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ARTIGO

A lógica destrutiva do processo de acumulação do capital


e a destruição ambiental

Rachel Zacarias*

A lógica destrutiva do processo de acumulação do capital e a destruição ambiental

Resumo: Este artigo se propõe a apresentar as relações entre a lógica destrutiva do processo de produção/acumulação
do sistema do capital e a destruição ambiental. Para tal discute, no primeiro momento, como se processam as formas
de acumulação no regime capitalista, ressaltando as fontes privilegiadas de riqueza, quais sejam: a exploração da força
de trabalho, através retirada da mais-valia e a exploração dos recursos naturais. Além disso, busca refletir sobre como
os mecanismos que dão sustentação a esse modelo vêm criando obstáculos para sua continuidade, produzindo uma
crise estrutural do capital. Num segundo momento, visa a discutir umas das principais manifestações da lógica destru-
tiva do capital: a chamada “crise ambiental”, apresentando as principais determinações e alternativas nas perspectivas
da visão liberal e da visão crítica.

Palavras-chave: Capital. Crise ambiental. Visão crítica. Visão reformista.

The destructive logic of the process of the accumulation of capital and the environment destruction

Abstract: This article aims to present the relationship between the destructive logic of the process of production/accu-
mulation of the system of capital and environmental destruction. To this end, it first discusses how the forms of accu-
mulation are processed in the capitalist regime, emphasising the privileged sources of wealth, that is: the exploitation
of the work-force through the withdrawal of surplus value and the exploitation of natural resources. It also attempts
to reflect on how the mechanisms that sustain this model have been creating obstacles to its continuity, leading to a
structural crisis of capital. In second place, it aims to discuss one of the main manifestations of the destructive logic of
capital: the so-called “environmental crisis”, presenting the main determinations and alternatives in the perspectives
of the liberal view and the critical view.

Keywords: Capital. Environmental crisis. Critical view. Reformist view.

Recebido em 20.07.2009. Aprovado em 11.09.2009.

Revista PRAIAVERMELHA / Rio de Janeiro / v. 19 nº 2 / p. 65-72 / Jul-Dez 2009


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Introdução (1988:726) ao identificar a “Lei geral da acumu-


