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Abas: A principio, meus olhos não conseguiram atinar com o que estava escrito. Mas logo as letras se desembaralharam. “Amando uma Mulher Avantajada”, dizia a manchete, “de Bruce Guberman”. Bruce Guberman tinha sido meu namorado durante pouco mais de três anos, até alguns meses atrás, quando resolvemos dar um tempo. E a Mulher Avantajada eu não pude achar que fosse outra além de mim mesma. Cannie Shapiro nunca quis ser famosa. A repórter especializada em cultura pop, inteligente, mordaz e de tamanho avantajado estava perfeitamente satisfeita em escrever sobre a vida de outras pessoas nas páginas do Philadelphia Examiner. Mas no dia em que abre uma revista feminina de circulação em âmbito nacional e descobre que seu exnamorado anda escrevendo crônicas sobre as experiências sexuais que tiveram juntos, sua vida muda para sempre. “Amar uma mulher avantajada é um ato de coragem em nosso mundo”, escreveu Bruce. E Cannie – que nunca soube que Bruce a via como uma “mulher avantajada”, ou achasse que amá-la era um ato de coragem – mergulha na tristeza e no ano mais impressionante de sua vida. Escrito com garra e humor agridoce, repleto de tiradas espirituosas e surpresas emocionantes, este romance de estréia de Jennifer Weiner é uma delicia de ler. Vai além da história de Cannie e toca o coração de toda mulher. Jennifer Weiner é escritora e colunista do The Philadelphia Inquirer. Mora na Filadélfia com seu cachorro, Wendell. Bom de cama é seu primeiro romance e os direitos de tradução já foram vendidos para dezesseis países. Para obter maiores informações sobre a autora e sua obra visite o site www.jenniferweiner.com.

Para minha família.

O lar é tão triste! Fica qual o deixaram, Conforme os caprichos do último a partir Para conquistá-los de volta. Mas, carente De alguém para agradar, ele murcha, Sem um coração para guardar o furto E voltar-se novamente ao que foi no começo, Alegre ensaio de como devem ser as coisas, Há muito desfeitas. Pode-se ver como foi ele: Basta olhar as quadros e os talheres. A música no banquinho do piano. O vaso, aquele. - Philip Larkin

O amor não é nada, mas nada mesmo, absolutamente nada do que dizem. - Liz Phair.

. meus olhos não conseguiram atinar com o que estava escrito. dizia a manchete. . Eu espero na linha. você tem de arranjar o último número. “de Bruce Guberman”. “Sem gozação: Orgasmos múltiplos para todas!” e “Quatro fórmulas infalíveis para empinar o bumbum!” Após um breve minuto de deliberação.Página 132 – disse ela. peguei um saquinho de M&M. Cheguei mais para perto do computador de forma que a minha editora não me ouvisse tratar de assuntos pessoais ao telefone. mas preste atenção: eu não tenho nada a ver com isso. levei tranqüilamente alguns M&M`s à boca e abri na página 132. “Amando uma mulher avantajada”.Ah.Vi o quê? – perguntei de novo. Ela soltou um suspiro.Nada – repetiu ela. sessão regular da Moxie. foi o que aconteceu comigo. Mas logo as letras se desembaralharam.Por quê? O que aconteceu? Será que eu saí na lista das mais deselegantes? . Aí eu fiquei preocupada. era sócia da Lewis. . até três meses atrás quando resolvemos dar um tempo. nada não. Cannie. Glamour e Mademoiselle. Cosmo. Não foi difícil de achar. acenei para o segurança e me dirigi à pequena banca de jornal.Moxie. ou mandava a secretária dizer que estava em reunião. Sabe. ou não queria.Está bem. além de ser a minha melhor amiga. agora. enquanto o caixa não parava de mascar o seu chiclete. me dizia.PARTE UM Bom de cama UM . nesses livros de terror. conforme o caso. . Fazia os outros esperar. havia uma supermodelo de lantejoulas na capa e manchetes que diziam. Eu senti uma fisgada de ansiedade me subir pela espinha.. Eu me sentei. E a mulher avantajada eu não pude achar que fosse outra além de mim mesma. . só estou dando uma notícia.Você viu só? – perguntou Samantha. Tomei o elevador até o saguão do Philadelphia Examiner. Samantha ainda estava esperando na linha. escrita por homens. .Dê um pulinho na recepção e pegue a revista. Samantha. . “É um sinal de fraqueza”. paguei o devido e retornei ao escritório. Só podia ser uma coisa importante. Também.Vi o quê? . E depois o senti bater com toda a força . com o intuito de ajudar a leitora normal a compreender o que seu namorado queria. Esqueça. Desembuche. Vamos conversar quando você chegar em casa. onde encontrei Moxie na prateleira junto a outras publicações semelhantes. você nunca me ligou no meio do dia para não falar nada. quando um personagem diz “Senti o coração parar”? Pois é. A princípio. . Mas ela mesma não esperava nunca na linha. Bruce Guberman tinha sido meu namorado durante pouco mais de três anos. Sem essa. que por acaso era “Bom de cama”. Dommel & Fenick.Samantha. De verdade. .

mandei Betsy de volta para o seu lugar. As mãos ficaram geladas. gritando para mim do centro da página. via e-mail. uma colega atroz. Bruce Guberman. e Gabby já tinha começado a digitar. “Você está bem?”. na garganta. Um monte de cabeças se viraram.Não sabia o quê? Que ele achava que me namorar era um ato de coragem? – tentei soltar algo como um riso irônico. a revista que estava em meu colo.novamente. – Inspire pelo nariz. – Ele deveria tentar se colocar no meu lugar. certamente artificial.Eu mato esse sujeito! – grunhi. você está me ouvindo? . escrevera Bruce. resolvi que era uma coisa com a qual eu poderia aprender a conviver. com os cabelos compridos esvoaçando ao vento. Sem um pingo de compaixão. Eu fechei os olhos com força. ofegante. “é um ato de coragem em nosso mundo. Do lado de lá da divisória. por trás de mim. com um gesto tranqüilo. – Sujeitinho de merda! .” . Betsy mostrava-se preocupada novamente. Betsy. “Mas quando conheci C. Senti o chocolate e a casca dos M&M`s grudados nos dentes. Consegui respirar fundo e.Então você não sabia que ele tinha arranjado um emprego na Moxie? Virei a capa da revista para ver a lista dos colaboradores.” .Ele mal consegue escrever um bilhete de agradecimento – disse eu. Betsy já tinha dado a volta em torno da divisória e tentava ler. por cima dos ombros. nos espionava com os reluzentes olhinhos castanhos à cata de uma encrenca. imediatamente às fofoqueiras. eu li. Quanto ao corpo. abrindo a revista de novo na página 132. como se viesse de muito longe. . . Deu até para ouvir o sangue retumbando nos ouvidos. na ponta dos dedos. Eu. indubitavelmente ansiosa para mudar de assunto. prontamente. “Eu nunca achei que fosse ficar a fim de uma gordinha”. olhou intrigada através da divisória que separa nossas mesas. Bem. Comecei a arquejar.Não acredito! Eu não acredito que ele tenha feito isso! Vou matar esse sujeito! A essa altura. onde era apresentado um breve perfil da pessoa. fechei a revista. Samantha estava esperando. .Você não sabia? . Guberman está atualmente em seu primeiro romance.Respire fundo – aconselhou-me Samantha. “Amar uma mulher avantajada”.Seu primeiro romance? – falei. entra para a equipe da Moxie este mês. minha editora.. expire pela boca.” A voz de Samantha soou distante. . . logo abaixo de imagens arte-finalizada em preto e branco de seus rostos. apenas um eco vindo do carpete. Escritor free lance de New Jersey.Cannie? Cannie. tinha uns olhos brilhantes e um riso contagiante. Dei um jeito de derrubar o fone de ouvido no chão. me apaixonei porque ela era muito espirituosa. . achei-o parecido com o cantor New Age Yanni. os dedos grossos a postos sobre o teclado para transmitir a má notícia. Bati os olhos na citação destacada em letras cor-de-rosa. quando li a primeira linha do artigo: “Nunca vou me esquecer do dia em que descobri que minha namorada pesava mais que eu.Eu nem sabia que ele estava escrevendo um romance – disse Samantha. E lá estava Bruce. talvez eu tenha berrado. Os pelinhos da nuca se eriçaram.Respire – disse a voz de Samantha. nos pulsos. “O colunista de ‘Bom de cama’. ela pergunta por meio de gestos. Gabby.” .

meu Deus! .Bom de cama. . Eu passei as mãos pelos cabelos cortados à altura do queixo e tentei avaliar o grau da devastação. Não. Ele ficou zangado – disse Samantha. ou implora para você ficar com ele e faz uma cena patética. “Lewinskyana”.E sai falando da sua. Betsy já estava novamente de pé.Referindo-se ao meu corpo ou às minhas chupadas? – tentei rir. essa! Será que verificaram as referências dele? Para mim... . Senti uma lágrima enchendo meus olhos. e as minhas mãos tremiam. . desde que começou a namorar com o professor de yoga.Ah. . – Você diz: “Acho que precisamos dar um tempo”. sendo esmigalhados pelas rodinhas da minha cadeira. – A gente só estava dando um tempo.Só o comecinho. . perdi a paciência.Quer mesmo ler? .Ora.. Quem mais teria visto aquilo? Quem mais saberia que C. Não é uma palavra ruim. Samantha aguardou um instante.. . Pode dizer. em tom reconfortante. Eu Mato Esse Cara! . – Eu deveria ligar para o editor dele. mas depois que o correio de voz me informou que não poderia atender ao meu telefonema. – E carnuda.Piora ainda mais? Samantha soltou um suspiro.Então mate logo e cale a boca de uma vez por todas – resmungou Gabby.Disse que você era suculenta – falou Samantha. ..Ai. Ele escolheu os cacos de dignidade. não quero – aguardei um instante. deixe-me encontrar. Quero. . desliguei e tornei a ligar para Samantha. ninguém telefonou..Talvez seja melhor não ler o resto. – Quero sim. durante todo o nosso namoro ele nunca falou nada. Ela me lançou um olhar de preocupação e voltou para sua mesa. Samantha soltou outro suspiro. . sim. ela andava bastante filosófica.Você leu tudo? . e de repente havia um monte de M&M`s espalhados pelo chão. Ora. .Estou bem – falei para Betsy.A fim de uma gordinha? – disse eu. E ele concordou que seria uma boa idéia! .Não. . era eu? Será que ele teria mostrado aquilo a todos os amigos? Será que a minha irmã teria visto aquilo? Será. .Eu não dei o fora nele – gritei. Isso é propaganda enganosa. mas o que saiu foi um soluço estrangulado. você acha? .Preciso desligar – disse a Samantha. empurrando os óculos fundo-de-garrafa para cima do nariz..Você deu o fora nele. Precisei tentar três vezes até conseguir acertar o número de Bruce.Caramba. uma ova! – disse eu. . .Ela a chamou você de. e desliguei.Isso é a voz de raiva – falou Samantha. e ele só tem duas coisas a fazer: concordar com você e vai embora com os cacos da dignidade que lhe resta. Da sua “amplitude”. . e o que ele poderia fazer? – perguntou Samantha. – Como é que ele foi fazer uma coisa dessas comigo? .

Só se for para aluguel de carros – disse o repórter. O meu modo normal de agir é ir minando a resistência deles com a minha presença de espírito. não têm? . eles têm a pena de morte. no tempero de alecrim e alho. o editor do caderno da cidade. no que pareceu ser uma cena da vida de outra pessoa. digitando com afinco em seus computadores ou aglomeradas em torno de aparelhos de televisão assistindo a CNN. enquanto tentava sugar a carne imaginária de dentro da pata imaginária.Estou. Tirei o fone de ouvido e me levantei da cadeira. onde tinha boa visibilidade do salão. como que engessado.É que você estava meio. Cannie – disse Larry. . além de acesso fácil ao molho quente de alcachofra. Justamente quando eu chegava à parte em que ela enfiava a patola de caranguejo na narina direita sem querer.Um pouco – eu me sentei e logo me levantei outra vez. para que todos no salão me ouvissem. – Mas acho que as leis são bastante permissivas.Isso é quando você tem menos de vinte e cinco anos – acrescentou um assistente de editor. . um sujeito que se sentisse tão atraído por mim e que me pedisse para sair logo de cara. Ele foi fácil.. um homezinho de ar perplexo e barba que levava tudo absolutamente a sério. . muito bonita. o meu charme e.Deus me livre. .Alguém sabe como se faz para conseguir uma arma neste estado? – perguntei.Hum.Estamos trabalhando numa série – disse Larry. em tom de escárnio.Estranha? . . Bruce nem precisou do frango. Foi assim que.Você é quem sabe – disse ela. – a voz dele. . . .Para fazer o quê? .Isso eu resolvo até chegar lá – falei. com licença – disse ele.Estamos trabalhando numa série – falou Larry. e acho que havia um pouco de molho de alcachofra na minha bochecha naquele momento. na primeira vez em que vi Bruce. quase todas de meia-idade e brancas. .Quer saber de uma coisa? Não vou matá-lo. – Tem pressa? . – Você está passando bem? Ergui as sobrancelhas na direção dele. esqueçam – falei. sumiu. ainda que um pouco aguda. a boca escancarada e o pescoço retorcido num ângulo particularmente grotesco. a Terrível.Preciso desligar – falei novamente para Samantha. voltando a me sentar e a telefonar novamente para Samantha. Bruce se aproximou. numa reunião social. que a minha mãe teria? . . de olho na sala de notícias do Philadelphia Examiner. Eu estava parada num canto. tentando comer uma patola de caranguejo do Alasca com o braço na tipóia. – Na Pensilvânia. Eu tinha conhecido Bruce Guberman numa festa. .Vem comigo hoje à noite? Vamos pegá-lo de emboscada no estacionamento.Existe um período de espera de duas semanas – palpitou um dos repórteres esportivos. sem rir.. ele usava cavanhaque e um rabo-de-cavalo louríssimo. Dúzias de pessoas.Ah. . e tinha meigos olhos castanhos. um franguinho caseiro kosher. Estava fazendo uma imitação e tanto de Gabby. . . Altão e bronzeado. Eu nunca tinha conhecido.A gente acha isso para você. em geral. eu trazia um braço apertado contra o peito. A morte seria boa demais para ele. com toda lealdade. .

uma boa possibilidade. Estava pensando no que toda mulher que mora em cidade grande pensa quando ouve passos apressados se aproximando por trás. pelo menos você estava tentando – disse ele.Ah – repetiu ele.. pegou a mão dele e disse: . .Ele é vegetariano – disse ela. . acima de tudo. – Converse com ele. do dinheiro dos pais. o que mostrava um certo grau de inteligência. – Brianna não completou. Havia um sinal logo em gente e um carro estacionado bem na esquina. ali parado. . quebrar o vidro do carro na esperança de disparar o alarme. A essa altura.Não se preocupe – falei. pelo menos de fora. . . antes de das as más notícias: vinha trabalhando na tese havia três anos. . Passei a noite inteira observando-o e senti que ele estava me observando.Desde a faculdade. Ele veio com um cara com quem Brianna tinha feito pós-graduação. e eu já estava indo para casa bastante decepcionada. Eu tinha vinte e cinco. Eu estava sendo malvada. Passei o resto da festa pegando a ficha de Bruce.. . a mais de uma hora da gente.Uma vez eu vi uma pessoa tendo um derrame – contou-me. – Viciado em analgésicos? . vivia de bico.Está vendo? Agora estou tentando ser mais legal. depois da meia-noite e no meio de um quarteirão. igualzinho a mim. gritar por socorro e sair correndo. .Ele. .Meio imaturo – disse ela. essa é Cannie. Ele tinha vinte e sete anos. Mas quando ouvi passos atrás de mim. .Ele é homem – falei eu. É a minha resolução de ano-novo. em miniatura.Eu estava empurrando com a barriga.Bruce. dentes bonitos.Ele é divertido – falou Brianna. O meu plano era tentar imobilizar temporariamente quem quer que estivesse se aproximando de mim com o spray. .Hum! De repente. me deu um sorriso e foi embora.Ah – disse ele.Há quanto tempo? . . . . que eu trazia sempre pendurado no chaveiro. ou mais. . ainda mais alto. Eu continuei falando. Ela estava fazendo uma imitação. e era judeu..Condicional? – brinquei. . Mas ele não falou nada até a festa terminar. com mãos bonitas.Já estamos em fevereiro – ressaltou ele. Você vai ver. e dava umas aulinhas para os calouros. – E não são todos? Ela riu. Aquele Bruce parecia.Mãos bonitas – foi a minha contrapartida. Dei uma olhada rápida ao redor. – Começou assim. escrevia com freelancer aqui e ali.Bom. Limpando os olhos. – Foi bom você ter interrompido. sentindo-se obviamente meio bobo. minha amiga Brianna já tinha se recomposto. Eu me retraí. . – Dentes também. eu não estava pensando nele.Ele é um cara legal. Boa notícia: fazia pós-graduação. eu dou um trato nele. estudante de pós-graduação. dando de ombros. e morava no centro de New Jersey. Fazia um bom tempo que eu não via ninguém por quem me interessei.Geograficamente indesejável – proferiu Brianna. enquanto tentava pegar o spray de pimenta. de uma parca bolsa de estudos e. – disse. . Já se encaixava.

mesmo. tentando evitar que a voz tremesse. que ele provavelmente pegou numa loja de bebidas quando saiu do trabalho – prova concreta de que nós tínhamos acabado. mas não disse nada. vamos sair – falei. eu iria estar um caco para trabalhar no dia seguinte. Ele estava dando piscadelas duplas. rindo um pouco de meu medo.Você poderia me relembrar a que altura do nosso relacionamento eu concordei em deixar que você partilhasse detalhes íntimos da nossa convivência com milhões de leitores? – perguntei.. .Ore essa. como costumava fazer quando ficava nervoso. . ver os meus objetos pessoais todos enfurnados numa caixa vazia de Chivas. . . . . tranqüilo. – Já é. Cannie! Nós sabemos muito bem o que isso quis dizer. O prato de plástico azul que eu deixava no apartamento dele para o meu cachorro Nifkin. pais. . sorrindo timidamente para mim. três meses depois do nosso papo de dar um tempo e quatro horas depois de eu ficar sabendo que ele contou para todos os leitores de revista desse mundo que eu era uma mulher avantajada. em frente do prédio dele. Pronto! Agora.Para mim. Três anos de quinquilharias.Bruce – falei. e um sorriso tímido no rosto.Nós só estávamos dando um tempo – falei. depois de errar o caminho.Claro. mais de três anos depois do nosso primeiro beijo. quis dizer o que eu disse – falei. mostrando nós dois em cima de um penhasco em Block Island. pelo menos. um vidro de Chanel pela metade. E duas horas mais tarde. perdidas embaixo da cama ou na fresta do sofá. ainda dando piscadelas duplas de um jeito que eu achei especificamente nojento. Bruce deu de ombros. E lá estava ele. o futuro dos jornais. foi como levar um tranco no peito. Três meias. na saída da ponte Bem Franklin. Ele me acompanhou até em casa. a dissertação dele. Eu lhe dei meu telefone. justamente quando pensei que. Evidentemente Bruce viu aquele nosso encontro como uma ótima oportunidade para matar dois coelhos com uma só cajadada: enfrentar a minha ira por conta da coluna “Bom de cama” e devolver as minhas coisas. cheirando a acampamento de verão. com um saco de dormir enrolado embaixo do braço. . Estou dizendo agora. Bruce olhava para mim lá do outro lado do estacionamento.Não há mais nada entre nós. onde tínhamos combinado de nos encontrar. . . Um brinco em arco de prata que estava na mesa-de-cabeceira dele há meses. Estava carregado de coisas. Uma escova de dentes.Não. ele estava de novo à minha porta: ainda maior do que eu me lembrava de camisa quadriculada e calça de moletom. à uma hora da madrugada.Eu quero ver você – disse-me.Ei – disse. . .Cannie? Eu dei meia-volta. se continuássemos a conversar daquele jeito. Ele me ligou na noite seguinte e nós conversamos durante três horas. olhando firme para ele. sobre tudo: faculdade. Para mim.Cannie – falou ele. Uma fotografia emoldurada em madeira vermelha. Tampões. Ele me deu um sorriso de condescendência. – Como vai o romance? Eu vou ser a estrela dele também? Ele ergueu as sobrancelhas.

A nossa foto. “essa é a pior coisa que já aconteceu comigo”. em casar com você. e ser sincera. não é mesmo? . com tudo que tinha dentro. – Você é pequeno – finalmente proferi. A caixa de tampões bateu na testa dele. e a colocá-los de volta dentro da caixa. Nada.Ah. respirando com dificuldade. . Só deu meia-volta e foi embora. As mãos tremiam. Mas eu não esperava a solidariedade dela numa situação como essa. Com Bruce. Lascas de madeira e cacos de vidro. – Para falar a verdade. E ainda por cima é magra! Sem fazer nada. meu pai ter-nos deixado foi ainda pior. Bruce deu de ombros. E acha que não fez nada de mais? . – Sei lá por que você está tão zangada. – Você me chamou de gorda numa revista. – Não acredito que eu tenha pensado seriamente. nada de mais – ele endireitou os ombros. . nunca. Cannie.Você está doido. – Foi você quem quis isso. Quis um tempo para pensar nas coisas. achei a coluna bastante legal. – falei.Seu cretino! – passei a língua nos lábios. nem por um segundo. mas só consegui arranca-lhe aquela calma enlouquecedora e cínica. Torci para que ficasse zangado.Você está bem? – perguntou. . Bruce deu de ombros novamente. – e fiquei novamente sem fala.Não preciso mais me preocupar com os meus sentimentos.. Nem sequer olhou para mim. com a garganta engasgada de choro. No âmbito maior da vida. – Você é gorda – ele inclinou a cabeça.Essa foi a maior maldade que alguém já fez comigo – falei. Se dessem a ela todas as opções de comida do mundo. vi que não era verdade. A foto descambou do ombro dele e se espatifou no chão. ela mais parece uma Anjelica Huston no auge da juventude. me transformou numa piada. fiquei literalmente sem fala. Samantha tinha deixado o carro ligado. . Bruce não falou nada. Com um metro e setenta e oito. tentando empurrar as coisas todas para cima de mim. ao menos emocionado. ele deixou no chão. Ela deve ter pensado que eu estava ridícula. Confirmei com a cabeça. se abaixou e começou a catar itens de proteção feminina.Que legal! – falou Bruce. Você mesma deixou isso bem claro – ele se ergueu. pelo chão do estacionamento. pensando na pior coisa que eu poderia dizer. . admita – disse ele.. – Você é um. está lembrada? . é isso? – perguntei. incutindo no termo toda nuança de ódio que me foi possível angariar. mais histórico. para que ele soubesse que me referia ao espírito e a tudo o mais também. essa pergunta era mais do que uma questão de retórica. Meu foco tinha sumido. do horror e da fúria que eu senti. ela provavelmente escolheria um pêssego fresco e uma torrada de pão de centeio. Em um dos poucos momentos da minha vida adulta.um de nós dois. sem dizer nada. a palavra que o fizesse sentir ao menos uma fração da vergonha. a pele clara e as maçãs do rosto bem salientes e torneadas. esparramando-se.Eu quis dar um tempo. – Mas isso não quer dizer que eu não a amasse. . Está aí uma das grandes sacanagens do meu pai: ter-me roubado a possibilidade de dizer para outro homem. Eu não disse. Eu deveria ter-lhe dado um fora. assim que eu me sentei no banco do carona. os cabelos pretos. – E quero que você saiba disso – mas. no momento exato em que as palavras saíram da minha boca.Enfim – falou Bruce. . apertando a caixa contra o peito.

Da prateleira de cima da dispensa. respirei fundo. sentei-me no sofá de brim azul e comecei a ler. Minha secretária eletrônica estava piscando três vezes. Olhei para dentro da caixa de papelão. Ignorei. para os meus brincos. era uma garota grande. . e mesmo sendo minha melhor amiga. quando havia comido. . imagino que esteja tudo acabado entre vocês dois? . carinhosamente. livros. quais eram seus planos para o que iria comer em seguida e se vinha tomando os oito copos de água por dia.Estou.Acho que eu só quero ir para casa. uma caderneta do tamanho de meia folha de papel oficio.Você está legal? – perguntou Samantha. O número de identificação. com anotações do que ela havia comido. Ela me deu uma breve olhadela. quando entrei em casa. hum. às vezes é difícil não sentir inveja de uma pessoa para quem tanto faz comer ou deixar de comer. folheando as revistas em cima da mesinha de centro. . baixei uma garrafinha de tequila. Eu nunca consegui lhe dar ao menos uma noção do que é viver num corpo como o meu. andando para lá e para cá de biquíni. Lá estava o nome dela. Basta dizer que o número me deixou chocado. quando encontrei seu fichário dos Vigilantes do Peso. vesti um macacão e uma camiseta e entrei de és descalços na cozinha. A pele. tirei um pacote de limonada Minute Maid congelada.Quer beber alguma coisa? Quem sabe a gente vai jantar em algum lugar? Quer pegar um cineminha? Apertei a caixa com mais força e fechei os olhos para não ter de ver onde estávamos. refletida no vidro do carro. Tirei a roupa do trabalho. eu a detestaria. Amando uma Mulher Avantajada de Bruce Guberman Nunca vou me esquecer do dia em que descobri que minha namorada pesava mais que eu. E o peso. estava pálida. Eu sabia que C. . Bati os dois ingredientes no liquidificador. Senti uma secura na boca. o tubo de batom Mac que eu achava que tinha perdido para sempre. aquelas magrelinhas que aparecem nas . O único problema que lhe trouxeram o rosto e o corpo foi ser muito paquerada pelos homens.Então. que eu não cometerei a indelicadeza de revelar aqui. enquanto eu sempre prefiro comer e chego até a comer a parte dela quando ela não quer mais. apática. . tomei um gole. peguei uma colher.Se não fosse minha melhor amiga. Do congelador.Adivinhona! – disse eu. maior do que as mulheres que eu via na TV. Ela estava dando um passeio de bicicleta e eu em casa assistindo ao jogo. Sem duvida. parecia de cera. para não ter de ver o carro percorrendo de volta as ruas que me levavam até ele.

sentava-se junto conosco no cinema. Absolutamente maior do que todas as outras mulheres que eu namorei. convidativas. tinha uns olhos brilhantes e um riso contagiante. Os ombros dela eram tão largos quanto os meus. todos os camisões pretos sem forma e sem graça. resolvi que era uma coisa a qual eu poderia aprender a conviver. que caminhava pelas ruas do nosso lado. não tinha como passar despercebida. as mãos quase do mesmo tamanho. ela teria ido num instante. Talvez fosse pela maneira como eu absorvia as expectativas da sociedade. Ela não sentia prazer algum exatamente nas coisas que eu mais amava.Quanto ao corpo. pensei sarcasticamente. Mas eu sei que. suas curvas eram um deleite. os pressupostos do que os homens devem querer e das características físicas que as mulheres devem ter. C. na sua amplitude. talvez fosse mais pelo jeito dela mesmo. se tudo isso pudesse apagá-la do mundo físico. eu sei que para ela. Com um metro e setenta e oito. Como chegar a casa. Mas quando conheci C. E dos seios até a barriga. Ora. Abraçá-la era como chegar a um porto seguro. Estamos todos cansados de ouvir que a gordura é o último preconceito aceitável. à espreita de alguém que viesse lhe dizer a palavra mais feia do mundo: gorda.. me apaixonei porque ela era muito espirituosa. e como olham para você por estar com ela. e um peso que a classificaria direto para a equipe profissional. estatura de jogador de futebol americano. passando pelas coxas. no seu tamanho. que os gordos são o único alvo seguro neste nosso mundo politicamente carreto. Do que as duas? Eu nunca achei que fosse ficar a fim de uma gordinha. se todos os ombros curvados e posturas constrangidas. Mas sair com ela não era uma sensação tão reconfortante assim. ela nunca acreditava em mim. essa!. no seu corpanzil suculento e carnudo. você . Eu sentia que a vergonha dela era algo palpável. Quando resolver comprar roupa intima para lhe dar de presente no dia dos namorados. Por mais que lhe dissesse que aquilo não importava. era o próprio soldado nas guerras do corpo. E eu sabia que não era nenhuma paranóia.comedias e seriados médicos. se fosse possível. C. da cintura para baixo. Por mais que eu lhe dissesse que era linda. Quem quiser saber se isso é verdade que arranje uma namorada gorducha! Vai ver como as pessoas olham para ela.

encharcando-me a camiseta a cada “Sim” que diziam as inúmeras supermodelos magricelas da revista. Parecia que ser “Lewinskyana” era pior que ser traidora. E agora que acabou. Sua família era seu maior deleite. o pai dele. com sua barba e os olhos meigos como os de Bruce. em Washington. era dermatologista. Parecia que ser gorda era algum tipo de crime. Porque. e entre o que vai se permitir comer e o que vai deixar que a vejam comer em público. recebeu um monte de cartas depreciativas. Ele poderia ter sido tudo que eu queria. mais do que qualquer outra coisa que tenham dito. você vai vê-la sofrendo para escolher entre o que vai querer comer o e que vai se permitir. não sei para onde aponta a minha raiva ou mágoa. observar Bernard Guberman era como olhar para um alienígena vindo de marte. por não ser forte o suficiente para superar o que o mundo lhe dizia. A ser verdade aquilo de estar acima do seu peso. Amar uma mulher avantajada é um ato de coragem em nosso mundo. eu sabia que estava amando alguém que não se acreditava digna do amor de ninguém. Ou para mim mesmo. escreveu uma defesa emocionada da estagiaria da Casa Branca que fora traída por Linda Tripp. com aquelas palavras. C.. Poderia ter sido meu marido. tudo que eu esperava. Ele e a família dele – uma das coisas que eu mais gostava no Bruce. Para C. o suficiente a ponto de fazê-la acreditar em si mesma. Todo vez que saírem para comer. Para um mundo que a fazia sentir-se daquele jeito com relação ao seu corpo e a ser rejeitada. inclusive a de um sujeito que começava dizendo assim: “Dá para ver pelo seu artigo que você está acima do seu peso e ninguém a ama. nem quanto isso me impressionava. que não tardaram em vender as lembranças de ginásio que tinham da Monica para as revista Inside Edition e People.. Quando o artigo dela foi publicado. que é jornalista. Ele . lagrimas que desciam pelo rosto e pingavam do queixo.” E foi essa carta. E o que vai se deixar dizer.vai ver que os tamanhos acabam antes de começar a numeração dela. então a parte em que ele diz que ninguém a ama também deveria ser. Graças a minha experiência com meu pai. Não sei como dizer isso de outra forma. Lembro-me de quando surgiu a história da Mônica Lewinsky e C. por não amar C. ao amar C.. esparramada no chão em frente do sofá. que mais a incomodou. Eu chorei direto em cima da Celebrity Weddings. E o perdi para sempre. Os pais dele eram o que June e Ward teriam sido se fossem judeus e morassem em New Jersey na década de 1990. e ainda mais traída pelos amigos de Beverly Hills. talvez até um ato de futilidade. E eu estraguei tudo. que me havia entendido muito mais profundamente do que eu o acharia capaz e talvez até mais do que eu mesma merecesse. ou pior do que ser burra. Chorei por Bruce.

deixando que seus pais pagassem o seguro do carro dele (o carro. Audrey. em tempo integral. Audrey do Bom Gosto Eterno. conquanto se pode ser famoso quando o seu trabalho é contar as histórias de outras pessoas. A mãe de Bruce. tudo mantido imaculadamente limpo. era que eles acabavam com a ambição do qualquer um. Às vezes. O ruim de ter pais assim. a roupa por lavar e a cama por fazer. demorando-se na leitura do jornal dominical. a fim de enviar cartas de sondagem aos editores das revistas de Nova York. atrás de mais dinheiro. Audrey também era legal. para organizar a campanha anual do alimento ou o baile de inverno da Irmandade. e quando finalmente arranjei um. e nunca levava em consideração a louça suja. e portanto não uma sanguessuga. e c) uma fonte de felicidade para seu filho. foi a parcela que chegou a intimidar um pouco. atrás de uma garota que o salvasse. os milhares de minúsculos atos de consideração e boa vontade necessários à manutenção de um relacionamento.quer de fato estar junto dele! Ele se lembra de coisas da vida do Bruce! O fato de Bernard Guberman aparentemente gostar de mim. pegando umas aulinhas para dar aqui e uns trabalhinhos como freelancer ali. como dona de casa. . eu costumava pensar. além dos cheques de cair o queixo nos aniversários. consumindo drogas de altíssima qualidade. eu estava sempre na disputa pelo próximo degrau da escada. mãe e voluntária – a eterna mãe da Associação de Pais e Mestres. e portanto uma esposa possível. Agora. com esmolinhas de cem dólares a cada vez que se viam. vociferava contra o mundo em geral e o pai em particular. Quando comecei num pequeno jornal no fim do mundo. Chanucá. não se passaram nem duas semanas para que começasse a planejar uma escalada maior ainda. inclusive. b) bem empregada. Com os pais divorciados que eu tinha e mais a dívida do crédito educativo. a Festa das Luzes. eu dizia para as minhas amigas. pode ter menos a ver com o que ele sentia por mim como pessoa e mais a ver com o fato de eu ser: a) judia. Meu Bruce preferia vaguear pela vida. cobrindo acidentes de carro e reuniões da diretoria do departamento local de águas e esgotos. a casa envidraçada com sete banheiros e o assoalho coberto por tapetes brancos de parede a parede. Formara-se professora. “Você precisa aproveitar mais a vida. seus dias de trabalhar para ganhar a vida já iam longe. Mas eu não ligava para a razão de ele ser tão carinhoso comigo. ela se assumira. mais reconhecimento. O problema era que os pais dele não lhe haviam dado nada contra o que se rebelar – não lhe arranjaram um emprego bestificante numa fábrica. Eu simplesmente me deleitava com seu carinho sempre que podia. os cabelos penteados no melhor estilo. Bruce se contentou em perambular pelo curso de pós-graduação. aos dezenove anos de idade. mas. atrás da fama. com as unhas sempre pintadas da cor que iria sair na Vogue no mês seguinte. quando a conheci. ganhando aproximadamente metade do que eu ganhava. ele dizia sempre que eu pulava da cama cedo para trabalhar numa matéria ou ir ao escritório num sábado. eu achava que Bruce gostava de se imaginar como um dos personagens principais das primeiras músicas do Springsteen – um romântico furioso e apaixonado. Cannie”. a pobreza passou longe.Mas. E uma música do Springsteen durava apenas três minutos. “Para que a presa?”. e às vezes até sem razão alguma. diga-se de passagem) e o “ajudassem” a pagar o aluguel e a manter o estilo de vida. superados a manicure e o cabeleireiro. incluindo o coral. vivia ansiosa para chegar logo a um maior. também. o pai não era um patriarca parcial e inflexível. o próximo emprego ou mais um trabalho por fora. líder da organização de escoteiros e bandeirantes e presidente da Hadassah aquela com quem sempre se pode contar na sinagoga. o tema e um clímax de guitarras explosivas.

com a voz fraca. Minha mãe. cortado à Joãozinho e enfiado por trás de orelha.Cannie. considerando que consegui derrubar a luminária durante o processo. presente. a companheira infernal. castanho-claro com luzes avermelhadas. .Cannie! . a cena em que Maria junta a prole órfã dos Von Trapp na sua cama. O que é que eu posso dizer? Adoro musicais. me dei conta de que havia alguém batendo à porta. Mas ele estava feliz. – Estou. e se por acaso ficasse. Estou preocupada com você. Ela acertou tudo. analisando a situação e a minha aparência. sem fazer muito esforço para chagar lá. presença – de uma papada. depois outra. .Cannie? Sentei-me no sofá. não. também presente. Era uma imagem de aconchego tão grande. . não está mesmo.sonhando com grandes jornais e melhores contratos. recordando-me de que ela ligara de manhã. Bochechas protuberantes. Batidas ecoavam na cabeça. Tanya. Então. Eu me pus de pé e apaguei a luz halógena o mais silenciosamente que pude. . qual fumaça de Malboro filtrada no cascalho. bunda grande. abra esta porta imediatamente. citando o Grateful Dead: “A cabeça está totalmente vazia. E enquanto tomava a minha mistura de aguardente com gelo diretamente da tigela. . um milhão de anos atrás. Mas não importa. . e canta My favorite things. ancas cheias. fome e desespero. durante a tempestade. dedos gordos. abra essa porta. Está de macacão.Ah. fitando-me com ar de reprovação. e eu nem ligo”.Cannie. ele tinha enviado seus recortes para o Examiner e recebeu uma resposta curta e grossa do tipo!volte a nos procurar daqui a cinco anos”. Acordei depois da meia-noite. e havia neles um ar de avidez. Uma vez. Fiz um esforço para conseguir sentar novamente e me arrastei até o banheiro. E o que fez? Enfiou a carta numa caixa de sapatos e nós nunca mais falamos no assunto. Pelo amor de Deus. Nifkin grunhiu e subiu atabalhoadamente na poltrona. bebendo tequila e assistindo A noviça rebelde. achando que a minha cabeça jamais ficava vazia. logo no inicio do nosso relacionamento. em tom mais grave. Indícios – indícios nada. nua. babando no sofá. onde acendi a luz e pude me olhar no espelho. seios fartos e caídos. E cantava para mim.. . uma coisa seria certa: eu ligaria. especialmente A noviça rebelde – em particular. Cara de quem chorou.. e que ela e Tanya iriam passar em casa quando terminassem. há muito tempo. de tanta segurança – do jeito que a minha própria família já tinha sido um dia. para localizar as mãos e os pés. para me contar que viria à cidade à noite do Bingo Gay. Ele não me amava mais.Cannie! Encolhi-me toda no sofá. arredondadas. como se tentassem se esconder nas carnes do rosto. Ouvi murmúrios de indagação do lado de fora da porta – a voz da minha mãe. depois de algum tempo. ombros curvados. durante um minuto. coxas com musculatura rija sob uma camada balouçante de gordura. Minha mãe voltou a bater. Cabelo. Sem maquiagem.Vá embora – falei. Os olhos estavam especialmente pequenos. fiquei devaneando sobre o que minha ambição me teria conseguido. Eu forçava um sorriso. uma vez na vida. o que não foi grande coisa.

e em seguida balançava a cabeça sem sequer se dar ao trabalho de dizer o resto. Só estou com sono. por isso vou dormir.Eu tenho uma chave – ameaçou minha mãe. Minha mãe. pensei arrasada. .Gente. mantinha-se cética. pior de tudo. Só. os macios lençóis cor-de-rosa. Minha cama parecia um Oasis no deserto. e que eu e meus irmãos nunca tivéssemos nascido. a maioria até gostaria que eu fosse gorda. sim – falei. está bem? . . corrido sem olhar para trás.Olhos exatamente da cor do mar. e que as duas pudessem ir morar numa comuna em Northampton. eis-me aqui: vinte e oito anos. Gostaria de não ter pedido um tempo ao Bruce. o verde das uvas. quando Nifkin subiu do um pulo e se aninhou ao meu lado. bem. .Vou ligar. uma laranja. bem. – Bem. onde ninguém me destrataria. E. . inebriado. um clichê. a pilha de travesseiros. e com a mesma expressão de preocupação. A cama. como uma estrela-de-mar tamanho-família grampeada ao edredom. uma amareloclaro e uma creme. seria me esconder no armário e me fingir de morta. e eu fiquei só olhando para o teto. bem. segurando-me o queixo com a mão em concha. “Que rostinho lindo!”. Gostaria de não ser repórter. Adorava a franja Laura Ashley e o cobertor de lã vermelho que eu tinha desde menina. fazendo bolos. Lucy. minha avó dizia. a gente viu o artigo da Moxie – falou minha mãe. Ally McBeal e Bridget Jones juntas. Arranquei a garrafa de tequila de Nifkin e gritei: . que girava de uma maneira alarmante. resolvi. Gostaria de não tê-lo conhecido. em Martha’s Vineyard. Meu melhor traço. de costas. Bean.Ei. Amanhã nós conversamos. Pois. pelo contrario. para que ela tivesse minha mãe só para si. que era mais ou menos o meu peso. no porto de Menemsha. como sempre. Desamada. Ou de estar morta. era a única coisa que eu tinha a meu favor agora. Gostaria de ser anônima e invisível. e fechei a porta. com os braços e pernas escarrapachados. distribuindo cupões para World of Wasabi. – Lucy trouxe para vermos.L. pesando farinha e operando o caixa. Avancei para ela e me atirei. com os trinta despontando no horizonte.Você vai me ligar amanhã? . Bêbada. pensei. Gostaria de trabalhar numa confeitaria.Espere aí – peguei a luminária e abri a porta uma frestinha apenas. vestidas em casacos idênticos de moletom. Minha mãe e Tanya olharam para mim. A minha melhor opção. Obrigada. quebrando ovos. parecia que queria um cigarro e uma bebida. com a cartela do bingo na mão. . com capuz do L. todos com fronhas de cores vivas: uma roxa. Todos os pneuzinhos e marcas de celulite seriam testemunhas da excelência dos meus assados. Belos olhos verdes e um sorriso de esguelha. um banco de areia no mar revolto. Gorda. Gostaria de ter continuado e corrido naquela noite. Eu adorava minha cama – o lindo edredom azul-claro de pena de ganso. e com duas lésbicas determinadas esmurrando a minha porta. Tanya. na hora do almoço.Eu estou bem – repeti. pensei. Gostaria de trocar de lugar com o cara que vestia as placas do anúncios de “Sushi Fresco” para cima e para baixo na Pine Street. eu estou bem.

ouvindo a porta se abrir e o meu pai entrar no quarto. abria uma confeitaria. finalmente. E magra. O que eu queria. Comprar casa grande com jardim e quintal com cerca. mas nunca tivera um relacionamento de verdade e decerto nunca . Em algum instante. pensei. levando uma lamina afiada aos pulsos. quando tinha a pele muito ruim e antes de descobrir que maconha e um rabode-cavalo eram atrativos infalíveis para um certo tipo de meninas. Ele levara uns foras brabos na escola secundária. qual água morna. tateei em cima da mesa-de-cabeceira e peguei papel e caneta. Escrevi perder peso. As confeitarias seriam apenas paliativos durante alguns anos. E imaginei minha mãe tendo que vasculhar minhas coisas e encontrando um exemplar meio desgastado de As melhores cartas da Penthouse na gaveta de cima da penteadeira. pregando um bilhete no espelho. queria perceber o sorriso na sua voz quando ele dissesse: “Ainda está lendo. Suicídio está fora de cogitação. sentindo a presença silenciosa dele perto de mim. Quem se graduava por Princeton e resolvia sair da roda-viva. nunca reclamaram. não era. em geral. que invariavelmente apareceriam na revista dos exalunos. que coragem a dele. Ora. lendo mesmo depois de já ter passado a hora de dormir. pensei. Cannie?” ser pequena e amada. provavelmente não iriam acontecer. Então. era ser menina novamente. com uma frase do tipo “Turma do 2012!” estampada em seus precoces peitinhos enfunados. e tinha farreado bastante com uma meia dúzia por aí.. As hipóteses confeitaria/anúncio de Sushi. logo abria o capital e faturava milhões. mas lia a Cosmopolitan desde os treze anos e sabia levar a coisa. Quando apareceu naquela primeira noite. embora tentadoras. que eu mal considerava direito no primeiro ano de faculdade -. considerando as poucas pessoas com quem tivera experiência e o pouco que sabia antes de me conhecer! Eu dormira com quatro pessoas – três namorados de longas datas e um casinho. Não consegui enxergar como eu iria inserir aquilo na revista dos ex-alunos. que daí se transformaria numa bem-sucedida cadeia. assinar uma coluna como especialista sexual. Eu queria isso. depois de escrever cortar o cabelo num estilo legal e enquanto pensava em arranjar um jeito de magoar Bruce. Mas depois imaginei Nifkin ganindo. na casa onde eu tinha crescido. intrigado. Estar na minha cama. Posso ter sido uma garota grande. Bom de cama. E. acrescentei. percebendo o peso do orgulho e do amor dele como se fossem coisas tangíveis. Arranjar outro namorado. E Bruce. enfiada embaixo da colcha escocesa estampada de marrom e vermelho. “Essa aqui é das grandes!”. eu finalmente cai no sono. Queria que ele colocasse a mão na minha testa como costumava fazer. enfiando-me embaixo do edredom e trazendo o travesseiro cor de laranja para baixo da cabeça. não era mais virgem. Vender roteiro. Pelo menos. eu era experiente. Chega. Arranjar namorada mais simpática para mamãe. depois parei e fiquei pensando. quando eu e Bruce começamos. para terem o que fazer enquanto os filhos. esfregando as patinhas na borda da banheira e querendo saber por que eu não me levantava.. imaginei um deles dizendo.Imaginei-me numa banheira. com o saco de dormir e a camisa quadriculada. imaginei os paramédicos tentando manobrar o meu cadáver molhado para descer três andares de escada. Girei na cama. vestidos com roupinhas empetecadas na cor da moda. apertando o travesseiro com força contra o rosto. além das algemas estofadas com pelame cor-de-rosa que Bruce me deu de presente no dia dos namorados.

– Eu faço tudo errado. e eu não olhei.Obrigada – sussurrei. acariciando-lhe de leve a virilha. estava procurando uma consorte. embora não estivesse avessa a encontrar o meu par ideal. . Fui gentil com ele. calça de moletom e meias. de camiseta e calcinha. pode chamar de sexo mesmo. digamos que fosse afeto. Como se nunca tivéssemos sido desconhecidos. enroscada nele. talvez? Mas estava um pouco escuro.Psiu! – foi a minha resposta.. Tornei a aconchegar o rosto ao pescoço dele e levei os lábios à sua orelha. e encostei a coxa na dele. meio parecido com alguém que se senta na cadeira do dentista. Seus olhos encontraram os meus e ele sorriu quando sentiu o quanto eu estava molhada. Prendi ima das pernas dele entre as minhas. O que me deixou emocionada. na pele macia logo abaixo de onde acabava a barba. esticando a língua e fazendo bico com os lábios que pareceram desmontar quando encontraram os meus. não faço? . ele soltou um suspiro dizendo “Ah.Você é linda – disse ele. bem. Dirigi os dedos dele para onde precisava que estivessem. estava buscando mais. deixando que ele sentisse o meu suor e a minha respiração. com a mão sobre a dele. . sentados lado a lado. só com a camisa desabotoada até a metade. senti-o estremecer. Ah. e gemendo quando gozei. Fomos para o quarto de mãos dadas. quando acordamos e olhamos um para o outro. e uma expressão no olhar como se eu fosse eletrocutá-lo em vez de. Senti gosto de sal. a sensação foi de que já nos conhecíamos há muito mais do que uma noite apenas. beijei-lhe a testa. Portanto. . Comprimi os seios contra o corpo dele.. E quando eu despretensiosamente passei o braço em torno dos ombros dele. Suor? Lagrimas. e meus lábios já estavam de volta no pescoço dele. Começamos no sofá. apertando-lhe os dedos contra o meu corpo. em vez de fazer o que fiz. na voz mais carinhosa que eu já tinha ouvido na vida. . e eu.estivera apaixonado.Bom dia – sussurrei. eu queria ser simpática. atenção. Ora. Estava gelada e pegajosa. . e me mexi contra o corpo dele. Mas ele beijava muito mal e me babou toda. ensinar que ele poderia me fazer feliz ficando com tesão ou não. a ponta do nariz e tentei novamente. Ele me emocionou muito. as pálpebras. esse sujeito com mais de um metro e oitenta e rabo-de-cavalo. entristecido. .. ainda de cueca. Caímos no sono naquela posição mesmo: eu.. com os olhos arregalados a brilhar na escuridão. ele arfou como se eu o tivesse queimado. Bruce achou que .Fique quietinho – sussurrei-lhe. Eu peguei a mão dele. e ele se deitou de costas no meu futon. mas que coisa curiosa! Resolvi mostrar-lhe um truque. Desci a mão pelo peito dele até embaixo. peguei-lhe a mão e a enfiei dentro da minha calcinha. Achei que seria bom me acostumar a ouvir aquilo todo dia de manhã. As mãos duras não sabiam o que fazer. Nada ainda.Vamos nos deitar – disse eu. Quando lhe dei um beijinho no pescoço. Peguei-lhe as mãos entre as minhas e o ajudei delicadamente a se levantar do sofá. E quando a luz penetrou as janelas da casa.Desculpe – sussurrou ele de volta. mostrando-lhe o que fazer. Cannie!”. Apoiei o rosto no cotovelo e deixei as pontas do cabelo ficarem roçando de leve o rosto dele. Não deu em nada. e quando enfiei a mão por dentro da camisa para brincar com os pelinhos do peito. de forma que me restou somente a opção entre os dentes e o bigode. ele.

“Eu sabia que um dia iria encontrar a garota certa”. Outras teriam sido indecentes a ponto de espantar muita gente até mesmo na Moxie. nós tínhamos sido bons de cama. onde sempre saiam artigos sobre novos e “emocionantes segredos sexuais!” Mas o que me amargurou mesmo. Juntos. e muito tímido. foi o título da coluna. ele disse. sorrindo e me aconchegando um pouco mais em seus braços.estava apaixonado. .. que tinha levado alguns foras no primeiro ano na faculdade e simplesmente resolvera ser paciente. de verdade. Que mentira! Não era uma questão de ele ser o maioral do sexo. com o corpo grudento e a boca seca da tequila na noite anterior. Nós fomos descobrindo as coisas que ele gostava. era que nós tínhamos nos amado. Algumas eram bem diretas. o que me arrasou o coração enquanto eu me virava e me retorcia na cama. uma maravilha embaixo dos lençóis.. as coisas que eu gostava e as coisas que nós dois gostávamos. Ficamos juntos durante os três anos que se seguiram e aprendemos muito coisa um do outro. “Bom de cama”. falou que sempre estava bêbado ou doidão. ele acabou me contando toda a história de sua experiência limitada.

como se todo mundo que me visse soubesse que eu era a garota do "Bom de cama" e que era gorda e tinha dado o fora num cara que tentara me compreender e me amar. Se ao menos eu coubesse! Não tive vontade de ir para as ruas de um mundo que tivesse a Moxie nas bancas. ou que Bruce tivesse mostrado. eu só podia supor que ela tivesse mostrado a mamãe. — De jeito nenhum! — mesmo sabendo que. — Ah. Só de pensar na conversa. seguidos de mais um silêncio. sabendo. por mais que protestasse. "Estou ligando para avisar que eu publiquei um artigo este mês e acho que a Cannie está bastante chateada com isso". por favor. assinante de carteirinha da Moxie e leitora assídua de tudo quanto é coisa que sai sobre feminilidade. Vamos à i demonstração de culinária no Reading Terminal. Minha mãe não é boa em mudar de assunto. — Suponho que você tenha lido o artigo do Bruce — disse ela. Uma pausa de dez segundos. ao meio-dia eu ainda estaria no Reading Terminal. de forma que se soubesse ou ao menos achasse que eu estava em casa. pare de choramingar — disse ela. que ela também tinha. eu sei que você está zangada. — Ah — disse ela.. Há dois tipos de casa no bairro onde me criei: aquelas onde os pais continuaram casados e aquelas onde não continuaram! . tive vontade de me esconder embaixo da cama. Três toques e depois silêncio.. — Estou chocada. hein! — Mãe. Será que você poderia me ligar mais tarde? Por favor? Ainda é cedo.. iria continuar ligando simplesmente até que eu atendesse. submissa ante a vastidão de críticas minuciosas da escolha infeliz do menu e do gabarito culinário do chef. Minha mãe não era fã de secretárias eletrônicas. Afundei nos travesseiros. — Não — disse..DOIS Acordei no domingo de manhã com o barulho do telefone. Tome uma aspirina — disse ela. com aspereza. — Estou bem. — Você está é de ressaca. não era essa a resposta que estava esperando. Que dor de cabeça! Será que nós vamos ficar discutindo aqui a maldade dele? — Mais tarde. querendo ou não. — Mas que chatice! — falei. — Estou esperando. reclamasse e arranjasse dezessete desculpas diferentes. — Beba um pouco d'água.. Daqui a uma hora. — Por acaso. como se eu estivesse usando um C. — Bem. quem sabe? Até daqui a pouco. Venha me pegar daqui a uma hora. A vergonha me queimava.. sem precisar perguntar. — Achei meio malvado da parte dele. Obviamente. — Ele é malvado — falei. aqui quem fala é a sua mãe — disse mamãe. Seria inútil resistir. depois mais três toques. em vez de "alô". nas caixas de correio. — Ele não era malvado. Minha irmã Lucy. de pronto. Daí a surpresa. — Pois é — disse eu. ainda mandava entregar seu exemplar em casa. gigantesco. Depois do estrago devastador de ontem à noite. — Eu não estou zangada — respondi. Estou muito cansada.

o carro esporte que o papai descartou depois da crise da meia-idade. sábado sim. cheio de caríssimos equipamentos de som. e quando chega a ser refeita é porque já estava mais do que descascada.Ante o olhar menos atento. me diziam as amigas. sentindo o estrado de metal nos espetando a noite inteira. um cineminha antes e um depois. ainda que pelado. de vez em quando. se enchiam com os carros dos homens que moravam antes nesses casarões. todas em lotes de cinco mil metros quadrados. ou até mesmo a própria dona da casa sair para passar o ancinho e cortar a grama. A maioria de pintura conservadora. sábado não. Um a um. com venezianas e molduras fazendo contraste — casa cinza-escuro. enquanto Josh dormia ao nosso lado. não têm festas à beira da piscina no verão. Por volta das dez ou onze horas da manhã. Mas acima de tudo. As casas dos divorciados são aquelas onde o caminhão do jardineiro não para mais. por fim. e afastadas das ruas sem calçadas para pedestres. A maioria com entrada de carro em cascalho. e. eles saíam de seus carros. minha irmã e eu fizemos isso algumas vezes nos primeiros tempos da separação dos meus pais. de repente. aquelas pelas quais o trator passa direto depois das nevascas no inverno. eram cheios de todo tipo de extravagância — compras. em estilo colonial. As noites de sábado eram passadas num sofá-cama do apartamentinho dele. almoço fora. do outro lado da cidade — um lugar empoeirado. sobre um saco de dormir estendido no chão. A pintura tem de agüentar quatro ou cinco anos. em vez do Honda Civic zero quilômetro com muita honra. tinham muito pouco a dizer uns aos outros depois das primeiras trocas de amenidades (nos casos cordatos. Lucy e eu nos aconchegávamos em cima do colchão fino do sofácama. por extensão. quando tinha início o que eu e minhas amigas chamávamos de Desfile dos Papais. Qualquer coisa para fazer passar o tempo. as entradas de carro de um lado e de outro da nossa rua. em vez de dois ou três. tirar a neve ou podar o jardim. Na casa do meu pai. para preencher os minutos mortos entre filhos e pais que. ou casa bege-claro. Basta olhar mais de perto — ou melhor. aparelhos de televisão da melhor qualidade e um excesso de fotos dos filhos ou. não têm operários fazendo uma barulhada às sete horas da manhã. caminhavam até as portas. Todas as minhas amigas conheciam a rotina. sem culpa) ou de bílis (nos casos litigiosos. idas ao zoológico. nenhuma. em frente do público fofoqueiro. São aquelas onde o Camry ou o Accord ou a van da mamãe não é trocado todo ano e só fica envelhecendo na garagem. Meu irmão. se houver. tocavam as campainhas dos lares onde costumavam dormir e pegavam os filhos para passar o fim de semana juntos. ambas pareciam iguais — grandes. ficar mais um pouco — que você vai começar a perceber a diferença. Só se faziam refeições em . em que os país desfilavam as fraquezas e infidelidades mútuas diante do juiz — e. ou. Não têm paisagismo sofisticado. será muito provavelmente uma sucata velha comprada nos classificados do Examiner. com janelas azul-escuro. com portas vermelhas. ao circo. com quatro ou cinco quartos. se a criança tiver muita sorte. passeios pelo shopping. comprida. jantar fora. por exemplo. onde o segundo carro. e uma piscina escavada no quintal dos fundos. espaçosas. dava para ver nas manhãs de sábado. de seus filhos também). e das ruas vizinhas. antes de meu pai avisar que queria ser menos um pai e mais um tio. Fique olhando que você vai ver uma procissão de adolescentes com cara de chateados. na obra de acréscimo de um escritório domiciliar ou de uma suíte presidencial para o casal. e que as nossas visitas de fim de semana não se encaixavam nessa sua noção. Os dias.

que se aventuravam pelo cascalho tentando não correi nem se mostrar por demais aliviadas.restaurantes. quando estacionei. se sabia da nova situação da minha mãe. Minha mãe me esperava na entrada de carros. nem sua hedionda companheira. Nós costumávamos estacionar nossas bicicletas ali dentro. ao parar o carro na casa onde me criei. ou se estava satisfeito em ter seus três filhos largados pelo mundo. assentada sobre pernas rígidas e musculosas. percebi o parco reflexo de metal velho atrás do antigo depósito de ferramentas. ("Um pai". Minha mãe não gostava muito de trabalhar no quintal. e colocou atrás do depósito a céu aberto. se percebiam como as coisas haviam se desgastado e esfrangalhado por todo lado depois de sua partida. Tanya. de forma que o gramado estava entulhado de folhas mortas amareladas. um bando juvenil de cínicas. piscinas no quintal e um teto sobre nossas cabeças. crescidos e desconhecidos. se pensava em nós. Minhas amigas e eu aprendemos a ser petulantes e teimosas. fossem as contenções circunstanciais ou o que dizer quando a chefe das bandeirantes perguntava o que você gostaria de trazer para o banquete do Pai com a Filha. os subúrbios da Filadélfia eram muito melhor de ver do que a vida que levava a maioria das pessoas do mundo — ou do país. como era o caso. Ela é alta. começava novamente o desfile. com a finalidade de cobrir a coroa que se abre com os anos. e pesada (uma Mulher Avantajada. Tive curiosidade de saber se meu pai passou por ali alguma vez. tudo isso antes de chegar aos dezesseis anos. no domingo de manhã. Não havia dor física. Tive essa curiosidade novamente. na hora da missa ou da aula de hebraico. Não era tão ruim assim — não era ruim como no terceiro mundo. férias. três. e os pais tentavam sair dirigindo com calma no esforço de se lembrar que aquilo deveria ser um prazer e não uma obrigação. vinham todos. minha mãe tem o formato de uma maçã — cortada ao meio. Durante dois. Enquanto eu sou uma ampulheta (de proporções extremadas). A maioria deles. estava apenas esperando chegar uma esposa ou namorada substituta que lhes abasteceria a geladeira e os esperaria toda noite com o jantar pronto. nem fome de verdade. quando Josh reclamou que aquela pilha de bicicletas ali criava uma atmosfera de cortiço. Depois começavam a desaparecer — casados novamente. ou morando noutro lugar. e estrela das Switch Hitters (seu inevitável time de softball). era a resposta preferida). ou que tinham vontade de aprender. ouvi a voz de Bruce me atormentando a cabeça). “Considerem isso uma instalação artística”. em sua maioria. e piscinas nem tão limpinhas assim. O divórcio nos ensinou a lidar com as coisas da vida. Mesmo com a queda do padrão devida. Tanya tinha feito uma “faxina”: tirou todas dali. O cascalho da entrada de carros estava mais ralo do que cabelo de velho penteado de um lado para o outro. nem tanto quanto nos Montes Apalaches. Poucos eram os pais recém-solteiros que sabiam cozinhar. e se de fato enxergavam suas antigas casas. para que enferrujassem. como eu. só que ao contrário: os carros paravam para expelir crianças. Percebi que estava mais zoneada do que o normal. basquete e hóquei no curso secundário. E mães e filhos aprendiam a depender uns dos outros. E. e. Ann Goldblum Shapiro manteve tanto a postura quanto a sensibilidade de . ainda tínhamos carros. Mesmo com carros velhos e férias menos maravilhosas. mamãe nos pediu. quatro anos. Mas eu sempre tive curiosidade de saber como se sentiam os pais ao subirem a rua que costumavam descer toda noite. desde os velocípedes até as de dez marchas abandonadas. Destaque em tênis.

— Bom de cama — grunhi. obviamente à espera de que eu trouxesse à baila a última obra de Bruce. Esta semana era dos Clássicos Americanos com Cinco Ingredientes Fáceis. Um dos assistentes um adolescente alto e desengonçado. que eu me lembrava da aula dos favoritos do Sul. ele não era? — Eu não quero levar essa conversa com você — resmunguei. cheio de espinhas no rosto. um de seus catorze pares de tênis para atividades específicas e uma jaqueta decorada com um pequeno broche triangular.um eterno brutamontes. — Gostou? — perguntou ela. Estava escrito: "Eu não sou gay. Eu o desembrulhei. — Trouxemos isso para você — entregou-me um pequeno retângulo. Entrando no Terminal. finalmente eu trouxe. ela deu de ombros e fixou a vista no quadro negro. ao mesmo tempo um ponto de encontro dos mais gabaritados. O chef — freqüentador quase assíduo. eram melhores do que shows dos comediantes. E o tipo de pessoa que está sempre sendo abordada por desconhecidos — para indicar caminhos. Para ela. bege e rosa pálido. para a nossa saída. e vi um imã com a figura de uma menina de desenho animado. — Até parece! Minha mãe me lançou um olhar de soslaio. estava usando calças largas de moletom rosa pálido. — Sutil — falei. e ela som muito. entre o verdureiro e o balcão de peixes frescos. Minha mãe permaneceu em silêncio ao meu lado. dar conselhos e até uma opinião sincera sobre o maiô que a colega de vestiário na loja de departamentos quer comprar. apontando para o seu broche. nas cores do arco-íris. Olhando para mim. recusando-se a pegar a isca. — Tanya e eu trouxemos lá de New Hope no fim de semana passado. desligada. quando a primeira fileira de freqüentadores assíduos. de balançantes cabelos cacheados e óculos. enquanto passávamos pelos balcões de comida tailandesa e mexicana em direção aos nossos assentos diante da cozinha de demonstração. Mexi um pouco no rádio e fiquei calada durante os trinta minutos do percurso de volta à cidade. em sua maioria idosos que levavam essas aulas extremamente a sério. — Psiu! — fiz. mas minha mãe é. do Restaurante Escola — começou entusiasticamente a picar um repolho. quando o sinal fechou. com uma breve caminhada em passo acelerado ou umas boas braçadas na piscina. mas são maiores e menos ansiosos. — Pelo que estou vendo. nos olhou com cara feia. — Ele vai cortar o dedo fora — previu minha mãe. essas demonstrações gratuitas de culinária no melhor mercado de alimentos do centro da cidade. O chef desfiou seu rosário. Estava sem maquiagem — nunca usou — e o cabelo espetado em seu estado habitual. e se veste com roupas confortáveis em tons de cinza. mas receia ficar com a bunda muito grande dentro dele. . uma mulher que acredita não haver problema que não se possa resolver." Perfeito. Hoje. Mostrou-se alegre ao entrar no carro. após o uso do secador. — Você trouxe um para mim? — Não — disse ela. Ela usa o cabelo curto e o deixa grisalho. três semanas antes — empalideceu quando minha mãe sentou. Não deveriam ser eventos participativos. embrulhado num lenço de papel roxo. um suéter azul de gola rulê. Os olhos têm o mesmo tom de verde dos meus. mas ninguém avisou a ela. nem situação que não possa melhorar.

Julia Child! Fechei os olhos e afundei o mais que pude na poltroninha dobrável enquanto o chef passava às batatas carameladas e fritadas de maça. — Exatamente — disse a mulher. — Esqueça o Bruce. Ali não vai dar — dito e feito. acrescentou bacon. e apontou para um dos balcões de peixe. — Eu depositava tanta esperança em você — disse. e a luz ambiente refletida em suas escamas. enquanto tomávamos cappuccino e comíamos pretzels no balcão dos Amish. vamos voltar ao Bruce. com a boca escancarada e os olhos esbugalhados. Mais tarde. na fileira da frente. com os olhos fixos na xícara. Minha mãe prendeu o fôlego. Minha mãe levantou a mão. — Moças também — prosseguiu ela. Eu a puxei para baixo. — Está bem. Não estou interessada. — Eu não quero falar nisso — disse eu. Bem. — É mesmo? — murmurei. modificações e técnicas que ela havia aprendido nos seus tempos de dona de casa. soltando um suspiro fingido. Você consegue coisa melhor. se ninguém avisa quando ele está cometendo um erro? — reclamou ela. — Não acredito.. olhando para o palco com o rosto espremido de descontentamento. me veio com o sermão que eu sabia estar preparando desde a noite anterior. e minha mãe continuou sabatinando-o sobre substituições. — A senhora já experimentou pimenta malagueta? — perguntou um senhor mais idoso. — No quê? — Olhe só para o tamanho daquela frigideira. O aprendiz de cozinheiro estava enfiando uma quantidade demasiada de repolho mal cortado dentro de uma frigideirinha rasa. mas vai — disse minha mãe. e levantou a mão. sentada ao seu lado. — Sei que você está magoada agora — começou. acho melhor temperá-lo primeiro. O chef soltou um suspiro e começou a falar de azeite de oliva. — Mãe. querendo ajudar. — E se ele for salpicar aquela farinha em cima do frango — continuou minha mãe —. onde havia carpas e lúcios empilhados um em cima do outro. — Como é que ele vai aprender alguma coisa. basta uma pitadinha para dar um gosto delicioso. . como se tivesse acabado de ver alguém sendo decapitado.. Ela balançou a cabeça fingindo tristeza. isso sem parar de fazer comentários para o deleite dos que estavam ao seu lado e a fúria da primeira fileira. — Tomilho é muito bom também — disse minha mãe. sabe. — Por acaso não existe uma alternativa saudável para essa receita? — indagou. Minha mãe voltou a atenção para mim. — Isso é de uma aula prática. — Isso é um balcão de peixes — corrigi. quantas vezes vou ter de lhe dizer: eu não sou lésbica. Minha mãe balançou a cabeça. — Não pode exagerar. O chef derreteu um pedação de manteiga numa panela. — Deixe para lá. Depois. — Mas existe um monte de rapazes por aí.— Ora. — Está segurando a faca errado. — Mamãe! — Psiu! — fizeram alguns aficionados da primeira fila.

. — Quando o seu pai falava certas coisas. Essa virada na conversa eu não queria de jeito algum. empilhados em seis camadas. hein? E se eu não conseguir? — perguntei. Minha mãe pegou a xícara e arriscou: — Foi por ele ter conseguido um emprego numa revista? Respirei bem fundo. Ela fez com a mão um gesto de quem descarta a possibilidade. Relutando. Eu fui junto. — Aquele artigo vai estar forrando gaiolas de passarinho no mês que vem. eu acho que parte disso é culpa minha — disse ela. Cannie. — Ele arranjou essa coluna... — E alguns talvez até saibam conversar melhor. — Não. — E se eu nunca mais conseguir outro emprego. Foi até lá e bateu com a unha no vidro do balcão. — Que pensamento estimulante para se compartilhar com uma jornalista! — Não seja sarcástica — disse ela. Minha mãe me levou de volta à mesa. — Mamãe. — Mas. Pensei. e eu o deixava fazer o que bem entendesse.. mas magoava sempre. porque toda vez me fazia lembrar exatamente do que ela estava se desculpando e quanto tinha . — Sabe. obrigada — respondi. E eles. Isso capturou a minha atenção. dilacerada.. em qual seria a sensação de estripar Bruce. e deixei passar tempo demais. — Ele diz que está escrevendo um romance — disse minha mãe. — Sinto muito — disse ela. Mamãe soltou um suspiro. soltando um suspiro. — Pense em cada um desses peixes como um rapaz solteiro. em pedi-la emprestada. ou outro namorado. — Você está indo bem — disse minha mãe. — Esses aí têm bons modos — comentei. está escrevendo um romance. não. — Você não deveria ficar tão zangada — disse ela. — Ele era horrível. Fixei meu olhar dos peixes. — Não. como se a hipótese fosse boba demais para ser considerada. — Nunca mais vou conhecer outra pessoa – disse. — Quer peixe? — perguntou uma baixinha de traços asiáticos que usava um avental de borracha roçando no chão. — O seu dia chegara. — Águas passadas — comentei. teria sido doloroso mesmo que o primeiro artigo dele não fosse sobre mim. — E se não chegar? — cobrei...— Está lhe dizendo que há vários peixes no mar — disse ela. Tornamos a nos sentar.. enquanto a minha continuava no mesmo lugar. E era verdade. ver a estrela do Bruce subindo. — Talvez — reconheci. muito mais do que deveria. — Peixe bom — disse ela. — Não sei ser de outra maneira—retruquei. por um breve instante. pareceram me responder com um olhar boquiaberto. Eu já a ouvira dizer isso antes.. secamente. Mau e horrível.. afinal. — Está vendo? — prosseguiu. eu quero falar — ela tomou bastante fôlego. Trazia na mão uma faca de corte. torcendo para que comprássemos. — Não significa que seja verdade.

por que sei que foi justamente isso que a fez do jeito que você é.. — Só que não são todas que têm o prazer de constatar suas inseguranças exploradas diante de milhões de leitores da Moxie! — E eu gostaria. Ela veio atrás de mim. me deu rudimentos de um abraço — o que já foi um grande passo para ela. Eu me levantei.. — Bem. mas nunca se deu muito bem com essas coisas de contate físico e sentimentos. — Você vai encontrar o rapaz certo — disse ela. — Quero ver uma mulher que se sinta — retruquei. — As opções até agora me deixam em total apatia. — Gostaria que você acreditasse mais em si mesma. — Eu te amo — disse ela. os guardanapos usados. você não aceita critica. uma excelente ouvinte e sabe julgar o caráter das pessoas como ninguém. trocando cadernos do Examiner entre si. para as mesas no centro do mercado. Mais uma conversa que eu não gostaria de estar tendo com minha mãe. Ela pensou um instante.sido ruim. peguei a xícara dela a minha. os restos de pretzel e saí atrás de uma lata de lixo. que se converteu em lésbica já muito tarde na vida.. eu sabia. ressentida. por favor! — Ele era um bom moço. comendo sanduíches e tomando café. ao lado do carro. Lá fora.. Mas eu é que não iria protestar.. prontamente. Mas eu sabia que você não o amava tanto assim. — Estou fazendo um atendimento sob encomenda para tratar de um propósito específico — retrucou ela. — Eu achava que você tinha abandonado o aconselhamento heterossexual. lado romântico. onde se reuniam famílias. Minha mãe é uma grande cozinheira. — ela olhou. — Mamãe. o que também não era muito do seu feitio. — De que jeito eu sou? — perguntei. Estava precisando de todo o amor que conseguisse! .. — Eu sinto muito. — Não me diga! — Não se sente muito á vontade com o seu visual. — Você ficou tempo demais com o Bruce. alegremente. No seu.

menores pesos. Nome. Peso dos avós. use o verso se precisar de mais espaço".. a primeira loja de yakisoba e o primeiro mix de restaurante com casa de espetáculos de drag-queens (as imitações de mulheres eram mais ou menos. com uma película de polpa flutuando na superfície. quanto tempo me mantive assim. mas o que poderia fazer uma pobre menina. Quatorze já conta como adulto? Razão para querer perder peso. Sem dúvida não era. apontando uma pilha de bolachas de água e sal. não deixaria de colocar sofás. A Filadélfia ainda vivia na sombra de Nova York e em geral tinha o caráter de uma segunda irmã soturna. Como se alguém fosse comer aqui. programas em que me inscrevi. pensei. Peso dos irmãos. todas nós encaixadas em poltronas inadequadas. "Por favor. se eu fosse a gerente dali. quanto perdi. antes de terminar o terceiro quarteirão. todo mundo precisou. Tem café da manhã ali". de malha de ginástica.TRÊS Segunda-feira de manhã. Andy. fazia jejum. Chutei todos eles. estava escrito no formulário. Tínhamos também os dois cafés de praxe por quarteirão. no sétimo andar do Centro de Tratamento de Distúrbios Alimentares. Uma mulher chegou até a pedir mais papel. Peso dos pais. dissera a secretária magricela e sorridente sentada à mesa. um pouco a cada dia". algo que eu não pensava em fazer de jeito algum. Eu precisei. Menor peso que manteve na vida adulta. uma prancheta e uma caneta. "Isso é só uma pesquisa". que conseguiram me deixar viciada nos elaboradíssimos cafés com leite de três dólares e nos doces de massa fofa com floquinhos de chocolate. eu estava sentada numa sala de espera. Não eram coisas que discutíssemos em volta da mesa. isso seria fácil. Histórico de dietas. tinha costume de me exercitar? Se fizesse isso tudo. evitando a tentação dos sanduíches de bife com queijo que se encontra em cada esquina da Filadélfia? Além disso.. saltitando pelo meio de um campo todo florido. cheia de mulheres grandes demais para cruzarem suas pernas. da Universidade da Filadélfia. Essa é fácil. Página três. Mas o resgate de nossos restaurantes foi para valer e eu morava no bairro que ostentava a primeira crêperie. tomava laxantes. Bastava descer a minha rua que eu passava por cinco lugares maravilhosos para comer — dos donuts ao tiramisu. ao me entregar um maço de formulários com mais de um centímetro de espessura. Altura. a não ser tentar compensar. que nunca integrou a lista dos homenageados da casa ou de visitantes ilustres. Ora. pensando que. a julgar por uma breve olhadela na sala inteira. o café da manhã dos campeões. um pote de requeijão desnatado e uma jarra de suco de laranja. contornando as bolachinhas e me sentando com os meus formulários embaixo de um pôster. e eu sabia muito bem disso. Peso atual. em que se lia. o único amigo de verdade que eu arranjei . Página seguinte. toda alegrinha. numa reunião de família. por mais que emagrecesse. Eu comia por compulsão e depois purgava tudo. Não tem problema. pensei. e se via uma modelo. Pensei mais um pouco e acrescentei: Gostaria de me sentir melhor comigo mesma. Sabido. ela acrescentou. A bem da verdade. mas a lula era excelente). Maiores pesos. "Perdendo. Pensei um instante e logo escrevi: Fui humilhada numa publicação de âmbito nacional. o meu visual seria esse? Faça uma lista dos seus cinco restaurantes preferidos.

mil vezes não. Ela enfiou a mão na . — Você acha que isso vai funcionar? — perguntei. exceto minha aparência. Escrevi: Estou satisfeita com todos os aspectos da minha vida. — Entendi muito bem — disse ela. não. Eu costumava acompanhá-lo nas refeições para análise dos cardápios. Comia quando estava feliz? Sim. e os brownies do Le Bus? Escrevi algumas coisas. De vez em quando. Purê de batatas e frango assado eram o meu recurso alimentar mais corriqueiro. e o café da manhã. e seus brincos eram diamantes do tamanho de um amendoim. todo mundo não tem? Por gentileza. Ela encolheu os grossos ombros. Insônia? Não. se não fosse pelas demais pessoas presentes? Pode apostar. mais nada que não fossem as gloriosas variações dos abrigos de ginástica. — Estou rindo para não chorar — expliquei. Apelido de Candace. não. e aí precisei começar tudo de novo. trajes de passeio. que mais parecem aqueles de comer comida japonesa. As sobremesas. com margaridas estampadas no peito. na minha opinião. Muito bonita. mas será que eu poderia comparar isso com as tortas de chocolate e o creme brûlée da Parisian Bakery. era outra história completamente diferente. mas muito à vontade. aquecido e ainda por cima com creme chantilly. — Meu nome é Cannie. Eu comia quando estava nervosa? Sim. era quem fazia a crítica dos restaurantes. na Lombard Street? Ou as folhas de uva recheadas na brasa do Viet Nam. e preso por um desses pauzinhos laqueados. ao meu lado. faça comentários adicionais. Seis páginas de história emocional. Como se os estilistas de moda resolvessem que depois de um certo peso as mulheres não precisassem mais se preocupar com tailleurs. e não era roupa barata. com fio e tudo. guisado de coelho. mesmo sabendo que não era. veado e perca flambada nos melhores restaurantes da cidade. por trás da cabeça. ou o frango frito do Delilah's. Ela sorriu. — Eu estava tomando phen-fen — falou. Eu tinha sopro no coração. comendo patê de fígado de ganso. experimentou trocar um sorriso comigo. e tentassem se desculpar por nos vestirem como Teletubbies de idade um pouco mais avançada colocando estampas de margaridas nas blusas. vitela. e por cima uma túnica toda em azul-petróleo. glaucoma? Estava grávida? Não. Sete páginas de história física. Depois acrescentei: E minha vida amorosa.no jornal. Estaria me enchendo daquelas bolachas com aquele requeijão maroto neste exato instante. rabisquei tudo. A mulher enfiada na poltrona. por baixo de sua gola. O cabelo era preto brilhante. Passando para as páginas de psicologia. estava torcido para cima. Pensava em suicídio? Eu me retraí toda e logo em seguida marquei raramente. Eu ficava deprimida com freqüência? Fiz um círculo em volta de às vezes. me achava imprestável? Sim. por sua vez. me lembrei do pudim de pão de chocolate do Silk City Diner. Ri um pouco. eram uma categoria totalmente distinta dos pratos principais. A coisa estava começando a ficar esquisita. Já tivera a fantasia de cortar fora partes mais carnudas ou pelancudas do meu corpo? O quê. e as cinco melhores coisas que eu conseguia cozinhar não traziam qualquer semelhança com as cinco melhores coisas que eu conseguia comprar. pressão alta. enquanto ele murmurava ao microfone escondido. — Perdi quarenta quilos. Cinco comidas preferidas. Estava usando uma dessas roupas que eu sempre considerei típica das gordinhas elegantes: legging. — Meu nome é Lily.

era agradável ficar ali. Ela me apertou a mão.. e soltou um suspiro gigantesco.Na verdade.. — Achei que as pacientes gostariam de ler. O lugar tinha um aspecto convidativo. papéis e revistas. pensando que se um médico de clínica de emagrecimento com quarenta e poucos anos de idade. não por mero desejo humano. iria sim.Não.. concluí que aquele basso profondo era mesmo o seu jeito de falar. — retraí-me.Pois é essa a coluna que Bruce escreve.. e uma geladeirinha com uma máquina de café em cima no outro. Ele está escrevendo uma coluna para a Moxie. coberto de pilhas de livros.perguntou o médico. O peito dela parecia algo regido por marés e gravidade. o que significava um sujeito beirando os dois metros. Eu fiquei o tempo todo esperando que ele parasse com o que considerei uma imitação malfeita de Barry White e falasse normalmente. estava de arrasar. O médico estava na faixa dos quarenta. de minissaia e suéter. — Phen-fen — disse ela. Mesmo com os meus Doc Martens de solado grosso. O consultório era bonito. de tailleur preto.K.falei. eu até recortei — contou-me. um tapete que parecia mesmo oriental. em voz alta.Bem. — O que aconteceu? — Ahn. . — E se ele tiver alguma amostra de phen-fen ali dentro. — Ex-namorado. — Pode me chamar de Dr. Pensei se ele não dormiria de vez em quando ali. Fiquei sentada. O médico corou. Lily me mostrou uma de corpo inteiro. uma escrivaninha cheia de coisas em agradável desordem. dava para presumir que praticamente todo mundo com quem eu convivo também tinha. Sem dúvida.. maridos. em sua voz absurdamente gutural e lenta. As gordas trazem fotos de quando eram magras. ele diz que sim. ... — Bem. Não me diga que você leu . casas de campo. Eu olhei ao redor. — Eu estava indo tão bem — continuou..bolsa.Boa sorte — sussurrou-me. — Não sentia fome nunca. mas. O nome dele me pareceu algo como Dr.Bom de cama? .. As mulheres normais trazem consigo fotos de seus bebês. — Humilhada em publicação de âmbito nacional? — leu. .. estava chamando meu nome. de voz extremamente gutural. quero dizer. Sofás de couro. só que tinha mais sílabas. Os olhos se perderam no infinito. . tentando relaxar. . enquanto ele folheava os meus formulários. talvez se o sofá se transformasse em cama. Também era extremamente alto. — disse ele. era magro (óbvio!) e tinha as têmporas grisalhas. Um médico alto. apertando a bolsa contra o peito. . como ele não parou. Krushelevansky. pegue-a. um aparelho de TV acoplado com vídeo num canto. e outra de perfil. rindo abertamente diante de outras. Era como se estivesse voando. eu mal batia nos ombros dele. o meu namorado. tinha lido. você não iria gostar de ouvir. fazendo careta diante de algumas respostas. — Não. Acho que essa foi a resposta mais incomum que alguém já escreveu. . Eu já sabia o que viria. um aperto de mão afetuoso e grandes olhos castanhos. Perdão.

disse isso.Só faltou isso.Eu quero ser magra — ele ficou me olhando. — Você escreve sobre televisão. daquele jeito. de uma. .Ele jamais a chamou assim. Praticamente sim. e sei que preciso perder peso. não sei. num suspiro. eu não vejo há anos. Ele escreveu alguma coisa no fichário.. O médico tirou os olhos do formulário e olhou para mim. . Ele folheou os meus formulários e disse: .. já vi matéria assinada por você. .. mas.. — Eu fui a única em quem rogaram a praga gorda. .Está bem.. na verdade foi uma observação bastante sensível de uma.. . um pouco. e parei. . com sinceridade. ou ralando para conseguir um destaque interessante junto aos colegas mais territorialistas. — Você é muito engraçada.De uma gorda? O médico sorriu.Então você veio aqui por causa do artigo? .... Gosta do seu trabalho? — Adoro — falei...Viu? — uma surpresa de fato! A maioria dos civis pula direto o nome do autor da matéria. novamente.Ahn. Sei que as pessoas esperam que as mulheres tenham um certo visual.Então você está aqui por causa das expectativas das pessoas? .. Minha mãe está um pouco pesada. conheço a cultura.. Sabe. O médico olhou para mim. Ele fez uma anotação.. Interessante.Em parte. — Rogaram a praga gorda! Nunca tinha ouvido assim desse jeito. Ele folheou mais um pouco. — Você é repórter? Confirmei. .. eu sei que sou. Meu pai. Quando não estava neurotizada com o excesso de pressão e com a ânsia de estar na boca do povo...O quê? Por quê? . Como uma mulher avantajada! Quero dizer. eu nunca pensei em mim mesma. não sou cega nem nada. avantajada. — Candace Shapiro... O médico riu... com a cabeça apenas. às vezes. todas essas coisas. — E você acha que o peso afeta seu desempenho no trabalho. A verdade era que eu não sabia se meu pai estava vivo e era sempre muito estranho quando o assunto surgia. o salário. — E seus irmãos? — Dois magricelas — disse eu. esperando. a carreira? . motivador. — Você não tem contato com ele? — Não. — bem mais magra..Ora.. Confirmei.Os seus pais estão acima do peso. Ele folheou mais. -É muito legal. É que. — Não faço idéia de como ele está agora. eu até que dava um jeito de me divertir. Tinha uma barriguinha quando foi embora.. enfim.. . — Ah. é? Eu tenho mais um milhão dessas. .

. Especialmente. — Posso perguntar por quê? Pensei um minuto. uma mulherzinha raquítica. então — disse ele. — O negócio é o seguinte. — Só me chamam de Candace quando estou numa encrenca. que a sua mãe anunciou. ao me lembrar que Tanya se mudou para a casa de minha mãe apenas seis semanas depois de começarem o namoro. além do tear de duas toneladas. que parecia sentir medo de mim.. e a primeira coisa que fez ao se instalar foi tirar toda a mobília do que tinha sido o meu quarto e encher tudo com seus penduricalhos de vidro. A maneira de Tanya dizer obrigada foi tecer um suéter listrado para Nifkin. Quero dizer. e eu fiquei meio pirada. Estamos conduzindo um estudo.Não. pois é. são magras e eu não sou. E o jornal é regularizado. e aí preciso me cuidar quando escrevo os artigos. quando se trata de alguém que parece um James Earl Jones branco e magro. os livros de auto ajuda.. ou pensando se me acham preguiçosa ou qualquer coisa assim. a qualquer instante. — Minha mãe tinha começado um relacionamento novo. fosse pular por cima de sua mesa. Ele rabiscou alguma coisa no meu fichário. aos cinqüenta anos de idade. que você acaba de conhecer. Não há como dizer para alguém. afinal. Ficar sabendo que minha mãe tinha se tornado recentemente lésbica e meu pai era absolutamente ausente. — Coisas de família — falei. Tem gente até que tem medo de mim. Ele riu e continuou folheando. de uma droga chamada sibutramina.Fiquei pensando um minuto. talvez. com cachinhos de anjo e óculos pendurados numa corrente presa ao pescoço. seus respectivos arco-íris. talvez tenha sido um pouco demais para ela. às vezes algumas das pessoas que entrevisto. . que funciona mais ou menos do mesmo modo que o phen- . Mas sou boa no que faço. — O conselho valeu? Eu estremeci por dentro. . como se temesse que eu.Acho que sim. que é homossexual. para não deixar que os meus sentimentos afetem o que vou dizer delas. — Fez terapia ano passado? — Umas oito semanas. respeitada.E a terapia ajudou? Pensei na figura para quem o meu plano de saúde me encaminhou. mas estou dando um jeito de me acostumar. então fico um pouco enciumada. Cannie. as coisas estavam andando muito rapidamente. O olhar dela era sempre algo retraído. que vai durar um ano. Possivelmente mais de uma vez. mas sim a maneira como vou reagir. O ponto principal da terapeuta foi que eu não posso mudar o que as pessoas da minha família fazem. acho que não. o que significa que financeiramente eu estou bem. Sabe. Candace. — Está bem. e provavelmente vai ficar tão tocado que vai repetir em voz alta. Ele ficou só me olhando. a situação não é perfeita. diminuindo o ritmo na página psicologia. Tentei me inclinar um pouquinho para tentar distinguir alguma coisa do que ele estava escrevendo. derrubar no chão a sua caixinha de lenços de papel e esganá-la. mas o papel estava inclinado num ângulo muito acentuado. — Cannie — falei. logo nos primeiros minutos da minha anamnese. — Acho que sim. que só o usou uma vez e depois o comeu. — Pois seja.

Achei que fosse falar que nós nos parecíamos muito com suas netas. caminhando pelo calçadão com minha irmã. sentia o sorvete derretendo na língua. e sandália de dedo. sério. e têm o enorme prazer de me informar que eu me encaixo nesse perfil . os estudos que já foram feitos mostram que os pacientes perdem entre cinco e dez por cento do peso corpóreo em questão de um ano. nas férias de verão em alguma praia da vida. — Agora. O lado bom é que ele não impõe os mesmos riscos à saúde nem tem o mesmo potencial de complicações que eslava associado ao phen-fen. Não estou preocupada com a saúde . Tomando sorvete de casquinha. Uma senhora de cabelos brancos e olhar terno nos abordou com um sorriso.. com maio por baixo. Lucy.. talvez você não seja talhada para ser uma pessoa magra. Ele não fazia idéia. short. . . Minha pressão sangüínea e colesterol estão muito bem. Percebi que tinha uma covinha na bochecha esquerda.Tenho vinte e oito anos de idade. — Você não está doente. Preciso ser magra. com azedume.. -Ficou decepcionada? Será que ele estava brincando? Que coisa mais frustrante! Tínhamos a tecnologia para substituir corações. propiciar ereções a velhinhos safados e o melhor que a ciência moderna conseguia fazer por mim eram uns parcos dez por cento? -Acho que é melhor do que nada — falei. para dar a impressão de que você está satisfeita por mais tempo. Estamos procurando mulheres que estejam trinta por cento acima do peso ideal.... Ele colocou a mão no meu braço. Estávamos usando boné de beisebol. considerando a sua hereditariedade e a sua estrutura. Talvez fosse um ensinamento que ele aprendeu na faculdade de medicina: se a paciente ficar histérica ante a perspectiva de uma perda relativamente minúscula de peso. Não está sentindo dor alguma.fen. ou que . a sibutramina é muito mais suave. — Veja bem .. que é basicamente enganar o cérebro. -Agora. Ele tornou a sorrir. -Dez por cento é muito melhor do que nada — disse ele. Eu me lembro de quando tinha mais ou menos catorze anos. Mordi o lábio.. Cannie. levar septuagenários à Lua. mas tem uma mulher na sala de espera que sente uma falta danada dele. Respirei fundo e apoiei a testa nas mãos. Fiz uns cálculos rápidos.Candace. . — Ah. E isso não é a pior coisa do mundo.Desculpe. Ele sorriu..Os estudos mostram que uma perda de quatro quilos já faz um efeito drásticos na pressão sangüínea e no colesterol. coloque a mão carinhosamente sobre seu antebraço. Eu fechava os olhos e enxergava as pernas bronzeadas em contraste com o short branco. minha magra irmã.disse ele.. . Você já tomou phen-fen? — Não — falei —. .Em termos realísticos.percebi que minha voz aumentou de volume. Puxei o braço. — Eu quero ser magra. .falei. Perder dez por cento do meu peso corpóreo ainda não me faria chegar nem perto do peso que eu queria ter. Foi gostoso.. sem levantar a cabeça. obrigada. não? — indaguei... mas faz o mesmo efeito. — Obrigado pelo aviso — disse ele.

Vou morrer só e o meu cachorro vai me lamber o rosto. Você não deveria estar comendo isso. antes que eu conseguisse me controlar. por favor. queridinha. Nada disso! Ela cumprimentou minha irmã com um breve aceno de cabeça e se dirigiu a mim. Deveria estar de dieta. Sentei-me toda ereta na mesa e o papel amassou ruidosamente. — Não dá para perceber? Ele me retribuiu o sorriso.Eu não estou zangada — disse. — . — Ah. — Você vai ficar muito bem — disse. — Vamos falar um pouco sobre motivação. Eu me levantei. ou porque o encontro da turma secundária vai chegar em breve.Acho isso bastante improvável — falou ele.Eu gostaria de ver se você consegue arranjar algumas razões para perder peso. ele não deixou perceber.A gente se fala. Se teve alguma noção do estava se passando. Ficamos olhando firme um para o outro em silêncio. Um acréscimo cotidiano de indelicadezas. abaixada. quer dizer que eu passei? Quando é que recebo as drogas? Posso tomar agora? . eu sou muito motivada — ergui a cabeça e consegui dar um sorrisinho meio amarelo. E.Vamos tirar um pouco de sangue. . . pensei fervorosamente." Eu me lembrava de coisas como essa. quando sua mão encaixou o estetoscópio sob o meu seio esquerdo.Talvez você já saiba disso. pais. — Sozinha. Não para seus cônjuges. E não está partido. "Você não deveria estar comendo isso. . Ele tirou o estetoscópio do pescoço e deu umas palmadinhas na mesa de exame.Estou na pior — soltei. sério. ele dissera. Suba aqui para mim.Inspire — disse calmamente o Dr. — Ainda está aí? — perguntei. . — Está partido? Ele levantou a cabeça.Você não conhece o meu cachorro — falei. K.fechou o fichário e cruzou as mãos sobre a barriga inexistente.. sorrindo. — disse. não me vá chorar agora.. antes de você ir embora. todas aquelas pequenas mágoas que não se vão e eu carregava pela vida como pedras costuradas aos meus bolsos. Não está sentindo dor alguma. parece que o seu coração é saudável e forte — esticou a mão para me ajudar a descer.Você consegue pensar em outras razões? — indagou. . apontando para o sorvete. O preço que se paga por ser uma Mulher Avantajada. Que piada! O médico limpou a garganta. e solte.sentia saudade da própria irmã e do quanto se divertiam quando estavam juntas. zangada. — Então. — Ainda. de repente. A bem da verdade. A primeira vez que algum homem me tocava com alguma atenção ou carinho desde Bruce. . e ninguém vai nos achar até que o cheiro saia por baixo da porta.. . ou porque se viram encabuladas por algo que alguém escreveu. mas as pessoas mais bem-sucedidas no controle do peso são aquelas que resolvem perder peso para si mesmas. Ninguém vai querer sair comigo desse jeito. Esse pensamento bastou para me encher os olhos. — Encha bem os pulmões e segure. -Também estamos atraí de gente que tenha o tipo certo de motivação . olhando para a cabeça dele. sorrindo. Eu só preciso auscultar seu coração um minuto. Não faça isso.. . além do fato de estar zangada e chateada agora. e fechei os olhos quando as mãos dele tocaram as minhas costas. e sorriu. .

ainda estava encaixada na poltrona. — E aí? — perguntou. Havia um pedaço de papel em sua mão. — Esse cara entende das coisas — ela se ajeitou o tanto que dava para se ajeitar na poltrona e me olhou bem nos olhos.A gente se fala. Lily. com metade de uma bolacha equilibrada sobre o joelho. Na sala de espera. de Bruce Guberman. — Eles vão me informar depois — falei. a moça da blusa com margaridas estampadas no peito. Fiquei surpresa ao ver que era uma fotocópia de "Amando uma Mulher Avantajada". — Você viu isso? — perguntou-me. Eu fiz que sim com a cabeça. — Você consegue imaginar a idiota que deixaria um cara assim ir embora? . — Que legal! — disse ela.

Tal e qual a mãe dele. Desesperados.Ou fica com você ou vai de volta para o canil municipal ..Na maioria das vezes – disse o outro. parece feito de pedaços de cachorros diferentes. os jornalistas esportivos me fizeram uma marcação sob pressão na lanchonete da empresa. com orelhas de doberman pinscher sempre apontadas para cima. Na verdade. . saiu durante duas semanas sem nenhum candidato. era apenas um rat terrier. de Fort Lauderdale. Os cachorros dão ritmo e um propósito ao seu dia. e os outros dois resolveram se separar. grátis.Ele foi ensinado a não sujar a casa? Eles trocaram olhares desconcertados. de fato. Eles estavam alugando uma casa e resolveram que uma casa precisava de um cachorro. seja por ter sido largada ou por ter-se divorciado. Ele é um cachorrinho muito compreensivo. E tem um sorriso permanente de Elvis na cara . branco com manchas negras e marcas marrons nas pernas compridas e raquíticas.QUATRO Acho que toda pessoa solteira deveria ter um cachorro. quando há um cachorro que depende de você. ou ainda que tenha enviuvado. É um cachorro de segunda mão. pelo que me contaram. espetadas na cabeça. que assinava. com orelhas grandes demais. de uma mordida que levou da mãe quando pequenino. . enquanto esperavam que ele atingisse a maturidade dobermanpinscheriana. independente do que eu tivesse bebido ou feito. que nem de longe lembrava um doberman pinscher. embora.Mais ou menos . . e dar-lhe até cerveja para beber na tina de água. dom eu coração estar partido ou não. com as patinhas cruzadas à frente. Até que um deles arranjou um emprego no Sun Sentinel. nem passar o dia inteiro e mais a noite inteira fora. Os jornalistas esportivos passaram seis meses alternando entre enchê-lo de todo tipo de atenção. Eu o herdei de três jornalistas esportivos que conheci no meu primeiro jornal. . Mas eu evito falar de seus defeitos quando ele está por perto. Nifkin também é muito cioso de sua aparência. Todo dia de manhã. indo cada um morar no seu apartamento. Não dá para acordar ridiculamente tarde. de malas prontas e com os depósitos de garantia já efetuados para assegurar os novos lares. que alguém resolveu montar daquele jeito por brincadeira. Nenhum deles quis levar o pequeno e ansioso Nifkin. Ele pesa exatamente cinco quilos e parece um Jack Russell anoréxico e extremamente nervosinho. um filhote de doberman pinscher. Claro que não era. ouvindo-me cantar junto com My fair lady ou recitar em voz alta receitas recortadas da revista Family Circle. Acho que o governo deveria interferir: se você não está casada nem morando com ninguém.disse um deles. eles deveriam exigir o seu comparecimento ao canil mais próximo a fim de escolher um animal para fazer companhia. Os funcionários podiam colocar anúncios gratuitamente nos classificados do jornal e o deles. para um lar acolhedor". . disposto O herdei de três jornalistas esportivos a ficar pacientemente sentado no sofá. achando que fosse. não tivesse nem circulo nem família.disseram-me.. "Cachorrinho malhado.conseqüência. Nifkin é um rat terrier pequeno e bem-feito. ou deixá-lo preso na cozinha totalmente ignorado. Nifkin me acordava encostando o nariz nas minhas pálpebras. e pegaram Nifkin no canil. como eu gostava de brincar.

- Sai roendo tudo que vê? Mais um olhar desconcertado. - Ele gosta de ossinhos de couro - disse um deles. O outro ficou calado, do que pude inferir que Nifkin também gostava de sapatos, cintos, carteiras e tudo que lhe aparecesse pela frente. - E ele já aprendeu a andar de coleira ou fica puxando o tempo todo? E vocês acham que ele seria capaz de atender a um chamado diferente de Nifkin? Os dois se entreolharam. - Veja bem, Cannie - disse um deles, afinal- ,você sabe o que acontece com os cachorros no canil... a menos que consigam convencer alguém mais de que se trata de um doberman pinscher. E isto é improvável. Fiquei com ele. E, obviamente, Nifkin passou os primeiros meses de nosso convívio fazendo cocô escondido num canto da sala, mordendo o sofá até abrir um buraco e se comportando como um coelho espasmódico, sempre que a guia estava presa à coleira. Quando me mudei para a Filadélfia, resolvi que tudo seria diferente. Arranjei um horário rígido para ele: um passeio às sete e meia da manhã, outro às quatro da tarde, pelos quais eu pagava ao filho do vizinho vinte dólares por semana, e um outro de praxe, rapidinho, antes de dormir. Fizemos seis meses de campo de concentração e depois disso ele já tinha parado de morder as coisas, mantinha a casa limpa e, em geral, passeava tranqüilo ao meu lado, a menos que um esquilo ou skatista o distraísse. Dado o progresso que obteve, tinha permissão para subir nos móveis. Ficava sentado ao meu lado no sofá, quando eu assistia televisão, e dormia enroscado em cima de um travesseiro ao lado da minha cabeça toda noite. "Você gosta mais desse cachorro do que de mim", Bruce reclamou uma vez; e de fato Nifkin era totalmente mimado, tinha todo tipo de brinquedos de pelúcia, ossos de couro comestível, suéteres de lã e guloseimas sofisticadas, e me envergonha dizer que ainda tinha um sofazinho só seu tamanho, estofado com o mesmo brim que o meu sofá, onde ele dormia enquanto eu estava trabalhando. (Também é fato que Bruce não dava atenção alguma para Nifkin e não havia jeito de fazê-lo levar o cachorrinho para passear. Quando chegava da academia, ou do passeio de bicicleta, ou de um cansativo dia de trabalho, eu costumava encontrar Bruce escarrapachado no sofá – normalmente com seu narguilé por perto - e Nifkin empoleirado e tremendo em cima de uma das almofadas, com jeito de quem estava prestes a explodir. "Ele foi à rua?", eu perguntava, e Bruce dava de ombros, com a maior cara de pau. Depois de deparar com esse quadro urna dúzia de vezes, eu simplesmente parei de perguntar.) O meu protetor de tela no trabalho é uma foto do Nifkin e eu tenho uma assinatura do boletim on-line Ratter Chatter, embora tenha conseguido ficar sem mandar uma foto dele - até agora. Juntos na cama, Bruce e eu costumávamos inventar possibilidades sobre o histórico de Nifkin. Na minha opinião, Nifkin tinha nascido numa abastada família inglesa, mas o pai o deserdou depois de encontrá-lo em posição comprometedora no depósito de feno com um dos cavalariços e o baniu para a América. "Talvez ele tenha trabalhado como vitrinista", brincava Bruce, colocando a mão em concha por cima da minha cabeça. "Que chapéu gostoso!", dizia eu, e me aconchegava nele. ''Aposto que ele vivia indo ao Studio 54."

