UNIrevista - Vol.

1, n° 2 : (abril 2006)

ISSN 1809-4651

Vygotsky e as teorias da aprendizagem
Rita de Araujo Neves
Aluna do Curso de Mestrado em Educação PPGE-FaE profrita@pop.com.br Universidade Federal de Pelotas, RS

Magda Floriana Damiani
Professora do Curso de Mestrado em Educação FaE-UFPel. magda@ufpel.tche.br Universidade Federal de Pelotas, RS

Resumo
Este artigo apresenta um estudo sobre a Teoria Sócio-Histórica de Vygotsky e o seu posicionamento diante das clássicas Teorias da Aprendizagem. Tal estudo é parte integrante do trabalho de dissertação de mestrado da autora que tem como foco principal a aprendizagem. Exatamente por não existir consenso no "enquadramento" da Teoria Vygotskyana entre as correntes epistemológicas foi que julgamos essencial uma abordagem crítica sobre o tema. Enquanto para alguns autores Vygotsky é interacionista, para outros é sócio-interacionista e, há, ainda, aqueles que afirmam que ele não se enquadra em nenhuma dessas duas classificações. Dessa forma, entendemos que este é um campo aberto para férteis discussões que devem ser fomentadas a partir dos estudos sobre a aprendizagem. Assim, ressalta-se que o trabalho que aqui se apresenta não tem a pretensão de ser conclusivo quanto a esse "enquadramento" da Teoria Sócio-Histórica, mas pretende, essencialmente, apresentar uma revisão teórica sobre as principais características de cada uma das correntes epistemológicas e, a partir daí, discutir qual seria o posicionamento da Teoria Vygotskyana dentro desse contexto. Portanto, este estudo propõe uma revisão das Teorias da Aprendizagem e uma discussão sobre onde está situada a Teoria Vygotskyana diante dessas teorias. Palavras-chave: Aprendizagem // Teorias da Aprendizagem // Teoria Sócio-Histórica

Introdução
São muitos os estudos sobre a aprendizagem e, especialmente, sobre a classificação das diferentes concepções de aprendizagem em diversas teorias, também denominadas correntes epistemológicas. Entretanto, ao longo desses estudos, os autores estão longe de um consenso sobre a localização da Teoria Sócio-Histórica de Vygotsky - já aceita por muitos como uma teoria da aprendizagem - nessas classificações. Desafiada por este questionamento: onde está Vygotsky, nas correntes epistemológicas?, foi que desenvolvi o presente estudo, teórico, sobre o tema. Nos estudos específicos sobre a aprendizagem, me deparei com a Teoria Sócio-Histórica de Lev Vygotsky,1que, se contrapondo às idéias vigentes à época, entendia que a aprendizagem não era uma mera aquisição de informações, não acontecia a partir de uma simples associação de idéias armazenadas na memória, mas era um processo interno, ativo e interpessoal. Mas para que pudesse compreender a originalidade do texto de Vygotsky para a área da Educação, foi necessário examinar, mesmo que brevemente, as teorias já formuladas sobre o conhecimento humano, ou correntes epistemológicas. Essas formas de aprender, ou abordagens que explicam a forma pela qual o sujeito aprende e se desenvolve,

1 Psicólogo russo, que viveu entre os anos de 1896 e 1934 e produziu trabalhos sobre o desenvolvimento psicológico e a aprendizagem (REGO, 2002).

