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FILOSOFIA GERAL E DO DIREITO

FILOSOFIA ANTIGA
Nathalia Lipovestky

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Olá!
Você está na unidade Filosofia antiga. Conheça aqui a origem da filosofia bem como as questões cosmológica,

ética e metafísica.

Bons estudos!

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1. Origem da filosofia
A respeito da origem da Filosofia, todos os livros são praticamente unânimes em afirmar que foi um evento que

ocorreu por volta do século VI ou VII a.C., na Grécia. Pode parecer estranho fazer uma afirmação com tanta

exatidão sobre um algo que ocorreu há mais de vinte e cinco séculos, mas isso é possível exatamente porque

existem comprovações históricas e arqueológicas de que o que chamamos de pensamento filosófico-científico

surgiu com um filósofo chamado Tales. Aristóteles afirmou, poucos séculos depois, que Tales foi o primeiro

filósofo (MARCONDES, 2008).

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São duas as principais fontes de que dispomos para o conhecimento dos filósofos pré-socráticos: a

doxografia e os fragmentos. A doxografia consiste em sínteses do pensamento desses filósofos e

comentários a eles, geralmente breves, por autores de períodos posteriores, indo basicamente de

Aristóteles (384-323 a.C) a Simplício (séc. VI). Os fragmentos são citações de passagens dos próprios

filósofos pré-socráticos encontradas também em obras posteriores. A diferença principal entre

ambos é a seguinte: enquanto o fragmento nos dá as próprias palavras do pensador, a doxografia

apresenta seu pensamento nas palavras de outro. (MARCONDES, 2008, p.30).

O período que denominamos de Antiguidade (4000 a.C. a 476) comporta muitos povos e todos eles possuem

cultura e história próprias, como os assírios, os babilônios, os chineses, os egípcios, os indianos, os persas, os

hebreus. Esses povos também tiveram suas concepções de natureza e formas de explicar os fenômenos naturais,

mas nenhum deles parece ter alcançado o grau de sofisticação necessário para que sua forma de pensar se

caracterizasse como científica, como ocorreu com o povo grego (MARCONDES, 2008).

A grande virada que se presencia na Grécia, com os primeiros filósofos, é a chamada passagem do mito ao logos

. A mudança essencial que nos garante o surgimento da Filosofia nesse momento é, portanto, quanto ao discurso

de explicação da realidade. O logos é um termo em grego que significa discurso, ou seja, é uma explicação que

apresenta razões. Por isso é possível afirmar que o discurso dos primeiros filósofos é um logos, pois eles

buscavam explicar a realidade por meio de causas naturais (pensamento humano aplicado ao entendimento da

natureza). Em oposição ao mito, portanto, o logos é um discurso racional e crítico (MARCONDES, 2008). Os

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outros povos (e também os gregos) recorriam ao mito para explicar a realidade, porém, na Grécia, pela primeira

vez isso se alterou de forma significativa e sistematizada.

O pensamento mítico consiste em uma forma pela qual um povo explica aspectos essenciais da

realidade em que vive: a origem do mundo, o funcionamento da natureza e dos processos naturais e

as origens desse povo, bem como seus valores básicos. O mito caracteriza-se sobretudo pelo modo

como estas explicações são dadas, ou seja, pelo tipo de discurso que constitui. O próprio termo grego

mythos significa um tipo bastante especial de discurso, o discurso ficional ou imaginário, sendo por

vezes até mesmo sinônimo de “mentira”. (MARCONDES, 2008, p. 20).

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O mito faz, portanto, parte da cultura de um povo e pressupõe que as pessoas o aceitem, globalmente, sem

questionamento. O mito é a própria visão de mundo desse povo, excluindo a possibilidade de outras perspectivas

que poderiam fundamentar seu questionamento, já que as pessoas desconhecem outra forma de existir e

compreender a realidade: “ou o indivíduo é parte dessa cultura e aceita o mito como visão de mundo ou não

pertence a ela e, nesse caso, o mito não faz sentido para ele, não lhe diz nada” (MARCONDES, 2008, p. 20).

O mito recorre ao sobrenatural e sempre envolve elementos relacionados ao sagrado, à magia, ao mistério. As

explicações sempre recorrem aos deuses e sua vontade, o mundo humano é governado por forças superiores e

exteriores que devem ser respeitadas. Quando surge uma insatisfação quanto a essas explicações, surge a

possibilidade de se buscar respostas diferentes, baseadas em evidências e na lógica, iniciando, portanto, o que

chamamos de ciência.

O pensamento mítico tem uma característica até certo ponto paradoxal. Se, por um lado, pretende

fornecer uma explicação da realidade, por outro lado, recorre nessa explicação ao mistério e ao

sobrenatural, ou seja, exatamente àquilo que não se pode explicar, que não se pode compreender por

estar fora do plano da compreensão humana. A explicação dada pelo pensamento mítico esbarra

assim no inexplicável, na impossibilidade do conhecimento (MARCONDES, 2008, p. 21).

