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CURSO DE DIREITO
PSICOLOGIA JURÍDICA PROF. DR. WILSON B. DA CRUZ.
JOSILDA LIMA
01. INTRODUÇÃO À PSICOLOGIA
Tentaremos apresentar a investigação psicológica, examinar os conceitos básicos da Psicologia e proporcionar um plano conceptual para melhor compreensão do comportamento humano. A palavra Psicologia disciplina que tem por objeto a alma, a consciência ou os eventos característicos de vida animal e em especial a humana, nas várias formas de caracterização de tais eventos com o fim de determinar sua natureza específica. Já o termo Psicológico diz respeito à Psicologia, nessa acepção se refere à consciência do indivíduo. Ou seja, às atitudes ou valorações individuais. O Psicologismo, no seu uso polêmico, o termo é constantemente empregado para designar a confusão entre a gênese psicológica do conhecimento e sua validade. Nesse sentido foi Kant a esclarecer, fazendo a distinção a propósito dos conceitos a priori, entre a quaestio facti de sua “derivação fisiológica”, isto é, do seu acontecimento na mente ou na consciência do homem, e a quaestio juris, que consiste em perguntar o fundamento de sua validade, exigindo como resposta a dedução. O mundo do homem primitivo é um bom lugar para iniciarmos o nosso estudo. Cotejaremos as suas especulações acerca do comportamento com o ponto de vista da Psicologia contemporânea. As culturas explicam o comportamento pressupondo um segundo ser – um homem interno que mora dentro do homem externo – que percebe, deseja, recorda e pensa. O homem interno também atua sobre o homem externo e o obriga a agir. Como ciência natural, a Psicologia surgiu de uma fusão de certos movimentos filosóficos com a nova Fisiologia experimental do século XIX. Os fisiologistas alemães mostraram como trabalham os órgãos dos sentidos e o sistema nervoso. A escola filosófica inglesa do associacionismo insistiu em que todo conhecimento nos chega através dos sentidos e, assim, indicou a importância dos órgãos dos sentidos. A convergência dos dois movimentos produziu a Psicologia como ciência experimental. Como ciência do comportamento humano, a Psicologia define o comportamento muito amplamente. O “comportamento” inclui as atividades ocultas (processos perceptivos, ideacionais e emocionais), bem como o comportamento manifesto (atividades locomotoras, manipulatórias, expressivas e simbólicas).

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Originariamente, a Psicologia se ocupava sobretudo, das experiências conscientes dos seres humanos normais, relativamente complicados. Hoje em dia, todos esses adjetivos restritivos foram removidos. A Psicologia científica procura respostas generalizadas para perguntas sobre o homem como protótipo; também procura respostas utilizáveis para perguntas importantes acerca de determinada pessoa. As respostas psicológicas, que se referem ao homem em geral, são predominantemente normativas e constituem enunciados teóricos relativos a processos. As respostas e perguntas que se referem a um indivíduo são particularista e utilitárias, e proporcionam uma base viável de ação. A Psicologia deriva parte de seu vocabulário do vernáculo. Mas também cria a própria nomenclatura. Mercê da tendência popular para retificar processos psicológicos, é de toda conveniência empregar verbos substantivados em lugar de substantivos verdadeiros (“perceber” em lugar de “percepção”, “raciocinar” em lugar de “ razão”, etc.). A Psicologia faz perguntas à natureza e, a seguir, utiliza os métodos da Ciência para encontrar as respostas e verificar-lhes a correção. Ao passo que o método experimental modifica as condições, a fim de observar-lhes as conseqüências, o psicólogo também tenta deslindar e medir as relações existentes entre indivíduos, grupos e processos. Os métodos de observação da Psicologia diferem dos métodos de observação do leigo por serem rigorosos, mais objetivos, mais verificáveis, mais seguros e menos sujeitos à deformação pelas propensões inconscientes (esperanças e temores) do observador. O método científico supõe presunções filosóficas, plano de pesquisa e tecnologia.

02. O DESENVOLVIMENTO DO INDIVÍDUO.
Toda pessoa é o resultado de uma complexa história de desenvolvimento, em que se entrelaçam fatores hereditários e experiênciais. Começa a vida como uma célula única, cujo potencial hereditário total se apresenta em forma de mecanismos meticulosamente codificados. Durante o curso de sua existência, surge um número imenso de acontecimentos ambientais interagindo com o potencial herdado, para produzir um organismo cada vez mais complexo. O que se poderia chamar uma vista longitudinal do homem, o que se sabe sobre a interação da hereditariedade e da experiência, através das fases sucessivas do óvulo fecundado, do embrião, do feto, do recém-nascido, da criança, do adolescente e do adulto. Por onde vamos começar? Acaso a vida principia quando um espermatozóide e um óvulo se unem na concepção? É possível, mas as origens dessas células reprodutivas jazem no passado distante, pois os seus códigos são tão velhos, quanto o homem.

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Arbitrariamente, encetaremos o nosso estudo com as potencialidades hereditárias do indivíduo no momento da concepção. Assim recuaremos apenas o suficiente para discutir, em resumo, certas características importantes da transmissão hereditária dos traços. O desenvolvimento pré-natal e pós-natal do indivíduo envolve a interação dinâmica de fatores hereditários e ambientais. Na década de 1860, apresentaram-se provas indicativas da existência de caracteres genéticos, de traços dominantes e recessivos e do fenômeno da segregação. E 1920 os genes, foram localizados nos cromossomos. Durante a década de 1950, descobriu-se que os cromossomos consistem em longos cordões de DNA, e que os genes são seqüências codificadas de substâncias químicas presas ao longo dos cordões. O RNA opera como mediador entre o código do DNA e o arranjo dos aminoácidos que compõem as proteínas do corpo. Nos caracteres comumente denominados hereditários, a maior parte das variações registradas numa população se deve a diferenças nos genes; os caracteres "adquiridos" devem a maioria das suas variações a fatores ambientais. Quase todos os caracteres humanos de interesse psicológico são do tipo interativo, em que a variação não pode ser atribuída predominantemente à hereditariedade nem ao meio. A ordem geral do desenvolvimento anatômico pré e pós-natal é da cabeça para os pés (céfalo-caudal) e do centro do corpo para a periferia. As aberrações de uma norma estatística ou de uma norma ideal de crescimento físico têm considerável significação psicológica pessoal. O desenvolvimento assim orgânico como psicológico é produto de fatores genéticos e ambientais. Entretanto, o desenvolvimento psicológico, predominantemente, é resultado da aprendizagem. O processo da aprendizagem pode ser concebido como um contínuo, que vai desde o condicionamento clássico e instrumental, numa extremidade, através da aprendizagem por ensaio e erro e da imitação, até a aprendizagem cognitiva, na extremidade oposta. A primeira aprendizagem quase sempre exerce influências críticas sobre a aprendizagem subseqüente. O desenvolvimento perceptivo, o desenvolvimento conceptual e o raciocínio (solução ideacional de problemas) são formas de aprendizagem cognitiva. Embora vá subindo por esse contínuo à medida que se desenvolve, a criança continua a usar todos esses processos e os usará por toda a vida. Não há, provavelmente, processos de aprendizagem peculiares a crianças em oposição aos adultos. Em sua maior parte as mudanças, no plano do desenvolvimento, na aprendizagem das crianças são produtos da aprendizagem passada. O desenvolvimento social da criança ocorre quando ela aprende a diferenciar pessoas e coisas, diversas classes de pessoas, respondendo seletivamente a elas, e a separar indivíduos. A socialização da criança começa na família e continua pela vida fora em muitos grupos formais e informais. O desenvolvimento emocional supõe a emergência de padrões específicos, oriundos da emocionalidade difusa e generalizada da criancinha, uma extensão da série

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e da mudança de natureza dos excitantes emocionais, e mudanças progressivas na natureza e na direção da expressão emocional. À proporção que o indivíduo se desenvolve, passa a reagir emocionalmente a novos estímulos, mas também se torna menos receptivo (dessensibilizado) a outros estímulos. A expressão emocional utiliza-se igualmente, às vezes, para estabelecer comunicação com outras pessoas e para controla-Ias. O desenvolvimento da motivação começa com a total dependência do recémnascido para com as fontes orgânicas de impulsos, passa pelas fontes sociais de impulsos à medida que progride a aprendizagem, para chegar, finalmente, à motivação pessoal autônoma no mais alto nível de desenvolvimento. O desenvolvimento moral consiste na interiorização de controles do comportamento, no desenvolvimento da consciência e na emergência de princípios éticos e morais. Freqüentemente se diferenciam, no desenvolvimento moral, a fase prémoral, a fase da conformidade social e a fase da consciência individual. A consciência individual pode operar de maneira rígida e estereotipada ou de maneira discriminativa e racional. Esta última é comumente denominada a moral humanista.

03. BASE BIOLÓGICA DO COMPORTAMENTO HUMANO
Uma presunção fundamental da Psicologia é a de que toda atividade mental tem base fisiológica. Os dois principais sistemas de integração do corpo são o sistema nervoso e o sistema endócrino. Esses sistemas interagem continuamente. O sistema nervoso é composto de neurônios. O neurônio consiste num corpo celular, um núcleo, uma membrana e um ou mais processos, ou prolongamentos, que se estendem para fora do corpo da célula. Os processos estimulados pelos órgãos dos sentidos ou por outros neurônios conduzem os impulsos nervosos para o corpo da célula e denominam-se dendritos. Os processos que conduzem os impulsos nervosos para fora do corpo da célula chamam-se axônios. Quanto à função, os neurônios se classificam em sensoriais, motores e de associação. Os sensoriais conduzem os impulsos nervosos dos órgãos dos sentidos ao sistema nervoso central; os motores conduzem os impulsos do sistema nervoso central aos efetores (músculos ou glândulas); os neurônios de associação servem de elos conectivos entre dois outros neurônios. A função essencial dos neurônios é a transmissão dos impulsos nervosos. O impulso nervoso consiste num conjunto complexo de reações eletroquímicas, que passam ao longo do neurônio quando este é ativado. O impulso é um fenômeno do tipo tudo ou nada, como um tiro de revólver, que é ou não é "detonado". Imediatamente após a passagem do impulso nervoso, o neurônio se torna inexcitável. Refratário a uma nova estimulação. O período refratário absoluto, que se segue imediatamente à passagem do impulso, é seguido de um período refratário relativo, durante o qual o neurônio poderá responder, mas só a estímulos anormalmente intensos. O período refratário relativo, por seu turno, é seguido de um período de excitabilidade supernormal e, logo, de um período de excitabilidade normal.

embora nem sempre. mais ou menos como o faz a própria medula. pensar. que se interligam para formar a mais complexa estrutura que se conhece. a ponte. áreas de associação. falar) que são as prerrogativas essenciais do ser humano. o centro da audição se encontra no lobo temporal. raciocinar. e a ativação dos processos nervosos re-dirige o fluxo das atividades já em andamento. A relação entre as superfícies sensoriais e os órgãos efetores (agente regulador do metabolismo. a área somestésica (cutânea e cinestésica) fica logo atrás da cissura de Rolando. O sistema nervoso se divide em sistema nervoso central (o encéfalo e a medula espinhal) e o sistema nervoso periférico (os nervos raquianos. Tanto a fixidez quanto a plasticidade são características da função e do crescimento nervosos. As principais subdivisões do encéfalo são o bulbo. funciona como transmissor. O cérebro é a maior subdivisão do encéfalo humano. Conseqüentemente. As diversas glândulas endócrinas se completam e interagem. as glândulas endócrinas devem ser encaradas antes como um sistema integrado do que como uma . na parte posterior do lobo frontal. A principal área cortical motora é paralela à área somestésica. O sistema nervoso está continuamente ativo. primordialmente. e também provoca dilatação das artérias). os nervos cranianos e o sistema nervoso autônomo). na região acima do ouvido. contração em resposta a um estímulo) e o cérebro parece descrever-se melhor em função de áreas anatômicas correlatas.5 A sinapse é o lugar onde dois neurônios estabelecem uma relação funcional entre si. bem defronte da cissura de Rolando. às vezes. O hipotálamo controla ou regula grande número de funções vitais. o mesencéfalo. Dois desses agentes químicos são a acetilcolina e a norepinefrina. O cerebelo é um centro de integração e coordenação das funções proprioceptivas (cinestésicas e de equilíbrio) do corpo. A função e a estrutura interagem na atividade nervosa. o tálamo. O sistema nervoso autônomo controla ou regula a maior parte dos órgãos viscerais do corpo. As partes restantes do córtex são consideradas. O sistema endócrino é o segundo sistema de integração do corpo. o cerebelo. As áreas funcionais do córtex cerebral (camada externa) são sensoriais. A medula é um centro vital de controle e regulação de muitos processos viscerais ou vegetativos. Cada uma das suas duas subdivisões (o simpático e o parassimpático) inerva independentemente a maioria dos músculos lisos e das glândulas do corpo e opera antagônicamente em relação uma à outra. O sistema nervoso autônomo mostra-se particularmente ativo durante as emoções. (substâncias existentes no organismo animal. Calcula-se que o córtex cerebral contém nove milhões de neurônios. A ponte liga o cerebelo ao eixo encefálico. é uma substância química. motoras e de associação. O tálamo consiste principalmente em centros de relé (núcleos) da maioria dos trajetos sensoriais que vão para o córtex cerebral. O mesencéfalo contém os núcleos dos reflexos auditivos e visuais. necessários à vida. A área de projeção sensorial da visão está localizada no lobo occipital (parte posterior do cérebro). O agente eficaz que atua na sinapse. Durante muito tempo. o córtex foi considerado a “SEDE” das “mais elevadas” funções psicológicas (lembrar. o hipotálamo e o cérebro.

O zero fisiológico é a temperatura a que a pele está adaptada num determinado momento. no controle e na regulação de muitos tipos de comportamento. que podem ser de natureza química. O Psicólogo pode valer-se de todos esses campos ao tentar obter uma visão unificada das experiências sensoriais do ser humano. . todos eles. como a que se encontra nos protozoários. alheias ao sistema nervoso suficientemente. A pele da língua. que vão desde 380 até 760 micromilímetros. ao passo que o meio das costas e as coxas são as áreas menos sensíveis do corpo. pela amplitude e pela homogeneidade da onda de luz. 04. A mudança na intensidade do estímulo. o calor. Os receptores do frio respondem a temperaturas abaixo do zero fisiológico do corpo. é o limiar diferencial. dos lábios e das pontas dos dedos é mais sensível aos estímulos de contacto. que pode ser percebida. A Filosofia trata do problema da natureza e da validade da experiência sensorial. tendem a lesar o tecido. Os estímulos adequados da visão consistem em comprimentos de onda eletromagnética. térmica ou mecânica. implicados na ativação. A intensidade mínima de estimulação necessária à produção de uma experiência sensorial denomina-se limiar sensorial absoluto. situacionais e experiências podem ver-se. OS PROCESSOS SENSORIAIS. Os estímulos consistem em determinadas formas de energia. Fatores nervosos. a intensidade e a qualidade do som dependem. principalmente. e os cones transmitem a visão cromática ( colorida) . intensas para produzir a resposta. do comprimento de onda (ou freqüência de vibrações). O estímulos dolorosos. Os órgãos dos sentidos são essencialmente protoplasma altamente especializado para responder a certas formas de energia. que se faz mister para ser perceptível. e independe da natureza do estímulo. A tonalidade. Os bastonetes transmitem a visão acromática (sem cores).6 coleção de glândulas independentes. Os receptores do calor são estimulados por temperaturas acima do zero fisiológico. Os estímulos auditivos consistem em freqüências de vibração. O frio. hormônicos. Os bastonetes e cones da retina são os receptores visuais. é proporcional à sua intensidade anterior. A altura. o brilho e a saturação das cores são principalmente determinados pelo comprimento. A qualidade da experiência sensorial é função do mecanismo neurossensorial interessado. a pressão e a dor são os quatro sentidos cutâneos. A menor mudança na intensidade do estímulo. A grande variedade das experiências sensoriais humanas nasceu da irritabilidade do protoplasma relativamente não diferenciado. ela amplitude e da homogeneidade das ondas. Uma deformação da superfície da pele constitui o estímulo adequado do tacto. que constitui o estímulo visual.

a sêde. Quando certas dores. A percepção sofre também a . O gosto e o cheiro são experiências intimamente relacionadas. nos músculos e tendões. Os receptores do gosto. o aumento da tensão muscular. O ATENTAR E O PERCEBER. mas também as características pessoais do indivíduo que percebe. parecem situar-se nos órgãos externos do corpo. A atenção. na língua. 05. a percepção é determinada por sensações que interagem com os significados que lhes são atribuídos em conseqüência da história experiencial do indivíduo. Os receptores olfativos ocupam uma área pequena na parte superior do nariz. promovem a filtração dos dados sensoriais. São estimulados por substâncias gasosas em solução no muco que cobre as células sensoriais. Atentar e perceber são dois aspectos do processo de observação. Exemplo: O pai que observa o filho empenhado em disputar uma corrida de cem metros rasos está percebendo atentamente. destinado a acentuar certos elementos sensoriais e a abafar ou bloquear outros componentes da entrada sensorial. São estimulados por mudanças na velocidade do movimento do corpo ou da cabeça e pela força da gravidade. A atenção é um ajustamento preparatório. e. mas não exclusivamente. dores internas e extensas variedades de experiências vagas. os ajustamentos de postura. Não só as características do estímulo. é um ajustamento preparatório e um ajustamento continuativo. certas respostas copulativas. ao mesmo tempo. fundese com a observação atenta ou da atividade motora intencional. Entre as experiências sensoriais figuram a fome. o amargo e o salgado são as quatro qualidades sensoriais gustativas elementares. do ponto de vista do comportamento. as mudanças que se verificam no funcionamento visceral e as atividades do sistema nervoso central. e mais significativa do que a sensação. Caracterizam-se pela má localização e pela natureza indefinida. nascidas internamente. que facilita a clareza perceptiva e a atividade motora eficiente. O doce. denominam-se dores reflexas. O sentido labiríntico é importante na manutenção do equilíbrio e na manutenção da nossa orientação no espaço.7 Os receptores cinestésicos localizam-se nas superfícies das juntas. Existem relações gerais. em seguida. encontram-se principalmente. O filho que espera o tiro anunciador do início da prova está atento. ou “ disposição”. O atentar é um processo altamente seletivo. São estimulados por mudanças ocorridas na tensão desses órgãos. Não se conhece o número das sensações olfativas elementares. que tanto facilita a percepção clara quanto a resposta motora eficiente. são a orientação dos órgãos dos sentidos. embora não universais. Os órgãos do sentido labiríntico situam-se nos canais semicirculares e no vestíbulo (utrículo e sáculo) do ouvido médio. oriundas dos órgãos internos do corpo. o azedo. mal definidas. Mais complexa. células especializadas dos corpúsculos gustativos. Os cinco componentes da atenção. A atenção prepara organismo para a percepção ou para a atividade motora. entre as qualidades do gosto e a composição química dos estímulos apropriados a cada uma delas. preparando-se para dar uma resposta motora.

que devem ser cotejadas.8 influência das expectações e dos estados motivacionais daquele que percebe. (mácula) A percepção auditiva da distância entre a pessoa que percebe e a da fonte sonora depende da intensidade e da qualidade relativas dos sons. os gradientes de contextura. proximidade. O organismo parece ingênitamente (de nascença) provido de um mecanismo destinado a sentir as qualidades do mundo perceptivo. Os seus esforços iniciais trouxeram contribuições importantes ao estudo da memória e à sua investigação sistemática. a perspectiva aérea. Alguns princípios de organização perceptiva são relações entre figura e fundo. a pessoa que percebe possui algumas tendências primitivas de organização que. a velocidade aparente e a direção do movimento. Os fatores implicados na percepção visual da distância compreendem a perspectiva linear. o brilho relativo e a saturação das cores. que entram na composição do mundo perceptivo de cada um. a . A percepção auditiva da direção da fonte sonora depende da intensidade. propiciam os fundamentos da vasta acumulação de significados específicos. ao passo que outras ainda derivam. similaridade e fechamento (closure). Algumas nascem da incapacidade de quem percebe de isolar as variáveis pertinentes. os esforços de acomodação. Os psicólogos separam a memória da aprendizagem a fim de poder dividir esta última em componentes mais prontamente discerníveis para propósitos de investigação e discussão. Faz muito tempo que os fenômenos da memória e do esquecimento vêm interessando tanto ao leigo quanto ao cientista. Uma das manifestações dessa predizibilidade ordenada do nosso mundo perceptivo é a constância perceptiva. Outras são causadas pela ausência da combinação habitual de indicações perceptivas. sobretudo da configuração singular das esperanças. num gráfico. A organização do mundo perceptivo do indivíduo consiste no desenvolvimento de um conjunto de configurações razoàvelmente coerentes e estáveis e categorias de experiências. A atenção e a percepção fundem-se no processo de observar. juntamente com os processos de maturação. A percepção visual e a percepção auditiva da distância são bons exemplos da programação ordenada dos dados sensoriais. Mede-se o curso do esquecimento. que proporcionam um elemento de predizibilidade e economia de esforço. da fase e das diferenças de tempo na estimulação dos dois ouvidos. dos medos e das expectações do indivíduo. as luzes e sombras diferenciais. 06. e quando se contrapõe. As ilusões são perceptos flagrantemente falsos. Ebbinghaus foi o primeiro homem a investigar a memória quantitativamente. Além disso. A RETENÇÃO E O ESQUECIMENTO. os esforços de convergência e a disparidade retiniana. a interposição. da qualidade.

as circunstâncias da recordação e a motivação. explica maior número de dados do que qualquer outra. é inteiramente ativo. o nível da aprendizagem original. à medida que o tempo passa. A teoria da interferência inclui os efeitos da inibição. os métodos de aprendizagem. alguns investigadores atuais invocam uma hipótese da decadência causada pelo passar do tempo. Empregam-se teorias motivacionais para explicar o esquecimento em certas circunstâncias. hoje em dia. 07. porque ficou demonstrado que os acontecimentos que ocorrem no tempo e interferem na memória são mais importantes do que a simples passagem do próprio tempo. surge uma "curva de retenção". É provável que o esquecimento nunca seja realmente total. Os sonhos são . Essa curva revela que o esquecimento se verifica muito depressa logo após a prática e. o imaginar e o raciocinar. O pensar é uma forma de atividade encoberta. Vários fatores afetam a quantidade de retenção: a rapidez da aprendizagem original. ou oculta. O estereótipo popular do pensador é a pessoa sentada. todavia. o pensador. Todos esses processos ideacionais são formas de pensamento. que explique todos os descobrimentos da pesquisa empírIca. devaneios. provavelmente. assim retroativa como proativa. depois. o recordar. Na área da memória a. O PENSAR. Diversas teorias tentam explicar os fenômenos da recordação e do esquecimento. a "intenção" ou "disposição". e que está pensando em alguma coisa que aconteceu na véspera (recordando). ainda não temos compreensão suficiente dos processos e funções da memória para formular uma teoria adequada. Envolve a manipulação de símbolos e conceitos. Exteriormente inativo. a prazo e a armazenagem a longo prazo. A estátua de Rondin tipifica essa concepção. Essas teorias poderão ser atraentes. a significatividade do material. curto prazo. A idéia da decadência passiva do traço nervoso foi em grande parte abandonada. Se lhe perguntarmos no que está pensando. olhos perdidos no espaço. e os meios de medir a retenção e o esquecimento são minuciosos. ou ainda que está pensando nas possíveis conseqüências da sua falta ao trabalho na manhã seguinte (raciocinando). cada vez mais devagar. que operam como substitutos de experiências perceptivas. A mais comumente aceita e a que. são áreas sendo. mas é difícil também a sua verificação em laboratório. Nenhuma delas é capaz de explicar todos os resultados das investigações empíricas. Já se sabe muita coisa sobre o curso do esquecimento. aturadamente investigadas. Os processos de preservação-consolidação. mas a quantidade de retenção varia muitíssimo. chama-se teoria da interferência. As formas do pensar são sonhos. poderá dizer que está apenas devaneando.9 quantidade retida ao tempo decorrido a partir da aprendizagem. Mesmo assim. imóvel. ou que está pensando em como seria possível a vida em Marte (imaginando). O pensar é uma forma de atividade implícita. A quantidade retida é uma função parcial da maneira pela qual se mede.

a formulação de possíveis soluções (hipóteses). das pessoas menos criativas. A linguagem e o pensamento estão intimamente relacionados. O pensar que se afigura sem sentido e patológico a outra pessoa pode ser significativo para o indivíduo. A redução prolongada do tempo de sonhar resulta. As fases ou componentes do processo completo de raciocínio incluem a motivação. a ideação tem sido considerada puramente nervosa (a gente pensa com o cérebro) ou neuromuscular (a gente pensa com o corpo inteiro). A aquisição de conceitos envolve a discriminação. atualmente. Os períodos de sonhos duram. a verificação (aceitação. a incubação. nas motivações. a abstração e a generalização. conseqüentemente. de muitas maneiras significativas. Se bem que não existam provas definitivas que confirmem uma ou outra concepção. Alguns são ilusórios. Os componentes ideacionais dos sistemas de delírios. o pensamento atual propende a endossar a concepção nervosa. O raciocinar é o solucionamento ideacional de problemas. como outrora se supunha. 08. como tal. Muitos animais inferiores são capazes de desenvolver conceitos.10 uma atividade ideacional relativamente livre. Verificou-se que os indivíduos altamente criativos diferem. Existe. Algum devanear. A redução artificial do tempo de sonhar numa noite produz aumento de sonhos na noite seguinte. ligado à realidade. Os conceitos diferem em grau de abstratividade. A maior parte dos devaneios. EMOÇÃO E AJUSTAMENTO. Como processo fisiológico. Inúmeros devaneios se fabricam para nós em ficções. ou central. se denomina "autista". que se processa durante o sono. idéias fixas. A emoção é parte de todo o sistema de resposta da pessoa e. considerável interesse pela natureza e pelas condições conducentes ao pensamento criativo. Um conceito é uma resposta aprendida às propriedades comuns de uma série de estímulos e constitui uma forma de categorização adaptativa e útil. às vezes. a iluminação (súbita ou gradual). mas só o homem tem capacidade para empregar palavras a fim de simbolizáIos. não passa de racionalização de desejos e. as nossas predisposições emocionais e as estratégias de que dispomos. Os tipos de devaneios do "herói conquistador" e do "herói sofredor" são de natureza autista. nos sistemas de valores e nos interesses. obsessões e circunstancialidade são outras formas de ideação patológica. rejeição ou modificação). Os fatores que influem no curso do raciocínio incluem o nosso acervo de informações disponíveis. Normalmente. todavia. em mudanças dramáticas da personalidade e até em sintomas psicóticos. é útil ao indivíduo. a nossa disposição mental. Diferem nos antecedentes familiares. mais de uma hora e não são muito condensados no tempo. a preparação (análise do problema e estudo das informações disponíveis). A ideação autista de indivíduos psicóticos é uma forma do pensar patológico. as vezes. o reconhecimento do problema. a pessoa passa sonhando mais de uma quarta parte de um período típico de sono noturno. está . mas a maioria é representada por experiências alucinatórias.

Na frustração. Podemos. frustração por entrave e frustração por conflito. a) Agressão: a agressão é uma reação típica à frustração. Todas as pessoas se sentem frustradas de vez em quando e estão sujeitas a sentir-se agressivas em decorrência dessa frustração. O comportamento que visa a lidar com os motivos da pessoa e com as influências do meio. se a resposta foi bem reforçada e o reforço. em maior ou menor grau. Assim emoção e motivação estão ligadas ao fenômeno do comportamento. Os processos básicos que produzem classificam-se em frustração por demora. seja qual for. os impulsos agressivos nascem da frustração. regressão. capazes de favorecer ou estorvar a satisfação. Outra causa de frustração é de natureza social. os professores frustram os alunos e os alunos frustram os professores. o atingimento de um motivo é bloqueado por barreira qualquer e faz-se mister lidar com a situação de alguma forma. O comportamento dos outros se destinam muito mais a satisfazer os motivos deles do que os nossos. Assim. palavras apropriadas para descrever as situações em que uma pessoa é motivada para comportar-se de duas maneiras incompatíveis. o resultado. é retardado. e compensação. Frustração por demora. O comportamento alheio pode constituir uma barreira à satisfação dos nossos motivos. As respostas que ela provoca chamam-se ajustamentos. Em qualquer ocasião que se impeça a ocorrência de uma resposta ou se interfira no comportamento motivado. repressão. Quase toda interferência no comportamento motivado pode ser reputada entravante. em todos os tipos de respostas. ou não se acha à mão. denominou-se comportamento de ajustamento. A frustração dos adolescentes pelo comportamento dos pais tem recebido muitíssima atenção em nossa cultura. projeção. Já no conflito. No ajustamento sempre que acontece alguma coisa que interrompa o comportamento motivado. diz-se que o indivíduo está frustrado. Toda a gente reconhece que experimenta emoção. o resultado é a frustração.11 provavelmente envolvida. b) Retraimento: Retrair-se é uma forma relativamente fácil de responder. entre as quais lhe é preciso escolher. em seguida. . ainda destacar as palavras: Agressão. A frustração tem propriedades estimulantes para o organismo. devaneio. freqüentemente. racionalização. Os adolescentes também frustram os pais em inúmeras circunstâncias. retraimento. A frustração é produzida por uma série de situações. os irmãos e irmãs frustram-se mutuamente. identificação. as reações podem ser descritas como emocionais e influem no comportamento subseqüente. No conflito deparam-se ao indivíduo situações igualmente desejáveis ou igualmente desagradáveis. é a frustração. As namoradas entravam os namorados.

Não pode ser criticado pelo outros. O devaneio ministra uma fuga conveniente das possibilidades de perda de prestígio e de respeito próprio. Trata-se de uma forma de substituição. a certas pessoas. Esse esquecimento seletivo de experiências desagradáveis é o fenômeno da repressão. que as suas respostas podem interpretar-se como pertinentes a mais de um motivo. medo. 09. h) Projeção: A pessoa que percebe nos outros os motivos que a preocupam estáse utilizando da técnica de ajustamento denominada projeção. e) f) Racionalização: Racionalizar significa atribuir razões socialmente aceitáveis ao nosso comportamento. o indivíduo superenfatiza as suas consecuções em outra. provavelmente. que seria característico de pessoa muita mais jovem. não raro.12 Requer. todas as outras respostas . o indivíduo se empenha na satisfação imaginaria dos seus motivos. esquecem-se. Repressão: As situações que despertam sentimento de culpa. g) Identificação: O processo de acentuar os nossos sentimentos de valor pessoal pela vigorosa identificação com uma pessoa ou uma instituição ilustre denomina-se identificação. Quando ele resulta de frustração em determinada área. CONCLUSÃO. c) Devaneio: No devaneio.que protege a pessoa da autocrítica e da ansiedade. Mas parece concorrer muito pouco para a solução de problemas de ajustamento. característica de certos indivíduos psicóticos e neuróticos. Respostas emocionais acompanham. não raro. As respostas regressivas são imaturas e raro construtivas. menor esforço do que o comportamento agressivo e a sua recompensa é imediata. afigura-se melhor nunca haver tentado do que tentar e falhar. talvez. ansiedade e vergonha. Delírio é uma crença grosseiramente falsa. e funciona como uma espécie de distração. Chama-se regressão à adoção de um comportamento. As pessoas descobrem. i) Compensação: Compensação é o superdesenvolvimento de certo tipo de comportamento. Quem não tenta não falha e. Pode vir a ser uma forma seríssima de comportamento desajustado. em resposta à frustração. com muita rapidez. acarretando delírios gravíssimos de perseguição. d) Regressão: O comportamento de regressão é uma resposta freqüente à frustração. O retraimento atua como uma espécie de seguro contra o malogro social. É também uma fuga aventurosa do tédio. oriundas do fracasso.

ao mesmo tempo. motivos e circunstâncias ambientais. o comportamento socialmente inaceitável . e freqüentemente. 10. Os testes situacionais da personalidade apresentam uma amostra do comportamento do indivíduo numa situação simulada da vida real. Os estudos transversais revelam escassa coerência nas manifestações dos traços do caráter e da personalidade entre uma situação e outra. e com o resultante despertar emocional. com implicações morais e éticas especiais. As variáveis que determinam os efeitos da privação infantil sobre a estrutura .ou qualquer outro meio de lidar com a situação total das emoções. Podem ser encarados como respostas de natureza emocional ou motivacional. A emoção e a motivação têm muita coisa em comum e ambas tendem a exercer um efeito excitante. orgânicas e sociais. emoções. O caráter diz respeito às tendências de comportamento socialmente pertinentes. que influem na maneira por que os outros respondem a ele. Os testes projetivos ministram índices mais "globais" do funcionamento da personalidade. Empresta igualmente um peso especial às características únicas do indivíduo. como tal. fornecendo informações sobre si mesmo.13 dos seres humanos. ambientais. que indicam a posição relativa da pessoa numa série de traços da personalidade. Não devem ser interpretadas como se ocorressem separadamente das demais. As maneiras de lidar com os estados afetivos são aprendidas. Assim. mais minuciosos. ou despertador. Os inventários da personalidade apresentam um conjunto de escores numéricos. As determinantes da personalidade são genéticas. A personalidade diz respeito a uma organização única de padrões de reação e características relativamente permanentes do indivíduo. A personalidade tem. se denominam ajustamentos. Os inventários da personalidade consistem em questionários a que o indivíduo responde. e enfatiza particularmente a dinâmica interação deles. A PERSONALIUDADE E O CARÁTER . sobre o organismo. adquirem-se no decurso da experiência. O ajustamento. denominam-se mecanismos de comportamento. Quando os hábitos de responder a essas situações se tornam bem estabelecidos. A maior parte dos estudos longitudinais. não precisa ser concebido como avaliativo nem coaformativo. O ajustamento relaciona-se com as respostas que dá uma pessoa ou com a maneira por que essa pessoa aprende a lidar com os seus sentimentos. Os meios de lidar com a frustração e o conflito. motivos e circunstâncias de outra pessoa . da personalidade mostra que existe considerável constância dos traços da personalidade no decurso do tempo. um aspecto de estímulo e um aspecto de resposta. Os efeitos do físico sobre a personalidade são mais indiretos do que diretos. A frustração e o conflito fazem parte da vida de toda a gente.pode ser considerado ajustativo nesse sentido amplo. A personalidade tem uma referência social fundamental.

11. até as psicoses. a terapia do choque e a terapia das drogas. A partir do nascimento. Parece haver alguma relação geral entre as avaliações das características dos pais. as psicoses se classificam em funcionais e orgânicas. Uma pessoa não pode ser compreendida fora da sua história social e da natureza do meio social em que vive. Muito embora. a terapia centralizada no cliente. a terapia diretiva e a terapia baseada na teoria da aprendizagem. As terapias médicas para os doentes mentais incluem as lobotomias. As psicoses maníaco-depressivas assumem a forma de mania. catatônicas e paranóides. a natureza e a composição do grupo. como o tamanho. Refere-se particularmente às aprendizagens sociais acumuladas. Os mecanismos de defesa que operam em todo esse contínuo funcionam sem que o indivíduo se dê conta deles são auto-ilusivos e servem para reduzir ou afastar a ansiedade. A cultura ministra grande número de soluções já prontas para muitos problemas da vida e permite aos indivíduos que aprendam muita coisa sem os processos intermináveis de ensaio e erro. reações dissociativas. como os sentimentos de adequação e competência do indivíduo. em função da cronicidade e do prognóstico (sendo a processiva a mais crônica). e o seu grau de identificação grupal. o "papel maternal" e a "conduta maternal em relação ao filho" e o ajustamento dos filhos. são a terapia psicanalítica. e muitas formas de patologia pessoal e social se imputam atualmente . e com características da personalidade. OS PROCESSOS SOCIAIS. como a "estrutura do caráter". As quatro formas mais comuns de psicoterapia. reações de conversão. Os preceitos culturais adquirem a força de imperativos morais e tornam-se resistentes à crítica. astenia. As anormalidades da personalidade vão desde os limites do normal. A cultura diz respeito ao modo de vida total da sociedade. A conformidade se relaciona com variáveis situacionais. de acordo com os sintomas. hebefrênicas (esquizofrenia).14 subseqüente da personalidade dos seres humanos ainda precisam ser calculadas. O pertencimento a um grupo tem importantes funções positivas para o indivíduo. reações de ansiedades. passando por perturbações menores e neuroses. As esquizofrenias são classificadas em simples. Em função da etiologia. só o homem criou uma verdadeira cultura. que se ministra aos doentes mentais. melancolia ou de uma alternância entre as duas. A conformidade e a inconformidade constituem uma dimensão importante do comportamento social. partilhadas e transmitidas de uma geração a outra. personalidades múltiplas. reações neuróticodepressivas e reações de somatização. as outras pessoas são o segmento mais significativo do meio da criança. se tenham encontrado formas complexas de organização social e comunicação entre os animais inferiores. As neuroses incluem fobias. e processivas e reativas. Não se estabeleceram relações uniformes entre a maioria das práticas específicas da educação de filhos e o desenvolvimento da sua personalidade. reações obsessivas.

a Psicologia atual é algo mais do que isso. não parecia poder abonar essa pretensão. ou componentes. a idéia de que esta matéria era pouco conhecida pelos que a ensinavam e a considerou como uma de tantas disciplinas que só podem ser apreendidas com a esperança de esquecê-las. Não obstante. pelo fato de que a Psicologia. oferece as mesmas garantias de seriedade e eficiência que. o conjunto de fatos que formam subjetivamente. A clássica o seu objeto de estudo era a alma e a moderna cujo objeto de estudo era a investigação dos fenômenos psíquicos. que a maioria de nós estudou no curso secundário. A Psicologia como ciência ainda é demasiado jovem para achar-se constituída e integrada em só sistema de idéias. Os cinco elementos. baseado na ciência natural. em seus tempos de bacharel. na observação e experimentação utilizando a análise e a síntese comprovando a cada passo o valor de suas afirmações. as outras disciplinas proporcionaram. A PSICOLOGIA EM RELAÇÃO A SUA APLICAÇÃO AO DIREITO . Quanta gente adquiriu. à de se o estado atual da Psicologia justifica ou não a tentativa de aplicar em forma científica seus conhecimentos ao campo do Direito. isto é. de ausência de normas. 13. de isolamento e de auto-afastamento. Diversos investigadores descobriram técnicas diferentes que lhes permitiram chegar a diversas concepções para a descrição . CAPÍTULO I O ESTADO ATUAL DA PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA 12. A psicologia moderna não pretende estudar a essência. entre outras razões. Muitos movimentos de ação social da década de 1960 têm sido interpretados como manifestações de jovens afastados em busca de um sentido de identidade pessoal. PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA A primeira pergunta que o jurista fará a si próprio. da alienação são os sentimentos de impotência. É uma ciência que. os resultados da atividade psíquica. mas. a procura de maior perfeição de sua atuação em cada caso particular. de inexpressividade. ou como ações da pessoa. Esta pergunta justifica-se. nossa experiência interna e que se acusam no ponto de vista objetivo como manifestações de funcionamento global do organismo humano. A diferença que poderíamos denominar seria a Psicologia clássica ou filosófica e a Psicologia moderna.15 à alienação social.

a técnica de registro das alterações emocionais. cada uma delas em sua esfera é digna de atenção e respeito. 3ª Psicologia da Psicanálise . em troca. saber que a resposta se desencadeará no indivíduo e dada uma resposta determinada. que. meio social etc) na produção dos diversos delitos.Aqui segue-se as técnicas e interpretações para o compreensão do vida psíquica criadas por Sigmund Freud. a que nos coloca ante os problemas psíquicos tais como se apresentam em nossa vida diária. O lema desta psicologia é o de estímulo-resposta. correspondentes a outros critérios e fins desta ciência. não só a “objetividade” com também a “técnica” necessária para a recoleção. Vale dizer que esta última é a de maior interesse para o jurista. Considerando a questão de um modo geral. saber que estímulos puderam engendrá-la. sólidos pontos de apóio para a compreensão .. Descobrindo objetivamente as “mentiras”. que nos interessam de modo especial para nosso estudo: Vamos verificar as principais diretrizes e contribuições de cada uma delas: 1ª. a situação dever ser. permite trabalhar sem nada preocupar-se com o que os figurantes do conflito jurídico “dizem”. Despojado de seus exageros e erros iniciais. a volorização das influências externas (clima. o estudo experimental da eficácia dos diferentes “castigos”. Toda tentativa de análise do estudo está sujeita a chegar a conclusões errôneas e assim por exemplo. já que permite obter dados e juízos sem contar com o testemunho subjetivo do delinqüente. podemos afirmar que na atualidade há nove grandes direções metodológicas da Psicologia. dado um estímulo determinado. mas falta-lhes para merecer o qualificativo de científico. antes. o estado atual se caracteriza pela simultânea existência de distintas escolas psicológicas. do pleiteante ou da testemunha: em uma palavra. sem nos preocuparmos nada com a “introspecção”. O Condutismo – A vida psíquica inteira se traduz em movimentos ou ações e deve ser. a segunda. se elas foram ou não “necessariamente mortais” etc. A primeira parte serve para predizer a conduta humana. para o julgamento ou valorização da mesma. pode jactar-se de haver revolucionado com suas afirmações não só o domínio da Psicologia mas de todas as ciências do espírito. médico vienense. É o que fazem alguns defensores hábeis. 2ª Psicologia da Forma . por conseguinte.16 compreensiva dos fatos e leis da vida mental. por considerar o homem como um animal. alimentação.A Psicologia da Forma é a mais humana de todas. os testes ou provas para a determinação de aptidões intelectuais e motoras. as regras para a observação de “indícios” humanos e para o reconhecimento objetivo dos criminoso etc. ou seja. por conseguinte.. compreensão e avaliação dos mal denominados “antecedentes do delito”. concebida em suas origens e ser focalizada sem solução de continuidade até o desenlace. um crime por ciúmes e completamente errado perder o tempo em considerar se o indivíduo deu uma punhalada a mais ou a menos. estudada de fora. A mais real e de mais sentido comum. registra com singular precisão o que “fazem”. como veremos. é inegável que representa. trabalho. etc. Segundo ela o ato delituoso é também uma estrutura que não pode ser esmiuaçada ou decomposta – como fazem os juristas – para ser deduzida. O condutismo é um auxiliar precioso para a Psicologia jurídica.

1 Determinismo psíquico – O “aparelho psíquico” possui uma causalidade própria. de acordo como grau dessa repressão inibidora: é mínima nos estados de sono. 3. 3. ou seja. até destruí-los ou evitá-los. como um pássaro que pula de um ramo ao outro da árvore. Se à primeira vista esta asserção parece inexata é porque às vezes confundimos o inerte como o inibido ou reprimido. em um momento dado. Este princípio tem enorme interesse penal e jurídico . O “capital circulante” de nosso psiquismo. todo ato psíquico tem intenção. indiferente e “neutro”. 3. (e isso bem o sabe o delinqüente. sob outro aspecto (graças aos processos de sublimação = processo inconsciente de desviar a energia da libido pra novos objetos de caráter útil -. isolado e indeterminado. pois explica uma infinidade de transgressões (simbólicas) observadas diariamente na vida judiciária. não se trata de um fenômeno esporádico. a força repressora toma o nome de “censura . mesmo que o indivíduo – normal no restante – reconheça o absurdo de seu comportamento (como ocorre nas fobias. motivação e significação.2 Princípio da transferência . a energia libertada de nossa capacidade mental. depressão e estupor e máxima nos de elação. por assim dizer. projeção = mecanismo de defesa-. Quando a repulsa não se exerce sobre as lembranças. senão é capaz de deslocar-se. que traduzem tendências instintivas incompatíveis com a moralsocial vigente. agitação ou desespero. catatimia = crise passageira. Em virtude de tal deslocamento das “cargas” psíquicas (afetivo-emocionais) é possível que uma percepção. em um momento dado. as expulsa do plano consciente e as mantém afastadas dele. da psicologia do testemunho. mas da ação direta de uma poderosa força repressora que.A energia psíquica não se imobiliza e adere consbstancialmente aos conteúdos cognoscitivos. mas seu valor total permanece constante. mas alguns de seus discípulos que fizeram ver a necessidade de os encarregados da aplicação da justiça conhecerem pelo menos os fundamentos das concepções psicanalíticas. saltar ou transferir-se de uns aos outros. se anime subitamente.). Não foi somente Freud. para emergir.4 Princípio da repressão ou censura – Eixo da escola psicanalítica. tornando-se aparentemente ausente. se concentra e aumenta de tensão. incapaz de livrar-se de seu remorso). alteração do humor. obsessões e compulsões). e receba uma força (impulso) atrativa ou repulsiva tão grande que chegue a dirigir toda a conduta individual. “custa mais esquecer do que recordar” é o lema da psicanálise. foi a asserção de que o esquecimento não é conseqüência do desgaste ou usura das lembranças. 3. varia amplamente. acidental. mas de um elo de uma série causal. racionalização. holotimia = etc.17 da conduta delituosa. Em virtude disso. mas sobre os pensamentos.3 Princípio do pandinamismo psíquico – “ Não há nada de morto no âmbito do aparelho psíquico” afirmam o freudismo. uma idéias ou um pensamento qualquer. De acordo com este princípio a vida mental apresenta-se como o perpétuo vir-aser de uma corrente energética que ao encontrar obstáculos em sua fluência. De algumas atitudes pleitistas ou reinvindicadoras e – o que é mais importante – de não poucos erros judiciais cometidos por juízes probos e experimentados.

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consciente”.

3.5

Princípio da Tripartição da Personalidade – Freud postulou que a individualidade psíquica é uma tentativa de síntese de três grupos de força: a) as provenientes do fundo orgânico-ancestral humano, e representadas por dois grupos de institintos (tânato-destruidores, sado-masoquistas ou da morte, uns, e criadores, vitais, expansivos ou libidinosos, os outros); o conjunto dessas forças, fundamentalmente irracional e inconsciente, é denominado de ID; b) as derivadas da experiência e educação (aprendizagem): individual, fundamentalmente conscientes racionais e lógicas que, criam a oposição entre o indivíduo e o objeto, e se orientam em um sentido puramente utilitário (assim como as anteriores o fazem no sentido hedonístico) constituindo o núcleo denominado EGO; c) as surgidas de um processo de introjeção (in-ducação) coercitivo e punitivo, que permite ao indivíduo superar o denominado “COMPLEXO DE ÉDIPO” (em virtude do qual tende a sua fusão amorosa com o progenitor do sexo oposto eliminando o do seu próprio sexo). Tal superação é conseguida baseando-se na incorporação à individualidade da imagem do progenitor odiado, infringindo o indivíduo a si mesmo sofrimento que antes desejou a esse e criando, assim, um princípio de expiação e autopunição que se denomina: “SUPEREGO”. A luta entre essas três instâncias, que se imbricam complexamnete nos diversos planos da vida individual, explica as oscilações entre o prazer, a utilidade e o dever, ou seja, entre as atitudes do gozo reflexivo, domínio racional e expiação salvadora. 3.6 Princípio da Autocomposição – Este assegura o restabelecimento do equilíbrio psíquico quando a pugna entre as três forças se tornam tão violentas que o indivíduo sofre a angústia do conflito intra-psíquico. Surgindo então mecanismos amortecedores e compensadores que permitem a readaptação e a nova síntese psíquica, imprimindo um desvio à tendência causadora do conflito. Tais processos são designados com diversos qualificativos (catatimia, racionalização, satisfação imaginária etc) e todos são de particular interesse para o jurista. 4ª Psicologia Personalística – Esta pressupõe a impossibilidade de fragmentar analiticamente a vida psíquica, uma vez que o fato psíquico em sua integração não pode se decompor sem perder características essenciais. O elemento psíquico que deve ser estudado é justamente a pessoa. Já não é possível julgar nenhum ato humano sem conhecer, não só as circunstâncias externas que o determinaram e o estado de quem o executou naquele momento, como também – o que é mais importante – sem saber qual é o tipo de personalidade do autor. Conforme for este, assim resultarão sua concepção do mundo, suas noções do SER e do DEVER SER, suas possibilidades de submissão ou domínio, de progresso ou regresso, de correção ou de agravamento nos diversos aspectos de sua conduta. A vida psíquica do indivíduo, será possível chegar a traçar o esquema de sua

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personalidade. E sem este toda tentativa de julgamento de sua conduta será deficiente. Este fato fundamental ignorado por tantos juristas (que acreditam, por exemplo, ter dito tudo quando afirmam que seu processado é um doente mental), conduz à possibilidade de predizer, com certas garantias de acerto, o campo delituoso em que com maior facilidade pode penetrar um determinado indivíduo e, o que não é menos importante, permite em entrever a possibilidade de uma modalidade de pena individualizada que será ditada muito menos tendo em conta o delito cometido do que a personalidade de delinqüente. 5ª Psicologia da Forma: - Este é o mais recente movimento de idéias observado no campo da Psicologia. Suas aplicações ao campo do Direito, embora, já possam ser pressentidas, ainda estão por realizar, mas a extraordinária fertilidade dos problemas que suscitou e o valor dos fatos que descobriu, justificam sua inclusão aqui. O maior mérito desta escola psicológica consiste em haver demonstrado a impossibilidade de estudar os fenômenos psíquicos empregando os métodos válidos para a físico-química. Um fenômeno psíquico é em si uma “unidade vital” que não pode se decompor pela análise sem perder sua essencialidade. A mais simples sensação é um complexo ou estrutura; nunca podemos conceber uma reação humana como derivada de mudanças para mais ou para menos de energias (afetivas, por exemplo), e sim que, embora obedeça em definitivo às leis conhecidas, temos que admitir nela, sempre, a existência de algo novo (a estrutura), diferente dos elementos que determinaram sua produção. Assim como o químico pode separar e isolar os corpos integrantes de uma combinação, porque os mesmos se lhe apresentam sob forma de realidade sensorial estável, o psicólogo não pode realizar esta tarefa nem seguir o processo analítico porque logo que tenta a decomposição do produto, este desaparece in totum. Ele tem que resignar, pois, a aceitar e estudar como fenômenos individualizados as estruturas psíquicas, que nada têm em comum com as antigas sensações artificiais e sem sentido vital. Sem exagero, podemos dizer que a psicologia da forma e a mais humana de todas, a mais real, a de mais sentido comum, a que nos coloca ante os problemas psíquicos tais como se apresentam em nossa vida diária. Segundo ela, o ato delituoso é também uma estrutura que não pode ser esmiuçada ou decomposta – como fazem os juristas – para ser deduzida. Toda tentativa de “análise” do delito, no sentido clássico, está sujeita a chegar a conclusões errôneas e assim, por exemplo, ante um crime por ciúmes é completamente errado perder o tempo em considerar se o indivíduo deu uma punhalada mais ou menos, se elas foram ou não “necessariamente mortais” etc., etc.; a situação deve ser, antes, concebida em suas origens focalizadas sem solução de continuidade até o desenlace. É o que fazem defensores hábeis, mas falta-lhes para merecer o qualificativo de científicos, não só a “objetividade” como também a “técnica” necessário para a recoleção, compreensão e avaliação dos mal denominados “antecedentes de delito”. 6ª Psicologia Genético-Evolutiva - Hoje já não se mantém a concepção do “criminoso nato”, todavia, ninguém duvida que a herança transmite a certos seres um acúmulo de predisposições para o delito muito maior que a outros. O Crime como delito, na qual

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demonstra alta correlação de delitos (crimes) que existe entre várias dezenas de gêmeos, inclusive algumas de gêmeos univitelinos, apesar de terem sido criados em, ambientes sociais bem distintos. São vários os autores que nos ilustraram acerca da mentalidade do homem primitivo e estabeleceram os paralelismos que podem nos ilustrar para compreender as reações de certos seres humanos que, por falta de formação atávica, sentem reativar-se normas de conduta que tinham sido superadas em nossos dias e lugares. 7ª Psicologia Neuro-Reflexológica – Seria o estudo denominado “reflexos condicionados” ou condicionáveis, atuando no sistema nervoso central e em especial no córtice cerebral: a excitação e inibição. Aqui é necessário considerar o fator “tempo” e o fator “rítmo de estimulação” para explicar muitas reações paradoxais que apresentam, não só os indivíduos patológicos, mas também os normais, convertendo-os em seres “imprevisíveis e absurdos” em mais de uma ocasião. A concepção neuro-reflexólogica explica, igualmente, a ineficácia das sanções (penas e castigos) para conseguir evitar a reincidência. 8ª Psicologia Constitucional, Tipológica ou Caracterológica – É sem dúvida uma das mais brilhantes direções no campo da Psicologia atual e apresenta extraordinárias sugestões para a compreensão das motivações e os efeitos das relações delituosas. O enfoque o psicossomático, ou seja a condições morfofuncionais (visíveis, corpóreas e mensuráveis) e ainda as condições psico-racionais (invisíveis, incorpóreas e imensuráveis mas até certo ponto avaliáveis). A tipologia oferece um firme apoio para a compreensão e previsão das reações sociais do homem, destacando a importância da assimetria funcional do ser humano – devida a preconceitos de ordem místico-mágico-religiosa – e, ao mesmo tempo, de haver proporcionado elementos para a elaboração de novas técnicas de exploração, entre as quais, destacamos o nosso Psicodiagnóstico Miocinético, por considerar que é uma das que melhor se prestam ao seu emprego sistemático no campo da Psicologia forense. 8ª Psicologia Patológica ou Anormal – Já se foram os tempos em que as psicopatias podiam ser explicadas como “enfermidades do cérebro”. Hoje já sabemos que qualquer enfermidade de qualquer órgão pode produzir uma anomalia no funcionamento mental, e que esta pode existir e persistir sem que seja possível notar uma lesão visível no sistema nervoso. Sendo assim a psiquiatria dever ser considerada mais do que a neurologia central, mas parte da Psicologia: A psicologia Anormal. O interesse extraordinário que esta apresenta para o jurista baseia-se em que por definição todo conflito com as leis que regulam a vida social pressupõe uma anormalidade, onde toda atuação profissional ver-se-á à frente de mentes normais colocadas em situações anormais ou, ante mentes anormais colocadas em situações anormais. Em todos estes casos a concepção psiquiátrica é de grande valor para a compreensão das ações resultantes e por isso cada dia se torna mais necessária sua intervenção no campo do Direito; mas não no sentido estritamente limitado da antiga psiquiatria forense, que só lida com os casos extremos, mas no sentido mais amplo e compreensivo da atual Psicologia Anormal, segundo a qual o problema não é descobrir

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quais pessoas normais e quais não são, mas sim que classe e que grau de anormalidade são próprios de cada pessoa, afim de que não se possa confundir o gênio com a loucura, o que favorece os psiquiatras e juízes diante de um processado em que segundo os primeiros, está louco e conforme os segundo, não está. Não se pode confundir gênio com loucura. Em realidade a discussão tem lugar quase sempre porque se quer aparelhar a noção de irresponsabilidade de delito com a loucura e a da responsabilidade com a saúde mental. Esta confusão persistirá, porque é possível ser um doente mental e ser responsável e vice-versa, é possível ser irresponsável de um delito cometido com os cinco sentidos, como se diz vulgarmente. Esta confusão é claro, desaparecerá quando desaparecer a palavra “loucura”, que não quer dizer nada, e por isso a fazem significar o que cada um quer. Ainda não faz dois anos um alienista escreveu que a loucura é uma enfermidade, esta afirmação é tão absurda como se dissesse que a dor de cabeça é uma enfermidade. Com efeito, dentro do extraordinário caráter vago do termo (etimologicamente vem a ser sinônimo de loquacidade, isto é, verborréia, excesso de falar), a loucura é um estado psíquico, capaz de surgir por mui diferentes causas (umas mórbidas, outras não) e em virtude do qual o indivíduo perde o contacto com a denominada realidade ambiental ou fenomenológica, perturbando-se sua capacidade discriminativa entre o mundo externo (sensorial) e o mundo interno (representativo ou imaginativo) e surgindo em conseqüências uma conduta, interna ou externa, que pode ser lógica (se se tem uma conta que se baseia em “vivências” anormais) mas se mostra inadequada. O indivíduo que só perde esse com tacto quando se refere a determinada série de estímulos foi denominado louco parcial ou semilouco e ao que só o perde durante certo tempo, embora, se totalmente, se denomina louco temporário. Porém estas denominações são, arbitrárias e grosseiras, pois existem infinitas gradações entre estes estados e por isso torna-se também insuficiente o estabelecimento de uma “responsabilidade atenuada” para protegê-los. A responsabilidade será individualizada pelos juristas, mas para isso é preciso que possuam as devidas noções de Psicologia aplicada à sua atividade. 9ª Psicologia Social – É sem dúvida a mais nova das direções da psicologia experimental. Suas origens são mistas. Obedecendo, de um lado, a certos princípios da psicologia da forma foi delineado um plano de investigação da conduta individual em relação em relação com as pressões e as aspirações (sucções) do grupo, ou grupos, com o qual, ou os quais, convive (grupo familiar, vicinal, congenial etc.) Tal investigação é planificada em “equipe”, isto é, contando com o concurso de antropólogos, sociólogos, psiquiatras, psicólogos, historiadores, economistas e pedagogos. Em primeiro lugar, são delimitados os conceitos de extensão e de estrutura do “campo” ou ambiente social em que vem confluir e entrechocar-se as diversas pressões dos grupos.. Em segundo lugar, é preciso investigar o papel relativo dos vetores pessoais na determinação dos impactos e contraposições que o sujeito em estudo (propositus) exerce em suas inter-relações com os membros do “campo”.

das mutações radicais do nível de aspirações e dos fatores mais convenientes para uma mudança de atitude ou de opinião em diversos problemas de conduta. baseada em fatos psicológicos irrefutáveis. Principalmente o estudo das oscilações da agressividade. contribuir na elaboração de leis adequadas à sociedade. da contabilidade. a informação forense a respeito do mesmo. em ordem cronológica: 1º a Psicologia do testemunho. colaborando na organização do sistema da administração da justiça. como evitar que o indivíduo chegue a estar em conflito com as leis sociais. aportando ao mundo jurídico. a descoberta da motivação psicológica do mesmo. A Psicologia jurídica é a Psicologia aplicada ao melhor exercício do Direito. uma vez que todo Direito está repletos de conteúdos psicológicos. prevendo possíveis delitos ulteriores. da economia. e na tarefa de assessoramento judicial. da engenharia legal.22 Em terceiro lugar. o estado atual da ciência psicológica não permite utilizar seus conhecimentos em todos os aspectos do Direito e isso faz com que a Psicologia jurídica se encontre hoje limitada a determinados capítulos e problemas legais que são. da antropologia. isto é. 3. e no âmbito . 4º. conduziram a uma concepção e enfocação das transgressões legais. De acordo com isto. pode sob forma de assessoramento legislativo. da sociologia e da filosofia. 6º. mas sim se procura também tratar e corrigir grupos delinqüenciais. 3º. 2º. A Psicologia PARA o Direito: colocada ao lado da medicina legal. Infelizmente. DEFINIÇÃO DA PSICOLOGIA JURÍDICA. 5º a reforma moral do delinqüente. e boa prova disso é a crescente atenção que os Estados Unidos. quanto à sua profilaxia e correção coletivas. Áustria e Inglaterra lhe dedicam os juristas mais destacados. A Psicologia DO Direito: cujo objetivo é explicar a Essência do fenômeno jurídico. carregam inúmeros conceitos de natureza psicológica. Sendo o último o mais importante. 1. nesse sentido. A Psicologia Jurídica. 14. podendo estabelecer-se uma verdadeira terapêutica social. a obtenção da evidência delituosa (confissão com provas). No universo do direito tem-se usado o termo psicologia jurídica. É Psicologia convocada para iluminar os fins do direito. propósitos e condutas de diversos tipos de frustrados e desajustados sociais. 2. torna-se necessário conhecer quais são os recursos mais eficientes – dadas as condições de tempo. As normas jurídicas destinam-se a produzir ou evitar determinadas condutas e. a higiene mental que suscita o problema profilático em seu mais amplo sentido. isto é. já não se trata o delinqüente isolado. isto é. Preenchendo do melhor modo possível essas condições foram realizadas investigações de singular interesse para a compreensão das diversas ideologias e aspirações. a compreensão do delito. lugar e circunstância social – para assegurar o melhor ajustamento possível a esse dinamismo recíproco e dialético: indivíduo versus grupo e grupo versus indivíduo. Alemanha. A Psicologia NO Direito: que estuda a estrutura das normas jurídicas enquanto estímulos vetores das condutas humanas. a fundamentação psicológica do direito.

Do ponto de vista funcional. PLANO EXPOSITIVO DO PROGRAMA. Dizia-se antes que um pensamento não podia influir sobre uma pedra e viceversa. temos de pensar como é que o saber psicológico se epistemologiza numa racionalidade de saber fazer justiça” 15. a pessoa quem cria a resposta. “antes de sabermos como é que a justiça se pode tornar sábia pelo recurso à psicologia. convém fundir problemas e métodos. por conseguinte influenciar) uma pedra. se bater na cabeça de quem o tem. Ou seja. e ante um estímulo psíquico não é a alma que reage. seguindo o atual critério pedagógico. Um manjar estragado pode acarretar um conflito psicológico mundial se ingerido por um magnata político em um banquete internacional (indigestão. conflito diplomático etc) Do mesmo modo que um pensamento dito ao ouvido deste magnata (referente à sua dignidade pessoal. ou seja. se acha representada pela chamada personalogia. O HOMEM CONCEITO CONSIDERADO COMO PESSOA O UNITÁRIO DA PERSONALIDADE. responde-se a isso dizendo que um pensamento pode fazer desaparecer (e.23 psicológico o termo psicologia judicial. se quem o tem possui um cartucho de dinamite e um pavio. Uma das direções mais interessantes da moderna Psicologia. inteira e indivisa e como tal deve ser estudada e compreendida pela ciência. em estruturas (configurações) expositivas que constituem verdadeiros centros de interesse para o advogado militante. Pois bem. mau humor. a quem nosso trabalho é principalmente dedicado. agressão pessoal. Em primeiro lugar deve-se ter em conta a necessidade de dar antes ao jurista uma visão científica e moderna do homem. em consideração à brevidade e clareza expositiva. em segundo lugar. considerado como ser “psicobiossocial” e. mas em ambos os casos é o organismo em sua totalidade. intransigência. CAPÍTULO II ESTÁTICA DA PERSONALIDADE HUMANA 16. por exemplo) pode determinar nele uma brusca vasoconstrição . e uma pedra pode fazer dasaparecer (e por conseguinte influenciar) um pensamento. réplica furiosa ao vizinho. isto é pelo estudo da unidade humana considerando-a em suas relações com meio natural e social em que vive. não existe barreira entre o físico e o psíquico: ante um estímulo físico não é o corpo que reage. A pessoa é uma.

e entre o temperamento e o caráter. porque têm a propriedade de determinar modificações à distância. De modo análogo a constituição corporal imprime uma marca característica ao “aspecto” da pessoa e condiciona de modo amplo o estilo de seus movimentos. principalmente. analisando-o com cuidado. gráceis. o tabaco. ao passo que as modificações mais lentas e gerais têm lugar pela via humoral em virtude da libertação de determinadas substâncias denominadas "hormônios". da especial proporção que entre si guardam as várias substâncias neurótropas circulantes no sangue. comprovar que a cada tipo constitucional somático .24 coronária que lhe produza a morte e com ela venham as maiores mudanças materiais na país. vamos dedicar-lhe a extensão que merece. e após várias frases ofensivas. de uma parte. Em um palavra. para compreender o que estamos dizendo. de outra. mas também podem proceder diretamente do exterior (ar. não será a mesma reação de um homem corpulento e a de um homem magro e baixo. tais substâncias procedem em sua maior parte das glândulas de secreção interna. alimentos etc. Permanecendo todos os fatores iguais. O Fator morfológico origina na pessoa um obscuro sentimento de superioridade ou inferioridade física diante da situação. Portanto os estudos tipológicos parecem. devido a que o indivíduo se mostra e mostra subconscientemente superior em força ante o primeiro e inferior ante o segundo. efetuam-se pela via nervosa. Que fatores determinaram esta reação pessoal de “A”? Vejamos: a) Constituição Corporal. fazendo-os mais ou menos rápidos.). Em virtude disto a vida pessoal depende em todo momento de duas classes de influências: exógenas e endógenas. conhecemos as relações existentes entre a constituição corporal e o temperamento. não existe – funcionalmente falando – solução de continuidade nem dualismo possível entre as denominadas manifestações psíquicas e as físicas. 17. – Este é um fator capaz de imprimir uma modalidade especial à reações pessoais. trocadas entre si. enérgicos etc. com efeito. tais modificações se traduzem na vida consciente pelo denominado estado de humor (triste ou alegre.. deprimido ou excitado etc. a integração das múltiplas atividade orgânicas de forma que se ajustem em sua totalidade à sua unidade pessoal é conseguida mercê de um duplo mecanismo: nervoso e humoral. Pois bem. Como este ponto é de uma importância crucial para a melhor compreensão da conduta humana. do ponto de vista endógeno ou pessoal. Basta lembrar a influência que sobre o ânimo têm o álcool. “A” bate em “B” com uma bengala. certas drogas etc.). de sorte que nosso tipo de tonalidade afetiva depende. é um fato vulgar que a mesma frase pronunciada por um garoto ou por um carroceiro não desperta no ofendido a mesma reação e isso é. que entra muito na determinação de seu tipo de reação. As mudanças rápidas as reações especialmente ligadas à vida intelectual consciente. causando-lhe uma ferida na cabeça. Vamos dar um exemplo concreto para fixar idéias: suponhamos que um indivíduo “A” ao se encontrar na rua com um indivíduo “B” discute com este acerca da posse de um objeto determinado. FATORES DOS QUAIS DEPENDE A REAÇÃO PESSOAL EM UM MOMENTO DADO.

ou melhor. os ossos. já que entre ambas se interpõe todo conjunto de funções intelectuais (discriminativas. nas primeiras fases do desenvolvimento.Se entendermos por constituição “o conjunto de propriedades morfológicas e bioquímicas transmitidas ao indivíduo pela herança”. e os meios para sua explicação e diagnóstico. Em muitos casos o caráter da pessoa se desenvolve – por supercompensação psíquica secundária – em uma direção oposta à de seu temperamento. b) Temperamento. – É outro fator endógeno de importância decisiva. abdome. por sua vez. dos homens são variantes do “normotipo”. De modo geral as pessoas nas quais predominam o diâmetro vertical (altas e magra) têm uma maior tendência à introversão e à dissociação (esquizoidia) que as apresentam um predomínio do diâmetro antero-posterior (gordas e baixas). Um erro frequentemente cometido é o de confundir o temperamento com o caráter. músculos e articulações. que dará. este define-se objetivamente pelo tipo de reação predominante exibida pelo indivíduo ante a determinadas situações e estímulos. órgão dos sentidos e sistema nervoso. Cada região somática consta. Aqui é preciso isolá-los se quisermos chegar a uma compreensão científica da motivação do delito. Não há dúvida que . cujos vértices basais correspondem à formas resultantes do desenvolvimento de cada uma da folhas blastodérmicas (ectoderma: que forma a pele. A humanidade distribui-se – morfologicamente falando – em todos os infinitos pontos de uma área triangular. Assim. endoderma: formadora dos tecidos viscerais). se quisermos ter a devida noção de todos os fatores determinantes de uma reação pessoal. É assim que a periculosidade e as diversas tendências anti-sociais ou antilegais encontram uma expressão antecipada e também uma possibilidade biológica de correção. mesoderma: que forma todos os órgãos que asseguram a estática e a locomoção. e por isso sua forma pode definir-se em função do predomínio relativo de cada uma delas. poderá ser definido como “octomorfo”. podemos definir o temperamento como resultante funcional direta da constituição. . de um volume tetraédrico.25 corresponde a uma especial modalidade temperamental. tecido conjuntivo. Não obstante. tórax. é preciso conhecer bem as distintas modalidades de temperamento. Um indivíduo de temperamento astênico. graças à denominada “terapêutica constitucional” que influi principalmente sobre as condições do trofismo e metabolismo celular. em maior ou menor proporção. críticas de julgamento) e das inibições criadas pela educação. claramente se compreende que nem sempre a tendência primitiva de reação coincide com a reação exibida. e as segundas pícnicas. “sangue de barata” e o hipertireóideo “sangue fervente”. ou astenicas. o denominado somático individual que somente nesses extremos. A cada uma corresponde uma tríplice mensuração. que marca a cada momento a especial modalidade da primitiva tendência de reação ante os estímulos ambientais. braços e pernas. ou seja. As primeiras são denominadas leptossômicas. quantas vezes uma reação agressiva e um caráter violento tem sua explicação na existência de um temperamento medroso. de tecidos derivados dessas três folhas primitivas. c) Inteligência. A maioria. mas cada um apresenta peculiaridades que o fazem propender para um tipo de reação temperamental (neurotônica. somatotônica ou viscerotônica). Dividido o organismo em cinco regiões em: cabeça. Por isso. “mesomorfo” ou “endomorfo”.

pacífico e inofensivo. do caráter individual. Em potência. Os juízes bem sabem que para cada criminoso que se apresenta diante deles com olhar feroz. isto é. se diz que o “caracterizamos” isto é que damos conta de seu caráter. prevenilas. Mas. Via de regra os diferentes tipos de delitos estão relacionados com os diferentes níveis intelectuais: por exemplo. As aparentes contradições entre o “modo de agir habitual” (caráter) e o modo de agir “acidental” se explicam por desequilíbrios súbitos dos núcleos energéticos das tendências que constituem os feixes fundamentais da “estrutura”. “B”. Quando procuramos de um modo empírico. isto é. devemos ter presente que é preciso o conhecimento – na medida em que é possível obtê-lo – da conduta interna do indivíduo se quisermos completar os motivos da ação em geral. Os fatores endógenos impeliram o homem a uma conduta puramente animal. Mas. dentro da cabeça ficam muitas ações detidas e. porque dele depende a posse do denominado juízo moral. “Onde acaba a razão começa a violência”.26 uma pessoa obtusa esgota antes os recursos para adaptar-se normalmente a uma situação que uma pessoa desembaraçada. cabelos crescidos e desgrenhados e punhos contraídos. adquirida em vida a considerar. cuja persistência na juventude ou no estado adulto é a melhor explicação de muitos atos delituosos. homem honrado e escrupoloso como poucos. e representam em definitivo o resultado de sua luta. apresentam um déficit intelectual acentuado: são débeis mentais. o “arcabouço” ou “esqueleto”. Através do exame miocinético. o conduziriam à completa submissão ao meio externo. – (hábito anterior). ao contrário. baseada na satisfação de seus instintos e tendências apetitivas ou repulsivas. dentro de certos limites. cometeu um desfalque. e) Experiência Anterior de Situações Análogas. por conseguinte. ou “visível”. pode-se encontrar e destacar os motivos dessas compensações e permite. a clássica posição entre o homem e o mundo (luta pela vida) a que é simbolizada na pugna entre o elemento endógeno e o exógeno isto é. existe na infância uma predisposição à delinqüência por ignorância. o caráter. um grande número dos delinqüentes e dos indivíduos que entram em conflito com a sociedade. – Dito e respeitado que o fator conativo. Isso quer dizer que. Quem diria? quem o advinharia? “A”. tímido e recatado cometeu um delito sexual: “C”. os larápios costumam ser mais inteligentes que os simples ladrões. isto é. A exemplo do indivíduo “A” . ou falta de compreensão da responsabilidade moral. d) Caráter. era um fator de maior importância que todos os demais para a descrição da personalidade. o problema é que em muitas vezes ou ocasiões o fato que põe o indivíduo em contato com o jurista é em si contrário ao seu caráter. É o fator puramente exógeno. há meia dúzia que parecem mais aficionados à pesca do que à tarefa de matar gente. chegar a ser autor de um crime horripilante. o importante não é tanto ter a noção do nível intelectual da pessoa como sua capacidade de julgamento abstrato. o caráter. e estes mais do que os outros processados por delitos de sangue. embora sendo o caráter um fator importantíssimo da reação pessoal – visto sua importância não deve ser exagerada até o extremo de se acreditar ser possível conhecer um indivíduo simplesmente por sua conduta externa. Os fatores exógenos. O caráter constitui o termo de transição entre atores endógenos e os fatores exógenos integrantes da personalidade. assinalar as propriedades pessoais de um indivíduo.

e isso faz com que. de distribuir bengaladas sem outras conseqüências que as de experimentar satisfação de ver como inchavam os galos no adversário. A análise de todos os elementos da situação desencadeante do conflito delituoso deve ser feita com a ajuda de um método e este não deve ficar limitado em seu uso aos policiais e detetives. a causa eficiente. A “constelação”. se parta de dados incompletos para elaborar toda a ação ou atuação profissional secundária. na imensa maioria das vezes. tem um intenso valor na determinação da reação pessoal – a pergunta: qual a melhor hora para pedir um favor ou fazer uma visita? È o que os juristas às vezes ignoram. Infelizmente a atitude parcial (pró ou contra) que o jurista adota (segundo sua posição profissional perante o indivíduo) dificulta-lhe muita vez esse trabalho. Por este mesmo fato explica-se o paradoxo de que o grau de inteligência dos delinqüentes se encontre em relação direta com seu potencial de reincidência (já que tem maior número de probabilidades de subtrair-se à ação penal) f) Constelação. ao menos do ponto de vista humano. g) Situação Externa Atual. do ponto de vista psicológico.seria capaz de reagir de um modo aproximadamente idêntico perante numerosas situações que poderíamos denominar "típicas" para o delito (delitógenas?). não há dúvida de que sentirá muito mais inclinado a repetir então este gesto. (pleiteante ou acusado). todo advogado deverá saber traçar um esquema coerente da mesma. Assim. como é natural. prisões ou ter sido molestado em suas anteriores agressões. o estímulo desencadeante da reação pessoal. e assim se explica a maioria dos denominados erros judiciários (por excesso ou por falta). dedicam luminosos parágrafos em seus relatórios em análise do delito e da personalidade do delinqüente sem levar suficientemente em conta qual era sua atitude de reação imediatamente anterior. Suponhamos que o indivíduo “B” cuspiu na cara do indivíduo “A” depois de insultá-lo grosseiramente. – Designa a influência que a vivência ou experiência imediatamente antecedente exerce na determinação da resposta à situação atual. Tudo é confiado à improvisação do momento. a importância daquela é igual à desta. Também as temperaturas extremas e o confinamento de pessoas excitam as pessoas. em sua vida. – Esta representa. . do que no caso de haver sofrido muitas. portanto.27 teve ocasião. Tal é a sua influência que entre nós uma maioria assustadora .apesar de nossas diferenças de personalidade e educação . o interrogatório ou a conversação desliza sem um sistema ou plano preconcebido e o resultado é que somente uma minoria dotada de excelentes dotes naturais pode conseguir uma informação aceitável com respeito à matéria-prima de discussão. são poucos os juristas que se preocupam em analisar a personalidade das testemunhas ou testemunhos com a mesma minúcia que a do interessado. e acharemos justificada a resposta deste se não do ponto de vista legal. Devese ter em conta que quase sempre se dirige todo o esforço para ter uma visão exata da conduta do protagonista da situação e se passa por alto a conduta dos demais personagens que nela intervêm: erro profundo porque. É evidente que um indivíduo que sai de um concerto de música ou acaba de ouvir um sermão religioso não se encontra em idêntica disposição para distribuir bengalada que quando acaba de ver uma luta de boxe ou uma partida de futebol.

