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AUTO DA ÍNDIA

Personagens
Ama Moça Castelhano Lemos Marido
- Leviana
- Sedutora - Irónica - Fanfarrão - Pelintra - “gamo”
- Sensual - Confidente - Convencional - “rascão” - cobarde
- Astuciosa - Cúmplice - Gabarola - oportunista - leviano
- Egoísta - Crítica - “rebolão” - escudeiro - materialista
- Irónica - Ladina - “refião” - pretensioso - ingénuo
- Hipócrita - interesseira - galanteador - conquistador - vítima
- Falsa - loquaz - crédulo
- Trocista
- Adúltera
- Volúvel
- Materialista
- insconstante

AMA
Enganava o marido antes do seu mais refinada, atingindo o seu clímax ao
embarque para a Índia e continua a fazê-lo afirmar o quanto chorou a sua partida, o
após a sua partida. Fingida e manhosa não quanto sofreu durante a sua ausência , o
se coíbe de aceitar encontros com homens quanto sentiu a sua falta, passando todo o
diferentes em simultâneo, sem estes terem tempo sozinha, chegando até a expressar
conhecimento um do outro. Consegue ciúme pelas aventuras amorosas que o
satisfazer os seus desejos carnais com os Marido possa ter vivido em paragens
vários homens que a procuram, mostrando- remotas. A Ama aceita o marido mesmo
se hipocritamente, uma mulher recatada numa situação de pobreza e, cinicamente,
que preza a sua reputação. Com o regresso diz-lhe :
do marido a sua hipocrisia torna-se ainda
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«Pois que vós vivo viestes, excepto com a Moça: ludibria sem o dar a
que quero eu de mais perceber e perante o Marido mostra querer-
riqueza?» lhe muito, mandando até preparar-lhe uma
boa recepção, com boa comida.
Mas, «muito enfadada», pede ao Como tipo social a importância da
Marido que a leve a ver a nau Ama reside no facto de representar as
embandeirada em que viajou. As razões do mulheres abandonadas pelos maridos que
seu enfado é que não nos são reveladas partiam à aventura, na demanda de fama e
mas é fácil deduzir : o regresso inesperado riqueza, menosprezadas e trocadas por uma
do Marido, que, para cúmulo vem pobre, e viagem, lhes eram infiéis. Para além
consequentemente, vem pôr um fim à sua mulheres falsas, fingidas, manhosas que
vida de prazer. usavam os meios para alcançarem os seus
Note-se a máscara que a Ama fins, mas que, no fundo, eram fracas, sem
coloca durante toda esta representação que capacidade para assumirem os seus
faz perante o Marido, assumindo-se como verdadeiros sentimentos e desejos; são,
a esposa desolada que recuperou a alegria a pois, resultado dos condicionalismos da
e a tranquilidade com o regresso do sua época. A Ama corporiza um dos
esposo. aspectos negativos dos Descobrimentos,
Tal perfil contrasta totalmente com personifica uma crítica que os opositores
o que se conhece da personagem, quer dos deste empreendimento faziam - o
seus diálogos quer dos seus monólogos adultério. Tal crítica encontra-se
nos quais se dá a conhecer tal como é: igualmente presente no episódio do Velho
rezou para que o Marido não voltasse do Restelo d’ Os Lusíadas, no qual esta
admitiu que lhe ia ser infiel, o que já não personagem censura os que partiam pelo
seria a primeira vez em ausências menos preço elevado da viagem a que se
demoradas. lançavam.
A Ama nunca admite, nunca
reconhece aquilo que realmente pretende,

Moça
➳ duplicidade de funções:
➳ confidente da Ama
➳ espectadora privilegiada

➳ pivot porque faz a ligação entre o interior e o exterior (casa / porto) e entre o que se passa em
cena e o público, criando uma relação de cumplicidade.

➳ Ajuda à caracterização das outras personagens (função caracterizadora)

➳ Responsável pelos aparte que além de cómicos nos ajudam a caracterizar melhor os outros
personagens. ( os seguintes versos -“Quantas artes, quantas manhas / que sabe fazer minha Ama / um
na rua, outro na cama” – caracterizam de forma exemplar o temperamento manhoso e licencioso de
Constança, que consegue iludir simultaneamente três homens: o marido, o Lemos e o Castelhano).

