de fé escrita fora da Europa, ela tem um valor histórico
enorme. Mas o valor maior é que ela foi redigida sob pressão
dentro do prazo de doze horas exigido pelo governador, e por
leigos que não tinham formação teológica nem uma biblioteca
para consultar. Os quatro franceses tinham alguma instrução e
eram piedosos, mas não eram pastores nem teólogos. O redator
mesmo foi Jean du Bourdel, o mais velho e o menos desprepa­
rado. Ele começa com a declaração de fé em Deus (“Cremos em
um só Deus, imortal e invisível, criador do céu e da terra, e de
todas as coisas, tanto visíveis como invisíveis”) e termina com a
declaração de que, à luz da Bíblia, não se deve orar pelos mor­
tos. O documento cita Santo Agostinho, Santo Ambrósio, São
Cipriano e Tertuliano. O quarto artigo dessa confissão deveria
ter assustado Villegaignon, pois começa assim: “Cremos que
nosso Senhor Jesus Cristo virá para julgar os vivos e os mortos,
em forma visível e humana, como ele subiu ao céu”. Depois
de escrito, Bourdel fazia a leitura de cada artigo quantas vezes
fossem necessárias para seus companheiros (Verneuil, Bourdon
e Lafon), para que eles aprovassem ou não. No final, os quatro
assinaram do próprio punho o documento. Pouco depois, três
deles foram manietados, estrangulados e jogados no mar!
á Qual foi a sorte do empreendimento da França Antártica de
Villegaignon?

Terminou num fracasso total. Depois da execução de Bourdel,
Verneuil e Bourdon, metade dos colonos havia desertado, uns
metendo-se em desvario pelas florestas e outros correndo para

• SOU EU, CALV1NO

as praias na esperança de encontrar um navio francês que os
recolhesse e os levasse de volta à França europeia. Um huguenote chamado Jacques Le Balleur desapareceu. Consta que foi
parar na capitania portuguesa de São Vicente, no litoral mais
ao sul. Villegaignon caiu em total descrédito. Ele era detestado
pelos protestantes, temido e desprezado pelos católicos e aborre­
cido pelos naturais da terra. Tive a oportunidade de ler alguns
de seus escritos, publicados em 1560, depois de seu retorno à
França, especialmente aqueles que dizem respeito a mim, como
Les Propositions Contentieuses entre le Chevalier de Villegaignon
et Maistre Jehan Calvin concemant la Verité de VEucharistie. Ele
deveria entrar na história com o título “O Caim da América”.

15

O HUMANISMO
EA PESTE NEGRA

Tão Cogo a pureza do cuíto seja pervertida,
nada permanece íntegro e saudáveC

Ao falar sobre sua súbita conversão, o senhor menciona que
passou do humanismo para o cristianismo. A distância entre um e
outro é muito grande?
á

Se eu não tivesse trocado o humanismo pelo cristianismo, eu seria
parecido com o holandês Erasmo de Roterdã, aquele homem ex­
tremamente culto, que escreveu o notável Elogio da Loucura, quan­
do hóspede de Tomás Morus, na Inglaterra. Desidério Erasmo,
quarenta anos mais velho que eu, criticou duramente a degradação
da religiosidade da igreja em nosso século, tanto quanto nós, mas
não foi mais além. Erasmo morreu humanista. Nunca abraçou a
Reforma por inteiro. Seria parecido também com o espanhol Juan
Luis Vives, conhecido como o mais cristão dos humanistas, que
também se manteve humanista até morrer, em 1540. A distância
entre o humanismo e o cristianismo não é muito grande, desde
que não estejamos falando de humanismo secular.

em meu tempo. que morreram um depois do outro. O primeiro redescobre a grandeza do ser humano por ter sido criado à imagem e semelhança de Deus. o já citado Lorenzo Valia. colocando-o no centro de tudo. Entre os seus precurso­ res mais notáveis estão. o primeiro em 1535 e o segundo. o humanismo cristão e o humanismo secular (ou paganizante). o principal humanista do século passado. Inglaterra e Alemanha. Por exemplo. contribuiu não só para recuperar a importância do latim como língua clássica como também para restituir a pureza dos textos bíblicos. sem medo de errar. Em certo sentido. CALVINO Á Humanismo secular? Embora tenha raízes na antiguidade greco-romana. uma sociedade internacional de estudiosos. Pico delia Mirandola (morto em 1494) e Marsílio Ficino (morto em 1499). em ordem cronológica: Lorenzo Valia (morto em 1457). o humanismo abriu portas para a Reforma.• SOU EU. Praticamente todos os humanistas abriram os olhos do povo para a falta de auto­ ridade moral do papado e da igreja. Países Baixos. fator de suma importância no movimento da Reforma. o humanismo começou a florescer e a influenciar a religião. Por último. Posso afirmar. Os mais famosos humanistas da primeira metade deste século são humanistas cristãos. como Tomás Morus (autor de Utopia) e Erasmo de Roterdã. os humanistas . que o humanismo é. Hoje. principalmente em certos países como França. o pensamento e até as artes no século passado. Existem os dois extremos. ele tem proporções muito grandes em nosso meio. A Há algum parentesco do humanismo com a Reforma? Eu d iria que sim. intensificando o desejo de uma reforma em seu seio. O segundo chega a endeusar o ser humano. E não é muito pequeno. O também já mencionado Pico delia Mirandola abriu as portas da liberdade de pensamento. no ano seguinte.

Lembro-me de uma de suas frases de efeito: “Minha mais sublime filosofia é conhecer Jesus e sua crucificação”. nos levou a ler as Escrituras em suas línguas originais. O pior de tudo aconteceu aqui em Genebra. Ele reformou a igreja em seu tempo por sua vida exemplar. Tertuliano (160-225). piedade pessoal e séria autoridade. quatro de seus seis filhos e Wolfgang Capito. sua cidade natal. quando o senhor era um menino de 14 anos. Essa foi sua única experi­ ência com a peste? Não foi a primeira nem a última. seu pai o mandou estudar em Paris para protegê-lo da peste que grassava em Noyon. Entre os clássicos que começamos a ler estão Clemente de Alexandria (150-215). quero passar do humanismo para a tragédia da peste negra que assolou e tem assolado a Europa neste século e no século anterior. Em Estrasburgo. principalmente. Entre elas estavam Elizabeth Bucer.0 HU M AN ISM O EA PESTE NEGRA • 123 redescobriram a sabedoria e a beleza dos textos gregos e romanos dos tempos passados e despertaram o gosto pelo estudo das línguas clássicas. o que. a peste causou a morte de várias pessoas muito chegadas a mim. Na linguagem humana. conhecido como “Doutor Melífluo” por sua doutrina “mais suave que o mel”.. sua crucificação e sua ressurreição”. Pena que não tenha completado a declaração de fé: “. O primeiro marido da minha esposa foi outra vítima. eu diria que Bucer não merecia tamanho infortúnio porque ele desenvolveu um trabalho social tão bem-sucedido na cidade que acabou com os pedintes de rua. esposa do pastor Martin Bucer. o formidável Agostinho (354-430). pastor auxiliar de Bucer. onde pas­ toreei uma comunidade de imigrantes franceses e constituí família. Crisóstomo (347-407) e.. conhecer Jesus. como o grego e o hebraico. á Mudando completamente de assunto. . Não quero deixar de lado o meu patrício Bernardo de Claraval (1091-1153). O amor à leitura é outro benefício do humanismo. por sua vez. com sua permissão. Em outubro de 1523.

ela dizimou 25% da população de Zurique. minha esposa. Ele ia de esteira em esteira até pegar a doença e morrer. quando eu ainda morava em Noyon. ela matou um quarto da população europeia. Peter Blanchet. repleto de doentes. mas conseguiu se recuperar. Exatamente nesse ano. Além do mais. Ele foi contagiado. E uma doença altamente contagiosa. Era a chamada “Casa da Peste”. as poucas pessoas que iam à igreja sentavam-se longe umas das outras. sem saber se o irmão no banco da esquerda estava ou não contagiado. as ruas ficaram desertas. No século 14. nunca fui uma pes­ soa de boa saúde. o comércio e as escolas fecharam suas portas. á Mas o que. O único som que se ouvia nas ruas era o tilintar das campainhas de carros fúnebres. Idelette. Ulrico Zuínglio tinha começado a pregar uma re­ forma radical na cidade. um dos nossos pastores. exatamente. o senhor chama de peste negra? Peste negra é uma forma de peste bubônica que faz surgir na pele manchas de sangue que se tornam escuras. que passavam carregados de corpos em direção ao cemitério. CALV1NO logo após a minha segunda chegada no segundo semestre de 1541. . que nasceu e morreu quase em seguida. estava grávida de nosso primeiro e único filho. Em 1519. Aconteceu o mesmo com outro pastor. á O senhor pessoalmente deu alguma assistência às vítimas da peste? O Pequeno Conselho não me permitiu.124 • SOU EU. Na ocasião. Por causa da peste. ele estava com 35 anos. Na verdade. sob a alegação de que eu não deveria correr risco devido à grande necessidade que a igreja tinha de meus serviços. Tínhamos um hospital do lado de fora dos muros da cidade. ofereceu-se para consolar os que ainda estavam vivos e preparar os moribundos para a morte.