O mito é um recurso dialógico importante, porque tem força e capacidade de sensibilizar e influenciar quem o

ouve. E não se trata de um discurso completamente desprovido de lógica, tanto que quase sempre apresenta

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alguma lição a ser aprendida. Sua utilização não foi descartada por completo e permanece até os dias atuais, de

certa forma. A diferença é que o mito deixou de ser a única explicação existente e surgiu uma nova forma de

procurar respostas para as mesmas perguntas, uma forma que procura se basear no que, diferentemente do que

faz o mito, está ao alcance da compreensão humana. O que ocorre, portanto, é uma substituição da cosmogonia

(explicação da origem do universo baseada em mitos) pela cosmologia (explicação racional e sistemática das

características do universo).

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2. Filosofia antiga: questão cosmológica
A transição do pensamento mítico ao filosófico, da qual falamos anteriormente, se operou por meio do grupo

de pensadores que denominamos de pré-socráticos. Essa alcunha não significa que formem um grupo

homogêneo, mas apenas que vieram antes do filósofo Sócrates, que foi um divisor de águas no pensamento grego

clássico.

Figura 1 - Sócrates
Fonte: stefanel, Shutterstock, 2020.

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#PraCegoVer: A imagem mostra uma imagem do filósofo Sócrates em escultura exposta na Academia Nacional

de Atenas, na Grécia.

O que encontramos em comum no pensamento dos pré-socráticos é justamente o rompimento com os traços

mitológicos e sagrados que marcavam as concepções do período anterior. De resto, há muitas concepções,

interesses e escolas diferentes dentre os pré-socráticos. Não se pode falar em uma ideia de justiça uniforme

entre os pré-socráticos, por exemplo. As ideias sobre justiça e injustiça estão arraigadas a seus sistemas

filosóficos, mas a discussão sobre justiça não constitui uma preocupação particular como a ético-moral ou

político-jurídica (BITTAR, 2013).

Aristóteles chama os primeiros filósofos de physiológos, ou seja, estudiosos ou teóricos da natureza (

physis). Assim, o objeto de investigação dos primeiros filósofos-cientistas é o mundo natural; sendo

que suas teorias buscam das uma explicação causal dos processos e dos fenômenos da naturais a

partir de causas puramente naturais, isto é, encontráveis na natureza, no mundo natural, concreto, e

não fora deste, em um mundo sobrenatural, divino, como nas explicações míticas. Segundo esse tipo

de visão, portanto, a chave da compreensão da realidade natural encontra-se nesta própria realidade

e não fora dela (MARCONDES, 2008, p. 24).

Os pré-socráticos foram, então, os primeiros filósofos e sua atuação se concentra no período entre 623 a.C. a 399

a.C. Vamos analisar, brevemente, as preocupações principais de alguns deles, para demonstrar como a

cosmologia permeia todo o pensamento pré-socrático como característica predominante. Nesse período, existe

um interesse forte em buscar descobrir o que seria a substância primordial, ou arché, algo que possa ser

encontrado em tudo e que seja a origem de todas as coisas.

A importância da noção de arqué está exatamente na tentativa por parte desses filósofos de

apresentar uma explicação da realidade em um sentido mais profundo, estabelecendo um princípio

básico que permeie toda a realidade, que de certa forma a unifique, e que ao mesmo tempo seja um

elemento natural. Tal princípio daria precisamente o caráter geral a esse tipo de explicação,

permitindo considerá-la como inaugurando a ciência. (MARCONDES, 2008, p. 26).

Tales de Mileto (623-546 a.C.) foi considerado o primeiro pensador grego. Sua dedicação principal era à

astronomia e à geometria. Para ele, a água é a substância primordial, a origem de todas as coisas, pois permanece

a mesma em todas as transformações dos corpos. Anaximandro de Mileto (610-547 a.C.) busca aprofundar as

concepções de Tales. Para ele, a arché não pode ser algo material, deve ser algo que transcende o observável

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(realidade ao alcance dos sentidos). Define, então, que a arché deveria ser uma massa geradora dos seres que

contém em si todos os elementos contrários, o que denominou de Ápeiron. Anaxímenes de Mileto (588-524 a.C.)

afirmou que a origem de todas as coisas é indeterminada e preferiu não atribuir caráter oculto ou transcendental

para a origem de todas as coisas. Concluiu ser o ar o princípio de tudo (invisível, imponderável, divindade que

anima o mundo).

Pitágoras de Samos (570-490 a.C.) funda uma sociedade filosófica poderosa e influente e atribui uma estrutura

matemática à arché. Para Pitágoras, a essência de todas as coisas está nos números. Podemos observar, aqui, a

importância incorporada às ideias de ordem e harmonia, ou seja, pela primeira vez aparecem ordem e

constância fundamentando o pensamento pré-socrático. Pitágoras é um nome marcante até os tempos atuais por

suas contribuições na matemática, sendo seu teorema certamente a mais famosa delas.

