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MÓDULO DIDÁTICO DE FILOSOFIA

Verdade e validade II – lógica sentencial

2.1. O que é a lógica sentencial


A lógica sentencial estuda argumentos construídos com sentenças formadas com os conectivos ou, e, se…então, não. Para a lógica, esses
conectivos são funções de verdade o que significa que o valor de verdade de uma sentença depende dos valores de verdade das sentenças
que a constituem. Isso vai ficar claro nas próximas seções.

A análise dos conectivos sentenciais como funções de verdade não corresponde exatamente ao modo pelo qual eles são usados na linguagem
coloquial, a linguagem que usamos no dia-a-dia. Por outro lado, ainda assim, a lógica sentencial é uma ferramenta poderosa para analisar
argumentos. Lembre-se que o objetivo da lógica, o problema que a lógica se propõe resolver, não é elaborar uma teoria do significado mas sim
estabelecer um critério e métodos para determinar quando uma conclusão é conseqüência lógica de um conjunto de premissas.

2.2. Tabelas de verdade


As chamadas tabelas de verdade mostram como determinamos o valor de verdade de sentenças formadas com os operadores da lógica
sentencial. No lado esquerdo da tabela de verdade temos as sentenças a partir das quais a sentença composta foi formada. O valor da
sentença composta é dado pela coluna da direita. As letras V e F representam os valores verdadeiro e falso. Nós vamos usar símbolos para
representar os conectivos sentenciais: ou, e, se…então, não serão representados, respectivamente, pelos símbolos ∨ , ∧ , → , ¬ .

Dica: Leia a seção 9.2 de Mortari, Introdução à Lógica, e também as seções 1 e 2 do cap. 2 de Newton-Smith, Lógica – Um curso introdutório,
queestão na bibliografia.

Para saber mais: Os operadores sentenciais se comportam de uma maneira similar às funções matemáticas. Estas recebem números como
argumentos e produzem números como valores. Considere a função y = x + 1. Dizemos que y = f(x), isto é, y é função de x, o que significa que
o valor de y depende do valor atribuído a x. Quando x = 1, y = 2; x = 2, y = 3; x = 3, y = 4, e assim por diante. Analogamente a uma função
matemática, uma função de verdade recebe valores de verdade como argumentos e produz valores de verdade como valores. Note também que
y = x + 1 é uma função porque para cada valor de x é produzido apenas um valor de y. Da mesma forma, como veremos nas tabelas de
verdade, para cada valor de entrada (ou par ordenado de valores), é produzido apenas um valor de verdade.

2.2.1 A negação

Vamos começar pelo operador sentencial mais simples, a negação, representada pelo símbolo ¬ . A tabela de verdade da negação de uma
sentença A é

A ¬A

V F

F V

A negação simplesmente troca o valor de verdade da sentença. Uma sentença verdadeira, quando negada, produz uma sentença falsa, e
vice-versa. A sentença verdadeira

Aristóteles é filósofo,

quando negada,

Aristóteles não é filósofo (ou não é o caso que Aristóteles é filósofo)

produz uma sentença falsa. Já

Descartes é grego,

que é falsa, quando negada produz uma sentença verdadeira

Descartes não é grego.

Na lógica clássica, negar duas vezes uma sentença é equivalente a afirmar a própria sentença. A negação de ‘Descartes não é grego’,

Não é o caso que Descartes não é grego

é equivalente a ‘Descartes é grego’. Esse é a chamada Lei da dupla negação: para uma sentença A qualquer, ¬ ¬ A é equivalente a A.
2.2.2. A conjunção

Uma sentença do tipo A e B é denominada uma conjunção. Considere a sentença

(1) Aristóteles é grego e Descartes é francês.

que é composta por duas sentenças, unidas pelo conectivo e,

(2) Aristóteles é grego,

(3) Descartes é francês

Na interpretação do conectivo sentencial e como uma função de verdade, o valor de verdade de (1) depende apenas dos valores de verdade
das sentenças (2) e (3). É fácil perceber que (1) é verdadeira somente em uma situação: quando (2) e (3) são ambas verdadeiras. Sendo o e
representado por ∧ , a tabela de verdade de uma conjunção A ∧ B é a seguinte:

A B A∧B

V V V

V F F

F V F

F F F

2.2.3. A disjunção

Uma sentença do tipo A ou B é denominada uma disjunção. Há dois tipos de disjunção, a inclusiva e a exclusiva. Começaremos pela disjunção
inclusiva e por um exemplo bem simples.

