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ÍNDICE

PRIMEIRA PARTE — AS BASES DO CONFLITO


- CONTEXTO GEOPOLÍTICO, ANTROPOLÓGICO E ÉTNICO
- ROMA
- JUDEIA
- ANTISSEMITISMO ROMANO: UM CONFLITO ESPIRITUAL
- O LEGADO HELENÍSTICO
- O ANTISSEMITISMO GREGO
- HERODES
- SOBRE JESUS CRISTO E O NASCIMENTO DO CRISTIANISMO
- CALÍGULA
- CLÁUDIO E NERO

SEGUNDA PARTE — AS GUERRAS JUDAICO-ROMANAS


- PRIMEIRA GUERRA JUDAICO-ROMANA: A GRANDE REVOLTA
JUDAICA (66–73 EC)
- Motins étnicos no Egito
- CERCO E QUEDA DE JERUSALÉM ― A DESTRUIÇÃO DO SEGUNDO
TEMPO
- QUEDA DE MASSADA
- CONSEQUÊNCIAS DA GRANDE REVOLTA JUDAICA
- SEGUNDA GUERRA JUDAICO-ROMANA: A REBELIÃO DA
DIÁSPORA OU GUERRA DE KITOS (115–117)
- TERCEIRA GUERRA JUDAICO-ROMANA: A REVOLTA PALESTINA OU
REVOLTA DE BARCOQUEBAS (132–135)
- CONSEQUÊNCIAS DA REVOLTA PALESTINA
- ALGUMAS CONCLUSÕES
- NIETZSCHE SOBRE O CONFLITO “ROMA CONTRA JUDEIA”

TERCEIRA PARTE — O CRISTIANISMO E A QUEDA DO


IMPÉRIO
- SITUEMOS
- APARECE “A SEITA JUDAICA”
- O CASO DE NERO COMO EXEMPLO DE DISTORÇÃO HISTÓRICA
- DESTRUIÇÃO DE JERUSALÉM: O CRISTIANISMO CRIA FORÇAS
FORA DE JUDEIA
- OS CRISTÃOS DEIXAM DE SER PERSEGUIDOS
- NO ALTO DA PIRÂMIDE... SOMENTE HÁ ESCRAVOS: GENOCÍDIO
ANTIPAGÃO
- O IMPERADOR JULIANO COMO ÚLTIMO SUSTENTÁCULO ROMANO
- O GENOCÍDIO ANTI-PAGÃO CONTINUA COM MAIS VIRULÊNCIA
- O MARTÍRIO DE HIPÁTIA COMO EXEMPLO DO TERRORISMO
CRISTÃO
- CONCLUSÃO
- NIETZSCHE SOBRE O CRISTIANISMO
- VERSÃO NIETZSCHIANA DO SERMÃO DA MONTANHA

**********

PRIMEIRA PARTE — AS BASES DO CONFLITO

Os judeus estão há muito tempo em rebelião, não só contra Roma,


mas contra toda a humanidade.  —  (Filóstrato).
Os judeus pertencem a uma força sombria e repulsiva. Sabe-se
quão numerosa é essa camarilha, como são unidos e que poder que
eles exercem através de seus sindicatos. Eles são uma nação de
mentirosos e enganadores.  —  (Cícero).
Os temores dos judeus se confinaram, ao que parece, nos estreitos
limites da vida presente (...) A casmurra obstinação com que
mantinham seus ritos peculiares e suas maneiras antissociais
parecia assinalá-los como uma espécie diferente de homens, que
audazmente professavam ou que mal escondiam sua implacável
aversão ao resto da raça humana. —  (Edward Gibbon).

Na terceira parte, veremos processos que marcaram o primeiro


desenvolvimento do cristianismo, esta estranha síntese entre a
mentalidade judaica e greco-decadente que, do Oriente, devorou o
mundo clássico até os ossos, minando as instituições romanas e a
mentalidade romana até propiciar seu colapso total. No entanto,
começaremos focando nas províncias romanas do Leste,
especialmente na Judeia, que foram tomadas por Roma pelos
herdeiros de Alexandre, o Grande. Como eram as relações entre
gregos e judeus? Qual o papel dos romanos na Ásia Menor e na
gestão do problema judaico? Quais são as verdadeiras raízes de
Israel e a atual instabilidade no Oriente Médio? Vale a pena
expandir o assunto para se familiarizar com as bases do que hoje é
o maior conflito geopolítico do planeta: o Estado de Israel. Também
será útil ver a impossibilidade, a longo prazo, de coexistência entre
duas culturas radicalmente diferentes — neste caso, greco-romana
e judaica.

Por enquanto, na primeira parte, os romanos vão encontrar um


povo que segue a tradição com a mesma seriedade que eles, mas
substituindo esse toque "olímpico", artístico, atlético e aristocrático
por uma centelha de fanatismo e dogmatismo, e mudando o
patriotismo romano por um uma espécie de pacto selado às
costas do resto da humanidade. Um povo, acima de tudo, com um
sentimento de identidade ferozmente enraizado — de fato, muito
mais do que qualquer outro povo — e que também se
consideravam nada mais nem menos que o "povo escolhido"...

CONTEXTO GEOPOLÍTICO, ANTROPOLÓGICO E ÉTNICO

O Oriente Médio ou o Levante —  hoje Turquia, Líbano, Síria,


Iraque, Israel, Palestina, Jordânia e Egito —  tem sido uma zona
geoestratégica muito importante de confrontos entre a Europa de
florestas, neve, rios e névoas, e o profundo Oriente do espírito
seco, ciumento, estéril e inóspito do deserto. Nesta área tem
havido, desde tempos imemoriais, fluxos e refluxos da Europa e da
Ásia e da África se cristalizaram no surgimento do neolítico e das
primeiras civilizações do mundo.
Citando Nietzsche, diríamos que "se você olhar muito tempo para o deserto, o
deserto olhará para você". Se há um ambiente de seleção natural radicalmente
diferente do frio, é o ambiente desértico, monótono e infinito como os lamentos dos
cânticos agora predicados pelos minaretes das mesquitas. Tendo sido imerso nesse
tipo de paisagem por um longo tempo, é fácil para um homem ter alucinações, ver
miragens e imagens distorcidas, ouvir vozes que, segundo o folclore oriental, vêm
de espíritos malignos e, finalmente, perder seu caminho, cair em desespero e
loucura, e deixar sua mente partir para a escuridão... da qual nunca mais voltará. Os
desertos são os lugares onde a ausência total do poder fecundante do Céu
(representado pela chuva e relâmpagos e por deuses tipicamente europeus como
Zeus ou Júpiter) favoreceu o triunfo da Terra e, portanto, a morte da Natureza e a
nivelação, a devastação, a equalização dos horizontes e a falta de permanência do
terreno que é pisado. É imprudente pensar que todos esses elementos não deixam
uma marca profunda na idiossincrasia e no imaginário coletivo de um povo.

É traduzido no assunto que tratamos um confronto que, em última


instância, se reduz a uma insurreição evolutiva do Oriente para não
desaparecer numa competição desigual perante as variedades
humanas europeias. Em 56 AEC [Antes da era comum], em um
discurso intitulado "Sobre as províncias consulares", dado no
Senado de Roma, o próprio Cícero descreve os judeus, juntamente
com os sírios, como "uma raça nascida para ser escrava". Judeus e
sírios eram comunidades étnicas em que a raça armênida estava
fortemente representada, e que são abrangidos como culturas
semitas [sobre isso, ler o artigo da nova classificação racial]. As
ondas semitas têm sido, durante milhares de anos, uma fonte de
caos, violência e tragédia para a Europa. Este artigo abordará
particularmente os judeus, mas sem esquecer doutros grupos,
incluindo árabes, persas e sírios, que fizeram causa comum com
eles em muitas ocasiões, inclusive durante a ascensão do
cristianismo.

Embora hoje tentem endossar o multiculturalismo, a realidade


histórica é que a coexistência entre raças diferentes tem apenas
dois resultados: a "terceiro-mundização" e/ou a balcanização
(conflitos étnicos e rupturas territoriais). Portanto, neste artigo não
falaremos de "coexistência pacífica", tampouco, pois durante
séculos a coexistência entre gregos e judeus foi marcada por
grandes ondas de violência sanguinária.

Longe, então, da fantasia "politicamente correta" de "coexistência


de culturas", vamos investigar o início de uma série de limpezas
étnicas em todo o Mediterrâneo Oriental, culminando no Baixo
Império Romano com a erradicação, no Norte de África e no Oriente
Próximo, das comunidades greco-romanas, e a maior parte do
legado clássico, pelas mãos do Oriente.

- ROMA

É inacreditável a quantidade de adulterações escritas sobre a


história de Roma e a biografia de seus imperadores, mas não tanto
se pensarmos que o Império Romano enfrentou diretamente o que
mais tarde seriam duas forças muito poderosas: o judaísmo e o
cristianismo. Durante séculos, Roma representou (como os
macedônios a representaram antes dela) a encarnação armada e
conquistadora da vontade europeia e o veículo de sangue indo-
europeu no Oriente Médio, no coração do mundo semita, do
judaísmo, do neolítico e o matriarcado. .

Em sua "Anábase de Alexandre Magno", Arriano nos conta como,


enquanto Alexandre, o Grande, estava na Babilônia, ele recebeu
embaixadas de inúmeros reinos do mundo conhecido. Uma dessas
embaixadas veio de Roma, que naquela época era uma República
liderada por um conselho de patrícios anciões, chamados
senadores. Alexandre viu os costumes e o comportamento dos
embaixadores romanos e, sem hesitar, previu que se seu povo
continuasse fiel a esse estilo de vida sóbrio e reto, Roma se tornaria
uma cidade muito poderosa. Antes de morrer, Alexandre deixou em
seu testamento que uma imensa frota tinha que ser construída
para, um dia no futuro, enfrentar a ameaça cartaginesa, que
começava a surgir no horizonte. Roma, como herdeira da missão
alexandrina, também herdou a tarefa geopolítica de acabar com os
cartagineses, um povo de origem fenícia (atual Síria, Líbano e
Israel) que se estabeleceram no que hoje é a Tunísia. Roma
destruiu Cartago em 146 AEC, mas ficou com fortes sequelas e más
lembranças daquele confronto entre o Ocidente e o Oriente, e
nunca mais seria a mesma.

O que impressionou Alexandre sobre os embaixadores romanos, e o


que o fez distingui-los imediatamente dos outros embaixadores?
Simples: os romanos eram um povo extremamente tradicional e
militarizado, cuja vida dançava ao ritmo de severo ritualismo
religioso e austeridade disciplinada. A religião e os costumes
romanos estavam presentes em absolutamente todos os momentos
da vida do cidadão. O mundo, aos olhos de um romano, era um
lugar mágico e sagrado, onde os deuses antigos, os números,
os manes, os lares, os penates, os gênios e inúmeros espíritos
folclóricos, vagando livremente influenciando vidas dos mortais,
mesmo em suas atividades mais diárias ("A cidade de Deus", de
Santo Agostinho, apesar de atacar a religião romana, fornece
informações valiosas sobre sua complexidade). Quando uma
criança nascia, havia uma frase para invocar um nume. Quando
uma criança chorava no berço, outro era invocado. Todas as
qualidades e todos os acontecimentos, de acordo com a
mentalidade romana, mostravam a marca da intervenção criativa
das forças abençoadas do mundo. As famílias reverenciavam
ao pater familias e o antepassado do clã, enquanto todos os
homens se orgulhavam- de ter virtus, uma qualidade divina
associada à habilidade militar, ao treinamento e ao espírito
combativo. Somente a carne de animais sacrificados aos deuses era
comida em rituais de liturgia intransigente e, nas cerimônias
religiosas, a simples gagueira de um sacerdote era mais do que
suficiente para invalidar uma consagração.

O espírito romano: representado aqui com duas tochas, Vesta, equivalente à Héstia
helênica, era uma deusa virginal associada ao lar e ao fogo sagrado, simbolizando o
centro da casa, em torno do qual a família estava agrupada. Suas sacerdotisas, as
vestais, eram virgens que, dentro de seu templo circular, vigiavam o fogo sagrado
que nunca se apagava. Havia uma lei segundo a qual, se um prisioneiro do corredor
da morte visse na rua com uma vestal, ele seria absolvido. Quando alguma delas
falhava em seus deveres, ela era açoitada e, se alguma violasse o voto de
virgindade, era enterrada viva. Este é apenas um exemplo da imensa seriedade
religiosa que reinou nas origens de Roma, muito distante do famoso "declínio do
Império".

Apesar da subsequente influência grega sobre eles, a seriedade em


que os romanos seguiam o ritualismo e o folclore era tão extremo e
o seu patriotismo tão inacreditável que poderíamos pensar que a
devoção (o que eles chamavam de pietas, o cumprimento de seu
dever para com os deuses) que professavam seus costumes e
tradições ancestrais era o segredo de seu imenso sucesso como
povo. Eles desenvolveram tecnologia avançada e, através da
disciplina de seus soldados, da capacidade de seus comandantes e
de uma maneira superior de “fazer coisas”, conquistou todo o
Mediterrâneo, protegendo o sul da Europa.

Se tivéssemos que colocar mais exemplos de povos em que a


fidelidade às tradições foi seguida com a extrema seriedade como o
foi em Roma, apenas três seriam encontrados: a Índia Védica e a
China Han... e o povo judeu.

JUDEIA

Os judeus, de muitas maneiras, eram a antítese dos romanos, mas


tinham algo em comum com eles: rigidez ritual e lealdade aos
costumes. No caso judaico, isso tinha um pouco de fanatismo,
dogmatismo e intransigência. Os romanos consideravam essa
religiosidade sinistra: o contexto religioso bíblico, que é a matriz do
judaísmo (também do cristianismo e do islamismo), vem de uma
antiga tradição sírio-fenícia-cananaíta-semita que, entre outras
coisas, sancionava o sacrifício humano, incluindo o dos
primogênitos.
Os judeus, que tinham uma longa história de nomadismo,
escravidão, perseguição e expulsão do Egito e das civilizações da
Mesopotâmia, mantiveram, apesar de suas grandes oscilações por
mil desertos e mil cidades estrangeiras, sua idiossincrasia
essencialmente imperturbável. Desde a mais remota antiguidade,
os judeus provaram ser um povo inassimilável e altamente
conflituoso, dotado de uma inaudita capacidade de subir nas
posições sociais de civilizações alienígenas, minar suas instituições
e destruir suas tradições e costumes de uma posição parasitária e
avantajada, enriquecer com o processo, tomar o que era útil, se
tornarem cada vez mais sofisticados e, finalmente, sobreviver à
queda da civilização a que devoraram, levando uma bagagem de
experiência e símbolos roubados para a próxima civilização
destinada a sofrer a repetição do ciclo. Em todos os lugares que os
acolheram, os judeus foram acusados de se apropriarem da riqueza
dos demais sem trabalhar (usura), exercerem o vampirismo sobre a
economia, bajularem a nobreza, serem abertamente hostis com o
povo e odiarem mortalmente, em segredo, toda humanidade
gentia.

Aqueles que tinham poder entre os judeus eram os cohen, isto é,


sacerdotes que passaram suas vidas aprendendo a Torá e que
exerciam firme controle psicológico sobre seu povo a base de
ameaças perante a ira de Javé e a base de manipular os medos e
sentimentos do indivíduo como culpa ou pecado. O historiador
grego Estrabão acabaria por descrever os sacerdotes judeus como
“supersticiosos e com temperamento de tiranos”.
Esta é a representação do primeiro templo de Jerusalém, também chamado de
Templo de Salomão ou Sião, construído na esplanada do Monte Moriá, por volta de
960 AEC. O templo foi destruído pelos babilônios em 586 AEC, e reconstruído
setenta anos mais tarde por aqueles judeus que, liderados por Zorobabel, Esdras e
Neemias, retornaram da deportação do chamado “cativeiro babilônico”. Trata-se
duma estrutura um tanto modesta e, naturalmente, seguindo a tradição semítica
fundamentalista, carecia de imagens ou representações da figura humana:
literalmente, o judaísmo era uma religião sem ídolos. O estilo do templo estava em
sintonia com a tradição síria-fenícia-cananaíta, considerada sinistra pelos romanos
por admitir o sacrifício humano, incluindo o infanticídio ritual do primogênito. Os
cartagineses, que haviam sido esmagados por Roma no curso das guerras púnicas,
também foram herdeiros dessa tradição fenícia, associada à presença do haplogrupo
J.

Mas apesar de ser um povo “bárbaro”, desprezado e considerado


destinado à escravidão, os judeus tinham uma taxa de
alfabetização muito alta e, por causa de sua experiência,
conseguiam se sobressair muito bem em ambientes urbanos, posto
que entre todos os povos, eles eram o que levava mais tempo
v i v e n d o e m c o n d i ç õ e s c i v i l i z a d a . E n t r e e l e s e s t a va m ,
indubitavelmente, homens extremamente inteligentes e astutos,
bons em diversas profissões, e seu monoteísmo radical, devido sua
total ruptura com todo o resto do mundo, os distinguia bem de
qualquer outro povo.
ANTISSEMITISMO ROMANO: UM CONFLITO ESPIRITUAL

O que aconteceu após a invasão das tropas romanas na Judeia foi


um confronto espiritual sem precedentes na história da
humanidade. Agora, 4 milhões de judeus dividiam fronteiras com os
outros 65 milhões de súditos do Império Romano.

É impossível escrever um artigo sobre esse assunto sem mencionar


as citações profundamente anti-judaicas que os grandes autores
romanos da época escreveram. Eles perceberam um conflito real
entre dois sistemas de valores exatamente opostos um ao outro. O
choque entre a rigidez romana e o dogmatismo do deserto
provocou em Roma um autêntico movimento de rejeição ao
judaísmo. Embora o anti-semitismo remonte às próprias origens
dos judeus, os romanos, herdeiros dos gregos e de uma disciplina
militar superior, eram, sem dúvida, até então, aqueles que
demonstravam maior hostilidade em relação aos judeus.

Cícero (106-43 AEC), como veremos mais adiante, condena


hostilmente os judeus, considerando que sua mentalidade de
trapaça e covardia é incompatível com a mentalidade altruísta dos
melhores de Roma.

Horácio (65-8 AEC), no livro I de suas "Sátiras", zomba do sábado


sabático.

Sêneca (4 AEC-65 EC) chamou a judaria de "a nação mais


maligna, cujo desperdício de um sétimo da vida [se refere ao sabá]
vai contra a sua utilidade (...) Essas pessoas perversas vieram
estender seus costumes no mundo inteiro, os vencidos deram leis
aos vencedores".

Petrônio (27–66 EC), em seu "Satíricon", ridiculariza a


circuncisão.
Plínio, o Velho (23-79 EC), em sua "História Natural", fala sobre a
"maldade judaica" e se refere aos "judeus, bem conhecidos por seu
desprezo pelos deuses".

Quintiliano (30-100 EC) diz em seu "Institutos de Oratória" que os


judeus são uma zombaria para o resto dos homens, e que sua
religião é a personificação da superstição.

Marcial (40–105 EC), em seus epigramas, acredita que os judeus


seguem um culto do qual sua verdadeira natureza é secreta para
ocultá-la aos olhos do resto do mundo, e condenada a circuncisão,
o Shabat (ou seja, não fazer nada no sétimo dia da semana, o que
lhes dava uma reputação preguiçosa) e sua abstinência de carne de
porco.

Tácito (56–120), em “Histórias”, o famoso historiador que elogiou


os germânicos, também falou sobre os judeus, mas em termos
muito diferentes, alegando que eles descendem de leprosos
expulsos do Egito e que comparado com os assírios, medas e
persas, foram os mais desprezados e humilhados. Entre os termos
com que ele descreve os judeus, temos “perversos, abomináveis,
cruéis, supersticiosos, alheios a toda a lei da religião, malvados e
facinorosos”, entre muitos outros:

Os costumes judeus são tristes, sujos, vis e abomináveis, e se eles


sobrevivem é graças à sua perversidade. De todos os povos
escravizados, eles são os mais desprezíveis e repugnantes...
Para os judeus, é profano tudo o que consideramos sagrado; por
outro lado, lhes parece permissível tudo o que, para nós, é imoral.
Os judeus revelam um vínculo obstinado com eles, o que contrasta
com seu ódio pelo resto da humanidade... Entre eles, nada é lícito.
Aqueles que abraçam sua religião praticam a mesma, e a primeira
coisa que lhes ensinam é desprezar os deuses, esquecer o
patriotismo e negar as pessoas de sua família.
Os judeus são um povo que odeia os deuses e a raça humana. Suas
leis são opostas às dos mortais. Eles desprezam o que é sagrado
para nós. Suas leis lhes incitam a cometer atos que nos horrorizam.

Juvenal (55–130 EC), em “Sátiras”, critica os judeus pelo Shabat,


por não adorarem imagens, pela circuncisão, por não comerem
carne de porco, por serem escrupulosos com suas leis, desprezando
as de Roma, e que somente aos “iniciados” revelam a verdadeira
natureza do judaísmo. Além disso, ele culpa os orientais em geral e
os judeus em particular pela degeneração de Roma.

Marco Aurélio (121–180 EC) passou pela Judeia em sua viagem


para o Egito e ficou surpreso pelos modos da população judaica
local. Parafraseando “eu acho esse povo pior do que os
marcomanos, os cadetes e os sármatas” (citado por Amiano
Marcelino).

Estas citações resumem como os romanos, um povo indo-europeu


marcial, viril e disciplinado, viam a judaria. Pode-se dizer que, até o
triunfo dos romanos, nenhum povo estava tão consciente do
desafio que o judaísmo representava.

Todas essas citações apontam para um inflexível confronto


ideológico, bem como militar, em que tanto Roma e Judeia iam
enfrentar. Um conflito que influenciaria de maneira extraordinária
na História e que, portanto, não pode ser ignorado. Esse artigo
pretende dar uma ideia do que implicou o choque entre Roma e
Judeia.

O LEGADO HELENÍSTICO

Quando os macedônios tomaram o poder [na Judeia], o rei Antíoco


tentou extirpar suas superstições e introduzir os hábitos gregos
para transformar essa raça inferior.  —  (Tácito, “Histórias”)

Para entender os conflitos étnicos virulentos que ocorreram durante


o domínio romano, é necessário voltar alguns anos e nos colocar no
tempo do domínio macedônio, uma vez que os estratos sociais
gregos legados pela conquista de Alexandre, o Grande, tinham
muito a ver com as revoltas da judaria e na longa história de ódio,
tensões, retaliação e contra-retaliação que se seguiram a partir de
então.

Alexandre passou pela Judeia no meio do caminho de conquistar o


Egito. A comunidade judaica, temendo que isso destruísse
Jerusalém, fez com os macedônios o que eles costumavam fazer
sempre que vinha um novo invasor triunfante: trair seus antigos
senhores e dar boas-vindas ao invasor com braços abertos. Assim,
da mesma forma como traíram os babilônios com os persas, eles
traíram os persas com os macedônios. Agradecido, Alexandre lhes
concedeu amplos privilégios, por exemplo, em Alexandria, ele os
equiparou legalmente com a população grega. Este ponto é
importante porque o status legal dos judeus alexandrinos (que
constituiriam quase metade da população da cidade) supôs depois
amargos receios por parte da comunidade grega, levando a
tumultos, o que veremos posteriormente.

Em 323, Alexandre morre e deixa um vasto legado. Toda a área


que dominara, do Egito ao Afeganistão, recebeu uma forte
helenização, que produziu o chamado "período helenístico", para
diferenciá-lo do helênico clássico. Os generais macedônios, os
chamados diádocos, lutaram tolamente entre si para estabelecer
seus próprios impérios, e neste caso falaremos do Império
Ptolemaicos (centrado no Egito) e no Império Selêucida (centrado
na Síria), porque Israel permanecia entre eles, passaria a formar
parte do primeiro e finalmente, em 198 AEC, seria anexada pelos
selêucidas.

Sob o amparo da proteção alexandrina, os judeus se espalharam


não só na Palestina e no Oriente Próximo, mas em toda Roma,
Grécia e Norte da África. Nessas áreas já havia guetos judaicos
bem organizados, ricos e poderosos, todos ligados à Judeia, o
núcleo do judaísmo. Na sociedade judaica, alguns setores sociais
absorveriam a helenização, que, com o fermento dos séculos,
produziu um campo de cultivo cosmopolita que levaria ao
nascimento do cristianismo. Outros setores judaicos, os mais
numerosos, se agarraram à sua tradicional xenofobia e começaram
a reagir contra aqueles que, como Alexandre, haviam recebido
como salvadores. Embora o Oriente Próximo fosse uma colmeia de
egípcios, sírios (também chamados caldeus ou arameus, cujo
idioma era língua franca na área, sendo falado regularmente pelos
judeus), árabes e outros, os judeus tradicionalistas viam com
grande desgosto que a Ásia Menor e Alexandria estivessem se
enchendo de gregos que, naturalmente, eram pagãos e, portanto,
no pensamento judaico, infiéis, ímpios e idólatras, como haviam
sido os odiados egípcios, babilônios e persas antes deles.

Ao longo do tempo, pra infelicidade desses setores da judaria, que


não queriam ser assimilados, foi acrescentada uma série de
medidas decretadas por Antíoco IV Epifânio, o rei selêucida. Em
Dezembro de 168 AEC, Antíoco literalmente proíbe o judaísmo,
tentando eliminar a adoração de Javé, suprimindo qualquer
manifestação religiosa judaica, colocando a circuncisão fora da lei e
até forçando os judeus a comerem comida considerada
religiosamente "impura". Os gregos impuseram um edital pelo qual
um altar aos deuses gregos deveria ser construído em cada cidade
na área, e os oficiais macedônios seriam distribuídos para
assegurar que cada família judia adorasse os deuses gregos. Aqui,
os macedônios simplesmente se mostraram não conhecer o povo
judeu. Segundo o Antigo Testamento (II Macabeus e IV Macabeus),
aqueles que permaneceram fiéis à lei mosaica, Antíoco os queimou
vivos, e os judeus ortodoxos que escaparam para o deserto foram
perseguidos e massacrados. Estas declarações devem ser tomadas
com cautela, mas o que está claro é que houve repressão
antijudaica em geral.

Qual o significado dessas medidas? Devemos ter em mente que o


mundo pagão era um mundo de tolerância religiosa, no qual as
religiões não eram perseguidas assim. No entanto, no judaísmo, os
soberanos gregos deveriam ter visto uma doutrina política que
tenderia a voltar os judeus subversivos contra os Estados pagãos
pelos quais eles eram dominados, hostis aos demais povos do
planeta e, portanto, uma ameaça. Neste contexto, é possível que as
primeiras manifestações de intransigência religiosa vieram da
judiaria (entre outras coisas, porque, como disse, os antigos gregos
pagãos nunca foram religiosamente intransigentes ou intolerantes),
e que aos macedônios, que consideravam seus deuses como
símbolos de seu próprio povo, isso não lhes agradava.

O caso é que, naquele ano de 168 AEC, Antíoco sacrifica nada mais
e nada menos que um porco no altar do templo de Jerusalém, em
homenagem a Zeus. Este ato foi considerado uma dupla
profanação, por um lado porque era um porco (animal profano dos
credos semitas como no judaísmo e islamismo), e por outro lado
porque isso supunha o primeiro passo de consagrar todo o templo
ao Zeus olímpico e converter Jerusalém em uma cidade grega.

Moeda de Antíoco IV Epifânio, rei selêucida e descendente de Seleuco I Nicátor,


talvez o mais brilhante dos generais de Alexandre. De acordo com a tradição
judaica, este rei macedônio, ao profanar o altar do templo de Jerusalém derramando
sangue de porco, foi possuído por um demônio, o mesmo que possuirá o Anti-
messias (Anticristo) ou o “príncipe que há de vir” falado no Antigo Testamento
(Daniel, 9:26).
Esse ato sacrílego trouxe uma forte reação dos setores judaicos
mais fundamentalistas. Os rabinos mais fanáticos começaram a
pregar uma espécie de guerra santa contra a ocupação grega,
instando os judeus a se rebelarem, e quando o primeiro judeu
timidamente decidiu fazer uma oferenda ao Zeus grego, um rabino,
Matatias ben Johanan, o matou. Os tumultos étnicos subsequentes
levaram ao período conhecido como "Guerras Macabéias" (anos
167-141 AEC), muito do qual é falado no Antigo Testamento
(Macabeus). Realizando, com os hassidim (os "judeus piedosos",
também chamados chassídicos), uma guerra de guerrilha contra as
tropas macedônicas cercadas por todos os lados, os “macabeus”
foram finalmente salvos de serem esmagados quando uma rebelião
anti-grega estourou em Antioquia, e esmagou a influência dos
judeus helenizados. Judas Macabeu, que sucedeu a Matatias,
renovando o ciclo de traição, também iria negociar com os romanos
para garantir seu apoio. De fato, o Senado romano reconheceria
formalmente a dinastia asmoneu em 139 AEC, sem suspeitar das
dores de cabeça que esta remota terra daria em um futuro
próximo.
Judá, sob a dinastia asmoneu. Posteriormente, sob Herodes, a Torre de Straton seria
reconstruída como Cesareia. Não é o propósito deste artigo tratar do período
asmoneu, mas basta dizer que as guerras macabéias, que coincidiram com o declínio
dos selêucidas, levaram a um período de autonomia e expansão judaica sob o
reinado dos asmoneus, que teve inúmeras campanhas internas, guerras fratricidas e
combates entre facções religiosas, e durou até a invasão romana em 63 AEC.

Durante este período, além dos judeus helenizados, haveriam


outras duas facções judaicas importantes, também em disputa: por
um lado, os fariseus, um setor integrista que tinha o apoio das
multidões e, por outro, o saduceus, um grupo de sacerdotes mais
“progressistas”, mais “burgueses”, em melhores relações com os
gregos e que no futuro seriam vítimas da “revolução cultural” que
os fariseus realizariam contra eles após a queda da judiaria nas
mãos de Roma. Seus escritos foram destruídos pelos romanos, de
modo que a visão que temos atualmente do cenário é graças aos
fariseus, do qual viriam as linhagens de rabinos ortodoxos que
completariam o Talmude. A dinastia asmoneu, apesar de muitos
altos e baixos, seria essencialmente pró-saduceu.

O ANTISSEMITISMO GREGO

Aqui a escola alexandrina é particularmente relevante, pois, tendo a


população judaica mais importante (quase metade do total),
também possuía a mais importante tradição "anti-semita" (uso
aspas porque sírios, babilônios e árabes eram semitas e os
alexandrinos não tinham nada contra eles). Como uma parte
importante da história judaica ocorreu no Egito, esses escritores
egípcios helenizados a atacaram severamente. Além disso, os
gregos do Oriente Próximo viviam mal com os judeus há muito
tempo, e durante esse tempo uma verdadeira animosidade se
desenvolveu entre os dois povos.

Hecateu de Abdera (cerca de 320 AEC, não era alexandrino) foi


provavelmente o primeiro pagão a escrever sobre a história judaica
(e não o fez em bons termos):

Por causa de uma praga, os egípcios expulsaram-os... A maioria


fugiu para a desabitada Judeia, e seu líder Moisés estabeleceu um
culto diferente de todos os outros. Os judeus adotaram uma vida
misantrópica e inóspita.

Manetão (por volta do século III AEC), sacerdote e historiador


egípcio, em sua “História do Egito” (a primeira vez que alguém
escreveu a história do Egito em grego) diz que, no tempo do
reinado de Amenófis, os judeus foram expulsos de Heliópolis com
uma colônia de leprosos comandados por um renegado sacerdote
chamado Osarsef ou Osarsif, a quem ele identifica com Moisés, que
lhes ensinou costumes contrários aos dos egípcios, que lhes
ordenou não se associarem com o resto dos povos e os fez queimar
e pilhar muitos povoados egípcios do Vale do Nilo antes de sair do
Egito à Ásia Menor. Os posteriores estoicos Posidônio (filósofo e
historiador) e Queremón (tutor do Imperador Nero),
complementaram o que foi dito por Mâneton.
Mnaseas de Patara (por volta do século III AEC), discípulo de
Eratóstenes, foi o primeiro a dizer algo que mais tarde seria
recorrente no antissemitismo grego e também romano: que os
judeus, no templo de Jerusalém, adoravam uma cabeça de asno
feita de ouro.

Lisímaco de Alexandria (época desconhecida) disse que Moisés


foi uma espécie de mago negro e impostor, que suas leis,
equivalentes às registradas no Talmude, eram imorais e que os
judeus eram leprosos.

Agatárquides de Cnido (por volta do século II AEC), em


“Assuntos da Ásia”, zomba da lei mosaica e suas práticas,
especialmente o descanso sabático.

Posidônio (135-51 AEC) diz que os judeus são “um povo ímpio,
odiado pelos deuses”.

Apolônio Mólon (cerca de 70 AEC), gramático, retórico, orador e


professor de César e Cícero numa academia de Rodes, no século I
AEC, dedicou toda uma obra aos judeus, os chamando de ateus
disfarçados de monoteístas (talvez ele não conseguia conceber uma
religião sem ídolos) e de misantropos.

Estrabão (63 AEC-25 EC), geógrafo grego, em


sua “Geografia” admira a figura de Moisés, mas acredita que os
sacerdotes posteriores distorceram sua história e impuseram aos
judeus um estilo de vida antinatural. Nesta citação fica claro que os
judeus, já naquela época, constituíam uma poderosa máfia
internacional:

Os judeus penetraram em todos os países, por isso é difícil


encontrar qualquer lugar no mundo onde sua tribo não entrou e
onde não estão poderosamente estabelecidos.

Diodoro Sículo (cerca de 50 AEC), historiador grego da Sicília, diz


em “Biblioteca Histórica”:
Os judeus tratam os outros como inimigos e inferiores. A “usura” é
a sua prática de emprestar dinheiro com taxas de juros abusivas.
Isto tem causado durante séculos a miséria e a pobreza dos
gentios, e foi uma forte condenação para os judeus.
Os conselheiros do rei Antíoco disseram-lhe para exterminar
completamente a nação judaica, porque os judeus, como único
povo no mundo, resistiram a se misturar com outras nações. Eles
julgam todas as outras nações como suas inimigas e passaram essa
inimizade como uma herança para as gerações futuras. Seus livros
sagrados contêm regras aberrantes e inscrições hostis a toda a
humanidade.

Demócrito (século I AEC): “A cada sete anos eles pegam um


gentio e o assassinam no templo...”. Foi aqui, talvez, que começou
a se espalhar a acusação mais séria contra os judeus, quer dizer,
que sacrificavam os não-judeus a Javé. Esta acusação, chamada
“libelo de sangue”, foi recorrente durante a Idade Média tanto na
Europa como na Ásia, e também, depois, na Alemanha nazista.

Apião (cerca de 30-48 EC), escritor egípcio e principal promotor do


pogrom de Alexandria do ano 38 EC, que culminou em um
massacre de cinquenta mil judeus pelas mãos do exército romano.
Ele disse que os judeus estavam vinculados por um pacto mútuo
que consistia em nunca ajudar qualquer estrangeiro, especialmente
se fosse grego.

Os princípios do judaísmo obrigam-os a odiar o resto da


humanidade. Uma vez por ano eles pegam um não-judeu, o
assassinam e provam suas vísceras, jurando durante a refeição que
irão odiar a nação donde provinha a vítima. No Santíssimo Lugar do
templo sagrado de Jerusalém há uma cabeça de asno feita de ouro
que os judeus idolatram. O Shabat se originou devido uma doença
pélvica que os judeus contraíram quando fugiram do Egito,
forçando-os a descansar no sétimo dia.

Plutarco (cerca de 50-120 EC), iniciado nos mistérios de Apolo em


Queroneia e sacerdote no santuário de Delfos. É uma das fontes
favoritas de informação sobre o estilo de vida de Esparta. Ele diz
em “Conversas à mesa” que os judeus não matam nem comem
porco ou asno porque eles os adoram religiosamente, e que no
Shabat eles ficam bêbados.

Filo de Biblos (cerca de 64-141 EC), fenício helenizado que


escreveu sobre a história fenícia, a religião fenícia e os judeus, fala
dos sacrifícios humanos dos primogênitos (lembre-se da passagem
de Abraão e seu filho Isaac).

Filóstrato (170-250 EC), sofista do século II EC:

Os judeus são um povo que se levantaram contra a própria


humanidade (...) É uma raça que construiu a própria vida à parte e
irreconciliável, e que não pode partilhar com o restante da
humanidade os prazeres da mesa, nem dividir com eles suas
libações, preces ou sacrifícios; são separados de nós por um golfo
maior do que aquele que nos divide de Sura ou Bactra, das Índias
mais distantes.

Celso (por volta do século II EC), filósofo grego, especialmente


conhecido por sua obra "A palavra verdadeira", no qual ataca o
cristianismo, e também o judaísmo, que inicialmente estava
associado ao mesmo. Orígenes de Alexandria (cerca de 185-253
EC), um dos “pais da Igreja” que cortou seus testículos inspirados
por um versículo do Evangelho de Mateus (19:12), escreveu o
"Contra Celso". Parafraseando Celso: “Os judeus são fugitivos do
Egito que nunca fizeram nada de valor e nunca tiveram estima ou
boa reputação”.

A CONQUISTA DE POMPEU

Esta capítulo tratará da primeira intervenção direta da autoridade


romana em solo judaico.
Em Israel, com a morte de Alexandre Janeu (rei da dinastia
asmoneu, descendente dos macabeus) em 76 AEC, sua esposa
Salomé Alexandra reinou como sua sucessora. Ao contrário do
marido, que, como bom pró-saduceu, reprimira fortemente os
fariseus, Salomé se dava bem com a facção dos fariseus.
Quando ela morreu, seus dois filhos, Hircano II (associado aos
fariseus e apoiado pelo xeique árabe Aretas de Petra) e Aristóbulo
II (apoiado pelos saduceus) lutaram pelo poder. Em 63 AEC, ambos
os asmoneus pediram apoio ao caudilho romano Pompeu, pelo qual
suas legiões vitoriosas estavam em Damasco depois de ter deposto
o último rei macedônio da Síria (o selêucida Antíoco XIII Asiático) e
agora procuravam conquistar Fenícia e Judeia, talvez para
incorporar a nova província romana da Síria. Pompeu, que recebeu
dinheiro de ambas as facções, finalmente escolheu o lado de
Hircano II — talvez porque os fariseus representavam a maioria das
massas da Judeia. Aristóbulo II, recusando aceitar a decisão do
general, entrincheirou-se em Jerusalém com seus homens.

Os romanos, portanto, sitiaram a capital. Aristóbulo II e seus


seguidores duraram três meses, enquanto os sacerdotes saduceus
no templo oravam e ofereciam sacrifícios a Javé. Aproveitando o
fato de que os judeus não lutavam no Shabat, os romanos minaram
os muros de Jerusalém, após o que penetraram rapidamente na
cidade, capturando Aristóbulo e matando 12, 000 judeus. [1]

O próprio Pompeu entrou no templo em Jerusalém, curioso para ver


o deus dos judeus. Acostumado a ver numerosos templos de
muitos povos diferentes, e educado na mente europeia de que um
deus deve ser representado em forma humana para receber o culto
dos mortais, Pompeu ficou perplexo quando não viu nenhuma
estátua, nenhum relevo, nenhum ídolo, nenhuma imagem. ...
Apenas um castiçal, vasos, uma mesa de ouro, dois mil talentos de
"dinheiro sagrado", especiarias e montanhas de pergaminhos da
Torá [2]. Eles não tinham um deus? Eram ateus? Eles não
adoraram nada? O dinheiro? O ouro? Um simples livro, como se a
alma, os sentimentos e a vontade de um povo dependessem de um
rolo de papel inerte? A reação do general, como Flavio Josefo
relata, foi confusa. O romano encontrou um deus abstrato.

Para a mentalidade judaica, Pompeu cometeu um sacrilégio, uma


vez que entrou no lugar mais sagrado do templo, que somente o
sumo sacerdote podia entrar. Além disso, os legionários fizeram um
sacrifico a seus estandartes, "contaminando" a área novamente.

Após a queda de Jerusalém, todo o território conquistado pela


dinastia asmoneu (ou macabeu) foi anexado pelo Império Romano.
Hircano II tornou-se rei de Roma sob o título de “Etnarca” (algo
como “líder nacional”), dominando tudo o que Roma não anexou,
isto é, os territórios de Galileia e de Judeia, que de agora em diante
iria dar tributo a Roma mas manteria sua independência. Ele
também foi feito sumo sacerdote, mas na prática, o poder da
Judeia foi parar nas mãos de Antípatro (pai de Herodes), como uma
recompensa por ajudar os romanos.
Pompeu anexou à Roma as áreas mais helenizadas do território judeu, enquanto
Hircano II permaneceu como rei fantoche de Roma até sua morte.

Do ponto de vista étnico e cultural, a conquista romana previu


novas e profundas mudanças naquela área problemática que é o
Oriente Próximo. Primeiramente, seria adicionada uma aristocracia
romana ocupadora de um caráter militar entre os estratos étnicos
judeus, sírios, árabes e gregos. Para os gregos, isso era uma fonte
de alegria: o declínio do Império Selêucida os deixara de lado, e,
ademais, tinham literalmente Roma na palma da mão, já que os
romanos sentiam uma profunda e sincera admiração pela cultura
helenística, para não mencionar que muitos de seus imperadores
tiveram uma educação grega que os predispôs a serem
especialmente indulgentes com as colônias macedônias. Além
disso, em Alexandria, era de se esperar que, diante dos distúrbios
com a judaria, os romanos tirassem os direitos que Alexandre
concedeu aos judeus, e assim estes deixariam de ser cidadãos em
igualdade com os gregos, e a influência que exerciam através do
comércio e da acumulação de dinheiro seria erradicada. Por essas
razões, não é surpreendente que em Decápole (um conjunto de
cidades helenizadas nas fronteiras do deserto que também
mantinham uma considerável autonomia, incluindo a Filadélfia,
agora Amã, atual capital da Jordânia), cercado por tribos sírias,
judias e árabes consideradas bárbaras, acolheram os romanos de
braços abertos e começaram a contar os anos desde a conquista de
Pompeu.

Em 62-61 AEC, o pró-cônsul Lúcio Valério Flaco (filho do cônsul de


mesmo nome e irmão do cônsul Caio Valério Flaco) confiscou o
tributo de “dinheiro sagrado” que os judeus mandavam ao templo
de Jerusalém. Como reação, os judeus instigaram o povo contra
Flaco. O conhecido patriota romano Cícero defendeu Flaco contra o
acusador Décimo Laélio (um tribuno da plebe que posteriormente
apoiaria Pompeu contra Júlio César) e falou sobre os judeus de
Roma em seu “Pro Flaccus”, XVIII:

Chegamos agora ao importante assunto dos judeus e por essa


imputação tão odiosa. É por causa desta acusação particular que
você tem procurado este lugar, Laélio (o promotor) e esta multidão
de judeus que nos rodeiam. Conheces o seu número, a sua união e
seu poder em nossas assembleias. Falo baixo para não ser ouvido a
não ser pelos juízes. Como não faltam indivíduos entre aqueles que
agem contra mim e contra os melhores cidadãos que você protege,
não quero fornecer aqui novas armas a sua maldade. Havia
sabedoria (em Flaco) para terminar uma superstição bárbara
(judia), e firmeza em varrer, pelo bem da República, esta multidão
de judeus, que perturbam nossas assembleias.
Cícero. Considerava a usura como a mais desprezível das ocupações.

Desta frase podemos deduzir que já no século I AEC os judeus


tinham grande poder político em Roma, e que também tinham uma
importante capacidade de mobilização social contra seus
adversários políticos, que abaixavam a voz por medo da pressão
dos lobbies.

Por volta de 55 AEC, a República, que, muito grande e militarizada,


exige uma nova forma de governo, é dirigida de facto pelo chamado
Triunvirato — uma aliança de três grandes comandantes militares:
Marco Licínio Crasso (que esmagou a revolta de Espártaco em 74
AEC), Cneu Pompeu Magno (o conquistador da Síria) e Caio
Júlio César (conquistador da Gália). Em 54 AEC, Crasso, então
governador romano da província da Síria, ao passar o inverno na
Judeia, decretou um “imposto de guerra” sobre a população para
financiar seu exército, e também saqueou o templo de Jerusalém,
roubando seus tesouros (no valor de dez mil talentos) e causando
grande agitação na judaria. Crasso e a maioria de seu exército
seriam massacrados pelos partos na infeliz Batalha de Carras (53
AEC).

Crasso, que cometeu um erro crasso (daí o termo) durante a batalha, foi
responsável pelo massacre de vinte mil soldados pelas mãos dos partos. Outros dez
mil soldados romanos foram feitos prisioneiros e enviados para fazer trabalho
forçado para o que é agora o Afeganistão. Muitos acabaram lutando, sob o mando
parto, contra os hunos, e se perdendo no caminho. A análise genética parece indicar
que este destacamento, a famosa "legião perdida de Crasso", terminou na atual
província chinesa de Liqian (cujo nome é uma corruptela de "legião"), onde a
população contém uma maior frequência de características étnicas europeias. Mas
essa história vimos no artigo sobre a invasão ariana.

Lúcio Cássio Longino, um dos líderes de Crasso que conseguiu


escapar do massacre de Carras com seus quinhentos cavaleiros,
retornou à Síria para se preparar para um contra-ataque parto e
restabelecer o prestígio romano afundado na província. Depois de
expulsar os partos, Cássio teve de enfrentar uma rebelião judaica
que surgiu assim que souberam que Crasso tinha sido morto. Ele se
aliou a Antípatro e a Hircano II, e depois de tomar Tariqueia e
executar Pitolau (um dos cabeças da rebelião), capturou trinta mil
judeus e, em 52 AEC, os vendeu como escravos em Roma. Pode-se
dizer que este é o verdadeiro início da subversão dentro da própria
Roma, uma vez que esses escravos, mais tarde libertados por
Marco Antônio, e seus descendentes, dispersos pelo Império, não
cessariam de promover agitação contra a autoridade romana, e
teriam um papel importante na construção das catacumbas e
sinagogas subterrâneas, que foram posteriormente o primeiro
campo de pregação do cristianismo. Cássio seria mais tarde
nomeado governador da Síria.

A situação do Império Romano em 50 AEC. César conquistou Gália, Pompeu


conquistou Síria e Fenícia, e a Judeia, no extremo sudeste do Império, é um
território que paga tributo a Roma e está sob órbita romana, apesar de manter sua
autonomia.

Em 49 AEC, quando Crasso estava morto e, portanto, o triunvirato


desfeito, a guerra civil estourou entre Pompeu e César, um dos
quais, inevitavelmente, tornar-se-ia o ditador autocrático de todo o
Império. Antípatro e Hircano II decidiram tomar partido por César,
mas este colocou Antípatro de regente. Júlio César logo seria o
mestre da situação, e Pompeu foi assassinado no Egito por
conspiradores.

Rivais, mas não inimigos: os generais Pompeu, o Grande (à esquerda) e Júlio César
(à direita). A honra entre eles se tornou aparente quando o próprio César,
lamentando a maneira suja e traiçoeira com que Pompeu foi assassinado no Egito,
executou seus assassinos, depois erguendo um templo para homenagear seu
respeitado adversário.

Em 48 AEC, enquanto as frotas romana e ptolomaica estavam


envolvidas em uma batalha naval, ocorreu um evento para agitar
ainda mais as relações entre judeus, gregos e egípcios: a queima
da Biblioteca de Alexandria. Simplificando, de todos os grupos
étnicos da cidade, ninguém poderia ter nada contra a biblioteca. Os
gregos a tinham fundado, os egípcios haviam contribuído muito
nela, e os romanos admiravam sinceramente este legado
helenístico. Os judeus, no entanto, viam na biblioteca um conjunto
de sabedoria “profana” e “pagã”, de modo que, se houve um grupo
suspeito da primeira queima da biblioteca, logicamente, foi a
judaria, ou os setores mais ortodoxos e fundamentalistas da
mesma. Pelo menos devem ter pensado assim os habitantes de
Alexandria.

No mesmo ano de 43 AEC, os partos, um povo iraniano que lutava


contra Roma naquela época, invadiram a área, conquistando a
Judeia. Antígono (filho de Aristóbulo II), o último asmoneu, como
rei da Judeia, era um fantoche dos partos, e cortou as orelhas de
Hircano II (para ser um sumo sacerdote não podia ter imperfeições
físicas) e mandou ele acorrentado para a Babilônia. Assim, os
judeus voltaram a cair sob o domínio de um povo iraniano. Mas a
situação foi breve. Marco Antônio, do qual seu exército era apoiado
pela rainha do Egito, a Cleópatra (descendente do macedônico
Ptolemeu I Sóter, general de Alexandre), reconquistou Jerusalém
em 37 AEC, estabelecendo como marionete de Roma o rei Herodes,
antes de lançar uma campanha contra o Império Parto. Antígono foi
executado (crucificado de acordo com Dião Cássio, decapitado de
acordo com Plutarco) por ordem de Marco Antônio.

Em 31 AEC, ano de um forte terremoto em Israel que matou trinta


mil pessoas, Cleópatra e Marco Antônio cometem suicídio antes de
sua queda em desgraça devido seu complô contra Otávio Augusto
(aliás, César Augusto). Um ano depois, Herodes, que jurou lealdade
a Augusto, é reconhecido por ele como rei (uma marionete de
Roma, é claro) de Israel.

Flávio Josefo menciona durante o reinado de Augusto uma queixa


judicial na qual oito mil judeus apoiaram uma das partes. Esses
judeus deviam ser todos adultos do sexo masculino, e dado que
uma família nuclear costumava ser de quatro ou cinco pessoas,
podemos imaginar que na Roma de Augusto havia em torno de
trinta e cinco mil judeus.
César Otávio Augusto, o primeiro imperador romano.

HERODES, O GRANDE

Como vimos, Augusto, sucessor de Júlio César à frente do Império


Romano, nomeou Herodes, filho de Antípatro, rei da Judeia, e
financiou seu exército com dinheiro romano. Herodes era um líder
capaz, brutal, competente e inescrupuloso (derrubou praticamente
toda a sua família), além de um excelente guerreiro, caçador e
arqueiro. Ele expulsou os partos da Judeia, protegeu Jerusalém de
saques, perseguiu bandidos e ladrões de estrada e também
executou os judeus que haviam apoiado o regime de marionetes do
partos, estabelecendo-se em 37 AEC como rei da Judeia.

Embora retratado pela história como um rei implacável e duro, a


realidade é que como soberano ele foi um dos melhores que houve.
Ainda no ano 25 AEC, ele sacrificou importantes riquezas pessoais
para importar grandes quantidades de grãos do Egito, com o
objetivo de combater uma fome que estava espalhando miséria em
seu país. Apesar disso e tudo o que fez por Israel, Herodes é visto
com antipatia pelos judeus por ser um soberano pró-romano, pró-
grego e, acima de tudo, porque seu judaísmo era questionado:
Herodes descendia do lado paterno de Antípatro (que apoiou
Cássio), que por sua vez descendia de edomitas forçados a
conversão ao judaísmo quando João Hircano, um rei asmoneu,
conquistou Idumeia (ou Edom) por volta de 135 AEC. Por parte
materna descendia de árabes, quando a transmissão da condição
de judeu era matrilinear. Por isso, embora Herodes fosse
considerado judeu pela maioria das autoridades, as massas do povo
judeu, especialmente as mais ortodoxas, desconfiavam
sistematicamente do rei, especialmente em vista do opulento e
luxuoso estilo de vida que ele impôs em sua corte, e tinham
desprezo por ele. Por sua educação e suas inclinações greco-
romanas, este rei provavelmente se sentia- pouco judeu, embora
ele, sem dúvida, queria agradar os judeus e ser um bom
governante. Entretanto, sendo mais racional que seus súditos
fundamentalistas, percebeu que enfurecer os romanos não era um
bom negócio.

Herodes deu a Israel um esplendor que nunca havia conhecido,


mesmo sob Davi ou Salomão. Embelezou Jerusalém com
arquitetura e escultura helenística, realizou um ambicioso programa
de obras públicas e em 19 AEC demoliu e reconstruiu o templo em
Jerusalém, o considerando muito pequeno e medíocre. Isso irritou
os judeus, que odiavam Herodes por ser um protegido dos
romanos, a quem eles odiavam ainda mais. Sem dúvida, os setores
mais radicais da judaria estavam felizes com o templo tal como era,
e eles devem ter entendido errado sua conversão em um edifício de
aparência mais romana (especialmente quando o rei mandou
d e c o ra r a e n t ra d a c o m u m a á g u i a i m p e r i a l d o u ra d a ) .
Paradoxalmente, os judeus mais tarde lamentariam a destruição
deste mesmo templo pelas mãos dos romanos.
Este mapa do reinado de Herodes dá uma ideia sobre a magnitude de suas obras.
Destacam-se a construção de Cesareia, Séforis (perto de Nazaré) e Massada (em
frente ao Mar Morto) e Heródio (perto de Belém), bem como a reconstrução de
Samaria sob o nome de Sebaste, num gesto de homenagem ao Imperador
(sebastos significa Augusto em grego). Também construiu pontes, aquedutos e
outras novidades de origem romana. Para financiar tudo isso, ele aumentou os
impostos, o que o tornou antipático aos olhos do povo judeu, relutantes em ver
como seu país estava melhorando.

Herodes estava continuamente envolvido em conspirações por sua


família, muitos dos quais (incluindo sua própria esposa e dois de
seus filhos) foi executado por sua própria ordem. Conforme o
tempo, o soberano ficou começou a ficar mais doente (ele sofria de
úlcera e convulsões). Morreu em 4 AEC, na idade de 69 anos.
O primeiro templo em Jerusalém era uma estrutura modesta, como vimos no início.
O segundo, semelhante ao primeiro, foi construído sob a proteção do imperador
persa Ciro II em 515 AEC [1]. No ano de 19 AEC, Herodes propôs renová-lo e
ampliá-lo, pelo qual demoliu o templo, erigindo, sob proteção romana, um novo
grandioso, embora continuasse a ser chamado de “segundo templo” (templo de
Herodes precisamente). Ainda que os judeus odiassem Herodes, a verdade é que ele
deu ao templo um tamanho e um esplendor que nem Salomão ou Zorobabel
poderiam ter imaginado.

No mesmo ano de 4 AEC, dois fariseus judeus chamado Zadoque e


Judas, o Galileu (também chamado de Judas de Gamala) fizeram
uma apelação para não pagarem tributo a Roma. Houve uma
revolta farisaica, e os rabinos ordenaram destruir a imagem
“idólatra” da águia imperial que Herodes colocou na entrada do
templo de Jerusalém. Herodes Arquelau (filho de Herodes) e Varo
(militar romano) sufocaram a revolta, e crucificaram quase três mil
judeus. Pensa-se que talvez esta primeira revolta seja a origem do
movimento zelote, do qual falaremos mais adiante. Arquelau,
apesar de ter sido proclamado rei por seu exército, não assume o
título até que, em Roma, depois de ter apresentado seus respeitos
a César Augusto, é feito etnarca da Judeia, Samaria e Idumeia,
apesar dos judeus de Roma, que o temiam pela crueldade com que
ele tinha suprimido a revolta farisaica.

Arquelau é mencionado no Evangelho de Mateus, dado que Yosef,


Miriam e Yeshua (conhecidos como José, Maria e Jesus,
respectivamente) tinham fugido para o Egito para evitar o Massacre
dos Inocentes (supostamente, Herodes Arquelau ordenou naquele
ano a execução de todos os primogênitos de Belém, uma vez que
profetizou que um nascido se declararia o Messias dos judeus), e
tinham medo de voltar para a Judeia quando souberam que
Arquelau tinha sucedido seu pai.
O Império Romano no ano do nascimento de Jesus Cristo. Herodes Arquelau é o
governante da Judeia, um fantoche de Roma. Cinco anos depois, Judeia se tornaria
uma província romana. A cidade de Roma nessa época tem por volta de um milhão
de habitantes, dos quais mais da metade são escravos.

Em 6 AEC, após as queixas dos judeus, Augusto despacha


Arquelau, o enviando para a Gália. Samaria, Judeia e Idumeia são
formalmente anexadas como uma província do Império Romano,
com o nome de Judeia. Os judeus passam a ser governados por
procuradores romanos, uma espécie de governadores que tinham
de manter a paz, "romanizar" a região e exercer a política fiscal de
Roma cobrando impostos. Eles também arrogaram o direito de
nomear o sumo sacerdote de sua escolha.

Os judeus odiavam os reis fantoches, embora estes impusessem


ordem, desenvolvessem a região e, em suma, "civilizassem" o país.
Paradoxalmente, desde o início, a judaria também foi altamente
hostil para com os romanos, no qual sua intervenção havia sido
praticamente implorada. Agora, além do tributo ao templo, eles
também tinham que tributar a César — e, pela tradição, o dinheiro
não era algo que os judeus dessem facilmente. Nesse mesmo ano,
o cônsul Quirino chega à Síria para fazer um censo em nome de
Roma, com o objetivo de estabelecer impostos. Dado que Judeia
tinha sido anexada à Síria, Quirino incluiu os judeus no censo.
Como resultado disto e da nova irrupção da cultura europeia na
área, nasceu o movimento terrorista dos zelotes. Josefo
considerava os zelotes como a quarta seita judaica além (de menor
a maior extremismo religioso) dos essênios, saduceus e fariseus.
Os zelotes eram os mais fundamentalistas de todos, pois se
recusavam a pagar impostos ao Império Romano, e para eles todas
as outras facções judaicas eram heréticas; qualquer judeu que
colaborasse minimamente com as autoridades romanas era culpado
de traição e devia ser executado. A luta armada, a militarização do
povo judeu e, por fim, a expulsão dos romanos, era o único
caminho para alcançar a redenção de Sião. O apóstolo Simão, um
dos discípulos de Jesus Cristo, pertencia a esta facção de acordo
com a Bíblia (Novo Testamento, Evangelho de Lucas, 6:15).

