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Calvino. Elben M. CALVINO Categoria: Biografia / Igreja / Teologia Copyright © 2014. Lenz César Primeira edição: Setembro de 2014 Coordenação editorial: Bernadete Ribeiro Revisão: Natália Superbi Délnia M . C. . — Viçosa. alem de outros fontes de origem controlada. Calvinismo 2. Calvinismo : Teologia: Cristianismo 284. Protestantismo 4. SP.SOU EU.ultim ato. ISBN 978-85-7779-113-2 1. Reforma I. 1509-1564 3. 2014. Calvino / Elben M. Lenz Sou eu. M G T e le fo n e : 31 3 6 1 1 -8 5 0 0 Fax: 31 3 8 9 1 -1 5 5 7 www. Lenz César. João.2 PUBLICADO NO BRASIL COM AUTORIZAÇÃO E COM TODOS OS DIREITOS RESERVADOS E D IT O R A U L T IM A T O L T D A C a ixa P o s ta l 4 3 3 6 5 7 0 -0 0 0 V iç o s a .br A marca FSC 6 a garantia de que a madeira utilizada na fabricação do papel deste livro provém de florestas que foram gerenciadas dc maneira ambientalmentc correta. Brasil) César.com. M G : Editora Ultimato. socialmente justa e economicamente viável. Elben M. 14-08460 ___________ '_________________________________ CDD^284. Bastos Diagram ação: Bruno Menezes Capa: Rick Szuecs D ados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câm ara Brasileira do Livro.2 índices para catálogo sistemático: 1. Título.

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* st st O verdadeiro discípulo de CaCvino só tem um caminho a seguir não obedecer ao próprio CaCvino.de.j i Judâ e Jlna. com o desejo de que. os dois primeiros ôisnetos meus e de Ejanira. Kjirí(Bartíi (1886-1968) . mas àquele que era mestre de CaCvino. ahracem os “três somentes” da (Reforma: o soía Scriptura. peCa influência do Espírito Santo e na hora certa. o soía gratia e o soíafi.

capítulo por capítulo. O doutor que não tinha mais fé do que um porco 59 8. Dependendo do espelho o ser humano se vê feio demais 73 10. verso por verso 65 9 . A súbita conversão de um licenciado em leis 19 2 . O livro transformado em catecismo 33 4. Genebra: luz após trevas 25 3 . Luxo.SUMARIO Prólogo 9 Prefácio 13 Apresentação 15 1. O francês Jacques Lefèvre redescobre o sola gratia antes de Lutero 105 . O absolutamente santo e o absolutamente pecador 85 11. Livro por iivro. A igreja de Genebra 45 6. 0 voo que não se realizou 39 5 . A Europa pega fogo mais peia palavra escrita do que pela palavra falada 91 12. A eleição requer evangelização 97 13. extravagância e consumismo 51 7.

0 humanismo e a peste negra 121 16. O nobilíssimo e cristianíssimo protetor da Inglaterra e Irlanda 127 1 7 .0 Diabo vira tudo de cabeça para baixo 133 18. A igreja de Genebra na França Antártica 111 15. O cristão não deve correr da fogueira nem correr para a fogueira 141 Última página 147 ANEXOS De pai para filho 151 0 que se diz de Calvino 157 0 que se diz de A s Institutas 161 Genebra no mapa 163 . Cidades da França e da Suíça onde Calvino viveu 165 Cronologia de Calvino e eventos paralelos 166 Bibliografia 169 índice onomástico 173 .14.

PRÓLOGO SOU EU. CALVINO! Q U A N D O EU ERA BEM PEQ U ENO . embora não tivesse abandonado totalmente os outros estudos. E assim aconteceu de eu ser afastado dos estudos de filosofia e encaminhado aos estudos de jurisprudência. por um ato súbito de conversão. me ocupei deles com menos ardor. . em obediência ao meu pai. pela secreta orientação de sua providência. meu pai me destinou aos estudos de teologia. porém. essa visão o induziu a subitamente mudar seu propósito. imediatamente me senti inflamado de um desejo tão intenso de progredir nesse novo caminho que. Mais tarde. Mas Deus. Tendo assim recebido alguma experiência e conhecimento da verdadeira piedade. A essa atividade me diligenciei a aplicar-me com toda fidelidade. ao ponderar que a profissão jurídica comumente promovia aqueles que saíam em busca de riquezas. subjugou e trouxe minha mente a uma disposição suscetível.

muitos fiéis e santos eram queimados na França. Deus me guiava através de crises e mudanças.CALVINO Fiquei totalmente aturdido ao descobrir que. me transformasse em atenção pública. passei. Essa foi a consideração que me induziu a publicar minhas lnstitutas da Religião Cristã (1536). incitavam a mais forte desaprovação entre uma boa parte dos alemães.10 • SOU EU. E a notícia dessas mortes em fogueira. então. cuja indignação acendeu-se contra os autores de tal tirania. todos quantos nutriam algum desejo por uma doutrina mais pura vinham constantemente a mim com o intuito de aprender. a França. sem ser conhecido. de fato me refugiei na Alemanha. tendo alcançado as nações distantes. por seus perversos desvarios e falsas opiniões. antes de haver-se esvaído um ano. Deixando meu país natal. que. Frente a tudo isso. e assim . de modo a jamais me permitir descansar em lugar algum. enquanto meu único e grande obje­ tivo era viver em reclusão. provar que tais notícias eram falsas e caluniosas. fizeram-se circular certos panfletos ímpios e mentirosos. conhecido apenas de umas poucas pessoas. antes de tudo. declarando que ninguém era tratado com tal cruel­ dade. até que. a despeito de minha natural disposição. Possuidor de uma disposição um tanto rude e tímida. usando o máximo de minha habilidade. meu silêncio não poderia ser justificado ante a acusação de covardia e traição. Em suma. Meu objetivo era. o qual me fora sempre negado. A fim de conter tal indignação. com o expresso propósito de poder ali desfrutar em algum canto obscuro o repouso que eu havia sempre desejado. a menos que eu lhes fizesse oposição. estavam transtornando não só a religião. exceto os anabatistas e pessoas seciiciosas. embora eu mesmo não passasse ainda de mero neófito e principiante. mas ainda toda a ordem civil. Mas qual! Enquanto me escondia em Basiléia. pareceu-me que. a buscar algum canto isolado onde pudesse furtar-me da opinião pública.

verá claramente que não busquei ser agradável. Ao serem publicadas. r e t ir a d a s d e su a d e d ic a t ó r ia d o C O M E N T Á R IO . Embora o que tenho feito não corresponda aos meus desejos. não passavam de um pequeno tratado contendo o sumário das primeiras verdades da religião cristã. sejam pro­ veitosos a outrem.PRÓLOGO • defender meus irmãos. 22 DE JULHO DE 1557 (P a la v r a s d e jo à o C a l v in o D O LIVRO D O S SALMOS. Como essas mesmas crueldades poderíam muito em breve ser praticadas contra muitas pessoas infelizes e indefesas. a tentativa que empreendí merece ser recebida com certa medida de simpatia. Tenho labutado fielmente para abrir o tesouro das Sagradas Escrituras a todo o povo de Deus. na verdacie. a menos que eles. cuja morte era preciosa aos olhos do Senhor. JOÃO CALV1NO • GENEBRA. eu alimentava a esperança de sensibilizar nações estrangeiras para que elas tivessem um mínimo de compaixão e solicitude pelas próximas vítimas. ao mesmo tempo.) . As Institutas não eram essa obra ampla e bem trabalhada de agora. Quando alguém ler os meus escritos.

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um imenso m inistério literário. a complexidade e am plitude de seu pensam ento e o grande contingente de escritores que têm discorrido sobre ele. particularm ente. mais distante se sente da praia. Digo isto porque. de Elben M. pedagógico e. Tudo o que tenho escrito. administrativo. Q uanto mais vivo com ele. teológico. as informações recebidas foram tantas. Tenho tido um a vasta experiência proveniente da longa vivência com este misterioso personagem. mais me sinto perplexo ante o fato de que ele viveu tão pouco e exerceu. e com tanta .PREFÁCIO É MUITO DIFÍCIL escrever sobre joão Calvino. parece que nunca chega. Calvino. social. Pelo menos por três motivos: o grande volume de obras que ele produziu. num a época de poucos recursos tecnológicos. lido e traduzido sobre Calvino me faz sentir como um nadador em alto-mar-. ao ler os originais de Sou Eu. Lenz César. quanto mais nada.

dando graças ao Senhor da Igreja pela vida e ministério de Elben César. parece que as mentes cristãs do uni­ verso literário voltaram-se para João Calvino. lendo com reflexão e oração. Poucos livros foram escritos sobre ele até a última década do século passado. Eis um livro digno de ser lido e relido por todos! VALTERGRAC1ANO MARTINS GOIÂNIA. estas páginas que certamente irão fasciná-lo.14 • SOU EU. mas sinceramente dou boas-vindas ao livro que ora prefacio. Que o leitor tire a limpo pessoalmente. Já li quase tudo o que foi escrito sobre ele no vernáculo. que era como se eu nunca houvesse lido nada sobre o que João Calvino escreveu. 10 DE JUNHO DE 2014 . Se eu estivesse me programando escrever um livro sobre ele. certamente desistiría da façanha depois de acompanhar o autor deste livro em sua tão minuciosa e bela apresentação do grande reformador genebrino na forma de diálogo. CALVINO exatidão. Nestes últimos anos.

E podemos afirmar com acerto que em um só homem aprouve a Deus. Alguns chegam perto do exagero.até hoje. Montesquieu (1689-1755). afirma que “os genebrinos deveríam tornar bendito o dia em que Calvino nasceu”.APRESENTAÇÃO UMA IGREJA REFORMADA TEM DE SER CONSTANTEMENTE REFORMADA O FR A N C Ê S JO Ã O C A LV IN O merece mais uma biografia. em Genebra. Ele tem sido apreciado por muitos desde o seu tempo . em nosso tempo. No século seguinte. escritor francês que lançou as bases das ciências sociais e econômicas. no mesmo instante o sol se pôs e o maior luzeiro que houve neste mundo para a direção da igreja foi recebido no céu. . ensinar-nos a maneira do bom viver e do bom morrer”. seu substituto no púlpito da Catedral Saint Pierre.meados do século 16 . escreve: “No dia da morte de Calvino. É um reconhecimento atrás do outro. Theodoro de Beza (1519-1605).

cientista da religião. Alister McGrath. possivelmente à Dogmática Eclesiástica. diz que Calvino “provou ser uma figura de extrema influência na história da Europa. lançada em 2007 pela Editora Unesp.16 • SOU EU. no início da era mo­ derna. à influência que exercia e ao serviço que prestou para o estabelecimento e difusão da importante verdade!”. de Agostinho. seu maior legado. mudando a perspectiva de indivíduos e instituições. ou à Surraria. O que tem tornado Calvino uma pessoa respeitada nestes 450 anos entre a sua morte (1564) e os dias de hoje são As Institutos. talvez. No século 20. E o famoso pregador inglês Charles H. segundo Daniel-Rops. Segundo o professor Ricardo Quadros Gouvêa. temos uma quar­ ta. Spurgeon (1834-1892) chega a dizer que Calvino “era. mas também a base de uma cosmovisão . Além das três traduções de As Institutos em português publicadas por editoras evangélicas . de longe. o livro mais lido durante o século 16. “em importância. no início do século 21. CALVINO No século 19. à medida que a civilização ocidental começou a assumir sua forma característica”. Entretanto. As Institutas são um livro que fornece não apenas o melhor compêndio de teologia cristã jamais escrito. declara que Calvino saiu vitorioso “sim­ plesmente por ser o maior cristão de seu século”. confidencia: “Eu poderia. o maior dos reformadores no que diz respeito aos talentos que possuía. E agora. Elas poderiam ser comparadas. à Cidade de Deus. de Tomás de Aquino. assentar-me e passar o restante de minha vida somente com Calvino”. Karl Barth (1886-1968). a todas es­ sas obras a obra-prima de Calvino supera.Luz para o Caminho e Editora Cultura Cristã -. As Institutos não possuem rival na história da teologia. feliz e proveitosamente. ilustre teólogo suíço que morreu quatrocentos anos depois de Calvino. de Karl Barth. o também francês EmestRenan (1823-1892). professor da Universidade de Oxford. influência e qua­ lidade.

posto num ataúde de madeira e sepultado sem pompa nem aparato numa cova não identificada. Nestas páginas. seu corpo foi envolto num lençol. todos formados do barro (Jó 33. principalmente. ele e os outros eram iguais.10). o que eles escreveram. A Providência Secreta de Deus. As fontes destas são muitas. seus companheiros e admiradores mais próximos. coloco na boca de Calvino palavras que ele mesmo escreveu em seus muitos livros e palavras que fazem jus ao seu pensamento. Em alguns casos. Optei por não fazer uso das aspas para sepa­ rar umas das outras por causa do estilo de perguntas e respostas. Quando morreu. Meu maior trabalho foi formular as perguntas e não as respos­ tas. e não anjo alado. diante de Deus. simples homem e não super-homem. João Calvino era de carne e osso. Ou como Paulo e Barnabé fizeram com a multidão de Listra: “Ami­ gos.6). Cartas de João Calvino e os comentários de Calvino de quase todos os livros da Bíblia. sem usar aspas nem citar os nomes dos autores. desde o da Carta de Paulo aos Romanos até o do livro do profeta Ezequiel. Apesar de toda a importância dada à vida e à obra de Calvino. Assumo uma dívida com alguns dos muitos biógrafos de Calvino. se ajoelhassem diante dele. Calvino nunca perdeu a noção de que. o reformador reagiría bruscamente como o anjo do Apocalipse fez com o apóstolo João: “Não faça isso! Pois eu sou servo de Deus.15). coloco na boca de Calvino quase ipsis litteris. como As Institutos. Carta ao Cardeal Sadoleto e. se Guilherme Farei.APRESENTAÇÃO • 17 cristã cuja abrangência e consistência são sem igual na história da fé cristã”. assim como são você e seus irmãos que continuam fiéis à verdade revelada por Jesus” (Ap 19. Mesmo correspondendo-se com reis e rainhas e outras autoridades. Pierre Viret e Theodoro de Beza. Entre eles menciono três: Alister McGrath (A Vida . por que vocês estão fazendo isso? Nós somos apenas seres humanos como vocês” (At 14. O Catecismo de Genebra.

CALVINO de João Calvino). publica a primeira edição de As Institutos aos 27 e inicia seu ministério em Genebra antes de completar 28 anos . Convidei Valter Graciano Martins para escrever o prefácio deste livro porque ele é a pessoa que mais tem divulgado Calvino no Brasil. por ser o tradutor perseverante e apaixonado de quase todos os comentários bíblicos e outros livros de João Calvino. LENZ CÉSAR VIÇOSA (MG). Porque João Calvino escreve seu primeiro livro . abri mão desse intento. com a liturgia. com as tradições. pro­ testantes e católicos sabem que a igreja está precisando de fato de uma reforma. tem uma experiência de “conversão súbita” antes dos 26. da Mocidade Para Cristo. Genebra e Reforma) e Hermisten Maia Pereira da Costa (João Calvino .18 • SOU EU. com a pregação. e pela Editora Fiel (a maior parte das traduções).De Clementia aos 23 anos. ELBEN M. 27 DE M A IO DE 2014 (D IA D O 450° A N IV E R SÁ R IO DA M ORTE DE C ALVIN O ) . mas. com a moralização. uma das heranças da Reforma do Século 16 é a famosa declaração de Lutero “Ecclesia reformata semper reformanda” (a igreja reformada tem de ser constantemente refor­ mada).tive uma enorme vontade de dedicar este livro sobre o notável re­ formador francês aos jovens da Aliança Bíblica Universitária. com os dogmas. Tive a ousadia de colocar na pena de Calvino o que eu entendo por reforma no capítulo onze: “A reforma mexe com as estruturas. com os princípios e com a história e a vocação da igreja. da Cruzada Estudantil para Cristo e da Jornada Mundial da Juventude. Ronald Wallace (Calvino. É algo operado por Deus mesmo de modo soberano e eficaz”.500 anos). principalmente. publicados nos últimos vinte anos pelas Edições Parakletos. não só por meio de palestras em vários lugares. Além do mais. Aliás. Contudo. por ele fundada. para não limitar o alcance da obra.

Foi nesse período que adquiri minha primeira educação e modos refinados para posteriormente transitar em todos os meios sociais com polidez. meu pai. por bondade deles. tive o privilégio de receber a mesma educação que os nobres davam aos seus filhos. por ser secretário do bispo de Noyon e procurador fiscal do município. tinha muito boas relações com as famílias nobres. Essa solidariedade me ajudou . o que tem colaborado muito com o meu ministério. Porém. conversa e prega para elas com naturalidade.1 A SÚBITA CONVERSÃO DE UM LICENCIADO EM LEIS Toi com muita má vontade e muita dificuídade que eu me identifiquei com a (Reforma A O senhor escreve cartas para pessoas nobres de seu país e de outros países. já que sua família é modesta? Embora minha mãe tenha vindo de uma família abastada. De onde vem essa habilidade. Tanto em Noyon como em Paris fui colega dessas crianças privilegiadas. Graças a isso e à providência de Deus. meu pai de fato era de origem modesta. sem o menor constrangimento.

mosteiros. um irmão mais velho e três irmãos menores. fui educado em sua casa e iniciado em meus estudos junto com você. autor da sátira Gargântua e Pantagruel. escrito quando eu tinha 23 anos.talvez mais de 4 mil (na época Paris devia ter 300 mil habitantes). construída há mais de três séculos. igrejas. ainda menino. hotéis. matriculei-me no Collège de Montaigu (Morro Agudo). A disciplina era muito rígida e estudávamos . Depois de passar alguns meses no Collège de La Marche estudando humanidades e latim com o grande humanista Mathurin Cordier. Á 0 senhor nasceu em Noyon? Nasci em Noyon. Passei muito aperto nessa escola. meu contro­ vertido patrício. CALVINO também a lidar com a morte prematura de minha mãe. Ficava no labirinto de ruelas estreitas e sujas (o mau cheiro era enorme). Estou endividado com sua mui nobre família por meu primeiro aprendizado na vida e nas letras”. no dia 10 de julho de 1509. onde havia faculdades. á Suponho que em Paris o senhor tenha estudado na Sorbonne. A comida e as instalações eram péssimas. um comentário sobre Sêneca. Fiz questão de dedicar a Claude de Hangest. o meu primeiro livro. quando eu tinha seis anos apenas. uma escola menos requintada. Não. Erasmo tinha razão: era um colégio infestado de piolhos. mas pela qual passaram Erasmo de Roterdã e François Rabelais. pois desde bem cedo. E a cidade da famosa catedral Notre-Dame (não a Notre-Dame de Paris nem a de Reims nem a de Amiens).• SOU EU. Sou francês e não suíço. capelas. O número de alunos era muito grande . livrarias e até bordéis. Na dedicatória mostrei minha gratidão à família: “Devo a você tudo o que sou e tudo o que tenho. como alguns pensam. um dos meus amigos de infância. a famosa e tricentenária escola de teologia.

em nome de Deus. á Em Montaigu. uma mocinha de 17 anos que. direito. que morreu pouco depois.A SÚBITA CONVERSÃO DE UM LICENCIADO EM LEIS • 21 muito . Nos 25 primeiros anos de nosso século. sem muito entusiasmo. onde passou por experiências misticas. por influência de meu pai.na verdade antes. Por um ano. em direito. Orléans é uma cidade bem menos agitada que Paris e na época tinha apenas uma faculdade. mas as águas frescas dos clássicos e das Escrituras. comemorávamos os 100 anos da vitória de Joana d’Arc. medicina e humanidades. durante e depois das refeições. mesmo sem completar o curso. Essa cidade é muito conhecida por causa de Joana d’Arc. fui colega de um espanhol chamado Inácio de Loyola. Justamente naquele ano (1529). A minha verdadeira vocação . Qual delas escolheu? Seria um bom lugar para cursar teologia. 25. a de direito civil (não canônico). O que o levou a achegar-se a Deus foi a leitura de um livro sobre a história de Jesus quando estava se recuperando de graves ferimentos recebidos numa guerra com os franceses em Pamplona em 1521. conhecido como “o príncipe dos advogados franceses”. dezoito anos mais velho. o senhor poderia continuar os estudos e optar por teologia. fui estudar jurisprudência em Orléans. Foi nesse colégio que concluí minha licenciatura em artes. à semelhança de Davi ao enfrentar o gigante Golias. ao sul de Paris. sob a supervisão de um amigo chamado Melchior Wolmar. aproveitei a oportunidade para estudar grego por conta própria. Tive o privilégio de estudar com Pierre de L’Estoile. Para beber não as águas estagnadas. Ele tinha uma história muito bonita: antes de vir a Montaigu em 1528.4% dos estudantes de teologia que não pertenciam às ordens religiosas receberam seu treinamento em humanidades nessa universidade. derrotou os ingleses que a cercavam. Mas. uma região de castelos ao longo do rio Loire. passou quase um ano inteiro orando e jejuando numa caverna perto de Manresa. em 1429. No início de 1531 graduei-me.

Mas o tempo que passei em Orléans me fez amar a literatura. no dia Io de novembro de 1533. A mesma faculdade. Embora . Dizia-se que Marguerite. que estava grávida. Sem o conhecimento do grego e do hebraico . O caldo estava quase derramando. Á O que acontecia em Paris? Cheguei a Paris em abril de 1531. Lá mesmo comecei a escrever De Clementia.22 • SOU EU. deu início a uma perseguição por heresia contra Roussel. Porém não teve a saída que esperava. CALVINO era outra. Dois anos depois. recém-eleito reitor. Mas o conservadorismo mantinha as portas fechadas. O impacto foi tão grande que a faculdade de teologia ordenou que seis de seus membros pre­ gassem contra “os erros e a perversa doutrina dos luteranos”. um comentário sobre a obra de Sêneca. foi sobre a necessidade de reforma e renovação dentro da Igreja. o que me obrigou a pedir algum dinheiro empresta­ do a alguns amigos. O livro foi publicado às minhas custas em Paris em 1532.línguas originais das Escrituras eu não poderia ter escrito o comentário de muitos livros da Bíblia. feito por Nicolas Cop. Talvez houvesse alguma dose de vaidade tanto no estudo do grego como no preparo do livro. Os simpáticos à Reforma de Lutero queriam a princípio uma reforma interna. Hoje vejo a mão de Deus em tudo isso. du­ quesa de Alençon e rainha de Navarra. Para aumentar a tensão de um lado e de outro. Outros pregadores começaram a imitar o estilo e as idéias de Roussel. Rabelais dizia que “quem não sabe grego não pode considerar-se sábio”. autorizada pelo vigário de Paris. Mas não ficou só nisso. Estudei também hebraico por conta própria. De Orléans voltei para Paris. que tinha a cobertura de Marguerite d’Angoulême. o evangélico Gérard Roussel começou a atrair multidões com suas pregações durante a quaresma (1533). tinha enlouquecido ao ler a Bíblia. o discurso de abertura do novo ano acadêmico da Universidade de Paris.

eu ouvia com muita má vontade e. A Foi nessa época que o senhor teve a sua experiência de con­ versão? Na década de 1520. Graças ao bom Deus. como o filho pródigo. Mas não foi como a conversão da mulher pecadora nem como a do ladrão na cruz. porém abrange uma mudança exterior. em toda a Europa ninguém nascia pro­ testante. da superstição para a fé evangélica. escrita quando eu tinha 30 anos. No dia 19 de novembro. A Bíblia que recebi de presente de um dos meus fami­ liares me arrebatou do catolicismo. em busca de refúgio. Afinal o grito nascente da Reforma era recentíssimo (31 de outubro de 1517) e acontecera em outro país. o discurso foi considerado ofensivo e radical por aqueles que o ouviram. confesso. do humanismo para o cristianismo. Antes de minha conversão eu me achava obstinadamente devotado às superstições do papado de tal modo que não conseguia desvencilhar-me com facilidade de tão profundo abismo de lama. do tradicionalismo escolástico para a simplicidade bíblica. Deixe-me ser o mais claro possivel.A SÚBITA CONVERSÃO DE UM LICENCIADO EM LEIS • 23 o orador tenha sido modesto em suas propostas. A conversão aconteceu mesmo e foi tremendamente marcante. Deus. mas nunca fui um pecador de sarjeta. visível e radical da lealdade institucional. resisti com energia e irritação. por um ato súbito de . no início. não escondi essa dificuldade: “Contrariado com a novidade. Não foi uma mudança fácil. Foi com a maior dificuldade que fui induzido a confessar que por toda a minha vida eu estava na ignorância e no erro”. Não me con­ vertí do mundanismo para Cristo. Em carta ao cardeal Saduleto. Ela não é meramente uma experiência religiosa privada e interna. Minha conversão foi do romanismo para o protestantismo. graças ao temor do Senhor e graças à herança religiosa. Cop foi substituído no cargo e pouco depois foi parar em Basiléia. Muitas vezes conversão nada mais é do que romper com o passado. sou pecador.

Com esse toque soberano e misericordioso. aos 70 anos. me senti inflamado de um desejo tão intenso de progredir que. meus contatos eram com os que falavam francês ou latim. tentei ser um reformado por dentro sem tirar a máscara católica. fui obrigado a deixar Paris e perambulei por Angoulême e Poitiers. morava na cidade e morrería no ano seguinte. ^ Quando tirou a máscara. Depois.24 • SOU EU. . na França. embora não tenha abandonado totalmente os outros estudos. como era o meu caso. eu conto essa experiência tão notável quanto inesperada e imprevisível. entre os quais nomeio dois dos meus melhores amigos. conhecida como um centro de le­ tras e um lugar seguro p$ra aqueles que eram simpatizantes da causa evangélica ou já participantes dela. Por ser uma cidade de língua alemã e por eu não falar a língua de Lutero. CALVINO conversão. subjugou e trouxe minha mente a uma disposição suscetível. No prefácio de meu Comentário aos Salmos. o senhor começou a sofrer persegui­ ção? Em outubro de 1534. passei algum tempo na Itália e em Estrasburgo. Erasmo de Roterdã ainda era vivo. em janeiro de 1535. a idade limite citada no Salmo 90. acontecida na metade exata de minha existência! Por um pequeno período de tempo. fui parar em Basiléia. Finalmente. me ocu­ pei deles com menos ardor. Guilherme Farei e Pierre Viret.

estou completando 22 anos de Genebra. na primeira vez. não posso dizer que estou aqui por acaso. ^ O senhor está dizendo que Farei o obrigou a mudar-se para Genebra. Farei soube disso e veio ao meu encontro. na segunda vez. Era o verão de 1536. a caminho de Estrasburgo. se incluir o pequeno período do verão de 1536 a abril de 1538 que passei na cidade. tivemos de pernoitar em Genebra. Agora. Como assim? Eu estava só de passagem por Genebra. Não sei como. que aprendi a amar intensamente. Tenho certeza que foi o Senhor da Seara quem me trouxe para essa cidade. pareceu-me que a mão de <Deus me trazia para Çeneôra Á Há quantos anos o senhor mora em Genebra? Moro aqui desde setembro de 1541. Porém. ou porque o Pequeno Conselho de Genebra me obrigou a voltar. no final de 1563.2 GENEBRA: LUZ APÓS TREVAS Movido peCafuíminante imprecação de <Fare(. Ele não me . seriam 24 anos. Eu tinha 27 anos quando meu irmão e eu. Para ser honesto. ou porque Farei me obrigou a mudar-me para cá.

por ela ter se tornado uma das cidades de refúgio da Europa. ^ Quando Genebra se tornou protestante? Sob o ponto de vista histórico e jurídico. Por ser uma das encruzilhadas da Europa. muita gente passa por Genebra. Nos últimos dez anos. o que acontece em outras partes da Suíça. á Genebra é uma cidade bonita? Poucas cidades têm uma localização tão bela como Genebra. ficam cobertas de neve. Padres. com matrícula obrigatória para crianças. Em janeiro de 1537. pus as mãos no arado. Desde então a missa não é mais celebrada. pareceu-me que dos céus a mão divina estava me aprisionando para sempre na cidade do lago. no inverno. Farei tinha quase o dobro da minha idade e me meteu medo. Deus amaldiçoaria os meus estudos. Movido mais por essa fulminante imprecação. Estamos à margem de um lago de águas azuis chamado Léman e rodeados de montanhas. moram em Genebra para escapar à perseguição religiosa. Outro foi transformado em hospital. Vários estrangeiros. Quase 70% da população é formada de artesãos. CALVINO pediu para ficar nem me convidou delicadamente a associar-me a ele em seu ministério na cidade.26 • SOU EU. foi no dia 27 de agosto de 1535. É uma cidade muito antiga. Ele apenas me ameaçou. Até a primeira metade do século passado notáveis feiras internacionais eram realizadas aqui. Se eu não me mudasse para Genebra. monges e freiras não .100 para 21. Nossa língua oficial é o francês. visitada por Júlio César cin­ quenta anos antes de Cristo. logo após um debate público entre católicos e protestantes do qual os reformados saíram vitoriosos. Não falamos nem alemão nem italiano. Somos uma cidade-estado e não pertencemos aos cantões de Berna nem Friburgo. Um dos mosteiros foi transformado numa escola primária. a população subiu de 13.400 habitantes. principalmente franceses. que.

GENEBRA: LUZ APÓS TREVAS • 27

foram expulsos da cidade. A maior parte foi embora por decisão
própria. A reforma de Genebra, em certo sentido, começou com
o pé direito, pois reconheceu a liberdade de culto e as dimensões
sociais do evangelho. Porém, em outro sentido, começou da
estaca zero, pois houve mudança de rótulo e não mudança de
vida. Farei e outros tiveram de enfrentar o tremendo desafio
de pregar o evangelho e o novo estilo de vida a uma multidão
de protestantes até então só de nome. Foi por causa disso que,
um ano depois, ele me procurou na estalagem em que eu estava
hospedado e me constrangeu a permanecer em Genebra.
Á 0 que levou o povo a votar a favor da Reforma na tal assembléia
pública?

Para chegar a esse ponto da história nada foi fácil nem tão
rápido. Eu tinha 23 anos e concluía o curso de direito em
Orléans, na França, quando Guilherme Farei e Antoine Froment
começaram seu ministério em Genebra (outubro de 1532).
Os dois tinham uma audácia fora do comum e eram muito
espertos. Numa ocasião, estando em Roma, Farei subiu ao
púlpito de uma igreja e gritou mais alto do que o padre que
estava entoando a missa. Noutra, ele entrou numa procissão e
arrancou algumas relíquias das mãos de um padre e as jogou no
rio. Froment, por sua vez, portou-se com muita criatividade: ele
colocou em vários pontos de Genebra o seguinte aviso: “Um
jovem recém-chegado nesta cidade dará instrução na leitura e
na maneira de escrever a língua francesa a todos que quiserem,
grandes e pequenos, homens e mulheres, mesmo aqueles que
nunca foram à escola. Caso não aprendam a ler e a escrever
dentro de um mês, ele não deseja nenhuma recompensa pelo
seu trabalho”. O professor acrescentou: “Esse homem também
cura muitas doenças de graça”. Foi um sucesso! De fato ele en­
sinava e medicava os doentes, mas não perdia a oportunidade
de incluir pequenos sermões e comentários sobre a Bíblia em

28 • SOU EU, CALVINO

suas aulas. Várias vezes tentaram matar Farei e Froment, mas
sempre em vão. Em abril de 1535, a empregada da casa onde os
pregadores estavam hospedados, subornada por alguns padres,
colocou veneno na sopa de espinafre de um deles. Meu amigo
Pierre Varet quase morreu. Piores ainda foram os embates
violentos entre uma multidão de católicos e uma multidão
de protestantes. Essa fase difícil terminou com o edital dos
conselhos de Genebra dando grande causa aos reformadores.
A partir daí a cidade de Genebra passou a ter a tranquilizante
divisa: Post tenebras Lux (Luz após trevas).
A O senhor está com 55 anos. Portanto, já viveu mais da meta­
de do presente século. E vive na parte ocidental e no hemisfério
setentrional, onde estão 95% de todos os cristãos. O que pensa
do século 16?

