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ESPAÇOS URBANOS (DES) QUALIFICADOS: os desdobramentos

possíveis na paisagem urbana por atores sociais

AGUIAR, VICTOR M.
Mestrando na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP).
vmartins@usp.br

RESUMO
O trabalho desenvolvido ocupa-se das áreas inferiores dos viadutos, os chamados baixios. Tratados
quase sempre pelo poder público e também pela literatura acadêmica como espaços residuais, portanto,
associados a um estado de degradação, os baixios de viadutos, na sua maioria, não foram considerados
historicamente segundo recursos territoriais passíveis de utilização pública pelo planejamento urbano.
Apesar dessa interpretação verificam-se nesses locais usos e ocupações pautados na informalidade. Ao
analisar os usos e as ocupações no baixio do Viaduto Alcântara Machado e do Glicério, em São Paulo,
almeja-se evidenciar as suas complexidades, que justamente por serem espaços intersticiais
estabeleceram a oportunidade de dispor ações. São ações, como nos dois viadutos, promovidas por
atores sociais, os quais introjetaram e buscam manter iniciativas de modo que os baixios sejam
assimilados na qualidade de espaços públicos. Embora essa perspectiva de atuação dos atores sociais
signifique transmitir em parte a responsabilidade da intervenção e da manutenção de espaços da cidade
do poder público para a população, ações interessantes avalia-se que podem resultar, pois representa um
estágio em que os moradores desenvolvem uma compreensão mais ampla do espaço urbano e executam
suas reais necessidades. Diante do novo contexto urbano que se delineia, o trabalho visa explorar os
limites e impactos dessa responsabilização de atores sociais na paisagem urbana, elegendo como âmbito
de investigação os baixios de viadutos.

Palavras-chave: baixio de viaduto, espaço público, participação popular.

1. INTRODUÇÃO

Nas cidades brasileiras é de conhecimento que as intervenções públicas buscaram resolver


erroneamente muito mais as demandas do transporte individual do que o público e como
resultado implantaram-se ações desestruturadoras – prática do que se viria denominar de
“urbanismo rodoviarista”. Com reflexos até os dias de hoje, as estruturas urbanas (passarelas,
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pontes e viadutos) foram concebidas para serem elementos capazes de responder a um único
problema específico: ligar pontos distantes e desarticulados do espaço urbano. Assim,
conseguiu-se garantir durante décadas uma razoável continuidade no fluxo de automóveis.
Se os automóveis estavam a circular na cidade, nos espaços resultantes da implantação
dessas estruturas notamos a sua conversação em territórios do abandono.

Esses territórios do abandono foram nomeados de “terrain vagues” por Ignasi Solà-Morales
em 1995. O termo terrain vague remete, segundo apresenta Solà-Morales, “a um lugar na
cidade que está vazio e desocupado, vago ou incerto, impreciso” (SOLÀ-MORALES, 1995,
p.119). Esse lugar na cidade se alinha ao que representa os espaços intersticiais, zonas
industriais abandonadas ou fora de uso, linhas e estações ferroviárias, portos, baixios de
viadutos e terrenos abandonados, ou seja, refere-se às áreas que passam a ser consideradas
improdutivas dentro da sua estrutura econômica. Embora, haja essa latente ausência de uso,
expõe o autor denotar-se desses lugares um ponto positivo vinculado à sensação de liberdade
e de expectativa que contrasta com outros espaços da cidade.

É uma condição que se tem verificado em baixios de viadutos, nos quais através de suas
características construtivas – a ampla cobertura – usos não promovidos apenas pela
população em situação de rua estão se realizando conforme evidenciam as áreas de lazer,
sedes de escolas de samba, academias de boxe, cooperativas de reciclagem, sacolões e
entre outros. São locais que assumiram a característica de um espaço público quando
acabaram reunindo pessoas. Apesar de serem casos isolados, eles contribuem para revelar
que os baixios não se caracterizam apenas como “terras de ninguém”, significando um
contraponto a visão do imaginário urbano e dos meios de comunicação de locais de
marginalidade.

Com base no exposto, pondera-se existir uma necessidade de apreender as potencialidades


dos baixios de viadutos. Uma potencialidade a ser alcançada mediante a presença de usos e
ocupações pautados em restabelecer o diálogo com as suas circunvizinhanças, que foi
perdido com a implantação da estrutura. Para além da desqualificação urbanística construída
a respeito dos baixios, se estima estes espaços configurarem múltiplas possibilidades de
atuação por meio de iniciativas individuais ou coletivas. São iniciativas motivadas e
respaldadas não necessariamente de modo integral no poder público e, muitas vezes, se
desenvolvem por atores sociais. Esta constatação de uma desvinculação do poder público foi
um aspecto que o trabalho procurou investigar através do questionamento: Quais os limites e
impactos envolvidos quando um ator social passa a gestar o trecho de um baixio de viaduto?

