Você está na página 1de 45

Princípios gerais da

TOXICOLOGIA CLÍNICA E ANTÍDOTOS

Anielle Torres de Melo


anielle.torres@fvj.br
OBJETIVOS DA AULA
• Apresentar conceitos gerais sobre toxicologia clínica.
• Apresentar os principais sinais clínicos associados a
intoxicação.
• Apresentar o manejo do paciente intoxicado.
• Apresentar os principais antídotos disponíveis no mercado.
TOXICOLOGIA CLÍNICA
• “Designa uma área de ênfase profissional no campo da
ciência médica, que se preocupa com as doenças causadas
por substâncias tóxicas ou unicamente associadas com
elas.”

• Foco: paciente.

Eaton e Gilbert, 2013


TOXICOLOGIA CLÍNICA

Médicos Enfermeiros Farmacêuticos Psicólogos


O PROCESSO DA TOXICOLOGIA CLÍNICA
Exames
Associação dos laboratoriais
Identificação Intervenções
sintomas com um que confirmem
dos sintomas clínicas
possível toxicante a hipótese

Intervenções Suporte
medicamentosas psicológico
IDENTIFICAÇÃO DOS SINTOMAS
E ASSOCIAÇÃO COM TOXICANTE
HISTÓRICO CLÍNICO
 Realizar anamnese, mesmo que as informações sejam de
terceiros, perguntas simples como o nome, contar o ocorrido, o
ambiente, embalagens e produtos domésticos encontrados.
HISTÓRICO CLÍNICO
1. Agentes suspeitos IMPORTANTE!!!
2. Exposição Lembrar que as
informações podem
3. Motivo
ser falsas ou
4.Sintomas pré e pós ocorrência omitidas
5. Antecedentes mórbidos individuais e familiares
6. História farmacológica
7. Atividade profissional, hábitos, lazer...
HISTÓRICO CLÍNICO EM ADULTOS
 INTOXICAÇÃO CRIMINOSA
 Homicídio, suicídio e vingança

 Causas:
 Condições psíquicas
 Problemas familiares, sociais e
econômicos
 Acerto de contas
HISTÓRICO CLÍNICO EM ADULTOS
 INTOXICAÇÃO ACIDENTAL
 Superdosagem...

 Causas:
 Uso indiscriminado de medicamentos sem
conhecimento de seus efeitos
 Uso de agrotóxicos na agricultura
HISTÓRICO CLÍNICO EM ADULTOS
 INTOXICAÇÃO POR ENTORPECENTES E
ALUCINÓGENOS
 Provocada pelo paciente, não é considerada acidental.
 Diagnóstico é realizado pelos sintomas e a droga utilizada é
depressora, estimulante ou alucinógena.
HISTÓRICO CLÍNICO EM CRIANÇAS
 INTOXICAÇÃO ACIDENTAL
 Causas: ocorrem pela característica
etária e por desatenção do adulto.
 Avaliar: possibilidade de uso de drogas
ou medicamentos por adultos e
produtos de uso domiciliar ao alcance
da criança
DIAGNÓSTICO PRESUNTIVO
• Síndromes tóxicas
Anticolinérgica
Colinérgica
Extrapiramidal
Sedativo-hipnótica e opióide
SÍNDROME COLINÉRGICA

MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS
• Defecação
• Vômitos
• Micção
• Hipersalivação
• Broncorréia
• Lacrimejamento
• Sudorese
• Insuficiência neuromuscular
• Bradicardia
• Miose

Principais agentes responsáveis


• Inseticidas organofosforados
• Inseticidas carbamatos
• Cogumelos
SÍNDROME ANTICOLINÉRGICA

MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS
• Pele seca
• Retenção urinária
• Taquicardia
Causas mais comuns:
• Hipertensão
Antidepressivos
• Midríase
Antihistamínicos
•Confusão Antiparkinsonianos
•Alucinação Atropina
•Abalos mioclônicos Escopolamina
•Movimentos coreiformes
•Delírio
•Coma
SÍNDROME EXTRAPIRAMIDAL
MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS
▫ Contração musculatura facial, pescoço, membros
▫ Crise oculógiras
▫ Tremores
▫ Movimentos involuntários
▫ Sialorreia