Não sei o que virá depois deste século. Porém considero o sé­
culo atual um presente de Deus. Não só por causa da Reforma
e da Contrarreforma, mas por causa de muitas outras coisas,
a começar com as fantásticas descobertas marítimas. Fernão
de Magalhães acaba de fazer a primeira viagem ao redor do
mundo (1519-1522). Antes dele, Vasco da Gama descobriu o
caminho das índias (1498) e Cristóvão Colombo descobriu a
América (1492). Esses eventos bem-sucedidos provocam tremen­
das mudanças geográficas. Na área da astronomia, que muito
me atrai, o polonês Nicolau Copérnico acaba de publicar De
Revolutionibus Orbium Caelestium [Das revoluções dos mundos
celestes]. Na área da matemática, o avanço é enorme no que
diz respeito às frações decimais, à trigonometria retilínea e es­
férica, às equações de terceiro e quarto graus e ao livro Trattato
de Numeri e Misure [Tratado sobre os números e medidas], do
italiano Tartaglia, publicado em 1545. No ramo da medicina,
o mais importante, creio, é o livro do meu patrício Ambroise
Paré, de 1545, intitulado Méthode de Traicter les Playes [Método

GENEBRA: LUZ APÓS TREVAS • 29

de tratar as feridas], que pode abrir portas para salvar muitas
vidas. Curiosamente foi o herege Miguel Serveto, que nós
queimamos vivo em Genebra, que distinguiu as cavidades
direita e esquerda do coração, isto em 1533, pouco antes de
morrer. Acho que devo mencionar ainda o formidável traba­
lho do flamengo Gerardus Mercator, que fez um grande mapa
da Europa e uma representação plana da Terra. O que ele fez
pode nos ajudar a entender melhor o desafio da última ordem
de Jesus: “Vão a todos os povos do mundo e façam com que
sejam meus seguidores” (Mt 28.19). A impressão que eu tenho
é que esses nossos arautos da ciência moderna trabalham para
Deus. Copérnico, por exemplo, entende que os astrônomos são
sacerdotes de Deus e que, no exame da natureza, eles devem
glorificar o Criador.
Á No campo das artes, o atual século tem sido pródigo?

Muito pródigo. Ainda estamos sob o impacto do polivalente
Leonardo da Vinci, que morreu em Amboise, na França,
quando eu tinha apenas nove anos. Ele empregou seu gênio
em quase todas as artes e ciências. Foi pintor, escultor, arqui­
teto, inventor, botânico, geólogo, engenheiro e músico. Além
de tocar alaúde e outros instrumentos por ele inventados, da
Vinci era um repentista, capaz de improvisar letra e música
conforme ia tocando. Tinha também suas excentricidades:
escrevia com ambas as mãos e fazia suas anotações de trás
para frente com a mão esquerda. Dizem que ele deixou um
caderno de 7 mil páginas com desenhos, esboços de invenções
e comentários sobre pinturas, anatomia e filosofia. Embora
tenha pintado o mural A Ultima Ceia no refeitório de um
mosteiro na Itália, o artista, ao contrário de muitos outros,
não demonstrava interesse algum pela religião. Temos tido
artistas notáveis que produzem muito mais pinturas religiosas
do que de outra natureza. Um dos mais impressionantes é o

sob o toque do Espírito Santo. eu entrarei na sua casa e nós jantaremos juntos” (Ap 3. E o segundo pintou A Crucificação (1503). Em resumo. CALVINO afresco A Criação de Adão. A Em sua opinião. Sem medo de exagerar. Muitos estão dando a própria vida para que isto aconteça e continue a acontecer. Entre os pintores do presente século. Por quê? Depois de permanecer todo o ano de 1537 e o primeiro trimes­ tre de 1538 em Genebra. A Queda do Homem (1504). eu e Farei fomos expulsos de lá pelo .20). a redescoberta da graça e a redescoberta da justificação pela fé. amigo de Filipe Melâncton. graças à invenção da imprensa. Já temos Jesus em nossa mesa e estamos “jantando” com ele e convidando o mundo inteiro para vir comer conosco! Á Não me lembro qual. algo muito mais amplo e universal que qualquer outra reforma na história religiosa de Israel ou da igreja. do italiano Michelangelo. estamos abrindo a porta da igreja para que Jesus entre outra vez e ocupe o seu lugar no púlpito e na vida dos fiéis.30 • SOU EU. pintado na Capela Sistina. O primeiro fez um quadro abordando um dos temas mais queridos por nós. e Lucas Cranach. o maior evento de todos foi aquele que estamos chamando de reforma religiosa. Por muito tempo ele esteve batendo à porta e prometendo: “Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta. de tudo o que tem acontecido na primeira metade do presente século o que mais vai influenciar o mundo daqui para frente? Muito mais importantes que as descobertas marítimas e tudo o mais foram a redescoberta da Bíblia. em 1511. alguns se comprometem com a Reforma de Lutero. como Albrecht Dürer. Estamos produzindo centenas de livros da mais pura teologia e muitos co­ mentários bíblicos. mas numa dessas conversas o senhor me contou que foi expulso de Genebra. exatamente há cem anos.

Separei-me de Farei. eu era um cidadão francês. éramos muito diferentes. A divisa da cidade “luz após trevas” era apenas uma afirmação profética e não uma realidade presente. além de ser um jovem de 28 anos. que eu chamo de “meus anos dourados”. tais como festas sem recato. Entendo que tivemos pressa demais para mudar as coisas. Foi em . e não suíço. Não tive a paciência necessária para lidar com certos costumes arraigados na sociedade que não combinavam com a moral evangélica. O caldo acabou entornando. adultérios etc. fui convidado a pastorear uma comunidade de língua francesa e a lecionar na Escola Alta (setembro de 1538). Tive muitas atividades literárias: publiquei a segunda edição de As Institutos em latim e a primeira em francês. e comecei a pregar sobre ele. Além de coisas menores. Amadurecí bastante. havia coisas bem mais reprováveis. Fui para Estrasburgo. A prostituição era san­ cionada e oficializada pelas autoridades.GENEBRA: LUZ APÓS TREVAS • 31 Pequeno Conselho. Com a experiência de Genebra. Veja só: a supervisora dos prostíbulos era uma mulher eleita pelo Pequeno Conselho. mais conhecido como o Catecismo de Genebra. Nosso desejo era que cada genebrino. Cinco meses depois de ter chegado. se submetessem a esse documento apondo a ele a sua assinatura. homem e mulher.embora amigos. Foi nessa ocasião que escrevi Instrução na Fé. á Voltou para Basiléia? Não. como a san­ tificação do domingo e os jogos de azar. passei a mudar as minhas atitudes. e escrevi a Carta ao Cardeal Sadoleto e o Comentário da Epístola de Paulo aos Romanos. meu temperamento. Começaram a ter antipatia por mim: afinal. onde passei os três anos mais feli­ zes da minha vida. que foi para Neuchâtel . até que Farei e eu fomos expulsos oficialmente de Genebra em abril de 1538. muita pompa (e não austeridade). Era um otimismo demasiado! Foi aí que surgiram as primeiras divergências entre mim e o Pequeno Conselho. meu estilo. bebedeira.

fixei residência outra vez em Genebra. . CALVINO Estrasburgo que aprendi a lidar com pessoas de todas as classes. em 1549. três anos e meio depois de expulso. um teólogo da altura de Lutero. Tornei-me de uma hora para outra seu professor. naturalmente o senhor se esqueceu de Genebra. em julho de 1542. morreu poucos dias depois. ele me pediu para ser o professor dela. recebi um surpreendente convite. Deus me usou para despertar muitos jovens para o ministério. esposo e pai de seus filhos. Fui muito aplaudi­ do porque todo mundo achava estranho que eu fosse solteiro sendo absolutamente contrário ao celibato sacerdotal. de humildes refugiados a mestres e teólogos. o cura da catedral da cidade. o fundador do Gymnasium de Estrasburgo. Convidei Farei para celebrar nosso casamento. Sabe de quem? Era do Pequeno Conselho de Genebra. para tristeza nossa. J Em Estrasburgo. No dia 13 de setembro de 1541.. Em meio a tudo isso. que. Foi meu irmão Antoine quem descobriu Idelette e me aproximou dela sutilmente: como minha futura mulher não falasse francês.. e Martin Bucer. dei um grande passo à frente: casei-me no dia 14 de agosto de 1540 com uma jovem viúva chamada Idelette de Bure e me tornei padrasto de um menino (Jacques) e uma menina (Judith). onde estou até hoje! Infelizmente sem Idelette. Eles queriam que eu voltasse à ci­ dade e recomeçasse o meu ministério de pastor. pregador e professor. como Matthieu Zell. Johannes Sturm. Quando eu estava começando a me esquecer. que morreu há quatorze anos.32 • SOU EU. tivemos nosso único filho. Dois anos depois.

o concilio de Tortosa. para levar especialmente as crianças a professarem sua fé em Jesus de modo consciente e convincente. pois ensinava o que se deve crer. publicou o texto Lay Folks Catechism. na Inglaterra. quando o arcebispo de York. Meio século depois. o que se deve observar. á Quando se usou pela primeira vez o termo “catecismo”? Foi em 1375. na Espanha.3 O LIVRO TRANSFORMADO EM CATECISMO JL igreja jamais preservará a si mesma sem um catecismo á O que o senhor chama de catecismo? Trata-se de um manual da doutrina cristã. geralmente em forma de perguntas e respostas. voltado à instrução religiosa. segundo um programa sistemático. . o que se deve evitar e o que se deve desejar e esperar. ordenou a elaboração de um breve compêndio que bem poderia chamar-se catecismo. Eu diria em linguagem menos simples que é um método racional de en­ sino da fé e da moral cristã. o que se deve pedir.

Já no catecismo de Honório de Autun. Doze anos depois de romper oficialmente com Roma (1517). Para o reformador alemão. pode ser o contrário: a criança pergunta e o mestre responde. mas também dos jovens e adultos. Embora não muito comum. do Credo Apostólico e da Oração do Senhor. nem o credo. por causa de sua ênfase considerável na educação religiosa não só das crianças. “Embora todos se chamem cristãos e participem dos santos sacramentos” . Lutero publicou o seu Catecismo Menor. vivendo como pobres animais e porcos sem inteligência. sobre os anjos.como podem abusar de sua liberdade”. sobretudo nas aldeias. que substituiu o Catecismo Maior.34 • SOU EU.“não conhecem nem a Oração do Senhor. o mestre pergunta e o discípulo responde. E o caso do catecismo Disputatio Pueronim. sobre a pessoa de Deus. o catecismo não passa .escreve Lutero no prefácio de seu catecismo . sobre os sacramentos. que muitos pastores eram quase totalmente ignorantes e incapazes de ensinar. O que o levou a preparar o catecismo e difundir o seu uso o máximo possível foi a constatação de que o povo de Deus nada conhecia da doutrina de Deus. nem os Dez Mandamentos. á Desde quando a igreja tem feito uso do catecismo? Provavelmente a partir do século 2o. embora saibam muito bem agora que o evangelho lhes veio . CALVINO A Sempre é o mestre que faz as perguntas e as crianças que respondem? Não. sobre a igreja. O uso universal do batismo infantil após o século 6o incentivou o preparo dos catecismos para firmar as crianças já batizadas. sobre os símbolos da fé e sobre o Pai-Nosso. sobre o Antigo Testamento. sobre o homem. publicado no século 11. disposto em dez capítulos: perguntas sobre a criação. do ano anterior (1528). As perguntas e as respostas giravam normalmente em torno dos Dez Mandamentos. Mas foi a Reforma que de fato popularizou o uso do catecismo. sobre o Novo Testamento. Mais ainda.

a resposta é “Nenhum homem pode alcançar a salvação mediante as obras da lei. aos que deram escândalo e ainda não o removeram e aos que não podem se examinar a si mesmos. como. O catecismo era levado para dentro dos lares e o chefe da família tinha de ensiná-lo à sua família. a resposta é “Nosso próximo é todo aquele que necessita do nosso amor”. Vou dar alguns exemplos. crianças e pessoas sem sentidos”. mais de uma para cada dia do ano. por exemplo. Ninguém é forçado a crer. á O catecismo era ensinado apenas nas igrejas e pelos pastores? De forma alguma. porque desde a queda no pecado o homem natural é de todo incapaz para guardar a lei de Deus e o próprio cristão só a cumpre imperfeitamente”. entre um homem e uma mulher para uma só carne”. Para a pergunta 95 (“Homem qualquer pode alcançar a salvação mediante as obras da lei?”). de 1529? São 375 perguntas e respostas. .0 LIVRO TRANSFORMADO EM CATECISMO • 35 de “um livro que instrui por meio de perguntas e respostas”. quantas perguntas e respostas tem o “ Breve Catecismo” . a resposta é “A Santa Ceia não se deve dar aos ímpios e impenitentes manifestos. a resposta é “O matrimônio é a união vitalícia instituída por Deus e contraída. Para a pergunta 5 (“Donde tirou Lutero essa doutrina?”). a de número 374 (“A quem se não deve dar a Santa Ceia?”). aos hereges. Depois de ministrar o Catecismo Menor. mas é dever dos pastores treinar e impelir a grande massa a saber o que é errado e o que é certo em matéria de fé. a resposta é “Lutero tirou essa doutrina da Escritura Sagrada ou Bíblia”. mediante esponsais legítimos. para terem uma explicação mais profunda e mais completa. Para a pergunta 56 (“Que é matrimô­ nio?”). os pastores tinham de passar para o catecismo mais longo. Para a penúltima pergunta. Para a pergunta 42 (“Quem é o nosso próximo?”). á Pór curiosidade.

resolvi transformar esse livro. a terceira é só sobre a oração (63). visto que daí em diante cada novo ministro da igreja devia jurar fidelidade aos ensinos nele expressos e comprometer-se a ensiná-los. principalmente quando se pensa no leitor mirim? Pela aceitação que ele teve. Foi minha primeira exposição teológica sistemática em língua francesa (As Institutas haviam sido escritas em latim). a ponto de provocar maior unidade entre as igrejas reformadas. . Quem pretende construir um edifício duradouro. esse cate­ cismo ganhou mais importância. a segunda trata dos Dez Mandamentos (102). em linguagem apropriada à sua idade. A obra intitulava-se Instrução e Confissão de Fé e era para o uso da igreja de Genebra. A partir de 1561. no início de 1542. se é que se pode chamá-lo de catecismo. A Um catecismo de quase quatrocentas perguntas e respostas não é grande demais. com 373 perguntas e respostas (duas a menos que o de Lutero).36 • SOU EU. Eu o dividi em quatro partes: a primeira é sobre a fé de um modo geral (130 perguntas). publiquei o meu primeiro catecismo. eu lhe disse francamente que a igreja de Deus jamais preservará a si mesma sem um catecismo. e a última parte se refere à Palavra e aos Sacramentos. que não entre logo em decadência. CALV1NO á Pessoalmente. quando ele era regente da Inglaterra durante a menoridade de Eduardo VI. deve providenciar que as crianças sejam instruídas num bom catecismo que mostre resumidamente a elas. que é como a boa se­ mente impedindo a extinção do bom cereal e multiplicando o trigo na seara do mundo. num verdadeiro catecismo. em que consiste o verdadeiro cristianismo. era após era. creio que isso não é problema. como o senhor avalia o catecismo? Em minha longa carta de outubro de 1548 ao duque de Somerset. Cinco anos depois. á O senhor mesmo nunca elaborou um catecismo em francês? Durante o inverno de 1536-1537. já traduzido para o latim. pois não era em forma de perguntas e respostas.

Em sua posição teológica. de Lutero. Trata-se do Catecismo de Heidelberg. de Bullinger. de Allen e do rei Eduardo VI. A Qual é a sua opinião sobre o “Catecismo de Heidelberg”? É a melhor possível. não seriam suficientes? Parece que está saindo outro catecismo. professor da Faculdade de Teologia de Heidelberg. pois reúne três correntes do pensamento reformado. Possui um caráter inteiramente bíblico. É um catecismo três vezes menor do que o meu. de Cranmer. Foi elaborado para ser ao mesmo tempo um guia para a instrução . Ademais. por iniciativa do príncipe eleitor Frederico III. dispostas de tal modo que podem ser estudadas durante os 52 domingos do ano. saíram vários outros: os catecismos de Oecolampadius. Ele convidou Zacarias Ursinus. para prepararem um catecismo a fim de ensinar a doutrina bí­ blica aos jovens da igreja. O melhor é que ele é um manual da religião prática. Toda a sua estrutura é moldada pela perspectiva bíblica. evangélico e reformado. ambos com menos de 30 anos. acentuando a sua importância para a vida diária. Eu diria que esse catecis­ mo deixa a Escritura falar e não procura substituí-la. e Gaspar Olivianus.0 LIVRO TRANSFORMADO EM CATECISMO • 37 Á O seu catecismo e o “Catecismo Menor” . Considero-o superior ao meu catecismo e ao de Lutero. publicado em fevereiro de 1563. Porque Frederico queria um catecismo conci­ liador que pudesse combinar o melhor da sabedoria luterana e reformada. Tem apenas 129 perguntas e respostas. que havia se convertido à fé reformada três anos antes. ele é cristão. apresenta a fé cristã de maneira pro­ fética. está isento de definições dogmáticas e é notavelmente não sectário. Em vez de levantar problemas especulativos. Além do meu catecismo e dos catecismos de Lutero e de Ursinus. e está plenamente fundamentado no trabalho dos apóstolos e dos concílios ecumênicos da igreja antiga (não romana). o Catecismo de Heidelberg (a cidade da Alemanha Ocidental onde foi escrito) é o mais ecumênico de todos. na Alemanha.

para estudantes de nível médio. em 1558. Ele tem três divisões principais: “Nosso pecado e culpa” (primeira parte). missionário espanhol no Brasil. a Igreja Católica produziu algum catecismo? Em 1555 surgiu a Suma da Doutrina Cristã. encerrado agora em 1563. destinada aos jovens estudantes de nível superior. com perguntas e respostas. aos clérigos em formação e aos leigos cultos. nas áreas luteranas. veio a lume o Pequeno Catecismo dos Católicos. para crianças e pes­ soas ignorantes que estavam aprendendo a ler. Entendo que a última parte deste abençoado cate­ cismo constitui-se em um pequeno clássico da vida devocional. Por fim. Talvez seja o primeiro catecismo escrito fora da Europa e para um público não cristão. A A Contrarreforma não produziu catecismo algum? Eu soube que o Concilio de Trento. para preparar um catecismo que expresse a reação católica à Reforma. Por seu quádruplo propósito (catequético. primeiro nas áreas reformadas e. teria escrito um catecismo bilíngue (na língua portuguesa e na língua dos nativos daquele continente recénvdescoberto). em forma de abecedário. litúrgico e querigmático). intitulado Diálogo das Coisas da Fé. teológico.38 • SOU EU. . Estou sabendo também que o jesuíta José de Anchieta. Dos três. em seguida. o Catecismo de Heidelberg tornou-se imediatamente popular. “Nossa redenção e liberdade” (segunda parte) e “Nossa gratidão e obediência” (terceira). em preparo. este último foi o que obteve maior êxito em virtude da sua pedagogia e da precisão das perguntas e respostas. A Nos quarenta anos que separam o Breve Catecismo de Lutero (1529) e o catecismo da Contrarreforma. CALV1NO religiosa das crianças e dos jovens e uma confissão para toda a igreja. No ano seguinte apareceu o Catecismo Mínimo. com perguntas e respostas. sobrinho e secretário do papa Pio IV e arcebispo de Milão. nomeou uma comissão presidida pelo cardeal Carlos Borromeu.

mas uma autêntica e imorredoura reforma da igreja cristã. o senhor refere-se a ele como “excelentíssimo pastor da igreja cristã” .4 O VOO QUE NÃO SE REALIZOU (podar pe(a metade os a6usos do cristianismo não resoCve o proèCema /é Em sua carta de 28 de junho de 1545 a Melâncton. sua firmeza e suas bases. mas não posso negar sua coragem. Todavia. O senhor deixou de montar guarda? Não posso concordar com a agressividade de Martinho Lutero. . O movimento que empreendeu dois anos depois de redescobrir o valor da fé no sacrifício vicário de Jesus não foi uma tentativa frustrada de reforma. “ notabilíssimo ministro do Criador” e “ meu pai res­ peitadíssimo e sempre honorável”. Ele enfrentou papas e soberanos poderosos com absoluto sucesso. menos de seis meses antes. em sua carta a Lutero. “ celebérrimo senhor” . o senhor diz que “temos de estar sempre em guarda para não prestar deferência demasiada aos homens” . quando ele tinha apenas 34 anos.

40 • SOU EU, CALVINO

/> O senhor é parecido com Lutero?

Sou tão pecador e tão salvo quanto ele. Temos o mesmo zelo
pela igreja, a noiva de Cristo. Enfatizamos sempre os três “somentes”: o “sola Scriptura”, o “sola gratia” e o “sola fide”. Tanto
eu como Lutero não fomos até o final do curso de direito e
estudamos hebraico por conta própria. Ambos nos dedicamos
ao ministério, ambos somos professores universitários, ambos
fazemos sermões expositivos versículo por versículo, ambos
gostamos mais do livro dos Salmos, ambos devemos muito da
nossa caminhada teológica à Carta de Paulo aos Romanos,
ambos nos casamos depois dos trinta anos. Tanto Lutero como
eu sabemos que precisamos oferecer continuamente resistência
à pecaminosidade latente e temos consciência de que estamos
dando muito trabalho a Satanás. Em nossa admoestação con­
tra os perversos, usamos os mesmos termos trava ou freio: as
autoridades devem não somente restringir, mas também dirigir
o povo. Por fim, nós somos parecidos porque nem ele nem eu
gostamos dos adjetivos luteranos e calvinistas, aplicados aos nos­
sos irmãos reformados. Mas Lutero é 26 anos mais velho que
eu. Ele é alemão e eu, francês. Ele nasceu no final do século 15
e eu, no início do século 16. Ele fala uma língua germânica e eu,
uma língua latina. Ele viveu na Alemanha e eu vivo na Suíça.
Ele é da primeira geração de reformados e eu, da segunda (eu
era um menino de apenas oito anos quando Lutero rompeu
oficialmente com Roma). Ele se casou com uma freira e eu,
com uma viúva. A maior diferença entre nós dois é quanto ao
temperamento.
á

Como assim?

Sou menos expansivo, menos impetuoso, menos arrojado.
Tenho um temperamento tímido. Sou acanhado por natureza.
Jamais teria coragem de atacar os papas com palavras tão

O VOO QUE NÂO SE REALIZOU •

insolentes quanto Lutero. Ele chamava o papa Clemente VII de
“arquipatife”. Em sua obra Advertência a seus Estimados Alemães,
publicada em abril de 1531 (ano em que meu pai morreu), o
“javali da floresta” (nome que o papa Leão X deu a Lutero em
sua encíclica Exsurge Domine, de 1520) diz que os papas “não
têm juízo nem vergonha”, são “dez vezes piores que os turcos”,
“verdadeiros diabos”, “miseráveis patifes”, “assassinos sangui­
nários”, “miseráveis inimigos de Deus” e assim por diante.
^ Apesar dos mesmos três “somentes” , parece que há diferentes
tendências entre a reforma feita por Lutero e a reforma que está
sendo feita por sua instrumentalidade.

Embora haja muita unidade entre uma e outra, há algumas
diferenças entre nós. Para Lutero, a lei de Deus serve para
revelar a santidade de Deus e conduzir o pecador a Cristo;
para mim, além disso, a lei mostra ao crente o caminho da
santificação. Para Lutero, o arrependimento conduz à fé;
para mim, o arrependimento flui da fé. Para Lutero, a “ordo
salutis” (a ordem da salvação) segue o seguinte itinerário:
vocação, iluminação, conversão, regeneração, justificação,
santificação e glorificação; para mim, começaria com a eleição,
a predestinação e união com Cristo, sem excluir os demais.
Para Lutero, o batismo regenera e remove a culpa e o poder
do pecado; para mim, o batismo incorpora o fiel na aliança
da graça. Para Lutero, Cristo está presente objetivamente no
sacramento da Ceia do Senhor; para mim, Cristo também
está presente, mas de modo espiritual, não físico. Quanto ao
princípio regulador da vida do crente, é mais uma ‘questão
de palavras’ (a posição luterana admite muitas coisas no culto
que a posição reformada não admite).
Na citada carta a Lutero, o senhor escreve: “Quisera poder
voar até você para desfrutar da felicidade de sua companhia ao

J

42 • SOU EU. CALV1N0

menos por algumas horas e conversar com você acerca de várias
questões” . O senhor chegou a estar com Lutero?

Infelizmente, não. Na época eu estava com 36 anos e Lutero,
com 62. Um ano e um mês depois de minha carta, ele entregou
o seu espírito a Deus em Eisleben, para onde tinha ido a fim
de apaziguar os dois condes de Mansfeld. Isso aconteceu no dia
18 de fevereiro de 1546. No entanto, tenho esperança de me
encontrar com ele no reino de Deus em breve.
á Na mesma ocasião, o senhor enviou alguns de seus pequenos
livros, pedindo que, nas horas vagas, ele os examinasse “superfi­
cialmente” , ou que solicitasse alguém que o fizesse em seu lugar
e depois conversasse com ele sobre o conteúdo dos livros. Este
seu gesto demonstra alguma timidez ou modéstia demasiada?

Penso que não. Apenas levei a sério as tantas e pesadas respon­
sabilidades de Lutero.
A Parece que tanto Lutero como o senhor de vez em quando têm
uma crise de depressão...

Quem não as tem? Depressão é a quase completa capitulação de
ânimo, de bem-estar, de segurança emocional, de autoconfiança,
de energia, de alegria e até mesmo da vontade de viver. Veja a
experiência de Elias. Depois de experimentar vitórias estrondosas
em seu ministério, de enfrentar a terrível Jezabel, seu marido
Acabe e os quatrocentos profetas de Baal no monte Carmelo, o
profeta passou por uma crise de depressão. Ele ficou com medo,
refugiou-se no deserto, teve vontade de morrer, chegou a pedir
que Deus o levasse e ainda experimentou uma autoavaliação
extremamente negativa (“eu sou um fracasso”). Veja também Jó.
Por causa de seu intenso sofrimento, o homem da terra de Uz pas­
sou por uma profunda depressão. A certa altura, ele desabafou:
“Agora já não tenho mais vontade de viver”; “O desespero tomou
conta de mim”; “O meu coração está agitado e não descansa”;

no recénvencerrado Concilio de Trento. Lutero e outros reformadores são cismáticos muito relutantes.há momentos em que todos nós caímos em depressão. Somos homens. As potestades do ar não desistem de nós. que a separação da igreja estava “entre as maiores desgraças do nosso século”. Não somos melhores do que Asafe quando vemos que tudo parece ir bem com os libertinos. Á Dizem que o senhor. os mentirosos. ela tenha aberto algumas janelas. Roma não abriu as portas para a reforma.0 VOO QUE NÀO SE REALIZOU • 43 “Levo uma vida triste. como aconteceu em 1555 com John Rogers. e não super-humanos. por exemplo. como um dia sem sol”. os opositores. pelo menos no que diz respeito à moral do clero. escrevi para Thomas Crammer. de reforma. Os poderes que não querem a reforma da igreja nos ameaçam. arcebispo de Canterbury. apesar das alegrias da comunhão com o Senhor e com os irmãos. nos colocam nas masmorras. apesar da alegria de viver e de morrer para o Senhor . na Torre de Londres. os orgulhosos. da Igreja da Inglaterra. de mudança. e não anjos alados. sonhávamos com um catolicismo reformado. Vivemos numa época de transição. na estaca. Somos pessoas de carne e osso. . E pura verdade. De minha parte. apesar do apoio de algum fidalgo ou monarca. embora agora. na forca. apesar das promessas das Escrituras. os traidores e os que fazem questão de trazer a esposa e os filhos para assistir a morte por fogueira do esposo e do pai. e “Minha harpa está afinada para cantos fúnebres”. Nem Lutei-o nem eu queríamos deixar a Igreja Católica. no cadafalso. A Sanguinária. nos perseguem. o primeiro mártir protestante executado por ordem de Maria. Estávamos interessados tanto na sua pureza como na sua unidade. Pelo contrário. não hesitaria em cruzar dez mares se isso resolvesse a questão. Em 1552. Apesar da oração. uma Igreja Católica reformada de acordo com a Escritura.

Falo sobre eles em quase todas as cartas. Porém. alma e espírito. 3) Gostaria que o escândalo e a conversão frívola não virassem hábitos de modo' que o nome de Deus não venha a ser blasfemado. 6) Gostaria que o nome de Deus fosse sempre mais e mais glorificado por todos os fiéis. ao duque de Somerset. levando to­ talmente a cabo uma notável e completa reforma da igreja. pois podar os abusos do cristianismo pela metade jamais irá restaurar a situação ao estado de pureza.44 • SOU EU. 2) Gostaria que a doutrina de Deus fosse proclamada com eficácia e poder. prestando-lhe reverência sincera. 4) Gostaria que a reforma da igreja fosse completa. . prevalecesse em tudo. CALV1NO ^ Qual ideal norteia sua vida? Meus ideais não estão ocultos. Tomemos por exemplo a carta que escrevi no desastroso ano de 1548 (foi nesse ano que meu querido irmão Antoine ficou sabendo que sua esposa o traía). não me custa fazer uma lista dos meus ideais: 1) Gostaria que todos os nobres e aqueles que administram a justiça se submetessem em retidão e total humildade ao grande rei Jesus. com fé não fingida em corpo. não a da carne. que na época era a maior autoridade do governo da Inglaterra. de modo a produzir seu fruto. 5) Gostaria que a sabedoria do Espírito.

Eu morava até então em Estrasburgo e estava feliz da vida. Cheguei a Genebra em setembro de 1541. Nesta constituição . filhos do primeiro matrimônio de Idelette. que ficou conhecida pelo nome de Ordenanças Eclesiásticas.5 A IGREJA DE GENEBRA Vícios secretos devem ser repreendidos secretamente á Dizem que o senhor é “o grande ditador de Genebra” e teria introduzido na cidade uma espécie de terrorismo religioso. Tinha um ano de casado e dois enteados. o manual foi adotado no dia 20 de novembro. Quando não é uma completa invenção. Foram dez dias de intenso trabalho. Eu não tomei Genebra de assalto. Logo ao chegar. Depois de examinado pelos outros pastores e pelo Pequeno Conselho. esse e outros mitos representam uma grave distorção da realidade. entreguewne à tarefa de redigir uma espécie de constituição para a igreja e a cidade. dois meses depois de completar 32 anos. Fui convidado a voltar e assumir a liderança da igreja cedendo às fortes insistências do conselho genebrino.

Não sei como posso ser considerado ofensivamente “o grande ditador de Genebra” se várias vezes eu sofri oposição e minha voz não foi ouvida em alguns pontos! Á Quantas ordens de ofício vocês têm em Genebra? Existem quatro ordens de ofício instituídas por nosso Senhor para o governo de sua igreja: pastores. Ele também não alcançará o mi­ nistério sagrado caso não tenha bons hábitos e comportamento adequado à luz do ensino de Paulo. exortar e repreender. ele não será ordenado pastor. CALV1NO aparentemente simples. á Exige-se algum juramento da parte do candidato caso ele seja ordenado? Ao ser ordenado. conforme se lê no livro de Atos. admoestar. doutores. eleito e empossado. presbíteros e diáconos. Entendo que. O ofício do pastor é proclamar a Palavra de Deus e então instruir. devemos observar esta forma de governo.46 • SOU EU. o novo pastor fará o seguinte juramento perante o Conselho: “Eu prometo e juro . encontra-se uma forma democrática representativa e republica­ na de governo da igreja. tanto em público como em particular. Se o can­ didato não possuir conhecimento bom e sólido da Escritura e capacidade para comunicá-la ao público de maneira edificante. Aquele que se diz chamado deve ser examinado pelo Conselho quanto à doutrina e quanto à conduta. Para saber se ele está apto para ensinar é preciso sabatiná-lo. além de administrar os sacramentos e exercer fraternalmente a disciplina. se quisermos uma igreja bem organizada e preservada. inspirada basicamente nas Escrituras e na prática da igreja primitiva. Á Qualquer membro da igreja pode tornar-se pastor? Ninguém pode fazer parte deste ofício sem um chamado da parte de Deus. juntamente com os presbíteros e assistentes.

quais são? A primeira ordem é formada de pastores. mas a aplicarei com consciência para o serviço de sua glória e para proveito deste povo do qual sou devedor”. repudiamos também a negli­ gência na leitura e no estudo da Palavra. a ira incontida. Uma vez por semana nós nos reunimos para juntos discutirmos a Escritura e verificar se todos estamos conservando a pureza doutrinária e a concordância entre nós. o candidato aceito e aprovado promete comportar-se com lealdade. Consideramos crimes intoleráveis coisas como heresia. a avareza. lascívia. danças e outros vícios similares. sem ódio. e a quarta. a grosseria. simonia. bebedeiras. contendas e até a frouxidão nos modos e maus gestos. de diáconos. ministrando de forma pura a sua Palavra para edificação desta igreja à qual ele me uniu. blasfêmia notória. de presbíteros. a terceira. Á E os outros ofícios. rebelião contra a ordem eclesiástica. cisma. apropriação indébita. no ministério para o qual sou chamado. corrupção. perjúrio. O ofício . a difamação. a bajulação. que de forma alguma farei mau uso de sua doutrina para servir às minhas paixões carnais nem para agradar homem algum. A O Conselho exerce algum tipo de supervisão sobre os pastores? E claro que sim. Condenamos também qualquer intriga com o objetivo de um pastor ocupar o lugar do outro. ele promete servir à igreja e ao povo de tal maneira que não seja impedido de prestar a Deus o serviço que de acordo com sua vocação lhes deve. Embora não coloquemos no mesmo nível. Por último. favoritismo. no sentido de mantê-los no cumprimento de seu dever. a segunda. servirei fielmente a Deus. de douto­ res. vingança ou qualquer outro sentimento carnal no afã de exortar os que caem em pecado. rixas. Além desse primeiro compromisso.A IGREJA DE GENEBRA • 47 que.