"Provavelmente conheceu o Truman." "E usava terno sob medida, e andava de bengala no braço." Nifkin olhava-nos como se fôssemos malucos e depois ia para a sala. Eu inclinava a cabeça para ganhar um beijo de Bruce e nós voltávamos à carga. Mas ao mesmo tempo em que resgatei Nifkin dos jornalistas esportivos, dos classificados e do canil municipal, ele também me resgatou. Ele não me deixava sentir só, dava-me uma razão para acordar todo dia de manhã e me amava. Ou talvez amasse apenas o fato de que eu tinha polegares oponentes e conseguia usar o abridor de latas. Fosse o que fosse. Quando ele recostava o focinho ao lado da minha cabeça, na hora de dormir, dava um suspiro e fechava os olhos, isso já bastava. Na manhã seguinte à minha consulta na clínica de controle do peso, coloquei a coleira retrátil nele, enfiei um saco plástico do Wal-Mart no bolso direito, quatro biscoitos caninos e uma bola de tênis no esquerdo. Nifkin pulava alucinadamente, carambolando do meu sofá para o dele, cruzando o corredor até o quarto e voltando numa velocidade estonteante, parando só para me dar uma lambida no nariz. Toda manhã, para ele, é uma celebração. Parece até que diz: Oba! Já é de manhã. Eu adoro a manhã. Manhã! Vamos passear. Finalmente conseguimos sair, mas ele continuou empinando do meu lado, enquanto eu sacava os óculos escuros de dentro do bolso e os colocava no rosto. Descemos a rua, Nifkin praticamente dançando e eu sendo arrastada a reboque. O parque estava quase vazio. Havia só um par de cães de caça fuçando as moitas e um brioso cocker spaniel num canto. Soltei o cachorro da guia e ele, sem provocação alguma, tirou logo uma reta para cima do cocker spaniel, latindo freneticamente. - Nifkin!- gritei, sabendo que assim que chegasse a uns trinta ou quarenta centímetros do cachorro ele iria parar, cheirar o outro profunda e desdenhosamente, talvez latir mais algumas vezes e depois deixá-lo para lá. Eu sabia disso, Nifkin sabia disso e muito provavelmente o cocker spaniel também sabia disso (minha experiência tem mostrado que os outros cachorros em geral ignoram Nifkin quando ele entra no modo de ataque, provavelmente por ser pequeno demais e nem um pouco ameaçador, mesmo quando se esforça). Mas o dono do outro cachorro ficou alarmado quando viu um míssil em forma de rat terrier malhado, de olhar zombeteiro, arremetendo contra o seu bichinho de estimação. - Nifkin. - chamei, de novo e meu cachorro pelo menos uma vez na vida me atendeu, interrompendo prontamente o ataque. Corri até ele, tentando manter um ar de dignidade, peguei-o pela nuca e coloquei-o no colo, olhando-o firme nos olhos e dizendo “Não” e “Malvado”, conforme eu tinha aprendido no adestramento. Nifkin ganiu e mostrou-se desconcertado por verse privado de seu divertimento. O cocker spaniel balançou a cauda, hesitante. O cara do cocker spaniel olhou, entretido. - Nifkin? - perguntou. Percebi que ele estava prestes a lançar a pergunta e fiquei curiosa para ver se teria coragem. Apostei comigo mesma que teria. - Você sabe o que é nifkin? - perguntou ele. Primeiro ponto, Cannie. Nifkin, segundo os amigos do clube do meu irmão, é a palavra em inglês para a área entre o saco de um sujeito e o seu ânus. Os jornalistas esportivos tinham lhe arranjado esse nome. Eu armei o olhar mais intrigado que consegui. - Hein? É o nome dele. Quer dizer alguma coisa?

O sujeito corou. - Ah, quer sim, É... uma gíria, mais ou menos. - E quer dizer o quê? - perguntei, com ares de inocência. O cara descruzou as pernas. E eu fiquei olhando, só na expectativa. Nifkin também. - Hum! - disse, e parou. Resolvi ter piedade. -Tudo bem. Eu sei o que é nifkin - falei. - É um cachorro de segunda mão - e narrei-lhe uma versão abreviada da história dos jornalistas esportivos. - E quando finalmente descobri o que queria dizer Nifkin, já era tarde demais. Tentei chamá-lo de Nifty... e Napkin... e Ripken... e todo tipo de coisa que me ocorreu. Mas não adiantou, ele só responde quando a gente chama Nifkin. - Que brabeira! - disse ele, rindo. - Meu nome é Steve - apresentou-se. - O meu é Cannie. Qual é o nome do seu cachorro? - Sunny – respondeu. Nifkin e Sunny foram se cheirar e Steve e eu apertamos as mãos. - Acabei de me mudar para cá, vim de Nova York - disse ele. – Sou engenheiro... - A família mora aqui? - Não, Sou solteiro. As pernas dele eram bonitas. Bronzeadas, um pouco cabeludas. E aquelas sandálias com fecho de velcro que todo mundo estava usando naquele verão. Short cáqui, camiseta cinza. Bonitinho! - Você toparia sair para tomar uma cerveja uma hora dessas? – perguntou ele. Bonitinho, e obviamente não avesso a uma mulher suada e avantajada. - Toparia, sim. Legal! Ele me deu um sorriso protegido pela sombra do seu boné de beisebol. Dei-lhe o número do meu telefone, tentando não me encher de esperanças, mas sentindo-me satisfeita. Quando cheguei em casa, dei a Nifkin um pouco de ração Small Bites, comi o meu cereal, depois fui passar fio dental e fazer meus gargarejos, e fiquei respirando profundamente a fim de me acalmar para a entrevista com Jane Sloan, diretora extraordinária cujo perfil eu deveria traçar para o jornal de domingo. Em deferência à sua fama, e por estarmos almoçando no chiquérrimo Four Seasons, me esmerei nas roupas. Enfiei-me numa calcinha modeladora e numa meia-calça redutora. Uma vez garantida a cintura, vesti um conjunto azulado de saia e paletó, com extravagantes botões em forma de estrela, calcei o bojudo sapato esporte preto do momento, requisito básico de qualquer um entre os vinte e os trinta anos que se pretenda na moda. Rezei para ter força e compostura, e para que os dedos de Bruce se quebrassem nalgum bizarro acidente industrial, de maneira que ele jamais tornasse a escrever. Depois chamei um táxi, peguei o bloco e parti para o Four Seasons, para almoçar. Eu faço a cobertura de Hollywood para o Philadelphia Examiner. Isso não é tão fácil como parece, porque Hollywood fica na Califórnia e eu, ora essa, não moro lá. Ainda assim, eu insisto. Escrevo sobre tendências, fofocas, namoricos e casórios dos astros e estrelas. Faço resenhas e até entrevistas ocasionais com as raríssimas celebridades que acham por bem fazer uma escala na costa leste em suas turnês promocionais. Fiz uma incursão pelo jornalismo depois de sair da faculdade de letras com um diploma

na mão e sem um plano de verdade. Eu queria escrever. Os jornais foram um dos lugares onde descobri que poderiam me pagar para tanto. Então, no mês de setembro que se seguiu à minha formatura, fui contratada por um jornalzinho no interior da Pensilvânia. A idade média dos repórteres era vinte e dois anos. Nossa experiência profissional somada não chegava a dois anos e, caramba, isso estava na cara! No Central Valley Times, eu cobria cinco jurisdições escolares, mais alguns incêndios e batidas de carro ocasionais, além de quaisquer matérias que encontrasse tempo para desencavar. Por tais serviços, eu recebia a régia quantia de trezentos dólares semanais - o suficiente para sobreviver, na conta, se nada desse errado. E, é claro, sempre tiniu alguma coisa dando errado. E havia também os anúncios de casamentos. O Central Valley era um dos últimos jornais do país que ainda fazia, gratuitamente, extensas descrições de casamentos - e, ai de mim, de vestidos de noiva. Pence Princesa, renda Alençon, bordado francês, véu, uma grinalda trabalhada, saiote de tule... tudo isso eram termos que eu me via escrevendo com tanta freqüência que os coloquei no recurso de salvar. Bastava digitar uma tecla que surgiam frases completas: bordado com pérolas, ou ballonnet de tafetá marfim. Um dia, estava na canseira de digitar anúncios de casamento e pensar na injustiça daquilo tudo, quando deparei com uma palavra que não consegui ler. Muitas de nossas noivas preenchiam os formulários à mão. Uma delas especificamente escreveu, com rebuscada caligrafia, em roxo, uma palavra que parecia ser “ESPDUMAR”. Levei o formulário para Raji, outro foca. - O que isso quer dizer? Ele fez careta quando viu a tinta roxa, - “ESPDUMAR" - leu, devagar. - Como MDOS, coisa desse tipo. - Mas, para um vestido? Raji deu de ombros. Crescera na cidade de Nova York e freqüentara a Escola de Jornalismo de Columbia. O jeitão do pessoal elo interior da Pensilvânia era estranho para ele. Voltei para a minha mesa; Raji voltou para sua tarefa aterradora: digitar o menu escolar para a semana inteira. - Tater Tot1 - ouvi-o soltar, num suspiro. - Sempre esse Tater Tot. O que me deixava com o ESPDUMAR por resolver. Como a lacuna de "contato para perguntas" fora preenchida com o telefone residencial, peguei o aparelho e disquei. - Alô? - atendeu uma mulher, com voz jovial. - Alô - disse eu -, aqui é Candace Shapiro do Valley Times. Estou querendo falar com Sandra Garry... - Sou eu, Sandy - disse a moça, com meiguice. - Oi, Sandy. Sou eu que faço os anúncios de casamento aqui no jornal e estava lendo o seu formulário quando encontrei uma palavra... ESPUMAR? - Espuma do mar - respondeu ela, prontamente. Ao fundo, ouvi uma criança gritando, "Mamãe!", e o que me pareceu uma novela na televisão. - É a cor do meu vestido. - Ah, bom - retruquei -, era isso que eu queria saber. Obrigada... - Espere aí... é que talvez as pessoas não saibam o que é espuma do mar, não é? No que você pensa quando ouve da cor de espuma do mar? ____________________ 1 Tipo de batata pré-processada, muito usada na culinária norte-americana. (N. do T.)

- Verde? - arrisquei. Eu queria mesmo era desligar o telefone. Tinha três cestos de roupa me esperando na mala do carro. Estava mais a fim de ir embora do escritório, passar na academia, lavar minhas roupas, comprar leite. - Um verde-claro, acho eu. Sandy soltou um suspiro. - Está vendo? Não é bem isso - disse ela. - É mais para azul sabe. A menina da Bridal Barn disse que a cor se chamava espuma do mar, mas isso eu acho que tem mais cara de verde, sabe. - Podemos colocar azul aqui - falei. Outro suspiro de Sandy. - Azul-claro? - tentei. - Sabe, é que não é bem azul- falou ela. - Se você puser azul, as pessoas vão pensar, assim, um azul como o do céu, ou talvez um azul-marinho, e não é nem escuro nem nada... - Azul-bebê? - sugeri, consultando o meu leque de sinônimos amealhados entre os anúncios de casamentos. - Azul-celeste? Azul-turquesa? - Só acho que nenhum desses está exatamente correto – disse Sandy, minuciosamente. - Hum! - falei. - Bem, se você quiser pensar no assunto e me ligar de volta... Foi quando Sandy começou a chorar. Pude ouvi-Ia soluçando no outro lado da linha, enquanto a novela continuava zumbindo ao fundo e a criança, que imaginei bochechuda e com dedos do pé gordinho, berrando "Mamãe!". - Eu quero que esteja certo - ela disse, entre um soluço e outro. - Sabe, esperei tanto tempo por esse dia... Quero que tudo esteja perfeito... e não consigo nem dizer qual é a cor do meu vestido... - Ora, o que é isso? - falei, sentindo-me ridiculamente ineficaz, - Olhe, não é tão ruim assim... - Talvez você possa dar um pulinho aqui - disse ela, ainda chorando. – Você é repórter, não é? Talvez possa vir dar uma olhadinha no vestido e dizer qual seria o nome certo. Pensei na roupa por lavar, no que pretendia fazer à noite. - Por favor?- pediu Sandy, com uma vozinha de súplica. Eu respirei fundo. Achei que a roupa suja poderia esperar. Agora estava curiosa. Que mulher era essa, e como é que alguém que mal sabe escrever espuma do mar direito é capaz de encontrar o amor? Perguntei o endereço dela, fiquei me achando uma manteiga derretida e disse a ela que chegaria em uma hora. Para ser absolutamente sincera, eu estava esperando um amontoado de trailers. Existem muitos no interior da Pensilvânia. Mas morava numa casa de verdade, branquinha ao estilo Cape Cod, de janelas pretas e a proverbial cerca branca em frente. Nos fundos, havia um quintal com um enorme pistolão d'água de plástico cor de laranja, um velotrol abandonado e um balanço com cara de novo. Na entrada, estava estacionada uma picape preta, brilhando, e atrás da porta estava Sandy, me esperando - a moça tinha mais ou menos trinta anos, a fisionomia cansada em torno dos olhos, mas com uma espécie de tremor de esperança neles, os cabelos louros bem claros, finos como algodão-doce, um narizinho arrebitado grandes olhos azuis-esverdeados, como os de uma estatueta pintada. Sai do carro com o bloco na mão. Sandy sorriu através da porta de tela. Avistei duas mãozinhas agarrando-lhe a coxa por trás e um rostinho de criança que espiou pelo lado e logo desapareceu.

Querida. soltou um discreto arroto contra o dorso da mão. procura correspondente sensível para trocar cartas. O que. Bryan. Foi quando descobri que estava grávida do Trevor. e me apresentou um pedaço de jornal.. atencioso. Esse foi o pai do Dylan. Da primeira vez. uma pena.Ah! – disse eu. . Sandy tomou um gole do refrigerante. acariciando distraidamente os cabelos de Dylan com uma das mãos. aqui está. do tamanho de um selo de carta.repetiu ela.disse eu. sabe. talvez mais. com o recorte de ladrilhos.Ai.Você já passou por toda essa coisa de casamento antes? Sandy negou com a cabeça. nem houve casamento.disse Sandy.Isso mesmo. Eu não queria refrigerante. fechou os olhos e balançou a cabeça. eu guardei .Meu pai está no exército.falou Sandy. uma pena! Na verdade. não.. Queria ver o vestido. para desenrolar de uma vez só no chão.Desse jeito. . novamente. Estava escrito: "Homem alto. quando fui visitar o pai do Dylan. . livramento condicional . .Está nervosa com o casamento? .continuou ela -.falou Sandy. por favor! . Ficamos juntos sete anos. . de forma que me sentei à mesa da cozinha.Sai amanhã.achei melhor pisar com cuidado nesse terreno. querido .Fui com o vestido da festa de formatura da escola secundária. e riu um pouco. me desculpe. de porte atlético e signo no de leão. ...Não foi nada.Esse é. A coleção dos "&"..disse uma vozinha esganiçada debaixo da mesa. O carpete da sala era azul-cobalto e ia de parede a parede. Mas ela parecia desesperada e eu estava com sede. embaixo de uma flâmula de pano pregada na parede em que se lia "Deus abençoe este lar".eu estava começando a aprender como é que uma pausa prolongada pode se tornar a melhor amiga de uma repórter.sussurrou ela.Roubo de carro . o piso da cozinha era de linóleo branco recém-colocado . . arranjar logo um adjetivo. .desses que vêm em folha.disse ela. exultante. . pensei com meus botões. o chacoalhou os nossos copos de refrigerante em cima da mesa.perguntei.ela se levantou de súbito.Nervosa . . eu conheci o meu noivo. . . . Sport & Field. era um passo à frente em comparação com o roubo de automóveis. .falou. botar o pé na estrada e estar bem longe dali na hora que começasse o Melrose Place. .A mobília da casa era barata. .Na verdade.Ah! . Fomos ao Juiz de Paz em Bald Eagle . . – Foi preso por fraude. . com o bloco ao meu lado. cristão. acanhada.Então o Bryan.Da segunda vez . que dá para considerar como o meu marido de direito. .Quer tomar um refrigerante? Eu já ia pegar um para mim . já vínhamos nos correspondendo durante algum tempo . mas bem arrumada e limpa.P-r-e-s-o. eu estou aterrorizada. .disse Sandy. eu pude apurar pelo seu tom de voz. balançou a cabeça e soletrou . .. Surgiu uma cabecinha de cabelos louros lisos.Dylan sou eu! .E falou que gostou mais da minha! . com pilhas de revistas em cima da mesinha de centro envernizada: Guns & Ammo." . e têm uma padronagem estampada. .Ele recebeu doze cartas . Road& Track. eu fugi com ele. Ela ergueu o olhar para mim.Ele colocou anúncio na sessão de classificados. com firmeza. . sabe.

prosseguiu ela. alargando-se para baixo.perguntou. Enquanto Dylan era pequeno e louro. de olhar compenetrado. O rosto estava enrubescido e ela. .. um corpete armado de princesa de conto de fadas. Sandy parou embaixo da luz da cozinha e deu uma voltinha. dando várias voltinhas. Um decote cavado.O que você acha? . lendo a historinha infantil Where the wild things are. era a especialidade da Bridal Barn.. o anúncio do cristão nos classificados . pai Sam. . . para o rosto rosado e a pele leitosa.eu estava preparada para algo medonho. . costurado em toda a extensão das costas.Os seus pais. Que queria alguém para desempenhar um papel masculino na vida dos meus meninos. em vez de refrigerante pura e simplesmente. que deixava ver a pele sedosa de seu colo. como se ele contivesse o mistério dos tempos. ante os filhos que a fitavam como que sob encanto. . – É azul? Verde? Olhei para ela durante um bom tempo. . de ossos finos. murmurando Lá vem a noiva..depois de Sandy me mostrar as fotos de Bryan e me falar dos planos para a lua-de-mel. parecia Glinda. salpicado de flocos de cristais que captavam a luz. . numa onda de role que fazia frufru entre os pés. Ela girou mais uma vez e eu avistei minúsculos botões de rosa de tecido. e Trevor ficou olhando para a mãe. com a voz clara e forte.Não tenho muita certeza .falou. . A barra da saia farfalhou pelo assoalho. Que era mãe solteira.prisão. Pai Rick. Sandy se levantou e arriscou um sorriso.E você acha. de vê-Ia colocar as crianças para dormir. Dylan tinha pegado o véu e o colocara sobre a própria cabeça. os olhos azuis-esverdeados cintilavam. Vamos mostrar a repórter o vestido bonito da mamãe! Depois de tudo isso . até que parou. venham comigo. . Ela parecia a fada madrinha da Cinderela. este menino (Trevor. e para o olhar deleitado de seus filhos. fechadinhos qual bico de neném.. E sentou-se de novo. Trevor vinha segurando-lhe a mão com solenidade ao entrarem na cozinha. quando eu finalmente retomei à sala de edição . eu sei.foi dizendo.Ele vai ser um bom pai . . com a boca vermelha de Ki-Suco. os maridos. Expliquei minha situação. segurando o irmão pela mão.. E não é . um na testa e um no rosto. se não me engano) era mais escuro e taludo.Meninos. Dylan riu e bateu palmas.. e dar-lhe beijinhos de boanoite.falei.O que você falou para ele? . que desta vez acertei. O editor do caderno da cidade já tinha ido embora havia muito tempo. . e um namorado após o outro.Espere SÓ um instantinho . mas ela prontamente levantou a mão me interrompendo. Mas o vestido era belíssimo.Eu acho. e os cabelos caídos sobre a pele.Eu fui totalmente sincera. . Ela ficou ali girando. para os braços e ombros nus. e depois de colocar um dedinho de bourbon seu . pai Aaron.Aí eu fiquei só com a minha mãe. um vestido tirado do figurino de um filme de horror..Mamãe? . claro. .falou. a Bruxa Boa do Norte.Eu acredito no amor – falou. O rosto de Sandy estava corado. Jurei que comigo não seria igual. acho .comecei a falar.Meu pai foi embora quando eu tinha quatro anos de idade. . com o olhar fixo no copo.. eu podia ver o busto dela inchando de encontro ao contorno das palhetas justas do corpete. A cada respiração.Mas vou arranjar uma solução. Justo em cima. Afinal.. Perdi o prazo. ofegante.Dylan tinha voltado.

cheguei ao trabalho e havia uma cópia da página jogada em cima do meu teclado. Dylan e Trevor. Nas cartas. descrição do vestido. Na cozinha de casa. O primeiro marido a abandonou. ela diz que ele é um príncipe. um tom perfeitamente eqüidistante do mais claro verde e do mais claro azul. com o último dos três cigarros que se permite todas as noites queimar entre os dedos. nome dos convidados. em cada sílaba.Isto – disse ele. cor de virgem. Não é branco. o editor-executivo. acompanharão a noiva. . que é o branco com um pingo de resignação. Sentei-me ao computador. Um pouco floreado. Sandra Louise Garry se casará com Bryan Perreault na Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia.refrigerante e meio no meu. nem marfim. e preenchi o meu formulário de casamento. na Old College Road. cujas cartas mantém guardadas embaixo do travesseiro e já leu tantas vezes que o papel se encontra fino como as asas de uma borboleta. . ele a chama de pombinha querida. exagerado e rebuscado. um sulista irascível que fora atraído para a Pensilvânia com a promessa de passar para um jornal maior da cadeia (além da inigualável pesca de truta na região). “Fale Comigo”. com a cabeça girando um pouco. seu anjo perfeito.disse. . cuja condicional começa no dia do casamento. dizia o recadinho rabiscado na margem do papel. O cigarro aceso passeava no ar qual um vagalume. aquele com lacunas: nome da noiva. na inconfundível caligrafia de Chris. O vestido É de uma cor chamada espuma do mar. Havia uma segunda cópia da minha matéria em cima de sua mesa. nome do noivo. respeitar e cuidar de Bryan. Eu tinha aproximadamente oito centímetros para ocupar e precisava escrever de forma a encaixar o texto ali. No dia seguinte. – O que é isto? Dei de ombros.Ele é um homem bom . uma adolescente com a cabeça cheia de romances açucarados. apontando com um dedo comprido. Depois apertei a tecla “Esc”. Bati à sua porta timidamente. O vestido tem a cor dos sonhos. embora os descrentes possam dizer que há todas as razões para que não acredite. “Acredito no amor”. Ela entrará na igreja com caprichadas presilhas de strass no cabelo e prometerá amar. respirei fundo e escrevi: Amanhã. o segundo está preso – na mesma cadeia onde ela conheceu Bryan. limpei a tela. dia ela. Um vestido com a cor dos sonhos? O artigo todo trazia o selo da “Oficina da Redação Criativa dos Recém-Formados da Faculdade”. Os filhos dela. escrever apenas o suficiente para atingir a cota de espaço abaixo da foto do rosto sorridente e desfocado de Sandy. Ele fez sinal para eu entrar. sonhadora. Bem. com um círculo vermelho marcado a lápis-cera pelo editor ao redor da passagem ofensiva.

Eu não tinha a galharda de fazer crônicas da minha vida sexual.. Eu queria compreender como era fazer parte de um casal. como alguém adquiria coragem para pegar a mão de outra pessoa e saltar para lá do abismo. Pegava a história de cada noiva. Enquanto outros jornalistas iguais a mim escreviam. brancas. o Examiner resolveu. E o sexo não me interessava como me interessava o casamento. por sua própria existência. fui até La e depois. Eu .E achou certo . não magras – à procura de respostas.. como instituição. . procurando o fio solto da meada. Mas acima de tudo.Foi só. aonde foram e quando souberam. Duas semanas depois. Ele ergueu o olhar de papel para mim. desesperadamente. meus artigos calharam de passar pela mesa do editor certo.Quer fazer de novo? E assim nasceu uma estrela. primeiro ao ouvido da mãe dela e depois ao dela. mas bem vestida. Vi uma noiva abandonada no altar. a brecha para esmiuçar até virar o caso às avessas e descobrir a verdade. sobre a vida de solteiro nas grandes cidades do país. o vestido.. e a revista na cabeça. ainda que quisesse.disse. eu estava labutando num jornalzinho municipal . atrairia esses leitores. estrebuchando no breu da extinção na escala evolutiva da mídia -. . eu escrevia como: como minhas noivas resolviam se casar. Estava digitando o anúncio dela e apareceu uma palavra que não consegui entender. bem. a igreja. eu conheci essa mulher. Se você tivesse lido aquele jornalzinho no inicio da década de 1990. como instituição. ficar diante de um bispo ou rabino ou juiz de paz e fazer uma promessa para todo o sempre. negras. Então eles me convidaram para voltar à cidade onde nasci.um dinossauro. mais ou menos. magras.. eu encontrava uma noiva e escrevia uma breve coluna sobre ela . . fitando uma centena de noivas diferentes – velhas. Como é que se sabe quando um cara é o cara certo? como é que se pode ter certeza a ponto de fazer uma promessa para todo o sempre.. investigando casamentos. semana não.. para não atrair a atenção para mim. Que. Achei que poderia dar uma boa matéria. cada narrativa surpreendente de como se conheceram. o Philadelphia Examiner. Tampouco tinha o tipo de corpo para expor sem me incomodar. tinha decidido. a fim de ser seus olhos e ouvidos sobre o que se passava com os jovens da Filadélfia na faixa dos vinte e poucos anos de idade. a costura invisível. em deferência à solenidade da ocasião. com o vestido de linho azul que eu usava – despojada. com o bloco enfiado no bolso. então telefonei para ela. no momento exato em que o grande jornal diário de minha cidade natal.quem era. ainda que por escrito. bem.. colunas sarcásticas para revistas online que acabavam de ser lançadas. vi seu rosto se contrair quando o padrinho entrou na igreja e sussurrou. Semana sim. novas. que atrair leitores da geração X era de suma importância e que uma jovem repórter.não completei a frase. a música e a recepção. provavelmente me veria no canto de uma centena de diferentes fotografias de casamento. Iria me avistar nos assentos do corredor. a tentar sustentar sua circulação entre as mães ligadas ao futebol nos subúrbios. na primeira pessoa. dentre todas as coisas raridade! Um encanto! Mas não poderia estar escrevendo sobre mim mesma tal e qual faziam os meus colegas de turma. que atrair leitores da geração X não estava com nada e voltou. e fazê-la com sinceridade? Como é que se pode acreditar no amor? Depois de dois anos e meio na batida dos casamentos. Mas o mal já fora feito. ironia! Mesmo naquela época eu já sabia.

Seu fluido vital é a fofoca hollywoodiana sua atitude com relação às personalidades sobre as quais escreve raramente é algo menos do que reverencia!. Gabby escreve a coluna de entretenimento do Philadelphia Examiner cargo. nossa luta comum para sobreviver num mundo que considera grotesca e risível qualquer mulher com manequim acima de 42. ao se aproximar da minha mesa. desde "muito antes de você nascer". da MTV em diante. de segunda a sexta. Infelizmente. conforme adora relembrar a mim e a qualquer um que esteja perto o suficiente para ouvir. A vida foi boa. não se discerne nela nenhum traço de sexualidade ou de qualquer tipo de vida fora do escritório. O que já seria patético se Gabby Gardiner fosse ao menos um pouquinho simpática. ela é imensa. a estava substituindo”. que seu radar simplesmente não capta da mesma maneira que capta. mas ganhou a batalha: continuaram chamando aquilo de “Papeando com a Gabby”. “Boa sorte. fiquei escrevendo sua coluna diária. Gabby dissera. o maior estorvo do meu emprego foi Gabby Gardiner. acabrunhadamente pequena. continua sendo uma das partes mais lidas do nosso caderno – outro fato que ela sempre destaca. eu . A maioria dos leitores do Examiner tem acima de quarenta anos e não está muito interessada em aprender nada novo. “Eu já pedi às minhas melhores fontes que a procurassem”. coroada de cachos brancos. Mais Gabby tem sorte. A idade de Gabby é qualquer coisa acima dos sessenta. acrescentando uma notinha em fonte. Desde o inicio. como se convivesse intimamente com eles. Ela fala das estrelas que cobre. deixamo-nos em paz uma à outra. Pois pensaria errado. Você poderia pensar que partilharíamos alguma solidariedade por causa do mesmo mal que nos oprime. as décadas foram as de 1960 e 1970. menina”. de forma que sua coluna. Ela parou de prestar atenção em algum momento entre a eleição de Reagan e o advento da TV a cabo. de forma que existe um universo inteiro de coisas. Fantástico. Não tem filhos. Isso é tanto seu ponto forte quanto fraco. por meio de textos reimpressos de fofocas regurgitada dos tablóides de Nova York e da Variety. E a coisa deveria terminar aí. Fofocas quentes sobre Walter Cronkite. em grande parte. antes que Gabby e suas amigas me crivassem com o raio laser do ódio nos seus olhares. pensei. a todo volume (grita sob a alegação de ser surda. saracoteando para se despedir. Possui uma rede de contatos que abrange as duas costas do país e duas décadas inteiras. “Papeando com a Gabby”. em vez de me darem uma chance durante sua ausência. nem marido. e óculos grossos e ensebados. Toda manhã. Durante os meus primeiros anos no Examiner. Se eu sou grande. que não é. Candace Shapiro. com ar de superioridade. explicando que Gabby estava “a serviço” e que a “escritora da equipe do Examiner. Mas não terminou. a maioria em terceira mão. tingidos com um tom levemente azulado. mas eu estou convencida de que grita simplesmente porque fica mais chato ainda do que só falar). Bem. exultante como se não tivesse passado as duas últimas semanas fazendo lobby junto aos editores para que usassem um serviço de clipping. durante o afastamento de Gabby. as coisas pioraram no último verão. quando Gabby tirou licença de sois meses para cuidar de um problema médico que pareceria muito ruim (“pólipos” foi a única palavra que peguei. a Elizabeth Taylor. como se fossem seus amigos. Mal posso esperar. digamos. e sai correndo da sala de correio sem sequer pegar meu exemplar do Teen People). Infelizmente. quando presumivelmente lhe estariam sendo retirados os pólipos. Gabby é uma anciã enorme.estava contratada. Ela perdeu a guerra.

ao fim da coluna. observou. . Quando voltou da licença. e Rumo às estrelas. e Gabby ouviu o meu correio de voz. Fui para casa chorar as magoas com Samantha (“Ela é absolutamente insegura”.” Gabby ligou na manhã seguinte. o roteiro que vinha laboriosamente escrevendo há meses. impermanente. “Adorei a mensagem. jogava. cujo senso de humor era bem sintonizado com o meu .Não – falei. Tarde da noite – enfatizou ele. Faça o favor de dar um jeito nisso para que Gabby não acorde mais a minha esposa e filhos. jogada no sofá). por estar vidrada olhando para ele).Você anda dizendo por aí que é a colunista de entretenimento? – perguntou. uma certa manhã. com a expressão de um homem que não gosta que seu sono seja interrompido. Por que nós não pusemos nada sobre isso aí?” Eu tentava ignorá-la – tratá-la com simpatia ao telefone e. só de passagem. e me concentrar em minhas atividades extracurriculares: contos. terminam um nos braços do outro.” Mas. Rumo às estrelas era uma comédia romântica sobre uma repórter de cidade grande que se apaixona por um dos astros que entrevista. “O que é um Bem Affleck?. enquanto vão passando os créditos. rabiscos de um romance.Eu recebi um telefonema irado da Gabby ontem à noite.podia esperar sentadinha o telefonema diário de Gabby. Mas o mal já estava feito. enquanto eu estava lá. disse. – Ela acha que você está dando às pessoas o impressão de que Gabby não volta mais e que você assumiu o cargo.O seu correio de voz – falou. Cannie”) resolvi seguir o conselho dele e mudei a mensagem do meu correio de voz para: “Você ligou para Candace Shapiro. . comediante bonitinho de Saturday Night!. .” Ou: “Comedy Central? Ninguém assiste isso”. e pensava que. Só estou substituindo. Aquilo me deixou confusa. menina”. nas ocasiões em que ela ficava especificamente mal-humorada. . começam com o pé esquerdo (depois que ele resolve tratá-la como mais uma fã gorducha). – E não sou. jornalista que está encarregada desta coluna de entretenimento a título temporário. depois das complicações apropriadas do Terceiro Ato. se apaixonam e. . uma linha dizendo: “Gabby Gardiner retornará no fim de setembro. Eu só tentava ignorá-la. e não ficará de jeito algum com o cargo. propositalmente: “Vi uma coisa sobre a Elizabeth no Entertainment Tonight ontem à noite. O astro se baseia em Adrian Stadt. para ser sincero. não quero saber. Gabby deu para me chamar de Eva – como no filme A malvada – sempre que falava comigo. colunista de entretenimento do Philadelphia Examiner. passando-me um copo de frappé. você ligou para Candace Shapiro. dizia num fio de voz. “Bem Affleck?. provavelmente nos daríamos bem. como substituta.mesmo quando estava cumprindo o seu memorável período de três meses como Piloto de provas nojentas de canhão humano.” Eu não tinha me dado conta do passo em falso até que o diretor-executivo do jornal veio à minha mesa. – Não sei o que diz e. de vez em quando. Ele foi o cara a quem assisti durante todos os meus anos de faculdade e ainda depois. que era basicamente eu mesma dizendo: “Alô. Eles se conhecem de uma maneira legal (depois que ela cai do tamborete do bar do hotel. se ele estivesse aqui ou eu estivesse lá. Ou. Vociferei com Bruce ao telefone (“Mude aquela porcaria. ela ligou e eu não estava lá para atender ao seu telefonema.

relembrei a mim mesma. a produtora-executiva do filme (com uma das mãos segurando o nariz. foi uma resposta de cem páginas para um mundo (e para os meus próprios temores secretos) que me dissera que mulheres gorduchas não podiam ter aventuras nem se apaixonar. Nicholas Kaye sentou-se ao lado e lançou-me um sorriso de desculpas. entregando-me seu cartão e insistindo que a contatasse assim que largasse o jornalismo e assumisse a dramaturgia. e eu também sou engraçada.falei. eu era uma escritora. eu suponho). dobrado sobre a mesa em forma de cisne.falou. estáveis e ainda casados. astro do futuro lançamento Irmãos arroto. era eu.Esta cidade . Melhor ainda. tinha escrito e dirigido alguns dos filmes mais brilhantes e engraçados que Hollywood já vira. vermelhas e de rímel. na esperança que ela dissesse uma frase de impacto.Queria nos desculpar o atraso . fiz com que fosse ruiva e deilhe pais normais. . Ela era engraçada. Por que haveria de estar sentida? Eu não estava fazendo nada com os poros dela. Pegou o guardanapo. Quase uma hora depois de minha chegada. que de fato parecia o que se vê na televisão: uma gracinha! Jane Sloan empurrou o pires de manteiga com força para o outro lado. Melhor de tudo. foi que se dignou a falar. também estaria entrevistando Jane Sloan. Jane Sloan sentou-se à mesa do lado oposto a mim e colocou um espelho grande e uma garrafa de água mineral Evian ainda maior ao lado de seu prato. Ela era uma escritora. . deduzi. quarenta e cinco minutos depois da hora marcada. que confirmasse estar brincando. e tinha o tamanho de uma coxa minha. Cheguei até a sorrir um pouco. eram filmes com mulheres inteligentes e engraçadas.Sinto muito . era uma coisa poderosa. claro. durante o almoço no Four Seasons. Foi a resposta a todas as minhas boas notas. a todos os professores da escola que dissera que eu tinha talento. E hoje eu iria fazer uma coisa audaciosa. .está fazendo miséria com os meus poros. só que resolvi chamá-la de Josie. . imaginando o olhar deleitado em seu rosto quando eu lhe confessasse muito modestamente que já tinha um roteiro. muito mais bem-sucedida do que eu poderia sonhar. Jane Sloan finalmente repousou o espelho e a garrafa. É verdade. estaria entrevistando o ator Nicholas Kaye. O roteiro foi onde eu pendurei meus sonhos.Olá!. a todos os professores da faculdade que disseram que eu tinha potencial. que lhe enviaria se ela quisesse. Mais importante ainda. Só depois de pousar na mesa o guardanapo. abriu-o com uma sacudidela despretensiosa e limpou o rosto com todo cuidado.A repórter. Jane Sloan era também rica e famosa. Jane Sloan era uma de minhas heroínas que. . uma comédia para adolescentes sobre dois gêmeos cujos gases lhes dão poderes mágicos.disse Nicholas Kaye. Hoje. elaborando um devaneio no qual nos encontraríamos e ela imediatamente reconheceria em mim uma alma irmã e uma colaboradora em potencial. Fitei-a. mas a irmandade. Havia semanas que eu me distraía da saudade de Bruce. antes do escorregão para a linha comercial. Não estava. com a voz gutural atravessando os dentes cerrados e se pôs a tratar do rosto com algumas borrifadas. sentindo-me uma idiota assim que as desculpas saíram da minha boca. agora com manchas cor da pele.declarou .

. .falei. demorada.. . voilà. pensei. E não quero as folhas cortadas. o que muito me ajudou. exultante. . se tiver.Alface. mas melhor do que nada.Hum. .repetiu ela. Falei que achava que aquilo deveria virar um filme..Jane abanou languidamente a mão pálida. Silenciosamente abandonei meus planos de lhe contar que tinha escrito um roteiro.Alface .Uma salada? . de jeito algum .disse ele. servida em formato de flor no pires que acabara de banir para o meu lado da mesa. . desde como foi a escolha do elenco do filme até quais teriam sido suas influências.Hum! . remexendo o bolso para pegar caneta e bloco. .Roxa.murmurou Jane Sloan. Tornei a abrir o bloco. . e ainda do que ela gostava na televisão.Vi na TV .perguntou. .E. – Quero arrancadas. O garçom esperou.De onde você tirou a idéia? .. muito demorada. O garçom veio nos atender. Eles provavelmente voltariam para Pittsburgh rindo de mim o tempo todo. como se meu breve pedido de desculpas pela Filadélfia não valesse um grão de areia no deserto. senhor . perguntas sobre tudo. com a caneta em riste. . Senti uma gota de suor brotar em minha nuca.Muito bem. Jane futucou a manteiga.Contratamos uns caras do Saturday Night! – disse Nicholas Kaye. .Liguei para o diretor. Bem lavada.continuou.falou. Alface.falei..Excelente pedida . o filme está pronto! . Duas vezes ótimo! Não só eu não trabalhava para o Saturday night! também não era um cara. À mão. .Naquela comédia que passa tarde da noite na HBO? – disse Nicholas Kaye. Pergunta horrível. apontando..Esta salada . Ótimo! Então era assim que se faziam os filmes.arriscou o garçom. E o que era pior. . escorrer pelas costas e entrar na calcinha. Ele concordou. Jane Sloan foi erguendo os olhos. eu estava pensando.Supervisionei. Eu tinha uma lista completa de perguntas prontas. foi você quem escreveu o roteiro? Mais um abano daquela mão fantamasgórica.disse.E a senhora? . lentamente. só. mas só consegui pensar em dizer. .Gostaria de saber qual é a sua cena preferida no filme – consegui finalmente.falou ele afinal. . Jane Sloan está almoçando alface e eu vou ficar aqui sentada à sua frente encarando uma vitela. O garçom se inclinou para ver. Com vinagre.. aliviado. . Pausa. O garçom tomou nota e sumiu. Tanto Jane quanto Nicholas franziram o cenho.Vou querer um ossobuco. Uma amostra grátis de Elvira avessa a manteiga com um frasco de spray dá telefoneminha e. sem desviar os olhos da manteiga..Eu vou querer.O que é que você precisa saber? . olhando silenciosamente para os menus.. eu não conseguia pensar em nada para perguntar.disse Nicholas. . de calouro para o jornal da faculdade. sem me olhar nos olhos. . . . O garçom me lançou um olhar desesperado. pegou a faca de manteiga de prata e começou a futricar o tablete de manteiga.

aceitar a oferta e dar o fora dali antes de descobrir o que uma mulher que almoçava seis folhinhas de alface fazia quando lhe perguntavam se iria querer sobremesa.Nós estamos trabalhando juntos numa coisa nova – candidatou-se a falar Nicholas Kaye.Ela sorriu. meu Deus. Eu estou morrendo.Jane é alérgica – falou Nicholas. arrebatando empresários e porcelana chinesa num turbilhão. . porque a entrevista estava indo por água abaixo. Senti o elástico da minha meiacalça redutora entregar os pontos e escorregar pelas pernas. . – Eu vou escrever. não. enquanto a esquerda levava comida à boca. sem a menor idéia se era verdade.Não posso – disse. Embora ele seja reconhecidamente humano e ela.. Entrementes.. Houve uma pausa. me salve. .A terceira maior indústria da Pensilvânia – argumentei.. – gaguejei. finalmente – esmaecido e fugaz.E qual vai ser o próximo? Jane só fez dar de ombros e assumir um ar de mistério. me ajude. .. Embora ele tenha vinte e sete anos e ela.Laticínio – disse ela. a mão direita se mexendo mecanicamente sobre a página..Isso está no pacote para a imprensa .Que mais? Diga-me. com firmeza. com alguns colegas de faculdade. Jane Sloan fitou-me com seus olhos absolutamente negros. Mande um tornado entrar uivando pelo Four Seasons adentro. . . pegou a faca e pôs-se novamente a futucar a manteiga.. mas inegavelmente um sorriso. Eu sabia disso. Depois de exatas seis garfadas – durante as quais Nicholas deu cabo da salada e de mais duas fatias de pão.. mas resolvi ser educada. Em seguida. . Uma pausa gélida e abismal. balançou a cabeça. – Muito pessoal. pelo menos uns quinze anos a mais. – Diga-me alguma coisa sobre o filme que ninguém mais saiba. Terminada a divisão.. . Ai.Uma parte foi filmada onde foi filmado Showgirls – concedeu Nicholas. ora.falou Jane. . Sorriu para sua diretora. vindo parar na coxa. como se fosse uma maldição. com a mente em branco ante a visão de seus dedos entrelaçados. ela passou a molhar o primeiro terço dos dentes de seu garfo no pote de vinagre e depois espetar minuciosamente um único pedacinho de alface do montículo composto primordialmente de folhas e por fim colocou-o com precisão na boca. .Pare com isso – falei. Jane dividia a alface em duas pilhas – uma quase toda com partes da folha e a outra quase toda com talos. pegou-lhe a mão e ai a ficha caiu: eles são um casal. . pensando que não agüentava mais ver aquilo e também achando que precisava tentar alguma coisa. que estava. e eu da metade do meu ossobuco. Tomei nota sem prestar atenção. saindo-se ele e a resoluta faxineira muito bem no final...Sabe quem é a menina da loja de flores? É minha . considerando todos os prós e contras. – Essa manteiga não lhe fez nada. Sempre que os meus passeios de bicicleta se estendiam alguns quilômetros para fora da cidade.falou ela. uma delícia – ela secou os lábios com o guardanapo.Vou lhe contar uma coisa . Estiquei o braço e puxei o pires de manteiga dali. eu avistava vacas. e Jane vai mostrar para os estúdios. Mas parecia. meu Deus. . Você quer saber mais detalhes disso? Ele entoou uma entusiasmada descrição do que parecia ser o filme mais idiota do mundo – a historieta de um rapaz que herda do pai uma fabrica de almofadinhas de pum e é vitima da traição do sócio do pai. subitamente.

murmurou. ao telefone naquela mesma tarde.Uma salada? . . fax. . Samantha me escutou sem fazer muito caso. porque não fiz faculdade com ninguém da equipe do Saturday Night!.Não contei isso a mais ninguém .E ainda derramei ossobuco no casaco! Samantha soltou um suspiro..disse o garçom.Alface.A senhorita vai querer alguma coisa? . falando sério. eu fazia idéia de que iríamos nos dar muito bem.Acho que você precisa de um agente.Eu venho desestimulando-a.disse Jane. Eu juro. e os dois se foram porta afora. mas não falei. pensei. Eu já tentei. .esfreguei os olhos. Eles nem olham para o seu material se você não tiver nada produzido. Quase verdadeira. uma aberração comedora de alface. Alface pura. você está inventando.Só alface? . Eu quase morri. pensei.perguntou Samantha.Não .menti. . Envelope com meu nome escrito em cuidadosa caligrafia que eu há muito aprendera a identificar .Você iria me culpar se eu dissesse que sim? *** . . .Alface .Não estou.disse Gabby.Cannie.. . com uma voz de quase orgulho. .. Ela especificou a variedade. . uma miniatura de Elvira. . já está começando a se preocupar demais com a aparência .Só estou decepcionada. Que os céus ajudem os repórteres de quem você não gostar.Não tenho como arranjar um agente. E ficou borrifando Evian no rosto..repeti. fax. e você não consegue que os produtores olhem para o seu material se não vier de um agente .E então? ..Alface roxa.Seu primeiro papel – falou Jane.Mas eu gostei de você. com sombra tatuada nos olhos. Meu ídolo de Hollywood. você sabe. e estava tentando encontrar uma resposta razoável quando ela subitamente se levantou... . Press release. uma . em tom de solidariedade. . quase timidez.É mesmo? . Eu pensava. zangada. – Que semana horrível! .. . . Mais uma má notícia. mas nunca vou conseguir enviá-lo para ninguém.... .filha.Você está chorando. e só eles conseguem que leiam seus roteiros! – Dei uma espiada em mim mesma. . Com vinagre. E que eu iria enviar o roteiro para ela.. Os cantos de sua boca se retorceram levemente.gemi. Fax. em júbilo.Sua correspondência! . .Boa sorte . Ela deixou cair na minha mesa uma pilha de papéis e foi-se embora saçaricando.Ela almoçou alface . . Eu me despedi de Samantha e fui ver a correspondência. . A quem será que ela puxou. arrastando Nicholas consigo. No momento exato em que o carrinho de sobremesas chegou.

da sala de espera. percorrendo a pé os dois quilômetros entre o meu trabalho e o consultório do Centro de Distúrbios Alimentares para a minha primeira aula de gordura. pensei. e escreveu no quadro o seu nome. “Prezada Sra. Atenciosamente. . e foi embora.resmunguei. compus na cabeça. Abri o envelope. Gabby – falei. Já sabia controlar as porções de cor e salteado.Nossa! – falou ela. Deiffinger".Oi." Entrei na sala de conferências com passadas fortes. A lourinha era Bonnie." . bombásticas'. Zangada. Virei para trás e lá estava ela. entrou carregando tigelas. talvez do meu tamanho. tentando não gritar. e examinou minuciosamente todos os lugares. Havia também uma mulher com uns sessenta anos. antes de escolher onde se sentar.Não.Bom dia a todos . . Essa droga de novo. que devia pesar para lá de duzentos quilos. Deiffinger. reforçando a sibilação.” "Prezado Sr.Você errou alguma coisinha aí? . A enfermeira magricela. "o seu artigo sobre o especial de Celine Dion foi um lixo. Avistei Lily. e havia um pôster da reprogramação alimentar preso à parede. "Prezado Sr.disse Lily.disse ela.Vamos precisar publicar uma errata? . xícaras medidoras e uma réplica.como Pessoa Idosa. e uma gigantesca calça jeans folgadona. E. Deiffinger". de cabelos compridos. . Mesmo sendo imensa. velha e surda. em miniatura. alguns números maior que o seu.Oi. Cannie! Minha Nossa! Gabby estava sempre me espionando por trás. . pensei. mas achei que de fato eu estava sendo caridosa. Estava escrito Controlar as Porções num quadro de recados. Sr. ainda foi fazer troça da aparência dela! Aposto que você não é nenhuma Cindy Crawford. Anita. bisbilhotando a carta no meu colo por cima do meu ombro. comparando o seu tamanho com o dos assentos. de quem eu me lembrava da sala de espera. Havia uma adolescente loura. com a voz carregada de uma solidariedade gritantemente falsa. mas pelo menos tenho uma quantidade suficiente de neurônios em funcionamento para ouvir uma coisa e saber que não presta.perguntou. . imaginando se não haveria um jeito de evitar aquela aula.Oi . diziam as letras trêmulas. "Sinto muito pelo senhor ter-se ofendido com a minha descrição do trabalho de Celine Dion. e uma senhora negra de mais idade. Shapiro". andando com a ajuda de uma bengala. . desses brancos laváveis. "talvez eu não seja uma supermodelo. e a . Sarah Pritchard. Como se não bastasse chamar a música de Celine de 'baladas exageradas. conseguia ser silenciosa como um felino quando lhe convinha. de uma costeleta de porco em matéria plástica. Afinal. Cannie . presos para trás da cabeça por uma faixa. cutucando um desses aparelhos portáteis de ler e-mail. Joguei a carta na lixeira e empurrei a cadeira para trás tão rápido que quase atropelei os dedos do pé dela. a coisa mais antipática e nojenta que eu vi nos meus cinqüenta e sete anos de fiel leitor do Examiner. a negra. Todas em volta da mesa se apresentaram. P. cujo corpo se escondia sob um parrudo casaco de moletom. – Apenas um ponto de vista contrário. eu havia freqüentado os Vigilantes do Peso. Ela entrou comigo na sala. com uma pasta estufada ao lado. sentei-me à mesa e olhei ao redor.

que morava na West Oak Lane.perguntei..falei. e tinha de comer certa quantidade de gramas de fibra sem passar de uma certa quantidade de gramas de gordura . baixinha e terna. cheias de recato. olhando-a com um misto de receio e admiração. concordando com tudo e gratas pela sabedoria que ela lhes transmitia. socando o ar com as mãos. . toda alegre. Tudo porque aquela mulher tinha tido a sorte de nascer magra.. sorridentes. . . sabe. A enfermeira me olhou com um ar desconfiado.disse a lourinha. você vai ganhar peso..E eu estou me sentindo de novo nos Vigilantes do Peso – sussurrei-lhe de volta. mas também a quantidade total de calorias que se ingere é muito importante.sussurrou Lily.perguntou a lourinha Bonnie. Agora eu entendi..No ano passado . .sussurrei-lhe de volta.grandalhona. .Que nada! . Lily soltou uma gargalhada.disse eu. .Erro bastante comum . Ela se virou para o quadro e escreveu exatamente o tipo de equação que mais me atrapalhou a vida na escola secundária. Eu.Gordura e Fibra .Se ingerir mais calorias do que as que consegue queimar.expliquei. baixando o palm piloto.então.Foi no programa Um. Eu vivia trocando o número que não podia ultrapassar pelo número que não devia alcançar. . finalmente. que faz as pessoas engolirem as consoantes como se fossem bala puxa-puxa recém-saída do tacho.disse a enfermeira Sarah. . sem aquele sotaque horrível da Filadélfia.Tanto a gordura quanto a fibra têm a sua importância. .Mas foi provavelmente por minha culpa. me levantei. . . .Você está falando sério? É só isso? .Isso não é marca de sucrilhos? . desconfiei que Sarah estivesse acostumada com gorduchas que se sentavam naquelas cadeiras.Meu Deus! Entendi. . é muito simples.Então.Calorias ingeridas versus calorias gastas . por minha vez. mas eu achei que não faria diferença porque eles tinham baixíssimo teor de gordura e eram riquíssimos em fibra. Esther.Cada pedacinho tinha um zilhão de calorias. . .. e Lily teve de prender o riso.continuou Sarah. dois.Estou me sentindo de novo na faculdade . Fiquei furiosa com esse raciocínio. . .. .perguntou Esther.. -e dei um tapa na minha testa. chegando mais para perto de nós. . . .. cuja voz era surpreendentemente agradável.Você experimentou os Vigilantes? . .Aquilo é Fruta e Fibra . Na verdade.Hum . Graças ao meu bom Jesus e ao Centro de Tratamento de Distúrbios Alimentares.Gordura e Fibra era quando a gente tinha de contar os gramas de gordura e os gramas de fibra em todo alimento. com os olhos arregalados. três: sucesso? . Estou curada .É mesmo? . qual ovelhas bem alimentadas. se eu comer menos calorias do que as que queimo.Curada! Fui salva.perguntou Anita.E funcionou? . quando a enfermeira Sarah começou a distribuir folhetos contendo cálculos de calorias e maços de apostilas sobre mudança de comportamento.fez ela. um desses brownies ricos em fibra que parecem ter recheio de ferro ou coisa que o valha. depois encontrei.

A pontinha do polegar – resmunguei eu. Ela pôs-se a fitar-nos. .A única coisa que viemos procurar aqui. Foi muito cinismo minha parte.. ora. ante o olhar surpreso da enfermeira. Vocês sabiam que a maioria dos restaurantes servem porções muito acima das normas recomendadas pelo Ministério da Agricultura para atender as necessidades de uma mulher durante um dia inteiro? Resmunguei comigo mesmo um grunhido baixinho. A enfermeira soltou um suspiro. Bem. – Olhe – prossegui – a gente já sabe disso. .A porção correta de proteína – continuou. será que alguém consegue me dizer quanto é isso? . os exercícios eram a única parte de um estilo de vida saudável com a qual eu já tinha me acertado. . Aquilo me deixou intrigada. . no tom lento. – Programa Jenny Craig – apressou-se em dizer.É . alto e claro. com a respiração acelerada. Sabemos que nada disso é fácil. . voltando ao meu lugar. fingindo que você está nos dizendo coisas que ainda não sabemos? ... Não sabe? Olhei para todas ao redor da mesa.prossegui. . A enfermeira ficou frustrada.consegui tirar essa venda dos olhos! .Veja bem . fazendo um esforço visível para soar alegre e animada.Eu não quis sequer insinuar que alguma de vocês fosse burra – disse ela. enquanto a enfermeira arrumava pratos e xícaras e a costela de plástico em cima da mesa.É isso mesmo . . – Agora.Muito bem – disse a enfermeira. Já sabemos que existem metabolismos variados e que os corpos de algumas pessoas preferem se ater ao excesso de peso enquanto os de outras não. E nós nos pusemo-la também.Na verdade. Agora. eu não quero falar em nome de todo mundo já me explicaram isso antes..disse Bonnie..Hoje – prosseguiu ele – nós vamos falar sobre o tamanho das porções. a única coisa que esse programa tem para nos oferecer são ao drogas. e a porção de gordura? . E eu jamais lhes diria que é. será que vamos recebê-las hoje ou teremos de ficar aqui sentadas.disse Anita. Os olhos dela se arregalaram.Mas todo programa para perder peso que já freqüentei na vida nos trata como se fôssemos. Elas concordaram.Para mim também . É só que. embora não tanto como costumávamos pensar..Muito bem! – disse ela. – Já entendi o que você quis dizer. – Estava pensando em pedir para ser dispensada. . Me desculpe .rompi o silêncio. . .disse Lily. .Ora! – disse eu. que as professoras do jardim de infância costumam usar – é de cem gramas. ora essa! Tantas caminhadas e passeios de bicicleta.disse Sarah. finalmente. Sarah respirou fundo. há muitos fatores que complicam. como se bastasse nos explicar que frango assado é melhor do que frito. e a ciência ainda não compreende todos eles. . e ainda a ginástica todos os dias na academia com Samantha.O tamanho da mão da gente – resmungou Anita. . que iogurte congelado é melhor do que sorvete e que se tomarmos um banho quente em vez de comermos uma pizza vamos todas nos transformar imediatamente na Courteney Cox.Os gordos não são burros . . Que sorte a minha.A dieta faz parte e os exercícios também.

.perguntou. Vamos encarar isso como uma jornada.disse Lily. A enfermeira abriu a boca.. concordando..falou Bonnie.Bem. a razão para estarmos de fato aqui.. Não se deve detestar ninguém. a loura Bonnie e Esther também estavam fazendo coro. – Mas. a longo prazo. O médico parecia estar com muita vontade de rir. . – agora.. Eu me pus de pé. afinal.disparei.Vamos deixar de lado isso de gordo e magro durante um minuto . com um jeito brando. .grunhi. dro-gas. Elas pareciam estar fazendo que sim com a cabeça..disse Lily.Drogas!. eu sei como vocês se sentem .A expressão da enfermeira passou da frustração (e um pouco de rejeição) para a raiva (e mais um pouco de medo). talvez não ..disse ele.Dro-gas. alisei a blusa e pigarreei.. .. ..disse Anita. vejamos..eu soltei um suspiro. e comer menos.Bem feito! .. pelo que sei – grunhiu ele. A saber: drogas – concluí.olhei ao redor da mesa.Não diga uma coisa dessas .falou. num apito de voz. . Todas olharam para mim. e tudo isso que vivem nos mandando fazer. então tenho certeza de que já estão cientes de que a maioria das dietas não funciona. quase engasgando.Nós não podemos sair dando receita para medicamentos assim. dro-gas. vamos considerar como se tivéssemos embarcado nessa juntos. depois de um breve instante. . . e fazer mais exercícios. caímos na gargalhada.. mas fechou logo em seguida. . mas fazia um esforço enorme para não deixar transparecer. mas ouvir aquilo da boca .falou ele.. o processo não funciona como se eu soubesse todos os segredos de perder peso pelo resto da vida e estivesse aqui para contá-los a vocês. aquilo pelo qual todas nós pagamos. na maioria dos casos).Ahhh. Pelo menos. e me sentei novamente.Está havendo um problema por aqui.um sorriso daqueles que desarmam a gente..Ela ficou com medo .disse ela. dro-gas.Detesto gente magricela ..Duvido muito .. seguido pela intimidada enfermeira que vinha praticamente agarrada à barra do paletó dele.. não. .murmurei eu. O médico sorriu para mim . com olhar muito sério. Nós cinco nos entreolhamos. batendo com o punho na mesa. todas já tínhamos percebido isso (por meio de amargas experiências pessoais.Vou chamar o médico . . .Dro-gas.Ora essa. Quatro semanas de aulas de mudança de comportamento..acrescentei. . – cantarolou Lily. . ..Se vocês já conhecem a quantidade de calorias de tudo e sabem o tamanho que deve ter uma porção de massa.Acho que todas aqui temos a sensação de que já passamos por várias palestras e cursos e grupos de apoio voltados para a modificação do comportamento . é uma coisa nova. .Temos um procedimento a seguir – disse ela. o Dr. . . entrou na sala.Só que a nossa jornada acabou nos levando a compras nas lojas de tamanhos GG e a noites solitárias . dro-gas. K. Agora ele conseguiu atrair nossa atenção.. . Nesse instante. . .. – Nós explicamos antes. . Verdade. partindo dali a toda.Deve ter achado que iríamos esmagá-la . e o que nós queríamos mesmo.Será que temos uma porta-voz do movimento? . E. . -Todas temos a impressão de que já tentamos modificar nosso comportamento.

Provavelmente todas sabíamos reconhecer um donut com creme de Boston só de ver. .. .Pois faz diferença . Fiquei à espera de que guardas de segurança entrassem correndo. .. finalmente. . . Quantas de vocês resolvem comer um. . e quando chegam lá tem uma caixa de apetitosos donuts. e ficaremos mais felizes. aquele com cobertura de chocolate? Nós confirmamos. .disse ele.Eca! .falei. . só porque eles estão ali? Mais silêncio. era praticamente uma heresia..Quantas de vocês comem sem ter fome? Silêncio mortal. . Cox-Arquette. Eu fechei os olhos. o retirassem dali e o submetessem novamente a uma lavagem cerebral. O que ele disse tinha nexo.disse Bonnie.que teremos mais sorte.Dunkin' Donuts ou Krispy Kremes? .Dunkin' Donuts .Cox . Esqueçam essa mulher... Ela se casou.perguntei.Acho . contra a minha vontade.foi quando alguém levou para o trabalho. Comilança emocional. independente do seu tamanho.O que eu quero dizer é o seguinte.. ele não estava nos depreciando. e eu peguei um que era igual ao com creme de Boston. sabe. .E era. O médico contraiu os lábios grossos.Tudo bem . . Olhou em torno da mesa.Gostaria de fazer um exercício com vocês . . .de uma autoridade competente. Ela mesma..Isso.Na verdade. O médico fechou a porta e se sentou.disse Esther. . ora. – os lábios dela se contorceram.continuou Esther.Vocês tomam café da manhã e depois vão para o escritório. . exatamente como estamos conversando aqui.Especialmente quando quentinhos .Não tinha pensado nisso. Melhor ainda. rindo.forneci o que faltava. um médico.. . e um médico que estava conduzindo um programa de perda de peso. . .falou o médico. A enfermeira nos lançou um último olhar antipático e saiu rapidinho.Aí eu cravei os dentes . revolucionaria mesmo.Krispy Kremes são melhores ..Chocolate? Geléia? Glacê. . Senti que fiquei emocionada. se passarmos a pensar em pequenas mudanças de estilo de vida.disse Bonnie. Se pensarmos em melhorar nossa saúde e em ficar felizes conosco no lugar de parecermos com a Courteney. Vamos nos concentrar no que é tangível.Detesto limão.prosseguiu ele . pequenas coisas que possamos fazer no nosso cotidiano que não acabem por se tornar insustentáveis a longo prazo. A coisa era. de forma que só ficou meio donut ali? .. Ele olhou para mim. com as sobrancelhas erguidas. poderiam ser os .A última vez que comi donuts . Limão.disse Esther . E eu prometo que ninguém aqui vai tratar nenhuma de vocês como se fosse burra. que alguém da contabilidade partiu ao meio. . Eu lambi os lábios.falou. Também já tinha assistido a essa aula.

No meu caso .perguntou Lily.Estou cansada . Pensamos naquilo durante um minuto.. . se estiverem com fome de donut. Tive vontade de colocar a mão em seu ombro.manteiga. . estou sempre com fome das coisas que sei que não deveria estar comendo. ...Quero que vocês todas fechem os olhos e tentem descobrir como estão se sentindo agora. Basta me dar um saco de cenourinhas que eu fico. . de Atkins e outros estava começando a incomodá-lo. Fechamos os olhos. . ou felizes.melhores donuts do mundo. Dava para perceber que o papo desordenado de cinco veteranas dos Vigilantes do Peso.perguntou o médico. ou ansiosas? Tentem se concentrar de fato e depois tentem realmente separar as sensações físicas do que está acontecendo emocionalmente.Morrendo de fome . talvez cansada.É um legume rico em amido.Anita? .Você já experimentou dar uma fervura nelas e amassar com um pouco de gengibre e casca de laranja? .Eu não gosto de cenoura . o ideal seria que vocês conseguissem passar direto. Talvez com um pouco de fome.Ahn. .perguntou Lily. sabe? Sei lá.. . Mas se vocês já tomaram café e não estão com fome de verdade. Estão com fome? Cansadas?Tristes.. finalmente. neste exato momento.. Dizer-lhe que as coisas iriam melhorar.No Gordura e Fibra? . Poderiam ser o ideal platônico da "donutice". Arrisquei uma olhadela. Igual à batata.falou Lily. Foi até a porta e apagou as luzes.perguntou Bonnie. de Jenny Craig. .E como é que se sabe de que a gente está com fome? . dez anos antes. – Os meninos ficam dizendo um monte de bobagens para mim. Bonnie soltou um suspiro.ele a instigou. Bonnie franziu o nariz.Como não é legume? . . .Lily? . Vamos experimentar uma coisa . de imediato. Aprendi isso com os Vigilantes do Peso. só que. .resmungou.Talvez fosse uma boa idéia vocês tentarem dizer a si mesmas que quando estiverem realmente com fome. . mas gosto de abóbora. A sala ficou na penumbra. . apoiados sobre as calças jeans descomunais. então vão lá e comam o seu donut. Ela estava com os olhos ainda bem fechados e punhos firmemente cerrados. Não tinha como ser divertido.Estou de saco cheio da minha escola .disse ela. considerando os eventos mais recentes da minha vida. prontamente.disse ele. .falei. evidentemente. também – falou ela. Anita ficou confusa.Quem dera. . finalmente.Mas isso não é legume.respondeu. Bonnie soltou uma risadinha..disse o médico.Muito bem! . . não tinha ficado mais gentil ou delicada desde os meus dias.Bonnie? . A escola secundária.falou Anita -. É amido . eu não teria tanta certeza de estar dizendo uma verdade. .. de Pritikin. .E emocionalmente? . .

mas só por um segundo. tinha goteiras no teto.falei. como é que foi? – perguntou Samantha. de quê? .. em meio à balburdia da extravagante aula de ginástica que se desenrolava ao lado. até o médico. . . .Talvez ele tenha entrado numa que você está se metendo com a Celine e achou que você merecia. seus olhos castanhos perto dos meus. e o que vi foi o rosto de Bruce. e debulhou-se em lagrimas.Estou com vergonha . embora não fosse verdade.Bem .Cannie .perguntou. Esther abriu um sorriso fraco.perguntou. limpando os olhos. enquanto se subia e descia. – Não posso reclamar.soltei..E Candace? . quando o meu step engatou numa marcha mais acelerada. O médico pigarreou. Esther fungou. . . Bruce dizendo que me amava.Estou bem.falei. o ar-condicionado não funcionava lá muito bem e a hidromassagem estava sempre consertando. minha amiga? – perguntou Samantha.E aí. . Abri os olhos. . Quando tornei a abri-los. com mangueiras. sim. aos bofes.Até agora. Fizemos a subida em silêncio durante alguns minutos. Deiffinger. fitei-o diretamente. -Eu estava pensando exatamente a mesma coisa do tablete de manteiga na pirâmide de alimentos. .Por que eles têm de levar tudo de maneira tão pessoal?.E emocionalmente? . . Por outro lado.Tem um episódio novo do ER. Estávamos ofegantes fazendo step lado a lado na academia naquela noite.Ah. . A academia parecia determinada a atrair novos alunos. limpando o rosto com a manga.Esther? . tudo bem – disse ela. spinning intervalado e uma coisa chamada Preparo Físico Completo para Bombeiros. . .E como foi o resto do seu dia. com delicadeza. escadas e um boneco de aproximadamente cinqüenta quilos para ser carregado. Todas começamos a rir.. porque antes de começarmos eu estava olhando para a costeleta e pensando que ela não era tão ruim assim! Foi o suficiente para quebrar a tensão.Vergonha. . . hoje à noite – falou.Como é que você está? Fechei os olhos. .Só isso? – perguntou o médico. aeróbica de Evangelho.Hum. de forma que tínhamos Pilates. -Não se preocupe-falou Lily. está tudo bem. mas ela é de domínio público e eu não. com os steps rangendo e chiando sob os nossos pés. O médico que conduz as aulas parece legal. que ficou zangado com o que eu tinha escrito e partiu em defesa de Celine Dion. – Ainda não falaram das drogas. oferecendo aulas de ginástica com um sabor para cada dia da semana. Contei-lhe sobre o Sr. não foi ruim – respondi.Detesto leitores . . .Do meu pensamento. O médico tirou do bolso uma caixinha de lenços de papel e a entregou a ela.disse ela. . o Plantão médico.

completou Samantha.Ah.Que se danem os canadenses! . . sob o argumento de que ele tirou um emprego que deveria ter ido.perguntei.disse ela.Estou ficando mais flexível . que foi um desastre. Comigo nunca dura. . Sam deu um sorrisinho de satisfação e esticou os braços acima da cabeça em direção ao teto. Mas agora já acabou. Samantha puxou os cabelos para trás dos ombros.Veja as coisas por este ângulo .E se eu tiver cometido um erro? Ela soltou um suspiro.Ah.perguntara a ela. com ele não . . . que ela recusava terminantemente a assistir.Talvez eu nunca mais tenha sexo na vida. e tudo ficava às mil maravilhas. o que faz de você domínio publico. fomos para a sauna.E de bom gosto! E que . . Ela conhecia um cara e saía uma vez. do último degrau do estrado de madeira da sauna.falei. O seu nome está no jornal.Só que maior. no terceiro encontro.joguei mais uma concha d'água em cima das pedras. – você sabe que isso não vai durar.falei.falou ela. apoiou a cabeça no cotovelo e me fitou lá de cima.disse Samantha. eu passei meses escutando as suas lamentações.. igual à Ce1ine. andava excepcionalmente amaldiçoada. quem é que está sendo crítica agora. um médico judeu de currículo fabuloso e físico invejável.. . . enrolamo-nos nas toalhas e nos deitamos de bruços nos bancos. por direito.Não me torture . inclusive Peter Jennings. Cannie . alguma coisa que a impossibilitava de ter mais um encontro com ele. O que era verdade. que nada melhorava e você tinha certeza de que dar um tempo seria a melhor coisa no final .Cannie. . . . de forma que subiu uma onda de vapor em torno de nós.E se.indaguei. devagar. ."Ela estava de topless". para um americano – “alguém que soubesse pronunciar a palavra about”.respondeu Samantha."E o que há de errado nisso?" . . recentemente. . Deiffledorf? .Foi um dia ruim.Mas para ele é. e jamais teve algo simpático a dizer dos nossos vizinhos ao norte. .Bruce? Não entendi.Eu gostaria de ter uma conversa com ele.Deiffinger. E eu joguei minha toalha na cabeça dela.. quando a convidou para jantar em casa e ela ficou incomodada ao deparar com um retrato da irmã dele em destaque no hall de entrada.E como vai o Rei do Yoga? . . que as coisas não iam bem. Eles saíam de novo e as coisas iam dando certo. Depois de quarenta minutos desgraçados. hein? .Com o Bruce. Sai o bom moço e entra o Rei do Yoga.Com o Sr. . E aí. . . Samantha forçou a vista para me enxergar em meio à névoa. passou por um relacionamento amoroso com um canadense. Ela havia trabalhado alguns anos em Montreal. . O último com quem saiu. pare com isso. com firmeza – não está planejado se casar com seu empresário de setenta anos de idade que a conhece desde que você estava com doze. . toda vaidosa. sempre havia um péssimo momento alguma revelação inacreditável. Não. .falou Samantha. parecia um candidato até o terceiro encontro. A vida amorosa de Sam.

que iria matá-lo e deixar o corpo num ônibus circular de New Jersey. mas.disse Sam.. desejável.Oi. Não me lembrava exatamente da frase. e eu passei a tomar pílula..Obrigada. . nunca ouvi você dizer que tinha tomado a decisão errada. enfraquecida.ato que me fazia sentir como uma mãe superprotetora.Talvez não fosse tão ruim assim . guardei um desabafo durante o mês inteiro. . pelo menos. até verificar que não havia uma palavra sobre C. bagunceiro. que deram negativo. Talvez se tivéssemos.Mesmo depois do que ele escreveu sobre você? – perguntou Sam.e um sinal do amor que ele tem por você. .. com o coração na garganta. De fato Gloria Gaynor já dizia: "I will survive!" . O artigo era parte integrante. Vai sobreviver. não houve. e o que foi que mudou a sua maneira de pensar? Pensei na minha resposta.Não telefone . de ler a introdução de alguns dos meus artigos e passagens dos meus roteiros.E se ligasse para ele . que se ele deixasse mais um lenço de papel usado na cama. No mês de outubro. em breve? Na verdade. se eu tivesse ao menos a mais ínfima noção de quanto ele compreendia. O que era ridículo. Bruce e eu nunca conversamos sobre o meu peso. planejando me humilhar por escrito. a lembrança do jeito como ele de fato encarava as camisinhas parecia meiga demais para ser considerada. Colocar a luva é mais do que uma mera obrigação ele ensinava aos leitores da Moxie. É claro que esse pequeno detalhe foi notoriamente omitido da matéria.. Você é que não o achava desejável. foi a primeira linha. se chamou “O Amor e a Luva”.Sinto falta dele . o que iria dizer? . de desabafar com ele as últimas saraivadas de Gabby. . . neste mesmo banco. de maturidade. Homens de verdade usam camisinha. ... mas você vai superar isso. Nós dois fizemos os testes.Gabby.Quero dizer. de lhe contar como tinha sido o meu dia. ele não disse que não me achava. pois nos nossos três anos de relacionamento. Retrai-me toda. . talvez as coisas pudessem ter sido diferentes. . Achava-o preguiçoso. um sinal de respeito por todas as mulheres . e fui tomar . Ainda mais do que isso.continuou Samantha -. assim como o fato de que era eu quem acabava tendo de colocar o preservativo nele . se ele e como eu me sentia.Bem. eu sentia falta de conversar com ele. como vai.Eu sei que é horrível agora. Bruce foi quase absolutamente poupado das indignidades do látex.das contas. a coluna "Bom de Cama'.resmunguei. mais uma vez. e eu li o mais rápido que pude. eu tinha quase certeza – deixara um exemplar na minha mesa de trabalho no dia anterior. depois de algumas experiências desanimadoras em que o tesão dele sumia assim que eu pegava as camisinhas.falei.E se eu estiver pensando de forma diferente agora? . É um sinal de dedicação. Neste mês. sabe. . de Bruce.Claro que ele a achava desejável. . Ora essa. porque o pensamento que surgiu zunindo como uma bala foi: Nunca mais vamos ficar do mesmo jeito outra vez.murmurei. E a simples idéia de estar na cama com Bruce me fez retrair.. amarrando o cadarço do sapato do filhinho. imaturo. E mesmo você tendo ficado zangada logo depois.. e você me falou. não faz três meses. Alguém . com certeza. eu seria capaz de dizer uma coisa daquelas.

A comida era boa.de costas para a rua. Ele me falou que tinha uma namorada em Atlanta. o Bonitinho do Parque. o que nos dava a chance de: 1) impressionar o cara. porque Steve parecia eminentemente apresentável. que parecia ter sido passada por ele mesmo. O vinho estava delicioso. Pelo jeito. calça cáqui. Quando cheguei em casa. não era muito caro era na do tipo que você traz sua própria bebida. sorri ainda mais quando cozinhei um peito de frango com batata-doce e espinafre para jantar. que não parecia estar ligando muito. . ou quem sabe jantar. ahvocê-conhece-a-Janie-do-meu-colégio. que era dado a camiseta manchada com short folgado e que. eu liguei para ela. corretamente resfriado. estrelado. Ele deu três voltas em torno de si mesmo e se deitou numa almofada. “Então.de forma que aquela de nós que não tivesse o encontro poderia passar com Nifkin e fazer um apanhado geral do candidato. Eu coloquei a camisola. Às nove horas em ponto. e fui dormir precavidamente otimista de que havia pelo menos uma chance de não morrer só. E. falei para Nifkin. mas que ela passara para a escola de enfermagem e ele se mudara para cá). porque não haveria nada mais do que uma única garrafa. o Azafran tinha janelas que iam do piso ao teto. um pouquinho sobre pais.. o melhor de tudo. com o cara de frente . e a noite estava perfeita. Cheio de consideração. Resolvemos sair para jantar no sábado à noite.E o que você fez hoje? . e garçonetes que malhavam na nossa academia. felicíssimo. Tinha todas as vantagens: ficava logo ali na esquina da casa dela e do meu apartamento. Rapidamente cobrimos as questões básicas da vida um do outro: idades." Sorri quando levei Nifkin para passear. e um pouquinho sobre as-razões-de-estarmos-solteiros-nomomento (fiz-lhe uma sinopse de duas frases sobre o desenlace com Bruce. Eu estava de parabéns. Sorri para Steve.. e 2) eliminar a possibilidade de o cara ficar de porre. a secretária eletrônica estava piscando.perguntou Steve. se eu não o lembrasse o tempo todo. Ele me falou que estava aprendendo a andar de caiaque. Ele ficou feliz de ouvir minha voz. desse no que desse. . no Latest Dish e. Samantha e eu já tínhamos resolvido que o Azafran seria sempre indicado como o nosso restaurante para os primeiros encontros. Nossos dedos se roçaram por cima da lula.uma ducha. com céu limpo. e um agradável aroma de água-de-colônia. Contei-lhe sobre a cobertura do festival dos padeiros de Pillsbury. quem sabe. 1nteressado nas mesmas coisas que eu. pegar um cineminha depois. faculdades. ficou. Fiquei exultante durante a minha consulta de vinte minutos com Sam sobre o Steve. Ele correspondeu ao sorriso. para poder ter do que falar caso houvesse um segundo encontro). e uma pitada de outono na brisa. Alegre. trazendo uma garrafa de um bom vinho. Me liga. mães e famílias (deixei de lado toda a questão da minha mãe lésbica. tentando evitar relances do meu corpo no espelho do banheiro. talvez com esse dê certo". que nos conheciam e nos fariam a gentileza de nos colocar sempre nas mesas perto das janelas . de vez em quando. Apertei o botão para ouvir os recados e lá estava Steve: "Lembra de mim? O cara do parque? Eu estava querendo saber se você gostaria de tomar aquela cerveja esta semana. se eximia de usar desodorante. Uma boa melhora em relação a Bruce. Camisa pólo de mangas curtas.

o quê? Ele é gay. não dá para piorar.. imbecil de achar que alguém com aquele visual estaria interessado em alguém com o seu visual! . eu não quero que isso seja um primeiro encontro nem nada. Sabe de uma coisa? Embrulhe a. Como pude me enganar desse jeito? Eu era patética. .. Eu queria Bruce de volta. ela me fez um rápido sinal com os polegares para cima.. . Não chore. depois iríamos assistir ao último desastre do fim do mundo exibido no multiplex..disse ela.. Do jeito que está.Os seus olhos . eu estava mesmo só procurando. mas a verdade era que eu não conseguiria. . A lula virou uma bola de chumbo no meu estômago. . não chore. Uma coisa tremelicou em seu rosto. cuja porta estava sendo mantida aberta pela escora de um ajudante de garçom no seu momento de descanso. Vamos ver quanto tempo ele fica ali sentado. não chore. burra.. sentindo as lágrimas que não podia chorar se acumulando dentro da minha testa se transformando instantaneamente em dor de cabeça.. .Preciso dizer uma coisa. joguei água fria no rosto. Minha cabeça latejava. pensei. sabe. não chore. Sempre me desculpando.falei..E acho que não deixei isso suficientemente claro. Considerei a programação que tínhamos feito para aquela noite: jantar. Sam estava impressionada. E talvez isso tenha-me deixado sensível demais. e olhou para o meu rosto. comida. Bobona! Burra.disse ele. . . ou ridícula. eu me esgueirei pelo vão da porta.Tem uma outra saída por aqui. não tem? Ela apontou para a saída de incêndio. Pensei em você. meu Deus! . Fugiu da prisão.Por aí .disse ele.. . Fui até a cozinha e achei a nossa garçonete. .Quase pronto . Não conseguiria passar o resto da noite sentada ao lado de um cara que acabara de se declarar um não-candidato. Uma piada ambulante. . não chore.falou ele devagar. No banheiro feminino.Você me dá uma licencinha? . . os dois espiando pela janela.Escute ..falei. ora. bem. concentrando-me em não respirar. e um minuto depois. Quando olhei.Quer que eu diga que você está passando mal? .Aquele ali não é o seu cachorro? Eu me virei e.Vai nessa . Gente com quem me enturmar. Diabo! Queria a minha mãe.Os seus olhos estão me matando. forçando os pés a se mexerem.Ruim assim? . você sabe.. . por cima da minha cabeça. Uma coisa ruim. Quando lhe perguntei se queria tomar uma cerveja comigo . Amizade.Desculpe . pensei impiedosamente. feito uma idiota. Mas eu não conseguiria. sem dúvida.Fui dar um passeio de bicicleta.Não. Ela girou os olhos nas órbitas.. Estava namorando a sua mãe. mas pensei melhor. Steve olhou pela janela. ah. desviando-me do ajudante de garçom.Não me olhe desse jeito.. Eu me levantei. ..falei. meu Deus. Não chore. Idiota. falei que era novo aqui no bairro.falou ela. . baixinho.. lá estava Samantha e Nifkin. e não diga nada.Ei! – falou. até Chestnut Hill.Quero . falei comigo mesma. e enfrentei a noite lá fora. -Oh! . . – Ah.murmurei. Não chore.falei. segurando duas embalagens para viagem e o que restava do meu orgulho.

Que eu tinha bancado a boba. .Subi. e ninguém iria gostar de mim.É mesmo? . Depois de três anos. Que eu era burra. não importa quanto ele tenha-me envergonhado. . o Evangelho segundo meu pai: eu era gorda e feia. Por acaso eu estaria errada em achar que ele me convidou para sair à sério? E daí se aquilo não fosse dar em nada? Eu já tinha ficado com alguém só por uma noite. coloquei o macacão esfarrapado. ou melhor. Desci a escada pesadamente. Que eu era tão gorda que ninguém mais me amaria e tão obtusa que não conseguia enxergar isso. joguei fora a comida. Uma parte de mim . Ele atendeu instantaneamente. . Que Steve. E para quem eu iria contar aquilo? Quem poderia me consolar? Não seria a minha mãe.a parte razoável. histérica e crítica. que infelizmente falava mais alto estava dizendo uma coisa absolutamente diferente. exceto Samantha. ele me conhecia melhor do que provavelmente qualquer outra pessoa no mundo. Era totalmente razoável pensar que eu teria ambos novamente e esse cara não valia mais um segundo sequer do meu tempo. peguei o telefone e disquei o mais rápido que pude. engraçada. O que tive vontade de fazer foi ligar para Bruce. tirei o vestido. apenas um buraquinho na ciclovia da vida. Mas a outra parte . capaz. . sentindo a verdade a me comer os ossos o tempo inteiro. Não queria que sentissem pena de mim. ou um simples mal-entendido. ele tinha dito. "Por que você está achando que isso tem a ver com o seu visual?". e a voz dele logo irrompeu em soluços . Já tinha tido até namorados. Poderia contar a Samantha.começou a falar. nem que achasse que eu estava implorando para voltar. ou que estivesse planejando isso simplesmente por ter sido rejeitada Poe um sujeitinho de pernas cabeludas -. galgando os degraus de dois em dois. não eu. Suada. comendo lulas e rindo consigo mesmo daquela gorducha. Bruce . e por fim à Rittenhouse Square.Eu já ia ligar para você.Eu queria contar a você . sem que eu lhe desse corda. Eu não poderia conversar com ela sobre a minha vida afetiva depois de ter deixado bem claro que não aprovava a dela. que talvez estivesse parecida com a escritora Andrea Dworkin. ela já havia aprendido o suficiente acerca das minhas atividades depois do pôr-dosol. primeiramente ao longo do rio. Voltei correndo para casa e subi as escadas. ele me fizera de boba. e naquele momento. e eu iria resmungar que talvez fosse por outra coisa.Oi. estaria sentado sozinho à mesa.senti uma centelha de esperança se acender no peito. Sou solteiro.a parte gritante. mas eu queria ouvir sua voz. Eu queria que as minhas amigas me tivessem como uma pessoa inteligente. com a coluna do Bruce. com as mãos trêmulas. Não importa o que ele tenha dito na Moxie.também não queria que ele sentisse pena de mim. em direção à Society Hill e à Old City. senti tanta vontade de falar com ele que os meus joelhos enfraqueceram. Que eu era gorda. iria cobrar de mim. . Não lhe contaria sobre está última humilhação .comecei.a voz dele soou estranha.Cannie? . furiosamente. depois me dirigi para o norte. parada na esquina da 17th Street com a Walnut. pensando. mas ela me acharia maluca. E desse jeito seria desconcertante. a bobona da Cannie. me esparramei na cama. saí porta afora e comecei a caminhar. e que o idiota era ele. Além do mais. aquele engenheiro de sandálias Teva nos pés.estava pensando que isso não era lá grande coisa.

Sinto muito..Claro. me deixe ajudá-lo. . iria precisar de mim.Eu te amo .. ainda chorando.. Pensei no enterro. meu pai sumido? Além do mais.ríspidos e entrecortados. mas sem vontade. . Quem sofre uma perda como essa não muda a maneira de ver o mundo? E não mudaria a maneira como ele me via.Não – disse ele. Lembro-me de que ele me contou os detalhes: ele teve um derrame e morreu no hospital. Mas alguma coisa perversa dentro de mim insistiu. Eu estava chorando. O pai de Bruce era um homem maravilhoso.falou.O que você quer dizer com isso? . sussurrou uma voz na minha cabeça. tivesse me amado também. Amava a família. para ajudá-lo da melhor forma possível. estando lá para ele se apoiar em mim. Cannie. Não me lembro de ter-me sentido tão mal por causa de alguma coisa. .Preciso desligar . Já tinha precisado de mim antes..Que quero estar ao seu lado. Não me lembro do que eu disse ali. . – Estou indo para casa e tem uma multidão de gente lá agora.Então. vá ao enterro amanhã . com uma nova consideração e os olhos de um homem. Imaginei-o olhando para mim com renovado respeito e compreensão. . da maneira como eu gostaria de ter-me apoiado nele. secamente. sabendo o que eu queria. .Quer que eu vá para aí? A resposta dele foi desanimadoramente instantânea. ajudando-o amparando-o. . da ignorância e vergonha sexual.Claro .É só o que você pode fazer neste instante.Meu pai morreu hoje de manhã. Mas ainda que estivesse terrivelmente mal.as palavras tinham saído da minha boca quase antes de eu terminar de pensar nelas. Bruce estava chorando. Você iria ao enterro amanhã? .repeti. Para o meu próprio crédito. .falei. . pensei.falou. Eu te amo . a minha família desfeita. não os de um menino. .perguntou ele. Talvez até. Agora ele vai entender. Foi tudo muito rápido. recuperei-me rápido.Bruce. e certamente iria precisar de mim para ajudá-lo a passar por isso. senti a centelha crescendo. para resgatá-lo da solidão. Seria estranho. Como eu posso ajudar? – falei. ou sem ter como me dar. . e deixei as palavras soltas no ar. eu segurando a mão dele. Aquilo não era justo. Bruce soltou um suspiro. . .

Bruce estava sentado num vestíbulo pequeno. sabendo que era eu quem deveria ter feito aqueles netos e que eles certamente iriam adorar. Não era um dia para isso. a gravata ainda curta demais. de mãos nos bolsos. Formalmente. A mãe dele estava em pé. Finalmente. tranqüilamente. atravessei correndo as quatro faixas de rolamento e parei junto a um amontoado de amigos de Bruce. claro. Fiquei ali sentada naquele banco de madeira dura na capela. dizia. Foi quando me desesperei. mas o estacionamento já estava cheio. Ele deu de ombros e falou: — Está lá dentro. — Obrigado por ter vindo — disse ele. comprar cidra de maçã e acender a lareira pela primeira vez no ano. as palavras que ela me disse em marcante contraste com as dele. quando nos sentamos lado a lado no templo. Ainda parecia apertado demais. — Cannie — sussurrou-me —. O abraço que a mãe dele me deu foi mais carinhoso. Cheguei cedo. ainda que. ajoelhei-me e o abracei. segurando uma garrafa de água Evian e um lenço na mão direita. talvez houvesse uma maneira de eu me sentir pior no enterro de Bernard Guberman.PARTE DOIS Reconsidere-me CINCO Relembrando. — Ei. que bom que você veio! Eu sabia que seria ruim. Fui até ele. Cannie — falou George. baixinho. "Só para estarmos prontos". Ele não se deu conta. Agonia quando o rabino. E que eu deveria ter me dado a chance de participar de todo aquele amor. que deveria ter sido o meu marido. A cerimônia começou às duas horas da tarde. Mas não foi só ruim. falando baixinho e olhando para os próprios pés. que me espetou com a barba por fazer havia uns três dias. Era uma belíssima tarde ensolarada de outono — um dia em que se deve olhar para as folhas. Foi como se não houvesse nada além da nossa conexão — e a dor que ele sentia. com a mão em seu ombro. Dei-lhe um beijo no rosto. consegui vaga do outro lado da estrada. Usava o mesmo terno azul que tinha usado no Yom Kippur. Foi uma agonia. se eu o tivesse matado. Havia gente por toda parte. ao lado. foi como se a nossa história recente se desfizesse — minha decisão de pedir um tempo. não houvesse maneira de saber que uma coisa como essa iria acontecer. No instante em que o avistei. vestindo ternos que reservavam para suas entrevistas. Por exemplo. e os sapatos esportivos de lona ele decorou com desenhos de estrelas e redemoinhos durante alguma aula chata. oito fileiras atrás de Bruce. os carros transbordavam do acesso à casa para fora. Que ele levava Audrey para lojas de brinquedos. embora não tivessem netos. sua decisão de relatar o meu corpo por escrito. Sabia que me sentiria muito mal por estar ali depois do nosso rompimento no estacionamento. que eu já vira jantando na casa de Bruce algumas vezes. pensando que tudo que desejava era estar ao lado dele . Todos choravam. — Como é que ele está? — perguntei. falou que Bernard Leonard Guberman tinha vivido para a mulher e o filho. Escavam todos no hall de entrada.

Ela me olhou com curiosidade. um trio de mocinhas muito iguais. — Eu sei que você e Bruce terminaram — falou. ele me olhou com os olhos apertados. empregos. ajeitei-me no degrau de trás. oferecendo os rostinhos de pele lisa para ele beijar. O pai de Bruce fora ativo no templo e tinha um bemsucedido consultório de dermatologia. — Era? Foi quando me dei conta de que ela estava falando de Bruce. meu Deus! Senti as lágrimas começando a se formar por trás dos olhos. tantos carros que precisaram colocar um policial de plantão do lado de fora do cemitério durante o enterro.. — Vá — disse ela. Todas as cadeiras do alpendre estavam ocupadas e ninguém deu a entender que iria sair. quando Bruce subiu no bimah e falou sobre o pai lhe ensinando a rebater a bola e a dirigir. Observei quando as filhas das amigas da mãe de Bruce. observando-me como se eu fosse um espécime numa fotografia." Tia Barbara me entregou um lenço. — Acho. ganhará o anel em um minuto. Eu estava com frio e fome. como que a escondê-lo. baixinho —. Eu já tinha chorado durante a cerimônia. Barbara envolveu-me o antebraço com os dedos de unhas pintadas em tom de marrom-avermelhado e me arrastou para a imaculada lavanderia que cheirava a roupa limpa. Havia carros estacionados em fila dupla no balão de retorno. percebendo o esforço dele era sorrir-lhes e mostrar-lhes que se lembrava de todos os nomes. fui sentindo cada vez mais que nós não nos encaixávamos direito. concertos. — Foi porque ele não a pediu em casamento? — Não — falei. — Ele a amava de verdade — sussurrou me Barbara. Senti um gosto de areia na boca. segurando os joelhos. Com toda a graciosidade de que fui capaz. não tinha trazido um casaco e não havia onde equilibrar um prato. virou e olhou para o outro lado. Claro. e chorei no cemitério quando Audrey soluçou sobre a cova aberta e disse diversas vezes: "Não é justo. — Ele sempre dizia: "Se Cannie quiser um anel.. eu sabia que . — Era um homem maravilhoso — falei. que ainda estava vivo. Fiquei ouvindo a conversa deles sobre o nada — esportes. tem alguma coisa que eu possa fazer por você? Ele negou com a cabeça. parecia que todo adolescente judeu com problema de pele viera prestar sua homenagem. a tia de Bruce. A julgar pela multidão. quando mal conseguia me dispensar um olhar de relance. Quando me aproximei. chegaram ao alpendre com pratos de papelão cheios de salgadinhos e deram os pêsames a Bruce. — Audrey vivia me falando que Bernie dizia que ficaria imensamente feliz em ter você na família — falou." Ah. na beirada externa do círculo. não é justo. Eu esfreguei os olhos e entrei. empurrando-me para a cozinha. Bruce estava sentado no alpendre com os amigos formando um círculo em volta dele. Foi como se ela não tivesse escutado. e eu fiz que sim com a cabeça sabendo que não poderia confiar na voz. — Ei — falei. — Bruce precisa de você — sussurrou. e fiquei ali sentada. quando estávamos lavando as mãos do lado de fora.e que jamais me sentira mais distante. na faixa dos vinte aos trinta. coisas desse tipo. De novo. carros dando a volta no quarteirão.

Fomos caminhar. encostando os ombros nos espelhos recobertos. num passo entorpecido atrás dos seus. — Percebi. eu me levantei para segui-lo. quero que você saiba que o seu pai foi um homem maravilhoso. — E se você quiser ligar para mim.. Ele deu de ombros. — Sabe —. Eu me sentei de pernas cruzadas no chão. será que. e me sinto muito mal com tudo isso.. sentindo-me desesperada... quando uma farpa penetrou na palma da minha mão. Nem uma vez sequer. teria de me deixar consolá-lo. Virou-se para voltar para a casa e. pensei. — Obrigado — disse ele. Bruce me lançou um olhar frio. finalmente. será que nós. Peguei a mão dele. depois de um instante. — minha voz sumiu.. Deveria ter ido embora e pronto.. pensando em alguma partezinha primitiva do meu cérebro que.. — Sabe de uma coisa. Ele não correspondeu. estatelando-me no chão e retraindo-me toda. com a cabeça baixa. sentindo-me arrasada. muito provavelmente ele iria arranjar outra. Só não tinha pensado que iria ter de passar por uma inspeção prévia. Descemos pela entrada de veículos e tomamos a rua. praticamente como um tapa. Eric. — eu disse.. Sentei-me sobre as mãos. tão cheia de tristeza que pensei que fosse explodir e me derramar pelo assoalho de azulejos espanhóis da Audrey. — Eu tenho amigos. — Foi você quem pediu um tempo. — Quero ser sua amiga — falei. O sol se pôs. — Você não é mais a minha namorada — disse ele. se os anos que passamos juntos valeram alguma coisa. com as pontas dos dedos roçando-lhe o dorso. ornada com detalhes cromados.. Bruce? — falei. Bruce não disse nada. a meu ver. esbarrando com os joelhos na madeira dura dos bancos do velório. Bruce soltou o rabo-de-cavalo. Fiquei quando Bruce e seus amigos se reuniram na cozinha branca.quando decidíssemos romper. Ele foi o melhor pai que eu já vi e fico muito sentida por ele ter morrido. George se sentou na cadeira da escrivaninha de Bruce. Bruce recolheu os amigos e nos levou para o seu quarto no andar de cima. — Eu sempre fui uma criança — avisou aos presentes. ele teria de falar comigo novamente. Só me restavam soluços. balançou os cabelos e tornou a prendê-los. Relutante.. Bruce não olhou para mim. Eu o amava. qual um cãozinho amestrado. — Independente do que aconteceu entre nós. — Bruce ficou só me olhando fixo. . Bruce ajudou-me a levantar. Resolva isto. Muito bem-educados. fora do círculo. mas a minha perna ficara dormente e eu tropecei. A casa foi-se esvaziando. mas não fui. afinal. que estava lotada de carros. Ele deu de ombros. onde se sentou na cama.. Faltavam-me as palavras. Quando Bruce finalmente se levantou. quando a sala de estar de Audrey se encheu de homens com talites sobre os ombros. Fiquei para as preces à tardinha. do que você esteja sentindo por mim. Engoli em seco. lembra? E eu sou pequeno — disse.. Eu sei que nós. — Quer dar um passeio? — perguntei. Neil e a esposa imensamente grávida sentaram-se no sofá. para pegar as bandejas de guloseimas e bater papo. Fiquei à margem do grupo. eu me virei para segui-lo. — Eu sinto muito — falei. — Eu sei que as coisas têm sido. — coloquei o punho contra os lábios.

Quem sabe? Neil ficou olhando fixamente para os próprios tênis. ele se aconchegou a mim. Num breve instante. insistia mesmo. uma caneca de cerveja gelada repousando na borda e a lua cheia brilhando qual um círculo dourado no céu..e um barril — disse Bruce. Sempre uma criança. O único efeito que a maconha produzia em mim em aumentar ainda mais a vontade de dormir e de comer. Depois. Ou talvez seja mesmo necessária uma tremenda produção para se levantar quando se está grávida daquele tamanho. no dia em que a piscina ficou pronta. Eric e George tornaram a dizer que estavam muito tristes. menos a grávida. Estava me lembrando do pai de Bruce na piscina de hidromassagem. quando não há nada de bom na TV a cabo. captutei-lhe o olhar e nos fitamos bem um ao outro... E. enquanto Neil enfiava uma toalha embaixo da porta.. Bruce me fez um aceno encorajador. — Vocês deveriam ter visto. Eles lidam com a morte exatamente da mesma maneira que lidam com uma noite de sábado. — Então. Quando o meu braço pousou em cima do seu ombro. Fechei os olhos e só ouvi seus amigos se levantando e fazendo fila na porta . Incrível. Nem quando o abracei..ele nunca aprendeu — acrescentou Bruce. ele não falou nada. e os demais murmuraram confirmando. O Dr. Parecia um rei! — concluí. "Meus filhos não vão passar mais um verão inteiro suando!" Bruce riu um pouco. Mesmo assim. Eric passou o narguilé para Neil. teria sido simpático ele me oferecer. todo mundo começou a falar das finais. mas eu poderia passar a noite inteira contando histórias. contendo a muito custo uma gargalhada histérica. preso entre os dentes. Eu não fumava maconha e ele não me deixava beijá-lo. — Contratou bufê.. Bruce começou a chorar em silêncio e quando eu me levantei e cruzei o quarto para me sentar no seu lado. — . rindo. Olhei para os seus amigos. Eric encheu o narguilé e George tirou um isqueiro do bolso do paletó. Mandou vir uma dúzia de cestas de melancia. — Seu pai ficou tão feliz — falei. Fiz que não com a cabeça e respirei profundamente o silêncio... ele deu uma festa gigante — agora George estava confirmando com a cabeça. saiu. que fez o que pareceu ser uma tremenda produção para se pôr de pé e. em seguida. me abraçou também e deixou o choro vir. finalmente me senti num terreno mais firme. — Lembra quando a piscina ficou pronta? — perguntei. — Mas insistia. — O seu pai era um cara legal mesmo — murmurou George. ainda que pequeno. olhando para Bruce através da fumaceira.. com um charuto aceso na boca. — Quer? — perguntou. sem sequer me perguntar se eu queria. Guberman não sabia nadar. — Ele ficou feliz — falei para Bruce — porque você estava feliz. fumando um charuto gigantesco. de forma que fizeram o que eu suponho que eles normalmente fazem lá em cima no quarto de Bruce. que ele comprou especialmente para a festa. — Devia ter umas cem pessoas aqui. — minha voz se calou.. com a cabeça. — . pensei. Não era exatamente esse o tipo de droga de que eu precisava.Ninguém demonstrou saber uma boa resposta para dar. que a casa tivesse uma piscina. Ele tinha vindo à festa. Eu não queria e ele provavelmente sabia disso. pensei. Ele inclinou o narguilé para mim. — E passou a tarde andando por aí de roupão bordado com um emblema das suas iniciais.

