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Módulo 6
A civilizaÇão indusürial
- economia e sociedade;
nacionalismos e choques
imperialistas
1 , As transformaÇões económicas na Europa
e no Mundo
2, A sociedade industrial e urbana
3. Evolução democrática, nacionalismo
e imperialismo
4. Portuga!, uma sociedade capitalista
dependente
5. Or caminhos da cultura
ffi M6, n civilização industrial

Sistematizar conhecimentos
- economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas

1. As transformagões económicas na Europa e no Mundo

1.1. A expansão da Revotução lndustrial

Objectivo 1. Situar, no tempo e no espaço, a expansão da Revotucão lndustrial


A expansão da Revolução lndustrial, também designada por segunda revolução industrial,
aconteceu na segunda metade do século XlX, na Europa, nos EUA e no Japão. No entanto, é
necessário atender aos diferentes ritmos de industrializaçáo de cada região ou país.

Objectivo 2. Justificar a tigação entre a ciência e a técnica


A ciência e a técnica influenciaram-se mutuamente.
Por um lado, os conhecimentos teóricos (a ciência) permitiram a criação de novos inventos
(desenvolvimento técnico), pois as empresas criaram laboratórios e convidaram engenheiros
para trabalhar, em equipa, nas novas descobertas. Foi o caso das indústrias de corantes sinté-
ticos, que investiram grandes quantlas em pesquisa laboratorial e obtiveram lucros ainda maio-
res da aplicação prática das pesquisas.
Por outro lado, a indústria (técnica), ao criar produtos e máquinas cada vez mais complexos,
exigiu da ciência uma constante pesquisa (progresso científico).
Desta interacção entre a ciência e a técnica resultou uma série de inovaçÕes que se foram
acumulando (em quantidade) e sobrepondo (em qualidade)- (progressos cumulativos).

Objectivo 3. Caracterizar a segunda revotução industrial


Em sentido restrito, a segunda revolução industrial corresponde a um conjunto de transforma-
çÕes rápidas que beneficiaram o sector industrial, de que se destacam as novas fontes de ener-
gia (petróleo e electricidade), novos sectores de ponta (siderurgia, quÍmica) e novos inventos
(por exemplo, o motor de explosão e a lâmpada).
Num sentido mais amplo, a segunda revolução industrial ultrapassa os aspectos técnico e pro-
dutivo para abranger a expansão do capitalismo industrial com consequências ao nÍvel de toda
a vida em sociedade.

0bjectivo 4. Referir os principais progressos técnicos


Relembremos: o século XVlll (primeira revolução industrial) foi marcado pela revolução indus-
trial do Íerro, graças aos seguintes progressos:
1. A utilização do carvão de coque (obtido a partir de carvão mineral) como combustível.
2. O aperfeiçoamento dos Íoles.
3. A técnica da pudelagem (que permitia transformar o ferro de primeira fundição, não puriÍi-
cado, em ferro ou em aço).

Já a segunda metade do século XIX (segunda revolução industrial) é o período de afirmação


do aço:
1. Em 1856, Bessemer inventou um conversor que transformava o ferro em aÇo segundo um
processo muito mais rápido que o da pudelagem.
2. Em'1 867, o processo Siemens-Martin recuperava ferragens, permitindo produzir grandes
quantidades de aço.
3. Em 1878, o método de Thomas e Gilchrist permitia eliminar o Íosforo, aproveitando maiores
quantidades de minério.
72
1. As [ransformaÇÕes económicas na Eunopa e no Mundo ECH

A partir de 1880, o aÇo, mais moldável e resistente, substituio ferro na construção de máqui-
nas para a indústria, de meios e vias de transporte e na construção civil, conferindo à siderur-
gia o papel de sector de ponta da segunda revolução industrial.

Outro sector que registou um grande avanÇo foi o da indústria quÍmica:


1. Os corantes artificiais foram utilizados na indústria têxtil graças aos trabalhos de Perkin, em
1 856.

2. Criaram-se novos medicamentos, por exemplo, a aspirina, criada pela empresa Bayer, em
1 899.
3. Os insecticidas e os fertillzantes foram produtos de sucesso deste ramo da indústria.
4. O processo de vulcanização da borracha (Goodyear, 1884) deu origem à indústria de pneus
para automóveis e bicicletas.

Enquanto a primeira revolução industrial e indissociável da energia a vapor, alimentada pela


hulha (carvão mineral), a segunda revolução industrial introduziu novas fontes de energia que
produziram uma ruptura tecnológica: o petróleo e a electricidade.

A indústria petroquímica (relativa aos derivados do petróleo) beneficiou dos seguintes pro-
gressos técnicos:
1. 1859: exploração do primeiro poço de petróleo (Pensilvânia, EUA).
2. 1886: invenção do motor de explosão (por Daimler) que funcionava a petróleo.
3. 1897: invenção do motor movido a óleo pesado (gas oit1.

Na mesma época, a energia eléctrica foi aplicada a uma série de progressos técnicos que
deslumbraram os seus contemporâneos:
1. A lâmpada eléctrica (grande invento de Edison) substituiu a iluminação a gás nas ruas e
casas, com franca vantagem: ao contrário do sistema anterior, a lâmpada não libertava
calor, não sofria explosões nem intermitências e o consumo era de fácil contagem;
2. A electrrcidade, aplicada aos mais diversos maquinismos, revolucionou a vida do cidadão
comum. Surgiram, nomeadamente:
- o comboio eléctrico (criado por Siemens em 1879, embora continuassem plenamente acti-
vos os comboios a vapor);
.1876);
- o telefone (invenção de Bell, em
- o cinema (com origem no cinematógrafo de Lumiàre, em 1895);
- a radiofonia (fruto da aplicação da teoria das ondas hertzianas, em 1887);
- os metropolitanos e os carros eléctricos.
Nos transportes, registaram-se os seguintes progressos:
1. A aplicação da energia a vapor ao comboio (por Stephenson que, em 1830, inaugurou a
linha Liverpool-Manchester) e ao navio (a partir de 1860) ditou uma nova era nos transpor-
tes, facilitando a circulação das matérias-primas, dos produtos industriais e das pessoas.
2. A utilização do motor de explosão nos automoveis e aviões alterou, para sempre, as noçoes
de distância.
3. A bicicleta tornou-se, não só, um meio de transporte bem acolhido por todas as classes
sociais, mas também uma modalidade desportiva de grande êxito.

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H@ M6, A civilizaçâo industrial - economia e sociedadei nacionalismos e choques imperialistas

0bjectivo 5. Justificar a concentracão monopotista


A partir de cerca de 1870, a pequena oficina cede lugar à empresa concentrada, ou seja, a pro-
duçâo é realizada em grandes fábricas (concentração geográfica) que reúnem avultados capitais
por acçÕes (concentração Íinanceira), onde trabalham numerosos operários (concentração da
mão-de-obra) os quais vigiam numerosas máquinas (concentração tecnica). Este gigantismo
explica-se, por um lado, pela propria nalureza de alguns sectores económicos (como, por exem-
plo, o da siderurgia) que exigiam máquinas volumosas e um grande número de operários e, por
outro lado, por imperativos económicos que tornavam mais rentável a grande fábrica, abolindo,
assim, a concorrência das pequenas empresas através da criação de monopólios de produção
(por exemplo, a empresa alemã Krupp detinha um verdadeiro monopólio da produção de aço).
Em suma, a tentativa de criação de monopólios justifica-se pelo sistema económico do capi-
talismo industrial que caracterizou a segunda metade do século XlX.

0bjectivo ó. Distinguir concentrações verticais e horizontais


ConcentraçÕes verticais - consistem no controlo, por uma empresa, das várias etapas de
fabrico de um produto industrial (por exemplo, da exploração da borracha à sua transformaçâo
em pneus de automóvel e, por último, à comercialização do produto acabado). Controlando todo
o processo de produção, a empresa consegue diminuir o grau de imprevisibilidade do negocio
e obter as melhores condiçÕes financeiras em cada uma das fases de produção. Assim se for-
maram alguns dos monopólios do século XlX.
ConcentraçÕes horizontais - consistem no agrupamento de empresas de um mesmo ramo
(por exemplo, têxtil) que combinam, entre si, as condiçÕes de produção que consideram melho-
res, de maneira a vencer a concorrência (quer interna, por parte de empresas que não integram
essa concentração, quer externa, de outros países produtores).
Tambem os bancos se envolveram no processo de concentração: os bancos mais pequenos
foram sendo absorvidos pelos mars poderosos (por exemplo, os bancos da família Rockefeller)
os quais se expandiram em número de sucursais e em volume de operaçÕes financeiras.
Os bancos alimentaram a expansão industrial, oferecendo os seus serviços às operaçôes
comerciais e o crédito à indústria e, por sua vez, lucraram com o desenvolvimento industrial,
muitas das vezes investindo directamente em companhias industriais (eram, por isso, chamados
"bancos de negocios").

Objectivo 7. Expticar os métodos de racionatização do trabalho


O engenheiro Frederick Taylor expôs o método de transformar a produção num processo
racional, isto é, pensado de maneira a tornar-se o mais rentável possível. A racionaljzação, des-
crita na sua obra Princípios de Direcção Científica da Empresa, foi chamada taylorismo e assen-
tava nos seguintes procedimentos:
1. Dividir a produção de um objecto numa série de "movimentos essenciais que cada um dos
operários tem de executar".
2. Pré-deÍinir o tempo mínimo necessárlo para a realização de cada um desses gestos simples.
3. Produção de objectos todos iguais - estandardização.

Henry Ford aplicou o taylorismo à produção de automóveis, introduzindo a linha de montagem


nas suas fábricas para (nas palavras do próprio Ford) "levar o trabalho ao operário, em vez de
levar o operário ao trabalho". Desta maneira poupavam-se todos os gestos inúteis ou lentos, o
que resultou num extraordinário aumento da produtividade. Ainda de acordo com as ideias de
Taylor, Ford aumentou os salários dos seus operários, conseguindo com essa medida motivá-los
para o trabalho e até vender-lhes automóveis. A racionalização aplicada às Íábricas tomou o
nome de fordismo.
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1. As transformaÇÕes económicas na Eunopa e no Mundo rSTH

Embora efrcaz do ponto de vista do patrão, o fordismo for considerado desumano para os ope-
rários: o capitalismo industrial transformou o antigo artesão, orgulhoso do seu trabalho criativo,
que desenvolvia do início ao Íim, num proletário, elemento substituível de uma cadeia de mon-
tagem que, de seu, apenas tinha um salário e a sua prole (os seus filhos). Estava, assim, consu-
mada a divisão entre o capital (patrão) e o trabalho (operário).

1.2. A geografia da industriaLização

Objectivo 8. Evidenciar a hegemonia britânica


Em meados do século XlX, a lnglaterra detinha a hegemonia sobre os restantes paÍses.
Tendo sido pioneira da primeira revolução industrial, mantinha a preponderância que adquiri-
ra no século XVlll, a qual era evidente em vários factores:
- era a primeira potência na produção têxtil (algodão) e metalúrgica (ferro);
- utilizava a energia a vapor em larga escala;
- possuía a maior extensão de caminhos-de-ferro;
- controlava o comércio internacional graças à vasta frota mercante e ao sistema Íinanceiro
avançado;
- registava o maior crescimento demográfico e urbano;
- exibia, perante todo o Mundo, que estava "à frente do pelotão", nomeadamente através da
realização da Exposição Universal de 1851.

A lnglaterra apenas perdeu a posição de comando no final do século XlX, quando Íoi ultrapas-
sada pelos Estados Unidos da América por não ter acompanhado a modernização tecnológica.

Objectivo 9. Referir, em tracos gerais, a geografia industriat no século XIX


No século XlX, para além do caso particular da lnglaterra, os países mais industrializados da
Europa eram: a França; a Alemanha; a Suíça e a Bélgica.
A nível mundial salientavam-se: os Estados Unidos da América e o Japão.
Certos paÍses tiveram uma industri alizaçáo mais lenta, tais como: a Rússia; a Áustria-Hungria;
a ltália; Portugal e a Espanha.