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Ao considerar esses processos que estão se desenvolvendo diariamente nas cidades se julga
necessárias novas formas de documentar, representar e avaliar as suas possibilidades, uma
vez que nem sempre os seus efeitos são visíveis, mas se demonstram capazes de
reinterpretarem um território de pouco prestígio com atividades e interferirem na maneira das
pessoas se relacionarem com o espaço urbano. Conforme ressalva Magnani (1998, p.4):
“Para descrever a multiplicidade dos arranjos através dos quais esses atores organizam sua
vida cotidiana – o trabalho, a vida familiar, a devoção e o lazer – é preciso observá-los no
contexto em que são realizados”.

O autor ao final da publicação – em que discorre sobre as transformações urbanas que


acarretaram a diminuição das cadeiras nas calçadas e a origem de um controverso
sentimento nostálgico pela sociabilidade do passado – conclui: “A experiência da rua, não
obstante os conhecidos problemas dos grandes centros urbanos, não morreu: diversificou-se,
assumiu novas modalidades, adaptou-se a novas circunstâncias, estabeleceu outros
diálogos. Para dar conta dessas transformações, talvez seja necessário desdobrar a clássica
categoria de rua de forma a poder descrever a gama mais variada de experiências que a
escala das grandes cidades contemporâneas propícia” (MAGNANI, 1998, p.9). Sob esse
ponto de vista da existência de outros “circuitos de lazer”, em posterior publicação, apresenta
o mesmo autor: “As grandes metrópoles contemporâneas não podem ser vistas simplesmente
como cidades que cresceram demais e desordenadamente, potencializando fatores de
desagregação. Elas também propiciaram a criação de novos padrões de troca e de espaços
para a sociabilidade e para os rituais da vida pública” (MAGNANI, 2002, p.27).

Ainda sabemos pouco a respeito dos novos processos em curso na cidade, porém no meio
acadêmico já é reconhecido, eles estarem redefinindo as práticas urbanas, quando não,
promovendo interferências informais no seu desenho, logo na sua paisagem. Embora, um
julgamento do senso comum persista em evidenciar somente as suas precariedades avalia-se
essas iniciativas serem oportunas para formular novas questões e categorias de descrição do
espaço urbano, influenciando positivamente a formação de arquitetos e urbanistas.

A investigação da apropriação informal e de sua capacidade em reativar espaços de pouco


prestígio por meio da denotação de usos permanentes ou temporários desde a virada do
século XX tem sido o alvo de reflexões entre arquitetos e urbanistas, cujas publicações
resultantes se manifestam como coletâneas de estudos de casos bem-sucedidos para a sua
replicação. Infelizmente poucos trabalhos, apesar de a análise recorrer a uma pesquisa
etnográfica, descrevem: as motivações que incitam um ator social a se responsabilizar por um
bem público, a relação firmada com o poder público, as características dos espaços públicos

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constituídos e as impressões depreendidas da população que faz o uso dos locais
estabelecidos.

Um trabalho bastante conhecido e referido em inúmeras publicações – por conter alguns


destes pontos acima destacados – foi o realizado por Giovanni La Varra. Após documentar
experiências urbanas em diferentes localidades no mundo, La Varra as denominou de “Post-it
City”, nos anos 2000, em analogia à interferência recorrente que se faz sobre um texto. As
experiências urbanas estavam relacionadas diretamente com a apropriação de caráter
temporal e autogestionada nos espaços públicos, em que devido as suas singularidades o
autor ponderou: “É nesta nova rede de espaços que se desenvolve um projeto inovador,
promovido coletivamente, sem ser institucionalizado” (LA VARRA, 2009, p.46).

Com base na presença simultânea de um ou mais grupos ocupando espaços públicos, então,
é que se percebe projetar os Post-it City. As características dessas ocupações poderiam
variar das voltadas para atividades comerciais, esportivas, lúdicas e sexuais a partir do
emprego de materiais de sobras e de resíduos, tendendo a resultar na ressignificação
contínua do espaço público (Figura 1). No caso da ausência de uma identidade própria, os
espaços públicos apropriados informalmente – conforme denota a experiência dos Post-it City
– seriam reformalizados através dos usos que acomoda, onde os momentos de
espontaneidade se constituiriam relevantes na intenção de pontuar a experiência diária e
eventualmente revelar uma alternativa de intervenção, distante das soluções universais.

Figura 1: Exemplos de Post-it City que reúnem elementos de uma ocupação flexível em espaços
públicos e permitem construir um diálogo pautado por novas perspectivas de usos, baseados na
possibilidade de adaptação e de improvisação.
Fonte: http://www.ciutatsocasionals.net/, 2016.

O espaço urbano, em vista do expressado, vem sendo abordado como o lugar do encontro, da
interação e da diferença social, no qual a proximidade e a intensidade das relações entre as
pessoas possibilita encontrar caminhos a um futuro mais justo socialmente. Em relação,

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especificamente aos espaços públicos, o desafio nos parece não ser tanto como torná-los
utilizáveis, mas sim, fazê-los aproveitáveis para diversos tipos de usuários, capazes de
atribuí-los diferentes significados. Uma motivação do trabalho desenvolvido em voltar o olhar
aos baixios dos viadutos da cidade é justamente por essas questões, também procurando
atentar a suas possibilidades de uso e avaliar as particularidades das mudanças resultadas
quando eles deixam de ser territórios do abandono.

