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A Rua

espaço, tempo, sociabilidade

Graça Índias Cordeiro e Frédéric Vidal (dir.)

DOI: 10.4000/books.etnograficapress.1406
Editora: Etnográfica Press
Ano de edição: 2008
Online desde: 13 maio 2019
coleção: Antropologia
ISBN eletrónico: 9791036516191

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Edição impressa
Número de páginas 174
 

Refêrencia eletrónica
CORDEIRO, Graça Índias (dir.) ; VIDAL, Frédéric (dir.). A Rua : espaço, tempo, sociabilidade. Nouvelle
édition [en ligne]. Lisboa : Etnográfica Press, 2008 (généré le 09 décembre 2019). Disponible sur
Internet : <http://books.openedition.org/etnograficapress/1406>. ISBN : 9791036516191. DOI :
10.4000/books.etnograficapress.1406.

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1

Arua como lugar estratégico para a observação da vida urbana no que esta tem de mais peculiar é
o tema central deste livro. A proposta é simples e exploratoria: procurar diferentes aproximações
a esta realidade complexa a partir do olhar da antropologia, da história, da sociología e da
arquitectura, em contextos geográficos e temporais distintos. A rua surge como problema a
identificar e como lugar privilegiado para a troca e circulação de saberes disciplinares. Enquanto
imagem e símbolo de um modo de vida urbano, lugar onde ocorrem as sociabilidades mais
“típicas” da cidade, a rua condensa e viabiliza todo um imaginário feito de discursos, memórias e
emoções, que atravessam e elaboram simbolicamente a cidade naquilo que ela tem de mais
original. Espaço, tempo e sociabilidade são apenas tres tópicos que ajudam a ler as contribuições
da presente colectânea, cujos autores partilham urna preocupação fundamental: apreender a rua
à escala de quem a vive, de perto e em situação... Na Paris popular oitocentista, nos actuais
campos de refugiados ou na Lisboa dos séculos xix e xx, vamos ao encontro dos lugares da rua.

GRAÇA ÍNDIAS CORDEIRO


Antropóloga, Departamento de Antropologia e Centro de Investigação e Estudos de
Sociologia do ISCTE-IUL.

FRÉDÉRIC VIDAL
Historiador, Centro em Rede de Investigação em Antropólogia (CRIA / ISCTE-IUL),
professor da Universidade Autónoma de Lisboa.
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Agradecimentos

1 Reúnem-se neste livro algumas das comunicações, reescritas e desenvolvidas,


apresentadas num colóquio que teve lugar no ISCTE em Novembro de 2005 – “O lugar
da rua. Cidade, tempo, sociabilidade” – organizado pelo Centro de Investigação e
Estudos de Sociologia (CIES-ISCTE) e pelo Centro de Estudos de História Contemporânea
Portuguesa (CEHCP-ISCTE), com o apoio financeiro da Fundação para a Ciência e a
Tecnologia, da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e da Fundação
Calouste Gulbenkian. Durante três dias, um pequeno grupo de antropólogos, sociólogos
e historiadores reflectiu sobre o papel da rua na construção da vida social e cultural
urbana. Os organizadores agradecem a todos os participantes o seu contributo para o
sucesso deste encontro, nomeadamente a Magda Pinheiro, Marina Antunes, Gonçalo
Gonçalves e Otávio Raposo.
2 Este colóquio marcou o ponto de partida do projecto de investigação pluridisciplinar “A
Cidade e a Rua: Uma aproximação etnográfica à vida urbana” [FCT-POCI/ANT/
57506/2004] que, ao longo dos últimos dois anos, beneficiou dos comentários e
sugestões dos seus consultores: Gilberto Velho, Rosa Maria Perez, Joaquim Pais de Brito
e António Firmino da Costa. O livro que agora se dá à estampa reúne alguns dos mais
significativos resultados daquele projecto.
3 Finalmente, um agradecimento aos Livros Horizonte e, muito em particular, ao Dr.
Rogério Moura, que rapidamente viabilizaram esta publicação.
3

Introdução
Graça Índias Cordeiro e Frédéric Vidal

1 Falar da rua é falar da cidade. Analisar a rua como lugar estratégico para a observação
da vida citadina e urbana, no que esta tem de mais peculiar e original, é o tema central
deste livro. A rua é entendida como um recorte empírico que permite encontrar uma
multiplicidade de pontos de vista e de objectos, um recorte etnográfico possível para a
exploração e o conhecimento da vida urbana contemporânea a partir de baixo e de
dentro. A proposta é relativamente simples e exploratória: procurar diferentes ângulos
de aproximação a esta realidade complexa, reunindo um conjunto de casos
provenientes de campos disciplinares próximos mas com temas de análise e contextos
geográficos e temporais distintos. Porque os objectos não são neutros nem existem no
vazio, mas são construídos no interior de tradições científicas próprias, foi também o
olhar subjectivo do investigador formado numa determinada disciplina – a
Antropologia, a História, mas também a Sociologia e a Arquitectura – que quisemos
convocar para a discussão.
2 Contudo, o objectivo do presente livro não é pensar novas formas de
interdisciplinariedade. O encontro entre diferentes autores não se fez tanto em torno
de objectos relativamente próximos mas, sobretudo, em torno de questionamentos e
maneiras comuns de observar: de perto, em situação, procurando não reduzir
artificialmente a complexidade das formas sociais analisadas, com uma particular
atenção às mudanças históricas. Neste sentido, a rua surge como lugar privilegiado para
uma troca e circulação de saberes disciplinares. Tomar a rua como problema a
identificar e não como unidade definida a priori é, pois, o ponto de partida desta obra.
3 As realidades concretas que são trabalhadas nos capítulos que se seguem – os espaços,
as situações, os actores, os processos-abrem novas perspectivas para o debate em torno
de um tópico tão falado mas, paradoxal mente, tão pouco conhecido. Trata-se de
revelar o sentido que a interacção urbana quotidiana adquire para cada citadino, nos
lugares que habita e percorre, nos papéis que desempenha, nas representações que
fabrica. E a rua à escala de quem a vive o que nos interessa descobrir, discutir e
problematizar – a rua como lugar onde se fabricam interacções, onde se produz
sociedade, a rua que tantas vezes se inventa para além do enquadramento urbanístico
que a envolve e que assim nos surpreende.
4

4 A cidade tem sido olhada como um símbolo, “primeira forma material da modernidade”
afirma Michel Agier que, no primeiro capítulo, analisa o caso dos campos de refugiados.
É precisamente a relação entre esta materialidade urbana – a cidade histórica – e a
produção de espaços de vida urbana que interessa problematizar nestes espaços
liminares, precários ou vazios que permitem discutir a génese da vida urbana, tanto na
sua materialidade como nas formas de organização social e cultural. O factor mínimo de
urbanidade está lá, são implantações relativamente permanentes e densas de
indivíduos heterogéneos. E o tempo é crucial na dinâmica destes espaços: ao nível da
sua organização, da sua apropriação simbólica, das sociabilidades que se vão
desenvolvendo, das formas de expressão simbólica, até das formas emergentes de acção
política. “O campo é um espaço em si que cria a sua própria dinâmica.” Analisar os
quadros de identificação local que nascem em situações de extrema precariedade, neste
e noutros espaços liminares, permite repensar a localidade e o próprio facto urbano em
si.
5 O mote está dado: espaço, tempo e sociabilidade são apenas três tópicos que nos ajudam
a ler, de um modo coerente, as contribuições da presente colectânea. Se olharmos um
pouco para o contexto histórico e científico da reflexão sobre a rua podemos ver que a
sua abordagem tem oscilado entre, por um lado, um excesso de visibilidade, no sentido
em que a cidade tem sido, muitas vezes, lida a partir do ponto de vista da rua – de uma
certa rua, de uma certa imagem de rua – confundindo-se, até, com ela, e, por outro lado,
um limitadíssimo conhecimento empírico destes espaços concretos, com uma
consequente lacuna na sua teorização. Este aparente paradoxo, entre a força de uma
certa “ideia de rua” e a pouca nitidez na percepção das múltiplas, diversas e muitas
vezes contrastantes “experiências de rua” traduz uma real dificuldade na apreensão
destes espaços de vida urbana, lugares cruciais na vida das nossas cidades.
6 Enquanto imagem e símbolo de um “modo de vida urbano”, lugar onde se acredita
ocorrerem as formas de interacção social “mais típicas da cidade”, a rua condensa e
viabiliza todo um imaginário composto por bipolarizações classificatórias (casa/rua;
público/privado; urbano/tradicional), discursos, imagens, memórias e emoções que
atravessam, elaboram e estruturam simbolicamente a cidade naquilo que ela tem de
mais originalmente urbano. Desde a identificação do par proximidade geográfica/distância
social pela chamada Escola de Chicago que não têm conta as variações mais ou menos
sofisticadas desta relação constitutiva da vida citadina em qualquer latitude. Nesta
busca da especificidade da vida social urbana, a rua surge, inequivocamente, como o
elemento central ao nível da prática social e do imaginário.
7 Num primeiro momento de reflexão sobre a urbanidade e o facto urbano em si,
reportando-nos à emergência das primeiras cidades industriais, a rua surge com um
valor metafórico evidente e, até mais do que isso, parece condensar e sintetizar em si
mesma aquilo que traduz a modernidade que se confunde com o modo de vida urbano: a
rua é a cidade, sinónimo de espaço público. Se nos lembrarmos de alguns autores
clássicos que basearam a sua percepção da cidade a partir do espaço público onde se
inclui a “rua”, vemos como a identificação de um novo tipo de relacionamento social,
baseado no contrato e no anonimato, se confunde com o espaço público e ganha uma
grande relevância. Como se, nestes primeiros tempos de definição de conceitos e de
matrizes de interpretação da realidade, a rua fosse um objecto com demasiada
visibilidade, capaz de suscitar um imenso interesse traduzido numa multiplicidade de
olhares, quase cinematográficos, como o flâneur de Baudelaire que tanto inspirou os
5

primórdios da reflexão urbana. Podemos considerá-lo um olhar de fora, en passant, do


habitante privilegiado da cidade que não vive na rua nem a vive, antes a cruza numa
atitude romântica, de fascínio sempre renovado, perante a descoberta de uma cidade
outra, exótica, inesperada nas figuras e nos comportamentos – cidade misteriosa essa
que se dá a conhecer, antes do mais, nesse espaço socialmente misturado que é a rua.
8 A formação desta “alteridade interna ao espaço social que desfigura e torna
estrangeira” uma parte da população activa é apresentada por Maurizio Gribaudi, neste
livro, na digressão histórica que faz pela cidade de Paris no século XIX. Analisa o
contraste entre o esplendor da imagem de uma cidade moderna nascida em torno dos
novos bairros e boulevards e a invisibilidade do lado mais popular dessa mesma cidade,
cuja modernidade não foi lida como tal, nem pelos seus contemporâneos nem pelos que
se seguiram. Maurizio Gribaudi resgata a importância da complexa organização social e
económica dos velhos bairros de Paris, centrados em torno do universo da rua e do
prédio, com laços de vizinhança coesos e fortes que testemunham a grande
proximidade funcional entre a residência e uma intensa actividade económica. Esta
população desenvolveu não apenas formas de “identidade profundamente enraizada no
espaço de vizinhança” como também todo um conjunto de estratégias de mobilidade
social e mobilização política que podem, inclusivamente, ser lidas como projectos de
democracia local. Bairros e ruas que, nas leituras mais comuns, têm sido ofuscados pelo
“mito de uma modernidade” baseada numa visão da cidade que nega o protagonismo e
a vitalidade social e urbanística do centro popular da cidade, relegando-o para o
“espaço opaco e indefinido da marginalidade urbana”.
9 Tais espaços, onde a sociabilidade pública e interacção urbana têm um valor central,
são apresentados e discutidos por Tim Sieber a propósito de Lisboa. É aqui trabalhada
em profundidade a ideia comum, prevalecente ao longo da segunda metade do século
XX, de que a rua, como espaço de integração de funções e de cruzamento de vários tipos
de sociabilidades, de múltiplas e diversificadas interacções sociais, se vai esvanecendo e
de que a “rua tradicional” desaparece, tornando-se numa espécie de não-lugar ou,
então, de um lugar problemático associado à delinquência, à pobreza, à marginalidade
social. Tim Sieber analisa os significados que a rua assume segundo diferentes tradições
nacionais, usando literalmente a rua como janela de observação para a compreensão da
cultura urbana e das diferentes formas de construção intelectual e cultural da cidade. A
uma tradição norte-americana historicamente antiurbana, exemplificada pela “rejeição
da vida de rua como tema sério de investigação”, Tim Sieber contrapõe o olhar da
“Europa urbana do Sul” onde é inquestionável o valor desta dimensão na vida social das
suas cidades. O caso em análise constrói-se a partir de dois lugares de observação,
contrastantes e, por isso mesmo, particularmente elucidativos: Alfama, com a patine
cultural das suas velhas ruas e a Expo’98/Parque das Nações, com o espaço controlado
das suas muito recentes ruas “artificiais”. O registo minucioso do quotidiano capaz de
transmitir o sabor e o sentido das vivências na apropriação criativa das ruas e dos
espaços públicos surge, assim, a contrabalançar essa outra visão mais global do
desenvolvimento urbano contemporâneo.
10 As ruas como lugares de referência e de interacção urbana, como espaços de
aprendizagem e exercício profissional, são temas trabalhados por Frédéric Vidal e
Susana Durão. Apesar de se confinarem a épocas, fontes, temáticas e disciplinas
diferentes, contêm alguns pontos comuns, tanto ao nível da discussão teórica como da
abordagem metodológica. A relação entre a cidade gerida e a cidade vivida, por um
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lado, e uma abordagem em várias escalas e um enfoque situacional, por outro, são
algumas das preocupações partilhadas nestes dois textos.
11 Em que medida o modo de identificação dos domicílios pode ter a sua história? No texto
de Frédéric Vidal, a morada surge como uma forma de identificação socialmente
construída, ponto de encontro entre “modelos normativos” e “lógicas de tipo
comunitário”. A análise de diferentes práticas em curso na Lisboa do século XIX –
nomeadamente a organização da posta domiciliária, as declarações nos registos
paroquiais, a percepção da organização do espaço urbano em alguns textos novelísticos
– permite focalizar pontos de articulação e de interacção entre dimensões por vezes
conflituais: os factores individuais e colectivos; os meios sociais organizados segundo
lógicas próprias e as práticas administrativas de gestão do espaço urbano; as lógicas
relacionais pré-existentes e as normas regulamentares inovadoras. O autor consegue
assim descobrir uma cidade dinâmica e complexa, organizada social e culturalmente a
partir de zonas de negociação incertas. Entre os sítios, os bairros e as paróquias, a rua
vai surgindo aqui como principal elemento de identificação, mas sempre em tensão
com outros, desde o nível mais amplo do reconhecimento geral do espaço urbano,
através do uso da categoria administrativa, até ao nível mais restrito da memória
partilhada, transmitida através das redes de conhecimento interpessoal. Face à
progressão de uma percepção cada vez mais normalizada do espaço, a rua é, de certo
modo, um compromisso entre “diferentes níveis de apreensão e de leitura do espaço
urbano”. Pois a rua aparece aqui, antes de tudo, como “um lugar de negociação entre
vários interesses e hábitos”.
12 E igualmente a partir dos usos sociais e, muito concretamente, das práticas
profissionais de um corpo de agentes de uma esquadra da polícia de Lisboa que Susana
Durão analisa diferentes formas de percepção da cidade e seus territórios, percepção
esta que não decorre de uma apreensão passiva mas sim de um quotidiano activo de
“socialização da rua” e de produção de “ordens socioespaciais, de poder e morais para a
cidade”. Aqui, como no texto anterior, há uma preocupação em cruzar vários níveis de
apreensão e leitura da cidade, desta vez através do olhar sensível e atento da
etnografia. Certas definições policiais que discriminam, por exemplo, os bairros de
“gente de bem” dos “problemáticos” e que suscitam atitudes e visibilidades
contrastantes, remetem-nos para um nível de conhecimento concreto do território
cujas fronteiras e tipificações decorrem de uma prática que não coincide, por vezes,
com as definições oficiais. A identificação de algumas das possíveis “ruas dos polícias”
cujo significado depende das rotinas e dos serviços desempenhados (patrulha apeada,
carro-patrulha e apoio a idosos) mostra como os saberes profissionais e urbanos da
polícia se constroem, em última análise, na relação com os territórios e as populações,
desde a sua forma mais itinerante e territorializada – como na patrulha apeada – até
modos de relacionamento em rede, dirigidos pessoalmente a certas casas e pessoas –
como no apoio aos idosos. O que está em causa neste texto é, claramente, a análise dos
diferentes saberes desenvolvidos na actividade policial e de que modo este
conhecimento vai moldando aquilo que a autora designa como cartografias policiais.
13 E chegamos às ruas dos bairros, de bairros novos que vão surgindo na Lisboa do século
XX, tanto os que são planeados pelos poderes públicos como os que surgem fruto do
improviso e da iniciativa privada. A relação entre a rua enquanto “lugar físico
construído” e as múltiplas formas de apropriação de quem a usa e nela vive é um dos
eixos que organiza os três capítulos que se seguem. A diversidade dos casos
7

apresentados e também do enquadramento disciplinar de cada um deles, pela


Sociologia, Arquitectura e Antropologia, fazem-nos fortemente complementares e
dialogantes entre si. A rua é percorrida de “cima-a-baixo”, nas suas múltiplas dinâmicas
e agentes, desde os construtores e/ou planificadores até aos seus mais efémeros
utentes.
14 A relação entre a circulação e a convivência urbana é a linha de força do texto de João
Pedro Silva Nunes e Luís Vicente Baptista, que discutem a relação entre as mobilidades
e o espaço urbano na cidade moderna do século XX, cujo crescimento se fez através de
uma separação clara entre as vias de circulação e os espaços residenciais. Como se
constroem os prédios ao longo das ruas? Quem pensa as ruas dos bairros planificados?
Nos dois casos apresentados, “contrastantes de produção da cidade nova” – Bairro do
Rego, início século XX; Olivais Sul, anos 1960 –, a rua surge com valores e significados
diferentes conforme os actores e agentes envolvidos na sua edificação. No primeiro
caso, a rua aparece “como suporte de investimento económico” e “via para o
loteamento”. Nos Olivais Sul, pelo contrário, a edificação da rua foi planeada e,
sobretudo, pensada e imaginada. Dá-se uma verdadeira reinvenção da rua nas suas
“enseadas” residenciais protegidas da circulação automóvel. Neste segundo caso –
como no caso do texto da arquitecta Monica Farina – a grande referência é a unidade de
vizinhança, categoria operatória, demográfica e ecológica, onde a “rua e praça surgem
como organizadores da articulação entre os espaços domésticos e o espaço exterior,
para a interacção e comunicação interpessoal”, numa tentativa de recriação na cidade
nova dos espaços físicos similares aos da cidade antiga.
15 Monica Farina estuda, num misto de observações arquitectónicas e etnográficas, um
conjunto de habitação social em Cheias (Matriz H do Bairro da Flamenga). No âmbito da
relação entre o espaço construído e as culturas específicas que o produzem, a autora
quer perceber melhor como os espaços exteriores à habitação particular são portadores
de valores de sociabilidade e facilitadores do desenvolvimento de identidades
territoriais. A sua observação recai sobre aquilo que designa pelo encontro entre a
“cultura dos arquitectos e urbanistas”, que projectaram a organização do espaço e
previram práticas de uma “população abstracta”, e a cultura dos “habitantes reais” ou,
para dizer por outras palavras, a interacção entre os habitantes e os modelos espaciais
propostos. De um modo semelhante ao dos Olivais-Sul, uma das ideias fortes do
projecto da Matriz H é o de “levar o espaço da rua até aos pisos mais altos do edifício”.
Neste texto a arquitectura é analisada à escala do indivíduo, o que permite descobrir
uma sociedade mais estruturada por espaços relacionais do que por espaços funcionais
e por códigos de conduta que se foram construindo no âmbito de uma cultura popular
urbana local. Existe, assim, uma variedade e imprevisibilidade de respostas que faz com
que, por exemplo, a rua prevista para ser “de vida urbana intensa” acabe por ser um
espaço fechado sobre si próprio ou que um local inesperado se torne num ponto de
encontro e de convívio.
16 E é, precisamente, neste quadro relacional – e não apenas funcional – que Rita d’Avila
Cachado se situa para apresentar o caso dramático da Quinta da Vitória, em Loures,
bairro precário parcialmente destruído devido a um muito longo processo de
realojamento. Apesar disso, as suas ruas não desapareceram e continuam a mostrar a
sua vitalidade. A observação recai sobre uma rua em particular, que faz fronteira entre
os dois bairros – o antigo, precário, e o novo, de realojamento – para além de separar,
também, dois concelhos – Loures e Lisboa. Apesar da demolição de casas de um dos
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lados desta rua ela continua a ser central para um sem número de actividades, pois é o
espaço mais próximo dos dois bairros. A reinvenção permanente da utilização desta e
doutras ruas faz sobressair aqueles que dominam e controlam o seu espaço: jovens
africanos, ciganos e, com um maior protagonismo, hindus, com as suas lojas e templo e,
sobretudo, com os seus rituais-performance cíclicos que transformam a rua de todos os
dias numa “rua ritualizada”. “E na rua que melhor podemos observar os fenómenos da
diferenciação cultural”, afirma a autora, defendendo que estudar formas de viver na
rua é a melhor maneira de nos aproximarmos das pessoas e, assim, evitar a distância do
olhar.
17 A diferenciação sociocultural nas ruas de Lisboa e Barcelona é um dos pontos analisados
por Joan J. Pujadas, que arrisca a comparação entre dois bairros históricos – o Raval e a
Madragoa – cujas transformações urbanísticas e sociais testemunham fases diferentes
do processo de crescimento da cidade pós-industrial. Muito embora tais realidades
possam ser aproximadas pelo fenómeno da gentrificação que a ambos afectou, a
observação etnográfica revela diferenças abissais nas formas de integração dos seus
velhos habitantes, no tipo de vida de rua, no próprio espaço público em si. Com efeito,
enquanto a Madragoa dos finais dos anos 1980 se caracteriza ainda por um sistema de
relações vicinais relativamente denso, baseado em espaços de convívio e de interacção
fortemente controlados pelos seus habitantes – onde a rua é (ainda) um espaço semi-
privado –, o Raval surpreende pelo anonimato visível nas suas ruas, pela insegurança,
“pela sociabilidade tensa e conflituosa, que substitui formas anteriores de interacção
vicinal”, pela variedade de instituições ali existentes e pela heterogeneidade dos
actores que por ali circulam.
18 O último estudo apresentado neste livro permite explorar uma outra dimensão da rua
como espaço do político. Fátima Sá e Melo Ferreira leva-nos ao universo das festas
revolucionárias e contra-revolucionárias em Portugal, na primeira metade do século
XIX. Na realidade, parte da história política dos séculos XIX e XX pode ser lida através da
evolução dos modos de ocupação da rua, espaço de tensão onde se confrontam
memórias e simbologias concorrentes na luta pelo poder. Reencontramos aqui o tema
da “rua ritualizada” analisado por Rita Cachado, mas, neste caso, a historiadora
debruça-se sobre a génese de novas formas de mobilizações políticas. Neste estudo a
autora propõe-se comparar as festas e outros rituais públicos instituídos em Portugal, a
partir da revolução de 1820, com o repertório festivo que a contra-revolução elaborou
em resposta a estes novos modos de ocupação simbólica do espaço público. Convoca,
para o efeito, não apenas as dimensões de encenação do poder e da ordem social
presentes nas celebrações do Antigo Regime, mas também as dimensões arcaizantes e
carnavalescas que nelas subsistiam e eram passíveis de promover a mobilização política
das camadas populares.
19 Terminamos com as palavras de encerramento de Yves Lequin, em jeito de balanço
provisório. Este “historiador insatisfeito” insiste nos caminhos que ainda falta
percorrer. A fabricação das ruas tem ainda muitos mistérios por descortinar. Existe
todo um campo da história económica das formas urbanas para explorar. Sobretudo
fica a questão: “Será que a rua ainda é a rua?”. Apesar da relativa estabilidade do
objecto material em si ao longo da história das cidades – uma via de circulação e alguns
edifícios – esta recolha de textos permite dar conta da grande diversidade de usos e de
formas sociais, pelas quais nem sempre é fácil encontrar uma continuidade no tempo e
no espaço. Na cidade moderna, a partir do século XIX, a rua é espaço de circulação onde
9

a ordem tem de se impor. Existe, sem dúvida, uma ruptura nesta época. Todavia, será
que as sociabilidades de rua, os encontros e as formas de interacção que permanecem
até hoje, têm de ser considerados como simples arcaísmos, marcas e vestígios de formas
tradicionais da vida urbana? Em que medida, ainda hoje, vamos reinventando formas de
ocupação do lugar da rua?

AUTORES
GRAÇA ÍNDIAS CORDEIRO
Antropóloga, Departamento de Antropologia e Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do
ISCTE.

FRÉDÉRIC VIDAL
Historiador, Centro em Rede de Investigação em Antropólogia (CRIA / ISCTE-IUL), professor da
Universidade Autónoma de Lisboa.
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Capítulo 1. O “Acampamento”, a
cidade e o começo da política1
Michel Agier

1 Vou começar com algumas considerações que podemos tomar mais como uma
perspectiva de reflexão na medida em que eu não vou falar exactamente das cidades,
nem do que se costuma chamar de cidade histórica, no sentido de cidades concebidas ao
longo da história. A minha consideração preliminar é que o tempo de hoje já não é o
tempo dessa cidade histórica, em crise, em grande transformação. O modelo da cidade
histórica corresponde a uma certa representação da organização social e económica.
Sabemos – já muito foi escrito por historiadores, especialistas das cidades – que as
cidades foram fundadas para aproximar os indivíduos, para pô-los juntos a viver e
trabalhar, interagir a menos custos, ou seja, uma aglomeração de pessoas que
organizam num espaço um sistema social complexo, a que Durkheim chamou
“solidariedade orgânica”. Este sistema dispõe num espaço delimitado uma rede de
dependências entre categorias, classes ou indivíduos que estão envolvidos na
modernidade, modernidade social, modernidade económica. Isto foi, de certa forma, a
grande figura do século XIX. A cidade era um símbolo e ao mesmo tempo uma das
principais formas materiais da modernidade, da organização social moderna, sendo a
fábrica outra forma correspondente a essa cidade, o que correspondia também a uma
certa determinação da maior transformação civilizacional. Muitos pesquisadores do
início do século XX, entre eles os da Escola de Chicago, por exemplo, consideraram que
as cidades se tornavam um facto de civilização. Pensava-se na “sociedade urbana”:
primeiro, foi assim definida por oposição com a sociedade tradicional, como Park, por
exemplo, colocou nos anos 20, sendo a cidade “o lugar de emergência do indivíduo
como unidade de pensamento e de acção”; segundo, mais recentemente e de maneira,
digamos, mais antecipadora, Henri Lefebvre, nos anos 70, extrapolando as cidades
existentes, colocava a ideia da sociedade urbana não no sentido de uma cultura urbana
própria da cidade, mas no sentido da generalização planetária dos espaços e dos modos
de vida urbanos. Era um todo urbano.
2 As cidades históricas, as cidades antigas formadas antes mesmo de se pensar nesta
generalização (e aqui vocês têm material para pensar nisso), estas cidades históricas
11

encontram-se hoje em dia frequentemente mantidas em cartão postal, em áreas


preservadas, centros históricos transformados em museus, museus vivos. Às vezes
mantêm-se habitadas, outras vezes sem habitantes, como acontece em alguns lugares
do Brasil onde as partes antigas das cidades são mantidas como museus onde os únicos
ocupantes são os circuitos turísticos. Ao mesmo tempo – vou deixar isto para o debate –
considero que o mundo de hoje não é somente aquele da desterritorialização, do
ultrapassar da cidade histórica, ele é também marcado por múltiplas formas de
deslocamento numa escala mundial. Não somente fluxos massivos de emigrantes,
exilados, refugiados, mas também ausência de acolhimento, de aceitação dessas
mobilidades pelos Estados.
3 Penso numa reflexão de Hannah Arendt sobre a questão do exílio no sistema mundial.
Já é dos anos 50, diz ela que, a partir de um certo momento o Estadonação recusou-se a
tratar da questão dos exilados, e a questão tornou-se uma questão de polícia. Quer ela
dizer que o controlo das mobilidades, o controlo dos espaços onde se encontram
exilados, refugiados, emigrantes, clandestinos, tornou-se um facto de polícia que foi
abandonado pelas políticas públicas, pelos Estados-nação como ocorreu no século XIX,
por exemplo, quando havia grandes migrações, internacionais sim, mas organizadas e
desejadas pelos Estados acolhendo esses numerosos migrantes internacionais. O Brasil,
a América Latina, repovoou-se no final do século XIX, início do século XX, com uma
vontade de emigração e uma provocação das mobilidades internacionais pelos próprios
Estados, chamando para essas mobilidades.
4 Estamos hoje em dia numa configuração completamente outra, onde essa questão saiu
da questão política – política social, económica ou migratória – e se tornou num facto
de polícia. Então, ao mesmo tempo que hoje em dia nós vemos essas mobilidades e a não
aceitação pelos Estados-nação dessas mobilidades, criam-se as correspondentes
categorias identitárias estigmatizantes e espaços separados. As categorias identitárias,
as novas categorias identitárias (e todos os dias se inventam novas categorias), são as
próprias palavras: refugiados, deslocados, retornados, clandestinos, pedidores de asilo,
recusados de pedidos de asilo ; todos os dias ou, realmente, todos os semestres existem
novas categorias ligadas a este controlo policial da mobilidade e a esta necessidade de
categorizar. Ao mesmo tempo esses deslocamentos criam espaços que, de certa forma,
são emergentes ou que nos colocam novas questões, novas problemáticas sobre a
localidade, o local e, de certa forma, creio, sobre o modo de urbanizar, de fazer novos
espaços urbanos. O que se vê nessas situações é que, frequentemente, as possibilidades
ou os desejos de retorno são menos e menos assegurados, as pessoas perderam o que
Marc Augé chamou os “lugares antropológicos”, quer dizer, lugares onde tinham uma
memória, relações e identificação com um espaço, e todos os procedimentos de
identificação local têm de ser repensados não somente pelos pesquisadores, mas
também pelas próprias pessoas.
5 Muitos antropólogos da mundialização – Appadurai, Fergusson e outros – se
perguntaram sobre a crise da localidade, explicando que os próprios deslocamentos, a
própria perda da referência local ou da aparente “naturalidade” da referência local,
colocam em questão o que Appadurai, por exemplo, chamou de “técnicas de produção
da localidade”. Outros, como Fergusson, falam de “fábrica de lugar”. Hoje tornou-se
uma problemática porque precisamente já não é mais vivido como algo natural,
evidente, estando sempre colocado em tensão. Então interessa-me pesquisar essa
questão da localidade, como repensar a localidade nesses espaços que hoje em dia são
12

considerados liminares, espaços entre-dois, provisórios, transitórios, incertos,


intermediários, associados a essas circulações forçadas – usando o termo genérico de
deslocamento forçado. Sem entrar agora no detalhe do que é um deslocamento forçado,
diria que são pessoas que têm de sair de um lugar por causa de uma profunda miséria,
por causa de um perigo vital, por causa de uma guerra, por exemplo, por causa de uma
organização do deslocamento de onde são obrigadas fisicamente a sair. Espaços
formam-se, então, como etapas nessas circulações, ou como refúgios e campos de
refugiados – estes têm que ser primeiro entendidos no sentido do refúgio, “procurar
refúgio”, um asilo. Esses espaços hoje em dia diversificam-se, estabilizam-se, e podemos
pensar – é essa a hipótese forte que eu formulo – que uma boa parte desses espaços vão
formar os quadros a vir das identificações locais dentro de uma certa precariedade,
dentro de uma certa “extraterritorialidade”, como diz Zigmunt Bauman (um sociólogo
que trabalhou bastante sobre esses factos de mundialização), espaços onde há uma
certa perda de solidez, perda de estabilidade, uma realidade mais “líquida” onde as
coisas são incertas, não são estáveis.
6 Que espaços são esses? São de vários tipos: de acampamento de trabalhadores
itinerantes, precários; centros de trânsito para agrupamentos de longa duração de
estrangeiros com pedidos de asilo; hotéis que são prisões ao mesmo tempo e campos de
detenção para imigrantes que esperam regularização ou expulsão perto dos portos ou
dos aeroportos; prédios abandonados; antigos espaços industriais abanabandonados;
ruínas vazias que são invadidas, e que chamamos de squats, ou outros lugares de
invasões; terrenos de camping que são ocupados por pessoas que se instalam na
periferia das cidades e cujos espaços vazios de acampamento podem ser lugares de
moradia duradoira; campos de refugiados; aldeias de refugiados ou sítios em geral das
organizações humanitárias, ou do ACNUR, por exemplo, onde as pessoas vivem sob
assistência e controlo humanitário e das organizações internacionais. Esta enumeração
já significa que um inventário desses espaços é possível. Não falamos de uma
antropologia da mundialização de uma maneira abstracta. Existe uma possível
etnografia desses espaços. Cada estudante, cada pesquisador, pode escolher um terreno
de investigação nesses lugares. Eles existem, não são uma abstracção. Isto é um ponto
que me parece importante. Há uma maneira encantadora de falar da antropologia da
mundialização e de dizer, por exemplo, que os refugiados e exilados são os precursores
de uma sociedade pós-nacional. Há uma certa antropologia da mundialização que,
tomando como objecto abstracto os fluxos, o transnacional, esses conceitos que
parecem não ter uma realidade empírica, acaba por fazer acreditar na ideia de que os
refugiados, exilados, deslocados, emigrantes clandestinos, são os maravilhosos
precursores de um mundo cosmopolita e mágico onde viveríamos no transnacional, no
pósnacional e no pós-local.
7 Para mim a realidade é completamente contrária a partir do momento em que vos
pergunto o que é que um antropólogo pode dizer. Ele pode trabalhar a partir de uma
certa etnografia. O que podemos fazer com a etnografia? A etnografia dos lugares desta
mobilidade, onde as pessoas reconstroem, recompõem uma certa ancoragem em cada
um dos lugares. Por isso acho interessante fazer um inventário desses espaços e dos
possíveis espaços a mais que podem aparecer ligados a essas grandes migrações e
precursores, provavelmente, de formas de fazer cidade, de urbanizar, de novas lógicas
urbanas em gestação, em curso.
13

8 Esses lugares, a príori, estão duplamente fora da cidade, ou nascem como uma negação
da cidade. Primeiro, porque fisicamente eles se situam fora dos espaços ou das
estruturas formais oficiais daquilo a que chamamos cidade, cidade oficial, cidade
delimitada, cartografada, transformada pelas políticas públicas. São os espaços mais
abandonados, às vezes espaços edificados longe de quaisquer estabelecimentos
humanos. Há campos de refugiados que estão exactamente no meio do deserto, ou ao
lado de uma pequena aldeia de 500 ou 1000 habitantes, e assim aparecem campos de
refugiados de 150 000 habitantes no meio de um deserto, no meio de uma floresta, etc. E
a outra negação, na qual esses lugares se definem, é a negação provocada pelas próprias
políticas de exclusão, de abandono, de distanciamento. Esses espaços, de certa forma,
emergem no vazio, no indefinido, como no terreno vago das políticas públicas.
9 Colocam-se nesses espaços pessoas das quais não se sabe o que fazer. Há uma
proximidade entre esses espaços humanitários e as margens actuais do urbano, as
periferias e favelas, invasões, os bairros chamados de espontâneos (déguérpi como
temos na África). São espaços mantidos à distância e o destino desses espaços ele
próprio é mais, e mais frequentemente, sujeito a um tratamento, não social ou político,
mas a um tratamento profilático, ou policial, comunitário ou humanitário.
10 Os pesquisadores que entram nesse tipo de espaços não podem, acho eu, satisfazer-se
com uma questão que hoje em dia é muito divulgada nas ciências sociais da cidade e
cuja origem é mais técnica e gestionária do que propriamente antropológica. A
pergunta a fazer é se, e como, a cidade faz ou não faz sociedade. Ouve-se muito “a
cidade já não faz sociedade”; essa problemática parece-me ligada a uma representação
do poder estruturante da cidade histórica cujo poder é muito colocado em questão
pelos fenómenos da regionalização, da mundialização, no plano económico, no plano
político, no plano do mercado de emprego, no plano da polícia, no plano dos conflitos,
dos deslocamentos de população. Frequentemente os mesmos dizem que já não há
cidade hoje em dia, que é o fim da cidade, e ao mesmo tempo dizem que “a cidade não
faz mais sociedade”. Então prefiro inverter a pergunta e interrogar como é que os
grupos, as sociedades, ou mais precisamente, as situações, as acções “fazem” a cidade. E
por isso eu preciso de me destacar de uma representação dominante da cidade que diz
que a cidade é o que é institucional, funcional, formal, material, constituída como a
imagem que nós temos da cidade. Eu tenho pesquisado durante 20 anos em lugares que
parece que não são cidades, são lugares de barracas, lugares de acampamentos, lugares
onde há um mínimo de materialidade; às vezes não têm materialidade, e são as próprias
pessoas que fazem essa materialidade, e ao mesmo tempo elas fazem as relações que
vão com a materialidade. E então a gente encontra-se em situações onde, de forma
muito concreta, material, e de forma muito social, as pessoas fazem a cidade. São
citadinos sem a cidade, e as cidades vêm depois. Têm o espaço, a aglomeração, um certo
vazio: é onde essas pessoas fazem a cidade.
11 É esta a minha problemática, a questão que eu coloco, sem negar obviamente o peso
desses constrangimentos institucionais, políticos, materiais, que fazem, num certo
momento, uma cidade constituída. Mas podemos de cada vez refazer a génese dessas
fabricações de cidade e, de certa forma, trabalhar nos espaços liminares, precários ou
vazios, que permitem fazer e repensar essa génese.
12 Abordo dessa maneira a investigação sobre campos de refugiados. A abordagem que eu
tenho é explicitamente a de uma etnologia urbana dos campos de refugiados. Não há,
repito, nenhum carácter normativo evolucionista nessa questão.
14

13 Fazendo essa pergunta eu não olho os campos em função de um objectivo que eles
teriam que alcançar, e que seria a forma da cidade conhecida como organização do
espaço, como formas arquitectónicas, como instituições urbanas. Eu procuro ver e
entender as criações sociais, as mudanças culturais, eventualmente as novas formas
políticas que aparecem nesses contextos a partir do momento em que, como diz Louis
Wirth (um dos primeiros pesquisadores da Escola de Chicago), existe “uma implantação
relativamente permanente e densa de indivíduos heterogéneos”. E isso é o que eu vejo
num campo de refugiados. Qualquer que seja ele, é a definição que Louis Wirth dá do
que é uma cidade!
14 Os próprios espaços dos campos de refugiados podem ser muito diversos. E muito raro
que no conjunto dos campos de refugiados que existem hoje em dia no mundo hajam
tendas. A figura, o modelo, que conhecemos das tendas como sendo um campo de
refugiados é algo que muda rapidamente: pessoas e organizações humanitárias
constroem rapidamente barracas, casas de madeira, casas de terra, no lugar das tendas.
O factor tempo é muito importante. A transformação dos espaços é importante. Um
campo que tem 5 anos de existência, por exemplo, pode parecer um enorme bairro de
lata. Às vezes não se vê na materialidade uma grande diferença entre uma favela e um
campo de refugiados, às vezes pode-se pensar, como no caso do Quénia, numa espécie
de museu etnográfico onde cada um tenta reproduzir o que sabe fazer de casa. Cada um
faz o tipo de casa que sabe fazer, redondo, quadrado, com tecto assim com tecto assado,
e no final temos um tipo de espaço multicultural na forma das construções, ainda mais
porque são construídas com materiais recuperados do material humanitário, têm
cobertas com as cores do ACNUR, branco e azul, que são usadas para fazer cortinas, ou
portas, o material das latas que é usado para fazer janelas ou mesas, etc. Temos então
um espaço colorido, muito diverso, híbrido, que é a própria materialidade do campo.
15 Mas a questão que eu coloco neste caso, nesses espaços, é que se trata de um espaço que
é literalmente desconhecido. Ele é desconhecido do próprio pesquisador mas ele é
também desconhecido das pessoas que chegam aqui, pois quando se chega não se sabe
com antecedência o que é que vai ser o mundo no qual se vai viver, não se tem
referência deste mundo. Depois de um certo tempo entre indivíduos que têm uma
heterogeneidade étnica, um desenraizamento social, uma pobreza económica muito
forte, e sendo todos eles colocados à distância do resto do mundo, das cidades, ou dos
Estados-nação, a pergunta é: como se vai fazer cidade entre essas pessoas, no sentido
relacional, a urbs, o espaço de trocas como experiência do outro, como experiência da
alteridade, no sentido político, o da polis, no sentido do mundo onde se cria uma
comunidade de palavra, onde as pessoas acabam por se identificar umas com as outras?
16 Uma maneira de observar isso é olhar pela entrada da organização do espaço. A
organização do espaço é uma maneira de ver como se transformam e se organizam
socialmente as pessoas nesses campos de refugiados. Por exemplo, no Nordeste do
Quénia há um conjunto de três campos com 150 000 habitantes, “moradores”, de certa
forma, dos campos. O espaço é a priori definido da seguinte maneira: o ACNUR constrói
cercas com arame farpado, com material de madeira, enfim, vários tipos de cerca no
perímetro dos campos, mas também no seu interior, criando assim a separação de 10 a
15 sectores. No interior de cada campo existe um traçado ortogonal das ruas, das vias,
dos blocos e, em cada “sector”, ou “bloco”, as pessoas chegam a ser agrupadas por lugar
de origem, por etnia, por clã, etc.
15

17 Esses agrupamentos existem nos sectores onde as pessoas fazem os seus abrigos e, às
vezes, há alguns grupos, como por exemplo o sector sul-sudanês, que reorganizam
completamente o seu espaço, que fecham com uma cerca o conjunto do espaço e vão
construindo, o que parece ser uma cidade em miniatura ou um povoado próprio,
protegido, fechado dos vizinhos. Frequentemente, nesses casos, há conflitos, disputas
com os vizinhos que são de um grupo diferente, mas também há circulação das crianças
que vão de um grupo para o outro. Então isso quer dizer que há uma certa
transformação linguística, cultural, na vida social, que acontece nesses lugares mesmo
que a priori as pessoas cheguem e tentem fechar-se para se proteger umas das outras.
Existem esses intercâmbios e existem também outros lugares no próprio espaço do
campo que são lugares abertos onde as pessoas têm encontros, no bar, num pequeno
mercado, em pequenas feiras na entrada dos campos, etc.
18 A questão que eu coloco a partir daí é que se nós temos, após um ou dois anos, uma
certa materialidade que já não é essa das tendas, mas uma que reorganiza o espaço
onde os moradores reorganizam um espaço, e se temos também uma certa
sociabilidade, certas formas sociais que começam a desenvolver-se, então a questão que
se coloca rapidamente é a questão política, de uma certa “desordem” criada pela acção
dos refugiados, distinta da ordem inicialmente prevista do campo.
19 Podemos destacar duas maneiras de falar dos acampamentos. Uma é genérica, é a do
campo como forma genérica, como expressão de um “bio-poder”, para dizê-lo à la
Foucault, em que o campo organiza o controlo sobre a vida de quem lá está. Assegura a
vida mas também controla as pessoas, é uma certa negação da existência social dos
indivíduos, das identidades de cada um. Todo o mundo é vítima ou todo o mundo é
acusado, ou todo o mundo é designado como sendo, devendo ser, controlado ou
devendo ser ajudado. Fora disso não têm existência. Ora, é possível falar de uma outra
maneira dos campos. Aos poucos vai-se vendo o que acontece com o meio social de vida,
alguns líderes aparecem nos campos de refugiados, algumas pessoas vão falar com os
responsáveis das organizações humanitárias em nome dos refugiados para dizer que
não estão satisfeitos com tal, tal e tal, e uma certa forma de contestação aparece. Essas
formas de contestação que aparecem são da maior importância a meu ver, porque elas
fazem sair as pessoas dessa identidade de vítimas sem palavra – na ordem dos campos,
elas não precisam de falar porque são vítimas e têm direito, num certo momento, a uma
ajuda alimentar, mas num outro momento, quando as organizações decidem que elas
não são mais vítimas porque a guerra acabou lá no outro lado ou porque o tempo
passou e a situação melhorou, então decidem da noite para o dia que aquelas pessoas já
não são vítimas e não têm mais ajuda. Quer dizer que ser vítima é ter alguns direitos,
chamados de “direitos humanos”, mas que se perde da noite para o dia o direito aos
direitos humanos, a partir do momento em que se sai da categoria humanitária que o
define como “vulnerável”, como “vítima” ou o que quer que seja. Ora, quando os
refugiados começam a fazer política eles usam esse discurso das Nações Unidas – das
“U. N.”, como eles lhes chamam. O discurso das Nações Unidas é reutilizado pelos
refugiados para criar reivindicações, com acções que são a meu ver acções políticas. Por
exemplo, como as que aconteceram na Guiné, em Julho-Agosto de 2003, manifestações
de rua no meio do campo, organizadas por mulheres que reclamavam telas plásticas
para os tectos das barracas porque chovia e os outros já tinham recebido e elas não; elas
usavam a retórica humanitária da vulnerabilidade dizendo que eram viúvas da guerra:
“temos filhos, então entramos na categoria de vulnerabilidade do ACNUR, está aí no
16

papel, e temos direito às nossas telas plásticas”. Foram recusadas, ocuparam a rua
principal (porque o campo também tinha uma rua central). Fizeram parar os veículos
das organizações humanitárias, sequestraram os humanitários – que não entenderam
porque os refugiados faziam isto, porque eles estavam ali para os ajudar. Os refugiados
foram falar com responsáveis do campo do ACNUR; e finalmente conseguiram um
encontro com o responsável local da administração guineense, e em dois dias
receberam as telas plásticas para as casas.
20 O interessante é que há um desentendimento, um conflito de significados, entre os
refugiados e as pessoas das organizações humanitárias, porque, usando a mesma
linguagem, os refugiados fazem dessa linguagem um discurso a partir do qual eles
podem agir em termos políticos. Noutro campo há líderes que se formam entre os
refugiados, representantes de tendas colectivas, para negociar, para organizar as coisas
com os representantes da administração do ACNUR e das ONGs no campo. Os refugiados
designam pessoas para falar. Em pouco tempo essas pessoas tornam-se líderes de
sector, chamados “líderes de comunidade”, e acontece que esses que emergem como
líderes já não são os mais precários, geralmente são pessoas que já têm na sua
trajectória de pré-refugiados, antes de chegar ao campo, um certo status social: são
comerciantes, são pastores de igrejas pentecostais, são professores de l.° grau, são
pessoas que têm um certo status, – e então os refugiados consideram que são pessoas
que podem representá-los e negociar com a administração dos campos. As pessoas das
organizações humanitárias reagem negativamente, porque esses não são os
“verdadeiros” refugiados, porque eles não parecem “sofrer”, porque eles não estão tão
mal como os outros que vimos aqui neste campo, e não querem falar com eles. Eles não
são reconhecidos como possíveis interlocutores enquanto, de facto, o que ocorre é
mesmo o processo da representação política, diferente do modelo da
representatividade categorial. Ou seja, para o discurso humanitário o modelo do
interlocutor é o modelo da vítima: é a mulher sofrendo com o bebé inocente nos braços,
essa é que é a figura para as organizações humanitárias, alguém sofrendo. Se o
interlocutor não está magro, não é pobre, fala bem e negoceia com agressividade, com
listas de reivindicações, então as organizações humanitárias e o ACNUR não gostam de
tratar com esse tipo de pessoas, porque consideram que são políticos, e de facto é uma
acção política que se introduz no campo.
21 A conclusão que eu quero tirar disto, em algumas palavras, é que a observação
etnográfica dos campos de refugiados pode permitir dizer que nesses espaços mundos
sociais constituem-se aos poucos, e que não são a reprodução de mundos anteriores,
étnicos, por exemplo – a etnicização da problemática dos refugiados é uma forma de
culturalismo, como quando se considera, por exemplo, que um Patchun será sempre um
Patchun e que quando ele é um refugiado ele continua sendo o mesmo e nada muda.
Sim, as coisas mudam porque o campo é um espaço em si, que gera a sua própria
dinâmica. Então parece-me que a etnicização da problemática dos refugiados nos
espaços da mobilidade onde eles vivem é algo errado no plano teórico, é uma forma de
“culturalismo”, antes de ser um a priorí político, e que pode desembocar, inclusive, num
a priorí racista sobre os migrantes e os refugiados, como vemos hoje em dia na Europa.
22 De facto, esses espaços formam novos contextos sociais. Dois componentes são
essenciais para entendê-los. Um é a questão da fundação de novos espaços, e remete
para a ideia de “raizamento” (o racinement, segundo Mareei Détienne), não de
enraizamento. Significa que as raízes não vêm do chão, as raízes são produzidas através
17

de rituais de fundação, rituais de inscrição material num certo local. Isso permite
entender que, às vezes, as pessoas podem acabar por gostar do campo de refugiados
onde vivem, como no famoso caso dos Palestinianos, como noutros lugares em África
onde isso acontece, onde há pessoas que já não se querem ir embora dos campos onde
vivem há 5, 10 ou 20 anos. O segundo componente da criação desses novos contextos é o
do começo da política: acções nascem nesses campos de refugiados, com tomadas de
palavra utilizando a retórica humanitária como linguagem política. Então estamos
também face a formas políticas completamente inéditas e diferentes, às quais temos
que dar toda a atenção.