Objectivo 10. Mostrar os particutarismos do processo de industriaLização das principais


potências industriais
A industrialização de cada país obedeceu a condicionantes próprias:
França - Apesar de ter sido o segundo paÍs (após a lnglaterra) a industrializar-se, apenas
alcançou a etapa de maturidade (segundo a teoria do economista Rostow) na primeira década
do século XX, pois carecia de matéria-prima - carvão - e a sua economia dependia ainda, lar-
gamente, de uma agricultura de subsistência. A industrialização da França assentou, nomeada-
mente, na electricidade e na produção automóvel.
Alemanha - a etapa de arranque industrial (take-offl deu-se em meados do século XlX, nomea-
damente com a construção dos caminhos-de-ferro pela fábrica Krupp (a Alemanha ocupava o
segundo lugar, a seguir à lnglaterra, em extensão de rede ferroviária). No final do século XlX, a
Alemanha, então já uniÍicada, conseguiu competir com a indústria inglesa, suplantando-a na
produção de aço a partir de inícios do século XX. Ao contrário da França, a Alemanha dispunha
de carvão em abundância; aumentou as suas reservas de minério após ter conquistado à França
a região da Alsácia-Lorena, na guerra franco-prussiana de 1870-1871.
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H@ MB n civilização industrial - economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialisüas

EUA - a abundâncra de materias-primas (algodão, lã, carvão, petroleo, entre outras), junta-
mente com a concentraÇão empresarial (por exemplo, de empresas siderúrgicas, dando origem
à United States Steel Corporation - U.S.S) e a energia eléctrica fornecida pelas quedas d'água
deram um forte impulso à industrializaÇão dos EUA, país que, arrancando industrialmente cerca
de 1830, veio destronar a hegemonia inglesa a partir de Íinais do século XlX. Basta lembrar, por
exemplo, o sucesso na indústria automóvel, com a marca Ford.
Japão - caso único no continente asiático, o Japão industrializou-se na segunda metade do
século XIX devido à intervenção do imperador Mutsu-Hito, o qual apoiou a produção industrial
(construção naval, seda, siderurgia) seguindo os modelos ocidentais e abriu o país ao comércio
com o exterior. Na mesma época, o Japão beneficiou de um crescimento demográÍico intenso,
o qual forneceu mão-de-obra e consumidores à indústria.

0bjectivo 11. Reconhecer, no mundo industrializado, a persistência de formas de economia


tradicionat
Um dos aspectos que mais Íortemente marcou o século XIX (a partir de cerca de 1840) Íoi o triun-
fo do capitalismo industrial. Ao contrário do que previa Thomas Malthus no século XVlll, a produ-
ção de bens de consumo conseguiu acompanhar o crescimento demográfico e, no mundo indus-
trializado, uma Íranja crescente da população beneficiava de uma melhor qualidade de vida.
Porém, a par deste mundo industrializado, que os historiadores colocam em relevo pela novi-
dade que apresenta em relação ao passado, não devemos esquecer que a maior parte do pla-
neta era, ainda, um mundo "atrasado" (na expressão de Pierre Léon), onde o tempo parecia
"imóvel". Alguns paÍses tiveram o seu arranque industrial tardiamente: foi o caso do lmpério
Austro-Húngaro, do lmpério Russo, da Europa meridional (Portugal, Espanha, ltália, Grécia).
Outros não puderam desenvolver-se porque eram colónias, dependentes das estratégias de
mercado impostas pelas respectivas metrópoles: neste caso temos, por exemplo, os países da
América Latina e do continente aÍricano. Por último, temos de salientar, no interior dos paÍses
desenvolvidos, os redutos de tradicionalismo, onde uma agricultura de subsistência, avessa ao
campo fechado, coexistia, no mesmo paÍs, com a agricultura mecanizada e o artesão trabalha-
va, em casa, perto de uma grande Íabrica.
Concluímos, assim, que a industrialização se processou a diferentes "ritmos", como se o
tempo passasse mais depressa ou mais lentamente conforme as condicionantes ditadas por
cada região.

1.3. A agudizacão das diferenças

0bjectivo 12. Contrapor proteccionísmo e livre-cambismo


Nos séculos XVl, XVll e XVlll, vários paÍses europeus adoptaram um sistema económico pro-
teccionista, o qual servia de apoio ao mercantilismo vigente (ver unidade 3 do Módulo 4). O pro-
teccionismo baseava-se na protecção à indústria e ao comércio nacionais: para conseguir uma
balança comercial positiva, o Estado intervinha na economia, decidindo quais as manufacturas
a implementar, o montante das tarifas aduaneiras a aplicar aos produtos importados, o preÇo
dos produtos internos, as regras a impor ao comércio com o exterior.
Em contraposição, no século XlX, a expansão da Revolução lndustrial foi sustentada por um
sistema económico livre-cambista que substituiu o anterior proteccionismo.
Ao contrário do proteccionismo, o livre-cambismo opunha-se à intervenção do Estado na econo-
mia; reunia defensores desde o século XVlll, em especial Adam Smith (ver unidade 5 do Módulo 5),
economísta escocês que advogava a total liberdade da iniciativa privada (liberalismo económico),
uma vez que a economia se auto-regularia pela lei da oÍerta e da procura e pela livre concorrência.
76
í. As transÍormaÇÕes económicas na Eur"opa e no Mundo
gqR

As ideras de Adam Smith foram desenvolvidas, ainda no século XVlll, por Thomas Malthus,
David Ricardo e Jean Baptiste Say e foram aplicadas no século XlX, um pouco por toda a Europa
industrial que se revia no exemplo da lnglaterra e do seu primeiro-ministro Robert Peel. Este abo-
liu as chamadas Corn Lauzs, leis que protegiam a produção de pão nacional através de taxas
aplicadas sobre a importação de trigo.

0bjectivo 13. Caracterizar as crises do capitatismo


Apesar de ser um sistema económico favorável ao capitalismo industrial, o livre-cambismo
padecia de um problema intrínseco: de tempos a tempos (em intervalos de tempo de 6 a 10
anos), o sistema de livre concorrência (livre procura de lucro) originava crises económicas para
se auto-regular. Estes ciclos de curta duração, estudados por Clément Juglar (e por isso deno-
minados, correntemente, por ciclos de Juglar) caraclerizam-se por três etapas:
1. Uma fase de crescimento económico, durante a qual a produção aumenta e as actividades
financeiras (banca, bolsa) se expandem, de modo a corresponder à procura dos consumi-
dores.
2. Uma etapa de crise, isto e, de rápida diminuição da produção e descida dos preços, numa
tentativa de escoar o excesso de produção acumulada (crise de superprodução). A tendên-
cia de baixa da economia conduz rapidamente a falências de empresas e de bancos e à
quebra de investimento na bolsa (crash); a população desempregada não tem meios para
consumir em abundância, o que retira o estímulo à produção. Em virtude do livre-cambis-
mo, a crise expande-se, a breve trecho, pelo mundo industrializado e respectivas áreas
coloniais, originando uma contracção do comércio internacional.
3. Uma etapa de recuperação, em que a oferta e a procura se reajustam e as actividades eco-
nómicas são relançadas (ate que uma nova crise venha abalar a economia).

Estas crises que se distinguem das crises de Antigo Regime por serem crises de superpro-
-
dução industrial e não crises de escassez devido a maus anos agrícolas - eram inerentes ao
próprio sistema capitalista, em que o Estado não intervinha na economia; porém, os elevados
custos, não só económicos mas também (e sobretudo) sociais, levaram os governos a admitrr,
no Íinal do século XlX, medidas de retorno ao proteccionismo.
No século XX, devido à Grande Depressão dos anos 30, despoletada pela crise de 1929 nos
EUA, tornou-se evidente que o liberalismo económico puro tinha de ser refreado pela interven-
ção do Estado.

0bjectivo 14. Expticar os fundamentos da divisão internacional do trabalho


Entende-se por divisão internacional do trabalho a parte de produção e de comercialização
que cabe a cada país: na linha da frente, com o maior número de investimentos no Mundo e a
respectiva compensação em lucros, encontravam-se a lnglaterra, a França, a Alemanha e os
EUA. Este protagonismo Íundamenta-se na rápida industrialização que estes quatro países tive-
ram, a qual lhes permitiu explorarem economicamente os países mais atrasados e as colónias.
O capitalismo industrial contribuiu para criar um mundo económico desigual, no qual um
punhado de países detem o controlo das correntes de comércio internacional.

77
Flelaxar tazendo História
Tal como acontece ainda nos nossos dias, no século XIX as empresas recorriam a "mascotes"
para Íazer publicidade aos seus produtos e cativar os potenciais consumidores. É o caso da
mascote Bibendum. Provavelmente, este nome latino não lhe diz nada, mas é a designação ofi-
cial de um famoso boneco feito de pneus. Sabia que, aquando da sua criação, em 1898, esta
personagem era representada a fumar charuto e ostentava um anel de brasão?

Agora pesquise: quais as mascotes comerciais mais antigas que consegue encontrar?

Esquema

SÉCULo XIX - ECONoMIA

1 850- 1 91 4:
CapitaLismo industriaL
expansão da Revotução lndustriaI

. Livre-cambismo
. Racionalização do
trabaIho - Fordismo
Revotução técnica + . Crises cícticas de
pesquisa [aboratoriaI superprodução

. Concentração empresariaI
- VerticaI
. Comboio a vapor - HorizontaI
. lndústria do aço / e[éctrico
.lndústria química . MetropoLitano
. Energia eLéctrica . Carro etéctrico
. lndústria petroquímica . Automóvel
. Motor de explosào . Avião
. Bicicteta

Desfasamentos
cronotógicos / geográficos

. Hegemonia inglesa
. Competição da França, A[emanha, Bétgica,
EUA, Japão
. Atraso da Europa meridional e oriental
. Exptoração do mundo cotonizado
. Persistência da manufactura nos países
industriaIizados
. Sécuto XX: supremacia dos EUA

78
2. A sociedade indusrial e unbana
ísl m
Sisüematizar conhecimentos

2. A sociedade industrial e urbana

2.1. A exptosão.poputacionat;.a expansão urbana e o novo urbanismo;


mrgraçoes rnternas e emrgraçao

0bjectivo 1. lnterpretar a explosão poputacionat do sécuto XIX


No século XlX, verificou-se um crescimento muito rápido e acentuado da população mundial
e, em especial, da Europa industrializada, falando-se, por isso, de uma explosão demográfica.
No entanto, o fenómeno de crescimento populacional não era novo: a ruptura com o modelo
demográfico antigo data de meados do século XVlll (ver unidade 1 do Módulo 4).
No século XIX impôs-se o modelo demográfico moderno, cujas características eram:
1. O recuo da mortalidade (geral e, em especial, infantil).
2. O declínio da elevada natalidade (a partir de cerca de 1870).
3. A descida da idade do casamento (invertendo a tendência para o casamento tardio, típica
do modelo demográfico do Antigo Regime).
4. O aumento da esperança media de vida para ambos os sexos.
5. O aumento da densidade populacional.

Estas caracterÍsticas revelaram-se mais precocemente nos paÍses industrializados da Europa


(lnglaterra, Alemanha, França) e mais tardiamente na Europa do leste e do sul, pois a expansão
da Revolução lndustrial correspondeu a uma expansão da população. Assim, os demógrafos e
historiadores, na tentativa de interpretar a explosão populacional do século XlX, apontam um
conjunto de factores:
- os melhores cuidados médicos (difusão da vacina contra a varíola, inventada no século XVlll
por Jenner e criação de novas vacinas; prática da desinfecção);
- a maior abundância de bens alimentares (produzidos em larga escala pela agricultura meca-
nizada e fornecidos pela revolução dos transportes);
- o investimento social e afectivo na criança, tornada o centro da família burguesa;
- os progressos na higiene (uso do sabão e do vestuário de algodão; substituição da madeira
pelo tijolo nos edifícios; construção de redes de esgotos e de abastecimento de água potável).

No século XVlll, Thomas Malthus havia alertado, no seu Ensaio sobre o Princípio da Popu-
lação, para a necessidade de "um controlo forte e constantemente activo da população, em vir-
tude da dificuldade de subsistência". Por isso, no século XIX e inÍcios do século XX, face à explo-
são populacional, os neo-malthusianos lutaram pela contenção da natalidade, em especial junto
dos proletários. Porém, foi nos meios mais abastados, onde a satisfação das necessidades bási-
cas permitia o surgimento do sentimento de paternidade, que comeÇou a difundir-se a limitação
voluntária dos nascimentos.

