Introdução à Filosofia
Helenismo
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Agora que já temos uma base sobre importantes correntes filosóficas, como platonismo, aristotelismo,
racionalismo, empirismo, vamos estudar outras correntes que contribuíram significativamente para a história da
Filosofia, favorecendo a compreensão do mundo e a condução da vida para que fossem as mais racionais
possíveis, mas sem caírem numa visão arbitrária e unilateral.
Nesta webaula, mais especificamente, passaremos pelas contribuições do período helenístico, quando, de certo
modo, o homem se viu sozinho, sem poder contar com a contribuição da pólis e vivendo sem a perspectiva de
participar ativamente das decisões políticas.
Qual é nossa postura diante das dificuldades às quais somos expostos? Qual é a relação dessa postura com a
nossa ideia do que é felicidade?
Essa era a preocupação dos filósofos que sucederam Aristóteles: como ser feliz imerso em um mundo conturbado,
tumultuado, sem perspectivas de melhoras, sem a possibilidade de decidir sobre os rumos da própria vida? Como
ser feliz em uma pólis sem autonomia, sem liberdade e sem poder de decisão? Como ser feliz obedecendo ordens
e desenvolvendo atividades que contrariam a nossa própria natureza?
Os filósofos do período helenístico apresentaram cinco versões diferentes de efetivação da felicidade: ceticismo,
ecletismo, cinismo, epicurismo e estoicismo, mesmo em um ambiente inóspito e hostil como aquele vivenciado na
época em que os macedônios fizeram da Grécia uma das suas colônias.
Embora a Filosofia não se paute pelo utilitarismo, naquele momento histórico ela acabou servindo a esse
propósito, pois era preciso fornecer hermenêuticas sólidas e concretas que pudessem aplacar a amargura de
uma vida rasa e insossa, bem como nortear o agir humano rumo ao seu maior bem, o desfrute da felicidade.
Como ser feliz em um emaranhado de mudanças? É isso que as correntes do período helenístico tentaram
responder.
Principais escolas do período helenístico
Alexandre Magno
Helenismo é o período em que a filosofia grega, o
modo de viver dos gregos, extrapola os limites
geográficos da Grécia e passa a influenciar boa parte
do mundo antigo, sobretudo Roma. Este processo tem
início com as conquistas de Alexandre Magno, pois ele
foi um divulgador do modo de vida dos gregos.
Derrotadas pelos macedônios, as pólis gregas
perderam a independência, a autonomia e deixaram
de ser o plano de fundo indispensável à felicidade
humana. Os assuntos de interesse público não foram
mais debatidos por todos, mas impostos pelos
dominadores. Como ser feliz vivendo assim, sendo
conduzido por outros? As escolas helenísticas têm uma
visão intimista e individualista da moralidade e exaltam
o equilíbrio como forma para o homem ser senhor de Fonte: Wikipédia.
si.
O helenismo também compreende o ceticismo, “[c]oncepção segundo a qual o conhecimento do real é
impossível à razão humana”, cabendo ao homem “renunciar à certeza, suspender seu juízo sobre as coisas e
submeter toda afirmação a uma dúvida constante”, opondo-se ao dogmatismo. O “ceticismo inspira em
grande parte a atitude crítica e questionadora da filosofia contemporânea”, tais como “as questões da
relatividade do conhecimento e dos limites da razão e da ciência, que a epistemologia contemporânea trata”,
que “têm raízes no ceticismo clássico e no moderno” (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2001, p. 31).
1. Ceticismo
A tese dos céticos é que o homem não atinge a sabedoria conhecendo a verdade, mas procurando-a. A verdade
não nos é acessível, podemos conhecer apenas as aparências. Só Deus conhece a verdade, ao homem cabe
investigá-la; disso resulta a compreensão de que devem existir duas verdades: uma divina, ligada ao
conhecimento em si, e outra humana, pautada pela busca, pela procura.
O ceticismo foi formulado por um oficial de Alexandre, Pirro de Elida (360-270 a.C.), que nada escreveu e cujo
pensamento foi conhecido e divulgado pelo médico de Alexandria, Sexto Empírico (séc. II - séc. III d.C.). Para ser
coerente, o cético deveria suspender todos os juízos (epoké) e calar-se (afasia).
Pirro de Elida
Fonte: Wikipédia.
Devido a isso, o pirronismo ou ceticismo pirrônico foi considerado a forma extrema do ceticismo grego
(ABBAGNANO, 2003).
2. Ecletismo Alexandre Magno
O ecletismo vem do grego eklégein, o qual significa
reunir, juntar, selecionar. Surgiu como uma tentativa
de buscar a verdade nos pontos comuns das diversas
correntes filosóficas. Seu principal representante foi
Cícero (106-43 a.C.), filósofo, político e orador romano.