lação capitalista” revela essa tendência, afirmando
A questão ambiental, ao final do século XX e iní- que “com a acumulação do capital desenvolve-se
cio do século XXI, torna-se um tema vital para toda o modo de produção especificamente capitalista
a humanidade. No entanto, essa questão é analisada e com o modo especificamente capitalista a acu-
quase que exclusivamente por setores reformistas mulação do capital”. Essa tendência mostra que a
que buscam relacionar as causas da chamada “cri- acumulação é vital para esse regime, por isso se
se ambiental” ao desperdício de matéria e energia, pode afirmar que sem a acumulação não é possível
portanto um limitador para a expansão da economia a sobrevivência do modo de produção capitalista.
e para o crescimento do mercado. Esses setores de- A história do capitalismo demonstra que a sua
fendem ações da chamada modernização ecológica, existência é definida pelo artifício da acumulação.
destinadas essencialmente a promover ganhos de Esse método, presente desde a pré-história do capi-
eficiência e ativar mercados. Agem principalmente talismo, a partir da chamada acumulação primitiva,
no âmbito da lógica econômica, conferindo ao mer- é baseado numa ampla gama de processos violentos
cado a capacidade institucional de resolver a degra- e predatórios – mercadificação e privatização da ter-
dação ambiental, economizando o meio ambiente e ra, expulsão violenta de populações camponesas e
abrindo mercados para novas tecnologias ditas lim- supressão de formas alternativas de produção e con-
pas, sem mudar o modelo econômico vigente. sumo. Essas e outras atrocidades possibilitaram as
O presente estudo utiliza um quadro teórico bastan- condições básicas para o desenvolvimento do modo
te distinto, pois ao contrário dessas formulações, parte- de produção e acumulação capitalista. A partir desse
se da tese de que a destruição ambiental, ou a chama- suporte o regime capitalista desenvolve sua história,
da “crise ambiental”, é uma manifestação da lógica passando por uma série de transformações e etapas.
destrutiva do processo de produção e acumulação do Esse processo revelou-se instável, com períodos de
capital. Isso significa que as condições que levam à de- expansão e crescimento e outros cortados por de-
gradação ambiental têm causas econômicas e políticas, pressões, falências, quebradeiras e miséria, marca-
ou seja, sua gênese está ligada às relações sociais que dos por uma sucessão de crises econômicas.
se firmam entre os seres humanos a partir da maneira O capitalismo, vigente ao longo do século XX
como se distribuem os meios de produção. e ingressando no século XXI, é denominado, pelos
Partindo desses pressupostos, este artigo discu- críticos da economia política, imperialismo. Essa
te, num primeiro momento, como se processam as fase caracterizada por novas determinações tem
formas de acumulação no sistema do capital, de- como característica marcante dois tipos de padrões
monstrando que esse regime consegue se produzir de acumulação: o rígido e o flexível. A dinâmica
e reproduzir a partir de uma lógica destrutiva que de acumulação no padrão de acumulação rígida
se materializa através da exploração da força de tra- tem como base o sistema taylorista/fordista. Esse
balho e da natureza. Além disso, discute como os padrão produtivo se baseia na produção em massa
mecanismos que dão sustentação para a produção e de mercadorias, a partir de uma produção mais ho-
reprodução do capital vêm criando obstáculos para mogeneizada e enormemente verticalizada. Além
sua continuidade, produzindo uma crise estrutural disso, sua base é o trabalho parcelar e fragmentado.
do capital. Num segundo momento, discute uma das Nele a ação operária se reduz a um conjunto repe-
principais manifestações da lógica destrutiva do ca- titivo de tarefas em decorrência da decomposição
pital – a chamada “crise ambiental”, apresentando as das atividades.
principais determinações e alternativas na perspecti- Apesar de o período de acumulação rígida ser
va da visão liberal/reformista e da visão crítica. considerado os anos dourados do capitalismo, ou
seja, um período em que houve um longo processo
O processo de acumulação do capital: uma de acumulação de capitais, um olhar mais atento de-
lógica destrutiva monstra que esse momento é marcado por um regi-
me de acumulação baseado na lógica destrutiva do
A acumulação do capital constitui a força mo- capital. Tal lógica baseia-se na extração da mais-va-
triz, o imperativo da sociedade burguesa. Marx lia do trabalhador, no aprofundamento da separação