Objectivo 2. Justificar a expansão urbana


O crescimento das cidades oitocentistas explica-se pela atracção que estas exercem sobre uma
população em franco crescimento. Entre os principais factores de expansão urbana, contam-se:
- o êxodo rural: as alterações na produção agrícola, ao dispensarem parte da mão-de-obra,
levam a que o habitante da província procure a cidade (sobretudo a partir de 1850, a popu-
lação urbana da Grã-Bretanha, da França e da Alemanha regista um crescimento substan-
cial, enquanto a população rural desses países estagna ou decresce);
79
RIB ME a civilização industrial - economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialisüas

- a emigraÇão: a população europeia foi responsável por diversas vagas de partida para as
colónias dos continentes africano, americano e oceânico, destacando-se, em especial, o
crescimento urbano nos EUA (em consonância com a sua supremacia económica, Nova
lorque tornou-se a segunda cidade mundial, em 1900);
- o crescimento dos sectores secundário e terciário: a indústria, o comércio, as profissões libe-
rais concentram-se nas cidades e requerem cada vez mais efectivos; é o caso, por exem-
plo, da cidade de Essen, onde estava sediada atábrica Krupp e que passou de 2000 habi-
tantes, em'l 800, para443 mil habitantes, em'1900. Simultaneamente, a população activa
dedicada ao sector primário (agricultura, pesca, silvicultura) diminui acentuadamente (por
exemplo, na Alemanha passou de 42,5"/" em 1882 paa28,6% em 1907).

0bjectivo 3. Caracterizar o novo urbanismo oitocentista


O crescimento muito rápido de algumas cidades (por exemplo, Londres, Paris, Nova lorque)
originou novos problemas que se tornaram um desafio para as chefias municipais e para arqui-
tectos, urbanistas e filantropos.
O novo urbanismo tinha, essencialmente, duas preocupaÇÕes:
- criar espaços para a burguesia, "entregando" a cidade àqueles que a tinham criado;
- proporcionar condiçÕes de vida mais dignas para os proletários, em geral provincianos desen-
raizados, cujos filhos (a prole) trabalhavam arduamente para aumentar o rendimento doméstico.
1. No âmbito da afirmação burguesa, destacam-se as grandes intervençÕes urbanas nas
principais cidades europeias: as antigas muralhas são destruídas, rasgam-se avenidas,
criam-se infraestruturas (abastecimento de água e iluminação, rede de esgotos), projec-
tam-se espaÇos para o lazer (óperas, teatros, jardins...), criam-se redes de transportes
públicos (eléctricos, metropolitanos...).
Neste processo, a cidade expande-se em extensão (ou em altura, como nos EUA, com os
primeiros arranha-céus), relegando as "classes perigosas" para a periferia. Os "grands
travaux" (grandes obras públicas), encomendados ao barão Haussmann por Napoleão lll
em meados de Oitocentos, alteraram profundamente a fisionomia de Paris e serviram de
exemplo a outras cidades em renovação nos séculos XIX e XX. A "Paris de Haussmann"
celebra as conquistas da burguesia.
2. No século XlX, vários urbanistas, preocupados com os problemas sociais que atribuíam à
deficiente habitação operária (alcoolismo, criminalidade, promiscuidade, epidemias, prostitui-
ção, mendicidade), procuraram soluções ideais para integrar harmoniosamente o operário no
espaÇo industrial. Ficaram conhecidos por urbanistas utópicos: Charles Fourier lançou a ideia
deumfalansterio-ediÍícioparaahabitaçãoeotrabalhodosoperários-eGodincriouofami-
listério ou palácio social, onde as famílias operárias dispunham de alojamento cómodo

0bjectivo 4. Distinguir a origem e o destíno das migrações internas


O fenómeno urbano está intimamente ligado ao das correntes migratórias: no século XlX, a
prlncipal orrgem das migraçÕes internas (dentro de um mesmo paÍs) era o campo - fosse por-
que uma agricultura mecanizada dispensava mão-de-obra para as fábricas, fosse porque uma
agricultura de subsistência fornecia insuÍicientes rendimentos - e o principal destino era a cida-
de. A partir de '1850, o êxodo rural foi responsável pelo acentuado crescimento da população
urbana da Europa (sobretudo da Grã-Bretanha e da Alemanha). Para as raparigas do campo, o
destino profissional era, na maioria das vezes, o serviço doméstico.
Porém, um outro tipo de migraçÕes internas era Írequente: as deslocaçÕes sazonais (realiza-
das apenas em certas alturas do ano) para locais onde era necessário, pontualmente, um acrés-
cimo de mão-de-obra.
80
2. A sociedade industnial e unbana F3H

Objectivo 5. Expticar o fenómeno emigratório


A partir de 1840, os Europeus espalharam-se pelo Mundo em sucessivas vagas de emigra-
ção. Na origem deste fluxo emigratório terão estado os seguintes factores:
1. A pressão populacional: os governos e sindicatos apoiavam polÍticas migratórias no intuito
de contornar os problemas decorrentes da explosão populacional europeia (necessidade
de mais empregos, contestaÇão social).
2. Os problemas do mundo rural: enquanto nos paÍses desenvolvidos as transformaçÕes na
agricultura libertavam mão-de-obra, nas regiÕes menos industrializadas persistiam as fomes
provocadas por maus anos agrÍcolas (foi o caso da vaga de emigrantes irlandeses, duran-
te a "potatoe famine" - fome de batatas - da década de 1840).
3. Os problemas ligados a industrialização: uma industrialização muito rápida (por exemplo,
na Grã-Bretanha) produzia desemprego tecnológico (os homens eram substituÍdos por
máquinas), e uma industrialização lenta (caso de Portugal), não oferecia empregos suficien-
tes para a população em crescimento. Ambas as situaçôes podiam, portanto, levar à emi-
gração para países com carência de mão-de-obra.
5. A revolução dos transportes, que embarateceu o preço das passagens, nomeadamente de
barco a vapor.
6. A idealização dos países de destino (nomeadamente os EUA, que receberam metade da
imigração europeia, e o Brasil, principal destino da emigração portuguesa no seculo XIX),
os quais eram vistos como terra das oportunidades, da promoção social e da tolerância
moral. Os EUA receberam perto de 34 milhÕes de pessoas entre 1821 e 1920, sendo a forte
imigração apontada como um dos factores que explicam a sua pujança económica.
7. A fuga a perseguições políticas e religiosas (por exemplo, aquando da instauração da
2a República, em 1848, em França).

2.2. Unidade e diversidade da sociedade oitocentista

Objectivo 6. Evidenciar a unidade e a diversidade da nova sociedade de ctasses


A sociedade de ordens de Antigo Regime, na qual o nascimento era o principal factor de dis-
tinção social, deu lugar à sociedade de classes da Epoca Contemporânea, em que os cidadãos,
embora iguais perante a lei, se distinguem pelo dinheiro e por todas as vantagens que este per-
mite conquistar (instrução, profissão prestigiada, lazer).
Deste modo, a unidade do corpo social, conferida pelo igual estatuto jurídico dos cidadãos
(fruto das conquistas do Liberalismo), é fragmentada em dois grandes grupos:
1. A burguesia: é o grupo dominante porque detem os meios de produção, muito embora ela
própria se divida numa hierarquia de diferentes estatutos.
2. O proletariado: é a classe mais baixa que fornece o trabalho à organização industrial.

Na sociedade de classes a mobilidade ascensional é um fenómeno mais frequente do que na


sociedade de ordens e os casos de sucesso de alguns indivÍduos de origem humilde - self-
-made men - fazem crer a todos que os lugares cimeiros da sociedade podem ser conquista-
dos apenas pelo mérito individual.
Uma vez atingido o topo da escala social, cabe à família burguesa o papel fundamental de
assegurar a continuidade de estatuto e, se possível, reforçá-lo por meio de estratégias diversas
(aquisição de propriedades; fusão, através do casamento, com membros da aristocracia; nobi-
litação por serviços prestados à NaÇão; exercício de cargos na política). Criam-se, assim, as
chamadas dinastias burguesas.
81
GUEHA,1,1.06
@@ M6 A civilização industrial - economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas

Objectivo 7. Distinguir as ctasses burguesas quanto ao estatuto económico e aos valores e


comportamentos assumidos
1. Alta burguesia
No século XlX, a alta burguesia conquistou, Íinalmente, um poder equiparável ao seu estatuto
económico: além de controlar os pontos-chave da economia (bancos, transportes, indústrias),
exercia cargos na política (de deputado, de ministro). Porém, ao nível dos comportamentos, a
nobreza continuava a ser o modelo: para afirmar o seu poder, os burgueses de negócios tenta-
vam aproximar-se da aristocracia (compravam castelos e mansÕes, casavam os herdeiros com
membros da velha nobreza, organizavam bailes e caçadas).
No entanto, pouco a pouco a burguesia Íoi definindo e impondo os seus proprios valores - tais
como o apreÇo pelo trabalho, o sentido de poupança, a perseveranÇa e a solidariedade familiar.
Passou, então, a demonstrar orgulho pelo estilo de vida burguês (surgimento da consciência de
classe).

2. Classes médias
As classes médias constituem o grupo mais heterogéneo e socialmente flutuante da socieda-
de industrial. Englobam o conjunto das profissôes que não dependem do trabalho ÍÍsico, isto é,
o chamado sector dos serviços. A sua composição integrava:
a) Pequenos empresários da indústria - embora vulneráveis às crises e aos consequentes fenó-
menos de concentração empresarial, foram-se expandindo em número ao longo do século XlX.
b) Empregados comerciais - a expansão da revolução industrial criou novos empregos para
Íazer chegar o produto ao consumidor do mercado interno (por exemplo, os empregados
de grandes armazéns ou os transportadores).
c) ProÍissionais liberais- eram todos aqueles que, em vez de terem um patrão, trabalhavam
por conta propria. Estavam ligados a jdeia de promoção social: tornaÊse médico, advoga-
do, empregado de escritório (colarinho branco) ou professor primário era uma maneira
segura de perspectivar um futuro desafogado, longe da dureza do trabalho manual e da
imprevisibilidade do mundo dos pequenos negócios. O seu estatuto valorizou-se na medi-
da em que serviam as necessidades (de cuidados médicos, de conhecimentos .jurídicos,
de instrução) da sociedade industrial.

As classes médias eram acérrimas defensoras dos valores da burguesia, no intuito de perma-
necerem (e, se possÍvel, promoverem-se) dentro dessa classe social. Tornaram-se, assim, as
classes mais conservadoras.

0bjectivo 8. Caracterizar a condição operária


A aplicação do liberalismo economico nos paÍses industrializados, ao estabelecer a não-inter-
venção do Estado, deixou os operários à mercê das regras do mercado. O proletário é aquele
que não tem qualquer poder sobre a produção, pois as minas, os caminhos-de-ferro, as fábri-
cas pertencem à classe burguesa que detém o capital. Ele apenas tem os seus Íilhos (a sua
prole) e um salário pelo seu trabalho, o qual aumenta ou diminui conforme a prosperidade da
empresa, sem que um salário mínimo esteja assegurado.
Neste contexto, os operários da segunda revolução industrial enfrentavam graves problemas
dentro e fora do seu local de trabalho:
- ausência de redes de solidariedade (em grande parte oriundos do campesinato, os operá-
rios tinham de sobreviver na cidade sem o apoio da família alargada);
- elevado risco de acidentes de trabalho e de doenças proÍissionais (que, a ocorrerem,
podiam levar ao despedimento do operário, o qual se via, subitamente, incapacitado e sem
salário);
82
2. A sociedade industrial e urbana @Pl

- ausência de medidas de apoio social (não existia o direito a Íérias ou a descanso semanal,
o horário de trabalho rondava as 16 horas por dia, não se contemplava o direito a subsídios
por desemprego, velhice ou doença);
- proibição e repressão de todo o tipo de reivindicação social (pois as leis e as instituições de
autoridade defendiam a classe dominante);
- contratação de mão-de-obra infantil, por ser mais barata (cerca de um terço do salário de um
adulto), menos reivindicativa e mais ágil (por exemplo, nos espaÇos exíguos das minas); daqui
resultava uma elevada taxa de mortalidade infantil entre os filhos da população operária,
- espaÇos de trabalho pouco saudáveis (ruído, calor ou Írio extremos, iluminação deficiente,
ausência de cantinas e de vestuário apropriado);
- espaÇos de habitação sobrelotados e insalubres;
- pobreza extrema e todos os problemas a esta associados (desnutrição, doenças, crimes,
prostituição, consumo elevado de bebidas alcoólicas, mendicidade).

