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CONVERSAS COM O REFORMADOR

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V IÇ O S A IM G

SOU EU, CALVINO

Categoria: Biografia / Igreja / Teologia

Copyright © 2014, Elben M. Lenz César

Primeira edição: Setembro de 2014

Coordenação editorial: Bernadete Ribeiro

Revisão: Natália Superbi

Délnia M . C. Bastos Diagram ação: Bruno Menezes Capa: Rick Szuecs

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câm ara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

César, Elben M. Lenz

Sou eu, Calvino / Elben M. Lenz César. — Viçosa, M G: Editora Ultimato, 2014.

ISBN 978-85-7779-113-2

1. Calvinismo 2. Calvino, João, 1509-1564 3. Protestantismo 4. Reforma I. Título.

14-08460

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índices para catálogo sistemático:

1. Calvinismo : Teologia: Cristianismo

284.2

CDD^284.2

PUBLICADO NO BRASIL COM AUTORIZAÇÃO E COM TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

ED ITO R A

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36570-000 Viçosa, M G

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Fax: 31 3 89 1-1 557

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fabricação do papel deste livro provém de florestas que

foram gerenciadas dc maneira ambientalmentc correta,

socialmente justa e economicamente viável, alem de

outros fontes de origem controlada.

j i Judâ eJlna, os dois primeiros ôisnetos meus e de Ejanira, com o desejo de que, peCa influência do Espírito Santo e na hora certa, ahracem os “três somentes”da (Reforma: o soía Scriptura, o soía gratia e o soíafi.de.

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O verdadeiro discípulo de CaCvino só tem um caminho

a seguir não obedecer ao próprio CaCvino, mas àquele que era mestre de CaCvino.

Kjirí(Bartíi (1886-1968)

SUMARIO

 

Prólogo

9

Prefácio

13

Apresentação

15

1.

A

súbita conversão de um licenciado em leis

19

2.

Genebra: luz após trevas

25

3 . O livro transformado em catecismo

33

4.

0

voo que não se realizou

39

5.

A

igreja de Genebra

45

6.

Luxo, extravagância e consumismo

51

7.

O

doutor que não tinha mais fé do que um porco

59

8.

Livro por iivro, capítulo por capítulo, verso por verso

65

9.

Dependendo do espelho o ser humano se vê feio demais

73

10.

O

absolutamente santo e

o

absolutamente pecador

85

11.

Europa pega fogo mais peia palavra escrita do que pela palavra falada

A

91

12.

A

eleição requer evangelização

97

13.

O

francês Jacques Lefèvre redescobre o

14. igreja de Genebra na França Antártica

A

111

15. humanismo e a peste negra

0

121

16. O nobilíssimo e cristianíssimo protetor da Inglaterra e Irlanda

127

17.0 Diabo vira tudo de cabeça para baixo

133

18.

O cristão não deve correr da fogueira nem correr para a fogueira

141

Última página

 

147

ANEXOS

 

De pai para filho

 

151

0

que se diz de Calvino

157

0

que

se

diz

de

A s Institutas

161

Genebra no mapa

.

163

Cidades da França e da Suíça onde Calvino viveu

165

Cronologia de Calvino e eventos paralelos

166

Bibliografia

 

169

índice onomástico

173

PRÓLOGO

SOU EU, CALVINO!

Q U A N D O EU ERA BEM PEQUENO, meu pai me destinou aos estudos de teologia. Mais tarde, porém, ao ponderar que a profissão jurídica comumente promovia aqueles que saíam em busca de riquezas, essa visão o induziu a subitamente mudar seu propósito. E assim aconteceu de eu ser afastado dos estudos de filosofia e encaminhado aos estudos de jurisprudência. A essa atividade me diligenciei a aplicar-me com toda fidelidade, em obediência ao meu pai. Mas Deus, pela secreta orientação de sua providência, por um ato súbito de conversão, subjugou e trouxe minha mente a uma disposição suscetível. Tendo assim recebido alguma experiência e conhecimento da verdadeira piedade, imediatamente me senti inflamado de um desejo tão intenso de progredir nesse novo caminho que, embora não tivesse abandonado totalmente os outros estudos, me ocupei deles com menos ardor.

10 • SOU EU.CALVINO

Fiquei totalmente aturdido ao descobrir que, antes de haver-se esvaído um ano, todos quantos nutriam algum desejo por uma doutrina mais pura vinham constantemente a mim com

o intuito de aprender, embora eu mesmo não passasse ainda

de mero neófito e principiante. Possuidor de uma disposição um tanto rude e tímida, passei, então, a buscar algum canto isolado onde pudesse furtar-me da opinião pública. Em suma, enquanto meu único e grande obje­ tivo era viver em reclusão, sem ser conhecido, Deus me guiava através de crises e mudanças, de modo a jamais me permitir descansar em lugar algum, até que, a despeito de minha natural disposição, me transformasse em atenção pública. Deixando meu país natal, a França, de fato me refugiei na Alemanha, com o expresso propósito de poder ali desfrutar em algum canto obscuro o repouso que eu havia sempre desejado, o qual me fora sempre negado. Mas qual! Enquanto me escondia em Basiléia, conhecido apenas de umas poucas pessoas, muitos fiéis e santos eram queimados na França. E a notícia dessas mortes em fogueira, tendo alcançado as nações distantes, incitavam a mais forte desaprovação entre uma boa parte dos alemães, cuja indignação acendeu-se contra os autores de tal tirania. A fim de conter tal indignação, fizeram-se circular certos panfletos ímpios e mentirosos, declarando que ninguém era tratado com tal cruel­ dade, exceto os anabatistas e pessoas seciiciosas, que, por seus perversos desvarios e falsas opiniões, estavam transtornando não só a religião, mas ainda toda a ordem civil. Frente a tudo isso, pareceu-me que, a menos que eu lhes fizesse oposição, usando o máximo de minha habilidade, meu silêncio não poderia ser justificado ante a acusação de covardia

e traição. Essa foi a consideração que me induziu a publicar minhas lnstitutas da Religião Cristã (1536). Meu objetivo era, antes de tudo, provar que tais notícias eram falsas e caluniosas, e assim

PRÓLOGO

defender meus irmãos, cuja morte era preciosa aos olhos do Senhor. Como essas mesmas crueldades poderíam muito em breve ser praticadas contra muitas pessoas infelizes e indefesas, eu alimentava a esperança de sensibilizar nações estrangeiras para que elas tivessem um mínimo de compaixão e solicitude pelas próximas vítimas. Ao serem publicadas, As Institutas não eram essa obra ampla e bem trabalhada de agora; na verdacie, não passavam de um pequeno tratado contendo o sumário das primeiras verdades da religião cristã. Tenho labutado fielmente para abrir o tesouro das Sagradas Escrituras a todo o povo de Deus. Embora o que tenho feito não corresponda aos meus desejos, a tentativa que empreendí merece ser recebida com certa medida de simpatia. Quando alguém ler os meus escritos, verá claramente que não busquei ser agradável, a menos que eles, ao mesmo tempo, sejam pro­ veitosos a outrem.

JOÃO CALV1NO

GENEBRA, 22 DE JULHO DE 1557

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DO LIVRO DOS SALMOS.)

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d o COMENTÁRIO

PREFÁCIO

É MUITO DIFÍCIL escrever sobre joão Calvino. Pelo menos por três motivos: o grande volume de obras que ele produziu, a complexidade e amplitude de seu pensamento e o

grande contingente de escritores que têm discorrido sobre ele. Tenho tido uma vasta experiência proveniente da longa vivência com este misterioso personagem. Q uanto mais vivo com ele, mais me sinto perplexo ante o fato de que ele viveu tão pouco

e exerceu, num a época de poucos recursos tecnológicos, um

imenso ministério literário, social, administrativo, pedagógico

e, particularmente, teológico.

Tudo o que tenho escrito, lido e traduzido sobre Calvino me faz sentir como um nadador em alto-mar-, quanto mais nada, mais distante se sente da praia; parece que nunca chega. Digo isto porque, ao ler os originais de Sou Eu, Calvino, de Elben M. Lenz César, as informações recebidas foram tantas, e com tanta

14

• SOU EU. CALVINO

exatidão, que era como se eu nunca houvesse lido nada sobre

o que João Calvino escreveu. Se eu estivesse me programando

escrever um livro sobre ele, certamente desistiría da façanha depois de acompanhar o autor deste livro em sua tão minuciosa

e bela apresentação do grande reformador genebrino na forma

de diálogo. Nestes últimos anos, parece que as mentes cristãs do uni­ verso literário voltaram-se para João Calvino. Poucos livros foram escritos sobre ele até a última década do século passado. Já li quase tudo o que foi escrito sobre ele no vernáculo, mas sinceramente dou boas-vindas ao livro que ora prefacio, dando graças ao Senhor da Igreja pela vida e ministério de Elben César. Que o leitor tire a limpo pessoalmente, lendo com reflexão e oração, estas páginas que certamente irão fasciná-lo. Eis um livro digno de ser lido e relido por todos!

VALTERGRAC1ANO MARTINS GOIÂNIA, 10 DE JUNHO DE 2014

APRESENTAÇÃO

UMA IGREJA REFORMADA TEM DE SER CONSTANTEMENTE REFORMADA

O FRA N CÊS JO ÃO CALVIN O merece mais uma biografia.

Ele tem sido apreciado por muitos desde o seu tempo - meados

do século 16 - até hoje. É um reconhecimento atrás do outro.

Alguns chegam perto do exagero.

Theodoro de Beza (1519-1605), seu substituto no púlpito da Catedral Saint Pierre, em Genebra, escreve: “No dia da morte

de Calvino, no mesmo instante o sol se pôs e o maior luzeiro

que houve neste mundo para a direção da igreja foi recebido

no céu. E podemos afirmar com acerto que em um só homem

aprouve a Deus, em nosso tempo, ensinar-nos a maneira do bom viver e do bom morrer”. No século seguinte, Montesquieu (1689-1755), escritor francês que lançou as bases das ciências sociais e econômicas, afirma que “os genebrinos deveríam tornar bendito o dia em que Calvino nasceu”.

16

• SOU EU, CALVINO

No século 19, o também francês EmestRenan (1823-1892),

cientista da religião, declara que Calvino saiu vitorioso “sim­ plesmente por ser o maior cristão de seu século”. E o famoso pregador inglês Charles H. Spurgeon (1834-1892) chega a dizer que Calvino “era, de longe, o maior dos reformadores no que diz respeito aos talentos que possuía, à influência que exercia

e ao serviço que prestou para o estabelecimento e difusão da importante verdade!”.

No século 20, Karl Barth (1886-1968), ilustre teólogo suíço

que morreu quatrocentos anos depois de Calvino, confidencia:

“Eu poderia, feliz e proveitosamente, assentar-me e passar o restante de minha vida somente com Calvino”. E agora, no início do século 21, Alister McGrath, professor da Universidade de Oxford, diz que Calvino “provou ser uma figura de extrema influência na história da Europa, mudando

a perspectiva de indivíduos e instituições, no início da era mo­ derna, à medida que a civilização ocidental começou a assumir sua forma característica”.

O que tem tornado Calvino uma pessoa respeitada

nestes 450 anos entre a sua morte (1564) e os dias de hoje são As Institutos, seu maior legado, o livro mais lido durante o século 16, segundo Daniel-Rops. Além das três traduções de As Institutos em português publicadas por editoras evangélicas - Luz para o Caminho e Editora Cultura Cristã -, temos uma quar­ ta, lançada em 2007 pela Editora Unesp. Segundo o professor Ricardo Quadros Gouvêa, “em importância, influência e qua­ lidade, As Institutos não possuem rival na história da teologia. Elas poderiam ser comparadas, talvez, à Cidade de Deus, de

Agostinho, ou à Surraria, de Tomás de Aquino, possivelmente

à Dogmática Eclesiástica, de Karl Barth. Entretanto, a todas es­

sas obras a obra-prima de Calvino supera. As Institutas são um livro que fornece não apenas o melhor compêndio de teologia

cristã jamais escrito, mas também a base de uma cosmovisão

APRESENTAÇÃO

17

cristã cuja abrangência e consistência são sem igual na história da fé cristã”. Apesar de toda a importância dada à vida e à obra de Calvino, se Guilherme Farei, Pierre Viret e Theodoro de Beza, seus companheiros e admiradores mais próximos, se ajoelhassem diante dele, o reformador reagiría bruscamente como o anjo do Apocalipse fez com o apóstolo João: “Não faça isso! Pois eu sou servo de Deus, assim como são você e seus irmãos que continuam fiéis à verdade revelada por Jesus” (Ap 19.10). Ou como Paulo e Barnabé fizeram com a multidão de Listra: “Ami­ gos, por que vocês estão fazendo isso? Nós somos apenas seres humanos como vocês” (At 14.15). Mesmo correspondendo-se com reis e rainhas e outras autoridades, Calvino nunca perdeu a noção de que, diante de Deus, ele e os outros eram iguais, todos formados do barro (Jó 33.6). João Calvino era de carne e osso, e não anjo alado, simples homem e não super-homem. Quando morreu, seu corpo foi envolto num lençol, posto num ataúde de madeira e sepultado sem pompa nem aparato numa cova não identificada. Nestas páginas, coloco na boca de Calvino palavras que ele mesmo escreveu em seus muitos livros e palavras que fazem jus ao seu pensamento. Optei por não fazer uso das aspas para sepa­ rar umas das outras por causa do estilo de perguntas e respostas. Meu maior trabalho foi formular as perguntas e não as respos­ tas. As fontes destas são muitas, como As Institutos, A Providência Secreta de Deus, O Catecismo de Genebra, Carta ao Cardeal Sadoleto e, principalmente, Cartas de João Calvino e os comentários de Calvino de quase todos os livros da Bíblia, desde o da Carta de Paulo aos Romanos até o do livro do profeta Ezequiel. Assumo uma dívida com alguns dos muitos biógrafos de Calvino. Em alguns casos, o que eles escreveram, coloco na boca de Calvino quase ipsis litteris, sem usar aspas nem citar os nomes dos autores. Entre eles menciono três: Alister McGrath (A Vida

18

• SOU EU. CALVINO

de João Calvino), Ronald Wallace (C alvino, Genebra e Reforma)

e Hermisten Maia Pereira da Costa (João Calvino - 500 anos). Convidei Valter Graciano Martins para escrever o prefácio deste livro porque ele é a pessoa que mais tem divulgado Calvino no Brasil, não só por meio de palestras em vários lugares, mas, principalmente, por ser o tradutor perseverante e apaixonado de quase todos os comentários bíblicos e outros livros deJoão Calvino, publicados nos últimos vinte anos pelas Edições Parakletos, por ele fundada, e pela Editora Fiel (a maior parte das traduções). Porque João Calvino escreve seu primeiro livro - De Clementia - aos 23 anos, tem uma experiência de “conversão súbita” antes dos 26, publica a primeira edição de As Institutos aos 27 e inicia seu ministério em Genebra antes de completar 28 anos - tive uma enorme vontade de dedicar este livro sobre o notável re­ formador francês aos jovens da Aliança Bíblica Universitária, da Mocidade Para Cristo, da Cruzada Estudantil para Cristo e da Jornada Mundial da Juventude. Contudo, para não limitar

o alcance da obra, abri mão desse intento. Além do mais, pro­

testantes e católicos sabem que a igreja está precisando de fato de uma reforma. Aliás, uma das heranças da Reforma do Século 16 é a famosa declaração de Lutero “Ecclesia reformata semper reformanda” (a igreja reformada tem de ser constantemente refor­ mada). Tive a ousadia de colocar na pena de Calvino o que eu entendo por reforma no capítulo onze: “A reforma mexe com as estruturas, com os dogmas, com a liturgia, com as tradições, com a moralização, com a pregação, com os princípios e com a história e a vocação da igreja. É algo operado por Deus mesmo

de modo soberano e eficaz”.

ELBEN M. LENZ CÉSAR

VIÇOSA (MG), 27 DE MAIO DE 2014

(DIA DO 450° ANIVERSÁRIO DA MORTE DE CALVINO)

1

A SÚBITA CONVERSÃO DE UM LICENCIADO EM LEIS

Toi com muita má vontade e muita dificuídade que eu me identifiquei com a (Reforma

A O senhor escreve cartas para pessoas nobres de seu país e de outros países, conversa e prega para elas com naturalidade, sem o menor constrangimento. De onde vem essa habilidade, já que sua família é modesta?

Embora minha mãe tenha vindo de uma família abastada, meu pai de fato era de origem modesta. Porém, meu pai, por ser secretário do bispo de Noyon e procurador fiscal do município, tinha muito boas relações com as famílias nobres. Graças a isso e à providência de Deus, tive o privilégio de receber a mesma educação que os nobres davam aos seus filhos, por bondade deles. Tanto em Noyon como em Paris fui colega dessas crianças privilegiadas. Foi nesse período que adquiri minha primeira educação e modos refinados para posteriormente transitar em todos os meios sociais com polidez, o que tem colaborado muito com o meu ministério. Essa solidariedade me ajudou

• SOU EU, CALVINO

também a lidar com a morte prematura de minha mãe, quando eu tinha seis anos apenas, um irmão mais velho e três irmãos menores. Fiz questão de dedicar a Claude de Hangest, um dos meus amigos de infância, o meu primeiro livro, um comentário sobre Sêneca, escrito quando eu tinha 23 anos. Na dedicatória mostrei minha gratidão à família: “Devo a você tudo o que sou e tudo o que tenho, pois desde bem cedo, ainda menino, fui educado em sua casa e iniciado em meus estudos junto com você. Estou endividado com sua mui nobre família por meu primeiro aprendizado na vida e nas letras”.

Á 0 senhor nasceu em Noyon?

Nasci em Noyon, no dia 10 de julho de 1509. E a cidade da famosa catedral Notre-Dame (não a Notre-Dame de Paris nem a de Reims nem a de Amiens), construída há mais de três séculos. Sou francês e não suíço, como alguns pensam.

á Suponho que em Paris o senhor tenha estudado na Sorbonne, a famosa e tricentenária escola de teologia.

Não. Depois de passar alguns meses no Collège de La Marche estudando humanidades e latim com o grande humanista Mathurin Cordier, matriculei-me no Collège de Montaigu (Morro Agudo), uma escola menos requintada, mas pela qual passaram Erasmo de Roterdã e François Rabelais, meu contro­ vertido patrício, autor da sátira Gargântua e Pantagruel. Passei muito aperto nessa escola. A comida e as instalações eram péssimas. Erasmo tinha razão: era um colégio infestado de piolhos. Ficava no labirinto de ruelas estreitas e sujas (o mau cheiro era enorme), onde havia faculdades, mosteiros, igrejas, capelas, hotéis, livrarias e até bordéis. O número de alunos era muito grande - talvez mais de 4 mil (na época Paris devia ter 300 mil habitantes). A disciplina era muito rígida e estudávamos

A SÚBITA CONVERSÃO DE UM LICENCIADO EM LEIS

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muito - na verdade antes, durante e depois das refeições. Por um ano, fui colega de um espanhol chamado Inácio de Loyola, dezoito anos mais velho. Ele tinha uma história muito bonita:

antes de vir a Montaigu em 1528, passou quase um ano inteiro orando e jejuando numa caverna perto de Manresa, onde passou por experiências misticas. O que o levou a achegar-se a Deus foi a leitura de um livro sobre a história de Jesus quando estava se recuperando de graves ferimentos recebidos numa guerra com os franceses em Pamplona em 1521. Foi nesse colégio que concluí minha licenciatura em artes.

á Em Montaigu, o senhor poderia continuar os estudos e optar por teologia, direito, medicina e humanidades. Qual delas escolheu?

Seria um bom lugar para cursar teologia. Nos 25 primeiros anos de nosso século, 25,4% dos estudantes de teologia que não pertenciam às ordens religiosas receberam seu treinamento em humanidades nessa universidade. Mas, por influência de meu pai, que morreu pouco depois, fui estudar jurisprudência em Orléans, ao sul de Paris, uma região de castelos ao longo do rio Loire. Essa cidade é muito conhecida por causa de Joana d’Arc, uma mocinha de 17 anos que, em nome de Deus, à semelhança de Davi ao enfrentar o gigante Golias, derrotou os ingleses que a cercavam. Justamente naquele ano (1529), comemorávamos os 100 anos da vitória de Joana d’Arc, em 1429. Orléans é uma cidade bem menos agitada que Paris e na época tinha apenas uma faculdade, a de direito civil (não canônico). Tive o privilégio de estudar com Pierre de L’Estoile, conhecido como “o príncipe dos advogados franceses”. Para beber não as águas estagnadas, mas as águas frescas dos clássicos e das Escrituras, aproveitei a oportunidade para estudar grego por conta própria, sob a supervisão de um amigo chamado Melchior Wolmar. No início de 1531 graduei-me, sem muito entusiasmo, em direito, mesmo sem completar o curso. A minha verdadeira vocação

22

• SOU EU, CALVINO

era outra. Mas o tempo que passei em Orléans me fez amar

a literatura. Lá mesmo comecei a escrever De Clementia, um

comentário sobre a obra de Sêneca. O livro foi publicado às minhas custas em Paris em 1532. Porém não teve a saída que esperava, o que me obrigou a pedir algum dinheiro empresta­ do a alguns amigos. Talvez houvesse alguma dose de vaidade

tanto no estudo do grego como no preparo do livro. Rabelais dizia que “quem não sabe grego não pode considerar-se sábio”. Estudei também hebraico por conta própria. Hoje vejo a mão de Deus em tudo isso. Sem o conhecimento do grego e do hebraico - línguas originais das Escrituras eu não poderia

ter escrito o comentário de muitos livros da Bíblia. De Orléans

voltei para Paris.

Á O que acontecia em Paris?

Cheguei a Paris em abril de 1531. Dois anos depois, o evangélico Gérard Roussel começou a atrair multidões com suas pregações durante a quaresma (1533). O impacto foi tão grande que a faculdade de teologia ordenou que seis de seus membros pre­ gassem contra “os erros e a perversa doutrina dos luteranos”. Mas não ficou só nisso. A mesma faculdade, autorizada pelo

vigário de Paris, deu início a uma perseguição por heresia contra Roussel, que tinha a cobertura de Marguerite d’Angoulême, du­ quesa de Alençon e rainha de Navarra. Dizia-se que Marguerite, que estava grávida, tinha enlouquecido ao ler a Bíblia. Outros pregadores começaram a imitar o estilo e as idéias de Roussel.

O caldo estava quase derramando. Os simpáticos à Reforma

de Lutero queriam a princípio uma reforma interna. Mas o conservadorismo mantinha as portas fechadas. Para aumentar

a tensão de um lado e de outro, o discurso de abertura do novo

ano acadêmico da Universidade de Paris, no dia Iode novembro de 1533, feito por Nicolas Cop, recém-eleito reitor, foi sobre a necessidade de reforma e renovação dentro da Igreja. Embora

A SÚBITA CONVERSÃO DE UM LICENCIADO EM LEIS

23

o orador tenha sido modesto em suas propostas, o discurso

foi considerado ofensivo e radical por aqueles que o ouviram. No dia 19 de novembro, Cop foi substituído no cargo e pouco depois foi parar em Basiléia, em busca de refúgio.

A Foi nessa época que o senhor teve a sua experiência de con­ versão?