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entre a produção voltada genuinamente para o aten- bal; de outro, uma rápida proliferação e descentra-
dimento das necessidades humanas e das necessida- lização de atividades e fluxos financeiros por meio
des de auto-reprodução do capital, na retirada insus- de criação de instrumentos e mercados financeiros
tentável de recursos naturais, entre outros. Tudo isso totalmente inéditos.
evidencia mais uma vez que, apesar das mudanças Isso significa que há um deslocamento qua-
e transformações ocorridas nessa nova etapa do ca- litativo do processo de acumulação, ou seja, de
pitalismo, os métodos utilizados para o acúmulo do uma acumulação a partir da reprodução expandi-
capital continuam espúrios e ilegítimos. da, através da exploração da mais-valia para uma
A partir do final dos anos de 1960 e início dos acumulação com predominância financeira. Essa
anos de 1970, o capital começa a dar sinais de um dinâmica de acumulação tem como característica
quadro crítico. A ilusão de um processo efetivo, a centralização em instituições especializadas de
duradouro, regulado e fundado num compromis- “lucros industriais não reinvestidos e de rendas não
so entre capital e trabalho, mediado pelo Estado, consumidas, que têm por encargo valorizá-los sob
começa a ruir. Em decorrência da crise que se ins- a forma de aplicação em ativos financeiros- divi-
talara, a alternativa do capital foi reestruturar o sas, obrigações, ações, mantendo-os fora da produ-
padrão produtivo, objetivando recompor os índi- ção de bens e serviços” (CHESNAIS, 2005:36).
ces de acumulação existentes no período anterior. Para Harvey (2004) esse tipo de acumulação,
O capital reorganiza o ciclo produtivo de forma assim com as suas consequências têm um estilo
a preservar seus fundamentos essenciais, ou seja, predatório, levando-o a designar esse processo de
utilizando os velhos mecanismos de acumulação. “acumulação por espoliação”. Para o referido autor
Nesse contexto, inicia-se uma mutação no interior esse tipo de acumulação, vem requerendo algo fora
do padrão de acumulação, e não no modo de produ- de si mesmo para acumular. Isso significa que, além
ção capitalista, visando alternativas que pudessem das tradicionais formas de acumulação – explora-
atribuir maior dinamismo ao processo produtivo. ção do capital sobre o trabalho, extração da mais
Essa reestruturação altera os processos do regime valia – o capital passa a utilizar novos mecanismos
de acumulação anterior, a fim de garantir e ampliar para sustentar a lógica interminável de acumula-
os fundamentos da acumulação capitalista. Desse ção. Além da financeirização, podem-se citar ain-
modo, o chamado toyotismo e a era da acumulação da: (i) o patenteamento e licenciamento de material
flexível emergem nesse período. genérico, do plasmo de semente e de todo o tipo
O regime de acumulação flexível é marcado por de outros produtos, que podem ser usados contra
um confronto direto com a rigidez do fordismo. Ele as populações que tiveram um papel importante no
se ampara na flexibilidade dos processos de traba- desenvolvimento desses materiais; (ii) a biopirata-
lho, dos mercados de trabalho, dos produtos e dos ria de recursos genéticos que atua em benefício de
padrões de consumo. Distingue-se pelo “surgimen- poucas companhias farmacêuticas; (iii) a escalada
to de setores de produção inteiramente novos, no- da destruição dos recursos ambientais globais (ter-
vas maneiras de fornecimento de serviços financei- ra, água, ar) e as degradações cada vez maiores de
ros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente habitats; (iv) a transformação em mercadoria de
intensificadas de inovação comercial, tecnológica formas culturais, históricas e da criatividade in-
e organizacional” (HARVEY, 2007:140). telectual; (v) a corporativização e privatização de
No processo de acumulação flexível são iden- bens até agora públicos (como as universidades); e
tificados dois movimentos considerados funda- (vi) a privatização da água e de utilidades públicas
mentais para a organização mais coesa do capital: de todo o gênero.
o acesso à informação precisa e atualizada e a re- O processo de acumulação atual, assim como as
organização do sistema financeiro. No entanto, o respostas do capital, entre as quais, o neoliberalis-
movimento mais importante foi a completa rees- mo e a reestruturação produtiva, vêm trazendo gra-
truturação do sistema financeiro global. Esse sis- ves implicações sociais, econômicas e ambientais.
tema passa a funcionar numa perspectiva dual, ou Dentre outras podem ser apontadas: instabilidade
seja, de um lado, a formação de conglomerados e monetária permanente; transformação do mercado
corretores financeiros de extraordinário poder glo- de câmbio em mercado especulativo, dos quais os