0bjectivo 9. Mostrar como se concretizou o movimento operário


As primeiras reacçÕes dos operários contra a sua condição miserável foram espontâneas,
pouco organizadas e dirigidas, sobretudo, contra as máquinas que lhes roubavam o trabalho
(nomeadamente o movimento de Ned Ludd, na lnglaterra - luddismo - era mecanoclasta, isto é,
destruía as máquinas de produção).
Com o passar do tempo, o movimento operário (acçÕes de luta dos proletários por melhores
condiçÕes de vida e por uma maior intervenção polÍtica) organizou-se para se tornar mais efi-
caz, revestindo, no essencial, duas formas:
1. O associativismo -
na falta das redes de solidariedade tradicionais (família, paróquia) as
associações de socorros mútuos apoiavam os operários em caso de vicissitude (doenças,
desemprego, acidentes) mediante o pagamento de uma quota.
2. O sindicalismo - no início actuando clandestinamente, os sindicatos utilizavam como prin-
cipais meios de pressão sobre o patronato as manifestaçÕes (por exemplo, a de 1 de Maro
de 1886, em Chicago, pela jornada de 8 horas, actualmente comemorada como Dia do
Trabalhador) e as greves. Estas constituíam uma forte arma de reivindicação, pois prejudi-
cavam a produção e, consequentemente, os lucros da indústria e do comércjo, alem de evi-
denciarem a importância fundamental da classe trabalhadora (Proudhon dizia que, se o pro-
letariado desaparecesse, a produçáo "pararia para sempre e era uma vez os proprietários").
Graças às greves, o enorme desfasamento entre o salário real dos operários e o custo de
vida foi-se esbatendo pelo que, no final do século XlX, a classe trabalhadora havia conquis-
tado um maior poder de compra.

Foi na Grã-Bretanha que o movimento operário se revelou mais precoce, com a aulorizaçáo
dos sindicatos (trade unions) e das greves em 1824-25.
Os progressos da legislação social (por exemplo, a regulamentação do horário de trabalho, o
repouso semanal, a criação de pensÕes para as situaçÕes de acidente, doença, velhice) torna-
ram-se mais notórios, na Europa industrializada, no terceiro quartel do século XlX, por eÍeito da
pressão dos sindicatos, entretanto legalizados, e pela difusão das ideias socialistas.

0bjectivo 10. Retacionar a condição operária com as doutrinas sociatistas


As condiçÕes de miséria em que viviam os proletários despertaram a vontade de intervenção
social de pensadores da época. No século XlX, a doutrina socialista emergente criticava a desu-
manidade do sistema capitalista e propunha uma sociedade mais igualitária. Porém, podemos
distinguir duas abordagens diferentes do socialismo:
83
É-_ã E0 MB n civilização industrial - economia e sociedadel nacionalismos e choques imperiâlistas

1. Socialismo utópico - propunha alternativas ao capitalismo no intuito de criar uma sociedade


mais justa. A principal referência é Pierre-Joseph Proudhon, o qual defendia que os operá-
rios trabalhassem "uns para os outros" em vez de trabalharem para um patrão. Entregando
a propriedade privada a produtores associados e abolindo o Estado pôr-se-ia fim à "explo-
ração do homem pelo homem".
2. Marxismo (socialismo cientÍÍico) - o filósofo alemão Karl Marx analisou historicamente os
modos de produção, tendo concluÍdo que a luta de classes e um fio condutor que atraves-
sa todas as épocas. Baseado neste pressuposto, expôs um plano de acção para atingir
uma sociedade sem classes e sem Estado - o comunismo.

0bjectivo 11. Expor os princípios do marxismo


Karl Marx e Friedrich Engels expuseram, no Manifesto do Partido Comunista(1848), uma propos-
ta de explicação do processo histórico que tomou o nome de marxismo ou materialismo histórico:
- a luta de classes entre "opressores e oprimidos" é um traço fundamental de toda a História;
- a sociedade burguesa, dividida entre a burguesia e o proletariado, será destruída quando
este, "organizado em classe dominante" instaurar a ditadura do proletariado;
- depois de conquistar o poder político, o proletariado retirará o capital à burguesia e o capi-
talismo será destruído pois estarão "todos os instrumentos de produção nas mãos do
Estado" - assim se construirá o comunismo;
- os operários devem unir-se internacionalmente paraÍazer a revolução comunista, por isso o
Manifesto institui o lema "Proletários de todos os países, uni-vos".

0bjectivo 12. lndicar os sêus efeitos no movimento operário


Marx e Engels viveram uma parte da sua vida na lnglaterra do século XlX, tendo contactado
com a miséria da condição operária. A teorização marxista revestiu um carácter prático que fal-
tava ao socialismo proudhoniano e teve um impacto visível na sociedade do seu tempo:
- de acordo com a ideia do internacionalismo operário, Karl Marx redigiu os estatutos da
I lnternacional(Associação lnternacional de Trabalhadores), criada em Londres (186a);
- Marx deu o seu apoio à Comuna de Paris, de 1871 (o primeiro governo operário da História);
- Engels foi um dos fundadores da ll lnternacional, criada em Paris (1889);
- a realização das lnternacionais Operárias promoveu a fundação de partidos socialistas na
Europa.

Apesar de ter chocado ideologicamente com outras propostas de remodelação da sociedade


(nomeadamente, o proudhonismo, o anarquismo e o revisionismo), as quais viriam a contribuir
para o fim das duas lnternacionais, a doutrina marxista prevaleceu viva e serviria de base teóri-
ca à revolução de 1917, na Rússia.

84
2. A sociedade industrial e urbana

Relaxar fazendo História


Willie Wonka, um patrão de sonho

O autor Roald Dahl escreveu a história Charlie e a Fábrica de Chocolate no ano de 1964. Pode
ler esta história e ver a magnífica adaptação para cinema pelo realizador Tim Burton.

Aqui estão algumas pistas de análise para poder comparar esta fábrica fantástica com a rea-
lidade industrial do século XIX:

- A fábrica de Willy Wonka é um lugar sonho. Onde se manifesta a utopia?

- A casa de Charlie caricaturiza a degradação da condição operária. Onde vivem os avós?


De que é composta a alimentação da Íamília?

- Em certo momento da história, o pai de Charlie perde o emprego. Porquê?

- Quem são os operários da fábrica de chocolate? Que tipo de relação têm com o seu patrão,
Willie Wonka?

Esquema

SÉCULO XIX

Revolução demográfica Sociedade de ctasses

. Hierarquização peto estatuto .


. Explosão popu[acionaI económ ico
Movimento operário
. Novo mode[o demográfico . Mobitidade sociaI - Associativismo
. Migrações internas .lr4iséria da ctasse operária - Sindicalismo
. Emigração europeia . Ascensão das classes médias . Sociatismo
. Expansão urbana . AÍirmação potítico-sociaI da - Utópico IProudhonl
alta burguesia - CientíÍico (Marx, EngeLs)

85
ffi ME a civilização indusirial

Sisüematizar conhecimentos
- economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas

3. Evolução democrática, nacionalismo e imperiatismo

3.1. As transformações potíticas

Objectivo 1. Evidenciar o aperfeiçoamento do sistema tiberat no mundo ocidentat, desde as


úttimas décadas do sécuto XIX
Desde o século XVlll, foi implantado um sistema liberal moderado em vários países da Europa,
nomeadamente em Portugal, na Grã-Bretanha, na França e na Bélgica (ver unidade 5 do Módulo
5). Tratava-se, nesses países, da eliminação dos regimes absolutistas e da sua substituição por
monarquias constitucionais. lnstaurava-se a soberania nacional, pois os cidadãos activos eram
representados em assembleias legislativas.
A partir do terceiro quartel do século XlX, surgiu um novo entendimento do sistema liberal que
daria origem às democracias representativas (demoliberalismo):
l.Alguns países substituíram o sistema monárquico por um regime político republicano, no
qual o chefe de Estado e representante do poder executivo é eleito periodicamente (por
.1910).
exemplo, Portugal, em
2. O sufrágio censitário (voto reservado apenas aos detentores de um patamar mÍnimo de ren-
dimentos) foi substituído pelo sufrágio universal, que abarcava os cidadãos maiores de
idade. A soberania nacional dava lugar à soberania popular. No entanto, o voto das mulhe-
res, dos negros e dos analfabetos foi, em geral, uma conquista difícil.
3. Para aperfeiçoar o sistema representativo, a idade do voto foi antecipada (para os 21 anos,
habitualmente), o voto passou a ser secreto e os cargos políticos passaram a ser remune-
rados (abrindo caminho à entrada das classes médias e do operariado na vida política).

0bjectivo 2. Caracterizar os Estados autoritários da Europa Centrat e Oriental


Enquanto a Europa Ocidental e os EUA aprofundavam os regimes liberais, na Europa Central
e Oriental a estagnaÇão económica prevalecente era acompanhada pelo imobilismo polÍtico.
Durante o século XlX, e até ao desmembramento dos impérios resultante do final da I Guerra
Mundial, existiam quatro grandes estados autoritários na Europa:
1. O lmpérioAlemão (ll Reich, desde 1871), governado pelo kaiser Guilherme tl.
2. O lmperio Austro-Húngaro, governado pelo imperador Francisco José.
3. O lmperio Russo, governado pelo czar Nicolau ll.
4. O lmperio Otomano, governado pelos sultÕes da dinastia otomana.

Estes impérios tinham características comuns: eram Estados autocráticos (o imperador deti-
nha o poder absoluto ainda que, por vezes, camuflado pela existência de ConstituiçÕes e do
sufrágio), conservadores (mantinham intocados os privilegios da nobreza e do clero) e repressi-
vos (reprimiam a oposição polÍtica e as revoltas nacionalistas que ocorriam dentro do território).

Objectivo 3. Mostrar a submissão das nacionalidades nos Estados autoritários


Sob a aparente unidade conferida por um imperador, um governo, um exército e uma religião
oficial, estava a sujeição das mrnorias étnicas. O lmpério Alemão dominava, por exemplo, os
polacos; o lmpério Russo, na sua enorme extensão, abarcava, nomeadamente, os Finlandeses
e os Ucranianos; o lmperio Austro-Húngaro era composto por povos eslavos que não reconhe-
ciam a supremacia de Francisco José.

86
3. EvoluÇâo democr'ática, nacionalismo e imperialismo @ffi
Objectivo /.. Conctuir aspiracões de tiberdade nos referidos Estados

Por várias razões - de ordem linguÍstica, historica, religiosa - vários povos não se sentiam inte-
grados no Estado imperial a que pertenciam e, como tal, desencadearam movimentos de liber-
tação. Umas vezes vitoriosas (independência da Grécia, em 1830), outras vezes Íracassadas
(rebelião polaca de 1830-31), as lutas pela emancipação prosseguiram ao longo do século XlX.
No início do século XX, a repressão do princÍpio das nacionalidades e a luta por áreas de inÍluên-
cia por parte dos imperios acabaria por gerar focos de tensão que conduziriam à 1." Guerra
Mundial.