. — Psiu! Fique quietinho agora — beijei-lhe o rosto úmido. Os pensamentos de Bruce. Bruce saiu do banheiro com uma toalha enrolada na cintura. movimentando-o para a frente e para trás com todo o meu corpo. ser uma mulher.para sair. apoiando-o. — Nunca mais vai precisar. — Oh. — Tranque a porta — sussurrei. Tentei fazer o que fosse melhor para ele. Os lábios dele estavam tranqüilos. e ficar ao lado dele. foi maravilhoso estar com ele novamente. Ele não resistiu. se você quiser. A matéria da Moxie eu estava pronta a descartar como águas passadas. Ele não estava me retribuindo o beijo.. tentando calar a vozinha dentro de mim que percebia. achei que nada tinha dado tão certo antes. fazer o que era certo. evidentemente. — O que você está querendo? — sussurrou.. — Psiu! — fez ele. pensando que era exatamente isso que eu queria.. a morte do pai dele. — Eu posso ficar — falei. — a voz dele sumiu. mesmo nos arroubos da paixão. — Tenho de ir ao templo com minha mãe amanhã de manhã e acho que seria. eu tivesse sido infantil. sentindo seu cheiro. — Até mesmo. mas também não estava me afastando. Ficamos finalmente sozinhos. eu faço. hum. que estávamos começando novamente. Juntos. Os amigos. E o restante. Cannie — disse ele. abraçando com força.. mexer-me da maneira como sabia que ele gostava.. descansando a cabeça no peito dele e traçando círculos com os dedos no seu peito. que ele não estava retrucando a nada do que eu dizia. Depois. quando os meus os tocaram. sem querer acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo. aquilo nós iríamos superar juntos como um casal. todos. sem olhar para a cama atrás dele. — Psiu! — falei. o da fumaça adocicada. glorificada por estar entre os seus braços.. enfiando o rosto em seu pescoço. mas agora estava pronta para subir no pódio. que poderíamos começar novamente. Pensei que talvez. Isso foi totalmente inesperado.. me compreendia.. para que eu me calasse da mesma maneira que eu o fizera calar-se momentos antes. — Não vou deixar você ir embora — falou ele. — Ah. foram outros. retirando-se do meu abraço e entrando no banheiro.. já tinham saído. que ele estava me querendo. enfiando as mãos por baixo da minha blusa. um pouco complicado se.. Já era um bom começo. — Não diga nada — falou ele. embaixo da prateleira cheia dos seus troféus da Little League e placas de homenagem por nunca ter faltado às aulas de hebraico. — E não precisa — disse-lhe. acima de tudo. . — É melhor você ir agora — falou. tocá-lo nos seus caminhos preferidos.. contanto que ele prestasse o solene juramento de jamais mencionar o meu corpo novamente por escrito. uma menininha. Bruce — respirei forte. o que eu sempre quis: o amor de um homem que era maravilhoso e meigo e que. Tentava desajeitadamente abrir os diversos fechos do meu sutiã. também. — Eu te amo tanto — sussurrei. até deitá-lo na cama. — Eu faço o que você quiser — falei. Eu amo você. beijando-lhe o rosto. e o embalei um pouco. o do creme de barbear e o do xampu. segurando-lhe os ombros enquanto ele se enfiava gemendo em mim. Para mim. dessa noite em diante. e pensei.

Mal acabei de ajeitar a calcinha e Bruce já me pegou delicadamente pelo cotovelo e me encaminhou para a porta. — Telefone para mim — falei. desejando que o pânico cedesse. na escuridão da noite. — Não tem problema — e vesti a roupa rapidamente. lembrando-me da minha jura. em vez do meu coração numa bandeja. pensei. Ele me amou tanto. com seriedade. passando direto pela entrada da cozinha e da sala de estar. entrando no carro. Respirei fundo. Ele assentiu. — Muito obrigado. — Vou estar meio ocupado — falou. segurando firme o volante para que ele não visse as minhas mãos tremendo. Iria me amar novamente. — Tudo bem — falei. . Sei ser madura. de pensar que ele precisava antes do que eu queria. de ser adulta. para o que você quiser. onde presumivelmente sua mãe estaria esperando e seus amigos reagrupados. percebendo o tremor na voz — na hora que você quiser. Ele olhou para o outro lado. Eu fui dar-lhe um beijo. Sei esperar por ele.— Tudo bem — falei. — Mas saiba que estou aí. Ele me ofereceu o rosto. Cannie — falou. mesmo que o que eu quisesse naquele momento estivesse mais próximo de um aconchego até cairmos os dois tranqüilamente no sono e não aquela retirada às pressas. Eu sei ser paciente. voltando para casa à toda. pensei. como se eu tivesse lhe oferecido assessoria de planejamento financeiro. Tudo bem.

quando eu encostava a cabeça nele. e discos de jazz na Old Vinyl. O primeiro grupo. O segundo grupo nunca recebe nada. na minha cabeça e alisava o meu rabo-decavalo: — "Esta é Cannie. A ignorar todos nós — Lucy. Mas dias como esses foram ficando mais raros à medida que eu fui crescendo. desde os funcionários da casa de queijos até os guardas de segurança do prédio do consultório. Coloque três grupos de ratos em três gaiolas diferentes. Tinha um punhado de fotos mentais. Ele escolhia brie. mas também quem eu era. com carinho. que fitava meu pai com respeito enquanto ele pagava pelos ternos que queria. Sentia o seu carinho. diziam. pareciam saber não só quem ele era. quando me amava. cada qual equipada com uma barra. e eu ficava ali parada. na sofisticada loja de queijos que tinha um cheiro maravilhoso de café torrado. O vendedor da loja. Ele nos deixou pela primeira vez quando eu completei doze anos. Chegava tarde. sorrindo para os filhos em escadinha. independentemente de quantas vezes venham a apertar a barra. enquanto ele lia Where the wild things are. fazendo várias coisas juntos. Eu me sentia importante.SEIS Quando fiz psicologia 101. — "Dr. A verdade é que meu pai passou a me ignorar cada vez mais. sentindo a voz vibrar por todo seu corpo. confortavelmente sentada no colo do pai. Ele havia me amado. O primeiro grupo de ratos recebe ração cada vez que apertar a barra. Josh e até mesmo minha mãe. apertaria aquela barra até que minhas mãos sangrassem para sentir aquilo de novo. ele diz. para fazer o teste de adaptação." Lembro-me dos meus dez anos. e lhe dá dois beijinhos. vinha em pequenas doses. Yee da lavanderia que cuidava das suas camisas. "Você vai se dar muito bem. . num agradável sábado de verão. o professor nos deu aulas de reforço aleatório. Todo mundo sabia o nome do meu pai. "Não se acanhe. aos seis anos. toda a atenção que prestava. a minha mais velha". de mãos dadas com o papai entrando na escola primária. com a cabeça apoiada no peito dele. Cheguei da escola e lá estava ele. Shapiro" — cumprimentavam-no. procurando parecer inteligente. Mas ah. Ele colocava a mão grandona. inesperadamente. filhinha". E o terceiro grupo recebe ração esporadicamente. E todos. Mas os ratos do grupo de recebimento aleatório ficam apertando aquela barra o tempo todo. disse-nos o professor. E faria o que fosse preciso. Foi naquele instante da aula que eu me dei conta de que tinha virado o rato do meu pai. sorrindo.. Encontrávamos a sua secretária e também a Sra. administradas sem a menor freqüência. cartões postais com as hordas amolecidas de tanto serem manuseados. passava os fins de semana no consultório ou passeando de carro "para esfriar a cabeça". Todo o carinho que nos dava. Cena um: Cannie. colocando um monte de camisas e meias dobradas dentro de uma mala. um de cada lado do rosto. aos três anos. Cena dois: Cannie. quando punha a mão na minha cabeça. quando passava dias inteiros com o meu pai. sendo eu a primeira da fila. na esperança de que naquela vez ocorra a mágica e eles tenham sorte. "Seu pai diz que você é muito inteligente". não havia sentimento no mundo que sequer se igualasse. dizia. saía cedo.. acaba se enfadando com a recompensa garantida e os ratos que nunca recebem nada também desistem. Eu me lembrava.

. Divorciados. e ganharia toda sorte de apelidos maldosos por conta do ocorrido. Ouvi uma das minhas amigas do grupo de discussão engolir em seco. sem saber a minha fala ou sequer a peça que estaria encenando.. que fazia escova lodo dia no cabelo antes de sair de casa. debruçando-se pesadamente na minha mesa. — O que você soube dele? — perguntei ressabiada. Hallie não conseguia se conter de vontade de me contar. acabei descobrindo a verdade por intermédio de Hallie Cinti. Hallie empurrou a cadeira para trás. Será que era verdade? Como é que a mãe da Hallie sabia? E por que estaria falando disso? Minha mente estava efervescendo com tantas perguntas. ela ficaria famosa por aplicar reconfortantes boquetes em três dos cinco jogadores de basquete da escola.— Papai? — falei. sempre dava a impressão de preferir que eu não lhe passasse a bola. — Vão embora e me deixem em paz. pensei. é o pessoal do meu grupo de discussão ficou olhando para elas a me olhar. — eu quis perguntar se nós iríamos a algum lugar. Como era de se esperar. num canto da lanchonete onde ela e os de sua laia raramente se aventuravam. E minha mãe explicou que tanto ela quanto meu pai nos amavam muito. Brinquei um pouco com o meu sanduíche de manteiga de amendoim. Tive a. ao mostrar-se solidária. uma das meninas populares da escola. que sempre me ignorou em todos aqueles seis anos de escola. Ainda anestesiada pelo choque. — Mas também não é assim — disse Jenna. Os olhos dele estavam pesarosos e sombrios. — Você é uma gorda fracassada xingou-me.. — Você vai. Ora! Isso explicava a fofoca. Ninguém falava com Hallie e Jenna daquele jeito. Jenna se debruçou para dar o golpe de misericórdia: — Nós ouvimos dizer que ela só tem vinte e sete anos. Três anos depois. mas eu não sabia disso ainda. — Saiam daqui — disse-lhes. Eu não confiava em Hallie. Na hora do jogo. boquiabertos. mas eles não estavam conseguindo se entendei. Ele foi morar com uma assistente de dentista lá na Copper Hill Road. sentindo o gosto da palavra. além das lembranças incertas do rosto de todas as mulheres que já tinham raspado meus dentes. Será que era isso mesmo o que estava acontecendo? O meu pai faria uma coisa dessas conosco? Ergui o rosto e olhei para as duas. nós vamos. — Ela vai explicar. Jenna girou os olhos dentro das órbitas. antes de sair correndo de volta para as mesas . impacientemente. quando Hallie e sua amiga Jenna Lind penduraram as bolsas no encosto de duas das cadeiras de plástico e ficaram me fitando. Hallie e Jenna ficaram me olhando. assustada de vê-lo em plena luz do dia. como se o contato do meu pé na bola fosse passar para ela os meus defeitos pessoais ou infestar-lhe as chuteiras com os germes de uma CDF. — E aí. talvez uma viagem. nem em Jenna. é verdade ou não é? — perguntou Hallie. — Ouvi minha mãe conversando sobre isso ontem à noite. — Pergunte à sua mãe — disse ele.sensação de estar sendo jogada num palco de repente.. Ela jogava no meu time de futebol. durante o intervalo das finais do campeonato estadual. para ganhar tempo. obviamente tentando me fazer desembuchar. O pessoal do clube de xadrez e as minhas amigas do grupo de discussão assistiram. mas andava com um grupinho completamente diferente do meu. — Meus pais são divorciados. — Soube do seu pai — disse Hallie Cinti.

— Se ele voltou agora. com cerca de dez sacolas de supermercado meio esvaziadas. eu teria de ir direto à fonte. enquanto ela me fitava. daquelas que os pais ainda lêem para ela na cama e seguram a mão para atravessar a rua. era verdade. Eu precisava de respostas. — Não sei — falei. com as botas esmigalhando o cascalho a cada passo. Cinti trabalha no mesmo hospital que o seu pai — falou. sobre o meu pai — comecei. — Acho que o seu pai é quem deve lhe contar isso. Pigarreei. Encontrei Hallie Cinti no vestiário das meninas. naquele momento. — O papai está morando com outra pessoa? — soltei de uma só vez. cujas camisetas todas tinham jacarezinhos e tudo que elas almoçava era uma Coca-Cola diet. Lucy e eu ficamos no quintal dos fundos assistindo. querida — esta veio da minha mãe. com os lábios contraídos de desgosto.. Hallie girou os olhos e tirou um pente de plástico cor-de-rosa da bolsa. espalhadas pelos balcões e pela mesa de jantar. Minha mãe respirou fundo. Não sou uma criancinha — mas. enquanto se fechava lentamente depois que ele entrou. Então. . — Hum. Voltei para casa andando devagar e. e duas noites depois meu pai voltou para casa. — Achei que talvez você tivesse sabido o porquê. que nunca me chamava de querida. aquilo. na cozinha. Bati de leve em seu ombro e ela se virou para mim. Outro suspiro. Eu pigarreei. com as mãos na cintura. certo? Fiquei olhando a porta. agora penteando a franja. e fez sinal para eu vir me sentar junto. apertando os olhos ao reaplicar brilho Bonnie Belle nos lábios. Ela me ignorou. e minha mãe de nada ajudava. encontrei minha mãe na cozinha. isso é bom.. — O quê? — cuspiu.. Meu pai nem sequer olhou para nós quando cruzou a pista do acesso para carros. Olhava-se no espelho. — Eu não queria que você descobrisse desse jeito — murmurou. — A Sra. na tarde da segunda-feira seguinte. Não se podia chegar perto do meu pai. — Não se preocupe — repreendeu-me minha mãe. — Vai ficar tudo bem. Mas ela foi se sentar à mesa. Mas tal conversa jamais aconteceu. quis ser uma criancinha.das populares. quando cheguei. torcendo para que minha mãe concordasse. enquanto ele tirava a bagagem do porta-malas do seu carro esporte vermelho. — Hallie Cinti me contou. O próprio rosto dela estava todo marcado de um sono mal dormido. Josh. — E por que eu iria contar alguma coisa a você? — zombou. Por mais que detestasse a idéia. — Cannie? — fungou Lucy. Pela sua mãe.. Lucy estava chorando e Josh tentava segurar o choro. — Ele voltou a morar lá em casa — disse eu. — Mas ela não sabe de nada — falei. — Você pode me contar as coisas.. não é? Ele não vai mais embora. — Que bom para vocês! — disse ela. Ela enfiou três pacotes de peito de galinha no congelador e soltou um suspiro.

— Primeiro. trabalhando com vítimas de queimaduras. homens que voltavam da guerra com a pele fustigada e enrugada por produtos químicos.Eu tinha passado o fim de semana inteiro me preparando para essa eventualidade. capaz de eliminar os pneuzinhos e as papadas com algumas passadas . — Basta copiar com a sua caligrafia. as noites em que lia para nos fazer dormir. Começou no exército. Eu o puxei de volta. cercado de estranhos: minha mãe. Quanto tempo vou ter de viajar ao lado delas? E por que acham que eu lhes devo alguma coisa? Passou de eventual r longinquamente carinhoso a malvado. oferecer à bela e vistosa Hallie? Tirei dois objetos da mochila. minha irmã. Ela encolheu os ombros de leve. Hallie tomou a garrafa da minha mão. Hallie e suas amigas talvez não fossem tão avançadas em termos acadêmicos quanto eu. — Pelo visto. Joguei-o em cima dela. Ele ficou conosco quase seis anos depois disso. por ser ela o seu amor verdadeiro que lhe fora negado para sempre? Eu achava que era um pouco disso. pelo jeito como nos tratava. com um sorriso sarcástico. Meu pai era — ou talvez ainda seja — um cirurgião plástico. mulheres cujas feridas não se viam e que estavam dispostas a jogar milhares de dólares em cima de um cirurgião discreto e habilidoso que lhes deixasse a barriga mais durinha. deixou a garrafa cair dentro da bolsa e se virou novamente pata o espelho. todos querendo coisas — ajuda com os pratos. Ela se virou para mim. meu irmão e eu. E olhando para você dá para entender por quê. sua atenção. verificou se o selo não estava partido. e depois tentou pegar o trabalho. mas sim damas da sociedade. os sorvetes de casquinha nas tardes de sábado e os passeios de carro nas tardes de domingo acabaram. O primeiro foi um trabalho escolar de cinco páginas sobre imagens de luzes e trevas em Romeu e Julieta. mas compensavam noutros campos de empreendimentos. foi como se o meu pai tivesse caído no sono dentro de um ônibus ou um trem e acordasse vinte anos depois. Quem são essas pessoas?. — Ouvi minha mãe conversando no telefone. dez pratas para o cinema. O segundo foi uma garrafa de vodka que eu havia surrupiado do armário de bebidas dos meus pais naquela manha. e estendeu a mão para pegar o trabalho. a gorducha e pouco popular Cannie Shapiro. o seu pai não queria mais nenhum. Hallie pegou o trabalho e eu voltei para a minha aula. Os pequenos momentos de carinho e amor. você vai me contar. O que poderia eu. soldados feridos. sua aprovação. as pálpebras menos caídas. Ora. Ela disse que a auxiliar de dentista falou que queria filhos — disse Hallie. ou inchada e desfigurada por estilhaços. Lá. depois se enrijecia de raiva. mas nunca mais vai ser o mesmo. Já acrescentei alguns erros de ortografia para que achem que foi você mesma quem fez e não eu. Ele nos olhava com os olhos castanho claros nadando em confusão. Mas descobriu seu talento de verdade depois que nos mudamos para a Pensilvânia. Mas havia outras coisas também. uma carona para o ensaio da banda. fazia sentido. que provavelmente jamais nos quis? Seria por sentir falta da outra mulher. o bojo do seu trabalho não envolvia soldados. Seria por eu saber o seu segredo — que ele não queria mais filhos. seu amor. Não queria mais filhos. parecia se perguntar.

Foi bem-sucedido. ao financiamento da casa e dos carros. Ele não queria essa vida. mês não. nem de longe. mal-humorado. dizia Josh. — Veja só uma coisa dessas! — explodia em cima dos meus conceitos B+ em álgebra. E nada do que eu fizesse estava certo. com o pano de fundo das pedras de gelo tilintando no copo. por alguma razão. mesmo sem o benefício de aulas de apreciação musical. e passava batido por nós. tentando me ocultar nas sombras. Mas não importava quanto eu me esforçasse. e nós íamos de férias ao Colorado (para esquiar) e à Flórida (para pegar sol). como se o papel de repente começasse a feder. era somente para reclamar: do cansaço. ele convencia os patrulheiros da pista de esqui de que estava congelando. com o costumeiro copo de uísque por perto. e as nossas vidas se desintegraram. Nunca tirei nada abaixo de A na minha vida inteira. aos hábitos e às obrigações. Nós tínhamos o casarão de praxe. me escondendo atrás da porta. tinha tanta vergonha da nota quanto ele tinha raiva. à meia-luz. — Qual é a sua desculpa para uma coisa dessas? — Eu não gosto de matemática — dizia eu. com esqui e piscina no quintal". onde se trancava. Eu não estou nem aí! Era assim com todos nós — resmungão. meus pais davam festas com bufê mês sim. Quando nos deixou pela primeira vez. — Tudo bem — dizia. da falta de consideração. Bastava uma descida e ele voltava direto ao abrigo. Na verdade. — Você tem noção do seu potencial? Faz idéia do desperdício de não aproveitar os seus dons? — Não importam os meus dons. Vinha uma faxineira duas vezes por semana. como dizia com a língua enrolada. à infindável programação de jogos de futebol e sabatinas de ortografia e aulas de hebraico. e nós . a álgebra sempre foi difícil para mim. Eu não gosto de matemática. desmancha-prazeres e grosso. Então. Sofria misérias atrelado a esse subúrbio. Mesmo aos treze anos de idade. Ele estava sentado à mesa de jantar. E descontava o sofrimento em todos nós — e. ele foi embora. Minha mãe tinha um Audi. Meu pai tinha um Porsche (mas ainda bem que minha mãe conseguiu convencê-lo a não colocar uma daquelas placas com dizeres especiais que revelam sua profissão). onde ficava ouvindo sinfonias de Mahler. eu sabia que ouvir Mahler um parar. do duro que dava para colocar as coisas em casa para essa "cambada de esnobes. Eu. como um livro adorado que você lê e relê várias vezes. ou quantas aulas particulares fizesse. De repente. subindo para o quarto. foi como se não suportasse olhar para mim. para tomar um chocolate quente e ficar amuado.rápidas do bisturi. "Eu detesto esquiar". servia-se da primeira de toda uma série de doses de uísque com gelo. com a entrada de carros em curva. Ou ficava lá ou se refugiava na sala de estar. — Pois vá fazer secretariado. E quando ele se dignava a falar conosco. Chegava do trabalho. não poderia dar em boa coisa. largava a pasta no hall. — Você acha que eu gostei da faculdade de medicina? — grunhia ele. Isso ficou bem claro. e depois voltou. fazer um lift facial ali. Larry Shapiro era o homem que se deveria procurar na região da grande Filadélfia para tirar uma barriguinha aqui. e se o forçássemos a voltar. uma piscina grande encravada no chão e outra térmica no quintal dos fundos. que detestava mesmo. dando de ombros. até que uma noite você o pega antes de cair 110 sono e a capa solta e as páginas se esparramam todas pelo chão. jogando o boletim de notas em cima da mesa. para dar um jeito no nariz ou nos seios. especialmente em cima de mim.

" Fiquei ali parada. E eu tinha fracassado. E. só que com espinhas e aparelho. desmoronei por dentro. afinal. Além dos seios e dos quadris que me surgiram praticamente da noite para o dia. tentei explicar como foram as coisas com meu pai. e nas coisas que ele dizia. mais raiva. quando uma amiga relembrava passagens dos horrores da infância nos subúrbios. "Cannie é brilhante". provocando-o com o que sabia ser verdade. "Se você nos odeia tanto. por que foi ter filhos?". dizia. Eu era a filha dele. Poderia ser do consultório dele. mais ira repressora e crítica. a menininha dele. mesmo quando estou tentando me esconder atrás de uma fileira de primos num Bar Mitzvá. com os lábios delineando um sorriso sofrido em torno do aparelho ortodôntico e a cabeça enfurnada sobre o peito.. Por favor. Comprava roupa em dois tamanhos — GG e XGG — e passei o ano inteiro recurvada.. Lucy. o que não ajudava em nada a minha carinha de lua. Eu não era burra. "Desastrada!". Ele tinha de me amar. É verdade que com treze anos não foi a época em que estive mais bonita. Tinha mais amigos do que os demais juntos. Não havia beleza alguma em mim aos treze anos de idade. ele gritava quando tocava durante o jantar. na faculdade. sua manutenção. evidentemente. Não é uma beldade. Agora. Tentando desaparecer. que só tinha seis anos. "Prefiro nadar. Parecia o Corcunda de Notre Dame. secando embaixo das lâmpadas de calor. quando ela derrubava um copo. e eu sentia a confirmação desse fato na dureza e no ódio do seu olhar. vejo um ar de desespero horroroso estampado no meu rosto. ouvi-o contara um de seus colegas de golfe. dizia Lucy. O xis do trabalho dele era a beleza — sua criação. eu suponho. Mas não podíamos atender. e as meninas do cinema e dos pôsteres nos quartos dos meninos. sua perfeição.. tentando encobrir o peito. Josh. Cortava o cabelo à la Dorothy Hamill. pelo visto. qual um torrão de areia sob as rodas de um carro. onde o encontrávamos só de ceroulas. balançando a cabeça. nem era mais a menina querida dele. quando via o boletim. gostem de mim. Sentia-me uma afronta ambulante. com as outras crianças do Centro de Recreação. "Essa porcaria de telefone!". O telefone não parava de tocar. o que era verdade. eu gritava. "Ela vai conseguir cuidar de si mesma. Mas eu me lembrava da mão dele na minha cabeça. ele ignorava ou enchia de broncas. agora uma filha que fracassara de forma tão flagrante era. imperdoável. mas que pai não acha a filhinha linda? Só que eu não tinha nada de inha. Quando olho as minhas fotografias daquela época — e é de se compreender que só existam umas quatro —. "Sua burra!". . era "um bebê". eu imploro. ele me achava feia. a patinadora. como um acervo das coisas contra as quais meu pai passava seus dias a combater. da barba dele pinicando o meu rosto quando me beijava. e quando enfim acreditei. menor. que tinha doze. Ele nunca tinha uma resposta — só mais insultos. eu virei "o cachorro".tínhamos de ir pegá-lo na cabana de primeiros socorros. nem cega. Não é uma beldade. sem conseguir acreditar no que tinha ouvido. E. ou me ocultar sob as bolhas de água quente da piscina térmica durante as festas no quintal de casa. aos treze. e sabia das muitas diferenças entre mim e a Farrah Fawcett. Ter uma mulher que não atingiu aquele patamar e não conseguiu continuar magra era uma coisa. adquiri um complexo jogo de tiras de borracha e de metal para corrigir a arcada dentária ressaltada. nada mesmo. mas é inteligente. a esquiar". arqueando os ombros e me recurvando para ficar mais baixa. Mais uma dificuldade com meu pai.. Anos depois.

— Ele era um monstro — desabafei. Eu estudava letras, já era versada em Chaucer e Shakespeare, Joyce e Proust àquela altura. E ainda não tinha descoberto uma palavra melhor do que essa. O rosto da minha amiga ficou muito sério. — Ele abusava de você? — perguntou ela. Eu quase ri. Considerando que o teor fundamental das conversas entre mim e meu pai girava quase exclusivamente em torno da minha feiúra, gordura e repugnância, abuso era a última coisa que eu poderia esperar. — Ele a maltratava? — perguntou ela. — Bebia demais — falei. — E nos deixou. Mas nunca me bateu. Nunca bateu em nenhum de nós. Teria sido mais fácil se batesse. Assim, haveria um nome para dar àquilo que ele fazia, uma caixa onde guardar aqueles ressentimentos e um rótulo para essa caixa. Haveria leis, autoridades, abrigos, programas de entrevistas na televisão, com repórteres discutindo seriamente aquilo que estávamos passando, um reconhecimento embutido do que vivenciávamos para nos ajudar a superar. Mas jamais levantou um dedo sequer. E aos treze, catorze anos, eu não linha palavras para descrever o que ele fazia conosco. Não sabia nem como começar a conversa. O que poderia dizer? "Ele era mau?" Mau significaria uma base, significaria ficarmos sem televisão depois do jantar, não o ripo de agressão verbal que meu pai cotidianamente nos dirigiu à mesa do jantar, um recital escorchante de todas as maneiras em que eu havia ficado aquém do meu potencial, uma turnê completa pelos lugares em que eu havia fracassado. E quem acreditaria em mim? Meu pai sempre foi a personificação do charme para as minhas amigas. Lembrava-se dos nomes delas e dos nomes dos namorados delas, perguntava educadamente sobre planos para o verão e visitas a faculdades. Ninguém teria acreditado em mim e, se acreditassem, iriam querer que eu explicasse. E eu não tinha explicações, não tinha respostas. Quando se está no campo de batalha, não se tem o luxo do tempo para se aprofundar nos vários fatores históricos e influências sociopolíticas que levaram à guerra. Você fica de cabeça baixa e tenta sobreviver, passa as páginas antigas, fecha o livro e finge que não há nada quebrado, que não há nada errado. No verão, antes do meu último ano na escola secundária, minha mãe levou Josh e Lucy para passarem um fim de semana em Martha's Vineyard. Uma amiga tinha alugado uma casa, ela estava se coçando para sair de Avondale. Eu havia conseguido o meu primeiro emprego de verão, como salva-vidas num clube campestre da região. Falei para minha mãe que eu ficaria em casa, tomaria conta dos cachorros, cuidaria de tudo. Achei que seria legal: teria a casa toda para mim, ficaria com meu namorado de vinte e três anos longe da vigilância dela, iria e viria conforme me aprouvesse. Durante os três primeiros dias foi ótimo. Aí, cheguei em casa na madrugada do quarto dia e foi como se eu tivesse doze anos de novo. Lá estava meu pai no quarto, com a mala em cima da cama, as camisetas e as meias pretas empilhadas uma em cima da outra — talvez as mesmas, pensei tresloucadamente, que ele levara da vez anterior. Olhei para aquelas roupas e depois para ele. Meu pai me fitou durante um bom tempo. E soltou um suspiro. — Vou ligar — disse —, assim que tiver um telefone novo.

Dei de ombros e falei: — Como você quiser. — Não fale comigo desse jeito — disse ele. Ele detestava quando éramos impertinentes. Exigia respeito, mesmo, e especialmente, quando não merecia. — Qual é o nome dela? — perguntei. Ele estreitou os olhos. — Por que você quer saber? Fiquei olhando para ele e não consegui pensar numa resposta Será que eu imaginava que faria alguma diferença? Será que um nome teria importância? — Conte à sua mãe — começou ele. — Ah, não — falei, ao mesmo tempo em que negava com a cabeça. — Não me mande fazer o seu trabalho sujo. Se tiver alguma coisa para dizer a ela, então diga você mesmo. Ele deu de ombros, como se não importasse. Juntou mais algumas camisas e um punhado de gravatas. — Ainda bem que você está indo embora. Sabia? — minha voz soou alta demais no silêncio da madrugada. — Vai ser melhor sem você — falei. Ele me olhou. E assentiu. — Vai, sim — disse. — Acho que vai ser melhor, sim. Ele continuou fazendo a mala. Eu fui para o quarto. Deitei-me na cama — a cama em que meu pai tinha lido para mim, um milhão de anos atrás — e fechei os olhos. Já esperava por isso, enfim, Sabia que a hora estava chegando. Achei que iria sentir a mesma coisa que a gente sente quando cai a casquinha de um machucado antigo — uma pontada momentânea, um pouquinho de dor, uma sensação de ausência. E depois, mais nada. Nadinha, mesmo. Era só isso que deveria sentir, era só isso que queria sentir, pensei com todas as forças, revirando-me na cama, tentando me consolar, Não importa, dizia a mim mesma, diversas vezes. Só não conseguia entender por que eu estava chorando. Fui estudar em Princeton porque ele me mandou para lá, num de seus últimos atos práticos de pai. Eu queria ir para Smith. Gostei do campus, gostei do treinador da equipe de remo, gostei da idéia de uma faculdade só para mulheres, onde a ênfase seria sobre o aprendizado, onde eu teria a liberdade para ser quem sou: a CDF modelo do final da década de 1980, com o nariz enfiado num livro. De jeito nenhum — declarou meu pai à mesa. Já havia saído de casa fazia seis meses na ocasião: mudara-se para outro subúrbio, estava morando num condomínio novíssimo e impecável com uma namorada novíssima e impecável. Tínhamos combinado de jantar todos juntos, depois cancelamos e remarcamos duas vezes. — Não vou colocá-la para estudar em escola de sapatão. — Larry! — disse minha mãe, com a voz baixa e carente de alguma esperança. O seu bom humor e alegria havia vazado todo àquela altura. Só muitos anos depois — e depois da Tanya —, ela voltaria a rir e gargalhar facilmente. Meu pai a ignorou, fitando-me desconfiado, com um pedaço de bife espetado no garfo a caminho da boca. — Você não é sapatão, é? — Não, pai — falei. — Na verdade, prefiro um ménage à trois. Ele mastigou. Engoliu. Limpou os lábios delicadamente com o guardanapo.

— Então, são duas pessoas a mais do que eu imaginaria que pudessem querer vê-la nua — disse ele. Não foi por querer estudar em Smith que eu não gostei de Princenton. O campus parecia a arena de uma bem-sucedida experiência de eugenia: todos eram louros, bem formados e perfeitos, menos as garotas de cabelos pretos, que eram vistosas, exóticas e perfeitas. Durante o fim de semana que passei lá, não vi uma pessoa gorda sequer, nem ninguém com problema de pele. Só um monte de cabelos sedosos, dentes brancos e alinhados, e corpos perfeitos, vestidos com roupas perfeitas, dispostos à sombra de salgueiros perfeitos, que ficavam em perfeitos pátios góticos de pedra. Falei que me sentiria muito mal ali. Meu pai falou que não se importava. Finquei o pé. Ele me disse que era Princeton ou nada. Depois que eu estava instalada em Campbell Hall e já tinha passado lá o tempo suficiente para as aulas terem se iniciado, e para terem conseguido roubar do estacionamento de bicicletas da biblioteca a minha mountain bike, que eu ganhara de presente de formatura do segundo grau, o divórcio estava consumado e ele se foi para sempre, deixando por nossa conta as mensalidades da faculdade, pois havia pago apenas o suficiente para impossibilitar um recomeço em qualquer outro lugar. Portanto, abandonei a equipe de remo — que não foi lá uma grande perda para mim, nem para a equipe, suponho, pois eu havia ganho os sete ou oito quilos de praxe que todo calouro ganha logo que entra para a faculdade, mais os sete ou oito que caberiam à minha colega de quarto, que não os ganhou graças aos seus diligentes acessos de bulimia — e arranjei um emprego na Cantina e Refeitório, que os funcionários chamavam carinhosamente de Cretina. Se os anos que passamos na faculdade representam os melhores da nossa vida, então posso afirmar que passei os melhores anos da minha vida numa cantina, limpando pratos de ovos mexidos reaproveitados com bacon rançoso, colocando louça suja na esteira rolante, passando esfregão no chão, olhando para as minhas colegas de turma com o canto do olho, e achando que elas eram tão mais bonitas e graciosas, e se sentiam muito mais à vontade em seus corpinhos do que eu. Todas tinham lindíssimos cortes de cabelo. E todas eram magras. É verdade que muitas eram magras porque enfiavam o dedo na garganta depois das refeições, mas, às vezes, isso parecia um preço baixo para se ter o que toda mulher quer — neurônios, beleza e um jeito de comer sorvete e torta de cereja sem engordar. "Cabelos Lindos" foi o primeiro artigo que escrevi para o jornal alternativo do campus. Era caloura, e a editora-chefe, uma terceiranista de nome Gretel, cuja própria cabeleira loura era mantida num corte à escovinha, ao estilo paramilitar, me pediu para escrever mais. No segundo ano, virei colunista. No terceiro, escritora sênior, tarefa à que me dedicava, com afinco, quando não estava servindo PFs, nem passando esfregão nos abarrotados e poeirentos escritórios do Nassau Weekly, no Aaron Burr Hall, e resolvi que era isso que eu queria fazer na vida. Escrever me permitia fugir. Permitia-me fugir de Princeton, onde todos eram chiques e requintados e, no caso do sujeito no fim do corredor, o futuro monarca de algum recôndito principado do Oriente Médio. Permitia-me fugir da influência constante de minha família e daquela agonia sem fim. Escrever era como mergulhar no oceano, um lugar onde eu podia me mexer com facilidade, onde podia ser graciosa, brincalhona, invisível e visível, tudo de uma vez — um nome que assina uma matéria, não um corpo. Sentar-me diante do computador com a tela em branco e o cursor piscando foi a melhor

fuga que conheci. E havia muito do que fugir. Nos quatro anos que passei em Princenton, meu pai tornou a se casar e teve mais dois filhos. Daniel e Rebecca. Teve a audácia de me enviar as fotos e os comunicados dos nascimentos. Será que achou que eu iria ficar feliz de ver as carinhas amassadas e as impressões das plantas dos pés dos bebês? Para mim, foi como levar um pontapé. A questão não era ele não querer filhos, infelizmente eu percebi. Era ele não nos querer. Minha mãe voltou a trabalhar e seus telefonemas semanais eram repletos de reclamações sobre as escolas e as crianças terem mudado tanto desde que havia se formado. As entrelinhas estavam claras: não era a vida que ela escolheu. Não era onde queria estar, aos cinqüenta, mal conseguindo pagar as contas com o que ganhava de pensão alimentícia e o parco salário que a escola do bairro pagava às substitutas permanentes. Entrementes, Lucy foi convidada a se retirar da universidade em que cursava o primeiro ano, em Boston, por incompetência, e voltou para casa, a fim de freqüentar umas aulinhas na faculdade dali mesmo, na vizinhança, e se diplomar em homem que não prestam. Josh passava três horas por dia na academia, malhando canto que seu tronco parecia inflado, e praticamente parou de falar salvo por alguns grunhidos tonais e um "É isso aí", de vez em quando. "Termine os seus estudos" dizia minha mãe, cansada, depois do último discurso sobre o atraso dos cheques do papai, sobre o defeito que deu no carro dela, sobre as duas noites seguidas que minha irmã não vinha dormir em casa. "Basta concluir os estudos. Nós aqui vamos levando." Até que — enfim — chegou o mês de junho, o mês da minha formatura. Afora alguns almoços tensos durante as férias de verão e o recesso natalino, eu não tinha visto meu pai. Ele mandava cartões de aniversário (normalmente na data) e cheques para pagar a faculdade (quase sempre atrasados), em geral na metade do valor que deveriam ser. Eu me sentia como um item a mais, sem destaque algum, na sua lista de afazeres. Não esperava que viesse à minha formatura. Nunca achei que fosse se preocupar. Mas ele me telefonou uma semana antes da esperada data, dizendo que mal podia esperar. Ele e sua nova esposa, que eu não conhecia. — Não sei... acho que não... — gaguejei. — Cannie — disse ele —, eu sou seu pai. E a Christine não conhece Princeton. "Então, diga a Christine que você vai lhe mandar um cartão postal", minha mãe falou, com azedume. Detestei ter de lhe contar que ele iria, mas não havia conseguido dizer não. Afinal, foram as palavras mágicas, as suas palavras-ração: Eu sou seu pai.. Depois de tudo — da distância, da deserção, da nova esposa e novos filhos—, eu ainda estava, ao que parece, ansiosa por seu amor. Meu pai, com a nova esposa e filhos a reboque, chegou durante a recepção do Departamento de Letras. Eu havia ganho uma pequena condecoração por criatividade na redação, mas eles chegaram tarde demais para ouvir o meu nome sendo chamado. Christine era do tipo mignon, com um corpo enrijecido por ginástica aeróbica e adornado por uma permanente loura. As crianças eram adoráveis. Meu vestido, Laura Ashley, com motivos florais, estava maravilhoso no dormitório. Agora, parecia uma capa de sofá, pensei desanimada. E eu parecia um sofá.

— Cannie — falou meu pai, olhando-me de alto a baixo. — Parece que a comida da faculdade lhe fez bem. Eu apertei a minha placa idiota contra o peito. — Muitíssimo obrigada — falei. Meu pai se virou para a nova esposa e girou os olhos nas órbitas como quem diz, "será possível que ela seja tão sensível assim?". — Estava brincando com você — falou ele, enquanto seus novos filhos adoráveis me olhavam fixamente, como se eu fosse um animal de um zoológico de gordos. — Eu, hum, consegui os seus ingressos para a cerimônia. Não mencionei que, para isso, tive de implorar, tomar um empréstimo e afinal pagar cem dólares com os quais não estava em condições de arcar. Cada formando recebia quatro ao todo. A administração ao de Princeton ainda não dera um jeito de encaixar aqueles de nós que se digladiavam com famílias reconstruídas que incluíam madrastas, padrastos, novos meio-irmãos e coisas afins. Meu pai balançou a cabeça. — Não vai ser necessário. Vamos embora amanhã de manhã. — Embora? -- repeti. — Mas, vocês vão perder a formatura! — Nós arranjamos ingressos para a Vila Sésamo — cantarolou a esposinha, Christine. — Vila Sésamo! — repetiu a garotinha, para dar mais ênfase. — E Princenton estava a meio caminho. — Isso... é... ora!... — e de repente eu estava piscando para conter as lágrimas. Mordi o lábio com toda a força que pude, e apertei tanto a placa contra o corpo que fiquei com um hematoma de vinte por trinta estampado no meio, durante uma semana e meia. — Foi legal vocês darem uma passadinha por aqui. Meu pai fez que sim com a cabeça e um gesto de quem iria me dar um abraço, mas acabou me pegando pelos ombros e dando um sacolejo, do tipo que os técnicos costumam dar em atletas cujo desempenho está insatisfatório — do tipo "entra numa, camarada". — Parabéns! — falou. — Estou orgulhoso de você — mas quando me beijou, seus lábios nem sequer tocaram a minha pele e eu sabia o tempo todo que os seus olhos estavam grudados na porta. De algum jeito, consegui sobreviver à cerimônia, à desocupação do meu quarto no dormitório e à longa viagem de volta para casa. Pendurei o diploma na parede e tentei resolver o que faria em seguida. Uma pós-graduação estava fora de cogitação. Mesmo depois de todos os PFs que tinha preparado, depois de todas as fatias de bacon babado e ovos mexidos estragados, ainda tinha uma dívida de uns vinte mil dólares. Não havia como tomar mais um empréstimo. Então, marquei uma série de entrevistas de emprego nos vários jornalecos dispostos a contratar uma recém-formada, sem experiência alguma no mercado, no meio de uma recessão, e passei o verão dirigindo de um lado para o outro da zona nordeste, na van de terceira mão que consegui comprar com parte do dinheiro do trabalho na lanchonete. Quando peguei o carro para partir atrás das minhas entrevistas de emprego, prometi a mim mesma: não seria mais o rato do meu pai. Tomaria distância da barra de ração. Ele só me trazia infelicidade e eu não precisava de mais infelicidade na minha vida. Soube, pelo meu irmão, que meu pai se mudara para a zona oeste, mas não perguntei os detalhes e ninguém também quis dar. Dez anos depois do divórcio, ele não precisava

Sei que o que aconteceu com meu pai — os insultos. ou estarei apenas pensando que ele nunca vai me deixar. pediu que ele tirasse a ponte no meio do jantar e mostrasse os dentes que faltavam. Poderíamos dar um jeito de encontrá-lo na Internet — sugeri. pensava. pelo visto. estava morto e eu nem consegui dizer quanto senti. — Por quê? E eu não consegui pensar numa resposta.mais pagar sustento nem pensão alimentícia. Se o nosso pai queria sumir. E também os cartões de aniversário. me perguntava. que gostava de mim o suficiente para me querer na família. sem nos dizer para onde. O homem. Deparei com inúmeros artigos de autoajuda em revistas femininas. será que ele viria? Se importaria? Provavelmente não. então. Nosso pai se mudara. Concordamos. ou qualquer reconhecimento da nossa existência. que sumisse. e quando Josh enviou o aviso da dele. Noutras palavras. prestava muita atenção em mim mesma. Foi isso aí. as críticas. A cada homem que eu conhecia. Josh superou o medo das rampas e passou um ano e meio vagando de uma estação de esqui para outra. . A formatura de Lucy chegou e passou. Será que gostei mesmo desse editor. Para provar. o seu jeito de me fazer sentir uma aleijada e deformada — me magoou. eu diria. exatamente como meu pai me fez sentir. tudo de novo. E agora que era possível — até provável — que Bruce finalmente conseguisse me entender. das boas mesmo. pudesse se solidarizar com o que eu passei por causa do que passou. Se o encontrássemos. Os cheques pararam de vir. para saber que não se passa ilesa por esse ripo de crueldade. os três. Parecia uma grande piada. que deixaríamos tudo como estava. ou será que só estou procurando o papai? Será que amo esse cara. como se tirassem o tapete debaixo dos meus pés. ele não queria nem falar comigo. como fez meu pai? E onde fui parar com todos esses cuidados. E enveredamos pelo início da nossa vida adulta sem ele. e Lucy se mandou para o Arizona com um sujeito que ela dizia ter sido jogador profissional de hóquei. Josh me olhou escandalizado. hein? Eu estava só. o cartão foi devolvido ao remetente.

. Então. E lá estávamos de novo: eu na cadeira.É como se soltassem um último grito de guerra.Quer dizer. Tirou os óculos e apertou o nariz no cantinho dos olhos.Não . . o Dr. . . flutuando dentro de seu jaleco branco.falei. Ele soltou um suspiro. – engoli em seco. quero dizer que basta botar alguma coisa na boca que eu vomito..SETE As balanças do Centro de Tratamento de Distúrbios Alimentares. como eu disse. finalmente. ... da Universidade da Filadélfia. Achei que sabia. conforme eu vinha fazendo semana sim....disse ele..disse o Dr.Por quê? Por haver terminado com ele? Que besteira! Como é que você poderia saber que isso iria acontecer? . Mas não quis que eu ficasse. só. no fichário e. . para ele. Eu não conseguia explicar que passei . K. em mim outra vez. Não tinha como. Ele olhou carinhosamente para mim. K. Como se não tivesse pensado direito no que iria dizer..choraminguei.Aconteceu uma coisa . Você perdeu quatro quilos. Mas não sabia. Nunca é fácil.falei. Estava tão antipático.. meu namorado.falei. Nunca imaginei uma coisa como essa. .. ele em sua mesa. . .Ele me ligou. . você está comendo menos . Os números eram os mesmos. semana não.Outro artigo? . possivelmente mais magro. me entregou uma caixa de lenços de papel.Sinto muito. meu fichário cada vez mais grosso aberto à sua frente. e amá-lo. Mesmo que ninguém morra. .. . Ele me lançou um olhar sério e depois tornou à balança. . e ele não me quer. Mesmo quando é você quem abre mão primeiro.disse ele. Ele me lançou mais um olhar sério. Mas agora. Era difícil não se sentir como gado toda vez que se subia numa delas. entorpecida. pareciam carrinhos de açougue. tudo que eu quero é estar lá. Já fazia semanas desde que eu estivera com Bruce pela última vez e as coisas não estavam se desenvolvendo dentro do esperado.Não estou conseguindo comer . e me senti horrivelmente mal. com grades em toda a volta. .O pai de Bruce faleceu .. . olhando o mostrador digital vermelho da balança. Sem dizer uma palavra. me contou e me pediu para ir ao enterro.Eu sou uma pessoa ruim .. afogando-me em soluços.disse eu.Isso é muito raro . desde setembro. . As plataformas tinham mais ou menos quatro vezes o tamanho que costumam ter nas normais.Vamos dar um pulinho no meu consultório – sugeriu.. Ele pousou o olhar nas próprias mãos. Sempre há mágoa. O rabino disse que o pai de Bruce costumava ir às lojas de brinquedos. -É duro quando as coisas terminam. isso é raro. E só faço sentir saudades dele.Bruce.Eu sei que não poderia. O pai dele morreu no mês passado.. Ele estava mais bronzeado do que a última vez que o vi. é como se. e eu me sinto tão. Pisquei com força contra as lágrimas. ex-namorado.Eu estou com a sensação de que cometi um erro imenso.. mesmo que a separação se dê nos melhores termos possíveis e não seja nenhuma outra pessoa envolvida. o que iria sentir estando longe dele. Foi muito triste..A maioria dos pacientes ganha peso antes de começarmos com a sibutramina .Não.

.Estou olhando para a situação de maneira realista... você tem de comer.Claro. . .Não faz bem para a saúde .Tente não levar tudo tão a sério. . .Não. . também.. Ele me entregou um Band-Aid no lugar do pirulito e o pedaço de papel onde escrevera dois nomes. Ele me lançou um sorrisinho maroto..Desculpe. Não tinha certeza se o amava o suficiente.falei. – Ajuda muito se você estiver se sentindo bem. É que eu tenho uma tendência a ficar um pouco melodramática.falei.Eu sou tão imensa. . . tirou um bloco e começou a escrever.Você parece a minha mãe . Parecia pouco à vontade. e agora sei que sim. entregou-me uma pilha de papéis com quase dez centímetros de espessura. Cannie.a vida esperando por um cara que me aceitasse. Quero ter uma coisa na minha vida que me faça sentir bem. meio sem jeito.Ah.endireitei a coluna e limpei o rosto.falei.Será que estou percebendo uma certa antipatia por aqui? . torradas.brinquei. E não disse mais nada. Se não estiver conseguindo.disse ele.perguntei. Mas acho que vai ser uma boa idéia você ter alguém com quem conversar. dois telefones.Eu sei . refrescos.Terapia não. com firmeza. não. . Ele me pediu para sentar na mesa de exames.. Na sala de espera. e o pai dele está morto e ele não me ama mais .Oh –falei. você vai ter de começar a comer de nove em breve. com tranqüilidade. sério. Ficamos os dois olhando para o frasco de vidro se encher com o meu sangue.Eu fui tirada do estudo? . eu queria dizer que.disse. . mas sabia agora que jamais tinha me sentido assim tão magoada. mas o fez com tanta maestria que eu mal senti. . . Achava que sabia o era dor.Não . O que queria dizer. . . enquanto eu chorava.disse-me..Lembra que você falou que era uma pessoa ruim? . ligue. Ele focou um ponto na parede acima da minha cabeça. Você acha mesmo que mais uns diazinhos vão me matar? . não .E mais uma coisa. .falei. ..falou..E. Virei o rosto quando ele enfiou a agulha. Minha sugestão é começar com algo mais fácil. . não tenho nada contra.. .disse ele.. mas é que eu sei que não vai funcionar .Só queria que as coisas fossem diferentes.Está quase acabando . enfiando tudo dentro da bolsa. . enquanto amarrava uma borracha em torno do meu bíceps e me pedia para fechar o punho. . .disse ele.Não. e aí eu vou ter de insistir que você procure um desses terapeutas. bananas.Mas eu ainda quero fazer isso. -E não pare de fazer ginástica. Senti curiosidade de saber o que ele estava pensando. . . antes de retirar habilidosamente a agulha e comprimir a picada com um pedaço de gaze. Eu cometi um tremendo erro. Quero ter a sensação de que estou fazendo uma coisa direito.Você vai ficar bem .falou. ao mesmo tempo em que me segurava pelo antebraço. abriu uma gaveta.E.Tenho direito a um pirulito? . Cannie .Pode ter um impacto adverso no seu metabolismo. que compreendesse a minha dor. De repente.Tome . tocando-me delicadamente as costas e os braços com as mãos. .. Tudo bem. Quero mesmo.

Você vem para a Ação de Graças. Fui para casa e direto para o telefone. onde a encontramos horas mais tarde assistindo um jogo de futebol.falei. Eu olhei para o médico e dei um passo para trás. enquanto eu suava no step e Bruce lia a sessão de esporte no saguão dos idosos. um passeio de bicicleta.falou. .. Passou a ligar para mim toda noite e andava insistindo para que eu assistir às finais da liga de softball dela. lembrando-me de Bruce reclamando que passar um tempo na minha casa parecia mais um treinamento para triatlo do que férias.Sabia que você acabaria atendendo . cuja estatura atarracada e ombros largos davam-lhe uma desconcertante semelhança com meu acompanhante no baile de formatura da escola secundária. toca e você não atende. é a Sam. Minha mãe vinha se esforçando desde que o pai de Bruce falecera. era casado e vinte anos mais velho do que ela. Ano passado Tanya tinha convidado outro casal.Cannie.. Cannie. murmurando alguma coisa sobre as finais. . . Tchau!" Coloquei o telefone no gancho e tornei a pegar assim que ele começou a tocar. pode tirar esse olhar patético da sua carinha e me ligar se estiver a fim de dar um passeio. pensei. que. você sabe. passou a refeição inteira numa agitação entre a cozinha e a mesa. enquanto tentava me ajeitar no sofá calombento e Nifkin tremia atrás do alto-falante do som. .Você tem caminhado? – perguntou. não é o Bruce.Onde você estava? . claro. -Tenho caminhado . porque minha mãe estava sempre programando uma caminhada. todos além do ponto.. um depois do outro. “Oi. Talvez fosse o Bruce desta vez. portanto.Ah. para ver a peleja entre o Switch Hitters e o outro time que se chamava Nine Women Out. transportando travessas de acompanhamentos.Um pouquinho .. eram atenções sem as quais eu poderia viver tranqüilamente. O tear de Tanya ocupava o espaço que anteriormente alojara minha cama e. sentou-se encabulada ao seu lado durante um tempo e depois fugiu para a sala intima. isso não é o suficiente! Você deveria vir para casa .falei. Eu lhe pago um ice coffee. – Tem andado de bicicleta? .quis saber. não vem? Vem na quarta-feira ou no dia mesmo? Ai meu Deus! . Tanya.Você não é .Como vão as coisas? . . umas duplas de basquete no Centro Judaico.duas mulheres. cujo hábito de fumar Marlboro acabara com as funções de suas papilas gustativas. Ação de Graças.disse ela. mexidos ou salgados demais. mas sabia que ela estava com a melhor das intenções..disse ele. "Nunca mais" sussurrava ao ouvido de Bruce. na noite de quinta. Josh caiu fora antes.Você não deixou recado . . sempre que .As portas do elevador se abriram e as pessoas lá dentro ficaram me olhando. Vai ser ótimo. Enviou um cartão para a família e fez uma doação para o templo. . . -Toca.suspirei. .A gente se vê na aula.comentei. onde ela enfrentava meu irmão nas quadras. . Meu único recado era da Samantha. Mas não era..Levo Nifkin para passear todos os dias. depois nós ficamos sabendo. era minha mãe. e pronto. . e Lucy passou o tempo inteiro ao telefone com um namorado misterioso. enquanto sua namorada. além de um peru de tofu para vegetarianos. Uma delas não podia nem ver carne e se referia às pessoas heterossexuais como "reprodutores". não. Melhor do que um namorado.

Dê um tempo. ambos terminaram quando ele me disse educadamente que tinha alguma coisas para fazer. . Sabia que ela estava com a razão..Falei. . . claro. se revezavam na caça de Nif. Quem sabe a gente não vai passar o dia em Nova York.Eu tenho permissão . . -Tenho andado ocupada por aqui. mas ela é minha parceira.. .Podemos dedicar um tempo a uma relação mãe/filha. caso ele resolva ligar. por que você não dá um tempo para ele? E um tempo para você também? Venha para casa. .disse minha mãe..Vai mesmo? Oh.Deixe-me perguntar uma coisa . Minha mãe soltou um suspiro. ele obviamente está zangado com você. Porcaria! Como é que ela faz uma coisa dessas? .Estou ocupada – falei.objetei. eu sei que você não gosta dela.falou minha mãe. . -Vamos assar uns biscoitinhos . era Bruce. . Eu estava patética. sabia disso. Eu não era burra. .falou -. sua duas gatas safadas. o que era ainda pior. . Não lhe contei? Vou entrevistar Maxi Ryder. .na verdade. Sinto muito . E vou precisar ir a Nova York no fim de semana que vem.E quem é que anda encerrando os telefonemas? Ele ou você? O assunto estava ficando incômodo. ela estava ótima naquele filme escocês.Desperdício de dinheiro .Estou perfeitamente ciente disso . ..Estou ocupada . Não vai voltar correndo.Eu tenho chamada em espera.Não muito. alegremente.Depende – menti. Vamos fazer uns passeios de bicicleta. Era como Sam tinha dito. . .Cannie . Cannie. Gertrude e Alice..disse ela de maneira tentadora. claro. e já vinha recebendo o mesmo . Ambos os telefonemas duraram menos de cinco minutos.falei.Não estou . . Nós nos falamos .. e não conseguia me conter.insistiu minha mãe. .Por quê? Do que é que você sente tanta saudade? Fiquei sem dizer nada um tempo. -Mais uma coisa. eu tinha de acampar na sala. com delicadeza.Ele anda ligando para você? . .falou minha mãe.disse.Não. .vínhamos para casa. lendo velhas cartas de amor que Bruce lhe mandou e torcendo para que eu desligue. .Você está obcecada . Cannie: não ligue mais para ele. Além disso.Com Tanya. pelo menos agora. .disse eu.Pelo visto.Por que não vem passar o fim de semana? – perguntou a minha mãe. . eu não agüentei e liguei duas vezes para ele.Vou contar a ela que você disse isso.Vamos dar umas caminhadas longas. você voltou à esfera do aconselhamento heterossexual. se você estiver mesmo a fim. – Agora: quem tem desligado? .falei.corrigiu.Sinto saudade dele .Então.Aposto que está aí sentadinha.Cannie – falou ela -. . Sempre Bruce. . . com absoluta frieza. . mas percebi que estava começando a enfraquecer. qual é o problema? . Na verdade. Você não consegue pelo menos ser simpática? . Não exatamente.Você já falou com ele? .falei.Preste atenção. -Talvez .

Não consigo entender os homens! .Ellen? . . Não foi ele que falou "eu te amo" primeiro. . e me dando beijinhos no dedo anelar. familiarizados com a situação. Mas eu não sabia por que não conseguia parar.falei.Mas nós vamos nos ver qualquer hora dessas?. olhando ao redor. ele me aceitaria de volta.Como estar dentro de um ovo Fabergé . e assim que tivesse uma chance de estar novamente com ele.. sinais secretos. com dourado nas sancas.repetiu Andy.Acho que deveríamos esperar – disse.Você pode pegar qualquer tipo de crepe que quiser como prato principal.falei. nas verduras com pêra e gorgonzola e no cogumelo do campo com massa folheada para começar .tentei me convencer. a esposa de Andy. de alguma forma. três anos atrás. enquanto estávamos abraçados na minha cama? E não era ele quem sempre falava em casamento. Escutei um clique surdo.tentei adivinhar. menos o só de queijo. Ela repudiava molhos. Provavelmente estaria ouvindo a mesma coisa do Nifkin. as entrelinhas que diriam. que analisava padrões. quanto queria estar de novo com ele.As paredes são pintadas de verde-claro. durante a Conversa de Cinco Minutos n° 2. dizendo que ficaríamos sempre juntos? Era inevitável. era possuidora de um dos paladares menos aventureiros de todos os tempos.Eu gostaria de ver você – disse ele. Ellen. Só uma questão de tempo.. – Eu não gostaria de mergulhar de volta assim. de lhe mostrando o que eu tinha para dar.opinei. não sei mesmo. timidamente. É muito francês. alguma coisa do tipo peito de frango na chapa e purê de batata . Numa dessas extremas ironias da vida. Hoje estávamos avaliando a última crêperie quanto a possibilidade de uma critica. Andy estudou o menu. Andy. e vivia fazendo caretas para todos os menus. sempre parando no meio dos nossos passeios para admirar bebês. Bruce soltou um suspiro. com uma vozinha mirrada que era absolutamente diferente do que eu normalmente usaria em qualquer conversa.Posso perguntar uma coisa? . sempre me levando para vitrines de joalherias quando passávamos pela Sansom Street. . Claro que aceitaria. . é claro que ainda amo você. temperos. Mas “não sei" não era um "não". Cannie. ora. . buscados em desespero. li analista de cardápios. . Sim.instruiu. Andy assentiu.conselho de Samantha e de todos os meus outros amigos e conhecidos que estavam. empurrou os óculos para cima do nariz e murmurou para a própria manga: . racionalizei.Estou interessado no patê. eu ainda amo você. O nosso trato era: primeiro a comida.É como estar dentro de um ovo Fabergé . praticamente todas as culinárias étnicas. no escargot.Vamos fazer o nosso pedido antes? . . depois minhas perguntas sobre homens e a vida de casado. de lhe dizer quão sentida eu estava. Tornara-me alguém por quem eu sentiria pena numa outra vida.Não sei.escarneceu Andy. . . se ele pudesse falar. quando ele desligou o gravador que estava escondido em seu bolso. .comecei. alguém que buscava sinais. . . e ele soltou outro suspiro. que repassava cada palavra de uma conversa atrás de significados ocultos.

Bruce ainda era pior do que Ellen. Preste atenção. . de alho ou que ao menos não tivesse nenhum enfeite. Andy e eu trocamos os pratos e eu esperei que ele fizesse a descrição e provasse. sabe? Tudo bem. o que eu não consigo entender. uma dor. O garçom soltou um suspiro que pareceu sair do corpo inteiro quando foi buscar a jarra. e agora estou sentindo saudade. Depois que nossos copos estavam cheios.Eu gostaria de um pouco mais de água.Bem é assim.falei. .É uma dor aguda.Com licença .Como é que eles podem. a ir se esconder no banheiro dos homens para não ser descoberto. um crêpe com champignon. Mas não funcionou. tentei dizer-lhe telepaticamente. para quem o anonimato é imprescindível. Bruce inclinou tanto o menu para perto da vela que iluminava nossa mesa que conseguiu tocar fogo nele.insistiu Andy.. .Está bem.. supus que fosse garçom de dia e artista de noite.que não contivesse nenhum molho de cogumelo. ressaltou cuidadosamente no dia seguinte.. sei que fui eu quem quis dar um tempo. . . Além de não encontrar nenhuma das coisas que queria comer. um pouquinho só. – comentei.Você está me gozando? Andy me fitou profundamente. . Ele não era fã do Bruce. . e é assim. ou é uma dor constante. ela uma vez me confidenciou.. Andy girou os olhos.. Sua noitada ideal. Cannie . não desde o primeiro e último jantar para análise de cardápios em que ele participou. .. . queijo de cabra e amêndoas tostadas. .Eu só queria saber . mesmo quando ela estragava suas refeições de análise de cardápios pedindo mais uma salada mista ou um filé de peixe simples. Pela espontaneidade de seus modos e pela tinta azul embaixo das unhas.Sabe.chamei-o pelas costas. antes de continuar. Andy ma mandou um bilhete no dia seguinte no trabalho... Cada um pediu uma taça de vinho branco. Dava a impressão de uma indiferença imensa. como uma pontada. . "Um vegetariano mimado".Alguma pergunta? . Pedi o escargot e um crêpe de camarão.fale logo. Andy a adorava..Agora .. posso ajudá-la em quê? . jogou o meu escargot diante de Andy. com a voz arrastada.Estamos falando do abstrato ou do especifico? . o que atraiu três garçons e o sommelier e forçou Andy. o patê de Andy diante de mim e foi embora rapidinho. Andy ficou com paté e salada.Do Bruce – admiti. . "É difícil manter um mínimo de discrição”. com seus olhos castanhos arregalados e inocentes por trás dos óculos de armação dourada. O garçom voltou. intangível. Por favor. tomate e espinafre. consistia em alugar um filme e tirar um waffle do congelador para comer com "um tipo de cobertura que não tenha nada de bordo no meio". Nosso garçom veio em passo lento tornar a encher d’água os nossos copos.. que lateja? . Andy levantou a mão. enquanto o garçom marchava de volta para a cozinha -.. "quando se está recebendo um jato do extintor de incêndio". "é basicamente um dos piores pesadelos de um analista de cardápios". suprema. sabe.falou ele.falou. Quando você tiver um minutinho.

resmunguei. .disse ele.Para alguns caras. .Nunca . mesmo.Você acha? . com ar ansioso e um tanto ressentido. enquanto nosso garçom servia as entradas. de alguma forma.Só porque ele está agindo como se você não tivesse significado nada não quer dizer que você não tenha . .. com se eu nunca tivesse sido importante para ele. com um olhar pensativo. Qualquer coisa! .falei. .É como se eu nunca tivesse significado nada.Os dois . enquanto os três garçons se perfilavam olhando-nos atentamente. me ofereceu uma mordida de seu crêpe.. .Você o quer de volta ou está apenas preocupada com o seu legado? . . .. . fielmente.Só quero saber . O que só poderia significar a coisa que Andy mais detestava . é? Ele ficou parado um instante. para os cantos do restaurante de onde ficaram observando cada uma de nossas garfadas. afinal.. antes de se retirarem..Para mim.. é assim mesmo. .a saber.resmunguei.Você está mudando de assunto . enquanto o Garçom n° 1 colocava talheres limpinhos ao lado de nossos pratos. – Isso aí é provavelmente uma encenação. seguidos por um homem de cabelos escuros e ar preocupado... . sim .começou o homem do terno. calado como estava. . depois assentiu. se quiser mais alguma coisa. .Peço. não sou? . alguém tinha descoberto quem ele era. Eu não dei a mínima.e tomei um gole de vinho para evitar as lágrimas.Monsieur ! .Está tudo bem – falou Andy. – Aquilo não era encenação. Para mim. o Garçom n° 2 fazia chegar pão fresco e manteiga ao centro de nossa mesa e o Garçom n° 3 chegava rapidinho com uma vela acesa.Estou confuso . quando acabava. avistei nosso garçom se aproximando..concluiu o gerente. meu Deus! Eu sou uma chata. . é só pedir. outro nos servia água e um terceiro tirava os farelos de nossa mesa já bastante limpa.Você está. . para indicar um fim violento e absoluto. o nosso e mais dois outros. . .Você alguma vez terminou com alguém e ficou achando que tinha cometido um erro? Andy. . espetando um molusco. – Está tudo do seu agrado? . . está com um gosto meio doméstico.. .cortei o ar com uma das mãos espalmadas.Para você.Ele me esqueceu completamente .Por favor. Só quero saber se eu signifiquei alguma coisa. .falou Andy. . Por cima de seu ombro.Mas como é que ele não quer nem conversar comigo agora? Como é que a coisa pode ser assim tão. . com um avental amarrado por cima do terno. acabava mesmo.falou Andy.disse Andy.falei.disse Andy. num tom enfraquecido. ai. negou com a cabeça e. O gerente deduzi.Não sei se esse é o cogumelo do campo de verdade.Só acho que cometi um erro .O cara adorava você . Andy soltou um suspiro..O que é que eu devo fazer? Ele mastigou. com fervor.

. oh.. – Está tudo bem? Eu me endireitei.Quando foi que eu virei Madame? .. me chamaram de mademoiselle.Não esquente .disse Andy.Está.. sim . entregando-me o último pedacinho de patê.. o que eu já faço de qualquer maneira. .. Ele retomou seus afazeres e eu retornei ao Andy.. meu Deus! – falei. .Pelo amor de Deus! Da última vez que fui a um restaurante francês. até que ninguém agüenta ficar perto delas...Madame! – gritou. e dão para beber sozinhas.Você vai encontrar alguém muito melhor que Bruce. .Não. . e acabam sem amigos. falar com seus animais de estimação..indaguei pesarosa. eu sou sim. fingindo um desmaio em cima do prato de pão. Ele não vai ser vegetariano. .Que desastre! O gerente acudiu rapidamente. . . dando petelecos nos pedacinhos de pão que grudaram mo meu suéter. você vai ficar feliz. eu vou ficar feliz e tudo vai ficar bem.falei. . .Cannie.. Acabei virando uma dessas pessoas horrorosas que só ficam falando dos ex-namorados o tempo todo.

e ficou conhecida logo no inicio da carreira como o patinho feio até que. Tremores. enquanto Julia os tinha a puxá-la na direção do altar. Quando o filme chegou aos Estados Unidos. Fizera tudo o que as jovens estrelas fazem aos vinte. uma discreta cirurgia plástica). dispensado o empresário inglês. a coadjuvante Do drama romântico candidato ao Oscar do ano passado. Pilates e Ponto Z (além disso. com uma mulher que não era Maxi. vinte e poucos anos. sedutoramente envolvida apenas num boá de penas pretas. ela sempre foi magra e uma beldade.OITO Eu tentei. ela já havia despachado os dez quilos. por quem ela se apaixonou em Colocação avançada. popularizado por Julia Roberts e praticado pelas gerações que se seguiram. das maneiras mais públicas que se possa imaginar. E o astro do rock. havia chegado para ficar. lhe comunicou o término do affair. comentara comigo na semana anterior. E filmezinhos normalmente têm agenciazinhas de publicidade. duas semanas depois de eles se conhecerem. Maxi.aquele com quem ela fez meia dúzia de ardentes cenas de amor. E nada disso acontecia discretamente. Mas acabei ficando tão preocupada com a minha carência do Bruce que não conseguia fazer nada direito no trabalho. famosa por seus cabelos cacheados e por ser freqüentemente abandonada. embaixo da manchete "O Apê de Maxi". que foi onde entrou o Roberto. fazendo um filmezinho de entressafra sobre um kibbutz. a pobre Maxi só saía de coração partido. em Tremores . durante uma entrevista a Barbara Walters no As dez pessoas mais fascinantes.. Mas entre Colocação avançada e Tremores. Eu bem que tentei.. ela passara seis semanas em Israel. O assistente de direção. bela e macérrima. por milagre de uma dieta rigorosa. mas havia adquirido dez quilos para o papel que lhe deu fama num filme estrangeiro chamado Colocação avançada. fundado a inevitável empresa de produção (Maxi'd Out. em que fazia o papel de uma neurocirurgiã brilhante que acaba sucumbindo à doença de Parkinson. A bem da verdade. "É impressionante que ela esteja atendendo a imprensa”. tingido o cabelo de castanho-avermelhado. Roberto. conseguiu se transformar num cisne. E Maxi jamais teria feito qualquer publicidade para o filme se não tivesse assinado um contrato antes de dar . por Tremores. dependendo da revista em que você acreditasse. quando a química entre os dois estava tão palpável que só faltava encharcar a pipoca da gente -. dizia-se à boca miúda. a caminho de Nova York. Seu coadjuvante. Maxi Ryder era inglesa. apareceu no Golden Globes trocando chupões com uma das garotas do Baywatch. da Arntrak. Maxi Ryder continuava sendo abandonada. se ligado à agencia mais quente de Hollywood. Entretanto. A Midnight Oil era uma pequena e obscura firma de relações publicas de Nova York -léguas aquém das grandes agências com as quais Maxi costumava lidar. que ela pegou no rebote. o divulgador da Midnight Oil. Soldado dos sete dias não teria chegado às salas de exibição norte-americanas se não fosse pela indicação que Maxi ganhou para o Oscar. foi o nome que escolheu) e aparecido no encarte de mansões dos astros da Vaniry Fair. noutras palavras. se casou em Las Vegas. durante a Guerra dos Sete Dias. tinha vinte e sete ou vinte e nove anos. sentada ao Metroliner. Apesar de todo o seu talento e beleza. que foi se apaixonar por seus coadjuvantes. e ao resto do mundo ao mesmo tempo. em que fazia uma tímida estudante escocesa que tem um caso acaloradíssimo com a diretora de sua escola. Foi o que considerei. uma vez após a outra. e ao encontro de Maxi Ryder.

Maxi Ryder também os tinha contratado. E lá estava eu. Não na vida pessoal. “Então. .Pois é.Nos papéis . nós chamávamos a NVA de "Não Vai Acontecer". . Roberto ficou feliz.falei. da NVA . .disse April. Nós temos algumas perguntas antes de fecharmos. embora Gabby tivesse resmungado coisas do tipo "maravilhas de um sucesso só” e “fogo de palha”. Então. Sendo uma pessoa famosa. A voz de April teria congelado calda de chocolate quente.uma grande tacada. . com brandura.O Roberto.O trabalho dela é como atriz . Robert Downey contratou a NVA depois que desmaiou num quarto alheio sob efeito de heroína. que se viam numa situação desagradável ou ilegal. Então. E Roberto. aquela entrevista pela qual você está torcendo.Está interessada? .Aqui é a April da NVA . a divulgadora pessoal de Maxi entrou na jogada. Claro que estava. para desfrutar de audiência de vinte minutos com ela. . o que Roberto definiu como. aquele perfil que está querendo escrever? "Não Vai Acontecer. . Ou foi como achei que saiu a fala. – Qualquer atenção que receba é somente por conta desse trabalho. e Betsy ficou empolgadíssima como ficam os editores sempre que caem em suas mãos recheados furos de reportagem assim.. contando quantos dias se passaram desde que Bruce e eu nos falamos (dez). de Upper East Side.Tenho uma entrevista marcada com ela para sábado. . da Midnight Oil.disse ela. Eles tinham trazido de uma filmagem na Austrália. Eu fiquei feliz. "um seleto grupo de repórteres". me ligou antes. Da NVA. – Soubemos que você está interessada em conversar com Maxi Ryder.Ela é uma celebridade . . às dez horas da manhã – disse-lhe eu.Nós gostaríamos de confirmar com você – começou a falar April. a duração da conversa em minutos (quatro).April. Courtney Love pediu à NVA para reconstruir sua imagem depois da plástica no nariz. e eles lhe propiciaram uma transição suave de uma deusa grunge desbocada para uma fada da alta costura. e convidaram.. o que significava que concordara em não receber um vintém furado e em divulgar o filme "da maneira que os produtores acharem apropriada”.proferiu a voz do outro lado. pensei comigo mesma. quando o telefone tocou.que essa entrevista só vai se concentrar no trabalho de Maxi. No Examiner. Considero isso o trabalho dela. instalaram-na na cobertura do Regency. . e considerando se deveria marcar uma consulta com um numerologista para ver se o futuro nos reservava algo de bom. . nos seios e no estilo. Era para eles que ligavam as pessoas famosas com menos de quarenta anos.Pode repetir que é você? . com base na badalação de Maxi. abençoado seja seu leal coração. obviamente.perguntou. e desejavam manter toda e qualquer imprensa que não fosse bajuladora e afável a uma distância bem grande. amuada em minha mesa. não é necessário dizer que os produtores viram a chance de um grande fim de semana de lançamento.Em cena. Por exemplo. “Interessada?". foi quem marcou. A NVA é uma das maiores e mais conhecidas firmas de relações públicas de Hollywood. . .No trabalho dela? .

Um cara com uma verruga no queixo. como todas elas.Eu lhe disse. Peguei-a e fui direto para a página de Bruce. dois pêlos espetados nela. meninas negras de trancinha. com firmeza. conforme fora a minha intenção.Assim. turistas japoneses. sem essa! – falei.Concordo. sorriria e concordaria com quaisquer condições ridículas que eles quisessem impor. falaremos sobre o filme.Senhorita? Vai querer comprar? . uma das quais casualmente era a Moxie. Mas não tinha dormido na noite anterior e a tal de April estava apertando todos os botões errados. Cheguei cedo. cinzenta. "As Aventuras Orais de um Homem. É claro que ele não mencionaria isso. O saguão do Regency era imenso. Roberto já marcou a entrevista.Ah. . . de novembro. o tipo de dia em que parece que todo mundo na cidade que tem condições e dinheiro foi para as Bahamas. . ou para a casa de campo em Poconos. em fins de novembro. meninos brancos mal-humorados com cabelo rastafari. E fui me sentar num dos luxuosos sofás do gélido saguão. Soltei um suspiro. Não se fala de vida amorosa. – Toda vez que abro a revista People eu a vejo de saiote com abertura no lado e uns óculos escuros enormes do tipo não-olhe-pra-mim. nem que eu fui a única garota com a qual tentou essa manobra específica.falou April. Duas semanas depois. quando finalmente fui para a entrevista. andando de bicicleta. eu teria deixado passar. dizia a legenda. era uma manhã de sábado chuvosa.Ótimo! Seja o que vocês quiserem. Ele sorriu e acariciou os cachos quando eu passei. Mas não percebi nenhum derretimento no gelo. no início. Secretarias. e revistas em várias línguas. onde comecei a ler: . Meu dia de sorte! Passei os vinte quarteirões da minha caminhada até a cidade tentando não pensar em Bruce e tentando não deixar que o meu cabelo ficasse muito molhado. . . Nem de nada. . A loja de suvenires do hotel. . pensei presunçosamente.Normalmente. então decidi passar o tempo.perguntou a mulher de balcão. todo de mármore. concorda com as condições? . sim. Ele tinha um probleminha com excesso de saliva. eu vou ver o que posso fazer. Nem de saias.cerraria os dentes. o que me permitia apreciar de diferentes ângulos a espinha que surgira na minha cara. escovas de dentes a cinco dólares cada. Foi desse jeito mesmo. Mas falei para um telefone desligado. abençoadamente silencioso e forrado de espelhos." Ha! “Aventuras orais” não eram o forte de Bruce. "Caindo de boca". .Tudo bem . "Uma vez ouvi minha namorada referir-se a mim como um bidê humano”. Foi o que fiz. e uma cabeleira cacheada comprida que lhe chegava quase ao peito. E você vem me dizer que ela quer ser conhecida apenas como atriz? Torci para que April levasse meus comentários na brincadeira. eu li.Então. acrescentando à compra um pacotinho de chiclete de frutas e uma garrafa de água que custou quatro dólares. Num momento de fraqueza encharcada de margarita referi-me a ele como "o bidê humano". oferecia roupões de banho muito mais caros do que o normal.Não pode perguntar sobre a vida amorosa dela .falei. Ele ouviu aquilo? Meu rosto ferveu. e as ruas ficam cheias das pessoas deixadas para trás: entregadores com a pele ruim. E voltei à coluna.

Confrontar-se com um mistério dá medo. Ou talvez fossem apenas os meus nervos." Mas aí me dei conta de que se dissesse o que queria. meus amigos e eu nos escangalhávamos de rir com uma rotina de Sam Kinison. O sexo. Ah. Ensaboa. coxas macias à esquerda e à direita. "Diga-me o que você quer.tive a sensação de solidariedade súbita e absoluta com todos os homens que levantaram o punho ante o lamento de Kinison. este o mesmo pensamento que me veio. repete. barriga e mãos acima. Por que”. Engoli em seco e continuei lendo. usando boina. ela estaria admitindo que. algo mais intimo. "Mulheres!". mas à minha frente um mistério.. O que seria tão difícil? Queríamos saber. Ou talvez fosse a proximidade. Era o nosso repertório. Ela deixara outra pessoa vê-la assim. aprendido sua geografia.. curvas e dobras e ressaltos que aparentemente não tinham semelhança alguma com a pornografia de aerógrafo que eu desde os quinze anos.. quando usava aparelho e as cuequinhas brancas apertadas que minha mãe me comprava. Que outra pessoa havia olhado para esse coração estranho e desconhecido. implorando. não envolvia muito mistério. “Diga-me o que você quer".. e me lembro que a cabeça dela estava muito distante naquele momento. ou Não. ele reclamava. e eu faço. bem Ali. afastou as pernas e se abriu com as pontas dos dedos. Ele gritava e o publico dizia. Foi como olhar para um rosto sem traços. Sem minúcias.. isso é Bom. que ela sabia o que queria. . "Digam o que vocês querem. “Nós Vamos Dizer!”. Deus! Foi como se eu tivesse enfiado um espelho entre as pernas e transmitido a imagem para o mudo inteiro. nem bagunça ou confusão. até onde nos levara a experiência.Caindo de Boca Quando eu tinha quinze anos e era virgem. “por que é tão Difícil dizer Sim. enxágua.. dizia. acercando o palco como um rotundo animalzinho enjaulado. sussurrei-lhe. Digamos O Que Vocês Querem!. Quando C. como eu a . E embora eu soubesse que ela tivera outros namorados.. meu. isso era uma coisa que tinha um quê de diferente. deixando-se cair num joelho só.. desvendado seus segredos. Aquilo não. Cabelo. bem... Nós riamos sem saber exatamente o que fazia com que aquilo fosse tão histérico. jogando a cabeleira por cima do ombro.

da maneira exatamente oposta àquela que ela queria. levá-la ao paraíso. rósea qual uma concha. precisamos de provas concretas (ou líquidas). "E como é que nós ficamos sabendo?" Pois é. e fiz um esforço para me levantar. "Mas eu não sei. Talvez telefonasse para ele mais tarde. collants pretos e botas pretas. Ah. onde uma horda de agentes de publicidade pálidas feito larvas. para a suíte de recepção. Eu gostaria de entender. e eu tentei também. Ela demonstrou com a ponta dos dedos. Aquele Que Já Se Foi. achei mais fácil me ater às coisas que eu sabia fazer melhor. fala sério! E ela tentou. E eu tentei. Gostaria de ter entendido. fumavam sentadas nos sofás. seu Jacques Cousteau .Muito bem. exatamente? E quando foi que ele escreveu isso? E se ainda sentia saudade de mim. também. expurgar todo e qualquer vestígio de lembrança de Aquele Que Já Se Foi. cara.Meu nome é Cannie Shapiro. como? Nós somos homens. resfoleguei. Talvez ainda tivéssemos uma chance. ora. Mas a língua não é como o dedo. ele escreveu. por que não telefonava? Pensei que talvez houvesse uma esperança. Peguei o elevador para o vigésimo andar. e em poucas horas obtenho a verdade verdadeira: não temos a menor idéia. quando se deitou aquela primeira vez. precisamos que expliquem o mistério. eles começam soltando uma tremenda gargalhada e juram que depois precisam subir ao teto para tirar a mulher de lá. sabendo à rica água do mar. usando trajes camuflados . com palavras. Ora. sou do Philadelphia Examiner – falei para uma que estava sentada embaixo de um pôster da Maxi Ryder em tamanho real. Meu cavanhaque a enlouquecia. Ai. Quando fechava os olhos ainda me via. precisamos de diagramas e roteiros. coisas que jamais verei. Será que algum de nós sabe o que está fazendo? Algum homem quando pergunto aos meus amigos. E quando fecho os olhos. E quando a ouvi ao telefone se referindo a mim como O Bidê Humano. . todas usando variações de calças stretch pretas.estava vendo. eu pago uma rodada de cerveja. Coração estranho e desconhecido. diz George. e mais outra. enrodilhada qual as asas de um passarinho. "Ela diz que está gozando". o que isso quer dizer. cheia de minúsculas vidas.” "Não é nada fácil". por ser homem e ainda por cima antigo ouvinte de Sam Kinison. fazê-la ronronar como uma gatinha saciada. diz Eric. Precisamos de confiabilidade. . muito menos entenderei. e não deixo os copos se esvaziarem. E eu. Nenhum de nós sabe o que está fazendo ali. ainda sou capaz de vê-la. com carícias e gemidos e suspiros.resmunguei.

.falei.mas não há nada que eu possa fazer. . eu estou aqui..Veja bem ..falei baixinho. hum.Ora. o que você está fazendo aqui? . Não há nadinha que possamos fazer?. . eu assisti a todos os filmes dela. – Bem. Lá estava meu nome: Candace Shapiro.percebi que ele começava a cambalear. Foi justamente quando Roberto chegou. . gesticulou com a boca para mim. quando o celular no cinto dele tocou. Riscado por uma linha preta. hum. Espiei as páginas. dar um tempo nas entrevistas para a imprensa. que já se encaminhava para o corredor.Ela disse que eles não ficaram muito satisfeitos quando você. uma especialista em Maxi... . Eu lhe ofereci o melhor sorriso que pude. . concordou com as condições. pensei com meus botões. Faça alguma coisa. Nós reservamos o espaço. Meu sorriso mais charmoso.O Roberto está? .April? . Roberto? Eu concordei com todas as condições dela. Todos maus sinais.. mas não era lá muito esperto.Cannie. Minha voz começou a subir. balançando a mãozinha na direção da porta. por assim dizer. . Ótimo! .. eu estava pretendendo conversar com ela. . eu sinto muito.Ele saiu um minutinho .Roberto . .Minha nossa! – disse ele – Ninguém telefonou para você? . além de ficar passando o apoio do corpo de um pé para o outro. . só para a Times e para a USA 7Oday.Posso falar com ela? – sussurrei. e eu ficaria imensamente grata. de verdade.encolhi os ombros. “NVA”. se nós conseguíssemos pelo menos uns quinze minutinhos com ela. .Que é isso. mas Roberto já estava embainhando o telefone.. Roberto era uma doçura. – Pelo que me consta. . Roberto começou a esfregar as mãos.falei -....e empunhando uma Uzi. Sou. . aparentemente por ter exaurido seu vocabulário.me esforçando para sorrir.disse ele.Maxi resolveu. Ninguém me ligou e eu me despenquei até aqui num sábado. A menina cor de larva folheou languidamente algumas páginas cheias de nomes. .Você é quem tem de me dizer . inclinando-me para perto dele -.disse. essa! Ninguém me falou . Pois não tem nada que sentir.. Agora. seu idiota..E disse quando voltaria? Ela deu de ombros. que espero ter sido sublinhado pela minha estampa de quem trabalha num jornal grande e importante. As criaturas larvais do sofá começaram a se mostrar algo alarmadas.disse ela.. que é o meu dia de folga. Bem como Roberto.. tentando ler de cabeça para baixo.Cannie – disse -. grossa.A respeito do quê? .. April. até os que foram feitos direto para vídeo.. A essa altura Roberto estava esfregando as mãos e mordendo o lábio ao mesmo tempo. Estamos contando com o artigo. Betsy está esperando um artigo. eu deveria estar entrevistando Maxi Ryder. . dizia o comentário ao lado. .Não estou vendo você aqui ..

disse ela. mas conforme contei ao Roberto. sem dúvida alguma.Correto – disse ela. .Isso era responsabilidade do Roberto .com um único olhar de repúdio. . como se fosse um lugar do qual uma interiorana como eu jamais tivesse ouvido falar. . perscrutando-o com o olhar. . . me esforçando para manter a voz calma.Esta é Candace .minha espinha se expandindo. . Percebi que estava. . E foi quando surgiu uma mulherzinha com botas de couro preto até os joelhos.Entenda. Ela me olhou por inteiro .. abrindo subitamente um bloquinho de anotações. batendo com os saltos altos pelo assoalho de mármore do imenso corredor. conforme April bem deveria saber. em tom agradável.repetiu. E ninguém se deu o trabalho de me informar que a entrevista tinha sido cancelada. me tratar com tanta grosseria e não dar descaradamente a mínima para isso! . .000 aos domingos. Havia histórias o tempo todo.falou ele.E .minha espinha.Aceito as desculpas . -Eu tinha uma entrevista marcada para às duas horas da tarde. bastava ter uma passagem gratuita para Nova York nas mãos que eu arranjava algo para fazer por lá. April.prosseguiu.Algum problema? .Desculpe! .falei.falei. Que ousadia dessa gente. . E se dirigiu ao Roberto. O que não era uma verdade absoluta em termos técnicos. Ela me fitou. Roberto fez que não com a cabeça.Não havia até alguns minutos atrás . mas ele não iria cutucar a onça com vara curta.disse. que foi para quando planejamos o artigo .. .Somos a quarta maior cidade da costa leste. .falei -. de verdade .Algum problema? . eu sinto muito.já marcamos uma entrevista por telefone com a sua chefe. minha raiva. com um excelente cirurgião plástico.Resolvemos limitar nossas entrevistas impressas aos jornais de grande circulação. Era. Passaria por vinte e oito anos bem maduros.O Examiner tem uma circulação de 700.Ela já está atrasada e ainda vai tomar um avião para chegar ao set de filmagem hoje à tarde. – Roberto – falei. agora temos um buraco no nosso jornal de domingo e eu pedi o meu dia de folga. apontando fragilmente para mim. Isso era obviamente uma novidade para Roberto. e um ar determinado sem eu rosto liso e cuidadosamente maquiado. não posso voltar sem um artigo. esticando a mão na direção do celular dele. meu vestido preto e as sandálias do verão passado. um walkie-talkie na outra. Roberto está me dizendo que foi cancelada. Mas eu estava furiosa. .reivindiquei. e nós simplesmente enfiaríamos outro artigo no buraco. Ele estava cambaleando.Não há um jeito de falar com ela durante apenas uns minutos? Já que estou aqui? O tom de April estava ficando notavelmente menos agradável. ouvindo minha voz alquebrar. . muito menos na moda do que qualquer larva do sofá . – Do Examiner. muitíssimo mesmo. . Na Austrália .murmurou para mim. Cannie. ou quarenta e cinco. ante o olhar dela.senti.enfatizou. Havia um celular numa das mãos. imaginando o desdém no sorriso de Gabby quando eu retomasse ao escritório de mãos vazias -.. . Eu senti . E quanto ao meu dia de folga perdido.Eu quero falar com a April . .

Fiquei estupefata.com alguém que viu todos os filmes de Maxi e dedicou um bom tempo a se preparar para a tarefa.Será que vou ter de chamar os seguranças? – perguntou ela.Sinto muito – disse ela. do que uma coisa feita por telefone.Estou aqui.disse-lhe. tremendo de verdade.Minha chefe? Seria inconcebível Betsy fazer uma coisa dessas.falei. .O que está muito bem . mas será que um dos seus lacaios ou criados ou estagiários não poderia ter feito a gentileza de me ligar antes que eu me despencasse até aqui? . como se nós duas estivéssemos jogando uma partida de tênis muito rápida.repetiu ela. por cima do ombro.Oh. lançando-me um olhar final. Retrocedi para o interior da suíte de recepção e me deixei cair sentada numa poltrona perto da janela. e cruzei os braços. mas foi isso que acertamos. Não estamos nem aí. Ryder não precisa do seu tipo de atenção.Pois não ligou . farei a entrevista que me foi prometida . Você foi sarcástica comigo no telefone. mas a Srta. Ryder termine o encontro com quem quer que seja agora. . e tenho certeza de que você concordaria comigo que seria melhor para todos nós uma entrevista pessoalmente ..Chamem os seguranças .Não vejo por quê . a propósito. Olhou para mim por cima do ombro. suplicante. Empate. afinal. terei de escrever um artigo de duas colunas sobre o que aconteceu aqui comigo. . pelo que seria a última vez -. as larvas. todas de botas pretas. para lá de inconcebível.E você – disse escreva o que quiser. Ryder não vai vê-la. com os olhos ricocheteando de um lado para o outro entre mim e ela. . . . . Ela ficou ali me fitando. E assim se foram: Roberto.Gabby não é minha chefe! . uma repórter sarcástica! Aposto que você nunca viu uma dessas antes. e deu meia volta. . Eu cravei os olhos em April. .Vou ficar sentada aqui até que a Srta. .falou April.e a Sra. e qualquer chance que eu pudesse ter de me encontrar com Maxi Ryder. .Sobrenome interessante! . e não me falar. E eu a fitando de volta.Sinto muito . e caso um minutinho ou dois para mim antes de voltar correndo para a Austrália..O Roberto deveria ter feito isso .E um daqueles especiais de Ellis Island. com doçura -. . ..Com Gabby Gardiner – concluiu April. se acontecer da Srta.ainda que rapidinha . com os olhos arregalados. .... . Roberto se achegou a ela.. . April ficou parada no corredor um instante.disse ela. April. desesperado. E. sem parecer nem um pouquinho sentida -.cerrei os punhos para que ela não visse como eu estava tremendo e joguei minha cartada final. Roberto se recostou na parede. . . Ryder não ter uns minutinhos para mim – falei.explodi -.Impossível! .falei. – Claro.falei. As larvas ficaram enfileiradas.Quer saber de uma coisa? . Terei prazer em esperar. com os olhos indo de um lado para o outro. qual é o seu sobrenome? April arregalou os olhos para mim.falou April afinal.

Eu sou do Philadelphia Examiner . e soltou uma risadinha nervosa. .Que Maxi Ryder mais cretina! .Mas acho que a culpa não é sua. Foi a primeira coisa em que consegui pensar. . educada. de braços cruzados. essa April! . sabe. novamente. Foi só aí que deixei vir o choro. esperando por suas respostas. aparentemente mais luminosos e brilhantes do que o padrão do cabelo humano foi feito para ser.Hum? . passei pela porta dourada onde se lia “Damas” em letras caprichadas. e quase sempre usar O banheiro sem ser incomodado.. e mesmo toalhas de verdade para se limpar as lagrimas e secar as mãos. enquanto eu a olhava. . – Então. com seus olhos azuis do tamanho de um pires. pegando duas toalhas bem enroladinhas no meio do caminho. Primeiro a April.disse-lhe. . . As vezes.Eu quero uma explicação. a pele cremosa e levemente sardenta.Mas que danada. que a entrevista havia sido cancelada e remarcada com uma mulher do meu escritório que é. mas me inclinei para a frente e destranquei a porta. Em termos gerais. Eu quase afundei dentro do vaso.soltei um suspiro. . . . Um rosto me espiava de cima da divisória do cubículo. .xinguei. . com todos os apetrechos.Vai disparar os alarmes. Maxi estava ali parada. Sabe.Por quê? Olhei para cima. A sua Gestapo me falou. têm até um sofá para você desabar em cima. tirou uma tragada considerável e soltou a baforada para o teto. na verdade. os cachos castanho-avermelhados. – Ela nem me falou nada. banheiros de hotéis são lugares excelente para se ter uma crise nervosa.disse ela. Ela estava com um cigarro fino na mãozinha de veias azuladas e.Não fume aqui dentro .Estou me escondendo . Ela estava com uma calça boca-de-sino e uma . até do hotel mais sofisticado. .falou Maxi. e bati a porta.. para a paz.Por quê? . sua voz era baixinha. o silêncio e a solidão.disse Maxi Ryder. . Era tão adorável em pessoa quanto no telão.Fiquei sentada ali até que todos desapareceram dentro do elevador. entrei no elevador. me desculpe. Percorri o corredor cambaleando.Não me surpreende. Eu a estou xingando porque você me deu um bolo. Sem falar da nossa sessão de domingo .Abra . – De vomitar! – foi ao que cheguei. O povo na rua não se dá conta de que é possível entrar discretamente pelo saguão.O quê? Dois pezinhos calçados com tênis de passeio bateram suavemente contra o piso de mármore e vieram se postar ao lado da porta do meu cubículo.Você está me xingando porque estou fumando? . então. Os hóspedes normalmente usam os banheiros de seus quartos. Eu não deveria tê-la xingado. .Não. sentando-me e comprimindo os punhos contra os olhos.Da April!. Em pessoa.falou Maxi Ryder. batendo com os dedos à porta. isso me arruinou o dia.disse uma voz conhecida de algum lugar acima da minha cabeça . . . E esses banheiros costumam ser espaçosos e luxuosos.comecei. e agora essa! Relutei. . – engasguei. depois de eu ter me despencado até aqui. desde secador de cabelos até tampões. – Vim para entrevistá-la. e me dirigi direto para o compartimento dos deficientes físicos.

. já – falei. Porque acho que por melhores que tenham sido os bons tempos. juntei-me a ela. Os lábios cheios tinham batom escarlate. . por não ser uma magra. Ficamos ali sentadas lado a lado durante um instante.Candace Shapiro. Gostaria de nem tê-lo conhecido.camiseta rosa de gola rulê. Entreguei-lhe uma das toalhas enroladas que tinha pegado na entrada. .. . . .Você acredita nisso? .Você sabe. -Ah .É isso mesmo . Eu sei o que você quer dizer. Eu gostaria de nunca tê-lo amado. Sei exatamente o que você está sentindo.Mas. Depois de um momento de hesitação. e dói tirar do lugar. não me diga que você não sabe! Todo mundo sabe! A Entertainment Weekly fez . . . Como a maioria das jovens estrelas que conheci. . .comecei. e acho que nem ela acredita. . O penteado era organizadamente desarrumado. desses que o cabeleireiro leva meia hora para fazer. Maxi deixou-se cair no chão do banheiro e encostou o rosto no mármore frio da parede.Eu sou Maxi Ryder. e respirou tão profundamente que estremeceu. com a voz incerta.Para falar a verdade.Exatamente isso. . Ela segurou e depois olhou para mim. sombra e rímel cuidadosamente aplicados. . .falou ela.Eu sei que isso parece. tomada por todo aquele absurdo. .disse ela.Você já ficou de coração partido alguma vez? – perguntou.perguntei.Para falar a verdade. . Quis dizer o nome dele? Ela fez uma careta horrível. Não. Dava quase para ver os ossos dos punhos e antebraços. e por baixo deles escorreram lagrimas. o traçado azulado das veias no pescoço.falou ela. eu não sei.falei.E o nome dele? .Não.Sinto muito pela entrevista ..perguntou ela.É insuportável. com minúsculos e brilhantes grampos borboleta.Minha mãe sempre diz que é melhor ter amado e perdido do que não ter amado de jeito algum . e pela belíssima abertura do artigo que aquilo daria: Maxi Ryder. . Os olhos. Cílios impossivelmente compridos pousaram sobre a pálida e sardenta maçã de seu rosto. Cannie.falou ela. E você? . E o rosto estava encharcado de lágrimas.repeti.Não foi culpa sua . o que a traz a estas paragens? Você não tem o seu próprio banheiro noutro lugar qualquer? . mas logo caiu em trêmulo arco carmim. Minha casa está cheia das coisas que ele me deu .Eu sei disso. Rice e bem-sucedida estrela de cinema. . Pensei que aquilo seria um teste. . Ela fechou os olhos. e ela assentiu com tanto vigor que os cachos balançaram. uma das jovens atrizes mais aclamadas de sua geração está chorando no chão do banheiro. Um cantinho de sua boca deu uma puxada para cima.Ah. não vale a pena estar sentindo isso. Só sei pensar naquilo um minutinho.Não. .E dói só de olhar.Qual é o seu nome? . era magra a ponto do irreal.Bruce.

. Ela me deu um soco no braço.. Bebida.Por causa dos paparazzi? .falou. também não sabia andar de bicicleta. Enquanto eu. drogas.Kevin . havia mais de um candidato.Comecei fugindo para a minha ilha particular com o Brad Pitt e comprando umas fazendas de criação de lhamas na Nova Inglaterra para esquecer a dor. . de ducha. estaria com o rosto todo manchado. ou fico morando lá um tempo. – Você faz day-trade? Ela balançou a cabeça. mesmo depois de tentar de tudo. O punho cerrado me deu a impressão de uma lufada de ar. Que seria Kevin Britton. Mas que injustiça.O Kevin que eu não consigo esquecer..sussurrou ela. . Quem dera ele tivesse me dado uma dica de que iria me largar! Eu teria colocado todas as ações dele no Planet Hollywood de tal maneira que ele precisaria fazer uns especiais nos programas de auditório da WB só para conseguir pagar o aluguel. se mexendo como que por conta própria.coloquei uma das mãos sobre a testa. . Banhos de banheira. em tom melancólico. É porque eu não sei andar.falou Maxi.E você faz o quê? . Com diagramas e tudo! .Bem.. afetando uma dignidade mundana exaurida. mas não me pareceu prudente comentar isso. pensei! . Compro. Caramba! De repente. Escolho ações e procuro oportunidades de investimento – ela se levantou e se alongou. . .Fala sério! Talvez seja uma coisa que eu ainda não tenha pensado. o nariz escorrendo.Passeios de bicicleta eu não posso .Provavelmente mais um monte de coisas que de fato não funcionam. seu coadjuvante em Tremores. provave1mente..Gerencio meu dinheiro.. .Ainda o Kevin? -Ainda o Kevin. . entristecida. . horrível mesmo – olhei para ela...O que você faz? Eu sabia o que ela estava me perguntando. meu Deus! Isso não é horrível? – perguntou ela. . com as mãos na cintura inexistente. provavelmente o mesmo tipo de coisa que você . .Eu gerenciava e dinheiro do Kevin. sabe.Ah. também . buscando mais um cigarro.. Meu respeito estava virando admiração.Isso. ..Ai. Com o rosto emoldurado pelo mármore do banheiro.além do mais. – minha voz se calou. você....Não. .ela soltou um suspiro. Senti os dedos procurando a caneta e o bloco. meu ex-namorado. .. estava pronta para tirar um dose.puxei do fundo do baú o vocabulário certo. .Não. Eu não tenho tempo para ficar o dia inteiro grudada no computador..Não sabe? Bruce. outros homens. é que eu fui explicitamente proibida de mencionar isso . . mando a turma reformar e vendo com lucro. E o dos meus pais. sempre o Kevin.. – Compro imóveis.um artigo completo. de imediato. . Passei a considerar Maxi com renovado respeito.perguntei. passeios de bicicleta. .falou.A maneira como até as coisas mais disparatadas fazem lembrar justamente a pessoa que a gente está tentando esquecer? É.Casas? . se estiver entre um filme e outro. . me senti tão inocente. . .Então.Invisto . . trabalho.