28 h) Tipo Médio da Reação Coletiva em Vigência. i) Modo de Percepção Subjetiva da Situação. a maior ou menor sinceridade do indivíduo em sua primitiva narração. Quantos maridos mataram a mulher adúltera por acreditar que era seu dever proceder assim! Ao serem interrogados por que julgavam assim. é preciso averiguar este ponto com especial tato antes de julgar definitivamente sua ação. coagido e julgado. e por isso é preciso saber até que ponto interveio no indivíduo que ocupa a atenção do jurista. O melhor meio de obter esta informação é deixar o interessado fazer um retrato espontâneo de todo o sucedido. a imprensa publica com todo luxo de detalhes o crime passional. é claro. Note-se que não é. o fator mais importante de todos e. tem que . por outro lado. De fato.É este. familiar etc). . Dizem os provérbios: "a quem está com medo. os nomes dos cidadãos cordatos que resolvem mais pacificamente seus conflitos amorosos. o tipo médio de reação coletiva . “imitação” o nome que corresponde a esse fato. sem o interromper com objeções.falseado ou deformado pela parcial informação da imprensa . Com efeito. Quantos dados interessantíssimos se perdem pelo fato dos primeiros representantes legais não anotarem taquigraficamente as versões "frescas"! Quantas vezes as interrupções intempestivas deformam a espontaneidade do relato e nos privam de obter o ponto de vista pessoal do autor nos primeiros momentos! A primeira declaração espontânea é sem dúvida de máxima importância. Isto porque todos nós sabemos que existe um processo psíquico geral. o desejo de aprovação externa. Depois se contraporá esta descrição com a versão objetiva dos fatos e se deduzirá.neste caso negativa . mas quase sempre é perdida sem anotar e quando o indivíduo é observado. mas não publica. mediante perguntas e contraperguntas. em múltiplos terrenos (político. um afã de publicidade. religioso. denominado "catatimia". Pois bem. nem tampouco o de “sugestão”. o indivíduo agressor “A” é possível que tenha agredido o adversário acreditando agir em defesa própria.colocou no terreno penal milhares de indivíduos. em virtude do qual a percepção é alterada e deformada primitivamente sob a influência de tendência afetiva presente naquele dado momento. por isso. . por lhe ter parecido que ele começava a sacar de um revólver. deixamo-lo para o final: quais foram as impressões (vivências) suscitadas no protagonista pela situação delituosa? Como viu seu conflito? Quais foram seus pensamentos e seus motivos conscientes de atuação? Em nosso caso concreto.exercida sobre o marido enganado. ao mesmo tempo que. a deformação catatímica da situação justifica muita vez atos aparentemente absurdos. comercial. contribui para determinar o tipo desta. E o resultado é uma pressão moral . é possível que tenha interpretado mal uma de suas frases. repetiram a frase sacramental: porque é o que se faz para "lavar a honra". sonha com riachos". em simplesmente.. para enaltecer. Porque não há dúvida de que a conduta individual reflete a todo momento os vaivéns da conduta social. o que paradoxalmente faz agir de forma anormal a não poucas pessoas..Como se comportaria a média dos cidadãos ante a situação originadora da atuação legal? Qual é o tipo da reação social latente ante a tal situação? Eis uma pergunta que o jurista deve fazer a si antes de esgotar a lista dos motivos da atuação de seu cliente. como é possível também que tenha praticado a agressão por um motivo completamente insuspeitado. por exemplo. os dedos parecem pessoas" e "quem tem sede. ou pública.

o organismo humano acha-se estruturado em uma série de "níveis funcionais". que assegura os reflexos de estação (bípede) e posturais simples 4) o mesencefálico ou cerebral intermediário. "tono afetivo". em altura física. 3) 0 peduncular ou cerebral posterior. À medida que subimos. produz uma desintegração da conduta. onde se desenvolvem reflexos simples (como o rotuliano) de pequena influência na estática do corpo. pública ou privada .29 perder a esperança de que seja verdadeiramente sincero. de maior integração e habilidade. a simbolização etc. 2) o espinhal ou medular. 6) córtico-motor. A interrupção do fluxo funcional nesses diversos níveis. Contrariamente ao que se acreditou até há pouco. . para os reflexos posturais complexos e a locomoção. que se estende desde os lobos frontais do cérebro até a chamada cauda-de-cavalo (na extremidade inferior da raque). com as mais recentes concepções neuro-reflexológicas. correspondentes a outros tantos tipos de reação orgânica: 1) o neuromuscular. nesse eixo (estando o indivíduo em pé). a memória. 18. porque nele estão explícitos e terminam todos os impulsos nervosos. do qual dependem a iniciativa. mas neste interfere também uma infinidade de substâncias. De acordo. "temperamento" ou "estado de ânimo". Distingue assim sete níveis de integração. que se encontram no plasma intersticial do denominado meio interno. para os movimentos "voluntários".oficial ou oficiosa. O cerebelo coordena os primeiros 6 níveis. subimos também em complicação estrutural e integração funcional nervosa. não hormonais. O péssimo costume de contradizer e objetar.não será abolido enquanto todos os elementos integrantes da complicada administração de justiça não tenham adquirido noções elementares de Psicologia. cada um dos quais atua sob a dependência de centros nervosos que se encontram dispostos em escala ascendente ao longo do chamado "eixo céfalo-caudal". 7) córtico-associativo. as glândulas de secreção interna não controlam nem dirigem as funções nervosas. ou "cerebrospinal". A BASE SOMÁTICA DA PESSOA. por meio da ablação ou transecção das fibras nos correspondentes planos anatômicos. ou de desviar e dirigir a declaração . 5) o esfriado (hipotalâmico) para as mudanças locomotoras e a suavização dos impulsos do nível seguinte. também denominado "via final comum". Não obstante isso. e sim dependem mais da ação reguladora da totalidade do encéfalo. é evidente sua intervenção nas variações do denominado "humor".

provocaremos uma sensação de contacto. Em virtude dessa circunstância ocorre que toda vez que um deles se apresenta diante de nós. se em um ponto de nossa pele encostamos . Isto quer dizer. colocada também perpendicularmente. . não há inconveniente em aceitar uma forma descritiva clássica em Psicologia e dar uma rápida explicação dos termos mais correntemente empregados na técnica psicológica. será preciso fotografá-lo em diferentes posições. não se limita a provocar o correspondente complexo sensorial. se quisermos nos dar conta de um objeto. já nos é conhecida por haver atuado repetidas vezes sobre nós. devemos conceber o que antes se denominavam funções psíquicas elementares. ATOS PSÍQUICOS DIFERENCIAVEIS NO FUNCIONAMENTO PESSOAL. por exemplo) que projeta sobre nós um complexo feixe de raios luminosos. 20. Pois bem: em nossa vida habitual não costumamos ter impressões tão simples. em condições normais. assim também a sensação representa a menor porção de vida psíquica suscetível de ser considerada isoladamente.30 19. a saber: as senso-percepções. a associação de idéias. não é precisamente a agulha hafiestesiométrica. como atos e aspectos que surgem nas etapas do funcionamento psíquico integral e que vêm a constituir os diferentes matizes expressivos.Em Psicologia Clássica.sem fazer pressão . do mesmo modo. e em seus diversos usos ou aplicações. o julgamento. e o indivíduo então conhece ao mesmo tempo que reconhece o objeto que tem diante de si. e poderemos dizer então que experimentou uma sensação de luz. Assim exposto o problema. Segundo o qual a personalidade psíquica é única e indivisível. os sentimentos. que em nossa vida nunca ou quase nunca temos ocasião de experimentar sensações puras. Se em tais condições se filtra um raio de luz monocromática através de um orifício punctiforme (feito em uma das paredes do quarto). mas sim conjuntos das mesmas. as emoções e. quando alguma coisa entra em contacto com nossa pele. De outra parte ocorre que a grande maioria de objetos. em suma. mas por um foco luminoso (uma lâmpada. Do mesmo modo como no terreno morfológico. a pessoa notará um ponto luminoso se a incidência do dito raio em sua retina é perpendicular ao plano da mesma. mas ativa os traços que antes produziu (lembrança). as reações motoras voluntárias. Suponhamos uma pessoa colocada em um quarto escuro e em perfeitas condições de repouso físico e moral.uma finíssima agulha. De modo análogo. assim também para chegar ao conhecimento do funcionamento pessoal será conveniente considerá-lo em suas diferentes manifestações. a imaginação. Assim como o eléctron representa a menor parte que podemos conceber da matéria. seres e paisagens que nos rodeiam. o comum é que não sejamos impressionados por um raio de luz. a memória. denomina-se sensação ao ato ou impressão psíquica mais simples de que podemos nos dar conta. São os estímulos que já possuem em nosso psiquismo marcas. por fim. Que são as Senso-percepções? .

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Na mesma experiência psíquica (vivência) coincidem, portanto, o presente (sensações atuais) e o passado (imagem ou lembrança das sensações anteriores) graças a isso não temos dificuldade, geralmente, em averiguar a causa de nossas sensações, e a este processo em virtude do qual o indivíduo não somente se dá conta de que é impressionado por alguma coisa, mas também reconhece a natureza dessa alguma coisa, a classifica entre seus conhecimentos e lhe dá uma denominação que chamamos de percepção. Uma percepção não é, pois, mais do que um conjunto de sensações configurado, catalogado e diretamente relacionado com o estímulo ou estímulos que o produziram. Pelo fato de se processarem simultaneamente, (na prática) os conjuntos de sensações e as percepções correspondentes, se concordaram em englobar ambos os fatos psíquicos designando-os com uma só palavra: - senso-percepção. Quando nosso olho é impressionado por um corpo móvel, quando essa impressão reativa suas análogas anteriores, associadas a um nome e a uma experiência, surge o conhecimento identificador do estímulo e dizemos, por exemplo, "aí vai nosso amigo Pedro". Os psicólogos afirmam, então, que o percebemos, dando a entender com isso que nos impressionou, que nos lembramos dele e o reconhecemos e identificamos ao mesmo tempo. Por isso, o provador de vinhos treinado na percepção gustativa desses; descobre diferenças que não podemos apreciar, e o mesmo acontece com os diferentes profissionais, em seus respectivos setores, sem excluir os dedicados ao exercício do Direito e a sua proteção (isto é particularmente evidente na atividade de detetive, mas igualmente se dá em todas as demais atividades).

21. Que é Memória? – É a capacidade de fixar, conservar, evocar e
reconhecer os acontecimentos.O processo perceptivo não se esgota totalmente com a desaparição dos estímulos que lhe dão origem, pois doutra forma ser-nos-ia impossível reconhecê-los e adotar a conduta conveniente diante de cada um deles. Felizmente o tecido nervoso possui em maior grau que os demais, a capacidade de conservar latentes suas modificações estruturais para evidenciá-las no momento oportuno, dando lugar a uma revivescência de suas impressões - memória. Não há dúvida de que o processo mnêmico pressupõe diversos atos psíquicos; geralmente costuma-se incluir nele estes quatro: 1°. fixação das impressões; 2°. conservação; 3°. evocação e 4°. reconhecimento das mesmas. Isso é de suma importância, na Psicologia do testemunho, uma vez que na mesma pessoa podem se encontrar diversamente desenvolvidas estas fases de sua memória e, por conseguinte, é preciso examiná-las separadamente se quisermos saber que grau de confiança ou certeza podemos conceder a suas declarações. O fenômeno essencial da memória é o "ato evocativo", em virtude do qual a pessoa se projeta - em um especial esforço reconstrutivo - para o passado e procura colocar-se na mesma atitude ou postura de captação que determinou a percepção

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evocada, conseguindo assim, às vezes, reproduzi-la fragmentariamente. A concepção da memória é, pois, mais do que a "marca do passado no presente", a resultante da "retro-pulsão do presente para o passado". Havendo aqui essencialmente a intervenção da personalidade.

22. Que é a Imaginação? - Em realidade deve-se denominar imaginação
ao processo em virtude do qual, sob a influência de causas se reativam e combinam diversas imagens mnêmicas, ou fragmentos das mesmas, para constituir um composto que não corresponda a nenhuma sensação nem senso-percepção antes experimentada em sua totalidade. Assim a imaginação é um processo essencialmente criador que dá lugar a produtos sem existência real anterior, embora posteriormente a possam ter (como acontece com as obras de arte, as descobertas científicas etc.). Quando o processo imaginativo se desenvolve sem o freio crítico da razão, dáse-lhe o nome de fantasia O predomínio desta atividade nas funções pessoais dá lugar a um tipo especial de grande interesse legal, denominado confabulador ou mitômano, responsável por um grande número de intervenções forenses completamente desnecessárias.

23.

Que é Associação de Idéias? – Podemos dizer, que as idéias

são os produtos resultantes da fusão das lembranças, ou imagens procedentes de uma mesma classe ou categoria de estímulos. Disto se deduz que uma idéia será tanto mais completa e precisa quanto maior número de vezes, estivermos em contacto com os elementos de que resultar. Pois bem: um dos fatos mais importantes de nossa vida mental é a denominada associação de idéias, que, como seu nome indica, consiste na relação ou associação de todas nossas impressões (sensações, lembranças, imagens ou representações e idéias) de conformidade a certas leis (de semelhança e de continuidade), de tal modo que quando qualquer uma delas se torna consciente, outras tendem a tornar-se também associadas a ela. Assim, a visão de um objeto nos lembra não somente a de outros semelhantes a ele (por sua forma, seu uso, seu nome etc.) como também a daqueles que estão contíguos a ele (no espaço ou no tempo). A associação de nossas impressões se explica pela criação ou utilização de conexões ou vias nervosas entre os territórios neurônicos em que aquelas se produzem. Compreende-se facilmente, que a associação é um poderoso auxiliar da memória; já que ambas contribuem para que seja possível a revivescência e a lembrança de nossas impressões, independentemente dos estímulos que as originaram.

24. Que é a Capacidade de Julgamento? ou de Inteligência? - Eis outra pergunta difícil de se responder. Antes de tudo cabe
afirmar que não é nenhuma faculdade, nem estrutura, mas, uma resultante funcional de

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um conjunto de disposições em virtude das quais é possível ao indivíduo resolver os novos problemas que lhe são suscitados, utilizando para isso suas reações anteriores, mas ajustando-as e combinando-as, segundo as particularidades na nova situação. Podemos dizer que é a que permite aproveitar a experiência pessoal na solução das novas situações. Diante de todo problema cuja solução é desconhecida entra em função o julgamento ou inteligência, manifestando-se em três fases sucessivas, denominadas: delineamento ou compreensão, hipótese e crítica (comprovação lógica). Da mesma sorte que existem diferenças relativas na qualidade das distintas fases do processo mnêmico, essas são também observadas nos períodos de que se compõe toda operação intelectual e, assim, podem ser encontradas na vida pessoas muito aptas para compreender, outras para inventar e outras preferentemente dotadas para a crítica destruidora. Essas diferenças devem ser conhecidas pelos juristas que têm que agir nos tribunais, visto que em definitivo, conforme o tipo intelectual de seu oponente, deverá orientar sua informação de uma ou de outra forma. Tinha razão quem dizia que às vezes é mais interessante para o advogado conhecer a psicologia dos juízes que a psicologia de seus clientes.

25. Que é o Curso do Pensamento? - Dá-se este nome ao fluxo
ordenado dos conteúdos significativos, ligados uns aos outros, não somente pela força associativa, mas também por uma tendência diretriz que os seleciona e orienta de acordo com diversas leis ou princípios. Conforme for o resultado desta seleção o curso será mais ou menos tortuoso e confuso, oscilando entre a incoerência (observável nos momentos que precedem ao sono) e a nitidez meditativa. Além do mais, importa saber que no curso da evolução da mente humana os pensamentos foram orientados por vários tipos de critérios entre os quais cabe citar, o "mágico" e o "lógico". Os dois princípios essenciais do pensamento mágico (que vive ainda nos mitos, fábulas, tradições e sonhos atuais) são precisamente os que também se observam, implicitamente, nas leis da associação por contigüidade temporal espacial e por semelhança. Importa para o jurista lembrar estas duas leis do pensamento mágico, pois que elas regem o enlace discursivo dos débeis mentais, de muitos desequilibrados passionais e de não poucos indivíduos normais que se encontram em estado tóxico (por alcoolismo, fadiga, sono etc.). Ao contrário, o pensamento lógico - que somente se exibe em estados de total ou relativa "neutralidade" afetiva - se rege por vários princípios entre os quais se destacam, como é sabido, os de "contradição", "causalidade", "integração", "simplificação", "inferência" etc.,

26. Que são os Sentimentos? - Os sentimentos são mais facilmente
sentidos do que compreendidos “a tradução consciente das tendências de reação que tiveram origem em nossas impressões”. De um modo vulgar podemos dizer que o sentimento é o que anima, colore e vivifica nossas senso-percepções, representações e

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idéias, dotando-as de um cunho de personalidade e de uma força ou intensidade de incitação que é a principal responsável por nossos atos. Se em nossa vida mental não existissem sentimentos e se nossas operações psíquicas deslizassem sob a fria rigidez existente nas máquinas de cálculo, por exemplo, a existência se mostraria tão pesada que não valeria a pena vivê-la (e isso explica a tendência ao suicídio que se observa nos casos de depressão afetiva endógena). Se considerarmos o número de conteúdos psíquicos aos quais se pode ajuntar um sentimento, veremos que é enorme e isso fez originar a crença leiga de que são também infinitos os sentimentos. Não há tal coisa, pois os sentimentos elementares não são mais do que dois: o prazer e o desprazer (considere-se que este não deve se confundir com a sensação de dor, pois em determinadas pessoas e circunstâncias é possível que uma sensação dolorosa se mostre agradável e proporcione gozo ou prazer). Que se quer dizer então quando se fala de sentimentos de honradez, covardia etc.? Simplesmente que as idéias de honradez, covardia etc., se acham providas de um tono sentimental ou afetivo, que sendo positivo (prazer) engendrará um sentimento de honradez, covardia, confiança etc. Os dois sentimentos elementares, (prazer e desprazer) além do indefinível estado de gozo ou moléstia que proporcionam, dão origem a uma série de modificações corporais, em virtude das quais é possível chegar a conhecê-los externamente quando são suficientemente intensos. Assim são próprios do prazer a respiração ampla e profunda, o pulso tenso e regular e a vasodilatação ou rubor da face, ao passo que costumam ser encontrados no desprazer os sinais opostos; respiração acelerada e superficial, pulso rápido, pequeno e irregular, palidez facial e maior tensão muscular. Mas, logo que estas e outras alterações se tornem ostensivas a ponto de serem percebidas pelo próprio indivíduo e por quem o rodeia, tem origem um estado psíquico que recebe um nome especial – Emoções.

27. Que são Emoções? - A emoção é precisamente um estado de
sentimento exagerado. (e acompanhado de alterações somáticas mais extensas e intensas). O estado emocional sobrevem no indivíduo sempre que entram em jogo sua vida, seus interesses pessoais ou morais, os de sua família ou os da espécie. Isto quer dizer que a emoção parece ligada a tudo que contribui de um modo direto para o progresso ou o prejuízo do ser humano a função emocional aparece neste aspecto como um mecanismo primitivo de proteção do ser e da espécie. Os psicólogos mais afirmam que as emoções primitivas são o medo, a cólera e o amor ligadas respectivamente à tendência defensiva, à tendência ofensiva ou agressiva (instinto de conservação individual) e à tendência reprodutora eu sexual (constituindo o instinto de conservação da espécie). O medo e a cólera correspondem ao sentimento elementar de desprazer; aquele nos impele a fugir ou evitar os estímulos que julgamos daninhos; esta nos leva a destruí-los. Por um ou por outro mecanismo não há dúvida de que ambas as emoções tendem em suas formas leves, para a conservação do indivíduo. Deve-se ter em conta que a emoção do medo é mais básica do que a da cólera. Por isso, quando no encontramos diante de um perigo, nossa primeira intenção é fugir

ou então podem ser acompanhados de consciência. logo se convencerá observando uma disputa. Que são Reações Motoras Voluntárias? . ou sejam.Todas as nossas impressões psíquicas tendem a exteriorizar-se sob a forma de atos. . enquanto se encontram sós. ou pré-ações. seus braços movemse com energia e ameaçam agredir. ao contrário. torna-se prudente (primeiro estágio do medo) e sossega. cuja importância é enorme em jurisprudência. buscar um punhal. até que nos mobilizamos para alcançá-lo ou para destruí-lo.. Desde a simples apetência ou repugnância até a conquista ou fuga. pois de seu estudo pode evidenciar-se em muitos casos o "molde" do delito ainda não consumado (mas já preformado e diferenciado). afiá-lo e deixá-lo em lugar seguro não pode afirmar-se que constituam atos de conduta criminosa. uma vez percebida a mudança da situação exterior. é idêntica a força dominante ou diretora de nossa conduta: o instinto de conservação. Quem o duvidar. o anteriormente colérico. Com efeito. Desde que "desejamos" ou "temos" algo. mas sem parecer que podemos detê-lo. mais cedo ou mais tarde. modificou a atitude de ambos os indivíduos de um modo – isto é o importante – completamente independente de sua vontade. uma reação objetivável (movimento muscular ou secreção glandular). surge uma ajuda para o deprimido de um transfert emocional: o anteriormente medroso se enfurece agora. sua voz torna-se forte. às fases conativas do ciclo psíquico. Sem chegar a uma conclusão tão absoluta. sobrevém uma brusca mudança emocional e nos lançamos ao ataque ou destruição do mesmo. correspondem. em ambos os casos. realizamos microatos (isto é.por detrás de nosso rosto. Que são as Conações? -Designam as pré-ações. o mais fraco dos contendores. mostra-se medroso. cuja síntese momentânea delineia uma "postura mental "ou "atitude" que se expressa em formas corporais mais ou menos típicas. precisamente. Assim. Tais "esboços" íntimos.35 dele. por exemplo. dentro . há quem sustente que a vida mental seria impossível sem relações motoras. isto é. seu rosto fica pálido. Ou.ou melhor . dá explicações e mal levanta a voz ao passo que seu adversário gesticula e agita as mãos irado. sua voz baixa de tom. atos invisíveis e implícitos) que às vezes nos fazem sorrir ou estremecer sem que os que nos observam compreendam o que ocorre.. entretanto. Pois bem: estes atos podem sobrevir de um modo reflexo. Mas. inconsciente. Pois bem: do mesmo modo. a ocasionar. condensam-se na mente de qualquer de nós uma série de intenções. ou reações motoras voluntárias. 29. caso em que parecem intencionados pelo próprio indivíduo e se denominam voluntários. é evidente que os movimentos desempenham um enorme papel em nossa psicogênese e na integração pessoal. sucedem muitos fenômenos na corrente de nossa consciência. mas não há dúvida de que são seus prolegômenos. Os movimentos voluntários. determinam a afetividade de nossa conduta perante o mundo. uma pessoa desprovida de todo movimento seria tão ineficiente para si e para a sociedade como qualquer outro objeto inanimado. Isto significa que o instinto de conservação. as fases do ciclo psíquico que se intercalam entre os sentimentos (atrativos e repulsivos) e os atos de conduta explícita. 28.

ao contrário. aparentemente inerme. até criar-se uma vida interior. incapaz de evoluir no tempo. de suma importância para o jurista. não pode de modo algum ser concebida como alguma coisa rígida e estática. e com garantia de acertar os movimentos voluntários dos involuntários? CAPÍTULO III. isto é. Isto sem contar que somente graças aos movimentos voluntários nos é possível comer. Como se compreende a extraordinária variedade de atos delituosos. tem de comum. mas também sem consciência de sua execução. A personalidade. está condenado a morrer em poucas horas se não velarem por ele seus progenitores.. uma norma geral de evolução da personalidade. tamanhos e distâncias etc. Levando em conta. Surge então imediatamente a pergunta: é possível distinguir objetivamente. andar. falar. sem seu conhecimento não chegará nunca a compreender devidamente os problemas psicológicos suscitados por seus clientes.. que lhe é transmitido pelo misterioso ato de herança. síntese funcional do organismo humano. o caráter de serem voluntários (por ação ou por omissão. o indivíduo modifica-se com a idade e. as diferenças . PROCESSOS GERAIS DA ADAPTAÇÃO PESSOAMEIO EVOLUÇÃO DA PERSONALIDADE. como acontece nos denominados delitos por negligência ou imprudência) e isso faz com que a defesa do processado se baseie muita vez na demonstração de que o ato sub judice foi cometido não só sem intenção. traz consigo um potencial energético considerável. desenvolver com este uma série de reações de relação cada vez mais complexas. escrever. de um modo impulsivo ou reflexo. até certo ponto. Existe.36 Graças a eles educamos nossas funções sensoriais. pois. para serem julgados como tais. que o elevará à categoria de ser consciente. ou quem os substitui na missão tutelar. Vejamos em linhas gerais em que consiste esta evolução: O homem vem ao mundo em condições verdadeiramente deploráveis: incapaz de valer-se por si mesmo. do mesmo modo como as marcas desta alteração se traduzem em modificações corporais morfológicas. impostas por múltiplas circunstâncias. de autoconhecimento. externas e internas. aprendemos a conhecer as formas. localizamos nossas sensopercepções. dão lugar também a alterações do aspecto de sua personalidade. a partir da diferenciação sexual. dotado de uma personalidade bem manifesta. Mas o recém-nascido. DINÂMICA DA PERSONALIDADE 30. e em virtude dele será possível. utilizando os estímulos do meio em que vive. através dos anos e sofrendo mil alternativas. Como se efetua este processo de criação e integração? Lenta e penosamente.

Nesta idade em que o pensamento começa a manifestar-se é quando melhor podemos nos dar conta da natureza fundamentalmente egoística do homem.Período dos Interesses Glóssicos . a saber: durante a infância. tudo o que é novo a interessa de um modo absoluto e extraordinário. a criança só se interessa . passa a duplicar-se ao começar o terceiro. a saber: 1° . Antes que desapareça a avidez colecionadora de palavras. É a chamada idade interrogante. maturidade e senilidade. 3°-Período dos Interesses Intelectuais Gerais. Neste período a criança é ainda incapaz de reconhecer as propriedades intrínsecas dos objetos. e ao receber o nome fica muito satisfeita. imitando os que ouve dos lábios dos que a rodeiam. Um pouco mais adiante a criança apresenta um extraordinário interesse por conhecer o nome das coisas que vê e dos dois aos quatro anos dedica-se a uma verdadeira caça de palavras. a) A Infância . Com efeito. cumprindo a lei biológica do utilitarismo. Mal percebe um novo objeto pergunta o que é.Período dos Interesses Perceptivos .Ao começar o segundo ano. suas relações e sua finalidade. pelas pessoas e objetos (meio) que imediatamente a rodeiam. ao iniciar-se o quarto ano de vida. tudo quer provar. Podemos subdividir a etapa infantil da personalidade em quatro períodos. "palpável". 2° . Por condicionalização reflexa começa a associar. entra a criança em um período da maior importância de sua evolução psíquica: o do desenvolvimento da linguagem. a criança começa a preocupar-se em saber a origem das coisas. a característica essencial desta etapa é a curiosidade nela desenvolvem-se os interesses pessoais fundamentais. isto é. embora deixem muito a desejar quanto à sintaxe. cada vez com maior precisão as imagens visuais com determinados sons que produz seu aparelho de fonação. desde que sejam suscetíveis de movimento ou aplicação para o desenvolvimento de seus sentidos e seus músculos.37 psicológicas que indubitavelmente existem entre o homem e a mulher. baseados no processo chamado de experimentação aquisitiva e que se caracteriza pela presença na criança de uma verdadeira mania experimentadora: tudo ela quer imitar. sua constituição. "tocável". todo objeto novo é um tanto "chupável". o caudal de vocábulos do Senhor Bebê rapidamente se enriquece. Graças a esta curiosidade lingüística. e tudo o que tem adiante é considerado globalmente em função da conduta sensorial que determina. durante a qual o pequeno não se cansa de formular perguntas (para quê? por quê?) algumas das quais chegam a por em perigo a tranqüilidade dos pais.Do ponto de vista psicológico. .Durante este período a criança se sente atraída pelo que excita diretamente seus sentidos. e de dez a vinte palavras que era seu patrimônio ao finalizar o primeiro ano. "quebrável" etc. estado adulto. no curso deste a criança já constrói orações. A evolução da personalidade deve ser considerada em cinco grandes etapas. juventude.

ocupações e problemas mais concretos. Ela tem razão em pensar como pensa e os demais também. em um ou em outro plano psíquico. sua atitude sentimental se caracteriza igualmente então pela ambivalência. a personalidade supera o caos em que vivia e aprende a movimentar-se. . tais como perceber. o vento ou a noite adquirem forma corporal etc. e a outra dependente da concepção realista objetiva. A criança passa paulatinamente de uma fase na qual toda sua atividade psíquica se desenvolve em um plano a outra em que se diferenciam as duas realidades: subjetiva e objetiva. uma mamãe é para dar comida e cuidar de mim. passando a ponte da realidade para a fantasia e vice-versa.38 pelo aspecto . e concentra-se. em virtude da qual a criança não pode distinguir bem as sensações das representações. medir ou avaliar o espaço. pela simples razão de que não tem experiência de seus erros. com perfeito conhecimento de causa. a) Modificação geral da atitude de reação da criança ante o mundo. entre os dez e doze anos. isto é. a seu gosto. Aos três a seis ou sete anos se perguntarmos o que é uma cadeira. diante de cada situação. por isso. “à sua imagem e semelhança". Concebe o mundo. etc. uma boneca é para brincar. Está convencida de possuir a verdade absoluta. Há um curioso estádio intermediário no qual a criança aceita a coexistência das duas realidades distintas e igualmente válidas e verídicas. as árvores falam. como um ser divino. neste estágio. isolando-se no interior de sua forma corporal. o verdadeiramente real do imaginário. projeta nele sua personalidade e infunde a vida nas coisas inanimadas dotando-as de consciência e linguagem. Mas a vida é dura e pouco a pouco a criança tem ocasião de convencer-se de que os demais não pensam como ela em muitas ocasiões. pela possível coexistência de tendências de reação apostas ante um mesmo estímulo: uma ditada por sua concepção autista. buscar a causa direta ou o por quê imediato dos fenômenos que observa. exprimir seus desejos pela linguagem. do eu e do mundo. dos sete aos doze anos. as pedras se movem. a criança é capaz de passar por cima de todos os princípios da lógica e afirmar ao mesmo tempo duas relações contrárias (negação do princípio de contradição). a interna e a externa.das coisas que lhe podem ser proveitoso conhecer e pelo uso que pode fazer delas. professores e adultos que a rodeiam. 4° Período dos Interesses Especiais . Esta é uma especial função psíquica que se esforça em reconhecer. interna e externa. em todas as fábulas e criações espontâneas da criança as coisas têm intenção. sumamente pitoresco.Uma vez desenvolvidas as funções psíquicas gerais. Por conseguinte. que lhe é continuamente infiltrada por seus parentes. O pensamento mágico corresponde a esta projeção da incipiente personalidade infantil para o exterior. adaptar seus movimentos. em projetos. ou fantástica. à medida que vai encontrando resistências na satisfação de seus desejos e na aprovação de sua conduta. o interesse infantil se especializa. Finalmente. seus . nos responderá: é para sentar-se. ela vai se sentindo oposta ao meio e sua personalidade vai se recolhendo e retraindo do mundo. graças à atuação do denominado ''juízo de realidade".

b) aquisição da responsabilidade social e. mas a dificuldade de estabelecer limites cronológicos entre os mesmos e por outro lado o ter todos de comum o caráter de transição e instabilidade dos fenômenos psíquicos neles observados. como tal. nos faz preferir uma descrição global. alternando com crises passageiras de medo do mundo (regressão ao período infantil). A característica essencial. relaciona-se. diante da sociedade. Ninguém estranhará se dissermos que estes fatos crescem em importância na mesma ordem de sua formulação. o "desejo" da "ação" e o plano "intelectual" do plano "motor". de transição entre um "já não" e um "é".É o final da infância e o estado adulto. Três fatos fundamentais caracterizam esta etapa: a) aparição do pensamento abstrato. puberdade e juventude propriamente dita). que lhe embaraçam o ânimo e pela primeira vez em sua vida franze o sobrevenho ante o interrogatório de seu destino: qual será seu papel na vida? que lhe reserva o futuro? que direção tomará diante das interrogações filosóficas gerais? Momentos em que o coração manda que continue sendo menino e a razão o impele a pensar como homem. O indivíduo classifica e sintetiza sua bagagem de experiências infantis e estabelece seus conceitos e crenças gerais. Inversamente. o término do desenvolvimento da sexualidade. o "sonho" da "vida". Finalmente. A maioria dos autores divide esta etapa em vários períodos (adolescência. a incipiente lógica e o raciocínio do jovem encontram dificilmente seu caminho de atuação através dos remoinhos sentimentais que em seu espírito promove o funcionamento da glândula . mais transcendentais. A consideração destes fatos psicológicos é da maior importância para compreender múltiplos problemas suscitados pela delinqüência infantil. por conseguinte. que nesta etapa adquire o definitivo impulso para seu desenvolvimento. expressa por um "ainda não". da época juvenil da personalidade . Nesta idade que bem poderia ser denominada a idade dos contrastes.é a organização. da capacidade de estabelecer relações lógicas entre conceitos gerais (sem existência no mundo fenomenológico). Ao mesmo tempo descobre novos problemas. daí o desequilíbrio que caracteriza esta época juvenil. como se pode imaginar. até então não suspeitadas. toda a afetividade encontra-se exagerada e transformada ao ter que se adaptar a novas concepções ideológicas. com suficiente precisão para adotar a conduta social conveniente em cada caso.39 caracteres de realidade ambiental ou subjetiva: em virtude dela a criança aprende a distinguir a "diversão" do "trabalho". psicologicamente falando. isto é. Com a maturidade do denominado instinto sexual. avaliação e ponderação dos conhecimentos concretos que até então foram adquiridos. o exagero da agressividade e o desejo de independência. o começo da ação do indivíduo. O menino sente-se homem e a menina mulher antes de o ser em realidade. b) A Juventude . c) finalmente. coincidindo com a denominada "crise puberal".

Período que compreende aproximadamente o terceiro. graças aos quais podem chegar a realizar-se sem causar um maior mal-estar à consciência moral. sem ter que lutar ainda com o inconveniente do desgaste e declínio do organismo. até então absorvida por ela. De modo geral pode dizer-se que a família. acusando o máximo vigor e permitindo. depressivo). não se encontra absolutamente preparada para favorecer a normal evolução da personalidade do jovem. um ligeiro predomínio de qualquer deles e já nos encontramos diante de um tipo de personalidade mal preparado para a vida social e. Muitas vezes esse é o motivo através do qual se trata de conseguir anormalmente o que não lhe foi possível obter normalmente (dinheiro. apto para . seu melhor reconhecimento e classificação. isto obriga o adolescente a dissimular sua própria personalidade em sua casa. o da realização imaginária e o de substituição ou sublimação. 31. Sem dúvida é agora que melhor se acentuam as diferenças psicológicas entre o homem e a mulher e. do maior egoísmo e do mais sublime altruísmo.40 sexual endócrina (testículo ou ovário). De outra. o meio afetivo mais imediato. por conseguinte. a saber: os mecanismos catatímicos (mau humor. porque durante ela é quando ambos rendem seu maior trabalho útil para a sociedade. Período de equilíbrio entre a atitude agressiva e romântica juvenil e a atitude medrosa e positivista da velhice. uma vez que não a querem reconhecer sem penosas restrições. peço vênia para resumi-Ias brevemente. satisfação amorosa etc. sem conhecer se seus fatos atuais correspondem ao observado em sua infância. c) Estado Adulto. por isso. Do equilíbrio entre aqueles e estes resulta a conduta normal da personalidade. por conseguinte o caminho seguido se aproxima da linha reta. Isso é devido a que o valor das forças em jogo é sensivelmente igual. os desejos (expressão consciente das tendências de reação) têm à sua disposição outros três meios. Nesta época podem dar mostras. de uma parte temos em pleno funcionamento os três mecanismos psíquicos gerais de adaptação. mercê dos quais o adulto chega a conformar-se à satisfação de seus desejos. ao mesmo tempo. . por conseguinte.). por isso. a saber: o mecanismo de negação. de projeção e de racionalização. a personalidade pode aproveitar todos os hábitos e experiência até então adquiridos. Poucos são os pais que sabem deixar de o ser para converter-se em irmãos ou em amigos. isto é. O estado adulto constitui a denominada etapa produtiva do homem ou mulher. PERSONALIDADE ADULTA DO HOMEM Quais são suas características essenciais? O fato saliente na personalidade adulta normal masculina é sua capacidade de adaptação e de resistência às contrariedades da luta pela vida. quarto e quinto decênios da vida. nele encontramos a personalidade em pleno esplendor. da mais fina sensibilidade e da mais fria indiferença ou impermeabilidade sentimental. Com efeito. devemos evitar bastante em estabelecer um prognóstico da definitiva evolução moral ou caracterológica de um jovem.

3º. a não ser que seja possível privá-la também de todo sentimento. Assim. NEGAÇÃO DO DESEJO .Este é o meio mais eficaz de adaptar-se a um desejo irrealizável e também é o mais desenvolvido no adulto normal. perdia este por cair o pote com leite que levava em sua cabeça. 2º.por meio de repetidas negações . Uma pessoa desprovida inteiramente desta possibilidade. O desejo é. As pessoas que o possuem em excesso "vivem de ilusões" e se encontram constantemente em situação parecida à da leiteira do conto . que não são movidas por nenhum "interesse". enquanto imaginava conquistar o príncipe com os vestidos comprados por meio do produto da venda do leite. Quantas pessoas se apresentam ante o advogado pedindo sua intervenção em assuntos econômicos ou familiares e afirmam. REALIZAÇÃO IMAGINÁRIA DO DESEJO . e somente guiada pela lógica objetiva. graças ao qual nasce a confiança em si mesmo toda vez que alguém se encontra em uma situação difícil de se resolver.os motivos de sua conduta neste aspecto! Alguém disse que uma negação demasiado enérgica é uma afirmação. canalizando-o em certo modo e fazendo-a dirigir-se por um caminho em que não tropece com obstáculos invencíveis. Vejamos em que consiste a atuação destes seis mecanismos: 1º. agora vemos o porquê dessa asserção. muito seriamente. sofrerá muito mais na vida. Consiste simplesmente em desviar a tendência. que. por assim dizer. se não se tem uma boa espingarda e se não se é um bom atirador". mas também a mais ineficiente. no qual encontra agora múltiplos defeitos e inconvenientes. Do mesmo modo. SUBLIMAÇÃO. via de regra mais desenvolvido no jovem que no adulto e na mulher do que no homem. E o pretendente desprezado adapta-se à privação do objeto de seu amor. o concorrente que fracassou chega a convencer-se de que nunca havia desejado o lugar que não obteve. satisfeito desde que se consiga por este meio descarregar a energia que traz . SUBSTITUIÇÃO OU TRANSFERÊNCIA . muitos "sonhadores" deixam escapar mil oportunidades de realizar verdadeiramente seus desejos por se encontrarem absortos em sua satisfação imaginária e não se lembrarem do velho provérbio de que "mais vale um pássaro na mão do que cem voando.. Mas.41 entrar em conflito com as leis e consigo mesmo. Consiste simplesmente em apresentar objeções ao fundamento do desejo até o indivíduo se convencer de que seu desejo desapareceu. porque realmente chegaram a ocultar à sua própria consciência .A adaptação por negação do desejo é a forma mais simples. denegrindo-o ou dizendo que antes "tinha uma venda nos olhos" que o impedia julgá-lo tal como é. em maior ou menor grau todo mundo possui este mecanismo de adaptação imaginária. ou desejo.também de La Fontaine -.Eis aqui outro meio de adaptação..

agora pode ser fator de progresso. a mãe antes citada corre como louca ao médico dizendo que "seu filho abriu a cabeça". a energia dessas pode ser aproveitada de modo que se tome útil para a vida coletiva. Isso se explica porque o exagero do mecanismo catatímico é próprio de uma especial modalidade de personalidade (resultante do temperamento chamado ciclotímico). ou intelectual. embora não tenha por isso mudado seu destino definitivo: o mar. o amante vê em sua amada o modelo de todas as perfeições. deveríamos dizer: "tudo é visto de acordo com o que se deseja ver". em vez de dizer: "tudo é visto da cor do vidro com que se olha". Mas hoje sabemos que o elemento gnóstico. o inimigo que odiamos nos parece dotado de todos os defeitos. Do mesmo modo. Nas mesmas pessoas em que se encontra exagerado um destes modos de percepção aparece exagerado o outro. Mercê da sublimação de nossas primitivas tendências de reação. apenas parcialmente. Se algum traço é essencialmente característico da fase adulta da personalidade. por assim dizer. é secundário e constitui somente a roupagem ou vestido do elemento afetivo que a troca com igual facilidade como nós mudamos de roupa. um rio que antes transbordava e ocasionava danos. . e a catatimia atua então de um modo aparentemente inverso ao enunciado. na qual o fundamental é precisamente o predomínio do estado afetivo (humor) sobre todos . mas como queríamos que fossem. mediante a qual essa pode manter sua saúde mental apesar da constante reação do meio. 4º. Esses mecanismos são a catatimia. se um objeto nos agrada. Este mecanismo de adaptação foi perfeitamente ilustrado e descrito pela escola psicanalítica que vê em seu desenvolvimento a válvula de segurança da personalidade.Em virtude dela nossa percepção sofre a influência de nossa tendência afetiva: vemos as coisas não como são. mercê da canalização. Mas existem outros três mecanismos que permitem às vezes que essas tendências sejam abertamente manifestadas pela produção de uma mudança na concepção que das mesmas tem o indivíduo ou os que o rodeiam. Os grandes otimistas são também os grandes pessimistas. achamo-lo barato etc. é precisamente o predomínio que nela adquirem os processos de sublimação sobre os restantes mecanismos gerais de adaptação. Os três processos que acabamos de descrever têm de comum o fato de que pressupõem certa mudança ou modificação na intenção primitiva da reação afetiva que chega a se realizar. da mesma sorte que. De passagem. deve-se chamar a atenção para o fato de que toda sublimação pressupõe a possibilidade de que a energia afetiva se desloque ou translade de um a outro conteúdo mental. por exemplo. Assim. Vice-versa. A mãe vê seu filho como a mais bela criatura da redondeza. Mas aqui surge uma complicação do maior interesse: em muitas ocasiões a influência da tendência afetiva é exercida em sentido negativo. de sorte que às vezes parece como se víssemos as coisas como não quiséramos ver. CATATIMIA. a projeção e a racionalização.42 acumulada. o amante julga que sua amada não o quer suficientemente etc. mas em troca não o é desde que os atos realizados não correspondam à intenção primitiva daquele. quando em realidade fez um galo sem importância. Em uma palavra.

desempenha um papel primordial em todas as declarações forenses. tão importante que se não aguçamos nossa critica ao aceitá-las poderemos nos ver depois obrigados a chegar logicamente a conclusões falsas. no segundo nos julgamos ofendidos quando somos nós que ofendemos. Como seu nome indica. achando-se no jardim zoológico com seu avô e tendo se assustado por uma reação de cólera de um dos exemplares enjaulados. o que melhor pode ser evitado voluntariamente. se quiser poder destruir sua perniciosa ação. Em realidade. não têm que lutar com a censura moral para serem satisfeitas. como se diz vulgarmente. e é preciso de toda a severidade do raciocínio lógico. Exemplos concretos deste mecanismo (freqüentemente observado nos tipos vaidosos e nos medrosos) são a facilidade com que nos parece que somos correspondidos em nossos sentimentos amorosos reprimidos e a facilidade com que nos sentimos ofendidos por qualquer ação de uma pessoa que odiamos. é típica a reação projetiva em que seu filho. A racionalização. o rábano pelas folhas.Este mecanismo é também de particular importância. 5º PROJEÇÃO. porque tu estás com muito medo". RACIONALIZAÇÃO . como se depreende. A formulação das premissas é. A realização imaginária dos desejos é própria da juventude e a projeção é mais própria à velhice. E isto é o que ocorre ao paranóico em condições normais e o que tende a ocorrer no indivíduo normal quando se encontra na anormal situação que o obriga a recorrer ao advogado. A propósito.43 os demais fatores integrantes da reação pessoal. tanto de acusados como de acusadores.Este é o nome que se dá ao mecanismo em virtude do qual os pretextos são erigidos em razões para justificar a posteriori uma ação que se realizou ou vai se realizar em desacordo com o juízo ou censura moral. origem de conflitos e litígios nos quais aquele deve intervir profissionalmente. por conseguinte. No primeiro caso nos julgamos amados quando realmente somos nós que amamos. as diferenças de um indivíduo para outro não são mais acusadas que as que existem nos diferentes períodos da evolução pessoal de um . projeção é um mecanismo presente desde os primeiros anos da infância e representa uma forma anormal de satisfação afetiva que alcança seu valor mínimo no adulto normal. . Graças à "projeção" nossas tendências afetivas exteriorizadas e colocadas artificialmente no meio. o mais consciente e. a causa de suas ações (tomando. com efeito. Mas é claro. 6º. de todos os mecanismos até agora descritos. A racionalização é. invertendo a seriação cronológica e etiológica real dos processos). isto é. de quatro anos. puxa a manga do velho e diz: "Vamos embora. ou situar fora do indivíduo. e o jurista deve conhecê-lo perfeitamente. pois é o responsável por um grande número dos denominados delírios de perseguição. Variedade especial deste caso é o temor de ser perseguido pela pessoa ou instituição cuja amizade ou proteção é ardentemente desejada. precedida de uma fina seleção do material de fatos que serão discutidos. que. consiste em projetar.

lactação. cuidado e educação dos filhos são funções completamente estranhas ao homem. por ex. mais tarde. em primeiro lugar. por assim dizer. e conquistador ou produtivo do homem. que tem. A maioria destes termos são: por si mesmos compreensíveis. mais do que o homem da mulher. o ciclo funcional da mulher neste aspecto pode dizer-se que começa quando aquele acaba e se desenvolve num período de tempo muito mais extenso ou. A regressão é o retomo ao uso de respostas já utilizadas e deixadas atrás no curso evolutivo. propende a isso. invertendo totalmente o sinal da conduta desejável. maior tempo e energias para cuidar de outras atividades. o máximo ideal da mulher é.44 mesmo indivíduo. f) O onirismo coincide com a denominada realização imaginária. PERSONALIDADE ADULTA DA MULHER Se o ideal do homem adulto normal é. Casada ou não. a mulher necessita depender de um homem. e) A dissociação consiste em escotomizar. Tudo quanto quiser ignorar este papel predominantemente conservador e matriarcal da mulher. em condições normais.) b) O egocentrismo consiste em "armar escândalo" e ''tomar atitude" até conseguir o desejado. exagerando o próprio desamparo. pelo menos. contando com a tolerância dos demais. Gravidez. como meio de assegurar sua vida e a de sua família. sem dúvida. 32. por meio da ótima administração do poder (moral ou material) que seu companheiro lhe proporciona. psiquicamente fagocitado e passa a formar parte do acervo individual (o indivíduo deixa de odiar o rico no dia que se julga ser rico. a) A identificação consiste em superar o conflito mediante a absorção do obstáculo que é. a conduta sexual é inteiramente distinta em ambos: ao passo que a função sexual começa no homem pelo incentivo ou interesse pela feminilidade e termina no ato da ejaculação. a unidade funcional da pessoa. conservador no sentido de que tende ao cuidado e conservação do lar. De outro lado. para a dissolução da célula social: a família. c) O simpatismo é o toque à comiseração alheia. criando uma vida à parte dele e rompendo. isolar ou enquistar o núcleo do conflito. ou à conquista. . d) O negativismo consiste em reagir de modo oposto. por conseguinte. assim. é antibiológico e tende. aquisitivo e o impele para o trabalho. O espírito de independência e sua maior agressividade inata impelem o adulto masculino a mudanças mais freqüentes em suas atitudes apetitivas do que na mulher. parto. por isso devemos nos mostrar cautelosos ao formular leis gerais neste aspecto.

por motivo idêntico. Mas. Nele ocorrem importantes mudanças motivadas não só pela involução iniciada em todo organismo. De modo geral. Isso faz com que esta idade lembre a da juventude pela violência de suas paixões. não é necessário . todavia. . E vice-versa. nunca. sem dúvida sob a influência das modernas concepções sexológicas. em troca. diremos. foram tão fundas suas crenças nem tão profundo seu individualismo. de sorte que os indivíduos esquizóides (geniosos. Com efeito. Por conseguinte. Parece por isso ser. com efeito. deixando de lado a infância.). não há dúvida de que a violência é mais usada pelo homem e a astúcia pela mulher.fazer um quadro geral dos traços essenciais desta etapa da evolução pessoal. É claro que se torna difícil e. Assim. tímidos ou severos) tendem . as pessoas que se acham neste período da vida são mais difíceis de tratar do ponto de vista psicológico. Do ponto de vista criminológico. esta é a idade em que custa mais sugestionar ou convencer a personalidade. os motivos que impelem o homem ao delito costumam ser mais pragmáticos ou de imediata utilidade do que os da mulher. mais sugestionável aquela do que este. uma atitude de cepticismo é. em geral. Por isso.45 Mas esta diferença nos fins vitais do homem e da mulher adultos dá origem também a um distinto comportamento de ambos ante os problemas legais. é capaz de se mostrar completamente ineficaz na segunda. Um matiz pessimista colore toda atividade feminina neste período. Sem temor de objeção fundamental. a) Maturidade . amiúde.O período de tempo compreendido entre os 45 e 55 anos na mulher e entre os 50 e 60 no homem (aproximadamente. que é muita vez nela que se cometem os maiores disparates. O homem. mas também especialmente pela cessação ou diminuição da atividade genital normal e pela alteração das relações familiares (independência dos filhos. uma beatice com falsa aparência de humildade. é claro) oferece particularidades de sobra para estudar a evolução da personalidade. ao passo que a maioria dos litígios promovidos pelo homem tem por base uma questão econômica. os promovidos pela mulher derivam em primeiro lugar da existência de um conflito afetivo. é neste período que as tendências egoístas da personalidade adquirem seu máximo desenvolvimento e fazem sua máxima ofensiva para uma satisfação epicuriana. A visão da velhice próxima parece. por outro lado. tende a considerar os assuntos de um ponto de vista mais geral e objetivo. exasperar de certo modo o desejo de desfrutar o que se pode da vida. diremos que. Jung assinalou. a mulher guia-se em suas apreciações pelos pequenos detalhes e sente mais do que compreende as situações. além do mais. a resultante da situação na personalidade masculina. sua posição perante a lei. A lógica do homem e a intuição da mulher fazem sentir por outro lado. em troca. em primeiro lugar. que neste período se observa. um argumento ou raciocínio que pode fazer mudar de critério o primeiro. promoção a posições sociais ou profissionais diferentes etc. como agora. de um modo distinto. a inversão da fórmula afetiva pessoal. não sendo tampouco raro que se desperte.

alegres. . A menor vitalidade. apesar de sua boa fé. a vida social está organizada de tal modo que quando o indivíduo chega a recolher o fruto de seu trabalho ou esforço anterior não se encontra. mas existe. preparado para desfrutá-lo e administrá-lo devidamente. ao passo que no velho predominam a tristeza e o medo (insegurança. Com efeito. A atenção se debilita. que justifica a asserção popular segundo a qual o velho é "um menino com barba branca"). e é que a tonalidade sentimental da criança é via de regra alegre e seu ânimo ousado. a obscura percepção de seu déficit interior quando aliás se alcança na vida social a máxima posição profissional ou política predispõe o velho à desconfiança.Os limites desta etapa são impossíveis de serem fixados. ao passo que as pessoas ciclóides (expansivas. A característica essencial deste período é a progressiva diminuição da eficiência das funções psíquicas. Os endocrinologistas fizeram notar também que o homem tende a feminilizar-se e a mulher a virilizar-se. E o resultado é uma série de conflitos e dissabores que dão à velhice uma tonalidade de tristeza e sofrimento. uma diferença essencial do ponto de vista afetivo. via de regra.os máximos bens materiais ou espirituais. mas em todas essas mudanças não é possível a influência dos fatores ambientais. do mesmo modo que a capacidade de fixação de estímulos.no bom ou no mau sentido . De um modo geral. própria desta concepção de seu valor. . DIFERENÇAS PSICOLÓGICAS FUNDAMENTAIS ENTRE AMBOS OS SEXOS HUMANOS. Quantos milhares de falsas denúncias de roubo. pode dizer-se que a decadência das funções psíquicas se caracteriza pela repartição dos traços próprios da infância em (virtude do denominado processo de regressão.46 agora a permitir-se licenças que antes não se concederiam. desconfiança). desta para as idéias supervalorizadas de perseguição ou de prejuízo só há um passo. Não menos interessante é a propensão a exibir reações psicológicas de prejuízo e perseguição. 33. como resultado de sua escassa capacidade de resistência ao meio! O meio jurídico deste período complica-se ainda mais se tem em conta que nele é quando se costuma fazer ou modificar o testamento e manejar . em virtude de um exagero do mecanismo de projeção. preferentemente revelável de início por sua maior fatigabilidade e depois pela pior qualidade de seu trabalho. isso faz com que os velhos sejam em geral maus testemunhos. sociais) tornam-se sossegadas e até tristes e fechadas. que se toma visível nesta idade. formuladas por anciães poderiam ter sido abortadas se os juízes que as recebem soubessem desta particular propensão dos velhos a sentir-se prejudicados. em boa parte evitáveis. não obstante. pois determina a atitude de reação da personalidade. perseguidos ou hostilizados. b) Velhice ou Senilidade . este último tem uma importância psicológica não menor que a do primeiro. pois nem sempre coincidem os fatos de "ser" e "sentir-se" velho.

Vamos tentar defini-los com clareza. 34.de ambas as séries características (e. isto é. de conjunção e o plano externo ou objetivo. em troca á característica feminina a fácil “perda de controle”. de conduta delituosa. essencialmente dinâmica. por meio de exemplos concretos: suponhamos que temos diante de nossos olhos um indivíduo que caminha rapidamente pela rua. mas com maior intensidade desta.em proporções variáveis . segura. embora evite habilmente todos os obstáculos que encontra em seu caminho. embora seus olhos percebam o mundo externo. a saber: o plano autístico ou subjetivo. grácil.47 Vamos resumir. FEMININAS Culto ao “querer” e á graça Propensão para a conservação Interesse pelo detalhe Tendência à contemplação Prefere o “gozo” Usa mais julgamento de “valor” Tendência à atitude masoquista Assusta-se mais do que encoleriza Suporta mais a dor do que a pena Tendência à dúvida: admite mais facilmente seus erros Maior conhecimento intuitivo Mobilidade suave. enérgica e Angulosa. o plano intermediário. . da Psicologia da personalidade. TRÊS PLANOS DA ATUAÇÃO DA PERSONALIDADE Seguindo nossa concepção. Elas podem orientar na descoberta de autores de delito. delicada E curvilínea No campo patológico social. podemos nos convencer de que seu pensamento se encontra ausente. e é capaz de comportar-se corretamente em seu trajeto apesar de que nem por um momento tem consciência do que acontece em torno de si. Esta pessoa utiliza nestes momentos a magnífica coleção de hábitos que sua experiência fixou de um modo automático. é característica masculina a menor freqüência com que faz uso da violência. assinalaremos agora a importância que para o jurista tem o conhecimento e a diferenciação dos três planos em que a atividade daquela pode desenvolver-se. masculina e feminina. pois seu olhar parece vago e distraído. de forma clara. com a condição de que não se esqueça que todos os seres humanos possuem uma combinação . que cada mente masculina tem um núcleo de tendências femininas e viceversa): CARACTERÍSTICAS MASCULINAS Culto ao “poder” e a força Propensão para a conquista Interesse fundamental Tendência à experimentação/bstração Prefere o “prestígio Usa mais o julgamento de “forma” Tendência à atitude sádica Encoleriza-se mais do que se assusta Maior resistência à pena que a dor física Decisões rápidas: Dificuldade de confessar seus erros Maior conhecimento lógico Mobilidade ampla. quais são as principais diferenças entre as duas mentalidades. portanto. mas com as leves conseqüências dessa queda moral.

externo e interno. encontra-se absorvida por um problema que o preocupa: vai pedir a mão de sua noiva e não sabe que atitude adotará diante de seu futuro sogro. Mas agora o encontramos no salão da casa para onde ia.. Já desapareceu a ruga vertical que em sua fronte indicava a meditação. mas esta nos parece deformada. sua personalidade trabalha no primeiro plano que denominamos autístico ou subjetivo.48 Toda sua atenção. obedece. e vemos agora o noivo em íntimo colóquio com a amada. no qual existe um completo acordo entre o propósito e a ação. segue agilmente todas as idéias que lhe são dadas como estímulo. Finalmente no terceiro encontramo-nos diante da ação como manifestação livre e resultante direta da expressão dos desejos e tendências do indivíduo. passamos mil e uma vezes por esses três planos de atividade. e parece. não obstante. visto por dentro. seja pela anterior decisão do indivíduo. No segundo plano vemos o começo de realização. aparentemente espontânea. seja pela especial ação (resistência) no meio em que se desenvolve. O indivíduo se desenvolve no terceiro plano. que atua realmente e atende simultaneamente aos dois mundos. poderíamos denominar normal (mas que. encontramos nele um propósito completamente distinto: toda sua conduta. Conversa. Na imaginação pesa os prós e os contras das diferentes soluções que se lhe ocorrem e decide ordenar. segundo um plano que lhe parece eficiente.que em nada afeta ou interfere com o .. Já se depreende que isso conduz à formação de três tipos bem distintos. é o menos comum de todos). Este indivíduo acha-se então no plano que denominamos intermediário. o exercício da atividade conativa. desta vez toda a conduta externa corresponde nele à sua atividade interna. expondo aqui as opiniões que de antemão sabe que o vão agradar. já teve lugar a declaração oficial. A diferenciação prática destes tipos . sempre precedido pela denominada ruminação mental e acompanhado da fixação de uma crença. encontrar-se completamente extrovertido e haver derramado sua personalidade no ambiente que o rodeia. que foi aceita. por conseguinte. tratará de. que podemos denominar ingênuo ou objetivo. sorri. e devido a isso a atividade consciente deste indivíduo encontra-se dividida em duas: enquanto de uma parte atende a tudo o que se lhe diz e procura responder a isso do melhor modo. misto ou de conjunção.. Sintetizando: no primeiro plano assistimos à elaboração de um propósito. com efeito.. Não obstante. Finalmente. de outra atende a seu propósito de dirigir a conversação para o fim proposto. sua conversa com ele: sabendo que seu fraco são as corridas de cavalo. durante dez minutos. para aproveitar este momento de satisfação e expor o verdadeiro motivo de sua visita. cuja coordenação harmônica integra um quarto tipo que. a cada qual corresponde uma específica atitude da personalidade. Não é preciso ser psicólogo para compreender que todos nós ao fim do dia. finge ao mesmo tempo. agradá-lo neste particular. Toda sua personalidade se encontra projetada no mundo externo e concentrada na imagem de sua futura esposa. Este indivíduo se encontra nesses momentos em plena atitude de introversão. e tendo sua noiva lhe antecipado quais são seus favoritos. como antes dissemos. a um plano predeterminado.

pois isso o ajudará enormemente a fixar sua própria atitude de reação pessoal perante eles. pois sua falta de divulgação entre os juristas deu lugar a não poucas lutas forenses entre advogados e psiquiatras. todo delinqüente ou todo pleiteante pode ser considerado como acometido de um transtorno mental. mas pelo menos é fácil de ser compreendido. é o mais perigoso. como antecipamos. o estudo psiquiátrico serve somente para convencer-se da artificiosidade de toda separação essencial entre a saúde e a doença mental. É um tópico freqüente o de que os alienistas acreditam que todo o mundo está louco. o quarto. o tipo maquiavélico encontra-se com maior freqüência nas personalidades paranóicas. é o mais difícil de tratar. sincero. existe realmente uma manifesta relação entre aqueles e os que resultam da consideração da atuação pessoal sob outro prisma: o que poderíamos denominar critério psiquiátrico para a diferenciação do tipo pessoal. de modo que é preciso conceber a mente patológica só como resultado de um desvio quantitativo da normal.tipo ingênuo.Finalmente. em princípio. Pode ser difícil de ser dirigido. sem repressões .49 estabelecimento é de grande interesse para o jurista. gordo e . o mais comum. não há um só sintoma psicótico que não possa ser encontrado em indivíduos normais. E o terceiro. Com efeito. ao qual denominaremos tipo autístico. mas tem um duplo fundo que devemos saber descobrir se não quisermos ser joguete inconsciente do mesmo. pois mostra-se-nos como uma personalidade hermética cujas intenções não conseguimos adivinhar nem podemos deduzir pela observação direta. com respeito a distintas situações) sonhador. Em troca. Tenha-se em conta que esta classificação de tipos não prejulga nada a respeito de sua concepção moral. astuto ou sincero conforme a ocasião. compulsivas e sensitivas. DA Esta última nota do esquema precedente merece ser ampliada e explicada em parágrafo à parte. produzida pela desproporção de alguns traços integrantes da personalidade comum. sejam ou não clientes. A este pertencem os denominados indivíduos maquiavélicos. o tipo ingênuo ou objetivo encontra-se ciclóides e epileptóides. aqueles acusam estes de ver por toda parte sinais de anormalidade psíquica e de estender de tal modo o conceito desta que.aparece como oposto do primeiro. O segundo . histéricas e amorais (perversas) 35. isto é. Suponhamos um homem no qual as tendências para ser baixo e ser alto. Com efeito. pois apresenta-se-nos sob as aparências do anterior. uma vez que suas intenções se traduzem diretamente em ações. com o mesmo grau de veracidade poderia afirmar-se o contrário: que para os psiquiatras "todos os loucos são normais". infelizmente. participa igualmente de todos eles e é sucessivamente (ou concomitantemente. O tipo autístico se encontra particularmente entre as denominadas personalidades esquizóides. Com efeito. visto que podem ser utilizados tanto para os bons como para os maus fins. Nada mais errôneo. que racionalizam sua atitude sob a conhecida frase de que neste mundo é preciso ser diplomático. o primeiro tipo. A PARADOXAL CONCEPÇÃO PSIQUIÁTRICA PERSONALIDADE.

Assim considerando a questão.o fato de que a cor branca (personalidade normal) seja integrada pela combinação das sete cores do espectro (personalidades patológicas) não impede de modo algum sua distinção destas. Igualmente. fazendo-a derivar necessariamente do contacto social. sob a forma de regras de conduta. seria o protótipo do homem de mente normal. (As crianças de quatro a seis anos.50 magro. como uma cunha . à extroversão e à introversão. ao bem e ao mal etc. pois. à generosidade e ao egoísmo. respondem: "Não posso.de fora para dentro. quando perguntadas acerca do motivo pelo qual não fazem esta ou aquela travessura. teríamos então um homem normal. 38. à cólera e ao medo.. do ponto de vista morfológico. é necessário expor qual é o estado atual de nossas concepções acerca do desenvolvimento e evolução de suas diversas atitudes morais (diretamente relacionadas com sua capacidade estimativa das noções do bem e do mal). como assinalamos é capaz de descobrir sinais de normalidade em qualquer louco.. forte e fraco. impostas pela força. todas as variedades das denominadas personalidades psicopáticas. AS TESES NATIVISSTA E SOCIAL DA MORAL Desde tempos imemoriais estiveram em luta na Ética a tese que postula a origem congênita da tendência ou do sentido moral (moral sense) e a que afirma sua aquisição no decorrer do desenvolvimento. 37. CAPÍTULO IV PSICOLOGIA DAS ATITUDES MORAIS Antes de entrar na análise das transgressões que o homem comete com as leis de convivência social que ele mesmo se impôs. A moral penetra então .. Os partidários da tese empirista se encontram divididos em dois grupos: unicistas . Mamãe não deixa"). se encontrassem equilibradas harmoniosamente. de acordo em que o homem não tem mais moralidade ao nascer do que qualquer outro animal. A imensa maioria de psicólogos está. AS TESES UNITÁRIA E DUALISTA DAS ORIGENS DA MORAL.na criança. apesar de conter (e precisamente por isso) em germe todos os elementos da anormalidade. Pois bem: do mesmo modo podemos conceber que uma pessoa na qual as tendências à alegria e à tristeza. compreende-se por que todo psiquiatra é capaz de descobrir em qualquer pessoa traços de anormalidade. 36. A criança é primitivamente amoral e só começa a exibir uma conduta moral na medida em que atuam sobre ela as proibições e as coações dos maiores. mas a diferença entre a saúde e a morbidez mental não pode deixar de ser estabelecida com perfeita clareza do ponto de vista prático. se encontrassem equilibradas. ruivo e moreno etc. isto é.

quanto maior tenha sido a violência primitiva do "id" e quanto maior intensidade tenha alcançado o complexo de Édipo. No primeiro deles figuram Durkheim e seus discípulos." Os psicanalistas (Freud. tanto maior facilidade existirá para que se forme um "superego" ou consciência moral robusta. nem más nem boas. mas sem que exista a menor solução de continuidade entre elas. através da idade adulta. uma atitude de hostilidade para a sociedade e em especial para todos os sinais representativos da autoridade (reis. dependerá somente do grau de desenvolvimento do "superego". pela diminuição da vigilância do grupo sobre o indivíduo. Sempre. ou castiga a si próprio com auto lesões capazes de chegar ao suicídio. a conduta moral. em virtude do qual o indivíduo se acusa de faltas que não cometeu e pede para ser castigado com severidade.51 e dualistas. mediante o qual a imagem paterna é fixada e identificada no "ego". magnatas. com a psicanálise de diversos criminosos anarquistas. Esta é tão grande que nos casos extremos conduz ao denominado "delito autopunitivo". para purificar sua "consciência de culpa". uma vingança deslocada contra a tirania primitiva e opressora de seu progenitor. e este por sua vez. Esse autor explica a transformação do "conformismo obrigatório" que rege nas sociedades primitivas (segmentárias) na solidariedade "orgânica" que se observa nas sociedades diferenciadas (democráticas). Segundo esta teoria. chefes ou inclusive agentes de Polícia). Rank) também se mostram unicistas e fazem derivar a origem de toda moral da evolução constante dos impulsos destruidores (instinto da morte) que primitivamente dirigidos contra o meio (sadismo) se voltam contra o próprio "ego" e se convertem em seu censor mais implacável. "Plus la société est complexe. Por acreditar que seus atos terão más conseqüências. A oposição clássica entre mau e bom fica segundo isto. Em troca. então. acreditam agir mal e precisam desenvolver uma religião particular baseada em cerimônias e práticas expiatórias. É claro que os psicanalistas admitem a existência de pessoas indiferentes. que em todos eles o complexo de Édipo se achava ainda em plena evolução. A passagem da primeira para a segunda fase (sadismo masoquismo) tem lugar em virtude do denominado processo de "introjeção". Assim. Em suma. . O mecanismo da introjeção (identificação com o "ego") às vezes falha e persiste. infligindo então o indivíduo a si mesmo os mesmos castigos que antes tentara dar ao pai (considerado como símbolo da autoridade social). segundo a concepção psicanalítica. Estes indivíduos vivem sempre atormentados pelo sentimento de uma grande responsabilidade e têm um verdadeiro pânico à ação (Peur de l'action). isto é.que dá lugar à formação do "superego" -: encontra-se exagerado nos denominados neuróticos compulsivos. o mecanismo de introjeção . para os quais o desenvolvimento da moralidade individual passa por diversas fases. derivada do fundo sádico do instinto destruidor (coincidindo com a fase do erotismo). plus la personalité est autonome et plus importants sont les rapports de coopération entre individus égaux. Ferenczi. de sorte que o suposto delito político ou social que cometeram representava em realidade um parricidio simbólico. isto é. representaria uma força oscilante. acusados de haverem assassinado pessoas de grande significação social. reduzida nos seguintes termos: Mau para os demais ou mau para nós mesmos. Uma pessoa socialmente boa o seria na medida em que era má para si mesma.