A aceitação das estruturas viárias como dados da realidade – espaços cuja apropriação se
constituiu um desafio urbano à população – está presente em projetos que transformaram os
baixios de viadutos em lugares de comércio, serviço, cultura e prática esportiva. É uma
transformação observada nos projetos El Sawy Culture Wheel, fundado no Egito em 2003,
A8ernA do escritório NL Architects, no ano de 2005, em Koog aan de Zaan, um vilarejo
próximo a Amsterdam, e Im Viadukt do escritório EM2N, concluído em 2010, na cidade de
Zurique (Figura 2). A intenção principal nesses projetos, consiste em revelar o potencial dos
espaços abandonados, estimulando a liberdade individual ou coletiva ao se apropriar do
existente e não apenas em fundamentar a intervenção a determinado método projetual.

Figura 2: Projetos que depreenderam o baixio do viaduto como possibilidade de ocupação: El Sawy
Culture Wheel, A8erna e Im Viadukt (da esquerda para a direita).
Fonte: https://akihart.wordpress.com; http://www.architonic.com/, destinationmacaron.blogspot.com,
2016.

No Brasil, igualmente encontramos propostas significativas de intervenção em áreas


inferiores de viadutos ao assumir a presença do projeto de arquitetura como norteador das
transformações desejadas, conforme observado nos estudos de 2005 do escritório Brasil
Arquitetura para a reforma do baixio do Viaduto Júlio de Mesquita Neto, em São Paulo, onde
se previu a instalação do Espaço Adoniran Barbosa – destinado a guardar a memória e o
acervo do sambista – uma biblioteca pública e equipamentos de lazer e convivência (Figura
3). Também na cidade de São Paulo, ao se unir a Nilson Garrido, o arquiteto e professor Igor

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Guatelli no ano de 2008, propôs a melhoria do projeto social coordenado por Garrido,
improvisado no baixio do Viaduto do Café, região da Bela Vista (Figura 3).

Figura 3: No Viaduto Júlio de Mesquita Neto, o escritório Brasil Arquitetura previu outros usos além do
Espaço Adoniran Barbosa (esquerda). A intervenção idealizada no baixio do Viaduto do Café dispôs
para a Academia de Boxe de Nilson Garrido elementos móveis e flexíveis, com o propósito de estimular
ocupações espontâneas (direita).
Fontes: http://brasilarquitetura.com/; www.vitruvius.com.br, 2016.

Com o projeto Baixios de Viadutos para a Via Expressa Leste-Oeste da Grande Belo
Horizonte, apresentado no ano de 2007, o Escritório Vazio S/A buscou sugerir diferentes
programas na intenção de uma real implantação aos doze viadutos e seis passarelas
existentes. Os usos sugeridos para as estruturas da Via Expressa basearam-se em dados
relativos às necessidades dos ocupantes e segundo relatam os arquitetos no memorial do
projeto disponibilizado no site do Escritório: “a proposta procurou evidenciar ao poder público
que áreas abandonadas podem e devem ser objeto do planejamento urbano a fim de
integrá-las à cidade com qualidade ambiental, social e funcional”. Alguns dos locais
ponderados no projeto Baixios de Viadutos foram retomados pela Prefeitura de Belo
Horizonte, em 2013, no Concurso Nacional de Projetos de Arquitetura para Requalificação
Urbana de Baixios de Viadutos pretendendo avaliar propostas aos baixios de quatro viadutos
da cidade. Embora, determinadas sugestões apresentadas no Concurso tenham pautado os
futuros usos e a construção do espaço a partir dos usuários e da manutenção de baixo custo,
outras repetiram o modelo de espaços públicos estanques, uma condição que os
impossibilitaria de serem utilizados em diferentes situações.

O presente trabalho filia-se a essa vertente que tem tratado dos espaços resultantes dos
resíduos de grandes projetos rodoviários como uma oportunidade de intervenção ao buscar
identificar possibilidades de atuação através das pequenas iniciativas individuais ou coletivas
baseadas no cotidiano. A ação de construir a coletividade com a participação local vem sendo
definida relevante no projeto urbano porque todos os envolvidos possuem a liberdade e a
posição de apontar o destino do lugar onde vivem. Ainda que, mobilizando poucos recursos
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financeiros percebemos os usos informais na cidade estarem dando respostas a um novo
conjunto de demandas em espaços públicos.

