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MARXISMO E ELITISMO

Dois modelos antagônicos de análise social?*

Adriano Codato
Renato M. Perissinotto

Introdução Left Review, Poulantzas atacou o despropósito analí-


tico, político e ideológico que consistia em trazer
Quando os problemas do poder, da política e para o interior da teoria marxista a problemática
do Estado voltaram a ocupar a atenção dos soció- das elites políticas (cf. Poulantzas, 1971, vol. II, p.
logos marxistas em fins dos anos de 1960, naquilo 154ss; 1969).
que pode ser caracterizado como o primeiro le- Os argumentos que fundamentavam essa recu-
vante “institucionalista” contra a revolução com- sa eram, em essência, os seguintes: o funcionamen-
portamentalista e sua continuação culturalista, con- to do Estado capitalista deve ser explicado a partir
tra a teoria dos sistemas políticos e as miragens dos vínculos objetivos (e não subjetivos, isto é, in-
ideológicas do pluralismo liberal, Nicos Poulant- terpessoais) existentes entre essa instituição política
zas aproveitou a ocasião para defender a pureza e a estrutura de classes (Poulantzas, 1969); logo, aque-
teórica do marxismo teórico. Tanto em Poder políti- les que controlam, dirigem ou ocupam os princi-
co e classes sociais, publicado em 1968, como na po- pais centros de poder do aparelho estatal (a “buro-
lêmica que se seguiu com Ralph Miliband na New cracia”), independentemente de sua origem social,
crenças e motivações específicas, estão destinados,
* Este artigo foi apresentado e debatido no GT “Marxismo
e Ciências Sociais” durante o 32º Encontro Anual da queiram ou não, a reproduzir a função objetiva do
Anpocs, em outubro de 2008. Estado, que consiste em manter a coesão social de
Artigo recebido em novembro/2008 uma determinada formação social (Poulantzas,
Aprovado em agosto/2009 1971); isso seria válido mesmo em qualquer forma
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de regime político (democracia burguesa, ditadura sofia/ideologia revolucionária paralela, e superior,


militar, fascismo, estatismo autoritário), onde o pes- à ciência social convencional.1
soal que comanda a gestão política do Estado é Essa terceira variante assume explicitamente que
sensivelmente diferente (Poulantzas, 1970, 1975, o marxismo é tanto uma visão de mundo “correta”,
1978). Conclui-se daí, portanto, que o problema um ponto de vista “privilegiado” etc., como a ciên-
central para o pesquisador de orientação marxista cia social por excelência, ainda que não só isso. Como
deve ser “que relações sociais de dominação o Es- decorrência, pode-se inclusive relativizar ou simples-
tado reproduz?”, e não “quem decide?” ou “quem mente ignorar os debates, as questões, os avanços
governa?”, sendo essas duas últimas questões me- metodológicos e as inovações conceituais da socio-
nores ou mesmo desimportantes quando compa- logia e da ciência política não-marxistas, e tudo o
radas à primeira. mais que não sirva ou não contribua para a com-
O objetivo deste artigo é discutir essas propo- preensão e a superação da sociedade de classes.
sições e desenvolver, tendo em vista as críticas de A segunda variante – o marxismo contra a ciên-
Poulantzas à teoria das elites, uma argumentação para cia social – requer que se pense o primeiro como
verificar em que medida se pode conjugar, na aná- uma espécie de garantia de cientificidade e objetivi-
lise social, as duas tradições teóricas, a despeito de dade diante da difusão de teorias que, passando-se
todas as suas notórias diferenças ideológicas. por “sociologia” ou “ciência política”, são na reali-
Pierre Birnbaum resumiu, de maneira paradig- dade racionalizações ideológicas mais ou menos
mática, essa disposição intelectual e nosso partido competentes de pontos de vista parciais e/ou inte-
teórico. Segundo ele, seria graças ao “estudo do resses sociais não confessados. Essa sorte de vigi-
pessoal político-administrativo francês” que se po- lância epistemológica seria inclusive tanto mais efi-
deria “melhor apreender a natureza do Estado na ciente para corrigir “erros”, “desvios” e vícios da
França” (1994, p. 11). A eleição de um objeto de própria teoria marxista quanto menos precisasse
investigação desse tipo está baseada numa hipótese apelar para outras tradições intelectuais.
(refutável, por definição) que permitiria ao cientista A primeira variante – o marxismo como uma
social safar-se de duas tentações muito presentes na ciência social “normal” – é o ponto de vista que
sociologia política: torna possível uma relação de fato dialógica com
as teorias sociais não marxistas ou explicitamente
A fim de evitar as armadilhas das concepções antimarxistas. Isso tem uma série de implicações,
puramente estruturais, que, por meio de metá- sendo a menor delas o risco de deslizar para o terre-
foras, economizam procedimentos empíricos, no “ideológico” do adversário. Entender o marxis-
mas também sem reduzir o sistema social a uma mo como uma corrente entre outras das ciências
somatória de indivíduos agindo de maneira mais sociais implica em pôr à prova empírica seus postu-
ou menos voluntária, é fundamental lembrar que lados, aceitar certas premissas das teorias sociais rivais
a ação do Estado, como instituição, depende muito e incorporar, de forma transformada ou não, alguns
do pessoal que o dirige (Idem, p. 11; grifos nossos). conceitos que façam avançar a pesquisa científica.
Dividimos o texto deste artigo em quatro par-
É preciso, antes de prosseguir, explicitar o pano tes. A primeira dedica-se a traduzir as principais
de fundo de toda essa discussão a propósito de questões da teoria das elites para o marxismo, ou
“elite” e “classe”. Ela diz respeito, em essência, a mais exatamente: explicá-las na língua oficial do
como se deve entender a afinidade (ou o divórcio) marxismo teórico, a fim de ressaltar não suas des-
entre o marxismo, como sistema teórico, e as ciên- semelhanças (que são óbvias), mas as diferenças de
cias sociais, como conjunto variado de teorias, méto- base entre os dois modelos teóricos. Na segunda
dos e técnicas de pesquisa. Há, a esse respeito, três parte sintetizamos as dificuldades que Poulantzas vê
possibilidades mutuamente excludentes: o marxismo na maneira de pensar a relação entre o mundo po-
como ciência social; o marxismo contra a ciência social lítico e o mundo social conforme os elitistas. A ter-
“burguesa”; e o marxismo como uma ciência/filo- ceira parte apresenta, de forma muito resumida, as