Para Heráclito de Éfeso (500 a.C.) a realidade é dinâmica, está em permanente transformação. Pertence à

chamada Escola Mobilista, que se define pela noção de que há um fluxo constante impulsionado por forças

contrárias. O mundo evolui a partir das lutas, é um devir, ou seja, uma eterna mudança. Estatui o fogo como

princípio: chamas vivas e eternas governam o movimento. É de Heráclito a famosa frase “não se pode entrar

duas vezes no mesmo rio”, que traduz e sintetiza seu pensamento.

Parmênides de Eléia (510-470 a.C.) faz oposição a Heráclito. Afirma que há dois caminhos: o caminho da

filosofia e da razão ou o caminho da crendice e da opinião. Assim, existe o ser e sua não-existência não é

concebível: “o ser é; o não-ser não é”. Esses são princípios lógicos de identidade e não contradição que foram

posteriormente desenvolvidos por Aristóteles. Foi o primeiro filósofo a pensar o ser ideal no plano lógico.

Fique de olho
Os pré-socráticos são comumente agrupados em escolas, divididas mais ou menos
geograficamente. A Escola Jônica se caracteriza pelo interesse pela physis e teorias sobre a
natureza e dela fazem parte Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Xenófanes e Heráclito. A Escola
Italiana apresenta visão de mundo mais abstrata, antecipando, em certa medida, o surgimento
da lógica e da metafísica. Dela fazem parte Pitágoras, Alcmeon, Filolau, Parmênides, Zenão e
Melisso. (MARCONDES, 2008).

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3. Filosofia antiga: questão ética
Embora a palavra “Ética” seja dotada de muitos significados atualmente, vamos aqui nos deter ao seu sentido

mais básico, que é o de preocupação com as causas e efeitos do agir humano. Assim, toda a reflexão a respeito de

como o comportamento humano em suas ações voluntárias pode levar ou não à realização de determinados fins,

será objeto da Ética. O grupo denominado de Sofistas dá início à fase com prerrogativas como:

o homem é colocado no centro das atenções (o que é um grande mérito da sofística);

não formam uma única escola, apenas possuem afinidades de ideias e modos de vida: ensinavam de modo

itinerante a arte da retórica e da persuasão;

suas reflexões ensejam uma relativização da justiça, por combaterem tudo que é absoluto, fixo, eterno, inabalável;

seus conceitos se afastam de todo tipo de ontologia, metafísica ou mistificação de valores sociais;

na prática judiciária a retórica e a oratória se mostram muito úteis, por isso a atividade dos sofistas era muito

procurada.

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Para os sofistas, a lei (nomos) é o que liberta o homem da barbárie. Aquele período de pensamento e reflexão

sobre as coisas da natureza e do universo ficou para trás e a afirmação agora é a de que o homem é a causa de si

mesmo, não a natureza. As leis não são iguais em toda parte, o que mostra que são fruto da atividade humana e

por isso valores e legislação variam dentre as diferentes culturas (BITTAR, 2013).

O pensamento sofístico promove uma relativização do conceito de justiça pela identificação com o conceito de

legalidade: justo é o que está na lei. Esse raciocínio leva à inconstância do conceito de justiça, pois a lei positiva

pode mudar a qualquer momento (BITTAR, 2013).

A atividade dos sofistas foi favorecida por fatores políticos e sociais conjunturais, específicos de Atenas. Foi um

momento de expansão das fronteiras gregas e de intensificação do comércio e do acúmulo de riquezas. A

estruturação da democracia ateniense é um desses fatores, pois houve uma esquematização da participação

popular nos instrumentos de exercício do poder, sem necessidade de provar riqueza, nobreza ou ascendência.

Isso implica a necessidade da técnica de falar para o uso em assembleias (oratória, retórica), que era

basicamente exercício da cidadania através do discurso. A democracia diretamente exercida exige que o cidadão

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seja capaz de falar em público, articular suas ideias e que domine a arte da argumentação e do convencimento

por meio de sua fala. Era esse o produto oferecido pelos sofistas (BITTAR, 2013).

Os Sofistas de maior destaque foram Protágoras, Górgias, Pródico, Hípias, Antífon, Trasímaco, Crítias,

Antístenes, Alcidamas, Licófron.

Sócrates é uma figura interessantíssima porque não existe certeza a respeito de sua existência. Por não ter

deixado nada escrito, os relatos de sua existência e atuação chegam até nós por meio de outros filósofos,

especialmente Platão. Sócrates teria vivido no séc. V a.C. e é considerado um divisor de águas na filosofia antiga

por centrar suas especulações na natureza humana e em suas implicações ético-sociais. Suas interações

principais são com os sofistas, de quem é o grande antagonista. Seus ensinamentos e discussões atacam

exatamente o relativismo, típico do pensamento sofístico.

Sócrates aceita sua condenação à morte por respeito às leis de Atenas, mesmo sendo inocente das acusações.