^ De onde surgia a epidemia? E difícil responder com precisão. No cerimo­ nial de consagração do templo de Jerusalém. Quando Davi pecou. levando ao cárcere e à morte vários deles. mas porque “era melhor ser punido por Deus. apesar da tentativa ou das tentativas de nos contaminarem. ^ Por ocasião da peste que grassou na Europa há pouco menos de dois séculos. O Senhor preservou a nossa casa. Ele preferiu a peste. A gangue era enorme e o crime foi descoberto. A palavra peste apa­ rece várias vezes na Bíblia. Deus mandou que ele escolhesse como castigo três anos de fome. os alemães deram início a um movimento que . da peste e da praga de gafanhotos (2Cr 6.13-14). muito embora Deus seja soberano e livre para derramar tanto a sua graça como a sua ira. Alguns se suicidaram na prisão. cuja misericórdia não tem fim. á A peste negra seria a ira de Deus sendo derramada sobre os pecadores? Acho que não. Diz-se que certos homens e certas mulheres de índole má fizeram um unguento contendo material infectado dos pacientes e o colocaram iras maçanetas das portas da cidade para alastrar a peste com propósitos infa­ mes. não porque era o castigo de menor duração. Ouvi dizer que ela tinha sido trazida por soldados suíços que passaram pela cidade. a cair nas mãos dos homens” (2Sm 24.28). três meses fugindo de seus inimigos ou três dias de peste. Salomão admitiu que o Senhor poderia castigar o pecado de Israel por meio da fome.0 HU M AN ISM O EA PESTE NEGRA • 125 Á É verdade que alguns criminosos procuravam contagiar o maior número de pessoas para se apoderar de seus bens depois da morte delas? Penso que há fundamento para tanto.

Ainda bem que os reformadores trouxeram à tona a riqueza do sola gratial á Os flagelantes se consideram os únicos culpados da peste? A culpa podería ser atribuída aos árabes (principalmente na Espanha). no ano seguinte. enquanto 2 mil judeus caminhavam rumo à execução. as pessoas roubavam suas roupas. carregando uma cruz vermelha numa das mãos e um chicote de couro com ponta de metal na outra. CALVINO procurasse aplacar a ira de Deus por meio da mortificação coletiva. aos judeus (em todo o norte da Europa). Pior que a peste em si era a mortalidade dos judeus. A certa altura. Mas a política do olho por olho e dente por dente só complica as coisas: por terem matado duzentos de seus inimigos. os judeus reagiam. Vê-se aí a eterna ênfase às boas obras para comprar o favor de Deus. onde também morei. Os flagelantes marchavam de cidade em cidade. Em Estrasburgo. e matavam seus perseguidores. Este é o nosso mundo! . aos peregrinos religiosos (em Portugal) e. todos vestidos com uma túnica preta. Eles executavam esse rito duas vezes durante o dia e uma vez à noite.. o povo de Frankfurt acabou com a vida de 12 mil judeus! Em resumo. como no tempo de Ester e Mordecai. Para agravar a situação. E verdade. todos os judeus foram presos em edificações de madeira e queimados vivos.. houve trezentos massacres que mataram dezenas de judeus e mais de duzentas comunidades foram destruídas. no período de três anos.126 • SOU EU. Foi o que aconteceu em Frankfurt. em alguns lugares. conhecida como a Irmandade dos Flagelantes. na maior parte das vezes. Em Basiléia. eles se reuniam na praça central de alguma cidade e se golpeavam enquanto cantavam o chamado hino dos flagelantes. onde eu me exilei em 1535.

Para eventual­ mente arquivar uma cópia. Polônia. Alemanha. Suíça. Áustria. pelo que sempre me desculpo. podem ser apagadas por torpes anseios da carne A Em quase todos os países da Europa . são respostas às cartas recebidas. . sou em que tomo a iniciativa. Suécia. Inglaterra.é possível encontrar alguém que tenha recebido pelo menos uma carta escrita por um certo João Calvino.França. nas outras. Na maior parte das vezes. Escócia . Algumas com algum atraso. tenho sempre algum papel. a não ser de alguma carta de maior importância. Países Baixos.16 O NOBILÍSSIMO E CRISTIANÍSSIMO PROTETOR DA INGLATERRA E IRLANDA CenteCfias de piedade que arderam em muitas ocasiões. Não mantenho um registro das cartas enviadas. Mas certamente escrevi muitas cartas para muitas pessoas. se não forem atiçadas frequentemente. Quantas cartas e para quantas pessoas o senhor tem escrito? Não tenho como responder nem uma nem outra pergunta. uma caneta e um tinteiro. eu escrevo outra vez a mesma carta. muito menos tenho cópias delas. Sobre a minha escrivaninha.

Es­ creví também uma carta aos refugiados ingleses que moram em Frankfurt. como o primaz da Inglaterra e o bispo de Londres. à Madame de Cany (nossa grande querida irmã na fé em Noyon. As autoridades seculares. Filipe Melâncton e John Knox. Algumas cartas eram molhadas de lágri­ mas. especialmente aquelas que foram escritas para consolar quem havia perdido um ente querido. e aos ministros de Neuchâtel. A reis e rainhas. sete anos antes. escrevi para ele na tentativa de trazê-lo de volta à fé e censurar seu obstinado orgulho. onde nasci. na Alemanha. . ^ Para quem o senhor costuma enviar suas cartas? Para uma infinidade de pessoas. depois. pastor da comunidade francesa em Frankfurt. Aos cinco jovens prisioneiros de Lyon. cuja esposa havia sido vítima da praga. Guilherme Farei e Pierre Viret. como o senhor D Andelot (capitãogeral da infantaria francesa). e irmã da duquesa d’Étampes).28 • SOU EU. como o rei da Inglaterra. mas que. como Henrique Bullinger. copiadas ou não. o conde de Arran (ex-regente da Escócia durante a minoridade de Maria Stuart). Aos colegas pastores. deixando-me viúvo aos 40 anos. como Martinho Lutero. As autoridades religiosas. seriam alguns volumes. pastor de Zurique. o rei da Polônia. Sete anos antes de o médico Miguel Serveto ser condenado à fogueira por heresia. Fui obrigado a me lembrar dolorosamente da morte de Idelette. o barão Burghley (secretário de Estado na época de Eduardo VI) e o almirante Gaspar de Coligny. Aos reformadores. Aos meus dois amigos mais chegados. CALVINO Suponho que. o rei e a rainha de Navarra. se juntasse todas as cartas. e à duquesa de Ferrara (nossa querida irmã que teve um momento de fraqueza ao ser arrancada de seu palácio e de seus filhos em razão de sua fé. retornou a Cristo). e fizesse delas um livro. como é o caso do meu amigo Ricardo Vauville.

absoluta­ mente nada” . Nas­ ceu em Paris e abraçou a carreira militar. Em carta. esposa de seu amigo Pierre Viret.concluiu meu amigo . Sobre o que o senhor lhe escreveu? Como não me foi possível estar pessoalmente com Viret.0 NOBILÍSSIMO E CR1STIANÍSSIMO PROTETOR DA INGLATERRA E IRLANDA • 129 á No início de 1546. Gaspar de Coligny é dez anos mais velho que eu. na qual consiste a nossa salvação . Prometi não impor-lhe cargo algum e deixá-lo totalmente à vontade. morreu Elizabeth Turtaz. tem sido um dos destacados líderes da pureza evangélica na França. em nossa companhia. Na campanha da Itália em 1544. para. A Que relação pode haver entre um reformador e um almirante da marinha? A relação é enorme quando ambos têm a mesma fé e a mesma esperança. Coligny anunciou publicamente sua adesão à Reforma. exortei-o a prosseguir corajosamente pela glória do Filho de Deus na certeza de que a coroa celestial. mandei-lhe uma carta. Dei-lhe a minha palavra de que nem eu nem os cidadãos da cidade lhe seríamos incon­ venientes. Em minha carta. ele me havia dito que estava completamente desesperado e prostrado com aquela flecha de aflição e que o mundo inteiro não lhe parecia senão um fardo. A dor do luto misturada com os aborrecimentos que dia a dia enfrentamos no pastorado de uma igreja é insuportável. Há poucos anos. Ficamos preocupados com a saúde emocional e física de Viret. escrita em janeiro do ano seguinte. Ele tem lutado junto ao governo em favor da plena liberdade de culto no pais. ganhou notoriedade por sua bravura e aos 41 anos foi feito almirante. intimando-o a vir o mais rapidamente possível a Genebra. em 1550. “Não havia nada. pois a doença que levou sua esposa foi muito prolongada.“que pudesse aliviar a angústia da minha mente”. mas também de todos os aborre­ cimentos acumulados até então. libertar sua mente não apenas da tristeza. Desde então.

Á Quem é William Rabot. Disse-lhe com amor e convicção: “Se estudar constantemente a Palavra do Senhor. á Parece que o senhor tem o costume de dedicar os livros que escreve a pessoas preeminentes de toda a Europa. A esposa é uma das damas mais cristãs e virtuosas dos nossos dias. O casal tem aberto as portas de seu lar para a pregação do evangelho. Já o Comentário de Gálatas. Coligny não é um simplório. Tenho orado ao Pai para que ele guarde sob sua proteção o almirante. na esperança de obter o apoio dele à Reforma na França. podem ser apagadas por torpes an­ seios da carne”. protetor da Inglaterra e Irlanda e tutor real”. o mais conhecido e vendido dos meus livros. para que o nome de Jesus seja cada vez mais glorificado. onde havia um núcleo de propaga­ ção do evangelho que provocou a sua conversão e a de certas famílias distintas. Sei que ele era um exilado por questões religiosas e que estudava direito na Universidade de Pádua. Sugeri que ele viesse nos visitar em Genebra. animando-o na prática de exercícios devocionais diários porque “centelhas de piedade que arderam em muitas ocasiões. Efésios. eu o dediquei ao “meu poderoso e ilustre monarca Francisco. CALVINO eterna. Escrevi-lhe uma carta pequena. no norte da Itália. Filipenses e . se não forem atiçadas frequentemente. você será suficientemente capaz de elevar a sua alma à mais alta excelência”. Tito e Filemom ao “nobilíssimo e cristianíssimo príncipe Eduardo. seu príncipe”. que o senhor chama de irmão e condis­ cípulo e para quem escreveu em julho de 1550? Não o conheço pessoalmente. Dedi­ quei o Comentário de Cartas de Paulo a Timóteo. cristianíssimo rei dos franceses. conde de Hertford.130 • SOU EU. estava à sua espera. ele sabe muito bem que corre risco de vida. duque de Somerset. A começar com As Institutos.