Eles devem ser escolhidos e remunerados para terem sob sua responsabilidade professores tanto para línguas como para dialética. Propus e foi aprovado que tivéssemos três cultos por do­ mingo nas três igrejas (São Pedro. administrar e manter bens para os pobres e cuidar dos doentes. Madalena e São Gervásio) .48 • SOU EU. Esses homens são preletores em teologia. Á Em suas “Ordenanças Eclesiásticas” há alguma norma sobre o culto? Sim. enquanto cumprirem com fidelidade o seu dever. sem mancha e acima de suspeitas. aos detentos e outras pobres criaturas. Todo domin­ go. Esse ministério precisa desencorajar a mendicância até o ponto de vir a ser observada a total proibição de pedir esmola. às viúvas. Esse ofício não deve se limitar aos pobres da comunidade eclesiástica. mas também aos doentes do hospital. aos idosos que não podem trabalhar. O ofício próprio dos presbíteros é supervisionar a vida de cada pessoa para admoestar amigavelmente os que estão errando ou vivendo uma vida desordenada. CALVINO próprio dos doutores é a instrução dos fiéis na verdadeira doutrina. Não é conveniente que sejam substituídos com frequência sem motivos. senão na caridade. há uma aula de catecismo para crianças nas .um ao raiar do dia e os outros às nove e às três da tarde . Os que passam necessidades unicamente porque são preguiçosos não devem receber assistência.e outros três durante a semana apenas na primeira igreja. ao meio-dia. pessoas especializadas no Antigo Testamento e no Novo Testamento. Eles têm de ser homens de vida honesta e reta. quartas e sextas). O ofício próprio dos diáconos é receber. que é a nossa catedral (nas segundas. Os que contribuem para esse fim precisam estar seguros de que as doações não serão empregadas de outra maneira. mas ser advertidos contra a preguiça. a fim de que a pureza do evangelho não seja cor­ rompida pela ignorância ou por más opiniões. aos órfãos.

Mas não celebramos no domingo de Santa Ceia. a menos que ele se mostre contumaz.A IGREJA DE GENEBRA • 49 três igrejas. Toda disciplina deve ser feita com tal moderação que não haja rigor pelo qual alguém possa ser magoado. á O senhor não acha impróprio oferecer o catecismo para crianças no horário de meio-dia? Pode ser. em honra ao sacramento. ele acontece antes do culto. As crianças são importantes. Insis­ timos que os cidadãos ou moradores de Genebra devem levar seus filhos ao catecismo todos os domingos. Á A igreja de Genebra é a favor da disciplina? Entendemos que vícios secretos devem ser repreendidos secre­ tamente. Mas vale a pena. á Vocês realizam cerimônias nupciais e fúnebres? Por que não? Celebramos o casamento tanto em dia de semana como no domingo. pois mesmo as correções são apenas remédios para se trazer pecadores de volta a nosso Senhor. Distribuímos um formulário para ser preenchido pelos pais a fim de verificar se as crianças estão entendendo e decorando as respostas. Só então poderá professar a fé diante da igreja e passar a participar da Santa Ceia. Quando uma criança for suficientemente bem instruída no catecismo. . Quanto aos funerais. nós a submetemos a um teste: ela deve recitar solenemente um resumo do que aprendeu. Os que não se corrigem devem abster-se da Santa Ceia até o momento em que retornam com disposição e ânimo melhor. Se for no dia do Senhor. Ninguém deve trazer o seu vizinho perante a igreja a fim de acusá-lo de faltas que não sejam pelo menos notórias ou escandalosas. Para dar conta deste programa semanal têm sido necessários cinco ministros e três auxiliares. Fazemos questão de introduzir cânticos sacros para alegrar e incentivar o louvor.

50 • SOU EU.devem desencorajar quaisquer superstições contrárias à Palavra de Deus e devem cumprir o horário do sepultamento. na Escócia de John Knox. CALV1NO temos algumas normas. Aqueles que vão levar o caixão até a sepultura que chamamos de carregadores . . Escritas por mim e aprovadas pelo Pequeno Conselho. O irmão que faleceu deve ser sepultado não antes de doze horas após a morte nem depois de vinte e quatro horas. por exemplo. como. ^ Todas essas instruções e normas foram criadas pelo senhor em dez dias de trabalho? Exatamente. Tenho informações de que elas estão sendo adotadas fora de Genebra.

As boas obras não causam a salvação. Intrometemo-nos em tudo: . não desobriga o crente reformado das boas obras? De modo nenhum. como o senhor insiste sempre. é proibido acender uma lareira em quartos sem chaminés. (Deus é despojado de sua dominação A salvação somente pela graça de Deus e não pelas obras. É uma questão de ordem: primeiro a salvação e. é proibido construir uma sacada sem grades (para evitar que as crianças caiam dela). Temos exerci­ do grande influência sobre o governo civil da cidade.6 LUXO. Em Genebra damos muita importância à ação social. Por exemplo. as obras. pois arranca delas a chaga da barganha e as torna uma expressão da gratidão e louvor a Deus. Pode-se dizer que a doutrina do sola gratia santifica as obras. Daí as leis até sobre saúde e segurança. mas devem ser a causa dela. é proibido jogar lixo ou excrementos humanos nas ruas. depois. EXTRAVAGÂNCIA E CONSUMISMO Vma coisa é certa: quando as riquezas dominam o domem. Cuidamos das coisas grandes e das pequenas.

a especulação financeira e o monopólio. os negociantes não podem cobrar demais pela sua mercadoria. colocou rédea curta em todo mundo. Leis severas demais dão resultado? Minha experiência diz que não funcionam nem em curto nem em longo prazo. eu mesmo fiz a primeira consulta para testar sua competência. para proibir a blasfêmia contra Deus. e os eleitos são exortados a governar sob a direção de Deus e para a glória dele. Acabamos com os muitos dias santos herdados da Igreja Católica e devolvemos ao domingo a importância que ele deve ter. a presença aos cultos dominicais era obrigatória. Por exemplo. a prática do jogo de cartas (que tirava o dinheiro de muitos em favor de poucos) etc. os vigias noturnos devem fazer suas rondas com responsabilidade. Em nossas exposições bíblicas. Fizemos leis para regulamentar o uso de bares. não é pecado aquilo). tais como a estocagem de trigo na esperança de que ele suba de preço. o pregador da Catedral de Saint Pierre deve pregar sobre a necessidade de eleger homens piedosos. Naturalmente algumas leis foram necessárias para disciplinar Genebra e torná-la uma cidade reformada não só nominalmente. não faça aquilo) nem na frouxidão (não é pecado isso. descobrimos que leis por demais . Embora nossas intenções fossem as melhores possíveis. sob pena de pesadas multas. na tentativa de moralizar a cidade. tornando-o verdadeiramente o dia do Senhor. Guilherme Farei. a venda de pão e vinho a preços acima dos estipulados. Tornamos obrigatória a instrução pública.52 • SOU EU. Na época das eleições. CALVINO uma enfermeira não pode levar consigo para a cama os bebês. Quan­ do o primeiro dentista montou seu consultório em Genebra. Á Antes de sua primeira chegada a Genebra. Temos de pedir sabedoria a Deus. tanto para não pesar demais como para não pesar de menos. apontamos como contrárias à ética cristã as habituais manobras para aumentar o lucro. Temos de apelar mais ao coração do que à coerção. Não podemos cair nem no legalismo (não faça isso. o dia de ir à igreja. o dia de descanso semanal.

Isso é pecado. muitas vezes abandonadas. escolas e hospitais. Os fazendeiros do Antigo Testamento não deveríam colher todos os frutos de seus campos. pecado. abrigos para os sem moradia. portanto. mas deixar pelo menos os cantos das plantações para os necessitados. Os proprietários de grandes extensões de terra. Mas. esforço e dinheiro com aquele semimorto à beira da estrada. segundo a lei da rebusca da qual as viúvas Noemi e Rute se valeram. provocam insatisfação. seja irmão na fé ou não. Na parábola do bom samaritano. que pendiam para o lado oposto. e pecado grave. dos órfãos. Á O senhor tem sido contra o luxo. para não usar a palavra crime. eu e Farei. O que os ricos perdulários gastam com o luxo e o supérfluo daria para construir orfanatos. em abril de 1538. de modo nenhum ele deve esbanjar o seu dinheiro com o consumismo desenfreado. A ex­ travagância é sinal de egoísmo e.LUXO. ele não tem o direito de gastar o seu dinheiro como bem entende? Mesmo não havendo a menor suspeita sobre a origem da fortuna de alguém. que excedem os limites do razoável. Os mandamentos de Deus em favor dos pobres. acabaram nos expulsando de Genebra. mesmo entre os crentes verdadeiros. poderiam dividir uma parte delas ) . Zaqueu. não têm o que comer nem o que vestir. EXTRAVAGÂNCIA E C0N SU M 1SM 0 • 53 severas. dos imigrantes e dos incapacitados para o trabalho aparecem com impressionante frequência em toda a Bíblia. Os libertinos. Jesus mostra que tanto o sacerdote como o levita não quiseram gastar tempo. tomou a decisão de repartir a metade de seus bens com os pobres. tanto na antiga dispensação como na nova. além de separar algum dinheiro para restituir aos que porventura tivessem sido lesados por ele. Uma vez convertido. a extravagância e os gastos supérfluos. se a pessoa que se entrega a isso é alguém honestamente rico. das viúvas. E pecado porque ao redor dele há muitos que não têm teto.

Estou certo de que aquele que não se desincumbe para com os outros das obrigações que sua vocação inclui retém o que pertence a outrem. mas para criar mais ofertas de trabalho. ^ Afinal. o oitavo mandamento da lei de Deus .“não roube” . incluindo Moisés. Também diria o mesmo a respeito da desobediência . porque ela pode ser torcida e generalizada. tenho de tomar muito cuidado com a resposta. deixaram vivos os filhos das mulheres hebreias. Deus é despojado de sua dominação. Por esta razão. ocorre o caos. Trocando por miúdos: ele está quebrando o oitavo mandamento. o senhor é contra ou a favor da desobediência civil? O governo civil é tão necessário quanto pão e água. tanto pela omissão como pelo abuso. não temo em afirmar que Daniel não pecou ao desobedecer a ordem dada por Nabucodonosor para que toda a população do vasto império babilônico adorasse a estátua que ele mandou erguer.significa apenas subtrair alguma coisa alheia? Defraudamos o próximo de seu bem quando deixamos de cumprir com os deveres dos quais somos incumbidos. Uma coisa é certa: quando as riquezas dominam o homem. não para obterem mais dinheiro. em desobediência ao rei do Egito. Sem essas lideranças. Todavia. dando mau testemunho e fazendo sofrer ainda mais os que já sofrem. Entendo que cometemos um crime contra o próprio Deus quando obedecemos a ordens e exigências de um governo contrário à vontade expressa de Deus. na área familiar (a liderança dos pais) e na área social (a liderança dos magistrados). Diria o mesfho a respeito das parteiras Sifrá e Puá que. Os donos de grandes fortunas deveriam abrir novas empresas. por causa da Queda. luz e ar. todas elas podem falhar. Se sou contra ou a favor da desobediência civil. CALVINO em pequenos sítios e doar a famílias pobres e desempregadas. O caso é sério! ^ No seu entender.54 • SOU EU. Sou a favor da hierarquia na área conjugal (a liderança do marido).

como se vê claramente na história de Jó. como será luz do mundo e sal da terra? . Em algum momento. Por causa da oferta . Nossas armas são diferentes. Os tormentos são uma provação e os tiranos não podem sobre nós mais do que Deus lhes permite. Mas o ensino de Jesus é exatamente o contrário. corre atrás de um soldo a quem mais lhe dá. Se há gente no mundo que seja desregrada é aquele que. para ser morto ele próprio. Se o crente fugir do ambiente não cristão. Sou igualmente contrário ao engajamento do crente num exército mercenário. ele freará o furor dos tiranos e os fará cessar a despeito de seus dentes e fúria. em vez de aplicar-se a algum trabalho honesto e legítimo. essa é uma tentação muito forte para os nossos jovens. Sofrer perseguição não significa ser abandonado por Deus. com o mundo secular? A piedade de alguns anos atrás preconizava isso. Tudo quanto sustentarmos temerariamente sem a aprovação do Mestre não pode ter um resultado feliz. Na chamada oração sacerdotal. Jesus orou ao Pai: “Não peço que os tires do mundo. E sobre que condição? Para matar e ferir ou. Temos de aprender a esperar a mão de Deus. á Para ser verdadeiramente piedoso. devemos volver nossos olhos para contemplar o socorro que Deus dá aos seus.é muito comum hoje convocar soldados mercenários -. desprezando a decisão quase unânime do sinédrio. Quando os tiranos lançam suas baforadas.15). EXTRAVAGÂNCIA E CONSUMISM O • 55 religiosa dos apóstolos que não deixaram de anunciar o evangelho. o crente precisa evitar qual­ quer contato com a sociedade. Á O senhor é contra o serviço militar? Sou absolutamente contra o uso bélico em defesa da fé e em defesa dos perseguidos por sua fé. Ganhar uma guerra religiosa pela força não nos é lícito. mas que os guardes do Maligno” (Jo 17. feita na noite de quinta para sexta-feira.LUXO. Zuínglio em Zurique e eu aqui em Genebra temos lutado contra isso. então.

CALVINO " \ Á Foi o senhor que fundou a Academia de Genebra? A primeira universidade de que temos notícia não era cristã nem europeia. Lembro-me de uma pobre senhora que deu somente cinco moedas e de um tipógrafo bem-sucedido que doou a maior parte de sua fortuna. sustentada por pilares de granito. Do conceito . No teto da varanda. e Tiago 3. Dou graças a Deus porque a Reforma redescobriu o significado pleno da desobediência de nossos primeiros pais. Ela foi inaugurada no dia 5 de junho de 1559. fundada no Cairo no ano de 970. na Itália. poucos dias depois do meu quinquagésimo aniversário. e Theodoro de Beza. de 40. Quase todos vieram de Lausanne.56 • SOU EU. medicina ou direito. e a de Paris. mandamos colocar três passagens bíblicas em três línguas. todas sobre sabedoria: Salmo 111. A primeira universidade protestante é a nossa Academia de Genebra. Trata-se da universidade de Al-Azhar. A matrícula está aumentando muito de ano em ano.24 em grego. como tem sido comum até então. que são os cursos mais procurados. Após a conclusão do curso secundário. 1 Coríntios 1. onde estudei. á O tempo todo o senhor se refere à Queda. de 48 anos. não com dinheiro de algum príncipe ou cardeal. na França. Eu mesmo levantei a maior parte dos recursos com os moradores da cidade. cito os nomes de Pierre Viret. Grande parte dos estudantes vem de várias nações da Europa. especialmente do meu país. Entre eles. Isso não seria superestimar o evento? Tudo o que eu pregar ou escrever sobre a Queda será pouco. construída numa pequena colina próxi­ ma à catedral. Beza assumiu a reitoria. Todos os professores eram protestantes e muito competentes.10 em hebraico. As duas primeiras universidades cristãs e europeias são a de Bolonha. alguns permanecem para estudar teologia. Todos os alunos se comprometem oficialmente com a confissão de fé reformada.17 em latim.

ao fim da história. Dou igual ênfase à Queda e ao levantamento do ser humano. Depois do acontecimento que o capítulo três de Gênesis narra. prin­ cipalmente a relação da criatura humana com a criação. Tudo foi desmantelado pela Queda. ele tornou-se um ser caído em toda a sua natureza. e o pecado dele trouxe consigo a morte a todos os homens” (Rm 5. EXTRAVAGÂNCIA E CONSUMISM O • 57 incompleto da Queda. o pecado entrou na raça humana inteira. Paulo resume: “Quando o pecado entrou no mundo por meio de um só homem. O ser humano em sua totalidade é obra de Deus. A Jesus Cristo incumbe restaurar todas as coisas à boa ordem. o mundo. A Bíblia chega a dizer que o leão viverá sem causar dano e não mais se lançará à presa. que viveu três séculos atrás.LUXO. conhecido como Doctor Angelicus. a história e a criação. e não mais sujeitos à humilhação e à servidão do pecado.12). partimos para o conceito de queda total e absoluta. A desgraça da Queda ajuda a entender a glória da salvação. a sociedade. inclusive o intelecto e a vontade. Enfim. expresso na teologia de Tomás de Aquino. Foi uma ruína sem medida que atingiu o homem. Seremos . de que o Senhor é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo? Convido-o a ouvir as minhas pregações na Catedral de Saint Pierre. Nunca deixo os rapazes da academia nem o povo de Genebra sem a esperança que está diante de nós. e que a serpente contentar-se-á de seu pó e nele se esconderá. por dentro e por fora. ^ O senhor porventura gasta a mesma quantidade de saliva para pregar sobre a esperança apontada pelo precursor de Jesus. ao fim do tempo. ao fim do mundo. em estado como era antes da Queda. Estamos aguardando o dia em que seremos semelhantes a Jesus. Caminhamos em direção ao fim do mal. tudo quanto está em confusão e desordem será restaurado à sua ordem primitiva. Isso significa que a presente confusão rei­ nante será desfeita pela vinda de Jesus. a assistir às minhas aulas de teologia na academia e a ler os meus livros. e não ferirá com sua picada venenosa.

CALV1NO plenamente restaurados e integralmente remidos. Há uma terceira boa nova.58 • SOU EU. faltaram nove. acorde!” (Ef 5. à irritação. aquela que um dos 24 anciãos disse a João: “Pare de chorar! O Leão da tribo de Judá. Não temos apenas duas boas novas para dar . Apocalipse foi o único livro do Novo Testamento sobre o qual não escrevi comentário algum. Esse é o evangelho que Jesus mandou pregar agora no mundo inteiro. venceu e mostrou que é digno de abrir o livro e quebrar os sete selos” (Ap 5. Depois dos sete selos. Quanto aos livros do Antigo Testamento.5). De fato. mesmo imperfeita. os pecadores serão julgados por suas obras más. Precisamos adquirir a consciência não só da grande comissão. . à impaciência. um ministério político (a igreja precisa vigiar o Estado) e um ministério social (a igreja precisa socorrer os necessitados).a boa nova de que Jesus nasceu e a de que ele ressuscitou. os vivos serão transformados. o Diabo será lançado fora. governada pelas leis de Cristo. Temos um ministério didático (a igreja precisa pregar e ensinar). a Raiz de Davi. os mortos vão ressuscitar.14). mas também de que a igreja é uma antecipação do reino de Cristo em sua vinda. antes da consumação de tudo... nesta ou em outra ordem. Jesus descerá do céu em poder e muita glória. Vem a calhar a citação de Paulo que aparece na Carta aos Efésios: “Você que está dormindo. ^ Pena que o senhor não tenha escrito um comentário do Apocalipse. os céus e a terra que hoje existem serão destruídos e substituídos por novos céus e nova terra. á A única coisa a fazer agora é esperar a plenitude da salvação? Esperar só não! Isso nos levaria à indolência. depois das sete trombetas e depois das sete taças. Somqs como uma sociedade provisória.

á Disseram-me que o senhor às vezes usa expressões muito duras com seus oponentes. expressam mesmo alguma conduta senão repreensível. Não nego. quem sabe. O pior é que eu . Referindo-me à prisão do chefe deles. Ou­ tros. numa carta a Farei. por ocasião da queda dos libertinos. Naturalmente alguma coisa é juízo temerário ou intriga. escrevi: “Veremos o que a tortura pode arrancar deles”. Foi em 1555. Por exemplo. o senhor é a favor da tortura? á Sou obrigado a admitir que pelo menos uma vez eu me mani­ festei favoravelmente à tortura de alguém. Certa vez eu disse que fulano de tal “não tinha mais fé do que um cachorro ou do que um porco”.7 O DOUTOR QUE NÃO TINHA MAIS FÉ DO QUE UM PORCO 0 Mafigno tem triunfado so6re nós deforma a nos oôrigar a aèai^gr a ca6eça Tenho ouvido aqui e ali alguns rumores a seu respeito. pelo menos estranha.

2). o senhor teria escrito à duquesa de Ferrara uma carta muito clara. Por exemplo. um doutor da Sorbonne que havia se tornado protestante e fora residir em Genebra. 5. CALV1NO estava me referindo a Pierre Caroli. Eu estava me referindo à carga pecaminosa que todos carregamos dentro de nós. a abaixar nossa cabeça e a não fazer mais perguntas”. j A Parece-me que o senhor fica no alto da escada para repreender alguém lá embaixo. é verdade que o senhor teria dito ter uma “besta selvagem feroz” em sèu interior que ainda não havia conseguido dominar? Sim. Eu estava fazendo a mesma confissão de Paulo: “Não faço o bem que quero.60 • SOU EU. Nos outros. Não é verdade. Perdi a paciência com ele por causa de algumas de suas idéias não muito ortodoxas. . passei a usar o pronome na primeira pessoa do plural: “De fato o Maligno tem triunfado sobre nós de forma que temos sido forçados a gemer com isso. Eu estava lamentando essa propensão pecaminosa permanente.12. a qual só pode ser vencida por Jesus Cristo. com toda pureza (lTm 4. Á A propósito. no primeiro degrau. Você leu apenas o primeiro parágrafo da minha carta. mas justamente o mal que não quero fazer é o que faço” (Rm 7. por que eu estaria livre de alguma tentação nesta área? Lutero dizia que “a castidade não é tão fácil quanto calçar e descalçar os sapatos”. á Uma dessas propensões pecaminosas seria na área sexual? Por que não? Se Paulo adverte a Timóteo a ser um exemplo na pureza e a tratar as mulheres jovens da igreja como irmãs. dizendo que ela havia se desviado do reto caminho a fim de agir de acordo com o mundo.19).

é que eu fui promovido a cidadão de Genebra. logo no capítulo um.0 DOUTOR QUE NÃO TIN HA MAIS FÉ DO QUE UM PORCO • 61 À boca pequena. é inteiramente composto de citoyens. Se nem citoyen eu era. Os habitants não têm nenhum direito de voto. Estes eram chamados de citoyens (cidadãos) e aqueles de habitants (habitantes). Durante quase toda minha vida. O corpo diretivo do Petit Conseil (Pequeno Conselho). O responsável por essa maledicência irresponsável é um ho­ mem chamado Jérôme-Hermès Bolsec. á Chamam-no às vezes de o “grande ditador de Genebra”. Quanto à outra acusação. aqui em Genebra. Isso expressa a verdade? É apenas um mito. mas somente em razão da ausência praticamente absoluta de outras pessoas nascidas em Genebra e qualificadas. a minha convicção é que ela é uma escolha per­ vertida e execrável. como você pode ver em meu Comentário aos Romanos. formada pelos estrangeiros residentes na cidade. alguém me passou a informação de que o senhor é vítima de tendências homossexuais. eu fazia parte da classe C. Eventualmente. Ele também diz que tenho o hábito de flertar com qualquer mulher que se aproxima de mim. formada pelos nativos. Somente em 1559. ex-monge carmelita que virou protestante e depois voltou para o seio da Igreja Católica. uma completa invenção que representa uma grave distorção dos fatos. Bolsec formou-se em medicina e exerceu por algum tempo a profissão numa cidade perto de Genebra. com a idade de 50 anos. por meio das minhas pregações na Catedral de . ela também não procede. e não da classe A. como seria o grande ditador de Genebra? Pode ser que. responsável por todos os aspectos da vida de Genebra. não podem portar armas nem assumir posto público. podem tornar-se pastores ou dar aulas. Além de teólogo e polemista. Quanto à prática homossexual.

. das minhas aulas na academia. fiz de tudo para que ele fosse morto de outra maneira que não pelas chamas. Certo ou errado. Aconteceu. dos meus livros e do meu testemunho. sim. era isso que fazíamos com os hereges em toda a Europa. CALV1N0 Saint Pierre. fui eu que debati perante o Pequeno Conselho para provar que as heresias dele estavam ameaçando a igreja de Cristo. A Por falar em testemunho. mas . Embora eu não tivesse paciência com Serveto. com a idade de 42 anos.62 • SOU EU. O homem foi queimado numa estaca no dia 27 de outubro de 1553. ao redor da qual a cidade está construída. derramando amargura por todos os lados. E na disputa com Miguel Serveto cheguei a gritar com ele. A Mas o enforcamento do médico herege Miguel Serveto aconteceu. Mas sem o menor conteúdo político. Tenho sido obrigado a confessar tristemente a Deus as vezes em que não sou capaz de me manter nos limites. Nem sempre domino a minha irritabilidade e controlo o meu pavio curto. a condenação e a execução de Serveto foram obra do Pequeno Conselho. Fui eu que pedi a prisão dele. e eu não posso negar a minha participação. Mas o julgamento. a Andreas Osiander foi agressivo e arrogante. Algumas ve­ zes perco as estribeiras e deixo a carne aparecer. fui eu que fiz acusações contra ele. A É verdade que uma criança foi decapitada em Genebra por ter agredido os pais dela? Ao que eu saiba. O tratamento que dispensei.. eu tenha exercido algu­ ma influência sobre a população e nos destinos de Genebra. por exemplo. o seu testemunho é sempre bom? Não tanto quanto o meu dever e o meu desejo. isso nunca aconteceu em Genebra. dos meus atendimentos pastorais. deixando que minha bílis assuma o controle da minha mente.

Pergunte ao cardeal Sadoleto qual foi a impressão dele do meu estilo de vida quando ele veio me visitar pouco tempo atrás. horrorizados com os prolongados gritos da vítima em agonia. resolveram enforcá-lo ali mesmo na estaca. minha posição é totalmente contrária a elas. Sou verdadeiramente rico no sentido de estar abundantemente satisfeito com meus . tentavam. tentei demovê-lo de seus erros. e não um criado. publicada secretamente em Viena naquele ano. (No período de três anos.39 pessoas foram para a fogueira na França pelo mesmo motivo. ele achava que eu tinha um monte de pessoas para me servir.) Não comparecí à execução de Serveto. Isso é mentira. Ele estranhou que eu mesmo houvesse aberto a porta da casa para ele entrar. está cercado de pompa e faz todo mundo beijar seus pés. mas outra vez sem sucesso.0 DOUTOR QUE NÀO TIN HA MAIS FÉ DO QUE UM PORCO • não obtive sucesso. o já citado Jérôme Bolsec tem espalhado a notícia de que o senhor quer abolir o domingo a fim de observar. ^ Na cidade francesa de Poitiers ouvi dizer que o senhor enrique­ ceu-se em Genebra. Serveto foi o único indivíduo executado em Genebra desde que eu vim para cá. Enquanto em muitos outros lugares da Europa a condenação de hereges ou pseudo-hereges à pena máxima é algo rotineiro. Meia hora depois Serveto era um homem morto. Venha até minha casa aqui na rua do Canhão e veja como eu vivo. por piedade.. atiçar o fogo para queimar mais rapidamente. em lugar dele. aliás. Mandei as minhas Institwtas para ele e ele me enviou as suas Restitutas. Por meio de muitas cartas. Com esse mesmo intuito. Á Por falar em heresia. jogando feixes de lenha sobre ele a fim de apressar o processo da morte. a sexta-feira.. Aliás. de maio de 1547 a março de 1550. Nunca demonstrei o menor sinal de desejar tais mudanças. mas soube que foi uma cena horrível: os executores eram inexperientes e os espectadores.

o pastor de Genebra que nos havia abençoado muito. tenho sempre dado glória a Cristo: glória à sua palavra. cálculos renais. na época. calafrios. A Sem mudar de um assunto para outro. quando havíamos sido expulsos da cidade. mas vamos a ele. a mim e a Farei. Valendo-me dos diagnósticos médicos e da minha própria observação. . dificuldades respiratórias. ministrando aulas. como é o seu temperamento? De vez em quando sofro de melancolia. mais no passado do que agora. e não em ordem de acometimento: artrite. glória à sua vida e glória à sua graça! Isso tem me bastado. Porém. febre. Só me casei aos 31 anos. Disseram-me também que eu tenho um tipo de tuberculose. tenho trabalhado incansavelmente pelo evangelho . escrevendo e participando de reuniões. A impressão que tenho é que sou realmente uma pessoa doente e uma das minhas doenças seria a tal hipocondria a que o amigo se refere.pregando. Tenho pensado no assunto. Talvez eu seja muito emotivo. como o doutor Acatus e o doutor Tagante. CALVINO escassos recursos. Talvez o meu erro seja pensar demais e falar demais em doenças e me preocupar demais com elas. Eu me realizo com riquezas do tipo que o dinheiro não pode comprar. pleurisia. Foi uma luta enorme não ficar esmagado com a morte de Idelette. lassidão renal. Já me consultei com eminen­ tes médicos parisienses. hemorragias. estabelecer limites para o meu pesar. glória à sua pessoa. A morte de Courrault. tosse e úlcera. Deixe-me tocar agora num ponto delicado: o senhor é hipocondríaco? De fato é um ponto delicado. mas fiquei viúvo nove anos depois. gota. ascarídeos intestinais. indigestão. asma. en­ xaqueca. abateu-me de tal maneira que não consegui. A despeito de tudo.64 • SOU EU. Acresce que eu sou de temperamento tímido. tenho sofrido dos seguintes problemas de saúde que cito em ordem alfabética. nefrite.

o “sola Scriptura" é mais importante do que o “sola gratia”? Não digo que um é mais importante do que o outro. VERSO POR VERSO A DaCavra de (Deus é tão sagrada para mim como se eu a ouvisse dos (aôios do próprio Deus -4 Para a reforma em curso. Há muito tempo. á O que houve com a Bíblia antes do presente século? Ela ficava bem guardadinha nas celas dos mosteiros e nas sacristias das catedrais. CAPÍTULO POR CAPÍTULO. redescobrimos que a salvação é um dom gratuito. Não muito longe do povo. como Paulo ensina na Epístola aos Romanos. a igreja perdeu de vista não só o “somente a graça” como também o “somente as Escrituras”. na leitura das Escrituras. Prefiro dizer que o primeiro “somente” (o sola Scriptura) nos leva ao segundo “somente” (o sola gratia). Estamos colocando a Europa em chamas a partir da redescoberta da autoridade da Bíblia. porém . Essa foi a redescoberta inicial.8 LIVRO POR LIVRO. A reforma está sendo feita graças à redescoberta da Bíblia. Isto é.