..disse ela. Maxi mostrou-se exasperada. mas quem sabe será que nós poderíamos conversar durante alguns minutos? Para eu poder escrever o meu artigo? . . é sério.. . em geral. Disse que precisava dar uma fumadinha. por exemplo. eles planejam isso tudo para você? .. Ora.Ei . vou construir uma fortaleza numa ilha... Foi por isso que eu consegui escapar da April. ou Bem Affleck. . . quase com alegria. Tudo mentira . . olhou para si mesma e tirou uma profunda tragada do cigarro.Mentira. só que eu não posso jantar. mas não pára aí..Não foi isso .disse . nunca posso ser fotografada com alguma coisa na boca. Você está brincando – e ela sorriu para mim.. elas são maiores do que você. April é uma mentirosa. ah. só lá pelas tantas da madrugada.chamei-lhe a atenção . é que vou poder dormir. Ela soltou um suspiro. e vou deixar os cabelos brancos aparecerem e comer todo o creme do mundo. dando de ombros.Maxi como magnata do ramo imobiliário era uma coisa que eu não tinha lido em nenhum dos perfis que vasculhei.Às vezes.. devo ir para um lugar chamado Mooma. . e só então. . porque. – Hoje..Você leu isso? .que você contou à Mirabella. enquanto giro o sutiã acima da cabeça. Depois eu tenho de ser vista dançando num bar com Hog no nome.Nem isso! Campanha do câncer. Daria um furo e tanto! .Uau! Quer dizer que. . ..Bem. ou com Matt. .É isso aí. e alguém em algum restaurante que April fechou para jantar. com fosso e cercas eletrificadas.será que eu sei que me avisaram que você estava ocupada.Quando chegar aos quarenta .e fumar. e olhou à volta como se dando conta naquele instante de que estacamos no banheiro.eu juro que vou largar isso tudo. sabe.Li tudo sobre você .e tomar uns drinques com Matt Damon. até crescerem catorze papadas embaixo do meu queixo. . .corrigi. é claro. .Eu só vou amanhã.. Dançar lá até altíssima madrugada.. me esqueço de como são as pessoas.falei... ou basicamente de forma alguma que sugira que eu faça alguma outra coisa com a boca além de beijar homens. E nós temos de ficar de segredinhos e namoricos.. nem com a boca aberta.Não diga . – Vamos sair daqui. Isso depois de fazer um topless e subir no balcão para ficar dançando lá no alto. ..Claro – falou Maxi. Vamos? .Não. Ou talvez os dois. hum. entendi. Ela ergueu uma sobrancelha apenas.contei.Então..Ah. .Hogs and Heifers? .Moomba . você quer mesmo dispensar o jantar e os drinques com Bem. .Você não tem de pegar o avião para a Austrália? Foi o que April disse. Deus que me livre. Você disse que queria estrear um filme de qualidade por ano e criar seus filhos numa casa de fazenda no interior.arrisquei-me ..

você não está perdendo muita coisa.adivinhou Maxi. . triste. .Está vendo? . Tandoor. que enroscou na mão e começou a desenroscar fazendo-o rodopiar em torno da cabeça.disse.E também é de graça.Você falou como quem nunca ficou sozinha em casa numa noite de sexta-feira. e assentindo. E ficava assistindo o Iron Chef. até que fiquei de olhos abertos o tempo suficiente para enxergar uma mulher tocando uma harpa de verdade a um canto. falando dos fracassos da minha vida amorosa. Afinal.O que é isso? .concluí. tentei me lembrar.Eu também.. cada uma facilmente mais grossa do que o meu edredom. onze da noite. Lá estava: quatros horas da tarde. É um programa de televisão que tem um milionário que gosta de viver isolado c tem três chef. para algumas semanas. Mais barato do que alugar uma fita... Hogs and Heifers. e metade das vezes é uma coisa viva. dormiria o dia inteiro. enquanto balançava as cadeiras.disse-lhe.É engraçado . Talvez agisse empolgada e simpática assim. sempre que conhecia uma pessoa nova. .Bem. . . Pode acreditar em mim.Espere até eles começarem com as duchas e as massagens com sal – ela fechou os olhos. Maxi e eu saímos às escondidas pela porta dos fundo do hotel e pegamos um táxi para o spa. .Os Iron Chefs . . E toda semana eles fazem uma batalha culinária com um chef desafiante.disse ela. eu estou quase sempre. Maxi fez cara de quem não conhecia. – Só quero saber de dormir.. como lulas ou enguias gigantes. Enfiou a mão noutro bolso e tirou um minúsculo sutiã preto de renda. na verdade. numa paródia de rebolado. – Estou tão cansada – murmurou. Moomba.Ela tirou um pedaço de papel amassado do bolso. Se eu pudesse. .Eles até me fazem ensaiar. Tocava uma música tão tranqüila de fundo que eu pensei que fosse um CD..Cannie . ao lado de uma das jovens estrelas de cinema mais aclamadas da minha geração.Isso. . Maxi estava sorrindo. ora. onde a recepcionista nos informou com grande antipatia que as reservas estavam lotadas para o dia inteiro. Maxi Ryder me abriu um largo sorriso. e parecia que não podia mais esperar para assistir o primeiro episódio. quer saber o que eu estou mesmo a fim de fazer? E foi assim que acabei no Bliss Spa. jogando as ancas para os lados.Eu nunca estou em casa sexta e sábado . até legal. e depois se esquecia da existência da pessoa tão logo começasse um filme novo. . . nuinha em pêlo. enquanto um homem chamado Ricardo esfregava lama verde ativa nas minhas costas.. meio oculta por uma barreira de cortinas de renda. encenar era o trabalho dela. isso é uma delicia! . sete da noite. talvez pela quinta vez. Ou talvez estivesse apenas encenando. . .Ah. Gravei o de ontem e vou assistir quando chegar em casa hoje.falou -. até que Maxi tirou os óculos escuros e fez um contato significativo olho-a-olho durante três segundos e o serviço melhorou coisa de três mil por cento. Maxi assentiu. E era mesmo. . ai o milionário excêntrico dá um ingrediente-tema que eles precisam usar no prato que vão cozinhar. A cama estava forrada por meia dúzia de toalhas.

falei. Todos os tamanhos quarenta estavam pela metade do preço. eu caio no sono.Você pode vir brincar com Nifkin à hora que quiser .Não sei. . . . .Onde estão os meus sapatos? . Depois iria à Steve Madden.Vamos ver você mesma primeiro.O que mais você quer fazer? Maxi ponderou. e tirou as rodelas de pepino dos olhos. . mas depois acordo. ..olhou para si mesma.Eu não consigo dormir ... mas você é vegetariana. as pessoas não vão reconhecê-la? E a April? olhei-a. com grandiloqüência. sabe.. .Maxi se sentou.. com uma coisa grudenta puxando-lhe o cabelo para três... Maxi tornou a deitar-se. . . sim.Que diferença faz? . tenho recursos ilimitados e certas características de reconhecimento.. compraria seis presilhas para o cabelo por um dólar no mercado das pulgas em Columbus.Eu sou eu ou sou você nessa hipótese? . . Muitas viagens. de forma que vazia a cama não está. . Mas logo raciocinei.Deite-se ..Mas. Uma vez eu entrei lá e eles estavam fazendo a Liquidação "Sem Essa de Pé Grande". em tom de sonho. na verdade eu tenho um cachorrinho.Maravilha! Vamos nessa! . . – Ah.perguntei. . o que vem agora? . Já faz tanto tempo. e o Virgil's? . não é? . para eu poder escrever o meu artigo e a minha editora não me matar. em Chelsea.e..Você está mandando toda a sua programação para o espaço? . não quero pressioná-la nem nada. sabendo que era altamente improvável que Maxi viesse tomar um ice coffee comigo depois dar um passeio no parque de cães mais cheio de cocô do sul da Filadélfia.Hum! Bem.Eu só quero um dia e uma noite para viver como uma pessoa normal.. .Mas.falei.falei. nua.falou Maxi. .Só para constar nos livros .Quero dizer. . quando Ricardo me virou de frente e começou a esfregar a minha barriga.O que é Steve Madden? .. a cama está tão vazia. – Pode perguntar o que quiser.Churrasco . mas se pudéssemos conversar sobre o seu filme durante um instantinho. para ver o que encontraria em liquidação. eu adoraria um cachorro! Mas não posso. é claro – falou Maxi..Bem.Ah. e uns biscoitinhos com manteiga de bordo. . Acho que foi o dia mais feliz da minha vida.Você acha que dá para ir? Quero dizer. eu iria ao balcão de descontos da Times Square e tentaria conseguir um ingresso pela metade do preço para algum espetáculo da Broadway hoje à noite. ou sou apenas eu mesma? .E.disse ela.Mas que legal! .Bem. . soltando uma risada.Onde estão as minhas roupas? . Não me pareceu o momento adequado para dizer que uma pessoa normal dificilmente jogaria mil dólares numa única ida a um spa.Eu adoro costelas.contei-lhe.disse Maxi. com ar tímido.Acho que sim . .Eles têm umas costeletas e um frango frito. E passaria por todas as galerias. que isto também era altamente improvável. o que você faria se tivesse um dia inteiro para passar em Nova York? .É uma loja de sapatos maravilhosa. . ereta. coberta de lama. . jantaria no Virgil's e iria ao espetáculo. em termos de calçados. .

.. fomos recobertas de sal grosso. . sim. – Eu sei que se me chamarem para fazer uma mulher desprezada.. .Nunca na cara dele . numa atitude de limpeza interna.perguntou ela. – Normalmente. . Depois. a sua angústia.Mas ser atriz é isso: você pega a sua vida. Ficamos em silêncio.Você não precisa se desculpar .Ah vai nessa!. .disse ela. E não é nada divertido. . nos vestiram com roupões quentinho.Falou .. . ou um corte de carne particularmente caro.Meu peso.. Maxi se sentou na cama novamente.Foi você que o chamou de bidê humano? – perguntou. as únicas pessoas que sabiam que C. e acabei lendo o que não leio em três meses. . mas era um vôo demorado.Tenho certeza de que muita gente leu. .Uau! – Maxi ficou olhando para mim. .Acho que foi pior para você do que para mim – ponderei. .falei.As pessoas que conheciam você .. O seu ex escreve sobre você? Soltei um suspiro sofrido. Mas com o artigo.Maxi falou.disse eu. . senti meu rosto enrubescer. Eu fui dispensada num especial da Barbara Walters .Eu vi.falei. meio que se desculpando. .disse Maxi. – Quero dizer que quando Kevin falou em terminar um relacionamento longo.O quê? .Mais tarde . era eu eram. -Tudo serve a um propósito .Não quero me aproveitar.Eu sei . todos que estavam assistindo sabiam que ele se referiu a você. e a coloca para trabalhar a seu favor .falei.Li no avião – disse ela. . nos esfregaram. enquanto deixávamos secar nossas máscaras de argila.Você vai mesmo querer falar do amor perdido? E que esse era o ponto sobre o qual April fez a maior questão. enquanto o pessoal do spa retirava a lama com meia dúzia de mangueiras. . ..perguntou Maxi. isso. estarei pronta. Só queria que os repórteres lhe fizessem perguntas sobre o seu trabalho. não para tentar adivinhar o quanto eu peso. .Bem. .Era eu..disse..Falou sobre coisas pessoais? . “Maxi na Moxie” Foi uma besteirada.Eu saí na Moxie no último outono.. . tornaram a nos dar uma ducha. Senti-me como um animalzinhos de estimação exótico e mimado. refletindo sobre seu amor perdido " Apoiei-me em cima do cotovelo para poder olhar para ela. . poderia ter sido pior. . coberta de essências aromáticas.ela respirou profundamente.falei. ou se era de fato mais do que Bruce. para começar. e nos mandaram para uma facial. . e começou a escrever meu artigo. dispensada publicamente num programa de entrevistas. não leio a Moxie. Mesmo debaixo daquela camada de lama.Sou o tópico favorito dele. cheio de tédio... com uma risadinha alegre. Ela tornou a se deitar. . "Maxi Ryder está nua num spa do centro da cidade.“Amando uma Mulher Avantajada”? Era você? Droga! Será que todo mundo tinha lido aquela porcaria? . . digamos.Você acha isso ruim? Meu ex-namorado escreve a coluna de sexo para homens na Moxie.É mesmo? . espero.

e possivelmente muitos anos mais.falou. que arranjei de tanto cutucar a ferida da catapora aos seis anos de idade. não somos? . Por aí .Sabe o que eu acho? .Você está presa a um corpo que acha que os homens não querem. mas até isso não estava pesando tanto no momento. por algum adorador diferente. Maxi levantou um dedinho e instantaneamente havia mais quatro doses de tequila na nossa frente. eu tinha a sensação de estar envolta numa nuvem deliciosa. quilômetros acima do mundo. Tínhamos acabado. com base no pensamento que mesmo se nos sentíssemos gordas. tanto que não estava nem aí para o que Charles & Cia. no Hogs and Heifers. costelas. distante de telefones que não tocam.É um pouco mais do que teoria a essas alturas – falei.soltei um suspiro. como a cicatriz logo acima do meu umbigo.O quê? .perguntou-me. Almoçamos tarde no Virgil’s. Depois. por um instante. e o carinho das mãos de Charles me massageando com óleo de amêndoas.Eu tenho medo de começar a comer as coisas que quero e deixar de ter o corpo que tenho.. Acabei gastando muito mais do que a minha intenção de gastar com sapatos e maquiagem durante o próximo ano inteiro. cada qual paga. de que ninguém vá me pagar. Distante do meu peso. Pior do que isso . fazendo caretas por causa da ardência. Apenas mais uma parte de mim. aquilo soou muito profundo. frango na brasa.Acho que nós temos muita coisa em comum. sem dúvida. ora. . mas Maxi não estava disposta a interromper seu monólogo. e ambas entornamos a tequila. Eu só sabia que estava lá. Maxi fez uma extravagância com tudo que tinha brilho). Ela pegou um copo e me olhou.. Retribuí-lhe o aperto e disse: . Com toda a alga marinha. com o rosto iluminado. Essa coisa do corpo – disse. enquanto me esfregam e besuntavam e giravam para lá e para cá.Somos amigas.. . mas pensei. Maxi pegou minha mão. e tomou um golinho da cerveja que alguém tinha mandado servir. como o meu nariz. que ela provavelmente não estava sendo sincera . através da fumaça do cigarro -.Somos comandadas por nossos corpos . .declarou. Para mim.que isso era a sua versão das breves amizades que duram apenas as seis semanas de gravação de um filmezinho.. de colegas invejosos e divulgadores presunçosos. Fiz o mesmo. onde compramos toda sorte de cosméticos (eu me ative às sombras de tonalidade areia e cremes para disfarçar a pele. .repetiu. Talvez porque eu já estivesse muito bêbada. passamos ao Beauty Bar. afinal.Hein? .É. . Franzi a testa para ela. Só havia eu e a tristeza. cada uma comprou meia dúzia de pares de sapatos na Steve Madden.disse. Também estou . doce de banana com queijo ralado. Em seguida.Sabe o que eu acho? . estariam pensando. Mas não liguei. o sal e a música New Age.. quando será a próxima vez que vou sair para fazer compras com uma estrela de cinema? . Somos amigas.Somos. E eu pensei. sim. de que ninguém mais vá me querer. . . nossos pés não se sentiriam.

.falou Maxi. enquanto esperávamos.instou Maxi. – Quero esquecer Bruce. mas extremamente acalorado.Eu sei que não deveria sentir o que sinto com relação à minha aparência. é parar de pensar em nós mesmas como corpos e começar a pensar em nós mesmas como gente. . O que nós precisamos realmente – disse ela. Eu tomei mais um trago. . Era um efeito colateral comum quando eu começava a exagerar nas libações.disse ela .soltei um suspiro. De repente.Mas você não está vendo? Estamos ambas aprisionadas.Não consigo odiá-lo . pareceu-me que meus lábios estavam formando palavras a um palmo ou dois do meu rosto. com ar triunfal. . como se decidissem se separar do resto do corpo e partir em busca de pastagens mais verdejantes. como se as minhas juntas estivessem se desarticulando. estava de joelhos na frente de Bruce. por estar tocando o Grateful Dead na jukebox ("Cassidy".A minha teoria . embaixo da cabeça de veado empalhada e pendurada no alto da parede. Maxi tomou um gole da cerveja.Isso é profundo.falei entristecida. Quero viver num mundo onde as pessoas são julgadas pelo que são e não pelo tamanho de roupa que vestem . . somente para isso. Mas não posso deixar de dizer que. Fisicamente. fugimos para o estúdio e eu lhe daí um boquete rápido. achando que eu tinha sido feita para isso.Claro que tem . Em prisões de carne. E. Mas o que realmente nos prende são percepções. Quando me embebedava. .é que o ódio funciona – fez tim-tim com seu copo contra o meu. Isso. sob o balouçante varal de sutiãs que um dia sustentaram os seios de gente famosa e que hoje decoravam o bar. começava a me lembrar de coisas.disse. neste exato momento. mas. eu preferiria estar presa a um corpo como o seu do que como o meu. dando um soco no balcão para maior ênfase -. . – Só acho que Prisões de Carne parece nome de filme pornô. em cima do balcão pegajoso. .Mas acho que eu tenho razão. Tomamos nossos tragos e colocamos os copos de cabeça para baixo. agarrando a bunda dele com as mãos. Soltei uma risadinha. com um ar de admiração.A Oprah é profunda.Tenho uma teoria sobre isso aí também . pulsos e cotovelos. eu estava sentada no Hogs and Heifers. e tomei mais uma tequila. sim .O quê. Maxi ficou ofendida. . para irmos ao concerto deles. considerando todos os prós e os contras.presa. depois que parou de rir. .Não – falei. Hesitei um pouco.Está bem . arrancando-me daquele porão de paixão e trazendo-me para o presente encharcado de tequila. – Eu queria que você me dissesse a pior coisa a .Ouvi no programa da Oprah. poderia usar biquínis.Mas quer saber o que eu quero muito mais do que isso? .Consegue. . . enquanto ele me apertava o peito com os joelhos e tremia balbuciando que me amava. Você acha que precisa perder peso para que alguém a ame. zombando dela. . e mais uma sensação de liquidez nos joelhos. amigo de Bruce. o que eu estava recordando era de termos ido pegar o George. e. Fiquei olhando-a. . acho).anunciou Maxi. você não concorda? .Maxi me olhou com um ar de expectativa. em minha mente. Pelo menos. Eu acho que se ganhar peso ninguém vai me amar.

. gritei. era como se recolhesse para dentro exatamente como uma luneta. . Mas quando mole. .. que ele guardava numa caixa de sapatos. . a verdade era que. . lá? . isso até que era legal.Minúsculo. entupia o ralo do chuveiro.Eram amarelentas. em tom professoral.E me diga uma coisa – falou Maxi.falei -. Sente-se direito e me fale. e nunca limpava depois do banho. .A verdade.tentei novamente. . .A verdade é que ele era muito. . Eu pedi um copo de água. . às vezes. Maxi estava rindo.Uma espiguinha de milho cabeluda . mas o cotovelo não cumpriu sua função e acabei quase quicando a testa no balcão do bar.. – Ele era bom na cama? Tentei escorar a cabeça na mão.repeti. . . O garçom franziu a testa. Ainda por cima.Ande. .respeito dele.falei.. .. com dor de cabeça.falou Maxi.soltei um arroto.Toda vez que os pais dele tomavam um avião. e a boca. para dentro do corpo.Ele era largadão. . Maxi se escangalhou de rir... . ele estava sempre disposto a fazer coisas novas.Pequeno. e lá ia ele para o minibar. . Ela retorceu o nariz de uma maneira adorável. era de um tamanho bastante normal. Microscópico. me conte.Peraí! Não quando estava duro. eu chegava cansada. .. Se consegui pronunciar essa palavra..Na verdade. Sabe. Todo mundo mente para mim. Sem editorar.. Acho que era pão-duro demais para comprar uma garrafa por conta própria. os olhos reluziam. Eu sou uma estrela de cinema. mal cortadas. Eu fiz uma pergunta simples. Quando estava duro.Bem. era porque não estava tão embriagada quanto pensei. grossas.Fungos . sabe.Não é tão mau assim.. Ele era bom? . você quer dizer. Cannie.Quer mesmo saber a verdade? . .aí eu parei e ponderei.concordou Maxi. – Sem cortes. Tomamos mais um trago. .ela fechou os olhos. sem editar. .. O rosto de Maxi estava vermelho. o que eu gostava. traziam essas garrafinhas de vodka ou uísque.O quê? Vá.continuei . pequeno. . a fim de uma vodka com tônica. Os olhos dela se arregalaram. mas estava me retorcendo de tanto rir. Seus olhos se encheram de lágrimas. se inclinando mais para perto de mim. mais animada com essa. Bastava alguém vir tomar uma bebida que ele dizia: “Tome uma do minibar" .Não. com a máxima delicadeza de que fui capaz.Mas encheu um pouco depois.Ah.tentei dizer... e ficava igual a uma. eu quero que você minta para mim.E tinha o minibar dele! .. . desconfiado. de vez em quando ele pegava e juntava um montinho daquela nojeira de cabelo misturado com sabão e colocava num canto da banheira.E também ..A verdade . vá.Eu já ia dizer . Cannie. .. Infinitesimal! – pronto. contra o verso da mão. .consegui dizer finalmente. Pare de rir.Pequeno . Na primeira vez que eu vi. e eu fui descambando para o lado até que minha .. .. Maxi riu de mim. você não faz idéia! Era peludo à beça.Ah.ele tinha as unhas do pé horríveis .

. Aboletei-me no colo dele.Você não pode falar nada para ninguém. E eu sinto informar que os pintos pequenos também.Ainda. clientes deste bar! .Ele mora em New Jersey . e ele caiu deitado na cama e eu me aconcheguei toda enquanto ele cantou. Ela soltou o meu queixo. Eu derrubei. enquanto tentava me endireitar. colocando uma dose de tequila na minha mão. – Como eu já disse. de improviso e totalmente desafinado. Baixei a cabeça e sussurrei: . mostrou-lhe o dedo médio e desceu do balcão. . perto do Natal. Espiga Cabeluda freqüentemos os mesmos círculos. o queixo um pouquinho pontudo demais.falei. Maxi me ergueu de novo pelas . ..Eu preciso esquecê-lo. basicamente . . .Maxi! . .Você ainda o ama . assim que conseguiu parar de espirrar -. saia de cima do balcão . . . . para que ela fosse perfeita. Eu pisquei e ela voltou a ser uma pessoa só outra vez. mas não conseguia. e Maxi riu até sair tequila pelo nariz.disse ela. .Remédio. e sussurrei-lhe ao ouvido: "É verdade que esse negócio do Papai Noel só funciona uma vez por ano?" Pois ele riu à beça. Espiga Cabeluda. . Mas eu não conseguia odiá-lo.. Queria. .O Espiga Cabeluda mora em New Jersey.Então.disse Maxi.Se você não estiver a fim de nos mostrar os peitos. pedi que ele fingisse ser o Papai Noel e eu fingiria que estava no shopping para tirar uma fotografia.Não se preocupe.Atenção. Maxi subiu em cima do balcão do bar e juntou as mãos em concha ao redor da boca. Eu insisto. Não vou falar. você está com saudade de um cara que em o pinto pequeno e que a maltratou? . .. Maxi me analisou com atenção. sardas geometricamente distribuídas pelo rosto. Parecia haver duas dela olhos azuis.Ele mora em New Jersey .Qual é o segredo? . esqueça. com os pés firmemente plantados no chão para não depositar todo o meu nele. . com a voz arrastada. .falei. .disse.Então. . E eu duvido muito que eu e o Sr.Ele não me maltratou .Ódio! – disse Maxi. Você merece mais do que isso.gritou um bêbado. Mas ela não me deu ouvidos.falou ela.O quê? Você acha que ele vai me ouvir? . Maxi.gritou.Espiga cabeluda! – repetiu ela. cabelos cacheados caindo em cascatas.Pronto! Já virou nome próprio. muito seriamente. Sr. Ela agarrou o meu queixo e me fitou nos olhos.Psiu! – fiz para que ela se calasse.Ele era muito meigo.repeti.cabeça pousou no colo dele. . uma versão maravilhosa do All I want for christmas is you. e atencioso. .Espiga Cabeluda. Uma vez. Contra a minha vontade.. mas sim atordoantemente encantadora. Minha cabeça bateu no balcão. com muita elegância.Tome . cada um do tamanho de um pires. e se engasgou quando eu coloquei a mão contra o peito dele e o empurrei.. recordei de uma coisa tremendamente carinhosa. Ninguém – falei. .. e.Espiga cabeluda! .Os meigos e atenciosos custam dez centavos a dúzia. com chapéu de caubói.

parecendo surpreso. É a Cannie.Tal vez seja uma boa telefonar para ele .Mas. E...Sei que é um tanto estranho.Porque. Parei para tomar fôlego. Agora que sei. ...Ooo-ii! . estou muito sentida.. a hora não é lá muito boa.falou ela.falou ela.Maxi. Estreitei os olhos para enxergar o relógio na parede.Preciso lhe dizer uma coisa. Ouça bem – finalmente consegui dizer. devagar.. .por causa da morte do seu pai. num bar. . Era uma da madrugada..Oi. .Vamos. . Maxi o ignorou. E eu vou lhe ensinar o poder restaurador de sentir por ele um ódio mortal .Não posso disse-lhe. -Alô? . Você não me quer. você só tem de escutar. menor que o meu polegar. Vamos: qual é o número? .. sentindo de repente toda a pressão da tequila no crânio.falou.Por quê? . mas estou em Novo York. Mas não é isso.disse ele. e você não vai adivinhar com quem estou.soltei um suspiro. . Ele não disse nada.Achei que você precisava de espaço .. . Ouvi as molas rangendo quando ele mudou de posição na cama.. eu seria muito legal com você. Peguei o telefone.Parece que ela já bebeu o suficiente . Bruce. O número. Cannie.. . – Foi um erro terminar com você. . e isso só vai piorar a cada dia que passa. .. Ele atendeu ao primeiro toque..Existem coisas piores do que bancar a boba – disse ela...falei. pressionando os algarismo com o dedo mindinho.Hum. por exemplo? .Perder alguém que você ama por causa de um orgulho que não lhe permite telefonar e abrir o jogo . e eu sei que não mereço.Essa idéia não é legal. . ora.presilhas do cabelo.Então é melhor você ficar sabendo disso logo de uma vez por todas. . . As palavras num turbilhão.Isso é pior. e apertei os olhos para enxergar. mas se você me desse outra chance. Era uma coisinha minúscula. . eu estou interrompendo .O quê. morro de saudades de você. dando-me conta subitamente de que estava muitíssimo bêbada.falei . bobamente. Porque. um brinquedo. . né? É comigo. Bruce.. Cannie. .Não..Pois é. Voz de mulher. . atrás dos sutiãs pendurados. O garçom estava ficando preocupado. Aí a gente faz exatamente do mesmo modo que um cirurgião: cauteriza a ferida. – Vou bancar a boba. . . e se ele não me quiser? .Eu quero o número. na verdade.. E a voz de outra pessoa ao fundo. Eu o abri desajeitadamente. preciso.ela me esticou a mão no ar com o telefone. eu quero. .

no táxi de volta para o hotel. você está me ouvindo? Cannie. quando ela me apertou. .Ora. o que é que eu devo fazer? Levantei a cabeça do balcão do bar.Não . . .Que é isso. As pálpebras de Maxi estavam só entreabertas. Cannie.soltei mais um soluço. Achei que talvez você pudesse gostar.É um roteiro que escrevi. e que haveria outra mulher na cama dele. carinhosamente. . enfiando-o nas mãos de Maxi. com a fala arrastada.falou Bruce -.Pobre Cannie! Não se preocupe. e comecei a apertar varias teclas do telefone. Entreguei o telefone de volta para Maxi.Parece que não foi legal . .falei.. recostei a cabeça no ombro de Maxi. que em algum lugar do meu coração seria sempre uma hora da madrugada.e me ensine a odiar. mas faço questão. e a sensação de que jamais tornaria a sorrir na vida. haveria uma boa hora para eu ligar de volta? – perguntou Bruce. pensando em revisar as cenas finais na viagem de trem de volta para casa. . Não precisa ligar . . Cannie? Não precisava! . fabulosa coluna? Ela é boa de cama? .Ei.berrei. que me fitava com seriedade. Respirei fundo. enquanto isso.Não quero forçar a barra. . Maxi.gritei. Ela enfiou o roteiro na sua mochilinha preta.falou Maxi. . dando início ao que me pareceu a sua tirada padrão quando algum desconhecido lhe dava um presente. . Já que tinha ido tão longe.Que é isso? Soltei um soluço e resolvi. já estava folheando ebriamente as páginas. que eu havia enfiado ali dentro um milhão de anos atrás.falei. quando breves laivos de nexo despontaram em meio à névoa do álcool.Ela vai virar uma inicial na sua maravilhosa. . Não se preocupe em não magoar os meus sentimentos – soltei um suspiro. pode me falar. Provavelmente eu nem deveria. me deixe ligar de volta para você outra hora? .Não se preocupe com isso.Cannie.Cannie . agora todo grudento de tequila. Não se preocupe.E se ler e não gostar. porque não conseguia mesmo mantê-la erguida. .Ah. até achar o botão de desligar. e que eu estaria ligando para o homem que eu amava. tentando encontrar o manuscrito do meu roteiro. . Senti o ambiente todo rodar. Maxi se inclinou para perto de mim e me deu um abraço desajeitado. estremecendo um pouco.falei.Tome . . . me arranje mais tequila . quando ficar entediada no avião de novo .falei .soltei.Ninguém se preocupa. Esfreguei os olhos com os punhos. mais nada mesmo. murmurada. para que mentir? . Ou talvez eu já tivesse perdido a coisa mais importante. Coloquei a mão na bolsa.Não precisa ler se não quiser . Ele provavelmente colocou a mão em cima do bocal do aparelho.Você vai escrever sobre ela? .muito mais tarde .. E que diferença fazia? pensei.Quem é ela? .falou ela. Eu vou cuidar de você. .Não. . Senti os ossos de seu cotovelo me cutucando. estragando as primeiras trinta páginas ao fazê-lo. . é para mim? . Tive a impressão de que iria vomitar.Ouvi um impacto e depois uma conversa distante. Mais tarde . Sabia que estava tudo acabado: eu não tinha mais nada a perder.

Vai? Ela assentiu com violência.Olhei firme para ela. com os cachinhos balançando para cima e para baixo. Se você for minha amiga. se você cuidar de mim. . . tão desconfiada quanto bêbada.Vou cuidar de você . . então vamos tomar conta uma da outra.falou -.

Maxi deixara aspirina em cima da pia.Serviço de quarto . e espiei o meu rosto no espelho.. Minha voz soou estridente. Ergui a cabeça. Sei que a forcei a ligar para ele e a notícia que você recebeu foi horrível. E. . Querida Cannie. Fui até o banheiro.Espero que a senhorita esteja se sentindo melhor . quando voltar para casa e. Café quente. Alguém tirara as minhas sandálias e as colocara ajeitadinhas ao pé da cama. Parecia que tinha alguma coisa grudada à minha testa. Inglaterra. Levantei as mãos e tirei um pedaço de papel. Por que não me liga amanhã. estiver se sentindo melhor? O meu número está aí embaixo. ainda geladas. Engoli três aspirinas. cabelo ensebado. . Estava considerando a relação custobenefício de um banho quente demorado. fazendo listras luminosas no carpete cor de marfim e no edredom cor-de-rosa que dava a sensação de um beijo no corpo inteiro. quando soou uma batida de leve na porta.NOVE Acordei numa suíte de hotel. juntamente com o que parecia ser um pacote fechado de produtos de toucador Kiehl. Haverá um carro à sua espera na gente do hotel o dia inteiro. manchada. atenciosamente. e comecei a ler. ao fim. Maxi Ryder. ligue logo. tomei uns golinhos da água.disse ele. . Pager. para levá-la para casa – presentinho meu.. quatro tipos de suco e torradas sequinhas. mas o meu avião partia cedo (e April está passada comigo.A Srta. havia uma série de números telefônicos: Austrália. baixei a cabeça de volta sobre os travesseiros e tornei a fechar os olhos. Pele pálida. Fax alternativo. com bastante cuidado.Até que horas? . Parecia que alguém tinha amarrado uma tira de aço em torno do meu crânio e estava apertando devagarinho. mas tudo bem. Argh! Horrível. Ryder tomou providências para que a diária só vença mais tarde. . chá quente. Ai! Que erro! Cuidadosamente. que custaria algumas centenas de dólares. numa cama imensa. Fiquei muito mal com o que aconteceu ontem à noite. Fax. bem devagar. Dava a impressão de que o meu rosto estava encolhendo. que de fato tinha sido grudado na minha testa. gosmenta. (A bem na verdade. . E-mail.falou o garçom. com o meu vestido preto fora de moda. e empurrou gentilmente o carrinho para dentro. espero.perguntei. da April! por favor. Celular. Valeu a pena). Espero que você me perdoe e que ainda sejamos amigas. O sol penetrava através das janelas em raios oblíquos. e duas garrafas grandes de água Evian. Escritório. Imagino como está se sentindo agora! Já senti isso antes (estou falando da tequila e do coração partido). olheiras profundas e toda maquiagem que eu experimentara no Beauty Bar espalhada para tudo que era lado. Um abraço. onde vomitei ruidosa e totalmente. Desculpe tê-la deixado num estado desses.

quando retomei ao carro. e bem-apanhado. ao lado dos aparelhos de som e TV.O senhor me dá uma licencinha? . senhorita? O motorista era russo. Havia um telefone no banco de trás. E New Jersey.Uau! . .desculpei-me. formado.. em resposta ao . Meu segundo erro da manhã. O carro. Tínhamos praticado auto-elogio na aula de gordura da semana passada. pensei. Depois. . e eu o peguei de repente. com as folhas ficando alaranjadas e douradas. caixas de sapato e bolsas de compra da Beauty Bar. e alguém certamente o apanharia. E dez minutos depois coloca outra na cama? Fazendo as coisas que jurava só querer que eu fizesse? A voz retornou.A senhorita prefere pegar a rodovia? . Meu estômago girou devagar. Banheiros de saguão de hotel também são um excelente lugar para se vomitar. como não poderia deixar de ser. foi como se me ouvisse dizer. o perfil dos arranha-céus à distância. um aparelho de som sofisticado. E vivia me dizendo isso. E o rio.. o que eu achava que iria acontecer? Ele é judeu. “Ele mora em New Jersey". um vídeo. ou pelo menos com um aspecto muito melhor.Filadélfia. Ele abriu as cortinas. mas o poder daquela vista era inegável. implacável. e. E." E entrei na banheira. Fechei os olhos para barrar a visão das estrias e da celulite. O que você esperava? . ele tinha outra pessoa. observei entristecida.. e abri a água o mais quente que pude agüentar. é o Bruce. Mas ele me amava. alto e correto. A banheira. belisquei umas torradinhas. . suando de aflição para saber se Bruce tentara entrar em contato comigo ontem à noite. era grande o suficiente para dois .falei. Cannie. O motorista estava tranqüilo. um bar. falei para mim mesma. e tirei o vestido pela cabeça. Fique à vontade. claro.exclamei. . e usava um boné de motorista de verdade. Achava-me perfeita.falou ele. ponderei. enquanto ele colocava na mala a minha mochila. despejei tanta loção espumante com poderes garantidamente restauradores que eu deveria sair da banheira renascida. Havia o indispensável aparelho de televisão. com um banco traseiro maior do que minha cama e provavelmente maior do que meu quarto também. A luz do dia feriu-me os olhos feito faca. . "Eu tenho pernas fortes e bronzeadas". salpicado de gente e de árvores. revelando uma vista panorâmica da cidade. em belas garrafas de cristal e uma série de copos enfileirados. espelhos oferecendo ângulos de visão que normalmente não se encontram nas lojas. era provavelmente grande o suficiente para três. Os ricos são diferentes. não é. se os ocupantes tivessem tal inclinação. Havia um único recado na minha secretária: "Oi. Diferentes licores reluzindo. pensei com amargura. ajeitando-me no assento. era uma limusine.a bem da verdade. Girei dentro da banheira e derramei uma cachoeira de água no chão do banheiro. e voltei correndo para o saguão.... "Tenho ombros belíssimos.Não se apresse. Mas foi você que quis dar um tempo.O que for mais fácil . achava que éramos perfeitos juntos. coloquei açúcar. Havia espelhos em todo canto do banheiro. Então. e foi embora. E o terreno não tinha um aspecto nada agradável. Avistei o Central Park estendido ante os meus olhos.Até quando a senhora quiser .falou ele.É a suíte da cobertura . Espiei tudo por dentro.. Eu me servi de chá.

Ora. não foi? Assenti com a cabeça." Nem Desculpe-me! Nem Aquilo foi um pesadelo.Já sei o que é! .E ponderou tudo muito bem antes de falar com ele. .É uma questão de querer o que você não pode ter. . Fiquei muito magoada. só não me lembro mais por quê. quando finalmente esgotou as perguntas que tinha para fazer sobre Maxi e o assunto caiu em Bruce e o desastrado telefonema. tinha até torcido para que isso acontecesse. Vou passar alguns dias em casa.Ele não gostava de ir ao cinema . ou de matá-lo primeiro e depois morrer. o melhor antídoto legal contra a angústia humana que encontrei.falei -. Batuquei brevemente na janela com apenas dois dedos. então talvez eu ligue para você mais perto do fim da semana.O quê? .Então. uma boba. Samantha. . passando direto pela saída que me levaria à porra da casa dele. O dia de domingo passou enevoado por lágrimas e vômito na casa de Samantha. .disse ela.disse Samantha. vendia meus roteiros e chegava à lista dos "Trinta com Menos de Trinta”. que ele encontrasse uma garotinha. graças ao meu treinamento. A ligação foi feita às onze horas da manhã. que jamais. E eu dando umas garfadas numa bomba com a forma e o tamanho de uma bola de beisebol.Então eu iria morrer se ficasse em casa? . Estávamos sentadas na Pink Rose Pastry Shop.Havia razões para as coisas não estarem dando certo Samantha. onde Nifkin e eu descambamos. com Maxi. . Fechei os olhos. da revista Time. é a lei do universo: ele a amou. não deveria ao menos considerar a possibilidade de ele encontrar outra pessoa? A impressão era de que aquilo havia sido há muitíssimo tempo.Você quis dar um tempo por algum motivo . . isso não é a pior coisa do mundo! Não é igual a me trair. sim. A uma certa altura. enquanto tomávamos velocidade. imaginando que não fazia diferença alguma porque eu não comia nada desde a tarde anterior em Nova York. Houve uma vez em que fui capaz de contemplar essa possibilidade sem lágrimas. Legal e carinhoso.Cannie. .até domingo à noite. pulseira no tornozelo e sovaco cabeludo. por exemplo.Samantha disse. mas eu tinha considerado. simplesmente.dei uma garfada com tanta força na bomba que ela virou de cabeça para baixo o e creme escorreu de dentro. de matá-lo. você . . Segurou mais do que eu teria segurado .Ele era um cara muito legal. que dormisse tarde e ficasse doidona com ele. . por favor.Eu sei . náusea e/ou uma vontade danada de morrer. Ela estava beliscando um biscoitinho. pelo visto. enquanto eu trabalhava duro. . se referiria a ele como Bidê Humano e provavelmente não pesava mais que ele. estava se esforçando ao máximo para não dizer que tinha-me avisado. . para não ouvir o telefone tocar. provavelmente depois de ele ter tido tempo para uma rodada matinal e um waffle belga com a Senhorita Range Molas. Desliguei o telefone quando entramos na rodovia de New Jersey a mais de cento e trinta quilômetros por hora.Ele não gostava de ir a lugar nenhum! . . . E eu.Eu vou ao cinema com você.seu telefonema. com a cabeça de vento. ele a comparou com a Monica Lewinsky numa revista de circulação nacional! .Repita quais eram.

. . ué! Você não? .falei.falei.Eu sei.Mas não pode. ir até New Jersey e tirar aquela piranha da cama dele a pontapés. . ajeitaria. peço desculpas por ontem à noite.seu segundo melhor par de sapatos de passeio. as meias esportivas. Senhoras e senhores. já gastados pelo andar arrastado . . dando uma olhadela séria na direção de Nifkin.A questão não passa por aí. O garçom chegou à nossa mesa. .. – Por que não ser egoísta.Porque você é uma pessoa boa – disse ela. Sam me disse que eu poderia dormir na casa dela. . . sim.Cannie? Senti-me tão estranha. depois. à medida que fui subindo. Cannie. e lá estava ele. com as mãos abarrotadas da correspondência do sábado.gemi. Agora. Quero pegar o meu carro.. recém-saído de seu encontro com a Srta.Você acabaria terminando com ele novamente. Você é uma boa pessoa. Pois bem. .. . como todo o resto do mundo . .Na verdade.E por que não? .questionei-a.Ah. estou indo para Baltimore.. desencontradas.. .. o rosto.disse ele -. Isso apenas prova o que estou dizendo. . as pernas bronzeadas e peludas entraram no meu campo de visão.Porque você vai acabar na cadeia e eu não vou ficar cuidando do seu cachorrinho esquisito a vida toda..que eu conseguira uma visão mais minuciosa das outras opções no meu universo de namoro. Você ajeitaria o seu carro? . Bermudas de moletom.. o rabo-de-cavalo alourado.Terminaram? Fiz que sim com a cabeça. o cavanhaque. será que alguma coisa mudou mesmo? Quis dizer-lhe que sim . Ou talvez fosse só mais um surto de náuseas. . ele seguiu adiante e você está desesperada para têlo de volta. Fui vendo-o por partes . em vez de um espacinho daqueles que parece uma vaga mas não cabe um carro.se sentiu entediada e sufocada. olhando para os nossos pratos. Range Molas: Bruce Guberman. . – Por pior que isso possa parecer. como se o coração quisesse diminuir e crescer ao mesmo tempo.. Mas pense bem. .Eu não quero ser uma boa pessoa. uma camisa velha da faculdade.Ótimo! . com os olhos postos nos cadarços dos sapatos e as mãos enfiadas nos bolsos. eu. na esperança de . descontraída. Subi as escadas a custo. -Não tem do que se desculpar-falei.Por que eu tenho de ser justa?. perversa e nojenta. desviando-me dele e indo direto destrancar a porta. usava sandálias Teva e não considerava sequer a possibilidade de ficarmos juntos depois de sairmos à noite. depois. parado à minha porta.Bom para você! . e isso não é justo. . Você está levando Nifkin para passear e percebe que se puxar o carro um pouquinho mais para a frente vai sobrar mais uma vaga.Como é que você sabe? . de forma que peguei Nifkin e fui-me para casa.Terminamos.Sabe .indaguei.disse ela. mas resolvi que não iria ficar me escondendo a vida toda. Não quero mais ..suspirei.O que o traz aqui? Ele entrou. . hum. e que o nome de uma delas era Steve.

. .Na verdade. a Moxie não é uma das minhas prioridades leitura .falou. típica das professorinhas de pré-escolar. . “A mãe dela é ‘homo’.. . como a gente sente a mudança da pressão atmosférica e sabe que a tempestade está a caminho. cheia de compaixão e sabedoria.falei.Aposto que temos muitas e muitas outras coisas em comum.disse ele.disse ele.Você falou de mim para ela? Ele fez que sim com a cabeça. mais pobre.Você a ama? .falou ele.Eu queria falar com você .. larga e quente. Ótimo. diga. Vamos.Ótimo! . assolada pela súbita visão de Bruce em sua cama. . . pois o rabinho já estava balançando em ritmo acelerado.Na Moxie . sabe?”. e o que contou? .disse-lhe.Eu me recuso a acreditar que você tenha encontrado outra garota chamada Cannie..Bem. . .Eu já sei chupar direitinho.disse.Esquece. . .Hum.. só porque foi a única coisa em que consegui pensar: . menos inteligente.Bom para mim .Cannie.. . só para completar a série de clichês. ele diria.perguntei. Não tinha o direito de lhe perguntar isso.Claro que sim ..Ela tem trinta e um anos. Eu sinto muito. Ele respirou fundo. mais dependente.É mesmo? Quer dizer que você não ficou de olhinhos fechados a noite inteira ontem? Ele não riu. também. . na estadual de Montclair. Eu estava morrendo de vontade de perguntar se ela era loura.com a língua meio enrolada..Por quê? O que há de tão importante? Fechei os olhos.. pensando o tempo todo na aberração que eu não deveria ser! Ouvi barulho de engasgos vindo do quarto. e a moça escutaria aquilo com uma aquiescência profissional. abraçado a ela. . Vou adivinhar. . que maravilha! Eu teria de conviver com isso e também ler sobre o assunto? . Conforme você deve se lembrar.retruquei. .que isso o impedisse de sair pulando no colo de Bruce. Agora.Você contou a ela sobre a minha mãe? Bruce assentiu novamente. Mas o que saiu foi: .. Idade? Posto? Número de série? – perguntei brincando.Qual é o nome dela? . Também tem um cachorro. contando-lhe os segredos da minha família. professora do pré-escolar.Eu queria que você soubesse que estou vendo outra pessoa. . . delicadamente. já sabia o que estava vindo. com um ar intrigado. Ah. escutando minha voz como que a um milhão de quilômetros de distância.Onde foi que ela estudou? . .Ler onde? . .. e eu já sabia o que era. . Ia contar antes que você lesse a respeito . Aposto que ela tem seios! E cabelo! .Cannie . Desculpe – e sem que eu conseguisse me conter. Mais velha.. com sarcasmo. .um pensamento horrível me cruzou a mente. E então.Eu ia lhe contar. .Cannie.

então. Ai. O queixo de Gabby caiu. Gostaria de não ter de ouvir isso.murmurei. Só para a TV . Bruce! . em silêncio. Só de olhar dava para ver que o que ele mais queria era estar de volta ao seu carro. Gostaria que nunca tivéssemos nos conhecido. e parou. Mas Gabby estava preocupada. chegou a segunda-feira. nem tocou em nada. e que só havia mesmo uma coisa que ele queria ouvir. já abrindo a porta. com as janelas abertas e o Springsteen tocando nas alturas. Extremamente. .falei.Você está bem? Respirei fundo. .. .Mais ou menos uma hora . Gostaria que nunca tivéssemos terminado. . Ficamos.falei.Com licença? . . Estava tentando imaginar uma carta padronizada que servisse para todos os dezessete que me chamavam de feia e velha.e agora teria de encher lingüiça para dar conta do espaço aberto. esperando até que ele foi embora. Bruce estava em pé diante do sofá.. .Tudo bem .Acho que não .falei.Porque dizem as más línguas que ela não está dando nenhuma entrevista para a imprensa.que chegamos a ficar amigas. você conversou com ela? . que trazia as reclamações de sempre dos “velhos e zangados”. . como se você fosse a minha . com o melhor sorriso impassível de que sou capaz.falei..Obrigada pelo interesse . estar longe de mim. arrastando as palavras para prolongar a tortura . verificando desanimadamente a correspondência. quando Gabby entrou saçaricando.Fico feliz por você.Muito bem – respondi. É quase como. sentindo-me enjoada e em estado permanente de dormência.. caramba!. Não se sentou. Acho até – falei. Gostaria que você estivesse comigo de novo.Excelente matéria. Fiquei arrumando as coisas em cima da minha mesa. e eu sabia que ele não tinha mais o que me falar. e corri até lá. Limpei a sujeirada toda e voltei para a sala. . .. e me acusavam de ter inveja de Howard Stern. mesmo.disse ele. . e mais uma coletânea de missivas de fãs do comediante Howard Stern bastante insatisfeitos com a crítica que eu tinha feito da sua última aparição na tevê.Não se preocupe. . Então. Nós nos demos muito bem. Pude perceber que estava tentando resolver se me perguntava se alguém tinha mencionado a entrevista marcada entre Maxi e ela ou se ficava simplesmente torcendo para que eu não tivesse sabido disso. ...Bem . – É muito gentil da sua parte ficar cuidando de mim assim. Encher lingüiça não era uma coisa que Gabby soubesse fazer bem.falou Bruce. dei a ele o que queria: -Adeus.Então. com bastante simpatia. onde encontrei Nifkin regurgitando um saco plástico.. pensei. Provavelmente teria programado Maxi como a atração principal da coluna de amanhã – pelo simples prazer de me passar para trás . Muito boa.Espero que possamos ser amigos . Gabby franziu a testa.Como foi lá com a tal Maxi Não-Sei-Do-Quê? – perguntou. e eu voltei ao trabalho..falei. e parei ali.

. .Como eu lhe disse. mas prefiro fazer isso pessoalmente. distraidamente. .eu me lembrava muito bem. .Preciso discutir uma coisa com você . conhecida. Ele desatou a rir.Ahn. Fui. nós fazemos uma série de exames padrão quando tiramos sangue.Cannie.E eu preferiria que você não ficasse tentando adivinhar. embora já tivesse procurado lá.Então. pensei. me levantei e passei por ela cheia de altivez. telefonar para jovens repórteres no meio do dia para dizer que tem algo errado no sangue delas. . oi! . até o banheiro e vomitei.Bem. Repassei rapidamente tudo o que um exame de sangue pode revelar. basta me dizer o que há de errado – implorei. cada possibilidade mais horrível do que a outra. vasculhava as gavetas em busca uma menta ou um chiclete quando o telefone tocou. então.Pois não? .perguntei.Como vai? – desisti da gaveta da escrivaninha e passei a procurar na bolsa. com seriedade. ah.chefe – empurrei a minha cadeira para trás. Não vou agüentar ser gorda e ter as pernas arqueadas. ..Não é raquitismo. Coloquei a carteira e a mochila numa cadeira e me ajeitei na outra. . meu Deus! Por favor.Redação. .Estou com raquitismo? Ai. . sabe aquela última amostra de sangue que tiramos. Candace Shapiro – falei. .O quê? O que foi? .disse uma voz profunda. A história da minha vida.disse ele.disse eu. .Prefiro discutir isso com você pessoalmente – falou ele. aqui é o Dr.Colesterol alto? Hipoglicemia? Escorbuto? Gota? . .Estou com AIDS? . – Ainda bem que você se diverte com isso.Não tem nada que coloque em risco a sua vida – disse ele. observei.O seu sangue está ótimo – disse ele.Estou com câncer? . . . raquitismo não. Ele abriu o meu fichário em cima da mesa. Novamente. Mas como é que você conhece todas essas doenças? Por acaso tem uma enciclopédia de referência médica em cima da mesa? .. De volta à minha mesa. melancolicamente. . novamente. *** Ele estava sentado à mesa quando cheguei e se levantou para me cumprimentar.Candace.Surgiu uma coisinha que infelizmente a desqualifica para o estudo. . Isso atraiu minha atenção. Tachinhas. a sua altura.E eu vou lhe dizer o que encontramos s m problema algum. .. Krushelevansky da Universidade da Filadélfia .falou ele. . Senti as palmas da mão se enregelarem. .. mas estou começando a achar que talvez você tenha a síndrome de Tourette. clipes de papel em três tamanhos e nenhuma pastilha. cartões de visita.Ainda bem que você achou divertido – falei. .Sente-se . com as costas empinadas e a cabeça erguida. . com sisudez.

que ele estava com outra pessoa e eu estava sozinha.Eu. Ele girou o fichário para mim e apontou para um item marcado em vermelho. faz? . Ele abriu a gaveta da mesa e tirou um frasco desses de apertar. . pensando tudo bem. .disse ele. Ele colocou os copinhos na mesa: chá.perguntou. .. .falou ele. Só poderia ter sido ali. de repente.Também verificamos se há gravidez . ele certamente me aceitaria de volta. de que havia um mundo girando à minha volta e que ele provavelmente teria outras coisas para fazer. de forma que não tenho muitos termos de comparação.. café e água.Ah.. com gentileza. tinha saído da sala. Afundei de novo na cadeira para pensar. .Suponho que seja.falei. é outra. meu Deus! – falei. A hepatite é uma delas. fui tomada por uma lembrança vivida da Turnê da Tequila de Cannie e Maxi. -Você sabe alguma coisa sobre síndrome alcoólica fetal? .Quer ficar sozinha um pouco? . meu Deus! – falei. uma notícia inesperada.gaguejei. Bruce. . O médico se mostrou surpreso. .procurando condições que possam desqualificar participantes do estudo. De repente.Mas eu não estou.. Assenti novamente.Espere um instante . . Havia parado de tomar a pílula quando eu e Bruce terminamos. mas o que há de errado comigo? E. .Não.Não . . Ninguém me disse que eu estava grávida antes.Sinto muito . Eu precisava lhe contar. eu não. . – Você quer mais alguma coisa? . Não notei que o Dr.Dizer para as pessoas que elas estão grávidas.Oh! .Ai.Acho que dá para dizer que sim – falei.Não sei. me dei conta.disse ele. obviamente. – Uma das enfermeiras teve neném .. e se não aceitar? E se ele me dissesse que era uma preocupação minha. Gravidez. e nem me passou pela cabeça que estaria correndo risco por ocasião da shivah. já sei. .explicou. O que esperar quando você está esperando².perguntei. e se foi pelo corredor. não posso estar.Posso marcar outro exame. Como é que isso foi acontecer? Minha mente estava girando. Escolhi o chá. Assenti. com prazer . . . e eu me lembrei de que estávamos no meio de um dia de trabalho. .e me levantei.Eu não sabia o que você iria querer . Era horrível demais até para pensar.Você provavelmente não faz isso com freqüência. Eu fiz que não com a cabeça... pondo-me imediatamente de pé outra vez. – Mas normalmente nós temos bastante precisão. imaginando que a suposta criança estaria para lá de embriagada e essa altura. AIDS. afundando novamente na cadeira e enterrando o rosto nas mãos. . é disso que estou falando. até que a porta se abriu e ele ficou ali parado.perguntou. Trazia três copinhos de isopor em uma das mãos e um punhado de envelopinhos de açúcar e creme na outra..acabou dizendo. . .franziu o cenho. cheio de mel até a metade.disse ele. . acho que não faço isso a toda hora . minha mente sussurrou.. . em tom de desculpa. curiosa para saber se ele chegaria afinal ao ponto.disse ele. em forma de urso.Sabe. só que.Fiz errado? Soltei uma risadinha fraca.. Voltou com um livro na mão. um problema meu. . achando que passaria muito tempo até que precisasse tomar anticoncepcionais novamente. K. outras gorduchas para atender. .

começou -. naquele momento. seja qual for a sua opção. não havia dúvida. será um prazer tentar ajudar. se eu não estiver grávida. e ainda por cima um guia grátis. sentindo-me cambalear à beira da histeria. enfiando um cartão de visita dentro do livro.Então eu poderia ser a sua cobaia – ofereci-me. .perguntou ele. claro. A bem da verdade. -Talvez eu tenha um bebê magricelinho. que não queria estar naquela situação. . Deiffinger. Ele estava sendo tão gentil comigo. menor das minhas preocupações no momento. Por que estaria sendo tão gentil? Talvez fosse um desses fanáticos contra o aborto. pensei. claro.Quer fazer outro teste? .O que quer que você resolva fazer. .murmurei.Ela já teve os bebês dela. ____________________ ² Editado no Brasil pela editora Record. Cannie . pensei e me levantei. Ele empurrou o livro de volta para mim. Passei os olhos rapidamente pelos parágrafos pertinentes e aprendi que basicamente. eu não tinha a menor idéia do que queria. ou se tiver qualquer outra pergunta médica.falou ele. . . não estará mais qualificada. estaria tudo bem. –Tenho certeza de que não vai precisar. Exceto. Meu Deus. não deixe de me contar . Ele me olhou com ternura.. . tentando me induzir a sustentar a gravidez com seus pacotinhos de chá e café. pobre Sr.perguntei. Eu me lembrava claramente de ter visto. e depois vou ver. caso você decida não continuar.Não foram aprovadas para serem usadas em mulheres grávidas.Abriu-o no índice. . Fiquei barganhando com Deus o caminho inteiro de volta para casa. contanto que eu me abstivesse de beber até chegar à incoerência durante a gravidez. Balancei a cabeça. Seria ótimo. não seria? . tranqüilamente.Acho que vou fazer um em casa.A enfermeira não vai precisar? .Quer ficar com ele? Você pode precisar de mais alguma informação. em algum ponto da pilha de formulários que preenchi no primeiro dia. . . Assenti novamente. não sabia o que iria ver. . Admitindo. se você preferir manter a gravidez. Um fanático contra o aborto.Tome cuidado. e me entregou o livro.. pensei com perversidade. . . girei a maçaneta e fui embora.disse ele. E.Olhe.. colocando a mochila nos ombros.Vou ficar sem as pílulas para emagrecer? – brinquei. Coloquei o livro na mesa dele e peguei minha bolsa e mochila. alguma coisa mencionando que restituição alguma seria concedida. obviamente.E não deixe de nos ligar. . que eu quisesse que as coisas ficassem bem. Pode ficar com ele -limpou a garganta.Acho que é melhor eu ir embora . – Página 52 – falou..Com relação ao estudo .falei. se você quiser conversar sobre o assunto.e calei a boca.Obrigada .falou ele. com a mão na maçaneta. – Vou providenciar uma restituição completa. da mesma forma que havia inventado cartas para o fã de Celine Dion. . . vou me oferecer para .

Nifkin lambeu o meu nariz e se aconchegou no meu colo. Nifkin não era maluco pelos cachorros dela. . com exultantes futuras mamães nas tampas. Comprei dois testes na drogaria da South Street. dizer "me ajude e me diga o que fazer".Grávida . olhando-me seriamente dentro dos olhos.trabalhar como voluntária no abrigo de animais de estimação e na casa dos aidéticos. Não tinha nem que pensar. Telefonei para Betsy.Você me ouviu. de forma que os cachorros podiam entrar e sair à vontade. Daisy e Mandy .respondi. mas era fanzoca da ração caríssima de carneiro e arroz que ela servia. e molhei a mão toda na primeira tentativa. eram quinhentos dólares para passar a tarde no consultório do médico. . para se tornar algo mais próximo de uma comuna de safismo. Samantha entrou na sala de estar enxugando as mãos.informei a Nifkin mais à noitinha. Ela se sentou ao meu lado.falei. por favorzinho. e fim de papo.O quê? . que me disse para dispor do tempo que eu precisasse. Ainda não.perguntou Samantha da cozinha.sussurrei. e nunca mais vou escrever coisas antipáticas sobre ninguém. para conhecer as minhas próprias idéias antes de começar a ouvir o coro cantar. .Estou cansada e quero ir para casa.Samantha torceu o nariz. passarei a ir à sinagoga com freqüência e não mais só nos grandes feriados. K. . não deixe que isso aconteça comigo. Queria ir para casa. mais alguns dias cólicas e chororô.gritei. para me dizer o que o Dr. quando ele pulou em cima de mim na casa de Samantha. por compensação. solteira.Eu disse que vou passar o dia de Ação de Graças em casa. .O que foi que você disse? . mesmo que fossem só uns diazinhos. Eu precisava de tempo para pensar. .O que você estava dizendo? . não ouviu? . não serei mais tão má e crítica. então. Vou fazer tudo direitinho. Ela possuía dois cachorros e na sua casa havia um quintal cercado com portinhola para animais domésticos.Peru à lesbiana de novo? . onde o deixava para ir trabalhar. igual ao da mulher na caixinha. Àquela altura estava tão convencida do pior que nem precisava mais do sinal positivo na tirinha. Mas não podia. grávida de um sujeito que nem atendia os recados. caixinhas de cartolina branca. Nifkin se sentou no meu colo. – Você não me disse para seguir rigidamente a regra de esbofeteá-la se você sequer mencionasse que iria passar mais um feriado com a Tanya? . serei simpática com a Gabby. mesmo que minha casa já tivesse deixado de ser um refúgio feliz há muito tempo. Mas antes de optar pelo óbvio. mostrava-se feliz de ficar na casa de Sam. eu queria algum tempo.O que é que está acontecendo? E eu queria tanto lhe contar.Estou cansada . .Nada . . . Não foi difícil.Estou grávida .falei para o espelho. . mas por favor. Seria a mesma coisa que eu lhe diria se ela estivesse na mesma situação: jovem. simplesmente abrir o verbo e despejar tudo que estava acontecendo. com uma carreira brilhante.acho que preferia a companhia de gente à de outros animais domésticos -.Estou grávida . já me havia dito. Já sabia o conselho que ela me daria. Serei uma pessoa melhor. e forjei um sorriso. de tanto que tremia. .

"Aconteceu uma coisa. "Boa sorte. "Divirta-se no dia de Ação de Graças.. cinco dias que você nunca tirou desde o ano passado e mais a folga de Nova York". pendurei minha mountain bike. "Bruce está saindo com uma professora do pré-escolar. providenciei para que os vizinhos pegassem meus jornais e correspondência. então". Ela é só o objeto de transição dele. Se mantivesse a gravidez. estava indo para casa. imediatamente." Enviei um e-mail para Maxi. Isso não dura. Se eu resolvesse interromper a gravidez.. eu atravessaria essa ponte quando chegasse nela. "E não ligue para a professorinha."Você tem três semanas de férias. nunca. Telefone ou escreva quando estiver em casa. Volto para os Estados Unidos na primavera. segurando carinhosamente a minha mão. ela me falou num recado deixado na secretária eletrônica de casa. escrevi. não é o que eu gostaria que fosse". alojei Nifkin em sua casinhola e joguei a bolsa de viagem no porta-malas. A essa altura do nosso não-relacionamento. não havia como imaginá-lo sentado ao meu lado numa clínica. não haveria razão alguma para ele ficar sabendo. .. Estou com o coração partido e vou para casa comer peru desidratado e deixar que minha mãe sinta peninha de mim”.. Não telefonei para Bruce.” Cancelei o cabeleireiro. adiei algumas entrevistas por telefone. ela escreveu de volta. infelizmente. Coloquei o rack da bicicleta na traseira do meu Honda azul... pensei. Pronta ou não. e nos veremos na semana que vem. embora fossem três da madrugada por lá. bem.

naquele verão. aquele foi o verão mais quente dos últimos anos. — "Por que você não procura o que já fizemos?" Isso foi em 1991. quando. arranjei um estágio no Village Vanguard. ou o jamboree dos escoteiros. suando em bicas. ou então os tamancos mais barulhentos do mundo. a cada hora diferentes. Eu passava os dias retirando fichários da prateleira. nunca a vi editar nada. A placa em mosaico. saía cedo. que ela colocou na cerca branca que ironicamente mandou erguer em torno de seu cubículo. enquanto tentava me esquivar do bafo de álcool e da mão boba do mais proeminente defensor do porte de arma do país. Um metro e oitenta. entre meu penúltimo e último ano em Princeton. . quando as minhas mãos estavam ocupados sustentando os fichários. Todo dia eu começava a suar assim que saía do chuveiro. ou alguma coisa assim tão disparatada que acabava ficando fashion. a atitude batia com a linha do Vanguard. Trabalhei para uma mulher horrível chamada Kiki. e a maior parte do tempo que passava no escritório era ao telefone com uma vasta gama de amigos. que pareceu vir da base exata do meu crânio. Estes. — "Estou pensando em mulheres e assassinatos" — anunciava. ficavam no corredor que ligava os escritórios dos colunistas ao depósito das cadeiras metálicas e mesas queimadas por cigarros.PARTE TRÊS Vou Nadar DEZ No verão. Uma tarde no início de agosto. mas eu não conseguia entender como ela conseguia dar conta do trabalho. nem em microfilme. Os modelitos acabavam sendo in. Os números antigos do Vanguard não estavam armazenados online. caindo aos pedaços. acompanhados de uma camiseta apertada. logo depois do ônibus passar pela Billy's Topless. e o calor fosse o mesmo. que pesavam pelo menos uns dez quilos cada. O escritório dele ficava exatamente ao lado das prateleiras e seu passatempo favorito. perfeitamente calma e tranqüila. óculos de gatinha tipo camelô e a testa permanentemente franzida. distraída e suando como sempre. dizia "editora associada". pelo menos eu evitava o antro fétido e corrido em que se transformara a estação da 116th Street. Um horror! Depois de duas semanas. era roçar os braços disfarçadamente em meus seios. Mas ela era mesmo mestra em delegar tarefas desagradáveis. anunciando o restaurante de comida romena de alguém chamado Sammy. Embora a viagem demorasse duas vezes mais. Foram três meses desgraçados. prazerosamente saboreando seu ice coffee. que serviam de local de trabalho aos luminares menos notáveis do Vanguard. estava sentada no M140. ficava suando no metrô o tempo todo até chegar à cidade e basicamente continuava suando o dia inteiro. ouvi uma vozinha. E embora a parte social fosse intensa. desisti do metrô e passei a ir de ônibus. Para início de conversa. empoeirados. Kiki me deixou confusa. henna no cabelo. esquelética. por sua vez. A princípio. Seu uniforme de verão era uma minissaia com botas de camurça batendo na altura da coxa. numa tarde de terça-feira. o mais antigo e afetado dos semanários alternativos do país. Manhattan estava fervendo. por exemplo. tirava sempre duas horas de almoço. transportando-os primeiro para a minha mesa e depois para a fotocopiadora. mas em fichários imensos. Chegava tarde. enquanto eu ficava ali plantada na sua frente.

ao passar cambaleando de volta para o seu escritório. estava eu sentada a uma mesa de piquenique. de um girino? Já tinha decidido que iria dar mais dez minutos a Deus quando ouvi alguma coisa. Ir embora sozinha. disse a voz. — Cannie? Argh! Aquilo não foi. com o rosto voltado para o sol fraco de novembro e a bicicleta parada ao meu lado. fiquei paralisada e absolutamente convencida de que aquilo que ouvi. quando ele ficou da cor de burro quando foge e foi embora trôpego. eu até diria naquele verão. Claro que não era Deus. para limpar a corrente sangüínea de impurezas e aumentar a clareza dos pensamentos. sete anos depois. com toda a doçura do mundo. — Tem alguma coisa errada? Bobeira minha! Vivia me esquecendo de que Tanya participava de um consórcio de grupos de auto-ajuda: um para família de alcoólatras. disse a ela. rindo para desabafar com as amigas. sério. figurinha pequena e estranha de aspecto andrógino. quando o proeminente defensor do porte de arma esticou as pontas dos dedos para roçar no meu seio direito. no pé dele. Depois que você ouve a voz de Deus. e perguntou se eu poderia começar pegando umas páginas. para nunca mais encostai um dedo em mim. ela fosse embora. da borracha da minha lapiseira. a menos de nove quilômetros da casa onde cresci e proferisse Tenha o seu bebê ou Faça um aborto. inspirando pelo nariz e expirando pela boca. não era humano. não era sequer uma possibilidade. na área suburbana da Pensilvânia. com um ponto de exclamação fazendo parte do nome. sem querer querendo. Naquele dia. esperando ouvir novamente aquela voz. como o namorado de Samantha que era instrutor de yoga dizia. E quando a Kiki veio me dizer. em absoluto. e como eles são diferentes". Estiquei as pernas.. um terceiro chamado Co-dependentes Nunca Mais!. falei. que acabara de se sentar atrás de mim e resolvera dizer "Eu sei para onde você está indo". se eu a ignorasse. — Talvez ajude se você conversar um pouco a respeito do que a está perturbando — . Mas. e passei o resto do verão escrevendo manchetes e saindo para tomar uns golinhos com os colegas da edição e publicação. as coisas mudam. ao menos uma vez. "Estive pensando em mulheres e homens. eu lhe contei uma mentira deslavada. deixei cair um fichário. sem mais nem menos. Se aconteceu conforme eu supunha — que engravidei na última vez em que eu e Bruce estivemos juntos —. Esperando que Deus percebesse que eu estava ali sentada no meio do Pennwood State Park.. na minha cabeça. pensei que fosse a voz de Deus. ela seria exatamente assim: uma vozinha calma e serena. "Se não precisam de mim aqui." Naquela mesma tarde me livrei das garras e da raiva daquela magricela. Mas. outro para vítimas de abuso sexual. Tanya era a intervenção em pessoa. pensei? Da pontinha de um dedo. era Ellyn Weiss. ergui os braços acima da cabeça. "Ai. Os pêlos dos meus braços e nuca se eriçaram. Tive calafrios pelo corpo todo. achei que se um dia ouvisse a voz de Deus. Uma voz do mundo dos espíritos. mas mantive os olhos fechados. torcendo para que. a voz do divino. então já estava com oito semanas."Eu sei para onde você está indo". Agora. Que tamanho teria o bebê. "Meu orientador disse que eu não vou ganhar crédito pelo estágio se vocês só ficarem me mandando tirar fotocópias". me desculpe!". tenho certeza de que lá na publicação precisam. escritora freelancer do Village Vanguard. em vez de "Oi". Senti a mesa inclinar quando Tanya apoiou seu peso nela.

ele tinha escrito. parece que a próxima mulher é necessariamente A Segunda. pelo menos durante um certo tempo. Agora você tem o prazer de saber como são as casas por dentro. E. hein? — falou Tanya. aquele cantinho gostoso no pescoço logo abaixo da orelha. Mas não há como evitar. enquanto a primeira era alta. me pergunto? Se houve uma primeira e não deu certo. Ótimo. Afinal. abanando a fumaça do cigarro dela para longe e ficando cada vez mais chateada. Parecia que ultimamente eu chorava por qualquer coisinha: desde a minha própria situação até os artigos de interesse humano que saíam no caderno Lifestyle do Examiner e nos anúncios da sopa Campbell. o vocabulário básico: telefonemas. — Merda! Tornei a me sentar. e se ela estiver certa sou eu quem terá de pagar. "Eu sei que deveria estar me concentrando em E. sem que eu me desse conta. pensei. então tem de haver uma segunda. — O quê? Tanya ficou excessivamente satisfeita consigo mesma. Brotaram lágrimas nos meus olhos. "Ela é a sua namorada de consolação. — Você foi demitida — anunciou ela. Mesmo de olhos fechados. acendendo um cigarro. que chegou às bancas ainda em tempo de estragar o meu dia de Ação de Graças. fazendo que sim com as cabeças como se fossem macacos velhos e não estudantes em cursos de pós-graduação. "Prêmio de consolação". Conhece as regras.. ou funcionários em empregos temporários de tempo integral aos vinte e nove anos de idade. — Sua mãe disse que tinha a ver com Bruce. — Acho que você viu o último artigo que ele escreveu. — Bruce. — Adivinhei. em sua vida. Tinha visto. — Hum! — foi tudo que eu disse. meus amigos me dizem. Meus olhos se abriram. você tem de seguir adiante. pequena e delicada. é diferente do meu primeiro amor: ela é baixa. Agora você consegue o ajuste perfeito. uma próxima. no número de dezembro." Mas o que há de errado em ser consolado. Descobre seu apelido. senti que ela me observava. sem exceção. acho que o segundo é como se mudar para um bairro novo. . não estou a fim de discutir isso agora. Você já sabe que haverá ruas e casas.. Deitei-me de costas. meiga. "O Amor. enquanto a primeira era grande e sólida. enquanto a primeira era de um humor ferino. como consolar uma mulher quando ela lhe conta o que deu errado em seu dia. — Foi o Bruce? Alguma outra coisa aconteceu? — Tanya. — Não. não adivinhei? Sua mãe me deve dez pratas. E de todas as maneiras. Minha pobre vida reduzida a uma série de apostas de dez dólares. Se o primeiro amor foi como explorar um novo continente. pesarosamente. Depois de A Primeira. não fui demitida. Sei que é errado comparar. — Por que isso a incomoda? Ela deu de ombros. como ela gosta que lhe segurem a mão. de repente. Pelo menos no início. mordaz. de novo" era o título.falou ela. chocolates no dia dos namorados. como é passear pelas ruas com seus próprios pés. pelo que ela é". hein? — falou Tanya.

eu estava grávida. eu já não tinha mais certeza se algum dia voltaria a dar. E muito provavelmente eu jamais tornaria a vê-lo dali em diante. — Essa que está morando aqui — disse ele. logo abaixo da orelha — até mesmo saber que ele estaria reparando cal coisa — foi suficiente para revoltar de vez o meu estômago já suficientemente enjoado. gostaria de estar usando os seus — é de vomitar. em letras garrafais. Quanto menos você souber sobre a vida sexual dos seus pais. e dentro. prontamente. o que você vai fazer? — perguntou ela. — Mamãe diz que é a treinadora de natação dela. — Não deve ser nada — disse a Josh. Bruce me disse quando falei com ele ainda naquela noite. embaixo de uma par de versos rimados da Hallmark. em passagens assim: "Você jamais vai acordar ao lado dele novamente" ou "Você jamais vai tornar a falar com ele ao telefone". Começou quando meu irmão. antes de correr ao banheiro para a minha segunda golfada do dia. da maneira como você. "Não deve ser nada"." Sem assinatura. a chama ainda está ardente. Só que não me dava mais a impressão de casa e. às suas impertinências desesperadas e às declarações quinzenais de que eu era a única mulher que ele iria querer na vida. impressionada. e sentimentos descritos em floreada caligrafia dentro. Jamais era outra palavra que eu ouvia ressoar muito na minha cabeça. Claro. na verdade. conclui-se que eles devem ter tido pelo menos uma relação para conseguir você. melhor. às suas ofertas. graças ao treino de auto-ajuda da Tanya e à inutilidade em que o amor transformou minha mãe. principalmente se eles estiverem envolvidos em práticas que estão mais na moda do que as suas. . — Essa é a grande pergunta — falei. e a cada vez que pensava nessas palavras. graças à invasão de Tanya. depois de três meses. filho ou filha. ditas pelo cara que faz a narração dos trailers de cinema em alto e bom som: "Ele não me ama mais. a sensação do momento nestes últimos anos. Ele não me ama mais. Depois de três anos de resistência aos seus pedidos. — É ridículo — retruquei. Josh. e pulei da mesa para a minha bicicleta e parti de volta para casa. Ninguém precisa saber das transações sexuais dos seus pais. fiquei sabendo da história da moda. A simples idéia de Bruce beijando outra pessoa naquele cantinho gostoso do pescoço. Uma treinadora de natação morando em casa? Nunca ouvi falar nisso. dizia o primeiro. Infelizmente. — Acho que são dessa mulher — disse Josh. — Então. toda a situação era ridícula. chegou da faculdade e foi procurar o cortador de unhas no banheiro da minha mãe. ele encontrara outra pessoa. e talvez mais algumas outras se houver irmãos e irmãs — mas isso é procriação. alguém tinha escrito: "Annie. uma obrigação a cumprir. Especialmente se estiverem levando uma vida amorosa dita moderna. era como se as estivesse ouvindo pela primeira vez. E. — Que mulher? — perguntei. "Pensando em você". estávamos separados. A idéia de que usem suas aberturas e adendos para se divertir por prazer — em resumo." — Deve ser difícil — disse Tanya.E foi só até aí que cheguei. e acabou encontrando uma pilha de cartões de confraternização da Hallmark — daqueles com abstratas aquarelas de pássaros e árvore na capa. Precisei ficar me lembrando disso.

— Oh! — exclamei. — Quer que eu peça para ela ligar para você? — Não — falei. minha amiga? Pois é! Bem. oi. — Bem. — Tem alguma coisa que você queira me contar? — perguntei. Era sexta. quando ela ligou para o meu trabalho. dois dias depois: — Não deve ser nada. sim. precisamos discutir esse assunto"). — Mas... muito embora fossem oito horas da noite de uma sexta-feira. Todas as suas amigas moravam nas casas que lhes deixaram os ex-maridos. muito menos que precisassem dormir na casa de alguém.. Ignorei os três e convoquei Samantha para uma sobremesa de emergência. que bom! — falei. cheia de orgulho. com o grupo dela. podem acreditar. sabe a Tanya. — Está bem. que. Minha mãe não tinha amigas que morassem em apartamentos. na segunda-feira. na qualidade do artigo que estava escrevendo sobre a premiação de vídeos musicais da MTV. Não falei com minha mãe até que ela ligou. Mas fosse quem fosse. Passei o resto da tarde olhando para o vazio. Fomos ao bar da esquina. Isso me pareceu um tanto suspeito. — Hum. — Eu preciso desligar — falei. me ligue.. não precisa. Mas o que ela fez foi respirar profundamente.. por favor? — Tanya — disse ela. — Sou amiga da sua mãe. onde pedi uma dose de tequila e uma fatia de . — Está jogando bridge.. Eu estava intrigadíssima. A princípio. — Não. enquanto não arranja outro. havia três recados na minha secretária eletrônica: um da minha mãe ("Cannie. — Desculpe — falei. e desliguei. foi impossível dizer se eu estava falando com uma mulher ou com um homem. — É a Cannie? — perguntou a voz. o que não ajudou em nada. para o meu trabalho.E foi assim que comecei a conversar com minha mãe. educadamente. Mas deixei por isso mesmo até a próxima vez que liguei para casa e uma voz desconhecida atendeu. — Ora.. enquanto trocavam de um para o outro. mas. entrando na dela. — Puxa. tem mais alguém morando aí? — Minha treinadora de natação — disse ela. — Ahn-lô? — grunhiu a voz desconhecida. O que eu posso dizer? Sutileza e discrição são um mal de família. — Sua mãe me falou muito de você. as Olimpíadas foram no ano passado — falei. o quê? — perguntou minha mãe. Quem seria essa mulher? Que história é essa de atender o nosso telefone? — Mas ela não está em casa agora — continuou Tanya. — Tanya é uma amiga do Centro Comunitário Judaico.. Entregou o apartamento e. vai ficar no quarto de Josh alguns dias. nós estamos apaixonadas e estamos morando juntas. Quando cheguei em casa. outro da Lucy ("Mamãe disse que eu precisava ligar para você e não disse por quê"). — Acho que liguei para o número errado. tal qual ela própria. e uma sessão de estratégia. Quem está falando. parecia ter acabado de sair da cama. — Hum. — É. e um do Josh ("Eu não disse?"). esperando que ela fosse dizer alguma variação de um "Não".

eu nem sabia que a minha própria mãe era gay. Samantha murmurou. sei lá. bem.. Não é que haja algum coisa errada com o fato de ser gay. — comecei a chorar quando as imagens horríveis começaram a encher minha mente.. já sabendo a resposta. que acabou aboletada na varanda lá de casa. — E estou — falei. e você sabe como é essa gente do meu bairro! Não vão mais deixar que os filhos venham à nossa casa fazer as brincadeiras de Halloween. Assim fortalecida. — Ah... quando lhe contei mais tarde. Em geral. — falei. — Exatamente o que eu disse. Cannie. — O que você quer dizer com isso? — indagou ele. não iria deixá-lo fazer-me passar por retrógrada ou por ter a mente menos aberta do que a dele. na mesma noite.. É isso que estou querendo dizer. deixando aquilo repercutir dentro dele. .. Como isso pode ser ruim? — E essa outra pessoa? E se for alguém horrível? E se.. já estava operando totalmente no modo liberal. abandonando o jardim ao léu e começando a fazer contato com o seu artista interior. — Você deveria estar feliz por ela ter encontrado alguém a quem amar — repreendeu-me. — Mas o que eu quero dizei é que você não conhece ninguém que seja gay... — Feliz — repetiu Bruce. "Uau!". como você pode supor que seja uma coisa maravilhosa para a minha mãe? Que eu deveria ficar feliz com isso? — Ela está apaixonada. Mas a verdade também é que Avondale não era uma comunidade especialmente integrada. e críticas.. — Meu Deus! — disse Bruce.. — Você acha que um dos meus amigos é gay? — Bruce. — E se. Nenhum que você saiba. mas as pessoas são más.. Com uma boa dose de condescendência. quando meu pai deu início ao seu declínio. contei-lhe o que minha mãe havia me contado. mas. Mas não demorou muito para o choque inicial dele se transformar em. Não havia negros. Então. se elas estão passeando e alguém as vê e resolve jogar uma garrafa de cerveja na cabeça delas ou alguma coisa assim.. mais manso. Mas a verdade é que as pessoas já não deixavam os filhos virem à nossa casa fazer as brincadeiras do Halloween desde 1985. — Quero dizer. acho que estou.... Desta vez. devagar. Ele conseguia ficar algo insuportável quando resolvia seguir a linha do P. eu lhe dava asas.. réplicas de membros da família de minha mãe. Como é que você espera que eu tenha algum vislumbre quanto à sexualidade dos seus amigos? — Ah — disse ele. — Nenhum que você saiba.. Mas. — Nenhum. e reproduzir as doutrinas que eram praticamente obrigatórias entre os alunos de pós-graduação da região nordeste na década de 1990. e parei. que eu me lembre.. Ele trouxe um bisturi do hospital.. desta vez. era uma questão pessoal. — As pessoas são más. Na hora em que chegou à minha porta. — Quantos amigos gay você tem? — perguntei. só uns poucos judeus e nenhum gay assumido. com uma peruca platinada que ele surrupiou do departamento de achados e perdidos do hospital. pegou meia dúzia de abóboras e as transformou em indecorosas. vamos chamar de choque divertido. inclusive uma hedionda versão de tia Linda. e podres. mas precisas...C.bolo de chocolate com cobertura de amora. Só que.

sabia desde a primeira vez que a vi que ela poderia sentir alguma coisa por mim. Esfreguei a manga no rosto e assoei o nariz escandalosamente. Eu ri ainda mais. para ele. e colocou minha mão no encontro entre as suas pernas para eliminar qualquer possibilidade de dúvida... E assim foi. — Venha cá.. Ora! Dizer é fácil. e busquei um dos meus blocos de repórter. é. Bruce mudou de marcha.. Consegui abrir um olho: cinco e quinze da manha!. — Está preocupada com sua mãe ou com você mesma? — é claro que.— E quem liga para o que as pessoas pensam? — Eu ligo — solucei.. que sua mãe morreu quando ela era muito menina ("Aprendi a suportar minha dor com o álcool") e que seu pai tornou a se casar com uma editora que não era legal e se recusava a pagar as mensalidades para Tanya freqüentar o curso de faculdade do Green Mountain Valley Community College ("Eles têm o terceiro melhor programa de arte-terapia da Nova Inglaterra"). — Quero dizer. Fiquei sabendo o nome do primeiro amor de Tanya (Marjorie). eu tinha preenchido nove páginas. Meu Deus! Tanya. beijando-me carinhosamente a testa e tirando Nifkin nem tão carinhosamente assim da cama. — Você só tem de entrar um pouco na onda. mas temos de viver no mundo do jeito que ele é. — Sua mãe fez uma opção.. é bom ter ideais e torcer para que as coisas mudem. Quando nossa conversa acabou. e o mundo é. Nifkin ficou me olhando como quem diz "do que se trata?". — Alô? — Cannie? É Tanya. Entrementes. Tanya linha desandado a falar. — Por que você está chorando? — perguntou Bruce. com um jeito de Lionel Richie. imediata. àquela altura. em meio a um dos pratos de seus sofisticados jantares kosher. menina — murmurou. Bruce ainda estava falando. Tanya? — Amiga da sua mãe. Esforcei-me para conseguir me erguer da cama e me sentar. Tendo cumprido com suas obrigações de galanteio. Quando ergui o rosto e olhei para cima. e se você quiser ser uma boa filha.. Cannie. Depois deu uma fungada de desprezo e tornou a se ajeitar no travesseiro. A imagem da mãe de Bruce em sua banheira de hidromassagem para dois bolinando-se discretamente sob uma toalha de algodão puro e bordado elaborado me fez rir um pouco. enquanto me atraía para perto. Atendi o telefone.. Provavelmente nunca viu a própria.. Não seria a mesma coisa se Audrey do Bom Gosto Eterno anunciasse. — Eu quero você — disse. Aquilo era bizarro demais para deixar de ser registrado para a posteridade.. Eu caí num sono agitado e acordei de manhã com o telefone gritando em cima do travesseiro. como ela veio parar na Pensilvânia . Fiquei sabendo que sofreu abusos do seu professor de piano. — . sem forças. o que tem a fazer é apoiá-la. eu estava chorando tanto que não pude respondei. Sua voz passou do tenor preocupado e conselheiro para um tom mais íntimo. que resolvera estacionar do outro lado da rua. Cannie. — Está vendo? — disse Bruce. — Oi! — falei. já estava atrasada para o trabalho e conhecia todos os detalhes da vida de Tanya. Eu seria capaz de apostar o salário de uma semana inteira que Audrey do Bom Gosto Eterno jamais viu a vagina de outra mulher.. Bruce foi embora à meia-noite. e também houve uma situação de muco que precisou de atenção..

. Tanya passou então à parte de análise e reflexão do discurso.mas o que eu acho — continuou Tanya — é que agora é hora de sua mãe fazer o que ela quer. — Ahn-han.. — Sua mãe dedicou a vida inteira a vocês. com delicadeza. disse a Samantha. — Hein? Eu? — Você é muito fechada em suas emoções. — Você deveria compartilhar mais. — Entendi. — Eu preciso desligar agora — falei. Compartilhar tudo. ela dedicou a vida a vocês e não é que isso seja ruim. — Eu a beijei — anunciou Tanya. "Tão pirada que você não acreditaria". Cannie. Daí o relato passou a como ela havia conhecido minha mãe (trocas de olhares apaixonados no vestiário da sauna feminina — quase fui forçada a desligar aí). — E me dediquei à tecelagem. isso não passa.. — Hum? . eu já havia me recolhido totalmente ao modo repórter e não dizia nada além de "Ahn-han" ou "Entendi".. também — a essa altura. hum. onde foram as duas em seu primeiro encontro (comida tailandesa) e como convencera minha mãe de que suas tendências lesbianas eram mais do que uma aventura passageira. Não sabia se ria ou se chorava. e desliguei o telefone. bando de baratas". — Não critique — avisou-me Bruce.. e eu a segurei pelos ombros e fitei seus olhou e disse: "Ann." — Ahn-han — falei. — Ela é muito co-dependente — confidenciou-me Tanya. Sapatões? Eu mal podia com "lésbicas".. Talvez obessiva-compulsiva. — Vamos arranjar um perfeito desconhecido para eu contar como o meu professor de piano abusou de mim. — E aturou aquele imbecil. — Então eu me mudei de lá — contou-me. Eu sei quanto ela queria ser mãe. ter uma família. — Eu entendo isso da seguinte forma — começou. filhos — disse "a vocês. Guarda tudo muito bem guardado dentro de si. — E ela tentou ir embora. falei para Andy na hora do almoço. executando seu cacoete de piscar. — Entendi. — Estou realmente ansiosa para conhecer você — disse ela. — Ela está. está numa de compartilhar. — Que bom! — disse ele. claro. De ter uma vida própria.. — Entendi — falei. "Para lá de horrível". Em que ponto minha mãe foi promovida a "sapatão"? — . — Sabe que você está certo? — falei. — Seu pai — disse ela. com orgulho. que não estava nem um pouquinho disposta a contemporizar em benefício dos filhos do imbecil em questão. — Ahn-han! — falei. telefonando do carro. então acabei fazendo as duas coisas ao mesmo tempo. filhos" exatamente com o mesmo tom que eu usaria para dizer "a vocês. — A quem estamos nos referindo aqui? — perguntei.. — Como eu estava dizendo. não havia muitas opções para os sapatões naquela época. antes mesmo de eu dizer qualquer coisa.(emprego) e que acabava de desfazer um relacionamento de sete anos com uma mulher chamada Janet. e.

— Mas eu não falei nada! Ela nem me conhece! E foi ela quem ligou. — Você está mudando de assunto — falou Bruce. Eu nunca peço batata frita nesse lugar. fui para o outro lado da mesa e me sentei ao seu lado no cubículo. — Eu sei — falei. Bruce me lançou um olhar cético. ele passava os dias trocando fitas piratas do Springsteen. para que eu possa partilhar. Admita. — Não são folgados. que servia as maiores porções e oferecia as garçonetes mais antipáticas ao sul de Nova York. mas já começava a sorrir. então como é que eu poderia tê-la incomodado? Bruce deu de ombros. — Quem disse? — Ah. Olhei duro para Bruce. — Ela parece seriamente abalada. só porque eu acho que eles deveriam arranjar cada qual o seu emprego? — Está vendo? Lá vai você. dandolhe um apertão na coxa e deitando a cabeça em seu ombro. — O que. eles são uns folgados. Eu me dei conta de . Ele tentou pegar minha mão. Cannie.. Ele tem lá o mosquetão dele. — George passa os fins de semana numa brigada de reencenação da Guerra Civil. mas uso todo o meu poder de persuasão para convencer Bruce a pedir. — George tem um emprego de verdade. Até mesmo o Sr. — Você sabe que eu só sou crítica porque sou ciumenta — falei. Eles têm empregos e você sabe disso. você tem essa coisa meio crítica o tempo todo. pare com isso. — Gostaria de ter esse tipo de vida. Essa é a verdade. — Não fique zangada. Estávamos no Tick Tock Diner.— Abusaram dela — falei. — Ah. — Querido. — minha voz desapareceu aí. e a madrasta convenceu o pai a não pagar as mensalidades da faculdade. Amai a Todos ficou impressionado com esta informação. É só que. acho eu. Não ter de pagar o crédito educativo. onde. tinha um emprego temporário de tempo integral numa empresa que começava a atuar na Internet. os meus amigos. — E ela me contou todos os detalhes sanguinolentos. concluíamos da melhor forma possível. Pude perceber que ele estava tentando continuar zangado. arranjando namoradas num dos três serviços de encontro on-line que tinha assinatura e dando um jeito de comprar drogas. — Mas é que um sujeito que tem seu próprio mosquetão dá uma ótima frase de impacto. — Acho que é o seu jeito. O que Eric Silverberg faz na vida? Eric conforme nós dois sabíamos. pais heterossexuais casados e estáveis que me repassassem a mobília pouco usada a cada reforma que fizessem em casa e me dessem um carro novo de presente de Chanucá.. ter o aluguel resolvido.. — Ela lhe contou isso tudo? — O que você acha? Que eu peguei o carro e fui até lá para ler o diário dela? Claro que me contou — parei para roubar algumas batatas fritas do prato dele. com dureza. Bruce estava me olhando. Isso é crítica. Eu me levantei.. — Você provavelmente a estava incomodando. — Minha Nossa! — Pois é! E a mãe dela teve câncer de mama.

. e eu me sentia envolta. sei que deveria ter esperado um pouco para lhe dizer pessoalmente. Por favor. — Você está feliz? — Estou me sentindo como se estivesse na escola — falou minha mãe.que. inclinei a cabeça para perto de Nifkin. eu queria pedir desculpas por desembuchar as coisas daquele jeito em cima de você. — Estou me sentindo. — Por onde você andou? Liguei tantas vezes. — É que. Respirei fundo. — Está certo. afinal. parece que todo mundo consegue as coisas com mais facilidade do que eu. do alto dos seus cinqüenta e seis.. soando aliviada.. — Desculpe — falei. — Bem. como se ele estivesse ali me abraçando com força. deixei-me simplesmente levar junto com ele. o nosso cheiro: fumo e sexo. tardes de relaxamento trocando cadernos do Times de domingo e eu fui para casa antes de começarmos a implicar um com o outro. Baixa capacidade de concentração. acabava de descrevê-lo também. Apertei a camisa de Bruce em torno de mim. — Tanya é maravilhosa. — Você quer fazer alguma pergunta? — disse ela. não no escritório — falei. Desculpe. de forma que ele pudesse me dar uma lambida encorajadora e liguei para casa. E logo sua língua estava dentro da minha boca. mas as mangas chegavam às pontas dos meus dedos. — Cannie! — disse. — Trinta e seis — disse minha mãe. Falamos um pouco sobre a minha mãe. Seja corajosa. Cannie — sussurrou. Estava com o cheiro dele. Passei o fim de semana no apartamento de Bruce.. Foi uma daquelas ocasiões em que tudo deu certo: sexo bom. me acontece uma dessas! — Você já pensou que talvez essas coisas aconteçam com você porque você é forte o suficiente para agüentá-las? — perguntou Bruce. — foi como se eu estivesse ouvindo-a experimentar na cabeça meia dúzia de comentários introdutórios. em júbilo. Bruce não se dava bem com teatros. a pele dele e o meu xampu. Era apertada demais no meu peito — tudo dele era —. hum. segurando minhas mãos. pensei. — Ou. — Tudo bem. — Uma mulher mais nova — observei. .. Esticou o braço lá embaixo para pegar minha mão. Ela riu. — Então.. Senti o gosto do ketchup e do sal nos lábios dele. Fechei os olhos e me permiti esquecer. bem. E ele me deu sua camisa de flanela preferida para eu voltar para casa. e que toda vez que estou começando a conseguir que as coisas fiquem mais ou menos legais... Minha mãe soltou uma risadinha. um bom jantarzinho fora. — Fui para a casa do Bruce — falei. — e ele já estava me beijando.. acima de tudo. Ainda bem que foi minha mãe quem atendeu... Você não faz idéia de como isso me incomodou. além de descrever a maioria dos seus amigos. não tente. já em casa. confortável. trouxe-a para cima e a colocou sobre sua coxa.. Bem no alto.. com delicadeza. mas. Minha mãe nunca foi do tipo de soltar risadinhas. Você vai ver. pensei.. eu queria. — Você é tão forte. ah. às vezes. — E que. — Quantos anos ela tem? — perguntei. na cama. Acho que eu deveria. nem sei descrever. pelo menos... — Tínhamos uns ingressos para o teatro — menti.

. uma farra. meu Deus! Ah. Eu me dei conta disso quando fui para casa seis semanas depois daquilo a que meus irmãos e eu estávamos nos referindo como O Apagão da Mamãe e vi o que estava escrito na parede." E abaixo do pôster dos golfinhos estavam minha mãe e uma mulher que só podia ser Tanya. ." — Mãe? — chamei.e a madrasta malvada. para todos os efeitos. Mas não veio nada. até a ex-namorada obsessivo-compulsiva co-dependente. estava ganindo e se encolhendo em volta das minhas pernas de um jeito que não lhe era peculiar de forma alguma. Cannie. sabe. — Nossa! — Talvez seja interessante ela pensar em fazer uma terapia — disse eu. minha mãe parecia estar.. quase orgulhosa. A voz de minha mãe ficou séria. mas há um quê de verdade nela.. Depois que as duas começaram a sair. estava escrito: "Inspiração é acreditar que todos podemos puxar juntos. O que uma lésbica traz no segundo encontro? diz a piada. deixando cair no chão as minhas malas. — Acho que não — disse. — O que você quer dizer? — Bem. — Contou — disse eu. por ela ter sofrido abusos. entrementes. ela se mudara para lá no segundo encontro.. o pôster na parede.. desde o professor de piano que mexeu com as teclinhas dela. Há muitos anos. — O que foi que ela disse? — Talvez leve menos tempo para contar o que ela não disse. — Fiquei sabendo de toda a saga. Esperei.— Parece que ela tem um probleminha com. seguida de um Nifkin todo acovardado. — Ah. Tanya se mudou do porão do condomínio de sua ex-namorada obsessivo-compulsiva co-depedente para um apartamento próprio. de fato. torcendo para que fosse apenas uma fase... — .. Desta vez. até. ela me ligou na sexta-feira de manhã.. Bem. limites — arrisquei. Querida? Estranhei aquilo e entrei na sala íntima.. — E ainda não se deu conta de que não se sai contando sua vida inteira para uma pessoa totalmente desconhecida na primeira conversa? Minha mãe soltou um suspiro. — Quero dizer que eu sinto muito. com um certo pesar. Esperei por um pedido de desculpas... Que nada! Tanya tinha chegado para ficar. Nifkin. — Ela faz. — Aqui dentro.. o pôster era de golfinhos saltitando Dizia: "Trabalho em Equipe.. alguma coisa que trouxesse nexo a tudo isso.. Como se por trás da raiva.. Uma rápida tomada de ar. — Ai. as duas de moletom roxo combinando. Mas. O que um gay traz no segundo encontro? Que segundo encontro? Uma velha piada.. Acima da imagem de uma onda se quebrando. acho que você não estava aí. Depois de alguns instantes de silêncio incômodo.. por trás do tom chocado. Cannie. minha mãe mudou de assunto e eu a acompanhei. um pesadelo. estivesse mimando uma filha predileta com uma de suas brincadeiras prediletas. horrorizado. Verdade. uma explicação. ela contou! — mas. O caminhão de mudanças. — Ufa! — disse minha mãe. querida — gritou minha mãe.Cannie! — . faz sim.

Superprático. apontando para os golfinhos do trabalho em equipe. e um corte de cabelo simples e prático. estou vendo. E essas foram apenas as mudanças mais óbvias.— E aí? — disse Tanya. o apartamento é muito pequeno. se tanto. com uma carapinha de cabelos ruivos e a pele bronzeada numa tonalidade e consistência de couro velho. eu estava começando a ficar impaciente. com direito a joelho ralado e Band-Aid no dedo. assim. — Mãe! — chamei. Evidentemente. — Tem alguma coisa errada aqui. chegando quase à histeria. — O quê? — disse minha mãe. — Tanya — destaquei bem — tem um apartamento. — Os pôsteres — falei. A gata a ignorou e se ajeitou num raio de sol que se projetava bem no meio da sala. Estantes de plástico para guardar revistas foram aparafusadas às paredes. — É que eu gosto de golfinhos — disse ela. "Terapeuta" e "privacidade" pareciam envolver um tema dominante. De vez em quando. São. Nifkin soltou um ganido agudo e fugiu. — Sabe.. acontece que a porta está trancada. Ouvi uma troca de perguntas e respostas sussurradas na cozinha: a voz de minha mãe em tom calmo e tranqüilizador. de um metro e meio de altura. E quando fui deixar as malas no quarto. a de Tanya em tom grave e retumbante que se avolumava. — Tanya está. Fica bem ao lado da placa de "27 dias sem acidentes de trabalho". — Hein? — disse Tanya. — Gertrude! Mas que gata malvada! — acudiu Tanya. guardando algumas de suas coisas aí. minhas expectativas estavam erradas. Eu só fiquei olhando para ela. tipo arte motivadora. Eu estava esperando uma típica professora de ginástica. ameaçou insolentemente Nifkin e esticou uma pata com as garras abertas. a porta não abriu. Afinal. ouvi um gemido fraco de protesto. Havia também um acervo de miniaturas de golfinhos dispostas sobre a lareira. Tanya deu de ombros.. — Hum. quem sabe você não dorme hoje no quarto do Josh? Àquela altura. distinguia algumas palavras. — Sobre o quê? Sobre a porta emperrada? — Bem. — Temos empregados a quem precisamos motivar? — perguntei. eu ia lhe falar sobre isso. Será que não pode guardar suas coisas nele? Minha mãe deu de ombros. bem. — Nifkin! — chamei eu. de jeito nenhum na língua do Nifkin. acanhada. Parecia uma menininha. com bíceps e panturrilhas definidos. .. Tanya era uma mulherzinha roliça qual uma ervilha. — Ahn-han — falei —. Reta de seio e quadril. Do andar de cima. Um imenso gato cor de tangerina saltou do peitoril da janela.. — E aí? — minha mãe repetiu. minha mãe subiu as escadas com ar perturbado. para dizer a verdade. onde costumavam ficar as fotos da família. — Eles têm exatamente os mesmos nas instalações da gráfica lá do trabalho. você nem imagina! E não tinha sentido deixar. dando à nossa sala íntima um aspecto de consultório médico — para melhor dispor os exemplares da revista Rehabilitation que Tanya colecionava. cheios de veias.

