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Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de Minas Gerais

PROJETO DE EDUCAÇÃO CONTINUADA

É o CRMV-MG participando do processo de atualização


técnica dos profissionais e levando informações da
melhor qualidade a todos os colegas.

VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL
compromisso com você

www.crmvmg.org.br
Editorial
Caros colegas,
A Escola de Veterinária e o Conselho Regional de
Medicina Veterinária de Minas Gerais têm a satisfação
de encaminhar à comunidade veterinária e zootécnica
mineira um volume dos Cadernos Técnicos com a te-
mática “Introdução à Medicina Veterinária do Coletivo:
Aspectos do manejo populacional de cães e gatos”.
A sociedade humana está intimamente associada a di-
versas espécies de animais domésticos, sendo as de com-
panhia mais importantes o cão e o gato. Especialmente no
ambiente urbano, faz-se necessário conhecer aspectos de
manejo populacional para ambas as espécies, com forma
de manter as condições ideais de saúde para animais e hu-
manos, um papel para o profissional em saúde animal.
Desde o alvorecer da sociedade humana, os registros
documentam a convivência com o cão e o gato. Os estu-
dos sugerem que os humanos não domesticaram o cão, a
aproximação ocorreu de iniciativa destes, algo semelhan-
te ao que aconteceu depois com os gatos. Os humanos
eram excelentes caçadores e eliminaram todos os carní-
voros competidores, incluindo o tigre-de-dente-de-sabre
e hienas gigantes. Na evolução da relação entre humanos
e cães, os estudos sugerem que a sobrevivência do cão à
ferocidade humana pode estar ligada ao cão mais amigá-
vel (friendliest) em vez do mais apto (fittest), uma vez que
Universidade Federal este não foi necessariamente fundamental na caça para
de Minas Gerais
os humanos primitivos. Em relação ao gato, a associação
Escola de Veterinária ocorreu pelo interesse felino na caça às pragas que consu-
Fundação de Estudo e Pesquisa em
Medicina Veterinária e Zootecnia miam os depósitos de grãos alimentares para os humanos.
- FEPMVZ Editora Consolida-se a parceria e o compromisso entre as
Conselho Regional de duas instituições com relação à Educação Continuada da
Medicina Veterinária do
Estado de Minas Gerais comunidade dos médicos veterinários e zootecnistas de
- CRMV-MG Minas Gerais.
www.vet.ufmg.br/editora
Correspondência: Prof. Nelson Rodrigo da Silva Martins - CRMV-MG 4809
Editor dos Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia
FEPMVZ Editora
Caixa Postal 567 Prof. Renato de Lima Santos - CRMV-MG 4577
30161-970 - Belo Horizonte - MG Diretor da Escola de Veterinária da UFMG
Telefone: (31) 3409-2042 Prof. Antônio de Pinho Marques Júnior - CRMV-MG 0918
Editor-Chefe do Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia (ABMVZ)
E-mail:
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Presidente do CRMV-MG
Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de Minas Gerais
- CRMV-MG
Presidente:
Prof. Nivaldo da Silva
E-mail: crmvmg@crmvmg.org.br
CADERNOS TÉCNICOS DE
VETERINÁRIA E ZOOTECNIA
Edição da FEPMVZ Editora em convênio com o CRMV-MG
Fundação de Estudo e Pesquisa em Medicina Veterinária e
Zootecnia - FEPMVZ
Editor da FEPMVZ Editora:
Prof. Antônio de Pinho Marques Junior
Editor do Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia:
Prof. Nelson Rodrigo da Silva Martins
Editores convidados para esta edição:
Danielle Ferreira de Magalhães Soares
Revisora autônoma:
Giovanna Spotorno
Tiragem desta edição:
1.000 exemplares
Layout e editoração:
Soluções Criativas em Comunicação Ldta.
Impressão:
Imprensa Universitária da UFMG

Permite-se a reprodução total ou parcial,


sem consulta prévia, desde que seja citada a fonte.

Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia. (Cadernos Técnicos da Escola de Veterinária da


UFMG)
N.1- 1986 - Belo Horizonte, Centro de Extensão da Escola deVeterinária da UFMG, 1986-1998.
N.24-28 1998-1999 - Belo Horizonte, Fundação de Ensino e Pesquisa em Medicina Veterinária e
Zootecnia, FEP MVZ Editora, 1998-1999
v. ilustr. 23cm
N.29- 1999- Belo Horizonte, Fundação de Ensino e Pesquisa em Medicina Veterinária e
Zootecnia, FEP MVZ Editora, 1999¬Periodicidade irregular.
1. Medicina Veterinária - Periódicos. 2. Produção Animal - Periódicos. 3. Produtos de Origem
Animal, Tecnologia e Inspeção - Periódicos. 4. Extensão Rural - Periódicos.
I. FEP MVZ Editora, ed.
Prefácio
Danielle Ferreira de Magalhães Soares

A Medicina Veterinária do Coletivo é


uma área em ascensão no Brasil. Envolve
a medicina preventiva, a saúde pública, o
controle de zoonoses, o comportamento
e bem estar animal, o manejo populacio-
nal canino e felino, a bioética, o gerencia-
mento de recursos humanos, entre ou-
tros importantes assuntos relacionados à
nossa profissão.
O elevado número de cães e gatos
em situação de rua representa atualmen-
te um grande desafio para os municípios
mineiros. Em 15 de janeiro 2016 foi pu-
blicada a Lei 21.970 que dispõe sobre a
proteção, identificação e controle po-
pulacional de cães e gatos no Estado de
Minas Gerais. As estratégias de Manejo
Populacional canino e felino serão
abordadas neste volume introdutório à
Medicina Veterinária do Coletivo, com o
objetivo de promover conhecimento aos
profissionais e fornecer subsídios técni-
cos que viabilizem a aplicabilidade da
lei com benefícios para a saúde de toda
a sociedade.
Sumário
1. Controle populacional de cães e gatos........................................................9
Adriana Maria Lopes Vieira, Vania de Fatima Plaza Nunes

Conheça a legislação federal sobre o controle populacional de cães e gatos.

2. Proteção, identificação e controle populacional de cães e gatos,


uma abordagem sobre a legislações para animais de companhia.............15
Gustavo de Morais Donancio Rodrigues Xaulim, José Honorato Begalli, Camila de Valgas e Bastos Cas-
tros, Danielle Ferreira de Magalhães Soares, Vania de Fatima Plaza Nunes

Entenda aspectos da legislação para animais de companhia

3. Comportamento canino............................................................................30
Elen Monteiro da Silveira, Laiza Bonela Gomes, Sara Clemente Paulino Ferreira e Silva, Néstor Alberto
Calderón Maldonado

Descreve-se aspectos do comportamento individual e social dos cães.

4. Aspectos do comportamento felino..........................................................39


Paloma Carla Fonte Boa Carvalho, Vania de Fatima Plaza Nunes, Néstor Alberto Calderón Maldonado

Entenda as peculiaridades do comportamento do gato.

5. Precisamos falar sobre cães em Unidades de Conservação......................49


Mirella Lauria D´Elia, Joana Angélica Macêdo, Pedro Lúcio Lithg Pereira, Danielle Ferreira de Maga-
lhães Soares

Conheça os transtornos à conservação que decorrem de cães invasores.

6. Acumuladores de animais.........................................................................60
Glendalesse Nunes Rocha de Faria Teixeira, Joana Angélica Macêdo Costa Silva, Danielle Ferreira de
Magalhães Soares

A acumulação de animais é algo comum na sociedade e de caráter


psicopatológico.

7. Saúde Única e Atuação do Médico Veterinário do


Núcleo de Apoio à Saúde da Família (Nasf).............................................70
Laiza Bonela Gomes, Sara Clemente Paulino Ferreira e Silva, Vania de Fatima Plaza Nunes, Virgínia
Aguiar Sorice Lanzetta

Saúde única: o novo paradigma para a saúde.


1. Controle populacional
de cães e gatos

bigstockphoto.com

Aspectos técnicos e operacionais


Adriana Maria Lopes Vieira1 - CRMV-SP 6086
Vania de Fatima Plaza Nunes2 - CRMV-SP 4119
1
Médica Veterinária Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo
2
Diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, Coordenadora de Medicina Veterinária do Coletivo do ITEC,
presidente da Comissão de Médicos Veterinários de ONGs do CRMV-SP

A historia humana e relação com os mais não têm inteligência, que agem
animais é longa e complexa. O antropo- apenas por instinto, toda e qualquer
centrismo ainda está muito presente na relação com os animais esteve sempre
sociedade atual em decorrência de resí- vinculada a “commodities” para valores e
duos culturais que remontam o século necessidades humanas.
IV, quando o homem era tido como ser Há que se buscar o equilíbrio entre
excelso e as ações eram voltadas apenas a saúde humana, animal e equilíbrio do
para seu bem-estar. Também no século meio ambiente, portanto, abandonar
XVII, a concepção do Universo e dos a visão antropocêntrica em busca de
seres vivos como máquinas, contribuiu mudanças para paradigmas biocêntrico
com a visão reducionista de que os ani- ou ecocêntrico, tem sido cada vez mais
1. Controle populacional de cães e gatos 9
discutido em toda parte necessidade da criação e
A sociedade deve
como uma necessidade inclusão de políticas de
reconhecer e incluir em
premente de manuten- controle das populações
programas de políticas
ção da vida. Deve-se de animais de estimação
públicas ações que
abandonar a instrumen- como cães e gatos se faz
viabilizem a segurança
talização dos animais, cada vez mais urgente
e o bem estar dos
em benefício das necessi- para todo gestor seja ele
animais, incluindo
dades humanas. A socie- estadual ou municipal,
os seres humanos e o
dade deve reconhecer e uma vez que segundo
ambiente natural.
incluir em programas de dados do IBGE de 2013,
políticas públicas ações o número de animais de
que viabilizem a segurança e o bem es- estimação nos lares brasileiros já che-
tar dos animais, incluindo os seres hu- ga 74,3 milhões, sendo 52,2 milhões
manos e o ambiente natural (American de cães 22,1 milhões de gatos (IBGE,
Veterinary Medical Association, 2016). 2013), sendo a maioria (56,7%) com
Com a urbanização crescente em guardiões com ensino médio e supe-
todo mundo e em especial no Brasil, a rior (Figura 1). A existência de leis es-

Figura 1 - Moradores em domicílios particulares permanentes com pelo menos um cão e/ou gato, por
nível de ensino. Area do Grande Méier - out. 2007
Fonte: IBGE, Escola Nacional de Ciências Estatísticas, Coordenação de Treinamento e Aperfeiçoamento, Curso de Desenvolvimento
de Habilidades em Pesquisa, 20, Pesquisa Domiciliar sobre cães e gatos: humanização e padrões de consumo 2007.

10 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016


pecíficas para o controle populacional Pontos chave para o controle das
não pode se manter apenas como um populações de cães e gatos devem ser
norteador dessas ações, mas sim um definidos, estruturados, aplicados e
instrumento viável e factível dentro mantidos permanentemente nos pro-
das múltiplas realidades regionais e lo- gramas ou estratégias de controle popu-
cais em diferentes núcleos comuns en- lacional, mantendo um monitoramento
tre cães/gatos-humanos no país. e avaliação periódica dos resultados al-
De acordo com a Organização cançados. É fundamental que se conhe-
Mundial da Saúde WHO (1990), as ça a dinâmica populacional da área em
atividades isoladas de recolhimento que se pretende interferir, com a realiza-
e eliminação de cães e gatos não são ção de censos ou estimativas populacio-
efetivas para o controle da população. nais, priorizando ações, etapas, recursos
Portanto é imprescindível que todo e atendendo necessidades reais de cada
programa seja ele am- região alvo de implanta-
plo ou restrito, atue nas A implantação de ção ou de readequação
principais causas do um programa de de um programa. Outra
problema do excesso controle animal, estratégia “chave” para
populacional: a procria- além da alocação de subsidiar o planejamen-
ção de cães e gatos sem recursos financeiros, to das políticas de saúde
controle e a falta de res- técnicos e humanos, pública é a implantação
ponsabilidade humana exige planejamento de um programa de re-
quanto à posse, proprie- que englobe gistro e identificação de
dade ou guarda de seus diagnóstico, ações animais que formam um
animais. preventivas, controle, sistema de informação
O controle das po- monitoramento, com dados que relacio-
pulações de animais e avaliação e dedicação nam os proprietários ou
o controle de zoonoses
permanente. tutores aos seus animais.
O registro e a identifica-
devem ser contempla-
ção são instrumentos de
dos em programas ou políticas públicas
responsabilização do proprietário, fo-
nos diferentes municípios. A implanta-
mentam a cultura de propriedade, posse
ção de um programa de controle animal,
ou guarda responsável e possibilitam co-
além da alocação de recursos financei-
nhecer e dimensionar as populações de
ros, técnicos e humanos, exige planeja-
cães e gatos. De acordo com a Portaria
mento que englobe diagnóstico, ações
GM, nº. 1.172/2004, Ministério da
preventivas, controle, monitoramento,
Saúde, o registro e a identificação de
avaliação e dedicação permanente (São
animais são de responsabilidade das ad-
Paulo, 2006).
1. Controle populacional de cães e gatos 11
ministrações municipais. ção cirúrgica de machos
De acordo com a
É recomendável que e fêmeas, com técnicas
Portaria GM, nº.
nesses programas se as-
1.172/2004, Ministério minimamente invasi-
socie um método duplo
da Saúde, o registro e a vas. Preferencialmente
de identificação, o visual identificação de animais o controle cirúrgico re-
com coleira e plaqueta a são de responsabilidade produtivo pode ocorrer
um permanente com uso das administrações a partir de 8 semanas
preferencial do micro- municipais. É de idade, desde que
chip ou tatuagem. recomendável que nesses cuidados específicos a
Cadelas e gatas são programas se associe essa população infantil
animais pluríparos que um método duplo de sejam previstos, apli-
evolutivamente man- identificação, o visual cados e monitorados
tiveram características com coleira e plaqueta eticamente.
biológicas que fazem a um permanente com O desenvolvimento
com que precocemente uso preferencial do de programas de con-
já apresentem amadure- microchip ou tatuagem. trole cirúrgico devem
cimento sexual e capa- ser acessíveis geográfica
cidade reprodutiva ao e economicamente aos
redor dos 6 meses de vida. Possuem ges- tutores de animais. Os interessados em
tação curta, grande potencial de geração conviver com cães e gatos precisam as-
de filhotes que apresentam autonomia e sumir o compromisso ético de desen-
capacidade de rápido desenvolvimento volver e manter hábitos e posturas de
renovando ciclos reprodutivos e am- promoção e preservação da saúde e do
pliando em curto espaço de tempo uma bem-estar animal e preservação do meio
população espécie especifica, de forma ambiente. Este compromisso pode pare-
desordenada e de alto risco sanitário aos cer simples, se consideradas as questões
próprios animais, aos humanos e ao am- de alimentação, controle de mobilidade
biente (São Paulo, 2006). e estabelecimento de comandos básicos
Esses fatores associados à falta de para garantir o cumprimento das regras
responsabilidade dos proprietários de sociais de convivência em grupos co-
animais contribuem para o crescimen- munitários (Reichmann, 2000).
to populacional de cães e gatos, sem Entretanto, a manutenção consis-
controle. Ações efetivas de controle da tente de uma postura abrangente, a
reprodução devem ser implantadas as- responsabilidade jurídica e cuidados
sociadas aos outros pilares do progra- com abrigos, alimentação, controle da
ma de controle de populações, sendo reprodução, prevenção de doenças e de
recomendável o emprego de esteriliza- agravos diversos requer uma cultura,
12 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016
cujas bases precisam ser estabelecidas menos favoráveis á outras com mais re-
com a participação de equipes multidis- cursos necessários à sua sobrevivência.
ciplinares de educadores, profissionais O armazenamento temporário e a des-
de diferentes órgãos do poder público, tinação dos resíduos precisam ser anali-
representantes de segmentos sociais e, sados e politicas especificas implantadas
sobretudo, dos próprios interessados em toda localidade. Para tanto, a relação
nesta convivência. Estratégias para a im- inter-setorial é outro ponto chave na
plantação e o desenvol- discussão e implantação
vimento de politica de Estratégias para de políticas de controle
informação, comunica- a implantação e o populacional eficientes
ção e educação precisam desenvolvimento de em um município. O
ser priorizadas e manti- politica de informação, manejo ambiental, sem-
das permanentemente comunicação e pre associado a progra-
e não apenas dentro da educação precisam ser mas educativos perma-
proposta clássica da for- priorizadas e mantidas nentes, deve fazer parte
mação escolar. Devem permanentemente e de foros de discussão
ser ampliadas para ou- não apenas dentro da em que a comunidade
tros segmentos sociais proposta clássica da participe desde o diag-
organizados que incluem formação escolar. nóstico, estabelecimen-
jovens e adultos, empre- to de prioridades, plane-
sa, grupos organizados jamento e execução das
da sociedade civil, lideranças comuni- ações, até da avaliação e monitoramento
tárias, diferentes gestores locais, repre- dos resultados.
sentantes sociais, e todos aqueles que A opinião pública desaprova cada
direta ou indiretamente convivem com vez mais o recolhimento de animais em
o animal em área urbana, rural ou de instalações públicas para alojamento
preservação ambiental em todos os mu- e manutenção. Desta forma mais uma
nicípios. (Secretaria de Estado da Saúde vez o incentivo à propriedade, posse ou
de São Paulo. Programa de Controle de guarda responsável é de fundamental
Populações de Cães e Gatos do Estado importância para o sucesso do controle
de São Paulo. São Paulo, 2006). de populações de cães e gatos, e os ór-
A oferta de abrigo e alimento para gãos públicos locais responsáveis pelos
cães e gatos, também merece especial programas de controle populacional de
atenção. As condições existentes de re- cães e gatos devem ser exemplos no ma-
cursos básicos no meio ambiente, pre- nejo etológico e preservação do bem-es-
dispõem a permanência ou a migração tar dos animais, incluindo nestas ações
de animais de áreas com condições aqueles casos onde esses animais preci-
1. Controle populacional de cães e gatos 13
sem ser submetidos à eutanásia. Neste Referências
caso a observação de normativas fede- bibliográficas:
rais do CFMV sobre o tema, devem ser
1. 1. AMERICAN Veterinary Medical Association.
observadas, bem como a capacitação e One Health – What is One Health? Disponível
atenção a saúde dos trabalhadores deve em: <https://www.avma.org/KB/Resources/
Reference/Pages/One-Health94.aspx>. Acesso
ser “ pontos chave” de uma ação ética e em: 11 de Novembro de 2016.
humanitária. 2. 2. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia
Os órgãos públicos também devem e Estatística. Pesquisa Nacional de Saúde,
2013. Disponível em:.<http://www.ibge.gov.br/
desenvolver ações especificas e estrutu- home/>. Acesso em: 11 de dezembro de 2016.
radas com vistas ao controle do comér- 3. 3. Ministério da Saúde. Portaria GM nº. 1.172
cio de animais, associados aos progra- de 15 de junho de 2004. Disponível em http://
gtr2001. saude.gov.br/sas/PORTARIAS/port2
mas educativos, de forma a coibir todas 004/GM/GM-1172.htm
as ações que comprometem o bem- 4. 4. REICHMANN, M.L.A.B. e colaboradores,
-estar dos animais e a aquisição desses Manuais Técnicos do Instituto Pasteur de São
por impulso. Pesquisas ainda em anda- Paulo- 1998-2003.