Este autor reconhece também a origem primitivamente amoral do homem quando diz: “C’est en notan.52 estas carecem de vida afetiva. um ato mostra-se justo ou injusto).” Mas. livre dos freios sociais. e incapazes também de sacrificar-se (por medo ao sofrimento). por exemplo. resultante da pressão do grupo sobre o indivíduo. A primeira forma de moral.mas menos pronunciadamente materialistas. porque nela o indivíduo. a regra (lei) é imutável. denomina moral fechada (morato fermée) e à segunda. baseia-se no respeito unilateral (criança para adulto e a sociedade em geral). mas uma vez que o foi. o conceito de dever e de castigo. em oposição à primeira atitude mecânica. Piaget. Nesta fase. moral aberta (morato ouverte). L’humanité dont on se détourne alors est celle qu’on a decourverte au fond de soi. adotando abertamente a que ele denomina atitude mística. sés propres faiblesses qu’on arrive à mèpriser l’homme. o "id" e o "superego" quase não se contam: somente domina o "ego". calculador e perfeitamente adaptado ao princípio da realidade. Toda infração do dever (o não cumprimento de uma regra) tem que ser castigada. sobe em busca do bem absoluto. fino investigador suíço não se limitou a estudar a conduta da criança diante dos maiores. fundamentado na força e na coação. Foi castigado com duas bofetadas. a obrigação representa a pressão que os elementos da sociedade exercem mutuamente entre si. ao mesmo tempo afirma que existem no homem duas condutas morais que obedecem a origens distintas: na primeira. (Assim. qui a abouti à l’espèce humaine. incluem os psicanalistas uma maioria de intelectuais e de homens de ciência! Felizmente para nós. ao passo que na segunda obrigação toma sua força no próprio impulso vital – Dans la seconde l’obligation est la force d’une aspiration ou d’um élan. fica reparado e restabelecido o equilíbrio da justiça. primitivo. recebia pacientemente o castigo e então praticava a falta com inteira satisfação. A moral heterônoma introduz. A este propósito uma observação pessoal muito demonstrativa: trata-se de um menino de oito anos que se acusava das faltas antes de cometê-las.já a havia pago. porque . O primeiro.igualmente empíricas . Lês deux sources de la Morale et de la Réligion. à la vie sociale”. em um dia de festa disse a sua mãe que havia comido a sobremesa preparada para uns convidados. senão que observou e experimentou as reações que a criança mostrava diante dos seus companheiros. O pior é que entre este tipo de seres incapazes de delinqüir (por medo ao castigo). de l’élan même. quando se constituíam espontaneamente em sociedade para realizar diferentes tipos de brinquedos coletivos.segundo dizia . associados em relação causal. Referimo-nos às teses dualistas . existem outras concepções psicológicas mais suaves e merecedoras de igual atenção que as consideradas até agora para explicar a origem da conduta moral.em passant – na obra desenvolvida por Bérgson. sagrada. e a noção de justiça acha-se vinculada com o resultado da ação (conforme esteja ou não de acordo com a regra correspondente. que . Entre elas só citaremos . E com uma técnica muito melhor que a seguida em suas experiências anteriores (sobre a evolução do pensamento infantil) pôde demonstrar que nos meninos de seis a quatorze anos coexistem dois tipos de conduta moral aos quais denomina heterônomo e autônomo.

é um fator que intervém geral e uniformemente em todas as ações ou se. o problema. sobre a tipologia da conduta moral não seria completa se omitíssemos a teoria desenvolvida por Baldwin. mas estas não são fixas nem inexoráveis. A obediência cria. de grande interesse. Os meninos que atingiram esta fase de autonomia moral julgam os atos não por seu resultado. ao contrário. Esta falta de harmonia origina-se no momento em que o menino pratica o primeiro ato de obediência (que não é simples imitação nem ejeção). democraticamente. na mesma medida. porque já fomos castigados"). nega a existência de deveres inatos e afirma que a consciência moral aparece sempre que existe uma oposição entre as diversas tendências internas constituintes do eu. a força muscular etc. que é o de saber se. com efeito. muito sério. deu-lhe uma bofetada e disse: "Agora podemos comer tranqüilamente. então. a de que. uma parte da personalidade que domina as demais. Esta idéia levava a imaginar uma distribuição coletiva das pessoas com respeito aos "padrões" morais. representa a abstração de uma série de fatores concretos e específicos. com respeito às demais aptidões reacionais do indivíduo. a altura. suscita-se outro. Foi então procurar a irmãzinha disse-lhe se queria comer a sobremesa que tinha escondido. no qual já não se obedece a uma regra externa e sim a um impulso livre.53 recebeu sem pestanejar. dando a todos seus atos uma intensidade uniforme. e sim surgem . a bondade ou a maldade eram qualidades que atuavam de um modo constante em cada indivíduo. A concepção que imperava antes da época experimental da Psicologia era. independentes entre si. ela lhe respondeu que sim e ele. nenhuma das quais é considerada faculdade geral. chamada "eu ideal". é o que denomina autônomo. diferenciado por Piaget como resultado de suas experiências.a justiça distributiva à retributiva.podendo ser modificadas a cada instante por um acordo mútuo entre o indivíduo e a coletividade em que vive. mas por sua intenção. tinha que comportar-se muito bem ou muito mal. e preferem como diz Piaget . diante de todas as situações morais. como o peso. uma vez adquirida. inteiramente comparável á que pode ser obtida com relação a um índice ou fator biológico de tipo corporal. Esse grande investigador sustenta também um ponto de vista natural. Neste segundo tipo. de cooperação que surge do indivíduo e se baseia na existência de um respeito bilateral entre o indivíduo e o grupo. quando um indivíduo chegara a ser muito bom ou muito mau. Finalmente. portanto. um novo eu. AS MORAL TESES GERAL E ESPECIAL DA CONDUTA Deixando de lado o problema de saber se a moral acha-se pré-formada ou é adquirida e se reconhece uma origem única ou dupla. a conduta moral obedece a certas normas. parece estar traçado hoje com respeito à moralidade como o está. O segundo tipo. Por conseguinte. 39. acreditava-se que. isto é. mas resultado específico e concreto . Por conseguinte.

que um mesmo indivíduo seja simultaneamente valente perante algumas situações e covarde perante outras. Assim também é possível que a bondade. num momento dado persistindo as mesmas influências ambientais e sem que seja possível invocar uma lesão dos centros nervosos (de neuraxite infecciosa) . apresentaram considerável disparidade. uma. pois. no prazer. é bem sabido que se admite a possibilidade de que certas características genotípicas (herdadas) não apareçam no fenótipo senão em um período relativamente tardio de sua evolução. uma prova aparentemente inofensiva em experiências realizadas nas crianças. sendo igualmente lícito e humano fundar a moral na utilidade. não foi ainda conseguida neste aspecto de nossa ciência. médicos. o fato de que a criança nasça totalmente amoral não significa que não contenha em forma de disposição (Anlage) a capacidade de chegar a ser moral. comerciantes e a de psicólogos. de início diferiram conforme o sexo e a nacionalidade. e a respeito deles podemos opinar com maior fundamento experimental: Existe nos indivíduos. em geral. sob a ação de influências paratípicas oportunas.que perturbou a marcha de todo o processo da conduta moral. a outro seleto grupo de advogados. obtuso para aqueles. (nativismo ou empirismo moral). na piedade. A esse respeito. impaciente com certas pessoas e paciente com outras etc. a sinceridade e. Por isso.se observou uma brusca modificação das reações morais diante de situações concretas que pareciam haver determinado já um processo de reação perfeitamente habitual e quase automatizado no indivíduo. na justiça etc. pode afirmar-se que escapa essencialmente às nossas possibilidades resolvê-lo. do ponto de vista teórico. todas suas características e defeitos morais mudem de um momento para outro. Não há dúvida de que nesses casos sempre fica aberta a possibilidade de admitir a brusca entrada em ação de uma disposição genotípica . conforme os objetos sobre os quais exerce sua ação e os estímulos que a determinam). Mas também é certo que os outros dois problemas são muito mais interessantes do ponto de vista prático. só motivação moral ou várias? É compreensível a luta dos filósofos para descobrir a última ratio da conduta moral ou não existe tal última razão. a equanimidade. étnicos e sexuais homogêneos. RESULTADOS EXPERIÊNCIA PESSOAIS OBTIDOS EM A problemática empírica da moral. no imperativo categórico. 40.até então latente . A experiência psiquiátrica nos proporcionou casos em que. inteligente para estes trabalhos.. Intitulada de “As más ações de Joãozinho na escola”. A prova foi feita coletivamente em um total de 1587 meninos e meninos seis a quatorze anos de idade de nacionalidade norte-americana e em 987 alunos de cinco a quinze anos de idade de nacionalidade Espanhola. segundo os casos. mesmo tratando-se de grupos cronológicos. até o ponto extraordinário de que . por exemplo. No que se refere ao primeiro problema. os resultados obtidos por um selecionado grupo de filósofos.54 da evolução experimental dos primitivos mecanismos emocionais de reação (e assim como é possível.

o que não me agrada etc. (Nos meninos submetidos à educação religiosa é freqüente encontrar Deus como árbitro definidor. o princípio de uma convicção independente do critério próprio. más as que estão mal. temos a impressão de que nesta idade o menino julga a moralidade dos atos a posteriori. Não se interessa pela prova e tem-se a impressão de que. senão que. Praticamente pode-se dizer que cada ação foi julgada de todos os modos possíveis pelo grupo. do critério moral). ou seja. DE SEIS A OITO ANOS. segundo a reação dos demais. DE OITO A DOZE ANOS. (Indivíduos que passaram da meninice). . é freqüente." Neste nível mental impera. Respostas que de início parecem capciosas indicam. também a posteriori. a considerasse como as mais imorais. Sua primeira fase termina em torno dos doze anos pela introdução da capacidade de compreensão de conceitos abstratos e pela revolução espiritual que acarreta o processo puberal . pôs os números um pouco a esmo. em grandes traços. são muitos os meninos que respondem: "Está bem o que querem os papais. Vejamos agora. Assim. Assim. segue um duplo ciclo. E que esta disparidade se mantém e se comparam as ordenações individuais dentro de um mesmo grupo. Pela mesma razão um mesmo ato explicado livremente é melhor compreendido e melhor julgado em sua significação moral do que quando é explicado . menos quatro por mil. no entanto. O menino refugia-se a cada momento no porque sim. em linhas gerais.484. mal. De modo geral o critério moral está ainda tão pouco desenvolvido que se desorienta facilmente e tende a julgar as ações com uma severidade tanto maior quanto mais imediatas e palpáveis (concretas) forem as conseqüências prejudiciais que delas derivam. perguntando aos executores da prova qual foi seu critério para distinguir moralmente as sete ações. A primeira conclusão mais importante foi a grande variabilidade que através do desenvolvimento individual existe no julgamento de grau de moralidade ou de imoralidade das ações objeto da experiência.Bom número de meninos começa a dar sinais de critério próprio para a distinção dos graus morais. isto é. Outra dedução indiscutível é a de que o critério de grupo se pronuncia .Dificuldade de compreensão e expressão neste aspecto. Não obstante. pois. ao mesmo tempo que mudam no fundo todas as normas morais de grupo.55 de 2. Está bem tudo o que se pode fazer sem que te castiguem. está mal o que eles não querem.". respostas só nove casos de coincidência absoluta nas ordenações. . nesta idade. os resultados obtidos. obter respostas como estas: "São boas as ações que estão bem.tanto mais quanto maior é a idade de seus componentes. 2. havendo quem a considerasse como a mais moral de todas e quem ao contrário. 1.nos meios homogêneos . Está mal tudo aquilo que se fizeres te repreendem ou te castigam. a coação social imediata como única normal diferenciadora do bem e do mal. é curioso fazer notar que esta condenação do que poderíamos denominar critério moral coletivo não tem lugar de um modo uniforme. salvo em um ou dois casos concretos. Bom é o que me agrada.exageram-se novamente os individualismos. Se procuramos generalizar a questão e lhe perguntarmos como sabe se algo está mal feito ou bem feito.

em torno do qual se orientam os critérios diferenciadores. que tende a reprimir os instintos egoístas e procura merecer a todo instante da conduta a aprovação dos demais. O mais curioso e importante do caso é que ainda não encontramos ninguém que se negasse a julgar a prova por falta de dados ou elementos suficientes. A coincidência com a tendência já delineada nos meninos a partir dos doze anos o pivot central. De outro lado. como acontece com o resto das investigações psicoexperimentais. conforme analisado. expomos a seguir as classificações estabelecidas por vinte e cinco advogados de Barcelona em exercício e que se submeteram voluntariamente a prova: Resultados da prova das más ações de Joãozinho. ao contrário. antecedentes e acessórios. a partir dos quatorze anos o critério coletivo não atinge. como tal. Assim.A partir dos quatorze anos o critério de utilidade social começa a impor-se ao de utilidade individual para julgar a moral idade de um ato qualquer. DE DOZE A QUATORZE ANOS . uma notável diferença de origem sexual. uma vez que as meninas continuam temendo mais a agressão física que a espiritual e os meninos tendem desde já para o contrário. os resultados obtidos. mas não já como nas idades iniciais . Somente um grupo seleto de indivíduos adota neste período uma posição mais próxima do verdadeiro conceito e afirma que: bom é o que beneficia sem prejudicar a ninguém que não o mereça. Em troca vimos pessoas refletidas . 3. É o momento em que o indivíduo começa a preocupar-se com o que diriam e a submeter-se voluntariamente ao controle moral do grupo. é o que prejudica a quem não o mereça. que o critério para a distinção do bem e do mal é predominantemente utilitário: bom o que serve e mau o que prejudica. DE QUATORZE ANOS EM DIANTE. Somente a título de curiosidade. em um grupo de 25 advogados barcelonenses que exercem sua profissão na capital (há entre eles três juízes municipais e dois magistrados). Existe neste aspecto. no entanto. contudo. ou consciência moral. operando com indivíduos adultos. mau. o lápis adquirido pela luta ou pela discussão com fraude parece mais legitimamente possuído que o apanhado diretamente da gaveta do vizinho. . Por que até os quatorze anos tantas divisões de critério. 4. mas pelo desenvolvimento do super-eu. apesar de existirem notáveis diferenças individuais no grau de desenvolvimento do juízo moral. e como evidente comprovação desta asserção.pelo temor a suas represálias. existe neste momento a curiosa tendência de considerar o esforço realizado para a execução dos atos imorais como uma isenção ou atenuante.56 com todos os detalhes. Volta a dominar então a coação do meio.Existem neste momento grandes diferenças individuais. não diferem dos registrados nos jovens desta idade. e em troca se engloba em uma só a evolução do juízo moral desde esta idade até a morte? Simplesmente porque. De modo geral pode-se dizer. . um estado evolutivo diferente. Assim.

parece-nos evidente que a distinção entre o bem e o mal se acha condicionada. mas o resultado de complexas influências e fatores. De qualquer modo.57 afundar-se em discussões violentas para defender seu critério contra o de outras não menos dignas de estima. Mas não basta saber distinguir o bem do mal. do mesmo modo como no complexo domínio intelectual se tende cada vez mais a considerar a inteligência como um resultado funcional e não como uma aptidão ou faculdade isolável e geral. assinalando com o número 1 a que julgar melhor de todas. em nossa opinião. a motivação do mesmo era procurada secundariamente em sua formulação subconsciente. da outra. além dos já. Antes bastava dizer: tal indivíduo é inteligente e tal indivíduo é obtuso. com dez soluções. embora conhecendo qual é seu dever. graças ao qual é possível ver em um mesmo indivíduo a coexistência de atos de imensa bondade e de cauteloso egoísmo. Pois bem. na melhor das oito restantes e assim sucessivamente até marcar com o número 10 a que julgar pior de todas”. a ponto de que. mencionados. Quando aquela existe sem o elemento afetivo correspondente. que você deverá classificar de acordo com seu critério pessoal. ou seja. Poder-se-ia objetar que esta disposição dos resultados foi devida a que o teste era inadequado. A conduta moral. são mais intuição que pensamentos. pelo desenvolvimento da inteligência abstrata. assim também em nosso. este é precisamente o caso da maioria dos delinqüentes que carecem de um desenvolvimento suficiente do que se convencionou chamar sentimentos morais. o indivíduo sabe como teria que agir para ser bom. agora é preciso dizer para que classe de problemas ou ações ele é inteligente ou obtuso. que são mais subjetivos e irredutíveis no fundo. . como a religião e a arte – em oposição à ciência correspondente a atitudes mais primitivas e menos evoluídas do espírito. excessivamente artificial e as ações a julgar demasiadamente semelhantes para poder estabelecer entre elas diferenças morais apreciáveis. Tudo isso nos leva a considerar a enorme influência que os fatores afetivos desempenham no denominado juízo moral. a seguinte em ordem de bondade você assinalará com o número 2. preferível e aconselhável. isto é. que permite estabelecer relações lógicas entre a ação e suas conseqüências imediatas. de um lado. "Em seguida você encontrará exposto um conflito moral. mas simplesmente prefere ser mau. que foi aplicada em 578 casais. Nossos juízos morais respondem a um impulso sentimental. na atualidade tem que se dizer: tal indivíduo se mostra moral (ou imoral) diante de tal categoria de estímulos ou situações sociais. depois porá um 3 na seguinte. para assegurar uma conduta moral. Analogamente. Por isso vou me permitir expor os dados obtidos com outra prova. à qual tais objeções não podem ser aplicadas: a denominada prova da infidelidade conjugal. e sim é preciso sentir a responsabilidade moral. mas não suficiente. fará o que dita seu desejo. sem o que o indivíduo. Dito de outra forma: a capacidade de juízo moral é uma condição necessária. caso acreditamos que a moralidade não representa um traço unitário da personalidade. pelo grau de socialização da mente (evolução centrífuga) e. pois que a moral.

58 "Além disso. indo cada um para seu lado e justificando tal separação ante. isto é. 7ª Separar-se particularmente de sua mulher. afastar-se. 5ª Procurar surpreender os dois amantes em flagrante e instituir uma ação de divórcio. desafiando Luís à morte. Nesta situação. grandemente. fazendo a corte à mulher de Luís. . Assim. não é suficiente para poder apreciar o grau de moralidade de sua reação pessoal em um momento dado. dos atos externos de um indivíduo. Matar sua esposa diretamente. até conseguir a mesma intimidade com ela. apesar de serem essencialmente diferentes. de uma cultura e de uma experiência social sensivelmente iguais. com a ajuda da autoridade." 1ª 2ª 3ª 4ª Vingar sua honra. Eis a situação e as dez soluções a classificar: "Pedro é casado e adora sua mulher. 2° Que a simples observação da conduta. Podemos verificar que não houve um só caso de coincidência absoluta das ordenações. você deve proceder com absoluta sinceridade e boa fé. É evidente que esta situação . para reconquistar o carinho desta. 8ª Procurar por todos os meios que Luís caia em ridículo ante sua esposa. seu amor é sincero e indestrutível. Que pessoas dotadas de uma capacidade intelectual. se se convencer de que. as soluções propostas (possíveis condutas) são suficientemente variadas para permitir uma escolha precisa. que você ordenará da melhor para a pior. voltamos a ver classificadas essas ações em todos os lugares possíveis nas 1. Pois. com respeito ao modo de julgar ou ajuizar problemas precisos de conduta moral. não obstante. Um dia encontra uma carta desta dirigida a seu amigo Luís e pela redação da mesma verifica que esse mantém relações intimas com ela. diferem. habitando os dois no mesmo domicilio e aparecendo juntos perante a sociedade. se possível. Pedro pode praticar uma destas dez ações. E não somente isto. uma vez que esta prova somente serve para saber como opina a respeito deste problema moral o maior número possível de pessoas em nosso pais" . mas vários grupos das soluções tiveram uma votação sensivelmente igual. 10ª Expor o problema aos dois amantes e. apesar disso. podemos afirmar: 1º. Por outro lado. 9ª Analisar as causas que puderam induzir sua esposa a ser-lhe infiel e procurar corrigi-las. Em síntese.possível infidelidade conjugal interessa ao indivíduo casado mais do que o roubo de um lápis. 6ª Separar-se particularmente de sua mulher. a sociedade com outros motivos. Matar Luís diretamente. a respeito dela parece que terá um critério mais definido. o julgamento moral e a existência de múltiplos pontos de vista.156 respostas recebidas. Vingar-se da afronta. emigrando para terras distantes. pois.

era provas de conduta. pois. mas também em uma só se observam notáveis diferenças de rigor ao colocarse em atitude crítica perante os diversos tipos de ações imorais. não obstante. Em síntese. com respeito ao modo de julgar ou ajuizar problemas precisos de conduta moral. dos atos externos de um indivíduo. à vitimas de um acidente com grande generosidade. se obedece a um propósito egoísta e imoral ou a um verdadeiro desejo de praticar o bem. grandemente. confessadas mais tarde. para a fundamentação do critério moral individual. O que podemos concluir é a de que os indivíduos considerados como menos sociais ou mais anti-sociais são os mais capazes de levar a termo uma ação altruística. não só ante situações abstratas e imaginárias como ante casos concretos. isto é. Uma conduta moral explícita pode obedecer a motivos e propósitos que em si mesmo são imorais. Ou o soldado ao insistir doar a maior quantidade de sangue a seu oficial. era a de na esperança encontrar no gabinete médico alguma moça com pouca roupa (!). dito de modo mais breve. c) Não existem critérios morais estandardizados que permitam uma valorização ética constante dos distintos tipos possíveis de conduta moral perante situações concretas.com uma concepção sistemática (genérica) da conduta moral? . podemos afirmar: 1° que pessoas dotadas de uma capacidade intelectual. isto é. porém suas intenções. que os piores podem ser os melhores e que os extremos se confundem igualmente quando se trata de avaliar a qualidade moral em condições de situações diversas. Como podem fazer-se compatíveis estes . Confessando que seu intento era de poder contagiá-lo com sua sífilis. b) Em sua determinação intervêm muito mais eficazmente as atitudes afetivas que o raciocínio lógico. d) Não só varia consideravelmente o critério julgador dos atos morais de umas e outras pessoas. INTEGRAÇÃO DE RESULTADOS PESSOAIS EM UMA CONCEPÇÃO GERAL DAS TITUDES MORAIS Os fatos que expusemos precedente nos confirmaram que: a) A conduta moral não obedece à existência de um só fator geral. não é suficiente para poder apreciar o grau de moralidade de sua reação pessoal em um momento dado. de uma cultura e de uma experiência social sensivelmente igual.e outros fatos experimentais não citados . Isto demonstra a impossibilidade de julgar em si mesma a conduta moral sem se conhecer antes se serve de meio ou de fim para o indivíduo. 41. diferem. se mostraram mais generosos que os considerados como normais. Por exemplo. e) Existem grupos humanos que são coletivamente julgados como deficientes éticos e que.59 igualmente respeitáveis. ou. um certa porcentagem de jovens se ofereceram para doação de sangue. não obstante. 2° que simples observação da conduta.

Em primeiro lugar aparece a atitude defensiva. na qual o indivíduo. A segunda conduta . somente quando o indivíduo que a exerce se propõe livremente conseguir com ela um maior bem . embora possa praticar – pela coação do meio – atos que se tornem aparentemente morais do ponto de vista social. em vez de repeli-lo. também do propósito que tenha seu autor durante a execução da mesma. Correspondendo. mas. A história da evolução (onto e filogênica = evolução. e a terceira é a da criação. na primeira o indivíduo faz somente o que lhe convém (isto é. cólera e afeto. a conduta dos seres vivos se encontram ligados ao sucessivo desenvolvimento dos três estados emocionais fundamentais: medo.60 As condições essenciais para considerar uma conduta como moral ou imoral (isto é. baseada na inibição (retorno à pré-vida). Se. por sua vez. Preferimos a palavra afeto à de amor. ao passo que na segunda pratica o que crê melhor para o mundo psíquico. parte de algo que o atrai. existem três condutas humanas totalmente distintas: a primeira é a da inibição. mas como esta atitude. deduziremos que todo indivíduo no qual não se encontrem moderadamente satisfeitos os impulsos vitais essenciais.propriamente vital. em vez de fugir do ambiente. esta foi usada demasiadamente no sentido estritamente sexual. Em seguida aparece a atitude ofensiva. seria incapaz de adotar tal atitude. pois. no sem tido pejorativo da palavra. em virtude da qual o ser tende a fundir-se e confundir-se em um todo com o ambiente. que são de natureza egoísta. como boa ou má) não depende somente de seus resultados (aparentes ou definitivos). eliminando da ação os interesses egoístas. sob os qualificativos de moral disciplinar ou fechada. sensu strictu. mas existe uma radical oposição entre ambas. considera-se ligado a ele. por assim dizer. história revolucionária das espécies) nos confirma que. que o faz adotar uma atitude prazenteira afetuosa. trata de dominá-lo absoluta e violentamente. revolucionária e anárquica – no-la dá a denominada moral utilitária. a segunda é a da destruição. foi por nós definida como exprimindo o propósito de praticar o bem pelo bem. Uma conduta merece o nome de moral. Bérgson a chama de moral aberta e eu a chamaria de verdadeira moral ou moral humana. É interessante que a segunda e a terceira moral introduzem já o conceito do bem. solidário de sua sorte. se se quiser. embora seus resultados possam ser discutidos do ponto de vista da utilidade social. A terceira denomina-se de moral de cooperação. sente-se penetrado e invadido pela influência cósmica e experimenta em uma nova necessidade.sem ter em conta o proveito próprio que dele possa derivar. . A ação praticada sob esta atitude (moral) será psicologicamente considerada como boa. às três emoções fundamentais citadas. uma vez satisfeita a primitiva violência do impulso. este critério podemos definir a conduta moral dizendo que é a conseqüência direta e imediata de viver em atitude moral. com efeito. a luta do ser contra o meio. aceitamos.material ou psíquico . o indivíduo já deixa impressionar pelo meio sem medo nem raiva. pois. O lema desta moral não é fazer nada que esteja proibido ou. Nesta atitude é possível fundamentar a verdadeira conduta moral. um pouco mais tarde satisfeita. pratica o que é bom para ele). Esgotando. Mas. Cada uma destas condutas tem seu aspecto moral: a primeira dá lugar à clássica e primitiva moral de que falam Piaget e Bérgson. Eles constituem as armas da vida elementar. não fazer nada que seja considerado mau. ou agressiva.

disso não se vai deduzir a absoluta esterilidade do pensamento neste aspecto. seguindo uma ordem inversa. livres. Na juventude nota-se uma ambivalência entre duas formas de atividade centrífuga: colérica e a amorosa. conforme a atitude emocional em que se tenha fixado frente a eles o leve a adotar uma conduta de inibição (obediência submissa à força. notamos. modificará de algum modo a marcha automática dos primitivos mecanismos emocionais de reação. sincero e pérfido ao mesmo tempo. de respeito à regra. que todos nós temos ao longo de nossa vida uma imbricação das atitudes de medo. o pensamento que. de destruição (anteposição do impulso egoísta) ou de criação (fusão generosa. Logo se inicia a regressão vital. se nota a mesma lei. por conseguinte. mais ou menos sublimada sob a forma de prudência. egoísta. por força. Cada idade da vida se caracteriza pelo predomínio de uma atitude emocional. (hipercrítica destruidoura. E no terreno da patologia. Na puberdade predomina o impulso vital agressivo e. e assim também exibe predominantemente uma moral: na infância predomina o medo ao mais forte. matizada agora. desconfiança e mesquinhez. ofensivos ante outros e favorável para terceiros. que todos e cada um de cada um de nós viva sendo ao mesmo tempo inofensivo perante alguns estímulos. uma vez que graças a ele se formam os ideais do “EU”. submetidos ao terror de uma tirania. isto é. Em virtude desta nova modalidade do pensamento. Na mesma linha evolutiva notamos na história dos povos: primeiro. é a época da máxima rebeldia. período de estabilidade alcança o máximo desenvolvimento normal de atitude criadora. Nossas experiências demonstram uma vez mais o escasso valor da argumentação lógica na determinação da conduta moral. Principalmente o deslocamento para adiante. Porque. física e psíquica). próprias da maioria de anciões. em virtude da qual a moral muda o compasso do tono vital em um momento dado. como o “não-eu” e integração do valor individual no cósmico). sempre que uma causa ou conjunto de causas detém a normal evolução psíquica. depois revolucionários e iconoclastas e. e por isso a moral da criança é objetiva. é-lhe possível livrar-se das cadeias do tempo e viver no passado ou no futuro. mau e bom. não estranhamos tampouco. no sentido prospectivo. Na idade adulta. Por isso é a época em que se cometem as piores e melhores ações – se mais natural: generoso. na maturidade. cólera e afeto. melhor compreendida: na individualidade consciente existe um processo. Mas esta nova concepção d amoral requer umas tantas explicações suplementares para poder ser. de certo pessimismo. finalmente. isto é a destruidora e a criadora. do máximo anarquismo fisiológico e da maior evolução de conceitos.61 Se refletirmos em que o ciclo emocional não se cumpre uniformemente perante todos os possíveis estímulos em nenhum indivíduo e nos damos conta. o medo ao adulto. E finalmente na velhice onde aparece a atitude do medo. além do frio juízo lógico. democráticos e animados de um amplo espírito de fraternidade universal. é sumamente importante para a modificação da conduta moral. cepticismo). a denominada modernamente intuição. entretanto. existe aquele intelectto d’amore que Espinosa entrevia. Porém. a reaparição da atitude colérica. por isso. isto é. .

sob a multiformidade de reações verbais e histriônicas. por assim dizer. o resultado final de uma atitude moral baseada exclusivamente no amor seria menos eficiente para a humanidade que o conseguido por uma destilação que extraia de cada uma das três atitudes morais fundamentais sua melhor quinta-essência. Infelizmente tal situação ou atitude acontece e. Em tal situação. não aproveita as vantagens imediatas que este lhe proporciona. exibindo. Mas o nosso entender que permite estabelecer a diferenciação é precisamente o caráter de inecessariedade que exibe grande número das ações amorais do louco moral. premeditadamente e sem necessidade. o código da moral. Assim nosso super-homem eticamente ideal é aquele que do medo conserva somente a cautela. e do amor faz derivar. embora conheça. tendo todas as funções psíquicas aparentemente. podemos afirmar que. porque. a bondade. e possuindo uma inteligência normal – ou mesmo superior – se comporta de um modo contrário às normas morais. . normais.62 É precisamente o conflito desses ideais com as realidades subjetivas o que determina no indivíduo adulto a adoção secundária de atitudes emocionais que mostram incompreensíveis para quem procura explicar em termos puramente mecanicistas (não psicológicos) o aspecto moral da conduta humana. tal indivíduo é capaz de pronunciar um belo discurso de elevados tons acerca da conveniência de exibir uma conduta moral. TIPOLOGIA PRÁTICA DAS ATITUDES MORAIS Como síntese prática. da cólera retém unicamente o temperamento. falta-lhe senti-lo para acreditar nele. (medroso. é capaz de enganar a maioria das pessoas. uma vez que. A DENOMINADA LOUCURA MORAL. colérico e o amoroso) Acreditamos que no estado atual da organização social. será sumamente difícil estabelecer distinção. não é raro observar que. por sublimação.segundo o critério mais difundido um indivíduo que. aparentemente. Como se julga ser o indivíduo? Como lhe parece que é julgado? Como imagina que os demais querem que ele seja? Como quereria ser? Eis quatro dados fundamentais para resolver a equação da conduta moral do ponto de vista objetivo. firmeza ou coragem. Com efeito o delinqüente vulgar visa sempre a uma utilidade objetiva com seu delito. 43. Do ponto de visto objetivo existem outros tantos: Como acreditam os demais que o indivíduo se julga a si mesmo? Como acreditam que é? Como quereriam que fosse como crêem que ele quereria ser? 42. mas em realidade – internamente se ri de seus semelhantes e aproveita todas as conjunturas que se lhe oferecem para delinqüir sem perigo de ser descoberto. tal indivíduo cometem delitos por um defeito de seu juízo moral. uma vez praticado o ato delituoso. Um louco moral é . Por conseguinte. cada pessoa humana orienta sua vida de acordo com a reação instintivo-emocional que predomina em seu “fenótipo”. ao passo que o denominado louco moral encontra tal utilidade somente de um modo subjetivo no prazer que obtém ao praticar algo que sabe que não deve praticar. tal conduta.

em seis semanas teve dois acidentes sérios com seu aeroplano. Vestia-se irrepreensivelmente e nem por um momento perdeu a serenidade durante a vistoria em sua casa. Detido na mesma noite em que cometeu o crime. Quem diria. de personalidade atraente e de trato agradável. antes sorria cinicamente ao olhar para o público que se apertava na sala. Teve que ser expulso de todos os colégios que freqüentou. uma jovem. mas em setembro desse ano repatriou-se para a Inglaterra e foi admitido na aviação militar. reconduzido por quem tomara conta dele. conseguiu a revisão do processo e Ronald True foi declarado louco moral. que este indivíduo era um criminoso e. Em 1914. no qual foi descoberto seu vício da morfina por sofrer uma grave crise de desintoxicação brusca. Um exemplo concreto ilustrará melhor a diferença que separa o louco moral do simples amoral por defeito de sua inteligência abstrata (necessária para o funcionamento do juízo moral): há poucos anos a opinião pública inglesa comoveu-se e protestou contra a absolvição de um criminoso. mais. este delinqüente era filho de família de recursos. Cansou-se logo do mesmo e em 1918 apareceu de novo na Inglaterra com sua mulher e sem ter nem roupa para mudar. sem um penny. mas seu advogado recorreu. vezes ébrio que . pouco antes de rebentar a guerra. leiamos alguma coisa de sua história e dela obteremos dados de interesse: nascido em 1891. na noite de 5 para 6 de março de 1922. para desertar dentro de poucos meses e partir para o México.ainda menino sua família decidiu enviá-lo para a Nova Zelândia e fazê-lo trabalhar em uma empresa agrícola. na qual ostentava o pseudônimo de Olive Young. A melhor prova de seu transtorno no-la dá o fato de que. Voltava tarde para casa. irresponsável. convicto e confesso de haver matado.63 Considerada deste ponto de vista. encontrava-se nosso homem em Xangai viciado na morfina. Em conseqüência disso foi expulso do corpo. inscreveu-se cm um serviço de polícia montada no noroeste do Canadá. Gertrudes Yates. por perturbar o sossego da classe. mas desde o início de sua vida deu mostras de um caráter violento e cruel. por meio da qual teve um emprego como instrutor de aviação no Texas. em virtude de não ser possível fazê-lo trabalhar. no Hammersmith Palace de Variétés. sobretudo. com brincadeiras de mau gosto. com um bom soldo. a grande maioria desses indivíduos tiveram no início de sua vida ocasiões de sobra para satisfazer normalmente (e com menos esforço do que depois realizam) seus desejos. e não obstante preferem levar uma vida infeliz. em vista disso . quando sua mãe tinha dezesseis anos. Em poucas semanas apareceu de novo em casa. e recolhido a um estabelecimento psiquiátrico (Broadmoor). ao ver seu retrato. onde foi admitido. Pois bem. transportando-se então para os Estados Unidos e contraindo matrimônio em 1917 (5 de novembro) com Miss Roberts. Protegido novamente por sua família foi colocado em um emprego civil. regressando em 1912. porque precisamente necessitam dela para encontrar-se satisfeitos. Em 1911 fugiu de casa e foi para a Argentina. Ronald True. Apesar de apresentar boas aptidões nas provas. no segundo dos quais feriu-se na cabeça e foi transportado ao Hospital de Gisport. quem diria que era um louco? Mas. mas dentro de poucos meses o perdeu por se terem verificado algumas irregularidades nas contas. seu desenvolvimento físico foi normal. Pouco tempo depois. que se dedicava à vida alegre. foi dois meses depois julgado e condenado à morte. sua psicologia é acentuadamente antibiológica ao passo que a do delinqüente comum é somente anti-social.

) e.64 sóbrio. pois "tinha sono e queria dormir logo". por conseguinte. em 1921 estabeleceu amizade com sua vítima. 2°. a nosso entender. loucura maníaco depressiva etc. estes três fatores são. sem sofrer tampouco de nenhum déficit intelectual suficientemente acentuado para explicar sua conduta por um defeito da capacidade de . Em mais de uma ocasião mostrara-se generoso e desprendido.o conceito da denominada loucura moral que em realidade deveria ser designada com o nome de psicose perversa. se tivermos que julgá-la por sua capacidade de compreensão. tenha-se em conta que para aplicar este qualificativo a um indivíduo é preciso: 1°. uma vez que. pois bem: que se deduz de tudo isso? Em primeiro lugar. o qual não teve muito trabalho para arrancar-lhe a confissão de seu delito. Em segundo lugar nos impressiona a falta de motivação aparente do delito. convidando todas as artistas que encontrou. que o indivíduo não sofra de nenhuma outra psicose (esquizofrenia. que os atos perversos não tenham uma utilidade primitivamente biológica. à qual sufocou com uma toalha em seu próprio quarto. mas em troca era bastante apreciado nos cabarés. malbarata (vender com prejuízo) a seguir sem proveito próprio (pois convida aos demais. não lhe faltaram ocasiões em sua vida para poder resolvê-la honestamente. além do mais. a característica geral de seus atos era precisamente sua falta de correspondência com a situação que os originava. Foi detido pela polícia e levado à presença do juiz. ao ser preso poucas horas depois. de suprimir o velho termo loucura e. Já relatamos o resto. levando o cadáver para o banheiro e deixando aberta a torneira de gás para simular que morrera asfixiada por este. que não se ache justificada por um fator de ambiente (educação defeituosa. Em terceiro lugar. E tudo isso é praticado achando-se o indivíduo em aparentes condições de lucidez e normalidade. isto é. necessidades vitais insatisfeitas por um regime econômico apertado etc. Quem lidava com ele falava. Finalmente. os que caracterizam . Mas. mas não obstante. Sem nenhuma briga anterior. de suas habilidades e de sua palestra agradável. que se nos mostre perfeitamente normal em todos seus restantes aspectos. empenhou-as por cinco libras e foi gastá-las em um cabaré. obtendo dinheiro e satisfações sem ter que recorrer a meios anormais. mau exemplo. Este último tem a vantagem. de invenção e crítica. por outro lado. designar o sentido da alteração moral. a princípio. mata sua amiga para empenhar suas jóias por uma mísera importância que. Pois bem. pois. ninguém pôde constatar a menor alteração em sua disposição otimista e alegre. que sua grave perversão moral não seja incidental. Arrecadou as jóias que possuía sua amiga no boudoir. um fator interno que era o responsável por sua falta de adaptação social. Havia. que limitam . mas permanente. que quase nem conhece).ao mesmo tempo. notemos que a inteligência propriamente dita deste indivíduo era pelo menos normal. 3°. sem nenhuma justificativa lógica. Com efeito.) bem classificável. era sua conduta que a cada instante contradizia esta opinião favorável e contrastava violentamente com seu aspecto. nos quais brilhava por seu espírito e elegância. a incapacidade de adaptação social de Ronald True.

Isto é. sobretudo certo para a conduta sexual. Se considerarmos tais limitações. Em troca. difícil ou impossível de satisfazer por meios legais (delitos contra a propriedade por falta de alimentos. a existência do tipo escrupuloso. ainda caberia considerar se devem ou não ser separados da psicose perversa os casos de brusca e definitiva perda do equilíbrio moral devidos a uma ação toxi-infecciosa e especialmente às diversas formas de encefalomielite e de neuraxite epidêmica. vestidos etc. precisamente o que define o tipo que descrevemos é a persistência de sua atitude geral de amoralidade através de todas as idades. mas devemos assinalar a relativa freqüência com que em um mesmo indivíduo podem alternar-se fases de hipermoralidade e amoralidade. talvez porque esta mais do que nenhuma outra modalidade do comportamento humano . mas tal questão por não se achar ainda resolvida.). Resumindo. mas ninguém nega. impaludação etc. pois não se pode esperar criar no indivíduo a fé moral por meio de raciocínio nem castigos.Coação de superiores. . a enorme massa de indivíduos que cometem delitos ou imoralidades deve ser classificada nos seguintes grupos. .Mau exemplo (pessoal ou coletivo).Cultura defeituosa (desconhecimento das leis).65 julgamento moral (inteligência abstrata). Em realidade trata-se mais de um defeito do que de uma enfermidade da personalidade.depende em grande parte de condições somáticas (grau de "ciúme" existente em um momento dado). . se desejamos adquirir dela um conhecimento científico: 44. pertencente à denominada personalidade compulsiva ou obsessiva. é uma questão que não nos interessa discutir aqui. deve ser deixada de lado agora. Até que ponto podem. fazendo-os depender de uma raiz comum (esquizofrenia abortada). De qualquer modo. . Por causa ambiental: . se relacionar estes dois tipos opostos. .). Assim concebida.Educação defeituosa (desenvolvimento insuficiente das inibições. coincidindo com variações da atividade de diversos grupos hormonais. não há risco de aplicarmos o nome de loucos morais ou de psicóticos perversos a outros doentes mentais nem que o utilizemos para designar a sem-vergonhice vulgar. são muitos os autores que estabeleceram uma relação causal entre as lesões do tálamo (centro emocional) e a desaparição do denominado: "sentido moral" nestes casos e até deduziram de tal reação um modo sugestivo de tratamento para melhorar estes casos (emprego de substâncias piretógenas. por exemplo. DELINQUENTES: 1º.Necessidade vital imediata. a psicose perversa é de um prognóstico absolutamente desfavorável.

que.) Indivíduos psicopatas com os diferentes tipos de personalidade anormais . se notavam profundas discrepâncias no ajuizamento ético das diversas condutas sociais. dos quais derivam (como corolários dos postulados) uma série de preceitos ou instruções que.66 2º Por causa endógena: . loucura. inclusive entre pessoas cultas e peritas. . DEVER.Anormais. significa. Indivíduos que sofrem de psicose endógenas (epilepsia. impelidas pelo duplo jogo das reações emocionais primárias e as pressões do ambiente social. sempre que neste não houvesse ainda surgido uma organização funcional especializada . maníaco-depressivo. é completamente inescusável e ponte necessária.Desenvolvimento mental insuficiente a) Débeis mentais b) Imbecis c) Idiotas . LEI E JUSTIÇA. alucinações etc. interposta entre o indivíduo e a coletividade. Isto. (37x100 que puderam ser reconhecidos nos cárceres). que para introduzir uma "ordem social". Já verificamos a não existência no homem de um fator geral de moralidade e que. Neste momento de nossa exposição. neutros e objetivos. esquezofrenia.). se converterão no Código legislativo. a enfocação psicológica dos quatro conceitos que regem toda a atuação jurídica. demência etc. GÉNESE E EVOLUÇÃO DOS CONCEITOS DE DIREITO. assumisse a missão de controlar essas ações e reações dialéticas. submetendo-as a padrões normativos para cujo exato cumprimento dispunha de recursos supostamente eficientes.Indivíduos que sofrem de psicose tóxicas ou infecciosas (paralisia geral. é preciso estruturar artificialmente uma série de critérios. . Isso. aceitas pelo denominado Poder Executivo (sempre possuidor do máximo valor de força bruta capaz de atuar disciplinadamente se necessário).o Estado . bastaria para compreender a vida psíquica interpessoal em qualquer grupo humano mais ou menos amplo. CAPÍTULO V 45. Acabamos de ver como se condensam e cristalizam as diversas atitudes morais.loucos morais Assim podemos verificar que é mínima a chamada loucura moral no campo das causas eficientes da delinqüência. psicopatas perversos .Transtornos permanente ou temporário do equilíbrio mental por uma Psicose clinicamente determinada.

inclusive. em aparência.no primeiro caso . a vivência de imensa desproteção levou o . na regulamentação das relações inter-humanas. mas em realidade obedecendo fatalmente a impulsos engendrados em virtude da liberação de potenciais energéticos que os psicólogos concordaram em denominar "instintivos". o homem adulto. Tampouco sabem que. porque tinham que lhes dar algum nome. aplicando a posteriori um sistema de sanções para seus infratores. já não se comporta. quando se acha ante. mas a imediata realidade observável é que. isto é. situações. Poderíamos.no segundo.e que não se desvanece de vaidosa satisfação . Quiçá obedeça finalmente a essa mesma justiça retributiva universal e homeopática que deriva do grande princípio das compensações. enquanto esta o acaricia. aprende a simular que não se vinga . a retribuição homóloga da dor ou do prazer sentidos. 46. Todavia.como os mesmos concebem as noções conceptuais que manipulam. semelhantes. juiz e parte em uma seqüência de atos. dizer que mais se aprofundaram neste tema foram alguns cultores da filosofia do Direito. a função judiciária consistirá essencialmente em assegurar o cumprimento desse código. em definitivo. que não pode ser.67 Dado esse passo. isto é. que pouco se desentranhou. isto é. de um modo tão simplista. Em que pese à considerável bibliografia acumulada. PSICOGÊNESE DOS CONCEITOS DE DIREITO E DEVER Este problema. geralmente pouco atendido pelos psicólogos de cunho experimental e defeituosamente tratado pelos pré-historiadores e antropólogos. Pois bem: se aceitamos a progressiva complicação das organizações sociais deu lugar à eflorescência desses órgãos legislativos e judiciais. habitualmente. o fazem usando de um direito ou em cumprimento de um dever. quando se sente ofendido ou mimado. Para uma maioria de sociólogos. será bom vermos . acerca deste importantíssimo tema. sabem que estão agindo de acordo com os princípios ou normas sociais que serviram de base a múltiplos códigos legislativos humanos: a vingança e o agradecimento. E isso ele o faz porque desde pequeno ouviu dizer que "não é bom fazer justiça com suas próprias mãos". E pouco se importam do juízo que qualquer um possa fazer de suas condutas. agindo assim.de nosso prisma puramente psicológico . Agem espontaneamente. desde os tempos pré-históricos até hoje. normal e civilizado. em condições normais. Nem a fera que mata outra ou que agrediu sua prole. ao mesmo tempo. e procuremos também ver se nessas concepções pode existir algo que seja tão profundamente errôneo que justifique a falta de progresso observado. nem o macaco que no jardim zoológico cata as pulgas de sua companheira. que constituem hoje um dos pilares básicos de qualquer estado.

sem necessidade de ter que conquistá-las à força. pela capacidade de ação material. Daí o estabelecer-se e generalizar-se de um modo natural a denominada "lei do mais forte". e saíram espancados e vencidos da luta. através de 3 ou 4 elos. .mais tarde . ao serem transmitidos e conservados em várias gerações. e homo stultus cuja aparência muscular fosse tão atlética e seus movimentos tão enérgicos que pudessem ser igualados aos do primitivo vencedor. Mas a realidade é que. a ter preferência em qualquer ato de seleção.68 homo natura ao temor supersticioso das forças sobrenaturais e lhe impôs uma série de ritos de renúncia e auto-sacrifício. aos quais os novos "membros" deviam se submeter. Não negamos a importância que o temor supersticioso teve na estratificação de algumas obrigações humanas. às vivências religiosas. isto é. pode ter .uma complicada legislação tribal (estudada por Freud em seu célebre livro: Totem e Tabu) mas.pôde ser transferida sem novas lutas a outros exemplos. Quem o divide poderá ter uma clara ilustração inspecionando os diversos personagens que se reúnem em qualquer palanque ou tribuna “oficial”. O que houve aqui foi simplesmente a substituição de um estímulo absoluto (golpes) por um estímulo condicionado (presença física no local) na provocação de uma conduta inibidora no grupo previamente espancado. afastadas da força mecânica. vez mais. a preservação da exogamia. fez nossos semelhantes preverem ou anteciparem a conveniência de adaptar-se às normas de conduta que sua experiência pessoal lhes havia demonstrado serem mais úteis. cristalizaram em códigos elementares de costumes. na ocasião de qualquer efeméride ou solenidade. como não negamos tampouco o papel que o fator sexual. física ou bruta e. ou seja. podemos afirmar que foi a capacidade de estabelecer reflexos condicionados entre certos "estímulos" (coativos ou propulsivos) e certas impressões ou vivências (de satisfação ou de sofrimento) o que. aparentemente. portanto. Expresso em termos neurofisiológicos. aparentemente vinculadas a domínios espirituais e miríficos. as origens das atitudes de "conformismo" a determinados preceitos são mais amplos e anteriores. a nosso entender. agora transformada em "direito" do mais forte (fisicamente). ao compasso da progressiva simbolização e hierarquização condicionada das motivações da conduta de domínio ou de submissão humanas. Mais tarde. mesmo. O que sem dúvida determinou nós homens primitivos o acatamento de certas e ainda não formuladas nem socialmente impostas normas de conduta foi a observação empírica da sucessão inelutável de certos antecedentes e conseqüentes. lhe fizessem sentir seu direito a escolher as peças que mais lhe agradassem. chegou o dia em que bastou a presença desse exemplar nas proximidades da caça para que seus precedentes opositores lhe deixassem o campo livre. mais ou menos patriótica ou internacional. isto é. por exemplo. de proibições e compulsões. se em diversas ocasiões procuraram disputar uma cobiçada presa a outro exemplar humano mais forte. em um dado momento. chega-se sempre a estabelecer que o valor condicionante destas novas forças se acha regulado pela primeira. Assim engendrada essa atitude como resultado da experiência . será ditada por novas modalidades de força cada. variáveis de uns a outros grupos que. Assim. por bem ou à força.

ao dever. A INTROJEÇÃO COMPULSIVA". que são. mais tarde. por pressão externa. realmente. nossos semelhantes. porque nosso impulso de afirmação do ser nos levaria a querer ser mais do que os demais. pois logo que alguém sofreu na própria carne uma frustração. desde que são estas capazes de entender. mediante um ato de instrução (in-trudere) perseverante? 47. nossos irados protestos quando alguém fura uma fila. à maneira de "cunha". a moral social de cada época e ciclo cultural. ou "fazer-se" de escravo. lentamente.69 Não obstante. O trânsito do dever "imposto de fora" (correspondente à fase de "moral heterônoma" de Piaget). os pais. se interiorizou sob a forma de rancor e por uma misteriosa mudança se converteu. ou seja. mas quando esta se mostrou impotente para libertá-lo delas. aquele não terminou senão para uma escassa minoria de mentes seletas. E isso. aprender a comportar-se como seres "civilizados". na melhor salvaguarda do odiado. isto é. mestres. como seres "conscientes de seus direitos e deveres". mesmo dando por suposto que. da constrição. e a verdade é que estes são maioria. uma maioria de frustrados usou seu rancor para. sejam igualmente compartidos". em qualquer lugar. os sofrimentos e as frustrações. em latim) da qual derivou. por sua vez. que a "justiça será igual para todos" quando em realidade o que deveríamos dizer é que gostamos que "os males e contrariedades. . não é o mesmo cumprir regras e ser submisso ou sentir-se obediente.houvessem revoltado o homem primitivo e incitado sua cólera. transmitem às crianças. só nos tranqüiliza e não nos causa remorso se chegamos a acreditar que os outros não são mais do que nós. mas se isso não é possível. expresso de modo mais claro: como chegamos a considerar eqüitativo (ou justo) este balanço de direitos e deveres que nos foram impostos de fora."ditado de dentro" (correspondente à fase de "moral autônoma" do mesmo autor) teve que ser tão lento no curso histórico do homem como o foi o que vai desde a organização anárquico-tirânica à organização democrática. Não é a mesma coisa ser escravo. a saber: como se origina em cada um de nos a crença autóctona da existência de leis éticas? Ou.. ou seja. precisamente. uma vez estabelecida a linguagem falada como meio de intercomunicação social. Foi assim que. preceitos negativos e positivos que as façam. ou "bicha". salvaguardar o frustrador contra todo intento de rebeldia esporádica de outros "fortes" e constituiu. a convicção com que afirmamos. isto é. ou "sentir-se" escravo. falta responder à principal questão. tutores etc. Tampouco. FASE INICIAL NA PSICOGÊNESE DAS NOÇÕES DE DIREITO E DEVER. o armazém energético que assegurou a estabilidade dos costumes ("mores". Diz a gente que "mal de muitos é consolo de tolos". quando estes não pousam em nossas cabeças. A melhor prova disto no-la dá a "santa indignação" com que reagimos contra os chamados "privilégios". não só em estrutura biológica como em destino vital. por quê? Ora. E do mesmo modo como esse não se acha ainda em suas etapas finais. destarte. Logicamente cabe pensar que as primeiras coações emanadas da natureza ou de seus companheiros circunstanciais: . satisfaz-se ao saber que todos seus próximos (e que estão próximos) também a sofrem.

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Eis porque, uma vez imposto um preceito e adquirida força de costume, mais difícil cada vez se torna desobedecê-lo sem levantar a tremenda força de sua "tradição", que não é outra cousa mais do que a soma dos rancores que seu cumprimento determinou. Então, tal preceito ou hábito adquire o caráter de um axioma, isto é, de algo que não requer demonstração e que se toma válido per se. "O dever não se discute: cumpre-se", é uma afirmação ainda hoje freqüentemente ouvida de lábios dos que se julgam depositários da ordem e da paz sociais. Se, de fato com isso compreendemos a força crescente da tradição: - a imensa energia que acumula a inércia do passado - não nos explicamos porque é universal o sentimento de culpa e justiça, que separa a cada passo a linha do devido, do permitido e do proibido, mesmo em ausência de toda influência aparente ou coação exterior. Eis senão quando chega em nosso auxílio uma das mais sedutoras teorias de Sigmund Freud ao dizer-nos que o sentimento de culpa que pesa sobre a humanidade não é o do "pecado original", mas sim o do parricídio primitivo, e que é por sua influência que cabe explicar a adoção de uma atitude expiatória - consecutiva ao remorso e ao temor - que nos leva a todos a esperar que o mundo seja, realmente, "um vale de lágrimas" e a nos resignar ante o sofrimento e a renúncia de nossos desejos mais ambiciosos. Na horda humana, o homem-animal mais fisicamente forte e agressivo ditava seus tirânicos caprichos; por conseguinte, exercia o que depois foi denominado "direito da força", instituído nos países feudais e ainda hoje exercido em não poucos lugares do mundo sol disant civilizado. A posse das jovens donzelas por aquele bruto concitava os rancores dos jovens varões até que em determinada ocasião se uniram e o mataram. Mas, acostumados a serem guiados e orientados, estimulados e freados, por sua ativa presença, sentiram tremendo desamparo e angústia, ao verem-se, como no princípio, reduzidos às suas simples forças individuais. E originou-se neles um supersticioso temor de malefícios sem conta, que sobreviriam a menos que de algum modo, ressuscitassem ao até então odiado condutor e, por assim dizer: o eternizassem. Disparada a imaginação e posto em marcha o pensamento mágico, acreditaram que os primeiros males sobrevindos eram resultado de sua cólera e decidiram aplacá-la com presentes e sacrifícios ao mesmo tempo, que, os homicídios se submetiam a diversas e curiosas cerimônias de purificação e expiação. Foi assim que nasceram os diversos vislumbres de religião e que se originou, pela primeira vez, em conjuntos humanos, a crença de que "quem faz, paga", ou de que "quem com ferro fere, com ferro será ferido", ou "quem semeia ventos colhe tempestades", isto é: a crença numa justiça retributiva, em uma re-ação (oposta à ação) que somente poderia ser evitada aceitando o statu quo dominante. E essa geração já transmitiu a seus filhos o temor e o respeito ao chefe morto e posteriormente glorificado, erigindo-o ditador post-mortem e fazendo sentir às delicadas mentes infantis o medo à presença invisível de ausentes, aos quais é preciso obedecer e satisfazer para se poder viver em paz. (SI VIS PACEM PARAT BELLUM) Desta sorte, o que primitivamente era uma coação externa e imediata se transformou em uma coação interna, auto-imposta e mediata, isto é, em uma auto limitação de impulsos, por "introjeção" (ou, se se quiser, interiorização e apropriação

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identificadora), de uma vontade alheia. As crianças e os jovens sentiram que somente poderiam viver alegres e contentes se previamente contentassem e satisfizessem aqueles de quem dependiam: (pais, superiores etc.) e, portanto, tiveram que aprender a comportar-se não de acordo com seu gosto, mas de acordo com normas, regras, ordens ou preceitos que, em sua integrada variedade, eram designados com o qualificativo de DEVER. Em síntese: a introjeção do conceito e dever - sinônimo de obrigação que é preciso cumprir - se verifica por uma dupla via: na história social, pelo medo ao pulo no vazio moral, isto é, à entrada no desconhecido e imprevisível; na história individual, pela condicionalização progressiva de condutas que, cada, vez que são infringidas, acarretam fracassos e sofrimentos. A isso podemos juntar, além do mais, uma segunda condicionalização praxi-verbal, em virtude da qual cada série de atos imperativos é denominada com o qualificativo "dever", e este passa, assim, a ser não somente aceito como também a ser procurado, por vezes com afã, por suas vítimas. Quem não viu refletir-se a angústia em muitos rostos de pessoas que em qualquer emergência pergunta a si e aos outros: "Qual é meu dever? Que devo fazer?" Direito e dever nascem, pois - e depois se introjetam - como duas metades homólogas de um mesmo todo; qual irmão siameses ou monstros xifópagos, não pode um existir sem o outro: suas carnes se interpenetram até ao ponto de que hoje se começa a exigir das pessoas, como dever, a luta pelos seus direitos e, de outra parte, se reconhece o direito de realizar seus deveres (mesmo quando estes impliquem em atos lesivos a outros). Ambos os termos, contudo, tiveram uma existência artificial antes que suas interrelações fossem codificadas e fixadas em forma de lei. Se hoje as leis são primeiro, promulgadas e depois respeitadas, na história da humanidade sucedeu precisamente o contrário: certos atos, à força de repetição natural, converteram-se em costumes, estes em tradições e estas em leis que em certo dia foram verbalizadas e enunciadas ante algum estranho. A lei nada mais é do que o enunciado de certos limites morais que circundam "regiões de conduta", isto é: modelos de comportamento (físico se se trata de leis físicas, biológico ou social, se se trata de leis biosociais). Mas, do mesmo modo como o direito implica o dever e vice-versa, assim também a lei leva consigo a justiça. Vejamos, pois, com um pouco mais de atenção, a psicogênese deste outro par de idéias. Os Conceitos de Lei e de Justiça. - Podem os juristas e os filósofos do Direito discutir quanto quiserem acerca da fundamentação lógica destas noções, mas não resta dúvida de que, consideradas de um prisma puramente psicológico, sua formação deriva das precedentes e traduz, como aquelas, na consciência do homem, fatos de caráter universal, consubstanciais da vida cósmica: se direito e dever surgiam de uma certa estratificação das forças vectoras de um dinamismo grupal, lei e justiça não são mais do que pólos extremos do outro eixo de coordenadas em que se inscrevem todos os instáveis equilíbrios vitais. Estes seguem determinados princípios, obedecem a padrões reguladores permanentes, a cujo descobrimento os cientistas dedicam seu constante esforço. E também, quando por qualquer causa e motivo se altera uma dessas fórmulas de equilíbrio, vemos surgir uma série de efeitos (denominados reacionais) que atuando no sentido oposto ao do agente alterante, compensam sua ação e restabelecem a normalidade. A estes processos, se denomina, "compensadores", e ao princípio que os

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regula se designa com o qualificativo de "princípio ou lei das compensações". Este princípio rege em todos os domínios do existente e é imanentemente vital. Pois bem: é precisamente nesse princípio da "compensação" que se encontra implícita a noção de justiça que só surgirá na consciência quando o homem tiver alcançado um nível de evolução psíquica capaz do pensamento conceptual. Muito antes disso sua conduta já terá obedecido infinitas vezes ao impulso desse princípio; tantas vezes como diante do sentimento de frustração reagiu redobrando seu esforço para obter o triunfo; tantas como perante qualquer carência tentou assegurar para si o correspondente excesso ou vice-versa. Esse princípio cósmico da "compensação" - dirigente do equilíbrio cósmico universal - acha-se esplendidamente simbolizado na balança com que se costuma representar a justiça humana, mas infelizmente esta, na maioria das ocasiões, não corresponde a esse simbolismo, pois não é neutra, mas pejorativa, animada por tendências iracundas e destruidoras, bem distintas das que pregou herói do Calvário. Assim, a justiça humana se transforma freqüentemente em "vingança" e agrava, em vez de compensar, o desequilíbrio que inicialmente a pôs em marcha, como o denominado impulso reivindicador - ou sede de justiça - pouco tem de compensador e, portanto, de justo. Efetivamente, no terreno dos valores éticos o equilíbrio só pode ser conseguido mediante a anulação dos potenciais opostos: o feio só pode ser anulado com o belo, o mau com o bom, o prejudicial com o útil, o erro com a verdade etc. De acordo com este critério, um dano somente pode ser, equilibrado ou "compensado" com um beneficio e, portanto, a primitiva fórmula com que se concretizou a incipiente reação humana ante os desvios sociais - a famosa lei de talião é profunda e substancialmente injusta, já que aumenta os males, ao invés de anulá-los. Pode-se dizer que hoje a justiça, com sua imensa aparelhagem oficial e paraoficial, com seus poderosos recursos de investigação (policial) e sanção (penal), só intervém quando o pêndulo da conduta se inclina para o lado dos desvalores. Por isso é que seu nome produz na maioria das pessoas uma impressão desagradável, ao invés de suscitar um sentimento de segurança. Por isso, também, é que sua ação - em uma grande parte dos casos - resulta ineficaz (como o prova a percentagem de reincidências de delitos). E isso encontra fácil explicação psicológica: é preciso reconhecer que muitos dos órgãos e dos procedimentos de ação judiciária se acham dirigidos contra e não a favor do bem-estar de quem deles necessita. Em primeiro lugar, exige-se legalmente de uma maioria de seres muito mais do que estes - por sua natureza e cultura - podem dar. Em segundo, quando falham não são redimidos e sim castigados, criando neles a idéia de que, havendo pago a sua dívida para com a justiça (?) podem recomeçar, embora, pela experiência aprendida, procurem escapar melhor à ameaçadora sanção de seus novos delitos. Afirmam os sociólogos que existem dois tipos de justiça: distributiva (dar a cada um o que é seu, isto é, o que merece) e a retributiva (restabelecer a ordem anteriormente obtida, mediante o prêmio ou a sanção correspondentes). A realidade é, no entanto, que não existe atualmente justiça distributiva organizada, e que a retributiva existe somente para a sanção e não para o prêmio. Não são os juízes ou magistrados

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que concedem: bônus, donativos ou benefícios pelos grandes serviços sociais, mas as associações filantrópicas (mais ou menos de fachada e bem intencionadas), organizações de propaganda (comercial ou política), instituições pedagógicas etc. Qual seria a fórmula psicológica da justiça? Precisamente a que se deduz de seu profundo sentido de compensação: se alguém roubar a outrem, é preciso estimulálo não só a ganhar e restituir a quantidade que subtraiu, mas também a ganhar outro tanto e a doá-lo a quem roubou, em compensação pelo prejuízo havido; se alguém faz a outrem sofrer, é preciso dar-lhe os meios para que possa depois proporcionar uma alegria equivalente ao sofrimento que provocou. Em síntese: é preciso destruir o mal com a superabundância do bem. Enquanto a humanidade não conseguir trilhar esta orientação, crescerão e se agravarão as infrações sociais, na mesma medida em que aumentarão paradoxalmente os pressupostos das instituições chamadas repressivas. Nem a situação econômica florescente, nem a excelência de seus órgãos repressivos, nem a severidade de suas leis penais impedem de Washington, por exemplo, ser a cidade que conta com maior criminal idade de todo o continente americano; porque a criminalidade não se combate com dinheiro, nem com sapiência, nem com rigores: combate-se com o amor, isto é, com uma atitude de benevolência para o que existe e isto é, precisamente, o que não se desenvolve nos grandes centros urbanos da atual civilização, cujo ídolo é a ambição do êxito.

CAPÍTULO VI PSICOLOGIA DO DIREITO 48. CONCEITO PSICOLÓGICO DA CONDUTA DELITUOSA.
Para o jurista um delito é todo ato (positivo ou negativo) de caráter voluntário, que se afasta das normas estabelecidas pela legislação do Estado, transgredindo-as de maneira a encontrar uma qualificação predeterminada nas leis de caráter penal. Para o filósofo um delito é todo ato que não se ajusta aos princípios da ética. E para o psicólogo? Que saibamos, este último não tentou até agora estabelecer um critério definido do ato delituoso de seu ponto de vista, e acha-se mais preocupado com a tarefa de compreender os delitos (descobrindo sua motivação) que com a de definilos. Mas, não obstante, é claro, como conseqüência de seus trabalhos neste campo (psicologia Criminológica) elaborou um conceito psicológico do ato delituoso, independente do jurista e não de todo identificável com o do filósofo ou o moralista. A moderna tendência de incluir a Psicologia cada vez mais na biologia geral faz

Há neste aspecto a mesma diferença de critério que existe entre a família e o médico quando no curso de uma enfermidade crônica. social. Para o psicólogo. a sanção jurídica de um ato delituoso não pode ser somente concebida sob o estreito campo do castigo. Então. Porque não castigar de acordo com a motivação psicológica do mesmo? Pela simples razão de que lhes é desconhecida na maioria dos casos.e sobretudo na aplicação da mesma . que leva em conta a constituição do paciente e a evolução anterior de seu processo. chegamos à conclusão de que sua execução representa uma conseqüência absolutamente lógica e fatal do conflito das forças e fatores que o determinaram: os mesmos mecanismos psicológicos intervêm na execução dos atos legais que na dos atos delituosos. uma tuberculose. Eis aqui a tarefa . pois. Isso porque na escolha da pena .74 com que o psicólogo atual conceba esta questão de um ponto de vista essencialmente biológico. Neste ponto estão de acordo todos os penalistas modernos e por isso procuram implantar a teoria psicogógica da ação penal. integrando o denominado ato delituoso na cadeia das ações pessoais. o futuro de um delinqüente acha-se menos condicionado pela qualificação que mereça seu delito no Código do que pela ação que sobre sua consciência moral exerçam os acontecimentos provocados pela intervenção criminológica. se produz uma complicação ou aparece um sintoma agudo e teatral.devem colaborar os técnicos da psicologia anormal. mas nunca poderemos compreender este caráter predeterminado das ações humanas se descuidamos do estudo de qualquer dos nove fatores (variáveis) que as determinam. ao passo que o médico. A sanção não deve ser uma vingança que a sociedade tome contra o indivíduo que a ofendeu. para ele.. por exemplo. por exemplo.na vida psíquica do indivíduo. o delito é um episódio incidental. dita suas ordens e concebe seus planos sem preocupar-se com este incidente. ser julgados e condenados de um modo absolutamente diferente. Igualmente. jurídica e pedagógica se se quiser conseguir um efeito verdadeiramente útil da ação penal. o que constitui o motivo da atuação jurídica não representa mais do que um episódio nem sempre significante . Compreender e explicar um delito eqüivale. no entanto. de sorte que. mais com boa fé do que com acerto. Ainda discutem os penalistas se têm de castigar de acordo com os resultados ou com a intenção ao ato delituoso.. Não é possível julgar um delito sem compreendê-lo. na maioria dos casos. por conseguinte. Considerando o delito do ponto de vista psicológico. De outra parte. o tema central de sua atuação. mas para isto é preciso não só conhecer os antecedentes da situação mas também o valor de todos os fatores determinantes da reação pessoal que antes estudamos. Delitos aparentemente iguais e determinados pelas mesmas circunstâncias externas podem. ter uma significação inteiramente distinta e devem. uma hemorragia. a encontrar o valor das incógnitas na equação responsável pela conduta pessoal ante a situação delituosa. como dissemos antes. e este é o trabalho psicológico que compete ao jurista realizar se quiser merecer este nome. via de regra. mas a vida deste não depende tanto do curso de sua hemorragia como da modificação das profundas e invisíveis lesões que a prepararam e deram origem. mas um recurso por meio do qual aquela trata de conseguir com que este recobre ulteriormente a normalidade de sua conduta. a família agita-se e trata de aplicar soluções heróicas ante a gravidade do acontecimento: "tudo para salvar o doente". para o jurista é.

do ponto de vista psicológico-legal. isto é: prolongado) . isto é. pois. b) o temperamento.vaga sugestão ou intuição do fim possível e a realização ativa do mesmo. Tenha-se em conta que estes nove fatores podem. e sim percorre ao longo das restantes correntes de conduta.desejo ou tendência . Tanto num como noutro caso o pensamento da finalidade ou objetivo.decisão ..realização ou execução. tais fases são: intelecção ou "gnósia" . Na primeira fase surge. a conduta humana. como já indicamos. mais do que a fase explícita em que culmina e se descarrega um processo psíquico de gradativa carga delituosa. O indivíduo a percebe como simples sugestão condicional: e se não fizesse?. ou dúvida (luta de motivos . favorecendo ou impedindo) e somar-se ou contrapor-se. na maioria dos casos. às vezes com precisão. E só agora podemos ter uma idéia de quão deficientemente se procede ainda. a "idéia" delitógena..!. f) a constelação. i) o modo de percepção da situação por parte do delinqüente. não é para o psicólogo..75 fundamental do jurista: diante de qualquer ato contra a lei. ou como "prospecção condicional": seria capaz de. só agora podemos começar a entrever quão complicado problema é o de julgar.. Escolhendo o tipo comum de transgressão legal. nas ações forenses. pode-se dizer que nunca é totalmente impulsiva nem totalmente premeditada. g) a situação externa desencadeante. Colocando-as seriadamente. determinar o papel que desempenhou em sua execução: a) a constituição corporal. ou seja. cujos momentos iniciais remontam às vezes até várias décadas no passado individual. formando o que denominamos "complexos determinantes" da ação ou ações delituosas. imbricada com elas e. . Todo delito passa. c) a inteligência. o ato delituoso. FASES INTRAPSÍQUICAS DA AÇÃO DELITUOSA O que para o jurista representa todo seu material de estudo. passando pelas mesmas fases que vão desde a simples "gnósia" . d) o caráter. às vezes difusamente. por diversos estádios intrapsíquicos que podem ser ou não conscientes. ou como "tentação": que bom seria se. h) o tipo médio da reação coletiva aplicável à situação. 49. já está presente e por fim se põe em marcha o processo delitógeno. portanto. comportar-se de um modo distinto (positivo ou negativo. em cada caso...deliberação.intenção propósito ou delito "potencial". proibido mas exeqüível. e) a experiência anterior.