Dessa data até hoje devo ter pregado mais de 3. maneira permanente desde 1541.66 • SOU EU. No entanto. considerou-me digno de ser investido no sublime ofício de pre­ gador. fiquei seis meses sem pregar. não tenho podido caminhar normalmente e então alguém me carrega e me coloca no púlpito da Catedral de Saint Pierre. O mínimo que se pode dizer é que a igreja tem privado o povo comum das Santas Escrituras sob o pretexto de serem elas um mistério oculto. pouco depois de comemorar o meu quinquagésimo aniversário. Gosto de afirmar que as Escrituras são o cetro do reino de Cristo e que manter o povo na ignorância é uma atitude contrária e altamente prejudicial. então. CALVINO não nas mãos do povo. E. Prego em média 170 sermões por ano. . Estou aqui de. continuo pregando. uma semana sim e uma semana não. pregava três dias por semana e duas vezes aos domingos. ou seja. o que a igreja deve fazer é exatamente o contrário: encorajar a leitura da Bíblia. Nos primeiros oito anos. Por ter ficado gravemente enfermo na primeira semana de outubro de 1559. o que me causou muito incômodo. principalmente nas coisas que dizem respeito à salvação e às necessidades”. muito mais clara que o próprio sol.500 vezes. nestes últimos dias. á O que o senhor faz em Genebra em favor do conhecimento da Palavra por parte do povo? Havendo Deus me tirado de minha origem obscura e humilde. Lutero dizia que “as Sagradas Escrituras são uma luz especial. passei a pregar todos os dias. Sem interrupção? Só deixo de pregar por motivo muito forte. um livro de difícil interpretação. Vez e outra. A partir de 1549.

sua retórica. se algum incrédulo entrar no recinto. Tenho feito assim a vida inteira. passo para outro. seu porte e seu conhecimento de línguas originais. Deve ser vivida. depois de ter sido banido da cidade três anos antes. Á Tudo indica que o senhor dá uma relevância enorme à pregação.17)? Em minha opinião. limite-se a pregar a . CAPÍTULO POR CAPÍTULO. reprovar de tal modo que. A maioria dos pastores lê um discurso escrito. preguei 89 sermões entre 1549 e 1554. 200 sobre Deuteronômio. VERSO POR VERSO • Á Seu sermão é inspirado por algum acontecimento de Genebra. Parece haver hoje em dia pouquíssima pregação vigorosa. 353 sobre Isaías. Paulo exorta: “Se você prega. Faço tanta questão de não quebrar a sequência que. digo às minhas ovelhas: “Continuo no próximo culto”. A pregação não é para chamar a atenção para o pregador. capítulo por capítulo. 87 sobre 2 Samuel. Alguns extrapolam todos os limites e pregam fantasias tolas. e assim por diante. Por exemplo. versículo por versículo. Quando acabo um dos livros. ele tenha a sua atenção capturada e seja convencido. pois o seu pro­ pósito é ensinar. 107 sobre 1 Samuel.LIVRO POR LIVRO. Trata-se de uma pregação sequencial. Fiz 149 sermões sobre Ezequiel. 123 sobre Gênesis. sua eloquência. a reforma da igreja só será bem-sucedida se o poderoso instrumento da pregação for cada vez mais desenvolvido. ao voltar a Genebra em setembro de 1541. Fiz o mesmo depois de me ausentar do púlpito por meio ano por motivos de enfermidade. Ao terminar cada sermão. exortar. 159 sobre Jó. só sobre o livro de Atos. algum problema na igreja ou por sugestão de alguma ovelha? Costumo pregar sobre um livro da Bíblia. Mas há um porém: a pregação não pode ser desprovida de vigor. Por que não o faria se “a fé vem por ouvir a mensagem e a mensagem vem por meio da pregação a respeito de Cristo” (Rm 10. reiniciei minhas pregações exatamente onde havia parado em abril de 1538.

Mas há algumas diferenças notórias. seja pela palavra pregada. com humildade (ele não se esquece da sua dependência da Videira). com clareza (ele leva a sério a exortação de Hc 2. CALVINO X mensagem de Deus” (Rm 12.2). Mas o que vem primeiro mesmo são as minhas leituras devocionais das Escrituras.7). na opinião dele. com substância (ele oferece algo para matar a fome e a sede da alma faminta e sedenta) e com unção (ele não deixa o Espírito Santo de lado). O que o senhor aprecia mais: pregar ou escrever? Realizo-me de ambas as maneiras. Gosto muito de pregar e gosto muito de escrever. costuma exortar os estudantes de Genebra a lerem os seus comentários. Além do mais. a não ser algumas . Temos de pregar com autenticidade (o pregador faz o que prega). “incomparável na interpretação das Escrituras”. esmere-se em fazê-lo”. seu colega de ministério. eu dou de comer aos outros. eu não sei quem está lendo os meus escritos. á Theodoro de Beza. nem todos os ouvintes têm a mesma capacidade de prestar atenção. seja pela palavra escrita. Ao pregar. Ao escrever. depois da Bíblia. Há quem chegue a dizer que o sermão “é um arrazoado longo e enfadonho com que se procura convencer alguém”. No verso seguinte. Uma vez bem alimentado. com paixão (tanto pelo conteúdo da mensagem como pelo ouvinte). porque. V O que acontece primeiro: as mensagens bíblicas verbais ou os comentários bíblicos escritos? Os comentários de vários livros da Bíblia que escrevi são frutos das minhas pregações na catedral e das minhas aulas na academia. o apóstolo continua: “O que ensina. com simplicidade (ele não usa palavras complicadas). O esmero é necessário porque em geral o sermão não goza de boa reputação. eu sei quem está ouvindo os meus sermões.68 • SOU EU. com autoridade bíblica (ele começa a pregação com as palavras “assim diz o Senhor”). o senhor é.

os quais Deus ordenou a seus servos que nos anunciassem. por ser a porta amplamente aberta para a sólida compreensão de todo o restante das Escrituras. as perplexidades. pois não há sequer uma emoção da qual alguém porventura tenha participado que não esteja nele representada como num espelho. Alguém podería pensar que é o maior por ser o comentário do livro mais longo da Bíblia (uma coleção de 150 salmos). os temores. Mas em Genebra. o Espírito extirpa da vida todas as tristezas. quando estava com 48 anos. um ano antes de adoecer gravemente.600 páginas impressas em quatro grandes volumes. Tenho por costume chamar esse livro prático de uma anatomia de todas as partes da alma. Ou melhor. pelo menos os meus alunos da academia me ouvem e me leem. condenar . individualmente.LIVRO POR LIVRO. Embora eu tenha grande estima pela Carta de Paulo aos Romanos. porém. as dores. as expectativas. enfim. Nos Salmos. as provocações. as dúvidas. a fim de que nenhuma das nossas debilidades e nenhum dos nossos muitos vícios permaneçam ocultos. Escreví esse comentário em 1557. Dediquei-o aos leitores piedosos e sinceros. CAPÍTULO POR CAPÍTULO. todas as emoções perturbadas com as quais a mente humana se agita. Á Qual dos 66 livros da Bíblia o senhor mais aprecia? O meu comentário mais longo é o de Salmos. Á A Bíblia é de fato inspirada por Deus? A resposta está na própria Bíblia: “Toda a Escritura Sagrada é inspirada por Deus e é útil para ensinar a verdade. os salmistas (gosto de chamá-los de profetas porque falam com Deus e expõem aberta­ mente todos os seus íntimos pensamentos e afeições) atraem cada um de nós a fazer. no livro de Salmos. VERSO POR VERSO • 69 poucas vezes. As demais partes das Escrituras contêm os mandamentos. parece que minha predileção recai mesmo sobre os Salmos. São mais de 2. um exame de nós mesmos.

sobretudo se for alguém da classe alta. nas Escrituras e nos sacramentos. Tenho insistido que nem tudo o que a Bíblia diz sobre Deus ou sobre o mundo deve ser entendido literalmente. o seu autor. Por exemplo. corresponde-nos inclinar nossas cabeças para receber o juízo de Deus. A A Escritura fora da sacristia e nas mãos do povo comum pode vir a constituir um problema? Com Escritura ou sem Escritura. O conheci­ mento das Escrituras desde a tenra infância é uma bênção especial da parte de Deus. corrigir as faltas e ensinar a maneira certa de viver” (2Tm 3. Deus se acomo­ da à nossa capacidade. Vemos isso na encarnação. ele não tem braços.16). assim como os avós fazem com as crianças. A pregação é para todos. O nosso Deus é aquele que desce ao nosso nível e se adapta à nossa capacidade. A O que é o “conceito de acomodação” que é atribuído ao senhor? É algo muito simples. É verdade. CALVINO o erro. Deus não pode se revelar a nós de nenhuma outra maneira senão por meio de comparações com coisas que conhecemos. Essa maneira de expressar são apenas metáforas vivas e memoráveis usadas para ele se comunicar conosco. boca e assim por diante. por meio da Palavra. Eu entendo que a revelação é um ato de condescendência divina. Em sua Palavra. põem o dedo na ferida. como Paulo ensina. A Palavra de Deus é tão sagrada para mim como se eu a ouvisse dos lábios do próprio Deus. balbuciando-a a nós. que a Escritura é proveitosa não só para consolar e encorajar. como se vê na Bíblia. mas também para apontar os nossos erros.70 • SOU EU. Se somos reis e príncipes. Vez e outra . sempre há aqueles que não sabem lidar com bom senso em matéria de religião. Tenho instruído os cristãos a não serem soberbos na hora de ouvir uma advertência nem a se aborrecerem e se revoltarem quando os pregadores.

podemos entender melhor as passagens que nos parecem mais difíceis. cha­ mado Nicholas Storch. A religião é um campo fértil para o comportamento fanático. Por isso eu digo: problema maior que as distorções é trancar a sete chaves na gaveta de algum armário da casa paroquial as Escrituras. E. a igreja fica livre para cometer muitos erros. por exemplo. Na França e em outros lugares. tenho por certo que é ímpia e danosa a con­ duta da igreja em privar qualquer pessoa das Santas Escrituras. por falar nisso. inclusive o povo comum. sob o pretexto de serem elas de difícil interpretação. os quais deram muito trabalho a Lutero e causaram grandes estragos à Reforma. Na junção e na comparação dos textos bíblicos. Pedro nunca mandou esconder a Palavra dos crentes (2Pe 3. nossa única regra de fé e prática! . Sem a vigilância dos que leem a Bíblia. como tem acontecido.11). VEIISO POR VERSO • 71 descambam para o extremismo. CAPÍTULO POR CAPÍTULO. Acho extraordinário o elogio que o autor dos Atos dos Apóstolos faz aos novos convertidos de Bereia: eles são mais nobres que os tessalonicenses porque diariamente examinam as Escrituras “para ver se elas davam apoio ao que Paulo dizia” (At 17. quero frisar que a Escritura é a melhor intérprete de si mesma. Cito.16). teve a audácia de escolher 12 apóstolos e 72 discípulos. Diziam que o cultivo da teologia era uma forma de idolatria e consideravam os eruditos como falsificadores da Palavra.LIVRO POR LIVRO. Mesmo havendo em seu tempo aqueles que deturpavam as Escrituras a seu bel-prazer. Um deles. Para eles. alguns irmãos entendem que devem quebrar todas as imagens dos templos católicos para cumprir à risca o que está no Antigo Testamento. a única luz de que o ser humano precisa promana do Espírito Santo por meio de visões e êxtases. Porém. mesmo com estas distorções. na certeza de que estava devolvendo à igreja os profetas! Os abecedarianos nutriam um desprezo absoluto por qualquer forma de conhecimento e incentivavam inclusive o analfabetismo. os profetas de Zwickau e os abecedarianos.

a entender a Bíblia e a ensinar a Bíblia. Foi então que Jerusalém pegou fogo. CALV1N0 á O senhor chamaria de reforma religiosa o que aconteceu em Jerusalém na época de Esdras e Neemias? Por que não? Foi uma reforma e tanto. Depois. Houve choro. alegria e exultação. e o papel das Escrituras fica evidente. confissão de pecado. o povo reuniu-se para ouvir a leitura pública da Bíblia feita por Esdras. mudança de comportamento. A reforma começou no coração de Esdras. Algo muito parecido com o que está acontecendo 11a Europa desde a década de 1510! . quan­ do ele começou a ler a Bíblia.72 • SOU EU. desde o nascer do sol até o meio-dia. redescobertas de coisas importantes esquecidas com o tempo. os levitas foram ao encon­ tro do povo para explicar o que havia sido lido. arrependimento. Quando chegou a ocasião oportuna.

pecamos constrangidos por uma premente necessidade e com o consentimento de uma vontade bastante pronta e inclinada a isso. coberta de erros infinitos e sempre contrária à sabedoria de Deus. é impossível ver algo que não seja impuro. O profeta Isaías é mais candente e contundente do que eu. profano e abominável diante de Deus. Somos oprimidos por uma grande . Somos incapazes de quaisquer boas obras. Para qualquer parte da alma e do corpo que olhemos. Por volta do ano 700 antes de Cristo. Quando pecamos.9 DEPENDENDO DO ESPELHO O SER HUMANO SE VÊ FEIO DEMAIS 0 homem peca com o consentimento de uma vontade pronta e disposta á Quando o senhor fala em depravação total. um dos seus temas prediletos. inclinando-nos impetuosamente para a iniquidade. Estamos totalmente tomados pelo veneno do pecado. A inteligência do ser humano é cega. ele declarou ao povo de Israel: “Vocês estão doentes da cabeça aos pés”. confesso que acho a palavra forte demais. Porém é a mais apropriada. Nossa vontade é má e cheia de afetos corrompidos.

A Definitivamente? Até que a maravilhosa graça de Deus a alcance. O ministério cristão é este: abrir os olhos dos pecadores a fim de que possam voltar-se das trevas para a luz. por que o ser humano não se enxerga assim. calada. ^ A depravação total tem uma história? A depravação total vem da Queda e da desobediência dos nossos primeiros pais. Ali. aposentada. De uma hora para outra. Veja o que aconteceu com o filho mais novo da parábola de Jesus: a certa aluira. naquele chiqueiro. Zaqueu levantou-se e declarou que daquele dia em diante não seria amante do dinheiro e devolvería o que havia roubado dos outros. CALVINO carga de pecados e maculados por uma infinita corrupção. encostada. E a maior barreira para a pessoa se reconhecer depravada. totalmente depravado? Além de ser um expediente cie defesa. A Então. o rapaz caiu em si e declarou-se pecador tanto ao Pai lá de cima quanto ao pai cá de baixo. naquela terra distante. no paraíso. Veja.74 • SOU EU. da justiça e do juízo. Um dos ministérios do Espírito Santo é convencer o pecador do pecado. anestesiada. A palavra é forte demais para o orgulhoso. de tal forma que ela não presta para mais nada. O seu pecado maior é o orgulho. por fim. cauterizada. mas antes do meio-dia ele já havia reconhecido os seus crimes e apelado para o Senhor. o Espírito é capaz de acordar. ressus­ citar e descauterizar a consciência. o ser humano é viciado no pecado. incapaz de abrir os olhos para suas próprias misérias (para a miséria alheia pode ser que não tenha dificuldade algu­ ma). Não há o que tirar nem pôr. o ladrão da cruz: às 9h da manhã ele dizia impropérios a Jesus. pois está definitivamente morta. nossa natureza . Veja o que aconteceu com o publicano de Jericó: a certa altura da conversa com Jesus. A consciência dessa pessoa está silenciada. Essa é a verdade nua e crua. Adão e Eva.

e que o pecado desse homem trouxe consigo a morte. O apóstolo Paulo explica que o pecado entrou no tempo (logo após a criação do homem) e no espaço (no mundo) por meio de um só homem (Adão). declarou há cerca de um milênio e meio: “Somos todos perversos. HUM ANO SE VÊ FEIO DEMAIS • 75 tornou-se tão envenenada que todos nós somos concebidos e nascidos em pecado. Tanto um (o pecado) como o outro (a morte) começaram a dominar a raça humana. Lutero lembra que a inclinação ou propensão para o mal parece uma coisa de pouco peso. E preciso frisar que todos. a pregação de Paulo. estamos plenos da concupiscência e da inclinação má desde a concepção. desde o nascimento. pois ela vive enquanto vivemos. a pregação de Martinho Lutero.DEPENDENDO DO ESPELHO 0 SER. É assim que ensina também Eclesiastes: “O coração do homem está cheio de maldade e de loucura. Essa inata pestilência nos coloca numa situação muito incômoda diante de Deus. por exemplo. Dessa corrupção original ficamos totalmente indispostos. a pregação de John Knox. a não ser pela morte física. Ela pode ser abafada. Sendo eles (os nossos primeiros pais) o tronco de toda a huma­ nidade. mas não é. o delito de seus pecados foi imputado a seus filhos de geração em geração até chegar a nós. a pregação das Santas Escrituras. todos decaímos da nossa retidão original e da nossa comunhão com Deus. mas um mal irrequieto de dia e de noite. Na verdade. á 0 senhor é o detentor da doutrina da depravação total? É a minha pregação. a pregação de Agostinho. O filósofo latino Sêneca. O que . absolutamente todos. não uma qualidade quiescente. incapazes e adversos a todo bem e inteiramente inclinados a todo mal. desde o ventre materno. essa dolorosa pecaminosidade humana é um impulso contínuo. A má inclinação não morrerá de todo antes que a carne se torne pó e seja criada de novo. durante toda a vida”. O curioso é que o tema da depravação total é debatido por autores não necessariamente comprometidos com o cristianismo. Neles. mas jamais aniquilada por completo.

Ele eleva os olhos para o monte e pergunta: “De onde virá o meu socorro?”. Ele se vê feio demais e culpado demais. Quando ela o alcança. o assassino pode socorrer uma criança que acaba de cair do cavalo e. mais por dentro do que por fora.76 • SOU EU. está na maravilhosa graça de Deus. como afirmei antes. Quando o ser humano se mede por outro ser humano. . como expressa Paulo. antes de voltar para casa. ele pode encher de alpiste as gaiolas dos passarinhos da casa daquele que ele acaba de matar. porque. E preciso fazer distinção entre depravação total e depravação absoluta. creches e hospitais. CALVINO um reprova no outro. o pecador se vê noutro espelho e percebe o quanto é horroroso. eles estão mortos em delitos e pecados. Vivemos entre perversos. que fez o céu e a terra” (SI 121. Á A doutrina reformada da depravação total impede que se veja alguma coisa boahp ser humano? De forma nenhuma.2). Á Em vista da depravação total. O homem iníquo pode construir escolas. Depravação total não significa que o ser humano seja incapaz de realizar algum bem humano. ele o achará em seu próprio peito. há alguma esperança para o pecador? A única esperança da vítima da depravação total. Antes de cometer um crime de morte. Então ele não mais enxerga a ira de Deus. Porém. sendo nós mesmos perversos”. ou: “Graças a Deus por Jesus Cristo!”. ele é sempre capaz de encontrar algum bem em si mesmo ou nos outros. insisto que ela significa que o homem e a mulher são tão degradados quanto podem ser e estão ambos distantes de toda capacidade de se autoajudarem. mas a sua misericórdia com tanta clareza que pode exclamar profundamente: “O meu socorro vem do Senhor Deus.

J o ã o C a lv in o (1 5 0 9 -1 5 6 4 ): “ O m itir C a lv in o d a s fo rç a s d a e v o lu ç ã o o c id e n ta l é in te rp re ta r a h is tó ria c o m u m o lh o fe c h a d o ” (L o rd J o h n M o rle y ) .

Aqui Calvino viveu a medade de sua vida .P a ris. cidade-estado à margem do lago Léman e rodeada de montanhas. o n d e C a lv in o fo i c o le g a d e V ille g a ig n o n e L o y o la . D o o u tro la d o d o rio S e n a v ê -s e a C a te d ra l d e N o tre D a m e Genebra. c id a d e d e 3 0 0 m il h a b ita n te s .

J a c q u e s L e fè v re D ’ É ta p Ie s ( 1 4 5 5 -1 5 3 6 ). o p ro fe s s o r d a S o rb o n e q u e re d e s c o b riu o s o la g ra tia a n te s d e L u te ro e C a lv in o < \T IN \ II íft IS | ISLI\ VI t MP M P ie rre R o b e rt O liv é ta n ( 1 5 0 6 -1 5 3 7 ). t r a d u to r d a B íb lia e m fra n c ê s . p r im o d e C a lv in o e c o n v e rtid o à fe r e fo rm a d a a n te s d e le .

aos 43 anos A n to in e F ro m e n t (1 5 1 0 -1 5 8 4 ) e s u a e s c o la d e lín g u a fra n c e s a e m G e n e b ra c o m a in te n ç ã o d e c o n q u is ta r a c id a d e p a ra a R e fo rm a .G u ilh e rm e F arei (1 4 8 9 -1 5 6 4 ) c o m e ç a a p re g a r o e v a n g e lh o e m G e n e b ra e m 153 2.

a c id a d e d e G e n e b ra re s o lv e a d e rir à R e fo rm a (27 d e a g o s to d e 153 5) D e p o is d e s e r e x p u ls o d e G e n e b ra e m a b ril d e 1 5 3 8 .A p ó s u m d e b a te p ú b lic o . C a lv in o v o lta à c id a d e e m s e te m b ro d e 1541 a c o n v ite d o P e q u e n o C o n s e lh o .

J o ã o C a lv in o . c o m o q u a l s e c o rre s p o n d ia re lig iã o e s ta ta l . s u b s titu to d e c h e g a d o s d e C a lv in o e p ro fe s s o r d a A c a d e m ia C a lv in o n o p ú lp ito d a c a te d ra l d e G e n e b ra e d e G e n e b ra . filh o d a te rc e ira e s p o s a d a In g la te rra d u ra n te a m e n o rid a d e d e E d u a rd o d e H e n riq u e V III e rei d a In g la te rra e d a Irla n d a VI. m o rto n o p a tíb u lo d o z e a n o s a n te s d a m o rte na é p o c a e m q u e o p ro te s ta n tis m o to rn a -s e a d e C a lv in o . u m d o s a m ig o s m a is T h e o d o re d e B e z a (1 5 1 9 -1 6 0 5 ). re g e n te E d u a rd o VI (1 5 3 7 -1 5 5 3 ).P ie rre V ire t (1 5 1 1 -1 5 7 1 ). in a u g u ra d a e m a u to r d e A H is tó ria d a V id a e M o r te d o F in a d o ju n h o d e 1 5 5 9 Sr. d u q u e d e S o m e rs e t. F ie l S e r v id o r d e J e s u s C ris to E d w a rd S e y m o u r.

ETO . e n tre g o u p e s s o a lm e n te a C a lv in o u m a c a r ta d e 4 8 p á g in a s C o m o p a s to r d a C a te d ra l d e S a in t Pierre. te ó lo g o e c a rd e a l. filó s o fo . la tinista. N a te n ta tiv a d e re c o n q u is ta r G e n e b ra p a ra o c a to lic is m o . C a lv in o n ã o p e rm ite q u e o s lib e rtin o s p a r tic ip e m d a C e ia d o S e n h o r . VÍMT» | CALVIN.CARDINAL SADOI. J a c o p o S a d o le to (1 4 7 7 -1 5 4 7 ).

The H is to ry o f P r o te s ta n tis m . N o d ia 6 d e fe v e re iro d e 1 5 6 4 . J o ã o C a lv in o p re g a p e la ú ltim a v e z n a c a te d ra l d e G e n e b ra T o d a s a s Ilu s tra ç õ e s fo ra m re tira d a s d e : W Y L IE . c in c o m e s e s a n te s d e c o m p le ta r 5 5 a n o s e trê s m e s e s a n te s d e m o rre r.1. 1878 . v. ÍEKMOX I S SXrFCTATIOM o r 2AMSUUEST. L o n d e s . 2. J a m e s A itk e n . L im ite d . P a ris e N o v a Y o rk: C a s s e i & C o m p a n y .C JttT E r-ntM C H B ÍÒ -lU S rAIIBWEI.

Pensar é tam­ bém crer. A minha pergunta é: para conhecer melhor suas idéias religiosas qual deles seria mais indicado? Como deixo bem claro no próprio livro. tentei fornecer ao leitor de As Institutas a maior clareza . Á Costuma-se dizer que o senhor é mais um cérebro do que uma pessoa. Uso meu cérebro para servir a Deus. sem pestanejar. Se fossem impressas suas centenas de cartas. Mas um cérebro não cativo às Escrituras e ao Espírito é uma desgraça.. A edição de 1541 de “As Institutas” tem quatro volumes e quase mil páginas. eu indicaria. O cérebro foi criado por Deus e é uma bênção. teríamos mais alguns livros e mais algumas páginas. Por ter cérebro. As Institutas.10 O ABSOLUTAMENTE SANTO E O ABSOLUTAMENTE PECADOR Nunca tente ôuscar a (Deus em outro fugar senão em sua (Pafavra -4 Seus comentários bíblicos enchem não sei quantos volumes nem quantas páginas..

Se meu livro trata das institutas da religião cristã. como seria possível deixar Jesus em outro lugar que não fosse o primeiro? A ênfase dem asiada que temos dado à filosofia tem equiparado Aristóteles a Cristo. Sinto-me um obediente expositor das Sagradas Escrituras. de suas . ele teria descoberto o ponto central de seu pensamento religioso? A primeira edição era muito pequena e parecia mais um cate­ cismo. CALVINO possível e escrever uma obra a mais abrangente possível. seu fundamento. Como dizia Lutero. além de corpo. rei da França de 1515 a 1547. Além de cérebro. um escritor bíblico. mas também porque essa revelação desvenda um paradigma que governa outras áreas centrais do pensamento cristão. Á 0 que significa ter um cérebro cativo às Escrituras? IsscTquer dizer que eu sou um teólogo bíblico. não tenho como nem quero produzir mais uma coleção de baboseiras. é acolher e reconhecer Cristo como dádiva e presente que nos foi dado pessoalmente por Deus”. Meu pensamento é dominantemente cristocêntrico. não apenas pelo fato de que ele se centraliza na revelação de Deus em Jesus. de seu cérebro. Se ele realmente leu o livro. tenho alma. há autores que “enchem livros inteiros de baboseiras e poluem todas as igrejas com essa conversa fiada e inútil que eles próprios não entendem”. Deixando-me influenciar pela Bíblia e sendo fiel ao que ela diz. Outra vez cito Lutero: “O ponto principal do evangelho. um pregador bíblico. Á O senhor dedicou a primeira edição de “As Institutas” a Francisco I. Mas o ponto central de todas as edições de As Institutas é Jesus Cristo. um professor bíblico. A Europa está cada vez mais cheia de livros religiosos. A primeira e mais relevante fonte de minhas idéias religiosas é a Bíblia. Se todo cristão reformado tem a obrigação de reconhecer Cristo no centro de sua fé. tenho coração.86 • SOU EU.

eleição) e contém um pequeno manual da vida cristã. 2.0 ABSOLUTAMENTE SANTO E O ABSOLUTAMENTE PECADOR • 87 emoções e de sua vida. mais obrigação ainda tem os seus pastores e os seus teólogos! Não podemos permitir o eclipse de Cristo. As duas formas de conhecimento estão unidas por muitos vínculos. e vice-versa. O Livro 1 trata da doutrina de Deus. não podemos conhecer a Deus verdadeiramente. Exemplifico: o conhecimento de um Deus absolutamente santo me obriga a conhecer um ser humano absolutamente pecador. dividido em seções. sem nos conhecer­ mos. É impossí­ vel alcançar qualquer uma delas isoladamente. seus sacramentos e sua relação com o Estado. a releitura. E o Livro 4 trata da doutrina da Igreja . Á O senhor insiste em dizer que “o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos são interligados” . Embora sejam distintas.669 artigos e mais de 10. cada um deles tratando de um tema geral. Cada livro é dividido em capítulos e cada capítulo. justificação. . o ensino e as citações. o manuseio. do pecado e da pessoa e obra de nosso Redentor. sem o conhecimento de Deus. isto é. publicada em 1271. e. O Livro 2 trata dos fundamentos da doutrina da redenção. O Livro 3 trata da aplicação da obra de Cristo (fé. arrependimento. de Jesus Cristo. e vice-versa. Qual é a estrutura de “As Institutas”? A edição de 1559 divide-se em quatro livros.000 críticas e réplicas.seu ministério. não podemos nos conhecer verdadeiramente. de Tomás de Aquino. Como assim? O que tenho dito é que. da sua criação e providência. Á A “Suma Teológica” . não podem ser separadas. O que me levou a organizar o livro dessa maneira foi minha preocupação pe­ dagógica. O conhecimento de um Deus perdoador me obriga a conhecer um ser humano culpado. Isso facilita a leitura. tem a seguinte estrutura: 512 questões.

Chamo isso de sensws divinitatis (senso de divindade) ou semen religionis (semente de religião). A criação é como um teatro ou um espelho através do qual se demonstra a presença de Deus. por meio de uma reflexão racional e inteligente a respeito da criação. É por isso que eu tenho apego à astronomia e a outras ciências naturais. Além disso. que disse: “Ver a mim é ver o Pai” (Jo 14. Qualquer pessoa. CALVINO Á Como se pode chegar ao conhecimento de Deus? O conhecimento genérico de Deus pode ser discernido por meio da criação. É necessário ter em mente que as Escrituras representam a pala­ vra de Deus mediada na forma de palavras humanas. sobre as quais pesa a autoridade divina. Por quê? Porque não é algo produzido no . de sua natureza e seus atributos. esse conhecimento inicial de Deus já é suficiente para privar a humanidade de qualquer desculpa de ignorá-lo. Deus se faz conhecer pelo fato de vestir a roupagem da criação. Elas são capazes de ilustrar. Esse seria o primeiro degrau a subir. deve ser capaz de alcançar o conceito de Deus. O conhecimento mais completo e mais pormenorizado de Deus vem pelo conhecimento das Escrituras e do próprio Jesus. a maravilhosa ordem da criação e a sabedoria divina que ela aponta. Embora tanto invi­ sível como incompreensível.9). Deus dotou os seres humanos de um senso ou pressentimento inato sobre sua existência.• SOU EU. É como se algo sobre Deus já estivesse gra­ vado no coração de cada pessoa. com maior profundidade. Apesar de imperfeito e confuso. Como consequência. vejo três fenômenos: a universalidade da religião. a consciência de alguma culpa e o temor servil de Deus. á Uma simples leitura da Bíblia pode nos levar a Deus? As Escrituras somente podem ser lidas e compreendidas de forma adequada por meio da iluminação do Espírito Santo. É como Pedro explica: “Nenhuma profecia das Escrituras é assunto de opinião particular. devido à sua origem.

como nosso guia. a seguir.0 ABSOLUTAMENTE SANTO E O ABSOLUTAMENTE PECADOR • 89 coração humano. Deus não pode ter um tipo de procedimento no Antigo Testamento e.21). cito somente duas. esse testemunho da vinda de Jesus é real. corrigir as faltas e ensinar a maneira certa de viver” (2Tm 3. Não há descontinuidade radical alguma entre eles. A profecia resulta da ação do Espírito Santo. Jesus Cristo. á O senhor tem preferência pelo Antigo Testamento ou pelo Novo Testamento? Não existe. nem falar ou pensar a seu respeito além daquilo que a Bíblia. manifestada em Jesus Cristo. Minha regra é: nunca tentar buscar a Deus em outro lugar que não for a sua Santa Palavra. O divino e o humano coexistem sem que comprometam nem destruam um ao outro.16). adotar outro procedimento totalmente diferente no Novo Testamento. nos apresenta. Se Deus só pode ser plenamente conhecido por meio de Jesus Cristo. que impulsionou homens e mulheres a proclamar a Palavra de Deus” (2Pe 1. No entanto. Isso porque ambos celebram e proclamam a graça de Deus. Reporto-me a Paulo: “Toda a Escritura Sagrada é inspirada por Deus e é útil para ensinar a verdade. Existe uma semelhança e uma continuidade fundamentais entre o Antigo e o Novo Testamento. Entre elas. por sua vez. como afirmei na resposta anterior. Pode ser que o Antigo Testamento seja capaz de testemunhar sobre Jesus somente à distância e de maneira obscura. depois do período intertestamentário. Em termos de substância e conteúdo. ou não deveria existir. mantendo a consciência cativa. Existem algumas diferenças entre um e outro. condenar o erro. só pode ser conhecido pelas Escrituras. os Testamentos são efetivamente idênticos. O que ocorre é que o Antigo Testamento ocupa uma posição cronológica diversa do Novo Testamento no plano da salvação. enquanto o Novo Testamento evoca uma resposta baseada na liberdade e na . essa rivalidade entre um e outro. Primeira: o Antigo Testamento evoca o medo e o temor.

Por meio de sua obedi­ ência a Deus como um ser humano. O que ocorreu foi o avanço progressivo do plano divino. Em momento algum Deus mudou de ideia ou alterou. Já que nos era impossível alcançá-la. em meus livros. CALVINO alegria. anulando toda dívida e pagando toda sanção que pudesse ser devida por esse motivo. Jesus veio tanto para nos revelar o Pai como par. ele libertou a raça humana do poder da morte e foi capaz de nos trazer de volta ao favor divino por meio do oferecimento de sua morte como redenção pelos nossos pecados. essa diferem ça entre judeus e gentios.90 • SOU EU. em minhas aulas. Cristo apresentou ao seu Pai um sacrifício que remiu todo pecado. por causa da Queda e em razão de nosso pecado. antes da fundação do mundo. seus propósitos. de forma radical. Por meio de sua vitória sobre a morte. Segunda: a revelação do Antigo Testamento se restringia à nação de Israel enquanto a revelação do Novo Testamento é universal em seu propósito. porém de forma mais clara e plena neste último. que somente se tornou claro quando o Verbo se fez carne. A pessoa e a obra de Jesus Cristo são de importância central para o plano da salvação arquitetado na eternidade. de acordo com as limitações impostas à compreensão humana. É por tudo isso que insisto em minhas pregações. Com a vinda de Cristo.a propiciar a salvação para os condenados. tanto ao rei da França como ao rei da Inglaterra. Ele simplesmente os tomou mais claros. circuncisos e incircuncisos foi abolida. Cristo pagou a dívida. Concluindo. Cristo é revelado e a graça do Espírito Santo é oferecida tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento. V Qual a obra mais importante realizada por Jesus Cristo: revelar o Pai ou trazer a salvação aos pecadores? Aí está outra dicotomia desnecessária. Deus optou por descer até nós na pessoa de seu Filho. tanto aos nobres como aos plebeus. que a salvação ocorre somente por meio de Cristo! . em minhas cartas. Por meio de seu sofrimento.

de confissão. Um avivamento revigora a igreja e torna a dar a ela paixão missionária. das obras da carne para os frutos do Espírito. da posse do Espírito para a plenitude do Espírito. tirando-a do marasmo. É a passagem da fé menor para a fé maior. geralmente menos durável do que uma reforma. É um período de convicção de pecado. Ora-se mais e melhor.11 A EUROPA PEGA FOGO MAIS PELA PALAVRA ESCRITA DO QUE PELA PALAVRA FALADA 0 que nos Cevou a escrever As Institutas fo i o desejo de treinar estudantes de teoíogia Á A reforma é um avivamento religioso? E muito mais do que um avivamento. despertando-a. de arrependimento. do cálice pela metade para o cálice cheio. A Bíblia é lida com mais regularidade e proveito. da mesmice de sempre para a novi­ dade de vida. de restauração. da entrega parcial para a entrega total. O avivamento é uma onda que varre a igreja de tempos em tempos. .