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uma cera mole. que organiza as informações do meio externo que deverão ser internalizadas pelos alunos.Vol. 1985). cujas impressões do mundo. Esta é uma afirmação incontestável e mais incontestável ainda quando referida à prática educativa escolar". Segundo Marta Darsie (1999. Nesse conceito. Isso significa afirmar o primado absoluto do objeto e considerar o sujeito como uma tábula rasa. tomo como ponto de partida justamente o conceito de aprendizagem. e essas são. a seguir. As Diferentes Abordagens Teóricas O conhecimento psicológico e pedagógico não se constitui em um todo harmonioso. eram duas: o inatismo e o empirismo. O modelo de ensino é fechado. a aprendizagem é identificada com condicionamento (GIUSTA. as teorias tornadas oficiais (GIUSTA. formadas pelos órgãos dos sentidos. Nessa concepção. livre da introspecção e fundada numa metodologia "materialista". portanto. de fato. as características individuais são determinadas por fatores externos ao indivíduo. a dissolução entre sujeito e conhecimento é evidente. por razões políticas. Maria Teresa de Assunção Freitas (2000). dando lugar ao conhecimento. Como conseqüência da corrente empirista. ganha sentido a definição de aprendizagem como mudança de comportamento resultante do treino ou da experiência. teoria psicológica derivada da concepção empirista. Nessa concepção. segundo os diferentes teóricos. Para tanto. Para a primeira corrente analisada. Proliferam as teorias que concebem o indivíduo como um ente desvinculado da história. a partir das idéias de autores como Fernando Becker (1993 e 2003). n° 2 : (abril 2006) . 1985). por exemplo. passo a tecer algumas considerações. ou seja. Agnela da Silva Giusta (1985). o processo ensino-aprendizagem é centrado no professor. a qual. considerando o movimento e as contradições que são inerentes a tal discussão. 26): O conceito de aprendizagem emergiu das investigações empiristas em Psicologia. Partindo desse pressuposto. Em decorrência de sua base epistemológica. busco discutir as concepções de aprendizagem que subsidiam as práticas pedagógicas e as repercussões das mesmas. 1. que. sendo esses apenas receptores de informações e do seu armazenamento na memória. 2 UNIrevista . Essa maneira de se conceber o conhecimento influenciou amplamente teorias psicológicas e pedagógicas que se traduziram em concepções de ensino e aprendizagem também empiristas. p. cuja expressão mais imponente é o behaviorismo. uma cadeia de idéias atomisticamente formada a partir do registro dos fatos e se reduz a uma simples cópia do real. por isso. aquela tábula rasa e. 9): "Toda prática educativa traz em si uma teoria do conhecimento. acabado. nas palavras de Agnela Giusta (1985. Teresa Cristina Rego (2002) e Newton Duarte (1999). Marta Maria Pontin Darsie (1999). de investigações levadas a termo com base no pressuposto de que todo conhecimento provém da experiência. Igualmente. são associadas umas às outras. Sobre esse tema. tais investigações formam o corpo do que se chama associacionismo.Vygotsky e as teorias da aprendizagem Rita de Araujo Neves e Magda Floriana Damiani vigentes à época em que Vygotsky propôs um novo modelo para a educação. O conhecimento é. p. O primeiro é. assim como não são harmoniosas as sociedades no interior das quais ele vem sendo produzido. que lhe garantisse a objetividade das ciências da natureza. é chamada de: ambientalismo ou empirismo. tinha como meta a construção de uma "psicologia científica". segundo essas diferentes acepções teóricas. desenvolvimento e aprendizagem se confundem e ocorrem simultaneamente.