Recusa-se a fugir, mesmo tendo amigos influentes que poderiam favorecer essa possibilidade, por defender que

obedecer a lei era o limite entre civilização e barbárie. Teve a Ética como modo de vida e filosofia. Suas reflexões

aparecem retratadas nos diálogos platônicos, em questões como “o que é a justiça?”, “o que é o Bem?”, “o que é o

amor?”, “o que é a coragem?” e levam à conclusão de que o conhecimento reside no interior do próprio homem.

Acredita que o mal é praticado quando não se sabe diferenciar o bem do mal, por isso é necessário o

conhecimento. A felicidade é o controle das paixões e a busca do saber (BITTAR, 2013).

O Direito é, para Sócrates, o instrumento humano de coesão social, para a realização do bem comum por meio

do cultivo das virtudes (desenvolvimento das potencialidades humanas). Postula a inderrogabilidade das leis da

cidade pela vontade humana, em contraposição à efemeridade das leis (variáveis no tempo e no espaço) pregada

pelos sofistas: moralidade e legalidade caminham juntas. (BITTAR, 2013).

Sua Ética é teleológica, ou seja, visa à finalidade. A felicidade (controle das paixões e a busca do saber) deve ser o

fim da ação, que um conhecer-se. Para Sócrates só erra quem desconhece, ou seja, a ignorância é o maior dos

males. Erradicar a ignorância através da educação (paideia) é a tarefa do filósofo. Postula que a Ética do coletivo

está acima da ética do indivíduo. (BITTAR, 2013:109)

O discípulo mais famoso de Sócrates é Platão (428 a.C a 328 a.C), nascido em uma família nobre em Atenas e cujo

verdadeiro nome era Arístocles. A alcunha surgiu em função de sua compleição física, pois Platão em grego

significa “ombros largos”.

Platão desenvolveu uma ética sustentada pelas ideias de ordem e de harmonia como caminho para se alcançar o

bem. Platão utiliza o mito com propósitos definidos, embora afirme que o mito não é verificável e não tem

organização interna. Para ele, o mito não é um mero emaranhado sem lógica nem vazio de razão e serve de

intermediário ao discurso filosófico (ético e político). Afirma que, em certo sentido, o mito é uma forma de logos

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se for considerado o significado de logos como discurso, ou seja, como o pensar manifestado pela voz por meio

de verbos e substantivos. O mito tem a vantagem de ser um meio de comunicação da sabedoria compartilhada e

possibilita a transmissão para outras gerações com o propósito de influenciar. Um dos mais conhecidos mitos

utilizados por Platão para transmitir suas ideias é o mito da caverna, que serve como metáfora para os graus do

conhecimento e a possibilidade da Filosofia.

Dentro da ética platônica há alguns conceitos chave, como o conceito de alma, de conhecimento, de amor e de

justiça. Estes conceitos se entrelaçam de forma mais ou menos circular, ou seja, é quase impossível explicar um

sem precisar recorrer ao outro. Para alcançar o conhecimento autêntico, Platão institui o método dialético, que

“consiste na contraposição de uma opinião com a crítica que dela podemos fazer, ou seja, na afirmação de uma

tese qualquer seguida de uma discussão e negação desta tese, com o objetivo de purificá-la dos erros e

equívocos”. (COTRIM, 2001, p. 97).

A discussão sobre o amor é promovida na obra O Banquete e as respostas são dadas por Sócrates, baseado nos

ensinamentos de Diotima, uma sacerdotisa que afirma que o amor é o desejo de qualquer coisa que não se tenha

e à qual se aspire, ou seja, o amor é a Filosofia. O amor é um intermediário entre o saber e o não-saber, entre o

humano e o divino. O amor participa da imortalidade, é capaz de transmitir aos deuses o que vem dos homens e

aos homens o que vem dos deuses.

A alma é discutida no livro Fédro, onde é apresentada a divisão entre alma e corpo. A alma tem uma história, é

imortal e move a si mesma. É o mais próximo que o homem pode chegar da divindade, do absoluto, pois ela é a

sede da racionalidade. Por isso, a alma deve ser educada. Educar a alma é permitir que a alma se lembre de tudo

que viu quando estava ainda no mundo das ideias e possibilitar que o homem seja responsável por seu destino

por meio da racionalidade. Chegamos, assim, ao conceito de conhecimento, que é a conjugação da formação

pedagógica com um caminhar espiritual.

A alma se divide em três eixos fundamentais, que são temperança, coragem e sabedoria. Esses mesmos eixos são

a divisão da cidade justa. Na cidade justa a ordem e a harmonia são respeitadas e cultivadas, de forma que a

justiça é o dever que se impõe a cada um de não exercer mais que um emprego na sociedade, aquele para o qual

a natureza lhe deu mais aptidões.

No cidadão, a justiça é a temperança dos desejos, a coragem das paixões e a sabedoria da razão; na polis, é a

temperança dos produtores e comerciantes, a coragem dos soldados e a sabedoria dos governantes. A educação

para a vida justa é a educação para a polis, pois a educação serve para que se possa identificar o verdadeiro Bem.

A justiça nasce do conhecimento e é uma forma de aproximação da divindade. A justiça é o bem em si desejável, é

a virtude que a todos convém.