Na década de 1520, em toda a Europa ninguém nascia pro­ testante. Afinal o grito nascente da Reforma era recentíssimo (31 de outubro de 1517) e acontecera em outro país. Deixe-me ser o mais claro possivel. A conversão aconteceu mesmo e foi tremendamente marcante. Mas não foi como a conversão da mulher pecadora nem como a do ladrão na cruz. Não me con­ vertí do mundanismo para Cristo. Graças ao bom Deus, graças ao temor do Senhor e graças à herança religiosa, sou pecador, mas nunca fui um pecador de sarjeta, como o filho pródigo. Minha conversão foi do romanismo para o protestantismo, do humanismo para o cristianismo, da superstição para a fé evangélica, do tradicionalismo escolástico para a simplicidade bíblica. A Bíblia que recebi de presente de um dos meus fami­ liares me arrebatou do catolicismo. Não foi uma mudança fácil. Em carta ao cardeal Saduleto, escrita quando eu tinha 30 anos,

não escondi essa dificuldade: “Contrariado com a novidade, eu ouvia com muita má vontade e, no início, confesso, resisti com energia e irritação. Foi com a maior dificuldade que fui induzido

a

confessar que por toda a minha vida eu estava na ignorância

e

no erro”. Muitas vezes conversão nada mais é do que romper

com o passado. Ela não é meramente uma experiência religiosa privada e interna, porém abrange uma mudança exterior, visível e radical da lealdade institucional. Antes de minha conversão eu me achava obstinadamente devotado às superstições do papado de tal modo que não conseguia desvencilhar-me com facilidade

de tão profundo abismo de lama. Deus, por um ato súbito de

24

• SOU EU, CALVINO

conversão, subjugou e trouxe minha mente a uma disposição suscetível. Com esse toque soberano e misericordioso, me senti inflamado de um desejo tão intenso de progredir que, embora

não tenha abandonado totalmente os outros estudos, me ocu­ pei deles com menos ardor. No prefácio de meu Comentário aos Salmos, eu conto essa experiência tão notável quanto inesperada

e imprevisível, acontecida na metade exata de minha existência! Por um pequeno período de tempo, tentei ser um reformado por dentro sem tirar a máscara católica.

^ Quando tirou a máscara, o senhor começou a sofrer persegui­ ção?

Em outubro de 1534, fui obrigado a deixar Paris e perambulei por Angoulême e Poitiers, na França. Depois, passei algum tempo na Itália e em Estrasburgo. Finalmente, em janeiro de

1535, fui parar em Basiléia, conhecida como um centro de le­ tras e um lugar seguro p$ra aqueles que eram simpatizantes da causa evangélica ou já participantes dela, como era o meu caso. Por ser uma cidade de língua alemã e por eu não falar a língua de Lutero, meus contatos eram com os que falavam francês ou latim, entre os quais nomeio dois dos meus melhores amigos, Guilherme Farei e Pierre Viret. Erasmo de Roterdã ainda era vivo, morava na cidade e morrería no ano seguinte, aos 70 anos,

a idade limite citada no Salmo 90.

2

GENEBRA:

LUZ APÓS TREVAS

Movido peCafuíminante imprecação de <Fare(, pareceu-me que a mão de <Deus me trazia para Çeneôra

Á Há quantos anos o senhor mora em Genebra?

Moro aqui desde setembro de 1541. Agora, no final de 1563, estou completando 22 anos de Genebra. Porém, se incluir o pequeno período do verão de 1536 a abril de 1538 que passei na cidade, seriam 24 anos. Para ser honesto, não posso dizer que estou aqui por acaso, ou porque Farei me obrigou a mudar-me para cá, na primeira vez, ou porque o Pequeno Conselho de

Genebra me obrigou a voltar, na segunda vez. Tenho certeza que foi

o Senhor da Seara quem me trouxe para essa cidade, que aprendi

a amar intensamente. Eu tinha 27 anos quando meu irmão e eu,

a caminho de Estrasburgo, tivemos de pernoitar em Genebra.

O senhor está dizendo que Farei o obrigou a mudar-se para Genebra. Como assim?

Eu estava só de passagem por Genebra. Era o verão de 1536. Não sei como, Farei soube disso e veio ao meu encontro. Ele não me

^

26

• SOU EU, CALVINO

pediu para ficar nem me convidou delicadamente a associar-me

a ele em seu ministério na cidade. Ele apenas me ameaçou. Se

eu não me mudasse para Genebra, Deus amaldiçoaria os meus estudos. Farei tinha quase o dobro da minha idade e me meteu medo. Movido mais por essa fulminante imprecação, pareceu-me que dos céus a mão divina estava me aprisionando para sempre na cidade do lago. Em janeiro de 1537, pus as mãos no arado.

á Genebra é uma cidade bonita?

Poucas cidades têm uma localização tão bela como Genebra. Estamos à margem de um lago de águas azuis chamado Léman

e rodeados de montanhas, que, no inverno, ficam cobertas de

neve. É uma cidade muito antiga, visitada por Júlio César cin­ quenta anos antes de Cristo. Nos últimos dez anos, a população

subiu de 13.100 para 21.400 habitantes, por ela ter se tornado uma das cidades de refúgio da Europa. Vários estrangeiros, principalmente franceses, moram em Genebra para escapar à perseguição religiosa. Não falamos nem alemão nem italiano,

o que acontece em outras partes da Suíça. Nossa língua oficial

é o francês. Somos uma cidade-estado e não pertencemos aos

cantões de Berna nem Friburgo. Por ser uma das encruzilhadas da Europa, muita gente passa por Genebra. Até a primeira metade do século passado notáveis feiras internacionais eram realizadas aqui. Quase 70% da população é formada de artesãos.

^ Quando Genebra se tornou protestante?

Sob o ponto de vista histórico e jurídico, foi no dia 27 de agosto de 1535, logo após um debate público entre católicos e protestantes do qual os reformados saíram vitoriosos. Desde então a missa não é mais celebrada. Um dos mosteiros foi transformado numa escola primária, com matrícula obrigatória para crianças. Outro foi transformado em hospital. Padres, monges e freiras não

GENEBRA: LUZ APÓS TREVAS

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foram expulsos da cidade. A maior parte foi embora por decisão própria. A reforma de Genebra, em certo sentido, começou com o pé direito, pois reconheceu a liberdade de culto e as dimensões sociais do evangelho. Porém, em outro sentido, começou da estaca zero, pois houve mudança de rótulo e não mudança de vida. Farei e outros tiveram de enfrentar o tremendo desafio de pregar o evangelho e o novo estilo de vida a uma multidão de protestantes até então só de nome. Foi por causa disso que, um ano depois, ele me procurou na estalagem em que eu estava hospedado e me constrangeu a permanecer em Genebra.

Á 0 que levou o povo a votar a favor da Reforma na tal assembléia

pública?

Para chegar a esse ponto da história nada foi fácil nem tão rápido. Eu tinha 23 anos e concluía o curso de direito em Orléans, na França, quando Guilherme Farei e Antoine Froment começaram seu ministério em Genebra (outubro de 1532). Os dois tinham uma audácia fora do comum e eram muito espertos. Numa ocasião, estando em Roma, Farei subiu ao púlpito de uma igreja e gritou mais alto do que o padre que estava entoando a missa. Noutra, ele entrou numa procissão e arrancou algumas relíquias das mãos de um padre e as jogou no rio. Froment, por sua vez, portou-se com muita criatividade: ele colocou em vários pontos de Genebra o seguinte aviso: “Um jovem recém-chegado nesta cidade dará instrução na leitura e na maneira de escrever a língua francesa a todos que quiserem, grandes e pequenos, homens e mulheres, mesmo aqueles que nunca foram à escola. Caso não aprendam a ler e a escrever dentro de um mês, ele não deseja nenhuma recompensa pelo seu trabalho”. O professor acrescentou: “Esse homem também cura muitas doenças de graça”. Foi um sucesso! De fato ele en­ sinava e medicava os doentes, mas não perdia a oportunidade de incluir pequenos sermões e comentários sobre a Bíblia em

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suas aulas. Várias vezes tentaram matar Farei e Froment, mas sempre em vão. Em abril de 1535, a empregada da casa onde os pregadores estavam hospedados, subornada por alguns padres, colocou veneno na sopa de espinafre de um deles. Meu amigo Pierre Varet quase morreu. Piores ainda foram os embates violentos entre uma multidão de católicos e uma multidão de protestantes. Essa fase difícil terminou com o edital dos conselhos de Genebra dando grande causa aos reformadores. A partir daí a cidade de Genebra passou a ter a tranquilizante divisa: Post tenebras Lux (Luz após trevas).

A O senhor está com 55 anos. Portanto, já viveu mais da meta­ de do presente século. E vive na parte ocidental e no hemisfério setentrional, onde estão 95% de todos os cristãos. O que pensa do século 16?

Não sei o que virá depois deste século. Porém considero o sé­ culo atual um presente de Deus. Não só por causa da Reforma

e da Contrarreforma, mas por causa de muitas outras coisas,

a começar com as fantásticas descobertas marítimas. Fernão

de Magalhães acaba de fazer a primeira viagem ao redor do mundo (1519-1522). Antes dele, Vasco da Gama descobriu o caminho das índias (1498) e Cristóvão Colombo descobriu a América (1492). Esses eventos bem-sucedidos provocam tremen­ das mudanças geográficas. Na área da astronomia, que muito me atrai, o polonês Nicolau Copérnico acaba de publicar De Revolutionibus Orbium Caelestium [Das revoluções dos mundos celestes]. Na área da matemática, o avanço é enorme no que diz respeito às frações decimais, à trigonometria retilínea e es­

férica, às equações de terceiro e quarto graus e ao livro Trattato

medidas], do

italiano Tartaglia, publicado em 1545. No ramo da medicina, o mais importante, creio, é o livro do meu patrício Ambroise Paré, de 1545, intitulado Méthode de Traicter les Playes [Método

de Numeri e M isure [Tratado sobre os números e

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de tratar as feridas], que pode abrir portas para salvar muitas vidas. Curiosamente foi o herege Miguel Serveto, que nós queimamos vivo em Genebra, que distinguiu as cavidades direita e esquerda do coração, isto em 1533, pouco antes de morrer. Acho que devo mencionar ainda o formidável traba­ lho do flamengo Gerardus Mercator, que fez um grande mapa da Europa e uma representação plana da Terra. O que ele fez pode nos ajudar a entender melhor o desafio da última ordem de Jesus: “Vão a todos os povos do mundo e façam com que sejam meus seguidores” (Mt 28.19). A impressão que eu tenho

é que esses nossos arautos da ciência moderna trabalham para

Deus. Copérnico, por exemplo, entende que os astrônomos são sacerdotes de Deus e que, no exame da natureza, eles devem glorificar o Criador.

Á No campo das artes, o atual século tem sido pródigo?

Muito pródigo. Ainda estamos sob o impacto do polivalente Leonardo da Vinci, que morreu em Amboise, na França, quando eu tinha apenas nove anos. Ele empregou seu gênio em quase todas as artes e ciências. Foi pintor, escultor, arqui­ teto, inventor, botânico, geólogo, engenheiro e músico. Além de tocar alaúde e outros instrumentos por ele inventados, da Vinci era um repentista, capaz de improvisar letra e música conforme ia tocando. Tinha também suas excentricidades:

escrevia com ambas as mãos e fazia suas anotações de trás para frente com a mão esquerda. Dizem que ele deixou um caderno de 7 mil páginas com desenhos, esboços de invenções

e comentários sobre pinturas, anatomia e filosofia. Embora

tenha pintado o mural A Ultima Ceia no refeitório de um mosteiro na Itália, o artista, ao contrário de muitos outros, não demonstrava interesse algum pela religião. Temos tido artistas notáveis que produzem muito mais pinturas religiosas

do que de outra natureza. Um dos mais impressionantes é o

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afresco A Criação de Adão, do italiano Michelangelo, pintado na Capela Sistina, em 1511. Entre os pintores do presente século, alguns se comprometem com a Reforma de Lutero, como Albrecht Dürer, amigo de Filipe Melâncton, e Lucas Cranach. O primeiro fez um quadro abordando um dos temas mais queridos por nós, A Queda do Homem (1504). E o segundo pintou A Crucificação (1503).

A Em sua opinião, de tudo o que tem acontecido na primeira

metade do presente século o que mais vai influenciar o mundo

daqui para frente?

Muito mais importantes que as descobertas marítimas e tudo o mais foram a redescoberta da Bíblia, a redescoberta da graça e a redescoberta da justificação pela fé. Em resumo, o maior evento de todos foi aquele que estamos chamando de reforma religiosa, algo muito mais amplo e universal que qualquer outra reforma na história religiosa de Israel ou da igreja. Muitos estão dando a própria vida para que isto aconteça e continue a acontecer. Estamos produzindo centenas de livros da mais pura teologia e muitos co­ mentários bíblicos, graças à invenção da imprensa, exatamente há cem anos. Sem medo de exagerar, sob o toque do Espírito Santo, estamos abrindo a porta da igreja para que Jesus entre outra vez e ocupe o seu lugar no púlpito e na vida dos fiéis. Por muito tempo ele esteve batendo à porta e prometendo: “Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, eu entrarei na sua casa e nós jantaremos juntos” (Ap 3.20). Já temos Jesus em nossa mesa e estamos “jantando” com ele e convidando o mundo inteiro para vir comer conosco!

Á Não me lembro qual, mas numa dessas conversas o senhor me

contou que foi expulso de Genebra. Por quê?

Depois de permanecer todo o ano de 1537 e o primeiro trimes­ tre de 1538 em Genebra, eu e Farei fomos expulsos de lá pelo

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Pequeno Conselho. Entendo que tivemos pressa demais para mudar as coisas. Não tive a paciência necessária para lidar com certos costumes arraigados na sociedade que não combinavam com a moral evangélica. Além de coisas menores, como a san­ tificação do domingo e os jogos de azar, havia coisas bem mais reprováveis, tais como festas sem recato, muita pompa (e não

austeridade), bebedeira, adultérios etc. A prostituição era san­ cionada e oficializada pelas autoridades. Veja só: a supervisora dos prostíbulos era uma mulher eleita pelo Pequeno Conselho.

A divisa da cidade “luz após trevas” era apenas uma afirmação

profética e não uma realidade presente. Foi nessa ocasião que escrevi Instrução na Fé, mais conhecido como o Catecismo de Genebra, e comecei a pregar sobre ele. Nosso desejo era que cada genebrino, homem e mulher, se submetessem a esse documento

apondo a ele a sua assinatura. Era um otimismo demasiado! Foi

aí que surgiram as primeiras divergências entre mim e o Pequeno

Conselho. Começaram a ter antipatia por mim: afinal, além de ser um jovem de 28 anos, eu era um cidadão francês, e não

suíço. O caldo acabou entornando, até que Farei e eu fomos expulsos oficialmente de Genebra em abril de 1538.

á Voltou para Basiléia?

Não. Fui para Estrasburgo, onde passei os três anos mais feli­ zes da minha vida, que eu chamo de “meus anos dourados”. Separei-me de Farei, que foi para Neuchâtel - embora amigos, éramos muito diferentes. Com a experiência de Genebra, passei a mudar as minhas atitudes, meu temperamento, meu estilo. Amadurecí bastante. Cinco meses depois de ter chegado, fui convidado a pastorear uma comunidade de língua francesa e

a lecionar na Escola Alta (setembro de 1538). Tive muitas

atividades literárias: publiquei a segunda edição de As Institutos em latim e a primeira em francês, e escrevi a Carta ao Cardeal Sadoleto e o Comentário da Epístola de Paulo aos Romanos. Foi em

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• SOU EU, CALVINO

Estrasburgo que aprendi a lidar com pessoas de todas as classes, de humildes refugiados a mestres e teólogos, como Matthieu Zell, o cura da catedral da cidade, Johannes Sturm, o fundador do Gymnasium de Estrasburgo, e Martin Bucer, um teólogo da altura de Lutero. Deus me usou para despertar muitos jovens para o ministério. Em meio a tudo isso, dei um grande passo à frente: casei-me no dia 14 de agosto de 1540 com uma jovem viúva chamada Idelette de Bure e me tornei padrasto de um menino (Jacques) e uma menina (Judith). Fui muito aplaudi­ do porque todo mundo achava estranho que eu fosse solteiro sendo absolutamente contrário ao celibato sacerdotal. Foi meu irmão Antoine quem descobriu Idelette e me aproximou dela sutilmente: como minha futura mulher não falasse francês, ele me pediu para ser o professor dela. Tornei-me de uma hora para outra seu professor, esposo e pai de seus filhos. Convidei Farei para celebrar nosso casamento. Dois anos depois, em julho de 1542, tivemos nosso único filho, que, para tristeza nossa, morreu poucos dias depois.

Em Estrasburgo, naturalmente o senhor se esqueceu de Genebra

Quando eu estava começando a me esquecer, recebi um surpreendente convite. Sabe de quem? Era do Pequeno Conselho de Genebra. Eles queriam que eu voltasse à ci­ dade e recomeçasse o meu ministério de pastor, pregador e professor. No dia 13 de setembro de 1541, três anos e meio depois de expulso, fixei residência outra vez em Genebra, onde estou até hoje! Infelizmente sem Idelette, que morreu há quatorze anos, em 1549.

J

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O LIVRO TRANSFORMADO EM CATECISMO

JL igreja jamais preservará a si mesma sem um catecismo

á O que o senhor chama de catecismo?

Trata-se de um manual da doutrina cristã, geralmente em forma de perguntas e respostas, voltado à instrução religiosa. Eu diria em linguagem menos simples que é um método racional de en­ sino da fé e da moral cristã, segundo um programa sistemático, para levar especialmente as crianças a professarem sua fé em Jesus de modo consciente e convincente.

á Quando se usou pela primeira vez o termo “catecismo”?

Foi em 1375, quando o arcebispo de York, na Inglaterra, publicou o texto Lay Folks Catechism. Meio século depois, o concilio de Tortosa, na Espanha, ordenou a elaboração de um breve compêndio que bem poderia chamar-se catecismo, pois ensinava o que se deve crer, o que se deve pedir, o que se deve observar, o que se deve evitar e o que se deve desejar e esperar.

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• SOU EU. CALVINO

A Sempre é o mestre que faz as perguntas e as crianças que respondem?

Não. Embora não muito comum, pode ser o contrário: a criança pergunta e o mestre responde. E o caso do catecismo Disputatio Pueronim, publicado no século 11, disposto em dez capítulos: perguntas sobre a criação, sobre a pessoa de Deus, sobre os anjos, sobre o homem, sobre o Antigo Testamento, sobre o Novo Testamento, sobre a igreja, sobre os sacramentos, sobre os símbolos da fé e sobre o Pai-Nosso. Já no catecismo de Honório de Autun, o mestre pergunta e o discípulo responde.

á Desde quando a igreja tem feito uso do catecismo?

Provavelmente a partir do século 2o. O uso universal do batismo infantil após o século 6o incentivou o preparo dos catecismos para firmar as crianças já batizadas. As perguntas e as respostas giravam normalmente em torno dos Dez Mandamentos, do Credo Apostólico e da Oração do Senhor. Mas foi a Reforma que de fato popularizou o uso do catecismo, por causa de sua ênfase considerável na educação religiosa não só das crianças, mas também dos jovens e adultos. Doze anos depois de romper oficialmente com Roma (1517), Lutero publicou o seu Catecismo Menor, que substituiu o Catecismo Maior, do ano anterior (1528). O que o levou a preparar o catecismo e difundir o seu uso o máximo possível foi a constatação de que o povo de Deus nada conhecia da doutrina de Deus, sobretudo nas aldeias. Mais ainda, que muitos pastores eram quase totalmente ignorantes e incapazes de ensinar. “Embora todos se chamem cristãos e participem dos santos sacramentos” - escreve Lutero no prefácio de seu catecismo - “não conhecem nem a Oração do Senhor, nem o credo, nem os Dez Mandamentos, vivendo como pobres animais e porcos sem inteligência, embora saibam muito bem - agora que o evangelho lhes veio - como podem abusar de sua liberdade”. Para o reformador alemão, o catecismo não passa

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de “um livro que instrui por meio de perguntas e respostas”. Ninguém é forçado a crer, mas é dever dos pastores treinar e impelir a grande massa a saber o que é errado e o que é certo em matéria de fé. Depois de ministrar o Catecismo Menor, os pastores tinham de passar para o catecismo mais longo, para terem uma explicação mais profunda e mais completa.

á Pór curiosidade, quantas perguntas e respostas tem o “Breve Catecismo”, de 1529?

São 375 perguntas e respostas, mais de uma para cada dia do ano. Vou dar alguns exemplos. Para a pergunta 5 (“Donde tirou Lutero essa doutrina?”), a resposta é “Lutero tirou essa doutrina da Escritura Sagrada ou Bíblia”. Para a pergunta 42 (“Quem é o nosso próximo?”), a resposta é “Nosso próximo é todo aquele que necessita do nosso amor”. Para a pergunta 56 (“Que é matrimô­ nio?”), a resposta é “O matrimônio é a união vitalícia instituída por Deus e contraída, mediante esponsais legítimos, entre um homem e uma mulher para uma só carne”. Para a pergunta 95 (“Homem qualquer pode alcançar a salvação mediante as obras da lei?”), a resposta é “Nenhum homem pode alcançar a salvação mediante as obras da lei, porque desde a queda no pecado o homem natural é de todo incapaz para guardar a lei de Deus e o próprio cristão só a cumpre imperfeitamente”. Para a penúltima pergunta, a de número 374 (“A quem se não deve dar a Santa Ceia?”), a resposta é “A Santa Ceia não se deve dar aos ímpios e impenitentes manifestos, aos hereges, aos que deram escândalo

e ainda não o removeram e aos que não podem se examinar a si

mesmos, como, por exemplo, crianças e pessoas sem sentidos”.

á O catecismo era ensinado apenas nas igrejas e pelos pastores?

De forma alguma. O catecismo era levado para dentro dos lares

e o chefe da família tinha de ensiná-lo à sua família.

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• SOU EU, CALV1NO

á Pessoalmente, como o senhor avalia o catecismo?

Em minha longa carta de outubro de 1548 ao duque de Somerset, quando ele era regente da Inglaterra durante a menoridade de Eduardo VI, eu lhe disse francamente que a igreja de Deus jamais preservará a si mesma sem um catecismo, que é como a boa se­ mente impedindo a extinção do bom cereal e multiplicando o trigo na seara do mundo, era após era. Quem pretende construir um edifício duradouro, que não entre logo em decadência, deve providenciar que as crianças sejam instruídas num bom catecismo que mostre resumidamente a elas, em linguagem apropriada à sua idade, em que consiste o verdadeiro cristianismo.

á O senhor mesmo nunca elaborou um catecismo em francês?

Durante o inverno de 1536-1537, publiquei o meu primeiro catecismo, se é que se pode chamá-lo de catecismo, pois não era em forma de perguntas e respostas. A obra intitulava-se Instrução e Confissão de Fé e era para o uso da igreja de Genebra. Cinco anos depois, no início de 1542, resolvi transformar esse livro, já traduzido para o latim, num verdadeiro catecismo, com 373 perguntas e respostas (duas a menos que o de Lutero). Foi minha primeira exposição teológica sistemática em língua francesa (As Institutas haviam sido escritas em latim).

A Um catecismo de quase quatrocentas perguntas e respostas não

é grande demais, principalmente quando se pensa no leitor mirim?

Pela aceitação que ele teve, a ponto de provocar maior unidade entre as igrejas reformadas, creio que isso não é problema. Eu o dividi em quatro partes: a primeira é sobre a fé de um modo geral (130 perguntas); a segunda trata dos Dez Mandamentos (102); a terceira é só sobre a oração (63); e a última parte se refere à Palavra e aos Sacramentos. A partir de 1561, esse cate­ cismo ganhou mais importância, visto que daí em diante cada novo ministro da igreja devia jurar fidelidade aos ensinos nele expressos e comprometer-se a ensiná-los.

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Á O seu catecismo e o “Catecismo Menor”, de Lutero, não seriam

suficientes? Parece que está saindo outro catecismo.

Trata-se do Catecismo de Heidelberg, publicado em fevereiro de 1563, por iniciativa do príncipe eleitor Frederico III, que havia se convertido à fé reformada três anos antes. Ele convidou Zacarias Ursinus, professor da Faculdade de Teologia de Heidelberg, na Alemanha, e Gaspar Olivianus, ambos com menos de 30 anos, para prepararem um catecismo a fim de ensinar a doutrina bí­ blica aos jovens da igreja. É um catecismo três vezes menor do que o meu. Tem apenas 129 perguntas e respostas, dispostas de tal modo que podem ser estudadas durante os 52 domingos do ano. Além do meu catecismo e dos catecismos de Lutero e de Ursinus, saíram vários outros: os catecismos de Oecolampadius, de Bullinger, de Cranmer, de Allen e do rei Eduardo VI.

A Qual é a sua opinião sobre o “Catecismo de Heidelberg”?

