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A virada
Desnaturalizado e destituído de moralidade social e
- mais especificamente - de função biológico, essa novo
concepção de corpo ativou um saber que desencadeou

iconográfica:
sensibilidades até então nunca expressos em imagens -
pelo menos não como porte de um projeto tão disseminado,
múltiplo e simultâneo. Projeto este que não estava atrelado

adesnorma­
o uma pauto único e unificado, mos que era formulado
em diferentes contextos, com base em estratégias culturais
e históricos específicas.

lização dos
De modo geral, o corpo estava no centro dos
preocupações políticos, sociais e estéticos dos anos 1960,
1970 e 1980. Em filosofia e teoria, isso significou a

corpose
observação e o análise do corpo regulado e monitorado
pelo social e do sexualidade como o grande narrativo
usado pelo Ocidente poro organizar e estigmatizar

sensibilidades
diferenças. Tais perspectivas foram formulados por Michel
Foucoult em suas obras fundamentais, Vigiar e punir:
nascimento da prisão (1975) e História do sexualidade

na obra de
(1976-1984). 1 Como óleo derramado, essa conscientizoção
do corpo se espalhou no campo da cultura e, com
intensidade particular, nas representações artísticos.

artistas latino-
Começando nos anos 1960 e alcançando os anos 1980,
os artistas latino-americanos e latinos classificados
socialmente como mulheres (independentemente de suo

-americanas
identificação de gênero ou outorrepresentoção individual)
produziram obras de arte experimentais que introduziram
mudanças radicais no formo como o corpo era represen­

Andrea Giunta
tado. De fato, a pesquiso artístico resultante foi tão intenso
que eu diria até que as artistas feministas e o feminismo
artístico - o posição historiográfico o partir do qual
eu analiso os trabalhos dessas artistas mulheres - foram
Nos anos 1960, artistas começaram o produzir novos responsáveis pelo maior transformação iconográfica do
representações do corpo. Emergia, assim, uma virado século XX.2
iconográfico radical dos tradições estabelecidos. O corpo Desarmadas por mecanismos que desautorizavam
escondido e fixo, acometido por estereótipos, ou até termos como mulher, feminismo e artistas mulheres, os
mesmo por tabus ligados o estruturas patriarcais do artistas latino-americanas não estavam vinculadas, em
modernismo heterossexual e normativo, passou o ser termos gerocionais. ao movimento de arte feminista que
questionado e investigado de modo intenso. Um corpo se desenvolveu nos Estados Unidos, por exemplo.• Sua
redescoberto veio à tono no campo dos representações identificação com o cena política foi, em maior porte,
artistices, tonto na Américo Latino quanto internacional­ definida por um compromisso com o causa revolucionário
mente (fig. 1). Durante os anos abarcados por Mulheres de resistência às ditaduras do região. Todavia, em seus
radicais: arte latino-omericana, 1960-1985, artistas inverte­ trabalhos, elas exploraram o repertório de questões
ram o ponto de vista a partir do qual o corpo feminino abordadas pelo feminismo. Embora não se chamassem
havia sido, até então, representado (o nu, o retrato, Fig. 1 de feministas, elas examinaram. com intensidade, a
os imagens da maternidade, sempre vistos do mesmo Annemarie Heinrich, subjetividade e a situação problemática da mulher no
Veraneando en lo c1udod
ângulo, originalmente ancorados em parâmetros de {Veraneando na cidade], sociedade e como ser condicionado pela biologia e pela
1959. Fotografia em preto
representação regulados pelos convenções da arte e branco (filme Kodak). cultura. Nesse sentido, as artistas latino-americanas
acadêmico do século XIX e, depois, pelas convenções do Cortesia da artista. subverteram completamente os sistemas de representa­
modernismo do começo do século XX). Artistas também ção. O corpo foi o campo de batalha a partir da qual
se envolveram em uma pesquisa sistemática de preocu­ lançaram novos saberes, sendo o performance um
pações que ainda não haviam sido exploradas. Com instrumento privilegiado.
materiais, substâncias e linguagens inéditos, eles Meu uso do termo artistas mulheres não implica, de
solaparam os sistemas de representação existentes. formo alguma, o endosso de classificações baseadas em
o eixo de suas intervenções foi a desestruturação dos
�ualquer :i�o de essencialismo biológico. Minha intenção
formatos sociais que regulavam o corpo, levando ao e tornar v1s1vel o fato de que a sociedade emprega a
surgimento de um novo corpo e à destruição do corpo classificação biológica para diferenciar mulheres e homens.
anterior, culturalmente estabelecido. o
não levando em conta suas escolhas sexuais. sistema
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Andreo Olunta