(4) Ou João vai à escola ou João vai ao clube,

que é formada pela sentenças

(5) João vai à escola,

(6) João vai ao clube,

combinadas pelo operador ou. A sentença (4) é verdadeira em três situações:

(i) João vai à escola e também vai ao clube;

(ii) João vai à escola mas não vai ao clube;

(iii) João não vai à escola mas vai ao clube.

O símbolo ∨ representa na lógica simbólica a disjunção inclusiva, que tem a seguinte tabela de verdade:

A B A∨B

V V V

V F V

F V V

F F F

No sentido inclusivo do ou, uma sentença A ou B é verdadeira quando uma das sentenças A e B é verdadeira ou quando são ambas
verdadeiras, isto é, a disjunção inclusiva admite a possibilidade de A e B serem simultaneamente verdadeiras.

No sentido exclusivo do ou, uma sentença A ou B é verdadeira apenas em duas situações:

(i) A é verdadeira e B é falsa;

(ii) B é verdadeira e A e falsa.

Não há, na disjunção exclusiva, a possibilidade de serem ambas as sentenças verdadeiras. No português não temos expressões diferentes
para distinguir o ou inclusivo do exclusivo. Na maioria das vezes é apenas o contexto que deixa claro se se trata de uma disjunção inclusiva ou
exclusiva. Uma maneira de expressar o ou exclusivo na linguagem coloquial evitando ambigüidade é A ou B, mas não ambos. Na lógica
simbólica podemos utilizar um novo símbolo, por exemplo _ . Temos a seguinte tabela de verdade para a disjunção exclusiva:
A B A_ B

V V F

V F V

F V V

F F F

Um exemplo também bastante simples de disjunção exclusiva é

(7) Ou João estuda ou João dorme.

Como é evidente que João não pode estudar e dormir simultaneamente, o ou da sentença (7) é exclusivo.

Atividade 2.1:

As disjunções abaixo são inclusivas ou exclusivas?

1. Ou João ou José é o pai biológico de Icabod.

2. Ou Icabod ouve rádio ou Icabod lava louça.

3. Ou Lorenzzo é atleticano ou Lorenzzo é cruzeirense.

4. Ou Lorenzzo é atleticano ou Eduardo é cruzeirense.

5. Ou o PMDB ou o PTB recebe o Ministério da Saúde.

6. Ou o ministro sai do governo ou a oposição pedirá a instalação de uma CPI.

2.2.4. A condicional

Uma condicional é uma sentença da forma se A, então B.A é denominado o antecedente e B o conseqüente da condicional. Analisada como
uma função de verdade, a condicional é denominada condicional material. Na linguagem coloquial, geralmente usamos se...então para
expressar uma relação entre os conteúdos de A e B. Isso não ocorre na interpretação do se...então como uma função de verdade. A tabela de
verdade da condicional material, representada por → , é a seguinte:

A B A→B

1 V V V

2 V F F

3 F V V

4 F F V

A condicional material é falsa apenas em um caso: quando o antecedente é verdadeiro e o conseqüente falso. Você pode estar achando
estranho a condicional ser verdadeira nas linhas 3 e 4 da tabela, quando o antecedente é falso. Aqui, cabe mais uma vez lembrar que o objetivo
da lógica não é esclarecer significado das expressões da linguagem coloquial mas sim determinar se um dado argumento é válido. E essa
análise da condicional está de acordo com a análise que fizemos de sentenças do tipo todo A é B. Vejamos um exemplo.

(8) Todo mineiro é brasileiro.

Vimos que (8) significa que o conjunto dos mineiros está contido no conjunto dos brasileiros. Por essa razão, qualquer pessoa que escolhermos,
se essa pessoa estiver no conjunto dos mineiros, estará também no conjunto dos brasileiros. Mas nunca encontraremos, é claro, alguém que
seja mineiro mas não seja brasileiro. De (8), portanto, claramente podemos concluir todas as sentenças abaixo:

(9) Se Aécio é mineiro, Aécio é brasileiro,

(10) Se Lula é mineiro, Lula é brasileiro,

(11) Se Obama é mineiro, Obama é brasileiro.