É a melhor possível. Considero-o superior ao meu catecismo

e ao de Lutero. Porque Frederico queria um catecismo conci­

liador que pudesse combinar o melhor da sabedoria luterana

e reformada, o Catecismo de Heidelberg (a cidade da Alemanha

Ocidental onde foi escrito) é o mais ecumênico de todos, pois

reúne três correntes do pensamento reformado. Ademais, está

isento de definições dogmáticas e é notavelmente não sectário. Possui um caráter inteiramente bíblico. Toda a sua estrutura

é moldada pela perspectiva bíblica. Eu diria que esse catecis­

mo deixa a Escritura falar e não procura substituí-la. Em sua posição teológica, ele é cristão, evangélico e reformado, e está plenamente fundamentado no trabalho dos apóstolos e dos concílios ecumênicos da igreja antiga (não romana). O melhor

é que ele é um manual da religião prática. Em vez de levantar

problemas especulativos, apresenta a fé cristã de maneira pro­

fética, acentuando a sua importância para a vida diária. Foi elaborado para ser ao mesmo tempo um guia para a instrução

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• SOU EU, CALV1NO

religiosa das crianças e dos jovens e uma confissão para toda

a igreja. Por seu quádruplo propósito (catequético, teológico,

litúrgico e querigmático), o Catecismo de Heidelberg tornou-se imediatamente popular, primeiro nas áreas reformadas e, em seguida, nas áreas luteranas. Ele tem três divisões principais:

“Nosso pecado e culpa” (primeira parte), “Nossa redenção e liberdade” (segunda parte) e “Nossa gratidão e obediência” (terceira). Entendo que a última parte deste abençoado cate­ cismo constitui-se em um pequeno clássico da vida devocional.

A Nos quarenta anos que separam o Breve Catecismo de Lutero

(1529) e o catecismo da Contrarreforma, em preparo, a Igreja

Católica produziu algum catecismo?

Em 1555 surgiu a Suma da Doutrina Cristã, com perguntas e respostas, destinada aos jovens estudantes de nível superior, aos

clérigos em formação e aos leigos cultos. No ano seguinte apareceu

o Catecismo Mínimo, em forma de abecedário, para crianças e pes­

soas ignorantes que estavam aprendendo a ler. Por fim, em 1558, veio a lume o Pequeno Catecismo dos Católicos, para estudantes de nível médio. Dos três, este último foi o que obteve maior êxito em virtude da sua pedagogia e da precisão das perguntas e respostas.

A A Contrarreforma não produziu catecismo algum?

Eu soube que o Concilio de Trento, encerrado agora em 1563, nomeou uma comissão presidida pelo cardeal Carlos Borromeu, sobrinho e secretário do papa Pio IV e arcebispo de Milão, para preparar um catecismo que expresse a reação católica à Reforma. Estou sabendo também que o jesuíta José de Anchieta, missionário espanhol no Brasil, teria escrito um catecismo bilíngue (na língua portuguesa e na língua dos nativos daquele continente recénvdescoberto), intitulado Diálogo das Coisas da Fé, com perguntas e respostas. Talvez seja o primeiro catecismo escrito fora da Europa e para um público não cristão.

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O VOO QUE NÃO SE REALIZOU

(podarpe(a metade os a6usos do cristianismo não resoCve o proèCema

Em sua carta de 28 de junho de 1545 a Melâncton, o senhor diz que “temos de estar sempre em guarda para não prestar deferência demasiada aos homens” . Todavia, menos de seis meses antes, em sua carta a Lutero, o senhor refere-se a ele como “excelentíssimo pastor da igreja cristã” , “celebérrimo senhor”, “notabilíssimo ministro do Criador” e “meu pai res­ peitadíssimo e sempre honorável”. O senhor deixou de montar guarda?

Não posso concordar com a agressividade de Martinho Lutero, mas não posso negar sua coragem, sua firmeza e suas bases. Ele enfrentou papas e soberanos poderosos com absoluto sucesso. O movimento que empreendeu dois anos depois de redescobrir o valor da fé no sacrifício vicário de Jesus não foi uma tentativa frustrada de reforma, mas uma autêntica e imorredoura reforma da igreja cristã, quando ele tinha apenas 34 anos.

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• SOU EU, CALVINO

/> O senhor é parecido com Lutero?

Sou tão pecador e tão salvo quanto ele. Temos o mesmo zelo pela igreja, a noiva de Cristo. Enfatizamos sempre os três “so- mentes”: o “sola Scriptura”, o “sola gratia” e o “sola fide”. Tanto eu como Lutero não fomos até o final do curso de direito e estudamos hebraico por conta própria. Ambos nos dedicamos ao ministério, ambos somos professores universitários, ambos fazemos sermões expositivos versículo por versículo, ambos gostamos mais do livro dos Salmos, ambos devemos muito da nossa caminhada teológica à Carta de Paulo aos Romanos, ambos nos casamos depois dos trinta anos. Tanto Lutero como eu sabemos que precisamos oferecer continuamente resistência

à pecaminosidade latente e temos consciência de que estamos

dando muito trabalho a Satanás. Em nossa admoestação con­ tra os perversos, usamos os mesmos termos trava ou freio: as

autoridades devem não somente restringir, mas também dirigir

o povo. Por fim, nós somos parecidos porque nem ele nem eu

gostamos dos adjetivos luteranos e calvinistas, aplicados aos nos­ sos irmãos reformados. Mas Lutero é 26 anos mais velho que eu. Ele é alemão e eu, francês. Ele nasceu no final do século 15

e eu, no início do século 16. Ele fala uma língua germânica e eu, uma língua latina. Ele viveu na Alemanha e eu vivo na Suíça. Ele é da primeira geração de reformados e eu, da segunda (eu era um menino de apenas oito anos quando Lutero rompeu oficialmente com Roma). Ele se casou com uma freira e eu, com uma viúva. A maior diferença entre nós dois é quanto ao temperamento.

á Como assim?

Sou menos expansivo, menos impetuoso, menos arrojado. Tenho um temperamento tímido. Sou acanhado por natureza. Jamais teria coragem de atacar os papas com palavras tão

O VOO QUE NÂO SE REALIZOU

insolentes quanto Lutero. Ele chamava o papa Clemente VII de “arquipatife”. Em sua obra Advertência a seus Estimados Alemães, publicada em abril de 1531 (ano em que meu pai morreu), o “javali da floresta” (nome que o papa Leão X deu a Lutero em sua encíclica Exsurge Domine, de 1520) diz que os papas “não têm juízo nem vergonha”, são “dez vezes piores que os turcos”, “verdadeiros diabos”, “miseráveis patifes”, “assassinos sangui­ nários”, “miseráveis inimigos de Deus” e assim por diante.

^ Apesar dos mesmos três “somentes”, parece que há diferentes

tendências entre a reforma feita por Lutero e a reforma que está sendo feita por sua instrumentalidade.

Embora haja muita unidade entre uma e outra, há algumas diferenças entre nós. Para Lutero, a lei de Deus serve para revelar a santidade de Deus e conduzir o pecador a Cristo; para mim, além disso, a lei mostra ao crente o caminho da santificação. Para Lutero, o arrependimento conduz à fé; para mim, o arrependimento flui da fé. Para Lutero, a “ordo salutis” (a ordem da salvação) segue o seguinte itinerário:

vocação, iluminação, conversão, regeneração, justificação, santificação e glorificação; para mim, começaria com a eleição, a predestinação e união com Cristo, sem excluir os demais. Para Lutero, o batismo regenera e remove a culpa e o poder do pecado; para mim, o batismo incorpora o fiel na aliança da graça. Para Lutero, Cristo está presente objetivamente no sacramento da Ceia do Senhor; para mim, Cristo também está presente, mas de modo espiritual, não físico. Quanto ao princípio regulador da vida do crente, é mais uma ‘questão de palavras’ (a posição luterana admite muitas coisas no culto que a posição reformada não admite).

Na citada carta a Lutero, o senhor escreve: “Quisera poder voar até você para desfrutar da felicidade de sua companhia ao

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menos por algumas horas e conversar com você acerca de várias questões”. O senhor chegou a estar com Lutero?

Infelizmente, não. Na época eu estava com 36 anos e Lutero, com 62. Um ano e um mês depois de minha carta, ele entregou o seu espírito a Deus em Eisleben, para onde tinha ido a fim de apaziguar os dois condes de Mansfeld. Isso aconteceu no dia 18 de fevereiro de 1546. No entanto, tenho esperança de me encontrar com ele no reino de Deus em breve.

á Na mesma ocasião, o senhor enviou alguns de seus pequenos

livros, pedindo que, nas horas vagas, ele os examinasse “superfi­ cialmente”, ou que solicitasse alguém que o fizesse em seu lugar e depois conversasse com ele sobre o conteúdo dos livros. Este seu gesto demonstra alguma timidez ou modéstia demasiada?

Penso que não. Apenas levei a sério as tantas e pesadas respon­ sabilidades de Lutero.

A Parece que tanto Lutero como o senhor de vez em quando têm uma crise de depressão

Quem não as tem? Depressão é a quase completa capitulação de ânimo, de bem-estar, de segurança emocional, de autoconfiança, de energia, de alegria e até mesmo da vontade de viver. Veja a experiência de Elias. Depois de experimentar vitórias estrondosas em seu ministério, de enfrentar a terrível Jezabel, seu marido Acabe e os quatrocentos profetas de Baal no monte Carmelo, o profeta passou por uma crise de depressão. Ele ficou com medo, refugiou-se no deserto, teve vontade de morrer, chegou a pedir que Deus o levasse e ainda experimentou uma autoavaliação extremamente negativa (“eu sou um fracasso”). Veja também Jó. Por causa de seu intenso sofrimento, o homem da terra de Uz pas­ sou por uma profunda depressão. A certa altura, ele desabafou:

“Agora já não tenho mais vontade de viver”; “O desespero tomou conta de mim”; “O meu coração está agitado e não descansa”;

0 VOO QUE NÀO SE REALIZOU

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“Levo uma vida triste, como um dia sem sol”; e “Minha harpa está afinada para cantos fúnebres”, Somos pessoas de carne e osso, e não anjos alados. Somos homens, e não super-humanos. Vivemos numa época de transição, de mudança, de reforma. Os poderes que não querem a reforma da igreja nos ameaçam, nos perseguem, nos colocam nas masmorras, na Torre de Londres, na estaca, na forca, no cadafalso. As potestades do ar não desistem de nós. Apesar da oração, apesar das promessas das Escrituras, apesar das alegrias da comunhão com o Senhor e com os irmãos, apesar do apoio de algum fidalgo ou monarca, apesar da alegria de viver e de morrer para o Senhor - há momentos em que todos nós caímos em depressão. Não somos melhores do que Asafe quando vemos que tudo parece ir bem com os libertinos, os opositores, os mentirosos, os orgulhosos, os traidores e os que fazem questão de trazer a esposa e os filhos para assistir a morte por fogueira do esposo e do pai, como aconteceu em 1555 com John Rogers, o primeiro mártir protestante executado por ordem de Maria, A Sanguinária.

Á Dizem que o senhor, Lutero e outros reformadores são cismáticos

muito relutantes.

E pura verdade. Nem Lutei-o nem eu queríamos deixar a Igreja Católica. Pelo contrário, sonhávamos com um catolicismo reformado, uma Igreja Católica reformada de acordo com a Escritura. Estávamos interessados tanto na sua pureza como na sua unidade. Em 1552, por exemplo, escrevi para Thomas Crammer, arcebispo de Canterbury, da Igreja da Inglaterra, que a separação da igreja estava “entre as maiores desgraças do nosso século”. De minha parte, não hesitaria em cruzar dez mares se isso resolvesse a questão. Roma não abriu as portas para a reforma, embora agora, no recénvencerrado Concilio de Trento, ela tenha aberto algumas janelas, pelo menos no que diz respeito à moral do clero.

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• SOU EU. CALV1NO

^ Qual ideal norteia sua vida?

Meus ideais não estão ocultos. Falo sobre eles em quase todas as cartas. Tomemos por exemplo a carta que escrevi no desastroso ano de 1548 (foi nesse ano que meu querido irmão Antoine ficou sabendo que sua esposa o traía), ao duque de Somerset, que na época era a maior autoridade do governo da Inglaterra. Porém, não me custa fazer uma lista dos meus ideais:

1) Gostaria que todos os nobres e aqueles que administram a justiça se submetessem em retidão e total humildade ao grande rei Jesus, prestando-lhe reverência sincera, com fé não fingida em corpo, alma e espírito;

2) Gostaria que a doutrina de Deus fosse proclamada com eficácia e poder, de modo a produzir seu fruto, levando to­ talmente a cabo uma notável e completa reforma da igreja;

3) Gostaria que o escândalo e a conversão frívola não virassem hábitos de modo' que o nome de Deus não venha a ser blasfemado;

4) Gostaria que a reforma da igreja fosse completa, pois podar os abusos do cristianismo pela metade jamais irá restaurar a situação ao estado de pureza;

5) Gostaria que a sabedoria do Espírito, não a da carne, prevalecesse em tudo;

6) Gostaria que o nome de Deus fosse sempre mais e mais glorificado por todos os fiéis.

5

A IGREJA DE GENEBRA

Vícios secretos devem ser repreendidos secretamente

á Dizem que o senhor é “o grande ditador de Genebra” e teria introduzido na cidade uma espécie de terrorismo religioso.

Quando não é uma completa invenção, esse e outros mitos representam uma grave distorção da realidade. Eu não tomei Genebra de assalto. Fui convidado a voltar e assumir a liderança da igreja cedendo às fortes insistências do conselho genebrino. Eu morava até então em Estrasburgo e estava feliz da vida. Cheguei a Genebra em setembro de 1541, dois meses depois de completar 32 anos. Tinha um ano de casado e dois enteados, filhos do primeiro matrimônio de Idelette. Logo ao chegar, entreguewne à tarefa de redigir uma espécie de constituição para a igreja e a cidade, que ficou conhecida pelo nome de Ordenanças Eclesiásticas. Foram dez dias de intenso trabalho. Depois de examinado pelos outros pastores e pelo Pequeno Conselho, o manual foi adotado no dia 20 de novembro. Nesta constituição

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• SOU EU, CALV1NO

aparentemente simples, inspirada basicamente nas Escrituras e na prática da igreja primitiva, conforme se lê no livro de Atos, encontra-se uma forma democrática representativa e republica­ na de governo da igreja. Não sei como posso ser considerado ofensivamente “o grande ditador de Genebra” se várias vezes eu sofri oposição e minha voz não foi ouvida em alguns pontos!

Á Quantas ordens de ofício vocês têm em Genebra?

Existem quatro ordens de ofício instituídas por nosso Senhor para o governo de sua igreja: pastores, doutores, presbíteros e diáconos. Entendo que, se quisermos uma igreja bem organizada e preservada, devemos observar esta forma de governo. O ofício do pastor é proclamar a Palavra de Deus e então instruir, admoestar, exortar e repreender, tanto em público como em particular, além de administrar os sacramentos e exercer fraternalmente a disciplina, juntamente com os presbíteros e assistentes.

Á Qualquer membro da igreja pode tornar-se pastor?

Ninguém pode fazer parte deste ofício sem um chamado da parte de Deus. Aquele que se diz chamado deve ser examinado pelo Conselho quanto à doutrina e quanto à conduta. Se o can­ didato não possuir conhecimento bom e sólido da Escritura e capacidade para comunicá-la ao público de maneira edificante, ele não será ordenado pastor. Para saber se ele está apto para ensinar é preciso sabatiná-lo. Ele também não alcançará o mi­ nistério sagrado caso não tenha bons hábitos e comportamento adequado à luz do ensino de Paulo.

á Exige-se algum juramento da parte do candidato caso ele seja ordenado?

Ao ser ordenado, eleito e empossado, o novo pastor fará o seguinte juramento perante o Conselho: “Eu prometo e juro

A IGREJA DE GENEBRA

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que, no ministério para o qual sou chamado, servirei fielmente

a Deus, ministrando de forma pura a sua Palavra para edificação

desta igreja à qual ele me uniu, que de forma alguma farei mau uso de sua doutrina para servir às minhas paixões carnais nem para agradar homem algum, mas a aplicarei com consciência para o serviço de sua glória e para proveito deste povo do qual sou devedor”. Além desse primeiro compromisso, o candidato aceito e aprovado promete comportar-se com lealdade, sem

ódio, favoritismo, vingança ou qualquer outro sentimento carnal no afã de exortar os que caem em pecado. Por último, ele promete servir à igreja e ao povo de tal maneira que não seja impedido de prestar a Deus o serviço que de acordo com sua vocação lhes deve.

A O Conselho exerce algum tipo de supervisão sobre os pastores?

E claro que sim, no sentido de mantê-los no cumprimento de

seu dever. Uma vez por semana nós nos reunimos para juntos

discutirmos a Escritura e verificar se todos estamos conservando

a pureza doutrinária e a concordância entre nós. Consideramos

crimes intoleráveis coisas como heresia, cisma, rebelião contra

a ordem eclesiástica, blasfêmia notória, simonia, corrupção,

bebedeiras, perjúrio, lascívia, apropriação indébita, danças e outros vícios similares. Condenamos também qualquer intriga com o objetivo de um pastor ocupar o lugar do outro. Embora não coloquemos no mesmo nível, repudiamos também a negli­ gência na leitura e no estudo da Palavra, a bajulação, a grosseria,

a difamação, a avareza, a ira incontida, rixas, contendas e até a frouxidão nos modos e maus gestos.

Á E os outros ofícios, quais são?

A primeira ordem é formada de pastores; a segunda, de douto­

res; a terceira, de presbíteros; e a quarta, de diáconos. O ofício

48

• SOU EU, CALVINO

próprio dos doutores é a instrução dos fiéis na verdadeira doutrina, a fim de que a pureza do evangelho não seja cor­ rompida pela ignorância ou por más opiniões. Esses homens são preletores em teologia, pessoas especializadas no Antigo Testamento e no Novo Testamento. Eles devem ser escolhidos e remunerados para terem sob sua responsabilidade professores tanto para línguas como para dialética. O ofício próprio dos presbíteros é supervisionar a vida de cada pessoa para admoestar amigavelmente os que estão errando ou vivendo uma vida desordenada. Eles têm de ser homens de vida honesta e reta, sem mancha e acima de suspeitas. Não é conveniente que sejam substituídos com frequência sem motivos, enquanto cumprirem com fidelidade o seu dever. O ofício próprio dos diáconos é receber, administrar e manter bens para os pobres e cuidar dos doentes. Os que contribuem para esse fim precisam estar seguros de que as doações não serão empregadas de outra maneira, senão na caridade. Esse ofício não deve se limitar aos pobres da comunidade eclesiástica, mas também aos doentes do hospital, aos idosos que não podem trabalhar, às viúvas, aos órfãos, aos detentos e outras pobres criaturas. Esse ministério precisa desencorajar a mendicância até o ponto de vir a ser observada a total proibição de pedir esmola. Os que passam necessidades unicamente porque são preguiçosos não devem receber assistência, mas ser advertidos contra a preguiça.

Á Em suas “Ordenanças Eclesiásticas” há alguma norma sobre o culto?

Sim. Propus e foi aprovado que tivéssemos três cultos por do­ mingo nas três igrejas (São Pedro, Madalena e São Gervásio)

- um ao raiar do dia e os outros às nove e às três da tarde - e outros três durante a semana apenas na primeira igreja, que é

a nossa catedral (nas segundas, quartas e sextas). Todo domin­ go, ao meio-dia, há uma aula de catecismo para crianças nas

A IGREJA DE GENEBRA

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três igrejas. Para dar conta deste programa semanal têm sido necessários cinco ministros e três auxiliares.

á O senhor não acha impróprio oferecer o catecismo para crianças no horário de meio-dia?

Pode ser. Mas vale a pena. As crianças são importantes. Insis­ timos que os cidadãos ou moradores de Genebra devem levar seus filhos ao catecismo todos os domingos. Distribuímos um formulário para ser preenchido pelos pais a fim de verificar se as crianças estão entendendo e decorando as respostas. Quando uma criança for suficientemente bem instruída no catecismo, nós a submetemos a um teste: ela deve recitar solenemente um resumo do que aprendeu. Só então poderá professar a fé diante da igreja e passar a participar da Santa Ceia.

Á A igreja de Genebra é a favor da disciplina?

Entendemos que vícios secretos devem ser repreendidos secre­ tamente. Ninguém deve trazer o seu vizinho perante a igreja a fim de acusá-lo de faltas que não sejam pelo menos notórias ou escandalosas, a menos que ele se mostre contumaz. Os que não se corrigem devem abster-se da Santa Ceia até o momento em que retornam com disposição e ânimo melhor. Toda disciplina deve ser feita com tal moderação que não haja rigor pelo qual alguém possa ser magoado, pois mesmo as correções são apenas remédios para se trazer pecadores de volta a nosso Senhor.

á Vocês realizam cerimônias nupciais e fúnebres?

Por que não? Celebramos o casamento tanto em dia de semana como no domingo. Se for no dia do Senhor, ele acontece antes do culto. Fazemos questão de introduzir cânticos sacros para alegrar e incentivar o louvor. Mas não celebramos no domingo de Santa Ceia, em honra ao sacramento. Quanto aos funerais,

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• SOU EU, CALV1NO

temos algumas normas. O irmão que faleceu deve ser sepultado não antes de doze horas após a morte nem depois de vinte e quatro horas. Aqueles que vão levar o caixão até a sepultura - que chamamos de carregadores - devem desencorajar quaisquer superstições contrárias à Palavra de Deus e devem cumprir o horário do sepultamento.

^ Todas essas instruções e normas foram criadas pelo senhor em dez dias de trabalho?

Exatamente. Escritas por mim e aprovadas pelo Pequeno Conselho. Tenho informações de que elas estão sendo adotadas fora de Genebra, como, por exemplo, na Escócia de John Knox.

6

LUXO, EXTRAVAGÂNCIA E CONSUMISMO

Vma coisa é certa: quando as riquezas dominam o domem, (Deus é despojado de sua dominação

A salvação somente pela graça de Deus e não pelas obras, como o senhor insiste sempre, não desobriga o crente reformado das boas obras?

De modo nenhum. As boas obras não causam a salvação, mas devem ser a causa dela. É uma questão de ordem: primeiro a salvação e, depois, as obras. Pode-se dizer que a doutrina do sola gratia santifica as obras, pois arranca delas a chaga da barganha e as torna uma expressão da gratidão e louvor a Deus. Em Genebra damos muita importância à ação social. Temos exerci­ do grande influência sobre o governo civil da cidade. Daí as leis até sobre saúde e segurança. Cuidamos das coisas grandes e das pequenas. Por exemplo, é proibido jogar lixo ou excrementos humanos nas ruas, é proibido acender uma lareira em quartos sem chaminés, é proibido construir uma sacada sem grades (para evitar que as crianças caiam dela). Intrometemo-nos em tudo:

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• SOU EU, CALVINO

uma enfermeira não pode levar consigo para a cama os bebês, os vigias noturnos devem fazer suas rondas com responsabilidade, os negociantes não podem cobrar demais pela sua mercadoria. Na época das eleições, o pregador da Catedral de Saint Pierre deve pregar sobre a necessidade de eleger homens piedosos, e os eleitos são exortados a governar sob a direção de Deus e para a glória dele. Em nossas exposições bíblicas, apontamos como contrárias à ética cristã as habituais manobras para aumentar o lucro, tais como a estocagem de trigo na esperança de que ele suba de preço, a especulação financeira e o monopólio. Quan­ do o primeiro dentista montou seu consultório em Genebra, eu mesmo fiz a primeira consulta para testar sua competência.

Á Antes de sua primeira chegada a Genebra, Guilherme Farei, na tentativa de moralizar a cidade, colocou rédea curta em todo mundo. Por exemplo, a presença aos cultos dominicais era obrigatória, sob pena de pesadas multas. Leis severas demais dão resultado?