Dentro dos zelotes, os sicários se distinguiam por ser uma facção


ainda mais fanática, sectária e radical, chamados assim pela sica,
um punhal que poderia ser facilmente escondido e usado para
assassinar seus inimigos. Os zelotes e os sicários formariam o
núcleo duro da Grande Revolta Judaica, que veremos na segunda
parte. Eles também eram o elemento mais ativo do judaísmo na
época, já que naquela época era provável que a maioria dos
judeus, embora detestassem cordialmente os gregos e os romanos,
simplesmente gostariam de viver e enriquecer em paz,
concordando com o que fosse necessário para isso.

Como não poderia ser de outra forma, os sicários e zelotes também


lutaram muitas vezes entre si. É que havia um total de vinte e
quatro facções judaicas que geralmente lutavam umas contra as
outras, num quadro muito representativo do que os rabinos
denominavam sinat chinam (isto é, “ódio gratuito”, de judeu contra
judeu )  —  e que talvez tenha sido melhor caricaturado no filme “A
vida de Brian” de 1979.
Em 19 EC, quando a judaria estava em processo de escalada para
ganhar influência em Roma, Tibério expulsou os judeus da cidade,
instigado pelo Senado. Preocupado com a popularidade do judaísmo
entre os escravos libertados, ele proibiu os ritos judaicos na capital
do Império, considerando os judeus como “um perigo para Roma” e
“indignos de permanecer entre os muros da urbe [cidade]”, (de
acordo com Suetônio). Naquele ano, por ocasião de uma fome na
província do Egito, Tibério nega as reservas de grãos aos judeus
alexandrinos, já que não os considera seus cidadãos.

SOBRE JESUS CRISTO E O NASCIMENTO DO CRISTIANISMO

Pois assim o Senhor nos ordenou: “Eu fiz de você luz para os
gentios, para que você leve a salvação até aos confins da terra”.  — 
(Bíblia, Novo Testamento, Atos 13:47).
Vocês adoram o que não conhecem; nós adoramos o que
conhecemos, pois a salvação vem dos judeus.  —  (Bíblia, Novo
Testamento, Evangelho de João, 4:22).
Mas tu, Belém, da terra de Judá, de forma alguma és a menor
entre as principais cidades de Judá; pois de ti virá o líder que, como
pastor, conduzirá Israel, o meu povo.  —  (Bíblia, Novo Testamento,
Evangelho de Mateus, 2:6).
O autor dessa seita era Chrestus, que no reinado de Tibério sofreu
pena de morte, como criminoso, pelo procurador Pôncio Pilatos.
Reprimida por pouco tempo, essa abominável superstição surgiu
novamente, não apenas na Judeia, o seu lugar de origem, mas
também em Roma.  —  (Tácito, “Anais”, sobre a perseguição anti-
judaico-cristã decretada pelo Imperador Nero).

Vimos no capítulo anterior a fuga de alguns judeus, tal como Yosef


e Miriam com seu filho Yeshua para escapar do massacre ordenado
por Herodes Arquelau. Quem eram essas pessoas? Yosef (vulgo
José), o pai, era um judeu da Casa de Davi, mas como ele
supostamente não interveio na gravidez da virgem, examinaremos
a linhagem de Miriam (vulgo Maria). De acordo com o Evangelho de
Lucas (1: 5,36), esta era da família de Davi e da tribo de Judá, e o
anjo que apareceu a ela previu um filho que Javé “lhe dará o trono
de seu pai Davi, e ele reinará para sempre sobre o povo de Jacó”.
Jesus enfim nasce em Bethlehem (Belém). No Evangelho de
Mateus (1:1) é associado a Abraão e Davi, e nesse mesmo
evangelho (21:9) descreve como as multidões judaicas de
Jerusalém aclamam Jesus gritando “Hosana ao Filho de Davi!”, sem
mencionar, é claro, os “magos do Oriente” que visitaram o Messias
seguindo uma estrela e perguntaram: “Onde está o recém-nascido
rei dos judeus?” (Mateus 2: 1–2).

Jesus, que nunca pretendeu fundar uma nova religião, mas sim
preservar o judaísmo ortodoxo, deixou claro que "Não pensem que
vim abolir a Lei (de Moisés, a Torá) ou os Profetas; não vim abolir,
mas cumprir" (Mateus 5:17), e enfurecido ao ver que o templo de
Jerusalém estava sendo profanado por mercadores, expulsou-os.
Esse agitador judeu não hesitou em confrontar — com a autoridade
que lhe foi dada — o resto das facções judaicas de seu tempo,
especialmente os fariseus, dizendo que “Aquele que não está
comigo, está contra mim” (Mateus 12:30). Jesus se cercou de um
círculo de discípulos, entre os quais podemos destacar o
mencionado São Simão, São Bartolomeu (do qual o próprio Jesus
diz no Evangelho de João, 1:47, “Aí está um verdadeiro israelita”),
o mencionado Mateus [um judeu do Mar da Galileia], Judas
Iscariotes (que o traiu aos fariseus por dinheiro), e embora dos
demais não há tantas referências, é precisar lembrar que, até a
viagem de São Paulo (também um judeu) um tempo após a morte
de Jesus, para ser cristão era imprescindível ser um judeu
circuncidado e ortodoxo. Evidentemente, a doutrina de Jesus estava
dirigida aos judeus e isso é manifestado no Evangelho de Mateus,
10:6, quando ele diz aos doze apóstolos: “Não se dirijam aos
gentios mas às ovelhas perdidas de Israel”. A frase implica retornar
ao seio ortodoxo aqueles judeus que se desviaram da Lei de Moisés
—  pois “Se vocês cressem em Moisés, creriam em mim” (João
5:46).

No ano 26, Tibério, que havia expulsado os judeus de Roma sete


anos antes e estava em plena época antissemita de seu reinado,
nomeia como procurador da Judeia a Pôncio Pilatos (um hispânico
nascido em Tarragona ou em Astorga, e única pessoa digna de
respeito do Novo Testamento de acordo com Nietzsche). Depois do
incidente com os estandartes de Pompeu, os judeus haviam
conseguido de anteriores imperadores para que não entrassem em
Jerusalém com estandartes desdobrados, mas Pilatos entra
desfilando na cidade, exibindo muito alto os estandartes com a
imagem do imperador. Isto, ao lado dos escudos de ouro colocados
na residência do governador e do uso de dinheiro do templo para
construir um aqueduto para Jerusalém (que transportava água a
uma distância de quarenta quilômetros) provocou uma reação
airada pelos judeus. Para reprimir a insurreição, Pilatos infiltrou
soldados entre a multidão e, quando visitou a cidade, deu um sinal
para que os legionários infiltrados sacassem as espadas e
começassem uma carnificina.

No ano 33, depois de vários embates dos seguidores de Jesus


Cristo com as facções rivais — particularmente com os fariseus, que
naquela época detinham o poder religioso e viam com mal olhos o
surgimento de uma nova e vigorosa facção —, Pôncio Pilatos
ordena a punição de Jesus Cristo, a pedido dos fariseus. Jesus é
chicoteado, e os legionários romanos, que deviam ter um senso de
humor um tanto macabro e que sabiam que Yeshua se proclamava
Messias e o filho de Javé, colocaram uma coroa de espinhos e um
caniço em sua mão direita e gritaram zombeteiramente “Salve, rei
dos judeus” (Mateus 27:26-31 e Marcos 15:15-20). Quando o
crucificaram, colocaram na cabeça da cruz a inscrição INRI (IESVS
NAZARENVS REX IVDAEORVM: Jesus Nazareno, Rei dos Judeus).
Yeshua de Nazaré, conhecido pela posteridade como Jesus Cristo, foi um dos muitos
agitadores judeus que houve em Judeia durante a complicada ocupação romana.
Executado por volta do ano 33 durante o reinado de Tibério, sua figura seria tomada
por Saulo de Tarso (vulgo São Paulo), ironicamente um judeu fariseu, maravilhado
com o poder envolvendo a seita fundada por Jesus.

Jesus foi, portanto, um dos muitos pregadores judeus que, antes


dele e depois dele, se proclamou Messias, exceto que, em seu caso,
o judeu fariseu Saulo de Tarso (atual Turquia) não tardaria em
chamá-lo, em vez de Meshjah, de Kristos, que vem a ser o
equivalente grego a “Messias”. Depois de mudar seu nome para
Paulo, ele pregou a figura de “Cristo”, indissoluvelmente unido à
rebelião contra Roma, em todo o Império, decidindo que o
cristianismo deveria ser difundido fora de seu estreito círculo
judaico e introduzido em Roma como uma doutrina de agitação e
subversão contra a autoridade do imperador.

CALÍGULA

Em 38, Calígula, sucessor de Tibério, enviou seu amigo Herodes


Agripa I à cidade problemática de Alexandria, para vigiar Aulo Avílio
Flaco, prefeito do Egito, que não tinha a confiança do imperador e
que — de acordo com o filósofo judeu Fílon de Alexandria ("Contra
Flaco") — ele era um verdadeiro vilão. A chegada de Agripa em
Alexandria foi recebida com grandes protestos da comunidade
grega, pois eles pensavam que ele estava vindo para se proclamar
rei dos judeus. Ele foi insultado por uma multidão, e Flaco não fez
nada para punir os ofensores, apesar de o ofendido ser um enviado
do imperador. Isso encorajou os gregos a exigir que as estátuas de
Calígula fossem colocadas em sinagogas, como uma provocação
para o bairro judeu. Para apaziguar os espíritos dos gregos e
egípcios e agradar o imperador - um dos emissários que acabara de
ser insultado - Flaco colocou estátuas de Calígula nas sinagogas da
região, que não eram poucas.

Este simples ato parecia ser o sinal de uma revolta: os gregos e


egípcios atacaram as sinagogas e incendiaram-nas. Os judeus
foram expulsos de suas casas, que foram saqueadas, e depois disso
foram segregados em um gueto do qual não podiam sair, posto que
eram apedrejados, espancados ou queimados vivos, enquanto
outros acabavam na arena para servir como alimento para as feras,
naqueles macabros espetáculos de pão e circo tão comuns no
mundo romano. De acordo com Fílon, Flaco também não fez nada
para impedir esses tumultos e assassinatos, e até os apoiou, igual o
egípcio Apião, que vimos criticando os judeus no capítulo dedicado
ao antissemitismo helenístico. Para celebrar o aniversário do
imperador (31 de Agosto, um Shabat), membros do conselho
judaico foram presos e espancados no teatro; outros foram
crucificados. Ao reagir à judaria, os soldados romanos retaliam
saqueando e queimando milhares de casas judaicas, profanando
sinagogas e matando mais de cinquenta mil judeus. Quando
ordenados a cessar o massacre, a população grega local, inflamada
por Apião (não surpreendentemente, Flávio Josefo tem uma obra
chamada “Contra Apião”), continuou os distúrbios. Desesperados,
os judeus ordenaram a Fílon de Alexandria que argumentasse com
as autoridades romanas. O filósofo judeu escreveu um texto
intitulado “Contra Flaco” e, juntamente com o relatório certamente
negativo que Agripa tinha dado a Calígula, o governador foi
executado.
Após esses eventos, as coisas se acalmaram e os judeus não
sofriam violência enquanto permanecessem dentro dos limites de
seu gueto. Contudo, embora o sucessor de Flaco permitiu que a
judaria alexandrina desse sua versão dos fatos, houve (ano 40)
novamente tumultos entre os judeus (que estavam indignados com
a construção de um altar) e os gregos (que acusaram os judeus de
se recusarem a render culto ao imperador). Os judeus mais
religiosos ordenaram que o altar fosse destruído e, em represália,
Calígula tomou uma decisão que realmente evidenciou que ele não
entendia nada sobre o judaísmo: ordenou colocar uma estátua no
templo de Jerusalém. É que, de acordo com Fílon ("Da embaixada a
Caio e Flaco"), Calígula “considerava suspeitos à maioria dos
judeus, como se fossem as únicas pessoas que se opunham a ele”.
Públio Petrônio, governador da Síria, que conhecia bem os judeus e
temia a possibilidade de uma guerra civil, tentou adiar tanto quanto
possível a colocação da estátua, até que Agripa convenceu Calígula
de que isso era uma má ideia.

Em 41, Calígula, que prometia ser um imperador anti-judaico [2],


foi assassinado em Roma, o que desencadeou a violência de seus
guarda-costas germânicos, que não foram capazes de evitar sua
morte e que, por senso de fidelidade, tentaram vingá-lo matando
inúmeros suspeitos, conspiradores, senadores e até mesmo
viajantes inocentes que tiveram a desgraça de estar no lugar
errado na hora errada. Claudio, tio de Calígula, conseguiu virar o
dono da situação e, depois de ser nomeado imperador pela Guarda
Pretoriana, ordenou a execução dos assassinos de seu sobrinho,
muitos dos quais eram magistrados políticos que queriam reintegrar
à República.

- Cláudio e Nero

No ano 49, Cláudio, que estava farto do conflito no lobby judeu


alexandrino, "não irei admitir judeus que navegam da Síria ou do
Egito, um processo que vai me obrigar a conceber suspeitas
graves; caso contrário, vou por todos os meios vingá-los como
fomentadores de uma praga geral que infectou o mundo inteiro".

Da mesma forma, Cláudio expulsou todos os judeus de Roma no


ano 50 (aparentemente, de acordo com Suetônio, "os judeus,
sublevados constantemente por incitamento de Cresto, foram
expulsos de Roma por ele [Cláudio]") e, como pontífice máximo, ele
tentou impedir a expansão dos cultos orientais, incluindo o
cristianismo e o judaísmo, no Império.

Ano 50. A Judeia já faz parte do Império Romano, mas sua romanização nunca se
estabelecerá, pelo contrário, a própria judaização de Roma será estabelecida antes.

Falaremos sobre Nero na terceira parte. Sua esposa, uma


meretriz ociosa chamada Popeia Sabina, era abertamente solidária
com judeus e cristãos e conspirou pelas costas do imperador para
favorecê-los. Assim, por exemplo, através da mediação de Sabina,
o próprio Flávio Josefo, enviado a Roma para negociar melhores
condições para seu povo, foi libertado. O ministro romano Sexto
Afrânio Burro foi assassinado em 62 por ordem de Sabina, ou talvez
por judeus, depois de ter sido negada a cidadania romana na
Grécia. Cansado de ter a conspiração perto dele, o imperador
mandou executar a esposa. A versão "oficial" é que ele a chutou na
barriga enquanto ela estava grávida, mas o problema é que aqueles
que divulgaram essa versão tinham uma forte inimizade com o
imperador, por isso deve ser tomado com cautela. Isto foi seguido
por uma sangrenta repressão romana a judeus e cristãos, na qual
caíram "revolucionários" judeus como São Paulo. Essa execução de
figuras-chave no movimento estratégico judaico, juntamente com
alguns outros fatores, seria o gatilho para uma revolta judaica, que
discutiremos na segunda parte.

- SEGUNDA PARTE - AS GUERRAS ROMANO-JUDAICAS

Na primeira parte, falamos da repressão anti-semita (anti-judaica e


anticristã) que o imperador romano Nero ordenou no ano 62.
Agora, veremos como todos os eventos anteriores supuseram em
uma escalada da violência étnica, que culminará no
desencadeamento de três imensas guerras nas quais, pela primeira
vez, veremos a erradicação das comunidades étnicas gregas na
Ásia Menor e no Norte da África nas mãos dos levantes judaicos.

Em 64, Nero enviou Géssio Floro como procurador para a província


da Judeia. O historiador Flávio Josefo culpa Floro por absolutamente
todos os tumultos que ocorreram na região, mas a verdade é que,
como vimos, eles não começaram com ele — e, por ser judeu e
saduceu, as obras de Flávio Josefo devem sempre ser lidas com
desconfiança (por exemplo, ele tem um escrito chamado "Contra os
gregos", no qual defende o judaísmo).

Em Cesareia (veja o mapa do reino de Herodes), um judeu


simpatizante do helenismo sacrificou vários pássaros em frente à
sinagoga que, na mentalidade tradicional judaica, "contaminou" o
edifico, como já vimos várias vezes antes. Com esse precedente,
mas com uma longa história de hostilidade anterior, as
comunidades grega e judaicas de Cesareia entraram em uma
disputa judicial na qual, com a mediação romana, os gregos
venceram. A conselho de Géssio Floro, Nero revogou a cidadania
dos judeus da cidade — deixando-os à mercê da população grega
altamente anti-judaica.

Os gregos foram rápidos em iniciar um progrom durante o qual


mataram milhares de judeus. Floro e os militares romanos (que
logicamente se identificavam com os gregos e não com os judeus, e
que talvez planejassem usar os gregos como a vanguarda da
limpeza étnica na área) não intervieram para proteger o bairro
judeu ou pacificar a cidade, permitindo que judeus fossem mortos e
sinagogas profanadas a bombordo e estibordo. Segundo Josefo,
quando os rabinos pegaram os pergaminhos sagrados para salvá-
los de serem queimados pelas chamas, Floro ordenou que fossem
jogados em masmorras. Isso foi demais para um grupo tão coeso
quanto os judeus, e eles reagiram com mais violência, que apenas
intensificou o massacre e o espalhou para outras populações, com a
subsequente retaliação romana.

Jerusalém, portanto, começou a se encher de refugiados judeus de


Cesareia e outras áreas cujas casas haviam sido queimadas e cujas
propriedades foram confiscadas pelos romanos, clamando por
vingança e soltando ressentimento de cada poro. O massacre de
judeus em Cesareia acabou sendo o gatilho de uma grande guerra
que, de qualquer forma, já vinha se formando há algum tempo.

PRIMEIRA GUERRA ROMANO-JUDAICA: A GRANDE REVOLTA


JUDAICA (66-73 EC)

O Oriente quer se rebelar e Judas quer dominar o mundo.  — 


(Tácito).

No ano 66, Floro chegou a Jerusalém, onde exigiu uma homenagem


de dezessete talentos do tesouro do templo. Eleazar ben Ananias,
filho do sumo sacerdote, reagiu cessando orações e sacrifícios em
homenagem ao imperador de Roma, e ordenou que a guarnição
romana fosse atacada. Ele respondeu matando cerca de 3.600
judeus, saqueando o mercado, invadindo casas, prendendo muitos
dos líderes judeus, açoitando-os em público e crucificando-os.
Em 66, Floro chega em Jerusalém, onde exige um tributo de
dezessete talentos do tesouro do templo. Eleazar ben Ananias, filho
do sumo sacerdote, reagiu cessando as orações e sacrifícios em
honra do imperador de Roma, e ordenou atacar a guarnição
romana. Esta respondeu matando cerca de 3,600 judeus,
saqueando o mercado, invadindo casas, prendendo muitos dos
líderes judeus e fazendo com que fossem açoitados em público e
crucificados.

No dia seguinte, no entanto, a concentração de judeus havia


aumentado. O barril de pólvora estava prestes a explodir.

Em 8 de Agosto de 66 EC, os zelotes e sicários deram um golpe


surpresa em Jerusalém: assassinaram o destacamento romano e
abateram todos os gregos. De forma sincronizada, surgiram judeus
de todas as províncias e colônias romanas. Em Jerusalém foi
formado um conselho que enviou sessenta emissários por todo o
Império, com o trabalho de levantar às diversas judiarias. Cada um
desses emissários declarou-se o Messias e proclamou o início de
uma espécie de "nova ordem". Herodes Agripa II, o etnarca da
Judeia, em vista de que as massas populares estavam em plena
ebulição, optou por fazer as malas e deixar a província em uma boa
hora.

O efeito disso foi o retorno das revoltas judaicas e, como reação,


mais pogroms anti-judaicos em Cesareia, Damasco e Alexandria,
sem contar a intervenção das legiões romanas, que reprimiram
duramente a judaria das cidades mencionadas e também em
Ascalão, Hipos, Tiro e Tolemaida (ver mapas da primeira parte). Os
setores judeus mais moderados e sensatos conversaram para
rapidamente chegar em um acordo com Roma, mas o critério que
prevaleceria na direção da judiaria era o dos zelotes e sicários que,
fanáticos, juraram lutar até a morte, entrincheirando-se nas
fortalezas inexpugnáveis de Jerusalém, fortificando os muros da
cidade e mobilizando toda a população.
Sob as ordens de Nero, Caio Céstio Galo, o legado romano na Síria,
concentrou tropas no Acre (um lugar que seria muitos séculos mais
tarde um importante centro estratégico dos cruzados europeus)
para marchar sobre Jerusalém, devastar as populações judaicas
que encontrasse em seu caminho e esmagar a revolta. Galo tomou
a cidade de Jope (atual Jafa), matando oito mil e quatrocentos
judeus (mais tarde os refugiados se reagrupariam na cidade e se
dedicariam ao banditismo e à pirataria, atraindo sobre si uma
segunda intervenção romana, na qual a cidade seria
definitivamente devastada e seriam mortos outros dois mil e
quatrocentos judeus). Depois de encontrar as sólidas fortificações
de Jerusalém, as forças de Galo se retiraram e foram interceptadas
pelos fanáticos judeus em uma emboscada liderada por elementos
dos zelotes e sicários, que massacraram seis mil romanos no
mesmo lugar que os macabeus derrotaram os macedônios séculos
antes. Os judeus, excitados pela repetição simbólica do evento,
f o r m a ra m u m g o v e r n o l i d e ra d o p e l o s e l e m e n t o s m a i s
fundamentalistas e cunharam moedas com a inscrição “liberdade de
Sião”.

Este trágico desastre inicial indubitavelmente levou as autoridades


romanas a levar mais a sério as operações de extinção da rebelião.
Nero colocou o general Vespasiano no comando da repressão. Com
quatro legiões (a Legio V Macedonica, Legio X Fretensis, Legio XII
Fulminata e Legio XV Apollinaris, um total de setenta mil soldados,
isto é, uma força formidável, apesar de enfrentar um inimigo muito
superior em número), Vespasiano sufocou a revolta judaica no
norte da província, reconquistando a Galileia em 67 (capturando
Flávio Josefo lá, o famoso historiador) e Samaria e Idumea (atual
Edom) em 68. Os líderes judaicos João de Gischala (zelote) e Simão
bar Giora (sicário) fugiram para a fortificada Jerusalém.

- Motins étnicos no Egito

Em Alexandria, os gregos organizaram uma assembleia pública no


anfiteatro para enviar uma embaixada ao imperador. Os judeus,
que estavam interessados em parlamentar com Nero, vieram em
grandes multidões, e assim que os gregos os viram, começaram a
gritar, os chamaram de inimigos, os acusaram de serem espiões,
correram na direção deles e os atacaram (versão de Flávio Josefo).
Outros judeus foram mortos enquanto fugiam, e três foram
capturados e queimados vivos. O resto dos judeus logo chegou
para defender seus correligionários, começando a atirar pedras nos
gregos e ameaçando queimar o anfiteatro.

Tibério Júlio Alexandre, governador da cidade, tentou convencer os


judeus a não provocar o Exército romano, mas esse conselho foi
tomado como uma ameaça: os tumultos continuaram e,
consequentemente, o governador, sem paciência, mandou duas
legiões na cidade (Legio III Cyrenaica e Legio XXII Deiotariana)
para punir a judaria. As legiões receberam carta branca para matar
os judeus e também para saquear suas propriedades, quando os
soldados entraram no gueto e, segundo fontes judaicas, queimaram
casas com judeus dentro, também matando mulheres, crianças e
idosos até que todo o bairro estava cheio de sangue e 50,000
pessoas estavam mortas.

Os sobreviventes desesperados pediram misericórdia a Alexandre, e


o governador teve pena deles. Ele ordenou que as legiões
cessassem o massacre e elas imediatamente obedeceram.
Alexandre mais tarde participaria do cerco de Jerusalém.

Circo e queda de Jerusalém ― A destruição do segundo


templo

No mesmo ano 68, Nero foi assassinado em Roma e uma guerra


civil estourou. Todo o Império Romano estava em xeque. Por um
lado, as grandes massas judaicas, em pleno andamento, estavam
desafiando seu poder na Judeia e, por outro, o faziam na própria
Roma. Se o poder romano no Oriente vacilasse, os partos poderiam
ter se aproveitado rapidamente para conquistar a Ásia Menor e se
fortalecer na área, o que teria sido uma enorme catástrofe para
Roma. O governo estava cambaleando, mas Vespasiano retornou a
Roma e lutou com Vitélio, que alegava ser o sucessor de Nero.
Depois de derrotá-lo, Vespasiano foi nomeado imperador e confiou
a seu filho Tito as operações militares de repressão e o cerco da
capital judaica.

Tito cercou Jerusalém com as quatro legiões, cortando suprimentos


de água e comida. Também aumentou as pressões sobre as
necessidades da cidade, permitindo aos peregrinos que entrassem
para celebrarem a Pessach ("Páscoa judaica") e, em seguida,
impedi-los de sair. Na Jerusalém sob cerco, a fome e as epidemias
mataram milhares e milhares de vidas. Os judeus que constituíam o
núcleo duro da rebelião — zelotes e sicários— derrubavam muros
de pacifistas ou “contra-revolucionários” suspeitos de não se
comunicarem com a causa sionista, ou procurarem um
entendimento com Roma para conseguir condições favoráveis para
seu povo. De acordo com algumas passagens do próprio Talmude,
os sicários e zelotes (líderes como Menahem ben Jair, Eleazar ben
Jair e Simão bar Giora) cometiam atrocidades contra a população
civil judaica, incluso impedindo a chegada de alimentos, para forçá-
los a serem obedientes e comprometerem-se com sua causa.

Os defensores que constituíam o elemento ativo da resistência


deveriam ser de cerca de sessenta mil homens, divididos em
zelotes (comandados por Eleazar ben Simão, ocupavam a fortaleza
Antônia e o templo) os sicários (ao mando de Simão bar Giora,
centrado na cidade alta), os idumeus e outros (ao mando de João
de Gischala). Havia uma clara rivalidade entre as bandas de
combate, que irromperam de tempos em tempos em combates
abertos. A população da fortificada Jerusalém passava de três
milhões de pessoas, a maioria das quais estava pronta para lutar,
esperando que seu deus lhe desse uma mão contra os infiéis.
Como os romanos atacavam repetidamente as fortificações com
imensas baixas, os zelotes ocasionalmente deixavam as muralhas
para fazer incursões, nas quais conseguiam assassinar soldados
romanos despreparados. Depois de uma dessas ações, Tito, numa
tática de intimidação muito ambivalente, fez exibir, no sopé da
cidade, seu exército em sua totalidade, com o objetivo de intimidar
e desesperar os sitiados, e apelou a Flavio Josefo, que gritou para
os sitiados coisas bastante razoáveis, como “Deus, que faz circular
o Império de uma nação a outra, agora é a vez da Itália” (V, 367)
ou “Nosso povo não recebeu o dom das armas, e para ele, fazer
guerra inevitavelmente implicará em ser vencido nela” (V, 399).
Aparentemente, aos ouvidos dos judeus, dominados por suas
superstições e seguramente esperando a qualquer momento uma
intervenção do próprio Javé, só conseguiu fazê-los mais irritados, e
atiraram-no uma flecha, ferindo-o no braço.

Flávio Josefo descendia de uma longa linhagem de sacerdotais saduceus relacionado


com a dinastia dos asmoneus dos tempos pré-romanos. Durante a Grande Revolta
Judaica, o Sinédrio o fez governador da Galileia. Depois de defender durante três
semanas o cerco de Jotapata ou Yodfat, ele se rendeu aos romanos, que mataram
quase todos os seus homens. Ele, que se escondeu em uma cisterna com outro
judeu, foi salvo demonstrando seu grande treinamento e inteligência, e previu ao
general Vespasiano sua futura nomeação como imperador de Roma. Mais tarde,
acompanharia Tito e os romanos, que o usaram para tentar negociar com o Sinédrio.

Depois disso, os judeus lançaram outra súbita incursão na qual


quase conseguiram capturar Tito. Os romanos foram treinados para
enfrentamentos frontais com exércitos inimigos, mas não estavam
acostumados à luta suja da guerra de guerrilha, em que o
cavalheirismo de combate quase inexistia. Em Maio de 70, os
romanos abriram com seus aríetes uma brecha na terceira muralha
de Jerusalém, após o que também quebraram a segunda e
penetraram como um enxame de vespas na cidade. A intenção de
Tito era ir à fortaleza de Antônia, que ficava ao lado do templo e
era um vital ponto estratégico da defesa judaica, mas assim que as
tropas romanas superaram a segunda muralha, se envolveram em
violentas guerras de rua contra os zelotes e a população civil
mobilizada por eles, e apesar de perder milhares de homens para a
superioridade do treinamento legionário na luta corpo a corpo,
continuavam a atacar, até que foram ordenados a se retirar ao
templo para evitar baixas inúteis. Josefo tentou, mais uma vez sem
êxito, negociar com as autoridades sitiadas para impedir que o rio
de sangue aumentasse.
A fortaleza de Antônia tinha sido construída por Herodes em homenagem a Marco
Antônio, que o havia apoiado. As legiões de Tito, diante de um edifício construído
com eficiência romana, tiveram que exceder mil calamidades para tomá-la. A
imagem acima mostra como a fortaleza foi anexada ao templo.
Os romanos tentaram várias vezes quebrar ou escalar as muralhas
da fortaleza sem sucesso. Finalmente, eles conseguiram tomá-la
em um assalto secreto, durante o qual um pequeno partido romano
silenciosamente assassinou os guardas zelotes, que estavam
dormindo. A fortaleza estava cheia de legionários. Embora Tito
planeasse usar a fortaleza como base para abrir uma abertura nas
paredes do templo e tomá-lo, um soldado romano (de acordo com
Josefo, os romanos estavam enfurecidos com os judeus por seus
ataques traiçoeiros) lançou uma tocha que ateou fogo na parede.
O Segundo Templo foi devastado, e para o ápice da judiaria, as
chamas se espalharam rapidamente para outras áreas residenciais
de Jerusalém. Quando viram o seu templo como um campo de
fogo, muitos judeus suicidaram-se, pensando que Javé havia ficado
zangado com eles, abandonando-os e enviando-lhes uma espécie
de apocalipse.

“Destruição do templo de Jerusalém”, por Francesco Hayez.


Neste momento, as legiões rapidamente esmagaram a resistência,
enquanto alguns judeus escaparam através de túneis subterrâneos,
e outros, os mais fanáticos, entrincheiraram-se na cidade alta e na
cidadela de Herodes. Depois de construir torres de cerco, o que
restava do elemento de combate foi massacrado pelas pilos e
gládios romanas, e a cidade estava sob efetivo controle romano em
8 de Setembro.

Queda de Massada

Na primavera de 71, com Jerusalém assegurada, Tito marcha para


Roma, deixando a Legio X Fretensis (sob o comando do novo
governador da Judeia, Lúcio Flávio Silva) encarregada de dar o
toque final à resistência judaica. A última fortaleza de toda a
rebelião foi a cidade fortificada de Massada, que havia sido erguida
pelos macabeus em uma área estratégica.

Herodes a aprimorara na tentativa de manter os judeus felizes, mas


quando ele morreu, seu comércio diminuiu e ele ficou
desempregado. Agora, ele abrigava o que restava do núcleo duro
sionista: fanáticos e assassinos liderados por Eleazar ben Yair.

Herodes havia melhorado em seu intento de manter contenta a


judiaria, mas quando ele morreu, seu comércio caiu, e a mesma
ficou desocupada. Agora abrigava o que restava do núcleo duro
sionista: zelotes e sicários liderados por Eleazar ben Yair.
No ano 72, Silva se encontrava no sopé de Massada. Quando, após
um doloroso cerco, entraram na fortaleza no ano seguinte,
descobriram que os novecentos e cinquenta e três defensores
haviam cometido suicídio.

Consequências da Grande Revolta Judaica

Em 73, após sete longos anos de uma guerra incrivelmente feroz e


sangrenta contra o maior poder militar do planeta, toda a Judeia foi
devastada, Jerusalém reduzida a ruínas cinzas e o templo
completamente destruído, exceto por um muro que permaneceu
em pé — o Muro das Lamentações. A Judeia tornou-se uma
província separada, e a Legião X Fretensis ficou permanentemente
acampada na capital judaica.

Sempre de acordo com fontes antigas, um milhão de judeus


morreram durante o cerco e durante a irrupção das legiões, e
outros cem mil (incluindo os líderes Simão bar Giora e João de
Gischala) foram capturados e vendidos como escravos em todo o
Império Romano. Os vestígios de independência e unidade política
dos judeus foram pulverizados, e os judeus voltaram a ser um povo
sem país.

Reconquistada toda a província da Judeia, Roma cunhou moedas comemorativas nas


quais aparece o perfil do imperador Vespasiano e, na coroa, a inscrição IVDEA
CAPTA (Judeia conquistada), sob a qual a Judeia era representada por uma mulher
chorando.
Esta rebelião judaica estava condenada a ser uma ação kamikaze
desde o início. O Império Romano era simplesmente uma força
muito irresistível, e somente o fanatismo fundamentalista, pregado
pelos setores sociais minoritários dentro da mesma Judeia,
conseguiu arrastar todos os judeus a lutar tão teimosamente e
tenazmente contra um inimigo que, afinal, era portador de uma
cultura infinitamente superior e, acima de tudo, com uma forma
melhor e mais eficaz de fazer as coisas. Sem dúvida, a vontade e a
fé movem montanhas — mas neste caso, eles não conseguiram
milagres, mas a destruição de sua terra santa e o fortalecimento da
ocupação romana.

A data da queda de Jerusalém, no ano 70, é o início do


chamado golus ou diáspora, ou seja, a dispersão dos judeus em
todo o mundo. De fato, os judeus já eram mais numerosos fora do
que na própria Judeia (a maior população judaica do mundo estava
em Alexandria), mas a destruição de sua capital decapitou o
centralismo judeu e propiciou ainda mais esse processo,
favorecendo desenvolvimentos autônomos, o típico sentimento
apátrida e a ascensão do cosmopolitismo tão característico.
Vespasiano tinha os judeus da Judeia dispersos por toda a Itália,
Grécia e, sobretudo, o Norte da África e a Ásia Menor, acreditando
que isso acabou com o perigo judaico para o Império.

Voltando a Roma, o triunfal Tito rejeitou formalmente a coroa de


louros oferecida pelo povo romano, alegando que ele cumpriu a
vontade divina e que “não há mérito em vencer um povo que foi
abandonado por seu próprio deus”. Pouco tempo depois, ergueram
um arco do triunfo, sob o qual nenhum judeu (pelo menos nenhum
judeu tradicionalista) passou até hoje.
O arco de Tito, erguido em Roma para comemorar a tomada de Jerusalém, mostra
os legionários romanos carregando os frutos da pilhagem do templo, enfatizando
sem dúvida o menorá.

Este é um momento-chave na história judaica. Os judeus viram


como suas conquistas foram esmagadas por um império europeu
orgulhoso, como suas relíquias foram pisoteadas pelas sandálias
romanas, e como seu sacrossanto templo virou um campo de
chamas. Vê-lo queimando e destruído foi um grande choque na
psicologia coletiva da judiaria, enchendo-os com ressentimento e
vingança contra o que eles conheciam da Europa, que eram as
comunidades grega e romana.

Roma poderia ter, facilmente, exterminado todos os judeus de


Judeia se quisesse, mas não o fez: parecia-lhe que o poder judeu
estava acabado. Os judeus ficaram traumatizados, e seu orgulho
tribal foi destruído. Mas, longe de neutralizá-los, no entanto, esse
choque psicológico para seu inconsciente coletivo alimentou-os com
desejos cruéis de vingança.

Os romanos deixaram de pé um muro do templo de Sião.

SEGUNDA GUERRA JUDAICO-ROMANA: A REBELIÃO DA


DIÁSPORA OU GUERRA DE KITOS (115-117)

Os judeus, dominados por um espírito de rebelião, se levantam


contra seus concidadãos gregos.  —  (Eusébio de Cesareia, “História
Eclesiástica”).

Este capítulo tratará da vingança judaica sobre os gregos e


romanos pela destruição do Segundo Templo. Com Israel ainda
exausta e sob forte ocupação militar, veremos uma tentativa de
estabelecer "comunas" ou Estados judeus no exterior, a partir de
secessões em Chipre, Egito, Mesopotâmia e Cirenaica. A
constituição desses territórios judeus exterminou as comunidades
gregas locais.

A Primeira Guerra Judaico-Romana deixou muito claro que a


judiaria, sob a “coexistência” com os gregos e com a autoridade
dos romanos, não tinha absolutamente nenhuma chance de
prosperar ou alcançar o poder, como havia feito no passado no
Egito, Babilônia e Pérsia. A “situação de gueto” dos judeus
submetidos a Roma contrastava radicalmente com a dos judeus
que, na Mesopotâmia, eram súditos do Império Parto. Havia
numerosas comunidades judaicas antigas, especialmente Babilônia
e Susa, que se viam como grupos prósperos, ricos, poderosos e de
longa data. Passaram seis séculos desfrutando de ampla liberdade,
e ficaram horrorizados com a situação de seus correligionários do
Império Romano. Portanto, não é surpreendente que o “judaísmo
internacional” tenha apoiado incondicionalmente o Império Parto
durante este tempo, em parte porque os tratou muito melhor e
porque era o único inimigo realmente sério que espreitava as
fronteiras do Império Romano no Leste, pelo qual eram o único
poder capaz de libertar Jerusalém. Afinal, os partos mataram, o
odiado por eles, Crasso durante a Batalha de Carras, e se os
romanos eram antijudaicos e os partos eram inimigos dos romanos,
a estratégia oportunista do momento considerava o Império Parto
como um regime pró-judeu. Nessa época, nada teria satisfeito mais
a judiaria do que uma campanha militar para conquistar a Judeia, a
Síria, a Ásia Menor em geral e, se possível, também o Egito, como
os persas haviam feito.

A situação por volta do ano 100. Os territórios sombreados em verde correspondem


às áreas cobiçadas por Roma e que acabariam por cair em sua posse, embora por
razões logísticas e geopolíticas não fosse possível mantê-las por muito tempo.

Em 113, Trajano, que tinha Alexandre, o Grande, como modelo,


estava se preparando para iniciar uma série de campanhas contra o
Império Parto, com o objetivo de conquistar a Mesopotâmia. Para
realizar tal ação, ele concentrou tropas nas fronteiras orientais, às
custas de deixar muitas outras praças ocidentais desprotegidas.
Conhecendo o conflito na província da Judeia, Trajano proibiu os
judeus de estudar a Torá e observar o Shabat, que, na prática, só
lhe rendeu a irritação da judaria.
Trajano, o primeiro imperador de origem hispânica, teve a honra de governar o
Império Romano quando suas fronteiras eram mais extensas. Sob seu reinado, a
Mesopotâmia foi anexada, mas logo ficou claro que cada passo que Roma dava ao
Leste, encontraria um levante dos judeus.

Em 115, o Exército romano conquista toda a Mesopotâmia,


incluindo cidades partas que eram importantes centros judaicos.
Em toda a Mesopotâmia, os judeus, horrorizados ao ver que
estavam caindo nas mãos de seus inimigos mortais, alinharam-se
com os partos e lutaram contra os romanos com ferocidade. Esta
aberta hostilidade, que imediatamente recebeu notícias em todo o
Império, causou uma onda de indignação e proporcionou a desculpa
perfeita para as comunidades étnicas gregas das províncias de
Cirenaica (atual costa da Líbia) e Chipre, com uma forte tradição
antijudaica, para iniciar tumultos contra os guetos, aproveitando a
ausência das legiões romanas, que poderiam apaziguar a situação.

Vários líderes judeus extremistas voltaram a pregar a agitação


contra Roma, proclamando o fim do Império, percorrendo todas as
províncias romanas da Ásia Menor e do Norte da África e animando
os judeus locais a se revoltarem e a lutarem contra a ocupação
europeia. Os judeus, irritados pelos tumultos com a população
grega, aproveitaram a ausência de soldados romanos para iniciar,
no mesmo ano 115, uma insurreição sanguinária.

Esta rebelião começou em Cirenaica, liderada por Lucuas,


autoproclamado messias. Os judeus, em um rápido ataque surpresa
que lembra sua rebelião em Jerusalém meio século antes, atacaram
bairros e povoamentos gregos, destruíram estátuas e templos
gregos dedicados a Júpiter, Ártemis, Apolo e Ísis, bem como
numerosos edifícios oficiais romanos (essas ações foram apenas um
presságio do que os cristãos fariam mais tarde numa escala
massiva em todo o Império). O famoso historiador romano Dião
Cássio, em “História Romana”, descreve o terrível massacre que foi
desencadeado, referindo-se a Lucuas como “André”, provavelmente
seu nome greco-romano:

Naquela época, os judeus que viviam em Cirenaica, tendo como


líder um tal André, mataram todos os gregos e romanos.
Cozinharam a carne de suas vítimas, usaram suas entranhas como
cintos, ungiram seu sangue e fizeram de suas peles vestuário.
Muitos tiveram seus corpos serrados ao meio, alguns foram tacados
como alimento para as feras, enquanto que outros foram forçado a
lutar entre eles, de modo que levaram à morte duzentos e vinte
mil.

Este testemunho, possivelmente exagerado, é certamente


interessante para ver a imagem negativa que os judeus tinham na
Europa, como um povo odioso e misantrópico. Também é notável o
implícito caráter de limpeza étnica nas ações judaicas de Cirenaica:
pensamos que naquele tempo, muito menos povoado do que agora,
duzentos mil mortos (embora possa ser um número exagerado) era
um número monstruoso, a tal ponto que, de acordo com Eusébio de
Cesareia, a Líbia foi totalmente despovoada e Roma teve que
fundar novas colônias lá para recuperar a população.

Depois do genocídio em Cirenaica, as massas de Lucuas foram para


uma cidade indefesa que há muito tempo era o centro mundial da
sabedoria: Alexandria. Lá, incendiaram vários bairros gregos,
destruíram os templos pagãos e profanaram o túmulo de Pompeu.

Mas a Rebelião da Diáspora não se limitava apenas ao Norte da


África. O terrorismo judaico em Cirenaica e Alexandria engrandeceu
os judeus em todo o Mediterrâneo, que, vendo a ausência de
soldados romanos, sentiram o chamado do levante contra Roma.
Enquanto Trajano estava no Golfo Pérsico lutando contra os partos,
multidões de judeus, fanatizados por rabinos, subiram a Rodes,
Sicília, Síria, Judeia, Mesopotâmia e o resto do Norte da África para
realizar limpeza étnica contra as populações europeias. Em Chipre
ocorreu o pior massacre de toda a rebelião: duzentos e quarenta
mil europeus foram massacrados e a capital da ilha, Salamina, foi
totalmente devastada. De acordo com Dião Cássio, "Uma crueldade
semelhante foi mostrada no Egito e na ilha de Chipre sob o mando
de um tal de Artêmio. Em Chipre abateram duzentas e quarenta mil
pessoas".

Este mapa mostra as fronteiras do Império Romano por volta de 115, quando a
Revolta da Diáspora eclodiu. As províncias problemáticas por sua população judaica
são indicadas no mapa com as cidades importantes da zona. As áreas verdes
correspondem às províncias da Arábia Pétrea, Mesopotâmia, Assíria e Armênia
(todas com importantes populações judaicas), que foram anexadas a Roma após a
derrota dos partos, bem como novos territórios para as províncias da Judeia e da
Síria

Para reprimir a rebelião em Chipre, na Síria e nos territórios


recentemente conquistados da Mesopotâmia, Trajano enviou a
Legio VII Claudia às ordens de um príncipe berbere, o general Lúsio
Quieto (Kito). A repressão de Quieto na Mesopotâmia foi tão
implacável que os rabinos posteriormente proibiram o estudo da
literatura grega e proibiram o costume em que as noivas se
adornavam com guirlandas (coroa de flores) no dia de seu
casamento. Em Chipre, Quieto exterminou toda a população judaica
da ilha e proibiu por lei, sob pena de morte, que nenhum judeu
pisasse em Chipre — mesmo que fosse um náufrago que
aparecesse na praia, ele seria executado no mar local. E é que
esses fatos deixaram uma marca profunda na memória dos
europeus desses lugares. Como recompensa por seus serviços,
Quieto foi feito governador da Judeia.

Para a pacificação de Alexandria, Trajano retirou tropas da


Mesopotâmia sob o comando de Quinto Marcio Turbo, que em 117
havia suprimido a rebelião. Para reconstruir os danos causados pela
revolta, os romanos expropriaram os judeus e confiscaram todos os
seus bens e riquezas. Turbo permaneceu como governador do Egito
durante um período de reconstituição da autoridade romana.
Lucuas, que estava em Alexandria naquele tempo, provavelmente
fugiu para a Judeia.

Durante toda a Rebelião da Diáspora, mais de meio milhão de


europeus foram massacrados, principalmente os pertencentes às
mais nobres camadas sociais de Cirenaica, Chipre, Egito e
Babilônia, quer dizer, o povo europeu desses lugares, homens,
mulheres e crianças que eram na época, a aristocracia do
Mediterrâneo Oriental. Muitos foram mortos depois de sofrer tortura
atroz. E embora a rebelião tenha sido impiedosamente esmagada
por Trajano, Quieto e Turbo, e milhares de judeus foram mortos,
Aquiva bem José nunca foi capturado.
Esta nova derrota, mais uma vez, só aumentou o ódio, o
ressentimento e a sede de sangue e vingança dos judeus, que em
breve iria ressurgir, animado pelo fato de que a Rebelião da
Diáspora quase derrubou a autoridade do Império Romano na mais
judaizada província, pondo em perigo a situação estratégica no
Oriente e a própria Roma. De fato, o judeu Heinrich Graetz (século
XIX), disse que “somente se os numerosos centros da rebelião
tivessem cooperado, então talvez eles poderiam ter sido capazes de
propiciar ao colosso romano seu golpe da morte naquele tempo”.

Após a morte de Trajano, em 118, o imperador Adriano chegou ao


poder. Nesse mesmo ano, as revoltas se mudaram para a Judeia.
Quieto, que permaneceu como governador da província, capturou e
executou os irmãos Juliano e Papo, que tinham sido a alma da
rebelião na Judeia... mas então, por ordens de Roma, assassinaram
o próprio Quieto. Supõem que talvez Adriano o viu como um
possível adversário político. Adriano tentou acalmar a situação na
Judeia concordando em permitir a reconstrução do templo de
Jerusalém.

TERCEIRA GUERRA JUDAICO-ROMANA: A REVOLTA


PALESTINA OU REVOLTA DE BARCOQUEDAS (132-135)

Embora jurem virar bons cidadãos romanos e adorar a Júpiter e


nossos outros deuses, mate-os, se não quer que eles destruam
Roma ou conquiste-a, pelos meios secretos e covardes que
costumam usar.  —  (Imperador Adriano, para suas legiões).

Adriano no início tinha sido minimamente conciliatório com a


província da Judeia. Ele permitiu que os judeus voltassem a
Jerusalém, começou a reconstrução da cidade como um presente
de Roma e até mesmo lhes deu permissão para reconstruir o
templo. No entanto, depois de uma visita a “terra santa”, ele fez
uma súbita mudança de opinião e começou novamente a fazer
sentir a autoridade romana na conflitiva província. Enquanto os
judeus estavam fazendo os preparativos para a construção do
templo, Adriano ordenou que fosse construído em um lugar
diferente do original, e então começou a depor os judeus para o
Norte da África. Planeando (de uma maneira míope, devo dizer) a
transfiguração completa da Judeia, sua desjudaização, sua
repovoação com legionários romanos e sua impregnação da cultura
greco-romana, ordenou a fundação, em Jerusalém, de uma nova
cidade romana chamada Aelia Capitolina (Élia Capitolina). Isto
implicava a irrupção maciça da arte clássica, extremamente odiada
pelos judeus, além da construção de numerosos edifícios romanos
― e a construção de um edifício romano necessariamente passava
por uma cerimônia de consagração de caráter religioso a cargo de
augures romanos e que, de acordo com a mentalidade talmúdica,
“contaminava” a “terra santa” como um ritual pagão. Jerusalém,
ante os nervosos olhos da judiaria, ia virar o cenário de coisas
altamente “profanas”, “impuras” e “pagãs” para sua mentalidade,
como ruas decoradas com estátuas nuas... e com prepúcio.

Os judeus, novamente indignados, prepararam-se para uma


rebelião, mas o rabino Joshua ben Hananiah (ou Joshua ben
Ananias) os acalmou, de modo que se contentaram em se preparar
clandestinamente no caso de terem de se rebelar no futuro, o que
parecia cada vez mais provável. Eles construíram esconderijos em
cavernas e começaram a guardar armas e provisões. Embora não
realizassem uma rebelião aberta, no ano de 123 começou a
acontecer atos terroristas contra as forças de ocupação romanas.
A educação helenística de Adriano é evidente em sua barba. Os romanos, uma povo
de soldados, como os macedônios, tinham o hábito de fazer a barba. Embora Nero
usou barba nalguns momentos de sua vida, o primeiro imperador a ostentá-la, em
tempo integral, foi Adriano. Tal homem seria naturalmente mais propensos a tomar
partido pelas populações etnicamente gregas do Mediterrâneo Oriental do que seus
principais rivais: os judeus, especialmente alexandrinos.

Adriano, que cada vez mais se arrependia de sua anterior


indulgência com a judiaria, trouxe a Legio VI Ferrata para atuar
como uma força policial. Para piorar as coisas, o imperador era um
homem de educação helenística. Além do antijudaísmo
tradicionalmente associado a ele, a formação grega considerava a
circuncisão (o Brit milá) como um ato de mutilação bárbaro. De
fato, embora admirassem a nudez de um belo corpo humano, os
gregos, que formavam o setor social mais influente na Judeia
depois dos romanos (para não mencionar a forte influência que eles
tinham sobre a própria cultura romana), consideravam como um
ato de extrema ineducação mostrar a glande em público, pelo qual
aqueles que tinham o prepúcio muito curto de nascimento, tinham
que cobrir a glande com algum acessório. Em vez disso, de acordo
com a tradição judaica, Adão e Moisés nasceram sem prepúcio, e o
Messias também nasceria circuncidado. Os judeus não eram os
únicos a praticar a circuncisão, na verdade também era praticada
por outros povos semitas, como os sírios e árabes — mas no caso
dos judeus, era um caso religioso, um sinal de uma aliança entre
eles e Javé. Convém citar um trecho do Midrash Tanjuma, um
escrito da tradição judaica que relata uma discussão entre o tanaíta
Aquiva bem José (o governante do Sinédrio judeu) e Turno Rufo
(nomeado governador da Judeia por Adriano nesta época):

Turno Rufo perguntou: “¿A obra de quem é mais bela, a do Santo,


louvado seja, ou do homem, de carne e osso?”

Aquiva: “A obra do homem”.

Rufo: “!Mas olhe para o céu e para a terra! ¿O homem pode fazer
algo assim?

Aquiva: “Não use como argumento algo que está além do alcance
das criaturas humanas; algo que eles não podem controlar,
argumente só com o que está ao alcance do homem”.

Rufo: “¿Por que vocês circuncidam?”

Aquiva: “Pressenti que perguntasse sobre isso, por isso me


antecipei em lhe dizer que a obra humana é melhor do que a do
Santo, bendito seja”.

Aquiva trouxe-lhe grãos de trigo e um bolo, e disse-lhe: “Isso é


obra divina e isso é obra humana. ¿O bolo não é melhor do que os
grãos de trigo?”

Rufo: “Se Sua vontade é que se realize a circuncisão, ¿por que


então o menino não sai circuncidado do ventre de sua mãe?”

Aquiva: “¿Por que o cordão umbilical sai com a criança, e está


preso em seu umbigo, e sua mãe precisa cortá-lo? Com respeito ao
que pergunta, ¿por que nasce incircunciso? Te direi, que o Santo,
louvado seja, não promulgou os preceitos para outro propósito
senão para acrisolar com eles aos israelitas. Por isso Davi diz: ‘A
palavra do Senhor é comprovadamente genuína’.”  —  (Tehilim
18:30).

Para piorar as coisas, Adriano também decidiu proibir seguir o


Shabat.

No ano 131, depois de uma cerimônia de inauguração a cargo do


governador Rufo, começaram as obras de Élia Capitolina, e no ano
seguinte as moedas foram cunhadas com o novo nome da cidade e
começaram as obras de um templo dedicado a Júpiter no sítio do
antigo templo de Jerusalém. O Rabi Aquiva bem José convenceu o
Sinédrio a proclamar como Messias e comandante da rebelião
vindoura a Simão Barcoquebas (“filho de uma estrela”),
um caudilho astuto, sagaz e sanguinário. Barcoquebas deve ter
cuidadosamente elaborado planos, observando os pontos em que
as rebeliões anteriores tinham falhado. Imediatamente, assim que
Adriano deixou Judeia, nesse mesmo ano de 132, os judeus se
levantaram, atacaram os destacamentos romanos e aniquilaram a
Legio X (a VI estava acampada próxima a Megido). Judeus de todas
as províncias do Império e além começaram a se reunir, e eles
também ganharam o apoio de muitas tribos sírias e árabes.
Com suas hordas fundamentalistas semitas (supostamente quatro
centos mil homens, que se diziam ter feito a iniciação ou cortando
um dedo ou arrancado um cedro da raiz) invadiram cinquenta
praças fortificadas e, por volta de, mil populações indefesas
(incluindo Jerusalém), exterminando as comunidades gregas, os
destacamentos romanos e todos os opositores que encontravam,
sendo comum as atrocidades. Depois, dedicaram-se à construção
de muros e passagens subterrâneas e, em suma, a se entrichar em
cada praça.

Após estas fugazes vitórias, o Estado judeu foi reorganizado na


zona. Em Betar, uma poderosa fortaleza nas montanhas,
Barcoquebas foi coroado Messias em uma solene cerimônia.
Durante os anos da revolta, Ben Yosef e Barcoquebas reinaram
juntos, um como ditador e outro como “pontífice” religioso,
proclamando a “era da redenção de Israel” e até mesmo cunhando
suas próprias moedas.

Na “cara” (proibida a representação da “blasfema” figura humana), uma imagem da


fachada do templo de Jerusalém, com uma estrela. Na coroa, uma lulav ou folha de
tamareira, e a inscrição “Ano um da redenção de Israel”.

O general Públio Marcelo, governador da Síria, foi enviado para


apoiar Rufo, mas ambos os romanos foram derrotados por forças
muito superiores em número, que também invadiram as zonas da
costa, forçando os romanos a lutar com eles em batalhas navais.

Naquela época, muito preocupante para Roma, Adriano chamou


Sexto Júlio Severo, que naquele tempo era o governador da
província de Britânia. Também requiriu um antigo governador da
Germânia, Quinto Lólio Úrbico. Com eles, reuniu um exército maior
do que Tito havia reunido no século passado (um total de talvez
doze legiões, um terço da metade de todos os efetivos militares do
Império). Em vista do grande número de inimigos e do desespero
com que agiam, ele evitou as batalhas abertas, limitando-se a
atacar grupos dispersos e a destruir populações onde poderiam
encontrar suprimentos, numa tática de guerra antipartidária. Os
judeus tinham se estrinchado em cerca de cinquenta cidades
fortificadas, muitas delas verdadeiras complexidades inexpugnáveis
nas montanhas, de modo que os romanos avançavam lentamente,
sitiando as praças, cortando os suprimentos e entrando quando os
defensores estavam fracos. Esta tática penosa, que também exigia
longas viagens por zonas hostis, lhes custou inúmeras mortes — de
fato, parece que os judeus aniquilaram, ou pelo menos causaram
fortes perdas, a Legio XXII Deiotariana, que viera do Egito. Para
confirmar as dificuldades passadas pelas legiões, Adriano retirou de
seus relatórios militares ao Senado e ao Povo de Roma a fórmula
habitual: “Eu e as legiões estamos bem” — pela simples razão de
que as legiões... não estavam bem.

Depois de enormes sacrifícios e desperdício de disciplina e


sentimento de dever, os romanos estavam triunfando pouco a
pouco. Em 134, havia a fortaleza de Betar (Battir), onde
Barcoquebas se tornara forte com o Sinédrio, com seus seguidores
mais leais e com milhares de judeus que haviam vindo como
refugiados. No próprio dia do aniversário da queda do templo de
Jerusalém, a fortaleza caiu nas mãos dos soldados romanos, que
mataram toda a população e não permitiram que os mortos fossem
enterrados até que passassem seis dias. Essa deve ter sido a
chacina, que a tradição judaica — conhecida, como se sabe, por
inflar artificialmente as estatísticas de suas vítimas — , incorporada
no Talmude (Gittin, 57-B), estabeleceu que “os romanos mataram
quatro bilhões (sic) de judeus na cidade de Battir” (!).

O que restou, das hordas fundamentalistas de Barcoquebas, fugiu


para as cavernas, ao sul, de Jerusalém, não muito longe da antiga
fortaleza de Massada. Os soldados romanos cercaram as cavernas
e, consumidos pela fome, sede e fadiga, Barcoquebas e seus
seguidores morreram, certamente sem ter cedido um centímetro
em seu fanatismo.