da arte vem discriminando os artistas que são classificados investigações em forma de diário (Lea Lublin); foi
como mulheres. fazendo com que se tornem invisíveis. representada pela experiência repetível do nasci men to
Com um repertório que questiono esse essenciolismo, como trauma (Lygio Clark); corpos gestantes foram
os obras produzidos por artistas mulheres representam exibidos como material escultórico recorrendo ao abj eto
outros corpos e outros sexualidades, e refletem os (Johanna Hamann); o nascimento foi transformado em
preocupações de identidade e diferenço que viriam o uma experiência úmida, fluido e transformadora (Yeni y
ganhar forço politico nos anos 1980, quando emergiram Nan); a gravidez das próprias artistas foi relacionada
formos alternativas de entender o corpo. Suas intervenções à violência (Marta Maria Pérez). Antecipando pautas que
possibilitaram a visualização de uma estético que Fig. 2
começariam a ser desenvolvidas principalmente na
questiono valores patriarcais. Essas poéticos estavam Antonia Eirlz, Uno tribuno década de 1990, essas artistas desmantelaram corpos
poro lo paz democrõtico
comprometidos, de maneiro muito critico, com o problema {Uma tribuna para a paz gestantes, bem como grandes barrigas e sintomas da
democrãtical, 1968. Óleo gestação, para transformá-los em dispositivos que
da identidade sexual, abrindo o cominho poro os e colagem sobre tela.
estéticos lésbico, gay, queer, tronsexuol e outros, como 219,7■250,2 cm. Museo poderiam agir em qualquer corpo, transformando, de
Nacional de Bellas Artes,
processos que dissolvem os representações normativos Havana, Cuba. certa maneira, a maternidade em algo queer (Polvo de
da sexualidade. Nos últimos anos, essa diversidade foi Gallina Negra). A maternidade também foi socializada
nomeado e explorado à medido que foram se desenvol­ de uma forma poética na arte postal de Graciela Gutiérrez
vendo complexas teorias de gênero. Isso não significo, Marx, como um convite para comemorar o aniversário
no entanto, que os artistas representadas nesta exposição de sua mãe. Utilizando imagens e performances marcantes,
aderem ou estão cientes das diferenciações que eu artistas condenaram o crime de estupro (Ana Mendieta,
estabeleço aqui, com base em debates e instrumentos Josely Carvalho).
teóricos atuais. Em suas representações, essas artistas subverteram
No caso da Américo Latina, o relação entre corpo o gênero do retrato. Intervirem nele com o uso de
e violência é central. Ditaduras e aparatos repressivos dispositivos de catalogação de fotos de identificação,
submeteram o corpo o noções de punição que eram fotos policiais ou de turismo e com a manipulação do
indiferentes aos quadros estabelecidos pelo conceito de discurso médico (Teresa Burgo). Usando os materiais
humanidade que - conforme analisa Foucault em Vigiar culturais reunidos em seus ateliês, produziram retratos
e punir - passou o ser dominante na Europa moderno o insinuados, em vez de representacionois (Narcisa Hirsch);
partir do século xv111.• As convenções de uma economia cobriram suas caras com tinta, tornando-as matrizes
da disciplino e do punição estabelecidos pelos prisões de impressão ou máscaras (Nelbio Romero); assumiram
modernas e pelos sistemas educacionais foram implodidos Fig. 3 expressões satíricas paro mostrar diferentes estados