mento apontam que, uma grande con- 5. 5. SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Estado
da Saúde de São Paulo. Manual: Programa de
tribuição para populações de animais Controle Populacional de cães e gatos. São Paulo;
sem controle, são as crias indesejadas e SMSP, 2006. 157p. Disponível em: ftp://ftp.cve.
saude.sp.gov.br/doc_tec/outros/suple5_cao.pdf.
abandonadas. Acesso em 20 de novembro de 2016.
Os programas de adoção precisam 6. 6. WHO.WSPA.World Health Organization;
seguir normativas do CFMV fazendo World Society for the Protection of Animals.
Guidelines for dog population management.
com que qualquer adoção ocorra, de Geneva, 1990. 116p.
fato, com os cuidados básicos de contro-
le sanitário, os esclarecimentos etológi-
cos, o registro e a vinculação do animal
ao seu adotante, bem como o controle
reprodutivo garantidos.
Desta forma ações específicas e vol-
tadas de forma objetiva ética e eficiente
a cada pilar do controle populacional
podem a curto e médio prazo trazerem
resultados transformadores para so-
ciedade dentro das políticas de Saúde
Única.

14 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016


2. Proteção, identificação
e controle populacional
de cães e gatos, uma
abordagem sobre
as legislações
para animais
de companhia bigstockphoto.com

Gustavo de Morais Donancio Rodrigues Xaulim1


José Honorato Begalli2 - CRMV MG-12630
Camila de Valgas e Bastos Castros3 - CRMV MG -7083
Danielle Ferreira de Magalhães Soares4 - CRMV MG-7296
Vania de Fatima Plaza Nunes5 - CRMV-SP 4119.

1
Discente do curso de Graduação em Medicina Veterinária – UFMG
2
Discente do Programa de Pós-graduação e Medicina Veterinária Preventiva – UFMG
3
Docente do Programa de Pós-graduação e Medicina Veterinária Preventiva – UFMG
4
Docente do Programa de Pós-graduação e Medicina Veterinária Preventiva – UFMG
5
Diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, Coordenadora de Medicina Veterinária do
Coletivo do ITEC, presidente da Comissão de Médicos Veterinários de ONGs do CRMV-SP

1. Introdução uma relação de mutualismo, no qual o


homem fornece alimento e o animal a
Desde os primeiros registros da ativi-
proteção e a companhia. Levando em
dade humana, os humanosforam, grada-
tivamente, aumentando sua convivência consideração a grande proximidade de
com os canídeos. Da domesticação dos relação entre o sereshumanos e os ani-
lobos até a atualidade, estes laços têm se mais domésticos (principalmente cães e
tornado gradualmente mais fortes, em gatos), que em grande partejá são con-
2. Proteção, identificação e controle populacional de cães e gatos, uma abordagem sobre as legislações para animais de companhia 15
siderados membros da de Saúde (OMS), zoo-
Segundo dados da
família (Garcia, 2009), noses são “doenças ou
Pesquisa Nacional de
deve-se ponderar, con- infecções naturalmen-
Saúde (PNS) feita pelo
sequentemente, além do te transmissíveis entre
Instituto Brasileiro de
laço afetivo, a questão animais vertebrados e
Geografia e Estatística
da sanidade e da saúde seres humanos” (WHO,
(IBGE) em 2013,
pública. 2010). De acordo coma
o número de cães
Segundo dados da Organização Mundial
domiciliados no Brasil
Pesquisa Nacional de da Saúde Animal (OIE)
já superou o número de
Saúde (PNS) feita pelo aproximadamente 60%
crianças entre 0 e 14
Instituto Brasileiro de dos patógenos humanos
anos – 52,2 milhões de
Geografia e Estatística são zoonóticos, 75% das
cães em comparação
(IBGE) em 2013, o nú- doenças humanas emer-
aos 44,9 milhões de
mero de cães domicilia- gentes são de origem
crianças – mostrando,
dos no Brasil já superou animal e 80% dos pató-
portanto, a importância
o número de crianças genos que poderiam ser
destes animais no
entre 0 e 14 anos – 52,2 utilizados para bioter-
cotidiano no país.
milhões de cães em com- rorismo são de origem
paração aos 44,9 milhões animal (OIE, 2010).
de crianças – mostrando, portanto, a Assim, percebe-se a importância de
importância destes animais no cotidia- programaspúblicosde manejo popula-
no no país. Porém, é pre- cional, que contemple
ciso ter em mente que a os animais domiciliados
De acordo com
maior proximidade entre e também errantes.Estes
a Organização
humano-animal, além de programas devemlevar
Mundial da Saúde
gerar grande contribui- em consideração diver-
Animal (OIE)
ção social, psicológica e
aproximadamente 60% sos fatores, tais como:
fisiológica para os seres
dos patógenos humanos prevenção ao abandono,
humanos (McConnell, educação e legislação
são zoonóticos, 75%
2011), também pode para guarda responsável,
das doenças humanas
provocar maior risco de registro e identificação
emergentes são de
transmissão de doenças de animais e controle de
origem animal e 80%
originárias dos animais, reprodução (Garcia et al,
dos patógenos que
as zoonoses (Garcia,
poderiam ser utilizados 2012).
2009). Uma das principais
para bioterrorismo são
De acordo com a questões relacionadas
de origem animal (OIE,
Organização Mundial ao cuidado e proteção
2010).
16 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016
da saúde humana e animal consiste no Society for the Protection of Animals –
conhecimento do número de animais WSPA), um guia de orientação para
e suasinterações. Conhecer a dinâmica manejo populacional canino, onde
populacional de cães e gatos errantes, entre outras propostas, indicava as di-
bem como todos os fatores envolvidos retrizes para registro e identificação
(proporção de animais por homem, de animais como método de manejo e
taxa de adoção, taxa de abandono, taxa controle populacional canino, de forma
de mortalidade) torna-se importante a obter informações sobre o cão e seu
para que os gestores em saúde possam dono (WHO, WSPA, 1990), além de
planejar de forma mais efetiva estraté- estratégias de educação. Estas medidas
gias de ações, que envolvam os animais. foram incluídas posteriormente no 8º
Relatório da Comissão de Especialistas
2. Histórico das em Raiva da OMS (WHO, 1992;
Legislações para animais Garcia, 2009).
de companhia Em 1995 ocorre no Brasil um semi-
nário denominado pet respect, promovi-
A partir da década de 70 começou- do pela WSPA, onde pela primeira vez
-se a pensar em programas de controle no pais se apresenta um programa pro-
populacional de cães, diretamente rela- missor de controle populacional de cães
cionado ao controle da raiva (Garcia et e gatos, apoiado nos pilares do controle
al., 2012). Um dos primeiros materiais reprodutivo, registro e identificação, le-
publicados que trata do assunto foi o 6º gislação e educação.
relatório daComissão de Especialistas Já no ano seguinte 1996 o municí-
em Raiva da OMS (WHO Expert pio de Taboão da Serra-SP lança pro-
Committee on Rabies) que indicava a eli- grama municipal de controle popula-
minação de animais errantes capturados cional de cães e gatos, sendo o primeiro
que, após um determinado período de programa que se tem relatono Brasil
tempo, não fossem resgatados por seus (Garcia, 2009). No ano seguinte mais
responsáveis (WHO, 1973). Já em 1984 dois municípios do estado de São Paulo,
no 7º relatório, a OMS estabelece quatro Guarulhos e Jundiaí implantam progra-
pontos para o controle populacional de mas diferentes e específicos de contro-
cães: restrição de movimento; captura e le populacional, baseados nos pilares
remoção de animais; controle do habi- apoiados nos apresentados no evento
tat (principalmente alimento e abrigo) e de 1995 em São Paulo-S.P.
controle de reprodução (WHO, 1984). No período de 1998 a 2003 o
Seis anos depois, a OMS publicou, Instituto Pasteur, órgão responsável
juntamente com a Sociedade Mundial pela gerencia do Programa de Controle
para Proteção dos Animais (World

2. Proteção, identificação e controle populacional de cães e gatos, uma abordagem sobre as legislações para animais de companhia 17
da Raiva no estado de São Paulo edita sia, comportamento e mobilidade
uma serie de manuais técnicos com 7 animal.( Reichmann, e colaborado-
volumes , sendo que entre eles encon- res , 1999 e 2000).
tramos o volume dois “Orientação para Em 2005, a OMS publica outro
Projetos de Centros de Controle de documento em que considera a res-
Zoonoses (CCZ)" em 1998 (Fig. 1), que trição de movimento, controle de ha-
é a primeira publicação nacional sobre o bitat e controle de reprodução como
tema que busca trazer uma ferramenta principais medidas para manejo e
estruturada que auxiliasse os municí- controle da população de cães, ain-
pios do estado a entender como ações da com foco na prevenção da raiva.
de controle de zoonoses e de controle Neste documento a OMS cita a im-
animal deveriam ser implantadas bus- portância e os resultados encoraja-
cando maior segurança dores do Animal Birth
sanitária aos animais, Em 2005, a OMS Control (ABC) no con-
trabalhadores locais, e publica outro trole populacional de
atenção mais equilibrada documento em que cães de rua. Destaca
as necessidades de cada considera a restrição que ainda a simples
tamanho populacional de movimento, controle captura de cães erran-
de animais domésticos de habitat e controle tes sem alteração no
daquele estado. de reprodução como habitat e na disponi-
Os volumes 5“ principais medidas bilidade de recursos
Educação e Promoção para manejo e controle mostrava-se sem suces-
da Saúde no Programa da população de cães, so no controle popula-
de Controle da Raiva” ainda com foco na cional destes animais
e 6 “Controle das prevenção da raiva. (WHO, 2005).
Populações de Animais Em 2006 o Estado
de Estimação”, ambos de 2000, ini- de São Paulo lança o Programa de
ciam a introdução dos pilares do Controle de Populações de Cães e
Controle Populacional de cães e ga- Gatos (Figura 2), sendo este o pri-
tos, nas politicas publicas de con- meiro programa no âmbito estadual
trole animal, abordando temas como no país. Destacava como principais
educação para posse responsável, pontos a ser adotados, a educação
controle reprodutivo de cães e gatos, para promoção da saúde, o registro e
controle da saúde e bem estar animal, identificação de cães e gatos, o con-
principais doenças espécie especifi- trole da reprodução , eutanásia, e a
cas de cães e gatos, caracterização de legislação e políticas públicas rela-
cães e gatos na comunidade, eutaná- cionadas (SÃO PAULO, 2006). Em

18 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016


Figura 1. Orientação para Projetos de Centros de Controle de Zoonoses (CCZ). Publicação produzida
entre 1998 a 2003 pelo Instituto Pasteur, responsável pelo controle da raiva no estado de São Paulo.
Edição de 1998 estruturada para auxiliar as ações de controle de zoonoses e de controle populacional
de animais domésticos.

2009 uma segunda publicação com tivas derivadas de condutas e ati-


atualizações sobre o tema é publica- vidades lesivas ao meio ambiente
da, (São Paulo, 2009) (BRASIL, 1998). No seu artigo 32, a
Em 1998 o Brasil dá o primeiro lei institui como crime: “praticar ato
passo no combate aos maus tratos aos de abuso, maus-tratos, ferir ou muti-
animais com a Lei Federal de Crimes lar animais silvestres, domésticos ou
Ambientais (Lei 9.605/1998), que domesticados, nativos ou exóticos”;
define sanções penais e administra- e no seu parágrafo 1º define:

2. Proteção, identificação e controle populacional de cães e gatos, uma abordagem sobre as legislações para animais de companhia 19
Incorre nas mesmas
penas quem realiza experi-
ência dolorosa ou cruel em
animal vivo, ainda que para
fins didáticos ou científicos,
quando existirem recursos
alternativos.
Esta lei já mostra uma
grande evolução no país no
que diz respeito ao direito
dos animais e ao conceito
de sensciência animal, ou
seja, de que os animais são
capazes de sentir emoções
e estímulos dolorosos, que
posteriormente seria relata-
do na literatura (Molento,
2005; Luna, 2008).
Em 2001, o município
de São Paulo publicou a lei
13.131/01 que define, entre Figura 2. Programa de Controle de Populações de Cães e Gatos do Estado de São
outros, o registro, posse e Paulo, 2009.
guarda de cães e gatos.Ainda Fonte. Disponível em<ftp://ftp.cve.saude.sp.gov.br/doc_tec/outros/suple5_cao.
pdf> Acesso em 20 de novembro de 2016.
no estado de São Paulo, em
de gatos e à promoção de medidas pro-
2008, foi promulgada a Lei
12.916/08 que dispõesobre a forma tetivas, por meio de identificação, re-
como deverão ser elaborados os progra- gistro, esterilização cirúrgica, ado-
mas de controle populacional de cães e ção, e de campanhas educacionais
gatos no Estado.Em seu para a conscientização
Artigo 1º a lei estabelece Incorre nas mesmas pública da relevância de
que: penas quem realiza tais atividades
O Poder Executivo experiência dolorosa ou E em seu Artigo 2º
incentivará a viabili- cruel em animal vivo, que:
zação e o desenvolvi- ainda que para fins Fica vedada a elimi-
mento de programas didáticos ou científicos, nação da vida de cães
que visem ao controle quando existirem e de gatos pelos órgãos
reprodutivo de cães e recursos alternativos. de controle de zoonoses,
20 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016
12.916/08 de SP
é a obrigação de
recolhimento e
o transporte de
forma proteti-
va (Figura 3), ou
seja, de forma a
causar o mínimo
ou nenhum trans-
torno ao animal,
chamado também
de manejo ético.
Pensando neste
ponto, iniciou-se
Figura 3. Abordagem e manejo ético de cães errantes. em 2005 a capaci-
Fonte: Disponível em <http://www.ufpr.br/portalufpr/blog/noticias/departamento-de- tação dos agentes
-medicina-veterinaria-promove-curso-de-manejo-de-caes-e-gatos-de-rua-nos-centros-
-urbanos/> Acesso em 20 de novembro de 2016. de controle popu-
lacional do estado,
canis públicos e estabelecimentos
substituindo os
oficiais congêneres, exceção feita à laçadores da antiga carrocinha pelos
eutanásia, permitida nos casos de Oficiais de Controle Animal (Garcia,
males, doenças graves ou enfermi- 2009).Neste curso denominado
dades infecto-contagiosas  incurá- Curso de Formação de Oficiais de
veis que coloquem em risco a saúde Controle Animal, que é desenvolvido
de pessoas ou de outros animais. pelo Instituto Técnico de Educação
Considerou, portanto, a impor- e Controle animal, conteúdos sobre
tância de programas éticos para comportamento de cães e gatos, zo-
manejo destas populações sem a onoses, manejo etológico, Educação
utilização da eutanásia em animais Humanitária, bem-estar animal, saú-
saudáveis como metodologia princi- de do trabalhador, eutanásia, entre
pal. A lei também estabelece como outros, compõe um conteúdo amplo
deveriam ser os procedimentos com que através de teoria, pratica e vi-
animais agressivos; processos de vencias coletivas busca promover a
adoção; recolhimento de cães comu- transformação do olhar e das atitudes
nitários (SÃO PAULO, 2006; Garcia, destes profissionais que lidam com o
2009). controle animal no pais.(www.ITEC.
Outro ponto importante da Lei org.br).
2. Proteção, identificação e controle populacional de cães e gatos, uma abordagem sobre as legislações para animais de companhia 21
Em 2008 é insti- HORIZONTE, 2008) e
O Centro de Controle
tuída no município de estaduais (SÃO PAULO,
de Zoonoses de Belo
Belo Horizonte-MG a 2008; RIO GRANDE
Horizonte efetuará
Portaria 020/2008 pela DO SUL, 2009) e as
a eutanásia somente
Secretaria Municipal em cães e gatos publicações interna-
de Saúde (SMS-BH) que apresentem cionais (WHO, 1984,
que, assim como a lei males, doenças WSPA, 1990; WHO,
12.916/06 do Estado incuráveis, prova 2005), em 15 de janeiro
de São Paulo (SÃO sorológica positiva de 2016 foi sanciona-
PAULO, 2008), dispõe para Leishmaniose da a Lei 21.970/16 que
as diretrizes para euta- Visceral esta, no dispõe sobre a proteção,
násia e controle popu- caso de cães, além de identificação e contro-
lacional de cães e gatos outras enfermidades le populacional de cães
de forma ética (BELO infecto-contagiosas que e gatos no Estado de
HORIZONTE, 2008). coloquem em risco a Minas Gerais (MINAS
Esta lei define em seu saúde da população ou GERAIS, 2016).A legis-
Artigo 1º que: dos animais. lação estabelece como
O Centro de Controle principais pontos os
de Zoonoses de Belo Artigos 1 e 2:
Horizonte efetuará a eutanásia so- Artigo 1º: A proteção, a identificação e
mente em cães e gatos que apresentem o controle populacional de cães e gatos
males, doenças incuráveis, prova so- no Estado serão realizados em confor-
rológica positiva para Leishmaniose midade com o disposto nesta Lei, com
Visceral esta, no caso de cães, além de vistas à garantia do bem-estar animal
outras enfermidades infecto-contagio- e à prevenção de zoonoses.”
sas que coloquem em risco a saúde da Artigo 2º: “Fica vedado, no âmbito do
população ou dos animais. Estado, o extermínio de cães e gatos
Em se artigo 2º define: para fins de controle populacional
Os animais referidos no caput des- A eutanásia é definida como “um
te artigo, quando não reclamados junto procedimento necessário, empregado
ao Centro de Controle de Zoonoses no de forma científica e tecnicamente re-
prazo previsto...serão disponibilizados gulamentada, e que deve seguir precei-
para adoção ou convívio público, após tos éticos específicos” (CFMV, 2012).
identificação com microchip, vacinação Apesar disto, considera-se que a mesma
anti-rábica e esterilização cirúrgica não é um método ético e eficaz de con-
Tendo como base estas leis mu- trole populacional. Outras atribuições
nicipais (SÃO PAULO, 2001; BELO relevantes na Lei 21.970/16de MG são:
22 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016
Artigo 3º: Compete já prevista na Lei de
ao município, com o
Artigo 3º: Compete ao Crimes Ambientais (Lei
apoio do Estado:
município, com o apoio 9.605/98). Posterior a
do Estado:
I – implementar Lei21.970/16 foi publi-
I – implementar ações
ações que promovam: cada em 20 de julho de
que promovam:
a) a proteção, a pre- 2016 a Lei 22.231, que
a) a proteção, a
venção e a punição dispõe sobre a definição
prevenção e a punição
de maus-tratos e de de maus-tratos contra
de maus-tratos e de
abandono de cães e animais no estado de
abandono de cães e
gatos; gatos; Minas Gerais e dá ou-
b) a identificação e o b) a identificação e o tras providências, cor-
controle populacional controle populacional roborando com as duas
de cães e gatos; de cães e gatos; anteriores.
c) a conscientização c) a conscientização Assim como no
da sociedade sobre da sociedade sobre Estado de São Paulo, a le-
a importância da a importância gislação mineira em seu
proteção, da identi- da proteção, da Artigo 7º aborda o mane-
ficação e do controle identificação e do jo etológico dos animais
populacional de cães controle populacional como ponto obrigatório
e gatos; de cães e gatos; para a manutenção do
II – disponibilizar II – disponibilizar bem-estar, causando o
processo de identifi- processo de identificação menor ou nenhum des-
cação de cães e gatos de cães e gatos por meio conforto aos cães e gatos.
por meio de dispositi- de dispositivo eletrônico Para que isto ocorra de
vo eletrônico subcutâ- subcutâneo capaz de forma satisfatória é pre-
neo capaz de identi- identificá-los, relacioná- ciso que o Estado faça a
ficá-los, relacioná-los los com seu responsável capacitação de seus agen-
com seu responsável e armazenar dados tes para que estes possam
e armazenar dados relevantes sobre a sua trabalhar de forma mais
relevantes sobre a sua saúde segura, proporcionando
saúde. o maior grau de bem-
Partindo-se da pre- -estar possível para os
missa de que os cães e gatos são ani- animais.
mais senscientes, ou seja, capazes de Artigo 7º: No procedimento de este-
ter emoções e sentirem dor (LUNA, rilização de cães e gatos, serão utili-
2008), estabeleceu-se na alínea a, tam- zados meios e técnicas que causem o
bém a criminalização dos maus tratos, menor sofrimento aos animais, de ma-
2. Proteção, identificação e controle populacional de cães e gatos, uma abordagem sobre as legislações para animais de companhia 23
neira ética, com insensibilização, de le populacional de cães e gatos, que
modo que não se exponha o animal a abordem:
estresse e a atos de crueldade, abuso ou I – a importância da esterilização ci-
maus-tratos, nos termos da legislação rúrgica para a saúde e o controle re-
vigente. produtivo de cães e gatos;
Este artigo segue a recomendação II – a necessidade de vacinação e des-
da Resolução nº 962/2010 do CFMV, verminação de cães e gatos para a pre-
que estabelece que os procedimentos venção de zoonoses;
de esterilização do programa devem ser III – a importância da guarda respon-
seguros, eficientes e ofereçam bem-es- sável de cães e gatos, levando em consi-
tar aos animais. Também envolve a Lei deração as necessidades físicas, bioló-
9.605/98 que estabelece as penas para gicas e ambientais desses animais, bem
abuso, crueldade ou maus tratos. como a manutenção da saúde pública
Ressalta-se no Artigo 8º, a impor- e do equilíbrio ambiental;
tância da educação em saúde, desta- IV – os benefícios da adoção de cães
candoos pontos principais que devem e gatos
ser abordados com o tutor pelo poder
público nos programas de controle po- 3. Identificação animal
pulacional de cães e gatos. Este proces- e uso de microchip
so educativo deve contar com a parti- intradérmico
cipação da comunidade, junto com os Conforme Organização Mundial
profissionais da saúde (Garcia, 2009), para Saúde Animal (OIE) (2010), o re-
e também develevar em consideração gistro e identificação dos animais e mo-
os fatores afetivos e culturais daquela nitoração do tamanho populacional faz
população (Zetun, 2009), obtendo-se, parte de um .programa de manejo popu-
desta forma, resultados mais efetivos e lacional. A identificação dos animais au-
duradouros, principal- xilia no monitoramento
mente no que diz respei- Ressalta-se no Artigo de animais nas vias urba-
to ao combate ao aban- 8º, a importância da nas, manejo ambiental,
dono de cães e gatos. educação em saúde, visualização da taxa de
Artigo 8º: O poder destacando os pontos sobrevivência e identi-
público promoverá principais que devem ficação dos guardiões,
campanhas educati- ser abordados com o já que fornece indica-
vas de conscientiza- tutor pelo poder público dores para o gerencia-
ção da necessidade nos programas de mento das informações
da proteção, da iden- controle populacional (Garcia, Calderón e
tificação e do contro- de cães e gatos. Ferreira, 2012). Fica es-
24 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016
tabelecida na Lei 21.970/16 a atribui- Paulo 2009). Sua dimensão é de 2mm
ção do Estado para disponibilização do de diâmetro por 12mm de comprimen-
banco de dados: to (Figura 4). O aplicador para micro-
Parágrafo 2º: “Compete ao Estado chip é agulhado, tem uma rosca bastante
disponibilizar sistema de banco de robusta e uma mola interna que retorna
dados padronizado e acessível que ar- o êmbolo automaticamente, facilitando
mazene as informações de que trata o a sua utilização (Figura 5). Os custos
inciso II do caput deste artigo atuais (dezembro de 2016) dos micro-
Embora a Lei 21.970/16 de MG es- chips variam no mercado, dependendo
tabeleça a criação de um banco de dados da marca e suas características. É fun-
para armazenagem de informações dos damental que todos que participam de
animais em cada município, há necessi- um programa de registro e identificação
dade para um controle correto de comu- possuam um leitor universal que garan-
nicação entre as três esferas de governo ta a possibilidade de reconhecimento
(municipal, estadual e federal), para que do animal portador do microchip em
possa ser criado um sistemaúnico para diferentes momentos, como no resgate
coleta e armazenamento de informa- de animais abandonados ou perdidos,
ções individualizadas dos animais e seus acidentes nas vias públicas, programas
tutores, facilitando o re- de controle reprodutivo e de zoonoses,
entre outros. Outro pon-
gistro, a interpretação A identificação dos to fundamental a consi-
dos dados e desta forma animais auxilia derar e que os animais
possibilitando maior efi- no monitoramento devemportar uma iden-
ciência no manejo popu- de animais nas tificação externa que fa-
lacional de cães e gatos. vias urbanas, cilite o reconhecimento
A aplicação do mi- manejo ambiental, mesmo a distancia da-
crochip no animal no visualização da taxa quele animal como já
animal embora simples- de sobrevivência, tendo sido alvo de uma
deve seguir orientações e identificação dos ação de controle animal
técnicas que garantam guardiões, já que como por exemplo a es-
segurança e evitem ris- fornece indicadores para terilização cirúrgica para
cos aos animais. (São o gerenciamento das controle populacional.
Paulo 2009). O micro- informações. Os dados deste sistema
chip deve ser esteriliza- precisam também ser in-
do, possuir uma prote- cluídos no sistema local de registro em
ção especifica que impeça sua migração cadalocalidade. (São Paulo-2009).
pelo corpo do animal de acordo com O uso da técnica de implantação de
normas especificas da ABNT e (São
2. Proteção, identificação e controle populacional de cães e gatos, uma abordagem sobre as legislações para animais de companhia 25
Figura 4. Microchip para cães em tamanho comparativo a um grão de arroz. http://www.appcessories.
co.uk/gps-chip-for-dogs/

microchip intradérmico em cães e gatos de e reduzir o risco de zoonoses(Soto,


para identificação é interessante como 2003; Garcia, 2009; Bastos, 2013).
ferramenta de planejamento de manejo
populacional (Garcia, 2009). Porém, há 4. Considerações finais
necessidade de capacitar gestores e téc- A relação dos animais de compa-
nicos para viabilizar a implantação des- nhia com os humanos está cada vez
ta técnica, bem como analisar os custos mais próxima, e se estratégias humani-
envolvidos, e os benefícios gerados. tárias e eficazes não forem implantadas
Assim como a identificação dos ani- nas politicas públicas de controle ani-
mais, há necessidade de elaborar estraté- mal corremos o risco do aumento na
gias sanitárias, políticas, ecológicas e hu- ocorrência e transmissão de zoonoses.
manitárias, que envolvam comunidade Com o aumento do número de animais
científica, população e gestores de saú- de família, de vizinhança, comunidade,
de para que sejam tomadas medidas de abandonados eferais, é imprescindivel a
ação, de forma a melhorar a relação ho- necessidade de formular, implantar e ge-
mem-animal-ambiente, promover saú- renciar programas multifatoriais de ma-
26 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016
Figura 5. Aplicação do microchip agulhado. Disponível em: http://www.bournemouthecho.co.uk/
news/13374175.Is_your_dog_microchipped__if_not__from_tomorrow_you_re_breaking_the_law/
(“Seu cão é microchipado? Se não, a partir de amanhã – 06/04/2016 - você estará desrespeitando a
lei – Reino Unido). Acessado em 06/12/2016.

nejo populacional para cães e gatos. Cabe agora


Minas Gerais obteve um aos gestores das secreta-
cães egatos. As legis-
importante avanço na rias municipais e estadual
lações sobre proteção,
legislação sobre manejo de saúde e meio ambien-
identificação e o con-
populacional de cães e te, médicos veterinários,
trole populacional de gatos. Cabe agora aos
cães e gatos, tornam-se ativistas da causa animal,
gestores das secretarias
importantes neste pro- comunidade cientifica e
municipais e estadual de
cesso, porém há neces- sociedade unirem esfor-
saúde e meio ambiente,
sidade decompreensão ços para promover con-
médicos veterinários,
da relevância do tema e dições para que a lei seja
ativistas da causa
adesão pelosgestores ea efetivada .
animal e sociedade
população. unirem esforços para Referências
Minas Gerais obte- promover condições 1. BASTOS, A. L. Estudo da
ve um importante avan- para que a lei seja dinâmica populacional e das
estratégias de manejo da po-
ço na legislação sobre praticada. pulação canina no municí-
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Paulo, 2009.

2. Proteção, identificação e controle populacional de cães e gatos, uma abordagem sobre as legislações para animais de companhia 29
3. Comportamento
canino

pixabay.com

Elen Monteiro da Silveira 1

Laiza Bonela Gomes2 - CRMV 14.858


Sara Clemente Paulino Ferreira e Silva3CRMV 15.145
Néstor Alberto Calderón Maldonado4 - COMVEZCOL 03304
1
Acadêmica em Medicina Veterinária (UFMG)
2
Mestranda em Ciência Animal (UFMG)
3
Mestranda em Ciência Animal (UFMG)
4
Médico Veterinário (ULS) Colômbia - Dipl. (UNAM), Cert.(CEI), Esp. e MSc. (U.El Bosque)

Os cães têm natureza gregária, afilia- Durante seu desenvolvimento


tiva, cooperativa e afetiva. São animais psico-biológico, o cão apresenta perío-
extremamente comuni- dos distintos (neonatal,
cativos e muito sociais. O período neonatal transição, socialização
Estabelecem vínculos (Fig. 1), que ocorre e juvenil), relacionados
afetivos com o grupo em até os primeiros doze principalmente ao pri-
maior grau que com o dias de vida do cão, meiro ano de vida do
ambiente em que vivem, está relacionado com a animal.
aspecto que os diferencia vida junto à ninhada O período neonatal
dos felinos (Calderon et (irmãos) e aos cuidados (Fig. 1), que ocorre até
al., 2008). da mãe. os primeiros doze dias
30 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016
Figura 1. Período neonatal. Filhotes em amamentação. Fonte: http://www.pets4homes.co.uk/pet-
-advice/fading-puppy-syndrome-neonatal-mortality.html. Acessado em 07/12/2016.

de vida do cão, está relacionado com a vida ocorra, para que o filhote seja me-
vida junto à ninhada (irmãos) e aos cui- nos afetado por situações de estresse.
dados da mãe. Nesse período o filhote O período de transição (Fig. 2), que
apresenta imaturidade de sistemas fisio- se inicia no 13° e se estende até o 21°
lógicos básicos, órgãos sensoriais, e as dias de idade, é caracterizado por desen-
limitações motoras e perceptivas, e seus volvimento de órgãos sensórios, como
comportamentos são, normalmente, re- abertura dos olhos e do canal auricular.
flexos (Faraco e Soares, Os comportamentos da
2013). De acordo com O período de transição fase neonatal desapare-
Gazzano et al. (2008) e (Fig. 2), que se inicia cem, inicia-se um com-
Battaglia (2009), é es- no 13° e se estende até portamento explorató-
sencial que nessa fase o o 21° dias de idade, rio, ainda que tímido, e
filhote mantenha conta- é caracterizado por habilidades motoras co-
to com a mãe e o restan- desenvolvimento de meçam a se desenvolver,
te da ninhada, e que uma órgãos sensórios, como como caminhar (Faraco
manipulação delicada a abertura dos olhos e do e Soares, 2013).
partir do terceiro dia de canal auricular. O período de socia-
3. Comportamento canino 31
lização (Fig. 3) primá- para a capacidade de
O período de
rio acontece da terceira adaptação e interação
socialização (Fig. 3)
semana ao terceiro mês desse cão (Faraco e
primário acontece
de vida. Esse período é Soares, 2013). O siste-
da terceira semana
crucial na vida dos cães, ma nervoso sensorial
ao terceiro mês de
pois experiências ocor- do animal está sensível
vida. Esse período é
ridas nesta fase irão e, portanto, é o perío-
crucial na vida dos
determinar padrões do em que ele aprende
cães, pois experiências
de comportamento a ser sociável com os
ocorridas nesta fase irão
na vida adulta. Nesta animais de sua espécie,
determinar padrões de
fase o filhote aprende e de outras espécies
comportamento na vida
a diferenciar estímulos também, como o ser
adulta
ambientais benignos e humano. (Calderon et
ameaçadores, adquire al., 2008). Neste perí-
habilidades comunicativas e de or- odo o animal passa ainda por proces-
ganização social, que são essenciais sos de identificação, reconhecimento,

Figura 2. Período de transição. Fonte: Dog Guide, a Fun Times Guide site. Fonte: https://dogs.the-
funtimesguide.com/indestructible_dog_toys/#at_pco=smlrebh-1.0&at_si=58487c53b3b238a5&at_
ab=per-2&at_pos=4&at_tot=5. Photo by basykes on Flickr. Acessado em 07/12/2016.