Quanto a Ben Yosef, ele foi capturado vivo quando as tropas


romanas exterminaram os últimos fragmentos da rebelião nas
margens do Mar Morto. Ele foi enviado a Cesárea, onde foi
executado na idade de cento e vinte anos. Diz-se que os romanos,
enfurecidos pelas perdas humanas infligidas a eles, o esfolaram
vivo, mas era mais provável que morreu por crucificação, que era o
método de execução reservado para aqueles que se rebelavam
contra a autoridade de Roma.
CONSEQUÊNCIAS DA REVOLTA PALESTINA

Esta revolta teve consequências muito mais definitivas e muito


mais rotundas, tanto para Roma como especialmente para a
judiaria. Para começar, as perdas romanas eram tais que, além da
recusa de Adriano em dizer no relato militar ao Senado que tudo
estava bem, ele foi o único líder romano da história que, depois de
uma grande vitória, se recusou a voltar a Roma celebrando o
triunfo. Tito Vespasiano só recusou uma coroa de louros, Adriano
levou isso para o próximo nível.

Conquanto, se as perdas romanas foram grandes, as perdas judias


foram enormes. De acordo com Dião Cássio, quinhentos e oitenta
mil judeus foram mortos, cinquenta cidades e novecentas e oitenta
e cinco aldeias judaicas foram arrasadas completamente (e não
reconstruídas) e centenas de milhares de judeus vendidos como
escravos em todo o Império. Não é de surpreender que o Talmude
chamasse este processo de “guerra de extermínio” e até fizesse
declarações exorbitantes para mitificar o conflito, como “Dezesseis
milhões de judeus foram enrolados em pergaminhos e queimados
vivos pelos romanos” (Gittin, 58-A). Os judeus, em qualquer caso,
foram definitivamente privados da vontade de se levantar contra
Roma pela força das armas. Em troca, a ameaça judaica, que
tantas dores de cabeça tinha dado a Roma, ia aumentar em todo o
Mediterrâneo, devido à disseminação ainda maior da diáspora, e o
terreno fértil que isso significou para a expansão dessa outra
rebelião anti-romana que era o cristianismo.

As condições da derrota impostas aos judeus foram ainda mais


duras do que o triunfo, no ano 70, de Tito. Como medidas contra a
religião judaica, Adriano proíbe o calendário judio, as reuniões em
sinagogas, estudar os escritos religiosos e o judaísmo em si como
religião. Mandou, também, executar numerosos rabinos e queimar
massas de pergaminhos sagrados em uma cerimônia no Monte do
Templo. Ele tenta erradicar a própria identidade judaica e o próprio
judaísmo, enviando-os para o exílio, escravizando-os e
dispersando-os da Judeia. Esta perseguição contra todas as formas
de religiosidade judaica, incluindo o cristianismo, continuaria até a
morte do imperador em 138.

Além disso, em outra tentativa de arrancar definitivamente a


identidade judaica e de afastar seu centro de poder, as províncias
orientais foram reestruturadas, formando três províncias sírias: a
Síria Palestina (assim chamada em honra dos filisteus, um povo de
origem europeia inimigo dos judeus e que habitou a área após a
invasão dos povos do mar), que coincidia com a antiga Judeia, a
Síria Fenícia e a Celessíri (Síria Coele).

Na nova ordem territorial decretada por Adriano, a Judeia tornou-se a Síria


Palestina, e Jerusalém tornou-se Élia Capitolina, uma cidade grega e romana da qual
os judeus eram proscritos. As três sírias formam o Levante, uma faixa
extremamente ativa e conflituosa na história até hoje, tal como vimos noutro artigo.
Daí vieram o Neolítico, os fenícios, o judaísmo e o cristianismo, e através dele
praticamente todas as civilizações da antiguidade, criando um caos étnico que
sempre acabou levando a conflitos. Séculos mais tarde, estas áreas veriam o
estabelecimento de Estados europeus cruzados.
Quanto à cidade de Jerusalém, Adriano levou a cabo com ela os
planos que haviam desencadeado a revolta: a capital judaica foi
demolida e destruída, e os romanos araram sobre as ruínas para
simbolizar a sua “purificação” e seu retorno à terra. Adriano
finalmente construiu a Élia Capitolina sobre as ruínas, introduzindo
um novo planeamento urbano, de tal forma que mesmo hoje em
dia a parte antiga de Jerusalém coincide com a construída pelos
romanos. No centro da cidade foi estabelecido um fórum, que
incluiu, entre outras coisas, um templo consagrado a Vênus. No
lugar do templo, Adriano erigiu duas estátuas, uma de Júpiter e
uma de si mesmo — embora respeitasse o Muro das Lamentações.
Da mesma forma, ao lado do Calvário ou Gólgota, onde Jesus
Cristo foi crucificado, ele colocou uma estátua de Afrodite. Isto
pretendia simbolizar o triunfo de Roma sobre o judaísmo ortodoxo e
o cristianismo, considerado uma seita judaica de tantas, e que em
Roma era perseguido sem distingui-lo do judaísmo “oficial”. Para os
g r e g o s e r o m a n o s , a s e s t á t u a s d e s e u s d e u s e s e ra m
representativas do espírito divino, solar, luminoso e olímpico sobre
a Terra, enquanto aos judeus (inclusive os cristãos) nada revirava
mais seu estômago do que uma estátua desnuda, bela, com
características europeias e aparência invencível. Para terminar a
desjudaização da cidade, Adriano proibiu qualquer judeu de pôr o
pé em Élia Capitolina, sob pena de morte.

Esta lei só seria derrubada dois séculos posteriores pelo Imperador


Constantino, o primeiro imperador cristão, que foi o que cristianizou
o Império Romano. Em 330, permitiu que os judeus fossem ao
muro que ficava no templo de Jerusalém, para rezar uma vez por
ano, no Tishá BeAv. Estas sessões de adoração, cheias de pranto,
orações, resos, salmos e lamentações, deram ao muro o nome que
ele carrega: o Muro das Lamentações. Lá os judeus choram
amargamente até hoje pelo símbolo de um suposto esplendor que
nunca existiu nem pertence a eles ― porque não foram eles que
construíram o templo de Sião, mas foi o fenício Hirão, depois os
persas de Ciro e Dario, e depois os romanos sob Herodes. O
símbolo do templo seria muito importante no misticismo judeu dos
estágios posteriores, impregnando completamente a maçonaria, tão
adepta do Antigo Testamento e de tudo o que é hebraico no mundo.
A decisão pró-judaica do primeiro imperador cristão foi motivada
pela importante influência judaica que, através do cristianismo,
chegou ao coração de Roma. Mas isso é outra história que será
discutida na terceira parte.

ALGUMAS CONCLUSÕES

• Os gregos e romanos, devido sua ingenuidade olímpica (pois só


um ingênuo poderia proibir a Torá, o Shabat ou o Brit milá sem
perceber que os judeus preferiam morrer a renunciar a suas
tradições), foram demasiado míope e muito superficial no
tratamento do problema judaico. Eles também mostraram que não
conheciam as peculiaridades que diferenciavam os judeus do resto
dos povos semitas do Oriente Próximo e pensavam que poderiam
colocar seus templos e suas estátuas lá como se isso fosse nada
mais do que uma outra província árabe ou síria bem helenizada. Os
despreocupados romanos não se aperceberam do forte senso de
identidade da judaria.

• A convicção que os clássicos tinham de serem portadores de uma


cultura superior o fizeram cair num erro fatídico: pensar que uma
cultura pode ser válida para toda a humanidade e exportada para
povos de etnia diferente. A helenização e a romanização do Oriente
e do Norte da África só tiveram um efeito: o caos étnico, a
balcanização da própria Roma, as guerras e, finalmente, o
aparecimento do cristianismo.

• Mesmo com a força bruta de suas legiões, Roma não apercebeu


que os judeus, em seu ressentimento e desejo de vingança, não se
importavam em sacrificar ondas e ondas de indivíduos se pudessem
destruir um único destacamento romano. Este fanatismo
fundamentalista, que ultrapassou o racional, deve ter assombrado
os romanos, que não estavam acostumados a ver um povo mal
equipado militarmente imolar de uma maneira tão férrea, com a
mente cheia de fé cega em um deus abstrato, ciumento, vingativo e
tirânico. O que os judeus chamam Javé, e que na Europa era
conhecido como Jeová, é, sem dúvida, uma vontade extremamente
real, e também uma força nitidamente oposta aos deuses olímpicos
e solares dos povos europeus, cuja ápice era o Zeus-Júpiter greco-
romano.

• Daí nasceu a vocação revolucionária e agitadora da judaria. Os


judeus perceberam o poder primitivo de uma multidão ressentida,
fanática e ignorante, e a usaram habilmente no cristianismo e
depois no bolchevismo. A mesma vontade cega de sacrificar ondas
e ondas foi vista no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra
Mundial, sendo os alemães a reencarnação do espírito romano
nessa época, enquanto o comissariado soviético, que era em sua
maioria judaico, representava, sem dúvida, a vontade de Israel.

• Os judeus, em geral, enfrentavam extinção e limpeza étnica. Os


gregos, que tinham mais poder e influência do que eles em Roma,
iriam eventualmente erradicá-los pouco a pouco da Ásia Menor,
enquanto Roma, sob influência germânica, poderia ter durado para
sempre: a cidade simplesmente havia se tornado parte do mundo
germânico graças à crescente influência política dos germanos nas
legiões e à progressiva colonização do Império pelos germânicos
federados.

• O judaísmo e o cristianismo são o produto de um caos cultural.


Não é por acaso que o judaísmo nasceu na área de maior confusão
étnica do planeta, terra de ninguém entre egípcios, assírios,
babilônios, acádios, caldeus, persas, hititas, medos, partos,
macedônios e romanos, sem mencionar os povoados como os
amorreus, os filisteus, os amonitas, os moabitas, os edomitas e as
doze tribos de Israel, que habitavam a mesma área que nos
interessa e que, todos juntos, aniquilaram a identidade de povos
inteiros num maremagnum genético.

• O caráter direto e marcial dos romanos — que apesar de não ter


compreendido a essência judaica, compreendeu seu desejo de
poder e sua natureza problemática — obrigou os judeus a reagir, a
exercer sua força de vontade como povo, a quebrar a cabeça para
resultar na invenção cristã, e também deu-lhes a desculpa perfeita
para gastar os próximos dois milênios se fazendo de vítimas e
lamentando no único muro restante do templo em Jerusalém. É
provável que sem a existência de Roma a judiaria acabaria não se
expandindo.

• A diáspora e a erradicação da Judeia como centro judaico não


propiciou de modo algum à dissolução da identidade judaica. O
judaísmo rabínico, depois de vagar pelo Egito e pela Babilônia,
estava mais do que acostumado ao nomadismo, e a diáspora
realmente veio muito antes, embora as guerras na Judeia
aumentaram com as ondas de refugiados.

• Os judeus, mostrando grande inteligência, perceberam que não


poderiam derrotar Roma em uma guerra convencional, e que
rebeliões, lutas e guerras abertas fracassaram porque os romanos
eram soldados mais fortes, mais corajosos, mais poderosos e
melhores por natureza, apesar de serem inferiores numericamente.
No entanto, a rebelião secreta e obscura que os judeus
secretamente incutiram em Roma iria florescer como se fosse a
semente da discórdia, "pelos meios secretos e covardes", que
Adriano alertou que os judeus usariam para finalmente triunfar
sobre Roma. Esta clandestina rebelião anti-europeia em geral e
anti-romana em particular, também tinha um nome: era chamado
cristianismo ou, em palavras de Tácito, essa "superstição
conflituosa" que "não só estourou na Judeia, a primeira fonte do
mal, mas incluso em Roma, onde todas as coisas horrendas e
vergonhosas de qualquer parte do mundo encontram seu centro e
se tornam populares".

• A longo prazo, o efeito dos confrontos entre judeus de um lado e


greco-romanos do outro foi a consolidação do cristianismo como a
única opção para a conquista semítica de Roma, que, por sua vez,
teve o efeito de limpeza étnica da minoria europeia no
Mediterrâneo Oriental (especialmente a odiada comunidade grega,
que tinha seu centro em Alexandria), principalmente a partir do
século IV. Parece-me óbvio que, após a invenção do cristianismo,
havia um intelecto enormemente desenvolvido, com grande
capacidade psicológica e geo-social de todo o Império, aglutinador
de redes de Inteligência de todos os tipos e especificamente
concebido para destruir o Império Romano, a Europa e o legado do
mundo clássico.

• A importação de cultos orientais nada mais foi do que a


adaptação ritual às mudanças genéticas da própria Roma e a lenta
ascensão do substrato étnico que existia no nível mais baixo da
Roma originária.

Embora a base racial da casta governante romana fosse uma mistura de


mediterrâneos e germânicos, temos vários bustos de espécimes com forte influência
armênida. Estes três bustos são de patrícios da República com uma armênidação
patente.

• Judeia era uma província especial e os romanos precisavam de


uma política igualmente especial, consistindo em proteger Roma
contra a influência judaica (e, de fato, contra toda a influência
oriental, incluindo a que havia entre sua plebe), mantendo os
judeus na Judeia, não lhes dando cidadania romana, não proibindo
suas tradições e, claro, não tentando "civilizá-los", porque foi
precisamente a (mal feita) helenização de certos setores sociais
judeus que levaram ao surgimento do cristianismo, a sinistra
mistura judaica e greco-decadente que é muito evidente no próprio
nome de Jesus Cristo, que vem de Yehoshua (um nome judeu)
e Kristos ("iluminado" em grego).

• Para exemplificar os prejuízos da insensata romanização da


Judeia: Herodes, um soberano da Judeia, e também pró-romano,
tentou romanizar a província construindo cidades que causariam
discórdia (como Cesareia), fortes que seriam usados pelos judeus
contra os próprios romanos (como a fortaleza de Antônia e
Massada) e também engrandeceu o Segundo Templo, ao qual os
judeus agora lamentam, embora abominem seu construtor. Se
Roma tivesse ansiado triunfar mais firmemente sobre a Judeia, não
teria permitido sua romanização e deveria ter mantido a
helenização ao mínimo. E é que impor uma cultura a um povo não
equivale a assimilação. Um judeu que poderia falar grego, por
causa de sua herança cultural, nunca iria compartilhar ou realmente
entender a cultura helênica, porque a cultura é o resultado do
acervo genético, e a genética judaica era radicalmente diferente da
genética helênica. Forçar a imposição de uma cultura a outra que
provém de uma estirpe genética diferente leva apenas a uma coisa:
à mestiçassem, que acabará se manifestando através da corrupção
total da cultura originária.

• Os judeus, que foram rechaçado por todos, gradualmente se


tornaram num povo misantropo e ressentido contra o mundo.

• De acordo com as tradições judaicas, durante a vindoura Era


Messiânica um Terceiro Templo será construído.

• Manter os judeus em Roma, mesmo que escravizados, era


suicida.

• A romanização forçada, a helenização forçada, a escravidão, a


deportação e tudo o que tende a aumentar a desordem étnica são
elementos extremamente negativos na história de qualquer nação,
e o primeiro inconveniente de qualquer Império é precisamente que
ele é cosmopolita por definição.

NIETZSCHE SOBRE O CONFLITO “ROMA CONTRA JUDEIA”

Vamos concluir. Os dois valores contrapostos, “bom e ruim”, “bom e


mau”, travaram na terra uma luta terrível, milenar. (...)
O dístico dessa luta, escrito em caracteres legíveis através de toda
a história humana, é “Roma contra Judeia, Judeia contra Roma”: —
não houve, até agora, acontecimento maior do que essa luta, essa
questão, essa oposição moral. Roma enxergou no judeu algo como
a própria anti-natureza, como que seu monstro antípoda; em Roma
os judeus eram tidos por “culpados de ódio a todo o gênero
humano”: com razão, na medida em que se tenha razão ao vincular
a salvação e o futuro do gênero humano ao primado absoluto dos
valores aristocráticos, dos valores romanos. (...)

Os romanos eram os fortes e nobres, como jamais existiram mais


fortes e nobres, e nem foram sonhados sequer: cada vestígio, cada
inscrição deles encanta, se apenas se percebe o que escreve aquilo.
O s j u d e u s , a o c o n t r á r i o, f o ra m o p o v o s a c e r d o t a l d o
ressentimento por excelência, possuído de um gênio moral-popular
absolutamente sem igual: basta comparar os judeus com outros
povos similarmente dotados, como os chineses ou os alemães, para
sentir o que é de primeira e o que é de quinta ordem. Quem venceu
temporariamente, Roma ou a Judeia? Mas não pode haver dúvida:
considere-se diante de quem os homens se inclinam atualmente na
própria Roma, como a quintessência dos mais altos valores — não
só em Roma, mas em quase metade do mundo, em toda parte
onde o homem foi ou quer ser domado —, diante de três judeus,
como todos sabem, e de uma judia (Jesus de Nazaré, o pescador
Pedro, o tapeceiro Paulo e a mãe do dito Jesus, de nome Maria).
Isto é muito curioso: Roma sucumbiu, não há sombra de dúvida.
(...)

Então acabou? O maior entre os conflitos de ideais foi então


relegado ad acta [aos arquivos] por todos os tempos? Ou apenas
adiado, indefinidamente adiado?... Não deveria o antigo fogo se
reacender algum dia, ainda mais terrível, após um período ainda
mais longo de preparação? Mais: não seria isto algo a se esperar?
mesmo a se querer? a se promover?... (...)

— (“Genealogia da moral”, Primeira Dissertação, 16 e 17)


TERCEIRA PARTE — O CRISTIANISMO E A QUEDA DO
IMPÉRIO

Quando o seu Senhor os fizer entrar na terra, para a qual vocês


estão indo para dela tomar posse, ele expulsará de diante de vocês
muitas nações (...) e quando o Senhor as tiver entregue a vocês, e
vocês as tiverem derrotado, então vocês as destruirão totalmente.
Não façam com elas tratado algum, e não tenham piedade delas.
Não se casem com pessoas de lá. Não dêem suas filhas aos filhos
delas, nem tomem as filhas delas para os seus filhos, pois elas
desviariam seus filhos de seguir-me para servir a outros deuses e,
por causa disso, a ira do Senhor se acenderia contra vocês e
rapidamente os destruiria. Assim vocês tratarão essas nações:
Derrubem os seus altares, quebrem as suas colunas sagradas,
cortem os seus postes sagrados e queimem os seus ídolos. Pois
vocês são um povo santo para o Senhor.  —  (Bíblia, Antigo
Testamento, Deuteronômio 7:1–7).
Onde está o sábio? Onde está o erudito? Onde está o questionador
desta era? Acaso o Senhor não tornou louca a sabedoria deste
mundo? Visto que, na sabedoria do Senhor, o mundo não o
conheceu por meio da sabedoria humana, agradou o Senhor salvar
aqueles que crêem por meio da loucura da pregação. Os judeus
pedem sinais miraculosos, e os gregos procuram sabedoria; nós,
porém, pregamos a Cristo crucificado, o qual, de fato, é escândalo
para os judeus e loucura para os gentios mas para os que foram
chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é o poder do Senhor e
a sabedoria do Senhor. Porque a loucura do Senhor é mais sábia
que a sabedoria humana, e a fraqueza do Senhor é mais forte que
a força do homem. Irmãos, pensem no que vocês eram quando
foram chamados. Poucos eram sábios segundo os padrões
humanos; poucos eram poderosos; poucos eram de nobre
nascimento. Mas o Senhor escolheu as coisas loucas do mundo para
envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para
envergonhar os fortes. Ele escolheu as coisas insignificantes do
mundo, as desprezadas e as que nada são, para reduzir a nada as
que são, para que ninguém se vanglorie diante dele.  —  (Bíblia,
Novo Testamento, Paulo, 1 Coríntios 1:20–29).
Alguns são eunucos porque nasceram assim; outros foram feitos
assim pelos homens; outros ainda se fizeram eunucos por causa do
Reino dos céus. Quem puder aceitar isso, aceite.  —  (Bíblia, Novo
Testamento, Mateus 19:12, usando essa frase como base, Orígenes
de Alexandria, um dos pais da Igreja, se castrou).
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos
céus; Bem-aventurados os que choram, porque eles serão
consolados; Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a
terra; Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque
eles serão fartos; Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles
alcançarão misericórdia.  —  (Bíblia, Novo Testamento, Mateus 5:3–
7).
Há uma nova raça de homens, nascidos ontem, sem pátria nem
tradições, ligados contra todas as instituições religiosas e civis,
perseguidos pela justiça, marcados pela infâmia, mas que se
glorificam com a excreção comum; tais são os cristãos. — (Celso,
“Discurso verdadeiro contra os cristãos”).
Os judeus, aglomerados na periferia da Palestina, que, ignorantes
em letras, nunca tinham ouvido falar das histórias anteriormente
escritas por Hesíodo e por muitos poetas divinamente inspirados,
na verdade, imaginavam uma história muito crível e muito rude.
Javé teria feito um homem com suas próprias mãos, teria soprado
sobre ele, teria tirado uma mulher de suas costelas, teria dado
alguns mandamentos, e uma serpente que teria se levantado
contra os mesmos, triunfou sobre eles: uma boa fábula para as
velhas, onde, contra toda a piedade, Javé é tão pobre desde o
princípio, que se mostra incapaz de ser obedecido pelo único
homem que ele mesmo criou. — (Celso, ibidem).

Nesta terceira parte, o propósito é dar uma ideia do que aconteceu


com o mundo antigo, como a Europa caiu na Idade Média e,
especialmente, que os acontecimentos em Roma há mil e
seiscentos anos atrás é exatamente o que está acontecendo agora
no Ocidente, mas magnificado mil vezes pela globalização, pela
tecnologia e, sobretudo, pela depuração do conhecimento psico-
sociológico e propagandístico pelo sistema.
O que será discutido nesta parte é a história de uma tragédia, um
apocalipse. É o fim não só do Império Romano e todas as suas
realizações, mas também de séculos de sobrevivência dos
ensinamentos egípcios, persas e gregos na Europa, em um
processo sangrento, uma premonição da futura destruição das
heranças celtas, germânicas, bálticas e eslavas, sempre
acompanhados de seus respectivos genocídios. Esse processo teve
um caráter marcadamente étnico: foi a rebelião dos escravos
cristianizados (da Ásia Menor e do Norte de África) contra o
paganismo indo-europeu, representando os costumes e tradições
ancestrais das aristocracias romana e helênica, decadentes,
minoritárias e suavizadas em comparação com uma plebe massiva
e brutal, que detestava cordialmente os seus senhores.
“O triunfo do cristianismo”, ou “O triunfo da cruz”, por Tommaso Laureti. A história
de como um messias oriental e magriço veio a substituir os fortes deuses pagãos
europeus.

Com base no que aconteceu durante esta fase sangrenta, há um


laborioso processo de adulteração, falsificação e distorção dos
ensinamentos religiosos, primeiro muitos séculos antes de Jesus
Cristo, nas mãos dos líderes judeus, e depois nas mãos dos
apóstolos e pais da Igreja (São Paulo, São Pedro, Santo Agostinho),
geralmente da mesma etnia. Houve também uma base de conflitos
étnicos, tal como vimos na primeira e segunda parte deste artigo.
SITUEMOS

O Mediterrâneo Oriental (Ásia Menor, Egeu, Cartago, Egito, Fenícia,


Israel, Judeia, Babilônia, Síria, Jordânia etc.) era anteriormente um
caldeirão de fermentação de todos os tipos do mundo antigo, a
confluência de todos os tipos de escravos, criminosos, exilados,
pisoteados e párias da Mesopotâmia, do Egito, do Império Hitita e
do Império Persa. Esse caldeirão repleto com diferentes
personagens, esteve nas bases e nas origens do judaísmo. E seus
vapores também intoxicaram muitos gregos decadentes de Atenas,
Corinto e outros estados helênicos, mesmo séculos antes da era
cristã.

Quando Alexandre, o Grande conquistou o Império Macedônio, que


se estendeu da Grécia até as fronteiras do Afeganistão e do
Cáucaso até o Egito, toda a área do Império Persa, o Mediterrâneo
Oriental e África do Norte recebeu uma forte influência grega,
influência que seria sentida fortemente sobre a Ásia Menor, Síria
(incluindo Judeia) e, acima de tudo, no Egito, com a cidade de
Alexandria (fundada por Alexandre em 331 AEC) como a maior
expoente. Isto inaugurou um estágio de hegemonia macedônica
que se chama helenística, para diferenciá-la da helênica
“clássica” (dórios, jônios, coríntios). Alexandre fomentou o
conhecimento e a ciência em todo o seu império, patrocinou as
várias escolas de sabedoria e, após sua morte, seus sucessores
macedônios continuaram na mesma linha. Muitos séculos depois,
no Baixo Império Romano, depois de uma terrível degeneração,
poderíamos distinguir, dentro do helenismo, duas correntes:

(A) Tradicional, de caráter elitista, baseada nas escolas egípcias,


helenísticas e alexandrinas, que defendia a ciência e o
conhecimento espiritual, e onde as artes e as ciências floresceram
até um ponto nunca visto antes, sendo a cidade de Alexandria a
maior expoente. Tal foi a importância e o “multiculturalismo” de
Alexandria (bem como a sua abundância de judeus que nunca
cessaram de agitar contra o paganismo) como a maior cidade do
mundo antes de Roma, que ela tem sido chamada de “Nova Iorque
dos tempos antigos”. A biblioteca de Alexandria, um feudo da gnose
das altas castas, vetada à plebe, era lotada de sábios egípcios,
persas, caldeus, hindus e gregos, bem como cientistas, arquitetos,
engenheiros, matemáticos e astrônomos de todo o mundo, ficando
orgulhosa de ter acumulado naquele lugar grande parte do
conhecimento do mundo.

(B) Contracultural e de caráter mais popular, liberal e massivo,


sofista e cínica (mais livremente estabelecida na Ásia Menor e
Síria), que distorceu e misturou os cultos antigos e que, em uma
mentalidade claramente humanista e suavizada, voltada às massas
de escravos do Mediterrâneo Oriental, pregando as primeiras
noções de “democracia para todos”, “igualdade para todos” e
“direitos para todos”. Este aspecto caracterizou-se por um
multiculturalismo e cosmopolitismo bem intencionado, mas
finalmente fatal, que enfeitiçou a mente de muitos escravos
instruídos e pela exportação da cosmovisão e cultura grega para
povos não gregos, bem como pela exportação da cultura judaica
para povos não judeus. Esta última corrente foi o fundo helenístico
que, desfigurado, se uniu ao judaísmo e à matéria babilônica em
decomposição, formando o cristianismo — que, para não esquecer,
foi originalmente pregado exclusivamente na língua grega às
massas de servos, pobres e plebeus nos bairros insalubres das
cidades do Mediterrâneo Oriental. Os primeiros cristãos eram de
comunidades exclusivamente de sangue judeu, convertidos em
cosmopolitas com sua forçada diáspora e o contato helenístico que
supostamente e, até certo ponto, esses “judeus do gueto” (do qual
São Paulo é o exemplo mais representativo) foram desprezados
pelos círculos judaicos mais ortodoxos.
As Sete Igrejas das quais fala o Novo Testamento (Apocalipse 1:11): Éfeso, Esmirna,
Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. Todas localizadas na Ásia Menor.
Este núcleo geográfico é para o cristianismo o que a Baviera é para o nazismo: o
centro em que o novo credo é fermentado e sua expansão é impulsionada. Esta área
fortemente helenizada culturalmente, densamente povoada e onde existia um
verdadeiro caos étnico, era onde os apóstolos, em idioma grego, inflaram a pregar, e
aqui tiveram importantes Primeiros sete concílios teológicos cristãos (como Niceia,
Calcedônia ou Ancira). O cristianismo, que se expandiu para aproveitar a vantagem
oferecida pela dispersão de escravos semitas em todo o Império Romano, representa
um refluxo asiático derramado sobre a Europa.

APARECE “A SEITA JUDAICA”

Começamos no ano 33, data em que foi crucificado pelas mãos dos
romanos um judeu rebelde chamado Yeshua ou Jesus, que se
proclamava o Messias dos judeus e rei de Israel. Nesta primeira
fase expansiva do cristianismo é particularmente importante citar
Paulo de Tarso (comumente conhecido como São Paulo), um judeu
com cidadania romana e educação helenística, embora criado pelo
fundamentalismo judaico mais recalcitrante. A princípio, este
personagem se dedicou a perseguir os cristãos (que, não se
esqueçam, eram todos judeus) em nome das autoridades do
judaísmo “oficial”. Em um ponto de sua vida ele “cai do
cavalo” (literalmente, como é dito) e diz que uma doutrina que teve
tamanho efeito entre os próprios judeus, invariavelmente, causaria
uma devastação terrível em Roma, odiada a morte tanto por ele
como por quase todos os judeus de seu tempo, ressentidos pela
ocupação das legiões, das graves guerras contra Roma e das
deportações.

Depois de sua grande revelação, São Paulo decide que o


cristianismo é uma doutrina válida a ser pregada aos gentios, isto
é, aos não judeus. Com esta inteligente habilidade diplomática para
negócios e movimentos subversivos, São Paulo estabelece
numerosas comunidades cristãs na Ásia Menor e no Egeu, a partir
do qual a “boa nova” será pregada de forma intensa.
Posteriormente, numerosos centros de pregação são fundados no
Norte da África, Síria e Palestina, passando inevitavelmente na
Grécia e na mesma Roma. O cristianismo se alastrou como um
incêndio através das “camadas mais humildes” da população do
Império, que eram as camadas mais orientalizadas etnicamente.

O cristianismo, então, chega ao Império Romano através dos


judeus, liderados por São Paulo, São Pedro e outros pregadores.
Sua natureza, baseada nos sinistros mistérios sírio-fenícios — que
pressupunham a pecaminosidade e impureza do ser que os
praticava — é atraente para as imensas massas de escravos
mestiços de Roma. As primeiras reuniões cristãs em Roma são
realizadas secretamente nas catacumbas judaicas subterrâneas e
nas próprias sinagogas judaicas são dados discursos e sermões
cristãos, muito diferentes daqueles encontrados na Europa cristã
posterior: os discursos de São Paulo, por exemplo, são gritos
políticos; inteligentes, virulentos e fanáticos à rebelião contra todo
o mundo europeu, e especialmente contra os seus máximos
expoentes no Grande Oriente: a Grécia e Roma. Nos discursos,
fórmulas incendiárias são misturadas como visões delirantes do
Apocalipse, a queda de Roma ou Babilônia, a recuperação de
Jerusalém, a reconstrução do Templo de Salomão, a matança dos
infiéis, a vinda do Reino dos Céus, a salvação eterna de Jesus
Cristo, a horrível condenação dos pagãos pecadores e todas
aquelas estranhas ideias orientais.

Outro ponto-chave a ser reconhecido pelos primeiros pregadores


era tirar proveito da afinidade cristã pelos pobres, abandonados,
marginais e incapazes, para estabelecer instituições de caridade,
claramente precursoras dessa comprometida "consciência social"
que vemos hoje, e que nunca havia sido vista no mundo pagão
antes. É fácil ver que essas medidas tiveram o efeito de atrair toda
a escória de Roma, além de preservá-la e aumentá-la.

O cristianismo é imediatamente perseguido no Império de forma


intermitente e esporádica, posto que seus membros se recusam a
servir nas legiões e a prestar homenagem ao imperador. Embora as
perseguições romanas anti-cristãs tenham sido grandemente
exageradas pelos vitimizadores, a opressão moderada sofrida pelos
cristãos foi essencialmente por razões políticas e não religiosas: o
Império Romano sempre tolerou diferentes religiões, mas suas
autoridades viram no cristianismo uma seita subversiva, uma
panelinha (camarilha) do judaísmo que lhes tinha dado tantas
dores de cabeça no Oriente; um centro de pregação anti-romana,
uma vez que, entre outras coisas, os bispos locais faziam líderes da
mesma rebelião anti-romana. Os políticos romanos da época, além
disso, sequer distinguiam os cristãos e os judeus — tão
compenetrados como estavam —, e não a toa viam no cristianismo
um instrumento de vingança dos judeus contra Roma, tal como os
outros movimentos religiosos (saduceus, fariseus, zelotes) no
coração da judiaria. Em muitos casos, as várias facções cristãs
entravam em conflito umas com as outras em guerras de
apunhaladas pelas costas (traições) e envenenamentos (algo não
muito diferente das bandas étnicas atuais).
“A última oração dos mártires cristãos”, por Jean-Léon Gérôme.

O CASO DE NERO COMO UM EXEMPLO DE DISTORÇÃO


HISTÓRICA

O exemplo perfeito de vitimização cristã é encontrado na figura do


imperador Nero. Nero entrou na história como um psicopata cruel,
tirânico, pervertido, caprichoso e excessivo, e é realmente incrível a
quantidade de mentiras que os cristãos escreveram em sua
biografia, a tal ponto que o nome de Nero virou sinônimo de tirania,
capricho e depravação. A real é que Nero não suportava o judaísmo
ou o cristianismo, e a seu mando diversos judeus e cristãos foram
devorados pelos leões no Coliseu ao som dos aplausos do povo de
Roma. A realidade deste imperador é outra: no ano 64, ocorre um
grande incêndio em Roma que destrói numerosos distritos e deixa a
cidade em estado de emergência. Nero acolhe as vítimas pelo fogo,
abrindo as portas de seus palácios para que a cidade tenha onde
ficar. Além disso, paga de seus próprios fundos privados a
reconstrução da cidade.
O que Nero fez foi agir contra os cristãos. Nas palavras do famoso
historiador romano Tácito (55-120), “Nero colocou a culpa e infligiu
as mais requintadas torturas em uma classe odiada por suas
abominações, chamada cristãos pelo populacho”. Ordenou prendê-
los “não tanto pelo incêndio mas pelo seu ódio à raça humana”.
Nero, então, fez o seguinte com os cristãos capturados: “cobertos
por peles de animais, eles foram rasgados por cães e pereceram,
ou pregados a cruzes, ou condenados pelo fogo e queimados, para
servir de iluminação noturna quando a luz do dia havia expirado”.

Outra questão à parte é a esposa de Nero, Popeia Sabina. Esta


resulta ser uma figura interessante como uma mulher sedutora,
ambiciosa, sem escrúpulos ou moral, conspiradora, manipuladora e
típica de uma sociedade muito civilizada — uma autêntica megera.
Tendo-se casado duas vezes anteriormente, e pelas suas influências
como amante, convence Nero a matar a sua própria mãe e
divorciar-se de sua esposa atual — após o qual faz que exilem-a e
forcem-a cortar suas veias, e seu cadáver é decapitado e sua
cabeça presenteada para Popeia. Depois disso, com o caminho
livre, casa-se com Nero e irrompe na alta sociedade romana com
excessos de luxúrias, extravagâncias e várias futilidades.
Precisamente a instâncias de suas intrigas, o famoso filósofo
hispânico Sêneca é levado ao suicídio.

Popeia, no entanto, simpatizava abertamente com os judeus e a


causa cristã, e, assim, favoreceu e tramou, mediante conspirações,
pelas costas do imperador. Este, cansado da conspiração ao seu
redor, mata-a, no ano 65, supostamente com um chute na barriga
enquanto a mesma estava grávida. Todos estes fatos seguem a
uma repressão antijudaica por parte de Nero, em que caem futuros
santos cristãos como o judeu São Pedro (ex-pescador e primeiro
bispo de Roma — por isso considerado como o primeiro Papa) e o
mesmo São Paulo, outro judeu rebelde. São Paulo é decapitado por
ser cidadão romano. São Pedro, que não tinha cidadania romana
(um imigrante não regulamentado), é crucificado de ponta-cabeça.
De acordo com a tradição cristã, ele pede para ser crucificado dessa
maneira por “não ser digno de morrer como Jesus”, mas de acordo
com o historiador judeu Flávio Josefo, crucificar em posições
desconfortáveis era uma prática comum entre os soldados romanos
para se divertir de uma maneira um tanto macabra.

Nero, apesar de ter mostrado ser magnânimo e generoso com o


povo, passou para a história moderna como o anticristo, um
matador de cristãos implacável que assassinou sua própria esposa
por um capricho, que por medo de conspirações rodeou-se por uma
guarda pessoal de pretorianos de origem romana — os únicos que
ele considerava leais — e que provocou um incêndio para então
tocar lira diante das chamas, com o objetivo de culpar aos cristãos
por algum ódio estranho e irracional, quando Nero sequer estava
em Roma quando o incêndio começou.

DESTRUIÇÃO DE JERUSALÉM: O CRISTIANISMO CRIA


FORÇAS FORA DE JUDEIA

Assim que os judeus se inteiram dos acontecimentos em Roma com


os cristãos, eles começam a planear uma revolta e, perfeitamente
coordenados, eles se revoltaram por todo o Império Romano.
Assim, no ano 66, em um golpe surpresa e bem arquitetado, todos
os habitantes gentios de Jerusalém são abatidos, exceto pelos
escravos que foram submetidos a eles. Nero usa suas legiões para
esmagar a revolta duramente no resto do Império, mas, em sua
capital, os judeus se fortalecem. No ano 68, bem quando o general
Vespasiano viaja para tomar Jerusalém, Nero é misteriosamente
assassinado.

Vespasiano, então, vira imperador e envia seu filho Tito para a


frente da Legio X Fretensis, com o objetivo de esmagar os judeus.
No ano 70, Roma triunfa, Jerusalém é devastada e saqueada pelos
legionários romanos e dizem que no processo um milhão de judeus
morreram pelas armas romanas (só em Jerusalém se acumulou,
durante o cerco, três milhões de judeus). Este ano fatídico,
traumatizante, ultrajante e chave para a judiaria, vê a escravização
e dispersão dos judeus em todo o Mediterrâneo (diáspora),
favorecendo grandemente o crescimento do cristianismo.
Há sucessivos imperadores (Trajano, Adriano) bem conscientes do
problema judaico mas que não prestam muita atenção ao próprio
cristianismo, mais do que qualquer outra coisa porque estão muito
ocupados com o quebra-cabeça judaico na “Terra Santa”,
reprimindo os judeus e, mais uma vez, sem destruí-los por
completo. Nessa época, a nova religião estava gradualmente
crescendo e ganhando apoio entre as massas de escravos graças a
sua ideologia igualitária e também no altos cargos da
administração, entre uma burocracia cada vez mais decadente,
corrupta e materialista. O cristianismo glorificava a desgraça em
vez de glorificar o combate contra ela, considerava o sofrimento
como uma virtude que dignificava e proclamava que o Paraíso
esperava os mansos (lembre-se como os pagãos ensinavam que só
os guerreiros entravam no Valhala). Se trata da religião dos
escravos, e esses faziam-na sua de boa vontade. O cristianismo
primitivo desempenhou um papel muito semelhante ao da posterior
maçonaria: foi a estratégia judia de usar personagens fracos e
ambiciosos, fascinando-os com um ritualismo sinistro. O resultado é
como um comunismo para o Império Romano, incluso favorece a
"emancipação" e a "independência" das mulheres de seus maridos,
para capturá-las com a estranha e nova liturgia cristã, e exortá-las
a doar seu próprio dinheiro para a causa, em uma fraude bastante
semelhante em sua essência da atual New Age ou Nova Era.
Este mapa mostra a extensão do cristianismo em torno do ano 100. O Império
Romano está representado em um tom mais claro do que os territórios bárbaros.
Observe que as áreas de pregação cristã coincidem exatamente com os
assentamentos de maior concentração de judeus.

É no início do século II que a figura dos peixes gordos cristãos,


chamados “bispos”, começa a adquirir importância. São Inácio de
Antioquia (é interessante prestar atenção aos sobrenomes dos
pregadores, já que eles sempre vêm de áreas orientais mestiças e
judaizadas — neste caso, Síria), no ano 107, diz: “Convém estardes
sempre de acordo com o modo de pensar do vosso Bispo. Por outro
lado, já o estais, pois o vosso presbitério, famoso justamente por
isto e digno de Deus, sintoniza com o Bispo da mesma forma que
as cordas de uma harpa. Com vossos sentimentos unânimes, e na
harmonia da caridade, constituís um canto a Jesus Cristo”. São
Inácio é capturado pelas autoridades romanas e lançado aos leões
em 107.

Por volta do ano 150, o grego Marcião de Sinope procura fazer uma
espécie de purificação “desjudaizante” no cristianismo, rejeitando o
Antigo Testamento, dando importância preeminente ao Evangelho
de São Lucas e adotando uma cosmovisão gnóstica com ar órficos e
maniqueístas. Esta é a primeira tentativa de “reforma”, de
europeização, do cristianismo, intentando desprovi-lo de sua
origem judaica. Seus seguidores, os marcionitas, professadores de
um credo gnóstico, são classificados como hereges pelo
cristianismo mainstream.

A situação do Império Romano no ano 150, quando a população total rondava em


sessenta milhões, particularmente concentrado no Oriente Próximo. O vermelho
aponta os territórios em que algumas cidades (lembre-se que é uma religião
essencialmente urbana) têm uma população cristã importante.
Este mapa mostra a expansão geral do cristianismo em 185. Observe a grande
diferença com o mapa anterior e note também que a área mais influenciada pelo
cristianismo permanece o Mediterrâneo Oriental, uma área fortemente semitizada.

Posteriormente, perto do ano 200, vide que novas massas estavam


sendo incorporadas ao cristianismo, que não falavam grego, mas
latim, uma tradução latina dos Evangelhos começou a circular nos
centros cristãos mais ocidentais.

O Imperador Diocleciano (reinou 284-305) divide o Império em


duas metades para torná-lo mais governável. Ele permanece com o
lado oriental, e entrega o ocidental para Maximiano, um ex-
camarada de armas. Ele instaurou uma burocracia rígida, e essas
medidas cheiram a decadência irrecuperável. Apesar disso,
Diocleciano é um veterano realista e justo. Ele permite que seus
legionários cristãos se ausentem das cerimônias pagãs, desde que
mantenham sua disciplina militar. Mas essa era precisamente a
coisa mais complicada, onde os bispos desafiavam
desafiadoramente a autoridade do imperador. Ele, entretanto, é
benevolente, e somente um pacifista cristão é executado. No
entanto, ele insiste agora que os cristãos participem de cerimônias
estatais de natureza religiosa, e a resposta cristã a esta decisão é
uma arrogância crescente com numerosos tumultos e provocações.
Mas mesmo neste ponto, o Imperador Diocleciano renuncia a pena
de morte, se contentando em fazer escravos os rebeldes que ele
capturou. A resposta a isso é mais perturbações e um incêndio no
mesmo palácio imperial, e sucedem provocações cristãs e
insolência em todo o Império. Mas o que Diocleciano faz é executar
nove bispos desordeiros e oitenta rebeldes em Palestina, a área
mais agitada por rebeliões cristãs.

O Imperador Diocleciano. Considera-se que depois de seu reinado Roma entrou em


franca decadência.

Um desses rebeldes foi o franzino São Procópio. Para situar sua


magreza, seu contemporâneo, o bispo Eusébio de Cesareia, fala
sobre ele: "Ele havia dominado o seu corpo até o tornar, por assim
o dizer, num cadáver; mas a força que a sua alma encontrava na
Palavra de Javé, dava vigor ao seu corpo. Vivia a pão e água; e só
comia a cada dois ou três dias. Apenas estudava a Palavra de Javé,
e, por outro lado, tinha alcançado pouco dos conhecimentos
profanos". Ou seja, ele tinha um corpo fraco e doente, afastou-se
de todo o “profano” (natural) que existe no mundo e só conhecia a
Bíblia e os discursos dos bispos. O cristianismo é nutrido no início
de homens similares, que praticavam um ascetismo semelhante ao
sadomasoquismo.

Apesar da suavidade destas perseguições, Diocleciano entra na


história como um monstro sedento por sangue cristão. A história é
escrita pelos vencedores.

OS CRISTÃOS DEIXAM DE SER PERSEGUIDOS

- Em 311, o posterior imperador Galério cessa a perseguição ao


cristianismo através do Édito de Tolerância de Galério, e edifícios
cristãos começam a ser construídos sem interferência do Estado.
Ninguém sabe com quais métodos os cristãos conseguem se
infiltrar nas altas cúpulas, exercer as pressões necessárias e colocar
em marcha as fontes de que necessitam para que Roma ceda mais
e mais. Este imperador foi partidário da perseguição que
Diocleciano realizou, mas não deve ter aprendido a lição e talvez
pensou que, cedendo e dando tolerância aos cristãos rebeldes, eles
cessariam suas agitações. Ele estava errado. Os cristãos querem
derrubar Roma há muito tempo.

Em 306, o imperador Constantino I (reinou entre 306-337) chega


ao poder. Este imperador não é cristão, mas sua mãe Helena é, e
logo se declara um decidido partidário do cristianismo.

- Em 313, mediante o Édito de Milão, a “liberdade religiosa” é


proclamada e a religião cristã é legalizada no Império Romano, por
Constantino representando o Império Ocidental, e Licínio
representando o Império Oriental. O Império está em estado de
decadência, pois não só o povo romano original se entregou ao
luxo, a voluptuosidade e a opulência, recusando a servir nas
legiões, mas o cristianismo se infiltrou na elite burocrática, e agora
numerosas pessoas influentes praticam-o e defendem-o. O Édito de
Milão é importante, posto que termina de uma vez por todas com a
clandestinidade em que o mundo cristão estava mergulhado.

Após a legalização, os cristãos começam a atacar os pagãos sem


piedade. O Sínodo de Ancira de 314 denuncia o culto à deusa
Ártemis (a deusa favorita e mais amada dos espartanos) e um
edital do mesmo ano faz com que pela primeira vez populachos
histéricos comecem a destruir templos pagãos, quebrar estátuas e
assassinar os sacerdotes. É preciso compreender o significado de
antigamente da destruição de um templo. Um templo não era
apenas um lugar de culto religioso para os sacerdotes, mas era um
lugar de encontro e referência para todo o Povo. Em nossos dias,
estádios de futebol ou casas noturnas [discotecas, baladas] são
minimamente semelhante ao que o templo era para o povo.
Destruí-lo equivalia sabotar a unidade desse povo, destruir o
próprio povo. Quanto à quebra de estátuas, também é trágica. Os
gregos (e os romanos herdaram isso) acreditavam firmemente que
seus melhores indivíduos eram semelhantes aos deuses, dos quais
eles eram considerados descendentes. Isso é visto muito
claramente na mitologia grega, onde havia mortais tão perfeitos e
bonitos que muitos deuses (como Zeus) tiveram amantes mortais,
e muitas deusas (como Afrodite) fizeram o mesmo. Além disso,
muitos indivíduos particularmente perfeitos e valentes poderiam
alcançar a imortalidade olímpica como mais um deus. Somente um
povo que se considera próximo dos deuses poderia ter idealizado
isso, e para mostrar qual tipo de ser humano era amado pelas
forças divinas, os gregos estabeleceram um cânone de perfeição
para corpo e rosto, em que era criado toda uma rede de complexas
proporções matemáticas e números sagrados. Destruir uma estátua
era destruir o ideal humano helênico, sabotar a habilidade do
homem de alcançar a própria Divindade de onde procede e para o
qual ele deve retornar um dia.
Enquanto a destruição anti-pagã ocorre, e como um lembrete de
que o cristianismo primitivo sempre foi filo-judaico e anti-romano,
Constantino permite aos judeus visitar Élia Capitolina (Jerusalém)
para rezar no Muro da Lamentações, que é e continua a ser a única
coisa que permanece do Templo de Salomão. Assim, Constantino
rompe a proibição decretada aos judeus no ano 134, quando as
legiões romanas aniquilaram a Revolta Palestina de Simão
Barcoquebas durante a III Guerra Judaico-Romana.

- Desde 317, as legiões do Império — que não têm relação com os


antigos legionários de origem itálica, mas que são repletas de
cristãos raivosos, por um lado, e germânicos leais ao Império, por
outro — são acompanhados por bispos. Além disso, eles lutam sob
o signo do Lábaro, as duas primeiras letras gregas do nome de
Cristo, ou seja, X (Chi) e P (Rho), combinadas, e sob a cruz cristã,
supostamente revelada a Constantino em um sonho em que se lhe
transmite “In hoc signo vinces” ("Por este sinal conquistarás").

Um lábaro ou cristograma, símbolo cristão adotado por Constantino e ordenado a


inscrever nos escudos dos legionários. Observe as letras gregas X (Chi) e P (Rho)
formando o lábaro propriamente dito, e as letras gregas alfa maiúscula
e ômega minúscula em ambos os lados do abarum.

NO ALTO DA PIRÂMIDE... SOMENTE HÁ ESCRAVOS:


GENOCÍDIO ANTIPAGÃO
- Em 325, após o Concílio de Niceia, o cristianismo atinge uma
uniformidade doutrinária que une as várias facções, e adquire um
caráter legal administrativo, como um estado dentro do Estado.
Niceia, por sinal, é uma cidade na província de Bitínia, Ásia Menor
(agora Turquia). Constantino reúne trezentos e dezoito bispos, cada
um eleito por sua comunidade, para debater e estabelecer uma
“normalização cristã”, em vista das muitas facções e discrepâncias
dentro da religião. O resultado é o chamado “credo niceno”, o
cristianismo a predicar.

Nesta época, o imperador necessita de uma força de união para o


crisol de raças que se impuseram em Roma. Havia muitas “religiões
da salvação” com ritos que eram praticados em segredo e que são,
em sua maioria, parte dos cultos “subterrâneos” e “da salvação”
que sempre surgem em tempos de decadência e degeneração.
Existe o culto de Mitra (culto de origem iraniana e caráter militar, já
corrompido pelas massas, ainda que durante um período
ascendente era popular nas legiões romanas), e, também, outros.
O imperador escolhe o cristianismo para seu império, não por seu
valor como religião, mas por sua intolerância semítica, seu
fanatismo — famoso por todo o império — sua experiência de
séculos como instrumento de intriga, suas redes de Inteligência e
seu proselitismo igualador e “globalizador”, tornam a “religião de
emergência” perfeita, dado que outras religiões, desprovidas de
intolerância, não serão impostas pela violência aos relutantes, com
esse efeito unificador, de rebanho, que proporcionará o
cristianismo. E o que o insensato Constantino precisa é um
rebanho, não uma combinação de pessoas diferentes, cada uma
com sua própria identidade. O cristianismo, portanto, prolonga um
pouco a agonia do Império Romano. As pessoas começam a se
converter ao cristianismo por esnobismo e escalada, para alcançar
posições altas — isto é, “fazer carreira”.
De todos os cultos religiosos exóticos que proliferaram no Baixo Império Romano, o
de Mitra é talvez o mais interessante. Vindo do Irã, era extremamente popular entre
as legiões romanas, que lhes deram um caráter marcadamente militar. Este culto
baseava-se na recriação do sacrifício do touro telúrico primordial para libertar a
energia do Cosmos (a criação do mundo a partir da queda de seres “titânicos”
primigênios é muito recorrente em praticamente qualquer mitologia pagã indo-
europeia, mas isso vimos no artigo sobre os bersekers) assemelhando o iniciado no
herói que triunfa da besta com as armas na mão. O culto de Mitra foi duramente
perseguido pelo cristianismo, e seus templos, os mithraeum ou mitreus, foram
destruídos.

Então, depois de mil intrigas, conspirações, lutas de facções,


envenenamentos, manipulações e chantagem, o Édito de Milão dá
ao cristianismo o status de religião “respeitável”, dando-lhe
caminho livre. Surge a face cristã mais desagradável: os cristão
exigem imediatamente que se puna os “adoradores de ídolos” com
os bestiais castigos descritos no Antigo Testamento. Em toda a
Itália, com exceção de Roma, os templos de Júpiter foram
fechados. Em Dídimos, na Ásia Menor, é saqueado o santuário do
Oráculo de Delfos (ondo Apolo era cultuado), que, com os outros
sacerdotes, é sadisticamente torturado até a morte. Constantino faz
com que os pagãos sejam expulsos do Monte Atos (uma zona
mística pagã na Grécia, que mais tarde se tornara um importante
centro cristão-ortodoxo), destruindo todos os templos pagãos na
área. Em 324, Constantino, com o cérebro lavado por sua mãe
Helena, ordena destruir o templo do deus Asclépios, em Cilicia,
assim como os numerosos templos da deusa Afrodite em
Jerusalém, Afaka (Líbano), Mambré, Fenícia, Balbeque e outros
lugares.

- Em 326, Constantino muda a capital de seu império para Bizâncio,


renomeando-a como Nova Roma. Isto, com a adoção do
cristianismo, significa uma mudança radical dentro do Império
Romano. A partir daí, o foco romano de atenção cultural muda sua
origem no norte da Europa e Grécia para a Ásia Menor, Síria,
Palestina e Norte da África (o Mediterrâneo Oriental, a partir do
qual a maioria dos habitantes do Império agora vêm), importando
modelos de beleza semita, impensável para os antigos romanos,
que, como os gregos, tinham a beleza europeia em alta estima
como sinal de origem nobre e divina.

- Em 330, Constantino rouba estátuas e tesouros da Grécia para


decorar a Nova Roma (posteriormente Constantinopla), a nova
capital do seu Império. Ao mesmo tempo, um bispo de Cesareia, na
Ásia Menor — mais tarde conhecido como São Basílio —, que é
creditado com frases grandiosas como “Eu chorei sobre a minha
vida miserável”, lançou as bases do que adiante se tornaria a Igreja
Ortodoxa.

- Em 337, em seu leito de morte, o Imperador Constantino I é


batizado cristão, tornando-se o primeiro imperador romano cristão.
Os aduladores judeu-cristãos, querendo deixar claro o que o
imperador significava para eles, o chamariam de Constantino, o
Grande.

- Em 341, o imperador Flávio Júlio Constâncio ou Constâncio II


(reinado 337-361), outro fanático cristão, proclama sua intenção de
perseguir “todos os adivinhos e helenistas”. Assim, muitos pagãos
gregos são aprisionados, torturados e executados. Nessa época,
líderes cristãos famosos como Marcos de Aretusa ou Cirilo de
Heliópolis fazem sua própria vontade, particularmente demolindo
templos pagãos, queimando escritos importantes e perseguindo os
pagãos que, de alguma forma, ameaçam a expansão da Igreja
incipiente.

[Ver aqui o imperador Constâncio II. Sua feição é patentemente


mais suave do que a dos antigos imperadores pagãos].

Não podemos duvidar que, pelo menos em parte, o cristianismo


usou a repugnância que sentia pela decadência romana para
perseguir qualquer culto pagão, assim como o Islã atualmente
louva o declínio da Civilização Ocidental. Essa foi a desculpa
perfeita e fortuita que o cristianismo usou para justificar seus atos
e exterminar o paganismo europeu. O que perseguiu
sistematicamente o cristianismo se tratava dalgo puro e
aristocrático: era o helenismo luminoso, amante da gnose, da arte,
da filosofia, do livre debate e das ciências naturais. Era o
conhecimento egípcio, grego e persa. O que o cristianismo estava
fazendo com sua perseguição e extermínio era literalmente apagar
os rastros dos deuses.

- E m 3 4 6 h á o u t ra g ra n d e p e r s e g u i ç ã o a n t i - p a g ã e m
Constantinopla. O famoso autor e orador anti-cristão Libânio é
acusado de ser “mago” e é exilado. Neste ponto, o Império
Romano, que outrora foi grande, ficou caótico e irreconhecível. Os
romanos pagãos patriotas devem ter colocar suas mãos sobre sua
cabeça ao ver como multidões de ignorantes arrebatam de seus
herdeiros toda a colheita de culturas pagãs, não só da própria
Roma, mas também do Egito, Pérsia e Grécia.

- Em 353, um decreto de Constâncio estabelece a pena de morte


para quem pratica uma religião com "ídolos". Outro decreto, em
354, ordena fechar todos os templos pagãos. Muitos deles são
destruídos por multidões fanáticas, que torturam e assassinam os
sacerdotes, saqueiam os tesouros, queimam os escritos, destroem
obras de arte que hoje seriam consideradas sublimes e arrasam
com tudo em geral. A maioria dos templos que caem neste período
são profanados, sendo convertidos em "bordéis" e "cassinos". As
primeiras "fábricas de cal" são instaladas ao lado de templos
pagãos fechados, dos quais extraem sua matéria-prima, de modo
que grande parte da escultura e arquitetura clássica é transformada
em cal. No mesmo ano de 354, um novo edito simplesmente
ordena a destruição de todos os templos pagãos e o extermínio de
todos os "idólatras". Segue-se, então, os massacres de pagãos, as
demolições de templos, a destruição de estátuas e os incêndios de
bibliotecas em todo o Império.

Esta estátua do imperador Augusto (o primeiro imperador romano, que obviamente


era pagão) foi deformada por cristãos, que gravaram uma cruz em sua testa.

Não cometamos o erro de culpar os imperadores cristãos


romanizados. Eles eram homens ridículos e fracos, mas estavam
nas mãos de seus educadores. Esses instrutores, que respondem
ao tipo de sacerdote vampirico e parasitário tão odiado por
Nietzsche, eram os verdadeiros líderes da destruição meticulosa e
maciça que estava sendo realizada. Os muitos bispos e santos a
que nos referimos eram homens “cosmopolitas” de educação
judaica, muitos dos quais nascidos na Judeia ou provenientes de
áreas essencialmente judaicas. Eram judios convertidos que, ao
entrar em contato com seus inimigos, estudaram-os com
intensidade e ódio e souberam destruí-los. Eles tinham uma ampla
educação rabínica e conheciam em profundidade também os
ensinamentos pagãos, dominando as línguas latina, grega,
hebraica, aramaica, síria e egípcia. Tais personagens, com
inteligência e astúcia tão destacadas como seu ressentimento,
estavam convencidos de que estavam construindo uma nova ordem
inteira, e que para isso era necessário apagar integramente os
vestígios de qualquer civilização anterior e qualquer pensamento
que não fosse de origem judaica. Deve-se reconhecer que seu
conhecimento psicológico e seu domínio da propaganda eram de
um nível muito alto.