— Cannie — falou Tanya.— Mãe. — Nós fizemos algumas mudanças — murmurou.. — Está tentando parar. — Claro que não. e bati a porta na cara dela.. E daí. Perdi a fala. Tanya subiu a escada com passadas pesadas. uh.. Eu tomei fôlego. qual é o problema? — É que nós. algumas prateleiras horrorosas de madeira prensada recoberta por um laminado de plástico imitando castanheira. um computador. Eu gostaria de dormir no meu quarto. você não. destrancou a porta e desceu novamente com passadas pesadas... havia. o pior de tudo. — Ora. Coragem para a cura. varrendo o ar com a mão para indicar o tear. tiramos a sua cama. eu notei. E isto — falei. abarrotadas de livros. em cima da escrivaninha havia um cinzeiro. um futon surrado.. ouvindo-a mexer na maçaneta depois que tranquei a porta com o trinco que ela mesma colocou ali. — Essa não! — Equilibrar significa levar outras coisas em conta. Na janela estava pendurado um vitralzinho em forma de arco-íris triangular e. Senti um prazer perverso. — Tanya precisava de um espaço para o tear. Ora essa. eu sinto muito. Marlboro Lights e incenso! Eca! Por que teve de colocar seus guias de auto-ajuda e seu cheiro de cigarro no meu quarto? E onde estavam as minhas coisas? Virei-me para a minha mãe. É de um egoísmo total. — É. Conseguiu subir de alguma forma sem que eu ouvisse. — Há um tear aí dentro? De fato.. Entrei no quarto e vi o tear. é o meu quarto. Isto é ridículo. você não mora mais aqui. . Isto. Cannie. 4 Editado no Brasil pela Editora Record. — Sabe de uma coisa? Você bem que poderia ter-me contado. — Ah. Só estou tentando equilibrar coisas por aqui. o cinzeiro e o golfinho de pelúcia escarrapachado em cima do futon — é levar em conta apenas o que uma pessoa quer e esculhambar completamente com a outra. Girei os olhos dentro das órbitas. mas isso não significa que eu não queira dormir lá quando vier para casa. é o que você está remoendo4. Qual é o problema? — Ora. — Queira nos desculpar — falei. ____________________ 3 Editado no Brasil pela Editora Rocco.. Está tudo encaixotado lá no porão. isso me faz sentir bem melhor! — Minha filha — disse ela —. — Vocês tiraram a. escolhas insensatas3.. — Ela fuma? Minha mãe mordeu o lábio. amuada. dentre os quais Mulheres inteligentes. Eu teria vindo aqui e retirado as minhas coisas. Cannie.. e Não é o que você está comendo. Minha mãe soltou um suspiro. nós não jogamos nada fora.

. em tom triunfal ao localizar o nome em suas anotações. a Dra. constantemente. trabalhando de dançarina de boate fazendo topless e seus pais não perceberam?" "Isso foi em 1986". você não tem como mudar as coisas que qualquer pessoa faça neste mundo. Além da incapacidade de me acompanhar." A Dra. "Espere aí. mas nunca confiei de fato nela. Eu poderia ter vindo aqui pegar as minhas coisas. sabe. você não pode controlar o que eles fazem. por favor. Nem seu pai.. de forma que é isso aí. — Desculpe — disse ela. James era o cara da equipe de remo. nem Tanya.. ponderar a respeito e tomar uma decisão consciente acerca de quanto vai deixar que aquilo lhe afete. Eu me abria o melhor que podia. de estar induzindo-o a alguma coisa. Blum apertava os olhos para enxergar as anotações. respondia às suas perguntas sempre que ela as fazia. todas as suas saias arrastavam no chão. tentando conter os bocejos. — Certo. dizia ela. ela não chegou a me declarar curada. "Sua irmã estava. E o número dois? . — Você enlouqueceu de vez? Isso é ridículo! Bastaria ter-me dado a porcaria de um telefonema. apercebeu-se no meio do caminho e acabou pegando a cadeira da escrivaninha de Tanya. quando eu emendava de repente na última atrocidade de Tanya com relação à incapacidade de minha irmã Lucy ficar num emprego.. Blum passava ainda menos confiança por causa das roupas que usava. Essa visita ocasionou a minha primeira — e até agora a última — cota de terapia. se você vai deixar que aquilo a leve à loucura e não lhe saia mais da cabeça. O plano de saúde do Examiner pagou dez consultas com a Dra... e o professor de história era. E sempre alguns lances atrás do enredo em questão. Bem. enquanto eu lhe contava toda a minha história de pai maluco. mas me deixou dois conselhos para seguir.. Como poderia confiar numa mulher que era ainda mais desligada da moda do que eu? Ao fim de nossas dez sessões. hum. — Vamos voltar à sua irmã um instante — dizia ela. "Meu pai tinha ido embora. ou se você vai observar o que elas estão fazendo. nem sua mãe. dizia eu. com medo de mim. — Primeiro — disse —. ela acreditava que a Lucy estava cuidando de criança até às quatro horas da madrugada. Todas as suas mangas batiam na ponta dos dedos. — Não sei direito se o amo. James? — Não. eu sei que isso é um choque. Eu ficava preocupada com ela. Parecia que ela estava. uma mulherzinha com a cara da orfãzinha Annie.Minha mãe foi sentando onde ficava a minha cama. — .. — Está bem. nem Lisa. que escrevia sem parar. mas pode controlar a sua maneira de reagir a essas coisas. E Bruce é o cara de agora. não. E minha mãe não conseguia enxergar que eu estava dormindo com o assistente do professor de história e tinha engordado vinte e cinco quilos no primeiro ano da faculdade.Lucy — corrigi. — Mas eu estou mesmo preocupada. Minha mãe ficou arrasada. Jason era o poeta frentista do posto de gasolina.. Acabei não passando a noite lá. Vestia-se como se não soubesse que existia uma sessão para as mignons.. vamos voltar um pouco". — Isso. E Bill foi o cara da faculdade. folheando-o bloquinho cada vez mais rapidamente. divórcio horroroso e mãe lésbica. — Bruce! — dizia ela. enquanto eu esperava sentada.. — Cannie. Blum. ou algo assim desse gênero — falei e soltei um suspiro..

e cada qual com uma história de fundo ("Minha mãe fez isso para mim.— Fique com Bruce — disse. inclusive um convite para ver os pontos da cirurgia. de Manayunk. sutilezas. com sua voz retumbante. Josh estava no sofá. quando estamos em casa. para ver a infindável lista de receitas com que ela vai brindar você. mamãe é bem formada. — Alguém tratar a gente assim por uma semana.. cobri-la com um cobertor. e Lucy um embolado esquisito de fios de lã que Tanya explicou tratar-se de um regalo. as coisas ficaram mais fáceis. É como se ela fosse desafinada. parece um ótimo apoio e eu acho que você vai precisar disso nos próximos meses. enquanto Josh maquinava num fio de voz se aquilo não poderia ser jogado no fundo da piscina para uma prática veranista de pescaria de regalo. ela não percebe nuanças. E baba pela minha mãe da maneira mais chata que se possa imaginar. e que eles faziam coisas do tamanho dela. disse ela. só que em vez de não distinguir as notas musicais. na noite em que voltou do hospital para casa. dedilhando no violão o que parecia ser o tema de Barrados no baile. Nifkin.. Eu tinha um cachecol com as cores do arcoíris ("Você pode usar para o Desfile do Orgulho". que ganhara um suéter de arco-íris. quando estamos na rua. Tanya tem a habilidade popular da vida vegetativa. sua agonia e seus pôsteres para dentro de casa. — Tanya coloca a mão na boca de mamãe quando começa a passar Jeopardy — proferiu Josh. . — "É para manter as mãos agasalhadas". e estávamos sentados na saia íntima depois que os convidados se foram e minha mãe e Tanya tinham ido se deitar. estava no meu colo dormindo com um olho aberto. cada qual com o presente que Tanya havia tricotado. Tanya sugeriu).. — Não entendo — foi o que falei.. também com o arco-íris do orgulho gay. Ela me desejou boa sorte. chegada a uns acessos de choro em público e ataques de mau humor nos quais acaba por se trancar no meu ex-quarto. Nós três tínhamos vindo para casa para o Chanucá.. viajada. seguindo-a por todo canto como um bichinho de estimação apaixonado.. Ele está à sua disposição. Basta perguntar como vai que você recebe um relato completo e minucioso da sua última crise de trabalho ou saúde.. quem sabe. e passou a tocar Sex and candy. conversa fiada e mentirinhas. afagar-lhe os cabelos. sem um pingo de ânimo. E foi esse o fim da minha grande experiência com terapia. — A bem da verdade — disse Lucy—. esforçando-se para pegar-lhe a mão a todo instante. Josh tinha luvas de frio. desde que Tanya trouxe seu tear.. acariciar-lhe o pé. — Mesmo que não ache que seja o homem certo. Demos um aperto de mãos. elas não se falam. mas onde é que está o desafio? Onde está a empolgação? E sobre o quê elas conversam? — Nada — disse Lucy."). Ao mesmo tempo. — Doente — declarou Josh. Eu gostaria de poder dizer que nestes anos. eu me lembro bem. seriamente. eufemismo. — Sabe. Mas o fato é que não ficaram. — Imatura — disse Lucy. Agradeci-lhe pela ajuda e informeilhe que estava tendo uma grande liquidação na Ma Jolie. seria legal. — Pois é! E do que falariam? — perguntei. mas Lucy e eu já havíamos soltado sonoras gargalhadas. pronto para galgar territórios mais elevados caso as malignas gatas Gertrude e Alice aparecessem. Experimente dizer que gostou do que ela cozinhou — e só Deus sabe o tamanho da mentira! —. ou bate em retirada de onde quer que estejamos. é extremamente melindrosa.

— Argh! — exclamei. — Pois é — confirmou Lucy. — Ela diz que é chatice da mamãe ficar cantando todas as respostas. — Provavelmente, porque ela não sabe nenhuma — disse Josh. — Sabe de uma coisa? — disse Lucy. — Essa coisa de lésbica até que vai. Seria aceitável se fosse... — ...outro tipo de mulher — concluí eu, e fiquei ali sentada, imaginando o que seria um amor mais apropriado do mesmo sexo. Digamos, uma professora de cinema da Universidade da Pensilvânia, com dedicação exclusiva, toda chique, de cabelo cortado à fadinha e pingentes de âmbar, que nos apresentasse a diretores do cinema independente e levasse minha mãe para Cannes. Mas, em vez disso, minha mãe foi se apaixonar por Tanya, que não era letrada nem chique, cuja cinefilia se voltava mais para a obra de Jerry Bruckheimer, e não possuía sequer um penduricalho de âmbar. — Então, qual é? — perguntei. — Qual é a atração? Ela não é bonita. — Disso não há dúvida — disse Lucy, estremecendo dramaticamente. — Nem inteligente... nem engraçada... nem interessante... Ficamos todos sentados ali, em silêncio, enquanto nos dávamos conta de qual seria a atração. — Aposto que ela tem a língua igual à de uma baleia — disse Lucy. Josh fez que ia vomitar. Eu girei os olhos nas órbitas, de náusea. — Igual à de um tamanduá! — gritou Lucy. — Lucy, pare com isso — falei. Nifkin acordou e começou a grunhir. — Além do mais, mesmo que seja só sexo, não tem muito para onde ir. — E como é que você sabe? — disse Lucy. — Pode acreditar no que estou dizendo — afirmei. — Mamãe vai se encher disso. Ficamos os três sentados, remoendo aquilo. — É como se ela não ligasse mais para nós — soltou Josh. — Liga, sim — falei. Mas não tinha muita certeza. Antes da Tanya, minha mãe gostava de fazer coisas conosco... quando estávamos todos juntos. Ia me visitar na Filadélfia, e Josh em Nova York. Cozinhava quando vínhamos para casa, telefonava algumas vezes por semana, vivia atarefada com seus clubes de livros e grupos de estudo, um círculo muito grande de amigos. — Agora ela só liga para a Tanya — falou Lucy, amargurada. E eu não tive um argumento para dar. Claro, ela ainda telefonava para nós, mas não com a mesma freqüência. Já não me visitava há alguns meses. Seus dias (para não falar das noites) pareciam preenchidos por Tanya — os passeios que faziam de bicicleta, os chás dançantes que freqüentavam, o fim de semana do Ritual de Cura para o qual Tanya a levou como presente-surpresa pelo terceiro mês de namoro, onde elas queimaram artemísia e rezaram para a deusa Lua. — Não vai durar — falei, com mais convicção do que a que estava sentindo de fato. — E só uma paixão passageira. — E se não for? — cobrou Lucy. — E se for amor verdadeiro? — Não é — insisti. Mas, por dentro, achei que talvez fosse. Que era isso mesmo, que estaríamos iodos atrelados a esse desastre emocional, essa criatura sem graça e horrível até o fim de nossas vidas. Ou pelo menos até o fim da vida de nossa mãe. E depois... — Pensem só no enterro — entreti-me. — Meu Deus! Dá até para ouvi-la... — e baixei o

meu tom para imitar o rascante da voz de Tanya. — "Sua mãe queria que eu ficasse com isso" — rugi. — "Mas Tanya" — falei, em minha própria voz —, "isso aí é o meu carro!" Os lábios de Josh esboçaram um sorriso. Lucy riu. Eu repeti o grunido da Tanya. "Ela sabia quanto ele significava para mim." Agora Josh já abrira um sorriso franco. — Imite o poema — disse ele. Eu fiz que não com a cabeça. — Ah, vai, Cannie — implorou minha irmã. Limpei a garganta e comecei a recitar Philip Larkin. — Eles te fodem todo, teu pai e tua mãe. Podem até não ter a intenção, mas que fodem, fodem. — Eles te enchem das falhas que tinham... — continuou Lucy. — E acrescentam mais algumas, só pata ti — disse Josh. — Mas eles também foram fodidos, por sua vez, por idiotas de chapéu e paletó antigos, que viviam metade do tempo entre o dengo e a rigidez, e passavam a outra metade a se engalfinhar. E nos juntamos os três para a última estrofe — aquela que eu não conseguia nem tentar me lembrar em meio à provação que me encontrava. — O homem passa angústia para o homem, e ela se aprofunda qual a plataforma continental. Sai dessa o mais rápido que puder, e trata de não ter filhos. Então, ante a sugestão de Lucy, pusemo-nos todos de pé — inclusive Nifkin — e jogamos nossos artigos tricotados na lareira. — Fora, Tanya! — entonou Lucy. — Que volte a heterossexualidade! — implorou Josh. — Assim seja — fiz-lhes eco, e fiquei vendo o cachecol queimar. Cheguei em casa e estacionei a bicicleta na garagem, ao lado do carrinho de Tanya com seu plástico colado ao pára-choque que dizia. "A mulher precisa de um homem tal qual um peixe precisa de uma bicicleta", tirei o gigantesco peru congelado de dentro do freezer e o coloquei na pia para descongelar. Tomei uma ducha rápida e fui para o que antigamente era meu, onde fiquei acampada desde que cheguei. Entre pequenos passeios de bicicleta e banhos demorados, tirei cobertores do armário das roupas de cama em quantidade suficiente para transformar o futon de Tanya num oásis bem forrado. Também desencavei um caixote de livros do porão e estava relendo os sucessos da minha infância: Uma casa na campina5, Tudo depende de como você vê as coisas6, As crônicas de Narnia7 e Os cinco pimentinhas e como eles cresceram. Estava regredindo, pensei, indefesa. Mas uns parcos diazinhos e voltaria ao estágio embrionário.

_____________ 5 Editado no Brasil pela Editora Record. 6 Editado no Brasil pela Editora Companhia das Letras. 7 Editado no Brasil pela Editora Martins Fontes.

Sentei-me à escrivaninha de Tanya e verifiquei meu correio eletrônico. Trabalho, trabalho. Pessoa Idosa, Zangada ("Seu comentário sobre a CBS ser a rede para telespectadores que gostam de comida 'pré-mastigada' foi indelicado!"). E um bilhete de Maxi. "Aqui está fazendo 37 graus todo dia", escrevera. "Morro de calor. Estou cheia disso. Quero saber do dia de Ação de Graças. Qual é o elenco?" Sentei-me para responder. "O feriado de Ação de Graças é sempre uma produção na minha casa", escrevi. "Começa que estamos, minha mãe, Tanya, Josh, Lucy e eu. Depois vêm as amigas da minha mãe, e seus maridos e filhos, e demais almas perdidas que Tanya venha a recrutar. Minha mãe prepara peru desidratado. Não é que o peru seja desidratado de propósito, mas, sim, porque ela cozinha na grelha a gás e ainda não descobriu o tempo que precisa para ficar no ponto, mas sem deixar passar demais. Purê de batata. Purê de batata-doce. Um verde qualquer. Recheio. Molho. Geléia de amora em lata." Meu estômago embrulhou no momento exato em que eu escrevia. Já havia parado de sentir enjôo durante quase a semana passada inteira, mas pensar no peru ressecado, no molho encaroçado da Tanya e no coquetel de amoras enlatadas foi o suficiente para me fazer pegar o sal de frutas que tinha trazido na mala. "A comida não é o ponto principal", continuei. "É bom ver as pessoas. Algumas, eu já conheço desde que era menina. E minha mãe acende a lareira, a casa fica com o cheiro da fumaça da lenha, todos nos sentamos à mesa e citamos uma coisa pela qual somos gratos." "E o que é que você vai dizer?", Maxi respondeu prontamente. Soltei um suspiro, balançando os pés dentro das grossas meias de lã que surrupiara do estoque de L.L. Bean, de Tanya, e apertei em torno de mim o xale afegão que roubara da sala íntima. "Não estou me sentindo grata por nada neste momento", digitei de volta, "mas vou pensar em alguma coisa."

ONZE O Dia de Ação de Graças amanheceu gélido e com um sol forte. Saí da cama me arrastando, ainda bocejando às dez horas da manhã, e passei algumas horas tirando folhas do quintal com o ancinho, acompanhada por Josh e Lucy, enquanto Nifkin, da varanda, não despregava o olho de nós, nem dos gatos sorrateiros. Às três horas da tarde, tomei um banho, dei um jeito no cabelo com o secador e passei batom e rímel, vesti a minha calça de veludo preto de pernas folgadas e o suéter de cashmere que havia colocado na mala na esperança de que o efeito cumulativo resultasse em um estilo próprio e um visual emagrecedor. Lucy e eu pusemos a mesa, Josh ferveu e descascou os camarões, e Tanya saracoteou pela cozinha, fazendo mais barulho do que comida e parando a toda hora para fumar. Às quatro e meia da tarde, os convidados começaram a chegar. Beth, amiga de minha mãe, chegou com o marido e os três filhos altos e louros, o mais novo ostentava um brinco atravessado pelo septo nasal, o que lhe conferia ares de um touro judeu desconcertado. Ela me abraçou e começou a enfiar bandejas de aperitivos no forno, enquanto Bem, o do piercing no nariz, pôs-se a jogar castanhas salgadas discretamente nos gatos de Tanya. - Você está ótima – disse, como sempre diz. Nem de longe era verdade, mas fiquei agradecida pela delicadeza. – Adorei o seu artigo sobre o novo espetáculo de Donny e Marie. Quando você falou que estavam cantando com LeAnn Rimes e parecia que tentavam sugar dela todo o sangue vital... que engraçado! - Obrigada – falei. Adoro a Beth. Só ela para se lembrar da passagem sobre os “Vampiros Mórmons”, aquela que eu adorei também, mesmo tendo causado uma dúzia de telefonemas irados para a minha editora, um punhado de cartas malcriadas (“Prezada Repórter de Meia Tigela”, começava a minha predileta) e mais uma bem-intencionada visita de dois estudantes de dezenove anos da Universidade de Brigham que estavam passeando pela Filadélfia e prometeram rezar por mim! Tanya prestou sua contribuição de feijão-verde encimado por cenouras cruas, tiradas de uma lata e misturadas com um pacote de pó de creme de cogumelo Campbell, depois se enfurnou na sala íntima e acendeu um fogo bem alto na lareira. A casa se encheu com o doce aroma da lenha queimando e do peru assando. Nifkin, Gertrude e Alice acertaram um cessar-fogo e foram se deleitar enfileirados diante das labaredas. Josh serviu os camarões. Lucy preparou Manhattans – aperfeiçoados a técnica durante uma temporada como balconista de bar, que se seguiu àquela como dançarina de topless, mas que ainda foi antes dos seis meses que passou fazendo sexo pelo telefone. - Você está horrível – disse ela, enquanto me entregava um drinque. Lucy estava ótima, como sempre. Minha irmã é só quinze meses mais nova do que eu. As pessoas costumam dizer que parecíamos gêmeas quando éramos pequenas, ninguém nunca mais disse isso. Lucy é magra – sempre foi – e mantém os cabelos ondulados curtos, de forma que as pontas levemente afiladas de suas orelhas aparecem quando ela balança a cabeça. Tem lábios carnudos e bem marcados, uns olhos grandes e castanhos tipo Betty Boop, e se apresenta ao mundo como a estrela que acha que deve ser. Já faz anos que não a vejo sem a maquiagem completa, lábios delineados e coloridos com

perícia, sobrancelhas muito bem tiradas e uma reluzente bolinha de prata incrustada bem no meio da língua. Para a festa de Ação de Graças, trajava uma calça de couro preta colada no corpo, botas pretas de salto alto e um conjunto de blusa e suéter cor-de-rosa com lantejoulas. Parecia recém-chegada de uma sessão de fotos num estúdio ou que estava apenas dando uma passadinha por ali antes de ir comemorar o feriado na casa de gente muito mais sofisticada. - Estou um pouco estressada – falei, bocejando, devolvendo o drinque e querendo mais tempo para outra soneca. Minha mãe se esforçava para distribuir pela mesa as mesmas placas indicativas dos lugares que as pessoas deveriam ocupar que usara na Páscoa judaica do ano passado. Eu sabia que havia uma em que estava escrito “Bruce” no meio daquela pilha e fiquei torcendo, para o meu próprio bem, que ela a tivesse jogado fora e não apenas riscado o nome dele e colocado outro para economizar. A última vez em que ele esteve aqui foi no inverno. Josh, Lucy, Bruce e eu ficamos na varanda tomando as cervejas que Tanya nos recusou o direito de pôr na geladeira. (“Estou me recuperando”, vociferava, segurando as garrafas infratoras como se fossem granadas.) depois fomos dar uma volta no quarteirão. A meio caminho, começou a nevar inesperadamente. Bruce e eu ficamos de mãos dadas, olhos fechados e bocas escancaradas, sentindo os flocos caírem no nosso rosto qual beijinhos molhados, muito tempo depois de todos terem entrado em casa. Fechei os olhos ante a lembrança. Lucy olhou para mim. - Nossa, Cannie! Você está bem? Pisquei para afugentar as lágrimas. - Só cansada. - Hnf! – exclamou ela. – Se é assim, vou amassar uma coisinha especial e colocar junto com a sua batata. Dei de ombros, e evitei comer a batata na hora do jantar. Seguimos a tradição da minha mãe na Ação de Graças, dizendo, cada qual à sua vez, ao redor da mesa, aquilo por que estávamos gratos naquele ano. - Agradeço por ter encontrado tanto amor – disse Tanya, com sua voz rouca, enquanto Lucy, Josh e eu piscávamos e minha mãe pegava-lhe a mão. - Agradeço por ter minha família maravilhosa reunida – disse minha mãe. Os olhos dela brilhavam. Tanya deu-lhe um beijo no rosto. Josh grunhiu. Tanya lançou-lhe um olhar malicioso. - Agradeço... – precisei pensar um pouco. – Agradeço por Nifkin ter sobrevivido ao surto de gastroenterite hemorrágica do verão passado – acabei dizendo. Ao ouvir seu nome, Nifkin colocou a pata no meu colo e soltou um ganido carente. Discretamente, passei-lhe um pedaço de pele de peru. - Cannie! – gritou minha mãe. – Pare de dar comida a esse cachorro. - Agradeço por ainda estar com vontade de comer depois de ouvir falar da doença do Nifkin – disse Bem que, além do piercing no nariz, implicava com os pais usando camiseta em que se lia, “O que faria Jesus?” - Agradeço por Cannie só ter acabado com Bruce depois do meu aniversário, pois assim ganhei dele aqueles ingressos para o Phish – disse Josh, em seu tom de barítono profundo que caía tão bem com sua envergadura de mais de um metro e oitenta de carne e osso,

“Bom!”. Ela a puxou para trás. . Nifkin se retorceu e grunhiu contra alguma coisa que enveredava pelo seu sonho.Cannie? – disse minha mãe. . Lucy ficou desarmada. ao mesmo tempo em que evitava as perguntas cada vez mais incisivas de minha mãe sobre pagamento por aquilo tudo. Vou posar de modelo de luvas de borracha.Desculpe – falei. eu fiquei me entupindo de peru com recheio de feijão-verde de forno. da escola aos relacionamentos. que jamais tornássemos a nos ver. é claro. Conhecendo a minha família. – Deixe para lá.. e eu. . não. no mesmo tom. Pensei que talvez fosse possível. . . eu também era. antes que o há muito adormecido vulcão de Montserrat entrasse em erupção e eles evacuassem a ilha toda. num cochicho audível. assustada. – Obrigado – disse-me. se ao menos eu pudesse abrir mais o meu coração e ser mais gentil. eu diria que era apenas uma questão de tempo até alguém abrir o Catálogo dos Fracassos de Lucy. Olhei para trás. Nem lhe demos uma chance – e foi ai que ouvi a voz. “Ninguém faz pão lá!”. Debrucei-me sobre a mesa e peguei a mão dela. e pensando no que ouvira. passando pelos empregos onde ela nunca conseguia parar.De nada – falei.De topless? – perguntou Josh. onde ela foi visitar uma amiga na faculdade de medicina. em tom triunfal. E talvez ele gostasse disso e viesse até a gostar mais de mim. mas a de Bruce. houve um projeto de abrir uma padaria em Montserrat.ademais do cavanhaque que deixara crescer desde a última vez em que o vi. Contanto. .Para uma revista de fetiches? – perguntei. Lucy balançou a cabeça. secamente.. – Não. “Essa foi legal!”.E eu agradeço – concluiu Lucy – por estarem todos aqui para ouvir a minha grande novidade. dissera ela. E enquanto Lucy dissertava sobre o seu agente. A de agora é legal. e tornar a me amar. Mas talvez eu pudesse mudar. Não foi . – O que é que deu em vocês. no meu íntimo.Não quero contato desnecessário – falou. mas poderiam argumentar que eu ganhava a vida sendo antipática. disse ele. Já saí dessa. Apresar de todos os seus sermões. deixando discretamente de lado o fato de que ele era entregador do Pizza Hut aqui. infelizmente. . Meus olhos estavam nítidos e minha cabeça tranqüila e em ordem. com toda a confiança.Qual é a novidade? – perguntou minha mãe. e chegou até a preencher a papelada pedindo um empréstimo para abrir uma microempresa.. A última grande novidade de Lucy tinha sido um plano – graças a Deus abandonado – de se mudar para o Uzbequistão com um sujeito que ela conhecera no bar.Por que ninguém acredita em mim? – redargüiu. de suas atitudes professorais e complacentes. a sessão de fotos e o que iria vestir. Não consegui me conter. embora eu jamais fosse tornar a vê-lo. fitando os olhos de Lucy que brilhavam como só! .Achei que tinha ouvido alguma coisa – falei. eu sabia que ele era no fundo uma pessoa boa. enterrando assim os sonhos de panificação de Lucy sob a lava quente. Antes desse. – E ele conseguiu que eu vá fazer umas fotos! .Arranjei um agente – gorjeou minha irmã. ora. manter uma parte dele. Minha mãe e eu trocamos olhares ansiosos. hein? . . Não a de Deus. dissera.. ou do que fôramos juntos. “Ele é advogado lá”. Por baixo da mesa.

acenando dentro da água. minha mãe e eu fomos nadar. que não. pareceu-me que eu poderia ser capaz de terminar a salvo. pensei. Tinha algumas amigas que haviam se casado e formado suas famílias. Ridículo. O tempo passava e eu não estava nem ai. sem pensar em nada. soltei o ar dentro da água e fiquei vendo as bolhas me envolverem. e como eu conseguia esquecer de quase tudo que não fosse o ritmo da minha respiração enquanto nadava. Era a primeira vez que eu voltava ao Centro Comunitário Judaico. melhor amiga. desde que ficara sabendo ter sido o palco da sedução de minha mãe. Melhor irmã. e tudo que me cabia fazer era sentar e deixar que acontecesse. – Você falou alguma coisa? Não tinha falado. com certeza não acenaria. depois passei para uma das raias vazias e fiquei num nado de lado lânguido durante um tempo. Minha mãe nadava um quilometro e meio toda manhã. realmente -. pela primeira vez desde que vira o sinal positivo na tira do teste de gravidez. A sensação da água.como se todos os meus problemas tivessem desaparecido – como se ao menos um tivesse desaparecido. Como se uma coisa me acenasse de repente. mas. a sensação de sustentação. Não sentia essa febre de bebê. . se conseguisse ter a certeza de que estava fazendo o que era certo. e ficavam trocando receitas e dicas de beleza enquanto se vestiam. Acompanhei-a até. Virei de frente e passei para um preguiçoso nado de peito. a metade do percurso. melhor filha. Uma mãozinha. cinco dedinhos abertos qual uma estrelado-mar. Olá e até logo. se deslocando lentamente pela água com uma graciosidade maciça. agora. Ainda me sentiria melhor com relação a tudo isso se pudesse ouvir a voz de Deus novamente. Poderia ter sido toda aquela comida. antes de empreender a jornada de volta à cidade para pegar os pedaços da minha vida onde eu os deixara. Tinha algo em que me agarrar. Jamais romanceei a gravidez. Depois disso. a sauna nunca mais foi a mesma. Mas naquele momento achei ter sentido uma leve reviravolta na barriga. . Sentia falta do cheiro forte do cloro entrando pelo nariz e das velhas judias que passeavam pelo vestiário completamente nuas. mas tinha muitas mais.Cannie? – disse minha mãe. independente da minha opção – posso ser uma pessoa melhor. acenando. sem um pingo de vergonha. com vinte e tantos ou trinta e poucos. e se tivesse. me dei conta disso ao entrar no vestiário e colocar o maiô. Mas foi a impressão que tive. No meu último dia de folga para a Ação de Graças. Frustrada. teria de agir sem demora. Aquela mãozinha. Mas eu sentia saudades de nadar. e eu sabia que era cedo demais para sentir qualquer coisa. Como se estivesse fora do meu controle agora. Eu não era dessas mulheres que vêem o trigésimo aniversário se aproximando e começando a fazer festinha em qualquer coisa que apareça dentro de um carrinho com o queixo todo babado. ora! A coisa provavelmente não tinha mãos. O negocio era o seguinte: eu não conseguia me livrar da idéia de que a decisão havia sido tomada de alguma forma sem mim. aproximadamente. desejada ou não. Eu sabia que isso era um luxo a que não poderia me entregar durante muito mais tempo. Se eu quisesse que alguém desse um jeito na situação (e era essa a frase que vinha usando em meus pensamentos). Sempre fui a favor do aborto. ou toda a minha ansiedade. Virei de costas e pensei no que sentiria durante o jantar de Ação de Graças.

diria ela. parecia ser o meu destino. . .Você já pensou num nome? – perguntou. o que está acontecendo com você? Olhei para ela. Mais do que isso.O quê? .” .. “Era”. mas não tinha as palavras prontas ainda.. – Está preocupada com a idade? Deprimida? Dei de ombros outra vez. .Acho que enviou um cartão. dentro do vestiário.. Depois ela foi para o vestiário e eu fui junto. se é que isso é possível. adotar? Então.Será que esqueci o seu aniversário? Dei de ombros. pensando na inutilidade que a tal doutorazinha.Comigo? . Mas era a minha situação.Cannie? Minha mãe nadou para a raia ao meu lado. . Em voz alta. com Bruce ou sem Bruce. . Bruce é o seu namorado”. . Pronto. eu acho. Empolgada. Minha mãe parecia mais preocupada. Eu não sabia o que dizer. Endireitei a coluna. Cannie! Eu sou sua mãe.Você está grávida – disse minha mãe.Agora me diga – falou ela -. minha mãe era dada a fazer festinha em qualquer coisa que passasse num carrinho). eu dormia catorze horas por dia. “Vejamos. . E sentida. – Cansada o tempo todo. porque iria ser vovó (ao contrário de mim. Quando estava grávida de você. a maneira como minha vida deveria se desdobrar. “E está pensando em. De verdade. tal qual um latido. folhando seu inefável bloquinho de notas. Cannie! – ela soou. eu diria: “Não.Então é isso? – perguntou. . porque não era o tipo de situação que se possa querer para a filha.Oh.E você está igualzinha a mim – continuou ela.. seria numa situação como esta.Oh. respirando ao mesmo tempo. e meu queixo caiu. em algum momento. Terminamos juntas. .. abortar. Eu só gostaria que quem tivesse planejado aquilo me desse uma dica ou duas .. Ela me olhou indagativamente. Era o que iria acontecer eu teria o bebê. eu sou sua mãe.Mas você vai. Já a conheço há vinte e sete anos. .Parece que sim – falei. Soltei uma risada curta. . eu corrigiria.. Eu vi isso ali. . naquela hora. Não falei nada.Você tem procurado apoio? Tem conversado com alguém? Soltei uma bufada. .Cannie. . . – Não pensei onde vou morar nem o que vou fazer.Mais duas voltas – disse. Ajeitei a toalha em torno de mim e fiquei imaginando se seria demais esperar que esta fosse uma das poucas coisas nas quais minha mãe e Tanya não teriam feito uma aposta. Sabia que precisaria começar a falar sobre isso com alguém. quer não. – e sua voz se interrompeu delicadamente. Mãe sabe dessas coisas.Não pensei em nada – falei. dando braçadas lado a lado. ao mesmo tempo empolgada e sentida. surpreendida. Parecia ser a opção certa.Vinte e oito – corrigi. quer ela ficasse sentida. afogada em suas roupas.

. eu iria descobrir por mim mesma. considerando que estávamos molhadas da piscina e a toalha não dava a volta completa na frente do corpo dela. deixando meu rosto repousar rapidamente sobre seu ombro.. Encostei o rosto no vidro frio do carro.Você vai contar ao Bruce? – perguntou ela. Minha mãe deu-me uma batidinha ríspida no ombro. tenho certeza de quase contasse ele iria tentar me convencer a tirar.Não se preocupe – disse. Agora tudo estava diferente.. não. as casas um tanto mais estragadas. casas novas com paredes de madeira crua e gramados resolvidos em ruas que não existiam quando eu freqüentava a escola secundaria. afinal.. – nunca é do jeito que você acha que vai ser.. Mas. Havia sinais de trânsito novos em alguns dos cruzamentos mais perigosos..Correto. . enfim! Foi bom me sentir abraçada. e não quero que venham me convencer a tirar – parei e fiquei repensando aquilo.. Dizer que elas têm um filho ai no mundo. Ela não me fez a pergunta de 64 mil dólares antes de nos secarmos e vestirmos. as duas de carro. ora! Afinal. e reconfortante. . Tudo parecia muito familiar. foi bom.sobre como eu iria fazer para prover a minha subsistência e a de uma criança. – falei.. bem. . Minha mãe se levantou e me abraçou. Foi.. vendo todo mundo acordar enquanto comprávamos pão frascos e suco de laranja espremido na hora para tomarmos o nosso café da manhã juntos. . quero dizer. .Você não está zangada? – perguntei. E eu acho. Ia sempre nadar com minha mãe nos sábados de manhã.Maridos e casas são negociáveis – disse.Não. As árvores mais altas.Não sei. À caminho de casa. é um fardo muito grande para se jogar nas pessoas. a um milhão de quilômetros de distância da minha família..Estou presumindo que Bruce seja o pai – falou.. Cheguei quase a fingir que Tanya ficara no apartamento de sua ex-namorada co-dependente obsessiva-compulsiva sem entrar na vida da minha mãe. Como poderia ficar zangada? . ... dando um fim patético ao meu esforço de pensar num eufemismo para contar o que seria uma trepada por solidariedade...Porque. com aqueles médicos horríveis do exército e um monte de baratas do tamanho do meu polegar. Você acha que eu queria ter você e Lucy lá em Louisiana. depois pela montanha. – E uma casa.. ..Nunca é – disse.Não... enquanto crescia. o que foi nojento.. só depois que já estávamos no carro a caminho de casa. – E quanto ao plano.E vocês não voltaram? . . andar de carro com minha mãe novamente.. – como é que eu iria explicar para a minha mãe o que tinha acontecido? . não era assim que eu queria que fosse. pois eu já passara por ali um milhão de vezes. e um plano. e que nosso pai não havia nos abandonado tão completamente assim.. . . se estivesse na posição dele. se eu fosse ele. – E pelo visto. ..Você quer que ele faça parte da sua vida? – perguntou minha mãe. . a gente resolve isso.Pelo menos você tinha um marido – falei. passamos pelo parque industrial e pela barraca de frutas e legumes. Ainda assim. os cinco. Não estamos nos falando... Mas se Deus não queria se pronunciar.. e que eu não me encontrava naquelas condições.

Voltei com a mala cheia de vasilhas de Tupperware com peru. e estava quase adormecida quando entramos em casa.tropecei na tentativa de dizê-lo pela primeira vez – da vida do nosso filho. . Minha mãe precisou me sacudir para me acordar. essa opção não é totalmente dele.Está bem – disse ela. Ela continuou falando: sobre fundos de pensão. Ou talvez fosse eu que estivesse enxergando de . Ser mãe solteira pode ser uma coisa de maior aceitação no meio das estrelas de cinema. . Foi um espanto ela ter-me deixado voltar para Filadélfia naquela mesma noite. e também não era motivo algum para comemorar. Só dei partida no carro e fui embora. e dando telefonemas interurbanos para Honduras. nem para sentir orgulho.. e que ela poderia vir me fazer uma visita em breve. . . tudo se mostrou diferente. se vai querer fazer parte.Ora. recheio. . Lembrei-me da Maxi. imaginando ter de levar Bruce à justiça e explicar o meu comportamento diante de um juiz e de um júri. Agora. Eu estava sentindo um agradável peso nos músculos devido à natação e minhas pálpebras começaram a querer cair. . Deixei meus olhos se fecharem.. e me olhou quando paramos num sinal vermelho. e contou que tinha ouvido falar que a vitamina E em cápsulas evitaria estrias.Cannie! – e passou a me dar aulas de nutrição.Use o cinto de segurança – falou ela. Em Filadélfia. Mas não perguntei. pensei. enquanto eu colocava um Nifkin contrariadíssimo em sua casinhola de viagem. Ergueu a mão e roçou as pontas dos dedos pelo meu rosto. eu prometo.Tudo bem – falei para a minha mãe. mas pelo que eu podia ver entre as minhas colegas divorciadas não passava de uma dureza para as mulheres que vivem a vida de verdade. de ginástica durante a gravidez. tagarelando sobre o meu futuro financeiro. acenando para trás até que ela desapareceu de vista. assim que acordasse. e dizer que tínhamos chegado. .Talvez a Lucy possa ajudar um pouco – disse ela.Ainda não – falei. – Você já foi ao seu ginecologista. – Não vou ter babás hondurenhas. Ele vai ter de pagar uma pensão. juros compostos e um programa de televisão que fala de mães que trabalham fora e colocam câmeras de vídeo escondidas e pegam as babás negligenciando os bebês enquanto assistem novela (presumi que fossem as babás. . torta. . e só depois de lhe prometer solenemente que marcaria hora com o médico na manhã seguinte. .Eu sempre uso o cinto de segurança – falei. Ele já deixou claro que não quer fazer parte da minha vida. Prometo.Vou ligar.. Eu quis perguntar por quê. não foi? . O que eu tinha feito que pudesse deixar alguém orgulhosa? Ir para a cama com um cara que não queria mais nada comigo não era exatamente uma coisa da qual ela pudesse se gabar com as amigas do clube de leitura ou que eu pudesse mandar para o jornalzinho dos ex-alunos de Princeton.. e soltei outro bocejo. não as crianças).Não deixe de me ligar assim que souber a data prevista. ninada pelo som de sua voz e das rodas do carro. “Ai meu Deus!”.Não é bem por ai. – Estou orgulhosa de você – falou. e falar meu nome baixinho..

. o alarme de alguém disparou e escutei vidro quebrando não muito longe dali. E quando descobri que ele não havia ligado. coisa que eu mal me dava conta a maior parte do tempo. Separei a poupa para lavar no dia seguinte. e escutei pela fresta. Ameixa”. “Ovos”. Observei a abundância de latas Budweiser na cesta de reciclagem em frente ao apartamento do segundo andar quando passei pelas escadas. mas que teria de começar a observar agora.. mas não me ama mais. Não era um lugar para se criar uma criança. Pouco provável. quando me dei conta de que não havia verificado o meu correio de voz para saber se alguém. sem duvida. mas achei que seria melhor dar-lhe o beneficio da duvida. Barulho de fundo.. abrindo as janelas. para saber se Bruce havia ligado. Varri o chão todo.. na rua. meu apartamento desenvolvera uma fina camada de poeira nos cinco dias que passei fora. nada como a avassaladora certeza de que iria morrer se ele não me amasse mais que sentira naquela noite em Nova York com Maxi. coloquei as sobras no congelador. Dei de comer e de beber a Nifkin. esvaziei a máquina de lavar louça. Lá fora. pensei. agora que era responsável por mais alguém. bem. e não é o fim do mundo”. depois enxagüei o meu maiô e o coloquei para secar. “Ele me amou. escrevi. Estava na metade de uma lista de compras. Peguei a lista.maneira diferente. fiquei triste. Nifkin levantou a cabeça do sofá. debaixo da porta. sussurrei para o chão recém-varrido. as gargalhadas enlatadas de um programa humorístico na televisão. cheia de leite desnatado e maçãs frescas e outras coisas boas de comer. e cheirava a bolor. No terceiro andar.. “Espinafre. mas nada como aquela tristeza aguda e doentia de ansiedade e nervosismo que sentia antes. acendendo uma vela com essência de baunilha e pegando logo a vassoura. olhou para mim com ar curioso e voltou a dormir. “Ele me amou”.

— Você vai arruinar sua vida. embora ainda estivesse usando legging preto e uma camiseta exaltando as virtudes do frango frito. Os olhos dela se arregalaram ainda mais. — Do Bruce? — Tudo bem. — Eu sei que minha vida vai mudar. — É isso aí. pegou sua agenda e imediatamente tornou-se Dona Eficiência em pessoa. talvez não tenha sido da maneira mais comum.. Samantha estava balançando a cabeça como se não acreditasse no que acabara de ouvir.. . sabe. — Tudo bem — disse ela. mas a sua vida toda? — Claro que pensei — disse eu. Samantha soltou um suspiro exasperado.. — Não só a sua vida social — continuou Samantha — . — Não vou tirar.. mamães atarefadas com seus carrinhos tomavam goles de café. — Mãe solteira. Cannie. Repousei a xícara de café na mesa.DOZE — Você o quê? Assenti com a cabeça por cima do café descafeinado com leite desnatado e da torrada. — O quê? Como? Por quê? — Por que não? Estou com vinte e oito anos. — Ah. — O que é isso? As pessoas também levam seus bebês nas férias. com os lábios carnudos levemente entreabertos e os olhos castanhos arregalados pelo choque. — Mas aconteceu. Embora já houvesse aceitado a perda de Bruce como irreversível. o. ora! Você vai ter dinheiro para isso? Quero dizer. está bem. Executivos liam seus Examiners.. Meio expediente. Um lugar legar. você sabe o que isso vai fazer com sua vida social? Para falar a verdade. — Está bem... Ela se permitiu soltar um segundo suspiro e. Esperando neném. estou admitindo que você vá trabalhar. Você vai arruinar a sua vida. — Não vai ter mais férias — disse ela.. — O que você quer dizer com isso? — Cannie. já é suficiente difícil achar homens decentes do jeito que as coisas estão. o que foi que eu lhe disse sobre sexo por carência? — Eu sei — falei.. Foi o que pensei. Foi logo depois que o pai dele morreu... eu não havia pensado muito nisso. Fiquei buchuda. meu Deus.. limpo e arejado. Botei barriga. — Você ligou para alguma clínica? — Para falar a verdade. Você não me escutou. não — falei. Já entendi. embora fossem apenas sete e trinta da manhã... ainda não começara a pensar em alguém com que eu pudesse vir a ficar. tenho dinheiro suficiente. – Como? — Como todo mundo – disse eu. — Estou grávida. – Samantha me olhou fixamente. Não era um lugar para se fazer um escândalo. — Não. Pelo menos no começo. Estávamos no Xando. ou se iria haver outro alguém.. com toda leveza.. o café do bairro que virava bar depois das seis horas da tarde. — ela me olhou com um olhar de súplica.

— Já pensei nisso. Ora. Existem várias mulheres que têm filhos e os pais desses filhos não estão nem aí.. — Eu sei – disse. — Já tomei a minha decisão — falei.. Um impacto e tanto! Sem dúvida. — Bem . — Pense em todas as coisas que vai ter de resolver por si só. mas não é que eu tenha resolvido engravidar para me enganchar de novo nele. nem com a minha vida. ou perdem o emprego. Então. você pode controlar. — Não — falei. prontamente. levantando a mão antes que ela pudesse falar mais qualquer coisa. Não haveria mais casa alugada em Killington para passar uma semana esquiando enquanto Bruce. — E porque contaria? — retruquei. — Mas você pode escolher — falou Samantha. se pudesse escolher. ficava se drogando na banheira de hidromassagem esperando a minha volta. — Isso é por causa de Bruce? Para se agarrar a ele? Pousei os olhos sobre as mãos cerradas. Não haveria mais botas de couro de duzentos dólares só porque “eu não podia deixar de comprar”. Não é o que eu gostaria. nem mais tardes inteiras para gastar oitenta dólares no spa com massagista de dezenove anos de idade a me esfregar os pés e fazer as sobrancelhas.. — Cannie — falou Samantha — .— Então. sim. meio por falta de opção. nem mais jantares de cem dólares. — Ele foi embora. As pessoas adoecem. ele volte direto para você. acho que tem um pouco disso. Samantha não se deu por vencida.. — Caramba.as pessoas mudam de vida — falei. — Nem inconscientemente? Eu estremeci. — Enquanto esta situação. Talvez lá no fundo alguma parte sua estivesse torcendo. espero que o meu inconsciente não seja tão pouco iluminado assim! — Iluminação não tem nada a ver com isso. tranqüilamente. viver na miséria.... — Quero dizer. que não gostava de esquiar. Você está mesmo preparada para isso? E é justo ter um bebê se não estiver? — Mas pense em todas as outras mulheres que fazem isso! — Que mulheres? Mães que dependem da ajuda do governo? Meninas adolescentes? — Isso... — Eu tenho algum dinheiro — falei. Não haveria mais fins de semana de três dias em Miami simplesmente porque o US Air colocava um vôo em promoção e eu estava com vontade de tomar um pouco de sol.. Samantha tomou um gole de café. não quer se envolver comigo. — Mas sobre essas coisas elas não têm controle algum — ponderou Samantha. isso não é vida. por que eu contaria? .. ora. sobre o guardanapo espremido entre elas. — Como é que não vai contar a ele? — ela quis saber. em tom sorumbático até para os meus próprios ouvidos. Sei que não é o ideal. Isso vai causar um impacto no seu padrão de vida. e elas dão conta. — Acontecem coisas que nem sempre são planejadas. Cannie. encontrou outra pessoa. era verdade. — Pense em trazer uma criança ao mundo sem um pai – falou. Essas aí mesmo.. a sua renda vai cair e você ainda vai gastar mais dinheiro para tomar conta da criança enquanto trabalha. Todas as responsabilidades vão cais sobre seus ombros. Samantha arregalou os olhos. ou esteja torcendo para que tão logo o Bruce saiba... — Eu não vou contar a ele — falei.

mesmo — ela ficou me olhando. Cannie.. Não sei. sabia? — Ah.. doidão ou não.. E se ele quiser ser pai? E se ele abrir um processo contra você pela custódia da criança? — Ah. provavelmente. Toda vez que eu o via com os priminhos ou com os ex-alunos da colônia. não. por favor — dei de ombros. com ou sem a maconha.. — Mas... Já vi novela o suficiente para garantir que ele vai descobrir. está bem. eles estavam sempre disputando para sentar ao seu lado na mesa de jantar ou para jogar basquete com ele. com ou sem rabo-de-cavalo. nem das migalhas de atenção que ele se sentiria obrigado a me jogar. — E você não tem nada que contar para ele! — Cannie. demorada e sombriamente... padrão de comportamento masculino. Provavelmente seria um excelente pai. sabe.. tentando parecer corajosa. vai! Dei de ombros. Aquele grandalhão drogado! O Bruce do rabo-de-cavalo que anda num carro com um plástico a favor da legalização da maconha no pára-choque! — Ele é um cara legar. — Não. Talvez não queira mesmo. era a verdade... você não acha que ele tem o direito de saber? Ele vai ser pai. Mordi o lábio. — Sei lá.Não preciso do dinheiro dele. Que vai.. Essa parte era dura de admitir. — Como? Nós não conhecemos mais as mesmas pessoas. ou para que os ajudassem com o dever de casa. Ou talvez ache que uma criança precise de um. não vai... Lá iria querer saber de um neném! Samantha deu de ombros.. mantendo a voz suave e convincente. As crianças o adoravam. — Ah. Samantha! Nós estamos falando aqui é do Bruce. — E daí se ele descobrir que eu estou grávida? Não preciso dizer que é dele. Mesmo quando nosso relacionamento estava na pior. e o bebê? Será que o bebê não merece um pai? — Ah. mas. ele vai descobrir. ele vai ouvir falar alguma coisa sobre você. — Estou falando sério — disse Samantha. vai nascer uma criança que é filha dele. Você vai dar de cara com ele em algum lugar.. jamais duvidei de que ele não pudesse ser um pai maravilhoso. – O Bruce mal consegue saber onde guarda as sedas de enrolar baseado. eu também vi a Sally Jessy. ele mora tão longe daqui. Bruce foi conselheiro em colônia de férias por vários anos. tentando mostrar-me menos ocupada do que estava. — Ele pode fazer isso. — Bem. até de pensar. Ele que pense que eu andei dormindo com outro por aí! — embora estivesse passada só com a idéia de que ele pudesse ter algum motivo para pensar uma coisa dessas... mais vai descobrir. Estava tão irritada que pensei em lhe oferecer um abraço. mas me dei conta de que iria era dar uma de Tanya. Samantha estava só balançando a cabeça. — Não sei. — Vai dar tudo certo — falei. sem essa. . — Pode deixar que eu levo o bebê para passar uns tempos com a Tanya — brinquei. — Ele vai acabar descobrindo. — OU que pense que eu fui parar num banco de esperma! O negócio é o seguinte: ele não precisa saber — olhei para Samantha. Cannie. Samantha não riu.

à venda da empresa. eu não diria nada — ela me olhou. provavelmente não. Sinceramente.. — Grávida — repeti. Tudo bem.. como experiência. — Você está o quê? — perguntou Betsy. — Parabéns? — sugeriu. Estávamos na sala de reuniões. também. . você sabe. Mas. fariam um desvio à direita direto para a mesa de Alice. — Vai acabar tendo de dizer. Você acaba sem ter muita privacidade na sua própria vida.. com uma cabeleira loura esbranquiçada. O jornal não faria nenhuma discriminação. diminuindo a marcha quando passaram a caminho da sala de correio. — Bem. apóio? — Se o que você quer dizer é se Bruce vai chegar montado num cavalo branco para se casar comigo. Mas minha mãe e Tanya vão ajudar. Betsy espiou-me por detrás dos óculos grossos. — Esperando neném. não diria uma palavra — falou Betsy. — Mas até lá. num passo ridiculamente lento. tentando adivinhar o que eu e Betsy estaríamos conversando ali dentro.. depois um bloco e uma calculadora. Passara por muita coisa e era minha mentora no jornal. com certa ternura — É difícil. secretária antiga do departamento e depositária de tudo quanto era mexerico e escândalo. Senti-me subitamente cansada. — Obrigada — respondi. sem titubear. Não tive duvida de que. Betsy era uma mulher na faixa dos quarenta. ela se recuperou muito mais rápido do que Samantha. Tirou da pasta um exemplar do contrato sindical. — E você vai. que sobrevivera à discriminação sexual. Claro que não. cada qual com idéias próprias acerca do que o Examiner deveria fazer.. — Vamos ver o que podemos fazer por você. — Quanto menos você explicar. — Haveria algum problema? — Ah. ora se eu não estaria fazendo o mesmo caso houvesse outra pessoa ali com Betsy em meu lugar! São as agruras de se trabalhar com quem ganha a vida investigando e fuxicando a vida dos outros... — Você vai ter algum. Fiquei buchuda. Reconheci os sapatos camurça surrados do editor de texto. melhor — falou Betsy. não. Verdade seja dita. Não tenho planos disso.. — Se eu fosse você.Samantha me olhou e disse: — Espero que sim. sim — falou ela. — Eu sei — falei. você vai se casar? — perguntou ela. vou acabar tendo de dizer alguma coisa. após as paradas obrigatórias nas caixas de correio. Betsy já viera preparada. aos cortes orçamentários e meia dúzia de outros chefes de edição. Botei barriga.. baixinha e espirituosa. — Eu sei. não — falei.. Frank... minha editora. nem nada que o valha. se pudesse vê-los de corpo inteiro. — E sei que vai ser estranho para as pessoas. Eu estava ficando um pouco cansada de repetir essa passagem especifica da trilha sonora da minha vida... falei. — Não. Puxa! Hum. todos homens. o que significava que eu só podia enxergar os colegas dos joelhos para baixo. e talvez a minha irmã. e eu confiava sempre nos seus conselhos. não. se eu estaria passando por algum tipo de problema e qual seria o problema. daria com seus rostos girando na minha direção. — Ah. Tive também a certeza de que. com as persianas fechadas. muito cansada. certo.

Não era o tipo que costumava ver num apertado consultório de plano de saúde. vou querer vê-la uma vez por mês durante os próximos cinco meses.. . — Pelo menos. mas ainda daria para sobreviver. Depois eu teria de trabalhar três dias por semana para manter meus benefícios médicos. mais seis semanas de licença não remunerada logo em seguida. Vamos discutir os seus planos — ela inclinou a cabeça um nadinha apenas na direção da sala de espera. mas Betsy disse que aceitaria que eu trabalhasse em casa um dos dias. Tinha mais ou menos a minha idade. era supus. — Tem tido enjôo? — uau! Adorei até o jeito com que ela disse “enjôo”. E me avise se eu puder ajudar em alguma coisa. Pelo menos.. bem fraquinho. Ou melhor. Patel tinha as mãos delicadas e um jeito simpático. A Dra... Agora. — Oito — disse eu. Até agora. — Talvez nove. Ela digitou o que viria a ser meu novo salário na calculadora. sentada em seu banquinho com rodas. — Não. pensei. Gita Patel — pelo menos era o nome que constava no crachá preso ao seu jaleco — guardou os instrumentos e deu a volta. É difícil dar muita ênfase a qualquer coisa quando se está deitada de costas com os pés apoiados nos suporte da mesa de exame ginecológico e as pernas escancaradas. tente não se preocupar mais do que o mínimo necessário. resolvi não esperar mais. — Não nos últimos dias. muito cansada. — Pois bem — disse ela novamente e me entregou uns folhetos lustrosos. — Pois bem. O nome do meu plano de saúde estava impresso no topo. e comida. Sou só eu. Quanto custaria uma creche? E roupas de bebê.. então. “Novos brotinhos” era o título. graças ao incessante refrão de “Vice já foi ao médico?” que minha mão vinha entoando. — Nós vamos resolver isso — disse-me Betsy. Fiquei admirada da discrição do gesto no instante exato em que balancei a cabeça. e móveis.. enquanto eu fazia um esforço para conseguir me sentar. no subsolo de um prédio que dava para Delancey Street. contanto que eu pudesse ser encontrada.. assim eu esperava.. Vi meu bem-cuidado pé-de-meia — aquele que eu construí na esperança de algum dia precisar para despesas de um casamento. ou talvez de uma casa – esvaindo-se bem diante dos meus olhos. para me olhar de frente. e se eu quisesse. No entanto tinha a primeira hora vaga e. estava tudo dando certo. Eca! “Assistência aos nossos associados desde o início da jornada mais interessante da vida. para falar a verdade. Nossa! Pior do que eu pensei que pudesse ser. sem nos esquecermos de que os bebês vêm quando resolvem vir. — Vou lhe dar como data prevista o dia quinze de junho.O resultado a que chegou pareceu-me mais do que justo: seis semanas de licença remunerada após o nascimento. com cabelos pretos e brilhantes puxados para trás. depois duas vezes no seu oitavo mês e uma vez por semana até a hora do parto — ela passou algumas folhas do calendário. — Oito semanas — disse a ginecologista em seu entrecortado e melodioso sotaque britânico. — Venho.” Eca! Eca! — Pronto. formando um pequeno coque preso à nuca. — Não se preocupe — ela recolheu a papelada e soltou um suspiro. — Você vem se sentindo bem? — perguntou. Só um pouco cansada.

Ele concordou. todos batendo um papo animado. ter o neném. que toda vez que me sentava ali em frente da sua mesa eu acabava aos prantos? . K. — Eu vou... E de repente eu estava chorando de novo. Senti o cheiro da neve no ar. Ele assentiu com a cabeça. e uma página de informações sobre episiotomias que eu nem quis olhas no estado mental em que me encontrava. a não ser que você prefira mesmo a restituição. você deveria pensar seriamente em virar comediante. você só está dizendo isso. A aula de gordura estava terminando.... E eu tenho. Estava morta de cansaço. caso esteja interessada. Queria ter chegado mais chego. a cabeça girando com listas de coisas que eu não poderia comer e coisas que precisaria comprar e consultas que deveria fazer. disse a mim mesma. Ele se sentou à sua mesa. Uma rajada de vento jogou as folhas secas pelo ar enquanto eu passava. Enfrente só mais esta e você vai conseguir ir para casa dormir. eu me sentei na cadeira em frente.. como se fosse o que esperava ouvir. — Que bom ver você! — disse ele. — Bem. — Ah. não estou. K.... Soltei um suspiro. mas sim completamente exausta. — Vou tomar as providencias para o departamento lhe enviar um cheque — disse.. Portanto. Eu só queria dizer que tive de largar o curso.. — E estaremos dando início a novos estudos no próximo outono. K. Estava de calça cáqui. — Como vão as coisas? — Ah. e que sinto muito.. Era o mês de dezembro e o tempo finalmente esfriara. Eu respirei fundo. sem me dar conta até então de que não estava só cansada. com um olhar tão bondoso. aulas de parto para me inscreve. — Ser comediante é difícil. mas ainda tinha uma parada antes de chegar em casa. com a jaqueta fina bem apertada em volta do corpo. hum. como você já pagou. — Vamos dar um pulinho no meu consultório — disse o Dr. pegou um bloco e uma caneta. Aquela imitação de célula gorda fêmea que você fez duas semanas atrás. — Acho que não vou ter muito tempo livre — falei. E fomos. — Cannie! — acenou Dr. enrolados em suéteres e casacões de inverno que pareciam estar sendo usados pela primeira vez naquele ano. — Desculpe eu ter perdido a aula. seria interessante receber alguma coisa por isso. tudo bem. não tem problema. camisa de brim e gravata. pelo menos desta vez. Formulários para preencher. enquanto observava a olhar para mim do lado de lá da mesa. Por que estaria sendo tão gentil comigo? — Não. O que será que havia naquela.vamos sentir sua falta em sala. Enfrente esta. tirando livros e papéis de cima da mesa para encontrar sua agenda de telefones. Respirei fundo. Claro.. muitas coisas que penar neste exato momento. K. sala e com aquele pobre homem. saindo do consultório do Centro de Tratamento de Distúrbios Alimentares. Você traz sempre um certo quê para as aulas. — Pois é.Saí dali com a bolsa sacolejando de tanto frasco de vitamina e ácido fólico. — Não. olhando-me cheio de expectativa no olhar. — Sabe... O Dr. Não estava de jaleco branco. vou precisar abandonar o programa — conteilhe. e se aproximou. Ele estava sendo tão gentil. eu acho que nós talvez venhamos a realizar um curso intensivo de nutrição para gestantes — disse.. tudo bem — falei. Encontrei minhas colegas de turma e o Dr. com a cabeça girando. quando eu cheguei.

uma lufada de vento que trazia de dentro de uma lata de lixo o cheiro de cocô de cachorro. Fileiras de luzes natalinas e enfeites de néon marchando da Market Street até a orla. Conduziu-me até um elevador. Dava para ver o prédio da prefeitura. incrustado de luzinhas. — Desculpe! — repeti. com seus patinadores dando voltas lentas. New Jersey. eu atendi. gasolina. Não tem problema. Tudo parecia tão distante. — Quero lhe mostrar uma coisa. andando milímetros em ruas infinitesimais. Bruce. — É impressionante.. Patel me deu o folheto com as Reclamações Mais Comuns do Primeiro Trimestre — percebendo o cheiro de tudo. até coisas de que eu gostava.. — Tenho uma lista de coisas aqui dentro... — Você está com vontade de falar disso? . — Estou.. coisas que a gente deve tomar. K..Ele me passou o lenço de papel. e quase todo cheiro que senti me deixou enjoada. E o edifício da PECO. e fez um sinal para que eu o acompanhasse. carrinhos minúsculos. — O que você acha? — perguntou Dr. desculpe.. O rinque da Blue Cross.. Virei de frente para o rio outra vez. as torres gêmeas da Liberty Place.. depois passamos por outra porta em que se lia “Emergências apenas — Sujeito a Alarme”.. Depois o rio Delaware.. E de repente estávamos a céu aberto. na South Street... Mas aqui em cima o ar não tinha cheiro algum. Ele se recostou na porta e sorriu. Tinha até esquecido dele durante alguns instantes... para mim e para qualquer ricaço encarapitado na varanda da sua cobertura que tivesse a sorte de poder usufruir dele a qualquer hora. Venha comigo. de tão arrebatada que fiquei pela vista! — Nunca tinha visto a cidade assim — contei-lhe. Eu me levantei e ele colocou o jaleco sobre os meus ombros. esquecido de tudo. Escapamento de automóvel.. coisas que a gente pode sentir. — Acho que é uma dessas crises do primeiro trimestre em que qualquer coisa faz a gente chorar — bati de leve com a mão espalmada em cima da bolsa.. Que delícia sentir o ar! Passei o dia inteiro — ou pelo menos desde que a Dra. de pernas cruzadas. K. e Camden. Mas o alarme não disparou quando ele empurrou a porta para abri-la. Cuidando para não sentar em cima do jaleco dele. sentindo o vento frio bater no meu rosto. E o meu choro aumentou tanto que eu não conseguia mais falar.. que me atingiu com dez vezes a intensidade normal.. sobre o telhado. como o aroma do café vindo do Starbucks. — Você está bem? — Estou. Bem. Só pagando um aluguel exorbitante naqueles arranha-céus da Rittenhouse Square para ter uma vista como esta — disse. com a cidade a nossos pés. como se estivesse sido especialmente filtrado para mim. cor de prata brilhante.. saímos por um corredor e entramos por uma porta em que estava escrito “Somente pessoal autorizado” e “Não entre”. Estou bem. Acho que devo ter dado um pulo quando ele falou de repente. Ele esticou o braço por cima de mim e tirou um jaleco branco da prateleira.. — Levante-se — disse ele. Eu estava praticamente nivelada com a estátua de Billy Penn em cima. — Está se sentindo melhor? — perguntou Dr. Ele se sentou.

Parecia tão sério que eu tive de rir. em tom taciturno.. — Já aprendi a lição — falei. diz: “Meus amigos dizem que eu tenho um ótimo senso de humor. — Parece que é a história mais antiga do mundo.. Espere aí.. Procurei me ajeitar no chão até conseguir ficar sentada de frente par ele. pai do rapaz morre.. bem. — Acho que pensei.Lancei-lhe um rápido olhar de esguelha. e até que eu sinta o suficientemente à vontade para permitir — tornei a olha-lo de lado. — Como é que você sabe? — Porque você disse que era. — Não estou querendo me meter. — Ora. não. Mas é sério o tempo todo... moça ama rapaz.. Quem não é. para provocar. me dê um pouco menos de crédito. soou. Agora pareceu que ele estava ofendido mesmo. — De que jeito? Meio certinho? — ele passou tanto tempo para falar a palavra certinho que. com cuidado. — Tenho certeza de que você deve ser muito espirituoso. — Ah — disse.. não. eu não tive muita chance de bancar o engraçadinho. acho que de fato eu não tinha pensado nisso. — Não é bem assim. moça abandona rapaz por razões que ela ainda não consegue entender. Que eu estou arranjando um jeito de ignorar em absoluto — falei. Só não quero incomodá-lo — soltei um suspiro. — Ah. diria que é engraçada? . Virei os olhos na direção dele. como é que as pessoas sabem quando você está brincando? Porque você sempre fala do mesmo jeito. sei que não é da minha conta. pelo que a luz refletida das ruas lá embaixo me permitiu ver. se você fosse descrever a si mesma. — O quê. soltando uma bufada. você achou que tinha sido outro? Ele não disse nada mas. moça acaba grávida e sozinha. — Vou tirar isso dos autos — disse ele. — Acontece que não sou — parecia estar de fato ofendido — Na verdade. sentindo-me pouco convincente. E se ele pensasse que eu o estava paquerando? — Só para você ficar sabendo — acrescentei. moça vai tentar consola-lo. achei que ficou desconcertado. Você achou que eu teria encontrado outro cara rápido assim? Por favor — falei. não. tenho um ótimo senso de humor. — Diga-me uma coisa. — Bem.” É aí que mora o perigo. Moça conhece rapas. — Então. Não é isso. obviamente.” Ou: “Minha mãe diz que eu tenho um excelente senso de humor. — Ah — fez ele. considerando que nas poucas vezes em que conversamos você estava passando por algum tipo de crise estapafúrdia na sua vida. — Você quer escutar? Ele ficou encabulado. um tanto certinho. — Oh. e que queira me ver nua.. essa! Em geral eu levo muito mais do que alguns meses até encontrar alguém que goste de mim. Ele me olhou desconfiado. — Ora. com as grossas sobrancelhas franzidas.. Quem é engraçado sabe que é engraçado.

. ele pode estar querendo lhe dar o troco. sabe? E provavelmente por minha culpa. muito embora não seja a coisa mais prática. mas um bom para mim. não. — .. minhas amigas me diziam: “Foi você quem acabou com ele e deve ter feito isso por algum motivo. ou tivesse tentando me convencer a cair fora.. quando estava me sentindo horrível. e sei também que vou procurar outro lugar para morar.. — É como se fosse uma assombração. é? Pois está conseguindo.... essa é a parte que eu não resolvi ainda — falei.. Vivia falando isso. — Está vendo. E não posso me dar ao luxo de ter uma assombração neste exato momento. vendo os patinadores dando voltas.. ou deixa-la enciumada. — Não precisa responder se não quiser.. Mas eu não sei. — Ah. e em .” Ele abriu um sorriso para mim. O negócio é que eu tenho toda uma teoria sobre o meu pai. Não em importo.” E eu sei que isso é verdade. Dita daquele jeito. — Ficamos ali sentados em silêncio.. finalmente. — Agora.. qual mão de carteado perdida em cima da mesa. Sei que vou ter o neném. que nós dois não deveríamos ficar juntos para o resto de nossas vidas.. — Mas um bebê. diria que estou ferrada. que mesmo que ele fosse perfeito. você também leu aquele folheto? — abracei os joelhos contra o peito. De forma que eu acho. depois que o pai dele morreu.. O medico ponderou um pouco sobre aquilo. Ah.. — E o Bruce? — indagou ele. que talvez eu não quisesse enxergar isso. — A esta altura. a situação não pareceu tão ruim assim. isso pode não querer dizer nada demais. sobre o meu pai e a minha mãe e as razões para eu não acreditar no amor. desgostosa da minha própria chateação. — Mas agora.. isso muda tudo. ou talvez não. soltando um suspiro e olhando para a noite. que ele deveria ter sido o amor da minha vida. Meu pai era médico. Quero dizer. — Depois que terminamos. lá no fundo.. o que? — Sinto falta dele o tempo todo — balancei a cabeça. Viviam ensinando isso para gente na faculdade de medicina: “Se você ouvir um tropel de cavalos.. meu marido — engoli em seco. Preciso pensar em mim mesma e no neném. bem. só resolvi algumas coisas. Talvez isso seja mesmo uma zebra.. e o que queria de volta. — Bem. — Não. Na verdade. e sei que vou ter de cortar um pouco das minhas atividades quando ele chegar.. e ver se a minha irmã vem me ajudar. — A sério? — Sério o suficiente para ele me contar. e acho que estrague tudo. sei que me senti muito mal quando soube que ele estava com outra. — Ah..— Não — falei.. — Diziam isso na sua faculdade de medicina também? Balancei a cabeça. — Não nos falamos há varias semanas e ele está saindo com outra. E escrever a respeito. Não. eu sei quanta falta senti dele. Ou sei lá o quê! — Ou talvez não fosse o cara certo para você.não espere zebras. com a garganta se fechando naquela palavra. Acho que eu sabia. — Você já pensou no que vai fazer? — perguntou ele.

— Tinha as maçãs do rosto iguais às suas e um sorriso igualzinho ao seu. — Sua mãe? — perguntei.. é claro. Qual é a pior coisa que pode acontecer? — Ele e a mãe me processarem para obter a custódia da criança e tira-la de mim? — Isso não saiu no programa da Oprah? — perguntou ele. — Estou falando sério — ralhou comigo. Viviam me achando parecida com a atriz. logo de cara.. — Oh! — pensei naquilo um instante. O que eu queria ouvir era: Você consegue. É a você que cabe a decisão em última instância. mesmo que os pais mores separados. — Posso fazer uma pergunta? — falei. — Não. com as pontas dos dedos quase encostando no meu rosto. Então. foi no da Sally Jessy — falei. eu pulo — adverti. Ele tirara os óculos e estava me fitando com atenção. Como é que você se sentiria se estivesse com alguém. — Mesmo que não estivesse mais com a mãe? Acho que as crianças merecem ter um pai e uma mãe envolvidos com sua vida e com o que elas vão se tornar. Já é suficientemente difícil crescer neste mundo. — Se fosse comigo — disse ele. — Tudo bem. — Se você disser “Janeane Garofalo”. — Não — disse ele. Bem quase. — Sim. Estava esfriando. — Sabe quem você me lembra? — perguntou ele. não foi o que eu queria ouvir. minha mãe não. não ia? — Ia. E independente do que fizer. Se era para ficar separada de Bruce – e tudo levava a crer que sim — .. Cannie. — Não. — Está vendo.. — e fiquei sem saber o que dizer. mas me contive — falhou ele. eu gostaria de saber. e ela viesse até você e dissesse: “Adivinhe só?! Vou ter um filho seu. Ele consentiu. Você tem filhos? — Não que eu.como vou resolver tudo para estar pronta para a sua chegada. — Preciso de uma ótica masculina. não. Se fosse comigo. Olhei-o mais uma vez. Ela é gorda? Ela é engraçada? O ex-namorado a engravidou? — Ela se parecia um pouco com você – falou ele. — Ela é. pensativamente — . . quero dizer. Gostaria de tomar parte na vida da criança.” Você iria pelo menos querer saber? — Se você eu – disse ele. — Está bem. não tem filhos. ou do que ele quiser. eu queria a certeza de que somente a mãe bastaria. — Aquele cara que apareceu no Jerry Springer que era tão gordo que os paramédicos precisaram abrir um buraco na casa para tira-lo de dentro? Ele estava rindo e tentando não rir. Eu e aconcheguei melhor dentro do jaleco. E esticou a mão. Acho que as crianças precisam de todo o apoio que puderem receber. — Então você acha que eu deveria contar a ele. eu gostaria de saber. Isso. Quem? — Minha irmã. pensativamente. você ia dizer “Não que eu saiba”. e depois não estivesse mais. Você dá conta disso sozinha.

Perguntei a primeira coisa que me veio à cabeça. — Era mais velha ou mais nova? — Era mais velha — disse ele, mantendo os olhos fixos no nada. — Morreu quando eu tinha nove anos. — Oh! — Muitos dos pacientes, quando me conhecem, querem saber como foi que eu vim para este ramo da medicina. Quero dizer, não existe nenhuma conexão óbvia. Não sou mulher, nunca tive problema de peso... — Ah, vai, esfrega na cara — falei. — Então, a sua irmã era... pesada? — Na verdade, não era muito. Mas ficava maluca com isso — pude ver o perfil de seu rosto quando ele sorriu. — Vivia fazendo dieta... ovo cozido uma semana, melancia na outra. — Ela tinha, hum, algum distúrbio alimentar? — Não. Só umas neuroses com comida. Sofreu um acidente de carro... foi assim que morreu. Eu me lembro dos meus pais no hospital e durante um bom tempo ninguém me disse nada do que estava acontecendo. Finalmente minha tia, irmã da minha mãe, veio até o meu quarto e disse que Katie estava no Céu, e que eu não deveria ficar triste porque o Céu era um lugar maravilhoso onde se podia fazer todas as coisas prediletas. Daí que eu pensava que o Céu era um lugar cheio de cachorro quente, sorvete, bacon e waffle... todas as coisas que Katie queria comer e nunca se permitia — ele se virou de frente para mim. — Que tolice! Não é mesmo? — Não. Não é, não. Na verdade, é mais ou menos assim que eu imagino o Céu — sentime muito mal assim que disse isso. E se ele pensasse que estava fazendo troça de sua pobre irmãzinha morta? — Você é judia, não é? — Sou. — Eu também sou. Quero dizer, pela metade. Meu pai era judeu. Mas não fomos criados como judeus nem nada — ele me olhou, curioso. — Os judeus acreditam no Céu? — Não... tecnicamente não — vasculhei a memória atrás das minhas aulas de hebraico. — O negócio é o seguinte: você morre e... é isso aí. Como se estivesse dormindo, eu acho. Não existe essa idéia de vida após a morte, não. Só o sono. E aí vem o Messias e todo mundo volta a viver. — Viver nos corpos que tinha quando estavam vivos? — Não sei. Mas para mim, vou fazer a maior campanha para ficar com o da modelo Heidi Klum. Ele riu um pouco. — Você não quer... — fico de frente para mim. — Você está com frio. — Eu estava tremendo um pouco. — Não, estou bem. — Desculpe — falou ele. — Não, tudo bem. Na verdade, eu gosto de ouvir os outros falarem, hum, das suas vidas — eu quase disse “problemas”, mas me apercebi na hora exata. — Foi legal. Mas ele já estava de pé, e três passos largos à minha frente, quase na porta. — É melhor você entrar — estava murmurando. Segurou a porta aberta. Eu entrei pelas escadas mas parei ali, de forma que quando fechou a porta ele ficou bem perto de mim.

— Você ia me perguntar uma coisa — falei. — Não quer me dizer o que é? Agora foi a vez dele ficar desconcertado. — Eu... ah... hum, o curso de nutrição para gestantes, eu acho. Eu ia perguntar se você não acharia bom participar dessas aulas. Percebi que não era aquilo. E ainda suspeitei que talvez fosso uma coisa completamente diferente. Mas não falei nada. Talvez tenha sentido pena de mim. Ou talvez eu estivesse totalmente errada. Depois da derrocada com Steve, e agora com Bruce, não estava muito confiante nos meus instintos. — A que horas vai ser? — perguntei. — Vou verificar — disse ele, e eu o segui escada abaixo.

TREZE Depois de muitas deliberações e cerca de dez rascunhos, consegui compor e enviar uma carta para Bruce. Bruce, Não há como adoçar um caso destes, portanto vou lhe dizer logo que estou grávida. Aconteceu na última vez em que estivemos juntos e eu resolvi ter o neném. A data prevista é 15 de junho. Foi esta a decisão que tomei, e a tomei com muito cuidado. Faço questão de lhe contar porque quero que você mesmo decida até que ponto pretende se envolver na vida desta criança. Não estou lhe dizendo o que fazer nem pedindo nada. Fiz as minhas opções e você terá de fazer as suas. Se você quiser conviver com o neném, vou me esforçar ao máximo para que isso funcione. E se não quiser, eu entenderei. Sinto que isto tenha acontecido. Sei que não é uma coisa que você precise na sua vida neste exato momento. Mas cheguei à conclusão de que era uma coisa que merecia saber para poder escolher o que venha a lhe parecer correto. A única coisa que lhe peço é que não escreva sobre isso. Não me importa que escreva sobre mim, mas há outra pessoa envolvida agora. Um abraço, Cannie. Escrevi o número do meu telefone, caso ele tivesse esquecido, e enviei a carta. Senti vontade de escrever tantas coisas mais, como por exemplo que ainda morro de saudades dele. Que ainda sonhava acordada com ele voltando para mim, com uma vida em comum: eu e Bruce, e o neném. Que passava a maior parte do tempo com medo, e o tempo em que não estava com medo eu morria de raiva dele, ou ficava tão cheia de amor, saudades e vontade que temia até pensar no nome dele, de medo do que eu seria capaz, e que por mais que preenchesse os dias com coisas a fazer, planos e listas, com pintura do segundo quarto num tom que estavam chamando de amarelo-limão e a montagem da estante que comprei na Ikea, era freqüente me encontrar pensando no quanto eu o queria de volta. Mas não escrevi nenhuma dessas coisas. Lembrei-me de quando me formei na escola secundária e de como era difícil esperar pelas respostas das faculdades sobre se me aceitavam ou não. Mas vou falar uma coisa: esperar que o pai do seu filho, que ainda não nasceu, venha lhe dizer se vai querer se envolver com você ou com a criança é ainda muito pior. Passei três dias verificando a secretária eletrônica de maneira obsessiva. Passei uma semana pegando o carro para ir até em casa na hora do almoço só para verificar a caixa do correio, me xingando por não ter enviado a carta como correspondência registrada, para ter ao menos a certeza de que ele a receberia. Não havia nada. Dia após dia, nada. Eu não conseguia acreditar que ele pudesse ser tão frio assim. Que daria as costas para mim – ou para nós – desse jeito. Mas parecia ser esta

a verdade dos fatos. Então, desisti... ou tentei fazer com que eu desistisse. “É isso ai”, falei com minha barriga. Era domingo de manhã, dois dias antes do Natal. Eu tinha saído para andar de bicicleta (tinha permissão para andar de bicicleta até o sexto mês, se não houvesse nenhuma complicação), montado um móbile de ossos de cachorro pintados em cores vivas, que eu mesma tinha tirado de um livro chamado Brinquedos de montar para crianças, e estava me recompensando com um bom banho de imersão, bem quente. “Acho que os bebês devem ter um pai e uma mãe. Acredito nisso. O ideal seria que eu tivesse um pai para você. Mas não tenho. Sabe, o seu, hum, pai biológico é um sujeito muito legal, mas não era a pessoa certa para mim, e ele está passando por um período meio difícil agora e também está saindo com outra pessoa...” Talvez isso fosse mais do que o meu filho precisasse saber ainda dentro da barriga, mas, enfim! “Então, me desculpe. Mas é assim que são as coisas. E vou tentar criar você da melhor maneira que puder. E nós vamos fazer disso o melhor que pudermos, e tomara que você não acabe me rejeitando e se enchendo de tatuagens e piercings e um monte de coisas para externalizar a sua dor, ou seja lá o que a garotada estiver fazendo daqui a quinze anos, porque eu sinto muito, mas vou fazer com que isto dê certo.” Passei as festas aos trancos e barrancos. Preparei calda de chocolate e biscoitos para as minhas amigas em vez de comprar-lhes presentes e escondi dinheiro vivo (menos do que dispensara no ano anterior) dentro de cartão que enviei para os meus irmãos. Fui passar o feriado na casa da minha mãe, pois ela sempre abre a casa e recebe todo mundo, e lá dúzias de suas amigas, além de toda a equipe de Switch Hitters e quase todas as integrantes do A League of Their Own, vieram me paparicar e dar seus votos e conselhos, e nomes de bons médicos e creches, inclusive um exemplar usado de Heather tem duas mães (ofertado por uma desorientada, chamada Dot, quem Tanya imediatamente levou a um canto para explicar que eu não era lésbica, só uma reprodutora abandonada). Passei o maior tempo que pude na cozinha, ralando batatas, preparando e escutando Lucy contar uma história em que ela e uma amiga convenceram um sujeito, que conheceram num bar, a levá-las para sua casa e depois abriram todos os presentes que estavam na árvore de natal, assim que ele apagou. - Isso não foi legal – bronqueei. - Ele não era legal – disse Lucy, - Afinal, qual foi a dele de nos levar para casa enquanto a mulher estava viajando? Concordei com o argumento. - São um bando de cachorros – continuou Lucy, cheia de altivez. – Claro, nem preciso dizer isso para você – tomou um gole do líquido transparente que havia em seu copo. Seus olhos estavam brilhando. – Preciso dar a minha guinada das férias – anunciou. - Pois vá dar sua guinada lá fora – ordenei, e coloquei mais uma porção de batata amassada na frigideira. Achei que, lá com seus botões, Lucy ficou deleitada que tivesse sido eu, e não ela, quem estava naquela enrascada. Com Lucy, uma gravidez não planejada teria sido quase esperada. Comigo, foi chocante. Minha mãe esticou a cabeça para dentro da cozinha. - Cannie? Você vai ficar hoje aqui, não vai? Concordei. Desde o feriado de Ação de Graças, eu caíra no padrão de passar ao menos uma noite do fim de semana na casa de minha mãe. Ela preparava o jantar, eu ignorava

Tanya, e no dia seguinte de manhã íamos nadar na piscina, devagar, lado a lado, e depois, antes de voltar para a cidade, eu comprava mantimentos e juntava todos os utensílios de neném recém-nascido que suas amigas haviam doado. - Acho que o óleo está quente demais – sugeriu. Eu a espantei dali, mas ela só se afastou até a pia. - Nenhuma notícia do Bruce ainda? – perguntou. Eu fiz que não com a cabeça. – Não acredito – disse ela. – Não era de se esperar isso dele... - Enfim! – disse eu, resumidamente. Na verdade, achei que ela tinha razão. Não era uma coisa típica do Bruce que conheci, e eu estava tão magoada e desorientada quanto qualquer outra pessoa. – Parece que consegui trazer à tona o que há de pior nele. Minha mãe me sorriu carinhosamente. Depois passou por mim e baixou o fogo. - Cuidado para não queimar – falou, e voltou para a festa, deixando-me com uma frigideira de panquecas de batata malcozidas e todas as minhas perguntas. Será que ele não se importa?, pensei. Será que não está nem aí? Tentei me manter ocupada durante o inverno inteiro. Fiz o circuito das festas das minhas amigas, tomando golinhos de cidra em vez de batidas ou champanhe. Saí para jantar com Andy, para passear com Samantha e freqüentei as aulas de preparação para o parto com Lucy, que concordara em me ajudar na hora H, “contanto que eu não tenha de olhar para a sua perereca!”. Do jeito que foram as coisas, quase fomos expulsas no primeiro dia. Lucy começou a gritar “Empurre, vamos, empurre”, quando tudo que a professora queria era falar sobre a escolha do hospital. Desde então, os casalzinho de papai-e- mamãe passaram a manter distância. O Dr. K. passou a ser meu novo amigo de e-mail. Escrevia para mim no escritório uma ou duas vezes por semana, perguntando como eu estava e me dando notícias das amigas das aulas de gordura. Fiquei sabendo que Esther comprou uma esteira e perdeu vinte quilos, e que Bonnie arranjou um namorado. “Eu quero saber como você tem passado,” ele escrevia sempre, mas eu nunca senti muita vontade de contar direito, acima de tudo porque não conseguia resolver em que categoria enquadrá-lo. Seria um médico? Um amigo? Eu não tinha certeza, de forma que mantinha as coisas num nível superficial, contando-lhe as últimas fofocas da sessão de notícias lá do jornal, os trabalhos que estava fazendo e como estava me sentindo. Devagar, fui avisando às pessoas mais próximas o que estava acontecendo, começando aos pouquinhos e passando gradativamente para círculos mais amplos – amigos mais íntimos, amigos nem tão íntimos assim, um punhado de colegas, meia dúzia de parentes. Avisei pessoalmente, sempre que possível, e por e-mail no caso de Maxi. “Acontece”, comecei, que estou grávida”. Dei-lhe a versão condensada dos eventos. “Lembra que eu lhe contei sobre a última vez em que vi Bruce no shiba do pai dele?” escrevi. “Tivemos um encontro, enquanto eu estava na casa dele. Foi assim que aconteceu”. A resposta dela foi instantânea, com duas frases, e tudo em letras garrafais. “O que você vai fazer?”, escreveu. “Precisa de ajuda?” Contei-lhe meus planos, no pé em que estavam: ter o neném, trabalhar meio expediente. “Não é o que eu teria planejado”, escrevi, “mas estou tentando resolver a situação da melhor maneira possível.” “Você está feliz?”, Maxi retrucou. “Está com medo? O que é que eu posso fazer?”

Por não ter nenhuma festa em vista (para não falar de não ter ninguém para beijar). Paguei pelas compras. aquela liga rendada que ainda não tinha usado. onde bastava eu me deixar engabelar a ponto de vestir aquelas coisas todas que Allen Funt e sua equipe saltariam de dentro do armário. ofereci-me voluntariamente para trabalhar na véspera do Ano-Novo. Ou das minhas. Como é que eu iria me enfiar dentro do todas aquelas calcinhas. ou melhor ainda. Saí às onze e meia da noite. essa magoou.” “Por mim. “Pensei coisas boas para mim”. E empolgada”. Roce as pontas dos dedos nos dedos dele quando for pegar a pipoca no cinema e lhe segure a mão quando estiver saindo. “Sorria. Muitos homens preferem carregar as sacolas de compras. Ela tem as mãos mais maravilhosas que já vi! Pequeninas. Dê-lhe uns beijinhos na esperança de que ele acabe retribuindo mais apaixonadamente. macias! Tão diferentes das minhas!.” Por mais que ele tentasse me incentivar (“Eu não compraria nenhuma dessas peças para você. um tratado sobre demonstrações públicas de afeto intitulado “Olhe o Beijo do Ano-Novo. Liga rendada. Experimente colocar uma florzinha no decote como chamariz para o beijo do Ano-Novo. uma caixa de lingerie de tamanho GG. entretanto.“Estou feliz.. eu sei. um truque perverso. com luzes e lentes de grandes aberturas angular. Eu me recusava a usar aquilo. agasalhei Nifkin no sueterzinho de lã crua que ele tanto desprezava – no fundo do coração. nem de galhinhos de plantas como incentivo. aquilo foi para mim como receber um tapa na cara. Ela é totalmente adorável e eu não me acanho de dizer. Não se importam de beijar mães e irmãs – anos de condicionamento desgastaram a resistência -. disse-lhe. Como no dia em que fui à farmácia fazer um estoque de suprimentos para a gravidez que incluíam Metamucil e Preparado H e deparei com a última coluna “Bom de cama” de Bruce. mas não se sentem tão à vontade para beijar você quando os amigos podem ver. eu seguraria sempre a mão de E. escrevi. Embora soubesse que ele havia escrito o artigo de dezembro meses antes de ter recebido a minha carta – se é que a recebera -. fitando-as. “Sei que minha vida vai mudar e estou procurando não sentir medo do quanto vai mudar. talvez até a sua bolsa a segurar-lhe a mão em público. Dizia-lhe que era tímida.. a mochila. aquilo me fazia sentir uma idiota. Se pudesse.” Havia dias. eu tinha certeza de que ele achava que o suéter o . voltei para casa. “Espero que tudo isso dê certo. você está na Candid Câmera. eu não conseguia sequer experimentar. que mantivesse contato. que tudo aquilo parecia improvável. os dedos gordos de unhas meio roídas e cutículas repuxadas. gritando.” Pensei na última pergunta e disse-lhe que precisava apenas que ela continuasse sendo minha amiga. pensei entristecida. de uma certa forma. de alguma forma. Como conseguir que o seu homem supere isso? Não pare de tentar. como os da Candid Câmera. Isso faz de mim um sujeito incomum. de aniversário ou dia dos namorados. a abraçaria diante de toda uma platéia. Ah. Não preciso das desculpas comemorativas. Lembrei-me de que Bruce sempre me trazia. A bem da verdade. ligas e sutiãs que ele sempre dava um jeito de comprar? Parecia uma piada de mau gosto. As mulheres de tamanho normal se envergonham de suas bundas e barrigas. Fechei a revista. enfiei-as nos bolsos e parti de volta para casa. eu a beijaria a cada esquina. se não quisesse vê-la vestida com elas!”. esbeltas.

Tentei evitar o exemplar em tons de vermelho e rosa da Moxie do dia dos namorados para o qual Bruce. que . Embrulhei tudo. Aquilo era música minha. ele não telefonava mais. Entraram todas as peças de lingerie que ele me comprara e eu jamais usei. Era 1999. da Liz Phair e Susan Werner. um livro lindo com capa de papel marmorizado e grossas folhas de papel pautado. a quem já amo demais. até que os escandalosos ônibus da cidade e as pessoas escarrando nas ruas tornassem tudo cinza novamente. deitado numa cama nos braços de uma mulher que eu sinceramente torci para ser uma modelo da revista e não a misteriosa E.” *** Choveu a maior parte do mês de janeiro e nevou quase constantemente durante o mês de fevereiro. envoltos em sua luz bruxuleante e aroma adocicado. e devo admitir que estava certo – e me agasalhei com o meu casacão de inverno.. fitando as minhas palavras com o que torci para ser aprovação. fechei a caixa com fita adesiva e levei para a área de depósito no porão. se chegasse a tanto. muito menos com um neném a caminho. Depois voltei para casa e fiz uma coisa que deveria ter feito muito antes. se agarravam e se beijavam à nossa volta. enquanto esperava na fila de uma loja de conveniência. outras por e-mail com Maxi (“Eu posso mandar matá-lo. resolvi ficar com o telefone sem fio. Ou seria. enquanto Nifkin pulava para cima do braço do sofá e vinha se aconchegando ao meu lado. e o vibrador e os óleos para massagem comestíveis e as algemas forradas de pele cor-de-rosa. o que deixava tudo branco por aproximadamente dês minutos.” Um malfadado dia. cada qual bem dobradinha dentro de seu respectivo envelope. deparando com uma foto de página inteira de Bruce. Entraram todas as cartas que ele havia escrito para mim. que conseguira de dissociar de Bruce. Peguei uma caixa de papelão grandona e comecei a embalar todas as coisas que Bruce me havia dado. não dele. que eram provavelmente coisas que eu não deveria mesmo ter pela casa. afinal.. Joguei a revista imediatamente de volta na prateleira como se tivesse me queimado e resolvi. se você quiser”). escrevi. Entraram o colar de contas de vidro pintadas à mão que a mãe dele me dera no último aniversário e a bolsa de couro do aniversário anterior. E fiquei com os CDs da Ani DiFranco e Mary Chapin Carpenter. folheei a revista e acabei caindo na página dele. fizemos amor. Entrou ali a metade que sobrou da vela esférica que havíamos acendido juntos em Vermont e. “1999”. um começo. havia contribuído com um artigo intitulado “Ele Vai Querer Gritar: 10 Novos Truques Sexuais Muito Excitantes para a Aventureira Erótica. pelo menos. segundo me informava a capa. “Para o meu neném. mas por ora já estariam fora do meu campo de visão e isso bastava. vestido com um calção de seda de boxeador vermelhocereja e uma expressão de arrebatamento absoluto. Cannie”). achando que talvez pudesse vender algumas das coisas mais legais. Depois de algumas deliberações. ou coisa que me faziam lembrar dele.deixava com cara de bobo. enquanto adolescentes bêbados e moradores do sul da Filadélfia gritavam. Tentei não olhar para os corações de papel metalizado vermelho nas vitrines das drogarias.. Depois subi novamente e abri meu novo diário. depois de algumas consultas ao vivo com Samantha (“Deixe isso para lá.. Enfiei no bolso uma garrafa de suco de uva sem álcool e fomos juntos para Penns Landing – sentamo-nos no píer para ver os fogos.

. Na verdade. da última edição do Livro vermelho. que era como a maioria dos livros sobre gravidez. Às vezes – bem. isto para falar apenas da sonolência incontrolável que batia de vez em quando. Ninguém para enviar à loja de conveniência no meio da noite. “Você vai se sentir radiante. quando meu artigo sobre Maxi saiu com duas colunas na capa do caderno de entretenimento. Eu não tinha ninguém. mas já começava. Todos os meus livros tinham fotos de mulheres grávidas com os maridos (ou. para animá-la. a ponto de me fazer imaginar que eles iriam cair e sair rolando. Para inicio de conversa. cheguei bem perto de enfiar uma no bolso do casaco e sair ligeirinho da loja. E parecia que as coisas estavam ficando cada vez mais complicadas. Recebi um bônus muito bom e ainda um vistoso bilhete do editor-chefe que deixei em lugar de destaque na parede do meu cubículo. Algumas vezes. Ela me tinha na mira desde o outono. mas significava que Gabby estava cada vez mais malhumorada – especialmente depois que eu ganhei a aprovação para escrever sobre os Grammys. . sentia tanta pena de mim mesma que acabava chorando. cheia de vida e energia!”. a me olhar fortuitamente. inabalavelmente otimistas. talvez mais do que às vezes -. Raciocinei que seria embaraçoso demais ter de explicar o meu vício em queijos para quem quer que fosse me tirar da cadeia sob fiança. dizia um deles. para as mais avançadas. mas nunca executei a façanha. da dor tamanha que dava nos seios. na South Street. preferia ficar amuada. Ficaram maravilhados por sermos o único jornal da Costa Leste a conseguir uma entrevista com Maxi e mais ainda por termos o único artigo no qual falava sinceramente sobre sua vida. para deleite dos meus editores. e me dizer que tudo ficaria bem. parceiros) – alguém para passar manteiga de cacau na sua barriga e ir buscar sorvete com pickles. ignorando convenientemente Samantha. para torcer por você e ajudá-la a escolher um nome. ciente de que as pessoas andavam de ouvidos apurados. Surgiram em mim novas e interessantes estrias. por dezesseis dólares uma fatia de meio quilo. ou eu já percebia aqui e ali um silêncio forçado quando entrava no banheiro das mulheres ou na cantina. Tudo isso foi bom para mim. e eu comecei a ter ganas de comer o queijo Stilton importado que vendia no Chef’s Market. Gabby me encurralou perto da minha mesa. me senti muito bem.a melhor coisa a fazer seria ignorar o incidente e dar graças por fevereiro ser um mês curto. Tentei reverter a pergunta. Lucy. ninguém com quem ficar acordada até tarde discutindo os méritos de Alice e Abigail. e da noite em que comi um pote inteiro de mango chutney enquanto assistia a uma reprise de Total request live. do jeito que recomendavam as “Dez maneiras de lidar com gente difícil”.Você está ganhando peso? – quis saber. que li descrevia o segundo trimestre. enquanto ela se resignava a escrever de antemão o obituário de Andy Rooney para o caso da saúde dele piorar de repente. os dois telefonemas de minha mãe todas as noites e ainda a vez que dormia em sua casa toda semana. caminhando por um campo florido de mãos dadas com seu dedicado esposo. suas metas e seus fracassos amorosos. na MTV. abaixo da foto de uma grávida radiante e cheia de vida. Não foi tão maravilhoso assim. Ninguém tinha chegado para mim e perguntando ainda. O tempo passou. nem do futuro. as pessoas do trabalho começaram a perceber. ninguém para me encorajar a não ter medo da dor. Uma certa tarde.

No trabalho. ou Betsy me levava para a mínima. Era como se tivessem medo de me deixar sozinha. com minha mãe nos fins de semana e jantava fora uma ou duas vezes por semana com meus amigos. e fazia os preparativos para todos os cursos que uma futura mamãe poderia querer: Fundamentos da amamentação. fui transformando o meu segundo quarto. verdade seja dita. e um calendário da Beatrix Potter. Comecei a encher a estante com todo tipo de livro . Minha mãe deu o aviso e todas as suas amigas esvaziaram os sótãos. nem quando lhes constaria alguma coisa. Tinha caixas cheias de pijamas com pezinhos e gorros de tricô. eu já tinha uma banheira com mesa para trocar fralda. Gradativamente. Escolhi a dedo uma cadeira de balanço que alguém jogou fora. porem excelente. E. todo dia Andy me perguntava se eu queria compartilhar um pouco das sobras de algum lugar maravilhoso onde ele jantara na noite anterior. Tinha mamadeiras. Absorvia tudo. roupas para a maternidade que não me fizessem parecer uma rampa de esqui). recusando-se a morder a isca. um bebê-conforto para levar no banco do carro e um carrinho que parecia mais luxuoso (e mais complicado) do que o meu automóvel compacto. comecei a gastar dinheiro. Ressuscitação cardiopulmonar para crianças. chupetas e um esterilizador de bicos. conforme as instruções do Livro vermelho – é que você acha importante que eu tenha sempre o mesmo aspecto? Ela me lançou um olhar demorado de raiva. Aproveitei o tempo que costumava dedicar a escrever roteiros. e foi-se embora indignada. infelizmente. que pareciam estar funcionando dentro de uma programação de sigilo máximo. em um quarto de bebê. estabilidade. lanchonete vietnamita que ficava a menos de dois quarteirões do jornal. Eu achei ótimo. delas próprias e os de suas filhas.Pelo visto. mais dois desde o dia de Ação de Graças) como excesso de gulodice durante os feriados. Tomava um caprichado café da manhã bem tarde. Toda noite alguém me ligava e se oferecia para vir tomar um café comigo ou para comer um pãozinho de manhã. Patel. Josh me deu um vale compra de cinqüenta dólares para gastar na EBay. eu estava comendo direitinho. E. exemplares babados de Pat. Pais de primeira viagem. e chocalhos prateados cheios de marcas de dentes. tentando me distrair da saudade de Bruce e das obsessões com as coisas que eu não tinha (segurança. que combinou muito bem com as paredes amarelo-limão. para me aprimorar – e dei início a uma série de projetos de melhoria doméstica executados por mim mesma. que antes era meu escritório. na esperança de que as pessoas classificassem aqueles quilinhos a mais (três no primeiro trimestre. – Por que você quer saber? Gabby só ficou olhando para mim. um pai para o meu filho que ia nascer. Comprei um tapete verde-mar. mandei refazer a palha e pintei a armação com tinta spray branca. Não havia decidido ainda o que dizer às pessoas.Você está tão diferente! – disse. Em fevereiro. o que você está me dizendo – comecei. e por ora estava usando blusas folgadonas e leggings de número maior que o meu. Eu ia ao trabalho e às consultas com a Dra.. um berço. E eu nem ligava se era por uma questão de solidariedade ou de vontade de cada um. Lua.Mas que pergunta descabida! – falei. Lucy me deu um maço de cupons em que escrevera à mão concordando em ficar de babá uma vez por semana quando o neném nascesse (“contanto que eu não tenha que trocar fraldas com número dois!”). sem muita ênfase. . . o coelhinho e Boa noite. contos e cartas inquisitivas para a GQ e a The New Yorker – basicamente.

botava a música e começava. Pela primeira vez na vida. ao menos pelo neném. não conseguia deixar de pensar se não seria orgulho somente o que nos mantinha afastados. Baixava as persianas eternamente empoeiradas. e implorar até que ele me aceitasse de volta. ou por não ter voltado quando eu quis que ele voltasse. Mas tentava colocar a raiva numa caixa. enquanto Ani esbravejava. de sequer tornar a vê-lo. cuidei dos gaveteiros.. ainda me amava. .” Mas tentava dançar feliz. Ou se algum dia amou. Queria saber se. tirava os sapatos. mais alguns que fui trazendo de casa e outros que comprei de segunda mão. Havia dias em que eu me zangava e ficava furiosa por ele ter me deixado ficar junto dele tanto tempo. Às vezes.. para que ficassem à prova de crianças. Tentava me forçar a parar de pensar nessas coisas. acendia algumas velas.infantil que conseguia amealhar na sessão de livros do jornal.. ir vêlo. só para me habituar. se não por mim. Poli a prataria. bonito até.. Não era sempre uma dança alegre. meu apartamento ficou arrumadinho. E toda noite eu dançava. Às vezes. ou melhor ainda. qual colocara seus presentes. até o ponto em que precisava me levantar e fazer alguma coisa.. eu tocava coisas do início da Ani DiFranco e pensava em Bruce. apesar de tudo que ele disse. e limpei os armários. apesar dos pesares. e seguia em frente. e ainda sabendo que ele havia rejeitado totalmente a mim e ao nosso neném. mas minha mente não parava de remoer e remoer. “Você nunca foi muito legal e vivia me decepcionando. Pena que a minha cabeça estivesse uma tremenda bagunça!. Estava solitária? Como nunca! Viver sem Bruce e sem a possibilidade de um retorno eventual. e se não seria mais esperto eu ligar para ele. Toda noite eu lia para a minha barriga. e também porque li em algum lugar que os bebês são sensíveis ao som da voz de suas mães.. era como tentar viver sem oxigênio.

e não mais sorrateiros. diria. Não.. ou de criar filhos. Basta ficar repetindo isso: "Se quiser falar comigo. como vai? — Vai indo — falei. mas tinha lá seus benefícios. apoiando as mãos na protuberância da minha barriga. Cannie! . Sei que Samantha estava tentando ir às compras comigo com a melhor boa vontade. em tom choroso. e sentir agora que elas quase não tinham importância. Mas dava para ver que não era fácil. Até me fez sentir um pouco melhor com relação à minha aparência — pelo menos durante alguns minutos aqui e ali. Ninguém tinha tido a coragem de me perguntar nada ainda. ela era diferente de todas as mulheres que eu já conheci. mas eu estava preparada para as perguntas que viessem. de partos. ele vai ligar. Alto. sim. os homens — olharem para mim com indiferença e/ou desdém por ser uma Mulher Avantajada... estou até um pouco melhor — falei. Até os olhares cada vez maiores. o que já podia fazer pois começara a mostrá-la oficialmente desde a semana anterior. da minha barriga (imensa) ao meu dedo anelar (sem anel). — Oi. ou comprar. — Sinto muito. — Na verdade. estou grávida. Uma audiência pessoal com Craig Kilborn durante um almoço em Nova York. Sempre que penso nele. — E então." — Eu sei — falei. — Estou tentando ser dinâmica. ele vai ligar. esbelto de short e um moletom surrado com o nome de uma faculdade estampado no peito. A bem da verdade. o trabalho estava um pouco esquisito. enquanto caminhávamos pela Kelly Drive à brisa de uma límpida manhã de abril — é que se ele quiser falar com você. Em segundo lugar.. Em vez de as pessoas — tudo bem. ou chateada.. certeza de que já estava enjoada de todo mundo presumir que éramos um casal de lésbicas. contanto que eu conseguisse reverter o assunto para as suas próprias histórias de gravidez. Essa mudança foi boa.. Enquanto Samantha exaltava as virtudes das compras de catálogo e pela Internet. Isso. ou nervosa. Em primeiro lugar. Algo que eu tenha de fazer.QUATORZE — O que toda mulher solteira deve lembrar — disse Samantha.. me forço a pensar em alguma coisa sobre o neném. Estar grávida era estranho. ou me inscrever. ou feliz. Samantha resmungou.. — Mais compras. ao meu ver bastaria para sossegá-los.. diria. menos de um ano atrás. para discutir a nova direção do seu espetáculo? Pois é. passou por nós um sujeito correndo. olhavam com carinho agora que estava visivelmente grávida. pois detestava fazer compras. Era estranho fazer coisas que normalmente me deixariam empolgada. mas é que eu ainda preciso de algumas coisinhas para a maternidade. — Que legal! E o trabalho. Só que este parou. É. importavam. não estou mais com o pai. Uma disputa chata com Gabby para ver qual das duas iria escrever a crítica sobre A Babá que acabara de passar? Tanto faz. O típico atleta correndo pela Kelly Drive num sábado.. qual é a programação de hoje? — perguntou Samantha.