32 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016


localização e habituação aos diversos decorrem de processos dinâmicos e
estímulos sociais e ambientais, essen- sempre de maneira contextualizada.
ciais para que esse filhote seja capaz Dentro deste raciocínio, há diferentes
de se adaptar e interagir com o entor- tipos de agressividade podendo ser
no e outros animais. Recomenda-se ela: ofensiva ou defensiva (modulada
que nessa fase se inicie a educação dos pelas emoções) e predatória (modula
filhotes, pois o processo de habitua- pelo instinto). No sentido operativo
ção ajusta os comportamentos desse estes comportamentos tem que ser
animal ao ambiente. Se esse período avaliados no contexto (dentro ou fora
não ocorrer de forma adequada, o ani- do canil, da casa), o alvo da agressão
mal poderá desenvolver problemas de (pessoas ou animais) e a sequencia do
comportamento, como medo e agres- comportamento agressivo (linguagem
sividade (Faraco e Soares, 2013). A corporal/ tipo de agressão). Além
agressividade é um comportamento disso, é preciso avaliar clinicamente
social normal presente nos cães, que os animais para descartar uma causa

Figura 3. Período de socialização. Fonte: PUPPY 1 (Socialization and Basic Obedience). Fonte: http://
www.dogslife.biz/classes_puppy.html.

3. Comportamento canino 33
orgânica: dor, alteração neurosenso- cães apresenta familiaridades com
rial, doença endócrina e metabólica seus ancestrais e com animais silves-
(Calderon et al., 2008). tres da mesma família, como os lobos.
O período juvenil (Fig. 4) acontece Apresentam grande flexibilidade ali-
da décima segunda semana até a puber- mentar, de acordo com o que tem dis-
dade, quando ocorre a maturação sexu- ponível para sua alimentação. Assim
al. É um período caracterizado prin- como os lobos, ingerem grande quan-
cipalmente pelo amadurecimento das tidade de alimento de uma vez só, mo-
capacidades motoras, e pelo processo tivo este que leva o cão a ingerir mui-
de inserção social. Nesta fase, é desejá- ta ração quando esta é oferecida em
vel que se ofereça a esse animal um am- excesso. Outro fator que influencia na
biente enriquecido, para que ele possa alimentação é a hierarquia do grupo
desenvolver melhor sua capacidade de cães: cães com posições superio-
cognitiva (Faraco e Soares, 2013). res se alimentam primeiro e em maior
O comportamento alimentar dos quantidade do que cães de posições in-

Figura 4. Cão juvenil. Fonte: Dog Training and Pet Care Services. Fonte: http://www.fetchstayandtrain.
com/dog-training.

34 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016


feriores na matilha. A
A forma mais apropriada mente correspondente
forma mais apropriada ao outro sexo ao urinar.
de se oferecer alimento
de se oferecer alimento
aos cães domésticos é em Em relação à postura de
aos cães domésticos é
quantidades controladas, defecação, se apresenta
em quantidades con- fracionadas durante o de maneira semelhante
troladas, fracionadas dia e em local separado, nos dois sexos. A fre-
durante o dia e em local especialmente quando é quência de eliminação
separado, especialmen- uma situação de coletivo, é modificada pelas al-
te quando é uma situa- como abrigos ou centros terações fisiológicas do
ção de coletivo, como de controle de zoonoses. aparelho digestivo ou
abrigos ou centros de urinário, mas também
controle de zoonoses é modulada pelas emo-
(Faraco e Soares, 2013). O principal ções dos animais, principalmente pelos
problema no coletivo é a agressividade estados de ansiedade no animal, muito
relacionada com o alimento modulada importante em situação do coletivo.
pelo tipo de ração (qualidade), a forma Os cuidados corporais, também co-
como ela é oferecida (tipo de come- nhecidos como grooming, são partes im-
douros, quantidade, disponibilidade portantes do comportamento de cães.
e condições ambientais no canil), ge- Os atos de lamber, mordiscar e coçar,
rando problemas no abrigo (conflitos e além de serem úteis para o asseio do
brigas entre os cães e mordeduras nos animal, são importantes para outras fun-
operários) e na adoção destes animais ções, como reduzir o estresse, e remover
(Marder, 2015). sujeiras, pelos mortos, ou ectoparasitas.
Os cães precisam naturalmente uri- Outro comportamento apresentado pe-
nar e defecar para eliminação das sobras los cães é o de rolar na terra ou em ou-
não utilizáveis, mas também empregam tra superfície, seja para autolimpeza, ou
tais ações como uma forma de demar- como forma de comportamento lúdico
cação. O comportamento de micção é (Faraco e Soares, 2013).
sexualmente dimórfico, com os machos O comportamento sexual dos cães
geralmente levantando lateralmente o tem início após a puberdade, que pode
membro posterior e as fêmeas em geral, ocorrer a partir dos seis meses de idade
abaixando-o (Fraser e Broom, 2010). aproximadamente, variando segundo o
Segundo Manteca (2003), além de porte e a raça do animal. O ciclo estral
quaisquer anormalidades de postura das cadelas compreende as fases de es-
durante a micção por causa de pato- tro, que é quando a fêmea apresenta re-
logias, 3% dos cães machos e 2% das ceptividade sexual, com predomínio de
fêmeas empregam a postura normal- estrógeno; metaestro, quando o corpo
3. Comportamento canino 35
lúteo inicia suas funções; diestro, fase de ra padrão do cão dormindo é deitar-se
predomínio da ação do hormônio pro- com a cabeça virada para um lado. Os
gesterona, devido à atividade do corpo cães podem movimentar-se e vocalizar
lúteo; proestro, quando ocorre a luteó- durante o sono REM. Em geral, apre-
lise do corpo luteo, desenvolvimento fo- sentam maior tendência a dormir du-
licular e aumento de estrógeno, inician- rante as horas noturnas, mas podem se
do um novo ciclo. A cadela passa ainda tornar ativos durante a noite se for ne-
por uma fase de anestro, quando não cessário devido à caça de alimentos ou
está em nenhuma fase do ciclo estral. O busca de um parceiro sexual (Fraser e
comportamento de corte dos cães ma- Broom, 2010).
chos inicia-se quando percebem que há O comportamento social dos cães
uma fêmea no cio, principalmente atra- domésticos diferencia-se dos lobos, que
vés do olfato e de feromônios. A cópula se agrupam com uma hierarquia de do-
ocorre quando a fêmea, receptiva, acei- minância muito bem estruturada para
ta a monta pelo macho. A cópula em si caça e proteção mútua, nas condições
tem duração curta, porém, a ejaculação de criação e domesticação, pois as prin-
é prolongada, motivo pelo qual os ani- cipais fontes de possível competição
mais assumem a posição “posterior con- entre os cães foram eliminadas (Eaton,
tra posterior” por um período de até 30 2010), e as relações sociais entre animais
minutos (Faraco e Soares, 2013). que partilham a mesma casa são flui-
O comportamento materno das das e pouco hierárquicas (Case, 2008).
cadelas se inicia antes do parto, com a Porém, isso não exclui pequenas dispu-
confecção de ninhos que se inicia ante- tas, as quais estão associadas a uma falta
riormente ao nascimento dos filhotes. de organização dos recursos por parte
No momento do parto, a cada filhote do proprietário. Outro fator que influen-
que nasce a cadela o lambe, e ingere os cia muito o comportamento social dos
anexos fetais. Essa higienização de seu animais é o estresse, e devido a isso, cães
ninho, através da ingestão de fezes e uri- coabitantes podem sofrer diferentes ní-
na pela cadela, é comum até que seus veis de ansiedade se o seu ambiente não
filhotes tenham a capacidade de urinar for bem controlado (O’Heare, 2008).
e defecar longe desse local. Os machos Alguns indivíduos podem estar mais
geralmente não compartilham com as aptos para partilhar, enquanto outros
fêmeas os cuidados com a prole (Faraco podem optar pela agressão (Yin, 2009),
e Soares, 2013). e a solução é oferecer a todos as mesmas
Os cães gastam cerca de 50% do seu oportunidades e benefícios, ou seja, re-
tempo e cerca de 20% do sono total em gular bem todos os recursos disponíveis
sono REM (Manteca, 2003). A postu- e oferecidos aos cães (Bradshaw et al.,
36 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016
2009). Além disso, a boa socialização no alimento, mas subordinado a outro em
período adequado é a melhor forma de relação aos espaços para dormir (Eaton,
se obter um ambiente harmonioso en- 2010). Um cão não necessariamente é
tre os cães que coabitam e os humanos dominante por ter melhor controle de
(Miller, 2011). Um cão que já habita na alguns recursos oferecidos, porque ele
residência pode estar mais motivado pode estar mais interessado e motivado
a defender seus recursos se um novo que o outro cão, sem precisar de qual-
membro for introduzido, devido à ter- quer disputa (van Kerkhove, 2004). Os
ritorialidade. (O’Heare, 2008). As ma- comportamentos mais indesejados, que
nifestações de dominância-submissão, geralmente incluem latir excessivamen-
caracterizadas por um repertório de si- te, saltos à chegada do proprietário, e
nais formais (Fig. 5), não são com o pro- falta de obediência, ocorrem porque,
pósito de alcançar uma posição social em algum momento, foram reforçados e
superior (Case, 2008), pois os indiví- recompensados, e também porque não
duos podem partilhar a mesma posição foram substituídos por uma educação
social no contexto doméstico. Um cão correta (American Veterinary Society
pode ser dominante ao acesso a dado of Animal Behaviour, 2008).

Figura 5: Posturas caninas. Da esquerda para direita: posição neutra de relaxamento; Alerta;
Submissão passiva; Submissão ativa; Convite para brincar; Postura de saudação; Correção materna;
Comportamento de cumprimento/reconhecimento; Agressividade defensiva/medo; Agressividade
desafiante/provocadora.
Fonte: http://www.scanimalshelter.org/sites/default/files/Canine_Body_Language_ASPCA.pdf (Adaptado).

3. Comportamento canino 37
Figura 5: Posturas caninas. Da esquerda para Dogs - Useful Construct or Bad Habit? J. Vet.
Behav., n. 4, p. 135-144, 2009.
direita: posição neutra de relaxamento; Alerta;
Submissão passiva; Submissão ativa; Convite 5. CALDERON, N. A. M.; CHIOZZOTTO, E.N.;
GOMES, L. H.; ALMEIDA, M.; GARCIA, R. C.
para brincar; Postura de saudação; Correção M. Guia Prático Curso de Formação de Oficiais
materna; Comportamento de cumprimento/ de Controle Animal (FOCA). 2.ed. Instituto
Técnico de Educação e Controle Animal. 2008.
reconhecimento; Agressividade defensiva/
medo; Agressividade desafiante/provocadora. 6. CASE, L. Perspectives on Domestication: The
History of Our Relationship with Man’s Best
Fonte: http://www.scanimalshelter.org/si- Friend. J Anim Sci., v.86, p. 3245–3251, 2008.
tes/default/files/Canine_Body_Language_ 7. EATON, B. Dominace in Dogs - Fact or Fiction?.
ASPCA.pdf (Adaptado). Wenatchee: Dogwise Publishing, 2011. 88p.
Em situação de Coletivo e para ga- 8. FARACO C. B.; SOARES G. M. Fundamentos do
rantir o grau de bem-estar destes ani- comportamento canino e felino. São Paulo: Editora
MedVet, 2013. 242p.
mais é necessário aplicar ao manejo
9. FRASER, A. F.; BROOM, D. M. Comportamento
estes conceitos etológicos, além de uti- e bem-estar de animais domésticos. 4ed. Barueri:
lizar o comportamento animal como Manole, 2010. 438p.
ferramenta para avaliar o estado emo- 10. GAZZANO A.; MARITI C.; NOTARI L. et al.
cional do coletivo e individualmente Effects of early gentling and early environment
on emotional development of puppies. Appl.
reconhecer as interações com humanos Anim. Behav. Sci., v. 110, n. 3, p. 294-304, 2008.
e outros animais, assim como identificar 11. VILANOVA, X. M.. Etología clínica veterinaria
as anomalias comportamentais ou com- del perro y del gato.  Barcelona: Multimédica,
portamentos indesejáveis. (Barnard et 2003. 261p.

al., 2014). 12. MARDER, A. “Chapter 6. Intake and assess-


ment.” In Animal behavior for shelter veterina-
Referências Bibliográficas rians and staff. Edited by Weiss, Mohan-Gibbons
& Zawistowski. Wiley Blackwell, USA/UK,
1. AMERICAN Veterinary Society of Animal 2015.
Behavior. “AVSAB Position Statement on
the Use of Dominance Theory in Behavior 13. MILLER, P. Dominance Isn’t Usually the
Modification of Animals,” 2008. Disponível em: Problem. 2011. Disponível em:  <http://ani-
<http://avsabonline.org/uploads/position_sta- malfarmfoundation.org/files/Dominance_-_
tements/dominance_statement.pdf>. Acesso Not_Usually_the_Problem.pdf>. Acesso em
em 08 de Dezembro de 2016. 05/12/2016. 

2. BARNARD, S.; PEDERNERA, C.; VELARDE, 14. O’HEARE, J. Dominance Theory and Dogs. 2 ed.
A.; DALLA VILLA, P. Shelter Quality. Welfare Wenatchee: Dogwise Publishing, 2008. 77p.
Assessment Protocol for Shelter Dogs. Instituto
Zooprofilattico Sperimentale dellA`bruzzo e del 15. VAN KERKHOVE, W. A Fresh Look at the Wolf-
Molise “G. Carporale”, Italy, 2014. Pack Theory of Companion-Animal Dog Social
Behavior. J. Appl. Anim. Welf. Sci., v. 7, n. 4, p.
3. BATTAGLIA, C. L. Periods of Early 279-285, 2004.
Development and the Effects of Stimulation and
Social Experiences in the Canine. J. Vet. Behav., v. 16. YIN, S. “Chapter 2. Dominance vs. Unruly
4, n. 5, p. 203–210, 2009. Behavior.” In Low Stress Handling, Restraint
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4. BRADSHAW, J. W. S., BLACKWELL, E. 55–75. CattleDog Publishing, 2009. www.lows-
J., CASEY  R. A. Dominance in Domestic tresshandling.com.