- Em 356, todos os rituais pagãos são colocados fora da lei e


puníveis com a morte. Um ano depois, todos os métodos de
adivinhação, incluindo a astrologia, são proscritos.

- Em 359, na cidade muito judaizada de Citópolis (província da


Síria, atualmente corresponde a Bete-Seã, em Israel), os líderes
cristãos organizam nada mais e nada menos que um campo de
concentração para os pagãos detidos em todo o Império. Neste
campo, aqueles que professam crenças pagãs ou simplesmente se
opõem à Igreja são presos, torturados e executados. Com o tempo,
Citópolis se torna uma infra-estrutura inteira de masmorras,
campos de concentração, salas de tortura e execução, onde
milhares de pagãos morriam. Eis o gulag da época. Os maiores
horrores do palco acontecem aqui.

O IMPERADOR JULIANO COMO ÚLTIMO SUSTENTÁCULO


ROMANO

Estando a Europa neste estado lamentável, e toda a esperança


parecendo perdida, há uma última figura que representa a tradição
ancestral: o imperador Juliano (331-363), a quem os cristãos
chamaram de Juliano, o Apóstata, por ter rechaçado o cristianismo
(no qual foi educado) e defendido um retorno ao paganismo.
Juliano restaura o paganismo em 361, organiza um templo pagão
para se opor à Igreja cristã, e proclama benevolência aos pagãos.
Em 362, ordena a destruição do túmulo de Jesus em Samaria.

Juliano era filósofo, neoplatônico, estoico, asceta, homem de letras,


artista, místico, estrategista e soldado. Nas guerras, ele sempre
acompanhava suas legiões, sofrendo as mesmas privações e
calamidades que um soldado. Diz-se que este imperador teve uma
visão em seus sonhos antes de sua morte: a águia imperial de
Roma (símbolo solar de Júpiter) voa para o Oriente, onde se refugia
nas montanhas mais altas do mundo. Depois de dormir por dois
milênios, ela acorda e volta ao Ocidente com um símbolo sagrado,
e é aclamada pelo Povo do Império. Em 363, no meio duma
campanha política, Juliano é apunhalado pelas costas por um
cristão infiltrado em suas fileiras.

O último imperador romano pagão foi um homem que, tentando


evitar o fim, vislumbrou um novo começo. Pertence a essa
misteriosa lista de grandes homens nascidos no tempo errado. Após
este último anúncio de uma ressurreição futura, Roma estava
podre, carcomida, moribunda e maldita. Passou de um espírito
forte, reto, dourado e espartano a um helenismo decadente,
cosmopolita, promíscuo, pseudo-sofisticado e complacente para
com os escravos — e deste helenismo decadente ao credo cristão.
Agora nada salvará Roma de sua destruição progressiva.
O imperador Juliano, o Apóstata (331-363). A partir daqui, veremos como as
estátuas dos imperadores gradualmente degeneram.

O GENOCÍDIO ANTI-PAGÃO CONTINUA COM MAIS


VIRULÊNCIA

Juliano, o último imperador patriótico de Roma, é sucedido pelo


imperador Flavio Joviano, um cristão fundamentalista que
restabelece o terror, incluindo os campos de Citópolis. Em 364, ele
ordenou a queima da biblioteca de Antioquia. Devemos assumir que
o que hoje chegou da filosofia, ciência, poesia e arte em geral da
era clássica nada mais é do que uma espoliação mutilada do que
restou após a destruição cristã.
Através de uma série de decretos, o imperador decreta a pena de
morte para todos os indivíduos que prestam culto pagão (incluindo
culto doméstico e privado) ou praticam adivinhação, e faz com que
todas as propriedades dos templos pagãos sejam confiscadas. Em
um decreto de 364, proíbe os chefes militares pagãos de comandar
tropas cristãs.

Nesse mesmo ano, Flavio Joviano é sucedido pelo imperador


Valentiniano I, outro fundamentalista alienado. Na parte oriental,
seu irmão, Valente Augusto, continuou com a perseguição dos
pagãos, sendo especialmente cruel na parte mais oriental do
Império. Em Antioquia, ele executou o ex-governador Fidustio e os
sacerdotes Hilário e Patrício. O filósofo Simônides é queimado vivo
e Máximo, outro filósofo, é decapitado. Todos os neoplatônicos e
leais ao Imperador Juliano são perseguidos com fúria. A essa altura
do campeonato deveria ter havido uma forte reação anti-cristã por
parte dos sábios e todos os patriotas pagãos em geral. Mas era
tarde demais, e tudo o que restava era preservar seu conhecimento
de alguma forma.

Nas praças das cidades orientais são erguidas grandes fogueiras


onde queimam livros sagrados pagãos, sabedoria gnóstica,
ensinamentos egípcios, filosofia grega e literatura romana... O
mundo clássico está sendo apagado, e não apenas naquele
presente, mas também no passado e no futuro. Os fanáticos
cristãos querem literalmente apagar todos os vestígios do Egito,
Grécia e Roma, para que ninguém saiba que eles existiram, e,
acima de tudo, o que os egípcios, os gregos e os romanos
disseram, pensaram e ensinaram.

- Em 372, o imperador Valentiniano ordenou ao governador da Ásia


Menor que exterminasse todos os helenos (entendidos como tais os
gregos pagãos da antiga linhagem helenística, isto é, indo-europeus
e acima de tudo a antiga casta dominante macedônica) e destruísse
todos os documentos relativos à sua sabedoria. Além disso, no ano
seguinte, novamente proíbe todos os métodos de adivinhação.
Por volta desta época, é quando os cristãos cunharam o termo
depreciativo "pagão" para designar os gentios, isto é, a todos que
não são nem judeus nem cristãos. "Pagão" é uma palavra que vem
do latino pagani, que significa camponês. A razão é que, nas
cidades sujas, corruptas, decadentes, cosmopolitas e mestiças do
decadente Império Romano, a população é essencialmente cristã,
mas no campo, os camponeses, que mantêm sua herança e
tradição, praticam zelosamente o culto pagão. É no campo, alheio
ao multiculturalismo, onde a memória ancestral é preservada.
(Tanto os cristãos quanto os comunistas se esforçaram para acabar
com o modo de vida do dono de terra, do fazendeiro e do
camponês). No entanto, este paganismo camponês, privado da
liderança e dos templos dos sacerdotes, e finalmente mergulhado
na perseguição, está condenado a virar eventualmente um monte
de superstições populares misturadas com paganismo pré-indo-
europeu, embora algo do fundo tradicional sempre permanecerá,
como nos "curandeiros" e "bruxas" locais que por muito tempo
subsistiram apesar das perseguições. Acabar com o paganismo não
foi tão fácil. Não era fácil encontrar ou destruir todos os templos
pagãos. Também não era fácil identificar todos os sacerdotes
pagãos, ou os pagãos que praticavam seus ritos em segredo. Essa
era uma tarefa de longo prazo, para uma ciumenta, minuciosa e
fanática elite de "comissários" que duraria muitas gerações, em
séculos de terror espiritual e perseguição intensa.

- Em 375 foi fechado, a força, o templo do deus Asclépio em


Epidauro, Grécia.
Extensão do cristianismo no ano 375. Estão marcados os territórios e as fronteiras
do Império Romano, já em decadência. Em vermelho, áreas fortemente
cristianizadas. Em rosa, as áreas atingidas pelo cristianismo, mas menos
cristianizadas no momento.

- Em 378 os romanos são derrotados pelo exército godo na Batalha


de Adrianópolis. O imperador intervém e, através de uma
diplomacia astuta, faz aliados (foederati ou federados) dos godos,
um povo germânico originário da Suécia, famoso por sua beleza e
que tinha um reino no que é agora a Ucrânia. Mais tarde, em 408,
depois da queda de Estilicão (um general de origem vândalo que
serviu fielmente a Roma, mas que foi traído por uma gentalha
política cristã e invejosa), as mulheres e os filhos destes federados
germanos são massacrados pelos romanos, propiciando que os
homens se unam em massa ao líder germânico Alarico.

- Em 380, o Imperador Teodósio I (Teodósio, o Grande para o


cristianismo) decreta, pelo Édito de Tessalônica, que o cristianismo
é oficialmente a única religião tolerável no Império Romano,
embora, naturalmente, isso era óbvio faz anos. Teodósio chama os
pagãos de "loucos", além de "repugnantes, hereges, estúpidos e
cegos".

[Ver aqui a estátua malfeita do imperador Teodósio].

O bispo Ambrósio de Milão inicia uma campanha de demolição dos


templos pagãos de sua zona. Em Elêusis, antigo santuário grego, os
sacerdotes cristãos lançam uma multidão faminta, ignorante e
fanática contra o templo da deusa Deméter. Os sacerdotes pagãos
Nestório e Priskos são quase linchados pela multidão. Nestório, um
venerável ancião de 95 anos, anuncia o fim dos mistérios de Elêusis
e prevê a imersão dos homens na escuridão durante séculos.

- Em 381, visitas simples aos templos helênicos são proibidas, e a


destruição de templos e as queimas de bibliotecas continuam
durante toda a metade oriental do Império. A ciência, a técnica, a
literatura, a história e a religião do mundo clássico são mais
apagadas. Em Constantinopla, o templo da deusa Afrodite é
convertido em um bordel (!), e os templos do deus Hélios e a deusa
Ártemis são convertidos em estábulos (!) Teodósio persegue e
clausura os mistérios de Delfos, o mais importante da Grécia, que
teve tanta influência na história da Grécia antiga.

- Em 382, a fórmula judaica Hallelu-Yahweh ou Aleluia ("Louvai a


Javé"), está impregnada nas massas cristãs. Em 384, o imperador
ordenou ao prefeito Materno Cinégio (tio do imperador e um dos
homens mais poderosos do Império) a cooperar com os bispos
locais na destruição de templos pagãos na Macedônia e na Ásia
Menor — coisa que ele, um fundamentalista cristão, faria de bom
grado. Entre 385 e 388, Materno Cinégio, estimulado por sua
fanática esposa Acância e em coluio com o bispo São Marcelo,
organizou grupos de assassinos "paramilitares" cristãos que vão por
todo o Império Oriental para pregar a "boa nova" — isto é, arrasar
altares e santuários pagãos. Eles destroem, entre muitos outros, o
templo de Edessa, um templo em Imbros (Gökçeada), o templo de
Zeus em Apameia, o templo de Apolo em Dídimos e todos os
templos de Palmira. Milhares de pagãos são presos e enviados às
masmorras de Citópolis, onde são aprisionados, torturados e
assassinados em condições subumanas. E se algum amante das
antiguidades ou da arte pensasse em restaurar, preservar ou
conservar os restos dos templos saqueados, destruídos ou
fechados, em 386 o imperador proíbe especificamente o cuidado
dos mesmos (!).

Busto do imperador germânico Júlio César, sucessor de Tibério. Os cristãos o


desfiguraram e gravaram uma cruz em sua testa.

- Em 388, o imperador, em uma medida pseudo-soviética, proíbe


conversas sobre assuntos religiosos, provavelmente porque o
cristianismo não pode se sustentar sozinho, e pode até sofrer sérias
perdas apenas através de debates religiosos livres. Neste ano,
Libânio, o velho orador de Constantinopla, uma vez acusado de ser
um mago, dirige ao imperador sua epístola desesperada intitulada
"Pro Templis" ("Pró Templos"), tentando preservar os poucos
templos pagãos restantes. Julgando o que aconteceu a seguir,
podemos concluir que o imperador, infelizmente, fez pouco caso.

- Entre 389 e 390, todas as datas de férias não-cristãs foram


proibidas. Ao mesmo tempo, tribos misteriosas de selvagens do
interior, lideradas por eremitas do deserto, invadem as cidades
romanas do leste e do norte da África. No Egito, na Ásia Menor e na
Síria, essas hordas arrasam com templos, estátuas, altares e
bibliotecas, matando qualquer um que cruze seu caminho. Teodósio
ordena destruir o santuário de Delfos, centro de sabedoria
respeitado em toda a Hélade, destruindo seus templos e obras de
arte.

O bispo Teófilo, patriarca de Alexandria, inicia perseguições de


pagãos, inaugurando em Alexandria um período de autênticas
batalhas civis, seja entre cristãos e pagãos, seja entre as próprias
facções cristãs. Ele transforma o templo do deus Dionísio em uma
igreja, destrói o templo de Zeus, queima o Mitreu e defere imagens
de culto. Os sacerdotes pagãos são humilhados e ridicularizados
publicamente antes de serem lapidados.

- Em 391, um novo decreto de Teodósio especificamente proíbe


olhar para as estátuas pagãs quebradas (!). As perseguições
antipagãs são renovadas por todo o Império. Em Alexandria —
onde as tensões estão a flor da pele durante anos — a minoria
pagã, liderada pelo filósofo Olimpio, realiza uma revolta anticristã.
Depois das sanguinárias lutas civis com a faca e o punhal contra
multidões de cristãos que os superam os número, os pagãos se
anexam e se estrincham no Serapião, um templo fortificado
consagrado ao deus Serápis. Depois de cercar (praticamente
sediar) o edifício, a turba cristã, sob o comando do patriarca Teófilo,
invadiu o templo cega de ódio, assassinou todos os presentes,
profanou imagens de culto, saqueou propriedades, incendiou sua
famosa biblioteca e, finalmente, derrubou toda a construção. É a
famosa "segunda destruição" da Biblioteca de Alexandria, jóia da
sabedoria antiga em absolutamente todos os campos, incluindo
filosofia, mitologia, medicina, gnosticismo, matemática, astronomia,
arquitetura ou geometria. Claramente, uma verdadeira catástrofe
espiritual para a herança do Ocidente. Uma igreja foi construída
sobre seus restos.

O deus Serápis, o "patrono" da Biblioteca de Alexandria.

- Em 392 o imperador proíbe todos os rituais pagãos, chamando-os


de "gentilicia superstitio", isto é, "superstições dos gentios". Então,
novamente volta as perseguições pagãs. Os mistérios de
Samotrácia são clausurados e todos os seus sacerdotes são mortos.
Em Chipre, o extermínio espiritual e físico dos pagãos é liderado
pelos bispos São Epifânio (nascido na Judeia e criado num ambiente
judaico, quer dizer, era judeu de sangue) e São Tícon. O próprio
imperador dá carta branca a São Epifânio em Chipre, estabelecendo
que "aqueles que não obedecessem ao padre Epifanio não tetrão
direito de continuar vivendo na ilha". Assim protegidos, os eunucos
cristãos exterminam milhares de pagãos e destroem quase todos os
templos pagãos em Chipre. Os mistérios de Afrodite locais,
baseados na arte do erotismo e com uma antiguíssima tradição, são
erradicados.

- Neste ano fatídico de 392, há insurreições pagãs contra a Igreja e


contra o Império Romano em Petra, Areopoli, Ráfia, Gaza, Balbeque
e outras cidades orientais. Mas a invasão oriental-cristã não vai
parar neste ponto em seu impulso até o coração da Europa.

- Em 393, os próprios Jogos Olímpicos (que rondavam o número


293), os Jogos Píticos e os Jogos Aktia são proibidos. Os astutos
cristãos devem intuir que este culto desportivo "profano" e
"mundano" da superação, excelência, saúde, beleza e força deve,
logicamente, pertencer ao culto pagão, e que o esporte é um
campo onde os cristãos da época nunca poderão reinar.
Aproveitando a situação, os cristãos saqueiam o templo de Olímpia.

- No ano seguinte, em 394, todos os ginásios na Grécia são


fechados à força. Qualquer lugar onde a menor dissidência floresça,
ou mentalidades poucos cristãs, deve ser fechado. O cristianismo
não é simpatizante dos músculos, do atletismo, do suor ou do
sacrifício, mas da fraqueza. Nesse mesmo ano, Teodósio remove a
estátua da Vitória do Senado Romano. A Guerra da Estátua foi
encerrada, um conflito cultural que confrontou senadores pagãos e
cristãos no Senado, pondo e despondo a estátua várias vezes. O
ano 394 também viu o fechamento do templo de Vesta, onde jazia
o fogo sagrado romano.

- Em 395, Teodósio morre, sendo sucedido por Flávio Arcádio


(reinou entre 395-40). Este ano, dois novos decretos revigoram a
perseguição antipagã. Rufino, eunuco e primeiro-ministro de
Arcádio, faz os godos invadir a Grécia, sabendo que, como bons
bárbaros, eles vão destruir, saquear e assassinar geral. Entre as
cidades saqueadas pelos godos estão Dion, Delfos, Mégara, Corinto,
Argos, Nemeia, Esparta, Messênia e Olímpia. Os godos, já
cristalizados na heresia do arianismo, ainda que com seu caráter
bárbaro intacto, matam muitos gregos, queimam o antigo santuário
de Elêusis e queimam todos os seus sacerdotes (incluindo Hilário,
sacerdote de Mitras).
[Ver aqui o imperador Arcádio. À primeira vista, um eunuco,
especialmente quando comparado com os antigos imperadores
pagãos].

- Em 396, outro decreto do imperador proclama que o paganismo


será considerado como alta traição. A maioria dos sacerdotes
pagãos restantes estão trancados em calabouços sombrios pelo
resto de seus dias. Em 397, o imperador literalmente ordena
demolir todos os restantes templos pagãos.

- Em 398, durante o Quarto Concílio Eclesiástico de Cartago (Norte


de África, agora Tunes), se proíbe qualquer pessoa (mesmo os
bispos cristãos) de estudar obras pagãs. O bispo Porfírio de Gaza,
onde houve revoltas pagãs, derruba quase todos os templos da
cidade, restando só nove.

- Em 399, o imperador Arcádio volta a ordenar a demolição dos


templos pagãos que ainda restam. Neste ponto, a maioria deles
estão nas profundas áreas rurais do Império.

- Em 400, o bispo Nicetas destrói o oráculo de Dionísio em Baçaim,


e batiza à força todos os pagãos na área.

- Até o ano 400, foi estabelecida uma hierarquia cristã que incluía
sacerdotes, bispos, metropolitanos (ou arcebispos de cidades
maiores) e patriarcas (arcebispos responsáveis por grandes
cidades, nomeadamente Roma, Jerusalém, Alexandria e
Constantinopla).
Esta é a estátua de uma sacerdotisa de Ceres (Deméter romana, deusa da
agricultura e do cereal), esculpida pacientemente sobre o marfim por volta do ano
400 (!) e de uma beleza sem precedentes, e em que seu rosto foi mutilado e tacado
em um poço em Montier-en-Der [uma posterior abadia no noroeste da França]. É
possível que não tivessem a lançado ao poço por ódio (os cristãos eram mais
propensos a destruição direta), mas que os seus proprietários se desfizeram dela por
medo de que as autoridades religiosas encontrassem-a. É impossível saber a
quantidade de representações artísticas, mesmo superiores a esta em beleza, que
foram destruídas, e das quais nada permaneceu.

- Em 401, uma multidão de cristãos lincha os pagãos em Cartago,


destruindo templos e ídolos. Em Gaza, os pagãos são linchados a
pedido do bispo São Porfírio, que também ordena a destruição dos
nove templos restantes na cidade. Nesse mesmo ano, o 15º
Concílio de Calcedônia (entre outras coisas de grande importância,
como a crença em "Um e só mesmo Cristo, Filho, Senhor,
Unigênito" — ??? —) ordena a excomunhão (mesmo depois da
morte!) dos cristãos que mantêm boas relações com seus parentes
pagãos.

São João Crisóstomo, "Santo e Pai da Igreja", arrecada fundos com


a ajuda de mulheres cristãs ricas, entediadas e ociosas
[burguesas], ressentidas contra o patriarcal culto romano pela
perfeição e pela guerra. Financiado, realiza um trabalho de
demolição de templos gregos. Graças a ele, o antigo templo de
Ártemis em Éfeso é demolido.
Reconstrução do imenso templo de Ártemis em Éfeso. Este foi uma das sete
maravilhas do Mundo Antigo e tinha sido construído no século VI AEC em uma área
considerada sagrada desde, pelo menos, da idade do bronze. Sua construção levou
cento e vinte anos e poderia ser dito que era perfeitamente comparável a uma
catedral. Uma multidão cristã histérica liderada por São João Crisóstomo ("pai da
Igreja") demoliu-o em 401, terminando a existência deste edifício quase milenar.

- Em 406, o bispo São Eutíquio, discípulo do mencionado São


Epifânio, continua em Salamina, Chipre, as destruições de templos
e os assassinatos compassivos de pagãos.

- Em 407, o imperador Arcádio novamente lança um decreto no


qual proíbe todos os cultos não-cristãos — o que significa que ainda
nessa época o paganismo persistia.

- Em 406-407, um grupo de tribos federadas, os vândalos, os


suevos e os alanos (este último de origem iraniana, não
germânica), invadem a França, destinados a Espanha.

- Em 408, o Imperador Honório do Império Ocidental e o Imperador


Arcádio do Império Oriental, ordenam que todas as esculturas
pagãs sejam destruídas. Há novamente destruições de templos,
massacres de pagãos e queimas de seus escritos. Nesta altura do
campeonato, o famoso africano Santo Agostinho, bispo de Hipona,
"Santo, Pai e Doutor da Igreja", massacra centenas de pagãos em
Calama (atual Guelma), na Argélia (não demorará a morrer nas
mãos dos vândalos, um povo germânico). Também estabelece a
perseguição de juízes que mostram piedade pelos "idólatras".

Neste mesmo ano de 408, o imperador Arcádio morre, sendo


sucedido pelo imperador Teodósio II. Para situar seu fanatismo
religioso, basta dizer que ele mandou executar seus próprios filhos
por brincarem com pedaços de estátuas pagãs quebradas. De
acordo com os mesmos historiadores cristãos, Teodósio II "seguia
meticulosamente os ensinamentos cristãos". Não duvido, embora
possa ser apropriado pontuar: Teodósio era um erudito pusilânime
das "sagradas escrituras", na verdade, guiado por sua irmã Élia
Pulquéria e sua esposa Eudócia.

[Ver aqui o imperador Teodósio II, um fanático alienado... A julgar


pela qualidade da estátua, as coisas no Império iam de mal a pior
sob o seu reinado, ou talvez os verdadeiros escultores pagãos
tinham sido assassinados].

Enquanto tudo isso ocorre, no mesmo ano de 408, um chefe


romano de origem germânica que valentemente defendeu as
fronteiras do Império, o vândalo Estilicão, é executado por um
partido de romanos decadentes que tinham invídia de seus triunfos.
Após a sua morte injusta, este partido deu uma espécie de "golpe
de Estado" e as mulheres e crianças — estamos falando de um
mínimo de sessenta mil pessoas — dos germânicos federados
(federados a Roma, residentes dentro de suas fronteiras e fiéis
defensores da mesma) foram massacrados em toda a Itália pelos
cristãos. Depois deste ato covarde, os pais e maridos destas
famílias (trinta mil homens que eram fieis soldados de Roma) vão
para às fileiras do rei visigodo Alarico e clamam vingança contra os
assassinos.

- Em 409, novamente é decretado a proibição dos métodos de


adivinhação. O Império Romano desmorona em uma crise
irresistível, tanto pela corrupção imunda quanto pelo ataque dos
germânicos, mas os poderosos cristãos estão mais interessados em
erradicar o legado pagão antes que os germanos o descubram (e
fundem a Grécia-Roma II), enquanto as classes altas romanas
estão mais preocupadas em subir no novo sistema cristão,
conspirando entre eles ou, então, luxuriando em orgias
degeneradas. Neste ponto, os únicos que permanecem fiéis a Roma
como uma ideia, mesmo apesar das injustiças cometidas contra
eles, são os soldados germânicos que servem nas legiões.

Nesse mesmo ano, suevos, vândalos e alanos atravessam os


Pireneus e invadem a Espanha.
- Em 410, um exército composto por visigodos e outros aliados
germânicos seus, saqueiam a mesma Roma, continuando mais
tarde pelo sul da França, Espanha e Norte da África. De lá, eles
tentam dominar o Mediterrâneo.

- Em 416, um famoso líder cristão conhecido como "Espada de


Deus" extermina os últimos pagãos de Bitínia, Ásia Menor. Naquele
ano, em Constantinopla, todos os funcionários públicos,
comandantes do exército e juízes não cristãos são demitidos.

- Em 423, o imperador decreta que o paganismo é "um culto do


diabo" e ordena que aqueles que continuarem a praticá-lo serão
aprisionados e torturados.

- Em 429, os pagãos atenienses são perseguidos, e o templo da


deusa Atena (o famoso Partenon de Acrópole) é saqueado.

- Em 430, os vândalos cercam a cidade norte-africana de Hipona.


No local, morre o mencionado Santo Agostinho, um dos pais da
Igreja.

- Mas aqui está o ato mais significativo por parte do imperador


Teodósio II em 435: ele proclama abertamente que a única religião
legal em Roma, além do cristianismo, é o judaísmo!

Mediante uma luta bizarra, obscura e assombrosa, o judaísmo não


só conseguiu que o paganismo fosse perseguido, e que Roma, seu
arqui-inimigo mortal, adotasse um credo judeu, mas que a própria
religião judaica, tão desprezada e insultada pelos romanos pagãos
anteriores, fosse elevada a religião oficial de Roma, juntamente
com o cristianismo. É preciso reconhecer a astúcia conspirativa e a
implacável permanência dos objetivos do núcleo judaico-cristão
original. O que eles fizeram foi, literalmente, virar o tabuleiro a seu
favor, converter Roma em anti-Roma, pôr ao serviço da judiaria
tudo o que os judeus tanto odiavam, aproveitar a força de Roma e
seu aparelho estatal, para colocá-la contra ela mesma em um
sinistro jiu-jitsu político-espiritual, e passar de marginais,
insultados, desprezados e olhados por cima, a mestres espirituais
ab s o l ut o s d o I mp éri o Ro mano. N i et z s c he c omp reend eu
perfeitamente, mas ¿quando nós entenderemos inteiramente o que
isto significou?

- Em 438, Teodósio II culpa a "idolatria" por uma praga.

- Em 439, os vândalos tomam Cartago. Sua frota domina o


Mediterrâneo.

- Entre 440 e 450, os cristãos demolem os monumentos pagãos de


Atenas, Olímpia e outras cidades gregas.

- Em 448 o imperador Teodósio II ordena queimar todos os livros


não-cristãos.

- Em 450, em Afrodísias (cidade de Afrodite), todos os templos são


destruídos e todas as bibliotecas queimadas. A cidade é rebatizada
com o nome de Stavroupoli (Cidade da Cruz).

- Em 441, os hunos do líder asiático Átila atravessam o Danúbio,


massacrando e profanando toda a terra que pisam.

- Em 445, o imperador Valentiniano III faz um decreto segundo o


qual todos os bispos do Oeste são subordinados ao Papa de Roma.

- Em 451, o imperador lança um outro edito reiterando que a


"idolatria" deve ser punida com a morte. Naquele mesmo ano, os
hunos de Átila são interrompidos por uma coligação romana-
visigoda incomum na Batalha de Troyes (Campos Cataláunicos), no
centro da França.

- Em 453, Atila, o Huno, morre.

- Em 455, Roma é saqueada pelos vândalos, uma tribo germânica


que acabou por se estabelecer no que hoje é Tunes. Tal foi o caos
que semearam nesta cidade suja e decadente que, até hoje,
"vandalismo" significa um comportamento destrutivo num ambiente
civilizado.

- Entre 457 e 491 as perseguições antipagãs seguem no Império


Oriental. O filósofo Gésio é executado. Severiano, Herestios,
Zósimo, Isidoro e muitos outros sábios, são torturados e mortos. O
predicador Conon e seus seguidores exterminam os últimos pagãos
da ilha de Imbros. Também exterminam em Chipre os últimos
adoradores do deus Zeus Lavranios. São anos frutíferos para o
cristianismo.

- Em 476, Odoacro, líder visigodo de uma união de tribos


germânicas, é proclamado rei da Itália, sob um sistema pseudo
feudal que substituiu os vestígios decadentes de uma Roma
destruída por dentro. Este ano de 476 é considerado como o fim do
Império Ocidental. O último imperador de Roma, Rômulo Augusto
(ironicamente, tem o mesmo nome que um dos míticos gêmeos
fundadores de Roma), é deposto por seu próprio exército, um
exército que é romano só em nome, uma vez que é composto
quase exclusivamente de germânicos, que são os únicos que
sentem algum tipo de lealdade a Roma, e para quem a palavra
"romano" virou sinônimo de traiçoeiro, cobarde e indigno de
confiança. Rômulo Augusto é enviado pelos germanos, num gesto
de grande nobreza, ao exílio em Constantinopla com todas as
honras imperiais e emblemas do Ocidente. O Império Oriental ou
Império Bizantino subsistirá, progressivamente re-helenizado,
destinado a ser o baluarte contra o Islã, até que, no século XV, cai
nas mãos dos turcos otomanos.

- Entre 482 e 486, após uma revolta pagã anticristã desesperada, a


maioria dos pagãos da Ásia Menor são exterminados.
A extensão do cristianismo em 485. O Império Romano do Ocidente caiu, os reinos
germânicos apareceram em seu lugar, o Império Romano do Oriente ainda subsiste e
a Inglaterra voltou ao paganismo com a invasão anglo-saxã. Em vermelho, áreas
sujeitas a uma forte influência cristã. Em rosa, as áreas menos sujeitas à Igreja.

- Em 486, em Alexandria, são descobertos mais sacerdotes pagãos


que permaneciam escondidos. Eles são humilhados publicamente,
depois torturados e executados.

- Em 493, Teodorico, o Grande, um rei germânico, assume o


controle da Itália. Admirador da Roma clássica que ele nunca
conheceu, ele tenta preservar o que resta da arquitetura, da
escultura e do aparato estatal, pondo fim à destruição cristã.

- No Império Oriental, no século VI, é declarado que qualquer


pagão não tem nenhum direito.

- Em 525, o batismo torna-se obrigatório mesmo para aqueles que


haviam se declarados cristãos. O imperador Justino I ordena
destruir o templo do deus local e ordena um massacre dos pagãos
na cidade de Zoara.

- Em 527, o imperador Justiniano I do Oriente, cria o Corpo de


Direito Civil romano, base de toda a lei europeia medieval, exceto
na Saxônia e na Inglaterra (depois da invasão normanda, apenas o
condado inglês de Kent manteve o direito saxão).

- Em 528, Justiniano proíbe os chamados "Jogos Olímpicos


alternativos" de Antioquia. Ele ordena executar qualquer um que
pratica "feitiçaria, adivinhação, magia ou idolatria" e proíbe todos
os ensinamentos pagãos.

- Em 529, o imperador fecha a Academia de Filosofia de Atenas


(onde Platão havia ensinado) e confisca seus bens. Assim, termina
a existência de um dos principais centros da cultura europeia desde
do período clássico.

- Em 532, Juan ou João Asiaco, um monge fundamentalista e


fanático que tem a bênção do imperador, organiza uma cruzada
contra o que resta dos pagãos da Ásia Menor. Com base em muito
sangue, ele "cristianizou" Frígia, Cária e Lídia. Cem igrejas e doze
mosteiros são construídos em templos pagãos destruídos.

- Em 546, João Asiaco condena à morte, em Constantinopla,


centenas de pagãos.

- Em 553, no Segundo Concílio de Constantinopla, decreta-se que:


"Quem sustentar a mítica crença na preexistência da alma e a
opinião, consequentemente estranha, de sua volta, seja anátema
(excomungado)". Estamos, nada mais e nada menos, ante uma
proibição de crenças sobre a reencarnação.

- Em 556, o imperador envia outro comissário cristão, Amâncio, a


Antioquia, para exterminar os últimos pagãos e queimar qualquer
biblioteca restante.
- Em 562, há uma onda de perseguições em que são humilhados,
presos, torturados e executados os pagãos de Atenas, Antioquia,
Palmira e Constantinopla.

- Em 568, a Itália é invadida pelos lombardos, uma tribo germânica


que, pressionada pelos ávaros, assenta no que é agora a
Lombardia, no norte da Itália.

- Entre 578 e 582, pagãos são torturados e crucificados em todo o


Império Oriental, exterminando os últimos pagãos de Heliópolis e
Balbeque.

- Em 580, provavelmente à fofoca habitual, agentes cristãos


descobrem em Antioquia um templo secreto dedicado a Zeus. O
sacerdote se suicida para evitar a tortura, e o resto dos pagãos são
detidos pelos cristãos. Os prisioneiros, que incluem,
surpreendentemente, o vice-governador Anatólio, são torturados e
condenados em Constantinopla. Eles são condenados a serem
devorados pelas feras, mas elas não os atacam (algo que nunca
tinha acontecido com os cristãos durante as antigas perseguições
romanas). Portanto, eles são crucificados. Então, a multidão cristã
pagãfóbica arrasta seus cadáveres pelas ruas e taca-os num aterro.

Em 583, o imperador Maurício I renova as perseguições antipagãs.

- Em 590, novamente há outra febre antipagã. Até então, o


paganismo organizado no sul da Europa havia praticamente se
erradicado. O que sobra é um monte de tristes ruínas salpicadas de
sangue, tradições de significados esquecidos e restos de práticas
pagãs. Os helenos e latinos originais foram perseguidos em todo o
Mediterrâneo fortemente deseuropeizado, e permanece uma
enorme massa de mestiços sem herança e tradição, que adotam o
cristianismo muito propriamente. No alto, se levanta uma casta de
pastores: a Igreja e o clero cristão. Até que a área sofra novas
invasões germânicas, o cenário continuaria.

- Entre 590 e 604, o Papa Gregório I ordena a queima da Biblioteca


Palatina de Roma devido aos escritos "pagãos".
- Em 692, durante o Concílio de Constantinopla, são proibidas
festas de origem pagã como as Calendas, Brumales, Antestérias,
etc.

A trágica agonia do mundo antigo, clássico, pagão, belo, atlético, artístico e próximo
dos deuses, às mãos da Serpente Oriental.

Um caso notável foi duma população lacônia de Mesa Mani, Cabo


Tênaro, na Grécia. Em meados de 804, eles resistiram com sucesso
a uma tentativa por parte de Tarásio, patriarca de Constantinopla,
para cristianizá-los. Sua resistência duraria até que, entre 850 e
860, o armênio São Nicon, pela força, os converte ao cristianismo.
Lembre-se que Lacônia era o antigo reino do qual Esparta era
capital.
Finalmente, pensemos em outra tragédia paralela ao genocídio,
lavagem cerebral e várias destruições: a queima, adulteração,
falsificação, manipulação e desfiguração da literatura clássica.
Assim, o cristianismo profanou a antiga sabedoria europeia,
erradicando a memória dos antigos deuses e sabotando a mesma
civilização europeia por séculos. Por exemplo, os "Anais" de Tácito
foram corrigidos e censurados pelos monges copistas em tudo o
que pudesse manchar a memória das origens da nova fé. Plínio, o
Velho afirma ter coletado, em sua "História Natural", por volta de
vinte mil fatos teúrgicos ou mágicos das obras de cem diferentes
autores gregos e romanos, mas, infelizmente, elas não
sobreviveram em sua totalidade. Restam apenas fragmentos do
livro sobre a história do Império Romano iniciado por Aufidio Basso
(e terminado pelo mesmo Plínio). Tito Lívio também foi vítima de
tal selvageria, pois só alguns anos (ou "Anais") de seu trabalho
histórico sobreviveram. Os livros de Heródoto, Suetônio e Plutarco
estão fortemente adulterados. A obra "Os Elementos" de Euclides
sobreviveu, mas seus outros escritos, especialmente "Porismas",
desapareceram. Queimaram quase toda a produção de Porfírio (um
dos maiores críticos pagãos do cristianismo), na qual havia diversos
tratados sobre a religião pagã e a vida de grandes personalidades,
além de quinze (!) alegações contra os cristãos cujos títulos sequer
são conhecidos. Os vários comentários de Proclo sobre os
diálogos de Platão desapareceram, e seu "Elementos de teologia"
foi retocado e resumido pelos cristãos em um livro de
causas atribuído a Aristóteles.

Esses foram os métodos usados pelos adalides do profundo Oriente


para se apresentarem à Europa como supremos salvadores. Desde
então, a Europa viveu essencialmente sob os pesos de ideias
estrangeiras e feitas pelo inimigo, lutando de tempos em tempos
para libertar-se de sua carga.

- O MARTÍRIO DA HIPÁTIA COMO UM EXEMPLO DE


TERRORISMO CRISTÃO
Alexandria, Egito, ano 415. A protagonista é Hipátia (370-415),
filósofa e matemática instruída por seu pai, o também famoso
filósofo e matemático Téon de Alexandria. Os biógrafos de Hipátia
dizem que de manhã ela se exercitava e que depois tomava banhos
relaxantes que a ajudavam a concentrar sua mente em dedicar o
resto do dia ao estudo da filosofia, música e matemática. Hipátia
era virgem e casta, ou seja, estava no nível de sacerdotisa. Em
suma, ela era uma mulher sábia, "um ser humano perfeito", como
seu pai queria. Hipátia também dirigia uma escola filosófica, da
qual as mulheres eram excluídas (ou seja, para situar as feministas
que tentaram "empoderar" a figura de Hipátia nos últimos tempos).

O figurão de Alexandria durante esse tempo foi o arcebispo


Cirilo (370-444), sobrinho do mencionado Teófilo. Ele tinha o título
de patriarca, uma honra eclesiástica quase equivalente à do papa, e
que apenas os arcebispos de Jerusalém, Alexandria e
Constantinopla detinham, ou seja, as cidades mais judaicas e
cristãs do império romano. Durante esse período, houve outra
rebelião em massa; novamente, as brigas de rua, as tensões e os
ajustes de contas entre cristãos e pagãos se sucederam.

O arcebispo Cirilo iniciou uma perseguição aos acadêmicos


alexandrinos, 24 anos após a queima da biblioteca. Desta vez, mais
radicalizados, os cristãos assassinaram qualquer um que se
recusasse a se converter na nova religião. Hipátia, na época
diretora do museu (onde se dedicava à filosofia de Platão), era uma
dessas pessoas, pelas quais foi acusada de conspirar contra o
arcebispo. Di as após a acusação, os frades chamados
parabolanos (monges fanáticos encarregados do "trabalho sujo" do
arcebispo e da igreja de São Cirilo de Jerusalém) sequestraram a
filosofa de sua carruagem, espancaram-na, despiram-na e eles a
arrastaram por toda a cidade, até chegarem à igreja de Cesárea.
Lá, por ordem de Pedro, o Leitor, a estupraram várias vezes, depois
esfolaram a pele e arrancaram a carne com cascas de ostras
afiadas. Hipácia morreu humilhada e sangrou até a morte com
dores excruciantes. Depois disso, eles desmembraram seu cadáver,
andaram em torno de Alexandria como troféus e os levaram para
um lugar chamado Cinaron, onde foram queimados. O arcebispo
que ordenou seu martírio é lembrado pela Igreja como São Cirilo de
Alexandria.

Somente uma multidão doente de ressentimento e ódio, e


enfurecida por comissários habilidosos na arte de criar os escravos,
poderia realizar este ato, que repugna qualquer um com um
mínimo de decência. Hipátia foi a vítima perfeita para um sacrifício
ritual: europeia, bela, saudável, sábia, pagã e virgem. E o que mais
excita os escravos no momento do sacrificio é a inocência e
bondade da vítima. Por outro lado, a crueldade demonstrada,
mesmo em relação à destruição de seu cadáver, indica que os
cristãos temiam muito Hipátia e tudo o que ela representava. A
morte da científica, além de ser perfeitamente ilustrativa das
atrocidades cometidas pelos cristãos nesta época, inaugurou uma
era de perseguição aos sacerdotes pagãos no norte da África,
especialmente dirigida contra o sacerdócio egípcio. A maioria deles
foram crucificados ou queimados vivos.

A atrocidade de Hipátia é descrita aqui por ser um caso


emblemático, e é ilustrativo e chocante ter acontecido a uma
mulher desarmada, indefesa e inofensiva, mas tenhamos cuidado
de pensar que foi um caso isolado: muitos pagãos humildes, "que
não interferiam na vida de ninguém", foram sacrificados de uma
forma semelhante ou pior, e seguiria a ser assim por muitos
séculos.
"Hipátia antes de ser morta na igreja", por Charles William Mitchell.

CONCLUSÃO

O cristianismo primitivo era caracterizado por sua intolerância e


intransigência e por se considerar o único caminho de salvação para
todos os homens do planeta; Essas características foram herdadas
do judaísmo. Ele mostrou que, paradoxalmente, considerar todos os
seres humanos iguais é a pior forma de intolerância, pois é
assumido como dogma de fé que a mesma religião ou moralidade é
válida e obrigatória para todos os homens e, portanto, é imposta,
mesmo contra a sua vontade. Mais tarde, esse aspecto foi renovado
com as outras grandes e virulentas doutrinas igualitárias:
democracia e comunismo.

Os pagãos, aceitando a diferença de povos, também aceitavam que


eles adoravam deuses diferentes dos seus e tinham costumes
diferentes; e eles nunca teriam pensado em pregar sua religião ou
moralidade fora de seu povo. A tática do pagão europeu era sempre
dominar através do triunfo militar, não converter pela força ou
manipular pensamentos. A reação do cristianismo, por outro lado,
foi destruir tudo o que pudesse nos lembrar das antigas crenças e
tradições pagãs. Qualquer conhecimento medicinal, de plantas ou
animais, foi marcado como heresia e perseguido. Na verdade,
qualquer tipo de conhecimento que não fosse judeu-cristão foi
completamente perseguido. O terror espiritual apareceu no mundo
antigo, invadindo a Europa.

Os fundadores de cidades e os grandes conquistadores queriam que


seus povos triunfassem e fossem eternos na Terra. Eles não
conseguiram a longo prazo, e todos eles desapareceram. Os
romanos, então, passaram a figurar nessa lista. No Ocidente, o
futuro de milênios pertencia aos germânicos, que estabeleceram
reinos feudais em toda a Europa Ocidental, onde se ergueram como
aristocracia.

Eu listei fatos que marcaram o fim da antiguidade clássica com toda


a sua sabedoria, e o início de uma idade das trevas. Esta era
ignorante e escura, usada como ferramenta pelos germânicos, e da
qual eles não foram culpados (só deram o toque de graça a um
monstro decadente, e foram precisamente eles que preservaram as
obras de arte romana da destruição cristã quando tomaram o poder
— ver o caso do rei Teodorico), duraria na Europa até o tempo do
catarismo, dos vikings e cruzadas no século XI, quando os
cavaleiros europeus descobriram a tradição que o Oriente havia
guardado e alguns frades estavam empenhados em compilar os
conhecimentos naturais tais como medicina ou botânica. O legado
mesopotâmico, egípcio, persa e até certo ponto grego e hindu foi
preservado pela civilização islâmica que, ao contrário do
cristianismo, não destruiu o legado pagão, mas o preservou.
Dizemos que o ressurgimento da espiritualidade europeia veio da
mão das castas guerreiras e cavalheirescas. E os resultados mais
visíveis desse ressurgimento foram o Sacro Império Romano-
Germânico, os vikings, a civilização occitânia, os templários, o
Renascimento italiano com seu fascínio pelo mundo greco-romano e
o Império Espanhol.

Haverá aqueles que farão uma confusão com a "herança cristã" da


Europa. Eu não. Vejo os europeus vivendo com costumes e rituais
naturais, belos e harmoniosos, que eles realizavam
automaticamente como a coisa mais normal do mundo,
participando da imensa orquestra que é a Terra. Vejo um credo
fanático pregado por fundamentalistas semitas do Oriente e da
África que inflamaram os espíritos da escória do mundo contra as
pessoas boas, contra os europeus nativos, contra os representantes
da ordem e da luz. Disseram que os nossos costumes ancestrais
eram abominações. Disseram que aqueles que os praticavam eram
pecadores. Disseram que nossa ciência era feitiçaria demoníaca, e
nossa arte, uma blasfêmia. Disseram que quem não se ajoelhasse
diante de um estranho e novo deus oriental merecia os piores
tormentos. Amaldiçoaram os fortes, os nobres, os guerreiros, os
puros, os filósofos e os sábios, e abençoaram os escravos, os
fracos, os doentes, as prostitutas, os ignorantes, os pisoteados e os
excluídos. Destruíram o legado que acumulamos ao longo dos
séculos. Mataram nossos líderes. Puseram fim a um Império que,
possivelmente, duraria eternamente. Mergulharam a Europa na
ignorância. Durante séculos, espalharam a culpa e o sentimento de
pecado, introduzindo na Europa esse câncer que é o Antigo
Testamento, e esse veneno castrador que é o Novo Testamento. Se
a Europa pôde desenvolver-se nestas condições, não foi graças ao
cristianismo, mas apesar dele, e graças às coisas que o cristianismo
ainda não tinha tocado.
O espirito romano enterrado pela seca areia do deserto.

NIETZSCHE SOBRE O CRISTIANISMO

Mas você não entende? Você não tem olhos para ver algo que levou
dois milênios para alcançar a vitória?

Esse Jesus de Nazaré, o evangelho vivo do amor, esse "redentor"


que traz felicidade e vitória aos pobres, aos enfermos, aos
pecadores — não era ele a sedução em sua forma mais
perturbadora e irresistível, a sedução e o desvio precisamente
daqueles valores judeus e às inovações judaicas do ideal? Será que
Israel, pelo desvio desse "redentor", desse aparente antagonista e
liquidador de Israel, alcançou o objetivo final de seu sublime anseio
de vingança? Não faz parte de uma oculta magia negra de uma
política verdadeiramente grande de vingança, de vingança de
progresso demorado, subterrânea, lenta, pré-calculada, o fato de
que Israel mesmo tinha que negar e pregar a cruz antes de o
mundo inteiro, como se fosse seu inimigo mortal, ao autêntico
instrumento de sua vingança, para que "todo o mundo", isto é,
todos os adversários de Israel, pudessem morder sem medo dessa
isca? E por outro lado, pode-se imaginar, com todo o refinamento
do espírito... algo que iguala em atraente, intoxicante,
deslumbrante, corruptora força... aquele horrível paradoxo de um
“deus na cruz”, aquele mistério de uma inimaginável, última,
extrema crueldade e autocrucificação de Javé para a salvação do
homem?... Pelo menos, é verdade que sub hoc sign [sob este
signo] Israel triunfou uma e outra vez, com sua vingança e
transvalorização de todos os valores em todos os outros ideais, em
todos os ideais mais nobres.

— ("Genealogia da moral", primeira dissertação, 8).


A compaixão entrava a lei da evolução, que é a lei da seleção.
Conserva o que está maduro para o desaparecimento, peleja a
favor dos deserdados e condenados da vida, pela abundância dos
malogrados de toda espécie que mantém vivos, dá à vida mesma
um aspecto sombrio e questionável. (...) É um instrumento capital
na intensificação da décadence [decadência], como multiplicador da
miséria e como conservador de tudo que é miserável.

— ("O Anticristo", 7).


O cristianismo pode ser entendido unicamente a partir do solo em
que cresceu — ele não é um movimento contra o instinto judeu, é
sua própria conseqüência, uma inferência mais em sua lógica
apavorante. Na formulação do Redentor: “a salvação vem dos
judeus” [João 4:22].

— ("O Anticristo", 24).


A incapacidade de resistência torna-se aí moral (“não resistam ao
mal” [Mateus, 5, 39], a frase mais profunda dos evangelhos, sua
chave, em certo sentido).

— ("O Anticristo", 20).


O veneno da doutrina dos “direitos iguais para todos” — foi
disseminado fundamentalmente pelo cristianismo; o cristianismo
travou guerra mortal, desde os mais secretos cantos dos instintos
ruins, a todo sentimento de reverência e distância entre os
homens, ou seja, ao pressuposto de toda elevação, todo
crescimento da cultura — com o ressentiment [ressentimento] das
massas forjou sua principal arma contra nós, contra tudo o que há
de nobre, alegre, magnânimo na Terra, contra nossa felicidade na
Terra... A “imortalidade” concedida a todo Pedro e Paulo foi, até
agora, o maior, mais maligno atentado à humanidade nobre. (...) O
cristianismo é a revolta de tudo o que rasteja no chão contra aquilo
que tem altura: o evangelho dos “pequenos” torna pequeno...

— ("O Anticristo", 43).


Estamos entre judeus: primeira consideração, para ali não perder
completamente o fio da meada. A dissimulação de si mesmo como
“sagrado”, ali tornada gênio e jamais alcançada em livros e entre
homens, essa falsificação de palavras e gestos como arte, não é
acidente de algum dom individual, alguma natureza de exceção.
Isso requer raça. No cristianismo, como a arte de mentir
santamente, o judaísmo inteiro, uma milenar técnica e preparação
judaica da maior seriedade, atinge sua derradeira mestria. O
cristão, essa ultima ratio [razão última] da mentira, é o judeu mais
uma vez — três vezes até... (...) Toda a fatalidade foi possível
apenas porque um tipo aparentado, racialmente aparentado de
megalomania, se encontrava no mundo, o judaico: tão logo se
escancarou o abismo entre judeus e judeu-cristãos, não restou a
estes outra escolha senão usar contra os próprios judeus os
mesmos procedimentos de autopreservação que o instinto judaico
recomendava, quando até então os judeus os haviam usado apenas
contra todos os não-judeus.

— ("O Anticristo", 44).


No tempo em que as camadas chandalas doentes, estragadas,
cristianizavam-se em todo o Império, o tipo oposto, a nobreza,
estava presente em sua mais bela e madura forma. O grande
número tornou-se senhor; o democratismo dos instintos cristãos
venceu... O cristianismo não era “nacional”, não era determinado
pela raça — dirigia-se a toda espécie de deserdados da vida, tinha
seus aliados em toda parte. O cristianismo tem por base
a rancune [o rancor] dos doentes, o instinto voltado contra os
sadios, contra a saúde. Tudo que vingou, tudo de orgulhoso,
atrevido, a beleza sobretudo, faz-lhe mal aos olhos e ouvidos.
— ("O Anticristo", 51).
O cristianismo foi o vampiro do Império Romano — o tremendo
feito dos romanos, conquistar terreno para uma cultura grande, que
tem tempo, ele desfez da noite para o dia. (...) Paulo, o ódio
chandala a Roma, ao “mundo”, feito carne, feito gênio, o judeu, o
judeu eterno par excellence [por excelência]... O que ele intuiu foi
como podia, com auxilio do pequeno movimento sectário cristão à
margem do judaísmo, atear “fogo” no mundo, como se podia unir
tudo o que se achava embaixo, tudo o que era secretamente
sedicioso, todo o legado de agitação anárquica do império num
formidável poder. “A salvação vem dos judeus.” — O cristianismo
como fórmula para suplantar os cultos subterrâneos de toda
espécie, os de Osíris, da grande Mãe, de Mitra, por exemplo.

— ("O Anticristo", 58).


Eis um primeiro exemplo, bastante provisoriamente. Sempre se
quis "melhorar" os homens: sobretudo a isso chamava-se moral.
Mas sob a mesma palavra se escondem as tendências mais
diversas. Tanto o amansamento da besta-homem como o cultivo de
uma determinada espécie de homem foram chamados de
"melhora": somente esses termos zoológicos exprimem realidades
— realidades, é certo, das quais o típico "melhorador", o sacerdote,
nada sabe — nada quer saber... Chamar a domesticação de um
animal sua "melhora" é, a nossos ouvidos, quase uma piada. Quem
sabe o que acontece nos cativeiros duvida que a besta seja ali
"melhorada". Ela é enfraquecida, tornada menos nociva; mediante
o depressivo afeto do medo, mediante dor, fome, feridas, ela se
torna uma besta doentia. — Não é diferente com o homem
domado, que o sacerdote "melhorou".

Na Alta Idade Média, quando, de fato, a Igreja era sobretudo um


cativeiro, os mais belos exemplares da "besta loura" eram caçados
em toda parte — foram "melhorados", por exemplo, os nobres
germanos. Mas que aparência tinha depois esse germano
"melhorado", conquistado para o claustro? A de uma caricatura de
homem, de um aborto: tornara-se um "pecador", estava numa
jaula, tinham-no encerrado entre conceitos terríveis... Ali jazia ele,
doente, miserável, malevolente consigo mesmo; cheio de ódio para
com os impulsos à vida, cheio de suspeita de tudo o que ainda era
forte e feliz. Em suma, um "cristão"... Em termos fisiológicos: na
luta contra a besta, tornar doente pode ser o único meio de
enfraquecê-la. Isso compreendeu a Igreja: ela estragou o ser
humano, ela o debilitou — mas reivindicou tê-lo "melhorado"...

— ("O crepúsculo dos ídolos", VII, 2).


Os Evangelhos constituem um documento de primeira ordem; mais
ainda do que o livro de Enoque. O cristianismo, que nasce das
raízes judaicas e só pode ser explicado como uma planta
característica deste solo, representa o movimento oposto a toda a
moral, raça e privilégio de reprodução. É a religião antiaria [anti-
ariana] por excelência. O cristianismo é a inversão de todos os
valores arianos, o triunfo dos valores chandalas, o evangelho
dirigido aos pobres e inferiores, a rebelião geral de todos os
oprimidos, miseráveis, fracassados e derrotados dirigidos contra a
"Raça"; a eterna vingança dos chandalas se torna a religião do
amor.

— ("O crepúsculo dos ídolos", VII, 4).

VERSÃO NIETZSCHIANA DO SERMÃO DA MONTANHA

Eles dizem que bem-aventurados são os mansos, porque eles


herdarão a terra. Mas eu vos digo: bem-aventurados são os fortes
e valentes, porque eles tornarão a terra seu trono. Eles dizem que
bem-aventurados são os pobres de espírito, porque entrarão no
reino dos céus. Mas eu vos digo: bem-aventurados são os espíritos
grandiosos e livres, pois entrarão no Valhala. Eles dizem que bem-
aventurados são os pacificadores, porque serão chamados filhos de
Javé. Mas eu vos digo: bem-aventurados são os guerreiros, porque
serão chamados filhos de Wotan.

*****

O CRISTIANISMO FOI UM MOVIMENTO SUBVERSIVO DE AGITAÇÃO


CONTRA ROMA, CONTRA GRÉCIA E, POSTERIORMENTE, CONTRA O
MUNDO EUROPEU.
O LEGADO CLÁSSICO SOBREVIVENTE É ÍNFIMO. A MAIORIA FOI
DESTRUÍDA PELOS JUDEUS-CRISTÃOS.

O CRISTIANISMO, COMO REBELIÃO DE ESCRAVOS CRIADOS E


GUIADOS PELOS JUDEUS PARA DESTRUIR O PODER ROMANO (E,
POSTERIORMENTE, QUALQUER PODER EUROPEU), FOI E É UMA
DOUTRINA PARA CONVERTER OS POVOS EM REBANHOS.

Atualmente, somos incapazes de ver a relação deste guerreiro-arcanjo com o


cristianismo. Este arcanjo não tem nenhuma similaridade com as multidões de
escravos que destruíram a maior parte da arte clássica por representar a figura
humana. Esta imagem vem do subconsciente pré-cristão europeu: mesmo dentro do
cristianismo, o elemento indo-europeu e o elemento semítico entram em conflito...

NOTAS

[1] O número de mortos dado ao longo do texto vem dos escritos


"A guerra dos judeus" e "Antiguidades judaicas", de de Flávio
Josefo, bem como "História romana", de Dião Cássio. Muito
provavelmente, os números estão inflados para aumentar a
importância dos eventos, algo comum na História.

[2] Segundo os autores alexandrinos (que eram furiosos anti-


semitas e acreditavam que os judeus faziam sacrifícios humanos),
Pompeu libertou do templo um prisioneiro grego que estava prestes
a ser sacrificado a Javé.

[1] Ao qual Zorobabel, Esdras e Neemias haviam reconstruído em


516 AEC ao retornar do exílio babilônico (os babilônios haviam
destruído o templo em 586 AEC e deportado a elite judaica para a
Babilônia em um processo chamado "Cativeiro Babilônico"). Os
persas forneceram aos judeus matérias-primas, arquitetos e
trabalhadores qualificados para realizar a construção, pois os
judeus não tinham meios de erguer um templo em tais condições.
Quando o Imperador Dario sucedeu o trono de Ciro, as obras
continuaram a seu comando, aliviando o temor dos judeus de que
talvez com a mudança de coroa haveria uma mudança de atitude
em relação a eles. Em 516 AEC a reconstrução do Segundo Templo
foi concluída e em 515 AEC houve uma consagração. Os persas
haviam tratado os judeus com verdadeira generosidade. No
entanto, os judeus em breve os apunhalaria pelas costas, como
aconteceu por volta de 450 AEC com o episódio de Ester e Hamã,
em que os judeus se levantaram para massacrar seus inimigos
políticos persas, pelo qual é celebrado até hoje na festa de Purim.
Quando, no século IV AEC, Alexandre Magno irrompeu na Pérsia, os
judeus fizeram o mesmo com os persas, como fizeram com os
babilônios: traí-los para ganhar o favor do novo invasor... que logo
iriam trair. Pode-se dizer talvez que os romanos foram os primeiros
a quebrar este círculo vicioso.