ele. portanto. no qual a noção de conhecimento consiste no acúmulo de fatos e informações isoladas. a subjetividade. Isso ocorre porque ele se baseia naquela concepção epistemológica que subjaz a sua prática. de forma assistencialista. como também a incumbência de corrigir os problemas sociais. já que o aluno é um receptáculo vazio. a concentração. não somente o poder de transformar o indivíduo. o professor ensina e o aluno aprende. 19). dicotomizou o homem. Há uma preocupação excessiva em organizar o ensino. porque procedendo a tal cisão e ocupando-se apenas da ação do objeto. conseqüentemente. imerso em simbolismos. uma tábula rasa. o esforço e a disciplina. Logo. 3 UNIrevista . O compromisso da escola é com a transmissão da cultura e a modelagem comportamental dos alunos. Mas por que o professor age assim? Porque ele acredita que o conhecimento pode ser transmitido para o aluno. Segundo Giusta (1985). e somente ele. pode produzir algum novo conhecimento no aluno. nada tem em termos de conhecimento: é uma folha de papel em branco. as carências sociais dos indivíduos. p. Esse é o sujeito da visão epistemológica desse professor. ou. o papel do ensino e da escola é supervalorizado.Vol. no professor e nos livros. o professor ensina. de onde vem o seu conhecimento. porque seu materialismo é uma forma de mecanismo. a ação pedagógica desse professor não é gratuita. 1.Vygotsky e as teorias da aprendizagem Rita de Araujo Neves e Magda Floriana Damiani livresco. em que fatos são armazenados por associação e. quadros cheios de cálculos e fórmulas ou definições a serem memorizadas sem significado real. na aula fundada nessa concepção epistemológica. quando necessário. pode ser transferido ou transmitido para o aluno. Ela é legitimada ou fundada teoricamente. De acordo com as idéias de Becker (1993). 1999). o que está subjacente é a idéia de que a escola tem. ao invés de provar seu caráter de síntese das relações sociais. na Psicologia. prestar atenção. 2002). Todo o conhecimento está fora do sujeito. Nas exatas palavras do autor (1993. O aluno aprende. ficou constatada a sua fragilidade. um falso materialismo. A transmissão de um grande número de conteúdos torna-se de extrema relevância. de fora para dentro. Aqui. como garantias para a apreensão do conhecimento (REGO. fragmentando a unidade indissolúvel do sujeito e do objeto. por uma epistemologia. o professor fala e o aluno escuta. etc. não só enquanto conteúdo. conforme já referido. a atenção. recuperados. segundo a qual o indivíduo. no que é observável e no que não é. Portanto. se. Essas considerações esclarecem. o professor decide o que fazer e o aluno executa. baseando-se na idéia de que "ensinando bem" o aluno aprende. O aluno é um recipiente vazio onde é necessário "despejar" o conhecimento (DARSIE. escrevendo. pelo menos por três razões: por separar o que é inseparável. ao nascer. O impacto da abordagem ambientalista na educação pode ser verificado nos programas educacionais elaborados com o objetivo de estimular e intervir no desenvolvimento das crianças provenientes das camadas populares ou compensar. a sua capacidade de conhecer? Do meio físico e/ou social. não importa o nível de abstração ou de formalização. até aderir em sua mente o que o professor deu. segundo a qual o sujeito é totalmente determinado pelo mundo do objeto ou meio físico e social. ficar quieto e repetir tantas vezes quantas forem necessárias. uma vez que ignora as condições históricas dos sujeitos psicológicos. n° 2 : (abril 2006) . e somente se. Nesses casos. Ele acredita no mito da transmissão do conhecimento. o professor dita e o aluno copia. quando o behaviorismo. e escolheu ocupar-se do observável. numa concepção de memória associacionista/empirista. deixou o sujeito à mercê das especulações metafísicas. o professor: No seu imaginário. Tudo que o aluno tem a fazer é submeter-se à fala do professor: ficar em silêncio. o fracasso das ações pedagógicas assentadas na concepção empirista de aprendizagem. O professor acredita no mito da transferência do conhecimento: o que ele sabe. tendo descartado a consciência. enquanto forma ou estrutura. Valoriza-se o trabalho individual. lendo.