A contribuição dessa postura, em relação aos projetos de arquitetura e de urbanismo de


décadas anteriores, perpassa da visão de ser apenas “uma obra entregue a população”, sem
qualquer relação com esta. Por outro lado, identifica-se uma falta de pesquisas para a
maneira como atores sociais percebem a carência de algo e introjetam esforços na
modificação do ambiente urbano, de mesmo modo à forma que se dá diariamente a
construção do espaço público almejado. Outras questões pertinentes a se colocar são: “O que
realmente acontece quando os cidadãos conduzem a formação da cidade com as suas
próprias mãos? Quais são os dilemas práticos para o planejamento? Como eles podem ser
resolvidos? A partir de agora, esses questionamentos são fundamentais para a investigação
uma vez que os cidadãos tornaram-se parte ativa na reprodução de um regime espacial e
assumem responsabilidades normalmente associadas ao poder público”
(WORTHAM-GALVIN, 2013, p.9).

VÁRZEA DO RIO ESTAÇÃO DO BRÁS


TAMANDUATEÍ

TRIÂNGULO
HISTÓRICO

VIADUTO ALCÂNTARA
MACHADO

Sobre a várzea do rio Tamanduateí


VIADUTO DO as duas vias expressas (Radial Leste e
GLICÉRIO Ligação Leste-Oeste) se encontram,
conformando um dos sistemas de
mobilidade metropolitana.

Figura 4: Os viadutos Alcântara Machado e do Glicério estão localizados próximos a três referenciais da
cidade de São Paulo: Triângulo Histórico, várzea do Rio Tamanduateí e Estação do Brás.
Fonte: Google Earth, editado pelo autor, 2016.

Na intenção de identificar aspectos que os atores sociais podem colaborar no que se refere à
discussão sobre os baixios, o trabalho recorre aos viadutos Alcântara Machado e do Glicério
em São Paulo (Figura 4). Ambos se constituíram infraestruturas importantes à mobilidade
urbana, especialmente aos moradores da Zona Leste no deslocamento ao Centro, e desde
suas construções receberem diversos usos nas áreas inferiores. Dentre estes, alguns
minimizaram as consequências negativas de suas implantações no momento em que a
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população tinha acesso ao espaço. Já nos dias de hoje usos são gestados por atores sociais,
uma situação que acaba os diferenciando dos demais viadutos da cidade.

2. BAIXIOS DE VIADUTOS: OS ATORES SOCIAIS


Os baixios de viadutos através dos atores sociais assumiram-se como espaços oportunos de
diversos usos informais. Esses atores sociais são pessoas que não detêm conhecimentos
acadêmicos a respeito da produção do espaço urbano, mas nas suas apropriações
conseguiram reverter à precariedade espacial e delinearam uma outra conjuntura social, na
qual os desafios colocados foram: lidar com um espaço abandonado da cidade, aproximá-lo
da população desmistificando o imaginário construído, gestar o espaço estabelecido e
garantir a continuidade da ação desenvolvida. São quatro aspectos que se apresentam,
portanto, oportunos de serem investigados e podem apontar o potencial das ações presentes.

No que diz respeito à motivação para introjetar a responsabilidade por um trecho de um baixio
de viaduto, a maioria dos atores sociais entrevistados nos viadutos Alcântara Machado e do
Glicério a explicou segundo a identificação de um “problema”. Então, reconheceram que
poderiam ajudar a "resolver o problema”, já que “o poder público não fazia nada”. Ao longo dos
anos, eles se estabeleceram como os principais interventores do espaço, uma vez que na
maioria deles é necessária as suas aprovações para que uma atividade possa se realizar.
Esse diagnóstico, em um primeiro momento questiona as possibilidades dos espaços públicos
estabelecidos nos baixios dos viadutos caminharem em conjunto as transformações pelas
quais outros espaços da cidade passam, pois a maioria dos atores sociais não demonstra
uma preocupação com o assunto. As suas preocupações estão basicamente centradas em
formas de manter o projeto em andamento.

O intuito do trabalho – a partir desse panorama das ações dos atores sociais – é alimentar a
discussão quanto aos baixios de viadutos terem potencialidades de um uso público. No
entanto, entender os reais limites desses novos papéis no urbanismo não é um conteúdo que
se julga importante apenas para estudantes, professores e moradores envolvidos na
realização de intervenções informais em espaços públicos, mas também por funcionários do
poder público e de outras instituições atuantes na cidade.

A reconstituição do histórico dos baixios dos viadutos Alcântara Machado e do Glicério se fez
com base em reportagens de jornais almejando vislumbrar como se deu o tratamento desses
espaços até ficarem sob a responsabilidade dos atores sociais. De modo geral, inicialmente
nota-se os baixios não terem sido tratados de maneira genérica pelo poder público, diferentes

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propostas de usos se deram e políticas foram criadas para disponibilizá-los a população.
Paralelo a esse histórico, um conjunto de entrevistas se realizou, as quais pretendem elucidar
as complexidades dos espaços públicos existentes nos dois viadutos. As entrevistas não
foram realizadas somente com as pessoas que estão nos baixios, mas também com aquelas
que mantiveram ou mantêm alguma relação com o local.