[2] Aqui está a causa provável da inaudita difamação histórica


deste imperaÍNDICE

PRIMEIRA PARTE — AS BASES DO CONFLITO


- CONTEXTO GEOPOLÍTICO, ANTROPOLÓGICO E ÉTNICO
- ROMA
- JUDEIA
- ANTISSEMITISMO ROMANO: UM CONFLITO ESPIRITUAL
- O LEGADO HELENÍSTICO
- O ANTISSEMITISMO GREGO
- HERODES
- SOBRE JESUS CRISTO E O NASCIMENTO DO CRISTIANISMO
- CALÍGULA
- CLÁUDIO E NERO

SEGUNDA PARTE — AS GUERRAS JUDAICO-ROMANAS


- PRIMEIRA GUERRA JUDAICO-ROMANA: A GRANDE REVOLTA
JUDAICA (66–73 EC)
- Motins étnicos no Egito
- CERCO E QUEDA DE JERUSALÉM ― A DESTRUIÇÃO DO SEGUNDO
TEMPO
- QUEDA DE MASSADA
- CONSEQUÊNCIAS DA GRANDE REVOLTA JUDAICA
- SEGUNDA GUERRA JUDAICO-ROMANA: A REBELIÃO DA
DIÁSPORA OU GUERRA DE KITOS (115–117)
- TERCEIRA GUERRA JUDAICO-ROMANA: A REVOLTA PALESTINA OU
REVOLTA DE BARCOQUEBAS (132–135)
- CONSEQUÊNCIAS DA REVOLTA PALESTINA
- ALGUMAS CONCLUSÕES
- NIETZSCHE SOBRE O CONFLITO “ROMA CONTRA JUDEIA”

TERCEIRA PARTE — O CRISTIANISMO E A QUEDA DO


IMPÉRIO
- SITUEMOS
- APARECE “A SEITA JUDAICA”
- O CASO DE NERO COMO EXEMPLO DE DISTORÇÃO HISTÓRICA
- DESTRUIÇÃO DE JERUSALÉM: O CRISTIANISMO CRIA FORÇAS
FORA DE JUDEIA
- OS CRISTÃOS DEIXAM DE SER PERSEGUIDOS
- NO ALTO DA PIRÂMIDE... SOMENTE HÁ ESCRAVOS: GENOCÍDIO
ANTIPAGÃO
- O IMPERADOR JULIANO COMO ÚLTIMO SUSTENTÁCULO ROMANO
- O GENOCÍDIO ANTI-PAGÃO CONTINUA COM MAIS VIRULÊNCIA
- O MARTÍRIO DE HIPÁTIA COMO EXEMPLO DO TERRORISMO
CRISTÃO
- CONCLUSÃO
- NIETZSCHE SOBRE O CRISTIANISMO
- VERSÃO NIETZSCHIANA DO SERMÃO DA MONTANHA
**********

PRIMEIRA PARTE — AS BASES DO CONFLITO

Os judeus estão há muito tempo em rebelião, não só contra Roma,


mas contra toda a humanidade.  —  (Filóstrato).
Os judeus pertencem a uma força sombria e repulsiva. Sabe-se
quão numerosa é essa camarilha, como são unidos e que poder que
eles exercem através de seus sindicatos. Eles são uma nação de
mentirosos e enganadores.  —  (Cícero).
Os temores dos judeus se confinaram, ao que parece, nos estreitos
limites da vida presente (...) A casmurra obstinação com que
mantinham seus ritos peculiares e suas maneiras antissociais
parecia assinalá-los como uma espécie diferente de homens, que
audazmente professavam ou que mal escondiam sua implacável
aversão ao resto da raça humana. —  (Edward Gibbon).

Na terceira parte, veremos processos que marcaram o primeiro


desenvolvimento do cristianismo, esta estranha síntese entre a
mentalidade judaica e greco-decadente que, do Oriente, devorou o
mundo clássico até os ossos, minando as instituições romanas e a
mentalidade romana até propiciar seu colapso total. No entanto,
começaremos focando nas províncias romanas do Leste,
especialmente na Judeia, que foram tomadas por Roma pelos
herdeiros de Alexandre, o Grande. Como eram as relações entre
gregos e judeus? Qual o papel dos romanos na Ásia Menor e na
gestão do problema judaico? Quais são as verdadeiras raízes de
Israel e a atual instabilidade no Oriente Médio? Vale a pena
expandir o assunto para se familiarizar com as bases do que hoje é
o maior conflito geopolítico do planeta: o Estado de Israel. Também
será útil ver a impossibilidade, a longo prazo, de coexistência entre
duas culturas radicalmente diferentes — neste caso, greco-romana
e judaica.

Por enquanto, na primeira parte, os romanos vão encontrar um


povo que segue a tradição com a mesma seriedade que eles, mas
substituindo esse toque "olímpico", artístico, atlético e aristocrático
por uma centelha de fanatismo e dogmatismo, e mudando o
patriotismo romano por um uma espécie de pacto selado às
costas do resto da humanidade. Um povo, acima de tudo, com um
sentimento de identidade ferozmente enraizado — de fato, muito
mais do que qualquer outro povo — e que também se
consideravam nada mais nem menos que o "povo escolhido"...

CONTEXTO GEOPOLÍTICO, ANTROPOLÓGICO E ÉTNICO

O Oriente Médio ou o Levante —  hoje Turquia, Líbano, Síria,


Iraque, Israel, Palestina, Jordânia e Egito —  tem sido uma zona
geoestratégica muito importante de confrontos entre a Europa de
florestas, neve, rios e névoas, e o profundo Oriente do espírito
seco, ciumento, estéril e inóspito do deserto. Nesta área tem
havido, desde tempos imemoriais, fluxos e refluxos da Europa e da
Ásia e da África se cristalizaram no surgimento do neolítico e das
primeiras civilizações do mundo.
Citando Nietzsche, diríamos que "se você olhar muito tempo para o deserto, o
deserto olhará para você". Se há um ambiente de seleção natural radicalmente
diferente do frio, é o ambiente desértico, monótono e infinito como os lamentos dos
cânticos agora predicados pelos minaretes das mesquitas. Tendo sido imerso nesse
tipo de paisagem por um longo tempo, é fácil para um homem ter alucinações, ver
miragens e imagens distorcidas, ouvir vozes que, segundo o folclore oriental, vêm
de espíritos malignos e, finalmente, perder seu caminho, cair em desespero e
loucura, e deixar sua mente partir para a escuridão... da qual nunca mais voltará. Os
desertos são os lugares onde a ausência total do poder fecundante do Céu
(representado pela chuva e relâmpagos e por deuses tipicamente europeus como
Zeus ou Júpiter) favoreceu o triunfo da Terra e, portanto, a morte da Natureza e a
nivelação, a devastação, a equalização dos horizontes e a falta de permanência do
terreno que é pisado. É imprudente pensar que todos esses elementos não deixam
uma marca profunda na idiossincrasia e no imaginário coletivo de um povo.

É traduzido no assunto que tratamos um confronto que, em última


instância, se reduz a uma insurreição evolutiva do Oriente para não
desaparecer numa competição desigual perante as variedades
humanas europeias. Em 56 AEC [Antes da era comum], em um
discurso intitulado "Sobre as províncias consulares", dado no
Senado de Roma, o próprio Cícero descreve os judeus, juntamente
com os sírios, como "uma raça nascida para ser escrava". Judeus e
sírios eram comunidades étnicas em que a raça armênida estava
fortemente representada, e que são abrangidos como culturas
semitas [sobre isso, ler o artigo da nova classificação racial]. As
ondas semitas têm sido, durante milhares de anos, uma fonte de
caos, violência e tragédia para a Europa. Este artigo abordará
particularmente os judeus, mas sem esquecer doutros grupos,
incluindo árabes, persas e sírios, que fizeram causa comum com
eles em muitas ocasiões, inclusive durante a ascensão do
cristianismo.

Embora hoje tentem endossar o multiculturalismo, a realidade


histórica é que a coexistência entre raças diferentes tem apenas
dois resultados: a "terceiro-mundização" e/ou a balcanização
(conflitos étnicos e rupturas territoriais). Portanto, neste artigo não
falaremos de "coexistência pacífica", tampouco, pois durante
séculos a coexistência entre gregos e judeus foi marcada por
grandes ondas de violência sanguinária.

Longe, então, da fantasia "politicamente correta" de "coexistência


de culturas", vamos investigar o início de uma série de limpezas
étnicas em todo o Mediterrâneo Oriental, culminando no Baixo
Império Romano com a erradicação, no Norte de África e no Oriente
Próximo, das comunidades greco-romanas, e a maior parte do
legado clássico, pelas mãos do Oriente.

- ROMA

É inacreditável a quantidade de adulterações escritas sobre a


história de Roma e a biografia de seus imperadores, mas não tanto
se pensarmos que o Império Romano enfrentou diretamente o que
mais tarde seriam duas forças muito poderosas: o judaísmo e o
cristianismo. Durante séculos, Roma representou (como os
macedônios a representaram antes dela) a encarnação armada e
conquistadora da vontade europeia e o veículo de sangue indo-
europeu no Oriente Médio, no coração do mundo semita, do
judaísmo, do neolítico e o matriarcado. .

Em sua "Anábase de Alexandre Magno", Arriano nos conta como,


enquanto Alexandre, o Grande, estava na Babilônia, ele recebeu
embaixadas de inúmeros reinos do mundo conhecido. Uma dessas
embaixadas veio de Roma, que naquela época era uma República
liderada por um conselho de patrícios anciões, chamados
senadores. Alexandre viu os costumes e o comportamento dos
embaixadores romanos e, sem hesitar, previu que se seu povo
continuasse fiel a esse estilo de vida sóbrio e reto, Roma se tornaria
uma cidade muito poderosa. Antes de morrer, Alexandre deixou em
seu testamento que uma imensa frota tinha que ser construída
para, um dia no futuro, enfrentar a ameaça cartaginesa, que
começava a surgir no horizonte. Roma, como herdeira da missão
alexandrina, também herdou a tarefa geopolítica de acabar com os
cartagineses, um povo de origem fenícia (atual Síria, Líbano e
Israel) que se estabeleceram no que hoje é a Tunísia. Roma
destruiu Cartago em 146 AEC, mas ficou com fortes sequelas e más
lembranças daquele confronto entre o Ocidente e o Oriente, e
nunca mais seria a mesma.

O que impressionou Alexandre sobre os embaixadores romanos, e o


que o fez distingui-los imediatamente dos outros embaixadores?
Simples: os romanos eram um povo extremamente tradicional e
militarizado, cuja vida dançava ao ritmo de severo ritualismo
religioso e austeridade disciplinada. A religião e os costumes
romanos estavam presentes em absolutamente todos os momentos
da vida do cidadão. O mundo, aos olhos de um romano, era um
lugar mágico e sagrado, onde os deuses antigos, os números,
os manes, os lares, os penates, os gênios e inúmeros espíritos
folclóricos, vagando livremente influenciando vidas dos mortais,
mesmo em suas atividades mais diárias ("A cidade de Deus", de
Santo Agostinho, apesar de atacar a religião romana, fornece
informações valiosas sobre sua complexidade). Quando uma
criança nascia, havia uma frase para invocar um nume. Quando
uma criança chorava no berço, outro era invocado. Todas as
qualidades e todos os acontecimentos, de acordo com a
mentalidade romana, mostravam a marca da intervenção criativa
das forças abençoadas do mundo. As famílias reverenciavam
ao pater familias e o antepassado do clã, enquanto todos os
homens se orgulhavam- de ter virtus, uma qualidade divina
associada à habilidade militar, ao treinamento e ao espírito
combativo. Somente a carne de animais sacrificados aos deuses era
comida em rituais de liturgia intransigente e, nas cerimônias
religiosas, a simples gagueira de um sacerdote era mais do que
suficiente para invalidar uma consagração.
O espírito romano: representado aqui com duas tochas, Vesta, equivalente à Héstia
helênica, era uma deusa virginal associada ao lar e ao fogo sagrado, simbolizando o
centro da casa, em torno do qual a família estava agrupada. Suas sacerdotisas, as
vestais, eram virgens que, dentro de seu templo circular, vigiavam o fogo sagrado
que nunca se apagava. Havia uma lei segundo a qual, se um prisioneiro do corredor
da morte visse na rua com uma vestal, ele seria absolvido. Quando alguma delas
falhava em seus deveres, ela era açoitada e, se alguma violasse o voto de
virgindade, era enterrada viva. Este é apenas um exemplo da imensa seriedade
religiosa que reinou nas origens de Roma, muito distante do famoso "declínio do
Império".

Apesar da subsequente influência grega sobre eles, a seriedade em


que os romanos seguiam o ritualismo e o folclore era tão extremo e
o seu patriotismo tão inacreditável que poderíamos pensar que a
devoção (o que eles chamavam de pietas, o cumprimento de seu
dever para com os deuses) que professavam seus costumes e
tradições ancestrais era o segredo de seu imenso sucesso como
povo. Eles desenvolveram tecnologia avançada e, através da
disciplina de seus soldados, da capacidade de seus comandantes e
de uma maneira superior de “fazer coisas”, conquistou todo o
Mediterrâneo, protegendo o sul da Europa.

Se tivéssemos que colocar mais exemplos de povos em que a


fidelidade às tradições foi seguida com a extrema seriedade como o
foi em Roma, apenas três seriam encontrados: a Índia Védica e a
China Han... e o povo judeu.

JUDEIA

Os judeus, de muitas maneiras, eram a antítese dos romanos, mas


tinham algo em comum com eles: rigidez ritual e lealdade aos
costumes. No caso judaico, isso tinha um pouco de fanatismo,
dogmatismo e intransigência. Os romanos consideravam essa
religiosidade sinistra: o contexto religioso bíblico, que é a matriz do
judaísmo (também do cristianismo e do islamismo), vem de uma
antiga tradição sírio-fenícia-cananaíta-semita que, entre outras
coisas, sancionava o sacrifício humano, incluindo o dos
primogênitos.

Os judeus, que tinham uma longa história de nomadismo,


escravidão, perseguição e expulsão do Egito e das civilizações da
Mesopotâmia, mantiveram, apesar de suas grandes oscilações por
mil desertos e mil cidades estrangeiras, sua idiossincrasia
essencialmente imperturbável. Desde a mais remota antiguidade,
os judeus provaram ser um povo inassimilável e altamente
conflituoso, dotado de uma inaudita capacidade de subir nas
posições sociais de civilizações alienígenas, minar suas instituições
e destruir suas tradições e costumes de uma posição parasitária e
avantajada, enriquecer com o processo, tomar o que era útil, se
tornarem cada vez mais sofisticados e, finalmente, sobreviver à
queda da civilização a que devoraram, levando uma bagagem de
experiência e símbolos roubados para a próxima civilização
destinada a sofrer a repetição do ciclo. Em todos os lugares que os
acolheram, os judeus foram acusados de se apropriarem da riqueza
dos demais sem trabalhar (usura), exercerem o vampirismo sobre a
economia, bajularem a nobreza, serem abertamente hostis com o
povo e odiarem mortalmente, em segredo, toda humanidade
gentia.

Aqueles que tinham poder entre os judeus eram os cohen, isto é,


sacerdotes que passaram suas vidas aprendendo a Torá e que
exerciam firme controle psicológico sobre seu povo a base de
ameaças perante a ira de Javé e a base de manipular os medos e
sentimentos do indivíduo como culpa ou pecado. O historiador
grego Estrabão acabaria por descrever os sacerdotes judeus como
“supersticiosos e com temperamento de tiranos”.

Esta é a representação do primeiro templo de Jerusalém, também chamado de


Templo de Salomão ou Sião, construído na esplanada do Monte Moriá, por volta de
960 AEC. O templo foi destruído pelos babilônios em 586 AEC, e reconstruído
setenta anos mais tarde por aqueles judeus que, liderados por Zorobabel, Esdras e
Neemias, retornaram da deportação do chamado “cativeiro babilônico”. Trata-se
duma estrutura um tanto modesta e, naturalmente, seguindo a tradição semítica
fundamentalista, carecia de imagens ou representações da figura humana:
literalmente, o judaísmo era uma religião sem ídolos. O estilo do templo estava em
sintonia com a tradição síria-fenícia-cananaíta, considerada sinistra pelos romanos
por admitir o sacrifício humano, incluindo o infanticídio ritual do primogênito. Os
cartagineses, que haviam sido esmagados por Roma no curso das guerras púnicas,
também foram herdeiros dessa tradição fenícia, associada à presença do haplogrupo
J.
Mas apesar de ser um povo “bárbaro”, desprezado e considerado
destinado à escravidão, os judeus tinham uma taxa de
alfabetização muito alta e, por causa de sua experiência,
conseguiam se sobressair muito bem em ambientes urbanos, posto
que entre todos os povos, eles eram o que levava mais tempo
v i v e n d o e m c o n d i ç õ e s c i v i l i z a d a . E n t r e e l e s e s t a va m ,
indubitavelmente, homens extremamente inteligentes e astutos,
bons em diversas profissões, e seu monoteísmo radical, devido sua
total ruptura com todo o resto do mundo, os distinguia bem de
qualquer outro povo.

ANTISSEMITISMO ROMANO: UM CONFLITO ESPIRITUAL

O que aconteceu após a invasão das tropas romanas na Judeia foi


um confronto espiritual sem precedentes na história da
humanidade. Agora, 4 milhões de judeus dividiam fronteiras com os
outros 65 milhões de súditos do Império Romano.

É impossível escrever um artigo sobre esse assunto sem mencionar


as citações profundamente anti-judaicas que os grandes autores
romanos da época escreveram. Eles perceberam um conflito real
entre dois sistemas de valores exatamente opostos um ao outro. O
choque entre a rigidez romana e o dogmatismo do deserto
provocou em Roma um autêntico movimento de rejeição ao
judaísmo. Embora o anti-semitismo remonte às próprias origens
dos judeus, os romanos, herdeiros dos gregos e de uma disciplina
militar superior, eram, sem dúvida, até então, aqueles que
demonstravam maior hostilidade em relação aos judeus.

Cícero (106-43 AEC), como veremos mais adiante, condena


hostilmente os judeus, considerando que sua mentalidade de
trapaça e covardia é incompatível com a mentalidade altruísta dos
melhores de Roma.

Horácio (65-8 AEC), no livro I de suas "Sátiras", zomba do sábado


sabático.
Sêneca (4 AEC-65 EC) chamou a judaria de "a nação mais
maligna, cujo desperdício de um sétimo da vida [se refere ao sabá]
vai contra a sua utilidade (...) Essas pessoas perversas vieram
estender seus costumes no mundo inteiro, os vencidos deram leis
aos vencedores".

Petrônio (27–66 EC), em seu "Satíricon", ridiculariza a


circuncisão.

Plínio, o Velho (23-79 EC), em sua "História Natural", fala sobre a


"maldade judaica" e se refere aos "judeus, bem conhecidos por seu
desprezo pelos deuses".

Quintiliano (30-100 EC) diz em seu "Institutos de Oratória" que os


judeus são uma zombaria para o resto dos homens, e que sua
religião é a personificação da superstição.

Marcial (40–105 EC), em seus epigramas, acredita que os judeus


seguem um culto do qual sua verdadeira natureza é secreta para
ocultá-la aos olhos do resto do mundo, e condenada a circuncisão,
o Shabat (ou seja, não fazer nada no sétimo dia da semana, o que
lhes dava uma reputação preguiçosa) e sua abstinência de carne de
porco.

Tácito (56–120), em “Histórias”, o famoso historiador que elogiou


os germânicos, também falou sobre os judeus, mas em termos
muito diferentes, alegando que eles descendem de leprosos
expulsos do Egito e que comparado com os assírios, medas e
persas, foram os mais desprezados e humilhados. Entre os termos
com que ele descreve os judeus, temos “perversos, abomináveis,
cruéis, supersticiosos, alheios a toda a lei da religião, malvados e
facinorosos”, entre muitos outros:
Os costumes judeus são tristes, sujos, vis e abomináveis, e se eles
sobrevivem é graças à sua perversidade. De todos os povos
escravizados, eles são os mais desprezíveis e repugnantes...
Para os judeus, é profano tudo o que consideramos sagrado; por
outro lado, lhes parece permissível tudo o que, para nós, é imoral.
Os judeus revelam um vínculo obstinado com eles, o que contrasta
com seu ódio pelo resto da humanidade... Entre eles, nada é lícito.
Aqueles que abraçam sua religião praticam a mesma, e a primeira
coisa que lhes ensinam é desprezar os deuses, esquecer o
patriotismo e negar as pessoas de sua família.
Os judeus são um povo que odeia os deuses e a raça humana. Suas
leis são opostas às dos mortais. Eles desprezam o que é sagrado
para nós. Suas leis lhes incitam a cometer atos que nos horrorizam.

Juvenal (55–130 EC), em “Sátiras”, critica os judeus pelo Shabat,


por não adorarem imagens, pela circuncisão, por não comerem
carne de porco, por serem escrupulosos com suas leis, desprezando
as de Roma, e que somente aos “iniciados” revelam a verdadeira
natureza do judaísmo. Além disso, ele culpa os orientais em geral e
os judeus em particular pela degeneração de Roma.

Marco Aurélio (121–180 EC) passou pela Judeia em sua viagem


para o Egito e ficou surpreso pelos modos da população judaica
local. Parafraseando “eu acho esse povo pior do que os
marcomanos, os cadetes e os sármatas” (citado por Amiano
Marcelino).

Estas citações resumem como os romanos, um povo indo-europeu


marcial, viril e disciplinado, viam a judaria. Pode-se dizer que, até o
triunfo dos romanos, nenhum povo estava tão consciente do
desafio que o judaísmo representava.

Todas essas citações apontam para um inflexível confronto


ideológico, bem como militar, em que tanto Roma e Judeia iam
enfrentar. Um conflito que influenciaria de maneira extraordinária
na História e que, portanto, não pode ser ignorado. Esse artigo
pretende dar uma ideia do que implicou o choque entre Roma e
Judeia.
O LEGADO HELENÍSTICO

Quando os macedônios tomaram o poder [na Judeia], o rei Antíoco


tentou extirpar suas superstições e introduzir os hábitos gregos
para transformar essa raça inferior.  —  (Tácito, “Histórias”)

Para entender os conflitos étnicos virulentos que ocorreram durante


o domínio romano, é necessário voltar alguns anos e nos colocar no
tempo do domínio macedônio, uma vez que os estratos sociais
gregos legados pela conquista de Alexandre, o Grande, tinham
muito a ver com as revoltas da judaria e na longa história de ódio,
tensões, retaliação e contra-retaliação que se seguiram a partir de
então.

Alexandre passou pela Judeia no meio do caminho de conquistar o


Egito. A comunidade judaica, temendo que isso destruísse
Jerusalém, fez com os macedônios o que eles costumavam fazer
sempre que vinha um novo invasor triunfante: trair seus antigos
senhores e dar boas-vindas ao invasor com braços abertos. Assim,
da mesma forma como traíram os babilônios com os persas, eles
traíram os persas com os macedônios. Agradecido, Alexandre lhes
concedeu amplos privilégios, por exemplo, em Alexandria, ele os
equiparou legalmente com a população grega. Este ponto é
importante porque o status legal dos judeus alexandrinos (que
constituiriam quase metade da população da cidade) supôs depois
amargos receios por parte da comunidade grega, levando a
tumultos, o que veremos posteriormente.

Em 323, Alexandre morre e deixa um vasto legado. Toda a área


que dominara, do Egito ao Afeganistão, recebeu uma forte
helenização, que produziu o chamado "período helenístico", para
diferenciá-lo do helênico clássico. Os generais macedônios, os
chamados diádocos, lutaram tolamente entre si para estabelecer
seus próprios impérios, e neste caso falaremos do Império
Ptolemaicos (centrado no Egito) e no Império Selêucida (centrado
na Síria), porque Israel permanecia entre eles, passaria a formar
parte do primeiro e finalmente, em 198 AEC, seria anexada pelos
selêucidas.

Sob o amparo da proteção alexandrina, os judeus se espalharam


não só na Palestina e no Oriente Próximo, mas em toda Roma,
Grécia e Norte da África. Nessas áreas já havia guetos judaicos
bem organizados, ricos e poderosos, todos ligados à Judeia, o
núcleo do judaísmo. Na sociedade judaica, alguns setores sociais
absorveriam a helenização, que, com o fermento dos séculos,
produziu um campo de cultivo cosmopolita que levaria ao
nascimento do cristianismo. Outros setores judaicos, os mais
numerosos, se agarraram à sua tradicional xenofobia e começaram
a reagir contra aqueles que, como Alexandre, haviam recebido
como salvadores. Embora o Oriente Próximo fosse uma colmeia de
egípcios, sírios (também chamados caldeus ou arameus, cujo
idioma era língua franca na área, sendo falado regularmente pelos
judeus), árabes e outros, os judeus tradicionalistas viam com
grande desgosto que a Ásia Menor e Alexandria estivessem se
enchendo de gregos que, naturalmente, eram pagãos e, portanto,
no pensamento judaico, infiéis, ímpios e idólatras, como haviam
sido os odiados egípcios, babilônios e persas antes deles.

Ao longo do tempo, pra infelicidade desses setores da judaria, que


não queriam ser assimilados, foi acrescentada uma série de
medidas decretadas por Antíoco IV Epifânio, o rei selêucida. Em
Dezembro de 168 AEC, Antíoco literalmente proíbe o judaísmo,
tentando eliminar a adoração de Javé, suprimindo qualquer
manifestação religiosa judaica, colocando a circuncisão fora da lei e
até forçando os judeus a comerem comida considerada
religiosamente "impura". Os gregos impuseram um edital pelo qual
um altar aos deuses gregos deveria ser construído em cada cidade
na área, e os oficiais macedônios seriam distribuídos para
assegurar que cada família judia adorasse os deuses gregos. Aqui,
os macedônios simplesmente se mostraram não conhecer o povo
judeu. Segundo o Antigo Testamento (II Macabeus e IV Macabeus),
aqueles que permaneceram fiéis à lei mosaica, Antíoco os queimou
vivos, e os judeus ortodoxos que escaparam para o deserto foram
perseguidos e massacrados. Estas declarações devem ser tomadas
com cautela, mas o que está claro é que houve repressão
antijudaica em geral.

Qual o significado dessas medidas? Devemos ter em mente que o


mundo pagão era um mundo de tolerância religiosa, no qual as
religiões não eram perseguidas assim. No entanto, no judaísmo, os
soberanos gregos deveriam ter visto uma doutrina política que
tenderia a voltar os judeus subversivos contra os Estados pagãos
pelos quais eles eram dominados, hostis aos demais povos do
planeta e, portanto, uma ameaça. Neste contexto, é possível que as
primeiras manifestações de intransigência religiosa vieram da
judiaria (entre outras coisas, porque, como disse, os antigos gregos
pagãos nunca foram religiosamente intransigentes ou intolerantes),
e que aos macedônios, que consideravam seus deuses como
símbolos de seu próprio povo, isso não lhes agradava.

O caso é que, naquele ano de 168 AEC, Antíoco sacrifica nada mais
e nada menos que um porco no altar do templo de Jerusalém, em
homenagem a Zeus. Este ato foi considerado uma dupla
profanação, por um lado porque era um porco (animal profano dos
credos semitas como no judaísmo e islamismo), e por outro lado
porque isso supunha o primeiro passo de consagrar todo o templo
ao Zeus olímpico e converter Jerusalém em uma cidade grega.
Moeda de Antíoco IV Epifânio, rei selêucida e descendente de Seleuco I Nicátor,
talvez o mais brilhante dos generais de Alexandre. De acordo com a tradição
judaica, este rei macedônio, ao profanar o altar do templo de Jerusalém derramando
sangue de porco, foi possuído por um demônio, o mesmo que possuirá o Anti-
messias (Anticristo) ou o “príncipe que há de vir” falado no Antigo Testamento
(Daniel, 9:26).

Esse ato sacrílego trouxe uma forte reação dos setores judaicos
mais fundamentalistas. Os rabinos mais fanáticos começaram a
pregar uma espécie de guerra santa contra a ocupação grega,
instando os judeus a se rebelarem, e quando o primeiro judeu
timidamente decidiu fazer uma oferenda ao Zeus grego, um rabino,
Matatias ben Johanan, o matou. Os tumultos étnicos subsequentes
levaram ao período conhecido como "Guerras Macabéias" (anos
167-141 AEC), muito do qual é falado no Antigo Testamento
(Macabeus). Realizando, com os hassidim (os "judeus piedosos",
também chamados chassídicos), uma guerra de guerrilha contra as
tropas macedônicas cercadas por todos os lados, os “macabeus”
foram finalmente salvos de serem esmagados quando uma rebelião
anti-grega estourou em Antioquia, e esmagou a influência dos
judeus helenizados. Judas Macabeu, que sucedeu a Matatias,
renovando o ciclo de traição, também iria negociar com os romanos
para garantir seu apoio. De fato, o Senado romano reconheceria
formalmente a dinastia asmoneu em 139 AEC, sem suspeitar das
dores de cabeça que esta remota terra daria em um futuro
próximo.
Judá, sob a dinastia asmoneu. Posteriormente, sob Herodes, a Torre de Straton seria
reconstruída como Cesareia. Não é o propósito deste artigo tratar do período
asmoneu, mas basta dizer que as guerras macabéias, que coincidiram com o declínio
dos selêucidas, levaram a um período de autonomia e expansão judaica sob o
reinado dos asmoneus, que teve inúmeras campanhas internas, guerras fratricidas e
combates entre facções religiosas, e durou até a invasão romana em 63 AEC.

Durante este período, além dos judeus helenizados, haveriam


outras duas facções judaicas importantes, também em disputa: por
um lado, os fariseus, um setor integrista que tinha o apoio das
multidões e, por outro, o saduceus, um grupo de sacerdotes mais
“progressistas”, mais “burgueses”, em melhores relações com os
gregos e que no futuro seriam vítimas da “revolução cultural” que
os fariseus realizariam contra eles após a queda da judiaria nas
mãos de Roma. Seus escritos foram destruídos pelos romanos, de
modo que a visão que temos atualmente do cenário é graças aos
fariseus, do qual viriam as linhagens de rabinos ortodoxos que
completariam o Talmude. A dinastia asmoneu, apesar de muitos
altos e baixos, seria essencialmente pró-saduceu.

O ANTISSEMITISMO GREGO

Aqui a escola alexandrina é particularmente relevante, pois, tendo a


população judaica mais importante (quase metade do total),
também possuía a mais importante tradição "anti-semita" (uso
aspas porque sírios, babilônios e árabes eram semitas e os
alexandrinos não tinham nada contra eles). Como uma parte
importante da história judaica ocorreu no Egito, esses escritores
egípcios helenizados a atacaram severamente. Além disso, os
gregos do Oriente Próximo viviam mal com os judeus há muito
tempo, e durante esse tempo uma verdadeira animosidade se
desenvolveu entre os dois povos.

Hecateu de Abdera (cerca de 320 AEC, não era alexandrino) foi


provavelmente o primeiro pagão a escrever sobre a história judaica
(e não o fez em bons termos):

Por causa de uma praga, os egípcios expulsaram-os... A maioria


fugiu para a desabitada Judeia, e seu líder Moisés estabeleceu um
culto diferente de todos os outros. Os judeus adotaram uma vida
misantrópica e inóspita.

Manetão (por volta do século III AEC), sacerdote e historiador


egípcio, em sua “História do Egito” (a primeira vez que alguém
escreveu a história do Egito em grego) diz que, no tempo do
reinado de Amenófis, os judeus foram expulsos de Heliópolis com
uma colônia de leprosos comandados por um renegado sacerdote
chamado Osarsef ou Osarsif, a quem ele identifica com Moisés, que
lhes ensinou costumes contrários aos dos egípcios, que lhes
ordenou não se associarem com o resto dos povos e os fez queimar
e pilhar muitos povoados egípcios do Vale do Nilo antes de sair do
Egito à Ásia Menor. Os posteriores estoicos Posidônio (filósofo e
historiador) e Queremón (tutor do Imperador Nero),
complementaram o que foi dito por Mâneton.
Mnaseas de Patara (por volta do século III AEC), discípulo de
Eratóstenes, foi o primeiro a dizer algo que mais tarde seria
recorrente no antissemitismo grego e também romano: que os
judeus, no templo de Jerusalém, adoravam uma cabeça de asno
feita de ouro.

Lisímaco de Alexandria (época desconhecida) disse que Moisés


foi uma espécie de mago negro e impostor, que suas leis,
equivalentes às registradas no Talmude, eram imorais e que os
judeus eram leprosos.

Agatárquides de Cnido (por volta do século II AEC), em


“Assuntos da Ásia”, zomba da lei mosaica e suas práticas,
especialmente o descanso sabático.

Posidônio (135-51 AEC) diz que os judeus são “um povo ímpio,
odiado pelos deuses”.

Apolônio Mólon (cerca de 70 AEC), gramático, retórico, orador e


professor de César e Cícero numa academia de Rodes, no século I
AEC, dedicou toda uma obra aos judeus, os chamando de ateus
disfarçados de monoteístas (talvez ele não conseguia conceber uma
religião sem ídolos) e de misantropos.

Estrabão (63 AEC-25 EC), geógrafo grego, em


sua “Geografia” admira a figura de Moisés, mas acredita que os
sacerdotes posteriores distorceram sua história e impuseram aos
judeus um estilo de vida antinatural. Nesta citação fica claro que os
judeus, já naquela época, constituíam uma poderosa máfia
internacional:

Os judeus penetraram em todos os países, por isso é difícil


encontrar qualquer lugar no mundo onde sua tribo não entrou e
onde não estão poderosamente estabelecidos.

Diodoro Sículo (cerca de 50 AEC), historiador grego da Sicília, diz


em “Biblioteca Histórica”:
Os judeus tratam os outros como inimigos e inferiores. A “usura” é
a sua prática de emprestar dinheiro com taxas de juros abusivas.
Isto tem causado durante séculos a miséria e a pobreza dos
gentios, e foi uma forte condenação para os judeus.
Os conselheiros do rei Antíoco disseram-lhe para exterminar
completamente a nação judaica, porque os judeus, como único
povo no mundo, resistiram a se misturar com outras nações. Eles
julgam todas as outras nações como suas inimigas e passaram essa
inimizade como uma herança para as gerações futuras. Seus livros
sagrados contêm regras aberrantes e inscrições hostis a toda a
humanidade.

Demócrito (século I AEC): “A cada sete anos eles pegam um


gentio e o assassinam no templo...”. Foi aqui, talvez, que começou
a se espalhar a acusação mais séria contra os judeus, quer dizer,
que sacrificavam os não-judeus a Javé. Esta acusação, chamada
“libelo de sangue”, foi recorrente durante a Idade Média tanto na
Europa como na Ásia, e também, depois, na Alemanha nazista.

Apião (cerca de 30-48 EC), escritor egípcio e principal promotor do


pogrom de Alexandria do ano 38 EC, que culminou em um
massacre de cinquenta mil judeus pelas mãos do exército romano.
Ele disse que os judeus estavam vinculados por um pacto mútuo
que consistia em nunca ajudar qualquer estrangeiro, especialmente
se fosse grego.

Os princípios do judaísmo obrigam-os a odiar o resto da


humanidade. Uma vez por ano eles pegam um não-judeu, o
assassinam e provam suas vísceras, jurando durante a refeição que
irão odiar a nação donde provinha a vítima. No Santíssimo Lugar do
templo sagrado de Jerusalém há uma cabeça de asno feita de ouro
que os judeus idolatram. O Shabat se originou devido uma doença
pélvica que os judeus contraíram quando fugiram do Egito,
forçando-os a descansar no sétimo dia.

Plutarco (cerca de 50-120 EC), iniciado nos mistérios de Apolo em


Queroneia e sacerdote no santuário de Delfos. É uma das fontes
favoritas de informação sobre o estilo de vida de Esparta. Ele diz
em “Conversas à mesa” que os judeus não matam nem comem
porco ou asno porque eles os adoram religiosamente, e que no
Shabat eles ficam bêbados.

Filo de Biblos (cerca de 64-141 EC), fenício helenizado que


escreveu sobre a história fenícia, a religião fenícia e os judeus, fala
dos sacrifícios humanos dos primogênitos (lembre-se da passagem
de Abraão e seu filho Isaac).

Filóstrato (170-250 EC), sofista do século II EC:

Os judeus são um povo que se levantaram contra a própria


humanidade (...) É uma raça que construiu a própria vida à parte e
irreconciliável, e que não pode partilhar com o restante da
humanidade os prazeres da mesa, nem dividir com eles suas
libações, preces ou sacrifícios; são separados de nós por um golfo
maior do que aquele que nos divide de Sura ou Bactra, das Índias
mais distantes.

Celso (por volta do século II EC), filósofo grego, especialmente


conhecido por sua obra "A palavra verdadeira", no qual ataca o
cristianismo, e também o judaísmo, que inicialmente estava
associado ao mesmo. Orígenes de Alexandria (cerca de 185-253
EC), um dos “pais da Igreja” que cortou seus testículos inspirados
por um versículo do Evangelho de Mateus (19:12), escreveu o
"Contra Celso". Parafraseando Celso: “Os judeus são fugitivos do
Egito que nunca fizeram nada de valor e nunca tiveram estima ou
boa reputação”.

A CONQUISTA DE POMPEU

Esta capítulo tratará da primeira intervenção direta da autoridade


romana em solo judaico.
Em Israel, com a morte de Alexandre Janeu (rei da dinastia
asmoneu, descendente dos macabeus) em 76 AEC, sua esposa
Salomé Alexandra reinou como sua sucessora. Ao contrário do
marido, que, como bom pró-saduceu, reprimira fortemente os
fariseus, Salomé se dava bem com a facção dos fariseus.
Quando ela morreu, seus dois filhos, Hircano II (associado aos
fariseus e apoiado pelo xeique árabe Aretas de Petra) e Aristóbulo
II (apoiado pelos saduceus) lutaram pelo poder. Em 63 AEC, ambos
os asmoneus pediram apoio ao caudilho romano Pompeu, pelo qual
suas legiões vitoriosas estavam em Damasco depois de ter deposto
o último rei macedônio da Síria (o selêucida Antíoco XIII Asiático) e
agora procuravam conquistar Fenícia e Judeia, talvez para
incorporar a nova província romana da Síria. Pompeu, que recebeu
dinheiro de ambas as facções, finalmente escolheu o lado de
Hircano II — talvez porque os fariseus representavam a maioria das
massas da Judeia. Aristóbulo II, recusando aceitar a decisão do
general, entrincheirou-se em Jerusalém com seus homens.

Os romanos, portanto, sitiaram a capital. Aristóbulo II e seus


seguidores duraram três meses, enquanto os sacerdotes saduceus
no templo oravam e ofereciam sacrifícios a Javé. Aproveitando o
fato de que os judeus não lutavam no Shabat, os romanos minaram
os muros de Jerusalém, após o que penetraram rapidamente na
cidade, capturando Aristóbulo e matando 12, 000 judeus. [1]

O próprio Pompeu entrou no templo em Jerusalém, curioso para ver


o deus dos judeus. Acostumado a ver numerosos templos de
muitos povos diferentes, e educado na mente europeia de que um
deus deve ser representado em forma humana para receber o culto
dos mortais, Pompeu ficou perplexo quando não viu nenhuma
estátua, nenhum relevo, nenhum ídolo, nenhuma imagem. ...
Apenas um castiçal, vasos, uma mesa de ouro, dois mil talentos de
"dinheiro sagrado", especiarias e montanhas de pergaminhos da
Torá [2]. Eles não tinham um deus? Eram ateus? Eles não
adoraram nada? O dinheiro? O ouro? Um simples livro, como se a
alma, os sentimentos e a vontade de um povo dependessem de um
rolo de papel inerte? A reação do general, como Flavio Josefo
relata, foi confusa. O romano encontrou um deus abstrato.

Para a mentalidade judaica, Pompeu cometeu um sacrilégio, uma


vez que entrou no lugar mais sagrado do templo, que somente o
sumo sacerdote podia entrar. Além disso, os legionários fizeram um
sacrifico a seus estandartes, "contaminando" a área novamente.

Após a queda de Jerusalém, todo o território conquistado pela


dinastia asmoneu (ou macabeu) foi anexado pelo Império Romano.
Hircano II tornou-se rei de Roma sob o título de “Etnarca” (algo
como “líder nacional”), dominando tudo o que Roma não anexou,
isto é, os territórios de Galileia e de Judeia, que de agora em diante
iria dar tributo a Roma mas manteria sua independência. Ele
também foi feito sumo sacerdote, mas na prática, o poder da
Judeia foi parar nas mãos de Antípatro (pai de Herodes), como uma
recompensa por ajudar os romanos.
Pompeu anexou à Roma as áreas mais helenizadas do território judeu, enquanto
Hircano II permaneceu como rei fantoche de Roma até sua morte.

Do ponto de vista étnico e cultural, a conquista romana previu


novas e profundas mudanças naquela área problemática que é o
Oriente Próximo. Primeiramente, seria adicionada uma aristocracia
romana ocupadora de um caráter militar entre os estratos étnicos
judeus, sírios, árabes e gregos. Para os gregos, isso era uma fonte
de alegria: o declínio do Império Selêucida os deixara de lado, e,
ademais, tinham literalmente Roma na palma da mão, já que os
romanos sentiam uma profunda e sincera admiração pela cultura
helenística, para não mencionar que muitos de seus imperadores
tiveram uma educação grega que os predispôs a serem
especialmente indulgentes com as colônias macedônias. Além
disso, em Alexandria, era de se esperar que, diante dos distúrbios
com a judaria, os romanos tirassem os direitos que Alexandre
concedeu aos judeus, e assim estes deixariam de ser cidadãos em
igualdade com os gregos, e a influência que exerciam através do
comércio e da acumulação de dinheiro seria erradicada. Por essas
razões, não é surpreendente que em Decápole (um conjunto de
cidades helenizadas nas fronteiras do deserto que também
mantinham uma considerável autonomia, incluindo a Filadélfia,
agora Amã, atual capital da Jordânia), cercado por tribos sírias,
judias e árabes consideradas bárbaras, acolheram os romanos de
braços abertos e começaram a contar os anos desde a conquista de
Pompeu.

Em 62-61 AEC, o pró-cônsul Lúcio Valério Flaco (filho do cônsul de


mesmo nome e irmão do cônsul Caio Valério Flaco) confiscou o
tributo de “dinheiro sagrado” que os judeus mandavam ao templo
de Jerusalém. Como reação, os judeus instigaram o povo contra
Flaco. O conhecido patriota romano Cícero defendeu Flaco contra o
acusador Décimo Laélio (um tribuno da plebe que posteriormente
apoiaria Pompeu contra Júlio César) e falou sobre os judeus de
Roma em seu “Pro Flaccus”, XVIII:

Chegamos agora ao importante assunto dos judeus e por essa


imputação tão odiosa. É por causa desta acusação particular que
você tem procurado este lugar, Laélio (o promotor) e esta multidão
de judeus que nos rodeiam. Conheces o seu número, a sua união e
seu poder em nossas assembleias. Falo baixo para não ser ouvido a
não ser pelos juízes. Como não faltam indivíduos entre aqueles que
agem contra mim e contra os melhores cidadãos que você protege,
não quero fornecer aqui novas armas a sua maldade. Havia
sabedoria (em Flaco) para terminar uma superstição bárbara
(judia), e firmeza em varrer, pelo bem da República, esta multidão
de judeus, que perturbam nossas assembleias.
Cícero. Considerava a usura como a mais desprezível das ocupações.

Desta frase podemos deduzir que já no século I AEC os judeus


tinham grande poder político em Roma, e que também tinham uma
importante capacidade de mobilização social contra seus
adversários políticos, que abaixavam a voz por medo da pressão
dos lobbies.

Por volta de 55 AEC, a República, que, muito grande e militarizada,


exige uma nova forma de governo, é dirigida de facto pelo chamado
Triunvirato — uma aliança de três grandes comandantes militares:
Marco Licínio Crasso (que esmagou a revolta de Espártaco em 74
AEC), Cneu Pompeu Magno (o conquistador da Síria) e Caio
Júlio César (conquistador da Gália). Em 54 AEC, Crasso, então
governador romano da província da Síria, ao passar o inverno na
Judeia, decretou um “imposto de guerra” sobre a população para
financiar seu exército, e também saqueou o templo de Jerusalém,
roubando seus tesouros (no valor de dez mil talentos) e causando
grande agitação na judaria. Crasso e a maioria de seu exército
seriam massacrados pelos partos na infeliz Batalha de Carras (53
AEC).

Crasso, que cometeu um erro crasso (daí o termo) durante a batalha, foi
responsável pelo massacre de vinte mil soldados pelas mãos dos partos. Outros dez
mil soldados romanos foram feitos prisioneiros e enviados para fazer trabalho
forçado para o que é agora o Afeganistão. Muitos acabaram lutando, sob o mando
parto, contra os hunos, e se perdendo no caminho. A análise genética parece indicar
que este destacamento, a famosa "legião perdida de Crasso", terminou na atual
província chinesa de Liqian (cujo nome é uma corruptela de "legião"), onde a
população contém uma maior frequência de características étnicas europeias. Mas
essa história vimos no artigo sobre a invasão ariana.

Lúcio Cássio Longino, um dos líderes de Crasso que conseguiu


escapar do massacre de Carras com seus quinhentos cavaleiros,
retornou à Síria para se preparar para um contra-ataque parto e
restabelecer o prestígio romano afundado na província. Depois de
expulsar os partos, Cássio teve de enfrentar uma rebelião judaica
que surgiu assim que souberam que Crasso tinha sido morto. Ele se
aliou a Antípatro e a Hircano II, e depois de tomar Tariqueia e
executar Pitolau (um dos cabeças da rebelião), capturou trinta mil
judeus e, em 52 AEC, os vendeu como escravos em Roma. Pode-se
dizer que este é o verdadeiro início da subversão dentro da própria
Roma, uma vez que esses escravos, mais tarde libertados por
Marco Antônio, e seus descendentes, dispersos pelo Império, não
cessariam de promover agitação contra a autoridade romana, e
teriam um papel importante na construção das catacumbas e
sinagogas subterrâneas, que foram posteriormente o primeiro
campo de pregação do cristianismo. Cássio seria mais tarde
nomeado governador da Síria.

A situação do Império Romano em 50 AEC. César conquistou Gália, Pompeu


conquistou Síria e Fenícia, e a Judeia, no extremo sudeste do Império, é um
território que paga tributo a Roma e está sob órbita romana, apesar de manter sua
autonomia.

Em 49 AEC, quando Crasso estava morto e, portanto, o triunvirato


desfeito, a guerra civil estourou entre Pompeu e César, um dos
quais, inevitavelmente, tornar-se-ia o ditador autocrático de todo o
Império. Antípatro e Hircano II decidiram tomar partido por César,
mas este colocou Antípatro de regente. Júlio César logo seria o
mestre da situação, e Pompeu foi assassinado no Egito por
conspiradores.

Rivais, mas não inimigos: os generais Pompeu, o Grande (à esquerda) e Júlio César
(à direita). A honra entre eles se tornou aparente quando o próprio César,
lamentando a maneira suja e traiçoeira com que Pompeu foi assassinado no Egito,
executou seus assassinos, depois erguendo um templo para homenagear seu
respeitado adversário.

Em 48 AEC, enquanto as frotas romana e ptolomaica estavam


envolvidas em uma batalha naval, ocorreu um evento para agitar
ainda mais as relações entre judeus, gregos e egípcios: a queima
da Biblioteca de Alexandria. Simplificando, de todos os grupos
étnicos da cidade, ninguém poderia ter nada contra a biblioteca. Os
gregos a tinham fundado, os egípcios haviam contribuído muito
nela, e os romanos admiravam sinceramente este legado
helenístico. Os judeus, no entanto, viam na biblioteca um conjunto
de sabedoria “profana” e “pagã”, de modo que, se houve um grupo
suspeito da primeira queima da biblioteca, logicamente, foi a
judaria, ou os setores mais ortodoxos e fundamentalistas da
mesma. Pelo menos devem ter pensado assim os habitantes de
Alexandria.

No mesmo ano de 43 AEC, os partos, um povo iraniano que lutava


contra Roma naquela época, invadiram a área, conquistando a
Judeia. Antígono (filho de Aristóbulo II), o último asmoneu, como
rei da Judeia, era um fantoche dos partos, e cortou as orelhas de
Hircano II (para ser um sumo sacerdote não podia ter imperfeições
físicas) e mandou ele acorrentado para a Babilônia. Assim, os
judeus voltaram a cair sob o domínio de um povo iraniano. Mas a
situação foi breve. Marco Antônio, do qual seu exército era apoiado
pela rainha do Egito, a Cleópatra (descendente do macedônico
Ptolemeu I Sóter, general de Alexandre), reconquistou Jerusalém
em 37 AEC, estabelecendo como marionete de Roma o rei Herodes,
antes de lançar uma campanha contra o Império Parto. Antígono foi
executado (crucificado de acordo com Dião Cássio, decapitado de
acordo com Plutarco) por ordem de Marco Antônio.

Em 31 AEC, ano de um forte terremoto em Israel que matou trinta


mil pessoas, Cleópatra e Marco Antônio cometem suicídio antes de
sua queda em desgraça devido seu complô contra Otávio Augusto
(aliás, César Augusto). Um ano depois, Herodes, que jurou lealdade
a Augusto, é reconhecido por ele como rei (uma marionete de
Roma, é claro) de Israel.

Flávio Josefo menciona durante o reinado de Augusto uma queixa


judicial na qual oito mil judeus apoiaram uma das partes. Esses
judeus deviam ser todos adultos do sexo masculino, e dado que
uma família nuclear costumava ser de quatro ou cinco pessoas,
podemos imaginar que na Roma de Augusto havia em torno de
trinta e cinco mil judeus.
César Otávio Augusto, o primeiro imperador romano.

HERODES, O GRANDE

Como vimos, Augusto, sucessor de Júlio César à frente do Império


Romano, nomeou Herodes, filho de Antípatro, rei da Judeia, e
financiou seu exército com dinheiro romano. Herodes era um líder
capaz, brutal, competente e inescrupuloso (derrubou praticamente
toda a sua família), além de um excelente guerreiro, caçador e
arqueiro. Ele expulsou os partos da Judeia, protegeu Jerusalém de
saques, perseguiu bandidos e ladrões de estrada e também
executou os judeus que haviam apoiado o regime de marionetes do
partos, estabelecendo-se em 37 AEC como rei da Judeia.

Embora retratado pela história como um rei implacável e duro, a


realidade é que como soberano ele foi um dos melhores que houve.
Ainda no ano 25 AEC, ele sacrificou importantes riquezas pessoais
para importar grandes quantidades de grãos do Egito, com o
objetivo de combater uma fome que estava espalhando miséria em
seu país. Apesar disso e tudo o que fez por Israel, Herodes é visto
com antipatia pelos judeus por ser um soberano pró-romano, pró-
grego e, acima de tudo, porque seu judaísmo era questionado:
Herodes descendia do lado paterno de Antípatro (que apoiou
Cássio), que por sua vez descendia de edomitas forçados a
conversão ao judaísmo quando João Hircano, um rei asmoneu,
conquistou Idumeia (ou Edom) por volta de 135 AEC. Por parte
materna descendia de árabes, quando a transmissão da condição
de judeu era matrilinear. Por isso, embora Herodes fosse
considerado judeu pela maioria das autoridades, as massas do povo
judeu, especialmente as mais ortodoxas, desconfiavam
sistematicamente do rei, especialmente em vista do opulento e
luxuoso estilo de vida que ele impôs em sua corte, e tinham
desprezo por ele. Por sua educação e suas inclinações greco-
romanas, este rei provavelmente se sentia- pouco judeu, embora
ele, sem dúvida, queria agradar os judeus e ser um bom
governante. Entretanto, sendo mais racional que seus súditos
fundamentalistas, percebeu que enfurecer os romanos não era um
bom negócio.

Herodes deu a Israel um esplendor que nunca havia conhecido,


mesmo sob Davi ou Salomão. Embelezou Jerusalém com
arquitetura e escultura helenística, realizou um ambicioso programa
de obras públicas e em 19 AEC demoliu e reconstruiu o templo em
Jerusalém, o considerando muito pequeno e medíocre. Isso irritou
os judeus, que odiavam Herodes por ser um protegido dos
romanos, a quem eles odiavam ainda mais. Sem dúvida, os setores
mais radicais da judaria estavam felizes com o templo tal como era,
e eles devem ter entendido errado sua conversão em um edifício de
aparência mais romana (especialmente quando o rei mandou
d e c o ra r a e n t ra d a c o m u m a á g u i a i m p e r i a l d o u ra d a ) .
Paradoxalmente, os judeus mais tarde lamentariam a destruição
deste mesmo templo pelas mãos dos romanos.
Este mapa do reinado de Herodes dá uma ideia sobre a magnitude de suas obras.
Destacam-se a construção de Cesareia, Séforis (perto de Nazaré) e Massada (em
frente ao Mar Morto) e Heródio (perto de Belém), bem como a reconstrução de
Samaria sob o nome de Sebaste, num gesto de homenagem ao Imperador
(sebastos significa Augusto em grego). Também construiu pontes, aquedutos e
outras novidades de origem romana. Para financiar tudo isso, ele aumentou os
impostos, o que o tornou antipático aos olhos do povo judeu, relutantes em ver
como seu país estava melhorando.

Herodes estava continuamente envolvido em conspirações por sua


família, muitos dos quais (incluindo sua própria esposa e dois de
seus filhos) foi executado por sua própria ordem. Conforme o
tempo, o soberano ficou começou a ficar mais doente (ele sofria de
úlcera e convulsões). Morreu em 4 AEC, na idade de 69 anos.
O primeiro templo em Jerusalém era uma estrutura modesta, como vimos no início.
O segundo, semelhante ao primeiro, foi construído sob a proteção do imperador
persa Ciro II em 515 AEC [1]. No ano de 19 AEC, Herodes propôs renová-lo e
ampliá-lo, pelo qual demoliu o templo, erigindo, sob proteção romana, um novo
grandioso, embora continuasse a ser chamado de “segundo templo” (templo de
Herodes precisamente). Ainda que os judeus odiassem Herodes, a verdade é que ele
deu ao templo um tamanho e um esplendor que nem Salomão ou Zorobabel
poderiam ter imaginado.

No mesmo ano de 4 AEC, dois fariseus judeus chamado Zadoque e


Judas, o Galileu (também chamado de Judas de Gamala) fizeram
uma apelação para não pagarem tributo a Roma. Houve uma
revolta farisaica, e os rabinos ordenaram destruir a imagem
“idólatra” da águia imperial que Herodes colocou na entrada do
templo de Jerusalém. Herodes Arquelau (filho de Herodes) e Varo
(militar romano) sufocaram a revolta, e crucificaram quase três mil
judeus. Pensa-se que talvez esta primeira revolta seja a origem do
movimento zelote, do qual falaremos mais adiante. Arquelau,
apesar de ter sido proclamado rei por seu exército, não assume o
título até que, em Roma, depois de ter apresentado seus respeitos
a César Augusto, é feito etnarca da Judeia, Samaria e Idumeia,
apesar dos judeus de Roma, que o temiam pela crueldade com que
ele tinha suprimido a revolta farisaica.

Arquelau é mencionado no Evangelho de Mateus, dado que Yosef,


Miriam e Yeshua (conhecidos como José, Maria e Jesus,
respectivamente) tinham fugido para o Egito para evitar o Massacre
dos Inocentes (supostamente, Herodes Arquelau ordenou naquele
ano a execução de todos os primogênitos de Belém, uma vez que
profetizou que um nascido se declararia o Messias dos judeus), e
tinham medo de voltar para a Judeia quando souberam que
Arquelau tinha sucedido seu pai.
O Império Romano no ano do nascimento de Jesus Cristo. Herodes Arquelau é o
governante da Judeia, um fantoche de Roma. Cinco anos depois, Judeia se tornaria
uma província romana. A cidade de Roma nessa época tem por volta de um milhão
de habitantes, dos quais mais da metade são escravos.

Em 6 AEC, após as queixas dos judeus, Augusto despacha


Arquelau, o enviando para a Gália. Samaria, Judeia e Idumeia são
formalmente anexadas como uma província do Império Romano,
com o nome de Judeia. Os judeus passam a ser governados por
procuradores romanos, uma espécie de governadores que tinham
de manter a paz, "romanizar" a região e exercer a política fiscal de
Roma cobrando impostos. Eles também arrogaram o direito de
nomear o sumo sacerdote de sua escolha.

Os judeus odiavam os reis fantoches, embora estes impusessem


ordem, desenvolvessem a região e, em suma, "civilizassem" o país.
Paradoxalmente, desde o início, a judaria também foi altamente
hostil para com os romanos, no qual sua intervenção havia sido
praticamente implorada. Agora, além do tributo ao templo, eles
também tinham que tributar a César — e, pela tradição, o dinheiro
não era algo que os judeus dessem facilmente. Nesse mesmo ano,
o cônsul Quirino chega à Síria para fazer um censo em nome de
Roma, com o objetivo de estabelecer impostos. Dado que Judeia
tinha sido anexada à Síria, Quirino incluiu os judeus no censo.
Como resultado disto e da nova irrupção da cultura europeia na
área, nasceu o movimento terrorista dos zelotes. Josefo
considerava os zelotes como a quarta seita judaica além (de menor
a maior extremismo religioso) dos essênios, saduceus e fariseus.
Os zelotes eram os mais fundamentalistas de todos, pois se
recusavam a pagar impostos ao Império Romano, e para eles todas
as outras facções judaicas eram heréticas; qualquer judeu que
colaborasse minimamente com as autoridades romanas era culpado
de traição e devia ser executado. A luta armada, a militarização do
povo judeu e, por fim, a expulsão dos romanos, era o único
caminho para alcançar a redenção de Sião. O apóstolo Simão, um
dos discípulos de Jesus Cristo, pertencia a esta facção de acordo
com a Bíblia (Novo Testamento, Evangelho de Lucas, 6:15).

Dentro dos zelotes, os sicários se distinguiam por ser uma facção


ainda mais fanática, sectária e radical, chamados assim pela sica,
um punhal que poderia ser facilmente escondido e usado para
assassinar seus inimigos. Os zelotes e os sicários formariam o
núcleo duro da Grande Revolta Judaica, que veremos na segunda
parte. Eles também eram o elemento mais ativo do judaísmo na
época, já que naquela época era provável que a maioria dos
judeus, embora detestassem cordialmente os gregos e os romanos,
simplesmente gostariam de viver e enriquecer em paz,
concordando com o que fosse necessário para isso.