76 Na fase seguinte esse conteúdo gnóstico se "anima" e adquire força e clareza: a tentação cresce e converte-se em "desejo" (objetivamente. como se diz vulgarmente. O indivíduo começa a "gostar" da idéia ou. importa consignar que este planejamento ou preparação nem sempre é consciente e se realiza "a frigore". em tendência). a ajuda exterior. ainda. Se não se produz essa detenção. que forneça uma derivação (sublimação) de sua tendência ou uma providencial reativação de suas tendências piedosas podem fazer abortar nesta fase a psicogênese do delito. ou seja. 50. de seu êxito ou fracasso dependem. por haver carregado o revólver de sua agressividade. lugar e meios que melhor assegurem o êxito da ação. devido à perfeita correlação recíproca existente entre cada conteúdo significativo e seu oposto neste caso exagerado pelo maior hábito da reação correspondente ao oposto (exceto nos delinqüentes "habituais".já previamente armazenada . come pior. tanto para o psicólogo como para o juiz. distrai-se e abstrai-se de suas obrigações. do sofrimento ligado à dúvida e entrando na denominada deliberação de conflito. Fixar este propósito eqüivale a pensar. aproximandose. o impulso (desiderativo) ou o temor (frenador). ou não queres ou não te convém fazer isso. Nesta busca o indivíduo pode sacrificar o resultado à impunidade ou vice-versa. Todo seu funcionamento pessoal altera-se: dorme mal. a "acaricia". Um passo mais e surgirá a quarta fase. começa a condensar-se a' "intenção" delitógena (que. fatalmente. pois para isso falta o último passo intrapsíquico: a decisão. AS "FRONTEIRAS" PSICOLÓGICA E JUDICIÁRIA DO DELITO. recidivantes (recaída) e quase incorrigíveis) surge imediatamente a: Terceira fase: esta apresenta-se ab initio com caracteres de antítese: "não deves ou não podes. uma vez formulado o propósito e resolvida a dúvida. onde e como se vai realizar o ato delituoso. Mas. No entanto. pois constitui o limite ou fronteira entre o pré-delito e o delito propriamente dito. quando. são muitos os casos em que. isto é. isto é. segundo os teólogos. por uma determinada constelação de sinais situativos que desencadeiam a energia . em termos obstétricos. em suma. isto é. tanto como da gravidez. Poderia parecer a um observador superficial que esse passo estará somente condicionado pela "oportunidade". em período de libertação e execução) é do máximo interesse. sem que nunca saiam dele as balas. o indivíduo sente-se de tal modo aliviado em sua angústia que se dá por satisfeito por ter "tomado a postura ou atitude potencial"." A partir daí o indivíduo dicotomiza (divide) seu pensamento e oscila entre o "desejo" e o "temor". Eqüivale ao parto. conforme predominem nele. em escolher o momento. agora. as probabilidades de vida do produto elaborado.necessária para . Apenas um súbito exagero do medo. já é "pecado"). na qual o indivíduo se transforma em delinqüente em potencial por ter o propósito: "vou fazer". aproxima-se o momento em que já não lhe será possível subtrair-se à influência que o está convertendo em delinqüente. A passagem do propósito (ação potencial-retardada) à decisão (ação em marcha.

o do juiz que somente faz cair o peso de sua sanção sobre os atos de infração. por dar meia volta. mas um se atreve a enfrentar as conseqüências e o outro não. optará pela permanência com seu traje por trás dos bastidores. mostrar-se menos repreensível e censurável o indivíduo que chega a executar seu propósito delitógeno do que o que dá para trás no momento culminante de efetuá-lo (o chamado "delito profilático").que lhe será hostil do começo ao fim . mas não o é para os demais.pode. ser mais egoísta que aquele: ambos decidiram "friamente" ser maus. todo o conjunto das tendências antitéticas que havia sido reprimido (mas não suprimido) no final da fase deliberativa. "do dizer ao fazer há grande distância": enquanto o indivíduo se opõe a si mesmo. em última instância. deixar-se cair de pé (e tapando o nariz). além de à dissimulação e à hipocrisia. deve-se evacuá-lo. . Com efeito. é fácil terminar por decidir-se a favor da consecução do prazer mais imediato. também. mas quando se trata de descobrir seu propósito e expô-lo perante o mundo .e observa de que maneira amortece a velocidade de sua marcha à medida que chega à ponta do trampolim. Isto porque este último demonstra.pois. Dizem os cirurgiões: "Ubi pus. mas tampouco o pode ser. se reativa.77 a realização do ato infrator. qualquer desses fracassos acarreta maior sofrimento do que se propunha evitar cometendo o delito. em evitar a sanção. É claro que tal critério não pode ser mantido ou defendido no terreno puramente ético. inibição ou negligência".. por exemplo. a ulteriores complicações. que são os mais freqüentes. não pode ao menos considerar o duplo perigo que o ameaça: falha do êxito da execução e falha. pois sua simples repressão conduz. até terminar. muitos os denominados indutores de delitos que conseguem esquivar-se da sanção penal porque exercem sua influência de modo suficientemente solapado de forma a não se poder provar a relação de causa e efeito entre ela e o ato punível quase sempre praticado por um agente de melhor formação pessoal que a deles. assim ocorre com muitos delinqüentes em potencial que nunca chegam a ser atuais.para o psicólogo . onde há um propósito (mau) deve-se descarregá-lo na ação. Com isso entramos em um dos problemas de maior vigor e dificuldade que hoje suscita o Direito Criminal: o problema . com que resolução inicia sua marcha para o trampolim um nadador novato aparentemente decidido a mergulhar de cabeça .. sem se atrever a sair em cena.onde há pus. total ou parcialmente tentados ou consumados. e outras vezes. E por quê? Porque. por menos previsor que seja seu intelecto.então. como diz o velho adágio. São com efeito. nessa mesma "explosividade" evidencia-se a impossibilidade de mantê-lo freado e preso pela censura ética do indivíduo. verificará perfeitamente que . Isto é somente válido para os denominados "delitos por omissão. Outro motivo que pode levar o indivíduo a estancar na fase prépositiva . às vezes. por via associativa. muitas vezes. ibi evacuat" .de que os direitos dos criminosos serão tanto mais levados em conta quanto maior for a violência e a obcecação com que recorreram às últimas fases de seu processo delitógeno . ao surgir a ocasião de converter seu propósito em realidade. Se o incipiente autor chega a compreendê-lo assim.tanto das boas como das más ações .é que. Quem viu.aparentemente absurdo .

que ficará curado em poucas semanas . os que mutilam ou destroem as ilusões e as fontes de prazer anímicas. uma instituição ou um conceito) .78 Por isso. à medida que avança a compreensão da psicogênese do delito. Se estas existem é preciso imobilizar o delinqüente o tempo necessário para fazer-lhe o bem de evitar sua recaída. ao nascer. às vezes.. Ao passo que quem faz derramar o sangue é julgado como criminoso. Por isso confiamos em uma contínua diminuição das duas grandes variedades de infratores: os da lei político-social. isso não será justificado tanto no sentido expiatório como no preventivo de maiores males. contém em si todas as tendências delituosas. Essa compaixão: . leva sua vítima ao suicídio ou ao sacrifício pode ser louvado por sua.e ferir de morte (com uma imprudente palavra) uma alma feliz (que nunca mais o será) existe um abismo de responsabilidade psico-ética como existe também na qualificação judiciária. não estão qualificados como tais no Código Penal.às vezes igual à sentida para com a vítima (seja esta uma pessoa. e os da lei bio-social (que ainda apresenta aspectos não desvendados pelo exame psico-experimental). Do que foi dito até agora já se depreende que a psicologia do delito é antes de tudo uma psicologia da afetividade e da conação (tendência consciente para atuar). Entre ferir com um tiro o corpo . Mas se se aceitar este critério deve-se convir que a reclusão não será determinada tanto pela gravidade da infração como pelas probabilidades de uma imediata reincidência. CAPÍTULO VII MOTIVAÇÕES E TIPOS DE DELITOS 52. 51. cada vez mais iluminado pelo progresso da Psicologia. "austera firmeza de caráter e rígida submissão às normas do dever". mas a distância desse abismo tem sinais contrários em ambas. DELITOS NÃO QUALIFICADOS Cada vez mais se afasta dos critérios rotineiros o conceito psicológico dos atos delituosos . O indivíduo. da Pedagogia e da Sociologia. quem. todos os experimentadores coincidem em afumar que a imensa maioria dos delinqüentes sofre de perturbações afetivas . se for necessário. De fato. Felizmente o mundo caminha.conduz o juiz não tanto à sanção punitiva como à ajuda corretiva e.os mais repulsivos do ponto de vista psicológico.. em muitos casos. Exatamente como o médico imobiliza e anestesia o doente que vai operar. OS MOTIVOS DE DELITO. visto que procura satisfazer . ou sejam. em nome da "defesa social".tanto em seu aspecto individual como coletivo. privar de sua liberdade o autor do delito. Cada vez se compreende melhor que os piores delitos .. o primitivo ódio contra o delinqüente atual se transforma em compaixão para com ele. neste século.quantitativas ou qualitativas. já codificada..

artística. então.. Somente a lenta e penosa ação coercitiva da educação o irá ensinando que sua conduta resultará sempre de um compromisso. Sedução. e assim sucessivamente. em vez de dar origem ao delito direto que em potência representam (roubo. A interposição do elemento intelectual entre o sentimento e a ação dá lugar ao processo denominado sublimação. de vários fatores: o meio em que se realiza.. veremos como as tendências delituosas se confundem então com traços caracterológicos tolerados pelas leis. Violação. – entre os gregos cerimônia religiosa de invocação das almas dos mortos. como é natural. . da ação delituosa e.. apropriação indébita de bens.. Aprende então que deverá repartir sua comida. em virtude do qual estes motivos. de atuação profissional que implique em uma liberdade tolerada de impulsos destruidores (executor da justiça.. que deverá tolerar em seu contradito e que seus desejos têm que ajustar-se a certas normas impostas pela sociedade para poderem ser satisfeitos sem entrar em conflito com ela. Omissão total ou parcial de obrigações.Trapaça. uma vez nele.. plágio... empregados de agências executivas (?) etc.). polícia (?). a força ou intensidade de seus instintos etc. Pois bem... galanteio.. calúnia. isto é. atentados verbais ao pudor. insulto.. a capacidade discriminativa do indivíduo. de atuação dirigida para a vida política.. todo indivíduo no qual tal aprendizagem foi insuficiente por qualquer das causas que depois analisaremos. para não citar senão alguns. E assim anotamos esta sucessiva diluição do impulso delituoso no seguinte quadro: Roubo.. a tendência agressiva se dilui sob a forma de ironia. seus brinquedos. está destinado à delinqüência. será difícil voltar ao seu leito. por exemplo. critica.. falta de cooperação (acobertamento). dão origem a outros delitos que poderíamos denominar derivados. a técnica de ensinamento. insídia.. social. sua casa etc. Evocação mágica dos mortos). ser estabelecida (do mesmo modo como se faz na luta contra as enfermidades ou desvios da saúde) no terreno da previsão (higiene mental) mais do que no terreno da correção (psicagogia. Morte. Agressão. Esta aprendizagem depende. com efeito. Se a sublimação se acentua ainda mais. que deverá respeitar os bens dos demais.). Não Cumprimento Do dever. cirurgião (?). Assim. crime. neste caso o delito terá lugar fatalmente quando a energia da tendência à ação transborde os limites compatíveis com sua satisfação ou descarga social. violação e abandono de obrigações). com seus irmãos. magarefe (?) etc.79 suas necessidades vitais sem ter em conta absolutamente o prejuízo que isso possa ocasionar ao meio que o rodeia. de uma transação entre a satisfação de suas necessidades e as dos demais. negligência em seu cumprimento. por meio do exercício de uma profissão em que seja permitido tomar o alheio sem perigo (agentes fiscais (?). o indivíduo entrará no campo da ação anti-social.. científica ou religiosa. a tendência ao roubo se canalizará.. A luta contra a delinqüência deve. por exemplo. como um rio que transbordou.. furto.

isto é. alheias ao ser individual e atuando sobre ele. antes de passar a descrevê-los.80 Em síntese. vale a pena eliminar um dos que com maior insistência foram objeto de discussão entre os peritos criminalistas: refiro-me ao denominado delito "por sugestão". as segundas. pela mudança do tipo e da gravidade dos atos enquadrados como delitos nos Códigos jurídicos dos países soi-disant civilizados. como se esta honra pudesse ser afetada pela falta de conduta alheia! Combinando as influências endógenas e exógenos chega-se a poder isolar diversos tipos de delito. tornam-se aparentemente absurdos se julgados pelo objetivo diretamente visado. nos denominados delitos por adultério. Porém. em nosso mundo civilizado. Tal ocorre. em troca. teremos ocasião de tratar deste com a devida extensão. para dominar aquelas. indiferente. nos praticados por alguns "vingadores" que acreditam ter sido chamados a agir como braços justiceiros. de fora. Do mesmo modo estão incluídas nesta categoria várias motivações que poderíamos denominar "altruístas". como prescindindo absolutamente de seu conteúdo específico. Tais tipos são psicologicamente compreensíveis pelo estudo de suas respectivas motivações. Estas motivações são as responsáveis. é preciso contar como força delitógena exógena a da chamada "opinião pública". Assim. por exemplo. reparando desaguisados alheios etc. Igualmente pertencem às motivações exógenas as denominadas "cláusulas de honra". capaz de fazer pressão sobre o indivíduo para que se converta em delinqüente. a seu castigo penal. deve-se buscar a origem de todos os delitos na natureza profundamente antisocial (egoísta) das tendências congênitas do homem.é delito em muitos países sul-americanos ter ou propagar certas ideologias políticas que são. para depois abandoná-Io à sua sorte e assistir. isto é. também o é que a organização social. ao nos ocuparmos dos diversos tipos psicológicos dos delitos. 53 MOTIVAÇÕES "EXÓGENAS" (PARA DELITO) FORA DE Embora seja certo que a causa ab initio das infrações morais e legais se radica na própria natureza do ser humano. em troca. introduz algumas motivações que poderíamos denominar exógenas. segundo as épocas e lugares. nos cometidos por guerrilheiros quintacolunistas e espiões. Exemplos destes tipos de delito encontramos. que impelem o indivíduo ao delito. isto é. que levam não poucos cidadãos a infringir abertamente a moral do sentido comum. mas. hoje . por exemplo. no 5° ano da Guerra Mundial . a primeira e externo. em virtude das quais todos nós delinqüiríamos se não fosse porque a educação e as sanções penais nos criam um freio interno. Finalmente. por exemplo. exaltadas. nos quais o "clamor" público reclama que o enganado "lave com o sangue a mancha feita à sua honra". . Mais adiante. difundidas e até declaradas oficialmente obrigatórias em poderosos setores do chamado Velho Continente. com o fim de obter um beneficio para um terceiro (pessoal ou ideal).

tanto mais difícil será sugestioná-la. nossa cólera ou nosso amor. o estado sugestivo não é senão o resultado da supressão da capacidade de crítica da pessoa. OU DELITO INDUZIDO. pois com isso se evitariam múltiplos erros e confusões. e nossa sugestibilidade aumenta na mesma proporção que aumentam nosso medo. que trabalha numa câmara escura e ordena com gesto imperativo. por conseguinte. Pois bem: se quisermos compreender o critério psicológico acerca do "delito sugerido". Assim se compreende por que o estado hipnótico . De uma parte temos. de sorte que se engendra uma falsa persuasão no ânimo do futuro delinqüente. a cólera e o amor. assim é o medo. do ponto de vista psicológico. ao passo que aquelas tendem à ação imediata. induzir e sugestionar. só por esse fato. Mas.. acaricia a fronte da histérica e todo seu corpo com "passes". No primeiro caso se juntam à sugestão outros fatores e entre eles a racionalização dos motivos. Avancemos um passo mais e digamos que de modo automático todas as idéias que coincidem com a satisfação de uma tendência instintiva têm. Segundo este. DISCUSSÃO DO DENOMINADO " DELITO POR SUGESTÃO ". ao mesmo tempo que cochicha suavemente em seu ouvido palavras que lhe antecipam o prazer que experimentará ao dormir (?) e ficar submersa em êxtase.. por outro lado. do que odiamos ou do que amamos. por meio da associação de processos que tendem a determinar no indivíduo tais emoções. Isto nos faz compreender que quanto mais inteligente e menos emocionável for uma pessoa. E.é conseguido. com efeito. Que dedução se pode obter de tudo isso? Simplesmente que a palavra sugestão é um nome que não designa nenhum fato novo nem misterioso e. sorridente. De outra temos o sugestionador moderno: elegante. será necessário fixar antes o conceito moderno da sugestão. Julgamos necessário dedicar um parágrafo à parte a esta questão: por ser na atualidade ainda freqüentemente debatida na prática forense e por suscitar discussões tão acaloradas como estéreis. homem de imponente aspecto. sabemos que esta capacidade de crítica se acha em razão inversa do grau de afetividade e em razão direta do grau de inteligência. o estado emocional resultante da reativação da tendência reprodutora ou sexual (de conservação da espécie). voz grossa. Se consideramos agora que as duas tendências mais básicas da personalidade são as de conservar sua própria vida e a vida da espécie. olhar terrível. pelos experimentadores que o provocam.grau máximo do estado sugestivo . uma vez que estas por si são inertes. o hipnotizador que poderíamos denominar "clássico". . Antes de tudo é preciso distinguir bem os termos: não é o mesmo. com efeito. seria mais conveniente suprimi-Ia.81 54. conservando-se normais todas as demais funções psíquicas da mesma. isto é. m é: são as duas melhores armas de que pode se valer qualquer um para conseguir a inibição da capacidade de crítica em uma pessoa. uma "força sugestiva" muito maior que as denominadas idéias neutras. com os sinais máximos da masculinidade. podemos prever que toda idéia ou conteúdo conceptual que se relacione diretamente com elas (no sentido de favorecê-las) será capaz de colocar o indivíduo no denominado "estado sugestivo". Nós todos nos mostramos sugestionáveis diante do que tememos.

mas de uma idéia dotada de grande carga afetiva. Com efeito. Nossa missão imediata seria neste caso explicar por que se reativara nele esta tendência com tal energia e neste momento já nos encontraríamos ante o problema de determinar a intervenção que os nove fatores já descritos (como responsáveis pela ação pessoal) tiveram no caso que nos ocupa. por se achar apoiada por (ou ser a expressão de) uma tendência instintiva de reação (tendência agressiva ou de domínio. não de uma misteriosa sugestão. mais rapidamente terá lugar o aniquilamento da função de crítica. toda idéia tende à ação. O natural seria expor por que e como chegou a germinar nele a crença de que tinha que realizar o ato. e por isso só se origina quando a tendência afetiva venceu todas as resistências e inibições. e que dispõe de considerável quantidade de energia latente. que o indivíduo “A” cometeu o ato sem pensar. não se pode dizer que seu valor como elemento que exime de responsabilidade é o mesmo que se deduz da análise psicológica de suas crenças relativas à situação de delito. determinado pelo amor. pela simples razão de que uma crença não é mais do que a antecipação do ato. isto é. o primeiro formulando objeções (resistências) e as segundas vencendo-as. e do outro. Quando um indivíduo acredita que tem que roubar. em síntese. pois há crenças que resultam de um processo deliberativo frio. disposta a converter-se em ação ante a presença do estímulo desencadeante. correspondentes às três classes de delitos mais comuns). é como este um efeito dependente da afetividade do indivíduo. o juízo crítico. ou negativo. uma crença não é mais do que uma idéia que passou pelo crivo do juízo crítico ou o evitou. pois. De acordo com isto pode-se desde já afirmar que toda a psicologia da sugestão fica reduzida ao estudo da influência que o estado emocional exerce sobre a capacidade de percepção crítica . desprovido de tonalidade afetiva. determinado pela cólera ou pelo medo) que paralisa ou inibe os processos de discriminação e crítica.82 Todos os fenômenos que se quiseram explicar por meio da sugestão (e do hipnotismo) encontram sua racional explicação na existência do transfert afetivo (positivo. apesar de sua consciência moral e seu juízo crítico se oporem a isso. representa empregar um argumento para afastar sua responsabilidade. a fase . Digamos. E se tais tendências pertencem a um instinto (mecanismo congênito de reação). estas são as menos freqüentes. Infelizmente. mais do que causa do delito. tendência defensiva ou de fuga. isto é. Então seguramente descobriríamos que “A” se achava sob a influência. mas a recíproca não é verdadeira. Dizer. Toda sugestão pressupõe uma crença artificialmente engendrada. pois. mas de modo algum constitui uma explicação.processo catatímico. rouba. Nesta fase de deliberação intervêm. e quando acredita que matará. de um lado. mata. Quanto maior a força dessas tendências. tendência reprodutiva ou de posse sexual. isto é. porque estava sugestionado. as tendências de reação. O caminho a percorrer entre o pensamento e o ato acha-se normalmente representado pelo processo deliberativo que conduz à crença e desta à decisão. Agora podemos deduzir a conclusão interessante para o jurista: se a sugestão. como tão freqüentemente ocorre.

por meio da reprodução (satisfação sexual). ou seja. de uma misteriosa sugestão no segundo caso? 55. fornecendo ao indivíduo estímulos capazes de despertar a máxima atividade de seus mecanismos instintivos de reação. "violação") sua origem endógena aparecerá de um modo mais ou menos claro. violência excessiva dos mecanismos instintivo-emocionais primitivos. "exógenos" ou extrínsecas à tendência delituosa que aparece aqui como propriamente autóctone e auto-suficiente. coincidência de ambos os fatores. se substituem os centros cinzentos corticais pelos centros cinzentos subcorticais (talâmicos) na direção de sua conduta. os delitos de motivação endógena podem ser devidos a: 1°. delitos contra objetos.e levar muitos indivíduos. ira. "crime". o tipo de ato delituoso ("roubo". todo intento de classificação por forma ou conteúdo. Conforme for. por sua vez. conceitos e valores. 2°. delitos contra a integridade psíquica pessoal. Já sabemos que a primitiva violência dos dispositivos de reação emocional primária (medo. Empregando uma linguagem neurológica poderíamos dizer: sempre que. ligados. a tarefa inibidora ou "inducativa" de repressão. ou a da espécie.83 deliberativa pode ser suprimida sob sua pressão. Que diferença faz ser uma infecção ou uma influência pessoal a que inibe a atividade discriminativa da córtice se o resultado é idêntico? Por que falar. como dissemos. responde de um modo instintivo a suas necessidades e se comporta de um modo automático (sugestão). e nos ativermos à sua pura motivação psicológica. no segundo observa-se uma total identificação do indivíduo com sua tendência delitógena. à delinqüência em seus grandes campos: delitos contra a integridade física pessoal. então. a posteriori. o segundo afirma "Tornaria a fazê-lo o terceiro pergunta: "Por que está mal o que fiz?" Mas é comum aos três a ausência de argumentos e considerações alheias a si mesmo. "Não pude evitá-lo". achando-se o indivíduo em condições normais de funcionamento psíquico. 3°. O primeiro tipo de delinqüente diz. agora. se deixarmos de lado. de tal sorte que o ambiente só lhe oferece o . atração amorosa de posse) pode tomar ineficaz. o delito adquire caracteres de impulsividade transbordante e avassaladora. Um exemplo manifesto deste mecanismo temos nos freqüentes delitos cometidos pelas pessoas que sofreram de encefalite epidêmica. conservar sua vida. Um delito sugerido não é mais do que um delito vulgar. o indivíduo perde sua capacidade de crítica. derivação ou sublimação social. debilidade excessiva dos mecanismos inibidores que asseguram a condicionalização reflexa negativa daqueles. MOTIVAÇÓES “ENDÓGENAS” DE DELITO Estas correspondem aos fatores congênitos da delinqüência que foram exaltados pela escola lombrosiana. no qual a impulsão foi provocada do exterior. no terceiro não existe consciência de culpa. a suas duas tendências básicas. periodicamente. por meio de agressão (cólera) ou a defesa (medo). Mas. No primeiro caso. originando-se o fenômeno denominado impulsão. e nesse caso a idéia conduz diretamente à ação ou à crença (ação latente).

umas com motivação plenamente consciente e outras com motivação sub inconsciente. Uma característica deste tipo de delito é a de que o indivíduo não evita sua confissão. mas para isso se requer .como no aborto terapêutico . uma legislação que até agora é inexistente no ambiente latino americano. a) Delito Profilático. c) plena aceitação da responsabilidade do ato. De um ponto de vista médico. a eutanásia somente pode ser defendida nos casos de monstruosidade com idiotia.uma libertação de impulsos agressivos (reprimidos) contra ela. como também de que pratica um bem. São diversas as variedades que podem ser descritas neste tipo. seria irremediável. do outro modo. POUCO CONHECIDOS. lembrar que no fundo de toda paixão amorosa pulsa um componente sádico-masoquista. o que é mais importante. ALGUNS TIPOS "MISTOS". mas imutabilidade da atitude íntima do indivíduo perante o acontecimento. nos quais se imbricam as motivações endógenas e exógenas de modo particularmente interessante para o jurista. mas acha-se convencido de que com isso evita um mal maior que. . ainda em ocasiões.o consentimento de vários facultativos e. As características mais peculiares deste tipo de delito são: a) a ausência de remorso.embora seja praticado a pedido da vítima e por meios não cruentos . mas a enfrenta convencido de que com ela evita outra maior. passividade na defesa e no cumprimento da sanção. Em algumas ocasiões o autor deste delito chega a convencer-se não só de que evita um mal. . para compreender esta atitude. apesar do que são muito pouco tidos em conta na prática forense corrente. sobretudo se quem se beneficia do delito é uma pessoa querida por ele. em troca. com morte próxima e grande sofrimento) é . sentimento de culpa. Outras vezes. Do ponto de vista psicanalítico. o suposto "homicídio por piedade" (doença incurável. é que pela sua prática não recebe uma direta utilidade. Vejamos algumas das mais ilustrativas: 1º DELITO EUTANÁSICO. 56.84 pretexto e a ocasião para satisfazer-se.É o mais conhecido em Jurisprudência e o mais debatido em seu aspecto penal.Assim se chama o delito cujo autor sabe. Isto é fácil. É preciso. apesar de existir consciência do dano e. b) possibilidade de ser praticado por pessoas de fina sensibilidade. o delinqüente se convence de sua punibilidade. em vez de compreendê-los e tratá-los por sua significação psicológica. outra. DE MOTIVAÇÓES DE DIREITO Vamos estudar alguns tipos delitógenos. ao cometê-lo. cujo exagero ou libertação tanto pode levar ao suicídio como ao homicídio. nos quais não cabe supor vida psíquica nem possibilidade de melhora. que continua obstinadamente classificando-os por suas conseqüências. que infringe a lei. clara inteligência e ampla cultura. .

(Tal é o caso. nos quais domina o pensamento mágico.retardar a ocasião de praticar o delito. a denúncia deverá ter preparado um álibi capaz de anulá-la.O indivíduo é coagido por outro.. e outras para evitar abuso. . Nessas condições. em realidade. Um dos casos mais freqüentes é o observado entre irmãos. é um ato que muitas vezes foi praticado por parentes ou amigos do potencial delinqüente. o que primeiro "faz público" o processo costuma ser considerado como o maior ou único culpável. devendo ser tratada. para evitar esta ação.dá-se também.: Importante a opinião de Nelson Hungria que mostra radicalmente contrário a eutanásia.85 OBS. às vezes um dito é mais nocivo que um fato). que conhecem suas recíprocas falhas de conduta e tacitamente as mantêm secretas. O que toma típico este delito é que quem sofre suas conseqüências não está diretamente relacionado com o delinqüente. . pois..algumas vezes como vingança. quase sempre com isso só se consegue no melhor dos casos . b. mas mesmo assim. 2º. originado pelo processo denominado de "deslocamento". pode ser considerado como profilático no sentido de permitir descarregar o potencial destruidor sem ocasionar dano irreparável ao ser odiado). mas em realidade não deveria ser assim. em que um vizinho envenena algum animal doméstico pertencente a quem. para assim salvá-lo de comissão . desejaria ver morto.. 3º.iminente de outro. afinal de contas. Delito Simbólico. mas não se troca a postura mental de quem o projetou. .Acusar alguém de um delito que não cometeu. usa ." (pouco importa que sejam os verbos "dizer" ou "fazer" os que entrem em jogo nesta frase. . deste tipo de delito nos dá o uso dos chamados "reféns" de guerra. 4º. mas em vez de praticar essa agressão "física" limita-se à ameaça (agressiva) ou de prejudicar seus interesses ou agredir algum bem que é apreciado por seu inimigo. Este tipo de delito.de outra coação anterior e maior. AGRESSÃO PREVENTIVA. como um tema próprio dos estudos relativos à morbidez ou inferiorização do psiquismo. verdadeiramente repugnante. Claramente se compreende que.Até certo ponto poderia ser considerado como uma variante de delito profilático. .Neste caso.como liquidação de anteriores atos puníveis. se não fosse às vezes praticada tardiamente . companheiros de trabalho etc. "se. mas . o que agora não nos interessa.ou ameaça usar . CHANTAGEM INVERTIDA. porque. dizendo que a discussão não suscita sob o ponto de vista “sub specie júris”. o outro usa seu segredo . É freqüentíssimo nos povos selvagens. deve atribuir-se periculosidade e punibilidade a seu autor.por estranho paradoxo . de freqüente observação nas povoações. FALSA DENÚNCIA.. quando o denunciante julgar conveniente. para esses casos. o indivíduo sente acumular o ódio contra alguém e passa por sua mente a idéia de "eliminá-lo".. Uma forma. mas logo que um deles infringe o silêncio. com fins utilitários e. exclusivamente. então eu. dado o encadeamento da contra-chantagem. e sim através de uma complexa relação associativo-simbólica. mas convertem-se então em infratores anuais da legalidade que desejam preservar.

engasga-se e fica sufocado". Nos tempos de ditadura.está ligado aparentemente por um bom afeto. filho de um homem de negócios. para preparar a roupinha do neném com a máquina de costura que existe no referido quarto. nas quais há apenas uma "correspondência simbólica" entre os protagonistas da ficção e os personagens realmente odiados. um ato aparentemente absurdo e afastado de sua primitiva intenção. Nessas condições. impulsiva. se.além de sua autoridade comum fez com que no subconsciente surgisse a tendência.além do mais . porém também o odiava intensamente: considerava que nada podia fazer diretamente para livrar-se de sua enorme pressão. esta "assassina simbolicamente" sua sogra ao matar o ser que lhe resta (depois de lhe haver tirado o filho). A desculpa ou motivação aparente de tal conduta é a de que não tolera outros alimentos e. livrando-se assim da coação que sobre ele mesmo exercia. obrigada a viver com sua sogra. ao ficar grávida. "Um empregado que se considera injustamente despedido por seu patrão aguarda pacientemente uma noite de neblina para passar sobre a fachada da casa deste várias pinceladas de piche". Para isso se valem do recurso de criar histórias ou alegorias. . por sua curteza de espírito e falta de valor.86 ocasionalmente. à rua". cultos e intelectuais. a quem está dirigida a intenção delituosa. Neste caso o simbolismo da ação é tão claro que não necessita de explicação. Vejamos alguns exemplos de nossa casuística que esclarecem este interessante tipo de transgressão: "Um adolescente de 13 anos tira freqüentemente os lápis que guarda em sua gaveta o professor de sua classe. juntamente com sua relativa hipertrofia das funções intelectuais. então. opressão e terror político. o curioso é que se entretém em mordê-los e a jogá-los. não se produziu uma correspondente inibição das pulsões instintivas. Trata-se de um rapazinho que tem recursos e não precisa para nada desses lápis. "Uma recémcasada. ao qual . nos quais o indivíduo consegue inibir o impulso delitógeno direto. mas não o suprime por completo e verifica. o fato de o professor ter por acaso o rosto parecido com o do pai . Esse é o mecanismo mental tipicamente operante também nos casos individuais. Ele admirava e temia seu pai. em pedacinhos. também na gaiola do canário desta alguns caroços de uva e o bichinho. são muitas as mentes de publicistas opostas ao regime dominante que conseguem escrever e agredir tal regime. o que é pior. uma ligeira observação do caso nos assinala que essa conduta na realidade significa um duplo delito simbólico: os vasos da sogra são usados para receber as sobras (dejeções simbólicas) da nora e. por outro lado. em indivíduos civilizados. de praticar o delito simbólico: roubar e destroçar os lápis do professor simboliza o prazer de deixar e destruir o órgão viril do pai. apresenta um feio capricho: só se alimenta de frutas cruas e deixa cair os caroços e as cascas de preferência nos vasos que a sogra cultiva com especial esmero. passa grande parte de seu tempo no quarto da sogra. fora por este duramente reprimido em várias ocasiões. Uma rápida investigação psicanalítica põe de manifesto o seguinte: este menino. ao engoli-los junto com o farelo. Um belo dia caem. cobrindo as aparências legais de uma submissão a ele. Mas.

que seja motivo de vanglória e prêmio nas especiais circunstâncias de ambiente e lugar que o motivam. . e que enquanto não se conseguir modificar seu modo íntimo de encarar qualquer sanção será contraproducente. excessos sexuais e escândalo.A um observador superficial poderia parecer que é um caso particular do delito vingativo. de baixo nível social. dizer que "não sabem o que se passou com eles" e aceitar. Quase sempre o álcool leva a culpa. que supera em muito o motivo que aparentemente a provoca. é típico dele que seu autor não se acha diretamente implicado no assunto do qual se erige em paladino. mas na América do Norte são freqüentemente observáveis em ambos os sexos e em todos os níveis. d) Delito Libertador ou de "Aventura". E que.87 c. nesses casos. para ''tomar a justiça em suas mãos". Este tipo de ação delituosa é freqüentemente achado entre os exaltados das doutrinas político-sociais extremistas e constitui a base da multidão de lamentáveis excessos nas guerras civis. nem sequer. no qual o ator delinqüe impelido pela necessidade de libertar sua "sede de vingança" ante uma (real ou suposta) afronta pessoal. a sanção penal correspondente. desaparece sua reincidência. os atores dessas infrações não têm outra desculpa que a de se chamarem a si mesmos de "estúpidos". o que toma o caso interessante. Delito Reivindicador.As circunstâncias em que vive uma multidão de seres humanos são tão pouco propícias para satisfaze-los que. submissos. Quase sempre essas ações têm lugar em companhia de "amigos de diversão ou farra". rompem violentamente com suas obrigações morais ou cometem qualquer disparate. tampouco. No entanto. arrasta perigos muito superiores aos prazeres que pode obter. Quase sempre afirma que agiu movido por um sentimento de "dever" ou de "generosidade social" e isto é. não sendo raro cometer-se coletivamente e. o prazer de uma aventura. uma inquietação e uma avidez (paulatinamente irresistíveis) de "sair da horrível monotonia da vida cotidiana" e proporcionar a si. complicando-se com bebida. . precisamente. costuma desenvolver uma ação agressiva. ao reformar seu plano de vida. O indivíduo que comete um desses delitos nunca afirma que o fez para descarregar um ódio vingativo. . Esta desproporção entre o estímulo e a resposta é de observação típica nos denominados "desenvolvimentos paranóides". de crescente intensidade. abrindo novas possibilidades de satisfação honesta. recorrem então às puníveis: apoderam-se de dinheiro. sentem crescer em seu psiquismo um mal-estar. mas o certo é que constitui um "pretexto" procurado e não uma causa. No Uruguai constituem a denominada "batota" quando se produz em grupos masculinos reduzidos. com freqüência. mesmo momentaneamente e à custa de males ulteriores. amiúde. cair em prantos ou sofrer uma "crise de nervos". age para libertar sua angústia interior é o fato de que. Incapazes de criá-las pelas vias legais. como poderiam arrancar os cabelos. este tipo de delito apresenta duas características essenciais que justificam para ele um lugar à parte: primeiramente. mesmo. Passado esse momento e "recobrado o juízo". Prova de que o indivíduo. em segundo lugar.

As pessoas que sentiram ódio intenso por um dos progenitores. O que Freud não esclareceu é o papel que uma propensão à "autopiedade" e ao "masoquismo" ou. propenderiam. Sua fórmula parece ser: "Eu sozinho contra todo o mudo". sem nenhum outro proveito imaginável que o de "bater um recorde" e provar que podem. Tais indivíduos delinqüem para serem castigados e terem ocasião de calmar um remorso procedente de atos anteriores. Mas. segundo Freud e Reik. de um delito realizado por certos indivíduos que procuram merecer a repulsa social. as facilidades cada vez maiores que foram dadas para que qualquer pessoa medianamente inteligente consiga o título de advogado ou. por desgraça. . inclusive. de modo a lhes ser permitido libertar-se do remorso. às vezes. de juiz ou magistrado. inclusive. e assim satisfazer a necessidade de expiar uma culpabilidade inconsciente. ou que foram muito censuradas por estes. . tal crítica poderia ser feita também a outras profissões.Tratar-se-ia.88 e) Delito de Expiação (Autopunitivo). um castigo infamante. Defeitos Psicológicos do Processo Judiciário . de saber. mas em todo caso o evidente é que tais indivíduos parecem mais interessados com a sucessão de acontecimentos pós-delituosos do que com o delito em si mesmo. não confessáveis. depois. Se tal propósito obedece a essa obscura consciência de culpa ou a qualquer dos outros motivos apontados. quantos vivem para a justiça. nos primeiros anos de sua infância. a acusar-se de delitos não cometidos (como sucede no denominado delírio de auto-acusação) ou a cometer atos de violência para convencer aos demais de sua maldade e assim serem punidos. fizeram diminuir sensivelmente as vantagens que tal especialização poderia ter comportado. CRÍTICA DOS DOCUMENTOS JUDICIÁRIOS 57. depois. Hoje há tantos advogados que vivem da justiça.Não há dúvida de que a administração de justiça requer a existência de um pessoal técnico especializado no vasto campo do Direito. pois o que se confia a esses profissionais é o que de mais precioso . ao desejo de "estar em foco" e chamar a atenção pública como um ser extraordinário em algo (mesmo sendo em maldade) tem na determinação da conduta dos casos que traz como exemplo de sua tese. não há dúvida que é de freqüente observação o caso de delinqüentes que parecem se comprazer em acumular contra si provas de perversão e de culpabilidade. mas não acarreta perigos tão graves como nesta. inversamente. sem tomar em conta suas condições de honestidade e equanimidade caracterológica. resistir ao opróbrio e à sanção social. De qualquer modo. Evidentemente. é cousa difícil. CAPÍTULO VIII ESTUDO PSICOLÓGICO DAS DIVERSAS FASES DO PROCESSO JUDICIÁRIO NOS FOROS CIVIL E CRIMINAL. a ter essa "consciência de culpa" que as conduziria.

por seu turno.ou fiscal. Processos Cíveis . do acerto. seus bens e sua honra dependem. Mas a intervenção destes peritos: . representando o Estado.a seu pedido . As conseqüências psicológicas deste erro não se fazem esperar: os juízes. os recursos de que disponham etc. agem não poucas vezes inspirados por .aos procedimentos técnicos que estes usam para seu trabalho e ao modo como. como se sabe. por uma demanda judicial. com efeito. o faz na suposição de que o advogado do demandado replicará usando a tática inversa. em muitos casos têm os administradores. nos quais cada representante das partes contendoras procura acumular "pontos a seu favor" para que. Tais fatos são relatados in extenso somente quando favorecem ao demandante e. relatados em parte ou deformadamente no que possam favorecer ao demandado. têm que desconfiar tanto de uns como de outros litigantes e tratar de encontrar a verdade através de duas séries de referências que contêm poucas verdades. Facilmente se depreende que na elaboração de tal sentença entram algumas variáveis que nada têm a ver com a substância jurídica debatida e sim com os meios econômicos das partes contendoras e com seu acerto na escolha de seus advogados. o processo decorre em uma série de "rounds".louvável em teoria .sobre os dados contraditórios ou em litígio.. se produzem os resultados da mesma. ou seja: destacar os fatos favoráveis a seu representado e deformar. e igualmente razão jurídica por parte destes. .Estes têm origem. neutra e completa dos fatos que as motivam. e em nenhuma só vimos fazer uma referência objetiva. são omitidos. em muitos casos. seu prestígio e habilidade profissional. esta seja favorável aos interesses de seu representado. Os defeitos da administração de justiça considerados o prisma puramente psicológico. Num caso como noutro o demandado: (que pode ser o próprio Estado) tem o direito à defesa e destarte. lograrão acumular mais ou menos pontos a favor de seus clientes. freqüentemente. . omitir ou explicar de um modo torcido os que lhe são adversos. pois não recaindo sobre eles a total responsabilidade moral e legal do acerto ou erro das sentenças. É certo que tais juízes dispõem de assessores próprios (peritos judiciais) que os informam . do cuidado e da generosidade com que qualquer destes profissionais atua em um caso concreto. Conforme o interesse destes na causa. outra fonte de erro. muitos exageros e alguns falseamentos. ao invés de uma colaboração de esforços lógicos e honestos para que estes juízes possam conhecer "toda a verdade e nada mais do que a verdade" das situações objeto da controvérsia. quais as críticas que desse ponto de vista podem ser dirigidas aos denominados: 58. Vejamos. Claro é que o advogado demandante. Tivemos ocasião de ler centenas de demandas judiciais do foro cível. em definitivo. não são devidos somente à falta de equanimidade que. Mas isto significa apenas que as duas partes contendoras exibem ante os ''juízes'' uma luta de poderes dialéticos e sofísticos. em troca. que pode ser realizada por qualquer advogado particular representando um cliente . mas também. ao proceder assim.89 o homem possui: sua vida.introduz na prática. quando o processo alcançar a fase da "sentença".talvez em maior proporção .

mesmo que este exista. Desta sorte. pois nesta se acham em jogo não somente a vida e interesses de seus réus. como verdadeiras "disputas" onde exibem sua astúcia e sua habilidade dialética personagens inteiramente alheios à situação debatida e somente interessados nela por motivos econômico-profissionais. em função de suas múltiplas motivações. ganho na apelação e volta a perder no Supremo Tribunal. vemos muitos juízes empregando os mais diversos recursos e meios de interrogação. na maioria das ocasiões. À parte estas falhas de ''processo''. mas o que a cada um convém seja aceito como certo para ganhar a causa. se baseiam em um insuficiente material de fatos. mas também a tranqüilidade e a segurança públicas. . por acreditar que aquele está mais autorizado para opinar do que eles mesmos. portanto. tanto mais necessária. outras vezes. sem os meios e recursos que cientificamente precisariam para o fazer com êxito. por não ter tido ocasião de seguir os cursos e estudos necessários à sua augusta missão de compreender e julgar as condutas humanas. acareação. não renuncia a seus direitos de fiscalizar em nome da sociedade ultrajada ou ferida . vezes é dado a estes técnicos investigar por si mesmos a objetividade ou veracidade das afirmações e negações feitas nos escritos de demanda e defesa. Em suma. ou viceversa.90 um espírito de "companheirismo" para com seus colegas mais amigos e. Processos Criminais . para assim economizar trabalho ou. em troca. na imensa maioria dos países. de tal sorte que se vêem obrigados a opinar sobre perguntas e questões que constituem verdadeiros sistemas de equações logisticamente indeterminadas. Assim. pode-se dizer que os julgamentos e processos do foro civil são realizados. a sorte final dos pleiteantes depender de um fator de teimosia ou de poder econômico. não é raro ver que um mesmo processo é perdido no julgamento de primeira instância. de sorte que cada um se sente obrigado a formar independentemente um critério acerca dos mesmos. em ausência de demandante privado e. simplesmente. Por isso o Estado desempenha geralmente o papel de acusador. estão os derivados da insuficiente preparação dos juízes nos problemas de psicologia moderna.o desenvolvimento do processo.. ampliação de informe. se restringem ao parecer do de maior prestigio dos peritos privados. pela simples razão de que todos eles seguem apenas uma "inspiração" ao invés de um sistema bem organizado e planejado de investigação e ponderação. pelo que se vêem os juízes e tribunais obrigados a realizar um gigantesco esforço de detectar e adivinhar. quando não acontece de depender puramente de influência ou de tempo. uma vez que perante aqueles todos os personagens não estão interessados em proclamar o que é certo. E ainda mais: é o . convertendo-se destarte em um dilettante. Estas. o que faz. comprovação de fatos etc.Se é possível fazer-se uma crítica acerba e justa aos defeitos do processo na justiça civil. É proverbial a série de comentários teórico-especulativos com que os técnicos forenses costumam "fundamentar" suas conclusões. 59. é efetua-la no campo da justiça criminal. pois poucas.

uma rápida vista pelas falhas sucessivas do procedimento processual: como é sabido. mas sim. um marco de referência para uma qualificação provisória do delito pelo juiz em cuja jurisdição dê entrada o expediente. parciais ou falsos. de acordo com a importância de tais dados. Desta forma as declarações originais de protagonistas e testemunhas (quando os acontecimentos ainda são "frescos" e não se organizou a "parada" ante a ação judicial) ficam perdidas por não terem os investigadores registrados através de gravações. a assegurar o cumprimento das sanções impostas. Mas passemos. não se limitam. ao passo que com elementos deformados. de antemão. não há quem seja capaz de ditar uma sentença justa. dotadas. registro e expressão informativa. aqui os erros cometidos são muito mais graves. é claro. é bem sabido que a base de todo juízo equânime é a coleta de dados suficientes. deveria. mas hábeis. delinqüentes. no caso de ficar demonstrada a culpabilidade do réu. mas abrangem os fatos e informações que podem ter relação com sua motivação e execução. mas infelizmente tais funcionários carecem de preparo psicológico e de elementos necessários para sua função.91 próprio Estado que se apresta. na maioria das vezes. decrescer. qualquer pessoa de bom senso é capaz de ajuizá-los. para esse fim mantém numeroso pessoal e custosos estabelecimentos. inversamente. inversamente. devem elaborar um relato circunstanciado do caso em apreço. de todos os instrumentos e meios modernos de inscrição e gravação de expressões. Isto é. Porque. sempre em nome dessa sociedade por ele representada. além do mais. e fotos do ocorrido. Em primeiro lugar. Esses in vestigadores. subsiste ainda a possibilidade nos delitos criminais cuja culpabilidade não foi demonstrada ao imputado (ou naqueles cuja gravidade de culpa . agora. ainda denominados "penitenciários". como também a perda da vida de inocentes ou. verídicos e significativos a respeito do processo a julgar. tais fatos chegam ao juiz através de um "atestado policial". Tais antecedentes. de sorte que constituem. Se no foro cível estes fatos eram apresentados por profissionais que tinham. deixam impunes e em condições de continuar causando danos ao país numerosos e perversos. em conjunto. Pois bem: psicologicamente deve-se postular que seria muito melhor se esses relatos fossem feitos pelos magistrados e os delitos passassem a ser julgados pelos investigadores. com uma descrição completa e verídica de tais fatos e de seus antecedentes. pois acarretam com freqüência não somente longos sofrimentos. Portanto. estes deveriam ser recolhidos por pessoas excepcionalmente peritas em sua observação. um interesse em deformá-los (em beneficio de seus representados). Vejamos rapidamente as falhas processuais nas diversas fases de qualquer processo criminal. isto é: de um informe recolhido ("in situ" e na delegacia) pelos chamados "investigadores" policiais e revisto e referendado pelo comissário responsável pelo distrito onde ocorreu o delito criminal. ao delito em si. ao invés de crescer a hierarquia e a preparação intelectual dos personagens do processo judicial à medida que este se afasta dos fatos que o determinaram. aqui. como auxiliares da justiça não devem confiar na sua memória.

vai pôr em jogo todos seus recursos (inclusive os de seus amigos e parentes) com muito maior eficácia. se trata de modo diverso o rico e o pobre? Porventura não dizem os códigos que todos os habitantes ou cidadãos são iguais perante a lei? Porventura não se compreende que o delinqüente. Uns metros de filmes podem ser mais valiosos para a justiça do que milhares de páginas documentais. a menos que lhes seja explicada em outros termos. Crítica dos Documentos Judiciais . cuja redação está feita de tal modo que não pode ser bem compreendida pela maioria das pessoas.92 não atinge um certo nível). contudo. mas por que o há de fazer o Direito? Por que. sustentando que eram ''tradicionais''.é a de sua extensão excessiva: qualquer processo começa a acumular laudas e ao cabo de certo tempo se transforma em um calhamaço cuja leitura não há quem resista.até os próprios advogados . precisando . em troca. seladas e assinadas. o que acontece. continua em liberdade e se não o tem. animado a levantar sua voz para uma reforma de tais hábitos. Isto em linguagem simples e chã. Por que não se adota na prática documental judiciária o sistema de fichas. com evidente economia de tempo e aumento de precisão. já focalizado pela ação judicial e mantido em liberdade.esta de ordem econômica . ao invés de imaginados através de pesadas e insuficientes descrições verbais? É claro que nem todos os dados a julgar poderiam ser apresentados em forma de filme. por exemplo. de forma que possam ser "vistos e ouvidos diretamente" os dados dos fatos em litígio. Este defeito pode ser assinalado também nos documentos redigidos pelos peritos nos laudos médicos. Nenhum se sentia. já que tais laudos não estão destinados a ser lidos e objetados pelos interessados. O cinema. docência e aplicação de técnica. não foi autorizado ainda a entrar como valioso auxiliar nas práticas judiciais. vai para a prisão. para não se perder nesse mar de palavras. . de investigação.Já assinalamos a linguagem esotérica que costuma ser empregada nestes documentos. de esquemas e de organização expositiva que impera. Compreende-se que a religião seja obrigada a conservar sua liturgia tradicional. significa que se o acusado tem dinheiro. desde quando alguém pode demonstrar que a justiça possa continuar merecendo esse nome. não se substituem as enfadonhas e confusas descrições pela apresentação de curtos e demonstrativos filmes? Por que não há uma sala de projeções em cada audiência ou em cada julgamento. no caso da maioria dos documentos jurídicos. nos informes comerciais e técnicos de outra ordem? É difícil fazer-se um juízo claro através de uma expressão confusa. que já penetrou em uma série de atividades científicas. mas não há dúvida de que uma grande maioria deles o poderia ser. por exemplo. em diversos países e todos estão de acordo em afirmar que uma grande verborréia e graforréia tiram eficácia e prestígio às atuações de sua profissão. mas não atingem a gravidade daqueles. para eximirse de sua responsabilidade criminal do que se estivesse isolado e imobilizado na célula? 60. Mas. de que o juiz decrete uma prisão com fiança.assinalar constantemente com lápis vermelho e anotações à margem as partes essenciais. Falamos particularmente com muitos profissionais do foro. Outra crítica .

puramente neurofisiológico. encontra-se somente influenciado por condições orgânicas do funcionamento mnêmico. c) do modo como é capaz de evocá-lo. se consiga a modernização dinâmica dos processos judiciais. E não obstante. Toda percepção será sempre uma apercepção (realidade mais valor). sem dúvida. confrontar o testemunho em sua totalidade com a realidade. O terceiro. CAPÍTULO IX PSICOLOGIA DO TESTEMUNHO 61. A Psicologia devia. grau de sinceridade. Finalmente. Kraepelin. pois nele intervêm poderosos mecanismos psíquicos. muito maior que o dedicado ao resto dos problemas desta disciplina. em primeiro lugar. estudar cada um desses cinco fatores isoladamente e. misto. isto é. isto é. é talvez o mais complexo. Binet e Stern (mais de um quarto de século). (arte técnica de desenvolver e fortalecer a memória mediante processos artificiais auxiliares. bem pouco pode-se dizer que os juristas aproveitaram deles.93 Esperemos que. isto é. seria a memorização de dados já conhecidos). o quinto. é um dos menos estudados e talvez dos mais importantes. . é puramente psíquico e seu estudo experimental objetivo. psico-orgânico. PSICOLOGIA DO TESTEMUNHO Eis um dos capítulos mais brilhantes da Psicologia jurídica. grau de precisão expressiva. depois. b) do modo como sua memória o consertou. O número de trabalhos publicados sobre ele é. O segundo. com a verdade dos fatos testemunhados. apesar do tempo transcorrido desde o aparecimento dos primeiros estudos de Neumann. O quarto. e) do modo como pode expressá-lo. d) do modo como quer expressá-lo. grau de fidelidade e clareza com que o indivíduo é capaz de descrever suas impressões e representações até fazer com que as demais pessoas as sintam ou compreendam como ele. Vejamos primeiramente o delineamento teórico do problema: O testemunho de uma pessoa sobre um acontecimento qualquer depende essencialmente de cinco fatores: a) do modo como percebeu esse acontecimento. juntamente com a modernização estática e teórica. O primeiro fator depende por sua vez de condições externas (meios) e internas (aptidões) de observação.

em suas duas fases (de conservação e evocação) realizaram-se também estudos quantitativos e qualitativos. da expansão da passividade. mas errôneas. e sim se fundem. antes de tudo. qual era a diferença mínima que devia existir entre dois estímulos para dar lugar a duas percepções diferentes.). seja no sentido de depressão. é algo mais do que a soma de um conjunto de sensações elementares. e como tais. por simples que seja. quais são os tipos individuais de percepção (isto é.de que maneira podia ser alterada uma percepção por outras sensações coexistentes ou anteriores (contraste e adaptação). DE FATORES CAPAZES DE INFLUENCIAR O MODO PERCEPÇÃO DE DETERMINADO ACONTECIMENTO Em primeiro lugar deve-se apressar em fazer constar que os recentes estudos experimentais levados a termo pelos adeptos da denominada "psicologia da forma" modificaram profundamente os conceitos que até agora vinham imperando acerca do mecanismo perceptivo e puseram de manifesto o fracasso da teoria analítica para compreendê-lo. de acromatopsia. Os segundos tendiam. uma experiência psíquica complexa na qual não se misturam. Com respeito à memória. dinâmico. Hoje em dia sabe-se que toda percepção. ou seja. afetivos e conativos. a declarações de boa fé. Sabemos também que os "esquemas perceptivos". a estudar as deformações de ambas as classes de lembranças (pseudomemórias). surdez parcial etc. isto é. b). à . pois conduzem. o esquecimento forçado que se observa nas lembranças emocionais. por exemplo. isto é. 2°. são essencialmente subjetivos. Os primeiros tenderam a estabelecer as denominadas "curvas do esquecimento". a marcha do processo natural de embotamento das lembranças neutras e as "curvas de repressão". É tão imenso o valor do mecanismo catatímico (já estudamos que a catatimia no estudo psiquiátrico é o que se caracteriza por intensa alteração de humor. Começou-se com o método quantitativo e tentou-se estabelecer: 1°. até que ponto diferem de uma pessoa a outra (casos. pessoais. c)). de máximo interesse forense. Toda percepção supõe uma "vivência". em que condições e em que proporções se associam as diferentes percepções do mesmo território sensorial. não levando. A seguir adotou-se o critério qualitativo e determinou-se: a). em que territórios sensoriais um determinado indivíduo percebe melhor). 62. elementos intelectuais. para constituir um ato psíquico. que grau de intensidade devia atingir um estímulo para poder chegar a determinar uma percepção. como se compreende. isto é. as figuras ou formas constituídas pelo especial agrupamento dos elementos percebidos. global e como tal irredutível.94 Os estudos experimentais mais antigos foram os dedicados às condições em que se efetua a percepção dos fatos a testemunhar. contudo.

Se sua intensidade é muito forte. (e muito mais na prática jurídica. INFLUÊNCIA DA TENDÊNCIA ÁFETIVA PRESENTE (CONSTELAÇÃO) NO PROCESSO DA PERCEPÇÃO Em diversas ocasiões assinalamos o papel do mecanismo catatímico na deformação da percepção da realidade exterior. 3°. com maior facilidade que as acústicas. Em geral esta é maior pela manhã do que à noite e também diminui sob a influência da digestão. Um fator importante que condiciona a precisão e a extensão da percepção é o grau de fadiga psíquica em que se encontre o indivíduo perceptor. Em troca. que não só é certo que. são reproduzidas muito vagamente e. por conseguinte. e sim que em determinadas circunstâncias as vemos como queríamos que não fossem. mas estas. as pausas superiores a dez minutos e os números ou espaços grandes tendem a ser infra-estimados. uma vez que a imensa maioria dos delitos é cometida perante um número limitadíssimo de testemunhas). Deste ponto de vista demonstrou-se que uma mesma pessoa tem variações horárias de sua capacidade de apreensões de estímulos. nunca podemos chegar a conhecer a realidade exterior senão baseando na multiplicação até o infinito do número das pessoas que a percebem simultaneamente. 63. mas sim que muito freqüentemente são inversas. isto é. Existe uma tendência normal a superestimar os números inferiores a dez e os períodos de tempo menores de um minuto. à mania ou a esquizofrenia) praticamente não se pode falar de percepções neutras e. É curioso verificar que nos testemunhos referentes a fatos sucedidos mais de seis anos antes há também uma tendência a encurtar o tempo de seu acontecimento. coisa impossível na prática. com respeito às impressões procedentes dos restantes territórios sensoriais. 4°.95 melanconia. Para a percepção geral de uma situação estão mais capacitados os homens que as mulheres. Eis alguns resultados concretos das experiências realizadas acerca da fidelidade das percepções: 1°. no entanto. é preferível recorrer sempre que se possa ao seu reconhecimento e não à sua evocação. Toda tendência afetiva poderosa é capaz de seguir um caminho ascendente (a partir do mesencéfalo) e chegar a zonas de elaboração de imagens do córtice cerebral. esta pseudopercepção tem lugar à custa dos elementos psíquicos anteriores . Os termos inicial e final de uma série de acontecimentos costumam ser percebidos melhor que os intermediários. em troca. percebem com mais exatidão os detalhes que aqueles. mesmo nos casos mais favoráveis. As impressões ópticas podem ser testemunhadas. por conseguinte. Devemos insistir agora. em igualdade de condições. 2°. dando então lugar à produção de uma pseudopercepção. vemos as coisas como queríamos que fossem más. Os testemunhos referentes a dados quantitativos são em geral mais imprecisos que os qualitativos. que nem sempre as relações entre as tendências afetivas e as percepções externas são diretas.

alguém disse que em rigor não percebemos a realidade e sim sua caricatura subjetiva. a última vez em que compareceu (mesmo quando passaram apenas poucos dias) à reunião. Em virtude do hábito completamos de tal modo as percepções da realidade exterior. sobretudo tratando-se de estímulos um pouco complexos e muito dinâmicos.pouco a par da Psicologia e. será fácil que a resposta se encontre de acordo com a realidade. tanto o desejo positivo como o desejo negativo (medo) de que algo ocorra podem dar lugar a fazer o indivíduo acreditar que esse algo já ocorreu. 64. a ação da citada tendência limitase a deformar a percepção externa no sentido que ela representa. dando lugar ao que se denomina uma ilusão. criam-se o que se denominou "a sugestão da espera" em virtude da qual a consciência antecipa por assim dizer . E se destes detalhes grosseiros se desce a outros mais finos (trazia ou não um anel?. Precisamente por faltar esta sugestão da espera se explicam os resultados tão diferentes que se observam nas experiências acerca da fidelidade do testemunho feitas sem prévia advertência do indivíduo. ao passo que na segunda é positivamente favorável. tanto mais facilmente estes tomarão por real a simples aparência do fenômeno anunciado.o interroga acerca da presença ou ausência de outros detalhes que. Em ambos. lhe passaram totalmente inadvertidos. pouco certo do que pode perguntar . do que se ia passar. em linhas gerais. mas se não. por assim dizer. Todos os prestidigitadores e os médiuns sabem perfeitamente que quanto mais prolonguem a espera dos espectadores. Estas são geralmente percebidas e reconhecidas em virtude de alguns detalhes prepotentes e assim se explicam as dificuldades em que qualquer testemunha se encontra quando um juiz . É claro que se se tratar de um indivíduo que sistematicamente vai vestido da mesma maneira. que basta que se encontrem presentes alguns de seus elementos para que nosso juízo de realidade se dê por satisfeito e aceite a presença do todo. dos sapatos etc. os casos.) verá com . por não serem essenciais para o "esquema de reconhecimento". de qualquer companheiro ausente. a gravata era de laço curto?. tinha alguma mancha na roupa? etc. Por muito que queiramos não podemos subtrair-nos à ação de nossos automatismos mentais. Quem quiser se convencer de quão fragmentariamente nos damos conta dos detalhes em nossas percepções de pessoas. Por motivo dos modernos estudos acerca da psicologia da forma. como são as pessoas. do chapéu. e este é um ponto importante por ser insuficientemente conhecido. INFLUÊNCIA DO HÁBITO NA PEERCEPÇÃO Esta é sem dúvida a mais importante de quantas possamos estudar. será certo que não haverá maneira de chegar a um acordo. Na primeira série de experiências a "constelação" é neutra.96 (representações) e constitui o que se denomina uma alucinação.o tempo e dá por acontecido o que ainda não foi ou só o foi em parte. É certo. bastará que numa roda de amigos pergunte qual era a cor do traje. por conseguinte. Mas. Se sua intensidade é menor ou se as circunstâncias externas são propícias. por ser a mais geral. quando os comparamos com as efetuadas em indivíduos que foram previamente advertidos.

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surpresa que no meio de lacunas enormes, nas quais não existe a mínima percepção concordante com a realidade, surgem ilhotas de reprodução exata da mesma. E agora vem o ponto essencial: estas ilhotas diferem segundo as testemunhas, de modo que o que um recorda perfeitamente, o outro esqueceu também perfeitamente. Desde que se dêem, pois, estes elementos essenciais, a percepção se efetua e o objeto se identifica mesmo quando tenham mudado detalhes importantes do mesmo (em sua forma ou em seu fundo). Podemos passar horas em um dos nossos quartos melhor conhecidos sem nos darmos conta de que foram mudados de lugar ou que desapareceram alguns objetos de ornamentação. Podemos ler um livro qualquer sem notar um só erro de imprensa, apesar de os haver em abundância. A razão destes fatos é bem simples: nem ao estar no quarto nem ao ler o livro nos interessa especialmente contemplar os quadros ou reconhecer os erros. Por conseguinte, a menos que exista um determinado propósito que dirija voluntariamente a atenção de um modo sistemático para a percepção completa de um estímulo ou situação; (em cujo caso será necessário considerá-lo sucessivamente em seus diferentes aspectos), pode-se dizer que nossa mente efetua sua percepção mais de acordo com a lembrança de como era do que com o conhecimento de como é. Dito de outra maneira: o passado intervém mais do que o presente em nossas percepções. A isso sem dúvida se deve o refrão de "ganha fama e deita-te na cama". Isto é tão certo que uma mudança de caráter ou de conduta pode ser notada antes pelas pessoas que não têm intimidade, do que pelos parentes do indivíduo; uma vez que estes, por seu maior hábito em lidar com ele levarão mais tempo em desligar-se do conceito que dele formaram. (independentemente de que este seja bom ou mau).

65. INFLUÊNCIAS QUE DETERMINAM UMA MUDANÇAS NO PROCESSO EVOCADOR DAS PERCEPÕES.
Passamos uma revista superficial nos principais fatores capazes de influenciar a percepção de um acontecimento. Vejamos agora quais são os que podem fazer mudar sua evocação (e tenha-se em conta que evocação não quer dizer expressão ou testemunho, mas simplesmente reprodução voluntária interna). Em primeiro lugar encontramos aqui as tendências afetivas como o mais eficaz instrumento capaz de perturbar a marcha do processo evocador. É desde antigamente conhecida a "amnésia emocional" que se observa uma infinidade de vezes como conseqüência de um brusco abalo moral. As pessoas atingidas desta falta de memória são incapazes de lembrar-se do que se refere à situação desencadeante do choque psíquico. Uma lacuna de memória se estende a partir daquele momento até que o tempo transcorrido ou a intervenção médica consegue pouco a pouco fazer emergirem novamente as lembranças daquelas

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percepções determinantes da comoção emocional. É um fato constante a relação que tais percepções esquecidas guardam com tendências afetivas desagradáveis para o indivíduo. Quando um fato é deste modo esquecido é porque comoveu algum dos mecanismos emocionais que se mostram mais dolorosos para o espírito (repugnância, horror, remorso etc.). Nesse caso, o esquecimento da situação tem a finalidade de defesa psíquica, já que pressupõe o esquecimento do doloroso sentimento anexo a ele. Qual é o processo responsável por esta amnésia emocional? Deve-se, de saída, afastar os casos nos quais existiu não só um trauma psíquico como um trauma físico, pois neles a amnésia já não é emocional, mas "comocional", e vai acompanhada de outros sintomas cerebrais orgânicos. Quando se trata, por conseguinte, de casos puros deve-se invocar uma patogenia psíquica; esta foi bem posta de manifesto por Freud, que demonstrou que na prática tem mais importância que o esquecimento espontâneo (devido ao desgaste fisiológico das células em que se fixam as impressões) o esquecimento forçado, isto é, ativo. Este último é devido à ação de um processo que Freud denomina repressão e que é considerado - do ponto de vista fisiológico sinônimo de uma inibição.

66.

IMPORTÂNCIA DA REPRESSÃO NA EVOCAÇÃO DAS LEMBRANÇAS LIGADAS A NA TENDÊNCIA AFETIVA DESAGRADÁVEL OU IMORAL.

Se se tem em conta que quase todos os interrogatórios judiciais versam sobre situações delituosas ou, pelo menos, sobre fatos que giram em tomo de um núcleo emocional intenso, compreende-se a freqüência com que a amnésia emocional se apresenta não só nos autores, como também nas testemunhas. Nesses casos é errado o processo geralmente seguido pelos juízes que acreditam obter dados aproveitáveis forçando por meio de ameaças ou sugestões as respostas das testemunhas. Quando um interrogado diz "não me lembro", surge evidentemente diante do juiz o dilema de se em realidade não se lembra ou não quer exprimir sua lembrança. O juiz, por sistema, acredita que quanto mais viva e emotiva foi uma situação, tanto melhor será lembrada pelo indivíduo e, por conseguinte, se se mostra transigente em aceitar essa resposta para detalhes sem importância, acredita em troca que deverá ser severo ao exigir uma lembrança precisa dos detalhes fundamentais. Pois bem, são precisamente estes detalhes os que se esquecem, umas vezes em bloco, isto é, ligados a todos os outros fatos que então ocorreram, e outras vezes de um modo fragmentário. Mas - e aqui é onde reside o interesse deste processo - são esquecidas involuntariamente porque a força da repressão age de um modo absolutamente inconsciente. Nestas condições, quanto mais, esforços faça o indivíduo para vencer seu esquecimento, tanto mais o tomará firme, do mesmo modo como quanto mais esforços fizer um preso para desfazer suas ligaduras, tanto mais

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profundamente estas entrarão em suas carnes. Quem duvidar deste paradoxo logo o compreenderá se se fixar no que às vezes lhe ocorreu ao esquecer um nome comum: apesar da impressão de o ter "na ponta da língua" quanto mais concentrou sua atenção para recordá-lo, mais aquele se afastou e só surgiu espontaneamente após um tempo mais ou menos longo, quando provavelmente já não era útil sua evocação e por conseguinte não tinha por que se despertar a tendência afetiva que o reprimia. (Este fenômeno se explica na teoria de Pavlov pela denominação "inibição paradoxal", e é, quase sempre, um sinal de fadiga neurônica). A importância da repressão nas declarações judiciais é enorme e só pode ser compreendida pelos especialistas que tiveram ocasião de examinar psicanaliticamente enfermos psiconeuróticos, nos quais essa força repressora atua intensamente, se bem que por motivos diferentes. E o interessante do caso é que nem sempre sua ação se manifesta de um modo tão aparatoso como nos casos de "amnésia emocional", e sim que em uma grande maioria de vezes a repressão age de um modo fragmentário, não suprimindo, mas dificultando a evocação das lembranças. Então estas surgem, mas de um modo incompleto, como os restos de um navio naufragado, do plano subconsciente. E o que é pior, surgem deformados e misturados com falsas lembranças (pseudomemórias) que são produto da ação do mecanismo catatímico, continuada mesmo depois do fato perceptivo. Mas se isso fosse pouco, o indivíduo, ao dar-se conta da pobreza de suas lembranças, as completa automaticamente utilizando as cadeias de associações que logicamente devem se encontrar relacionadas com eles e isto faz com que mesmo contando com sua absoluta boa fé, o resultado da evocação acha-se tão distante da realidade como o poderia estar um sonho. Quem considerar detidamente a influência dos processos afetivos ao longo da vida psíquica, chega a estranhar, não que os testemunhos sejam imprecisos e deformados, mas que não mais o sejam, até o ponto de mostrarem-se praticamente inúteis para a reconstituição da verdade objetiva.

67. FATORES EXPRESSÃO

QUE

INFLUENCIAM

O

ATO

DE

DO TESTEMUNHO.
Suponhamos por um momento que uma mente foi suficientemente equilibrada e hábil para resistir à influência perturbadora de todos os fatores que até agora estudamos. Essa Psique ideal pôde observar com toda exatidão os fatos, conservá-los intactos em seu registro subjetivo e reproduzi-los com fidelidade sob o esforço da evocação voluntária. Poderá agora exprimi-lo de tal modo que quem ouvir seu relato chegue a vê-los e

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compreendê-los como acontece com ela? Eis aí, outra, dificuldade certamente, não a menor das que terão de ser resolvidas. Com efeito, são poucas as pessoas que possuem a suficiente cultura e inteligência verbal para dar uma expressão exata de suas vivências ou impressões de experiência. Basta dar um objeto qualquer, banal, a uma pessoa, deixá-la que o examine e pedir-lhe que no-lo descreva, para que nós, sem ver o objeto, cheguemos a uma compreensão do mesmo bem diferente de sua realidade. E isso simplesmente porque o indivíduo não acertou em transportar para nós em palavras tudo quanto percebeu; é uma aptidão pouco freqüente a que permite descrever bem. Apesar de tudo, será sempre preferível deixar ao indivíduo a iniciativa em suas descrições do que intervir ativamente nela sob o pretexto de ajudá-lo. O que ocorre na maioria dos interrogatórios judiciários é que se não existe um deliberado propósito de resistência por parte do interrogado, este insensivelmente vai descrevendo os fatos e as situações, não como os viveu, mas como parece ao juiz que ele os devia ter vivido. Achamo-nos aqui diante de um processo parecido com o que se observa em muitos interrogatórios médicos nos quais quando o clínico formou determinado conceito diagnóstico da enfermidade que é objeto da consulta, orienta suas perguntas de tal forma que o paciente, mesmo quando não a tenha, lhe proporcionará respostas que coincidem com o diagnóstico aprioristicamente formulado. Com isto atingimos o ponto mais interessante do problema, a saber, a averiguação das normas que devem ser seguidas para obter testemunhos puros, isto é, não deformados de antemão pelos próprios que têm interesse em procurar a verdade. Com efeito, é triste que a testemunha tente premeditadamente, deformar a fidelidade de seu relato, mas muito mais o é que involuntariamente o chegue a fazer em virtude de perguntas sugestivas, capciosas ou de resposta forçada que lhe são dirigidas por um interrogador demasiadamente cioso de sua obrigação e pouco preparado para cumpri-la tecnicamente. Em que disciplina da carreira do Direito estudam os futuros juízes ou advogados o modo de obter cientificamente as dec1arações judiciais? Esta falta de preparação psicológica para um ato tão essencial no processo jurídico justifica que agora nos detenhamos um pouco para estudar os elementos que integram o testemunho obtido por interrogatório.

68. DIFERENÇAS ESSENCIAIS ENTRE O TESTEMUNHO POR RELATO ESPONTÂNEO E O OBTIDO POR INTERROGATÓRIO
É evidente que o relato espontâneo - sempre partindo da existência de um propósito de sinceridade - se mostra mais vivo e mesmo mais puro (menos deformado) que o obtido por interrogatório. Mas aquele tem o defeito de ser, de um lado, incompleto

que os do relato espontâneo. estas sete classes de perguntas: 1ª. o testemunho obtido por interrogatório representa o resultado do conflito entre o que o indivíduo sabe. Toda resposta é. Disjuntivas completas. 2ª.101 e. Disjuntivas parciais. Afirmativas por presunção. na qual entram não só as vivências espontâneas do interrogado. Diferenciais (sim ou não?). porém menos exatos via de regra. com efeito. E ANÁLISE DAS CLASSES MAIS IMPORTANTES NOS PERGUNTAS EMPREGADAS INTERROGATÓRIOS JUDICIAIS De um ponto de vista psicológico e gramatical podemos distinguir. irregular (o indivíduo não se estende uniformemente em sua explicação) e além do mais apresenta em múltiplas ocasiões elementos interpolados que em nada são úteis e antes servem para aumentar o tamanho dos processos e fazer com que os que os consultam se percam em detalhes sem importância. b) porque a pergunta faça sentir ao indivíduo a existência de uma lacuna em sua memória que tentará encher aventurando uma resposta ao acaso ou baseada em uma dedução lógica (muitas vezes feita à base do que é mais comum ou freqüente. Afirmativas condicionais (sim?). Em resumo. podemos dizer que o testemunho obtido por interrogatório costuma fornecer dados mais concretos. 4ª. Só uma percentagem pequena de testemunhos espontâneos dizem tudo o que interessa e nada mais do que interessa. não concordante coma realidade a testemunhar. Negativas condicionais (não? ). como também as representações e tendências afetivas evocadas pela pergunta a que responde. e o que as perguntas que se lhe dirigem tendem a faze-lo saber. por cálculo de probabilidades que pode ser inexato). 3ª. 5ª. de um lado. . uma reação mista. Determinantes (perguntas pronomes interrogativos). 6ª. Facilmente pode ocorrer então que se origine uma resposta falsa por um destes três motivos: a) porque a idéia implicitamente contida na pergunta evoque por associação outra. 7ª. c) porque a pergunta determine uma sugestão direta ou coloque o indivíduo em condições de inferioridade (medo) que o impeçam de dar a devida resposta. de outro. pelo menos. Em troca. 69.

a prática demonstra que são maiores as de uma resposta afirmativa. mas condicionando-lhe previamente a resposta de acordo com o que o interrogador espera. preferirá sempre responder de acordo com o que o interrogador parece esperar dele. Algo semelhante pode-se dizer acerca da categoria precedente.a classe das perguntas condicionais em sua dupla forma: afirmativa ou negativa. sem antes perguntar-lhe se levava ou não gravata e se a vira. Também devem ser proscritas de um interrogatório imparcial. é a que deve ser evitada com mais cuidado nos interrogatórios. b) (condicionada negativa): por acaso era branca a gravata? Pela forma de formular ambas as perguntas a testemunha depreende implicitamente que se espera dele uma afirmação no primeiro caso e uma negação no segundo. Assim. Um pouco menos sugestiva. formulamos esta outra pergunta: a gravata era amarela ou preta? Pode-se dar o caso de que ela parecesse à testemunha (certa ou erradamente. nas quais se coloca o interrogado em situação de decidirse entre duas possibilidades excluindo as demais. mas admitindo. pois é a que acarreta uma maior capacidade sugestiva para o erro.continuando a ordem inversa de sua enumeração .o que é pior. já que a testemunha sabe reagir a ela com maior facilidade. Felizmente a coação que acarreta a forma gramatical destas perguntas se mostra mais visível que nas anteriores e por isto tornam-se um pouco menos perigosas. Ainda que pareça mentira. das perguntas disjuntivas parciais. pois acarreta uma sugestão de obrigar o indivíduo a decidir-se entre um sim e um não. isto é. receber uma resposta afirmativa. suponhamos que depois de perguntar se o acusado trazia ou não gravata e. a certeza de que o acusado levava gravata. e se não está muito seguro de si mesmo.. mas também parcial. por exemplo.de um modo implícito por parte da testemunha. ambas as classes de perguntas são freqüentemente empregadas e. Não obstante. admitirá secretamente seu erro e por semelhança responderá: preta. é a pergunta diferenciadora seguinte: era preta a gravata? Parece à primeira vista que as probabilidades de obter uma resposta afirmativa são as mesmas que as de provocar uma negação. não obstante. se se pergunta a uma testemunha de que cor era a gravata que o acusado levava no dia em que foi autuado. formula-se uma pergunta de presunção que tem muitas probabilidades de ser respondida vagamente. Vejamos um exemplo desta forma: a) (condicionada afirmativa): não era preta a gravata que trazia o acusado?. ou seja. Segue-se agora .às vezes de um modo premeditado por interrogadores que para evitar o perigo de serem enganados acreditam que não há melhor meio que o de começar enganando a testemunha. que supõe a existência de uma lembrança na mente da testemunha sem haver-se certificado antes. isso é igual) de cor azul. Assim. o que não teria acontecido se antes lhe fosse feita a pergunta pertinente (lembra-se se o acusado levava ou não gravata?). . entre as quais pode muito bem encontrar-se a que seja certa. mas ao ver que se lhe manda escolher entre essas duas cores. por exemplo.102 Esta última classe.