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soluções teóricas que o mesmo Poulantzas fornece os novos papéis assumidos pela burocracia de Es-
a fim de superar essas dificuldades. Na quarta parte tado etc.) teriam tornado obsoleta a idéia de uma
sugerimos algumas condições para retomar (ou de classe ao mesmo tempo política e economicamente
fato instaurar) o diálogo entre o elitismo e o mar- dominante. Trata-se da posição bem conhecida, por
xismo, ponderando acertos e desacertos na crítica exemplo, de C. Wright Mills (cf. Poulantzas, 1971,
sociológica do segundo ao primeiro.2 vol. II, p. 155-156).
Em segundo lugar, há o problema da burocra-
cia do Estado, problema esse que implica em ou-
Poder, classe (dominante) e burocracia tras tantas dificuldades: i) que conexão há entre a
burocracia de Estado e a classe dominante?; ii) tra-
Nicos Poulantzas proclamou, em Poder político e ta-se de uma relação instrumental, em que a segun-
classes sociais, que os problemas políticos, tais como da controla a primeira, ou a primeira controla a
formulados tradicionalmente pela teoria das elites segunda?; iii) trata-se, pelo contrário, de uma rela-
(isto é, quem detém o poder numa comunidade?; ção de autonomia recíproca, em que ambas são in-
quantos grupos políticos existem?; de onde vêm o dependentes?; e iv) se é esse o caso, a burocracia e
seu poder? etc.), “não podem ser resolvidos senão as outras elites (militares, políticas, técnicas etc.) que
na problemática científica do marxismo” e que para comandam o aparelho administrativo do Estado
tanto seria preciso voltar às “indicações científicas têm um poder político próprio?
que Marx, Engels, Gramsci e Lênin nos fornece- Para o elitismo clássico, o poder político, deti-
ram a esse respeito” (1971, vol. II, p. 155 e p. 154, do e exercido por uma burocracia autônoma (en-
respectivamente). carnada nas “cúpulas” estatais e nos funcionários
Dessa perspectiva, como se deveria expressar de alto escalão), seria de toda forma paralelo à do-
esses mesmos problemas na linguagem do marxis- minação (política e econômica) de classe e muitas
mo, isto é, conforme o seu sistema de conceitos, e vezes independente do econômico. Pode-se dizer que
que solução teórica Poulantzas deu a eles? esses problemas foram escondidos ou esquecidos
Consideremos, em primeiro lugar, o proble- pela sociologia política no século XX, graças ao uso
ma da classe dominante. Ele se divide, por sua vez, corrente da fórmula “classe política” e seus sucedâ-
em dois grandes enigmas: i) há de fato uma classe neos, como elite do poder, classe governante, cate-
politicamente dominante, ou a vida política se resu- gorias dirigentes, sem por isso estarem resolvidos.
me a um embate entre uma infinidade de grupos A escolha entre as expressões “classe domi-
de interesse e pressão que detêm quantidades de nante” e “elite política” não é, contudo, mera ques-
poder mais ou menos equivalentes?; e ii) essa classe, tão de terminologia. Há no mínimo três questões a
que domina politicamente, é a mesma que domina serem enfrentadas. Uma mais teórica, que é a ques-
economicamente? tão do fundamento do poder político. De onde o
A teoria das elites, como se sabe, é uma crítica poder deriva?; do próprio Estado, sendo esse con-
à teoria marxista da classe dominante e uma tentati- siderado como a fonte exclusiva do poder político
va de refutar a tese segundo a qual o poder político, (como em Weber ou Michels)?; ou de outras fontes
ou mais propriamente, “os recursos políticos da paralelas (e não mais importantes) de poder, como
classe dominante” derivam do seu poder econômi- o predomínio econômico? Há uma segunda ques-
co – ou mais exatamente “da posse dos recursos tão, mais empírica, que diz respeito à repartição do
econômicos” (Saes, 1994, p. 11). Os neo-elitistas poder político: há uma unidade das elites (como sus-
argumentarão inclusive que as transformações do tentam, entre outros, Mosca, Michels, Mills, Mey-
sistema capitalista desde meados do século XX (a naud) ou uma pluralidade de elites (conforme Par-
separação entre a propriedade e o controle dos sons, Aron, Dahl)? E por fim a questão da relação
meios de produção, a mobilidade social efetiva entre do poder político com o poder econômico: em
os grupos, a descentralização das funções de gover- termos marxistas, como pensar as maneiras com-
no, a transformação dos indivíduos em “massa”, plexas de ligação entre o (nível) político e o (nível)

