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A Serpente e o Arco Íris

Trecho do mural-Foto Mailsa Passos

(Nota minha em 10 de Abril de 2011:

Pungente. A história não para e não nos ouve quando a gente quer pegar o seu trem
desembestado andando: segue e nos atropela. Agora sim, velho também entendo o que
há por trás do enfado dos velhos, o filme passando de novo, replay pós replay e as
pessoas nem aí.

Pungente: O que correu em Realengo – e eu de novo havia estado lá – a dona história,


diretora da escola de nossa vida já previa, já dizia e insistia, gritava já rouca de
avisar.

A história que passou antes e que eu vivi em 1997 ( esta que historio logo abaixo) já
continha todos os dados do sofremos na quinta feira passada…tim tim, por timttim.

Hoje mesmo vi uma criança sobrevivente na TV e reconheci como um aluno do Ponto


de Cultura da Piraquara, Realengo, onde eu acabei de concluir uma residência
artística, fruto de um prêmio da Funarte. respirei aliviado, mas não sei ainda se todos
os menininhos e crianças que eram, ao mesmo tempo da Escla Tasso da Silveira e do
Ponto de Cultura da Rua Caburé, sobreviveram)

Não acho que as soluções esboçadas na experiencia que conto abaixo sejam ainda
pertinentes. Acho até que o ponto de ruptuta talvez já tenha sido ultrapassado. Não por
causa da realidade em si, mas por causa da alma das pessoas que, depois de tanto se
esgarçar, rompeu, tornou-se imoral e desiludida. Sei lá. par mim já deu.
Quem tiver ainda esperanças que leia e decida, sugerir a saída antes do atirador.volte
a atirar.

Murais Urbanos
Uma intervenção de arte-educação numa escola da rede pública

Você já viu um lobo uivando para a lua? Já imaginou, vendo um numa história em
quadrinhos, num livro infantil, num filme, já se perguntou de que dilemas poderia ser
feito aquele uivo doído, aquela manifestação de não-sei-bem-o-que que o lobo exprime
assim, de forma tão pungente, quase religiosa?

Pois sempre me ocorreram estranhas reflexões sobre isto (junto com o medo gélido que
a referida imagem me transmitia).

O que motivaria o lobo naquela sua compulsiva manifestação de júbilo ou lamento?


Seria dor? Ou algo impregnado na lua, algum magnetismo inebriante que só aos lobos
afetaria?

Seria algo sugerido pelas sombras no relevo, formando a silhueta de algum São-Jorge-
lobo, com os dentes à mostra, babando conspirações – lobos do mundo uni-vos! -
Alcatéias se mobilizando por meio de uivos sincronizados, uma rede inteira de uivos
anunciando o ataque para logo mais.

E a mensagem? Qual seria a mensagem? Por meio de que sentido, de que Pedra da
Roseta a decifraríamos enfim? O que aprenderíamos de crucial para a nossa vida ao
decifrar esta instigante mensagem? Qual seria o sentido educacional de seu mistério?

Convenhamos: Tudo que, realmente, precisa ser aprendido é vital, imperativo demais e
só se deixará apreender, se cristalizar em memórias perenes, se usarmos todas as nossas
inteligências juntas, como mosqueteiras sem dicotomia – uma por todas, todas por
uma! – todos os sentidos juntos enfim.

A imagem e o som do uivo, todos os brios e arrepios articulados numa internet de


sinapses, lógica – embora incompreensível – como mágica do Mandrake.

Vendo a imagem do lobo. É assim que aprendemos – lemos - o que os lobos são enfim.

Educação não deveria ser isso aí?

CV de A a Z
Aprender para demolir a escola

A exibição no fim do ano de 1997, por uma grande rede de TV de pichações alusivas a
uma facção do crime ‘organizado’ (C.V.), grafadas nas salas da Escola Martin Lhuter
King, no bairro da Praça da Bandeira, Rio de Janeiro, de algum modo evocava este
inquietante significado do lobo-esfinge uivando para a lua.
Mais ainda: evocava a imagem de uma Serpente má, gerada pelos reflexos evidentes dos
seculares mecanismos de exclusão social perpetrados – quiçá premeditados – por nossos
programas de Educação pública, desde os tempos da escravidão.

A serpente da má-educação, contraditoriamente, parida por embolorados ‘projetos-


político-pedagógicos’.

Queriam o quê?