➳ Responsável pelas informações temporais (é ela quem marca as acelerações do discurso,


indicando a passagem do tempo)
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Castelhano
É, tal como Lemos, o exemplo O Castelhano considera-se, então, um
concreto da infidelidade conjugal da Ama e homem sensível que não menospreza a
contribui para acentuar o carácter leviano relação conjugal, não a trocando por valores
desta. materiais. Aproveita para considerar esta
Aproveitando-se do estado de solidão situação como uma graça divina que deste
da Ama, o Castelhano surge em casa desta, modo propiciou o encontro entre os dois.
dizendo-se enamorado por ela desde o Encontra-se aqui, implicitamente, uma crítica
primeiro dia em que a viu, afirmando levar às Descobertas.
uma vida de sofrimento desde então, visto ela Note-se que a Ama não se sente
ter o poder de matá-lo. Considera-se uma impressionada por tais palavras, o que
vítima, abandonado pela amada e até por enfurece o Castelhano.
Deus e chega mesmo a lamentar o facto de Leviana, a Ama marca para mais tarde
existir. um encontro com o Castelhano,
Com vista a impressionar a receptora, independentemente do agrado que as
autocaracteriza-se como alguém singular, forte palavras que este proferiu lhe possam ter
e valente, irascível, violento, vangloriando-se causado, o que o deixa bastante satisfeito.
por ser alvo do temor e respeito para os seus O Castelhano é uma personagem que, por
inimigos. representar os pretendentes das mulheres
No seu papel de amante e galanteador, casadas e abandonadas, tem importância
critica os maridos que, tal como o da Ama, como elemento caracterizador da
deixam as suas esposas sozinhas, alvejando protagonista, a qual com falsidade, manha e
fortunas. jogo duplo acaba por vencer as fanfarronices
verbais do primeiro.

LEMOS
Tal como as restantes personagens defeitos, propondo em alternativa a compra de
masculinas nesta peça, Lemos ocupa um outros mais baratos e entregando-lhe muito
1ugar secundário. Com uma participação pouco dinheiro. Oportunista, aproveita a
modesta, está ao serviço da caracterização da ausência do Marido para cortejar a Ama e até
Ama, visto ser o exemplo concreto, tal como o aceitar algumas refeições, é galanteador e
Castelhano, do seu adultério. Personagem já fanfarrão, o que contrasta com os seus parcos
conhecida das duas mulheres é, no entender recursos.
da Moça, um desgraçado, um miserável sem Lemos simboliza o caso típico do escudeiro
dinheiro. pobre, mas pretensioso, que tenta valer-se
A Moça sugere a compra de alguns das suas palavras e estatuto aparente para
alimentos, partindo do pressuposto que Lemos encobrir a precariedade da sua vida social e
os pagará, mas este opõe-se, apresentando monetária.

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Marido
O Marido é a personagem que, embora acreditando nos sentimentos que elas
ausente fisicamente de grande parte da asseguram ter experimentado durante o
peça, tem uma presença muito marcante ao período de ausência..
longo de toda a obra, a qual se inicia com a É uma personagem que condensa em si
sua partida e finaliza com o seu regresso. É os riscos, os aspectos negativos dos
uma personagem cuja importância e Descobrimentos, pois, embora tenha
simbologia residem precisamente na sua regressado com vida, voltou sem a riqueza
ausência, caso contrário, não haveria pretendida e merecida, visto o capitão se ter
conflito dramático e o tema desta obra não apoderado de grande parte do que a
poderia ser desenvolvido. tripulação conquistara e foi traído pela
Tendo decidido embarcar numa viagem à mulher que se entregou aos homens que a
Índia, à semelhança de grande parte dos procuravam (Castelhano e Lemos). Tal é o
homens da sua época, ávidos de fortuna e tributo que os homens se sujeitavam a
fama, deixa a esposa em casa apenas com pagar. O Marido é a materialização do
uma criada, porém provida dos bens objectivo do autor - mostrar o reverso dos
necessários para a sua subsistência. Descobrimentos. Poder-se-á, ainda,
O Marido representa todos aqueles que relacionar com o episódio do Velho do
são, por um lado, aventureiros e Restelo de Os Lusíadas de Camões, o qual,
ambiciosos, participando em viagens longas questionando os motivos dos homens que
e arriscadas, com o intuito de ganharem partiam, punha em causa essas viagens, as
fortunas ou alvejarem benesses futuras e, quais, na sua perspectiva apresentavam
por outro, crédulos e ingénuos, depositando mais penosos reveses do que vantajosos
confiança nas esposas que ficavam sós, usufrutos.

Tempo
Acontecimentos Tempo dramático Tempo histórico
“Partem daqui em Partida da armada Segunda Feira de Sábado, 18 de Abril
Maio” manhã de Maio de 1506
“Leixou-lhe pera três
anos”
“Partiu Domingo de
Madrugada”

“às nove e não mais” Visitas do Lemos e do De Segunda para Segunda feira, 20 de
“Toda a noite nesta rua” Castelhano terça-feira após a Abril de 1506
“Que isto quer partida
amanhecer”

“Três anos que partiu Regresso do Marido Dia do regresso do 1509


“Noss’amo é hoje aqui” Marido

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espaço
Lareira

Banco e roca tigelas

A intenção do autor
O Auto da Índia afigura-se um contraponto das ideias feitas, da moral corrente e da
ideologia oficial. Em tudo isto se vê facilmente o reverso do mito dos Descobrimentos”.
Há, nesta peça, sobretudo uma forte intenção crítica, com uma quota parte de didactismo e
convite à reflexão. As cenas de adultério provocam o riso, principalmente devido ao
comportamento dúplice da Ama que na ausência do marido, lhe deseja a morte e, quando ele
chega, é de uma doçura e interesse inultrapassável.