como “Nada aborrece mais a Deus do que ir além ou aquém do que ele determina”. “um homem digno de toda honra”. na época em que ele era regente da Inglaterra. Por grande parte da minha vida não tive obrigações domésticas. não a carne. conde de Montbéliard etc. o de Romanos. “A sabedoria do Espírito. eu o dediquei a Simon Grynaeus. “O melhor caminho é o da moderação. pois o exagero não é nem prudente nem útil”. Meu primeiro comentário.0 NOBILÍSSIMO E CR1STIANÍSSIMO PROTETOR DA INGLATERRA E IRLANDA • Cobssenses foi dedicado ao “ilustríssimo príncipe e soberano. Deus seja inteiramente louvado! . Mas nem todos os meus livros foram dedicados aos po­ derosos. ora às 6. tem de prevalecer em tudo” . A Tive acesso à sua longa carta de 22 de outubro de 1548 ao du­ que de Somerset. duque de Württemberg. escrevi que o fidalgo Galliazo Carracciolo era “mais excelente por suas virtudes do que por seu nobre nascimento”. senhor Christoph. professor de grego e teologia. Os quatro grandes volumes de meu Comentário dos Salmos foram consagrados aos “leitores piedosos e sinceros” e consagrei os dois volumes do Comentário de Daniel a “todos os sinceros adoradores de Deus que almejam o reino de Cristo com justiça estabelecido na França”. Alguns de seus pronunciamentos são de extrema beleza. pois fui casado apenas por nove anos (de 1540 a 1549) e o único filho que Deus se serviu de nos dar morreu depois de nascer. Mas os livros e as cartas nunca me roubaram o tempo de comunhão com o Senhor. de pregar mais de cinco vezes semanalmente na Catedral de Saint Pierre e de fazer visitas pastorais? Como pouco e durmo pouco. começo a escrever ora às 5 da manhã. além de ensinar na academia. Na dedicatória da segunda edição do Comentário da Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios. Nos dias em que não tenho de pregar.”. -4 Como o senhor arranja tempo para escrever tantas cartas e tantos livros.

Escócia e outros países que se tornaram suas ovelhas e seus alunos em Genebra. “Que o Senhor continue a escudá-lo com sua proteção e guardá-lo pelo seu Espirito até o final” (na carta a Melâncton). que o nome do nosso Senhor Jesus Cristo seja glorificado por vocês. para que persevere até o fim. . para edificação da sua igreja!” (na carta aos cinco prisioneiros de Lyon). Aceito essa observação com prudente humildade e reconheço que tenho alcançado muita gente de todo o continente por meio das cartas. Exemplos: “Que o Senhor o preserve para si mesmo e para seu povo” (na carta a Farei). A O senhor impetrou a bênção de Deus para Miguel Serveto? Não. para o benefício e bem comum de sua igreja” (na carta para Lutero). Inglaterra.132 • SOU EU. começar ou terminar uma carta? No meu caso. acho mais fácil terminar do que começar. alegria e contentamento. “Que Deus os encha com o seu Espírito e lhes dê prudência e coragem. dos livros e dos refugiados. trazendo-lhes paz. “Que o Senhor continue a guiá-lo pelo seu Espírito e abençoar seus santos labores” (na carta ao primaz da Inglaterra). “Que o Senhor amenize a tristeza de sua viuvez e abençoe todos os seus trabalhos” (na carta a Ricardo Vauville). Fiz uma oração por ele: “Rogo ao nosso Deus que o tenha em seu cuidado”. CALV1N0 A O que é mais fácil. A impressão que tenho é que o senhor é pastor por toda a Europa! Ainda mais pelo fato de haver centenas de refugiados da França. “Que o Senhor os acompanhe com a sua bênção. Tenho o costume de terminar quase sempre da mesma maneira: impetrando a bênção para a pessoa à qual escrevo. A A mim parece-me que o senhor não é pastor só de Genebra. minimizando a aflição do exílio de vocês” (na carta a John Knox). “Que o Senhor mesmo o governe e o dirija pelo seu próprio Espirito.

do gênero humano e da criação. A A um homem de Estado. o senhor denunciou o Diabo como “aquele que se . o inimigo número 1 de Deus. como Edward Seymour. Ele é anterior à formação do homem. o mentiroso-mor. ele teve a ousadia de tentar o próprio Senhor Jesus. chamando-o de o Diabo. vamos nos posicionar contra Satanás Á Em suas cartas. ele é res­ ponsável por todas as tragédias que se abateram sobre Jó. O Diabo é o inventor do pecado tanto na abóbada celeste como na abóbada terrestre. Ele aparece no primeiro e no último livro da Bíblia. Satanás é o tentador-mor. O senhor acredita mesmo em Satanás como pessoa? Satanás faz parte da história. de Jesus Cristo. o senhor se refere várias vezes a Satanás. ele é aquele inimigo que semeou o joio logo após a semeadura do trigo. Ele provocou a Queda da raça humana. o enganador-mor. o Maligno. regente da Inglaterra. o Anticristo etc.17 O DIABO VIRA TUDO DE CABEÇA PARA BAIXO í Em vez de desperdiçar nossas energias com os seres humanos. o Antigo Dragão.

na carta endereçada a Thomas Cranmer. Pode ser que sim. pela maravilhosa bondade de Deus. que a religião converteu-se em mera zombaria. ele não atingiría os seus fins”. Ao rei da Inglaterra. Majestade. ^ Em abril de 1552.12). já que não há dúvidas de que ele é o autor do mal. os inimigos declarados da verdade logo causarão terrível desordem entre nós. ar­ cebispo da Cantuária e primaz da Inglaterra. contra os dominadores deste mundo de trevas.134 • SOU EU. está brilhando em muitos luga­ res. parece que o senhor relaciona a operação satânica com o papa. Então acrescentei: “Os cães mercenários do papa não cessam de ladrar para impedir que o genuíno evangelho de Cristo seja ouvido”. por meios indiretos. uma vez que. não desperdi­ cemos nossas energias com os homens. A intemperança e a extravagância são uma praga que atinge não somente o povo. abertamente. para resistir a todas as suas maquinações contra nós. antes nos posicionemos contra Satanás mesmo. Caso não sejam impedidos. as fileiras pastorais. mas também. O que ocorre é o seguinte: tão grande é a licenciosidade que irrompe aqui e ali e tão grande é a impiedade que prolifera por toda parte. um homem culto. á É fantástico que o senhor. por meio de vários ardis. contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais” (Ef 6. Por isso. . mas contra os poderes e autoridades. Primeiro eu disse que Satanás. trabalhando em surdina. tem tentado extinguir a luz do evangelho que. Aconselhei o então regente da Inglaterra “a aplicar toda a sua mente em repelir a malícia de Satanás”. quando ele tinha apenas 14 anos. lamentavelmente. o senhor escreve: “Não tenho dúvidas. É assim mesmo? Paulo diz que “nós não estamos lutando contra gente feita de carne e sangue. CALVINO empenha para arruinar a sã doutrina. não se acanhe de mencionar a pessoa de Satanás em suas correspondências com os poderosos deste mundo.

o problema crucial do pecado e da culpa não existe mais. Lembro-me de me ter aberto com Guilherme Farei em carta escrita antes de eu completar 48 anos: “Além da con­ tenda descarada. não precisa ser completada ou aperfeiçoada por pessoa alguma em tempo algum mais adiante. Na verdade. Á Em suas “Ordenanças Eclesiásticas”. Com esse único sacrifício. obscurece e relega ao esquecimento a morte de Cristo. que torna irrelevante a morte expiatória de Cristo e nos priva de seu fruto remissivo. eu também sou alvo da atuação satânica. colocando a missa no lugar da Ceia” . a missa é o sacrifício do corpo e do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo. A obra não ficou inacabada.0 DIABO VIRA TUDO DE CABEÇA PARA BAIXO • 135 de que Satanás colocará muitos obstáculos à vossa frente para retardar vosso passo e esfriar vosso fervor” . escritas imediatamente após a sua chegada a Genebra em 1541. meu querido Farei. ou “uma vez por todas”. ele “obteve eterna redenção” (v. 12). um novo sacrifício. . estabe­ lecendo um novo testamento e. isto é. com quantas emboscadas e maquinações clandestinas Satanás nos assalta diariamente”. Como assim? No conceito católico romano. É como explica a Epístola aos Flebreus no magistral capítulo nove: Jesus entrou no “Santo dos Santos” uma vez só. a missa sufoca a cruz e a paixão de Cristo. consequentemente. oferecido pelo mi­ nistério do padre como renovação sacramental do sacrifício da cruz. Ao rei da Polônia. Por ser Jesus ao mesmo tempo o perfeito ofertante e a perfeita oferta. e ofereceu um sacrifício tão perfeito e eficaz que não precisa ser repetido em qualquer outro tempo e em qualquer outro lugar. você não tem ideia. Como qualquer outra pessoa. o senhor declara que “pessoas profanas pela instrumentalidade de Satanás poderíam espalhar uma frieza mortal no país e afogar o sentido de muitos numa letargia ignóbil” . o senhor diz que “o Diabo virou as coisas de cabeça para baixo.