NOTAS
1. Conferência proferida a 18 de Novembro de 2005, na abertura do encontro pluridisciplinar “O
Lugar da Rua”, organizado no ISCTE pelo CIES e CEHCR

AUTOR
MICHEL AGIER
Antropólogo, Centre d’études africaines – École des Hautes Études en Sciences Sociales, Institut
Recherche pour le Développement.
18

Capítulo 2. Vestígios de uma


modernidade apagada: a Paris
popular da primeira metade do
século XIX1
Maurizio Gribaudi

1 A Paris do século XIX, a mesma que povoa as páginas de Baudelaire, de Marx e de


Benjamin, é, provavelmente, a da margem direita. Desde o início do século XVIII que a
sua história e tensões se inscrevem em torno do arco traçado desde a Bastilha até à
actual Praça da Concórdia, através da imponente promenade arborizada construída
sobre os destroços da antiga cintura de muralhas. Desde que o Rei-Sol, no apogeu do
seu poder e seguro das suas vitórias, decide destruir os velhos muros, é para o norte e
noroeste do território que a cidade começa a transbordar de maneira exuberante.
2 O movimento, inicialmente tímido, acelera-se a partir do final do século XVIII até atingir
o apogeu ao longo da primeira metade do século XIX. Entre o Primeiro Império e a
Monarquia de Julho, desde a Praça Luís XV – a actual Concórdia – à Rua Poissonnière, o
exterior dos boulevards enfeita-se com uma auréola de novos bairros onde se podem ver
os velhos e novos aristocratas misturar-se com uma multidão crescente de financeiros,
altos funcionários, negociantes, empreiteiros e empregados.
3 Este movimento exprime, antes do mais, o enorme desenvolvimento que a sociedade
francesa, e parisiense, viveu durante a primeira metade do século XIX. Após as
perturbações revolucionárias e as guerras do Império, o conjunto da nação parece estar
melhor, deixando-se tomar febrilmente por actividades simultaneamente económicas,
artísticas e políticas. Paradoxalmente, como o exprimiu lucidamente George Sand na
sua autobiografia, tal manifestação de forças e novos empreendimentos eclodiu para
além da restauração e viu chegar o apogeu sob o governo conservador de Guizot 2.
4 Paris, os seus novos bairros e boulevards são, simultaneamente, o centro e expressão
deste processo. Porque é para os seus espaços que se dirigem todos os investimentos da
nova aristocracia e da burguesia parisiense. E é igualmente nestes espaços que nasce e
19

se desenvolve uma cultura específica que faz da cidade ou, mais exactamente, desta
porção de cidade, a sua sede e o seu objecto.

Figura 1 – W. Turner, Boulevard Montmartre en 1838. Reprodução de uma gravura sobre aço
conservada no Musée Carnavalet.

Photo Gribaudi, SIG. Paris XIXéme siècle, LDH-EHESS.

5 É a cultura do boulevard, com a vida dos seus cafés, teatros, bailes e guinguettes, cocottes e
dandies. Mas é também a cultura da juventude romântica, dividida entre utopias sociais
e pragmatismo económico, com os seus ímpetos literários e as suas paixões políticas. E
é a cultura da indústria e da mercadoria, com o nascimento do comércio e do consumo
de massa, da publicidade e da imprensa popular. Em resumo, trata-se de uma nova
modernidade que muitos contemporâneos perceberam e fixaram como tal,
transmitindo-nos um impressionante corpus de textos, imagens, músicas e objectos.
6 Estes aspectos são já bem conhecidos. Integrados por Baudelaire, desde o Segundo
Império, numa estética que faz da cidade, dos seus espaços públicos e das suas
multidões, marca de identidade do novo actor urbano, eles voltam em seguida na
leitura de cada nova geração literária impondo-se como centrais a partir da complexa
leitura operada por Walter Benjamin no seu trabalho sobre as passages parisienses
(Benjamin, 1991; Stierle, 1993; Bowie, 2001).
7 O que é menos conhecido é que a formação das práticas e das imagens da nova
modernidade acompanha a perda de legibilidade da parte mais antiga e popular da
cidade. Se o fim do século XVIII, no seu texto fundador, Sébastien Mercier falava da
cidade como de uma totalidade única e coerente, os numerosos Tableaux de Paris
publicados a partir do Primeiro Império focalizam quase unicamente o espaço e as
figuras sociais dos grandes boulevards e dos novos bairros da cidade (Mercier, 1782;
Etienne, 1813; Pain e Beauregard, 1828; Texier, 1852).
20

Figura 2 – Rue au Lard, 1866. Gravura, Musée Figura 2-Rue au Lard, 1866.

Gravura, Musée Carnavalet Carnavalet.

8 É que, entretanto, o antigo centro também evoluiu imenso, sobretudo do lado da


margem direita. Aqui, até ao fim do Antigo Regime, o denso edificado medieval era
salpicado e iluminado pelas numerosas manchas verdejantes dos vastos domínios da
igreja e nume- rosos hotéis aristocratas e burgueses. Aos olhos dos observadores ele
não se distinguia bem do resto da trama parisiense na qual se acotovelavam as três
ordens tradicionais e o povo artesão. Ura, com a revolução e a venda dos bens
nacionais, os domínios dos conventos e da quasse totalidade dos hotéis particulares são
atingidos pela especulação imobiliária que os transforma em construções com destino
comercial e, frequentemente, industrial (Poete, 1925; Dubech e D’Espezel, 1926). O
primeiro efeito destas dinâmicas é produzir a densificação destes espaços que se
enchem de ruelas e pequenas vielas, de becos e pátios interiores. Mas, sobretudo, elas
atraem uma massa cada vez maior de famílias em busca de trabalho ao mesmo tempo
que incitam numerosas famílias abastadas a mudarem-se para os novos bairros da
cidade.
9 Ao mesmo tempo que nasce uma nova Paris, cintilante de galerias e grandes boulevards,
parece desaparecer a do centro. “Do outro lado do riacho-quer dizer, dos boulevards –
são as Grandes índias (Grandes Indes)”, escrevia Musset em 1837. Uma imagem forte na
qual se confundem vários registos diferentes, mas que mostram, antes do mais, a
imensa ambiguidade que marca as relações entre a jovem intelligentsia da época e o
mundo popular. Este último interessa e atrai desde que se possa agarrá-lo como parte
importante e natural do mundo colorido dos boulevards, dos teatros e das guinguettes.
Mas cie parece ter-se tornado indecifrável aos olhos da quase totalidade do público bur-
21

guês quando domina, sozinho, o espaço urbano. Neste caso, ele constitui-se como
desconhecido, o outro, o diferente de si, o índio, nomeadamente...
10 A construção da brilhante modernidade da cidade parece, pois, ir a par com o
nascimento de uma imagem dc alteridade que se instala progressivamente nos
discursos e nas representações da sociedade parisiense. Uma espécie de espinho
encravado na sua carne o que impede a redução das tensões, afastando-as para o seu
interior.

Figura 3 – Rue Phillippeau, 1863.

Gravura, Musée Carnavalet.

11 Sem oretender descrever ao detalhe a complexidade dinâmicas, limitar-me-ei, que se


seguem, a ilustrar destas nas páginas os elementos mais marcantes. Na primeira parte,
evocarei os discursos e as análises dos principais observadores que tentam interrogar
esta alteridade. Longe de a esclarecer, eles apenas reproduzem a imagem,
amplificando-a. Tanto o olhar dos médicos higienistas como o dos arquitectos ou dos
urbanistas permanece, com efeito, prisioneiro em categorias que impedem o agarrar da
complexidade das práticas e das fisionomias sociais existentes nestes espaços. Mesmo
as descrições literárias parecem limitar-se aos estereótipos da alteridade fixando-se nas
imagens mais fortes do miserabilismo populista. Com uma única excepção: o olhar
balzaquiano parece agarrar os traços do mundo social no qual se misturam os laços de
família e de vizinhança, de produção e de comércio, de troca e de lazer, que se
organizam em torno do edifício e do quarteirão, expressando uma modernidade
totalmente diferente daquela que se manifesta através da sociabilidade dos boulevards.
Como tentarei mostrar na segunda parte deste texto, uma simples análise de dados
profissionais e demográficos dos bairros centrais permite confirmar estes aspectos.
Longe de surgirem como cloacas infestadas de uma população marginal e doentia, estes
22

bairros revelam-se como espaços vivos, marcados pela presença de uma população
activa, ligada ao conjunto do tecido económico da cidade.

“Do outro lado do riacho”: a opaca alteridade do centro


popular
12 As primeiras descrições que evocam explicitamente imagens de alteridade e degradação
do centro parisiense são traçadas por médicos higienistas. Trata-se apenas de alguns
raros textos, pois o período de ouro destes inquéritos começa, sobretudo, para a cidade
de Paris, a partir do Segundo Império. Mas eles são importantes sob vários aspectos.
Por um lado, porque representam uma primeira tentativa de descrever as formas de um
centro de cidade que surge, pela primeira vez, como terra incógnita. Por outro lado,
porque os seus discursos, elaborados no âmbito das topografias médicas, são
legitimados pela autoridade da ciência constituindo-se como uma referência de peso
nos debates que se iniciam.
13 Dois médicos em particular debruçam-se sobre os antigos bairros da margem direita.
No início da Restauração, o doutor Legras, médico voluntário encarregue do gabinete
de beneficiência do bairro de Marchés, redige uma primeira monografia sobre as
condições de higiene da população local (Legras, 1822). Vinte anos mais tarde, Henry
Bayard volta aos mesmos espaços, alargando a observação aos quatro bairros que
compõem o antigo quarto arrondissement (Bayard, 1842) 3. Tratam-se de estudos
minuciosos ao longo dos quais os dois médicos tentam analisar o arrondissement,
observando-o nas suas dimensões físicas, históricas e demográficas. Henri Bayard, em
particular, enquadra a fisionomia dos bairros numa história longa que encena a
transformação progressiva de um espaço físico, espécie de bacia natural, marcado pela
presença de um rio, uma zona baixa e pantanosa rodeada por um arco em baixo relevo,
numa forma urbana de intrincadas ruas e ruelas, a maior parte insalubres, na qual se
amontoa uma população pobre e assolada por numerosas doenças endémicas.
14 Sem nos determos mais nestes estudos, é interessante reparar como, debruçando-se
atentamente sobre várias características destes bairros, eles nunca chegam a restituir
imagens claras nem do ambiente físico nem da sua composição social. O espaço,
estudado como uma configuração única forjada ao longo de uma história que corre
entre constrangimentos geológicos e sociais, é percebido e descrito como um tecido
compacto, caracterizado globalmente pela presença de zonas de morbilidade
particularmente intensas. Assim, a compreensão da trama urbana não ultrapassa a
individualização das diferentes zonas de morbilidade nas quais se assimilam, sem
distinção, indivíduos e formas construídas, doenças e práticas sociais criadoras da
categoria universo cloacal. Um bom exemplo desta leitura é dado pela descrição dos
quarteirões, hoje desaparecidos, antes situados no bairro Saint Honoré, entre as actuais
Rua de Rivoli e Rua do Louvre:
“Na verdade, para os que conhecem as ruas Tire Chape, da Bibliothèque, do Chantre,
Jean-Tison, das Lavandières, das Poulies... não exageramos se dissermos que se tratam
de infames cloacas. Veremos que todas as casas que aí se situam são o refúgio da
indigência e da prostituição. As ruas largas, arejadas, são em muito pequeno
número; algumas delas estão completamente ocupadas pelo comércio de telas, cujo
depósito provoca nos armazéns uma grande humidade.” (Bayard, 1842: 51)
23

15 É evidente que a descrição restitui sobretudo imagens de conjunto, detendo-se


fundamentalmente na estreiteza das ruas e no rosto da miséria e da prostituição que
parecem dominar. À excepção da referência aos armazéns dos comerciantes, nada é
dito sobre as fisionomias sociais e profissionais do resto da população, apesar de tudo
maioritária.
16 Igualmente opaco, mas fundamentalmente diferente, é o olhar lançado sobre estas
mesmas zonas pelos arquitectos e os promotores imobiliários que, na mesma altura, se
inquietam com a situação do urbanismo parisiense. Estes não reparam nas caras
escrofulosas e nas doenças das prostitutas e dos mendigos que povoam os trabalhos dos
higienistas. Baseando-se as suas categorias na questão da renda imobiliária, o problema
dos velhos bairros põe-se, na sua visão, antes do mais e sobretudo, em termos de uma
grande queda de procura de novos bens, devido ao empobrecimento da sua população.
17 E nesta óptica, nomeadamente, que se orienta a reflexão apresentada em 1829 por um
grupo de proprietários, arquitectos e promotores imobiliários à comissão de inquérito
encarregue pelo conselho municipal de Paris de se debruçar sobre a situação dos
antigos bairros da cidade (Collectif, 1829). Aos seus olhos a questão do centro antigo,
evocada por vários observadores, consiste essencialmente na série de fenómenos
induzidos pela crescente pressão demográfica que se faz sentir sobre esta parte da
cidade. Porque o amontoar da população no dédalo de ruelas do centro teria produzido
um aumento considerável de tráfego, tornando cada vez mais difíceis as actividades
industriais e comerciais. O que teria incitado os promotores mais dinâmicos a
mudarem-se para os bairros periféricos, levando com eles grande parte das famílias
burguesas. Estas dinâmicas ter-se-iam, seguidamente, agravado pela relutância
mostrada por uma clientela abastada em habitar os novos imóveis construídos no
centro4. Muito embora fossem construídos com materiais caros, estes edifícios
elevavam-se em vários andares reduzindo, deste modo, a exposição ao sol e a ventilação
das ruas e, sobretudo, implicavam uma mistura social pouco apreciada pelos
compradores mais ricos.
18 Demonstrando uma sensibilidade dominante na época, desde então totalmente
desaparecida do horizonte parisiense, os signatários propunham resolver o problema
do centro pela implementação de um urbanismo pensado segundo um “modelo
nórdico”. Noutros termos, preconizavam inverter as dinâmicas observadas,
favorecendo a construção de edifícios de tamanho mais reduzido, no centro da cidade,
exclusivamente dirigidos para um público burguês e construídos com materiais
resistentes mas menos dispendiosos5. Sem mencionar explicitamente o traçado
medieval dos bairros centrais, o relatório faz-lhe, contudo, uma referência indirecta,
pois, de acordo com os redactores do texto, as intervenções propostas deveriam
permitir a filtragem e clarificação de um tecido urbano e social descrito como
sobrecarregado, pouco coerente e não funcional.
19 As diferentes propostas que surgem à luz do dia sobre as questões do alargamento das
ruas ou a abertura de traçados mais amplos, menos rígidos e tortuosos, inscrevem-se
num campo de projectos articulados entre estas visões e as dos higienistas. Sendo
frequentemente invocadas umas para melhor justificar as outras, os discursos dos edis,
dos administradores e dos médicos coincidem progressivamente numa retórica que
parece desejar evitar qualquer esforço de apreensão real dos bairros centrais e da
textura social que eles albergam. Evitamento que se agudiza quando o debate sobre a
24

política urbana se crispa, durante a Monarquia de Julho, sobre a questão específica da


deslocação do centro da cidade.
20 E ao longo deste período que muitos observadores parecem descobrir a geografia
particular dos movimentos evocados na introdução, como por exemplo o exuberante
crescimento da margem direita e, mais particularmente, dos bairros do Noroeste.
Descoberta tardia ou estratégia discursiva, a verdade é que as inquietações dos edis se
focalizam progressivamente sobre o descentramento da cidade em direcção, quase
unicamente, a oeste. Tendência perigosa, a seu ver, para um organismo urbano que se
queria estruturado de modo harmonioso em torno de um centro nevrálgico acolhendo
todas as instituições do poder ligadas por círculos excêntricos, aos seus principais
órgãos, às estruturas de serviços e produção. É o que exprimem claramente vários
notáveis da margem esquerda no estudo sobre a deslocação da população parisiense,
que eles redigem em resposta ao concurso aberto pelo conselho municipal de Paris de
29 Outubro de 1839:
“Desde há muito tempo, existe na capital um movimento através do qual a
população abastada se afasta dos antigos bairros para os novos. Este movimento,
fácil de observar, toma como base o bairro da Bourse, expande-se para a Chaussée
d’Antin, e segue a direcção do bairro Saint-Lazare até ao faubourg Saint-honoré. Este
facto tão importante, que nada mais faz do que mudar o centro da cidade, ao
deslocar a sua base e criar ao lado da cidade antiga uma cidade completamente
nova, provoca apreensões legítimas por toda a parte.” (Chabrol-Chaméane, 1840: 1)
21 Os trabalhos desta comissão, dirigidos pelo prefeito Chabrol, tiveram uma grande
repercussão na época e foram frequentemente tomados como referência nos trabalhos
dos edis do Segundo Império. No entanto, também neste caso não é prestada qualquer
atenção às fisionomias dos actores sociais que povoam os antigos bairros da cidade. Mas
dando como certa a presença de uma população doentia e tendencialmente depravada,
é proposto um conjunto de medidas que visam melhorar a circulação, principalmente
das mercadorias, entre os diferentes arrondissements e, sobretudo, entre as duas
margens do Sena. Além da evolução técnica conhecida pelo debate, a imagem implícita
que estes textos retomam e contribuem para confirmar é fundamentalmente a mesma
que é transmitida pelos higienistas e os notáveis dos anos 1820. Nomeadamente que a
mistura demográfica das últimas décadas teria produzido a decantação nos bairros do
centro, não apenas das famílias mais pobres mas também das menos empreendedoras e
capazes; em suma, a escória da população parisiense.
22 A única voz que parece destoar neste concerto é a do conde Rambuteau, prefeito do
Sena entre 1833 e 1848. Ao evocar nas suas memórias estas questões, o antigo
administrador sublinha a importância em compreender e respeitar a particularidade do
tecido social do centro, relembrando que a sua densidade particular era um fenómeno
muito recente devido, nomeadamente, à “febre de construções públicas e privadas” que
tinha destruído numerosas zonas verdes que antigamente animavam o espaço local
(Rambuteau, 1907: 372-377). E certo que Rambuteau, ao escrever as suas memórias, ao
longo dos anos sessenta, com a ajuda do sobrinho, queria também justificar a sua
abordagem criando as suas distâncias relativamente àquela, muito mais violenta, do seu
sucessor, o prefeito Haussmann6. Contudo, as suas intervenções mostram uma maior
atenção às práticas sociais dos bairros centrais mesmo que, neste caso também, as
ópticas utilizadas não permitissem agarrar a fisionomia social dos habitantes.
25

Por trás da alteridade: as formas complexas de uma


diferença
23 Não menos impreciso surge o olhar trazido pelos escritores e jornalistas. A riquíssima
literatura que abunda nesses esboços de physionomiques parisiennes parece fixar-se nos
boulevards e nos caracteres mais anedóticos, evitando cuidadosamente penetrar nas
índias para encontrar os seus habitantes. E certo que escritores como Sue e Hugo
fizeram esta viagem restituindo caracteres que continuam a comover muitos leitores.
Mas o seu traço é muito grosso e as fisionomias sociais que eles desenham são bastante
desfocadas, muito próximas da imagem estereotipada e nunca bem definida, como a
que observámos entre os higienistas, os proprietários, os arquitectos e os urbanistas. A
da miséria e da degradação, da doença física e moral de toda uma população amontoada
em casebres bafientos e malcheirosos.
24 Tais aspectos apreendem, sem dúvida, uma dimensão importante presente neste
espaço, como mostram, aliás, não apenas estes testemunhos, como também fontes
iconográficas, demográficas e cadastrais7. Mas eles não conseguem, também, restituir
um retrato verosímil dos habitantes. As 150 000 pessoas recenseadas em 1817 nos 2.°,
3.° e 4.° arrondissements pelo conde de Chabrol não correspondem todas, certamente, ao
retrato rígido forjado a partir da relação directa entre antigos bairros, morbilidade e
imoralidade.
25 Somente Honoré de Balzac, com a sua incrível sagacidade e capacidade de apreender os
traços que revelam as junções mais pertinentes de uma sociedade, parece restituir um
retrato mais contrastado. Em César Birotteau, por exemplo, ao pintar a ascensão e a
queda sociais de um comerciante do antigo bairro Saint Honoré, o escritor guia o leitor
através de inúmeras ruelas e travessas do centro da margem direita. Através de longas
páginas, ele analisa não apenas os décors dos diferentes prédios mas restitui igualmente
as cores e os odores de cada pedaço de rua detendo-se sobre as fisionomias precisas dos
seus habitantes. O olhar não é condescendente. Contrariamente a Sue e, mais tarde,
Hugo, Balzac não se tenta identificar com as casas e as pessoas pelas quais ele declara
sentir repugnância. No entanto, e talvez devido a esta mesma razão, ele mostra-nos por
várias vezes que nesta trama de ruelas se acomoda uma comunidade que está longe de
ser apenas doente e marginal, mas que escapa ao olhar dos seus contemporâneos
porque se ocupa de práticas profissionais e relacionais totalmente diferentes das
desenvolvidas noutros espaços da cidade.
26 A título de exemplo, veja-se a descrição do prédio da Rua Greneta, na qual Balzac dá
vida a M Gigonnet, um dos personagens secundários do seu romance:
"A rua Grenétat é uma rua em que todas as casas, invadidas por uma multidão de
comércios, oferecem um aspecto repelente. As construções têm ali um carácter
horrível. A ignóbil sujidade das fábricas predomina ali (...) Excepto Gigonnet, todos
os locatários exerciam uma profissão. Vinham, saíam constantemente operários. Os
degraus estavam portanto revestidos de uma capa de lama dura ou mole, consoante
o tempo, e onde permaneciam imundices. Nesta fétida escada, cada patamar
oferecia aos olhos os nomes do fabricante escrito em dourado sobre uma lata
pintada de vermelho e envernizada, com amostras das suas obras-primas. Quase
sempre, as portas abertas deixavam ver a estranha união do lar e da fábrica, e por
elas se escapavam gritos e grunhidos inauditos, cantos, assobios que lembravam o
momento das quatro horas nos animais do Jardim das Plantas. No primeiro andar
faziam-se, num tugúrio infecto, os mais belos suspensórios do antigo Paris. No
26

segundo, produziam-se, no meio das mais imundas sujidades, as mais elegantes


cartonagens que ostentam no dia do Ano Novo as montras dos boulevards do Palais
Royal.” (Balzac, 1937)8
27 Balzac percebe e descreve, aqui, qualquer coisa de mais complexo e melhor definido
que a imagem indistinta e genérica fixada pelos observadores da época. Se ele evoca um
aspecto repugnante, se ele fala de construções horríveis e de vil imundice, ele mostra
igualmente uma comunidade viva e estruturada em torno da produção e da
comercialização de uma série de objectos bastante específicos. Ao mesmo tempo ele
repara como, nas escadarias sombrias destes prédios, se cruzam e misturam, por vezes
nas mesmas famílias e nas mesmas casas, as figuras e papéis dos fabricantes e dos
comerciantes, dos operários e dos artesãos, dos empregados e caixeiros. Em suma, todo
um mundo organizado de maneira muito coerente num ambiente que tem como
universo a rua e o bairro, totalmente diferente daquele que calcorreia os novos bairros
da cidade mas que podemos encontrar em várias fontes, desde que procuremos os seus
vestígios.
28 Podemos encontrá-lo, nomeadamente, nos dados dos anuários do comércio da época
que pormenorizam com precisão a longa lista de fabricantes, comerciantes e artesãos
que povoavam essas ruas e edifícios. Deste modo, percorrendo as actividades registadas
no anuário de 1851 para a Rua Greneta, encontramos, precisamente, as mesmas figuras
tão finamente evocadas nas páginas balzaquianas:

Quadro 1 – Actividades registadas no anuário do comércio para a Rua Greneta em 1851 (Didot,
1851)9.

29 Dados eloquentes, só por si, que mostram até que ponto o tecido social do centro da
cidade se caracterizava por um entrelaçamento de actividades e de papéis profissionais
ao mesmo tempo complexo e coerente. Em cerca de 200 metros da rua antiga 10, estavam
registados sete albergarias, dez tabletiers 11 e uma dezena de artesãos ourives e
27

quinquilheiros, também de seleiros, de oculistas, de nacríer 12, de espelheiros, de


torneiros, de envernizadores, de gravadores, assim como uma multidão de fabricantes,
para além de um médico, um dentista e um farmacêutico ervanário. Muito embora esta
rua pudesse ser assimilada, como o resto do bairro, a uma cloaca a céu aberto,
adivinhamos, através destes dados simples, todo um mundo perfeitamente organizado
em torno da produção de uma gama de produtos que precisam do concurso de vários
ofícios e funções.
30 É, aliás, o que podemos ler na ilustração da Rua Greneta gravada por Adolphe Martial-
Potemont em 1845:

Figura 4 – O Pátio da Trinité e a Rua Greneta.

Gravura, Musée Carnavalet.

31 A imagem foi tirada a partir do Pátio da Trinité, o grande espaço que se abria no meio
da rua e que a punha também em contacto, através de um dédalo de pátios e vias, com
as ruas Saint-Denis e Saint-Martin. Ela permite observar claramente as diferentes
dimensões que se tecem e se sobrepõem no interior destes espaços. Na Rua Greneta, ao
fundo da imagem, dois dos edifícios revelam sinais da sua utilização parcial como lugar
de produção (neste caso, uma fábrica de pérolas e uma outra de botões e molduras). Em
primeiro plano vemos, pelo contrário, um alugador de carroças e também armazéns e
uma tabuleta indicando a actividade de um serralheiro ou de um ferrador. Os prédios,
por seu lado, deixam transparecer claramente os numerosos reordenamentos
suportados pelos edifícios originais ao longo do tempo. À esquerda, pequenos armazéns
e fábricas surgidos depois da Revolução apoiam-se a uma casa com vigas à vista, muito
provavelmente do século XV. Ao fundo, outra casa mostra pelo menos três camadas de
construção diferentes. Tal como nas outras, é possível ver, nesta imagem, vestígios de
28

transformações recentes que alteraram o bairro e que podemos seguir facilmente


comparando três planos feitos em três momentos diferentes.
32 Na planta de 1756 (A) o tecido urbano define-se quase unicamente através da presença
dos domínios religiosos. Na imagem vemos claramente os conventos de Saint-Martin-
des-Champs, na Rua SaintMartin, e o Hospital de la Trinité, na Rua Saint-Denis. A pouca
distância descortinamos igualmente os conventos de SaintSauveur e das Filies Dieu. A
Rua Greneta surge aqui, sobretudo, na sua antiga dimensão de atalho campestre ligando
o convento de Saint-Martin e o Hospital de la Trinité com as suas amplas construções,
os seus jardins e os seus campos hortícolas.

33 Esta trama muda drasticamente a partir da Revolução quando, com a venda dos bens
eclesiásticos, os campos e os edifícios são, progressivamente, atingidos pela especulação
imobiliária. Assim, na planta de 1808 (B), podemos ver que a cintura de muralhas foi
derrubada, enquanto que os jardins e os diferentes edifícios foram integrados no
edificado laico da cidade. Mas é sobretudo ao longo dos anos seguintes que os vestígios
de antigos espaços verdes desaparecem totalmente e que a rede de construções se
densifica atingindo a complexa geometria observável na planta de 1848 (C).
29

34 É pois no decurso destes anos que se forma o Pátio da Trinité. Espaço caótico aos olhos
dos observadores, mas altamente funcional no interior de uma parte da cidade que
progressivamente se foi dedicando à produção artesanal em larga escala. Com efeito, ao
longo do mesmo período e sob o impacto dos mesmos fenómenos, o conjunto do centro
da cidade densifica-se, as suas construções transformando-se num labirinto de ruas,
ruelas, becos e pátios, dos quais apenas vemos uma pequena parte, mas que
caracterizam, durante várias décadas, a totalidade do espaço compreendido entre a ilha
da Cité e os grands boulevards, o Palais Royal e a Praça da Bastilha.

35 Estes elementos são importantes. Em quase todas as descrições da época a imagem de


alteridade cloacal e doentia atribuída aos bairros centrais acompanha a de estagnação e
podridão. Como se, ao lado da cidade moderna e cintilante que se desenvolve para lá
30

dos boulevards, houvesse uma outra incapaz de acompanhar esta evolução, retraída
sobre si própria e albergando progressivamente as margens da população parisiense.
Na realidade, uma observação mais fina destes espaços mostra claramente que o centro
se desenvolve de uma forma igualmente vigorosa. Contudo, o seu desenvolvimento
concretiza-se sob formas e em direcções totalmente diferentes, não apenas como novos
bairros burgueses, mas também em bairros operários que surgirão ao longo do Segundo
Império e da Terceira República.
36 Aos olhos de Musset e de outros observadores da época a modernidade apenas se podia
concretizar nos objectos e nas práticas que se impunham através da cultura dos
boulevards. Era-lhes, pois, mais difícil reconhecer, na complexa articulação dos bairros
centrais, as coerências de um espaço que se conseguiu estruturar de uma forma
extremamente funcional em torno da produção de bens, e particularmente de bens de
luxo. Ora, desde que se analisam as actividades existentes em cada rua, apercebemo-nos
que cada uma delas aloja grupos de artesãos extremamente especializados na produção
de uma parte de um trabalho conjunto que se completa com outras partes preparadas
por outros artesãos e operários que habitam vizinhanças próximas.
37 Na figura que se segue, assinalei as profissões declaradas por todos os habitantes da Rua
Greneta ou de uma rua vizinha que assinaram um acto notarial ao longo do ano 1851 13.
Ela constitui, pois, um indicador relativamente fiável das actividades desempenhadas
pelos membros mais activos do bairro.
38 A figura ilustra bem a importância da especialização das actividades desempenhadas
nesta parte restrita do espaço urbano. Como já tínhamos visto para os dados do anuário
do comércio, na Rua Greneta dominam os fabricantes de guarda-chuvas, brinquedos, de
cordas para instrumentos, etc. E em redor deles, nas ruas vizinhas, uma multidão de
estampadores, de costureiras, de quinquilheiros e de cortadores de peles, produzem as
partes dos diferentes trabalhos conjuntos.
39 Sob esta óptica o espaço físico do bairro, com os seus becos, os seus pátios e as suas
tortuosidades labirínticas, surge-nos, sobretudo, como o produto de uma construção
colectiva, não programada, apesar de perfeitamente racional, que soube reconverter e
adaptar, com mil intervenções, antigas construções às exigências específicas de uma
produção de massa de bens de luxo.
40 E, paradoxalmente, grande parte desta produção destinava-se a fornecer as vitrinas e as
montras das lojas que se abrem, cada vez mais numerosas, nos boulevards, na Chaussée
d’Antin ou nas galerias da cidade cintilante do mito parisiense.
31

Figura 5 – As profissões na área da Rua Greneta em 1851

CONCLUSÃO

41 A imagem clássica da Paris do século XIX é a de uma modernidade resplandecente que se


exprime através do espantoso desenvolvimento da margem direita. Primeiro, de novos
bairros, como Chaussée d’Antin, St. Georges ou Poissonnière, que florescem como uma
auréola em redor dos boulevards, atraindo uma massa crescente de altos funcionários,
oficiais do Império, banqueiros, empregados, artesãos, comerciantes, artistas e
empresários. De grandes boulevards, sobretudo, que circundam e apertam a cidade
antiga com as mil luzes dos seus inumeráveis teatros, cafés, restaurantes, lojas, galerias.
Da gente que povoa e vive estes espaços: os artistas, os jornalistas, os dandies, os
políticos, os aristocratas e os burgueses, os operários endomingados e as costureirinhas,
os passeantes e os boémios. Da incrível soma de testemunhos, narrativas, anedotas,
desenhos, canções, romances... produzidos nestes mesmos espaços e sobre estes
mesmos espaços por incontáveis actores que os calcorreavam.
42 Não se trata de uma imagem nítida, pois ela mistura doravante os objectos, os discursos
e os factos de épocas diferentes, condensando-as numa única narrativa, tão
hagiográfica quanto imprecisa. Mas é tenaz e impôs-se progressivamente como única
expressão da essência e natureza do desenvolvimento conhecido pela cidade ao longo
do século XIX.
43 Claro que não podemos ignorar a importância destes aspectos. Eles marcam
inegavelmente a cidade e a sua história. Mas mereceriam ser mais interrogados sobre as
diferentes coerências e temporalidades que os compõem, analisando as numerosas
rupturas e tensões internas. E, sobretudo, dever-se-ia questionar a sua centralidade e
32

unicidade, nomeadamente à luz de uma análise de outras experiências de modernidade,


abertas na cidade nos mesmos momentos.
44 Nas páginas precedentes tentei mostrar que uma destas outras experiências se
desenrola, paradoxalmente, nos lugares em que a modernidade cintilante e
oficialmente reconhecida percebe, no melhor dos casos, como atrasados, mas mais
frequentemente, como estranhos, bárbaros... Como já se referiu, abrangidos pelas
mesmas forças económicas e sociais que favoreceram o desenvolvimento da Chaussée
d’Antin e dos grandes boulevards, os bairros antigos da margem direita duplicam a sua
população em pouco tempo, densificando a sua trama arquitectural. E vimos, também,
como estas mudanças, importantes, surgem de maneira algo confusa para a maior parte
dos observadores da época. Aos olhos de alguns, de acordo com a leitura higienista, elas
são sinal da degradação progressiva do tecido urbano tornado o receptáculo das
camadas mais marginais da cidade. Para outros, estes bairros constituiriam, sobretudo,
o exemplo de uma forma urbana tornada incoerente e não funcional relativamente aos
fluxos crescentes das mercadorias e dos homens. Para a larga maioria dos observadores
burgueses, cultos ou não, eles apenas são uma terra incognita, um lugar difícil de se
acercar, ao mesmo tempo atractivo e repulsivo, mas sempre desconhecido, exótico e
inacessível.
45 Este ponto mereceria ser melhor desenvolvido. Encontramo-nos precisamente no
coração das contradições e tensões que percorrem e distendem a sociedade parisiense
durante a primeira metade do século XIX. Durante este período, particularmente
importante pela sua complexidade e pelo número de perspectivas que parece abrir,
forma-se a imagem de uma alteridade interna ao espaço social, que desfigura e torna
estrangeira esta parte da população, apesar de activa. Ao mesmo tempo que se
desenvolvem as utopias sociais e que vários actores se interrogam sobre a construção
de uma República democrática (Riot-Sarcey, 2002) nega-se qualquer protagonismo às
práticas económicas e sociais existentes nos bairros do centro.
46 No entanto, estas práticas parecem importantes e realmente inéditas. Como acabamos
de ver elas consistem no desenvolvimento de formas de actividades profissionais que
permitem articular, no espaço de um prédio ou de um quarteirão, toda a cadeia de
produção e de comercialização de uma gama importante de produtos, na sua maioria de
alta qualidade. Um encadeamento particularmente funcional, pois evita a dispersão de
funções e actividades que marcam a produção industrial nos outros bairros de Paris,
embora produza também agregação social. Os registos notariais estabelecidos pelos
habitantes destes espaços mostram até que ponto numerosas trocas de bens e de
dinheiro confirmam e fortalecem os laços criados através da actividade profissional.
47 A modernidade que podemos entrever nestes bairros é, pois, da ordem de uma
identidade e de uma coesão social que se constrói e se define no universo da rua e do
bairro. E é no quadro desta identidade profundamente enraizada no espaço de
vizinhança que os habitantes se posicionam no contexto social e político. Assim, se por
um lado, nas perspectivas oferecidas por estes laços se tecem as estratégias e as práticas
de mobilidade social, por outro lado, encontramos estas mesmas cadeias de laços em
todos os momentos de mobilização política. Como bem demonstram os relatos do
exército e da magistratura, é nas ruas destes bairros que se desencadeiam os motins e
as revoluções do início do século (Hincker, 2002; Clavier, 2006). Por trás de cada
barricada parisiense, tanto em 1830 como em 1848, podemos, pois, encontrar as
33

mesmas fisionomias e os mesmos grupos de personagens que tínhamos observado nos


anuários comerciais ou nos registos notariais.
48 Seria necessário estudar de um modo mais aprofundado estes laços, tentando
esclarecer melhor a sua natureza e o seu grau de coesão. Nomeadamente compreender
se, e em que medida, eles transportavam também um projecto de democracia local
alternativo aos modelos centralizadores avançados pelo conservadorismo republicano.
Nenhuma destas dimensões foi retida pelos contemporâneos nem pelas diferentes
gerações de historiadores que se debruçaram sobre a história da cidade. Apavorados
por uma diferença que interpretavam através das categorias de uma alteridade violenta
e perigosa, os primeiros contentavam-se em destruir com os canhões da República,
seguidos pelas picaretas haussmanianas, todos os nós mais significativos deste espaço e
desta cultura. Deslumbrados pelo brilho do mito de uma modernidade assente numa
dimensão única e coerente, os segundos apenas deram o seu aval à violência destes
ataques, recambiando a população destes bairros centrais para o espaço opaco e
indefinido da marginalidade urbana.

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34

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NOTAS
1. Tradução do francês de Graça índias Cordeiro.
2. “Deve-se dizer, também, que após a grande tensão do reinado grandioso e absoluto do
imperador, o tipo de desordem anárquica que se seguiu logo à restauração tinha qualquer coisa
de novo que se assemelhava à liberdade (...) sonhava-se com uma espécie de estado político e
moral, até então desconhecido em França, o estado constitucional de que ninguém tinha uma
ideia certa e que nós só conhecíamos por palavras” (Sand, 1856: 454-455).
3. Até 1860, ano da ampliação de Paris e da reestruturação das suas câmaras municipais, o antigo
4.° arrondissement ocupava o espaço compreendido entre as actuais ruas Des Petis-Champs,
Etienne Mareei e Saint-Denis e o rio.
4. É, nomeadamente, o caso dos edifícios construídos na Rua de Rivoli entre o Louvre e a Praça da
Concórdia, durante o Primeiro Império, que durante muito tempo encontraram poucos
compradores.
5. Nomeadamente o tijolo e não a pedra (Collectif, 1829: 4).
6. Ao longo da sua actividade Rambuteau desenvolve, nomeadamente, um plano de alargamento
das ruas que visa evitar grandes alterações nos tecidos dos bairros, tendo cuidado em não tocar
no microsistema de ruelas e passagens internas dos quarteirões. Com medo de acordar a cólera
popular mas também com um cuidado, quase organicista, relativamente à estrutura da cidade. Se
ele provoca também alargamentos das ruas no coração do centro histórico a sua técnica não é a
da picareta haussmaniana mas sim a do alinhamento e do alargamento da rua. É o que ele faz, por
exemplo, na rua que tem o seu nome (Rambuteau, 1907; Klahr, 2001).
7. Num trabalho em curso sobre estes bairros durante a primeira metade século xix, com Jérôme
David, Anne Vitu e Caroline Varlet, estamos a recolher, em diversos arquivos parisienses, uma
35

série de dados exaustivos sobre a história das construções locais, reconstituindo, nomeadamente,
não apenas os planos cadastrais e as imagens iconográficas de cada casa, como também os
diferentes proprietários, construtores e habitantes. A informação recolhida estrutura-se numa
base de dados organizada num Sistema de Informação Geográfica desenvolvida pelo Laboratoire
de Démographie Historique de 1’EHESS.
8. H. de Balzac, César Birotteau, Livraria Editora Guimarães, Lisboa, s. d., tradução do dr. Alberto
Pimentel (Filho). (N. do T.)
9. Os números da segunda coluna correspondem ao número de registos para cada profissão.
10. A extensão da rua duplicará em 1868 pela integração das antigas ruas do Renard Saint-
Sauveur e Beaurepaire.
11. Fabricantes e restauradores de pequenos objectos em material raro. (N. do T.)
12. Fabricantes de objectos em madrepérola. (N. do T.)
13. A profissão declarada por cada pessoa liga-se, por um traço, ao nome da rua habitada e a
espessura do traço é função do número de habitantes que declararam a mesma profissão: é, por
exemplo, o caso da profissão de proprietário e, também, de vendedor de peles para a Rua
Greneta, vendedor de vinho na Rua Aumaire, etc.

AUTOR
MAURIZIO GRIBAUDI
Historiador, Laboratoire de Démographie Historique – École des Hautes Études en Sciences
Sociales.
36

Capítulo 3. Ruas da cidade e


sociabilidade pública: um olhar a
partir de Lisboa1
Tim Sieber

1 Dizer que nas mais diversas culturas as ruas das cidades são os locais de eleição para a
sociabilidade pública e interacção urbana pode parecer uma afirmação demasiado
óbvia2. Contudo, nas suas análises do urbanismo contemporâneo, diferentes tradições
antropológicas nacionais atribuem ao palco da rua e às interacções públicas locais que
nela têm lugar significados conceptuais e importância analítica bastante diversificados.
Na minha condição de antropólogo norte-americano, formado sobretudo nas tradições
americana e britânica da antropologia “anglo-saxónica”, não foi fácil focalizar a
atenção na rua, dado que ao longo da minha aprendizagem sempre me ensinaram a
evitar tal sítio. Apesar dos meus vários anos de pesquisa antropológica urbana em Nova
Iorque e Boston, nos Estados Unidos, só depois de 1995, quando vim pela primeira vez a
Lisboa e aqui iniciei trabalho de campo, me familiarizei com os estudos antropológicos
sobre cidades portuguesas e do Sul da Europa. O olhar sobre a rua e a sociabilidade
pública urbana é bastante diferente na Europa, tanto ao nível da investigação
académica como no âmbito mais vasto da construção intelectual e cultural da cidade.
2 Neste artigo gostaria de partir do tema da rua no seu sentido literal e debruçarme sobre
algumas questões conceptuais, abordando a rua como um lugar dentro da cidade, um
lugar que podemos tomar como uma espécie de diagnóstico sobre aspectos
fundamentais da qualidade da vida urbana e do carácter de uma cidade. Interessa-me,
especialmente, contrastar a perspectiva norte-americana sobre as cidades e os seus
tipos de sociabilidade pública com a perspectiva portuguesa e, de um modo geral, do
Sul da Europa ou do Mediterrâneo. Procuro ainda explicar algumas das dimensões
sociohistóricas da rejeição norte-americana da vida de rua como um tema sério de
investigação – e, em contrapartida, exploro algumas razões que levam a que esse
mesmo tópico seja absolutamente crucial para a compreensão da Europa urbana do Sul.
Como exemplo do poder da rua como uma janela de observação sobre a cultura urbana
dou especial destaque às próprias ruas de Lisboa, em particular àquelas que acabei por
37

conhecer melhor como residente recente, enquanto realizava trabalho de campo na


cidade.

A RUA NA AMÉRICA DO NORTE: DOMÍNIO DAS CLASSES


DESFAVORECIDAS

3 Ao longo da minha própria formação em Antropologia Urbana nos Estados Unidos da


América, e em todos os quadrantes das ciências sociais no âmbito alargado da academia
norte-americana, as ruas sempre se mantiveram à margem, de uma forma notória:
como lugares onde os pobres e a classe operária vivem a sua vida privada no espaço
público. Esta é ainda hoje a visão dominante. Por outras palavras, qualquer
sociabilidade que ocorra na rua não é nem burguesa nem de classe média mas emana,
claramente, daqueles que se situam na base da pirâmide em termos socioeconómicos.
Esta visão tem exercido grande influência sobre a forma como a vida de rua, as ruas
como lugares ou, até, a interacção de rua, são consideradas pelos cientistas sociais. Uma
etnografia urbana típica, bem conhecida e já influente nos meus tempos de estudante,
nos anos 70, é o famoso Tally’s Comer: a Study of Negro StreetcornerMen, escrito por Elliot
Liebow (1967). Como Liebow sublinhou, os sujeitos da sua pesquisa eram “lower-class
Negro (...) men” - pobres, tipicamente ligados a empregos precários, desqualificados, ou
desempregados. Homens que recorriam à esquina particular de uma rua, à saída de um
pequeno restaurante de fast-food , como refúgio colectivo onde se protegiam das
adversidades sentidas, tanto a nível familiar como laborai. Liebow considerou estes
homens como deslocados e socialmente marginais, não obstante eles manterem, por
vezes, relações frágeis fora da rua, como maridos, pais, amantes, ou como “ganha-pão”
da família. Hyland Lewis, no prefácio da obra, apelida estes homens de “vadios”,
“desenraizados” e “falhados” e conclui: “Trata-se de pessoas que não iam chegar a
nenhum lado e que sabiam disso!” (Lewis, 1967: x-xiii).
4 O argumento de Liebow era o de que os homens com melhores situações laborais e com
um envolvimento mais activo na vida familiar - isto é, classe média ou aspirando a isso-
não tinham tempo para deambular pela rua. No caso das classes mais baixas, refere
Liebow, “Homens, mulheres e crianças passam a maior parte do seu tempo na rua, nas
esquinas, sentados ‘à porta’, ou debruçados nas janelas”. E acrescenta: “Trabalhadores
activos que trabalham durante o dia inteiro e dividem o seu tempo entre o emprego e a
família, não frequentam a esquina da rua” (Liebow, 1967: xx). Esta caracterização da
sociabilidade de rua – ligada a uma classe baixa e masculina, minoritária ou imigrante,
e não aos americanos da classe média-alta – já nos anos 1960 se encontrava bem
estabelecida na investigação em ciências sociais, reflectindo as principais concepções
culturais anglo-americanas acerca das cidades e dos seus espaços públicos.
5 O primeiro de um importante conjunto de trabalhos etnográficos sobre a vida de rua,
surgira, afinal, décadas atrás: Street Comer Society: the Social Stmcture of an Italian Slum de
William Foote Whyte, publicado em 1943. Whyte estuda um bairro urbano a que chama
Cornerville, na realidade, North End, em Boston, que considera uma zona pobre vista
pelos locais como “misteriosa, perigosa, e deprimente” (Whyte, 1993: XV ). O seu livro
desenvolve-se mostrando que a área evidencia forte coesão social e que, apesar de
pobre, o bairro não é desorganizado. No entanto, o principal foco da sua pesquisa é um
grupo de jovens envolvido em actividades criminosas na vizinhança, o famoso “Doc” e o
seu bando. Estes jovens são levados e impulsionados por criminosos do bairro para a
38

barafunda ou submundo do crime. Whyte realça o contraste entre “Doc” e os seus


rapazes com a franca ascensão de Chick e do seu grupo, constituído por jovens
estudantes universitários, que não têm muito tempo para passar na esquina da rua e
que, em vez disso, preferem socializar num clube privado, fora das ruas.
6 Esta velha concepção das ruas urbanas, que remonta pelo menos aos anos 1940, ou
mesmo antes, perdura ainda hoje em muitos trabalhos recentes no domínio das ciências
sociais. In Search of Respect: Selling Crack in EI Barrio, de Philippe Bourgois (1996),
debruça-se sobre East Harlem em Nova York e as tentações do negócio da droga na rua
para jovens sul-americanos. Nesta linha lembro também o trabalho etnográfico do
sociólogo Elijah Anderson. Anderson começou a sua carreira com a publicação do
estudo A Place on the Corner, em 1978, sobre um bairro da zona Sul de Chicago, que tinha
como objecto de estudo os homens que frequentavam o “Jelly’s Corner”, à frente e
dentro de uma tasca. Cenas de rua como esta, refere o autor, são “escapes especiais para
os pobres que vivem na cidade e para as pessoas de classe baixa” (Anderson, 1993:1). De
referir ainda o seu livro de 1992, Streetwise: Race, Class and Change in an Urban Community,
que, em grande medida, trata dos jovens negros, do tráfico de droga e da polícia, desta
vez em Filadélfia. Mais recentemente, em 2000, publicou Code ofthe Street: Drugs, Violence
and the Moral Life of the Inner City onde, logo no primeiro capítulo, estabelece um forte
contraste entre dois tipos de pessoas, de famílias, e de estilos expressivos no seio da
cidade, que rotula de “decente” e “da rua” (2000: 35-36). Diz o autor que se trata de uma
visão do mundo polarizada (Anderson, 2000: 35).
7 Talvez não constituísse grande surpresa nos EUA, nos anos 1960 e 70, durante a
formação e desenvolvimento do novo campo da “Antropologia Urbana”, que aqueles
que desejavam uma abordagem antropológica mais abrangente, mais ambiciosa e
crítica das cidades, e que haviam enveredado por estruturas urbanas, processos e
histórias mais complexas, tivessem encontrado graves limitações neste tipo de
antropologia da rua. Richard G. Fox foi uma das mais fortes vozes críticas que
emergiram há cerca de 30 anos. O seu trabalho seminal de 1972, “Rationale and
Romance in Urban Anthropology”, considerado hoje um clássico, foi publicado no
primeiro volume da nova revista Urban Anthropology [1 (2): 205-223]. Fox criticou
veementemente as limitações da ambição de uma antropologia urbana apostada em
fazer essencialmente uma “antropologia das ruas das cidades”. Ele vê nesta tendência
da antropologia anglo-americana a continuação da procura do exótico e do marginal,
uma busca dos últimos resquícios de primitivos ou camponeses no tecido urbano e uma
herança do colonialismo. Esta abordagem era acompanhada pelo concomitante
evitamento dos “estudos sobre a classe média ou sobre as elites na América urbana”,
incluindo “as categorias económicas e étnicas dominantes” (Fox, 1980: 117). O seu
artigo, naturalmente, pugnava para que os antropólogos estudassem as cidades de
forma mais holística, histórica e comparativa, e pela inclusão do lugar das elites, dos
estratos raciais e das classes privilegiadas nas suas análises. O que, uma vez mais,
significava evitar a pesquisa nas ruas.
8 Claro que as recomendações de Fox fazem eco de outras reformulações metodológicas
genericamente recorrentes na antropologia americana. Figuras como Laura Nader, de
Berkeley, por exemplo, advogavam que os antropólogos a estudar a sociedade
contemporânea deveriam focalizar as suas análises naqueles que detinham e exerciam
o poder político e económico: “studying up”, era o termo utilizado pela autora para
apelidar essa situação (Nader, 1972). Tal como aconteceu com Fox, também Nader e
39

outros tentaram redireccionar o olhar dos investigadores completamente para fora da


rua, e até para fora do bairro como loci de investigação etnográfica.
9 Quando comecei a familiarizar-me com a riqueza teórica do trabalho que estava a ser
realizado na Europa, especialmente em Portugal, França e Espanha, fui obrigado a
questionar-me porque razão esta antropologia da rua, inicialmente voyeurista e mais
tarde rejeitada, havia surgido na América do Norte. E porque é a rua na Europa do Sul,
com toda a sua interacção e sociabilidade, considerada de forma tão optimista como um
lugar de integração, fonte de inspiração na teorização antropológica da cidade
contemporânea por parte de investigadores imaginativos como Graça índias Cordeiro,
Michel Agier, Joan Pujadas, Luís Baptista, António Firmino da Costa e outros? A
resposta parece clara: diferenças fundamentais nas tradições culturais anglo-
americanas e da Europa do Sul, mediterrânicas, se se preferir, no que diz respeito às
definições do espaço público e privado no tecido urbano e, também, diferentes
concepções, cultural e historicamente enformadas, sobre a ecologia social do espaço
urbano.
10 Nos EUA a classe média e a burguesia têm fugido do espaço público urbano, desde a
primeira grande vaga de urbanização, durante a Revolução Industrial em meados e
finais do século XIX, como é salientado por Richard Sennett na obra The Uses of Disorder:
Personal Identity and City Life (1992). Sennett explica como a família burguesa se tornou
numa cerrada fortaleza contra a esfera pública, promovendo uma separação clara e
inusitada entre o público e o privado, especialmente na cidade. Este processo foi
naturalmente acompanhado pela emergência de uma ecologia social, ainda raramente
visível na Europa – o confinamento dos imigrantes, das minorias e dos pobres ao centro
da cidade e a fuga das classes média e alta para os subúrbios onde se refugiam, hoje em
dia, em amuralhados condomínios fechados – “gated communities” – como mostra
Setha Low em Behind the Gates: Life, Security and the Pursuit of Happiness in Fortress América
(2003).
11 É claro que as actuais tendências para a aceleração do ritmo de privatizações e a
redução crescente do espaço público continuam sob a égide de novos regimes políticos
e económicos, que promovem soluções de mercado privadas para todos os problemas e
necessidades humanas, a tal ponto que muitos cientistas sociais receiam o
desaparecimento do domínio público. Este colapso inclui ruas democráticas e espaços
abertos ao encontro público, locais de interacção que atravessam clivagens raciais e
classistas, lugares de construção de comunidade, como Michael Sorkin argumenta em
Variations on a Theme Park: The New American City and the End of Public Space (1992).
Apesar de algumas contracorrentes pontuais em prol de ideais mais “pró-urbanos”,
importa reconhecer que a tradição cultural norte-americana tem sido historicamente
antiurbana, de uma forma consistente como, aliás, Beauregard (2003) e tantos outros há
muito vêm defendendo.