no contexto das ditaduras latino-americanos, resultando Elda Cerrato, Lo hora
de los pueblos IA hora de humor (Mónica Mayer, Regina Vater); questionaram
em uma violência disseminada que anulou os estruturas dos povos), 1975. Tinta identidades sociais pré-atribuídas (Marisol); desafiaram
acr111ca sobre tecido.
de controle institucional. Detenções ilegais, torturas, 150■95 cm. Cortesia os limites da religião representando a si próprias como
nascimentos em centros de detenção secretos e o roubo da artista e de Henrique
a Virgem de Guadalupe (Yolonda López); mostraram-se
Faria, Nova York &
de crianças cujo paradeiro é, em muitos casos, até hoje Buenos Aires. subindo a mesma escada repetidas vezes em uma busca
desconhecido: essas são algumas das circunstâncias Infinita (Margarita Morselli). Por meio do autorretrato,
que marcaram o situação do corpo, em geral, e do corpo elas interrogaram identidades em trânsito, deslocaram
feminino, em particular, sob os ditaduras latino­ identidades indígenas (Anna Bella Geiger) e deram
-americanos.• Algumas artistas foram detidas ou forçadas destaque o importantes figuras femininas, tais como
o buscar o exílio: os uruguaias Leonildo González e Lacy Gabriela Mistral, a única escritora latino-american a
Duarte foram presos, e Duarte, Diana Mines e Teresa
a ter recebido o Prêmio Nobel (Roser Bru). Elas
Trujillo foram exiladas. A chilena Cecilio Vicuna e o captaram rostos assustados pela violência de tesouros
argentino Moreia Schvortz viveram no exterior durante ameaçadoras (Anna Maria Maiolino) ou por redes
o período ditatorial de seus países.• Métodos especificas is
sufocantes (Cecília Vicuiia). Usaram convençõe s visua
de torturo eram perpetrados no corpo de mulheres. Em para assinalar as limitações que a sociedade impõ eªª
seus trabalhos, essas artistas abordaram, de maneiras sujeito feminino (Marie Orensonz). O gênero do retrato
diferentes, a situação do corpo feminino sob violentas e foi tensiono do em uma critica aos estereótipos da
repressoras estruturas políticas, bem como as condições sociedade colombiana de classe média e alta (Cle menc ia
sociais como um todo sob a ditadura.' Lucena) e foi a base na qual estruturas patriarcais foram
Nesse quadro cultural e político, o trabalho das questionad as paro propor alternativas matria rcai s
artistas reunidas nesta exposição desestruturou e deu Fig. 4 (Judith F. Boca). O rosto se tornou o território de interro go ·
Lygia Pape, D1 v 1 sor, 1968.
visibilidade poética às molduras sociais que regulavam Tecido branco de algodão com ções sutis na fricção entre desenho e fotografia (Lili on a
buracos. 20�20 m. Registro
0 corpo. Temas estereotipados foram abordados a fotograftco da performance, Porter). O autorretrato e o retroto trouxeram à tona
partir de uma perspectiva critica. A maternidade foi Museu de Arte Moderna, Rio questões, subjetividades e paradoxos formul ados por
de Janeiro, 1990. Cortesia
sujeitos femininos que se ergueram contra representa çõ e
s
desprovido de seus afetos e passou a ser vista para além Projeto Lygla Pape e Hauser
& Wlrth. da
dos categorias pré-autorizadas, para que pudesse ser canõnicas do rosto feminino prevolentes ao lo ngo
problematizada. A aura maternal foi subvertida por história da arte.
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A virada lconogróflca