Henrique Suso (1295-1366). que morreu em 1543. A reforma é um banho muito mais amplo e completo do que aquilo que acontece em tempo de avivamento. No século 14. com a pre­ gação. na Inglaterra. na véspera do Dia de Todos os Santos. ainda monge. Deus nunca desampara a sua igreja. no alvorecer e na metade do século 14. na Bélgica e até mesmo no meu país. como Brígida. Florentino Radewijns (1350-1400). A reforma mexe com a estrutura. como exemplo e em ordem cronológica. com as tradições. apareceram aqui e ali. e Catarina de Sena. com a moralização.na Alemanha. com os princípios e com a história e a vocação da igreja. Á Torno a perguntar: esse insistente desejo de reforma estaria sendo satisfeito hoje? O marco histórico mais visível de que estamos vivenciando uma reforma nos dias de hoje aconteceu na cidade alemã de Wittenberg no dia 31 de outubro de 1517. respectivamente. O mais recente é João Eck. Por mais de trezentos anos. com a liturgia. nasci­ das. CALVINO Á O que é reforma? Uma reforma na igreja proporciona tudo aquilo que um avivamento provoca e muito mais. os mais notáveis nomes: João Ruysbroeck (1293-1381). com os dogmas. com a doutrina. ela tem sido desejada. João Tauler (1300-1361). Gerhard Groote (1340-1384). A O mundo está experimentando uma reforma em nossos dias? Muito certamente. em várias partes da Europa. Foi quando Martinho Lutero. da Suécia. divulgou . Talvez eles nunca tenham se encontrado. nos Países Baixos.92 • SOU EU. focos de verdadeira piedade e desejo ardente de reforma. porque moravam longe uns dos outros . eu citaria também algumas mulheres. João Gerson (1363-1429) e o formidável Tomás de Kempis (1380-1471). Além destes. E algo operado por Deus de modo soberano e eficaz. Poderia citar.

á Além de Lutero. de Ester e Mordecai. de Pedro e João. na esperança de fazê-lo calar e se desculpar por ter escrito aquele documento revolucionário. pela graça de Deus. é claro. eu também. de Paulo e Barnabé. Então a Europa pegou fogo. Leão X. não se preocupou muito com o gesto de Lutero. Inglaterra e Países Baixos. Filipe Melâncton (1497) e John Knox (1505). Johann Bugenhagen (1485). Mais ainda. não posso deixar de fora aqueles que chamamos de pré-reformadores. Suíça. nem ali nem na carta escrita ao pontífice no mês seguinte. mandou chamá-lo a Roma. de Débora e Baraque. cito os nomes de Erasmo de Roterdã (nascido em 1467). Mas. Além de promover a reforma em Genebra. centenas de reformados vieram morar em Genebra para escapar da perseguição religiosa em seus países. Guilherme Tyndale (1484). o papa da época. Por uma questão de justiça histórica. de Josué e Calebe. País de Gales. Escócia. quando soube que os agostinianos de Heidelberg tinham lhe dado apoio. o monge não capitulou.A EUROPA PEGA FOGO MAIS PELA PALAVRA ESCRITA • 93 as suas famosas Noventa e Cinco Teses por toda a Alemanha (dez dias depois ele comemoraria seu 34° aniversário). a igreja de lá se tornou um modelo de igreja reformada na Europa. Contudo. Hugo Latimer (1487). quero admitir . de Esdras e Neemias. O quanto consigo me lembrar. me incluo entre os atuais reformadores. E. como o inglês John Wycliffe (nascido em 1320) e o boêmio Jan Hus (nascido 50 anos depois). ^ O senhor fez mais pela Reforma como pastor da igreja de Genebra ou como escritor? Dei a minha contribuição tanto como pastor quanto como autor de livros. Eles são da Alemanha. Guilherme Farei (1489). Entretanto. Veja os exemplos de Moisés e Arão. por ordem cronológica. há outros homens comprometidos com a Reforma? Dificilmente Deus faz alguma coisa por meio de uma pessoa só.

Até o momento. tratados e escrevi milhares de cartas de conteúdo bíblico. em Basiléia. ^ De todas as suas obras. Ela é três vezes maior. três anos depois da primeira. Tenho feito várias revisões e acréscimos no decorrer dos anos. já fizemos 25 edições. que o meu livro era “um catecismo dedicado ao rei da França. de seis capítulos passou a ter dezesseis. A maior delas foi na segunda edição. no domínio . Desenvolví quatro gêneros literários: produzi livros de teologia. comentários bíblicos. Minha obra é um dos 250 livros proibidos de se ler na França. na Alemanha e na Suíça. italiano e espanhol). Meus livros foram traduzidos do latim ou do francês para cinco diferentes línguas (inglês. holandês. alemão. á Como explicar o sucesso da Reforma na Europa? A Reforma provocou um fenômeno curioso: as complexidades da exegese bíblica. Tive contato com mais de trinta editores na França. O que me levou a escrever esse livro foi o desejo de preparar e treinar estudantes de teologia para o estudo da Palavra de Deus. por volta de 1540. de autoria de algum francês”. subitamente. penetraram. A primeira edição saiu em 1536 e foi publicada pelos editores Thomas Platter e Balthasar Lasius. até então nas mãos do alto clero. a política eclesiástica e a dogmática teológica.a primeira que escrevi. publicado pela Universidade de Paris. Ele está no Catalogue des Livres Censurés. Lembro-me de que certo homem chamado Marcus Bersini fez pouco caso dela ao escrever ao re­ formador Joachim von Watt. qual a que mais fez pela Reforma? Estou convencido de que foi As Institutas . quando ainda era um moço de 27 anos. CALVINO que eu tenho feito mais pela Reforma por meio da palavra escrita do que pela palavra falada.94 • SOU EU. na Inglaterra. Não esperava que As Institutas fizessem o que estão fazendo. de modo que eles tivessem acesso a ela e fossem capazes de prosseguir nessa estrada sem quaisquer obstáculos.

deixou de ser reformador acadêmico (que argumentava em latim para um público acadêmico) para ser um reformador popular (que argumentava em alemão para um público mais extenso). Gallen do que o senhor em Genebra. Por quê? Watt. onde exerceu o seu curto ministério de 1490 a 1498). permanecem em sua forma manuscrita. que durou até sua morte. . não foram publicadas. por exemplo. ele era um cidadão de St. Outra diferença é que as obras escritas por ele.A EUROPA PEGA FOGO MAIS PELA PALAVRA ESCRITA • 95 público. ele ocupava uma posição de muita autoridade. Lutero. O zelo mis­ sionário que eu tenho era praticamente ausente na perspectiva de Vadian. filho de uma das mais proeminentes famílias da cidade. Creio que o problema de Vadian é que a reforma ■ por ele realizada estava voltada principalmente para a alteração do modo de vida e da moralidade e visava mais a cidade e a região onde vivia. 32 anos depois. era 25 anos mais velho do que eu e morreu em 1551. Aproveitamos ao máximo a invenção da imprensa. a partir de 1520. que era um acadêmico humanista de fama internacional e que che­ gou a ser reitor da Universidade de Viena. alcançariam mais os convertidos do que os não reformados. Gallen. Aos 45 anos. Traduzimos a Bíblia para a língua do povo e incentivamos a sua leitura. Eu ainda estudava em Paris quando Vadian já havia colocado sua cidade nos trilhos da Reforma. Á Embora o reformador Joachim von Watt tivesse bem mais chan­ ce em St. ele teve menos sucesso. mais conhecido por Vadian. E. se o fossem. Enquanto eu era um mero estrangeiro em Genebra. cuja reforma só mexeu com os vícios e os escândalos da igreja. Nesse sentido. ele se parece muito com o dominicano Jerônimo Savonarola. ocorrida na metade do século passado (chega-se a dizer que a Reforma é “filha da imprensa”). enforcado e queimado aos 46 anos na cidade italiana de Florença. Ele morava numa cidade suíça que apresentava diversas semelhanças em relação a Genebra. isto é. e não com as doutrinas (ele foi degredado.

do sacerdote Joiada (2Cr 23). isto é. A igreja de Éfeso precisa recuperar o amor perdido ao longo dos anos. Uma limpeza de alto a baixo. apenas as igrejas de Esmirna e Filadélfia não preci­ sam de restauração. Há sujeiras na igreja? Muitas. . E a de Laodiceia precisa recuperar a seriedade perdida. A de Pérgamo precisa recuperar a ortodoxia perdida. no baixo clero. A. a igreja reformada tem de ser constantemente reformada.96 • SOU EU. virando-se de um lado para o outro” (2Rs 21. Qualquer pessoa que leia o Antigo Testamento encon­ trará duas histórias. Pois é preciso levar a sério o drama da fraqueza humana. A de Sardes precisa recuperar o entusiasmo perdido. É uma oportunidade ímpar para se rever qualquer desvio não só de comportamento. O senhor concorda? A famosa frase de Lutero é “Ecclesia reformata semper reformanda”. No período de algumas centenas de anos. Reforma é o movimento permanente na igreja para restaurar a energia e a espiritualidade nas suas instituições. o povo eleito passou pelas reformas de Asa (2Cr 15). CALVINO A Lutero dizia que reforma deve ser uma constante na vida da igreja. no alto clero. uma atrás da outra: a triste história do desvio e a bela história da volta. nos papas. Sua pergunta me faz lembrar a promessa feita por Deus durante o reinado de Manassés: “Limparei Jerusalém como se limpa um prato por dentro e por fora” ou “como um prato que se esfrega. de Josias (2Cr 34-35) e de Esdras (Ed 8-10). A de Tiatira precisa recuperar a ortopraxia perdida. de Ezequias (2Cr 29-31). A As cartas às sete igrejas da Ásia Menor sugerem alguma reforma? Das sete. No povo.13). Cada reforma é uma limpeza. mas também de ordem dogmática. Assino embaixo.

retirada de sua obra A Graça: “Ninguém conseguiu discorrer contra a predestinação que de acordo com as Santas Escrituras defendemos. a não ser incorrendo em erro”. que inclui tanto os eleitos como . que viveu na segunda metade do século 4o e no início do século seguinte. Como eu. empolgado. Depois de Paulo. Agostinho fazia distinção entre a igreja visível. emprestando assim uma ênfase considerável sobre o papel e o valor das obras e minimizando o conceito bíblico da graça divina. em certa ocasião. eu declarei que “Agostinho é totalmente nosso!”. entraremos em um íáôirinto sem saída A Um dos seus ensinos mais conhecidos é o que diz respeito à predestinação. o senhor é o primeiro a escrever sobre o assunto? Respondo a sua pergunta com esta declaração de Agostinho. É por isso que. Ele combateu duramente Pelágio e seus companheiros Celéstio e o bispo Juliano de Eclano.12 A ELEIÇÃO REQIJER EVANGELIZAÇÃO Se não entramos no santuário da sabedoria divina para entender a predestinação. seus contem­ porâneos que pregavam o absurdo de que os seres humanos são capazes de merecer a salvação.

á Como o senhor resolve a delicada questão da diferente recepti­ vidade do evangelho por parte daqueles que ouvem o anúncio das boas novas na mesma ocasião. da qual participaram teólogos proeminentes. Também não se pode afirmar o contrário. . e a igreja invisível. “homem direito e sincero” (Jo 1. aqui na Europa. penso. quando ambos ainda estavam no ventre de Rebeca e não tinham feito nem o bem nem o mal “para que o propósito de Deus. Jesus dizia que os publicanos e as meretrizes eram mais suscetíveis ao arrependimento do que os legalistas. a ideia de predestinação ficou adormecida. os ex-caluniadores e os ex-homossexuais da igreja de Corinto (ICo 6. A começar (quem sabe?) com a famosa explicação contida na Carta aos Romanos. esse homem é Paulo.9-11). os ex-idólatras.11). e como os ex-assaltantes. com a chamada Escola Agostiniana Moderna. É um grande engano pensar que fui eu o arauto da predestinação. como Gregório Rimini (morto por volta de 1358) e Hugolino de Orvieto (morto por volta de 1457).47). Por algum tempo. Se há um arauto particular. A história mostra que. que chegaram a ensinar a dupla predestinação absoluta. no mesmo lugar e do mesmo modo? A explicação não é porque um é mais ou menos pecador do que o outro. sem que se faça qualquer referência a seus méritos e deméritos. por volta de duzentos anos atrás. ou seja. CALVINO os reprovados. Na parábola do filho pródigo. foi o que mais se distanciou que caiu em si e se converteu. A única explicação para esse complexo problema. A igreja visível e invisível está cheia de pessoas como Natanael. que a eleição alcança mais o inve­ terado pecador do que os demais pecadores. segundo a qual Deus destina alguns para a vida eterna e outros para a condenação eterna.• SOU EU. rejeitado. segundo a eleição. é a prévia eleição dos que deveríam ser salvos. por exemplo. às vezes. os ex-adúlteros. que inclui apenas os eleitos. de acordo com a qual Jacó é escolhido e Esaú. ficasse firme” (Rm 9. é o mais pecador que aceita o evangelho. Voltou à tona.

com o arrependimento. e tinham ramos de palmeiras nas mãos. que está sentado no trono. tribos.9-10). sua cunhada Ana foi apanhada em adultério com seu mordomo Pierre. e nem quero responder. O processo da salvação não começa com a pregação do evange­ lho. Essa questão de números é uma intromissão desnecessária e até mesmo irreverente. eu não sei e ninguém sabe. Em 1557. Minha pergunta é: Ana e Judite fazem parte dos chamados eleitos? Não sei.A ELEIÇÃO REQUER EVANGELIZAÇÀO • 99 Á Quem é eleito? Quantos são? Quanto à primeira pergunta. Mas não obrigatoriamente! . Eram de todas as nações. não devo. ser salvo. Quanto à segunda pergunta . O fato de terem caído em pecado pode significar que elas não tenham sido eleitas para a salvação. A Perdoe-me tocar num assunto familiar. antes da chegada da Bíblia e de qualquer missionário pioneiro. o mesmo aconteceu com sua enteada Judite. raças e línguas. E gritavam bem alto: ‘Do nosso Deus. na eternidade de Deus. O eleito não é aquele que foi escolhido porque Deus sabia de antemão que ele desejaria. com a boa vontade inicial de aceitar o evangelho.quantos são? -. antes de o Verbo se fazer carne. e do Cordeiro vem a nossa salvação’” (Ap 7. Prefiro reportar-me à experiência de João na ilha de Patmos: “Depois disso olhei e vi uma multidão tão grande. em algum tempo de sua vida. com a fé salvadora. antes do mandato da grande comissão. Estavam [todos] de pé diante do trono e do Cordeiro. vestidos de roupas brancas. com a conversão e muito menos com o batismo do pecador. antes da descida do Espírito. antes da criação dos céus e da terra. O processo da salvação não começa aqui nem agora. Cinco anos depois. que ninguém podia contar. O eleito é aquele que é misteriosamente tocado por Deus em algum tempo de sua vida para desejar ser salvo. respondo positiva e negativamente. Ele começa lá em cima. tida como uma mulher virtuosa e piedosa. Só Deus sabe.

19). à criatura angelical e à criatura humana.9-11). embora tenha cometido adultério com a mulher de Urias e mandado matar o marido dela. Nem daquele homem possesso na sinagoga de Cafarnaum que tratou Jesus tanto como o nazareno como “o santo de Deus” (Mc 1. O fato daquele homem em Corinto ter se arrependido do adultério cometido com a mulher de seu pai mostra que ele é um dos eleitos. Entre essa inumerável multidão. Nem ainda daquele endemoninhado de Gadara que também chamou Jesus de “o Filho do Deus Altíssimo” (Mc 5. escolheu um número grande e definido de pessoas para a salvação.7). a todo filho de Adão no tempo e no espaço. nem levados ao arrependimento e à fé. Paulo declara que. Não podemos nos esquecer daquela moça possuída por um espírito imundo que gritava o tempo todo que Paulo e Silas eram servos do Deus Altíssimo e pregadores do caminho da salvação (At 16. Chamo de eleitos os que foram escolhidos. pelo qual ele. mas que não têm como hão admitir que Jesus Cristo é o Senhor. estão todos os eleitos e todos os constrangidos. por pura graça.100 • SOU EU. aos vivos e aos mortos. em homenagem a Jesus. declarando abertamente que ele é o Senhor (Fp 2. nem salvos. todas as criaturas no céu. O apóstolo refere-se aos eleitos? á Paulo refere-se a todas as criaturas. CALVINO Ninguém duvida da eleição de Davi. levados ao arrependimento e à fé e salvos.17). na terra e no mundo dos mortos vão cair de joelhos diante dele. Esses agraciados . Esses constrangidos são como os demônios que creem que há um só Deus e tremem de medo. Chamo de constrangidos os que não foram esco­ lhidos. antes da fundação do mundo. como explica Tiago (Tg 2. chamados. ^ Qual a sua definição de eleição? Eleição é o imutável propósito de Deus.24).

pecadores mais pecadores e pecadores menos pecadores a responderem com fé. jovens e adultos. não há vida eterna. como o ouro e a prata.4). até o fim. Porque. conjunta­ mente caído. sendo preservados. Deus nos escolheu em Cristo. mas o precioso sangue de Cristo. alguém teria de tomar sobre si o pecado e a culpa dos eleitos. Esse preço não foi algo que perde o seu valor. sepultados. A eleição depende do sacrifício vicário de Jesus? Não bastaria o decreto da eleição em si? A eleição custa um preço muito alto. Veja a explicação de Paulo: “Antes da criação do mundo. Para que ela acontecesse. os eleitos foram crucificados. A eleição não ocorre alheia à pessoa e ao sacrifício de Jesus. Note bem: porque . mortos. À parte do Filho. Reforçando. EVANGELIZAÇÃO • 101 foram escolhidos de acordo com o soberano e bom propósito da vontade de Deus dentre todo o gênero humano. sem defeito e sem mancha (lPe 1.19). por sua própria culpa. não para os eleitos. não há eleição. não há perdão. eleição é o ato eterno de Deus por meio do qual ele decretou .salvar em Cristo Jesus um determinado número de pessoas dentre toda a raça humana voluntariamente caída. juntamente com Cristo. Veja o que Pedro diz: “A salvação só pode ser conseguida por meio de Jesus Cristo” (At 4. pela ação do Espírito Santo. mas para o próprio Deus e para o Senhor Jesus Cristo. de sua integridade original para o pecado e a perdição. Á O senhor acaba de usar a expressão “salvar em Cristo Jesus”.12). o Cordeiro de Deus. mas envolvidos na mesma miséria. a sua graça redentora.A ELEIÇÃO REQUER. capacitando homens e mulheres. Os eleitos não são melhores ou mais dignos que os outros. assim. não há salvação.livre. aplicando. ressuscitados e assentados à mão direita de Deus. soberana e misericordiosamente . Deus já nos havia escolhido para sermos dele por meio da nossa união com Cristo” (Ef 1. à mensagem redentora de Cristo. judeus e gentios. no de­ correr da história.

o Senhor da Seara fará chegar a ele. Quem sabe. Veja o exemplo do alto funcionário da rainha da Etiópia: Filipe estava em Samaria quando o Espírito Santo mandou que ele fosse para um determinado ponto da estrada que ligava Jerusalém a Gaza. pela qual naquele preciso momento passaria a carruagem oficial. Deus é o Senhor da História e. da criação. a voz do evangelho. Saiba de uma coisa: a eleição requer a evangelização. Diria que a eleição é o clímax da predestinação. como Jesus ordena? Porque evangelização e missões fazem parte da eleição. ouvissem o anúncio do evangelho (At 10. progressiva­ mente revelada a seu bel-prazer. na predestinação. por que ir pelo mundo inteiro e anunciar o evangelho a todas as pessoas. á Se Deus já escolheu os que devem ser salvos. somos também herdeiros dele e . na eleição. à doutrina da salvação. A doutrina da eleição não torna a evangelização .17). ele precisa ouvir a boa nova. Veja também a trabalheira que Deus teve para que os eleitos de Cesareia. em algum tempo e de alguma maneira. cujo único passageiro já estava com a Bíblia aberta na passagem que mais fala sobre Jesus no Antigo Testamento (At 8. A eleição diz respeito à soteriologia. ^ Há diferença entre eleição e predestinação? Entendo que a palavra predestinação é mais ampla e a palavra eleição é mais particular. Deus é o Senhor da Salvação.1-23). posso afirmar que.coerdeiros com Cristo! (Rm 8. da civilização. da igreja. CALVINO os eleitos foram feitos filhos de Deus. por meio de Jesus. Para o eleito ser salvo.26-39). E precisamente por se tratar de um eleito.102 • SOU EU. isto é. A predestinação diz respeito ao controle absoluto da história do ser humano. Mas ambas têm igual importância. já tocados pelo Espírito. Uma e outra fazem parte daquilo que chamo de a vontade secreta de Deus.olhe só .

Por não termos essa listagem da predestinação. pode estar fugindo . Se Deus já escolheu os que devem ser salvos. Valendo-me do mesmo raciocínio da resposta anterior. Caso pudesse o homem fazer algo para antecipar a graça de Deus. a conversão de um filho. a eleição deixaria de ser apanágio divino. O nome de ninguém pode ser acrescentado nem retirado. devemos pregar com entusiasmo e paixão missionária a todos. Preguei e escrevi muito mais sobre a oração do que sobre a predestinação. A Repito a pergunta anterior com uma pequena nuança. Porque Deus não nos fornece uma ficha com nome e endereço dos eleitos. ainda que o direito e o poder dela sejam-lhe expressamente atribuídos. por que orar por conversões: a conversão do marido. porém. que sou um entusiasta da oração. temos de anunciar as boas novas da morte vicária e da ressurreição de Jesus em todas as nações e em todas as línguas. o que gasta muito mais tempo. muito mais gente. A pessoa pode ter razão. á O que o senhor diz do pecador que justifica sua rebeldia à aceita­ ção do evangelho sob a alegação de que não está entre os eleitos? Isso pode acontecer. pode estar com medo de negar-se a si mesma. porque ele não tem acesso ao livro da vida e.A ELEIÇÃO REQUER EVANGELIZAÇÃO • desnecessária. De uma coisa estou plenamente convicto: Deus não vai eleger pessoa alguma agora só porque estou orando pela salvação dela. muito mais esforço e muito mais dinheiro. a conversão de um povo? A eleição parece tornar infantil esse tipo de oração intercessória. a conversão de uma família. essa pessoa pode estar zombando da eleição. A eleição já foi feita. Na maior parte dos casos. Mas é uma teme­ ridade. não sabe se seu nome está ou não está entre os eleitos. portanto. Digo-lhe. sugiro que a oração intercessória em favor da salvação de alguém já esteja no bojo do processo de eleição. porque sempre haverá entre eles um ou mais já tocados por Deus para nos ouvir.

como aconteceu com um dos ladrões crucificados com Jesus. aí está um clamoroso exemplo de eleição. quando vier o que é perfeito. Se ela for um dos eleitos. Os dois ladrões estavam na mesma situação. veio a obter a promessa de vida eterna. No en­ tanto. depois de zombar do Senhor na companhia do outro. se a predestinação for estudada e discutida sem se entrar no santuário de Deus para ouvir a voz dele. é-nos vedada tanto a retirada como a introdução de alguma coisa. conheceremos as­ sim como somos conhecidos por Deus (IC o 13. Tenhamos humildade. como aconteceu com Asafe. na mesma companhia de Jesus (um à esquerda e outro à direita) e ouviram as mesmas primeiras palavras de Cristo na cruz. como escreve Paulo. aproveitando a oportunidade. Mais tarde. Admitamos. mais na frente. pode estar mostrando o quanto é preguiçosa. que. porém. que. CALV1NO de Deus. confessou seus pecados e abraçou a salvação. o espelho está embaçado e não vemos tudo com clareza. ela torna-se confusa e até mesmo perigosa. o seu coração. A propósito. chamado erradamente de “bom ladrão”. entraremos em um labirinto do qual nunca se achará saída. Á Tudo é explicável na predestinação? Em minha opinião. em ocasião oportuna.104 • SOU EU. subitamente ou não. calma e paciência! . o outro ladrão teve mais uma oportunidade preciosa: assistir a conversão do primeiro e ouvir a exortação dele. vai mudar por completo. Caso não haja humildade e o devido cuidado. Além das vantagens em comum. A nós. agora. apenas um deles. E preciso muita prudência para não extrapolar o que está escrito na Palavra.12). no mesmo lugar.

não me esqueço da minha terra natal. Ora se mostra simpático aos reformados. Por eu ter sido pastor de uma comunidade francesa em Estrasburgo e por haver muitos refugiados franceses em Genebra.13 O FRANCÊS JACQUES LEFÈVRE REDESCOBRE O S O L A G R A T I A ANTES DE LUTERO 0 governo tem vaciíado muito. organizou uma espécie de junta de missões e começou a enviar obreiros de Genebra para a França. ora recua á O seu interesse por uma Genebra realmente cristã diminui o seu interesse pela França? Por maior que seja o meu interesse por Genebra. Em abril de 1555. Permita-me fazer uma paráfrase do Salmo 137: “Se algum dia eu me esquecer do lugar onde nasci e cresci e também me convertí. tudo foi feito com a maior discrição possível. . Imediatamente. Por questões de segurança. que meus dedos sequem e caiam como folhas e que minha língua fique grudada no céu da boca”. quando os libertinos (os partidários de Ami Perrin) me deixaram em paz. a Venerável Companhia de Pastores de Genebra (uma espécie de conselho de pastores reformados). meus olhos se voltaram para a França.

Curioso é que ele começou a falar sobre o sola gratia (só pela graça o pecador pode ser salvo) antes de nós. com a palavra “luteranos” cravada na frente e nas costas. As origens da influência de Lutero em Paris podem ser datadas do final de 1519. Três semanas depois. A As missões a partir de Genebra foram as primícias da igreja reformada na França? Antes da nossa presença e influência. Em 1523. cinco anos an­ tes do grito de Lutero em Wittenberg. clérigos e acadêmicos. Bourges. Muita gente se sentiu atraída pelas propostas da Reforma de Lutero. Orléans. rodeado de homens vestidos como doutores em teologia. puxando um cavalo montado por uma mulher. Lefèvre exerceu uma grande influência sobre seus alunos. teve 101 reuniões. cidadãos comuns. Pierre Lizet. Na reunião de 14 de julho daquele ano. denunciou os males da reforma ale­ mã. principalmente por causa do movimento luterano. professor da Sorbonne. As obras de Lutero encontraram um público substancial e entusiasta entre a elite intelectual de Paris. Paris e Poitiers. sete homens vestidos como demônios desfilaram por Paris. CALVINO construí uma rede de contatos pessoais em cinco cidades: Angoulême. a Reforma de Lutero já havia chegado à França. destacam-se a tradução latina das Escrituras e os comentários das Epístolas de Paulo. Á Havia algum vestígio da Reforma na França antes de Lutero? Entre os livros publicados na França. em Paris. entre . em 1512. o monge agostiniano Jean Vallière foi queimado vivo por haver lido e comentado as obras de Lutero. a faculdade de teologia de Paris.106 • SOU EU. dois anos depois da publicação das famosas teses contra as indulgências. de 57 anos. Em 4 de dezembro de 1526. Entre eles. representante de Francisco I. que se reunia cerca de trinta vezes por ano. de autoria do sacerdote Jacques Lefèvre. rei da França.

Que seita é essa? Não se trata de uma seita. 151 indivíduos foram enviados em missões para a França em 1561. especialmente aqui em Genebra. Aqueles que. aquela autoridade entre os judeus que foi ao encontro de Jesus à noite (Jo 3. de Jean Crespin. Á Quantos pastores a tal Venerável Companhia de Pastores de Genebra mandou para a França? O primeiro. Não era fácil ser reformado numa França cada vez mais hostil ao evangelho. A perseguição aos crentes reformados era e ainda é um fato. Segundo os cálculos de Nicolas Colladon. Não queriam provocar divisão. Seis anos mais tarde. O Livro dos Mártires. O último implantou a Reforma em vários lugares da Suíça. provocou medo em muitos discípulos do Senhor.1). cinco estudantes evangélicos foram martirizados em Lyon. e realizou um trabalho magnífico em favor da Reforma naquela cidade. Guilherme Briçonnet e Guilherme Farei. Esses homens fizeram traduções da Bíblia e encorajaram as pessoas a estudar a Bíblia por conta própria. frequentemente à noite. temendo a reação das autoridades católicas. em resposta a um apelo vindo da própria congregação que lá se reunia. cujo nome não me lembro agora.0 FRANCÊS JACQUES LEFÈVRE REDESCOBRE O SO LA G RATIA • 107 eles os três Guilhermes: Guilherme Budé. Procuravam fazer mudanças graduais dentro da estrutura da igreja. á Em 1543 e no ano seguinte. Têm esse nome por causa de Nicodemos. nas casas. Nicodemistas são os simpatizantes da Reforma Protestante que não rompem com a Igreja Católica. 44 quilômetros a noroeste de Paris. houve o massacre dos valdenses. Em 1555. O fato é que. nesse ano. Briçonnet veio a ser bispo em Meaux. pro­ movem reuniões evangélicas de forma clandestina. mas declaravam coisas ousadas. a Companhia estava . em 1554. provavelmente exagerados. publicado aqui em Genebra. o senhor denunciou o nicodemismo. foi enviado a Poitiers.

Éramos muito sensíveis à con­ vocação de voluntários para auxiliar na evangelização da França. providencialmente cortadas pelas principais rotas comerciais. e reaparecia posteriormente. um pastor podia arrumar sua mala e se mandar para a França. o que restringe seriamente o número de qualificados para ocuparem tal posição. Além dos bem preparados pastores. foi para treinar pastores segundo nossos altos padrões. Uma das razões é que quase todos os obreiros pertencem e se identificam mais com as necessidades das classes médias urbanas. Chegamos a ter falta de pastores em Genebra para suprir a crescente demanda das igrejas francesas. sem qualquer aviso. CALV1NO atolada de requisições de pastores vindas só da França. na qualidade de missionário? Não é bem assim. Uma das razões pelas quais eu fundei a Academia de Genebra. Eles levavam folhetos sobre a Reforma escondidos em meio a mercadoria a ser vendida e os distribuíam nas cidades francesas por onde passavam. o Senhor da Seara usou humildes mascates que via­ javam para lá e para cá. um dos nossos pastores simplesmente desaparecia. no dia 5 de junho de 1559. Esse “algum canto remoto da França” do qual o senhor fala indica uma área rural? Lamentavelmente nossos missionários atingem mais a classe mé­ dia do que a classe camponesa. Tenho feito pesadas exigências educacionais. Outra razão é que a lingua francesa . Acontecia uma coisa muito interessante em Genebra: de vez em quando.108 • SOU EU. em algum canto remoto da França. /> A implantação da Reforma na França foi feita apenas pelos pastores de Genebra? Deus usa quem quer e como quer. Á De uma hora para outra. Até mesmo a cidade de Lausanne ficou sem pastores por um período.

por exemplo. o que significa 10% da população avaliada em 20 milhões. com presbíteros e diáconos. La Rochelle e Nimes. . Diz-se que um terço da nobreza seria cristã reformada. Chamamos a congregação de église plantée e a igreja propriamente dita de église dressée. fala-se o langue d’oc e o francês é visto quase como uma língua estrangeira. tanto o rico como o pobre. diz haver 2. tanto judeus como gentios. Esquecemo-nos da chamada “teologia do tanto como” do livro de Atos: tanto Jerusalém como Judeia. Pessoalmente acho mais razoável pensar em 1. Infelizmente não ensinamos os nossos missio­ nários a descer das camadas mais altas. Com o cres­ cimento. As primeiras igrejas organizadas são as de Poitiers. Na ocasião. nosso mais influente reformado na França. mas os oficiais precisam ser mem­ bros da igreja local. isto é. O primeiro sínodo nacional da Igreja Reformada na França foi realizado sigilosamente em Paris de 25 a 29 de maio de 1559.250. essa congregação vira uma igreja organizada segundo o padrão de Genebra. Orléans. Os camponeses ainda falam seus dialetos. numa lista preparada em março de 1562. com uma membresia em torno de 2 milhões. social e linguisticamente. a evangelização na França estava confinada em uma espiral social da qual a classe camponesa estava excluída. para as camadas mais baixas da população. região ao redor de Toulouse. ^ Quantas igrejas há hoje na França? O almirante Coligny. desde o início. A congregação é pouco mais do que uma reunião informal e clandestina para estudo bíblico e oração. O pastor pode ser alguém de Genebra. Em Languedoc.150 igrejas em todo o território francês. Que tipo de igrejas os missionários de Genebra organizam na França? Eles começam organizando uma congregação que mais tarde torna-se igreja. Assim.0 FRANCÊS JACQJJES LEFÈVRE REDESCOBRE O SO LA CRAT1A • 109 é pouco conhecida no meio rural. tanto o homem como a mulher.