Minha experiência diz que não funcionam nem em curto nem em longo prazo. Temos de pedir sabedoria a Deus, tanto para não pesar demais como para não pesar de menos. Não podemos cair nem no legalismo (não faça isso, não faça aquilo) nem na frouxidão (não é pecado isso, não é pecado aquilo). Temos de apelar mais ao coração do que à coerção. Naturalmente algumas leis foram necessárias para disciplinar Genebra e torná-la uma cidade reformada não só nominalmente. Fizemos leis para regulamentar o uso de bares, para proibir a blasfêmia contra Deus, a venda de pão e vinho a preços acima dos estipulados, a prática do jogo de cartas (que tirava o dinheiro de muitos em favor de poucos) etc. Tornamos obrigatória a instrução pública. Acabamos com os muitos dias santos herdados da Igreja Católica e devolvemos ao domingo a importância que ele deve ter, tornando-o verdadeiramente o dia do Senhor, o dia de ir à igreja, o dia de descanso semanal. Embora nossas intenções fossem as melhores possíveis, descobrimos que leis por demais

LUXO, EXTRAVAGÂNCIA E C0NSUM1SM0

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severas, que excedem os limites do razoável, provocam insatisfação, mesmo entre os crentes verdadeiros. Os libertinos, que pendiam para o lado oposto, acabaram nos expulsando de Genebra, eu e Farei, em abril de 1538.

Á O senhor tem sido contra o luxo, a extravagância e os gastos supérfluos. Mas, se a pessoa que se entrega a isso é alguém honestamente rico, ele não tem o direito de gastar o seu dinheiro como bem entende?

Mesmo não havendo a menor suspeita sobre a origem da fortuna de alguém, de modo nenhum ele deve esbanjar o seu dinheiro com o consumismo desenfreado. Isso é pecado, para não usar a palavra crime. E pecado porque ao redor dele há muitos que não têm teto, não têm o que comer nem o que vestir, seja irmão na fé ou não. Os mandamentos de Deus em

favor dos pobres, das viúvas, dos órfãos, dos imigrantes e dos incapacitados para o trabalho aparecem com impressionante frequência em toda a Bíblia, tanto na antiga dispensação como na nova. Uma vez convertido, Zaqueu, além de separar algum dinheiro para restituir aos que porventura tivessem sido lesados por ele, tomou a decisão de repartir a metade de seus bens com os pobres. Os fazendeiros do Antigo Testamento não deveríam colher todos os frutos de seus campos, mas deixar pelo menos os cantos das plantações para os necessitados, segundo a lei da rebusca da qual as viúvas Noemi e Rute se valeram. A ex­ travagância é sinal de egoísmo e, portanto, pecado, e pecado grave. Na parábola do bom samaritano, Jesus mostra que tanto

o

sacerdote como o levita não quiseram gastar tempo, esforço

e

dinheiro com aquele semimorto à beira da estrada. O que

os ricos perdulários gastam com o luxo e o supérfluo daria

para construir orfanatos, abrigos para os sem moradia, escolas

e hospitais. Os proprietários de grandes extensões de terra, muitas vezes abandonadas, poderiam dividir uma parte delas

)

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• SOU EU. CALVINO

em pequenos sítios e doar a famílias pobres e desempregadas. Os donos de grandes fortunas deveriam abrir novas empresas, não para obterem mais dinheiro, mas para criar mais ofertas

de trabalho. Uma coisa é certa: quando as riquezas dominam

o homem, Deus é despojado de sua dominação. O caso é sério!

^ No seu entender, o oitavo mandamento da lei de Deus - “não roube” - significa apenas subtrair alguma coisa alheia?

Defraudamos o próximo de seu bem quando deixamos de cumprir com os deveres dos quais somos incumbidos. Estou certo de que aquele que não se desincumbe para com os outros das obrigações que sua vocação inclui retém o que pertence a outrem. Trocando por miúdos: ele está quebrando o oitavo mandamento, dando mau testemunho e fazendo sofrer ainda mais os que já sofrem.

^

Afinal, o senhor é contra ou a favor da desobediência civil?

O

governo civil é tão necessário quanto pão e água, luz e ar. Sou

a favor da hierarquia na área conjugal (a liderança do marido), na

área familiar (a liderança dos pais) e na área social (a liderança dos magistrados). Sem essas lideranças, ocorre o caos. Todavia, por causa da Queda, todas elas podem falhar, tanto pela omissão como pelo abuso. Se sou contra ou a favor da desobediência civil, tenho

de tomar muito cuidado com a resposta, porque ela pode ser torcida

e generalizada. Entendo que cometemos um crime contra o próprio

Deus quando obedecemos a ordens e exigências de um governo contrário à vontade expressa de Deus. Por esta razão, não temo em afirmar que Daniel não pecou ao desobedecer a ordem dada por Nabucodonosor para que toda a população do vasto império babi- lônico adorasse a estátua que ele mandou erguer. Diria o mesfho a respeito das parteiras Sifrá e Puá que, em desobediência ao rei do Egito, deixaram vivos os filhos das mulheres hebreias, incluindo Moisés. Também diria o mesmo a respeito da desobediência

LUXO. EXTRAVAGÂNCIA E CONSUMISMO

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religiosa dos apóstolos que não deixaram de anunciar o evangelho, desprezando a decisão quase unânime do sinédrio.

Á O senhor é contra o serviço militar?

Sou absolutamente contra o uso bélico em defesa da fé e em defesa dos perseguidos por sua fé. Nossas armas são diferentes. Quando os tiranos lançam suas baforadas, devemos volver nossos olhos para contemplar o socorro que Deus dá aos seus. Sofrer perseguição não significa ser abandonado por Deus. Os tormentos são uma provação e os tiranos não podem sobre nós mais do que Deus lhes permite, como se vê claramente na história de Jó. Temos de aprender a esperar a mão de Deus. Em algum momento, ele

freará o furor dos tiranos e os fará cessar a despeito de seus dentes

e fúria. Ganhar uma guerra religiosa pela força não nos é lícito.

Tudo quanto sustentarmos temerariamente sem a aprovação do Mestre não pode ter um resultado feliz. Sou igualmente contrário

ao engajamento do crente num exército mercenário. Se há gente no mundo que seja desregrada é aquele que, em vez de aplicar-se

a algum trabalho honesto e legítimo, corre atrás de um soldo a

quem mais lhe dá. E sobre que condição? Para matar e ferir ou, então, para ser morto ele próprio. Por causa da oferta - é muito comum hoje convocar soldados mercenários -, essa é uma tentação muito forte para os nossos jovens. Zuínglio em Zurique e eu aqui em Genebra temos lutado contra isso.

á Para ser verdadeiramente piedoso, o crente precisa evitar qual­ quer contato com a sociedade, com o mundo secular?

A piedade de alguns anos atrás preconizava isso. Mas o ensino

de Jesus é exatamente o contrário. Na chamada oração sacerdotal, feita na noite de quinta para sexta-feira, Jesus orou ao Pai: “Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno” (Jo 17.15). Se o crente fugir do ambiente não cristão, como será luz do mundo e sal da terra?

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• SOU EU, CALVINO

"

\

Á Foi o senhor que fundou a Academia de Genebra?

A primeira universidade de que temos notícia não era cristã nem europeia. Trata-se da universidade de Al-Azhar, fundada no Cairo no ano de 970. As duas primeiras universidades cristãs e europeias são a de Bolonha, na Itália, e a de Paris, na França, onde estudei. A primeira universidade protestante é a nossa Academia de Genebra, construída numa pequena colina próxi­ ma à catedral, não com dinheiro de algum príncipe ou cardeal, como tem sido comum até então. Eu mesmo levantei a maior parte dos recursos com os moradores da cidade. Lembro-me de uma pobre senhora que deu somente cinco moedas e de um tipógrafo bem-sucedido que doou a maior parte de sua fortuna. Ela foi inaugurada no dia 5 de junho de 1559, poucos dias depois do meu quinquagésimo aniversário. Todos os professores eram protestantes e muito competentes. Entre eles, cito os nomes de Pierre Viret, de 48 anos, e Theodoro de Beza, de 40. Quase todos vieram de Lausanne. Beza assumiu a reitoria. Grande parte dos estudantes vem de várias nações da Europa, especialmente do meu país. A matrícula está aumentando muito de ano em ano. Todos os alunos se comprometem oficialmente com a confissão de fé reformada. Após a conclusão do curso secundário, alguns permanecem para estudar teologia, medicina ou direito, que são os cursos mais procurados. No teto da varanda, sustentada por pilares de granito, mandamos colocar três passagens bíblicas em três línguas, todas sobre sabedoria: Salmo 111.10 em hebraico, 1 Coríntios 1.24 em grego, e Tiago 3.17 em latim.

O tempo todo o senhor se refere à Queda. Isso não seria superestimar o evento?

Tudo o que eu pregar ou escrever sobre a Queda será pouco. Dou graças a Deus porque a Reforma redescobriu o significado pleno da desobediência de nossos primeiros pais. Do conceito

á

LUXO, EXTRAVAGÂNCIA E CONSUMISMO

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incompleto da Queda, expresso na teologia de Tomás de Aquino, conhecido como Doctor Angelicus, que viveu três séculos atrás, partimos para o conceito de queda total e absoluta. O ser humano em sua totalidade é obra de Deus. Depois do acontecimento que

o capítulo três de Gênesis narra, ele tornou-se um ser caído em

toda a sua natureza, inclusive o intelecto e a vontade. Foi uma ruína sem medida que atingiu o homem, a sociedade, o mundo,

a história e a criação. Tudo foi desmantelado pela Queda, prin­ cipalmente a relação da criatura humana com a criação. Paulo resume: “Quando o pecado entrou no mundo por meio de um só homem, o pecado entrou na raça humana inteira, e o pecado dele trouxe consigo a morte a todos os homens” (Rm 5.12).

^ O senhor porventura gasta a mesma quantidade de saliva para pregar sobre a esperança apontada pelo precursor de Jesus, de que o Senhor é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo?

Convido-o a ouvir as minhas pregações na Catedral de Saint Pierre, a assistir às minhas aulas de teologia na academia e a ler os meus livros. Dou igual ênfase à Queda e ao levantamento do ser humano. A desgraça da Queda ajuda a entender a glória da salvação. Nunca deixo os rapazes da academia nem o povo de Genebra sem a esperança que está diante de nós. A Jesus Cristo incumbe restaurar todas as coisas à boa ordem, em estado como era antes da Queda. Isso significa que a presente confusão rei­ nante será desfeita pela vinda de Jesus. A Bíblia chega a dizer que o leão viverá sem causar dano e não mais se lançará à presa,

e que a serpente contentar-se-á de seu pó e nele se esconderá, e não ferirá com sua picada venenosa. Enfim, tudo quanto está em confusão e desordem será restaurado à sua ordem primitiva. Estamos aguardando o dia em que seremos semelhantes a Jesus,

e não mais sujeitos à humilhação e à servidão do pecado, por

dentro e por fora. Caminhamos em direção ao fim do mal, ao fim do tempo, ao fim da história, ao fim do mundo. Seremos

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• SOU EU. CALV1NO

plenamente restaurados e integralmente remidos. Esse é o evangelho que Jesus mandou pregar agora no mundo inteiro, antes da consumação de tudo. Não temos apenas duas boas novas para dar - a boa nova de que Jesus nasceu e a de que ele ressuscitou. Há uma terceira boa nova, aquela que um dos 24 anciãos disse a João: “Pare de chorar! O Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu e mostrou que é digno de abrir o livro e quebrar os sete selos” (Ap 5.5). Depois dos sete selos, depois das sete trombetas e depois das sete taças, Jesus descerá do céu em poder e muita glória, os mortos vão ressuscitar, os vivos serão transformados, os pecadores serão julgados por suas obras más, o Diabo será lançado fora, os céus e a terra que hoje existem serão destruídos e substituídos por novos céus e nova terra, nesta ou em outra ordem.

Pena que o senhor não tenha escrito um comentário do Apocalipse

De fato. Apocalipse foi o único livro do Novo Testamento sobre o qual não escrevi comentário algum. Quanto aos livros do Antigo Testamento, faltaram nove.

^

á A única coisa a fazer agora é esperar a plenitude da salvação?

Esperar só não! Isso nos levaria à indolência, à impaciência, à irritação. Precisamos adquirir a consciência não só da grande comissão, mas também de que a igreja é uma antecipação do reino de Cristo em sua vinda. Somqs como uma sociedade provisória, mesmo imperfeita, governada pelas leis de Cristo. Temos um ministério didático (a igreja precisa pregar e ensinar), um ministério político (a igreja precisa vigiar o Estado) e um ministério social (a igreja precisa socorrer os necessitados). Vem a calhar a citação de Paulo que aparece na Carta aos Efésios:

7

O DOUTOR QUE NÃO TINHA MAIS FÉ DO QUE UM PORCO

0 Mafigno tem triunfado so6re nós deforma a nos oôrigar a aèai^gr a ca6eça

á Tenho ouvido aqui e ali alguns rumores a seu respeito. Naturalmente alguma coisa é juízo temerário ou intriga. Ou­ tros, quem sabe, expressam mesmo alguma conduta senão repreensível, pelo menos estranha. Por exemplo, o senhor é a favor da tortura?

Sou obrigado a admitir que pelo menos uma vez eu me mani­ festei favoravelmente à tortura de alguém. Foi em 1555, por ocasião da queda dos libertinos. Referindo-me à prisão do chefe deles, numa carta a Farei, escrevi: “Veremos o que a tortura pode arrancar deles”.

á Disseram-me que o senhor às vezes usa expressões muito duras com seus oponentes.

Não nego. Certa vez eu disse que fulano de tal “não tinha mais fé do que um cachorro ou do que um porco”. O pior é que eu

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• SOU EU, CALV1NO

estava me referindo a Pierre Caroli, um doutor da Sorbonne que havia se tornado protestante e fora residir em Genebra. Perdi a paciência com ele por causa de algumas de suas idéias

não muito ortodoxas.

j

A Parece-me que o senhor fica no alto da escada para repreender

alguém lá embaixo, no primeiro degrau. Por exemplo, o senhor teria escrito à duquesa de Ferrara uma carta muito clara, dizendo que ela havia se desviado do reto caminho a fim de agir de acordo

com o mundo.

Não é verdade. Você leu apenas o primeiro parágrafo da minha carta. Nos outros, passei a usar o pronome na primeira pessoa do plural: “De fato o Maligno tem triunfado sobre nós de forma que temos sido forçados a gemer com isso, a abaixar nossa cabeça e a não fazer mais perguntas”.

Á A propósito, é verdade que o senhor teria dito ter uma “besta

selvagem feroz” em sèu interior que ainda não havia conseguido

dominar?

Sim. Eu estava fazendo a mesma confissão de Paulo: “Não faço o bem que quero, mas justamente o mal que não quero fazer é o que faço” (Rm 7.19). Eu estava me referindo à carga pecaminosa que todos carregamos dentro de nós. Eu estava lamentando essa propensão pecaminosa permanente, a qual só pode ser vencida por Jesus Cristo.

á Uma dessas propensões pecaminosas seria na área sexual?

Por que não? Se Paulo adverte a Timóteo a ser um exemplo na pureza e a tratar as mulheres jovens da igreja como irmãs, com toda pureza (lTm 4.12; 5.2), por que eu estaria livre de alguma tentação nesta área? Lutero dizia que “a castidade não é tão fácil quanto calçar e descalçar os sapatos”.

0 DOUTOR QUE NÃO TINHA MAIS FÉ DO QUE UM PORCO

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À boca pequena, alguém me passou a informação de que o senhor é vítima de tendências homossexuais.

O responsável por essa maledicência irresponsável é um ho­ mem chamado Jérôme-Hermès Bolsec, ex-monge carmelita que virou protestante e depois voltou para o seio da Igreja Católica. Além de teólogo e polemista, Bolsec formou-se em medicina e exerceu por algum tempo a profissão numa cidade perto de Genebra. Ele também diz que tenho o hábito de flertar com qualquer mulher que se aproxima de mim. Quanto à prática homossexual, a minha convicção é que ela é uma escolha per­ vertida e execrável, como você pode ver em meu Comentário aos Romanos, logo no capítulo um. Quanto à outra acusação, ela também não procede.

á Chamam-no às vezes de o “grande ditador de Genebra”. Isso expressa a verdade?

É apenas um mito, uma completa invenção que representa uma grave distorção dos fatos. Durante quase toda minha vida, aqui em Genebra, eu fazia parte da classe C, formada pelos estrangeiros residentes na cidade, e não da classe A, formada pelos nativos. Estes eram chamados de citoyens (cidadãos) e aqueles de habitants (habitantes). O corpo diretivo do Petit Conseil (Pequeno Conselho), responsável por todos os aspectos da vida de Genebra, é inteiramente composto de citoyens. Os habitants não têm nenhum direito de voto, não podem portar armas nem assumir posto público. Eventualmente, podem tornar-se pastores ou dar aulas, mas somente em razão da ausência praticamente absoluta de outras pessoas nascidas em Genebra e qualificadas. Somente em 1559, com a idade de 50 anos, é que eu fui promovido a cidadão de Genebra. Se nem citoyen eu era, como seria o grande ditador de Genebra? Pode ser que, por meio das minhas pregações na Catedral de

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• SOU EU. CALV1N0

Saint Pierre, ao redor da qual a cidade está construída, das minhas aulas na academia, dos meus atendimentos pastorais, dos meus livros e do meu testemunho, eu tenha exercido algu­ ma influência sobre a população e nos destinos de Genebra. Mas sem o menor conteúdo político.

A Por falar em testemunho, o seu testemunho é sempre bom?

Não tanto quanto o meu dever e o meu desejo. Algumas ve­ zes perco as estribeiras e deixo a carne aparecer. Nem sempre domino a minha irritabilidade e controlo o meu pavio curto. Tenho sido obrigado a confessar tristemente a Deus as vezes em que não sou capaz de me manter nos limites, deixando que minha bílis assuma o controle da minha mente, derramando amargura por todos os lados. O tratamento que dispensei, por exemplo, a Andreas Osiander foi agressivo e arrogante. E na disputa com Miguel Serveto cheguei a gritar com ele.

A É verdade que uma criança foi decapitada em Genebra por ter

agredido os pais dela?

Ao que eu saiba, isso nunca aconteceu em Genebra.

A Mas o enforcamento do médico

herege Miguel Serveto aconteceu

Aconteceu, sim, e eu não posso negar a minha participação. Fui eu que pedi a prisão dele, fui eu que fiz acusações contra ele, fui eu que debati perante o Pequeno Conselho para provar que as heresias dele estavam ameaçando a igreja de Cristo. Mas o julgamento, a condenação e a execução de Serveto foram obra do Pequeno Conselho. O homem foi queimado numa estaca no dia 27 de outubro de 1553, com a idade de 42 anos. Certo ou errado, era isso que fazíamos com os hereges em toda a Europa. Embora eu não tivesse paciência com Serveto, fiz de tudo para que ele fosse morto de outra maneira que não pelas chamas, mas

0 DOUTOR QUE NÀO TINHA MAIS FÉ DO QUE UM PORCO

não obtive sucesso. Por meio de muitas cartas, tentei demovê-lo de seus erros, mas outra vez sem sucesso. Mandei as minhas

Institwtas para ele e ele me enviou as suas Restitutas, publicada secretamente em Viena naquele ano. Enquanto em muitos outros lugares da Europa a condenação de hereges ou pseudo-hereges

à pena máxima é algo rotineiro, Serveto foi o único indivíduo

executado em Genebra desde que eu vim para cá. (No período de três anos, de maio de 1547 a março de 1550,39 pessoas foram para a fogueira na França pelo mesmo motivo.) Não comparecí

à execução de Serveto, mas soube que foi uma cena horrível: os

executores eram inexperientes e os espectadores, horrorizados com os prolongados gritos da vítima em agonia, tentavam, por piedade, atiçar o fogo para queimar mais rapidamente, jogando feixes de lenha sobre ele a fim de apressar o processo da morte.

Com esse mesmo intuito, resolveram enforcá-lo ali mesmo na estaca. Meia hora depois Serveto era um homem morto.

Á Por falar em heresia, o já citado Jérôme Bolsec tem espalhado a notícia de que o senhor quer abolir o domingo a fim de observar, em lugar dele, a sexta-feira.

Isso é mentira. Nunca demonstrei o menor sinal de desejar tais mudanças, aliás, minha posição é totalmente contrária a elas.

^ Na cidade francesa de Poitiers ouvi dizer que o senhor enrique­ ceu-se em Genebra, está cercado de pompa e faz todo mundo beijar seus pés

Venha até minha casa aqui na rua do Canhão e veja como eu vivo. Pergunte ao cardeal Sadoleto qual foi a impressão dele do meu estilo de vida quando ele veio me visitar pouco tempo atrás. Ele estranhou que eu mesmo houvesse aberto a porta da casa para ele entrar, e não um criado. Aliás, ele achava que eu tinha um monte de pessoas para me servir. Sou verdadeiramente rico no sentido de estar abundantemente satisfeito com meus

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• SOU EU, CALVINO

escassos recursos. Eu me realizo com riquezas do tipo que o dinheiro não pode comprar.

Deixe-me tocar agora num ponto delicado: o senhor é hipocondríaco?

De fato é um ponto delicado, mas vamos a ele. Tenho pensado no assunto. A impressão que tenho é que sou realmente uma pessoa doente e uma das minhas doenças seria a tal hipocondria a que o amigo se refere. Valendo-me dos diagnósticos médicos e da minha própria observação, tenho sofrido dos seguintes problemas de saúde que cito em ordem alfabética, e não em ordem de acometimento:

artrite, asma, calafrios, cálculos renais, dificuldades respiratórias, en­ xaqueca, ascarídeos intestinais, febre, gota, hemorragias, indigestão, lassidão renal, nefrite, pleurisia, tosse e úlcera. Disseram-me também que eu tenho um tipo de tuberculose. Já me consultei com eminen­ tes médicos parisienses, como o doutor Acatus e o doutor Tagante. Talvez o meu erro seja pensar demais e falar demais em doenças e me preocupar demais com elas. A despeito de tudo, tenho trabalhado incansavelmente pelo evangelho - pregando, ministrando aulas, escrevendo e participando de reuniões.

A Sem mudar de um assunto para outro, como é o seu temperamento?

De vez em quando sofro de melancolia. Talvez eu seja muito emotivo. Só me casei aos 31 anos, mas fiquei viúvo nove anos depois. Foi uma luta enorme não ficar esmagado com a morte de Idelette. A morte de Courrault, o pastor de Genebra que nos havia abençoado muito, a mim e a Farei, quando havíamos sido expulsos da cidade, abateu-me de tal maneira que não consegui, na época, estabelecer limites para o meu pesar. Acresce que eu sou de temperamento tímido, mais no passado do que agora. Porém, tenho sempre dado glória a Cristo: glória à sua palavra, glória à sua pessoa, glória à sua vida e glória à sua graça! Isso tem me bastado.

8

LIVRO POR LIVRO, CAPÍTULO POR CAPÍTULO, VERSO POR VERSO

A DaCavra de (Deus é tão sagrada para mim como se eu a ouvisse dos (aôios do próprio Deus

-4 Para a reforma em curso, o “sola Scriptura" é mais importante do que o “sola gratia”?

Não digo que um é mais importante do que o outro. Prefiro dizer que o primeiro “somente” (o sola Scriptura) nos leva ao segundo “somente” (o sola gratia). Isto é, na leitura das Escrituras, redes- cobrimos que a salvação é um dom gratuito, como Paulo ensina na Epístola aos Romanos. Há muito tempo, a igreja perdeu de vista não só o “somente a graça” como também o “somente as Escrituras”. A reforma está sendo feita graças à redescoberta da Bíblia. Essa foi a redescoberta inicial. Estamos colocando a Europa em chamas a partir da redescoberta da autoridade da Bíblia.

á O que houve com a Bíblia antes do presente século?

Ela ficava bem guardadinha nas celas dos mosteiros e nas sacristias das catedrais. Não muito longe do povo, porém

66

• SOU EU. CALVINO

não nas mãos do povo. O mínimo que se pode dizer é que a igreja tem privado o povo comum das Santas Escrituras sob o pretexto de serem elas um mistério oculto, ou seja, um livro de difícil interpretação. No entanto, o que a igreja deve fazer é exatamente o contrário: encorajar a leitura da Bíblia. Lutero dizia que “as Sagradas Escrituras são uma luz especial, muito mais clara que o próprio sol, principalmente nas coisas que dizem respeito à salvação e às necessidades”. Gosto de afirmar que as Escrituras são o cetro do reino de Cristo e que manter o povo na ignorância é uma atitude contrária e altamente prejudicial.