RUAS DA CIDADE NO SUL DA EUROPA: UMA VISÃO MAIS


COMPLEXA

12 Tanto as pesquisas empíricas como a teoria apontam, obviamente, para tradições bem
diferentes na Europa do Sul, ou no Mediterrâneo. Não é preciso assumir uma concepção
desacreditada e essencialista da unidade de uma “cultura”, “identidade” ou “carácter”
40

mediterrânicos (ver Herzfeld, 1984 e 1985, sobre discussão das limitações de tal visão),
para reconhecer que os padrões de vida urbana têm sido historicamente diferentes
nesta região e no Norte da Europa e Anglo-América. Em primeiro lugar, todos os
observadores notam que o urbanismo – e a ideia da superioridade do ideal urbano, e da
supremacia cultural das cidades – há milénios que tem sido central para as sociedades
mediterrânicas (e. g., Braudel, 1966 [1949]; Leontidou, 1990; Cowan, 2000; Driessen,
2001; Amelang, 2000).
13 Outras observações, muito difundidas, têm sido feitas sobre uma prática comum de
controlo “popular” das ruas e de outros espaços urbanos (Amelang, 2000: 26-27); uma
vida de rua rica e intensa na qual os participantes investem parte das suas vidas
privadas (Leontidou, 1990: 3); e ainda sobre a grande heterogeneidade das populações
das cidades, também em estatuto social, com uma elite residente que partilha espaços
públicos e ruas com as classes populares (Leantidou, 1990).
14 Finalmente, uma vez que não se coloca a ideia essencialista de cultura mediterrânica,
daí decorre que a questão sobre se Portugal, logo Lisboa, deva ser definido como total
ou parcialmente mediterrânico também não é relevante. Muitos comentadores desde
longa data têm acentuado que Portugal (e Lisboa como sua principal cidade, onde vive
um quarto dos habitantes do país) combina as influências culturais mediterrânicas e
atlânticas, e que a importância histórica da nação residiu precisamente na sua
localização enquanto cruzamento geopolítico estratégico destas duas regiões (ver
também Sieber, 2004: 52). A definição ecológica de Braudel sobre o Mediterrâneo, que
situa as suas fronteiras a norte na faixa limite do plantio da oliveira, coloca o
rectângulo português, claro, dentro da região, embora não confinando com o Mar
Mediterrâneo (Braudel, 1966 [1949]: 4).
15 Como se manifestam então estas diferentes perspectivas “mediterrânicas” da cidade ao
nível da etnografia? Uma sugestão é-nos dada por Donald S. Pitkin que explica em The
Cultural Meaning ofUrban Space (1993), referindo-se não apenas à Itália como também a
padrões mediterrânicos mais amplos, que encontrou nas cidades uma “intersecção do
espaço público e privado [onde] as pessoas agiam como se as ruas fossem as suas casas”
(Pitkin, 1993: 95), um aspecto que contrasta com o mais característico uso do espaço
individualista e privado sob o protestantismo na Europa do Norte (1993: 99) e como
“essas cidades norte Europeias [evidenciam ausência] de vida nas ruas” (1993: 100).
16 A geógrafa Lila Leontidou sustenta, no seu ensaio do mesmo ano, “Postmodernism and
the City: Mediterranean Versions”, que “As cidades sul-europeias não se encaixam...
nos modelos evolucionários anglo-americanos” (Leontidou 1993: 949). Acentua a
heterogeneidade social no espaço público e nos bairros residenciais, uma certa
informalidade, espontaneidade, sempre acompanhadas da evidente sociabilidade, como
quintessência mediterrânica. Como ela própria refere, “De facto, as populações urbanas
mediterrânicas tendem a frequentar espaços urbanos comuns, tabernas, bares e cafés
com muito mais frequência do que as do norte. Uma apressada fruição dos tempos
livres é bem mais usual nos padrões de vida americanos...” (Leontidou, 1993: 958).
17 Aqui se encontra a minha resposta, e pensei nisso especialmente quando li na rica
etnografia de Graça Cordeiro sobre o Bairro da Bica, em Lisboa, uma descrição sobre a
forma como os seus habitantes esbatiam as divisões entre o espaço público e o espaço
privado nas Escadinhas da Bica. Local onde, no Verão, “a rua é um ponto estratégico de
encontro, observação e conversa”, tantas vezes ligado às tascas, cervejarias, leitarias, e
um “ponto de convívio” que “parece integrar-se no espaço doméstico da casa – ou a
41

casa parece estender-se por sobre a rua” (Cordeiro, 1997: 192). De igual modo, em
Sociedade de Bairro, também António Firmino da Costa (1999) realça muitas situações em
que o bairro oferece inúmeros geradores de interacção.
18 Não evitar a rua, encarando-a antes como foco privilegiado de pesquisa etnográfica,
permite-nos, de facto, reflectir sobre a qualidade e as características da vida quotidiana
na cidade. Este escrutínio será, contudo, cada vez mais difícil de concretizar se
pensarmos que a maioria dos portugueses – e das populações da maior parte das nações
do mundo ocidental – é, efectivamente, constituída por urbanitas.
19 Este retrato ainda muito exploratório sobre as grandes diferenças na forma como as
tradições etnográficas anglo-americanas e sul-europeias abordam as ruas da cidade,
revela-nos o quanto o olhar antropológico, limitado pelas políticas de financiamento à
investigação, e pelos pressupostos culturais mais abrangentes que orientam a definição
dos problemas de pesquisa, ainda assim, exerce a sua influência no rumo seguido pelas
ciências sociais qualitativas em diferentes regiões do mundo. Neste sentido, muito
provavelmente todas as antropologias tenderão a ser “nacionais” ou “regionais”.

RUAS DE LISBOA: UM UNIVERSO COMPLEXO DE LUGARES


PÚBLICOS

20 Não nos surpreende que as ruas de Lisboa ou as ruas do Sul da Europa sejam um foco de
atracção, uma vez que constituem uma vertente fundamental do cenário urbano. Até a
nível linguístico podemos corroborar tal constatação. E um conhecido cliché considerar
que os Inuit do árctico têm muitos nomes para designar a neve, o que demonstra quão
importante é este elemento na sua cultura. Seguramente pode dizer-se o mesmo dos
lisboetas e da sua rica taxinomia das ruas e outras vias públicas – com os seus becos,
calçadas, escadas, escadinhas, travessas, bem como praças, largos e pátios e também,
naturalmente, ruas, avenidas e alamedas – e ainda mais. As ruas são traços muito
importantes, reconhecidos e valorizados da paisagem urbana.
21 Em Lisboa o meu foco de pesquisa desde 1994 não incidiu particularmente nas ruas, mas
nos processos mais vastos de globalização e europeização, na criação de novas
narrativas nacionalistas no programa da Expo’98 e nas políticas de planeamento para
uma Lisboa mais europeia (Sieber, 2001 e 2002). Estudei, evidentemente, vários aspectos
das ruas durante a minha estada, sobretudo informalmente, mas também, por vezes, de
maneira mais formal, e procurarei relatar sucintamente algumas pequenas histórias do
que pude observar. Mas ainda inseguro da minha percepção sobre o sentido local da
vida de rua, decidi procurar nalguns guias turísticos o que diziam sobre as ruas de
Lisboa e a sua óbvia sociabilidade. Consultei sete guias diferentes que tinha em casa 3 –
mas, curiosamente, apenas um deles tinha uma entrada sobre vida de rua, e nenhum
deles aflorava a forma como os habitantes locais usavam a rua, nem sequer se referiam
à sua riqueza ou grande visibilidade na cidade. Do ponto de vista dos guias turísticos, as
ruas e o espaço da rua eram importantes apenas como dado adquirido, primeiro plano
quase invisível apenas atravessado pelo olhar do visitante para se fixar nas fachadas de
monumentos arquitectónicos ou edifícios históricos que os guias sempre enfatizam.
22 Por vezes é referenciado que as ruas são movimentadas e que provavelmente o
visitante se vai cruzar com várias pessoas – como vendedores ambulantes que tentam
vender-lhe flores, ou castanhas, ou guarda-chuvas, e de forma estranha estas
42

abordagens comerciais são confundidas com hospitalidade local. Curiosamente, outros


turistas aparecem também como parte do tecido social da vida na cidade – porque a
imagem de uma intensa vida de rua corresponde, frequentemente, à fotografia das
esplanadas dos cafés da Rua Augusta, na Baixa, concebidas para e repletas de turistas.
Parece ser irrelevante quem são as pessoas e quem está na rua – desde que as ruas
estejam apinhadas de gente. Não há uma verdadeira curiosidade sobre o modo como os
habitantes vivem. Os turistas são frequentemente aconselhados a evitar as ruas dos
bairros mais sossegados à noite, as ruas despovoadas, que na realidade são aquelas onde
vivem a maior parte dos lisboetas.
23 Apenas um guia de 1994, Insight Guides: Lisbon, produzido para países de língua inglesa
por uma editora de Hong Kong, se salienta por referir o tema da vida de rua, ainda que
o curioso retrato que dá de Lisboa seja muito pouco convincente. Refere este guia que a
singular harmonia social de Lisboa leva a que os seus visitantes não tenham que se
preocupar com espaços públicos perigosos, como acontece em tantos outros países.
Noutros locais os turistas tendem a evitar as ruas com receio de se confrontarem com
diferenças ou, pelo menos, pessoas de grupos que são estereotipados como sendo
perigosos, ou cujo comportamento não conseguem prever, especialmente à noite. Na
secção “Street Life” de Insight Guides, o guia diz acerca de Lisboa que “é uma cidade
onde se pode deambular a pé com segurança, mesmo à noite... Tal como não há
nenhuns ghettos raciais na cidade, também parece não haver grandes diferenças entre
ricos e pobres; os pobres vivem em casas antigas, originalmente construídas pelos ricos,
os ricos comem nas zonas da cidade onde os pobres habitam” (Kaplan, 1994: 61). Uma
vez mais a cidade é apresentada, de forma certa ou errada, como uma entidade
socialmente homogénea, em contraste com as cidades dos turistas, onde as diferenças
sociais, especialmente as de classe e de etnia, são consideradas uma ameaça.
24 Na senda de outras leituras sobre a vitalidade das ruas de Lisboa, com comentários
sobre o quotidiano da rua, decidi enveredar por textos menos superficiais, guias mais
diferenciados sobre a cidade, produzidos por escritores bem reputados entre os quais
dois famosos apaixonados de Lisboa. Teriam certamente visões conhecedoras a
comunicar. De imediato me veio à cabeça O Que o Turista Deve Ver, escrito por Fernando
Pessoa em 1925. Mas talvez porque Pessoa estava a escrever esse texto como parte de
“um projecto de dignificação de Portugal no exterior” (Lopes, 1992: 21), enfatizando a
sua firme posição no âmbito do património da Europa, o guia debruça-se apenas sobre a
alta cultura: monumentos arquitectónicos, arte e edifícios históricos. Estranhamente, o
seu livro não menciona quaisquer ruas ou habitantes que o turista encontraria.
Também de forma inesperada, o percurso que Pessoa propõe parte do princípio que o
visitante é conduzido ou conduz um carro de um sítio para outro, parando,
estacionando, saindo do carro, depois visitando o sítio, e voltando de novo ao carro,
dirigindo-se para o próximo sítio e assim por diante – não há qualquer experiência de
um passeio a pé pela cidade, não há uma vivência directa das ruas ou das pessoas. Faz-
nos lembrar quanto este guia de Pessoa não foi escrito para os próprios lisboetas, nem
sequer para a maior parte dos portugueses dos anos 20 do século passado. O único sítio
do guia em que Pessoa decide fazer observações acerca do quotidiano dos residentes é
na curta entrada sobre Alfama, mas as suas condescendentes anotações reportam os
residentes como objectos exóticos, cujo modo de vida evidencia sobrevivências do
antigo passado medieval: “Tudo aqui evocará esse passado – a arquitectura, o tipo de
mas, os arcos e as escadas, as varandas de madeira, os verdadeiros hábitos do povo que
43

aí vive uma vida cheia de rumor, de conversa, de canções, de pobreza ou de imundice”


(Pessoa, 1992 [1925]: 65).
25 A minha segunda fonte, Viaje a Portugal de José Saramago (1998), na versão castelhana
que possuía, foi mais ou menos a mesma coisa. Muito antes de ser publicada em
português, Saramago lançou este guia turístico sobre o seu país natal em castelhano,
como se na realidade ele não fosse escrito para os seus compatriotas. De forma algo
surpreendente, este grosso volume de 364 páginas sobre Portugal apenas inclui 15
páginas, ou cerca de 4% do total, sobre Lisboa (1998: 261-275), ainda que praticamente
um quarto da população portuguesa resida na região. Tal como Pessoa, também
Saramago se debruça sobre o património edificado, especialmente estruturas históricas,
como igrejas, museus e palácios, reflectindo sobre o seu significado histórico e
criticando com ironia muitas das interpretações em voga – mas a sua Lisboa é também
uma Lisboa não povoada por lisboetas contemporâneos, seja nas ruas, nos cafés, nos
restaurantes ou bares, ou em quaisquer outros lugares que propiciem sociabilidade. Ao
longo da obra, escreve na terceira pessoa para um leitor incorpóreo, bastante cerebral,
a quem chama “EI Viajero”, e quando termina a sua curta secção de 15 páginas sobre
Lisboa, anota “Vio mucho, y no vio casi nada” antes de continuar com “...este es el
pelígro permanente de cualquier viaje” (Saramago, 1998: 274). De facto, parece óbvio
que o contributo de Saramago é bastante limitado e que deixou de fora importantes
aspectos de Lisboa!
26 Finalmente, há a referir a apaixonada escrita de Norberto de Araújo sobre Lisboa, nos
anos 30 e 40, e a sua série de guias turísticos, Peregrinações em Lisboa. No volume X, sobre
Alfama e a Ribeira Velha, as palavras de Araújo descrevem realmente de forma primorosa
todas as curvas inusitadas, os contornos e os cantinhos especiais nas ruas e arcos de
Alfama, e também todas as características surpreendentes, fora do comum, dos
palácios, igrejas e praças, com as suas complexas histórias. E, de novo, não encontramos
pessoas nas suas descrições e ficamos sem saber nada sobre como os habitantes ou
visitantes usam os espaços, incluindo os espaços públicos a céu aberto. As pessoas estão
também ausentes das ilustrações, com seis das nove gravuras de página inteira a
mostrar ruas completamente vazias de gente e as restantes três exibindo, cada uma
delas, uma única personagem, sempre obscurecida pelas sombras. Uma vez mais, tal
como os outros autores, Araújo trata o património edificado como um objecto isolado,
de admiração e beleza, apreendido completamente à parte dos seus usos sociais e
culturais. Um pouco como se idealizasse a paisagem [cityscape] desprovida de pessoas 4.
27 Torna-se claro que há apenas um grupo de observadores que tem tido a preocupação de
penetrar e compreender, analisar e interpretar, as ruas da cidade e a sua sociabilidade,
e que considera que as pessoas, mesmo as mais comuns, ou talvez até mesmo
especialmente as mais comuns, têm sido sempre actores, ou agentes, na construção
criativa de Lisboa, tal como em qualquer outra cidade – nas ruas e espaços públicos,
bem como noutros sítios mais privados, do interior. Sim, na verdade, estes
observadores de que falo são antropólogos, sociólogos, historiadores, geógrafos, e
outros cientistas sociais que partilham uma abordagem qualitativa dedicada à reflexão
sobre a organização, a energia extraordinária e a vitalidade do cenário urbano, tanto do
presente como do passado, bem como da acção das pessoas comuns na sua elaboração,
manutenção e recriação.
28 Para mim, como antropólogo e estudioso de Lisboa há mais de uma década, o que as
ruas de Lisboa me têm ensinado pode ser resumido numa só frase: nada de
44

generalizações fáceis à sua volta. Elas não só nos dão uma visão microscópica,
particularmente local da sociedade e cultura, como também se constituem como
plataforma para a abordagem de uma grande variedade de aspectos sobre o
desenvolvimento urbano contemporâneo, as tendências nacionalistas, mudança
económica, imperialismo e globalização, passado e presente. Tal como Luís Baptista
explicou, baseado no trabalho de Michel Pinçon e Monique Pinçon-Charlot, é possível
“enriquecer a análise científica através da articulação das escalas global e local da
cidade” (Baptista, 2003: 36), um tema recorrente em várias partes deste livro. Focalizar
a rua como objecto de pesquisa não significa ignorar questões teóricas mais
abrangentes, sejam elas contextuais ou críticas.

UMA VELHA RUA DE LISBOA

29 E possível ilustrar este ponto de vista trazendo à discussão a rua de Lisboa que melhor
conheço – uma pequenina rua onde vivi em 1998, a Rua Afonso de Albuquerque. Tem
apenas 75 metros de comprimento e é bastante estreita-em alguns sítios não chega a
passar mais do que um carro-e fica mesmo na zona limítrofe de Alfama, a primeira rua
mesmo atrás do que foi a velha Cerca Moura do séc. IX, a muralha da cidade quando
Lisboa era muçulmana. A rua conduz à Rua dos Bacalhoeiros, da antiga Ribeira Velha,
através de arcos que atravessam a muralha, um de cada lado do final da rua – o Arco das
Portas do Mar, que constituiu a segunda entrada para a Ribeira depois da Reconquista,
aberta através da muralha, e o Arco da Conceição. O nosso prédio tinha janelas que
davam para a porta das traseiras da Casa dos Bicos, cuja entrada original era nesta rua
apesar de actualmente ser considerada como as traseiras do edifício histórico.
30 A Rua Afonso de Albuquerque era sobretudo uma rua popular, de classe operária, com
oito prédios, uma residencial de cinco andares que hospedava sobretudo imigrantes
africanos e migrantes rurais provenientes do Alentejo que ficavam na Casa de Hóspedes
Alentejano, no segundo andar. Deste modo, a rua albergava imigrantes das ex-colónias
em busca de uma vida melhor, bem como migrantes internos. Havia também um
restaurante, um clube aberto até tarde às sextas e sábados, conhecido pela sua música
popular portuguesa ao vivo, e vários pequenos comércios, incluindo uma loja de vinhos,
uma casa de fotocópias, uma padaria, uma sacaria e uma agência de camionagem. De
qualquer forma, tornava-se difícil descrever aqueles que aqui usavam as ruas de forma
homogénea – ainda que a maior parte das pessoas fossem da classe operária ou pobres.
31 No nosso prédio, a Dona Ana5 morava por baixo de nós, no primeiro andar. Era uma
velhinha reformada, de 82 anos, que pagava uma das tais rendas fixas muito baixas, que
haviam sido congeladas há cerca de meio século, mas bastante pobre pois auferia uma
pequena pensão cujo montante era exíguo. No segundo andar vivia um executivo
francês, que estava em comissão de serviço por três anos em Lisboa, proveniente de
uma firma internacional de computadores, sedeada nos Estados Unidos da América. O
Senhor Fernandes geria a loja de vinhos no rés-do-chão, recebia o correio dos hóspedes
do prédio que o carteiro lhe entregava, e distribuía-o pelos inquilinos. Não vivia no
prédio nem na rua, e nem sequer em Lisboa, mas em Loures. Apesar disso, era uma das
poucas pessoas da vizinhança que mais sabia da vida dos vizinhos, pelo menos em
público, uma vez que ficava à porta da sua loja a maior parte do dia, observando tudo o
que se passava na rua.
45

32 Dona Maria, que vivia num prédio de quatro andares ao fundo da rua, vendia legumes
frescos na rua todos os dias. Se por acaso ela estava a descansar quando algum vizinho
precisava de umas cebolas ou tomates para cozinhar o jantar, podia ir ter com ela ao
prédio, onde a porta do apartamento estava sempre aberta – ou poderia simplesmente
chamá-la da rua. A rua tinha também o seu cão, de nome Péri, que a patrulhava como se
fosse propriedade sua, dormindo por vezes no meio dela, e ladrando a todos os cães que
tentassem aproximar-se. O fluxo de tráfego automóvel nesta rua estreita e íngreme era
pequeno, de forma que as crianças podiam brincar à vontade durante a maior parte do
tempo, desde que tivessem cuidado. Não apenas na rua em si, mas ali à volta, a
vizinhança era distinta, com profissionais de pasta bem vestidos, que desciam rua
abaixo vindos das suas casas renovadas de Alfama, em direcção ao metro da Baixa.
Também tinha alguns turistas – sempre de passagem, com ar de quem está perdido mas
satisfeito, de olhos postos para cima e para a frente, à procura de qualquer maravilha.
33 Um dia em que regressei tarde a casa – aí por volta das 4 da manhã – apanhei os
padeiros, os almeidas e os lavadores de rua todos em amena cavaqueira, em frente à
padaria, cada um envergando o respectivo uniforme de trabalho. Tratava-se de um
ajuntamento informal, de conversa espontânea, entre pessoas que nem sequer viviam
na rua, sendo na sua maioria simples transeuntes nocturnos, visitantes de passagem.
Passageiros do escuro que se apoderam momentaneamente da rua, enquanto os
residentes dormem despreocupados, ou até mesmo satisfeitos por estes trabalhadores
aparecerem à noite, sem causar qualquer perturbação às rotinas diárias da vizinhança.
34 Apesar de pequena esta rua era, no entanto, bastante complexa. Nunca era uma
vizinhança fechada, fortificada, nem uma aldeia na cidade, antes espelhava muitas
dimensões da própria e complexa diversidade de Lisboa. Não constituia uma verdadeira
comunidade, mas ainda assim podia ser tomada por um microcosmos onde se
entrecruzavam diferentes esferas sociais e diferentes tipos de pessoas que reparavam
umas nas outras, uma rua com pessoas estranhas que vinham fazer negócios, comer ou
ouvir música, recolher o lixo, ou simplesmente passear. Ali havia todo o tipo de
diálogos entre todo o tipo de pessoas. Algumas delas envolviam famílias que trocavam
palavras da rua para as janelas de suas casas. E sempre havia, também, algumas
janeleiras, debruçadas sobre a ma. Tratava-se de um espaço público que pertencia a
todos e onde havia lugar para uma grande variedade de utilizadores. Uma vez que se
encontravam muitos pequenos mundos na rua que concordavam em conviver, não se
podia considerá-la como uma comunidade que partilhasse qualquer tipo de cultura
comum, nem mútua compreensão. Na verdade, a rua evidenciava uma espécie de
acordo tácito comunitário de forma que qualquer transeunte podia encontrar ali um
lugar, quase como se se estabelecesse uma conexão segura pelo facto de se estar
“sozinho em conjunto”, sem interferir demasiado uns com os outros, tal como Robert
Edgerton descreveu o comportamento público urbano em Alone Together (1979).
35 Como referiu Jane Jacobs há quarenta e cinco anos atrás, não é necessário o
conhecimento total uns dos outros, nem a existência de um propósito comum, para
criar uma comunidade baseada numa familiaridade de rua [sidewalk familiarity] para que
se possa manter a sociabilidade e segurança num grupo de vizinhança urbano (Jacobs,
1961). O antropólogo James Holston explica, na mesma linha, que o espaço público
como o das ruas pode funcionar como uma espécie de “sala de visitas pública”, um
“espaço flexível”, acessível a todas as classes sociais e a uma ampla “variedade de
46

actividades”, onde muitos “encontros espontâneos, informais, improvisados podem


ocorrer em simultâneo” (Holston, 1989: 103-107).
36 Nesta medida, a Rua Afonso de Albuquerque permitia que todos, dentro dos devidos
limites, fizessem os seus usos privados da rua. Namorados beijavam-se nos recantos
mais sombrios. Ocasionalmente alguém aparecia a vender droga aos jovens dali e um
jovem consumidor ocasional injectava-se à esquina, ao tranquilo anoitecer. Uma vez,
um homem discutiu com a sua mulher na rua e começou a bater-lhe, até que alguém
apareceu à janela e lhe gritou que parasse. A rua tinha também um residente próprio, o
sem-abrigo, o Senhor Gonçalves. Com cerca de 55 anos mas aparentando muitos mais,
havia perdido o emprego num escritório de mediação alfandegária, quando o porto
acabou, e não quis deixar a vizinhança onde sempre havia trabalhado. Dormia
escondido atrás dos contentores do lixo que pertenciam à Casa dos Bicos. Aceitava
dinheiro quando lho davam e algumas pessoas ofereciam-lhe comida. Haveria de o ver
por diversas vezes a tomar algumas refeições numa adega do outro lado do arco, junto
ao Campo das Cebolas. Reflecti bastante sobre a ironia da sua existência como vítima do
declínio do porto, dormindo na sombra da Casa dos Bicos, a sede, naquela altura, da
Comissão para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses. Claro que
antigamente isto era um palácio, construído por uma importante família que havia
enriquecido com as Descobertas, no início do remoto período histórico em que Lisboa
era reconhecida como provavelmente a mais importante cidade portuária mundial.
37 Não havia qualquer dúvida de que a nossa rua estava ligada ao mundo exterior, a todo o
momento atravessada por visitantes exteriores bem como por forças nacionais,
europeias, e até mesmo globais. Quem quer que alguma vez ali vivesse ou por ali
passasse de visita, tinha a sua própria perspectiva sobre ela. A rua era pública, na
medida em que de uma forma ou de outra qualquer pessoa ali era aceite. Ninguém
alguma vez teria tempo – ou interesse – de a conhecer totalmente; e, é claro, antes de se
apreender a fundo, chegar-se-ia à conclusão que a rua e o seu pessoal já haviam
mudado. Passados oito anos desde que lá vivi, muita coisa mudou entretanto: a Dona
Ana, o Senhor Fernandes, a loja de licores, o restaurante, o Senhor Gonçalves, os carros,
Péri (o cão) – como o seu dono recentemente me disse à porta da casa de tintas, já
falecera há algum tempo; “as suas vidas são tão curtas”, acrescentou. Toda a gente é, de
certa forma, efémera. Pertencer à rua, pelo menos durante o tempo que por ali
andavam, parecia ser o que finalmente mais interessava.

ALGUMAS NOVAS RUAS DE LISBOA: EXPO’98

38 Ser incluído, ser reconhecido, é existir. Ao serem inclusivos em relação a uma


diversidade de pessoas, os espaços públicos, como a rua, permitem uma forte validação
das identidades sociais e culturais. Na cidade, com tantos grupos, interesses e
comunidades, tal tarefa não é fácil. No meu trabalho em Lisboa pareceu-me que nesse
momento da história, talvez desde sempre, ela fosse uma cidade contestada e em
constante mutação, com vencedores e vencidos. Isso mesmo se reflectiu na Expo’98, que
vim estudar para Lisboa. No local da Expo’98, havia também uma luta pela inclusão – a
qual seria exibida e representada nos eventos que ali tinham lugar. Uma vez que o sítio
da Expo’98 era uma combinação híbrida de público e privado, no que tocava ao espaço
privado – tinha que se pagar uma elevada quantia para se entrar – ele era mais
controlado e socialmente exclusivo. Também pelas mesmas razões, era mais contestado
47

que o habitual – especialmente por aqueles que se sentiam excluídos. Gostos, interesses
e identidades de certas categorias de pessoas – especialmente os trabalhadores, os
velhos, as pessoas do campo e, claro está, os mais pobres – eram sistematicamente
excluídos do programa formal das actividades culturais da Expo’98, e normalmente
essas mesmas pessoas eram também excluídas dos espectáculos, devido ao elevado
preço dos bilhetes. O objectivo da Expo’98 era o de publicitar a modernidade e os
avanços tecnológicos de Portugal e da sua capital, Lisboa (Sieber, 2001 e 2002), e não,
propriamente, o de dar uma visão verdadeiramente representativa da sociedade
portuguesa.
39 A excepção do Dia de Portugal desse ano de 1998, por exemplo, as músicas tradicionais,
tão ao gosto das classes trabalhadoras de Lisboa, não foram incluídas no programa
oficial – especificamente, os ranchos folclóricos e as próprias marchas populares de
Lisboa, para não falar na música pimba. A maior parte dos ranchos à volta de Lisboa,
estão, é claro, sedeados na cidade e encontram-se ligados a diversas casas regionais
localizadas mesmo na Grande Lisboa, e a maior parte dos jovens dançarinos são
alfacinhas de gema, nascidos em Lisboa, ainda que por agora se tenham especializado na
aprendizagem e celebração das tradições rurais dos seus avós. Na Expo’98, claro está,
tanto no Pavilhão de Portugal como no Pavilhão do Território, também não havia
referências a nada que se relacionasse com as culturas rurais tradicionais, uma situação
que, tal como aliás me foi corroborada pelos funcionários da Expo’98, gerou uma
grande contestação por parte do público português.
40 Embora Junho de 1998 já fosse avançado, depois da abertura da Expo’98, os
participantes dos ranchos e os líderes que entrevistei disseram-me que ainda não
tinham qualquer compromisso sólido da parte das entidades oficiais para os incluir no
programa da Expo’98. A mesma situação ocorria com as marchas populares, que foram
silenciadas na Expo’98. Depois de muita pressão da parte dos grupos de marchantes, a
Expo’98 fez a concessão de deixar actuar os vencedores dos três primeiros lugares do
concurso de marchas da noite de Santo António. Esta oferta foi unanimemente recusada
– a menos que todos os grupos pudessem ir actuar à Expo’98. Finalmente, a Expo’98 foi
forçada a autorizar a actuação de todos os grupos de marchantes, para além dos grupos
infantis, tendo também incluído actuações dos ranchos folclóricos.
41 Contudo, dado que os espectáculos musicais já estavam distribuídos e agendados pela
administração da Expo’98, estes grupos populares tiveram que recorrer às ruas da
Expo’98 para fazer as suas performances. Sem nunca terem sido incluídos no programa
formal, eles acabaram por ser espontaneamente autorizados a apropriar-se de espaços
mais públicos, menos regulados, dentro do recinto da Expo’98 – as suas ruas, que eram
artificiais e novas.
42 Tal não constituiu apenas uma vitória para as associações regionais particulares, e para
os bairros históricos, mas também claramente para as classes trabalhadoras,
especialmente as lisboetas.
43 Lutavam pelo direito à utilização do espaço público nesta feira internacional, com o
objectivo de apresentar as suas próprias produções culturais, essenciais para a
afirmação da sua identidade cultural, e mesmo do seu bairrismo no interior de Lisboa,
através da colonização destas ruas artificiais dentro de um parque temático, onde na
realidade ninguém vivia – com alguma genuína espontaneidade não programada, fora
do calendário oficial dos eventos.
48

44 É claro que muitos estudiosos da cidade, como por exemplo Graça Cordeiro, António
Firmino da Costa e Maria de Fátima de Sá, desde há muito documentaram quão
importantes são as ruas de Portugal e do Sul da Europa, como lugares para a
performance de festas populares, procissões religiosas e desfiles no âmbito da vida e
identidade urbanas. Na Expo’98 os grupos de marchantes criaram uma festa local no
seio de uma outra global, ou pelo menos nacional, mais abrangente. Nunca se
preocuparam muito em explicá-la ou interpretá-la para os estranhos, pois a sua festa
não era feita para os turistas, que estavam só de passagem enquanto este drama
lisboeta ia para o ar. Considero que este era um uso muito natural e popular das ruas da
cidade; mas que se revelou inusitado neste contexto, pelo facto da Expo’98 gerir e
planificar de forma tão cautelosa quase todos os outros eventos culturais no local – em
especial os que tinham a ver com música e dança.
45 A ausência de ruas reais na Expo’98 constituía também um problema. As críticas
dirigidas à Expo’98, como projecto de desenvolvimento urbano, por Vítor Matias
Ferreira, Alexandra Castro e outros colegas do Centro de Estudos Territoriais do ISCTE
(ver Ferreira et al., 1999), rotulavam o desenvolvimento residencial da Expo Urbe, a
completar até 2010, como um “ghetto de luxo”, um “condomínio fechado” e uma “ilha
de privilegiados”. Salientaram também que o recinto havia sido bem fortificado,
protegendo-o de qualquer ligação com as áreas desfavorecidas envolventes, como
Moscavide e Prior Velho, através da ausência relativa de uma rede intermédia de ruas.
Observam mesmo que ao longo dos 5 quilómetros do perímetro da Expo‘98, existiam
apenas 9 passagens sobre a barreira da linha-férrea (constituindo menos de duas
passagens por quilómetro), entre a Expo’98 e os bairros adjacentes, que permitiam o
acesso dos carros e dos peões ao que viria a ser chamado Parque das Nações. Assim, às
outras barreiras financeiras interpostas aos residentes locais em relação à fruição das
actividades de lazer do recinto, havia ainda a sobrepor as barreiras espaciais evidentes
que reforçavam a sua exclusão.

CONCLUSÃO: EM DEFESA DA(S) RUA(S)

46 Torna-se evidente que em Lisboa as pessoas usufruem e ocupam plenamente as ruas


junto às suas residências privadas, às suas casas da cidade. A rua opera a ligação
espacial mais imediata com o domínio público e, de facto, permite albergar
temporariamente extensões criativas do espaço privado, doméstico, constituindo o
palco para a expressão de identidades de grupo, especialmente culturais.
47 As pessoas apercebem-se e lutam contra a usurpação das suas liberdades fundamentais
para marcar e usar as ruas dessa maneira. Nas pseudocidades recém-construídas dos
dias de hoje, onde as ruas podem ser temporárias, artificiais, ou até neutralizadas da
sua vida social, a exemplo da Expo’98 em Lisboa, evidencia-se uma reapropriação
criativa por parte das pessoas, até uma conquista do espaço público, construindo
verdadeiras ruas onde não existia nenhuma. Mesmo quando as ruas lhes são
formalmente retiradas, ainda assim as pessoas continuam a lutar para manter o uso dos
espaços em prol da autonomia local.
48 Apesar de Holston e outros criticarem cidades planificadas, como Brasília, por exemplo,
com todo o afastamento da vida de rua que os planos formais evideliciavam, o certo é
que esses desenhadores nunca conseguiram conquistar o público: 75% dos actuais
residentes de Brasília vivem em espaços construídos graças ao esforço popular fora da
49

zona formalmente planificada (Scott, 1999: 129)! Quando as ruas são vedadas às pessoas,
elas acabam por criá-las.
49 Uma vez que os etnógrafos urbanos apreciam tanto o poder das bases, das iniciativas
populares para a apropriação e animação das ruas da cidade, podemos então ser aliados
deste impulso natural para a expressão humana e contribuir para a valorização e defesa
do direito das pessoas a viver em pleno no seu próprio espaço público. Talvez
precisemos, até, de reconhecer a nossa própria necessidade das ruas e, também, do
espaço público. Ao defender os direitos dos cidadãos das cidades em qualquer parte do
mundo, estaremos afinal a defender-nos a nós próprios, e não apenas os urbanitas que
alguns de nós são. Na luta contra a actual privatização do domínio público em geral,
temos também muitas das nossas próprias ruas a defender, e só algumas delas se situam
na rua.

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NOTAS
1. Tradução do inglês de Ana Isabel Afonso.
2. Os meus agradecimentos à Comissão Cultural Luso-Americana e à Fundação para a Ciência e a
Tecnologia, então JNICT (Programa Praxis XXI), bem como à Universidade Aberta, pelo apoio
concedido às investigações aqui referidas que decorreram em Lisboa. Agradeço igualmente ao
ISCTE, incluindo as suas unidades de investigação CEAS, CET, CIES e CEHCP, à Universidade de
Massachussetts, em Boston, e ao CITIDEP-Portugal, pelo apoio suplementar concedido. Um
agradecimento especial a Graça índias Cordeiro, Luís Baptista, António Firmino da Costa,
Darlinda Moreira e Angela Cacciarru pela sua ajuda e incentivo no prosseguimento do meu
trabalho.
3. Onde se incluem: Lisbon, an Unforgettable City. Badajoz: Limite Visual Guidebooks, 1997; Susie
Boulton, American Express Guide to Lisbon. London: Dorley Kindersley, Ltd., 1998; Associação dos
Arquitectos Portugueses, Guia de Arquitectura Lisboa 94. Lisboa: Sociedade Lisboa 94, 1994; Ian
Robertson, Blue Guide: Portugal. London: A & C Black, 1995; Baedeker’s Lisbon. New York: Prentice
Hall, 1996; John Fisher Ellingham, Graham Kenyon and Alice Martin, Portugal, the Rough Guide.
London: Penguin/the Rough Guides, 1995; e Marion Kaplan, Insight Pocket Guide: Lisbon. Boston:
Houghton Mifflin Company, 1994.
4. Uma análise antropológica fascinante e muito aprofundada sobre a visão que Norberto de
Araújo tem da cidade, como sendo simultaneamente realista e imaginária, é apresentada no
artigo de Graça índias Cordeiro, “A propósito das Peregrinações em Lisboa: relatos de uma cidade,
passo a passo” (2006).
5. Dona Ana, tal como outros nomes pessoais usados ao longo do texto, é um pseudónimo.
52

AUTOR
TIM SIEBER
Antropólogo, University of Massachusetts, Boston.
53

Capítulo 4. A rua como lugar de


referência. Identificando domicílios
em Lisboa no século XIX
Frédéric Vidal

1 À primeira vista a questão da identificação dos domicílios pode aparecer como um


problema básico de difusão e de aplicação de regulamentos e de normas administrativas
que, pouco a pouco, foram sendo elaboradas, no caso de Lisboa sobretudo ao longo das
primeiras décadas do século XIX. A lógica geral que conduziu à organização dos espaços
urbanos nas grandes cidades europeias desde o fim da Idade Média é globalmente bem
conhecida. A rua constitui a principal escala de intervenção 1: planos de alinhamento
das vias, numeração dos prédios, fixação da toponímia... Em Lisboa foi apenas em 1855
que o governador-civil regulamentou definitivamente o modo de numeração das portas
e dos prédios. Tratou-se de uma última advertência. Passada uma longa produção
normativa, com efeitos limitados, o edital de 31 de Dezembro de 1855 voltou apenas a
expor as diferentes regras respeitantes à numeração das portas e prédios da capital 2. As
normas visuais – tamanho e posicionamento dos números – e as regras de numeração –
servindo o Tejo de referência para iniciar a numeração – já estavam estabelecidas desde
meados do século XVIII. Mas a aplicação era da responsabilidade dos proprietários, o que
ocasionava algumas falhas. Numa portaria publicada em 1843, o Ministério do Reino
lembrou o interesse público de uma tal medida. As autoridades administrativas tinham
de orientar e fiscalizar a aplicação dos regulamentos: "...sendo a numeração das portas
dos diferentes prédios da capital uma medida de polícia preventiva, necessária a muitos
ramos de serviço público”3. A definição de regras rigorosas teve por principal objectivo
uniformizar modos de identificação para facilitar os usos externos da parte de um
visitante ou da administração local. Apesar da ambiguidade da linguagem
administrativa oitocentista – fala-se de “números de polícia”, remetendo aqui o termo
“polícia” mais para a ideia de administração do que de fiscalização – o controlo social e
a necessidade de uma gestão normalizada da vida urbana acabaram por ser objectivos
de segundo plano em relação às vantagens em termos de “serviço público” tal como a
organização de uma posta domiciliária, evocada na portaria de 1843.
54

2 Assim sendo, a questão da identificação dos domicílios colocou-se de uma maneira mais
aguda na medida em que os actores da vida urbana se iam diversificando. Visitantes,
novos residentes, turistas, comerciantes estrangeiros... a cidade moderna aparece como
um meio aberto que tem de ser sempre acessível para todos os utentes. A minimização
do tempo de aprendizagem assegura a “produtividade” e uma boa funcionalidade do
espaço urbano (Gourdon, 2005: 24)4. No prólogo do Itinerário Lisbonense de 1804 – um dos
primeiros roteiros sistematizados das mas de Lisboa – é assim apontada a necessidade
de reconhecer e identificar as ruas, becos, calçadas, praças e os lugares mais conhecidos
para “utilidade, uso e comodidade dos estrangeiros e nacionais” 5. Já temos aqui indícios
da relação existente entre identificação dos domicílios e evolução geral das sociedades
urbanas.
3 Na realidade, a procura de uma uniformização dos modos de identificação nem sempre
se traduziu na elaboração de sistemas estáveis que tivessem imposto regras douradoras.
Até mesmo a toponímia fica dependente de usos incertos. Em Lisboa a permanência do
topónimo Rossio para designar a praça oficialmente nomeada, desde 1836, Praça de
Dom Pedro IV, pode ser entendida como indício de conflitos entre diferentes
representações e práticas da centralidade urbana (Castilho, 1937 [1889]). A toponímia é
uma peça central do léxico urbano que resulta das evoluções complexas e descontínuas
dos usos, das funções e das sensibilidades (Huetz de Lemps, 1998). Um mesmo espaço
pode ser identificado com diferentes designações, as quais reencaminham para
referências sociais, culturais ou temporais específicas. Por isso a análise da toponímia
permite também assinalar usos sociais do espaço urbano.
4 A primeira questão que gostaria de colocar aqui é em que medida os endereços
individuais ou os modos de declaração das moradas podem ser considerados como
objecto de estudo histórico. O silêncio dos historiadores sobre esta questão poderia ser
um sinal de alerta. Existe sempre o risco de se ter apenas encontrado um assunto
demasiado restrito, afinal sem grande interesse e que teria tudo do mauvais sujet
(Saunier, 1996). A resposta à mera questão “onde mora” implica situar-se pessoalmente
no espaço físico da cidade, ou seja, escolher referências toponímicas (um nome de rua
ou de sítio, oficial ou de uso corrente), categorias espaciais que podem ou não
corresponder a categorias administrativas (o concelho, a paróquia, a freguesia ou, pelo
contrário, uma rua, um largo, um pátio). Implica também situar-se num lugar, isto é,
num espaço social e afectivamente investido (Lousada, 2005). Parece óbvio que não
existe uma resposta única a esta questão. A variabilidade das respostas abre novas
perspectivas para este estudo, estabelecendo uma ligação estreita entre o modo de
declarar ou identificar um domicílio e o meio social envolvente.
5 A morada dos indivíduos pode ser vista como um sinal de identificação socialmente
construído. E o ponto de encontro entre modelos normativos estandardizados (um
nome de rua, um número de porta ou de andar) e lógicas de tipo comunitário pelas
quais a identificação do domicílio revela, em certa medida, modos de viver ou habitar a
cidade. De uma maneira geral, é necessário compreender como se conjugam lógicas
normativas que se vão reforçando ao longo do século XIX e lógicas relacionais que
permanecem. Cruzando estas diferentes perspectivas e olhares sobre a cidade, cheguei
à conclusão de que não houve um processo contínuo e regulado que teria conduzido a
uma normalização cada vez mais acentuada das referências espaciais em Lisboa. Várias
lógicas ou sistemas de identificação coexistem ao longo do século. A recepção dos
quadros normativos ou regulamentares foi irregular, incompleta e diferenciada em
55

função dos espaços, dos meios e das situações. A rua impõe-se como um sistema onde
interagem diferentes componentes das sociedades urbanas. A variação dos modos de
identificação dos domicílios em Lisboa no século XIX pode dar conta dos pontos de
equilíbrio provisórios deste sistema. Testemunha ainda a diversidade e a evolução dos
modos de habitar a rua, isto é, de investir ou de praticar um lugar (Stock, 2004). E aqui
que se situa o meu objecto de estudo.
6 Limitando o meu estudo à Lisboa do século XIX corro o risco de ter de sobreinterpretar
informações frágeis ou parcelares. Este tipo de investigação, que toca na análise de
elementos de identificação individual, é geralmente concebido numa longa duração.
Beatrice Fraenkel estudou, por exemplo, como a assinatura, entre os séculos VI e XVI, foi
a pouco e pouco sendo reconhecida como sinal de identidade (Fraenkel, 1992). Este
longo processo testemunha a variação em função das épocas, dos lugares e das culturas,
de noções tão problemáticas como a identidade, o indivíduo, os sinais ou as
características de identificação. Uma outra abordagem possível seria a perspectiva
comparada. Seria, por exemplo, possível comparar os modos de identificação dos
domicílios em diferentes cidades, em contexto sociais ou culturais bastante
diferenciados. No Japão, por causa de uma unificação relativamente tardia das grandes
áreas urbanas, foi elaborado um sistema complexo de sinalização onde as vias públicas
e as casas privadas disputam o papel de principal referência de identificação. Os nomes
de casas acabam por ter uma função quase tão importante como os nomes de rua
(Takeshi, 2005). O ritmo do crescimento urbano, a adaptação da rede de vias públicas às
novas funções e às novas actividades, a evolução do modo de ocupação do território
urbano, as formas de propriedade ou, numa palavra só, a história de cada cidade ou de
cada agregado urbano, reflectem-se na lógica adoptada para a identificação dos
domicílios.
7 Deixando de lado a longa duração e a perspectiva comparada, proponho seguir uma
metodologia um pouco diferente que repousa na confrontação entre várias escalas de
análise. O enunciado da morada de um indivíduo, ao contrário do que ocorre com a
assinatura, não tem de ser necessariamente invariável e, em grande medida, não resulta
de uma escolha pessoal. As zonas de negociação entre factores individuais – a relação
pessoal com o espaço de residência ou com o meio social de vida – e factores colectivos
– a organização do espaço urbano, os regulamentos municipais – constituem o meu
principal ponto de observação. Diferentes olhares sobre a cidade têm de ser
confrontados. Mas onde buscar esses olhares? Tais processos deixaram de facto poucos
vestígios nos arquivos. Duas actividades administrativas tiveram, no entanto, um papel
importante na difusão de práticas homogéneas neste domínio. A organização da posta
diária em Lisboa e a redacção dos registos paroquiais na ocasião de um nascimento
aparecem como dois momentos onde se colocou claramente a questão da identificação
dos domicílios pessoais. Estas duas actividades são, segundo modalidades bastante
diferentes, peças do processo de construção de um Estado liberal moderno que procura
intervir em todo o território através de práticas uniformizadas. Todavia, o modo de
recepção e de aplicação de tais medidas está também dependente das características
dos meios sociais locais6.
8 Coloco em evidência relações entre processos conexos que actuam em contextos e
escalas diferentes. Posso assim cruzar fontes, escalas de análise, situações ou posições
sociais: as declarações registadas nos registos paroquiais mas também os debates no
seio da administração portuguesa; as práticas administrativas nacionais ou locais e os
56

comportamentos individuais; a atitude dos habitantes, dos administradores ou dos


visitantes.