Pura retaliação. A agredida arquitetura da escola-reformatório talvez tenha sido atacada


porque antes, diuturnamente, agredira os espíritos mais pueris, urdindo salas-celas,
compartimentando as classes entre grades reais e curriculares; frustrando todos os
desejos infantis, exprimindo, claramente, no caráter quase militarista de sua disciplina, a
intenção dos des-educadores de conter e aprisionar os alunos, reprimindo-os, ensinando-
os a não almejar jamais heroísmo algum, que não seja o de ser – como o Cara de
Cavalo do Oiticica - reles imagem do marginal na capa do jornal popular.

Queriam o quê?

Talvez fosse este o significado daquelas imagens na TV. Sensacionalistas, terroristas até
já que, de forma cifrada, o que propunham mesmo era a identificação (processo ao qual
a escola, realmente, se dedicou antes do projeto assumir o problema), a exclusão, quiçá
a prisão definitiva para aqueles vândalos, expondo com seu escorregadio significado, a
irresponsabilidade flagrante das autoridades, mais do que elas seriam capazes de
escamotear, com suas campanhas de propaganda salpicadas de imagens de Escolas
felizes.

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Pois foi este constrangimento providencial que ensejou a proposta feita por um grupo de
artistas plásticos à Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, para a realização no início de
1998, de uma original intervenção de arte educação na escola.

Produto do pensamento de leigos, por acaso distanciados das pesquisas acadêmicas


convencionais, o projeto Murais Urbanos propunha a abordagem do problema, por
meio de uma metodologia conhecida como Pesquisa-ação. A idéia havia sido
livremente assimilada no convívio dos artistas, como arte educadores, com o Programa
Especial de Educação, criado pelo antropólogo Darcy Ribeiro (cujas ações
eminentemente culturais eram coordenadas pela musicóloga Cecília Conde, irmã do
prefeito na ocasião). Os artistas eram: Raimundo Rodrigues, Spírito Santo, Luiz Augusto
Vaz, Deneir de Souza e Pedro Dominguez.

A linguagem escolhida – por aproximação com o que as pichações do C.V./Comando


Vermelho sugeriam – foi, obviamente, o Grafitti, uma eficiente ferramenta para a
abordagem de questões culturais, utilizada pelo homem desde os tempos das cavernas
do Cro-Magnon, até as intervenções urbanas de Basquiat e Keith Haring em Nova
York.

“…Durante o ato de criação dos murais, foi interessante observar que o processo de
descontrução da capacidade de expressão visual ou gráfica dos alunos, aparentemente
ocorre na mesma medida em que estes vão se tornando mais velhos. A educação
convencional parece perder terreno, rapidamente, para os apelos e conteúdos banais
da indústria cultural de massa, cuja maioria dos signos nos remete, por exemplo, para
palavras da língua inglesa, em detrimento do português.

É provável, portanto que, do ponto de vista da comunicação, a Escola talvez esteja


dando ênfase excessiva a alguns recursos de linguagem, abrindo mão de outros (artes
plásticas, teatro, música, TV, cinema, etc.)…”

Assumida pela Coordenadoria de Programas da Juventude do gabinete da prefeitura,


dirigida pela profa. Iza Locatelli e prevista para mobilizar um grupo entre 30 e 50
alunos, a ação acabou por assimilar todos os 1000 alunos da escola. A adesão de tantos
interessados, de faixas etárias tão diversas, obrigou a adoção de um mural linear – a
Serpente – que, simbólica e concretamente, envolveu, todos os andares e pátios da velha
escola, num abraço, irresistivelmente, fatal.

“… como se uma imensa cobra correndo atrás do próprio rabo, representasse,


simbolicamente, o conjunto formidável de possibilidades pedagógicas que, sugeridas
pelas próprias crianças, nas imagens impressas de seu universo emocional, servisse
para renovar, fazer respirar a escola…”

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Orobórus, o Vudu de Dan


Ou a cobra hieroglífica faminta de si mesma

E foi assim que o Lobo (os alunos) e a Lua (a escola) se viram envolvidos numa paixão
desmedida e salvadora já que, surpreendentemente, obtendo ampla liberdade da
autoridade municipal, os artistas puderam interferir na rotina da escola, em todos os
aspectos, identificando, criando e mediando conflitos.

“…O sucesso desta mobilização dos alunos, trouxe-nos, portanto, outros problemas,
que começaram a ser detectados. Uma tendência para a evasão das aulas
convencionais, uma exagerada disponibilidade de alguns alunos para permanecer na
‘sala dos murais…”

“… À medida em que o trabalho se desenvolvia, alunos do curso supletivo…


manifestaram agressivamente seus anseios por expressão. Reconhecendo o mural geral
como uma mensagem válida a ser preservada, passaram a pichar, meticulosamente,
toda a área que o margeava, com mensagens alfabéticas, algumas explicitamente
dirigidas ao projeto.