Não é raro encontrar somados estes fatores. se da análise prévia das relações afetivas do indivíduo deduz-se que seu testemunho não será imparcial. Não será demais que digamos alguma coisa acerca dos meios de que podem se valer para aumentar essa sinceridade. pelo simples fato de formular explicitamente as duas possibilidades (era assim? ou: não era assim?). Muito mais prático mostra-se o reconhecimento prévio da personalidade da testemunha e de sua posição na situação a testemunhar. ou seja a pergunta determinante (como?. de sorte que as declarações de uma mesma testemunha se inspiram sucessiva ou alternativamente em todos eles. finalmente. lucro etc. Por isso julgamos supérfluo o juramento e acreditamos absolutamente insuficientes (mesmo quando necessárias) as advertências sobre a responsabilidade inerente ao ato de testemunho. Em troca. toda ela se baseia na atemorização do indivíduo. 70. (Por exemplo: como ia vestido o acusado? onde você. Ficam.) ou então resulta simplesmente do desejo egoísta de ficar bem e comprometer-se o menos possível.). isto é. são menos sugestivas que as que estudamos até agora. os imorais ou amorais . viu X pela primeira vez? etc. com o fim de poder predizer qual será a intenção que o guia ao fazê-lo.). as duas primeiras classes: determinantes e disjuntivas completas. imoral (vingança. generosidade etc.103 que uma maioria de testemunhas tende a responder de acordo com o conteúdo representativo positivo (presente) da pergunta diferenciadora. ameaçando-o com castigos humanos e divinos no caso de declarar em falso. MEIOS PARA SE OBTER A SINCERIDADE POSSÍVEL NAS RESPOSTAS MÁXIMA Vimos em os processos de que se podiam valer os juristas para comprovar o grau de sinceridade das respostas nos interrogatórios. deve-se analisar ainda se esta parcialidade que se pode pressupor nele deve ser atribuída a um propósito nobre (compaixão. Estas últimas. quando?.aqueles sobre os quais em realidade se precisaria exercer o estímulo . o grau de seu amor à verdade e a justiça. por quê?) merece o qualificativo de imparcial. Por tudo isso faz-se indispensável uma sutil análise psicológica destes "imponderáveis" e "inconfessáveis" que tanto influem na . de um modo geral pode dizer-se que o único fator que convém conhecer para resolver este problema é a consciência moral dos declarantes. mas não há dúvida de que só a primeira classe. Sucede o fato curioso de que as testemunhas mais morais são precisamente as que costumam impressionar-se mais diante das ameaças e da severidade e cerimonial que se desenvolvem durante o interrogatório. Pois bem.não reagem nem pouco nem muito perante ele. Então. Em primeiro lugar será necessário deixar estabelecido que a técnica geralmente seguida na atualidade para este fim nos parece absurda e contraproducente. conforme sejam os fatos ou pessoas a que se refiram.

Por isso o melhor é ater-se à verdade pura quanto à descrição dos fatos. em contacto direto com a vida. se lhe pedirmos uma informação completamente indiferente . Que fazer para contrabalançar esta tendência e conseguir a maior veracidade possível? Aqui estamos seguros de que divergirão a solução teórica e a solução prática. Dissemos.104 obtenção de atestados inexatos e injustos. Consideraremos. que esta é a solução teórica. as que podem ser aplicadas sem abalar as bases da rotina jurídica e sem levantar os protestos dos zelosos conservadores da tradição em matéria de Direito forense. suponhamos. no entanto. Muito amiúde se pode obter uma declaração sincera perguntando os extremos que se deseja conhecer. assim a consideramos.o mais provável é que o juiz opte por não dar crédito a nenhuma. por ora. Sua realização exige em cada caso uma técnica especial criada para ele. Para isso convirá fazer chegar ao espírito da testemunha a convicção de que uma atuação parcial seria contrária ao invés de favorável ao acusado. suponhamos que desejamos saber de uma testemunha se esteve presente em um local em determinado momento. deveria ser concedido .como fizeram os norte-americanos . seria muito mais elástica que ela e proporcionaria uma visão sincera do que cada testemunho conhece acerca do assunto a julgar. Em primeiro lugar é fácil fazer com que ele note que entre duas ou mais declarações diferentes . Vejamos agora as soluções práticas. quais serão seus princípios ou normas. que podemos prever qual será a tendência que a testemunha terá ao declarar acerca dos diferentes extremos que lhe vão ser apontados. mas. se baseiam na aplicação dos conhecimentos de psicologia individual ao problema particular da situação de cada declarante. como se depreende. isto é. Por exemplo. por um momento. corre o risco de que ao constatar-se esta se anule a outra. Quando se suspeita de parcialidade por fins altruístas (compaixão. Se perguntarmos diretamente este extremo pode nos responder negativamente. Estes.mesmo quando em todas exista uma mesma intenção . dando por válidas todas as manifestações que fizessem os testemunhos de um modo espontâneo .) será desde já mais fácil corrigi-Ia que no caso contrário. se uma testemunha declara uma grande parte de verdade e uma pequena parte de mentira. Mas. E isto não é tão difícil como parece à primeira vista. Esta informação oficiosa e secreta daria a conhecer muito mais verdades que a informação oficial.nos ombros da atuação judicial com a condição de que essas manifestações fossem recolhidas por pessoas moralmente puras. ficando em troca a testemunha em liberdade absoluta para interpretar suas causas do melhor modo que lhe pareça. Da mesma forma que se dá por válida a cada instante a fé do tabelião. afeto etc.este privilégio às informações dos ''trabalhadores sociais" que trabalham fora do foro. no entanto. em nosso país. Por outro lado. A primeira se basearia em destituir as declarações judiciais de todo seu caráter de oficialidade e predeterminismo. confundidos com o público. mas relacionando-os com a atuação de uma pessoa neutra ao invés de referi-los à pessoa a quem se deseja favorecer.

. a não ser por seu desejo de ficar só por algum momento? R. embora modestas. Muito amiúde dá bons resultados obter o que se denomina uma declaração "centripeta". De modo algum. Que classe de amizades tinha seu filho? R. Suponho que em coisas úteis e em alguma distração. P. Sabe que seu filho foi visto em uma casa de penhor e que foi ali perguntar se era preciso de um recibo de compra para poder penhorar jóias? R. mas em troca nos dá os fios condutores que são necessários para chegarmos.sem provas. Porque é muito cioso de sua obrigação e sempre gosta de exceder-se em cumprimento. R. Que quantia semanal entregava a seu filho para gastos pessoais? R. Porque ficou de tal modo afetado pelas suspeitas que recaíram sobre ele. até o centro ou núcleo da situação a julgar. Deste modo a testemunha não estabelece nenhuma associação entre sua declaração e um perigo para quem deseja favorecer. Eis alguns de seus fragmentos mais interessantes: P. tendo em conta sua colocação. é bem possível que nos dê o dado desejado. P. Em que seu filho empregava esse dinheiro? R. A declaração do pai foi obtida de acordo com os processos que poderíamos denominar clássicos (método centrífugo: partir da ação delituosa e remontar-se aos antecedentes ou seguir suas derivações). Vejamos um exemplo prático. por inferência. P. mas nada tem de particular que o fizesse para Informar a algum amigo que lhe tivesse perguntado. P. Não o sabia. estando empregado em uma joalheria. Por que não compareceu ao trabalho três dias na semana seguinte ao furto? R. P. Trata-se do pai e da mãe de um jovem de quinze anos que.de haver subtraído um bem avaliado em 200 mil reais. P. Crê você que seu filho praticou o roubo de que é acusado. ou então se lhe dirigirmos uma pergunta de tal natureza que para favorecer indiretamente o acusado tenha que referir-se a fatos ocorridos no referido local. mas isso ele responderá melhor do que eu. . foi acusado . Como explica que nunca tivesse pressa de sair da loja.105 acerca de um detalhe do local.. meu filho é honrado e incapaz de tal ação. na qual não se fala nada do acusado ou do extremo acerca do qual se suspeita a propósito de insinceridade. baseado em duas declarações obtidas de pessoas de inteligência sensivelmente idêntica com igual desejo de favorecer ao acusado e possuidoras dos mesmos dados acerca do fato dos autos. O produto integral de seu soldo menos 30 mil cruzeiros mensais com que contribuía para pagar a casa. mas em troca se solicite informação acerca dos processos reacionais secundários à ação ou conduta que se deseja esclarecer. de momento. As que nós conhecemos são muito dignas. que caiu doente e teve de guardar o leito. mas por suspeitas justificadas .

todo este interrogatório gira em tomo do fato delituoso ou da conduta de seu suposto autor. de que por ser pobre não deve deixar ser pisado. De um modo geral não davam o devido valor a meu filho. Que opinião faz a Sra. P. o que se obtém da mãe seguindo o método centrípeto. pois. Como surgiu em si a idéia de empregá-lo em uma joalheria? R. mas o que vi com mais freqüência. É certo que sua mãe o mimava muito e satisfazia todos seus gostos? R. me parece muito formal. Em primeiro lugar não sei se a jóia desapareceu então. o Sr.. em troca. P. P. P.Parés. Isso deu motivo para que um pai atento ao que julga seu dever rebata com aparências de lógica os frágeis indícios da acusação. isto é. nunca confiavam a ele trabalhos delicados e o tinham. P. é possível que entrasse alguém no estabelecimento sem ser visto por meu filho. Além do mais. mas um pouco sugestionável e muito impressionável.106 P. Além do mais. Por que diz isso? R. Estas aspirações de seu filho eram espontâneas ou foram inculcadas nele pela senhora? R. Meu filho é um tanto tímido. que o trabalho de seu filho era suficientemente recompensado e era devidamente apreciado pelos que estavam na joalheria? R. Que opinião faz a Sra. mas eu lutei quanto pude para fazê-lo sentir uma nobre ambição e. já que este se encontrava ocupado em limpar estojos durante aquele intervalo. sentimento de dignidade. pedindo sempre o testemunho a partir da periferia do complexo ambiental delituoso: P. atarefado em afazeres mais próprios a uma criada que a um rapaz que tem instrução. Porque em mais de uma ocasião zombaram dele quando dizia que algum dia poderia ser patrão ao invés de empregado. Crê a Sra. Qual o futuro que imaginava para seu filho? R. Parece-me no fundo muito boa pessoa. P. sobretudo. em realidade o são muito menos que as aparentemente inocentes dirigidas à mãe. Bem pode ter desaparecido antes. Não conheço todos eles. se não foi ele quem a roubou? R. . Eis. em troca. É certo que seu filho freqüentava assiduamente os cabarés? R. P. Se temos nos mostrado sempre amáveis com ele é porque o merecia. do dono da joalheria onde esteve empregado seu filho? R. Basta ler esta parte da declaração e compará-la com a anterior para ver como apesar das perguntas dirigidas ao pai parecerem mais adequadas para fornecer dados interessantes. isto é. Como explica que desaparecesse a jóia quando seu filho estava só na loja naquele momento. dos diversos companheiros de trabalho de seu filho? R. Porque é o comércio mais distinto. Não o creio. Creio que pode chegar a ser encarregado de uma boa joalheria e talvez encontrar então alguma pessoa que lhe empreste dinheiro para estabelecerse.. P. Como se vê.

P. isto é. Ter aprendido de memória. sabemos agora que a mãe exerce um domínio da personalidade do rapaz. As vantagens deste método centrípeto derivam também de outro fato: dando por suposto o afã de alterar a verdade dos fatos (a favor ou contra o acusado) por parte de qualquer testemunha. é claro. Isso quer dizer que lhe falta um pouco de força de vontade? R.que . para me satisfazer. pois. apesar de não gostar. Se. ser-lhe-á mais fácil compreender em que sentido orientar suas respostas quando estas corresponderem a perguntas diretamente relacionadas com o delito do que quando se referem a questões muito afastadas dele. não possuindo este outra psicologia que não a do seu senso comum. é evidente que. P. seu papel em uma comédia que fizemos em casa de uns amigos. Com meu marido..valha a expressão . queremos obter uma máxima sinceridade nos testemunhos é preciso que evitemos neles cuidadosamente as perguntas . o automatismo originado pela presença nas perguntas de elementos que condicionam a resposta em um sentido determinado. esta nos fez compreender algo que não pudemos obter atacando pela raiz o pai. 71. a transposição cronológica que com freqüência se produz e em virtude da qual . acerca da necessidade de preparar e meditar cuidadosamente todo o interrogatório. fez tudo o que pôde e saiu-se muito bem no papel. CAUSAS MAIS COMUNS DA INEXATIDÃO DO TESTEMUNHO Recordemos em primeiro lugar o hábito. Muito bom. hâ anos. Em virtude deste descreveremos os sucessos mais como costumam ocorrer do que como podem ter-se passado ou passaram em realidade. Qual é a maior demonstração de vontade que se lembra de seu filho? R. fatores ambos da vaidade.. A intenção da pergunta. Se assim não fosse. Eis por que insistimos. não tardaremos a nos inteirar de que esse motivo tinha que vencer resistências quase nulas para conduzir à ação: P. senhor. Graças a isto já sabemos que o rapaz tinha um motivo para poder desejar apoderar-se de uma jóia. mostra-se tanto mais difícil de ser percebida quanto mais distante é sua relação com o fato que a testemunha tem interesse em deformar. outra seria nossa posição. Em terceiro lugar mencionaremos a confusão no tempo. Com efeito. O pobrezinho. Em segundo lugar citemos a sugestão. como é o caráter de seu marido? R. P.predispõem à insinceridade. com seu marido ou com a senhora? R. com o valor dele. infelizmente. Com quem acredita que seu filho se pareça mais de caráter. a ambição e o desejo de ostentação. Seguindo aparentemente sem rumo. sabemos que é uma mulher insatisfeita de sua posição e que infiltrou em seu filho.107 Contornando. ou melhor. Sim. Perdoe a curiosidade. energicamente. mas demasiadamente tímido e retraído. como é natural. embora às vezes convenha dar-lhe uma aparência de espontaneidade.

mas pode comparar diretamente com estes intervalos outros que conhece melhor (tempo que demora a ir de um lugar a outro. inteligentes e acostumados a observar. que as coisas não são vistas e julgadas como são.nesta determinação. mas como . mas já ninguém pode dizer se ao fim de certo tempo tenderão a parecer mais próximas umas ou outras. segundo os casos) que aquele exerce ao longo de todo o processo psíquico que. referentes a datas de acontecimentos. Homens imparciais. tornam-se absolutamente impossíveis de satisfazer-se e só servem para aumentar a confusão que já pudesse existir. sustentam pontos de vista contrários a propósito de uma mesma jogada. ou seja. e note-se . Só em teoria pode falar-se. mas em primeiro de importância. culmina no juízo. e por isso uma infinidade de dados precisos que os juízes costumam pedir às testemunhas. Quem já ouviu as discussões que acerca de uma jogada de uma partida esportiva mantêm os partidários das equipes contendoras pode chegar a convencer-se de que ambos os grupos viram a realidade de um modo diferente. Só um dado pode dar-se como norma. com efeito. A localização das vivências no tempo é. De um modo geral nada se pode dizer que sirva para compensar as lacunas dos testemunhos neste aspecto.108 o indivíduo acredita que sucederam depois fatos ocorridos antes. de vivências neutras.que esta influência nada tem que ver com a deformação voluntária e consciente da realidade que o indivíduo pode exercer secundariamente com uma determinada finalidade. Há tipos que costumam superestimar os intervalos curtos e subestimar os longos. outro afirma com a mesma convicção que ocorreu o contrário. já que as pessoas diferem enormemente entre si com relação à sua memória temporal.fugir à influência deformante (no sentido de exagero ou de dissimulação. que se mostra vantajoso fazer com que as testemunhas de pouca cultura calculem os intervalos cronológicos de forma concreta (por comparação direta) ao invés de relaciona-los em função do sistema horário. citaremos como causa de inexatidão dos testemunhos a tendência afetiva que inevitavelmente se engendra no indivíduo diante de qualquer situação e que o faz sentir simpatia ou antipatia não só pelas pessoas. com efeito um dos processos psicológicos mais instáveis e influenciáveis. Um boçal. mas para tudo o que existe. por exemplo). Mas os fatos ocorridos durante estes intervalos influem . Em quarto lugar. Todo mundo sabe que as horas passadas agradavelmente se mostram mais curtas que as passadas sofrendo. ou seja. não costuma ter noção do que é minuto nem meia hora. e enquanto um afirma que o jogador A deu uma canelada em B. lembram-se dela mais distintamente ainda e a exprimem ainda com maior divergência.por seu conteúdo emocional agradável ou penoso . ao passo que existem outros (e certamente estes são a maioria) que procedem de modo inverso. (e vice-versa) da situação a testemunhar. na prática tudo o que percebemos e lembramos encontra-se tão intimamente ligado a um tono afetivo que se torna impossível-até para os espíritos superiores .como já se disse . com efeito.

é interessante conhecer que os denominados tipos psicastênicos ou melhor. por isso. Isto é tão certo que o valor de uma declaração só pode ser julgado conhecendo-se quem a fez (e isso basta para justificar a necessidade de submeter previamente toda testemunha a um exame psicológico). Por isso. De um modo gerar a precisão não está sempre unida à veracidade. Além do mais. se expõe a fechá-lo em mutismo ou a que a posteriori faça contínuas retificações. parece-nos desnecessário fazer ressaltar a enorme influência que o tipo de personalidade exercerá . para estes indivíduos só pode ser aconselhado o emprego de perguntas disjuntivas. uma grande veracidade em seus testemunhos. mitômana ou imaginativa e os de personalidade paranóide são os mais suscetíveis de dar testemunhos falsos. tipos compulsivos ou obsessivos.109 quiséramos que fossem (não obstante. 72 INFLUÊNCIA DO TIPO DE PERSONALIDADE NA CLASSE DO TESTEMUNHO Depois do que foi descrito. Porém pode afirmar-se que quanto maior for o grau de extroversão do indivíduo tanto mais fácil será . os primeiros. menos influenciáveis pelas circunstâncias exteriores e pelo tempo. Em troca. não nos cansaremos de aconselhar que o interrogatório destes tipos psicopáticos muito mais . e os segundos. Estes indivíduos têm quase sempre um imperativo desejo de dizer a verdade. não obstante. mas. porém mais constantes. Não existe relação (direta ou inversa) . no entanto. em virtude de sua tendência confabulatória irrefreável.entre o grau de extroversão e a fidelidade ou veracidade do testemunho. parece existir uma relação positiva entre a precisão dos testemunhos visuais e a disposição eidética que . os tipos de personalidade histeróide.dentro de certos limites . Está claro que tampouco se deve cair no extremo oposto e permitir que o compulsivo fique submerso em seu habitual estado de indecisão e dúvida.em igualdade das' demais circunstâncias . com a condição de que se saiba interrogá-los de maneira que não possam defender-se com palavras vagas. com a condição. Desde já. de que um dos dois termos do dilema corresponda exatamente à verdade que se deseja constatar. por sua grande autocensura.segundo as últimas investigações é encontrada com maior freqüência nos tipos introvertidos. por isso mesmo duvidam que estejam dizendo exatamente a verdade e tendem a fugir o mais que podem às precisões. pois. precisamente para acelerar a produção de nossos mecanismos de defesa diante do perigo). mas costuma estar em razão direta dela. como conseqüência do predomínio que neles têm os processos catatímicos e de projeção Em troca. isto é. por não ter ficado satisfeito com sua resposta. mas haverá tanto mais probabilidade de que o mesmo não seja constante.como pretenderam alguns . apresentam. já assinalamos que às vezes o medo nos faz vêlas como não quiséramos que fossem.a obtenção do testemunho. é preciso que o interrogador se carregue de paciência e não aperte excessivamente o testemunho deste tipo obrigando-o a dar uma resposta precipitada para ele. o indivíduo introvertido nos proporcionará declarações mais escassas e mesmo mais subjetivas.na moralidade de um testemunho qualquer. nesse caso.

diremos acerca da necessidade de proceder a um reconhecimento da capacidade auditiva em todas as testemunhas que devam informar sobre dados (ruídos. a necessidade de efetuar uma verificação da "nictopsia". como poderá ela ser determinada? Esta questão é tão árdua e escorregadiça que nem mesmo obras tão completas e modernas se atrevem a formular normas concretas para resolvê-lo. da visão noturna. os meios de que disponha o tribunal etc. que é a reconstituição semelhante dos atos testemunhados. recorrer a outro processo. Quantas vezes uma testemunha afirma ter visto ocorrências que pelas condições especiais de seu aparelho visual é facilmente demonstrável que não pode ver ! O mesmo. colocando a testemunha em idênticas condições de observação às primeiramente supostas. não há dúvida de que tampouco é possível enunciá-las com excessiva rigidez. sem nada prejulgar acerca do modo como vão utilizá-la no ato da declaração. Se não se pode ou não se quer confiar a um médico especializado este reconhecimento sensorial das testemunhas. a idade das testemunhas.) percebidos pelo seu aparelho auditivo. em primeiro lugar. como também fisiológico e mais exatamente sensorial. (A este respeito assinalaremos. naturalmente. por exemplo. não só quanto à sua agudeza visual. segundo a importância das declarações que devam ser tomadas. pareceu-nos necessário dar uma norma "geral" e ''mínima'' de exame de testemunhas em busca de sua "capacidade de testemunho". Toda testemunha que tenha de fazer declarações de fatos que "viu" deve ser. à extensão de seu campo visual e.seja confiado ao psiquiatra judicial. a todos os dados fisiológicos que for preciso conhecer para avaliar o que pode ver nas circunstâncias em que se encontrava. nessas condições um exame de sua agudeza auditiva pode demonstrar facilmente se isso é ou não possível dada a distância a que se encontrava a testemunha dos interlocutores. em geral. Uma vez convencidos a maioria dos juristas modernos e os psicólogos e psiquiatras da necessidade de efetuar a avaliação prévia da "capacidade de testemunho" em cada caso. ao invés de ao juiz. Por outro lado. quer dizer. É freqüente que uma testemunha diga ter surpreendido uma conversa "cochichada". conversações etc.110 freqüentes do que se acredita . em todas as testemunhas que devem depor sobre fatos ocorridos na obscuridade ou em condições defeituosas de iluminação). 73. pois as técnicas variarão segundo os casos. Tendo em mira esse ponto. Não obstante. desde que este não tenha suficiente preparo psicopatológico. e verificando se é então capaz de perceber detalhes equivalentes aos que afirma ter percebido na situação sobre a qual testemunha. Sem dúvida. submetida a um exame oftalmológico que nos mostre qual é sua capacidade visual. eis o capítulo de maior importância prática dos que integram este estudo. TÉCNICA DO RECONHECIMENTO PRÉVIO DAS TESTEMUNHAS. Mas esta prova tem o inconveniente de . não há dúvida de que o reconhecimento ou exame não só deve ser psíquico. pode-se. como quanto à sua capacidade cromatopsíquica (de apreciação de cores). isto é.

e depois com outro. que será aproximado lateralmente ao indivíduo até que ouça seu tique-taque primeiro com um ouvido. Concedem-se vinte segundos para examinar cada uma delas e a seguir toma-se exatamente a descrição que o indivíduo faz das mesmas. ou de um modo deliberado. Depois submete-se o mesmo a um interrogatório previamente formulado para cada uma. Só em ocasiões excepcionais pode ser de interesse a determinação prévia da capacidade gustativa ou olfatória de uma testemunha (para o que se recorrerá ao emprego do geusiestesiômetro e do olfatômetro. CAPACIDADE EXAME. o simples fato de estar prevenido sobre o que vai testemunhar aguça notavelmente sua capacidade perceptiva. Por tudo isso será preferível associá-Io pelo menos à verificação superficial de sua capacidade visual e auditiva. Quanto à acuidade auditiva. nas quais se reproduz uma pluralidade de objetos estáticos ou se fixa instantaneamente uma situação dinamicamente complicada. pode ser avaliada por meio de provas ou reativos especiais. (em virtude do reforço que lhe comunica a atividade de sua "atenção espectante"). 74. Quantas pessoas existem na gravura? Quantos animais? Que classe de animais? Que está fazendo a pessoa situada à sua esquerda na gravura? Que objeto está situado atrás dela? Que faz a pessoa situada no centro da gravura? Essa pessoa tem barba ou não? O homem que cuida do cachorro o traz preso por uma correia ou o segura . No entanto. respectivamente). embora feita por pessoal não técnico. que devem ser lidos a distâncias determinadas. pode ser examinada simplesmente por meio de um cronógrafo ou relógio de bolso qualquer. não há dúvida de que o exame psicotécnico é o que proporcionará os dados mais interessantes e sob este aspecto devemos considera-lo dividido em várias partes. a capacidade de testemunhar em seu sentido mais restrito. Quase sempre são utilizadas séries de gravuras em cartolina. por outro lado.111 que inconscientemente. isto é. conforme sejam as disposições do declarante que se procura pôr em evidência. a testemunha costuma colocar-se em melhores condições de observação desta segunda vez e. PSICOEXPERIMENTAL DA DO TESTEMUNHO. É sabido que os optótipos nos permitem apreciar a agudeza visual em décimos da visão normal. denominados pelos autores alemães e pelos ingleses "Rapportfidelity-tests" (provas de testemunho ou de fidelidade de declaração. A primeira delas. no qual são feitas as diferentes classes de perguntas. Esses optótipos constam de sinais literais e simbólicos arbitrários. estando o outro tapado.

112 diretamente pela coleira que está em seu pescoço? Que fazem as pessoas no fundo? As pessoas situadas no primeiro plano vestem alguma coisa mais do que a roupa de montaria? De que cor é sua pele? De que cor é o cachorro? Qual é o traço mais peculiar que notou no aspecto das pessoas na gravura? Que objetos existem no primeiro plano. pois quando o número de erros no testemunho jurado é a metade do que se observa nas declarações espontâneas.O primeiro (e talvez o mais importante) dos resultados é que praticamente se pode dizer que ninguém chega a dar um testemunho perfeito (isto é. apesar disso. c) EXTENSÃO DO TESTEMUNHO E OUTRAS CONSTANTES. isto é. . Deve-se advertir que a superioridade dos homens com respeito às mulheres aumenta com a idade. quando se empregam perguntas sugestivas no interrogatório. em troca sua extensão foi um pouco menor (ou seja que o homem tende a afirmar menos dados.Não se pode tampouco estabelecer nenhuma relação entre a extensão de um testemunho e o valor dos coeficientes. dez por cento de erros nas declarações juradas. alguns dos resultados gerais obtidos com esta classe de provas: a) PRECISÃO. . adiante de tudo? Há alguma água representada na gravura? O homem branco está situado à sua esquerda ou sua direita? O Sol parece iluminar a gravura pela sua esquerda ou pela sua direita? Como é que você sabe? Quanto tempo. d) PRECISÃO E CONVICÇÃO. embora sucintamente. mas em troca testemunha com maior objetividade que a mulher.Em todas as experiências espontâneas ou sob o interrogatório a precisão dos testemunhos dos homens excedeu globalmente de 25% à das mulheres. .O grau de convicção da certeza de um testemunho não é garantia suficiente para acreditar em sua veracidade.Não existe relação alguma entre a extensão e a precisão do testemunho. . A média de indivíduos adultos normais apresenta. e) INFLUÊNCIA DO SEXO. você contemplou esta gravura? Vejamos agora. aproximadamente. persistem. de sorte que é menos perceptível quando se opera com indivíduos jovens do que quando são utilizados adultos ou pessoas maduras. b) EXTENSÃO E PRECISÃO. mesmo quando para um determinado indivíduo não haja dúvida que estes dois fatores variam na razão inversa. Somente uns 2% de indivíduos foram capazes de não cometer nenhum erro na descrição espontânea e 0. completo e totalmente verídico) do que viu. uma precisão de 75%. . .5% não o cometeu na declaração (interrogatório posterior).

I) ANALISE QUALITATIVA DOS ERROS DO TESTEMUNHO. uns 25% do total dos dados ou idéias depostas. . . a precisão do testemunho (relação entre o número total de dados testemunhados e verídicos e o número dos testemunhos certos) só aumenta nesse lapso de tempo de 20%. De um modo geral pode-se dizer que com o tempo o testemunho perde mais em extensão que em precisão. g) INFLUÊNCIA DO TEMPO TRANSCORRIDO ENTRE A OBSERVAÇÃO E o TESTEMUNHO. Com efeito. uns 10% e na segunda. fatores afetivos que são capazes de resistir ou exagerar. é preciso ser muito cauteloso ao dar-lhes valor como testemunhas. embora este seja bem conduzido. . Tendo em conta os dados que apontamos antes. apesar de que a precisão de seus testemunhos seja sensivelmente igual.A experiência obtida com estas provas demonstrou que a narração espontânea é menos extensa. 2°. 4°. Nas pessoas de idade. . erros de julgamento (interpretação errada de dados. convém assinalar que a curva de perda dos detalhes do fato não coincide de modo algum com as curvas de esquecimento que se obtêm nas experiências feitas para o exame da memória. Não obstante. quanto mais tempo transcorreu. não obstante. Em todo testemunho intervêm. segundo os casos.Nem as crianças nem os velhos são testemunhos dignos de confiança em geral. erros de observação (apreensão ou percepção insuficiente ou deformada). deveriam ser eliminados como . pseudo-memórias etc.Para não complicá-la demasiadamente bastará distinguir quatro classes deles: 1°. com efeito. porém mais precisa que a obtida com o interrogatório. 75.). sobretudo a partir do sétimo decênio. tanto menos preciso costuma ser o testemunho. h) INFLUENCIA DA FORMA DE OBTENÇAO DO TESTEMUNHO. Dos sete aos dezoito anos se duplica o número de dados corretamente testemunhados. 3°. É curioso o fato de que a tendência ao juramento seja maior nas mulheres que nas mocinhas. As crianças são extremamente sugestionáveis e por isso deve-se conceder mais confiança a suas declarações espontâneas que as obtidas com o interrogatório. DEDUÇÃO PRÁTICA DO EXAME. dar a si maior importância etc. erros de lembrança (esquecimento completo. falta de autocrítica ou excesso da mesma etc). em média. os erros na primeira alcançam. o processo natural de obscurecimento das lembranças. cresce em troca sua convicção na certeza de suas declarações (isso se explica pela debilitação simultânea de sua capacidade de apreensão de estímulos ou memória imediata e de juízo de realidade). erros de imaginação (confabulação.113 f) INFLUÊNCIA DA IDADE.Como é natural.). retoques ou complementação dos dados mnêmicos em virtude de uma intenção determinada: ficar melhor. pois dá-se o raro caso de que à medida que diminui nelas suas precisão de observação e testemunho.

que as perguntas sejam premeditadas. como infelizmente acontece. Com efeito. que por meio de processos (que a seguir descreveremos) se possa . ser completada com o uso dos processos antes descritos para a verificação da sinceridade nos testemunhos reais. preciso e claro. por isso. este é o problema central que se suscita nas ações judiciais: conseguir precisar não só a natureza do delito cometido. mas sim por meio da cópia taquigráfica ou. E se. 2°. a obtenção da verdade. tudo o que tende a conseguir melhorar ou aumentar o grau de certeza das declarações judiciais (tanto do autor. Pois bem. acusador ou simplesmente perito). e. é preciso preencher estas três condições: 1°. obtendo sua convicção e confissão com provas objetivas tais que não reste dúvida acerca da mesma. atitudes e intenções. Porque não há dúvida que é possível introduzir um grande aperfeiçoamento no modo como hoje se procede para a obtenção da evidência do delito. pois. deve. 3°. não como atualmente acontece por meio da simples cópia gráfica. se se quiser atingir a máxima eficácia nos interrogatórios judiciais. Não obstante. que as respostas sejam registradas exatamente. por meio do registro parlográfico que nos permitirá em todo momento reconstruir as inflexões da voz. Não pode haver justiça absoluta sem certeza absoluta. CAPÍTULO X A OBTENÇAO DA EVIDÊNCIA DO DELITO 76. guia-se pela psicologia ditada pelo seu senso comum e confia o êxito de seu trabalho à inspiração momentânea e à sua agilidade mental. pausas. se pede à testemunha não só a descrição como também a interpretação de fatos. do declarante. Tenha-se em conta que esta parte do exame psicotécnico só se aplica para descobrir a capacidade de testemunhar sobre fatos. Igualmente deveriam ser julgados com grande precaução os testemunhos de indivíduos cujo índice de erro oscilasse entre 10 e 20% no relato espontâneo e 25 e 35% no provocado. deveria ir então acompanhada ainda de um exame de sua capacidade de julgamento intelectual e moral. Seja qual for a intervenção que o jurista tenha no assunto judicial suscitado (defensor.comprovar a sinceridade ou a falsidade do indivíduo ao declarar. na imensa maioria das vezes o jurista procede de um modo intuitivo em seus interrogatórios e ações. deve interessar-lhe. como também a intervenção do acusado no mesmo. como é natural. formuladas de um modo coerente. aparentemente. Não há dúvida de que.114 testemunhas todos aqueles que na prova psicoexperimental prévia proporcionassem um testemunho espontâneo de mais de 35% de erros. CONFISSÃO COM PROVAS. melhor. estamos aqui em face do primeiro problema em que a Psicologia jurídica deve e pode intervir praticamente com êxito. . quaisquer que eles sejam. como das testemunhas e peritos) será visto com simpatia pelo jurista que mereça este título. vacilações etc.na medida do possível.

os demais me afastaram e o levaram. E você diz em troca que não sabe quem o apunhalou. Eu não fiz nada. E melhor que você nos diga por que o fez. quer dizer. J. senhor. mas ao aproximar-me o vi cair dando um grito e ao querer levantá-lo do solo. só sei que não fui eu. J. J. senhor. A. N. Para agarrá-lo. senhor. Eis uma parte das perguntas do sumário que poderíamos considerar como típica ou clássica: J.115 Um questionário elaborado com antecedência. após uma discussão surgida por motivos de jogo. Todos estão unidos. É um delito banal e ao juiz chega a parte da Guarda de Segurança junto com o laudo do facultativo que descreve a ferida da vítima como causada por um instrumento pontiagudo que alcançou os intestinos e produziu uma grave hemorragia interna. Eu não fiz nada. A. conforme você diz. são várias as testemunhas que presenciaram o delito e a própria vítima declarou que foi você quem a feriu. Por que deu você uma punhalada em seu amigo? A. Mas confessa que se levantou da mesa para agredi-lo. J. J. Com a finalidade de mostrar o que propugnamos. A. (a vitima) certamente tem motivo para não dizer quem o feriu. Ter uma norma a partir do primeiro interrogatório eqüivale a conhecer o grau de sugestão que produzem as diferentes perguntas. o juiz procura obter em seguida a confissão do acusado. havendo testemunhas que presenciaram o fato. senhor. sem prejuízo de que a ele sejam acrescentadas outras perguntas que surjam no momento à mente do interrogador ao considerar as respostas anteriores do declarante. estão contra mim porque lhes disse que poderia denunciá-los e por isso querem prender-me. J. Você faz mal em acrescentar a mentira à sua má ação. . eu esperei e então me prenderam. J. senhor. A Deve haver um engano: eu me aborreci com N. e levantei-me para baterlhe. Para agarrá-lo. A. De que podia você denunciá-los? A. saber não perder-se em detalhes sem importância e em troca não deixar de perguntar nenhum dado de interesse. Sim. E por que você o queria agarrar? A. Isso é o que o senhor deve averiguar. Porque falou no nome de minha mãe e isso não tolero de ninguém. Não sei o que o Sr. Nestas condições. isto sim. Que interesse teriam as testemunhas e a vítima em acusá-lo se você fosse inocente? A. sim. Então você insiste em negar que tenha apunhalado N. Várias coisas que fizeram e não se deve fazer. J. Sim. Não negue a evidência. Então quem o fez? A. A. suponhamos que diante de um tribunal de guarda é conduzido um homem que acaba de dar uma punhalada em outro numa taberna. J. Pense que negar seu ato de nada serve. J.

Diga-me o que aconteceu. finalmente. o que se denomina a "evidência do delito". Y. porque N. Quantas vezes alguém se acusa de um delito não cometido e. Diga-me para que lado e onde caiu N. quantas vezes o acusado nega a evidência! O que importa.o é quando há necessidade. Y. traçado de antemão. está pior com Y do que com ninguém. Isso não é verdade. Y. enquanto Y. Eu me limitei a dizer-lhe que fizera uma "sujeira". o é sempre. Estávamos jogando cartas N. Diga-me mais ou menos qual é o grau de amizade que o une a N. A. pois é ele que com suas respostas determina as perguntas ou comentários subseqüentes do juiz. De nenhum deles se pode saber. Haverá dúvida de que neste segundo modelo de interrogatório se obtêm com seis perguntas dados mais interessantes que no primeiro com doze? Vejamos o porquê da diferença: no primeiro interrogatório o juiz discute com o acusado e dá mostras de um critério apriorístico. Então ele me disse que porca era minha mãe e eu não pude conter-me e levantei-me para bater-lhe. sem ter obtido um dado de proveito. uma confissão de nada serve se não for acompanhada de provas que a tornem desnecessária. que no fim fica como de início. as perguntas discorrem de um modo imperturbável. X. vice-versa.X. quem você acredita que é o pior de todos seus companheiros? A. mas N. levantou-se para vir sobre mim pelo lado onde estava Y e ao dar o grito caiu de bruços sobre a mesa. se esse mesmo juiz houvesse preparado de antemão seu plano de interrogatório e o tivesse levado a termo integralmente: J. qual é seu preferido. me disse que eu era um "tolo" e eu respondi-lhe que ele era um "porco". Z e começamos a falar de um assunto em que N e X haviam feito uma "sujeira" comigo. N. No segundo. A. é antes de tudo . ao ser ferido. Com efeito. talvez. é também muito mau. porque têm inveja de mim. depois deste. Não é preciso ser muito perspicaz para ver como neste caso o interrogatório é uma luta na qual a direção é assumida pelo acusado. depois. No momento em que ele se levantou para defender-se caiu dando um grito e fui afastado dele por X e Z. senhor. A. . em troca. pois. J. N. Eu gosto de todos. A.X. É esquisito que as demais testemunhas digam que foi você que insultou a dele primeiro. Diga quais são as relações de amizade ou inimizade que existem entre N e as outras testemunhas. mas cada um o e de modo diferente. isto é. J. mas não é verdade. Foi ele quem me provocou. quem segue e. mas todos me odeiam. todos se odeiam uns aos outros. a qual deles você quer mais. Veio gente que o levou e me prendeu dizendo que eu o havia ferido. N. a quem você quer menos. J. que sucederia. Diga-me.116 J. Ye Z. tendendo obter mais do que a confissão.. Vejamos. Z. Descreva exatamente neste plano a posição em que vocês estavam em torno da mesa quando isso aconteceu: J.

porque vai se tomando cada vez mais fácil a comprovação dos extremos afirmados. quando se trata de indivíduos que falam um pouco depressa é impossível. ir dos antecedentes ao delito. a isso tendem os psicólogos cada vez mais e hoje em dia já nos encontramos de posse de técnicas capazes de proporcionar resultados interessantes. Nada há que desoriente mais o acusado ou a testemunha que procura enganar em suas declarações do que ver como suas respostas são registradas sem comentários e como as perguntas que lhe são feitas obedecem a um plano premeditado que o coloca em condições de inferioridade para prosseguir em seu embuste. inventar novas mentiras que a justifiquem. ou seja. a comprovação do grau de sinceridade das declarações. qualquer função investigadora. Não há dúvida que. se partirmos de uma mentira nos antecedentes e o interrogatório nos leva avante. a menos que as circunstâncias sejam de tal natureza que dispensem. análises e comentários bem merecem parágrafo à parte. anotar suas próprias palavras. do mais. Sua descrição. será cada vez mais difícil justificar a mentira anterior com a seguinte. que a todo momento procuram fazer o juiz penetrar na corrente de sua argumentação. para deduzir a motivação do delito e preparar devidamente a ação do sumário e o trabalho do tribunal de sentenças. quando não. Deve-se proceder seguindo uma seriação lógica dos acontecimentos e em vez de voltar do delito a seus antecedentes deve-se procurar seguir o caminho inverso.117 reconstruir os latos com a menor veracidade e objetividade possível. será fácil. Vejamos agora o segundo extremo: as respostas devem ser registradas com o parlógrafo sempre que se tratar de interrogatório de importância. nada se perde em seguir este método (que poderíamos denominar cronológico natural) como norma geral. perdem-se numerosos detalhes interessantes que podem ser obtidos observando a expressão verbal do indivíduo no que tem de mímica afetiva. . E como ao juiz deve interessar ter uma visão exata não só do delito como de seus antecedentes. . O processo seguido de tomar as respostas pela escrita ordinária ou à máquina tem o gravíssimo inconveniente de acarretar uma perda de tempo que é sempre aproveitada pelos declarantes para fazer sua retomada de posição e poder deformar melhor . devem ser taquigrafadas pelo menos por dois taquígrafos.no sentido que lhes convenha . ter-se-ia dado um passo agigantado na prática forense. voltando para o passado. feita à base da racionalização de sua conduta.sua declaração. no melhor dos casos. até chegar a mentiras não comprováveis. por assim dizer. Mas. E ainda. até chegar ao momento atual em que qualquer afirmação a ele referente pode ter uma comprovação imediata. o máximo concurso que a moderna Psicologia pode prestar ao jurista refere-se ao terceiro aspecto do problema discutido.. o resultado de seu trabalho. indicadora de seu estado emocional e de seus propósitos alternos. independentemente. que darão ao juiz. Para isso é preciso não se deixar influir pelas respostas das testemunhas e acusados. Além. ou seja. Não obstante. A razão disto é muito simples: se partirmos de uma mentira. se o juiz pudesse dispor de métodos que lhe permitissem conhecer quando um declarante procura enganá-lo deliberadamente. pois bem.

Não obstante. Nesse caso a comparação entre as reações às palavras-estímulos "específicas" e às "neutras" dá uma base para distinguir a influência da emotividade geral e a da emoção despertada pelo medo de ser descoberto. nas duas formas. Apesar de sua aparente ingenuidade. A importância psicológica desta prova é enorme. de uma prova que permitia. mas também muito nos . conhecer se a pessoa encontrava-se ou não emocionada ao declarar. com o emprego desta prova. no entanto. infelizmente. serem muito mais emocionáveis e nervosas que ela. com efeito. por ação ou omissão. menos para o que procura nos ludibriar. Sempre é possível formar uma lista que contenha palavras que sejam "neutras" para qualquer indivíduo. inocentes. que há muitos anos os juristas se preocupam com o meio de obter uma prova objetiva do grau de sinceridade nos testemunhos. esta prova tem um fundamento científico. é tão geral. Trata-se. sem a qual é evidentemente impossível engolir-se um punhado de arroz seco. reconhecer entre nove enfermeiras suspeitas de um furto em sua clínica a que o havia praticado. apesar de duas de suas companheiras. mas não se era ou não sincera em seu testemunho. a primeira é um fator constante que intervém em todas as associações (respostas).118 77. e assim se compreende que Jung pudesse. pois. de tão remotas datas é preciso transportar-se para uma década de nossos dias para encontrar algo que represente um avanço técnico neste sentido: há dez anos. anulavam as declarações das mesmas. por afirmação de mentiras ou ocultando verdades. Facilmente se depreende. isto é. associada ao registro do tempo de reação e às particularidades desta última como meio indicador dos "complexos". que todo estado emocional intenso inibe a secreção salivar. ou seja. isto é. que consistia em fazer engolir rapidamente certa quantidade deste cereal imediatamente depois de terminada uma declaração. no caso mais favorável. Diziam eles que por vontade dos deuses todas as pessoas que tivessem declarado em falso ficavam impossibilitadas de engoli-lo. não somente serve para pôr em evidência o "complexo" que o indivíduo procura ocultar. ver-se-á como este vacila um pouco antes de responder (procurando uma palavra que sirva para dissimular sua reação primitiva) ou sua resposta exibe alguma anormalidade. Jung propôs sua prova de associações determinadas. pois. em conseqüência desse critério. TÉCNICAS UTILIZÁVEIS PARA O CONTROLE DA SINCERIDADE DOS DECLARANTES O propósito de burlar a justiça nas declarações. O fundamento da técnica de Jung é o seguinte: se em uma lista de palavras se intercalam umas tantas direta ou indiretamente relacionadas com o que o indivíduo procura ocultar. do conjunto de experiências ou "vivências' que um indivíduo qualquer quisesse ocultar. Na remota antigüidade os juízes persas empregavam uma prova que chegou a se tomar célebre: " a prova do arroz". que as diferenças pessoais de emotividade são suficientemente intensas para secar a garganta de um inocente ingênuo e não alterar em troca a de um delinqüente ou astuto declarante. e. ao passo que a segunda só reage em determinado número delas que não conhecemos a priori.

uma palavra ou uma frase: seja o que for. a reprodução correta ou incorreta da mesma e a conduta da pessoa durante o tempo da evocação. a resposta em questão. p. não saberá adaptar-se tampouco à experiência associativa. 2°. para os fins da prática forense convirá sempre preparar especialmente esta lista. movimentos de impaciência etc. deixa-se o indivíduo descansar por alguns instantes convidando-o em seguida a ouvir novamente a lista de palavras-estímulos e a repetir para nós as mesmas respostas que nos deu na experiência original. quais são os sinais reveladores de que a pessoa oculta seus verdadeiros sentimentos com respeito à questão implicitamente suscitada por meio da palavraestímulo? ." O examinador deve registrar durante a prova: 1°. uma imagem. sem pensar em nada. Senta-se a seu lado com a lista de palavras-estímulos. de você colocar-se em uma atitude passiva. pessoa ou objeto que aquelas representam. os décimos ou quintos de segundo transcorridos entre a enunciação da palavra-estímulo e a obtenção da resposta. ex. copiada ad litteram. uma vez será uma lembrança. na qual se encontram contidos os estímulos mais apropriados para despertar conflitos da vida. sem pensar se está bem ou mal. que foi objeto de uma cuidadosa elaboração prévia. incluindo nela algumas palavras "específicas" em substituição a outras neutras.119 informa sobre sua personalidade. titubeios. de cem palavras. Trata-se.O examinador coloca o indivíduo comodamente estendido e venda seus olhos para evitar qualquer distração.). eqüivale a convidá-lo que nos manifeste qual é a impressão dominante que esta lhe produz. se utiliza a lista clássica estabelecida por Jung. por isso nos parece justificada a intenção de expor com detalhe sua técnica e os resultados que se podem obter. Como dissemos. Como se investiga a sinceridade do indivíduo por meio da prova psicanalítica de Abraham-Rosanoff-Jung. e por isso a pessoa que se encontra defeituosamente adaptada à situação. terá a bondade de fixar-se bem em cada palavra das que lhe direi e responder-me com o que primeiro lhe ocorrer depois de ouvi-la. todos os sinais objetivos que a acompanharam (mudança da voz. dizer a um indivíduo que nos comunique o que primeiro lhe ocorre diante da palavra "honradez". a. etc. e me comunicar o que primeiro lhe ocorrer. Uma vez terminada a prova. repetição da pergunta. pois. Mas. deixar seu cérebro ser impressionado pelas palavras que irei dizendo. Você. Quais são os sinais de tal desadaptação? Mais claramente. Quando se trata de examinar um indivíduo sem nenhum propósito concreto ou predeterminado. 3°.. outra será um comentário. por estranho e absurdo que lhe pareça. "Vou dizer-lhe uma série de palavras. diga-o com toda a ingenuidade. uma a uma. Com efeito. A necessidade de proceder assim será facilmente compreendida se tivermos em conta que a prova de Jung não é em definitivo outra que um interrogatório dissimulado e comprimido. uma de cada vez. As palavras estímulos tomam-se símbolos da realidade. entendemos por estímulo especifico o que se acha direta ou indiretamente relacionado com a situação delituosa. . Nesta segunda parte da prova anotam-se igualmente o tempo que demora em produzir-se a resposta.

por exemplo) em meio de uma série de associações intrínsecas corretamente estabelecidas. que é preciso averiguar. antes de responder. (Exemplo.A duração média do tempo que transcorre entre a pronúncia da palavra-estímulo e a resposta do indivíduo é bastante variável. como resposta às palavrasestímulo seguintes. Por isso todos os tempos de reação superiores a quatro segundos são indícios de que o indivíduo se acha preocupado em nos ocultar sua primitiva intenção de resposta.pai. repete a palavra-estímulo. 5° Repetição da Palavra-estímulo. . . Tal conduta deve.parede.Quando.É possível que o indivíduo dê uma resposta aparentemente absurda e depois explique dizendo que confundiu a palavraestímulo com outra mais ou menos semelhante. honradez . quando observada. mas não costuma exceder de dois ou três segundos. se pede ao indivíduo que nos tome a dar as mesmas respostas ao ler para ele pela segunda vez a lista de estímulos. em virtude do qual uma associação persevera.120 Ei-los: 1° Atraso na Resposta. 8° Mudança de Sentido da Palavra-estímulo. 7° Persistência. diante de alguns destes. ódio . Nunca se deve esperar mais de trinta segundos para passar à palavra seguinte da lista. o indício passa à segurança de que o examinado não é sincero. . mais ou menos deformada. É inteiramente análogo ao que fazemos no curso de uma conversação quando mudamos bruscamente de tema para fugirmos de ser interrogados a respeito de algo que queremos ocultar. Tal atitude é devida quase sempre à ação perturbadora da resposta que se acaba de ocultar.A mesma significação tem esse fato semelhante. comumente conforme os indivíduos e segundo a natureza dos estímulos. 9° Repetição Defeituosa da Reação.Às vezes a pessoa.padrasto).Quando o indivíduo nos dá uma associação superficial vulgar (uma associação de som. ou então nos afirma que respondeu de outra . como se depreende. .Quando uma mesma palavra é repetida várias vezes pelo indivíduo na prova. 6° Repetição das Palavras-resposta . 2° Ausência de Resposta. 4° Associação Superficial Anormal. é indubitável que tem para ele uma significação especial. suspeitaremos que isso seja devido a seu desejo de nos ocultar a associação primitiva por considerá-la por demais expressiva. .Este sinal costuma aparecer junto com o primeiro e supõe. por conseguinte. . Este é um modo de garantir a si um pouco mais de tempo para preparar uma resposta que julga difícil. . .É um exagero do fenômeno anterior e. que não os ouviu antes. uma vez terminada a experiência. ser considerada suspeita de insinceridade. sucede às vezes que o indivíduo afirma. sorte . 3° Reação Absurda. uma mudança de direção voluntariamente introduzida pela pessoa examinada no curso das associações.

porque. Nos casos de dúvidas deve-se ter um especial cuidado na elaboração da lista de estímulos. Larson. O controle da sinceridade por meio do denominado "detetor de mentiras" e seus derivados. o dispositivo constituído pelo oscilógrafo ou o esfigmomanômetro e o pneumógrafo merece. b. o nome de "detetor de mentiras". a melhor é sem dúvida a que consiste em obter o registro gráfico das oscilações de tensão arterial no tornozelo durante a prova.No mês de dezembro de 1923.121 maneira. segundo Larson. como também. por meio de um cronógrafo de Jacquet. o de dirigir rapidamente sobre o indivíduo uma série de projetis (verbais) cuja ação se soma até conseguir finalmente o efeito desejado. para verificar o grau de sinceridade dos declarantes. conforme se pode ver nos gráficos que expomos a seguir. Deve-se advertir que via de regra os sinais reveladores de complexo. Quatro ou cinco . servirá para terminar de confirmá-las. descobrir a inversão dos tempos relativos da inspiração e da expiração. se apresentam associados de sorte que na prática é sempre fácil o diagnóstico da reação "reveladora". se registra nas curvas dos traçados uma acentuada irregularidade. no qual propunha utilizar o registro gráfico da pressão arterial e da respiração associado ao interrogatório judicial comum. Se isto acontece com palavras que despertaram nossas suspeitas na primeira parte da experiência. possivelmente. 78. isto é. publicou um interessante trabalho. porque se baseia no mesmo princípio desta. no curso de várias respirações que podem parecer normais à primeira vista. que trabalhava no laboratório de investigações da Escola de Policia de Berkeley. marcando com um estilete sobre o papel enfumaçado o momento em que se pronuncia a palavra-estímulo: é ainda melhor se se associam a este gráfico o da respiração e o do tempo medido em quintos de segundo. DE APERFEIÇOAMENTOS TÉCNICOS DA PROVA JUNG-ÁBRAHAM ROSANOFF. De todas as técnicas propostas. "The cardio-pneumopsychogram in deception" (o cárdio-pneumo-psicograma na fraude). Poucos são os indivíduos que tenham intervindo nele diretamente e que sejam então capazes de responder normalmente. se se observa detidamente seus registros gráficos. Nessas condições. Essa irregularidade não só se observa na amplitude e no ritmo da respiração e da circulação. . se é de certa importância. O valor desta prova aumenta extraordinariamente se à inscrição gráfica das reações verbais se associa ao registro de alguns dos fenômenos somáticos concomitantes do choque emocional despertado pelas palavras estímulo específicas. Na linguagem psicanalítica denomina-se esta técnica o método da metralhadora. A. sempre que o indivíduo diz uma. o psicólogo norteamericano J. tomados do trabalho original do autor.

Os êxitos proporcionados pelo "lie detector" nos diferentes processos criminais nos Estados Unidos impeliram um grande número de investigadores a aperfeiçoar a técnica de registro e não tardaram a surgir vários outros dispositivos. observaremos que a curva das pressões exercidas adota uma forma sensivelmente idêntica. Torna-se necessário. tensão sangüínea e volume de extremidades. como dissemos. em troca." Vejamos agora como procedeu para encontrar a solução deste problema: se a um indivíduo não treinado e ignorante dos fins da experiência se pede que exerça durante muito tempo uma pressão digital rítmica sobre uma membrana pneumática (em comunicação com um tambor). pois. . Prof. de Criminologia na Universidade de Chicago. nesses casos o ciclograma demonstra a constância do "esquema" motor. todos eles baseados na inscrição gráfica e simultânea das curvas de respiração. Por conseguinte. de sua maior ou menor intensidade. O método da "expressão motora" Um positivo progresso :. independente. Foi acusado como suposto responsável. ou seja. a forma do movimento pode ser um indicador que nos dê a possibilidade de observar diretamente (através de suas modificações) as alterações que se produzam no aparelho nervoso. A marcha do fenômeno invisível será estudada então em função das mudanças que determinar no visível ou registrável.por tratar-se de um princípio original . a opinião estadunidense: com o desaparecimnento do secretário do Almirante norte americano em Manila (Eugêne Besset). o contorno das mesmas. e ao mesmo tempo que deve se encontrar na dependência direta do primeiro. com a condição de que saibamos isolar as influências endógenas alheias ao sistema neuro-motor.122 respirações antes e depois do estímulo provocador da mentira. De todos eles. mas conservando-se. que é uniforme. propôs então. o mais completo é o de A. É claro que este último deve preencher determinadas condições de regularidade e simplicidade de registro. Esta constância da forma se observa também quando se trata de movimentos de maior extensão e complicação (movimentos circulares da mão. a intensidade ou altura das elevações. criar uma técnica metodológica que una dinamicamente as atividades centrais e as periféricas até fazê-las constituir um sistema unitário. justifica-se sua observação indireta por meio de sua associação artificial no tempo (por coexistência temporal) com outro que se mostre mais facilmente registrável.representa o método preconizado recentemente pelo psicólogo russo Luria para verificar o grau de sinceridade dos declarantes em função das alternativas que uma série de movimentos musculares ordenados experimentam no decurso de sua declaração. diferindo em todo caso. o emprego do referido aparelho para ajudar a investigação criminológica.). Wollmer. c). prensão de um objeto etc. Earl Mayer e o fiscal Ewing Calvin. E este autor sustenta que quando se torna impossível a observação direta de um fenômeno. Luria assim formula seu pensamento: "Para encontrar uma expressão fenomenológica adequada dos processos centrais deve-se utilizar um sistema que se encontre em conexão direta com eles e este não pode ser outro senão o dos movimentos voluntários. Com ele se obteve um êxito retumbante num assunto que apaixonou em 1929. obtém-se um cociente positivo no caso de sinceridade e negativo no caso de resposta falsa. muito ligeiramente.

Um ponto muito interessante é a falta de correlação perfeita entre o tempo de reação ou a originalidade da resposta verbal (sinais agora admitidos como indicadores seguros do "complexo") e a irregularidade da curva de "expressão motora". por outro lado. duas curvas onde em ambas se nota uma anormal duração do tempo de reação associativa (uma. Nesse sentido serve maravilhosamente para provocar transtornos da atividade central normal. mensurável em sua duração e complexidade. Para escolher esta prova teve dois motivos: 1°. então a inibição (ativa) que o indivíduo efetuava sobre suas reações ídeo-verbo-motoras traduzia-se imediatamente em uma irregularidade manifesta da curva de expressão motora. ocultar). ao fim de sete segundos e quatro décimos de ser . capaz de pôr de manifesto a nós seus mecanismos característicos. o indivíduo era convidado a bater com o dedo no mesmo momento de pronunciar a palavra reação. mas quando o estímulo verbal se achava relacionado com alguma coisa que o indivíduo desejava reprimir (isto é. a reação associativa. 2°. Que diferença existe então na curva de "expressão motora" quando se apresenta uma alteração. independente de toda influência afetiva e ligado somente às flutuações da atenção e do funcionamento cerebral.devido a essas condições . A diferença entre a reação correspondente a uma resposta sincera e a outra falsa reside no fato de que a primeira se mostra coordenada (organizada) e a segunda incoordenada (desorganizada). Este processo associativo . ao passo que os demais sinais "reveladores" até agora conhecidos podiam também apresentar-se simplesmente em conseqüência de alterações intelectuais (não afetivas) provocadas pela complexidade ou dificuldade associativa da palavra estímulo. Por exemplo.fora utilizado (assim como o das associações determinadas) com fins de exame psicanalítico criminológico. o mais fino reativo das comoções afetivas. sendo. Isso se explica porque na. Nestas condições. por assim dizer. realidade esta última só se altera nos casos em que surge no interior do indivíduo um conflito entre duas tendências afetivas potentes. os resultados eram bem evidentes: quando a palavra-estímulo não havia despertado a atividade de um "complexo". ou por um súbito "vazio" ou paralisação do processo do pensamento. e. além do mais. por conseguinte. a reação associativa tem sempre um conteúdo psíquico (central) e acha-se em relação determinável com a natureza do estímulo.embora indiretamente .as fases intermediárias (que por motivos fáceis de se compreender não podem ser tampouco examinadas por hetero-introspecção). mas os pesquisadores haviam se limitado a notar somente os extremos do mesmo (estímulo e reação) sem poder dispor de um meio que lhes permitisse seguir . no curso associativo. acha-se influenciada do modo mais direto pela afetividade e sobretudo pelas tendências subconscientes ou reprimidas (complexos). de ordem intelectual e quando esta é de ordem afetiva (por insinceridade)? A resposta é bem simples: o curso da resposta motora não se desfigura no primeiro caso e sim no segundo. obtinha-se uma curva de "expressão motora" completamente regular. de sorte que constitui.123 Luria começou suas experiências usando simultaneamente a clássica prova das associações livres com o batismo digital rítmico sobre a membrana pneumática. a resposta fora sincera.

se bem que a mão direita seja a ativa. Não obstante. as tiraremos. com o objetivo de aperfeiçoar a técnica de Luria. Um detalhe de importância é o de que em determinados indivíduos as reações chegam a ser inibidas (voluntariamente) com a prática. o indivíduo respondeu: "branco". sem fazer os movimentos nem mais depressa nem mais devagar. se o declarante é medianamente desembaraçado pode voluntariamente deformar todas as suas respostas motoras. . mas então se traduzem embora de modo mais atenuado . que Luria se mostra excessivamente entusiasmado com o método. conservando sempre a mesma velocidade e a mesma extensão. isto é. na primeira curva a "expressão motora" é inteiramente normal (organizada) e na segunda. Nossa modificação da técnica de Luria. Eis nossa técnica: Diz-se ao indivíduo: "Desejamos saber o tempo em que você é capaz de aprender um movimento. e por conseguinte Luria parece disposto a aceitar a existência de pelo menos dois tipos extremos que se denominam moto-lábeis e motoestáveis. mas não há dúvida que representa um positivo progresso na pesquisa comprovadora da sinceridade dos declarantes. "Para começar pomos estas duas escoras à direita e à esquerda. É preciso que você se fixe bem na velocidade deste movimento.Por nosso lado.em alterações da mão esquerda (sincinésias). damão. não. e você deverá procurar então continuar movendo-a na mesma extensão. de modo que cada pancada do metrônomo corresponda ao início de um novo movimento de ida e volta. que servem para ensinar-lhe a extensão do deslocamento da manivela. também ao cabo de um minuto. pelo que aconselha obter cinegramas de ambas as mãos . neste último o método levaria a resultados menos brilhantes. na outra. idealizamos um dispositivo que permite a cômoda inscrição .124 pronunciada a palavra "livro". de modo que o gráfIco não assinale nele nenhuma alteração. Tudo isto quer dizer que você. Seu principal defeito é o de necessitar cooperação voluntária do indivíduo para poder ser efetuada.ainda ensangüentadas com uma toalha. ou algumas delas. a que bate na membrana. respondeu: "de lenço"). por conseguinte. Parece-nos. na mão direita. porque ao fim de um minuto pararemos o metrônomo e você deverá continuar seu trabalho com o mesmo ritmo. Em geral existem variações individuais com respeito à facilidade de expressão motora dos conflitos psíquicos. isto é. nesse caso podemos chegar a crer que nos disse mentiras quando nos disse verdades e nos desorientar ao julgá-lo. d. de modo que não se detenha nem antes nem depois do local em que antes se detinha. Este fato é facilmente compreendido se se tem em conta que a pessoa examinada cometera um crime e teve que enxugar as mãos . Para isso pedimos que pegue na manivela deste aparelho e a desloque da direita para a esquerda e da esquerda para a direita." . facilmente automatizável. aos sete segundos e três décimos de ouvir "toalha". deve procurar fazer o movimento o mais regular e monótono possível.com lápis ou tinta . mas. de princípio.de um movimento de vaivém. seguindo o compasso deste metrônomo.

parase o metrônomo. e dá-nos além do mais. Como é natural. não só para dar a máxima eficiência a estas. Insistimos em que procure não alterar seu trabalho e ao mesmo tempo procure responder-nos com absoluta sinceridade e franqueza tudo o que perguntarmos. As perguntas devem. profissão. tanto maior será -a alteração deste. Uma vez que o traçado adquiriu uma regularidade satisfatória. por conseguinte. por quaisquer outras circunstâncias. como para evitar que sua intenção se tome tão clara que possa determinar um sobressalto no indivíduo. se adverte ao indivíduo que sem deixar de executar o mesmo movimento deve responder verbalmente às perguntas que iremos fazendo. a confecção do questionário de perguntas deve ser efetuada com particular cuidado. Ato seguido. Graças a isso podemos descobrir o retorno do indivíduo à normalidade quando sente afastar-se o perigo do interrogatório que deseja evitar. convém misturar com essas questões especificas outras de caráter neutro. uma amostra da capacidade de controle motor que o indivíduo tem naquele momento. ser formuladas de tal maneira que somente se tornem emocionantes para o indivíduo se ele é o autor dos fatos que desejamos investigar ou se. entre outras coisas para não justificar a interrupção da experiência que fatalmente teria lugar se acusássemos o indivíduo de falso. Assinala-nos também particularidades muito interessantes de seu tipo temperamental (conforme se observe a tendência à diminuição gradativa ou o aumento insensível da velocidade) que agora não tem importância. tanto melhor. como as que constituíam o núcleo da experiência precedente. retiram-se as escoras (que foram colocadas a uma distância de 8 cm uma da outra) e pede-se ao indivíduo que continue a executar o movimento da mesma maneira durante outro minuto. Isto quer dizer que a forma como devem ser feitas estas perguntas será de uma grande ingenuidade aparente. Além do mais. deduz-se que o movimento está suficientemente automatizado para tentar-se a experiência propriamente dita. Esclarecemos em seguida que estas perguntas são feitas para distraí-lo de seu trabalho e ver como prossegue este em más condições. como dissemos antes. Este segundo gráfico confirma os resultados do primeiro quanto ao grau de emotividade e particularidades temperamentais.). à qual se passa sem advertir ao indivíduo. que a intervenção da vontade na marcha dos processos automáticos só consegue perturbá-los (esforços para reprimir o espirro ou a tosse para andar displicentemente. com efeito. mesmo no caso de ser espontâneo e responder a verdade. pois quanto mais esforços realize no momento oportuno para evitar que suas mentiras se manifestem no gráfico. para respirar "com naturalidade" etc. É um fato sabido. for obrigado a deformá-las em sua resposta. O caráter especial destas .). pois basta para isso intercalar nas perguntas neutras as que nos interessam e de que suspeitamos que não teremos resposta sincera. naturalidade. tempo de residência e domicílio etc. estado civil. Se estas são respondidas sem alterações notáveis no gráfico.125 O primeiro gráfico assim obtido dá-nos idéia do grau geral de emotividade do indivíduo naquele momento. Se o indivíduo percebe o verdadeiro significado da experiência e se prepara. Começa então a terceira parte da experiência por meio de perguntas banais e precisas (idade.

e ainda contra sua vontade. para evitar a confissão do que deseja ocultar. pois as tentativas de obtenção das declarações sob o estado hipnótico haviam ficado reduzidas a experiências . dial. ou seja. ou fingindo estar dormindo sem o estar. que auxiliariam a polícia de um modo semelhante aos detetives. o suposto delinqüente ou testemunha se oporá com todas suas forças psíquicas a ser hipnotizado. um médico americano.) permitissem obter em qualquer pessoa.Eis um segundo grupo de métodos. e). até obter o estado de semiconsciência que o autor designava com o nome de "automatismo onírico". . à dose de um ou dois centímetros cúbicos (conforme o peso e a idade do indivíduo). de sorte que suas respostas sejam ditadas de um modo automático. cuja finalidade é a de suprimir o domínio consciente dos declarantes. . isto é.126 investigações. que enquanto nas experiências de hipnotismo terapêutico se conta com a boa vontade do doente. Rouse. Não obstante. A obtenção da verdade jurídica pelos métodos baseados na supressão consciente dos declarantes. os preparados barbitúricos (sonifênio. nos impede de nos estendermos na exposição dos protocolos experimentais. Assim.mais ou menos teatrais . Essas experiências foram desacreditadas pelo desejo dos que a efetuaram de estender sua ação até pretender aplicá-las ao descobrimento criptestésico dos delinqüentes e das circunstâncias do delito por meio de ''videntes'' profissionais. para conseguir uma máxima veracidade nas respostas foi levantada e resolvida em sentido afirmativo pelas investigações de Sanches Herrera. além de um bom hipnotizador. luminal etc. como o éter.deixando de lado outras considerações . sem deformação voluntária alguma. que espera um bem de sua submissão ao hipnotizador.de laboratório. até há pouco mais de dois decênios não haviam adquirido categoria científica.este método não poderá generalizar-se por exigir. mesmo nos mais astutos e hipócritas dos delinqüentes. nos põem de manifesto que nossos antepassados conheciam empiricamente o fundamento desses métodos. O antigo provérbio: in vino veritas. com o qual pretendia obter declarações de 100% de sinceridade. mas em 1905 a possibilidade de utilizar o hipnotismo de um modo científico. de conhecimento mais antigo que os precedentes. com efeito. deve-se ter em conta. a morfina. A técnica consistia em injetar-se este soro (que na realidade não era mais do que uma solução de 2% de cloridrato de morfina e 1 por mil de bromidrato de escopolamina) cada meia hora. ainda inéditas até hoje. a hioscina. lançou em 1918 seu famoso (soro da verdade). aqui e tudo ao contrário. Aqui a principal eficácia se deva à coação moral que para o declarante represente o simples fato de saber que se pode chegar a conhecer quando mente. com as necessárias limitações. e o não menos antigo costume de embriagar os prisioneiros antes de obter suas declarações. um estado de obnubilação suficiente para obscurecer o poder de sua vontade sem suprimir por completo sua capacidade de expressão ou reação automática. desviando sua atenção e seu olhar. Mas não há dúvida de que . condições de receptividade especial na pessoa que será objeto da hipnose. Por isso a maioria dos autores dirigiram recentemente suas investigações para o emprego de substâncias estupefacientes que.

De qualquer modo. o clorofórmio etc. falsa. tais como o éter. Por isso julgamos interessante o emprego desta técnica em seu aspecto forense. quando sua consciência fica obnubilada. acarreta aumento da resistência elétrica da pele à passagem de uma corrente galvânica de intensidade conhecida (fraca). tendo em conta a necessidade de que em qualquer momento possa comprovar-se a reação do acusado ou da testemunha. O psicogalvanoscópio mostra-se facilmente portátil e manejável. ou então a produção de uma força eletromotriz quando não se usa nenhuma corrente externa. mas não temos experiência pessoal neste campo. então não responde absolutamente nada.. Nos casos em que se obteve um resultado brilhante. mesmo contando tal limitação. uma declaração ou uma situação ou estímulo qualquer não nos proporciona dados acerca da classe ou natureza dessa emoção (medo carinho raiva etc. de outro lado. este tipo de técnicas pode ser útil quando se trata de delinqüentes de delitos graves e se encontrem em bom estado de saúde (nem é preciso dizer-se que a idade avançada do indivíduo é. isto é.Muito mais humana e inofensiva é a utilização do denominado reflexo psicogalvânico para constatar o grau de sinceridade do declarante. . isto é. por conseguinte.4 de segundo e voltagens oscilantes entre 50 e 80 volts) se produz freqüentemente uma "libertação" ou ab-reação emocional de complexos pela transitória debilidade da auto crítica. verificamos que após a perda da consciência nos choques frustros (com passagem de corrente entre 0. o que faz que não seja igualmente útil sua investigação em todas as pessoas. tem-na suficientemente clara para não responder com a sinceridade desejada e quando já não é dono de si. Devido ao emprego do "eletrochoque" com fins terapêuticos em Psiquiatria. acha-se demasiadamente influenciado por fatores locais (cutâneos).1 e 0. Sua inocuidade justificaria seu emprego nos casos contumazes. Posteriormente se utilizaram outras substâncias. pelo medo que a experiência determinasse sua morte (caso em que declarou a verdade para fazer interromper a experiência e salvar a vida). Neste método se pressupõe que toda declaração forçada. nos parece preferível o psicogalvanógrafo. mas todos estes processos têm o inconveniente de que na maioria dos casos não se pode chegar a conseguir com eles o estado que se procura. F) O emprego do reflexo psicogalvânico para o controle da sinceridade. De qualquer modo. mas tem o inconveniente de não dar um registro gráfico das reflexões galvanométricas. por isso. este surgiu com o doente ainda consciente. uma contraindicação normal para seu emprego). apesar de o reflexo psicogalvânico constituir sem dúvida um dos meios mais sensíveis para conhecer o grau de emoção que em uma determinada pessoa desperta uma pergunta. enquanto o indivíduo conserva sua consciência. tal como propôs Féré em 1888.127 Os resultados iniciais obtidos e publicados pelo autor com este processo fizeram surgir grandes esperanças quanto à sua eficácia prática.) e. isto é. . mas estas diminuíram rapidamente quando sua técnica foi posta nas mãos de investigadores mais imparciais ou talvez menos hábeis.