Então. quicando cada vez mais alto. você é o famoso camaradinha — disse ele. enquanto Nifkin demonstrava seu salto vertical... afagando Nifkin vigorosamente por trás das orelhas..disse. pois ele sorriu para mim. À vontade — disse Samantha. . para um cara mais velho. claro. e você não está com alguém?" Samantha aparentemente tinha interrompido a onda de má sorte que lhe acometia nos terceiros encontros e ainda estava saindo com o instrutor de yoga.Eu parei forcei a vista. não contratam? Samantha me olhou espantada.Bem -. K. por favor — disse ele. com um sorriso no rosto. boquiaberta. me lembrou mesmo o filme Além da cúpula do trovão. totalmente alheio às nossas mensagens criptografadas em sobrancelhas e ombros. certo! Mais alguns quilinhos e eu também vou. na certeza absoluta de que ela entenderia como: "Não faço a menor idéia se e solteiro. olhou para mim. — Você está bastante saudável — declarou o Dr. . Estou precisando de. Muitas de nossas discussões que não eram sobre Bruce. Cannie.. enquanto o cão se regozijava. — Pode me chamar de Peter. ou não. toda alegre. Ela me deu um olhar curto. K. mas eu preciso ir — Nifkin ganiu quando ela começou a arrastá-lo na direção de onde ela havia estacionado. — Ah. longe do seu jaleco e sem os óculos. se não se importarem. . suponho. até que ele era bem bonitinho.Vou. — Li o seu artigo na The View — disse ele. com as mãos pousando protetoramente sobre a barriga. mas significativo.. Ronronando.. para ela considerar a possibilidade de se casarem. — Obrigada por caminhar comigo. Krushelevansky — pronunciei o nome lenta e corretamente. — Acho que roce tem toda a razão. —Vou caminhar com vocês — disse ele —. Samantha olhou para ele. — eu precisava de calcinhas novas. só uma sai — entonei. — Ele deveria ir para o circo — disse-me o Dr K .. que fora objeto de inúmeras discussões durante as aulas de gordura. K. se apresentava a Nifkin. o Dr. mas isso eu não iria dizer para ele de jeito algum. — Como vai o trabalho? — Para falar a verdade. que eu supus querer dizer: "Ele é solteiro? É judeu? E se for. Boas compras! . Mais tarde a gente se vê. tratavam da questão do professor ser zen demais...Ah. . Eles ainda contratam mulheres gordas. Ele riu. vai bem. pois as minhas já não estavam mais cobrindo a linha d’água.Você vai fazer compras? — disse o Dr. — Não vai me apresentar ao seu amigo? — indagou Samantha. fez de cabeça algumas rápidas equações e agarrou a coleira de Nifkin. — É melhor a gente continuar andando — falei. qual a desculpa por não tê-lo mencionado antes?" Dei de ombros e franzi-lhe a testa discretamente. Samantha também parou. Uau! Fora daquele prédio horrível de luzes fluorescentes. O corredor tirou o boné. — Entram cinco garotas. K. — Esse é o Dr. Preciso descansar. — Do programa que eu estava fazendo junto à Universidade da Filadélfia. . Cumprimentamo-nos e quase fomos atropelados por dois patinadores. Entrementes. — Oi! Falei. Era o Dr.

— Aposto que é esquisito para você sair para comer com as pessoas — falei. uma túnica gigantesca. um pãozinho. meu lugar predileto para o café da manhã. mas só isso. e vestira suas calças cáqui e uma camisa quadriculada de abotoar. — Isso aí era para ter sido a Greta Garbo? — Ei. Forcei os olhos para vê-lo melhor sob o sol forte. coloquei. você vai adorar isso aqui — disse-lhe. tomei um banho rápido. num tom de azul. — Sozinha! Ele franziu a testa.. Ele também estava com um aspecto muito bom — tomara um banho. — Deus sabe quanto sinto falta de uma tequila.. nem fico mais exausta a ponto de cair no sono no banheiro do escritório. e balançou a caneta na direção do médico. à guisa de explicação. nós tomaremos o café da manha juntos. e seria possível servir as batatas e a canjica em vez de só um ou o outro? — Mas é claro . — Quer saber de uma coisa? Se você puder me encontrar daqui a uma hora. Depois vamos fazer compras falei. eu vou levando . vão. tênis All Star de cadarço com cano curto. — Estava indo para o mercadinho Fresh Fields. mas nunca tinha ido à Lanchonete Morning Glory. Faço bem melhor quando estou bebendo — soltei um suspiro.. — Mas já melhorou. . Mesmo me dando conta de que minha vida se transformou numa das músicas mais fraquinhas do catálogo da Madonna. — Elas provavelmente se sentem envergonhadas de pedir o que realmente querem comer. Estava bastante satisfeita com o andar da carruagem quando nos ajeitamos num dos compartimentos com mesa. Se existe uma coisa que eu adoro é apresentar às pessoas as comidas que descubro.— Mantimentos — falei. — Eu vou querer a mesma coisa que ela — falou ele. Ele me contou que morava na Filadélfia havia sete anos... — É um brunch — falei. — Foi a pior imitação da Greta Garbo que eu já vi.. vai tudo muito bem. — Esse é dos bons — disse ela. que eu comprara por dez dólares).passei. Não sinto mais tonteiras. Posso lhe dar uma carona. — Você está comendo por dois — falou. — Vou querer a fritada da casa com queijo provolone e pimentão na brasa. e fui encontrá-lo no café-restaurante. onde ainda bem que não havia fila — por mera casualidade num fim de semana.. fraquinho. — É verdade. que lhe deixava à mostra uma serpente tatuada na barriga. Ele estava rindo. e partiu serelepe em direção à cozinha. — Pois. Ele deu de ombros. pensei. — Também preciso comprar umas coisinhas. delicadamente. — Já percebi um pouco isso.. a mão dramaticamente pela testa. — Você se importa se eu for junto? — perguntou-me. uma porção de torresmo de peru. estou me sentindo bem melhor agora. enquanto sinalizava para uma garçonete com cabelo rastafári e um bustiê curtinho.. — Isso aconteceu mesmo? — Só uma vez — falei. uma variação das minhas roupas padrão (legging preto de veludo. Ainda um pouco cansada. Na verdade.. Voltei a pé para casa. nem falta de ar. as coisas? — Se essas “coisas” se referem à minha situação. não mexa com uma senhora grávida.disse ela. _ É verdade — falou ele. — Como é que..

O shopping Cherry Hill ficava do outro lado do rio. com ar esperançoso. — Homer Simpson. — Para onde agora? — disse ele. — Você vai se sair muito bem — disse ele. — Tudo bem.. de fato. enquanto depositava estrepitosamente todos os pratos sobre a mesa. fala sério — disse eu. — Isso é uma delícia — disse ele. entre uma garfada e outra. . não enquanto você estiver comendo — emendei. pois ela começara a trabalhar entregando flores que iam acompanhadas de uma canção ao vivo. Os lábios carnudos ficavam emoldurados pelos traços marcantes do seu riso. Não usava aliança. quantos anos de fato ele teria. O segredo é a gordura. a bem verdade. duas lojas de produtos para maternidade um balcão da MAC. — Caramba. e ainda insistiu em pagar a conta dizendo que. mas ainda assim uns quinze anos mais velho do que eu. — Vamos ao shopping Cherry Hill? — propus. — Não é? — falei. — Eles fazem os melhores pãezinhos da região. ficava me devendo por terlhe mostrado o lugar. falando sério: o que deu nos médicos. um sorriso muito bonito. quem inventou o queijo? Quem disse: “Hum. O que será que isso revela a meu respeito? — mudei de assunto antes que ele pudesse responder. — Nunca pensei nisso — falou ele. sem muita curiosidade. . — A comida típica da Filadélfia! — Você já deu uma olhadinha na lista de ingredientes de Cheez Whiz? — perguntou ele.. não pode? Talvez possa me arranjar alguma coisa para eu tomar antes de começar a brincadeira. Tinha uma Macy’s. isso enquanto esperava que sua carreira de garota propaganda decolasse. e espetei o garfo na fritada. pode me deixar no Fresh Fields. — Você pode dar receita. só por ter garantido de pés juntos que tinha transporte próprio. em New Jersey. — Ah. quase sem esperanças. — Quer falar de uma coisa que dá medo? Vou lhe mostrar o relatório sobre episiotomias que a minha médica me deu — falei. Ele estava rindo de mim. Eram muitos os que não usavam. — Mas. Deu-me o que sobrou do seu pãozinho e nem pestanejou quando pedi chocolate quente. — Assim como. — Você faz o Simpson muito melhor do que faz a Garbo. Ele me olhou. — Você pensa em queijo? — Não. Imaginei. se estou! Para falar a verdade.Mas já pensei em Cheez Whiz. estou é querendo encontrar um hospital que me dê uma anestesia geral — olhei para ele. Mais novo do que eu pensara a princípio. E nós atacamos a comida. aposto que esse leite vai ficar muito mais gostoso se eu deixar ele parado aí até crescer uma camada de mofo em volta dele todo?" O queijo só pode ter sido um erro. E eu tinha emprestado o meu carro a Lucy durante o fim de semana inteiro. — Pois é. Ele engoliu em seco.— Nem me diga! — disse a nossa garçonete. não. Olhei para ele de esguelha. Eu estou à sua disposição. mas isso não significava nada. — Muito bom. — Não. hein? Vocês estão tentando fazer com que a raça humana opte pelo celibato? — Você está com medo do trabalho de parto? — perguntou ele. Tinha. — É de dar medo.

As árvores estavam recobertas de uma parca camada de verde e o sol se refletia na água. prateado.. onde tinha cupons do tipo "compre 1. — Pai? — Hum.— Vamos. — E com é você quer que eu aja? — Hum! — na verdade. . Nifkin funciona como a minha primeira barreira eliminatória para. mas a praça de alimentação do Cherry Hill é muito boa). não ter sido usado. Na loja de departamentos. quando repousei as mãos sobre a barriga. até entrou correndo numa loja para animais de estimação e comprou um osso de couro comestível do tamanho do Nifkin ou maior. acabei descobrindo. E não foi mal de fato. mas não falou nada. Não foi como a mulher da Pea in the Pod na semana passada que falou para mim e Samantha que nos achava muito corajosas. Como se o estofamento não tivesse tido contato com uma bunda humana. Minhas pernas estavam num cansaço gostoso da caminhada e eu estava com uma sensação gostosa de ter comido o bastante e. lembrando-me de que os dois viveram uma frágil détente que parecia querer . onde comprei um kit para grávidas (vestido longo. de linhas aerodinâmicas. — Ele vai é se apaixonar por você — falei. Mas aquilo não era um encontro! – Novos amigos — acabei dizendo. eu ainda não havia chegado a nenhuma conclusão com relação a essa parte. — Ele gostava do Bruce? Eu sorri.. eles podem pensar que você é o. saia. sólido. ou a mulher da Ma Jolie na semana anterior que me assegurou que "o papai vai adorar!" o legging que eu estava experimentando.. Pegamos a auto-estrada 676 e passamos pela ponte Benjamin Franklin. Percebi que a menina da Baby Gap ficou olhando para ele e para mim o tempo todo enquanto registrava as compras. onde comprei uns blocos e na Target. senti uma coisa que precisei de um minuto para identificar. que cruza o rio Delaware.. é. leve 2" para os lenços umedecidos e as fraldas Pampers. Eu estava feliz. tudo feito de um tecido preto que estica. Quando entrarmos nas lojas. e o banco do carona parecia. O interior era imaculado.Para ele não ficar se achando rejeitado — explicou. Pagou-me um almoço na praça de alimentação (parece meio cafona. — Essa vai ser a primeira. foi o que pensei.. que reluzia ao sol. Ele sorriu para mim. e não se mostrou perturbado com as minhas quatro paradas para ir ao banheiro. Eu o avisei no estacionamento. Calado.. e também a carregar todas as minhas sacolas e ainda a minha mochila. calça. vamos ver o que acontece.namorados. . é indestrutível e ainda tem a garantia de que não mancha). mas disposto a dar uma opinião quando solicitada. hum. K. — Ah. os corredores estavam lotados e passamos despercebidos. de tão arrebatada que estava passeando naquele carrão confortável e possante. As portas se fechavam com um barulho seguro e o motor parecia muito mais possante do que o meu modesto Hondinha jamais poderia sonhar. vendo a chegada da primavera pela minha janela e me sentindo feliz. O Dr. A mesma coisa se deu na Toys "R" Us. Durante a última. túnica. vestido curto. Felicidade. mostrou-se uma companhia muito agradável para fazer compras. O carro dele era um tipo sedan.

peguei o sem fio e me joguei desajeitadamente na cama. e soltei um bocejo. Quando ele se ofereceu para me ajudar a levar as coisas para cima. O berço me chegara desmontado e sem instruções. Joguei as minhas sacolas no sofá e corri para o banheiro. — Fique à vontade — gritei. e sapatos. onde eu estava tentando montar o berço que ganhara de uma das amigas de minha mãe. entrementes. uma série de vozes alteradas. bastando para tanto que eu desse as costas o tempo suficiente. com um sotaque britânico conhecido. e Nifkin resmungou. — Onde é que você estava? — Fazendo compras — falei. sentindo o sol de final de tarde entrando pelo teto-solar para me aquecer um pouco. — Acho que Bruce estava sempre a ponto de mandar Nifkin para um lugar bem distante com um pontapé bem aplicado. mas concordou em deixar que Bruce tão somente existisse. e me recostei no banco do carro cheirando a novo. riu. vou ficar lhe devendo essa.e1e enquanto Nifkin ferejava o osso de couro através de três sacos plásticos e tinha um ataque de alegria. Ele sorriu para mim e disse: — Você não me deve nada. isso também foi uma surpresa. agradavelmente surpresa.irromper em guerra declarada. possivelmente faltando algumas peças importantes. Abri a porta e Nifkin saltou para o hall como que arremessado aos ares por uma catapulta. árvores botando brotos e fazendo sombra nas calçadas. Ele sorriu para mim. — Se você conseguir montar. — Vou tirar uma soneca quando chegar em casa. Bruce resmungou. K. conforme estava acostumado. Ora. Não dá para dizer que ele "gostasse de cachorros". — Parece que tem algo errado aí — disse ele. num daqueles casarões antigos em alguma rua principal. E o Nifkin não é fácil — falei. Eu olhei para ela tentando ver o que ele vira. enquanto carregava as fraldas até o terceiro andar. Olá. enquanto Nifkin tentava cavar um buraco nos sacos. Eu me diverti muito hoje. Dr. Ensinei-lhe a chegar à minha rua e ele fez um gesto de aprovação com a cabeça quando entrou nela. Ele provavelmente morava no subúrbio. o telefone tocou. Pedi licença. mas concordou em deixar que Nifkin dormisse na minha cama. eu não estava disposta a recusar. na impressão que a minha casa causaria nele. — Você se importa se eu fizer uma tentativa? — Claro que não! — falei. mas houve. — Pois é! Eu tive sorte. Pelo menos a minha casa estava relativamente bem-arrumada. Nit! . embora pensasse. Maxi e eu vínhamos nos correspondendo por e-mail e um telefonema ou outro no . pensei. vasos com plantas em frente das casas assobradadas de tijolinho aparente. insultos. certamente com uns dezesseis quartos e um riacho passando pelo quintal da frente. — Cannie! — gritou uma voz. sem falar nas cozinhas que não ostentavam aparelhos domésticos Harvest Gold de fins da década de 1970. Quando saí. — Cansada? — Um pouco — falei. cintos e carteiras mastigados.disse . ele estava no segundo quarto. — Bonita! — disse. Antes que eu pudesse me dar conta do que achara daquilo.

e um sorriso largo se abriu em todo meu rosto. Fiquei ali deitada na cama com o coração forte e estranho. Intermission. — Você está bem? — Estou — falei. ainda sem compreender o que estava acontecendo... — Estou ótima! . me ignorando. Corno se eu estivesse dentro do mar. engraçada e triste. sem fôlego. falava do meu trabalho. Meu neném estava se mexendo. talvez. para eu fazer o papel principal. Movimento. Ela não fazia muitas perguntas sobre a chegada iminente — por educação. com as palavras se atropelando..Tenho novidades — disse ela. que não o teria lido. Acho que nós duas devemos ter direito a aceitar ou rejeitar quaisquer mudanças no roteiro e. — Claro — falei. Eu escrevia de volta. Como uma onda se formando dentro de mim. Fazer o meu filme. finalmente. um thriller de ficção científica que estava estrelando com um coadjuvante novo badaladíssimo. . por uma onda. Então. desde que nos conhecêramos em Nova York. falando cada vez mais rápido. As maiores que você possa imaginar. "Você está aqui . pensei com meus botões. Eu engoli em seco. e comecei a rir. Ela o mostrou para eles. e logo vieram várias batidinhas curiosas.. O seu roteiro — começou a falar. Você está aqui mesmo?" — Cannie? — falou Maxi.. sussurrei. nas principais decisões elenco. e talvez fique até rica! E foi aí que eu senti. Mostrei o roteiro para a minha agente. Larguei o telefone e coloquei as duas mãos sobre a barriga. Ela falava de seus trabalhos no set de filmagem de Conectada.. Eles também adoraram. quase sempre. o meu roteiro não foi falado nem uma vez sequer.. para o bem da nossa amizade. — Melhor você começar a comer. É inteligente. Admiti que Maxi tinha se esquecido dele. Sou uma escritora. e dos meus planos. eu achava. especialmente a idéia de eu fazer o papel da Josie.. com a sua permissão. incrivelmente excitado. De todas as coisas que havíamos conversado durante aqueles meses. o estúdio Intermission gostaria de comprar o roteiro. dos amigos.. — A personagem Josie é a heroína perfeita. — E fique você sabendo que já fiz um acerto com um estúdio. em que pé estavam. consegui. É claro que você vai estar envolvida no processo inteiro.escritório. e será uma honra eu ficar com esse papel. — Grandes. determinada. e revirada. e vivia me enviando dicas de investimentos e artigos sobre como fazer uma poupança para o neném. Mas aí eu já não estava mais escutando. sendo virada com delicadeza. — Adorei o papel dela — continuou Maxi.. — Adorei — disse ela... ou teria mas achou tão ruim que talvez fosse melhor não falar mais sobre o assunto. Imensas.. para não falar na escolha do diretor. claro. que precisava não de um nem dois. Alguém vai fazer o meu filme. Meu Deus do Céu! Esta acontecendo. mas de três "fiscais da sobriedade" para mantê-lo na linha..

. um agente me recebeu. . – Achei legal. – Sinto muito – mais uma das mentiras de Los Angeles. escritores desconhecidos. pegando o telefone celular e o canhoto do estacionamento para entregar ao manobrista. e que. Rumo às estrelas. ora! Ora. empurrando-o por cima da mesa em minha direção com as pontas dos dedos.Que traga retorno – emendou ele. ou programas humorísticos de sexta-feira na ABC. . era como costumavam começar). Era um caso de amor não correspondido. ou eventualmente uma carta em estilo impessoal informando-me que eles não estavam mais aceitando material não-requisitado. nós preferiríamos que a sua heroína explodisse alguma coisa – ele tamborilou com a caneta na página do título. De tantos em tantos meses. .. a indústria do cinema era como um cara por quem você sente tesão sentada no outro lado da lanchonete da escola – tão lindo. se você resolvesse pedir-lhe para assinar o seu livro de formatura. ele não disse o meu nome uma vez sequer. para livro infantil. a razão é que ninguém quer ver filmes sobre gente gorda. ou seja qual for o que estivessem usando como termo depreciativo do momento. já se afastando da mesa. bem. além de um punhado de cartas padronizadas de devolução (“Prezado/a Candidato/a a Escritor/a”. Certa vez. O que me recordo de nossa reunião é que durante todos os mais ou menos dez minutos que me concedeu. – E também devo adverti-la de que só há uma atriz gorda em Hollywood. Acabava sem nenhuma compensação por meus esforços. . A conclusão óbvia podia-se tirar a partir da expressão no rosto dele. o que eu faço agora? – perguntei. tentando descobrir como é mesmo o seu nome. escritores novatos. importunava algum agente com cartas. tão perfeito que você simplesmente sabe que ele jamais vai sequer percebê-la. sem saber ao certo o que mais me ofendera: ele ter feito uso da expressão “atriz gorda” ou saber que só havia uma. Só que ele havia rabiscado umas presas nas pontas dos “s” e agora ele pareciam cobrinhas. iria ficar olhando com ar vazio.. .Não há como me envolver com esse projeto – disse-me. Para o cinema..Isso não é verdade – explodi. Para mim. mas eu nunca parei de tentar. .. O cinema tem essa coisa de fugir da realidade.Legal não é bom? – perguntei. escritores inéditos. como se fosse nojento demais para arriscar o contato da palma da mão inteira. abandonando minha estratégia de manter um sorriso educado e a calma.. dizia. . nem tirou os óculos escuros.. sondando se estariam interessados no meu roteiro.Li o seu roteiro – disse ele. um ano antes de eu conhecer Bruce. Ele balançou a cabeça. – E na verdade.Então.Legal é bom.PARTE QUATRO Suzie Lightning QUINZE Eu nunca tive sorte em Hollywood.

“As coisas que ela deixou para trás”. com um cobertor em cima das pernas. E antes de você se dar conta. Não trouxera comigo nenhum dos meus livros infantis. sob o qual repousava Nifkin. isso sem falar no convívio com os astros e as estrelas. se levantava e vinha se sentar ao meu lado. sem achar que alguém avantajada e zangada está pisoteando meu coração. Nifkin e minha barriga. Peguei-o. Já posso escutar nossa música no rádio sem apertar imediatamente um botão para mudar de estação. éramos a primeira classe. Mirabella. murmurei. De volta à Filadélfia. onde íamos comer omelete com batata frita de madrugada. bem-sucedida. o que é mais provável.” Nós – eu. li. com uma sensação de enjôo na boca do estômago e o conhecido suor frio na nuca. onde nos querem bem. ou. ouvindo meu coração começar a bater. Tornei a pegá-lo. quando vou vêla ou tornar a abraçá-la. A bem da verdade. Estávamos voando a uma velocidade de cruzeiro. Mademoiselle. O recém-lançado exemplar de abril da Moxie.“Somos antropólogos”. por que deveria me aborrecer? Estava feliz. Posso ver seu nome como autora de uma matéria qualquer. murmurei para Nifkin e para o neném. se não podia ler. onde fora reservado quatro assentos em meu nome e ninguém sequer titubeou ante a presença de um minúsculo e aterrorizado rat terrier dentro de uma casinhola de plástico verde para transporte. e abri na seção “Bom de cama”. sem me dirigir a ninguém especificamente. Peguei-o. e olhando para uma variedade de revistas novinhas em folha dispostas no assento ao meu lado. na minha mãe e na vida que vai levar agora que o meu pai morreu. mas resolvi que. ela não é o primeiro pensamento que me vem – não quero saber se está aqui. segurando um copo de Evian com gelo e limão. pelo menos eu poderia explicar. Moxie. a uma altitude de nove mil metros. Cosmo. Maxi enviara uma limusine para nos pegar em casa. viajando para Hollywood de primeira classe para pegar um cheque maior do que ele jamais conseguiria na vida. Posso me sentar no mesmo compartimento sem ficar me lembrando que ela começava se sentado em frente a mim e. na minha família. “Não a amo mais”. “Então vamos considerar isso aqui como uma aventura. Devolvi-o. Acordo e penso no meu trabalho. que cubriu num piscar de olhos os quinze quilômetros até o aeroporto. Quando acordo de manhã. Glamour. “Só . Devolvi-o. depois de um tempo. que agora eu praticamente considerava como uma coisa separada – estávamos na primeira classe. e eu descansava os pés sobre um travesseiro. Posso passar no Tick Tock Diner. vamos estar voltando para casa. enquanto sobrevoávamos o que talvez fosse o estado de Nebraska. na minha nova namorada. onde nos sentávamos lado a lado num dos compartimentos com mesa e trocávamos sorrisos inebriados. começava o artigo. “Droga!”. pelo que pude ver.

Fica bem no caminho do trabalho para casa. Fico furioso também de não encontrar certas coisas: a tampa da minha caixa de tintas de batique e a camiseta do Cheesasaurus Rex que ganhei da Kraft por ter enviado três tampas de caixas do Espaguete com Queijo. e eu adoro a omelete de espinafre com queijo feta de lá. Ele já foi o nosso lugarzinho. As cartas estão numa caixa guardada no armário. Só que não deveria ser logo depois. quando os dois ainda estão sensíveis e machucados e provavelmente inclinados a relações sexuais nada aconselháveis. e sim um pouco mais adiante. Todos têm uma bagagem.. Transformar a ex-amada em nada mais que uma lembrança. mas transformar uma criança . claro. tentando me consolar. transformar a ex-amada em nada mais que uma lembrança é uma coisa. a foto foi deportada para o porão. é a solidariedade em pessoa. que sei que estão com ela e nunca mais vou ver de volta. todos carregam consigo partes de seu passado. e ficava me beijando até que a garçonete loura de penteado bufante e um bule de café em cada uma das mãos parava e balançava a cabeça. Acho que quando os relacionamentos terminam deveria haver um “Dia da Anistia das Coisas”. mas antes que a gente conclua o processo de transformar a ex-amada em nada mais que uma lembrança. no porta-luvas. quando ainda se pode ser sociável. Recuperei o Tick Tock.estou sendo simpática”. Mas eu fico furioso de encontrar o batom de cereja da C. Então é isso que ele está fazendo. pensei entristecida. e joguei fora o resto.. Ontem à noite eu estava varrendo – minha nova namorada estava vindo e eu queria tudo bem-arrumado – e encontrei um naco de ração para cachorro entalado entre duas lajotas. só para deixar a gente estatelado? Como é que se agüenta uma coisa dessas? Todo mundo tem um passado. dia minha namorada. Mas como a gente se resguarda de um pedacinho de ração que deu um jeito de passar sem ser detectado e surgiu. sabe o que diz na hora certa. dizia e me dava um beijo. roupas e jóias. e até consigo pedir uma sem me lembrar de como ela me mostrava os dentes no estacionamento. perguntando se tinha espinafre preso. ou uma única mão do par de luvas de frio dela no bolso do meu casaco de inverno. Devolvi as coisas óbvias. de repente. São as coisinhas miúdas que me pegam o tempo todo. na pá de lixo meses depois. mas agora voltou a ser meu. Acontece que. Ela é professora primária. estuda sociologia.

como oferenda de paz. meu diário e um exemplar de O neném saudável cheio de páginas marcadas. Fechei os olhos e. ajeitando o travesseiro e logo em seguida encostando-o na janela e me recostando nele. na noite anterior à partida. As . murmurei. Mas logo me lembrei de que a última coisa que lhe enviei pelo correio foi a notícia de que iria ter um filho seu e ele nem sequer se deu o trabalho de pegar o telefone para saber como eu estava. Ele havia escrito isso três meses antes. o que ele diria? Revirei-me agitada no assento. balas de menta e tabletes de chocolate embrulhados em papel-alumínio. mostrando o naco que encontrara. onde fazia sol e os ventos sopravam do sudoeste. “Ele não me ama mais”. Não teria curiosidade de saber por que ele escrevia sobre mim depois de todo esse tempo? Saber por que ele ainda se importava? Será que ele se importava... ora essa! E as conseqüências desse deslizezinho? Mas por ora. agenda de telefones. fazendo as mais desastrosas previsões de hordas de insetos e camundongos e outras pragas. Bem. ou seria apenas uma questão de pensamento volitivo meu? E se eu telefonasse. É o tempo que as revistas levam para imprimir as coisas.. numa coisa com a qual você nem se deixa incomodar. É de enfurecer. Relações sexuais nada aconselháveis. estofado em couro.. sou assolado por lembranças. eu lhes disse. o kit de grávida. relembrei-me.. E. E fiquei curiosa para saber como ia se sentiu ao ler aquilo. Camisola. na verdade. Mas. O assoalho. máscaras de dormir. e fechei os olhos. tênis. aí já é outra coisa completamente diferente. toalhas de rosto e ainda meias de cortesia. quando tornei a abri-los. e alguns utensílios de higiene variados que joguei lá dentro no último minuto. Acaso isso significaria que ainda havia esperança? Passou-me pela cabeça enviar-lhe a camiseta do Cheesasaurus Rex pelo correio. e a temperatura estava perfeita: 26°C. Trazia a casinhola de Nifkin numa das mãos e a bolsa na outra. como sinal.numa mera distração. *** Desembarquei do avião com os bolsos cheios de lembrancinhas que as aeromoças me haviam dado. contratei uma equipe para fazer a faxina do meu apartamento.. com a mão na barriga.Quanto tempo você vai ficar? – minha mãe perguntou. Teria visto minha carta? Sabia que eu estava grávida? E o que estaria sentindo agora? “Ele ainda sente saudade de mim”.. Ufa! Recostei-me no confortável assento reclinável duplo. que eu estava usando. menos a saia comprida e a túnica. Mas não é por isso que vou deixar de ficar Magoado. Não a amo mais. o comandante estava anunciando nossa descida para a belíssima Los Angeles. sentindo uma mistura de tristeza e fúria – e repentina esperança avassaladora – tão poderosa e horripilante que por um instante tive vontade de vomitar. a professorinha primária que vinha com papo de bagagem e tinha as mãozinhas delicadas. Na bolsa havia calcinhas para uma semana. .

lá estava April. E no portão. possivelmente do ano. April não demonstrou ter percebido.Detalhes – exigiu. eu percebi. Nifkin começou a rosnar. não contou? – ela quis esclarecer. Tentei ignorar o fato.Contei sim. – Cannie. . não vai? Girei os olhos. Talvez uns diazinhos a mais – falei. eu lhe disse duas coisas. se Maxi não teria se adiantado e assinando um pacto de sangue. aos paparicos. enquanto caminhava pela pista com a casinhola de Nifkin esbarrando na minha perna. Contei-lhe tudo que sabia: que estaria vendendo meu roteiro para o estúdio. Imaginei se ela conseguiria ouvir-me sussurrar “hipócrita” para o neném. demorando-se apenas um compasso ou dois a mais na minha barriga. a fim de dar-lhe as boas-novas. piscando rapidamente e ainda sorrindo. só que agora seu cabelo estava todo puxado do alto da cabeça para trás. . entregando-me uma xícara de chá. e mal posso esperar para conhecer o gênio que a criou. e depois pegou a minha mão. já havíamos nos conhecido. deve tê-lo montado enquanto eu estava ao telefone com Maxi. O Dr. acenou. .Bom. Foi tudo direitinho. e que aquela foi a pior experiência jornalística do mês.E você deve ser o Nifty! – falou. Levei um minuto para reconhecer que ela estava sorrindo. . enquanto se sentava no sofá. “Aeroporto”.Só um fim de semana. – Um talento que surge! – pronunciou. adorei. . Não mencionei que Maxi me pediu para arranjar um lugar para passar um tempo. mamãe. Adorei. Seu antebraço se encaixou bem embaixo do meu seio direito. formando um rabo-de-cavalo e havia algo estranho acontecendo entre o nariz e o queixo. . estava muito bem montadinho. – É um prazer imenso conhecê-la afinal! – varreu-me com os olhos de maneira igual à que eu me lembrava.E você vai telefonar. Imaginei se eu já não seria uma cliente. Nifkin tem várias qualidades. qual corpos desfalecidos.caixas e sacolas do que eu havia comprado no shopping ainda estavam espalhadas pelo corredor e cozinha.Como foi o vôo? – perguntou-me April. pensei. – Que cachorrinho lindo! – saltei uma risada às avessas e Nifkin continuou rosnando tão forte que a casinhola vibrou. que legal! E era mesmo incrível. tampouco ela estava sorrindo. Pensei que talvez fosse essa a sua maneira de tratar seus clientes famosos. murmurei para o neném. April se inclinou para espiar dentro da casinhola. – Adorei o roteiro. April passou o braço pelo meu como se fôssemos amiguinhas de escola. mas beleza não é uma delas. . Mas resolvi que não iria causar marola. disse-lhe que sim e fui levar Nifkin para passear até a casa de Samantha. caso eu quisesse estar na Califórnia para as inevitáveis revisões e ajustes de texto. Talvez ela não tivesse me reconhecido mesmo. que precisaria providenciar um agente e que iria conhecer alguns dos produtores. K.Cannie! – falou. Eu nunca tinha viajado de primeira classe. você é Josie Weiss. . Pensei brevemente em lhe contar que nós. ou o que fosse necessário para se contratar os serviços de uma pessoa como April. de fato. As mesmas botas de couro preto até os joelhos. Mas o berço. Reconheci-a imediatamente de Nova York.Absolutamente incrível! – falou Samantha. Quando Maxi me mostrou. . Falei: Maxi. deleitada. . mas o sorriso estava firme no lugar quando deus olhos finalmente encontraram os meus. Eu não estava grávida da última vez em que ela me viu. e me abraçou. .Você contou a essa tal de maxi sobre o neném.

rindo. tendo em seguida os latidos de Nifkin a me fazer companhia. Depois de passada a inspeção desse item. com direito a robe felpudo e tudo mais. “Chegue às sete. Olhou-me de relance e se ergueu sobre as patas traseiras para enfiar o focinho no vaso sanitário.” Nifkin saltara de dentro de sua casinhola e se ocupava em farejar tudo dentro da suíte. luxuosa até não poder mais. Tudo estava limpo. se eles tivessem optado pelo final alternativo em que a prostituta acaba grávida e só. Depois me recostei em dois dos seis travesseiros que estavam na cama e bati palmas.Vá se acostumando – aconselhou-me. totalmente no modo connoisseur. Deixei-o muito bem instalado em cima de um travesseiro na cama e fui tomar um banho. o assoalho de carpete ultra fofo.. Era grande. “Seja bemvinda”. instou Samantha. “Cheguei!”. dizia o cartão de Maxi. relaxe e aproveite. clara. comentei com o neném e abri um par de portas francesas. “Você levou minhas fotos. percebi o cartão de visita encaixado num dos travesseiros. toda feita com lençóis brancos esticadinhos e coberta por uma colcha macia cor-de-rosa e dourada. senti-me como Julia Roberts em Uma linda mulher. Pois é. “Se você comer nos restaurantes de Wolfgang Puck. espreguiçando-me na cama. rei do todos os biscoitos. e tão maravilhoso que fiquei quase com medo de encostar. Abaixo de um endereço no Ventura Boulevard. “Não assine nada antes de me enviar uma cópia por faz”. “Muito caro. “Bebidas e diversão”. As paredes eram forradas de papel listrado de dourado e creme. “Tire fotos!”. Chamei o serviço de quarto e pedi chá quente com morangos e abacaxi. E depois: bebidas e diversão” dizia. Senti o cheiro das flores e escutei o leve zumbido dos carros trinta e dois andares abaixo. e o banheiro era um salão todo de mármore com veios dourados. à mamãe que tiraria fotos. explicando que o estúdio estava me hospedando ali aquela noite. não levou?”. desembuchando Em seguida cinco minutos de “advogues”. tendo a consolá-la apenas seu cachorro. peça a pizza de pato”. sem sequer empalidacer diante do preço de oito dólares. murmurei. com cheiro de novo. Fechei então os olhos e só acordei às seis e meia da tarde. um banheiro do tamanho da sala da minha casa. enfiei os pés dentro dos sapatos e saí. “Consegui!” Depois liguei para todo mundo em quem consegui pensar. provavelmente. . indagou Lucy. deparando-me com uma cama enorme qual uma quadra de tênis. antes de eu conseguir acalmá-la. Eu tinha prometido à Lucy que faria o seu lobby. se eu quisesse! “Chiquérrimo!”. informei ao neném. Havia também um buquê de flores caprichado me esperando ao lado da cama. A suíte bem poderia ser mesmo aquela onde filmaram Uma linda mulher. – Sua vida está prestes a mudar. “Anote tudo”. bradei. aconselhou Andy. “Buquê”. Portanto. Mesmo que fosse só por uma noite. onde estavam gravadas as palavras Maxi Ryder. disse Betsy. Aí. à Betsy que tomaria notas para colunas do futuro. tirei do frigobar uma Evian e uma caixa de Choco Leibniz. com uma banheira grande o suficiente para jogar um movimentado pólo aquático. pelo menos o triplo do que ES mesmos teriam custado na Filadélfia. disse minha mãe. April. Joguei água no rosto. ele se escafedeu para o quarto. à Samantha que lhe enviaria por fax tudo de aspecto legal e ao Andy que comeria a pizza de pato. me hospedou numa suíte do Beverly Wilshire.

. mas não tenho nada contra mexer no meu cabelo – disse-lhe. . Garth. depois penteando. inclinando-me a cabeça para um lado e para o outro. a gravidez ou as luzes? Ele sorriu para mim pelo espelho e pegou mais uma mecha do meu cabelo. .Quem fez isso com você? – perguntou Garth.. não se deve pintar o cabelo quando se está grávida – comecei. Cheirava a alguma colônia maravilhosa e. Mas quando tirou a capa e me girou de frente para o espelho.Acontece que Garth era o Garth. cabeleireiro das estrelas.Eu tenho muita coisa contra várias coisas.Ai. após um certo tempo. .Não faça pouco de si mesma – disse-me.Hum. de forma que eu havia feito recentemente as minhas luzes. – percebi que ele estava buscando a palavra mais gentil. sua pele era imaculada.Inédita. com a garantia absoluta de não fazer mal algum ao neném durante a gravidez. . . tocando-o e analisando-o com o desprendimento tranqüilo de um cientista. Ele se inclinou para perto do meu rosto e começou a tirar-me a sobrancelha. pude perceber que Garth não concordaria comigo. sem nenhum produto químico. mesmo a alguns centímetros do meu rosto. aqui? – perguntou delicadamente. Erro fácil de cometer! O salão de Garth não tinha os apetrechos de praxe: fileira de pias. decorado com uma única cadeira.Sabe.. Tive lá minhas dúvidas. Minha pele . . – Um batonzinho e rímel. Ele levou quase duas horas: primeiro cortando..Você é roteirista? – perguntou Garth. derivada de vegetais orgânicos os mais puros. talvez seja só o sabonete do hotel. uma única pia e um único espelho antigo que ia do chão ao teto.Não se preocupe. . balcão da recepcionista. – Na Pensilvânia – a verdade é que eu mandei fazer as luzes no instituto de beleza da Bainbridge Street e achei o trabalho bemfeito. não.. – você tem alguma coisa contra. Ele já espalhara três tons diferentes de sombra em torno dos olhos. e tentei me explicar. secou-o com o secador e passou meia hora aplicando deferentes cremes e pós no meu rosto.Ah. . Quando ficou satisfeito com a forma das sobrancelhas. mas a julgar pela expressão em seu rosto. com suavidade. faça o que você quiser. baixinho. me arrependi até de ter pensado em duvidar dele. e elas foram saindo porque foi há seis meses. . – Portanto. querida! – falou ele. ainda. Fiquei sentada ali na cadeira. – E eu não esperava engravidar.Ah. Pegou um pente e um borrifadorzinho de água.Eu não costumo usar muita maquiagem – protestei. embora a principio eu tivesse achado que o táxi me deixara numa galeria de arte.Você vai acontecer.. Para falar a verdade. aparando as pontas e colocando em minha cabeça uma solução vermelho-granada que jurou ser totalmente natural. .. – olhar vago de Garth. Só isso. que fez luzes em Hillary e passou henna em Jennifer Lopez levantava e substituía mechas do meu cabelo.. Esta vai ser sutil. Segurou-me o queixo..Elas não foram feitas. não parecia haver ninguém dentro do salão. e eu sei que isso está horrível. enquanto o homem que colocou os nacos amanteigados nos Cachos de Britney Spears. . hum. pilhas de revistas folhadas. Na Filadélfia.. inclusive um que parecia praticamente roxo. . para descrever o que estava acontecendo em cima da minha cabeça. . de pé direito elevado. além de. . enxaguou-me o cabelo.. Você tem essa aura.

Eu lhe abri um sorriso e joguei para trás os cabelos. analisando primeiro os cabelos e depois a barriga. . discretamente repuxados de felicidade.Maxi abriu um sorriso. Maxi parou de me circundar e me fitou. usando um vestido preto de alças finas colado ao corpo e sandálias pretas. . Entrementes.. Maxi me circundava como se eu fosse um objeto que ela estivesse cogitando comprar.Não se preocupe. tirando a mão rápido como se tivesse se queimado. para uma rica e reluzente cor de casco de tartaruga salpicado de mechas em tons de ouro. E nem percebi a sombra..Ou o narguilé dele – sugeri. Balancei a cabeça. bronze e cobre. as mínimas saliências de cada vértebra e as sardas salpicadas em perfeita simetria pelos ombros.reluzia. E o cabelo. só os olhos. Passara de um estilo Joãozinho de meadas desencontradas e uma coloração acastanhada.Que eu saiba. dando-me um ar sapeca. Os lábios estavam destacados. que pareciam muito maiores. de olhos arregalados. Claro.. Só estou com um pressentimento – falei. deixando-lhe as costas nuas quase até o bumbum. O som de aplausos veio da porta. Ele se ajoelhou na minha frente. As maçãs do rosto estavam da cor de um damasco maduro.Nada? Ainda? . com algumas luzes esporádicas.Foi o melhor corte que já fiz – disse-lhe. o neném atenciosamente chutou. . Poderia enviar. Ele fez um corte curto resguardando a ondulação natural em madeixas que mal tocavam as maçãs do rosto e passou-a por trás da orelha num dos lados. – Ou dar-lhe uma surra. . – Talvez isso o deixasse mais magoado. Você não vai machucá-la.Então é uma menina? – perguntou Garth. .Ooh! – exclamou Maxi..Você achou que eu estava brincado? – falei. . ..Posso. . porque se não estiver.Oficialmente..Sem brincadeira! – falei. . mas quem era eu para reclamar? – Talvez seja o melhor corte que alguém possa ter na vida. – Você está. . As alças do vestido se uniam na nuca. uau! . . depois de um momento. mais parecida com uma versão felicíssima de mim mesma. Passei os dedos devagar pelos cabelos... meia dúzia de jogadores de futebol americano bem zangados e armados com tacos de beisebol para quebrar as pernas dele. ainda não.Você está se sentindo bem? Está com fome? Com sono? Está com vontade de sair. .O que Bruce tem a dizer disso? – indagou. . só que mais. não tem problema algum.Cannie! Meu Deus! – disse ela.. muito mais arrojados.Eu posso mandar matá-lo – ofereceu Maxi. com um tom suave de vinho. . uma sapeca grávida. Nem a mim. Trazia brincos de diamantes nas orelhas e um diamante único pendurado numa corrente fina de prata ao pescoço. Não tenho tido notícias dele. nada. Estava parecida comigo mesma.Claro – falei. embora eu não me desse conta de estar sorrindo.. e ri de sua expressão de espanto. . Destacavam-se as suaves protuberâncias de suas espáduas.. Ela encostou a mão na minha barriga e. digamos. .. E lá estava Maxi.

. que andava sempre com a Bíblia debaixo do braço.. e a badaladisssíma diretora artística não era de fato uma lésbica.Ele é gay – sussurrou-me Maxi – e vem transando com o personal trainer dela há anos. . Eu ficaria um tempinho por lá. Nunca fui muito chegada a noitadas e festas barulhentas antes de engravidar. mas ele me mandou parar com aquilo. É um dos meus favoritos. . Maxi riu e se inclinou mais para perto de mim. e se eu prometesse voltar dali a seis semanas para aparar as pontas. mesmo no elegante conjunto preto de túnica e saia. enquanto a mamãe está fazendo pregações de catequese na Virgínia.Claro que eu quero sair! Isso aqui não é Hollywood? Já estou maquiada.Pedi aos porteiros do hotel que cuidassem de Nifkin. e ciente de que. ao lado de Maxi.” O diretor cinqüentão acabou de sair da Betti Ford Clinic. A princesa do hip-hop que diziam não fazer nada sem a presença da mãe batista. Maxi me falou). enquanto Maxi zarpava pelas ruas apinhadas de carros e buzinas. o protagonista quarentão fora diagnosticado como viciado em sexo durante sua última estada em Hazelden. Eu o agradeci e fiquei agradecendo até que Maxi me arrastou pela porta afora. fingiam.. . Maxi me deu a ficha corrida de quem poderia estar lá.Ai. embora se satisfizesse plenamente em alimentar a fofocagem.pelo menos. . Um dirigível sapeca. ele já se considerava suficientemente pago. . Maxi se animou imediatamente. que lugar-comum! – retruquei o sussurro. com o vento cálido da noite soprando em nossos rostos. A estrela ingênua do segundo maior filme de ação do verão passado poderia oferecer-me Ecstasy no banheiro das mulheres (“. Ofereci um cartão de credito a Garth. segundo Maxi. e depois alegaria a exaustão típica das grávidas e tomaria o caminho a casa. que eu não me preocupasse pois já estava tudo acertado.Ah.É uma festa? . e acelerava para pegar um sinal ainda amarelo. era “tresloucada”. pelo menos. lá é sempre uma festa. Eu não podia comer peixe cru nem ingerir bebidas alcoólicas. E ainda que estivesse animada para comemorar e conhecer todos os astros e estrelas de Hollywood. além dos pertinentes panos de fundo que uma novata como eu deveria conhecer. ciente do meu centro de gravidade instável. – Também aluguei uma cabana para ele. falei comigo mesma. Os famosos ator e atriz. ofereceu para mim!”. pensei. e sandálias de salto também pretas que não deixavam nada a desejar. mesmo com o fabuloso corte de cabelo novo e a maravilhosa compleição aprimorada por Garth. . Entrei com cuidado.Para o Star Bar. . assim você não vai se preocupar se ficarmos na rua até tarde – gritou-me. “Dorme com homens e mulheres. eu ainda me sentia como um dirigível desmazelado.. tudo ao mesmo tempo.Careta de fazer dó! – falou Maxi. Seu carrinho prateado estava encostado ao meio-fio. – Acho até que ela tem um marido escondido lá em Michigan. fiquei sabendo. Vamos embora.. sabia que não demoraria muito até que a coisa que eu mais iria querer seria a cama daquela enorme e maravilhosa suíte do hotel.. casados há sete anos. e desde então me vi gostando ainda menos desse tipo de coisa. em tom de decepção. E também tem um sushi excelente! Soltei um suspiro.Uau! Que sorte a dele! Só depois de passarmos mais dois sinais de trânsito foi que pensei em perguntar para onde íamos.

Mais ao fundo. descortinando um bar que parecia suspenso no ar contra um fundo de noite. foi assim que a Moxie o chamou no número “Homens que todas queremos”. “Volto já. que esvoaçavam ao sabor da leve brisa noturna. Por mim mesma. corpetes brancos e tênis impecavelmente brancos. cercada daquela gente toda. O que o tornava especial em termos de aparência era o seu sorriso – aquele sorriso doce. Havia um barzinho rústico com o típico telhado de palha e tochas. O bar iluminado ao fundo por neón azul e a pessoa encarregada era uma mulher de um metro e oitenta. e saiu dando beijinhos. Um janelão de vidro cobria toda a extensão da parede. quase todos com piercings e tatuagens. mas juntas davam um fidedigno galã de Hollywood. ou seja. de costas voltadas para o salão. Lá estavam os superastros casados de longas datas. com jeito de estarem prestes a sair para rodar um videoclip. meu Deus. Maxi deu uma risada. com um copo na mão. Lá estava a tal princesa do hip-hop. aos nove anos). As paredes eram forradas por cortinas de renda cor de marfim. perplexidade e desvario. Dúzias de garçons e garçonetes varavam todo o ambiente. discretos cabelos e olhos castanhos do tipo padrão. além das cintilantes luzes da cidade. As portas de correr do elevador deslizaram cada qual para o seu lado e dois caras maravilhosos de short e camisa brancos nos abriram as portas de vidro de três metros de altura. Havia dúzias de mesas forradas de pano branco para duas e para quatro pessoas. Adrian não era bonito como o clássico protagonista de aspecto durão. que dava para uma piscina iluminada onde não havia ninguém nadando. com trancinhas mínimas caindo-lhe do topo da cabeça em cascata até quase a cintura. oh. também não era dessa última safra de meninos bonitos e andróginos. Por si só. Todos de branco – calças brancas. que expunha um dente da gente levemente lascado (ele sempre dizia aos entrevistadores que o conseguira caindo da sua casa de brinquedo na árvore. . Pelo menos. meio de viés. shorts brancos.. preparando martinis com o rosto belíssimo e impassível das esculturas em máscara africanas. fitando a noite. e todos eram lindos. sussurrou. todo o necessário para o papel principal numa comédia romântica. e a diretora de arte não lésbica numa camisa de fraque engomada e gravata borboleta vermelha. Adrian Stadt.. Minhas mãos começaram a coçar por uma caneta e um bloco. Eu não tinha o que fazer num lugar assim. só que o pessoal levava martinis de tamanho descomunal em vez de comadres. E bem ali. Fui até o janelão. será mesmo? Sim.Um horror! – falei. pegando-me o braço. na qual provavelmente seria sarcástica. todas encimadas por tremeluzentes velas votivas. Isso dava ao lugar o aspecto do mais chique hospital do mundo. Era mais como um vizinho – altura mediana. aquele ali não era o meu lugar. pelo formato da cintura. todos maravilhosos. que não chegavam a encostar nos rostos. estava. Maxi deu-me um último aperto no braço. uma nuvem de poluição e cartazes da marca Calvin Klein. abarrotado de gente – todos jovens. E aqueles olhos castanhos tão comuns eram capazes de passar mil variações de frustração. mostrando-se para o mundo como um casal dedicado.. as partes não tinham nada de especial. a menos que estivesse tomando notas para fazer depois uma matéria jornalística.já!”. Consegui reconhecê-lo pelo contorno dos ombros. de gente que eu só vira em filmes. Recostei-me numa das pilastras e tentei não fitar ninguém. vestida com roupa de gatinha azul-petróleo. traços normais. Só Deus sabe quanto tempo passei babando em cima de fotos dele! O cabelo estava cortado bem curto e a nuca reluzia na meia-luz do salão.

Fiquei me sentindo como um elefante que vai para acidentalmente no meio de uma manada de maravilhosas gazelas esbeltas e ágeis. . . todo o meu sucesso..Adoro a sua música – soprei no ar. ela que se dane! Pensei.. ou cantando uma ópera-bufa sobre a mãe do ano da Associação de Pais e Mestres. senti os dedos se fecharem em torno do que eu queria. . – Talvez você possa começar a economizar para a sua próxima plástica de nariz. verdadeira. As risadinhas se transformaram em sonoras gargalhadas. . mas pelo Adrian Stadt eu sentia alguma coisa. nunca enchi de fotos a porra do meu armário. sentindo meu queixo cair. meu cabelo maravilhoso. ..Se eu ganhasse um centavo de cada gordinha que me diz isso. Era Bettina Vance. entregando-me seu xale de pashmina. líder das paradas. Estava tudo indo muito bem até que uma patota de magricelas de salto alto adentrou o salão e se plantou na minha frente. também. escutando astros do rock cantarem vidas que elas sequer poderiam sonhar para si. a julgar pela sua popularidade. enquanto resolvia se ligaria primeiro para Lucy ou Samantha para contar a novidade. Bettina ficou me fitando pelo que pareceu um tempo inacreditavelmente demorado. forçando-me a não desviar o olhar. mais loura e mais magra de todas. vidas que jamais conheceriam! Senti o neném chutar naquele momento.Quem é você? – soltou entre os dentes. Claro. Bettina girou os olhos para mim. . como um punhozinho se erguendo com severidade dentro de mim. Peguei-o e depois olhei para ela. seus lamentos e reclamações sobre a criança que foi escolhida por último para jogar bola. – Tome o seu centavo – falei. . Algumas das gazelas mal conseguiram conter as risadinhas. milhões de outras mulheres achavam exatamente a mesma coisa. roupa nova. optei pela resposta mais simples. sentadas em seu quarto. tentando me esconder para poder fitar as costas de Adrian Stadt sem ser interrompida. eu achava que se nos conhecêssemos poderíamos ser bons amigos. nem me retrair. Mesmo quando o via no Saturday Night! Desfiando. e não consegui encontrar uma maneira de cair acidentalmente fora dali. o que vinha bem a calhar. nem nada disso. Bettina Vance estava me olhando fixamente. com todo doçura. eu sou alguém. ou mais. em toda a minha volta.Ainda bem que passei imune pelos desejos adolescentes. Mas quantas delas estavam ali no Star Bar numa cálida noite de Los Angeles com o objeto de seu afeto bem diante de si? Retrocedi até encostar na pilastra. uma das minhas favoritas para dançar em fim de noite quando estava amargurada. Fiquei tão chocada como se ela tivesse jogado água gelada no meu rosto. com a voz em falsete.. pensei. Com toda essa maquiagem. enquanto Bettina agarrava um martini.Uma escritora – falei baixinho. nos lados. resumida e. Algumas respostas me ocorreram: Ex-fã? Gordinha zangada? Seu pior pesadelo? Em vez disso. e tudo que as Bettina Vance do mundo conseguiam enxergar era mais uma gordinha dessas que ficam solitárias. De repente. Enfiei a mão na bolsa e.Segure isso um instantinho – pediu-me a mais alta. vocalista principal da super banda punk Screaming Ophelia. Ela me lançou um olhar de olhos turvos e soltou um suspiro. qual um lembrete. ainda bem.E por que você iria precisar de doações? Já não está rica? – indaguei.

Ela partiu em direção à janela. trêmula.Sou melhor ao telefone – consegui cochichar. tomou o xale das minhas mãos e saiu atribulada. Maxi apareceu de volta ao meu lado. É.Ah.O que foi? . impacientemente. pelo amor de Deus! Argumento convincente.Adrian Stadt – falei.Espere aqui – disse.. Assim como Josie Weiss era eu. . só que com um nome diferente e sem a tendência incômoda de namorar supermodelos.Não posso ir até ele e começar a falar. Quando voltou.Cannie.Porque estou.Por que não? . – E você? Girei os olhos nas órbitas. no meu trabalho era comum eu chegar a pessoa muito mais poderosa ou influentes ou mais bonitas do que eu. “Piranha!”. como em tudo mais que fazia. havia um telefone celular em sua mão. – grávida. Parei ali. Mas não Adrian Stadt! Não o cara por quem me permiti um sonho de cem páginas. em pessoa. . ao avistá-lo. .. Maxi soltou um suspiro. No instante em que decifrei quem era. .Eu acho – retrucou Maxi. . . Cheguei a.. não! – falei. .Então.Ah. – Caramba! Qual é a da Bettina? . ela juntou os pontinhos. Eu congelei. – tentei pensar numa boa maneira de dizer “numa liga completamente diferente daquela que é freqüentada pelos lindos e famosos astros de cinema”. e partiu à toda para o balcão do bar. Antes que eu resolvesse o que iria dizer. . tímida você não é. – Adrian Stadt acabou de me dar um sorriso! Você o conhece? .Esse é outro – falou Maxi. uma repórter... Um dos homens que se encontrava à margem da multidão sorriu para mim e se afastou.O que foi que aconteceu? – perguntou. finalmente. . . e passei a mão na barriga. levando consigo a patota de tamanho PP. finalmente. – Ele faz parte da minha liga de boliche lá na Filadélfia. . Ela se virou para mim. E se ele não gostasse de mim? E se.Sabe de uma coisa? Daria um perfeito Avery – murmurou. . eu não gostasse dele? Não seria melhor simplesmente ficar com a fantasia? Maxi passou de um pé para o outro.Esqueça a Bettina – balbuciei. Deixei cair a cabeça.Brincaderinha! – falei. . – já tive azar com esse telefone. se conheço! – falei. Recostei-me na pilastra. Em verdade. cogitando se contava a Maxi que Adrian Stadt fora a inspiração básica do meu roteiro. sussurrei para o neném.Um pouco – disse ela. – que as grávidas ainda podem conversar com quem não está grávido. sim. Avery Trace era Adrian. antes que eu pudesse registrar-lhe o rosto. Maxi ficou intrigada.Sou tímida.. .Eu não lhe disse que ele estava aqui? – perguntou Maxi. – Vamos falar com ele. forçando a vista para enxergar os números que desenhara na . . .Mas ele não é de Nova York? . com todo o charme. – Claro que não o conheço! Mas sou fã de carterinha.Ah.

.Você não sabe – falou. . – Onde você está? Escondi-me ainda mais. me diga que é você. . . Ele se virou depressa e. Vi quando seus lábios se mexeram. Larguei o telefone. – Posso ser fruto da sua imaginação. até!. – Está vendo aquela estrela brilhante.Mas é verdade. Fiquei observando os olhos dele. Ela o entregou a mim.Não pule – falei. que eu quis crer que foi suave. Ele soltou uma risada curta e piedosa. .Como vou saber se você é de verdade? – perguntou. E está nesse lugar maravilhoso. Quando engoli. Mais leve.Alô? Pude ouvir a voz de Adrian. . pelo reflexo no vidro. durante um segundo. O telefone começou a tocar instantaneamente. Foi a primeira coisa em que pensei. . Eu estava conversando. Sua vos adquiriu uma pitada de provocação.. Do outro lado do salão. Você é mesmo. Ainda não. . fora do campo de visão dele. vasculhando a multidão.Não dá para ver nada.Alô? . numa noite tão linda! Está vendo as estrelas. Virou-se de costas para a janela. Adrian Stadt abriu a aba do próprio celular. – Não existe nada tão ruim assim. Fiquei curiosa para saber por que ele sempre falava com aquela vozinha melosa e aguda nos filmes se sua voz verdadeira era essa. baixa e simpática. – E você não gostaria de me conhecer melhor assim? Ele sorriu.Talvez. Poluição – explicou. – Menor.Uma amiga.Não essas – falei.mão com o que parecia ser um delineador de lábios. apertando o telefone com força mortífera na mão subitamente banhada de suor.Posso ver você? . – Não pule – repeti.Por que não? . mas num canto onde ainda pudesse ver sua imagem refletida no vidro. Mais caro – o telefone começou a tocar. . peguei-o novamente.Estrelas! – zombeteu.Você está no salão? . bonito talentoso.Sei sim – disse. enquanto fazia o que eu lhe dissera. . – Como se eu quisesse! . flertando. diante do janelão que tomava a parede inteira. . senti os olhos dele passarem por mim. logo à sua direita? Adrian forçou a vista. tudo num movimento só.Não.. mas provavelmente não foi. Não conseguia acreditar que aquilo estivesse acontecendo. Maxi o abriu. . – Você é jovem. Consegui perceber os lábios dele se recurvando na janela. . desliguei e entreguei-o à Maxi. ouvi até o estalido da garganta. atrás da pilastra.Não vai – falei. Tinha uma voz maravilhosa. – Olhe para o alto – ele inclinou a cabeça. .Porque sou tímida – falei.Bajuladora! – disse ele. com Adrian Stadt. . me desloquei de forma a ficar atrás de uma pilastra forrada de seda branca. .Pelo menos. Enquanto falava. – Olhe pela janela – disse-lhe. Mais uma gargalhada amarga.

. fui até ele pelas costas e dei-lhe um tapinha no ombro. Tudo bem.Identificadores de chamadas são a ruína da existência humana na década de 1990 – comecei. Agora. Posso lhe oferecer uma bebida? . . – Estou grávida. .Cannie – repetiu ele. torcendo para que ele pegasse o impacto total do meu cabelo e maquiagem antes de chagar á minha barriga. não era exatamente um furo de reportagem. Muitíssimo bêbado.É um mecanismo de defesa – retruquei. vim para cá com a Maxi Ryder. Sorriu para mim. eu sei que isso não é verdade – falei. Pense em como isso vai atrapalhar o desenvolvimento deles. resolvida a deixar por isso mesmo. Eu me escondi novamente atrás da pilastra. Meu nome é Cannie. mas não era maravilhoso. e. – O que foi que aconteceu com o anonimato? .Fruto da minha imaginação? Oi. Soltei um suspiro.Anonimato – repetiu ele devagar. Pessoalmente. – Oi! Ele se virou devagar. um doce. Mais alto do que eu imaginara.Não sente sede? – perguntou ele. E bêbado. . .Espere um instante. sim.Eu estou aqui sozinho – disse ele. . . . . – E onde está o. Você tem uma memória e tanto! Dei de ombros e assumi ares de modéstia.Estou aqui sozinha – falei.. ajeitei a túnica.Estou – falei.Ei! – falei. – Nós terminamos. mas era alguma coisa. varri os arredores com um rápido olhar para me certificar de que Bettina Vance estava noutro lugar.Você está grávida – deixou escapar. hum. . como se fosse a primeira vez na vida que pronunciava a palavra. . parecia bonito.Pensei só nas gerações de garotos púberes que não vão poder telefonar para as garotas por quem sentem tesão e logo depois desligar. era adorável. posso vê-la? Apertei o telefone com toda a força que tinha e não respondi. . e lindíssimo.Greta – murmurou ele. e riu a contragosto.Ah.. é você? .Porque você parece legal. .Então. Na tela. Desliguei o telefone. – Acontece que sei que você está saindo com uma estudante de medicina alemã chamada Inga. . era impressionante. – Quero vê-la. com belíssimos olhos castanhos. Ele era tão lindo de perto. Ele agarrou-me o pulso. Peguei o telefone.por quê? – perguntei.. . – e balançou a mão no ar num gesto vago que interpretei como “o pai do seu filho”.Não! – falou. – Face a face. por favor – falou Maxi. objetivamente e me entregou novamente o telefone. . Estava tentando decidir se seria cafona demais pedir um autógrafo quando Adrian agarrou minha mão. – Na verdade. .Você é engraçada – disse ele. fruto. em carne e osso. . – Estou sempre sozinho.Sou sua fã – falei.Não bebo – falei... .Vou continuar telefonando até que você me deixe vê-la. . como se não tivesse me ouvido.

Encontrei-me finalmente no aperto de gente em volta do balcão do bar. mas ainda mais louca para voltar para o Adrian. ele vai dizer que me adora e de dentro da minha barriga o meu filho vai acertá-lo com um pontapé nas costelas. . Sorri para ele e pegamos o elevador. descobri que Adrian Stadt ainda estava esperando.Lá fora? – será que eu queria ir lá para fora com Adrian Stadt? Será que macaco gosta de banana? Fiz que sim com a cabeça. claro. bem. – Me beije – ele trouxe os lábios até os meus e eu inclinei a cabeça para cima.É que ele está meio...Ah. incrédula.. Não havia bancos. Maxi riu.Me beije – disse ele. Escreveu num guardanapo o seu número e esticou a mão para pegar o celular. Maxi perdeu o ar de preocupação. Dei-lhe um beijinho no rosto e.Ah. eu vou beijá-lo. e parti pelo meio da massa de mulheres de minisaia e frente única atrás de Maxi.Hum! Olhe aqui. Vamos nos agarrar no sofá. .Tudo bem – disse ela. nem gramado. Adrian estava ficando gradativamente mais ébrio que no bar. quando Adrian trouxe o polegar até o meu rosto e começou a acariciá-lo. um comediante que faz filmes. e afastei o corpo. Ah.. enquanto a mão dele escorregava para a minha nuca e segurava a minha cabeça como se ela fosse uma preciosidade. e eu dei uma boa risada do absurdo. mas acabou agarrando o meu pulso.Uh! – exclamei. não se esqueça de que ele é ator – ela pensou bem e disse. com tanta força que fiquei preocupada em ficar com torcicolo. pensei. vai.Ei – falei -. ansiosa para não contrariá-la ou afendê-la. Me beije! Como se fosse a fala de um filme! Olhei por cima do ombro dele para ver se enxergava as inevitáveis luzes e um monte de figurantes e o diretor pronto para dizer “Corta”. e me puxou para perto. mas me dei conta de que isso não teve muita importância ali para mim. Mas tome cuidado. O ar fresco não propiciou a recuperação que eu estava esperando. não? .. e de novo seus lábios tocaram os meus.E aí eu vou filmar tudinho. Entrementes. enfiei o número na bolsa e girei os olhos. cheia de malícia. Vou lá fora para seduzi-lo. . Entreguei-lhe o aparelho.Tudo bem. – Bem. o mais perto que a minha barriga permitiu. . Vai ser tudo muito romântico. e deparamos com o que parecia uma estrada. descemos e saímos. não é? – disse ela. Foi um número que eu tive certeza de já tê-lo visto encenar no cinema. . – Não deixe de me telefonar de onde quer que você esteja. . – Cannie – sussurrou ele – só de ouvi-lo dizer meu nome comecei a sentir comichões em lugares que só pensei que fosse sentir depois que o neném nascesse. Ele foi pegar minha mão. na verdade. . O ménage à trois mais pervertido do mundo. . sequer um precário abrigo de ponto de ônibus. nem mesmo uma calçada para passearmos.. . . descompromissadamente.Não é nada disso. solitário. .Ah. com mais força e sua mão . que beijo gostoso.Só vamos dar um passeio – falei. . vou dar um pulinho lá fora com o Adrian Stadt. passando a acariciar os meus lábios em seguida. – Você gostaria de ir lá para fora? .. vender os direitos para a Fox e eles vão transformá-lo num especial.Tenho uma idéia – disse.

. finalmente. quando um carrinho vermelho encostou no meio-fio. . talvez? Adrian enfiou a mão no bolso e tirou o que concluí ser o bilhete do estacionamento. Não pude evitar. a sua parceira está lá? Eu ri.Quem sabe eu peça um reembolso – falou e me olhou de esguelha – Então. – Narrei-lhe o arcabouço mais resumido da minha história: Bruce e eu. – Cerveja antes de um destilado? Ele contraiu o rosto. – o que não era exatamente a verdade.. no sentido clássico da expressão.Para o dia 15 de junho – falei.. de que aquilo soou como o convite mais barato do mundo. e me deu um sorriso doce e levemente inebriado. Adrian balançou-se para frente e para trás sobre os pés. .Eu sou da Filadélfia e não tenho marido. a gravidez.Ecstasy antes de vodka. hum.Dor de cabeça? – perguntei.. Nem namorado. Sou apenas uma mãe solteira.. E. assim que as palavras saíram. o roteiro e a . . ele estava pressionando a testa com a mão. se estivesse numa rua sendo agarrada pelo objeto máximo dos meus desejos no auge de uma tremenda bebedeira.com mais insistência. . teria de me acostumar a ouvir confissões espontâneas das pessoas terem usado droga para se divertir. o que eu iria sugerir? Mas. Quando olhei de relance. enquanto o trânsito corria ao nosso lado e eu me derretia.Você não parece estar em êxtase – arrisquei. – pensei. . esquecendo-me da minha determinação. é para quando? . Nada na minha vida tinha chegado perto. .. entretanto.Venha comigo – pediu ele..Também não tenho parceira.Será que poderíamos.Oh! – falou Adrian. está. – Posso dirigir? – ele me entregou a chave sem dizer uma palavra e depois se sentou tranquilamente ao meu lado. do meu nome. rapidamente. Se estivesse na Filadélfia. Ufa! Percebi que se fosse ficar em Hollywood. – Vamos para um bar? – pedi. soando como quem se sente em território mais firme. um conversível! – arrulhei. você está. para falar a verdade – disse.Que tal uma carona? – disse. .. Resolvi acabar com a brincadeira de preencher as lacunas. encharcando de beijos o meu rosto.. – Será que poderíamos ir até a praia? A noite está tão bonita. lábios e pálpebras. – Nunca dirigi um conversível antes – lancei-lhe o meu olhar mais matreiro e charmoso. .Oh. Primeiro. .Boa idéia! – falou.. o seu marido. . sem dizer quase nada além das ruas onde eu deveria entrar.. Ele confirmou. de olhos fechados. não consegui pensar em nada. . e soprava uma brisa.Eu estou num hotel. mas pelo menos quente. – Para comer alguma coisa.Então. – tentei pensar rápido. Estava bastante enevoada.. . – murmurei quase sem forças. dando-me conta... nosso rompimento e a reconciliação de vinte minutos de duração. . claro. eu precisava que Adrian me entregasse as chaves do carro. alto lá! Mas o que é que está acontecendo aqui? Será que ele estava tão sozinho assim? Será que tinha uma queda por grávidas? Ou seria o que ele chamaria de uma boa piada? – Será que você neo preferiria. talvez.. Ele bocejou. hum. de meu passado. – Então.

Liguei o motor para poder me aquecer e escutar o CD do Chris Isaak que ele tinha no carro. .. . eu decidiria o que fazer. Depois de mexer um pouco. Enfiei a mão no bolso dele. quanto ao tipo de vida que eu levava na Filadélfia.. mantendo um olho em Adrian. pensei. Aproximei-me ainda mais. . Sabia escrever. Nada. depois de uma série de curvas e esquinas que eu sabia não ser capaz de me lembrar. Meu romance. Adrian assentiu a tudo mas não fez muitas perguntas. o vento açoitando as ondas e o luar brilhando sobre as águas. achando que poderia ter trazido um agasalho. E consegui uma das coisas que mais queria no mundo – vender o meu roteiro. E estava em Hollywood! Com um astro do cinema! Olhei rapidamente para o lado direito. com o vento que batia do mar. e já era mais do que isso na costa leste. um céu estrelado.minha viagem para a Califórnia menos de doze horas atrás. O que ouvi foi um ronco. Talvez eu fosse o tipo de garota que merecia ser ridicularizada em revistas. consegui achar a tecla que disca o número do mostrador. bem. tão perto de nós. Eram quatro horas da manhã.. Ele tinha dito numa sessão da aula de gorduras que não dormia muito e costumava estar no consultório antes das sete horas da manhã. conforto. Adrian Stadt tinha caído no sono.. Aproximei-me. Resolvi dar-lhe meia hora. bem.. todo aquele poderio e movimento. o barulho ritmado das ondas quebrando na praia. e outro no relógio. Teria dinheiro.. Ele nem se mexeu. – Adrian? Nenhum movimento. ele caiu como um emplastro no espaldar do banco. então balancei a cabeça. qual um caçador de feras se aproximando de um leão. mas também um pouco engraçado. Virei-me de frente para Adrian. Eu sabia como cuidar de mim mesma. Era. Continuei dirigindo apenas. e ele desmaiado.Adrian? – sussurrei. Depois me recostei no banco. e eu não consegui olhar para ele para tentar ler alguma coisa no seu rosto.Isso não é lindo? – perguntei. – Adrian? – falei. Um momento clássico da Candace Shapiro: na beira da praia com um astro do cinema maravilhoso. .Adrian? – sussurrei. alguma dose de fama. Não vi sequer a contração de uma pálpebra. K. Ótimo! E agora? Então. O dito astro do cinema ainda não estava se mexendo. com a voz normal. em vão. Procurei na carteira dentro da minha bolsa o cartão do Dr. muito menos repetir sozinha. Nada aconteceu. também. era patético. E apesar de nuvem de poluição.. Procurei um cobertor ou um agasalho perdido no carro. Aí eu comecei a me preocupar. Ele respirava pesado e a testa estava coberta de suor. devagar. Eu estava encalhada. mas se ele não acordasse nem começasse a se mexer. Minha grande viagem a Hollywood. Começando a sentir frio. Não pude deixar de rir de mim mesma. Quando o soltei. que estava roncando alto. tentando não pensar nas manchetes que poderiam sair nos tablóides (“Astro de Saturday Night! É assediado por candidata a roteirista!”) e encontrei o celular. segundo os ponteiros fosforescentes do meu relógio. a sensação daquela imensidão de água. eu. Inclinei-me de frente para ele e sacudi-lhe os ombros de leve. Finalmente. pensei ressabiada. Ele não respondeu. havíamos estacionado num penhasco que dava para o mar. me ocorreu.. Não havia o que fazer. nenhuma pergunta quanto ao assunto do meu roteiro. estava maravilhoso: o cheiro da maresia. Fui me inclinando para perto dele. Nenhum murmúrio ou mostra de carinho.

– parei para pensar. . . . vire-o de lado.Então.. . Pressione com bastante força. . . e não ouvi nada.Muito bem – disse ele..Alô? – disse sua voz profunda. e ele está como que desmaiado. O osso do peito. se vomitar. . – Vamos experimentar uma coisa. mas suado – aprofundei. Mas acho que você deve fazer duas coisas.. Normalmente.. K. sabe. Inclinei-me para perto dele e fiz o que o Dr. ele não correrá o risco de aspirar nada. .Diga lá – falei. encorajadoramente. . K. Voltei a me ajeitar no banco e contei ao Dr. . Talvez sinta náuseas. .Quente – relatei.A outra coisa é ficar do lado dele – falou. até agora tudo bem. – Bem. K. Parei. diga – falou ele.Pois. K. para mim. .Olá. seria bom ligar para a emergência.É. pois.É que.Não é o que você está pensando – falei com a Vox fraca.. ou se o pulso ficar irregular. . – Veja como ele está a cada meia hora. o que acontecera. Basicamente – soltei um suspiro. . hum.Primeiro. alta madrugada. encaixando o telefone embaixo do queixo e me voltando para o Adrian. Fui empurrando-o até que ele ficasse meio de lado. alguma combinação do meu nome com palavra do tipo “estranha”. . .Melhor do que fria e pegajosa. se baixar a temperatura ou ele começar a tremer. Pois é. é bom ver se ele reage. me falou. . – Fiz um novo amigo.Mas ele está respirando? .Que bom! – disse ele.Pronto – falei.. mas não haverá danos permanentes.Contive o fôlego e disquei seu número. – Acho que o seu companheiro vai ficar bem. Dr.Pois é – concordei. . . – Como foi a viagem? .! É a Cannie Shapiro.. . eu o deixaria dormir. – E não é nem o pior encontro da minha vida.Isso é ruim – falou ele.. acho que ele vai estar bem pela manhã.Toque no rosto dele e me diga como está a pele. Adrian se retraiu e falou uma palavra que talvez fosse “mãe”.Agora pressione os nós dos dedos contra o esterno dele. embora não fizesse idéia do que ele pudesse estar pensando. Se tudo der certo. – Suarenta. mais ou menos. no mínimo.E estamos na praia. Se ficar assim e que temos um problema – disse-me.Cannie! – disse ele. -. K. Fiz o que ele mandou. . só que ele me falou antes que bebeu e também tomou Ecstasy. e eu não consigo acordá-lo. talvez. ou dores – preveniu-me o Dr. com bastante pressão. ele está desmaiado? – perguntou o Dr.Pronto – falei. no carro dele. – E eu estava me considerando razoavelmente divertida. – E não acorda.Ótima – falei. Só que neste exato momento estou com um problema. .Respirando. Cerre o punho. . de jeito nenhum. . feliz em me ouvir e nem um pouco alarmado pelo fato de eu estar ligando interurbano no que era.

disse. entretida. agenda de endereços. Não tinha outra opção. Não tive como evitar. Apoiei a cabeça no ombro de Adrian. pensei. pensei. Desligamos. E essa não seria tão ruim assim. retorcendo-me por dentro ao imaginar como seria a manhã.falei. Olhei para o forro de calcinha.Obrigada . quando Adrian acordasse com a maior ressaca e se encontrasse ao meu lado. Uma boa mãe. Parece que ele não me ouviu. . Muito obrigada. Uma mãe maravilhosa. se você ainda estiver com pena dele.Seria bom também você pegar um pedaço de pano. a carteira. – Mas parece que você já está com a situação sob controle.Você é muito legal – falou. – Você está acordado! Eu estava ficando preocupada.Claro. Já tinha pensado no parto. Mais uma vez. uma capa de chuva. em vez de leite desnatado com frutas. Comecei a rir. Eu seria eu mesma. voltei e coloquei-o carinhosamente na testa de Adrian. disse uma voz na minha cabeça. ou para vir falar sobre carreiras profissionais? Ou seria daquelas preocupadas.Ótimo – falei. A voz da minha própria mãe.. em vez de dar só lição de moral? Seria engraçada? Seria do tipo que eles iriam querer para mãe da turma. com quase vinte e nove anos. animadamente. desci até a beira da água com cuidado. com sotaque britânico. . um forro para calcinha que. ligue. Adrian abriu os olhos. Um pedaço de pano? Procurei no porta-luvas e só encontrei o contrato de aluguel do carro. Eu sorri. daquelas que servem suco de frutas adoçado e biscoitos. . depois peguei o guardanapo com o número de Maxi e contive o fôlego até ouvir o seu animado “Alô”. Mas de que tipo? Seria uma dessas mães legais que todas as crianças da vizinhança gostam. claro. está bem? . chaves. torcer o excesso e colocá-lo na testa dele – disse o médico. o coração não sente. Coloquei os mãos delicadamente em cima da barriga. – Isto é.Espero que as coisas melhorem por aí – falou ele. Cannie Shapiro. que usam calças jeans e sapatos da moda e conseguem realmente conversar com a criançada. – Se precisar de qualquer coisa. seria. – De verdade. tentando conter o riso enquanto o fazia. O que os olhos não vêem. Já era alguma coisa. . sempre aparecendo na porta. uma caixinha de lenços de papel? Você vai ser você..Aposto que você vai ser uma mãe maravilhosa. enquanto Adrian roncava baixinho ao meu lado. Reconheci-a instantaneamente.Fique direitinho. molhei o forro de calcinha. achando que ele não se importaria. esperando o filho chegar em casa. Cannie – falou ele. obrigada – falei. O que esperar quando você está esperando me mandou levar. Vinha fazendo um bom trabalho com Nifkin. e tornou a fechar os olhos. Foi a primeira vez que pensei nisso de fato – o ato verdadeiro de ser mãe. e saí do carro. . . algumas caixas de CD e duas canetas. . na logística de exatamente o tipo de mãe que eu. . não deixe de me ligar depois para dizer como terminou. e eu ponderei. Olhei para Adrian. sempre correndo atrás dele. pegando um casaco. com a voz trôpega. Tirei o telefone dele de dentro da bolsa. molhar em água fresca. ajeitando-me novamente no banco. raciocinei..Ei! Belo Adormecido! – falei. E foi aí que pensei noutra coisa. Procurei na minha bolsa: o batom que Garth tinha-me dado.

e provavelmente alguns milhões de dólares..Vou lhe dizer como você faz para chegar à minha casa – disse-me.Ele ainda está desmaiado? . alguma coisa.O que é isso? . defensivamente.Onde você está exatamente? – perguntou Maxi.Você está com Adrian? – perguntou ela. – Você deve estar exausta. Qual é a etiqueta daqui? Fico? Vou embora? Será que deixo um bilhete para ele? .. Maxi soltou uma gargalhada. sem maiores preocupações.Sei onde fica – falou Maxi. Tinha trocado o vestido e a arrumação toda por legging preto..Uh! – exclamou Maxi.Ótimo – falei.Venha ver – sussurrei. – Ele estava tomando Ecstasy. uma fantástica peça em couro branco que torci sinceramente para que Adrian não macular. .Na praia – falei. – Mas talvez seja bom ficarmos junto dele – ela olhou para mim.Lembro que a última rua pela qual passamos era Del Rio Way – falei. . chiando e rindo muito. Maxi – sussurrei.Seria bom deixá-lo de lado. Você está fazendo uma boa ação. Devagar e cuidadosamente. mas ficou adorável nela. não se preocupe. As instruções que Maxi me deu foram perfeitas e em vinte minutos estávamos estacionados no acesso para carros de uma casinha cinza. – E estamos bem em cima de um penhasco. – Onde você está? . à beira da praia. eu queria a sua ajuda. enrolou-o e cutucou Adrian no braço. Nada. Maxi tirou do que considerei ser o seu compartimento de reciclagem um exemplar da Variety. Maxi em pessoa estava esperando na cozinha. Fomos até o carro em que Adrian estava com a boca escancarada.. acho que sei. Maxi começou a rir. . . tentando me lembrar se alguém tinha desmaiado durante aquela cena especificamente.Ei.. – Sinto muito por isso. . Procurei alguma placa nos arredores. . meio a contragosto. mas mesmo assim seria bom levá-lo para dentro da casa. de paredes ripadas.Você também – falei. acho que não vai morrer. .. Era o tipo de lugar que eu teria escolhido. Foi onde ele fez a cena de amor para Os olhos de Estella. Ainda aos risos.Ele vai sair dessa – falou ela.. talvez uns vinte metros acima da água. . mas.. – Pelo menos. . eu também.. Não houve resposta. uma luz. .. caso ele vomite.Então. . – E ele está como que desmaiado. . – Você acha mesmo que ele está bem? – perguntei..Estou – sussurrei.. Baixou a revista e o cutucou na barriga.Cannie! – gritou ela. . se tivesse a chance. . – Não sei dizer exatamente onde. os olhos bem fechados e o meu forro de calcinha estampado na testa.Foi o melhor que pude fazer – falei. – E aí. o que é que eu faço? .. uma camiseta e um penteado maria-chiquinha. – sugeri. – Vou ficar esperando. . conseguimos levar Adrian do carro até o sofá da sala de estar da casa de Maxi.Cannie. e. e olhei para Adrian. – Bem. que teria ficado ridículo em noventa e nove por cento da população feminina.

aconchegando-se em sua pilha de cobertores. Enviei uma prece de boa-noite para Nifkin. Senti o cheiro da fumaça nas mãos e no cabelo. Fiquei ainda um tempo. tirei os sapatos de Adrian. . Tirei-lhe o cinto da calça. e. . Ela. para o meu neném também. Ela ficou me olhando como quem espera ouvir mais e eu contei a história. enquanto Maxi ajeitava almofadas e cobertores no chão. de satisfação. Havia uma lareira no meio da sala – uma lareira lindíssima. O neném se virou. tirei a maquiagem do rosto. com o short arregaçado e as pernas fortes bronzeadas e sólidas à mostra. – Como foi que você aprendeu a fazer isso? . Então.. depois para mim. escutando sua respiração profunda e tranqüila e os roncos de Adrian.Ela olhou para Adrian. Que bom! Não encontrei jornal... peguei o forro de calcinha de sua testa e o substituí por um pano de pratos que encontrei na cozinha. com os olhos arregalados na escuridão. seria uma menina. minha mãe. jogando o filamento prateado de linha nas águas acinzentadas. verifiquei se o fumeiro estava aberto e se a lenha era mesmo de verdade e não alguma imitação em cera feita pelo decorador. e escutei as ondas quebrando na praia. executando o que pareceu ser um mortal de costas.Bons tempos – comentou Maxi. feliz e em paz.. Você está aqui. Depois. O papel pegou fogo. com um monte de lenha na gralha. você está aqui. . de nossas viagens para pescar em Cape Cod e das fogueiras que minha mãe acendia para nos aquecer. para Maxi.Uau! – exclamou Maxi. retorci-as em forma de rosquinhas. Pois é. virando o rosto na direção do fogo.Boa idéia! – falei. do preto para o cinza. e acendi um fósforo do maço que peguei no Star Bar. pensei. meu irmão e eu – assando marshmallows na brasa e vendo minha mãe na beira da água. intacta. eu também sentindo-me feliz e em paz. Quando Maxi se foi. virando brasa. O fogo estava murchando. então arranquei algumas páginas da Variety. depois as meias. que considerei estar bem por uma noite sozinho num hotel de luxo. presumivelmente para pegar roupa de cama. logo as toras de madeira começaram a pegar também e eu balancei para a frente e para trás nos meus calcanhares. na certa. nadando enquanto dormia. falei comigo mesma. pensei. . contei que ficávamos sentados em circulo – meu pai. me enfiei numa camiseta que ela havia me arranjado e pensei no que poderia fazer para ajudar. coloquei-as embaixo da lenha.Minha mãe me ensinou – falei. . na esperança de provar a Samantha. fechei os olhos e me lembrei do rosto de minha mãe diante das fogueiras de Cape Cod.Ficamos todos para dormir? – perguntou. desabotoei-lhe a camisa. Coloquei as mãos em torno da barriga. Finalmente adormeci. e vi o céu clareando. virando de lado e caindo no sono. E eu sabia acender um fogo legal. Andy e Lucy que eu de fato havia estado lá.

Uma chave de carro. Sei que será uma mãe maravilhosa. E divirta-se." Isso? O que era isso? Desdobrei o bilhete até o fim e uma chave prateada caiu no meu colo.. Fui lá e peguei. quase tudo vazio. E também Adrian e Maxi O mais silenciosamente que pude. pelo menos chegou perto. espero que você aproveite isso enquanto estiver aqui na Califórnia. 0 assoalho em madeira de lei encerada. devagarzinho. caminhei até a janela e contive o . porque o meu pai insistiu muito. espero que tenha sido mesmo uma loção fixadora. e soltei uma bufada de riso. "Querida Cassie". Não nos conhecemos muito bem! Mal chegamos a trocar cinco frases antes de ele apagar! ". eram dez e meia da manhã. escovei os dentes com uma das várias escovas de dentes fechadas ainda na embalagem que encontrei dentro do armário de remédios. "O contrato vence no mês que vem". Vou para uma locação em Toronto ainda hoje de manhã. Sei que não nos conhecemos muito bem. começava o bilhete. Pelo menos. Aquilo foi bastante útil para gabaritar todas as provas. subi para o segundo andar. Imaginei como Maxi se sentia. só havia um pedaço de papel com um recado escrito. inesperadamente depois de uma noitada. mas de nada me serviria para traduzir.. enrolada qual uma gatinha em cima de sua pilha de cobertores. habitando e abandonando várias casas.DEZESSEIS Quando acordei.. Tomei um banho quente demorado." E neste ponto soltei outro riso bufante. separei mechas do cabelo com alguns grampos e fixei todas elas com bocadinhos de loção francesa cheirosíssima que havia por ali. A lareira estava apagada. os rótulos dos apetrechos de banheiro das estrelas do cinema. "Entregue quando estiver prestes a voltar para casa. Bem. pensei. E eu já tinha sido chamada de coisa pior. Pus-me de pé. Adrian tinha escrito no verso do papel. qual uma lagarta desfazendo-se do casulo. Quando voltei para o andar de baixo. Sei que a mim incomodaria. Eu estudei latim tia escola secundária. Mas onde Adrian passara a noite.Mas sei que você é uma boa pessoa. mas não encontrei. Então. nem um nem outro. junto com o nome e endereço de uma locadora de automóveis em Santa Monica. prateleiras e cômodas modernas em bordo. 0 banheiro exibia todo tipo de toalhas felpudas. depois me vesti com a camiseta e uma calça de pijama que encontrei na gaveta de uma das cômodas.. "Muito obrigado por ter cuidado de mim a noite passada. sabonetes sofisticados e xampus em frascos de amostra grátis. Não havia dúvida de que eu precisaria de um secador de cabelos e possivelmente um assistente para tentar qualquer coisa perto do que Garth tinha feito com o meu cabelo na noite anterior. Maxi ainda dormia. Fiquei curiosa para saber se aquilo não a incomodava. Então. Peço desculpas por ter saído com tanta pressa e por não voltar a vê-la dentro em breve.

— Vai ser ótimo! Você pode escrever. Parece que eu estou sonhando — falei. levantou-se graciosamente do chão e veio para a janela ao meu lado. — Que lindo. e Nifkin ostentava uma coleira vermelha em couro legítimo.. exceto pelas comidas que achava serem a subsistência mínima das estrelas de cinema — pastilhas de menta. — Você deveria passar um tempo aqui — sugeriu Maxi. passando pela farinha. desde caldo de galinha. E Maxi estava lendo meus pensamentos.. talvez algum espelta ou levedura ou seja lá o que os gurus das dietas estivessem decretando que elas deveriam ingerir. . leite e suco. Por que deveria voltar correndo. *** Eu esperava encontrar os armários de cozinha de Maxi vazios. com uma pilha de livros de planejamento da gravidez na minha 'cabeceira e Nifkin enrodilhado no travesseiro ao lado do meu. Olhei para a chave na minha mão e para o carro estacionado e me belisquei. Sem dúvida. incrustada com as mesmas jóias e uma guia combinando. resolvi. manteiga e queijo cremoso. Mudara de roupa. até o açúcar e os temperos. —Eu não deveria ter feito o que fiz? Maxi me abriu um sorriso. Era o mínimo que ele poderia fazer — falou Maxi. mas logo parei.. — Sorte dele não esvaziar seus bolsos nem tirar um monte de fotos dele pelado! Olhei para ela com um ar inocente e os olhos arregalados. Estavam grandiosos os dois. Eu ainda tinha férias para tirar. enormes óculos escuros pretos e um arco de cabelo com o que eu supus serem imitações de rubis. ora? O trabalho poderia esperar. especialmente diante da primavera incerta e com neve derretendo por toda parte lá na Filadélfia. — Balancei a cabeça. esperando acordar e ver que tudo aquilo era um sonho. a chave e o bilhete. usando agora um par de tênis para pedalar e uma camiseta sem manga cor de cereja. Nifkin pode ficar por aí à vontade. Servi Maxi primeiro e em seguida. 0 que está acontecendo? — perguntou. Vou montar uma carteira de ações para você. — Fique tranqüila — disse. Mostrei-Ihe o carro.fôlego. Faltar algumas aulas do pré-natal não seria o fim do mundo.. que eu ainda estava dormindo na minha cama lá na Filadélfia. — Preciso acertar as coisas e voltar para casa. dei Nifkin uma porção de quiche.. vamos dar — uns jantares e acender a lareira. Um quarto com vista para o mar era algo tentador. Quiche. Mas as prateleiras de Maxi estavam recheadas de todo o básico. enquanto abria a persiana. isso aqui! — falei. lá estava o carrinho vermelho. e na geladeira havia maçãs e laranjas frescas. Estava fatiando kiwis e morangos quando Maxi voltou.. na falta da ração. eu vou trabalhar.. — comecei a falar. e salada de frutas. Maxi bocejou. água mineral gasosa.. — Vou mandar buscar o seu cachorro e vamos planejar a sua conquista de Hollywood. admirando o sol reluzir na água e a brisa fresca agitando o ar.

. bem alojada. *** — Tudo aconteceu muito rapidamente depois daquilo. — Ela é. Seria uma maravilha ficar ali. ela trabalha com escritores? — perguntei. apertando o botão do sétimo andar. conduzindo-me pelo corredor. orgulhosamente.. mas eu não conseguia decifrar o que. E naquela manhã. – Terence. isso é uma asneira. Bateu com os dedos decididamente numa porta e enfiou a cabeça lá dentro. — Vasculhei o cérebro para encontrar as perguntas adequadas. — falei. atrás de uma mesa de tampo gigantesco era uma louríssima fadinha de sardas.. É um prazer — disse.Adorei o seu roteiro. e das grandes! Espiei por cima do ombro de Maxi. nem onde. e não como um dragão cospe-fogo que estava encurralando Andrew Dice Clay momentos antes. com todo aquele sol e as ondas quebrando na beira da praia. Nifkin poderia perseguir as gaivotas. parecia mais fácil deixar aquela maravilhosa aventura acontecer do que gastar muito mais tempo tentando descobrir.. . colocou-se de pé e estendeu a mão. Os cabelos formavam um coque armado em desalinho. soando como uma pessoa normal. com cabelo platinado e possivelmente ombreiras no vestido. hum. — Babaquice! — repetiu Violet.. . Quer saber do que gostei mais? — Dos palavrões? — arrisquei. achando que a voz seria de uma mulher dessas que fumam um cigarro atrás do outro. — É boa? Trabalha sim e é muito boa — falou Maxi. — Ela é. — Essa é a Violet — falou Maxi.. Usava um macacão verde-claro e uma camiseta lilás com babados de renda. mas não sabia ao certo se o neném iria aprovar. quem estava sentada.Cannie. Combati a vontade de colocar as mãos sobre a barriga no ponto onde imaginei que estariam os ouvidos do neném.— Eu quis sair pulando de alegria. — Isso é uma babaquice — falou uma voz de mulher que se propagou até o corredor. Pelo contrário. Parecia mais uma menina de doze anos. — Pode ter cara de bandeirante. Alguma coisa deveria estar errada. Violet desligou o telefone. e nos pezinhos de criança um par de Keds. Eu poderia passear na beira da praia arrastando os pés na água. segurando um sem filtro numa das mãos e uma xícara de café na outra. preso por uma xuxinha azul-claro.. Maxi e eu poderíamos cozinhar juntas. — O que você acha? — sussurrou Maxi. mas é durona que só ela! Soltando mais um categórico "babaquice" de encerramento.. — Ela parece a Pippi Meialonga! Já tem idade para usar esse tipo de linguagem? Maxi caiu na gargalhada. — Maxi me levou a um arranha-céu todo de vidro azul-metálico com um restaurante da moda no térreo — Eu a estou levando para conhecer a minha agente — explicou-me. — Não se preocupe — falou. uma versão feminina do sujeito asqueroso de óculos escuros que me dissera não haver atrizes gordas em Hollywood. .

Depois a gente conversa mais . __ Não. A pequena Violet acabou se revelando uma negociadora de primeira. vamos fazer você ganhar algum dinheiro. Não seria tão ruim quanto o estirão de fazer o sétimo rascunho da carta para Bruce. vá em frente e me faça ficar orgulhosa de você — disse ela. a quantia que eles me deram — uma bolada a ser entregue cinco dias depois da assinatura. Maxi me abraçou. a . ou contratar uma babá.. Talvez tenha sido o simples fato de que o som daquela voz estridente e um fluxo incessante de obscenidades saindo daquela pessoinha adorável fosse tão dissonante. a história de Josie era a de satisfazer um desejo. que o trio de jovens em seus alinhados ternos acabou olhando mais do que contestando sua declaração de o meu roteiro tinha valor. com todo o jeito de uma menina que volta para a sala depois do recreio. Por volta de cinco horas da tarde. . eu estava sentada na varanda com uma tigela de uvas geladinhas no colo e um flute de espumante não-alcoólico de uva na mão. eu nunca tinha pensado nisso desse jeito! Para mim. — Adorei ver que a sua personagem principal confiava em si mesma. relatando entusiasmada as notícias maravilhosas a minha mãe. pegando um bloco de papel ofício. e Violet nos abraçou. outra a ser entregue no dia em que começassem as filmagens e uma terceira pelo direito de exclusividade no que eu escrevesse no futuro — foi inacreditável. Violet assentiu. Agora. Parece que na maioria das comédias românticas a protagonista precisa ser socorrida de alguma forma. E qualquer coisa que precisasse reescrever não seria nada igual a ter de encarar Gabby e seu fluxo incessante de criticas. a Lucy e Josh. pura e simplesmente — a história do que poderia acontecer se uma das estrelas que eu entrevistava em Nova York me olhasse e enxergasse em mim mais do que a possibilidade de um bom artigo na forma de uma mulher de tamanho avantajado. — Que bom que você acha isso! — falei. Essas coisas foram trabalho. Isto seria só diversão. penteou-o com os dedos e ajeitou os cachos numa versão algo aproximada do coque original. No fim das contas. acreditando em si. sentido o mais incrível e doce alívio. tanto as do tipo direto-na-cara quanto as do tipo pelas-costas. Adorei ver que Josie vai em seu próprio socorro. por amor. arrancou a xuxinha do cabelo. — A mulherada vai gostar pra cacete desse filme! — previu Violet.. ou até tirar um ano inteiro de licença do trabalho quando o neném chegasse. um punhado de canetas. mesma o tempo todo. ou por uma fada-madrinha. por dinheiro. não — disse. Agora eu poderia comprar qualquer casa que quisesse. antes de sair saracoteando de volta para o seu escritório. Conversei horas a fio naquela tarde. Uau. aos diversos parentes e colegas.Violet riu. uma cópia do meu roteiro e o que pareceu ser a cópia de um contrato. a Andy e Samantha. — Por ora.disse.

qualquer um que eu achasse capaz de compartilhar da minha alegria. — Oh. _ O quê? Como? Você não deveria estar me incentivando a economizar? O meu neném está chegando aí. Respirei fundo..disse ele. Escreve e também cozinha! — Não se encha de esperanças — falei. como decidi ficar na casa de Maxi. Muito alto.. — Comprando um presentinho para você — disse Maxi. e você. bem.. — É. —Parece que você gosta dele — disse ela. . . — É claro que você vai economizar — disse Maxi.Ora. — O que estamos fazendo aqui? — sussurrei. — Eu só queria lhe dizer que está tudo bem. não — falou Maxi. talvez pela trigésima vez naquela tarde. Agora é um amigo. — Você vai comprar pra você mesma. e eu expliquei. Liguei para ele ontem à noite por causa do Adrian. — É a Cannie — falei. — Parece um sonho. está agora em condições de fazer exatamente isso. Maxi sorriu..Não posso nem acreditar — falei. — Ele dá consultas em domicílio? — Não faço a mínima idéia — falei. — Ele é muito legal.Parece que você está tendo um começo e tanto! Maxi se divertiu vendo a coisa toda e ficou jogando uma bola de tênis para Nifkin até ele cair exausto. com desdém. mexendo com as sobrancelhas bem ao estilo Groucho Marx. bem séria. — O seu amigo está se sentindo melhor? — Muito melhor — falei. Depois telefonei para o Dr.. — Tenho uma ideia melhor para a gente fazer antes — disse. — E por acaso você me adotou? — falei. e expliquei tudo: como Adrian se recuperou. ofegante. essa! Aproveite . — Mas minha mãe sempre me ensinou que toda mulher deve possuir ao menos uma coisa linda e perfeita que ela mesma tenha comprado para si. acho. foi meu médico. como a pequenina Violet me conseguira um dinheirão. — Esqueci que você é multitalentosa. abriu a pesada porta de vidro para entrarmos. — Vou ver o que ainda tem na geladeira. K. — Ah.. *** O guarda na porta da joalheria cumprimentou a mim e a Maxi. — não precisa ficar sussurrando. antes de ficar grávida. quando eu estava tentando perder peso. ao lado de um monte de algas marinhas. — Quem é esse aí? — perguntou ela. soando eminentemente sensata. K. — E agora? — Jantar? — sugeri. isso mesmo! — exclamou Maxi. em seu consultório. — Alto é bom — disse Maxi. Meu queixo caiu. como se fosse dar um mergulho profundo em vez de um passeio por uma . — Vai dar um ótimo filme — disse o Dr. . minha querida.