O retrato também foi uma forma de representação com o formato da palavra "arte", que convoca o boca
usada para abordar a violência das ditaduras da região:
e o ato de ingerir - uma obro a ser devorada. Comido,
os rostos de desaparecidos (Roser Bru, Luz Donoso); os lábios e bocas são maneiras de reposicionar a violência,
rostos dos próprios filhos como forma de medir a duração quando, no contexto da ditadura chilena, duas meninas
d□ ditadura (Paz Errázuriz, Julio Toro); os rostos e os lambem pirulitos para revelar soldadinhos de brinquedo
corpos dos torturados (Olga Blinder, Sonia Gutiérrez). Em (Gloria Camiruaga). Substâncias viscosas, impregnadas
alguns trabalhos, o retroto também está associado com de saliva, são ingeridas, digeridas e expelidas em um
a violência cometida contra as populações americanas corpo prostrado que então renasce com novas percep­
nativas, seja pelo seu extermínio (Nelbia Romero), seja ções em Baba antropofágica, de Lygia Clark (1973).
pela exotizoção. Por exemplo, um cartão-postal no qual Nos trabalhos performóticos de Sylvia Salazar Simpson,
Anna Bella Geiger se fotografa vestida de indígena. a artista cobre sua cabeça com alimentos e outros
Outros obras exploraram tensões entre as populaçõ es substâncias orgânicas.
indígenas e um governo que não os considerava cidadãos Fig. 5
Em várias obras nesta exposição, o corpo posso por
Clemencia Lucena, Primero
legítimas (Claudia Andujar). Excepcionalmente, a questão de moyo revolucionório uma fragmentação que dissolve o olhar patriarcal. Em
(Primeiro de Maio
da raça foi introduzida como uma consciência resistente: revolucionãrio], 1977. Õleo vez de um corpo, esses trabalhos supõem a possiblidade
em uma de suas performances, a artista peruana Victoria sobre tela. 160ic130 cm.
de vários corpos - corpos-lascas. Alguns são peças
Localização atual
Santa Cruz grita "negro!" e "sou negro!", como uma desconhecida. analógicas, "máscaras" de fragmentos de gessos quebrados
maneiro desafiadora de nomear o afro-latino-americano do Departamento de Traumatologia de um hospital
e sua experiência. Essa obro torna visível o processo que (Dalila Puzzovio) ou as máscaras de um rosto que Maria
expulsa as pessoas categorizadas como não tendo o que Martínez Cofias remove uma após a outra; barrigas
é considerado a cor de pele certa. penduradas em ganchos como pedaços de carne em
Imbuídos de politização social, mas também da um açougue (Johanna Hamann); o corpo inspecionado
política do corpo coletivo redefinido e urbano, alguns em microscópio, células e vaginas reveladas em uma
trabalhos representam as massas. A multidão que ouve cosmogonia onotômico-cientifica provocativo (Mercedes
um orador ausente (Antonio Eiríz, fig. 2); a multidão Elena González); o corpo fragmentado em cerâmicas
que assinala o novo tempo histórico da América Latina brutas, feitos à mão e transformadas em peças a serem
(Elda Cerroto, fig. 3); e a multidão que emerge na tensão montadas (Tecla Tofano); o corpo visto como fragmentos
entre corpos e a matéria têxtil que os anula (Lygia Pape, de pele aumentados para, assim, parecerem uma
fig. 4). Outros apresentam o corpo como multitude e o paisagem (Vera Chaves Borcellos). Nesses trabalhos,
corpo multiplicado, como no trabalho de Grocia Barrios; o corpo deixa de ser, definitivamente, uma unidade
corpos doutrinados, como nos mostra a obra que controlada por um único ponto de vista.
Clemencia Lucena realiza desde a década de 1970 (fig. 5); O corpo é, também, administrado pelas normas
Fig. 6
corpos perseguidos, como retrata Patssi Valdez ao Liliana Maresca, Cristo, institucionais da arte, em um formato que remete
1988. Estatueta de ao controle biopolítico, como no trabalho da artista
desafiar estereótipos de mulheres chicanas e o ameaço Santer1a, aparelho de
sexual que sofriam nos mãos do polícia. transfusão, liquido argentina Graciela Carnevale, em que ela tranca os
vermelho. Aprox. 40 cm
As obras na exposição lidam com diversos complexi­ de altura. Cortesia do espectadores no local do exposição, encenando,
dades, incluindo aquelas que remetem o substâncias
Arquivo Monique Altschul. portanto, a situação repressivo na Argentina durante
corporais não representáveis e vistos como tabu, o a ditadura de Juan Carlos Onganía (1966-1970). Ou como
expelido e o repugnante (tecidos corporais, sangue na obra de Lotty Rosenfeld, em que o artista, em um
menstrual, urina, excremento), convocando uma emoção gesto ritual, se ajoelha várias vezes na rua paro desenhar
que nos coloca diante do outro subalterno.• Na repulso, linhas cruzadas com as linhas divisórias do asfalto,
podemos nos ver à distância e diferentes do outro. O criando, dessa forma, cruzes ou símbolos de adição.
sangue naturaliza com base na diferença biológica e Sua ação pode ser interpretada como um estado de
evoca a emoção do abjeto.9 Sangue, urina, excremento sacrifício do corpo sob a ditadura. Ou ainda como a
e saliva irrompem como substâncias indicativas de série Women under Fire [Mulheres sob fogo] (1980, p. 82),
corpos determinados culturalmente (Lygia Clark, llse de Isabel Castro, que é uma forma de protesto contra
Fuskova, Ana Mendieta, Maria Evelia Marmolejo, Sophie a esterilização forçada de mulheres chicanas.
Rivera). O sangue é o outro fantasmagórico que nos O corpo foi investigado a partir de erotismos e
aterroriza. Com a disseminação da Aids nos anos 1980, dispositivos ligados à sexualidade. A coma é entendida
não como um suporte poro o nu, exposto para satisfazer
o sangue tornou-se carregado de uma renovada e
o desejo masculino, mas como um convite ao movimento
penalizada alteridade, a base de um□ nova tabulação
erótico (Feliza Bursztyn) e à perda de controle (os colchões
das sexualidades corretos (Liliano M□resca, fig. 6).
de Morta Minujín). A cama aponta para a ideia de um
O impulso escatológic o se foz sentir em ações que,
ao mesmo tempo, tangem o doméstico e se distanciam lugar de submissão (Teresa Burgo, fig. 7) - uma leitura
dele. Esse é coso, por exemplo, de um trabalho de Sybil que também se foz sentir em algumas cenas do filme
O
Brintrup e Mogali Meneses, no qual elos preparam feminista de Maria Luiso Bemberg, E/ mundo de /o mujer
moris.cos paio o almoço, ou no biscoito de Regina Silveira [O mundo do mulher] (1972. p. 64). Uma exploração do
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Andrea Olunta

