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INTRODUÇÃO A SEXOLOGIA FORENSE

Preliminarmente, é de suma importância conceituar o que seria


Sexologia Forense, qual seja, o instituto da Medicina Legal que analisa a questões médico-
biológicas e periciais ligadas aos crimes contra a dignidade e a liberdade sexual.

Em suma, é o ramo jurídico que estuda os problemas médico-legais


ligados ao sexo, que pode ser subdivido em 3 grandes grupos, quais sejam, o da erotologia
forense, obstetrícia forense e himenologia forense. Aquele é a parte da Medicina Legal que
se ocupa das perversões e crimes sexuais, da exposição ao perigo de contágio e da
prostituição, já quanto a obstetrícia forense, se preocupa em estudar os aspectos médicos
legais relacionados ao parto, puerpério, fecundação, e aos crimes de aborto e infanticídio.

Por fim, a himenologia forense, se dedica ao estudo dos aspectos médicos


legais do casamento. Desta feita, pode-se dizer que o estudo de maior abrangência desse
subramo se encontra na análise dos desvios do instinto sexual, além de peculiaridades de
cada desenvolvimento humano, como os estados intersexuais (quadros clínicos que
apresentam problemas de diagnóstico, terapêuticos e jurídicos, na definição do
verdadeiro sexo do indivíduo), ou quanto transexualismo, impedimentos matrimoniais,
vez que por exemplo, casos de disfunções sexuais devem ser conhecidas antemão pelo
companheiro, caso seja revelado somente após o casamento, o mesmo pode ser anulado,
entre tantos outros.
É uma realidade que a violência sexual, desde os primórdios da terra,
assombra a sociedade, não distinguindo raça, cor, sexo, religião ou cultura, onde o
aumento populacional das regiões periféricas das metrópoles, bem como o desemprego,
o consumo de drogas, a influência da mídia, impunidade e a insegurança são os elementos
que fazem alavancar a porcentagem de cometimento desses tipos de crimes, que possuem
como alvos mais recorrentes as mulheres e crianças.

Diante do exposto, é necessária uma análise minuciosa dos vestígios


deixados por tais delitos, bem como o investimento na ampliação e melhoria nas perícias
realizadas por profissionais, para que se possa chegar à origem criminal desses delitos,
que são realizados por os mais diversos meios de provas.

Ora, nada mais certo e determinado que um estudo forense sobre os


casos acometidos por violência sexual, onde se pode chegar à resultados concretos e
verídicos, com o maior grau de veracidade e determinação possível.

A perícia médica realizada no instituto da sexologia forense tem uma


aplicação muito peculiar, tendo em vista o caráter dos crimes cometidos, devendo ser
realizada com imensa cautela a análise se houve ou não a conduta delituosa por parte do
agente, onde o laudo descreverá com detalhes as lesões e particularidades encontradas
no corpo objeto do exame, devendo ainda o profissional fundamentar tais decisões que
serão analisadas posteriormente pelo julgador.

Outro ponto que deve ser analisado pelos agentes, é o local em que será
realizada a perícia médica, tendo em vista a preservação da dignidade da vítima, com o
intuito de evitar qualquer tipo de constrangimento, onde o perito, caso seja possível, seja
especializado em tratar os casos dessa natureza e o conhecimento da legislação pertinente
aplicadas a tais condutas delituosas.

Postas tais considerações, ressalta-se ainda que a perícia médica a ser


realizada será diferente em cada indivíduo, entretanto os profissionais devem seguir
alguns protocolos na quesitação médica, onde primeiramente será analisado o local do
crime pelos peritos criminais, em busca de vestígios que possam elucidar o delito, exame
da vítima, e posteriormente o exame do agressor, devendo ser concluído com um laudo
objetivo e claro, para que não restem dúvidas sobre o que está escrito.
Em maiores detalhes, quando falamos nesses tipos de delitos devem ser
observados os conceitos de conjunção carnal, para daí verificarmos se realmente houve
ou não a penetração do pênis da vagina, ou se foi praticados atos libidinosos sem nenhuma
penetração.