E por isso que digo que Satanás virou as coisas de cabeça para baixo. também eram provisórios. poderosíssimo em todos os apetrechos bélicos e habilidosíssimo na arte de guerrear. colocando a missa no lugar da Ceia! á O cristão deve preocupar-se com o Diabo? Eu não diria preocupar-se. mais preparados para combatê-lo. ou seja. A Ceia dispensa a missa. CALVINO está definitivamente resolvido. senhor! É nesta hora que não resisto à tentação de usar alguns superlativos: o Diabo é um inimigo prestíssimo em audácia.2) e o leão que ruge ao nosso redor “procurando a quem possa devorar” (lPe 5. por essa razão.136 • SOU EU.12-18). astutíssimo em estratagemas. Nos tempos da Antiga Aliança. á Tão renhido e tão perigoso? Sim. Seu valor estava condicionado ao futuro sacrifício do próprio Jesus. “o deus desta era” (2Co 4. o próprio Jesus instituiu a Ceia. e.31). em contrapartida. tenhamos . “o príncipe da potestade do ar” (Ef 2. os sacrifícios eram pontualmente repe­ tidos porque eram imperfeitos (quanto ao ofertante e quanto à oferta). Mas. depois de dizer que a nossa luta não é com a carne e com o sangue. Para nos lembrar constantemente de Jesus e para relacionar a nossa salvação com o seu sacrifício único e perfeito. Paulo manda que cinjamos as armas que estejam à altura de suster um embate tão renhido e tão perigoso (Ef 6. Não nos deixemos vencer por ele pela nossa inércia ou pusilanimidade. ou Antigo Testamento. mas com as potestades das trevas. mas preparar-se para enfrentá-lo. O que as Escrituras querem nos comunicar quando chama o Diabo de “príncipe deste mundo” (Jo 12.8)? Essas lembranças não têm em vista outra coisa senão que sejamos mais cautos e vigilantes.4). vigorosíssimo em forças. Veja só.

A expressão “nossa luta não é contra a carne e o sangue” quer dizer “nossa luta não é contra seres humanos”. pois nossos inimigos são em tal proporção que não há poder humano capaz de resistir a eles. Sobretudo. ao nos vermos frente a frente com o Inimigo. E como se Paulo dissesse: “Nossa luta não é corporal”. homem digladiando com homem. Se fosse contra os homens. De tal modo que. tomamos o capa­ cete da armadura do crente. Quando Paulo fala em “perversidade espiritual”. quando o inimigo é . contra a perversidade espiritual nas regiões celestiais” (Ef 6.12)? Paulo simplesmente quer dizer que as nossas dificuldades são muito maiores do que se tivéssemos de lutar contra os homens. para.0 DIABO VIRA TUDO DE CABEÇA PARA BAIXO • 137 ânimo soerguido e despertado. força sendo repelida pela força. uma vez que esta beligerância não se finda senão com a morte. e habilidade contra habilidade. Protegemos a cabeça e deixamos o peito à disposição da lança satânica! Á O que Paulo quer dizer quando fala que a nossa luta é “contra os principados. antes mesmo de sermos atingidos. o apóstolo quer mostrar que. invoquemos a assistência de Deus a nosso favor. Quando o inimigo é negligen­ ciado. Não tentemos coisa alguma. contra os dominadores deste mundo tenebroso. cônscios de nossa insufi­ ciência e obtusidade. Quase todos nós somos culpados de fazer uso de forma displicente e hesitante da graça de Deus que nos é oferecida. usando a arma do terror. mas nos esquecemos de sobraçar a armadura. Na verdade. O apóstolo nos coloca contra um inimigo incrível. fiquemos de pé para resistir e sejamos perseverantes. não para esmagar-nos pelo medo. contra as potestades. o caso é muito diferente. desencorajar-nos. somos conquistados. em seguida. senão apoiados nele. mas para aguçar nossa beligerância e zelo. Por exemplo. ele faz tudo o que pode para sujeitar-nos por meio da indolência. seria então espada contra espada.

mas também insiste na oração .38 • SOU EU. Á É aí que entraria a oração “não nos deixes cair em tentação”. A expressão “regiões celestiais” não significa. E não deve ser egocêntrica. Paulo não lhes designa um território fixo. Temos problemas internos (a tentação da carne). não devemos inquirir com dema­ siada minudência o significado de cada palavra. entre a terra e o céu dos céus. nos direcione e nos encaminhe no serviço de Deus.Deus). Mas não . capacete e espada. na oração do Pai-Nosso pedi­ mos que Deus nos dê armas poderosas e nos ampare com sua assistência para que possamos alcançar a vitória. O apóstolo não fica só na armadura militar do cristão. escudo. ensinada por Jesus? Já que não obedecemos a Deus sem uma contínua batalha e com duros e cruéis encontros. Isto é. como alguns pensam. a espada é a Palavra de. nossa vida passa a ser ameaçada de cima. o perigo é ainda maior. Embora cada uma dessas peças tenha o seu significado espiritual (por exemplo. mas “por todos os santos”.o principal exercício de fé e de esperança. de noite e de dia. dia após dia. pro­ blemas externos (as tentações do mundo) e problemas etéreos (as tentações de cima). que o Diabo e seus anjos tomaram conta e mantêm para eles a região média da atmosfera. mas simplesmente notifica que eles se acham envolvidos em hostilidade e que ocupam uma posição muito elevada. Essa oração precisa ser contínua. á Quais as armas que elevemos cingir para sustar um embate tão renhido e tão perigoso como o senhor mencionou? Paulo lança mão da imagem de um equipamento militar: bo­ tas apropriadas. perseverante. CALVINO invisível (espiritual e não corpóreo). em todas as ocasiões. Precisamos que a graça do Espírito Santo abrande nossos corações.

depois do pacto da traição. o Diabo entrará.0 DIABO VIRA TUDO DE CABEÇA PARA BAIXO • somente isso. Se Satanás já tivesse sido lançado no lago de fogo e enxofre. a fim de que. Se abrirmos a porta para a concupiscência. Não foi isso que aconteceu com Judas? O Evangelho assevera que. Mas me parece que. como Jesus colocou. tanto aquelas que . já que a Queda nos tornou moralmente imprestáveis. Só deixaremos de pecar e de ser tentados com o novo corpo que a ressurreição e a súbita transformação nos darão.13-15). como se lê em Tiago (Tg 1. A tentação nasce dos impulsos incontroláveis dentro de nós. nós continuaríamos pecando por causa do enorme estrago feito pela queda do pai da raça humana. Á O senhor está dizendo que nossa concupiscência atiça o de­ mônio. Precisamos também de seu socorro para que nos faça invencíveis contra as ciladas de Satanás e seus violentos ataques. Na verdade. logo o pecado e o de­ mônio mostrarão sua cara. nós pecaríamos. que nos induz a transgredir a lei. a ênfase é que Deus não permita que sejamos ven­ cidos pelas tentações que lutam contra nós.3). as tentações são muitas e de diversos tipos. “então Satanás entrou em Judas” (Lc 22. Se cedermos a esses impulsos. Não é exatamente o contrário? Mesmo que não houvesse o demônio. podem converter-se em tentações quando se nos põem diante dos olhos. mediante elas. Todo mau pensamento de nossa mente que suscite nossa concupiscência atiça o demônio. o que ainda vai acontecer. O pecado reside dentro de nós. por arte e indústria de Satanás. nos apartemos de Deus. á O que elevemos pedir em oração: não nos deixes ser tentados ou não nos deixes cair em tentação? Podemos suplicar ambas as coisas. Até mesmo as coisas que em si não são más.

Não poderemos conseguir a vitória sem que. Em palavras bem curtas: que sejamos libertos do Maligno. contra a morte. O que pedimos é a graça de sermos vencedores contra o pecado. contra as portas do inferno e contra todo o reino de Satanás. CALV1NO mais concupiscência produzem em nós mesmos como aquelas a que somos induzidos pela astúcia de Satanás. . despojados da fraqueza da nossa carne.140 • SOU EU. estejamos cheios do Espírito Santo.

Mas não deu certo.18 O CRISTÃO NÃO DEVE CORRER D A FOGUEIRA NEM CORRER P A R A A FOGUEIRA ‘Parece que (Deus utilizará o sangue cCe vocês para suSscrever sua venfacfe A De junho de 1552 a maio de 1553. Em abril de 1552. eles estavam de volta à França quando foram presos sob a acusação de heresia por terem aderido à Reforma. a igreja de Genebra abraçou a questão e fez tudo o que pôde para lhes mostrar solidariedade. Charles Favre. Peter Escrivain e Peter Navihères. o senhor enviou três cartas endereçadas “aos cinco prisioneiros de Lyon”. Quem são eles? São em ordem alfabética: Bernard Seguin. perto de Genebra. Aos primeiros rumores da prisão deles. Todos eram jovens franceses e estudavam teologia em Lausanne. aqui na Suiça. Martial Alba. . A Os rapazes foram libertados? Os cinco estudantes apelaram ao Parlamento de Paris enquanto as autoridades de Berna lutavam para salvá-los.