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capitais financeiros procuram obter lucros financei- naturais dos recursos naturais, ao excesso da popu-
ros, mantendo o maior grau de liquidez possível: lação, aos altos padrões de produção e ao consumo,
ausência de moeda internacional, exceto o dólar. entre outros. Nessa concepção, esses problemas
No mundo do trabalho, as consequências são da- são causados por uma disfunção que dificulta com-
nosas, como o grande desemprego estrutural, tra- patibilizar desenvolvimento e proteção do meio
balhadores em condições precarizadas. Em relação ambiente, portanto a chamada “crise ambiental”
ao meio ambiente pode-se apontar a destruição da está ligada ao estilo de desenvolvimento vigente,
natureza em escala globalizada com vários proble- considerado insustentável.
mas ambientais: aquecimento global, desfloresta- Uma das causas mais frequentes e consensuais
mento, contaminação de rios e mares, desertifica- apontadas por esse campo para explicar a destrui-
ção, extinção de fauna e flora, entre outros. Tudo ção ambiental é a escassez e a finitude dos recursos
isso vem demonstrando a lógica destrutiva do pro- naturais. Para demonstrar essa relação vários es-
cesso de acumulação do capital, um processo que tudos vêm sendo realizados. O relatório “Planeta
destrói o trabalho, a natureza, a vida ocasionando Vivo”, produzido pelo WWF em 2008, revela que
uma crise estrutural do capital. 20% da população mundial consome entre 70% a
No entender de Mészáros (2006), não se está 80% dos recursos no mundo. Esses 20% comem
diante de uma crise cíclica do capitalismo, como 45% de toda a carne e de todo o peixe, consomem
vividas no passado, mas sim, de uma crise estru- 68% de eletricidade, 84% de todo o papel e pos-
tural, profunda, do próprio sistema do capital, no suem 87% de todos os automóveis. Diante desses
qual o sistema encontra com seus próprios limites números uma das conclusões presentes no relatório
intrínsecos. Para o referido autor, a crise atual é sis- é: “caso o modelo atual de consumo e degradação
têmica, orgânica, endêmica, permanente e se ma- não seja superado, é possível que os recursos natu-
nifesta na destruição da força humana de trabalho rais entrem em colapso a partir de 2030, quando a
em escala global. Uma prova disso é a presença do demanda pelos recursos ecológicos será o dobro do
trabalho precário em todos os países. É uma crise que a terra pode oferecer”.
sistêmica por que o nível de destruição ambiental Não resta dúvida que os resultados do estudo
atual coloca no horizonte a possibilidade do fim da produzido pela WWF são importantes, pois de-
vida humana. monstram as iniquidades presentes no acesso ao
A partir dessas considerações iniciais, no pró- consumo pelo conjunto da humanidade. Nesse
ximo item se discute uma das principais mani- sentido, é legítima a preocupação com a economia
festações da lógica destrutiva do capital, que é a dos recursos naturais – água, solo fértil, florestas.
destruição ambiental, apresentando as principais No entanto, o estudo deixa de lado o que se pode
determinações e alternativas nas perspectivas da considerar o cerne da discussão em relação a um
visão liberal e da visão crítica. novo modelo de produção e consumo que são os
fins pelos quais esses recursos estão sendo usados,
A chamada “crise ambiental” e a visão reformista ou seja, “são eles usados para produzir o quê, para
quem e na satisfação de quais interesses? Para pro-
A situação de precariedade encontrada nos sis- duzir tanques ou arados? Para servir a especulação
temas naturais que sustentam a vida no planeta fundiária ou para produzir alimentos? Para assegu-
passa a ser reconhecida, oficialmente, por diversos rar uma vida digna às maiorias?” (ACSERALD;
setores da sociedade global, a partir da década de MELLO; BEZERRA, 2009:28 ).
70 do século XX. Desse reconhecimento, surgem Além dessa lacuna, o documento reforça uma
diversas reações sobre as determinações da chama- concepção dominante no seio da sociedade que
da “crise ambiental”, assim como a busca de alter- é a defesa de que as causas da “crise ambiental”
nativas para o enfrentamento desses problemas. estão relacionadas a uma contradição insuperá-
Uma posição hegemônica defendida por seto- vel entre um mundo com recursos finitos e um
res reformistas entende que o cerne da destruição crescimento infinito da produção. Essa é uma
ambiental está ligado às seguintes causas: ao des- das visões mais consensuais a respeito da crise,
perdício de matéria e energia, aos limites físicos e mas, quando se passa por uma análise mais pro-