Você certamente concorda que, sendo (8) verdadeira, não apenas a (9) mas também as sentenças (10) e (11) são verdadeiras. Agora veja: (10)
corresponde à linha 3 da tabela, pois tem antecedente falso, ‘Lula é mineiro’, e conseqüente verdadeiro ‘Lula é brasileiro’. E (11) corresponde à
linha 4 da tabela, pois tem antecedente e conseqüente falsos – tanto ‘Obama é mineiro’ quanto ‘Obama é brasileiro’ são sentenças falsas.

Atividade 2.2:

Sendo P = ‘Aristóteles é grego’, Q = ‘Platão é grego’, ambas verdadeiras, e R = ‘Descartes é grego’ e S = ‘Kant é grego’, ambas falsas,
determine o valor de verdade das sentenças abaixo. Você não precisa usar as tabelas de verdade se conseguir calcular mentalmente o valor de
verdade das sentenças compostas a partir das sentenças simples.

¬P P∧Q P∨R ¬P∧R

R∨S ¬¬S P→Q ¬Q→¬P

P → (S ∨ ¬ P) (P ∧ Q) ∨ R P→S ( ¬ Q → ¬ P) ∨ (P → S)

Para saber mais: Vamos voltar à matemática e lembrar do que aprendemos sobre as operações aritméticas da soma e multiplicação. Para
ambas vale a propriedade da comutatividade:

a*b=b*a

a + b = b + a.

Em outras palavras: a ordem dos fatores não altera o produto, nem a soma. Mostre, usando tabelas de verdade, que a comutatividade vale para
a conjunção e a disjunção mas NÃO VALE para a condicional, pois P → Q não é o mesmo que Q → P. (Achar que P → Q é o mesmo que Q →
P é a razão de duas falácias comuns, que veremos mais adiante).

2.3. Negações

Negar uma sentença como ‘Descartes é grego’ não oferece maiores dificuldades. Mas a situação é um pouco mais complicada com sentenças
formadas com os conectivos sentenciais. Já vimos que negar uma negação equivale à afirmação inicial ( ¬ ¬ A é equivalente a A). Agora
veremos como negar sentenças construídas com os conectivos e, ou, se…então. Negar uma sentença é o mesmo que afirmar que a sentença é
falsa. Por esse motivo, para negar uma sentença basta afirmar a(s) linha(s) da tabela de verdade em que a sentença é falsa.

2.3.1. Negação da disjunção (inclusiva)

Como vimos, uma disjunção inclusiva A ou B é falsa apenas no caso em que tanto A quanto B são falsas. Logo, para negar uma disjunção, nós
precisamos dizer que A é falsa e também que B é falsa, isto é, não A e não B,em símbolos: ¬ A ∧ ¬ B. Fica como exercício para o leitor a
construção das tabelas de verdade de ¬ (A ∨ B) e ¬ A ∧ ¬ B para constatar que são idênticas. Na linguagem coloquial, freqüentemente
formulamos a negação de uma disjunção com a expressão nem A, nem B, que significa o mesmo que não A e não B.

Aristóteles é ateniense ou Aristóteles é espartano

NEGAÇÃO:

Aristóteles não é ateniense e Aristóteles não é espartano

Aristóteles nem é ateniense nem espartano

2.3.2. Negação da conjunção

Por um raciocínio análogo ao utilizado na negação da disjunção, para negar uma conjunção precisamos afirmar os casos em que a conjunção é
falsa. Esses casos são a segunda, a terceira e a quarta linhas da tabela de verdade. Isto é, A e B é falsa quando:

(i) A é falsa ou

(ii) B é falsa ou

(iii) A e B são ambas falsas.

Não é difícil perceber que basta uma das sentenças ligadas pelo e ser falsa para a conjunção ser falsa. A negação de A e B, portanto, é não A
ou não B. Fica como exercício para o leitor a construção das tabelas de verdade de ¬ (A ∧ B) e ¬ A ∨ ¬ B para constatar que são idênticas.