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econômico? Essa terceira é, resumidamente, a ques- etc.) – e aquela que reivindica, ao contrário, a unidade
tão da “representação”: elites políticas, burocráti- das elites políticas.
cas, científicas representam a si mesmas (seus pró- O “pluralismo elitista”, representado por Dahl
prios interesses) ou representam interesses sociais e Schumpeter, por exemplo, está baseado num juí-
de classe? zo de fato: os estratos mais altos dos diferentes gru-
Antes, porém, de elencar as soluções teóricas pos sociais (políticos, burocratas, dirigentes sindi-
que o marxismo estruturalista deu a essa agenda de cais, líderes empresariais etc.) nem têm – e por isso
questões, vejamos as reprovações de Poulantzas à não representam – os mesmos interesses, nem apre-
teoria das elites. sentam qualquer unidade política. O problema des-
sa concepção é que, na realidade, ela divide o poder
político (Idem, p. 158), uma substância, por definição,
A crítica teórica à teoria das elites não partilhável. Mas essa concepção admite e pos-
tula certos fundamentos do poder diferentes daqueles
Poulantzas enfatizou que as críticas feitas pelos supostos pela teoria marxista e esse é, para Poulant-
elitistas à teoria marxista do político ou referem-se zas, seu principal defeito. Outra falta grave diz res-
a ou resultam de “más interpretações do marxis- peito ao fato de ela não levar em conta a unidade
mo”. De qualquer maneira, os problemas especí- do poder político e a centralidade do poder de
ficos que tais críticas suscitam – da classe dominan- Estado (e não de quaisquer outros “poderes”) nas
te, da burocracia de Estado, da relação entre ambas formações sociais capitalistas.
e da fonte do poder das duas – não poderiam em O “monismo elitista”, versão dessa teoria que
absoluto ser resolvidos a partir das “perspectivas aceita e argumenta a favor da unidade das elites,
ideológicas” do elitismo clássico (1971, vol. II, p. está de toda forma dentro da problemática mar-
154-155). Esses problemas resultariam, na verda- xista original da dominação política, embora repro-
de, de uma série de enganos cometidos pelos elitis- ve o uso da concepção de “classe dominante”. Em
tas. Quais são eles? seu lugar e graças às transformações históricas do
O primeiro erro dos elitistas é supor que o capitalismo, ela sugere a existência de uma superelite.
marxismo pretende que haja uma “concentração A coesão dos grupos sociais que formam esse novo
empírica de todas as funções políticas nas mãos da grupo político é pensada de maneira diferente (e
classe economicamente-politicamente dominante”, errada) por Mosca, Michels, Meynaud, Wright Mills:
sendo o poder exercido, na prática, pelos “mem- ora em função de um centro unificador, ora em
bros dessa mesma classe” (Idem, p. 155). função da ascensão de um novo grupo social (os
Essa suposição não leva todavia em conta a “administradores”), graças à revolução gerencial em
separação, postulada pelo marxismo clássico, entre meados dos anos de 1950; ora ainda em função da
o poder de Estado (isto é, o poder social exercido dominação de uma elite em particular sobre todas
através das instituições do Estado capitalista), deti- outras. De toda forma, seu poder pode derivar tan-
do efetivamente pelas classes ou frações dominan- to do controle que um grupo exerça sobre as rela-
tes, e o aparelho do Estado, lugar de exercício desse ções de produção, como do controle do próprio
poder, que bem pode ser ocupado e operado por aparelho do Estado (que pode assumir cumulativa-
quaisquer outras categorias sociais (as camadas mé- mente com o poder econômico). Essas formula-
dias, a pequena burguesia etc.). ções, enfatiza Poulantzas, não só não escapam ao
O segundo equívoco é uma continuação do determinismo – acusação comum ao marxismo –,
primeiro. Há duas versões da crítica dos elitistas à mas também restauram, nas explicações, um su-
concepção marxista da classe dominante. Aquela perdeterminismo econômico (Idem, p. 158-159).
que sustenta haver uma pluralidade das elites – sendo Essa é, resumidamente, a crítica poulantziana
esses grupos definidos conforme a posição de di- ao elitismo, e a partir daí já se pode intuir as premis-
reção que ocupam nos diversos campos da vida sas, os postulados e os princípios que sustentam essa
social (daí elite sindical, elite partidária, elite religiosa ciência política e que travam qualquer comércio