Possível emprego da técnica "electroencelalográfica". seus propósitos de fuga. é claro. parece-nos que a aplicação de um ou outro dos processos assinalados até agora deve ser questão de oportunidade e que em cada caso particular estudaremos a qual deles será conveniente preferir. inclusive. Este problema é tão grave que inúmeros psicólogos. surge perante os organismos judiciais penitenciários uma dupla causa de erros possíveis: libertar presos que vão cometer novos delitos e reter injustamente presas pessoas inofensivas ou mesmo úteis à sociedade (isto independentemente de quais tenham sido as causas de sua reclusão penal). Para melhorar o contato com ela foram introduzidos assistentes sociais nesses ambientes e foram até camuflados como detentos (falsos presos) alguns observadores para merecerem a confiança dos investigados e "arrancar". com maior facilidade. Isto significa. psiquiatras e técnicos penalistas estiveram procurando resolvê-los por meio da contínua observação da conduta e das intenções da população presa e confiada à sua responsabilidade. dispor de meios objetivamente válidos para predizer o grau de probabilidades de reincidência delinqüencial em qualquer caso. Mas todos esses recursos são caros e incertos em seus prognósticos. Por outro lado. de reincidência. reforma etc. . sempre tendo em conta que a ser possível deveriam ser empregados todos com o fim de estabelecer-se com maior segurança um juízo acertado.128 Em síntese. por conseguinte. Esse pessoal (encarregado da tarefa de reformar as atitudes pessoais hostis) precisa. NECESSIDADE DE AMPLIAR A INVESTIGAÇÃO PSICOLÓGICA DOS DELINQÜENTES COM PROVAS "OBJETIVAS" PARA DETERMINAÇÃO DE SUA PERICULOSIDADE ATUAL E POTENCIAL É sabido que há uma elevada percentagem de delinqüentes reincidentes. há também outro contingente de delinqüentes nos quais cabe esperar uma profunda reforma de atitude e uma inofensividade social antes de completado o período de cumprimento de sua pena. g. porque a capacidade de dissimulação ou de simulação se encontra aumentada no delinqüente que se sente dentro das malhas da justiça. que a periculosidade de tais delinqüentes não se ajusta às datas precisas marcadas pela sentença judicial: os processos afetivos mais íntimos não conhecem calendário. .O rápido aperfeiçoamento do registro eletroencefalográfico nos faz pensar que não tardarão os anos em que possa ser aplicado ao controle da sinceridade dos testemunhos (assim como agora já se mostra aplicável para demonstrar a objetividade de diversos transtornos mentais). E. CAPÍTULO XI TÉCNICAS ACONSELHÁVEIS PARA O ESTUDO ATITUDES PÓS-DELINQUÊNCIAIS 79.

renúncia. com objetivo. às seguintes perguntas. pedimos-lhe responder com inteira sinceridade. entretanto. supõe encontrará? Como supõe V. que figura entre as técnicas denominadas "projetivas" para o estudo da personalidade. gostaria V. Que gostaria de fazer quando recobrar completamente sua liberdade? Que acredita poderá V. Submetendo um delinqüente. melhor ou pior que a já vivida? Por quê? As perguntas anteriores devem ser formuladas uma de cada vez. rebeldia etc. . ludíbrio. e em caráter estritamente confidencial. isto é. a esta prova pode-se conseguir um juízo prognóstico de quais são suas intenções de reação. pudesse ditar algumas leis para evitar que outras pessoas sofram o que V. Basta para isto ver como termina suas histórias: arrependimento. quais seriam essas leis? Em sua vida futura. passada e presente. convencimento. que é que julga mais provável? Que é que mais deseja lhe aconteça? E o que mais teme? De um modo geral. sofreu. A finalidade do teste consistia inicialmente em explorar a zona afetivo-caracterológica da personalidade e suas atitudes de reação ante a problemática vital. serão tanto maiores para você quanto com maior lealdade e sinceridade responder. que escolher a causa de sua morte. inteiramente livres. roubo etc. e que julga não poderá conseguir? Quais os obstáculos que V. seja qual for a resposta que der. conflito ou tese e desenlace. qualquer prejuízo pode lhe advir. qual escolheria? Tem algum pressentimento com respeito ao futuro? De tudo o que lhe pode acontecer. Também os recursos usados (morte. rapto. inventando um argumento para cada uma. Os beneficios. crê que a vida que lhe resta será igual. já sentenciado. Em nenhum caso. O que de mais interessante da prova é o estudo dos desfechos. como a resolveria? Se V. Consta de 20 lâminas nas quais se reproduzem quadros artísticos (exceto uma. . de parecer-se com alguém? Por quê? Se tivesse V.) podem ser tabulados e dar uma idéia acerca do estilo vital com que o examinado gostaria de enfrentar a vida que o aguarda. poderá enfrentá-los? Como pensa viver daqui a 10 anos? Com quem? Como? Se lhe tomasse a surgir uma situação idêntica ou semelhante a que o trouxe aqui. realizar.Esta prova. em branco) que servem de ponto de partida para que o indivíduo construa histórias. isto é. tem uma interessante aplicação em psicologia jurídica.129 O técnica empregado por Murray. resignação. da catamnese dos heróis (com os quais se identifica inconscientemente o narrador). FAC-SÍMILE DO QUESTIONÁRIO PROSPECTIVO Para melhor conhecimento de sua pessoa. qual é a postura pessoal com que enfrenta o futuro. estarão condicionados à sua franqueza. isto é. 80.

registrando-se as respostas. que fixam a denominada "postura mental" ou "atitude" perante qualquer situação ou constelação de estímulos. em segundo lugar. Por conseguinte.é. avaliando assim sua inclinação delinqüencial. Usando esta técnica . no parlógrafo "sound-mirror" (para depois estudar-se as pausas. tal propósito deverá encontrar-se refletido na distribuição relativa de seus tonos musculares. revelar este fenômeno de modo prático? Como acontece que são os braços os que executam a imensa maioria de nossas ações. de modo calmo e carinhoso. aumentando-o no grupo de músculos que serve para sua realização e diminuindo-o no grupo antagonista (que se oporia à consecução desse propósito). . não se pode dar esta imagem por válida uma vez que muitos são os que "cantam bem mas entoam mal". especialmente nos braquiais. estes e outros dados semelhantes serviram à época do cinema mudo para caracterizar devidamente os personagens da ação.temos obtido visão da abertura ou encerramento do futuro imediato e mediato de cada delinqüente. é preciso em primeiro lugar que o paciente esteja despido. já que são os braços os que permitem nossa principal ação sobre o meio ambiente. correspondentes a casos quase extremos. determina uma mudança no equilíbrio do tono muscular. que não se alterem sob a influência momentânea da distração ou concentração atenta. e. Mas. Daí a conveniência de associar a esses recursos uma técnica que permita captar a atitude profunda de reação do delinqüente perante o meio. Finalmente. por fim. sua agressividade potencial e sua maior ou menor periculosidade. . passam por sucessivas fases de condensação e preparação implícita. que sejam relativamente grosseiras. acontece que para se apreciar à simples vista tais "figuras" ou "disposições" musculares. intencional. o tom e a acentuação prosódica das respostas). O PSICODIAGNÓSTICO MIOCINÉTICO DA PERICULOSIDADE DELINQUENCIAL a) Fundamentos. A cada uma dessas atitudes corresponde um propósito intencional. o contexto. isto é.São encontrados na denominada ''teoria motora da consciência" segundo a qual não existe fenômeno psíquico consciente que não tenha um correlato muscular.130 sucessivamente. ocorreu-nos que um bom meio seria o de verificar o que acontece quando o indivíduo é convidado a executar uma série de movimentos lineares nas três dimensões fundamentais do espaço. ao mesmo tempo. Como. 81. mas. antes de serem executadas. se possível. Pois bem. é claro. esta suposição em linhas gerais se vê confirmada pela observação corrente: um indivíduo ensimesmado e deprimido aparece à nossa vista em atitude de "flexão" e em troca. um indivíduo atento ao ambiente e exaltado se nos apresenta muscularmente em atitude de "extensão". isto . pois. que é. se na vida de um indivíduo existe um propósito de ação predominante. isto é.controlada com outros meios . nos quais a natureza de seu estado é quase óbvia. Nossas ações.

as oscilações e desvios no plano sagital se achavam relacionadas aparentemente com a atitude de reação egocípeta do egocípeta do indivíduo ou. isto é. sem mudar a posição de seu corpo. e que a nosso juízo têm uma aplicação imediata no campo da medicina legal e da criminologia. 4°.2. baseada nos conceitos precedentes. De modo singular. com a intensidade e o sentido de sua agressividade. os descendentes. 5°. um lápis vermelho e outro azul (para assinalar as extremidades dos lineogramas). uma série de experiências. e. resumida com maior concisão possível. a técnica proposta. 2°. preferentemente Faber n. A primeira folha do caderno P. Bastará dizer que logo puderam entrever que era possível estabelecer uma relação entre ambas as classes de dados. destinadas a comprovar se os diferentes tipos de caracteres individuais resultantes do exame dos consulentes pelos meios correntes se revelavam de algum modo na execução de tais movimentos. sem ver.por meio de uma técnica simples e rápida. preferentemente com intervalo de uma semana para conseguir obter um valor da denominada "flutuação individual" (modificação das tensões psicomotoras devidas a . Em troca. porque vamos interpor um anteparo entre seus olhos e os traçados. é fixada sobre a mesa e diz-se: "Vamos efetuar uma prova destinada a explorar a segurança e a precisão de seus movimentos. Referimo-nos à possibilidade de encontrar um critério objetivo não só da agressividade atual. . Dela deduziremos alguns dados de interesse para o melhor conhecimento de suas funções nervosas (se se trata de pessoa inculta pode dizer-se: "para saber qual a firmeza de seu pulso" etc. – 1° O caderno para traçados miocinéticos. Eis. Um banco giratório. A mesa especial para a prova. Uma coleção de lápis. sua diminuição (depressão)." d) Execução da Prova.O indivíduo se senta bem no centro em frente à mesa. de tal sorte que os desvios ascendentes refletiam seu aumento (elação).M. ou cadeira de assento graduável. doente mental ou suposto normal . deve realizar a prova sem apoiar-se sobre o papel nem sobre a mesa: com seu antebraço e punho no ar. 3°. deve ser realizado em duas sessões. V. depois o continuará às cegas.K. Um cronógrafo. em 1935. também fabricável com indicações dadas no mesmo lugar. . dito de outro modo.). O lápis deve ser seguro por sua parte média e colocado perpendicularmente sobre o princípio das linhas ou figuras que se seguem. c) Instruções.M. juntamente com alguns de seus rsultados: b) Material. aos quais denominamos: psicodiagnóstico miocinético.131 Com esse objetivo iniciou-se no Instituto Psicotécnico de Barcelona. as oscilações e desvios dos movimentos realizados no plano vertical pareciam corresponder às variações da tensão conativa (psicomotora).delinqüente. Mas o material de fato que dá motivo à atual consideração refere-se somente a um aspecto desse conjunto de investigações. como também da agressividade potencial de um indivíduo qualquer .K. padronizado pode ser reproduzido facilmente pedindo-se as medidas ao Instituto de Seleção e Orientação Profissional da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro. Primeiro você controlará seu trabalho com a vista.O P. sem interromper os traçados e procurando trabalhar com a maior regularidade e atenção possíveis.

Era preciso ensaiar de novo em delinqüentes que não estivessem nessas condições. "Com alguma dificuldade submetemos 16 deles à prova. f) paralelas egocípetas e UU sagitais. o resto. contra 20% dos condenados na penitenciária. as condições psicológicas de um indivíduo que espera a decisão dos tribunais são muito distintas das de um indivíduo condenado definitivamente.. havia também um fator de erro.K.132 motivações fortuitas). nossos gráficos assinalaram determinado desvio a partir do qual podemos considerá-lo hipertrofiado. Na primeira sessão se obtêm os traçados correspondentes a a). se nos ativéssemos ao teste somente. .Os fundamentos teóricos experimentais do psicodiagnóstico miocinético . Aliás. d) cadeias. em maior ou menor grau. dos quais 12 mostraram tendência à excitação. como se compreende. em outro local dissemos que bastava que o indivíduo se mantivesse no nível da linha modelo. "Evidentemente. com delito e sem delito.. Conclusões de Gilberto Ortiz González. Cada caderno da prova se divide em 6 partes: a) lineogramas fundamentais.. como em todos os indivíduos existe agressividade.. foram expostos inicialmente em Londres.. segundo o P. em prejuízo da prova. para os quais o respectivo processo indicava a existência de periculosidade real. Mas. 12 "Sem pericuIosidade.K. Quanto ao grau de excitação.. Desde então.M. e) paralelas egocífugas e UU verticais.... os resultados foram: "Periculosidade.M. em 1942. Concluímos que a combinação de agressividade supermediana com qualquer grau de excitação nos dava direito a considerar esse indivíduo como perigoso para a comunidade.. excitação e extroversão direitas. Isto é. na segunda sessão.K. e) Resultados Experimentais. como há duas classes de periculosidade.. c) escadas e círculos. para considerá-lo com tendência à excitação.. 8 "Quer dizer que havia uma alta percentagem de perigosos que passariam despercebidos. apresentada pela imensa maioria dos recolhidos à penitenciária..abreviadamente designado com suas iniciais P. 75% dos processados da detenção mostrava excitação. a 20 de outubro de 1939. o método se internacionalizou. denunciada pelo P.. "Mas.. que consistia na notável tendência à depressão. "Para sua comprovação. em sua tese de doutorado em medicina. era de . e escolhemos o cárcere para nossa experiência. De certo modo encontramos ainda fresco o delinqüente na Casa de Detenção. b) e c) e a primeira metade de d.. selecionamos 20 delinqüentes da penitenciária. depressão muito natural. mediante a associação de três elementos: agressividade. Desde 1940 vimos a possibilidade de aplicar esta prova para a investigação da agressividade e da periculosidade (pré e pós-delinqüencial). descreve: "O psicodiagnóstico de Mira é capaz de indicar a existência do estado periculoso. b) ziguezagues.M.

já que nos primeiros é dada pela excitação e nos segundos pela hiper-agressividade. escalas. pois. a deficiência da inibição. círculos. significativa de característica de grupo. demonstraram que desvios significativos predominando nitidamente na mão direita . e desvios secundários dos lineogramas.K.Desejava-se saber se era possível assinalar uma série de características nos traçados miocinéticos de delinqüentes que. Propósito Fundamental. por sua maior freqüência ou intensidade. já que não seria difícil demonstrar nas populações carcerárias certa percentagem de anomalias diversas. que corresponde a um conscrito em cuja folha de serviço há anotados mais de um castigo por diversas inflações à disciplina militar. de Oliveira Pereira apresentaram ao Congresso Internacional de Criminologia. cadeias e UU. . indicadores de agressividade. Esta baixa percentagem poderia ser explicada pela circunstância de que 30 de nossos normais correspondem a médicos e internos. Oliveira. entre os quais seria verdadeiramente surpreendente encontrar algum caso de periculosidade social. desvios no plano vertical dos lineogramas. "A conhecida periculosidade dos alienados é acusada igualmente pelo P. .K. os professores Elso Arruda e A. embora em menor escala. mas em percentagem tão reduzida que chama a atenção. cujos resultados. no conjunto não se revelaram muito exagerados. em termos genéricos. Arruda é A. preferentemente com morte da vítima.133 esperar que no grupo de normais se apresentasse também. a elevação da energia e do tono vital e a emotividade (evidenciáveis respectivamente nos grandes desvios nos cumprimentos lineares dos lineogramas e ziguezagues.M. Efetivamente neles encontramos sinais de periculosidade. círculos e UU). maior violência do ato delituoso. Os desvios sagitais egocífugos. e é condicionada pela sua maior tendência à excitação. e somente um com periculosidade atual. já que entre 100 indivíduos. serviu.Em 1950.indicavam ser a periculosidade dos psicopatas delinqüentes e diretamente relacionada com a ansiedade. Para demonstrar que a periculosidade dos psicopatas delinqüentes difere da periculosidade dos homicidas. . O P. adquirissem relevância estatística. reunido em Paris. um trabalho sobre "A Pesquisa do Estado Perigoso em Psicopatas Delinqüentes". ausente na atualidade. 82 ESQUEMA EXPERIMENTAL DA NOVA INVESTIGAÇÃO (TEMA APRESENTADO NO CONGRESSO DE CRIMINOLOGIA REALIZADO NO RIO DE JANEIRO). o que indica. 4 apresentaram periculosidade potencial esquerda. assim como sua maior benignidade relativa.M. decidimos centralizar a investigação no grupo dos delitos de sangue. decidiu-se investigar somente indivíduos adultos e do sexo masculino. devidamente tabulados e estatisticamente elaborados. Tendo em conta a mais ampla motivação exógena dos delitos contra a propriedade e sexuais. Conclusões de E. Poder-se-ia dizer que a periculosidade de alienados e delinqüentes se diferencia quanto à "qualidade". O que não quer dizer que os dois grupos sejam estritamente diferentes. Do mesmo modo.

e atendendo às suas significativas diferenças ou coincidências de intra e intergrupo. 3) nos casos selecionados para demonstrar a correlação entre a periculosidade social e o P. na adolescência. para comprovar seu estado de saúde e determinar eventuais possibilidades de trabalho. principalmente.K. . . 1) na tribo kaigang. pelas informações do Centro de Orientação Juvenil do Rio de Janeiro. precisava-se obter sua cooperação para a obtenção de todos os traçados miocinéticos e proceder à prova em duas sessões com o intervalo de uma semana. para o melhor conhecimento de suas "habilidades" e defeitos de movimento. A dos adultos normais foi conseguida explicando-se-lhes que se queria saber o resultado. precisava-se tabulá-lo e estudar. b) um grupo de adultos de condições culturais e intelectuais semelhantes às do grupo de delinqüentes. 2) no grupo de adultos normais. e na da Bahia. Plano de Trabalho. podiam ser obtidas conclusões válidas para definir um certo número de características cujo acúmulo defina progressivamente o traçado miocinético do delinqüente.M. A dos índios foi conseguida explicando-se-lhes que se queria saber se sofriam de paludismo. pelos dados proporcionados pelos funcionários administrativos. . kaigangs). Em seguida. de desajustamento neurótico e social. sem precisa definição psiquiátrica ou penal. A dos desajustados foi obtida no decurso do rotineiro exame de sua personalidade. por seus documentos pessoais e informadores sociais. desporto e distração. a) Identificação dos Indivíduos. para compreender a flutuação individual no âmbito do teste.134 Como termos de comparação e contraste dos resultados. propusemos usar: a) um grupo de homens primitivos (índios selvagens.Tratava-se de identificar cada um dos indivíduos de experiência com o mínimo de dados necessários para a compreensão de sua "classe". depois.A dos sentenciados foi obtida dizendo-se-lhes que se procurava ver se tinham "bom pulso".Verificou-se: a) na Penitenciária Federal do Rio de Janeiro. isto é. com o fim de ver se. comparando entre si tais valores. d) um pequeno núcleo de casos "marginais". de variabilidade e de correlação. ao qual temem. c) um grupo de adolescentes normais. os valores de tendência central. b) Cooperação dos Indivíduos para o Teste. professor de sociologia de São Paulo. de instrução secundária. pelos dados que proporcionou seu chefe ao Prof. Uma vez acumulado o material. dizendo-se-lhes que era uma prova a mais de segurança e precisão de . Baldus.

seguiu-se escrupulosamente a técnica geral da medição. e em um grupo de índios kaigangs. sobrecarregado de objetos. além do mais.5 mm e de 0. . já estão livres das interferências iniciais da prova. .Foi obtida pelos meios usuais. Isso significa um positivo avanço sobre a maioria dos métodos de exame delinqüencial que. sociais e intelectuais dos fenotipos delinqüenciais. Tal modificação coadjuvante não interferiu.1 mm para a freqüência de grupo. relacionando-as. isento de emoção e angústia. Poderia parecer um inconveniente o falo de que tenham sido dadas explicações diferentes para cada "classe" de indivíduos. na espontaneidade dos traços. já contando atualmente com bibliografia internacional de mais de 40 trabalhos. Estas variações se achavam justificadas pelas próprias condições em que se experimentava: em um pequeno quarto. Houve necessidade. segundo anotou o prof. mas atendendo a leves variações no caso dos índios kaigangs. com as características de um grupo eqüivalente de adultos -"testemunho". os cálculos estatísticos se realizam sempre com franjas ou feixes. especialmente selecionado para corresponder às condições culturais.135 movimentos. o único modo de conseguir uniformizá-las durante a prova consistia em criar neles um certo interesse cooperador. 2° . por requerer respostas verbais. que vivem em organização tribal quase selvagem.M. Não obstante. procedeu-se à sua centralização e se iniciou sua mensuração. Mas a uma pequena reflexão se compreende que. -1° O exame das atitudes de reação pessoal em um grupo de delinqüentes graves. permitiu comparar as coincidências e diferenças cinéticas e conativas de ambos os grupos. tanto mais que no P.Para a obtenção das curvas de distribuição. de acordo com as normas estatísticas da análise de "pequena amostra". seguindo-se em todas as experiências idêntica técnica. c) Obtenção dos Traçados. portanto.A técnica usada mostrou-se eficaz. frio. Quanto aos cálculos de correlação. e) Tabulação. É preciso esclarecer que as medidas foram feitas com a precisão limite (individual) de 0. tendo podido obter-se com relativa facilidade a cooperação sincera dos indivíduos explorados. Baldus. com predomínio de delitos de morte. centrando-o em torno de “0”.Uma vez na posse do mínimo de traçados exigidos. foram feitos adotando a fórmula clássica de Pearson e usando máquina de calcular. como se demonstra pela coerência de seus resultados. de estimular inicialmente alguns de seus movimentos acompanhando suas mãos ou fazendo o examinador os gestos pedidos. 3° . adotou-se o intervalo de classe de 5 mm. entretanto. Conclusões da Investigação. são mais suscetíveis de .K. caixotes etc. sensivelmente. e.O método usado para esse exame foi descrito pelo autor com o nome de psicodiagnóstico miocinético e apresentado pela primeira vez à Royal Society of Medicine de Londres em 20 de outubro de 1939. dada a diferença de suas atitudes de reação prévias. . d) Colheitas e Ordenação do Material.

Mas. evidenciado o valor prático do "dépistage". que existe a possibilidade de se estabelecer uma escala objetiva de propensão pessoal à reação anti-social. aumento da problemática do Eu). 10°. autoriza a formular um apelo às autoridades pedagógicas no sentido de .M.A precedente conclusão é de singular relevo. assim.baseando-se em experiências "a posteriori" . fica confirmada objetivamente a existência de dados concretizáveis do fenômeno da delinqüência e. de um lado. sem dúvida. pois justifica a possibilidade de utilizar o P.fazem do número de criminosos potenciais. De acordo com este critério. como o cálculo das distribuições de freqüência e dos valores de correlação. objetivar a posição interpolada que o grupo de delinquentes ocupa entre o homem civilizado e o homem selvagem. para o despistamento e a Psicagogia profilática dos casos de inclinação para a delinqüência.136 deformação. pela reclusão e. (mão esquerda – mão direita – mão direita – mão esquerda).De maneira ostensiva.M. o antecedente de uma tentativa criminal (homicídio frustrado) e. c) elevada introversão (provocada. em que aparecem sinais cinéticos da falta de inibição voluntária dos impulsos primitivos de reação.A elaboração estatística não pôde ser totalmente realizada. b) bom "tono" psicomotor primário. por conseguinte. Fica. justifica a elevada estimativa que os criminologistas norteamericanos . a presente investigação permitiu distinguir outras características. a saber: a episódica presença de sinais de auto-agressividade (valores negativos no plano sagital). E. sempre coincidentes com elevado sentimento de culpa e mesmo com tentativa de suicídio ou nada no terreno psicomotor deste grupo. A utilização das medidas de tendência central. 4° . e a excepcional confissão espontânea da tendência criminal do indivíduo (transcrita com seu punho e letra nas folhas finais de sua autobiografia). o que abre caminho para ulteriores investigações. a existência de sinais miocinéticos de inclinação para o delito que ultrapassam as escalas elaboradas para os adolescentes normais. 5° . o grupo penal estudado apresenta as características gerais de reação cinética que já haviam sido assinaladas pelo autor e seus colaboradores em trabalhos anteriores: a) maior agressividade potencial e reativa. 8º. 6° . No segundo adolescente que compareceu ao Centro de Orientação Juvenil do Rio de Janeiro -comprova-se. pois trata-se de manipular mais 8.O número relativamente de adultos supostamente normais.K. . 11°. com depressão atual (pós-delitual).K. simulação ou dissimulação subjetiva.Os dados obtidos foram avaliados de acordo com a técnica proposta pelo autor. Esta possibilidade é demonstrada pela adição de dois casos: no primeiro coincidem a presença dos sinais de fenótipo delinqüencial evidenciados nos traçados do P. de outro. independente de outras variáveis. mas pode-se chegar a obter valores de correlação e variação suficientemente significativos para justificar as conclusões seguintes. além disso.000 dados. permitiram pela primeira vez. portanto. . 7º. por conseguinte. 9º.

CAPÍTULO XII 83. nem a inteligência. trata-se de um adulto de bom nível cultural e de elevado nível intelectual. são eficazes para assegurar o controle da conduta pessoal. nos levaria em cada caso a procurar a necessária modificação do ambiente para conseguir a readaptação da conduta do delinqüente. Na Europa. cuja vida anterior é também amostra de sua grande desadaptação social. no caso da "confissão de tendência criminal" apresentado. TERAPEUTICA DA DELINQUENCIA NORMAS GERAIS Este problema apresenta quatro aspectos: a) profilaxia do delito. b) descoberta precoce. uma vez comprovada em uma pessoa a existência dos sinais anàtomo-fisiopsíquicos do "tipo" delinqüente. com base na elaboração estatística. a mesma devia ser isolada da sociedade e evitar sua perpetuação. centrou-se quase toda higiene mental do delinqüente em torno da trágica idéia do "criminoso nato". por exemplo. se quisermos evitar delitos. Concebido assim o delito como um simples desvio da conduta.137 intensificar nos diversos níveis escolares a formação caracterológica social. Vejamos sucessivamente: a) Profilaxia do Delito.Atendo-nos ao conceito psicológico do ato delituoso.M. diretamente derivado da interação dos nove fatores estudados como responsáveis pela modalidade das ações pessoais. Em princípio toda anomalia (por falta ou perturbação) desses fatores acarreta uma diminuição do limiar do delito e. De tudo que foi exposto é lícito concluir. mesmo às expensas da informação escolar de rotina. consideraremos este ato. facilmente se compreende que existirão casos em que o esforço profilático deverá ser exercido preferentemente sobre o indivíduo e outro em que deverá recair sobre seu ambiente. A segunda. d) tratamento dos delinqüentes recidivistas incorrigíveis. das variantes. . ou meio social. ao passo que na América do Norte se orientaram em sua tarefa profilática da criminalidade partindo do conceito mais otimista da simples "desadaptação". se mostram melhor na média geral das medidas de igual significação psicológica. que os índices caracterológicos do P. por si só. dos presumíveis delinqüentes.K. por conseguinte. individual e coletiva. Assim. sem dúvida sob a influência das doutrinas lombrosianas. Segundo o qual. em troca. e sendo esta sempre o produto do choque entre as tendências do indivíduo e do ambiente. como na de . teremos que lutar para obter a máxima normalidade possível. ou defeituoso ajuste (maladjustment) ao ambiente. Em nossa opinião. Nem a sabedoria. c) tratamento dos delinqüentes ocasionais. como todos os atos humanos.

em umas normas psicológicas. antisociais). que só espera uma influência desencadeante para se manifestar. dificultará o exercício dos mecanismos primitivos (atávicos) de conduta diante dela. Mas deve basear-se. O problema diante de cada delito não é o de saber se sua causa reside na pessoa ou no meio ambiente. 2° As pessoas não devem ser distinguidas em delinqüentes e não delinqüentes. por conseguinte. por outro lado. simplesmente. adquiridas na vida social. uma intensa convicção da superioridade real dos atos sociais sobre os anti-sociais (delituosos) e. Ou seja : 1° O delito é o termo final de um processo psíquico interno (e portanto diretamente inacessível à observação). isto é. b) De modo especial é preciso difundir entre as massas humanas as noções elementares de ética e cidadania. um grande temor às conseqüências. toda profilaxia do delito deve ser destinada a conseguir que cada pessoa tenha um exato conhecimento de seus direitos e deveres sociais. 3° Tendo em conta os dois postulados anteriores. Vejamos agora quais são as conclusões derivadas destes postulados no que se refere à prática da profilaxia do delito: a) Tudo o que contribua para o aumento da cultura será a priori útil para a luta com ele posto que. Tal processo conduz. Pode-se dizer que o delito se acha pré-formado em todos os indivíduos. E por isso mesmo a profilaxia deve ser sempre simultânea e harmonicamente coletiva e individual. Tudo que contribua. dotando a pessoa de maior número de possibilidades e elementos de reação diante de cada situação.138 muitos autores. isto é. uma clara compreensão da razão dos mesmos. que sirvam para fazer cada indivíduo sentir sua interdependência social. mais morais que materiais. Toda profilaxia coletiva do delito se baseará. que é precisamente quando a grande maioria das crianças não vai ainda à escola e além do mais. o que eqüivalerá a elevar o valor do umbral ou limiar de delito (entendendo-se por tal o grau de intensidade que precisa alcançar o desejo do delito para conduzir à prática do ato que em potência representa). mas sim em menos ou mais resistentes às tendências delituosas. em maior ou menor grau. à libertação dos mecanismos primitivos de reação com prejuízo das demais soluções civilizadas. isto é. por outro lado. c) O Estado deve intervir cada vez mais na função educativa infantil. para aumentar o desenvolvimento dos sentimentos de grupo (sublimação do denominado "instinto gregário") é também trabalho encaminhado contra a delinqüência. não se limitando à . uma vez que à época mais favorável para influir sobre os defeitos e perversões afetivas e caracterológicas é a primeira infância. Neste sentido urge difundir entre os pais e encarregados da tutela de crianças as modernas noções de pedagogia do caráter. são quase abandonadas a seu espontâneo desenvolvimento. e corresponde sempre à satisfação de tendências vinculadas às emoções primitivas. em alguns postulados. em aumentar a capacidade de inibição das tendências primitivas da reação. é necessário juntar as duas concepções em vez de opô-las. ações que teoricamente são delituosas (e como tais. e sim até que ponto e de que forma contribuíram ambos para sua gênese. tanto em um como em outro caso. via de regra. da conduta delituosa. até o ponto de não existir seguramente nem uma só pessoa sobre a terra que não tenha praticado. o período que vai do nascimento aos quatro ou cinco anos.

Assistência a psicopatas. Quantas centenas de vidas exemplares não deveriam ocupar as colunas. Propaganda e divulgação popular da higiene psíquica. atender precocemente. encontra-se: 1°. Na Espanha republicana a Liga de Higiene Mental. 6°. guiando-o e aconselhando-o. Luta contra a vagabundagem. É preciso explicar a enorme importância que cada uma destas atuações tem para a prevenção dos delitos? Bastaria expor as estatísticas compiladas em todos os países para demonstrar que a grande maioria de delinqüentes teria deixado de o ser se tivessem praticado em sua vida os princípios da higiene mental. respondam gratuitamente às consultas que lhes possam ser feitas pelas pessoas desprovidas de recursos econômicos. 4°.139 publicação de folhetos e conferências. evitar o mau exemplo e a vadiagem (dando por bom ditado: "a ociosidade é a mãe de todos os vícios"). Luta contra a prostituição e as enfermidades venéreas. mas de qualquer dificuldade moral. exercer uma racional educação sexual e um controle do exercício sexual para suprimir as enfermidades venéreas. nos quais juristas abonados. Higiene mental escolar. desequilíbrio ou deficiência mental. referentes ao uso de seus direitos ou ao cumprimento de seus deveres. tantas vezes insípidas ou prejudiciais. em condições difíceis.. 3°. pelo menos em nosso país. com o fim de levarem a termo seu programa de luta contra todas as causas de loucura. Logo será criada outra: eugenesia. nomeados pelo Estado. as toxicomanias e as intoxicações profissionais. 5° Luta contra o alcoolismo. sem ter praticado nenhuma ação espetacularmente heróica ou altruísta. Com efeito. em dispensários abertos e gratuitos para todos. especializados nos diversos aspectos do Direito. . Intervir no cultivo da espécie humana. do ponto de vista médico-psiquiátrico. Para tanto deveria ser estimulado o uso de distintivos e a concessão de preferências sociais a todos aqueles cidadãos que. f) Do mesmo modo deveria ser proibida à imprensa a publicação de toda notícia referente a delitos cujos autores não tenham sido capturados. Tal medida se faz ainda necessária no que se refere à "literatura sexual" e à "literatura criminológica".. g) Deve ser fomentado o estímulo à conduta altruísta. exaltando os denominados "heróis anônimos" e publicando amiúde suas biografias na imprensa. deve-se ter em conta que grande número de pessoas. vigiar o desenvolvimento espiritual da criança. em lugar das dos delinqüentes. entidade de caráter oficial. d) É absolutamente imprescindível que todos os professores e educadores tenham noções e prática de psico-higiene com o fim de realizar de modo mais racional e científico a educação intelectual e moral de seus alunos. extirpar pela raiz as pragas do alcoolismo e das toxicomanias. tivessem sabido vencer. evitando o nascimento de seres degenerados (graças à prática do conhecimento pré-nupcial dos cônjuges e a difusão entre eles dos conhecimentos básicos de higiene matrimonial). Toda produção bibliográfica deveria passar pelo prévio exame e censura de comitês especiais. a quem sofra não só de um transtorno. 2°. i) Criação urgente de consultórios jurídicos públicos. mas recorrendo a todos os meios de propaganda gráfica (e especialmente cinematográfica). Orientação profissional. e) Deve-se extirpar pela raiz a literatura perniciosa para a mente. a sugestão do delito. 7°. Nesse caso deve ser omitido todo luxo de detalhes e fotografias "ilustrativas". examinar suas aptidões físicas e mentais para indicar-lhe o tipo de trabalho profissional em que com maior facilidade pode obter o melhor rendimento para si e para a sociedade. da imprensa diária! h) Deve-se desenvolver ao máximo os Comitês locais da Liga Nacional de Higiene Mental.

ser um excelente psicólogo e não um depósito de conhecimentos político-sociais).140 comete delitos por ignorância das leis que os definem e fixam sua responsabilidade individual. mas não o é menos que sua capacidade de inibição dos mesmos difere enormemente de uma para outra. que deveria ser proibida como na Bélgica . infelizmente. tanto mais quanto a experiência da vida lhes demonstra. o) Descoberta de supostos delinqüentes. por se acharem sensivelmente equilibradas as forças das tendências delituosas e a de suas inibições.com capacidade de intervenção fiscalizadora na vida privada individual. O segundo grupo. Preferem a ufania de poderem julgar-se boas e virtuosas a qualquer outra satisfação. m) Revisão dos códigos e nova promulgação. Em tais pessoas a força coativa da organização social reforça sua fraca consciência moral e as mantém afastadas do delito. . a comissão do delito é inevitável e só espera a ocasião propícia em que um acontecimento (externo ou interno) rompa tal equilíbrio instável em favor das primeiras. j) Controle da entrada nos cinemas. incapaz de permitir a si a mais leve transgressão das severas normas éticas que foram traçadas e que. Até esta idade os meninos assistirão somente sessões especiais de cinema educativo.como sabemos . podemos considerá-las divididas pelos menos em três grupos: o primeiro seria constituído por uma pequena minoria de indivíduos dotados de uma superconsciência moral. Todas as técnicas para o exame experimental da . é integrado pelas pessoas que não delinqúem por medo ao castigo (moral ou material) que a sociedade pode impor a seus delitos. antes de tudo. A este grupo pertencem os delinqüentes latentes ou potenciais até o momento de sua transformação em delinqüentes reais. costuma ainda ficar com os objetos de valor "perdidos" que encontram. mais numeroso que o primeiro e menor que o segundo. existe um terceiro grupo. de acordo com a Ética e o Direito atuais. sua primitiva atitude. da mesma forma que quem adquire fama de gracejador se vê obrigado a se esforçar constantemente para obter a confirmação dessa habilidade. que com sua conduta exemplar despertam a admiração e a benevolência nos demais. isto é.aos menores de dezesseis anos. "guinholesco" ou pornográfico.são o resultado de uma superação de suas primitivas tendências agressivas. no qual. quando sós. substituindo-se por recreações sadias. aliás o mais numeroso. em definitivo -. como um agente de profilaxia social (que deve. Além do mais. Neste sentido deve-se figurar disciplinas fundamentais para a atuação do social worker (trabalhador social) como é concebido nos países anglosaxões. uma vez adotada. n) Criação do "Serviço Social" . de um ponto de vista prático. suprimindo absolutamente todas aquelas que direta ou indiretamente possam servir de estímulo à prática de delitos. l) Supressão dos espetáculos teatrais de tipo novelesco. a cada passo. deveria ser exercida a censura das películas para adultos.É certo que todas as pessoas levam no âmago de seu espírito os germes da delinqüência. em uma rua ou caminho ou cujo dono é-lhe desconhecido). Não obstante quando podem praticá-lo em condições de absoluta impunidade raramente resistem (a maioria das pessoas. próprias à elevação espiritual dos assistentes. de sorte que. fato que reforça. Finalmente. Tais pessoas praticam sistematicamente o bem porque assim gozam mais e se autosatisfazem melhor do que se não o praticassem. ativos ou propriamente ditos.

.141 perversidade são passíveis de objeção. Com eles transcreveremos as respostas dadas por um jovem médico 1° "Ao indivíduo B. das letras. 5° Descuido na proporcional idade intrínseca das partes do grafismo. Os caçadores insultam então a mulher no momento que chega o marido que. Para isso parte da idéia. parece possível. d. Mas as palavras o vento leva. matando-o no ato. pelo que a mulher do colono os admoestou e os convidou a sair do cercado.. pelo menos em dois movimentos.. por exemplo. completamente apriorística. a. despistar os delinqüentes potenciais se. de tipo popular (como se fossem parênteses). por meio de um ardil experimental. 4° Numerosos retoques. g. sem pressão). agora. não explicável por imaturidade gráfica. apesar de tudo. Uma prova denominada de "penalização livre". se confiou como colono a guarda de uma propriedade cercada. Uma tarde. 10° Abertura inferior das letras o.. 9° Ênfase inicial acentuada. pudermos chegar a colocá-los em um estado de ânimo de tal natureza que possam manifestar seu modo de sentir íntimo diante das possíveis exteriorizações de suas tendências delituosas reprimidas. por seu ato impulsivo. com o encargo de não deixar ninguém caçar nela. cada qual se mostraria mais benévolo diante daqueles para cuja prática se achasse mais predisposto. 2° Impressão geral de artificiosidade (originada pelo aspecto extraordinariamente uniforme da escrita. os nove delitos. Advirto que . Daria por isso uma sova que certamente doeria menos que uma prisão de vários meses. Eis. 6° Presença de pontos entre os grafismos (indicando o descanso da pena no papel entre palavras que deveriam ter sido escritas em um só impulso cinético). Pois bem. Vejamos. durante sua ausência apareceram dois caçadores que apanham ali duas caças que mataram. ao ver invadida sua propriedade e insultada sua mulher. 8° Omissão de partes importantes das letras. por sua inversão angular ou por seu caráter hiper-estilizado). desfiada. com a qual tencionávamos conhecer as tendências delituosas dos indivíduos em função do critério com que julgassem aos demais. 7° Excesso de fragmentação das palavras (indicando que a pena foi levantada demasiadas vezes no transcurso da escrita). impedimento mecânico ou dificuldade do texto. q. dispara a espingarda sobre um dos caçadores. ao imputar penas aos diferentes delitos supostos da prova." Você é o juiz: Que faria ao guarda? Admoestaria a B. simulação de algumas letras por outras ou de grupos silábicos por outros na escrita. indicando que foram escritas. de que "quando alguém desculpa uma falta de outro é porque se julga capaz de cometê-la".sinais de desonestidade: 1° Escrita lenta. que daremos em seguida. de 30 anos. os sinais de "caráter desonesto" reveláveis pelo exame grafológico: . desnecessários. neste sentido espera que. 3° Grafia instável ou lábil (filiforme..

Em sua própria casa surpreende B. dar-lhe-ia algumas pauladas.e C.. que tem vinte e cinco anos de idade. onde não fica pessoa alguma. que ocupa somente a parte superior dos sacos e de outra farinha de classe muito inferior........ 5° "Uma graciosa jovem chamada A. "Transcorrido um mês desde que os donos saíram. "Há três meses que B. profundamente enamorado de sua esposa.? Bem. amigo da casa... por exemplo). B. que enche o resto. senão. A. pesa a que diz desta qualidade. corrigi-los-ia. além do mais o peso tinha sido diminuído. vendo-se depois que a balança do comerciante B. para adquirir mil quilos da melhor. seja do que for. e B. de 20 anos.. maiores de idade e ladrões de profissão... com dolorosa surpresa.. deixando fechada a casa. sem lograr obter dela a menor promessa. de 36 anos.e B. pagando o comprador... Você é o juiz: Que faria com A.. Por tolo. vive na maior miséria com sua mãe e três irmãs menores.. Fechar seu armazém e proibi-la de abrir outro. O ." Você ê o juiz: Que fada com o comerciante B.. 2° "O Sr. uma mudança notável da conduta desta... regressando inopinadamente a seu lar na noite. empregada em um Banco... A mãe acha-se doente há dezoito meses e na casa não entra mais dinheiro que o ganho por A. e mata-os utilizando-se de um revólver que por prevenção levava”... para produzir um aumento aparente do peso. os fuzilaria.... solteira. mas o condenaria se voltasse a casar-se. e na noite arrombam a porta de entrada da casa e apoderam-se de grande quantidade de prata em bandejas e talheres e de dois magníficos tapetes. 3° "Uma família que mora em um chalézinho situado nos mais distantes arredores do povoado vai veranear. no leito... de valor inestimável. dono do armazém. mas ao chegar a sua casa verifica que o que se lhe vendeu como farinha especial é uma mistura desta. Fazê-lo viver de suas rendas. que visita assiduamente o casal.... A.142 não a daria como castigo. depois de uma boa multa que seria dedicado a uma obra benéfica (luta contra a tuberculose. mas como meio para que ele fosse mais prudente daí por diante. de dedução em dedução.. 4° "Um comprador vai a um armazém de farinhas... um alto funcionário do estabelecimento em que a jovem trabalha. B.fora descentralizada por este. O sistemático retraimento da mulher faz o marido pensar que outro homem enche seus pensamentos e. vem observando. "A. recorre ao tradicional meio de fingir uma viagem. Você é o juiz: Que faria com o matador? eu o poria em liberdade. procura sem descanso seduzi-la.. concebe veemente suspeitas que se concretizam em C.. que é produzida pelo trigo especial e que é paga. ? Se fossem corrigíveis. não vamos fuzilar todo mundo. planejam um roubo no chalé.

.. que está profundamente enamorada dele.. Mas.. "No dia 3 de maio. Dois dias depois desta reclamação..... se mantida por ele. de 25 anos. É demais! 7° "A. a mocinha chega ao Banco presa de profundas preocupações. . que sabe que “B”. “B”.. a quem deviam duas mensalidades. aguarda impassivelmente durante o julgamento a condenação do inocente. "B”....00 reais em outro estabelecimento bancário e além disso entregar-lhe-á.deflora a jovem virgem e depois nega redondamente a cumprir o prometido. guardando no domicilio daquele a arma homicida. B.." Você é o juiz: Que fada neste caso? Toda a fortuna.. vive feliz com sua esposa e três filhos de pouca idade em uma casinha situada nos arredores da cidade... de 35 anos. é casado e não é justo que sua esposa... "B. é casado.. uma rara casualidade permite demonstrar que “B”. absolutamente toda... matando-a também quase instantaneamente.. acovardada pela miséria e desejosa de curar sua mãe e levar uma vida mais cômoda. foi detido e sobre ele recaem fortes suspeitas de ser o autor do duplo assassinato. casado. deve uma soma importante a “A”. O médico que visita sua mãe disse à jovem que a doença só pode ser combatida com uma alimentação escolhida e abundante... mantém relações amorosas com “B”. O assassino foge sem ser visto e corre à casa de “C”. e a infeliz filha sabe muito bem que isso é impossível com o mesquinho ordenado que percebe.. A tanta benevolência responde “B”. que reclamou daquele de forma comedida o pagamento de seu crédito.. que o havia despedido no dia anterior ao do crime. acede com muita repugnância..00 reais mensais.. ameaçou de despejo a família.que conhece perfeitamente a situação de A. 6° "A”.. sendo surpreendido por “A”. de “B”..... Quando “B”... enquanto durarem suas relações.. “B”. Dias antes o senhorio... o que parece ser confirmado ao ser descoberta em sua casa a mencionada arma. 500.. por sua má ação.. insiste nesse dia em suas pretensões e faz-lhe promessas concretas para que consinta em satisfazer seus desejos: depositará em seu nome a soma de 1... é o único e o verdadeiro autor de tão horrível crime. no momento que roubava aqueles.143 teimoso galanteador é um maduro senhor de 52 anos e muito rico." Você é o juiz: que faria com o assassino “B”. sofra também. insultando-o grosseiramente e ferindo-o mortalmente com um punhal que premeditadamente levava. "C”.... formosa jovem solteira de dezoito anos. jardineiro de “A”. “A” ameaça “B”. Eu o faria aumentar o oferecido de acordo com sua fortuna.000. Parece-me que também aqui faz falta um psiquiatra. penetra furtivamente à noite no domicilio de seu credor com o propósito de apoderar-se dos documentos que comprovam a dívida...Se estivéssemos na Idade Média o supliciaria durante ditas horas ou até que morresse. dá-lhe facilidades para o pagamento e o perdoa..”. sobre a qual avança “B”.... passaria para “ A”. “A”... Aos gritos da vitima acode sua esposa. ? O garrote vil..

e remédio sintomático. no sumário.... "A”. foi mordido por um cachorro e ao fim de um mês apresenta sintomas de raiva. aproveitando um descuido do caixeiro da farmácia. companheiro de oficio que sabe de suas penas anteriores e diz. com palavras e promessas falsas deflora “B”.144 "A”. oculta seu amigo “A”... o qual por sinais pede que lhe abreviem suas angústias mortais. o médico da família confirma o diagnóstico e receita morfina e cloral em grandes doses... que não se afasta dele desde o primeiro dia em que se declarou a enfermidade.. relativíssimo! 8° "O jovem “A”.. sabendo que lhe causaria a morte. que estava aberta.. "Foge rapidamente e. lhe proporciona uma fortissima dose do medicamento. 9° "A”.. Isso é condenar a jovem à cadeia perpétua.... padecer espantosamente. "C”.? Pena igual para os dois.Eu o castraria. na madrugada do quarto dia. do fato cometido por “A”.. jovem de 20 anos.....e com “B”. Não me agrada. Quanto ao tipo de pena. abusando de sua credulidade e a abandona poucos dias depois de satisfeitos seus desejos. foi condenado duas vezes por furto e três por roubo em casa habitada. e advirto que isto é muito relativo. consciente de que nenhum remédio pode curá-lo. que. Avisado. a qual sobrevem.. prefiro dizer que não sei... como calmante. o qual se inteira.." Você é o juiz: Que faria neste caso? Eu não os casaria. sem ser visto. depois de duas horas de tranqüilidade.... tem a noção exata da doença que o ataca e constantemente diz a seus pais que o matem para livrá-lo dos espasmos que já começam a sufocá-lo. aproveitando-se do amor que inspira. conhecido delinqüente contra a propriedade. com efeito. tirou da caixa. faltando com a verdade.. em sua casa durante dois dias e depois fornece-lhe roupa de mecânico para que fuja sem ser conhecido....” "B”. .. a importância de que realmente se apoderara. que é estudante de medicina.. advertindo à família que não há meio algum de cura e que o jovem morrerá irremediavelmente. vitima de terríveis sofrimentos. entra em uma farmácia e enquanto o caixeiro prepara o medicamento pedido.. " Você é o juiz: Que faria com “A”. corre à casa de “B”. depõe então que ocultou seu amigo sem ter exato conhecimento do delito perpetrado.. "Transcorrem assim três dias e... de 25 anos.. sobrevem terríveis contrações que fazem “A”. e mais tarde “B”. Apesar de tantas precauções a policia detém “A”. Não dou para juiz.força com uma pequena alavanca a caixa registradora e apodera-se de uma certa quantia.. “A”.... pai do doente.

para a absolvição ou a pena excessiva. Que faria com “C”. 2° Os delinqüentes. Esta insensiblidade. Você é o juiz. sempre de modo desproporcionado diante delas. Não distingue matizes nas ações morais e imorais e reage.. 84. Em troca se mostram mais severos nos atentados ao pudor que os não delinqüentes.podemos acrescentar por nossa parte outras duas. para o bem ou para o mal. diante desta última classe de delitos recorrem com freqüência ao castigo físico com fúria.por si mesmas interessantes .não é tanto sua falta de tendência punitiva como a irregularidade ou falta de coerência da mesma diante das diferentes situações de delito. e especialmente os que cometeram delitos de sangue. de grande importância para a orientação do problema: 1º De um modo absoluto. d) como que se fere aos delitos contra a propriedade e contra as pessoas. os delinqüentes subestimam sua gravidade de modo notável. PUNIÇÃO LIVRE As conclusões mais importantes que deduz o estado são as seguintes: a) os delinqüentes mostram em geral menos severidade no castigo dos delitos e menos precisão na formulação das penas.por intermédio desta prova . rato que se acha em oposição ao que esperávamos. existem alguns deles que as dão maiores que os normais. A estas conclusões . e) as correlações entre diferentes provas de inteligência geral e os resultados da prova de penalização foram tão extraordinariamente baixas que permitem afirmar a ausência de qualquer identidade entre as funções mentais que intervêm em sua execução. . Isto quer dizer que nossa primitiva idéia só era exata parcialmente. é mais evidente nas respostas que acusam uma manifesta perversidade ou cinismo. por conseguinte. É que em realidade o que parece caracterizar mais a consciência moral dos delinqüentes . b) os delinqüentes revelam uma deficiência do sentido moral na grande percentagem de casos em que absolvem o autor ou autores dos delitos da prova. o delinqüente habitual carece de ponderação no julgamento dos atos delituosos e em virtude disso tende mais facilmente para os extremos. são mais severos que os indivíduos normais na aplicação das penas aos delitos sexuais e tão severos como eles na penalização dos crimes..145 "Um vizinho que se inteira do fato denuncia a “C” como parricida”. ou anestesia moral. Dito de modo mais claro. empregando com mais freqüência que os normais o castigo corporal e recorrendo em maior proporção ao assanhamento quando castigam com pena capital. para as soluções do tudo ou nada. tanto os indivíduos delinqüentes como os não delinqüentes têm um critério mais benévolo que o do Código para a penalização dos delitos.? Nada. c) os delinqüentes mostram com freqüência uma especial crueldade nas penas. pois se bem que em geral os delinqüentes dão menores penas.

foram encontrados sete por cento de atuais doentes. de ambos os sexos. elaboramos outra prova que servisse de reativo à capacidade de discriminação ética das pessoas destinadas a cuidar de doente. de sulfato de sódio e xarope. O doente. Após dar ao doente duas doses de cada uma verifica que as confundiu. pondo um (1) na que acredita preferível. Na parte da prova que acabamos de descrever. a seguinte situação: Uma enfermeira encarregada da assistência a um cardíaco... de acordo com sua consciência. por terem preferido reagir contra a saúde dos demais e em proveito próprio. um dois (2) na segunda e assim sucessivamente até pôr o número mais alto na que julgar ser a pior. Suspender a medicação cardiotônica e dar o resto do purgante. Mudar os rótulos sem que ninguém o veja e esperar os acontecimentos . depois. parece estar tranqüilo.Consultar um livro de terapêutica para ver que medicamentos convém administrar. . colocando-os artificialmente diante de tipos de conduta não definidos no sentido moral e perante os quais.. julgamos interessante dar uma parte do texto e dizer que. que podem ser considerados como delinqüentes potenciais no aspecto sanitário. Avisar o médico para que venha ver o doente... Naquele momento a enfermeira pode: . Corrigir seu erro sem dizer nada e acabar de dar os medicamentos na forma prescrita. de seis em seis horas) outra porção cardiotônica. toleráveis ou dignos de louvor.. . dizendo-lhe que seu aspecto lhe inspira cuidado.146 Se esta afirmação é certa. dirigindo-a para o campo do que poderíamos denominar delitos profissionais e para tanto. e em colherinhas. de sorte que administrou duas colherinhas do purgante e 2/3 do medicamento cardiotônico. recebe do médico ordem de administrar-lhe em três vezes uma porção purgativa.. A natureza deste trabalho não autoriza sua descrição in extenso... .. .. Seguindo este mesmo caminho particularizando essa investigação.. Ir falar com o médico e explicar o sucedido. Escreva. .. a solução que teria dado ao caso se fosse e enfermeira em questão. por conseguinte. . Perguntar à farmácia em que foram aviadas as receitas o que convém fazer ao doente.. No entanto. Classifique as anteriores soluções da melhor para a pior. possa opinar se se trata de atos puníveis. cinco por cento dos indivíduos escolheu como solução melhor mudar os rótulos (!) e seis por cento preferiu consultar a .. apesar de tudo. de acordo com seus resultados. Confessar à família seu engano para que ela determine.. composta de substâncias (estrofantina e estricnina) que são venenosas em doses maiores que ao assinaladas.. cremos que a melhor prova para examinar e descobrir os delinqüentes potenciais será aquela que os obriga a por em evidência esta primitiva falta de fineza discriminativa. Vejamos.

Dorado Montero é. treze por cento avisaria ao médico sem confessar sua falta! É certo que tais resultados correspondem a pessoas que se faziam de enfermeiros sem possuir um título regular. levado a termo por pessoas peritas que convivam com ele durante o tempo necessário para observá-lo em suas reações espontâneas. mas no da prevenção.A existência deste item em um capítulo de higiene mental se explica dizendo que.147 terapêutica (!) e dois por cento se limitou a dar o resto do purgativo e suspender a medicação cardiotônica. .K. Do resultado deste duplo exame e das ações judiciais se deduzirá um duplo critério (resultante de considerar o ato delituoso por dentro e por fora do autor). além do exame médico e psiquiátrico. a um exame psicológico persistente. como valioso auxiliar. encontramos também uma percentagem de delinqüentes potenciais. psicológico e médico-psiquiátrico e sua interação. certamente não reveláveis a priori. capacitadas para desempenhar tal cargo. como até agora se fez. 3° O tratamento do delinqüente ocasional tem que ser individualizado e não deve basear-se na consideração das conseqüências de seu delito. assegurarão a formulação de um plano eficaz para a prevenção de novos delitos. diante de um delinqüente ocasional. ou melhor. nem tampouco medo ou indignação na sociedade. a prazo fixo. 4° Todo delinqüente deve ser submetido. Entre nós.M. pois alguns passam por inteligentes e de grandes dotes morais. Acerca deste ponto se escreveu muito e não é intenção entrar na discussão teórica das vantagens e inconveniências das diversas escolas penalistas. mas no reduzido número de casos em que a experimentamos entre pessoas diplomadas (156). aplicar uma penalidade limitada isto é. em teoria deve prolongar-se durante toda a vida do indivíduo. admiração. c) Tratamento dos Delinqüentes Ocasionais. 2° Todo delinqüente não deve ter a sensação de que desperta piedade. A reação social ante o delinqüente tem que estar sempre inspirada em um sentimento de serena justiça. é suscitado o problema profilático de evitar que se torne um delinqüente habitual. Neste sentido é lamentável a tensão das relações que ordinariamente se estabelecem entre os delinqüentes e seus juízes. da adequação da resposta que o meio social dê à ação delituosa depende a reiteração desta ou sua definitiva repressão. e sim nas particularidades do processo de motivação das mesmas. Somente a reunião destes três elementos. quem tratou da questão com maior acerto ao defender um critério psicobiológico. sendo feita com maior ou menor intensidade conforme for o estado moral deste nos diversos momentos de sua existência. tensão pela qual estes e não aqueles são os responsáveis. sem dúvida. .ocasional ou habitual. Do tratamento acertado. Por nossa parte julgamos suficiente a formulação das normas psicológicas que servirão para a correção destes casos: 1° Diante de delinqüente .não cabe. a do P. jurídico. Uma vez que a ação de tutela social a ser exercida sobre eles não se orienta no sentido de castigo. nem tampouco no grau de perversidade de suas intenções delituosas. E o que é ainda mais alarmante. A todas essas técnicas é preciso acrescentar.

).148 5° Qualquer que seja a classe de estabelecimento onde se recolha o delinqüente ocasional. uma orientação e funcionamento totalmente distintos.ocasionais e habituais .devem ser reconhecidos e julgados com a máxima celeridade possível e uma vez de posse dos dados convenientes serão classificados de acordo com a motivação de seu delito e distribuídos em três grupos: no primeiro figuram aqueles sobre os quais não recairá nenhuma sanção direta. deve-se evitar igualmente estes dois males: a) seu isolamento absoluto (nas denominadas células individuais). 9° Os delinqüentes ocasionais do terceiro grupo serão isolados nos denominados "Institutos de Readaptação Social".mais ou menos absoluta . substitutos dos cárceres atuais. no segundo são compreendidos os que serão submetidos a um tratamento corretivo de suas atitudes morais compatível com o prosseguimento de sua ordinária. b) seu contato direto com pessoas de menor nível moral (delinqüentes habituais). internatos ou residências especiais etc. dos habituais. 10° A reeducação moral dos delinqüentes ocasionais deve ser individualizada. uma vez que os casos que nele seriam recolhidos deviam forçosamente ser casos psiquiátricos. no terceiro são incluídos os casos em que este tratamento requer a privação . Os delinqüentes habituais o serão do "Instituto de Defesa Social". oficinas ou granjas disciplinadas ad hoc. utilizando todos os recursos da moderna psicagogia e insistindo sobretudo em oferecer ao indivíduo a necessária satisfação de si mesmo (por meio de uma orientação profissional conveniente) para que não sinta hostilidade para com o meio ambiente nem excessiva inveja para ninguém. Procurar-se-ia estimulá-Ios para que dêem uma reparação dele à sociedade. Seria somente condicionada pelo critério de curabilidade ou incurabilidade (possibilidade ou impossibilidade de uma readaptação social) dos delinqüentes. ao mesmo tempo que se procurarão corrigir as causas ambientais que motivaram seu delito. Realizarão seu trabalho profissional em condições controladas e viverão em instituições especiais e adequadas a seu estado (clínicas psiquiátricas. fábricas.de sua liberdade de ação. 8° Os delinqüentes do segundo grupo serão submetidos à tutela social durante o tempo necessário para sua total significação moral. 6° Os delinqüentes . serão somente o objeto de uma vigilância por parte do "serviço social". e qualquer que seja a gravidade de seu delito. prestando a esta um serviço extraordinário e eventual. por considerar que a etiologia do delito radica totalmente nas circunstâncias ambientais. substitutos dos atuais presídios. Esses institutos. Os dois primeiros grupos devem incluir a maioria dos delinqüentes ocasionais e o terceiro. terão. 7° Os delinqüentes do primeiro grupo por circunstâncias ambientais. cuja característica comum será a de servir para a privação da liberdade aos delinqüentes e sua submissão a uma disciplina moral. . O núcleo fundamental de seu dinamismo um serviço psicopedagógico e um serviço médico-psiquiátrico. no entanto.

por conseguinte.149 d) Tratamento dos delinqüentes reincidentes incorrigíveis. A nosso entender isto é um erro: a tendência à reiteração delituosa é independente da classe desta e depende. o primeiro pode voltar a praticar seu delito dentro de poucos dias. paranóicos etc. CAPÍTULO XIII . têm ocasião de habituar-se a seus delitos. Para todos estes casos nem é preciso dizer-se que não existe a possibilidade de uma liberdade social e devem ser considerados como verdadeiros inválidos sociais. ficando. não incompatível com sua vida ao ar livre e inclusive com certas distrações inofensivas jogos de tipo infantil etc. devem ser isolados em uma seção especial destes centros. não poderia reincidir até ao cabo de muitos anos ou talvez jamais. médico ou psiquiátrico. esquizofrênicos. Por isso acreditamos que nesses casos devem ser simplesmente esterilizados do ponto de vista sexual .nem mesmo contando com os benefícios de uma orientação profissional adequada. impunes a maioria das vezes. escreveu-se que os autores de delitos de sangue costumam ser ocasionais. embora o quisesse. O maior contingente desses indivíduos é integrado por casos decididamente psiquiátricos (epilépticos. O mesmo ocorre com os que delinqúem em matéria sexual. ou sendo muito pequeno o castigo que se lhes impõe. já que.) e mais precisamente por débeis mentais profundos. por outro lado.por meio da ligadura tubárica se são mulheres ou do cordão espermático se são homens . por exemplo. Quando um descuidista pratica um furto.e submetidos a uma estrita vigilância médica. Se são presos. não suscetíveis de adaptar-se ao regime de trabalho e liberdade relativa que impera nos "Institutos de Defesa Social". não suscetíveis tampouco de uma reeducação pelo trabalho . ao passo que os autores de atentados contra a propriedade ou o pudor tendiam a ser habituais ou incorrigíveis. raras são as vezes em que se os submete ao devido tratamento corretivo. sabe que o paga com quinze dias de cárcere. como ficam. impediu mais eficazmente sua repetição pelo mesmo indivíduo. Em troca. -É impossível estabelecer uma exata linha de demarcação entre o delinqüente ocasional e o habitual. A nosso ver os delinqüentes reincidentes incorrigíveis. Assim. Quis-se estabelecer certa relação entre a natureza da ação delituosa e o maior ou menor grau de incorrigibilidade de seus autores. em troca.). pode merecer consideração especial o subgrupo dos reincidentes incorrigíveis. O que se passa é que até o presente a reação da sociedade aos delitos de sangue foi mais enérgica que aos demais e. de fatores gerais (pessoais e ambientais) que agem de modo uniforme e determinam a maior ou menor facilidade de correção da mesma. ao passo que quando um criminoso comete um assassinato tem diante de si a perspectiva do patíbulo. ao passo que o segundo.

Mas essa tarefa não pode ser confiada nem deixada em mãos privadas e trêmulas por emoções de tipo pessoal. pelo menos. No mundo latino.. dos quais convida afastar-se. quase todas de tipo religioso ou político. juntas etc. e ainda maior seria se se tivesse em conta que muitos desses reincidentes aprenderam. Por outro lado.. que procuram se aproveitar de tais "detraqués". .para permitir sua livre readaptação à sociedade. casas de saúde. insuficiência da reforma pessoal e maior dificuldade da vida pósdelinquencial) Para formar o tipo denominado "delinqüente habitual". Em diversos países foram criadas numerosas sociedades mais ou menos caritativas e filantrópicas. desconfiança ou repulsa. Por outro lado. Com efeito. Ao Estado cabe inapelavelmente realizar essa tarefa. espécie de varredura social. informem e guiem . para ganhar o céu. e sim devem ser organismos técnico-sociais. da mesma dignidade e responsabilidade que os demais encarregados de conservar e aumentar a saúde social do país. nem sempre confessáveis. a não ser precisamente. ganhar votos ou ganhar. "catequizar" ou "aproveitar" esses convalescentes morais. é evidente que continuará existindo um extraordinário número de delinqüentes. tampouco é segredo que a atual organização social priva o delinqüente sinceramente arrependido dos recursos necessários para voltar a reintegrar-se normalmente nela: por todas as partes é recebido com apreensão. uma certa tranqüilidade de consciência.150 85. Esses centros ou serviços não podem ser concebidos como patronatos. em que pese o grande número de escolas já existentes.Enquanto não estiverem suficientemente difundidas. que constitui uma endemia nas grandes cidades e um mau exemplo nas pequenas. a poder ficar impunes da vez seguinte.. infelizmente. o mesmo acontece com o entrosamento desses técnicos com os restantes elementos que . vê-se diante de dificuldades enormes para conseguir uma supervivência não "parasita" nem "ilegal" em seu ambiente. Estes fatores se unem (inclinação delinqüencial. não são somente os delinqüentes saídos das Prisões que enfrentam dificuldades de reajustamento na engrenagem social: também outro exército de pessoas que egressam dos asilos. e não forem corretamente cumpridas. ao invés de querer "controlar". Amplitude do Problema. os apoiem. hospitais e outros estabelecimentos assistenciais.na medida por eles solicitada e necessária . durante o cumprimento de suas condenações. a formação dos técnicos de assistência social está ainda bastante atrasada. as normas de higiene mental e de convivência social baseadas no conhecimento exato do que se pode esperar do homem destas gerações. Como? Mediante a criação de centros ou serviços jurídico-sociais que. Como também é evidente que este número pouco diminuirá por efeito das sanções penais. nos denominados "bas-fonds" sociais. a percentagem de delinqüentes reincidentes é alarmante em todos os países. sustentem. NECESSIDADE DE CONSTITUIR OS "SERVIÇOS DE ASSITÊNCIA JURÍDICO-SOCIAL" COMO MEIO DE COMBATE EFICAZ A REINCIDENCIA NO DELITO 01.

técnico-educativo etc. assim como os requisitos exigidos. destinados não tanto a proteger a sociedade contra o delinqüente como. Serviço de Emprego. devidamente classificadas. . c) Um consultório jurídico. .Qualquer pessoa que acudisse ao balcão desta seção poderia pedir dados referentes a direções. jurídico. médico. 02. se a informação não pudesse ser dada no momento e tivesse que ser solicitada. Aberto dia e noite. favorecida pela incompreensão hostil da sociedade. f) Um consultório psicológico. h) Um restaurante econômico i) Uma sala de exposições e conferências. laboratórios psicotécnicos. pois o candidato deverá comprovar seus méritos técnico-profissionais ou suas habilidades e conhecimentos. se fosse o caso. associações. . condições de ingresso etc. . Tal serviço funcionaria em conexão. estaria em conexão com as bolsas de trabalho. qual seria o dinamismo de tais dependências: 03. horários. por sua vez. Vejamos agora. Por isto cremos conveniente delinear o que deveria ser um desses serviços. em centros e serviços especializados. brevemente. Constaria das seguintes dependências. ao contrário.Um serviço desta natureza deveria estar localizado em um lugar central e visível da cidade. Para tal fim esse serviço estaria em conexão com todos os organismos. centros de assistência social da indústria e comércio. g) Uma biblioteca especializada. Também poderia receber conselho referente ao modo de conseguir informações mais especificamente pessoais.Este terá à vista e disposição dos consultantes as oportunidades de emprego na zona. b) Um serviço de emprego (ligado ao serviço central que. não só da cidade como do perímetro regional correspondente à zona de ação do serviço a que pertence. em caráter gratuito. econômico. j) Um auditório (para concertos) e salão de cinema (filmes culturais e de passatempo). Tais informações seriam dadas por escrito. Estrutura e Dinamismo de um Serviço Modelo de Reajustamento JurídicoSocial. l) Dependências administrativas e de serviço. centros etc. 04. e) Um consultório médico-psiquiátrico. assistencial. como mínimo: a) Um serviço de informação urbana.151 hão de colaborar na missão de reajustamento que agora consideramos. a proteger o exdelinqüente contra a ameaça da reincidência. existir na cidade). se desejar pedir a apresentação do serviço ao possível empregador. mantendo fora delas apenas uma guarda de emergência.. igualmente preencherá fichas de solicitação de emprego aos candidatos cuja ocupação não tenha vaga em espera. d) Um serviço assistencial econômico-social. de qualquer tipo que fossem. de caráter cultural. porventura. religioso. sem exigir identificação e somente convidando a deixar um nome ou senha qualquer. Este serviço. embora só funcionasse completamente nas horas de expediente. Informação. profissional.

será um especialista em psicotécnica. do psicólogo que. 09. Serviço Assistencial Propriamente Dito. sem omitir uma seleção de exdelinqüentes reformados que. Há. Biblioteca. capaz de efetuar um diagnóstico preciso dos "valores pessoais" (ao passo que o psiquiatra atende principalmente aos "desvalores") dos consulentes. aos quais serviria e dos quais.Deverá ter extraordinária autonomia. dadas as circunstâncias e o modo como concebem eles o que é "justo" perante elas. após mais de 30 anos de experiência. 07. dispondo de uma ampla rede de colaboradores de ambos os sexos. tato e técnica flexível para adaptar-se às peculiaridades de cada caso. isto é. colaborariam de bom grado nela (como acontece com o grupo dos ex-alcoolistas). Seu responsável deverá ser pessoa perita e experimentada em ciências sociais. além disso estar sempre pronto a ajudar seus consultantes na reivindicação de seus direitos de cidadão que lhes fossem negados a pretexto da ausência ou irão cumprimento de trâmites durante o tempo que se viram privados de liberdade. lúdicos etc. em forma amena e científica (para ilustração direta dos casos). Esse consultório deveria. o núcleo das atividades convergentes dos demais.152 sindicatos trabalhistas etc. é claro. é claro.submergir-se no anonimato social. mas completa os serviços. . sem dúvida. dada sua situação). pois. Consultório Psicológico. novos modos de readaptação. ou . como vulgarmente se diz. Consultório Jurídico. 05.Terá esta dois tipos de obras: a) as que tratam de temas de psicologia normal ou anormal. .. Outro aspecto deste serviço é o de proporcionar amizades e ambientes agradáveis aos que se encontrassem isolados da família. o que é evidentemente perigoso. dando-lhes oportuno tratamento ou indicando-lhes onde poderiam recebê-lo. com efeito.ainda pior . . indicando-lhes possíveis carreiras. – Este seria. b) as que tratam de assuntos culturais. reingressam automaticamente no círculo delinqüencial. quando lhes faltam documentos ou comprovantes de qualquer natureza. capacidade de iniciativa.Teria por principal finalidade o exame mental periódico dos consultantes do serviço que apresentassem sinais de desequilíbrio ou insuficiência mental. 08. normas racionais de vida etc. para informação ou distração . se não legal. dentro da zona de sua normalidade (sempre relativa. uma grande quantidade de pessoas que desanimam ante a prolixidade e dificuldade dos trâmites que precisam seguir para "se pôr em dia" ou "se pôr em regra". por sua vez.Consideramo-lo de extraordinária importância. imprescindíveis. neste caso.A existência de um psiquiatra não exclui. então. para solicitar deles a colaboração precisa em cada caso cuja solução não seja imediata. chegamos à conclusão de que há uma grande quantidade de delinqüentes por «ignorância". de cometer seu delito. pelo menos moral. que acreditam que lhes assiste o direito. .a procurar documentos falsos e. 06. Consultório Médico-psiquiátrico. se utilizaria para conseguir o propósito central de toda a obra: a reintegração ou reajustamento social de seus casos. Isto as priva de outros direitos e as leva progressivamente a.

concerto ou filme e. isto é.Nele se alternará a "meloterapia" e a "cineterapia". viverão os membros permanentes do serviço ou os que farão as guardas noturnas.Nas primeiras se concentrará o estudo dos expedientes individuais. Uma vez satisfeita essa necessidade. Auditório e Salão de Cinema. não se pode esquecer que o impulso nutritivo divide com o sexual a primada nas motivações das personalidades imaturas. de acordo com suas possibilidades. Sala de Exposições e Conferências. da jogatina desonesta ou do suicídio. O Restaurante. mais tarde. Portanto. mas não cabe ignorar que entre o homem individual e a sociedade existe o denominado "grupo" . assistir a uma conferência. da contabilidade e correspondência.que não alcança. 11. . realizando assim uma verdadeira "biblioterapia". 12. pode interessar-se na leitura de alguma revista.153 de seus leitores. êxito profissional etc. Esse . infelizmente. . embora menos confesse necessitar: a ajuda psicoterápica.É imprescindível para atrair e fixar uma parte dos casos. as características de "classe". quando vir que tudo isto não lhe custa nada. porá de lado sua atitude defensiva e solicitará a ajuda que mais precisa. . capazes de substituir os prazeres que lhes faltam (família. da embriaguez. para não dar a impressão que são atendidos por caridade. adquirirá confiança. se lhes pedirá. Com isto se lhes mostrará que merecem a confiança do pessoal e que se lhes julga capazes de "dar" algo útil. Uma especialista em bibliotecnia ou biblioteconomia poderá guiar os leitores na escolha dos livros mais convenientes. haverá uma boa parte da clientela capaz de ser guiada e reajustada por esse serviço que somente a ele acorrerá.As exposições deverão estar abertas em caráter permanente e versar sobre temas de interesse para seus especiais visitantes. Ambos recursos são hoje considerados excelentes e eficazes na psicoterapia coletiva. atraída pelo cheirinho de uma boa comida. algum pequeno serviço. CAPÍTULO XIV 86. mas. até agora foram reservados à clientela dos grandes e luxuosos sanatórios e casas de convalescença. Dependências Administrativas e de Serviço. ainda.de diversa extensão e estrutura . em troca da comida. 10. criando neles um progressivo deleite e atração pelos valores culturais e artísticos. mas que pode reunir elementos pertencentes a ela.). Naturalmente. Nas segundas. é preciso fazê-los chegar até essa outra clientela que podem ser salvos do crime. de início. PSICOLOGIA DE ALGUNS DELITOS DE –GRUPONORMAS DA TERAPEUTICA SOCIAL DE GRUPOS Até agora nos limitamos a tratar dos problemas derivados do conflito legal de indivíduos isolados. embora a entrada seja livre. . a terapêutica pela música e pelo cinema. Contudo. 13.