NORMAS E PRÁTICAS: A ORGANIZAÇÃO DA POSTA DOMICILIÁRIA

9 Nas primeiras décadas do século XIX houve várias tentativas de organização da posta
domiciliária – ou posta diária – em Lisboa. Um primeiro regulamento é publicado em
18017. Instaura-se um serviço reservado aos assinantes. A organização da posta
domiciliária é um projecto ambicioso que pressupõe resolver, pelo menos, dois tipos de
dificuldade. A primeira refere-se ao encaminhamento do correio, de uma maneira
rápida e segura, através de uma organização administrativa integrada. A segunda, na
outra ponta da cadeia, prende-se com a identificação e a localização dos destinatários
das cartas. Interessa-me aqui apenas o problema da identificação dos domicílios das
pessoas a quem era dirigida uma correspondência. Não se trata de um problema
marginal. Obviamente, até aos anos 1830, um grande conjunto de questões é debatido: o
circuito seguido pela correspondência, o sigilo da correspondência, a remuneração dos
carteiros, a frequência da distribuição, etc. Todavia, a questão da identificação dos
domicílios e, mais especificamente, do reconhecimento do espaço urbano aparece como
essencial. Ocupa um lugar importante, tanto nos regulamentos sucessivos – em
1801,1821 e, também, um projecto de regulamento redigido em 1817 – como nas
correspondências administrativas conservadas no Arquivo da Fundação Portuguesa das
Comunicações e que dizem respeito ao período de 1817 até 1836.
10 A principal inovação da administração dos Correios é a divisão da cidade em distritos –
17 distritos em 1801, 18 em 1821 – que se impõem como os quadros territoriais de
referência para a organização do serviço. Como era fácil de prever, a noção de
“morada” não beneficia de uma definição clara nestes textos sucessivos. Na realidade,
nunca foi expressamente encarada a ideia de transformar a “morada” ou o “endereço”
numa verdadeira categoria administrativa que tivesse servido, entre outros, para a
identificação dos habitantes da cidade8. Em 1801 a pessoa que quiser “as suas cartas em
casa” mandará “declarar o seu nome, rua e distrito em que reside” (artigo 5.°). O
projecto de regulamento de 1817, que nunca chegou a ser aplicado, produz uma
definição mais completa: as cartas têm de estabelecer no subscrito “nome da rua,
travessa ou beco, número da porta, e o nome do bairro ou sítio em que se achar a rua,
não sendo a rua das mais principais e conhecidas, na falta do nome do bairro ou sítio
tentará declarar o nome da praça, igreja, ou rua, mais conhecidas que lhe fica na
vizinhança” (artigo 9.°). O regulamento de 1821 usa pela primeira vez a palavra
“morada” [“todas as cartas que trouxerem no sobrescrito a morada das pessoas a quem
vierem dirigidas serão (...) immediata e pontualmente entregues nas mesmas
moradas...” (artigo 2.°)] sem especificar os diferentes elementos que nela devem
figurar.
11 Se a rua – e as suas derivações (o beco, a travessa...) – aparece naturalmente ao lado do
nome do destinatário, como o elemento central que constitui a morada, a
administração dos correios tenta também tirar partido das outras unidades territoriais
já preexistentes e mais ou menos interiorizadas nas representações tradicionais da
cidade (os bairros, os sítios) ou, pelo contrário, criadas para o efeito numa perspectiva
claramente funcional (os distritos postais). À partida, o papel hegemónico da rua não é
assim tão óbvio. É pelo menos discutido. Nos diferentes documentos elaborados entre o
57

fim do século XVIII e o início da década de 1830 encontram-se indícios de uma hesitação
entre vários modos e escalas de apreensão do espaço urbano. Diferentes níveis de
territorialização da cidade estão presentes nos textos regulamentares e cada um deles
corresponde a sistemas específicos de reconhecimento e de orientação espacial. No
entanto, a “rua” acaba geralmente por ser eleita como o espaço de referência. Nas
formulações das moradas é o único elemento de identificação que designa
propriamente um espaço da cidade. Os números dos distritos não são referidos e o
bairro de residência raramente consta nestas formulações9.
12 Para estabelecer regras gerais que permitam um bom funcionamento do serviço em
todo o território da cidade, a administração dos correios adopta dois tipos de estratégia.
A primeira está explícita e claramente exposta nos regulamentos ou nos diferentes
textos produzidos pela administração dos correios. Prende-se com o reconhecimento
do espaço da cidade: isto é, com a transformação das formas urbanas em sítios
identificáveis à distância, sem recorrer às informações que circulam entre vizinhos ou
habitantes de um mesmo bairro ou de uma mesma zona da cidade.
13 Como já referi, a regulação para o estabelecimento da pequena posta de 1801 estabelece
o princípio da divisão da cidade de Lisboa em distritos. O primeiro efeito destes cortes
espaciais é o de constituir uma hierarquização entre os espaços urbanos, favorecendo
os bairros centrais no acesso à distribuição domiciliária. No projecto de regulamento de
1817 o serviço abrange também parte do subúrbio da capital mas com algumas
restrições: apenas nos sítios que “se acham numerados” e que ficam ao sul de uma linha
que passa por Beato, Arroios, Sete Rios, a tapada de Alcântara e o convento de Belém
(artigo 10.°). O regulamento de 1821 cria de facto uma desigualdade de tratamento
entre os 9 distritos “do interno” e os 9 “da extrema”. Esta desigualdade justificada pelas
características demográficas dos espaços em questão – os distritos periféricos são
geralmente menos povoados – é reafirmada a cada etapa da organização da posta
diária. Nos distritos da periferia são inferiores os números de caixas ou depósitos
previstos para receber as cartas e os números de “correios volantes” em serviço. A
diferença de trato fica também simbolicamente registada nos códigos associados a cada
distrito. Os distritos “internos” são identificados pelas nove primeiras letras do alfabeto
e os da “extrema” com a letra repetida do distrito interior a que correspondem (AA; BB;
CC; DD...) (artigo 8.°). Estes códigos eram utilizados para marcar os sacos, chaves e todos
os instrumentos de trabalho pertencentes a cada um dos distritos.
14 A história urbana raramente se interessou pelas lógicas sociais e políticas subjacentes
às operações de divisão administrativa da cidade (Silveira, 1997) 10. No caso das
administrações dos correios, a introdução de distritos tem sobretudo por objectivo
assegurar um melhor serviço. É difícil falar aqui de controlo social ou de vontade de
fiscalização do território (Loschak, 1978). Os distritos postais são instrumentos
funcionais que racionalizam a relação com o espaço sem excluir, dentro de perímetro
de intervenção, nenhuma zona da cidade. Todavia, as operações de divisão
administrativa não são necessariamente mecânicas. Os distritos postais pensados no
início do século XIX adoptam e fortalecem representações específicas da centralidade
urbana. Como a maior parte das unidades administrativas, referem-se também a
configurações sociais e espaciais já existentes (Saunier, 1996). Por fim, ampliando um
pouco o objecto de estudo, podemos sugerir que uma unidade administrativa altamente
especializada, tal como o distrito postal, pode também, na longa duração, fornecer
58

sinais de identificação por vezes utilizados para reivindicar a pertença a um mesmo


lugar11.
15 Se a divisão da cidade em distritos aparece logo como uma peça central do dispositivo
elaborado pela administração dos correios, a utilização das formas urbanas
preexistentes, ou dos recursos que a cidade oferece, é mais hesitante e aproximativa. O
regulamento de 1801 contém em anexo um Roteiro dos 17 distritos de Lisboa. Estamos aqui
numa fase de invenção ou de construção de um modelo. No procedimento de
identificação do espaço urbano, a rua e, geralmente, a rede de vias públicas (travessas,
becos, largos, praças, etc.) são postas em concorrência com outros elementos de
referência: igrejas, conventos, palácios, quartéis, chafarizes, locais de acontecimentos
históricos, residências de personagens famosas, entre outros. A identificação faz-se com
a ajuda das formas urbanas, mas também dos usos reconhecidos dos espaços ou de uma
memória partilhada. Identificam-se, antes de tudo, lugares onde se misturam
referências formais e vivências. A cidade ainda não corresponde a um espaço coerente e
contínuo. Uma das designações mais comuns neste roteiro é “sítio”: mais de cem estão
referenciados. Até o Chiado é classificado como “sítio”. E o que são estes sítios senão
“vestígios derradeiros de sucessivas, seculares e não menos desordenadas conquistas
feita pela população crescente aos terrenos imediatamente adjacentes ao primitivo
âmbito da cidade” (Brito, 1935: 213)? Estes “sítios” são pontos isolados, independentes
uns dos outros. Pelo contrário, as “ruas” vão constituindo redes quase ininterruptas de
referências, cobrindo a cidade toda: uma rua desemboca sobre outra rua; consegue-se
atravessar a cidade, andando de rua em rua (Vidal, 2007).
16 Em 1817 a subdirecção dos correios elabora um novo documento denominado “Ruas,
travessas, becos, classificados como tais com a identificação do número do districto a
que pertencem”. Trata-se de uma lista com ordem alfabética das vias públicas
classificadas em três categorias: ruas; travessas; e becos, largos, praças e todos os mais
sítios. Nesta altura as vias públicas – as ruas – já prevalecem como pontos de referência.
No entanto, um outro documento contém uma lista dos “sítios, conventos, quintas que
não têm numeração do número do districto a que pertencem”. Surge aí uma outra
cidade, mais caótica. Cerca de oitenta categorias de formas ou objectos urbanos são
registados: alto, arco, casal, chafariz, colégio, convento, fonte, forno, forte, hospital,
jardim, horta, igreja, ermida, pátio, quinta, sítio, vale, etc. As ruas e outras vias públicas
não estão ausentes desta segunda lista – figuram 12 ruas, 18 travessas, alguns becos,
calçadas e estradas – mas trata-se apenas de vias não numeradas. Desapareceram as
referências aos acontecimentos ou às residências de personagens famosas. Todavia,
cada elemento desta segunda lista possui uma presença original no espaço urbano e, em
larga medida, conserva um carácter singular que não abre possibilidades de
categorização ou de ordenação. São peças únicas.
17 Estes dois documentos, conservados em anexo de um projecto de regulamento, atestam
a duplicação do sistema de orientação no seio do espaço urbano. Estas duas listas têm
estatutos bastante diferentes. Não apenas um simples inventário de vias públicas, como
também, para retomar a tipologia elaborada por Jack Goody, uma lista retrospectiva
que regista usos sociais que se construíram numa longa duração (Goody, 1977). Este
processo enquadra-se num movimento mais geral de diferenciação das imagens
associadas à cidade. Já está feita a distinção entre, por um lado, roteiros ou guias que
oferecem um instantâneo da organização espacial da cidade, dando a ver a diversidade
das referências possíveis, e, por outro lado, documentos, geralmente de uso
59

administrativo, onde está consagrado um número limitado de normas com finalidades


específicas. De um lado, a cidade como espaço simbólico, do outro, a cidade como
espaço gerido (Lepetit, 1988: 70). Nos seus discursos a administração dos correios
refere-se sistematicamente a este esforço de gestão do espaço urbano. Ainda em 1833,
João de Sousa Pinto de Magalhães, subinspector-geral dos Correios e Postas do Reino,
escreve ao secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros para salientar a necessidade
“de estabelecer a divisão da cidade em círculos e a subdivisão desses em distritos” e de
ter um boa planta da capital que “aponta com exactidão todas as ruas e praças dela” 12.
18 A segunda estratégia adoptada pela administração dos correios para implementar um
bom funcionamento do serviço não chega a ser enunciada. Várias disposições dos
regulamentos apostam na identificação das residências com base nos conhecimentos
interpessoais. Esta estratégia, cujas marcas estão disseminadas no seio das várias
disposições regulamentares, aparece, antes do mais, como uma prática que acaba por
ter uma importância essencial na organização quotidiana do serviço. Porém, nas séries
de escolhas inerentes ao processo de organização da posta diária, existem lógicas
interligadas. Seria um erro opor práticas e normas e estabelecer um processo linear
onde as práticas informais se iriam pouco a pouco afastando em relação ao que nós,
hoje em dia, consideramos ser regras formais.
19 De facto, nos três textos regulamentares redigidos durante as primeiras décadas do
século XIX, a questão da identificação dos domicílios é tratada de três maneiras
distintas. Em 1801 esta questão não tem grande relevo. As pessoas interessadas pelo
novo serviço têm de declarar a sua residência. Estamos aqui numa relação directa, sem
intermediários. O vocabulário é ainda impreciso: fala-se de casa e não de domicílio. A
identificação está assegurada através de uma declaração com todas as possibilidades de
ajuste que este processo supõe.
20 Em 1817 já não existe esta declaração prévia. Qualquer pessoa pode receber cartas no
seu “domicílio”. Este projecto de regulamento é bastante lacónico. Nada diz sobre os
intermediários (os carteiros). Mas já vimos que, pela primeira vez, é definida a noção de
endereço. A rua impõe-se formalmente como principal referência, apesar de existirem
ainda possibilidades de utilizar outros elementos como as igrejas ou outra vias vizinhas.
Mas é apenas um recurso.
21 Finalmente, o regulamento de 1821 reforça as duas lógicas de identificação dos
domicílios: as que se referem a normas válidas para toda a cidade e as que repousam
sobre jogos relacionais, a pequena escala. Pela primeira vez, fala-se de “morada” das
pessoas. Mas esse texto dá também uma grande relevância ao papel do “correio
volante”, o carteiro. São cuidadosamente enunciados critérios precisos para exercer a
função: saber ler e escrever, ter boa reputação e conhecer o distrito onde se vai exercer
a profissão. O candidato tem de apresentar atestados que provem a sua boa reputação,
ou seja, a sua lealdade e os seus bons costumes. Sobretudo tem de morar no distrito
onde quer exercer a actividade. Conhecer pessoalmente os habitantes e os seus
domicílios é uma condição prévia. Na história da posta domiciliária em Portugal, trata-
se de uma disposição transitória que, sem dúvida, reflecte uma percepção
historicamente datada do universo urbano13. Nos primórdios da instauração deste novo
serviço administrativo, o carteiro tem obviamente de conhecer o espaço formal da
cidade, mas também o meio social onde vai exercer a sua actividade. Esta maneira de
pensar nunca é tão clara como quando se trata de evocar a organização dos giros. Na
verdade, este ponto não é objecto de grandes comentários, pois tudo é deixado à livre
60

interpretação dos “correios volantes” que entregam as cartas segundo “a ordem que
mais convém ao seu distrito e que só eles bem conhecem”14. As lógicas relacionais
intervêm também a outro nível. Caixas para a recolha das cartas são colocadas em
lugares estratégicos da cidade. Estas caixas ficam sob responsabilidade das lojas que
“gozam de mais crédito”, com preferência para a mercearia do bairro. A intervenção
dos habitantes de cada distrito postal é, portanto, solicitada.
22 Os modos de identificação dos domicílios vão variando porque são também variáveis os
modos de pensar e de representar a cidade. As disposições regulamentares e a
organização quotidiana da posta domiciliária implicam ajustamentos na percepção e no
uso do espaço urbano. Lisboa desdobra-se entre a cidade dos distritos e a cidade dos
giros. A primeira reduz-se integralmente a um número limitado de unidades espaciais.
A segunda organiza-se no quotidiano, em função das situações e dos encontros. A
cidade das ruas – aquela do roteiro de 1817 – é então um compromisso entre o espaço
gerido e o espaço vivido. Desta análise das práticas elaboradas através da organização
da posta domiciliaria, sobressai a ideia de que a velha oposição entre a rua como
elemento físico de constituição da cidade ou como facto social – de um lado a via
pública e os prédios e do outro os habitantes e os transeuntes – nem sempre parece
pertinente. A rua aparece aqui, antes do mais, como um lugar de negociação entre
vários interesses e hábitos.

RECEPÇÃO, NEGOCIAÇÃO E USOS PERSONALIZADOS

23 Estudar a recepção dos quadros regulamentares que pouco a pouco impuseram um


modo de identificação dos domicílios é uma tarefa difícil. O silêncio das fontes é cada
vez mais pesado quando se procura distinguir situações locais à escala de um bairro, de
uma rua, ou até de um prédio. Parece óbvio que, fora de qualquer constrangimento
administrativo, os modos de identificação dos domicílios são ainda mais variáveis e
personalizados. Falta saber qual é o significado de tais fenómenos do ponto de vista da
história da sociedade lisboeta.
24 Avançando um século, e afastando-me um pouco do meu campo cronológico, vou
passear do lado da Alfama do fim da década de 1930. O meu guia é o fecundo novelista
Eduardo de Noronha (Noronha, 1939). No início de Alfama. Gente do Mar um “mareante”
recentemente desembarcado inquire sobre o paradeiro de uma tia. Interpela
transeuntes do lado do Largo de São Rafael. Apesar de não ser completamente
forasteiro – “nascido na Rua do Salvador e baptizado nesta freguesia” – confessa ter
dificuldade em encontrar o seu caminho “nestes cachopos, por meio dos quais [navega]
de cerração fechada e de bitácula apagada, sem ver bóia à proa” (Noronha, 1939: 21-22).
Passo a citar um fragmento de um diálogo particularmente curioso com um
embarcadiço, velho habitante de Alfama:
“– Venho à cata de uma tia que morava para as bandas de Santa Engrácia.
– Não se lembra do nome da rua?
– Era uma ladeira como a das ondas quando se crispam em serras.
– Calçada do Cascão?
– Parece que sim.
– Como se chamava a sua tia?
– Inácia de Jesus.
– Não assim só pelo nome, de uma forma tão vaga, não é fácil conjecturar coisa de
valia...” (Noronha, 1939: 21)
61

25 Elementos precisos e concretos como o nome e a rua de residência parecem de pouca


utilidade: são considerados “vagos”. A conversa prossegue em torno de algumas velhas
histórias de vizinhança. Aí, faz-se luz. A tia era uma conhecida da mãe do embarcadiço.
Este tipo de cenas “castiças” abunda na literatura popular da viragem do século,
influenciada por representações tradicionais de Lisboa15. A imagem dos bairros
populares é construída através destes discursos que valorizam as sociabilidades
tradicionais, o próximo, os entrelaçamentos de relações entre vizinhos e familiares, a
pequena escala do bairro ou da rua. Neste contexto social e cultural parece impossível
abordar a questão da identificação do espaço urbano e, nomeadamente, dos domicílios,
sem ter em conta as pequenas redes de relações interpessoais que estruturam estes
meios sociais. Os sinais de identificação normalizados, tal como a morada, teriam então
um valor limitado, quando não fossem completados e confrontados com informações
elaboradas com base nas vivências locais. Pelo menos, os usos são flexíveis.
26 Podemos então formular a hipótese de que, na Lisboa oitocentista, existiam variações
nos modos de identificação dos domicílios em função dos meios socais e das situações
locais. Os esforços de organização do espaço urbano lêem-se à escala da cidade inteira.
Devem ser analisados à luz de um contexto político e social, nacional ou até
internacional, singular: o profundo movimento de reorganização administrativa do país
impulsionado pelas ideias liberais; a aceleração de processos como a industrialização ou
a urbanização em grande escala, que transformam a vivência dos lisboetas. Mas podem
ser contrabalançados por ajustamentos que operam numa micro-escala, com ritmos e
sentidos próprios e, às vezes, antagónicos.
27 Para tentar verificar esta hipótese, analisei um conjunto de declarações nos registos
paroquiais lisboetas nas últimas décadas do século XIX. Apresento neste texto resultados
intermédios de uma investigação de longo curso sobre a sociedade lisboeta do século
XIX. O objectivo geral é observar e compreender alguns aspectos dos modos de
construção das identidades sociais, nomeadamente através de um estudo sistematizado
de uma série de declarações nos registos paroquiais. Defendo a ideia de que a
diversidade das atitudes dos utentes – os declarantes – em relação aos
constrangimentos impostos pelo processo de normalização das práticas administrativas
– essencialmente depois de 1859 e da regulamentação do registo paroquial – fornece
informações sobre a organização e a estruturação da sociedade lisboeta. Trata-se de
analisar sinais de identificação usuais: a morada, o nome, a profissão. De uma maneira
geral, o processo de verificação das identidades recai essencialmente sobre as redes de
interconhecimento, que permitem certificar o valor das informações declaradas. Os
declarantes não têm de provar expressamente a sua identidade 16. Faz parte da função
dos párocos afirmar formalmente que os conhecem. Na segunda metade do século XIX a
expressão “aos quais todos conheço e dou fé serem os próprios” conclui a identificação
dos pais e dos padrinhos nos registos de baptismo. Estes registos têm então um valor
híbrido: contribuem para a construção de uma “identidade de papel” (Kaufmann, 2004)
– como o passaporte ou o bilhete de identidade – mas revelam também modos de
sociabilização dos indivíduos.
28 Passo então a enunciar algumas pistas de reflexão acerca dos modos de declaração das
moradas no registo paroquial em Lisboa durante a segunda metade do século XIX. Fiz
uma primeira aproximação a este tema de investigação com base na análise
pormenorizada da redacção de alguns registos paroquiais. Constitui um corpus reduzido
de 48 registos de baptismo de três paróquias lisboetas (São Vicente, Mercês e
62

Alcântara), redigidos entre 1840 e 1910. Transcrevi integralmente os primeiros registos


dos meses de Janeiro e Junho dos anos 1840, 1850, 1860, 1870, 1880, 1890, 1900 e 1910.
Fiz uma análise qualitativa da redacção dos registos, estando atento ao vocabulário
utilizado, às formulações e às informações seleccionadas quando se trata de mencionar
um lugar de nascimento ou de casamento, ou um domicílio.
29 Destaco dois fenómenos importantes. Primeiro, existe claramente um processo de
secularização das referências espaciais e dos elementos de identificação presentes nos
registos de baptismo, seja pela introdução de um vocabulário administrativo mais
neutro, seja pelo abandono de referências antigas. É possível verificar um processo de
secularização das categorias administrativas de uso corrente. O “concelho” acaba por
substituir a “diocese” e o lugar de nascimento dos pais passa a ser citado em vez do
lugar de baptismo. Estas evoluções não correspondem a uma modificação de
regulamentos, nem à difusão junto dos párocos de novos modelos ou de novas
instruções para a redacção dos registos. As suas consequências são variáveis: o local de
nascimento e o de baptismo geralmente coincidem; pelo contrário, a substituição da
“diocese” pelo “concelho” conduz a uma alteração significativa do valor da informação
recolhida. Difícil é também elaborar hipóteses consistentes no que toca aos factores
impulsionadores de tais evoluções: podemos, no entanto, pressupor que os párocos
teriam sido provavelmente influenciados pela difusão de novas formas de identificação
dos espaços associados à existência de cada indivíduo. Surgem aqui marcas de uma
história dos modos de identificação e de classificação dos territórios em Portugal.
30 O segundo fenómeno que gostaria de destacar tem a ver com o que se pode designar
como “efeitos do meio” (Dutour, 2002: 36). Desde a década de 1840, a morada dos pais
está indicada de uma maneira relativamente formalizada nos registos: o nome da rua e
o número da porta. Em S. Vicente, a partir da década de 1870, o andar e o número da
porta figuram também nos registos. Em Alcântara este tipo de informação aparece mais
tarde, na década de 1880. Na paróquia das Mercês, na véspera da I República, as
moradas continuam a ser transcritas de uma maneira bastante aproximativa: é
relativamente frequente ver referido apenas o nome da rua de residência. Podem ser
encaradas várias hipóteses para explicar estas variações que perduram no tempo e que,
portanto, não estão apenas ligadas aos hábitos de alguns párocos. A natureza do
substrato arquitectónico de cada espaço urbano pode ser um elemento de resposta.
Podem existir também distinções entre grupos sociais na maneira de determinar os
seus laços com o espaço residencial. Mas podemos igualmente interrogar-nos acerca da
influência das formas das redes de interconhecimento sobre essas variações. Onde as
redes de interconhecimento são menos cerradas, por se tratar de meios sociais mais
abertos, compostos por populações mais móveis, os indivíduos podem ser reconhecidos
e identificados com base em elementos objectivos claramente definidos (nome, morada,
profissão).

APONTAMENTOS FINAIS

31 Um objecto como o modo de identificação dos domicílios permite perceber melhor as


relações entre as populações citadinas e o seu espaço de vida. Neste sentido, é sem
dúvida um objecto de história urbana. Incita a analisar jogos relacionais e a repensar
categorias como o domicílio ou a residência. Tal objecto permite evidenciar processos
pouco explorados. Pensar a cidade como um conjunto de “ruas”, organizar e identificar
63

o espaço urbano através de listas de ruas, becos, travessas, avenidas, etc., são operações
complexas que revelam uma certa concepção da vida urbana. Nem sempre
corresponderam às práticas e aos usos. De uma maneira geral, estas operações estão
associadas a uma fase particular da evolução das sociedades urbanas. As designações
podem ser discutidas, focando os factores socioeconómicos (a industrialização) ou
sociopolíticos (o liberalismo), mas parece óbvio que tal estudo tem de ser encarado
numa perspectiva bastante alargada de uma história social do espaço urbano como
categoria de percepção e de classificação (Saunier, 1996). Assim sendo, apesar do seu
carácter peculiar, o estudo dos modos de identificação dos domicílios permite
reencontrar as grandes linhas de força da história urbana.
32 No caso de Lisboa, o fim do século XVIII e as primeiras décadas do século XIX aparecem
como um momento-chave em que são elaborados instrumentos – tais como os roteiros
– que traduzem novos olhares sobre a cidade e uma evolução nas vivências e nos
hábitos. Como interpretar o sentido desta evolução? O que significa a escolha da “rua”
como principal elemento de identificação dos domicílios? Através do estudo da
organização da posta domiciliária vimos que esta escolha pode corresponder a um
compromisso, à procura de um equilíbrio entre diferentes níveis de apreensão e de
leitura do espaço urbano. De um ponto de vista funcional, trata-se também de um
compromisso entre hábitos e interesses dos forasteiros e dos habitantes, entre factores
endógenos e exógenos. O movimento geral de normalização da identificação do
território urbano não teve por consequência o total afastamento dos outros modos,
nomeadamente das lógicas sustentadas pela história de cada espaço, pelas memórias
colectivas e pelas redes de relações. Na realidade, a normalização permitiu sobretudo
diminuir os tempos de aprendizagem, segundo a ideia de que a cidade já não pode ser
apenas a cidade dos seus habitantes.

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65

NOTAS
1. Todas as obras que tratam da evolução dos espaços urbanos acabam por dar conta deste
processo. A história da Europa urbana, publicada em 2003, sobre a direcção de Jean-Luc Pinol,
contém numerosas referências às formas de aplicação das leis e regulamentos em vários
contextos urbanos (Pinol, 2003). Mas são ainda escassos os textos que abordam directamente esta
questão. A rua raramente foi considerada como objecto histórico, ao mesmo nível que o bairro,
por exemplo. Nos últimos anos o tema surgiu, no entanto, com alguma consistência. Várias
publicações apresentam linhas programáticas ou esboços de estudos particularmente aliciantes.
O tema das sociabilidades e dos usos do espaço público são os mais presentes, mas a rua é também
considerada como sistema urbano que tem a sua própria coerência (Landau, 1992; Garden, 2006;
Doumerc, 2005; Larsen & Petersen, 1997; Joyce, 2003).
2. Diário do Governo, n.o 4, 4 de Janeiro de 1856.
3. Diário do Governo, n.o 228, 28 de Setembro de 1843.
4. Esta aprendizagem não se limita ao reconhecimento do espaço (Roncayolo, 2003: 62).
5. Itinerário Lisbonense, 1804, Lisboa, Impressão Régia.
6. E de destacar aqui a importância particular do Registo Civil no conjunto dos debates políticos
em Portugal durante a Monarquia constitucional.
7. Este estudo baseia-se essencialmente na documentação do Arquivo da Fundação Portuguesa
das Comunicações [AFPC1 e, nomeadamente, nas informações contidas no dossiê: “Documentos
relativos ao estabelecimento da posta diária, distribuição domiciliaria e apartados (1817-1836)”.
8. A questão da transformação da noção de residência em categoria administrativa aparece
também ao longo da segunda metade do século XIX quando foram elaborados diferentes
instrumentos de contagem ou de identificação da população, tais como os censos e os registos
paroquiais. E a distinção entre “população de facto” e “população de residência habitual”
presente nos censos do fim do século. Esta mesma distinção aparece em algumas formulações dos
registos paroquiais e, depois de 1911, civis (Vidal, 2006: 159-162).
9. Sobre este ponto as fontes não são completamente esclarecedoras (Morato, 1995).
10. Em contexto urbano as contribuições mais aprofundadas limitam-se a cartografar as
evoluções das unidades espaciais (Alves, 2004).
11. Um fenómeno observável por exemplo na cultura hip-hop, hoje em dia (Rérat, 2006). Nos
países ocidentais é apenas na segunda metade do século XX, e em Portugal no fim dos anos 1970,
que o código postal é formalmente instituído, paralelamente à mecanização da triagem do
correio (Scheele, 1970).
12. “Carta”, 26-10-1833, em “Documentos relativos ao estabelecimento...”, op. cit., AFPC.
13. Esta disposição não figura nos regulamentos posteriores. Ver por exemplo: Reforma Postal.
Decreto de 27 de Outubro de 1852 e Regulamento para a sua execução, Lisboa, Imprensa Nacional, 1853.
14. “Relatório do Subinspector-Geral dos Correios”, 6-11-1833, “Documentos relativos ao
estabelecimento...”, op. cit., AFPC.
15. Ver, por exemplo, na mesma época, os romances de Armando Ferreira. E para o fim do século
XIX, os de Gervásio Lobato.
16. O Regulamento do Registo Paroquial de 1859 obriga à apresentação de documentos
“irrecusáveis” apenas no caso de “procuração” e nomeadamente para o casamento de menores,
na ausência de “superior legítimo” (artigos 12.°el4.°).
66

AUTOR
FRÉDÉRIC VIDAL
Historiador, Centro em Rede de Investigação em Antropólogia (CRIA / ISCTE-IUL), professor da
Universidade Autónoma de Lisboa.
67

Capítulo 5. A rua dos polícias. Visão


itinerante
Susana Durão

“É preciso ter ‘mundo’ para ser um bom polícia”


Agente, 5 anos de patrulha em Lisboa.
1 Este texto propõe uma leitura sobre “as ruas dos polícias” em dois sentidos 1. Por um
lado, procura examinar como os agentes percepcionam os territórios, os bairros e a
cidade no decurso do seu trabalho. Por outro lado, demonstra como os agentes nos seus
serviços socializam profissionalmente as ruas e são actores essenciais na produção de
ordens socioespaciais, negociação de poder e de ordens morais para a cidade. A análise
irá deter-se em padrões de policiamento no espaço para, de seguida, detalhar três
sequências dos principais serviços de esquadra. Estes centram-se nas rotinas de agentes
que patrulham a pé (os chamados apeados 2), de uma dupla de polícias que circula no
carro-patrulha e de uma agente de um dos programas da proximidade (APOIO 65 –
Idosos em Segurança). A circulação dos polícias pelos lugares sublinha distinções
territoriais e padroniza uma relação moral com diferentes bairros e partes da cidade,
uns mais policiados do que outros, uns mais “controlados” e outros mais “protegidos”.
Tais tendências são profundas e reflectem, como se verá na secção final, os limites
impostos à proximidade na cultura profissional policial.
2 A esquadra tomada como caso tem uma área de supervisão policial que abrange vários
bairros contíguos num raio de 1,5 km, e surge expressa no mapa de giros do Plano Oficial
de Policiamento de Área (fig. 1). Um destes bairros, onde está sediado o edifício da
unidade, caracteriza-se pelo seu comércio tradicional, com afluência de residentes e
visitantes, o que implica intensa circulação automóvel. A maioria dos prédios, embora
quase todos construídos entre finais do século XIX e a década de 1960, estão em bom
estado de conservação. A população residente é heterogénea, mas tendencialmente de
classe média, crescentemente envelhecida e na grande maioria de origem portuguesa.
Os polícias quando se referem a este bairro da área consideram-no a parte de cima;
dizem ser frequentada por pessoas respeitáveis, também designadas gente de bem. Neste
bairro os agentes produzem tácticas de “visibilidade passiva” do policiamento.
68

3 Por contraste, quando se referem à fatia de bairros degradados e de realojamento


social, onde são conhecidas práticas de tráfico de droga, os polícias chamam-lhe a parte
de baixo. Ruas mal-afamadas de bairros problemáticos, como designam os agentes,
também conhecidos por “bairros difíceis” (Roncayolo, 2003: 70) ou “sensíveis” (Katane,
2002) – gírias que são de uso generalizado e que fundam uma teia de interpretações
cruzadas entre os media e a polícia (Gill, 1977) – misturam-se com ruas pobres, de
habitação precária. Chamam-lhes também os bairros da droga, onde identificam os
mitras, traficantes ou delinquentes de rua, e os consumidores, a quem denominam
carochos (Durão et al., 2005). As viaturas policiais e os agentes a pé circulam num estilo
marcado por uma “visibilidade ostensiva”, onde o objectivo é “ter o território
controlado”, auto-sustentado e, sobretudo, não deixar escapar os problemas e os
delinquentes para a parte de cima.
4 Algumas zonas de fronteira tendem a não ser assumidas como ruas a policiar. Estas são
subpoliciadas, pouco visitadas nas rotinas policiais, sobretudo quando comparadas com
outras recorrentemente percorridas. O exemplo mais marcante é o que diz respeito a
todo um bairro (dentro e a norte do giro n.o 10, fig. 1). Trata-se de um bairro
considerado pelos polícias como pobre e degradado. Nestes lugares, verdadeiros “ermos
policiais”, os agentes não reconhecem problemas criminais ou outros que convoquem a
sua atenção diária. Apenas os visitam para resolver emergências. Tais lugares vão
caindo no esquecimento das teias de sentido da patrulha e têm escassa presença nas
cartografias profissionais. Enquanto se distribuem pelos espaços os agentes actuam de
modo selectivo – estão sobrerepresentados em alguns lugares e desaparecem, por
ausência de rotina, de outros – e ajudam, assim, a produzir uma “cidade não-
sincrónica”, com diferentes temporalidades (Roncayolo, 2003: 61). As distinções
evidenciadas no mapa traduzem um certo acidentado geográfico no território mas,
sobretudo, a divisão moral e social expressa em diferentes roteiros policiais para o
espaço.
69

Figura 1 – Área e Giros da Esquadra.

5 Quando olhados do prisma organizacional, os serviços do policiamento na maioria das


esquadras de Lisboa contêm em si importantes diferenças históricas. O serviço apeado é
a mais antiga forma de patrulha. Foi a partir da noção de itinerância a pé que se criou a
ideia mesmo de policiamento, na expansão de um modelo de “polícia das cidades para o
Estado” desde o século XVIII (Napoli, 2003). O patrulhamento automóvel tem um ciclo de
vida mais curto. É recente na história da polícia portuguesa e ganhou expressão nas
maiores cidades do país ao mesmo tempo que se introduzia um dispositivo técnico de
intercomunicadores para resposta a emergências, na década de 1960. A patrulha de
automóvel viria a sofrer forte incremento na década de 1990, quando foi reorganizado o
modelo operacional durante breves anos, substituindo as esquadras “de bairro” por
divisões concentradas (Gomes et al., 2001), o que desterritorializava a acção policial. O
modelo de policiamento centrado em esquadras, mais inseridas nos contextos urbanos,
seria retomado no final da década, já inspirado pelas novas filosofias de proximidade
entre polícias e citadinos (Costa, 1996 e 2002). Mas em dez anos de experiências, os
programas da proximidade mantiveram-se relativamente autónomos das restantes
actividades da patrulha (a pé e de automóvel).
6 Torna-se então necessário mergulhar nas rotinas do policiamento e descrever três
“sequências de policiamento” em diferentes serviços. As sequências são aqui
entendidas como sucessão de “trajectos” com “fluxos recorrentes no espaço”
(Magnanni, 2003), mas delimitadas no tempo. Assim, estas são desenhadas pelos
agentes a partir da coincidência entre duas referências espácio-temporais: a área
supervisionada e o turno de serviço. A análise permite evidenciar como as diferenças
entre os serviços não são meras valências funcionais mas implicam efectiva mudança de
filosofia e cultura policial.
70

AGENTES APEADOS

7 No turno das 13 às 19 horas, num dia de Primavera, dois agentes, em patrulha dobrada,
saem da esquadra em direcção ao giro 10 (fig. 2), na parte de baixo da área. A dupla é
composta por um agente com um ano de esquadra, considerado ainda um maçarico algo
inexperiente, e um outro com cinco, considerado um agente rodado. Geralmente a
patrulha limita-se a um conjunto de ruas próximas onde os agentes circulam, fazendo
render o tempo do turno que antecipam sem grandes incidentes. Depois de entrar ao
serviço, os agentes fazem uma primeira paragem num bar conhecido, próximo da
esquadra3. Passado mais de uma hora chegam à rua mais policiada do giro, onde se
considera estar o coração do tráfico da área, o bairro da droga. Até lá os agentes andam
num ritmo vagaroso, diz-se que pisam paralelo. Têm disponibilidade e tempo para
sociabilizar entre si, para conversar, para falar dos seus problemas e da difícil gestão
entre a profissão e a vida familiar, das tensões com superiores ou, simplesmente... olhar
em frente, para o movimento. Por isso os agentes preferem patrulhar em duplas. O
efeito que provocam nas ruas onde se conhecem pontos do mercado de droga é
geralmente simples: fazem mover os traficantes e os compradores de uma parte da rua
para outra onde não se encontra, nesse momento, presença policial. Desta forma, há um
certo pudor, uma certa regulamentação e disputa pelos territórios entre agentes,
residentes e pequenos traficantes. Quando surge a informação, pelo rádio portátil (que
os liga a uma central policial), que um toxicodependente se precipitou dum penhasco, a
dupla decide descer à clareira para observar o acidente. Uma ambulância do INEM
chegou antes ao local e irá transportar o sujeito para o hospital, ainda vivo. Os agentes
aproveitam para regular o trânsito. Finda a operação, sobem novamente por um
descampado. O agente mais rodado pára um toxicodependente sem-abrigo conhecido
na área e espanta um outro. Obriga-o a tirar todos os seus pertences da mochila e
esmaga-lhe as lamelas dos comprimidos com o pé. O encontro é marcado pela
hostilidade. O polícia contém-se, mas verbaliza o anseio de dar uma bastonada naquele
que há anos se recusa colaborar com os polícias, negando informações sobre “o que não
vêem”4. Na situação, o agente mais jovem diz-se “uma pessoa pacífica” e rejeita o
convite do colega no sentido de ser ele a dar a bastonada, como uma espécie de
iniciação no uso da força5. Findo o encontro, os agentes dirigem-se à praça principal do
bairro da droga, aí permanecendo algum tempo a observar os transeuntes. O mais rodado
interpela um suspeito e pede informações sobre o tráfico de droga, mas os contactos
são reduzidos. Durante quase uma hora, parados, vêem-se também passar vários carros
policiais da unidade das brigadas à civil da divisão e adivinha-se a presença de agentes
da Polícia Judiciária. No momento em que os agentes de uma carrinha da secção do
piquete da divisão (unidade mais reactiva) chega ao local, contribuindo para a imensa
presença de policiamento, os apeados concordam que a sua visibilidade deixou de ser
necessária no local. Antes de regressar à esquadra para a rendição do turno seguinte, a
dupla volta às ruas da parte de cima, pára num bar e, por fim, regressa à esquadra “sem
novidade”, sem ocorrências a registar.
71

Figura 2 – Sequência dos Agentes Apeados.

Carro-patrulha
8 Os agentes do carro-patrulha dão entrada no turno das 13 às 19 horas num dia de
semana de Junho (fig. 3). Neste caso, o condutor e o arvorado trabalham juntos, no
mesmo serviço, há pelo menos um ano6.O primeiro tem oito anos de experiência na
esquadra, quase todos passados a conduzir a principal viatura policial, e o segundo
quase seis anos de patrulha, vários como arvorado. A dupla aguarda a chegada dos
agentes do carro-patrulha que irão render. Foram informados de que os mesmos estão
envolvidos numa ocorrência complicada na área da esquadra vizinha. Num prédio
devoluto foram encontradas urnas que parecem conter carcaças de animais. A
ocorrência ficará conhecida como o “caso das urnas”7. A rendição é efectuada na
esquadra, mas a nova dupla tem de voltar ao local. No prédio, sobem ao último andar e
todos são convidados a observar as urnas e o sórdido ambiente. Um dos arvorados tira
impressões para escrever. Os agentes contactam o Instituto de Medicina Legal e a
Polícia Judicária, para poderem voltar ao giro (aqui significando o movimento e não a
unidade territorial). O agente responsável pelo caso é reconduzido à esquadra, onde fica
a elaborar o processo. A dupla de agentes segue na viatura e pára num bar da área para
a primeira pausa do turno. Nessa altura, recebem uma chamada da esquadra. E preciso
conduzir um colega doente à paragem do autocarro8. O carro regressa à esquadra e
conduz o agente ao local. Daqui em diante, o circuito far-se-à pelas ruas dos bairros da
parte de baixo da área. É nestas que o carro-patrulha prefere girar, entre as chamadas
que o podem levar a qualquer ponto da área. Encostam o carro na rua mais conhecida
do tráfico e saem quando avistam dois transeuntes de raça negra, como dizem, que
consideram suspeitos, talvez novos traficantes. Os traficantes locais já estão todos
72

referenciados. Pedem-lhes identificação e ameaçam: “Não os queremos voltar a ver por


aqui”9. Voltam ao carro-patrulha, sempre a girar. A certa altura o condutor decide
regressar à esquadra para tratar de um assunto pessoal. Passado algum tempo
regressamos às ruas para transportar informação escrita até à sede da divisão (unidade
que supervisiona a actividade de várias esquadras), situada fora da área da esquadra.
Sensivelmente a meio do turno surge pelo rádio uma chamada para uma ocorrência:
“furto de viatura com acidente”. Os agentes ligam as sirenes e conduzem a alta
velocidade até ao local do acidente, onde está apenas o condutor e a viatura em quem o
assaltante, com o carro em fuga, bateu. Os agentes certificam-se de que não existem
feridos. O arvorado informa-se da situação junto das pessoas visadas e comunica uma
síntese do que se passou para a central, pelo rádio. O trânsito é temporariamente
alterado e os agentes ficam a regulá-lo até ao retomar da normalidade. Toda a operação
faz com que o carro-patrulha permaneça sensivelmente uma hora no local até que
chegue a brigada de trânsito que foi chamada. Sabe-se pouco depois, pelo rádio, que o
assaltante foi interceptado noutra área por colegas de outra esquadra, de um outro
carro-patrulha. Os agentes manifestam a sua satisfação 10. Voltam à sede da esquadra e
transportam o registo do “caso das urnas” até à esquadra vizinha, onde este será
arquivado. Já próximo do final do turno, os agentes do carro-patrulha fazem uma
paragem num bar. À saída, na rua, o condutor interpela uma mulher, que parou com a
viatura no semáforo, porque leva uma criança sem cinto de segurança. A condutora
corrige11. Antes da rendição o carro-patrulha é ainda chamado à esquadra e levanta os
registos do dia que irá conduzir à sede da divisão. Regressam por fim à esquadra para
redigir o relatório do serviço e registar a ocorrência.

Figura 3 – Sequência do Carro-Patrulha.


73

APOIO AO IDOSO

9 Em boa medida, os agentes dos programas de proximidade representam a terceira via


do policiamento de esquadra. O ciclo da itinerância não é tão marcado por definições
territorais (como é para os apeados), nem pela resposta a ocorrências (como é para o
carro-patrulha). No serviço Apoio ao Idoso a rotina implica contactar idosos, lares e
centros de dia das redes de misericórdias locais. No turno das 7 às 14 horas de um dia de
Inverno, acompanho uma agente no seu percurso e tarefas (fig. 4). Esta começa por
escrever uma participação sobre um sujeito que tem danificado viaturas de vários
residentes. Neste caso, a agente usa os decretos e despachos necessários para narrar os
factos no contexto da “burocracia de rua” (Lipski, 1980). Previamente usou a sua
“arma” preferida, a conversação, insistindo na incivilidade, já ameaçando o infractor
com as “escritas da lei”. Como este voltou a actuar nas ruas e produziu vários estragos
materiais em bens privados, a agente viu-se obrigada a “informar a quem de direito”.
Terminada a participação, decide ir para a rua. O seu trajecto é quase sempre o mesmo,
da esquadra até um pequeno jardim situado no coração do bairro (da parte de cima),
onde geralmente encontra vários idosos seus conhecidos. Até chegar ao destino,
durante o caminho, esta agente é constantemente interpelada por comerciantes locais e
idosos cambaleantes. Falam-lhe das doenças que transportam, do mal-estar da velhice,
de alguns problemas de vizinhança e familiares, e alguns agradecem-lhe a ajuda que
lhes prestou em certo momento das suas vidas. Perguntam-lhe pelo filho. Algumas
mulheres prometem oferecer pequenos presentes para a criança. Quando chega ao
jardim, continuam os contactos com idosos. A agente é prestável e, em alguns casos,
insiste para que procurem ajudas institucionais ou para que “arrebitem e se animem
um pouco”. Alguns conservam o número do telemóvel do programa, por vezes
anunciam visitas à esquadra, ou pedem-lhe para passar nas suas residências. É
conhecida pela “menina agente”. Depois dos contactos, a polícia dirige-se à rua e porta
de um prédio onde vive uma idosa isolada que não sai de casa há vários meses e que
começa a ser considerada um perigo para si mesma e para a saúde pública. O caso foi
sinalizado pelos vizinhos. A agente já tentou contactar a senhora, mas não conseguiu.
Está a estudar a melhor abordagem a desenvolver. Sempre que passa pela rua vai
pensando no que fazer. E segue. Hoje tem um objectivo concreto: visitar dois centros de
dia com informação sobre um burlão que anda a actuar na área e que já enganou duas
velhinhas. No primeiro centro de dia, numa sala anexa à igreja central, a agente é
entusiasticamente recebida. Uma vintena de idosos, dispostos em várias mesas,
aguardam as refeições. Esta é a melhor hora para os visitar porque a polícia sabe que irá
encontrar um grupo grande. Em tom informal, mesa a mesa, alerta para o perigo de
abrir a porta de casa a estranhos, da forma como os burlões enganam os mais velhos e
pede que se tiverem alguma suspeita ou caso a informem. No segundo centro, também
anexo a uma igreja, mas com uma população menos empobrecida, a agente alerta para
os mesmos problemas. Findo o turno, regressa à esquadra onde a aguarda o colega que
irá desempenhar o trabalho da parte da tarde, enquanto redige o relatório de serviço.
74

Figura 4 – Sequência de Proximidade. Idoso em segurança.