um facilitador. 1993). pode-se pensar que isso ocorre porque lhes falta bagagem genética adequada. no caso em tela. ou seja. outros não nasçam para o estudo e. pode-se esperar que uns nasçam para aprender. as referidas práticas se 2 Corrente psicológica que nasceu na Alemanha. do que foi até aqui demonstrado. do valor da educação e do papel interveniente e mediador do professor. dos livros. com Wertheimer. entendemos das práticas pedagógicas dominantes. professores. os marginalizados. cindem os dois pólos do conhecimento de modo irremediável. rechear de conteúdo. numa extrema oposição ao atomismo behaviorista (GIUSTA. conceberá também. em geral. No racionalismo (ou inatismo) é às variáveis biológicas e à situação imediata que se deve recorrer para explicar a conduta do sujeito. esse paradigma promove uma expectativa significativamente limitada do papel da educação para o desenvolvimento individual (REGO. Essa corrente lida com o conceito de estruturas mentais. Assim. Conseqüentemente. Então. Desconfiam. apenas. os pobres. É no regime do laissez-faire ("deixa fazer") que ele encontrará o seu caminho. que tem um fundamento epistemológico do tipo racionalista. dom ou maturidade. O professor deve interferir o mínimo possível. o desempenho dos alunos na escola deixa de ser responsabilidade do sistema educacional. enquanto totalidades organizadas. o poder exercido pelo professor. das normas ditatoriais da instituição. no que tange ao impacto educacional trazido por essa acepção. e aprendem facilmente. o professor. se fracassam. Assim. significativa "daquilo que é posto antes". Assim. o entendimento é o de que a educação pouco ou quase nada altera as determinações inatas. Esse conceito positivista de aprendizagem que acabamos de verificar é inteiramente refutado. Isso significa pensar. Para essa corrente. Essa epistemologia acredita que o ser humano nasce com o conhecimento já programado na sua herança genética. Esse professor acredita que o aluno aprende por si mesmo e o máximo que ele pode fazer é auxiliar a aprendizagem do aluno. a bagagem genética/hereditária. despertando o conhecimento que já existe neste. A epistemologia que sustenta esse modelo pedagógico é também denominada apriorista. pois o aluno já traz em si um saber que ele precisa. assume formas mais perversas que na forma explícita do modelo anterior. na medida em que seu sucesso ou fracasso depende quase exclusivamente de seu talento. na maioria das vezes – renuncia àquilo que seria a característica fundamental da ação docente: a intervenção no processo de aprendizagem do aluno. pré-formadas no sujeito. Os postulados inatistas subestimam a capacidade intelectual do indivíduo. o professor é um auxiliar do aluno. por exemplo. Nessa perspectiva. 1. palavra derivada da expressão a priori.Vol. permite-nos ver que. 2002). pela psicologia da gestalt 2 . um ser humano desprovido da mesma capacidade (BECKER. isolam-nos e submetem-nos à autoridade do saber dos professores. nesse modelo. o que é um absurdo. em outras palavras. n° 2 : (abril 2006) . 1985). que pressupõe que todo o conhecimento é anterior à experiência. dependendo das conveniências. Ambas as posições. as interações sócio-culturais são excluídas na formação das estruturas comportamentais e cognitivas da pessoa. Como o fracasso é mais comum entre as camadas sociais mais desfavorecidas: os mal-nutridos. imbuído de uma epistemologia apriorista – inconsciente. ou. mesmo superficial. sendo fruto do exercício de estruturas racionais. 4 UNIrevista . que. aptidão.Vygotsky e as teorias da aprendizagem Rita de Araujo Neves e Magda Floriana Damiani as quais silenciam os alunos. se a unilateralidade do positivismo consiste em desprezar a ação do sujeito sobre o objeto. dos conferencistas. dos textos. pois essa mesma epistemologia que concebe o ser humano como dotado de um "saber de nascença". Freqüentemente. no nascimento já está determinado quem será ou não inteligente. o fracasso é só deles (DARSIE. 1985). portanto. associada ao que nós. Kohler e Koffka (GIUSTA. trazer à consciência. A análise. portanto. no princípio do século XX. ainda. Na concepção epistemológica racionalista. organizar. das instruções programadas. 1999). a do racionalismo consiste em desprezar a ação do objeto sobre o sujeito.