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É importante caracterizar, ainda, dentro da questão ética no período da Antiguidade, as chamadas Filosofias

helenísticas, com ênfase no Cinismo, no Epicurismo e no Estoicismo.

O período helenístico é aquele que se compreende a partir da conquista da Grécia pelos macedônicos (322 a.C.)

e caracteriza-se pela interação cultural entre a cultura grega clássica e a cultura dos povos orientais

conquistados com a expansão do Império Macedônico. Em Atenas, houve a continuação das atividades da

Academia e do Liceu por discípulos de Platão e Aristóteles. No entanto, o foco da reflexão ética teve uma

alteração em função das mudanças políticas que ocorreram. O cidadão não tem mais participação ou influência

na vida política da cidade e isso acarretou um abandono da reflexão política (vida pública) pela filosofia, cujas

reflexões deslocam-se para a vida privada. As preocupações, antes coletivas tornam-se preocupações individuais

a respeito de temas como a intimidade, a vida interior do homem, busca de filosofias de vida, a arte de viver, a

busca de paz de espírito e felicidade interior (COTRIM, 2001).

O cinismo é uma filosofia derivada da palavra grega kynos, que significa “cão”. Seu maior ícone, Diógenes, era

conhecido como o cão e por questionar, inclusive publicamente, valores e tradições sociais. Foram filósofos que

se propuseram a viver como cães da cidade, sem propriedades nem conforto. Levaram a filosofia de Sócrates ao

extremo (procurar conhecer a si mesmo e se desprender de bens materiais) (COTRIM, 2001).

O epicurismo foi uma Escola que deve seu nome ao pensador grego Epicuro de Samos (341-270 a.C.) e que elege

no prazer a finalidade do agir humano. Constitui-se num momento histórico de decadência da Grécia e

apresenta, portanto, uma filosofia de desapontamento com a política do seu tempo. Sua doutrina busca explicar o

mundo a partir dos elementos que o integram, tratando de temas como a matéria, o átomo e as sensações. A vida

é apenas uma interação de átomos no cosmos, o que quer dizer que a morte é somente sua desagregação e nada

significa (por estar privado de sensibilidade o que se dissolveu). O cosmos se autogoverna. (BITTAR, 2010).

Por acreditarem que a mitologia e as filosofias que os antecederam não forneceram respostas suficientes,

procuram dar explicação para tudo por meio da física, inclusive a explicação para a ética. O conhecimento

humano se dá por meio das sensações, que é como o homem experimenta o mundo, portanto, todas as outras

formas de conhecimento possíveis submetem-se aos sentidos: a ética está onde estão os sentidos (BITTAR,

2010).

A ação humana se dá, necessariamente, no sentido de evitar a dor e buscar o prazer, então, a realização

felicidade humana depende de se alcançar o prazer. O prazer é elevado a móvel da ação humana. Mesmo cientes

de que a definição e a interpretação do que seja doloroso ou prazeroso variam de pessoa para pessoa, o

epicurismo consegue sintetizar a noção de que toda dor é um mal (algo não natural) e todo prazer é um bem

(algo natural) (BITTAR, 2010).

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Apenas os deuses podem alcançar o prazer absoluto e constante, ou seja, é impossível a ausência absoluta de

dor. Mas é possível buscar suprimir o maior número de dores possível, tarefa do sábio. O prazer gera a

tranquilidade da alma, a estabilidade das sensações e a satisfação do corpo. O significado de prazer dentro da

filosofia epicurista é como ausência de dor. É importante não confundir o epicurismo com uma doutrina

sensualista, que estimula o cometimento de pecados e apego às coisas terrenas. Conhecer a dor e o prazer é o

que possibilita ao homem escolher causar dor ou prazer, o sábio deve procurar oferecer serenidade aos outros,

prolongar os prazeres, reduzir e suportar as dores, favorecer a que os outros participem do prazer (BITTAR,

2010).

É a prudência, a maior das faculdades humanas, que permite ao homem discernir na escolha de seus

comportamentos e atos no sentido de encontrar os prazeres úteis, naturais e necessários. Felicidade, no

epicurismo, é conquistar a ataraxia: estabilidade de ânimo diante das coisas, prazeres, paixões e da dor. Como a

orientação ética humana deriva das sensações, ou seja, o agir bem se determina nas sensações e na empiria, o

epicurismo consiste numa proposta que repele a injustiça por ser causa de dor e atrai a justiça por ser causa de

prazer: a justiça epicurista consiste em não causar nem sofrer dano. O homem justo é o homem tranquilo e

sereno, enquanto o homem injusto é perturbado e desequilibrado (BITTAR, 2010).

A Ética estoica é uma ética da ataraxia (estado de harmonia corporal, moral e espiritual). O homem ético

respeita o universo, as suas leis e a si próprio – conhece a si mesmo e a suas limitações – e alcança a ataraxia por

saber distinguir o bem do mal). A ataraxia é o momento máximo de um processo mais longo de autodepuração

da alma, descoberta de sua interioridade, estado imperturbável diante de ocorrências externas. A ética estoica é,

portanto, uma ética derivada da conjugação dos conhecimentos adquiridos pelo homem. (BITTAR, 2010).