Ora ele nos é simpático. Muitos franceses crentes mudaram-se da França para outros países para escapar da morte. idosos e crianças nos vales do sudeste da França. Muitos de nós nos esquecemos da exortação de Zacarias: “Não por força nem por poder. á Que incidente de cartazes é esse? Na manhã de 18 de outubro de 1534. Calcula-se que. que acabou com a vida de 3 mil homens.000 franceses assinaram essa confissão. descobrimos que essa provocação havia partido de um protes­ tante radical chamado Antoine Marcourt. as prisões começaram a se encher e a fumaça de protestantes queimados ou lentamente assados começou a subir. Era domingo e os ca­ tólicos a caminho da missa foram obrigados a ler o que neles estava escrito .110 • SOU EU. Depois. A consequência dessa barulhada é que Francisco I regressou depressa a Paris para iniciar uma vigorosa perseguição a todos os suspeitos de serem simpatizantes da causa evangélica. antes de ser queimado vivo. Orléans e Amboise. / í Por que sigilosamente? Porque o governo tem vacilado muito em torno da nossa liber­ dade de culto. inclusive eu e Farei. mas pelo meu Espírito” (Zc 4. 50. quatorze homens foram enforcados e depois queimados em Meaux.uma denúncia anônima que atacava “os abusos horrendos.000 protestantes teriam sido mortos. permaneceu seis semanas numa cova tão estreita que nem deitar ele podia. Certo professor de Paris. durante os 44 anos do reinado de Francisco I e Henrique II. Um deles estava do lado de fora do quarto do próprio rei. o famoso panfletista de Neuchâtel.6)! . no château de Amboise. ora ele recua. Cerca de 15. Depois do incidente dos cartazes. graves e intoleráveis das práticas papais”. CALV1NO foi elaborada uma confissão de fé semelhante à de Genebra. onde moravam. Além do já citado massacre dos valdenses. cartazes escritos em francês foram achados nas paredes das principais ruas de Paris.

Um dos críticos chega a afirmar: “Perdemos com os reformados não apenas a ação missionária. dei a minha contribuição não só para o movimento missionário em si como também para a reflexão missionária. Basta ler os meus comentários bíblicos. A crítica não é justa nem procede. No meu caso.23). depois de sermos libertados da tirania do Diabo e da morte eterna”.4-5). Ao comentar o texto de Isaías de que o mundo inteiro precisa conhecer a grandeza de Deus (Is 12.14 A IGREJA DE GENEBRA NA FRANÇA ANTÁRTICA (Deus deseja que o evangeCHo seja procíamado para todos sem exceção á Diz-se que os reformadores reformaram a igreja. escrevi: “Deus certamente nada mais deseja. por exemplo. para . Ao comentar a belíssima passagem de Ezequiel na qual Deus afirma que não tem prazer na morte de um homem mau. mas até mesmo a ideia de missões”. mas não se preocuparam com a grande comissão dada por Jesus. antes prefere vê-lo arrependido e salvo (Ez 18. escrevi que todos “devemos ser especialmente pos­ suídos deste desejo.

o norte da Itália e até a Polônia. E uma das implicações desse reino crescente é a destruição da distinção entre judeus e gentios e a necessidade conseguinte da proclamação do Evangelho entre todos os gentios do mundo. aponta o caminho da salvação. deixei a França e vim como missionário para a Suíça. senão que retornem para o caminho da segurança”. no bendito ano de 1536. posso citar ainda a Holanda. Tenho para mim que haverá um progresso ininterrupto na expansão do reino de Cristo até que ele apareça uma segunda vez para nossa salvação. pois não existe outra forma de edificar a igreja senão pela luz da Palavra. A A teoria de missão é muito bonita. E a prática de missão? Não fiquei só na teoria. Eu mesmo.112 • SOU EU. como já comentei. com poder e muita glória. CALV1N0 aqueles que estão perecendo e correndo para a morte. a Inglaterra. onde o mesmo Deus. fixando-me em Genebra. Vou dar mais um exemplo: ao comentar o texto de Paulo a Timóteo de que Deus “quer que todos sejam salvos e venham a conhecer a verdade” (lTm 2. Os réprobos sempre vão negar o domínio de Cristo e os eleitos serão trazidos pela graça para prestar uma reverente e alegre obediência a ele. Nada poderá desviar o avanço do governo de Cristo. O quanto me lembre. a Escócia.4). E a tarefa da igreja é pregar a Palavra de Deus. Como pastor da igreja de Genebra. ajudei a enviar dezenas de missionários principalmente para a França. . porque Deus quis testemunhar por todas as épocas que ele se inclina grandemente para a misericórdia”. expliquei que “não há nenhum povo e nenhuma classe no mundo que seja excluída da salvação porque Deus deseja que o evangelho seja proclamado para todos sem exceção”. Na época eu era um rapaz solteiro de 27 anos. por sua própria voz. O que nos motiva a pregar o evangelho é o zelo pela glória de Deus. E ainda acrescentei: “Por isso o evangelho é pregado hoje por todo o mundo.

Eles trouxeram a surpreendente notícia de que o novo continente é habitado. do qual pouco me lembrava. o qual havia sido meu colega quando estudávamos na Universidade de Paris nos idos de 1523. Mesmo que conseguíssemos evangelizar todos os seres humanos em todos os quatro cantos do mundo. precisaríamos começar tudo de novo por causa das novas gerações. como se lê no livro de Atos. uma província ultramarina que ele havia fundado numa bela baía (que antes supunha ser a desembocadura de um rio qualquer) localizada no Brasil. Passado pouco mais de meio século desde a viagem do navegador português Pedro Álvares Cabral.A IGREJA DE GENEBRA NA FRANÇA ANTÁRTICA • 113 á Há quem entenda que a grande comissão de Jesus foi dada aos apóstolos e por eles foi cumprida. Acho que foi em 1556 que eu recebi uma carta assinada por um francês chamado Nicholas Durand de Villegaignon. Entendo que a ordem da evangelização foi dada aos apóstolos. A evangelização mundial é uma tarefa contínua até que o chamado “dia da salvação” se complete no final dos tempos. Eles deram conta apenas do início da obra. entre as quais haverá também os eleitos de Deus. mas eles não a concluíram. a igreja de Genebra já tem missionários nesse país habitado por homens e mulheres totalmente nus. que des­ cobriu no outro lado do oceano e abaixo da linha do Equador a Terra de Santa Cruz. sendo alguns deles até antropófagos. hoje chamada Terra do Brasil. Villegaignon contava-me as novidades da França Antártica. Entre esses “americanos” há pecadores eleitos? Esses povos precisam de missionários? Boa pergunta. Aí está outro equívoco sério. á O senhor veio ao mundo pouco depois das famosas viagens marítimas empreendidas especialmente por navegadores por­ tugueses e espanhóis e depois da descoberta do Novo Mundo. Ela me dá a oportunidade de contar as maravilhas que estão acontecendo em Genebra em relação às recentes des­ cobertas marítimas. Nessa longa carta. Dizia ainda de sua vontade .

Tornou-se vice-almirante da Bretanha e ingres­ sou na Ordem de Malta. é um dos maiores responsáveis . O almirante Gaspar de Coligny. lutou com as tropas de Carlos V no norte da África e participou da expedição que raptou a princesa escocesa Maria Stuart. não exerce a profissão. Como tal. na distante Terra do Brasil.114 • SOU EU. além de apostatar da fé. capaz de falar italiano. o líder do partido protestante. infestadas de piratas argelinos. tornou-se um perseguidor inclemente dos protestantes e ali mesmo na França Antártica mandou matar três dos nossos missionários. o senhor atendeu o clamor missionário de Villegaignon? Em julho de 1556. espanhol e grego. na época com 6 anos e noiva do futuro Francisco II. uma espécie de asilo aos franceses convertidos à fé reformada. pouco depois. Embora formado em direito. patrulhou as águas do Mediterrâneo. Deus me deu coragem para fazer um dramá­ tico apelo aos irmãos de Genebra: “Necessitamos de voluntários para fazer crescer a França Antártica. Villegaignon pediu-me que lhe enviasse alguns missionários da igreja de Genebra. muito culto. aos 45 anos. Filho de uma importante família católica. participou do primeiro culto reformado realizado na América (10 de março de 1557) e da primeira celebração da Santa Ceia. á Então. Mas. por incrível que pareça. onde pudessem gozar da plena liberdade de consciênci^sem perder a cidadania francesa. Á Villegaignon é um reformado? Villegaignon é um homem da alta sociedade. Villegaignon é um vira-casaca. de onde trazemos o pau-brasil. tornou-se protestante em 1555. além de escrever em latim. Quanto à religião. O plano dele era fundar uma França americana. Para tanto. CALVINO de empregar todos os seus esforços no incremento do reino de Jesus Cristo naquela terra tão inóspita e distante. Dedicou-se à arte náutica.

A Viagem à Terra do Brasil promete muito. Jean Gardien. Quase todos os demais são como “fazedores de tendas”. Alguns estão deixando na Suíça esposa e filhos. por exemplo. Era um adolescente de 18 anos quando veio para Genebra como candidato ao ministério. E por essa razão que o forte construído na ilha de Serigipe chama-se Forte Coligny. Matthieu Verneuil. os quais ele está procurando por toda a parte. Guillaume Chartier. Philippe de Corguilleray (cognominado Du Pont). Martin David. Jean de Léry. que ainda não foi publicado por ter perdido os originais. Jean du Bourdel. Quantos querem ir para esse paraíso protestante para evangelizar os indígenas e os patrícios que foram para lá. em 1534. os quais são em ordem alfabética: André Lafon.A IGREJA DE GENEBRA NA FRANÇA ANTÁRTICA • 115 por essa aventura. é alfaiate). Nicolas Raviquet. pois trabalham como operários (o primeiro da lista. Du Pont é um cavalheiro muito respeitado. Richier e Chartier são ministros ordenados. Nicolas Denis. Léry passou muito tempo com os naturais da terra e fez centenas de anotações nos campos de antropologia e etnografia. uma grande parte formada de degredados?”. homem de idade e de pouca saúde. Por ter fugido do Forte Coligny para a terra firme para se proteger de Villegaignon. que cedeu três naus. Poucos dias depois. Foi ele quem conseguiu o patrocínio do rei Francisco II. Pierre Bourdon e Pierre Richier. Nicolas Carmeau. Este Jean de Léry é aquele que escreveu “Histoire d’un Voyage Fait en Ia Terre du Brésil”? á Sei que ele escreveu este livro. uma contendo provisões e as outras duas carregadas com peças de artilharia e materiais de construção. Jacques Rousseau. na França. dei credenciais aos quatorze voluntários. Mas estou por dentro do conteúdo da obra por se tratar de uma espécie de relatório minucioso de tudo o que aconteceu e tudo o que ele viu durante o tempo que passou na França Antártica. são missionários biocupacionais. . isto é. Léry nasceu em La Margelle.

colonizada. voltou dois anos depois. todos nus. ao mesmo tempo. mais intenso do que o dos próprios portugueses. de caça. foi como sapateiro que. filho de um cacique guarani. mas foi afundado por navios corsários já no litoral da França. Mais tarde.16 • SOU EU. de guerra e de uma abordagem a um navio . o jovem casou-se com uma francesa chamada Susana. Isso aconteceu em Rouen em outubro de 1550. um modesto sapateiro. Foi uma propa­ ganda sensacionalista da Terra do Brasil. filha do capitão Gonneville. aos 20 anos. O fato é que. marinheiros normandos e prostitutas. o comércio entre os franceses e os brasis (nome dado aos habitantes das terras americanas) era. em junho de 1503. Ao voltar para a Europa. como se explica esta aproximação com os franceses? Três anos depois da viagem de Pedro Alvares Cabral ao Brasil e seis anos antes de eu nascer. Dessa festa brasileira participaram trezentos figurantes. isto é. ^ Considerando que a Terra do Brasil foi descoberta. porto de Lyon. á Parece que houve uma “fête brésilienne” na França para sensi­ bilizar o rei a criar um império colonial no Ultramar. de longe. batizado durante a travessia do oceano. com sessenta homens a bordo e sob o comando do capitão Paulmier de Gonneville. uma nau francesa zarpou em direção à Terra de Santa Cruz. CALV1N0 Tornou-se meu aluno de teologia e prédicas e. ele foi para o Brasil. em maio de 1558. chamado LIEspoir. catequizada e ocupada por portugueses desde 1500. Representaram cenas de amor. desta ocasião e nas duas décadas se­ guintes. Entre eles esta­ vam cerca de cinquenta guerreiros tamoios trazidos do Brasil. Hoje ele deve ter uns 30 anos. Entre os 28 sobre­ viventes estava o índió Essomeriq. reiniciou seu estudos de teologia aqui em Genebra e dois anos depois já era pastor em Belleville-sur-Saône. Aliás. O navio de 120 toneladas e praticamente novo.

O senhor disse que três dos missionários enviados por Genebra foram mortos por Villegaignon. havia muitos macacos e papagaios. Senhor nosso.A IGREJA DE GENEBRA NA FRANÇA ANTÁRTICA • português. a causa de Cristo Jesus. que os venceu por nós. Mas fiquei muito emocionado. Havia um quarto. prometeu abrir mão de suas idéias de reforma. Su­ ponho também que aquele carnaval brésilien tenha despertado ainda mais nossa paixão missionária. se nos agarrarmos ao Senhor Jesus.o mundo. Por que viemos para cá? Quem nos moveu a atravessar as 2 mil léguas deste oceano? Quem nos preservou de tantos perigos? Acaso não é aquele que tudo go­ verna. na úl­ tima hora. ao saber da morte de três dos quatorze missionários genebrinos enviados a pedido de Villegaignon à terra dos brasis. Mas. com muitas lágrimas. Ho­ mens e mulheres sendo queimados em lugares públicos por sua fé. deixou-se persuadir pelos dois pajens que o assistiam e. Quem são eles? Estou acostumado a ver mártires por toda parte da França. ele nos assistirá consoante a sua promessa. Nossas vidas estão nas mãos de Deus e ninguém poderá tirá-las sem a determinação dele. pediram que eles evitassem o martírio. que. defender exatamente hoje. Jean du Bourdel. e ao mesmo tempo orgulhoso. vejam que Satanás se esforça por todos os meios para nos impedir de. Matthieu Verneuil e Pierre Bourdon. para escapar à morte. e nós mesmos não podemos resistir a esta tríade. Quando ainda estavam no continente. No cenário. 9 de fevereiro de 1558. reagiu: “Meus irmãos. os conterrâneos e irmãos na fé dos três mártires. resolutamente. que ampara os seus por meios admiráveis? É certo que contra nós militam três inimigos podero­ sos . Naturalmente a criação da França Antártica (ou França Americana) tem muito a ver com a festa de 1550. o Diabo e a carne -. Para tornar o ambiente bem indígena. Mas um deles. chamado André Lafon. . viam-se ocas adornadas com bananas. que dirige todas as coisas. Eram por ordem de execução Jean du Bourdel.

pois. os estrangulava e os afogava no mar. todos se mantiveram firmes. E este. que preferiu manter silêncio. á E depois? Logo após a palavra de Bourdel. Á Consta que Villegaignon teria dado uma bofetada em Jean du Bourdel? Isso de fato aconteceu. Antes do meio-dia. e não o seu corpo. o vice-rei da França Antártica foi entregando um por um nas mãos do carrasco. quando o almirante. ^ A que confissão de fé o senhor se refere? A confissão de fé a que me refiro encontra-se na Histoire des Choses Mámorables Advenues en la T'erre du Brésil. Quando pergun­ tados se manteriam suas assinaturas na confissão de fé refor­ mada que haviam escrito e assinado. sous le Gouvernment de . Então. num acesso de cedera. Ao ser interrogado por Villegaignon. Coragem. Ia Bourdel citar a passagem bíblica para confirmar a asserção de Agostinho de que o pão e o vinho são sinais do corpo e do sangue de Jesus. É aquele velho mito de que homem não chora. o protomártir do cristianismo brasileiro foi chamado de homem efeminado por Villegaignon. um barco os levou até o Forte Coligny. o desmente e lhe aplica uma tremenda bofetada em pleno rosto. Verneuil teve a coragem de lembrar-lhe: “Há apenas oito meses o senhor fez ampla e pública profissão desses mesmos pontos doutrinários pelos quais hoje nos leva à morte!”. os três genebrinos estavam no fundo do mar. Tão violenta foi a agressão física que o sangue jorrou da boca e do nariz do nosso querido irmão. Por ter chorado. as crueldades e as riquezas deste mundo não nos embaracem de irmos a Cristo”. irmãos! Que os enganos. CALV1NO Apeguemo-nos a ele e nele inteiramente repousemos. um de cada vez. onde Villegaignon estava à espera. por sua vez.18 • SOU EU.

A IGREJA DE GENEBRA NA FRANÇA ANTÁRTICA • 119

N. de Villegaignon, publicada em 1561, por Jean Crespin, um
historiador de 43 anos, autor de várias obras de martirologia.
Se há algo que me deixa muito orgulhoso é exatamente essa
confissão de dezessete artigos, escrita com sangue no primeiro
campo missionário da igreja de Genebra no além-mar, por or­
dem do próprio Villegaignon, em 1558. Por se tratar da primeira
confissão de fé escrita fora da Europa, ela tem um valor histórico
enorme. Mas o valor maior é que ela foi redigida sob pressão
dentro do prazo de doze horas exigido pelo governador, e por
leigos que não tinham formação teológica nem uma biblioteca
para consultar. Os quatro franceses tinham alguma instrução e
eram piedosos, mas não eram pastores nem teólogos. O redator
mesmo foi Jean du Bourdel, o mais velho e o menos desprepa­
rado. Ele começa com a declaração de fé em Deus (“Cremos em
um só Deus, imortal e invisível, criador do céu e da terra, e de
todas as coisas, tanto visíveis como invisíveis”) e termina com a
declaração de que, à luz da Bíblia, não se deve orar pelos mor­
tos. O documento cita Santo Agostinho, Santo Ambrósio, São
Cipriano e Tertuliano. O quarto artigo dessa confissão deveria
ter assustado Villegaignon, pois começa assim: “Cremos que
nosso Senhor Jesus Cristo virá para julgar os vivos e os mortos,
em forma visível e humana, como ele subiu ao céu”. Depois
de escrito, Bourdel fazia a leitura de cada artigo quantas vezes
fossem necessárias para seus companheiros (Verneuil, Bourdon
e Lafon), para que eles aprovassem ou não. No final, os quatro
assinaram do próprio punho o documento. Pouco depois, três
deles foram manietados, estrangulados e jogados no mar!
á Qual foi a sorte do empreendimento da França Antártica de
Villegaignon?

Terminou num fracasso total. Depois da execução de Bourdel,
Verneuil e Bourdon, metade dos colonos havia desertado, uns
metendo-se em desvario pelas florestas e outros correndo para

• SOU EU, CALV1NO

as praias na esperança de encontrar um navio francês que os
recolhesse e os levasse de volta à França europeia. Um huguenote chamado Jacques Le Balleur desapareceu. Consta que foi
parar na capitania portuguesa de São Vicente, no litoral mais
ao sul. Villegaignon caiu em total descrédito. Ele era detestado
pelos protestantes, temido e desprezado pelos católicos e aborre­
cido pelos naturais da terra. Tive a oportunidade de ler alguns
de seus escritos, publicados em 1560, depois de seu retorno à
França, especialmente aqueles que dizem respeito a mim, como
Les Propositions Contentieuses entre le Chevalier de Villegaignon
et Maistre Jehan Calvin concemant la Verité de VEucharistie. Ele
deveria entrar na história com o título “O Caim da América”.

15

O HUMANISMO
EA PESTE NEGRA

Tão Cogo a pureza do cuíto seja pervertida,
nada permanece íntegro e saudáveC

Ao falar sobre sua súbita conversão, o senhor menciona que
passou do humanismo para o cristianismo. A distância entre um e
outro é muito grande?
á

Se eu não tivesse trocado o humanismo pelo cristianismo, eu seria
parecido com o holandês Erasmo de Roterdã, aquele homem ex­
tremamente culto, que escreveu o notável Elogio da Loucura, quan­
do hóspede de Tomás Morus, na Inglaterra. Desidério Erasmo,
quarenta anos mais velho que eu, criticou duramente a degradação
da religiosidade da igreja em nosso século, tanto quanto nós, mas
não foi mais além. Erasmo morreu humanista. Nunca abraçou a
Reforma por inteiro. Seria parecido também com o espanhol Juan
Luis Vives, conhecido como o mais cristão dos humanistas, que
também se manteve humanista até morrer, em 1540. A distância
entre o humanismo e o cristianismo não é muito grande, desde
que não estejamos falando de humanismo secular.

o principal humanista do século passado. o já citado Lorenzo Valia. o humanismo cristão e o humanismo secular (ou paganizante). Existem os dois extremos. Hoje. ele tem proporções muito grandes em nosso meio. no ano seguinte. colocando-o no centro de tudo. os humanistas . O segundo chega a endeusar o ser humano. o pensamento e até as artes no século passado. sem medo de errar.• SOU EU. em ordem cronológica: Lorenzo Valia (morto em 1457). o primeiro em 1535 e o segundo. O primeiro redescobre a grandeza do ser humano por ter sido criado à imagem e semelhança de Deus. CALVINO Á Humanismo secular? Embora tenha raízes na antiguidade greco-romana. O também já mencionado Pico delia Mirandola abriu as portas da liberdade de pensamento. o humanismo abriu portas para a Reforma. Em certo sentido. em meu tempo. principalmente em certos países como França. Por exemplo. Posso afirmar. Praticamente todos os humanistas abriram os olhos do povo para a falta de auto­ ridade moral do papado e da igreja. fator de suma importância no movimento da Reforma. Os mais famosos humanistas da primeira metade deste século são humanistas cristãos. intensificando o desejo de uma reforma em seu seio. A Há algum parentesco do humanismo com a Reforma? Eu d iria que sim. que o humanismo é. Países Baixos. como Tomás Morus (autor de Utopia) e Erasmo de Roterdã. uma sociedade internacional de estudiosos. E não é muito pequeno. o humanismo começou a florescer e a influenciar a religião. Por último. Entre os seus precurso­ res mais notáveis estão. que morreram um depois do outro. contribuiu não só para recuperar a importância do latim como língua clássica como também para restituir a pureza dos textos bíblicos. Inglaterra e Alemanha. Pico delia Mirandola (morto em 1494) e Marsílio Ficino (morto em 1499).

onde pas­ toreei uma comunidade de imigrantes franceses e constituí família. com sua permissão. a peste causou a morte de várias pessoas muito chegadas a mim. o que. eu diria que Bucer não merecia tamanho infortúnio porque ele desenvolveu um trabalho social tão bem-sucedido na cidade que acabou com os pedintes de rua.0 HU M AN ISM O EA PESTE NEGRA • 123 redescobriram a sabedoria e a beleza dos textos gregos e romanos dos tempos passados e despertaram o gosto pelo estudo das línguas clássicas. O primeiro marido da minha esposa foi outra vítima. Em outubro de 1523. o formidável Agostinho (354-430). á Mudando completamente de assunto. como o grego e o hebraico. Lembro-me de uma de suas frases de efeito: “Minha mais sublime filosofia é conhecer Jesus e sua crucificação”.. O pior de tudo aconteceu aqui em Genebra. seu pai o mandou estudar em Paris para protegê-lo da peste que grassava em Noyon. esposa do pastor Martin Bucer. Na linguagem humana. Pena que não tenha completado a declaração de fé: “. Essa foi sua única experi­ ência com a peste? Não foi a primeira nem a última. por sua vez. principalmente. pastor auxiliar de Bucer. O amor à leitura é outro benefício do humanismo. sua cidade natal. piedade pessoal e séria autoridade. Tertuliano (160-225). conhecido como “Doutor Melífluo” por sua doutrina “mais suave que o mel”. conhecer Jesus. sua crucificação e sua ressurreição”. quero passar do humanismo para a tragédia da peste negra que assolou e tem assolado a Europa neste século e no século anterior. nos levou a ler as Escrituras em suas línguas originais. Não quero deixar de lado o meu patrício Bernardo de Claraval (1091-1153). . Crisóstomo (347-407) e. Entre elas estavam Elizabeth Bucer. Em Estrasburgo. Entre os clássicos que começamos a ler estão Clemente de Alexandria (150-215).. quando o senhor era um menino de 14 anos. Ele reformou a igreja em seu tempo por sua vida exemplar. quatro de seus seis filhos e Wolfgang Capito.

O único som que se ouvia nas ruas era o tilintar das campainhas de carros fúnebres. . exatamente. ela dizimou 25% da população de Zurique. o senhor chama de peste negra? Peste negra é uma forma de peste bubônica que faz surgir na pele manchas de sangue que se tornam escuras. Além do mais. o comércio e as escolas fecharam suas portas. minha esposa. sob a alegação de que eu não deveria correr risco devido à grande necessidade que a igreja tinha de meus serviços. Peter Blanchet. No século 14. ele estava com 35 anos.124 • SOU EU. Por causa da peste. um dos nossos pastores. Na verdade. Na ocasião. ofereceu-se para consolar os que ainda estavam vivos e preparar os moribundos para a morte. Em 1519. estava grávida de nosso primeiro e único filho. quando eu ainda morava em Noyon. sem saber se o irmão no banco da esquerda estava ou não contagiado. nunca fui uma pes­ soa de boa saúde. Ele ia de esteira em esteira até pegar a doença e morrer. Tínhamos um hospital do lado de fora dos muros da cidade. Idelette. Exatamente nesse ano. as poucas pessoas que iam à igreja sentavam-se longe umas das outras. Ulrico Zuínglio tinha começado a pregar uma re­ forma radical na cidade. á Mas o que. ela matou um quarto da população europeia. CALV1NO logo após a minha segunda chegada no segundo semestre de 1541. á O senhor pessoalmente deu alguma assistência às vítimas da peste? O Pequeno Conselho não me permitiu. Era a chamada “Casa da Peste”. mas conseguiu se recuperar. que nasceu e morreu quase em seguida. Aconteceu o mesmo com outro pastor. Ele foi contagiado. E uma doença altamente contagiosa. as ruas ficaram desertas. repleto de doentes. que passavam carregados de corpos em direção ao cemitério.

os alemães deram início a um movimento que . Ouvi dizer que ela tinha sido trazida por soldados suíços que passaram pela cidade. apesar da tentativa ou das tentativas de nos contaminarem. Deus mandou que ele escolhesse como castigo três anos de fome. ^ De onde surgia a epidemia? E difícil responder com precisão. á A peste negra seria a ira de Deus sendo derramada sobre os pecadores? Acho que não. Diz-se que certos homens e certas mulheres de índole má fizeram um unguento contendo material infectado dos pacientes e o colocaram iras maçanetas das portas da cidade para alastrar a peste com propósitos infa­ mes.0 HU M AN ISM O EA PESTE NEGRA • 125 Á É verdade que alguns criminosos procuravam contagiar o maior número de pessoas para se apoderar de seus bens depois da morte delas? Penso que há fundamento para tanto. A gangue era enorme e o crime foi descoberto. Ele preferiu a peste. a cair nas mãos dos homens” (2Sm 24.28). O Senhor preservou a nossa casa. Quando Davi pecou. mas porque “era melhor ser punido por Deus. A palavra peste apa­ rece várias vezes na Bíblia. ^ Por ocasião da peste que grassou na Europa há pouco menos de dois séculos. Salomão admitiu que o Senhor poderia castigar o pecado de Israel por meio da fome. No cerimo­ nial de consagração do templo de Jerusalém. três meses fugindo de seus inimigos ou três dias de peste. não porque era o castigo de menor duração. da peste e da praga de gafanhotos (2Cr 6. levando ao cárcere e à morte vários deles. cuja misericórdia não tem fim. Alguns se suicidaram na prisão.13-14). muito embora Deus seja soberano e livre para derramar tanto a sua graça como a sua ira.

. Este é o nosso mundo! . Ainda bem que os reformadores trouxeram à tona a riqueza do sola gratial á Os flagelantes se consideram os únicos culpados da peste? A culpa podería ser atribuída aos árabes (principalmente na Espanha). os judeus reagiam. as pessoas roubavam suas roupas. conhecida como a Irmandade dos Flagelantes. o povo de Frankfurt acabou com a vida de 12 mil judeus! Em resumo. enquanto 2 mil judeus caminhavam rumo à execução. Os flagelantes marchavam de cidade em cidade. Foi o que aconteceu em Frankfurt. E verdade. Eles executavam esse rito duas vezes durante o dia e uma vez à noite. aos peregrinos religiosos (em Portugal) e. em alguns lugares. eles se reuniam na praça central de alguma cidade e se golpeavam enquanto cantavam o chamado hino dos flagelantes. Em Basiléia. Em Estrasburgo. todos vestidos com uma túnica preta. houve trezentos massacres que mataram dezenas de judeus e mais de duzentas comunidades foram destruídas. aos judeus (em todo o norte da Europa). Para agravar a situação. A certa altura.126 • SOU EU. na maior parte das vezes.. carregando uma cruz vermelha numa das mãos e um chicote de couro com ponta de metal na outra. como no tempo de Ester e Mordecai. onde também morei. no ano seguinte. Vê-se aí a eterna ênfase às boas obras para comprar o favor de Deus. Mas a política do olho por olho e dente por dente só complica as coisas: por terem matado duzentos de seus inimigos. Pior que a peste em si era a mortalidade dos judeus. todos os judeus foram presos em edificações de madeira e queimados vivos. e matavam seus perseguidores. onde eu me exilei em 1535. CALVINO procurasse aplacar a ira de Deus por meio da mortificação coletiva. no período de três anos.

. muito menos tenho cópias delas. Áustria. Sobre a minha escrivaninha. uma caneta e um tinteiro. Países Baixos. Inglaterra. são respostas às cartas recebidas. podem ser apagadas por torpes anseios da carne A Em quase todos os países da Europa .é possível encontrar alguém que tenha recebido pelo menos uma carta escrita por um certo João Calvino. Mas certamente escrevi muitas cartas para muitas pessoas. pelo que sempre me desculpo. Polônia. Suíça. tenho sempre algum papel. a não ser de alguma carta de maior importância. nas outras.França. Escócia . Na maior parte das vezes. Para eventual­ mente arquivar uma cópia. eu escrevo outra vez a mesma carta. Suécia. Algumas com algum atraso. sou em que tomo a iniciativa. Não mantenho um registro das cartas enviadas. se não forem atiçadas frequentemente.16 O NOBILÍSSIMO E CRISTIANÍSSIMO PROTETOR DA INGLATERRA E IRLANDA CenteCfias de piedade que arderam em muitas ocasiões. Alemanha. Quantas cartas e para quantas pessoas o senhor tem escrito? Não tenho como responder nem uma nem outra pergunta.

se juntasse todas as cartas. CALVINO Suponho que. Aos meus dois amigos mais chegados. seriam alguns volumes. deixando-me viúvo aos 40 anos. retornou a Cristo). o rei e a rainha de Navarra. . como o senhor D Andelot (capitãogeral da infantaria francesa). onde nasci. como Henrique Bullinger. como Martinho Lutero. A reis e rainhas. e irmã da duquesa d’Étampes). depois. Aos reformadores. mas que. cuja esposa havia sido vítima da praga. Es­ creví também uma carta aos refugiados ingleses que moram em Frankfurt. o rei da Polônia. As autoridades religiosas. Sete anos antes de o médico Miguel Serveto ser condenado à fogueira por heresia. e fizesse delas um livro. especialmente aquelas que foram escritas para consolar quem havia perdido um ente querido. As autoridades seculares. pastor de Zurique. Aos cinco jovens prisioneiros de Lyon. e à duquesa de Ferrara (nossa querida irmã que teve um momento de fraqueza ao ser arrancada de seu palácio e de seus filhos em razão de sua fé. Aos colegas pastores. como é o caso do meu amigo Ricardo Vauville. copiadas ou não. o barão Burghley (secretário de Estado na época de Eduardo VI) e o almirante Gaspar de Coligny. como o primaz da Inglaterra e o bispo de Londres. Fui obrigado a me lembrar dolorosamente da morte de Idelette. sete anos antes. pastor da comunidade francesa em Frankfurt. Guilherme Farei e Pierre Viret. e aos ministros de Neuchâtel.28 • SOU EU. Filipe Melâncton e John Knox. como o rei da Inglaterra. Algumas cartas eram molhadas de lágri­ mas. o conde de Arran (ex-regente da Escócia durante a minoridade de Maria Stuart). escrevi para ele na tentativa de trazê-lo de volta à fé e censurar seu obstinado orgulho. à Madame de Cany (nossa grande querida irmã na fé em Noyon. ^ Para quem o senhor costuma enviar suas cartas? Para uma infinidade de pessoas. na Alemanha.