formando um todo único. Assim. pré-formada no sujeito. é possível aproximar autores como Piaget. basta que esse fique inerte. cumpre averigüar se existem. nesses casos. nem de uma ampla programação inata. pudesse ter encarado a transmissão do conhecimento de uma forma diversa daquelas que impedem a autonomia intelectual e a produção de um conhecimento verdadeiro e. ao comentar as conseqüências da visão empirista sobre a relação teoria/prática: É claro que essa cisão entre subjetividade e objetividade nada mais é que o reflexo da divisão social do trabalho. Isso ocorre porque o tratamento dado à aprendizagem pelas duas correntes em foco é. tratada freqüentemente como prática ou práxis. sendo aquela que sabe. 1999). reducionista: o empirismo reduz o sujeito ao objeto. sendo. passivamente. Paulo Freire. Vejamos. Freud. instituição legitimadora e produtora desse tipo de dominação. 1985). A idéia central da teoria de Piaget é a de que o conhecimento não procede nem da experiência única dos objetos. E. para a sua vida concreta. A perspectiva epistemológica do interacionismo. Baktin e Freinet. de fato.Vol. representada pelo pensamento de Piaget. como ignorante. colocada no cerne do processo de aprendizagem. Embora ele negue que sua obra se constitua em uma teoria de aprendizagem.Vygotsky e as teorias da aprendizagem Rita de Araujo Neves e Magda Floriana Damiani debatem entre as duas concepções de aprendizagem apresentadas. no que tange a uma concepção de aprendizagem. não poderíamos esperar que a escola. pré-formadas e não fruto da ação do sujeito sobre o mundo objetivo e do mundo objetivo sobre o sujeito. que supera as anteriores. Para esse estudioso. muitas vezes. n° 2 : (abril 2006) . não há por que apelar para a atividade desse sujeito. para o empirismo. classificando-a como uma teoria do desenvolvimento. Wallon. Vygotsky. na Psicologia. da prática e da teoria. Luria. tem o direito de comandar a prática. E. e simplesmente o absorva. denomina uma terceira concepção epistemológica. antes de tudo. onde um dos termos não se opõe ao outro. Nas palavras de Giusta (1985. E dada a falsidade da relação de dominação entre teoria x prática. Piaget discorda das concepções anteriormente discutidas tendo sido essas discussões exaustivamente expressas em toda a sua obra. as práticas pedagógicas racionalistas apóiam-se em posturas que não apelam para a atividade do sujeito e. é uma síntese do empirismo e do racionalismo. construtivismo ou de dialética. Apesar de soar estranho. Assim. libertador. de interacionismo. sem atividade. p. admite o seu uso para o entendimento do processo de aprendizagem (GIUSTA. difícil identificar se o ensino está fundado numa teoria ou noutra. da separação entre o fazer e o pensar. nada mais resta do que obedecer à teoria. Becker (1993). mas se solidarizam. – embora sua teoria baseie-se na existência de alguns elementos inatos – mas de construções sucessivas com elaborações constantes de estruturas novas. 5 UNIrevista . e essa construção vai depender tanto das condições do indivíduo como das condições do meio (DARSIE. essas duas teorias com bases epistemológicas completamente diversas podem levar a práticas e efeitos semelhantes do ponto de vista pedagógico. O autor põe em xeque as idéias de que o conhecimento nasce com o indivíduo ou é dado pelo meio social. Afirma que o sujeito constrói o conhecimento na interação com o meio físico e social. da mesma forma. Para o racionalismo. por isso. 28). Após apresentar as concepções de aprendizagem de cunho mecanicista (empirista) e idealista (racionalista). portanto. porque. enquanto o racionalismo faz o contrário. se todo o conhecimento está fora do sujeito. assistese a uma supervalorização da teoria. as quais são resultantes da relação sujeito x objeto. formulações que as superem. se as estruturas são. A esta. 1. porque todos eles têm um ponto em comum: a ação do sujeito.