Descartes é grego e Descartes é filósofo

NEGAÇÃO: Descartes não é grego ou Descartes não é filósofo

2.3.3. Negação da condicional

A negação de uma condicional é a afirmação do caso em que a condicional é falsa, a segunda linha da tabela de verdade. A negação de se A,
então B é A e não B. Em símbolos, a negação de A → B é A ∧ ¬ B. Note que o caso em que a condicional material é falsa corresponde
exatamente ao caso em que o se…então na linguagem coloquial é falso.

As partículas do português mas, todavia, entretanto, contudo, porém, do ponto de vista lógico, funcionam da mesma forma que o e. Por esse
motivo, na linguagem coloquial, podemos negar uma condicional se A, então B das seguintes maneiras: A, entretanto não B, A mas não B etc.
Se a política de cotas é adotada, o rendimento dos alunos é prejudicado.

NEGAÇÂO: A política de cotas é adotada,

mas o rendimento dos alunos não é prejudicado.

Atividade 2.3:

(i) Formule, usando a linguagem coloquial, a negação de cada uma das sentenças abaixo. Em todos os casos, considere que o ou é inclusivo.

1. Se Icabod não estudar lógica, não será aprovado no vestibular.


2. Se Icabod é rico, Icabod não trabalha.
3. Se o ministro não sair do governo, a oposição votará a favor da CPI.
4. Se não houver cooperação entre militares e policiais, o combate à criminalidade não será bem sucedido.
5. A proposição ‘o racismo é condenável’ ou é empiricamente comprovável ou é formalmente demonstrável.
6. Ou Deus existe ou a vida não tem sentido.
7. Descartes é grego ou não é filósofo.
8. Ou Icabod não bebe ou Icabod não dirige.
9. O candidato do PT ganhará a eleição e fará um bom governo.
10. Icabod não estuda matemática e não estuda lógica.
11. O conhecimento matemático é a priori mas tem origem na experiência. (Lembre-se que a lógica analisa o mas da linguagem coloquial
como um e).
12. Lorenzzo torce pelo Atlético e pelo Flamengo.

(ii) Considere que A e B são sentenças quaisquer. Complete a tabela abaixo com a negação das respectivas sentenças.

SENTENÇA NEGAÇÃO SENTENÇA NEGAÇÃO

A ¬A A∨¬ B

¬A A ¬ A∨B

A→B A∧¬ B ¬ A∨¬ B

A→¬ B A∧B ¬ A∨¬ B

¬ A→B A∧¬ B

¬ A→¬ B ¬ A∧B

A∨B ¬ A∧¬ B ¬ A∧¬ B

2.4. Validade na lógica sentencial


Já vimos que um argumento válido é um argumento no qual é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa. Vimos também
que a validade do argumento depende apenas da sua forma, independentemente das sentenças que o compõem serem verdadeiras ou falsas.
Agora, veremos algumas formas válidas, e também algumas inválidas, da lógica sentencial.

2.4.1. Formas válidas

Modus ponens

Forma lógica:

Se há uma fonte para a lei moral, então Deus existe. P→Q

Há uma fonte para a lei moral. P

Logo, Deus existe. Logo, Q,

A forma lógica pode também ser escrita na horizontal,

P → Q, P ⊨ Q.

O símbolo ‘⊨’ é denominado martelo semântico e significa que a sentença que está à direita (a conclusão) é conseqüência lógica das que
estão à esquerda (as premissas). O argumento acima é válido e é uma instância do chamado modus ponendo ponens, ou simplesmente modus
ponens. Para constatar que é válido não pense no conteúdo das sentenças mas concentre-se na forma do argumento. Não é difícil perceber
que se P → Q e P são verdadeiras, é impossível Q ser falsa. Note também que o argumento ser válido não significa que você deve aceitar a
conclusão, mas apenas que, necessariamente, se você aceitar as premissas, deve também aceitar a conclusão.
Modus tollens

Forma lógica:

Se Deus existe, então há uma fonte para a lei moral. P→Q

Não há uma fonte para a lei moral. Não Q

Logo, Deus não existe. Logo, não P

A forma lógica P → Q, ¬ Q ⊨ ¬ P é válida e é denominada modus tolendo tollens, ou simplesmente modus tollens. Se temos uma condicional P
→ Q verdadeira mas o conseqüente Q é falso, o antecedente P não pode ser verdadeiro. Isso ficará mais claro no exemplo abaixo:

Se Obama é mineiro, Obama é brasileiro.