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conceitual possível com outras tradições que não que controla e administra os centros de poder do
aceitem essas evidências. Vejamos esse problema aparelho do Estado – e não a que detém o poder
mais de perto com base nas soluções teóricas que o político (Idem, p. 165). Esse é, por definição, das
marxismo teórico propõe para entender as relações classes dominantes. A classe detentora pode ou não
entre poder social e poder político. identificar-se com a fração hegemônica. A classe rei-
nante é a classe social ou fração de classe que predo-
mina na cena política – e que, portanto, assume “o
Um sistema conceitual alternativo papel de representação” política – por meio do jogo
dos partidos políticos (Idem, p. 162).
Como, por sua vez, a teoria política marxista, Todas essas diferenciações são tanto mais im-
segundo Poulantzas, pensa a questão da classe do- portantes quando se sabe os enganos que seu des-
minante e, igualmente, a questão da burocracia de conhecimento pode produzir. Por exemplo: “se nos
Estado? colocarmos unicamente no campo da cena política a
O conceito de “classe dominante” é, lembra fim de descobrir as relações de classe, reduzindo
Poulantzas, bem mais complexo do que a versão essas relações às meras relações partidárias, somos ine-
caricatural dele apresentada por Wright Mills. É vitavelmente levados a erros [...]” (Idem, p. 73, gri-
possível ler, nos clássicos do marxismo, inúmeras fos nossos). Isso porque, no processo político con-
análises que assinalam a defasagem e a desseme- creto, pode haver uma série de alternativas. Como
lhança entre a classe economicamente dominante e a regra geral, a ação da classe ou fração reinante reco-
classe politicamente dominante.3 A concentração efe- bre o papel da classe ou fração hegemônica na cena
tiva (“empírica”) das funções político-administrati- política. Todavia, pode haver, por exemplo, uma
vas nas mãos das classes e frações dominantes não classe ou fração no bloco no poder sem que ela
só não é obrigatória (isto é, uma invariante históri- tenha, obrigatoriamente, uma organização partidá-
ca), como também sua não coincidência só pode ria própria e esteja presente dessa forma na cena
ser explicada pelo marxismo graças à compreen- política; uma classe ou fração de classe pode desa-
são efetiva desse problema a partir das variações parecer da cena política continuando, porém, a exis-
promovidas pelas lutas de classe, pelas formas de tir no bloco no poder; pode haver uma classe ou
Estado e pelas formas de regime numa formação fração hegemônica na cena política diferente da clas-
social concreta (Idem, p. 161-162). se ou fração hegemônica do bloco no poder; no
Outro ponto obrigatório a enfatizar aqui é o limite, “a classe ou fração de classe reinante [...] [na
pertencimento de classe da burocracia de Estado. cena política] pode [...] não só não ser a [classe ou
Só faz sentido levantar o problema da “burocra- fração hegemônica], mas até, por vezes, não fazer parte
cia” tendo em mente a diferença decisiva que há do bloco no poder” (Idem, p. 76). Por sua vez, “um des-
entre o aparelho do Estado e o poder de Estado locamento do índice de hegemonia de uma classe
(Idem, p. 164). Resumidamente: o aparelho de Esta- ou fração [de classe] para uma outra do bloco no
do é o lugar a partir do qual se exerce o poder; o poder não coincide necessariamente com os deslo-
poder de Estado é o poder das classes e frações camentos da representação partidária na cena polí-
dominantes beneficiárias das decisões do Estado. tica” (Idem, p. 74); um deslocamento da hegemonia
Partindo da definição estrita, segundo a qual a de uma classe ou fração de classe para uma outra
“classe dominante” (ou mais propriamente, a classe do bloco no poder não “corresponde [...] necessa-
ou a fração hegemônica) é aquela cujo interesse políti- riamente a passagens do fundo para a boca da cena”
co é garantido prioritariamente pela política de política (Idem, ibidem). Enfim, o bloco no poder pode
Estado, Poulantzas avança duas noções operacio- se expressar, na cena política, por meio de alianças
nais para lidar com esse problema: a noção de “clas- partidárias ou mesmo por meio de uma luta aberta
se detentora” e a de “classe reinante”. A classe deten- entre partidos (Ibidem, p. 76).
tora (que em geral se designa, imprecisamente, como Todavia, essa combinatória complicada, dedu-
a classe politicamente dominante) é a classe social zida inteligentemente por Poulantzas das análises de

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Marx sobre a política européia do século XIX, se Por fim, é inegável que o elitismo padece de duas
corrige as visões mais simplistas do fenômeno po- limitações interligadas. De um lado, atribui-se peso
lítico (e, de resto, as próprias visões simplificadoras exagerado ao poder próprio das elites políticas, vis-
sobre o marxismo), não dá conta de certos fenô- tas como o agrupamento responsável pela condução
menos que são apenas políticos ou que não podem das comunidades humanas. Nesse sentido, a aborda-
ser reduzidos – ou deduzidos – da análise classista. gem elitista sofre de um voluntarismo excessivo, não
sendo capaz de dar conta dos constrangimentos
estruturais que limitam a ação dos grupos de elite.
Por um diálogo na pesquisa social De outro lado, essa teoria está demasiadamente
centrada nos interesses próprios das “minorias poli-
O propósito mais amplo deste artigo, recorde- ticamente ativas” e, por isso, tende a não eleger como
se, é (re)estabelecer um diálogo entre o marxismo e objeto de análise a relação (que pode haver e freqüen-
o elitismo, bloqueado depois das críticas de Nicos temente há) entre a conduta das elites e certos inte-
Poulantzas à teoria das elites, que sumarizamos aci- resses externos a ela. Somados os dois defeitos e
ma, e das censuras à sua incorporação acrítica por levados às últimas conseqüências, as “minorias poli-
Ralph Miliband em O Estado na sociedade capitalista ticamente ativas” parecem agir numa espécie de vá-
(cf., em especial, Poulantzas, 1969). Essa pretensão cuo social. Desse modo, os elitistas limitam-se a ana-
não implica, de toda forma, em recusar pura e sim- lisar ou a relação elite-massa (esta última nunca
plesmente tais críticas. Na realidade, Poulantzas tem definida rigorosamente, isto é, além dos preconcei-
razão em três pontos importantes. tos convencionais), ou a relação intra-elites. As classes
Não há dúvida de que os teóricos do elitismo, sociais, ainda que sua existência empiricamente seja
tanto os clássicos como os contemporâneos, fazem reconhecida, não são levadas em conta na explica-
a crítica ao marxismo a partir de uma caricatura, ção do domínio político por serem consideradas
bastante grosseira, do que seria essa teoria. Na maio- agregados demasiadamente amplos e/ou porque,
ria das vezes, o marxismo é percebido como um eco- afinal, não produzem efeitos políticos importantes.
nomicismo, isto é, uma teoria para a qual os agen- Esses defeitos seriam razões suficientes para
tes políticos estariam a serviço dos interesses “da suspender o diálogo entre marxismo e elitismo?
economia” ou, mais propriamente, dos agentes eco- Acreditamos que não, e para que essa proposição
nômicos. Essa deformação do marxismo, mano- seja aceita, é preciso refutar algumas outras críticas
bra que permite rejeitá-lo sem maiores problemas, a que Poulantzas submeteu a problemática teórica
pode ser lida tanto em Gaetano Mosca (1939), como das elites políticas. Pensamos particularmente em
em Raymond Aron (1991) ou em Pierre Birnbaum três pontos, reproduzidos em destaque e discuti-
(1994). Seria necessário, portanto, restabelecer os dos a seguir.
princípios teóricos do primeiro antes de opô-lo (ou,
da nossa perspectiva, conectá-lo) ao elitismo. (i) Os problemas dos agentes do poder e da fonte do
Em segundo lugar, Poulantzas acerta ao criticar poder só podem ser resolvidos no âmbito do marxismo. É
os elitistas por não fornecerem uma teoria do Esta- preciso qualificar essa observação. Tais problemas
do – afinal, o centro do exercício do poder político. só poderiam ser resolvidos, segundo Poulantzas, no
Demasiadamente preocupados com os “sujeitos” âmbito daquilo que ele próprio considera ser o
do poder, os elitistas são incapazes de pensar o marxismo teórico. O fato de outros marxistas te-
Estado como uma estrutura institucional (agentes, rem incorporado alguns problemas e conceitos da
aparelhos, papéis, centros de poder etc.) que funcio- teoria das elites – Miliband, Bottomore, Domhoff,
naria como um limite às ações caprichosas dos de- por exemplo – revela que tal afirmação é, no míni-
cisores. Desse modo, nunca sabemos ao certo qual mo, discutível. Porém, além disso, ou antes disso, é
é exatamente o lugar e a função do aparelho estatal preciso perguntar se o marxismo pode, de fato, dar
e dos seus operadores, a “elite estatal”, na reprodu- conta de alguns desses problemas, seja qual for a
ção da dominação política e social. compreensão que se tenha dessa teoria.