Como não poderia ser de outra forma, os sicários e zelotes também


lutaram muitas vezes entre si. É que havia um total de vinte e
quatro facções judaicas que geralmente lutavam umas contra as
outras, num quadro muito representativo do que os rabinos
denominavam sinat chinam (isto é, “ódio gratuito”, de judeu contra
judeu )  —  e que talvez tenha sido melhor caricaturado no filme “A
vida de Brian” de 1979.
Em 19 EC, quando a judaria estava em processo de escalada para
ganhar influência em Roma, Tibério expulsou os judeus da cidade,
instigado pelo Senado. Preocupado com a popularidade do judaísmo
entre os escravos libertados, ele proibiu os ritos judaicos na capital
do Império, considerando os judeus como “um perigo para Roma” e
“indignos de permanecer entre os muros da urbe [cidade]”, (de
acordo com Suetônio). Naquele ano, por ocasião de uma fome na
província do Egito, Tibério nega as reservas de grãos aos judeus
alexandrinos, já que não os considera seus cidadãos.

SOBRE JESUS CRISTO E O NASCIMENTO DO CRISTIANISMO

Pois assim o Senhor nos ordenou: “Eu fiz de você luz para os
gentios, para que você leve a salvação até aos confins da terra”.  — 
(Bíblia, Novo Testamento, Atos 13:47).
Vocês adoram o que não conhecem; nós adoramos o que
conhecemos, pois a salvação vem dos judeus.  —  (Bíblia, Novo
Testamento, Evangelho de João, 4:22).
Mas tu, Belém, da terra de Judá, de forma alguma és a menor
entre as principais cidades de Judá; pois de ti virá o líder que, como
pastor, conduzirá Israel, o meu povo.  —  (Bíblia, Novo Testamento,
Evangelho de Mateus, 2:6).
O autor dessa seita era Chrestus, que no reinado de Tibério sofreu
pena de morte, como criminoso, pelo procurador Pôncio Pilatos.
Reprimida por pouco tempo, essa abominável superstição surgiu
novamente, não apenas na Judeia, o seu lugar de origem, mas
também em Roma.  —  (Tácito, “Anais”, sobre a perseguição anti-
judaico-cristã decretada pelo Imperador Nero).

Vimos no capítulo anterior a fuga de alguns judeus, tal como Yosef


e Miriam com seu filho Yeshua para escapar do massacre ordenado
por Herodes Arquelau. Quem eram essas pessoas? Yosef (vulgo
José), o pai, era um judeu da Casa de Davi, mas como ele
supostamente não interveio na gravidez da virgem, examinaremos
a linhagem de Miriam (vulgo Maria). De acordo com o Evangelho de
Lucas (1: 5,36), esta era da família de Davi e da tribo de Judá, e o
anjo que apareceu a ela previu um filho que Javé “lhe dará o trono
de seu pai Davi, e ele reinará para sempre sobre o povo de Jacó”.
Jesus enfim nasce em Bethlehem (Belém). No Evangelho de
Mateus (1:1) é associado a Abraão e Davi, e nesse mesmo
evangelho (21:9) descreve como as multidões judaicas de
Jerusalém aclamam Jesus gritando “Hosana ao Filho de Davi!”, sem
mencionar, é claro, os “magos do Oriente” que visitaram o Messias
seguindo uma estrela e perguntaram: “Onde está o recém-nascido
rei dos judeus?” (Mateus 2: 1–2).

Jesus, que nunca pretendeu fundar uma nova religião, mas sim
preservar o judaísmo ortodoxo, deixou claro que "Não pensem que
vim abolir a Lei (de Moisés, a Torá) ou os Profetas; não vim abolir,
mas cumprir" (Mateus 5:17), e enfurecido ao ver que o templo de
Jerusalém estava sendo profanado por mercadores, expulsou-os.
Esse agitador judeu não hesitou em confrontar — com a autoridade
que lhe foi dada — o resto das facções judaicas de seu tempo,
especialmente os fariseus, dizendo que “Aquele que não está
comigo, está contra mim” (Mateus 12:30). Jesus se cercou de um
círculo de discípulos, entre os quais podemos destacar o
mencionado São Simão, São Bartolomeu (do qual o próprio Jesus
diz no Evangelho de João, 1:47, “Aí está um verdadeiro israelita”),
o mencionado Mateus [um judeu do Mar da Galileia], Judas
Iscariotes (que o traiu aos fariseus por dinheiro), e embora dos
demais não há tantas referências, é precisar lembrar que, até a
viagem de São Paulo (também um judeu) um tempo após a morte
de Jesus, para ser cristão era imprescindível ser um judeu
circuncidado e ortodoxo. Evidentemente, a doutrina de Jesus estava
dirigida aos judeus e isso é manifestado no Evangelho de Mateus,
10:6, quando ele diz aos doze apóstolos: “Não se dirijam aos
gentios mas às ovelhas perdidas de Israel”. A frase implica retornar
ao seio ortodoxo aqueles judeus que se desviaram da Lei de Moisés
—  pois “Se vocês cressem em Moisés, creriam em mim” (João
5:46).

No ano 26, Tibério, que havia expulsado os judeus de Roma sete


anos antes e estava em plena época antissemita de seu reinado,
nomeia como procurador da Judeia a Pôncio Pilatos (um hispânico
nascido em Tarragona ou em Astorga, e única pessoa digna de
respeito do Novo Testamento de acordo com Nietzsche). Depois do
incidente com os estandartes de Pompeu, os judeus haviam
conseguido de anteriores imperadores para que não entrassem em
Jerusalém com estandartes desdobrados, mas Pilatos entra
desfilando na cidade, exibindo muito alto os estandartes com a
imagem do imperador. Isto, ao lado dos escudos de ouro colocados
na residência do governador e do uso de dinheiro do templo para
construir um aqueduto para Jerusalém (que transportava água a
uma distância de quarenta quilômetros) provocou uma reação
airada pelos judeus. Para reprimir a insurreição, Pilatos infiltrou
soldados entre a multidão e, quando visitou a cidade, deu um sinal
para que os legionários infiltrados sacassem as espadas e
começassem uma carnificina.

No ano 33, depois de vários embates dos seguidores de Jesus


Cristo com as facções rivais — particularmente com os fariseus, que
naquela época detinham o poder religioso e viam com mal olhos o
surgimento de uma nova e vigorosa facção —, Pôncio Pilatos
ordena a punição de Jesus Cristo, a pedido dos fariseus. Jesus é
chicoteado, e os legionários romanos, que deviam ter um senso de
humor um tanto macabro e que sabiam que Yeshua se proclamava
Messias e o filho de Javé, colocaram uma coroa de espinhos e um
caniço em sua mão direita e gritaram zombeteiramente “Salve, rei
dos judeus” (Mateus 27:26-31 e Marcos 15:15-20). Quando o
crucificaram, colocaram na cabeça da cruz a inscrição INRI (IESVS
NAZARENVS REX IVDAEORVM: Jesus Nazareno, Rei dos Judeus).
Yeshua de Nazaré, conhecido pela posteridade como Jesus Cristo, foi um dos muitos
agitadores judeus que houve em Judeia durante a complicada ocupação romana.
Executado por volta do ano 33 durante o reinado de Tibério, sua figura seria tomada
por Saulo de Tarso (vulgo São Paulo), ironicamente um judeu fariseu, maravilhado
com o poder envolvendo a seita fundada por Jesus.

Jesus foi, portanto, um dos muitos pregadores judeus que, antes


dele e depois dele, se proclamou Messias, exceto que, em seu caso,
o judeu fariseu Saulo de Tarso (atual Turquia) não tardaria em
chamá-lo, em vez de Meshjah, de Kristos, que vem a ser o
equivalente grego a “Messias”. Depois de mudar seu nome para
Paulo, ele pregou a figura de “Cristo”, indissoluvelmente unido à
rebelião contra Roma, em todo o Império, decidindo que o
cristianismo deveria ser difundido fora de seu estreito círculo
judaico e introduzido em Roma como uma doutrina de agitação e
subversão contra a autoridade do imperador.

CALÍGULA

Em 38, Calígula, sucessor de Tibério, enviou seu amigo Herodes


Agripa I à cidade problemática de Alexandria, para vigiar Aulo Avílio
Flaco, prefeito do Egito, que não tinha a confiança do imperador e
que — de acordo com o filósofo judeu Fílon de Alexandria ("Contra
Flaco") — ele era um verdadeiro vilão. A chegada de Agripa em
Alexandria foi recebida com grandes protestos da comunidade
grega, pois eles pensavam que ele estava vindo para se proclamar
rei dos judeus. Ele foi insultado por uma multidão, e Flaco não fez
nada para punir os ofensores, apesar de o ofendido ser um enviado
do imperador. Isso encorajou os gregos a exigir que as estátuas de
Calígula fossem colocadas em sinagogas, como uma provocação
para o bairro judeu. Para apaziguar os espíritos dos gregos e
egípcios e agradar o imperador - um dos emissários que acabara de
ser insultado - Flaco colocou estátuas de Calígula nas sinagogas da
região, que não eram poucas.

Este simples ato parecia ser o sinal de uma revolta: os gregos e


egípcios atacaram as sinagogas e incendiaram-nas. Os judeus
foram expulsos de suas casas, que foram saqueadas, e depois disso
foram segregados em um gueto do qual não podiam sair, posto que
eram apedrejados, espancados ou queimados vivos, enquanto
outros acabavam na arena para servir como alimento para as feras,
naqueles macabros espetáculos de pão e circo tão comuns no
mundo romano. De acordo com Fílon, Flaco também não fez nada
para impedir esses tumultos e assassinatos, e até os apoiou, igual o
egípcio Apião, que vimos criticando os judeus no capítulo dedicado
ao antissemitismo helenístico. Para celebrar o aniversário do
imperador (31 de Agosto, um Shabat), membros do conselho
judaico foram presos e espancados no teatro; outros foram
crucificados. Ao reagir à judaria, os soldados romanos retaliam
saqueando e queimando milhares de casas judaicas, profanando
sinagogas e matando mais de cinquenta mil judeus. Quando
ordenados a cessar o massacre, a população grega local, inflamada
por Apião (não surpreendentemente, Flávio Josefo tem uma obra
chamada “Contra Apião”), continuou os distúrbios. Desesperados,
os judeus ordenaram a Fílon de Alexandria que argumentasse com
as autoridades romanas. O filósofo judeu escreveu um texto
intitulado “Contra Flaco” e, juntamente com o relatório certamente
negativo que Agripa tinha dado a Calígula, o governador foi
executado.
Após esses eventos, as coisas se acalmaram e os judeus não
sofriam violência enquanto permanecessem dentro dos limites de
seu gueto. Contudo, embora o sucessor de Flaco permitiu que a
judaria alexandrina desse sua versão dos fatos, houve (ano 40)
novamente tumultos entre os judeus (que estavam indignados com
a construção de um altar) e os gregos (que acusaram os judeus de
se recusarem a render culto ao imperador). Os judeus mais
religiosos ordenaram que o altar fosse destruído e, em represália,
Calígula tomou uma decisão que realmente evidenciou que ele não
entendia nada sobre o judaísmo: ordenou colocar uma estátua no
templo de Jerusalém. É que, de acordo com Fílon ("Da embaixada a
Caio e Flaco"), Calígula “considerava suspeitos à maioria dos
judeus, como se fossem as únicas pessoas que se opunham a ele”.
Públio Petrônio, governador da Síria, que conhecia bem os judeus e
temia a possibilidade de uma guerra civil, tentou adiar tanto quanto
possível a colocação da estátua, até que Agripa convenceu Calígula
de que isso era uma má ideia.

Em 41, Calígula, que prometia ser um imperador anti-judaico [2],


foi assassinado em Roma, o que desencadeou a violência de seus
guarda-costas germânicos, que não foram capazes de evitar sua
morte e que, por senso de fidelidade, tentaram vingá-lo matando
inúmeros suspeitos, conspiradores, senadores e até mesmo
viajantes inocentes que tiveram a desgraça de estar no lugar
errado na hora errada. Claudio, tio de Calígula, conseguiu virar o
dono da situação e, depois de ser nomeado imperador pela Guarda
Pretoriana, ordenou a execução dos assassinos de seu sobrinho,
muitos dos quais eram magistrados políticos que queriam reintegrar
à República.

- Cláudio e Nero

No ano 49, Cláudio, que estava farto do conflito no lobby judeu


alexandrino, "não irei admitir judeus que navegam da Síria ou do
Egito, um processo que vai me obrigar a conceber suspeitas
graves; caso contrário, vou por todos os meios vingá-los como
fomentadores de uma praga geral que infectou o mundo inteiro".

Da mesma forma, Cláudio expulsou todos os judeus de Roma no


ano 50 (aparentemente, de acordo com Suetônio, "os judeus,
sublevados constantemente por incitamento de Cresto, foram
expulsos de Roma por ele [Cláudio]") e, como pontífice máximo, ele
tentou impedir a expansão dos cultos orientais, incluindo o
cristianismo e o judaísmo, no Império.

Ano 50. A Judeia já faz parte do Império Romano, mas sua romanização nunca se
estabelecerá, pelo contrário, a própria judaização de Roma será estabelecida antes.

Falaremos sobre Nero na terceira parte. Sua esposa, uma


meretriz ociosa chamada Popeia Sabina, era abertamente solidária
com judeus e cristãos e conspirou pelas costas do imperador para
favorecê-los. Assim, por exemplo, através da mediação de Sabina,
o próprio Flávio Josefo, enviado a Roma para negociar melhores
condições para seu povo, foi libertado. O ministro romano Sexto
Afrânio Burro foi assassinado em 62 por ordem de Sabina, ou talvez
por judeus, depois de ter sido negada a cidadania romana na
Grécia. Cansado de ter a conspiração perto dele, o imperador
mandou executar a esposa. A versão "oficial" é que ele a chutou na
barriga enquanto ela estava grávida, mas o problema é que aqueles
que divulgaram essa versão tinham uma forte inimizade com o
imperador, por isso deve ser tomado com cautela. Isto foi seguido
por uma sangrenta repressão romana a judeus e cristãos, na qual
caíram "revolucionários" judeus como São Paulo. Essa execução de
figuras-chave no movimento estratégico judaico, juntamente com
alguns outros fatores, seria o gatilho para uma revolta judaica, que
discutiremos na segunda parte.

- SEGUNDA PARTE - AS GUERRAS ROMANO-JUDAICAS

Na primeira parte, falamos da repressão anti-semita (anti-judaica e


anticristã) que o imperador romano Nero ordenou no ano 62.
Agora, veremos como todos os eventos anteriores supuseram em
uma escalada da violência étnica, que culminará no
desencadeamento de três imensas guerras nas quais, pela primeira
vez, veremos a erradicação das comunidades étnicas gregas na
Ásia Menor e no Norte da África nas mãos dos levantes judaicos.

Em 64, Nero enviou Géssio Floro como procurador para a província


da Judeia. O historiador Flávio Josefo culpa Floro por absolutamente
todos os tumultos que ocorreram na região, mas a verdade é que,
como vimos, eles não começaram com ele — e, por ser judeu e
saduceu, as obras de Flávio Josefo devem sempre ser lidas com
desconfiança (por exemplo, ele tem um escrito chamado "Contra os
gregos", no qual defende o judaísmo).

Em Cesareia (veja o mapa do reino de Herodes), um judeu


simpatizante do helenismo sacrificou vários pássaros em frente à
sinagoga que, na mentalidade tradicional judaica, "contaminou" o
edifico, como já vimos várias vezes antes. Com esse precedente,
mas com uma longa história de hostilidade anterior, as
comunidades grega e judaicas de Cesareia entraram em uma
disputa judicial na qual, com a mediação romana, os gregos
venceram. A conselho de Géssio Floro, Nero revogou a cidadania
dos judeus da cidade — deixando-os à mercê da população grega
altamente anti-judaica.

Os gregos foram rápidos em iniciar um progrom durante o qual


mataram milhares de judeus. Floro e os militares romanos (que
logicamente se identificavam com os gregos e não com os judeus, e
que talvez planejassem usar os gregos como a vanguarda da
limpeza étnica na área) não intervieram para proteger o bairro
judeu ou pacificar a cidade, permitindo que judeus fossem mortos e
sinagogas profanadas a bombordo e estibordo. Segundo Josefo,
quando os rabinos pegaram os pergaminhos sagrados para salvá-
los de serem queimados pelas chamas, Floro ordenou que fossem
jogados em masmorras. Isso foi demais para um grupo tão coeso
quanto os judeus, e eles reagiram com mais violência, que apenas
intensificou o massacre e o espalhou para outras populações, com a
subsequente retaliação romana.

Jerusalém, portanto, começou a se encher de refugiados judeus de


Cesareia e outras áreas cujas casas haviam sido queimadas e cujas
propriedades foram confiscadas pelos romanos, clamando por
vingança e soltando ressentimento de cada poro. O massacre de
judeus em Cesareia acabou sendo o gatilho de uma grande guerra
que, de qualquer forma, já vinha se formando há algum tempo.

PRIMEIRA GUERRA ROMANO-JUDAICA: A GRANDE REVOLTA


JUDAICA (66-73 EC)

O Oriente quer se rebelar e Judas quer dominar o mundo.  — 


(Tácito).

No ano 66, Floro chegou a Jerusalém, onde exigiu uma homenagem


de dezessete talentos do tesouro do templo. Eleazar ben Ananias,
filho do sumo sacerdote, reagiu cessando orações e sacrifícios em
homenagem ao imperador de Roma, e ordenou que a guarnição
romana fosse atacada. Ele respondeu matando cerca de 3.600
judeus, saqueando o mercado, invadindo casas, prendendo muitos
dos líderes judeus, açoitando-os em público e crucificando-os.
Em 66, Floro chega em Jerusalém, onde exige um tributo de
dezessete talentos do tesouro do templo. Eleazar ben Ananias, filho
do sumo sacerdote, reagiu cessando as orações e sacrifícios em
honra do imperador de Roma, e ordenou atacar a guarnição
romana. Esta respondeu matando cerca de 3,600 judeus,
saqueando o mercado, invadindo casas, prendendo muitos dos
líderes judeus e fazendo com que fossem açoitados em público e
crucificados.

No dia seguinte, no entanto, a concentração de judeus havia


aumentado. O barril de pólvora estava prestes a explodir.

Em 8 de Agosto de 66 EC, os zelotes e sicários deram um golpe


surpresa em Jerusalém: assassinaram o destacamento romano e
abateram todos os gregos. De forma sincronizada, surgiram judeus
de todas as províncias e colônias romanas. Em Jerusalém foi
formado um conselho que enviou sessenta emissários por todo o
Império, com o trabalho de levantar às diversas judiarias. Cada um
desses emissários declarou-se o Messias e proclamou o início de
uma espécie de "nova ordem". Herodes Agripa II, o etnarca da
Judeia, em vista de que as massas populares estavam em plena
ebulição, optou por fazer as malas e deixar a província em uma boa
hora.

O efeito disso foi o retorno das revoltas judaicas e, como reação,


mais pogroms anti-judaicos em Cesareia, Damasco e Alexandria,
sem contar a intervenção das legiões romanas, que reprimiram
duramente a judaria das cidades mencionadas e também em
Ascalão, Hipos, Tiro e Tolemaida (ver mapas da primeira parte). Os
setores judeus mais moderados e sensatos conversaram para
rapidamente chegar em um acordo com Roma, mas o critério que
prevaleceria na direção da judiaria era o dos zelotes e sicários que,
fanáticos, juraram lutar até a morte, entrincheirando-se nas
fortalezas inexpugnáveis de Jerusalém, fortificando os muros da
cidade e mobilizando toda a população.
Sob as ordens de Nero, Caio Céstio Galo, o legado romano na Síria,
concentrou tropas no Acre (um lugar que seria muitos séculos mais
tarde um importante centro estratégico dos cruzados europeus)
para marchar sobre Jerusalém, devastar as populações judaicas
que encontrasse em seu caminho e esmagar a revolta. Galo tomou
a cidade de Jope (atual Jafa), matando oito mil e quatrocentos
judeus (mais tarde os refugiados se reagrupariam na cidade e se
dedicariam ao banditismo e à pirataria, atraindo sobre si uma
segunda intervenção romana, na qual a cidade seria
definitivamente devastada e seriam mortos outros dois mil e
quatrocentos judeus). Depois de encontrar as sólidas fortificações
de Jerusalém, as forças de Galo se retiraram e foram interceptadas
pelos fanáticos judeus em uma emboscada liderada por elementos
dos zelotes e sicários, que massacraram seis mil romanos no
mesmo lugar que os macabeus derrotaram os macedônios séculos
antes. Os judeus, excitados pela repetição simbólica do evento,
f o r m a ra m u m g o v e r n o l i d e ra d o p e l o s e l e m e n t o s m a i s
fundamentalistas e cunharam moedas com a inscrição “liberdade de
Sião”.

Este trágico desastre inicial indubitavelmente levou as autoridades


romanas a levar mais a sério as operações de extinção da rebelião.
Nero colocou o general Vespasiano no comando da repressão. Com
quatro legiões (a Legio V Macedonica, Legio X Fretensis, Legio XII
Fulminata e Legio XV Apollinaris, um total de setenta mil soldados,
isto é, uma força formidável, apesar de enfrentar um inimigo muito
superior em número), Vespasiano sufocou a revolta judaica no
norte da província, reconquistando a Galileia em 67 (capturando
Flávio Josefo lá, o famoso historiador) e Samaria e Idumea (atual
Edom) em 68. Os líderes judaicos João de Gischala (zelote) e Simão
bar Giora (sicário) fugiram para a fortificada Jerusalém.

- Motins étnicos no Egito

Em Alexandria, os gregos organizaram uma assembleia pública no


anfiteatro para enviar uma embaixada ao imperador. Os judeus,
que estavam interessados em parlamentar com Nero, vieram em
grandes multidões, e assim que os gregos os viram, começaram a
gritar, os chamaram de inimigos, os acusaram de serem espiões,
correram na direção deles e os atacaram (versão de Flávio Josefo).
Outros judeus foram mortos enquanto fugiam, e três foram
capturados e queimados vivos. O resto dos judeus logo chegou
para defender seus correligionários, começando a atirar pedras nos
gregos e ameaçando queimar o anfiteatro.

Tibério Júlio Alexandre, governador da cidade, tentou convencer os


judeus a não provocar o Exército romano, mas esse conselho foi
tomado como uma ameaça: os tumultos continuaram e,
consequentemente, o governador, sem paciência, mandou duas
legiões na cidade (Legio III Cyrenaica e Legio XXII Deiotariana)
para punir a judaria. As legiões receberam carta branca para matar
os judeus e também para saquear suas propriedades, quando os
soldados entraram no gueto e, segundo fontes judaicas, queimaram
casas com judeus dentro, também matando mulheres, crianças e
idosos até que todo o bairro estava cheio de sangue e 50,000
pessoas estavam mortas.

Os sobreviventes desesperados pediram misericórdia a Alexandre, e


o governador teve pena deles. Ele ordenou que as legiões
cessassem o massacre e elas imediatamente obedeceram.
Alexandre mais tarde participaria do cerco de Jerusalém.

Circo e queda de Jerusalém ― A destruição do segundo


templo

No mesmo ano 68, Nero foi assassinado em Roma e uma guerra


civil estourou. Todo o Império Romano estava em xeque. Por um
lado, as grandes massas judaicas, em pleno andamento, estavam
desafiando seu poder na Judeia e, por outro, o faziam na própria
Roma. Se o poder romano no Oriente vacilasse, os partos poderiam
ter se aproveitado rapidamente para conquistar a Ásia Menor e se
fortalecer na área, o que teria sido uma enorme catástrofe para
Roma. O governo estava cambaleando, mas Vespasiano retornou a
Roma e lutou com Vitélio, que alegava ser o sucessor de Nero.
Depois de derrotá-lo, Vespasiano foi nomeado imperador e confiou
a seu filho Tito as operações militares de repressão e o cerco da
capital judaica.

Tito cercou Jerusalém com as quatro legiões, cortando suprimentos


de água e comida. Também aumentou as pressões sobre as
necessidades da cidade, permitindo aos peregrinos que entrassem
para celebrarem a Pessach ("Páscoa judaica") e, em seguida,
impedi-los de sair. Na Jerusalém sob cerco, a fome e as epidemias
mataram milhares e milhares de vidas. Os judeus que constituíam o
núcleo duro da rebelião — zelotes e sicários— derrubavam muros
de pacifistas ou “contra-revolucionários” suspeitos de não se
comunicarem com a causa sionista, ou procurarem um
entendimento com Roma para conseguir condições favoráveis para
seu povo. De acordo com algumas passagens do próprio Talmude,
os sicários e zelotes (líderes como Menahem ben Jair, Eleazar ben
Jair e Simão bar Giora) cometiam atrocidades contra a população
civil judaica, incluso impedindo a chegada de alimentos, para forçá-
los a serem obedientes e comprometerem-se com sua causa.

Os defensores que constituíam o elemento ativo da resistência


deveriam ser de cerca de sessenta mil homens, divididos em
zelotes (comandados por Eleazar ben Simão, ocupavam a fortaleza
Antônia e o templo) os sicários (ao mando de Simão bar Giora,
centrado na cidade alta), os idumeus e outros (ao mando de João
de Gischala). Havia uma clara rivalidade entre as bandas de
combate, que irromperam de tempos em tempos em combates
abertos. A população da fortificada Jerusalém passava de três
milhões de pessoas, a maioria das quais estava pronta para lutar,
esperando que seu deus lhe desse uma mão contra os infiéis.
Como os romanos atacavam repetidamente as fortificações com
imensas baixas, os zelotes ocasionalmente deixavam as muralhas
para fazer incursões, nas quais conseguiam assassinar soldados
romanos despreparados. Depois de uma dessas ações, Tito, numa
tática de intimidação muito ambivalente, fez exibir, no sopé da
cidade, seu exército em sua totalidade, com o objetivo de intimidar
e desesperar os sitiados, e apelou a Flavio Josefo, que gritou para
os sitiados coisas bastante razoáveis, como “Deus, que faz circular
o Império de uma nação a outra, agora é a vez da Itália” (V, 367)
ou “Nosso povo não recebeu o dom das armas, e para ele, fazer
guerra inevitavelmente implicará em ser vencido nela” (V, 399).
Aparentemente, aos ouvidos dos judeus, dominados por suas
superstições e seguramente esperando a qualquer momento uma
intervenção do próprio Javé, só conseguiu fazê-los mais irritados, e
atiraram-no uma flecha, ferindo-o no braço.

Flávio Josefo descendia de uma longa linhagem de sacerdotais saduceus relacionado


com a dinastia dos asmoneus dos tempos pré-romanos. Durante a Grande Revolta
Judaica, o Sinédrio o fez governador da Galileia. Depois de defender durante três
semanas o cerco de Jotapata ou Yodfat, ele se rendeu aos romanos, que mataram
quase todos os seus homens. Ele, que se escondeu em uma cisterna com outro
judeu, foi salvo demonstrando seu grande treinamento e inteligência, e previu ao
general Vespasiano sua futura nomeação como imperador de Roma. Mais tarde,
acompanharia Tito e os romanos, que o usaram para tentar negociar com o Sinédrio.

Depois disso, os judeus lançaram outra súbita incursão na qual


quase conseguiram capturar Tito. Os romanos foram treinados para
enfrentamentos frontais com exércitos inimigos, mas não estavam
acostumados à luta suja da guerra de guerrilha, em que o
cavalheirismo de combate quase inexistia. Em Maio de 70, os
romanos abriram com seus aríetes uma brecha na terceira muralha
de Jerusalém, após o que também quebraram a segunda e
penetraram como um enxame de vespas na cidade. A intenção de
Tito era ir à fortaleza de Antônia, que ficava ao lado do templo e
era um vital ponto estratégico da defesa judaica, mas assim que as
tropas romanas superaram a segunda muralha, se envolveram em
violentas guerras de rua contra os zelotes e a população civil
mobilizada por eles, e apesar de perder milhares de homens para a
superioridade do treinamento legionário na luta corpo a corpo,
continuavam a atacar, até que foram ordenados a se retirar ao
templo para evitar baixas inúteis. Josefo tentou, mais uma vez sem
êxito, negociar com as autoridades sitiadas para impedir que o rio
de sangue aumentasse.
A fortaleza de Antônia tinha sido construída por Herodes em homenagem a Marco
Antônio, que o havia apoiado. As legiões de Tito, diante de um edifício construído
com eficiência romana, tiveram que exceder mil calamidades para tomá-la. A
imagem acima mostra como a fortaleza foi anexada ao templo.
Os romanos tentaram várias vezes quebrar ou escalar as muralhas
da fortaleza sem sucesso. Finalmente, eles conseguiram tomá-la
em um assalto secreto, durante o qual um pequeno partido romano
silenciosamente assassinou os guardas zelotes, que estavam
dormindo. A fortaleza estava cheia de legionários. Embora Tito
planeasse usar a fortaleza como base para abrir uma abertura nas
paredes do templo e tomá-lo, um soldado romano (de acordo com
Josefo, os romanos estavam enfurecidos com os judeus por seus
ataques traiçoeiros) lançou uma tocha que ateou fogo na parede.
O Segundo Templo foi devastado, e para o ápice da judiaria, as
chamas se espalharam rapidamente para outras áreas residenciais
de Jerusalém. Quando viram o seu templo como um campo de
fogo, muitos judeus suicidaram-se, pensando que Javé havia ficado
zangado com eles, abandonando-os e enviando-lhes uma espécie
de apocalipse.

“Destruição do templo de Jerusalém”, por Francesco Hayez.


Neste momento, as legiões rapidamente esmagaram a resistência,
enquanto alguns judeus escaparam através de túneis subterrâneos,
e outros, os mais fanáticos, entrincheiraram-se na cidade alta e na
cidadela de Herodes. Depois de construir torres de cerco, o que
restava do elemento de combate foi massacrado pelas pilos e
gládios romanas, e a cidade estava sob efetivo controle romano em
8 de Setembro.

Queda de Massada

Na primavera de 71, com Jerusalém assegurada, Tito marcha para


Roma, deixando a Legio X Fretensis (sob o comando do novo
governador da Judeia, Lúcio Flávio Silva) encarregada de dar o
toque final à resistência judaica. A última fortaleza de toda a
rebelião foi a cidade fortificada de Massada, que havia sido erguida
pelos macabeus em uma área estratégica.

Herodes a aprimorara na tentativa de manter os judeus felizes, mas


quando ele morreu, seu comércio diminuiu e ele ficou
desempregado. Agora, ele abrigava o que restava do núcleo duro
sionista: fanáticos e assassinos liderados por Eleazar ben Yair.

Herodes havia melhorado em seu intento de manter contenta a


judiaria, mas quando ele morreu, seu comércio caiu, e a mesma
ficou desocupada. Agora abrigava o que restava do núcleo duro
sionista: zelotes e sicários liderados por Eleazar ben Yair.
No ano 72, Silva se encontrava no sopé de Massada. Quando, após
um doloroso cerco, entraram na fortaleza no ano seguinte,
descobriram que os novecentos e cinquenta e três defensores
haviam cometido suicídio.

Consequências da Grande Revolta Judaica

Em 73, após sete longos anos de uma guerra incrivelmente feroz e


sangrenta contra o maior poder militar do planeta, toda a Judeia foi
devastada, Jerusalém reduzida a ruínas cinzas e o templo
completamente destruído, exceto por um muro que permaneceu
em pé — o Muro das Lamentações. A Judeia tornou-se uma
província separada, e a Legião X Fretensis ficou permanentemente
acampada na capital judaica.

Sempre de acordo com fontes antigas, um milhão de judeus


morreram durante o cerco e durante a irrupção das legiões, e
outros cem mil (incluindo os líderes Simão bar Giora e João de
Gischala) foram capturados e vendidos como escravos em todo o
Império Romano. Os vestígios de independência e unidade política
dos judeus foram pulverizados, e os judeus voltaram a ser um povo
sem país.

Reconquistada toda a província da Judeia, Roma cunhou moedas comemorativas nas


quais aparece o perfil do imperador Vespasiano e, na coroa, a inscrição IVDEA
CAPTA (Judeia conquistada), sob a qual a Judeia era representada por uma mulher
chorando.
Esta rebelião judaica estava condenada a ser uma ação kamikaze
desde o início. O Império Romano era simplesmente uma força
muito irresistível, e somente o fanatismo fundamentalista, pregado
pelos setores sociais minoritários dentro da mesma Judeia,
conseguiu arrastar todos os judeus a lutar tão teimosamente e
tenazmente contra um inimigo que, afinal, era portador de uma
cultura infinitamente superior e, acima de tudo, com uma forma
melhor e mais eficaz de fazer as coisas. Sem dúvida, a vontade e a
fé movem montanhas — mas neste caso, eles não conseguiram
milagres, mas a destruição de sua terra santa e o fortalecimento da
ocupação romana.

A data da queda de Jerusalém, no ano 70, é o início do


chamado golus ou diáspora, ou seja, a dispersão dos judeus em
todo o mundo. De fato, os judeus já eram mais numerosos fora do
que na própria Judeia (a maior população judaica do mundo estava
em Alexandria), mas a destruição de sua capital decapitou o
centralismo judeu e propiciou ainda mais esse processo,
favorecendo desenvolvimentos autônomos, o típico sentimento
apátrida e a ascensão do cosmopolitismo tão característico.
Vespasiano tinha os judeus da Judeia dispersos por toda a Itália,
Grécia e, sobretudo, o Norte da África e a Ásia Menor, acreditando
que isso acabou com o perigo judaico para o Império.

Voltando a Roma, o triunfal Tito rejeitou formalmente a coroa de


louros oferecida pelo povo romano, alegando que ele cumpriu a
vontade divina e que “não há mérito em vencer um povo que foi
abandonado por seu próprio deus”. Pouco tempo depois, ergueram
um arco do triunfo, sob o qual nenhum judeu (pelo menos nenhum
judeu tradicionalista) passou até hoje.
O arco de Tito, erguido em Roma para comemorar a tomada de Jerusalém, mostra
os legionários romanos carregando os frutos da pilhagem do templo, enfatizando
sem dúvida o menorá.

Este é um momento-chave na história judaica. Os judeus viram


como suas conquistas foram esmagadas por um império europeu
orgulhoso, como suas relíquias foram pisoteadas pelas sandálias
romanas, e como seu sacrossanto templo virou um campo de
chamas. Vê-lo queimando e destruído foi um grande choque na
psicologia coletiva da judiaria, enchendo-os com ressentimento e
vingança contra o que eles conheciam da Europa, que eram as
comunidades grega e romana.

Roma poderia ter, facilmente, exterminado todos os judeus de


Judeia se quisesse, mas não o fez: parecia-lhe que o poder judeu
estava acabado. Os judeus ficaram traumatizados, e seu orgulho
tribal foi destruído. Mas, longe de neutralizá-los, no entanto, esse
choque psicológico para seu inconsciente coletivo alimentou-os com
desejos cruéis de vingança.

Os romanos deixaram de pé um muro do templo de Sião.

SEGUNDA GUERRA JUDAICO-ROMANA: A REBELIÃO DA


DIÁSPORA OU GUERRA DE KITOS (115-117)

Os judeus, dominados por um espírito de rebelião, se levantam


contra seus concidadãos gregos.  —  (Eusébio de Cesareia, “História
Eclesiástica”).

Este capítulo tratará da vingança judaica sobre os gregos e


romanos pela destruição do Segundo Templo. Com Israel ainda
exausta e sob forte ocupação militar, veremos uma tentativa de
estabelecer "comunas" ou Estados judeus no exterior, a partir de
secessões em Chipre, Egito, Mesopotâmia e Cirenaica. A
constituição desses territórios judeus exterminou as comunidades
gregas locais.

A Primeira Guerra Judaico-Romana deixou muito claro que a


judiaria, sob a “coexistência” com os gregos e com a autoridade
dos romanos, não tinha absolutamente nenhuma chance de
prosperar ou alcançar o poder, como havia feito no passado no
Egito, Babilônia e Pérsia. A “situação de gueto” dos judeus
submetidos a Roma contrastava radicalmente com a dos judeus
que, na Mesopotâmia, eram súditos do Império Parto. Havia
numerosas comunidades judaicas antigas, especialmente Babilônia
e Susa, que se viam como grupos prósperos, ricos, poderosos e de
longa data. Passaram seis séculos desfrutando de ampla liberdade,
e ficaram horrorizados com a situação de seus correligionários do
Império Romano. Portanto, não é surpreendente que o “judaísmo
internacional” tenha apoiado incondicionalmente o Império Parto
durante este tempo, em parte porque os tratou muito melhor e
porque era o único inimigo realmente sério que espreitava as
fronteiras do Império Romano no Leste, pelo qual eram o único
poder capaz de libertar Jerusalém. Afinal, os partos mataram, o
odiado por eles, Crasso durante a Batalha de Carras, e se os
romanos eram antijudaicos e os partos eram inimigos dos romanos,
a estratégia oportunista do momento considerava o Império Parto
como um regime pró-judeu. Nessa época, nada teria satisfeito mais
a judiaria do que uma campanha militar para conquistar a Judeia, a
Síria, a Ásia Menor em geral e, se possível, também o Egito, como
os persas haviam feito.

A situação por volta do ano 100. Os territórios sombreados em verde correspondem


às áreas cobiçadas por Roma e que acabariam por cair em sua posse, embora por
razões logísticas e geopolíticas não fosse possível mantê-las por muito tempo.

Em 113, Trajano, que tinha Alexandre, o Grande, como modelo,


estava se preparando para iniciar uma série de campanhas contra o
Império Parto, com o objetivo de conquistar a Mesopotâmia. Para
realizar tal ação, ele concentrou tropas nas fronteiras orientais, às
custas de deixar muitas outras praças ocidentais desprotegidas.
Conhecendo o conflito na província da Judeia, Trajano proibiu os
judeus de estudar a Torá e observar o Shabat, que, na prática, só
lhe rendeu a irritação da judaria.
Trajano, o primeiro imperador de origem hispânica, teve a honra de governar o
Império Romano quando suas fronteiras eram mais extensas. Sob seu reinado, a
Mesopotâmia foi anexada, mas logo ficou claro que cada passo que Roma dava ao
Leste, encontraria um levante dos judeus.

Em 115, o Exército romano conquista toda a Mesopotâmia,


incluindo cidades partas que eram importantes centros judaicos.
Em toda a Mesopotâmia, os judeus, horrorizados ao ver que
estavam caindo nas mãos de seus inimigos mortais, alinharam-se
com os partos e lutaram contra os romanos com ferocidade. Esta
aberta hostilidade, que imediatamente recebeu notícias em todo o
Império, causou uma onda de indignação e proporcionou a desculpa
perfeita para as comunidades étnicas gregas das províncias de
Cirenaica (atual costa da Líbia) e Chipre, com uma forte tradição
antijudaica, para iniciar tumultos contra os guetos, aproveitando a
ausência das legiões romanas, que poderiam apaziguar a situação.

Vários líderes judeus extremistas voltaram a pregar a agitação


contra Roma, proclamando o fim do Império, percorrendo todas as
províncias romanas da Ásia Menor e do Norte da África e animando
os judeus locais a se revoltarem e a lutarem contra a ocupação
europeia. Os judeus, irritados pelos tumultos com a população
grega, aproveitaram a ausência de soldados romanos para iniciar,
no mesmo ano 115, uma insurreição sanguinária.

Esta rebelião começou em Cirenaica, liderada por Lucuas,


autoproclamado messias. Os judeus, em um rápido ataque surpresa
que lembra sua rebelião em Jerusalém meio século antes, atacaram
bairros e povoamentos gregos, destruíram estátuas e templos
gregos dedicados a Júpiter, Ártemis, Apolo e Ísis, bem como
numerosos edifícios oficiais romanos (essas ações foram apenas um
presságio do que os cristãos fariam mais tarde numa escala
massiva em todo o Império). O famoso historiador romano Dião
Cássio, em “História Romana”, descreve o terrível massacre que foi
desencadeado, referindo-se a Lucuas como “André”, provavelmente
seu nome greco-romano:

Naquela época, os judeus que viviam em Cirenaica, tendo como


líder um tal André, mataram todos os gregos e romanos.
Cozinharam a carne de suas vítimas, usaram suas entranhas como
cintos, ungiram seu sangue e fizeram de suas peles vestuário.
Muitos tiveram seus corpos serrados ao meio, alguns foram tacados
como alimento para as feras, enquanto que outros foram forçado a
lutar entre eles, de modo que levaram à morte duzentos e vinte
mil.

Este testemunho, possivelmente exagerado, é certamente


interessante para ver a imagem negativa que os judeus tinham na
Europa, como um povo odioso e misantrópico. Também é notável o
implícito caráter de limpeza étnica nas ações judaicas de Cirenaica:
pensamos que naquele tempo, muito menos povoado do que agora,
duzentos mil mortos (embora possa ser um número exagerado) era
um número monstruoso, a tal ponto que, de acordo com Eusébio de
Cesareia, a Líbia foi totalmente despovoada e Roma teve que
fundar novas colônias lá para recuperar a população.

Depois do genocídio em Cirenaica, as massas de Lucuas foram para


uma cidade indefesa que há muito tempo era o centro mundial da
sabedoria: Alexandria. Lá, incendiaram vários bairros gregos,
destruíram os templos pagãos e profanaram o túmulo de Pompeu.

Mas a Rebelião da Diáspora não se limitava apenas ao Norte da


África. O terrorismo judaico em Cirenaica e Alexandria engrandeceu
os judeus em todo o Mediterrâneo, que, vendo a ausência de
soldados romanos, sentiram o chamado do levante contra Roma.
Enquanto Trajano estava no Golfo Pérsico lutando contra os partos,
multidões de judeus, fanatizados por rabinos, subiram a Rodes,
Sicília, Síria, Judeia, Mesopotâmia e o resto do Norte da África para
realizar limpeza étnica contra as populações europeias. Em Chipre
ocorreu o pior massacre de toda a rebelião: duzentos e quarenta
mil europeus foram massacrados e a capital da ilha, Salamina, foi
totalmente devastada. De acordo com Dião Cássio, "Uma crueldade
semelhante foi mostrada no Egito e na ilha de Chipre sob o mando
de um tal de Artêmio. Em Chipre abateram duzentas e quarenta mil
pessoas".

Este mapa mostra as fronteiras do Império Romano por volta de 115, quando a
Revolta da Diáspora eclodiu. As províncias problemáticas por sua população judaica
são indicadas no mapa com as cidades importantes da zona. As áreas verdes
correspondem às províncias da Arábia Pétrea, Mesopotâmia, Assíria e Armênia
(todas com importantes populações judaicas), que foram anexadas a Roma após a
derrota dos partos, bem como novos territórios para as províncias da Judeia e da
Síria

Para reprimir a rebelião em Chipre, na Síria e nos territórios


recentemente conquistados da Mesopotâmia, Trajano enviou a
Legio VII Claudia às ordens de um príncipe berbere, o general Lúsio
Quieto (Kito). A repressão de Quieto na Mesopotâmia foi tão
implacável que os rabinos posteriormente proibiram o estudo da
literatura grega e proibiram o costume em que as noivas se
adornavam com guirlandas (coroa de flores) no dia de seu
casamento. Em Chipre, Quieto exterminou toda a população judaica
da ilha e proibiu por lei, sob pena de morte, que nenhum judeu
pisasse em Chipre — mesmo que fosse um náufrago que
aparecesse na praia, ele seria executado no mar local. E é que
esses fatos deixaram uma marca profunda na memória dos
europeus desses lugares. Como recompensa por seus serviços,
Quieto foi feito governador da Judeia.

Para a pacificação de Alexandria, Trajano retirou tropas da


Mesopotâmia sob o comando de Quinto Marcio Turbo, que em 117
havia suprimido a rebelião. Para reconstruir os danos causados pela
revolta, os romanos expropriaram os judeus e confiscaram todos os
seus bens e riquezas. Turbo permaneceu como governador do Egito
durante um período de reconstituição da autoridade romana.
Lucuas, que estava em Alexandria naquele tempo, provavelmente
fugiu para a Judeia.

Durante toda a Rebelião da Diáspora, mais de meio milhão de


europeus foram massacrados, principalmente os pertencentes às
mais nobres camadas sociais de Cirenaica, Chipre, Egito e
Babilônia, quer dizer, o povo europeu desses lugares, homens,
mulheres e crianças que eram na época, a aristocracia do
Mediterrâneo Oriental. Muitos foram mortos depois de sofrer tortura
atroz. E embora a rebelião tenha sido impiedosamente esmagada
por Trajano, Quieto e Turbo, e milhares de judeus foram mortos,
Aquiva bem José nunca foi capturado.
Esta nova derrota, mais uma vez, só aumentou o ódio, o
ressentimento e a sede de sangue e vingança dos judeus, que em
breve iria ressurgir, animado pelo fato de que a Rebelião da
Diáspora quase derrubou a autoridade do Império Romano na mais
judaizada província, pondo em perigo a situação estratégica no
Oriente e a própria Roma. De fato, o judeu Heinrich Graetz (século
XIX), disse que “somente se os numerosos centros da rebelião
tivessem cooperado, então talvez eles poderiam ter sido capazes de
propiciar ao colosso romano seu golpe da morte naquele tempo”.

Após a morte de Trajano, em 118, o imperador Adriano chegou ao


poder. Nesse mesmo ano, as revoltas se mudaram para a Judeia.
Quieto, que permaneceu como governador da província, capturou e
executou os irmãos Juliano e Papo, que tinham sido a alma da
rebelião na Judeia... mas então, por ordens de Roma, assassinaram
o próprio Quieto. Supõem que talvez Adriano o viu como um
possível adversário político. Adriano tentou acalmar a situação na
Judeia concordando em permitir a reconstrução do templo de
Jerusalém.

TERCEIRA GUERRA JUDAICO-ROMANA: A REVOLTA


PALESTINA OU REVOLTA DE BARCOQUEDAS (132-135)

Embora jurem virar bons cidadãos romanos e adorar a Júpiter e


nossos outros deuses, mate-os, se não quer que eles destruam
Roma ou conquiste-a, pelos meios secretos e covardes que
costumam usar.  —  (Imperador Adriano, para suas legiões).

Adriano no início tinha sido minimamente conciliatório com a


província da Judeia. Ele permitiu que os judeus voltassem a
Jerusalém, começou a reconstrução da cidade como um presente
de Roma e até mesmo lhes deu permissão para reconstruir o
templo. No entanto, depois de uma visita a “terra santa”, ele fez
uma súbita mudança de opinião e começou novamente a fazer
sentir a autoridade romana na conflitiva província. Enquanto os
judeus estavam fazendo os preparativos para a construção do
templo, Adriano ordenou que fosse construído em um lugar
diferente do original, e então começou a depor os judeus para o
Norte da África. Planeando (de uma maneira míope, devo dizer) a
transfiguração completa da Judeia, sua desjudaização, sua
repovoação com legionários romanos e sua impregnação da cultura
greco-romana, ordenou a fundação, em Jerusalém, de uma nova
cidade romana chamada Aelia Capitolina (Élia Capitolina). Isto
implicava a irrupção maciça da arte clássica, extremamente odiada
pelos judeus, além da construção de numerosos edifícios romanos
― e a construção de um edifício romano necessariamente passava
por uma cerimônia de consagração de caráter religioso a cargo de
augures romanos e que, de acordo com a mentalidade talmúdica,
“contaminava” a “terra santa” como um ritual pagão. Jerusalém,
ante os nervosos olhos da judiaria, ia virar o cenário de coisas
altamente “profanas”, “impuras” e “pagãs” para sua mentalidade,
como ruas decoradas com estátuas nuas... e com prepúcio.

Os judeus, novamente indignados, prepararam-se para uma


rebelião, mas o rabino Joshua ben Hananiah (ou Joshua ben
Ananias) os acalmou, de modo que se contentaram em se preparar
clandestinamente no caso de terem de se rebelar no futuro, o que
parecia cada vez mais provável. Eles construíram esconderijos em
cavernas e começaram a guardar armas e provisões. Embora não
realizassem uma rebelião aberta, no ano de 123 começou a
acontecer atos terroristas contra as forças de ocupação romanas.
A educação helenística de Adriano é evidente em sua barba. Os romanos, uma povo
de soldados, como os macedônios, tinham o hábito de fazer a barba. Embora Nero
usou barba nalguns momentos de sua vida, o primeiro imperador a ostentá-la, em
tempo integral, foi Adriano. Tal homem seria naturalmente mais propensos a tomar
partido pelas populações etnicamente gregas do Mediterrâneo Oriental do que seus
principais rivais: os judeus, especialmente alexandrinos.

Adriano, que cada vez mais se arrependia de sua anterior


indulgência com a judiaria, trouxe a Legio VI Ferrata para atuar
como uma força policial. Para piorar as coisas, o imperador era um
homem de educação helenística. Além do antijudaísmo
tradicionalmente associado a ele, a formação grega considerava a
circuncisão (o Brit milá) como um ato de mutilação bárbaro. De
fato, embora admirassem a nudez de um belo corpo humano, os
gregos, que formavam o setor social mais influente na Judeia
depois dos romanos (para não mencionar a forte influência que eles
tinham sobre a própria cultura romana), consideravam como um
ato de extrema ineducação mostrar a glande em público, pelo qual
aqueles que tinham o prepúcio muito curto de nascimento, tinham
que cobrir a glande com algum acessório. Em vez disso, de acordo
com a tradição judaica, Adão e Moisés nasceram sem prepúcio, e o
Messias também nasceria circuncidado. Os judeus não eram os
únicos a praticar a circuncisão, na verdade também era praticada
por outros povos semitas, como os sírios e árabes — mas no caso
dos judeus, era um caso religioso, um sinal de uma aliança entre
eles e Javé. Convém citar um trecho do Midrash Tanjuma, um
escrito da tradição judaica que relata uma discussão entre o tanaíta
Aquiva bem José (o governante do Sinédrio judeu) e Turno Rufo
(nomeado governador da Judeia por Adriano nesta época):

Turno Rufo perguntou: “¿A obra de quem é mais bela, a do Santo,


louvado seja, ou do homem, de carne e osso?”

Aquiva: “A obra do homem”.

Rufo: “!Mas olhe para o céu e para a terra! ¿O homem pode fazer
algo assim?

Aquiva: “Não use como argumento algo que está além do alcance
das criaturas humanas; algo que eles não podem controlar,
argumente só com o que está ao alcance do homem”.

Rufo: “¿Por que vocês circuncidam?”

Aquiva: “Pressenti que perguntasse sobre isso, por isso me


antecipei em lhe dizer que a obra humana é melhor do que a do
Santo, bendito seja”.

Aquiva trouxe-lhe grãos de trigo e um bolo, e disse-lhe: “Isso é


obra divina e isso é obra humana. ¿O bolo não é melhor do que os
grãos de trigo?”

Rufo: “Se Sua vontade é que se realize a circuncisão, ¿por que


então o menino não sai circuncidado do ventre de sua mãe?”

Aquiva: “¿Por que o cordão umbilical sai com a criança, e está


preso em seu umbigo, e sua mãe precisa cortá-lo? Com respeito ao
que pergunta, ¿por que nasce incircunciso? Te direi, que o Santo,
louvado seja, não promulgou os preceitos para outro propósito
senão para acrisolar com eles aos israelitas. Por isso Davi diz: ‘A
palavra do Senhor é comprovadamente genuína’.”  —  (Tehilim
18:30).

Para piorar as coisas, Adriano também decidiu proibir seguir o


Shabat.

No ano 131, depois de uma cerimônia de inauguração a cargo do


governador Rufo, começaram as obras de Élia Capitolina, e no ano
seguinte as moedas foram cunhadas com o novo nome da cidade e
começaram as obras de um templo dedicado a Júpiter no sítio do
antigo templo de Jerusalém. O Rabi Aquiva bem José convenceu o
Sinédrio a proclamar como Messias e comandante da rebelião
vindoura a Simão Barcoquebas (“filho de uma estrela”),
um caudilho astuto, sagaz e sanguinário. Barcoquebas deve ter
cuidadosamente elaborado planos, observando os pontos em que
as rebeliões anteriores tinham falhado. Imediatamente, assim que
Adriano deixou Judeia, nesse mesmo ano de 132, os judeus se
levantaram, atacaram os destacamentos romanos e aniquilaram a
Legio X (a VI estava acampada próxima a Megido). Judeus de todas
as províncias do Império e além começaram a se reunir, e eles
também ganharam o apoio de muitas tribos sírias e árabes.
Com suas hordas fundamentalistas semitas (supostamente quatro
centos mil homens, que se diziam ter feito a iniciação ou cortando
um dedo ou arrancado um cedro da raiz) invadiram cinquenta
praças fortificadas e, por volta de, mil populações indefesas
(incluindo Jerusalém), exterminando as comunidades gregas, os
destacamentos romanos e todos os opositores que encontravam,
sendo comum as atrocidades. Depois, dedicaram-se à construção
de muros e passagens subterrâneas e, em suma, a se entrichar em
cada praça.

Após estas fugazes vitórias, o Estado judeu foi reorganizado na


zona. Em Betar, uma poderosa fortaleza nas montanhas,
Barcoquebas foi coroado Messias em uma solene cerimônia.
Durante os anos da revolta, Ben Yosef e Barcoquebas reinaram
juntos, um como ditador e outro como “pontífice” religioso,
proclamando a “era da redenção de Israel” e até mesmo cunhando
suas próprias moedas.

Na “cara” (proibida a representação da “blasfema” figura humana), uma imagem da


fachada do templo de Jerusalém, com uma estrela. Na coroa, uma lulav ou folha de
tamareira, e a inscrição “Ano um da redenção de Israel”.

O general Públio Marcelo, governador da Síria, foi enviado para


apoiar Rufo, mas ambos os romanos foram derrotados por forças
muito superiores em número, que também invadiram as zonas da
costa, forçando os romanos a lutar com eles em batalhas navais.

Naquela época, muito preocupante para Roma, Adriano chamou


Sexto Júlio Severo, que naquele tempo era o governador da
província de Britânia. Também requiriu um antigo governador da
Germânia, Quinto Lólio Úrbico. Com eles, reuniu um exército maior
do que Tito havia reunido no século passado (um total de talvez
doze legiões, um terço da metade de todos os efetivos militares do
Império). Em vista do grande número de inimigos e do desespero
com que agiam, ele evitou as batalhas abertas, limitando-se a
atacar grupos dispersos e a destruir populações onde poderiam
encontrar suprimentos, numa tática de guerra antipartidária. Os
judeus tinham se estrinchado em cerca de cinquenta cidades
fortificadas, muitas delas verdadeiras complexidades inexpugnáveis
nas montanhas, de modo que os romanos avançavam lentamente,
sitiando as praças, cortando os suprimentos e entrando quando os
defensores estavam fracos. Esta tática penosa, que também exigia
longas viagens por zonas hostis, lhes custou inúmeras mortes — de
fato, parece que os judeus aniquilaram, ou pelo menos causaram
fortes perdas, a Legio XXII Deiotariana, que viera do Egito. Para
confirmar as dificuldades passadas pelas legiões, Adriano retirou de
seus relatórios militares ao Senado e ao Povo de Roma a fórmula
habitual: “Eu e as legiões estamos bem” — pela simples razão de
que as legiões... não estavam bem.

Depois de enormes sacrifícios e desperdício de disciplina e


sentimento de dever, os romanos estavam triunfando pouco a
pouco. Em 134, havia a fortaleza de Betar (Battir), onde
Barcoquebas se tornara forte com o Sinédrio, com seus seguidores
mais leais e com milhares de judeus que haviam vindo como
refugiados. No próprio dia do aniversário da queda do templo de
Jerusalém, a fortaleza caiu nas mãos dos soldados romanos, que
mataram toda a população e não permitiram que os mortos fossem
enterrados até que passassem seis dias. Essa deve ter sido a
chacina, que a tradição judaica — conhecida, como se sabe, por
inflar artificialmente as estatísticas de suas vítimas — , incorporada
no Talmude (Gittin, 57-B), estabeleceu que “os romanos mataram
quatro bilhões (sic) de judeus na cidade de Battir” (!).

O que restou, das hordas fundamentalistas de Barcoquebas, fugiu


para as cavernas, ao sul, de Jerusalém, não muito longe da antiga
fortaleza de Massada. Os soldados romanos cercaram as cavernas
e, consumidos pela fome, sede e fadiga, Barcoquebas e seus
seguidores morreram, certamente sem ter cedido um centímetro
em seu fanatismo.

Quanto a Ben Yosef, ele foi capturado vivo quando as tropas


romanas exterminaram os últimos fragmentos da rebelião nas
margens do Mar Morto. Ele foi enviado a Cesárea, onde foi
executado na idade de cento e vinte anos. Diz-se que os romanos,
enfurecidos pelas perdas humanas infligidas a eles, o esfolaram
vivo, mas era mais provável que morreu por crucificação, que era o
método de execução reservado para aqueles que se rebelavam
contra a autoridade de Roma.
CONSEQUÊNCIAS DA REVOLTA PALESTINA

Esta revolta teve consequências muito mais definitivas e muito


mais rotundas, tanto para Roma como especialmente para a
judiaria. Para começar, as perdas romanas eram tais que, além da
recusa de Adriano em dizer no relato militar ao Senado que tudo
estava bem, ele foi o único líder romano da história que, depois de
uma grande vitória, se recusou a voltar a Roma celebrando o
triunfo. Tito Vespasiano só recusou uma coroa de louros, Adriano
levou isso para o próximo nível.