— falei. com meus novos brincos salpicando arco-íris no teto sempre que a luz do sol batia neles. e os tomei na mão em concha para ver seu brilho alternando entre o azul e o roxo. e grávida. — Esses não . depois outro par mais ou menos duas vezes maior. tiras trançadas de ouro cor-de-rosa e amarelo. Para Maxi. na altura do que antigamente era a minha cintura.. no carro. Respirei fundo... Cannie. Acho maravilhoso... anéis de safira. e saudável.. Havia reluzentes berloques da sorte para pulseira com sapatilhas de bailarina e miniatura de chaves de carro.perguntou em tom acolhedor. e algemas de ouro martelado. e cada uma delas estava cheia de um tesouro em ornamentos. — Não se esqueça disso — falei. rindo. brincos em prata de lei na forma de corações volumétricos.descartou. por me fazer acreditar num futuro em que eu merecia essas coisas.. . — E não deve se surpreender quando acontecem. Ela vai para casa com eles. Parei de andar e me apoiei num balcão. tentei agradecê-la . — Por quê? — Porque. A loja era cheia de vitrines. . — São maravilhosos — falei baixinho.joalheria.. — Gostaria de ver alguma coisa? .por me receber. — Eles lhe caem muito bem — disse a vendedora. — Vamos levá-los — falou Maxi. de almofadinhas de veludo preto e cinza. Experimentei apontar para o menor par de brincos de diamantes. e os levei às orelhas. sussurrei para o neném.São mínimos. Maxi espiou por cima do meu ombro.. Cannie! — Será que alguma coisa no meu corpo que não deviria ser mínima — perguntei.. Entrementes... falei: —Vou lhe preparar o melhor jantar da sua vida. pulseiras em mescla de prata tão finas que eu mal podia distinguir os elos.E tenho cinco minutos para decifrar.. Mais tarde. . Uma vendedora num belo conjunto de marinheiro apareceu atrás do balcão tão rápido como se tivesse sido teletransportada. Havia anéis de esmeralda. . — Não entendo isso — disse minha mãe. Amiga. Os diamantes tinham o tamanho de uma passa SunMaid. que estava fazendo sua fiscalização cotidiana por um telefonema/interrogatório vespertino. com muita certeza na voz. pensei..Você merece coisas boas — falou ela. E me calei. gentilmente. Maxi me olhou intrigada.. Mas Maxi simplesmente dispensou a conversa. sentindo-me mais do que impressionada. Maxi agarrou minha mão.. Havia brincos de pingente em âmbar e broches de topázio. por comprar meu roteiro. — Acho o seu visual ótimo. braceletes de tênis com diamantes do tipo que a mãe de Bruce usava. — Quer saber de uma coisa? — falou. — E não precisa embrulhar.. e. todos artisticamente dispostos em cima . alfinetes brilhantes em forma de joaninha e cavalos-marinhos. — Aqueles ali. a vendedora desdobrava um pedaço de veludo preto e tirava os brincos e os colocava em cima da caixa — o parzinho minúsculo que tinha pedido primeiro. Você está feliz.. finas alianças de platina incrustadas de diamantes. por favor — pedi.

o que você está fazendo? — Estou me divertindo — falei. um passeio no conversível vermelho de Adrian. que vendia produtos direto de uma fazenda.— Cinco minutos? — cheguei o telefone mais para perro do peito para espiar os dedos dos pés.. — Curtindo à beça! Mal sabia por onde começar. e uma saída e outra. o que era verdade. Violei me mandou um script tão cheio de anotações que mal dava para ler. — Não. mãe — falei. | passava pelo menos três horas por dia com meu laptop. que Maxi distribuiu entre os colegas de elenco. Havia coisas na Califórnia às quais ainda não me acostumara: primeiro a beleza uniforme das mulheres. no centro da cidade. achei ter sido isso o que detectei. incrivelmente. que comemos balançando os pés na água. — E aí. menos para o coadjuvante. — Nós só somos amigas. depois do jantar. — Do tipo platônico. tentando resolver se seria possível sobreviver em Hollywood com o esmalte das unhas dos pés todo descascado. que não se mostrava impressionada com histórias de dachshunds fazendo malabarismos e pêssegos. ou se seria multada pelas pedicures de plantão. calando logo a voz. Todos iam de carro para todo canto. uma poluição espessa feito creme. está morando com a Maxi. eu já vi tudo — falei para Maxi.” escreveu com tinta cor de lavanda na página título. — E você está trabalhando? — perguntou minha mãe. pois ele os veria como um convite para preparar Bellinis. — começou. Mas você está mudando de assunto. — Por que você está com tanta pressa? — Softball antes do início da temporada — disse ela. Ou. —Desculpe-me por decepcioná-la. — Vamos jogar um amistoso com o Lavender Menace. o fato de todo mundo nos cafés ou lojas de delicatessen parecer vagamente familiar. Então. fomos a um mercado. de forma que não havia calçadas nem ciclovias. pelo menos. numa das praias que visitamos. como se tivessem feito a namorada ou amiguinha de um personagem secundário numa comédia televisiva de 1996 que saiu logo do ar. Ontem à noite. Maxi e eu arranjávamos alguma aventura. esperançosa. — No passeio da Third Street tem um dachshund vestido numa malha com lantejoulas que faz um número de malabarismo. ainda não — retrucou ela. "e eu não quero ser responsável por ele cair do vagão dessa vez". sabe? Girei os olhos nas órbitas. Só depois de ter visto isso é que você pode considerar que já viu tudo. No dia anterior. E a cultura do automóvel vigente naquele lugar me impressionava.. — Oficialmente. — Todo dia — disse a ela. —Nunca é tarde. Já estava na Califórnia há quase três semanas e todo dia. caminhamos até o pier de Santa Monica e compramos batatas fritas na manteiga acre-doce e gelado de limão cor-de-rosa. “As observações em roxo são minhas. “Não Se Apavore. sem rodeios. as em preto são de um cara que pode . estacionamento com manobristas para tudo quanto era lado — até mesmo. Entre uma aventura e outra. onde enchemos uma mochila de framboesas. — E elas são boas? — Eram no ano passado. depois. somente engarrafamentos intermináveis. as em vermelho são de um leitor contratado pelo estúdio. cenourinhas e pêssegos. que cada vez mais me dava a impressão de uma carruagem encantada ou um tapete mágico. Ela soltou um suspiro.

Tentava resolver a questão da maneira como investigara as minhas noivas. — Então. quando o meu trabalho estava terminando e a comida cozinhando. afinal. e Nifkin e eu passeávamos pela beira da água. que não viera me instruir em novembro. Veja tudo com um pé atrás. Minha trigésima semana se aproximava rapidamente. torcendo para que ele fosse pegar a bola de tênis lá dentro das ondas. esperando uma resposta — do cachorro. — Será um prazer imenso dar-lhe uma carona do aeroporto até a sua casa e talvez até ver meu neto ou minha neta antes do aniversário de um ano. Maxi entrou no quarto de hóspedes. quando é que você volta para casa? — perguntou minha mãe. zangada. .. — Academia? — perguntei. — E isso vai ser seguido de masturbação? — perguntei. Seus cachos castanhos estavam puxados para trás num rabo-de-cavalo alto e ela estava vestida numa malha inteiriça preta. Mas não vinha resposta alguma . aqui? "Realização pessoal. com Nifkin saltitando atrás dos meus calcanhares. perguntava. esse tempo na casa de praia foi de uma satisfação total e absoluta.acabar dirigindo ou não o filme — e a maioria do que ele diz é babaquice. rabiscos. era a descrição do curso. Levantei-me e caminhei até a areia. — Não se preocupe — disse-me. revirando a pergunta diversas vezes na cabeça: Será que esse tipo de vida me cabe? Será que eu conseguiria mesmo viver desse jeito? Pensava nisso à tardinha.. de Deus. e da incerteza de não saber o que iria acontecer em seguida minha vida.. a meu ver. — Está vendo. maravilhoso. Ela estava preparada para ir. Depois precisaria arranjar um médico em Los Angeles e ter o neném aqui ou encontrar uma maneira de voltar para casa sem pegar avião.. que correra para junto dela com as orelhas empinadas. — É só um lembretezinho maternal! — falou ela. pois tratam-se de Sugestões Apenas! “Eu estava gradativamente resolvendo o emaranhado de notas. da próxima refeição deliciosa.. — Vamos para a academia. então. logo vi. e desligou. mas as coisas estavam tão bem que era difícil pensar em qualquer coisa além do próximo dia de sol perfeito. Ainda não sabia. — Nada extenuante — sentou-se na beirada da cama e mostrou-me a programação de um lugar chamado Centro Educacional da Luz Interior. abrindo as cortinas e estalando os dedos para Nifkin. Na minha terceira manhã de sábado na Califórnia. qual o menor cão de guardo do mundo — Vamos lá! — disse ela. ou que não. Lutei para conseguir me sentar na cama. Eu sabia que acabaria tendo de resolver essa questão. Eu mordi o lábio. "Ficar ou ir?". do neném. me informe dos seus planos — falou minha mãe. Maxi me olhou. girando nas pontas dos pés.. setas e Post-It anexados.só as ondas e. — Está bem. meditação e visualização". “Você deveria ficar aqui”. precisava me decidir logo. Eu nunca disse que sim . com alvíssimas meias e impecáveis tênis brancos nos pés. da próxima saída para fazer compras ou um piquenique ou uma caminhada pela beira da praia sob o céu estrelado. por favor. a noite estrelada. À parte de algumas lembranças eventuais de Bruce e nossos tempos mais felizes juntos. — Mãe. dizia Maxi.

incapaz de me conter. com jeito de super modelos.. abaixando-se para colocar um CD no aparelho. Confiante. Havia grandes janelas envidraçadas e uma varanda cercada de vegetação restinga e vasos de balsâminas. quando chegamos à porta. mantidos à distância do rosto largo e sem rugas por uma bandana que combinava com a malha. Sentem-se na posição que lhes for mais confortável e fechem os olhos que eu vou guia-los. —Vamos ficar todos de pé — disse ela. nada menos do que isso.seios caídos. O Centro Educacional da Luz Interior era uma modesta construção de madeira branca situada no alto de uma colina. eu não sabia ao certo. — Sabe. quadris largos. ainda bem. curvas indesculpáveis. como eu ficaria com um piercing no nariz. pensei — Meu nome é Abigail . Primeiro da minha lista de nomes para o neném . de malha azul eletrizante e meia-calça preta por baixo.. muito à vontade.ninguém saiu.. Ela talvez fosse dez anos mais velha que eu.apresentou-se. enquanto Maxi buscava coIchonetes para nos sentarmos. mas sem dúvida de algo bom. querendo saber se alguma vez na minha vida me mostrei tão feliz assim quanto ela. com um bronzeado curtido e cabelos castanhos. só podia ser um sinal. Resolvi entrar na dança e usar a sessão de meditação para ver se não arranjava um pedacinho de diálogo plausível entre Josie. Entramos numa sala grande e arejada com espelhos nas paredes. Encontramos lugares mais para o fundo e. e parecia estar. um par de tênis e mais o boné de beisebol e os óculos obrigatórios — parte de visual dela que eu havia adaptado para mim. O som de flautas acompanhado de um toque suave de tambores tomou conta do ambiente. mas pelo menos não iria desperdiçar o meu tempo. Feliz consigo mesma. que estava ficando menos avantajada a cada dia. Usava batom cor-de-rosa e um minúsculo diamante incrustado no nariz. e colocara um legging. a heroína do meu roteiro. para mim. e seu fururo ex-namorado. Caso você esteja no lugar errado.. Não havia. De que. eu fiquei olhando o povo. e se conseguiria aprender. Ou cogitaria acerca do meu futuro e do que iria fazer. imaginando situações e possibilidades diferentes. pois ali na minha frente estava uma autêntica Mulher Avantajada. Um piano num canto e um leve e adocicado cheiro de incenso de sândalo. Fui até o armário e comecei a procurar uma roupa apropriada para realização pessoal. mas também algumas mulheres mais velhas — uma até com cabelos grisalhos assumidos — e um cara com uma barba branca comprida e uma camiseta com dizeres quase obscenos. queira se retirar agora agora . Fitei-a e pisquei várias vezes. pareciam besteiradas New Age. Realização pessoal e visualização. Nenhum estacionamento com manobrista. Abigail! pensei. Abigail sorriu para nós e apertou um botão do aparelho de CD. — Esse negócio funciona mesmo. Eu havia me enfiado dentro da avantajada camiseta de Maxi. — Você vai adorar isso aqui — falou Maxi. — e estamos aqui para realização pessoal. Vamos começar? . Nem de longe se comparava ao Star Barr pensei alegremente enquanto a instrutora entrava.— Não brinque — falou. meditação e visualização. Seu corpo me fez lembrar daquelas bonequinhas da fertilidade que os arqueólogos escavam das ruínas . Havia um banco de gente estonteante. — Vamos começar com um pouco de alongamento e de respiração profunda. na Filadélfia este lugar seria um quiosque de sanduíche de bife com queijo resmunguei. bem na frente. que batiam no meio das costas. Fiquei olhando para ela.

e. Se a sua casa é o seu lugar seguro. Fiquei olhando para ela. fui arrebatada por tamanha onda de saudade de casa. _ Imaginem um lugar seguro . também. Mas o que vi quando Abigail repetiu "lugar seguro' foi minha cama. com Nifkin esticando a coleira para pegar gaivotas que dão rasantes e mergulham na água.. — Ora... Como se encontra felicidade num corpo como o seu. ao sol. O Penn’s Landing num sábado. que me senti enfraquecer... Abigail estava ali com „„. Fiz um esforço para me levantar. Nifkin escarrapachado em cima qual o pompom de um capuz felpudo. E sussurrei: —Banheiro! — para Maxi.começou Abigail com a voz baixa e calma. onde Samantha e eu compartilhávamos cappucinos gelados... — Eu cresci — disse. "Minha casa" sussurrei. confidências e histórias horripilantes sobre homens. — Como é que você. Fiquei parada lá fora. Hora de levar o cachorro para passear. com ar preocupado. Abigail fez um gesto com a cabeça Para nós duas. na certa. E. O edredom azul. com os quadris bamboleando. Percebi. Minha cabeça estava cheia de imagens da cidade — o café da esquina. — Aprendi coisas. —Você está bem? Eu assenti.Procurem não escolher. e voltou para dentro da casa. orgulhosa e destemida. minha cama. estava sentada de pernas cruzadas sobre um colchonete no chão. que era fim de tarde. — Você está bem? Você não voltou e . — Tudo bem? — sussurrou ela. querendo poder sussurrar exemplo para o neném. do meu apartamento. com as flautas e os tambores repercutindo suavemente em meus ouvidos. bem.. — não consegui encontrar as palavras para perguntar-lhe o que queria saber. da minha cidade..... com as. quando me dei conta. — Boa sorte — disse.. que iria ver a varanda de Maxi. Basta fechar os olhos e ver o que vem.Maxi sorriu para mim. copo de água na mão. o Terminal Reading de manhã. meus amigos. Eu correspondi. os pés de corniso cheios de brotos cor-de-rosa. respirando profundamente. — De casa! — disse ela. Acenei para ela. os seios balançando. meu apartamento. em resposta à pergunta que eu não tinha feito. com cheiro de flores frescas e pãezinhos de canela. isso é bom. senti uma batidinha no ombro. de repente. — O que foi que aconteceu? — perguntou Maxi. Você vai aprender. hora de verificar a correspondência e pendurar as roupas e me preparar para a noite. piscando para mim. de olhos fechados.. saudade de casa. . e eu confirmei. isso é maravilhoso. quando eu voltava do trabalho para casa. Minha rua. pela inclinação da luz atravessando a persiana. ou talvez a cozinha. o Independence Mall entre minha casa e o trabalho. minha cama em casa. — Cannie? Maxi estava me olhando com os olhos apertados sob a luz do sol. eu assenti. Um minuto depois. os amplos gramados verdes repletos de turistas se esticando para dar uma olhadela no Liberty Bell... Abigail balançou a cabeça afirmativa e pensativamente. como o meu? Como encontra coragem para dar prosseguimento a qualquer coisa em qualquer lugar se você acha que não se encaixa no mundo? Abigail sorriu para mim. saindo logo em seguida. Achei. acho — expliquei.. os travesseiros de cores vivas. meu emprego. e de telefonar para Samantha e ver se já estaria disposta a ir para a academia. — Só comecei a sentir um pouco de.. para o neném — para mim mesma.

ao telefone no dia seguinte pela manhã. Eu sempre colocava Samantha como meu contato de emergência quando saía para passear de bicicleta.. — Pois me conte agora. Era a única coisa que sabia de verdade..Porque se a Tanya atender ao telefone.. sentindo um rasgo súbito de felicidade ao ouvir o nome dele. — Can-nie — choramingou Samantha. K! — falei. — Tenho certeza de que qualquer coisa que estiver passando não será tão interessante quanto essas amizades com estrelas de cinema e seus fins de namoro... . — Estou com saudade até desse seu cachorrinho esquisito! — Eu não vou ficar longe daí para sempre — falei.. — Pode esquecer isso — falou Sam. denunciando cada um dos seus degenerados exnamorados ali no pódio.. Eu terminei com o instrutor de yoga e você não estava nem aqui para me ouvir. — Estou com saudade de você — falou Sam. Na volta para casa. digamos assim de férias permanentes? Vai ficar aí para sempre? — Para sempre não – falei. Cannie. carente. já estaremos em casa — disse Maxi. — Espere aí. para falar a verdade — e estava ansiosa. — Prefiro falar sobre você. — Honestamente. esqueça — disse ela. —Tudo bem.. graça e ênfase. jogar meu corpo no mar — falei. — Ainda não é o neném.eu achei que estava dando à luz na cocheira ou algo que o valha. para afastar uma pontada de culpa. e da própria Maxi. Sam — falei. você me colocou mais uma vez como seu contato de emergência quando preencheu algum formulário para ele. então — insisti. — Casa — murmurei. não quis magoá-la dizendo que minha felicidade estava a cinco mil quilômetros da casa de praia e do litoral da Califórnia. — Ah. As coisas estão acontecendo. — Quase caí na gargalhada quando visualizei a cara do Kevin! — exultou. Você é absolutamente a minha melhor amiga e eu quero ficar sabendo de tudo sobre o safado do yoga. vai mandar .. baixinho. Eu estou bem. naquele exato momento para mudar ar de assunto. — Não — falei. juntamente com uma pontada de culpa por não ter ligado para ele desde que assinei o contrato com a Violet. não tenho certeza do que estou fazendo. Maxi foi contando empolgada que se visualizara ganhando um Oscar e. sem dar maior importância ao fato. numa postura absolutamente diferente da advogada que eu conhecia. Cannie? Eu não quis responder. vamos mudar de assunto — falou Samantha.. . — Como foi que ele conseguiu o seu número? A voz de Samantha ficou fria.. — Dr. — Isso é ridículo! Você tem de voltar para casa.. e me deu uma olhadela de relance quando o sinal fechou. —Pois bem! Já. com muito gosto. Esse era um ponto de atrito. — Evidentemente — disse —. — Adivinhe quem ligou para mim? Aquele médico safado que nós encontramos na Kelly Drive. reiterando a reclamação que fizera muitas vezes antes. — Você sabe que isso não é verdade. Samantha não gostou nem um pouquinho de saber disso. — Eu só. O que está acontecendo? Você está. — O que foi que você viu. e apesar de minha solicitação explicita. por que você não coloca a sua mãe? — perguntou agora.

não é?) Estou lhe enviando livros e mais algumas coisas para você se lembrar da sua terra. São maravilhosos." Abaixo da assinatura havia um PS: "Samantha também me disse que Nifkin foi para a Costa Oeste. para ambas. — Promete? — cobrou. — Quem? — falei. então resolvi enviar uma coisinha para ele. viaja muito — disse ele. dizia. — Prometo — falei. Na tarde seguinte. — Então. Fique à vontade para me ligar se quiser dar um alô. apareceu na caixa de correio um pacote da Mailboxes & More. Depois telefonei para o Dr. — Suzie Lightning! — disse ele. exibindo detalhes que iam desde seu olhar zombeteiro até as manchas do pêlo Nifkin correndo. relutante. (É costume ler por aí. embrulhado em diversas camadas do Philadelphia Examiner (“Papeando com a Gabby". ele ligou porque queria saber como iam as coisas e também se eu tinha o seu endereço. — Parece interessante — falei. outra vez.. — Fala de uma garota que. No fundo havia letra N pintada em vermelho com o contorno em amarelo. — Ainda bem que você gostou! —Você pintou o Nifkin de memória? Impressionante! Deveria ter sido artista. com endereço na Walnut Street. Nifkin sentado. Lá dentro encontrei uma tijela rasa de dar comida para cachorro feita de cerâmica. K.— Enfim. quando é que você volta para casa? — perguntou Sam. — Nifkin! — falei. Fiquei deleitada e soltei uma boa risada. armas e dinheiro. — Ahn? — É de uma música do Warren Zevon — disse ele. Coloquei a tigela no chão para ele cheirar. imaginando o que seria. Acho que quer lhe enviar alguma coisa. . "Querida Cannie". Levei-o para a varanda e abri. Havia uma latinha de pretzels com cobertura de chocolate escuro do Terminal Reading e um só Tastykake um tanto amassado. — Estou telefonando pata agradecer os presentes que você me enviou. Coloquei as mãos sobre a barriga. E na borda havia diversas imagens de Nifkin. Nifkin no chão devorando um osso de couro comestível. — Em breve — disse-lhe. dedicava-se ao último filme para a TV de Angela Lansbury).. como saudação. — Ótimo! — falei. "Samantha me disse que você vai passar um tempo em Los Angeles e eu achei que talvez se interessasse em ler alguma coisa. No fundo da caixa meus dedos encontraram algo redondo. —Ah! — falei. —Foi um prazer — disse ele. e ele latiu e veio correndo.” Estava assinado "Peter Krushelevansky" (da Universidade da Filadélfia). percebi." Dentro da caixa encontrei um cartão-postal do Liberty Bell e um do Independence Hall. fazendo uma ressalva em minha cabeça para procurar a letra depois. Filadélfia. Olhei no verso. A primeira coisa que vi foi um cartão-postal em que estava pintado um cachorrinho nifkiniano de olhos arregalados e ansiosos. A única música do Warren Zevon que eu conhecia era a que falava de advogados.

neste momento específico. como vão as coisas? Passei-lhe a versão condensada dos fatos. soando tanto como o Dr. curiosa por saber qual seria o responsável por arredondar os lábios de Maxi e apagar as rugas . Quis saber se gostava de mim como algo mais do que uma paciente.. examinando pôsteres dos médicos dispostos nas paredes. Sorri. como mais do que uma das várias garotas grandes que perambulavam por seu consultório. apoiando-me para entrar no carro baixinho e pensando que somente nesta cidade. — Ei. Descrevi a casinha na praia. que eu caí na gargalhada. O Dr. Na manhã seguinte. Na verdade. Imaginei que idade ele teria. vai dar à luz aí? — Não sei — falei. Era o aniversário de cinco anos de um menino. Maxi propôs outra saída. sentado numa cadeirinha. K. e recepcionistas ainda mais reluzentes. teria um cirurgião plástico de plantão. K.explicou. — Acho que não.. — Então. Desliguei com um sorriso no rosto. Ainda não consigo acreditar que você tenha um cirurgião plástico — resmunguei. — Vamos tomar café juntos novamente quando você voltar. Seu cachorro tem um olhar bastante peculiar. Maxi tirou os enormes óculos escuros e conversou baixinho com uma moça do balcão. 0 consultório do cirurgião era um estúdio em cinza e malva. — É muita gentileza sua — falei. aos vinte e sete anos de idade. E decidi que iria sair com ele novamente.falou agradecido. devagarinho. enquanto eu passeava. — Ótimo — foi tudo que ele disse. sentindo uma pontada de saudade da Morning Glory. sua amiga Samantha me emprestou algumas das fotos . falei das compras com Maxi — das coisas gostosas que vinha cozinhando. na verdade. então havia oito crianças de cinco anos pintando canecas.Eu o pintei lá. — Estou de licença e ainda afinando alguns detalhes do roteiro.. quando é que você volta para casa? — Não sei direito — falei. altão e com aquela voz profunda. Contei que Califórnia era maravilhosa ao mesmo tempo que parecia irreal. e eu.— Eu dou minhas pinceladas . uma atriz de feições perfeitas. — Mal necessário — falou Maxi sem rodeios. — Não tem problema — falou ele. mostrou-se interessado. com sinceridade..explicou ele. ultrapassando os veículos menos potentes e ingressando a toda na faixa de velocidade.Mas não as usei muito. — E aí. — Abriram um estúdio de pintura em cerâmica na esquina do campus . com assoalho de mármore e pintura reluzente. fez perguntas pertinentes e partiu direto para a mais importante: — Então. acho que vou ter de desligar. pintando Nifkin diante do olhar pasmo da criançada. — Claro — falei. Evil. do filme Austin Powers. Não existe um lugar assim por aqui. . imaginando a cena: o Dr. — Pode telefonar a qualquer hora.. — Vai ser ótimo — ouvi o carro de Maxi na garagem. do mercado da fazenda que encontrei. Mencionei que estava caminhando e trabalhando todo dia e que Nifkin tinha aprendido a ir pegar a bola de tênis dentro da água do mar. cada qual com suas histórias de sofrimento. .

pelos jogos de vôlei. como se fossem os quadros de uma exposição. pelos camelôs vendendo quatro pares de meia por dez dólares. pegou-me pelo cotovelo e me levou até uma cadeira. congelada. Rhodes era um moreno de sobrancelhas arqueadas.. E eu não sabia o que lhe dizer. sem barba. tentei visualizar as coisas na minha frente. Shapiro. mas provavelmente não. pela criançada chupando picolé. — Cannie. o que foi? É o neném? Eu capenguei de volta até a parede. Nifkin e eu estávamos na varanda. — Vou dar um passeio. no jogo decisivo de sua liga de softball. pelas bancas de piercing. Maxi olhou para a fotografia. — Ir embora. espalhados qual cadáveres sob as palmeiras. Parei ali. com meu cabelo em mechas puxadas para trás numa trança e os bicos de seio despontando por baixo do suéter. com as pernas qual madeira purificada. Nunca tinha me visto tão perturbada assim. Enquanto caminhava. organizá-las. tomando chá gelado de framboesa —Lipoaspiração em L. — Você não sabia que ele estava aqui? —Eu fiz que não com a cabeça. não? Maxi olhou para o outro lado. ambos sorrindo. passei pelas meninas patinando de biquíni. meu irmão. Minha mãe e Tanya. Mais imagens: minha formatura na faculdade.A. aparentando mais ou menos a minha idade. — Parece o começo de uma piada de mau gosto. O Dr. Quando percebeu a expressão do meu rosto. E o que devemos fazer? Apontei a porta com a cabeça e comecei a andar o mais rápido que pude. com os saltos batendo no chão. Feriados de vários anos. — Fique sentadinha aí — falei. com um metro e oitenta e três. Imaginei-nos todos. Fiquei sentida por ela. E o Dr. naturalmente. magro e taciturno. abatida e amedrontada. gorda. Josh. . — Então foi isso que aconteceu com ele — falei. O Dr. infeliz com seu penteado moicano e telefonemas tarde da noite. Passei pelos vendedores em pernas de pau. as bochechas roliças e o queixo duplo. fitando a fotografia maior que o tamanho natural do meu pai. — Esse é o meu pai. com sua barba bem aparada e as mãos no meu ombro. pela gritaria. posando com nossas melhores roupas: meu pai. Fui caminhar na beira da praia. o Ano-Novo judaico. frenética. nós sentados à mesa de jantar. cinco anos depois: meu pai. sumido. Imaginei minha família tal e qual ela já fora um dia — os cinco no gramado num Rosh Hashaná. eu. Tasker era o jovial Papai Noel do grupo — menos. — enchi a boca para dizer. levantando-me.invisíveis em torno de seus olhos. minha mãe na cabeceira e meu irmão na outra ponta. Fisher era um louro com jeito do boneco Ken. pelos adolescentes com cabelo rastafari sentados em bancos de praça tocando violão. depois para mim. experimentando a magnitude do conceito. O Dr. e não fazia a menor idéia de como poderia me ajudar. e pelos desabrigados com várias camadas de roupas. Maxi. como braço no ombro uma da outra. cortando um peru no dia de Ação de Graças. e apontei. minha mãe. Maxi veio se aproximando.. Estava mais magro. emoldurados e pendurados na parede de uma galeria. mas era inquestionavelmente ele mesmo. eu.

Eu e Bruce no mar. uma cerveja na mão e o cabelo solto esvoaçando pelos ombros. Você cresce. todos prosseguindo adiante em nossas tristezas pessoais. Eis-me aqui. Pois bem. a faixa de areia molhada depois que a onda finalmente se recolhe. Maxi estava sentada na varanda. Deus não nos deu chance alguma. apontando para a manchete "Adiado debate do orçamento". Bruce num concerto do Grateful Dead. porque assim são as coisas. E você foi em frente porque é assim que funciona. eu acho. nada. Fiquei parada e deixei o mar refrescar meus pés e senti. Prossegui. eu acho. — Precisamos fazer umas compras — falei. segurando uma cópia do meu primeiro artigo de jornal. de olhos contraídos sob o sol. num bate-bola em rodinha. com um pé esticado no meio do chute. e seguir adiante. orgulhosa diante do meu primeiro apartamento. rindo para a câmera. Eu e meu amor na faculdade. é o único lugar para onde se pode ir. o lugar vazio e tranqüilo que sobra dentro de você onde costumava haver todo aquele calor e angústia e paixão. Você está aqui. pensei. . esperando. DEZESSETE A recepcionista do consultório do meu pai não pareceu nem um pouco perturbada com a pausa prolongada antes de eu lhe dizer por que havia telefonado. Lá estava eu. Continua-se em frente até que acabe a mágoa.vários namorados e namoradas entrando e saindo de cena todos nós tentando dar a impressão de que não faltava nada. Aí eu me forcei a dar um passo atrás. Tal é a condição humana.. lembrei-me de Abigail me dizendo. Porque. ou encontra-se novas coisas que magoam mais. onde a deixei. Ou talvez fosse o fim do amor que eu estivesse sentindo.. Você aprende. Eu e meu primeiro namorado.

nem parece que tem alguma coisa aí! . – Eu só acho que. .. certo? – perguntou. acendendo uma potente luminária e apontando-a para o meu rosto. e a recepcionista não ficou nem um pouquinho curiosa. se tiver. mas também um diamante de uma enormidade tão impressionante.O doutor já vai atendê-la – disse. onde eu inventara uma cicatriz..Talvez ele não tenha a resposta – falou Maxi. Meu dedo reluziu à luz do sol. . claro – falei. E acho que. toda trêmula. e saiu. Então.. não sei direito. na manhã de sexta. e me advertiu de que o trânsito poderia estar brutal. Aparece bem. de um tamanho tão descomunal.. examinando-a -. .Ah.. sabe.. Shapiro desse uma olhada. E na mão esquerda eu estava usando não apenas a aliança lisa de ouro que imaginara.. algum sinal físico para mostrar ao mundo – para .. que ninguém jamais iria me querer. e a minha mãe. sabe? Quem consegue ser razoável. Eu estava sentada numa poltrona bege. – Só acho que tenho de tentar.. se eu o vir. . Dei o telefone celular de Maxi como sendo o meu e disse que o meu nome era Lois Lane.. embora só houvesse passado quatro semanas e não seis). Marcou simplesmente uma hora para mim.Você deve ter pensado nisso – disse Maxi. – acenei vagamente com a mão para indicar lesbianismo e uma parceira inadequada. – Ou. Respirei fundo. eu quero saber por que ele fez o que fez.Eu tinha uma cicatriz e queria que o Dr. Ela me entregou um requintado roupão felpudo e uma prancheta cheia de formulários para preencher. . prometendo que ninguém daria falta e que talvez fosse a coisa exata para anunciar ao meu pai e ao mundo que eu havia chegado. com isso. que eu mal conseguia manter os olhos na estrada. entrecortadamente. – Dá para ver nas fotos. – Só que. Não sei nem se vou usar o anel quando for vê-lo. Olhei para os anéis nos meu dedos. podem não ser as que você gostaria de ouvir.Mas deixa-me perguntar-lhe uma coisa – começou ela a dizer naquela manhã.Eu só quero ouvir alguma coisa – falei.. Maxi me olhou como se isso fosse a coisa mais triste que ela já tivesse ouvido. a gente só tem um pai e uma mãe.. é difícil ser razoável – olhei para ela. grávida sem estar casada. . A enfermeira concordou. . – É coisa de família.falou. . inventando mentiras para colocar nos formulários e desejando ter mesmo uma cicatriz. como se aquilo tivesse algum cabimento para ela.Acho que é porque ele disse que ninguém nunca iria me amar. ah. – Ahn. . Quero pelo menos ser capaz de fazer a pergunta.Mas você sabe que isso não é verdade.Para falar a verdade. . – Por que você quer que seu pai ache que você está casada? Levantei-me e abri as cortinas.Mas é profunda – falei. enquanto comíamos waffles amanteigados com pêssegos e chá de gengibre. Maxi o trouxera do set. – Você pensa em tudo. comecei o dia cedo. quando se trata de família? Eu só. olhando para a água. será como se ele estivesse certo. A enfermeira que me conduziu ao cubículo tinha os seios tão simétricos e redondos quanto duas metades de melões cantalupo. às dez horas da manhã de sexta-feira. Meu cabelo foi aparado (Garth fez a gentileza. – Você sabe quanta gente a ama.

Ele me fitou por um minuto sem que nada se registrasse em seu rosto a não ser mais irritação. homem de um insulto para cada ocasião. Como foi capaz de fazer isso? Como foi que você pôde sair da nossa vida desse jeito? – ele não disse nada. . era o prenúncio de um acesso de raiva.. da fúria que estava sentindo dele até que o vi. Vinte minutos depois... Ele se retraiu todo. irascível.Não estou tentando me esconder – falou ele. também! . o bronzeado e o pesado relógio de ouro.. com os olhas na minha ficha.Não vim aqui à sua procura. Vi seus olhos por trás das lentes. – Você não liga para nós? Não tem coração? Ou seria uma idiotice perguntar isso a alguém que ganha a vida sugando celulite das coxas dos outros? Meu pai me olhou com ferocidade.mostrar a ele – tudo por que passei. um ar de pare-de-desperdiçar-o-meu-tempo que reconheci dos tempos de infância. Então. Depois de algum tempo. pegando a prancheta com a qual entrara. como se a conversa o aborrecesse. ficou apenas olhando para mim. mau humor ou algo parecido. de um castanho esmaecido. Lane? – perguntou. E vi sua foto – continuei. – meu pai. todos vocês! .Você está maluco? É claro que ligaríamos. Não me havia dado conta da raiva.. Havia uma expressão de irritação em seu rosto. – Faltou esperteza aí. sem dizer nada. através de mim.Então como é que nenhum de nós sabe onde você está? . gritando que as coxas ainda tinham calombos e que o mamilo esquerdo ficou mais alto que o direito. . . Fiquei sentada em silêncio. ele viu. Em geral. Eu precisava era de um pai – falei.E já estão crescidos agora.Então. Sra. Ele soltou um suspiro.Vocês nem ligariam se soubessem – resmungou ele. como se eu o aborrecesse também.Não.. se é isso que você quer saber. – Nenhum de nós sabia onde você estava. Ele colocou de volta os óculos. mas eu não estava disposta a deixar que começasse sem lhe dizer umas poucas e boas antes. com as unhas feitas. . tirou os óculos. Fiquei tão estupefata que ele já estava com a mão na maçaneta antes de eu conseguir pensar no que dizer. ali parado. .Você simplesmente desapareceu – falei. ficou desta vez. e apertou o topo do nariz entre os dedos – outra pose da qual eu me lembrava muito bem. ele ergueu os olhos. e que consegui sobreviver..Marquei hora – falei. – O que você está fazendo aqui? . Ele começou a balançar a cabeça e a abrir a boca.Cannie? . Você é nosso pai. vestido em seu impecável jaleco branco. o que. molhado.Não precisa menosprezar. como se eu fosse uma paciente histérica.. sem fala. .Olá! – confirmei. Uma amiga tinha uma consulta marcada e eu vim acompanhá-la. . . ouvi uma batida breve na porta e meu pai entrou. – Mas que besteira! Foi sua mãe que lhe disse isso? . sabe? Principalmente para quem quer ficar escondido. o que a traz aqui.Por que você veio aqui? . .Meu Deus.

O que foi que nós fizemos. À exceção de que. me conte.Você não vai acreditar – comecei. . Ele me olhou de um jeito quase amável. quem você se tornou. E eu contei. ou estar tão errada. Olhei fixamente para ele e ele não disse nada – apenas foi embora. . Pois nenhuma criança poderia ser tão ruim nem tão feia.Ei! – falei.Eu acho – falou.. Senti meus dedos roçarem nas costas daquele impecável jaleco branco. Vi que não era falha nossa. ficar livre. Fui atrás dele. de alguma coisa. . no momento exato em que proferia aquelas palavras. lenta e precisamente – que muita gente se decepciona com a vida que acaba levando. qualquer resposta que ele desse.Você acha que por estarmos mais velhos o que fez conosco não importa mais? Você acha que precisar dois pais durante a vida é uma coisa que se aprende a superar depois que se cresce. Ele se virou de frente para mim e minha garganta se fechou.Provavelmente não – disse ela. E jamais bastaria. Não sei i que você quer. O que quer que meu pai dissesse. Ele não parou de andar e nem sequer diminuiu o passo. pude largar o fardo. qualquer desculpa que arranjasse. enquanto ele atravessava a porta. pude abrir mão daquilo. .. Quando voltei. coloquei os anéis na caixinha de veludo. Não consegui me conter..Por quê? – perguntei. Enfim. – Então. de algum sinal. . Olhei fixamente para ele. balançou a cabeça uma vez e se virou na direção da porta. não estaria correta.. . que aquilo era ridículo. A culpa não era nossa. E percebi naquele instante que Maxi estava certa. Cannie. . Esperei que me perguntasse alguma coisa. Nem a você nem a nenhum de vocês. pensei comigo mesma. .E é isso que você quer ser para nós? Uma decepção? Ele soltou um suspiro. naturalmente. como brincar de dirigir na cadeirinha de comer? Ele se inflou na totalidade de seu um metro e setenta e quatro. . . – engoli em seco. tão palpável como se tivesse vestindo um casacão de inverno. e se vestiu da autoridade de sua categoria de doutor. mas posso lhe dizer o seguinte: não tenho nada para lhe dar. Queria que ele me perguntasse coisas: como vai você. nenhuma criança poderia ser qualquer coisa que fizesse um pai ir embora. – O que foi que algum de nós fez de tão horrível que o levou a não nos querer ver novamente? – percebi. Tirei a maquiagem do rosto e o gel do cabelo. o que fazia e com quem resolvera compartilhar minha vida? Mas só olhou para mim novamente.Não tenho como ajudá-la. Depois telefonei para Samantha. Minha voz estava quase falhando.Não queremos seu dinheiro. O que eu queria lhe dizer? Nada. o que aconteceu com você.. quem é você. saber uma coisa na cabeça é diferente de senti-la no coração.Não estou falando de dinheiro. – para que ter filhos e depois abandoná-los? É essa parte que eu não entendo. que perguntasse em que eu me transformara: onde morava.

de cabelos louros encaracolados e olhos bem azuis. Concordei. e me virei para ir embora. – Você vai fazer com que o neném me chame de Tia Maxi. . E eu vou mimá-lo demais! Sorri comigo mesma. pois já não tinha certeza se conseguiria falar. Ligue-me assim que chegar. quando lhe contei... e abracei-a. . entristecida. pelo corredor. . Depois ele tirou um maço de .. Confirmei.Ele não me fez uma única pergunta – falei. . . – Não quis saber o que eu estava fazendo aqui. o ursinho de pelúcia que comprei para o neném uma tarde em Santa Monica.. enquanto no meu (muito mais estreito desta vez). . rindo e chorando um pouco quando nos abraçamos pela décima oitava vez.. sorrindo do grau de veracidade daquilo. Um sujeito mais ou menos da minha idade e exatamente da minha altura.. . Acho que nem percebeu que eu estava grávida. para casa. mas não me pediu para ficar. ajudar a despachar minha bagagem.. e trocar e-mails. eu me esforçava para afivelar o cinto de segurança. Maxi concordou.Já faz alguns dias que terminei – falei.Você vai ser uma tia fabulosa – falei. . – falei. . . Os olhos de Maxi se iluminaram. Simplesmente não deu bola. está pronta para ir – disse ela. e você vai lá me visitar depois que o neném chegar. . imaginando Maxi tratando o pequeno Max ou a pequena Abby qual um Nifkin bípede.Está com a passagem aí? – perguntou-me. maxi me deu um beijo no rosto e depois se curvou um pouco e fez um pequeno aceno para a minha barriga. .Você terminou o roteiro? – perguntou.Que horror! Não consigo nem imaginar como você deve estar se sentindo.Ah. – Excepcional! .Eu. Samantha soltou um suspiro. Concordei com um gesto de cabeça e não disse nada. funguei e abracei-a com força.Então. . vestindo o neném com roupas que escolheria de forma a combinar com as suas. – Acho que estou pronta para ir para casa. ai terminar. soltando um suspiro. nem o que estava fazendo da vida.Você é uma amiga maravilhosa – disse-lhe. – E vamos nos falar.. esperar comigo no portão de embarque embora todos. Olhei para a água lá fora. para o avião. – Faça uma boa viagem. Ela fez questão de me levar ao aeroporto. depois para o céu. claro – disse eu.Isso vai acabar saindo no jornal – adverti-a. a olhassem como se ela fosse o animal mais raro do zoológico.Nós fizemos muita coisa – falei. Ela examinou a cama onde eu arrumara minhas coisas: roupas e livros.Cuide-se bem – retrucou ela.Tia Maxi – proclamou. pegou o assento ao lado. a começar pelos comissários de bordo.E dinheiro para as despesas? .Eu gostaria que tivéssemos feito mais – disse ela. A primeira classe estava mais cheia desta vez do que na vinda..

falei para mim mesma. na minha vida atual. Aconteceu exatamente como Samantha disse que iria acontecer. ou pelo menos a papelada para dar essa impressão. . roupas corriqueiras. Minha substituta. e na certa teria um bom emprego. puxando o cobertor até o queixo. o lugar era esse – o gigantesco Aeroporto Internacional de Newark. “já vi novela o suficiente para garantir isso”. Talvez.documentos em tamanho ofício que pareciam importantes com o carimbo de “Confidencial” em cima e eu tirei a minha Entertainment Weekly. bem à minha frente. gostasse de ler e me adorasse. bocejando para diminuir a pressão nos ouvidos. “Você vai tornar a vêlo”. E fechei os olhos. quando lhe contei que estava grávida. clara. sonhando com Bruce. refazendo seu rosto na memória diante de mim antes de adormecer. Enfim. meu pai não tornasse a ser meu pai novamente. estava Bruce. achando que ele tinha vindo para me ver. e logo me endireitei. . meses antes. ouvindo a voz da minha mãe e da Samantha. Passei meses desejando Bruce. Dei mais uma espiada no Sr. Diverti-me com a idéia de que ele era meio bonitinho. acaba-se conseguindo. a Lésbica Terrível. Nada de notável nela a não ser as sobrancelhas espessas e emaranhadas.Ficou com inveja? – perguntei. . Fiquei toda animada. E algum dia. talvez minha mãe continuasse para sempre atrelada a Tanya. pegando um.Não sei. pois sonhara com tanto afinco e freqüência que ele não tinha outra saída senão aparecer na minha frente. Quando se deseja uma coisa com ardor suficiente.Aceita um Mento? – perguntou. Ainda conseguiria encontrar a beleza. traços comuns e estatura mediana. Ele espiou de relance e meu material de leitura e soltou um suspiro. Saltei do avião. depois olhou para mim e deu de ombros. deduzi. Mento ali ao lado e considerei a possibilidade de dar-lhe o meu cartão. um sujeito que morasse na Filadélfia. Ele espiou a embalagem de Mentos. Baixa. dissera naquela manhã. Trivial. e ali. Era o que eu precisava – um sujeito normal com um bom emprego.O singular é esse mesmo? – retruquei. Talvez minha irmã fosse permanecer sempre instável e meu irmão jamais fosse aprender a sorrir. até que percebi que estava acompanhado de uma menina que eu nunca tinha visto antes. Eu reclinei o assento. antes de cair no sono. Camisa amarela de Oxford por dentro da calça jeans azul-clara. Está aí uma boa pergunta. Mas se tinha de acontecer. Congelei. com cabelo à Joãozinho. na área de espera. confirmou e tirou uma caixinha de balas do bolso. assim nos ensinam os contos de fadas. Pete’s”. que de alguma forma viera por minha causa. “Amor”. o os finais nem sempre são felizes. mesmo quando tentava evitar. . pelo ultraje infortúnio. embaixo de uma placa que dizia “Tampa/St. era quase como se eu o materializasse por desejo. talvez ainda encontrasse alguém para amar. Ele sorriu. resolvi.. Mas dificilmente é do jeito que se pensa que será. sussurrei para o neném. paralisada pela terrível coincidência.. onde . Mas eu ainda encontraria o bem no mundo. convergindo na minha cabeça num grito desperado: Você está maluca? Talvez noutra vida.

. achando que deveria haver uma maneira de tomar a escada rolante às escondidas. Absolutamente superficial. . Tive umas reuniões a ver com o meu roteiro – falei.Eu. pegar minha bagagem e escapar dessa. Os olhos dele baixaram para a minha cintura como que magnetizados. para vôos transatlânticos ou tarifas domésticas baratas.Oi. eu sei. dinheiro. Sempre quis dizer isso a alguém.Cannie. . que virou o rosto antes que eu pudesse dar uma boa olhada.Então. – Estou grávida. Confirmei sucintamente mais uma vez. de olhos pregados nele. talvez.convergiam passageiros de Nova York. Cannie! – falou. – Nós vamos passar o fim de semana na Flórida.Ah. para contornar o perímetro todo. tinha sentido o cheiro dele e estava justamente tentando saltar para cumprimentá-lo. Tão boa quanto possa estar a aparência de uma grávida de sete meses e meio depois de um vôo de seis horas. . .? – perguntou.O que você está fazendo por aqui? – perguntei. . cruzou a turba e veio direto a mim. . a trabalho? . mas ainda era o mesmo Bruce. E Bruce chegou bem diante de mim. que legal! Não falei nada. pelo menos. e um shortinho azul que eu o vira botar e tirar outro tanto. .Correto – falei. apoio. você foi a L. Ele se curvou. mas torci para estar com uma boa aparência. naturalmente.Não. Então. e vi que era tarde demais. Bruce ergueu os olhos para o quadro de avisos computadorizado sob o qual eu acabara de passar. .Está chegando de L. . sussurrando alguma coisa para a menina. o simples reconhecimento de que eu existia. Durante cinco segundos. . – mantive-me ereta e apertei ainda mais a alça da casinhola de Nifkin. você vendeu o roteiro? – ele aparentou estar genuinamente feliz por mim. pelo meu bronzeado. Bruce não pegou a isca. Ouvi as batidas de sua cauda ali dentro enquanto ele gania.O Examiner a mandou para a Califórnia? – perguntou ele. o sorriso e os velhos tênis de basquete. Fiz uma rápida oração de graças pelo corte do Garth. Nós.. – Quer dizer que você..A.Estou a passeio – disse ele. Um pouco mais magro. . Nifkin.Tive algumas reuniões por lá – falei. sempre desamarrados. tranquilamente. pelos meus brincos de diamantes e sobrevivi a um frêmito de tristeza por não estar mais com aquele imenso e descabido anel de diamante. fiquei parada torcendo para que eles não me vissem. torcendo para que ele não percebesse a tremedeira dos meus joelhos. eu sinto muito – ele finalmente conseguiu dizer. de que o nosso neném existia e de que ele se importava ao menos um pouco -. com mais alguns fios brancos no rabo-de-cavalo. com um ar empalidecido e solene. pensei com amargura. mostrando que sua capacidade de leitura não havia diminuído desde que nos afastamos.Que bom para vocês! – falei. Estava com uma camiseta vermelha contra a qual eu me aconchegara uma centena de vezes. fiquei só olhando para ele. inclusive o cheiro.A. Estava igualzinho. Por tudo que eu precisava dele – amor. o parabéns foi reles demais. New Jersey e Filadélfia. Mas aí os olhos de Bruce se cruzaram com os meus. . Tentei me desviar para o canto do saguão...

E fiquei furiosa com o seu desligamento. Simplesmente. espero que você seja feliz.E você quer saber de uma coisa? – perguntei. Afinal. Mas que infâmia a dele. Mas meu pai estava a cinco mil quilômetros de distância.E com essa. – Ah. pensei. nem para o neném.. e profundamente entristecida. .. com a voz tão triste que parecia estar sendo rasgado de dentro para fora. Eu estreitei os olhos. essa! Eu tenho de ser. a estante que nunca montava e a banheira que nunca limpava. . não tenho. nunca perguntou. Nunca telefonou. . . Cannie.. Você. Mas Bruce estava bem ali. não é dele que você está com raiva. Se eu ao menos conseguisse me distanciar para olhar aquilo com clareza. Ele deu um passo para trás. – Eu. autor do abandono original... coisa que o meu pai não. Erro meu. com toda a maconha. Era do meu pai. inclusive a tese que nunca acabava. também. – O meu pai e tido mais. É só a fumaça da maconha – tive a impressão de que uma parte de mim havia se separado do meu corpo e flutuado até o teto. A namoradinha veio flanando até o lado dele e os dois entrelaçaram os dedos. eternamente de costas para mim.. me deixou – nos deixou. o rabo-de-cavalo e a vida meio ao léu. e estava longe de ser inocente. apresentar seus patéticas desculpas como se isso fosse capaz de desfazer seus meses de silêncio. as preocupações por que passei.. e para deixar bem claro que ele e eu não iríamos ficar curtindo a saudade de Bernard Guberman.. é que eu. . e que Deus o ajude quando se esgotarem as suas lembranças do que nós tivemos juntos. veria que Bruce era apenas mais um sujeito igual a milhares de outros. dar as caras num aeroporto levando a Senhorita Cabelo à Joãozinho para passear. sentindo toda a minha fúria – de anos a fio – enchendo o meu peito e me subindo à garganta. e tudo que eu precisava fazer para arranjar outro era aparecer num concerto do Phish e sorrir.Foi demais para mim – deixou sair num sussurro de voz. nunca ligou. e de todas as minhas inseguranças e temores. ele também não me deixou? Depositei a casinhola de Nifkin no chão e encarei Bruce. E nunca irá além disso. – Sei que deveria ter telefonado para você mas. novamente.Você sente muito? – vociferei. Não passa de um escritor de terceira numa revista de segunda.. . . .Sinto muito – falou Bruce. agora não..Ora. Ele não estava nem aí – nem para mim. Girei os olhos nas órbitas para lhe mostrar o que achei daquela desculpa. espera aí.Sei que você é forte – disse ele. nem quaisquer outras. e observava a cena se desdobrando aterrorizada. ainda que não tão limpos. Ele deixou cair as mãos.Eu sinto muito – disse ele. Ele era um homem. – Eu sinto muito pelo seu pai. ainda mais destroçado. . oh. – Sabia que iria ficar bem. eu fiquei furiosa. naturalmente. Quem que isso me lembrou? Percebi naquele instante que a minha raiva não era realmente dele. Bruce? Você não me deixou muitas opções. Cannie.Dá para sentir seus votos irradiando bem de dentro de você – redargüi. Eu continuei falando. lamentou uma vozinha lá no fundo. a falta que ele me fez e ainda ter de resolver como cuidar sozinha de um neném. Sujeitos iguais a ele eram tão comum como meias brancas de algodão vendidas em pacotes de seis no Wal-Mart. você não passa de um menino com os pés grandes e pêlo no rosto.

com o queixo literalmente caído. . e desencavei uma fala do Comício Take back the night. inspecionaria a bagagem dele – falei. O visual não era nada bom. entrei no banheiro para fazer xixi. dei descarga e abri a porta do cubículo.Você nunca vai ser tão bom quanto eu e vai saber sempre que eu fui a melhor que você já teve. A namoradinha olhou firme para mim. daqueles que assobiam quando a gente aperta. Cada vez mais estridente. como você está envelhecendo. Espero que vocês dois sejam felizes juntos. – Não estou aqui para culpar a vítima. – peguei Nifkin. poderosa. alto o suficiente para Bruce ouvir. e vou me dar muito bem. com toda a ênfase que dava ao seu queixo normalmente raquítico e ao emaranhado de rugas em torno dos olhos. Percebi que ela era um pouco dentuça. mas eu não me deixei interromper. Parecia que os meus joelhos tinham virado água.Pois não? – indaguei.Pelo que me consta. Hah. E lá estava a nova namorada dele. estarrecido. Parecia um bichinho de pelúcia. por estar ainda grávida. dos idos de 1989. . . Bruce ficou ali parado. Tenho dinheiro suficiente e um emprego melhor que o dele. E não vou escrever mais. balancei meus cabelos lindos no ar e passei zunindo ao lado do segurança. . Mas foi como se eu não pudesse me conter. educadamente.Já você – falei – é obviamente o verdadeiro amor da vida dele – no fundo do coração. Uma carta. E vai morar para sempre em New Jersey. que vinha aperfeiçoando com meus irmãos no decorrer dos anos. O cara que tem um pirata de Grateful Dead. Só que essa chinfra toda cansa depois que você não é mais calouro. eu sabia que qualquer discussão que tivesse. O velho Bruce. – Você nunca vai terminar aquela tese. Ele apertou a mão dela com mais vigor. – Se eu fosse vocês.Deixe-o em paz – falou numa vozinha estridente. eu não estava lhe dirigindo a palavra – falei.Deixe-a em paz – falou. Envelhece. E quer saber de mais uma coisa? – dei um passo para cima dele. E. caso ele tenha esquecido de mencionar quando lhe passou a nosso histórico. Olhei-a com ares de cale-a-boca-e-deixe-falar-quem-sabe-mais. ou em anticoncepcionais. meu Deus! – exclamei. igual ao que você escreve. . Pois fique você sabendo – falei para a namoradinha – que eu só escrevi uma carta para ela assim que soube que estava grávida.Ai. Hah. ela provavelmente estava olhando para mim e imaginando se eu nunca teria ouvido falar em regime. . Levantei-me. A namoradinha tentou dizer alguma coisa. – Ele nunca amou você de verdade. Ele me disse que não – a voz dela foi se elevando. Mas me dei conta de que eu não estava nem aí! . – Quer fazer algum comentário? Os lábios dela se crisparam. no fundo do meu bom coração. – Provavelmente. pensei. Essa tirada trouxe Bruce de volta à realidade. de forma que os nossos pés quase se encostaram. O cara da sedinha. Claro. ..Você se acha tão inteligente – disse. por falar no assunto. Não se aprimora. é um portador. de braços cruzados em cima dos parcos seios. . meu rosto estava fervendo. – Como se eu estivesse fazendo alguma coisa contra um de vocês. Minhas novas sandálias Manolo Blahnik me davam mais uns oito centímetros e eu me senti uma amazona... não era com ela. destemida diante daquele pingo de gente que mal chegava aos meus ombros.Vai ser sempre um apatetado com um monte de fitas em caixas de sapatos. Imaginei se ela nunca teria ouvido falar em pinça.

– Quer que eu deixe vocês em paz? Ei. . Uma dor pungente tomou conta de mim e eu caí de bruços no chão. com o rosto tomado de um rubor febril. ondas de dor cruzavam a minha barriga. empurrando o chão com as palmas das mãos. e sabia que era cedo demais. Precisava dormir. você vai me escutar – ela colocou as mãos nos meus ombros. caramba. bem.Não saio – disse – Não. Ela também. arquejando feito bicho. Resolvi que não iria ficar ali para escutar.Deixar vocês em paz? – retruquei.O lábio dela se arreganhou..Por que você não nos deixa em paz? – rangeu ela. com o tornozelo torcido num ângulo que eu sabia não ser nada bom. sem me deixar espaço para passar. e depois preto.. Algo no rosto dela. Não estou fazendo nada contra vocês. mas não havia ninguém ali para me ouvir. Não muito mas. e depois acompanhou o meu olhar para onde grossas gotas de sangue caíam no chão. . e ela ali de pé. Dei um jeito de me pôr de pé. Foi quando olhei para baixo e vi que estava sangrando. . Eu já tinha lido sobre isso. .Eu não tenho tempo para isso – falei. Tudo começou a perder a nitidez. virou-se e saiu correndo. . qual o de Nifkin quando ele brincava com seus brinquedos de pelúcia. tentando passar por ela. secamente.. Sabia o que significava. não – começou ela.Ele ainda fala em mim. Sentei-me. . – Socorro. e logo vi o que era. que eu estava enrascada. batendo com a barriga na borda rígida da pia. Olhei fixamente para ela. e me agarrei na pia. na minha cama. E foi aí que percebi. Ela bateu com a mão a boca. e logo o mundo ficou cinza. – disse novamente.. quando subitamente senti uma câimbra lacerante. no outro meu pé escorregou numa poça de água. Ela abriu a boca para dizer alguma coisa. Sentime repentinamente cansada. Eu moro na Filadélfia. você parece que só sabe voltar ao mesmo tema. . chegar em casa. sangue não é uma coisa que se queira ver em lugar algum abaixo da cintura quando se está na metade do sétimo mês.Saia daí – falei. O tornozelo me doía tanto que fiquei enjoada e senti o sangue pingando pela perna.Não fala.Socorro! – tentei.. Eu caí de lado. Meu tornozelo cedeu e virou por baixo de mim. atalhando-a. – Tenho minha vida para cuidar – tentei sair mas ela estava parada na frente da pia. . literalmente. eu não consigo entender.. . empurrando-me um pouco. Num instante eu estava de pé. não é? – perguntei. tentando impedir que eu me mexesse.

tentando me virar para cima. a ir mais fundo do que me achava capaz. Estaria aqui? Girei-me. para a direção de onde me parecia vir a luz. frenética. estava imersa em água. cujas profundezas obscuras não consegui decifrar. Como é o seu nome? . que a água estava gelada demais ou que era muito fundo. queria agradar ao meu pai. Queria a moeda prateada. E estava difícil continuar dando braçadas. difícil continuar boiando. mas. É nadar ou afundar. ficar imóvel. e pude sentir a sucção do que estava por baixo de mim. Meu pai. Numa piscina? No lago da colônia de férias? No mar? Não tive certeza. me deixar levar para o fundo. Pude ver a luz acima de mim. cuspindo água e reclamando que não conseguia. meu pai me dizia quando eu subia de mãos vazias. e senti o fundo do mar me puxando.. dando braçadas. É nadar ou afundar. aprendendo a segurar o fôlego. filtrada pela água.. afundar na areia fofa do pó de milhares de conchas moídas. deixar-me adormecer. “É nadar ou afundar”. acima de tudo. quando eu era pequena. Ouvi uma voz vindo da superfície. Girando. Mas estava tonta. mas foi meu pai quem me ensinou.PARTE CINCO Joy DEZEOITO Quando abri os olhos. Passei quase a vida toda nadando com minha mãe. E eu voltava para o fundo. e achei que seria bom parar. a me impulsionar de volta à superfície. Ele jogava uma moeda de um dólar na água e eu a acompanhava.

Eu balancei a cabeça. onde era invisível. Estou cansada. Fechei de novo os olhos e vi minha cama. Fechei os olhos. vi meu pai. e afundou na água. qual me recordava dele vinte anos atrás. Cansada demais. Não se entregue! Mas eu não queria estar ali. descrevendo um arco no ar. para mim. e tive vontade de ir. Cannie. uma menina forte. o local onde me sentia segura quando adolescente. Senti o peso de diamantes no meu dedo. Minha filha? Não pude ter certeza. pensei. tornou a dizer a voz. mas a cama de quando eu era uma menininha – estreita. voltar para o tempo antes das coisas desandarem. em tom quase frenético. cabelos castanhos presos num rabo-de-cavalo que se derramava sobre os ombros. com sua colcha escocesa vermelho e marrom presa em toda a volta e um monte de livros de capa dura espalhados embaixo. que tinha sido meu refúgio de menina. Mãe. agora me deixe em paz. sobre a escola. lugar ao qual meu pai jamais vinha. quis demais. Meu nome é Cannie. Estava deitada de lado. me deixe em paz. de ar sóbrio e olhos verdes. A moeda prateada brilhou e reluziu ao sol.Ora. . ela disse. Cannie. sobre o futuro e como seriam nossas vidas. Ele estava sentado do outro lado da mesa. Queria nadar outra vez. Não queria estar aqui. disse a voz. Queria estar de volta na minha cama. Olhei para a menina e ela sorriu para mim. Dei um aperto muito fraco. Senti o peso do seu olhar sobre mim – carinhoso e cheio de amor. comprimindo-os diante da intensa luz branca. onde quer que fosse esse aqui. bem feita. onde estava livre. Não se entregue. Olhei para baixo e a menina na cama parou de ler o livro e olhou para cima. Talvez fosse um sonho. ***** Cannie? Gemi como se acordasse do sonho mais delicioso e entreabri novamente os olhos. resmunguei. com o telefone e uma tigela de sorvete derretendo no meio. Cannie?. mais alguma coisa sobre monitor fetal. e quis voltar para lá. Estava novamente em seu consultório na Califórnia. Lembrei-me daquela cama. antes da partida de meu pai e da traição de Bruce. conversando sobre meninos. e os olhos dela estavam arregalados e lúcidos. sentada de pernas cruzadas com alguma amiga na outra ponta. Lembrei-me de ter passado nela horas a fio durante os finais de semana. antes de saber como tudo acabou sendo. e a acompanhei até o fundo. Senti as trevas me puxando. Eu? Fiquei curiosa. Cannie. Pude ouvir um burburinho de vozes ao meu redor. com um livro aberto diante dela. escutei alguma coisa sobre tipo sangüíneo. com o meu confortável edredom azul e meus belos travesseiros de cores vivas. Qual é o seu nome? Abri os olhos. Queria estar novamente na água. Pisquei e vi a menina na cama. Aperte minha mão se você estiver me ouvindo. nas minhas orelhas. Na terceira vez que fechei os olhos. e a menina na cama seria real? Ou a água? Talvez eu tivesse me afogado neste exato momento e a imagem da minha cama fosse alguma coisa que o meu cérebro tivesse arranjado como entretenimento de último minuto. Não a minha cama na Filadélfia. sentada ereta em sua alva mesa de exame.

conforme eu me lembrava. E se eu quisesse afundar? O que haveria de me manter flutuando? Pensei na mão do meu pai sobre o meu rosto. . e em Nifkin. Teria mudado tudo. Por todas as coisas que eu adoro e por todos aqueles que me amam. Então. de valer algo para alguém. ele disse. Por mim e pela minha filha. Então tudo bem. pensei. E pensei um instante em Bruce. É sua. que maravilha! Sou repórter de jornal. e pensei nos olhos verdes da garota que me fitava deitada na cama. Estava com o cheiro da colônia que ele sempre usava. E quando recolheu a mão. Como foi capaz de deixar seus próprios filhos?. como se eu tivesse parado de lhe falar inglês. Moro na cidade. ele foi se virando.em seu jaleco branco. com um livro no travesseiro e Nifkin encarapitado ao meu lado. Josh só nove. sem dizer nada. Com todo o cuidado. mas na sensação de amar e ser amada. Escrevi um filme. contei-lhe. pensei. Pensei na sensação de um banho frio depois de um longo passeio de bicicleta. Tirou um lenço muito bem dobrado do bolso da camisa. de um mergulho no mar num dia quente de verão. Conte-me como foram as coisas para você. Meu pai voltou para perto de mim. sentindo a garganta secar. falei. ou como se ele tivesse parado de entender. sorrindo para mim. fez-se novamente a escuridão abaixo de mim e a luz acima.. Fiquei olhando para ela. Meu pai sorriu. Você a encontrou. Vou nadar. Sempre conseguia. com a mão na maçaneta. e ele acolheu o que lhe disse com um aceno de cabeça e disse: Cannie. sentida. Quando tornei a acordar. É nadar ou afundar. de limão. Pensei na minha própria cama. não em Bruce. ouvi vozes. ele diz. Tenho amigos. Como pôde ir embora? Lágrimas escorreram pelo meu rosto. forrada com lençóis de flanela amaciados depois de tantas passagens pela secadora. Pensei no gosto dos morangos minúsculos que Maxi e eu encontramos no mercado da fazenda. especificamente. com ar intrigado. foi o que pensei. se ao menos eu soubesse que você ligava. Está legal. meu pai se reclinou e limpou minhas lágrimas. Estiquei-lhe a mão. eu abri a minha e encontrei uma moeda prateada na palma aberta. ele a pegou e ficou com ela. Ser querida. Mas ainda enquanto falava.Acho que não está certo – disse uma delas.. mas desta vez se virou e olhou para mim. ouvi Maxi dizer. Quem mais? . Lucy tinha quinze anos. Quero lhe perguntar uma coisa.. Como foi fazer uma coisa dessas.. Ele sorriu para mim. contei-lhe. Um cachorro. Conte-me como você tem passado. onde sempre os guardava. Pensei nos meus amigos. – Tem certeza de que está pendurado direito? Minha mãe. Tenho orgulho de você. Eu vou ter um neném. Como você foi capaz?. Sempre a encontrava. Ele estava na porta. e da goma que a tinturaria chinesa sempre usava. Por que não disse isso antes? Perguntei. pensei.

Depois o sangue. de verdade. Havia uma agulha de soro presa com fita ao dorso da minha mão. e vi que não estava embaixo da água nem no meu quarto antigo.Lucy! Tira o dedo do almoço de sua irmã. amuada. .Acho que é melhor o médico lhe dizer.Ela não vai comer – disse ela. . – O que aconteceu? – implorei. Fiz. tampouco no consultório do meu pai. sem dúvida. . em tom constrangido. Agora eu estava começando a me lembrar – o aeroporto. Disseram que ela vai poder chupar gelo quando acordar. . o banheiro.Vou chamar o médico – falou minha mãe.Não é pudim – ouvi um rosnado áspero. Bruce engoliu em seco. . – Com gelo. Cannie – falou ele. de mulher.O que aconteceu? – indaguei. . de jaleco. Minha voz saiu estranha e esganiçada.Não sei porque trouxeram comida! – grunhiu Tanya. . .Neném – falei.Oi. – Qual é o seu nome? – perguntou. e partiu atrás delas.O que aconteceu? – perguntei. e máquinas dispostas em semicírculo apitando e buzinando à minha volta. com a voz se escalonando em direção à histeria. Lucy. – Onde estou? Onde está o meu neném? O que aconteceu? Um rosto se inclinou para dentro do meu campo de visão – um médico.. Do umbigo para baixo. Estava num leito de hospital. Tentei me sentar. em seguida saíram porta afora como se tivessem entrado num acordo. deixe que eu vou – disse Tanya. – O meu neném está bem? O médico pigarreou.Cannie? – murmurou.Que bom vê-la acordada! – disse. no quarto. a nova namorada dele. . Minha mãe se inclinou para perto de mim. com o estetoscópio e o crachá de praxe. . – Meu neném.Que é esse negócio amarelo? – indagou outra voz jovem. O tornozelo pulsava no ritmo das minhas batidas cardíacas. . Lucy me lançou um olhar rápido. Tanya. . . O que nos deixou.Você não – falei. Então: . animado. com a mão que não tinha nenhuma agulha enfiada. Alguém saiu do meio da escuridão. Levantei a cabeça e enxerguei os dedos dos pés – não havia uma barriga no caminho entre o rosto e os pés. um gesto para que ele saísse dali. melosa. parecia que fora rasgada e depois desajeitadamente costurada.. – minha voz estancou na garganta. A queda. – Parece pudim! . . Eu franzi o cenho para ele. percebendo subitamente que sentia dores. Mãos me fizeram ficar deitada. Bruce. Abri os olhos. – uma combinação de Chloe e filtro solar com xampu Pert. desta vez. indecifrável. Bruce e a mim.. uma pulseira de plástico com meu nome em torno do meu pulso. As duas se entreolharam.Meu nome é Candance Shapiro – comecei – e eu estava grávida.Arranjem um refrigerante – falou minha mãe.Não. Respirei fundo. Senti seu cheiro. com ar desolado e terrivelmente envergonhado. .

. . Ele me disse que meu útero foi rompido durante o parto e eu estava sangrando tanto que eles precisaram tomar providências radicais. Uma poeirinha de cabelos pretos na cabeça. E continuou tagarelando sobre aconselhamento. gesticulando. Era tão pequenina! Uma toronja cor-de-rosa e enrugada. nem mesmo em sua trajetória até este mundo. – Vá embora – limpei os olhos. chorando.Cannie – falou -.Menina – disse ele. . O médico assumiu um ar sóbrio. o meu neném. Minha filha. a cabeça do tamanho de uma nectarina. Ela não tinha se movido até então. um ar de indignação no rosto. as mãos do tamanho das unhas dos meus polegares. Ventilador. Inclinei-me tanto para vê-la que a minha testa encostou no vidro. . me colocaram numa cadeira de rodas e me levaram para a Unidade de Tratamento Intensivo para recém-nascidos. falei. Ele continuou falando. inseminação artificial e barriga de aluguel até que me deu vontade de gritar. mas quando bati. me explicaram. Foi o que causou o sangramento. Oi. . que mordeu o lábio e virou o rosto quando eu tentei me sentar. minha pobre filhinha a quem não consegui manter em segurança. tamborilando com os dedos na janela. O médico ficou alarmado e tentou me fazer deitar novamente. e havia lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Acenando para mim. Fizemos uma cesariana. entupida de desgosto.. adoção. Peso baixo. Desenvolvimento incompleto dos pulmões.Você teve uma coisa conhecida pelo nome de ablação da placenta – começou.Então. relutantemente.O seu neném estava em sofrimento quando o trouxeram para cá. mas que não quis. e comecei a chorar. .Afaste-se de mim – falei. Minúsculos olhinhos apertados. toda dolorida e cheia de pontos. Minha garganta travou. Olhei para minha mãe. girou no ar os bracinhos.Meu neném – falei. e o trabalho de parto prematuro. mas poderia vê-la através da janela. Seus membros eram tão pequenos quanto o meu dedo mindinho. . neném. e se fosse o caso. por quanto tempo. eu sinto muito. Era como se fosse um vazamento. com um simplório gorrinho bege em cima.Você está bem? . . tirando um ritmo tranqüilo.. me pareceu. . mas as circunstâncias não nos deixaram nenhuma outra opção. que voltara a me olhar e estava encostada na parede. com seriedade -. Olhei para a minha mãe.Ela precisa de um gorro melhor – falei. Eu não poderia entrar. UTI neonatal. terapia.. . – Isso quer dizer que a sua placenta se separou do útero de uma vez só. A enfermeira me observava com atenção. não podíamos saber se ela estava sem oxigênio. – sussurrei. Eles me pegaram.Não gostamos de fazer isso com mulheres jovens – disse ele. Como se eu estivesse tão cheia de tristeza e de uma estranha .. de agarrar-lhe a garganta e forçá-lo a me dar uma resposta para a única pergunta que eu queria saber. Neném.Menina – repeti. mas por não termos o monitor fetal. – É menino ou menina? . assoando o nariz. Uma enfermeira apontou para ela. imaginei. Bruce colocou desajeitadamente a mão no meu braço. joguei os cabelos empapados para trás dês orelhas e olhei para o médico. Radical do tipo: agora eu não tinha mais útero.Quero ver o meu neném. . Prematuro. mas eu não estava chorando. sussurrei.É aquela ali – disse.

inseguro.Mais ou menos isso – falei. Cannie! – disse.Pobre Cannie! – disse. uma braçada ridícula de rosas. – Que coisa mais patética e horrível! Maxi se inclinou para perto de mim.esperança predestinada que não tinham para onde ir senão para fora. pareciam balões de gás amarrados todos juntos. Depois que Maxi saiu. desolada. e até um era capaz de enxergar isso.Oh. com seus rostos juvenis. Se tive algum sonho. pensei funestamente. sem dizer nada.Vim assim que soube – disse. Havia um quarteto de voluntárias aglomeradas à porta. E como não podia deixar de ser. Maxi se retraiu. sem saber direito o que iria acontecer. separando-nos delas.Preciso levá-la de volta – disse. enrolada de lado. . não me lembro. – Sua mãe e sua irmã estão lá fora. . a que tinha o tubo enfiado. limpando as lágrimas do rosto.Joy – falei.Bruce veio – falei. A enfermeira se aproximou um pouco mais. tenho vários gorrinhos de neném. Maxi estava lá. o tipo de guirlanda que se coloca em torno do pescoço de um cavalo que ganha um prêmio. A enfermeira se inclinou para perto de mim. Bruce estava parado na porta. mas quando a palavra saiu eu percebi instantaneamente no coração que estava certa. Quando voltei para o quarto. eu dormi um pouco. Ela não precisava de gorro da moda. na gaveta de cima. Maxi puxou uma cortina branca em torno da minha cama. Esfreguei a mão sem agulha no rosto e desejei uma caixa de lenços de papel. no quarto dela.Espero que você o tenha mandado para o inferno – disse Maxi. o quarto amarelo com o berço. – Cannie? – perguntou. Minha mãe tem a chave. na cômoda. – O nome dela é Joy.. Burra. Eu só continuei olhando. Eu fechei os olhos. e espantada por estar desolada. e não se alarmou por eu não olhar para ela nem por não lhe retribuir o aperto na mão. dizia. .Diga-me o nome dela – falou. Não havia mais o que perguntar. . Só pode entrar uma pessoa de cada vez. aconchegando minha cabeça em seu braço. . faça com que dêem a ela um gorro mais bonito – repeti. . havia um pedaço de papel pregado numa das extremidades da caixa. e comecei a soluçar. Pisquei e fiquei olhando fixamente para ele. teimosa. Abri a boca.Posso fazer alguma coisa? – perguntou. não havia mais o que dizer. – Em casa.É tão pequenininha – consegui dizer. Estava com as roupas mais sóbrias que eu já a tinha visto usar – uma calça jeans preta. entristecida.. com o rosto contraído. E quando acordei. Sentou-se ao meu lado e pegou minha mão. . . . um moletom de capuz – e carregava rosas. precisava de um milagre. “Menina Shapiro”. . – Você viu o neném? Fiz que sim com a cabeça. . . Ou que se coloca em torno de um caixão. – Que horror! – soltei algo entre um soluço e uma tossida.Por favor. chorando. . tênis pretos.

. – Como é que você acha que eu estou? Dei à luz uma coisa que parece fruto de um experimento no laboratório da escola.. pelo modo como as mãos estavam enfiadas nos bolsos e pelos olhos dele que não despregavam do assoalho. Enxerguei alguns cravos no nariz dele. Nem empurro – acrescentei. Ele tentou pegar em mim.Sei dizer exatamente quantos dias faz que nos falamos da última vez – disse a ele. eu não quis que isso acontecesse. . ouvi quando ele foi embora.Tem alguma coisa errada comigo – falei. Isso é bom. Ele começou a chorar. Olhei para ele. que ele queria estar em qualquer outro lugar menos ali. Bruce parou de chorar. Um corpo em movimento permanece em movimento.Sei dizer exatamente como é o seu quarto. mas não sabia lidar com as lágrimas. carregando o meu pesar por aí qual uma mochila cheia de pedras.. às cegas. de dor. dando-me olhadelas ligeiras – os tubos de dreno saindo por baixo do lençol. Coloquei o rosto nas mãos e solucei durante um minuto inteiro. . – Eu não mordo. exatamente o que você falou da última vez em que estivemos juntos. . nem ódio... . querendo saltar de tão grandes. E um tempo depois. Ou talvez ele tivesse começado. Bruce fechou os olhos. Você deveria ter-me deixado morrer. pensei. maliciosamente. Pois. por favor – disse. que sofra! Ele se sentou na cadeira ao lado da cama. manter a compostura como ninguém e seguir estoicamente em frente. Fui eu quem deu início àquilo quando lhe pedi para darmos um tempo. – Eu tenho um defeito.. a bolsa de soro pendurada ao meu lado. sabendo que era tarde demais para nós.Cannie. Bruce veio para o lado da minha cama. fazer troça das coisas. e minha mãe tomou um susto tão grande que sua cadeira giratória correu meio quarto para trás. Eu sinto muito – palavras que um dia achei ser capaz de dar tudo no mundo para ouvir. Não senti nada a não ser um cansaço que doía até os ossos. . Torci para que ficasse apavorado.. Fechei os olhos. Parecia pouco à vontade – ela sabia contar piadas muito bem. sentindo-se mal consigo mesmo. – Por favor. . nervoso. Como se de repente eu tivesse com anos de idade e tivesse sabido naquele instante que iria viver outros cem. – Eu não queria. Eu nem esperei que ela se recompusesse para dar continuidade ao meu arroubo.. que aquilo o estava matando.Me sentindo uma merda! – berrei. aos prantos. Depois de um tempo. estou toda cortada e cheia. Que bom. Mas que diferença isso faria agora? Virei o rosto para a parede.Venha cá – pedi. e percebi por sua postura.. ao me convidar para sair primeiro. Torci para que ficasse enjoado com aquilo. Não senti amor. Instantaneamente minha mãe passou correndo pela porta e puxou uma cadeira para perto da cama.Como é que você está? – perguntou. eu talvez simplesmente chateado de me ver novamente. sentido a raiva borbulhar no peito. Acordei no dia seguinte de manhã com a luz do sol se derramando sobre o meu rosto. Já haviam acontecido coisas demais... Estava pálido. . e nada do que aconteceu era bom.

Minha mãe fez carinho no meu cabelo. nunca mais vou ter outro filho e agora só porque eles estão sentidos fica tudo bem? Pois não vou perdoá-los.Sente-se – falei. . com a voz alta. mas maravilhosa – ela pigarreou. beligerantemente.Os médicos não têm muita certeza de que foi isso que fez você.. desse jeito.A que gosta de empurrar? – perguntei. – Você esteve com ela? . .Cannie – falou ela. . Eu soltei o ar com força..Ninguém me ama – gritei. . e ela se sentou. . – Como é que eu vou acreditar no que você diz? Apontei para a porta. – Eu acho que foi e espero que aquela vagabunda burra também ache.. claro que não – falou ela. . – Vai ficar bem. Minha mãe balançou a cabeça. Um pouco pequena.Cannie. . típico dela quando tinha de enfrentar alguma coisa dolorosa. Cannie – disse minha mãe -. por enquanto.. Minha mãe ficou chocada.. . Não queria nem ouvir o nome dele. .Você nem sabia que era gay até chegar aos cinqüenta e seis anos! – gritei.Ela ficou sem oxigênio! Você não ouviu? Sem oxigênio! Pode acontecer um monte de coisas por causa disso. – Estou do seu lado. – Está um pouco abaixo do peso.Vá embora – falei.. . impacientemente. . . .Não acredito que você esteja do lado deles! – berrei.Isso você não sabe – falei.. . Os dois estão.. .Ela é igualzinha a você quando neném – falou minha mãe.. e falta desenvolver os pulmões um pouco mais.Mas não morreu – disse minha mãe. Bruce não me amou. E vai ficar bem. cansada. . e comecei a chorar. mas eu ainda percebi um pezinho balançando de ansiedade.Não interessa! – falei. – Fale comigo. ela também está se sentindo muito mal.Joy quase morreu – falei.Cannie – disse. . – Você tem uma filhinha maravilhosa.Com Bruce – continuou – e com a nova namorada dele.Cannie o quê? Você acha que eu vou perdoá-los? Nunca.. se levantou e começou a andar de um lado para o outro. Minha mãe percebeu pelo meu rosto. não fale assim. zangada. Cannie. . . carinhosamente.Pois deveriam – falei. . e vem essa namorada dele dar o seu empurrãozinho.Não fale desse jeito – repetiu.Conversei com Bruce – falou ela. – Bruce sequer me telefonou uma vez durante toda a gravidez. aguda e histérica. furiosa. . – Ela não morreu. – Papai não me amou. Minha neném quase morreu.Cannie! . Minha mãe ficou abalada com o meu tom. Só não acho que seja saudável você ficar tão zangada. eu quase morri..Não vou – disse. . Eu sei. Nunca! Minha mãe soltou um suspiro. mas continuou falando. .Oh.Eu não estou do lado deles.

Vou conversar com você mais tarde – falou. e agora resolveu que é hora de tocar no assunto? Não daria para esperar talvez até que a sua neta consiga sair da UTI? Minha mãe contraiu os lábios. magra. – Sei que você não gosta dela e já estou cansada de ouvir isso.Ué. Ela me viu olhando para ela. Como poderia descobrir o que fazer para ser uma mãe decente diante das opções dos meus próprios pais? Você tem tudo de que precisa. sem saber ao certo de quem estava falando. faltava um namorado. Oca. aos prantos. dê um descanso. mas vou ter de dar uma saidinha rápida..De onde foi que você tirou essa idéia? – sussurrou ela no meu cabelo. ela me disse. – Não consegui segurá-la. – Netas co-dependentes de avós emocionalmente distantes? . ...Ah. por que ele não me amou? – falei. e saiu. Ela não se virou. Tudo de que eu precisava. Você vai ser uma mãe maravilhosa. . com o olhar vidrado no nada. não consegui ser bonita.Você precisa. como se as minhas entranhas tivessem sido arrancadas e só restasse o vazio retumbante. deixei que ela se machucasse.Preciso pegar a Tanya no curso de extensão que ela está fazendo. e mordeu o lábio. – rebateu minha mãe. como uma dessas coisas que ela vivia pirateando dos livros de exercícios da Tanya do tipo Cure Sua Própria Dor. Esfreguei os olhos.. Senti-me absolutamente mal. tentando secar o rosto. foi um acidente.Sem dúvida – gritei. Sei me comportar muito bem. – Cannie. Acompanhei o olhar dela se dirigindo para o relógio na parede.. o próprio buraco negro. Parecia besteirada New Age. .E o que é que você quer que eu fale? – disse. . quando me largam. .. Não foi culpa sua. amável o suficiente para manter minha neném em segurança. Considerei minha vida e só vi o que faltava: faltava meu pai. Mas não consegui ver o que quis dizer. virou-se para mim mais uma vez. Já estou acostumada. Bruce? Meu pai? – O que há de errado comigo? Minha mãe se levantou. Ter certeza disso no meu coração. . ela não sabe dirigir? . mas vai ficar bem. Eu soltei um suspiro.E qual é o curso de hoje? Que faceta da personalidade ela está trabalhando agora? – indaguei.Você vai me desculpar – disse baixinho -. para ganhar tempo.. tentando soar normal. quando ela saiu. faltava uma promessa de saúde ou conforto para a minha filha.Cannie. – Eu sei que você não acredita.Eu não a mereço – choraminguei. .Se sou tão boa assim.O carro dela está na oficina. Eu franzi o rosto inteiro. Com a mãe na maçaneta. – A idiota da namorada nova do babaca do meu ex-namorado me dá um empurrão e a minha neném quase morreu. e eu fiquei tão estupefata que não consegui nem pensar em começar a chorar de novo. . tentando processar o que ela acabava de me dizer. Mas o que estava de fato errado – a parte que não achei que eu fosse capaz de dizer – era que eu tinha falhado com a Joy. – Pode ir. . Basta ter certeza disso no seu coração. . . Você tem tudo de que precisa. Não consegui ser boa o suficiente para ela. torcendo para que as enfermeiras não tivessem me ouvido proferir aos berros aquelas tiradas de novela de terceira categoria. . Minha mãe arrastou a cadeira novamente para perto e me abraçou.

estava ali parado. algo prepotente.Bem. depois as pontas de suas orelhas enormes e. depois do que você passou! Como vai. . K. – fiz uma pausa e passei a mão pelos olhos..... O Dr.Com a sua amiga Samantha – explicou. . – Ela está lá fora. enquanto Nifkin se aninhava em cima do meu peito e me dava um banho de lambidas no rosto.. seu corpo inteiro. . – Dá para ver? Eu me apoiei num cotovelo e confirmei. muito mal. .Obrigada – falei.. .. levantando-o para não esbarrar nos vários tubos e apetrechos aos quais eu estava conectada. mas acho que ela não teria muito o que fazer com o meu tipo. além disso.Vá contar para a Tanya – falei. Surgiu o focinho de Nifkin. sentando-se na mesma cadeira que minha mãe ocupara pouco antes. torcendo para sonhar novamente com a minha cama.Tudo bem – falei. Ele me olhou atentamente. Ele balançou a cabeça. Ele pigarreou.Foi informação demais? – perguntei. – Como está se sentindo? . – Bem. de uma só vez. é a CNN.Posso acreditar.. em meio às lágrimas.De forma alguma – disse-me. .Nifkin. mas a sensação foi a de que o meu rosto havia esquecido como se faz isso.Não tem de quê – disse o médico. – Quanto a mim.. . eu até contaria – falou uma voz profunda que me era familiar -. O Dr. . ao dizê-lo em voz alta. olhou rapidamente por cima do ombro para a porta fechada. K. . . – Pode falar o que quiser comigo. na verdade. o segurou. .. Depois se inclinou para perto de mim. os pulmões ainda não estão totalmente desenvolvidos e está respirando com o auxílio de um ventilador.. E a mochila parecia estar se mexendo.. e fechei os olhos. de olhos ainda fechados. A mochila por um triz não saltou do colo dele. Ele ergueu a mochila até a beirada da cama e abriu o fecho éclair. K.O que há aí nessa mochila é uma máquina de moto-contínuo ou é você que está feliz em me ver? O Dr.pensei abatida.Isso aqui foi um tanto arriscado – sussurrou -. Nós andamos praticando – ele tirou Nifkin de cima de mim e o colocou no chão. onde ele estava? . eu com a água. – Olhe só.. O traseiro de Nifkin foi de .. sofri uma histerectomia e não consigo parar de chorar. . com uma caixa branca de padaria numa das mãos e uma mochila preta na outra.. K. mas achei. Quando a porta se abriu novamente uma hora mais tarde. – Como foi que você. colocando a caixa em cima da mesa-de-cabeceira e a mochila no colo. – Ela é pequena. Aí eu olhei. . ainda não fomos apresentados. – Muitíssimo obrigada. por fim.Joy – falei.Nifkin! – falei. sabendo que as palavras nem davam para começar a expressar a alegria que ele me trouxe.Vim assim que fiquei sabendo – começou ele. enquanto Nifkin não parava de me lamber.. com a voz tão grave e categórica quanto a de James Earl Jones anunciando para o mundo que esta. – Não quero nem saber. Sentado – disse o Dr.. Usar o nome dela foi estranho para mim. Foi tão engraçado que eu quase sorri. sequer levantei o rosto para ver. como se eu estivesse testando o destino.

enquanto Joy aumentava de tamanho e se fortalecia. K.encontro ao chão tão rápido.Inacreditável! – falei. . bem. Ele saiu e Samantha entrou. . K. ei. e lá dentro havia um éclair da confeitaria Pink Rose. botas de salto alto. ela está na unidade de tratamento intensivo para nenéns. Minha mãe e minha irmã ficavam comigo durante o dia. Eles precisam esperar para ver. De repente. um brownie ainda no papel de embrulho do Le Bus e um potinho de framboesas frescas. para o Dr. a meu ver. tomei um golinho de água e falei para ela que estava cansada e queria dormir. que agora esperneava à beça. O Dr. me senti completamente exausta. grata.Humm! – exclamou Samantha. olhando para cima. Cannie – disse. enquanto ele arquejava. vindo direto para perto da cama. . uma pasta de couro cor de caramelo numa das mãos e os óculos e a chave do carro na outra. – Como é que ele sabe do que você gosta? ..assim que ficou sabendo – completei por ela. e me colocava a par das fofocas da Filadélfia. puxavam conversa. . . Maxi passou a semana vindo me visitar toda manhã. nós tivemos de escrever uma lista das nossas comidas favoritas. tinha deixado.. novamente dentro da mochila.. De fato.. que horas são? Quando é que vem o jantar? Você não teria aí. enfeitando cada artigo com seu estoque pessoal de anedotas. uma fatia de pudim de pão de chocolate do Silk City. emocionada por ele ter se lembrado.. sem se mexer um milímetro.Eu contei a ele – falei..Sei lá – falei.. Deitado – e Nifkin se deitou. bem na frente do prédio onde eu morava e ficar ali parado. colocando o cachorrinho. .Ei. Inclinou-se então para perto de mim.Inacreditável! – murmurei. falava das ex-estrelas démodé que Gabby estava entrevistando e do hábito que Nifkin desenvolvera de parar no meio do passeio.Eu estou bem e a neném. .. – Sam cortou uma fatia do éclair para mim. . com os olhos brilhando e a língua cor-de-rosa se retorcendo. . – Para a aula de gordura. eu vim. Finja-se de morto – e Nifkin caiu da lado no chão como se tivesse sido alvejado. por ter algo que fazer. e colocou a mão sobre a minha.Vou ver... – Nifkin. foi quem trouxe. Engoli por educação. Samantha arrebentou o barbante e abriu a caixa. nosso último número. Andy .. E faminta. mas senti na boca um gosto de poeira com pedras. teria? Samantha se levantou. – Como está o neném? . Eu fechei os olhos. Samantha veio me ver todas as noites depois do trabalho. tentando não demorar muito nas pausas onde eu normalmente viria com uma tirada sarcástica. Estava totalmente vestida de advogada: um alinhado terno preto.. .Ele aprende rápido – disse o Dr. Ergui-me um pouco da cama e coloquei mais um travesseiro sob as costas.Como está se sentindo? – perguntou Sam. sentava-se ao meu lado e lia para mim as revistas People. – Isso é para você se sentir melhor. aquilo foi inacreditável. uma banana na bolsa. K. Dê uma olhadinha. K. – E agora. o que é isso? Ela apontou para a caixa de padaria que o Dr. Passei mais uma semana no hospital. In Style e Entertainment Weekly.. me curando.Cannie – foi dizendo -... de barriga no chão. Samantha soltou um suspiro. por acaso.

. mas provavelmente vai ficar bem. passando as pontas dos dedos pelas mãozinhas dela. Vou ensiná-la a nadar. servindo um copo de refrigerante que ninguém quis beber. “Queremos que você melhore logo”. nunca se arriscou em nada. E eu amo você. pensei. meu neném. e nós duas vamos aproveitar. tudo que minha mãe me ensinou e tudo mais que eu aprendi. Não achei que aquilo fosse acontecer. Fiquei calada. Joy Lia Shapiro. Raquel comprava CDs da Celine Dion e aquelas coleções de pratos do Franklin Mint. não precisa falar se não quiser – disse minha mãe. O mundo é duro a maior parte do tempo. Segure firme. Aposto que nadava nua e dormia sob o céu estrelado. Ela agarrou meu dedo com toda a força dos seus dedos minúsculos. . dizia. – Pode ficar simplesmente descansando.veio com a esposa e trouxe uma caixa dos famosos biscoitos de chocolate com flocos. Aposto que Lia teve uma vida mais interessante. Basta você conseguir sair daqui.. até para si mesma. e antes de sair preenchi sua certidão de nascimento. Melburne – disse. pensei para ela. os médicos me advertiram. Lia. Endireitou minhas flores. com toda a força do meu pensamento. da Fourth Street. Pude sentir os ossos. É preciso esperar para ver. engodo de noiva. Fiquei sentada com ela durante algumas horas até que me fizeram voltar para a cama. E finalmente deixaram-me pegá-la. a segunda irmã. quando minha mãe estava no corredor falando qualquer coisa com as enfermeiras. se estivesse com vontade. Venha para casa. ou pode alguma coisa ainda dar errado. Ela pode ficar bem. Três dias depois. – Eu fiz umas consultas com ela. Joy querida. sussurrei para o meu neném. . Agüente. mas também há coisas boas por aqui. É melhor você se alegrar e começar a falar um pouco mais. sentou-se. Lia. Era provavelmente uma chata. segurando-lhe a mão. Joy respirou sozinha pela primeira vez sem o ventilador. tornou a se levantar.Cannie. nós vamos nos aventurar por aí. sentada na minha cadeira de rodas e ela em sua caixa de vidro que eu me forçava a não enxergar como um caixão.É a Dra. e minha caligrafia estava clara e firme. e um cartão assinado por todos da redação do jornal. senão ela vai lhe fazer um monte de perguntas sobre a sua infância. a velejar e a fazer uma fogueira. erguendo no ar seus dois quilinhos e aconchegando-a contra o peito. aquela com a qual Jacó não quis se casar. ajeitou meus travesseiros pela décima quarta vez. . mas não lhe disse nada. Sua mãe a ama. aquela cuja pai enviou disfarçada pelo corredor. . enfim. Aposto que Lia fazia caminhadas com as amigas e jantava pipoca com margaritas.. cujo segundo nome era Leonard. procurando mais o que fazer. o pulsar de seu sangue correndo por baixo da pele.Estão preocupados com você – sussurrou Lucy. É horrível. Lucy estava com um ar muito sério. Joy. minha pequenina. por cada uma de suas unhas pequeníssimas e perfeitas. Olhei para ela e dei de ombros. Nunca viveu nenhuma aventura.Querem que você converse com um psicanalista. Mas eu e você. Lia era em homenagem ao pai de Bruce. Ainda não estava totalmente a salvo.