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funda, emergem várias dificuldades teóricas que Suas alternativas estão no âmbito da lógica econô-
vão desconstruir essa visão. mica, conferindo ao mercado a capacidade insti-
A primeira dificuldade apontada por Foladori tucional de resolver a degradação ambiental, eco-
(2001) está relacionada à defesa da finitude dos nomizando o meio ambiente e abrindo mercados
recursos naturais, pois o planeta Terra, como tal, é para novas tecnologias ditas limpas. Um exemplo
finito como lugar de vida, haja vista que qualquer de alternativa dentro dos parâmetros da lógica do
espécie tem seu ciclo de vida determinado. Isso mercado é o Protocolo de Quioto. Ele prevê, se-
significa que o problema não está na finitude dos gundo os marcos atuais, que a redução das emis-
recursos naturais ou das espécies – já que o limite sões de carbono na atmosfera seja estabelecida
ou a finitude é uma característica da própria vida dentro de um “limite médio” imposto globalmente.
na Terra –, mas sim da velocidade de sua utiliza- As nações ricas ganham o direito de poluir, aumen-
ção. Portanto, nessa perspectiva, o problema dos tando a produção industrial e compensando suas
limites deve ser considerado um problema de ve- emissões de carbono através de um mecanismo de
locidade de utilização. mercado, ou seja, compram as cotas dos países po-
A segunda dificuldade está ligada à utilidade bres, possuidores de baixa atividade industrial para
de um determinado recurso. Um recurso pode ser manterem o crescimento econômico. Trata-se do
ou não utilizado, estando seu caráter de utilidade velho princípio: “eu pago, eu poluo”.
ligado à evolução através do tempo. Um dos exem- Pode-se dizer que esse novo modelo de desen-
plos é o petróleo: esse recurso passa a ser utilizado volvimento, proposto dentro da ordem do capital,
sistematicamente em meados do século XIX, antes traz ações remediadoras, ajustes feitos estritamente
disso, apesar de existir, não era considerado útil. nos efeitos e consequências. Essas ações reformistas
Nesse sentido, o que conta é o ritmo da sua utiliza- remediadoras não são surpresas e nem poderia ser de
ção, de seu emprego pela sociedade humana. Para outra maneira, pois, enfrentar a destruição ambiental
Foladori (2001:120), “ritmo e utilidade, mostram em suas causas exige adoção de estratégias reprodu-
que os limites físicos ao desenvolvimento humano tivas que mais cedo ou mais tarde enfraqueceriam
dizem respeito primeiro a como se produzem e se inteiramente a viabilidade do sistema do capital.
consomem os recursos, isto é, aos ‘limites’ huma-
nos, acima dos físicos”. A chamada “crise ambiental” e a visão crítica
É por isso que a contradição entre os limites
físicos e o desenvolvimento social parece ser Diferentemente da proposta reformista, a pers-
equivocada, uma vez que a sociedade nunca se pectiva crítica entende que a chamada “crise am-
defronta em seu conjunto com limites físicos, pois biental” deve-se a um conjunto de variáveis in-
como muito bem esclarece Foladori (2001:18) “a terconexas, dadas em bases sociais, econômicas,
sociedade humana antes de deparar com limites culturais e políticas, estruturalmente desiguais,
naturais ou físicos está frente a frente com as con- que conformam a sociedade capitalista. Portanto,
tradições sociais”. a “crise ambiental” não tem como causa o desen-
No entanto, na perspectiva reformista e liberal, volvimento tecnológico, o excesso de população,
os problemas ambientais são frutos de um mau fun- os altos padrões de produção e consumo, mas é de
cionamento no sistema, derivados de um estilo de responsabilidade da lógica destrutiva da acumu-
desenvolvimento considerado insustentável. É a lação do capital. Diz respeito a um processo que
partir desse entendimento que esse setor advoga a tem duas fontes privilegiadas de riqueza: a ex-
necessidade de se adotar um novo estilo de desen- ploração da força de trabalho, através retirada da
volvimento, agora “sustentável”. Esse novo concei- mais-valia, e a exploração dos recursos naturais.
to passa então a ser referência para se pensar o de- Essas duas fontes contribuem fundamentalmente
senvolvimento no contexto do domínio do capital. para o acúmulo de capital, a primeira gerando va-
A implantação desse novo tipo de desenvolvi- lor, pois só o trabalho tem essa capacidade. Já a
mento defende ações reformistas da chamada mo- natureza é incorporada como agente no processo
dernização ecológica, destinadas essencialmente a de produção pelo capital, através da apropriação
promover ganhos de eficiência e ativar mercados. dos recursos naturais coletivos que não são pro-