Conquanto, se as perdas romanas foram grandes, as perdas judias


foram enormes. De acordo com Dião Cássio, quinhentos e oitenta
mil judeus foram mortos, cinquenta cidades e novecentas e oitenta
e cinco aldeias judaicas foram arrasadas completamente (e não
reconstruídas) e centenas de milhares de judeus vendidos como
escravos em todo o Império. Não é de surpreender que o Talmude
chamasse este processo de “guerra de extermínio” e até fizesse
declarações exorbitantes para mitificar o conflito, como “Dezesseis
milhões de judeus foram enrolados em pergaminhos e queimados
vivos pelos romanos” (Gittin, 58-A). Os judeus, em qualquer caso,
foram definitivamente privados da vontade de se levantar contra
Roma pela força das armas. Em troca, a ameaça judaica, que
tantas dores de cabeça tinha dado a Roma, ia aumentar em todo o
Mediterrâneo, devido à disseminação ainda maior da diáspora, e o
terreno fértil que isso significou para a expansão dessa outra
rebelião anti-romana que era o cristianismo.

As condições da derrota impostas aos judeus foram ainda mais


duras do que o triunfo, no ano 70, de Tito. Como medidas contra a
religião judaica, Adriano proíbe o calendário judio, as reuniões em
sinagogas, estudar os escritos religiosos e o judaísmo em si como
religião. Mandou, também, executar numerosos rabinos e queimar
massas de pergaminhos sagrados em uma cerimônia no Monte do
Templo. Ele tenta erradicar a própria identidade judaica e o próprio
judaísmo, enviando-os para o exílio, escravizando-os e
dispersando-os da Judeia. Esta perseguição contra todas as formas
de religiosidade judaica, incluindo o cristianismo, continuaria até a
morte do imperador em 138.

Além disso, em outra tentativa de arrancar definitivamente a


identidade judaica e de afastar seu centro de poder, as províncias
orientais foram reestruturadas, formando três províncias sírias: a
Síria Palestina (assim chamada em honra dos filisteus, um povo de
origem europeia inimigo dos judeus e que habitou a área após a
invasão dos povos do mar), que coincidia com a antiga Judeia, a
Síria Fenícia e a Celessíri (Síria Coele).

Na nova ordem territorial decretada por Adriano, a Judeia tornou-se a Síria


Palestina, e Jerusalém tornou-se Élia Capitolina, uma cidade grega e romana da qual
os judeus eram proscritos. As três sírias formam o Levante, uma faixa
extremamente ativa e conflituosa na história até hoje, tal como vimos noutro artigo.
Daí vieram o Neolítico, os fenícios, o judaísmo e o cristianismo, e através dele
praticamente todas as civilizações da antiguidade, criando um caos étnico que
sempre acabou levando a conflitos. Séculos mais tarde, estas áreas veriam o
estabelecimento de Estados europeus cruzados.
Quanto à cidade de Jerusalém, Adriano levou a cabo com ela os
planos que haviam desencadeado a revolta: a capital judaica foi
demolida e destruída, e os romanos araram sobre as ruínas para
simbolizar a sua “purificação” e seu retorno à terra. Adriano
finalmente construiu a Élia Capitolina sobre as ruínas, introduzindo
um novo planeamento urbano, de tal forma que mesmo hoje em
dia a parte antiga de Jerusalém coincide com a construída pelos
romanos. No centro da cidade foi estabelecido um fórum, que
incluiu, entre outras coisas, um templo consagrado a Vênus. No
lugar do templo, Adriano erigiu duas estátuas, uma de Júpiter e
uma de si mesmo — embora respeitasse o Muro das Lamentações.
Da mesma forma, ao lado do Calvário ou Gólgota, onde Jesus
Cristo foi crucificado, ele colocou uma estátua de Afrodite. Isto
pretendia simbolizar o triunfo de Roma sobre o judaísmo ortodoxo e
o cristianismo, considerado uma seita judaica de tantas, e que em
Roma era perseguido sem distingui-lo do judaísmo “oficial”. Para os
g r e g o s e r o m a n o s , a s e s t á t u a s d e s e u s d e u s e s e ra m
representativas do espírito divino, solar, luminoso e olímpico sobre
a Terra, enquanto aos judeus (inclusive os cristãos) nada revirava
mais seu estômago do que uma estátua desnuda, bela, com
características europeias e aparência invencível. Para terminar a
desjudaização da cidade, Adriano proibiu qualquer judeu de pôr o
pé em Élia Capitolina, sob pena de morte.

Esta lei só seria derrubada dois séculos posteriores pelo Imperador


Constantino, o primeiro imperador cristão, que foi o que cristianizou
o Império Romano. Em 330, permitiu que os judeus fossem ao
muro que ficava no templo de Jerusalém, para rezar uma vez por
ano, no Tishá BeAv. Estas sessões de adoração, cheias de pranto,
orações, resos, salmos e lamentações, deram ao muro o nome que
ele carrega: o Muro das Lamentações. Lá os judeus choram
amargamente até hoje pelo símbolo de um suposto esplendor que
nunca existiu nem pertence a eles ― porque não foram eles que
construíram o templo de Sião, mas foi o fenício Hirão, depois os
persas de Ciro e Dario, e depois os romanos sob Herodes. O
símbolo do templo seria muito importante no misticismo judeu dos
estágios posteriores, impregnando completamente a maçonaria, tão
adepta do Antigo Testamento e de tudo o que é hebraico no mundo.
A decisão pró-judaica do primeiro imperador cristão foi motivada
pela importante influência judaica que, através do cristianismo,
chegou ao coração de Roma. Mas isso é outra história que será
discutida na terceira parte.

ALGUMAS CONCLUSÕES

• Os gregos e romanos, devido sua ingenuidade olímpica (pois só


um ingênuo poderia proibir a Torá, o Shabat ou o Brit milá sem
perceber que os judeus preferiam morrer a renunciar a suas
tradições), foram demasiado míope e muito superficial no
tratamento do problema judaico. Eles também mostraram que não
conheciam as peculiaridades que diferenciavam os judeus do resto
dos povos semitas do Oriente Próximo e pensavam que poderiam
colocar seus templos e suas estátuas lá como se isso fosse nada
mais do que uma outra província árabe ou síria bem helenizada. Os
despreocupados romanos não se aperceberam do forte senso de
identidade da judaria.

• A convicção que os clássicos tinham de serem portadores de uma


cultura superior o fizeram cair num erro fatídico: pensar que uma
cultura pode ser válida para toda a humanidade e exportada para
povos de etnia diferente. A helenização e a romanização do Oriente
e do Norte da África só tiveram um efeito: o caos étnico, a
balcanização da própria Roma, as guerras e, finalmente, o
aparecimento do cristianismo.

• Mesmo com a força bruta de suas legiões, Roma não apercebeu


que os judeus, em seu ressentimento e desejo de vingança, não se
importavam em sacrificar ondas e ondas de indivíduos se pudessem
destruir um único destacamento romano. Este fanatismo
fundamentalista, que ultrapassou o racional, deve ter assombrado
os romanos, que não estavam acostumados a ver um povo mal
equipado militarmente imolar de uma maneira tão férrea, com a
mente cheia de fé cega em um deus abstrato, ciumento, vingativo e
tirânico. O que os judeus chamam Javé, e que na Europa era
conhecido como Jeová, é, sem dúvida, uma vontade extremamente
real, e também uma força nitidamente oposta aos deuses olímpicos
e solares dos povos europeus, cuja ápice era o Zeus-Júpiter greco-
romano.

• Daí nasceu a vocação revolucionária e agitadora da judaria. Os


judeus perceberam o poder primitivo de uma multidão ressentida,
fanática e ignorante, e a usaram habilmente no cristianismo e
depois no bolchevismo. A mesma vontade cega de sacrificar ondas
e ondas foi vista no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra
Mundial, sendo os alemães a reencarnação do espírito romano
nessa época, enquanto o comissariado soviético, que era em sua
maioria judaico, representava, sem dúvida, a vontade de Israel.

• Os judeus, em geral, enfrentavam extinção e limpeza étnica. Os


gregos, que tinham mais poder e influência do que eles em Roma,
iriam eventualmente erradicá-los pouco a pouco da Ásia Menor,
enquanto Roma, sob influência germânica, poderia ter durado para
sempre: a cidade simplesmente havia se tornado parte do mundo
germânico graças à crescente influência política dos germanos nas
legiões e à progressiva colonização do Império pelos germânicos
federados.

• O judaísmo e o cristianismo são o produto de um caos cultural.


Não é por acaso que o judaísmo nasceu na área de maior confusão
étnica do planeta, terra de ninguém entre egípcios, assírios,
babilônios, acádios, caldeus, persas, hititas, medos, partos,
macedônios e romanos, sem mencionar os povoados como os
amorreus, os filisteus, os amonitas, os moabitas, os edomitas e as
doze tribos de Israel, que habitavam a mesma área que nos
interessa e que, todos juntos, aniquilaram a identidade de povos
inteiros num maremagnum genético.

• O caráter direto e marcial dos romanos — que apesar de não ter


compreendido a essência judaica, compreendeu seu desejo de
poder e sua natureza problemática — obrigou os judeus a reagir, a
exercer sua força de vontade como povo, a quebrar a cabeça para
resultar na invenção cristã, e também deu-lhes a desculpa perfeita
para gastar os próximos dois milênios se fazendo de vítimas e
lamentando no único muro restante do templo em Jerusalém. É
provável que sem a existência de Roma a judiaria acabaria não se
expandindo.

• A diáspora e a erradicação da Judeia como centro judaico não


propiciou de modo algum à dissolução da identidade judaica. O
judaísmo rabínico, depois de vagar pelo Egito e pela Babilônia,
estava mais do que acostumado ao nomadismo, e a diáspora
realmente veio muito antes, embora as guerras na Judeia
aumentaram com as ondas de refugiados.

• Os judeus, mostrando grande inteligência, perceberam que não


poderiam derrotar Roma em uma guerra convencional, e que
rebeliões, lutas e guerras abertas fracassaram porque os romanos
eram soldados mais fortes, mais corajosos, mais poderosos e
melhores por natureza, apesar de serem inferiores numericamente.
No entanto, a rebelião secreta e obscura que os judeus
secretamente incutiram em Roma iria florescer como se fosse a
semente da discórdia, "pelos meios secretos e covardes", que
Adriano alertou que os judeus usariam para finalmente triunfar
sobre Roma. Esta clandestina rebelião anti-europeia em geral e
anti-romana em particular, também tinha um nome: era chamado
cristianismo ou, em palavras de Tácito, essa "superstição
conflituosa" que "não só estourou na Judeia, a primeira fonte do
mal, mas incluso em Roma, onde todas as coisas horrendas e
vergonhosas de qualquer parte do mundo encontram seu centro e
se tornam populares".

• A longo prazo, o efeito dos confrontos entre judeus de um lado e


greco-romanos do outro foi a consolidação do cristianismo como a
única opção para a conquista semítica de Roma, que, por sua vez,
teve o efeito de limpeza étnica da minoria europeia no
Mediterrâneo Oriental (especialmente a odiada comunidade grega,
que tinha seu centro em Alexandria), principalmente a partir do
século IV. Parece-me óbvio que, após a invenção do cristianismo,
havia um intelecto enormemente desenvolvido, com grande
capacidade psicológica e geo-social de todo o Império, aglutinador
de redes de Inteligência de todos os tipos e especificamente
concebido para destruir o Império Romano, a Europa e o legado do
mundo clássico.

• A importação de cultos orientais nada mais foi do que a


adaptação ritual às mudanças genéticas da própria Roma e a lenta
ascensão do substrato étnico que existia no nível mais baixo da
Roma originária.

Embora a base racial da casta governante romana fosse uma mistura de


mediterrâneos e germânicos, temos vários bustos de espécimes com forte influência
armênida. Estes três bustos são de patrícios da República com uma armênidação
patente.

• Judeia era uma província especial e os romanos precisavam de


uma política igualmente especial, consistindo em proteger Roma
contra a influência judaica (e, de fato, contra toda a influência
oriental, incluindo a que havia entre sua plebe), mantendo os
judeus na Judeia, não lhes dando cidadania romana, não proibindo
suas tradições e, claro, não tentando "civilizá-los", porque foi
precisamente a (mal feita) helenização de certos setores sociais
judeus que levaram ao surgimento do cristianismo, a sinistra
mistura judaica e greco-decadente que é muito evidente no próprio
nome de Jesus Cristo, que vem de Yehoshua (um nome judeu)
e Kristos ("iluminado" em grego).

• Para exemplificar os prejuízos da insensata romanização da


Judeia: Herodes, um soberano da Judeia, e também pró-romano,
tentou romanizar a província construindo cidades que causariam
discórdia (como Cesareia), fortes que seriam usados pelos judeus
contra os próprios romanos (como a fortaleza de Antônia e
Massada) e também engrandeceu o Segundo Templo, ao qual os
judeus agora lamentam, embora abominem seu construtor. Se
Roma tivesse ansiado triunfar mais firmemente sobre a Judeia, não
teria permitido sua romanização e deveria ter mantido a
helenização ao mínimo. E é que impor uma cultura a um povo não
equivale a assimilação. Um judeu que poderia falar grego, por
causa de sua herança cultural, nunca iria compartilhar ou realmente
entender a cultura helênica, porque a cultura é o resultado do
acervo genético, e a genética judaica era radicalmente diferente da
genética helênica. Forçar a imposição de uma cultura a outra que
provém de uma estirpe genética diferente leva apenas a uma coisa:
à mestiçassem, que acabará se manifestando através da corrupção
total da cultura originária.

• Os judeus, que foram rechaçado por todos, gradualmente se


tornaram num povo misantropo e ressentido contra o mundo.

• De acordo com as tradições judaicas, durante a vindoura Era


Messiânica um Terceiro Templo será construído.

• Manter os judeus em Roma, mesmo que escravizados, era


suicida.

• A romanização forçada, a helenização forçada, a escravidão, a


deportação e tudo o que tende a aumentar a desordem étnica são
elementos extremamente negativos na história de qualquer nação,
e o primeiro inconveniente de qualquer Império é precisamente que
ele é cosmopolita por definição.

NIETZSCHE SOBRE O CONFLITO “ROMA CONTRA JUDEIA”

Vamos concluir. Os dois valores contrapostos, “bom e ruim”, “bom e


mau”, travaram na terra uma luta terrível, milenar. (...)
O dístico dessa luta, escrito em caracteres legíveis através de toda
a história humana, é “Roma contra Judeia, Judeia contra Roma”: —
não houve, até agora, acontecimento maior do que essa luta, essa
questão, essa oposição moral. Roma enxergou no judeu algo como
a própria anti-natureza, como que seu monstro antípoda; em Roma
os judeus eram tidos por “culpados de ódio a todo o gênero
humano”: com razão, na medida em que se tenha razão ao vincular
a salvação e o futuro do gênero humano ao primado absoluto dos
valores aristocráticos, dos valores romanos. (...)

Os romanos eram os fortes e nobres, como jamais existiram mais


fortes e nobres, e nem foram sonhados sequer: cada vestígio, cada
inscrição deles encanta, se apenas se percebe o que escreve aquilo.
O s j u d e u s , a o c o n t r á r i o, f o ra m o p o v o s a c e r d o t a l d o
ressentimento por excelência, possuído de um gênio moral-popular
absolutamente sem igual: basta comparar os judeus com outros
povos similarmente dotados, como os chineses ou os alemães, para
sentir o que é de primeira e o que é de quinta ordem. Quem venceu
temporariamente, Roma ou a Judeia? Mas não pode haver dúvida:
considere-se diante de quem os homens se inclinam atualmente na
própria Roma, como a quintessência dos mais altos valores — não
só em Roma, mas em quase metade do mundo, em toda parte
onde o homem foi ou quer ser domado —, diante de três judeus,
como todos sabem, e de uma judia (Jesus de Nazaré, o pescador
Pedro, o tapeceiro Paulo e a mãe do dito Jesus, de nome Maria).
Isto é muito curioso: Roma sucumbiu, não há sombra de dúvida.
(...)

Então acabou? O maior entre os conflitos de ideais foi então


relegado ad acta [aos arquivos] por todos os tempos? Ou apenas
adiado, indefinidamente adiado?... Não deveria o antigo fogo se
reacender algum dia, ainda mais terrível, após um período ainda
mais longo de preparação? Mais: não seria isto algo a se esperar?
mesmo a se querer? a se promover?... (...)

— (“Genealogia da moral”, Primeira Dissertação, 16 e 17)


TERCEIRA PARTE — O CRISTIANISMO E A QUEDA DO
IMPÉRIO

Quando o seu Senhor os fizer entrar na terra, para a qual vocês


estão indo para dela tomar posse, ele expulsará de diante de vocês
muitas nações (...) e quando o Senhor as tiver entregue a vocês, e
vocês as tiverem derrotado, então vocês as destruirão totalmente.
Não façam com elas tratado algum, e não tenham piedade delas.
Não se casem com pessoas de lá. Não dêem suas filhas aos filhos
delas, nem tomem as filhas delas para os seus filhos, pois elas
desviariam seus filhos de seguir-me para servir a outros deuses e,
por causa disso, a ira do Senhor se acenderia contra vocês e
rapidamente os destruiria. Assim vocês tratarão essas nações:
Derrubem os seus altares, quebrem as suas colunas sagradas,
cortem os seus postes sagrados e queimem os seus ídolos. Pois
vocês são um povo santo para o Senhor.  —  (Bíblia, Antigo
Testamento, Deuteronômio 7:1–7).
Onde está o sábio? Onde está o erudito? Onde está o questionador
desta era? Acaso o Senhor não tornou louca a sabedoria deste
mundo? Visto que, na sabedoria do Senhor, o mundo não o
conheceu por meio da sabedoria humana, agradou o Senhor salvar
aqueles que crêem por meio da loucura da pregação. Os judeus
pedem sinais miraculosos, e os gregos procuram sabedoria; nós,
porém, pregamos a Cristo crucificado, o qual, de fato, é escândalo
para os judeus e loucura para os gentios mas para os que foram
chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é o poder do Senhor e
a sabedoria do Senhor. Porque a loucura do Senhor é mais sábia
que a sabedoria humana, e a fraqueza do Senhor é mais forte que
a força do homem. Irmãos, pensem no que vocês eram quando
foram chamados. Poucos eram sábios segundo os padrões
humanos; poucos eram poderosos; poucos eram de nobre
nascimento. Mas o Senhor escolheu as coisas loucas do mundo para
envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para
envergonhar os fortes. Ele escolheu as coisas insignificantes do
mundo, as desprezadas e as que nada são, para reduzir a nada as
que são, para que ninguém se vanglorie diante dele.  —  (Bíblia,
Novo Testamento, Paulo, 1 Coríntios 1:20–29).
Alguns são eunucos porque nasceram assim; outros foram feitos
assim pelos homens; outros ainda se fizeram eunucos por causa do
Reino dos céus. Quem puder aceitar isso, aceite.  —  (Bíblia, Novo
Testamento, Mateus 19:12, usando essa frase como base, Orígenes
de Alexandria, um dos pais da Igreja, se castrou).
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos
céus; Bem-aventurados os que choram, porque eles serão
consolados; Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a
terra; Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque
eles serão fartos; Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles
alcançarão misericórdia.  —  (Bíblia, Novo Testamento, Mateus 5:3–
7).
Há uma nova raça de homens, nascidos ontem, sem pátria nem
tradições, ligados contra todas as instituições religiosas e civis,
perseguidos pela justiça, marcados pela infâmia, mas que se
glorificam com a excreção comum; tais são os cristãos. — (Celso,
“Discurso verdadeiro contra os cristãos”).
Os judeus, aglomerados na periferia da Palestina, que, ignorantes
em letras, nunca tinham ouvido falar das histórias anteriormente
escritas por Hesíodo e por muitos poetas divinamente inspirados,
na verdade, imaginavam uma história muito crível e muito rude.
Javé teria feito um homem com suas próprias mãos, teria soprado
sobre ele, teria tirado uma mulher de suas costelas, teria dado
alguns mandamentos, e uma serpente que teria se levantado
contra os mesmos, triunfou sobre eles: uma boa fábula para as
velhas, onde, contra toda a piedade, Javé é tão pobre desde o
princípio, que se mostra incapaz de ser obedecido pelo único
homem que ele mesmo criou. — (Celso, ibidem).

Nesta terceira parte, o propósito é dar uma ideia do que aconteceu


com o mundo antigo, como a Europa caiu na Idade Média e,
especialmente, que os acontecimentos em Roma há mil e
seiscentos anos atrás é exatamente o que está acontecendo agora
no Ocidente, mas magnificado mil vezes pela globalização, pela
tecnologia e, sobretudo, pela depuração do conhecimento psico-
sociológico e propagandístico pelo sistema.
O que será discutido nesta parte é a história de uma tragédia, um
apocalipse. É o fim não só do Império Romano e todas as suas
realizações, mas também de séculos de sobrevivência dos
ensinamentos egípcios, persas e gregos na Europa, em um
processo sangrento, uma premonição da futura destruição das
heranças celtas, germânicas, bálticas e eslavas, sempre
acompanhados de seus respectivos genocídios. Esse processo teve
um caráter marcadamente étnico: foi a rebelião dos escravos
cristianizados (da Ásia Menor e do Norte de África) contra o
paganismo indo-europeu, representando os costumes e tradições
ancestrais das aristocracias romana e helênica, decadentes,
minoritárias e suavizadas em comparação com uma plebe massiva
e brutal, que detestava cordialmente os seus senhores.
“O triunfo do cristianismo”, ou “O triunfo da cruz”, por Tommaso Laureti. A história
de como um messias oriental e magriço veio a substituir os fortes deuses pagãos
europeus.

Com base no que aconteceu durante esta fase sangrenta, há um


laborioso processo de adulteração, falsificação e distorção dos
ensinamentos religiosos, primeiro muitos séculos antes de Jesus
Cristo, nas mãos dos líderes judeus, e depois nas mãos dos
apóstolos e pais da Igreja (São Paulo, São Pedro, Santo Agostinho),
geralmente da mesma etnia. Houve também uma base de conflitos
étnicos, tal como vimos na primeira e segunda parte deste artigo.
SITUEMOS

O Mediterrâneo Oriental (Ásia Menor, Egeu, Cartago, Egito, Fenícia,


Israel, Judeia, Babilônia, Síria, Jordânia etc.) era anteriormente um
caldeirão de fermentação de todos os tipos do mundo antigo, a
confluência de todos os tipos de escravos, criminosos, exilados,
pisoteados e párias da Mesopotâmia, do Egito, do Império Hitita e
do Império Persa. Esse caldeirão repleto com diferentes
personagens, esteve nas bases e nas origens do judaísmo. E seus
vapores também intoxicaram muitos gregos decadentes de Atenas,
Corinto e outros estados helênicos, mesmo séculos antes da era
cristã.

Quando Alexandre, o Grande conquistou o Império Macedônio, que


se estendeu da Grécia até as fronteiras do Afeganistão e do
Cáucaso até o Egito, toda a área do Império Persa, o Mediterrâneo
Oriental e África do Norte recebeu uma forte influência grega,
influência que seria sentida fortemente sobre a Ásia Menor, Síria
(incluindo Judeia) e, acima de tudo, no Egito, com a cidade de
Alexandria (fundada por Alexandre em 331 AEC) como a maior
expoente. Isto inaugurou um estágio de hegemonia macedônica
que se chama helenística, para diferenciá-la da helênica
“clássica” (dórios, jônios, coríntios). Alexandre fomentou o
conhecimento e a ciência em todo o seu império, patrocinou as
várias escolas de sabedoria e, após sua morte, seus sucessores
macedônios continuaram na mesma linha. Muitos séculos depois,
no Baixo Império Romano, depois de uma terrível degeneração,
poderíamos distinguir, dentro do helenismo, duas correntes:

(A) Tradicional, de caráter elitista, baseada nas escolas egípcias,


helenísticas e alexandrinas, que defendia a ciência e o
conhecimento espiritual, e onde as artes e as ciências floresceram
até um ponto nunca visto antes, sendo a cidade de Alexandria a
maior expoente. Tal foi a importância e o “multiculturalismo” de
Alexandria (bem como a sua abundância de judeus que nunca
cessaram de agitar contra o paganismo) como a maior cidade do
mundo antes de Roma, que ela tem sido chamada de “Nova Iorque
dos tempos antigos”. A biblioteca de Alexandria, um feudo da gnose
das altas castas, vetada à plebe, era lotada de sábios egípcios,
persas, caldeus, hindus e gregos, bem como cientistas, arquitetos,
engenheiros, matemáticos e astrônomos de todo o mundo, ficando
orgulhosa de ter acumulado naquele lugar grande parte do
conhecimento do mundo.

(B) Contracultural e de caráter mais popular, liberal e massivo,


sofista e cínica (mais livremente estabelecida na Ásia Menor e
Síria), que distorceu e misturou os cultos antigos e que, em uma
mentalidade claramente humanista e suavizada, voltada às massas
de escravos do Mediterrâneo Oriental, pregando as primeiras
noções de “democracia para todos”, “igualdade para todos” e
“direitos para todos”. Este aspecto caracterizou-se por um
multiculturalismo e cosmopolitismo bem intencionado, mas
finalmente fatal, que enfeitiçou a mente de muitos escravos
instruídos e pela exportação da cosmovisão e cultura grega para
povos não gregos, bem como pela exportação da cultura judaica
para povos não judeus. Esta última corrente foi o fundo helenístico
que, desfigurado, se uniu ao judaísmo e à matéria babilônica em
decomposição, formando o cristianismo — que, para não esquecer,
foi originalmente pregado exclusivamente na língua grega às
massas de servos, pobres e plebeus nos bairros insalubres das
cidades do Mediterrâneo Oriental. Os primeiros cristãos eram de
comunidades exclusivamente de sangue judeu, convertidos em
cosmopolitas com sua forçada diáspora e o contato helenístico que
supostamente e, até certo ponto, esses “judeus do gueto” (do qual
São Paulo é o exemplo mais representativo) foram desprezados
pelos círculos judaicos mais ortodoxos.
As Sete Igrejas das quais fala o Novo Testamento (Apocalipse 1:11): Éfeso, Esmirna,
Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. Todas localizadas na Ásia Menor.
Este núcleo geográfico é para o cristianismo o que a Baviera é para o nazismo: o
centro em que o novo credo é fermentado e sua expansão é impulsionada. Esta área
fortemente helenizada culturalmente, densamente povoada e onde existia um
verdadeiro caos étnico, era onde os apóstolos, em idioma grego, inflaram a pregar, e
aqui tiveram importantes Primeiros sete concílios teológicos cristãos (como Niceia,
Calcedônia ou Ancira). O cristianismo, que se expandiu para aproveitar a vantagem
oferecida pela dispersão de escravos semitas em todo o Império Romano, representa
um refluxo asiático derramado sobre a Europa.

APARECE “A SEITA JUDAICA”

Começamos no ano 33, data em que foi crucificado pelas mãos dos
romanos um judeu rebelde chamado Yeshua ou Jesus, que se
proclamava o Messias dos judeus e rei de Israel. Nesta primeira
fase expansiva do cristianismo é particularmente importante citar
Paulo de Tarso (comumente conhecido como São Paulo), um judeu
com cidadania romana e educação helenística, embora criado pelo
fundamentalismo judaico mais recalcitrante. A princípio, este
personagem se dedicou a perseguir os cristãos (que, não se
esqueçam, eram todos judeus) em nome das autoridades do
judaísmo “oficial”. Em um ponto de sua vida ele “cai do
cavalo” (literalmente, como é dito) e diz que uma doutrina que teve
tamanho efeito entre os próprios judeus, invariavelmente, causaria
uma devastação terrível em Roma, odiada a morte tanto por ele
como por quase todos os judeus de seu tempo, ressentidos pela
ocupação das legiões, das graves guerras contra Roma e das
deportações.

Depois de sua grande revelação, São Paulo decide que o


cristianismo é uma doutrina válida a ser pregada aos gentios, isto
é, aos não judeus. Com esta inteligente habilidade diplomática para
negócios e movimentos subversivos, São Paulo estabelece
numerosas comunidades cristãs na Ásia Menor e no Egeu, a partir
do qual a “boa nova” será pregada de forma intensa.
Posteriormente, numerosos centros de pregação são fundados no
Norte da África, Síria e Palestina, passando inevitavelmente na
Grécia e na mesma Roma. O cristianismo se alastrou como um
incêndio através das “camadas mais humildes” da população do
Império, que eram as camadas mais orientalizadas etnicamente.

O cristianismo, então, chega ao Império Romano através dos


judeus, liderados por São Paulo, São Pedro e outros pregadores.
Sua natureza, baseada nos sinistros mistérios sírio-fenícios — que
pressupunham a pecaminosidade e impureza do ser que os
praticava — é atraente para as imensas massas de escravos
mestiços de Roma. As primeiras reuniões cristãs em Roma são
realizadas secretamente nas catacumbas judaicas subterrâneas e
nas próprias sinagogas judaicas são dados discursos e sermões
cristãos, muito diferentes daqueles encontrados na Europa cristã
posterior: os discursos de São Paulo, por exemplo, são gritos
políticos; inteligentes, virulentos e fanáticos à rebelião contra todo
o mundo europeu, e especialmente contra os seus máximos
expoentes no Grande Oriente: a Grécia e Roma. Nos discursos,
fórmulas incendiárias são misturadas como visões delirantes do
Apocalipse, a queda de Roma ou Babilônia, a recuperação de
Jerusalém, a reconstrução do Templo de Salomão, a matança dos
infiéis, a vinda do Reino dos Céus, a salvação eterna de Jesus
Cristo, a horrível condenação dos pagãos pecadores e todas
aquelas estranhas ideias orientais.

Outro ponto-chave a ser reconhecido pelos primeiros pregadores


era tirar proveito da afinidade cristã pelos pobres, abandonados,
marginais e incapazes, para estabelecer instituições de caridade,
claramente precursoras dessa comprometida "consciência social"
que vemos hoje, e que nunca havia sido vista no mundo pagão
antes. É fácil ver que essas medidas tiveram o efeito de atrair toda
a escória de Roma, além de preservá-la e aumentá-la.

O cristianismo é imediatamente perseguido no Império de forma


intermitente e esporádica, posto que seus membros se recusam a
servir nas legiões e a prestar homenagem ao imperador. Embora as
perseguições romanas anti-cristãs tenham sido grandemente
exageradas pelos vitimizadores, a opressão moderada sofrida pelos
cristãos foi essencialmente por razões políticas e não religiosas: o
Império Romano sempre tolerou diferentes religiões, mas suas
autoridades viram no cristianismo uma seita subversiva, uma
panelinha (camarilha) do judaísmo que lhes tinha dado tantas
dores de cabeça no Oriente; um centro de pregação anti-romana,
uma vez que, entre outras coisas, os bispos locais faziam líderes da
mesma rebelião anti-romana. Os políticos romanos da época, além
disso, sequer distinguiam os cristãos e os judeus — tão
compenetrados como estavam —, e não a toa viam no cristianismo
um instrumento de vingança dos judeus contra Roma, tal como os
outros movimentos religiosos (saduceus, fariseus, zelotes) no
coração da judiaria. Em muitos casos, as várias facções cristãs
entravam em conflito umas com as outras em guerras de
apunhaladas pelas costas (traições) e envenenamentos (algo não
muito diferente das bandas étnicas atuais).
“A última oração dos mártires cristãos”, por Jean-Léon Gérôme.

O CASO DE NERO COMO UM EXEMPLO DE DISTORÇÃO


HISTÓRICA

O exemplo perfeito de vitimização cristã é encontrado na figura do


imperador Nero. Nero entrou na história como um psicopata cruel,
tirânico, pervertido, caprichoso e excessivo, e é realmente incrível a
quantidade de mentiras que os cristãos escreveram em sua
biografia, a tal ponto que o nome de Nero virou sinônimo de tirania,
capricho e depravação. A real é que Nero não suportava o judaísmo
ou o cristianismo, e a seu mando diversos judeus e cristãos foram
devorados pelos leões no Coliseu ao som dos aplausos do povo de
Roma. A realidade deste imperador é outra: no ano 64, ocorre um
grande incêndio em Roma que destrói numerosos distritos e deixa a
cidade em estado de emergência. Nero acolhe as vítimas pelo fogo,
abrindo as portas de seus palácios para que a cidade tenha onde
ficar. Além disso, paga de seus próprios fundos privados a
reconstrução da cidade.
O que Nero fez foi agir contra os cristãos. Nas palavras do famoso
historiador romano Tácito (55-120), “Nero colocou a culpa e infligiu
as mais requintadas torturas em uma classe odiada por suas
abominações, chamada cristãos pelo populacho”. Ordenou prendê-
los “não tanto pelo incêndio mas pelo seu ódio à raça humana”.
Nero, então, fez o seguinte com os cristãos capturados: “cobertos
por peles de animais, eles foram rasgados por cães e pereceram,
ou pregados a cruzes, ou condenados pelo fogo e queimados, para
servir de iluminação noturna quando a luz do dia havia expirado”.

Outra questão à parte é a esposa de Nero, Popeia Sabina. Esta


resulta ser uma figura interessante como uma mulher sedutora,
ambiciosa, sem escrúpulos ou moral, conspiradora, manipuladora e
típica de uma sociedade muito civilizada — uma autêntica megera.
Tendo-se casado duas vezes anteriormente, e pelas suas influências
como amante, convence Nero a matar a sua própria mãe e
divorciar-se de sua esposa atual — após o qual faz que exilem-a e
forcem-a cortar suas veias, e seu cadáver é decapitado e sua
cabeça presenteada para Popeia. Depois disso, com o caminho
livre, casa-se com Nero e irrompe na alta sociedade romana com
excessos de luxúrias, extravagâncias e várias futilidades.
Precisamente a instâncias de suas intrigas, o famoso filósofo
hispânico Sêneca é levado ao suicídio.

Popeia, no entanto, simpatizava abertamente com os judeus e a


causa cristã, e, assim, favoreceu e tramou, mediante conspirações,
pelas costas do imperador. Este, cansado da conspiração ao seu
redor, mata-a, no ano 65, supostamente com um chute na barriga
enquanto a mesma estava grávida. Todos estes fatos seguem a
uma repressão antijudaica por parte de Nero, em que caem futuros
santos cristãos como o judeu São Pedro (ex-pescador e primeiro
bispo de Roma — por isso considerado como o primeiro Papa) e o
mesmo São Paulo, outro judeu rebelde. São Paulo é decapitado por
ser cidadão romano. São Pedro, que não tinha cidadania romana
(um imigrante não regulamentado), é crucificado de ponta-cabeça.
De acordo com a tradição cristã, ele pede para ser crucificado dessa
maneira por “não ser digno de morrer como Jesus”, mas de acordo
com o historiador judeu Flávio Josefo, crucificar em posições
desconfortáveis era uma prática comum entre os soldados romanos
para se divertir de uma maneira um tanto macabra.

Nero, apesar de ter mostrado ser magnânimo e generoso com o


povo, passou para a história moderna como o anticristo, um
matador de cristãos implacável que assassinou sua própria esposa
por um capricho, que por medo de conspirações rodeou-se por uma
guarda pessoal de pretorianos de origem romana — os únicos que
ele considerava leais — e que provocou um incêndio para então
tocar lira diante das chamas, com o objetivo de culpar aos cristãos
por algum ódio estranho e irracional, quando Nero sequer estava
em Roma quando o incêndio começou.

DESTRUIÇÃO DE JERUSALÉM: O CRISTIANISMO CRIA


FORÇAS FORA DE JUDEIA

Assim que os judeus se inteiram dos acontecimentos em Roma com


os cristãos, eles começam a planear uma revolta e, perfeitamente
coordenados, eles se revoltaram por todo o Império Romano.
Assim, no ano 66, em um golpe surpresa e bem arquitetado, todos
os habitantes gentios de Jerusalém são abatidos, exceto pelos
escravos que foram submetidos a eles. Nero usa suas legiões para
esmagar a revolta duramente no resto do Império, mas, em sua
capital, os judeus se fortalecem. No ano 68, bem quando o general
Vespasiano viaja para tomar Jerusalém, Nero é misteriosamente
assassinado.

Vespasiano, então, vira imperador e envia seu filho Tito para a


frente da Legio X Fretensis, com o objetivo de esmagar os judeus.
No ano 70, Roma triunfa, Jerusalém é devastada e saqueada pelos
legionários romanos e dizem que no processo um milhão de judeus
morreram pelas armas romanas (só em Jerusalém se acumulou,
durante o cerco, três milhões de judeus). Este ano fatídico,
traumatizante, ultrajante e chave para a judiaria, vê a escravização
e dispersão dos judeus em todo o Mediterrâneo (diáspora),
favorecendo grandemente o crescimento do cristianismo.
Há sucessivos imperadores (Trajano, Adriano) bem conscientes do
problema judaico mas que não prestam muita atenção ao próprio
cristianismo, mais do que qualquer outra coisa porque estão muito
ocupados com o quebra-cabeça judaico na “Terra Santa”,
reprimindo os judeus e, mais uma vez, sem destruí-los por
completo. Nessa época, a nova religião estava gradualmente
crescendo e ganhando apoio entre as massas de escravos graças a
sua ideologia igualitária e também no altos cargos da
administração, entre uma burocracia cada vez mais decadente,
corrupta e materialista. O cristianismo glorificava a desgraça em
vez de glorificar o combate contra ela, considerava o sofrimento
como uma virtude que dignificava e proclamava que o Paraíso
esperava os mansos (lembre-se como os pagãos ensinavam que só
os guerreiros entravam no Valhala). Se trata da religião dos
escravos, e esses faziam-na sua de boa vontade. O cristianismo
primitivo desempenhou um papel muito semelhante ao da posterior
maçonaria: foi a estratégia judia de usar personagens fracos e
ambiciosos, fascinando-os com um ritualismo sinistro. O resultado é
como um comunismo para o Império Romano, incluso favorece a
"emancipação" e a "independência" das mulheres de seus maridos,
para capturá-las com a estranha e nova liturgia cristã, e exortá-las
a doar seu próprio dinheiro para a causa, em uma fraude bastante
semelhante em sua essência da atual New Age ou Nova Era.
Este mapa mostra a extensão do cristianismo em torno do ano 100. O Império
Romano está representado em um tom mais claro do que os territórios bárbaros.
Observe que as áreas de pregação cristã coincidem exatamente com os
assentamentos de maior concentração de judeus.

É no início do século II que a figura dos peixes gordos cristãos,


chamados “bispos”, começa a adquirir importância. São Inácio de
Antioquia (é interessante prestar atenção aos sobrenomes dos
pregadores, já que eles sempre vêm de áreas orientais mestiças e
judaizadas — neste caso, Síria), no ano 107, diz: “Convém estardes
sempre de acordo com o modo de pensar do vosso Bispo. Por outro
lado, já o estais, pois o vosso presbitério, famoso justamente por
isto e digno de Deus, sintoniza com o Bispo da mesma forma que
as cordas de uma harpa. Com vossos sentimentos unânimes, e na
harmonia da caridade, constituís um canto a Jesus Cristo”. São
Inácio é capturado pelas autoridades romanas e lançado aos leões
em 107.

Por volta do ano 150, o grego Marcião de Sinope procura fazer uma
espécie de purificação “desjudaizante” no cristianismo, rejeitando o
Antigo Testamento, dando importância preeminente ao Evangelho
de São Lucas e adotando uma cosmovisão gnóstica com ar órficos e
maniqueístas. Esta é a primeira tentativa de “reforma”, de
europeização, do cristianismo, intentando desprovi-lo de sua
origem judaica. Seus seguidores, os marcionitas, professadores de
um credo gnóstico, são classificados como hereges pelo
cristianismo mainstream.

A situação do Império Romano no ano 150, quando a população total rondava em


sessenta milhões, particularmente concentrado no Oriente Próximo. O vermelho
aponta os territórios em que algumas cidades (lembre-se que é uma religião
essencialmente urbana) têm uma população cristã importante.
Este mapa mostra a expansão geral do cristianismo em 185. Observe a grande
diferença com o mapa anterior e note também que a área mais influenciada pelo
cristianismo permanece o Mediterrâneo Oriental, uma área fortemente semitizada.

Posteriormente, perto do ano 200, vide que novas massas estavam


sendo incorporadas ao cristianismo, que não falavam grego, mas
latim, uma tradução latina dos Evangelhos começou a circular nos
centros cristãos mais ocidentais.

O Imperador Diocleciano (reinou 284-305) divide o Império em


duas metades para torná-lo mais governável. Ele permanece com o
lado oriental, e entrega o ocidental para Maximiano, um ex-
camarada de armas. Ele instaurou uma burocracia rígida, e essas
medidas cheiram a decadência irrecuperável. Apesar disso,
Diocleciano é um veterano realista e justo. Ele permite que seus
legionários cristãos se ausentem das cerimônias pagãs, desde que
mantenham sua disciplina militar. Mas essa era precisamente a
coisa mais complicada, onde os bispos desafiavam
desafiadoramente a autoridade do imperador. Ele, entretanto, é
benevolente, e somente um pacifista cristão é executado. No
entanto, ele insiste agora que os cristãos participem de cerimônias
estatais de natureza religiosa, e a resposta cristã a esta decisão é
uma arrogância crescente com numerosos tumultos e provocações.
Mas mesmo neste ponto, o Imperador Diocleciano renuncia a pena
de morte, se contentando em fazer escravos os rebeldes que ele
capturou. A resposta a isso é mais perturbações e um incêndio no
mesmo palácio imperial, e sucedem provocações cristãs e
insolência em todo o Império. Mas o que Diocleciano faz é executar
nove bispos desordeiros e oitenta rebeldes em Palestina, a área
mais agitada por rebeliões cristãs.

O Imperador Diocleciano. Considera-se que depois de seu reinado Roma entrou em


franca decadência.

Um desses rebeldes foi o franzino São Procópio. Para situar sua


magreza, seu contemporâneo, o bispo Eusébio de Cesareia, fala
sobre ele: "Ele havia dominado o seu corpo até o tornar, por assim
o dizer, num cadáver; mas a força que a sua alma encontrava na
Palavra de Javé, dava vigor ao seu corpo. Vivia a pão e água; e só
comia a cada dois ou três dias. Apenas estudava a Palavra de Javé,
e, por outro lado, tinha alcançado pouco dos conhecimentos
profanos". Ou seja, ele tinha um corpo fraco e doente, afastou-se
de todo o “profano” (natural) que existe no mundo e só conhecia a
Bíblia e os discursos dos bispos. O cristianismo é nutrido no início
de homens similares, que praticavam um ascetismo semelhante ao
sadomasoquismo.

Apesar da suavidade destas perseguições, Diocleciano entra na


história como um monstro sedento por sangue cristão. A história é
escrita pelos vencedores.

OS CRISTÃOS DEIXAM DE SER PERSEGUIDOS

- Em 311, o posterior imperador Galério cessa a perseguição ao


cristianismo através do Édito de Tolerância de Galério, e edifícios
cristãos começam a ser construídos sem interferência do Estado.
Ninguém sabe com quais métodos os cristãos conseguem se
infiltrar nas altas cúpulas, exercer as pressões necessárias e colocar
em marcha as fontes de que necessitam para que Roma ceda mais
e mais. Este imperador foi partidário da perseguição que
Diocleciano realizou, mas não deve ter aprendido a lição e talvez
pensou que, cedendo e dando tolerância aos cristãos rebeldes, eles
cessariam suas agitações. Ele estava errado. Os cristãos querem
derrubar Roma há muito tempo.

Em 306, o imperador Constantino I (reinou entre 306-337) chega


ao poder. Este imperador não é cristão, mas sua mãe Helena é, e
logo se declara um decidido partidário do cristianismo.

- Em 313, mediante o Édito de Milão, a “liberdade religiosa” é


proclamada e a religião cristã é legalizada no Império Romano, por
Constantino representando o Império Ocidental, e Licínio
representando o Império Oriental. O Império está em estado de
decadência, pois não só o povo romano original se entregou ao
luxo, a voluptuosidade e a opulência, recusando a servir nas
legiões, mas o cristianismo se infiltrou na elite burocrática, e agora
numerosas pessoas influentes praticam-o e defendem-o. O Édito de
Milão é importante, posto que termina de uma vez por todas com a
clandestinidade em que o mundo cristão estava mergulhado.

Após a legalização, os cristãos começam a atacar os pagãos sem


piedade. O Sínodo de Ancira de 314 denuncia o culto à deusa
Ártemis (a deusa favorita e mais amada dos espartanos) e um
edital do mesmo ano faz com que pela primeira vez populachos
histéricos comecem a destruir templos pagãos, quebrar estátuas e
assassinar os sacerdotes. É preciso compreender o significado de
antigamente da destruição de um templo. Um templo não era
apenas um lugar de culto religioso para os sacerdotes, mas era um
lugar de encontro e referência para todo o Povo. Em nossos dias,
estádios de futebol ou casas noturnas [discotecas, baladas] são
minimamente semelhante ao que o templo era para o povo.
Destruí-lo equivalia sabotar a unidade desse povo, destruir o
próprio povo. Quanto à quebra de estátuas, também é trágica. Os
gregos (e os romanos herdaram isso) acreditavam firmemente que
seus melhores indivíduos eram semelhantes aos deuses, dos quais
eles eram considerados descendentes. Isso é visto muito
claramente na mitologia grega, onde havia mortais tão perfeitos e
bonitos que muitos deuses (como Zeus) tiveram amantes mortais,
e muitas deusas (como Afrodite) fizeram o mesmo. Além disso,
muitos indivíduos particularmente perfeitos e valentes poderiam
alcançar a imortalidade olímpica como mais um deus. Somente um
povo que se considera próximo dos deuses poderia ter idealizado
isso, e para mostrar qual tipo de ser humano era amado pelas
forças divinas, os gregos estabeleceram um cânone de perfeição
para corpo e rosto, em que era criado toda uma rede de complexas
proporções matemáticas e números sagrados. Destruir uma estátua
era destruir o ideal humano helênico, sabotar a habilidade do
homem de alcançar a própria Divindade de onde procede e para o
qual ele deve retornar um dia.
Enquanto a destruição anti-pagã ocorre, e como um lembrete de
que o cristianismo primitivo sempre foi filo-judaico e anti-romano,
Constantino permite aos judeus visitar Élia Capitolina (Jerusalém)
para rezar no Muro da Lamentações, que é e continua a ser a única
coisa que permanece do Templo de Salomão. Assim, Constantino
rompe a proibição decretada aos judeus no ano 134, quando as
legiões romanas aniquilaram a Revolta Palestina de Simão
Barcoquebas durante a III Guerra Judaico-Romana.

- Desde 317, as legiões do Império — que não têm relação com os


antigos legionários de origem itálica, mas que são repletas de
cristãos raivosos, por um lado, e germânicos leais ao Império, por
outro — são acompanhados por bispos. Além disso, eles lutam sob
o signo do Lábaro, as duas primeiras letras gregas do nome de
Cristo, ou seja, X (Chi) e P (Rho), combinadas, e sob a cruz cristã,
supostamente revelada a Constantino em um sonho em que se lhe
transmite “In hoc signo vinces” ("Por este sinal conquistarás").

Um lábaro ou cristograma, símbolo cristão adotado por Constantino e ordenado a


inscrever nos escudos dos legionários. Observe as letras gregas X (Chi) e P (Rho)
formando o lábaro propriamente dito, e as letras gregas alfa maiúscula
e ômega minúscula em ambos os lados do abarum.

NO ALTO DA PIRÂMIDE... SOMENTE HÁ ESCRAVOS:


GENOCÍDIO ANTIPAGÃO
- Em 325, após o Concílio de Niceia, o cristianismo atinge uma
uniformidade doutrinária que une as várias facções, e adquire um
caráter legal administrativo, como um estado dentro do Estado.
Niceia, por sinal, é uma cidade na província de Bitínia, Ásia Menor
(agora Turquia). Constantino reúne trezentos e dezoito bispos, cada
um eleito por sua comunidade, para debater e estabelecer uma
“normalização cristã”, em vista das muitas facções e discrepâncias
dentro da religião. O resultado é o chamado “credo niceno”, o
cristianismo a predicar.

Nesta época, o imperador necessita de uma força de união para o


crisol de raças que se impuseram em Roma. Havia muitas “religiões
da salvação” com ritos que eram praticados em segredo e que são,
em sua maioria, parte dos cultos “subterrâneos” e “da salvação”
que sempre surgem em tempos de decadência e degeneração.
Existe o culto de Mitra (culto de origem iraniana e caráter militar, já
corrompido pelas massas, ainda que durante um período
ascendente era popular nas legiões romanas), e, também, outros.
O imperador escolhe o cristianismo para seu império, não por seu
valor como religião, mas por sua intolerância semítica, seu
fanatismo — famoso por todo o império — sua experiência de
séculos como instrumento de intriga, suas redes de Inteligência e
seu proselitismo igualador e “globalizador”, tornam a “religião de
emergência” perfeita, dado que outras religiões, desprovidas de
intolerância, não serão impostas pela violência aos relutantes, com
esse efeito unificador, de rebanho, que proporcionará o
cristianismo. E o que o insensato Constantino precisa é um
rebanho, não uma combinação de pessoas diferentes, cada uma
com sua própria identidade. O cristianismo, portanto, prolonga um
pouco a agonia do Império Romano. As pessoas começam a se
converter ao cristianismo por esnobismo e escalada, para alcançar
posições altas — isto é, “fazer carreira”.
De todos os cultos religiosos exóticos que proliferaram no Baixo Império Romano, o
de Mitra é talvez o mais interessante. Vindo do Irã, era extremamente popular entre
as legiões romanas, que lhes deram um caráter marcadamente militar. Este culto
baseava-se na recriação do sacrifício do touro telúrico primordial para libertar a
energia do Cosmos (a criação do mundo a partir da queda de seres “titânicos”
primigênios é muito recorrente em praticamente qualquer mitologia pagã indo-
europeia, mas isso vimos no artigo sobre os bersekers) assemelhando o iniciado no
herói que triunfa da besta com as armas na mão. O culto de Mitra foi duramente
perseguido pelo cristianismo, e seus templos, os mithraeum ou mitreus, foram
destruídos.

Então, depois de mil intrigas, conspirações, lutas de facções,


envenenamentos, manipulações e chantagem, o Édito de Milão dá
ao cristianismo o status de religião “respeitável”, dando-lhe
caminho livre. Surge a face cristã mais desagradável: os cristão
exigem imediatamente que se puna os “adoradores de ídolos” com
os bestiais castigos descritos no Antigo Testamento. Em toda a
Itália, com exceção de Roma, os templos de Júpiter foram
fechados. Em Dídimos, na Ásia Menor, é saqueado o santuário do
Oráculo de Delfos (ondo Apolo era cultuado), que, com os outros
sacerdotes, é sadisticamente torturado até a morte. Constantino faz
com que os pagãos sejam expulsos do Monte Atos (uma zona
mística pagã na Grécia, que mais tarde se tornara um importante
centro cristão-ortodoxo), destruindo todos os templos pagãos na
área. Em 324, Constantino, com o cérebro lavado por sua mãe
Helena, ordena destruir o templo do deus Asclépios, em Cilicia,
assim como os numerosos templos da deusa Afrodite em
Jerusalém, Afaka (Líbano), Mambré, Fenícia, Balbeque e outros
lugares.

- Em 326, Constantino muda a capital de seu império para Bizâncio,


renomeando-a como Nova Roma. Isto, com a adoção do
cristianismo, significa uma mudança radical dentro do Império
Romano. A partir daí, o foco romano de atenção cultural muda sua
origem no norte da Europa e Grécia para a Ásia Menor, Síria,
Palestina e Norte da África (o Mediterrâneo Oriental, a partir do
qual a maioria dos habitantes do Império agora vêm), importando
modelos de beleza semita, impensável para os antigos romanos,
que, como os gregos, tinham a beleza europeia em alta estima
como sinal de origem nobre e divina.

- Em 330, Constantino rouba estátuas e tesouros da Grécia para


decorar a Nova Roma (posteriormente Constantinopla), a nova
capital do seu Império. Ao mesmo tempo, um bispo de Cesareia, na
Ásia Menor — mais tarde conhecido como São Basílio —, que é
creditado com frases grandiosas como “Eu chorei sobre a minha
vida miserável”, lançou as bases do que adiante se tornaria a Igreja
Ortodoxa.

- Em 337, em seu leito de morte, o Imperador Constantino I é


batizado cristão, tornando-se o primeiro imperador romano cristão.
Os aduladores judeu-cristãos, querendo deixar claro o que o
imperador significava para eles, o chamariam de Constantino, o
Grande.

- Em 341, o imperador Flávio Júlio Constâncio ou Constâncio II


(reinado 337-361), outro fanático cristão, proclama sua intenção de
perseguir “todos os adivinhos e helenistas”. Assim, muitos pagãos
gregos são aprisionados, torturados e executados. Nessa época,
líderes cristãos famosos como Marcos de Aretusa ou Cirilo de
Heliópolis fazem sua própria vontade, particularmente demolindo
templos pagãos, queimando escritos importantes e perseguindo os
pagãos que, de alguma forma, ameaçam a expansão da Igreja
incipiente.

[Ver aqui o imperador Constâncio II. Sua feição é patentemente


mais suave do que a dos antigos imperadores pagãos].

Não podemos duvidar que, pelo menos em parte, o cristianismo


usou a repugnância que sentia pela decadência romana para
perseguir qualquer culto pagão, assim como o Islã atualmente
louva o declínio da Civilização Ocidental. Essa foi a desculpa
perfeita e fortuita que o cristianismo usou para justificar seus atos
e exterminar o paganismo europeu. O que perseguiu
sistematicamente o cristianismo se tratava dalgo puro e
aristocrático: era o helenismo luminoso, amante da gnose, da arte,
da filosofia, do livre debate e das ciências naturais. Era o
conhecimento egípcio, grego e persa. O que o cristianismo estava
fazendo com sua perseguição e extermínio era literalmente apagar
os rastros dos deuses.

- E m 3 4 6 h á o u t ra g ra n d e p e r s e g u i ç ã o a n t i - p a g ã e m
Constantinopla. O famoso autor e orador anti-cristão Libânio é
acusado de ser “mago” e é exilado. Neste ponto, o Império
Romano, que outrora foi grande, ficou caótico e irreconhecível. Os
romanos pagãos patriotas devem ter colocar suas mãos sobre sua
cabeça ao ver como multidões de ignorantes arrebatam de seus
herdeiros toda a colheita de culturas pagãs, não só da própria
Roma, mas também do Egito, Pérsia e Grécia.

- Em 353, um decreto de Constâncio estabelece a pena de morte


para quem pratica uma religião com "ídolos". Outro decreto, em
354, ordena fechar todos os templos pagãos. Muitos deles são
destruídos por multidões fanáticas, que torturam e assassinam os
sacerdotes, saqueiam os tesouros, queimam os escritos, destroem
obras de arte que hoje seriam consideradas sublimes e arrasam
com tudo em geral. A maioria dos templos que caem neste período
são profanados, sendo convertidos em "bordéis" e "cassinos". As
primeiras "fábricas de cal" são instaladas ao lado de templos
pagãos fechados, dos quais extraem sua matéria-prima, de modo
que grande parte da escultura e arquitetura clássica é transformada
em cal. No mesmo ano de 354, um novo edito simplesmente
ordena a destruição de todos os templos pagãos e o extermínio de
todos os "idólatras". Segue-se, então, os massacres de pagãos, as
demolições de templos, a destruição de estátuas e os incêndios de
bibliotecas em todo o Império.

Esta estátua do imperador Augusto (o primeiro imperador romano, que obviamente


era pagão) foi deformada por cristãos, que gravaram uma cruz em sua testa.

Não cometamos o erro de culpar os imperadores cristãos


romanizados. Eles eram homens ridículos e fracos, mas estavam
nas mãos de seus educadores. Esses instrutores, que respondem
ao tipo de sacerdote vampirico e parasitário tão odiado por
Nietzsche, eram os verdadeiros líderes da destruição meticulosa e
maciça que estava sendo realizada. Os muitos bispos e santos a
que nos referimos eram homens “cosmopolitas” de educação
judaica, muitos dos quais nascidos na Judeia ou provenientes de
áreas essencialmente judaicas. Eram judios convertidos que, ao
entrar em contato com seus inimigos, estudaram-os com
intensidade e ódio e souberam destruí-los. Eles tinham uma ampla
educação rabínica e conheciam em profundidade também os
ensinamentos pagãos, dominando as línguas latina, grega,
hebraica, aramaica, síria e egípcia. Tais personagens, com
inteligência e astúcia tão destacadas como seu ressentimento,
estavam convencidos de que estavam construindo uma nova ordem
inteira, e que para isso era necessário apagar integramente os
vestígios de qualquer civilização anterior e qualquer pensamento
que não fosse de origem judaica. Deve-se reconhecer que seu
conhecimento psicológico e seu domínio da propaganda eram de
um nível muito alto.

- Em 356, todos os rituais pagãos são colocados fora da lei e


puníveis com a morte. Um ano depois, todos os métodos de
adivinhação, incluindo a astrologia, são proscritos.

- Em 359, na cidade muito judaizada de Citópolis (província da


Síria, atualmente corresponde a Bete-Seã, em Israel), os líderes
cristãos organizam nada mais e nada menos que um campo de
concentração para os pagãos detidos em todo o Império. Neste
campo, aqueles que professam crenças pagãs ou simplesmente se
opõem à Igreja são presos, torturados e executados. Com o tempo,
Citópolis se torna uma infra-estrutura inteira de masmorras,
campos de concentração, salas de tortura e execução, onde
milhares de pagãos morriam. Eis o gulag da época. Os maiores
horrores do palco acontecem aqui.