0bjectivo 5. Descrever sucintamente o processo de unificação naciona[ [evado a cabo por


italianos e alemães na 2.a metade do sécuto XIX
Unificação italiana (1861) - em meados do século XlX, a ltália era um conjunto de sete
Estados. Embora as correntes nacionalistas se viessem a expandir desde o século XVlll, a ideia
de um Estado único enfrentava a oposição dos Austríacos, que dominavam os Estados do Norte
e Centro, e a desconÍiança do Papa, detentor dos vastos Estados da lgreja.
A unificação partiu da iniciativa do Reino do Piemonte-Sardenha, porque era o Estado onde o
Liberalismo se encontrava em expansão, quer a nível económico (era o mais industrializado do
territorio italiano), quer a nível político (vigorava a monarquia constitucional do rei VÍtor Manuel ll,
favorável às ideias liberais).
As figuras-chave da unifrcação foram o primeiro-ministro Cavour, que defendeu a integração
de Roma na ltália uniflcada (mas salvaguardando a independência do Papa) e Garibaldi, con-
quistador do Reino das Duas SicÍlias. Graças ao apoio da França de Napoleão lll, os Austríacos
foram vencidos em batalha e Vítor Manuel ll tornou-se rei de ltália.

UniÍicação alemã (1871) - em 1850, o território alemão era composto por 39 Estados autóno-
mos, embora ligados pela Confederação Germânica, criada pelo Congresso de Viena (1815).
A uniÍicação foi impulsronada pela Prússia (o Estado mars industrializado) que já havia derru-
bado as barreiras alfandegárias entre alguns dos Estados em '1 828 (aliança que tomou o nome
de Zollverein).
Os principais obreiros da unificação Íoram o rei Guilherme I da Prússia e o chanceler do rei
Otto von Bismark. A unidade alemã foi conseguida pelas armas, primeiramente contra a Áustria,
na Guerra dos Ducados, para integrar os territórios do Norte e Centro, e depois contra a França
de Napoleão lll, em 1870-71, para dominar os Estados do Sul.
Aunificação,sobaformadeumlmpériocom25Estados-oll Reich-consumou-se 187'1 ,

sob o reinado do kaiser Guilherme l.

A unificação da ltália e a da Alemanha exprime claramente o nacionalismo oitocentista, pois


cumpriu, simultaneamente, dois objectivos: ligar povos com uma tradição comum e satisfazer
interesses económicos.
A integração de territórios ricos em matéria-prima para a indústria (caso da Alsácia e Lorena,
anexadas pelo lmpério Alemão) e a conquista de colónias para escoar os produtos industriais
não foram alheios aos anseios nacionalistas do seculo XlX.

87
H@ MG a civilizacâo industrial - economia e sociedadei nacionalismos e choques imperialistas

3.2. 0s afrontamentos imperial.istas: o domínio da Europa sobre o


Mundo

Objectivo ó. Distinguir as zonas de expansão europeia entre fins do sécuto XIX / início do
sécuto XX
Grã-Bretanha - acalentava o projecto de dominar o território africano do Cairo ao Cabo; ocu-
pava os territórios da Índia, da Austrália, do Canadá; exercia inÍluência sobre a China e recebe-
ra, como concessão, Hong-Kong, em 1842.
França - ocupou territórios no Norte e Centro africanos (por exemplo, Marrocos, a Argelia, a
TunÍsia), na Asia (lndochina) e na América (Antilhas francesas, nomeadamente).
lmpério Alemão - possuía territórios em África (por exemplo, SE e SO alemão) e exercia
influência na Ásia Menor e na Península Arábica.
Rússia - o lmpério Russo expandiu-se por provÍncias como a Geórgia, e o Azerbeijão e pro-
curou estender a sua inÍluência ao Extremo Oriente.

0bjectivo 7. Apticar a essa expansão os conceitos de imperiatismo e cotoniatismo


A expansão europeia inscreve-se numa estratégia de controlo de uma vasta extensão territo-
rial com vista à satisfação das necessidades económicas das metrópoles e à afirmação de uma
pretensa superioridade cultural.
O caso mais evidente de imperialismo e de colonialismo ocorreu relativamente à ocupação do
continente africano. Na Conferência de Berlim (1884-85), os chefes de Estado europeus repar-
tiram, entre si, o território africano sem atender às fronteiras definidas pelos povos autóctones e
impuseram o seu domínio a todos os níveis (económico, cultural, político, militar). Definiram que
a colonização só poderia assentar no princípio de ocupação efectiva, isto e, já não bastava ter
descoberto ou conquistado determinado território para ter direito a possuí-lo (direito historico),
era preciso que os países europeus mostrassem que eram capazes de "assegurar, nos territó-
rios ocupados por eles no continente aÍricano, a existência de uma autoridade suÍiciente para
Íazer respeitar os direitos adquiridos".

Objectivo 8. Contextualizar o imperiatismo


A formação de impérios pelas potências europeias explica-se, em primeiro lugar, no contexto
da expansão industrial, que necessitava de matérias-primas para a produção maquinofactura-
da e de mercados para escoar os excedentes.
Em segundo lugar, o continente europeu, em fase de explosão populacional, precisava de
colonias para aliviar a pressão demográfica.
Por último, os anseios nacionalistas que acompanharam a criação das democracias europeias
tinham uma vertente ímperialista. O nacionalismo carregava a ideia de conquista: pangermanis-
mo, pan-eslavismo eram vocábulos correntes na época, utilizados para transmitir o desejo de
expansão imperialista de um povo traduzida no prefixo pan (vocábulo de origem grega que sig-
niÍica tudo ou todo).

0bjectivo 9. Discriminar atgumas rivatidades imperiatistas


França / lmperio Alemão - A oposição da França à Alemanha explica-se, por um lado, pela
disputa da Alsácia e Lorena, território perdido para a Alemanha em 1871 , e, por outro lado, pelo
desenvolvimento do novo lmpério Alemão que retirou à França parte da preponderância econó-
mica que esta detinha sobre a Europa. Em contrapartida, a França conseguiu dominar grande
parte do Norte de Africa.
88
3. EvoluÇáo democrática, nacionalisnro e imperialismo @m
lmpério Russo / lmpério Austro-Húngaro - A rivalidade entre o lmpério Austro-Húngaro e o
lmpério Russo justifica-se, nomeadamente, pela disputa da inÍluência nos Balcãs.
lmpério Russo / Japão - As ambiçÕes do lmpério Russo no Extremo Oriente colidtam com o
imperialismo japonês, o que acabou por provocar, em 1904-1905, a guerra russo-japonesa, de
que saíu vitorioso o Japão (o regime polÍtico autocrático russo sofreria o primeiro grande abalo,
não por coincidência, com a revolta de 1905, reprimida pelas tropas czaristas).

Objectivo 10. Retacioná-las com o ctima de "paz armada"


A tensão gerada pelas rivalidades económicas levou os Estados europeus a procurarem aliados:
1879 - Dupla aliança (Alemanha e Áustria-Hungria);
1882 - Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e ltália);
1907 - Tríplice Entente (França, Rússia, Grã-Bretanha).

A política de alianças era complementada por uma corrida aos armamentos.


Em 1908, a Áustria-Hungria anexou a Bósnia-Herzegovina, gerando protestos da Sérvia, a qual
pretendia desempenhar um papel influente nos balcãs (panservismo). Em 1914, quando o her-
deiro ao trono austro-húngaro foi assassinado na Bósnia, a suspeita de que a Sérvia pudesse
estar envolvida nesse acto levou o imperador Francisco José da Áustria-Hungria a declarar
guerra à Sérvia. Era o fim da paz armada e o início da Primeira Guerra Mundial.

89
Flelax ar fazendo HistÓria
O filme O Leopardo, do realizador italiano Luchrno Visconti, é um clássico do cinema e uma
lição de História do século XlX. Através do seu visionamento, acompanhe a expedição de
Garibaldi na luta pela unificação italiana.

Esquema

Nacionatismo

EUA, Europa do Norte nif icação


Europa Central e 0rientaI U
e Noroeste . ltátia (18611 - Vítor
ManueI ll / Cavour
. lmpério ALemão I1871J
- Gui[herme I /
Bismark

. Absotutismo
. Extensão do direito de voto . Sociedade de ordens Emanci pação
.
[sufrágio universaL] . Desrespeito pe[o princípio das
Difusão do repubIicanismo nacionalidades . Grécia
. Bétgica

lmperialismo
o Subordinação
económica, política e
cu[turaI de vastas
regiôes ao continente
europeu
. Conferência de BerLim
[1884-1885) - parti[ha
de Africa
. Choque de interesses -
potítica de atianças -
paz armada

90
4. Portugal, uma sociedade capitalista dependente @m
Sisüematizar conhecimentos

4. Portugal, uma sociedade capitalista dependente


1r.1. ARegeneração entre o tivre-cambismo e o proteccionismo
t1 85 Í- 1 8801'

0bjectivo 1. lnterpretar o significado potítico da Regeneracão


Em 1851, o golpe de Estado do Marechal Saldanha instaurou uma nova etapa polÍtica em
Portugal, designada por Regeneração. Este movimento, que se estendeu, cronologicamente, até
a implantação da República (1910) teve um duplo signiÍicado:
- pretendia-se o progresso material do paÍs, com o fomento do capitalismo aplicado às activi-
dades económicas;
-encerrava-se uma longa fase de conflitos entre as facçÕes liberais (apaz social foi conse-
guida através da Carta Constitucional - com a revisão que lhe Íoi introduzida pelo Acto
Adicional de 1852 - e da promoção do rotativismo entre os partidos no poder).

Objectivo 2. Expticar o empenho do fontismo na potítica de obras púbticas


A política de Obras Públicas do período da Regeneração foi designada por fontismo devido a
acÇão do ministro Fontes Pereira de Melo.
Preocupado em recuperar o país do atraso económico, Fontes encetou uma política de rnsta-
lação de infra-estruturas e equipamentos, tais como estradas, caminhos-de-ferro, carros eléctri-
cos, pontes, portos, telegrafo e telefones.
Vislumbravam-se três grandes vantagens decorrentes do investimento em transportes e meios
de comunicação:
- a criação, pela primeira vez na história portuguesa, de um mercado nacional, fazendo che-
gar os produtos a zonas isoladas e estimulando o consumo;
- o incremento agrícola e industrial;
- o alargamento das relações entre Portugal e a Europa evoluída.

Porém, como alertava, entâo, Oliveira Martins, embora o caminho-de-ferro fosse um meio de
desenvolvimento económico - o "silvo agudo da locomotiva" que nos despertou "do nosso sono
histórico" -, também criou "condiçÕes de concorrência para que não estávamos preparados".

Objectivo 3. Caracterizar as [inhas de Íorca do fomento económico da Regeneração


1. Revolução dos transportes - esperava-se que a política de instalação de meios de transpor-
te e de comunicação levasse a todo o país um progresso geral. Assim, apostou-se na cons-
truÇão rodoviária e na expansão da rede ferroviária (em cerca de 50 anos, desde a ligação de
Lisboa ao Carregado, em 1856, as vias férreas cobriram o território nacional). Construiram-se
pontes (por exemplo, a ponte D. LuÍs, no Porto) e portos (nomeadamente, o porto de LeixÕes).
2. Livre-cambismo - o fomento económico assentou na doutrina livre-cambista, expressa na
pauta alfandegária de 1852. Fontes Pereira de Melo (o qual, alem de ministro das Obras
Públicas, foi, também, ministro da Fazenda) era um acérrimo defensor da redução das tari-
fas aduaneiras, argumentando que:
- só a entrada de matérias-primas a baixo preço poderia favorecer a produção portuguesa;
- a entrada de certos produtos industriais estrangeiros (que Portugal não produzia) a pre-
ços mais baixos beneÍiciava o consumidor;
- a diminuição das tarifas contribuía para a redução do contrabando.
3. Exploração da agricultura orientada para a exportação - a aplicação do liberalismo econó-
mico favoreceu a especializaçáo em certos produtos agrÍcolas de boa aceitação no estran-
91
HB MG I civilizacão industrial - economia e sociedade; nacionalismos e choques impêrialistas

geiro como, por exemplo, os vinhos e a cortiÇa. A aplicação do capitalismo ao sector agrí-
cola passou por uma série de inovações, nomeadamente:
- o desbravamento de terras (arroteamentos);
- a redução do pousio;
- a aboliÇão dos pastos comuns;
- a introdução de maquinaria nos trabalhos agrícolas (sobretudo no Centro e Sul do país,
pois no Norte a terra é mais fragmentada e irregular);
- o uso de adubos químicos (produzidos nacionalmente, devido ao desenvolvimento da
indústria química).
4. Arranque industrial -
apesar do atraso económico de Portugal em relação aos países
desenvolvidos da Europa, registaram-se alguns progressos a nível industrial:
- difusão da máquina a vapor;
- desenvolvimento de diversos sectores da indústria (nomeadamente cortiças, conservas
de peixe e tabacos);
- criação de unidades industriais e concentração empresarial em alguns sectores (por
exemplo, no têxtil);
- aumento da população operária, sobretudo no Norte do país (apesar de se tratar maiori-
tariamente de mão-de-obra não qualiÍicada);
- criação de sociedades anónimas;
- aplrcação da energia eléctrica à indústria (já no seculo XX).