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priedades privadas, possibilitando, assim, a redu- na área de consumo durável como eletrodomésticos,
ção dos custos da produção, de modo a cumprir o eletrônicos etc., que consiste em piorar a qualida-
desígnio da obtenção do lucro fácil e imediato do de dos produtos, levando-os a possuir resistência e
regime de produção capitalista. durabilidade menores, “é o obsoletismo artificial, a
Para Foster (2005), a história do capital mostra deterioração dos produtos” (HAUG, 1997:52).
que o processo de acumulação impôs a necessi- Durning (1992) aponta que estudos realizados
dade de expandir fronteiras a todas as regiões do na Inglaterra revelam uma tendência na direção a
mundo para a exploração de seus recursos, assim essa obsolescência planejada. Os eletrodomésticos
como da força de trabalho. Esse processo começa a datados de 1950 são muito mais sólidos, feitos, em
configurar-se na fase de desenvolvimento mercan- sua maior parte, de metal, com suas partes parafu-
til, período em que o capital conseguiu transformar sadas ou soldadas. Com o passar dos anos, essas
em mercadorias: minerais, vegetais, animais e es- máquinas tornaram-se mais inconsistentes, frágeis,
paços do mundo permanecidos até então usufruto sendo a maioria delas feita de partes de plástico
das sociedades pré-capitalistas. Esse processo de coladas, em vez de parafusadas. Atualmente, um
saqueamento dos recursos naturais tornou-se uma exemplo significativo dessa tendência decrescente
guerra de extermínios: animais mortos em nume- do valor do uso dos objetos é a indústria de com-
rosas zonas do planeta; ouro e prata pilhados da putadores. Um equipamento recém-lançado torna-
América, convertidos em moeda; destruição das se obsoleto em pouco tempo, pois a utilização de
florestas com a introdução da agricultura; e retirada novos sistemas passa a ser incompatível com as
de madeiras para a transformação em carvão. máquinas, que se tornam arcaicas.
Pode-se dizer que essa pilhagem de recursos Para Mészáros (2006) a taxa de utilização de-
naturais é uma tendência exclusiva de comporta- crescente é uma técnica intrínseca ao próprio ca-
mento em relação ao meio ambiente própria do pital, sendo necessária para a sua reprodução.
modelo de produção capitalista. Foladori (2001) Portanto, é incerto afirmar que, extrapolado certo
ressalta que a primeira tendência exclusiva mais ponto da história do capitalismo avançado, esse
geral é de produção ilimitada, fruto direto e fun- processo intrínseco ao avanço produtivo em geral
damental de um modelo econômico que gira em seja revertido da mais integrante forma, “em que a
torno da produção de lucro e não da satisfação das sociedade dos descartáveis encontre equilíbrio en-
necessidades diretas. tre produção e consumo, necessário para sua contí-
Para Mészáros (2007), a lógica da expansão do nua reprodução” (MÉSZÁROS, 2006, p. 640).
capital vem induzindo a uma série de contradições, Para o referido autor, somente se a sociedade
uma delas é o crescimento da produção a todo cus- puder consumir artificialmente e em grande veloci-
to e a concomitante destruição ambiental. Tais con- dade (descartar prematuramente) imensas quantida-
tradições levam à destruição dos recursos naturais, des de mercadorias, antes pertencentes à categoria
solapando uma importante fonte de acumulação de bens duráveis, é que ela se mantém como siste-
do capital. Para o referido autor, a busca pelo cres- ma produtivo, manipulando até mesmo a aquisição
cimento, em última instância incontrolável, sem- dos chamados bens de consumo, lançados ao lixo
pre foi uma característica fundamental do capital, antes mesmo de se esgotar sua vida útil. Ademais,
como uma determinação sistêmica intrínseca. Sem o que é benéfico para a expansão do capital não é
isso o capital não teria conquistado o palco históri- um incremento na taxa com que uma mercadoria é
co, como de fato conquistou. Esse crescimento está utilizada, e sim ao contrário, o decréscimo de suas
fundamentado na taxa de utilização decrescente do horas de uso diário.
valor de uso das mercadorias. Pode-se dizer que isso só foi possível, pois, nesse
Para Mészáros (2006:671), essa tendência em sistema, o vínculo entre o uso e a produção foi rom-
reduzir a taxa de utilização real das mercadorias pido, impondo a implacável submissão da neces-
“tem sido um dos meios pelo qual o capital conse- sidade humana à necessidade alienante do capital.
guiu atingir o seu crescimento verdadeiramente in- Nessa perspectiva, a produção é voltada não para o
comensurável no curso do desenvolvimento históri- atendimento das necessidades humanas e sim para
co”. Trata-se de uma técnica empregada, sobretudo, as necessidades de auto-reprodução do capital.