Segundo o ecletismo, os desacordos não sinalizam a
incapacidade da razão em atingir a verdade, mas de
abrangê-la com um único olhar. Devido a esse fato,
pode ocorrer de um filósofo se limitar a investigar um
aspecto e outro se dedicar a um aspecto diferente da
realidade, chegando ambos a conclusões obviamente
diferentes. Daí a necessidade de não se confiar em um
pensamento filosófico apenas, mas reunir o que há de
melhor entre eles.
Fonte: Wikipédia.
3. Cinismo
Entre as principais escolas do período helenístico, encontra-se o cinismo, que defendia o desprezo a todas as
convenções sociais e sustentava a ideia de que a virtude só é obtida quando se elimina da vontade todo o
supérfluo, tudo aquilo que é exterior. Essa escola defendia um retorno à vida da natureza, errante e instintiva,
como a dos cães (daí vem o nome da escola. Kynos é cachorro em língua grega): sem se preocupar com conforto,
luxo e prazeres. O maior representante é Diógenes de Sinope (413-323 a.C.), o qual afirmava que preferia morrer
do que sentir prazer; perambulava pelas ruas e dormia dentro de um barril como se fosse uma casinha de
cachorro.
Diógenes de Sinope
Fonte: Pintura de Jean-Gérôme de 1860 via Wikipédia.
4. Estoicismo
O estoicismo (stoá significa portão, pórtico em língua grega) sustentava a ideia de que o objetivo da ética deve ser
levar o homem a encontrar a felicidade por meio da ataraxia (imperturbabilidade). Anacoretas, eremitas e monges
podem ilustrar essa visão estoica, pois a busca do êxtase místico ou do nirvana tem paralelo com o estoicismo.
Essa escola pregava a resignação (o contrário de indignação: a aceitação), donde decorre a ideia de paciência
estoica: aceitar pacientemente tudo o que acontece, pois faz parte do plano divino, desprezando toda forma de
prazer e sendo insensível aos bens do mundo.
5. Epicurista
O nome dessa escola se deve ao seu fundador Epicuro de Samos (341-270 a.C.), para quem o papel da filosofia é
curar os males da alma, assim como a medicina busca curar os males do corpo.
A escola epicurista era hedonista (buscava o prazer), Epicuro de Samos
porém o prazer como ausência de paixões, ausência de
sofrimento (apatia). A virtude é o prazer espiritual, a
paz de espírito e o autodomínio. É necessário que se
diminua toda influência externa sobre o bem-estar do
espírito. Não há nada a temer, pois a pior coisa é a
morte, e, quando ela chega, perdemos a consciência.
Portanto, trata-se de um medo tolo.
Existem prazeres naturais e necessários que devem ser
sempre satisfeitos, como comer, beber, descansar, etc.,
pois a não satisfação compromete a nossa saúde e a
nossa vida. Também há prazeres naturais não
necessários que podem ser satisfeitos às vezes, como
comer bem, tomar bebidas refinadas, etc., além dos
prazeres não naturais não necessários e que jamais
devem ser satisfeitos, como as drogas, por exemplo,
que comprometem a nossa saúde e a nossa vida.
Fonte: Wikipédia.
Para enriquecer sua compreensão acerca desse período da Filosofia, leia o Capítulo 6 do livro A ética do bem viver
em Epicteto. Nele, você verá que a Filosofia como modo de vida é matéria das escolas filosóficas antigas, tanto
gregas quanto romanas. Várias escolas filosóficas desenvolveram discursos para esclarecer e apoiar a prática
filosófica. A obra aqui mencionada surge de uma dissertação que reflete a ética do bem viver, específica do
filósofo greco-romano Epicteto, que viveu no primeiro século de nossa era. A busca por um ideal de vida tinha
como tópicos fundamentais as virtudes, a felicidade, o sereno fluxo de vida e a imperturbabilidade da alma, porém
a serenidade será considerada aqui como o próprio objetivo da ética do bem viver de Epicteto, em que é feita uma
diferenciação entre aquilo que está em nosso poder e o que não está – distinção importante para o
desenvolvimento de uma terapêutica de si em direção à serenidade.
FONTOURA, F. C. da. A ética do bem viver em Epicteto. Porto Alegre: Editora Fi, 2017.
Essas são as contribuições das escolas filosóficas que compõem o período helenístico. Todas refletindo acerca da
felicidade e cada uma delas defendendo a importância de elementos distintos que nos possibilitam uma vida
plena, prazerosa e completa, fazendo que vivamos uma vida que valha a pena ser vivida.