SABERES SOCIOPROFISSIONAIS E URBANOS DOS AGENTES

10 As sequências da acção policial, quotidianamente repetidas, expressam diferentes


prioridades profissionais e variações determinantes na relação que os polícias
estabelecem nos bairros, no contexto comunitário em que operam e com as pessoas
com quem interagem. Tal evidencia diferentes saberes desenvolvidos na actividade de
policiar.
11 Embora os agentes apeados tenham margem de liberdade para definir percursos, o
pedaço de área policiado é predefinido. O desenho da sequência no mapa (fig. 2)
evidencia que o raio de acção é relativamente reduzido e o território policiado
circunscrito. Nunca chegam a percorrer num turno a totalidade da área de esquadra.
Este é um serviço de extrema exposição pessoal, onde os agentes estão à mercê de
serem a qualquer momento solicitados na rua. Trabalham para a imagem da
organização. A sua presença nas ruas produz-se no sentido de estarem simplesmente
presentes, em cada esquina e em cada lugar. O objectivo é sobretudo demover os
citadinos de prevaricar, inibir e desencorajar actos ilícitos. Assim, as ruas seleccionadas
pelos agentes para a itinerância mais rotineira são aquelas onde podem ser vistos, ruas
frequentadas e movimentadas, e menos as mais obscuras e escondidas da cidade. Tal
táctica acaba por protegê-los de algum perigo a que possam estar expostos. Quem
percorre as ruas mais escondidas ao ponto de as conhecer a fundo são ou os agentes à
civil, “invisíveis”, ou pelo menos mais “destemidos”, porque sem farda, ou os agentes do
carro-patrulha, até onde o veículo lhes permite penetrar.
12 Numa certa medida, os agentes apeados são os polícias socialmente mais controlados.
Primeiro, têm menos liberdade e são mais supervisionados pela organização e pelos
75

superiores. Segundo, são controlados pelo próprio público, na medida em que deles se
exigem determinados comportamentos de simpatia e conhecimento da cidade. De
acordo com os agentes experientes dos carrospatrulha, os apeados são ironicamente
designados como guias turísticos e, num sentido mais crítico, como os cabides da
organização.
13 Por isso os apeados defendem que o serviço pode ser física e psicologicamente
desgastante. A pressão interna dos superiores para que estes agentes produzam
indicadores criminais colide com a pressão externa quando os polícias são mais
interventivos nas ordens sociais locais. Muitos agentes preferem defender a sua própria
imagem, pessoal, poupando-se a intervir em situações irregulares. Pressentem que as
mesmas lhes trarão dissabores junto de residentes dos bairros que revêem diariamente,
sobretudo nos bairros da parte de cima.
14 Quando a actividade se reduz à simples produção de visibilidade as pausas podem ser
verdadeiras ocorrências e quebrar rotinas, onde os turnos são longos e o tempo custa a
passar. A intensa sociabilidade entre colegas e a escuta de comunicações (pelo rádio)
lembram, a todo o momento, que o trabalho considerado profissional (ou operacional)
está a ser desempenhado por colegas automobilizados. Se é verdade que as interacções
com citadinos se dão em situações relativamente pouco problemáticas, à excepção dos
problemas de estacionamento, que podem atingir grande animosidade, a actividade,
por ser pouco exigente em termos profissionais, é encarada como monótona. A norma é
findar o turno à hora certa, chegar junto à banca e declarar: “Serviço sem novidade”
(frase que entretanto é usada pelos agentes do carro-patrulha para ridicularizar o
serviço apeado). Para a maiora dos agentes, passar pela patrulha apeada é uma fase
obrigatória da vida profissional, sendo que é para os carros que a maioria dirige as suas
apetências. Chegamos assim à situação paradoxal do serviço: se na organização o
estatuto do apeamento é quase nulo, frequentemente desconsiderado e muitas vezes
indesejado, na comunidade ele continua a ser requerido e a tradição do “polícia em
cada esquina” uma exigência social recorrentemente reclamada.
15 Pode dizer-se que a patrulha automóvel surgiu, em parte, para desterritorializar a
actividade, cada vez mais assente na resposta a ocorrências e num comando à distância
(via rádio). A circulação gerada pelo carro-patrulha, o rodar ou o girar, como lhe
chamam, é um intervalo contínuo entre as chamadas a ocorrências, que desencadeiam
a acção (fig. 3). Ao contrário dos apeados, aqui o que define os circuitos não é um
conjunto de ruas para onde os agentes se devem dirigir. Esta viatura está na base de
uma perspectiva de polícia como serviço de emergência. O serviço define-se pelas
exigências da cidade, dos habitantes que usam a polícia sobretudo para restabelecer
ordens locais e intervir em conflitos que eles mesmos são incapazes de resolver. O
objectivo dos agentes é chegar aos locais e resolver os problemas que encontram, quer
logo situacionalmente e num plano de mediação directa, quer num plano legal e já
envolvendo processos escritos, remetendo para uma mediação indirecta. Este serviço
trabalha para os resultados da esquadra, pois, em grande medida, é ele que evidencia e
dá visibilidade ao trabalho da unidade no contexto da organização. Durante o turno são
os agentes do carro que produzem indicadores policiais e criminais, diz-se que
“trabalham para a estatística”12.
16 E perceptível no mapa que o raio de acção do carro-patrulha na área é extenso e em
alguns casos pode mesmo extravasar os limites administrativos de supervisão para cada
esquadra. Os agentes das viaturas trabalham em rede, entre eles, criando uma outra
76

escala de interacção paralela à da esquadra. Por isso é que os polícias do carro-patrulha


de uma esquadra procuram geralmente reforço num congénere de outra esquadra, e
não nos agentes apeados ou noutras viaturas da unidade a que pertencem. Só em casos
graves o reforço policial a estes implica o carro-visível, conduzido por agentes, e a
viatura da divisão, o carro-satélite (que transporta o supervisor, um subchefe na rua).
Os territórios observados são amplos e os acontecimentos que convocam a presença do
carro-patrulha muito variados. Tal faz com que neste serviço os agentes controlem
micromovimentos e relações sociais das ruas que só muito tibiamente se dão a observar
aos apeados e a agentes nos restantes serviços.
17 Os agentes do carro estão mais libertos de constrangimentos sociais e organizacionais
directos do que os apeados; diz-se que estão menos expostos e que estão protegidos das
ruas pela viatura. Por seu lado, a organização apenas lhes pede que estejam
operacionais para responder a ocorrências. Têm ampla margem de escolha nas suas
itinerâncias e as opções de circulação dependem das rotinas estabelecidas por cada
dupla no carro. Assim, não só têm mais amplitude de circulação como mais liberdade
para gerir os giros e as ruas da itinerância. Tal circulação tem as suas selectividades. Ou
percorrem ruas onde possam observar ilicitudes, mesmo que à distância, ou, pelo
contrário, estacionam em pequenos refúgios públicos (pátios, ruelas, vielas, becos sem
saída, jardins...) onde possam repousar do movimento das mesmas.
18 Para os agentes do carro-patrulha a surpresa e o imprevisto são uma rotina. Nenhum
agente que entra neste carro sabe exactamente se sairá a horas ou se irá ter de
interromper as férias ou as folgas para testemunhar em tribunal por um caso que
assinou. Quando o turno começa nunca se prevê como irá ser, se acelerado ou calmo, ou
a que horas será concluído. A variação pode depender de algumas dinâmicas de grupo e
de patrulha. Diz-se que uns agentes “atraem serviço”, que poucos chegam mesmo a
“procurar serviço”, provocando ocorrências, e que alguns “fogem do serviço”. Mas o
que define a dinâmica são as chamadas locais. O tempo das ocorrências nem sempre se
encerra no tempo burocrático dos turnos. As ocorrências podem ultrapassar os
horários de trabalho, envolver os agentes em operações, averiguações, identificações,
pequenos interrogatórios, registos, etc. O serviço implica uma dedicação e amor à
camisola, como dizem. Muitos agentes quando falam do que os atrai na polícia referem a
liberdade das ruas, a possibilidade que lhes oferece a movimentação do carro, a
operacionalidade e a maior capacidade de contornar a monotonia e previsibilidade dos
serviços apeados.
19 Assim, os turnos podem ser preenchidos por ocorrências. Mas a cidade também pode
estar silenciosa e não ocorrerem chamadas, como nos mais calmos turnos nocturnos.
Nessa altura é preciso saber viver as paragens com pausas simples, subtraídas à
obrigação da visibilidade. Quando os turnos são muito operacionais diz-se que o tempo
de trabalho voa; quando são parados tornam o tempo da patrulha interminável e
pesado. A rua do carro-patrulha é, simultaneamente, a rua das ocorrências e situações e
a rua ampla, lata, multiforme e polissémica. Os acontecimentos que requerem a
presença policial imediata são a razão de ser desta viatura. Os encontros com citadinos
estão geralmente restritos a um quadro de tensões e conflitos, o que faz com que se
acredite que são estes quem tem mais problemas no trabalho. Esta é a característica que
torna o serviço desgastante, o facto de “lidar com a humanidade no seu pior”, como me
referiu um arvorado.
77

20 O serviço é desejado pela comunidade como serviço de urgência, para resolver


problemas, mas, à sua passagem, o carro é percepcionado como distante e algo
desinteressadamente pelo citadino transeunte. Do ponto de vista organizacional este é
o serviço de esquadra mais valorizado, para onde os agentes devem evoluir e onde
trabalham os mais carismáticos. Simbolicamente o carro-patrulha é hoje mantido como
o ex-libris das esquadras e os agentes mais séniores e experientes muito considerados
dentro das unidades.
21 Por fim, a actividade desenvolvida nos programas da proximidade orienta-se a partir de
uma rede de relações interpessoais e na interacção face-a-face com pessoas, grupos e
instituições locais. O serviço deixa de ser a imagem da organização “na” comunidade
para passar a ser a relação da organização “com” a comunidade. Há toda uma mudança
na forma como a actividade é referenciada no território (fig. 4). São os encontros que
marcam os turnos e a orientação das sequências é condicionada por estes. Assim, as
sequências percorridas são geralmente curtas e entrecurtadas pelos contactos. O
movimento da agente fazse pelos lugares onde estão as pessoas, nas residências,
centros de dia e lares, jardins públicos, mercados e lojas... O ritmo da actividade é mais
constante, as pausas menos centrais nas rotinas. A agente trabalha para ajudar a
encontrar soluções de subsistência para pessoas carenciadas, que podem incluir formas
de segurança e higienização dos bairros. A função deixou de ser precaver e inibir
comportamentos ou resolver situações e passa, sobretudo, por apontar soluções para
problemas de pessoas. As soluções são aqui menos provisórias do que no caso do carro-
patrulha e tendencialmente menos penais.
22 O sistema de comunicações interno é menos determinante na actividade da
proximidade. O uso dos telemóveis abriu uma via de comunicação directa entre os
agentes e a comunidade, sem passar por uma central ou pela esquadra. Todavia, os
agentes da proximidade podem passar mais tempo na sede da esquadra, a tratar de
assuntos burocráticos ou a estabelecer contactos interinstitucionais. São ali
frequentemente visitados por idosos ou comerciantes que já os conhecem. A
proximidade levou assim mais citadinos às esquadras, promovendo a abertura da sede
policial local à comunidade.
23 Os turnos são relativamente previsíveis e até mesmo programados. A aleatoriedade,
embora sempre presente nas itinerâncias dos agentes de esquadra, é aqui reduzida
como princípio de circulação pela cidade. A percepção do tempo depende da “agenda”
de cada polícia, das tarefas que cria, do grau de iniciativa e do investimento de cada um
no trabalho. Não só os agentes estão mais expostos à comunidade local como
desenvolvem, frequentemente sem treino e no decurso da prática, estratégias de
comunicação, neste caso com os idosos. Com a especialização surge uma certa
desvinculação de tarefas tradicionais da patrulha. Estes agentes geralmente não se
representam como vulgares patrulheiros.
24 Os agentes da proximidade têm um conhecimento mais profundo dos problemas sociais
perenes das cidades, como a pobreza e o isolamento extremos. Muitos manifestam a
impotência do serviço policial para resolver problemas sociais. Na cultura profissional
os serviços da proximidade avivam as ambivalências profundas e tradicionais do
mandato policial: entre apoiar e controlar (Cumming et al., 1973). Isto gera resistências
e adesões, dividindo os agentes entre si e, em geral, apontando fortes resistências por
parte de quem foi socializado na patrulha.
78

25 Não por acaso, a proximidade surgiu como uma das formas para a organização
conservar as mulheres agentes nas esquadras sem ameaçar o status quo masculino
tradicional (Durão e Leandro, 2003). Quase todos os programas têm geralmente um
elemento feminino. Na verdade, não é fácil para os comandantes seleccionar agentes
masculinos para os programas. Primeiro, porque estes tendem a ser vistos como
“serviços sociais” e por isso rejeitados pela maioria, argumentando que não
desenvolvem “verdadeiro trabalho policial”. Segundo, o colectivo das esquadras de
Lisboa é geralmente muito juvenil e a maioria dos agentes está numa situação de
passagem (num movimento acelerado de mobilidades entre outros serviços, esquadras,
comandos do país, etc.), o que reduz o tempo e a “tradição” necessários para
implementar relações locais sustentadas pelas afectividades do interconhecimento. O
saber territorial dos agentes da proximidade e a sua actividade baseia-se numa rede de
relações interpessoais que vai crescendo com o tempo de permanência na esquadra,
com o “tempo dos afectos” e com discussões intermináveis com os seus colegas para os
convencer da intencionalidade e utilidade da sua acção. A partida dos “militantes da
proximidade”, como lhes chama Katane (2002: 73), para serviços mais prestigiados ou
para outras cidades leva a colocar em causa todas as redes estabelecidas e por vezes
conduz ao questionamento dos próprios serviços “que apenas se mantêm por decreto
oficial”, como me referiu um comandante.
26 Neste serviço, mais do que em qualquer um dos outros, a actividade tende a coincidir
com o polícia executante. Em quatro anos de permanência na esquadra – que coincidiu
com o tempo de implementação do programa desde 2000 – a agente elaborou uma lista
de 100 casos de idosos que procura de alguma forma apoiar. No dia em que for
transferida para o Porto, seguindo o seu marido, também ele agente 13, todos sabem, na
esquadra e nas várias instituições locais, que os idosos irão chorá-la. E que, neste caso, o
serviço é a agente. Do prisma dos citadinos os serviços da proximidade têm rostos, não
apenas fardas.

MUDANÇAS E CONTINUIDADES NA PATRULHA E PROXIMIDADE

27 A cidade é em grande medida a relação pessoal que estabelecemos com ela, a cidade
relacional, da rua, dos percursos, da paisagem, da deambulação e da conversação. A
cidade deve ser aprendida. “Le trajet dans 1’espace urbain est à la foi enseignement et
découverte” (Roncayolo, 2003: 62). Os agentes, na sua socialização profissional das ruas,
estabelecem diferentes roteiros do policiamento e desenvolvem diferentes saberes
contextualizados que, com base no que foi dito, merecem agora ser sintetizados. Os
agentes apeados apoiam-se sobretudo num saber “toponímico” e observacional, num
saber pedestre. Nas suas itinerâncias vão olhando as placas com os nomes das ruas em
cada esquina e com a persistência dos dias acabam por fixá-los e por organizar
cognitivamente uma visão de conjunto. A imagem mental da área produz-se pela
experiência. A percepção do meio envolvente é um itinerário contínuo de movimento,
um “path of observation” (Gibson, 1979; cit. in Ingold, 2004: 331), estando a percepção e
a cognição dependentes do modo como se anda, da locomoção. “Walking is itself a form
of circumambulatory knowing” (Ingold, 2004: 331). Há uma inteligência do andar. Os
agentes interpelam alguns citadinos, mas podem passar-se muitos turnos em que não
iniciam contactos interpessoais e não são solicitados senão para informações
geográficas localizadas. Toda uma socialização profissional é feita através do
79

movimento pedestre, nas “enunciações pedonais” (De Certeau, 2000 [1990]: 109). Nas
primeiras vezes que pisam as ruas os agentes aprendem a não se perder no território e
a fazer-se socorrer pelo rádio que os liga à organização. Durante o período da
reciclagem, um mês em que geralmente são acompanhados por agentes mais velhos em
patrulhas a pé, é suposto que os agentes percam o “medo da rua” e que se reconheçam
como agentes da autoridade. Muitos polícias, quando começam a patrulhar a sós, apenas
vários meses depois, e à medida que se familiarizam com o território, se reconhecem na
função e na farda que vestem: “E viver com a pressão da farda e de na rua ser sempre
um alvo”, como referiu um agente.
28 Os agentes no carro-patrulha conquistam um saber “topográfico”, operacional, de
tendência mais actuante e legal. Por percorrerem a área em toda a sua extensão e
responderem a ocorrências em muitos lugares, estes agentes controlam um saber
intersticial dos contextos ímpar na organização. Tal saber leva-os mesmo a desafiar a
ordem hierárquica e a reafirmar as ruas como o “seu território”. Por exemplo, quando o
oficial de dia14 procura localizar um carro-patrulha nas longas madrugadas, os agentes
podem iludi-lo, estacionando em ermos e ladeiras da área que na hierarquia policial só
eles conhecem e “dominam”. Com os anos, e com a conquista da possibilidade de fazer
trabalho mais operacional, nas viaturas policiais, os agentes recentram a sua atenção
nos casos, situações, ocorrências, nos mitras. Há como que uma reaprendizagem de
funções que deixa de estar assente na relação directa com o território, mas antes o usa
para os seus fins. Sobretudo em turnos mais movimentados, as ruas são percorridas
para chegar a ocorrências. Estas são o intervalo de tempo-espaço entre o seu centro de
interesse: os distúrbios, as desordens, os eventos policiais. Ambos os serviços, patrulha
apeada e auto, são marcados por uma certa distância face aos citadinos, mantendo os
contactos e interacções sociais reduzidos ao mínimo. Por isso estes polícias dizem
trabalhar para o público. O lema que defendem é: “Não nos podemos envolver muito. Só
temos que resolver os problemas e seguir em frente, voltar ao giro...”. Com a
experiência são os saberes legais, convocados pelas ocorrências, que começam a tomar
lugar e a desenvolver-se.
29 Na proximidade os agentes implementam um “saber relacional e em rede”, um saber
que acaba por ser tão ou mais importante do que o dos colegas patrulheiros para a
manutenção de ordens socioespaciais locais, nesse equilíbrio entre ordens sociais e
morais alimentado pelas práticas microscópicas dos polícias, mas evocando agora
diferentes formas de autoridade (Goldstein, 1977). Por isso os agentes nos vários
programas defendem trabalhar com comunidades (de idosos, escolar, comercial) e
pessoas (velhinhos, alunos, funcionários, professores, lojistas). Neste serviço, a iniciativa
de contacto com pessoas para o estabelecimento de uma rede local de relações é o eixo
que orienta a actividade e leva a uma maior selecção das ruas e lugares a calcorrear. Na
experiência social local, os citadinos sabem distinguir um agente da proximidade de um
patrulheiro. Não que existam distinções materiais visíveis nas fardas. O
interconhecimento e a força da palavra informal – as narrativas e os rumores da cidade
(Roncayolo, 2003: 62) – criam esse saber partilhado.
30 Assim, se os agentes no carro-patrulha precisam de disponibilidade e dedicação, a
patrulha apeada e, sobretudo, a proximidade precisam da durabilidade do tempo para
se implementarem. O tempo histórico da proximidade é curto e, por isso, os seus
serviços ainda estão em larga medida por fixar, em particular numa escala mais ampla
80

da actividade policial que possa influenciar as filosofias e práticas da patrulha


tradicional.
31 As diferenças detectadas nos serviços de uma polícia de esquadra permitem
desmistificar a ideia de que a actividade policial em contexto é homogénea e
indecifrável por ser eminentemente opaca nas suas políticas da acção (Palacios
Cerezales, 2005). A pluralidade policial é um facto e a abertura da organização à
mudança das filosofias do policiamento de proximidade, caracterizada como uma
“revolução silenciosa” (Matrofski, 2002), parece ser uma realidade.
32 Todavia, alguns entendimentos e consensos territoriais permanecem a guiar os vários
serviços (patrulha a pé, de carro e proximidade). A variação profissional expressa nos
serviços e sequências do policiamento não tem expressão recíproca nos territórios
policiados, perpetuando, assim, de diferentes modos, ordens morais que segmentam os
espaços da cidade. Pode dizer-se que uma mesma cartografia profissional e moral é
produzida a partir dos diferentes roteiros do policiamento.
33 Há uma divisão socioespacial que atravessa e produz essa cartografia. Na parte de cima,
nos bairros de classe média, as visibilidades policiais são geralmente passivas e os
citadinos pessoas a proteger. Na parte de baixo, as áreas marcadas pela probreza são
homogeneamente tidas como lugares e territórios de tráfico de droga, a presença
policial é ostensiva e os territórios devem ser controlados. Assim, os polícias são parte
integrante de culturas urbanas, integram o mapa de ordens políticas para a cidade,
nesse eficaz e disseminado micropoder (Foucault, 1975).
34 E de notar que mesmo a actividade da agente da proximidade ocorre e é desenvolvida
na comunidade da parte de cima. Embora a pobreza entre idosos aperte certamente na
parte de baixo, esta é ocultada nos discursos policiais antidroga. A pobreza silencia-se
por trás de portas fechadas aos agentes; em lugares onde rareiam instituições de
solidariedade, onde os habitantes não têm representantes ou porta-vozes locais. Os
polícias, a organização e o Estado vão esquecendo os idosos desses lugares, porque as
ruas dos seus bairros não são incluídas nas itinerâncias dos polícias da proximidade.
Tais idosos surgem menos nos registos, relatórios e redes de interajuda policiais e
locais. São as ocorrências que levam os agentes, sobretudo no carro-patrulha, a
contactar tais pessoas, geralmente já num contexto problemático, em situação de
distúrbio, desordem ou violência. Tal resulta no adensamento da ambiguidade da
actividade policial entre o apoio e o controlo de pessoas. Tal ambiguidade, nos espaços
da cidade onde resvala para o lado do controlo, leva facilmente a deslocar a acção da
rede de solidariedades locais para as redes da justiça. O movimento dominante dos
polícias nessas partes da cidade, nesses bairros da droga, tende a ampliar a sua acção
penalizadora e criminalizante. Este movimento sublinha distâncias e adia as
proximidades.
35 As mudanças na filosofia organizacional não têm assim um impacto análogo em todo o
território. As inovações da proximidade dificilmente chegam aos territórios mais
estigmatizados pelos polícias, pelo poder e pelos próprios habitantes que participam no
processo (cf. Katane, 2002). Mesmo se diferentes sequências do policiamento apontam
diferentes lógicas de entendimento da actividade, que podem anunciar a aproximação
da polícia e do Estado aos citadinos, elas evidenciam também a tendência policial para
separar colectivos, para uma certa selectividade da aplicação dos seus recursos de
controlo e apoio, para perpetuar, de novas formas, uma separação entre quem está do
lado de cima e quem está do lado de baixo da área e da sociedade. E assim que sequências,
81

itinerários e incidências quotidianas do policiamento ajudam a criar “regiões


moralmente diferenciadas na cidade” (Agier, 1996: 39-40). Os efeitos das itinerâncias
policiais produzem guiões que são lidos e relidos nas sociedades, em particular nos
canais mediáticos e nos canais da Justiça. Este texto pretendeu assim demonstrar como
as cartografias policiais que resultam dos quotidianos de trabalho vividos merecem
tornar-se objecto de estudo e ser examinadas de perto, nas suas práticas materiais e
extensões simbólicas.

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NOTAS
1. Este artigo apresenta alguns resultados da tese de doutoramento em Antropologia, financiada
pela FCT: “Patrulha e Proximidade. Uma Etnografia da Polícia em Lisboa”, ISCTE, 2006.
2. Os itálicos indicam designações oficiais e também as que decorrem da gíria profissional usada
entre polícias.
3. São cerca de uma dezena os bares, tascas, snacks e restaurantes sistematicamente frequentados
pelos polícias da área, quase todos situados nas ruas da parte de cima. Nesses estabelecimentos
negoceiam com os comerciantes algumas condições favoráveis a um consumo permanente,
persistente, mantido por todos os agentes desde que dão os primeiros passos na patrulha. Tão
importante como estar operacional é ir conjugando as rotinas com as pausas...
4. Devo recordar que os agentes mais experientes de uma esquadra têm por vezes autonomia
para fazer pequenos serviços à civil (algo excepcionais e que não constam no plano oficial de
trabalho), o que os leva a criar uma rede de relações intersticiais com informadores traficantes
ou ex-traficantes. Estes dizem que os informadores que vão conquistando, nas suas pequenas
investigações de rua, são “os seus únicos olhos”.
83

5. Lembre-se que o monopólio do uso da força tem sido identificado como a característica nuclear
do mandato policial (Bittner, 1980; Hunt, 1985).
6. O arvorado é quem se encarrega de intervir e de registar ocorrências no carro-patrulha. Esta é
a função mais valorizada na esquadra. O polícia tende a ser considerado um líder entre os agentes
do seu grupo de trabalho. Este é escolhido pelo subchefe directo dentre os mais experientes, o
que implica ter desembaraço nas situações e manejar algum saber legal. Assim, pode fixar-se
durante anos na mesma função. O condutor também tende a ser um dos serviços menos rotativos.
A organização beneficia de um agente que conheça as viaturas e que cuide de as manter, uma vez
que são bens raros numa organização que reclama a falta de meios materiais.
7. A nomeação das ocorrências e investigações é uma actividade da Polícia Judiciária que
começou a ficar conhecida nos media e que muitas vezes revela a tradução das operações policiais
para o exterior. Os polícias da ordem, PSP e GNR, que viram crescer nos últimos anos as
competências criminais – com a Lei, de organização da investigação criminal, n. o 21/2000 de 10 de
Agosto – tendem a fazer o mesmo em algumas situações mais enigmáticas ou de grande impacto
mediático.
8. Há uma norma moral entre agentes inultrapassável; nunca se recusa um pedido de ajuda ou
reforço, numa acção policial ou a um colega, numa rede de solidariedades própria da partilha de
uma mesma “condição policial” (Monjardet, 1996). Neste caso, o jovem de 23 anos, há um ano na
patrulha, ainda não conseguiu criar hábitos de alimentação e de sono que lhe permitam suportar
uma vida de turnos. Esta é a razão que os colegas atribuem ao mal-estar que se instalou nele há
várias semanas.
9. Os agentes apreciam geralmente a deferência nos encontros (Piliavin e Briar, 1964; Sykes e
Clark, 1975; Duneier e Molotch, 1999). Nos bairros da droga exigem-na. Jovens com uma atitude
desafiante, com estilos de vida considerados suspeitos ou ilícitos, em particular se identificados
como pertencendo a comunidades étnicas de não-nacionais, tendem a cair no centro das atenções
dos polícias. São os “citadinos-alvo” para os quais os variados léxicos policiais são criados.
10. A rua destes agentes é pontuada por emoções altas, que convocam a operacionalidade e o
despertar dos sentidos que os agentes resumem numa expressão: a “caça ao mitra”. As
ocorrências que envolvem perseguições são muito valorizadas e reforçam o sentido de trabalho
em rede. Quando um sujeito lhes escapa, os polícias usam o adágio: “Há mais marés do que
marinheiros”; crendo que no futuro próximo os delinquentes serão apanhados nas malhas
policiais.
11. Estas interacções entre agentes do carro-patrulha e citadinos são reduzidas e geralmente
circunscritas ao tempo-espaço da ocorrência. Tirando as situações em que são chamados a
resolver, ou em situação de pausa, os agentes conservam-se a maior parte do tempo no interior
das viaturas, em circulação, e limitam-se à interpelação de jovens considerados suspeitos.
12. Nesta esquadra a maior percentagem de registos é realizada pelos serviços da patrulha, 70%
do total. Destes, cerca de 60% correpondem ao trabalho do carro-patrulha.
13. Tal como a maioria das mulheres agentes, esta casou com um polícia que conheceu ainda no
curso de polícia, em regime de internato. Ficaram ambos na mesma esquadra. Sendo originários
de regiões próximas, do Norte do país, aí conservam os laços familiares e aí esperam regressar ao
fim de alguns anos, desde o início do percurso profissional. A organização ofereceu a
oportunidade ao marido ao fim de cinco anos de polícia. Ela aguarda em Lisboa, com o filho, a sua
vez, a sua transferência numa espera que pode prolongar-se em meses ou anos.
14. Este é um oficial dado à divisão, encarregue de surpervionar superiormente a actividade dos
agentes em cada turno nas várias esquadras da mesma. Todos os comandantes entram numa
escala de trabalho extraordinário, assegurando a supervisão formal em permanência, sobretudo
nos turnos da noite, quando os comandantes de esquadra e de divisão estão retirados.
84

AUTOR
SUSANA DURÃO
Antropóloga, Centro de Estudos de Antropologia Social, bolseira de pósdoutoramento da
Fundação para a Ciência e a Tecnologia.
85

Capítulo 6. A rua, lugar físico


construído
João Pedro Silva Nunes e Luís Vicente Baptista

Introdução
1 Nos últimos duzentos anos a História das Cidades dá a conhecer diferentes regimes de
administração e de controlo dos traçados e das vivências urbanas nos espaços
colectivos (Hall, 1996). Com a emergência do Urbanismo enquanto disciplina, a rua e
outras formas urbanas construídas adquiriram o estatuto de objectos urbanísticos e de
figuras de planeamento e suscitaram controlos, adesões, rejeições e recriações eruditas
e populares. Progressivamente, as administrações ensaiaram diversas tentativas de
regulação dos tráfegos de natureza diversa que entravam, saíam e atravessavam as
cidades: dos veículos e dos animais às pessoas, passando pelos diferentes suportes de
transmissão de informação – correspondência, telégrafo, telefone, por exemplo – e
pelas redes de abastecimento de água, gás e electricidade.
2 Neste texto pretende-se explorar a ideia de rua enquanto lugar físico construído. Para
tal, tomar-se-á uma linha evolutiva da análise do fenómeno urbano que nos leva da
cidade industrial à metrópole contemporânea. Em ambos os contextos o foco será orientado
quer para os meios e condições de deslocação dos urbanitas, quer para a diferenciação
social e territorial do espaço urbano. A cada um destes tempos da cidade corresponderá
a apresentação de um caso que ilustra a dinâmica de uma época e de um modo de
construir na Lisboa do século XX. O primeiro caso, o do Bairro do Rego, é expressivo da
expansão da urbanização da cidade de Lisboa para Norte, nas primeiras décadas do
século XX, protagonizada por um elevado número de construtores e loteadores ao longo
de cerca de trinta anos1. O segundo caso, o do grande conjunto residencial de Olivais
Sul, constituído sobretudo por habitações de renda económica resultantes de iniciativa
pública durante o Estado Novo, traduz um esforço de planificação público levado a cabo
numa época em que Lisboa e os seus concelhos limítrofes começavam ser apreendidos
como uma região2. Daqui resultarão elementos de reflexão acerca dos modos de
86

conceber rua tendo como fundamento operações concretas de materialização de


edificado urbano.

Rua, circulação e convivência


3 Há mais de quatro décadas, em The death and life of great american cities, Jane Jacobs
argumenta em defesa de uma cidade densa, polvilhada de actividades diurnas e
nocturnas, rica em combinatórias de funções e bairros residenciais socialmente
heterogéneos. Critica as premissas e os efeitos do urbanismo dos subúrbios residenciais
– dos grandes conjuntos em altura e das extensões de moradias – bem como as práticas
de renovação urbana levadas a cabo nos anos 50 nas cidades de aquém e além-Atlântico.
Para Jacobs “Streets and sidewalks, the main public places of a city, are its most vital
organs” (1972 [1961]: 39). E acrescenta:
“By definition (...) the streets of a city must do most of the job of handling
strangers, for this is where strangers come and go. The streets must not only
defend the city against predatory strangers, they must protect the many, many
peaceable and well-meaning strangers who use them ensuring their safety too as
they pass through.” (Jacobs, 1972 [1961]: 45)
4 Ou seja, para continuarem a assegurar funções de circulação e convivência, as ruas (a
fortiori, as cidades) devem, na perspectiva de Jacobs, apresentar três qualidades
fundamentais. Primeiro, deve existir uma demarcação entre os espaços públicos e
privados. Segundo, a rua deve ser olhada através dos “eyes of the Street”; olhos que
devem ser os dos proprietários naturais da rua – comerciantes, residentes, frequentadores
habituais, entre outros. Terceiro, o fluxo de utilizadores da rua e do passeio deve ser
contínuo, quer para que haja maior número de olhos na rua, quer para que haja interesse
em olhar para a rua.
5 Orientando a sua atenção para as questões da vitalidade e da abundância da vida na rua,
a autora avança como principal requisito a presença continuada de utilizadores da rua,
a existência de lojas em quantidade e de outros lugares públicos espalhados ao longo de
vastas zonas da cidade, cujo horário de funcionamento deve cobrir períodos nocturnos.
Esses lugares fornecem às pessoas – tanto a residentes como a não residentes – motivos
para usar a rua e os passeios. Torna-os atractivos. Zonas que não teriam interesse
específico em serem atravessadas passam a tê-lo. Nesses lugares os lojistas e os
proprietários dos negócios procuram manter um sentido da ordem, pois não gostam de
ter clientes nervosos com a segurança. Para mais, a actividade gerada por pessoas nos
seus afazeres ou procurando alimentação e bebida é, em si, uma atracção para outras
pessoas.
6 O diagnóstico de Jacobs constitui um importante ponto de partida para a análise da rua
enquanto lugar físico construído, quer no contexto analítico da cidade industrial, quer no
quadro das mais recentes transformações urbanas, apreendidas sob o conceito de
metropolização (Bassand, 1997; Baptista e Pujadas, 2000). Com efeito, este diagnóstico é
sintomático de algumas das principais mudanças evidenciadas em grande número de
cidades ocidentais a partir da década de cinquenta do século XX: demograficamente,
ultrapassam o milhão de habitantes; o seu edificado perpassa os limites administrativos
que anteriormente continham a cidade e os arredores; os padrões de divisão social do
espaço urbano recompõem-se e acentua-se o crescimento nos arredores que
rapidamente se tornam extensos e complexos territórios urbanizados; um urbanismo
87

rodoviário, fundado na racionalização da circulação motorizada, começa a ganhar


forma3

OS TRAÇADOS NA CIDADE INDUSTRIAL: ENTRE AS LINHAS DE


TRANSPORTE COLECTIVO E A DIFERENCIAÇÃO DOS ESPAÇOS
URBANOS

7 Os traçados urbanos constituem um dos principais suportes do crescimento das cidades


e representam uma parte significativa da atribuição de usos do solo nos territórios
urbanizados. Contribuem para organizar o fazer e o refazer do tecido urbano, bem
como para a instalação de actividades e de populações. Nos períodos de maior
intensidade do processo de urbanização, as cidades concentram mais população e os
núcleos de instalação humana na sua área envolvente multiplicam-se e crescem.
Através da actividade construtiva, baseada em diferentes regimes de loteamento, de
colocação de equipamentos e de edificação, os traçados diversificam-se: quer pela
abertura de novas ruas e largos, avenidas ou praças, resultantes de processos de
expansão – planeada ou não –, quer pela reafectação de antigas vias, travessas e
caminhos ao longo das estradas de acesso e circunvalação à cidade.
8 A cidade ocidental moderna, construída a partir da segunda metade do século XIX,
incorporou de forma deliberada princípios de planeamento urbanístico, de salubridade
e de mobilidade das populações. É a cidade dos Boulevards para a qual Françoise Choay
(1989: 594] identifica uma “hipertrofia da função circulatória da rua”. Cidade que se
transforma também pela criação de edifícios administrativos e bolsas, escolas e
hospitais, mercados, magasins e salas de espectáculo – um edificado especialmente
concebido para albergar actividades “públicas e privadas”, na expressão da autora, que
originalmente se desenrolavam em espaços domésticos, religiosos, militares e nas ruas
da cidade pré-industrial. Cidade das gares de caminho-de-ferro e da estruturação da
circulação e da acumulação organizada de pessoas, informações e bens:
“Dans la ville de la révolution industrielle, la mobilité des personnes, des
informations et des biens prend (...) une place nouvelle et plus importante. La
première nécessité est en effet d’adapter les villes aux exigences de la production,
de la consommation et de 1’échange marchands. Cela requiert un maillage par de
larges vies de circulation desservant notamment les gares et les grands magasins, et
par toute une série de réseaux pour l’eau, 1’assainissement, 1’énergie (gaz,
électricité, vapeur), 1’information (télégraphe, téléphone, pneumatiques).” (Ascher,
2004 [2001]: 19)
9 A partir do binómio Boulevard/Gare, um esquema de circulação urbana será
desenvolvido e manter-se-á durante um longo ciclo de crescimento da cidade – um
esquema fundado nos transportes colectivos: no comboio, nos eléctricos e, mais tarde e
em certos casos, no metropolitano. Presente nas grandes cidades e metrópoles de finais
de Oitocentos, e disseminado mais tarde a cidades de mais reduzida dimensão, este
esquema tende a impor-se a e compor-se com traçados e edificados herdados da “cidade
pré-industrial” (Sjoberg, 1961) ou com modos não planeados de extensão da cidade e de
ocupação dos campos contíguos.
10 O “carácter pedestre” (Jackson, 1987: 20) da cidade nos alvores da industrialização
sofrerá uma contínua erosão. No entanto, as cidades industriais constituem territórios
onde a maioria das deslocações combina o uso de transportes com trajectos a pé, em
88

direcção às paragens, às estações ou às gares. Ora, num contexto dominado pelos


transportes colectivos,
“Les capacités de déplacement des citadins (...) sont, en effet, extrêmement
sensibles à la distance qui sépare le citadin des lignes de réseaux. Les résidents
viennent se coller sur les rives des ‘fleuves urbains’ en voie de constitution, cet
afflux poussant lui-même à élargir les vois et intensifier les débits.” (Bordreuil,
2000: 169)
11 Gradualmente, então, as cidades adquirem uma estrutura que geralmente se descreve
como em dedos de luva. O seu traçado surge fortemente associado às linhas de transporte
colectivo, pois daí decorre o acesso aos locais de trabalho, aos lugares de consumo ou
aos equipamentos de lazer. Segundo a fórmula sagaz de Jean-Samuel Bordreuil (2000:
177), “une bonne partie des zones parcourues étaient résidentielles, et une bonne
partie des zones résidentielles étaient parcourues et/ou parcourables”.

A RUA NUM CASO DE EDIFICAÇÃO NÃO PLANEADA “ÀS PORTAS DA


CIDADE” DE LISBOA-O BAIRRO DO REGO, 1900-1940

12 Em Os transportes públicos de Lisboa entre 1830 e 1910, António Lopes Vieira refere que em
1909 “de um total de 1.995 terminologias topográficas em Lisboa (ruas avenidas,
travessas, becos, etc.) as avenidas e as praças entram apenas por 2 por cento, as ruas e
travessas por 42 por cento e as vilas, casais, escadinhas, becos, páteos, quintas,
boqueirões, caminhos, azinhagas, sítios, por 56 por cento” (Vieira, 1982: 51, nota 57). Na
Lisboa do começo do século XX, a designação rua encontrava-se em posição de destaque
face às raríssimas avenidas e praças e às ainda maioritárias designações associadas ao
universo rural e à cidade préindustrial.
13 Ora, é justamente neste contexto que surgem as Avenidas Novas, designação ainda hoje
em uso, resultantes da exploração da orientação para Norte do crescimento da cidade e
que formam um dos eixos principais de expansão do construído urbano do início do
século XX. Já planeadas no final do século XIX, estas ruas e avenidas ordenarão o
crescimento urbano num território que em finais de Oitocentos apresentava as
características de um “arrabalde rural” – na expressão de Mumford (1964 [1961]: 617) –
nem cidade, nem campo. Com efeito, o território adjacente à linha de cintura
apresentava, sob um fundo de quintas, equipamentos cuja localização era classicamente
periférica: o Hospital do Rego, instalado num antigo convento e destinado ao
tratamento da tuberculose, um Matadouro, uma pista de corridas equestres e algumas
fábricas.
14 Nos seus momentos de ocupação pioneira, as Avenidas Novas constituíram um bairro de
luxo e foram tidas como os novos Boulevards da capital. Nos lotes resultantes do
cruzamento das principais artérias, moradias projectadas por arquitectos e ricos
prédios de rendimento vincavam o seu carácter burguês. As suas avenidas foram
rasgadas por mão de planeador. Afiguravam-se mais largas, longas e funcionalmente
estruturadas. Integrando o ensanche de Lisboa, estas avenidas contribuíram
decisivamente para cunhar a forma do crescimento da cidade e para modelar o ritmo da
sua ocupação: por um lado, através da construção de prédios de rendimento, por outro,
abrindo caminho para a penetração para norte da rede de eléctricos e, mais tarde, de
autocarros e do metropolitano.
89

15 A margem das Avenidas, mas na sua dependência directa, a urbanização da zona aquém
e a\ém-linha de cintura desenvolve-se de modo diferente. Esse território, organizado por
antigos caminhos de saída da cidade – em direcção às zonas da Palma e, mais distantes,
da Luz – e pela linha de caminho-de-ferro de cintura, constituía ainda área de domínio
rural do limiar da cidade, ocupada por edificado improvisado, instalado em quintas e
fornecendo alojamento a uma população sobretudo operária. A relativa proximidade ao
apeadeiro do Rego e às linhas de eléctrico conferiam a este território a possibilidade de
ocupação residencial no contexto de crescimento da Lisboa de inícios de Novecentos.
16 E aí que num lapso de cerca de trinta anos é edificada uma série de bairros, contíguos às
Avenidas, que no seu conjunto dará forma a um recorte físico que ainda permanece no
essencial. Os seus nomes perderam-se nas sucessivas reclassificações urbanas
entretanto ocorridas – Bairro Bélgica, Bairro Santos, por exemplo – tendendo com o
tempo para uma designação unitária, em uso nos dias de hoje: o Bairro do Rego.
17 Os principais actores que dimensionaram o edificado deste bairro com a construção dos
seus bairros particulares foram construtores que transformaram terrenos seus, ou por si
adquiridos, em zonas de intensa edificação residencial. Esta maneira de construir
estava generalizada na cidade dos anos 20 e 30, e mesmo na cidade posterior, e é
reveladora do desordenamento urbano apontado por José-Augusto França (1997 [1980]:
84) que nos indica a esse propósito os exemplos do Bairro Brás Simões e do Bairro
Andrade.
18 O Bairro do Rego é construído na sua grande parte entre os primórdios dos anos 10 e o
final dos anos 30. Implanta-se então numa área dependente de um espaço central – as
Avenidas Novas, que são planeadas pelas autoridades municipais – distinto das
implantações vizinhas não planeadas. Mas esta diferenciação ao nível do espaço físico –
planeado vs. não planeado – sobrepõe-se a uma diferenciação socioresidencial.
19 Resultante de investimento privado realizado com base em planos particulares de
arruamentos e edifícios, o Bairro do Rego exemplifica um modo de fazer cidade: baseado
em investimentos fundiários de reduzida escala, na edificação de modestos prédios de
rendimento e na orientação para o alojamento das classes populares. A rua, para estes
protagonistas, surge neste contexto como suporte de investimento ao oferecer uma via
para o loteamento e uma sequência para a regulação da intensidade do investimento
construtivo. Papel fundamental parece ter sido desempenhado pelos poderes públicos,
autorizando os pedidos de abertura de ruas e participando na implantação das redes
básicas que, seguindo os traçados projectados das ruas, reforçaram as possibilidades de
ocupação duradoura daquele recém-edificado território urbano4
20 Mas os principais protagonistas foram sobretudo os construtores – quer os construtores
de bairros, quer os construtores de edifícios. Se a acção dos primeiros se baseava numa
organização em rede que tornava possível investimentos de maior escala, a acção dos
segundos era sobretudo marcada pela reduzida escala de edificação, na qual se
associava a construção do prédio à residência, à abertura de um negócio a ser instalado
na loja e ao arrendamento dos andares superiores. Deste ponto de vista, a rua é o lugar
estratégico para o investimento económico dos grupos sociais que participam na
edificação da cidade nova.
21 A partir da segunda metade do século XX muito do edificado das Avenidas Novas será
renovado e uma forte ocupação terciária aí terá lugar. Mas também a zona envolvente
ao Bairro do Rego se foi progressivamente alterando com a instalação de serviços
90

públicos e privados – um grande hospital, instituições de ensino superior, edifícios de


escritórios, hotéis. Uma série de vias de circulação rápida foi sendo aberta em seu redor
– num caso, atravessando o bairro em viaduto, num outro, em túnel – contribuindo
para a manutenção das características de relativa insularidade urbana que desde a
origem apresentava.

OS TRAÇADOS NAS METRÓPOLES CONTEMPORÂNEAS: ENTRE AS VIAS


DE CIRCULAÇÃO AUTOMÓVEL E A PLURALIDADE TERRITORIAL

22 Desde o início do século XX, em textos urbanísticos importantes e em realizações


pioneiras, começam a surgir esquemas de “separação do habitat e do tráfego”
(Charmes, 2000: 56). Será, no entanto, nas realizações europeias e norteamericanas
subsequentes à Segunda Grande Guerra Mundial que se intensificará uma separação
entre as redes infra-estruturais de abastecimento e comunicação, as vias de tráfego e o
edificado urbano (Gourdon, 1997). Novos regimes de zonamento adquirirão importância
crescente e a separação de funções tornarse-á uma premissa urbanística. Daí em diante,
a circulação automóvel será progressivamente constituída como objecto de acção
racional. Na disciplina e na prática do Urbanismo, uma hierarquia de vias começa a
impor-se, articulando vias principais, vias secundárias e vias de acesso aos edifícios.
23 Ao longo das vias de circulação automóvel, os territórios residenciais metropolitanos
são primordialmente constituídos por grandes conjuntos residenciais em altura ou por
loteamentos de habitação unifamiliar – ambas as formas variando no seu gabarito e na
sua destinação social. Da sua edificação resulta uma forte segregação dos usos do solo.
Porque o uso residencial é predominante e tende a ser concentrado. Porque a
atribuição de espaço às vias de circulação tende a ser racionalizada. E porque, quando
existem, os comércios ou os serviços tendem a ser agregados.
24 Além do mais, os subúrbios metropolitanos caracterizam-se, de há décadas a esta parte,
por uma forte e crescente pluralidade territorial (Stébé, 1999). A clássica localização de
indústrias e de residência – tanto operária, quanto burguesa – tem vindo a ser desafiada
por novos usos do solo e actividades: de novas estruturas produtivas industriais e de
distribuição (hubs, complexos logísticos, aeroportos, por exemplo) a parques de
escritórios e de back-office , de sedes de grandes empresas e campus universitários a
laboratórios e explorações agro-industriais de ponta, passando por grandes centros
comerciais e por empreendimentos turísticos e de lazer.
25 A relação entre os territórios residenciais metropolitanos e as vias de circulação é
analisada por Jean-Samuel Bordreuil (2000) através da figura da separação, em contraste
com a cidade industrial em que as vias de circulação – avenidas e ruas, sobretudo – e
“plaques residentielles” se articulavam em justaposição. Consequência maior desta
transformação, à qual se associa o forte incremento do volume e do uso das deslocações
em automóvel, é a independência dos urbanitas usuários de automóvel relativamente às
linhas de circulação.
26 Este esquema de crescimento, presente nas grandes cidades e metrópoles ocidentais,
pressupõe a separação das vias de circulação dos espaços residenciais e o uso
generalizado do automóvel como meio de deslocação. Todavia, importa sublinhar que
estas transformações recentes se situam em tensão com os territórios, os traçados
91

urbanos e os meios de deslocação herdados do esquema de crescimento e de


organização da circulação da cidade industrial.

A RUA COMO REINVENÇÃO URBANÍSTICA NUM CASO DE


URBANIZAÇÃO PLANEADA EM LISBOA: O BAIRRO DE OLIVAIS SUL,
1959-1969

27 No final dos anos cinquenta do século XX, após a edificação do Bairro de Alvalade, o
crescimento de Lisboa havia já ultrapassado a antiga linha férrea de cintura e começava a
atingir locais outrora tidos como periféricos. O entendimento governamental
relativamente ao crescimento da cidade era fundado numa escala regional (Baptista,
1999) e numa organização da cidade em malhas resultantes da abertura e do
cruzamento de grandes vias de circulação projectadas e em construção. É para esta
malha urbana em devir que o governo orienta então a edificação de Habitações de Renda
Económica, regulando a sua construção a partir do decreto-lei n. o 42 454, de 18 de Agosto
de 1959.
28 Nesse texto legislativo, os espaços intersticiais às vias de circulação eram tidos como
particularmente adequados à construção de “unidades urbanas” e à regulação do
crescimento demográfico da capital e dos seus concelhos vizinhos. O decreto-lei
fundador, e a regulamentação subsequente produzida pelo Ministério das Corporações
e Previdência Social não só definia as regras de agenciamento dos capitais originários
das instituições públicas convocadas à participação no programa habitacional, como
estabelecia as proporções de cada uma das diferentes categorias de habitações a serem
construídas em cada agrupamento e os montantes máximos e mínimos de renda a
cobrar5
29 Estas habitações viriam a ser distribuídas por “categorias populacionais construídas
administrativamente” (Baptista, 1999), a partir da elaboração de critérios de selecção.
Os critérios mais influentes na “construção social das populações” (Chamboredon, 2001
[1985]) eram: a pertença de pelo menos um dos membros do agregado doméstico ao
regime de quotizações para uma Caixa de Previdência; o rendimento familiar; o (maior)
número de filhos; a (maior) idade dos candidatos; a presença de ascendentes a cargo do
agregado; a inexistência de registo de doenças infecto-contagiosas; e um critério de boa
conduta cívica ou moral. A Câmara Municipal de Lisboa era reservada uma
percentagem de 30% do total a construir a cada ano destinada a realojar populações
residentes em bairros de lata ou em regime de parte de casa.
30 Contudo, o decreto-lei n.° 42 454/59 era omisso relativamente à forma desejada de
cidade ou a critérios específicos de planeamento – à excepção de um principio de não
segregação das categorias habitacionais e da presença da tríade “mercado, igreja e
escola”, prevista para cada unidade. Assim, a Câmara Municipal de Lisboa e, mais tarde,
o Gabinete Técnico de Habitação, organismo criado na dependência da presidência do
município para dirigir a programação e o planeamento da edificação, dispuseram de
uma considerável margem de manobra. Uma vez definidas, por parte da CML, as malhas
para edificação das habitações de renda económica – Olivais Norte, Olivais Sul e Cheias –,
os trabalhos de preparação do plano de Olivais Sul iniciaram-se logo em 1960. A malha
de Olivais Sul era formada por um trapézio com cerca de 186 hectares, delimitado por
três grandes vias de circulação automóvel: a Segunda Circular, a oeste; a Avenida de
92

Berlim, a norte; a Avenida Marechal Gomes da Costa, a sul; e, em direcção ao Tejo,


encontrava-se um denso complexo de fábricas e equipamentos portuários.
31 A equipa de urbanistas ao serviço do GTH era composta pelos arquitectos José Rafael
Botelho, Carlos Duarte, Celestino de Castro, António Freitas e Mário Bruxelas. No plano,
uma hierarquia de vias de circulação seria proposta: as vias principais de
atravessamento da malha e de distribuição dos fluxos de tráfego desdobravam-se em
vias locais de acesso ao interior e em acessos aos estacionamentos que, por fim, se
cruzavam com a rede de caminhos pedonais. Vincando as vias de circulação mecânica,
isolando-as das zonas de ocupação habitacional intensiva, o plano previa a existência de
faixas arrelvadas, zonas arborizadas e passeios procurando separar e normalizar dois
regimes de mobilidade; o automobilístico e o pedonal. Tomada sob outro ângulo, a
disposição das vias formava regiões isoladas – quase enseadas – para a implantação de
habitação, zonas protegidas do tráfego mais intenso.
32 O olhar dos urbanistas estava orientado para a experiência britânica das New Towns e
para as realizações escandinavas, ambas bem conhecidas da equipa. A sua principal
referência era a unidade de vizinhança. Os pressupostos urbanísticos e sociológicos deste
escalão de planeamento são sintetizados por Peter Rowe (1995: 201):
“At the core (of the neighbourhood unit) was the idea of a cohesive community that
was large enough to support and enjoy transactions over a local array of
community Services and non residential functions, and yet small enough for
inhabitants to have a real sense of belonging to a particular neighbourhood. In
addition to size, functional composition, and mix, however, there were also
considerations of the manner in which particular spatial arrangements of dwellings
and other uses could support the community idea.”
33 No plano de Olivais Sul, a vizinhança constituía assim uma categoria operatória:
demográfica e ecológica, urbanística e sociológica. No futuro quotidiano da população
residente, a centralidade conferida à escola e o posicionamento dos comércios no
perímetro da unidade de vizinhança promoveriam uma organização dos percursos e dos
possíveis cruzamentos das órbitas dos urbanitas no espaço exterior à habitação. A
promoção do interconhecimento entre habitantes e a abertura da escola a actividades
locais, previstas pela equipa, procuravam facultar à futura população residente um
modo de inserção espacial de raiz vicinal.
34 Daí que a rua e a praça tenham surgido, com frequência, como “spatial arrangements”,
na expressão de Rowe, destinados a articular os espaços domésticos e o espaço exterior,
tido como de interacção e comunicação interpessoal. A equipa de urbanismo procurou
recriar na cidade nova espaços físicos que a aproximassem de formas urbanas presentes
na cidade antiga – ruas e praças. Consequentemente, os espaços exteriores do grande
conjunto residencial de Olivais Sul foram objecto de estudo e pormenorizada atenção. A
sua concepção decorreu em articulação estreita com o trabalho de concepção do
edificado residencial, traço exemplarmente expresso na organização de alguns sistemas
distributivos dos edifícios: a presença de galerias, de patins-rua e de espaços de
permanência no interior do prédio, em certos casos dotados de empedrado, de amplas
varandas ou mesmo de assentadeiras. De entre as diversas propostas, são de destacar as
previstas para as Células B e C do plano de urbanização.
35 Do arranjo das praças ao uso do empedrado em calçada portuguesa, de uma profusão de
relevos à presença de jogos de água, de conjuntos de mobiliário urbano a espaços para
recreação infantil e juvenil: um considerável número de estudos e realizações foi
tentado. Muitos não foram mantidos, sofrendo alterações levadas a cabo pela Câmara
93

Municipal de Lisboa. Outros foram recuperados e transformados pelos residentes seus


utilizadores (André, 2004).
36 Passados cerca de trinta anos sobre a concepção de Olivais Sul, Nuno Portas reaprecia a
experiência arquitectónica e urbanística tornada possível por este vasto programa.
Destacando o facto de as casas de Olivais Sul terem “vestido bem os modos de vida das
populações de primeira geração” – famílias relativamente numerosas e pobres, de
origem rural ou de bairros de lata, e outras com características mais urbanas e um
pouco menos desmunidas – Nuno Portas sublinha que:
“A tentativa de recriar ruas e quarteirões (...) – imagens tradicionais de
sociabilidade ou vizinhança em espaços comuns protegidos evitando o contraste
entre torres e blocos dispostos livremente no verde (...) – tinha muito de retórica
neorealista a que também a passagem do tempo terá reduzido o sentido: a Anna
Magnani não está mais no pátio gesticulando mas no trabalho ou em casa diante da
TV e o filho do ladrão de bicicletas gasta o tempo com algum jogo electrónico se é
que não prefere andar com os outros por outros lugares que não os da vizinhança
obrigada.” (Nuno Portas, na introdução a Portas e Torres, 1995: 9)
37 O bairro de Olivais Sul desde cedo enfrentou o clássico atraso na instalação de
equipamentos. O centro cívico-comercial principal não foi concluído. Alguns
equipamentos previstos, como as bibliotecas, não foram realizados. Os mercados,
provisórios na origem, adquiriram carácter definitivo e ainda hoje se encontram em
funcionamento. As ruas e quarteirões do bairro constituíram um território
predominantemente residencial. Nos anos 90 um centro comercial foi projectado e
edificado, substituindo o antigo Pão de Açúcar. Com a Exposição Mundial de 1998, o
grande conjunto residencial de Olivais passou a dispor de uma estação de
metropolitano e ficou a mais curtas distâncias-tempo e custo dos espaços centrais da
cidade. Na sua vizinhança situa-se agora um território residencial de elevado escalão,
polvilhado por sedes de grandes empresas, uma gare de caminho-de-ferro, hotéis e
equipamentos lúdicos e culturais de grandeza nacional.