á O que o senhor faz em Genebra em favor do conhecimento da Palavra por parte do povo?

Havendo Deus me tirado de minha origem obscura e humilde, considerou-me digno de ser investido no sublime ofício de pre­ gador. Estou aqui de. maneira permanente desde 1541. Dessa data até hoje devo ter pregado mais de 3.500 vezes. Prego em média 170 sermões por ano. Nos primeiros oito anos, pregava três dias por semana e duas vezes aos domingos. A partir de 1549, passei a pregar todos os dias, uma semana sim e uma semana não.

Sem interrupção?

Só deixo de pregar por motivo muito forte. Por ter ficado gravemente enfermo na primeira semana de outubro de 1559, pouco depois de comemorar o meu quinquagésimo aniversário, fiquei seis meses sem pregar, o que me causou muito incômodo. Vez e outra, nestes últimos dias, não tenho podido caminhar normalmente e então alguém me carrega e me coloca no púlpito da Catedral de Saint Pierre. E, então, continuo pregando.

LIVRO POR LIVRO. CAPÍTULO POR CAPÍTULO, VERSO POR VERSO

Á Seu sermão é inspirado por algum acontecimento de Genebra, algum problema na igreja ou por sugestão de alguma ovelha?

Costumo pregar sobre um livro da Bíblia, capítulo por capítulo, versículo por versículo. Quando acabo um dos livros, passo para outro. Tenho feito assim a vida inteira. Trata-se de uma pregação sequencial. Ao terminar cada sermão, digo às minhas ovelhas: “Continuo no próximo culto”. Por exemplo, só sobre o livro de Atos, preguei 89 sermões entre 1549 e 1554. Fiz 149 sermões sobre Ezequiel, 159 sobreJó, 200 sobre Deuteronômio, 353 sobre Isaías, 123 sobre Gênesis, 107 sobre 1 Samuel, 87 sobre 2 Samuel, e assim por diante. Faço tanta questão de não quebrar a sequência que, ao voltar a Genebra em setembro de 1541, depois de ter sido banido da cidade três anos antes, reiniciei minhas pregações exatamente onde havia parado em abril de 1538. Fiz o mesmo depois de me ausentar do púlpito por meio ano por motivos de enfermidade.

Á Tudo indica que o senhor dá uma relevância enorme à pregação.

Por que não o faria se “a fé vem por ouvir a mensagem e a mensagem vem por meio da pregação a respeito de Cristo” (Rm 10.17)? Em minha opinião, a reforma da igreja só será bem-sucedida se o poderoso instrumento da pregação for cada vez mais desenvolvido. Mas há um porém: a pregação não pode ser desprovida de vigor. Deve ser vivida, pois o seu pro­ pósito é ensinar, exortar, reprovar de tal modo que, se algum incrédulo entrar no recinto, ele tenha a sua atenção capturada e seja convencido. A pregação não é para chamar a atenção para o pregador, sua retórica, sua eloquência, seu porte e seu conhecimento de línguas originais. Parece haver hoje em dia pouquíssima pregação vigorosa. A maioria dos pastores lê um discurso escrito. Alguns extrapolam todos os limites e pregam fantasias tolas. Paulo exorta: “Se você prega, limite-se a pregar a

68

• SOU EU, CALVINO

X

mensagem de Deus” (Rm 12.7). No verso seguinte, o apóstolo continua: “O que ensina, esmere-se em fazê-lo”. O esmero é necessário porque em geral o sermão não goza de boa reputação. Há quem chegue a dizer que o sermão “é um arrazoado longo e enfadonho com que se procura convencer alguém”. Além do mais, nem todos os ouvintes têm a mesma capacidade de prestar atenção. Temos de pregar com autenticidade (o pregador faz o que prega), com autoridade bíblica (ele começa a pregação com as palavras “assim diz o Senhor”), com clareza (ele leva a sério a exortação de Hc 2.2), com humildade (ele não se esquece da sua dependência da Videira), com paixão (tanto pelo conteúdo da mensagem como pelo ouvinte), com simplicidade (ele não usa palavras complicadas), com substância (ele oferece algo para matar a fome e a sede da alma faminta e sedenta) e com unção (ele não deixa o Espírito Santo de lado).

V O que acontece primeiro: as mensagens bíblicas verbais ou os

comentários bíblicos escritos?

Os comentários de vários livros da Bíblia que escrevi são frutos das minhas pregações na catedral e das minhas aulas na academia. Mas o que vem primeiro mesmo são as minhas leituras devocio- nais das Escrituras. Uma vez bem alimentado, eu dou de comer aos outros, seja pela palavra pregada, seja pela palavra escrita.

á Theodoro de Beza, seu colega de ministério, costuma exortar

os estudantes de Genebra a lerem os seus comentários, porque,

depois da Bíblia, o senhor é, na opinião dele, “incomparável na interpretação das Escrituras”. O que o senhor aprecia mais: pregar

ou escrever?

Realizo-me de ambas as maneiras. Gosto muito de pregar e gosto muito de escrever. Mas há algumas diferenças notórias. Ao pregar, eu sei quem está ouvindo os meus sermões. Ao escrever, eu não sei quem está lendo os meus escritos, a não ser algumas

LIVRO POR LIVRO, CAPÍTULO POR CAPÍTULO. VERSO POR VERSO

69

poucas vezes. Mas em Genebra, pelo menos os meus alunos da academia me ouvem e me leem.

Á Qual dos 66 livros da Bíblia o senhor mais aprecia?

O meu comentário mais longo é o de Salmos. São mais de

2.600 páginas impressas em quatro grandes volumes. Alguém podería pensar que é o maior por ser o comentário do livro mais longo da Bíblia (uma coleção de 150 salmos). Embora eu

tenha grande estima pela Carta de Paulo aos Romanos, por ser

a

porta amplamente aberta para a sólida compreensão de todo

o

restante das Escrituras, parece que minha predileção recai

mesmo sobre os Salmos. Tenho por costume chamar esse livro prático de uma anatomia de todas as partes da alma, pois não há

sequer uma emoção da qual alguém porventura tenha participado que não esteja nele representada como num espelho. Ou melhor,

no livro de Salmos, o Espírito extirpa da vida todas as tristezas,

as

dores, os temores, as dúvidas, as expectativas, as provocações,

as

perplexidades, enfim, todas as emoções perturbadas com as

quais a mente humana se agita. As demais partes das Escrituras contêm os mandamentos, os quais Deus ordenou a seus servos que nos anunciassem. Nos Salmos, porém, os salmistas (gosto de chamá-los de profetas porque falam com Deus e expõem aberta­

mente todos os seus íntimos pensamentos e afeições) atraem cada um de nós a fazer, individualmente, um exame de nós mesmos,

a fim de que nenhuma das nossas debilidades e nenhum dos

nossos muitos vícios permaneçam ocultos. Escreví esse comentário

em 1557, quando estava com 48 anos, um ano antes de adoecer gravemente. Dediquei-o aos leitores piedosos e sinceros.

Á A Bíblia é de fato inspirada por Deus?

A resposta está na própria Bíblia: “Toda a Escritura Sagrada é inspirada por Deus e é útil para ensinar a verdade, condenar

70

• SOU EU. CALVINO

o erro, corrigir as faltas e ensinar a maneira certa de viver” (2Tm 3.16). A Palavra de Deus é tão sagrada para mim como se

eu a ouvisse dos lábios do próprio Deus, o seu autor. O conheci­ mento das Escrituras desde a tenra infância é uma bênção especial da parte de Deus. É verdade, como Paulo ensina, que a Escritura

é proveitosa não só para consolar e encorajar, mas também para

apontar os nossos erros. Tenho instruído os cristãos a não serem soberbos na hora de ouvir uma advertência nem a se aborrecerem

e se revoltarem quando os pregadores, por meio da Palavra, põem o

dedo na ferida, sobretudo se for alguém da classe alta. A pregação

é para todos. Se somos reis e príncipes, corresponde-nos inclinar nossas cabeças para receber o juízo de Deus.

A O que é o “conceito de acomodação” que é atribuído ao senhor?

É algo muito simples. Eu entendo que a revelação é um ato de condescendência divina. Em sua Palavra, Deus se acomo­ da à nossa capacidade, balbuciando-a a nós, assim como os avós fazem com as crianças. Deus não pode se revelar a nós de nenhuma outra maneira senão por meio de comparações com coisas que conhecemos. Por exemplo, ele não tem braços, boca e assim por diante, como se vê na Bíblia. Essa maneira de expressar são apenas metáforas vivas e memoráveis usadas para ele se comunicar conosco. Tenho insistido que nem tudo o que

a Bíblia diz sobre Deus ou sobre o mundo deve ser entendido

literalmente. O nosso Deus é aquele que desce ao nosso nível

e se adapta à nossa capacidade. Vemos isso na encarnação, nas Escrituras e nos sacramentos.

A A Escritura fora da sacristia e nas mãos do povo comum pode

vir a constituir um problema?

Com Escritura ou sem Escritura, sempre há aqueles que não sabem lidar com bom senso em matéria de religião. Vez e outra

LIVRO POR LIVRO. CAPÍTULO POR CAPÍTULO. VEIISO POR VERSO

71

descambam para o extremismo. A religião é um campo fértil

para o comportamento fanático. Cito, por exemplo, os profetas de Zwickau e os abecedarianos, os quais deram muito trabalho

a Lutero e causaram grandes estragos à Reforma. Um deles, cha­

mado Nicholas Storch, teve a audácia de escolher 12 apóstolos

e 72 discípulos, na certeza de que estava devolvendo à igreja os profetas! Os abecedarianos nutriam um desprezo absoluto por

qualquer forma de conhecimento e incentivavam inclusive o analfabetismo. Diziam que o cultivo da teologia era uma forma de idolatria e consideravam os eruditos como falsificadores

da Palavra. Para eles, a única luz de que o ser humano precisa promana do Espírito Santo por meio de visões e êxtases. Na França e em outros lugares, alguns irmãos entendem que devem quebrar todas as imagens dos templos católicos para cumprir

à risca o que está no Antigo Testamento. Porém, mesmo com

estas distorções, tenho por certo que é ímpia e danosa a con­ duta da igreja em privar qualquer pessoa das Santas Escrituras, inclusive o povo comum, sob o pretexto de serem elas de difícil

interpretação. E, por falar nisso, quero frisar que a Escritura é

a melhor intérprete de si mesma. Na junção e na comparação

dos textos bíblicos, podemos entender melhor as passagens que nos parecem mais difíceis. Mesmo havendo em seu tempo aqueles que deturpavam as Escrituras a seu bel-prazer, Pedro nunca mandou esconder a Palavra dos crentes (2Pe 3.16). Acho extraordinário o elogio que o autor dos Atos dos Apóstolos faz aos novos convertidos de Bereia: eles são mais nobres que os tessalonicenses porque diariamente examinam as Escrituras “para ver se elas davam apoio ao que Paulo dizia” (At 17.11). Sem a vigilância dos que leem a Bíblia, a igreja fica livre para cometer muitos erros, como tem acontecido. Por isso eu digo:

problema maior que as distorções é trancar a sete chaves na gaveta de algum armário da casa paroquial as Escrituras, nossa

única regra de fé e prática!

72

• SOU EU, CALV1N0

á O senhor chamaria de reforma religiosa o que aconteceu em Jerusalém na época de Esdras e Neemias?

Por que não? Foi uma reforma e tanto, e o papel das Escrituras fica evidente. A reforma começou no coração de Esdras, quan­ do ele começou a ler a Bíblia, a entender a Bíblia e a ensinar a Bíblia. Quando chegou a ocasião oportuna, o povo reuniu-se para ouvir a leitura pública da Bíblia feita por Esdras, desde o

nascer do sol até o meio-dia. Depois, os levitas foram ao encon­ tro do povo para explicar o que havia sido lido. Foi então que Jerusalém pegou fogo. Houve choro, arrependimento, confissão de pecado, redescobertas de coisas importantes esquecidas com

o tempo, mudança de comportamento, alegria e exultação. Algo

muito parecido com o que está acontecendo 11a Europa desde

a década de 1510!

9

DEPENDENDO DO ESPELHO

O SER HUMANO SE VÊ FEIO DEMAIS

0 homem peca com o consentimento

de uma vontade pronta e disposta

á Quando o senhor fala em depravação total, um dos seus temas prediletos, confesso que acho a palavra forte demais.

Porém é a mais apropriada. O profeta Isaías é mais candente e contundente do que eu. Por volta do ano 700 antes de Cristo, ele declarou ao povo de Israel: “Vocês estão doentes da cabeça aos pés”. Para qualquer parte da alma e do corpo que olhemos, é impossível ver algo que não seja impuro, profano e abominável diante de Deus. A inteligência do ser humano é cega, coberta de erros infinitos e sempre contrária à sabedoria de Deus. Nossa vontade é má e cheia de afetos corrompidos. Somos incapazes de quaisquer boas obras, inclinando-nos impetuosamente para a iniquidade. Estamos totalmente tomados pelo veneno do pecado. Quando pecamos, pecamos constrangidos por uma premente necessidade e com o consentimento de uma vontade bastante pronta e inclinada a isso. Somos oprimidos por uma grande

74

• SOU EU. CALVINO

carga de pecados e maculados por uma infinita corrupção. Essa é a verdade nua e crua. Não há o que tirar nem pôr.

A Então, por que o ser humano não se enxerga assim, totalmente

depravado?

Além de ser um expediente cie defesa, o ser humano é viciado no pecado, incapaz de abrir os olhos para suas próprias misérias (para a miséria alheia pode ser que não tenha dificuldade algu­ ma). O seu pecado maior é o orgulho. E a maior barreira para a pessoa se reconhecer depravada. A palavra é forte demais para

o orgulhoso. A consciência dessa pessoa está silenciada, calada,

anestesiada, cauterizada, aposentada, encostada, de tal forma que

ela não presta para mais nada, pois está definitivamente morta.

A Definitivamente?

Até que a maravilhosa graça de Deus a alcance. Um dos ministérios do Espírito Santo é convencer o pecador do pecado, da justiça e do

juízo. De uma hora para outra, o Espírito é capaz de acordar, ressus­ citar e descauterizar a consciência. Veja o que aconteceu com o filho mais novo da parábola de Jesus: a certa aluira, naquela terra distante, naquele chiqueiro, o rapaz caiu em si e declarou-se pecador tanto ao Pai lá de cima quanto ao pai cá de baixo. Veja o que aconteceu com

o publicano de Jericó: a certa altura da conversa com Jesus, Zaqueu

levantou-se e declarou que daquele dia em diante não seria amante do dinheiro e devolvería o que havia roubado dos outros. Veja, por fim, o ladrão da cruz: às 9h da manhã ele dizia impropérios a Jesus, mas antes do meio-dia ele já havia reconhecido os seus crimes e apelado para o Senhor. O ministério cristão é este: abrir os olhos dos pecadores a fim de que possam voltar-se das trevas para a luz.

^ A depravação total tem uma história?

A depravação total vem da Queda e da desobediência dos nossos primeiros pais, Adão e Eva, no paraíso. Ali, nossa natureza

DEPENDENDO DO ESPELHO 0 SER. HUMANO SE VÊ FEIO DEMAIS

75

tornou-se tão envenenada que todos nós somos concebidos e nascidos em pecado. O apóstolo Paulo explica que o pecado entrou no tempo (logo após a criação do homem) e no espaço (no mundo) por meio de um só homem (Adão), e que o pecado desse homem trouxe consigo a morte. Tanto um (o pecado) como o outro (a morte) começaram a dominar a raça humana.

Sendo eles (os nossos primeiros pais) o tronco de toda a huma­ nidade, o delito de seus pecados foi imputado a seus filhos de geração em geração até chegar a nós. Neles, todos decaímos da nossa retidão original e da nossa comunhão com Deus. Dessa corrupção original ficamos totalmente indispostos, incapazes

e adversos a todo bem e inteiramente inclinados a todo mal. E

preciso frisar que todos, absolutamente todos, estamos plenos

da concupiscência e da inclinação má desde a concepção, desde

o ventre materno, desde o nascimento. Essa inata pestilência

nos coloca numa situação muito incômoda diante de Deus.

á 0 senhor é o detentor da doutrina da depravação total?

É a minha pregação, a pregação de Martinho Lutero, a pregação

de John Knox, a pregação de Agostinho, a pregação de Paulo, a pregação das Santas Escrituras. Lutero lembra que a inclinação ou propensão para o mal parece uma coisa de pouco peso, mas não é. Na verdade, essa dolorosa pecaminosidade humana é um impulso contínuo, não uma qualidade quiescente, mas um mal irrequieto de dia e de noite, pois ela vive enquanto vivemos. Ela pode ser abafada, mas jamais aniquilada por completo, a não ser pela morte física. A má inclinação não morrerá de todo antes que a carne se torne pó e seja criada de novo. É assim que ensina também Eclesiastes: “O coração do homem está cheio de maldade e de loucura, durante toda a vida”. O curioso é que o tema da depravação total é debatido por autores não necessariamente comprometidos com o cristianismo. O filósofo latino Sêneca, por exemplo, declarou há cerca de um milênio e meio: “Somos todos perversos. O que

76

• SOU EU. CALVINO

um reprova no outro, ele o achará em seu próprio peito. Vivemos entre perversos, sendo nós mesmos perversos”.

Á A doutrina reformada da depravação total impede que se veja alguma coisa boahp ser humano?

De forma nenhuma. Quando o ser humano se mede por outro ser humano, ele é sempre capaz de encontrar algum bem em si mesmo ou nos outros. Antes de cometer um crime de morte,

o assassino pode socorrer uma criança que acaba de cair do

cavalo e, antes de voltar para casa, ele pode encher de alpiste as gaiolas dos passarinhos da casa daquele que ele acaba de matar. O homem iníquo pode construir escolas, creches e hospitais.

E preciso fazer distinção entre depravação total e depravação

absoluta. Depravação total não significa que o ser humano seja incapaz de realizar algum bem humano. Porém, insisto que ela

significa que o homem e a mulher são tão degradados quanto podem ser e estão ambos distantes de toda capacidade de se autoajudarem, porque, como expressa Paulo, eles estão mortos em delitos e pecados.

Á Em vista da depravação total, há alguma esperança para o pecador?

A única esperança da vítima da depravação total, como afirmei

antes, está na maravilhosa graça de Deus. Quando ela o alcança,

o pecador se vê noutro espelho e percebe o quanto é horroroso,

mais por dentro do que por fora. Ele se vê feio demais e culpado

demais. Ele eleva os olhos para o monte e pergunta: “De onde virá o meu socorro?”. Então ele não mais enxerga a ira de Deus, mas a sua misericórdia com tanta clareza que pode exclamar profundamente: “O meu socorro vem do Senhor Deus, que fez

o céu e a terra” (SI 121.2); ou: “Graças a Deus por Jesus Cristo!”.

Jo ã o C alvino (1509-1564 ): “ O m itir C alvino d a

Jo ã o C alvino (1509-1564 ): “ O m itir C alvino d a s fo rça s d a evo lu çã o ocid e n ta l

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Genebra, cidade-estado à margem do lago Léman e rodeada de montanhas. Aqui Calvino viveu a medade de sua vida

Ja c q u e s g ratia a ntes d e Lutero e C

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G uilherm e Farei (1489-1564 ) c o m e ç a a p regar

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A ca d e m ia de G enebra, ju nho de 1559 in a u

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da Ingla terra durante a m enorida de de E duardo

Som erset, regente

terra durante a m enorida de de E duardo Som erset, regente Theodore de Beza (1519-1605),

Theodore de Beza (1519-1605), su b stitu to de

C a lvin o

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Sr. J o ã o C alvino, F ie l S e rv id o r d e Je su s C risto

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CARDINAL SADOI.ETO .VÍMT» |CALVIN.

Ja co p o S a dole to (1477-1547),

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48

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latinista, filósofo, teólo go e cardeal. N a tentativa

o ca to licism o , en tre g o u p e sso alm ente a C alvino

o ca to licism o , en tre g o u p e sso alm ente

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P ro te sta n tism , v. 2. Londes,

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retira das de: W YLIE, Ja m e s A itke n. The

N ova York: C assei & C o m pa ny,

Paris e

H isto ry o f Lim ited ,

10

O ABSOLUTAMENTE SANTO E O ABSOLUTAMENTE PECADOR

Nunca tente ôuscar a (Deus em outro fugar senão em sua (Pafavra

-4 Seus comentários bíblicos enchem não sei quantos volumes nem quantas páginas. A edição de 1541 de “As Institutas” tem quatro volumes e quase mil páginas. Se fossem impressas suas centenas de cartas, teríamos mais alguns livros e mais algumas páginas. A minha pergunta é: para conhecer melhor suas idéias religiosas qual deles seria mais indicado?

Como deixo bem claro no próprio livro, eu indicaria, sem pestanejar, As Institutas.

Á Costuma-se dizer que o senhor é mais um cérebro do que uma pessoa

O cérebro foi criado por Deus e é uma bênção. Pensar é tam­ bém crer. Uso meu cérebro para servir a Deus. Mas um cérebro não cativo às Escrituras e ao Espírito é uma desgraça. Por ter cérebro, tentei fornecer ao leitor de As Institutas a maior clareza

86

• SOU EU, CALVINO

possível e escrever uma obra a mais abrangente possível. Além de cérebro, tenho coração; além de corpo, tenho alma.

Á 0 que significa ter um cérebro cativo às Escrituras?

IsscTquer dizer que eu sou um teólogo bíblico, um escritor

bíblico, um pregador bíblico, um professor bíblico. A primeira

e mais relevante fonte de minhas idéias religiosas é a Bíblia. Sinto-me um obediente expositor das Sagradas Escrituras. A

Europa está cada vez mais cheia de livros religiosos. Como dizia Lutero, há autores que “enchem livros inteiros de baboseiras

e poluem todas as igrejas com essa conversa fiada e inútil que

eles próprios não entendem”. Deixando-me influenciar pela Bíblia e sendo fiel ao que ela diz, não tenho como nem quero produzir mais uma coleção de baboseiras.

Á O senhor dedicou a primeira edição de “As Institutas” a Francisco I, rei da França de 1515 a 1547. Se ele realmente leu o livro, ele teria descoberto o ponto central de seu pensamento religioso?

A primeira edição era muito pequena e parecia mais um cate­ cismo. Mas o ponto central de todas as edições de As Institutas

é Jesus Cristo. Meu pensamento é dominantemente cristocên-

trico, não apenas pelo fato de que ele se centraliza na revelação

de Deus em Jesus, mas também porque essa revelação desvenda um paradigma que governa outras áreas centrais do pensamento

cristão. Outra vez cito Lutero: “O ponto principal do evangelho, seu fundamento, é acolher e reconhecer Cristo como dádiva

e presente que nos foi dado pessoalmente por Deus”. Se meu

livro trata das institutas da religião cristã, como seria possível deixar Jesus em outro lugar que não fosse o primeiro? A ênfase demasiada que temos dado à filosofia tem equiparado Aristóteles a Cristo. Se todo cristão reformado tem a obrigação de reconhecer Cristo no centro de sua fé, de seu cérebro, de suas

0 ABSOLUTAMENTE SANTO EO ABSOLUTAMENTE PECADOR

87

emoções e de sua vida, mais obrigação ainda tem os seus pastores

e os seus teólogos! Não podemos permitir o eclipse de Cristo.

Á A “Suma Teológica”, de Tomás de Aquino, publicada em 1271,

tem a seguinte estrutura: 512 questões, 2.669 artigos e mais de 10.000 críticas e réplicas. Qual é a estrutura de “As Institutas”?

A edição de 1559 divide-se em quatro livros, cada um deles

tratando de um tema geral. Cada livro é dividido em capítulos

e cada capítulo, dividido em seções. Isso facilita a leitura, a releitura, o manuseio, o ensino e as citações. O que me levou

a organizar o livro dessa maneira foi minha preocupação pe­

dagógica. O Livro 1 trata da doutrina de Deus, da sua criação

e providência. O Livro 2 trata dos fundamentos da doutrina

da redenção, do pecado e da pessoa e obra de nosso Redentor,

isto é, de Jesus Cristo. O Livro 3 trata da aplicação da obra de

Cristo (fé, arrependimento, justificação, eleição) e contém um pequeno manual da vida cristã. E o Livro 4 trata da doutrina

da Igreja - seu ministério, seus sacramentos e sua relação com

o Estado.