erotismo como jogo, no formo de uma caixa como lugar O corpo do artista entrou em cena como mater
ial
poro se amor (Teresinho Soares); o nudez frontal como expressivo. Danço contemporônea e expressão corp
oral
expressão de desacato (Mareio Schvortz, fig. 8); o subverteram o paradigma do corpo normalizado do
balé
erotismo como maneiro de representar sentimentos rotos clássico, misturando-se aos materiais dos artes visuais
(Delio Cancelo) ou como uma reflexão sobre o aparelho (Ano Komíen, Morílú Morini, Teresa Trujillo, Mortho Arat'.�
a.
reprodutivo feminino (Morgot R6mer). Vários trabalhos Sylvío Polocios Whitmon). Corpos nus e vibrantes emergi­
desclassificaram o normalidade de afetos em busco de ram em marcado oposição à atmosfera opressora do
beijos insubordinados, beijos que criam fricção entre Cidade do México (Polo Weiss); corpos tronsvestidos
peles marcados por diferenças de classe e de higiene deram visibilidade ao extermínio do povo Chorrúo no
(quando, por exemplo, Diomelo Eltit beijo um morador fundação do Estado uruguaio (Nelbío Romero); e tamb ém
de ruo), beijos revolucionários (Cecilio Vicuno) ou beijos corpos como evidência do existência ameaçado dos
no meio do museu que se transformam em obro-ação Yonomomi, no série Marcados (1981-1983, p. 57), de
(Mónica Moyer e Victor Lermo, fig. 9). Claudio Andujor. Com esses trabalhos, os artistas aborda­
Em seus trabalhos. artistas mulheres pesquisaram ram zonas que haviam sido negados pelos histórias
o fundo o lugar social do mulher. Elos examinaram F !g. 7 coloniais dos novas repúblicos latino-americanos.
Teresa Burga, Sem t1tulo,
os discursos do sociologia, concebendo, realizando ou 1967/2012. Madeira Como lascas de corpos, sensibilidades e conceitos,
compensada e colcha essas obras nos dão a sensação de um saber diferente,
analisando estudos sobre o que os mulheres detestam pintadas. Dimensões
no formo como são trotados no cidade e em seu discurso variAveis. Coleção de novos linguagens e afetos. Se não fosse pelo redesco­
particular. Vista da
(Mónica Moyer), ou questionando o relação entre mulheres instalação, Frieze Masters, berto do corpo e pelo descomprimir do espartilho
Londres, 2012. essencialista que atrelava a sexualidade à biologia,
reais em um local específico, como o Peru, e os visões
estereotipados dos mulheres em geral (Teresa Burgo). provavelmente teria sido impossível habilitar o variedade
Seus estudos assumiram formos especificas de partici­ de sensibilidades e escolhos sexuais que habitam os
pação em grupos de conscientizoção que, nos anos 1970, corpos, mesmo em uma sociedade na qual eles são
vinculavam políticos feministas e psicanálise (Narciso divididos entre femininos e masculinos. A revolução dos
Hirsch). Esses formatos de troco levaram a performances corpos, liderado pelos artistas mulheres e pelo feminismo,
coletivos, como os que Moyer desenvolveu poro artistas abriu espaço poro os pautas e as formos de visualização
feministas norte-americanos e mexicanos. de escolhos formuladas, hoje, pelos membros das
Os interlocutores privilegiados dos pesquisas dessas comunidades lésbico, gay e tronsexuol e de grupos fora
artistas sobre o sociabilidade foram os espectadores do chove do conformidade de gênero, e problematizados