Obama não é brasileiro.

Logo, Obama não é mineiro.

A primeira premissa, ‘se Obama é mineiro, Obama é brasileiro’, é verdadeira – lembre-se do que vimos na seção 2.2.4 acima. Posto que ‘Obama
não é brasileiro’ é verdadeira, ‘Obama não é mineiro’ é também verdadeira.

Há argumentos que não possuem as formas válidas acima relacionadas mas podem ser analisados baseado nelas. Por exemplo,

Se Icabod ficar em casa no sábado, Icabod estuda bastante.

Se Icabod estuda bastante, Icabod passa no vestibular.

Se Icabod passa no vestibular, Icabod ganha um carro de presente de Natal.

Icabod fica em casa no sábado.

Logo, Icabod ganha um carro de presente de Natal.

O argumento acima é válido e tem a seguinte forma: P → Q, Q → R, R → S, P ⊨ S. Note que o argumento consiste no encadeamento de três
argumentos do tipo modus ponens:

P → Q, P ⊨ Q; Q → R, Q ⊨ R; R → S, R ⊨ S.

Logo, para mostrar que o argumento é válido, basta mostrar que ele é constituído pelo encadeamento de três argumentos válidos.

Dica: Para aprender mais sobre falácias, veja o Guia das Falácias de Stephen Downes, disponível em http://criticanarede.com/falacias.htm.

Atividade 2.4:

(i) As seguintes formas também são válidas:

1. P → Q, ¬ P → Q ⊨ Q 3. P ∨ Q, P → R, Q → R ⊨ R

2. P ∨ Q, ¬ P ⊨ Q 4. P ∨ Q, P → R, Q → S ⊨ R ∨ S (mais difícil)

Construa argumentos na linguagem coloquial com as formas acima.

(ii) Já sabemos que ¬ ¬ A é equivalente a A. Logo, as seguintes formas também são válidas, e são instâncias do modus tolendo tollens:

1. ¬ P → Q, ¬ Q ⊨ P 2. P → ¬ Q, Q ⊨ ¬ P 3. ¬ P → ¬ Q, Q ⊨ P

Construa argumentos na linguagem coloquial com as formas acima.

Exemplo: (1) Se Icabod não faz regime, Icabod engorda. Icabod não engorda, logo, faz regime.

(iii) A forma P → Q, Q → R, R → S, ¬ S ⊨ ¬ P é válida? Justifique sua resposta.

2.4.2. Formas inválidas (falácias formais)

Falácias são argumentos que podem parecer bons à primeira vista, mas na verdade são argumentos enganosos. Alguns argumentos são
falaciosos em virtude da forma, e alguns desses casos nós veremos aqui.

Negação do antecedente
Forma lógica:

Se Deus existe, a vida tem sentido. P→Q

Deus não existe. ¬P

Logo, a vida não tem sentido. Logo, ¬ Q

A forma acima é inválida, e escrevemos P → Q, ¬ P ⊭ ¬ Q. Essa é a chamada faláciada negação do antecedente. O antecedente ser falso não
implica a falsidade do conseqüente. Veja o exemplo abaixo, que tem a mesma forma e premissas verdadeiras e conclusão falsa:

Se Lula é carioca, Lula é brasileiro.

Lula não é carioca.

Logo, Lula não é brasileiro.

Claramente, a verdade de ‘Lula não é carioca’não implica a verdade de ‘Lula não brasileiro’. Note que, diante de uma forma argumentativa, se
você construir um argumento com a mesma forma mas premissas verdadeiras e conclusão falsa, você mostra que a forma é inválida.

Afirmação do conseqüente

Forma lógica:

Se Deus existe, então há uma fonte para a lei moral. P→Q

Há uma fonte para a lei moral. Q

Logo, Deus existe. Logo, P

A forma é inválida, e escrevemos P → Q, Q ⊭ P. Essa é a chamada faláciada afirmação do conseqüente. O conseqüente da condicional ser
falso não implica a falsidade do antecedente. Veja o exemplo abaixo, que tem a mesma forma, premissas verdadeiras e conclusão falsa:

Se Lula é carioca, Lula é brasileiro.

Lula é brasileiro.

Logo, Lula é carioca.

O argumento acima, com premissas verdadeiras e conclusão falsa, é um contra-exemplo que mostra que a respectiva forma lógica é inválida.