Á O senhor insiste em dizer que “o conhecimento de Deus e o

conhecimento de nós mesmos são interligados”. Como assim?

O que tenho dito é que, sem o conhecimento de Deus, não

podemos nos conhecer verdadeiramente; e, sem nos conhecer­

mos, não podemos conhecer a Deus verdadeiramente. As duas formas de conhecimento estão unidas por muitos vínculos. Embora sejam distintas, não podem ser separadas. É impossí­ vel alcançar qualquer uma delas isoladamente. Exemplifico: o conhecimento de um Deus absolutamente santo me obriga a conhecer um ser humano absolutamente pecador, e vice-versa.

O conhecimento de um Deus perdoador me obriga a conhecer

um ser humano culpado, e vice-versa.

• SOU EU, CALVINO

Á Como se pode chegar ao conhecimento de Deus?

O conhecimento genérico de Deus pode ser discernido por

meio da criação. Além disso, Deus dotou os seres humanos de um senso ou pressentimento inato sobre sua existência. Chamo isso de sensws divinitatis (senso de divindade) ou semen religionis (semente de religião). É como se algo sobre Deus já estivesse gra­ vado no coração de cada pessoa. Como consequência, vejo três fenômenos: a universalidade da religião, a consciência de alguma culpa e o temor servil de Deus. Qualquer pessoa, por meio de uma reflexão racional e inteligente a respeito da criação, deve

ser capaz de alcançar o conceito de Deus. A criação é como um teatro ou um espelho através do qual se demonstra a presença de Deus, de sua natureza e seus atributos. É por isso que eu tenho

apego à astronomia e a outras ciências naturais. Elas são capazes

de ilustrar, com maior profundidade, a maravilhosa ordem da

criação e a sabedoria divina que ela aponta. Embora tanto invi­ sível como incompreensível, Deus se faz conhecer pelo fato de vestir a roupagem da criação. Apesar de imperfeito e confuso, esse conhecimento inicial de Deus já é suficiente para privar

a humanidade de qualquer desculpa de ignorá-lo. Esse seria o

primeiro degrau a subir. O conhecimento mais completo e mais pormenorizado de Deus vem pelo conhecimento das Escrituras

e do próprio Jesus, que disse: “Ver a mim é ver o Pai” (Jo 14.9).

á Uma simples leitura da Bíblia pode nos levar a Deus?

As Escrituras somente podem ser lidas e compreendidas de forma adequada por meio da iluminação do Espírito Santo. É necessário ter em mente que as Escrituras representam a pala­ vra de Deus mediada na forma de palavras humanas, sobre as quais pesa a autoridade divina, devido à sua origem. É como Pedro explica: “Nenhuma profecia das Escrituras é assunto de opinião particular. Por quê? Porque não é algo produzido no

0 ABSOLUTAMENTE SANTO E O ABSOLUTAMENTE PECADOR

89

coração humano. A profecia resulta da ação do Espírito Santo, que impulsionou homens e mulheres a proclamar a Palavra de Deus” (2Pe 1.21). O divino e o humano coexistem sem que comprometam nem destruam um ao outro. Se Deus só pode ser plenamente conhecido por meio de Jesus Cristo, como afirmei na resposta anterior, Jesus Cristo, por sua vez, só pode ser conhecido pelas Escrituras. Minha regra é: nunca tentar buscar a Deus em outro lugar que não for a sua Santa Palavra, nem falar ou pensar a seu respeito além daquilo que a Bíblia, como nosso guia, nos apresenta.

á O senhor tem preferência pelo Antigo Testamento ou pelo Novo Testamento?

Não existe, ou não deveria existir, essa rivalidade entre um e outro. Reporto-me a Paulo: “Toda a Escritura Sagrada é inspirada por Deus e é útil para ensinar a verdade, condenar o erro, corrigir as faltas e ensinar a maneira certa de viver” (2Tm 3.16). Existe uma semelhança e uma continuidade fundamentais entre o Antigo e

o Novo Testamento. Deus não pode ter um tipo de procedimento

no Antigo Testamento e, a seguir, depois do período intertesta- mentário, adotar outro procedimento totalmente diferente no

Novo Testamento. Isso porque ambos celebram e proclamam

a graça de Deus, manifestada em Jesus Cristo. Pode ser que o

Antigo Testamento seja capaz de testemunhar sobre Jesus somente

à distância e de maneira obscura. No entanto, esse testemunho

da vinda de Jesus é real. Em termos de substância e conteúdo, os Testamentos são efetivamente idênticos. Não há descontinuidade radical alguma entre eles. O que ocorre é que o Antigo Testamento

ocupa uma posição cronológica diversa do Novo Testamento no plano da salvação. Existem algumas diferenças entre um e outro. Entre elas, cito somente duas. Primeira: o Antigo Testamento evoca

o medo e o temor, mantendo a consciência cativa, enquanto o

Novo Testamento evoca uma resposta baseada na liberdade e na

90

• SOU EU. CALVINO

alegria. Segunda: a revelação do Antigo Testamento se restringia à nação de Israel enquanto a revelação do Novo Testamento é universal em seu propósito. Com a vinda de Cristo, essa diferem

ça entre judeus e gentios, circuncisos e incircuncisos foi abolida.

Em momento algum Deus mudou de ideia ou alterou, de forma radical, seus propósitos. Ele simplesmente os tomou mais claros,

de acordo com as limitações impostas à compreensão humana. O

que ocorreu foi o avanço progressivo do plano divino, que somente

se tornou claro quando o Verbo se fez carne. Concluindo, Cristo

é revelado e a graça do Espírito Santo é oferecida tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento, porém de forma mais

clara e plena neste último.

V Qual a obra mais importante realizada por Jesus Cristo: revelar o Pai ou trazer a salvação aos pecadores?

Aí está outra dicotomia desnecessária. Jesus veio tanto para nos

revelar o Pai como par,a propiciar a salvação para os condenados.

A pessoa e a obra de Jesus Cristo são de importância central

para o plano da salvação arquitetado na eternidade, antes da fundação do mundo. Já que nos era impossível alcançá-la, por causa da Queda e em razão de nosso pecado, Deus optou por descer até nós na pessoa de seu Filho. Por meio de sua obedi­ ência a Deus como um ser humano, Cristo apresentou ao seu Pai um sacrifício que remiu todo pecado, anulando toda dívida e pagando toda sanção que pudesse ser devida por esse motivo. Por meio de seu sofrimento, Cristo pagou a dívida. Por meio de sua vitória sobre a morte, ele libertou a raça humana do poder da morte e foi capaz de nos trazer de volta ao favor divino por

meio do oferecimento de sua morte como redenção pelos nossos pecados. É por tudo isso que insisto em minhas pregações, em meus livros, em minhas aulas, em minhas cartas, tanto ao rei da França como ao rei da Inglaterra, tanto aos nobres como aos plebeus, que a salvação ocorre somente por meio de Cristo!

11

A EUROPA PEGA FOGO MAIS PELA PALAVRA ESCRITA DO QUE PELA PALAVRA FALADA

0 que nos Cevou a escreverAs Institutas

fo i o desejo de treinar estudantes de teoíogia

Á A reforma é um avivamento religioso?

E muito mais do que um avivamento. O avivamento é uma onda que varre a igreja de tempos em tempos, despertando-a, tirando-a do marasmo. É a passagem da fé menor para a fé maior, do cálice pela metade para o cálice cheio, da entrega parcial para a entrega total, da mesmice de sempre para a novi­ dade de vida, das obras da carne para os frutos do Espírito, da posse do Espírito para a plenitude do Espírito. É um período de convicção de pecado, de arrependimento, de confissão, de restauração, geralmente menos durável do que uma reforma. Um avivamento revigora a igreja e torna a dar a ela paixão missionária. A Bíblia é lida com mais regularidade e proveito. Ora-se mais e melhor.

92

• SOU EU, CALVINO

Á O que é reforma?

Uma reforma na igrejaproporciona tudo aquilo que um avivamento provoca e muito mais. A reforma é um banho muito mais amplo e completo do que aquilo que acontece em tempo de avivamento.

A reforma mexe com a estrutura, com os dogmas, com a liturgia,

com a doutrina, com as tradições, com a moralização, com a pre­

gação, com os princípios e com a história e a vocação da igreja.

E algo operado por Deus de modo soberano e eficaz.

A O mundo está experimentando uma reforma em nossos dias?

Muito certamente. Por mais de trezentos anos, ela tem sido desejada. Deus nunca desampara a sua igreja. No século 14, apareceram aqui e ali, em várias partes da Europa, focos de verdadeira piedade e desejo ardente de reforma. Poderia citar, como exemplo e em ordem cronológica, os mais notáveis nomes:

João Ruysbroeck (1293-1381), Henrique Suso (1295-1366), João Tauler (1300-1361), Gerhard Groote (1340-1384), Florentino Radewijns (1350-1400), João Gerson (1363-1429)

e o formidável Tomás de Kempis (1380-1471). O mais recente

é João Eck, que morreu em 1543. Talvez eles nunca tenham

se encontrado, porque moravam longe uns dos outros - na Alemanha, nos Países Baixos, na Inglaterra, na Bélgica e até mesmo no meu país. Além destes, eu citaria também algumas mulheres, como Brígida, da Suécia, e Catarina de Sena, nasci­ das, respectivamente, no alvorecer e na metade do século 14.

Á Torno a perguntar: esse insistente desejo de reforma estaria sendo satisfeito hoje?

O marco histórico mais visível de que estamos vivenciando uma reforma nos dias de hoje aconteceu na cidade alemã de Wittenberg no dia 31 de outubro de 1517, na véspera do Dia de Todos os Santos. Foi quando Martinho Lutero, ainda monge, divulgou

A EUROPA PEGA FOGO MAIS PELA PALAVRA ESCRITA

93

as suas famosas Noventa e Cinco Teses por toda a Alemanha (dez dias depois ele comemoraria seu 34° aniversário). Leão X, o papa da época, não se preocupou muito com o gesto de Lutero. Mas, quando soube que os agostinianos de Heidelberg tinham lhe dado apoio, mandou chamá-lo a Roma, na esperança de fazê-lo calar

e se desculpar por ter escrito aquele documento revolucionário. Contudo, o monge não capitulou, nem ali nem na carta escrita ao pontífice no mês seguinte. Então a Europa pegou fogo.

á Além de Lutero, há outros homens comprometidos com a Reforma?

Dificilmente Deus faz alguma coisa por meio de uma pessoa só. Veja os exemplos de Moisés e Arão, de Josué e Calebe, de Débora e Baraque, de Esdras e Neemias, de Ester e Mordecai, de Pedro e João, de Paulo e Barnabé. O quanto consigo me lembrar, por ordem cronológica, cito os nomes de Erasmo de Roterdã (nascido em 1467), Guilherme Tyndale (1484), Hugo Latimer (1487), Johann Bugenhagen (1485), Guilherme Farei (1489), Filipe Melâncton (1497) e John Knox (1505). Eles são da Alemanha, Suíça, Escócia, País de Gales, Inglaterra e Países Baixos. Por uma questão de justiça histórica, não posso deixar de fora aqueles que chamamos de pré-reformadores, como o inglês John Wycliffe (nascido em 1320) e o boêmio Jan Hus (nascido 50 anos depois). E, é claro, eu também, pela graça de Deus, me incluo entre os atuais reformadores.

O senhor fez mais pela Reforma como pastor da igreja de Genebra ou como escritor?

Dei a minha contribuição tanto como pastor quanto como autor de livros. Além de promover a reforma em Genebra, a igreja de lá

se tornou um modelo de igreja reformada na Europa. Mais ainda,

centenas de reformados vieram morar em Genebra para escapar da perseguição religiosa em seus países. Entretanto, quero admitir

^

94

• SOU EU. CALVINO

que eu tenho feito mais pela Reforma por meio da palavra escrita do que pela palavra falada. Desenvolví quatro gêneros literários:

produzi livros de teologia, comentários bíblicos, tratados e escrevi milhares de cartas de conteúdo bíblico. Tive contato com mais de trinta editores na França, na Inglaterra, na Alemanha e na Suíça. Meus livros foram traduzidos do latim ou do francês para cinco diferentes línguas (inglês, alemão, holandês, italiano e espanhol).

^ De todas as suas obras, qual a que mais fez pela Reforma?

Estou convencido de que foi As Institutas - a primeira que escrevi, quando ainda era um moço de 27 anos. A primeira edição saiu em 1536 e foi publicada pelos editores Thomas Platter e Balthasar Lasius, em Basiléia. Até o momento, já fizemos 25 edições. O que me levou a escrever esse livro foi o desejo de preparar e treinar estudantes de teologia para o estudo da Palavra de Deus, de modo que eles tivessem acesso a ela e fossem capazes de prosseguir nessa estrada sem quaisquer obstáculos. Não esperava que As Institutas fizessem o que estão fazendo. Lembro-me de que certo homem chamado Marcus Bersini fez pouco caso dela ao escrever ao re­ formador Joachim von Watt, que o meu livro era “um catecismo dedicado ao rei da França, de autoria de algum francês”. Tenho feito várias revisões e acréscimos no decorrer dos anos. A maior delas foi na segunda edição, três anos depois da primeira. Ela é três vezes maior, de seis capítulos passou a ter dezesseis. Minha obra é um dos 250 livros proibidos de se ler na França. Ele está no Catalogue des Livres Censurés, publicado pela Universidade de Paris, por volta de 1540.

á Como explicar o sucesso da Reforma na Europa?

A Reforma provocou um fenômeno curioso: as complexidades da exegese bíblica, a política eclesiástica e a dogmática teológica, até então nas mãos do alto clero, penetraram, subitamente, no domínio

A EUROPA PEGA FOGO MAIS PELA PALAVRA ESCRITA

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público. Lutero, por exemplo, a partir de 1520, deixou de ser reformador acadêmico (que argumentava em latim para um público acadêmico) para ser um reformador popular (que argumentava em alemão para um público mais extenso). Traduzimos a Bíblia para a língua do povo e incentivamos a sua leitura. Aproveitamos ao máximo a invenção da imprensa, ocorrida na metade do século passado (chega-se a dizer que a Reforma é “filha da imprensa”).

Á Embora o reformador Joachim von Watt tivesse bem mais chan­

ce em St. Gallen do que o senhor em Genebra, ele teve menos sucesso. Por quê?

Watt, mais conhecido por Vadian, era 25 anos mais velho do que eu e morreu em 1551. Ele morava numa cidade suíça que apresentava diversas semelhanças em relação a Genebra. Eu ainda estudava em Paris quando Vadian já havia colocado sua cidade nos trilhos da Reforma. Enquanto eu era um mero estrangeiro em Genebra, ele era um cidadão de St. Gallen, filho de uma das mais proeminentes famílias da cidade. Aos 45 anos, ele ocupava uma posição de muita autoridade, que durou até sua morte, 32 anos depois. Creio que o problema de Vadian é que a reforma ■ por ele realizada estava voltada principalmente para a alteração do modo de vida e da moralidade e visava mais a cidade e a região onde vivia. Nesse sentido, ele se parece muito com o dominicano Jerônimo Savonarola, cuja reforma só mexeu com os vícios e os escândalos da igreja, e não com as doutrinas (ele foi degredado, enforcado e queimado aos 46 anos na cidade italiana de Florença, onde exerceu o seu curto ministério de 1490 a 1498). O zelo mis­ sionário que eu tenho era praticamente ausente na perspectiva de Vadian. Outra diferença é que as obras escritas por ele, que era um acadêmico humanista de fama internacional e que che­ gou a ser reitor da Universidade de Viena, permanecem em sua forma manuscrita, isto é, não foram publicadas. E, se o fossem, alcançariam mais os convertidos do que os não reformados.

96

• SOU EU, CALVINO

A Lutero dizia que reforma deve ser uma constante na vida da

igreja. O senhor concorda?

A famosa frase de Lutero é “Ecclesia reformata semper reformanda”,

isto é, a igreja reformada tem de ser constantemente reformada. Assino embaixo. Pois é preciso levar a sério o drama da fraqueza humana. Qualquer pessoa que leia o Antigo Testamento encon­ trará duas histórias, uma atrás da outra: a triste história do desvio

e a bela história da volta. No período de algumas centenas de anos,

o povo eleito passou pelas reformas de Asa (2Cr 15), do sacerdote

Joiada (2Cr 23), de Ezequias (2Cr 29-31), de Josias (2Cr 34-35) e

de Esdras (Ed 8-10). Reforma é o movimento permanente na igreja

para restaurar a energia e a espiritualidade nas suas instituições.

É uma oportunidade ímpar para se rever qualquer desvio não só

de comportamento, mas também de ordem dogmática.

A, Há sujeiras na igreja?

Muitas. No povo, no baixo clero, no alto clero, nos papas. Cada reforma é uma limpeza. Uma limpeza de alto a baixo. Sua pergunta me faz lembrar a promessa feita por Deus durante o reinado de Manassés: “Limparei Jerusalém como se limpa um prato por dentro e por fora” ou “como um prato que se esfrega, virando-se de um lado para o outro” (2Rs 21.13).

A As cartas às sete igrejas da Ásia Menor sugerem alguma reforma?

Das sete, apenas as igrejas de Esmirna e Filadélfia não preci­ sam de restauração. A igreja de Éfeso precisa recuperar o amor perdido ao longo dos anos. A de Pérgamo precisa recuperar a ortodoxia perdida. A de Tiatira precisa recuperar a ortopraxia perdida. A de Sardes precisa recuperar o entusiasmo perdido.

E a de Laodiceia precisa recuperar a seriedade perdida.

12

A ELEIÇÃO REQIJER EVANGELIZAÇÃO

Se não entramos no santuário da sabedoria divina para entender a predestinação, entraremos em um íáôirinto sem saída

A Um dos seus ensinos mais conhecidos é o que diz respeito à predestinação. Depois de Paulo, o senhor é o primeiro a escrever sobre o assunto?

Respondo a sua pergunta com esta declaração de Agostinho, que viveu na segunda metade do século 4oe no início do século seguinte, retirada de sua obra A Graça: “Ninguém conseguiu

discorrer contra a predestinação que de acordo com as Santas Escrituras defendemos, a não ser incorrendo em erro”. É por isso que, em certa ocasião, empolgado, eu declarei que “Agostinho

é totalmente nosso!”. Ele combateu duramente Pelágio e seus

companheiros Celéstio e o bispo Juliano de Eclano, seus contem­ porâneos que pregavam o absurdo de que os seres humanos são capazes de merecer a salvação, emprestando assim uma ênfase considerável sobre o papel e o valor das obras e minimizando

o conceito bíblico da graça divina. Como eu, Agostinho fazia

distinção entre a igreja visível, que inclui tanto os eleitos como

• SOU EU. CALVINO

os reprovados, e a igreja invisível, que inclui apenas os eleitos. Por

algum tempo, a ideia de predestinação ficou adormecida. Voltou

à tona, aqui na Europa, por volta de duzentos anos atrás, com

a chamada Escola Agostiniana Moderna, da qual participaram

teólogos proeminentes, como Gregório Rimini (morto por volta de 1358) e Hugolino de Orvieto (morto por volta de 1457), que chegaram a ensinar a dupla predestinação absoluta, segundo

a qual Deus destina alguns para a vida eterna e outros para a

condenação eterna, sem que se faça qualquer referência a seus méritos e deméritos. É um grande engano pensar que fui eu o

arauto da predestinação. Se há um arauto particular, esse homem

é Paulo. A começar (quem sabe?) com a famosa explicação contida na Carta aos Romanos, de acordo com a qual Jacó é escolhido

e Esaú, rejeitado, quando ambos ainda estavam no ventre de

Rebeca e não tinham feito nem o bem nem o mal “para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme” (Rm 9.11).

á Como o senhor resolve a delicada questão da diferente recepti­

vidade do evangelho por parte daqueles que ouvem o anúncio das boas novas na mesma ocasião, no mesmo lugar e do mesmo modo?

A

explicação não é porque um é mais ou menos pecador do que

o

outro. A história mostra que, às vezes, é o mais pecador que

aceita o evangelho. Na parábola do filho pródigo, por exemplo, foi o que mais se distanciou que caiu em si e se converteu. Jesus dizia que os publicanos e as meretrizes eram mais suscetíveis ao arrependimento do que os legalistas. Também não se pode afirmar o contrário, ou seja, que a eleição alcança mais o inve­ terado pecador do que os demais pecadores. A igreja visível e invisível está cheia de pessoas como Natanael, “homem direito

e sincero” (Jo 1.47), e como os ex-assaltantes, os ex-idólatras, os ex-adúlteros, os ex-caluniadores e os ex-homossexuais da igreja de Corinto (ICo 6.9-11). A única explicação para esse complexo problema, penso, é a prévia eleição dos que deveríam ser salvos.

A ELEIÇÃO REQUER EVANGELIZAÇÀO

99

Á Quem é eleito? Quantos são?

Quanto à primeira pergunta, respondo positiva e negativamente.

O eleito não é aquele que foi escolhido porque Deus sabia

de antemão que ele desejaria, em algum tempo de sua vida,

ser salvo. O eleito é aquele que é misteriosamente tocado por Deus em algum tempo de sua vida para desejar ser salvo. O processo da salvação não começa com a pregação do evange­ lho, com a boa vontade inicial de aceitar o evangelho, com o

arrependimento, com a fé salvadora, com a conversão e muito menos com o batismo do pecador. O processo da salvação não começa aqui nem agora. Ele começa lá em cima, na eternidade

de Deus, antes da criação dos céus e da terra, antes de o Verbo

se fazer carne, antes do mandato da grande comissão, antes da descida do Espírito, antes da chegada da Bíblia e de qualquer missionário pioneiro. Quanto à segunda pergunta - quantos são? -, eu não sei e ninguém sabe. Essa questão de números é uma intromissão desnecessária e até mesmo irreverente. Prefiro reportar-me à experiência de João na ilha de Patmos: “Depois disso olhei e vi uma multidão tão grande, que ninguém podia contar. Eram de todas as nações, tribos, raças e línguas. Estavam [todos] de pé diante do trono e do Cordeiro, vestidos de roupas brancas, e tinham ramos de palmeiras nas mãos. E gritavam bem alto: ‘Do nosso Deus, que está sentado no trono, e do Cordeiro vem a nossa salvação’” (Ap 7.9-10).

A Perdoe-me tocar num assunto familiar. Em 1557, sua cunhada

Ana foi apanhada em adultério com seu mordomo Pierre. Cinco anos depois, o mesmo aconteceu com sua enteada Judite, tida como uma mulher virtuosa e piedosa. Minha pergunta é: Ana e

Judite fazem parte dos chamados eleitos?

Não sei, não devo, e nem quero responder. Só Deus sabe. O fato de terem caído em pecado pode significar que elas não tenham sido eleitas para a salvação. Mas não obrigatoriamente!

100

• SOU EU. CALVINO

Ninguém duvida da eleição de Davi, embora tenha cometido adultério com a mulher de Urias e mandado matar o marido dela. O fato daquele homem em Corinto ter se arrependido do adultério cometido com a mulher de seu pai mostra que ele é um dos eleitos.

á Paulo declara que, em homenagem a Jesus, todas as criaturas no céu, na terra e no mundo dos mortos vão cair de joelhos diante dele, declarando abertamente que ele é o Senhor (Fp 2.9-11). O apóstolo refere-se aos eleitos?

Paulo refere-se a todas as criaturas, à criatura angelical e à criatura humana, aos vivos e aos mortos, a todo filho de Adão no tempo e no espaço. Entre essa inumerável multidão, estão todos os eleitos e todos os constrangidos. Chamo de eleitos os que foram escolhidos, chamados, levados ao arrependimento e à fé e salvos. Chamo de constrangidos os que não foram esco­ lhidos, nem levados ao arrependimento e à fé, nem salvos, mas que não têm como hão admitir que Jesus Cristo é o Senhor. Esses constrangidos são como os demônios que creem que há um só Deus e tremem de medo, como explica Tiago (Tg 2.19). Não podemos nos esquecer daquela moça possuída por um espírito imundo que gritava o tempo todo que Paulo e Silas eram servos do Deus Altíssimo e pregadores do caminho da salvação (At 16.17). Nem daquele homem possesso na sinagoga de Cafarnaum que tratou Jesus tanto como o nazareno como “o santo de Deus” (Mc 1.24). Nem ainda daquele endemoni- nhado de Gadara que também chamou Jesus de “o Filho do Deus Altíssimo” (Mc 5.7).