convidados, de diferentes modos, a participarem de nos estudos de gênero e teorias queer, cujo análise
suas obras. De foto, a próprio palavra participação foi cultural subverte essencíolismos. A investigação intensivo
fundamental poro o poético dos anos 1960 e 1970 e de transgressões nesses trabalhos forneceu e ativou um
foi expressado nos trabalhos dirigidos por Mayer, no repertório que questiono conclusões o-históricos que
convite de Liliano Porter paro amossar pedaços de papel atribuem o origem dessas preocupações ao final dos anos
com os próprios mãos, no manipulação dos corpos de Fig. 8 1980. Como sempre, a história nos permite ir além do lugar
Mareia Schvartz, Nocturno
Cornevole ao trancá-los em um lugar fechado, no convite (Noturno(, 1979. Grafite comum, poro desafiar conclusões que não consideram
poro brincar e explorar o espaço em La menesunda sobre papel. 49 x 34 cm.
Cortesia da artista. os experiências vívidos ou o riqueza de estratégias
[A confusão) (1965, p. 153), de Morto Mínujin e Rubén formulados por aqueles que vieram antes de nós.
Sontantonin. nos terapias de Lygia Clark com objetos Mulheres radicais investiga a historicidade que, por
relacionais, na comido servido e devorada por Hirsch meio de imagens, tornou possível conceber novos formos
em Morobunto [Formigueiro] (1967, p. 118) e no convite de lidar com os representações do corpo, representações
de Margarita Azurdío poro tirar o sapato e sentir a desclassificados e abertos ao cruzamento de sensibili­
areia molhada. dades que eram, antes, higienicamente separados.
Estava também em jogo uma investigação profundo Em vez de perguntar o que essas artistas perderam em
da subjetividade feminina: mapas de desejos, impulsos termos de suo representação no campo do arte, nós
mos
e zonas reprimidos reminiscentes, talvez, dos diagramas
Fig. 9 perguntamos: o que todos nós perdemos por não ter
de Jacques Lacon (Anno Maria Moíolíno); o questiona­ vários trabalho s que fora m
Mõnica Mayer e Victor conseguido vivenciar ou ver
Lerma, Justicio y eci­
mento de classificações médicas de histeria feminino democrocio !Justiça e ocultados dos locais de exposição? Esse novo conh
tadores
mento teve um efeito emancipatório poro os espec
{Feliro Bursztyn) e referências irônicos à noção freudiano democracia!, 1995. Registro
fotogrãfico de uma
s d écadas
do invejo do pênis (Moris Bustamente). Em uma tentativo 1 nstalação participa t 1 va e também poro os artistas, portadoras - desde o
de eludir essas formos que filtram o sensibilidade
de beijaço. Museo de Arte
ento qu e
Moderno, Cidade do México. abordados por esta exposição - do conhecim
feminino, Sandro Llono-Mejío propôs um contato direto Cortesia do Arquivo complexi dad e de seu s
Pinto mi Raya.
permitiu que compreendessem a
com os ritmos do próprio corpo em ln-pulso (1978, p. 129). conhecim entos liber ara m
afetos e de seus corpos." Esses
Colocando um eletrocardiograma no Museu de Arte um poder, uma autoridade, poro aqueles que estava m
m
Moderno em Bogotá, elo convidou os visitantes o levarem sujeitados o esquemas de representação que regulava
poro coso suas ·emoções cardíacos impressas".'º os corpos - aqui, em suo maior porte, os corpos que
o sociedade classifico como sendo femininos. Esses
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A virada Iconográfica