38 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016


4. Aspectos
do comportamento
felino
pixabay.com
Paloma Carla Fonte Boa Carvalho1 - CRMV MG 13.938
Vania de Fatima Plaza Nunes2 - CRMV-SP 4119.
Néstor Alberto Calderón Maldonado3 - COMVEZCOL 03304

1
Mestranda em Ciência Animal na UFMG
2
Diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, Coordenadora de Medicina Veterinária do
Coletivo do ITEC, presidente da Comissão de Médicos Veterinários de ONGs do CRMV-SP
3
Médico Veterinário (ULS) Colômbia - Dipl. (UNAM), Cert.(CEI), Esp. e MSc. (U.El Bosque)

Na história da sociedade humana, estudo do comportamento animal se


o interesse pelos animais surgiu, ini- iniciam antes do desenvolvimento da
cialmente, pela necessidade de se obter etologia como ciência (Souto, 2005).
alimento, e mais tarde pela companhia.
Entender e prever a conduta dos outros Introdução
seres era, para o ser humano, uma ques- O gato doméstico, Felis silvestres
tão de sobrevivência. Para que a domes- catus, tem como antepassado o gato
ticação dos animais fosse bem-sucedida, selvagem africano, Felis silvestres libyca
houve a necessidade de se conhecer o (Beaver, 2003; Rochlitz, 2005) e vive
comportamento dessas espécies. Assim, em um grupo social formado pela fê-
o interesse, a observação, o registro e o mea e seus filhotes. A sociedade felina
4. Aspectos do comportamento felino 39
é eminentemente matriarcal e linear. Os desenvolvimento e organização do
filhotes vivem com suas mães por várias comportamento social no gato do-
semanas após o nascimento, até estarem méstico (Rochlitz, 2005).
maduros e serem capazes de caçar sozi-
nhos. Se os filhotes são criados em um Comportamento social
ambiente onde não há recursos alimen- A reputação tradicional do gato, por
tares suficientes para suportar muitos ser uma espécie solitária é obviamente
animais adultos, o grupo familiar se dis- simplista. Grande parte do comporta-
persa quando os filhotes se tornam ma- mento desse animal é dedicado à sua
duros, sendo os machos em especial os relação com outros indivíduos. O gato
exemplares a buscar novas áreas e fonte mostra uma variação no seu comporta-
de recursos. mento social, desde viver solitário, até
As fontes alimentares, constitu- viver em grandes grupos, em uma gama
ídas por áreas de estocagem de ali- de densidades populacionais ( Jensen,
mentos, deposição de 2002). O tamanho do
resíduos e por popula- O gato mostra uma grupo é determinado
ções de roedores atraí- variação no seu pelas fontes alimentares
das por esses recursos, comportamento social, existentes e é diretamen-
são uma consequência desde viver solitário, te proporcional à dispo-
da civilização huma- até viver em grandes nibilidade de alimen-
na e fornecem o con- grupos, em uma tos (Liberget al.; 2000;
texto ecológico para gama de densidades Jensen, 2002). Os gru-
o desenvolvimento da populacionais (Jensen, pos, quando formados e
organização social do 2002). O tamanho do estabelecidos resistem à
gato doméstico. Estas grupo é determinado introdução de novos ga-
fontes alimentares pelas fontes tos, com os machos adul-
contêm alimentos su- alimentares existentes tos tendendo a atacar os
ficientes para supor- e é diretamente
filhotes. Esses grupos
tar vários pequenos proporcional à
são normalmente forma-
carnívoros, e se esses disponibilidade de
dos por fêmeas, em geral
carnívoros formarem alimentos.
com parentesco, filhotes
um grupo, podem de-
e machos adolescentes.
fender este território
As fêmeas adultas e seus filhotes podem
de outros animais com mais sucesso
formar grupos centrais, que podem ser
(Macdonald e Carr, 1989). A forma-
territoriais. Vários grupos principais po-
ção de grupos em torno de fontes
dem ocupar locais de alta qualidade e
alimentares é o primeiro passo no
formar uma colônia - Figura 1.
40 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016
Jensen, 2002). Nas gran-
des colônias as fêmeas se
ajudam mutuamente de
várias formas para facilitar
a sobrevivência de seus fi-
lhotes (Liberg eSandell,
1988; Macdonald et al.,
2000). Elas tendem a dar
à luz filhotes na mesma es-
tação, além de se ajudarem
durante o processo de par-
to, um fenômeno que não é
comumente observado en-
tre os animais (Hamilton,
1964; Macdonald e Apps
1978; Macdonald et al.,
2000).
Os machos adultos po-
dem estar associados a tais
colônias. Estes podem ser
chamados de “machos cen-
trais”, em contraste com
os “machos periféricos”
que vagam amplamente
( Jensen, 2002; Rochlitz,
2005).
Animais sociais pos-
suem um status de domi-
nância definido para que
comportamentos agonis-
Figura. 1. Grupo de gatos no Parque Municipal Américo Renné
Gianetti, Belo Horizonte-MG. tas sejam minimizados en-
Fonte: Paloma Carla Fonte Boa Carvalho tre os indivíduos. A reação
de um gato à aproximação
A competição por recursos den- agressiva de outro tende,
tro da colônia feminina pode ocorrer, geralmente, a ser defensiva e não de
dando origem a duas classes sociais, submissão, como observada em cães.
“fêmeas centrais” e “fêmeas periféricas” Em grupos de gatos, como em colônias
(Crowell-Davis, 2001; Bradshaw, 2002;
4. Aspectos do comportamento felino 41
e em residências, o padrão de ordem so- levância da mãe para a aprendizagem
cial é único. Um macho assume relativa em gatos jovens é ainda demonstrada
dominância baseada no território que é pelo fato de que esses socializam mais
seu e ao seu lado outros gatos que não facilmente com os seres humanos se a
diferem em status, o que sugere uma au- mãe estiver presente e calma durante
sência de hierarquia completa e estável o manuseio do que se estiver ausente
(Bradshaw, 2002; Beaver, 2003). (Rodel, 1986).
Estudos revelaram Estes conceitos são
que os gatos aprendem Estudos revelaram muito importantes na
ao observarem outros que os gatos aprendem prevenção e manejo dos
gatos. Os filhotes, por ao observarem outros comportamentos agres-
exemplo, aprendem a ca- gatos. Os filhotes, por sivos entre gatos e diri-
çar observando as mães exemplo, aprendem a gida aos seres humanos
(Baerends-van Roon caçar observando as e outros animais, espe-
eBaerends, 1979). A re- mães. cialmente durante a ma-

Figura 2: Comportamento felino - Prof Nestor Calderon Maldonado Cursos FOCA-ITEC- SP.

42 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016


nutenção e o manejo em avaliação do grau de
Os gatos comunicam seu
abrigos (gatis coletivos) bem-estar (p.ex. reco-
humor e intenção por
e no processo de adoção nhecimento do estresse
uma variedade de sinais
destes animais - Figura negativo- distresse).
visuais, principalmente
2. Neste sentido é muito É recomendável o
pelas posições das
importante lembrar que conhecimento dos pa-
orelhas e da cauda, e
os gatos são criaturas drões comportamentais
pela postura corporal.
complexas capazes de da espécie através da
viver sozinhas e em co- elaboração e análise de
lônias com alta densidade, mantendo a etogramas. A correta interpretação do
coesão social pela comunicação quími- comportamento por meio desse instru-
ca -feromônios-, criando grupos de odor mento de investigação pode revelar situ-
por meio do allorubing e allogrooming. ações que gerem conflitos entre indiví-
(Ley, 2016) duos, comprometendo o bem estar de
cada envolvido e atuando diretamente
Comunicação nos quadros de diminuição ou mesmo
Os animais em geral e os gatos em ausência de bem estar do animal alvo da
particular utilizam diferentes sinais para avaliação.
se comunicar por meio dos canais de
comunicação (Quadro 1). Estes sinais Visual
podem ser “neutralizadores” ou podem Os gatos comunicam seu humor e
favorecer o afastamento ou aproxima- intenção por uma variedade de sinais
ção entre os animais. visuais, principalmente pelas posições
O conhecimento da fisiologia dos das orelhas e da cauda, e pela postura
sistemas sensoriais e a compreensão de corporal. As orelhas podem ser movi-
como os gatos se comunicam entre eles das para trás, enquanto ainda ereto, para
e conosco é fundamental para o manejo baixo em direção ao queixo, ou posicio-
etológico destes animais especialmen- nadas parcialmente para trás e em parte
te em situação de coletivo. Além dis- para baixo. A posição da orelha voltada
so, é uma importante ferramenta para para trás pode indicar a agressão ofensi-
Quadro 1. Canais de comunicação de gatos.
Canal Sinais
Olfatório Químicos Feromônios
Visual Visuais Posturas corporais e expressões faciais
Auditivo Sonoros Vocalizações
Tátil Táteis Contato e interações físicas “allorubing e allogrooming”

4. Aspectos do comportamento felino 43


va, isto é, o gato que tenta manipular o escondendo sua cabeça e cauda. Todos os
oponente para que este se afaste. A po- tipos de posturas intermediárias podem
sição das orelhas voltadas em direção ao ser vistas. Um gato arqueando as costas,
queixo é realizada por gatos defensivos, permanecendo sobre as pernas rígidas,
sinalizando a aceitação de um status su- apresentando piloereção e com a cauda
bordinado. Tais gatos podem, entretanto, parcialmente ou completamente levan-
defender-se se o gato dominante atacar tada, expressa uma grande agressividade.
( Jensen, 2002). Em relação à postura Um sinal visual que indica intenções ami-
corporal, o gato ofensivo fica ereto com gáveis ​​é a posição “tail-up”, em que o gato
a cauda posicionada verticalmente para se aproxima de outro gato, humano, cão
baixo, voltando o olhar de vez em quan- ou outro animal com a cauda levantada,
do para o lado e mostrando seu corpo de perpendicular ao chão - Figuras 2a e 2b
forma a parecer o maior possível. O gato (Cameron-Beaumont, 1997; Jensen,
defensivo pode, em vez disso, se agachar, 2002).

Figura 2a e 2b. Gatos com intenções amigáveis na posição “tail-up”. Fonte: Paloma Carla Fonte Boa
Carvalho

44 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016


Vocal O ronronado, por exemplo, intra-espécies e a
sinaliza uma grande motivação agressão defensiva
O repertório
para contato, interação ou contra predadores
vocal do gato é
solicitação de cuidados. Porém, ou seres humanos
bem variável. Em
ronronar também pode ser ouvido ( Jensen, 2002;
geral a comuni-
em gatos doentes ou com dor. O Rochlitz, 2005).
cação ocorre em
momentos bem grunhir, gemer, rosnar, assobiar,
cuspir e gritar são sons feitos com Olfatório
determinados da
vida dos felinos a boca aberta em uma posição As glândulas
como no período relativamente constante. Estes sons sebáceas estão lo-
reprodutivo, na co- são relacionados com a agressão calizadas em todo
municação entre a de vários tipos, incluindo o o corpo, especial-
mãe e seus filhotes conflito intra-espécies e a agressão mente na cabeça,
e na comunicação defensiva contra predadores ou na área perianal e
com os humanos. seres humanos. entre os dígitos. Os
Os gatos apresen- ferômonios libera-
tam três tipos prin- As glândulas sebáceas estão dos nestes locais
cipais de comuni- localizadas em todo o corpo, são substâncias
cação vocal, e para especialmente na cabeça, na específicas que
cada tipo existem área perianal e entre os dígitos. auxiliam a mar-
múltiplas varia- Os ferômonios liberados nestes cação territorial
ções. O ronrona- locais são substâncias específicas por esses animais,
do, por exemplo, que auxiliam a marcação levando à criação
sinaliza uma gran- territorial por esses animais, de mecanismos de
de motivação para levando à criação de mecanismos segurança ou aler-
contato, interação de segurança ou alerta sobre a ta sobre a presença
ou solicitação de presença de animais conhecidos, de animais conhe-
cuidados. Porém, o próprio reconhecimento ou cidos, o próprio re-
ronronar também de exemplares invasores em conhecimento ou
pode ser ouvido determinado ambiente. de exemplares in-
em gatos doentes vasores em deter-
ou com dor. O gru- minado ambiente.
nhir, gemer, rosnar, assobiar, cuspir e gri- A frequência com que os gatos esfre-
tar são sons feitos com a boca aberta em gam e cheiram uns aos outros reforça o
uma posição relativamente constante. fato de que pistas olfativas distribuídas
Estes sons são relacionados com a agres- por essas áreas são importantes. A urina
são de vários tipos, incluindo o conflito e as fezes também parecem ser usadas na
4. Aspectos do comportamento felino 45
comunicação olfativa (Rochlitz, 2005). O comportamento social de um
O gato, ao esfregar a boca, o queixo, o gato está interligado às fases de seu de-
flanco ou a cauda contra um objeto, ou senvolvimento. O período neonatal ou
arranhando-o com suas garras, deposita infantil, do nascimento à segunda se-
saliva ou secreções das glândulas da pele mana de vida, é caracterizado por mo-
para marcação ( Jensen, 2002). mentos de alimentação e sono, sendo o
filhote completamente dependente da
Tátil mãe para sua sobrevivência. No período
Animais membros de uma mesma transicional/intermediário, que ocorre
colônia estão constantemente em con- do final do período neonatal à terceira
tato. Usar uns aos outros semana de idade, o filho-
como “travesseiros” é te passa a ter um peque-
um fenômeno comum Animais membros de
uma mesma colônia no grau de independên-
entre os gatos selvagens cia, com manifestações
e domésticos. A cauda
estão constantemente
em contato. de padrões de alimenta-
é usada, às vezes, para ção e locomoção presen-
acariciar outro gato. Os
tes na fase adulta, além
gatos podem apoiar-se um aos outros
de formas imaturas de comportamen-
e enrolar suas caudas (Crowell-Davis
to social. A fase seguinte do desenvol-
2002). O significado exato desse com-
vimento é definida como período de
portamento não é bem compreendido,
embora pareça estar envolvido no vín- socialização. Durante este período se
culo social (Rochlitz, 2005). formam todos os vínculos sociais pri-
mários. Observa-se um aumento nas
Socialização brincadeiras, sendo importante que eles
tenham contato com outras espécies,
Como em todas as espécies gregá-
incluindo seres huma-
rias, o gato nasce com a
capacidade de aprender Como em todas as nos, para garantir que ve-
habilidades sociais, dado espécies gregárias, o gato nham a aceitar o contato
o ambiente apropriado. nasce com a capacidade com elas quanto adul-
O período sensível de de aprender habilidades tos (Bradshaw, 2002).
socialização é o perío- sociais, dado o ambiente Karsh (1983) observou
do de tempo durante o apropriado. que este contato deve
qual um animal é parti- ocorrer da segunda à sé-
cularmente susceptível a experiências tima semana de vida. A presença de uma
de aprendizagem social (Immelmann mãe calma é benéfica para o processo
eBeer, 1989). (Rodel 1986).
46 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016
Problemas Todas as alterações comportamen-
comportamentais tais, independentemente de serem mais
ou menos comuns, mais ou menos reco-
A classificação do comportamen- nhecidas pelo clínico ou mais ou menos
to baseia-se em vários métodos, sen- relevantes para o proprietário/tutor,
do o mais simples aquele que deter- devem sempre ser alvo de atenção para
mina se o comportamento é normal a manutenção ou implemento do bem-
ou anormal, aceitável ou inaceitável. -estar animal. O seu reconhecimento
Comportamentos normais são aqueles e a possibilidade de correção podem
característicos da espécie. Estes podem prevenir situações como o sofrimento,
ou não ser apreciados pelos proprietá- a negligência, a omissão, o abandono e
rios, tornando-se assim aceitáveis ou até mesmo a eutanásia (Santos, 2011).
não. Por outro lado, comportamentos Em ambientes coletivos é funda-
anormais são aqueles decorrentes de mental a atenção e o reconhecimento
aprendizagem ou de disfunções pato- de manifestações e sintomas da dor,
lógicas. Nem todos os animais desen- estresse, medo e ansiedade, além das
volvem um distúrbio comportamental, condiciones ambientais geradoras de
muito menos apresentam o mesmo dis- estimulação mental deficiente, privação
túrbio num mesmo ambiente. Com fre- sensorial, isolamento social e falta de
quência o stress ou a ansiedade estão re- exercício físico, pois estas condições po-
lacionados com o ambiente e mostram dem ser as desencadeadoras de quadros
que o limiar entre normal e anormal va- de estresse permanente que comprome-
ria entre indivíduos (Beaver, 2003). terão a saúde e o bem- estar dos animais
Estudos baseados na opinião dos mesmo a curto prazo. (Newburyet al,
proprietários dos gatos revelaram que 2010).
a micção e/ou defecação inadequadas
foram o principal problema relatado Referências
(Heidenberger, 1997). Bamberger e 1. BAERENDS–VAN ROON, J.M.; BAERENDS,
Houpt (2006) realizaram um estudo G.P.The genesis of the behaviour of the
avaliando alterações comportamentais domestic cat, with emphasis on the de-
velopment of prey catching.Verhaelingen
em gatos entre 1991 e 2001. Os proble- der KoninklijkeNederlandseAkademie van
mas de micção e/ou defecação inade- WetenschappenAfd. Natuurkunde, v. l72, p. 1-115,
1979.
quadas, englobaram o maior percentual
2. BAMBERGER, M.; HOUPT, K.A. Signalment
de gatos afetados, seguidos pela agressi- factors, comorbidity, and trends in behavior
vidade, problemas de ingestão, ansieda- diagnoses in dogs: 1644 cases (1991-2001).
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4. Aspectos do comportamento felino 47


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48 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016


5. Precisamos falar sobre
cães em Unidades de
Conservação
pixabay.com
Mirella Lauria D´Elia1 - CRMV-16213
Joana Angélica Macêdo2 CRMV-MG 15124
Pedro Lúcio Lithg Pereira3 - CRMV-MG 1981)
Danielle Ferreira de Magalhães Soares4 CRMV-MG 7296

1
Mestranda Escola de Veterinária da UFMG
2
Residente em Saúde Pública UFMG
3
Docente Escola de Veterinária da UFMG
4
Docente Escola de Veterinária da UFMG