^ Qual a sua definição de eleição?

Eleição é o imutável propósito de Deus, pelo qual ele, antes da fundação do mundo, escolheu um número grande e definido de pessoas para a salvação, por pura graça. Esses agraciados

A ELEIÇÃO REQUER. EVANGELIZAÇÃO

101

foram escolhidos de acordo com o soberano e bom propósito da vontade de Deus dentre todo o gênero humano, conjunta­ mente caído, por sua própria culpa, de sua integridade original para o pecado e a perdição. Os eleitos não são melhores ou mais dignos que os outros, mas envolvidos na mesma miséria. Reforçando, eleição é o ato eterno de Deus por meio do qual ele decretou - livre, soberana e misericordiosamente - salvar em Cristo Jesus um determinado número de pessoas dentre toda a raça humana voluntariamente caída, aplicando, no de­ correr da história, a sua graça redentora, capacitando homens

e mulheres, jovens e adultos, judeus e gentios, pecadores mais pecadores e pecadores menos pecadores a responderem com fé, pela ação do Espírito Santo, à mensagem redentora de Cristo, sendo preservados, assim, até o fim.

Á O senhor acaba de usar a expressão “salvar em Cristo Jesus”. A eleição depende do sacrifício vicário de Jesus? Não bastaria o decreto da eleição em si?

A eleição custa um preço muito alto, não para os eleitos, mas para o próprio Deus e para o Senhor Jesus Cristo. Esse preço

não foi algo que perde o seu valor, como o ouro e a prata, mas

o

precioso sangue de Cristo, o Cordeiro de Deus, sem defeito

e

sem mancha (lPe 1.19). A eleição não ocorre alheia à pessoa

e

ao sacrifício de Jesus. Para que ela acontecesse, alguém teria

de tomar sobre si o pecado e a culpa dos eleitos. À parte do Filho, não há eleição, não há perdão, não há salvação, não há vida eterna. Deus nos escolheu em Cristo. Porque, juntamente com Cristo, os eleitos foram crucificados, mortos, sepultados, ressuscitados e assentados à mão direita de Deus. Veja o que Pedro diz: “A salvação só pode ser conseguida por meio de Jesus Cristo” (At 4.12). Veja a explicação de Paulo: “Antes da criação do mundo, Deus já nos havia escolhido para sermos dele por meio da nossa união com Cristo” (Ef 1.4). Note bem: porque

102

• SOU EU, CALVINO

os eleitos foram feitos filhos de Deus, por meio de Jesus, somos também herdeiros dele e - olhe só - coerdeiros com Cristo! (Rm 8.17).

^ Há diferença entre eleição e predestinação?

Entendo que a palavra predestinação é mais ampla e a palavra eleição é mais particular. Mas ambas têm igual importância. A predestinação diz respeito ao controle absoluto da história do ser humano, da igreja, da civilização, da criação. A eleição diz respeito à soteriologia, isto é, à doutrina da salvação. Diria que a eleição é o clímax da predestinação. Uma e outra fazem parte daquilo que chamo de a vontade secreta de Deus, progressiva­ mente revelada a seu bel-prazer. Quem sabe, posso afirmar que, na predestinação, Deus é o Senhor da História e, na eleição, Deus é o Senhor da Salvação.

á Se Deus já escolheu os que devem ser salvos, por que ir pelo mundo inteiro e anunciar o evangelho a todas as pessoas, como Jesus ordena?

Porque evangelização e missões fazem parte da eleição. Para o eleito ser salvo, ele precisa ouvir a boa nova. E precisamente por se tratar de um eleito, o Senhor da Seara fará chegar a ele, em algum tempo e de alguma maneira, a voz do evangelho. Veja o exemplo do alto funcionário da rainha da Etiópia: Filipe estava em Samaria quando o Espírito Santo mandou que ele fosse para um determinado ponto da estrada que ligava Jerusalém a Gaza, pela qual naquele preciso momento passaria a carruagem oficial, cujo único passageiro já estava com a Bíblia aberta na passagem que mais fala sobre Jesus no Antigo Testamento (At 8.26-39). Veja também a trabalheira que Deus teve para que os eleitos de Cesareia, já tocados pelo Espírito, ouvissem o anúncio do evangelho (At 10.1-23). Saiba de uma coisa: a eleição requer a evangelização. A doutrina da eleição não torna a evangelização

A ELEIÇÃO REQUER EVANGELIZAÇÃO

desnecessária. Porque Deus não nos fornece uma ficha com nome e endereço dos eleitos, temos de anunciar as boas novas

da morte vicária e da ressurreição de Jesus em todas as nações

e em todas as línguas, o que gasta muito mais tempo, muito

mais gente, muito mais esforço e muito mais dinheiro. Por não

termos essa listagem da predestinação, devemos pregar com entusiasmo e paixão missionária a todos, porque sempre haverá entre eles um ou mais já tocados por Deus para nos ouvir.

A Repito a pergunta anterior com uma pequena nuança. Se Deus

já escolheu os que devem ser salvos, por que orar por conversões:

a conversão do marido, a conversão de um filho, a conversão de uma família, a conversão de um povo? A eleição parece tornar infantil esse tipo de oração intercessória.

De uma coisa estou plenamente convicto: Deus não vai eleger

pessoa alguma agora só porque estou orando pela salvação dela.

A eleição já foi feita. O nome de ninguém pode ser acrescentado

nem retirado. Caso pudesse o homem fazer algo para antecipar a graça de Deus, a eleição deixaria de ser apanágio divino, ainda que o direito e o poder dela sejam-lhe expressamente atribuídos. Digo-lhe, porém, que sou um entusiasta da oração. Preguei e escrevi muito mais sobre a oração do que sobre a predestinação. Valendo-me do mesmo raciocínio da resposta anterior, sugiro

que a oração intercessória em favor da salvação de alguém já esteja no bojo do processo de eleição.

á O que o senhor diz do pecador que justifica sua rebeldia à aceita­ ção do evangelho sob a alegação de que não está entre os eleitos?

Isso pode acontecer. A pessoa pode ter razão. Mas é uma teme­ ridade, porque ele não tem acesso ao livro da vida e, portanto, não sabe se seu nome está ou não está entre os eleitos. Na maior parte dos casos, essa pessoa pode estar zombando da eleição, pode estar com medo de negar-se a si mesma, pode estar fugindo

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• SOU EU, CALV1NO

de Deus, pode estar mostrando o quanto é preguiçosa. Se ela for um dos eleitos, em ocasião oportuna, mais na frente, o seu coração, subitamente ou não, vai mudar por completo, como aconteceu com um dos ladrões crucificados com Jesus, que, depois de zombar do Senhor na companhia do outro, confessou seus pecados e abraçou a salvação. A propósito, aproveitando

a oportunidade, aí está um clamoroso exemplo de eleição. Os

dois ladrões estavam na mesma situação, no mesmo lugar, na mesma companhia de Jesus (um à esquerda e outro à direita) e ouviram as mesmas primeiras palavras de Cristo na cruz. No en­ tanto, apenas um deles, chamado erradamente de “bom ladrão”, veio a obter a promessa de vida eterna. Além das vantagens em comum, o outro ladrão teve mais uma oportunidade preciosa:

assistir a conversão do primeiro e ouvir a exortação dele.

Á Tudo é explicável na predestinação?

Em minha opinião, se a predestinação for estudada e discutida sem se entrar no santuário de Deus para ouvir a voz dele, como aconteceu com Asafe, entraremos em um labirinto do qual nunca se achará saída. Caso não haja humildade e o devido cuidado, ela torna-se confusa e até mesmo perigosa. E preciso muita prudência para não extrapolar o que está escrito na

Palavra. A nós, é-nos vedada tanto a retirada como a introdução de alguma coisa. Admitamos, como escreve Paulo, que, agora,

o espelho está embaçado e não vemos tudo com clareza. Mais

tarde, porém, quando vier o que é perfeito, conheceremos as­

sim como somos conhecidos por Deus (ICo 13.12). Tenhamos humildade, calma e paciência!

13

O FRANCÊS JACQUES LEFÈVRE REDESCOBRE O S O L A ANTES DE LUTERO

G

R A T I A

0 governo tem vaciíado muito. Ora se mostra simpático aos reformados, ora recua

á O seu interesse por uma Genebra realmente cristã diminui o seu interesse pela França?

Por maior que seja o meu interesse por Genebra, não me esqueço da minha terra natal. Permita-me fazer uma paráfrase do Salmo 137:

“Se algum dia eu me esquecer do lugar onde nasci e cresci e também me convertí, que meus dedos sequem e caiam como folhas e que minha língua fique grudada no céu da boca”. Em abril de 1555, quando os libertinos (os partidários de Ami Perrin) me deixaram em paz, meus olhos se voltaram para a França. Imediatamente, a Venerável Companhia de Pastores de Genebra (uma espécie de conselho de pastores reformados), organizou uma espécie de junta de missões e começou a enviar obreiros de Genebra para a França. Por questões de segurança, tudo foi feito com a maior discrição possível. Por eu ter sido pastor de uma comunidade francesa em Estrasburgo e por haver muitos refugiados franceses em Genebra,

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• SOU EU, CALVINO

construí uma rede de contatos pessoais em cinco cidades: Angoulême, Bourges, Orléans, Paris e Poitiers.

A As missões a partir de Genebra foram as primícias da igreja

reformada na França?

Antes da nossa presença e influência, a Reforma de Lutero já havia chegado à França. As origens da influência de Lutero em Paris podem ser datadas do final de 1519, dois anos depois da publicação das famosas teses contra as indulgências. Muita gente se sentiu atraída pelas propostas da Reforma de Lutero. Entre eles, cidadãos comuns, clérigos e acadêmicos. As obras de Lutero encontraram um público substancial e entusiasta entre a elite intelectual de Paris. Em 1523, a faculdade de teologia de Paris, que se reunia cerca de trinta vezes por ano, teve 101 reuniões, principalmente por causa do movimento luterano. Na reunião de 14 de julho daquele ano, Pierre Lizet, representante de Francisco I, rei da França, denunciou os males da reforma ale­ mã. Três semanas depois, o monge agostiniano Jean Vallière foi queimado vivo por haver lido e comentado as obras de Lutero. Em 4 de dezembro de 1526, sete homens vestidos como demônios desfilaram por Paris, puxando um cavalo montado por uma mulher, rodeado de homens vestidos como doutores em teologia, com a palavra “luteranos” cravada na frente e nas costas.

Á Havia algum vestígio da Reforma na França antes de Lutero?

Entre os livros publicados na França, em 1512, cinco anos an­ tes do grito de Lutero em Wittenberg, destacam-se a tradução latina das Escrituras e os comentários das Epístolas de Paulo, de autoria do sacerdote Jacques Lefèvre, de 57 anos, professor da Sorbonne, em Paris. Curioso é que ele começou a falar sobre o sola gratia (só pela graça o pecador pode ser salvo) antes de nós. Lefèvre exerceu uma grande influência sobre seus alunos, entre

0

FRANCÊS JACQUES LEFÈVRE REDESCOBRE O SO LA G RATIA

107

eles os três Guilhermes: Guilherme Budé, Guilherme Briçonnet

e Guilherme Farei. O último implantou a Reforma em vários

lugares da Suíça, especialmente aqui em Genebra. Briçonnet

veio a ser bispo em Meaux, 44 quilômetros a noroeste de Paris,

e realizou um trabalho magnífico em favor da Reforma naquela

cidade. Esses homens fizeram traduções da Bíblia e encorajaram as pessoas a estudar a Bíblia por conta própria. Procuravam fazer mudanças graduais dentro da estrutura da igreja. Não queriam provocar divisão, mas declaravam coisas ousadas.

á Em 1543 e no ano seguinte, o senhor denunciou o nicodemismo. Que seita é essa?

Não se trata de uma seita. Nicodemistas são os simpatizantes da Reforma Protestante que não rompem com a Igreja Católica. Aqueles que, temendo a reação das autoridades católicas, pro­ movem reuniões evangélicas de forma clandestina, nas casas, frequentemente à noite. Têm esse nome por causa de Nicodemos,

aquela autoridade entre os judeus que foi ao encontro de Jesus à noite (Jo 3.1). A perseguição aos crentes reformados era e ainda

é um fato. Em 1555, houve o massacre dos valdenses. Seis anos

mais tarde, cinco estudantes evangélicos foram martirizados em

Lyon. O Livro dos Mártires, de Jean Crespin, publicado aqui em Genebra, em 1554, provocou medo em muitos discípulos do Senhor. Não era fácil ser reformado numa França cada vez mais hostil ao evangelho.

Á Quantos pastores a tal Venerável Companhia de Pastores de Genebra mandou para a França?

O primeiro, cujo nome não me lembro agora, foi enviado a Poitiers,

em resposta a um apelo vindo da própria congregação que lá se reunia. Segundo os cálculos de Nicolas Colladon, provavelmente exagerados, 151 indivíduos foram enviados em missões para a França em 1561. O fato é que, nesse ano, a Companhia estava

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• SOU EU, CALV1NO

atolada de requisições de pastores vindas só da França. Acontecia

uma coisa muito interessante em Genebra: de vez em quando, um dos nossos pastores simplesmente desaparecia, sem qualquer aviso,

e reaparecia posteriormente, em algum canto remoto da França.

Chegamos a ter falta de pastores em Genebra para suprir a crescente demanda das igrejas francesas. Até mesmo a cidade de Lausanne

ficou sem pastores por um período. Éramos muito sensíveis à con­ vocação de voluntários para auxiliar na evangelização da França.

Á De uma hora para outra, um pastor podia arrumar sua mala e se

mandar para a França, na qualidade de missionário?

Não é bem assim. Tenho feito pesadas exigências educacionais, o que restringe seriamente o número de qualificados para ocuparem tal posição. Uma das razões pelas quais eu fundei

a Academia de Genebra, no dia 5 de junho de 1559, foi para treinar pastores segundo nossos altos padrões.

/> A implantação da Reforma na França foi feita apenas pelos pastores de Genebra?

Deus usa quem quer e como quer. Além dos bem preparados pastores, o Senhor da Seara usou humildes mascates que via­ javam para lá e para cá. Eles levavam folhetos sobre a Reforma escondidos em meio a mercadoria a ser vendida e os distribuíam nas cidades francesas por onde passavam, providencialmente cortadas pelas principais rotas comerciais.

Esse “algum canto remoto da França” do qual o senhor fala indica uma área rural?

Lamentavelmente nossos missionários atingem mais a classe mé­ dia do que a classe camponesa. Uma das razões é que quase todos os obreiros pertencem e se identificam mais com as necessidades das classes médias urbanas. Outra razão é que a lingua francesa

0 FRANCÊS JACQJJES LEFÈVRE REDESCOBRE O SO LA CRAT1A

109

é pouco conhecida no meio rural. Os camponeses ainda falam

seus dialetos. Em Languedoc, região ao redor de Toulouse, por

exemplo, fala-se o langue d’oc e o francês é visto quase como uma língua estrangeira. Infelizmente não ensinamos os nossos missio­ nários a descer das camadas mais altas, social e linguisticamente, para as camadas mais baixas da população. Assim, desde o início,

a evangelização na França estava confinada em uma espiral social da qual a classe camponesa estava excluída. Esquecemo-nos da

chamada “teologia do tanto como” do livro de Atos: tanto Jerusalém como Judeia, tanto judeus como gentios, tanto o homem como

a mulher, tanto o rico como o pobre.

Que tipo de igrejas os missionários de Genebra organizam na França?

Eles começam organizando uma congregação que mais tarde torna-se igreja. A congregação é pouco mais do que uma reunião informal e clandestina para estudo bíblico e oração. Com o cres­ cimento, essa congregação vira uma igreja organizada segundo o padrão de Genebra, isto é, com presbíteros e diáconos. O pastor pode ser alguém de Genebra, mas os oficiais precisam ser mem­ bros da igreja local. Chamamos a congregação de église plantée e

a igreja propriamente dita de église dressée. As primeiras igrejas organizadas são as de Poitiers, Orléans, La Rochelle e Nimes.

^ Quantas igrejas há hoje na França?

O almirante Coligny, nosso mais influente reformado na França, numa lista preparada em março de 1562, diz haver 2.150 igrejas em todo o território francês. Pessoalmente acho mais razoável pensar em 1.250, com uma membresia em torno de 2 milhões,

o que significa 10% da população avaliada em 20 milhões. Diz-se

que um terço da nobreza seria cristã reformada. O primeiro sínodo nacional da Igreja Reformada na França foi realizado sigilosamente em Paris de 25 a 29 de maio de 1559. Na ocasião,

110

• SOU EU, CALV1NO

foi elaborada uma confissão de fé semelhante à de Genebra. Cerca de 15.000 franceses assinaram essa confissão.

/í Por que sigilosamente?

Porque o governo tem vacilado muito em torno da nossa liber­ dade de culto. Ora ele nos é simpático, ora ele recua. Além do já citado massacre dos valdenses, que acabou com a vida de 3 mil homens, idosos e crianças nos vales do sudeste da França, onde moravam, quatorze homens foram enforcados e depois queimados em Meaux. Certo professor de Paris, antes de ser queimado vivo, permaneceu seis semanas numa cova tão estreita que nem deitar ele podia. Depois do incidente dos cartazes, as prisões começaram

a se encher e a fumaça de protestantes queimados ou lentamente

assados começou a subir. Calcula-se que, durante os 44 anos do reinado de Francisco I e Henrique II, 50.000 protestantes teriam

sido mortos. Muitos franceses crentes mudaram-se da França para outros países para escapar da morte, inclusive eu e Farei.

á Que incidente de cartazes é esse?

Na manhã de 18 de outubro de 1534, cartazes escritos em francês foram achados nas paredes das principais ruas de Paris, Orléans e Amboise. Um deles estava do lado de fora do quarto do próprio rei, no château de Amboise. Era domingo e os ca­ tólicos a caminho da missa foram obrigados a ler o que neles estava escrito - uma denúncia anônima que atacava “os abusos horrendos, graves e intoleráveis das práticas papais”. Depois, descobrimos que essa provocação havia partido de um protes­ tante radical chamado Antoine Marcourt, o famoso panfletista de Neuchâtel. A consequência dessa barulhada é que Francisco I

regressou depressa a Paris para iniciar uma vigorosa perseguição

a todos os suspeitos de serem simpatizantes da causa evangélica. Muitos de nós nos esquecemos da exortação de Zacarias: “Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito” (Zc 4.6)!

14

A IGREJA DE GENEBRA NA FRANÇA ANTÁRTICA

(Deus deseja que o evangeCHo seja procíamado para todos sem exceção

á Diz-se que os reformadores reformaram a igreja, mas não se preocuparam com a grande comissão dada por Jesus. Um dos críticos chega a afirmar: “Perdemos com os reformados não apenas a ação missionária, mas até mesmo a ideia de missões”.

A crítica não é justa nem procede. No meu caso, por exemplo, dei a minha contribuição não só para o movimento missionário em si como também para a reflexão missionária. Basta ler os meus comentários bíblicos. Ao comentar o texto de Isaías de que o mundo inteiro precisa conhecer a grandeza de Deus (Is 12.4-5), escrevi que todos “devemos ser especialmente pos­ suídos deste desejo, depois de sermos libertados da tirania do Diabo e da morte eterna”. Ao comentar a belíssima passagem de Ezequiel na qual Deus afirma que não tem prazer na morte de um homem mau, antes prefere vê-lo arrependido e salvo (Ez 18.23), escrevi: “Deus certamente nada mais deseja, para

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• SOU EU, CALV1N0

aqueles que estão perecendo e correndo para a morte, senão que retornem para o caminho da segurança”. E ainda acrescentei:

“Por isso o evangelho é pregado hoje por todo o mundo, porque Deus quis testemunhar por todas as épocas que ele se inclina grandemente para a misericórdia”. Vou dar mais um exemplo:

ao comentar o texto de Paulo a Timóteo de que Deus “quer que todos sejam salvos e venham a conhecer a verdade” (lTm 2.4), expliquei que “não há nenhum povo e nenhuma classe no mundo que seja excluída da salvação porque Deus deseja que o evangelho seja proclamado para todos sem exceção”.

A A teoria de missão é muito bonita. E a prática de missão?

Não fiquei só na teoria. Como pastor da igreja de Genebra, ajudei a enviar dezenas de missionários principalmente para a França, como já comentei. O quanto me lembre, posso citar

ainda a Holanda, a Escócia, a Inglaterra, o norte da Itália e até

a

Polônia. Eu mesmo, no bendito ano de 1536, deixei a França

e

vim como missionário para a Suíça, fixando-me em Genebra.

Na época eu era um rapaz solteiro de 27 anos. Tenho para mim que haverá um progresso ininterrupto na expansão do reino de Cristo até que ele apareça uma segunda vez para nossa salvação, com poder e muita glória. E uma das implicações desse reino crescente é a destruição da distinção entre judeus e gentios e a necessidade conseguinte da proclamação do Evangelho entre todos os gentios do mundo. Nada poderá desviar o avanço do governo de Cristo. E a tarefa da igreja é pregar a Palavra de Deus, pois não existe outra forma de edificar a igreja senão pela luz da Palavra, onde o mesmo Deus, por sua própria voz, aponta o caminho da salvação. O que nos motiva a pregar o evangelho é o zelo pela glória de Deus. Os réprobos sempre vão negar o domínio de Cristo e os eleitos serão trazidos pela graça para prestar uma reverente e alegre obediência a ele.

A IGREJA DE GENEBRA NA FRANÇA ANTÁRTICA

113

á Há quem entenda que a grande comissão de Jesus foi dada aos apóstolos e por eles foi cumprida, como se lê no livro de Atos.

Aí está outro equívoco sério. Entendo que a ordem da evange- lização foi dada aos apóstolos, mas eles não a concluíram. Eles deram conta apenas do início da obra. A evangelização mundial é uma tarefa contínua até que o chamado “dia da salvação” se complete no final dos tempos. Mesmo que conseguíssemos evangelizar todos os seres humanos em todos os quatro cantos do mundo, precisaríamos começar tudo de novo por causa das novas gerações, entre as quais haverá também os eleitos de Deus.

á O senhor veio ao mundo pouco depois das famosas viagens marítimas empreendidas especialmente por navegadores por­ tugueses e espanhóis e depois da descoberta do Novo Mundo. Eles trouxeram a surpreendente notícia de que o novo continente é habitado. Entre esses “americanos” há pecadores eleitos? Esses povos precisam de missionários?

Boa pergunta. Ela me dá a oportunidade de contar as maravilhas que estão acontecendo em Genebra em relação às recentes des­ cobertas marítimas. Passado pouco mais de meio século desde a viagem do navegador português Pedro Álvares Cabral, que des­ cobriu no outro lado do oceano e abaixo da linha do Equador a Terra de Santa Cruz, hoje chamada Terra do Brasil, a igreja de Genebra já tem missionários nesse país habitado por homens e mulheres totalmente nus, sendo alguns deles até antropófagos. Acho que foi em 1556 que eu recebi uma carta assinada por um francês chamado Nicholas Durand de Villegaignon, o qual havia sido meu colega quando estudávamos na Universidade de Paris nos idos de 1523, do qual pouco me lembrava. Nessa longa carta, Villegaignon contava-me as novidades da França Antártica, uma província ultramarina que ele havia fundado numa bela baía (que antes supunha ser a desembocadura de um rio qualquer) localizada no Brasil. Dizia ainda de sua vontade

114

• SOU EU. CALVINO

de empregar todos os seus esforços no incremento do reino de

Jesus Cristo naquela terra tão inóspita e distante. Para tanto, Villegaignon pediu-me que lhe enviasse alguns missionários

da igreja de Genebra. O plano dele era fundar uma França americana, uma espécie de asilo aos franceses convertidos à fé reformada, onde pudessem gozar da plena liberdade de cons- ciênci^sem perder a cidadania francesa.

Á Villegaignon é um reformado?