tanto em Genebra como em Lausanne. no que foi atendido. não só por terem convicção da existência de uma vida celestial. eles foram can­ tando salmos e recitando versículos das Escrituras. uns diziam aos outros: “Coragem. Os dois mais moços foram os primeiros a subir na pilha de lenha. Isso nos cau­ sou muito pranto. Do cárcere até o local da execução. o mais velho dos cinco. solicitou ao carrasco que lhe concedesse o privilégio de beijar os outros quatro. Martial disse a cada um deles: “Adieu. que já estavam amarrados. e ele não permitirá que eles me sobrevenham em intensidade superior à força que ele nos dará para suportá-los”. Ao mes­ mo tempo. de forma mais realista do que otimista. Então o melhor é que vocês se preparem para partir”. O último foi Martial Alba. os cinco estudantes receberam a notícia com piedosa serenidade. Já em meio às chamas.142 • SOU EU. meus irmãos”. a água. Logo após a sentença. CALVINO Depois de serem transferidos de masmorra em masmorra e de um longo julgam ento. Dois meses e meio depois. não partem ao acaso. embora tarde o tempo da nossa redenção”. disse-lhes solenemente: “Enquanto aprouver a Deus dar o reino aos seus inimigos. Por fim. Depois. . no dia Io de março de 1553. foram condenados à fogueira. A fogueira foi montada na Place des Terreaux. coragem!”. Ele permaneceu um bom tempo de joelhos em oração. adieu. mas também por terem certeza da adoção graciosa do nosso Deus”. nosso dever é ficar quietos. a espada e outras coisas estão nas mãos de Deus. um ano depois da prisão. á Suas cartas os confortaram? E o que tentei fazer. ao deixar este mundo. Ao serem avisados para se prepararem para a morte. a pena se cumpriu. eu trouxe à lembrança deles uma preciosa verdade: “Vocês sabem que. É como disse certo mártir inglês em 1545: “Eu sei que o fogo. eu lhes escrevi o seguinte: “Parece que Deus utilizará o sangue de vocês para subscrever sua verdade. meus irmãos.

o foram posteriormente. João foi posto num caldeirão de óleo fervente. foi lançado de um pináculo do templo e de­ pois espancado até morrer. o Senhor deixou que Herodes matasse à espada apenas Tiago. O sangue dos cristãos mortos por sua fé nunca é derramado à toa. dos doze apóstolos. Marcos morreu em Alexandria depois de ter sido arrastado pelas ruas da cidade. mas escapou da morte e foi exilado na ilha de Patmos. o que me leva a perguntar: quem é mais útil a Deus. A Mas todos os outros apóstolos. porém se serve mais dos que continuam vivos.0 CRISTÃO NÃO DEVE CORRER DA FOGUEIRA • A O senhor acaba de tocar numa questão muito delicada. segundo a tradição. inclusive a de Filipe. Barnabé teve a mesma sorte na Grécia. como dizia Tertuliano no século 2o. o Senhor fez o mesmo: deixou que o Sinédrio judaico e a multidão em fúria apedrejassem Estêvão e preservou a vida dos outros. Dos sete diáconos. Tomé teve o corpo traspassado por lanças na índia. aquele que dá a sua vida por ele na morte ou aquele que dá a sua vida por ele na vida? Deus. E Paulo foi decapitado . Pedro foi crucificado de cabeça para baixo em Roma. Lucas foi enforcado numa oliveira na Grécia. é a semente da igreja cristã. que foi um excelente evangelista. O potencial do mártir vai embora com ele. o Menor. em sua soberania e em sua estratégia. Mateus foi passado pelo fio da espada na Etiópia. aquele que viria a ser o maior teólogo e o maior missionário de todos os tempos. Nos primórdios da história da igreja. um dos mais chegados a Jesus. Filipe foi enforcado numa coluna na Frigia. mas o sangue dos mártires. É bem possível que o testemunho de Estêvão na hora de seu martírio tenha sido uma das causas da conversão de Saulo. Matias foi apedrejado e depois decapitado. mesmo num ambiente de intensa perseguição. serve-se de ambos. Bartolomeu foi preso a uma cruz. De fato. e dali pregou aos seus perseguidores até morrer. e preservou a vida dos outros. se não foram martirizados no início de seus ministérios. Tiago.

Deixo por último o meu amigo Thomas Cranmer. Em março de 1554. cujo relacionamento com Herodes foi criticado pelo precursor de Jesus. morto na fogueira em Praga no dia 6 de julho de 1415. ele não deixava de providen­ ciar uma boa educação para os filhos. elas deram a vida delas na vida e na morte. morto em 21 de março de 1556. No caso dessas pessoas. ele foi intimado a comparecer diante dos comissários da rainha e um deles perguntou se ele era casado. á Como o senhor define o mártir cristão? Mártir é tanto a pessoa assassinada como a pessoa submetida à pena de morte pela recusa de renunciar à fé cristã ou a qualquer de seus princípios. Para não ser longo demais. CALVINO por ordem de Nero em Roma. na Inglaterra. na Escócia. arcebispo da Cantuária e primaz da Inglaterra. mas condenados à pena máxima. martirizados em 1555. em Portugal etc.144 • SOU EU. Já os rapazes de Lyon não foram necessariamente assassinados.na Boêmia. Cortaram-lhe a cabeça apenas para satisfazer o capricho pessoal de Herodias. pelo qual deu o seu sangue. por amor a Jesus. João Batista não foi condenado à morte nem pelo Estado nem pelo Sinédrio. o precursor da Reforma. Embora dedicando a maior parte de seu trabalho ao rebanho de Cristo. tem havido outros mártires em seus dias? Muitos e em muitos lugares . Entre os mais notáveis. Á Além dos cinco rapazes de Lyon. cito novamente Jan Hus. A história está repleta de ambos os exemplos. Hugo Latimer e do bispo Nicholas Ridley. menciono os nomes dos ingleses John Hooper. . Á Disseram-me que o bispo Hooper era mais elogiado por ser pai de família do que pastor de ovelhas. Há uma passagem muito bonita na vida dele. passando-lhes ensinamentos e boas maneiras.

respondeu Hoover. Foxe deveria ter dedicado mais espaço a esses mártires. no dia 9 de fevereiro. Nasceu na Inglaterra e tornou-se professor da Universidade de Oxford. por causa da perseguição na Inglaterra. Á É juízo temerário pensar que alguns cristãos acabam na fogueira para se tornarem heróis da fé? Isso é possível. para todos os cristãos. gestos . Em minha opinião. duas cidades da França. nosso Salvador”. um espetáculo ou exemplo singular de fortaleza em Cristo. exilou-se por algum tempo na Alemanha e por aqui na Suíça. mas o julgamento final pertence a Deus. A “O Livro dos Mártires” porventura faz referência aos cinco ra­ pazes de Lyon? O livro de John Foxe foi publicado em latim quatro anos após o martírio dos cinco estudantes de Lausanne. “sou casado há nove anos e não me descasarei até que a morte me descase”. Ele faz apenas uma pequena alusão sem citar nomes e datas: “Durante a mesma perse­ guição padeceram os gloriosos e mui constantes mártires de Lyon e Vienne. Os cristãos não devem provocar a perseguição com palavras. Menos de um ano depois. rainha da Inglaterra. ele foi descasado ao ser queimado vivo por ordem de Maria Tudor. á Quem é esse Foxe? John Foxe é sete anos mais novo do que eu. A tradução inglesa de seu livro foi publicada há poucos meses sob o título Actes and Monuments of These Latter and Perillous Days. excelência”. que citei anterior­ mente) quando. Creio que foi nessa época que ele se uniu aos reforma­ dores ingleses. onde havia se formado. de 39 anos. levando em conta que ele começou a compilar O Livro dos Mártires (coincidentemente com o mesmo título do livro de Jean Crespin.0 CRISTÃO NÂO DEVE CORRER D A FOGUEIRA • 145 “Sim. dando um retumbante testemu­ nho e.

frente à fornalha acesa. irão abraçar e beijar a estaca (como aqueles onze homens e duas mulheres martirizados em Stratford-le-Bow em 1556). e Estêvão. e não a eles mes­ mos. não voltam atrás. nem blasfemar no momento exato da morte. ou na guilhotina. como os amigos de Daniel. nem praguejar. não vejo fanatismo algum. irão bater palmas com as mãos em fogo (como Thomas Hauker). Nos casos citados por Foxe. mas sem nunca nos desviarmos do reto caminho. A desobediência civil só não é pecado quando o cristão desobedece à lei para não desobedecer a Deus. CALVINO e ações petulantes. Quanto aos perigos que possam surgir. ou na forca. frente ao apedrejamento. irão anunciar o evangelho pela última vez. á No livro de Foxe há algumas histórias que cheiram a fanatismo? Os que não se retratam. irão chamar a corda que as amarra à estaca de cinto nupcial com o qual estão se casando com Cristo (como Ann Audebert). são pessoas especiais.146 • SOU EU. ou no apedrejamento) certamente altera seus sentimentos. E preciso levar em conta que o estado emocional dos que estão sendo levados para o patíbulo (para serem mortos ou na fogueira. suas reações. irão declarar que a fogueira na qual estão sendo queimadas é a carruagem de fogo que levou Elias para o céu. suas palavras. Elas não irão nem gritar. irão pedir que o carrasco distribua com os pobres a madeira que sobrar dó “incêndio” (como Giles Tilleman). Elas irão louvar a Deus. irão beijar a fogueira (como um tal de Cardmaker). não abjuram a fé. . Eles devem aceitar o preço da fidelidade a Cristo por amor incondicional ao Senhor. É tudo uma questão de equilíbrio: o cristão não deve correr da fogueira nem correr para a fogueira. devemos evitá-los o quanto pudermos. irão lavar as mãos nas chamas como se fossem água fresca (como um tal de Rogers). mesmo tendo a oportunidade de se livrarem da morte na última hora. irão orar pelos seus verdugos (como Estêvão fez).

3. No dia seguin­ te.5). Ap 3. seu corpo foi envolto num lençol e posto em um ataúde de madeira. onde se encontram os seus restos mortais. em Genebra. ninguém sabe. domingo. Calvino foi sepultado no cemitério Plainpalais. Meses depois. a começar com a . em várias partes do mundo.ÚLTIMA PÁGINA JO Ã O C A L V IN O M O R R E U no dia 27 de maio de 1564. Nada encon­ traram. passados 450 anos de sua morte. nem sequer uma pequena placa com a inscrição “Aqui jaz João Calvino”. nas enciclopédias e nos livros escritos por mais de uma centena de estudiosos. sem pompa nem qualquer aparato. Até hoje. Uma hora antes de começar o culto da tarde na Catedral de Saint Pierre. O nome de João Calvino está escrito no Livro da Vida (Fp 4. estudantes recém-chegados a Genebra foram ao cemitério para visitar o túmulo de Calvino. 44 dias antes de completar 55 anos. Tudo o que Calvino fez está disponível na internet. junto com o nome de todos os eleitos. por determinação dele. na certeza de encontrar ali um mausoléu à altura do seu nome.