MODOS DE CONCEBER RUA

38 Apreendidos à escala da cidade ou da aglomeração, os traçados urbanos apresentam-se


como resultado histórico de uma vasta gama de processos de fazer cidade. Apreendidos
a uma escala mais reduzida, a do bairro, por exemplo, revelam a tensão entre a
capacidade dos grupos em agir no espaço urbano e os constrangimentos (e
oportunidades) específicos que os agentes implicados na actividade construtiva
enfrentam (e tomam para si). A articulação das escalas evidencia o carácter dual dos
traçados: exercem efeitos modeladores e são objecto de modelação.
39 Enquanto lugar físico construído, os traçados, e especificamente as ruas, surgem
intimamente associados a operações materiais concretas de construção da cidade e dos
territórios urbanizados. Diferentes modos de conceber rua encontram-se aí em jogo:
seja em processos reconhecidos pelas instâncias de planeamento, seja naqueles cuja
legalidade e reconhecimento pelos poderes públicos urbanos é variável e em certos
casos mesmo objecto de sanção negativa.
40 Consequentemente, a rua pode ser entendida como referente da acção social. Pelo facto
de integrar os processos de concepção e materialização do edificado urbano, a rua
constituiu uma referência significativa para os agentes e grupos intervenientes na
94

produção do território. Na edificação dos bairros que compõem o Bairro do Rego, os


loteadores e os construtores foram solicitando ao município de Lisboa a abertura de
ruas, organizando traçados e regulando o investimento construtivo lote a lote. A trama
de ruas representa assim um complexo processo pautado pela obtenção de autorização
administrativa e pela racionalização de investimento económico, suportado por redes
de colaboração e de financiamento e materializado em alojamentos destinados às
camadas populares urbanas. No planeamento de Olivais Sul, protagonizado por uma
equipa especializada e sob regulação pública, a rua surge como referente da acção
urbanística. A recriação erudita das formas urbanas tradicionais tinha como referência
significativa a redução das desigualdades sociais através da qualificação das condições
de apropriação do espaço exterior à habitação por forma a favorecer os agregados
familiares que menores condições de mobilidade dispusessem.
41 Dois aspectos surgem como centrais. Em primeiro lugar, o da pluralidade de sentidos –
económicos e urbanísticos, sociais e estéticos, por exemplo – atribuídos à rua enquanto
lugar físico em vias de construção. Em segundo lugar, o das relações jurídicas,
financeiras e técnicas que impendem sobre as operações concretas de edificação nas
quais a ruas são ou poderão ser material e simbolicamente criadas e recriadas.
42 Os modos de conceber rua incorporam inevitavelmente a dimensão de circulação e a
possibilidade de convivência, mas o resultado desta evidência formal são traçados e
vivências díspares e até contrastantes. A rua enquanto marca temporal (quando foi
edificada) e marca social (quem e para quem edificar) abre espaço à convivência e à
circulação, mas ajuda a definir uma nova fronteira entre os lugares de antes e os de
agora, dos lugares de uns, aquém, e de outros, além. Dizíamos noutra ocasião que “a
edificação de fronteiras, marcas de separação dos lugares e das condições sociais que
estão associadas aos seus usos, é um traço incontornável da vida social”:
“Não há sociedades humanas isentas de marcações de territórios, de definições de
lugares privilegiados e de sítios periféricos, como não há cidades onde não
coexistam populações e não há cidades em que não se reconheçam zonas de
separação dos lugares a que pertencem uns e outros (...). Mesmo os espaços
públicos, aparentemente menos comprometidos nesta lógica de apropriação, estão
largamente sujeitos às flutuações e à definição de usos mais convenientes que
resultam do tipo de interesses que podem orientar as intervenções públicas dos
arquitectos, dos políticos ou dos moradores.” (Cordeiro e Baptista, 1999: 79)

Discussão e conclusão
43 Na recensão a The death and life ofgreat amerícan cities, Herbert Gans (1972 [1962])
reconhece perspicácia à forma como Jane Jacobs apreende a vida das ruas, mas sublinha
que a sua crítica ao urbanismo incorre em dois equívocos. Primeiro, no que Gans
designa como a “falácia física”, o pressuposto de que o desenho das formas construídas
determina condutas urbanas e sociais:
“Mrs Jacobs (...) demands that middle-class people adopt working-class styles of
family life, child-rearing, and sociability. The truth is that the new forms of
residential building – in suburb as well as city – are not products of orthodox
planning theory, but expressions of the middle-class culture which guides the
housing market (...). But middle-class people, especially those raising children, do
not want working-class-or even Bohemian – neighbourhoods. Not all their social
life involves neighbours, and their friends may be scattered all over the
metropolitan area, as are the commercial and recreational facilities which they
95

frequent. For this, they want a car, express ways, and all the freedom of movement
that expressways create when properly planned.” (Gans, 1972 [1962]: 35-6)
44 Segundo, no que Gans considera ser o limite da análise aos padrões ecológicos urbanos –
no sentido de concentração de populações e instituições. Reconhecendo as
transformações ocorridas no povoamento, nas actividades e na procura social – ou no
abandono – da residência nos bairros históricos, onde as populações residentes e
visitantes – em especial de turistas – recriam nas suas actividades diárias novos padrões
de vida na rua, Gans defende que o foco da interrogação sociológica deveria incidir na
constituição e expansão do mercado de compra de casa própria, na concentração de
oferta de trabalho e de serviços nos subúrbios e na importância que o uso do automóvel
exerce na organização do estilo de vida. Processos que indiciam a emergência da forma
espacial metropolitana.
45 Ora, este plano de transformação da escala e de alteração de modos de vida, a que alude
Gans, vimo-lo analisado nas formas distintas como os traçados realizam funções de
coordenação da forma urbana e metropolitana. Intimamente relacionados com a
circulação e com a diferenciação social do território, as vias e os meios de deslocação
configuram acessos e influem no modo como a extensão das urbes produz e reproduz
desigualdades sociais. Intimamente relacionados com a edificação, os traçados
constituem também um elemento central nos processos económicos e urbanísticos de
expansão dos territórios urbanizados e nas condições de instalação e convivência das
populações. Esta conclusão é convergente com a análise de Mimi Sheller e John Urry
(2000). Os autores salientam que se as consequências da urbanização conduzem à
intensificação dos habitats humanos e à concentração dos lugares no espaço, já os
processos de automobilização acarretam a extensão e a dispersão de habitats e lugares e a
possibilidade de constituição de sociabilidades extralocais. Os dois processos, de
urbanização e automobilização, “são em conjunto característicos da modernidade e da
cultura das cidades” (2000: 742).
46 Finalmente, as duas operações concretas de materialização do edificado urbano
convocadas para análise evidenciam as sucessivas moldagens que os traçados e os
espaços urbanos das novas zonas urbanizadas vão sofrendo. Quem promove e edifica? A
quem se destina o habitat edificado? – são questões pertinentes para compreender como o
efeito rua funciona num contexto social específico: seja a rua residencial, de comércio,
de lazer ou de trabalho. A resposta a estas questões contribui para interpretar a cidade
nas suas múltiplas dinâmicas: (1) dá a conhecer as teias de relações e de interesses nas
quais os agentes implicados no fazer da cidade se posicionam e actuam; (2) restitui os
significados que esses mesmos agentes atribuem à rua, evidenciando o sentido
conferido às suas próprias práticas de apropriação da cidade.
96

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NOTAS
1. O caso baseia-se em investigação original (Baptista, 1987 e 1994) sobre o crescimento urbano e
a coexistência socioresidencial, realizada na 2.a metade da década de 1980.
2. O caso baseia-se em investigação original (Nunes, 2000, 2001, 2003 e 2007) sobre a
programação, o planeamento e a arquitectura de Olivais Sul, realizada no final da década de 1990.
3. Um importante segmento de análise, que não cabe no presente texto, levaria em linha de conta
casos em que as mudanças no edificado, no povoamento e no valor social e urbano dos territórios
se fundassem em processos de gentrification ou na mudança radical de usos e actividades,
98

transformações contemporâneas às referidas, sublinhe-se. Ver, por exemplo, respectivamente os


trabalhos de E. Charmes (2005) e M. C. Boyer (2004).
4. Segue-se aqui o argumento de Jean-Loup Gourdon (2001: 119-151).
5. Tratava-se de uma forma de investir os capitais resultantes das quotizações patronais e dos
trabalhadores para o esquema instituído pela esfera da Corporações e Previdência Social à época
em vigor. Sublinhe-se que este não era um esquema universal: era apenas acessível a operários
sindicalizados, empregados administrativos e quadros e dirigentes.

AUTORES
JOÃO PEDRO SILVA NUNES
Sociólogo, Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE, bolseiro de pós-
doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

LUÍS VICENTE BAPTISTA


Sociólogo, Departamento de Sociologia da FCSH-UNL, cesNova – Centro de Estudos de Sociologia
da UNL.
99

Capítulo 7. Espaços, marcas e


símbolos num bairro de habitação
social em lisboa
Monica Farina

1 Com o objectivo principal de evidenciar as relações que se verificam entre morfologia


do espaço e práticas de vida quotidiana dos habitantes num bairro de habitação social,
tenta-se avaliar em que grau os espaços, imediatamente exteriores à habitação
particular, se apresentam como portadores de valores de sociabilidades e facilitadores
do desenvolvimento de identidades territoriais. O estudo de caso que aqui se apresenta 1
desenvolveu-se durante um período prolongado, de cerca de um ano, nos espaços
públicos de um conjunto de habitação social existente em Lisboa, no Bairro da
Flamenga de Cheias, denominado Matriz H.
2 O estudo baseia-se na tese, segundo a qual um bairro de habitação social é o lugar de
encontro entre a cultura de arquitectos e urbanistas, que projectaram as urbanizações e
que previram a organização espacial das habitações, e a cultura dos habitantes reais
destes espaços, fruto de práticas sociais quotidianas e de um espaço polissémico,
relacional, organizado segundo mapas mentais e fronteiras de significado. Este
encontro define o carácter singular e distintivo do “lugar”2, admitindo, como
pressuposto, que existe uma relação entre espaço construído e as culturas específicas
que o produzem.
3 Parte-se da análise das razões que levaram à concepção de um determinado espaço por
parte de urbanistas e arquitectos, no que diz respeito sobretudo à produção de
habitação social. Estes actores foram, histórica e institucionalmente, os porta-vozes,
por um lado, de uma cultura humanista e, por outro, de uma cultura racional e
funcionalista dominante. Não podemos esquecer que implícito ao projecto de cidade
está um projecto mais vasto de sociedade3.
4 Mas o que se pretende compreender, numa sucessiva abordagem ao problema, mais
próxima da realidade vivida, é quais são os padrões culturais dos habitantes dos bairros
sociais, quais as marcas definidoras da sua própria actuação no espaço, as estratégias de
100

afirmação do seu imaginário, ou seja, como acontece a interacção com os modelos


espaciais impostos, num contexto social onde, em muitos casos, o estigma da pobreza e
da exclusão é mais difícil de modificar do que melhorar as condições físicas do espaço
envolvente.
5 O que se verifica é que a margem de acção e de afirmação dos padrões culturais da
população realojada é bastante reduzida e que os destinatários da habitação social são
submetidos a um processo de aprendizagem ou aculturação promovido pelo poder
instituído no intuito de uniformizar os comportamentos e as necessidades (Signorelli,
1996: 61).
6 Nesta perspectiva, parece significativo estudar o fenómeno urbano à luz do
compromisso “entre a individualização e a inserção em categorias mais amplas”, entre
a fragmentação individual e a totalização social que existe nas modernas sociedades
complexas (Velho, 1987: 25).

O PROJECTO DA MATRIZ H

7 O Bairro da Flamenga, construído no âmbito do Plano de Urbanização de Cheias 4, é uma


urbanização recente formada por edifícios de habitação e equipamentos sociais
destinados ao movimento cooperativo e ao realojamento de pessoas sem recursos,
ainda há escassos anos completamente isolada do centro tradicional da cidade e que só
a partir de 1998 ficou ligada às grandes artérias urbanas e à linha do metro. As razões
deste carácter de área marginal encontram-se, em parte, nas grandes distâncias que
separam o centro da periferia e na fisiografia muito acidentada deste território, que
não favorecem a circulação de peões entre novas áreas de expansão e o centro citadino.
As vias principais que conduzem ao Bairro da Flamenga possuem as características das
estradas das cidades modernas, onde se perdeu o valor urbano e social da rua,
tornando-se em vias transportadoras dos fluxos motorizados em detrimento dos fluxos
mais lentos de peões e bicicletas. Assim, as acessibilidades, construídas recentemente
para Cheias, pouco contribuíram para fazer sair do isolamento do continuum da malha
urbana mais consolidada, no qual ficou confinada esta área da cidade durante décadas.
Mas a escassa visibilidade dos bairros de Cheias está, também, ligada à questão do
estigma que, até agora, persiste de “guetos” de habitação para o realojamento de
populações socialmente excluídas.
8 A passagem de carro feita pelo prolongamento da Av. dos Estados Unidos da América, a
partir da qual a vista abrange, num só olhar, o Bairro da Flamenga, o Bairro do
Armador, o Bairro do Condado, o Bairro do Alfenim e o das Amendoeiras, deixaria uma
imagem fugaz do edifício da Matriz H e dos outros circundantes como mais uns
fragmentos da paisagem urbana da periferia de Lisboa. Não passaria, todavia,
despercebida ao olhar, atento e sensível aos valores paisagísticos, a vista destas
urbanizações ordenadamente poisadas no topo de colinas, envolvidas pelos amplos
espaços arborizados do Parque da Bela Vista e do Parque do Vale Fundão, pelas hortas
urbanas do Vale Central, tendo o rio Tejo como pano de fundo.
9 A Matriz H5 (Figura 1) é um dos edifícios figurativamente mais atípicos do bairro, sendo
um marco no âmbito das experimentações arquitectónicas realizadas em diferentes
áreas de Cheias, como no Bairro do Condado (Zona J), no Bairro dos Lóios (Zona I) ou no
Bairro do Armador (Zona M). Foi construído em dois blocos paralelos de edifícios (Bloco
101

A e B) para realojar as populações anteriormente residentes no Bairro das Casas Pré-


Fabricadas de Cheias, o extinto “Bairro do Relógio”, e famílias vindas de bairros
clandestinos igualmente localizados em áreas de Chelas 6

Figura 1 – Fachada da Matriz H do lado da Rua Rui Grácio, 2000

(fotografia da autora).

10 A denominação de edifício “Matriz” vem do facto de se tratar de um “projecto tipo”,


cujo requisito principal consiste numa maior versatilidade, que possibilitava uma
melhor resposta quanto a percentagens tipológicas recomendadas e a um maior
número de situações urbanas, nomeadamente os condicionamentos urbanísticos
expressos nos planos (Rodrigues, 1986: 227). O projecto da Matriz H é o resultado da
reflexão sobre os temas debatidos no âmbito do Gabinete Técnico de Habitação (GTH) 7
da Câmara Municipal de Lisboa, responsável pela expansão urbana de Olivais e Cheias:
procura de normalização do processo construtivo e de tipos de projectos que
apresentassem características de funcionalidade, economicidade e flexibilidade.
Actuando no planeamento e construção de novas urbanizações, o GTH desempenhou ao
longo da sua existência a função de “laboratório de tipologias”, praticando a
experimentação do interclassismo, das unidades de vizinhanças, dos edifícios colectivos
em galerias, facto que se traduziu num contributo efectivo na elaboração de parte da
normativa actualmente em vigor sobre habitação social.
11 A ideia forte do projecto da Matriz H, devedora do profundo comprometimento político
da arquitectura daquele período, é a de “levar o espaço da rua até aos pisos mais altos
do edifício” (Cerejeiro, 1980: 7).
12 A preocupação de criar espaços para uma vida comunitária onde se pudessem recriar
relações de vizinhança, manifestações de sociabilidade e modalidades de associativismo
características da “cidade tradicional” imaginada, mostra que a carga ética do
arquitecto era mais importante do que a tecnologia do plano. A ideologia enforma todo
o sistema de percursos interiores e de acesso às habitações, articulados através de
102

galerias e pontes, que dariam origem a uma variedade de ligações a diferentes níveis
entre edifícios e, por conseguinte, a todo o tipo de possibilidades de circulação e de
encontro entre os habitantes deste conjunto.
13 O espaço da rua central, destinada à circulação pedonal, não é estranho a esta filosofia.
Além de dar continuidade às “faixas centrais de vida urbana intensa”, preconizadas
pelo Plano de Urbanização de Cheias, seria, nas intenções do projectista, um espaço
destinado às relações sociais ligadas tradicionalmente à rua, como acontece nos bairros
históricos da cidade. A referência às vilas e pátios da cidade de Lisboa, cujas soluções
arquitectónicas, pela forma de associação dos fogos, expressam bem o espírito de
espaços comunitários, aparece claramente na organização dos acessos às habitações.
Havia uma forte intencionalidade em propor, numa linguagem arquitectónica moderna,
todos aqueles valores de vida ainda identificáveis nos bairros populares da cidade, de
dar suporte material àqueles contextos, nos quais ocorre a referida densificação de
laços sociais e formas simbólicas, envolvendo especificidades culturais que, de algum
modo, resumem os conteúdos da imagem mais habitual e mais divulgada de bairro
popular (Cordeiro e Costa, 1999: 59-79).

Os habitantes
14 As populações realojadas na Matriz H podem, de facto, ser enquadradas nas camadas
populares. Ilustram os processos demográficos que estiveram na base do crescimento
populacional da zona oriental da cidade, no início do século XX. Nascidos
maioritariamente no Concelho de Lisboa e, também, oriundos dos PALOP, os habitantes
da Matriz H pertencem às categorias de “assalariados menos providos de recursos
económicos, qualificacionais e organizacionais” (Costa, 1999: 226). O grau de
escolaridade médio é a antiga 4,a classe 8. Os rendimentos médios dos agregados
denunciam um quadro de relativa pobreza, cujas razões se encontram representadas no
tecido socioprofissional, formado sobretudo por serventes, operários da indústria, ou
de oficina, que trabalham nas imediações da área de Cheias, por trabalhadores ligados à
construção civil e alguns vendedores ambulantes (que continuam as suas actividades
ligados à feira dominical do “Relógio”), num regime de trabalho precário, informal e
marginal. Aparecem empregados e empregadas de estabelecimentos comerciais e de
serviços de limpeza com a sede de trabalho no centro da cidade, com a qual existe esta
relação económica de dependência, pois o Bairro da Flamenga não oferece, por
enquanto, oportunidades de emprego como estava previsto no Plano de Urbanização de
Cheias. Do conjunto das profissões da população da Matriz compreende-se que o
universo das camadas populares é amplo, variado e heterogéneo com uma grande
segmentação profissional entre os homens em contraste com a situação bastante
homogénea das mulheres.
15 O tipo de família predominante é o agregado familiar simples, formado pelo casal dos
pais, prevalentemente jovens, ou mães solteiras, ou divorciadas, e pelos filhos solteiros
(de 1 a 9). Em alguns casos os filhos, que constituem um novo núcleo familiar, ficam a
residir na mesma casa dos pais, pelo que o número de famílias alargadas é bastante
significativo, com a presença de outro parente ou de afilhados e netos. Deste retrato
esquemático resulta uma imagem em parte ligada ainda aos problemas sociais que
caracterizam as classes populares nas suas estratégias de integração nos sistemas
organizacionais e de valores impostos pelas culturas hegemónicas da sociedade
103

contemporânea e mostra a necessidade de unir “forças” para fazer frente às despesas


que a vida citadina impõe às famílias. Em muitos casos a mudança das condições de
habitat proporcionadas pelo processo de realojamento implica um aumento
considerável das despesas correntes de manutenção da casa. Neste aspecto, a tentativa
de reconstruir laços identitários, para melhor enfrentar os problemas inerentes à
adaptação a um novo estilo de vida, aparece no surgimento de grupos locais, que não
são bem colectividades, mas definem “pontos de apoio para modos de vida e estratégias
de influência” (Costa, 1999: 81), como os que se constroem em volta do Centro Social
Polivalente e dos equipamentos da Santa Casa da Misericórdia, o “grupo de costura”, a
associação guineense, a AMI, o minimercado, o cabeleireiro e os cafés. A vida colectiva
do bairro desenvolve-se em grande parte em redor destes ambientes que se tornaram
cada vez mais nos pontos de sociabilidade dos habitantes, mas, também, em locais onde
se pode encontrar apoio e assistência.
16 Patamares de escadas, galerias, pequenos largos tornaram-se, igualmente, pontos
habituais de permanência e de convívio, encontro e interacção entre vizinhos e
habitantes do resto do Bairro da Flamenga. A sua observação revelou uma riqueza
imprevista de situações diferentes, de modalidades de uso e de interacção por vezes
bastante originais.

A RUA CENTRAL DA MATRIZ H

17 Delimitada pelas fachadas interiores dos edifícios, a rua central da Matriz H apresenta-
se como uma rampa comprida e larga, inclinada no sentido descendente em direcção à
Rotunda da Bela Vista (Figura 2). A partir da rua central tem-se acesso ao “coração” da
Matriz H. Entra-se num ambiente doméstico, familiar e aparentemente sereno: vêem-se
crianças a jogar em grupo, a andar de skate ou de bicicleta, aproveitando o desnível
acentuado e as características favoráveis do piso, sem obstáculos pelo meio; ouvem-se
as vozes das suas brincadeiras; vêem-se mulheres, solitárias, debruçadas às janelas ou,
formando pequenos grupos, apoiadas nas guardas dos patamares das escadas, abertos
para a rua, como se fossem varandas, a falarem entre elas, enquanto controlam
discretamente a “entrada” de algum estranho na Matriz.
104

Figura 2 – Imagem da rua central da Matriz H, 2000

(fotografia da autora).

18 Directamente ligada a esta rua pedonal, encontra-se a galeria do rés-do-chão esquerdo,


com os cafés, onde flúi a vida dos homens, alguns ocupados a jogar às cartas, outros à
espera de alguém ou entretidos a observar a passagem na rua da Matriz, apoiando-se
nas guardas das galerias, a partir de uma posição mais alta, como convém quando se
quer observar sem ser observado9.
19 E o quotidiano de uma rua de bairro popular, talvez seria melhor falar de um pátio ou
de um logradouro aberto para o exterior: as brincadeiras infantis, as actividades das
mulheres domésticas, a espera dos idosos ou dos homens desempregados, o desenrolar
familiar e previsível da vida dos cafés e do comércio local onde se reúnem sempre as
mesmas pessoas e, por fim, a actividade dos gabinetes técnicos ou de algumas
associações de bairro.
20 Sobretudo reconhecem-se as qualidades espaciais e sociais própria de um “enclave”, ou
seja, de um espaço interior aberto para o exterior, no qual a sensação de posição ou de
identificação com aquilo que rodeia o observador e o habitante é mais imediata e eficaz,
englobando todos os significados do “aqui”; um espaço sossegado e tranquilo, do qual
ficam excluídos o ruído e o ritmo apressado da comunicação impessoal (Cullen, 1971:
27).
21 O tipo de relação entre um “aqui”, individualizador, mas de difícil assimilação com os
modelos habitacionais tradicionais, e um “além” mais valorizado, embora bastante mais
convencional nas escolhas tipológicas, reforça nos moradores da Matriz H a crença
numa imagem negativa da sua habitação, que se traduz no isolamento e no fechamento
dos moradores em relação ao espaço circundante do Bairro da Flamenga, reproduzindo
um tipo de segregação social “interior”10.
22 Confrontada com a realidade observada na Matriz H, a rua central, idealizada como rua
“de vida urbana intensa”, não parece ser representativa do sistema de valores dos
105

habitantes ou, de outra forma, dos significados que os habitantes atribuem a este
espaço, mas sim do grupo que a concebeu.
23 Este espaço, aparentemente público, aberto para o exterior, idealizado para realizar
uma comunicação constante e intensa com outras áreas do bairro e zonas mais
longínquas do território de Cheias, é um espaço fechado sobre si próprio, no qual as
redes de vizinhança actuarn como meio de controlo e protecção em relação ao exterior.

Diferenças nos modos de ocupação do espaço


24 Directamente ligados à rua central, nos topos da Matriz H, encontram-se dois espaços
simétricos, formados pelo alargamento dos passeios. Formalmente idênticos,
representam, no entanto, dois lugares distintos, portadores de significados
diametralmente opostos, revelados através da observação de práticas diárias diferentes.
25 No caso do espaço situado no topo inferior da Matriz H tem-se a desagradável sensação
de se estar num vazio espacial e interactivo. Ninguém permanece neste lugar e o que
aparece de imediato é o enorme grajfiti desenhado na base da empena de um dos lotes.
26 No largo, do topo superior, as pessoas, principalmente homens, juntam-se para
conversar, formando pequenos grupos, localizados preferencialmente nas esquinas dos
edifícios e junto à rua de trânsito automóvel. Os carros, estacionados temporariamente
no limiar da rua de trânsito, oferecem uma possibilidade de apoio ou de ancoragem,
para os que se encontram no local. Do mesmo modo, os dissuasores de trânsito em
betão, implantados no passeio, servem de assentos e de marcos de separação das
relações sociais entre visitantes e residentes. Aqui é feita, nos dias da semana, a venda
ambulante de géneros alimentares como legumes e peixe (Figura 3).

Figura 3 – Cruzamento com a Rua Luísa Neto Jorge, 2000

(fotografia da autora).

27 Aparentemente, esta pequena “praça” é a que mais claramente se poderia definir como
o espaço público deste conjunto habitacional, no sentido de um lugar de sociabilidade
que pode eventualmente sair do âmbito das relações de vizinhança mais estritas e das
redes de controlo das interacções indesejadas que actuam, internamente, quer sobre os
residentes, quer sobre os estranhos. O facto de se tratar de um cruzamento importante,
entre a Av. Dr. Arlindo Vicente, uma das ruas principais da circular que rodeia o bairro,
106

e a Rua Ferreira de Castro, o posicionamento mais alto em relação à urbanização, a


proximidade dos cafés da Matriz H, da entrada do Parque da Bela Vista e das paragens
de autocarro n.o 10 e n.o 104 contribuem para tornar este espaço um centro de
passagem e de encontro bastante reconhecível11.
28 Embora não se possa afirmar que se realizem as condições para “uma vida urbana
intensa”, devido ao aspecto generalizado de isolamento dos espaços públicos do Bairro
da Flamenga, este local reveste-se de um carácter simbólico de espaço de convívio e
ponto de encontro no âmbito mais geral do bairro.
29 Esta marcada característica de espaço de sociabilidade e de circulação socialmente
diferenciada parece reforçar a existência de uma fronteira efémera, não formalizada
mas sensível, que se poderia traçar a partir das duas empenas dos lotes da Matriz, a
partir das quais se acede às habitações pelo complexo sistema de circulação que faz da
Matriz H um caso singular no âmbito do Bairro da Flamenga, onde não existe uma
fronteira concreta, tangível, entre a via pública e as portas de entrada das habitações
particulares. Da observação das práticas de interacção da vida quotidiana, que se
desenrola nesta categoria de espaços, emergem claras distinções de organização social,
estruturadas pelos espaços relacionais e pelos códigos de conduta que se foram
construindo no âmbito de uma cultura local popular urbana.
30 Os patamares das escadas, junto às galerias, aparecem frequentemente ocupados por
mulheres, às vezes levando ao colo uma criança pequena, jovens ou de idade mais
avançada, reunidas em pequenos grupos a conversarem ou a cumprimentar-se antes de
se dirigir para as suas actividades. Do mesmo modo parecem ser os lugares preferidos
pelos idosos que, nestes espaços próximos da habitação, intermédios entre o espaço
doméstico e o espaço público, encontram a possibilidade de se ligar com o mundo
exterior, sem serem obrigados a descer as escadas e a sair para a rua. Não é raro,
também, vê-los nas galerias, apoiados às guardas, assim como debruçados às janelas, ou
seja, nos pontos de interligação com o exterior. Todos estes espaços possuem a
capacidade de comunicar a orientação para o exterior. Através destas varandas ou das
janelas fala-se com as vizinhas, observa-se o movimento da rua, controla-se o próprio
espaço habitacional.
31 As crianças são as que mais aproveitam da completa liberdade de movimentos que o
sistema de circulação proporciona. As pontes, assim como as galerias, transformam-se
no espaço do jogo e das brincadeiras comuns, mas também nos locais para andar de
bicicleta e patins. Conforme as circunstâncias, as galerias podem assumir o carácter de
pórticos, varandas e terraços. Na galeria comercial os movimentos são
predominantemente representados pelos homens adultos. Nos feriados, sobretudo,
encontram-se grupos de homens, de idade variável, a maior parte entretidos no jogo de
cartas e noutras actividades lúdicas ou só na conversa, como em qualquer tasca de
bairro (Figura 4).
107

Figura 4 – Os cafés da Matriz H, 2000

(fotografia da autora).

32 Pode-se assim distinguir um espaço masculino, mais ligado ao exterior, nos passeios
exteriores junto à via pública ou na galeria onde se encontram os cafés e o pequeno
comércio da Matriz e um espaço feminino, mais ligado à soleira da casa, aos espaços que
fazem a mediação entre o domínio doméstico e o domínio das relações de vizinhança 12.

Mediações e redes de significados


33 Perante este quadro tão rico onde, aparentemente, o modelo de interacção entre
habitantes, idealizado pelo projecto, se concretiza, surge, com o dramatismo de um
paradoxo, a necessidade muito forte nos habitantes da Matriz H de formalizar o limite
entre a rua e as galerias13. Na Matriz H, a partir da soleira de casa, existem vários
espaços de mediação, semi-públicos, que definem o grau de aproximação à habitação
propriamente dita e, por conseguinte, o nível de proximidade ao limite intransponível
da porta de casa. Não estando claro o limite existente entre os espaços colectivos,
reservados a residentes e vizinhos, e os espaços públicos, acessíveis a todos, a
elaboração de uma hierarquia de espaços de mediação, entre a soleira da porta de casa e
a via pública, torna-se muito mais complexa e, por conseguinte, também, a gestão das
diferentes relações face-a-face se torna muito mais contraditória no dia-a-dia. A soleira
da habitação reveste-se em todas as sociedades de uma carga simbólica complexa, de tal
modo que é sobretudo neste elemento aparentemente frágil que se constrói o conceito
de fronteira universalmente aceite. Na organização das relações sociais no espaço os
processos de diferenciação são sempre activos e propositados 14.
34 A reforçar a necessidade de formalização da fronteira contribui o facto de a Matriz H
estar inserida num bairro constituído por um conjunto de “ilhas”, representativas de
“mundos sociais” (Velho, 1999: 22), com particularidades, densidade e fronteiras
próprias. Ao carácter de “ilha” corresponde socialmente a elaboração de uma
108

hierarquia de valor dentro do bairro, no sentido da diferenciação social, sendo que a


parte alta da urbanização, onde se situam os edifícios das cooperativas, representa um
espaço social mais valorizado, do qual as habitações são o símbolo exterior. Ser
destinatário de uma casa de realojamento constitui por si só um indicador de pobreza,
transporta consigo um inegável estigma social que certamente dificulta o
estabelecimento de relações sociais com outras pessoas para além dos familiares e
vizinhos. A nível de bairro evidencia-se uma “organização social do espaço urbano, em
que há uma interacção permanente de vizinhança entre categorias que ocupam posição
bastante desigual na estrutura social, com relações ambíguas de reciprocidade e
conflito” (Velho, 1999:16-17). A característica fundamental que define a diferença entre
os habitantes da Matriz H e os das cooperativas reside na liberdade de escolha da
própria habitação.
35 Os grupos em que se estrutura a dinâmica social do bairro, embora com níveis
diferenciados de participação nos planos e modos de vida contemporâneos, geram o
fenómeno da “metamorfose social”, teorizado pelo G. Velho, como um potencial
distribuído desigualmente por toda a sociedade, de conseguir fazer a passagem e o
trânsito de diferentes domínios e de experiências mais variadas, como acontece na vida
metropolitana contemporânea, mantendo, no entanto, os laços culturais básicos para a
conservação da própria estrutura identitária, como família, etnia, região, vizinhança,
religião, etc. (Velho, 1994: 29). A análise das práticas no espaço em contextos urbanos
contemporâneos manifesta o uso de uma dupla estratégia que visa a integração do
moderno, conservando o património cultural original (Lévy e Segaud, 1983: 284).
36 A exigência de alterar o sistema de acesso aos lotes, reproduzindo o modelo
habitacional existente nas outras matrizes, parece fruto de uma necessidade de
integração no mundo dos outros, cujo estatuto social se considera mais elevado. Da
mesma forma, as necessidades declaradas de uma maior segurança, o interesse em
evitar as interacções sociais de co-presença e a conseguinte reivindicação de um maior
isolamento, denunciam uma relação de apropriação negativa em relação ao bairro
como um todo e reforçam o carácter de ilha da Matriz. Esta interpretação tem como
base a comparação com as práticas nos espaços do Bairro do Relógio, nos quais se
verificava a procura de relações de vizinhança e de interajuda, numa constante
interacção face-a-face15. Para a compreensão do conceito de “metamorfose” é, assim,
preciso abordar juntamente os conceitos de “projecto individual” e de “campo de
possibilidades”, que remetem, mais uma vez, para os contributos teóricos e analíticos
de G. Velho. Querendo simplificar o pensamento do autor, pode-se afirmar que as
práticas dos indivíduos no espaço tomam consistência a partir de projectos sobre as
suas vidas que envolvem necessidades de vários níveis, profissional, económico,
cultural, de ascensão social, definidas numa constante negociação com as limitações
impostas pela realidade social e económica exterior. O conceito de “campos de
possibilidades” abre assim ao indivíduo uma vasta gama “de projectos de vidas ou de
orientações valorativas” (Cordeiro e Costa, 1999: 78).
37 O que parece útil, para a presente análise, é o facto de ser necessário, para a definição
mais clara de “campos de possibilidades”, ter em conta a relação com o contexto, na sua
dupla vertente espacial e social, na qual o indivíduo está inserido. É nesta perspectiva
que emerge a importância da materialidade do espaço construído, com toda a sua carga
simbólica e identitária. Assim, se na organização social pode actuar a tal metamorfose,
permitindo a intersecção de culturas e de práticas que não excluem a sobrevivência em
109

simultâneo das tradições e da memória peculiares daquela sociedade, o espaço


construído mostra, na interacção com os habitantes, os objectos sociais (indivíduo,
grupos e instituições) com toda a violência da sua própria inércia (Lévy e Segaud, 1983:
286).
38 Ao contrário dos espaços acima descritos, as passagens em galeria que interrompem a
continuidade das fachadas dos lotes, permitindo a ligação pedonal entre a rua central e
o passeio, são espaços com uma aparência de abandono, ou com carácter privativo para
depósito de mobília ou para colocar um estendal ou para estacionar uma motocicleta 16
(Figura 5).

Figura 5 – Galerias, 2000

(fotografia da autora).

39 Se a função destas aberturas, prevista no projecto, é a de estabelecer a ligação com o


espaço exterior da Matriz H, o facto de não existir uma apropriação positiva,
identitária, com o espaço de “fora”, sentido como espaço dos “outros”, não pode
realizar completamente o carácter de espaços mediadores entre interior e exterior,
igualmente controláveis e reconhecíveis, com base no mesmo código de
comportamentos e significados. Os habitantes da Matriz sentem que podem controlar
somente o espaço doméstico ou o espaço imediatamente junto à própria habitação.
40 A dilatação dos espaços que envolvem a Matriz H, a acessibilidade facilitada a todos,
indiscriminadamente, a imediata leitura dos espaços residenciais, da sua organização e
disposição no espaço, a possibilidade de atravessar de carro toda a urbanização, sem
parar, impede que se crie a “assimetria” necessária entre pessoas do bairro e pessoas de
fora. A estrutura em “ilhas” das diferentes áreas espaciais e sociais do Bairro da
Flamenga, apenas ligadas entre si pela rede viária principal, dificulta o estabelecimento
de relações de continuidade e, por conseguinte, a realização de um contexto
semelhante ao dos bairros populares do centro da cidade, onde se possa sentir aquilo
que António Firmino da Costa define como “sociedade de bairro” 17.
110

41 Outros sinais ou marcas de uma apropriação do espaço com leituras contraditórias são
as grades, cortinas, marquises e, mais vulgarmente, as persianas sempre fechadas, que
enfeitam as janelas da Matriz H, que podem ser interpretadas como fruto de uma
tendência à ostentação, a qual tem um significado social, testemunho de um tipo novo
de relação com a habitação (Figura 6).

Figura 6 – Grades e cortinas vegetais, 2000

(fotografia da autora).

42 É de facto uma característica comum da arquitectura contemporânea, racionalista,


apresentar-se como um conjunto totalmente acabado que praticamente não concede
campo de acção para acrescentamentos ou modificações. Ao contrário das habitações
tradicionais, não se prevêem alterações nas entradas ou nas janelas, em particular a
introdução de enfeites ou a escolha de cores diferentes18.
43 Além disso, sendo as janelas e as varandas as únicas aberturas da casa para o espaço
público, as marcas de apropriação deslocam-se para estes elementos exteriores. Como
já se descreveu anteriormente, a vida social dentro da Matriz H passa-se em contextos
de co-presença, envolvendo interacção face-a-face constante. O espaço público, assim
estruturado, pode tornar-se num suporte eficaz de sociabilidade e ao mesmo tempo de
conflito.
44 O fenómeno de fechamento não se explica, apenas, pela procura de uma protecção
climática ou de relações sociais indesejadas, mas também pela necessidade de olhar sem
ser visto: a abertura dos apartamentos para o exterior identifica-se com a abertura
directa sobre o espaço urbano-rua, pelo que os limites da tendência à ostentação
definem-se dentro de uma complexa relação entre mostrar e esconder, onde mostrar
não equivale a abrir, nem abrir a mostrar.
111

Conclusões
45 A observação continuada das práticas decorrentes nos espaços públicos da Matriz H
permite concluir que a riqueza e a variedade das relações sociais estão definitivamente
ligadas ao sistema articulado e complexo de diferentes modalidades de circulação e
acessibilidade que o projecto de arquitectura tinha idealizado. A satisfação das
necessidades acontece no quadro da experiência relacional e não apenas funcional, de
onde resulta que os espaços vividos assumem uma enorme variedade de soluções
possíveis e se tornam suporte material de práticas sociais e representações simbólicas
de uma cultura urbana local.
46 Considera-se que o principal contributo desta abordagem interdisciplinar a um objecto
arquitectónico, ícone das modernas sociedades complexa, e aos seus habitantes consiste
em dar alguma visibilidade a uma realidade muitas vezes ignorada ou simplesmente
desqualificada como culturalmente subalterna.
47 A abordagem antropológica teve como consequência uma constante problematização
dos factos observados. Ao tomar conta das variáveis de perturbação da ordem
preconcebida e institucionalizada, para dar voz a uma realidade sensorial, subjectiva,
relacional e polissémica, concentrou-se a atenção sobre um fragmento, sobre um
pequeno núcleo significativo pela sua singularidade, irredutível a categorias definitivas,
para deste modo estudar a arquitectura à escala do indivíduo.

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NOTAS
1. A investigação foi realizada no âmbito do curso de mestrado em Desenho Urbano 1997/98 do
ISCTE, sob a orientação da Professora Doutora Graça índias Cordeiro, tendo sido a base de
discussão para a dissertação final apresentada em 2002 (Farina, 2001).
2. O “lugar”, no sentido especificado por Norberg-Schulz, é a manifestação concreta do habitar do
homem, cuja identidade depende da pertença aos lugares. O lugar é parte integrante da
existência, é feito de um conjunto de elementos totalmente qualitativos, ligados à experiência
subjectiva (Norberg-Schulz, 1979: 6).
3. Em relação a este tema ver o texto de Lamas (1988: 352, 355). A exaltação social da
Arquitectura, na década de 20, foi de tal ordem que a casa para o povo passou a ser o maior
monumento do século XX (Vilanova Artigas, 1989: 13).
4. O Bairro da Flamenga corresponde à Zona Nl do Plano de Urbanização de Cheias, da autoria dos
arquitectos José Rafael Botelho, Silva Dias e Reis Machado, em 1965.
5. O projecto de arquitectura da Matriz H, datado entre 1978 e 1982, é da responsabilidade do arq.
Raul Cerejeiro, arquitecto do extinto Gabinete Técnico de Habitação (GTH) da Câmara Municipal
de Lisboa. “Após de 25 de Abril de 1974, foram alterados, não só o conceito de habitação social,
como o modo de conseguir os respectivos projectos. Assim, foram abandonadas as quatro
categorias previstas no D-L n.° 42 454, instituindo-se a categoria única, cujas características
corresponderiam a um misto de anteriores categorias II e III; quanto aos projectos, deixou de ser
113

possível a encomenda a equipas de técnicos trabalhando em profissão liberal.” (Rodrigues, 1986:


227)
6. Estas populações chegaram à cidade sem garantia prévia de encontrar trabalho nem casa,
acabando assim por habitar em bairros temporários e alojamentos precários, em várias áreas da
Freguesia de Marvila, nomeadamente em Cheias, em zonas como a Azinhaga das Teresinhas, a Q. ta
dos Cravos, a Q.ta Nova da Bela Vista, havendo casos pontuais de famílias que temporariamente
residiram no Centro de Acolhimento da Q.ta dos Ourives ou no Centro de Realojamento da Zona J.
Mais tarde, chegaram também famílias de outras áreas de barracas como a Musgueira Norte, a
Rua Padre Abel Varzim e a Rua Pardal Monteiro.
7. O Gabinete Técnico de Habitação (GTH) foi criado em 1959 para responder às obrigações
decorrentes da entrada em vigor do D-L n.o 42 454, no âmbito da construção de habitações de
custos controlados.
8. É preciso reparar que só 10% dos processos analisados referem o grau de instrução, pelo que
todas as conclusões sobre este tema devem ter em conta os poucos dados disponíveis. Faltam
geralmente os dados relativos aos filhos, ou seja, à classe de jovens em idade escolar. Permanece
desconhecida a profissão de 269 indivíduos, por falta de informação dos dados utilizados. Dos 698
indivíduos analisados, 58 são domésticas, 87 são estudantes e 45 são reformados.
9. Em relação às guardas das galerias e dos patamares de escadas, que na Matriz H representam
verdadeiras varandas, parece apropriada a observação que Gordon Cullen faz sobre o valor de
certas “linhas privilegiadas susceptíveis de ocupação: a linha ao longo da guarda de uma ponte,
por exemplo, parece constituir um local de eleição, pela qualidade imediata da vista que
proporciona sobre a paisagem” (Cullen, 1971: 26). Do mesmo modo, parece interessante a
definição sobre desníveis, para sublinhar a importância do posicionamento no espaço na
dinâmica da interacção: “De um modo geral, abaixo do nível médio do terreno, temos a sensação
de encerramento ou claustrofobia enquanto que acima desse nível podemos ser tomados de
grande euforia, ou por sensações de domínio ou superioridade ou ainda sentirmo-nos expostos ou
com vertigens” (Cullen, 1971: 40). Em relação às galerias, Pierre von Meiss sublinha que se trata
de espaços mediadores que embora não garantam quase nenhuma privacidade envolvem, mais do
que as janelas, o jogo duplo de observar e de ser observado (Meiss, 1990: 152).
10. Embora com as devidas diferenças históricas, morfológicas e sociais, observa-se um tipo de
segregação tal como M. Teixeira observa no caso das “Ilhas” do Porto do século XIX, nas quais a
separação entre as classes médias e as classes trabalhadoras se realizou em “termos de interior e
exterior, mais do que verticalmente ou entre diferentes áreas da cidade”. A morfologia da cidade
permitia que a burguesia vivesse nas margens dos quarteirões, enquanto as classes operárias
viviam no seu interior, nas “ilhas” (Teixeira, 1996: 83).
11. Como afirma K. Lynch, a cidade estrutura-se sobre um conjunto de ruas, sendo os pontos de
intersecção, pontos estratégicos, nos quais o observador pode entrar, típicas junções de vias, ou
concentrações de algumas características (Lynch, 1960: 84).
12. No quotidiano que se desenrola nos espaços juntos às habitações particulares, é possível
observar “processos de vizinhança” (Costa, 1999: 306), pouco diferentes dos que se poderiam
observar num bairro popular da cidade. No estudo antropológico sobre o Bairro da Bica, Graça
Cordeiro observa: “As refeições, o som da televisão, as brincadeiras infantis, as conversas, as
emoções, tudo o que faz o quotidiano de uma casa aqui, na Bica, faz o quotidiano da sua rua. [...]
Não quer isto dizer, no entanto, que não existe uma fronteira clara entre o espaço doméstico,
privado, e o espaço público da rua. A existência inequívoca deste limiar fica bem ilustrada pela
importância dos encontros à soleira da porta. Com efeito, a comunicação entre vizinhos-e, muito
em particular, entre vizinhas-estabelece-se à janela, sobre os degraus da entrada, à beira da rua e
de casa, neste espaço público ainda securizante que circunda a própria casa” (Cordeiro, 1997: 192
e 193).
114

13. Através do Gabinete de Bairro, a população solicitou ao arquitecto Raul Cerejeiro a alteração
do sistema de acesso às habitações, criando a porta de entrada a cada lote e fechando os vãos de
escadas respectivos.
14. As fronteiras são selectivamente permeáveis: algumas pessoas são admitidas ou excluídas,
assim como vários domínios e estruturas podem penetrar profundamente e outras muito
superficialmente. O conceito de fronteira remete para o conceito de espaço de mediação, porque
é nesta categoria de espaço que se estabelece o grau de intimidade na interacção face-a-face, e
que se define um código de comportamento aceite por todos (Rapoport, 1994: 482).
15. Esta questão introduz o problema da definição da categoria sociológica de “estranho”, para a
qual George Simmel (1908) fez uma distinção significativa entre “culturalmente estranho”, ou
seja, alguém que ocupa um mundo simbólico diferente do nosso, e o “estranho biográfico”, ou
seja, aquele que nunca encontrámos antes. Ambas as categorias são importantes na definição das
práticas de interacção no espaço público (Lofland, 1998: 7).
16. Poderiam ser incluídos naqueles tipos de espaços que Kevin Lynch define como sendo
categorias de interesse directo para o design, pois descrevem qualidades de que um desenhador se
pode servir como é o caso do alcance visual, “qualidades que aumentam e organizam uma
possibilidade de visão, quer real quer simbólica”. Estas qualidades incluem as transparências,
realizáveis através do uso de paredes de vidros ou de edifícios assentes em pilares (Lynch, 1960:
118-119).
17. “Sociedade de bairro como as que se encontram em Alfama ou na Bica surgem pois, como
casos de um tipo especial de configurações sociais, caracterizáveis pela redundância estruturante
de um conjunto de dimensões interligadas: não só espaços residenciais mas também formas
urbanas particulares, quadros sociais densos e multifacetados, sedes privilegiadas de
sociabilidades, cenários de produção cultural própria e referentes de representações identitárias
destacadas” (Cordeiro e Costa, 1999: 73).
18. A inspiração estética subjacente às paisagens urbanas modernas, originada pela criação de um
estilo apropriado à produção industrial em massa, exclui quaisquer pormenores feitos à mão e
qualquer sinal de trabalho especializado que chame a atenção (Relph, 1987: 216-219).

AUTOR
MONICA FARINA
Arquitecta.
115

Capítulo 8. Entre as casas e o


templo, a rua: comunidade hindu e
Interacções de bairro
Rita d’Ávila Cachado

Introdução
1 Nos catálogos bibliográficos de estudos urbanos podemos encontrar o título A Street
through time, uma obra ilustrada (Millard et al., 2000) que procura mostrar as alterações
na arquitectura e nas práticas culturais de uma mesma rua, página após página.
Ilustrador e autor científico fazem o percurso histórico de uma rua ao longo de 12 mil
anos. É um livro didáctico, em que as palavras são substituídas pelas imagens,
imaginadas de acordo com conhecimentos adquiridos. Para quem tivesse dúvidas,
mostra como uma rua é dinâmica. Nele, o que mais salta à vista é a transformação dos
edifícios e dos espaços em seu redor ao longo dos tempos. Mais de perto, encontramos
diferentes modos de vestir, de cultivar a terra, de cozinhar, mas as casas e outros
edifícios são o que melhor manifesta a dinâmica da rua em causa. Este preâmbulo ao
artigo serve como uma espécie de modelo de estudo sobre a rua. Infelizmente não
podemos passar 12 mil anos a fazer trabalho de campo, mas podemos, à escala dos
estudos urbanos, contextualizar um espaço dinâmico como o é uma rua. Contextualizar
histórica e geograficamente, perceber os contornos sociais, entre outras pequenas e
grandes escalas de observação.
2 O contexto local que será explicitado neste artigo é também um espaço muito curioso
onde podemos observar como se vai transformando uma rua. Um bairro de habitação
precária1 e suas transformações serve de pano de fundo às dinâmicas por que
atravessam as pessoas que lá vivem. Localizado na ponta nordeste de Lisboa, a norte do
Parque Expo, o Bairro da Quinta da Vitória faz parte da Freguesia da Portela, Concelho
de Loures. Apesar de multiétnico, o enfoque da investigação é feito sobre a população
hindu local que é maioritária no bairro (47%). A investigação da qual exponho aqui
alguns resultados2 tem privilegiado a análise situacional, de acordo com Agier (1999)
116

bem como as propostas holísticas de Leeds (1994 [1968]). De facto, a escolha de um local
onde a maior parte da observação é realizada requer – em Antropologia Urbana ou não
– preocupações de enquadramento por parte dos investigadores. Além disso, ao
escolher a rua como unidade de observação e tendo em conta um trabalho de
aproximação ao terreno já enraizado, a análise situacional sobressai naturalmente
como forma de abordagem teórico-metodológica.

Contextualizando o bairro
3 O bairro em causa é um bairro com muitas transformações recentes. Até há poucos anos
era um bairro de habitações degradadas, com populações de várias origens étnicas, que
foram dando vida ao bairro desde o final dos anos 1960 até à actualidade. O bairro foi
alvo de um recenseamento em 1993, no âmbito do Programa Especial de Realojamento
(PER)3, que resultou em 2002, em termos objectivos e até à actualidade, no realojamento
de uma terça parte da população inscrita no PER. Esse realojamento foi feito num
quarteirão de prédios contíguo ao bairro de barracas, e é esta a transformação daquele
espaço que serve de ponto de partida para a investigação em curso, uma vez que a
proximidade dos dois bairros (de habitação precária e de realojamento) é muito
acentuada e reflecte uma situação rara4. À semelhança de outros bairros abrangidos
pelo PER no Concelho de Loures, a Quinta da Vitória é um bairro com populações
sobretudo oriundas dos países africanos ex-colonizados por Portugal, e com uma
população de origem portuguesa (sobretudo do Norte do País), mas com a
particularidade de ser mais diversificado etnicamente do que os outros bairros. A
população com quem trabalho directamente é de origem indiana, tendo imigrado
sobretudo de Moçambique, no princípio dos anos 805. A situação histórica pós-colonial é
aqui incontornável, sobretudo como utensílio de contextualização. As actuais relações
entre populações imigrantes com uma história de colonização recente e populações de
acolhimento do outro lado da relação, isto é, como ex-colonizadores, têm reflexos do
passado que não devem ser perdidos de vista.
4 A primeira fase do realojamento, referida anterior mente, provocou a demolição das
casas de um dos lados de uma rua do bairro e foram as pessoas que residiam nessas
casas que foram realojadas. Dos prédios onde as famílias foram realojadas pode ver-se o
que restou do bairro e, principalmente, o espaço que sobrou na sequência das
demolições. Convém explicitar que o bairro social, além da população que veio do
bairro de barracas em frente, tem uma população, muito maior, que veio de vários
bairros degradados de Lisboa, de origem cigana6. A rua destituída de edifícios de um dos
lados, mais o espaço que sobrou das casas demolidas, corresponde geograficamente à
fronteira entre o Concelho de Loures e o Concelho de Lisboa; por isso, o bairro de
habitação precária está em Loures e o bairro social está em Lisboa, configurando uma
situação de fronteira que não pode ser negligenciada. Uma fronteira administrativa
entre os dois concelhos, com implicações directas no quotidiano das pessoas mas
invisíveis a olho nu, tal como o acentuar da burocratização no acesso aos serviços de
saúde, justiça, segurança social, emprego. Há ainda uma fronteira identitária
relativamente a quem mora nas barracas e quem mora no bairro social, ou seja, quem
obteve o realojamento mais cedo do que outros que continuam à espera.
117

Figura 1 – Vista parcial do Bairro Quinta da Vitória, a partir dos prédios de realojamento do Bairro
Alfredo Bensaúde, Agosto de 2003

(fotografia da autora).