Interligando o que já dito anteriormente, o desvio sexual é caracterizado


por distúrbios qualitativos e quantitativos do instinto sexual, podendo existir como
sintoma de degeneração psíquica ou como intervenção de fatores orgânicos glandulares.

Podem ser desejos sexuais maiores que o normal, desejo sexual


hipoativo, que é o caso da anafrodisia e frigidez e o caso da hiperatividade, os casos
maiores que o normal, o caso da satiríase e ninfomania.

Popularmente conhecido como pervertidos, são conceituados


cientificamente como agentes disfuncionais sexualmente, aqueles que possuem
comportamento anormais diante do imposto pela sociedade.

SEXOLOGIA FORENSE NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO

Atualmente, o ordenamento jurídico pátrio trás diversos institutos


relacionados ao tema em estudo, onde a doutrina, legislação e jurisprudência caminham
com o intuito de dirimir os impactos ocasionados por tais tipos de condutas, com o intuito
de proteger a vítima e inviabilizar a atuação do infrator, sendo o ordenamento repressivo
a garantia da sociedade em face de citada problemática.

1. DOS CRIMES SEXUAIS

Os crimes contra a dignidade sexual, Título VI, do Código Penal Brasileiro


elenca os casos contra a liberdade sexual e contra crimes sexuais cometidos à vulneráveis
sendo imprescindível a atuação da Medicina Legal na perícia de cada caso para
concluirmos um laudo médico, pericial e forense e proporcionarmos a punibilidade dos
agentes transgressores.

1.1 Estupro (art. 213 do Código Penal Brasileiro)


O conceito do crime de estupro está previsto no artigo em epígrafe que
nos trouxe a seguinte redação: Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça,
a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato
libidinoso.
Entende-se por conjunção carnal a cópula vagínica. A introdução do
pênis ereto na vagina, parcial ou totalmente, com ou sem a ruptura do hímen, com ou sem
orgasmo, onde para uma correta análise pericial para ocorrência de tais crimes, devem
ser elucidados tais pontos, quais sejam:

- Ruptura do hímen: completa ou incompleta; recente ou totalmente


cicatrizada (em geral mais de dez dias).

Ademais, O hóstio (orifício) do hímen pode apresentar irregularidades,


tanto devido a fatores congênitos como à fatores traumáticos (como a penetração).
Existem dois tipos de irregularidades: o entalhe e a ruptura (ver Figura 1).

Figura 1: Esquema de hímens (Odon Ramos Maranhão, Curso Básico de Medicina Legal)

O entalho é pouco profundo, não alcançando o bordo aderente e é simétrico. Por não
alcançar o bordo, é menos sujeito à infecção.
Já a ruptura é uma lesão assimétrica, que pode ser completa ou incompleta, da maneira
como atinja ou não o bordo. Por ser uma abertura maior, é mais susceptível à infecções
que o entalhe.

1) Ruptura recente ou antiga: Decorridos 30 dias da relação, não é mais possível


para a perícia caracterizar a ruptura como sendo antiga ou recente, pois o
processo de cicatrização já se deu por completo neste prazo (os autores divergem
quanto ao prazo, sendo o mais longo da ordem de 21 dias para a cicatrização
total).

2) Complacência Himenal: Dependendo da elasticidade da membrana, pode ocorrer


de que o óstio não se rompa durante a conjunção carnal. Outros fatores, como a
lubrificação da mulher, as dimensões dos membros da parceira e do parceiro,
bem como a proporção entre eles, podem fazer com que o hímen não se rompa
durante a relação.

3) Himenorrafia: É o processo de reconstituição do hímen. Existem intervenções


cirúrgicas de reconstituição, que só podem ser realizadas com autorização
judicial. Existe também uma intervenção que têm por finalidade simular o
rompimento do hímen, através da introdução de pontos nos bordos, provocando
hemorragias durante a conjunção, simulando o rompimento do hímen. O perito
deve avaliar as duas possibilidades: a reconstituição e a simulação.

- Espermatozoides na vagina: até 48h após o coito; cuidados higiênicos


dificultam a perícia; uso de camisinha elimina a possibilidade;
- Vestígios de sêmen na vagina (fosfatase ácida, glicoproteína P30).
- Gravidez.