No entanto, a economia portuguesa padecia de alguns problemas de base que impediram o


crescimento industrial :

- a falta de certas matérias-primas no território nacional (por exemplo, o algodão);


- a carência de população activa no sector secundário (totalizava apenas cerca de 20%, em 1890);
- a falta de formação do operariado e do patronato;
- a orientação dos investimentos particulares para as actividades especulativas e para o sec-
tor imobiliário, em detrimento das actividades produtivas;
- a dependência do capital estrangeiro.

4.2. Entre a depressão e a expansão Í1880-19141


Objectivo 4. Relacionar a crise financeira de 1880-1890 com os mecanismos de dependên-
cia criados
Apesar da revolução dos transportes e dos progressos na agricultura e na indústria, a Rege-
neração assentou o fomento económico sobre bases instáveis:
Livre-cambismo - abriu caminho à entrada de produtos industriais a baixo preÇo. Portugal
não tinha condiçÕes de competitividade, dado que a sua industrialização teve inÍcio cerca de
meio século mais tarde que os países desenvolvidos da Europa.
Simultaneamente, a exportação de produtos agrícolas decaiu (devido à doença das vinhas -
filoxera - e à concorrência de outros países também produtores de laranjas e carne).
Em resultado, a balança comercial portuguesa era negativa ou deficitária (as importaçÕes
sobrepunham-se às exportaçÕes), em especial cerca de 1890.
lnvestimentos externos - grande parte do desenvolvimento português (vias férreas, transpor-
tes urbanos, banca, indústria) fez-se à custa de investidores estrangeiros, logo, as receitas ori-
ginadas por esses investimentos não revertiam a Íavor de Portugal. O ramo dos tabacos, nomea-
damente, registou um desenvolvimento assinalável, porém, ficou na posse do capital estrangei-
ro a partir de 1891.
92
4. Portugal, uma sociedade capitalista dependente EB@

Empréstimos - o défice das finanças públicas agravou-se ao longo do século XIX (chegando
aos 10 000 contos de reis entre 1885 e 1889). Os recursos utilizados para aumentar as receitas
passavam, geralmente, pelas remessas dos emigrantes (que diminuÍram devido à conjuntura polí-
tica brasileira) pelo aumento dos impostos (medida anti-popular) e por pedidos de empréstimo ao
estrangeiro, em particular ao banco inglês Baring & Brothers (empréstimos que eram utilizados,
muitas das vezes, para pagar os juros de empréstimos anteriores). Por isso, quando o banco lon-
drino abriu falência, em 1890, Portugal deixou de ter meios de lidar com a dívida. O culminar da
crise ocorreu em 1892, quando o Estado português declarou a bancarrota (ruína Íinanceira).

Objectivo 5. Justificar o surto industriat de finat do século


No final do século XlX, a crise obrigou a uma reorientação da economia portuguesa, que apos-
tou nos segulntes vectores:
- retorno à doutrina proteccionista (com a pauta alfandegária de 1892), que permittu à agricul-
tura enfrentar os preÇos dos cereais estrangeiros e à indústria colocar a produção no mer-
cado em condiçÕes vantajosas;
- concentração industrial - através da criação de grandes companhias, melhor preparadas
para enfrentar as flutuaçÕes do mercado (por exemplo, a CUF - Companhia União Fabril, de
Alfredo da Silva, produtora de adubos);
-valorizaçáo do mercado colonial, suprindo a perda de mercados europeus;
- expansão tecnológica, com a difusão dos sectores ligados à 2." revolução industrial (electri-
cidade, indústria química, metalurgia pesada) e da mecanizaçáo.

/*.3. As transformações do regime pol.ítico na viragem do século

Objectivo ó. Equacionar os factores que contribuíram para o descrédito da monarquia


portuguesa
Entre as principais causas de crise da monarquia, contam-se:
1. A crise do rotativismo partidário - o modelo polÍtico de alternância, no poder, entre dois parti-
dos (Progressista e Regenerador) que caracterizara a estabilidade da segunda metade do
século XlX, encontrava-se esgotado, pois os polítrcos não haviam conseguido resolver os prin-
cipais problemas do país. Nos finais do século XlX, a incapacidade do rei em pôr cobro às que-
relas polÍticas constituiu um dos Íactores da descrença dos cidadãos no sistema monárquico.
2. A "questão do Ultimato inglês" - em tempos de nacionalismo imperialista, opuseram-se dois
projectos de ocupaçâo em Africa: o inglês, que pretendia unir os territórios numa faixa de
Norte a Sul, ligando o Cairo ao Cabo, e o "Mapa cor-de-rosa" português, proposta da Socie-
dade de Geografia de Lisboa (1881)de ocupar os territórios entre as colónias portuguesas
de Angola e Moçambique. A lnglaterra dirigiu um Ultimatum (última ordem) a Portugal em
1890, no sentido de impor, se necessário, pela força, as ambiçÕes inglesas. O governo por-
tuguês cedeu. A questão do Ultimato foi considerada um insulto ao orgulho nacional e con-
tribuiu para criar, entre a opinião pública, a ideia de que a monarquia eraincapaz de defen-
der os interesses do país. Deste incrdente nasceu "A Portuguesa", actual hino nacional que
então exortava os portugueses a marchar "contra os BretÕes"!
3. A crise económica - a década de 1880-1890 foi marcada por uma crlse económica aguda.
No final do século XlX, apesar do fomento industrial baseado no proteccionismo económi-
co, os problemas estruturais mantinham-se (nomeadamente, a falta de investimento em acti-
vidades produtivas, o atraso agrícola, a dependência externa, a emigração de parte da
populaÇão activa para o Brasil em busca de melhores condiçÕes de vida). Na primeira
década do século XX, o descrédito na política económica do Governo e da monarquia agra-
vou-se devrdo à descoberta de irregularidades financeiras (ligadas ao favorecimento do
capitalista Conde de Burnay nos tabacos e às despesas com a famÍlia real).
93
HE ME n civilização industrial - economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas

4. A difusão da ideologia republicana - em 1876 Íoi fundado, em Portugal, o Partido Republicano.


Rapidamente conquistou a adesão das classes medias, vÍtimas da crise económica e descren-
tes da política. Em 1880, as comemoraÇôes do tricentenário da morte de CamÕes foram apro-
veitadas politicamente para reÍorçar o sentimento de desconfiança Íace ao regime monárquico.
5. A revolta de "31 de Janeiro" -
em 1891, em contexto de profunda crise económica e de res-
caldo do ultimato inglês, um grupo de militares de baixa patente protagonizou uma tentativa de
implantação da República, no Porto (na antiga Rua de Santo António, actual Rua 31 de Janeiro).
Apesar de fracassada (foi violentamente reprimida), a revolta exprimlu os anseios de derrube
da monarquia partilhados por grande parte da população.
6. A ditadura de João Franco - em 1907, o rei D. Carlos dissolveu o Parlamento, permitindo ao
ministro João Franco que governasse com plenos poderes. A ditadura apenas veio reÍorçar
o descontentamento com a monarquia.
7. O regicídio - o assassinato do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro, D. Luís Filipe, em 1908,
mostrou, em evidência, o total descrédito em que havia caÍdo a monarquia. Depois de um
golpe tão violento, tornou-se impossível ao filho mais novo do rei - D. Manuel ll - assegurar
a continuidade da dinastia de Bragança no poder Foi o último rei de Portugal.

0bjectivo 7. Enunciar os princípios fundamentais do ideário repubticano


As principais ideias sobre as quais assentou a actuação dos governos da Primeira República
Íoram:
- alaicização do Estado (total separação entre a lgreja e o Estado)- porém, as medidas anti-
clericais do ministro Afonso Costa (por exemplo, a expulsão dos jesuÍtas do paÍs) fizeram
com que a primeira república perdesse uma grande parte do apoio popular;
- a abolição da sociedade de ordens (pela aniquilação deÍinitiva dos privilegios do Clero e da
Nobreza);
- a defesa dos direitos dos trabalhadores (nomeadamente, instituindo o direito à greve e o
descanso obrigatorio aos domingos para os assalariados);
- o direito a instrução (através da reforma do ensino público) - a Primeira República conseguiu
resultados assinaláveis no domínio do ensino, porem, afastou os analfabetos da intervenção
polÍtica.

Objectivo 8. Descrever a Revotucão de 5 de Outubro de 1910


A revolução foi preparada paru ter início no dia 4 de Outubro, em Lisboa. Com efeito, desde a
madrugada, foram-se organizando os oficiais revoltosos, os quals puderam contar com o auxí-
lio da Marinha. Seguiram-se recontros entre os republicanos e as tropas fieis à monarquia.
A Bepública foi proclamada às t horas do dia 5 de Outubro de 19.10, da varanda dos Paços do
Concelho. Consumava-se o fim de um sistema político que, na prática, já ruíra.
Logo após a revolução, formou-se um Governo Provisório presidido por Teófilo Braga.

0bjectivo 9. Caracterizar o regime potítico instaurado pela Constituicão de 1911


A Assembleia Nacional Constituinte elaborou a Constituição de 1911 e elegeu o primeiro presi-
dente da República (Manuel de Arriaga). As linhas de fundo do regime político republicano eram:
-a superioridade do poder legislativo, pois o Congresso da República, composto pela
Câmara dos Deputados e pelo Senado, era dotado de amplos poderes: controlava o
Governo e podia destituir o presidente da República. Esta caracterÍstica pode, aliás, expli-
car a instabilidade governativa da Primeira República;
- o carácler simbólico da figura do presidente da República, o qual era eleito pelo Congresso
e não podia exercer direito de veto sobre as leis emanadas do Congresso;
- o sufrágio directo e universal para os maiores de 21 anos que soubessem ler e escrever ou
Íossem cheÍes de família.
94
4. Portugal, uma sociedade capitali§ta dependente

Relaxar fazendo Hisüória


A opinião de um estrangeiro em Portugal no século XIX

Hans Christian Andersen (sim, o mesmo que escreveu as imortais histórias que todos lemos
em criança, como O Soldadinho de Chumbo) visitou Portugal em 1866. As suas impressÕes de
viagem podem dar-nos uma visão "de fora" sobre o nosso país no século XIX:

"Pouco faltava à linha de caminho-de-Íerro entre Madrid e a Íronteira portuguesa para ficar
completa. O Rei de Portugal havia-a utilizado recentemente mas ainda não estava aberta ao
público e diÍicilmente seria, antes da Exposição de Paris, na próxima Primavera."
"Por todas as descriçÕes de Lisboa com que deparei, formara para mim próprio uma imagem
desta cidade mas a realidade foi bem outra, mais luminosa e bela. Fui obrigado a exclamar:
- Onde estão as ruas sujas que vira descritas, as carcaÇas abandonadas, os cães ferozes e as
figuras de miseráveis das possessÕes aÍricanas que, de barbas brancas e pele tisnada, com
nauseantes doenças, por aqui se deviam arrastar? Nada disso vi (. .)"
"Um dos mais importantes escritores vivos é Antonio Feliciano de Castilho (...)"
"Em Aveiro está-se perfeitamente numa Holanda portuguesa, alagada e plana, com canais
abertos (...)"
"A mais bela e encantada parte de Portugal é a inigualável Sintra."
Andersen, Hans Christian, Uma uisita em Portugal em 1866

Esquema
PORTUGAL - REGENE
[1851-19101

Final. do sécuto XIX:


Fontismo [1851-188ó]
surto industriat Iinsuficiente)

. PoLítica de obras púbLicas . Proteccionismo


. Livre-cambismo Ípauta atfandegária de'18921
(pauta aLfandegária de 18521 . Concentração empresariaI
. lndustriaLizacão . Expansão da revotução industriaI
. Capitalismo agrícota . Comércio com as colónias

Mecanismos de Contexto favoráveI 05-10-1910 - lnstauração da


dependência à queda da monarquia Repúbtica em Portugat
1911 - Constituicão PoLítica da
. Financiamentos . Crise económica de 1880-1890 Repúbtica Pôrtuguesa
externos . Crise do mode[o rotativista
. Competiçào dos . ULtimato ingtês Í18901
países desenvot- . Revolta repub[icana [fracassada]
vidos
de . Supremacia do Congresso
. 31-01-1891 Ipoder Legislativol
Empréstimos ao .
estra ngeiro
Dif usão do ideário repubticano . Laicização do Estado
. . Ditadura de João Franco . A[Íabetização
lmportação de . Regicídio
matérias-primas
95
MG A civilização industrial - economia e sociedadei nacionalismos e choques imperialistas

Sistematizar conhecimentos
5. 0s caminhos da cuttura
5.1. A confiança no progresso científ ico
Objectivo 1. Retacionar o cientismo com os progressos da ciência e da técnica na segunda
metade de 0itocentos
Na segunda metade do século XlX, os extraordinários avanÇos da técnica e da ciência (pro-
porcionados, por um lado, pela expansão da Revolução lndustrial e, por outro, pela difusão dos
laboratórios de pesquisa)Íoram responsáveis pela propagação da crenÇa no poder da ciência.
O Racionalismo parecia ser o único meio para explicar todos os fenómenos e a principal via para
atingir a felicidade e o progresso.
A esta Íe nas verdades transmitidas pelo conhecimento cientÍfico dá-se o nome de cientismo.