A crítica no Auto da Índia concretiza-se graças:

➳ Aos apartes e a ironia da Moça, que são uma constante ao longo de toda a peça
e servem para denunciar a desonestidade e hipocrisia da Ama em relação ao marido

➳ à utilização de tipos (o conquistador, o marido regressado, o escudeiro pelintra,...),


possibilitando uma visão geral da sociedade, da degradação dos costumes.

Ao cómico:
➳ Desmitificação do amor petrarquista, isto é, um sentimento nobre e elevado
é totalmente ridicularizado no discurso estereotipado e convencional do
Castelhano

➳ Desconsideração de instituições sociais basilares como o casamento e


valores como a fidelidade e o amor conjugal

➳ Descrédito e reverso dos Descobrimentos quer pela perspectiva do


Castelhano, quer pela perspectiva do marido que descreve o comércio oriental
de forma negativa _- “pelejámos e roubámos”

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Outro processo de conseguir o efeito cómico e de adensamento da crítica é o contraste, tanto
de figuras como de situações:

➳ a dissimulação da Ama e a ingenuidade do Marido


➳ a honestidade da Moça e a depravação da Ama
➳ materialismo e o oportunismo do Lemos e o idealismo e fanfarronice do
Castelhano

Tópicos de crítica:

Crítica ao adultério e às circunstâncias sociais que o favorecem


Crítica ao fidalgo pelintra e pretensioso
Crítica ao artificialismo da poesia palaciana
Crítica à situação socioeconómica e política criada pela expansão:
➳ Favorecimento do adultério
➳ Promessa de enriquecimento fácil
➳ Cómico de linguagem - no discurso do Castelhano, recheado de trocadilhos e paradoxos,
constituindo uma caricatura do estilo petrarquista

➳ Cómico de situação - de que é exemplo a cena dos amantes («um na rua, outro na
cama»), com o Castelhano atirando pedrinhas à janela, conforme o combinado, e produzindo
imprecações e ameaças impotentes enquanto o Lemos vai sendo aldrabado e escondido na
cozinha para salvar as aparências. Neste cena a Ama vai inventando sucessivas mentiras para
enganar os amantes (os meninos que brincam na rua, o irmão, o castelhano vinagreiro e o
corregedor).

➳ Cómico de carácter ou de personagem em que é a própria personalidade da


personagem,
a sua apresentação e comportamento que se tornam ridículos:
- a mulher adúltera e hipócrita, fingindo ciúmes e enganando o marido
ingénuo
- o Castelhano, pelo seu idealismo incorrigível e tendência para o exagero;
- o Lemos, com o seu «sombreio»
- e, em certa medida, o Marido, na cena final, pela sua quase ilimitada
credulidade.
escritor de transição - Homem do seu tempo
Gil Vicente é um autor de transição dado que a sua obra tem ainda facetas
caracteristicamente medievais e apresenta já numerosos e importantes elementos da
mentalidade humanista renascentista.

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Características medievalizantes:

- referências bíblicas
- peça de teatro como uma encadeamento de quadros
- linguagem arcaizante (arcaísmos)
- a predominância da utilização do verso de sete sílabas (redondilha maior);
- inserção de cantares populares e provérbios

Características humanistas:

- a atitude crítica face à sociedade do seu tempo


- a tomada de consciência e a atitude interventiva
- consciência de que as artes podem intervir na moralização dos costumes
- a adaptação às personagens e às situações;
- o realismo da observação e da crítica;
- intenção de castigar os costumes:
- enriquecimento fácil
- adultério

propostas de estudo
✏ Dessacralização do casamento
✏ Desmitificação da história - o outro lado da expansão
✏ Importância da moça na obra
✏ Constança – a importância de um nome
✏ Castelhano e Lemos - mais vale parecer do que ser
✏ Marido : símbolo de todos aqueles que ,partindo na miragem das riquezas, regressam sem nada
✏ A obra de Gil Vicente é fruto de uma evolução e não de uma invenção

Bibliografia

− Dias, Ana Paula Para uma leitura de Auto da Índia de Gil Vicente, ed. Presença, Lisboa 1997
− Fiúza, Mário (anotado e comentado por), Auto da Índia – Farsa – Edição Didáctica, Porto editora, s\ d
− Saraiva, A.J e Lopes, Óscar História da Literatura Portuguesa Porto ed., 16ª ed. 1995
− Saraiva, António José O crepúsculo da Idade Média em Portugal - Partes I e II Gradiva, Lisboa, 1996
− Saraiva, Mª de Lourdes (int. e notas) Sátiras Sociais ,Publ. Europa América, s\d
− Teixeira, Dulce Pereira et alii, Auto da Índia de Gil Vicente – texto integral e análise da obra, Texto editora, Lisboa,
1997

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