A finalidade da conduta humana é a ação e a ética estoica determina o cumprimento de andamentos éticos pelo

dever. O conteúdo deste dever é simples de encontrar, pois as normas do agir emanam da natureza, a que o

homem não pode pretender se sobrepor. O homem discerne entre o que é favorável ou desfavorável em seu agir

por ser capaz de intuir as normas naturais. As virtudes cardeais que orientam a stoa são justiça, sabedoria,

fortaleza e temperança (BITTAR, 2010).

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4. Filosofia antiga: questão metafísica
Na contemporaneidade, a palavra metafísica pode apresentar mais de um significado dentro da Filosofia e é

objeto de muitas discussões acadêmicas. No entanto, é possível, devido ao recorte temporal do presente tópico,

delimitar nossa abordagem ao conceito de metafísica como aparece na obra de Aristóteles, num sentido mais

estrito, como a ciência do ente (aquilo que é) enquanto ente e de seus princípios fundamentais. Discute-se, então,

a essência do ser e o ato de existir do ser. (OLIVEIRA, 2016).

Figura 2 - Aristóteles
Fonte: Giannis Papanikos, Shutterstock, 2020.

#PraCegoVer: A imagem mostra uma estátua de Aristóteles situada na Praça de Aristóteles em Thessalonike, na

Grécia.

A denominação “metafísica” aparece pela primeira vez para classificar um grupo de livros da obra completa de

Aristóteles que vem após os livros da física. Seria, então, de plano, apenas a coleção daquilo que está depois da

física. No entanto, existe uma harmonia quanto ao conteúdo abordado nesses livros: “muitos estudiosos

acreditam que a atribuição do nome metafísica a esses livros não é mero acaso, mas está diretamente

relacionada com o próprio conteúdo dos textos, que tratam do princípio primeiro, de uma forma englobante ou,

ainda, de um ente primeiro” (GILBERT, 2004, p. 10 apud OLIVEIRA, 2016).

É importante frisar que a metafísica fundamenta a ética, ou seja, ainda que a denominação de metafísica tenha

aparecido apenas para a obra de Aristóteles, seu conteúdo aparece em momentos anteriores, ainda que sem a

articulação necessária. Platão também trata de temas próprios da metafísica, como a alma, o existir, a natureza

das coisas. Veremos adiante um pouco da metafísica aristotélica e, inevitavelmente, ao final, chegaremos em sua

ética, pois não são conteúdos que se separam. Muito pelo contrário, estão constantemente entrelaçados.

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A metafísica platônica consiste em sua teoria das ideias ou das formas, desenvolvida com a finalidade de

estabelecer a natureza dos conceitos e das definições a serem alcançadas. Com Platão considera-se iniciada a

metafísica clássica, ou da Antiguidade, ainda que a denominação e a delimitação do tema só tenham aparecido

posteriormente. A metafísica em Platão é, então,

uma teoria da natureza essencial das coisas, que nos permita assim realizar, quando nos

perguntamos “o que é x?”, a análise pretendida. Saberemos quando a resposta foi obtida se ela

satisfizer os critérios estabelecidos por esta teoria para a aplicação bem-sucedida do método, que se

dá quando este nos leva ao conhecimento desta natureza essencial da coisa. (MARCONDES, 2008, p.

56).

A necessidade de uma metafísica em Platão aparece da diferença de compressão sobre o que é a Filosofia que

este apresenta em relação a seu mestre, Sócrates. Para Sócrates, a Filosofia tem o papel de levar o indivíduo a

se compreender melhor e a sua própria realidade por meio de processos de transformações intelectuais

e de valores, enquanto para Platão a filosofia é essencialmente uma teoria, em que se é possível conhecer a

verdade última da natureza das coisas por meio de processos de abstração e de superação da experiência

concreta. Essa teoria do conhecimento pressupõe, requer, uma metafísica que a sustente, ou seja, uma teoria

sobre a realidade a ser conhecida. (MARCONDES, 2008).

Aristóteles (384 – 322 a.C) nasceu em Estagira, na Macedônia, filho de Nicômaco, médico do rei. Estudou na

Academia de Platão por cerca de 20 anos e era cotado para assumir a direção após a morte de Platão, mas foi

preterido por não ser ateniense. Fundou o Liceu em 335 a.C. Foi professor de Alexandre Magno entre 345 e 340 a.

C., quando este assumiu o trono macedônico e com a morte de Alexandre em 323 a.C. começou a sofrer

perseguições (COTRIM, 2001).

Aristóteles rejeita a teoria das ideias de Platão e postula que a realidade sensorial deve buscar as estruturas

essenciais de cada ser. O conhecimento deve se dar por indução, ou seja, do particular para o geral. Procura

conclusões científicas universais a partir de dados sensíveis (COTRIM, 2001).