5 Voltando à obra referida no início deste artigo, é um livro que hesitamos entre vê-lo de
trás para a frente ou do princípio para o fim. E isto é um pouco como escolher a via de
análise de um objecto de estudo urbano: devemos fazer a história do bairro seguindo a
documentação existente e depois analisar os percursos de vida, ou devemos partir das
inquietações dos moradores no presente, abrindo os círculos que contextualizam esse
mesmo presente no tempo e no espaço? À partida esta imagem dos círculos é mais
atraente como forma narrativa, com uma lógica mais eficaz. Mas os percursos e a linha
dinâmica passado-presente acompanham as transformações do bairro e dão significado
– ao bairro e à pesquisa em si. A escolha faz-se com o desenrolar da investigação, mas
percebe-se que olhar para a rua, pensar a rua e passar por ela (e não só pelas casas e
pelos locais de encontro em geral) ajuda – pelo menos no caso da Portela – a manter os
pés académicos na terra e a pôr questões que estão, necessariamente, mais próximas
das pessoas: é que são elas que habitam as ruas.
6 Relativamente aos habitantes do bairro: quem são e o que representam? Os moradores
da Quinta da Vitória são vistos, por um lado, como o bode expiatório dos males sociais,
efeito de um estigma sobre as populações dos bairros de habitação precária e, por
outro, como matéria prima para os discursos multiculturalistas. É, sem dúvida, uma
população multiétnica. Mas o universo de pessoas com quem trabalho é a
“comunidade” hindu7 local e alguns trabalhadores sociais. Os hindus da Quinta da
Vitória são a população que me parece concentrar mais factores interessantes para
observar e analisar naquele bairro. E é aqui que entra a rua. Segundo Missaoui, é a
observação da rua e o que ela nos mostra que nos permite compreender e analisar as
constantes batalhas da identidade e da alteridade (Missaoui, 2005: 212). Ou seja, é na
rua que melhor podemos observar os fenómenos de diferenciação cultural como aquele
que descreverei em seguida.
118

Implicações do realojamento
7 Neste bairro em concreto há um jogo de relações interétnicas que não é muito comum,
nem nos bairros de barracas nem nos bairros de habitação social. Como é do domínio
geral, em muito casos o PER reproduziu a segregação social das minorias étnicas
aumentando as tensões sociais nas zonas segregadas, potenciando o risco de
acontecimentos semelhantes aos de final de 2005, nos subúrbios das grandes cidades
francesas8. Em diversos bairros sociais da Área Metropolitana de Lisboa a constatação
da omnipresença de um ambiente de conflito e da existência de uma imagem negativa
sobre os próprios bairros (Pinto et al., 2000:107) é uma constante e não é novidade para
as ciências sociais. No contexto da Quinta da Vitória há os novos vizinhos que vieram de
vários bairros degradados de Lisboa. As relações que se desenvolvem entre hindus e
ciganos, por exemplo, são relações cautelosas. As pessoas sabem que têm modos
diferentes de estar, mas não querem provocar conflitos uns com os outros. Às vezes
quase que desistem; outras vezes inventam novas formas de estar, através de zonas de
evitamento, de cruzamento, de convívio. Mais uma vez, isto não é específico do caso da
Portela. As estratégias de evitamento constituem em tema recorrente na literatura
antropológica, desde as monografias clássicas aos estudos de caso contemporâneos.
8 A rua de maior actividade na Quinta da Vitória – o bairro de habitação precária – era a
chamada Rua A, de terra batida. Com a demolição das casas num dos lados dessa rua e
com o realojamento parcial no vizinho bairro social da Avenida Alfredo Bensaúde, o
espaço onde estavam as casas é reinventado, apesar de ter sido delimitado com uma
rede. As pessoas abrem brechas na rede, fazem hortas, casotas para cães, espaços de
churrasco e capoeiras. No espaço da antiga rua fazem-se pequenos campos de futebol,
joga-se críquete e malha. Actualmente, a rua mais evidente, isto é, o espaço de
circulação aparentemente mais vivido, tendo em conta a população em estudo, é a rua
que está mais próxima dos dois bairros em simultâneo, uma rua construída em alcatrão
que delimita o bairro social. Em certa medida, a concentração da circulação nesse
espaço dá-se por ser uma zona de fronteira entre os dois bairros. Contudo, a observação
das interacções de bairro faz sobressair determinadas zonas do bairro que não
correspondem necessariamente a ruas. No caso em concreto, há uma zona do bairro
que faz a ligação entre o bairro de barracas e o do realojamento, no final da rua atrás
referida, que é também a zona de acesso a uma das escolas. É aí que se situa o novo
templo dos hindus. Conhecendo a comunidade hindu e o seu calendário preenchido,
não é difícil perceber o rodopio à volta do novo espaço de culto 9. Mas há mais coisas a
acontecer no bairro, além da ocorrência das cerimónias hindus no interior do templo.
Por um lado, a população cigana do bairro social, enquanto não tem um espaço legal
para o culto, ocupou uma parte da zona das garagens10, em baixo do templo hindu, para
as suas actividades religiosas. Por outro lado, é por aquela zona do bairro que param
quase todas as crianças e respectivos encarregados de educação, a caminho da escola e/
ou dos tempos livres. Além disso, mais do que a rua que separa os dois bairros, esta
zona tornou-se no percurso pedonal preferencial entre bairro de habitação precária e
bairro social. Final mente, um dos principais acessos por automóvel passa por ali.
119

Figura 2 – Croquis do Bairro Quinta da Vitória, Portela de Sacavém.

9 No caso do espaço em estudo é interessante verificar que a utilização da rua e os modos


de a viver fazem sobressair quem domina as ruas. De acordo com Pinto e Gonçalves, que
estudaram o quotidiano dos bairros sociais, “(...) As diferenças culturais e de modo de
vida geram formas de apropriação dos espaços do bairro e vivências específicas a estes
grupos” (2000: 108). De formas distintas, as diferentes populações que vivem o espaço
em causa, entre as casas ilegais e o bairro social, vão chamando a atenção sobre si.

Quem sobressai na rua?


10 A observação e análise de discursos locais até agora permitem distinguir três tipos de
controlo do espaço-rua naquele bairro, que correspondem, grosso modo, a três
populações ali residentes que se observam entre si e que, de cada lado, constroem
imagens sobre as outras populações: os jovens africanos da Quinta da Vitória; a
população cigana do bairro social; a população hindu que atravessa os dois bairros mais
abertamente, porque vivem nos dois aglomerados residenciais. Ali, como noutros
bairros semelhantes, a estigmatização social entre as várias populações em presença é
mesmo uma constante.
11 O primeiro caso são os jovens africanos do Bairro Quinta da Vitória, filhos dos vizinhos
que começaram a habitar o bairro na mesma altura que os indianos (no princípio dos
anos 80). Estes jovens são vistos como os autores dos muitos assaltos no bairro. A
dificuldade em nomear mais do que um exemplo de assalto ou de violência local por
parte dos informantes atesta que, tal como acontece noutros contextos, a sensação de
insegurança não está necessariamente ligada à quantidade de situações que
provocariam, de facto, insegurança, como os assaltos. A imagem que cai sobre os jovens
africanos, associada à insegurança, é intensificada pelas notícias de televisão. Neste
120

caso, o controlo do espaço-rua é mais uma projecção da restante população do que uma
ambição própria. Por exemplo, a população hindu do bairro reitera medos antigos, que
remontam à guerra civil em Moçambique, motivo principal de migração para Lisboa.
12 O segundo tipo de controlo do espaço-rua pode ser identificado através da população
cigana, que habita grande parte do bairro social e que, enquanto comunidade, é muito
mais recente do que a restante população daquela zona. A semelhança do que se passa
noutras zonas da cidade e do país, é uma população fortemente estigmatizada e são
vistos, em primeiro lugar, como pessoas de difícil relacionamento (Duarte et al., 2005).
Os ciganos do bairro social dominam o espaço, e essa dominação é particularmente
patente na ocupação das lojas dos prédios desabitadas para efeitos de habitação dos
núcleos familiares que não tiveram direito a uma casa naquele bairro social e ainda
pelas carrinhas de transporte de mercadoria, em constante movimento nas ruas do
bairro social. Raramente vão ao Bairro Quinta da Vitória. Para o observador ocasional, o
domínio do espaço pelos ciganos é muito significativo e parece haver uma divisão
cultural total entre o bairro social e o bairro de barracas.
13 Quem quebra essa linha invisível entre os dois bairros? Quem passa a fronteira sem
hesitar? Até há pouco tempo, grande parte do trabalho de terreno desenvolvido na
Quinta da Vitória evidenciava que o regime de evitamentos passava sobretudo pelo não
atravessamento da fronteira entre o bairro social e o bairro de habitação precária. A
não transposição de um bairro para o outro revelava-se uma situação estranha; mas,
prestando mais atenção, estas fronteiras são de facto passadas; quem o faz sem hesitar é
a população hindu, que nos fornece um terceiro tipo de controlo do espaço ou, pelo
menos, uma forma diferente de chamar a atenção sobre si. O que distingue e torna a
população hindu do bairro mais visível não é a especificidade religiosa em si mas sim o
facto de habitarem tanto na Quinta da Vitória como no bairro social, terem lojas nos
dois lados do bairro e um templo no limite do bairro social que fica mais perto das
barracas. As suas práticas religiosas de rua, que serão explicitadas infra, são mais visíveis
porque acontecem dos dois lados do bairro, ao contrário das práticas culturais das
outras populações em causa. Podemos mesmo falar numa espécie de poder simbólico
dos hindus no bairro, no sentido de Bourdieu11 (1994], O capital cultural dos hindus
permitelhes serem reconhecidos pelos demais através, precisamente, da visibilidade
que têm. O poder simbólico desta comunidade não pode, contudo, ser entendido à la
lettre, uma vez que as categorias de percepção desse poder não são as mesmas entre as
diferentes etnias em presença. O que é certo, por ora, é a estranheza e o interesse
suscitado nos outros pelas práticas culturais hindus, sobretudo no que diz respeito às
práticas realizadas na rua. Não obstante, há factores que podem pôr em dúvida o capital
simbólico dos hindus sobre as outras populações. A ameaça de violência – latente e,
sobretudo, baseada em estigmas – dos ciganos e dos africanos que ah vivem é o factor
que mais contribui para hesitar em dizer que os hindus detêm um maior capital
simbólico no bairro.
121

Figura 3 – Templo Jai Ambe, Bairro Alfredo Bensaúde, janmastami, Agosto, 2005

(fotografia da autora).

14 Se há dúvidas sobre quem domina as mas, essas dúvidas são de alguma forma dissipadas
através dos rituais hindus que passam pelas ruas dos bairros. As frequentes actividades
religiosas dos hindus, antes do mais, ajudam a atenuar o efeito de fechamento em casa
que é característico dos realojamentos em bairros sociais. Durante a fase inicial da
realização do PER em vários concelhos da Área Metropolitana de Lisboa houve uma
produção singular de artigos sobre habitação social em Portugal e um investimento do
Estado e dos municípios no debate sobre as questões ligadas à habitação. Ao longo dos
anos 90 produziu-se uma série de seminários e conferências subordinados ao tema,
participados e assistidos não só pelos especialistas como pelos técnicos que então
punham em prática o PER. Parece haver concordância quanto ao facto de, nos primeiros
tempos nas novas habitações, haver uma tendência para a individualização e
privatização dos modos de vida, que se manifesta no isolamento das famílias e
fechamento dentro dos espaços domésticos, enfraquecendo as relações de vizinhança.
Freitas alerta para esta situação sublinhando a ideia de que os ganhos de privacidade
produzidos pelo realojamento são pagos com custos de maior isolamento social. A
autora fala mesmo em efeito de concha – “duplo fechamento espacial e societal num
espaço vital com fronteiras bem definidas e bem mais restrito” (Freitas, 1994: 30). Ora, o
intenso calendário hindu e respectivas cerimónias religiosas produzem uma vantagem
social para a população hindu da Quinta da Vitória relativamente a outras populações
locais, uma vez que os rituais domésticos obrigam a uma ocupação quotidiana das
famílias e os rituais colectivos dentro e fora do templo são recorrentes ao longo do ano.

A rua ritualizada
15 O sentido do espaço-rua do bairro é sublinhado nos dias das cerimónias hindus. Há uma
actividade constante por parte da população hindu levando ofertas ao templo e
122

trazendo alimentos abençoados (prasad). A população em geral sabe que os hindus


passam a vida em festas, a adorar deuses estranhos, mas há dois momentos do ano hindu
que fazem evidenciar esse capital simbólico, um no final do Inverno e outro no Verão. A
estranheza dos rituais para quem vê e não pertence à comunidade hindu alimenta esse
capital simbólico. Aliás, a produção de capital simbólico nas ruas através de cerimónias
religiosas era algo que os católicos sabiam aproveitar estrategicamente, de acordo com
Cabanel (2005), que estudou a ocupação do espaço público pelos católicos em França
durante o século XIX. O autor faz uma analogia entre essa situação e a visibilidade
muçulmana nas ruas das principais cidades francesas hoje em dia, motivo de tanto
incómodo para os actuais transeuntes da mesma forma que os católicos e as suas
procissões constituíam fonte de moléstia para protestantes e laicos. E também religioso o
caso estudado por Benveniste (2005), num grand ensemhle francês. A autora refere a
apropriação e delimitação simbólicas do espaço por parte da população judaica local,
em volta da sinagoga. Já no caso localizado da Quinta da Vitória, o grau de aversão ou
de simpatia relativamente às cerimónias hindus por parte das demais populações está
por estudar; em todo o caso, a visibilidade de uma população através das suas
manifestações religiosas e o poder simbólico que assim adquire, é evidente.
16 A escolha de uma situação ritual para observar fenómenos urbanos já fez história na
Antropologia e, mais em concreto, na Antropologia Urbana. Em três níveis diferentes,
John Mitchell e a dança do kalela (1956), Michel Agier e o estudo do Carnaval na Baía
(2000) e Graça índias Cordeiro com os santos populares no Bairro da Bica (1997),
demonstram que a análise situacional fornece uma forma de contextualização alargada
dos protagonistas e dos espaços em que actuam: onde moram, com quem interagem e,
mais abrangentemente, a contextualização histórica, económica e social do local e da
população em causa, permitindo pôr vários factores em relevo.

Figura 4 – Quinta da Vitória, holi, Março de 2002

(fotografia da autora).
123

17 Experimentando seguir as linhas dos autores referidos, podemos seleccionar dois


rituais hindus que se realizam entre o bairro de barracas da Quinta da Vitória e o bairro
social que lhe é contíguo. Os rituais em causa são o holi, no final do Inverno, e o
janmastami, no Verão. Importa aqui proceder à descrição física abreviada dos rituais. No
caso do holi, faz-se uma fogueira, dando uma grande visibilidade ao ritual. Em seu redor
podemos observar os homens com os filhos pequenos ao colo a dar uma volta à
fogueira. As mulheres, por sua vez, preparam ofertas aos deuses em pratos com
pequenas velas de manteiga clarificada (ghi), grãos de diferentes cereais (crus e fritos),
fruta e algodão, e depois dispondo os diversos elementos em pequenas linhas no chão.
São as raparigas que realizam preferencialmente esta tarefa, ajudadas pelas mães e
mulheres mais velhas. O ritual é feito ao anoitecer e, no fim, as crianças brincam com
água e tintas, afastando-se da fogueira, pelo bairro, numa espécie de partidas de
Carnaval. O janmastami, no Verão, festeja o nascimento de krsna 12. Faz-se uma procissão
que dá a volta às principais ruas do bairro, com música e cânticos, e que começa e acaba
no templo. A ajudar à festa há um grupo de músicos com um dispositivo de amplificação
do som. Durante o percurso, em que virtualmente todos os vizinhos podem ver passar o
cortejo, há uma série de paragens preparadas antes do ritual. São os momentos mais
esperados pelos mais novos. Entre postes de electricidade, penduram-se recipientes
cerimoniais de barro a mais de dois metros de altura, que contêm folhas de mangueira
(idealmente), leite de coco e moedas. Com um taco de críquete, ou uma vara, os
recipientes são quebrados, e quem assiste de mais perto é abençoado com o leite. As
crianças hindus lutam pelas moedas, observadas a média distância pelas crianças não
hindus, que não participam neste ritual. As mulheres, por sua vez, levam à cabeça os
bebés nascidos mais recentemente, que representam krsna, em cestas decoradas e
protegidas do sol por sombrinhas, e o percurso é feito em grande animação.
18 O que têm estes rituais em comum? Primeiro, talvez uma questão de pormenor, há um
elemento físico comum nas duas cerimónias, a presença de bebés, que são protagonistas
em ambos os rituais e que asseguram simbolicamente a reprodução da população hindu
e a continuidade das tradições. Mas o principal elemento comum, e o que mais nos
interessa aqui, é o facto de se realizarem na rua e, dessa forma, contribuírem para a
diferenciação cultural da população hindu no bairro. Antes do realojamento, o holi era
feito na Rua A, perto do antigo templo, numa eira em frente a uma casa. Desde as
demolições de 2002, continua a ser feito na mesma zona, na antiga Rua A, ou no que
resta dela, junto a uma zona de passagem entre as barracas e o bairro social, perto da
antiga eira. Por isso, actualmente, este ritual pode ser avistado dos prédios sem a
participação dos vizinhos não hindus. Só as crianças, do bairro de barracas e do bairro
social, se atrevem a aproximar-se do fogo, de tal forma curiosos com as linhas de
sementes e velas no chão à volta de uma fogueira, que chegam a invadir o espaço ritual.
Relativamente ao janmastami, o segundo ritual em causa, podemos verificar uma
alteração no trajecto desde que o templo mudou de sítio. Dantes, o percurso era feito
através das duas ruas principais dos bairros; actualmente a volta abrange uma parte do
bairro social. O ritual continua a ser participado e animado como dantes. Tal como o
holi, é observado à distância pelos vizinhos, que concordam que os hindus andam sempre
em festa. De resto, outros rituais que não são realizados especificamente na rua tornam-
se visíveis (na rua) através do rodopio entre as casas e o templo.
124

Figura 5 – Percurso entre o Bairro Alfredo Bensaúde e o Bairro Quinta da Vitória, janmastami,
Agosto de 2005

(fotografia da autora).

Considerações finais
19 Embora a produção teórica sobre as ruas tenha sido uma constante na Escola de
Chicago, porque surgia como uma evidência nos bairros e populações estudados, a rua
enquanto objecto de análise per se, subordinada aos estudos urbanos e tendencialmente
transdisciplinar, é recente. Em 1968 Petonnet publicava uma obra que viria a abrir o
vasto programa de estudos sobre habitação degradada e mais tarde sobre habitação
social em França. Apesar de não ser o objecto central de análise do seu estudo, a autora
imergiu nas ruas dum bidonville, fazendo uma descrição do bairro, quase em forma de
reportagem jornalística, onde denunciava as condições de vida dos seus habitantes e
dava relevo às vivências de bairro, constituindo um marco na sociologia urbana. Quase
40 anos depois, a mesma autora é convidada para fazer a síntese de uma antologia
dedicada ao estudo das ruas (Brody, 2005). Petonnet motiva os investigadores dizendo
que a rua é um espaço muito democrático. Nela, não é o dever que prevalece, mas o
direito, partilhado, de ali passar a toda a hora (Petonnet, 2005: 299). Também a rua de
um bairro como a Quinta da Vitória é atravessada a toda a hora por quem precisa de lá
passar.
20 Há dez anos Agier comentava que “tributários de um a priori ecológico, os estudos
urbanos opuseram simultaneamente a rua à casa” (1996: 55). No caso dos bairros sociais
em Portugal os estudos sobre a rua que contrariam uma visão negativa dos fenómenos
urbanos são muito escassos – com excepções como o estudo de Monica Farina (2001)
sobre um dos bairros de Cheias. Em geral, a casa de habitação social é focada sobretudo
como local de fechamento social por excelência, por oposição à edílica rua do bairro de
habitação precária. O interesse analítico dos rituais escolhidos, mais do que a sua
125

descrição em si, está na importância que esses rituais representam para a população
que os preconiza e para a população que os observa. E isto faz pensar que, cem anos
depois de A metrópole e a vida do espírito” (1997(1903]), há algo em Simmel que parece
continuar a fazer sentido. Dizia ele que, “para muitas pessoas, a estratégia de captação
da atenção de outrém continua a ser a única forma de preservar alguma auto-estima e
de salvaguardar o seu sentido de lugar”. É algures no meio destas ideias – e observando
os rituais – que se percebe o poder simbólico captado pelos hindus no bairro. A
principal forma de diferenciação em relação às outras populações é feita através de
elementos culturais fortes, imprescindíveis para a continuidade da comunidade hindu
local. Sublinhando a ideia anterior, são os rituais-performance de rua que dão
consistência à diferenciação cultural local e, em última análise, ao capital simbólico dos
hindus.
21 A observação de um espaço como o Bairro Quinta da Vitória e o vizinho bairro social
obriga a olhar para a rua e para as casas. Segundo Monica Farina, referida
anteriormente relativamente ao seu estudo realizado num dos bairros sociais de Cheias,
os lugares no bairro podem ser familiares, afectivos, de identificação e de interdição
(2001: 34-5). Na Quinta da Vitória, tendo em conta que as casas (tanto as barracas como
os novos alojamentos em habitação social) são visitadas quase exclusivamente por
membros das mesmas comunidades étnicas, é nas ruas que mais se vêem as pessoas
cruzar-se e fazer dos vários espaços do bairro precisamente espaços familiares,
afectivos, de identificação e de interdição. A convivência entre as diversas comunidades
vai sendo negociada com o passar do tempo e é potenciada com as transformações
físicas do bairro. Experimentar olhar para as formas de viver as ruas é, por fim,
experimentar uma forma de estar mais próxima das pessoas com quem estudamos e de
evitar que a análise doutros aspectos do bairro seja feita de forma distanciada, de cima
dos prédios.

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NOTAS
1. O termo mais referido para substituir o desusado bairro de lata é aqui utilizado sem
compromissos teóricos; serve apenas para enquadrar o tipo de espaço, em termos gerais. Convém
especificar que esta forma nem sempre serve a clarificação do contexto, uma vez que nem todas
as casas destes bairros são habitações precárias. Do mesmo modo, a habitação social como
oposição a habitação precária configura uma situação que pode ser falaciosa, pois a habitação
social pode ser precária.
2. Inserida no projecto de doutoramento intitulado: A conjuntura de um bairro em vias de
realojamento: Dinâmicas associadas à comunidade hindu da Quinta da Vitória (FCT/ISCTE 2004-2008).
3. D-L n.o 163/93, de 7 de Maio. Apesar de alterado em alguns decretos posteriores, o D-L manteve
o seu propósito geral de erradicar as barracas em Portugal. Previsto inicialmente para ser
executado em 10 anos, alguns municípios com maior número de núcleos (bairros) inscritos, como
é o caso de Loures, prolongaram a sua execução.
4. A título de exemplo, no caso da Quinta do Mocho, também no concelho de Loures, o
realojamento foi feito na proximidade do antigo bairro, mas com uma décalage temporal entre as
demolições e o realojamento total muito menor. Na Quinta da Vitória, apenas 4 anos depois do
primeiro realojamento PER é que as autoridades, Câmara Municipal e proprietário, estão mais
empenhadas na demolição das barracas. A falta de alternativas para os agregados inscritos ou não
no PER deu azo a novas dinâmicas no bairro, que estão no momento a ser alvo de pesquisa na
minha investigação.
5. Sobre os percursos migratórios da população hindu residente em Portugal, consultar Bastos e
Bastos (2001), Lourenço (2003) e Cachado (2003).
6. O realojamento de uma parte da população PER da Quinta da Vitória no bairro social contíguo,
já no Concelho de Lisboa, resultou de um protocolo especial em Novembro de 2001 entre as duas
edilidades, Lisboa e Loures.
7. A palavra comunidade é aqui usada no sentido de Cohen 1985, em que uma comunidade não
possui necessariamente fronteiras estáveis e em que a percepção da pertença identitária a uma
comunidade pode ser maior ou menor, ou seja, permitindo desta forma uma utilização mais
abrangente do conceito. A escolha da comunidade hindu como universo populacional de estudo
decorre de uma relação de confiança desenvolvida e mantida em trabalho de terreno desde 2000,
no âmbito de um estágio profissional (Cachado, 2000).
8. A morte acidental de dois jovens na sequência de perseguição policial num subúrbio de Pãris
despoletou uma onda de violência urbana que potenciou, por sua vez, um debate social único
sobre os bairros sociais franceses e retomou a crítica sobre as implicações actuais do colonialismo
francês, debates esses que foram fortemente documentados nos media franceses.
9. Até Julho de 2004 os hindus do bairro faziam os seus rituais no templo situado numa barraca da
Quinta da Vitória que, por sua vez, concentrou as funções religiosas para a grande maioria da
população hindu da Área Metropolitana de Lisboa, até 1998, quando foi inaugurado o templo
Radha-Krsna, no Lumiar.
10. De notar que as garagens do bairro social nunca chegaram a ser utilizadas para
parqueamento, desde 2002 até à actualidade (finais de 2006).
11. Conferir, por exemplo, em Razões práticas. Sobre a teoria da acção, onde Bourdieu fala da
identidade étnica como uma das dimensões do capital simbólico (1994:131).
12. Krsna é o termo devanagari para designar a divindade hindu Krishna que corresponde ao
oitavo avatar (encarnação) de Vishnu.
128

AUTOR
RITA D’ÁVILA CACHADO
Antropóloga, Programa Internacional de Doutoramento em Antropologia Urbana do ISCTE,
bolseira de doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia.
129

Capítulo 9. A rua como espaço


público de sociabilidade: um olhar
comparativo1
Joan J. Pujadas

1 Este texto tem como primeiro antecedente uma palestra apresentada juntamente com o
prof. Luís Baptista, da Universidade Nova de Lisboa, em um Congresso Internacional de
Arquitetura realizado em 2000. Trabalhámos de maneira comparativa as cidades de
Lisboa e de Barcelona, a propósito das grandes transformações que vêm ocorrendo
nessas duas urbes localizadas nas extremidades da Península Ibérica. Duas cidades que
se olham constantemente e que vêm tecendo uma grande cumplicidade. Duas cidades
que têm sido modeladas pelas autoridades através de políticas públicas que visam
alcançar uma meta talvez utópica: a cidade cosmopolita, acolhedora e hospitaleira. Há
nas administrações locais de ambas as cidades um mesmo modelo abstrato de cidade
ideal, aberta, com vocação para uma presença significativa e real no mundo
transnacionalizado, caracterizado pelos fluxos de pessoas e de capitais, por estilos de
vida contrastantes e por interações globais. Duas cidades que aspiram ocupar um
espaço central na era da pós-industrialização.
2 O foco de interesse daquele trabalho era a identificação dos sujeitos sociais que estavam
na mira dos planejadores urbanos como os principais destinatários das transformações
urbanísticas em Lisboa e em Barcelona, trazidas com as grandes obras públicas
impulsionadas pela “Expo” de Lisboa, em 1998, e pelas Olimpíadas de Barcelona, em
1992. Seguindo a hipótese de Hannerz sobre a cidade mundial, e a de Martinotti sobre as
fases do processo de metropolização, caracterizámos esses sujeitos transnacionais como os
“novos cidadãos” da cidade acolhedora. Ao mesmo tempo, olhando por debaixo do tapete,
comprovámos a maneira como amplos setores da sociedade urbana eram preteridos: os
residentes da velha cidade industrial, os trabalhadores, funcionários e empregados que
moram em ambas as cidades e para quem a vida na cidade se torna cada vez mais
desagradável, desconfortável e pouco acolhedora (Pujadas e Baptista, 2000 e 2001).
Esboçámos naquele trabalho tão somente alguns dos fenômenos e processos de
expulsão, segregação e marginalização dos velhos atores sociais urbanos na nova cidade
130

do pós-modernismo, especialmente o fenômeno do commuting e a explosão das


fronteiras da cidade em direção aos incontáveis confins das respectivas regiões
metropolitanas: esse fenômeno que alguns denominam de cidade difusa 2.
3 Em vários trabalhos posteriores abordei, a partir de diferentes focos de interesse
etnográfico, a mesma problemática: os paradoxos e as contradições da Barcelona do
Fórum Universal das Culturas (Pujadas, 2005), a gentrificação da zona antiga de
Barcelona (Maza, McDonogh, Pujadas, 2003), ou a sustentabilidade social da cidade
acolhedora (Pujadas, 2005). Em relação a Lisboa insisti em dois trabalhos, na
importância da construção de imaginários urbanos que se modificam no processo de
explosão metropolitana (Pujadas, 2001a e 2001b).
4 Meu interesse consiste em rever algumas das propostas que realizei nessas análises
etnográficas dos projetos de transformação urbana de Barcelona, para projetá-las
novamente em uma comparação com a cidade de Lisboa. Mais especificamente,
interessa-me analisar as estratégias de subsistência dos velhos moradores dos bairros
antigos da cidade ao lidar com o turbilhão de mudanças urbanísticas, sociais e
económicas que tendem a marginalizá-los e/ou a expulsá-los.

Duas realidades en comparação


5 Em fins dos anos 80, Madragoa, em Lisboa, era um bairro fechado em si mesmo, mas
dava indícios de começar a se aproximar de um período de transição marcado pela
gentrificação, pela renovação urbanística e por sua transformação em uma área de
serviços e de lazer para o conjunto da população lisboeta, que sempre foi atraída ao
local por sua condição de “bairro popular”, repleto de símbolos provenientes dessa
imagem social que se fomenta nas marchas populares das festas da cidade de Lisboa 3.
6 O Raval de Barcelona constitui uma realidade comparável, ainda que naquele momento
em que foi pesquisado se encontrava em uma etapa de plena transição em direção a um
enclave urbano gentrificado e submetido a um processo de transformação em área de
serviços e em vitrine da “nova Barcelona” pós-olímpica. Os debates e mobilizações
cidadãs frente às atuações urbanísticas do governo municipal mostram as resistências
da cidadania diante da especulação urbanística e do desejo político de transformar o
Raval em um espaço ao serviço do turismo transnacional, que somente de maneira
subsidiária atende às necessidades da população residente, envelhecida, pobre e
crescentemente imigrante.
7 A etnografia urbana e, em particular, a observação participante costumam ser um
conjunto de contatos descontínuos e focalizados em pessoas concretas (os informantes)
com quem é possível aprender a ler a realidade cotidiana que se depara diante dos
olhos do investigador. O fluir anónimo de pessoas e de grupos, uns moradores, outros
transeuntes, vai dando lugar à possibilidade de identificar cantos, pontos de encontro,
referências espaciais que permitem entender quem são os atores que se entrecruzam
nas ruas e que relações estabelecem com outros atores em espaços identificáveis e
delimitados dentro do espaço público.
8 A experiência da Madragoa de fins dos anos de 1980 nos remete a uma realidade
fortemente carregada de relações sociais próximas e fechadas, caracterizadas por um
sem-número de espaços de encontro e por uma infinidade de interações. Em pouco
tempo frequentando o bairro, a equipe de pesquisa era detectada logo que estacionava
131

o carro em uma de suas ruas, de modo que em poucos minutos todas as pessoas que
conhecíamos já sabiam da nossa presença. Não podíamos fugir dos mecanismos de
controle social existentes entre a população residente. As pessoas sabiam de nós, já nos
tinham etiquetado. A rua era, para nós, um espaço natural de interação, como para os
próprios residentes. As relações sociais na Madragoa eram descritíveis como uma
sociabilidade de becos e cantinhos. A apropriação das ruas por parte de seus vizinhos
transformava o espaço público em um espaço semiprivado. Os passos de um estranho
no cruzamento das ruas podiam interromper as conversas dos interlocutores, que
prestavam atenção no estranho até que ele desaparecesse.
9 No Raval dos anos 1990 e inícios da década atual ainda se encontravam residualmente,
nas zonas menos afetadas pelas renovações urbanísticas e pelos fluxos de população
nova, espaços circunscritos onde se detectava um tipo similar de apropriação da rua
como espaço semiprivado. No entanto predominavam relações sociais anónimas, por
parte de uma vizinhança sumamente diversa, onde não era fácil diferenciar os
moradores residentes, os usuários cotidianos (estudantes universitários, trabalhadores
de empresas, proprietários e empregados de comércio) e os transeuntes casuais
(turistas ou moradores de outras zonas de Barcelona). Diversidade e anonimato estes
que estão carregados de diversidade étnica e cultural já que, atualmente, 47% da
população do Raval é estrangeira.
10 Acabo de assinalar que o anonimato (esse grande conceito que sempre esteve associado
à cidade) estava se apropriando definitivamente das ruas do Raval, mas esta é uma
afirmação que requer uma reformulação significativa. O fluir da rua e a aproximação
superficial do etnógrafo dão a impressão de que são anónimas relações marcadas por
uma série de características que tentarei desvelar:
1. Como bairro de serviços, o Raval está quase sempre cheio de transeuntes e de
visitantes: museus, galerias de arte, instituições universitárias, centros de pesquisa. Ali
têm sua sede instituições culturais e científicas, como o Institut d'Estudis Catalans e a
Biblioteca da Catalunha, assim como inúmeros teatros;
2. Há outros pólos de atração para um tipo de transeunte mais assíduo ao bairro:
restaurantes étnicos e um comércio específico destinado a comunidades de
estrangeiros, como paquistaneses, latino-americanos e marroquinos, que acodem aos
ditos centros vindos do bairro e de fora dele, com assiduidade;
3. Há no bairro diferentes centros regionais, como o Centro Riojano, Murciano e
Aragonês, com restaurantes abertos a pessoas dessa procedência, mas onde também
almoçam empregados, funcionários e outros que trabalham no bairro;
4. O bairro é sede de um número importante de organizações civis de ajuda à
marginalidade, ao desenvolvimento e à resolução de conflitos. Associações de e para os
imigrantes estrangeiros. Existem mais de 50 associações, entre ONGs e outras entidades;
5. No Raval funciona um número importante de locutórios (centros de cabines
telefónicas), onde se reúnem grupos organizados por nacionalidades e por afinidade ou
proximidade geográfica, membros de todas as comunidades de estrangeiros. Não
somente falam com suas famílias e acessam a Internet, como também praticam relações
de sociabilidade e procuram contatos que possam ser úteis em termos de trabalho e de
residência;
6. O bairro possui um sem-número de espaços públicos – analisaremos posteriormente –
que atraem públicos estáveis e facilmente identificáveis em dias e horas determinados:
crianças e jovens em horário extra-escolar, mães com bebés que saem para tomar sol e
132

entabulam conversas ao ar livre, vendedores ambulantes com rotas estáveis e pré-


fixadas, aposentados que ocupam lugares fixos nos bancos do novo mobiliário urbano e,
enfim, clientes assíduos que se sentam às mesas nas calçadas de qualquer café
localizado nos pontos mais centrais e patrimonialmente mais prestigiados do Raval.
11 No Raval, como em qualquer outro espaço urbano, as pessoas se relacionam e se
vinculam, se apoiam ou entram em confronto. Não é fácil decifrar nem a lógica, nem a
maneira como organizam e reorganizam suas vidas, nesse emaranhar e desemaranhar
constante de relações sociais. Mas essa é uma afirmação que exige uma profundidade
etnográfica, especialmente em um lugar submetido a tantas pressões e a tantas
mudanças. O fato é que não é difícil ver como vão surgindo novas formas de
sociabilidade e de interação, e como estas se associam a espaços concretos, ainda que
movediços. Observar a cidade consiste, essencialmente, em estar preparado para
detectar um fluir constante de pessoas e de relações. Descobrir a lógica, os interesses
das pessoas, seus vínculos, suas trajetórias e seus projetos pessoais e de grupo, é o que é
complexo. O anonimato, ou o simulacro de anonimato, surge da impossibilidade de cada
ator social particular identificar e reconhecer as pessoas e os grupos que com ele se
cruzam, como tantas vezes assinalou Sennett4.
12 Esse desconhecimento gera desassossego, insegurança e, com muita freqúência,
agressividade, relações tensas. É a percepção do urbanita abordado por congéneres
depredadores, pelos grandes e pequenos felinos, aos que se referia em seu trabalho o
etnógrafo urbano Luís Fernandes, dentro de uma construção social da cidade como
espaço selvagem e sem regras reconhecíveis (Fernandes, 2003: 57-60).
13 Alguns espaços emblemáticos do “novo Raval”, como a Plaça dels Àngels e a Rambla del
Raval, constituem bons exemplos do tipo de sociabilidade tensa e conflituosa que
substitui formas anteriores de interação vicinal, caracterizadas por uma maior
cumplicidade e entendimento mútuo. A Plaça dels Àngels é um espaço novo e amplo
aonde confluem várias das instituições culturais da Barcelona-fashion: o MACBA (Museu
de Arte Contemporânea, obra de Richard Meier, 1995), o FAD (Foment de les Arts
Decoratives, localizado em um setor do antigo Convent dels Àngels, edifício gótico que
organiza exposições de design ), e muito perto do maior ícone da pós-modernidade
cultural, o CCCB (Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona, que funciona no
edifício modernista da Antiga Casa de Caridade). Em dita praça interagem
cotidianamente, e não sem conflitos, uma extensa gama de atores muito heterogéneos:
1. Skatistas provenientes dos cinco continentes, que fazem suas manobras nas rampas
que dão para o MACBA e nos elementos do mobiliário urbano desta “praça dura”;
2. Numerosos visitantes de ditas instituições culturais;
3. Turistas e passeantes da zona histórica de Barcelona;
4. Crianças e jovens que brincam na praça, jogando, sobretudo, à bola ao sair dos
colégios e institutos próximos;
5. Mães de diferentes origens, mas predominantemente filipinas e magrebinas, com
seus bebés e filhos pequenos;
6. Forças de segurança pública e privada (do MACBA), que tentam regular o caos
humano que se agrupa no local;
7. Bêbados e mendigos que chegam a dominar dito espaço ao escurecer, sobretudo
quando esse espaço se transforma em um não-lugar;
8. Clientes de alguns bares e cafés que têm suas mesas na calçada da própria praça ou
em seus arredores;
133

9. Gatunos e carteiristas dispostos a se aproveitar do abundante tráfego humano;


10. Um sem-número de mediadores sociais, agentes de intervenção social, membros de
ONG, etnógrafos e outros cientistas sociais;
11. Artistas de rua e pedintes que procuram trocados dos transeuntes;
12. Modelos e equipes técnicas que rodam spots publicitários, tomando o edifício ultra-
moderno do MACBA como cenário;
13. Artistas plásticos que, com a colaboração de atores e atrizes, organizam
performances promovidas ou patrocinadas pelo MACBA, para “aproximar a arte às
pessoas da rua”;
14. Sindicalistas, membros de associações cívicas e vendedores ambulantes que montam
seu pequeno ponto para divulgar ou vender suas idéias, atividades ou mercadorias.
14 De outro lado, no faraónico espaço vazio criado com vistas à glorificação da Barcelona-
do-design, encontramos a Rambla do Raval, que se estende sobre o espaço que
anteriormente ocupavam três quarteirões de casas, há pouco habitadas por uma
população muito modesta e envelhecida, e que foi realojada somente em parte dentro
do bairro, em edifícios novos, mas em apartamentos muito pequenos. A pretensão do
governo municipal de Barcelona ao criar esse espaço emblemático era a de fomentar a
presença de investidores que “regenerassem” o tecido social, empresarial e comercial
desse setor do bairro. Em dita rambla está planejada a construção de um hotel de luxo e
de uma área comercial de grandes dimensões, que pretendem ser o motor do processo
de gentrificação da zona.
15 Por ora, no entanto, a Rambla costuma estar ocupada, de acordo com horários e
temporadas do ano, por um conjunto de vizinhos e de pessoas que moram nos
arredores: pelas manhãs, aposentados e antigos moradores espanhóis da zona; um
público muito mais heterogéneo e diversificado ao meio-dia e nas primeiras horas da
tarde; e, finalmente, a partir do entardecer, por paquistaneses. O governo municipal e
uma série de associações culturais, radicadas ou não no distrito, fazem o possível para
programar ao longo do ano um máximo de atividades nesse grande espaço, que
continua parecendo sempre bastante vazio. Há, pois, uma luta simbólica e solapada por
tornar hegemônico o uso desse espaço público, embora pareça evidente que as
intenções do governo municipal, ao criar a Rambla, não se estão vendo confirmadas
pelos usos que públicos tão diversos lhe estão dando5.

AS ETAPAS NO PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO DE DUAS RUAS


DO RAVAL DE BARCELONA

16 As ruas Cadena e San Jerónimo eram duas vias estreitas (de 4m de largura), que se
dispunham perpendicularmente às ruas San Pablo e Hospital, duas artérias que
atravessam o bairro desde as Ramblas de Barcelona até o Paseo de San Antonio. O
comprimento de ambas as ruas era de pouco mais de 300m, contendo três quarteirões
de casas. Desde o ano 2000, quando foi inaugurada, a Rambla do Raval é um imenso
espaço vazio de 58m de largura por 317m de comprimento e 18 362m de área, que
aparece depois da demolição dos 62 edifícios e 789 moradias circundadas pelas
mencionadas ruas Cadena e San Jerónimo. No total, mais de 1800 moradores ficaram
sem lar: uns poucos foram realojados em outros edifícios do bairro, mas a maioria foi
134

literalmente expulsa do bairro, sendo compensados de maneira mísera pela empresa


mista que administra a remodelação do bairro.
17 Mas vamos por partes, ordenadamente, para explicar o processo que conduz a este
desfecho. A história da Rambla do Raval é uma história de um século e meio, isto é, os
anos que vão desde a aprovação do Plano Cerdà, em 1859, até a sua inauguração, em
2000. Como assinalam diversos autores (Abella, 1999; Maza, McDonogh e Pujadas, 2003;
Sagarra, 1998), as políticas urbanísticas de Barcelona durante esse século e meio são
marcadas de maneira constante e inalterável pela vontade do governo municipal de
Barcelona de levar à prática a idéia central do urbanista Idelfons Cerdà de integrar a
trama urbana “selvagem” e degradada da Ciutat Vella de Barcelona ao contexto da
concepção racional, estética e higienista do ensanche barcelonês do século XIX6. O plano
de Cerdà, do qual o projeto da Rambla do Raval é uma parte constitutiva, consistia em
abrir grandes avenidas no coração da Ciutat Vella para unir esse distrito com a cidade
nova e conseguir, além disso, assentar as bases da posterior transformação interna dos
enclaves situados nos arredores de ditas avenidas7.
18 Durante estes 141 anos que separam o projeto de sua materialização, no caso da Rambla
do Raval, ocorreram muitas coisas na área urbana delimitada pelas antigas ruas Cadena
e San Jerónimo. Para começar, é preciso assinalar que o Raval foi, desde fins do século
XVIII, um bairro operário e industrial que abrigou a aparição da primeira
industrialização da Catalunha. Um bairro, pois, onde se instalavam as fábricas
(principalmente têxteis) e os singelos blocos habitacionais dos trabalhadores das
mesmas. Com a exceção dos poucos palacetes e residências burguesas existentes no
bairro, que se alinhavam ao longo das Ramblas de Barcelona, ou de ruas como Nou de la
Rambla, os setores burgueses e aristocráticos da Barcelona do século XVIII e da primeira
metade do XIX, residiam principalmente no Bairro Gótico.
19 No Raval, junto às fábricas e às habitação operárias, perduravam grandes extensões de
terreno, propriedade das ordens religiosas que tinham os seus conventos instalados no
bairro (incluindo hortas urbanas e jardins, que foram sendo vendidos ao longo do
século XIX com vista à expansão industrial). No bairro também havia hotéis baratos e
pensões, dirigidos à demanda de marinheiros e viajantes que chegavam por via
marítima à cidade. Também existia uma ampla oferta de casas de comida e de locais de
prostituição.
20 O auge do ensanche como a área residencial da burguesia e das camadas médias
barcelonesas da segunda metade do século XIX e do século XX, e a desaparição
progressiva das fábricas, que foram transferidas para novos ensanches industriais com
o crescimento da cidade, fizeram com que o Raval perdesse centralidade, adquirisse um
caráter popular e se transformasse em um lugar crescentemente segregado e
marginalizado. Além disso, a progressiva degradação urbanística e o ambiente
insalubre de suas ruas e casas fizeram do Raval um lugar de chegada para as sucessivas
ondas de imigrantes em busca de preços acessíveis de habitação. E ainda há mais, pois o
bairro foi concentrando ao longo dos anos a maior parte da oferta em matéria de
prostituição. O Raval do começo do século XX já era um bairro pobre, degradado e
estigmatizado, também conhecido como Barrio Chino (Bairro Chinês), um no maris land
para as mentes bempensantes da cidade. Um lugar contaminador e empestado
socialmente.
135

21 A história do bairro não é somente (nem substancialmente) uma história marcada pela
marginalidade social, pela degradação urbanística, pelas atividades ilegais ou pela
segregação socioespacial. A estigmatização do bairro é essencialmente simbólica, já que
ele se torna o saco de pancadas ou a contra-imagem que os barceloneses fazem de sua
cidade como um lugar de ordem, convivência e equilíbrio. O “Chino” é, por definição, e
à margem de qualquer evidência empírica, um lugar perigoso, a selva urbana a que se
referia Fernandes (2003). A criação e a difusão desse discurso contribuem de maneira
efetiva para os trabalhos dos higienistas, assim como para as políticas municipais
ilustradas e transformadoras do urbanismo da Barcelona do século XIX. Cerdà cristaliza
esses discursos e esses desejos racionalizadores em seu projeto de reforma de
Barcelona. É justamente o contraste entre a velha e a nova Barcelona que constrói e
fundamenta o mito estigmatizador do Raval. No entanto a existência de instituições
como o Liceo (que data de 1833) é uma prova de que, antes da chegada da reforma, o
Raval era o coração de Barcelona.