trabalhos deram formo o um processo de descolonização


Notas
do corpo e de sistemas de validação da arte, pondo
FOUCAULT. Michel. Discipline and Punish: The Birth of the Prisan.
em xeque o sistema estético patriarcal do modernismo
Londres: Penguin, 1977 [ed. bras.: Vigiar e punir: nascimento da prisão, 42ª
em um processo de reformulação ainda em curso. Esse
ed. Petrópolis: Vozes, 2014] e FOUCAULT, Michel. The History of Sexuality.
conhecimento desafiou os limites de instituições que, Novo York: Pontheon, 1978-1986 [ed. bros.: História do sexualidade.
hoje. se nutrem e se reformulam a partir dessa explosão São Paulo: Paz e Terra, 2014]. Vigiar e punir e História da sexualidade
do cânone. Portanto, o feminismo artístico e o criticismo representam uma sistematização complexo da onólise de sistemas de
feminista do história da arte contribuíram poro uma controle do corpo, dos quais começou-se o tomar ciência nos anos
reformulação de valores estéticos e representações do pós-guerra. O feminismo e os representações do corpo feminino na arte
corpo que ainda são vitais poro nós. Eles liberaram o fizeram porte desse processo. Técnicas penitenciórios e suo aplicação
representação do desejo. Forneceram novos saberes que no sociedade como um todo, analisadas por Foucault em níveis
prometem uma expansão infinita: uma expansão dos estruturais e históricos, bem como o onólise da relação entre a
bases de nosso sensibilidade que, sem dúvida, contribuirá sexualidade e o controle do corpo, evidenciam a centralidade do corpo
poro uma maior emancipação estética da cidadania. como espaço de reflexão a partir dos anos 1960 até o presente.
2 Eu estabeleço uma diferença entre artistas feministas e feminismo
artístico. Considero artistas feministas aquelas que, de maneiro
deliberada e sistemática, tentaram construir um repertório e uma
linguagem artístico feminista (a maioria delas eram também ativistas
feministas). Uso o termo feminismo artístico para me referir ao
posicionamento dos historiadores que estudam a arte o partir de uma
pauta feminista. Isso pode significar o resgate de artistas praticamente
invisíveis - e. ao fazê•lo. contribui·se para o emergência de uma história
do arte feminista - ou a análise de sistemas de representação ligados
o preocupações feministas, mesmo quando os próprias artistas não se
identificam como feministas e não consideram seus trabalhos feministas.
Essa perspectiva está ligada aos estudos de gênero que consideram a
sexualidade como uma construção social. A metodologia histórica requer
que nem todos os trabalhos produzidas por mulheres sejom chamados
de arte feminista.
3 Como explica este catálogo, hâ algumas exceções: eram ativistas
feministas os artistas mexicanos Mónica Mayer, Maris Bustamente e Ana
Victoria Jiménez: o artista venezuelana Teclo Tofono e o artista argentino
Maria Luiso Bemberg. Entre as artistas latinas nos Estados Unidos, as
feministas incluíam Josely Carvalho e Sophie Rivera e as artistas chicanas
Judith F. Baco, Barbara Carrasco e Isabel Castro. Após o período abarcado
por esta exposição, outros artistas latino-omericonos organizaram
mostras ligados ao feminismo, além de montarem coletivos nos quais
produziram uma arte ativista e engajada.
4 Uma breve cronologia dos regimes ocorridos no regiõo inclui
Paraguai (1954-1989), Brasil (1964-1985), Argentina (1966-1970, 1976-1983),
Peru (1968-1980), Bolívia (1971-1978), Chile (1973-1990) e Uruguai
(1973-1985). Essa história de violência extrema também estó presente
no guerra civil da Guatemala (1960-1996), que testemunhou a derrubada
de vários regimes. Mais de 200 mil pessoas foram mortas, em suo maioria
indígenas e mulheres, em uma guerra desencadeada pelo golpe de
Estado em 1954. EI Salvador tombem teve uma guerra civil na década
de 1980 que resultou em mais pessoas mortas e desaparecidos da que
qualquer outro evento no história do pois. Essa breve referência a uma
história de violência, marcado pelo desaparecimento de muitas pessoas,
também deve menciono, a Operaçõo Condor, um plano apoiado pelos
Estados Unidos, segundo o qual, duronte as décadas de 1970 e 19S0. as
ações dos lideres das ditaduras no América do Sul ( Argentina. Bolivia,
Brasil, Chile. Paraguai, Uruguai, e - esporadicamente - em poises como
Colômbia, Equador, Peru e Venezuela) eram coordenadas. Ver: \Vikipedio,
"Operoçôo Condor·, <https:1/pt.wikipedio.org/wiki/Operaçõo_Conda,>.
Acesso em: 5 mar. 2018.
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Andreia Glunta

5 A Argentino é um pois com gronde número de crionços que uma pessoa ou grupo de pessoas acessem o autonomia que
lhes
desoporecidos duronte o ditoduro. Groços oo trobolho inconsóvel e havia sido negada por uma autoridade que subjugava suas copoci
dodes.
sistemótlco do orgonizoçõo de direitos humonos Abuelos de Plozo de Emancipar o corpo de estereótipos contribuiu poro o igualdade lego\,

Moyo, oté ogoro cerco de 120 crionços. entre umo estimotivo de 500 política, profissional, sociol, familiar e pessoal que hovio sido negad
o
crianças desoporecidos duronte o ditoduro. forom identificados e às mulheres e que o feminismo vem perseguindo desde suas primeiras
locolizodos. Ver o site do orgonizoçõo: <https://www.obuelos.org.or/> formulações no século XIX olé suas versões mais recentes e contem­

e "Abuelos de Plozo de Moyo presenton oi nieto recuperodo 120 en poráneas. Todavia, grande porte dessa pauto ainda está pendente.