A pena cominada para citado delito é de 6 (seis) a 10 (dez) anos de


reclusão, podendo ser aumentada se a vítima for maior de 14 (catorze) anos e menor do
que 18 (dezoito) anos, se resultar lesão corporal, ou ainda nos casos de morte.
Toda prudência é pouca para afirmar ou negar a cópula vaginal, pois em
torno desse resultado gira a caracterização do crime de estupro. Descrever as rupturas de
forma simples e objetiva, dando as características de idade da lesão, sua localização, o
número delas ou outras eventualidades que possam se tornar úteis.

Além disso, a violência desses casos podem se dividir em efetiva e


presumida. Senão vejamos:

Considera-se a violência como sendo efetiva em 2 ocasiões:

1) Superioridade de forças: A violência efetiva pode se dar


quando existe uma grande

2) Desproporção física entre o agressor e a vítima: Geralmente,


considera-se apenas casos extremos, envolvendo crianças e
adultos. Quando apenas adultos estão envolvidos, esta
excessiva desproporção raramente acontece.

3) Pluralidade de agressores: quando o número de agressores é


maior que o de vítimas (1, geralmente). É sempre considerado
como sendo violência efetiva, visto que é pouco provável que
a vítima consiga resistir em casos desta natureza.

Já quanto a violência presumida, pode-se dizer que se subdivide nestas


espécies:
1) Incapacidade de consentir: Vítima menor de 14 anos -
existe uma tutela jurídica imposta pelo Código Penal que diz
que os menores de 14 anos são incapazes de consentir. Isto
significa que não interessa se a vítima estava ou não de acordo
com a situação, pois o juízo dela não é suficiente para que ela
tenha o poder de escolha.
2) Vítima débil mental - é a peso cujo grau de inteligência
encontra-se abaixo da média, ou seja, tem uma debilidade
mental em relação às demais. Tem o entendimento e a
determinação comprometidos (alienados). Tanto o Código
Penal como o Civil faz menção à incapacidade de
consentimento destas pessoas. Pode ser configurado também
em pessoas que as perturbações mentais são temporárias.
Neste caso, deve-se avaliar o estado mental no tempo do fato
ocorrido.

Em relação a incapacidade de resistir (prejuízos de consciência + deficiência do potencial


motor), ou podendo se chamar de sexo fora da realidade (acometido com prejuízos à
consciência da vítima), que nada mais é que a perca da consciência da vítima, podem se
dar por diversos motivos, quais sejam:

1) Sono: só se admite com relação a pessoas habituadas ao sexo,


não podendo ser alegado por uma virgem.

2) Fatores emocionais: (hipnose, transe, mediunidade) -


Geralmente alega-se que o objetivo do transe era distinto da prática sexual, que foi
conduzida maliciosamente pelo guru. É questionável que alguém, sem nenhuma
espécie de consentimento, seja levado à práticas.

3) Fatores patológicos: (histeria, epilepsia) durante as crises,


podem ocorrer momentos em que a vítima perde totalmente a consciência. Mais
uma vez, a perícia deve questionar a autenticidade da perturbação, principalmente
em crises histéricas.

4) Substâncias químicas: anestesia, alcoolismo, drogas,


outras. Diversas substâncias podem provocar a perda de consciência. Nestes casos,
é mais relevante a situação que levou a vítima a ingerir a substância: se foi forçada,
se agiu por conta própria, para determinar se houve ou não incapacidade de
resistir.
5) Déficit Potencial Motor: Quando uma pessoa, por qualquer
motivo, como fraturas, doenças graves, engessamento de regiões que restringem
os movimentos, paralisias, ou outra debilidade, não é capaz de fazer uso pleno de
seu potencial motor.

Aqui entra o trabalho da perícia em identificar manchas,


escoriações, lesões de qualquer natureza, espermas nas extremidades sexuais
(vagina, anus) e por fim, verificar a incapacidade de consentir da vítima, onde
avaliará a idade, e o nível de debilidade do indivíduo ao momento do ato.

NATÁLIA PAZ COSTA


ACADÊMICA DE DIREITO