Após o reconhecimento nas entrevistas das questões a serem trabalhadas elegeu-se a


perspectiva que implica na maneira como as pessoas são capazes de se organizar para
intervir em um espaço público e as consequências desse posicionamento. Conforme as
entrevistas progrediram aos poucos ficou claro, que algumas das práticas analisadas não se
encaixavam nas interpretações da literatura recorrida para embasar o trabalho, assim,
deixaram de entrar na discussão devido abordarem, por exemplo, a questão da população em
situação de rua. Uma questão que desde o inicio o trabalho buscou se desvincular por
acreditar que os baixios de viadutos podem oferecer outras interpretações e não somente a de
ser um lugar recorrido para moradia.

A partir de observações dos baixios dos viadutos Alcântara Machado e do Glicério, com notas
de campos, se registrou o contexto das apropriações, as características dos espaços em que
ocorrem e qual a percepção ou a ligação dos usuários com cada um dos projetos. As notas de
campo foram realizadas em dias e horários diferentes atentando até que ponto os usuários
são igualmente capazes de contribuir para a produção do espaço. Por mais que se tentasse,
reconhece-se que o trabalho não foi capaz de abranger todos os usuários dos projetos, pois
os objetos analisados estão sempre em mudança e apresentam um movimento diário
bastante diverso. O que leva as considerações expostas representarem uma parte da vivência
nesses espaços públicos.

2.1 VI ADUTO ALCÂNTARA MACHADO

Após a sua construção em 1967, no decorrer dos anos não foram previstos usos significativos
no baixio do Viaduto Alcântara Machado e ele acabou apropriado pela população em situação
de rua. Em contrapartida a essa assimilação do espaço para moradia que resultaria, o Prefeito
Faria Lima inaugurou no baixio do Viaduto no ano de 1968, a primeira “Feira Moderna” de São
Paulo. A Secretaria do Abastecimento ao considerar o crescimento das estruturas viárias e a
ampla área vacante que se tornava disponível na cidade propôs instalar feiras livres em
diferentes baixios de viadutos. Tais feiras, apresentavam uma organização por preverem
barracas com estruturas metálicas para a venda de legumes, verduras e frutas, e partes em
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alvenaria ao comércio de carnes e peixes, revelando-se, na verdade, uma tentativa de se
distanciar das que ocorriam nas ruas, recorrentemente mencionadas como uma desordem
urbana pela administração pública e moradores.

Com a desativação da feira no final da década de 80, um espaço vago se originou no baixio, o
qual foi associado pela população em situação de rua que o ocupou, não mais como um
espaço público, mas segundo uma propriedade privada ao construírem suas moradias. O que
podemos afirmar desse processo, é ele ser inicialmente conveniente ao poder público, pois
apesar da precariedade as pessoas tinham uma moradia em um período que as políticas
habitacionais eram ainda mais escassas. Em vista, do crescimento da população que passou
a viver no Viaduto, a ocupação careceu ser intermediada pela administração pública e a
solução adotada, por esta, consistiu em encaminhar ela para albergues ou a “promessa” de
uma unidade em conjunto habitacional de localização periférica.

Esse contexto de ocupação por moradias no baixio é parcialmente revertido com a instalação
da Academia de Boxe de Nilson Garrido no ano de 2006, através do intermédio da Prefeitura.
Embora no momento sem grande expressividade no bairro, o local passa a ser usado
novamente pelos moradores na qualidade de um espaço público sob a responsabilidade de
Garrido. No projeto instituído, Garrido procurou nas entrevistas enfatizar que o dinheiro do
poder público não é aplicado para mantê-lo, mas doações de empresas privadas e a
colaboração mensal de R$ 20 dos alunos – que podem contribuir – são sempre bem-vindas.
Com equipamentos para o ensino de boxe e prática de musculação, o projeto já foi destacado
em inúmeros trabalhos de arquitetura e de urbanismo por conciliar diferentes atividades, como
uma biblioteca ou uma área de alfabetização junto ao esporte (GUATELLI, 2008; LA VARRA,
2009; ROSA, 2011). Uma característica que se perdeu nos últimos anos devido à escassez de
recursos financeiros.

A partir da presença da Academia de Boxe de Garrido, um conjunto de equipamentos


esportivos foi inaugurado no baixio pelo poder público em 2008, possivelmente visando o
associar como uma área de lazer em acordo as reivindicações da população. Ao temer que o
local fosse novamente ocupado por moradores de rua, “aparece” a figura da Fátima com a sua
Associação Esportiva, Social, Cultural Futuro Melhor da Mooca, que tem como sede a área
poliesportiva e nenhum acordo formal estabelecido com o poder público para a sua
permanência. O encargo principal da Fátima – denominada por alguns usuários de a
“zeladora do viaduto” – é de captar recursos para a manutenção do espaço. A forma
encontrada por ela foi a partir do aluguel das quadras, nas quais se realizam partidas de
futebol e campeonatos amadores.