Espaço privado e espaço público em uma etapa de


ruptura
22 Nas cidades sul-européias, os centros históricos, apesar das políticas públicas tendentes
à recuperação patrimonial e ao embelezamento com fins turísticos, apresentam
abundantes signos de degradação urbanística e de marginalização social. Os preços da
habitação são significativamente mais baixos ali do que nos novos centros urbanos, o
que torna viável a instalação, em princípio provisória, de famílias com poucas
condições económicas. Por isso, costumam ser lugares de acolhida para os novos
imigrantes que chegam à cidade. A pobreza dos novos cidadãos transnacionais se soma
à pobreza autóctone, caracterizada por atores sociais marcados pela velhice,
desqualificação, alcoolismo e exclusão social.
23 O Raval, no entanto, apresenta uma realidade diversa e complexa. Principalmente por
causa das reformas urbanísticas, existem, há mais de vinte anos, setores e enclaves do
bairro muito diferentes, onde encontramos galerias de arte, estúdios de artistas,
escritores e intelectuais que, procedentes de lugares muito diversos, viram-se atraídos
pelas imagens do bairro como um lugar de boémia. Alguns setores sociais, compostos
por famílias de longa data no lugar, melhoraram suas habitações ou adquiriram um
apartamento em edifícios de construção nova próximos a seus antigos lares. Por outro
lado, ao se tratar de um bairro aberto, os ambientes e fluxos humanos conferem-lhe
durante muitas horas do dia um ambiente cosmopolita muito atraente 8.
24 Apesar do reducionismo que possa parecer representar a grande complexidade do
Raval em termos dualistas, pode ser útil para delimitar duas dinâmicas claramente
diferenciadas que observamos nele: a fragmentação e o enquistamento social de uma
parte significativa de antigos moradores, que se projeta discursivamente em forma de
reclamações e de pugnas dirigidas à população estrangeira imigrante, por um lado, e à
administração municipal, por outro. Paralelamente, e sobrepondo-se à realidade
anterior, encontramos o conjunto de dinâmicas que se sucedem no Raval, entendido
como um enclave ou localização de atividades associadas aos serviços, instalações e
infra-estruturas, principalmente culturais, que se encontram situadas nele. Podemos
denominar estas duas realidades de dinâmicas sociais resistentes e emergentes 9.
136

25 A etnografia do setor que denominei de resistente nos conduz, inevitavelmente, a um


interessantíssimo tema que já foi abordado faz quase duas décadas por Althabe (1993) a
propósito de Bolonha: a relação entre os usos do espaço público e a residência. Se no
caso do bairro popular analisado na cidade italiana, a reforma social habitacional se deu
em detrimento da ocupação dos espaços públicos e da sociabilidade vicinal na rua,
gerando involuntariamente individualização e desmobilização social, em outros casos,
os déficits habitacionais não geram mobilização e solidariedade, mas frustração e falta
de solidariedade, como no caso do Raval.
26 Os baixos níveis de renda fazem com que muitos moradores não tenham nem condições
para adquirir um domicílio no bairro nem tampouco consigam um arrendamento para
uma habitação razoável. Alguns esperam que o estado ruinoso da casa que ocupam
permita que o bloco seja afetado pela reforma e possam assim estar em condições de
negociar uma indenização ou um remanejamento para um apartamento de construção
nova. São poucos, no entanto, os depoimentos de vizinhos que se beneficiaram da
reforma. Realidade ou lenda urbana, a maioria dos informantes faz eco às situações de
expulsão ou de despejo forçosos. Junto à queixa pela situação, não costumam aparecer
críticas razoadas às políticas municipais ou à especulação imobiliária, mas apelos à má
sorte e, em muitas ocasiões, à competição trazida pela nova cidadania estrangeira. As
reclamações se concentram na superpopulação dos apartamentos vizinhos, na falta de
conforto e no barulho decorrentes disso. Há também numerosas referências à ocupação
ilegal de apartamentos interditados (Maza e Parramón, 2005).
27 Em comparação com a Madragoa, a situação do Raval barcelonês apresenta signos
evidentes de maior desestruturação social com quadros de segregação severa e de
marginalização extrema, que não são atendidos por essas mesmas autoridades que
conseguem exportar, e com êxito, um modelo de urbanismo e de design urbanos. A
sociedade civil do bairro histórico está submetida a uma alienação e a uma falta de
consciência cidadã que impede toda opção de consolidação de uma frente de luta
comum. As associações de moradores se encontram “intervindas” por membros dos
partidos do governo municipal e dissuadem, mais do que estimulam, reações cidadãs
frente à marginalidade existente (Da Silva, 2003). As numerosas ONG radicadas no
bairro paliam em alguma medida necessidades setoriais, mas não podem abordar
nenhum tipo de iniciativa que mude as condições estruturais do bairro, já que os fluxos
de novos cidadãos também são constantes.
28 Madragoa e Raval se encontram em fases muito diferentes do processo de
transformação urbanística e social. Enquanto na Madragoa as transformações se
conduziram em direção à recuperação e à remodelação do parque habitacional a um
ritmo relativamente pausado, significando um processo lento de gentrificação, no Raval
as atuações foram em uma escala muito superior. Enquanto na Madragoa a sociedade
local, ou o setor resistente, tem alguma possibilidade de moldar ou de integrar os novos
moradores (em sua maioria lisboetas de classe média), no Raval os fluxos de população
têm sido massivos e incontrolados, havendo-se configurado verdadeiras comunidades
étnicas, cuja visibilidade hegemônica em algumas das principais ruas do bairro resulta
bem estridente. Não ocorrem no Raval condições de mútua integração dos diferentes
setores sociais.
29 Paralelamente, as políticas municipais agem no território criando equipamentos e
infra-estruturas que abrem o bairro aos fluxos internos da população da cidade, que
consolidam a tão ansiada gentrificação que, no entanto, tende a se instalar em enclaves
137

periféricos do bairro e, principalmente, no setor noroeste do mesmo, no setor mais


próximo ao ensanche da cidade. Não há, no caso barcelonês, uma correspondência
direta entre a dimensão das intervenções urbanísticas e a transformação das condições
sociais de seus habitantes.
30 A Madragoa, ainda que se encontre em um processo de diversificação social e de
gentrificação, experimenta um processo mais sossegado em que a sociedade local não
se viu desestruturada. As numerosas associações existentes e, muito especialmente, o
Esperança Atlético Clube, que organiza a participação do bairro nas Marchas Populares
do mês de junho, garantem um grau significativo de coesão interna e de representação
dos interesses da população mais antiga. Enquanto que isso não sucede no bairro
barcelonês, dividido entre os interesses das associações de comerciantes, dos
promotores imobiliários e das políticas públicas municipais.
31 Os graus de fratura social e os déficits de coesão no Raval são enormemente superiores
aos que podemos observar na Madragoa. A lealdade aos vizinhos e a identidade de
grupo são também amplamente diferentes. Tudo isso se reflete na maneira como se
utiliza o espaço público e na natureza das interações vicinais. Na Madragoa persiste o
controle social e a capacidade dos setores resistentes em vincular e atrair em direção
aos seus hábitos locais, amplos setores emergentes, gerando uma osmose, assim como a
recriação do sentimento de pertencimento coletivo. No caso do Raval isto não sucede
assim. Ali, 47% da população registrada é estrangeira e sua presença no bairro não data,
em geral, de antes do ano 2000. O Raval está hoje dominado por esses novos residentes e
pelos fluxos incessantes de visitantes e de transeuntes, que são numerosíssimos, como
já sugerimos. Isso reflete na maneira segregada como as pessoas ocupam a rua e se
relacionam. Os vizinhos costumam ter conflitos em sua própria escada, e na rua as
relações tendem a ser anónimas. Tão somente se conservam algumas velhas amizades,
que é preciso ir buscar e que dificilmente se encontram de maneira casual passeando
pelo bairro.

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Sennett, Richard, 1990, The conscience of the eye, Londres y Boston, Faber y Faber.

NOTAS
1. Tradução de Marisol Goia do castelhano para português do Brasil.
2. Trata-se, sem dúvida, de um conceito paradoxal se nos situamos na lógica da cidade industrial.
Como assinala Salvador Rueda (2003): “As diversas funções da cidade (universidade, habitação,
indústria, comércio, etc.) se separam fisicamente, dando lugar a amplos espaços cidadãos com
funções urbanas limitadas, em muitas ocasiões, monofuncionais. Nesses lugares, a vida da cidade
se empobrece porque os operários se relacionam unicamente com os operários nos polígonos
industriais, os estudantes com seus homólogos nos campus universitários, os funcionários com
funcionários nos polígonos de escritórios da nova periferia. Seria possível fazer extensiva a
homogeneização e a funcionalidade que reduz todos os lugares da cidade, sejam zonas
residenciais ou de tempo livre, zonas comerciais ou culturais. O espaço se especializa, e o contato,
139

a regulação, o intercâmbio e a comunicação entre pessoas, atividades e instituições diferentes,


que como se sabe, constituem a essência da cidade, vão se empobrecendo ininterruptamente em
todo o território urbano. Até o extremo de nos questionarmos se estamos diante da construção da
cidade ou, ao contrário, nos encontramos diante de um fenômeno que a destrói e a dilui”.
3. Sua condição de vizinho do senhorial e tranquilo bairro da Lapa, com quem Madragoa divide
umas fronteiras permeáveis, talvez seja um outro elemento que incrementa o seu poder de
atração.
4. Refiro-me, essencialmente, a tudo o que ele contribuiu para o tema em O declínio do homem
público, em Les tyrannies de Vintimité e, sobretudo, em The conscience ofthe eye.
5. Nesse sentido a “regeneração” urbanística do bairro não vem sendo seguida, de maneira
mecânica, de uma transformação, também “regeneradora”, dos públicos e de suas relações
sociais. O bairro, pela ótica dos planejadores urbanos, não está ainda suficientemente
gentrificado.
6. O ensanche barcelonês se refere à expansão da malha urbana de Barcelona a partir das
fronteiras da antiga cidade; a Ciutat Vella.
7. A abertura em 1921 da Via Layetana, que atravessa Ciutat Vella pela Plaça Urquinaona (no
sentido SE do ensanche) até o porto de Barcelona, é a primeira grande realização da proposta do
Plano Cerdà, de ligar o ensanche à Ciutat Vella através de três grandes vias. A segunda realização,
somente parcial desse projeto, é justamente a Rambla do Raval.
8. Há que se ter em conta que, além dos constantes fluxos turísticos, o bairro possui dinâmicas
próprias relacionadas com as atividades de seus moradores e com as dos usuários da
multiplicidade de instituições instaladas nele: faculdades e centros universitários, teatros,
bibliotecas, centros de pesquisa, mercado e comércio.
9. Esta distinção não pretende ser absoluta. É meramente instrumental. Por outro lado, somos
plenamente conscientes da reversibilidade dos termos e até de sua ambiguidade e maniqueísmo.
No entanto eles nos servem para alinhar, frente a frente, os diferentes atores sociais que
representam os dois setores separados e confrontados pela reforma urbana e pelo fomento da
gentrificação do bairro: aqueles que perdem e aqueles que ganham, ou os resistentes e os
emergentes.

AUTOR
JOAN J. PUJADAS
Antropólogo, Universitat Rovira i Virgili, Tarragona.
140

Capítulo 10. A política na rua. Festa


liberal e festa contra-revolucionária
no portugal do século XIX
Fátima Sá e Melo Ferreira

1 Se as monarquias absolutas da Europa Moderna investiram na festa enquanto


cerimónia pública em que o poder se representava e dava a ver, em conjunto com a
hierarquia social do Antigo Regime, as revoluções dos finais do século XVIII e do início
do século XIX não apostaram menos na celebração de festividades públicas que
procuraram refundir enquanto espaços simbólico-rituais.
2 Os regimes liberais, que se implantaram um pouco por toda a Europa Ocidental na
primeira metade do século XIX e se institucionalizaram ao longo da segunda, ocuparam-
se igualmente em promover novas formas de inscrição da festa no espaço público,
concebendo-a como ritual cívico, instância de socialização e identidade política e forma
de produção de memória.
3 Em Portugal novas práticas e rituais políticos emergiram também com a primeira
revolução liberal, a revolução de 1820, que se preocupou desde o início em apoiar a
consolidação do regime através de diversas formas de ritualização e celebração de que
são exemplo os vários juramentos políticos que as juntas de governo promoveram ainda
antes da reunião das primeiras cortes liberais e, sobretudo, os juramentos
constitucionais exigidos a todas as autoridades do país, mandados celebrar com
“regozijo público”, e que incluíam manifestações de carácter sagrado e profano – desde
os Te Deum às iluminações, aos dramas alegóricos e outras representações teatrais.
4 As primeiras cortes liberais preocuparam-se igualmente com o estabelecimento de um
novo calendário comemorativo e festivo, diverso do das festas religiosas e do das
celebrações dos fastos da monarquia, estabelecendo “dias de festividade nacional”
destinados a comemorar as datas consideradas fundadoras do novo regime,
contribuindo assim para produzir uma outra memória colectiva que se pretendia liberal
e nacional.
141

5 Nesse novo calendário comemorativo distinguiam-se os dias mais marcantes da


instituição da nova ordem política como os dias 24 de Agosto e 15 de Setembro, datas
que celebravam os movimentos militares revolucionários do Porto e de Lisboa, ou o dia
26 de Janeiro, data da primeira reunião das cortes constituintes.
6 Apesar do seu carácter revolucionário, o regime vintista não deixou, no entanto, de ser
um regime monárquico onde não só os fastos da monarquia continuaram a ser
celebrados, mas onde mesmo alguns dos dias do calendário monárquico tradicional
foram elevados à nova categoria de dias de “festividade nacional”, como foi o caso do
dia do aniversário do rei e do dia do Santo do seu nome.
7 Mais do que produzir dois calendários separados tratava-se de nacionalizar alguns dos
dias em que a monarquia era celebrada através do seu monarca, consolidando assim o
seu carácter constitucional, e também de instaurar outros que, pelas suas
características, se destinavam a tornar-se emblemáticos da nova natureza do regime,
como era o caso da celebração do dia em que, ainda no Brasil, o rei prestara juramento
de fidelidade à futura Constituição.
8 A importância político-simbólica desses processos de celebração pública tinha sido bem
ilustrada pelas tensões em torno da chegada do rei a Lisboa vindo do Brasil, a 4 de
Junho de 1821, momento-chave do vintismo, para o qual Valentim Alexandre chamou
pela primeira vez a atenção na obra Os sentidos do Império (Alexandre, 1992), e no qual as
questões do protocolo do desembarque do soberano na cidade e do seu percurso até ao
Palácio de Queluz, que seguia o regimento das ‘entradas régias” do Antigo Regime, se
revelou um momento essencial no confronto de poderes entre o rei e as cortes.
9 O investimento das primeiras cortes liberais na festa e na celebração políticas foi
acompanhado por outras formas de produção simbólica, como o estabelecimento do
azul e branco como “cores nacionais” e a criação do “laço nacional” onde essas cores
publicamente se exibiam, laço que todos os cidadãos constitucionais eram convidados a
ostentar mas cujo uso era obrigatório para os militares e os funcionários do Estado, e
pelos vários hinos “nacionais e constitucionais” que foram compostos e publicamente
executados nos curtos três anos de duração do regime. O vintismo apostou, assim,
muito claramente, na criação de um forte dispositivo simbólico que Isabel Nobre
Vargues foi a primeira a estudar no seu conjunto (Vargues, 1997).
10 A ênfase posta pela primeira revolução liberal na simbólica e no ritual políticos não
teve uma verdadeira continuidade ao longo dos cerca de 70 anos que a monarquia
constitucional durou em Portugal após a vitória definitiva dos liberais sobre os
absolutistas em 1834. Na verdade, o regime moderado pelo qual o país se regeu durante
quase todo esse período, baseado na Carta Constitucional outorgada por D. Pedro,
insistiu muito menos na pedagogia do ritual e da simbólica políticas, da celebração e da
comemoração, não tendo conseguido consagrar rituais públicos regulares ligados à
instauração do regime, referentes, por exemplo, à outorga da Carta ou à vitória sobre o
miguelismo.
11 Embora recorrentemente aparecessem afloramentos desse tipo de processo associados
à figura de D. Pedro ou a datas mais significativas da gesta liberal, como a entrada dos
liberais em Lisboa a 24 de Julho de 1833 durante a Guerra Civil, o cartismo não
instaurou a figura do dia de festividade nacional ligado à sua fundação no qual, para
citar Maurizio Ridolfi, “os símbolos e rituais públicos do Estado renovassem o
sentimento patriótico dos cidadãos” (Ridolfi, 2004: 8) 1.
142

12 A distância e a perda de sentido com que as comemorações desses acontecimentos eram


vistas nas últimas duas décadas do século podem ser ilustradas por dois breves
exemplos: a verrinosa crítica de Ramalho Ortigão às celebrações públicas da morte de
D. Pedro, publicada nas Farpas, e algumas bem-humoradas páginas do popular Lisboa em
camisa de Gervásio Lobato dedicadas à entrada dos liberais em Lisboa em 1833.
13 Sobre as primeiras, escrevia Ramalho Ortigão em 1881 um curto texto com este
prometedor início: “De cada vez que vem ao mundo o dia 24 de Setembro o país cobre-
se de crepes e arranca do seu peito um ai decretado pelo Diário”. O artigo terminava
com um apelo ao “respeito do esquecimento” e à “consideração do silêncio” ou, pelo
menos, ao choro exclusivamente doméstico sobre “um sujeito que morreu há cerca de
meio século, que ninguém da nossa geração teve a honra de conhecer e que ninguém
viu mais gordo” (Ortigão, 1944).
14 Com uma menção humorística ao 24 de Julho, iniciava Gervásio Lobato o segundo
capítulo de Lisboa em Camisa nos termos que seguem:
“No dia 23 de Julho o Sr. Justino Antunes recolheu a sua casa às Ave-marias. Queria
deitar-se cedo, para no dia imediato assistir no Rossio à grande cerimónia patriótica
de ver romper no Rossio a aurora da liberdade. Nunca estivera em Lisboa nessa
madrugada memoranda e por isso queria gozá-la bem desde o l.° ao último foguete;
(...) ainda o Jornal da Noite não se apregoava nas ruas já a família Antunes dormia na
cama o sono que precede as grandes solenidades.” (Lobato, 1997 [1880]: 23)
15 A herança mais duradoura do cartismo neste domínio foi, sem dúvida, a popularização
do chamado “hino da Carta”, executado durante quase todas as cerimónias públicas,
sem com isso assumir verdadeiramente as características de um hino nacional, e a
consagração do azul e branco como cores do regime monárquico-constitucional.
16 Nem mesmo o setembrismo, a corrente mais radical do liberalismo português, que em
1836 repôs em vigor a Constituição Vintista e que tinha naquele regime alguma filiação
doutrinária, conseguiu recuperar e dar continuidade ao edifício simbólico-ritual criado
com a Revolução de 1820 apesar de, durante o governo de Passos Manuel, terem sido
tomadas algumas medidas legais que faziam parte do mesmo desígnio de
nacionalização da política e de formação do cidadão constitucional, como, por exemplo,
a criação de um Panteão Nacional.
17 Seríamos assim tentados a considerar que o processo de ritualização moderna da
política, iniciado no início dos anos vinte do século XIX, não teve herdeiros próximos no
tempo e que a herança do vintismo só seria passível de ser encontrada, quase 100 anos
depois, no republicanismo e na l.a República.
18 Esta visão das coisas arrisca-se, no entanto, a silenciar uma dimensão menos conhecida,
mas não menos importante, do uso de rituais e símbolos na política portuguesa da
primeira metade do século XIX: a que foi utilizada de forma intensiva pela contra-
revolução miguelista antes da tomada do poder por D. Miguel e durante os anos do seu
governo.
19 Constituindo-se no período de 1820-1823, durante a primeira experiência liberal
portuguesa e em reacção contra ela, o miguelismo inspirou-se de facto muito
directamente nas novas práticas políticas elaboradas durante aquele período.
20 Essa inspiração é perceptível tanto no uso que a contra-revolução fez dos novos
dispositivos constitutivos do espaço público liberal, como os jornais ou os clubes
políticos, apesar das inúmeras e veementes críticas que os publicistas contra-
143

revolucionários produziram contra uns e outros, como no repertório festivo que a


contra-revolução elaborou em resposta às novas formas de ocupação simbólica dos
espaços públicos, convocando para o efeito já não apenas as dimensões de encenação do
poder e da ordem social presentes nas celebrações do Antigo Regime, mas também as
dimensões arcaizantes e carnavalescas que nelas subsistiam e eram passíveis de
promover a mobilização política das camadas populares.
21 A importância atribuída à comemoração e à festa pelos círculos ultra-realistas que
rodeavam D. Miguel e a rainha Carlota Joaquina é perceptível logo após o golpe da
Vilafrancada que, como se sabe, implicou a queda da Constituição e o regresso ao
absolutismo, no contexto da luta mais ou menos surda que os opunha ao rei e aos
moderados de que este se tinha rodeado. Sob o impulso dos primeiros, a restauração do
absolutismo implicará, de facto, a organização de um ciclo festivo e comemorativo que
se inicia em Lisboa a 24 de Junho, dia de S. João, o dia do Santo do nome do rei, e só
termina a 26 de Outubro, o dia do aniversário do próprio D. Miguel.
22 Assim, a primeira destas datas, o dia de S. João de 1823, que se situava cerca de um mês
depois do golpe militar de D. Miguel, foi comemorado com a entrada triunfal na capital
do exército de Trás-os-Montes, comandado pelo conde de Amarante, cuja revolta, uns
meses antes, tinha constituído o primeiro sinal significativo de rebelião contra as cortes
liberais.
23 As festividades que celebravam o regresso ao absolutismo iriam prosseguir a 3 de Julho,
com a comemoração do regresso do rei a Lisboa vindo do Brasil, celebrado com
cerimónias na Corte e “festividades públicas” que culminaram com uma grande parada
militar organizada pelo próprio D. Miguel que, depois da Vilafrancada, tinha sido
elevado à categoria de comandante-em-chefe do exército. No contexto deste ciclo
comemorativo houve ainda celebrações públicas em Lisboa durante três dias em honra
da queda de Cádis e da “libertação” do rei de Espanha, ou seja, do fim do liberalismo no
país vizinho, e do regresso a Lisboa do CardealPatriarca, exilado por determinação das
cortes, regresso comemorado com grande pompa, com celebrações de carácter religioso
mas também profano.
24 Finalmente, o dia 26 de Outubro, dia do aniversário do Infante, foi celebrado com
importantes cerimónias na Corte e festas na cidade, com tiros de canhão nas fortalezas,
luminárias, concertos nas casernas e representações teatrais.
25 Subsequente à Vilafrancada, e num curto espaço de tempo, assistimos assim à
emergência de um novo calendário festivo que associa os fastos da monarquia a datas
politicamente significativas para o movimento contra-revolucionário em estruturação,
como as já citadas da queda de Cádis ou do regresso do patriarca a Lisboa, ou, ainda, do
aniversário de D. Miguel, que se passa a comemorar de uma forma nova, como dia de
“grande gala na Corte”, por causa do papel desempenhado pelo Infante na restauração
dos direitos soberanos do seu pai.
26 A partir de 1828, depois da tomada do poder por D. Miguel, a contra-revolução
adoptará, de forma mais consequente, um calendário comemorativo próprio, diverso do
que começara a ser ensaiado na sequência da Vilafrancada, e adaptado às novas
circunstâncias. Agora, às tradicionais festas de celebração do soberano, como o seu
aniversário ou o dia do Santo do seu nome, vir-se-ão juntar as grandes datas do
miguelismo, como o desembarque de D. Miguel em Lisboa, em Fevereiro de 1828, o dia
144

da reunião das antigas cortes que o tinham proclamado legítimo herdeiro do trono e,
naturalmente, o dia da sua aclamação.
27 A dimensão religiosa impregnava profundamente estas festividades, não apenas sob as
formas rituais tradicionais da missa de acção de graças e do Te Deum, mas também
através das novas práticas que tinham emergido com a ascensão do miguelismo e
tinham acompanhado o seu desenvolvimento, como os sermões que exaltavam D.
Miguel como herói da luta contra os ímpios ou como Anjo protector de Portugal, as
orações onde o seu nome era invocado, a exposição de retratos seus no interior dos
templos e as procissões onde era transportada a sua efígie 2.
28 Se nas primeiras manifestações públicas de celebração contra-revolucionária,
associadas à Vilafrancada e ligadas às funções de D. Miguel como comandante-chefe do
exército, o processo de mitificação e glorificação do infante aparece muito claramente
ligado às suas novas funções militares, manifestando-se na presença do exército no
espaço público, com o afastamento de D. Miguel do país, em 1824, após o fracasso da
Abrilada, a celebração e a festa contra-revolucionárias assumirão novos contornos.
29 De facto, será a partir de então que se irão manifestar, de forma mais original, as
modalidades que o miguelismo usou para trazer a política para a rua e, através da festa,
promover a mobilização das camadas populares no espaço público, procedimento que o
liberalismo, quer na sua versão mais radical de 1820-23, quer na sua mais moderada
versão cartista, tinha quase sempre procurado evitar.
30 O ritual mais emblemático da mobilização popular pelo miguelismo é o dos “enterros da
Constituição”, referenciado desde os anos de 1823-24 mas particularmente praticado a
partir de 1826, data da morte de D. João VI e da outorga da Carta Constitucional por D.
Pedro.
31 Neste tipo de prática pública e festiva encenava-se parodicamente o enterro do novo
código liberal, às vezes apelidado de “a menina”. De um “enterro” ocorrido em Viana,
no Minho, em 1828, chegaram-nos os seguintes versos:
A menina já morreu,
Foi-se enterrar à maré.
Disseram os peixes todos:
– “Isto que diabo é?” (Caldas, 1990 [1903])
32 Às vezes a designação preferida não era a de “enterro” mas a de "queima”, porque o
folguedo terminava com a queima de um boneco de palha personificando a Constituição
ou a Carta.
33 Do ponto de vista morfológico os enterros aproximavam-se de vários tipos de rituais
carnavalescos e de irrisão presentes no espaço ibérico, em particular dos que se
encenavam a meio da Quaresma em Portugal, como a “serração da velha” ou o “enterro
da sardinha” em Espanha. A partir dos exemplos que conhecemos é possível também
estabelecer um paralelo com o “charivari”, ou seja, com as “assuadas” de que eram
vítimas os casamentos tidos localmente por transgressores, como os dos viúvos. A
comparação é particularmente pertinente quando os “enterros” eram acompanhados
da leitura de um testamento.
34 Temos exemplos de enterros burlescos em vários pontos do país, principalmente no
Norte rural, mas encontramo-los também em meios urbanos como Viana, no Minho,
Faro, no Algarve, e mesmo em Lisboa.
145

35 O moderado abade de Rebordãos (Trás-os-Montes) deixou-nos um breve mas eloquente


testemunho de semelhantes manifestações na sua província. Referindose aos sucessos
imediatamente posteriores à Vilafrancada e à restauração do absolutismo escrevia:
“Logo depois de tão portentosos acontecimentos soa, por todo o reino e
particularmente nesta província desolada e ressentida, um grito de ódio e de morte
contra a Constituição (...). Então este código sagrado dos direitos do homem e do
Cidadão Lusitano experimenta dos homens e dos Cidadãos Lusitanos, a quem ele
fazia Soberanos, os efeitos da sua soberania e os maiores ultrajes. Uns em monas de
palha a despedaçam a pancadas e tiros de espingarda, outros a queimam e espalham
suas cinzas, e outros conduzindo-a em divertido funeral (...) a enterram nas
cavalariças e currais do Concelho, com mil imprecações contra ela e seus Autores,
os Pedreiros Livres.” (Sepúlveda, 1826: 65)3
36 Evocando parodicamente a morte e enterro do novo regime circulavam, também, desde
o fim do vintismo, impressos em folhetos, opúsculos e jornais, testamentos da “D.
Constituição”, alguns deles extensos e cheios de referências eruditas (Silva, 1993: 141).
37 Na verdade, apesar da sua aparência popular, estes rituais nem sempre foram
protagonizados pelas classes baixas. O clero mostrou ter também uma clara apetência
pelo seu cultivo. Num dos primeiros enterros de que há notícia, que teve lugar em Faro
em 1823, participaram eclesiásticos, com máscaras, cuja decifração exigia bastante
erudição, ostentando dísticos escritos em latim4.
38 Mas é igualmente verdade que alguns “enterros”, exclusivamente protagonizados por
populares, chocaram certos membros da hierarquia da Igreja pela sua rudeza e pelo
desrespeito que demonstravam pelas coisas sagradas. Foi o que aconteceu em Setúbal,
já durante o governo de D. Miguel, quando um grupo de pescadores da vila, adornados
com cornos, enterrou um montão de ossos, os ossos da Constituição, que aspergiam
também com um corno como se fosse um hissope (Ferrão, 1940).
39 Segundo Oliveira Martins, aquando do desembarque de D. Miguel em 1828, os frades de
um convento de Lisboa, depois de armarem um arco que iluminaram durante três
noites em sinal de regozijo, encerraram a celebração com a queima dos constitucionais
em efígie e o enterro de um Judas figurando a Carta Constitucional (Martins, 1881: 86).
40 Depois do desembarque dos liberais no Porto em 1832, e mesmo depois da vitória liberal
na guerra civil em 1834, ainda se continuaram a fazer enterros não só da Carta mas
também do próprio D. Pedro. Um deles, ocorrido no distrito de Bragança, teria sido
encomendado pelo padre de uma pequena localidade “aos bêbados da sua freguesia”.
Para o efeito, o sacerdote dispensou mesmo vestes sacerdotais e apetrechos religiosos
(Ferreira, 2002).
41 A mobilização das camadas populares para a festa (não apenas como espectadoras mas
como agentes) não se esgotou nestas manifestações de aparência espontânea.
42 Durante o reinado de D. Miguel muitos municípios custearam grandes festejos para
comemorarem “com regozijo público” as principais datas do reinado e do regime: o
aniversário do rei, o dia da sua aclamação ou o do aniversário de sua mãe, a rainha D.
Carlota Joaquina. O regozijo público incluía, em geral, para além de cerimónias
religiosas, luminárias, foguetes, danças, corridas de touros e máscaras, segundo consta
de um relato de festas realizadas em Angra em 1824. Rogério Borralheiro mostrou, para
o caso de Chaves, que durante o reinado de D. Miguel esse tipo de festejos tinha pesado
fortemente sobre as finanças municipais (Borralheiro, 1997).
146

43 Na verdade, como Armando Malheiro da Silva observou no seu livro Miguelismo:


Ideologia e Mito, “luzes, foguetes e festa rija foi o que mais houve em Portugal de
Fevereiro a Dezembro de 1828, além da profusão de procissões e de missas e de Te Deum
Laudamus em acção de graças, que se sucederiam até ao final do reinado e por todo o
país” (Silva, 1993: 265).
44 Um exemplo particularmente ilustrativo é o das festas que se realizaram em Eivas por
iniciativa da Câmara Municipal, em Outubro de 1829, celebrando simultaneamente o
aniversário de D. Miguel e o seu reconhecimento pela Espanha como rei de Portugal.
Elvas terá estado quase permanentemente em festa desde o dia 16, em que o
reconhecimento foi celebrado, e os dias 25, 26 e 27, em que foi comemorado o
aniversário do Infante: os seus 27 anos.
45 Ao longo deste ciclo festivo tiveram lugar todo o tipo de celebrações – religiosas e
profanas, civis e militares (com uma imponente parada) e também populares. Os
festejos apresentavam conteúdos políticos bem explícitos e neles se pretendia,
claramente, envolver todos os grupos sociais. As festividades foram anunciadas
publicamente e o povo expressamente convocado a participar, encenando entremezes e
ostentando máscaras, num claro apelo à mobilização da cultura carnavalesca e à
satirização dos liberais.
46 Para mobilizar a população os magistrados camarários e os respectivos escrivães
percorreram a cidade escoltados por contingentes militares, a pé e a cavalo, e
acompanhados por uma banda de música e um pregoeiro. Entre os sons da música e dos
tambores o pregoeiro lia um edital convocando os habitantes a participar nos festejos.
Depois de se terem convocado os directores das danças (certamente danças tradicionais
das corporações de ofícios) para ensaiarem as suas entradas o edital acrecentava:
“(...) Ficando-vos livres comparecer com quaisquer invenções, máscaras e
demonstrações de júbilo, em que não se ofenda a modéstia e decência ou se
perturbe o sossego público e não (se) originem desordens.” (Gama, 1973)
47 As expectativas das autoridades municipais não foram defraudadas. A participação em
farsas, entremezes e outros divertimentos foi forte. A praça foi circundada de
camarotes de onde espectadores de ambos os sexos assistiram a demonstrações várias
que se iniciaram com o desfile de um carro triunfal transportando a real efígie de D.
Miguel I, seguida do desfile de cavaleiros vestidos à turca, banda de música,
transportada num outro carro triunfal, uma companhia de corcovados com seus
cacetes, que marchavam a toque de pífaro e violão, uma mata ambulante que
transportava uma companhia de negros, cavaleiros em trajes antigos, uma guarda
figurando tropa espanhola, além de guardas e contrabandistas. Estes últimos três
grupos representaram uma farsa, certamente sobre o contrabando e a sua repressão,
tanto mais que a cena se passava numa localidade próxima da fronteira espanhola.
48 De entre as várias danças e farsas (em que brilhou a dos alfaiates a matarem uma
aranha) cabe destacar a representada pela “companhia dos corcovados”. Os corcovados
simbolizavam os adeptos de D. Miguel que os liberais apelidavam de “corcundas” por
causa da sua postura subserviente face ao trono. Numa das trovas que o grupo cantou
ao som do violão dizia-se:
“Eis aqui vão os corcundas
Com os seus cacetes alçados
A defenderem o Trono
Das perfídias dos malhados.” (Gama, 1973)
147

49 “Malhados” era um termo pejorativo que os miguelistas usavam para designar os


liberais. Os cacetes que os corcundas empunhavam representavam o recurso à
violência, um elemento constitutivo de uma parte do discurso miguelista e também, por
vezes, da prática dos seus partidários. Os liberais tinham mesmo baptizado de
“caceteiros” esse tipo de truculentos partidários do regime. A acção dos “caceteiros”
miguelistas, que corriam as ruas de Lisboa, é um lugar comum nos relatos dos
contemporâneos e nos escritos dos historiadores liberais sobre o reinado de D. Miguel,
particularmente durante o processo da tomada do poder.
50 Um dos aspectos mais curiosos das festividades de Eivas tem a ver com o facto de os
epítetos que exprimiam o desprezo dos constitucionais pelos miguelistas terem sido ali
encenados jocosamente e assumidos como símbolos de identidade.
51 Podemos considerar assim, para concluir, que, para além de ter também cumprido as
funções de legitimação e criação de memória e identidade que as festas constitucionais
se tinham proposto assumir, sobretudo durante o vintismo, a festa miguelista foi
também, uma forma privilegiada de trazer a política para a rua mobilizando as camadas
populares.
52 Ora se consideramos, como o faz Pierre Rosanvallon em La démocratie inachevée, que “a
questão da rua e dos seus usos constituiu, desde 1789, uma verdadeira metáfora da
questão política no seu conjunto”, “lugar da festa, ligada à felicidade social” mas,
também, “associada à multidão descontrolada”, encarnação “daquilo que ameaça a
ordem pública e nessa medida o duplo do motim” (Rosanvallon, 2000: 335) temos de
reconhecer que, para além das similitudes, a rua, como espaço festivo e comemorativo,
foi usada pelo o campo contrarevolucionário de uma forma bastante distinta da do
campo liberal.
53 De facto, para encontramos do lado da revolução episódios passíveis de serem postos
em paralelo com os “enterros da Constituição” teríamos de nos deslocar, no espaço e no
tempo, para a França revolucionária e para as mascaradas antimonárquicas e
anticlericais de que ela, durante um curto período, foi palco, cuja inspiração nos velhos
temas da cultura carnavalesca foi posta em evidência (Ozouf, 1976).
54 Se bem que nas festas do liberalismo e do miguelismo tenham permanecido domínios
comuns como a missa, o Te Deum, as luminárias e os foguetes ou a parada militar, e,
naturalmente, também, elementos de continuidade em relação às festas da monarquia
absoluta, não há dúvida que muita coisa as distinguiu.
55 Motivada pela necessidade de escorar a ascensão pública de D. Miguel e a sua subida ao
poder numa legitimidade “popular e nacional” que pudesse vir a suprir a sua duvidosa
legitimidade dinástica, a corrente ultra-realista, em estruturação desde a Vilafrancada e
da Abrilada, integrou a festa pública num dispositivo mais amplo de tipo “populista”,
com muitos traços de modernidade, que passou pela construção carismática da
personagem do Infante, pelo apelo à mobilização popular, pela diabolização dos
adversários e por uma intensa incitação à violência cujos efeitos foram, no entanto,
quase sempre controlados (Ferreira, 2004).
56 Os liberais, pelo contrário, colocando em geral o povo em posição de espectador,
utilizaram a festa como instrumento de formação do cidadão constitucional, usando a
música, a récita, o teatro e vários dispositivos alegóricos para difundir os grandes temas
de uma nova cultura política em que iriam avultar, sucessiva ou simultaneamente, a
Constituição, a Pátria e a Liberdade.
148

BIBLIOGRAFIA
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Vargues, Isabel Nobre, 1997, A aprendizagem da cidadania em Portugal (1820-1823), Coimbra,


Minerva.

NOTAS
1. Sobre o conjunto destas temáticas ver Ridolfi (2004 e 2006) e Catroga (2005 e 2006).
2. Sobre alguns dos rituais do miguelismo aqui evocados ver Silva (1993) e Ferreira (2004).
3. Agradeço esta referência a António Monteiro Cardoso.
149

4. Memórias sobre a aclamação do infante D. Miguel em Faro. O diário de Lázaro Doglioni (Estudo
introdutório de José Carlos Vilhena Mesquita), Vila Real de Santo António, 1991, pp. 123-125.

AUTOR
FÁTIMA SÁ E MELO FERREIRA
Historiadora, Departamento de História e Centro de Estudos de História Contemporânea
Portuguesa do ISCTE.
150

Comentários finais1
Yves Lequin

1 Como concluir três dias de comunicações e debates que nos levaram de África à França,
passando, como não poderia deixar de ser, por Portugal e por Lisboa? Aliás, será
realmente necessário concluir, e correr o risco de ser redundante, quando já o fizeram
com talento uns e outros, com palavras suscitadas pelas investigações vivas que são as
suas neste momento? E que, como investigadores competentes que são, não se limitam
a apresentar conclusões mas abrem novas pistas de investigação. No final deste
colóquio, quem poderá afirmar o contrário?
2 Ao historiador que sou, sempre foi familiar a abordagem antropológica. Esta foi aliás
utilizada, e com sucesso, para as cidades do Antigo Regime por investigadores como
Arlette Farge, Daniel Roche e tantos outros. E eis aqui hoje, ainda desconhecidos, pois
apenas iniciam as suas carreiras, Alexandre Nugues-Bourchat e Roland Bizien com
trabalhos sobre as cidades de Lyon e Brest do século XIX respectivamente.
3 A composição do público deste colóquio que agora termina não deixa de demonstrar
que o encontro entre as duas disciplinas está mais desenvolvido em Portugal do que em
França, onde permanecemos enleados em oposições, onde é raro que os etnólogos
convidem os historiadores a participar nos seus trabalhos e vice-versa. Aqui estão
reunidos há três dias para o melhor, porque de onde quer que venham é o mesmo
objecto que os ocupa, seguindo as pisadas da Escola de Chicago, que se aplicou, desde as
suas origens, a esclarecer “o caos das cidades vivas”, retomando ao historiador-
sociólogo norte-americano Charles Tilly uma fórmula de Bertold Brecht. No decorrer
dos debates eu próprio me senti dividido entre as duas abordagens, perante o mundo
complexo da cidade vista da rua, que se encontra em incessante mutação quando se
esperava enfim apreendê-la e compreendê-la. A realidade, se é que esta palavra faz
sentido, escapa-se no preciso momento em que temos a impressão de nos apoderar
dela. E é sem dúvida necessário reflectir sobre a relação entre as duas disciplinas e o
decurso do tempo. Mas por ora a minha ambição é mais modesta, fica entre a referência
às comunicações e alguns comentários de historiador insatisfeito.
4 Por um lado, encontram-se aqui investigadores que decidiram servir-se da rua para pôr
um pouco de ordem onde esta não existe. Já não se fala do bairro, que foi durante muito
151

tempo o espaço privilegiado das análises urbanas. Talvez por este ter demonstrado, no
final, os limites de um espaço escolhido, justamente devido ao seu carácter
invertebrado, estendendo-se para lá das fronteiras administrativas até ao nível das
vivências dos seus habitantes. Todos os estudos de bairro, e são inúmeros de ambos os
lados do Atlântico pois a cada instante se inicia um novo, acabaram por demonstrar a
esterilidade dessas abordagens. “Abandonemos o bairro sem dó nem piedade” 2, pois há
muito que estes estudos tendem a encerrar-se numa tautologia que confunde hipóteses
de trabalho e conclusões. Quantos estudos partem laboriosamente à procura do bairro,
para finalmente, após terem mobilizado investigadores de todos os quadrantes, desde
historiadores a geógrafos, a sociólogos, etc., concluírem que este não existe? O que não
impede que, no decorrer do processo, se tenha constituído uma grelha de
conhecimento das populações urbanas perfeitamente frutífera. Então, esquecese o
bairro? E “viva a rua”?
5 Não seria a rua, noutro contexto histórico, um desses “não-lugares” de que fala o
etnólogo Marc Augé, sem função específica, onde não se vive, e que não tem verdadeira
identidade? De facto, a rua, tal como a conhecemos e a vivemos hoje, é o resultado de
uma longa história, específica do mundo ocidental e caracterizada por símbolos e
sistemas de organização próprios e por uma toponímia complexa. E sabemos até que
ponto o ocidental se vê desorientado quando não os encontra nas cidades japonesas ou
chinesas, onde obedecem a princípios diferentes, nas cidades do mundo árabo-
muçulmano onde as casas não são viradas para a rua, que assim deixa de ter existência
real, pois é para o espaço privado que se converge e é nele que se vive. E como fazer
numa cidade onde as ruas não têm nomes e as casas não têm números?
6 Tanto assim é que toda a história das cidades ocidentais se encontra marcada pelo
esforço incessante de reforçar o edificado pela armadura hierarquizada das ruas. No
início, e durante muito tempo, predominou o cruzamento do “cardo” e do “decumanus”
sobre o qual se alinhavam as vias secundárias. É da leitura desse plano primitivo que
nasce o plano “alexandrino” que, apesar de nem sempre ser respeitado, não deixa de
ser adoptado, quer se trate de uma nova cidade ou de uma simples reordenação. A
partir do “campo”, cujo modelo não é apenas africano mas sim uma forma espontânea
de reagrupamento dos neo-citadinos. Contra a desordem, a organização viária de
vocação universal de tipo alexandrino, ilustrada pelo Marquês de Pombal na
reconstrução do centro de Lisboa quando este foi destruído pelo terramoto. Mais
comummente, os arquitectos e os urbanistas europeus exportam o modelo, que se torna
universal, e se dissemina pela América do Sul, posteriormente pela América do Norte e
pelas ndias inglesas, até hoje, e para o pior. Vejam a Bucareste de Ceausescu e a futura
Pequim dos Jogos Olímpicos.
7 A rua é assim, bem antes dos ordenamentos sofisticados da modernidade, uma
ferramenta do poder tanto mais fácil de exercer quanto os seus instrumentos são
simples: é mais fácil impor a ordem em ruas que se cruzam em ângulos rectos do que no
emaranhado de ruas característico das cidades medievais. Num primeiro momento,
tratou-se simplesmente de acomodar populações recém-chegadas que se amontoavam
umas a seguir às outras. Vimos a importância dos “campos” africanos, mas eis que
surge o vilarejo do Far West, popularizado por toda uma tradição cinematográfica. Sem
ruas mas com trilhos poeirentos vindos de nenhures e que se dirigem tão só para o
deserto, ou seja, para o vazio; mas onde as casas e os hangares acabam por se alinhar,
esboçando o que serão no futuro as ruas. Será possível encontrar melhor concretização
152

da definição de cidade avançada pelo historiador do urbanismo François Loyer, o


edifício e a rua, mesmo tendo esta sido formulada a partir do exemplo francês?
8 No fim do século XIX o governador-civil de Briey, numa Lorena transtornada pela
industrialização, evoca igualmente o Far West para falar das populações desordenadas
vindas um pouco de toda a parte com as suas doenças do corpo e do espírito. Este
espaço sem pontos de referência foi, de facto, o primeiro local de vida dos operários da
indústria, vindos de longe para as bacias hulhíferas das Ilhas Britânicas e do Norte de
França, antes de terem vindo povoar as periferias das grandes cidades, nesses subúrbios
da miséria e da anomia que se limitam a amontoar homens e actividades, uns em cima
dos outros. Na cintura vermelha de Paris em 1945, os propagandistas comunistas não se
conseguiam encontrar na balbúrdia urbana. Uma situação que é, aliás, a das favelas da
América Central e, um pouco por todo o lado, como na França dos anos 1950, a dos
bairros de lata. Pois a autoconstrução foi a norma para as populações deslocadas pelas
mutações económicas e sociais em curso desde meados do século XIX. Para elas, o
aparecimento da rua é uma ruptura fundamental, da qual os habitantes são os
primeiros agentes, antes mesmo da intervenção, com outras motivações, dos poderes
públicos.
9 Impondo ordem na desordem, a rua atrai toda uma série de intervenções e outros
tantos actores, habitantes ou não. Surgem então os construtores, promotores,
investidores, proprietários, todos aqueles para quem a rua significa uma relação com o
dinheiro. Um mundo desconhecido e que pode reservar algumas surpresas. Mas
também os operários da construção civil, durante a curta duração da construção
propriamente dita, e ainda, com os seus cem ofícios, para manter e reparar, os
concierges, de quem se conhece o sucesso literário, mais tarde rebaptizados gardiens
d’immeubles, etc. Ao serviço, desta vez, de toda a comunidade: os acendedores de
lampiões; os homens do lixo; mais tarde, os cantoneiros e todos os que têm a
responsabilidade da distribuição e do controle desses novos fluidos, gás ou
electricidade, cujas redes tecem uma réplica subterrânea da cidade. Enfim, os carteiros
que possuem um conhecimento excepcional dos habitantes de quem separam o correio
e, por conseguinte, o classificam, antes de o distribuir.
10 Conhecemos mal estas populações, talvez por o seu horizonte não se limitar ao da rua,
mas também porque a análise económica que deveria preceder o discurso social e a
abordagem antropológica passou de moda? Adivinhamos mais do que conhecemos, mas
não nos recusemos esse prazer, é todo um mundo, muito antigo, da loja e da oficina,
mais tarde dos teatros, dos cabarets e depois dos cafés, num zunzum de gritos, de
ruídos, de arengas cuja natureza e força variam de acordo com a hora (começa-se a
saber como era Paris à noite há um século atrás) e o lugar. No fundo, o único verdadeiro
homem da rua seria aquele que por ela se passeia. Para o melhor e para o pior, pois a
rua é também o lugar das transgressões e de todas as tentações, tão bem encarnado
pela figura da prostituta, que é omnipresente e que resume, no debate sobre o seu
estatuto, um outro, mais lato, sobre a oposição público/privado entre as meninas da rua
e as das casas de alterne. Em Lisboa, claro, mas também em todas as grandes cidades
europeias. E eis que surge o último actor da rua: o polícia.
11 A acção policial toma precocemente conta do tecido urbano pela regularidade precoce
das suas rondas, pela implantação dos seus postos, pela acção dos seus agentes que
assim organizam e moldam o espaço-tempo da rua. A história da polícia é uma
disciplina ainda jovem, talvez devido ao descrédito paradoxal dos seus agentes. Trata-se
153

de um mundo ainda mal conhecido, que, no entanto, se alargou e intensificou à medida


que as ruas se prolongavam. Não é estranho que os historiadores, à distância de cem
anos, confiem nos seus testemunhos sem questionar as suas práticas do momento?
12 Identificar uma rua, atribuir-lhe (ou reconhecer-lhe) uma identidade: trata-se de uma
construção social complexa na qual participam os próprios habitantes, as suas
actividades, as suas formas de vida e também toda uma herança, uma história e uma
memória. Como compreender de outra forma a inalterabilidade das toponímias? Estas
podem remeter para uma paisagem agreste há muito desaparecida, Rue des Lilas, Unter
den Linden, quando não para um simples edifício industrial, Rue du Gazomètre. Mas
porque se continua a falar da Place du Pont, em Lyon, mais de meio século após esta ter
sido rebaptizada Place Gabriel Pérí, nome de um jornalista fuzilado durante a ocupação
nazi? E noutros locais, nas cidades mineiras onde a tradição socialista permanece
intacta, continua ainda a chamar-se Rue de l’Est ao que se tornou Rue Jean faurès há quase
um século.
13 Para além destes buracos negros que subsistem na história das ruas, e dos quais aqui se
citaram dois exemplos, a rua não deixa de desempenhar com sucesso o seu papel
disciplinador, o de impor a ordem onde esta não existia. Contudo, simultaneamente, ela
desgasta-se tendendo, inevitavelmente pensamos nós, para o desaparecimento. Não
imaginou Le Corbusier, uma das coqueluches urbanísticas dos tempos modernos, uma
cidade sem rua, uma sucessão de barras e de torres e que, sobretudo, separaria as
diferentes circulações? De facto, há muito que o desenvolvimento dos transportes
colectivos e da circulação automóvel tem vindo a ganhar terreno à rua tradicional. A
população da rua espalha-se: encontramos, nas caves dos edifícios e nas escadas, os
marginais e os jovens dos meios populares; nas praças, nos campos de desporto e de
jogos improvisados, etc., outros menos desfavorecidos; até mesmo nas hortas podemos
encontrar alguém...
14 Será que a rua ainda é a rua? A medida que o tecido urbano cresce, as avenidas, os
boulevards e os pátios alargam-se, mas vêem afastar-se, ou mesmo desaparecer, todas as
actividades que não a circulação. O automóvel ocupa o espaço e à medida que nos
afastamos do centro ele reduz a rua à estrada, da qual é uma espécie de afluente, e que
olha para o exterior para uma região plana ou para as redes de auto-estradas onde
impera outra confusão. Daqui em diante, podemos distinguir uma cidade antiga, onde a
rua desempenha o seu papel tradicional, mas que tem sobretudo uma função de
conservação patrimonial; e uma cidade nova, no centro das novas circulações, onde
vivem as classes médias em trajectória de ascensão social. Não deixa de ser verdade
que, muitas vezes em resultado de vários séculos de história, toda a cidade se encontra
encerrada e cingida na teia formada pelas ruas que a atravessam. Mas será isto a rua, a
sua contemporaneidade? Ou estaremos em presença dessa “beleza do morto” de que
falava Michel de Certeau, um objecto, neste caso um lugar, que só interessa porque vai
deixar de existir? Enquanto isso, a rua esvazia-se em benefício de um outro sítio que já
nem é o subúrbio. E quem não vê o que tem de irrisório o “mobiliário urbano”, ali
colocado pelos poderes públicos, e que é mudo, enquanto que a rua de outrora era ruído
e furor.
15 No início dos 1920 um companheiro libertário desfilava em Paris pela primeira vez.
Réné Michaux, era o seu nome, conta nas suas memórias a felicidade de marchar juntos,
simplesmente, ao longo da rua, “com o coração dilatado de amor”! Meio século mais
tarde, o historiador militante Eric Hobsbawm descreve a sua participação na última
154

manifestação comunista de Berlim, em Janeiro de 1933, e evoca, mesmo muito tempo


depois, o fogo interior que o devorara e que não hesita em comparar com um orgasmo.
Recuemos um pouco no tempo para falar de um outro anarquista que, na Belle Époque,
mantinha a sua janela aberta toda a noite para ser o primeiro a precipitar-se ao
primeiro barulho insólito vindo da rua, que não poderia ser senão o sinal da Revolução.
16 É algo paradoxal terminar este texto com a evocação do conceito, supostamente
arcaico, de “luta de classes”. Mas a rua de hoje é ainda uma caixa de ressonância
política: de facto é ainda na rua que se faz, ou pelo menos que se inicia, a revolução;
vejam os movimentos de rua que, na Europa Central e Oriental, precederam a queda do
muro de Berlim, e os que lhe sucederam. E em Lisboa, como evitar pensar no tempo dos
cravos, se bem que tenha começado noutro sítio? Mais interessante para o historiador
político é a forma como, num mundo em que o debate democrático é cada vez mais
alargado, a rua não renuncia totalmente ao papel que foi outrora o seu. Ela aparece
simplesmente como o último recurso quando a escolha democrática saída das urnas é
ameaçada... ou considerada perigosa. Não houve, na Primavera de 2007, em França,
militantes que sonharam, em caso de insucesso da esquerda, com uma terceira volta,
social, e, forçosamente, na rua? Sabemos o que aconteceu.
17 Teremos então de concluir que a rua renunciou ao seu papel político? O último século
foi, no entanto, fértil em grandes manifestações, onde se podia ainda morrer: quando se
era argelino em Paris no Outono de 1961, ou comunista em Charonne em Fevereiro de
1962. Mas este é também o tempo das manifestações de soberania, em que se sai à rua
para apoiar o poder estabelecido. Como interpretar a mobilização de centenas de
milhares de homens e mulheres hostis à Frente Nacional em França, na Primavera de
2002? No fim, foi o voto democrático que afastou a ameaça. No entanto esta bela
partilha de funções recorda-nos que, outrora, a democracia nasceu na rua.

NOTAS
1. Tradução do francês de Patrícia Pereira.
2. O autor faz aqui um jogo de palavras com a expressão “Pas de quartier!”, remetendo para o
abandono do bairro como unidade de análise. Mas a expressão pode igualmente significar “Sem
quartel!” ou “Sem dó nem piedade!”. (N. da T.)

AUTOR
YVES LEQUIN
Historiador, Université Lumière Lyon 2.