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Para Mészáros (2006), tudo isso demonstra historicamente desenvolvidas desde a sociedade
como o sistema do capital é essencialmente an- como um todo quanto de seus indivíduos particu-
tagônico devido à estrutura hierárquica de subor- lares” (MÉSZÁROS, 2007:251-2).
dinação do trabalho ao capital. De acordo com o Para Mészáros (2006), é inconcebível eliminar as
autor, esse antagonismo prevalece em todo o lugar, determinações internas conflituais/adversas do siste-
e é precisamente por ser estrutural que o sistema do ma do capital sem confrontar de forma consciente o
capital sempre deverá permanecer assim – irrefor- antiquíssimo problema da desigualdade substantiva.
mável e incontrolável. Partindo desses princípios o Essa conquista é um desafio, pois a ordem social é
referido autor ressalta que é inconcebível introduzir inseparável de uma cultura da desigualdade subs-
mudanças fundamentais, requeridas para remediar tantiva. Isso significa que o socialismo deve rejeitar
a situação, sem superar o antagonismo estrutural a falsa alternativa do não-crescimento, pois a sua
destrutivo do sistema do capital. adoção eternizaria a miséria e a desigualdade que
Nesse contexto o campo crítico defende que a atualmente debelam o mundo, assim como a luta e a
alternativa capaz de apontar uma saída para a cri- destrutividade que lhe são inseparáveis.
se verdadeiramente global da humanidade é uma A partir de todas essas reflexões pode-se dizer
“reorientação qualitativa da reprodução metabóli- que um dos maiores desafios é aquele que envolve
ca” (MÉZÁROS, 2006:632). Isso significa que a a transformação de toda ordem social. Isso requer,
construção de uma ordem de reprodução economi- de acordo com Mészáros (2007:358), “uma cons-
camente viável e historicamente sustentável requer ciência crítica inflexível da inter-relação cumula-
modificar as determinações internas em si mesmas, tiva, em lugar de buscar garantias reconfortantes
contraditórias da ordem estabelecida, que impõe a no mundo da normalidade ilusória até que a casa
submissão da necessidade e do uso humano à ne- desabe sobre nossas cabeças”.
cessidade alienante da expansão do capital. Essa
nova ordem que vai além das regras de acumulação Considerações finais
e da lógica do lucro da mercadoria é o socialismo.
É possível afirmar que somente uma solução O processo de acumulação do capital é a for-
socialista pode enfrentar a gravidade da atual cri- ça que movimenta a sociedade burguesa. É um
se, pois as soluções moderadas revelam-se com- processo permanente e vital que se desenvolve no
pletamente incapazes para enfrentar o processo modo especificamente capitalista, a partir da subor-
catastrófico. Löwy (2008:82) ressalta que para dinação formal do trabalho ao capital, tendo como
os ecologistas conservadores, ou não socialistas, substância principal a extração da mais-valia.
a opção socialista seria impossível, uma vez que A história do capitalismo demonstra que a sua
consideram Marx tão produtivista como os capi- sobrevivência foi assinalada por conflitos, contra-
talistas. Para o autor essa crítica parece completa- dições e transformações. Tais mudanças deram ori-
mente equivocada, pois foi justamente Marx quem gem a diversas configurações no processo de acu-
colocou a crítica mais radical à lógica produtivista mulação do capital: acumulação rígida e flexível,
do capitalismo, ou seja, a ideia de que a produção essa última marcada pela espoliação financeira.
de mais e mais mercadoria é o objetivo fundamen- Apesar das modificações ocorridas, essas etapas
tal da economia e da sociedade. são delimitadas pela utilização de métodos espú-
Mészáros (2006) defende que nessa nova or- rios e “ilegítimos” no processo de ampliação do ca-
dem societal deve existir uma reorientação da pital. Artifícios os quais, fundamentados na lógica
produção de riqueza, de limitadora e perdulária destrutiva do capital, são baseados na extração da
para a direção de uma riqueza de produção hu- mais-valia do trabalhador, na retirada insustentá-
manamente enriquecedora, com sua taxa de uti- vel dos recursos naturais, entre outros. Todo esse
lização ótima, antinômica àquela perigosamente processo vem gerando uma série de contradições
decrescente. Portanto, o tipo de crescimento ne- e uma delas é o crescimento da produção a todo
cessário e plausível no socialismo só pode basear- custo com a concomitante destruição ambiental.
se na qualidade diretamente correspondente às Na visão reformista a chamada “crise ambien-
necessidades humanas: “as necessidades reais e tal” tem suas causas restringidas à poluição, à de-