Todo grupo tem uma série de características comuns. que com eles "ninguém pode". 01. não tomando parte direta na ação (como se fosse o estado maior).codificadas ou não . em suas diversas modalidades hierárquicas. . fracos ou traidores. cujos méritos consistem em ser mais inteligente.de tipo uniforme ou semelhante. membros ativos e auxiliares: encobridores. geralmente. explícita ou implicitamente reconhecido. Surge então (como foi típico dos bandos de "gangsters" norte-americanos) uma série de graus hierárquicos que constituem uma organização disciplinar e semimilitar no grupo de malfeitores. também. era preciso antes recordar quais são as condições que regulam o dinamismo psicológico dos membros constituintes do grupo. e isto leva. que implica diversos encargos de trabalho e perigo. confiada a outro tipo de membro chamado "guardacostas" ou "capanga"). uma série de objetivos mais ou menos idênticos e uma tendência a comportar-se como que de acordo com estilos. Cabe a duas escolas psicológicas modernas . isto é.De um modo geral chama-se "bando" ao grupo de malfeitores organizado em "grupo" para o roubo. um grupo é algo mais e também algo menos que uma soma ou agregado de indivíduos.154 grupo constitui uma nova entidade psicológica . perito ou experimentado no trabalho de conseguir a presa e de evitar. que só aceitam a disciplina livremente consentida (anárquica) e que são capazes de devolver "golpe por golpe" e que são capazes de devolver “golpe por golpe” em qualquer ocasião. esse chefe passa a ser caudilho.).a psicologia configuracional (Gestalt) e a psicologia adleriana . Essas tensões se agravam pela necessidade em que todos os bandidos se encontram de mostrar que possuem um caráter indomável. c) insatisfação quanto ao modo de comportar-se pessoalmente (dentro ou fora da vida grupal) um ou vários membros. em português. depois. Delitos de Grupo Contra a Propriedade. vai ficando atrás. por vezes.o mérito de haver progredido mais na investigação de todos aqueles fatores. padrões ou normas . A medida que o bando aumenta de importância.capaz de praticar. mas controlando-a de um esconderijo. A medida que se produz este afastamento e cessa o contato pessoal direto entre o chefe e os diversos elementos. killer. b) insatisfação no modo de retribuí-Ia (divisão da presa). é preciso aumentar a gravidade das sanções para evitar que estes procedam por sua conta própria. cúmplices etc. Com efeito. e de "proteger" os altos cargos do bando (essa ação é. Tais bandos têm sempre um chefe. à criação do tipo de verdugo (carrasco. Podem surgir por três motivos principais: a) insatisfação no modo de conduzir as "operações". a ação policial. em inglês) que tem a dupla missão de "liquidar" os insubordinados. delitos que adquirem especiais características de estilo e gravidade. . As tensões nestes grupos ou bandos são sempre de dramática intensidade nos três planos de nível que as constituem (diretor. obedecendo igualmente a motivações que podem ser diversas das que impelem aos delitos individuais isolados.à maneira de pessoa coletiva ou superpersonalidade . Para estudar a psicologia destes delitos de grupo ou coletivos.

ou. é possível que o motivo da delinqüência criminal de grupo seja a necessidade de afirmar a "onipotência" pessoal coletiva como meio de compensação a sentimentos de frustração individual anteriormente sentida e contida. É o caso de uma variedade especial de grupos delituosos de grande instabilidade. o que não ocorre. principalmente formados por adolescentes e elementos sociais marginais. hostilidades legendárias entre membros de diversos grupos étnicos. são mais nefastas para a existência dos grupos que a própria ação repressora da polícia. Com efeito.155 Isto faz com que uma vez iniciada a violência.empregados de lojas vizinhas a um cinema no qual não lhes fora permitido entrar. o fratricídio ou o suicídio simbólicos com maior facilidade do que quando pratica igual ação com desconhecidos. Psicologia Delinqüencial da "Patota". que costuma beber e jogar. conjuntamente. grupos de estudantes de uma grande cidade continental agrediram fisicamente e feriram . se transmita em "cadeia" e possa alcançar além das fronteiras. pode estar realizando assim o parricídio. que se reúnem em bares e estabelecimentos suburbanos para constituir o que nas zonas platenses sul-americanas se chamam "patotas". por exemplo. encontramos. religiosos ou sociais. Desviados em seu impulso. tem geralmente lugar por motivo de vingança (direta ou projetada) ou de satisfação compensadora de anteriores frustrações agressivas. ou melhor. quando um bandido ataca e mata outro. e o grupo se lança à via pública em atitude agressiva. ou divertir-se.O ataque do grupo a uma ou várias pessoas. antipatias legendárias entre famílias. encontramos nos "linchamentos de negros". Finalmente.Um grupo de "patota" compõe-se de um núcleo inicial de "cumpinchas". Exemplo típico desta natureza. também. independentemente de um propósito de lucro. em 1947. uma noite qualquer. dirigiramno e projetaram-no contra os estabelecimentos vizinhos e descarregaram-no contra os que nestes se encontravam. Assim. alguém sugere a idéia de sair à rua para armar "confusão" ou fazer "barulho". isto é.durante várias horas de tumulto . estas serão assaltadas e violadas. ou criado o atrito. 03. No primeiro caso se encontram os delitos grupais que são o clímax de antigos "ódios mortais". no primeiro caso está agindo dentro de sua "família". em casos de agressão vingativa do grupo contra algum inocente elemento que tem apenas uma relação associativa circunstancial com a causa motivadora do impulso vingativo. se encontram gente . Exemplo de delitos grupais por "projeção". Perambulando. no segundo. ainda observados atualmente na América do Norte e só atribuíveis a um intenso preconceito racial. com freqüência. 02. . . perde uns elementos e adquire outros: sua coesão se mantém apenas pela ânsia comum de praticar algum ato deliberadamente "proibido e inesperado". E esse algo será determinado por qualquer circunstância fortuita: se encontram algumas moças. em busca de possíveis vítimas. evidentemente. Psicanaliticamente falando. invadindo a dos grupos correlativos e desencadeando verdadeiras guerras intra e intergrupais que. em qualquer lugar da área grupal. Delitos de Grupo Contra a Vida. Um dia.

se se tem em conta. 4° . os seguintes: 3° .Aumento da indiferença da opinião pública pelos delitos. Normas da Terapêutica Social de Grupos.Fragmentação social e política (desagregação de partidos) e nacionalismos regionais. (A estes índices poderiam juntar-se. Percentagens de delitos não bastam para avaliar esse fenômeno. chegando a comprometer sua saúde total se atingem um elevado grau de difusão.Aumento do absenteísmo (faltas ao trabalho). em nossa opinião. talvez a molestem ou roubem. que há muita delinqüência ignorada. Qual a razão dessa conduta? O remanescente de agressividade insatisfeito e reprimido se liberta agora com facilidade por três motivos: a) a ação coletiva dilui o sentido de responsabilidade. d) Índices Políticos: 1°. 2° . Vejamo-los em detalhe. b) Índices Econômicos e Industriais: 1 ° .Aumento da perversidade e gravidade desses). que não pode figurar nas estatísticas oficiais.Concebendo a sociedade como um macrogrupo (grupo gigante) capaz de produzir e reproduzir-se assegurando sua persistência econômica e biológica na História. então pode ser que o agridam ou matem. econômicos. 4° . entre outras cousas.Diminuição da média de idade nos grupos atingidos. Então se observam sucessivamente os sintomas de "desequilíbrio" e de "desintegração" social. Por isso estabelece cinco categorias de índices: biológicos. políticos e culturais. 2° . 5° . . 3° . 2° .Discriminação da fertinatalidade. b) cada um "exibe" sua valentia a um pequeno público amigo.Aumento das greves. 04. c) Índices Criminológicos: 1° . revivescência de . poderíamos dizer que os desvios do grupo são uma espécie de enfermidade que ataca suas partes orgânicas. 2° .Aumento dos suicídios. intensidade e freqüência.Diminuição na discriminação de características sexuais.Diminuição da produção individual.Aumento da delinqüência juvenil. 4° . a) Índices Biológicos e Médicos: 1° .Aumento das alterações psicossomáticas.Aumento do desempenho forçado. ou cronicidade. c) a conversa e as libações criaram um "crescendo" de excitação que favorece o desencadeamento dos impulsos agressivos até então inibidos.156 velha.Emergência da "liderança para destruição". criminológicos.Aumento da morbilidade. se enfrentam alguém jovem. 3° .

ao mesmo tempo. primeiro. A difusão de conhecimentos científicos acerca da "difícil arte de viver sadiamente" deve ir acompanhada de disposições que permitam a todos utilizá-los. 87. na Suíça) será o modo mais eficaz de completar essa obra. A descoberta precoce dos pequenos desajustamentos individuais evitará o fracasso na correção tardia dos grandes desajustamentos coletivos. 3° . a paz e o equilíbrio psicobiológico à maior quantidade possível de habitantes que melhor se conseguirá esse objetivo. de formação de um sólido "plateau" social (como se conseguiu.Aumento do intelectualismo e do planejamento obsessivo. Conhecidos esses índices e analisadas suas causas. em primeiro lugar. hierarquizando-as em sua prioridade e em seu custo.157 3° . Uma tarefa desta natureza exige a mais estreita colaboração do governo e das organizações públicas extra-oficiais que tenham ideais de reintegração nacional. O plano assim elaborado deve ser posto em marcha. isto é. em uma pequena área (experimental) controlando seus defeitos e efeitos. que é preciso fazer cumprir as normas de "higiene mental" delineadas e aprovadas nos grandes congressos internacionais da matéria. Ao contrário.Instrução crescente do primitivo e visceral (inclusive o sexo). não utópicas. Psicotécnica e Higiene Mental. isto é. Medicina. Eis porque a primeira tarefa a realizar consiste agora em alertar .Aumento do "escapismo" (jogo. Uma hábil política de mescla de grupos. e) Índices Culturais: 1 ° . por exemplo. soluções realizáveis. perda do sentido e do propósito da vida e do destino cósmico. é preciso agora planificar a luta terapêutica. diversões licenciosas etc. Política. fazendo-os chegar a conclusões relativas à série de medidas a tomar. Sociologia.). 2° . Economia. 4° . Pedagogia. também.a opinião pública. AJUDA PSICOTÉCNICA PARA A DETERMINAÇÃO DOS DIVERSOS GRAUS DE – CAPACIDADE E CAPÍTULO XV .sem deprimir demasiadamente . propondo. é assegurando a saúde.Declínio da fé vital "religiosa". Daí a necessidade de estabelecer um regime tributário que permita ao Estado atender aos grandes serviços de saúde e educação. Devem ser convocados para reuniões os melhores especialistas em Direito. e hoje difundidas pela World Health Organization.ao território nacional.Emigração maciça. para depois estendê-lo com as devidas modificações . Algo de concreto pode ser afirmado e não é aumentando a severidade das leis penais nem diminuindo os direitos democráticos que se poderá conseguir a reintegração da normalidade. Não há dúvida.

pois não sabem abstrair ou retirar de suas vivências os elementos comuns. A qual destes dois critérios devemos dar a preferência: ao científico. ou sofrer de alguma enfermidade (mental ou corporal). pode ocorrer que um mesmo indivíduo apareça nele como um débil mental ou não. que se apoia. Com efeito. Conceito de debilidade mental. para criar os hábitos de adaptação convenientes e para criticar. ou "debilidade mental". o valor dos mesmos. Falta aos débeis mentais o mundo conceptual vivem somente diante de realidades concretas e imediatas e isso faz com que não saibam aproveitar a experiência para a resolução de situações novas. se o aplicássemos estritamente. conduzir-nos a erro por múltiplas circunstâncias. Dito mais precisamente: ao débil mental falta a inteligência (em suas três modalidades de compreensão. criação e crítica) requerida para poder auto-conduzir-se em nosso mundo civilizado. pois nos faria confundir com os débeis mentais o grande número de indivíduos que por ter uma anomalia afetiva (personalidade psicopática). de acordo com os resultados de sua experiência pessoal. Como se vê. . Por conseguinte falta nestes indivíduos a capacidade de comparação (identificação e diferenciação) de qualidades que é a base de todo Julgamento e raciocínio. não chegam a poder valer-se por si mesmos na vida. nos casos limites. que se baseia nos resultados de uma experiência artificial. conquistando com seu trabalho o mínimo de ganho econômico necessário para seu sustento e. o conceito de "oligofrenia" ou "debilidade mental" é puramente quantitativo e além de certa relatividade. ou ao social. em primeiro lugar. designa-se o estado consecutivo a um desenvolvimento insuficiente das funções psíquicas principalmente denotável em seu aspecto intelectual. a mais erros ainda. Por essa razão (carência de conceitos gerais .Ao débil mental falta a disposição intelectual necessária (embora não seja suficiente) para compreender os problemas suscitados pela vida social. É claro que além deste critério social de valorização existe um critério científico absoluto que ainda não pôde ser fixado por falta de experiências. pela ausência da capacidade de síntese e a falta de compreensão das relações abstratas. que o critério social nos conduziria. distribuindo seus gastos de acordo com aquele. a experiência com os reativos mentais (testes) que nos oferece a psicotécnica pode. mas não é menos certo. O resultado é que seu pensamento carece de uma base lógica e os conduz a conclusões e atitudes erradas e absurdas. a posteriori. por outro lado. na verificação do rendimento do indivíduo na vida humana? Devemos mostrar-nos ecléticos e apoiar-nos nos dois se desejamos nos aproximar da verdade. Com efeito. Tal critério é o que define a existência da debilidade mental em função do rendimento que o indivíduo proporciona diante de uma classe especial de "provas mentais de inteligência". por outro lado.Com o qualificativo de "oligofrenia". conforme seja o nível intelectual médio do grupo humano que se utiliza como referência. imposta pela variabilidade do padrão (standard) social que servirá para defini-lo. previamente experimentadas em grandes massas de pessoas com o fim de estabelecer unidades artificiais (mas absolutamente comparáveis) de medida de desenvolvimento intelectual.158 RESPONSABILIDADE JURÍDICA . O déficit intelectual comprovável por meio do exame com esses reativos se traduz.

abreviadamente) que. de um modo não contingente. como se compreende. como em toda outra demonstração da atividade biológica. devemos atribuí-lo somente a que diante de um número determinado de estímulos e situações aprendeu.50. Todo indivíduo que examinado nas escalas métricas de inteligência exibe um quociente intelectual inferior a esse valor deve.159 e de inteligência abstrata) são incapazes de compreender os determinantes éticos da conduta. maior do que a unidade nas pessoas inteligentes ( sagazes) e menor do que ela nas pobres de inteligência ou débeis mentais (oligofrênicos). É preciso agora acrescentar que as pessoas cujo quociente intelectual está compreendido entre 0. ser posto sob a tutela familiar. qual será sua reação para evitar o castigo material ou espiritual que o ameaça (cárcere ou inferno). Com isto queremos dizer que todo débil mental é só por este fato um débil moral (falta de capacidade de julgamento moral). De um modo geral torna-se difícil estabelecer um limite abaixo do qual a deficiência intelectual seja incompatível com a vida social. embora a recíproca não seja verdadeira. isto é. será possível.80 são também incapazes para a vida social nos grandes núcleos urbanos. O resultado da divisão da idade intelectual (mental) pela idade cronológica (somática) de um indivíduo nos dá o denominado quociente intelectual (Q. de 0. para distingui-la da idade cronológica. Pois bem: visto na inteligência. No entanto. de idade intelectual. ou do Estado se aquela não oferece garantias suficientes. designando-se com o nome de oligofrênicos todos os indivíduos cujo quociente intelectual é inferior ao primeiro valor e com o qualificativo de superdotados aos que têm um quociente intelectual superior ao segundo. I. no qual seus deveres profissionais e sociais se encontram reduzidos ao . só por este fato. convencionou-se admitir como valores compreendidos na zona de inteligência normal os dos quocientes intelectuais compreendidos entre 0. mas podem conduzir-se em troca com normal correção em um ambiente rural. I. independentemente de toda sanção ou recompensa externa (humana ou divina). será igual à unidade nos indivíduos normais. necessário. de modo mais ou menos automático. Facilmente se compreende que significando a debilidade um déficit quantitativo de inteligência com relação à idade do indivíduo. A este último valor se dá o nome de idade mental ou. e além do mais.50 e 0.10. estabelecer graus desta debilidade.90 e 1. não ser possível estabelecer a priori limites bruscos entre a normalidade e a anormalidade. melhor. podemos assinalar como limite mínimo compatível um Q. em função da diferença que se observa entre a inteligência que o indivíduo tem em realidade e a que lhe corresponderia normalmente. Esta dificuldade deriva de dois fatos: a) da comum e quase constante associação de transtornos quantitativos e qualitativos da afetividade aos defeitos puramente intelectuais nos débeis mentais b) das diferentes exigências do meio social segundo suas particularidades fisiopsicológicas. quando encontramos um débil mental que mostra uma vida moral. de sorte que. deixando de lado estas causas de variação. como já sabemos. de acordo com sua idade. De nenhum modo é capaz de decidir sua conduta diante de uma situação nova por seu próprio discernimento e de forma a conseguir a tranqüilidade de consciência e a satisfação de si mesmo.

grande número de débeis mentais. que se acham legalmente incapacitados do ponto de vista econômico. em virtude da qual não podemos aplicar diretamente o critério de valorização que é válido para os diferentes meios em que são experimentados. Para os fins da incapacitação é preciso considerar que grande número de oligofrênicos pode merecer o direito de reger livremente sua pessoa. quando o quociente intelectual desce de 0. Para melhor conhecimento de sua pessoa responda com absoluta sinceridade às perguntas que se seguem. solteiro. e portanto seu possuidor é um imbecil. Idade mental: 10 anos e 3 meses).50. deve-se proceder à sua incapacitação. com efeito. Não obstante. não são poucas as pessoas bem dotadas intelectualmente que deveriam ser incapacitadas por carecerem de uma inibição eficaz de diversas tendências anti-sociais ou antifamiliares. da qual será responsável sua família ou o Estado. Em troca. QUE PROVAS MENTAIS PODEM SER EMPREGADAS PARA O RECONHECIMENTO DA DEBILIDADE MENTAL? O número de reativos propostos para a determinação do grau de desenvolvimento intelectual é extraordinário e sua descrição não está dentro dos limites normais. QUESTIONÁRIO ÍNTIMO (37 Anos. a MORTE DE MINHA MÃE. . Com o objetivo de distinguir melhor o aspecto do funcionamento mental que se mostra mais insuficientemente desenvolvido nos oligofrênicos é aconselhável denominálos de: oligonóicos. mas gozam de liberdade social quase absoluta (pois seu conselho de família só se reúne uma vez por outra) e constituem com sua conduta um mau exemplo e uma causa perturbadora da moral coletiva.160 mínimo. e mesmo de imbecis.Quais foram as impressões mais fortes que você teve de sua vida? R. oligotímicos ou oligopráxicos. O principal inconveniente apresentado pela maioria deles é a falta de observações nacionais. 88. ademais deve-se sujeitá-lo a uma tutela social. Não deixar meu tio que eu saia às noites. Tenha a certeza de que somente o médico examinador terá acesso às mesmas. . se suas condições de caráter os impelem a levar uma vida simples e metódica. Ter sido repelido por uma pequena. Existem. apesar de sua limitada capacidade intelectual. Uma tarde em que quase me vi debaixo de um automóvel que ia muito depressa e me sujou a roupa. 1°.

Crê você que há maneira de ajudar seu futuro? R.Escreva três nomes de pessoas que lhe sejam antipáticas. porque minha mãe me deixava. Paco. . .Se você voltasse a nascer. ter dinheiro e casar-me com a moço que amo. quase me fazem sofrer muito também. forte. Quando era criança eu brincava e fazia o que queria. Ser muito virtuoso e religioso. Não sei o que dizer. Henriqueta. .Escreva os nomes das três pessoas que você mais admira. . As vezes zombo do que me dizem quando não me compreendem. As anginas que tenho. rico.161 .Por quê? R. poderoso. Sim. também gostaria de dirigir um automóvel e passar os verões na montanha junto com meus amigos. Estar com minha namorado eu comprava uns trajes baratos que existem na loja e com pouco dinheiro fiaria bem. .Se lhe dessem a escolher entre ser: sábio. Se meu tio não fosse de tão mau gênio eu já trabalhava e teria meu dinheiro para tudo. Todas as noites rezo para minha mamãe e os pobres pecadores.Quais seus maiores desejos? R. Não. R.Qual a pior ação que acredita ter cometido em sua vida? R. .Quais são as lembranças mais desagradáveis de sua vida? R. ter sofrido em sua vida? R. ativo.Qual a maior injustiça que acredita V. .Você está satisfeito de viver? R. mas não sou muito galante.Como? R. Ir ao teatro.Quais acredita V. . serem suas principais qualidades ou virtudes? R. Abusei um pouco de meu natural e gosto muito das pequenas. sou muito antipático a meu pai. Não sei. sem ofender a ninguém. muito. Meu tio. Que não querem compreender que sou um homem e necessito ais liberdade. gostaria muito de aviador.Quais são as lembranças mais desagradáveis (que mais lhe fizeram sofrer) de sua vida? R. Creio sempre em meu confessor.Por quê? R. belo. Logo me casei com uma moça muito bonita. . .Como crê você que poderia realizá-los? R. porque não me deixam comer. Também me aborreço se estou certo de uma coisa e não me querem dizer. que não gosto de mim. R. . Fazendo tudo o que quero. Ser um pouco pesudo e muito bom. Porque sou muito valente e faze bem à humanidade. . às vezes também meu pai. Julio e Pilar. . Sair só. . Eu não fiz nada de mau. Gostaria de ter muito dinheiro e poder sair só à noite até me casar e depois sairei com minha esposa e nos divertiremos muito. . . Se voltasse a nascer seria militar.Quais acredita você serem seus principais defeitos? R. que modificações faria em sua vida? R. . Minha mãe. Porque sim. inteligente.

R. Todas as pessoas me queriam. Iria com outras pessoas para terras livres.Quais são os seus maiores desejos? R. Ter sido trazido para aqui com maus fins. que há maneira de mudar o futuro? R.Quais acreditas V. 2°. ter sofrido em sua vida? . mas eu sou mais digno do que eles. . Meus irmãos fazem bem em aproveitar-se. Queme deixem em paz e já verão como os realizo. fino. Ver o mundo com é. Lenine. .Idade mental 1º anos e 5 meses) . Não tenho nenhum direito reconhecido e devo tê-lo como homem e como cidadão. Cornélia.Quais são as lembranças mais desagradáveis ( que lhe fazem sofrer) de sua vida? R.Quais acredita V. -Como crê V.162 feliz nos amores. nada. Ser livre e poder gozar de minhas faculdades. . e Primo Rivera. Ter um pistola para não me deixar pisar por ninguém. serem seus principais defeitos? R.Quais são as lembranças agradáveis de sua vida? R. . Não me deixaria meter no colégio. V.Quais foram as impressões mais fortes que V.Por quê? R. . Belo e fino. . . Sim.paciente e só pudesse ter duas qualidades.Crê V. QUESTIONÁRIO ÍNTIMO (Perfil:18 anos. que ninguém lhes direito a isso.Você está satisfeito de vier? R. Nada. nem agüentaria sermões nem entupidezas dos pobres. não serve para nada. sem justice e sem ordem. Fui demasiado crente em meus pais que não merecem nada mais que desprezo.Escreva três nomes de 3 pessoas que lhe sejam antipáticas. . teve em sua vida? R. Viajar com quem me agradar. .Por quê? R. Não posso estar porque não sou bem tratado.Escreva o nome de três pessoas que você mais admira.Como? R. Há três dias quando meus pais se converteram em meus verdugos. Não sei. R. minha famíla e os menores que me aborreceram. que modificações faria em sua vida? R. . solteiro. Porque assim manda a justiça e a religião. -Se voltasse a nascer. .Por quê? R. .Qual a pior ação que acredita ter cometido na sua vida? R. serem suas principais qualidades ou virtudes? R. Uma vez que apanhei uma peseta e nada disse. Meus pais . quais escolheria? R. . .Qual a maior injustiça que acredita V. Não quero ser virtuoso. pensa que porei a corda em meu pescoço. que poderia realizá-los? R. Não sou tolo. Fazendo o que penso. Porque me fizeram sofrer muito injustamente meus pais e amigos. .

e se pudesse. O observador mais profundo verá imediatamente que a periculosidade social do primeiro indivíduo é praticamente nula.Por quê? R. por conseguinte. Cumprem-se. sendo ambos débeis mentais. saber se sua raiva ou cólera diante do meio é superior. . este procura consegui-lo sem reparar nos meios. rico. Seu instinto de conservação individual pode adotar uma forma preferentemente ofensiva ou defensiva e. Forte e belo. Dito de modo mais claro: todo débil mental no qual predomine a cólera sobre o medo é um delinqüente certo. a pessoa mais leiga compreenderá que a valorização que juridicamente deva ser dada a seus futuros atos deveria ser com justiça bem diferente. Por que .163 R. inteligente. De fato já é um delinqüente banal e logo chegaria à criminalidade se a ação profilática e tutelar da higiene mental não o impedisse. mas qual é a carga de tendências anti-sociais e qual o grau de inibição que guarda seu espírito. 89. No débil mental. não devemos nos contentar em saber qual é o valor de seu desenvolvimento intelectual. Estes indivíduos são igualmente dotados do ponto de vista intelectual e. ser também feliz nos amores. Enquanto aquele se limita a sonhar com um inofensivo poder. Uma resposta acertada à mesma só pode ser dada estando de posse de outras duas classes de dados: 1° Quais são as exigências do meio em que vive o indivíduo? Dito doutra maneira: qual é a grande complicação psíquica das reações que deve efetuar habitualmente para adaptar-se a seu ambiente? 2° Quais são as características de sua personalidade do ponto de vista afetivo? Também dito de outra maneira: qual é a modalidade e a violência de suas tendências apetitivas e repulsivas e por conseguinte qual é seu potencial de delito. que carece da possibilidade de basear sua conduta em uma motivação abstrata. determinar uma conduta anti-social ou associal. ao passo que a do segundo é considerável. Sempre estou cheio de injustiça porque ninguém me respeita e todos me maltratam meus pais são uns verdugos e os que lhes dão atenção são uns ladrões. como diante de qualquer outro indivíduo. por conseguinte. feliz nos amores. poderoso. antes de tudo. em relação com sua responsabilidade e com sua capacidade civil? Eis aqui uma pergunta certamente difícil de responder em termos gerais. nos interessa. Para termos uma idéia de seu valor bastará compararmos as respostas dadas a dois questionários íntimos para o estudo da afetividade por dois indivíduos cujo quociente intelectual é idêntico.e agradam. os mesmos postulados que já assinalamos no campo da psicologia normal: na determinação da conduta o valor do fator intelectual é muito menos importante do que o tipo temperamental e a modalidade caracterológica (resultante de ambos e da experiência vital). -Se lhe desse a escolher entre ser: sábio. no entanto. conforme for o resultado da luta entre sua agressividade e seu desejo de evitar o sofrimento. VALORIZAÇÃO MENTAL JURÍDICA DA DEBILIDADE Que valor devemos conceder à constatação de um estado (congênito ou adquirido) mental de debilidade do indivíduo. bom. forte. paciente e só pudesse ter duas dessas qualidades. todo débil mental no qual predomine o medo sobre a cólera é apenas um . no terreno da oligofrenia. Isto quer dizer que diante de todo débil mental. belo. igualou inferior a seu medo diante dele. quais escolheria? R.

o débil mental com reação reivindicatória. que via de regra são seus próprios parentes ou tutores.da consciência moral. Por exceção podem ser encontrados débeis mentais nos quais a libido sexualis insatisfeita se sublime grosseiramente sob a forma de bajulação pegajosa e obediência às pessoas que o rodeiam. Daí a maior necessidade de investigar nos oligofrênicos suas modalidades temperamentais (que. quanto o ato de testar. pois. A lei deixa ao critério do tabelião a decisão de outorgar ou não o testamento. isto é.criando então uma pobre fantasia temática.Talvez de todos os dados que integram o presente estudo seja este o que mais cedo perca sua atualidade. sua psicogenia é absolutamente diferente. com pleno conhecimento de se o que testa tem ou não a suficiente capacidade e independência de juízo.parte de fatos certos. isto é. Não obstante. com a qual procura obter a todo momento a proteção (ação centrípeta) dos demais contra seus supostos ofensores ou inimigos. respectivamente. mesmo neles se observa com freqüência a transformação colérica ou angustiosa de suas tendências reprodutoras. por outro lado.e portanto seu medo . Se na prática grande número de oligofrênicos não chega à criminal idade. incapazes como são de inibi-las ou dissimulá-las) se se quiser chegar a lhes poder dar um trato e assistência convenientes. Do ponto de vista jurídico convém assinalar a existência de um tipo de oligofrênico que à primeira vista pode confundir-se com o do paranóico pela tendência litigante de ambos. cedo ou tarde. baseado nisso. apesar de ser um dos mais difíceis de executar na vida e dos que. procurando submeter todo mundo a sua interpretação. é devido ao maior desenvolvimento que neles adquire o medo ao castigo e ao sofrimento. e. . uma vez que o mundo parece caminhar rapidamente para uma nova organização social. a idéias delirantes de tipo reivindicador (agressivo) ou persecutório ( defensivo).comumente dotado de uma inteligência brilhante . enquanto o paranóico . Valorização da capacidade testamentária. mas essa lei não considera que nem na carreira de Direito nem no programa de oposições a Cartórios figura o estudo dos meios de que pode e deve se valer quem pretende tomar tal decisão para levá-la a termo de uma maneira justa. em geral. todo débil mental.164 delinqüente latente e circunstancial. mostra-se um indivíduo cujo potencial de delito está aumentado. costuma partir de fatos mal observados (dados incompletos ou deformados) que exaltam a íntima convicção de sua insuficiência . Nestas condições uma valorização exata de sua responsabilidade só pode ser levada a termo após prévia ponderação de cada uma das poderosas forças emocionais que são capazes de dirigir sua conduta sem ter que lutar com o obstáculo sempre presente nos indivíduos normais . De um modo geral. por conseguinte. costuma ser efetuado com as mínimas garantias práticas de justiça. só pelo fato de o ser. cheia de contradições lógicas. Mas não há dúvida de que atualmente se faz tanto mais necessário escrevê-lo. que interpreta de um modo egocêntrico. mas. exige uma melhor disposição de todas as aptidões psíquicas. se manifestam com muito mais nitidez. é praticado (ou deveria ser praticado) pela grande maioria dos mortais e. Não basta . dando lugar.saber que um indivíduo quer realmente fazer um . dá largas a seu orgulho (hipervalorização do eu) de um modo centrífugo.como se faz ordinariamente . ao contrário.

Uma pessoa com idéias obsessivas. mas também do maior número possível de pessoas (e não somente como agora se faz. Ou dito de outro modo. ao contrário. Por isso não se poderia outorgar nenhum testamento sem a intervenção de um perito psicológico. obtendo-os não só do interessado. nos quais os peritos quase sempre intervêm a posteriori. de um ponto de vista prático e humanitário. o testador se acha com dificuldades de expressão verbal (diversas formas de afasia). e sim deve-se averiguar se sua volição é determinada por motivos psíquicos normais. Mais prático talvez seria ministrar aos tabeliães para que pudessem livrar-se de seu empirismo em matéria tão delicada . constitui sua melhor Salvaguarda. o testador goza de boa saúde aparente. os meios a empregar para seu reconhecimento psicológico têm que ser diferentes no que se refere ao exame direto do indivíduo. 90. quando se dirigem à recoleção de seus antecedentes psicobiográficos. Com efeito. Como se compreende. mas sim. acontece aqui o mesmo que em todos os demais problemas psicojurídicos: o jurista tende somente a valorizar como sinal patológico as perturbações da inteligência e em troca descuida as da afetividade. uma vez que tal atuação tem que evitar que o testador seja enganado (por sua própria razão ou por outrem). para deduzir que se encontra em condições de outorgar o testamento. 2°. quando sua ação é menos eficaz e científica. Três casos principais podem apresentar-se: 1 °. isto é. mas acha-se gravemente enfermo. É de esperarse que não demore muito tempo para legislar-se acerca desta matéria. normal e patológica. de um ou dois parentes). em casos de urgência. Vejamos agora quais os meios gerais de que se pode valer para isso.os suficientes ensinamentos de psicologia.165 determinado testamento. e. é valer-se de um questionário-tipo que como norma deveria ser . deve-se estudar a motivação das decisões testamentárias em toda sua amplitude e complexidade. mas coincidem. SE QUER EVITAR UMA ULTERIOR E JUSTIFICADA IMPUGNAÇÃO ? O melhor. cola idéias sugeridas ou mesmo com idéias delirantes bem sistematizadas. é conveniente que os tabeliães tenham à sua disposição algum meio de reconhecer. QUE DEVE O TABELIÃO SABER OU PROCURAR AVERIGUAR ANTES DE ACEDER A AUTORIZAR UM TESTAMENTO. com o maior escrúpulo possível. é capaz de responder corretamente às perguntas que costumam ser formuladas no ato de testar. entretanto. Por isso à grande maioria dos tabeliães basta ver que o testador é capaz de manter uma palestra banal. que o tabelião deveria conhecer sempre. 3°. se o testador está ou não em condições de integridade mental suficientes para praticar o ato que deseja. em troca. E note-se que isso não supõe absolutamente a restrição dos direitos individuais. o testador pode falar bem. se se deseja evitar o número notável de injustiças que diariamente são cometidas neste aspecto. no entanto. em consciência e de lato não se encontra em condições de arbítrio para poder testar. cuja ausência é a causa de grande número de processos de nulidade de testamento.

Mas. Diga se fez outro testamento antes deste. podemos dizer que bem poucos serão os casos de anormalidade mental que não cheguem a ser postos de manifesto com esta técnica. Se possível. antes de praticar o ato testamentário. se puder. 9. Vai fazer o presente testamento por seu próprio impulso ou acedendo a insinuações ou petições de alguma ou algumas pessoas? No segundo caso. diga quais os motivos que o levaram a modificar o testamento anterior. conhece melhor. quem são estas? Compreende-se claramente que o questionário só poderá ser inteiramente respondido e nas condições antes citadas em um pequeno número de casos. indicando em cada caso o grau de parentesco. Sofreu você alguma vez um transtorno nervoso ou mental? 11. qual lhe parece ser a causa da aversão do mesmo a você. com seu testamento. acredita que prejudica a alguém. Diga quais de seus parentes você acredita que atualmente estão dispostos a fazer se necessário . com seu testamento. Diga se. 8. Diga se. 4. Enumere quais são os parentes que V. Em caso afirmativo. em todos os casos o que nos importa é apresentar ao indivíduo uma oportunidade para que nos mostre seu estado mental com a maior espontaneidade e independência possíveis. 6. Se isso for feito. Conhece você atualmente alguém que julga capaz de impugnar seu testamento? Em caso afirmativo diga: quem é. Em caso afirmativo.um sacrifício de dinheiro em seu favor. por conseguinte. diga quem pode ser favorecido e quais são as razões que V. 1. ponha o tempo aproximado que viveu com elas. V. Enumere do modo mais exato possível quais são os bens que você pensa outorgar no testamento e o valor aproximado de cada um deles. a sós. 3. em caso afirmativo diga. Se possível. Por isso não há inconveniente em que as anteriores perguntas lhe sejam explicadas e postas ao alcance de sua cultura e inteligência. Você não deve incluir nesta lista mais do que seus nomes e sobrenomes e sua idade aproximada se os conhecer. e de que forma lhe parece poderia ser impugnado e por que motivos suspeita você que isso poderia ser feito? Que acredita você deveria ser feito com quem procedesse assim? 14. 2. em casa do tabelião. Enumere quais são as pessoas de sua família com as quais viveu sob o mesmo teto e às quais. confidencialmente. . Acredita você que seu modo de ser e seu caráter são normais? 12. V. Em caso afirmativo. acredita que favorece a alguém. tem. 5. 7. diga quem pode ser prejudicado.166 preenchido pelo indivíduo. Acredita você que este testamento possa ser impugnado com argumentos razoáveis no dia de amanhã? 13. Diga de que forma deseja que sejam distribuídos seus bens no caso de seu falecimento. Exponha também as razões que tem para proceder assim. Responda se entre seus parentes existe algum ou alguns que lhe têm antipatia. mas em troca deve fazerse com que o testador fique só com o tabelião para responder-lhe (por escrito ou verbalmente se não souber escrever). 10. este questionário será respondido por escrito pelo interessado. tem para favorecê-lo.

não fica uma só função mental que não seja examinada através das perguntas antes expostas. O primeiro grupo (indivíduos com idéias de perseguição ou de prejuízo) responde preferentemente de modo anormal às perguntas quarta. se é impossível QUE CONDUTA DEVERIA SEGUIR-SE ANTE . pedir colaboração de um perito neuropsiquiatra. Por outro lado. No segundo. sétima. neles evidencia-se também a maior ou menor coerência da atividade discursiva (direção do pensamento) em função da ordem ou sistematização com que o indivíduo expõe os dados exigidos. não tardará a confirmar a existência de uma anormalidade. décima primeira e décima terceira. ou servirá para afastar tal hipótese. os impulsivos e os abúlicos (sugestionáveis). O resto. sexta.relacionada com o ato de testamento. UM TESTADOR QUE TEM DIFICULDADES DE EXPRESSÃO OU QUE SE ENCONTRA MORIBUNDO ? Nossa opinião concreta é: no primeiro caso. servirá de ponto de partida para um interrogatório oral que. se dirigido com certa habilidade. isto é.delirante ou não . o valor intelectual do examinado. Com efeito. Todos eles são capazes de se mostrarem normais em um exame superficial. 91. Quanto ao terceiro. são três os grupos de indivíduos aparentemente normais que com maior freqüência fazem testamentos injustos: os perseguidos. O segundo evidencia-se principalmente por sua reação agressiva diante da totalidade do questionário (raramente se consegue que o termine sem protestar) e por suas anormais respostas às questões décima. expressa na resposta que Costumam dar à questão décima primeira. nem é preciso dizer que uma resposta suspeita. seja qual for. recusar absolutamente todo ato testamentário se o interessado se encontra em período agônico e solicitar. o mesmo se dando com a quinta. se ainda não o tiver. sistematicamente o parecer pericial. oitava. As perguntas terceira. em troca. décima segunda. As duas primeiras servem antes de tudo para pôr a descoberto sua memória e sua atenção. décima terceira e décima quarta. como no caso anterior. como já se depreende. décima segunda e décima terceira são as mais aptas para pôr de manifesto a capacidade de compreensão e de crítica. especialmente. Em tais casos. a questão décima quarta é igualmente respondida de um modo anormal por esses indivíduos.167 Com efeito. é destinado a pôr em relevo suas qualidades afetivas e caracterológicas e a evidenciar toda atitude patológica . mas em troca se deixam facilmente reconhecer por suas respostas ao questionário antes citado. é freqüente que se manifeste tipicamente pela pobreza e indecisão de suas respostas (geralmente do tipo dubitativo: "não sei") e pela autoconsciência de seu transtorno.

que eu digo: "lápis. me repetirá as mesmas palavras que eu disse.168 obter a colaboração pericial. lençol. em casos de extrema urgência. Compreendeu?" Com o fim de ver se estas instruções foram realmente compreendidas faz-se uma experiência com as palavras: "casa. Tenha-se em conta que todos os meninos normais de nove anos a efetuam satisfatoriamente e que. uma ordem inversa. deve-se poupar-lhe esforços e tempo de atenção. e sim passa-se à série seguinte. existe uma prova que permita orientar-se rapidamente com relação ao estado de lucidez do indivíduo? Atrevemo-nos a propor para isso a de inversão de símbolos. na primeira será pedida a reprodução direta das palavras ou algarismos e na segunda. E eis aqui o importante: muitas das pessoas que fracassariam nesta prova seriam." Corrige-se o indivíduo se ele cometeu um erro. seguindo porém. Depois de cada série. cadeira. as instruções que devem ser dadas lentamente e elevando a voz suficientemente para ter a segurança de ser ouvido: "Para ver se você se acha em condições de poder outorgar testamento agora.a um longo interrogatório. isto é. de nos citar datas de acontecimentos passados e mesmo manter uma conversação corrente acerca de ato que vão efetuar! Naturalmente se compreende que. Suponha. escada. feita a seguir. sob nenhum pretexto repete-se a experiência. por conseguinte. A prova é considerada "passada" se a pessoa é capaz de inverter corretamente pelo menos quatro das seis séries de estímulos. travesseiro) até que se tem a certeza de poder passar à prova propriamente dita. ao contrário de como eu as disse. a prova que acabamos de expor é a melhor de que o tabelião se pode valer. prato. Eis. mas começando pela última e terminando pela primeira. por exemplo. Você procurará gravá-las bem em sua memória e em seguida as dirá. no entanto. aguarda-se a resposta do indivíduo. isto é. rogo-lhe que se fixe em umas palavras que lhe vou dizer. donde a conveniência de comprimir as palavras destinadas a certificar-se . Apesar de sua aparente ingenuidade. Mesmo os indivíduos menos cultos (iletrados) são capazes (se não tiverem antes uma oligofrenia que os inabilite por si mesmos para testar de fIxar de ouvido quatro símbolos verbais simples e reproduzi-los na ordem inversa. Esta consistirá em pronunciar com intervalo de um segundo e de um modo monótono três séries de quatro palavras e três séries de quatro algarismos (advertindo antes o indivíduo que vão ser dados algarismos e dando também um exemplo de três algarismos para ver se se adapta ao novo material). cama. papel. capazes de recitar de memória (por conservação dos automatismos) longas orações ou versos. explica-se-lhe em que consiste e se renova a experiência (mesa. às vezes. de modo concreto. A impossibilidade de efetuar essa operação mental com êxito é um dado mais do que suficiente para demonstrar a ausência no indivíduo da lucidez necessária para testar. o fracasso na mesma do que pretende testar indica que naquele momento não dispõe da capacidade de concentração da atenção e da intelecção que são próprias dessa idade. papel. lápis". para decidir se o testador tem ou não lucidez de consciência. é impossível submeter o testador em grave estado físico . tinta". Tratando-se de indivíduos de pouca ou nula cultura pode-se permitir a divisão da prova em duas partes. você deverá então dizer-me: "tinta. porta. a reprodução invertida.

por isso. 7°) Falta de autocrítica. do mesmo modo como a partir de um retrato concebemos de versos tipos de caricaturas. para ver como reage. sua identificação essencial como o "facies" normal. que estudou detidamente a vida e a conduta de numerosos psicopatas "superiores" (que triunfaram em diversos aspectos da vida social). Tão difícil é encontrar uma pessoa que não apresente nenhum traço psicopático como encontrar um corpo ou uma face de proporções perfeitas do ponto de vista estético. 4°) Falta de constância. . 92. Mas também é interessante conhecer sua capacidade de resistência à sugestão. por isso não incorremos em exagero ao dizer que a imensa maioria dos indivíduos normais é possível incluir em alguns dos tipos. 11 °) Tendência à fantasia. ao se exagerarem. 5°) Falta de sinceridade. em suas formas mais leves. 10°) Incapacidade de seguir um plano de vida. só uma minoria atingirá uma exata superposição com eles. primeiramente. de sorte que estas. que motivem respostas inexatas. conduzem aos diferentes tipos de personalidade psicopática. do mesmo modo que numa caricatura é freqüente que exista mais de um elemento caricaturado. assim também a partir da personalidade normal podemos considerar vários tipos de personalidades psicopáticas. 8°) Egoísmo exagerado. ESTUDO E VALORIZAÇÃO JURÍDICA DAS PERSONALIDADES PSICOPÃTICAS Ao tratar do conceito da personalidade normal manifesto que esta contém em germe todas as tendências de reação que. sendo freqüente na prática que coincidam duas ou mais modalidades das mesmas em um mesmo indivíduo. 13°) Vida sexual desajustada. embora. 9°) Pobreza afetiva. 6°) Falta de pudor e ética. apesar do que continuamos reconhecendo. Esses vêm a ser. Vejamos. por conseguinte. assim também. será conveniente submetê-lo a algumas perguntas sugestivas e a outras coativas. No entanto. além das perguntas e provas citadas. da personalidade normal à psicótica através das personalidades psicopáticas. em síntese.Para a compreensão . mal se distinguem da primeira. seu grau de autodeterminação e de autocrítica. ao passo que em suas formas mais exageradas se confundem com a segunda. 12°) Propensão aos vícios. esta pode transformar-se em personalidade psicótica. a caricatura dela e. Assim concebidas as coisas. por gradações insensíveis. segundo os elementos faciais sejam exagerados ou diminuídos.169 se sua capacidade de julgamento está conservada. esta pode adquirir um aspecto monstruoso que nos impeça o reconhecimento de sua identidade com o retrato ou modelo que primitivamente a originou. é claro. o tipo denominado mitômano: Personalidade Mitômana. isto é. em uma personalidade decididamente mórbida e totalmente distinta da normal. isto é. O professor Hervey Cleckley. compreendemos que se pode passar. assim resume suas características mais comuns: 1°) Atração pessoal superficial e boa inteligência. se se chega a exagerar uma personalidade psicopática. 2°) Ausência de delírios. se se chega a exagerar uma caricatura. 3°) Ausência de crises. Confabutadora ou Pseudológica.

mas a afirme com um propósito utilitário. em troca. o tipo de personalidade mitômana. Se nos fixarmos no que acabamos de expor. o ignorante e o débil acusam um predomínio da segunda. diz-se então que o indivíduo está enganado e o produto de tal estado denomina-se erro. por outro lado. mas se entregue a essa crença insuficiente e a admita como verdadeira sob a influência de um estado sugestivo (entendendo por este. Que acredite na certeza dela. Este tipo. se confunde em muitos casos com o tipo de personalidade histérica. 4°. O homem de ciência distingue-se pela maior quantidade da primeira. nesse caso afirma em falso. o perverso apresenta uma abundância da terceira e o neurótico mostra. autosugestiva. é sua reduzida capacidade de autocrítica refletida. Pois bem.170 psicológica deste tipo é preciso uma ligeira aquisição anterior que defina claramente em que consiste o processo pseudológico (mitomaníaco ou confabulatório) que o caracteriza. um grande número das últimas. 3°. projetando-as no plano da realidade exterior. entretanto. 2°. veremos que qualquer de nós tem em seu haver uma relativa proporção de cada uma destas quatro classes de elementos do conhecimento que se denominam verdades. invertendo-se então a direção do processo psíquico normal e dando lugar a que ao invés de acreditar nas coisas tais como são. é encontrada sempre que uma intensa tendência afetiva encontra nela sua satisfação. também assinalada por Dupré com o nome de "ideoplastia". de outro).que também criam complicações e . isto é. ser identificado com ela. erros. o que resulta da supressão da função de autocrítica e a formação de um curto-circuito que conduz à convicção sem a fase deliberativa anterior). Que acredite na certeza da mesma e esta exista em realidade. mentiras e confabulações. confabuladora ou pseudológica se encontra caracterizado pelo predomínio e riqueza de suas confabulações. a personalidade histérica apresenta outra característica. no entanto. por Dupré. Que somente acredite parcialmente no que diz. mas a recíproca não é exata e. Na prática estes tipos mitômanos passam por pessoas de grande fantasia e pouca vontade. que consiste em uma maior facilidade para a conversão do potencial psíquico das tendências em energia fisica (manifestada sob a forma de ações ou inibições musculares. Tal crença parcial. Que não acredite em sua certeza. contraturas e paralisias). como já indicamos antes. que vivem de ilusões e são amigas de fazer enredos. diz uma mentira. mas a afirmação seja falsa. também denominado "imaginativo". em virtude da qual seu juízo de realidade se deixa vencer facilmente pelas aparências internas. mas não deve. Pode-se dizer sem temor de exagero que no histérico todo estado psíquico tem sua correspondente tradução em uma modificação orgânica (graças à diminuição do limiar da sinapse córticoestriada. O que essencialmente as caracteriza. Quando um indivíduo faz uma afirmação podem acontecer os seguintes casos: 1°. Todas as personalidades histéricas são confabuladoras. isto é. acreditamos que são como queremos que sejam. e da sinapse medulo-esplâncnica. O que distingue estes tipos dos "perversos" . de um lado.

bate em retirada e respondendo cada vez com maior veracidade . Considerados em seu conjunto. O máximo que os meninos podem dizer é "sua" verdade e esta só excepcionalmente coincide com a dos adultos. quando se vê cercado pelos fatos. débeis mentais etc. que se defende até o último instante e é capaz de negar serenamente a evidência contrária. mas esta tendência confabuladora que para nós é "uma brincadeira" se transforma em uma "necessidade" e adquire o caráter de um "impulso" os tipos que acabamos de descrever. como todos os demais. o mesmo pode dizer-se acerca do grau de confiança que é possível conceder a todos seus testemunhos. O mentiroso rodeia sua mentira do maior número possível de verdades para que passe inadvertida. velhos. em oposição à perfeita conexão lógica com que os segundos preparam suas mentiras.como o resto das mentalidades primitivas . qualificando-o pelo menos como "exagerado". sem preocuparse com as conseqüências ulteriores. Não sei quem foi o iludido que afirmou que os meninos dizem sempre a verdade. deixando-se levar por sua corrente afetiva. todos nós confabulamos diariamente e até mentimos . já dissemos que o tipo mitômano. ao passo que o tipo perverso ou mentiroso é mais freqüente entre os temperamentos esquizóides.ao contrário do que faz o autêntico mentiroso. confabuladores ou pseudológicos são encontrados em personalidades débeis (crianças. . lança sua confabulação envolta em um acúmulo de inexatidões. E como não é guiado por uma verdadeira intenção perversa. por outro lado. é conseqüente em sua atitude confabuladorae isso faz com que logo seja conhecido pelos que o rodeiam. se nisso vir uma utilidade. o confabulador. quando todos eles .). os tipos confabuladores se distinguem por sua grande expressividade emotiva. a distinção deste tipo. Ainda se pode acrescentar que os tipos mitomaníacos. só o preocupa o efeito imediato.é. além disso. que os dos primeiros). O tipo confabulador. Com efeito. grandemente. mitômano ou pseudológico. armado de sua hipocrisia.171 situações falsas .tendem fisiologicamente à confabulação. Ainda mais. Em troca. facilmente comprováveis. No fundo. Do ponto de vista do jurista interessa. mulheres. por exemplo) se mostrará enormemente modificada conforme se admita ou não sua existência e. precisamente. inclusive perante seus parentes (e mais comum ente diante destes que diante dos demais). a satisfação direta do seu desejo de poder. ao passo que os perversos podem ser encontrados em personalidades de grande nível intelectual e conativo. o perverso mentiroso. a puerilidade do arcabouço mitomaníaco dos primeiros.por alguma coisa que se falou da "comédia da vida". embora capazes de fingi-Ia admiravelmente. como é natural. além disso. tem raízes no temperamento psicológico normal. costumam ter um grande domínio de seus estados afetivos (menos intensos. e só mente de novo quando se vê "apanhado" ou a ponto de o ser. porquanto a responsabilidade que se lhe pode imputar por seus embustes (falsas acusações. se admitimos com Kretschmer a dualidade temperamental do gênero humano. teremos que confessar que o tipo mitômano é mais facilmente encontrado nos temperamentos sinfônicos ou ciclotímicos. ao passo que os perversos. pode passar por ser totalmente o contrário. Em troca.

as reações instintivas. No tipo de personalidade histérica predominam os fatores afetivos sobre todos os demais da vida psíquica. será bom assinalar que se trata de uma pobre imaginação. tom quase sempre declamatório e enfático na narração. como acontece geralmente. isto é. de elementos representativos. emocionais.Trata-se de indivíduos. o essencial do mesmo não é tanto sua persistente tendência à ficção como a intensa habilidade.diante de um observador pouco experimentado . nos quais uma grande mobilidade de seus processos psíquicos pode . por fim. sempre ilustrada com multiplicidade de gestos e onomatopéias). mas muito simplista e cândida. Somente as pessoas que têm bons materiais elaboram boas obras. de baixo nível mental.proporcionar a falsa ilusão de sua abundância. a tendência à desagregação ou dissociação da personalidade. . Por tudo isto é de convir que o jurista considere sempre este tipo de personalidade como um tipo verdadeiramente inferior ao normal e inclusive mais apto para merecer medidas de proteção do que de ataque. e em realidade tem muitas características comuns. com detalhes secundários completamente falsos mas sem importância. a saber. alguma coisa semelhante ao contínuo ir e vir dos esquilos ou ao repetido desfile de poucos comparsas que dão a sensação de multidão nas representações teatrais. Com efeito. confabulador ou pseudológico. a imaginação verdadeiramente rica encontra-se sempre a serviço do talento e repousa sobre um fundo perceptivo muito amplo e preciso. automáticas. As pessoas cobrem piedosamente esta pobreza intelectual dos confabuladores outorgando-lhes o título de pessoas de grande "imaginação". Valorização jurídica do tipo mitômano. por serem confundidas com as personalidades perversas. de uma capacidade de combinação muito viva. as pessoas mitômanas se vêem muito a miúdo envoltas em processos por difamação ou calúnia. superficialidade na observação dos caracteres essenciais do fato ou situação referidos. Com efeito. Não obstante.172 De que meios pode se valer o jurista para reconhecer um tipo mitômano? . facilidade para aceitar as modificações que de forma sugestiva se proponham à descrição espontânea. como já indicamos. imaginativas e inconscientes. 93. Como traços distintivos das pessoas de constituição histérica podem ser assinalados: a insuficiente distinção entre o mundo real (lógico) e o imaginativo (autístico ou fantástico). TIPO PITIÁTICA DE PERSONALIDADE HISTÉRICA OU É apresentado em seguida ao anterior porque é geralmente confundido com ele. No entanto. a superficialidade e o aparente exagero (dramatismo) das reações psíquicas e. a . (Descrição hiperbólica. inconstância e influenciabilidade de seus sentimentos e emoções. que se manifestam sob a forma de uma grande auto e hetero-sugestibilidade. e isso acarreta um tipo de conduta no qual preponderam todas as formas inferiores (primitivas) de reação psíquica. o que leva o indivíduo a uma fácil confusão dos planos subjetivo e objetivo.O mais prático é o de solicitar seu concurso para obter uma descrição minuciosa de qualquer fato ou situação que foram observados diretamente pela pessoa em questão.

descrever a multiformidade de manifestações patológicas que podem ser observadas nos tipos histéricos quando sua . passando a constituir "complexos" e deixando-a. aos quais só afetam em determinadas funções (um histérico não terá esse ou aquele músculo sempre paralisado.pela grande sugestibilidade dessas pessoas . 3°. sua exclusiva modificação e supressão por meios puramente psíquicos. ou seja a grande facilidade com que todo estado psíquico se manifesta numa modificação somática ostensiva. O segundo dá conta por sua vez da denominada "estreiteza do campo da consciência" que se observa nestes casos (uma vez que um bom número de vivências ou experiências psíquicas se desagregaram do núcleo da personalidade consciente. espasmos.173 denominada ideoplastia. sofrimento de uma agressão física qualquer) as conseqüências aparentes do traumatismo sofrido serão agravadas pela predisposição antes citada e o indivíduo ficará cego. sua brusca apresentação. como acusados ou simplesmente como testemunhas ou informantes. isto é. empobrecida). 4°. ou sofrerá de dores insuportáveis. impressionante. segundo as circunstâncias e segundo a experiência de quem o tratar. durante os quais "sonham acordados" ou "vivem sonhando".darão lugar à apresentação de” falsas lembranças" que confundirão enormemente o sumário. comer. ou paralítico. ex. de sorte que em nenhum indivíduo como no histérico pode-se dizer tão bem que o "corpo reflete o que ocorre no espírito". e o quarto o é da facilidade com que nas pessoas deste tipo ficam corporeamente fixados (sob a forma de paralisias. complicarão enormemente as ações judiciárias..). mas exibirá. atos nos quais intervém o conjunto da personalidade psicofisica). pois quer atuem como vítimas. Torna-se impossível e tampouco é nosso objetivo . Isto explica igualmente a facilidade com que estes indivíduos são hipnotizados ou exibem estados de semivigília (sonambulismo histérico). p. 2°. No primeiro caso (acidentes do trabalho. ou se mostrará completamente desorientado (estado onírico histérico) durante um tempo mais ou menos longo. O primeiro dos caracteres que assinalamos explica a tendência involuntária à deformação da verdade que se observa em tais pessoas (deficientes na distinção entre o que "é" e o que "parece ser"). 5°. contraturas etc. uma impotência para andar.) os potenciais das tendências de reação reprimidas (emoções e desejos insatisfeitos). sua extensão a "conjuntos orgânicos".. No segundo e terceiro casos lutará o jurista contra as "amnésias". ou mudo. Nem é preciso dizer que os tipos de personalidade histérica apresentam grande interesse para o jurista. perdas de memória que se agravarão pelo interrogatório inadequado “ou então . daí assim dizer. escrever etc. Os sintomas então observados (de psiconeurose histérica) costumam ser reconhecíveis como de caráter histérico em virtude destas particularidades: 1°. isto é. vestir-se. O terceiro caráter é responsável pela "distratibilidade". sua intencionalidade (têm um fim: obedecem às denominadas "direções volitivas subconscientes". seu caráter teatral. Os indivíduos de constituição histérica se acham predestinados a exibir reações patológicas quando entram em conflitos sérios com o ambiente.

ou suscetível e desconfiada como um paranóide. os inclui (por insuficiente capacidade de inibição) no primeiro parágrafo do artigo 65 do moderno Código Penal espanhol (1928). 94 TIPO PILEPTÓIDE DE PERSONALIDADE EXPLOSIVA OU . sem que por isso lhes deva ser aplicado o título de "personalidades psicopáticas" (histéricas). Bleuler lhes concede plena responsabilidade fora de suas crises. No entanto. com efeito. ou instável como um ciclotímico. ou reage aparentando sublimes sacrifícios silenciosos. em troca. tudo depende do crédito outorgado a suas atuações pelos que os rodeiam. Com efeito. que são muitas as pessoas que exibem traços histéricos a posteriori de seu conflito com as leis. ao passo que outros são desprezados ou mesmo odiados. Através de toda sua conduta. De qualquer modo. de acordo com as relações afetivas que saiba despertar nos julgadores.174 natural hiperexcitabilidade se encontra exaltada por sua intervenção em um assunto judicial. a condição prévia para qualquer conclusão é a de poder delimitar com exatidão a influência que os fatores constitucionais puderam ter na ação delituosa. Deve-se ter em conta. pode bem dizer-se que são os maiores inimigos dos administradores de justiça. exatamente como procedem as mentalidades pré-lógicas (falou-se com razão de um histerismo infantil normal ).Talvez este tipo seja aquele cuja valorização sofra mais modificação na vida social. Em geral não há dúvida de que a personalidade histérica adota quase sempre um papel de vítima queixosa em todas as situações. torna-se difícil ditar normas gerais para a valorização de seus atos. pois segundo o estado em que os comete pode ser julgado com maior ou menor benevolência. uma pessoa de tipo histérico pode apresentar em certas ocasiões sintomas de desagregação psíquica e afastamento da realidade que nos fazem pensar no tipo esquizóide ou se mostrará impulsiva como um tipo explosivo ou inerte como um psicastênico. Tende a considerar que os indivíduos de constituição histérica devem estar sujeitos a um regime de responsabilidade atenuada. Assim. KraftEbing solicitava a irresponsabilidade para os atos delituosos cometidos pelas mulheres histéricas durante a menstruação (psicose menstrual). pois contêm um pouco de mau de cada uma das diversas personalidades psicopáticas. um observador atento poderá ver de todos os modos o desejo de obter a aprovação (compassiva ou admiradora) dos estranhos utilizando sempre mecanismos inferiores de reação (hipnóticos e hipobúlicos de Kretschmer). Valorização jurídica da personalidade histérica. . ou complicadora como um mitômano. ou mal intencionada como um perverso. quando em realidade atua como pequeno tirano dos seus. a nosso ver acertadamente. sem o quererem. existem tipos desta personalidade verdadeiramente mimados por seus parentes e conhecidos. Ruiz Maya. Moracha declara irresponsáveis todos os histéricos. com as quais podem alternadamente confundir-se. Entre nós.

" Em alguns casos a reação explosiva é posta a serviço de outras tendências emocionais. esperar para vender um par de sapatos. e pela lentidão habitual de suas reações intelectuais (fatores que foram reunidos sob o qualificativo comum de "viscosidade psíquica"). . voltando a ela com uma lata de gasolina e ateando-lhe fogo. embora não sofram verdadeiros ataques do mal comicial (crises convulsivas) necessitam em sua maioria de um tratamento médico. A elas se aplica o ditado: "É pacífico. Eis um exemplo típico de conduta de um explosivo: "Por terem feito G. nas quais o característico é o modo brusco de sua aparição e a grande agressividade de que dão mostras os que a elas estão sujeitos. Estes indivíduos costumam exibir certa preguiça e lentidão (bradipsiquia) que contrasta com a contínua e aparente agitação dos tipos anteriores. de vez em quando. não sabia por que estava ferido nem se lembrava do que fizera desde o momento em que entrou na sapataria. se concentram ou acumulam para descarregarem-se bruscamente. mas quando mostra o gênio é terrível. As informações sobre G. sempre de um modo desproporcional aos estímulos que as desencadearam. embora um tanto concentrado e apresentando distrações inexplicáveis”. os indivíduos de tipo explosivo caracterizam-se pela violência de suas reações afetivas que. contrastam ainda mais suas crises de violência. longe de serem superficiais. A forma de reação emocional mais freqüente nessas pessoas é a cólera. como indicamos. sodomia. do tipo anterior.175 Ao contrário. revelam em muitos casos uma afetada amabilidade que se mostra até pegajosa. surge a reação "explosiva" que os caracteriza e durante a qual são capazes de levar a cabo as maiores atrocidades e injustiças. de alcoolismo ou de temperamentos psicopáticos (assim como também a presença de sífilis). Do ponto de vista jurídico as pessoas deste tipo são as que com maior freqüência cometem os denominados delitos de sangue imotivados. as personalidades explosivas. O indivíduo nega de boa fé ter pronunciado tais ou quais palavras ou praticado estas ou aquelas agressões e só conserva uma vaga idéia de sua conduta anormal. pederastia. Os indivíduos de personalidade explosiva são epilépticos latentes e. sadismo etc.) é cometida por pessoas desse tipo que por sua aparência dócil e conduta comum (que pode até chegar a ser humilde e beata) despistam o leigo em seu diagnóstico. até certo ponto. coincidiam em afirmar que de tratava de um jovem extremamente serviçal. mas. ele sofreu graves queimaduras e morreram no sinistro onze pessoas. Em sua infância registram-se com freqüência "fugas" da casa paterna e não é raro apresentarem acessos de dipsomania. Como se quisessem conscientemente reparar os defeitos de seu temperamento. sem que se possa logicamente predizer sua aparição. Interrogado no dia seguinte. São freqüentes em seus antecedentes familiares os casos de enxaqueca. originando então a aparição de paixões amorosa mais ou menos absurdas. e por isso os que as conhecem as temem mais do que apreciam. sendo a regra em tais casos a falta ulterior da lembrança das mesmas. o mesmo incendiou a loja cheia de gente. uma grande parte dos atos sexuais perversos ou repugnantes (exibicionismo. durante os quais ingerem grandes quantidades de líquidos (espirituosos ou não). Por isso. particularmente da sexual.

dão mostra de uma agilidade mental muito maior do que a que aparentam. Esses indivíduos têm. oposto à pegajosidade dos explosivos. como também a ampla. podem induzir a erro as reações um tanto bruscas e desproporcionadas que as personalidades ciclóides apresentam quando se encontram em período de exaltação (hipomania). sua frialdade para com o ambiente.. sua falta de interesse pelo meio. e ganha a luta o segundo. Por outro lado dão a impressão de originalidade e raridade (lunáticos) por seus maneirismos. A agressividade destes tipos é desde já. para demonstrar que apesar de sua aparente rigidez mental se trata de um irresponsável. no entanto. mas uma impotência dos mecanismos inibidores (vontade) para opor-se à reação agressiva que se desencadeia com toda a intensidade de sua energia atávica e não dá tempo para que aqueles atuem. são muito pobres de afetos e quase sempre se mostram ensimesmados. quando a ocasião é propícia. ser estabelecida fixando-nos no tempo psíquico. praticado de acordo com as modernas técnicas psico-experimentais. Em primeiro lugar surgem os tipos de personalidade esquizóide. capazes também de praticar graves delitos sem motivação aparente. Mas o distingue nitidamente não só o caráter de premeditação anterior da reação. . justificação que a posteriori procura dar dela. isto é. um caráter seco. sua conduta com quem quer que seja. isto é. uma ofuscação total do conhecimento. para moderar-se de novo. ao passo que a dos tipos explosivos (epileptóides) o está somente em função do tempo. baseada na interpretação torcida de seus antecedentes. quando em realidade bastaria o reconhecimento psicopatológico do indivíduo. que descreveremos a seguir. . por sua tendência ao isolamento e suas inexplicáveis mudanças de atitude.Com os dados já apontados será bem fácil distinguir este tipo de outros que também podem cometer reações violentas. como que impelida por uma mola ou explosão. nunca falam mais do que o necessário.. mas se acelera de repente. Nestes casos a distinção pode. no entanto. Pode-se dizer que em tais casos se estabelece uma corrida entre o cérebro e o mesencéfalo para ver qual dos dois se apodera antes das vias finais (final common paths) de eferência. Em troca.176 Diagnóstico Diferencial. Finalmente. Também pode dar lugar a confusão aparente o tipo paranóide. Valorização Jurídica. maior que a dos anteriores. O paranóide quer sempre ter razão e discute. tão difíceis de comprovar-se a posteriori. apenas se se recorre então às atenuantes de "arrebatamento e obcecação". na velocidade com que se desenvolvem os processos mentais em um e outro caso: enquanto nos tipos genuinamente explosivos essa é ordinariamente lenta.Esta é clara nos casos em que a presença de ataques convulsivos ou de "equivalentes" manifestos do mal comidal (Epilepsia) assinala que o indivíduo é um verdadeiro doente mental. ocasionando com isso um comportamento completamente automático do indivíduo perante um determinado . No entanto é preciso assinalar que em tais casos o que existe sempre. não é. Mas pode tornar-se muito difícil estabelecer com justiça se faltam esses concomitantes. mas se encontra estendida igualmente no tempo e no espaço. capaz de reagir violentamente diante de estímulos de pouca importância. nos tipos ciclóides que se encontram em período de exaltação se observa um uniforme aumento da velocidade do pensamento e da intensidade de suas reações psicomotoras. como o exigido pelos penalistas. acaba por complicar a distinção. detalhe por detalhe.

a influência de um profundo desequilíbrio afetivo. pois toda pessoa.em virtude de um processo de racionalização suas conclusões acham-se predeterminadas e embora cada um dos membros de sua cadeia silogística seja em si indestrutível. mas umas vezes o alimenta defeituosamente e outras o aplica ou dirige de modo inadequado. melhor do que para qualquer outro tipo. por sua conduta. a direção em que estes se desenvolvem é falsa. De qualquer modo o tipo paranóide utiliza . mas poucas vezes consegue satisfazer aos demais. como um menor de idade para os efeitos penais. o que ele chama amor à verdade e à justiça não passa de um apaixonado culto a seus modos de ver subjetivamente. PERSONALIDADE DE TIPO PARANÓIDE Assim como os tipos até agora descritos. a plena responsabilidade nos períodos de aparente normalidade é. de inicio. até o exagero. à primeira vista. O paranóide julga-se infalível em seus julgamentos e os reveste. cujos versos umas vezes não dizem o que querem (por encontrar antes o término que o princípio) e outras o dizem mal. pelo menos. o que se traduz em uma conduta desprovida de altruísmo.mais intensos nele que em nenhum outro tipo de personalidade .nos dizem intimamente muitas destas pessoas mas uma força irresistível me impele então a executá-las"). injusto. mas esquece que os dados elementares que manipula (impressões ou vivências) lhe são fornecidos. o tipo paranóide se comporta como os maus poetas. em cada caso. E. O critério eclético de considerar estes indivíduos irresponsáveis pelos atos que praticam durante uma descarga explosiva. no entanto. Destarte. dando-lhes. sem que por isso se possa dizer que se encontra de todo suprimida a capacidade de raciocinar de um modo puramente passivo sobre o que está fazendo. a teimosia e a desconfiança. a impressão de ser antes de tudo um indivíduo raciocinante em alto grau e amigo. Ambos coincidem em afirmar que nela se dá uma hipertrofia do "eu" ou.e esquece também que . o paranóide produz.pelo . na prática de sua vida.segundo a escola psicanalítica . da autovalorização do mesmo. da verdade e da justiça.em aparência . parece escrita a máxima: "Dize-me do que te gabas e te direi do que careces”. partindo de fatos certos que interpreta torcidamente ou observando torcidamente fatos que então interpreta como se fossem certos. em principio. em verdade. Esta última explica-se . já deformados pelo processo catatímico . a verdade e a justiça.177 número de estímulos. ou se depreende. chegando sempre ao resultado de convencer a si próprio. dão uma impressão de falta de lógica e neles se vê desde o primeiro momento. em troca.Com efeito. de todo o aparato de uma argumentação silogística. 95. Os três defeitos principais que disso resultam são: a suscetibilidade. melhor. ao contrário. continuamente infringe os princípios que pretende defender. Para ele.. Um autor francês (Genil Perrin) e outro alemão (Gaupp) cada qual publicou recentemente trabalhos nos quais com grande fineza psicológica são analisados os traços característicos deste tipo de personalidade. pelo simples fato de possuir uma constituição mental deste tipo deveria ser considerada. ("Vejo que faço barbaridades .continuamente o instrumento de sua lógica.