Outras falácias formais

As seguintes formas são também falaciosas:

(i) Se P, então Q. Logo, se Q, então P.

(ii) Se não P, então não Q. Logo, se não Q, então não P.

(iii) P ou Q. P, logo não Q.

(i) e (ii) são também chamadas falácias de inversão da condicional. Note que (ii) é uma pequena variação de (i) onde o antecedente e o
conseqüente são sentenças negadas. Um exemplo de (ii) é

Se Icabod não jogar na loteria, não vai ganhar o prêmio.

Logo, se Icabod não ganhar o prêmio, então não jogou na loteria.

É fácil perceber que é verdade que se Icabod não joga, não pode ganhar. Mas daí não se segue que, se ele não ganhar, então não jogou, pois
ele pode jogar e não ganhar. Um exemplo de (iii) é

Ou Aristóteles é grego, ou Aristóteles é filósofo.

Aristóteles é grego.

Logo, Aristóteles não é filósofo.

Note que no argumento acima o ou da primeira premissa é inclusivo, pois Aristóteles é simultaneamente grego e filósofo. E a conclusão é falsa.

Atividade 2.5:

(i) Considere as formas argumentativas abaixo.

(a) P ou Q, não P, logo Q


(b) P ou Q, P, logo não Q

Vimos na atividade 2.4 que a forma (a) é válida. Por outro lado, (b) é inválida. Mas se em (b) o ou for exclusivo, a forma é válida? Justifique sua
resposta.

(ii) A forma P → Q, Q → R, R → S, ¬ P, logo ¬ S é válida? Justifique sua resposta.

Para saber mais:

As tabelas de verdade nos fornecem um método para determinar a validade de qualquer argumento da lógica sentencial. Para saber se um
dado argumento é válido, nós verificamos com as tabelas de verdade se é possível as premissas serem simultaneamente todas verdadeiras e a
conclusão falsa. Considere a forma P → Q, P ⊨ Q (modus ponens):

P Q P → Q P ⊨ Q

V V V V V

V F F V F

F V V F V

F F V F F

O que fizemos acima foi colocar lado a lado tabelas de verdade de cada uma das premissas e da conclusão. Depois, verificamos se é possível
as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa. Como não há linha alguma na tabela na qual as premissas sejam verdadeiras e a
conclusão falsa, o argumento é válido.

Vejamos agora um exemplo de uma forma inválida, P → Q, ¬ P ⊭ ¬ Q (negação do antecedente):

P Q P → Q ¬P ⊭ ¬Q

V V V F F

V F F F V

F V V V * F

F F V V V

Repare que na linha da tabela, marcada com * todas as premissas são verdadeiras mas a conclusão é falsa. Por essa razão, é uma forma
inválida. Para saber mais sobre o teste de validade com tabelas de verdade, leia a seção 3 do cap. 2 de Newton-Smith, Lógica – Um curso
introdutório, queestá na bibliografia.

Como exercício, mostre usando tabelas de verdade que as formas abaixo são válidas/inválidas.

VÁLIDAS INVÁLIDAS

1. ¬ P → Q, ¬ P ⊨ Q 5. P → ¬ Q, ¬ Q ⊭ P

2. P → ¬ Q, Q ⊨ ¬ P 6. ¬ P → Q, P ⊭ ¬ Q

3. P → Q, ¬ P → Q ⊨ Q 7. P ∨ Q, P ⊭ ¬ Q

4. ¬ P ∨ Q, P ⊨ Q 8. P ∨ Q ⊭ P ∧ Q

2.5. Condições necessárias e suficientes


Dizemos que X é condição necessária para Y se X é uma circunstância cuja ausência implica a ausência de Y. Dizemos que X é condição
suficiente para Y se basta a ocorrência de X para que tenhamos também Y. Condições necessárias e suficientes podem ser expressadas por
condicionais se A, então B e por sentenças universais todo F e G.

2.5.1. Condicionais

Em uma condicional se A, então B, dizemos que A é condição suficiente paraB e Bé condição necessária paraA. Considere a sentença

(12) Se Icabod é mineiro, então Icabod é brasileiro.

que é composta de duas sentenças conectadas pelo se…então,

(13) Icabod é mineiro,


(14) Icabod é brasileiro.