como fundamento para toda e qualquer investigação. divergindo quanto a sua filiação às diversas correntes: behaviorista. Vygotsky (1982) aparece afirmando que o meio social é determinante do desenvolvimento humano e que isso acontece fundamentalmente pela aprendizagem da linguagem. na pedagogia derivada dessa epistemologia interacionista (Pedagogia Relacional. por excelência. portanto. Dessa maneira. Logo. por meio de uma atividade sígnica. Assim. sóciohistórica. n° 2 : (abril 2006) . Vygotsky empreende um estudo original e profundo do desenvolvimento intelectual do homem. mesmo porque essa solidão é impossível (GIUSTA. cujos resultados demonstram ser o desenvolvimento das funções psicointelectuais superiores um processo absolutamente único. através de uma visão da relação sujeito/objeto. construirá algum conhecimento novo. chega-se à conclusão de que as práticas pedagógicas que se fundamentam na concepção interacionista de aprendizagem devem apoiar-se em duas verdades fundamentais: a de que todo conhecimento provém da prática social e a ela retorna e a de que o conhecimento é um empreendimento coletivo. na consciência.Vygotsky e as teorias da aprendizagem Rita de Araujo Neves e Magda Floriana Damiani Segundo Becker (1993). que não estabelecem com clareza as bases diversas que fundamentam o pensamento dos dois autores (Piaget e Vygotsky). Assim. Talvez a culpa disso esteja também nos textos publicados. Vários autores interpretam a obra de Vygotsky de formas diferentes. Os signos são os instrumentos que. em que se afirma. do ponto de vista da aprendizagem. que o fazem passar de ser biológico a ser sócio-histórico.Vol. não se pode exagerar a importância da bagagem hereditária nem a importância do meio social. construtivista. tem uma função geradora e organizadora dos processos psicológicos. O autor considera que a consciência é engendrada no social. à superação da dicotomia transmissão x produção do saber. inevitavelmente. a concepção interacionista conduz. isto é. a partir das relações que os homens estabelecem entre si. na qual o signo. Utilizando-se do método histórico-crítico. a objetividade do mundo e a subjetividade. Embora alguns autores identifiquem Vygotsky com a concepção epistemológica interacionista/construtivista. ao mesmo tempo. conforme o autor) o professor acredita que o aluno só aprenderá alguma coisa. provocam-lhe transformações internas. Aprendizagem é. 1. como um produto social. não podendo ser produzido na solidão do sujeito. a importância dos estudos de Vygotsky é inquestionável. embora também tenha se oposto às concepções empirista e racionalista. que ocorre por imitação. 1985). porque permite resgatar: a unidade do conhecimento. penso que esse autor. Ele se pergunta como os fatores sociais podem modelar a mente e construir o psiquismo e a resposta que apresenta nasce de uma perspectiva semiológica. Vygotsky. Não existem signos internos. pois ele critica as teorias que separam a aprendizagem do desenvolvimento (GIUSTA. Vygotsky e seus colaboradores se empenham em recuperar o estudo da consciência. 2002). agindo internamente no homem. se ele agir e problematizar a sua ação e esse processo far-se-á por reflexionamento e reflexão. Visando a desenvolver uma psicologia materialista. construção: ação e tomada de consciência da coordenação das ações. concebe o homem como um ser histórico e produto de um conjunto de relações sociais. nem estabelecem as 6 UNIrevista . pela mediação da linguagem. Alguns vêem nele o psicolingüista. outros o psicólogo. inserindo as contribuições de Pavlov (que era empirista) numa perspectiva mais ampla de investigações e contrapondo-se às idéias vigentes no período de seus estudos (REGO. 1985). apresenta características diferentes das de Piaget. considerada como um momento individual de internalização da objetividade e a realidade concreta da vida dos indivíduos. que não tenham sido engendrados na trama ideológica semiótica da sociedade. segundo Freitas (2000).