Neste quadro a equipe optou por reconhecer e ‘aliciar’ para as oficinas os diversos
‘pichadores’ da escola municipal, esboçando junto com estes, algumas abordagens
isoladas, num jogo sutil de contra-mensagens dirigidas aos marginalizados alunos da
noite…”

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A intervenção propunha enfim a expressão de todas as imagens porventura contidas na
alma de cada indivíduo da escola, sem nenhuma espécie de censura moral ou mesmo
estética. O seu amor, ódio ou mesmo o seu desprezo por aquele neurótico (lunático?)
organismo em que as circunstâncias sociais transformaram sua escola, devia ser
exprimido num segmento qualquer do corpo daquela cobra mágica. Era esta a única
condição exigida. A pedagogia estaria contida no próprio processo.

“…Um conjunto de táticas, absolutamente, ditadas pela experiência do dia à dia do


trabalho, acabou por designar uma metodologia para a questão do ‘excesso de
clientela’. A principal delas foi a criação de alunos monitores responsáveis por
equipes. Obedecemos neste caso o próprio hábito de formação de grupos utilizado
pelos alunos, que envolvia critérios diversos, tais como, grupos por série escolar,
grupos de rua, grupos por gênero, etc. A estratégia surtiu efeitos importantes, como a
adesão tardia, porém positiva, de muitos professores, com o apoio dos quais pudemos
desenvolver oficinas junto às respectivas turmas…”

“…A relativa perda da capacidade de se exprimir com cores e formas, observada nos
alunos adolescentes, a forte tendência à banalização de sua própria comunicação
interpessoal, restrita, exclusivamente, ao uso de signos alfabéticos ininteligíveis para
‘estranhos’ (nomes, números de turmas, marcas do Comando vermelho, suásticas,
diabo da Tazmânia, etc.), foram sendo, desta forma, lentamente trabalhadas, para que,
do ponto de vista da comunicação, algumas mensagens pudessem ser elaboradas pela
escola como um todo.

“… Por outro lado, tentou-se também sensibilizar os professores para o verdadeiro


sentido do que estes alunos queriam expressar com suas ‘pichações’, para o conjunto
de conceitos e conteúdos gravados em suas pinturas nos murais, que poderiam conter
indicações para o desenvolvimento de novas e mais adequadas abordagens
pedagógicas…”

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E foi assim que a boa Serpente - metáfora talvez da Educação, tal como deveria ser
exercida – se transformou num arco-íris de novas possibilidades e mensagens – ou
culturas – a serem decifradas pelos futuros habitantes de uma escola que, talvez disposta
a nunca mais voltar a ser aquela outrora hipócrita prisão de anseios, compreendeu que,
definitivamente, o Meio pode mesmo ser a Mensagem.

Você já viu uma pessoa uivando para a lua? Seja uma.

Spírito Santo

Junho 2008

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As fotos deste post reportam detalhes do levantamento realizado pelas professoras


Maria Luiza Oswald e Mailsa Passos (UERJ) e Maria Cândida Caetano e Sonia Elias
(Escola M. Lhuter King) e os artistas Aloysio Zaluar, Spírito Santo, Luiz Gonzaga
Santos (pai do ex-aluno Tales) e a diretora atual da EMMLK, prof.a Eliete Britto,
visando a restauração dos Murais, agora como um projeto de pesquisa da Faculdade de
Educação da Uerj proposto à sua diretora atual Profa. Lia Faria.

Curta aqui o álbum total com fotos do projeto.


Uma série de imagens da época em que o Mural foi realizado, publicadas pela Prefeitura
do Rio num modesto livro, ressaltam de forma veemente, o quanto a obra coletiva foi
respeitada e conservada, pelos alunos, atestando a pertinência de um trabalho feito há
incríveis 10 anos atrás.

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Notas:

(As citações em itálico foram extraídos do livro ‘Da Serpente ao Arco Íris” publicado
pela Prefeitura do Rio de Janeiro em 1998, cujo texto é do mesmo autor. O título é
inspirado diretamente em um livro do etnobotânico Wade Davis que estudou o vudu
haitiano, religião africana oriunda do antigo Dahomey (hoje Benin), na qual a serpente
‘Dan’ (‘Dambalah Wedo’) representa a entidade principal. A exemplo do que acontece
também em Cuba, um Vodu algo aclimatado, ocorre também no Maranhão, Brasil, sob
o nome de ‘Tambor de Mina‘.