Em carta. libertar sua mente não apenas da tristeza. Dei-lhe a minha palavra de que nem eu nem os cidadãos da cidade lhe seríamos incon­ venientes. exortei-o a prosseguir corajosamente pela glória do Filho de Deus na certeza de que a coroa celestial. Desde então. mandei-lhe uma carta. Nas­ ceu em Paris e abraçou a carreira militar.0 NOBILÍSSIMO E CR1STIANÍSSIMO PROTETOR DA INGLATERRA E IRLANDA • 129 á No início de 1546. Há poucos anos.concluiu meu amigo . escrita em janeiro do ano seguinte. Ficamos preocupados com a saúde emocional e física de Viret. Em minha carta. na qual consiste a nossa salvação . esposa de seu amigo Pierre Viret. “Não havia nada. intimando-o a vir o mais rapidamente possível a Genebra. ganhou notoriedade por sua bravura e aos 41 anos foi feito almirante. ele me havia dito que estava completamente desesperado e prostrado com aquela flecha de aflição e que o mundo inteiro não lhe parecia senão um fardo. para. tem sido um dos destacados líderes da pureza evangélica na França. absoluta­ mente nada” . A Que relação pode haver entre um reformador e um almirante da marinha? A relação é enorme quando ambos têm a mesma fé e a mesma esperança. morreu Elizabeth Turtaz. em nossa companhia. Ele tem lutado junto ao governo em favor da plena liberdade de culto no pais. em 1550.“que pudesse aliviar a angústia da minha mente”. pois a doença que levou sua esposa foi muito prolongada. A dor do luto misturada com os aborrecimentos que dia a dia enfrentamos no pastorado de uma igreja é insuportável. Prometi não impor-lhe cargo algum e deixá-lo totalmente à vontade. Na campanha da Itália em 1544. Sobre o que o senhor lhe escreveu? Como não me foi possível estar pessoalmente com Viret. Gaspar de Coligny é dez anos mais velho que eu. Coligny anunciou publicamente sua adesão à Reforma. mas também de todos os aborre­ cimentos acumulados até então.

á Parece que o senhor tem o costume de dedicar os livros que escreve a pessoas preeminentes de toda a Europa. Dedi­ quei o Comentário de Cartas de Paulo a Timóteo. Coligny não é um simplório. Sei que ele era um exilado por questões religiosas e que estudava direito na Universidade de Pádua. Filipenses e . Disse-lhe com amor e convicção: “Se estudar constantemente a Palavra do Senhor. eu o dediquei ao “meu poderoso e ilustre monarca Francisco. Escrevi-lhe uma carta pequena. onde havia um núcleo de propaga­ ção do evangelho que provocou a sua conversão e a de certas famílias distintas. podem ser apagadas por torpes an­ seios da carne”. A esposa é uma das damas mais cristãs e virtuosas dos nossos dias. seu príncipe”. Já o Comentário de Gálatas. ele sabe muito bem que corre risco de vida. cristianíssimo rei dos franceses. no norte da Itália. duque de Somerset. o mais conhecido e vendido dos meus livros.130 • SOU EU. Tito e Filemom ao “nobilíssimo e cristianíssimo príncipe Eduardo. estava à sua espera. O casal tem aberto as portas de seu lar para a pregação do evangelho. Tenho orado ao Pai para que ele guarde sob sua proteção o almirante. Efésios. protetor da Inglaterra e Irlanda e tutor real”. você será suficientemente capaz de elevar a sua alma à mais alta excelência”. se não forem atiçadas frequentemente. Sugeri que ele viesse nos visitar em Genebra. para que o nome de Jesus seja cada vez mais glorificado. que o senhor chama de irmão e condis­ cípulo e para quem escreveu em julho de 1550? Não o conheço pessoalmente. CALVINO eterna. conde de Hertford. A começar com As Institutos. animando-o na prática de exercícios devocionais diários porque “centelhas de piedade que arderam em muitas ocasiões. Á Quem é William Rabot. na esperança de obter o apoio dele à Reforma na França.

“um homem digno de toda honra”. A Tive acesso à sua longa carta de 22 de outubro de 1548 ao du­ que de Somerset. conde de Montbéliard etc. além de ensinar na academia. Mas nem todos os meus livros foram dedicados aos po­ derosos. “O melhor caminho é o da moderação. pois fui casado apenas por nove anos (de 1540 a 1549) e o único filho que Deus se serviu de nos dar morreu depois de nascer. Nos dias em que não tenho de pregar. “A sabedoria do Espírito. Deus seja inteiramente louvado! . -4 Como o senhor arranja tempo para escrever tantas cartas e tantos livros. começo a escrever ora às 5 da manhã. de pregar mais de cinco vezes semanalmente na Catedral de Saint Pierre e de fazer visitas pastorais? Como pouco e durmo pouco. tem de prevalecer em tudo” . eu o dediquei a Simon Grynaeus. Alguns de seus pronunciamentos são de extrema beleza. senhor Christoph. o de Romanos. não a carne.0 NOBILÍSSIMO E CR1STIANÍSSIMO PROTETOR DA INGLATERRA E IRLANDA • Cobssenses foi dedicado ao “ilustríssimo príncipe e soberano. como “Nada aborrece mais a Deus do que ir além ou aquém do que ele determina”. Os quatro grandes volumes de meu Comentário dos Salmos foram consagrados aos “leitores piedosos e sinceros” e consagrei os dois volumes do Comentário de Daniel a “todos os sinceros adoradores de Deus que almejam o reino de Cristo com justiça estabelecido na França”. Mas os livros e as cartas nunca me roubaram o tempo de comunhão com o Senhor. duque de Württemberg. na época em que ele era regente da Inglaterra. ora às 6. professor de grego e teologia.”. Meu primeiro comentário. Na dedicatória da segunda edição do Comentário da Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios. pois o exagero não é nem prudente nem útil”. Por grande parte da minha vida não tive obrigações domésticas. escrevi que o fidalgo Galliazo Carracciolo era “mais excelente por suas virtudes do que por seu nobre nascimento”.

“Que o Senhor continue a escudá-lo com sua proteção e guardá-lo pelo seu Espirito até o final” (na carta a Melâncton). Tenho o costume de terminar quase sempre da mesma maneira: impetrando a bênção para a pessoa à qual escrevo. “Que o Senhor amenize a tristeza de sua viuvez e abençoe todos os seus trabalhos” (na carta a Ricardo Vauville). acho mais fácil terminar do que começar. Fiz uma oração por ele: “Rogo ao nosso Deus que o tenha em seu cuidado”. A O senhor impetrou a bênção de Deus para Miguel Serveto? Não. Exemplos: “Que o Senhor o preserve para si mesmo e para seu povo” (na carta a Farei). para que persevere até o fim.132 • SOU EU. para o benefício e bem comum de sua igreja” (na carta para Lutero). que o nome do nosso Senhor Jesus Cristo seja glorificado por vocês. Escócia e outros países que se tornaram suas ovelhas e seus alunos em Genebra. trazendo-lhes paz. A impressão que tenho é que o senhor é pastor por toda a Europa! Ainda mais pelo fato de haver centenas de refugiados da França. A A mim parece-me que o senhor não é pastor só de Genebra. minimizando a aflição do exílio de vocês” (na carta a John Knox). “Que Deus os encha com o seu Espírito e lhes dê prudência e coragem. para edificação da sua igreja!” (na carta aos cinco prisioneiros de Lyon). “Que o Senhor os acompanhe com a sua bênção. . Inglaterra. CALV1N0 A O que é mais fácil. Aceito essa observação com prudente humildade e reconheço que tenho alcançado muita gente de todo o continente por meio das cartas. “Que o Senhor continue a guiá-lo pelo seu Espírito e abençoar seus santos labores” (na carta ao primaz da Inglaterra). começar ou terminar uma carta? No meu caso. alegria e contentamento. dos livros e dos refugiados. “Que o Senhor mesmo o governe e o dirija pelo seu próprio Espirito.

de Jesus Cristo. O senhor acredita mesmo em Satanás como pessoa? Satanás faz parte da história. o Maligno. o inimigo número 1 de Deus. do gênero humano e da criação.17 O DIABO VIRA TUDO DE CABEÇA PARA BAIXO í Em vez de desperdiçar nossas energias com os seres humanos. Ele provocou a Queda da raça humana. O Diabo é o inventor do pecado tanto na abóbada celeste como na abóbada terrestre. A A um homem de Estado. Ele é anterior à formação do homem. Satanás é o tentador-mor. ele é res­ ponsável por todas as tragédias que se abateram sobre Jó. chamando-o de o Diabo. o mentiroso-mor. o Anticristo etc. vamos nos posicionar contra Satanás Á Em suas cartas. regente da Inglaterra. o Antigo Dragão. o senhor denunciou o Diabo como “aquele que se . o enganador-mor. o senhor se refere várias vezes a Satanás. como Edward Seymour. Ele aparece no primeiro e no último livro da Bíblia. ele teve a ousadia de tentar o próprio Senhor Jesus. ele é aquele inimigo que semeou o joio logo após a semeadura do trigo.

não desperdi­ cemos nossas energias com os homens. O que ocorre é o seguinte: tão grande é a licenciosidade que irrompe aqui e ali e tão grande é a impiedade que prolifera por toda parte. Primeiro eu disse que Satanás. ele não atingiría os seus fins”. trabalhando em surdina. Então acrescentei: “Os cães mercenários do papa não cessam de ladrar para impedir que o genuíno evangelho de Cristo seja ouvido”. É assim mesmo? Paulo diz que “nós não estamos lutando contra gente feita de carne e sangue. na carta endereçada a Thomas Cranmer. abertamente. que a religião converteu-se em mera zombaria. Por isso. mas também. por meios indiretos. A intemperança e a extravagância são uma praga que atinge não somente o povo.134 • SOU EU. já que não há dúvidas de que ele é o autor do mal. quando ele tinha apenas 14 anos. mas contra os poderes e autoridades. . antes nos posicionemos contra Satanás mesmo. CALVINO empenha para arruinar a sã doutrina. as fileiras pastorais. contra os dominadores deste mundo de trevas. não se acanhe de mencionar a pessoa de Satanás em suas correspondências com os poderosos deste mundo. Pode ser que sim. contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais” (Ef 6.12). por meio de vários ardis. ^ Em abril de 1552. Ao rei da Inglaterra. uma vez que. tem tentado extinguir a luz do evangelho que. está brilhando em muitos luga­ res. para resistir a todas as suas maquinações contra nós. parece que o senhor relaciona a operação satânica com o papa. o senhor escreve: “Não tenho dúvidas. Majestade. lamentavelmente. pela maravilhosa bondade de Deus. um homem culto. ar­ cebispo da Cantuária e primaz da Inglaterra. os inimigos declarados da verdade logo causarão terrível desordem entre nós. Aconselhei o então regente da Inglaterra “a aplicar toda a sua mente em repelir a malícia de Satanás”. á É fantástico que o senhor. Caso não sejam impedidos.

oferecido pelo mi­ nistério do padre como renovação sacramental do sacrifício da cruz. isto é. o senhor diz que “o Diabo virou as coisas de cabeça para baixo. escritas imediatamente após a sua chegada a Genebra em 1541. você não tem ideia. com quantas emboscadas e maquinações clandestinas Satanás nos assalta diariamente”. É como explica a Epístola aos Flebreus no magistral capítulo nove: Jesus entrou no “Santo dos Santos” uma vez só. obscurece e relega ao esquecimento a morte de Cristo. 12). colocando a missa no lugar da Ceia” . Á Em suas “Ordenanças Eclesiásticas”. Como assim? No conceito católico romano. um novo sacrifício. A obra não ficou inacabada. meu querido Farei. Lembro-me de me ter aberto com Guilherme Farei em carta escrita antes de eu completar 48 anos: “Além da con­ tenda descarada. que torna irrelevante a morte expiatória de Cristo e nos priva de seu fruto remissivo. Como qualquer outra pessoa. a missa é o sacrifício do corpo e do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo. Ao rei da Polônia. ou “uma vez por todas”. eu também sou alvo da atuação satânica. . Com esse único sacrifício. a missa sufoca a cruz e a paixão de Cristo. o problema crucial do pecado e da culpa não existe mais. consequentemente. Por ser Jesus ao mesmo tempo o perfeito ofertante e a perfeita oferta. estabe­ lecendo um novo testamento e. Na verdade. o senhor declara que “pessoas profanas pela instrumentalidade de Satanás poderíam espalhar uma frieza mortal no país e afogar o sentido de muitos numa letargia ignóbil” . e ofereceu um sacrifício tão perfeito e eficaz que não precisa ser repetido em qualquer outro tempo e em qualquer outro lugar. não precisa ser completada ou aperfeiçoada por pessoa alguma em tempo algum mais adiante.0 DIABO VIRA TUDO DE CABEÇA PARA BAIXO • 135 de que Satanás colocará muitos obstáculos à vossa frente para retardar vosso passo e esfriar vosso fervor” . ele “obteve eterna redenção” (v.

mais preparados para combatê-lo. mas com as potestades das trevas. colocando a missa no lugar da Ceia! á O cristão deve preocupar-se com o Diabo? Eu não diria preocupar-se.4). mas preparar-se para enfrentá-lo. á Tão renhido e tão perigoso? Sim. Veja só. poderosíssimo em todos os apetrechos bélicos e habilidosíssimo na arte de guerrear. A Ceia dispensa a missa. Mas. O que as Escrituras querem nos comunicar quando chama o Diabo de “príncipe deste mundo” (Jo 12. Seu valor estava condicionado ao futuro sacrifício do próprio Jesus. e. também eram provisórios.12-18). senhor! É nesta hora que não resisto à tentação de usar alguns superlativos: o Diabo é um inimigo prestíssimo em audácia. astutíssimo em estratagemas.8)? Essas lembranças não têm em vista outra coisa senão que sejamos mais cautos e vigilantes. Para nos lembrar constantemente de Jesus e para relacionar a nossa salvação com o seu sacrifício único e perfeito.2) e o leão que ruge ao nosso redor “procurando a quem possa devorar” (lPe 5. por essa razão. CALVINO está definitivamente resolvido. ou Antigo Testamento. em contrapartida. E por isso que digo que Satanás virou as coisas de cabeça para baixo. depois de dizer que a nossa luta não é com a carne e com o sangue. Nos tempos da Antiga Aliança. “o príncipe da potestade do ar” (Ef 2. ou seja. Não nos deixemos vencer por ele pela nossa inércia ou pusilanimidade. Paulo manda que cinjamos as armas que estejam à altura de suster um embate tão renhido e tão perigoso (Ef 6. o próprio Jesus instituiu a Ceia. os sacrifícios eram pontualmente repe­ tidos porque eram imperfeitos (quanto ao ofertante e quanto à oferta). vigorosíssimo em forças.136 • SOU EU. tenhamos .31). “o deus desta era” (2Co 4.

A expressão “nossa luta não é contra a carne e o sangue” quer dizer “nossa luta não é contra seres humanos”. contra a perversidade espiritual nas regiões celestiais” (Ef 6. Quando o inimigo é negligen­ ciado. usando a arma do terror. Sobretudo.0 DIABO VIRA TUDO DE CABEÇA PARA BAIXO • 137 ânimo soerguido e despertado. força sendo repelida pela força. Quase todos nós somos culpados de fazer uso de forma displicente e hesitante da graça de Deus que nos é oferecida. Na verdade. fiquemos de pé para resistir e sejamos perseverantes. E como se Paulo dissesse: “Nossa luta não é corporal”. Quando Paulo fala em “perversidade espiritual”. Por exemplo. contra os dominadores deste mundo tenebroso. somos conquistados. em seguida. antes mesmo de sermos atingidos. homem digladiando com homem. invoquemos a assistência de Deus a nosso favor. De tal modo que.12)? Paulo simplesmente quer dizer que as nossas dificuldades são muito maiores do que se tivéssemos de lutar contra os homens. O apóstolo nos coloca contra um inimigo incrível. contra as potestades. cônscios de nossa insufi­ ciência e obtusidade. Se fosse contra os homens. tomamos o capa­ cete da armadura do crente. mas nos esquecemos de sobraçar a armadura. para. quando o inimigo é . seria então espada contra espada. ele faz tudo o que pode para sujeitar-nos por meio da indolência. e habilidade contra habilidade. uma vez que esta beligerância não se finda senão com a morte. desencorajar-nos. pois nossos inimigos são em tal proporção que não há poder humano capaz de resistir a eles. não para esmagar-nos pelo medo. senão apoiados nele. Não tentemos coisa alguma. ao nos vermos frente a frente com o Inimigo. o caso é muito diferente. mas para aguçar nossa beligerância e zelo. o apóstolo quer mostrar que. Protegemos a cabeça e deixamos o peito à disposição da lança satânica! Á O que Paulo quer dizer quando fala que a nossa luta é “contra os principados.

mas “por todos os santos”. de noite e de dia. ensinada por Jesus? Já que não obedecemos a Deus sem uma contínua batalha e com duros e cruéis encontros. na oração do Pai-Nosso pedi­ mos que Deus nos dê armas poderosas e nos ampare com sua assistência para que possamos alcançar a vitória. Embora cada uma dessas peças tenha o seu significado espiritual (por exemplo. perseverante. o perigo é ainda maior. Paulo não lhes designa um território fixo. Precisamos que a graça do Espírito Santo abrande nossos corações. Isto é. em todas as ocasiões. a espada é a Palavra de. não devemos inquirir com dema­ siada minudência o significado de cada palavra. CALVINO invisível (espiritual e não corpóreo). capacete e espada. entre a terra e o céu dos céus. Temos problemas internos (a tentação da carne).38 • SOU EU. pro­ blemas externos (as tentações do mundo) e problemas etéreos (as tentações de cima). A expressão “regiões celestiais” não significa. mas simplesmente notifica que eles se acham envolvidos em hostilidade e que ocupam uma posição muito elevada. escudo. dia após dia. O apóstolo não fica só na armadura militar do cristão. Mas não . mas também insiste na oração . nos direcione e nos encaminhe no serviço de Deus. como alguns pensam.o principal exercício de fé e de esperança. que o Diabo e seus anjos tomaram conta e mantêm para eles a região média da atmosfera. nossa vida passa a ser ameaçada de cima. á Quais as armas que elevemos cingir para sustar um embate tão renhido e tão perigoso como o senhor mencionou? Paulo lança mão da imagem de um equipamento militar: bo­ tas apropriadas. Essa oração precisa ser contínua. E não deve ser egocêntrica. Á É aí que entraria a oração “não nos deixes cair em tentação”.Deus).

por arte e indústria de Satanás. Se Satanás já tivesse sido lançado no lago de fogo e enxofre. nós continuaríamos pecando por causa do enorme estrago feito pela queda do pai da raça humana. A tentação nasce dos impulsos incontroláveis dentro de nós. Na verdade. as tentações são muitas e de diversos tipos. como Jesus colocou. nós pecaríamos. depois do pacto da traição. tanto aquelas que .13-15). Só deixaremos de pecar e de ser tentados com o novo corpo que a ressurreição e a súbita transformação nos darão. podem converter-se em tentações quando se nos põem diante dos olhos. Todo mau pensamento de nossa mente que suscite nossa concupiscência atiça o demônio. Se cedermos a esses impulsos. logo o pecado e o de­ mônio mostrarão sua cara. o Diabo entrará. Se abrirmos a porta para a concupiscência. a ênfase é que Deus não permita que sejamos ven­ cidos pelas tentações que lutam contra nós. mediante elas. Não é exatamente o contrário? Mesmo que não houvesse o demônio. que nos induz a transgredir a lei. Até mesmo as coisas que em si não são más. á O que elevemos pedir em oração: não nos deixes ser tentados ou não nos deixes cair em tentação? Podemos suplicar ambas as coisas.3). a fim de que. já que a Queda nos tornou moralmente imprestáveis. Á O senhor está dizendo que nossa concupiscência atiça o de­ mônio. Precisamos também de seu socorro para que nos faça invencíveis contra as ciladas de Satanás e seus violentos ataques. Não foi isso que aconteceu com Judas? O Evangelho assevera que. como se lê em Tiago (Tg 1.0 DIABO VIRA TUDO DE CABEÇA PARA BAIXO • somente isso. O pecado reside dentro de nós. nos apartemos de Deus. Mas me parece que. o que ainda vai acontecer. “então Satanás entrou em Judas” (Lc 22.

. contra a morte. CALV1NO mais concupiscência produzem em nós mesmos como aquelas a que somos induzidos pela astúcia de Satanás. Em palavras bem curtas: que sejamos libertos do Maligno. despojados da fraqueza da nossa carne. O que pedimos é a graça de sermos vencedores contra o pecado. contra as portas do inferno e contra todo o reino de Satanás. estejamos cheios do Espírito Santo. Não poderemos conseguir a vitória sem que.140 • SOU EU.

Todos eram jovens franceses e estudavam teologia em Lausanne. o senhor enviou três cartas endereçadas “aos cinco prisioneiros de Lyon”. Quem são eles? São em ordem alfabética: Bernard Seguin. aqui na Suiça. . Aos primeiros rumores da prisão deles. Em abril de 1552. A Os rapazes foram libertados? Os cinco estudantes apelaram ao Parlamento de Paris enquanto as autoridades de Berna lutavam para salvá-los. Peter Escrivain e Peter Navihères. Mas não deu certo. a igreja de Genebra abraçou a questão e fez tudo o que pôde para lhes mostrar solidariedade. eles estavam de volta à França quando foram presos sob a acusação de heresia por terem aderido à Reforma. Charles Favre. Martial Alba.18 O CRISTÃO NÃO DEVE CORRER D A FOGUEIRA NEM CORRER P A R A A FOGUEIRA ‘Parece que (Deus utilizará o sangue cCe vocês para suSscrever sua venfacfe A De junho de 1552 a maio de 1553. perto de Genebra.

os cinco estudantes receberam a notícia com piedosa serenidade. . uns diziam aos outros: “Coragem. eu lhes escrevi o seguinte: “Parece que Deus utilizará o sangue de vocês para subscrever sua verdade. Isso nos cau­ sou muito pranto. embora tarde o tempo da nossa redenção”. A fogueira foi montada na Place des Terreaux. a espada e outras coisas estão nas mãos de Deus. no que foi atendido. Ao serem avisados para se prepararem para a morte. e ele não permitirá que eles me sobrevenham em intensidade superior à força que ele nos dará para suportá-los”. Ao mes­ mo tempo. Dois meses e meio depois. tanto em Genebra como em Lausanne. a pena se cumpriu. Por fim. foram condenados à fogueira. Depois. Logo após a sentença. Do cárcere até o local da execução. solicitou ao carrasco que lhe concedesse o privilégio de beijar os outros quatro. adieu. Os dois mais moços foram os primeiros a subir na pilha de lenha. meus irmãos”. mas também por terem certeza da adoção graciosa do nosso Deus”.142 • SOU EU. coragem!”. Então o melhor é que vocês se preparem para partir”. O último foi Martial Alba. Martial disse a cada um deles: “Adieu. um ano depois da prisão. no dia Io de março de 1553. ao deixar este mundo. á Suas cartas os confortaram? E o que tentei fazer. É como disse certo mártir inglês em 1545: “Eu sei que o fogo. disse-lhes solenemente: “Enquanto aprouver a Deus dar o reino aos seus inimigos. eu trouxe à lembrança deles uma preciosa verdade: “Vocês sabem que. o mais velho dos cinco. eles foram can­ tando salmos e recitando versículos das Escrituras. CALVINO Depois de serem transferidos de masmorra em masmorra e de um longo julgam ento. nosso dever é ficar quietos. não só por terem convicção da existência de uma vida celestial. Ele permaneceu um bom tempo de joelhos em oração. não partem ao acaso. meus irmãos. que já estavam amarrados. a água. Já em meio às chamas. de forma mais realista do que otimista.

aquele que dá a sua vida por ele na morte ou aquele que dá a sua vida por ele na vida? Deus. dos doze apóstolos. o Menor. De fato. Bartolomeu foi preso a uma cruz. inclusive a de Filipe. o Senhor deixou que Herodes matasse à espada apenas Tiago. é a semente da igreja cristã. É bem possível que o testemunho de Estêvão na hora de seu martírio tenha sido uma das causas da conversão de Saulo. mas o sangue dos mártires. Tiago. mas escapou da morte e foi exilado na ilha de Patmos. foi lançado de um pináculo do templo e de­ pois espancado até morrer. e preservou a vida dos outros.0 CRISTÃO NÃO DEVE CORRER DA FOGUEIRA • A O senhor acaba de tocar numa questão muito delicada. Lucas foi enforcado numa oliveira na Grécia. Marcos morreu em Alexandria depois de ter sido arrastado pelas ruas da cidade. Nos primórdios da história da igreja. o que me leva a perguntar: quem é mais útil a Deus. como dizia Tertuliano no século 2o. Mateus foi passado pelo fio da espada na Etiópia. Barnabé teve a mesma sorte na Grécia. serve-se de ambos. um dos mais chegados a Jesus. que foi um excelente evangelista. Tomé teve o corpo traspassado por lanças na índia. aquele que viria a ser o maior teólogo e o maior missionário de todos os tempos. mesmo num ambiente de intensa perseguição. o Senhor fez o mesmo: deixou que o Sinédrio judaico e a multidão em fúria apedrejassem Estêvão e preservou a vida dos outros. porém se serve mais dos que continuam vivos. Pedro foi crucificado de cabeça para baixo em Roma. em sua soberania e em sua estratégia. E Paulo foi decapitado . O sangue dos cristãos mortos por sua fé nunca é derramado à toa. segundo a tradição. o foram posteriormente. Filipe foi enforcado numa coluna na Frigia. A Mas todos os outros apóstolos. se não foram martirizados no início de seus ministérios. e dali pregou aos seus perseguidores até morrer. O potencial do mártir vai embora com ele. Matias foi apedrejado e depois decapitado. Dos sete diáconos. João foi posto num caldeirão de óleo fervente.

No caso dessas pessoas. ele foi intimado a comparecer diante dos comissários da rainha e um deles perguntou se ele era casado. A história está repleta de ambos os exemplos. CALVINO por ordem de Nero em Roma. menciono os nomes dos ingleses John Hooper. Entre os mais notáveis. morto em 21 de março de 1556. martirizados em 1555. arcebispo da Cantuária e primaz da Inglaterra. Já os rapazes de Lyon não foram necessariamente assassinados. Embora dedicando a maior parte de seu trabalho ao rebanho de Cristo. o precursor da Reforma. . pelo qual deu o seu sangue. ele não deixava de providen­ ciar uma boa educação para os filhos. tem havido outros mártires em seus dias? Muitos e em muitos lugares . elas deram a vida delas na vida e na morte. cito novamente Jan Hus. mas condenados à pena máxima. João Batista não foi condenado à morte nem pelo Estado nem pelo Sinédrio. Cortaram-lhe a cabeça apenas para satisfazer o capricho pessoal de Herodias. Há uma passagem muito bonita na vida dele. á Como o senhor define o mártir cristão? Mártir é tanto a pessoa assassinada como a pessoa submetida à pena de morte pela recusa de renunciar à fé cristã ou a qualquer de seus princípios. cujo relacionamento com Herodes foi criticado pelo precursor de Jesus. morto na fogueira em Praga no dia 6 de julho de 1415. Para não ser longo demais. na Escócia. Á Além dos cinco rapazes de Lyon. passando-lhes ensinamentos e boas maneiras.144 • SOU EU. por amor a Jesus.na Boêmia. Hugo Latimer e do bispo Nicholas Ridley. Em março de 1554. em Portugal etc. Á Disseram-me que o bispo Hooper era mais elogiado por ser pai de família do que pastor de ovelhas. na Inglaterra. Deixo por último o meu amigo Thomas Cranmer.

por causa da perseguição na Inglaterra.0 CRISTÃO NÂO DEVE CORRER D A FOGUEIRA • 145 “Sim. Menos de um ano depois. rainha da Inglaterra. Creio que foi nessa época que ele se uniu aos reforma­ dores ingleses. Á É juízo temerário pensar que alguns cristãos acabam na fogueira para se tornarem heróis da fé? Isso é possível. Ele faz apenas uma pequena alusão sem citar nomes e datas: “Durante a mesma perse­ guição padeceram os gloriosos e mui constantes mártires de Lyon e Vienne. exilou-se por algum tempo na Alemanha e por aqui na Suíça. que citei anterior­ mente) quando. no dia 9 de fevereiro. para todos os cristãos. A “O Livro dos Mártires” porventura faz referência aos cinco ra­ pazes de Lyon? O livro de John Foxe foi publicado em latim quatro anos após o martírio dos cinco estudantes de Lausanne. nosso Salvador”. excelência”. levando em conta que ele começou a compilar O Livro dos Mártires (coincidentemente com o mesmo título do livro de Jean Crespin. Os cristãos não devem provocar a perseguição com palavras. ele foi descasado ao ser queimado vivo por ordem de Maria Tudor. duas cidades da França. Nasceu na Inglaterra e tornou-se professor da Universidade de Oxford. A tradução inglesa de seu livro foi publicada há poucos meses sob o título Actes and Monuments of These Latter and Perillous Days. Em minha opinião. gestos . Foxe deveria ter dedicado mais espaço a esses mártires. mas o julgamento final pertence a Deus. “sou casado há nove anos e não me descasarei até que a morte me descase”. de 39 anos. respondeu Hoover. dando um retumbante testemu­ nho e. á Quem é esse Foxe? John Foxe é sete anos mais novo do que eu. onde havia se formado. um espetáculo ou exemplo singular de fortaleza em Cristo.

irão pedir que o carrasco distribua com os pobres a madeira que sobrar dó “incêndio” (como Giles Tilleman). irão orar pelos seus verdugos (como Estêvão fez). . como os amigos de Daniel. ou na guilhotina. e Estêvão. irão anunciar o evangelho pela última vez. irão bater palmas com as mãos em fogo (como Thomas Hauker). Eles devem aceitar o preço da fidelidade a Cristo por amor incondicional ao Senhor. irão abraçar e beijar a estaca (como aqueles onze homens e duas mulheres martirizados em Stratford-le-Bow em 1556). e não a eles mes­ mos. não abjuram a fé. irão declarar que a fogueira na qual estão sendo queimadas é a carruagem de fogo que levou Elias para o céu. E preciso levar em conta que o estado emocional dos que estão sendo levados para o patíbulo (para serem mortos ou na fogueira. frente ao apedrejamento. A desobediência civil só não é pecado quando o cristão desobedece à lei para não desobedecer a Deus. irão beijar a fogueira (como um tal de Cardmaker). Quanto aos perigos que possam surgir. Nos casos citados por Foxe. mas sem nunca nos desviarmos do reto caminho. irão lavar as mãos nas chamas como se fossem água fresca (como um tal de Rogers). ou no apedrejamento) certamente altera seus sentimentos.146 • SOU EU. Elas irão louvar a Deus. É tudo uma questão de equilíbrio: o cristão não deve correr da fogueira nem correr para a fogueira. mesmo tendo a oportunidade de se livrarem da morte na última hora. não voltam atrás. nem praguejar. nem blasfemar no momento exato da morte. são pessoas especiais. suas palavras. Elas não irão nem gritar. frente à fornalha acesa. á No livro de Foxe há algumas histórias que cheiram a fanatismo? Os que não se retratam. irão chamar a corda que as amarra à estaca de cinto nupcial com o qual estão se casando com Cristo (como Ann Audebert). suas reações. ou na forca. não vejo fanatismo algum. devemos evitá-los o quanto pudermos. CALVINO e ações petulantes.