O que verdadeiramente as define é. Na realidade. partícula negativa.Do ponto de vista jurídico este tipo paranóide é do maior interesse. ao contrário. pois aparece com a maior freqüência quase sempre como acusador. embora podendo ser em parte inicialmente certos. ao lado. sulco). pois na realidade poderia ser aplicada a quase todas as formas psicopáticas. no entanto.178 fundo moral perverso destes indivíduos ("pensa o ladrão que todos são de sua condição"). da qual deriva o vocábulo paranóide. destinadas a provar axiomaticamente a veracidade de suas deduções. .real ou suposto . as síndromes delirantes não são exclusivas nela sequer características das personalidades paranóides. de outro. e ainda hoje. segundo a qual a desconfiança não seria mais do que a tradução mais ou menos dissimulada do medo que todo o paranóide sente (por exagero de seu instinto de conservação) perante os ataques do ambiente. Valorização Jurídica. com efeito. digamos que os limites dessas denominações são tão fictícios que em muitos casos não depende do indivíduo em si. conhecimento). No entanto. Um modo fácil de confirmar as suspeitas de que se pode tratar de um desses tipos é o de pedir-lhe sua opinião acerca de matérias diferentes das que motivam a intervenção judicial.a seus direitos. Daí que durante vários decênios. por exemplo). noos. isto não está certo. Precisamente pela dificuldade de o distinguir-em seus graus leves . mas das circunstâncias exteriores (sua maior ou menor influência. de um lado. convém recomendar ao jurista a maior prudência ao lidar com o indivíduo que se estenda em argumentações minuciosas. pedindo satisfações (morais ou materiais) por vexames ou injustiças que. a energia com que sempre procuram impor aos demais os resultados (conclusões) a que chegam em virtude de seu desviado modo de pensar. muitas as atuais obras de Psiquiatria que descrevem como formas clínicas da paranóia todos os delírios não infecciosos. São. se tenha confundido por muitos a constituição mental paranóide com a denominada constituição ou predestinação delirante (de. Convém fazer notar que a etimologia da palavra paranóia. dando-lhes uma aparência de verossimilhança. é pouco feliz por sua impressão (para. No entanto. mais acertada parece a interpretação de Gaupp. por exemplo) o poderem ou não lhe ser atribuídas.do tipo normal. liros. a facilidade com que utilizam a função de autojustificação (Claparêde) e. E. Neste caso o paranóide costuma assinalar-se pela sua linguagem . "loucura pleitista" ou "psicopatia reivindicadora" ao conjunto de vivências e atos que nas personalidades deste tipo costumam desencadear-se em conseqüência de qualquer atentado . nem mesmo para o caso do denominado "delírio de interpretação". Tanto isto é verdade que em presença de um indivíduo que pense e acredite nos mais absurdos disparates. Por isso deu-se o nome de "delírio querulante". pois este pode ser observado em toda sua pureza em outros tipos de personalidade psicopática (nos melancólicos. não estão em relação com o vigor e a tenacidade empregados pelo indivíduo para obter sua reparação. bastará o fato de que não queira fazer com que os outros não acreditem neles para lhe ser negado o qualificativo de paranóide.

a ação que em potência representa. os casos de paranóia se enquadram). a psicose de invenção (delírios dos inventores) e a psicose reivindicatória. isto é. (Os modernos estudos vieram reforçar ainda mais esta noção ao determinarem (KolIe e outros) por meio da catamnese e da psicopatologia que. se bem que esta se efetue suficientemente deformada para que em realidade perca sua primitiva virulência. como um ajuste. Não obstante. para o psicopatologista. Todos eles representam uma satisfação especial de seus potenciais energéticos e os indivíduos os efetuam como um mal menor.mesmo quando chega a sofrer. uma das tendências em luta escapa momentaneamente à ação inibidora de sua contrária e então tem lugar. por conseguinte. se dá o nome de cerimoniais. TIPO DE PERSONALIDADE COMPULSIVA Este tipo tem de comum com o anterior o desejo de justificar até o extremo todos os seus atos. assim como toda agressividade do paranóide se dirige para o exterior e. que sem satisfazer a nenhum dos dois exércitos em luta (censura moral consciente ou superego e sadismo inconsciente) acalma embora só momentaneamente. por conseguinte. fugindo à discussão por desconfiança e mudando desde aquele momento sua atitude de relação com o contraditor. de um lado. o tipo compulsivo tem sua agressividade dirigida para o interior e se opõe a si mesmo. chegando às vezes a julgar-se um duplo ser. longe de ceder terreno. não uma reação. O característico destas personalidades é que. com argumentos razoáveis. Mas. sempre se encontra em oposição com os demais. a violência de sua luta. as conseqüências de seus atos como o indivíduo normal. isto é. O resultado desta oposição sistemática entre os aspectos positivo e negativo de seus raciocínios (duplicidade do curso do pensamento) é a contínua dúvida que caracteriza os indivíduos deste tipo e que por sua vez provoca sua indecisão e sua falta de eficiência para a vida prática. suas opiniões são via de regra absolutas e raramente confessa não conhecer suficientemente o assunto em questão para poder opinar. mas um verdadeiro processo paranóico . têm de si mesmas um íntimo conceito de insuficiência e em troca impõem a si a posse de um ideal de . de um modo brusco e impulsivo. Não obstante. Praticamente o tipo paranóide . enquadra-se na mesma classificação que os demais e merece apesar da aparente lucidez de seus raciocínios . 96. Aos atos em virtude dos quais as pessoas desse tipo chegam a evitar o sofrimento que Ihes imporia a realização direta de suas tendências censuradas. Os três gêneros de reações mais freqüentemente descritos nestes tipos são: o ciúme mórbido (mal denominado delírio de ciúmes). pela evolução e características formais de seus delírios. um composto de duas personalidades opostas entre si e encerradas em um mesmo corpo. mas o faz então em tom reticente.179 retumbante.não costuma ser reconhecido como patológico pelos juízes e sofre. às vezes. Outro processo é o de contradizê-lo suavemente. nega toda vali dez às objeções que lhe são feitas ou então finge aceitá-las.ser considerado como um deficitário psíquico. Neste caso o paranóide.

portanto. porque os argumentos que em seu favor sejam exibidos já são antecipadamente conhecidos pelo indivíduo e nada de novo lhe dizem. em muitas ocasiões. com efeito. Valorização Jurídica. O tipo de personalidade compulsiva tem. só serve quase sempre para patentear ainda mais a primitiva anormalidade de sua consciência. o indivíduo se vê aprisionado entre duas tendências igualmente potentes. se bem que o faça de um modo deformado e em aparência irreconhecível. O desejo consciente é. a modalidade de pensamento mágico que é característica das mentalidades primitivas e em virtude dela concede força e existência real a tudo que não é senão um produto de sua imaginação. em troca. O compulsivo acredita. 96. como já indicamos. a supercompensação (sob a forma de oposição afetiva) do verdadeiro inconsciente que é o que triunfa em realidade. mas é extremamente difícil. Via de regra. tanto mais herege será e quanto mais humilde quer se apresentar. Isso se compreende. e como acontece que estas sejam. com efeito. nesses casos o que precisa é argumentar contra os motivos reais da dúvida.Quantos litígios e quantas delongas poderiam os juristas evitar se ao se encontrarem diante de um destes tipos patológicos cuja escrupulosidade . tendem igualmente a impor-lhe as condutas pertinentes. contrariamente a seus propósitos. graças ao mecanismo de simbolização que utiliza. vê-se obrigado a ajustar sua conduta a tal pensamento com a mesma sujeição como se esse prejuízo já existisse em realidade. por conseguinte. quanto mais religioso deseja se mostrar. e se consome numa inquietação crescente sem decidir-se por nenhuma delas. subjetivo e objetivo. a pessoa normal ver qual a decisão que tomará em cada caso concreto desta dúvida. para não dizer impossível. se em um momento dado lhe ocorre pensar que o praticar ou deixar de praticar um determinado ato pode acarretar-lhe tal ou qual prejuízo. . Dá-se o caso de que todos seus pensamentos. das duas tendências em luta há uma que carece de base lógica (a que representa a satisfação autística dos desejos subconscientes) e a outra. Outro traço essencial deste tipo de personalidade. é a crença na onipotência de suas idéias. opostas entre si. facilmente compreensível depois do que dissemos. mas de direção contrária. feito por uma pessoa perita. tanto mais sujo se torna. Quanto mais limpo deseja ser um compulsivo. tendo esse caráter. sua conduta. que tudo que pensa é verdade absoluta e por isso é o ser mais difícil de convencer-se. pois. tanto mais orgulhoso se mostra. Em nenhum outro tipo de personalidade dá-se tão intensamente a antinomia entre os dois planos. É fácil. chegar a impor este critério a quem a sofre. que a possui (a que emana da censura consciente e se apóia no juízo da realidade exterior). da personalidade. Assim.180 perfeição ética e intelectual tão difícil de alcançar que seus esforços se acham de antemão condenados ao fracasso" E. por exemplo. Este é o estado de dúvida obsessiva que com freqüência se observa nestes tipos de personalidade. que se encontram em um plano mais profundo e que somente podem chegar a ser descobertos por meio de um exame psicanalítico.

isso permite estabelecer um diagnóstico médico de predisposição mórbida. O que devemos acentuar é a freqüência com que nas pessoas deste tipo psicológico se assinala a coexistência de transtornos digestivos (especialmente a constipação). etc. Inicialmente. se mostra psicologicamente incompreensível. o característico dos tipos esquizóides é precisamente a perpétua contradição de sua conduta. capaz de orientar em mais de um caso o jurista a respeito das particularidades de sua conduta. 97.) e de perturbações vegetativas parassimpáticas (hipersudorese. de sorte que o veículo mal se movimenta e. pois sem necessidade nem proveito os obrigam (com súplicas ou ameaças) a se ajustarem a seu especial modo de viver. O tipo esquizóide vive em nosso mundo. com certas probabilidades de acerto. tão original e interessante como suscetível de discussão. que se apertam automaticamente toda vez que se empurra o acelerador. ebulição da água e do óleo.) de ter comido muito. de fato.a nossos hábitos e sentimentos. mas de freios muito fortes. grande consumo de gasolina etc. No entanto.e assim mesmo nem sempre . de alterações hepáticas (colemia etc.). este é da mais difícil compreensão psicológica. A melhor imagem para compreender a conduta de uma personalidade compulsiva é a de um automóvel de poderoso motor. brusquidão e falta de coerência externa constituem o obrigatório acompanhamento de sua conduta. sente e . os entregassem a um psiquiatra para que analisasse as causas da mesma e as pusesse de manifesto diante do interessado. TIPO DE PERSONALIDADE HERMÉTICA OU ESQUIZÓIDE. Originalidade. que foge a toda previsão lógica e. não é este o lugar oportuno para desenvolver esta concepção psicanalítica. embora se mostre extraordinária se a considerarmos somente em seu aspecto potencial. palpitações.de uma mesma causa: a parada da evolução da libido no denominado período sádico-anal. Freud afirmou que estes traços psicológicos favoráveis se originavam .181 aparente os leva a uma anormal conduta. Sem dúvida. enjôos etc. quais serão suas reações perante uma situação determinada. seriedade. Em menor grau de intensidade a personalidade compulsiva oferece numerosas vantagens que compensam de sobra seus inconvenientes. mas talvez façam sofrer mais ainda aos que os rodeiam. caprichos idade. Não há dúvida de que estes indivíduos sofrem muito. honradez e ordem. apresenta os sinais (aquecimento do motor. mas ao nosso lado. como se fosse um misterioso habitante de algum distante planeta que só aparentemente se adaptasse . se o quiserem. mas não vive conosco. apesar de que os que a exibem demonstrem encontrar-se perfeitamente orientados no ambiente que os rodeia. a que poderíamos denominar "virulência delituosa" dos tipos compulsivos é extremamente pequena em realidade.igualmente como os defeitos antes citados . capaz de surpreender e exasperar ao mais paciente. ao contrário. Nunca se chega a saber o que realmente pensa. Assim como diante dos demais tipos psicológicos o homem soi-disant normal pode chegar a conhecê-los suficientemente para saber predizer. Aquelas são sua grande escrupulosidade.

entretanto. Valorização Jurídica. grosseiramente unidos e no qual não é possível chegar a descobrir uma forma nem um estilo próprios.Estes tipos são de desesperar quando submetidos a um interrogatório judicial. será completamente indiferente ao mesmo. com freqüência suas ações demonstram uma refinada crueldade. em seu aspecto negativo de todos os demais conhecidos. de aborrecer-se quando deveriam estar alegres. Contraste contínuo. e sem causa capaz de justificar tal mudança. Alguém disse que falta a estes tipos uma personalidade e que em seu lugar se observam núcleos fragmentários de diferentes personalidades elementares. . inferior à pré-lógicaque chega a se impor e a conviver simultaneamente com a normal do homem civilizado. que dificilmente podia ser suspeitada pelo leigo. podem mover-se em geral com correção e até com relativa firmeza no ambiente social. imaginativa. precisamente. mas sim um tipo inteiramente normal (se se estabelecerem as devidas compensações intrapsíquicas). esta será capaz de mostrar-se algumas vezes exageradamente sensível a um determinado estímulo e. em virtude disso. capazes de rir quando choram os demais. de sentir e lazer o contrário do que se era de esperar logicamente (negativismo). antinomia perpétua. deixarão indiferentes estes tipos. devido precisamente à destruição parcial de tal ponte e à debilitação de seu juízo de realidade. Bem escreveu Strindberg . senão que no mais dão a impressão de serem um tanto extravagantes (lunáticos chamam os ingleses aos indivíduos deste tipo). em uma palavra. se bem que não possam apagar de suas atitudes certa frialdade e afetação. sua tendência ao "autismo". não obstante. .que era "sensível como uma pomba e frio como gelo". a mente de tipo esquizóide parece um estranho produto elaborado com distintos elementos. primitiva. parece. Nestas condições pode-se observar certa desagregação ídeo-afetiva. que o esquizóide vive em um estado de certa confusão dos planos subjetivo e objetivo de sua personalidade. A). completamente livre da censura imposta pelos valores do ambiente. a reunião de uns tantos traços de cada uma delas não daria jamais um tipo esquizóide. com efeito. Este tipo sugere mais a idéia de uma mentalidade selvagem. Um dos elementos essenciais deste tipo de personalidade é sua "introversão". a não ser. mas. em conseqüência da qual aparecem absurdas associações entre idéias e sentimentos que não lhe correspondem. Todos nós podemos atravessar a ponte entre a realidade e a fantasia a nosso prazer e sempre sabemos em que borda estamos. subjetiva. isto ê. De saída disputam com os tipos explosivos (epileptóides) a primazia do delito criminoso.182 quer (e não somente o fato de se pensa.tipo desta personalidade . sejam como protagonistas. acontecimentos que preocupariam a generalidade das pessoas. à vida irreal. Vive e sonha ao mesmo tempo. O particular do caso ê que a este desacordo interior de sua personalidade nem sempre corresponde uma aparência francamente mórbida. sejam como testemunhas. ato contínuo. reunião de traços psíquicos contraditórios que não chegam a constituir uma individualidade temporária. em todo caso é preciso fazer notar (se se quiser aceitar esta concepção) que tais núcleos nada têm que ver em sua essência com os tipos de personalidade que até agora descrevemos e continuaremos a descrever. sente ou quer) uma personalidade hermêtica.

se encoleriza e se mostra amável. para finalizar. eufórico. E. de todos os tipos de personalidade psicopática este é o que proporciona mais aparência de normalidade. Sua afetividade neste aspecto tem não poucos traços comuns com os do tipo de personalidade histérica (ambas são. exceto em seus momentos de depressão. por isso. com o qual se acha sempre em contato. tristes. é muito mais saliente. nos produz a mais agradável impressão e. preocupado somente em divertir-se. Por outro lado. procurando sempre excitar a compaixão dos demais.como neste . Nem é preciso dizer. Finalmente. Tipo franco.os sintomas neuróticos de todo gênero que traduzem corporalmente os diferentes conflitos anímicos. sua distinção. tais vantagens são anuladas por sérios defeitos: sua moral é algo frouxa e acomodatícia. assim como a grande sugestibilidade do tipo histérico (pitiático) o torna até certo ponto incapaz de persistir em uma determinada direção. não se observam . apesar de sua apresentação um tanto jovial por vezes. muito superficiais e volúveis). Além do mais. Com a mesma facilidade ri e chora. Com efeito. no entanto. cordial e simpático. com efeito. que faltando no ciclóide a grande capacidade ideoplástica do tipo histérico. TIPO DE PERSONALIDADE CICLÓIDE Em franca oposição com o anterior.) criam várias formas ou subtipos. mas uma ligeira análise permitirá. o histérico faz da ficção a arma de sua vida e dramatiza a todo momento as situações. Em troca.Como já indicamos antes. se mostra jocoso e propício do altruísmo (coisa excepcional no histérico). um tipo que sintoniza com o meio que em cada caso o rodeia e ao qual. Um dos mais comuns é o denominado vagabundo hipomaníaco. . se adapta perfeitamente. regular e típica que as oscilações do ânimo observadas no tipo histérico. assim como o histérico tem uma personalidade infantil. ao furto e mesmo ao roubo e "afoga suas penas em álcool".dono de si mesmo e não se deixa influenciar com tanta facilidade. o fator essencial do tipo ciclóide. o ciclóide é . o ciclóide conserva em sua conduta os traços próprios do estado adulto. o tipo histérico. Lentamente seu rosto . como um camaleão. o tipo ciclóide deseja muito mais ser admirado e. desde o primeiro momento dá uma impressão de morbidez que falta neste. quando se vê em apuros recorre à "facada". o medo é a emoção fundamental do histérico. A personalidade ciclóide é muito mais compreensível que a histérica e.em cada um de seus períodos . é de todos o que com mais facilidade sabe fazer amigos. ao passo que no ciclóide são a alegria e a tristeza os estados afetivos mais constantes. seu "eu" se dissolve no ambiente. a alternância de estados de leve excitação e hiperatividade com estados de tristeza e depressão. é exagerado em suas coisas e muito superficial e inconstante em seus afetos. coléricos etc. Valorização Jurídica. não podemos nos fiar em sua palavra. este tipo coincide com o "extrovertido" de Jung. Boêmio empedernido. É. como já indicamos. muito mais adaptável para a vida e o trabalho social que esta. sobretudo.183 98. O dualismo de sua tonalidade psíquica (excitada ou deprimida) e a multiformidade de seus estados de ânimo (alegres. como modernamente se diz. que tendo nascido de boa família e dotado de certa cultura e inteligência leva uma vida de ócio. no entanto.

O máximo que pode conseguir o regime carcerário em um tipo amoral é aumentar sua astúcia e conseguir que aprimore suas técnicas de delito para escapar posteriormente à ação da justiça. como o outro. ele mesmo os converte em realidade com sua conduta. ciclóidehipomaníaco. mas capta a simpatia por seus dotes de altruísmo e generosidade para com os que sofrem. isto é. que escapa à ação inibidora de sua consciência. é a consideração de sua evolução (perfil longitudinal em oposição a sua seção transversal em um momento dado). por trás da qual se escondem a inação e o parasitismo. em uma só. Não se estranha se este terminar suicidando-se. é o denominado por Birnbaum pessimistaangustioso. oradores de palavra fácil e de grande poder de persuasão. Basta lembrar que felizmente é menos freqüente que os demais estudados até agora. menos conhecido. Convertido em parasito dos que o rodeiam. TIPO DE PERSONALIDADE ÁMORAL OU PERVERSA Assim como os tipos de personalidade psicopática que até agora descrevemos chegam geralmente ao delito movidos pela excessiva intensidade de suas paixões. Este tipo é reincidente habitual de pequenos delitos. alguns dos quais poderiam ser confundidos com ele em um exame superficial (tipos esquizóide. 99. do que acontece com o tipo anterior. não se deve procurar nele arrependimento nem tampouco devese esperar sua correção com medidas disciplinares riais ou menos violentas. Outro tipo. sua eloqüência serve para criar neles uma intensa corrente de afeto e tolerância. Por conseguinte. se acha (como no tipo compulsivo) dirigida contra si mesmo e em virtude disto não tarda a decair e adotar novamente a postura pessimista e fatalista. De vez em quando seu rosto recobra a alegria e denuncia o componente hipomaníaco próprio do cicloide. especialmente). sua agressividade é pequena ou. É de interesse seu conhecimento pela possibilidade de que em certas ocasiões manifeste idéias delirantes de auto-acusação e corra à justiça declarando-se culpado de delitos não cometidos. melhor. pois sempre surpreenderemos em cada uma delas traços e momentos próprios de sua oposta. leva uma vida inquieta e começa mil trabalhos sem terminar nenhum.184 traduz sua vida infeliz e de vez em quando pequenos acessos melancólicos ou hipocondríacos confirmam o diagnóstico do tipo. . o tipo de personalidade perversa pratica o delito por carecer de superego ou consciência moral e não ver motivo lógico que o impeça de praticá-lo. e agora é desnecessário repetir o que dizíamos então para caracterizá-la. mas ao contrário. orientado sempre para o futuro cheio de maus presságios. mas predomina neles a veia alegre e ressurgem cheios de ânimo à medida que as circunstâncias externas os ajudam. Este indivíduo. tão contraditórias em aparência. confabulador ou mitômano e histérico. Pela grande importância deste tipo para a jurisprudência tratamos dele extensamente ao nos ocuparmos do problema da loucura moral. intuitivos e oportunos. o que permite integrar estas duas formas. pelo predomínio da componente instintiva da personalidade. De qualquer modo. sabem adaptar-se sem vaidade nem orgulho a todas as situações e são capazes de conservar seu humor no asilo como no cárcere ou no hospital.

em troca. que "são como cata-vento" e não sabem o que querem. mas dificilmente chegam à criminalidade. Não obstante. . "metidas". PERSONALIDADE INSTÁVEL Os psicopatas deste tipo (inquietos. que recorrem secundariamente ao álcool e excitantes para "se encherem" ou sentir que vivem. uma maior colaboração médica e psicoterápica. se desenvolve nele uma tendência ao isolamento e à substituição da realidade exterior pelos dados de sua fantasia (introversão autista) se aproximará insensivelmente do tipo esquizóide ou esquizotímico. "frívolas". deve-se recorrer ao qualificativo de "apático" ou "indolente" para caracterizá-lo melhor. ou "halt lose". sendo amiúde inteligentes. . Quase sempre têm. "que não param". se se preocupar mais pelo aspecto ético ou pelas conseqüências psicofísicas de sua conduta (a famosa ''peur de I'action". de vez em quando. finalmente. De qualquer modo. em geral sua periculosidade é menor que a dos restantes tipos psicopáticos e seu tratamento reeducador requer. acessos de distimia (mau humor ou "nervosidade") logo substituídos por uma depressão ainda maior que a habitual. se transforma em neurastênico. características corporais infantis e continuam sem linha de transição com as personalidades histéricas. Muitos destes tipos são detraqués ou frustrados. se sua astenia é acompanhada de atimia e indiferença geral. esta parada racional na barreira afetivoconativa acarreta. a conduta do mínimo esforço). Mas. apesar da vagueza e imprecisão dessas delimitações. indolente e esquizotímica. mas convém separá-las do ponto de vista jurídico. PERSONALIDADE ASTÊNICA Este tipo é freqüentemente confundido com as variedades neurastênica. também. que não tem a energia necessária para levar a cabo eficazmente os atos que suas situações vitais requerem. a maior parte dos quais não chega a alcançar uma expressão motora adequada à natureza dos estímulos desencadeantes. ou seja. Se. Predomina nele a tendência a seguir a linha de resistência mínima (e portanto. aquelas mostram que o são pelo que enredam. podem ser hábeis no ardil para ocultar sua má conduta. porque enquanto estas últimas se mostram especialmente perigosas pelo que fingem. nessas condições podem tomar-se delinqüentes. e os leigos o caracterizam perfeitamente ao dizer-lhe que é um "frouxo". A característica essencial do mesmo é o rápido esgotamento de seus ciclos de atividade psíquica. ingressará no campo da psicastenia. 101. psicastênica. Quando o tipo astênico (e note-se que falamos em sentido psicológico) fixa sua atenção em sua cenestesia e desenvolve sua autoscopia corporal até erigi-la em sua principal preocupação. segundo os alemães) são descritos na vida comum como pessoas "levianas". .Os delitos cometidos pelo tipo astênico são mais freqüentemente praticados por "omissão" ou "negligência" do que por violação ou falta de seus deveres e obrigações. o tipo astênico tem uma indiscutível realidade. Em troca.185 100. de P. Janet). Valorização Jurídica. "indiscretas".

sendo capazes de desenvolver uma boa quantidade de esforço em curtos períodos. de modo que cheguem a poder ser evidenciados no fenótipo individual. . Seus delitos. mas já dificilmente impressiona os jovens bacharéis em Direito. meio século depois de ter sido escrita. RECENTES CORPORAL ESTUDOS CAPÍTULO XVII SOBRE CONSTITUIÇÃO E ESTILO DE DELITO INVESTIGAÇÃO 102. ademais. como um incontinente. novos estudos vêm mostrar que. mesoderma e endoderma) é expresso por um número que oscilará entre 1 e 7.Este tipo costuma levar os casos de um para outro lado e aparece quase sempre no cenário jurídico. embora errasse o trem. definiram o somatotipo como a "quantificação (isto é.A clássica obra de Lombroso (L 'Uomo Delinquente) ainda exerce uma influência na mente de muitos juízes e penalistas de cabelos brancos. entretanto. a expressão quantitativa) dos componentes primários da estrutura morfológica de um indivíduo". de certo modo. o genial pensador italiano estava em bom caminho.ectoderma. não tanto como autor mas como elemento que desencadeia. embora não possa ser considerado como simples fabulador ou mentiroso. Sheldon e Stevens. correspondendo ao grau mínimo e ao grau máximo de desenvolvimento desse . Destarte. E no entanto. ou seja. Valorização Jurídica. por meio de um estudo sistemático de sua estrutura corporal. mantém ou complica conflitos e questões. costumam ser hiper-emotivas e um tanto ansiosas. são capazes de condicionar o relativo desenvolvimento regional das 3 folhas blastodérmicas. hoje se admite que os fatores genotípicos responsáveis pela chamada "inclinação à delinqüência" não aparecem ingenuamente em típicos sinais "degenerativos". se os comete. cada um dos 3 componentes (correspondentes ao desenvolvimento das 3 folhas blastodérmicas . mediante a investigação do chamado somatotipo. Em realidade. são leves mas contumazes. . mas. mas simplesmente. DO DAS DE LOMBROSO A SHELDON A SOMATOTIPO COMO MEIO DE COMPREENSÃO CARGAS E INCLINAÇÕES DELITOGÊNICAS De Lombroso a Sheldon.186 As pessoas instáveis. dois autores norte-americanos. mas não podem perseverar regularmente nele. Dificilmente pode ser reeducável sem a ajuda de uma modificação total em seu plano de vida e em sua arquitetura temperamental.

107. Viscerotomia. . os que têm este componente em forma exagerada propendem a adquirir uma forma globosa e possuem pouca densidade. Na vida prática não é freqüente encontrar tipos corporais em que haja predomínio . ectomorfia extrema.Ectomorfia. O cerebrotônico complica a vida sem necessidade e sente angústia porque não há proporção entre sua exagerada sensibilidade e sua limitada eficiência motora. Vejamos agora como se definem aparentemente tais componentes: 103. propensão à oposição interna. facilmente. constituindo o arquétipo dos chamados "homens de ação".). Cerebrotonia. 105 . músculos e tecido conjuntivo. assim. os miotônicos propendem a reagir com rapidez e energia a qualquer solicitação do ambiente. uma aparência atlética. Caracteriza-se pela tendência à ação direta. .Predomínio dos órgãos derivados do mesoderma: ossos. . constituem. Um somatotipo de fórmula 7-1-1 corresponde ao tipo endomorfo extremo. à dúvida ou à meditação e à conduta contraditória. um corpo em que estariam em perfeito equilíbrio de desenvolvimento os órgãos e formações procedentes do primitivo blastoderma.Ligada à mesomorfia. Miotonia (também denominada somatotonia). Assim. Isso dá uma aparência maciça e forte ao corpo. isto é.Vinculada à ectomorfia. A linha de ação é irregular. sem circunlóquios. a saber: 106. Os viscerotômicos gostam da comodidade e dos prazeres fáceis (comer. pelo que estão mais expostos aos estímulos do ambiente. A cada um desses componentes corporais corresponde uma tendência natural. Mesomorfia. ou seja: a pele. apresentando maior superfície relativa que volume. que desta forma tem facilidade para locomover-se e atuar. 104. quase disrítmica. 108.Neste terceiro componente predominam os tecidos do ectoderma. dormir etc.187 componente. temperamental. portanto.Predomínio das vísceras e do aparelho digestivo. O predomínio visceral (tecidos procedentes do endoderma) dá uma atitude vegetativa. . . imediatista e confortável aos que têm esse componente em excesso. o segundo ao da mesomorfia e o terceiro ao da ectomorfia). o mesomorfo típico adquire. por exemplo. . são afáveis e conciliadores. o sistema nervoso e os órgãos dos tecidos. pois. brusca. São empreendedores e possuem facilidade para dominar fisicamente o ambiente. tendões. flutuando. a fórmula 1-71 indica mesomorfia extrema e a 1-1-7. Endomorfia. caracteriza-se pela tensão nervosa. um somatotipo de fórmula 4-4-4 representaria o normotipo ideal. o tipo clássico do "bon vivant".Intimamente ligada à endomorfia: é definida pela propensão a tomar uma atitude epicureana e simples (de Sancho Pança) perante a vida. se se irritam o fazem por pouco tempo e esquecem a ofensa com qualquer comentário humorístico. O corpo parece delgado e delicado. Deste modo o somatotipo de qualquer indivíduo é expresso por uma seqüência de 3 números (o primeiro correspondente ao valor da endomorfia.

. os "orais" seriam os viscerotônicos mórbidos. Estes componentes psiquiátricos são designados com os nomes de "Dionisíaco" (correspondente aos traços característicos da psicose maníacodepressiva). ex. Operando com 155 destes casos foram estabelecidas as correlações entre os componentes morfológicos e temperamentais. dionisismo). ''para'' (extroversão. temos com maior facilidade. são respectivamente características do erotismo oral.800 casos dos hospitais psiquiátricos e comprovou que quanto mais se aproxima um doente mental da fórmula somatotípica correspondente a esses componentes (5-5-1. a possibilidade de encontrar tipos de endomorfos. Tais componentes correspondem "grosso modo" às 3 atitudes fundamentais da personalidade. em 1945. Mas o que nos interessa é saber que existem tipos caracterizados pela pobreza exagerada de um ou dois componentes. descritas por Freud. juntamente com o Dr. e os chamados componentes psiquiátricos de outro. 3-5-3 é um tipo de mesomorfo compensado). nos quais foi simultaneamente obtida sua fórmula corporal (somatotipo) e a lista de seus traços psicóticos. Pouco tempo depois estendeu sua investigação a 3. paranóide ou esquizofrênico.. psicóticos e delinqüentes. de um lado.A incansável atividade de Sheldon levou-o. misticismo) que. pronunciadamente. em alemão: autismo. 109. a saber. Sheldon se interessou em estabelecer a correlação que pudesse existir entre os diversos tipos de delito e os de versos somatotipos. prometeísmo) e "fora de" (ab. sendo depois . 1-5-5. tipos em que o ligeiro predomínio de um componente é contrabalançado pela equipotência dos outros dois (p. "Prometêico" (correspondente aos traços da paranóia pura) e "Hebefrênico" (ligado às características da esquizofrenia). em troca os que têm somatotipos médios (4-5-3. Para isso empreendeu um novo e meditado estudo com 200 jovens delinqüentes recolhidos no Hayden Goodwill de Boston. O relato minucioso desse trabalho constitui um denso livro do qual vamos apenas. sintonia. a efetuar um estudo somatotípico. por sua vez. ao contrário. Desta sorte. os uretrais seriam os somatotônicos mórbidos e os anais seriam os cerebrotônicos mórbidos.188 de 2 componentes com restrição do terceiro. . de um abundante material de doentes mentais. ex. "contra" (projeção. p. mesomorfos ou ectomorfos compensados.) passam pelos mais diversos diagnósticos quando apresentam alterações mentais. repulsa do ambiente. e que tais indivíduos são os que com maior facilidade tendem a descarrilar-se na vida. Cuidadosas histórias clínicas e sociais completaram o estudo somatotípico e psicológico.recolhido todo o material objeto de cuidadosa tabulação e análise estatística. extrair algumas das conclusões de positivo interesse para os juízes e penologistas. Phyllis Wittman. dureza. isto é. Em primeiro lugar: a maioria desses delinqüentes são. dos casos que oferecem sérios problemas de adaptação social. 4-1-5 respectivamente) tanto mais facilmente será ele designado de maníaco-depressivo. erotismo uretral e erotismo anal. Dirigindo estes estudos para o lado das condutas anti-sociais. A investigação do somatotipo como meio de compreensão das cargas e inclinações delitógenas. ingressando no contingente dos neuróticos. isto é. fuga da realidade.

os heróis e grandes caudilhos civis e militares. misticismo). o somatotipo influi no estilo do crime condicionando a estratégia e a tática do delito. p. deixando a seus cúmplices a tarefa mais pesada e combativa. se pôde dizer que os "grandes santos foram grandes pecadores". senão que nesse eixo centram círculos de diâmetro diversos. violentos. ao invés de baseada na competição ou rivalidade apropriadora e dominadora. para sobreviverem. precisam combate contra a sociedade à qual tão heroicamente se devotam. Ou em outras palavras: o melhor e o pior se confundem na linha axiológica e. Por outro lado. que vai da extrema maldade à extrema bondade. a parte realmente interessante no trabalho de Sheldon é a que destaca a enorme influência dos fatores sociais e. um criminoso arrependido. maciços e no entanto com elementos astênicos. Esta conclusão representa para nós uma confirmação dos resultados que obtivemos em nosso estudo experimental das atitudes morais já conhecidas e expostas: as pessoas não se distribuem ao longo de uma linha. o fracasso dos educadores na consecução de seu objetivo: dar uma filosofia de vida baseada na cooperação criadora. por isso. sem compaixão. o delinqüente profundamente ectopênico e visceropênico terá propensão para os delitos duros. ex. a conclusão mais revolucionária do estudo que estamos comentando é a de haver mostrado que os somatotipos dos delinqüentes mais perigosos são quase idênticos aos dos homens mais apreciados pela sociedade. o mesopênico procurará atuar como instigador ou organizador. rápidos e quase sempre sangrentos. cuja linha de conduta.189 mesomorfos ectopênicos com endomorfia normal. Seus parentes. isto é. ou eixo.. Mas. . É curioso que as mães dos delinqüentes estudados por Sheldon tivessem somatotipos displásicos. destacam Sheldon. Isto nos leva a pensar que um delinqüente regenerado. como também converterse em elementos mais propulsores de seu progresso. insignificante e "coisinha" até o "grande homem"ou seja. Essa "disturbing relationship between delinquency and heroism" chega a ponto de fazer Sheldon afirmar que os heróis são delinqüentes que. principalmente. e também de inteligência geral medíocre. oscilante entre o egoísmo e o altruísmo. psiquiatricamente aparecem como dionisíacos levemente paranóides e carentes do terceiro componente psiquiátrico (autismo. só dá a impressão . isto é. cujo impacto sobre o grupo social é colossal. de acordo com sua eficiência e valor pulsional. contraditórios. um anti-social sublimado podem não só adaptar-se à vida do grupo humano.de uma linha trêmula e inoperante. a nosso juízo. E mais adiante sublinha: delinqüência e heroísmo tornaramse um "continuum" em nossa vida institucional. Mas. parecem ser tão propensos para o ato delituoso (isto é. E este grande homem sob o signo da cólera é extremamente maléfico. Essas mães tinham que carecer de serenidade e de ponderação: suas reações ante os conflitos da vida diária aumentavam a tensão de seus filhos ao invés de diminuí-la e apaziguá-la. à desconsideração das regras sociais) como eles mesmos.quando vista à vol ´d'oiseau . ou melhor baixa. de sorte que os verdadeiros pólos éticos se estendem do homem medíocre. Assim. que o homem médio. Em troca. são de estatura média.

capacidade de testar. como também. deve-se procurar acercar o Direito a outros campos de atividade psicossocial e em especial à pedagogia. em troca. Igualmente indicamos as diretivas psicológicas a seguir para a obtenção da evidência do delito e demos a conhecer investigações originais e inéditas que podem abrir um novo curso à obtenção da verdade judicial. todas as pessoas que intervêm profissionalmente na prática judiciária. urgentes dos meios psicológicos que conduzem ao reconhecimento das pessoas que devem ser destituídas de sua capacidade civil (oligofrênicos) e das que não têm em um momento dado. para não citar mais do que os espanhóis. Nosso propósito. considerando-os desviados ou doentes sociais e assinalando suas semelhanças e diferenças com os neuróticos. dar ao jurista. e como resultado de tudo isso tentamos demonstrar que o exercício honesto do Direito é impossível sem uma prévia base de psicologia. uma vez chegados a seu fim não sabemos. Assinalamos as deficiências dos processos forenses. uma exposição dos dados e conhecimentos que a Psicologia atual lhe pode oferecer para tornar mais eficiente seu trabalho. dinâmica. Demonstramos a necessidade de um tratamento individualizado dos delinqüentes. No capítulo da Psicologia do testemunho resumimos todos os processos de que pode e deve valer-se o jurista para fazer do "teste" um elemento útil ao invés de um fator perturbador. de acordo com os modernos resultados da psicanálise crimilológica. Finalmente. as mais diversas escolas psicológicas (psicanalítica. Ademais. condutista. diferencial etc.190 CAPÍTULO XVIII 110. a nosso entender. Intencionalmente afastamos todo alarde de erudição e todo delineamento unilateral de problemas. a descrição das provas que conduzem à descoberta dos "delinqüentes potenciais ou latentes". Analisamos a nova concepção da consciência moral e pusemos de manifesto o caráter subjetivo das normas morais. para a aplicação da justiça.) foram indistintamente utilizadas por nós. Com todos os modernos penalistas. à sociologia e à psicobiologia normal e patológica. A seguir tratamos do estudo e divulgação. terminá-lo sem dirigir nosso pensamento aos leitores. CONCLUSÃO Se pudéssemos evitar o clássico ridículo de pôr um prólogo ao nosso trabalho. evidenciamos que o delito era uma reação terminal. de um conjunto de forças que se encontram em contínua luta desde que nascemos. que deviam possuir não só os juizes e letrados. tipo lógica. E completamos nosso trabalho com um capítulo de "higiene mental do delinqüente". ao mesmo tempo em que indicamos os meios mais adequados para o reconhecimento das mesmas. no qual ressaltamos como contribuição original. objetiva. assinalamos as normas psicagógicas que devem inspirar a . como o é agora.

essa alada e sutil figura e a atitude psicológica que se denomina compreensão. nada menos que sentar no trono da Justiça . quando não prejudiciais ao indivíduo ou ao meio em que vive. embora muito menos profundas que as existentes entre os códigos e os tratados de psicopatologia forense antigos. e tão fundado nosso receio. Alcântara Machado. no entanto. inspirados e apoiados em seus conhecimentos. Por outro lado. muito têm evoluído esses estudos.848. sem o perfeito conhecimento das mesmas e do seu espírito. APÊNDICE/COMENTÁRIOS O atual Código Penal Brasileiro. ao jurista o psicólogo e o sociólogo aparecem como ávidos de invasão do campo da lei. ciosos de suas prerrogativas.191 reeducação dos delinqüentes e descrevemos os tipos mais freqüentes de personalidade anormal. acompanha de perto os progressos da criminologia e do Direito penal. com muita razão. apenas desejam que certas leis sejam adaptadas à realidade da vida. ao passo que a Psicologia e a Sociologia. que sem falsa modéstia não nos recomendaríamos à benevolência dos que nos julgarão. A razão é clara. ao psicólogo e ao sociólogo o jurista aparece como refratário às aspirações e problemas humanos e ao desenvolver mento científico. por serem inúteis. de tal modo que. não forem elaboradas por comissões integradas também por psicólogos. instituído pelo Decreto-lei n° 2. se não acreditássemos que depois de nos lerem mostrar-se-ão mais tolerantes conosco. Os juízes são. analisando sua valorização jurídica. Depois de sua instituição. se àquela época muitas das aquisições da criminologia não foram nele introduzi das. de 7 de dezembro de 1940. como ciência normativa. procuram a determinação e a explicação do que é. réus convictos e confessos de um delito de "usurpação de poderes". Estas duas categorias de ciências só poderão evitar mal-entendidos quando se encontrarem numa nova ciência. e sustentam que a eles cabe a última palavra e que devem estar atentos ao que Foerster denomina perigo funcional. o fato é que. psiquiatras e sociólogos. os cientistas naturais. Acertamos em nossa tarefa? É tamanha nossa dúvida. 111. É por isso que a leitura dos artigos do Código após a leitura do texto desta Psicologia Jurídica. depois de 1950 ainda mais se acentuou a necessidade de uma revisão profunda na maneira de tratar o crime e o criminoso. Ao longo de nossos estudos procuramos nos manter em um plano estritamente psicológico e procuramos evitar também todo tecnicismo exagerado. em virtude do qual pretendemos. bem como que certas práticas legais sejam abolidas ou modificadas. . no que tange à criminologia. procura estabelecer o que deve ser. como ciências naturais. É claro que divergências existirão enquanto as leis. contraproducentes. capaz de conciliar essas duas atitudes metodológicas. quiçá por não terem sido consideradas consistentes ou porque julgassem prematura a total aceitação das mesmas. tendo por base o projeto do eminente Prof. pois o Direito. porá em evidência algumas divergências.

sem desprezar o critério biológico que condiciona a responsabilidade à normalidade mental. suas anormalidades costumam resistir. de fatos humanos e sociais que. isto é. como tais. já que a assim denominada não era senão responsabilidade com menor culpabilidade. exige que a responsabilidade (que se baseia na capacidade de culpa moral) só se exclua se o agente em razão da alteração da saúde mental era no momento incapaz de entendimento éticojurídico e autodeterminação. não são doentes mentais. sem cujo postulado "o Direito penal deixaria de ser uma disciplina de caráter ético para tornar-se mero instrumento de utilitarismo social ou de prepotência do Estado. Por outro lado. o Código procurou superar a controvérsia da responsabilidade diminuída. seja à repressão pura e simples. embora ao juiz seja autorizado a reduzir a pena. exatamente como o princípio de causalidade o é para a experiência física. as personalidades anormais (mal denominadas psicopáticas). obedecem a determinadas motivações regidas por "leis" que lhes são próprias e relegam a uni plano secundário a consciência livre e desperta do indivíduo. se de um lado elas não são consideradas patológicas. no entanto. dado científico ou conceito filosófico. Infelizmente. o desenvolvimento mental incompleto ou retardado (oligofrenias). que. o certo é que as coisas se passam de maneira toda peculiar e não há argumento que invalide um fenômeno que se repete com uma precisão notável. o livre arbítrio é um a priori com relação à experiência moral. sob pena de acentuar-se demasiadamente o divórcio entre esta e a realidade da vida. No dizer de Nelson Hungria. pessoas com decadência do senso ético. por não possuir a plena capacidade de entendimento ou de determinação. porque. Por absurdo que pareça aos poucos afeitos a determinados aspectos dos problemas humanos e sociais. o qual. a responsabilidade subsiste quando a causa biológica não suprime totalmente a capacidade de entendimento. baixa do autocontrole instintivo e outras anomalias. Rejeitado o pressuposto da vontade livre. mesmo deixando de lado a secular discussão sobre determinismo versus livre arbítrio. O atual Código penal adotou uma atitude eclética ao tomar por base o método biopsicológico. mal compreendidas. à dura lex. Não há um meio termo entre elas. As causas biológicas que excluem a responsabilidade são a doença mental. o código penal seria uma congérie de ilogismos" (F. Esses fatos devem ser adequadamente considerados pela lei. Campos). a embriaguez por álcool ou substância de efeitos análogos plena e acidental. responsabilidade e irresponsabilidade são antônimos.192 A responsabilidade continua a ter por fundamento a responsabilidade moral. e a idade menor de 18 anos. seja aos mais suasórios e compreensivos métodos . Non datur tertium sive medium inter duo contradictoria. razão por que. para o especialista o problema das personalidades anormais não é tão simples. quando muito podem se valer da redução facultativa da pena. Mas. é o ponto de ligação de todas as normas jurídicas" (N. suas anomalias são motivadas por causas tão complexas em cada caso. Hungria). Para os juristas. aceitam eles que o último "comprovado ou não. como a vida e a morte. Dentro desta orientação. Desta maneira. acontece que a Psicologia e a Sociologia são ciências de fatos.

anormais sexuais. uma conseqüência de desordens da personalidade que podem ou não entrar no terreno do patológico. É claro que o Código só previu o caso de embriaguez simples. antes são medidas de prevenção e assistência social que visam à periculosidade dos que. alguns comentários merecem ser feitos. a embriaguez é encarada sob o ponto de vista da teoria da “actio libera in causa seu ad libertatem relata”. mas o fato delas se aplicarem somente depois do delito (diríamos do primeiro delito) demonstra que ainda não alcançamos a fase verdadeiramente profilática do crime. cabem perfeitamente dentro do critério de exclusão da responsabilidade. erroneamente denominada fisiológica. Nos doentes mentais. Nos indivíduos de vida irregular. psicopatas.193 de recuperação. quando a embriaguez foi provocada (préordenada) para realizar o crime (criar coragem. a emoção e a paixão não excluem a responsabilidade. ao crime. em um novo critério de política criminal. Não resta dúvida que a introdução das medidas de segurança constitui um grande progresso. pois. parasitária. como o anterior. embora plena. comum. O Código também não se deixou mais envolver. por exemplo) a pena é agravada. não isenta de responsabilidade. Igualmente. dita patológica. Quando. que freqüentam ambientes de pervertidos e amorais. os índices sociais orientam o diagnóstico. pelo problema dos "passionais" que conseguiram até então ser considerados irresponsáveis por terem agido em "completa perturbação de sentidos e da inteligência". Coube a Carl Stoos. Ambas são fundadas sobre índices médicopsicológicos. em 1894. mais. o mérito da iniciativa de aliar a medida de segurança à pena. sociais e legais. Quanto aos índices. mas apenas são dirimentes da pena quando provocadas por ato injusto de outrem. Somente a embriaguez completa e acidental por caso fortuito ou força maior. hoje definitivamente aceito. do ponto de vista psicobiológico. Que o problema da profilaxia do crime está sendo enfrentado com decisão. pois essa condição é apenas um epifenômeno. os índices médico-psicológicos nos dão meios para determinar sua periculosidade. um instituto jurídico introduzido em nosso Código. posteriormente. imputáveis ou não praticam ou se supõe venham a praticar atos previstos como crime. Ainda. voluntária ou culposa. a primeira sem delito e a outra com delito. 1950) onde ficou estabelecido que existem duas formas de periculosidade: a pré e a pós-delitual. o que reconhecemos ser sumamente difícil na prática. relacionam-se estes aos antecedentes policiais e ás . Para o atual. legais. exclui a responsabilidade do agente. Todavia. No tocante ao problema das medidas de segurança. As medidas de segurança não têm caráter repressivo e não são pena. o problema da embriaguez em suas diferentes formas não é tão simples. A medida de segurança só é aplicável post delictum e pressupõe a periculosidade do agente. mostra-nos o que foi resolvido no Congresso Internacional de Criminologia (Paris. os casos de embriaguez anômala. mas que trazem no bojo os conflitos vitais que a levam inexoravelmente ao vício e. toxicômanos etc.

em realidade devem ser psico-higiênicas e ter início na infância e na adolescência. pois. um fim defensivo e um fluir curativo. Este é um ideal ainda longe de ser atingido. a ignorância e os vícios. não tardará a modificar essa mentalidade. de dentro de seus gabinetes. que será feita desde cedo. podem os mesmos contradizerem os sociais e médico-psicológicos. o combate deve ser feito conta o criminoso. o crime seria lei da maioria. como castigo ou repressão. descobrindo o que apresenta periculosidade e estabelecendo melhorias nas suas condições vitais. melhorando suas condições de vida. o tratamento do indivíduo perigoso. sistema "pão-de-ló" e outros termos depreciativos. todo o esforço da ciência em prol da humanidade. de outro. retaliativa. educando-a. já que muitos outros progressos científicos anteriores conseguiram furar a barreira imposta pelos que se julgam senhores da verdade. exige jurisdição e competência especiais. enfim desenvolvendo a profilaxia do delito. "moo-cow sentimentalities". as medidas preventivas devem ser pré-delituais. recuperadoras e protetoras do indivíduo e do meio em que vive. redundará na diminuição do índice de criminal idade e na redução do número de criminosos que oneram os cofres públicos. já . A terapêutica do estado perigoso é efetuada mediante medidas de segurança pré e pós-delituais. Todo dinheiro que se gastar protegendo a infância. e que em sua grande maioria. punindo-o de acordo com a gravidade do delito cometido. o que se deve visar é mais do que defender e curar: é a profilaxia do crime. mas a realidade demonstra que a criminalidade não desaparece com a punição. para em seu lugar instituir medidas reeducadoras. a par de constituírem um perigo social. dente por dente" ou da compensatio mali cum malo. Para aqueles que não acreditam nessas medidas por não verem os resultados imediatos. A própria admissão das medidas de segurança constitui uma vitória científica. A evidência dos fatos. Todavia. através da psico-higiene. mas sim combatendo suas causas. ou seja.194 formas de delito. ignorando. podem ser atacados muito antes do ato criminoso ser desencadeado. A tendência da moderna criminologia é não só aos poucos suprimir a pena como medida retributiva. O valor diagnóstico e prognóstico dos índices legais é pequeno e. Partidários que muitos são da lex talionis. diz Oswaldo Loudet. e os motivos ecológicos. Estas medidas têm uma dupla finalidade: de um lado a segurança social. de "olho por olho. entre as quais sobressai a mentalidade policial que ainda está impregnada nos diversos setores da sociedade. mas não devemos perder de vista que isto é apenas o começo. Os futuros criminosos já revelam suas tendências desde cedo. o desemprego. psicológicos e sociais que podem levar ao crime. A legislação sobre o estado perigoso pré-delitual. suprimida esta. amparando a juventude de todas as maneiras. Os que combatem as novas idéias sobre a prevenção do crime se apegam ao fato de que a pena é necessária. e combatendo a miséria. como também estabelecer normas que possibilitem uma profilaxia do crime de resultados práticos. entretanto. consideram as modernas aquisições como um "cream-puff criminology". por múltiplas razões. fora da esfera policial.

já julgada infelicíssima e. em realidade não se trata aqui de abolir a pena e sim de preocupar-se menos com o criminoso declarado. dos últimos 30 anos. Seria o mesmo que querer salvar um barco que faz água por um rombo. e no 2° quesito. pois de nada adiantará segregar os criminosos sem ao mesmo tempo debelar as causas que incessantemente conduzem o homem ao crime.O acusado. comportam quatro quesitos. notável peça jurídica. do que com a prevenção do crime e a higiene psíquica. a seu ver. pois nem todo portador de perturbação mental pode ser considerado "louco" (ou "alienado". Nelson Hungria achou que os quesitos poderiam ser reduzidos a dois. para escoimá-lo desses pequenos senões. injustíssima por Raul Camargo. Aquela expressão "loucos". COMENTÁRIOS Nosso Código Civil. ao utilizarmos um sinônimo mais usado pelos técnicos). infelizmente apresenta alguns anacronismos. tendo em vista o desenvolvimento científico do presente século e. O Prof. Mas. ao tempo da ação (ou da omissão) não possuía. Além disso. Mas o vício . contém também um erro técnico. Antes de finalizar estes comentários. A revisão do Código. imprecisa e não ser usada senão pelos leigos. a plena capacidade de entender o caráter criminoso do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento?" Quando está em lide o problema da embriaguez. tem um significado limitado. tem sido tentada inúmeras vezes. "2° .solicitado a emitir parecer sobre o assunto . por motivo de doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado. acarretando a implantação no convívio social da lei das selvas. mas o ilustre Prof. quando necessária a consulta. Heitor Carrilho . especialmente.afirmou que. acrescentando à palavra "loucos" a expressão "de todo gênero" pretendeu abranger as diversas incapacidades por insanidade mental. entre cujos autores avulta a figura genial de Rui Barbosa.195 que haveria (no dizer de Patrizi) em cada um de nós um criminoso em latência que a supressão do castigo estimularia. ao tempo da ação (ou da omissão) era. a expressão "por motivo de perturbação da saúde mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado" pela "por motivo de embriaguez". por motivo de perturbação da saúde mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado. pois além de ser muito vaga. O legislador. inteiramente incapaz de entender o caráter criminoso do falo ou de determinar-se de acordo com esse entendimento?”. desejamos transcrever aqui os quesitos que os juízes redigem quando desejam obter do perito esclarecimentos sobre a responsabilidade do agente.O acusado. os quesitos costumam ser redigidos substituindo-se no 1 ° quesito a expressão "por motivo de doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado" pela "por motivo de embriaguez completa". um 3° quesito pode ser formulado com os seguintes dizeres: "A embriaguez do acusado proveio de caso fortuito ou força maior?" 112. mas até hoje não foi concretizada. a saber: “1° . tirando a água por cima com baldes.

não era esta. Outro fato que demonstra a arbitrariedade da lei em face das condições psicobiológicas dos indivíduos é o que se patenteia na delimitação diversa da idade nos Códigos Penal e Civil. A prodigalidade só é admissível como manifestação de um desequilíbrio mental. na evolução intelectual. No antigo Código Penal a responsabilidade só existia depois dos 14 anos. em face do desenvolvimento da especialidade. no período médico-legal da demência paralítica e na fase maníaca da psicose maníaco-depressiva) ou sob a forma de uma anomalia típica da personalidade (personalidade compulsiva com oniomania. ao passo que a capacidade civil só chega mais tarde.196 persistiu porque a especificação original de "loucos" invalida qualquer possibilidade de acerto se não for substituída. como também a Medicina demonstra que a idéia que Beviláqua sustentava por uma simples consideração da lei. não só remonta ao direito romano a equiparação do pródigo ao alienado. Ou se faz uma enumeração daquelas perturbações ou doenças psíquicas que incapacitam. Portanto. de significação precisa e limitada. Outro fato que corrobora esta asserção é o uso destacado que o Código fez da expressão "pródigos". ou então se faz como no atual Código Penal. mas hoje em dia. ao passo que o Código Civil só considera capaz o maior de 16 anos. Impossível se toma. sem os riscos de estender demasiadamente o conceito e permitir. Há uma diferença de dois anos entre a aquisição pelo indivíduo da responsabilidade e da capacidade. O resto dos artigos seria completado com estas outras expressões: "é inteiramente incapaz de exercer pessoalmente os aros da vida civil" ou então: "não tem a plena capacidade etc.." Ao evitar o uso de um termo que tem seu correspondente técnico. com a educação e a instrução. o qual. Haveria necessidade então de se inverter o raciocínio para justificar daquela maneira a diferença . ao instituir as expressões: "por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado" e "por perturbação da saúde mental". o legislador moderno contorna eficazmente as dificuldades práticas que surgem. Alegavam os defensores da diferença que a noção de responsabilidade criminal é adquirida desde a infância. a incapacitação de indivíduos que. embora tendo sofrido uma perturbação do funcionamento psíquico. situou muito melhor o problema. como acontecia no antigo código penal. representa a verdade psiquiátrica. seja sob a forma de uma psicose (como ocorre. a sociedade evoluiu de tal modo que a prodigalidade é. nem quantitativa nem qualitativamente suficiente para o incapacitar para os atos da vida civil. psicopatas fanáticos e querelantes que gastam tudo o que possuem num invento ou numa demanda etc.). encontrar-se uma expressão que abrangesse as diversas incapacidades por insanidade mental. prodigalidade não condiz com normalidade psíquica. A curatela e a incapacitação parcial dos pródigos visa à proteção dos bens do indivíduo. verifica-se que o primeiro agora só confere plena responsabilidade aos maiores de 18 anos. com o raciocínio e a experiência das relações jurídicas do homem em sociedade. Pois bem: comparando-se o novo Código Penal com o Código Civil. no dizer de Clóvis Beviláqua um conceito jurídico superado e anacrônico. g. usando o método biopsicológico. v. Como afirmou Nina Rodrigues. na evolução do sentido ético. razão por que a alínea sobre pródigos deveria ser supressa.

a delinqüência juvenil pode ser assim compreendida: "85% dos menores são pseudodelinqüentes e sua delinqüência é apenas uma fase passageira de seu desenvolvimento. estes delinqüentes não recidivam mais. embora venham mais demoradamente. identificá-los. sem atender antes àquelas circunstâncias que são. de espírito não policial. de valor. de realidade. . aos menores. constitui um progresso. o problema dos intervalos lúcidos. Um ponto também digno de comentários das primas psiquiátrico e psicológico é o que vemos assinalado. mas hoje em dia a palavra delírio tem uma acepção mais restrita e se refere somente ao desenvolvimento de idéias mórbidas que progressivamente afastam o indivíduo da lógica e da realidade. mas isso iria estender demasiadamente. O fato de os menores escaparem à ação penal e estarem sujeitos a legislação especial. que é maior no penal do que no civil. Querer recuperar ou corrigir um menor atuando somente sobre ele. embora essa legislação não permita um adequado desenvolvimento da assistência ampla. ou muito raramente. por faltar neles a exata compreensão do problema do menor. como por exemplo. O indivíduo que não está em perfeito juízo não é necessariamente um delirante. constitui uma grave falha psicopedagógica. no dizer de Erwin Frey. Quando a intervenção e modificação visar preferentemente o mundo circundante do menor. mas apresenta graves alterações do juízo. está fadada ao fracasso. se mostraram ineficazes e mesmo prejudiciais. devida principalmente a fatores exógenos ou sociais e. Muitos outros comentários poderiam ser feitos em tomo de pontos discutíveis da lei civil em face da psico-biologia. uma vez atingida a maioridade. Segundo esse autor. a distúrbios psicógenos. "São incapazes de testar os que ao testar não estejam em perfeito juízo”. mas apresenta distúrbios em uma esfera psíquica tão elevada que difícil se toma ao leigo. em parte.Quando um especialista emprega a expressão "juízo" o faz como sendo o aspecto funcional do pensamento que permite estabelecer relações de significação lógica. fora do que há sempre a possibilidade de uma futura impugnação. de identificação etc. liros: sulco). de base rigorosamente científica. responsáveis por 85% da delinqüência de menores. por vezes habilmente dissimuladas. Um paranóico está perfeitamente lúcido. que é mais fácil dizer-se que um indivíduo está louco do que alguém ser considerado mentalmente são. Toda política de assistência a menores que pretender continuar a encará-los com vistas à sua "periculosidade".197 no limite de idade. e a prática ensina que o critério para determinar se o indivíduo ao testar estava em perfeito juízo. Falaremos agora rapidamente sobre alguns aspectos do problema dos menores. pois os fatores familiares e sociais desempenham papel ainda mais decisivo na criança e no adolescente que no adulto. Os denominados reformatórios. sua "conduta" etc. considerados antes deformatórios. os antigos denominavam delírio (de: fora. Aos desvios da normalidade do juízo. Já se disse com foros de verdade. e mesmo ao médico não especialista. para demonstrar que esta alínea contém uma redundância que deve ser afastada. obteremos muito melhores resultados práticos. Muitos exemplos podem ser citados. não pode ser senão médicopsicológico.

Para ser imputável. É claro que devemos levar em consideração algumas peculiaridades do nosso meio. dada a extensão do conceito. sendo que o presídio não pode ser considerado estabelecimento adequado para tratar doente mental. que não toque no seu elevado sentimento de liberdade. 114. Então poderemos pôr mãos à obra. quando determina que não haverá pena de caráter perpétuo.198 15% são o que podemos chamar criminosos precoces que desde a primeira infância apresentam os sinais mais diversos de abandono moral. O artigo 96 do Código Penal determina que o tratamento deverá ser feito em hospital de custódia e tratamento. isto é. antes de tudo. uma tarefa psico-higiênica e como tal deve ser empreendida e servir de base a uma política de assistência aos menores bastante eficaz. INTERNAÇÃO INVOLUNTÁRIA : O Estado Moderno. bem como algumas das mais recentes aquisições no conhecimento do problema dos menores. Existem entendimentos jurisprudenciais no sentido de que o tratamento não poderá exceder o tempo da pena cominada ao delito cometido. ." Por outro lado. através da internação voluntária. A assistência ao menor é. exige-se que o . involuntária e compulsória – judicial. A Lei 10. para receber um juízo de reprovabilidade.216/01 dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. zelando inclusive. NOÇÕES DE IMPUTABILIDADE E INIMPUTABILIDADE: A imputação de uma pena pressupõe que o agente do fato (autor) seja capaz de compreender o caráter de sua conduta ou de agir de acordo com esse entendimento. e que o tempo de prisão não excederá 30 anos. pela segurança de todos os cidadãos. pois no Brasil muito se tem que fazer ainda por eles. CAPÍTULO XIX APÊNDICE FINAL 113. O prazo deve ser estabelecido pelo Juiz que aplica a medida. sendo determinado pelo Código Penal o intervalo de um a três anos. o Poder Público tem a função de proteger os direito dos indivíduos e o dever de garantir a ordem pública e a paz social. interpretação analógica da Constituição Federal. Outro entendimento é no sentido de que na internação compulsória poderá ser até de até 30 anos. sob pena de prejudicar as mais bem intencionadas das assistências. toda atuação sobre o menor deve ser feita de tal maneira que não seja recebida como "castigo" ou "imposição".

Justiça Terapêutica é uma expressão que conjuga os aspectos legais e sociais próprios do direito (Justiça) com a relação de cuidados. criando um complexo de responsabilidade. O Estatuto da Criança e do Adolescente veio colocar fim às ambigüidades existentes a proteção e a responsabilização do adolescente infrator. 116. o juiz ordenará. 115. REDUÇÃO DA MIORIDADE PENAL: UMA QUSTÃO RECORRENTE: O estudo da redução da imputabilidade penal traz implícita a sensação de que não é possível prescindir do questionamento acerca do direito de punir. tema de permanente recorrência na sociedade moderna. com os quais sempre coexistiram as idéias de redução da maioridade penal como fórmula de combate à criminalidade. quando houver dúvida sobre a integridade mental do acusado. A medida de segurança não tem finalidade punitiva. caput CP). no futuro. mais do que movimentos radicais pela redução da idade penal. 26. embora possa impulsionar avaliações críticas e reflexivas. Do ponto de vista jurídico-processual-penal. que deve prevalecer até sua revogação. as discussões a favor e contra a redução da menoridade penal são ferrenhas e envolvem pontos de vista significativos para a psicologia. Assim. A JUSTIÇA TERAPÊUTICA: UMA NOVIDADE: No Brasil. características das intervenções de orientação e reabilitação de uma situação . Se o acusado estiver preso. possa incorporar novos conceitos posto à disposição da ciência jurídica e de seu aperfeiçoamento. É de se esperar que o legislador. (Art. até o momento ainda não bem compreendido por uma sociedade em busca do castigo. o caminho a seguir será não o de castigos alternativos. mas sim.199 indivíduo tenha uma estrutura psicológica que lhe permita entender a ilicitude de seu ato. ou seja num hospital psiquiátrico-forense por um período de 45 dias. curativa e de reintegração do indivíduo na sociedade. houve estudos pioneiros sobre a justiça terapêutica. Nosso ponto de vista vai se tornando cada vez mais claro no sentido de que. O exame poderá ser ordenado pelo juiz na fase do inquérito policial. marcada por uma certa demonização da violência. de ofício ou requerimento do Ministério Público. mas o de alternativas ao castigo. A Psicologia Jurídica não tem por tarefa questionar a lei. qualquer modalidade de intervenção só legitimará se for expressão de um ato pedagógico e de um gesto de amor. Por fim. a submissão do exame mental. Da história da inimputabilidade penal do adolescente surgiram os antigos Códigos de Menores e o atual Estatuto da Criança e do Adolescente. deverá ser internado em local adequado.

artificiosamente. a sua desvalorização e a sua culpabilização pelo evento. recaindo sobre ela acusações como se estivesse “sentada no banco dos réus”. muitas vezes. 117. que leve em consideração aspectos constitutivos de personalidade do agente. ainda existe uma tendência de “criminalização da vítima”. Esse modelo de justiça proporciona ao infrator cuidados de restauração da saúde em substituição à persecução acusatória do Estado. quanto do direito. da ciência da vitimologia para ampliar o conceito de que a vítima é também culpada por ter contribuido para o delito ou acidente. 118. psicológicas. Embora o princípio da reserva lega não permita a imposição de penas que não estejam previamente estabelecidas no ordenamento legal. Trata-se de um artifício de defesa do verdadeiro réu que. configurando uma perspectiva moderna de enfrentamento da problemática relação entre uso de drogas e crime. suas características de personalidade. pois muitas vezes é co-responsabilizada pelo fato.. essa violência pode acontecer dentro da própria família ou fora dela. a elaboração de um diagnóstico e de um plano de atendimento global. atende aos princípios constitucionais que gravitam em torno da dignidade da pessoa humana.200 (tratamento). e partindo do pressuposto da adesão voluntária. Violência de diversos tipos. inclusive para atos semelhantes. abuso e dependência de drogas. que podem se expressar das mais variadas formas: físicas. que fica sempre jungido à lei. Por isso. principalmente para o entendimento dos processos de revitimização. em relação ao estudo da vítima. A CRINAÇA E A VIOLÊNCIA: Qualquer pessoa pode ser vítima de violência. A revitimização pode assumir várias formas. . No âmbito processual. O programa de justiça terapêutica pressupõe a integração de disciplinas. determinando um claro limite ao poder jurisdicional. O simples fato de a Psicologia Jurídica se preocupar com a vítima pode contribuir para melhor compreensão da vitimologia. e que o infrator esteja com dificuldades relacionadas com o uso. sua capacidade de resposta ao evento traumático e suas competências psicossocias capazes de estabelecer conseqüências distinta. desde que as infrações sejam praticadas sem violência ou grave ameaça. quanto dos operadores judiciais. Reflete uma visão conjunta do direito com a psicologia e traduz-se como um novo enfoque para o enfrentamento do problema de sujeitos em conflitos com a lei. onde devem questionar sempre os fundamentos em que se baseia a própria sociedade. desde a minimização do sofrimento até a evitação da pessoa da vítima. sua dinâmica familiar e a rede social de apoio. tanto dos psicólogos. se utiliza. preocupação de todos. QUEM SE PREOCUPA COM A VÍTIMA?: Outra questão de fundamental importância. a justiça terapêutica. sexual etc. por isso uma missão de difícil execução. há necessidade de um olhar atento tranto da psicologia.

pensamentos e comportamentos destinados à resolução do conflito emocional de duas pessoas. A violência do abuso sexual é diferente. Para os profissionais do direito. pois envolve um segredo familiar (e social). As emoções muitas vezes enganam a percepção. que têm a missão de julgar. deparar-se com o abuso sexual infantil é um fato que vai se tornando cada vez mais freqüente. “Casos de incestos. se sentem perplexos e imobilizados. ser e dever-ser. natureza e cultura. ABUSO SEXUAL INFANTIL: Para os profissionais que trabalham com crianças. por sua natureza. De fato. Por outro lado. como é o caso das crianças. família. Este é o sofrimento da perplexidade e da impotência. O processo psicojurídico de separação e de divórcio inicia com uma crise conjugal na relação entre marida e mulher. que conterá a exposição de determinados fatos. o embasamento legal. guarde de crianças. podem estender a . Conclui-se que há necessidade do esforço de todos. um procedimento judicial que envolve um conjunto de atos destinados a resolver um conflito legal. amigável ou litigiosa. e por isso os acontecimentos lhe afetam de muitas maneiras diferentes. Separação. pode ficar a dúvida se os sinais percebidos – as provas – são mesmo indicadores suficiente do abuso. A SEPARAÇÃO OU DIVÓRCIO DOS PAIS: EFEITOS SOBRE OS FILHOS: Processo psicojurídico: Direito e Psicologia abordam o comportamento humano. a separação e o divórcio implicam também um processo psicológico que corresponde a um conjunto de sentimentos. muitas vezes. Sabese que os efeitos mais prejudiciais da violência costumam ser de natureza psicológica. padastro etc”. São dois mundos pelos quais transitam o mesmo sujeito. para a qual a única alternativa é a ruptura judicial. isto é. O Direito regido pelo princípio da finalidade e a Psicologia organizada pelo princípio da causalidade. Para ver é necessário estar preparado para enfrentar as emoções que a realidade espera. divórcio. 120. e os pedidos. implicam um processo jurídico. A literatura sobre o abuso e maus-tratos na infância tem reforçado a importância do papel da família na formação do indivíduo e na sua predisposição para conduta violenta ou delinqüente. 119. Dentro do Judiciário. por exemplo. A questão é de se saber se existe associação entre o tipo de maus-tratos sofridos na infância e formas específicas ou inespecíficas de desordens de conduta ou delinqüência futura. das instituições e do próprio Estado.201 A violência é excepcionalmente pesada para quem tem menos recursos para resistir ou dela escapar. o homem é um cidadão de dois mundos (ser e dever-ser). porém fazem-no sob ângulos e perspectivas diferentes. a partir de uma ação formalmente ajuizada. cujas conseqüências. fazem com que não se consiga ver aquilo que está perto e que faz sofrer. as questões são prementes e exigem ações rápidas de profissionais que. das mulheres e dos idosos.

202 outras pessoas. LEI MARIA DA PENHA: A violência é um ponto importante a destacar na medida em que a agressão se une às relações afetivas. principalmente os filhos. Por isso os operadores do direito. todos os pontos da demanda. devem proceder a uma profunda reflexão antes de executar a Lei. a Lei Maria da Penha. o processo envolve interesses em conflito. A tentativa de homicídio deixou como seqüela permanente uma paraplegia nos membros inferiores.340/06 leva o nome de um caso real e trágico. Do ponto de vista jurídico. que “cria mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher”. pretensões resistidas. na demanda ou na disputa. de modo que a crise conjugal se dimensiona como uma crise familiar. paradoxalmente. Uma novidade na legislação acerca da violência doméstica. Duas semanas depois de regressar do hospital. A persistência da vítima em punir o agressor forçou as autoridades a olhar a violência doméstica e os procedimentos judiciais com mais atenção. Em 1983. que colaboraram demasiadamente para a morosidade da Justiça. Por certo. 121. na qual o psicólogo emprega seus conhecimentos para esclarecer o funcionamento da personalidade de uma pessoa. responsáveis pela interpretação e pela aplicação da lei. especialmente as crianças. Ente a prática dessa dupla tentativa de homicídio e a prisão do criminoso transcorreram 19 anos e 6 meses. encontra-se a perícia . mediante recursos jurídicos. Entre outras formas de avaliação psicológica. AUTÓPSIA PSICOLÓGICA: Uma das técnicas mais importantes para o entendimento do comportamento humano é a avaliação psicológica. incluindo os fundamentos da intervenção psicológica. “dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência e Familiar contra a Mulher” e “estabelece medidas de assistência e proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar”. têm o direito e o dever profissional de contraditar. ainda durante o período de recuperação. alegando uma tentativa de roubo. graças aos procedimentos legais e instrumentos processuais brasileiros vigente à época. estão psicologicamente preparados para enfrentar os conflitos familiares e as conseqüências decorrentes da separação ou do divórcio de sus pais. sob pena de transformá-la. para tentar obter a reforma do veredicto desfavorável aos interesses de seu cliente. A pergunta lógica que cabe fazer é se os filhos. A Lei 11. seu ex-marido tentou eletrocuta-la enquanto se banhava. Eis uma pergunta difícil de responder. que se consubstanciam na lide. os advogados devem conhecer todos os pontos sobre o quais se baseou a sentença do Juiz e. a biofarmacêutica Maria da Penha foi vítima de violência doméstica praticada por seu exmarido. num instrumento de opressão para quem pretende justamente proteger. que disparou contra ela enquanto dormia. 122.

constitui uma aventura. Esse procedimento é considerado como um processo de coleta de dados do periciado que permite reconstruir seu perfil psicológico e o estado mental antes do fato juridicamente questionado. às Luzes e à tradição. Portanto. por fim. pelo menos. A Psicologia Jurídica. o que se exige é a passagem à fidelidade. no amplo espectro de suas contradições. Isso exige lidar simultaneamente com sentimento e com a liberdade do homem que sofre e que. unindo razão. como disciplina ainda por fazer. a inauguração de um novo território epistemológico. ambos compartilhando o mesmo objeto. em particular. de um modo geral. Diante da necessidade de uma conexão ética com uma sociedade em busca de valores. 123. possui também uma coração. Fidelidade à razão e às leis. um tipo de perícia que se denomina Autópsia Pasicológica. mas essencial à Justiça. . pode auxiliar e compreender o “homo juridicus”. ao amor da verdade e ao amor do amor. A autópsia psicológica destina-se a esclarecer casos de morte duvidosa. não do ponto de vista médico. poderá ajudar o direito a cumprir sua imensa responsabilidade com a justiça. as leis e as instituições. A Psicologia Jurídica. antes de embaraçar nesta viagem. mas cujo conhecimento é de interesse ou de utilidade judicial. A Psicologia Jurídica é importante para o Direito. É razoável considerar que o desconhecimento do Psicologia Jurídica insere-se entre as causas do erro judicial. Fidelidade. A Psicologia Jurídica. os outros e a si próprio. trabalhista. emoção e criatividade. A Psicologia. Se a resposta for não. A aproximação entre direito e psicologia é uma verdadeira questão de Justiça. O que sem dúvida devemos examinar é a parte maior e mais elevada dessa ciência que nos conduz a uma contemplação mais factível da idéia do bem. Trata-se. para se chegar à Justiça. precisa-se do direito e da psicologia. Ela pode ter lugar em matéria de direito penal. Serve para esclarecer os aspectos psicológicos de uma pessoa que já faleceu. mas das razões psicológicas que podem estar associadas à morte. pode permitir ao homem conhecer melhor o mundo. securitário e infortunísitco. ele haverá de procurar outra direção.203 psicológica e. além de um traçado científico. CONSIDERAÇÃO FINAL: a Psicologia jurídica. uma compreensão transdiciplinar do homem e da sua conflitualidade. que é o homem e seus conflitos. na ordem e na cultura. à humanidade e aos direitos do homem. civil. de não ser indigno daquilo que a humanidade fez de si e de nós. o sujeito deve questionar se esse caminho. poderá representar essa nova leitura. está irremediavelmente marcado por sua inscrição na lei. Na verdade. particularmente.

204 .

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