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Em outro trecho do baixio, no ano de 2012, a presença da população em situação de rua foi
retomada com a implantação de um espaço de assistência social e de convivência para o
atendimento desta. O centro de atendimento desencadeou a construção de moradias, ao seu
lado, onde antes havia uma academia voltada a idosos. A conjuntura hoje existente no
Viaduto Alcântara Machado acentua o senso comum que o associa a um estado de
degradação, principalmente, em relação a sua ocupação pela população em situação de rua.
No entanto, se denota também pela presença dos projetos gestados por Garrido e Fátima, o
baixo estar relacionado para algumas pessoas a uma forma de lazer, nesse caso, como um
espaço público (Figura 5).

R A D I A L L E S T E

4
1 4
2 2 33

PONTO CRÍTICO
3
Presença da população em
situação de rua

1. Ocupação por Moradias 2. Área Poliesportiva 3. Projeto Garrido Boxe 4. Área Cercada

Figura 5: Os usos no baixio do Viaduto Alcântara Machado demonstram em parte ele ter assumido a
característica de uma área para práticas esportivas.
Fonte: Google Earth, editado pelo autor, 2016.

Ainda que tenha contado no início com a ajuda do poder público para a instalação do
seu projeto no baixio, Garrido buscou enfatizar nas entrevistas que a relação construída com
ele sempre foi de muita resistência. Uma resistência que o levou a não aceitar a aplicação do
dinheiro público na gestão do seu projeto, por dizer, que ele é envolvido em um sistema de
corrupção, portanto, não serve ao trabalho social. Tal fato, o fez nunca a participar de
qualquer edital público para a contratação de professores ou aquisição de equipamentos. O
projeto, então, mantém as características de seu início, como durante os treinos de boxes, em
que são empregados peças de carro, geladeiras velhas e latas cheias de concreto. A doação
de aparelhos de musculação, um ringue e um octógono profissional pela rede de Academia

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Smart Fit, em 2014, contribuiu para que as atividades não permanecessem centradas apenas
no ensino de boxe.

Nas palavras de Garrido, o trecho do baixio do Viaduto que gesta assumiu com a implantação
de seu projeto a característica de um “espaço da igualdade e para a troca de ideologia”, pois
todos podem o frequentar e participar de suas atividades, não encontrando restrições de uso
ou preconceito conforme disse haver em outros espaços públicos da cidade. Essa relação que
expôs existir no projeto, por vezes, apresenta obstáculos, quando ele mesmo avaliou a
dificuldade em administrar o espaço ser a de que os usuários instituam um vínculo para a sua
manutenção e o compreendam como a "Casa do Povo".

Foi possível observar que os usuários pouco estão presentes na sua manutenção diária
(Figura 6). A contribuição deles ao projeto se resume na “colaboração” financeira – quando ela
ocorre – uma vez que a maioria não contribui. Desta forma, as questões de gestão do espaço
permanecem introjetadas em Garrido, sem haver um diálogo entre ele e os usuários do que o
projeto possa significar no futuro. Ao ponto, desta situação, poder acarretar, por exemplo, que
o uso do espaço se dê apenas por um determinado grupo, deixando de existir o entendimento
do baixio como um espaço público.

Figura 6: Os aparelhos para abdominais no centro do projeto gestado por Nilson Garrido costumam
servir de bancos para conversas após os usuários terminarem seus exercícios (esquerda). Na área
poliesportiva, a comunidade boliviana possui grande entrosamento com o espaço aos sábados, visto
que sempre há uma pequena torcida e alimentos típicos costumam levar aos jogos (direita).
Fonte: Arquivo do autor, 2016.

A importância da área poliesportiva ao seu entorno, para Fátima está associada ao fato de
não permitir que o baixio seja ocupado por mais moradores de rua do que em proporcionar um
lazer. Essa apreensão manifestada, por ela, decorre de vê-los como um aspecto que

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prejudica a paisagem do bairro, de modo que até mesmo resultou em uma atitude por parte do
vigia de selecionar quem pode entrar no espaço, sobretudo, quando percebe a pessoa estar
em situação de rua.

O espaço não é frequentado somente por quem aluga as quadras de futebol (Figura 6). Um
grupo bastante presente no período da tarde é dos skatistas, bem como, por quem não o
utiliza para atividades físicas. Nesse caso foi possível observar, às vezes um motoboy com a
sua marmita, pessoas do ponto de ônibus em frente que o acessavam na intenção de usar os
banheiros e entre outras situações. Essa diversidade de situações no espaço, infelizmente
não reflete em um pensamento coletivo a sua manutenção. Ao questionar alguns usuários –
como o grupo de skatistas – se haveria o desejo de contribuírem na solução dos problemas
relatados, poucos acreditaram ser algo viável de implantar e manter. É uma reflexão
igualmente exposta por Fátima, pois desde que instituiu a Associação comentou não ter
ocorrido um interesse espontâneo dos moradores de colaborar na sua gestão.