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Como se discutiu acima, Poulantzas procurou entre essas decisões e os efeitos que elas produzem
resolver o problema da relação entre os agentes do no sistema social (efeitos reprodutivos ou não; an-
Estado (as “elites” políticas e/ou burocráticas) e a tecipados ou não; a favor ou não da fração hege-
dominação política de uma classe ou fração determi- mônica), então é forçoso reconhecer a importância das elites
nada a partir da conjugação de dois conceitos: “clas- como objeto de estudo, inclusive para se analisar (ou
se detentora” e “classe (ou fração) hegemônica”. O “comprovar”) a reprodução/transformação das
conceito de classe ou fração hegemônica identifica- relações de dominação de classe.
ria a classe sistematicamente beneficiada pelas polí-
ticas de Estado, independentemente de ser esta classe (ii) O conceito de “elite” não pode dar conta efetiva-
ou fração um agente político coletivo e estar orga- mente do problema da dominação porque não leva em conside-
nizada de modo efetivo (como “classe reinante” na ração o problema da estrutura de classe da sociedade. É
cena política, por exemplo). Nesse sentido, ela é teo- notório que o conceito de elite (ou “classe política”
ricamente (e pode vir a ser empiricamente) diferen- ou “oligarquia” e seus sucedâneos) nasceu do obje-
te da classe detentora, conceito que descreve os agen- tivo explícito de refutar o conceito de classe como
tes que controlam diretamente os postos estatais (a sendo uma noção teórica pouco ou nada operacio-
“elite estatal”, na definição de Miliband). nal. No entanto, essa justificativa não precisa ser acei-
No entanto, essa conceituação só resolve o pro- ta e, por conseguinte, os marxistas não estão obri-
blema eliminando-o de maneira arbitrária. Dado o gados a rejeitar o “seu” conceito sem mais.
fato de que a classe detentora é um simples efeito Não se deve imaginar que o conceito de elite e
da estrutura estatal e, por isso, está condenada a suas muitas especializações – elite política, econô-
realizar os imperativos da função objetiva do Esta- mica, intelectual etc. – possa jogar um papel parale-
do capitalista (a reprodução de uma formação so- lo, análogo ao conceito de classe dentro do marxis-
cial capitalista), ela, no fundo, não precisa ser ana- mo. Esse parece ser o caso de Ralph Miliband (1972)
lisada. Miliband (1970) tem razão ao afirmar que, e Tom Bottomore (1974). Segundo esses autores, o
para Poulantzas, o Estado e seus agentes só po- conceito de elite é útil à medida que explica algu-
dem ser pensados como autônomos (em face da mas realidades sociais às quais o conceito de classe
fração hegemônica) sob a condição de serem autô- não se aplica ou não se ajusta adequadamente. Ain-
matos, isto é, perderem completamente a sua au- da que essa proposição seja, em nome do bom sen-
tonomia (diante dos imperativos objetivos do “sis- so, plenamente aceitável, é preciso ir além dela. Na
tema” capitalista) e, por conseguinte, perderem de realidade, da nossa perspectiva, é mais razoável pen-
uma vez por todas a sua importância como objeto sar que o conceito de elite pode ajudar a operacionalizar
de estudo. Mas essa desimportância é um derivati- empiricamente a análise classista da política.4
vo arbitrário de determinados postulados teóricos, Para tanto, a análise classista não pode, por sua
e não produto de análises empíricas, históricas, que vez, ser reduzida a um princípio que pensa as clas-
a comprovem. ses apenas como estruturas objetivas que produzem
Os estudos sobre elites políticas demonstraram “efeitos pertinentes” no nível político, a despeito
à farta e de forma convincente o valor científico de ou antes mesmo da sua constituição como agentes
se estudar as “minorias politicamente ativas” em políticos efetivos. Por isso, esse gênero de análise
função dos efeitos (não necessariamente intencio- não pode se limitar a identificar a morfologia do
nais) que suas ações e opções estratégicas podem modo de produção (e dos seus estágios ou fases) a
produzir sobre o sistema social (cf. Guttsman, 1965; fim de derivar daí, por dedução teórica, os efeitos
Keller, 1971; Carvalho, 1980; Czudnovski, 1982; políticos que supostamente a estrutura de classe pro-
Perissinotto; 2000; Hunt, 2007; entre outros). Re- duz. Pelo contrário, a perspectiva classista, para se
cordemos o ponto de partida deste artigo: se po- tornar instrumento de análise social de uma ciência
demos, de alguma forma, estabelecer uma relação social empiricamente orientada, exige que se pense,
entre a natureza das elites políticas/estatais (ou da em primeiro lugar, se e como as classes se constituem,
“classe detentora”) e suas decisões e, por outro lado, de fato, em agentes políticos relevantes.