As distinções entre ato e potência e entre substância e acidente são determinantes em toda a sua filosofia:

Ato
é a manifestação atual do ser, aquilo que já existe;
Potência
são as possibilidades do ser (capacidade de ser), aquilo que ainda não é mas pode vir a ser;
Substância
aquilo que é estrutural e essencial do ser;

Acidente

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Acidente
aquilo que é atributo circunstancial e não essencial do ser.

A passagem de potência em ato depende do agente guiado por uma finalidade:

É pois manifesto que a ciência a adquirir é a das causas primeiras (pois dizemos que conhecemos

cada coisa somente quando julgamos conhecer a sua primeira causa); ora, causa diz-se em quatro

sentidos; no primeiro entendemos por causa a substância e a quididade (o “porquê” reconduz-se

pois à noção última, e o primeiro “porquê” é causa e princípio); a segunda causa é a matéria e o

sujeito; a terceira é a de onde vem o início do movimento; a quarta causa, que se opõe à precedente,

é o “fim para que” e o bem (porque este é, com efeito, o fim de toda geração e movimento).

(ARISTÓTELES,1984, p. 16).

Temos, nessa passagem, as definições das causas: a causa material, que é a matéria de que alguma coisa é feita;

a causa formal, que é a forma que toma essa matéria; a causa eficiente, que é o agente que produziu a coisa; a

causa final, que é o objetivo ou razão de ser dessa coisa.

Para encontrar a essência humana, Aristóteles buscou captar a função específica do Humano e concluiu ser uma

atividade da alma que se traduz no exercício da razão. Dessa forma, a racionalidade pode ser apontada como a

essência humana, ou seja, a felicidade para o ser humano se realiza no ato de pensar:

A questão da essência humana é uma investigação primordial para a metafísica aristotélica e conclui

que a essência humana é o ato de pensar, a racionalidade: “aquilo que pertence a cada di próprio

pela sua própria natureza é o que há de mais poderoso e que dá um maior prazer. Desta forma, para

o Humano, isso é a existência humana de acordo com o poder da compreensão do sentido, porquanto

é este tipo de existência que corresponde à possibilidade extrema do próprio si humano e essa

existência é também a mais feliz de todas (ARISTÓTELES, 2009, p. 1178).

Na obra Da Alma Aristóteles escreve um tratado de biologia geral e define a alma como a forma do corpo vivo,

numa relação em que o corpo deve possuir determinadas qualidades físico-químicas que o tornem apto a servir

de matéria a sua alma correspondente. Há diversos tipos de almas, correspondentes aos diversos tipos de entes.

As etapas de desenvolvimento da alma são demarcadas pelas capacidades ou faculdades. Alguns estudiosos

listam essas capacidades como apenas três, deixando de fora a capacidade contemplativa, abordada em outras

obras de Aristóteles. (PELLEGRIN, 2009).

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Sua descrição da alma humana identifica quatro capacidades integrantes de um todo, cada qual com suas

tendências específicas e diferentes objetivos: vegetativa, apetitiva, deliberativa e contemplativa. Para todos

os níveis da alma há finalidades internas e externas, no sentido de que há, para cada um dos objetivos de cada

aspecto da alma, uma realização do ser como um todo em relação ao bom cumprimento desse objetivo

(LIPOVETSKY, 2017).

O nível vegetativo da alma equivale ao funcionamento biológico do corpo, compreendendo os processos

inconscientes e involuntários do organismo concebido como uma máquina, para garantir a existência mecânica

da pessoa. É um aspecto da alma que o ser humano compartilha com as plantas, com a diferença de não se

dissociar dos demais aspectos da existência humana. Existe um objetivo específico intrínseco e distintivo de cada

parte da alma e a parte vegetativa a cumpre exercendo bem aquilo que se espera dela: a pele, por exemplo, tem

em si mesma o propósito de proteção e regulação de temperatura, e é boa como pele na medida em que alcança

esse propósito (LIPOVETSKY, 2017).

O nível apetitivo compreende as emoções e sentimentos, as manifestações dos desejos de uma pessoa, atuando

como fonte de motivação e energia para viver. Embora seja uma parte da alma que o ser humano tem em comum

com os animais irracionais, no ser humano esse aspecto desejoso é fundamentalmente teleológico na visão de

Aristóteles:

o aspecto apetitivo do nosso ser é a tendência do organismo a buscar a sua própria realização

através da excelência dos seus desejos. Essa realização não é apenas a excelente busca dos seus

desejos ou a consumação bem-sucedida deles, mas também o ter desejos que aperfeiçoem o seu ser.

(LIPOVETSKY, 2017, p. 27).