Essa reflexão expressa, que a área poliesportiva apresenta elementos de gestão pautados
em características de um espaço público de anos anteriores, daquele que é apenas para ser
frequentado. Apesar de sob a responsabilidade de um ator social, não houve o esforço de
partilhar a tarefa de seu funcionamento e manutenção. O esforço partiu em firmar parcerias
com o poder público através de editais a fim de que recursos fossem aplicados a sua
manutenção e resultassem em melhorias. São melhorias, que atualmente apenas o aluguel
das quadras não é mais capaz de proporcionar.

A dúvida que se denota em relação a esse espaço público presente na área poliesportiva é de
que ganhos ele produz e imprime aos seus usuários para a construção diária da cidade
desejada. O pensamento presente nos usuários – da mesma maneira verificado na Academia
de Boxe de Garrido – é de um espaço que pode ser usado e que continuaria existindo mesmo
em condições piores, isto é, sem ter a necessidade de uma real apropriação.

2.2 VI ADUTO DO GLICÉRIO

Um dos primeiros usos do baixio do Viaduto do Glicério – construído no final dos anos 60 –
decorreu em 1973, a partir da instalação de um Terminal Intermunicipal. No Terminal parte
das empresas de ônibus com linhas ao litoral Sul do Estado de São Paulo operaram. No
entanto, devido à construção do Terminal Rodoviário do Tietê, no ano de 1982, as atividades
do Terminal do Glicério encerraram-se e o poder público passou a cogitar do baixio ser
transformado em área de lazer com campo de futebol, quadra de salão, circuito para bicicletas
e até em receber um pronto-socorro.

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São diferentes suposições a um espaço vacante originado, que era citado como exemplo de
intervenção bem-sucedida a outros viadutos da cidade. Estudos no sentido de atribuir uma
perspectiva ao baixio também foram desenvolvidos pela Coordenadoria Municipal de
Abastecimento para que ele recebesse as feiras que se realizavam nas ruas Tomás de Lima e
São Paulo, no bairro do Glicério. Enquanto, o poder público ponderava usos ao espaço, a
estrutura do antigo Terminal foi ocupada por diferentes famílias migrantes da região Nordeste.

Com o início dessa ocupação é que o baixio se revela oportuno à disposição de outras
moradias e por esse motivo nos próximos anos é destaque nos jornais. O poder público até
apresenta algumas soluções para resolver à problemática, mas se constituíram pequenas
ações que em pouco tempo eram finalizadas. Concomitante a intervenção do poder público,
condições mínimas de atendimento aos moradores de rua passaram a ser desenvolvidas por
entidades religiosas. Essas entidades atuavam no bairro do Glicério desde o início dos anos
80 e ao trabalharem no baixio buscavam uma nova estrutura de atendimento a população em
situação de rua, de modo que eles conseguissem a deixar e se reinserir na sociedade.

O trabalho com os moradores de rua iniciou com a presença da feira livre – em um dos trechos
do Viaduto – na qual os restos de alimentos eram recolhidos para a realização de uma sopa
pela Organização de Auxílio Fraterno (OAF). É a partir também da sopa que se institui no
baixio a Associação Minha Rua Minha Casa em 1994, a partir da cooperação entre a OAF, o
PNBE (Pensamento Nacional das Bases Empresariais) e o Colégio Santa Cruz. A Prefeitura
chegou a colaborar por alguns anos na manutenção do espaço. O esquema que ocorriam as
atividades no projeto – foi destaque em diferentes reportagens nos jornais – por ser realizar
através de mutirão entre funcionários, voluntários e moradores de rua visando propiciar o
estabelecimento de vínculos, a quebra de relações e a recuperação de autonomia.

No ano de 2014, os serviços prestados pela Associação Minha Rua Minha Casa encerram-se.
O local permaneceu fechado por um ano, quando em 2015, o projeto Direitos Humanos no
Viaduto retomou parcialmente as atividades antes realizadas (Figura 7). A sua gestão conta
com profissionais que contribuíram na antiga Associação. Outros trabalhos, além do
atendimento básico, têm acontecido no projeto com a finalidade de aproximar os moradores
do Glicério ao Viaduto, os quais variam de apresentações musicais e teatrais a oficinas de
beleza.

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L I G A Ç Ã O
L E S T E - O E S T E

COR T IÇ OS
4
4
3
2 3
2
1
2
PONTO CRÍTICO
Presença da população em
situação de rua

1. Direitos Humanos 2. Projeto Garrido Boxe 3. Concentração de Moradores de Rua 4. Cooper Glicério
no Viaduto

Figura 7: No baixio do Viaduto do Glicério os usos existentes não permitem a permanência dos
moradores do bairro, sendo visto por estes, apenas como um local a ser atravessado para ir às
proximidades da Praça da Sé ou ao bairro do Cambuci.
Fonte: Google Earth, editado pelo autor, 2016.