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A realização desse objetivo impõe grande difi- fim, c) estudo da origem social dos seus membros.
culdade, já que não é trivial conceber as classes como Em suma, é preciso saber se os membros da mi-
atores coletivos voluntários, como já observou a noria em questão agem de maneira coordenada e
propósito Olson (1999). No mínimo, seria preciso conveniente aos interesses da classe que eles, supos-
explicar de que maneira a “solidariedade” entre os tamente, “representam”; se falam explicitamente
membros da classe (uma forma de sentir e pensar “em seu nome” e se são provenientes da classe em
em comum) se transforma em “cooperação” (uma questão. A hierarquização desses três procedimen-
forma de agir em comum) (cf. Kaplan e Lasswell, tos metodológicos é fundamental, já que eles têm
1998, pp. 60-61). impactos diferenciados na comprovação da rela-
Os marxistas poderiam refutar tais argumen- ção de representação entre a minoria e a classe que
tos dizendo que nem eles nem o próprio Marx de- ela supostamente (e não por definição) deve repre-
fenderam a idéia de que as classes sociais agem di- sentar. Por exemplo: um grupo pode ser recrutado
retamente na política, como forças coletivas voluntárias numa classe (contemplando assim a exigência da
(Therborn, 1989). Na verdade, as classes agiriam origem social), mas ter um discurso e um compor-
sempre por meio de “porta-vozes”, isto é, por meio tamento orientados pela ideologia de outro grupo
de partidos, sindicatos, associações civis e outras social; ao contrário, a presença de uma ação mani-
instituições que falariam em nome das classes. Como festa e conscientemente orientada pela consecução
é fácil perceber, em vez de decidir a parada, esse de objetivos de classe já seria suficiente para estabe-
expediente coloca mais um termo na equação, já lecer a relação de representação, mesmo que os
que o problema empírico que se soma aqui é: como membros da minoria não fossem recrutados na clas-
então provar que tais instituições veiculam, represen- se em questão e professassem a ideologia de um
tam, de fato, os interesses das classes em questão? terceiro grupo social. Evidentemente, a presença das
É exatamente em relação a esse problema – ao três dimensões – ação, filiação espiritual e proce-
problema da representação – que o conceito de dência social – tornaria a comprovação da existên-
elite pode ser não apenas complementar ao mar- cia de uma “representação de classe” ainda mais
xismo, mas importante mesmo para operacionali- convincente.
zar a análise de classe, isto é, torná-la efetiva na ciên-
cia social. “Classe” só pode se constituir como um (iii) A perspectiva elitista não pode identificar os funda-
conceito analiticamente rentável se abandonarmos mentos do poder político. É pouco discutível que a teo-
em definitivo a idéia de que ela age diretamente na ria das elites tende a ser excessivamente voluntarista
política. Dito de outra forma, um uso adequado ao analisar o poder das elites políticas já que tende a
desse conceito parece exigir que se considere a clas- desconsiderar elementos exteriores à própria política
se como uma coletividade “representada” no cam- como fatores condicionantes e limitativos do po-
po político por uma “minoria politicamente ativa”, der desses grupos sociais especiais. Trata-se do que
como sustentou Therborn (Idem, pp. 437-438). O se convencionou chamar de o pecado do “forma-
problema então é saber como exatamente detectar as lismo”. 6 No entanto, com relação a esse ponto,
relações de representação de classe no funcionamento podemos observar inicialmente que não apenas o
da luta política cotidiana sem recorrer à chave-mes- marxismo é deformado pelos seus inimigos teóri-
tra das “funções objetivas” do Estado ou da “lógi- cos, como também os próprios marxistas tendem
ca” intrínseca do modo de produção. a fazer o mesmo com seus adversários ideológicos.
A nosso ver, a análise classista da dinâmica po- Não é exata a suposição de que todo e qualquer
lítica exigiria que se cumprisse três procedimentos, investigador que eleja as elites políticas como obje-
hierarquizados por ordem de importância, para que to de estudo esteja desde logo condenado a pecar
se pudesse comprovar a tese da representação po- por formalismo. Logo, é equivocado sustentar que
lítica de classe por uma minoria (ou uma “elite”):5 qualquer teórico das elites não possa identificar os
a) o estudo do comportamento efetivo dessa minoria; b) fundamentos “reais” do poder político. Eles o fa-
a análise do conteúdo do seu discurso manifesto; e, por zem, só que tais fundamentos não residem na