Principais agentes responsáveis


 haloperidol
 clorpromazina
 metoclopramida
SEDATIVOS, OPIÁCEOS
MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS
• Bradicardia
• Hipotensão
• Hipotermia
• Miose
• Depressão respiratória
• Coma
Principais agentes responsáveis
 Barbitúricos
 Benzodiazepinas
 Opiáceos
 Clonidina
SINTOMAS COMO FATORES DE CONFUSÃO

• Não se podem aplicar os conceitos de farmacodinâmica ou


farmacocinética ao paciente intoxicado.
• Um produto, em doses tóxicas, passa a
ter efeitos diferentes dos habituais em
doses terapêuticas, pois passa a atuar
em mecanismos moleculares diversos,
muitos dos quais ainda desconhecidos.
ABORDAGEM TERAPÊUTICA
TRATAR O RISCO IMINENTE DE
MORTE

DIMINUIR A EXPOSIÇÃO AO
TOXICANTE

TRATAMENTO SINTOMÁTICO
ABORDAGEM TERAPÊUTICA
• TRATAR O RISCO IMINENTE DE MORTE

• Estabilizar os parâmetros vitais do paciente.

• Saturação de oxigênio, hipoglicemia, pressão arterial, frequência


respiratória, temperatura corpórea.
ABORDAGEM TERAPÊUTICA
 DIMINUIR A EXPOSIÇÃO AO TOXICANTE
 DESCONTAMINAÇÃO GASTROINTESTINAL
 Conjunto de métodos: impede ou reduz a absorção de substâncias
químicas pelo organismo;

 Utilização de alguns eméticos foi abandonada;

 Utilizados atualmente: indução de vômito com ipeca, lavagem gástrica,


carvão ativado, catárticos, irrigação intestinal completa.
ABORDAGEM TERAPÊUTICA
• Indução de êmese : Xarope de Ipeca

▫ Indicações: na primeira hora após a ingestão do tóxico; remoção


de toxicantes não adsorvidos pelo carvão ativado (ferro, lítio,
potássio);

▫ Contra-indicações: doente com alteração da consciência ou


convulsões; ingestão de fármacos pro-convulsivos
(antidepressivos, cocaína); ingestão de agentes corrosivos;

▫ Efeitos adversos: Vômitos persistentes por mais de uma hora,


pneumonia aspirativa, broncoespasmo, sangramento esofágico
ABORDAGEM TERAPÊUTICA
• Lavagem gástrica
• Tem sido reduzida a poucas indicações
• Não deve ser usada de forma rotineira e apenas por pessoas
especializadas e experientes
▫ Indicações: remoção de tóxicos sólidos, líquidos e venenos.
▫ Contra-indicações: em doente com alterações da consciência ou
convulsões; ingestão de corrosivos.
▫ Efeitos adversos: perfuração do esófago ou estômago e aspiração
pulmonar.
LAVAGEM GÁSTRICA
ABORDAGEM TERAPÊUTICA
• Carvão ativado
“Antídoto universal”: são poucos os toxicantes que não são adsorvidos pelo
carvão ativado.
• Indicações: eficaz na maior parte das intoxicações orais;
• Após ingestão de quantidade potencialmente tóxica de agente
conhecidamente adsorvido por CA até uma hora.
• Contra-indicações/precauções: paciente inconsciente; cirurgia
gastrintestinal recente; debilitado; obstrução/perfuração gastrintestinal;
hemorragia gastrintestinal; envenenamento por cianetos, ácidos minerais,
álcalis (cáusticos), etanol, metanol ou sais de ferro (carvão não terá nenhuma
ação).
CARVÃO ATIVADO
ABORDAGEM TERAPÊUTICA
 DIMINUIR A EXPOSIÇÃO AO TOXICANTE
 VIA RESPIRATÓRIA
 Retirar o paciente do ambiente contaminado

 Avaliação da via respiratória:


 Obstrução – remover o corpo estranho
 Secreção – aspirar secreções
 Próteses dentárias – remover as próteses
 Se necessário realizar intubação traqueal
ABORDAGEM TERAPÊUTICA
 DIMINUIR A EXPOSIÇÃO AO TOXICANTE
 VIA CUTÂNEA
 Retirar as vestes do paciente
 Na contaminação ocular - administrar
continuamente soro fisiológico.
ABORDAGEM TERAPÊUTICA
 DIMINUIR A EXPOSIÇÃO AO TOXICANTE
 RETIRADA DO TOXICANTE
 Diurese com manipulação do pH urinário
 Métodos de diálise gastrintestinal
 Administração de resinas
poliestirenossulfonato de sódio (Hipercalemia, lítio, ferro, tálio)
colestiramina (digoxina, AINES, varfarina)
ANTÍDOTOS
ANTÍDOTOS
• É toda substância que se utiliza para cancelar ou reduzir os
efeitos de um tóxico no organismo.
• Seu mecanismo de ação é baseado na neutralização do
tóxico, podendo ser por:

1. Quelação;
2. Reações antígeno/anticorpo;
3. Antagonização farmacológica.
ABORDAGEM TERAPÊUTICA
Antídotos
A busca por antídotos pode levar a perda de tempo, pois temos
número reduzido destes agentes
Listas de antídotos
ANTÍDOTOS
• Existem cerca de 40 antídotos regulamentados no Brasil
• Mais da metade são de difícil acesso

Alto custo de certos Escassez de


Burocracia na medicamentos de trabalhos que
importação uso restrito como mostrem evidências
antídotos para sua indicação
N-ACETILCISTEÍNA

• Como age: Doador de radicais sulfidrila, reestabelecendo os níveis


de GSH.
Neutraliza o metabólito tóxico.

Não reverte o dano já causado!

• Indicação: Intoxicação por paracetamol


ATROPINA
• Como age: É um antagonista dos receptores muscarínicos da
acetilcolina

• Indicações: Intoxicação com organofosforados ou carbamatos


AZUL DE METILENO
• Como age:
▫ Transformação da meta-hemoglobina em hemoglobina
• Indicação:
▫ Tratamento da meta-hemoglobinemia
DESFERROXAMINA
• Como age:
• Quelação direta do ferro livre.

• Indicações:
▫ Na intoxicação aguda ou crônica por Ferro.
DIMECARPROL
• Como age: Complexa-se com metais pesados, permitindo
sua excreção urinária.
• Indicado nas intoxicações por:
▫ Arsênio,
▫ Mercúrio,
▫ Chumbo,
▫ Ouro,
▫ Outros metais pesados (antimónio, bismuto, crómio, cobre,
níquel, tungsténio, zinco)
ETANOL
• Como age:
▫ Funciona como substrato enzimático competitivo,
diminuindo a formação de metabolitos tóxicos de outros
álcoois.
• Indicado:
▫ Intoxicação aguda por:
 Metanol: ácido fórmico.
 Etilenoglicol e dietilenoglicol: ácidos glicólico e oxálico
FISIOSTIGMINA
• Como age:
▫ É um inibidor da acetilcolinesterase. Ao inibi-la, promove
uma elevação da acetilcolina e uma superestimulação
colinérgica.
• Indicações:
▫ Intoxicações graves por substâncias anticolinérgicas:
 Atropina,
 Anti-histamínicos,
 Metoclopramida,
 Alguns antiparkinsonianos.
FLUMAZENIL
• Como age:
▫ Faz uma Inibição competitiva com os receptores dos
benzodiazepínicos.

• Indicado:
▫ Intoxicação por benzodiazepínicos.
NALOXONA
• Como age:
▫ Antagoniza os receptores dos opiáceos.

• Indicação:
▫ Intoxicação por opiáceos;
▫ Ação não comprovada na reversão do coma e depressão
respiratória associada a intoxicação por clonidina, etanol e
benzodiazepínicos
PRALIDOXIMA
• Como age:
▫ Reativa as colinesterases inativadas por organosfosforados,
fazendo com que diminua a atividade colinérgica;

• Indicado nas intoxicações por:


▫ Pesticidas (organofosforados e carbamatos)
VITAMINA K
• Como age:
▫ A Vit K é um Co-fator essencial à síntese hepática dos
fatores II, VII, IX e X da coagulação.

• Indicado:
▫ Intoxicações por anticoagulantes derivados da cumarínicos
(presentes em raticidas).