A atuação de atores sociais no baixio se efetivou em 2006, mediante a intervenção da


administração pública no Glicério, que proporcionou mudanças como a criação da Cooper
Glicério. Com a desvinculação da Recifran (Serviço Franciscano de Apoio à Reciclagem), a
qual já ocupava o Viaduto, os catadores instituíram a sua cooperativa – denominando-a de
Cooper Glicério – e permaneceram no mesmo lugar (Figura 8). A percepção principal que se
tem da Cooper Glicério é de um espaço que se utiliza de algo público, mas normas limitadas
aos seus cooperados foram estabelecidas para a sua organização.

Os cooperados, na sua maioria, não possuem mais a imagem de vitimizados de anos


anteriores, devido ao trabalho realizado, eles conseguiram firmar outra relação social e
alcançar uma nova condição de vida. Da mesma forma, poucos vínculos estabelecem com o
bairro, ao passo que aqueles residentes no Glicério quando progridem na vida procuram outro
local para residir com maiores opções de lazer. A impressão que se teve, às vezes, foi que
seria indiferente – para alguns cooperados entrevistados – a cooperativa estar em outro
viaduto senão fosse o pretexto da área central de São Paulo ser o principal local de
recolhimento de materiais.

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Figura 8: A presença da Cooperativa no Viaduto é perceptível pelos inúmeros grafites realizados no
muro que delimita o seu espaço (esquerda). As críticas ao seu projeto no Glicério, Garrido disse ser de
seu conhecimento, mas aguarda outras fontes de recursos para intervir no espaço (direita).
Fonte: Arquivo do autor, 2015.

Ao lado da Cooper Glicério está uma unidade da Academia de Boxe de Nilson Garrido,
instalada também no ano de 2006, a qual tem suscitado algumas reclamações por moradores
do bairro quanto ao não uso do espaço (Figura 8). Um som alto, por vezes, foi escutado vindo
da Academia de Boxe ao passar em frente, porém não havia ninguém utilizando dos
equipamentos. A questão da concessão de uso que Garrido e a Cooper Glicério detêm do
baixio assumiu o caráter de uma propriedade privada. Uma propriedade, então, legitima de
questionamentos, pois ambos os projetos estão em espaços públicos e as contribuições dos
usos espontâneos desses locais admitirem não são mais claros à cidade.

Como aposta a serem exploradas no baixio se destaca as recentes ações desenvolvidas pelo
projeto Direitos Humanos no Viaduto buscando superar a visão de assistencialização da
população em situação de rua através da inclusão de ações culturais. Tais ações, são a fim de
possibilitar outros contatos não apenas centrados por uma prática religiosa, mas onde
possivelmente se cria meios para que a sociedade compreenda os usos e as ocupações
informais como um dado da realidade. No entanto, para que elas se realizem é necessário
driblar situações, conforme expôs Abel, Diretor do projeto, do local ser quente e barulhento,
porém contribuem para que o trabalho realizado não seja visto apenas como uma ação local
sem dialogar com o seu entorno.

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3. CONCLUSÃO
A mobilização de atores sociais verificada nos viadutos Alcântara Machado e do Glicério
reflete um princípio, que ganha destaque e interesse no urbanismo contemporâneo, onde os
moradores se mobilizam de maneira coletiva e ponderam suas demandas em prol de um outro
cenário a ser vivido. Um cenário expressado por possibilitar o uso da cidade e de seus
espaços públicos, ao invés, da aceitação de intervenções definidas, as quais se revelam, por
vezes, em desacordo a realidade local.

Os usos introjetados nos baixios investigados promovem alguns efeitos virtuosos as suas
circunvizinhanças, mas uma cautela é necessária ao ponderá-las porque não são todas as
práticas que apresentam reais qualidades sociais. Dentre essas práticas, algumas acabaram
privatizando o espaço que deveria ser de uso comum por privilegiar interesses. A proposição
de uso aos baixios de viadutos, embora contribua na minimização de determinados impactos
se demonstra relevante assegurar que à gestão do espaço não promova o detrimento de uma
identidade coletiva.

Referências
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São Paulo: MackPesquisa, 2008.

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MAGNANI, José Guilherme C. Transformações na cultura urbana das grandes metrópoles,


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<http://nau.fflch.usp.br/sites/nau.fflch.usp.br/files/upload/paginas/transformacoes_cultura_urb
ana.pdf>. Acesso em: 16 de ago. 2016.

______. De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana, 2002. Disponível em:
<http://nau.fflch.usp.br/sites/nau.fflch.usp.br/files/upload/paginas/de_perto_de_dentro.pdf>.
Acesso em: 22 de ago. 2016.

ROSA, Marcos L. Microplanejamento: práticas urbanas criativas. São Paulo: Editora de


Cultura, 2011.

SOLÀ-MORALES, Ignasi. Terrain Vague. In: DAVIDSON, Cynthia C. (Ed.). Anyplace.


Cambridge, MA: MIT Press, 1995, p. 118-23.

WORTHAM-GALVIN, Brooke D. An anthropology of urbanism: how people make places (and


what designers and planners might learn from it). Footprint, v. 7, n. 2, p. 21-40, 2013.

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