Introdução Essa adaptação, cada


do (Lessa et al., 2016;
Paschoal et al., 2016).
A população de cães vez mais favorecida pela
O Brasil ocupa o ter-
no mundo já ultrapassa fragmentação, redução
e antropização de áreas ceiro lugar no ranking
os 700 milhões de indi-
víduos distribuídos entre naturais, nos coloca mundial de populações
áreas urbanas e periurba- hoje diante de um de cães domésticos.
nas, rurais e naturais, por problema impreterível: Para entender um pro-
exemplo as áreas de pro- a presença de cães blema de proporções
teção integral, superando dentro de unidades de continentais, é preciso
todas as outras popula- conservação. também entender um
ções carnívoras do mun- pouco mais sobre as di-
5. Precisamos falar sobre cães em Unidades de Conservação 49
mensões humanas da nossa relação com A situação, que tem sido registrada
esses animais. Por milhares de anos sele- em diversas regiões do país (Galetti e
cionamos os cães para desempenhar um Sazima, 2006), começa a ganhar maior
conjunto de habilidades cognitivas espaço e atenção, mas ainda carece de
e sociais, atendendo às mais diversas pesquisas mais aprofundadas que obje-
demandas de trabalho e lazer. É inegá- tivem quantificar os impactos causados
vel que os cães desempenham até hoje pela sua presença.
funções extremamente importantes
em nossas vidas, direta ou indireta- 1. Conceitos importantes:
mente. Contudo, a falta de conscien- Animal feral, Espécie
tização por parte da população acerca exótica, Espécie exótica
da posse responsável e a falta de po- invasora (EEI) e
líticas públicas permanentes que lo-
grem o controle populacional de cães
Unidades de Conservação
tem levado a um número crescente e (UC)
assustador de animais A demanda acerca de
livres e ferais, hoje médicos veterinários ap-
Um animal é
estimado em 75% da
classificado como feral tos a trabalhar dentro do
população existente
quando se trata de um contexto de Saúde Única
no mundo (Lessa et (saúde humana, saúde
animal doméstico que
al., 2016). Em muitos ambiental e saúde animal)
vive em um habitat
casos, esses animais
selvagem, sem alimentos e inserido em equipes
podem sobreviver ou abrigo fornecidos por multidisciplinares é cres-
independentes da in- humanos, e que mostra cente e imprescindível.
tervenção e assistên- certa resistência ao Para tanto, antes de ini-
cia humana, se ali- contato com pessoas. ciarmos esta discussão, fa-
mentando de lixo ou, z-se necessária uma breve
ainda, com acesso às explanação sobre algumas
áreas florestadas, podem possuir como definições importantes que todos nós
subsistência primária a predação de devemos ter conhecimento frente à ur-
animais silvestres (Rangel e Neiva, gência deste tema:
2013). Essa adaptação, cada vez mais
favorecida pela fragmentação, redução
a) Animal feral
e antropização de áreas naturais, nos Um animal é classificado como feral
coloca hoje diante de um problema quando se trata de um animal domés-
impreterível: a presença de cães den- tico que vive em um habitat selvagem,
tro de unidades de conservação. sem alimentos ou abrigo fornecidos por
50 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016
humanos, e que mostra certa resistên- do as águas jurisdicionais, com ca-
cia ao contato com pessoas (Boitani e racterísticas naturais relevantes,
Ciucci, 1995). legalmente instituído pelo Poder
Público, com objetivos de conserva-
b) Espécie exótica;
ção e limites definidos, sob regime
De acordo com a Convenção sobre especial de administração, ao qual se
Diversidade Biológica – CDB (2000), aplicam garantias adequadas de pro-
“espécie exótica” é toda espécie que se teção (MMA, 2011). As categorias
encontra fora de sua área de distribui- existentes de unidades de conserva-
ção natural. ção, encontram-se divididas em dois
c) Espécie exótica invasora grupos (Tabela 1).
(EEI) Uma vez criada uma unidade de
conservação, o próximo objetivo é
Adicionalmente, temos a forma
fazer com que esta contribua efeti-
agravante de uma espécie exótica,
vamente para a conservação da bio-
a “espécie exótica invasora” (EEI)
diversidade e do ecossistema como
que, por sua vez, é definida como
um todo. A invasão por espécies
sendo aquela que, após seu estabele-
exóticas é considerada a primeira
cimento no novo ambiente, ameaça
causa de perda de biodiversidade
ecossistemas, habitats ou espécies
em unidades de conservação (Leão
nativas. As EEIs, dotadas de vanta-
et al., 2011). Segundo a Convenção
gens competitivas e favorecidas pela
ausência de inimigos naturais, têm Nacional da Biodiversidade, que
capacidade de se proliferar e invadir dispõe em seu Art. 8º (alínea h) re-
ecossistemas, sejam eles naturais ou ferente a conservação in situ, cada
antropizados. país deve, na medida do possível e
conforme o caso, impedir que se
d) Unidade de Conservação introduzam, controlar ou erradicar
(UC) espécies exóticas que ameacem os
As áreas públicas protegidas no ecossistemas, hábitats ou espécies
Brasil em unidades de conservação (MMA, 2009). Dessa forma, é inad-
somam 150 milhões de hectares missível que não haja enfrentamen-
(Figura 1). to do problema diante da ameaça
Segundo a Lei Nº 9.985, de 18 real à conservação da biodiversidade
de julho de 2000, da Presidência da e ao equilíbrio dos ecossistemas dos
República, entende-se por unidade quais provêm os recursos naturais
de conservação o espaço territorial dos quais necessitamos e usufruí-
e seus recursos ambientais, incluin- mos diariamente.
5. Precisamos falar sobre cães em Unidades de Conservação 51
Figura 1 - As áreas públicas protegidas no Brasil em unidades de conservação
Fonte: IBGE. http://mapas.ibge.gov.br/tematicos/unidades-de-conservacao.html.

Tabela 1 - Categorias de Unidades de Conservação


Unidades de Proteção Integral Unidades de Uso Sustentável
I - Estação Ecológica I - Área de Proteção Ambiental
II - Reserva Biológica II - Área de Relevante Interesse Ecológico
III - Parque Nacional III - Floresta Nacional
IV - Monumento Natural IV - Reserva Extrativista
V - Reserva de Fauna
V - Refúgio de Vida Silvestre VI - Reserva de Desenvolvimento Sustentável
VII - Reserva Particular do Patrimônio Natural

Fonte: SNUC – Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (MMA, 2011).

52 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016


1.1. O cão como Dentre os principais ancestrais, desenvol-
Espécie Exótica agravos decorrentes da vendo habilidades
Invasora em áreas presença de cães e da de caça, predando de
de conservação interação destes com forma generalista e
Dentre os principais as espécies nativas em oportunista. (Lessa et
agravos decorrentes da unidades de conservação al., 2016, Paschoal et
presença de cães e da encontram-se: al., 2016). A predação
interação destes com 1) a competição por em si, que constitui o
as espécies nativas em território; abate seguido do con-
unidades de conserva- 2) a predação; e sumo da presa, nem
ção encontram-se: 1) a 3) a transmissão de agentes sempre é consolida-
competição por territó- potencialmente patogênicos do e os cães podem
rio; 2) a predação e; 3) a matar, perseguir e
transmissão de agentes potencialmente perturbar por pura diversão. Eles podem
patogênicos (Lessa et al., 2016). A com- ainda hibridar com espécies de canídeos
petição por território se dá principal- selvagens, e atuar como competidores
mente com outros carnívoros silvestres de vários predadores nativos (Brickner
e estudos já apontam uma relação inver- 2003, Campos et al. 2007, Oliveira et
samente proporcional entre a presença al. 2008, Hughes e Macdonald 2013)
de cães e a ocorrência de espécies nativas (Figura 2).
em unidades de
conservação, prin-
cipalmente aquelas
com menor área e
que encontram-se
mais vulneráveis às
invasões (Paschoal
et al., 2016). Cães
em áreas naturais,
estejam eles sozi-
nhos, acompanha-
dos de pessoas ou
na conformação de
matilhas, são esti- Figura 2. Na Austrália o “dingo” (Canis lupus dingo) é uma praga; uma subs-
mulados pelo am- pécie que produz híbridos com o cão doméstico feral (Canis lupus familiaris).
biente e reagem de Fonte: Wild dog, dingo-dog hybrids (feral or wild). http://agriculture.vic.gov.au/ agriculture/
pests-diseases-and-weeds/pest-animals/a-z-of-pest-animals/wild-dog-dingo-dog-hybrids-feral-
forma similar a seus -or-wild. Acessado em 06/12/2016.
5. Precisamos falar sobre cães em Unidades de Conservação 53
Lessa e colaboradores (2016) con- terrestres como gambás, lobos-guará e
duziram um estudo no Brasil no qual dos tamanduás-mirins. No Parque Nacional
31 parques nacionais que responderam Marinho de Fernando de Noronha, é fre-
ao questionário enviado, 28 (90%) re- quente a predação de desovas frescas de
lataram a presença de cães entre as suas Chelonia mydas, a tartaruga-verde, espé-
fronteiras e em 26 deles (84%) obser- cie ameaçada de extinção e cuja popula-
vou-se a interação entre cães e fauna na- ção encontra-se em declínio (Leão et al.,
tiva. Adicionalmente, 2011; Seminoff, 2016).
estimaram que um em Na região Nordeste, a Esses constituem ape-
cada três parques na- predação do cão não se nas alguns exemplos
cionais do Brasil tem limita apenas a mamíferos das consequências que
a caça como principal terrestres como gambás, a presença de cães em
porta de entrada de lobos-guará e tamanduás- unidades de conser-
cães em unidades de mirins. No Parque vação podem trazer
conservação e 11 par- Nacional Marinho de para a preservação da
ques (40%) tem seus Fernando de Noronha, é fauna nativa (Galetti e
residentes do interior e frequente a predação de Sazima, 2006; Marini
entorno como princi- desovas frescas de Chelonia e Filho, 2006; Campos
pais responsáveis pela mydas, a tartaruga-verde, et al., 2007; Oliveira
presença de cães nas espécie ameaçada de et al., 2008; Rangel e
unidades. extinção e cuja população Neiva, 2013; Lessa et
Os impactos já têm encontra-se em declínio. al., 2016; Paschoal et
sido observados em di- al., 2016).
versas áreas protegidas Segundo o Art. 31
do país. Campos, Tossulino e Müller da Lei N 9.985 de 2000, é proibida a
o

(2006), relataram como a presença de introdução nas unidades de conser-


cães domésticos no Parque Nacional vação de espécies não autóctones, ou
de Brasília tem diminuído a área efeti- seja, espécie ou táxon inferior e híbrido
vamente protegida para duas espécies interespecífico introduzido fora de sua
ameaçadas de extinção: o lobo-guará, área de distribuição natural, passada ou
Chrysocyon brachyurus, e o tamanduá- presente, incluindo indivíduos em qual-
-bandeira, Myrmecophaga tridactyla, quer fase de desenvolvimento ou par-
evidenciando que a ocorrência dessas te destes que possa levar à reprodução
espécies foi maior em áreas internas, (MMA, 2011). Entretanto, vale ressal-
onde os cães não estavam presentes. tar que temos dois tipos de introduções
Na região Nordeste, a predação do previstas em lei, que são configuradas
cão não se limita apenas a mamíferos entre intencionais e não intencionais. A
54 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016
primeira constitui o movimento ou libe- “Artigo 16 - Os animais domésti-
ração deliberada de uma espécie exótica cos, domesticados ou amansados,
fora da sua distribuição natural por ação sejam aborígines ou alienígenas,
humana e a segunda todas as outras for- não poderão ser admitidos nos
mas de introdução por ação humana Parques Nacionais.
que não as intencionais (MMA, 2009).
Ora, em um país composto por um Parágrafo Único - Em caso de
grande mosaico cultural e configurações necessidade, poderá ser au-
socioeconômicas, certamente temos os torizada, pela Presidência
dois tipos de introduções ocorrendo de- do Instituto Brasileira de
liberadamente em nosso território. Desenvolvimento Florestal –
IBDF, ouvido o Departamento
2. Métodos de controle de Parques Nacionais e
das EEIs em áreas de Reservas Equivalentes, a intro-
dução e permanência de ani-
conservação mais domésticos destinados ao
A legislação brasileira proíbe a caça, serviço dos Parques Nacionais,
sem distinção entre espécie nativa ou observadas as determinações
exótica, mesmo nos casos de espécies do respectivo Plana de Manejo.
invasoras(BRASIL, 1967). Segundo
Decreto Federal Nº 84.017, de 21 de Artigo 17 - Os exemplares de espé-
setembro de 1979,, contudo, o Art. 17 cies alienígenas, serão removidos
menciona que: “os exemplares de espé- ou eliminados com aplicação de
cies alienígenas (exóticas) serão remo- métodos que minimizem pertur-
vidos ou eliminados com aplicação de bações no ecossistema e preser-
métodos que minimizem perturbações vem a primitivismo das áreas,
ao ecossistema e preservem o primiti- sob a responsabilidade de pessoal
qualificado.
vismo das áreas, sob a responsabilidade
de pessoal qualificado”. Além disso: “se Parágrafo Único - Se a espécie já
a espécie já estiver integrada no ecossis- estiver integrada no ecossiste-
tema, nele vivendo como naturalizada e ma, nele vivendo como natura-
se, para sua erradicação, for necessário lizada e se, para sua erradica-
o emprego de métodos excessivamente ção, for necessário o emprego de
perturbadores do ambiente, permitir- métodos excessivamente pertur-
-se-á sua evolução normal”. Portanto, o badores do ambiente, permitir-
artigo expõe que, mesmo nos casos de -se-á sua evolução normal.”
dano à fauna nativa, em que a espécie
Decreto Federal Nº 84.017, de 21 de setembro de 1979
invasora promove desequilíbrio aos ha-
5. Precisamos falar sobre cães em Unidades de Conservação 55
bitantes autóctones, essa não deve ser detecção precoce e sistema rápido
eliminada se os métodos de erradicação de resposta para maximizar as oportuni-
forem excessivamente perturbadores dades potenciais de erradicação;
(BRASIL, 1979). aplicar medidas de contenção quan-
Há vários métodos de erradicação do a erradicação não é mais viável, mas a
que recaem sob duas atividades: remo- invasão é restrita;
ção ou redução total da natalidade até realizar trabalhos de controle per-
levar à erradicação. Os métodos podem manente, se a prevenção e a detecção
ser combinados numa estratégia mais precoce não forem mais viáveis, quer
abrangente. A remoção tem algumas porque as espécies invasivas já estão
dificuldades como: captura, transporte amplamente distribuídas, quer porque
e alimentação, procedimentos de esteri- novos espécimes continuam a entrar na
lização sustentáveis, associados aos dife- área e não podem ser dissuadidos (por
rentes destinos dos animais (eutanásia, exemplo, cães que vivem em casas ao re-
centro de pesquisa, criadouro, repatria- dor de parques). No caso dos cães em
ção). Deve haver um trabalho de cons- áreas protegidas, as medidas de controle
cientização dos moradores do entorno utilizando técnicas de manejo integrado
das UCs de modo a enriquecer o conhe- tendem a ser urgentes para evitar danos
cimento sobre a flora e fauna local, bem às populações de espécies nativas.
como demonstrar atitudes que possam Independente das diretrizes a serem
ser tomadas para minimizar o impac- empregadas em cada caso, é desejável
to nessas áreas protegidas (Campos, que, para cada animal mantido ou reti-
Tossulino e Müller, 2006). rado da área do entorno ou de dentro
Lessa e colaboradores (2016) sa- da unidade de conservação, sejam re-
lientam que a escolha entre a erradica- alizados diagnósticos sanitário-epide-
ção de cães ou controle populacional miológicos. A promoção da vigilância
com mitigação dos impactos deve levar epidemiológica da unidade de conser-
em conta o escopo da invasão em cada vação em questão e de seu entorno, nos
área protegida. Dessa forma, acredita-se proporcionará um maior conhecimento
que cada contexto demandará medidas sobre os principais agentes, zoonóticos
diferentes. Entretanto, algumas frentes ou não, que circulam no meio e nos pos-
de ação podem ser tomadas visando sibilitará planejar intervenções in situ
conter mais rapidamente os danos cau- quando necessárias.
sados pela presença de cães em áreas Outros países têm controlado espé-
protegidas, tais como: cies exóticas invasoras de forma mais
determinação dos padrões de inva- agressiva e direta. Na Ilha da Ascensão,
são das espécies; possessão britânica no Atlântico, onde
56 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016
felinos predavam centenas de milhares Galápagos (Barnett e Rudd, 1983). A
de aves marinhas por ano, as espécies só maior parte das ilhas é parte de um par-
voltaram a prosperar na Ilha após a eli- que nacional, e são realizados projetos
minação de dois mil gatos por meio de para erradicar cães, gatos, porcos, cabras
iscas envenenadas (Mansur, 2013). Na e outras espécies exóticas.
Nova Zelândia, o governo desenvolve
alguns projetos para salvar espécies na- 3. Teoria versus prática:
tivas, como o kiwi (Apteryx spp.), ave por quê é tão difícil
símbolo do país e que tem entre seus reduzir ou eliminar
predadores cães e gatos sem proprietá- cães das unidades de
rios ou selvagens. Usando iscas enve-
nenadas, as autoridades locais conse-
conservação no Brasil?
guiram criar pequenas ilhas livres dos Por que outros países tratam os con-
invasores. Paralelamente, os biólogos flitos originados por espécies exóticas
estão criando áreas cercadas para rein- invasoras de forma mais simplista e dire-
troduzir a fauna nativa (Mansur, 2013). ta do que nós? Seriam os cães domésti-
Na Austrália, o controle de raposas cos menos valorizados na cultura desses
e gatos, que já extin- países? Por que prefe-
guiram várias espécies Na Nova Zelândia, o rimos fechar os olhos
nativas, é feito com o governo desenvolve alguns para a extinção de vá-
lançamento de iscas projetos para salvar rias espécies e para o
envenenadas de heli- espécies nativas, como o desequilíbrio ambien-
cóptero em áreas crí- kiwi (Apteryx spp.), ave tal em detrimento de
ticas de conservação. símbolo do país e que tem uma única espécie?
Nas ilhas australianas entre seus predadores cães Será nosso envolvi-
de Maquarie e Marion, e gatos sem proprietários mento emocional o
o extermínio dos ga- ou selvagens. Usando principal tabu que nos
tos na década de dois iscas envenenadas, impede de trabalhar
mil resultou na recu- as autoridades locais tais conflitos de forma
peração da popula- conseguiram criar mais incisiva no Brasil?
ção de aves marinhas pequenas ilhas livres dos Por quê não nos con-
(Mansur, 2013). invasores. trapormos aos demais
A predação por métodos de controle
cães e gatos ferais tem populacional existen-
sido considerada a principal causa de tes de fauna sinantrópica? Será por des-
redução das populações de iguanas conhecimento ou por conveniência?
marinhas (Amblyrhynchus cristatus) de Qual o tamanho da nossa omissão? Não