Argentino·, f.l Pois. Uruguoi, 29 jun. 2016.


e Schvortz morou em Borcelono e Vicullo em Londres. onde trovou
umo intenso componho contra o ditadura de Pinochet que, desde entõo,
foi compilado e onolisodo por Paulino Varas. em VARAS, Paulino. Artists
for Domocracy: f.l orchiva de Ceei/ia Vic,,f>o. Sontóogo, Chile, Museo
Nocional do Bcllos Artes ond Museo de lo Memorio y los Derechos
Humanos, 2014.
7 A bibliog,ofio sobre esse temo é extenso. especialmente no
Argentino, Chile e Uruguai: ROJAS, Poz: BARCElô. Patrício; RESZCZYNSKI,
Kotlo. Torturo y 1eslsrenclo en Chile: f.studio médico-po/itico. Santiago,
Chile: [mlslón, 1991; CALV[IRO, Pilar. Poder y desoporición: los compos
de concenrroclón en lo Argcnrlno. Buenos Aires: Colihue. 1996; Memorio
poro armar uno: Tesfimonios coordrnodos por e/ Toller de Género y
Memoria e�·Presos Po/lrrcos. Montevidéu: Sendo. 2001; RUIZ. Moriso.
Ciudodonos en f/cmpos de lncerridumbre: Solidoridod. resisrencio ylucho
contra lo lmpunldad (1972· 1989}. Montevidéu: Doble Cfick. 2010; AUCIA,
Anolfo et oi. Grietos cn el sllencio: Uno invesrigoción sobre lo violencio
sexual en el marco dei terrorismo de estado. Argentino: CLADEM, Instituto
de Género, Derecho y Desorrollo. 2011; YÁGUEZ. Jovier Morovoll. tos
mujeres en /o izquierda chileno duronre la Unidad Popular y lo dicroduro
militar (1970·1990). Modri: Universidod Autónomo de Madrid, 2012 e
EMERIC. Bianca. Mujeres o /o sombra y mujeres en lo sombra. Montevidéu,
Nordon-Comunidod. 2013. Sobre formos de violência mais recentes.
Infligidos sobre o corpo de mulheres. ver, SEGATO, Rito Louro. lo escrituro
en e/ cuerpo de los mujeres osesinodos en Ciudod Juórez. Buenos Aires,
TTnto Límón, 2013. Sobre o sistema de prisóo de mulheres na Argentino,
ver, Mu1ercs en prisión: Los olconces dei castigo. Buenos Aires, Sigla
Veintiuno: Centro de Estudios Legales y Socioles; Ministerio Público de
Defenso; e Procuroción Penitenciaria de lo Noción, 2011. Em 2000, Glorio
Comiruogo, umo videoortisto apresentado nesta exposição, produziu o
documentório La venda (A vendo). que inclui o testemunho de mulheres
torturados durante o ditadura de Pinochet no Chile.
e SPNAK, Gayatry Chokrovorty. "The Rani of Sirmur: An Essoy in
Reoding the Archives· ln Hisraryond Theory 24, out. 1985, pp. 247·72.
• KRISTEVA. Julie. Powers of Horror: An f.ssoy on Abjection. Novo York,
Columbio Univershy Press, 1980, p. 2.
10 Sandro Uono-Mejio em entrevisto com Cormen Maria Joramillo,
5 fev. 2016; ver também o ensaio de Jaromillo nesta publicoçõo.
11 Refiro-me à emoncipoçõo no sentido de um novo saber, que é umo
construção ou eloboroçôo de novas capacidades desenvolvidas com
bose no relação ent,e aquilo que os onistos propõem e os espectadores.
Troto-se de um te1ce110 saber que nôo penence o nenhum dos dois, um
saber que semp,e questiono o 1dero do idêntico. Ver: RANCltRE. Jacques.
rhe f.monc,µored Sp,,ctoro,. Londres: Verso, 2011 (ed. bras., O espectador
6ffl0ncipodo. Sõo l'oulo WMF Momns fontes. 2012). NE:sse sentido. eu
tendo que o 11quezo oe e,pe11ênc,o. p,opo1C1onoda pelos trabalhos.
mullotid perl o,moucos. loonsfoHnom os relações de 1dunt1dode que
l• !l'IO• com o c;o,po no passado [ssé sober produz um conhucunento
, tono A oehrnçõo trod1C1oool 0.aS>é 1.a,mo e operotI.-o, ou •eia,
"""''""''"•"" 10 r\Ct \01 IO enteododo como uma o :ão que ,,.,, on11e