O IMPERADOR JULIANO COMO ÚLTIMO SUSTENTÁCULO


ROMANO

Estando a Europa neste estado lamentável, e toda a esperança


parecendo perdida, há uma última figura que representa a tradição
ancestral: o imperador Juliano (331-363), a quem os cristãos
chamaram de Juliano, o Apóstata, por ter rechaçado o cristianismo
(no qual foi educado) e defendido um retorno ao paganismo.
Juliano restaura o paganismo em 361, organiza um templo pagão
para se opor à Igreja cristã, e proclama benevolência aos pagãos.
Em 362, ordena a destruição do túmulo de Jesus em Samaria.

Juliano era filósofo, neoplatônico, estoico, asceta, homem de letras,


artista, místico, estrategista e soldado. Nas guerras, ele sempre
acompanhava suas legiões, sofrendo as mesmas privações e
calamidades que um soldado. Diz-se que este imperador teve uma
visão em seus sonhos antes de sua morte: a águia imperial de
Roma (símbolo solar de Júpiter) voa para o Oriente, onde se refugia
nas montanhas mais altas do mundo. Depois de dormir por dois
milênios, ela acorda e volta ao Ocidente com um símbolo sagrado,
e é aclamada pelo Povo do Império. Em 363, no meio duma
campanha política, Juliano é apunhalado pelas costas por um
cristão infiltrado em suas fileiras.

O último imperador romano pagão foi um homem que, tentando


evitar o fim, vislumbrou um novo começo. Pertence a essa
misteriosa lista de grandes homens nascidos no tempo errado. Após
este último anúncio de uma ressurreição futura, Roma estava
podre, carcomida, moribunda e maldita. Passou de um espírito
forte, reto, dourado e espartano a um helenismo decadente,
cosmopolita, promíscuo, pseudo-sofisticado e complacente para
com os escravos — e deste helenismo decadente ao credo cristão.
Agora nada salvará Roma de sua destruição progressiva.
O imperador Juliano, o Apóstata (331-363). A partir daqui, veremos como as
estátuas dos imperadores gradualmente degeneram.

O GENOCÍDIO ANTI-PAGÃO CONTINUA COM MAIS


VIRULÊNCIA

Juliano, o último imperador patriótico de Roma, é sucedido pelo


imperador Flavio Joviano, um cristão fundamentalista que
restabelece o terror, incluindo os campos de Citópolis. Em 364, ele
ordenou a queima da biblioteca de Antioquia. Devemos assumir que
o que hoje chegou da filosofia, ciência, poesia e arte em geral da
era clássica nada mais é do que uma espoliação mutilada do que
restou após a destruição cristã.
Através de uma série de decretos, o imperador decreta a pena de
morte para todos os indivíduos que prestam culto pagão (incluindo
culto doméstico e privado) ou praticam adivinhação, e faz com que
todas as propriedades dos templos pagãos sejam confiscadas. Em
um decreto de 364, proíbe os chefes militares pagãos de comandar
tropas cristãs.

Nesse mesmo ano, Flavio Joviano é sucedido pelo imperador


Valentiniano I, outro fundamentalista alienado. Na parte oriental,
seu irmão, Valente Augusto, continuou com a perseguição dos
pagãos, sendo especialmente cruel na parte mais oriental do
Império. Em Antioquia, ele executou o ex-governador Fidustio e os
sacerdotes Hilário e Patrício. O filósofo Simônides é queimado vivo
e Máximo, outro filósofo, é decapitado. Todos os neoplatônicos e
leais ao Imperador Juliano são perseguidos com fúria. A essa altura
do campeonato deveria ter havido uma forte reação anti-cristã por
parte dos sábios e todos os patriotas pagãos em geral. Mas era
tarde demais, e tudo o que restava era preservar seu conhecimento
de alguma forma.

Nas praças das cidades orientais são erguidas grandes fogueiras


onde queimam livros sagrados pagãos, sabedoria gnóstica,
ensinamentos egípcios, filosofia grega e literatura romana... O
mundo clássico está sendo apagado, e não apenas naquele
presente, mas também no passado e no futuro. Os fanáticos
cristãos querem literalmente apagar todos os vestígios do Egito,
Grécia e Roma, para que ninguém saiba que eles existiram, e,
acima de tudo, o que os egípcios, os gregos e os romanos
disseram, pensaram e ensinaram.

- Em 372, o imperador Valentiniano ordenou ao governador da Ásia


Menor que exterminasse todos os helenos (entendidos como tais os
gregos pagãos da antiga linhagem helenística, isto é, indo-europeus
e acima de tudo a antiga casta dominante macedônica) e destruísse
todos os documentos relativos à sua sabedoria. Além disso, no ano
seguinte, novamente proíbe todos os métodos de adivinhação.
Por volta desta época, é quando os cristãos cunharam o termo
depreciativo "pagão" para designar os gentios, isto é, a todos que
não são nem judeus nem cristãos. "Pagão" é uma palavra que vem
do latino pagani, que significa camponês. A razão é que, nas
cidades sujas, corruptas, decadentes, cosmopolitas e mestiças do
decadente Império Romano, a população é essencialmente cristã,
mas no campo, os camponeses, que mantêm sua herança e
tradição, praticam zelosamente o culto pagão. É no campo, alheio
ao multiculturalismo, onde a memória ancestral é preservada.
(Tanto os cristãos quanto os comunistas se esforçaram para acabar
com o modo de vida do dono de terra, do fazendeiro e do
camponês). No entanto, este paganismo camponês, privado da
liderança e dos templos dos sacerdotes, e finalmente mergulhado
na perseguição, está condenado a virar eventualmente um monte
de superstições populares misturadas com paganismo pré-indo-
europeu, embora algo do fundo tradicional sempre permanecerá,
como nos "curandeiros" e "bruxas" locais que por muito tempo
subsistiram apesar das perseguições. Acabar com o paganismo não
foi tão fácil. Não era fácil encontrar ou destruir todos os templos
pagãos. Também não era fácil identificar todos os sacerdotes
pagãos, ou os pagãos que praticavam seus ritos em segredo. Essa
era uma tarefa de longo prazo, para uma ciumenta, minuciosa e
fanática elite de "comissários" que duraria muitas gerações, em
séculos de terror espiritual e perseguição intensa.

- Em 375 foi fechado, a força, o templo do deus Asclépio em


Epidauro, Grécia.
Extensão do cristianismo no ano 375. Estão marcados os territórios e as fronteiras
do Império Romano, já em decadência. Em vermelho, áreas fortemente
cristianizadas. Em rosa, as áreas atingidas pelo cristianismo, mas menos
cristianizadas no momento.

- Em 378 os romanos são derrotados pelo exército godo na Batalha


de Adrianópolis. O imperador intervém e, através de uma
diplomacia astuta, faz aliados (foederati ou federados) dos godos,
um povo germânico originário da Suécia, famoso por sua beleza e
que tinha um reino no que é agora a Ucrânia. Mais tarde, em 408,
depois da queda de Estilicão (um general de origem vândalo que
serviu fielmente a Roma, mas que foi traído por uma gentalha
política cristã e invejosa), as mulheres e os filhos destes federados
germanos são massacrados pelos romanos, propiciando que os
homens se unam em massa ao líder germânico Alarico.

- Em 380, o Imperador Teodósio I (Teodósio, o Grande para o


cristianismo) decreta, pelo Édito de Tessalônica, que o cristianismo
é oficialmente a única religião tolerável no Império Romano,
embora, naturalmente, isso era óbvio faz anos. Teodósio chama os
pagãos de "loucos", além de "repugnantes, hereges, estúpidos e
cegos".

[Ver aqui a estátua malfeita do imperador Teodósio].

O bispo Ambrósio de Milão inicia uma campanha de demolição dos


templos pagãos de sua zona. Em Elêusis, antigo santuário grego, os
sacerdotes cristãos lançam uma multidão faminta, ignorante e
fanática contra o templo da deusa Deméter. Os sacerdotes pagãos
Nestório e Priskos são quase linchados pela multidão. Nestório, um
venerável ancião de 95 anos, anuncia o fim dos mistérios de Elêusis
e prevê a imersão dos homens na escuridão durante séculos.

- Em 381, visitas simples aos templos helênicos são proibidas, e a


destruição de templos e as queimas de bibliotecas continuam
durante toda a metade oriental do Império. A ciência, a técnica, a
literatura, a história e a religião do mundo clássico são mais
apagadas. Em Constantinopla, o templo da deusa Afrodite é
convertido em um bordel (!), e os templos do deus Hélios e a deusa
Ártemis são convertidos em estábulos (!) Teodósio persegue e
clausura os mistérios de Delfos, o mais importante da Grécia, que
teve tanta influência na história da Grécia antiga.

- Em 382, a fórmula judaica Hallelu-Yahweh ou Aleluia ("Louvai a


Javé"), está impregnada nas massas cristãs. Em 384, o imperador
ordenou ao prefeito Materno Cinégio (tio do imperador e um dos
homens mais poderosos do Império) a cooperar com os bispos
locais na destruição de templos pagãos na Macedônia e na Ásia
Menor — coisa que ele, um fundamentalista cristão, faria de bom
grado. Entre 385 e 388, Materno Cinégio, estimulado por sua
fanática esposa Acância e em coluio com o bispo São Marcelo,
organizou grupos de assassinos "paramilitares" cristãos que vão por
todo o Império Oriental para pregar a "boa nova" — isto é, arrasar
altares e santuários pagãos. Eles destroem, entre muitos outros, o
templo de Edessa, um templo em Imbros (Gökçeada), o templo de
Zeus em Apameia, o templo de Apolo em Dídimos e todos os
templos de Palmira. Milhares de pagãos são presos e enviados às
masmorras de Citópolis, onde são aprisionados, torturados e
assassinados em condições subumanas. E se algum amante das
antiguidades ou da arte pensasse em restaurar, preservar ou
conservar os restos dos templos saqueados, destruídos ou
fechados, em 386 o imperador proíbe especificamente o cuidado
dos mesmos (!).

Busto do imperador germânico Júlio César, sucessor de Tibério. Os cristãos o


desfiguraram e gravaram uma cruz em sua testa.

- Em 388, o imperador, em uma medida pseudo-soviética, proíbe


conversas sobre assuntos religiosos, provavelmente porque o
cristianismo não pode se sustentar sozinho, e pode até sofrer sérias
perdas apenas através de debates religiosos livres. Neste ano,
Libânio, o velho orador de Constantinopla, uma vez acusado de ser
um mago, dirige ao imperador sua epístola desesperada intitulada
"Pro Templis" ("Pró Templos"), tentando preservar os poucos
templos pagãos restantes. Julgando o que aconteceu a seguir,
podemos concluir que o imperador, infelizmente, fez pouco caso.

- Entre 389 e 390, todas as datas de férias não-cristãs foram


proibidas. Ao mesmo tempo, tribos misteriosas de selvagens do
interior, lideradas por eremitas do deserto, invadem as cidades
romanas do leste e do norte da África. No Egito, na Ásia Menor e na
Síria, essas hordas arrasam com templos, estátuas, altares e
bibliotecas, matando qualquer um que cruze seu caminho. Teodósio
ordena destruir o santuário de Delfos, centro de sabedoria
respeitado em toda a Hélade, destruindo seus templos e obras de
arte.

O bispo Teófilo, patriarca de Alexandria, inicia perseguições de


pagãos, inaugurando em Alexandria um período de autênticas
batalhas civis, seja entre cristãos e pagãos, seja entre as próprias
facções cristãs. Ele transforma o templo do deus Dionísio em uma
igreja, destrói o templo de Zeus, queima o Mitreu e defere imagens
de culto. Os sacerdotes pagãos são humilhados e ridicularizados
publicamente antes de serem lapidados.

- Em 391, um novo decreto de Teodósio especificamente proíbe


olhar para as estátuas pagãs quebradas (!). As perseguições
antipagãs são renovadas por todo o Império. Em Alexandria —
onde as tensões estão a flor da pele durante anos — a minoria
pagã, liderada pelo filósofo Olimpio, realiza uma revolta anticristã.
Depois das sanguinárias lutas civis com a faca e o punhal contra
multidões de cristãos que os superam os número, os pagãos se
anexam e se estrincham no Serapião, um templo fortificado
consagrado ao deus Serápis. Depois de cercar (praticamente
sediar) o edifício, a turba cristã, sob o comando do patriarca Teófilo,
invadiu o templo cega de ódio, assassinou todos os presentes,
profanou imagens de culto, saqueou propriedades, incendiou sua
famosa biblioteca e, finalmente, derrubou toda a construção. É a
famosa "segunda destruição" da Biblioteca de Alexandria, jóia da
sabedoria antiga em absolutamente todos os campos, incluindo
filosofia, mitologia, medicina, gnosticismo, matemática, astronomia,
arquitetura ou geometria. Claramente, uma verdadeira catástrofe
espiritual para a herança do Ocidente. Uma igreja foi construída
sobre seus restos.

O deus Serápis, o "patrono" da Biblioteca de Alexandria.

- Em 392 o imperador proíbe todos os rituais pagãos, chamando-os


de "gentilicia superstitio", isto é, "superstições dos gentios". Então,
novamente volta as perseguições pagãs. Os mistérios de
Samotrácia são clausurados e todos os seus sacerdotes são mortos.
Em Chipre, o extermínio espiritual e físico dos pagãos é liderado
pelos bispos São Epifânio (nascido na Judeia e criado num ambiente
judaico, quer dizer, era judeu de sangue) e São Tícon. O próprio
imperador dá carta branca a São Epifânio em Chipre, estabelecendo
que "aqueles que não obedecessem ao padre Epifanio não tetrão
direito de continuar vivendo na ilha". Assim protegidos, os eunucos
cristãos exterminam milhares de pagãos e destroem quase todos os
templos pagãos em Chipre. Os mistérios de Afrodite locais,
baseados na arte do erotismo e com uma antiguíssima tradição, são
erradicados.

- Neste ano fatídico de 392, há insurreições pagãs contra a Igreja e


contra o Império Romano em Petra, Areopoli, Ráfia, Gaza, Balbeque
e outras cidades orientais. Mas a invasão oriental-cristã não vai
parar neste ponto em seu impulso até o coração da Europa.

- Em 393, os próprios Jogos Olímpicos (que rondavam o número


293), os Jogos Píticos e os Jogos Aktia são proibidos. Os astutos
cristãos devem intuir que este culto desportivo "profano" e
"mundano" da superação, excelência, saúde, beleza e força deve,
logicamente, pertencer ao culto pagão, e que o esporte é um
campo onde os cristãos da época nunca poderão reinar.
Aproveitando a situação, os cristãos saqueiam o templo de Olímpia.

- No ano seguinte, em 394, todos os ginásios na Grécia são


fechados à força. Qualquer lugar onde a menor dissidência floresça,
ou mentalidades poucos cristãs, deve ser fechado. O cristianismo
não é simpatizante dos músculos, do atletismo, do suor ou do
sacrifício, mas da fraqueza. Nesse mesmo ano, Teodósio remove a
estátua da Vitória do Senado Romano. A Guerra da Estátua foi
encerrada, um conflito cultural que confrontou senadores pagãos e
cristãos no Senado, pondo e despondo a estátua várias vezes. O
ano 394 também viu o fechamento do templo de Vesta, onde jazia
o fogo sagrado romano.

- Em 395, Teodósio morre, sendo sucedido por Flávio Arcádio


(reinou entre 395-40). Este ano, dois novos decretos revigoram a
perseguição antipagã. Rufino, eunuco e primeiro-ministro de
Arcádio, faz os godos invadir a Grécia, sabendo que, como bons
bárbaros, eles vão destruir, saquear e assassinar geral. Entre as
cidades saqueadas pelos godos estão Dion, Delfos, Mégara, Corinto,
Argos, Nemeia, Esparta, Messênia e Olímpia. Os godos, já
cristalizados na heresia do arianismo, ainda que com seu caráter
bárbaro intacto, matam muitos gregos, queimam o antigo santuário
de Elêusis e queimam todos os seus sacerdotes (incluindo Hilário,
sacerdote de Mitras).
[Ver aqui o imperador Arcádio. À primeira vista, um eunuco,
especialmente quando comparado com os antigos imperadores
pagãos].

- Em 396, outro decreto do imperador proclama que o paganismo


será considerado como alta traição. A maioria dos sacerdotes
pagãos restantes estão trancados em calabouços sombrios pelo
resto de seus dias. Em 397, o imperador literalmente ordena
demolir todos os restantes templos pagãos.

- Em 398, durante o Quarto Concílio Eclesiástico de Cartago (Norte


de África, agora Tunes), se proíbe qualquer pessoa (mesmo os
bispos cristãos) de estudar obras pagãs. O bispo Porfírio de Gaza,
onde houve revoltas pagãs, derruba quase todos os templos da
cidade, restando só nove.

- Em 399, o imperador Arcádio volta a ordenar a demolição dos


templos pagãos que ainda restam. Neste ponto, a maioria deles
estão nas profundas áreas rurais do Império.

- Em 400, o bispo Nicetas destrói o oráculo de Dionísio em Baçaim,


e batiza à força todos os pagãos na área.

- Até o ano 400, foi estabelecida uma hierarquia cristã que incluía
sacerdotes, bispos, metropolitanos (ou arcebispos de cidades
maiores) e patriarcas (arcebispos responsáveis por grandes
cidades, nomeadamente Roma, Jerusalém, Alexandria e
Constantinopla).
Esta é a estátua de uma sacerdotisa de Ceres (Deméter romana, deusa da
agricultura e do cereal), esculpida pacientemente sobre o marfim por volta do ano
400 (!) e de uma beleza sem precedentes, e em que seu rosto foi mutilado e tacado
em um poço em Montier-en-Der [uma posterior abadia no noroeste da França]. É
possível que não tivessem a lançado ao poço por ódio (os cristãos eram mais
propensos a destruição direta), mas que os seus proprietários se desfizeram dela por
medo de que as autoridades religiosas encontrassem-a. É impossível saber a
quantidade de representações artísticas, mesmo superiores a esta em beleza, que
foram destruídas, e das quais nada permaneceu.

- Em 401, uma multidão de cristãos lincha os pagãos em Cartago,


destruindo templos e ídolos. Em Gaza, os pagãos são linchados a
pedido do bispo São Porfírio, que também ordena a destruição dos
nove templos restantes na cidade. Nesse mesmo ano, o 15º
Concílio de Calcedônia (entre outras coisas de grande importância,
como a crença em "Um e só mesmo Cristo, Filho, Senhor,
Unigênito" — ??? —) ordena a excomunhão (mesmo depois da
morte!) dos cristãos que mantêm boas relações com seus parentes
pagãos.

São João Crisóstomo, "Santo e Pai da Igreja", arrecada fundos com


a ajuda de mulheres cristãs ricas, entediadas e ociosas
[burguesas], ressentidas contra o patriarcal culto romano pela
perfeição e pela guerra. Financiado, realiza um trabalho de
demolição de templos gregos. Graças a ele, o antigo templo de
Ártemis em Éfeso é demolido.
Reconstrução do imenso templo de Ártemis em Éfeso. Este foi uma das sete
maravilhas do Mundo Antigo e tinha sido construído no século VI AEC em uma área
considerada sagrada desde, pelo menos, da idade do bronze. Sua construção levou
cento e vinte anos e poderia ser dito que era perfeitamente comparável a uma
catedral. Uma multidão cristã histérica liderada por São João Crisóstomo ("pai da
Igreja") demoliu-o em 401, terminando a existência deste edifício quase milenar.

- Em 406, o bispo São Eutíquio, discípulo do mencionado São


Epifânio, continua em Salamina, Chipre, as destruições de templos
e os assassinatos compassivos de pagãos.

- Em 407, o imperador Arcádio novamente lança um decreto no


qual proíbe todos os cultos não-cristãos — o que significa que ainda
nessa época o paganismo persistia.

- Em 406-407, um grupo de tribos federadas, os vândalos, os


suevos e os alanos (este último de origem iraniana, não
germânica), invadem a França, destinados a Espanha.

- Em 408, o Imperador Honório do Império Ocidental e o Imperador


Arcádio do Império Oriental, ordenam que todas as esculturas
pagãs sejam destruídas. Há novamente destruições de templos,
massacres de pagãos e queimas de seus escritos. Nesta altura do
campeonato, o famoso africano Santo Agostinho, bispo de Hipona,
"Santo, Pai e Doutor da Igreja", massacra centenas de pagãos em
Calama (atual Guelma), na Argélia (não demorará a morrer nas
mãos dos vândalos, um povo germânico). Também estabelece a
perseguição de juízes que mostram piedade pelos "idólatras".

Neste mesmo ano de 408, o imperador Arcádio morre, sendo


sucedido pelo imperador Teodósio II. Para situar seu fanatismo
religioso, basta dizer que ele mandou executar seus próprios filhos
por brincarem com pedaços de estátuas pagãs quebradas. De
acordo com os mesmos historiadores cristãos, Teodósio II "seguia
meticulosamente os ensinamentos cristãos". Não duvido, embora
possa ser apropriado pontuar: Teodósio era um erudito pusilânime
das "sagradas escrituras", na verdade, guiado por sua irmã Élia
Pulquéria e sua esposa Eudócia.

[Ver aqui o imperador Teodósio II, um fanático alienado... A julgar


pela qualidade da estátua, as coisas no Império iam de mal a pior
sob o seu reinado, ou talvez os verdadeiros escultores pagãos
tinham sido assassinados].

Enquanto tudo isso ocorre, no mesmo ano de 408, um chefe


romano de origem germânica que valentemente defendeu as
fronteiras do Império, o vândalo Estilicão, é executado por um
partido de romanos decadentes que tinham invídia de seus triunfos.
Após a sua morte injusta, este partido deu uma espécie de "golpe
de Estado" e as mulheres e crianças — estamos falando de um
mínimo de sessenta mil pessoas — dos germânicos federados
(federados a Roma, residentes dentro de suas fronteiras e fiéis
defensores da mesma) foram massacrados em toda a Itália pelos
cristãos. Depois deste ato covarde, os pais e maridos destas
famílias (trinta mil homens que eram fieis soldados de Roma) vão
para às fileiras do rei visigodo Alarico e clamam vingança contra os
assassinos.

- Em 409, novamente é decretado a proibição dos métodos de


adivinhação. O Império Romano desmorona em uma crise
irresistível, tanto pela corrupção imunda quanto pelo ataque dos
germânicos, mas os poderosos cristãos estão mais interessados em
erradicar o legado pagão antes que os germanos o descubram (e
fundem a Grécia-Roma II), enquanto as classes altas romanas
estão mais preocupadas em subir no novo sistema cristão,
conspirando entre eles ou, então, luxuriando em orgias
degeneradas. Neste ponto, os únicos que permanecem fiéis a Roma
como uma ideia, mesmo apesar das injustiças cometidas contra
eles, são os soldados germânicos que servem nas legiões.

Nesse mesmo ano, suevos, vândalos e alanos atravessam os


Pireneus e invadem a Espanha.
- Em 410, um exército composto por visigodos e outros aliados
germânicos seus, saqueiam a mesma Roma, continuando mais
tarde pelo sul da França, Espanha e Norte da África. De lá, eles
tentam dominar o Mediterrâneo.

- Em 416, um famoso líder cristão conhecido como "Espada de


Deus" extermina os últimos pagãos de Bitínia, Ásia Menor. Naquele
ano, em Constantinopla, todos os funcionários públicos,
comandantes do exército e juízes não cristãos são demitidos.

- Em 423, o imperador decreta que o paganismo é "um culto do


diabo" e ordena que aqueles que continuarem a praticá-lo serão
aprisionados e torturados.

- Em 429, os pagãos atenienses são perseguidos, e o templo da


deusa Atena (o famoso Partenon de Acrópole) é saqueado.

- Em 430, os vândalos cercam a cidade norte-africana de Hipona.


No local, morre o mencionado Santo Agostinho, um dos pais da
Igreja.

- Mas aqui está o ato mais significativo por parte do imperador


Teodósio II em 435: ele proclama abertamente que a única religião
legal em Roma, além do cristianismo, é o judaísmo!

Mediante uma luta bizarra, obscura e assombrosa, o judaísmo não


só conseguiu que o paganismo fosse perseguido, e que Roma, seu
arqui-inimigo mortal, adotasse um credo judeu, mas que a própria
religião judaica, tão desprezada e insultada pelos romanos pagãos
anteriores, fosse elevada a religião oficial de Roma, juntamente
com o cristianismo. É preciso reconhecer a astúcia conspirativa e a
implacável permanência dos objetivos do núcleo judaico-cristão
original. O que eles fizeram foi, literalmente, virar o tabuleiro a seu
favor, converter Roma em anti-Roma, pôr ao serviço da judiaria
tudo o que os judeus tanto odiavam, aproveitar a força de Roma e
seu aparelho estatal, para colocá-la contra ela mesma em um
sinistro jiu-jitsu político-espiritual, e passar de marginais,
insultados, desprezados e olhados por cima, a mestres espirituais
ab s o l ut o s d o I mp éri o Ro mano. N i et z s c he c omp reend eu
perfeitamente, mas ¿quando nós entenderemos inteiramente o que
isto significou?

- Em 438, Teodósio II culpa a "idolatria" por uma praga.

- Em 439, os vândalos tomam Cartago. Sua frota domina o


Mediterrâneo.

- Entre 440 e 450, os cristãos demolem os monumentos pagãos de


Atenas, Olímpia e outras cidades gregas.

- Em 448 o imperador Teodósio II ordena queimar todos os livros


não-cristãos.

- Em 450, em Afrodísias (cidade de Afrodite), todos os templos são


destruídos e todas as bibliotecas queimadas. A cidade é rebatizada
com o nome de Stavroupoli (Cidade da Cruz).

- Em 441, os hunos do líder asiático Átila atravessam o Danúbio,


massacrando e profanando toda a terra que pisam.

- Em 445, o imperador Valentiniano III faz um decreto segundo o


qual todos os bispos do Oeste são subordinados ao Papa de Roma.

- Em 451, o imperador lança um outro edito reiterando que a


"idolatria" deve ser punida com a morte. Naquele mesmo ano, os
hunos de Átila são interrompidos por uma coligação romana-
visigoda incomum na Batalha de Troyes (Campos Cataláunicos), no
centro da França.

- Em 453, Atila, o Huno, morre.

- Em 455, Roma é saqueada pelos vândalos, uma tribo germânica


que acabou por se estabelecer no que hoje é Tunes. Tal foi o caos
que semearam nesta cidade suja e decadente que, até hoje,
"vandalismo" significa um comportamento destrutivo num ambiente
civilizado.

- Entre 457 e 491 as perseguições antipagãs seguem no Império


Oriental. O filósofo Gésio é executado. Severiano, Herestios,
Zósimo, Isidoro e muitos outros sábios, são torturados e mortos. O
predicador Conon e seus seguidores exterminam os últimos pagãos
da ilha de Imbros. Também exterminam em Chipre os últimos
adoradores do deus Zeus Lavranios. São anos frutíferos para o
cristianismo.

- Em 476, Odoacro, líder visigodo de uma união de tribos


germânicas, é proclamado rei da Itália, sob um sistema pseudo
feudal que substituiu os vestígios decadentes de uma Roma
destruída por dentro. Este ano de 476 é considerado como o fim do
Império Ocidental. O último imperador de Roma, Rômulo Augusto
(ironicamente, tem o mesmo nome que um dos míticos gêmeos
fundadores de Roma), é deposto por seu próprio exército, um
exército que é romano só em nome, uma vez que é composto
quase exclusivamente de germânicos, que são os únicos que
sentem algum tipo de lealdade a Roma, e para quem a palavra
"romano" virou sinônimo de traiçoeiro, cobarde e indigno de
confiança. Rômulo Augusto é enviado pelos germanos, num gesto
de grande nobreza, ao exílio em Constantinopla com todas as
honras imperiais e emblemas do Ocidente. O Império Oriental ou
Império Bizantino subsistirá, progressivamente re-helenizado,
destinado a ser o baluarte contra o Islã, até que, no século XV, cai
nas mãos dos turcos otomanos.

- Entre 482 e 486, após uma revolta pagã anticristã desesperada, a


maioria dos pagãos da Ásia Menor são exterminados.
A extensão do cristianismo em 485. O Império Romano do Ocidente caiu, os reinos
germânicos apareceram em seu lugar, o Império Romano do Oriente ainda subsiste e
a Inglaterra voltou ao paganismo com a invasão anglo-saxã. Em vermelho, áreas
sujeitas a uma forte influência cristã. Em rosa, as áreas menos sujeitas à Igreja.

- Em 486, em Alexandria, são descobertos mais sacerdotes pagãos


que permaneciam escondidos. Eles são humilhados publicamente,
depois torturados e executados.

- Em 493, Teodorico, o Grande, um rei germânico, assume o


controle da Itália. Admirador da Roma clássica que ele nunca
conheceu, ele tenta preservar o que resta da arquitetura, da
escultura e do aparato estatal, pondo fim à destruição cristã.

- No Império Oriental, no século VI, é declarado que qualquer


pagão não tem nenhum direito.

- Em 525, o batismo torna-se obrigatório mesmo para aqueles que


haviam se declarados cristãos. O imperador Justino I ordena
destruir o templo do deus local e ordena um massacre dos pagãos
na cidade de Zoara.

- Em 527, o imperador Justiniano I do Oriente, cria o Corpo de


Direito Civil romano, base de toda a lei europeia medieval, exceto
na Saxônia e na Inglaterra (depois da invasão normanda, apenas o
condado inglês de Kent manteve o direito saxão).

- Em 528, Justiniano proíbe os chamados "Jogos Olímpicos


alternativos" de Antioquia. Ele ordena executar qualquer um que
pratica "feitiçaria, adivinhação, magia ou idolatria" e proíbe todos
os ensinamentos pagãos.

- Em 529, o imperador fecha a Academia de Filosofia de Atenas


(onde Platão havia ensinado) e confisca seus bens. Assim, termina
a existência de um dos principais centros da cultura europeia desde
do período clássico.

- Em 532, Juan ou João Asiaco, um monge fundamentalista e


fanático que tem a bênção do imperador, organiza uma cruzada
contra o que resta dos pagãos da Ásia Menor. Com base em muito
sangue, ele "cristianizou" Frígia, Cária e Lídia. Cem igrejas e doze
mosteiros são construídos em templos pagãos destruídos.

- Em 546, João Asiaco condena à morte, em Constantinopla,


centenas de pagãos.

- Em 553, no Segundo Concílio de Constantinopla, decreta-se que:


"Quem sustentar a mítica crença na preexistência da alma e a
opinião, consequentemente estranha, de sua volta, seja anátema
(excomungado)". Estamos, nada mais e nada menos, ante uma
proibição de crenças sobre a reencarnação.

- Em 556, o imperador envia outro comissário cristão, Amâncio, a


Antioquia, para exterminar os últimos pagãos e queimar qualquer
biblioteca restante.
- Em 562, há uma onda de perseguições em que são humilhados,
presos, torturados e executados os pagãos de Atenas, Antioquia,
Palmira e Constantinopla.

- Em 568, a Itália é invadida pelos lombardos, uma tribo germânica


que, pressionada pelos ávaros, assenta no que é agora a
Lombardia, no norte da Itália.

- Entre 578 e 582, pagãos são torturados e crucificados em todo o


Império Oriental, exterminando os últimos pagãos de Heliópolis e
Balbeque.

- Em 580, provavelmente à fofoca habitual, agentes cristãos


descobrem em Antioquia um templo secreto dedicado a Zeus. O
sacerdote se suicida para evitar a tortura, e o resto dos pagãos são
detidos pelos cristãos. Os prisioneiros, que incluem,
surpreendentemente, o vice-governador Anatólio, são torturados e
condenados em Constantinopla. Eles são condenados a serem
devorados pelas feras, mas elas não os atacam (algo que nunca
tinha acontecido com os cristãos durante as antigas perseguições
romanas). Portanto, eles são crucificados. Então, a multidão cristã
pagãfóbica arrasta seus cadáveres pelas ruas e taca-os num aterro.

Em 583, o imperador Maurício I renova as perseguições antipagãs.

- Em 590, novamente há outra febre antipagã. Até então, o


paganismo organizado no sul da Europa havia praticamente se
erradicado. O que sobra é um monte de tristes ruínas salpicadas de
sangue, tradições de significados esquecidos e restos de práticas
pagãs. Os helenos e latinos originais foram perseguidos em todo o
Mediterrâneo fortemente deseuropeizado, e permanece uma
enorme massa de mestiços sem herança e tradição, que adotam o
cristianismo muito propriamente. No alto, se levanta uma casta de
pastores: a Igreja e o clero cristão. Até que a área sofra novas
invasões germânicas, o cenário continuaria.

- Entre 590 e 604, o Papa Gregório I ordena a queima da Biblioteca


Palatina de Roma devido aos escritos "pagãos".
- Em 692, durante o Concílio de Constantinopla, são proibidas
festas de origem pagã como as Calendas, Brumales, Antestérias,
etc.

A trágica agonia do mundo antigo, clássico, pagão, belo, atlético, artístico e próximo
dos deuses, às mãos da Serpente Oriental.

Um caso notável foi duma população lacônia de Mesa Mani, Cabo


Tênaro, na Grécia. Em meados de 804, eles resistiram com sucesso
a uma tentativa por parte de Tarásio, patriarca de Constantinopla,
para cristianizá-los. Sua resistência duraria até que, entre 850 e
860, o armênio São Nicon, pela força, os converte ao cristianismo.
Lembre-se que Lacônia era o antigo reino do qual Esparta era
capital.
Finalmente, pensemos em outra tragédia paralela ao genocídio,
lavagem cerebral e várias destruições: a queima, adulteração,
falsificação, manipulação e desfiguração da literatura clássica.
Assim, o cristianismo profanou a antiga sabedoria europeia,
erradicando a memória dos antigos deuses e sabotando a mesma
civilização europeia por séculos. Por exemplo, os "Anais" de Tácito
foram corrigidos e censurados pelos monges copistas em tudo o
que pudesse manchar a memória das origens da nova fé. Plínio, o
Velho afirma ter coletado, em sua "História Natural", por volta de
vinte mil fatos teúrgicos ou mágicos das obras de cem diferentes
autores gregos e romanos, mas, infelizmente, elas não
sobreviveram em sua totalidade. Restam apenas fragmentos do
livro sobre a história do Império Romano iniciado por Aufidio Basso
(e terminado pelo mesmo Plínio). Tito Lívio também foi vítima de
tal selvageria, pois só alguns anos (ou "Anais") de seu trabalho
histórico sobreviveram. Os livros de Heródoto, Suetônio e Plutarco
estão fortemente adulterados. A obra "Os Elementos" de Euclides
sobreviveu, mas seus outros escritos, especialmente "Porismas",
desapareceram. Queimaram quase toda a produção de Porfírio (um
dos maiores críticos pagãos do cristianismo), na qual havia diversos
tratados sobre a religião pagã e a vida de grandes personalidades,
além de quinze (!) alegações contra os cristãos cujos títulos sequer
são conhecidos. Os vários comentários de Proclo sobre os
diálogos de Platão desapareceram, e seu "Elementos de teologia"
foi retocado e resumido pelos cristãos em um livro de
causas atribuído a Aristóteles.

Esses foram os métodos usados pelos adalides do profundo Oriente


para se apresentarem à Europa como supremos salvadores. Desde
então, a Europa viveu essencialmente sob os pesos de ideias
estrangeiras e feitas pelo inimigo, lutando de tempos em tempos
para libertar-se de sua carga.

- O MARTÍRIO DA HIPÁTIA COMO UM EXEMPLO DE


TERRORISMO CRISTÃO
Alexandria, Egito, ano 415. A protagonista é Hipátia (370-415),
filósofa e matemática instruída por seu pai, o também famoso
filósofo e matemático Téon de Alexandria. Os biógrafos de Hipátia
dizem que de manhã ela se exercitava e que depois tomava banhos
relaxantes que a ajudavam a concentrar sua mente em dedicar o
resto do dia ao estudo da filosofia, música e matemática. Hipátia
era virgem e casta, ou seja, estava no nível de sacerdotisa. Em
suma, ela era uma mulher sábia, "um ser humano perfeito", como
seu pai queria. Hipátia também dirigia uma escola filosófica, da
qual as mulheres eram excluídas (ou seja, para situar as feministas
que tentaram "empoderar" a figura de Hipátia nos últimos tempos).

O figurão de Alexandria durante esse tempo foi o arcebispo


Cirilo (370-444), sobrinho do mencionado Teófilo. Ele tinha o título
de patriarca, uma honra eclesiástica quase equivalente à do papa, e
que apenas os arcebispos de Jerusalém, Alexandria e
Constantinopla detinham, ou seja, as cidades mais judaicas e
cristãs do império romano. Durante esse período, houve outra
rebelião em massa; novamente, as brigas de rua, as tensões e os
ajustes de contas entre cristãos e pagãos se sucederam.

O arcebispo Cirilo iniciou uma perseguição aos acadêmicos


alexandrinos, 24 anos após a queima da biblioteca. Desta vez, mais
radicalizados, os cristãos assassinaram qualquer um que se
recusasse a se converter na nova religião. Hipátia, na época
diretora do museu (onde se dedicava à filosofia de Platão), era uma
dessas pessoas, pelas quais foi acusada de conspirar contra o
arcebispo. Di as após a acusação, os frades chamados
parabolanos (monges fanáticos encarregados do "trabalho sujo" do
arcebispo e da igreja de São Cirilo de Jerusalém) sequestraram a
filosofa de sua carruagem, espancaram-na, despiram-na e eles a
arrastaram por toda a cidade, até chegarem à igreja de Cesárea.
Lá, por ordem de Pedro, o Leitor, a estupraram várias vezes, depois
esfolaram a pele e arrancaram a carne com cascas de ostras
afiadas. Hipácia morreu humilhada e sangrou até a morte com
dores excruciantes. Depois disso, eles desmembraram seu cadáver,
andaram em torno de Alexandria como troféus e os levaram para
um lugar chamado Cinaron, onde foram queimados. O arcebispo
que ordenou seu martírio é lembrado pela Igreja como São Cirilo de
Alexandria.

Somente uma multidão doente de ressentimento e ódio, e


enfurecida por comissários habilidosos na arte de criar os escravos,
poderia realizar este ato, que repugna qualquer um com um
mínimo de decência. Hipátia foi a vítima perfeita para um sacrifício
ritual: europeia, bela, saudável, sábia, pagã e virgem. E o que mais
excita os escravos no momento do sacrificio é a inocência e
bondade da vítima. Por outro lado, a crueldade demonstrada,
mesmo em relação à destruição de seu cadáver, indica que os
cristãos temiam muito Hipátia e tudo o que ela representava. A
morte da científica, além de ser perfeitamente ilustrativa das
atrocidades cometidas pelos cristãos nesta época, inaugurou uma
era de perseguição aos sacerdotes pagãos no norte da África,
especialmente dirigida contra o sacerdócio egípcio. A maioria deles
foram crucificados ou queimados vivos.

A atrocidade de Hipátia é descrita aqui por ser um caso


emblemático, e é ilustrativo e chocante ter acontecido a uma
mulher desarmada, indefesa e inofensiva, mas tenhamos cuidado
de pensar que foi um caso isolado: muitos pagãos humildes, "que
não interferiam na vida de ninguém", foram sacrificados de uma
forma semelhante ou pior, e seguiria a ser assim por muitos
séculos.
"Hipátia antes de ser morta na igreja", por Charles William Mitchell.

CONCLUSÃO

O cristianismo primitivo era caracterizado por sua intolerância e


intransigência e por se considerar o único caminho de salvação para
todos os homens do planeta; Essas características foram herdadas
do judaísmo. Ele mostrou que, paradoxalmente, considerar todos os
seres humanos iguais é a pior forma de intolerância, pois é
assumido como dogma de fé que a mesma religião ou moralidade é
válida e obrigatória para todos os homens e, portanto, é imposta,
mesmo contra a sua vontade. Mais tarde, esse aspecto foi renovado
com as outras grandes e virulentas doutrinas igualitárias:
democracia e comunismo.

Os pagãos, aceitando a diferença de povos, também aceitavam que


eles adoravam deuses diferentes dos seus e tinham costumes
diferentes; e eles nunca teriam pensado em pregar sua religião ou
moralidade fora de seu povo. A tática do pagão europeu era sempre
dominar através do triunfo militar, não converter pela força ou
manipular pensamentos. A reação do cristianismo, por outro lado,
foi destruir tudo o que pudesse nos lembrar das antigas crenças e
tradições pagãs. Qualquer conhecimento medicinal, de plantas ou
animais, foi marcado como heresia e perseguido. Na verdade,
qualquer tipo de conhecimento que não fosse judeu-cristão foi
completamente perseguido. O terror espiritual apareceu no mundo
antigo, invadindo a Europa.

Os fundadores de cidades e os grandes conquistadores queriam que


seus povos triunfassem e fossem eternos na Terra. Eles não
conseguiram a longo prazo, e todos eles desapareceram. Os
romanos, então, passaram a figurar nessa lista. No Ocidente, o
futuro de milênios pertencia aos germânicos, que estabeleceram
reinos feudais em toda a Europa Ocidental, onde se ergueram como
aristocracia.

Eu listei fatos que marcaram o fim da antiguidade clássica com toda


a sua sabedoria, e o início de uma idade das trevas. Esta era
ignorante e escura, usada como ferramenta pelos germânicos, e da
qual eles não foram culpados (só deram o toque de graça a um
monstro decadente, e foram precisamente eles que preservaram as
obras de arte romana da destruição cristã quando tomaram o poder
— ver o caso do rei Teodorico), duraria na Europa até o tempo do
catarismo, dos vikings e cruzadas no século XI, quando os
cavaleiros europeus descobriram a tradição que o Oriente havia
guardado e alguns frades estavam empenhados em compilar os
conhecimentos naturais tais como medicina ou botânica. O legado
mesopotâmico, egípcio, persa e até certo ponto grego e hindu foi
preservado pela civilização islâmica que, ao contrário do
cristianismo, não destruiu o legado pagão, mas o preservou.
Dizemos que o ressurgimento da espiritualidade europeia veio da
mão das castas guerreiras e cavalheirescas. E os resultados mais
visíveis desse ressurgimento foram o Sacro Império Romano-
Germânico, os vikings, a civilização occitânia, os templários, o
Renascimento italiano com seu fascínio pelo mundo greco-romano e
o Império Espanhol.

Haverá aqueles que farão uma confusão com a "herança cristã" da


Europa. Eu não. Vejo os europeus vivendo com costumes e rituais
naturais, belos e harmoniosos, que eles realizavam
automaticamente como a coisa mais normal do mundo,
participando da imensa orquestra que é a Terra. Vejo um credo
fanático pregado por fundamentalistas semitas do Oriente e da
África que inflamaram os espíritos da escória do mundo contra as
pessoas boas, contra os europeus nativos, contra os representantes
da ordem e da luz. Disseram que os nossos costumes ancestrais
eram abominações. Disseram que aqueles que os praticavam eram
pecadores. Disseram que nossa ciência era feitiçaria demoníaca, e
nossa arte, uma blasfêmia. Disseram que quem não se ajoelhasse
diante de um estranho e novo deus oriental merecia os piores
tormentos. Amaldiçoaram os fortes, os nobres, os guerreiros, os
puros, os filósofos e os sábios, e abençoaram os escravos, os
fracos, os doentes, as prostitutas, os ignorantes, os pisoteados e os
excluídos. Destruíram o legado que acumulamos ao longo dos
séculos. Mataram nossos líderes. Puseram fim a um Império que,
possivelmente, duraria eternamente. Mergulharam a Europa na
ignorância. Durante séculos, espalharam a culpa e o sentimento de
pecado, introduzindo na Europa esse câncer que é o Antigo
Testamento, e esse veneno castrador que é o Novo Testamento. Se
a Europa pôde desenvolver-se nestas condições, não foi graças ao
cristianismo, mas apesar dele, e graças às coisas que o cristianismo
ainda não tinha tocado.
O espirito romano enterrado pela seca areia do deserto.

NIETZSCHE SOBRE O CRISTIANISMO

Mas você não entende? Você não tem olhos para ver algo que levou
dois milênios para alcançar a vitória?

Esse Jesus de Nazaré, o evangelho vivo do amor, esse "redentor"


que traz felicidade e vitória aos pobres, aos enfermos, aos
pecadores — não era ele a sedução em sua forma mais
perturbadora e irresistível, a sedução e o desvio precisamente
daqueles valores judeus e às inovações judaicas do ideal? Será que
Israel, pelo desvio desse "redentor", desse aparente antagonista e
liquidador de Israel, alcançou o objetivo final de seu sublime anseio
de vingança? Não faz parte de uma oculta magia negra de uma
política verdadeiramente grande de vingança, de vingança de
progresso demorado, subterrânea, lenta, pré-calculada, o fato de
que Israel mesmo tinha que negar e pregar a cruz antes de o
mundo inteiro, como se fosse seu inimigo mortal, ao autêntico
instrumento de sua vingança, para que "todo o mundo", isto é,
todos os adversários de Israel, pudessem morder sem medo dessa
isca? E por outro lado, pode-se imaginar, com todo o refinamento
do espírito... algo que iguala em atraente, intoxicante,
deslumbrante, corruptora força... aquele horrível paradoxo de um
“deus na cruz”, aquele mistério de uma inimaginável, última,
extrema crueldade e autocrucificação de Javé para a salvação do
homem?... Pelo menos, é verdade que sub hoc sign [sob este
signo] Israel triunfou uma e outra vez, com sua vingança e
transvalorização de todos os valores em todos os outros ideais, em
todos os ideais mais nobres.

— ("Genealogia da moral", primeira dissertação, 8).


A compaixão entrava a lei da evolução, que é a lei da seleção.
Conserva o que está maduro para o desaparecimento, peleja a
favor dos deserdados e condenados da vida, pela abundância dos
malogrados de toda espécie que mantém vivos, dá à vida mesma
um aspecto sombrio e questionável. (...) É um instrumento capital
na intensificação da décadence [decadência], como multiplicador da
miséria e como conservador de tudo que é miserável.

— ("O Anticristo", 7).


O cristianismo pode ser entendido unicamente a partir do solo em
que cresceu — ele não é um movimento contra o instinto judeu, é
sua própria conseqüência, uma inferência mais em sua lógica
apavorante. Na formulação do Redentor: “a salvação vem dos
judeus” [João 4:22].

— ("O Anticristo", 24).


A incapacidade de resistência torna-se aí moral (“não resistam ao
mal” [Mateus, 5, 39], a frase mais profunda dos evangelhos, sua
chave, em certo sentido).

— ("O Anticristo", 20).


O veneno da doutrina dos “direitos iguais para todos” — foi
disseminado fundamentalmente pelo cristianismo; o cristianismo
travou guerra mortal, desde os mais secretos cantos dos instintos
ruins, a todo sentimento de reverência e distância entre os
homens, ou seja, ao pressuposto de toda elevação, todo
crescimento da cultura — com o ressentiment [ressentimento] das
massas forjou sua principal arma contra nós, contra tudo o que há
de nobre, alegre, magnânimo na Terra, contra nossa felicidade na
Terra... A “imortalidade” concedida a todo Pedro e Paulo foi, até
agora, o maior, mais maligno atentado à humanidade nobre. (...) O
cristianismo é a revolta de tudo o que rasteja no chão contra aquilo
que tem altura: o evangelho dos “pequenos” torna pequeno...

— ("O Anticristo", 43).


Estamos entre judeus: primeira consideração, para ali não perder
completamente o fio da meada. A dissimulação de si mesmo como
“sagrado”, ali tornada gênio e jamais alcançada em livros e entre
homens, essa falsificação de palavras e gestos como arte, não é
acidente de algum dom individual, alguma natureza de exceção.
Isso requer raça. No cristianismo, como a arte de mentir
santamente, o judaísmo inteiro, uma milenar técnica e preparação
judaica da maior seriedade, atinge sua derradeira mestria. O
cristão, essa ultima ratio [razão última] da mentira, é o judeu mais
uma vez — três vezes até... (...) Toda a fatalidade foi possível
apenas porque um tipo aparentado, racialmente aparentado de
megalomania, se encontrava no mundo, o judaico: tão logo se
escancarou o abismo entre judeus e judeu-cristãos, não restou a
estes outra escolha senão usar contra os próprios judeus os
mesmos procedimentos de autopreservação que o instinto judaico
recomendava, quando até então os judeus os haviam usado apenas
contra todos os não-judeus.

— ("O Anticristo", 44).


No tempo em que as camadas chandalas doentes, estragadas,
cristianizavam-se em todo o Império, o tipo oposto, a nobreza,
estava presente em sua mais bela e madura forma. O grande
número tornou-se senhor; o democratismo dos instintos cristãos
venceu... O cristianismo não era “nacional”, não era determinado
pela raça — dirigia-se a toda espécie de deserdados da vida, tinha
seus aliados em toda parte. O cristianismo tem por base
a rancune [o rancor] dos doentes, o instinto voltado contra os
sadios, contra a saúde. Tudo que vingou, tudo de orgulhoso,
atrevido, a beleza sobretudo, faz-lhe mal aos olhos e ouvidos.
— ("O Anticristo", 51).
O cristianismo foi o vampiro do Império Romano — o tremendo
feito dos romanos, conquistar terreno para uma cultura grande, que
tem tempo, ele desfez da noite para o dia. (...) Paulo, o ódio
chandala a Roma, ao “mundo”, feito carne, feito gênio, o judeu, o
judeu eterno par excellence [por excelência]... O que ele intuiu foi
como podia, com auxilio do pequeno movimento sectário cristão à
margem do judaísmo, atear “fogo” no mundo, como se podia unir
tudo o que se achava embaixo, tudo o que era secretamente
sedicioso, todo o legado de agitação anárquica do império num
formidável poder. “A salvação vem dos judeus.” — O cristianismo
como fórmula para suplantar os cultos subterrâneos de toda
espécie, os de Osíris, da grande Mãe, de Mitra, por exemplo.

— ("O Anticristo", 58).


Eis um primeiro exemplo, bastante provisoriamente. Sempre se
quis "melhorar" os homens: sobretudo a isso chamava-se moral.
Mas sob a mesma palavra se escondem as tendências mais
diversas. Tanto o amansamento da besta-homem como o cultivo de
uma determinada espécie de homem foram chamados de
"melhora": somente esses termos zoológicos exprimem realidades
— realidades, é certo, das quais o típico "melhorador", o sacerdote,
nada sabe — nada quer saber... Chamar a domesticação de um
animal sua "melhora" é, a nossos ouvidos, quase uma piada. Quem
sabe o que acontece nos cativeiros duvida que a besta seja ali
"melhorada". Ela é enfraquecida, tornada menos nociva; mediante
o depressivo afeto do medo, mediante dor, fome, feridas, ela se
torna uma besta doentia. — Não é diferente com o homem
domado, que o sacerdote "melhorou".

Na Alta Idade Média, quando, de fato, a Igreja era sobretudo um


cativeiro, os mais belos exemplares da "besta loura" eram caçados
em toda parte — foram "melhorados", por exemplo, os nobres
germanos. Mas que aparência tinha depois esse germano
"melhorado", conquistado para o claustro? A de uma caricatura de
homem, de um aborto: tornara-se um "pecador", estava numa
jaula, tinham-no encerrado entre conceitos terríveis... Ali jazia ele,
doente, miserável, malevolente consigo mesmo; cheio de ódio para
com os impulsos à vida, cheio de suspeita de tudo o que ainda era
forte e feliz. Em suma, um "cristão"... Em termos fisiológicos: na
luta contra a besta, tornar doente pode ser o único meio de
enfraquecê-la. Isso compreendeu a Igreja: ela estragou o ser
humano, ela o debilitou — mas reivindicou tê-lo "melhorado"...

— ("O crepúsculo dos ídolos", VII, 2).


Os Evangelhos constituem um documento de primeira ordem; mais
ainda do que o livro de Enoque. O cristianismo, que nasce das
raízes judaicas e só pode ser explicado como uma planta
característica deste solo, representa o movimento oposto a toda a
moral, raça e privilégio de reprodução. É a religião antiaria [anti-
ariana] por excelência. O cristianismo é a inversão de todos os
valores arianos, o triunfo dos valores chandalas, o evangelho
dirigido aos pobres e inferiores, a rebelião geral de todos os
oprimidos, miseráveis, fracassados e derrotados dirigidos contra a
"Raça"; a eterna vingança dos chandalas se torna a religião do
amor.

— ("O crepúsculo dos ídolos", VII, 4).

VERSÃO NIETZSCHIANA DO SERMÃO DA MONTANHA

Eles dizem que bem-aventurados são os mansos, porque eles


herdarão a terra. Mas eu vos digo: bem-aventurados são os fortes
e valentes, porque eles tornarão a terra seu trono. Eles dizem que
bem-aventurados são os pobres de espírito, porque entrarão no
reino dos céus. Mas eu vos digo: bem-aventurados são os espíritos
grandiosos e livres, pois entrarão no Valhala. Eles dizem que bem-
aventurados são os pacificadores, porque serão chamados filhos de
Javé. Mas eu vos digo: bem-aventurados são os guerreiros, porque
serão chamados filhos de Wotan.

*****

O CRISTIANISMO FOI UM MOVIMENTO SUBVERSIVO DE AGITAÇÃO


CONTRA ROMA, CONTRA GRÉCIA E, POSTERIORMENTE, CONTRA O
MUNDO EUROPEU.
O LEGADO CLÁSSICO SOBREVIVENTE É ÍNFIMO. A MAIORIA FOI
DESTRUÍDA PELOS JUDEUS-CRISTÃOS.

O CRISTIANISMO, COMO REBELIÃO DE ESCRAVOS CRIADOS E


GUIADOS PELOS JUDEUS PARA DESTRUIR O PODER ROMANO (E,
POSTERIORMENTE, QUALQUER PODER EUROPEU), FOI E É UMA
DOUTRINA PARA CONVERTER OS POVOS EM REBANHOS.

Atualmente, somos incapazes de ver a relação deste guerreiro-arcanjo com o


cristianismo. Este arcanjo não tem nenhuma similaridade com as multidões de
escravos que destruíram a maior parte da arte clássica por representar a figura
humana. Esta imagem vem do subconsciente pré-cristão europeu: mesmo dentro do
cristianismo, o elemento indo-europeu e o elemento semítico entram em conflito...

NOTAS

[1] O número de mortos dado ao longo do texto vem dos escritos


"A guerra dos judeus" e "Antiguidades judaicas", de de Flávio
Josefo, bem como "História romana", de Dião Cássio. Muito
provavelmente, os números estão inflados para aumentar a
importância dos eventos, algo comum na História.

[2] Segundo os autores alexandrinos (que eram furiosos anti-


semitas e acreditavam que os judeus faziam sacrifícios humanos),
Pompeu libertou do templo um prisioneiro grego que estava prestes
a ser sacrificado a Javé.

[1] Ao qual Zorobabel, Esdras e Neemias haviam reconstruído em


516 AEC ao retornar do exílio babilônico (os babilônios haviam
destruído o templo em 586 AEC e deportado a elite judaica para a
Babilônia em um processo chamado "Cativeiro Babilônico"). Os
persas forneceram aos judeus matérias-primas, arquitetos e
trabalhadores qualificados para realizar a construção, pois os
judeus não tinham meios de erguer um templo em tais condições.
Quando o Imperador Dario sucedeu o trono de Ciro, as obras
continuaram a seu comando, aliviando o temor dos judeus de que
talvez com a mudança de coroa haveria uma mudança de atitude
em relação a eles. Em 516 AEC a reconstrução do Segundo Templo
foi concluída e em 515 AEC houve uma consagração. Os persas
haviam tratado os judeus com verdadeira generosidade. No
entanto, os judeus em breve os apunhalaria pelas costas, como
aconteceu por volta de 450 AEC com o episódio de Ester e Hamã,
em que os judeus se levantaram para massacrar seus inimigos
políticos persas, pelo qual é celebrado até hoje na festa de Purim.
Quando, no século IV AEC, Alexandre Magno irrompeu na Pérsia, os
judeus fizeram o mesmo com os persas, como fizeram com os
babilônios: traí-los para ganhar o favor do novo invasor... que logo
iriam trair. Pode-se dizer talvez que os romanos foram os primeiros
a quebrar este círculo vicioso.

[2] Aqui está a causa provável da inaudita difamação histórica


deste imperador. Os textos da história romana acabariam por cair
nas mãos dos cristãos, que eram na sua maioria de origem judaica
e detestavam os imperadores. Uma vez que, de acordo com Orwell,
"Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o
presente, controla o passado", os cristãos adulteraram a
historiografia romana, transformando os imperadores em monstros
perturbados que se opuseram a eles e a seus antecessores judeus.
Desta forma, não temos um único imperador romano que tenha
participado em duras represálias judaicas e que não tenha sido
difamado com acusações de homossexualidade, crueldade ou
perversão. O historiador Roldán Hervás desmantelou muitas dessas
falsas acusações contra a figura histórica de Calígula.

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dor. Os textos da história romana acabariam por cair nas mãos dos
cristãos, que eram na sua maioria de origem judaica e detestavam
os imperadores. Uma vez que, de acordo com Orwell, "Quem
controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente,
controla o passado", os cristãos adulteraram a historiografia
romana, transformando os imperadores em monstros perturbados
que se opuseram a eles e a seus antecessores judeus. Desta forma,
não temos um único imperador romano que tenha participado em
duras represálias judaicas e que não tenha sido difamado com
acusações de homossexualidade, crueldade ou perversão. O
historiador Roldán Hervás desmantelou muitas dessas falsas
acusações contra a figura histórica de Calígula.