Martinho Lutero e ele redescobriram. .148 • SOU EU. e a terminar (por enquanto) com este singelo livro da Editora Ultimato. em As Institutos. seu amigo e substituto imediato na Catedral de Saint Pierre. Também está nos seus comentários de quase todos os 66 livros das Escrituras Sagradas e em outros livros de menor porte.19). em primeiro lugar. tudo o que ele fez e disse de errado foi jogado no fundo do mar (Mq 7. o livro mais lido durante o século 16 (depois da Bíblia). Tudo o que Calvino escreveu está. de acordo com a doutrina do sola gratia. Tudo o que Calvino deixou de dizer e fazer. abraçaram e pregaram. que Jacques Lefèvre. CALV1N0 biografia de Theodoro de Beza.

ANEXOS .

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Os conselhos que ele deu em sua época . ** * Os cristãos devem ter toda aversão aos cismas e evitá-los sempre onde depender deles.mea­ dos do século 16 . negligenciada entre nós em muitos aspectos. sem o menor resquício de superioridade. retiradas do livro Cartas de João Calvino.não perderam o seu valor. * * * Não teremos uma igreja duradoura a menos que se restaure completamente a antiga disciplina apostólica. As desculpas infelizes com as quais costumamos cobrir nossa nudez diante dos homens jamais poderão suportar o calor do juízo de Deus. .DE PAI PARA FILHO CALVINO ENCORAJOU centenas de homens e mulheres cie diferentes lugares e posições sociais muito mais por meio de suas cartas do que por meio de seus livros e sermões. com a devida permissão da Editora Cultura Cristã. sempre de maneira fraterna e humana. que o publicou em 2009. Algumas dessas palavras de orientação e ânimo aparecem a seguir.

Daí a necessidade de observamios a moderação em todas as coisas. a falta de equilíbrio. * * * É difícil conservar nos devidos limites aqueles que estão inchados por terem uma tola opinião de sua própria sabedoria. k k 9c E tão fértil a semente da falsidade que basta um só grão para ela encher o mundo em apenas três dias! k k k O exagero. * * * Só se deve recorrer a soluções extraordinárias quando há a justificativa de uma situação extrema. o ato de entregarmos nossa segurança ao Senhor é o único quase exclusivo recurso que nos resta. * * * As superstições do anticristo. enraizadas há tanto tempo. * * * Por sua natureza e por sua hipocrisia o ser humano não suporta ser trazido à clara luz da Palavra de Deus. Caso contrário. não podem ser erradicadas tão facilmente do coração humano. CALVINO Quase não há igreja que não conserva alguns resquícios da ignorância passada. Nossa alma ê mesmo um abismo de iniquidade. .152 • SOU EU. * * * Reconheçamos que em nós nada há senão absoluta miséria. tudo irá ime­ diatamente bem. k k ie Caso o ministro do evangelho cumpra seu dever. * * * Em certas circunstâncias. já que ela lhe desnuda a torpeza e a ignomínia. E mais cômodo para ele se abrigar no esconderijo e no covil tenebroso de suas superstições. não é nem prudente nem útil. o que é de fato desesperador. um escândalo impossível de suportar ocorrerá. Somos interiormente corruptos em nossos sentimentos e afeições.

bemcomo a prescrição do tratamento. * * * Cabe a Deus a cura das nossas doenças interiores. diante dele nossa cabeça até o chão. segundo nossa própria sabedoria. devemo-nos deixar guiar por ele. Ainda mais que. assim também a disciplina e a correção de vícios são como os nervos que conservam o corpo saudável e vigoroso. submetendo-nos sob a sua disciplina. na maioria dos casos. mas conforme o que ele julga ser apropriado. * * * A sabedoria do Espírito. * * * Tenho feito o que posso para não ser esmagado pela angústia! * * * Diante do grande Juiz Celestial não há nenhum vivente que esteja isento de culpa. não segundo o nossogosto. pois. • 153 . não a da carne. desconhecidas a nós. ele acha conveniente agir de forma maravilhosa e acima da compreensão humana. Em vez de seguir a inclinação do nosso próprio entendi­ mento. Por isso. * * * Numa causa tão grandiosa e digna. ficamos sempre aquém do que se exige.DE PAI PARA FILHO E bem verdade que devemos tolerar os fracos. avançamos para além ou recuamos para aquém do que ele determina. mas sempre com o propósito de fortalecê-los e levá-los a uma maior perfeição. 5*r * * A reforma da igreja deJesus é obra de sua mão. tem de prevalecer em tudo. mesmo quando empre­ gamos toda a nossa capacidade. seja na restauração ou na preservação de sua igreja. deixemo-nos guiar por ela. * * * Como a doutrina é a alma da igreja para a vivificação dela. Curvamos. * * * Nada aborrece mais a Deus do que quando.

CALVINO Quando dilacerados os membros da igreja. * * * A religião indubitavelmente pura e imaculada jamais florescerá enquanto as igrejas não se derem ao trabalho de terem pastores adequados e cumpridores de seus deveres docentes. o corpo sangra. k k k Se o inimigo. * * * Todos nós sabemos muito bem como é difícil ao ser humano esquecer de seu “eu”. Isso me aflige de tal modo que. não permitamos que ele se vanglorie. k k * Não vejo porque devemos sobrecarregar a igreja com cerimônias perniciosas. * * * Por não eliminarem todos os abusos religiosos e deixarem inume­ ráveis renovos que voltam a germinar. tk * * A igreja é mais perturbada por inimigos internos do que pela oposição externa. . Aqueles que Deus íevanta têmforças em dobro para resistir a todos os seus ataques. se eu fosse de algum préstimo. como se tivesse alcançado vitória completa. frívolas e inúteis. * * * É melhor e acima de qualquer comparação ser cristão do que ser rei ou príncipe. as questões eclesiásticas continuam desorganizadas.154 • SOU EU. por causa de nossa fragilidade. cruzaria voluntariamente até dez mares por causa disso. k k k Nossas quedas não são mortais nem perdemos de todo o nosso ânimo porque nosso Pai celestial está sempre pronto a nos dispen­ sar misericórdia e sustentar-nos com sua mão. quando uma ordem de culto simples está à nossa disposição. tem alguma vez qualquer domínio sobre nós.

a perversidade deles irromperá rapidamente. a fim de partilhar de sua glória. muito mais importante é procurar nos despojar delas e buscar a reanimação do Espírito. * * * Sou tomado de aflição só com a suspeita de que exista alguma discórdia secreta entre os irmãos. * * * A reflexão acerca da brevidade da vida deve levar-nos a refletir acerca da morte e da ressurreição de Jesus. ** * Os mártires dignos de respeito são aqueles que mutuamente se encorajam o máximo possível. ** * Que a religião (caída em degradante desgraça). * * * Devemos preferir a herança do Reino do céu a tudo aquilo que possa nos deixar fora dele. estaremos sempre cercados por paixões humanas. •k * * Em vez de ceder às fraquezas. ** * Os idólatras devem ser categoricamente admoestados e estimu­ lados a se consagrarem sinceramente a Deus e os excomungados devem ser encorajados a se reconciliarem com a igreja. .DE PAI PARA FILHO • 155 Se virem alguém cuja mente continua magoada. * ife * Se não houver nenhuma autoridade competente para refrear certos indivíduos.recuperem o fulgor primitivo e sejam purificados de toda impureza. façam o melhor possível para apaziguar seus ressentimentos. que a doutrina da salvação (corrompida por erros execráveis) e que o culto (tão perfeitamente corrompido) . ** * Se somos criaturas humanas.

recorram a ele em oração. Pode até desaparecer completamente. por exemplo. peçamos-lhe que estenda o seu poderoso braço. a verdade que até então enchia nossas mentes começa pouco a pouco a se esvair. Mas de muito mais sentimentos ruins que podemos imaginar. quebrando suas garras e convertendo-os em cordeiros inofensivos.156 • SOU EU. é sempre maior do que estimamos. * * * Sofrer perseguições não significa que Deus se esquece de nós. Ao contrário. ele permite que soframos dificuldades para nosso maior benefício. CALVINO Reanimem-se sempre e não deixem de fazer guerra contra a carne. Nosso orgulho. * * * Quando vocês virem o pobre rebanho de Deus disperso por causa dos lobos. . * * * Deus fortalece os seus servos na proporção de suas dificuldades. * * * Há certas coisas que devem ser toleradas. afugente os lobos. seja para a vida ou para a morte. Tenhamos plena convicção de que somos felizes por pertencer a Cristo. * * * Deus nos corrige não de um ou de dois sentimentos ruins. ainda que você não as aprove totalmente. a menos que nosso Pai compassivo providencie o remédio. * * * Quando deixamos de nos exercitar diariamente nas Sagradas Escrituras. fechando suas bocas sanguinárias. * * * E melhor sofrer sem vacilar por causa do nome de Deus do que possuir o mundo e sermos visitados pela aflição. Além de suplicar que ele lhes fortaleça emsuas fraquezas.