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predação e ao excesso da população, aos altos pa- DURNING, A. How much is enough? the consum-
drões de produção e consumo. Tal visão defende, er society and the future of the earth. New York: W.
principalmente, que a crise está relacionada a uma W. Norton&Company, inc.1992.
disfunção no atual modelo de desenvolvimento,
passando a ser considerado insustentável. Partindo FOLADORI, G. Limites do desenvolvimento sus-
dessas primícias, propõe atrás de uma cortina de tentável. Campinas: Unicamp, 2001.
fumaça chamada “desenvolvimento sustentável”,
soluções que aceitam as regras do jogo capitalis- FOSTER. A ecologia de Marx. Rio de Janeiro: Ci-
ta, ou seja, a lógica de expansão infinita do capi- vilização Brasileira, 2005.
tal. Nesse sentido, é importante reafirmar que não
é de se estranhar que as medidas propostas sejam HARVEY, David. Condição pós-moderna. São
incapazes de responder aos desafios dessa crise. Paulo: Loyola, 2007.
Isso não poderia ser diferente, já que enfrentar a
destruição ambiental em suas causas, exige adoção ______. O novo imperialismo. São Paulo: Edições
de estratégias reprodutiva,s que mais cedo ou mais Loyola, 2004.
tarde enfraqueceriam inteiramente a viabilidade do
sistema do capital. HAUG, W. F. Crítica da estética da mercadoria.
A visão crítica adota uma perspectiva diame- São Paulo: UNESP, 1997.
tralmente oposta à perspectiva reformista. Consi-
dera a chamada “crise ambiental” como uma das LÖWY, M.; BOFF, L. A natureza e o meio am-
principais manifestações da lógica destrutiva do biente: limites do planeta. In: MENEGAT, M.;
capital. Essa lógica destrutiva está presente tanto BEHRING, E. R.; FONTES, V. (Org.). Dilemas da
na exploração do capital pelo trabalho quanto na ir- humanidade. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008,
racionalidade do uso dos recursos naturais, criando página inicial e final do capítulo. p. 75-126.
uma série de contradições e produzindo obstáculos
à continuidade da produção e reprodução do capi- MARX, K. O capital: crítica da economia política.
tal. Além disso, vem gerando uma crise estrutural Livro Primeiro, o processo de produção do capital
do capital. Uma crise que, diferentemente das an- v.II., 12.ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 1988.
teriores, caracterizadas por serem cíclicas e mais
ou menos longas, vem proporcionando ao sistema MÉSZAROS, I. O desafio e o fardo do tempo his-
encontrar com seus próprios limites intrínsecos. tórico. São Paulo: Boitempo, 2007.
É importante ressaltar que as contradições
produzidas sob a ordem sociometabólica do ca- ______. Para além do capital. São Paulo: Boitem-
pital vêm demonstrando não apenas seus limites, po, 2006.
como também aventando para o estabelecimento
de uma nova ordem, que vai além das regras de WWF. Relatório planeta vivo 2008. Disponível
acumulação e da lógica do lucro da mercadoria em:<www.wwf.org.br>. Acesso em: 03 nov. 2008.
– o socialismo.
*Rachel Zacarias: pesquisadora colaboradora do
Referências Bibliográficas Núcleo de Educação, Ciência, Matemática e Tec-
nologia da Universidade Federal de Juiz de Fora e
ACSELRAD, H. ; MELLO, C.C. A.; BEZERRA,G. coordenadora do Núcleo de Pesquisa e Extensão
N. O que é injustiça ambiental. Rio de Janeiro: Ga- das Faculdades Integradas Vianna Júnior - Juiz de
ramond, 2009. Fora. Doutoranda do PPGSS/UFRJ.
rachel.zacarias@gmail.com.
CHESNAIS F. O capital portador de juros: acu-
mulação, internacionalização, efeitos econômicos
e políticos. In: ______. ( Org.). A finança mundia-
lizada. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 35-84

Revista PRAIAVERMELHA / Rio de Janeiro / v. 19 nº 2 / p. 65-72 / Jul-Dez 2009