5. Precisamos falar sobre cães em Unidades de Conservação 57


podemos nos esquecer que nosso com- de conservação, sobretudo, ações rela-
promisso ético se estende não apenas cionadas à guarda responsável de cães e
aos animais domeśticos, mas da mesma gatos, ao bem estar animal e, de forma
forma aos animais silvestres e ao am- imprescindível, à conservação da biodi-
biente. Enquanto trabalhamos simul- versidade. Promover programas de ma-
taneamente para a conscientização e a nejo adequado do lixo, a fim de evitar a
mudança de postura das pessoas acerca aproximação e o alcance desse material
da posse responsável em médio-longo pelos cães e animais silvestres é, igual-
prazo, precisamos abrir nossa mente e mente, desejável. Outros países obtive-
entender que situações emergenciais ram sucesso na erradicação das espécies
talvez demandem medidas emergen- exóticas invasoras e conseguiram re-
ciais em um primeiro momento, para cuperar parte da fauna nativa. Baseado
que posteriormente consigamos atingir nessas experiências, a erradicação de-
um equilíbrio. veria ser considerada em nosso país
uma alternativa, concomitantemente às
4. Considerações Finais ações de esterilização e guarda respon-
Considerando que em razão da sável, visto que a imprudência do ho-
complexidade dessa temática, a presen- mem resultou na reprodução significa-
ça de cães em unidades de conservação tiva de cães, em detrimento da ameaça
requer uma agenda bastante ampla e que representam à extinção de diversas
de execução ininterrupta, com ações espécies nativas no país.
intersetoriais, interinstitucionais e mul-
tidisciplinares. As ações de prevenção,
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58 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016


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5. Precisamos falar sobre cães em Unidades de Conservação 59


6. Acumuladores de animais
pixabay.com

Glendalesse Nunes Rocha de Faria Teixeira - CRMV-MG 15075


1

Joana Angélica Macêdo Costa Silva2 - CRMV-MG 15124


Danielle Ferreira de Magalhães Soares3 - CRMV-MG 7296

1
Residente em Saúde Pública UFMG
2
Residente em Saúde Pública UFMG
3
Docente Escola de Veterinária da UFMG

Introdução riscos de transmissão de zoonoses e a


ocorrência de outros agravos (Instituto
Desde os primórdios da humanida-
Pasteur, 2000).
de o homem interage com os animais,
Frequentemente animais são aban-
o que resulta em uma relação benéfica
para as espécies. No entanto, a superpo- donados nas ruas das cidades, logo mui-
pulação de cães e gatos tem se tornado tas pessoas se disponibilizam a adotá-
um problema grave de saúde pública e -los ou encaminhá-los para abrigos,
de bem-estar animal. A guarda respon- movidos por sentimentos de paixão ou
sável é indispensável para a garantia das compaixão. Esses locais deveriam ser
condições de saúde dos animais e da bem estruturados e capazes de propor-
população em geral, além de reduzir os cionar segurança e garantir o bem-estar.
60 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016
Porém em muitos casos Transtorno da de Noé (Bottinelli,
ocorre a permanência, acumulação (TA) 2012) é outra forma de
principalmente de cães e é o termo utilizado apresentação do trans-
gatos, em ambientes ina- para definir uma torno da acumulação.
dequados e superpopu- psicopatologia humana, Comumente conhecida
losos, gerando um grave caracterizada pela como Animal Hoarding,
problema de saúde pú- aquisição compulsiva e a síndrome é pouco des-
blica e dos animais que acumulação de objetos crita na literatura, em-
são confinados (Filho et desnecessários, algumas bora seja uma desordem
al., 2013). vezes insalubres ou mental comum. Frost et
Transtorno da acu- perigosos e a resistência al. (2000) apontam que
mulação (TA) é o ter- em desfazer-se dos os animais podem estar
mo utilizado para defi- mesmos. envolvidos em um terço
nir uma psicopatologia dos casos de acumulado-
humana, caracterizada res compulsivos.
pela aquisição compulsiva e acumula- Segundo o DSM-5 a Síndrome de
ção de objetos desnecessários, algumas Noé é definida como a acumulação de
vezes insalubres ou perigosos e a re- muitos animais e a incapacidade em
sistência em desfazer-se dos mesmos. proporcionar padrões mínimos de nu-
Foi incluída recentemente no Manual trição, saneamento, cuidados veteriná-
Diagnóstico e Estatístico rios, e em agir sobre a
de Transtornos Mentais ...a Síndrome de condição deteriorante
– DSM-5 da American Noé é definida como dos animais (incluin-
Psychiatric Association a acumulação de do doenças, fome ou
(APA) de 2013. Entre muitos animais e morte) e do ambiente
outros transtornos nor- a incapacidade em (superpopulação, con-
malmente associados à proporcionar padrões dições insalubres). Foi
acumulação compulsiva mínimos de nutrição, descrita pela primeira
está a esquizofrenia, o saneamento, cuidados vez em 1981 por Worth
autismo e a Síndrome veterinários, e em e Beck.
de Diógenes (Schmidt et agir sobre a condição Estima-se que, nos
al., 2014). deteriorante dos Estados Unidos, esse
animais (incluindo transtorno afeta direta
Síndrome de doenças, fome ou e indiretamente três mil
Noé morte) e do ambiente pessoas por ano, devas-
A acumulação de (superpopulação, tando muitas famílias
animais ou Síndrome condições insalubres). e relacionamentos, co-
6. Acumuladores de animais 61
locando em risco a saúde de crianças e buscando localizar e traçar o perfil dos
adultos dependentes, além de prejudicar acumuladores e desenvolver planos de
centenas de milhares de animais por ano ação (Filho, 2013).
(Frost et al., 2000; HARC – Hoarding of
Animals Research Consortium, 2002; Perfil do acumulador de
Berry et al., 2005; Patronek et al., 2006). animais
Nos Estados Unidos, a legislação Alguns pesquisadores registram que
de Illinois e do Hawaii determina os li- os primeiros sinais compulsivos em acu-
mites legais da acumulação de animais, mular animais são identificados a partir
considerando a coleção sem condições da meia idade (Patronek, 1999; HARC,
nutricionais e higiênico-sanitárias, 2002). Um estudo publicado em 2002
abrigo adequado, cuidados veterinários pelo HARC, analisando 71 casos de
e tratamentos como ilegal. Outros esta- acumuladores de animais relatados em
dos têm legislação sendo proposta e dis- estados americanos, descreveu o perfil
cutida, como New Jersey e Michigan. Os desses indivíduos. São idosos, vivendo
aspectos legais da acumulação de ani- em condições de higiene precárias e de
mais foram analisados subnutrição. Relatos de
em uma visão geral, sua Um estudo publicado maus-tratos e negligên-
relação à condição psico- em 2002 pelo HARC, cia pelos familiares esta-
lógica dos acumuladores analisando 71 casos vam relacionados em al-
e as leis que combatem a de acumuladores de gumas situações. Foram
acumulação de animais. animais relatados em encontrados, em média,
A autora sugere que as estados americanos, 90 animais vivendo con-
leis nos Estados Unidos descreveu o perfil desses finados em cada residên-
não promovem a pre- indivíduos. São idosos, cia. Observou-se que o
venção da acumulação e vivendo em condições isolamento social nem
proteção dos animais e de higiene precárias e de sempre representava
que legislação específica subnutrição. uma consequência, mas
deve ser preparada. De poderia ser uma causa
acordo com a autora, a legislação deve importante do transtorno de acúmulo.
prever leis próprias, exigir a avaliação Segundo Ryder (1998), essa situa-
psicológica e proibir a posse futura de ção pode ser considerada um ato de
animais por acumuladores reincidentes crueldade não intencional realizado por
(Hayes, 2010). indivíduos acometidos pelos distúrbios
No Brasil, o registro de dados sobre psicológicos e/ou sofrimento mental ou
a situação atual é escasso. Estudos estão uma condição de pobreza do acumula-
sendo iniciados em alguns municípios, dor. Baseado no estudo de Steketee et
62 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016
al., (2011) no qual foram avaliados 16 so crônico caracterizado por exagero na
indivíduos que apresentavam transtor- necessidade de controle, associado a um
no de acumulação de animais, encon- forte fator sentimental entre aquele ani-
trou-se históricos de: traumas durante mal ou objeto (Frost et al., 2011).
a infância e/ou fase adulta; ausência ou Assim como os acumuladores de
negligência dos pais; dificuldade em objetos, indivíduos com Síndrome de
manter relacionamentos. Eles creem Noé apresentam um apego excessivo
que, ao resgatar esses animais, estão ga- com seus animais, sentindo-se impedi-
rantindo seu bem-estar, o que não seria dos de doá-los, até mesmo após a mor-
alcançado nas ruas. Entretanto, o núme- te. Não percebem os efeitos negativos
ro excessivo de animais em locais ina- que causam para si próprios e para eles
dequados evidencia a incapacidade em (Lima, 2011). O caso torna-se uma
garantir suas necessidades básicas para preocupação de saúde pública quando
sobrevivência (Fig. 1). o proprietário já não consegue mais
Observa-se que o motivo da aquisi- promover o bem-estar de seus animais
ção de um número excessivo de animais
(Mullen, 1991).
é a carência afetiva. O acumulador pos-
sui uma ligação emocional semelhante Medidas de proteção e
ao relacionamento entre humanos, ou é
capaz de valorizar essa relação até mais
defesa dos animais
do que a estabelecida com seus próprios Existem normativas legais que ga-
familiares (Collis e McNicholas, 1998). rantem a proteção dos direitos e bem-
Uma comparação entre o acumula- -estar dos animais (Koffler, 2015).
dor de animais e objetos inclui um cur- A primeira lei que estabeleceu nor-

Figura 1. Acumulação de gatos.


Fonte: A Complex Issue. © 2016 American Society for the Prevention of Cruelty to Animals. All rights reserved. http://www.aspca.
org/animal-cruelty/animal-hoarding.

6. Acumuladores de animais 63
mas de proteção animal no Brasil, em Ações públicas e dos
1934 (Dias, 2008 e World Animal profissionais de saúde
Protection), foi o Decreto 24.645, que
garantia a tutela de todos os animais A questão dos acumuladores de ani-
mais tornou-se um desafio para a gestão
pelo Estado (Brasil, 1934).
pública e para os profissionais da saúde.
Em 1978 a UNESCO (Organização
Esse tema, ainda pouco abordado no
das Nações Unidas para a Educação, a
Brasil, mas bem discutido em diver-
Ciência e a Cultura) lavrou a Declaração
sos países, vem tendo destaque dentro
Universal dos Direitos dos Animais, em da Medicina Veterinária do Coletivo
Bruxelas, na Bélgica, documento que (Secretaria Especial
destaca que os animais de Direitos Animais –
têm direitos que devem No início de 2016 SEDA, 2016).
ser garantidos pelos o estado de Minas Em 1997, foi cria-
homens (Schnaider e Gerais publicou a Lei do nos Estados Unidos
Souza, 2003). n° 21.970, reforçando o HARC (Hoarding
O crime de maus- a importância da of Animals Research
-tratos é legitimado pela
guarda responsável de Consortium), um grupo
cães e gatos e o caráter de estudo interdiscipli-
Constituição Federal
criminoso do abuso nar para abordar essa
Brasileira de 1988 e tam-
ou maus-tratos contra questão. Esse grupo foi
bém pelo Art.32, da Lei
os animais (Minas formado com o intuito
Federal nº 9.605 de 1998 Gerais, 2016a). E
(Brasil, 1998). de analisar, esclarecer as
mais recentemente foi origens e propor solu-
No início de 2016 o aprovado no estado
estado de Minas Gerais ções para o problema da
a Lei n° 22.231 que acumulação de animais,
publicou a Lei n° 21.970, passa a punir com aumentar a conscienti-
reforçando a importân- multa de até R$ 3 mil zação entre saúde men-
cia da guarda responsá- quem comete maus- tal, processo ambiental
vel de cães e gatos e o ca- tratos contra os animais e bem-estar animal e
ráter criminoso do abuso (Minas Gerais, 2016b). humano (Filho, 2013;
ou maus-tratos contra os Trindade, 2014).
animais (Minas Gerais, 2016a). E mais Após anos de acompanhamento de
recentemente foi aprovado no estado casos, o HARC concluiu que devido
a Lei n° 22.231 que passa a punir com à complexidade do assunto e indivi-
multa de até R$ 3 mil quem comete dualidade de cada caso, a abordagem
maus-tratos contra os animais (Minas multidisciplinar é essencial para o tra-
Gerais, 2016b). tamento, o que inclui a participação dos
64 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016
Médicos Veterinários, da educação em saúde
Em Porto Alegre-RS
assim como dos órgãos atuando também na
foram registrados 75
de proteção e de contro- prevenção e controle de
casos graves em 2015,
le animal, para elabora- riscos ambientais pro-
com denúncias no
ção de planos de inter- Ministério Público vocados pelo homem
venção (HARC, 2016). (MP). (Conselho Federal de
Nesta tendência de Medicina Veterinária,
envolvimento multipro- 2013).
fissional, é necessário definir competên- Em Porto Alegre-RS foram regis-
cias para cada órgão relacionado, como trados 75 casos graves de acumulado-
o Poder Público, as Secretarias de Saúde res de animais em 2015, com denúncias
e de Assistência Social. Trata-se de um no Ministério Público (MP). Um es-
problema de saúde pública e animal que tudo realizado pelo Programa de Pós-
na maioria das vezes ocorre devido a Graduação da Faculdade de Psicologia
distúrbios psicológicos. As residências da Pontifícia Universidade Católica
dos acumuladores de animais geral- do Rio Grande do Sul (PUCRS),
mente são focos potenciais de zoonoses pelo Grupo de Pesquisa, Avaliação,
e endemias transmitidas por vetores, Reabilitação e Interação Humano-
além de servir de abrigo para roedores Animal (Ariha), pretende caracterizar
e animais peçonhentos, o que refle- o perfil psicopatológico, cognitivo e
te em problemas para a comunidade. comportamental desses 75 indivíduos.
Nesse contexto os profissionais da área Esses recebem visitas pelos profis-
da saúde, principalmente os Médicos sionais de psicologia para realização
Veterinários, exercem um papel relevan- desse diagnóstico, acompanhados de
te, respaldado por conhecimentos técni- atendimento por Médicos Veterinários
cos com amparo legal e social (SEDA, da SEDA de Porto Alegre (Figura 2).
2016). Atualmente não existem conhecimen-
De acordo com a Portaria nº 2.488, tos aprofundados sobre prevenção e
de 21 de outubro de 2011, que aprova tratamento, além de falta de solução
a Política Nacional de Atenção Básica para o destino dos animais vítimas de
e confere a participação do Médico maus-tratos. Esse estudo viabilizará
Veterinário nos Núcleos de Apoio à intervenções futuras pela Prefeitura e
Saúde da Família  (NASF), uma das Ministério Público, podendo auxiliar
ações da profissão nos territórios aten- as pessoas por meio de tratamentos
didos pelo NASF é a de prevenção, adequados, além de resguardar a vida
controle e diagnóstico de riscos de do- dos animais com segurança e respaldo
enças transmissíveis por animais, além técnico e legal (Mello, 2015).
6. Acumuladores de animais 65
Figura 2. Acumuladores de cães. Fonte: Foto de Luciano Pandolfo Cardoso/Seda. Pesquisa inédita
mapeia acumuladores de animais em Porto Alegre. Por: Bianca Garrido. http://www.pucrs.br/blog/
pesquisa-inedita-mapeia-acumuladores-de-animais-em-porto-alegre/.