O QUE SE DIZ DE CALVINO

Os genebrinos deveríam tornar bendito o dia em que
Calvino nasceu.
- M

ontesquieu

Quanto mais tempo eu vivo, mais claro se torna que
o sistema de João Calvino é o que está mais perto da
perfeição.
- Charles H. Spurgeon
Omitir Calvino das forças da evolução ocidental é inter­
pretar a história com um olho fechado.
- Lord John Morley
É bastante provável que Calvino tenha sido o maior e o
principal teólogo cristão de todos os tempos.
- Ricardo Quadros Gouvêa
Eu poderia, feliz e proveitosamente, assentar-me e passar
o restante de minha vida somente com Calvino.
- Karl Barth

158 • SOU EU, CALV1N0

No dia da morte de Calvino, no mesmo instante o sol se pôs
e o maior luzeiro que houve neste mundo para a direção da
igreja de Deus foi recebido no céu. E podemos afirmar com
acerto que em um só homem aprouve a Deus, em nosso
tempo, ensinar-nos a maneira do bem viver e do bem morrer.
- Theodoro de Beza
Calvino saiu vitorioso... simplesmente por ser o maior
cristão do seu século.
- Ernest Renan
Calvino é considerado não só o pensador mais articulado
e fecundo entre os reformadores protestantes, mas tam­
bém uma das mentes formadoras do mundo moderno.
- Alderi Souza de Matos
A vida, a obra e o pensamento de Calvino foram determi­
nantes para a configuração da sociedade europeia, hoje
decadente e devedora ao legado do grande reformador.
•- Lyndon de Araújo Santos
Homem algum jamais teve um senso mais profundo de
Deus do que Calvino. Homem algum jamais se rendeu
totalmente à direção divina como ele fez.
- Benjamin B. Warfíeld
O mérito de Calvino foi jamais ter buscado mérito para
si. Viveu, estudou, escreveu, ensinou, pastoreou e morreu
para que somente Deus recebesse a glória devida.
- Luiz Fernando dos Santos
Calvino foi um gênio exegético de primeira grandeza. Seus
comentários nunca foram ultrapassados em originalidade,
profundidade, perspicuidade, firmeza e valor permanente.
- Philip Schaff

0 QUE SE DIZ DE CALVINO

Quando Calvino morreu em 1564, deixou muito mais do
que uma Genebra reformada. Por toda a Europa, e em
breve na distante América do Norte, ele tinha seguidores
ansiosos por continuar o “jogo” em que ele havia entrado.
- Bruce Shelley
Embora a teologia de Calvino tenha contornos muito
próximos a de Agostinho, ela se deve mais ao estudo da
Bíblia do que a Agostinho. Como outros reformadores,
ele não foi de Agostinho para a Bíblia e daí para as dou­
trinas da Reforma, mas da Bíblia para Agostinho, em
busca de apoio do príncipe dos pais da igreja.
—Earle E. Cairns
Vivendo na pobreza e totalmente dedicado à sua obra,
Calvino foi um homem de Deus e um homem universal.
—José Artulino Besen
A vida de Calvino é um gemido cheio de lágrimas pela
sua própria miséria e um coro triunfal glorificando a
inestimável graça do seu Deus.
—Pierre Marcei
Calvino era, de longe, o maior dos reformadores no que
diz respeito aos talentos que possuía, à influência que
exercia e ao serviço que prestou para o estabelecimento
e difusão da importante verdade.
—William Cunningham
Entre todos os nascidos de mulher, não houve ninguém
maior do que João Calvino. Nenhuma época anterior
à dele jamais produziu alguém igual a ele, e nenhuma
época depois dele viu um concorrente seu.
—Charles H. Spurgeon

• 159

avulta certamente Calvino .C. de nossas perplexi­ dades. Entre outros.Alister McGrath Ao ler Calvino nos sentimos surpreendidos inclusive nos nossos dias. CALV1NO Como o povo de Deus.Jean-Daniel Benoit Calvino deixou à igreja e ao homem moderno uma rica herança de teorias sociais e econômicas que são bíblicas em sua origem. no início da era moderna. fortalecidos por suas exortações. precisa de profetas. mas de uma irradiação cujos lampejos continuam a nos iluminar. . que o Senhor nunca deixa faltar à sua igreja. precisou de profetas. no Antigo Testamento.Padre Ney Brasil Calvino provou ser uma figura de extrema influência na história da Europa. à medida que a civilização ocidental começou a assumir sua forma característica. assim também a igreja cristã. sua natureza e sua perspectiva e que ofe­ recem somente a possível esperança de uma satisfatória solução aos muitos problemas vexatórios que acusam a moderna sociedade. . revigorados. Gregg Singer . Encontramos nele o eco de nossas lutas. . Ao longo de quatro séculos nos sentimos anima­ dos com o calor da sua simpatia. de nossas tentações.160 • SOU EU. mudando a perspectiva de indivíduos e instituições.de vida relativamente breve. de nossas dúvidas. guiados. mesmo guiada pelo Espírito e pelas Escrituras. .

talvez. As Institutos são um livro que fornece não apenas o melhor compêndio de teologia cristã jamais escrito. a todas essas obras a obra-prima de Calvino supera. ou à Summa. possivelmente à Dogmática Eclesiástica. de Karl Barth. As Institutos não possuem rival na história da teologia.Timothy George . mas também a base de uma cosmovisão cristã cuja abrangência e consistência são sem igual na história da fé cristã. —Ricardo Quadros Gouvêa As Institutos perduram como uma das mais lúcidas e mais vigorosas sumas teológicas da história cristã. . de Agostinho. à Cidade de Deus.O QUE SE DIZ DE A S IN S T IT U T A S Em importância. Entretanto. de Tomás de Aquino. Elas poderiam ser comparadas. influência e qualidade.

José S. as ínstitwtas são a mais extraordi­ nária prova de sua maturidade e do vigor de sua mente e do cuidado com que estudou a'Palavra de Deus. é o que As Institutos são entre os tratados teológicos.Brwce Shelley Porque a primeira edição foi publicada quando Calvino tinha 27 anos de idade. o que Platão é entre os filósofos. . lógica e legível exposição da doutrina protestante que a Reforma produziu.Benjamin B. . . . ou Shakespeare entre os dramas. CALV1NO O que Tucídides é para os gregos.162 • SOU EU.William Cunningham . ou a Ilíada entre os egípcios. . Warfield Nenhum livro seria mais lido durante o século 16 do que As Institutos de Calvino.Daniel-Rops As Institutos são uma enciclopédia teológica superior à qual nada apareceu até agora. ou Gibbon entre os historiadores do século 18. Canuto As Institutos são a mais clara.

esta se tornou mais notável que a cidade de Lutero. quando Genebra. sediou o trabalho de João Calvino e tornou-se um centro de grande importância na esfera religiosa e espiritual. na Suiça. Mas ele foi pouco efusivo. Exatos trezentos anos e três meses depois da morte de Calvino (maio de 1564). na Alemanha. a segunda onda projetou Genebra. interessados e curiosos vinham de todos os lados da Europa para conhecer a cidade de Calvino.GENEBRA NO MAPA FOI O HISTO RIAD O R Alderi Souza de Matos a pessoa a escrever que João Calvino “colocou Genebra no mapa da Europa”. Porque refugiados. Pensou apenas na Europa do século 16. antes uma cidade sem atrativo especial algum. Em 1919 foi a vez da Organização Interna­ cional do Trabalho (OIT). Se a primeira onda da Reforma projetou a cidade de Wittenberg. Depois da Segunda Guerra Mun­ dial (1935-1945). Com o correr dos anos. a Cruz Vermelha Internacional foi organizada em Genebra (agosto de 1864). valendo-se talvez da posição histórica da Suíça de neutralidade na conjuntura internacional. Genebra . Genebra passou a ser colocada no mapa-múndi e não só no mapa europeu.

o Fundo Global de Combate à Aids (Global Fund) e Médicos Sem Fronteiras. a Organização Internacional para as Migrações (OIM). CALV1N0 tornou-se a sede de várias outras organizações e entidades de âmbito mundial. A porcentagem de cató­ licos (36. Os demais são fiéis de outras religiões (8.6). a cidade hospeda.6%) é 3. a Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA). o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).4). o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNA1DS). apenas um pòuco mais da metade da população de Genebra se identifica com o cristianismo (53%). o Escritório das Nações Unidas em Genebra (UNOG) e o Conselho Mundial de Igrejas (CMI). o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).3 vezes maior que a dos protestantes (11.1%). o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH).164 • SOU EU. além do Comitê Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Ver­ melho. O segundo maior grupo não se identifica com qualquer religião (38. Hoje. a Organização Mundial do Comércio (OMC). Entre outras organizações com sede em Genebra estão a Organização Meteorológica Mundial (WMO). a Organização Mundial de Saúde (OMS). a União Internacio­ nal de Telecomunicações. Na área da saúde. .

pregador. onde pastoreou uma comunidade de refugiados franceses e se casou. • Genebra .Onde nasceu e viveu até a idade de 14 anos.Onde viveu quase a metade de sua vida como reformador. • Basiléia . • Orléans —Onde fez o curso de direito civil e escreveu seu primeiro livro. • Estrasburgo —Onde passou três “ anos dourados” . pastor.Onde passou um ano e meio depois de te r se convertido. professor e escreveu a maior parte de seus comentários de livros da Bíblia.Cidades da França e da Suíça onde Calvino viveu • Noyon . • Paris —Onde estudou no Collège de Montaigu e na Universidade de Paris. depois de expulso de Genebra. .

Cronologia de Calvino Eventos paralelos /s í \ v1492) Descoberta da América O'5''/) Nascimento de Lutero (l 198] Descoberta do caminho das índias (l 500 J Descoberta do Brasil Nasce em Noyon \I5 I2 )\ Lefèvre redescobre a doutrina da justificação /" 0 517} Lutero publica as 95 teses Estuda em Paris ( 15 anos) “ ? j? •j: Licencia-se em leis f p p i em Orléans (22 anos) i Publica De Clementia (23 anos) E. •.Fixa-se em Estrasburgo g ao ser expulso de Genebra (29 anos) j ._s Exila-se em Basiléia (26 anos) 1535) Genebra torna-se protestante Publica a primeira edição de As Institutos (27 anos) (janeiro) . U5 3 4 ) Noite dos cartazes V.Inicia seu ministério em Genebra (28 anos) (abril) .