A verdade de (13) é suficiente para a verdade de (14). Mas, por outro lado, se (14) é falsa, i.e. se Icabod não é brasileiro, podemos concluir que
ele não é mineiro. Ser mineiro é condição suficiente para ser brasileiro, e ser brasileiro é condição necessária para ser mineiro.

Condicionais se A, então B podem ser expressas na forma A somente se B. As condições de verdade são as mesmas, a diferença é que se A,
então B enfatiza que A é condição suficiente para B e A somente se B enfatiza que B é condição necessária para A. A sentença

(15) Icabod é mineiro somente se Icabod é brasileiro

tem as mesmas condições de verdade que (12), a diferença é que (15) enfatiza que a verdade de Icabod é brasileiro é condição necessária
para a verdade de Icabod é mineiro.

Muitas vezes o uso de se…então e somente se é um recurso útil para expressar ênfase, respectivamente, em condições suficientes e
necessárias. A sentença

(16) Se o ministro deixa o governo, o pedido de CPI é arquivado

enfatiza que o ministro deixar o governo é suficiente para o arquivamento da CPI, e

(17) Haverá paz com os palestinos somente se Israel suspender o bloqueio a Gaza,

enfatiza que a suspensão do bloqueio é condição necessária para a paz. Mas ambas, na linguagem simbólica, são representas por uma
condicional A → B.

Eventualmente, temos que duas sentenças A e B são, simultaneamente, condição suficiente e condição necessária uma da outra, i.e. se A,
então B e se B, então A são ambas verdadeiras. Nesse caso, dizemos A se, e somente se, B. Exemplo,

(18) Icabod está na capital do Brasil se, e somente se, Icabod está em Brasília.

Uma sentença A se, e somente se, B é denominada bicondicional e na linguagem simbólica é representada por A ↔ B, que tem a seguinte
tabela de verdade:

A B A↔B

V V V

V F F

F V F

F F V

Uma bicondicional é verdadeira quando A e B tem o mesmo valor de verdade. Note que uma bicondicional é falsa exatamente nas condições
em que o ou exclusivo é verdadeiro. Logo, para negar uma bicondicional,

A se, e somente se, B

afirmamos

A ou B, mas não ambos.

2.5.2. Sentenças universais

Uma sentença universal todo F é G, significa que F é condição suficiente paraG e Gé condição necessária paraF. Considere a sentença

(19) Todo mineiro é brasileiro.

F é a condição ser mineiro e G, ser brasileiro. Já vimos, na análise da sentença (12) que ser mineiro é condição suficiente para ser brasileiro,
e inversamente ser brasileiro é condição necessária para ser mineiro, pois se alguém não é brasileiro, claramente também não é mineiro.

Sentenças universais todo F é G podem ser expressas na forma somente os Gs são Fs. As condições de verdade são as mesmas, a diferença
é que todo F é G enfatiza que F é condição suficiente para G e somente os Gs são Fs enfatiza que G é condição necessária para F. A sentença

(20) Somente os brasileiros são mineiros

tem as mesmas condições de verdade de (19).

Atividade 2.6:

(i) Complete as lacunas com ‘é condição necessária para’ e/ou ‘é condição suficiente para’.

1. Ser paulista _______________ ser brasileiro.

2. Estar em Belo Horizonte _______________ estar na capital de Minas Gerais.


3. Presença de oxigênio _______________ combustão.

4. Estar na Inglaterra _______________ estar em Londres.

5. Ser mamífero _______________ ser vertebrado.

6. Ter pelo menos 18 anos _______________ ter carteira de motorista.

7. Ser uma figura geométrica de 3 lados _______________ ser um triângulo retângulo.

8. Ser um argumento válido _______________ ser um argumento correto.

(ii) Considere as afirmações abaixo:

(a) Se X é condição suficiente para Y, então nãoX é condição necessária para nãoY.

(b) Se X é condição necessária para Y, então nãoY é condição suficiente para nãoX.

Você concorda? Em cada caso, justifique sua resposta.

Para saber mais:

Tradicionalmente, conhecimento é definido como crença verdadeira justificada. Dado um agente X e uma sentença S, dizemos que X sabe que
S (no sentido de um conhecimento genuíno) se, e somente se:

(i) X acredita em S;

(ii) S é verdadeira;

(iii) S é justificada.