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MARXISMO E ELITISMO 151

estrutura de classe, mas em outras instâncias/uni- a entender a configuração e a evolução de uma dada
versos sociais. Quanto a isso, uma rápida leitura da formação política, assim como os processos de
tipologia das classes políticas formulada por Mos- conservação ou de desestabilização da ordem social.
ca serve para superar o que se poderia chamar po- Se isso é correto, então temos que nos dedicar
lidamente de mal-entendido (1939, p. 53-60). a pensar e forjar conceitos que nos permitam ana-
Antes de tudo e a fim de evitar os inconvenien- lisar, a partir de uma perspectiva classista, as intera-
tes típicos desse tipo de confronto, é preciso escla- ções políticas “superficiais”, isto é, os fenômenos
recer o conteúdo preciso dos termos aqui discuti- políticos que não estão diretamente ligados ao pro-
dos. Se dissermos que elites políticas não exercem blema da reprodução social “a longo prazo”. Para
de fato o poder político, torna-se necessário dizer cla- tanto, talvez seja o caso de lançar mão de um con-
ramente o que se entende por essa expressão. Pare- ceito de poder menos abrangente e mais operacio-
ce evidente que o conceito de poder político, no nal, tal como aquele formulado pela tradição teóri-
caso do marxismo estruturalista, descreve a produ- ca weberiana. Nesse sentido, o poder seria tão só a
ção, pelo Estado capitalista, de políticas de gover- capacidade de produzir efeitos pretendidos e garantir que os
no que reproduzem a estrutura de classe (ou a “es- resultados sejam atingidos mesmo contra a resistência de gru-
trutura de dominação”) da sociedade capitalista. pos antagônicos. Esse é o poder em sentido estratégico.
Nesse sentido, o Estado atende aos interesses de Esse tipo de formulação se presta muito bem
longo prazo da classe dominante ou, para ser mais e muito mais à análise das ações estratégias típicas
específico, aos interesses políticos dessa classe em da vida política real. Por meio dela podemos acom-
particular, interesses esses que consistem, basicamen- panhar mais de perto as interações entre os agentes
te, na reprodução das características/relações fun- políticos e sociais, sem que tais interações sejam dis-
damentais que constituem o modo de produção solvidas no tempo da longa duração da “reprodu-
capitalista. Esse é o poder em sentido estrutural. ção do modo de produção”. Essa é, de resto, a
Não há muita dúvida sobre o fato de que a tática de análise adotada por Marx em O 18 brumá-
estrutura da sociedade capitalista impõe vários li- rio de Louis Bonaparte. Aí podemos vê-lo acompa-
mites às decisões, às estratégias e às margens de ação nhando o dia-a-dia das decisões estratégicas dos
das elites políticas. No entanto, o que fazer e o que diversos agentes políticos, seus cálculos, suas hesita-
dizer de toda uma gama de fenômenos políticos ções, suas tomadas de posições diante de situações
que não dizem respeito à reprodução da ordem social? Como concretas. A questão central da pesquisa política
explicá-los? Vale à pena abrir mão de compreender orientada pela problemática marxista, a partir da-
e comentar uma série de ocorrências políticas – que qui, seria então: em que medida as estratégias ado-
são, de resto, a maioria – só porque elas não se tadas pelas diversas elites políticas podem ser vin-
inscrevem naquilo que seria essencial do ponto de culadas a uma base de classe? Afinal, é tão dogmático
vista estrutural (supondo que “estrutural” é tudo o imaginar que as classes não têm efeito na vida polí-
que diz respeito à reprodução do modo de pro- tica quanto supor que, por definição, devam ter.
dução social)? Dito isso, não há qualquer razão, a não ser ex-
A nosso ver, a resposta a essa questão deve ser trateórica, para tomar esses dois conceitos de po-
negativa. Se as elites políticas não detêm “poder der (estrutural e estratégico) como excludentes. Se,
político”, no sentido restrito definido acima, elas de um lado, é inegável que as elites agem num con-
certamente possuem, em alguma medida (a ser texto estrutural que restringe suas ações/opções e
determinada empiricamente), autoridade, força, prestígio, redefine o sentido de suas estratégias a despeito de
enfim, “influência política” capaz de produzir efei- suas intenções iniciais e dos seus “projetos”, de ou-
tos que valem a pena ser examinados. Aliás, não tro lado não é menos inegável que essas elites fazem
raro, como demonstraram vários estudos (por exem- escolhas, traçam táticas, redefinem decisões, calculam
plo, Codato, 2008; Fausto e Devoto, 2004; Skoc- o alcance de suas possibilidades de poder e, por
pol, 1984; Putnam, 1976; Perissinotto, 2000), as conseguinte, afetam com isso a dinâmica real do
opções feitas pelas elites políticas podem nos ajudar mundo social e do mundo político. Não tomá-las

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152 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 24 No 71

como demiurgo desses dois mundos não exige que CODATO, Adriano. (2008), Elites e instituições no
se veja as elites como meros fantoches das deter- Brasil: uma análise contextual do Estado Novo. Cam-
minações estruturais. pinas, tese de doutorado em Ciência Política,
Universidade Estadual de Campinas – Uni-
camp.
Notas CZUDNOWSKI, Moshe M. (ed.). (1982), Does who
governs matter? DeKalb, Northern Illinois Uni-
1 Bobbio discutiu essas oposições, de maneira um tan- versity Press.
to diferente, no ensaio “Marxismo e ciências sociais” FAUSTO, Boris & DEVOTO, Fernando J. (2004),
(2006, pp. 167ss). Brasil e Argentina: um ensaio de história comparada
2 Poulantzas não foi, certamente, o único autor a en- (1850-2002). São Paulo, Editora 34.
frentar esses problemas teóricos no campo do mar- GUTTSMAN, W. L. (1965), The British political elite.
xismo. Foi, contudo, o escritor que mais explícita e Londres, MacGibbon & Kee.
conscientemente se propôs a lidar com essa questão
HUNT, Lynn. (2007), Política, cultura e classe na Revo-
no domínio teórico. Por essa razão, este artigo o elege
lução Francesa. São Paulo, Companhia das Le-
como interlocutor privilegiado (ver, em especial, Pou-
lantzas, 1971, vol. II, pp. 154ss). tras.
KAPLAN, Abraham & LASSWELL, Harold.
3 Sirvam de exemplos os textos de Marx sobre a Revo-
(1998), Poder e sociedade. Brasília, Editora da UnB.
lução alemã de 1848-1849 ou a realidade política des-
crita pela expressão teórica “bonapartismo”. Sobre esse KELLER, Suzanne. (1971), Mas alla de la clase diri-
último ponto, ver Rubel (1960). gente. Madri, Tecnos.
MILIBAND, Ralph. (1970), “The capitalist State:
4 As idéias apresentadas a seguir resumem uma discus-
são bem mais ampla publicada em Perissinotto e
reply to N. Poulantzas”. New Left Review, 59
Codato (2009, no prelo) e em Perissinotto (2007). jan.-fev.
_________. (1972), O Estado na sociedade capitalista.
5 Sugestões semelhantes podem ser encontradas em
Rio de Janeiro, Zahar.
Therborn (1983, 1989) e Przeworsky (1989).
MOSCA, Gaetano. (1939), The ruling class: elementi di
6 O formalismo seria o resultado da perspectiva “in- scienza politica. Nova York, McGraw-Hill.
ternalista” adotada por alguns teóricos das elites.
OLSON, Mancur. (1999), A lógica da ação coletiva.
Eles tenderiam a explicar os fenômenos políticos e
o poder das elites a partir apenas de fatores internos São Paulo, Edusp.
ao universo político. Quanto a esse ponto, ver Saes PERISSINOTTO, Renato M. (2000), Estado e capi-
(1994). tal cafeeiro em São Paulo (1889-1930). São Paulo,
Annablume/Fapesp, vol. 2.
_________. (2007), “O 18 brumário e a análise de
BIBLIOGRAFIA classe contemporânea”. Lua Nova, 71: 81-121.
PERISSINOTTO, Renato & CODATO, Adriano.
ARON, Raymond. (1991), “Classe social, classe (2009, no prelo). “Classe social, elite política e
política, classe dirigente”, in _________, Estu- elite de classe: por uma análise societalista da
dos Sociológicos, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil. política”. Revista Brasileira de Ciência Política, vol.
BIRNBAUM, Pierre. (1994), Les sommets de l’État: 1 (2).
essai sur l’élite du pouvoir em France. Paris, Seuil. POULANTZAS, Nicos. (1969), “The problem of
BOBBIO, Norberto. (2006), Nem com Marx, nem the capitalist State”. New Left Review, 58, nov.-dez.
contra Marx. São Paulo, Editora da Unesp. _________. (1970), Fascisme et dictature: la Trosième
BOTTOMORE, Tom. (1974), As elites e a sociedade. Internationale face au fascisme. Paris, Maspero.
Rio de Janeiro, Zahar. _________. (1971), Pouvoir politique et classes sociales.
CARVALHO, Jose Murilo de. (1980), A construção Paris, Maspero, 2 vols.
da ordem: a elite politica imperial. Rio de Janeiro, _________. (1975), La crise des dictatures: Portugal,
Campus. Grèce, Espagne. Paris, Seuil.