– Queremos ter certeza de que os pulmões dela estão perfeitamente desenvolvidos. e que ela está ganhando peso. Lucy estava praticamente dançando.Dá para acreditar numa coisa dessas. mas não vi. quando Lucy enfiou a chave na porta do primeiro andar. . tenho certeza. Cannie? Não é impressionante? . Olhei as folhas. macio e confortável. ambos estofados em brim amarelo-manteiga – bonitos.Eu não moro aqui – falei. Peter com seus aventais de pregas bem engomados. e ainda pilhas de livros de neném recém-nascidos nas prateleiras. Atravessei o vão da porta mancando. Vai ganhar peso feito uma campeã. . Olhei. O sol entrava pelas janelas que não estavam lá antes. Minha mãe foi andando devagar ao meu lado e Tanya amuada atrás. pisando pesadamente com o gesso no assoalho de madeira de lei. O médico me deu um tapinha no ombro a título do que. sem uso. o tornozelo coçava dentro do gesso.Só por mais algumas semanas – disse o médico. o pacote de chicletes pela metade. a grama verde nova. . o que me deixou de gesso por seis semanas: café pequeno em relação a tudo mais que eu estava passando. Lucy levou minhas malas. Os pontos doíam.. a manteiga de cacau e o maço de fósforos do Star Bar pareciam relíquias de uma outra vida. e entrei no carro da minha mãe. . lembro-me de ter dito a Maxi ao destacar coisas que cobicei no último número de Martha Stewart Living numa tarde ao léu.Dois dias depois. Para mim. Minha mãe e Lucy descarregaram a bagagem e me acompanharam até o prédio. – Vai dar tudo certo. quando ele disse isso. piscando. ficando calada até a minha casa.. Saí do hospital mancando. A carteira.Não se preocupe – falou. de forma que o pé ficou torto e os tendões distendidos. fora de si de tanta alegria. Era como se não houvesse espaço dentro de mim para qualquer coisa além de fúria e medo. mas preferiram que Joy ficasse. o mundo inteiro estava cinzento. Lucy estava me olhando exultante. mas sólidos. piscando ao sol quente de maio. Acontece que eu só torci o tornozelo quando caí. Havia um televisor de tela plana e um equipamento de som estéreo novinho em folha num canto. Minha mãe e Tanya também. . Os músculos de minhas pernas estavam bambos. Armários novos pintados na cor do mel de trevo. . mas ninguém pensou em examinar as minhas pernas até alguns dias depois. isso aí não vai ser problema. Vasculhei minha bolsa. e entrei. Eu estava atrás do meu chaveiro. Entrei na cozinha devagar. achou ser um consolo. O apartamento – gêmeo do meu no terceiro andar.Agora mora – disse ela. Na sala. azul-escuro e dourado cobria o assoalho. parte do meu desejo foi realizado. Soltei uma risada amargurada. reluzindo no impecável assoalho de bordo bem encerado. num tom que certamente ele imaginou reconfortante. Deram-me alta. movimentando-me como se estivesse dentro da água. as alunas do St.Se ela puxar à mãe – anunciei -. tampouco estava bem encerado na última vez em que estive ali. que não era impecável nem de bordo antes. todo em madeira escura e com equipamentos da década de 1970 – fora transformado. havia um sofá grande novo e outro de dois lugares. Um belíssimo tapete urdido em granada.

um barco à vela. Mas o resto da mobília era nova. meus lençóis cor-de-rosa foram substituídos por algo estupendo – grossas listras brancas e douradas. Tudo. O papel de parede da era da administração Carter. destacando as fronhas dos travesseiros e os babados da colcha. nuvens e luas crescentes. ainda mais exultante. juntamente com uma variedade de brinquedos de banho. com apliques em dourado e azul-marinho. . Havia quadros emoldurados nas paredes – uma sereia nadando no mar. uma penteadeira. Exatamente o mesmo cavalo de pau que eu admirara numa loja em Santa Monica dois meses atrás. uma profusão das toalhas mais grossas que já toquei empilhadas em cima de uma novíssima prateleira. e mais alguns que eu ainda não tinha visto.Você não vai nem acreditar – disse minha mãe. E no canto havia o que mais parecia a menor filial do mundo da Toy “R” Us. Os armários eram novos e tinham a frente em vidro. e uma churrasqueira a gás do tamanho de um Fusca no canto. Dirigi-me novamente ao quarto com passadas vagarosas. .. havia montado. havia sido substituída por outra. a horrível penteadeira de madeira escura. . para o caso de eu querer tomar banho com um parceiro.E tem mais – falou Lucy. uma mesinha de piquenique. Um conjunto de blocos de montar. o tapete tecido à mão (amarelo. K. indicando os méritos de minhas novas roupas de cama. elefantes marchando em fila dupla. A janela do quarto agora dava para uma varanda nova. Fui lá e abri. e abrindo o closet para exibir ainda mais detalhes da mobília antiga pintada de branco.Abra as cortinas – disse Lucy. passando uma grossa ponta de dedo pelas curvas da madeira pintada de branco com uma pitada de cor-de-rosa. . Havia um enorme vaso de barro cru com gerânios e petúnias.Tudo isso é puro algodão – vangloriou-se Lucy. Deixei-me afundar lentamente no sofá duplo estofado em brim amarelo. Chocalhos. bem embaixo do delicado móbile de estrelas. A banheira era de hidromassagem. . com lírios frescos num vaso. Ali estava todo brinquedo que já vi na vida. e reconheci o berço que o Dr.Não sei o que dizer – falei. ou choravam se a gente as apertasse ou puxasse suas cordinhas. Minha cama. com uma magnífica cabeceira em ferro batido. Bolas. ou latiam. igual ao que eu tinha mandado pintar lá em cima. com seu despojado estrado metálico. Um gaveteiro com nove gavetas. Uma banheirinha branca para dar banho no neném em cima de um balcão. As paredes estavam pintadas de amarelo-limão. uma cadeira de balanço de madeira branca. . Brinquedos que falavam. Agora eram azulejos brancos até o teto. esponjas no formato de bichinhos e uma família de patos de borracha. as ferragens baratas de aço inoxidável e o vaso rachado – tudo foi embora. com uma pitada de cor-de-rosa. bancos. andando pelo corredor. com minúsculas flores cor-de-rosa. ao lado de um ursinho de pelúcia com um metro de altura.Antigüidades – falou Tanya num suspiro. Vi uma mesa de trocar fraldas toda ornamentada. supus. uma mesa-de-cabeceira encimada por um esplêndido buquê de narcisos dentro de um jarro azul berrante. com duas duchas. com as bordas decoradas por rosas cor-de-rosa) no chão. O banheiro estava irreconhecível. .Espere só até você ver o quarto da neném – disse Lucy.

e de repente me senti tão zangada que meus braços e pernas ficaram fracos de tanta vontade de socar e chutar. – Dos seus amigos – dizia. tinha gente trabalhando aqui tipo vinte e quatro horas por dia. .Está passando um documentário sobre lésbicas avantajadas no Ritz – rugiu Tanya. enquanto passavam pela porta uma atrás da outra. . o seu pé ainda está engessado. – Então. Cannie. num dos lados.Então.Seus amigos – disse Lucy.. Fui me levantando e dizendo: .É um gesso de caminhar. como se estivesse sentindo os lençóis de algodão macio e os carpetes fofos através de luvas de borracha...Você gostou? – perguntou Lucy. contratou uma decoradora para encontrar tudo isso para você. Minha mãe.Acho que prefiro dar um passeio. . Lucy e Tanya me olharam.. – E eu estou com vontade de andar um pouco. esperando ouvir minha aprovação. Nada disso faria sentido até que a minha neném viesse para casa. tinha um lugar maravilhoso para morar. . . enquanto estamos aqui para ajudá-la a carregar. Abri-o com a ponta do polegar. Todas ficaram intrigadas...Eu me sentei – caí sentada. Queria me rejubilar com isso.. – Vou sozinha. o que é que você pretende fazer? – perguntou Lucy. Enfim. do outro. . Quero ficar sozinha agora.Cannie – minha irmã chamou a atenção -. – ergui os braços e os deixei cair sobre o colo..É. – Poderíamos ir jantar no Dmitri. . pensei. .. Encontrei a palavra que precisava.. – comecei. olhando para mim. impacientemente. sério – disse minha mãe. Conhece um monte de firmas de construção. . Minha mãe. pensei. enquanto Bruce e sua nova namorada foram os que a puseram lá? . do tipo que se recebe junto com um buquê de flores..Ora. .Não – falei. Estava cercada das pessoas que me amavam.Um passeio? – repetiu minha mãe. Mas tinha a impressão de estar olhando para o meu novo apartamento por um espelho sujo. .Meus vizinhos devem ter adorado – falei. com certo desconforto. – Como. . na verdade – na cama. – Ela não aceitava não como resposta. – É impressionante – falei afinal.Quer fazer compras? – perguntou minha mãe.Maxi? As três trocaram um olhar furtivo entre si. . . Bruce e aquela vagabunda que me empurrou! Este deveria ser o meu momento de triunfo.. Bruce. curiosas.Quem. Queria me sentir feliz. até preocupadas. Havia um cartãozinho minúsculo no travesseiro. me levantei. vamos passear. mas como é que eu poderia ser feliz se a minha filha ainda estava no hospital. Meu coração estava batendo rápido demais.É verdade.Seja bem-vinda à sua casa – dizia.Muito bem – disse minha mãe.Não tivemos como impedi-la – falou Lucy. não é? – retruquei. . Lucy e Tanya estavam em fila. . .. vocês! Como se eu tivesse outros amigos que pudessem arcar com tudo isso! . bombeando dor para todas as partes machucadas do meu corpo.. Era a Joy – a falta dela. – Talvez seja bom você se abastecer. droga.

percorrendo os trinta quarteirões até o Hospital Pediátrico da Filadélfia assim que o sol nascia. seis horas. a que flutuara até o teto e me observara soltando os cachorros em cima do Bruce enquanto silenciosamente eu remoia que não era com ele. como desjejum. saíssem da minha casa. Voltava para casa e ficava andando de um lado a outro. E num dos passeios. Ia vê-la de manhãzinha. quinze da minha mãe. ziguezagueando pelos piores bairros da cidade. aquela do aeroporto. a voz murmurava enquanto eu mancava ao longo da Walnut Street.Telefone para mim – falou minha mãe. bombeava os seios. O gesso caiu e eu comecei a dar passeios ainda maiores – quatro horas. coloquei um sutiã de correr. . roçando as pontas dos dedos nos lábios dela. do meu apartamento silencioso e da minha cama vazia? Deixei a secretária eletrônica continuar atendendo os meus telefonemas. determinada a não pensar no meu pai. e depois lavava e esfregava os assoalhos que eu havia lavado e esfregado no dia anterior. sem ver nada disso e sem ficar com medo. quando sentia o peito apertar e as mãos querendo bater. até o dia em que comecei a apagá-los sem sequer ouvi-los. de todos os meus amigos – e depois apagava um por um sem dar retorno algum. O mês de maio virou junho. E assim talvez eu conseguisse dormir novamente. enquanto eu tomava vários cafezinhos escaldantes. em nada. Aceite ajuda. Tive a sensação de estar queimando. Eu a ignorava. Acostumei-me à vozinha dentro da minha cabeça. segurando-lhe a mãozinha minúscula. carcaças de carros incendiados. Como é que alguma dessas coisas poderia me ferir. Eram esses os únicos momentos em que não me sentia consumir pela ira.Vou telefonar – menti. pombos mortos na sarjeta. Vestia um avental. Quem poderia me ajudar agora? o que restava para mim além das ruas e do hospital.. como se precisasse me mexer e explodir. Fale com alguém. e perguntado Por quê? Novamente à noite quando ouvia os recados – dez. da minha vida. Fique tranqüila. Acostumei-me à vozinha perguntado Por quê? Todas as manhãs quando amarrava o tênis e enfiava uma sucessão de camisetas ordinárias pelo pescoço. na minha neném. dizia a voz. varando sinais amarelos e lançando olhares malévolos a qualquer carro que ousasse ultrapassar um centímetro além da faixa. Você está triste demais. E dava caminhadas prolongadas e enfurecidas pela cidade.. Fiquei olhando pela janela até que todas entrassem no carro e se fossem. e todos os meus dias se passaram em torno de Joy.. Deixei o correio encarregado de segurar minha correspondência por um tempo indeterminado em que estaria fora da cidade. e de Peter Krushelevansky. no Bruce. os únicos em que podia respirar. do meu pé. e me sentava ao seu lado numa cadeira de balanço esterilizada dentro da UTI neonatal. uma camiseta velha. Só queria caminhar. zonas de prostituição masculina e feminina. Então. pegando logo a calçada quente. um short. saía de perto dela. uma xícara depois da outra. depois do que já perdera? Quando encontrei com Samantha na . passando por traficantes de crack. deixei o meu pager cair dentro do rio Delaware sem sequer perder o passo. um único pé de tênis e saí de casa. Quis que elas saíssem logo. com o tornozelo no gesso cada vez mais imundo. – Diga quando estiver pronta para receber Nifkin de volta em casa. colocava as luvas e a máscara. da minha irmã. de Maxi. cantando-lhe as canções que havíamos dançado meses antes. E quando sentia a raiva voltando. Parei de verificar o meu e-mail. Deixei o computador se encher de poeira. dizia a voz.

mas não se beijando ou de mãos dadas. bruscamente.. está tudo bem. ela não está preparada. café da manhã? Era uma das refeições que mais gostávamos de fazer juntas. Cannie? – perguntou Sam.Cannie. já movimentando os pés com os olhos fixos em um ponto muito adiante. paquerando as mulheres com ares de cobiça desavergonhada. tentando me esgueirar pelo lado dela. experimentado um termo que ouvira diversas vezes na ala de tratamento neonatal intensivo. Via criancinhas fugindo em disparada com bicicletas roubadas. Arrumando as coisas. as coisas tristes. e adultos que pareciam se refestelar com seu próprio muco. . . DEZENOVE Andei e andei. .O que você quer dizer.Nada – falei. de verdade? . . – Depois nós saímos para tomar café juntas. Via maridos e mulheres brigando. . Você se lembra. e era como se Deus tivesse me equipado com óculos especiais através dos quais eu só pudesse ver as coisas ruins. nada. passando de um pé para outro e com o olhar cravado no horizonte para não ter de ver seu rosto preocupado. quero dizer.rua.Está frágil. eu fico do lado de fora olhando pelo vidro – falou Sam. . . Samantha não se afastou um centímetro sequer. O neném volta para casa em breve. com ar de perplexidade. o que é que está acontecendo com você.Posso vê-la? – perguntou Sam.Eu preciso ir – falei. me preparando para voltar à carga.Então. a dor e a angustia da vida na cidade.Eu não estou preparada ainda. galgando o espaço além dela. xingando e insultando umas às outras em altos brados. o lixo jogado nos cantos em lugar das flores plantadas nas jardineiras das janelas.. disse-lhe que estava ocupada demais para jogar conversa fora. balancei a cabeça. em termos médicos – falei. Sentia o fedor da cidade no varão: mijo de . Instantaneamente. – Nada.

enviada para a sua casa. contadas na primeira pessoa. só enxergava o vazio. as calçadas expeliam o calor do mêtro. nem palavra alguma. na UTI neonatal. surdez. que nunca conseguiram se endireitar. Imaginei que poderia telefonar para a universidade onde Bruce dava aulas de inglês para calouros e dizer-lhes que ele só passou no teste de drogas porque ingeriu litros e litros de água morna. a perda da minha neném. tentando sorrir e parecer normal. a solidão. de pais cujos filhos haviam sobrevivido. desgosto. Imaginei que poderia escrever para a Moxie. disfunções do aprendizado. prédios de janelas quebradas. mas ainda a visão patética de um neném todo entubado. para quem me empurrou. que tinham vindo para casa com balões de oxigênio ou monitores para apnéia no sono ou com buracos abertos na garganta para poderem respirar. Poderia telefonar para a mãe dele. temperada com selo de ouro. “Nossa filha querida”. Para onde quer que eu olhasse. com quem sabe os horrores que o futuro lhe reserva – paralisia cerebral. E li histórias sobre nenéns que morreram: no parto. que foi responsabilidade dela. As tampas de bueiro fumegavam. era como chamavam o négocio. com seqüelas terríveis. Li sobre crianças que cresceram com perturbações. e ainda dava algumas voltas no estacionamento até me sentir calma o suficiente para entrar. retardamento mental. viciados trôpegos com as mãos estendidas e olhos de zumbi. seus pais se os conseguisse encontrar. percorrendo seus cominhos subterrâneos. outro. crescendo e se fortalecendo. para mostrar-lhes tudo que ela fez. comprado por telefonema gratuito a um anunciante das últimas páginas da High Times. Caminhava até o hospital no raiar da manhã e ás vezes antes. e se o observassem o tempo suficiente. mas para falar a verdade na minha cabeça eu só planejava vingança. Sentava-me na cantina virando um copo de água atrás do outro. e provavelmente ainda fazia. mandar detê-lo. respirando quese sempre mediante o auxílio de um ventilador. Poderia contar que ele estava indo trabalhar doidão – ele costumava fazer isso. seu patrão. Achei que o tempo me curaria e os quilômetros aliviariam minha dor. Tive vontade de copiar essas histórias e enviá-las. tendo ataques os mais variados. a perda de Joy. sua escola. E depois. um leque de desastres que os médicos não mencionaram. mas por dentro minha cabeça girava furiosamente. pior ainda. Entrei na Internet e visitei sites sobre crianças prematuras.cavalo e asfalto quente e uma enjoada fumaça cinzenta que os ônibus soltavam. e li histórias. Ainda não tinha entrado. Dei para planejar passeios que me levassem a passar em frente de lojas de armas. o quê? Não me deixei responder a pergunta. e que jamais se recuperaram. sujeira e podridão. levá-lo preso. Almejava uma manhã na qual acordasse sem imaginar de imediato Bruce e a namoradinha que gosta de empurrar sofrendo horríveis mortes nojentas. Não me permiti pensar além da imagem. chamar a polícia local. E me deparei olhando nas vitrines dessas lojas. iriam ver. juntamente com uma fotografia de Joy. era um dos títulos. ou. Sorte da Urina. o quadro que estava acalentando: o rosto de Bruce quando abrisse a porta e me visse ali parada . Quis enviar-lhe a fotografia de minha filha – não uma carta. apenas a foto de Joy. pensando em facas? Armas? Acidentes de carro? Sorria e dizia bom dia. mas sabia que era o próximo passo. anexando uma foto de Joy na UTI neonatal. cegueira. em casa... “Nosso anjinho precioso”.

exceto pelo friozinho que me deu na nuca. Pelo menos. por si só. Não dá para acabar assim do nada. . “Não conheço um jeito fácil de dizer isso”.com a arma na mão.. enviado um cartão! Tornei a prestar atenção ao que estava escrito. perdi a chave. uma certa manhã. o rosto de Bruce quando eu dissesse: “Vou-lhe mostrar o que é sentir muito”. em letras grandes pretas. É como se a palavra. De verdade. Não chegava a tanto. Um homem! Um homem me teria telefonado. Para mim e C. Mas não sou um homem. “Minha filha.Moça. imaginando qual seria a manchete.” “Gravida”. indicio de pavor. Acontece que o que eu sou é um covarde. sentindo esse frio gélido no estômago. e eu não consegui mais ler. Estou grávida. sentindo esse frio gélido no estômago. vai pagar pela revista? .Não – grunhi -. vou roubar de você – joguei dois dólares e algumas moedas em cima do balcão e comecei a folhear furiosamente a revista. tivesse me acertado em cheio. “portanto vou dizer logo. é preciso dar o movimento inicial. guardei o caderno dentro de uma gaveta e. diz a carta. o vegetal?” “Como acabar de vez com a vida da sua ex?” Mas o que vi foi apenas uma palavra. desta vez. olhando para a multidao de amigos e parentes enquanto dizia aquelas palavras consagradas pelo tempo: “Hoje eu sou um homem. tão alto que os mendigos que vagavam pela calçada pararam para me olhar. dezesseis anos atrás. Dizem – quem diz são os grandes filósofos. .” Lembro-me de estar no bimah na minha sinagoga em Short Hills. Então. estava passando à toda por uma banca de jornal quando vi o último número da Moxie. começar a balançar a coisa de um lado para o outro algumas vezes. Era: “Complicações. eu sou um homem.” Agora. muito embora ainda estivéssemos em julho e fizesse um calor tão forte que o ar tremulava de quente a o asfalto amolecia sob o sol. eu sei a verdade: Hoje. sem querer ou de propósito. Arranquei um exemplar da prateleira. ela escreveu. Enfiei a carta dentro de um caderno.Nem tanto! – falei. . uma incongruência sombria na descomprometida linha em tom pastel seguida pela revista. ou possivelmente o elenco de Seinfeld – que romper um relacionamento é como derrubar uma máquina de Coca-Cola. sentindo as palmas das mãos começando a suar. deixando-me paralisado. edição de agosto.

menos de três meses depois. nem telefono. se foi ao consultório de um médico. nem sequer um cartão. Intenso e horrível. E depois. nem um rompimento. uma carta. chorei tudo que tinha para chorar. . Fiquei andando de um lado para o outro com o telefone na mão. já sequei a fonte. três meses depois. sem restrições. Ou se está andando pela casa dela.Droga! Isso é inacreditável! E O negócio é o seguinte: estou acovardado demais para perguntar. terminou. da minha vida. meu pai morreu.não foi assim. . Posso explorá-la todas as noites. Foi um rompimento despojado. encerrado em questão de segundos. Não envio um cheque. a cartada é sua. ou novo namorado. Então. pensei.anunciei para toda a Broad Street. Não resta nada para ela ou . se foi com uma amiga. se sou mesmo o pai.Isso é inacreditável! . ou só. rápido – um raio. optei por sua amizade. Telefonar para ela? Não telefonar para ela? Ela era minha ex ou minha amiga? Afinal. Eu consigo silenciar essa parte de mim que fica imaginando coisas. Mas que mentiroso! Não foi um raio. ainda estou de luto pelo meu pai. imagino estar lhe dizendo com o meu silêncio. mas tenho a impressão de que já tirei C. optei por mais. Agora sei o que é a verdadeira tristeza. completamente. E agora. que quer saber como ela fez a escolha: se foi à clínica da Locust Street e passou batida pelos manifestantes com imagens de sanguinolentos nenéns mortos. com a barriga do tamanho de uma bola de vôlei e um monte de livros cheios de nomes de neném. o jogo é seu. E eu não sei se ela resolveu me pregar uma peça ou me amarrar. eu só lhe disse que queria dar um tempo. A escolha é sua. Para mim. ou se ela está mesmo grávida. como uma criança que perde o dente e não consegue parar de passar a língua pelo buraco que ficou na gengiva amolecida de onde saiu o dente. Não pergunto. Mentiroso. Só que agora ela está grávida. É a sua vez. quando um punhado de gente estava recolhendo as bandejas de salgadinhos no velório. com o número dela em primeiro lugar na minha lista de discagem rápida.

Seu rosto ficou dois tons mais pálido do que sua base Estée Lauder.Não vale nada. Mas no fundo eu sei que só conseguirei adiar isso até um certo ponto. . todas as tramas na cabeça. Eu acordo. Eu tinha enrolado a Moxie feito um canudo como se estivesse pronta para bater num cachorro. Pairava no ar um leve ar um leve aroma de Allure.falou finalmente. tentando manter a pontinha da língua longe daquele buraco no meu sorriso. Mas tento não pensar muito nisso. entregando-a. suas unhas recém-pintadas reluziam sob as luzes fluorescentes do corredor. Quando me permito pensar nisso. Ela nem se deu ao trabalho de olhar para a revista. exatamente no ponto diante da incubadora de Joy.para o neném. e seios desproporcionais. . graças ao .Cannie! – disse ela. incrédulos. Dava para ver o esqueleto do meu rosto e as pontas dos ossos da bacia.Tome . – Nossa. vou para o escritório enfrento a rotina. faço ginástica. está uma carta com o meu nome.indaguei. que susto! Fiquei olhando para ela. . tendo por único alimento um pãozinho ou uma banana e inúmeras xícaras de café puro e amargo. sem dizer nada.Em algum lugar da minha escrivaninha. estava a própria Jessica Rabbit: sem bunda nem barriga. de fato. já me dirigindo para o berçário.O que você está fazendo aqui? . Audrey do Bom Gosto Eterno tinha se arrumado sob medida para ir visitar a primogênita prematura ilegítima de seu filho. Na minha geladeira só havia garrafas de leite tirado do peito. uma pulseira larga de platina com diamante num dos pulsos. De perfil. . enquanto seus olhos me examinavam por inteiro. se houver um.Chegou tarde! .bronqueou a enfermeira chefe. fico furioso comigo mesmo (como é que eu pude ser tão burro?) e furioso com ela ?(como é que ela foi me deixar?).Concordo . Avistei logo os cabelos grisalhos curtos e impecavelmente penteados. mais nada. Fui até o berçário e.Tem uma pessoa aqui que quer vê-Ia . Eu não me lembrava da última vez que me sentei para fazer uma refeição. .. lá estava uma mulher olhando pelo janelão.disse. Audrey engoliu em seco e deu dois imensos passos para trás. .falou ela. que nem mesmo a minha covardia poderá evitar o inevitável..Eu não leio esse tipo de coisa .falei. e colocou a mão com força sobre o peito. .falei. mas logo abriu um sorriso para mostrar que não foi a sério. um elegante tailleur cinza. pois o gosto combinava com a maneira como eu estava me sentindo por dentro. .Todas aquelas caminhadas.Você está tão magra . Olhei para baixo e observei sem muito interesse que isso era verdade. fechada dentro de um caderno trancado numa gaveta. .

Iria ganhar uma fortuna. . Os lábios dela estremeceram. Uma parte de mim queria que ela sofresse. Uma parte de mim queria vê-la assim se retorcendo ao vento. Nem seu nem dele.repetiu ela. .. Vigilantes do Peso 'e aulas de step. Já não parecia tanto uma toronja zangada.Posso ver a neném? . . e não dando a mínima. . .Ele nunca me falou .sussurrou ela mais uma vez.Quer ajudar.começou. lutando para encontrar as palavras. Audrey pôs-se a mexer nervosamente na pulseira. Vendi o meu roteiro.Que seria o quê? . ainda com o ventilador de ficção científica ligado ao seu rostinho quase o tempo todo. não perdera a ironia: Depois de uma vida inteira de obsessão.. Era. . que eu estava com olheiras imensas e. . sabendo exatamente quão duro aquilo estava sendo para ela. muito provavelmente. ainda frágil. Dei de ombros e plantei um dedo no vidro da janela. . sem dúvida alguma.Querida. . feliz da vida por chegarmos a um assunto mais ameno. Ela mordeu o lábio. finalmente descobri uma maneira de acabar com aqueles quilos indesejáveis para sempre! Uma maneira de me livrar da flacidez e da celulite! Para conseguir o corpo que eu sempre quis! Deveria comercializá-la. . A ficha no berço de vidro dizia "Joy Lia Shapiro". – Escrevi contando que estava grávida. Joy estava no centro do berçário. . . .leite. parecia mais um melão. o neném com os melhores gorrinhos de toda a UTI neonatal.Acho que você deve estar pensando. que toda manhã não deixavam de lhe colocar um gorro novo.. num sussurro de voz. .Bruce teve uma chance de falar comigo – disse. Se você não chegasse perto demais para perceber que os meus cabelos andavam grudentos de sujeira. deliberadamente brusca. pensei histericamente.Bruce anda dizendo que você não quer falar com ele. Ela estava só de fralda e um par de meias listradas de branco e cor-de-rosa.. . talvez. Mas Audrey era mais corajosa do que eu poderia supor.Ele quer acertar . meio para si mesma.perguntou. destacando bem as palavras.Ele disse que foi um acidente . A Dieta da ablação da placenta com histerectomia de emergência e neném com possível comprometimento cerebral.disse. Trouxe o meu estoque para as enfermeiras. Eu não falei nada. ele está tão arrasado com o que aconteceu! Soltei uma bufada.perguntei. cheirando mal. Seu rosto se iluminou. e um gorrinho cor-de-rosa com um pompom em cima. Contudo. Sabendo.Pedir à namoradinha que não cometa mais nenhum atentado contra a vida da minha neném? .Cannie. .Não preciso de dinheiro .falei. retorcendo a pulseira. mas ainda pequenina. tão alta que cheguei a me preocupar se não teria incomodado os nenéns. torcendo para que ela desmoronasse ante o meu silêncio. Girei os olhos nas órbitas. tirando tudo isso acho que eu estava uma gata.Ele quer fazer o que é certo. que maravilha! Não falei nada.Bruce não está com nada. de contagem de calorias. Ele nem sequer me telefonou.

chorando. em algum momento. Veja só.Não sei .Não sei ..Provavelmente. Audrey limpou os olhos com lenços de papel que tirou da bolsa. Eu fechei os olhos. desolado e até um pouco amedrontado. Foi ali que a enfermeira me encontrou. Quem sabe o que ela estaria pensando. Só aí é que vai para casa.Independente do que aconteceu entre você e Bruce. .Por favor.Vou dar uma volta.Eu gostaria de ser uma avó para ela . fábricas abandonadas. Lembro-me de ter comprado uma limonada para tomar e. com os punhos cerrados.falou. engolindo em seco o nó na garganta. parado para fazer xixi num terminal de ônibus. Eu confirmei e me virei para a porta. Sincera até não poder mais. encostada na parede. . Fiz amigos lá – nem bem disse aquilo. -Vá embora.Você quer que eu pegue alguma coisa? Um pouco de água? Balancei a cabeça.Ela vai ficar bem? . .Você está. bocas de fumo incendiadas. o tornozelo que estivera engessado começou a latejar. Continuei caminhando. mas não agora.Bruce não lhe contou que eu sofri uma histerectomia? Que nunca mais vou ter outro neném? Será que ele mencionou isso? .Sinto muito. pensei se era verdade. recostando-me na parede de vidro.disse-lhe. .repeti.perguntou. . depois de algumas horas. os pulmões precisam crescer até que ela possa respirar por conta própria. Caminhei para o sul. depois para o leste. . até que as ruas.Eu quero ajudá-la . Ainda está pequena e precisa aumentar de tamanho. . bem? . . com o rosto virado e os olhos bem fechados. passando por trilhos de bonde. .Vá embora . as calçadas.ela tornou a dizer. Depois de mandar um recadinho formal de agradecimento que mal expressava um fiapo da gratidão que deveria estar sentindo por tudo que ela fez por mim. que não me telefonou.disse-lhe. . Posso lhe dar esse tanto.falei. .. . . iria percorrer o caminho todo até New Jersey. .. soltei a mão dela e virei o rosto. Estou cansada demais. e lembro-me de que. Achei que. Ignorei o fato.Joy Lia . Naquela tarde. eu diria.Do que aconteceu. os prédios se tornaram um borrão acinzentado.falei. eu estava dando na Maxi o mesmo gelo que estava dando em todos os meus amigos. caminhei durante horas a fio. Ela colocou a mão no meu ombro.E você vai ficar aqui? Vai criá-la na Filadélfia? . pensei. Afinal. .e fiquei ali parada. cuidadosamente.Por favor . até ouvir os saltos dela batendo no assoalho pelo corredor afora. Eles dizem provavelmente. . ou se ainda se consideraria minha amiga? Audrey endireitou os ombros.Não sei se quero voltar para o jornal ou para a Califórnia.Volto mais tarde ..disse. você escolheu o nome em homenagem ao meu marido? Fiz um breve gesto de confirmação com a cabeça. que me fez cair em cima da pia e quase perder o meu neném. e tocou no meu ombro. pelas curvas lentas e salobras do Schuylkill. Cannie .Ela. . de alguma forma. não foi ela que me ignorou. Podemos falar disso outra hora.. atravessando bairros estranhos.disse-lhe. num tom debilitado. .sussurrou Audrey.

aparvalhada. Onde estou? Não achei o bairro conhecido.a voz dele era grave e vibrante. Vasculhei os bolsos.Ei.continuou. até que senti algo estranho. afinal.disse ele. Um cara que estava sentado no alpendre.Está precisando de ajuda . e ele se aproximou ainda mais. . com a expressão cada vez mais preocupada. . e eu tive de sorrir.. . você está em Powelton Village.Só perdida . . .Você tem gente sua? . Já era um começo. neném! Está precisando de um novo par de sapatos. Veja só o que restou de mim. para as minhas canelas machucadas e cheias de manchas roxas. tive certeza absoluta de que ele iria começar a falar sobre Jesus. de camiseta branca e calça cáqui.falei. atrás de respostas. A minha neném está precisando de um novo par de pulmões.comecei. você está perdida. fez uma avaliação prolongada e minuciosa de mim olhou para o meu tênis. . Pelo contrário. Mas não.Está doente? – perguntou. Duran te um instante terrível.Está bêbada? – perguntou. neném.Tenho uma neném .Só fui dar uma caminhada e me perdi. pensei.Tenho . Balancei a cabeça.parada no saguão do prédio de Bruce qual um fantasma. que a sola do meu tênis velho estava se soltando e acabou caindo no chão da rua. Nenhum dos nomes de rua me dizia nada.Ei! – gritou ele. qualquer coisa. Ajuda. Marcava oito e trinta e.Para onde fica a University City? . . e vi. Olhei para baixo. .. é melhor se achar . ou pelo menos de dinheiro para o táxi. enquanto eu olhava ora para o sapato. Examinou meu rosto bem de pertinho. . soltou uma risada escandalosa.Não. qual um sentimento de culpa. eu não soube dizer se era da manhã ou da noite.falei. Caminhei tanto. Ele balançou a cabeça. e o sotaque do sul. Olhei para o relógio. balançando-se para trás. Baixei a cabeça e confirmei. Virada pelo avesso! .ele acabou dizendo. Eu precisava de ajuda. .chamei pelo cara do alpendre. não .Menina. por um breve instante. Pois. Isso era verdade. um telefone público. um punhado de moedas e outro tanto de fiapos. que já vinha usando há cinco dias seguidos. qual um machucado que já teria formado a casquinha. uma sensação que não me era familiar. E estava escuro. . . – Oh. Levantou-se do alpendre e veio falar comigo: um negro de meia-idade. levantando o pé esquerdo.disse-lhe. . melada e exausta.Então. do outro lado da rua. onde é que eu estou? Ele soltou uma gargalhada. Encontrei uma nota de cinco dólares. caindo aos pedaços. Procurei um marco de referência. .Ei! . e para o meu cabelo.perguntei. Estava suada. mancando e olhando ao redor.Vai para a faculdade? . ora para a sola e tentava encontrar o nexo daquilo. . para o short. e minha garganta se fechou. e eu balancei a cabeça novamente. para a camiseta. que tinha crescido além dos ombros pela primeira vez em mais de uma década e já estava improvisando um penteado rastafári por falta de água e escova.Powelton Village! Aí. . que eu tinha dobrado na cintura para que não caísse. tudo bem. . Uma dor no pé. e perdida. mas de repente volta a sangrar.

Colocou o braço em torno dos meus ombros e me acompanhou delicadamente até o sofá..Vá para a esquina da 45th Street. e puxei a cordinha do ônibus com tanta força que achei que iria arrancá-la. contornou sua mesa. Vinte quilos de flacidez horrenda perdidos em questão de meses .ele enfiou a mão no bolso. achando que iria encontrar todas as luzes apagadas e as portas trancadas. . .disse ele. afagando carinhosamente. Eu fiquei.Vou levá-la para casa. e comecei a chorar. Todos estavam demasiadamente envolvidos em seus pensamentos habituais a caminho de casa depois do trabalho . . Comecei a mancar em direção à esquina que ele havia apontado. me levasse para fora do prédio e até o seu carro.Eu sou uma história de sucesso . K. Ele colocou a mão na minha cabeça. . fungando. Depois se inclinou para baixo e olhou para o meu sapato.E me perdi – falei.Ele levantou o braço e apontou. pensei. . Nojenta cio jeito que eu estava. seca. Deixei que ele me conduzisse até o elevador. Ele não disse .Vou tomar – falei. da Universidade da Filadélfia. chegou perto de mim e sentiu o meu cheiro.esfreguei uma das mãos pelos olhos.Saí para dar um passeio – comecei a falar. patética.Fique aqui .Você é uma mamãe agora e precisa tomar cuidado. Medo de que.Vá com cuidado . As coisas começaram a me parecer mais conhecidas novamente.disse. E deu uma boa olhada. O ônibus cruzou a cidade aos trancos e barrancos. com os sapatos remendados com fita prateada e lágrimas riscando lentamente o rosto melado. Avistei o estádio.Sente-se .disse o DI'.Viva eu! .A University City é para lá . com o sotaque sulista ainda mais forte. e a porta aberta. exatamente.jantar.falei. e a sentir a língua dura. . meu Deus. filhos. Eu levantei o pé e ele passou várias voltas de fita ao redor do meu sapato para segurar a sola.Cannie. os arranha-céus. Exultante até que se levantou. o que aconteceu com você? . pensando por que estava me dando a esse trabalho. a reluzente torre do Examiner à distância. não mereci mais do que uma breve olhadela de um ou outro dentro do ônibus.disse ele. Minha voz tinha ficado estranha e crocitante. E depois avistei o consultório do Centro de Tratamento de Distúrbios Alimentares. eu não sabia. . Na saída. mas agora estou tentando me achar. . e tentei sorrir. É melhor eu me achar. Quando a única coisa com a qual eu me preocupava era o fato de não ser magra. ele foi até a máquina de refrigerante e comprou uma lata de Coca-Cola gelada para mim. Ai me perdi. onde havia ido um milhão de anos atrás. exultante. – Veja só. Peguei-a sem dizer nada e tomei tudo de um gole só. Peguei um elevador até o sétimo andar. o ônibus vai direto até lá . . encontrou um bilhete de transferência um pouco amassado e o colocou na minha mão. Mas a luz dele estava acesa. e fechou a porta. O homem saiu de casa com um rolo de fita adesiva prateada na mão.Cannie! .disse ele. . . e os lábios rachados. sem mexer um músculo sequer. o que iria passar na TV.Fui dar um passeio e virei pelo avesso. . . os pormenores das vidas normais. . onde me sentei.falei.Estou magra . imóvel.

com aspereza -.Para onde estamos indo? .Em casa e no trabalho. Paramos num sinal vermelho. . . Mas no exato instante em que falei..Venho tentando falar com você .Você se lembra de quando nós a visitamos. meu Deus. Não tinha planejado nenhum diálogo além de "ocupada". Já fazia tanto tempo desde a minha última conversa informal com alguém que precisei de alguns instantes para escolher as palavras corretas. com os sapatos em frangalho e com a cabeça tão cheia de raiva que parece que vai explodir? Passamos mais alguns quarteirões em silêncio. Eu não conseguia pensar em nada para falar. .Não estou maluca . Sabia que havia perguntas a fazer. andando por aí imundos.Cannie – falou. O carro de trás buzinou.Ando muito ocupada . somente ao som reconfortante do carro e do ar fresco que saía do ar-condicionado em cima dos meus joelhos e ombros. .gritei. .perguntou-me. . Num sinal. Meus seios estavam doloridos. . .e me deu uma olhada rápida. argumentos a defender. é muita gentileza sua .Como vai Nifkin? Ele se lembra de alguma coisa que eu ensinei? .bebi a água. Eu puxei o rosto para trás corno se tivesse sido queimada. com delicadeza. . .consegui perguntar. . Entrou numa loja de conveniência e saiu com uma garrafa de água e um picolé de laranja. .Ocupada com quê? . .falei. . Ele esticou o braço para limpá-la.declamei. Circulamos em silêncio durante algum tempo. .perguntou ele.Não! . mas ele não andou. novamente. nem quando eu soltei um sonoro arroto. finalmente. . não tive tanta certeza assim. onde os restos do picolé se dissolviam. ele começou a falar novamente.Anda comendo direito? – ele me olhou de esguelha na escuridão do carro. mas parecia que a minha cabeça estava cheia de zumbido de estática.Eu deveria ir para casa. . negativamente. . Olhei para baixo e não me surpreendi ao ver duas manchas redondas abaixo do V de suor da gola da camiseta. . .Você está trabalhando? . Una única lágrima escorreu pelo meu rosto. não se lembra? Confirmei.. Ou para o hospital Eu deveria voltar para lá.Não tenho visto nenhum artigo assinado por você.Cannie.nada. Será que os loucos sabem que estão malucos? Ou será que se acham perfeitamente normais.Ocupada . o que há com você? Balancei a cabeça.disse ele. Noutro sinal.Obrigada .crocitei. olhei para o meu colo. ele olhou para mim e ficou fitando meu rosto. . Ele olhou para mim. . . chupei o picolé.Ou talvez eu deva perguntar: está comendo alguma coisa? Dei de ombros. Calei a boca.Joy já foi para casa? Balancei a cabeça.Estou de licença. nem o que fazer em seguida.Você está bem? .Não toque em mim.Você está bem? Dei de ombros. enquanto fazem todo tipo de loucura.falei.

.. uma travessa de panquecas de batata. Eu a levarei até lá assim que você quiser. Será que você gosta disso? Havia uma salada. . ou telefonar. quando todos os meus pensamentos não se voltavam para o meu neném e a minha raiva? .Você não gostaria de se refrescar um pouco? . de olhos fechados. .. ia ao cinema. . E saio muito para andar .Mais perto até do que você. mas não me questionou. Ou ir de novo àquele café-restaurante.É difícil. Tirei a camisa. Dobrei-os. Ele balançou a cabeça. Aquilo soou tão bizarro que eu quase ri. Fiquei calada dentro do elevador enquanto subíamos para o décimo sexto andar.Tenho pensado em você . eu disse a mim mesma. Ele foi para a cozinha e logo saiu com uma pilha de coisas dobradas: uma coalha branca felpuda.. Pela aparência e pelo cheiro. com a voz fraquinha.disse ele. Fiquei embaixo do chuveiro bastante tempo. ele estava colocando o jantar na mesa.Achei que talvez pudéssemos ir a um cinema. . Teria havido um tempo em que eu ia jantar fora.Pois então. Sentei-me. .disse ele. depois o short. Acabei cedendo e concordando com um aceno da cabeça.Seja bem-vinda de volta .Obrigada . sorrindo para mim. depois de secar o cabelo com a toalha. Com o neném! Com Joy! Vou para o hospital ficar com ela duas vezes por dia e estou arrumando as coisas em casa. um frango assado. mais um sinal. uma calça de moletom e uma camiseta. eu vim.Você mora perto do hospital? . vendo mas sem enxergar de fato.Isso eu estou vendo . perguntando se eu ainda gostava de frango e se queria usar o telefone.Para onde você estava indo quando se perdeu? .Só tinha ido andar um pouco. .Por que você não deixa que eu a leve para a minha casa? Vou lhe preparar um jantar. depois resolvi mandálos para o inferno e joguei-os na lata de lixo. passando a mão pela lombada dos livros. concluí que fazia muito tempo. Tente se achar. que eu não via ninguém servir fora do Chanucá havia anos. sabonetes e garrafinhas de xampu em miniatura de um hotel da cidade de Nova York. pensando em nada além da sensação da água no rosto. Não vim? . observando as focos de família emolduradas nas paredes.terminei. . e dobrei-os novamente. rejeitei o telefone e circulei devagar pela sala estar.Passear . .. tentando vagamente me lembrar da última vez que os havia lavado. Achar. . O banheiro era grande e estava muito limpo. Considerei a possibilidade. Concordei com o frango.E torcido para você passar por aqui. vestida. calada quando ele abriu a porta desculpando-se pela bagunça.falei. .disse ele. O cheiro da comida estava gostoso – a primeira vez que alguma coisa tinha cheiro bom para mim depois de um bom tempo.ofereceu. .falei. Quando saí do banho. Mais alguns quarteirões de silêncio.

disse. lembrando-me de que ele já havia comprado uma sobremesa para mim antes. Pois esse era o meu reflexo. Estou bem.disse ele. . De vez em quando. sentados no consultório.Só dos meus pacientes favoritos . afastei o prato. Ele provavelmente tinha alguma coisa para fazer à noite. K. eu e a neném.. Fazia tanto tempo que não comia bem assim. esticando-me para pegar o cobertor que estava dobrado sobre o sofá. Minhas pálpebras estavam tão pesadas.. quando ele me entregou uma caneca. Virei a cabeça para trás... Que dia era hoje? Será que era o fim de semana? Soltei um bocejo e o Dr. eu tirava os olhos da comida e o via.disse ele. conversando sobre coisas que eu gostava de comer. Parecia incrível que eu já tivesse gostado de alguma coisa. quase zangado. Acho que me perdi. vagueando pela cidade. . Estou bem. aprimorado com o passar dos anos. amigos. correto? . Finalmente. quando eu estava no hospital. arraigado na adolescência.disse-lhe. tão aconchegante. . Nós estamos bem. . não me fitando.disse-lhe..Saí só para dar um passeio.disse ele. .Não está . Foi à cozinha.. mas achei que talvez pudesse tentar.Você gosta de chá.É do Ben & Jerry’s .Não precisa ter vergonha de pedir ajuda. .Você parece cansada . fazia tanto tempo que não achava alguma coisa tão gostosa! Ele pigarreou.Tenho tudo sob controle. – Lembra de quando falamos sobre sorvete na aula? Eu olhei para ele sem atinar com coisa alguma. .Por que não descansa um pouco? Sua voz era tão simpática.Não preciso de ajuda . Talvez até tivesse um encontro. sorriu para mim. saboreando cada colherada. Eu agüento isso. Está morrendo de fome.Estou de licença . novamente.Ele encheu o meu prato e não falou enquanto eu comia. ou coisa que o valha.Estava muito gostoso. Comida. Bocejei e tentei me sentar. passeios e cinema. com a cabeça ainda cheia de estática. Será que eu poderia ter uma vida assim novamente? Fiquei só imaginando. .Volto já . Eu estou bem. devagar. .Para onde você estava indo hoje? – perguntou ele. – Obviamente. Não precisa se preocupar. -Você se lembra dos pratos preferidos de todos os seus pacientes? . Ele balançou a cabeça. . Estamos muito bem. Ele me conduziu até o sofá e me entregou uma tigela de cerâmica com sorvete de chocolate e manga. .. . apreciado as coisas normais.Estou de licença por compaixão.corrigi. Ele se sentou na poltrona em frente do sofá enquanto eu tomava o sorvete. . e eu estiquei as pernas em cima do sofá.perguntei. Mas estou legal. Fiz um esforço para me lembrar. Estou muito bem. não de café.eu confirmei. Não tinha certeza. Aí eu me lembrei. Só me observando. Eu olhei para ela. Imaginei que fosse a deixa para eu ir embora. . você não está bem. largou o emprego. . e quando ele chegou de volta eu já estava quase dormindo. automaticamente.Quando falamos de alimentos que levam a outros? – ele deu a dica.disse ele. . . . Soltei um suspiro quando terminei. um milhão de anos atrás. embora me observasse com atenção.Obrigada . exatamente..

–Tenho alguma razão para estar feliz? . Bem. e passou-se uma coisa entre nós.E por que deveria estar feliz?. .disse eu ainda.perguntou..devolvi. Estou bem. com suas próprias pressuposições. .. Ele cravou um olhar em mim. . que agradável! E senti os seios.Achei que. um relaxamento da tensão.murmurou.balbuciei. . . se pudéssemos passar mais tempo juntos. Ele acaba esquecendo os truques – ele tomou um gole de chá. com mais insistência. . coloquei o chá em cima da mesa e me levantei. Virei de costas para ele e enfiei o gelo por baixo da camiseta. . Ficamos ali parados um momento. Eu não estou aborrecida.Desculpe. . . Procurei minhas meias e meu tênis pregado com fita prateada.. Fechei os olhos. iria relaxar ..Eu iria ensiná-lo a latir sob comando. .. . . que doíam muito.Será que você pode me levar para casa? Ele ficou chateado.Achou o quê? .Não há realmente do que falar . . Ele soltou um suspiro e olhou para os próprios pés. . Mas falei com mais delicadeza. você por acaso não teria uma bomba de tirar leite aqui? .repeti..Ei. . . um picolé de laranja. Eu concordei. Eu lhe devolvi o mesmo olhar. novamente. Minha primeira tentativa de fazer uma piada desde que acordara no hospital! Ele balançou a cabeça. roupas limpas. mesmo.Está com a minha mãe .Foi uma má idéia.Achou o quê? -Nada.Você tem uma neném maravilhosa.perguntei. uma carona.. -Você não me aborreceu.. prontamente.Vou deixá-lo com ela um tempo.Achou o quê . mostrando-se surpreso com suas próprias esperanças. Senti o frescor do contato do algodão da camiseta dele sobre as minhas costas. . . para onde ele trouxe gelo envolvido numa toalha.. Ele havia me dado jantar. Eu estava sentindo as bolhas nos dois pés e a pele do rosto ardendo e repuxando do sol. eu não quis aborrecê-la.disse eu. num tom que não aceitaria não como resposta.Pois é.É melhor eu ir embora... Então..Achei que se você viesse para cá.Como vai o Nifkin? .Cannie.ele balançou a cabeça. . furiosa...Eu estou bem. . .Como é que está bem? Você não está feliz. . e me sentei novamente no sofá..Será que gelo ajuda? . Minhas pálpebras estavam novamente pesadas. Eu fiz que sim. graças a ninguém. Mas quero ir para casa. . não é bom ficar longe muito tempo.Achei que talvez fosse querer falar das coisas.perguntou ele.

Cobertores. à meia-luz. porque quando acordei sobressaltada. Ou talvez eu tivesse contado a qualquer um. eu sei.Talvez outra hora . como sonhar debaixo da água.Preparei o quarto de hóspedes para você.Por quê? . quando eu ajeitei o gelo.disse. Deveriam tirar uma foto minha. e evitar que as meninas seguissem o meu destino. toda suada.Ele nem quis saber de mim . com a língua pesada e lerda dentro da boca. ele estava acenando com as mãos no ar. com os calçados caindo aos pedaços. – Eu gostaria de voltar a ver o Nifkin . Os lençóis estavam esticados e frescos. ou onde antes estava a minha barriga. Eu estava tão cansada. colocar o meu pôster na parede de todas as escolas.uma pergunta grosseira. meio em estado de transe. Fui até lá. Eu poderia servir de aviso. um verdadeiro amor.parei para bocejar. Você é especial.. tão pesadas que eu mal conseguia mantê-las abertas. -Tome .falei. novamente.. Travesseiros.disse. acho.Você teve muitas tristezas na vida. Cannie. ajeitando-as em torno de mim. mas achei que tinha ultrapassado o limite das boas maneiras . e eu me aconcheguei ao seu contato qual uma gata.. Sentia-me ridícula.passei a mão pela barriga. os travesseiros aconchegantes. uma história para chorar.A neném. Seu rosto parecia bem mais sereno sem os óculos. de verdade. . Trazia uma coisa n s braços..perguntei.Por quê? .Estou zangada com Bruce. -Você é. ele estava sentado bem à minha frente. nas livrarias ao lado dos romancinhos do tipo Sabrina e dos livros de auto-ajuda que falam de encontrar sua alma gêmea.Ele nem quis saber.ele deixou a última palavra pendente. ou hipnotizada. . Devo ter caído no sono a essa altura. a bem da verdade. Mas que cara eu tinha. . embalada qual um neném.disse ele. se tivesse deixado qualquer um se aproximar o suficiente para perguntar.. Ele ergueu uma das sobrancelhas apenas.Você me conta por que está tão zangada? – perguntou. nojenta. ou de quaisquer maneiras. para desencavar as palavras. Olhei para ele. Quando olhei para ele. ..Por que eu? .Eu o vi. . . Sentia-me um espetáculo à parte. Estou zangada porque a namorada dele me empurrou e estou zangada porque ele não me ama.. Minhas pálpebras estavam carregadas. . Eu não me sentia especial. . também. Estou zangada com o meu pai.Eu gostaria de voltar a ver você. sem pensar.Porque você é.. . Havia tirado os óculos seus olhos se mostravam carinhosos.Porque eu me preocupo com você.Eu sinto muito por você . Parou de falar um pouco e pigarreou.. E manteve os olhos educadamente noutra direção. como se estivesse tentando esculpir frases no ar. me ajudasse a deitar na cama e me cobrisse. Especial. exausta e dolorida. . Ele se sentou na borda da cama. na Califórnia . afinal? Imaginei-me nas ruas aquela noite.. Deixei que ele puxasse as cobertas. . Era como estar drogada. . pensei. . Ele passou as costas da mão no meu rosto. alguém com quem compartilhar a vida. . com os seios vazando. .disse ele. . com o rosto encostado no cobertor e a toalha cheia de gelo derretido no colo. Eu balancei a cabeça. uma aberração. .. .

. nunca mais. . Ele estava acariciando o meu cabelo. deitada no chão do banheiro. Ele sorriu. apertando as cobertas com firmeza em torno de mim.. . soltei o ar. oh! Milagre dos milagres. de alguma forma. . roupas sofisticadas e brincos de diamante que não foram capazes de me manter em segurança. Eu abri os olhos. . Ele afastou a cabeça. e eu não vou bancar a otária de novo. Eu me inclinei para perto dele.perguntou ele. com luzes no cabelo e maquiagem no rosto. sapatos caros. Balancei a cabeça. dizendo alguma coisa.Você sabe o que é o amor? Ele ponderou sobre a pergunta.falei -. de estar .Eu quero uma casa com assoalho de tábua corrida – falei . e me dei conta de que o estava provocando. Ele se inclinou para perco de mim e me beijou. – Tem gente que se preocupa com você. de que estava rindo e de que fazia muito que eu não ria.falei eu . Escutei.O amor . ponderando na verdade ali contida.disse ele. .Não é exatamente um furo de reportagem . chocada demais para me mexer. Quando fechei os olhos.sussurrei.disse ele. me vi como eu era meses antes. enquanto seus lábios tocavam os meus. agarrando aquela sensação de estar em segurança. que não foram capazes de afastar o lobo da minha porta. . colocou a mão quente sobre a minha cabeça e saiu do quarto. . isso é errado. – Eu queria vê-la para poder lhe dizer. O amor é uma coisa que toda vez que você acredita nele.Não .Não precisa ser desse jeito.. E então me beijou de novo. do modo mais racional possível. Fitei-o com os olhos arregalados no escuro. O amor é a Lucy levantando a bola sempre no último instante para que o Charlie Brown caia de bunda no chão.Assoalho de tábua corrida . puxou as cobertas até o meu queixo.Desculpe . .Respirei fundo. . .e não quero que ninguém mais entre nela. . perfeitamente imóvel.O que você quer dizer? .Você não precisa fazer tudo sozinha .E de que outro jeito pode ser? . Basta deixar que as pessoas a ajudem. Os lençóis e cobertores caíram em torno da minha cintura.Vou lhe dar o que eu puder . levando isso tudo muito a sério. . impacientemente. . chocada demais para fazer qualquer coisa além de ficar ali sentada. Fiquei olhando fixamente para ele no escuro. olhando-me de um jeito que deixava claro que estava. uma vez.Acho que ouvi uma música que falava disso uma vez.Só queria que você soubesse – falou ele.é o tapete que puxam debaixo de você. Eu me sentei na cama. Escutei quando apagou as luzes e sua respiração foi ficando mais profunda e regular. O amor é para os otários. Escutei a porta se fechar e ele deitar o corpo comprido no sofá.disse. Ele me beijou e a princípio eu fiquei chocada demais para fazer qualquer coisa. ele some.falei.perguntei.Cannie .repetiu. .

. e mergulhei na água. como alternativa. onde ela estava filmando um épico de faroeste descabidamente intitulado As garotas de Buffalo 2000. e olhei para mim mesma com desgosto. . -Já aprendi a lição de dar o leite de graça para o homem e depois esperar que ele compre a vaca. pela primeira vez desde que Joy nascera. foi o primeiro a dizer que poderíamos ficar com ele ou. Ela tiraria uma licença do trabalho. disse. como se eu fosse um neném. e ele esticou uma das mãos em concha e a colocou sobre o meu rosto. faria o que fosse preciso para ajeitar a casa. com seu monitor de apnéia do sono e uma miríade de preocupações com a saúde. .Socorro! . novamente. ali. Mas talvez houvesse um outro jeito. Senti o chão com a planta dos pés. E talvez tudo de que eu precisasse fosse a coragem de admitir que eu precisava de alguém em quem confiar. onde ele caíra no sono. E aí eu conseguiria – ser uma boa filha. . Acabei resolvendo ir para casa -. Ainda estava magoada demais. que eu poderia continuar andando para sempre. no escuro. que concordou em tirar o tear pelo tempo que fosse necessário. frágil e doentia Joy. Só que eu resolvera que ainda não estava preparada para ficar só. como se fosse uma palavra que acabara de aprender e não conseguisse parar de repetir. e devolver a mim e a Joy o quarto anteriormente conhecido como meu. que eu poderia prosseguir com medo para sempre.sussurrei. naquela cama estranha. E eu ri. mas esperando. A bem da verdade. que eu poderia continuar carregando a minha raiva para todo canto.falei. como se ele não estivesse dormindo.. disse minha mãe.Acredite no que estou lhe dizendo: não tenho condições de pensar nisso por um bom tempo. ser uma boa mãe. Vócê tem tudo de que precisa. Fui até ele no sofá.Socorro! .a casa da minha mãe e da horrível Tanya. eu não quis dizer. as duas ficaram felizes por nos ter em casa. dissera-me a minha mãe. Sentei-me no chão e me inclinei tão perto dele que meus lábios quase tocaram sua testa. "É tão bom segurar um neném novamente!". pois tinha várias semanas acumuladas. mantendo-a junto de mim. Samantha nos convidou para ficar em sua casa. .De jeito nenhum! . passara dos três quilos e meio. disseram-me as enfermeiras. fechei os olhos e respirei fundo. ora. com aquele peso me queimando o peito para sempre.Cannie .Brincadeira! . Peter. Então.. fechando a porta com cuidado ao passar. Tinha oito semanas de idade. "Você vai ficar bem". ignorando por consideração o fato de que a minúscula.. Gostei de ver como ele ficou vermelho! . claro. nos colocar num avião para que fôssemos até Utah. .bem arrumada e cuidada. Andei à espreita pela escuridão. Talvez pudesse até ser feliz. Saí da cama. . Maxi se ofereceu para pegar um avião para nos ver ou.ele foi dizendo -. que ele poderia vir ficar conosco. saí do quarto. se eu quisesse. Seus olhos se abriram instantaneamente. Passara muito tempo sem isso. Talvez eu pudesse. triste demais. e finalmente respirava por conta própria. não era exatamente o tipo de neném com o qual sonharia uma avó. Ainda estava achando bom rir.Socorro! Socorro! Duas semanas mais tarde. E pensei com clareza então. Joy veio para casa.disse-lhe. com um livro escorregando-lhe dos dedos.falei. Resolvi.

e Tanya me presenteou com um xale roxo e verde. Como se estivesse não apenas recuperando o meu corpo.De nada! – retrucou. Balancei a cabeça.grunhiu Tanya. descansar. em segundo. de verdade? Estiquei os braços acima da cabeça. jornais. . . pensei.Quase quebrou.. depois para mim.Ela não vai quebrar . e Joy num berço ao meu lado.disse. sentindo os olhos se encherem de lágrimas. . trazendo livros. eu estava tomando banho. e sorri para Peter. trazendo-me gulodices da cidade folhas de uva na grelha do estande de comida vietnamita no Terminal Reading. como é que vai. Peter olhou para ela. Peter sorriu. E sentia mesmo. . Joy se mexeu e quase acordou.. mas também havia. . Pelo neném.disse-lhe. .Sinto muito pelo que aconteceu. . enquanto eu amarrava o tênis. e o coloquei em volta do corpo.Acho que não – falei devagar. Minha mãe ficou olhando. inclusive uma camiseta na qual se lia “Garota Poderosa”. .falei. acordei e tive vontade de andar de novo. timidamente. Em primeiro lugar. me acostumar a cuidar de um neném. eu estava comendo. não tinha sido uma vida tão ruim assim! Havia coisas que eu perdera. ameixas frescas de uma fazenda em New Jersey.Obrigada .disse minha mãe. numa bela manhã de setembro. da vez anterior.Melhor . .só uma chance para eu me recompor.disse. Acabamos ficando três meses. .Achei que ficaria uma ou duas semanas .Que beleza! – falei.Para você .falei. . e pegou alguma coisa na pasta. revistas (nunca a Moxie.. Olhei para Joy mais demoradamente. com o cenho franzido.Acho que agora estou melhor. Traziam bandejas de comida à porta e xícaras de chá à minha cama.Quer companhia? .Obrigada! . eu percebi. .. e gente que jamais tornaria a me amar.Trouxe uma para você também . Minha mãe e Tanya me deixaram à vontade.E então. . Isso foi legal. Foram ao meu apartamento pegar os meus CDs e uma meia dúzia de livros. . . e presentinhos para Joy. Peter me visitava também. tive o prazer de observar). Samantha vinha me ver algumas vezes na semana. . . e eu me senti bem com isso. mas também a vida que havia deixado para trás.Talvez . *** Então. dissera minha mãe. Ela sorriu como o sol quando nasce. . é verdade. um potencial.Talvez seja bom para ela um pouco de ar fresco – falou minha mãe. Estava bastante bronzeada. Meus quadris e meus seios estavam voltando. de tantas caminhadas ao sol. eu na cama que fora minha quando garota.retruquei. Estava sentida e tentando conseguiu até parar de fumar. como se estivesse me reconhecendo novamente. Nem tinha considerado isso. mas as coisas começavam a mudar.Quer levar a neném? – perguntou. E considerando tudo junto.

prendi a guia na coleira e levei-o também. me desculpe . Tanya e Peter estavam sentados ao redor da mesa da cozinha." Quando voltamos da nossa caminhada matinal. .disse Tanya.disse Tanya. e embalando-a para que os soluços fossem se esvanecendo até parar. onde ainda havia lágrimas secando. Então.falei para Peter. claro. . mas prudentemente me mantive calada.Joy vai ficar bem. solenemente. . Joy retorceu o rosto e começou a chorar. e você não pode deixá-la dentro de casa a vida toda. Tanya nem se deu conta. Joy se aconchegou a mim de olhos fechados. mais parecia uma folhinha de outono encostada em mim.Acho que é a minha voz.Não se preocupe com isso . . . .Cannie! . neném .Os nenéns são mais fortes do que normalmente achamos . . ela ainda soava como as irmãs da Marge Simpson.falei.Olhe . . pensei. pelas pessoas. com os olhos arregalados.falou Peter. num passo que faria uma lesma com artrite parecer ligeira. neném". . até a entrada de carros. minha mãe. . Nifkin me olhou e esfregou a pata na minha perna.falei. rugindo para os carros que passavam. Ele já havia feito outras visitas. feliz por vê-lo.Olá! .disse ela. ressabiada.Estávamos falando justamente de você . .falei.Nem mesmo se eu der aulas para ela em casa? . Estava. mas ela sempre estava dormindo. Nifkin caminhou ao meu lado.Oi! . depois pegamos a rua. . em tom pesaroso.disse. Ele se inclinou para vê-la. -Acho que os nenéns têm medo de mim . Minha mãe sorriu e me entregou o carregador tipo canguru.disse minha mãe. de fato. sussurrei com os lábios encostados nos parcos e macios cabelinhos da cabeça de Joy. . o carro de Peter estava parado na entrada de casa. Mesmo depois de um mês inteiro sem fumar. "Olhe. .disse Peter.. Fiz um gesto simpatico e desamarrei Joy. Peter ficou chateado. Caminhamos devagar. Era a primeira vez que eu ia para a rua depois de ter chegado e fiquei atemorizada – pelos carros. Minha mãe me serviu chá enquanto Joy olhava fizemante para Peter.. vesti-o em volta do tórax e coloquei Joy dentro dele. por tudo. Pensei em pelo menos seis respostas sarcásticas para lhe dar. ganindo baixinho. sem rodeios.Olá.perguntei.Está vendo? Limpei o rosto dela e inclinei-a para que Peter pudesse vê-la. . com os lábios levemente entreabertos e os cílios compridos repousando sobre as róseas maçãs do rosto. envolvi-a num cobertor e me sentei com ela no colo.Ela não está com medo .Joy já ouviu todo tipo de voz . com sono. Minha mãe me olhou zangada.Ela não está acostumada a ver homens . . Ela ainda era tão pequena.foi logo falando. esse foi o primeiro encontro de verdade entre os dois.Ah.. Meio desajeitada. virando Joy de frente para mim.falou Peter. Então. Lá dentro. "Olhe bem para o mundo.

Não sei direito se ela já pode. Com três refeições por dia. mas isso não era a pior coisa do mundo.falei.Então. .Talvez ela esteja com fome .perguntei. trazendo Joy para o ombro. que prontamente acordou. Cannie . Senti o peito apertar novamente. ela é uma espectadora muito exigente . Joy e eu não havíamos ido a lugar algum de carro desde a chegada dela.Na verdade – disse ele -. não velocidade. ainda mais intensa.Vão mandar você embora do centro de perda de peso se souberem que andou me dizendo isso .Não tenho certeza .disse-me. . ressabiada. rajados de estrias acinzentadas.falei. usando a construção típica da Filadélfia. Acrescentei uma maçã do cesto de frutas e fui trabalhar. mais lanches.declarou. .disse. eu me servi de chá e de um punhado de biscoitos de chocolate que estavam no meio da mesa. exceto a consultas no hospital. Peter sorriu para mim.falou Peter. E continuava acolhendo bem as mudanças.falou Tanya. . . Ele deu de ombros como se isso não importasse.Você está muito melhor .Vá logo.Decepcionada com a linha da ABC para o horário nobre – falei. Peter soltou uma gargalhada. Sempre gostei . . . eu queria saber se você e Joy gostariam de dar um passeio. Depois que ela se acalmou. . .Fralda molhada . Construída para proporcionar conforto. . ponderei. o que o traz por aqui? .Ora. . pensei.Eu gosto do seu visual. se precisar.Só um passeiozinho. .Muito mais saudável. Até a cintura e os quadris. . Peter olhou-me com ar de aprovação. . . As pernas estavam rijas e fortes.Você diz isso toda vez que me vê . Dei-lhe uma olhadela do tipo vácuidar-dos-seus-própriosassuntos e coloquei Joy no colo.Onde? . . Posso ser uma garota grande. E também absolutamente aterrorizante. Conseguia ver tudo de maneira diferente agora.Isso vai passar . tocando o rosto dela com cuidado. Minha mãe estava radiante. vai ter socorro médico. . .Se ela já pode ou se você já pode? .disse.eu lhe disse.Uau! . . em tom de reverência. Peter esticou um dedo comprido e magro. . Os seios agora tinham um propósito além de esticar os suéteres e me dificultar a compra de um sutiã que não fosse bege.perguntou minha mãe. Eu olhei exultante para Joy.falei.falei.Eu vou estar junto . E era verdade..Portanto.sugeriu minha mãe. e ri comigo mesma.Pela orla .Muito mais saudável.Ela gostou muito da Noite do esporte. em seu ouvido. e não gordas ou desajeitadas. . A idéia era boa. eu estava rapidamente voltando às minhas velhas proporções de Anna Nicole Smith antes da dieta. . Eu era um porto seguro e um lugar macio para descansar. sugeriam força e tinham uma história para contar.repetiu ele. .Mas está . tentando ajudar. .disse minha mãe. Dei-lhe outra olhadela do tipo vá-cuidar-dos-seus-próprios-assuntos.Neném mal-educada! – sussurrei. deu uma boa olhada em Peter e começou a chorar novamente. . . tentando dar um ar de informalidade.insistiu ele.

Caminhamos devagar até a água. a faixa negra perto do horizonte e pensei em todas as coisas que não .quarenta e cinco minutos.. Olhei para Joy no banco de trás.insistiu Tanya.disse. Eu e Peter conversamos um pouco no inicio – sobre o trabalho dele. suéteres. fazendo o meu cabelo brilhar. Ela havia caído em sono profundo.Capota conversível! . e ele confirmou com um aceno de cabeça. quando pegamos a via expressa para Atlantic City. para ser precisa.vinte minutos para ir. gorros. com um cobertor na mão. . e a coloquei no carrinho. Joy foi colocada na cadeirinha de neném.Vai ser bom para você .Que bom que você gostou! . eu me alojei no assento do carona. e se levantou para me ajudar. impressionada. ficou balançando ao vento e seus olhos estavam arregalados. Peter ao meu lado.gritou ele. Peter voltou para perto de mim. em resposta.Obrigada . Eu fiquei olhando fixamente para ele. com a boquinha rosada relaxada.falei. Estava tudo bem. Mas a maresia não pareceu incomodá-la. tudo enfiado na mala do carro . sobre Lucy e Maxi e sobre a ameaça de morte que Andy recebeu de verdade por ter espinafrado com um dos famosos e antigos restaurantes de frutos do mar da Filadélfia.até que estivéssemos todos prontos para sair. Andamos pelo calçadão . levou um tempo .falei.Só um passeiozinho . .falei. Então. e a capota do carro começou a baixar. as profundezas verde-azuladas. derramando-se como mel sobre os meus ombros. outros vinte para voltar. . Ele deu de ombros e ficou acanhado. que vinha sobrevivendo de uma reputação passada e de uma razoável sopa de vermelho há décadas. . para que todos soubessem tratar-se de uma menina. e três sacolas de fraldas. e ficamos vendo as ondas quebrarem. Peter se sentou ao volante e nós partimos para a orla de Jersey. Fomos até Ventnor e paramos num estacionamento a dois quarteirões da praia. Mas parecia que ela estava gostando. Então. eu tirei Joy do carrinho e nós caminhamos juntos para perto da água e nos sentamos ali. aconchegadinha em seu assento de neném. eu empurrando o carrinho. . carrinho. Ele sorriu para mim.Achei que você iria gostar! . O sol estava uma delícia. mantas e cobertores e mais uma variada parafernália para nenéns. A fitinha cor-de-rosa que eu amarrara ao cabelo dela. ansioso como um menino de escola. vendo que havia sido derrotada. envolvendo-a em mais mantas do que o morno mês de setembro pedia. Ele esticou o cobertor. preocupada se o vento não seria demais. pois eu resolvi que não queria Joy na rua por mais de uma hora. ele sorriu para mim e apertou um botão do painel. Soltei um suspiro. Enfiei os dedos dos pés na areia morna e olhei para a espuma branca do mar. Peter desdobrou o complicado carrinho de Joy. mamadeiras. meias. . Inclinei-me para perto dela a fim de ouvir sua respiração e verificar a fralda. enquanto eu a tirava de dentro do carro. A citei a proposta. *** Claro. o laço cor-de-rosa se desfazendo e o cabelinho castanho formando caracóis em torno do rosto.Quer sentar na areia? – perguntou.

. . ... .confessou ele. .Bem feito para você! . louco atrás de você.Mas eu voltei para casa . com o pôr-do-sol se refletindo em seu cabelo e a areia morna aconchegando meus pés.Depois foi para a Califórnia. bem. .Você não estava nem aí! . Lá estava eu. eu me lembro de ouvir você dizendo na aula que gostava de passear de bicicleta por ali e que sempre ia andar também.falou. hum..Cannie . arrumando um estiramento muscular. . Eu ri um pouco mais. e pigarreou.Achei que você não iria mais voltar para casa . Olhei para ele.repeti. ... . continue.Para começar. eu não costumo correr.Bem ..exclamou ele. . é eu não achava que poderia telefonar para você. deixando que me apoiasse. O sol estava se pondo e as gaivotas davam rasantes na água e soltavam grasnados.Está vendo? Nem precisava arranjar um estiramento.. hum . .Todo dia . Sorri para ele.Grávida do filho de outro homem ..disse ele. . – Eu não agüentava mais.Certo . .Não estava nem aí..conseguia ver: tubarões. . .E estava..falou ele. segura nos meus braços. confusa.começou . Peter colocou uma manta sobre os meus ombros e deixou as mãos ali por alguns instantes. independente do quanto eu quisesse ver a outra pessoa..falou. Eu me espantei um pouco. e o meu neném. sabendo que se fosse comigo. mesmo! E essa foi a pior parte. e não sabia o que fazer comigo mesmo. .De manhã e de noite. Achei que não iria tornar a vê-la. também.É que. . . provavelmente não seria o suficiente para me fazer começar a correr. você era paciente.. . mas ele ainda não tinha terminado.E aí. Até que vi você.Ainda bem . você estava triste com o Bruce. .falei. começou a correr? .E agora. e isso não foi bom para você.A Califórnia é muito legal .falei. . Eu lhe dei o que esperei ser um sorriso de estímulo. -A princípio...eu quero lhe dizer uma coisa. surpreendida pelo grau de sua dedicação. que até eu conseguia ver que não servia para você. .. . quando você e Samantha estavam caminhando .falei. puxando a mim e a Joy para perto de si. estou com estiramento dos músculos da perna . e eu me recostei nele.. vidas secretas que eu jamais conheceria.. . em defesa da Califórnia. e peixes-espada e estrelas-do-mar. e às vezes na hora do almoço. minha Joy.Naquele dia na Kelly Drive.. .Mas eu não podia .Bastava ter telefonado para mim. virando-me para poder olhá-lo nos olhos. bem. baleias cantando umas para as outras.falei -.disse ele -.Era uma paciente . e eu caí na gargalhada. Ele se sentou ao meu lado e me abraçou pelos ombros.resmungou ele.disse-lhe.forneci-lhe a continuação.Você não foi nem um pouquinho objetivo . eu.

mas gostaria de escrever alguma coisa sobre isso.Não sei se já passei tanto tempo assim na minha vida sem escrever coisa alguma. Ela me olhou fixamente e depois bocejou. depois de passear com Joy. .Se você tivesse .Um livro . Eu sinto falta .. acho que a questão é – comecei. Embora o teclado parecesse estranho às mãos. Na manhã do dia seguinte. mas bastou ligá-lo na tomada que ele começou a acender e apitar. . . eu dedicaria todo o meu preparo médico a tirá-lo daí de dentro. antes de voltar a olhar para a estrada.Talvez . agora que já resolvemos isso. fui para o porão e tirei o Mac empoeirado que me ajudou a passar os meus quatro anos em Princeton.sugeriu ele. -Talvez um livro não .E o que vai querer escrever? . .Outro roteiro? Um livro? . .. dando a impressão de que o assunto estava resolvido de uma vez por todas. . . .Mas poderia . .Que bom! . tomar café da manhã com Tanya.disse ele.falei. Joy estava adormecida em sua cadeirinha de neném.Você quer voltar a trabalhar? .Eu estava pensando em coisas do tipo: será que você vai querer parar para jantar antes de voltar para casa? .falou ele. conversar com Samantha ao telefone e combinar para sair com Peter na noite seguinte. . Pensei nisso um instante. que era verdade. Joy acordou e fez um barulho questionador. E me dei conta.Acho que não tenho um livro dentro de mim . Eu ri.perguntou. Olhei para trás e acenei. . sinto saudade até das minhas noivas.falei.falei.Vou acabar querendo. .Então.o que eu vou fazer da minha vida agora? Ele sorriu rapidamente para mim.Acho que sim .sugeriu ele.. limpei a poeira da tela e comecei a escrever. mas eu podia ver areia reluzindo nos seus pezinhos descalços. Perdemos a fitinha cor-de-rosa em algum lugar.falei.Artigos de jornal? . .Artigo de revista? .Claro . Não estava esperando muita coisa. voltando a dormir em seguida.Então. . Os livros eram um milagre para . . Amando uma Mulher Avantajada por Candace Shapiro Aos cinco anos. Deus que me perdoe.falei-.Mal posso esperar para ver. no carro dele a caminho de casa . aprendi a ler.falei. . mal terminando de dizer aquilo.Sobre o que vai escrever? Considerei a pergunta. com seriedade -. .disse ele.perguntou-me.zombei. e funcionou direitinho. eu respirei fundo.Como se desse! .

páginas brancas e tinta preta. na expectativa de ser alvejada de todo jeito. Aos doze anos. e haveria gente que me respeitaria -levei suas palavras para a minha vida adulta qual uma profecia.haveria homens que me amariam. das maçãs que caíam no chão durante o outono. Aos oito anos.mais do que isso.o riacho que murmurejava através de um terreno baldio dois quarteirões adiante. Meu pai me disse isso. Havia mil palavras que poderiam me descrever – esperta. como um corpo que deixava a desejar.como manter uma toalha enrolada na cintura na praia (mas nunca entrar na água). a bem-intencionada professora que me perguntava se eu já experimentara fazer uma aeróbica. enquanto as outras meninas ganhavam biscoitos e leite. desleixado e repugnante. Aprendi a me sentir infeliz e envergonhada. Aprendi a fazer dietas . apontando para a parte interna das minhas coxas e a parte de baixo dos meus braços com o cabo de sua raquete de tênis. querendo antever os lugares para onde irei e as pessoas que conhecerei ali dentro. a me tensionar para os insultos que sabia virem sempre: a líder do grupo de escoteiros que me oferecia cenouras. Estávamos jogando. cutucando-me com o cabo de forma que as gorduras balançaram. que se tornara algo horrendo.a palavra que eu acreditava que o mundo escolhia para mim – era gorda. como me vestir em tons de cinza. a não segui-las direito. aprendi que eu era gorda. Mas a que eu escolhia . e eu estava vermelha e Suada. generosa. como escapulir para a última fileira em qualquer grupo que se prepara para tirar uma foto (e nunca sorrir). naturalmente. enxergando o mundo através do prisma do meu corpo. ele me disse. Embora isso não se revelasse mais tarde uma verdade absoluta . saí para o mundo numa armadura invisível. cada qual com seus mundos novos e amigos diferentes. e da previsão do meu pai. a loja que vendia sorvete feito em casa na casquinha por apenas um dólar. lembro-me bem.e. Aprendi uma dúzia de truques para me tornar invisível. Os homens não gostam de mulheres gordas. mas . como evitar ver o meu próprio reflexo nas janelas e espelhos. como o de cidra. como pensar em mim exclusivamente como um corpo . exultante com a alegria do movimento. engraçada. o quintal que fazia fronteira com um campo de golfe e tinha um cheiro picante. gentil. Até hoje gosto da sensação de abrir um livro pela primeira vez e perceber a capa estalando.mim . E isso também abriu os meus olhos para um mundo novo que eu podia explorar por conta própria . a me afastar de Espelhos e dos olhares dos homens. aprendi a andar de bicicleta. Aos vinte e dois anos. Você vai ter de Prestar atenção nisso aí. preto e marrom.

afinal. e amar o meu corpo. mas serei feliz.determinada a não me deixar atingir. ela pode ser feliz. fizer uma breve análise do meu corpo e disser que o meu rosto é lindinho e depois perguntar: Será que você nunca pensou em tomar Optifast? -. Li o texto inteiro duas vezes. E quando minha filha nasceu quase dois meses antes do previsto. Vou ensiná-la a Nadar. Existem coisas mais horripilantes do que experimentar um maiô diante dos espelhos tríplices da lojas de departamentos. que estava começando a se parecer com um recém-nascido da . consertando os erros de digitação. forte e ter a certeza de que encontrará amigos. Sempre estive bem. E o que é mais importante: vou amar minha filha. mesmo que eu jamais consiga usar roupas de tamanho menor que 48. vou fazer as pazes com isso. Depois me levantei e espreguicei. mesmo que a minha história não tenha o final feliz perfeito de Hollywood. A verdade é a seguinte: estou bem do jeito que sou. limpando a pontuação. pior ainda. que gostam de mim. Vou sussurrar isso no seu ouvido quando ela estiver dormindo. aprendi que existe o conforto. Existe o horror de imaginar um futuro no qual ela não seja forte ou saudável. O conforto de chegar até as pessoas que a amam. terá êxito e até amor. no meio de um bercinho de vidro onde você não pode nem tocá-la. e se o Príncipe Encantado nunca aparecer . Arranjei um emprego maravilhoso e acabei me apaixonando por um homem que acreditei que iria me amar pelo resto da vida. E. porque sou fone. no qual eu perco trinta quilos e o Príncipe Encantado resolve que me ama.nem vou sucumbir. que me amam. para andar. colocando as mãos espalmadas contra as nádegas. a ler e a andar de bicicleta. Porque não sucumbi .engravidei. E vou dizer que. Olhei para o meu neném. seja ela grande Ou pequena. aprendi que há coisas piores do que não gostar das suas coxas ou da sua bunda. Jamais serei magra. em última instância. para subir um morro pedalando uma bicicleta. Vou dizer sempre que ela é linda. Vou saborear bem a minha comida e também a minha vida. Vou dizer: Nossa vida – a sua vida . E então – acidentalmente . o conforto ele pedir socorro e o conforto de perceber. se passar por mim. usando tamanho 36 ou 50. para abraçar as pessoas que eu amo com toda a plenitude e para nutrir uma nova vida. Vou amar a mim mesma. pelo que ele é capaz de fazer por ele ser forte o suficiente para se erguer. que eu tenho valor.será maravilhosa. Vou amar a mim mesma. Mas não. Existe o medo de ficar vendo sua filha se debater para conseguir respirar.ou.

Oh! Ah. seios.Alô. é por isso que estou telefonando . – Sou a ex-namorada do jornalista que faz a coluna “Bom de cama”. chegados a uma tendência New Age. sentindo a garganta travar só de vê-la. quando quiser. . . . e os rabinos que a fazem costumam ser receptivos. "Nós duas vamos ficar bem". o corpo que me causara tanta vergonha. .espécie humana. Ouvi o barulho de uma respiração que é contida do outro lado da linha. pensei.Existo sim.Tive . . a nomeação pode ser feira com seis semanas. E estava achando aquilo muito divertido. com direito a comes e bebes em seguida. Com os meninos.disse ela. . Telefonei para o serviço de informações e depois disquei o número em Nova York. Estava com quase oito meses e eu ainda tinha a impressão de estar diante de um milagre toda vez que olhava para ela. Apesar de tudo. e sorri. É um serviço mais novo.Você teve o bebê? . de verdade! . e não com um híbrido de fruta espinhosa com ser humano em miniatura. meu Deus! Você existe.falei.comecei.Nós estávamos querendo saber como foi que terminou tudo. . falei para Joy.Bem. é preciso fazer a circuncisão em sete dias. "Quem é a minha garotona?". levantando Joy do berço.perguntou a menina.Ela está bem aqui. "Quem é essa minha alegria?" Joy deu risadinhas e balançou os braços.disse uma secretária. em tom engasgado. todas as áreas problemáticas que me davam desespero antes.Ai. . barriga. hum. dormindo.exclamou ela. .Cannie . E olhei para mim mesma: quadris. bunda. uau! . de formato mais à vontade. três meses.Meu nome é Candace Shapiro . . Com as meninas. com a voz cantarolante de uma adolescente. de verdade . gracejou.falei. que nem se mexeu.falei. Minha mãe foi uma das primeiras a chegar. . VINTE O lado bom das cerimônias judaicas em que se dá o nome às meninas é que elas não estão amarradas a um tempo específico. Moxie . .corrigi.? .Você é C. numa nítida e perfeita manhã de inverno na Filadélfia. Às onze horas da manhã. A cerimônia de nomeação de Joy foi no dia 31 de dezembro. eu iria ficar bem. . Minha voz sequer titubeou quando mandei chamar o editor-chefe. Minha linda filha.Posso perguntar do que se trata? – cantarolou novamente a secretária.

e logo em seguida minha mãe e Tanya. gente entrando. Peter estava ao lado dela Todos os meus amigos. disse.E até pessoas desconhecidas diziam que era um neném miraculosamente lindo. olhando para mim com seus olhos grandes e atentos. Peter. Ellen. a entregou a mim e. com a pele sedosa. fazendo-me um aceno mínimo. o bumbunzinho lindo de neném. Enchi a banheira branca de Joy com água morna e dei-lhe um banho. os dedos. Eu escolhera o nome perfeito para ela. Minha mãe . levou Nifkin para passear e esvaziou a máquina de lavar pratos. Era confusão demais para explicar aos desconhecidos. Minha mãe me deu um último aperto e um beijo no alto da cabeça de Joy. Samantha estava ao lado de Maxi. como se entendesse cada palavra. Joy estava sempre sorrindo. E se ela me deu Joy. Ela arrulhava e dava risadinhas sempre que eu lhe jogava água sobre a cabeça e lavava-lhe as pernas. — Ahh! — declarou ela. aconteceu." Dei-lhe um sorriso de agradecimento. logo a seguir. que poderia agradecer-lhe por ter-me amado quando menina e por deixar-me ir agora que eu era uma mulher. Lucy e Josh. disse uma das ajudantes do bufê. "Para você". Mordi o lábio e olhei para o chão . com duas caixas embrulhadas em papel prateado e um buquê de rosas. — Uuh — disse ela. e sorriu para mim. enquanto eu terminava de aprontar as coisas. fazer o cabelo. O serviço do bufê chegou e. abraçou-nos. o fato de eu ter passado o dia inteiro com a roupa ao avesso. minha Joy querida. num impulso. Até as criançinhas eram capazes de dizer como deveriam ser as coisas. desejando poder dizer-lhe o que realmente queria. entreguei-a a Lucy e fui tomar banho. Joy balançou os punhos no ar como o menor atleta do mundo em júbilo pela vitória e gargarejou uma seqüência borbulhante de sílabas. Depois. Eu não podia desfazer a minha história. coloquei nela um vestidinho de bordados brancos e na cabeça um chapéu branco com rosas bordadas na aba. Betsy Andy e a esposa dele. — Você já sabe dizer mamãe? — perguntei. e duas das enfermeiras do hospital que haviam tomado conta de Joy. Então. Era o neném mais feliz que eu já tinha visto. Mas o que eu poderia fazer? ponderei. depois o casamento. num canto. Maxi estava lá. — Obrigada — sussurrei-lhe.. dona de uma alegria ímpar. E. Eu a abracei com força. "Que doce!". — Obrigada — tornei a dizer. Primeiro vinha o amor. "Acho que o meu marido nem sabe onde fica a máquina de lavar pratos. observando o mundo com a atenção de seus olhos grandes e atentos. ou com a fralda molhada. O que aconteceu. depois um neném no carrinho. sempre rindo. e colocou as rosas num vaso. Ouvi a campainha tocando. como se estivesse conversando numa língua que nenhuma de nós houvesse aprendido. — Não chegou perto ainda — falei. A menos que estivesse com fome. — Neném — sussurrei-lhe no ouvido —. não havia do que reclamar. estava Audrey. os olhos grandes. como. braços e pernas fortes e gorduchos. Passei colônia e ralco. por exemplo. os pés. impecavelmente vestida toda de linho bege. — Estou tão orgulhosa de vocês — disse. dar um jeito no rosto e depois praticar a fala que vinha escrevendo há dias.. sem nem me incomodai em corrigi-la. Entrei na sala com Joy no colo. a porta se abrindo e depois fechando.

todos se abrigaram sob o huppah comigo. molhou um pano em Manischevitz e o pressionou contra os lábios de Joy. eu percebi. eu resolvi. Eu estava me sentindo bem com relação às coisas. Isac e Jacó. caso tivesse feito as coisas na ordem correta. enquanto ajeitava Joy dentro do carrinho. Meu neném receberia seu nome cercada de todas as pessoas que nos amaram e apoiaram.para n. estava enxugando as lágrimas. ou do jeito que achamos que devem ser. Joy me olhou com os olhos arregalados. Nifkin estava paradinho. E aprendi que há coisas que dão errado e nem sempre podem ser consertadas ou voltar ao que eram antes. depois dos biscoitos amanteigados e do bolo de maçã e das mimosas. . Eu respirei fundo. substituindo a coluna de Bruce A .to chorar. O segundo nome dele era Leonard e ele foi um homem maravilhoso. Minha versão de "Amando uma mulher avantajada" saiu no fim de novembro. Nas cerimônias de nomeação. radiante como se soubesse ser o centro das atenções. Tirei do bolso um cartão com anotações. encostado na minha perna. neném maravilhoso que era. Estava começando a pré produção do meu filme. e até Lucy. — Chamei minha filha de Joy porque ela é a minha alegria. não iria precisar de um colar de pérolas até pelo menos o seu décimo oitavo aniversário. Audrey estava chorando. — Aprendi que nem sempre as coisas acontecem do jeito que planejamos. minha mãe e Tanya estavam segurando uma à outra. — Bem — disse ela. Joy e eu caminhamos até a beira do rio para aguardar o fim do século. — Eu aprendi muito este ano — comecei. Era o da minha avó. depois de termos aberto os presentes e eu ter passado quinze minutos contando a Maxi que Joy. contanto que tenhamos gente que nos ame — fiz uma pausa e passei uma das mãos pelos olhos. — Uuh! — casquinou Joy. depois de termos jogado fora todos os papeis de embrulho e guardado as sobras de comida e o neném e eu termos tirado uma soneca. Candace.. e a rabina disse que. e a chamei de Lia em homenagem ao pai de seu pai. e falou de Joy estar sendo recebida na religião entregue por Abraão. reconhecendo a renda fina e antiga dos casamentos dos meus primos Era o huppah sob o qual eu teria casado. como se não houvesse dúvidas ele que era exatamente ali que deveria estar. Podemos começar? — perguntou a rabina. e todos riram. cuja tendência era a de não reagir em ocasiões tristes ("É o Prozac". explicava). E foi só isso. e aprendi que se pode passar por maus momentos e continuar procurando outros melhores. Joy estava acordada e alerta. vamos comer? Depois dos pãezinhos e da salada de savelha. e disse a mim mesma: Não chore. Respirei fundo. afinal —.E agora — disse a rabina — a mãe de Joy. recitou orações sobre o pão e o vinho. estava bem assim. o huppah serve para abrigar o neném. com um olhar de espanto no rosto. Nifkin estava educadamente sentado aos meus pés. vai nos contar como escolheu o nome. Aprendi que algumas coisas quebradas permanecem quebradas. quando a rabina chamou. Entoou uma bênção. tremula. e também Sara. depois de Nifkin ter devorado uma lata inteira de salmão defumado e vomitado tudo atrás da privada. absorvendo tudo. Peter. pensei. o marido e a mulher. Ela fez um breve discurso sobre Israel e a tradição judaica. Rebeca e Lia. Eu estava chorando.. Amava a esposa e o filho. e sei que também amaria Joy. Mas eu tomei providências prévias e. A rabina pediu silêncio e que quatro pessoas se aproximassem para segurar os postes do huppah. para ela. A rabina observou isso tudo.

bem. oferecendo atualizações contínuas da minha vida e da vida de Joy. Fiquei deleitada com a chance de trabalhar para a Moxie (e ainda mais deleitada quando me disseram quanto iriam me pagar). Telefonei para a minha mãe e marcamos um compromisso fixo: toda sexta-feira à noite. equilibrar a vida de solteiro de amigos e amigas com as suas obrigações de mãe". eu iria jantar na casa dela. secamente. "Ela vai nadar que nem um peixe!" Telefonei para Audrey e me desculpei. trabalhar em casa se precisassem de mim. passaria a noite lá com a Joy para que fôssemos de manhã à aula de natação para nenens do Centro Judaico. "Nunca vi uma coisa dessas!". Telefonei para Betsy. não era possível. enquanto Joy dava braçadas. me encontrava com Samantha para tomar café e praticava estar entre as pessoas. entre as desculpas que ela não parou de pedir pelo Bruce.. vestida num maiozinho cor-de-rosa com babados na parte de baixo. todas escrevendo para elogiar minha coragem. mantas de neném. concordei com os seus termos. caminhando até o parque. Ela estava magoada com o comportamento dele. e para desejar seus melhores votos para a neném. ou que tinha dificuldade para se encaixar ou ser amada. falei. desconhecidos e centenas de milhares de outras coisas que eu aprendera a temer depois que Joy veio ao mundo tão abruptamente. feia demais. com toda mulher que se sentia grande demais. e. "Quero que você nos conte o que é viver a sua vida. e acertamos para eu voltar em meio expediente.resposta. — E o Bruce? — perguntei. Joy adorou a água como se fosse filhote de patos. livros de neném. feliz da vida. e na minha vida. ursinhos de pelúcia e diversos amuletos religiosos e seculares para dar boa sorte que encheram a sala de correspondência da Moxie. participar de alguns projetos de maior porte. que estava tudo bem para mim. carros. arranjei uma terapeuta também: uma mulher simpática. No mesmo embalo. quanto meu pai me havia amado e magoado quando foi embora. namorar. descrevendo os montes de cartas. minha editora. disse-me a editora-chefe.. "Nunca vi uma coisa dessas!". colocava Nifkin na coleira e saía empurrando o carrinho de Joy. O que. fiz o que pude no sentido de me retratar. Joy. para participar suas próprias histórias de serem avantajadas ou simplesmente mulheres nos Estados Unidos. Procurei facilitar as coisas. no seu corpo: trabalhar. ônibus. além de um suprimento inesgotável de lenços de papel. disse. magoadíssima acima de tudo por não ter sabido de nada de forma a mandá-lo fazer o que era correto. Levantava de manhã. — O contrato de Bruce não foi renovado — disse ela. Tanya grunhia. Passei o mês de dezembro me ajeitando no novo apartamento. de vêlo contar sua vida sexual para os leitores enquanto eu lhes informava sobre fraldas sujas e babadores molhados ou falava das dificuldades em encontrar um maiô que me coubesse. Depois. a história de era uma vez.. magoada por ele não ter sido solidário comigo. mas não fiquei nem um pouquinho empolgada com a idéia de ver minhas matérias publicadas ao lado das matérias de Bruce todo mês. em vez de abordar o que certamente pareciam ser as questões mais pertinentes do momento. que não ficou nem um pouco alarmada por eu passar as duas primeiras sessões chorando sem parar e a terceira contando-lhe. foi surpreendente. me vestia e depois vestia a neném. onde me sentava ao sol. naturalmente. pequena demais. com mais ou menos a idade da minha mãe e um jeito reconfortante. Não se pode fazer com que adulto» façam o que eles . disse a editora-chefe. "O que você acha de escrever para nós regularmente?" Ela já tinha resolvido tudo: eu faria contribuições mensais a partir do front da mãe solteira. para denunciar o egoísmo de B.

às vezes. Pensei..E como você se sente quanto a isso? Eu sorri para ele.. mas não de toda. não é mesmo? Não telefonei para Bruce.. inclusive a Lucy. Tudo é possível. como é que você está se deixando afetar por isso? Sorri de lado para ele. e ainda é. — Oh? Peter pigarreou.não querem fazer. É um sistema meio bizantino. A voz dele soou com muita delicadeza. Quase nunca — falei. repensei. que conta para a Tanya. — Então. — Quarenta? . muito nervosamente. Você não pode passá-las a limpo. Mas eu não falei nada disso. e a única coisa que dá para mudar. algumas coisas a respeito dele. — Eu tenho os meus motivos. — Eu queria saber se você. afinal. se eu tinha alguma intenção de deixar que Bruce participasse da vida de Joy. Ela perguntou. a princípio. Era o único assunto que nós nunca tocamos durante os passeios às livrarias. que normalmente me conta. Falei que seria uma honra se ela participasse da vida de Joy.. a única Coisa com que vale a pena se preocupar é a maneira como você se deixa afetar por elas. — Horrível. quem sabe? No ano que vem. mas disse também que as coisas mudam. Já conseguira me livrar de grande parte da raiva. quantos anos você tem? — provoquei.. — No cargo de conselheiro-residente para assuntos de dieta? — Residente para qualquer coisa — murmurou ele..— As coisas acontecem. você não falou com ele de jeito algum? — perguntou Peter. — Quantos anos você acha que eu tenho? Peguei o que de fato achava e reduzi cerca de cinco anos. — Então. Talvez isso também fosse uma questão de tempo. à praia e ao parque com Joy. — Você é muito persistente. — Tem notícias dele? — Ouço falar. Eu inclinei a cabeça. me aceitaria. Um ano atrás. — Quase não faz mais diferença — peguei a mão dele c ele apertou-me os dedos.. —. Audrey conta para a minha mãe. revirei o assumo na cabeça. ou dar um passeio de bicicleta. — Mas. para ver a nuvem prateada se formar e depois se dissipar aos poucos. As coisas acontecem e não há como fazer com que "des-aconteçam". e Joy possa vir a chamá-lo de papai. estudei-o de todos os ângulos que pude imaginar e acabei decidindo que não poderia. Então. não pode voltar o relógio.. — Mas só às vezes? Eu sorri novamente para ele. enquanto caminhava ao meu lado. Você parece a minha terapeuta falando — respirei fundo e soltei o ar com força. Eu lhe disse que não. sabe? É uma das grandes lições da terapia. seriamente. talvez Bruce possa vir tomar um café da manhã. — Nem uma vez. sob o céu que já ficara totalmente preto. colocando uma das mãos ao lado da minha. que empurrava o carrinho de Joy. Ele me olhou. eu não poderia me imaginar com um neném. que conta para todo mundo.

espremida entre nós dois. . sabe.. Fiquei tão impressionada que não consegui nem tentar disfarçar. — Acho que você parece uma rainha — disse. engraçada e tem o coração mais maravilhoso. de contentamento —.. eu sei que provavelmente sou velho demais para você e certamente não sou o que você tinha em mente. Eu fiquei soltando risinhos até que ele beijou meus lábios para me calar. normalmente lenta.. Aconchegada no carrinho. com a voz novamente grave. na verdade. vendo-o olhar para mim.. eu. não. carinhoso e amoroso como eu jamais poderia esperar. só para eu ouvir. esperando a resposta. com tanta intensidade que eu fiquei impressionada. e que nós poderíamos viver aventuras juntos. — Cannie.. segurando-me o pulso. . grave e tão segura. — Eu sei — ele foi falando —. — Não seja bobo. Senti o hálito quente no rosto...Ele soltou um suspiro. Que ele tinha consideração pelas pessoas. e tremendamente satisfeita. — E eu. — Eu gostaria de ser o único homem que você vai beijar neste milênio — disse.. e com uma das mãos no bolso do paletó. — E que eu sou tão alto. — Eu quero lhe perguntar uma coisa. sabendo no fundo qual seria a pergunta e qual seria a resposta.... nem atlético — ele olhou para os pés e soltou um suspiro. — Você não se importa de eu ser uma mulher avantajada? Ele envolveu-me o pulso com os dedos longos.Cannie? — sussurrou Peter.. Joy soltou um gritinho e deu um soco no ar. Acho que você é inteligente. e o meu cabelo começou a ficar grisalho quando eu tinha dezoito anos. que ele era um homem tão bom. A resposta era que eu o amava. Ele se inclinou para perto de mim. — Tramo os passos que vou dar. sabe. — Tenho trinta e sete.. — Como nas tramas de Assassinato por escrito? Um leve rasgo de sorriso repuxou-lhe os lábios.Psiu! — fiz. soou mais aguda e hesitante quando ele explicou.. Peter e Joy. . — Você gostaria de ser o primeiro homem que eu vou beijar neste milênio? — indaguei. E roçou os lábios no meu pescoço... — E mesmo? Sua voz. era decente. ainda provocativa.. ficar tramando. Eu sorri — um sorriso particular. — e aí parou. depois na minha orelha. — Será que nós chegamos à parte emotiva da apresentação? perguntei. — ele fez uma pausa para engolir em seco. por ser professor... — Acho você a mulher mais impressionante e excitante que já conheci. eu acredito em você. Aceito.. acho. — Não sou nada glamouroso. — Especialmente agora com o estiramento — murmurei.. enfaticamente. assim. depois no meu rosto. pé ante pé... pensei. E eu sabia qual seria. doce.. — Preciso pensar para andar.. — Você tem trinta e sete? — Quer ver a minha identidade? — Não — falei —. e.. enquanto ele permanecia ali sentado. acho que todo mundo tira certas conclusões.

Sorri para Peter. e à assessora de Joanna. O rosto de Joy estava vidrado. a Lorraíne Branham. tradutora de Bom de cama para o alemão. Wendell. por ser tão boa amiga. pegue-a com as mãos pelas axilas e segurei-a à minha frente. cm direção ao rio. Obrigada à minha musa inspiradora. "Rei de Todos os Cães". Ignorando os gritos atenciosos de "Ei. Obrigada a Caren Morofsky. Frances Frumin Weiner. a Max Ktng e a Robert Rosenthal.pensei. Desde o primário até a faculdade. editora extraordinária. que ajudaram Cannie a ver o mundo. Por cima de nossas cabeças. que tirou Cannie da obscuridade. fiquei de pé em cima da laje. Obrigada à assessora de Greer. Bill Syken. Depois soltei Joy do carinho. especialmente a Susan Abrams. que pegou uma dúzia de discrepâncias e aprendeu o significado de Tater Tot. que me inspiraram e me divertiram. deixando que o frio e aquela luminosidade toda banhassem o meu cabelo. com os melhores do ramo no The Philadelphia Inquirer. e Manuela Thurner. e aprendi muito. AGRADECIMENTOS Bom de cama não teria sido possível sem a minha brilhante. cuidado aí na frente" e "Moça. que sempre acreditou em mim e a minha mãe. a Jonathan Storm. fique sentada". Eu quero. a Carrie Rickey. dispararam os fogos. pedindo com os olhos que ele esperasse. enquanto me punha de pé. Greer Kessel Hendricks. aos meus irmãos Jake e Joe. cujos olhos apurados e sugestões inestimáveis fizeram deste um livro muito melhor. Kelly Smith. Levantei os braços acima da cabeça e ergui Joy em direção à luz. fui contemplada com professores que acreditavam em mim e no poder das palavras: Patricia Ciabotti. limpou-a e encontrou um lar para ela. a minha avó Faye Frumin. Suzanne O'Neill. John McPhee. Obrigada aos meus amigos. numa explosão de cores e luzes. OS olhos arregalados. como se ela quisesse abraçar tudo que estava vendo. e a Gail Shister. os braços esticados. e Scott Andron. Vai começar. paciente e dedicada agente Joanna Pulcini. Craig e Elizabeth LaBan. Agradeço a Beth Gillin. . — Psiu! — repeti. e a noite se encheu de explosões e dos assobios dos fogos detonados que cruzavam o céu até cair dentro da água. com um dedo levantado. Marie Miller e. Eu trabalho. que ainda não consegue acreditar que isto está acontecendo. Obrigada à minha irmã Molly. Obrigada a Linda Michaels e a Teresa Cavanaugh. em especial. Olhei para baixo. que responderam a mil perguntas e seguraram minha mão. Caiu uma chuva de fagulhas prateadas. Agradeço a Liza Nelligan pela leitura minuciosa e pelos bons conselhos. o meu rosto e a minha filha. Também agradeço à minha editora. Lisa Maslankowski (pela orientação médica).

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