Villegaignon é um homem da alta sociedade, muito culto, capaz de falar italiano, espanhol e grego, além de escrever em latim. Embora formado em direito, não exerce a profissão. Dedicou-se à arte náutica. Tornou-se vice-almirante da Bretanha e ingres­ sou na Ordem de Malta, patrulhou as águas do Mediterrâneo, infestadas de piratas argelinos, lutou com as tropas de Carlos

V no norte da África e participou da expedição que raptou a

princesa escocesa Maria Stuart, na época com 6 anos e noiva do futuro Francisco II. Quanto à religião, Villegaignon é um vira-casaca. Filho de uma importante família católica, tornou-se protestante em 1555, aos 45 anos. Como tal, participou do primeiro culto reformado realizado na América (10 de março de 1557) e da primeira celebração da Santa Ceia, pouco depois. Mas, por incrível que pareça, além de apostatar da fé, tornou-se um perseguidor inclemente dos protestantes e ali mesmo na França Antártica mandou matar três dos nossos missionários.

á Então, o senhor atendeu o clamor missionário de Villegaignon?

Em julho de 1556, Deus me deu coragem para fazer um dramá­

tico apelo aos irmãos de Genebra: “Necessitamos de voluntários para fazer crescer a França Antártica, na distante Terra do Brasil, de onde trazemos o pau-brasil. O almirante Gaspar de Coligny,

o líder do partido protestante, é um dos maiores responsáveis

A IGREJA DE GENEBRA NA FRANÇA ANTÁRTICA

115

por essa aventura. Foi ele quem conseguiu o patrocínio do rei Francisco II, que cedeu três naus, uma contendo provisões e as outras duas carregadas com peças de artilharia e materiais de construção. E por essa razão que o forte construído na ilha de Serigipe chama-se Forte Coligny. Quantos querem ir para esse paraíso protestante para evangelizar os indígenas e os patrícios que foram para lá, uma grande parte formada de degredados?”. Poucos dias depois, dei credenciais aos quatorze voluntários, os quais são em ordem alfabética: André Lafon, Guillaume Chartier, Jacques Rousseau, Jean de Léry, Jean du Bourdel, Jean Gardien, Martin David, Matthieu Verneuil, Nicolas Carmeau, Nicolas Denis, Nicolas Raviquet, Philippe de Corguilleray (cognominado Du Pont), Pierre Bourdon e Pierre Richier. Richier e Chartier são ministros ordenados. Du Pont é um cavalheiro muito respeitado, homem de idade e de pouca saúde. Quase todos os demais são como “fazedores de tendas”, isto é, são missionários biocupacionais, pois trabalham como operários (o primeiro da lista, por exemplo, é alfaiate). Alguns estão deixando na Suíça esposa e filhos.

á Este Jean de Léry é aquele que escreveu “Histoire d’un Voyage Fait en Ia Terre du Brésil”?

Sei que ele escreveu este livro, que ainda não foi publicado por ter perdido os originais, os quais ele está procurando por toda a parte. Mas estou por dentro do conteúdo da obra por se tratar de uma espécie de relatório minucioso de tudo o que aconteceu e tudo o que ele viu durante o tempo que passou na França Antártica. Por ter fugido do Forte Coligny para a terra firme para se proteger de Villegaignon, Léry passou muito tempo com os naturais da terra e fez centenas de anotações nos campos de antropologia e etnografia. A Viagem à Terra do Brasil promete muito. Léry nasceu em La Margelle, na França, em 1534. Era um adolescente de 18 anos quando veio para Genebra como candidato ao ministério.

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• SOU EU, CALV1N0

Tornou-se meu aluno de teologia e prédicas e, ao mesmo tempo, um modesto sapateiro. Aliás, foi como sapateiro que, aos 20 anos, ele foi para o Brasil. Ao voltar para a Europa, em maio de 1558, reiniciou seu estudos de teologia aqui em Genebra e dois anos depois já era pastor em Belleville-sur-Saône, porto de Lyon. Hoje ele deve ter uns 30 anos.

^ Considerando que a Terra do Brasil foi descoberta, colonizada, catequizada e ocupada por portugueses desde 1500, como se explica esta aproximação com os franceses?

Três anos depois da viagem de Pedro Alvares Cabral ao Brasil e seis anos antes de eu nascer, isto é, em junho de 1503, uma nau francesa zarpou em direção à Terra de Santa Cruz, com sessenta homens a bordo e sob o comando do capitão Paulmier de Gonneville. O navio de 120 toneladas e praticamente novo, chamado LIEspoir, voltou dois anos depois, mas foi afundado por navios corsários já no litoral da França. Entre os 28 sobre­ viventes estava o índió Essomeriq, filho de um cacique guarani, batizado durante a travessia do oceano. Mais tarde, o jovem casou-se com uma francesa chamada Susana, filha do capitão Gonneville. O fato é que, desta ocasião e nas duas décadas se­ guintes, o comércio entre os franceses e os brasis (nome dado aos habitantes das terras americanas) era, de longe, mais intenso do que o dos próprios portugueses.

á Parece que houve uma “fête brésilienne” na França para sensi­ bilizar o rei a criar um império colonial no Ultramar.

Isso aconteceu em Rouen em outubro de 1550. Foi uma propa­ ganda sensacionalista da Terra do Brasil. Dessa festa brasileira participaram trezentos figurantes, todos nus. Entre eles esta­ vam cerca de cinquenta guerreiros tamoios trazidos do Brasil, marinheiros normandos e prostitutas. Representaram cenas de amor, de caça, de guerra e de uma abordagem a um navio

A IGREJA DE GENEBRA NA FRANÇA ANTÁRTICA

português. No cenário, viam-se ocas adornadas com bananas. Para tornar o ambiente bem indígena, havia muitos macacos

e papagaios. Naturalmente a criação da França Antártica (ou

França Americana) tem muito a ver com a festa de 1550. Su­ ponho também que aquele carnaval brésilien tenha despertado

ainda mais nossa paixão missionária.

O senhor disse que três dos missionários enviados por Genebra foram mortos por Villegaignon. Quem são eles?

Estou acostumado a ver mártires por toda parte da França. Ho­ mens e mulheres sendo queimados em lugares públicos por sua fé. Mas fiquei muito emocionado, e ao mesmo tempo orgulhoso, ao saber da morte de três dos quatorze missionários genebrinos enviados a pedido de Villegaignon à terra dos brasis. Eram por ordem de execução Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil e Pierre Bourdon. Havia um quarto, chamado André Lafon, que, na úl­

tima hora, deixou-se persuadir pelos dois pajens que o assistiam

e, para escapar à morte, prometeu abrir mão de suas idéias de

reforma. Quando ainda estavam no continente, os conterrâneos

e irmãos na fé dos três mártires, com muitas lágrimas, pediram

que eles evitassem o martírio. Mas um deles, Jean du Bourdel, reagiu: “Meus irmãos, vejam que Satanás se esforça por todos os meios para nos impedir de, resolutamente, defender exatamente hoje, 9 de fevereiro de 1558, a causa de Cristo Jesus, Senhor nosso. Nossas vidas estão nas mãos de Deus e ninguém poderá tirá-las sem a determinação dele. Por que viemos para cá? Quem nos moveu a atravessar as 2 mil léguas deste oceano? Quem nos preservou de tantos perigos? Acaso não é aquele que tudo go­ verna, que dirige todas as coisas, que ampara os seus por meios admiráveis? É certo que contra nós militam três inimigos podero­ sos - o mundo, o Diabo e a carne -, e nós mesmos não podemos resistir a esta tríade. Mas, se nos agarrarmos ao Senhor Jesus, que os venceu por nós, ele nos assistirá consoante a sua promessa.

18

• SOU EU. CALV1NO

Apeguemo-nos a ele e nele inteiramente repousemos. Coragem, pois, irmãos! Que os enganos, as crueldades e as riquezas deste mundo não nos embaracem de irmos a Cristo”.

á E depois?

Logo após a palavra de Bourdel, um barco os levou até o Forte Coligny, onde Villegaignon estava à espera. Quando pergun­ tados se manteriam suas assinaturas na confissão de fé refor­ mada que haviam escrito e assinado, um de cada vez, todos se mantiveram firmes. Então, o vice-rei da França Antártica foi entregando um por um nas mãos do carrasco. E este, por sua vez, os estrangulava e os afogava no mar. Ao ser interrogado por Villegaignon, Verneuil teve a coragem de lembrar-lhe: “Há apenas oito meses o senhor fez ampla e pública profissão desses mesmos pontos doutrinários pelos quais hoje nos leva à morte!”. Antes do meio-dia, os três genebrinos estavam no fundo do mar.

Á Consta que Villegaignon teria dado uma bofetada em Jean du Bourdel?

Isso de fato aconteceu. Ia Bourdel citar a passagem bíblica para confirmar a asserção de Agostinho de que o pão e o vinho são sinais do corpo e do sangue de Jesus, e não o seu corpo, quando

o almirante, num acesso de cedera, o desmente e lhe aplica uma

tremenda bofetada em pleno rosto. Tão violenta foi a agressão física que o sangue jorrou da boca e do nariz do nosso querido irmão, que preferiu manter silêncio. Por ter chorado, o protomár- tir do cristianismo brasileiro foi chamado de homem efeminado por Villegaignon. É aquele velho mito de que homem não chora.

^ A que confissão de fé o senhor se refere?

A confissão de fé a que me refiro encontra-se na Histoire des Choses

Mámorables Advenues en la T'erre du Brésil, sous le Gouvernment de

A IGREJA DE GENEBRA NA FRANÇA ANTÁRTICA

119

N. de Villegaignon, publicada em 1561, por Jean Crespin, um historiador de 43 anos, autor de várias obras de martirologia. Se há algo que me deixa muito orgulhoso é exatamente essa confissão de dezessete artigos, escrita com sangue no primeiro campo missionário da igreja de Genebra no além-mar, por or­ dem do próprio Villegaignon, em 1558. Por se tratar da primeira confissão de fé escrita fora da Europa, ela tem um valor histórico enorme. Mas o valor maior é que ela foi redigida sob pressão dentro do prazo de doze horas exigido pelo governador, e por leigos que não tinham formação teológica nem uma biblioteca para consultar. Os quatro franceses tinham alguma instrução e eram piedosos, mas não eram pastores nem teólogos. O redator mesmo foi Jean du Bourdel, o mais velho e o menos desprepa­ rado. Ele começa com a declaração de fé em Deus (“Cremos em um só Deus, imortal e invisível, criador do céu e da terra, e de todas as coisas, tanto visíveis como invisíveis”) e termina com a declaração de que, à luz da Bíblia, não se deve orar pelos mor­ tos. O documento cita Santo Agostinho, Santo Ambrósio, São Cipriano e Tertuliano. O quarto artigo dessa confissão deveria ter assustado Villegaignon, pois começa assim: “Cremos que nosso Senhor Jesus Cristo virá para julgar os vivos e os mortos, em forma visível e humana, como ele subiu ao céu”. Depois de escrito, Bourdel fazia a leitura de cada artigo quantas vezes fossem necessárias para seus companheiros (Verneuil, Bourdon e Lafon), para que eles aprovassem ou não. No final, os quatro assinaram do próprio punho o documento. Pouco depois, três deles foram manietados, estrangulados e jogados no mar!

Qual foi a sorte do empreendimento da França Antártica de Villegaignon?

Terminou num fracasso total. Depois da execução de Bourdel, Verneuil e Bourdon, metade dos colonos havia desertado, uns metendo-se em desvario pelas florestas e outros correndo para

á

• SOU EU, CALV1NO

as praias na esperança de encontrar um navio francês que os recolhesse e os levasse de volta à França europeia. Um hugue- note chamado Jacques Le Balleur desapareceu. Consta que foi parar na capitania portuguesa de São Vicente, no litoral mais ao sul. Villegaignon caiu em total descrédito. Ele era detestado pelos protestantes, temido e desprezado pelos católicos e aborre­ cido pelos naturais da terra. Tive a oportunidade de ler alguns de seus escritos, publicados em 1560, depois de seu retorno à França, especialmente aqueles que dizem respeito a mim, como Les Propositions Contentieuses entre le Chevalier de Villegaignon et Maistre Jehan Calvin concemant la Verité de VEucharistie. Ele deveria entrar na história com o título “O Caim da América”.

15

O HUMANISMO EA PESTE NEGRA

Tão Cogo a pureza do cuíto seja pervertida, nada permanece íntegro e saudáveC

á Ao falar sobre sua súbita conversão, o senhor menciona que passou do humanismo para o cristianismo. A distância entre um e outro é muito grande?

Se eu não tivesse trocado o humanismo pelo cristianismo, eu seria parecido com o holandês Erasmo de Roterdã, aquele homem ex­ tremamente culto, que escreveu o notável Elogio da Loucura, quan­ do hóspede de Tomás Morus, na Inglaterra. Desidério Erasmo, quarenta anos mais velho que eu, criticou duramente a degradação da religiosidade da igreja em nosso século, tanto quanto nós, mas não foi mais além. Erasmo morreu humanista. Nunca abraçou a Reforma por inteiro. Seria parecido também com o espanhol Juan Luis Vives, conhecido como o mais cristão dos humanistas, que também se manteve humanista até morrer, em 1540. A distância entre o humanismo e o cristianismo não é muito grande, desde que não estejamos falando de humanismo secular.

• SOU EU. CALVINO

Á Humanismo secular?

Embora tenha raízes na antiguidade greco-romana, o humanismo começou a florescer e a influenciar a religião, o pensamento e até as artes no século passado. Hoje, ele tem proporções muito grandes em nosso meio, principalmente em certos países como França, Países Baixos, Inglaterra e Alemanha. Posso afirmar, sem medo de errar, que o humanismo é, em meu tempo, uma sociedade internacional de estudiosos. Entre os seus precurso­ res mais notáveis estão, em ordem cronológica: Lorenzo Valia (morto em 1457), Pico delia Mirandola (morto em 1494) e Marsílio Ficino (morto em 1499). Existem os dois extremos, o humanismo cristão e o humanismo secular (ou paganizante).

O primeiro redescobre a grandeza do ser humano por ter sido

criado à imagem e semelhança de Deus. O segundo chega a endeusar o ser humano, colocando-o no centro de tudo. Os mais famosos humanistas da primeira metade deste século são humanistas cristãos, como Tomás Morus (autor de Utopia) e Erasmo de Roterdã, que morreram um depois do outro, o primeiro em 1535 e o segundo, no ano seguinte.

A Há algum parentesco do humanismo com a Reforma?

Eu diria que sim. E não é muito pequeno. Em certo sentido,

o humanismo abriu portas para a Reforma. Por exemplo, o

principal humanista do século passado, o já citado Lorenzo Valia, contribuiu não só para recuperar a importância do latim

como língua clássica como também para restituir a pureza dos textos bíblicos. O também já mencionado Pico delia Mirandola abriu as portas da liberdade de pensamento, fator de suma importância no movimento da Reforma. Praticamente todos os humanistas abriram os olhos do povo para a falta de auto­ ridade moral do papado e da igreja, intensificando o desejo de uma reforma em seu seio. Por último, os humanistas

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redescobriram a sabedoria e a beleza dos textos gregos e romanos dos tempos passados e despertaram o gosto pelo estudo das

línguas clássicas, como o grego e o hebraico, o que, por sua vez, nos levou a ler as Escrituras em suas línguas originais. O amor

à leitura é outro benefício do humanismo. Entre os clássicos

que começamos a ler estão Clemente de Alexandria (150-215),

Tertuliano (160-225), Crisóstomo (347-407) e, principalmente,

o

formidável Agostinho (354-430). Não quero deixar de lado

o

meu patrício Bernardo de Claraval (1091-1153), conhecido

como “Doutor Melífluo” por sua doutrina “mais suave que o mel”. Ele reformou a igreja em seu tempo por sua vida exemplar,

piedade pessoal e séria autoridade. Lembro-me de uma de suas frases de efeito: “Minha mais sublime filosofia é conhecer Jesus e sua crucificação”. Pena que não tenha completado a declaração

de fé: “

conhecer Jesus, sua crucificação e sua ressurreição”.

á Mudando completamente de assunto, com sua permissão, quero passar do humanismo para a tragédia da peste negra que assolou e tem assolado a Europa neste século e no século anterior. Em outubro de 1523, quando o senhor era um menino de 14 anos, seu pai o mandou estudar em Paris para protegê-lo da peste que grassava em Noyon, sua cidade natal. Essa foi sua única experi­ ência com a peste?

Não foi a primeira nem a última. Em Estrasburgo, onde pas­ toreei uma comunidade de imigrantes franceses e constituí

família, a peste causou a morte de várias pessoas muito chegadas

a mim. Entre elas estavam Elizabeth Bucer, esposa do pastor

Martin Bucer, quatro de seus seis filhos e Wolfgang Capito, pastor auxiliar de Bucer. Na linguagem humana, eu diria que Bucer não merecia tamanho infortúnio porque ele desenvolveu um trabalho social tão bem-sucedido na cidade que acabou com os pedintes de rua. O primeiro marido da minha esposa foi outra vítima. O pior de tudo aconteceu aqui em Genebra,

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logo após a minha segunda chegada no segundo semestre de 1541. Por causa da peste, o comércio e as escolas fecharam suas portas, as ruas ficaram desertas, as poucas pessoas que iam à igreja sentavam-se longe umas das outras, sem saber se o irmão no banco da esquerda estava ou não contagiado. O único som que se ouvia nas ruas era o tilintar das campainhas de carros fúnebres, que passavam carregados de corpos em direção ao cemitério.

á Mas o que, exatamente, o senhor chama de peste negra?

Peste negra é uma forma de peste bubônica que faz surgir na pele manchas de sangue que se tornam escuras. No século 14, ela matou um quarto da população europeia. E uma doença altamente contagiosa. Em 1519, quando eu ainda morava em Noyon, ela dizimou 25% da população de Zurique. Exatamente nesse ano, Ulrico Zuínglio tinha começado a pregar uma re­ forma radical na cidade. Ele foi contagiado, mas conseguiu se recuperar. Na ocasião, ele estava com 35 anos.

á O senhor pessoalmente deu alguma assistência às vítimas da peste?

O

Pequeno Conselho não me permitiu, sob a alegação de que

eu

não deveria correr risco devido à grande necessidade que a

igreja tinha de meus serviços. Na verdade, nunca fui uma pes­ soa de boa saúde. Além do mais, Idelette, minha esposa, estava grávida de nosso primeiro e único filho, que nasceu e morreu quase em seguida. Tínhamos um hospital do lado de fora dos muros da cidade, repleto de doentes. Era a chamada “Casa da Peste”. Peter Blanchet, um dos nossos pastores, ofereceu-se para consolar os que ainda estavam vivos e preparar os moribundos para a morte. Ele ia de esteira em esteira até pegar a doença e morrer. Aconteceu o mesmo com outro pastor.

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Á Éverdade que alguns criminosos procuravam contagiar o maior número de pessoas para se apoderar de seus bens depois da morte delas?

Penso que há fundamento para tanto. Diz-se que certos homens

e certas mulheres de índole má fizeram um unguento contendo

material infectado dos pacientes e o colocaram iras maçanetas das portas da cidade para alastrar a peste com propósitos infa­

mes. A gangue era enorme e o crime foi descoberto, levando ao cárcere e à morte vários deles. Alguns se suicidaram na prisão. O Senhor preservou a nossa casa, apesar da tentativa ou das tentativas de nos contaminarem.

^

De onde surgia a epidemia?

E

difícil responder com precisão. Ouvi dizer que ela tinha sido

trazida por soldados suíços que passaram pela cidade.

á A peste negra seria a ira de Deus sendo derramada sobre os pecadores?

Acho que não, muito embora Deus seja soberano e livre para derramar tanto a sua graça como a sua ira. A palavra peste apa­ rece várias vezes na Bíblia. Quando Davi pecou, Deus mandou que ele escolhesse como castigo três anos de fome, três meses fugindo de seus inimigos ou três dias de peste. Ele preferiu a peste, não porque era o castigo de menor duração, mas porque “era melhor ser punido por Deus, cuja misericórdia não tem fim, a cair nas mãos dos homens” (2Sm 24.13-14). No cerimo­ nial de consagração do templo de Jerusalém, Salomão admitiu que o Senhor poderia castigar o pecado de Israel por meio da fome, da peste e da praga de gafanhotos (2Cr 6.28).

^ Por ocasião da peste que grassou na Europa há pouco menos

de dois séculos, os alemães deram início a um movimento que

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procurasse aplacar a ira de Deus por meio da mortificação coletiva, conhecida como a Irmandade dos Flagelantes

E verdade. Os flagelantes marchavam de cidade em cidade,

todos vestidos com uma túnica preta, carregando uma cruz vermelha numa das mãos e um chicote de couro com ponta de metal na outra. A certa altura, eles se reuniam na praça central de alguma cidade e se golpeavam enquanto cantavam o chamado hino dos flagelantes. Eles executavam esse rito duas

vezes durante o dia e uma vez à noite. Vê-se aí a eterna ênfase

às boas obras para comprar o favor de Deus. Ainda bem que os

reformadores trouxeram à tona a riqueza do sola gratial

á Os flagelantes se consideram os únicos culpados da peste?

A culpa podería ser atribuída aos árabes (principalmente na

Espanha), aos peregrinos religiosos (em Portugal) e, na maior parte das vezes, aos judeus (em todo o norte da Europa). Pior que a peste em si era a mortalidade dos judeus. Em Basiléia, onde eu me exilei em 1535, todos os judeus foram presos em edificações de madeira e queimados vivos. Em Estrasburgo, onde também morei, no ano seguinte, enquanto 2 mil judeus caminhavam rumo à execução, as pessoas roubavam suas roupas. Para agravar a situação, em alguns lugares, os judeus reagiam, como no tempo de Ester e Mordecai, e matavam seus perseguidores. Foi o que aconteceu em Frankfurt. Mas a política do olho por olho e dente por dente só complica as coisas: por terem matado duzentos de seus inimigos, o povo de Frankfurt

acabou com a vida de 12 mil judeus! Em resumo, no período de três anos, houve trezentos massacres que mataram dezenas de judeus e mais de duzentas comunidades foram destruídas. Este é o nosso mundo!

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O NOBILÍSSIMO E CRISTIANÍSSIMO PROTETOR DA INGLATERRA E IRLANDA

CenteCfias de piedade que arderam em muitas ocasiões, se nãoforem atiçadasfrequentemente, podem ser apagadas por torpes anseios da carne

A Em quase todos os países da Europa - França, Países Baixos, Inglaterra, Alemanha, Suécia, Polônia, Suíça, Áustria, Escócia - é possível encontrar alguém que tenha recebido pelo menos uma carta escrita por um certo João Calvino. Quantas cartas e para quantas pessoas o senhor tem escrito?

Não tenho como responder nem uma nem outra pergunta. Não mantenho um registro das cartas enviadas, muito menos tenho cópias delas, a não ser de alguma carta de maior importância. Mas certamente escrevi muitas cartas para muitas pessoas. Sobre a minha escrivaninha, tenho sempre algum papel, uma caneta e um tinteiro. Na maior parte das vezes, sou em que tomo a iniciativa; nas outras, são respostas às cartas recebidas. Algumas com algum atraso, pelo que sempre me desculpo. Para eventual­ mente arquivar uma cópia, eu escrevo outra vez a mesma carta.

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Suponho que, se juntasse todas as cartas, copiadas ou não, e fizesse delas um livro, seriam alguns volumes.

^ Para quem o senhor costuma enviar suas cartas?

Para uma infinidade de pessoas. Aos meus dois amigos mais chegados, Guilherme Farei e Pierre Viret. As autoridades religiosas, como o primaz da Inglaterra e o bispo de Londres. As autoridades seculares, como o senhor DAndelot (capitãogeral da infantaria francesa), o conde de Arran (ex-regente da Escócia durante a minoridade de Maria Stuart), o barão Burghley (secretário de Estado na época de Eduardo VI) e o almirante Gaspar de Coligny. A reis e rainhas, como o rei da Inglaterra, o rei da Polônia, o rei e a rainha de Navarra. Aos reformadores, como Martinho Lutero, Filipe Melâncton e John Knox. Aos colegas pastores, como Henrique Bullinger, pastor de Zurique, e aos ministros de Neuchâtel. Aos cinco