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MARXISMO E ELITISMO 153

_________. (1978), L’Etat, le pouvoir, le socialisme.


Paris, PUF.
PRZEWORSKY, Adam. (1989), “A organização do
proletariado em classe: o processo de forma-
ção de classes”, in _________, Capitalismo e so-
cial-democracia, São Paulo, Companhia das Le-
tras.
PUTNAM, Robert D. (1976), The comparative study
of political elites. New Jersey, Prentice Hall.
RUBEL, Maximilien. (1960), Karl Marx devant le bo-
napartisme. Paris, Mouton.
SAES, Décio. (1994), “Uma contribuição à crítica
da teoria das elites”. Revista de Sociologia e Política,
3, nov.
SKOCPOL, Theda. (1984), Los Estados y las revoluci-
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mica.
THERBORN, Göran. (1983), “Why some classes
are more successful than others?”. New Left Re-
view, 138: 37-55.
_________. (1989), “A análise de classe no mun-
do atual: o marxismo como ciência social”, in
E. Hobsbawn (org.), História do marxismo, Rio
de Janeiro, Paz e Terra, vol. 11.

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RESUMOS / ABSTRACTS / RESUMÉS 195

MARXISMO E ELITISMO: MARXISM AND ELITISM: TWO MARXISME ET ÉLITISME:


DOIS MODELOS ANTAGÔNICOS OPPOSITE SOCIAL ANALYSIS DEUX MODÈLES ANTAGONI-
DE ANÁLISE SOCIAL? MODELS? QUES D’ANALYSE SOCIALE?

Adriano Codato e Renato M. Adriano Codato e Renato M. Adriano Codato et Renato M.


Perissinotto Perissinotto Perissinotto

Palavras-chave: Marxismo; Teoria das Keywords: Marxism; Élite theory; So- Mots-clés: Marxisme; Théorie des éli-
elites; Teoria social; Nicos Poulantzas; cial theory; Nicos Poulantzas; Class analy- tes; Théorie sociale; Nicos Poulantzas;
Análise de classe. sis. Analyse de classe.

Este artigo contrapõe-se às proposições The purpose of this article is to contra- Cet article s’oppose aux propositions sur
sobre poder, classe e dominação política pose the propositions on power, class and le pouvoir, la classe et la domination
de classe elaboradas por uma vertente political domination presented by a par- politique de la classe élaborés par un vo-
particular do marxismo – o marxismo ticular interpretation of Marxism – struc- let particulier du marxisme – le marxisme
estruturalista –, por meio de um diálogo turalist Marxism – through a critical dia- structuraliste –, au moyen d’un dialogue
crítico com um de seus autores para- logue with one of its most paradigmatic critique avec l’un de ses auteurs
digmáticos: Nicos Poulantzas. Defende- authors: Nicos Poulantzas. The article paradigmatiques: Nicos Poulantzas.
mos que, ao contrário do que sugere states, against Poulantzas suggestions, Nous défendons que, à l’opposé de ce
Poulantzas, a introdução do conceito de that the insertion of the concept of que suggère Poulantzas, l’introduction
“elite” no interior do marxismo teórico “élite” in theoretical Marxism may pro- du concept d’ “élite” au sein du marxisme
pode ser produtiva para o desenvolvi- duce positive effects on it, specially mak- théorique peut être productif pour le
mento dessa perspectiva de análise social, ing the classist analysis of politics scien- développement de cette perspective
tornando a abordagem classista da polí- tifically manageable. d’analyse sociale, de façon à permettre
tica operacionalizável cientificamente. que l’abordage classiste de la polique soit
scientifiquement opérationnalisable.

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