Atualmente a Secretaria Municipal público fiscalizador adverte e notifica o


de Saúde de Belo Horizonte (SMSA/ responsável pelo imóvel, solicitando a
BH), está se mobilizan- limpeza do local e reso-
do e discutindo solu- lução do problema, caso
ções para esses casos,
Atualmente a Secretaria contrário estará sujeito à
Municipal de Saúde
em parceria com outros multa e outras penalida-
de Belo Horizonte
órgãos e setores envolvi- des. A operação de lim-
(SMSA/BH), está
dos, a fim de estabelecer peza compulsória pode
se mobilizando e
procedimentos padro- discutindo soluções para ser realizada apenas me-
nizados de conduta nos esses casos, em parceria diante mandado judicial.
casos dos acumuladores. com outros órgãos e No caso dos animais,
A forma que a situação é setores envolvidos, estes são conduzidos
conduzida hoje, não só a fim de estabelecer a abrigos temporários
em Belo Horizonte, visa procedimentos quando há inviabilidade
uma resolução imedia- padronizados de da permanência no local
ta desse problema, após conduta nos casos dos (Comunicação pessoal).
uma denúncia. O órgão acumuladores. A atuação dos ór-
66 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016
gãos públicos diante da Síndrome de de se tratar de uma questão pouco ex-
Noé deveria ser de caráter continuado, plorada, raramente resolvida e que pa-
mediante acompanhamento dos diver- rece crescer nos últimos anos (Gómez e
sos profissionais da saúde, inclusive o Prieto, 2009).
Médico Veterinário. Se o indivíduo não Com a inserção do Médico
receber tratamento adequado, após a Veterinário no NASF fica reconhecida
limpeza e retirada dos animais, ele ten- a importância da profissão no âmbito
de a retornar ao seu ambiente e reiniciar da saúde pública e reforça a necessida-
o processo de acumulação compulsiva de da intervenção nos problemas sani-
(Bottinelli, 2012). tários e ambientais, contribuindo com
a integralidade do cuidado aos usuários
Considerações finais do SUS (Conselho Federal de Medicina
A interconectividade entre a saúde Veterinária, 2013).
humana, dos demais seres vivos e do Os municípios enfrentam dificulda-
ambiente é bem estabelecida e reconhe- des ao lidar com a problemática dos ani-
cida dentro do conceito de Saúde Única, mais, especialmente quanto ao seu des-
sendo que a Medicina Veterinária é a tino. Para a abordagem da Síndrome de
profissão que exerce naturalmente uma Noé é necessário avançar em legislação
articulação central entre elas, e constitui específica e também garantir recursos fi-
uma conexão importante entre saúde nanceiros para viabilizar o cuidado dos
animal e saúde pública animais, uma vez que
(Brandão, 2015). A interconectividade venham a ser destinados
Atualmente, no meio entre a saúde humana, a abrigos, mantidos por
científico, as pesquisas dos demais seres representantes de defesa
referentes aos acumu- vivos e do ambiente animal, ONG ou outros.
ladores de animais têm é bem estabelecida e É evidente a necessi-
apresentado uma rele- reconhecida dentro dade do envolvimento
vância cada vez maior. do conceito de Saúde do Ministério Público e
Porém dados mais con- Única, sendo que a das Secretarias de Meio
cretos sobre a quantida- Medicina Veterinária é Ambiente nessas ques-
de de casos, distribuição a profissão que exerce tões. Pioneira em Porto
geográfica e correlações naturalmente uma Alegre, a SEDA consti-
sociais e econômicas, articulação central entre tuiu um avanço nas polí-
ainda estão muito escas- elas, e constitui uma ticas públicas destinadas
sos (Rocha et al., 2015), conexão importante aos animais domésticos.
reforçando a necessida- entre saúde animal e O reconhecimento dos
de de novos estudos, por saúde pública seus resultados positi-
6. Acumuladores de animais 67
vos tem estimulado outros municípios Porto Alegre. Artmed, 948p., 2013. Disponível
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6. Acumuladores de animais 69
7. Saúde única e atuação
do médico veterinário do
Núcleo de
Apoio a
Saúde da
Família
(NASF)
pixabay.com

Laiza Bonela Gomes1 - CRMV MG 14.858


Sara Clemente Paulino Ferreira e Silva2 - CRMV 15.145
Vania de Fatima Plaza Nunes3 - CRMV-SP 4119.
Virgínia Aguiar Sorice Lanzetta4 - CRMV MG 5766
1
Mestranda em Ciência Animal (UFMG)
2
Mestranda em Ciência Animal (UFMG)
3
Diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, Coordenadora de Medicina Veterinária do Coletivo do ITEC, presidente
da Comissão de Médicos Veterinários de ONGs do CRMV-SP)
4
Médica Veterinária do Centro de Controle de Zoonoses de Itaúna, Minas Gerais

O conceito de “One lhando em nível local,


Health” (em português: “O conceito de “One nacional ou global, com
Saúde Única) (Figura 1) Health” é definido o objetivo de se alcançar
pode ser definido como como a abordagem altos níveis de qualidade
a abordagem multidisci- multidisciplinar, á saúde humana, animal
plinar, incluindo áreas da incluindo áreas da e ambiental (American
medicina, da medicina medicina, da medicina Veterinary Medical
veterinária e de outras veterinária e de outras Association, 2016).
áreas da saúde, traba- áreas da saúde.” Apesar de ser um
70 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016
Objetivos de Saúde Única
Melhorar a saúde e bem estar pela
prevenção de riscos e a mitigação
dos efeitos de crises que surgem da
interação de humanos, animais e os
vários ambientes naturais.

Promover estratégias multi-setoriais


e colaborativas.

Promover a estratégia de “sociedade


integral” como mudança sistêmica
de perspectiva no manejo de riscos
à saúde.

Saúde Única é mais uma estratégia


do que um conceito novo. Torna-se
Figura 1. Saúde Única. http://www.onehealthglo- rapidamente um movimento interna-
bal.net/ cional de colaboração multi-setorial.

termo relativamente novo, defini- Pasteur, Robert Koch, e Rudolf Virchow


do a partir de esforços conjuntos da (Day, 2011) no desenvolvimento de
Associação Americana suas pesquisas.
de Medicina (American Diversas instituições
“ O objetivo de se
Medical Association – trabalhar com o internacionais, como a
AMA) e da Associação conceito de Saúde Organização Mundial
Americana de Medicina Única está concentrado de Saúde, o Centro para
Veterinária (American no desenvolvimento Controle e Prevenção
Veterinary Medical de capacidade e de Doenças dos Estados
Association – AVMA) infraestrutura para Unidos (Centers for
em 2007 (Conrad et al, prevenir e responder à Disease Control and
2009), a concepção de rápida expansão das Prevention – CDC), e a
que a saúde humana, zoonoses, através de Organização Mundial
animal e ambiental são pesquisas focadas não de Saúde Animal (World
interligadas (Figura 2) já somente na doença Organization for Animal
era considerado por ci- em si, mas também na Health - OIE), aderiram
vilizações antigas, como promoção da saúde essa metodologia de tra-
a egípcia, e médicos do individual, populacional balho em suas rotinas.
século 19, como Louis e de ecossistemas.” Existem ainda órgãos,
7. Saúde única e atuação do médico veterinário do Núcleo de Apoio a Saúde da Família (NASF) 71
como a Iniciativa mais de produção,
Saúde Única interesses econô-
(One Health micos, trânsito de
Iniciative), que animais, deficiên-
desenvolvem ati- cias normativas e
vidades e promo- fiscalizatórias, fa-
ção desse concei- lhas na formação
to (Day, 2010). educacional e na
De acordo participação dos
com Conrad segmentos sociais
et al. (2009), o nas politicas seto-
objetivo de se riais, entre muitos
trabalhar com Figura 2: Ligação entre a saúde humana, a saúde outros.
animal e saúde ambiental
o conceito de As zoonoses,
Fonte: Saúde Única – One Health (https://www.
Saúde Única está portaleducacao.com.br/veterinaria/artigos/58785/ doenças de ocor-
saude-unica-one-health)
concentrado no rência comum
desenvolvimento nos animais e nos
de capacidade e infraestrutura para pre- seres humanos, representam um dos
venir e responder à rápida expansão das principais riscos à saúde humana, sendo
zoonoses, através de pesquisas focadas que aproximadamente 60% das doenças
não somente na doença em si, mas tam- infecciosas e 70% das doenças infeccio-
bém na promoção da saúde individual, sas emergentes nos seres humanos são
populacional e de ecossistemas. Assim o de origem animal (Fig. 3) (One Health
risco de impactos globais de pandemias Initiative, 2016; Taylor et al., 2001;
e epidemias devido a doenças infeccio- Torrey e Yolken, 2005; Organização
sas emergentes seria reduzido. Mundial de Saúde, 2016). Nesse con-
A sociedade mundial globalizada texto, o uso de uma abordagem multi-
na atualidade traz muitos desafios por disciplinar, como sugerida pela Saúde
fatores complexos que agem diretamen- Única, é fundamental para prevenir e
te na ocorrência ou no risco de muitas controlar situações de risco.
enfermidades espécie-especificas, e em De acordo com Mazet et al. (2009),
especial as de caráter zoonótico, como o essa nova abordagem, ao integrar po-
descontrole dos recursos naturais como líticas de intervenção que considerem
a água, a ocupação desordenada do solo, simultaneamente os fatores causadores
uso de agentes poluentes, produtos quí- da saúde de má qualidade, trará benefí-
micos, agrotóxicos, as monoculturas, os cios e resultados maiores do que as po-
sistemas intensivos de criação de ani- líticas que trabalham com esses fatores
72 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016
Figura 3. As infecções emergentes e reemergentes são em 70% dos casos zoonoses transmitidas por
vetores artrópodes ou outros.
Fonte: One Health Initiative, http://www.onehealthinitiative.com/index.php. Acessado em 10/12/2016.

individualmente. No entanto, apesar primeiras escolas em 1913 e 1914,


de ser crescente o número de pesqui- no Rio de Janeiro (CFMV, 2016),
sas e publicações sobre o tema, existe a a profissão vem ganhando destaque
necessidade de pesquisas colaborativas em diversos setores da sociedade,
que favoreçam a interdisciplinaridade devido a sua ampla gama de atuação,
(Manlove et al., 2016). Dentro deste que vai desde a clínica médica com
contexto, é importante ressaltar a inser- a prevenção e cura das afecções de
ção do médico veterinário como profis- diversas espécies de animais, higie-
sional da Saúde Pública/ Coletiva para ne e inspeção de produtos de ori-
se compreender melhor sua amplitude gem animal, defesa sanitária animal,
de atuação dentro do conceito de Saúde saúde pública, ensino, pesquisa e
Única. extensão, até a conservação, recupe-
Desde a implantação da Medicina ração e preservação ambiental e eco-
Veterinária no Brasil, com as duas lógica. Pode-se considerar uma das
7. Saúde única e atuação do médico veterinário do Núcleo de Apoio a Saúde da Família (NASF) 73
profissões mais importantes para a Apesar da associação dos animais
promoção, prevenção e assistência com a espécie humana ter começado
à saúde humana, animal e ambiental em períodos pré-históricos, o desen-
(Fig. 4) (Menezes, 2005). volvimento da Medicina Veterinária
De acordo com Osburn et al. “científica” é considerado recente. O
(2009), diversas situações atuais re- interesse inicial foi determinado mais
querem atenção do médico veteriná- por razões econômicas do que por mo-
rio, como o risco de disseminação e tivos humanitários, associadas com
transmissão de doenças, a movimen- a importância da criação doméstica
tação de pessoas, animais e produtos como fonte de alimentos e como ani-
agrícolas, o que facilita a dispersão e mais de trabalho (Thrusfield, 2004).
o contato com patógenos; as mudan- O papel do medico veterinário na
ças climáticas, que podem favorecer sociedade moderna e contemporânea
doenças transmitidas por vetores; e a tem se ampliado em especial após a
destruição de habitats, aproximando segunda guerra mundial. As neces-
animais silvestres de seres humanos e sidades ligadas a sanidade animal e a
animais domésticos. produção de alimentos, o crescimen-
to expressivo das po-
pulações de animais de
estimação e da forma de
viver humana, tem con-
duzido a transformações
profundas no papel des-
te profissional dentro do
contexto da saúde animal,
humana e ambiental em
especial nas ultimas cinco
décadas (Pfuetzenreiter e
Zylbersztajn, 2004). De
acordo com os autores, a
formação em saúde pú-
blica veterinária é única
dentre os profissionais
da Saúde, por reunir co-
Figura 4: Saúde Única nhecimentos biomédi-
Fonte: CFMV - http://portal.cfmv.gov.br/portal/site/pagina/index/artigo/86/
cos básicos de diferentes
secao/8 espécies, a natureza da
74 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 83 - dezembro de 2016
profissão que aborda a A inclusão dos
“ A Educação em
ação em espaços múlti-
Saúde é uma atividade médicos veterinários
plos do campo a áreas dentro dessas equipes
importante que pode
densamente ocupadas multiprofissionais de
ser desenvolvida pelo
e urbanizadas, estando Médico Veterinário ação direta dentro de
portanto, o sanitarista e deve ser ressaltada comunidades pré-de-
veterinário com uma dentro do campo da terminadas e definidas
função única dentro da saúde pública.” nos programas de gestão
equipe de saúde coletiva municipal das secreta-
(OMS, 1975; Boletim rias de Saúde, busca que
da Oficina Sanitarista Pan Americana, esse profissional atue dentro de sua
1992). competência específica em diferentes
A Educação em Saúde é uma ati- frentes. Dentre elas na avaliação de
vidade importante que pode ser de- fatores de risco à saúde relativos na in-
senvolvida pelo Médico Veterinário e teração entre os humanos, animais e o
deve ser ressaltada dentro do campo da meio ambiente. Deve promover através
saúde pública. Este profissional pode de ações, informações e da educação
atuar na difusão de informações e na uma série de conceitos e práticas que
conscientização das pessoas através buscam minimizar riscos tanto para os
de programas que envolvam a prote- humanos quanto para os animais den-
ção e promoção da saúde humana em tro de uma comunidade alvo das ações
comunidades dentro dos princípios da do programa.
sustentabilidade. O profissional médi- A participação em conjunto com
co-veterinário que possui sólidos fun- todos os demais integrantes da equi-
damentos nos conteúdos pertinentes pe no planejamento, monitoramento
à Medicina Veterinária Preventiva e e avaliação das ações desenvolvidas
Saúde Pública, além da habilidade para pelo programa em cada localidade,
trabalhar de forma interdisciplinar está reveste o médico veterinário da res-
apto para auxiliar as populações huma- ponsabilidade de agir em áreas como
nas a enfrentarem seus principais de- a epidemiologia das enfermidades, e
safios (Pfuetzenreiter e Zylbersztajn, das populações, nas diversas ações da
2004). vigilância sanitária e vigilância am-
A Portaria 2488 de 21 de outubro biental, buscando superar os desafios
de 2011 aprovou a Política Nacional de que envolvam a defesa do ambien-
Atenção Básica para o SUS, e incluiu a te para o bem-estar das população
Medicina Veterinária no NASF (Núcleo humana e dos animais, efetivando a
de Atenção á Saúde da família). Saúde Única.
7. Saúde única e atuação do médico veterinário do Núcleo de Apoio a Saúde da Família (NASF) 75
De acordo com a Comissão Nacional de Saúde Pública do Conselho
Federal de Medicina Veterinária CNSPV/CFMV recomenda um rol de ações
que podem ser desenvolvidas pelo médico veterinário nos territórios atendi-
dos pelo NASF:
• avaliação de fatores de risco à saúde, relativos à interação entre os humanos,
animais e o meio ambiente;
• prevenção, controle e diagnóstico situacional de riscos de doenças
transmissíveis;
• educação em saúde com foco na promoção da saúde e na prevenção e con-
trole de doenças de caráter antropozoonótico e demais riscos ambientais;
• ações educativas e de mobilização contínua da comunidade, relativas ao
controle das doenças/agravos na área de abrangência,
• uso e manejo adequado do território visando á relação saúde/ambiente;
• estudos e pesquisas em saúde pública que favoreçam a territorialidade e a
qualificação da atenção;
• orientações quanto a qualificação no manejo de resíduos;
• prevenção e controle de doenças veiculadas por alimentos;
• orientação nas respostas às emergências de saúde pública e eventos de
potencial risco sanitário nacional de forma articulada com os setores
responsáveis;
• identificação e orientações quanto a riscos de contaminação por substân-
cias tóxicas; ações conjuntas elaboradas e executadas de forma interdisci-
plinar do campo de atuação comum de todos os profissionais em apoio às
equipes de saúde cobertas pelo NASF

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