A idéia é que (i), (ii) e (iii) separadamente são condições necessárias e juntas são condição suficiente para caracterizar um conhecimento
genuíno. Note que basta que uma das condições (i)-(iii) não ocorra para que X sabe que S não seja caracterizado como genuíno conhecimento.
Mas é importante observar que há controvérsias no que diz respeito à definição de conhecimento como crença verdadeira justificada. Para
saber mais sobre o tema, leia os textos A definição de conhecimento no Teeteto de Anthony Kenny, disponível em http://criticanarede.com
/html/td_01excerto2.html, e O que é o conhecimento? de Elliott Sober, http://criticanarede.com/fil_conhecimento.html.

Atividade 2.7:

(i) Verifique se os argumentos abaixo são válidos. Em cada caso, justifique sua resposta. (Dentre os argumentos abaixo, alguns foram retirados
ou adaptados de Gensler 2002.)

1. Se os EUA permanecem no Iraque, haverá uma guerra civil no Iraque. Se os EUA não permanecerem no Iraque, haverá uma guerra civil
no Iraque. Logo, haverá uma guerra civil no Iraque.
2. Ou Israel suspende o bloqueio à Gaza, ou não haverá paz com os palestinos. Israel não suspende o bloqueio à Gaza. Logo, não haverá
paz com os palestinos.
3. Ou Israel suspende o bloqueio à Gaza, ou não haverá paz com os palestinos. Israel suspende o bloqueio à Gaza. Logo, haverá paz com
os palestinos.
4. É certo que o presidente perderá popularidade, pela seguinte razão. Se o presidente não demitir o ministro envolvido nos escândalos,
certamente perderá popularidade. Mas isso também acontecerá se o presidente demitir o ministro envolvido nos escândalos.
5. Se a ética depende da vontade de Deus, então algo só é bom porque é desejado por Deus. Não é verdade que algo só é bom porque é
desejado por Deus. Logo, a ética não depende da vontade de Deus.
6. Se ‘bom’ significa o mesmo que ‘desejado por Deus’, a ética depende da vontade de Deus. Mas ‘bom’ não significa o mesmo que
‘desejado por Deus’. Logo, a ética não depende da vontade de Deus.
7. Se Deus criou o universo, Deus existe. Se Deus criou o universo, então a matéria não existiu sempre. A matéria sempre existiu. Logo,
Deus não existe.
8. Se o bem é definido em termos experimentais, então os julgamentos éticos são cientificamente demonstráveis. Se os julgamentos éticos
são cientificamente demonstráveis, então a ética tem base racional. Os julgamentos éticos não são cientificamente demonstráveis. Logo,
a ética não tem base racional.
9. Se o bem é definido em termos experimentais, então os julgamentos éticos são cientificamente demonstráveis. Os julgamentos éticos
não são cientificamente demonstráveis. Logo, o bem não é definido em termos experimentais.

(ii) Considere os argumentos 5 a 9 do exercício anterior. (a) Em cada caso, o que alguém que não concorde com a conclusão deve fazer para
rejeitar o argumento? (Dica: reveja as noções de validade e correção). (b) Nos casos em que o argumento for inválido e você concordar com a
conclusão, tente reconstruir o argumento de modo a torná-lo válido.

Bibliografia

Almeida, A. et al.A Arte de Pensar. Lisboa: Didáctica Editora, 2008.

Copi, I.M. Introdução à Lógica. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1974.

Gensler, H.J. Introduction to Logic. New York: Routledge, 2002.

Margutti, P.R.M. Introdução à Lógica Simbólica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001.
Mortari, C.A. Introdução à Lógica. São Paulo: Unesp, 2001.

Newton-Smith, W.H. Lógica – Um curso introdutório. Lisboa: Gradiva, 2005.

Respostas dos exercícios: http://sites.google.com/site/logicaetc/Home/respostas_log_sent.pdf

Instruções para os professores: http://sites.google.com/site/logicaetc/Home/instrucoes.pdf

Módulo Didático: Verdade e Validade


Currículo Básico Comum - Filosofia do Ensino Médio
Autor(es): Abílio Rodrigues Filho
Centro de Referência Virtual do Professor - SEE-MG / agosto 2010