O nível deliberativo (ou calculativo) constitui, juntamente com o nível contemplativo, a parte racional da alma,

que nos distingue dos demais entes. A descrição do problema ético de que a parte racional da alma deverá

controlar as inclinações desejosas e que, com isso, se viverá bem, é um traço comum à psicologia moral de Platão,

Aristóteles, Kant, dentre outros. Aristóteles não sucumbe à dualidade de isolar as ações humanas como

instintivas, de um lado, ou racionais, de outro, nem postula a ideia de “mente como substância pensante”. A

deliberação racional é apenas um aspecto de um todo – o ser inteiro: “deliberação ou pensamento racional é

apenas uma das funções que os seres humanos inteiros desempenham e através da qual podem realizar-se a si

mesmos em seu ser” (LIPOVETSKY, 2017, p. 28).

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A parte deliberativa da alma trata do pensar e planejar, estrategicamente, a abordagem e consecução das

necessidades humanas, liga-se umbilicalmente à ação. Deliberamos sobre como alcançar propósitos práticos,

cujos fins apresentam-se como objetivos externos da atividade deliberativa; os objetivos internos estão na

satisfação de se cumprir bem um propósito (LIPOVETSKY, 2017).

A quarta e última parte da alma é a contemplativa. Trata-se de um aspecto adicional do raciocínio, com objetos

distintos daqueles da parte deliberativa. Se, por um lado, o nível deliberativo se ocupa dos meios para alcançar

objetivos e àquilo que pode ser modificado no mundo por meio da ação humana, por outro lado, a razão

contemplativa concerne àquilo que não podemos mudar, ou seja, às coisas eternas e imutáveis. O nível

contemplativo é totalmente separado da nossa vida ativa. Pensar sobre temas como a origem e a natureza do

universo, a existência ou inexistência e a vontade dos deuses, a fonte e o sentido da moralidade etc. são parte do

que confere sentido à vida humana, ainda que não se obtenha respostas ou que as respostas não sejam

definitivas. A satisfação desse aspecto da alma está em contemplar bem (LIPOVETSKY, 2017).

Há três gêneros de fenômenos que surgem na alma: as afecções, que são desejo, ira, medo, audácia, inveja,

alegria, amizade, ódio, saudade, ciúme, compaixão e em geral tudo aquilo que é acompanhado por prazer e ou

sofrimento; as capacidades, que são condições de possibilidade para sermos afetáveis por afecções; e; as

disposições, que são os gêneros de fenômenos de acordo com os quais nos comportamos bem ou mal

relativamente às afecções. As que chamamos de excelências são disposições de caráter, ou virtudes morais

(ARISTÓTELES, 2009).

As pessoas já nascem com alguns traços de cada virtude e a educação tem o papel de reforçar essas boas

tendências e direcionar a ação humana em rumo à posição intermediária entre dois extremos. A ética aristotélica

não é relativista, pois é determinada por uma regra. Essa regra, no entanto, não é uma lei: o critério de justeza da

ação ética virtuosa é o ser humano prudente, é o fazer aquilo que o sábio faria. Uma vez alcançada a virtude, não

há a possibilidade de retorno ao vício, de modo que o sábio nunca age mal, pois está habituado à virtude

(LIPOVETSKY, 2017).

A razão conduz à virtude, que é a justa medida, um meio-termo, o ponto de equilíbrio entre dois excessos. O

homem, inserido na pólis, exerce em sociedade sua racionalidade através do discurso (logos), ao mesmo tempo

que a essência humana (a felicidade) se realiza na pólis, que se organiza visando a realização do bem, da

felicidade, da eudaimonía para todos. O homem é capaz de deliberar e escolher o melhor para si e para o

próximo.

O trabalho de Aristóteles sintetizou e sistematizou conteúdos que antes haviam sido trabalhados, mas sem muita

ordenação. Embora o denominemos de filósofo, Aristóteles foi um polímata, ou seja, uma pessoa que domina

muito bem diversas áreas do conhecimento. Muitos dos conceitos que adotamos nos tempos atuais foram

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cunhados por Aristóteles e jamais alterados, pois já possuíam, naquela época, o nível necessário de adequação.

Seu legado para o mundo ocidental é valiosíssimo e será retomado como objeto de discussão na Idade Média

com Tomás de Aquino.

é isso Aí!
Nesta unidade, você teve a oportunidade de:
• conhecer a origem a filosofia;
• entender o pensamento dos principais pensadores da época;
• compreender a questão ética da filosofia;
• compreender a questão metafísica da filosofia.

Referências
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Trad. António de Castro Caeiro. São Paulo: Atlas, 2009.

ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução De Vincenzo Cocco. São Paulo: Abril S. A. Cultural, 1984.

BITTAR, E; ALMEIDA, G. Curso de Filosofia do Direito. São Paulo: Atlas, 2010.

COTRIM, G. Fundamentos da Filosofia. São Paulo: Saraiva, 2001.

LIPOVETSKY, N. Efetividade da justiça no mundo contemporâneo: entre ética e economia. Belo Horizonte:

Editora Initia Via, 2017.

MARCONDES, D. Iniciação à história da filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

OLIVEIRA, C. Ética e metafísica. In: Argumentos, ano 8, n. 15 - Fortaleza, jan./jun. 2016.

PELLEGRIN, P. Le vocabulaire d’Aristote. Paris: Ellipses, 2009.

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