0bjectivo 2. Referir os principais avanços científicos


No século XIX foram feitos estudos que marcaram o conhecimento até à actualidade, nomea-
damente:
- o casal de Íísicos Pierre e Marie Curie dedicou a sua vida à ciência - Física -, em particular ao
conhecimento da radioactividade;
- o biólogo Charles Darwin concluiu que os animais - o Homem incluído - sofreram alteraçÕes
morfológicas ao longo de períodos de tempo muito longos, as quais resultaram de uma bem-
sucedida adaptação ao meio ambiente (teoria evolucionista);
- o químico Mendeleiev elaborou a primeira tabela periódica dos elementos;
- Pasteur demonstrou a existência de microrganismos - bactérias - no ambiente;
- Koch, no seguimento dos estudos de Pasteur, isolou a bactéria - também chamada de baci-
lo Koch - que provoca a tuberculose (doença de elevadíssima morbilidade no século XIX).

As ciências sociais, à imitação das ciências exactas, procuraram estabelecer leis gerais e
definir métodos rigorosos de pesquisa:
- Augusto Comte foi a figura fundamental na definição do pensamento cientÍfico da segunda
metade de Oitocentos. Criou o Positivismo, sistema Íilosófico que leva o cientismo ao seu
expoente máximo, ao estabelecer que a Humanidade alcançará o estado positivo quando o
conhecimento se basear apenas em factos comprovados pela ciência,
- Emile Durkheim sistematizou as regras da nova disciplina das Ciências Sociais: a sociologia;
- Karl Marx analisou os modos de produção ao longo da História, transformando o socialismo num
sistema cientÍfico de análise da sociedade (o materialismo histórico ou socialismo científico).

Objectivo 3. Expticar o investimento púbtico na área do ensino


No século XlX, a questão da educação tornou-se um tema prioritário para vários governos da
Europa ocidental, pelos seguintes motivos:
- o aprofundamento dos sistemas representativos (demoliberalismo)fez com que o direito de voto
se estendesse à maioria da população, pelo que a classe polÍtica viu interesse na difusão do
ensino público como meio de esclarecer os cidadãos e de influir na sua tomada de decisÕes;
- o espírito positivista do século XlX, ao considerar unicamente como verdadeiro o conheci-
mento obtido através da observação e da experimentação, contribuiu para a valorização de
instituições ligadas à ciência (universidades, laboratórios, museus de História natural);
- a laicização dos Estados, ao retirar da alçada da lgreja a tradicional função educadora,
levou a uma maior responsabilização dos Estados na alfabetizaÇão;
96
5. Os caminhos da cultura @Íq

- as classes médias, ligadas à vrda urbana, procuraram cursos que promovessem a sua ascen-
são social, nomeadamente aqueles que os preparassem para exercer proÍissÕes liberais.

5.2. O interesse pela rea[idade sociaI na titeratura e nas artes - as


novas corren-tes estéticas na viragem do século

0bjectivo 4. Evidenciar a modernidade das correntes estéticas do fim do século: Realismo,


lmpressionismo, Simbotismo e Arte Nova
A segunda metade do século XIX Íoi extremamente rica em propostas artísticas; importa con-
textualizá-las historicamente:

Realismo - esta corrente afirma uma reacção clara aos pressupostos românticos: em vez do
culto do eu, propÕe a análise da sociedade; contrariando a nostalgia do passado, analisa criti-
camente a contemporaneidade; por oposição às paisagens dramáticas, representa cenas
banais, e as suas personagens não são herois, mas pessoas simples.
O desejo de objectividade na arte reflecte a aceitação da corrente filosófica positivista. O
gosto pelo concreto levou a que, na pintura, os artistas Courbet, Millet e Manet representassem
cenas do quotidiano; porém, a tentativa de representar exclusivamente o real chocou a socieda-
de burguesa de então.

lmpressionismo - Íoi da tela de Monet lmpressão: Sol Nascente que nasceu o termo impres-
sionistas, utilizado por um crítico, desdenhosamente, para designar o grupo de pintores (de que
se salientam Monet, Renoir, Degas e Cezanne) que desafiaram as convençÕes artÍsticas da
época. O lmpressionismo procurava captar, em tela, a fugacidade do real. Aproximava-se da
pintura realista no tratamento de temas vulgares e urbanos, mas aceitava a subjectividade do
olhar, transmitida pelos efeitos de luz e pelas cores inesperadas. Graças à expansão das vias
férreas e à novldade dos tubos de estanho com as cores 1á preparadas, os pintores impressio-
nistas puderam trocar os ateliers pelo ar livre.

Simbolismo - em reacÇão ao Realismo e ao Positivismo, a corrente simbolista acentua a


impossibilidade de existência de uma so realidade e propõe como alternativa a representação
simbólica das ideias, razão por que os seus autores foram denominados simbolistas. Gustave
Moreau e Puvis de Chavannes souberam criar nas suas telas um ambiente de mistério e de
sonho, enquanto Paul Gauguin procurou afastar-se da civilização industrial europeia para procu-
rar, na arte e na vida, um ideal de primitivismo.
Em lnglaterra, a pintura de Rossetti ou de Burne-Jones (chamada Pré-Rafaelita por recusar os
cânones do Renascimento) pode ser integrada na corrente simbolista pela aproximação ao
sobrenatural e pela valorização de ambientes de evasão.

Arte Nova - assumindo-se, sobretudo, como um estilo decorativo, a Arte Nova resulta da von-
tade de imprimir colorido e graciosidade a uma Europa descaracterizada pela industrialização.
Os artistas da Arte Nova elaboravam jóias refrnadas (Lalique), adornavam a entrada para o
metropolitano parisiense, ilustravam painéis publicitários com gravuras de mulheres idealizadas
entre flores e folhagens (Mucha). O requinte e a elegância permitem identificar, rapidamente,
todas as facetas da Arte Nova.
Enquanto corrente arquitectónica, a forma ondulada, a aplicação do ferro e a valorização da
estrutura como decoração marcaram as obras de Arte Nova, salientando-se as do arquitecto
Gaudí, em Barcelona.

97
GUEHAl 1 -07
H@ MB A civilização industrial - economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas

Objectivo 5. Anatisar esteticamente as obras artísticas que se integram nos movimentos


referidos *
Sugerimos a análise das seguintes obras de arte das correntes artísticas:

Realismo - a tela Os Britadores de Pedra, de Gustave Courbet (1851), considerada "o mani-
festo do Realismo".

lmpressionismo - a pintura lmpressão: SolNascente, de Claude Monet (1872), cujo tÍtulo aca-
baria por dar origem à corrente pictórica.

Simbolismo - a obra de Gustave Moreau, nomeadamente a Rapariga com a Cabeça de Orfeu.

Arte Nova - a tela intitulada O Beijo, de Gustav Klimt.

Objectivo ó. Estabelecer um parateto entre as artes ptásticas ê a literatura


As artes plásticas e a literatura seguiram caminhos comuns na revolução artística da segunda
metade do século XlX, em particular nas correntes realista e simbolista.
Na literatura, as descriçÕes minuciosas e a crítica social caraclerizaram as obras literárias dos
autores realistas, como Flaubert, enquanto Emtle Zola denunciava as condições de vida do ope-
rariado.
O simbolismo literário caracterizou-se pela expressão do sobrenatural e pela valorização das
ideias subjectivas, nomeadamente na obra de Baudelaire, cujo soneto Correspondances é o
ponto de partida para o cânone formal do Simbolismo, e em Edgar Allan Poe, autor inglês cujas
obras são carregadas de mistério.

5.3. Portugat: o dinamismo cutturat do úl.timo terço do sécuto


0bjectivo 7. Enquadrar a cuttura portuguesa nos caminhos da cuttura europeia
A Regeneração (atraves do Íomento das vias de transporte e da modernização geral) aproxi-
mou Portugal, em termos culturais, da Europa desenvolvida.
O grupo que encetou a revolução artÍstica, chamado Geração de 70 (por serem os anos 70 do
século XIX), era composto por autores que se opuseram aos cânones literários da época,
nomeadamente Antero de Quental e Eça de Queirós. Em 1865, ainda estes estudavam em
Coimbra, a ruptura efectuou-se com a Questão do Bom Senso e do Bom Gosto, polémica moti-
vada por uma carta de crítica de Antero dirigida ao celebrado poeta Castilho.
Mais tarde, em 1871 , o programa das Conferências Democráticas, de Antero de Quental, pre-
via "ligar Portugal com o movimento moderno" e "procurar adquirir a consciência dos factos que
nos rodeiam na Europa".

Objectivo 8. Reatcar o papel da geração de 70


Os elementos da Geração de 70, constituindo o Cenáculo, renovaram os cânones estéticos e
intervieram na sociedade, em especial através do ciclo de Conferências no Casino Lisbonense. As
Conferências do Casino eram uma lufada de ar fresco no marasmo da cultura nacional; porém,
foram interrompidas pela proibição do governo que se sentia ameaçado pela polémica.
A Geração de 70, embora muito profÍcua em obras literárias e ensaios, dar-se-ia por derrota-
da nos seus objectivos revolucionários, intitulando-se o grupo dos "Vencidos da Vida" nos anos
80 do século XlX. O grande mentor da geração de 70, Antero de Quental, suicidou-se em 1891.

- A impossibilidade de aprofundar a análise estetica de várias obras de arte num livro que se quer de resumo
levou-nos a optar por não responder ao presente objectivo.
98
5. os caminhos da cuttura @ Hll

0bjectivo 9. Caracterizar a pintura portuguesa nos caminhos da cuttura europeia


Em Portugal, o século XIX e Íortemente marcado pela corrente naturalista na pintura. O con-
tacto dos artistas nacionais - nomeadamente, Marques de Oliveira e Silva Porto - com a pintu-
ra Írancesa, graÇas à atribuição de bolsas aos mais talentosos, permitiu-lhes praticarem com
mestres dos novos estilos. Começaram a privilegiar a pintura ao ar livre, paisagista, dentro da
linha da Escola de Barbizon. Dedicaram-se ao tratamento de temas banais do quotidiano e à
representação de elementos anónimos do povo.
Um pouco tardio em relação ao Naturalismo francês, este "realismo na pintura" foi muito bem
acolhido, não suscitando a polémica que recebera em França. Prolongou-se até ao seculo XX,
altura em que surgem, também, pintores com aproximaÇão ao Simbolismo, como António
Carneiro, influenciado pela corrente simbolista francesa de Puvis de Chavannes.