Cronologia de Calvino | Eventos paralelos Casa-se com Idelette (3 1 anos) (setembro) .Realiza-se o primeiro ' V ’ cult° reformado no Brasil f IJ 558j (9 de fevereiro) Quatro membros da igreja de Genebra redigem no Rio de Janeiro a primeira confissão reformada do continente americano e três deles são executados por Villegaignon ■ ( 1559! Realiza-se em Paris 0 primeiro sínodo " J y da igreja reformada da França Funda a Academia de Genebra. publica a edição definitiva de As Institutos e torna-se cidadão de Genebra (50 anos) (27 de maio) Morre em Genebra aos 55 anos Encerramento do Concilio deTrento .É convidado a voltar para Genebra (32 anos) i Início do Concilio deTrento 15 6 Morte de Lutero Fica viúvo de Idelette (40 anos) 0550/ Almirante Coligny se declara reformado Obtém vitória sobre os libertinos e | j g | | Cinco estudantes de teologia acusa Serveto de herege (44 anos) são condenados à fogueira em Lyon (1555) Jean Crespin publica T O Livro dos M ártires ( 1557 ) ( 10 de março) .

.

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56. 128 Autun. 61. 97. 63 Carracciolo. Bernardo de. 113.17.123. 158 Carlos V. 119 Chartier. 124 Caroli. 60 Carmeau. 161 Bucer. 45. 87. Galliazo.116 B Cany.167 Aquino. 148. 16. 94 Capito. 38 Bure. 15. Johann.128 Ambrósio. 115. 32. 93 Allen. 117. 107 Cipriano. Tomás de.161 Burghley. 82. 75. 115 Briçonnet. 128 Arran. Guilherme. 64. 115 Bolsec.57. Guilherme. 118 Brígida. Carlos. 32. 37. Clemente de. Marcus. Martial. 131 Borromeu. 123 Alba. Idelette de.124. Pierre. 123 Beza. Wolfgang. 128 Bersini. 37 Bullinger. Nicolas. 38 Celéstio. Pierre. Peter. 119 Anchieta.ín d ic e o n o m á s t ic o A Agostinho. 68. 107 Alexandria. Conde de. 128. 123 . Theodoro de. Madame de. Elizabeth. 159.123 C Cabral. Pedro Álvares. Martin. Barão. Jérôme-Hermès. 118-119. 34 Bucer. Guillaume. 141-142 Budé. 97 Bourdon. 123 Bugenhagen. 16. 114 Blanchet. Honório de. José de. 92 Claraval.

132 D’Angoulême. Jan.167 Gardien.148. 111.145. Guilherme. 30 Frederico III. 109. 135 M Favre. 8. 22-23 Copérnico. Paulmier de. 28 Coligny. Albrecht. 79. 128 Knox. Balthasar. 107 Gama. 59.144 Crespin. 82. 110. 52-53. 95-96. 94 Du Pont. 93. 78 Essomeriq. 92 Grynaeus. André. Martin. Charles.93 E Lefèvre. 93. 122 Melâncton. 32. John.144 Dürer. 30 Leão X. Antoine. 64.128 Marcourt. Peter. 93. Pico delia. 131 Courrault. Filipe. 92 Gonneville.148.117.128 Lizet. Nicolas. Antoine. 115 Latimer.134. 36-37. Duquesa de.166 Eclano. 21. CALV1NO Clemente VII. 41 G Colladon.18. 27-28. 29 Francisco I. 80. 105-107. 106 Escrivain. Gerardus. 115 Lafon. 24. 23 Hus. Jean de. 30. 66.174 * SOU EU. 30 H Cranmer. John. 128. 128. 109. 110 Ficino. 86. 60. 80 Morus. Jean. Tomás. Thomas.105-107. 115.106. Marsílio. 116 Lutero. Jean. 121-122 . 115 Lasius.107.119 Denis. Fernão de. 128-130. 97 Léry. João. 8.39. 109.166-167. 24-28. 93. 75. 28-29 Gerson. Almirante. Marguerite. Simon. 30-32. Vasco da. 86.144 Hooper. 41.114. 107. 122 Froment. 64 Cranach. Pierre. Lucas. John.132. Nicolas. 28 Ferrara. 37 Mirandola. Tomás de. Cristóvão. 115 Colombo. 34-43. 28 Cop.110 Michelangelo. Juliano de. 163. 79. 17. Inácio de.170 F Farei. 128. Gerhard. 71. 145-146 Mercator.119. 60. Joana. 144 Crisóstomo. 75. 116 Groote. 93. 92-93. 92 D’Andelot. 115 Eduardo VI. 141 Loyola. 37. Nicolau. 141 Magalhães. Jacques.128. 50. 21 L David. Martinho.111.132 Foxe.167 K D Kempis. Hugo. Nicolas. 30. 22. 22 D’Arc. 132.

106 R Vauville. 113-115. 94 Valia.128-129 Roterdã. 122 Vallière. 93. 93 Osiander. 119. 31. 95 Platter. Guilherme. Lorenzo. Hugolino de. William. 97 Perrin. 17. 24. 44. 93 Wolmar. 36. Nicholas. 123. 92 . 62-63. 121-122 Vives. 115 Villegaignon. John. 22. 38 Vadian. Zacarias. 82. 130-131 Storch. Nicholas Durand de. 141 Tauler. Gregório. 92 Raviquet. 116 Suso. Juan Luis. 21 S Sadoleto. Nicolas. 78. Jacques. Nicholas. Leonardo da. 20. Maria. 132. 92 Wycliffe. 56. 62 P U Ursinus. Gérard. Matthieu.167 Seymour. 132 Rabot. 83 Z Seguin. Thomas. Pierre. Matthieu. Joachim von. 130 Verneuil. 143 Turtaz. 82. Ami. 75 Serveto. Edward.ÍNDICE ONOMÁSTICO N T Navihères.128. 63. 144 Vinci. 37 Pelágio. Erasmo de. 94-95 Ruysbroeck. Miguel. 141 Zell. Jean. Ulrico. 121 Rousseau. 98 Viret. 115 W Roussel. 82. 92 Zuínglio. 117-120. João. 20. 32 Sena. 29. 128. Henrique. João. 32 Susana. Melchior. 29 Rimini. 167 Ridley.128 Sturm.124 Sêneca. 105 V Pio IV.117-119 Radewijns. Florentino. 98 Tertuliano. Bernard. 22 Watt. Duque de.133 Somerset. 129 Tyndale. 55. Catarina de. 71 Stuart. 115. Johannes. 92 O Orvieto. Peter. 17. Andreas. Elizabeth. 24. Ricardo. 114.

com.ultimato. ultimato^ Caixa Postal 43 I 3 6 5 7 0 -0 0 0 | Viçosa-MG Tel.: 31 3611-8500 | Fax: 31 3891-1557 www.Caro le ito r: Acesse www.com.br . Conheça também outros títulos da Editora Ultimato. Escreva-nos e receba a última edição da revista Ultimato.br e faça seu comentário sobre este livro.ultimato.

. professor na Universidade Federal do Maranhão .Lyndon de A raú jo Santos. ao lado de Lutero. Daí a importância deste livro. Suas contribuições e influência são tão vastas que. obra e pensamento no Brasil. as informações e a clareza do texto dando voz a Calvino certamente contribuirão para um melhor conhecimento de sua pessoa. porque entre nós a vida e o pensamento de Calvino são menos conhecidos do que os de Lutero. professor no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper O estilo. mesmo que se discorde dele. . Calvino é tão bom quanto Conversas com Lutero.S ou E u . ex-professor de história da igreja no Seminário Presbiteriano do Centenário e no Seminário Batista Fluminense João Calvino foi.A lderi S o u z a de M atos.Cláudio Wagner. porém ainda mais necessário. não se pode ignorá-lo. o principal reformador protestante. .

. publicados pela Editora Ultimato. Refeições D iárias com o S ab o r dos Salm os . Refeições D iárias com os Discípulos. Lenz C ésar é diretor da revista Ultimato.Elben M. entre outros. Refeições D iárias com Je su s. E autor de. Práticas Devocionais . H istória d a Evangelizaçào do B rasil e Conversas com Lutero.

SOU EU. que foi como se eu nunca tivesse lido nada sobre o que João Calvino escreveu. tradutor de quase todos os comentários bíblicos e livros de João Calvino no Brasil ultimato MISTO Papel produzido a partir d e fontes responsáveis . na medida em que coloca na boca do reformador palavras que ele mesmo escreveu e palavras que refletem o seu pensamento. certamente desistiría da façanha depois de acompanhar o autor deste livro em sua bela apresentação do grande reformador genebrino na forma de diálogo. a igreja. diretor de formação cristã da Visão Mundial Internacional Ao ler S o u E u . . bem como responde a mais de uma centena de perguntas que muitos cristãos gostariam de fazer sobre a Bíblia.Manfred Grellert. Na verdade. CALVIN O E UMA BIOGRAFIA UNICA. é um diálogo. um cristão reformado. Em estilo criativo e fácil de ler. sobre a vida cristã. C a l v i n o . uma espécie de talk-show. Não há melhor maneira de recordar os quinhentos anos da Reforma do que apreciar o pensamento de João Calvino. .Valter Grciciano Martins. enfim. as informações recebidas foram tantas e com tamanha exatidão. a obra torna viva e relevante a grande contribuição do autor de As Institutos. apresentado pelo pastor Elben César. o seu mais influente teólogo. Se eu estivesse pensando em escrever um livro sobre ele. a teologia.