Até hoje. Meses depois.5). em várias partes do mundo. nem sequer uma pequena placa com a inscrição “Aqui jaz João Calvino”. sem pompa nem qualquer aparato. junto com o nome de todos os eleitos. No dia seguin­ te.3. Ap 3. 44 dias antes de completar 55 anos. em Genebra. na certeza de encontrar ali um mausoléu à altura do seu nome. onde se encontram os seus restos mortais. estudantes recém-chegados a Genebra foram ao cemitério para visitar o túmulo de Calvino. Uma hora antes de começar o culto da tarde na Catedral de Saint Pierre. seu corpo foi envolto num lençol e posto em um ataúde de madeira. nas enciclopédias e nos livros escritos por mais de uma centena de estudiosos. por determinação dele. ninguém sabe.ÚLTIMA PÁGINA JO Ã O C A L V IN O M O R R E U no dia 27 de maio de 1564. Nada encon­ traram. a começar com a . Tudo o que Calvino fez está disponível na internet. passados 450 anos de sua morte. domingo. O nome de João Calvino está escrito no Livro da Vida (Fp 4. Calvino foi sepultado no cemitério Plainpalais.

de acordo com a doutrina do sola gratia. em As Institutos.148 • SOU EU. Tudo o que Calvino escreveu está. o livro mais lido durante o século 16 (depois da Bíblia). e a terminar (por enquanto) com este singelo livro da Editora Ultimato. Martinho Lutero e ele redescobriram. em primeiro lugar. que Jacques Lefèvre. CALV1N0 biografia de Theodoro de Beza. seu amigo e substituto imediato na Catedral de Saint Pierre. abraçaram e pregaram. Tudo o que Calvino deixou de dizer e fazer. .19). tudo o que ele fez e disse de errado foi jogado no fundo do mar (Mq 7. Também está nos seus comentários de quase todos os 66 livros das Escrituras Sagradas e em outros livros de menor porte.

ANEXOS .

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DE PAI PARA FILHO CALVINO ENCORAJOU centenas de homens e mulheres cie diferentes lugares e posições sociais muito mais por meio de suas cartas do que por meio de seus livros e sermões. sempre de maneira fraterna e humana.não perderam o seu valor. As desculpas infelizes com as quais costumamos cobrir nossa nudez diante dos homens jamais poderão suportar o calor do juízo de Deus. Os conselhos que ele deu em sua época . que o publicou em 2009. * * * Não teremos uma igreja duradoura a menos que se restaure completamente a antiga disciplina apostólica. ** * Os cristãos devem ter toda aversão aos cismas e evitá-los sempre onde depender deles. Algumas dessas palavras de orientação e ânimo aparecem a seguir. com a devida permissão da Editora Cultura Cristã. sem o menor resquício de superioridade.mea­ dos do século 16 . . retiradas do livro Cartas de João Calvino. negligenciada entre nós em muitos aspectos.

Somos interiormente corruptos em nossos sentimentos e afeições. enraizadas há tanto tempo. . * * * Reconheçamos que em nós nada há senão absoluta miséria. não podem ser erradicadas tão facilmente do coração humano. E mais cômodo para ele se abrigar no esconderijo e no covil tenebroso de suas superstições.152 • SOU EU. a falta de equilíbrio. * * * Em certas circunstâncias. já que ela lhe desnuda a torpeza e a ignomínia. k k 9c E tão fértil a semente da falsidade que basta um só grão para ela encher o mundo em apenas três dias! k k k O exagero. o ato de entregarmos nossa segurança ao Senhor é o único quase exclusivo recurso que nos resta. * * * As superstições do anticristo. * * * É difícil conservar nos devidos limites aqueles que estão inchados por terem uma tola opinião de sua própria sabedoria. CALVINO Quase não há igreja que não conserva alguns resquícios da ignorância passada. * * * Por sua natureza e por sua hipocrisia o ser humano não suporta ser trazido à clara luz da Palavra de Deus. Daí a necessidade de observamios a moderação em todas as coisas. Caso contrário. tudo irá ime­ diatamente bem. Nossa alma ê mesmo um abismo de iniquidade. k k ie Caso o ministro do evangelho cumpra seu dever. * * * Só se deve recorrer a soluções extraordinárias quando há a justificativa de uma situação extrema. o que é de fato desesperador. não é nem prudente nem útil. um escândalo impossível de suportar ocorrerá.

tem de prevalecer em tudo.DE PAI PARA FILHO E bem verdade que devemos tolerar os fracos. seja na restauração ou na preservação de sua igreja. devemo-nos deixar guiar por ele. mesmo quando empre­ gamos toda a nossa capacidade. Ainda mais que. * * * A sabedoria do Espírito. avançamos para além ou recuamos para aquém do que ele determina. Em vez de seguir a inclinação do nosso próprio entendi­ mento. 5*r * * A reforma da igreja deJesus é obra de sua mão. • 153 . * * * Como a doutrina é a alma da igreja para a vivificação dela. assim também a disciplina e a correção de vícios são como os nervos que conservam o corpo saudável e vigoroso. deixemo-nos guiar por ela. * * * Numa causa tão grandiosa e digna. Curvamos. * * * Nada aborrece mais a Deus do que quando. bemcomo a prescrição do tratamento. pois. submetendo-nos sob a sua disciplina. diante dele nossa cabeça até o chão. desconhecidas a nós. * * * Tenho feito o que posso para não ser esmagado pela angústia! * * * Diante do grande Juiz Celestial não há nenhum vivente que esteja isento de culpa. ele acha conveniente agir de forma maravilhosa e acima da compreensão humana. mas conforme o que ele julga ser apropriado. mas sempre com o propósito de fortalecê-los e levá-los a uma maior perfeição. segundo nossa própria sabedoria. * * * Cabe a Deus a cura das nossas doenças interiores. ficamos sempre aquém do que se exige. não segundo o nossogosto. na maioria dos casos. Por isso. não a da carne.

. * * * A religião indubitavelmente pura e imaculada jamais florescerá enquanto as igrejas não se derem ao trabalho de terem pastores adequados e cumpridores de seus deveres docentes. como se tivesse alcançado vitória completa. k k k Nossas quedas não são mortais nem perdemos de todo o nosso ânimo porque nosso Pai celestial está sempre pronto a nos dispen­ sar misericórdia e sustentar-nos com sua mão.154 • SOU EU. por causa de nossa fragilidade. se eu fosse de algum préstimo. quando uma ordem de culto simples está à nossa disposição. não permitamos que ele se vanglorie. CALVINO Quando dilacerados os membros da igreja. * * * Por não eliminarem todos os abusos religiosos e deixarem inume­ ráveis renovos que voltam a germinar. o corpo sangra. k k k Se o inimigo. * * * É melhor e acima de qualquer comparação ser cristão do que ser rei ou príncipe. Aqueles que Deus íevanta têmforças em dobro para resistir a todos os seus ataques. tem alguma vez qualquer domínio sobre nós. k k * Não vejo porque devemos sobrecarregar a igreja com cerimônias perniciosas. * * * Todos nós sabemos muito bem como é difícil ao ser humano esquecer de seu “eu”. cruzaria voluntariamente até dez mares por causa disso. tk * * A igreja é mais perturbada por inimigos internos do que pela oposição externa. as questões eclesiásticas continuam desorganizadas. frívolas e inúteis. Isso me aflige de tal modo que.

a perversidade deles irromperá rapidamente. que a doutrina da salvação (corrompida por erros execráveis) e que o culto (tão perfeitamente corrompido) . . a fim de partilhar de sua glória. ** * Os idólatras devem ser categoricamente admoestados e estimu­ lados a se consagrarem sinceramente a Deus e os excomungados devem ser encorajados a se reconciliarem com a igreja. ** * Os mártires dignos de respeito são aqueles que mutuamente se encorajam o máximo possível. * * * A reflexão acerca da brevidade da vida deve levar-nos a refletir acerca da morte e da ressurreição de Jesus. * * * Sou tomado de aflição só com a suspeita de que exista alguma discórdia secreta entre os irmãos.DE PAI PARA FILHO • 155 Se virem alguém cuja mente continua magoada. * ife * Se não houver nenhuma autoridade competente para refrear certos indivíduos. •k * * Em vez de ceder às fraquezas. ** * Que a religião (caída em degradante desgraça).recuperem o fulgor primitivo e sejam purificados de toda impureza. muito mais importante é procurar nos despojar delas e buscar a reanimação do Espírito. * * * Devemos preferir a herança do Reino do céu a tudo aquilo que possa nos deixar fora dele. estaremos sempre cercados por paixões humanas. ** * Se somos criaturas humanas. façam o melhor possível para apaziguar seus ressentimentos.

Mas de muito mais sentimentos ruins que podemos imaginar. * * * Há certas coisas que devem ser toleradas. a verdade que até então enchia nossas mentes começa pouco a pouco a se esvair. peçamos-lhe que estenda o seu poderoso braço. Nosso orgulho. * * * Quando deixamos de nos exercitar diariamente nas Sagradas Escrituras. * * * E melhor sofrer sem vacilar por causa do nome de Deus do que possuir o mundo e sermos visitados pela aflição. Além de suplicar que ele lhes fortaleça emsuas fraquezas. Pode até desaparecer completamente. * * * Sofrer perseguições não significa que Deus se esquece de nós. fechando suas bocas sanguinárias. quebrando suas garras e convertendo-os em cordeiros inofensivos. ainda que você não as aprove totalmente. a menos que nosso Pai compassivo providencie o remédio. recorram a ele em oração.156 • SOU EU. CALVINO Reanimem-se sempre e não deixem de fazer guerra contra a carne. por exemplo. . seja para a vida ou para a morte. é sempre maior do que estimamos. * * * Quando vocês virem o pobre rebanho de Deus disperso por causa dos lobos. * * * Deus fortalece os seus servos na proporção de suas dificuldades. ele permite que soframos dificuldades para nosso maior benefício. afugente os lobos. Tenhamos plena convicção de que somos felizes por pertencer a Cristo. Ao contrário. * * * Deus nos corrige não de um ou de dois sentimentos ruins.

O QUE SE DIZ DE CALVINO

Os genebrinos deveríam tornar bendito o dia em que
Calvino nasceu.
- M

ontesquieu

Quanto mais tempo eu vivo, mais claro se torna que
o sistema de João Calvino é o que está mais perto da
perfeição.
- Charles H. Spurgeon
Omitir Calvino das forças da evolução ocidental é inter­
pretar a história com um olho fechado.
- Lord John Morley
É bastante provável que Calvino tenha sido o maior e o
principal teólogo cristão de todos os tempos.
- Ricardo Quadros Gouvêa
Eu poderia, feliz e proveitosamente, assentar-me e passar
o restante de minha vida somente com Calvino.
- Karl Barth

158 • SOU EU, CALV1N0

No dia da morte de Calvino, no mesmo instante o sol se pôs
e o maior luzeiro que houve neste mundo para a direção da
igreja de Deus foi recebido no céu. E podemos afirmar com
acerto que em um só homem aprouve a Deus, em nosso
tempo, ensinar-nos a maneira do bem viver e do bem morrer.
- Theodoro de Beza
Calvino saiu vitorioso... simplesmente por ser o maior
cristão do seu século.
- Ernest Renan
Calvino é considerado não só o pensador mais articulado
e fecundo entre os reformadores protestantes, mas tam­
bém uma das mentes formadoras do mundo moderno.
- Alderi Souza de Matos
A vida, a obra e o pensamento de Calvino foram determi­
nantes para a configuração da sociedade europeia, hoje
decadente e devedora ao legado do grande reformador.
•- Lyndon de Araújo Santos
Homem algum jamais teve um senso mais profundo de
Deus do que Calvino. Homem algum jamais se rendeu
totalmente à direção divina como ele fez.
- Benjamin B. Warfíeld
O mérito de Calvino foi jamais ter buscado mérito para
si. Viveu, estudou, escreveu, ensinou, pastoreou e morreu
para que somente Deus recebesse a glória devida.
- Luiz Fernando dos Santos
Calvino foi um gênio exegético de primeira grandeza. Seus
comentários nunca foram ultrapassados em originalidade,
profundidade, perspicuidade, firmeza e valor permanente.
- Philip Schaff

0 QUE SE DIZ DE CALVINO

Quando Calvino morreu em 1564, deixou muito mais do
que uma Genebra reformada. Por toda a Europa, e em
breve na distante América do Norte, ele tinha seguidores
ansiosos por continuar o “jogo” em que ele havia entrado.
- Bruce Shelley
Embora a teologia de Calvino tenha contornos muito
próximos a de Agostinho, ela se deve mais ao estudo da
Bíblia do que a Agostinho. Como outros reformadores,
ele não foi de Agostinho para a Bíblia e daí para as dou­
trinas da Reforma, mas da Bíblia para Agostinho, em
busca de apoio do príncipe dos pais da igreja.
—Earle E. Cairns
Vivendo na pobreza e totalmente dedicado à sua obra,
Calvino foi um homem de Deus e um homem universal.
—José Artulino Besen
A vida de Calvino é um gemido cheio de lágrimas pela
sua própria miséria e um coro triunfal glorificando a
inestimável graça do seu Deus.
—Pierre Marcei
Calvino era, de longe, o maior dos reformadores no que
diz respeito aos talentos que possuía, à influência que
exercia e ao serviço que prestou para o estabelecimento
e difusão da importante verdade.
—William Cunningham
Entre todos os nascidos de mulher, não houve ninguém
maior do que João Calvino. Nenhuma época anterior
à dele jamais produziu alguém igual a ele, e nenhuma
época depois dele viu um concorrente seu.
—Charles H. Spurgeon

• 159

Ao longo de quatro séculos nos sentimos anima­ dos com o calor da sua simpatia.Jean-Daniel Benoit Calvino deixou à igreja e ao homem moderno uma rica herança de teorias sociais e econômicas que são bíblicas em sua origem.Alister McGrath Ao ler Calvino nos sentimos surpreendidos inclusive nos nossos dias. . no Antigo Testamento. de nossas perplexi­ dades. . à medida que a civilização ocidental começou a assumir sua forma característica. precisou de profetas. mas de uma irradiação cujos lampejos continuam a nos iluminar. Gregg Singer . .C. que o Senhor nunca deixa faltar à sua igreja. revigorados. no início da era moderna. assim também a igreja cristã. de nossas tentações.160 • SOU EU. avulta certamente Calvino . guiados. precisa de profetas. CALV1NO Como o povo de Deus. Encontramos nele o eco de nossas lutas. mudando a perspectiva de indivíduos e instituições. mesmo guiada pelo Espírito e pelas Escrituras.Padre Ney Brasil Calvino provou ser uma figura de extrema influência na história da Europa. Entre outros. fortalecidos por suas exortações. . sua natureza e sua perspectiva e que ofe­ recem somente a possível esperança de uma satisfatória solução aos muitos problemas vexatórios que acusam a moderna sociedade.de vida relativamente breve. de nossas dúvidas.

Timothy George . As Institutos não possuem rival na história da teologia. mas também a base de uma cosmovisão cristã cuja abrangência e consistência são sem igual na história da fé cristã. As Institutos são um livro que fornece não apenas o melhor compêndio de teologia cristã jamais escrito. ou à Summa. de Agostinho. . de Karl Barth. de Tomás de Aquino. Elas poderiam ser comparadas. —Ricardo Quadros Gouvêa As Institutos perduram como uma das mais lúcidas e mais vigorosas sumas teológicas da história cristã. Entretanto. talvez.O QUE SE DIZ DE A S IN S T IT U T A S Em importância. a todas essas obras a obra-prima de Calvino supera. influência e qualidade. possivelmente à Dogmática Eclesiástica. à Cidade de Deus.

ou Gibbon entre os historiadores do século 18.William Cunningham . CALV1NO O que Tucídides é para os gregos. .Benjamin B. Canuto As Institutos são a mais clara. o que Platão é entre os filósofos. ou Shakespeare entre os dramas.Brwce Shelley Porque a primeira edição foi publicada quando Calvino tinha 27 anos de idade.Daniel-Rops As Institutos são uma enciclopédia teológica superior à qual nada apareceu até agora.José S.162 • SOU EU. . . . as ínstitwtas são a mais extraordi­ nária prova de sua maturidade e do vigor de sua mente e do cuidado com que estudou a'Palavra de Deus. . é o que As Institutos são entre os tratados teológicos. lógica e legível exposição da doutrina protestante que a Reforma produziu. Warfield Nenhum livro seria mais lido durante o século 16 do que As Institutos de Calvino. ou a Ilíada entre os egípcios.

Genebra . Mas ele foi pouco efusivo. Exatos trezentos anos e três meses depois da morte de Calvino (maio de 1564).GENEBRA NO MAPA FOI O HISTO RIAD O R Alderi Souza de Matos a pessoa a escrever que João Calvino “colocou Genebra no mapa da Europa”. Com o correr dos anos. a Cruz Vermelha Internacional foi organizada em Genebra (agosto de 1864). na Alemanha. esta se tornou mais notável que a cidade de Lutero. na Suiça. valendo-se talvez da posição histórica da Suíça de neutralidade na conjuntura internacional. Se a primeira onda da Reforma projetou a cidade de Wittenberg. quando Genebra. Em 1919 foi a vez da Organização Interna­ cional do Trabalho (OIT). Porque refugiados. antes uma cidade sem atrativo especial algum. Pensou apenas na Europa do século 16. interessados e curiosos vinham de todos os lados da Europa para conhecer a cidade de Calvino. sediou o trabalho de João Calvino e tornou-se um centro de grande importância na esfera religiosa e espiritual. a segunda onda projetou Genebra. Genebra passou a ser colocada no mapa-múndi e não só no mapa europeu. Depois da Segunda Guerra Mun­ dial (1935-1945).

CALV1N0 tornou-se a sede de várias outras organizações e entidades de âmbito mundial. Os demais são fiéis de outras religiões (8. o Fundo Global de Combate à Aids (Global Fund) e Médicos Sem Fronteiras. a Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA). Hoje. . a Organização Mundial do Comércio (OMC).4).6%) é 3. a Organização Mundial de Saúde (OMS). Entre outras organizações com sede em Genebra estão a Organização Meteorológica Mundial (WMO).6). o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). a União Internacio­ nal de Telecomunicações.1%). O segundo maior grupo não se identifica com qualquer religião (38. o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNA1DS). além do Comitê Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Ver­ melho. A porcentagem de cató­ licos (36.164 • SOU EU. apenas um pòuco mais da metade da população de Genebra se identifica com o cristianismo (53%). a Organização Internacional para as Migrações (OIM).3 vezes maior que a dos protestantes (11. a cidade hospeda. o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). o Escritório das Nações Unidas em Genebra (UNOG) e o Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Na área da saúde.

Cidades da França e da Suíça onde Calvino viveu • Noyon . • Paris —Onde estudou no Collège de Montaigu e na Universidade de Paris.Onde viveu quase a metade de sua vida como reformador. • Basiléia . • Genebra . . • Estrasburgo —Onde passou três “ anos dourados” . pregador.Onde passou um ano e meio depois de te r se convertido. pastor. onde pastoreou uma comunidade de refugiados franceses e se casou. • Orléans —Onde fez o curso de direito civil e escreveu seu primeiro livro. depois de expulso de Genebra.Onde nasceu e viveu até a idade de 14 anos. professor e escreveu a maior parte de seus comentários de livros da Bíblia.

U5 3 4 ) Noite dos cartazes V.Inicia seu ministério em Genebra (28 anos) (abril) .Cronologia de Calvino Eventos paralelos /s í \ v1492) Descoberta da América O'5''/) Nascimento de Lutero (l 198] Descoberta do caminho das índias (l 500 J Descoberta do Brasil Nasce em Noyon \I5 I2 )\ Lefèvre redescobre a doutrina da justificação /" 0 517} Lutero publica as 95 teses Estuda em Paris ( 15 anos) “ ? j? •j: Licencia-se em leis f p p i em Orléans (22 anos) i Publica De Clementia (23 anos) E._s Exila-se em Basiléia (26 anos) 1535) Genebra torna-se protestante Publica a primeira edição de As Institutos (27 anos) (janeiro) . •.Fixa-se em Estrasburgo g ao ser expulso de Genebra (29 anos) j .

É convidado a voltar para Genebra (32 anos) i Início do Concilio deTrento 15 6 Morte de Lutero Fica viúvo de Idelette (40 anos) 0550/ Almirante Coligny se declara reformado Obtém vitória sobre os libertinos e | j g | | Cinco estudantes de teologia acusa Serveto de herege (44 anos) são condenados à fogueira em Lyon (1555) Jean Crespin publica T O Livro dos M ártires ( 1557 ) ( 10 de março) .Realiza-se o primeiro ' V ’ cult° reformado no Brasil f IJ 558j (9 de fevereiro) Quatro membros da igreja de Genebra redigem no Rio de Janeiro a primeira confissão reformada do continente americano e três deles são executados por Villegaignon ■ ( 1559! Realiza-se em Paris 0 primeiro sínodo " J y da igreja reformada da França Funda a Academia de Genebra.Cronologia de Calvino | Eventos paralelos Casa-se com Idelette (3 1 anos) (setembro) . publica a edição definitiva de As Institutos e torna-se cidadão de Genebra (50 anos) (27 de maio) Morre em Genebra aos 55 anos Encerramento do Concilio deTrento .

.

S ã o P au lo : E d iç õ e s O ik o u m e n e . v.BIBLIOGRAFIA A N D R A D A . n o fe u d o de V ille g a ig n o n . ed . ed . Jo ã o . ________. 3 . 1. S ã o Jo sé d o s C a m p o s : E d ito r a Fiel. B IÉ L E R . 1. G ord on . . v. ed. R io d e Ja n e ir o : R en es. O livro de ouro da oração. R io d e Ja n e iro : C e n tr o B rasileiro de P u b lic id a d e L T D A . A igreja dos fiéis. 1 9 6 6 .. O humanismo social de Calvino. L a é rc io C a ld e ir a d e. v. T h e o d o r o d e. S ã o P a u lo : E d ito r a C u ltu r a C r istã . . 1. S ã o P au lo: E d ito r a N o v o S é c u lo . A força oculta dos protestantes. O pensamento econômico e social de Calvino. ________. Breve instruccion cristiana. C A L V I N O . 2 0 0 6 . C a m p in a s: L P C P u b lic a ç õ e s. S ã o P au lo: E d ito r a C u ltu r a C ristã . C o lig n y . 1970. A n d ré. 2. Nova enciclopédia católica. 1969. 2003. 2 0 0 9 . 1999. 2. 1947. ________. 2 0 1 2 . Salmos. A L B IO N . A vida e a morte deJoão Calvino. B E Z A . B arce lo n a: F u n d a c ió n E d ito ria l de L ite ra tu ra R e fo rm a d a .

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e d . Tulip — os cinco pontos do calvinismo à luz das Escrituras. u m e stu d o so b re C a lv in o c o m o u m re fo rm a d o r social. ed. v. Com Calvino no teatro de Deus. S ã o P au lo: C a s a E d ito r a P resb iterian a. .d . D a v id . 1. P ed ro R . P I N H E I R O . Calvino-. The history of protestantism. s. Calvino e a resistência ao estado. v. The history ofprotestantism. 1 9 9 8 . S ã o P au lo: E d ito r a C u ltu r a C ristã . J o h n . A . W Y L IE . o p o te n c ia l re v o lu c io n á rio d e u m p e n sa m e n to . 1. 2 0 0 9 . Os cinco pontos do calvinismo. s. 1. 2 0 0 2 . n o tas a n tro p o fá g ic a s so b re a q u e stã o h u g u e n o te -tu p in a m b á . ed. S ã o Paulo: A sso ciação d e S e m in ário s T e o ló g ic o s E v a n g é lic o s. s. W.d . 1. W A L L A C E . S ã o P a u lo : E d ito r a C u ltu ra C r istã .172 • SOU EU. P I P E R . Calvino. Cartas de João Calvino. W A L K E R . M a rc o s Jo s é S o a re s de. 1 9 6 7 . A p arec id a : E d ito r a S a n tu á rio . S P E N C E R . L o n d re s / P aris / N o v a Y ork: C a sse i & C o m p a n y . V A S C O N C E L O S . F ed eração de M o c id a d e s d a Ig re ja P resb iterian a C o n se rv a d o r a d o P aran á. ________. S ã o P a u lo : E d ito r a C u ltu ra C r istã . História da igreja cristã. D u a n e E d w ard . J . Dicionário depensadores cristãos. 1.d . CALVINO S A N T I D R L Á N . S I L V E S T R E . 2 0 0 3 . p a sto r e teó lo g o . ________. Je a n d e L éry. L o n d re s / P aris / N o v a Y ork: C asse i & C o m p a n y . Genebra e a Reforma-. M A T H I S . R o n a ld . J o ã o A lv e s d o s. A r m a n d o A r a ú jo . 2 0 1 3 . clérigo. S ã o P au lo : F o n te E d ito r ia l. v. 2 0 0 9 . 1. 2 . S ã o P au lo: E d ito r a M a c k e n z ie . O paraíso protestante-. Jo r g e . 2 0 1 1 . 1 9 9 2 . S ã o P au lo: E d ito r a V id a . S A N T O S . ed .

Martin. 64. 107 Alexandria. Guilherme. 82. 97 Bourdon. Johann.128 Ambrósio. 94 Capito. 34 Bucer. 16. Honório de. Clemente de. 161 Bucer. 159. 61. 93 Allen.123 C Cabral. 115 Bolsec. 128 Arran. 119 Anchieta. Pierre. 37. 38 Celéstio. 15.116 B Cany. Bernardo de. 68. 158 Carlos V. Pedro Álvares. 75. 56.123. 141-142 Budé. 114 Blanchet. 87. Carlos. 60 Carmeau. 119 Chartier.57. Wolfgang. Elizabeth. 123 Alba. Conde de. José de. 118-119. 115 Briçonnet. 117. Jérôme-Hermès. 97. 124 Caroli. Peter. 63 Carracciolo. 148. Tomás de. 32. Marcus. Pierre. 128 Autun. 131 Borromeu. 128 Bersini. 107 Cipriano. Idelette de. Barão. Madame de. 37 Bullinger. Theodoro de. Guilherme.161 Burghley. 115.17. Martial. 38 Bure. 118 Brígida. 92 Claraval. 45. 123 . Guillaume. 32. Nicolas. Galliazo. 16. 123 Beza. 128. 113.167 Aquino. 123 Bugenhagen.ín d ic e o n o m á s t ic o A Agostinho.124.

132. Hugo. 93. Jean. 23 Hus. 80 Morus. Inácio de. Antoine. 32. 105-107. 8. 79. Thomas. Balthasar. 41. 128.128 Lizet. 95-96. Nicolau.107. 8. 79. 109. Martinho. Gerardus. 128-130. 93. 107 Gama. 59. Filipe. 107. 92 Grynaeus. 66. Tomás de. 115 Eduardo VI. 128 Knox. 110 Ficino. 141 Loyola. 122 Melâncton. Gerhard. Pierre. Almirante. 75. 92 Gonneville.148.132 Foxe. 93. John. 93.117.170 F Farei.18. Jean. 24. 115 Colombo.166-167. Fernão de. 86. 97 Léry. 37. 22-23 Copérnico. John. 64. 21 L David. 30. 92-93. Tomás. 28 Coligny. 36-37. 94 Du Pont. 52-53.128 Marcourt.148. Paulmier de. Nicolas. 60. 115 Latimer. 110. 27-28.132 D’Angoulême. John. Juliano de.145.114. 82. 109. 30. 145-146 Mercator. Nicolas. 163. CALV1NO Clemente VII. Antoine.110 Michelangelo. Duquesa de. Pico delia. Jacques. Charles. 116 Lutero. 131 Courrault. Marsílio.166 Eclano. 122 Froment. 109. 28 Cop. 115 Lafon. Guilherme. 135 M Favre. Jean de.111. 106 Escrivain.132. Lucas. 75. 34-43. 78 Essomeriq. 30-32. 50. Nicolas. 93. 71. Jan.119. 30 Frederico III. Simon. 111. Martin. 22. 37 Mirandola. 22 D’Arc. 80.39.174 * SOU EU.144 Dürer. 64 Cranach. João.106.144 Crespin. Vasco da. 144 Crisóstomo.119 Denis.128. 28-29 Gerson.134. 41 G Colladon. 141 Magalhães. Joana. 29 Francisco I. André. 17.93 E Lefèvre.167 Gardien. 60. 24-28. 116 Groote.144 Hooper. Albrecht. 28 Ferrara. 92 D’Andelot. 121-122 . Marguerite. 30 H Cranmer.105-107. 21. 115 Lasius.167 K D Kempis. 128. Peter. 128. 115. Cristóvão. 86. 30 Leão X.

62-63. Jacques. 114. Nicholas.124 Sêneca. Duque de. 21 S Sadoleto. 113-115. 143 Turtaz. 116 Suso. Nicholas Durand de. John. Ricardo. 115 Villegaignon. 82. Elizabeth. 106 R Vauville. 20. 141 Zell. 83 Z Seguin. 132. 121 Rousseau. 132 Rabot. 20. Joachim von. Florentino. 167 Ridley. Edward. Henrique. Guilherme.133 Somerset. 93. 92 Zuínglio. Zacarias. 55. Peter. 97 Perrin. 36. 82. 29.117-119 Radewijns. 75 Serveto. 78. Melchior. Gregório. 115 W Roussel. 62 P U Ursinus. 82. 63. Johannes.ÍNDICE ONOMÁSTICO N T Navihères. 24. 94 Valia. 44. 92 O Orvieto. Lorenzo. Jean. 93 Wolmar. Matthieu. William. João. 92 Raviquet. 24. Maria. Catarina de. 22 Watt.128-129 Roterdã. Ami. 122 Vallière. 128. 38 Vadian. 123. 144 Vinci. Juan Luis. 31. 32 Sena. 129 Tyndale. 22. 17. 93 Osiander. 130-131 Storch. 37 Pelágio. 105 V Pio IV. 71 Stuart. 98 Viret. 29 Rimini. Nicholas. Pierre. 141 Tauler. 115. Bernard. 121-122 Vives. 92 .128 Sturm. Gérard. João. 95 Platter. Leonardo da. 17. Thomas. 94-95 Ruysbroeck.167 Seymour. Hugolino de. 130 Verneuil. Erasmo de. Miguel. 32 Susana. 119. 56.128. 92 Wycliffe. Andreas. Nicolas. 98 Tertuliano. Matthieu. Ulrico. 117-120.

Conheça também outros títulos da Editora Ultimato.Caro le ito r: Acesse www.ultimato.ultimato. Escreva-nos e receba a última edição da revista Ultimato.com.com.: 31 3611-8500 | Fax: 31 3891-1557 www.br . ultimato^ Caixa Postal 43 I 3 6 5 7 0 -0 0 0 | Viçosa-MG Tel.br e faça seu comentário sobre este livro.

ao lado de Lutero. . não se pode ignorá-lo.Lyndon de A raú jo Santos.Cláudio Wagner.A lderi S o u z a de M atos. ex-professor de história da igreja no Seminário Presbiteriano do Centenário e no Seminário Batista Fluminense João Calvino foi. obra e pensamento no Brasil. Daí a importância deste livro. . professor no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper O estilo. mesmo que se discorde dele. Suas contribuições e influência são tão vastas que. Calvino é tão bom quanto Conversas com Lutero. . as informações e a clareza do texto dando voz a Calvino certamente contribuirão para um melhor conhecimento de sua pessoa. o principal reformador protestante. porque entre nós a vida e o pensamento de Calvino são menos conhecidos do que os de Lutero. professor na Universidade Federal do Maranhão . porém ainda mais necessário.S ou E u .

entre outros. H istória d a Evangelizaçào do B rasil e Conversas com Lutero. publicados pela Editora Ultimato. Práticas Devocionais . Lenz C ésar é diretor da revista Ultimato. Refeições D iárias com Je su s. Refeições D iárias com os Discípulos. .Elben M. Refeições D iárias com o S ab o r dos Salm os . E autor de.

que foi como se eu nunca tivesse lido nada sobre o que João Calvino escreveu. Não há melhor maneira de recordar os quinhentos anos da Reforma do que apreciar o pensamento de João Calvino. . apresentado pelo pastor Elben César. Na verdade. as informações recebidas foram tantas e com tamanha exatidão.SOU EU.Valter Grciciano Martins. bem como responde a mais de uma centena de perguntas que muitos cristãos gostariam de fazer sobre a Bíblia. a teologia. certamente desistiría da façanha depois de acompanhar o autor deste livro em sua bela apresentação do grande reformador genebrino na forma de diálogo. enfim. o seu mais influente teólogo. uma espécie de talk-show. diretor de formação cristã da Visão Mundial Internacional Ao ler S o u E u . sobre a vida cristã.Manfred Grellert. um cristão reformado. tradutor de quase todos os comentários bíblicos e livros de João Calvino no Brasil ultimato MISTO Papel produzido a partir d e fontes responsáveis . Se eu estivesse pensando em escrever um livro sobre ele. é um diálogo. a obra torna viva e relevante a grande contribuição do autor de As Institutos. na medida em que coloca na boca do reformador palavras que ele mesmo escreveu e palavras que refletem o seu pensamento. Em estilo criativo e fácil de ler. a igreja. CALVIN O E UMA BIOGRAFIA UNICA. . C a l v i n o .