Objectivo 10. Referir os principais vultos da literatura e das artes


Nas artes plásticas: Silva Porto e Marques de Oliveira (fundadores do Grupo do Leão), Bordalo
Pinheiro, José Malhoa, Aurélia de Sousa, Henrique Pousão, Antonio Carneiro.
Na Iiteratura: Eça de Queirós, Cesário Verde, Antero de Quental (realistas), Eugenio de Castro,
Camilo Pessanha, António Nobre (simbolistas).
Na historiografia: Oliveira Martins (autor, nomeadamente, de Portugal Contemporâneo e da
História de Portuga|.

99
Relaxar fazendo História
Uma viagem que mudou a História

Darwin hesitava entre ser médico e padre. O pai e os professores inquietavam-se pelo seu
futuro, pois na sua juventude a actividade que mais o realizava era apanhar escaravelhos. Com
dezanove anos embarcou num navio - o Beagle. Na sua autobiografia, ele considera essa via-
gem o acontecimento mais importante da sua vida. Para alem de recolher espécies e de se
divertir passeando montado em tartarugas, Darwin ficou perplexo com as observaçÕes que fez:

"Durante a viagem do Beagle ficara muito impressionado com a descoberta na formação fós-
sil dos Pampas de grandes animais fossilizados cobertos com uma armadura semelhante à dos
tatus actuais (...) Era evidente que factos como estes, assim como muitos outros, podiam ser
explicados sob a suposição de que as espécies são gradualmente modificadas; e o assunto
obcecava-me."
"Em Outubro de 1838, quinze meses depois de ter começado a minha pesquisa sistemática,
li por entretenimento 'Malthus, Ensaio sobre o Princípio da População', e (...) fiquei imediatamen-
te consciente de que nestas circunstâncias as variaçÕes favoráveis tenderiam a ser preservadas
e as desfavoráveis a ser destruídas. O resultado disto seria a Íormação de novas espécies."
Charles Darwin, Autobk;grafia,Relógio d' Água

Esquema

CULTURA NA SEGUNDA
METADE DO SECULO XIX

Cientismo
Novas correntes
confiança na ciência /
- Arte em Portugal
estéticas europeias
investimento na instrucão

. Ciências exactas: . Reatismo


-progressos da química,
.lmpressionismo . ReaIismo na Iiteratura
io log ia,
.
b
. SimboLismo . Naturalismo na pintura
Ciências sociais: . Arte Nova
- corrente positivista [Comte)

'100
Têste de AvaliaÇão
CONJUNTO 1 - ECONOMIA E SOCIEDADE NA EUROPA INDUSTRIAL

Documento 1:
Comentário do primeiro-ministro Sir Robert Pee[ ao preço do trigo em lngtaterra [18/.ól

"Eu, garantir-lhes um preço? Não compete ao Governo garantir-_lhes os lucros que hão-de
t..,,.J"1n os senhores os próprios a garanti-lo, pondo-se em igualdade com os seus compe-
tidores pela actividade e pela inteligência. Pretendo, na minha qualidade de ministro, ter
âpenas à obrigação de consultar o interesse público e de prover à segurança do Estado."
Robert Peel, 1846

Documento 2: Documento 3:
A condição operária A classe burguesa

Gustave Doré, Uma rua de Londres


rJíilliam Forth. Muitos Parabéns

Documento 4:

"A história de toda a sociedade até aos nossos dias não é mais do que a história da luta de
classes. (...)
À medida que a burguesia, isto é, o capital, cresce, desenvolve-se também o proletariado, a
classe dos óperários modernos, que apenas vivem sob condição de encontrarem trabalho e
que apenas o encontram desde que o seu trabalho aumente o capital. (...)
O proletariado servir-se-á da supremacia política para retirâr a pouco e pouco todo o capi-
tal à burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado,
quer dizer, no proletariado organizado em classe dominante. (...)
Proletários de todos os países, uni-vos."
Karl Marx e Friedrich F.ngels, Manifesto do Partido Comunista, 1848

1. Explicite o sistema económico presente no documento 1'


2. Compare as imagens presentes nos documentos 2 e 3, evidenciando as disparidades
sociais ligadas à industrializaçã.o.
3. Relacione a doutrina presente no documento 4 com a realidade económica e social oito-
centista presente nos documentos 1,2 e 3. 101
A civilização industrial - economia e sociedadeí nacionalismos e

CONJUNTO 2 - PORTUGAL E A OUESTÃO COLONIAL

Documento 1:

"É mesmo muito provável que a parte do nosso trabalh o do Zambeze para o oriente apre-
sente alguma coisa de importante, por ser feito em um novo caminho (o mais curto e
melhor talvez), por onde a civilização e o comércio da costa ocidental podem facilmente
atingir a região dos lagos. (...)
Hoje já ninguém vê na África senão um dos vastos quarteirões do mundo, tão próprio à
vida como qualquer dos outros conhecidos, (...) amplo campo de afã comercial, cuja pri-
meira base de segura civilização cumpre ou antes é dever do Europeu explorar, não só no
interesse dos seus habitantes, como em proveito do tráfego comum; enfim, de esquecido e
oculto que foi, tornar-se-á dentro em pouco opulento, cobiçável e assaz visitado, transfor-
mando-se num grande centro de consumo para todo o excesso da nossa produção. (...)
Concluídas estas considerações, benévolo leitor, resta-nos a tarefa pouco fácil, embora
menos escabrosa que uma travessia, de pegar-vos pela mão e conduzir-vos passo a passo
nessa tortuosa vereda por nós trilhada, desde Angola até Moçambique (...)".

Hermenegildo Brito Capelo e Roberto Ivens, prefácio de 1886 à edição de: De AngoLt à Coiltrdcosta, Publicações Europa-
América, p.27-29

1. Enumere, a partir do documento 1, as principais razões que levaram os estados euro-


peus a interessar-se pelo continente africano no século XIX.
2. Relacione a expedição portuguesa com as decisões emanadas da Conferência de Berlim.
3. Integre o documento 1 na questão do Ultimato Inglês de 1890.

Tempo proposto para a resolução do teste: 90 minutos

COTAÇÃO PROPOSTA PARA AS RESPOSTAS:


Corfunto 1 - 110 pontos, distribuídos da Conjunto 2 - 90 pontos, distribuÍdos da
seguinte forma: seguinte forma:
1 - 30 pontos 1 - 30 pontos
2 - 40 pontos 2 - 30 pontos
3 - 40 pontos 3 - 30 pontos

Total: 200 pontos (20 valores)


102
Teste de Avaliação Global
CONJUNTO 1 - pERMANÊruCtn E MUDANcA NA EUROPA DOS SECULOS Xvlll E XIX

Documento 1: Documento 2:
As crises do capitatismo Poputação de atgumas cidades industriais
ingtesas

1-Crescimento 3-Depressão Populacão de atgumas cidades industriais ingtesas


2-Crise 4-Recuperação

Manchester{tôxrit) 35 000 95 000 400 000

Leeds {têxtit} 1ó 000 53 000 172 000


Ciclo curlo'. luglar
Birmingham {metaturgia) 29 000 75 000 230 000
Sheffietd Ímetalurgia) 22 000 1,5 000 125 000

Em V. V. de Prada, História Económica Mundial, vol.ll,


1815 1820 1830 1840
[.iv. Civilização

Documento 3:
Posição retativa das potências industriais entre 1810 e 1910

1.o [ugar R. Unido!'r R. UnidoL'' R. Unido|r R. UnidoL'r Est. Unidos Est. Unidos

2.o [ugar BéLgica Bélgica Bétgica Bétgica R. Unido"r R. Unidolr

3.o [ugar Est. Unidos Est. Unidos Est. Unidos Est. Unidos Bétgica Bétgica

4.0 [ugar Franca Suíca Su íca Su íca Suíca A[emanha

5.o tugar Suíca França França Atemanha Atemanha Suíça

6.o lugar ALemanha ALemanha A[emanha Fra n ça Fra n ça França

7.o [ugar Suécia Suécia Suécia Suécia Suécia Suécia

B.o [ugar Espa n ha Espan ha Espanha Espa nha Espa n ha Espa n ha

9.o lugar Itátia Itátia Itá lia Itá Lia Itá [ia Itátia

10.o lugar Rússra Rússia Rússia R ússia Rússia Rússia

11.o lugar Japào Ja pão Japão Japào Japão .la pão

(1) Compreende: Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda

Segundo P. Bairoch, em J.-P. Rioux, oá. cit.

1. Partindo da análise do documento 1, distinga as crises económicas deAntigo Regime


das crises do capitalismo.
2. Integre o documento 2 na permanência da hegemonia inglesa nos séculos XVIII e XIX.
3. Partindo da observação do documento 3, justifique o fim da hegemonia inglesa.

103
CONJUNTO 2 - PORTUGAL: ONDE ESTÁ A OFICINA?

Documento 1:

"Que se pode ser ao mesmo tempo rico e incapaz, demonstra-o (Portugal) a qualquer obser-
vação do próximo. As nações são neste ponto como os homens. De 1851-52 para 1878-79,
o valor do nosso comércio e o rendimento das nossas alfândegas triplicaram; mas para pre-
venir os optimistas convém dizer que, ainda triplo, não vai além dos 13500 rs. A capitação
do nosso comércio externo: quase o mesmo que em 1818, já depois dos franceses, e sem
contar com a subida do valor dos géneros, proveniente do da diminuição do valor da
moeda. Não exageremos, pois, a nossa fortuna. E menos o devemos fazer ainda quando
observarmos que, sem uma crise, sem uma guerrâ, apenas com estradas e caminhos-de-
-ferro; sem justificação cabal, a não ser a do nosso desgoverno, nos temos endividado de
modo que, se em 1854 cada português pagava 600 rs., cada português paga por um ano,
em 1879-80, 3077 rs. de juros da dívida nacional. (...)
A nós sucede-nos que, além de nos faltar o carvão, matéria-prima industrial, nos faltam
matérias-primas incomparavelmente mais graves ainda: juízo, saber, educação adquirida,
tradição ganha, firmeza do Governo e inteligência no capital. Todas estas faltas essenciais,
e o avanço ganho pelos outros povos da Europa, afigura-se-nos condenarem-nos a ficar
decididamente ocupados em lavrar terras e emigrar para o Brasil. Os lucros agrícolas e o
dinheiro dos repatriados são o mais líquido das economias nacionais. (...)
Estava na natureza da Regeneração o ser livre-cambista. (...)
Regenerada à solta lei da Natureza, a Nação vê que, em parte considerável, a riqueza cria-
da sobre ela não lhe aproveita. Os caminhos-de-ferro, que não são do Estado, pertencem a
estrangeiros; a estrangeiros o melhor das nossas minas; estrangeiros levam e trazem o que
mandamos receber por mar. Só o solo nos pertence, só o líquido do rendimento agrícola
nos enriquece? Não. À factura de uma população rural ignorante junta-se a opulência das
classes capitalistas de Lisboa e das cidades do Norte, não mais culta, porém mais videira.
Uma granja e um Banco: eis o Portugal português. Onde está a oficina? E sem esra função
eminente do organismo económico não há nações. (...)
Assim, as populações rurais e urbanas, a propriedade e o capital, sem o anexo da indústria,
isoladas, não se penetrâm. Se o capitalistâ compra terras, é para as arrendar, vivendo sem-
pre do juro. E capitalista e proprietário, provinciano um, cosmopolita o outro, nenhum
sente palpitar em si a alma da Nação. Um olha para os milhos, o outro parâ os papéis,
absorvidos ambos no seu interesse egoísta, indiferentes a tudo o mais."
J. P. Oliveira Martins, Portugal Contunporâneo, tol. ll

1. Caracterize, sumariamente, as esperanças depositadas na Regeneração.


2. Avalie, com base na análise de Oliveira Martins, o resultado da política de livre-cambis-
mo levada a cabo durante a Regeneração.
3. Tendo em conta os mecanismos de dependência de Portugal em relação ao estrangeiro,
comente a frase de Oliveira Martins "Uma granja e um Banco: eis o Portugal português.
Onde estd a oficina?"

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