para cada tese. a Política Francesa (Comuna de Paris. o Estado possui a ideologia liberal-conservadora. deve ser mantida. Assim.Vol. expressam as definições de comportamento por faixa etária. meios de produção. 2004). é necessário que se faça uma breve consideração acerca dos fundamentos filosóficos subjacentes as suas idéias. “Estado”. n° 2 : (abril 2006) . entre o ser humano e o meio social e cultural em que se insere. 2000). nenhuma dessas denominações aparece na obra de Vygotsky. conforme Newton Duarte (DUARTE. como. XVII). Ele rejeita os modelos baseados em pressupostos inatistas que determinam características comportamentais universais do ser humano. nem tampouco de fatores ambientais que agem sobre o organismo controlando seu comportamento. uma nova tese. Vygotsky (1982) não nega que exista diferença entre os indivíduos. O modo de produção capitalista é baseado em relações fundadas na divisão social do trabalho. por entender que o homem é um sujeito datado. em razão do fator físico ou genético. “classes sociais”. ou seja. sendo a sociedade dividida em burguesia e proletariado. Discorda 7 UNIrevista . por exemplo. construir uma psicologia marxista. 1. que também será negada (MARX. Contudo. A fim de compreender as contribuições do pensamento vygotskyano para a Educação. Contudo. postula que cada modo de produção possui relações de produção. que. sociointeracionismo. o homem é visto como alguém que transforma e é transformado nas relações que acontecem em uma determinada cultura. a partir de três tradições teóricas existentes até então: a Economia Política Inglesa (Smith – séc. superestruturas e classes sociais correspondentes ao seu tipo de formação social. encontramos: socioconstrutivismo. O que ocorre não é uma somatória entre fatores inatos e adquiridos e sim uma interação dialética que se dá. que se estabelecem durante toda a vida. XVIII) e a Filosofia Alemã (Hegel – séc.Vygotsky e as teorias da aprendizagem Rita de Araujo Neves e Magda Floriana Damiani diferenças. entre indivíduo e meio. não entende que essa diferença seja determinante para a aprendizagem. entre outras. atrelado às determinações de sua estrutura biológica e de sua conjuntura histórica. que estão implicadas na adoção das idéias de cada um deles (FREITAS. que gera uma síntese. em termos da prática pedagógica. é possível constatar que o ponto de vista de Vygotsky é que o desenvolvimento humano é compreendido não como a decorrência de fatores isolados que amadurecem. 2004). entre outros (MARX. já que é um dos pontos que fundamenta a teoria vygotskyana. Na abordagem vygotskyana. O Materialismo Histórico vem a ser uma síntese filosófica elaborada por Marx. buscando as bases dessa teoria para explicar a formação da mente (VYGOTSKY. penso. Marx também reformulou conceitos como “valor”. mas sim um novo produto. É impossível querer entendê-las sem deixar de reconhecer o caráter marxista que fundamenta suas investigações. os meios de produção são a terra e a mecanização da indústria. de Marx e Engels. O método dialético materialista de Marx. Os teóricos vinculados a essa corrente de pensamento preocupavam-se sempre em caracterizá-la naquilo em que ela se diferenciava das demais. “dialética”. assumidamente. cada aspecto influindo sobre o outro. analisa o movimento dos contrários. a denominação mais usada era Teoria Sócio-Histórica. Iluminismo Francês – séc. O autor procurou. desde o nascimento. Além de elaborar uma síntese dessas três tradições. sua abordagem históricosocial do psiquismo humano. no Brasil. mas sim como produto de trocas recíprocas. em que. que uns estejam mais predispostos a algumas atividades do que outros. O Materialismo Histórico. há uma negação (antítese). 1999). XVIII). Essa síntese não é meramente a soma dos dois momentos anteriores. O último termo mencionado – a dialética – interessa particularmente aqui. São diversas as denominações e classificações atribuídas ao pensamento de Vygotsky. 1984). Por isso. sociointeracionismo-contrutivista e construtivismo pós-piagetiano.

mediatizada por ferramentas sociais – desde os objetos até os conhecimentos historicamente produzidos. o importante é buscar compreender as especificidades dessa relação quando sujeito e objeto são históricos e quando a relação entre eles também é histórica. mas em buscar outro modelo epistemológico. Contudo.Vygotsky e as teorias da aprendizagem Rita de Araujo Neves e Magda Floriana Damiani também da visão ambientalista. há os que afirmam que Vygotsky não é interacionista. se usamos a categoria do interacionismo. um ser passivo. não é um receptáculo vazio.Vol. pois esse é um modelo epistemológico que aborda o psiquismo humano de forma biológica. n° 2 : (abril 2006) . diferente do modelo biológico que está na base do interacionismo. Em razão disso. entendo não ser possível "enquadrar" o pensamento de Vygotsky em nenhuma das três clássicas concepções epistemológicas. ou seja. estaremos tentando enquadrar essa escola num modelo que contraria a pretensão fundamental de construir uma psicologia histórico-cultural do homem (DUARTE. essa interação entre subjetividades era sempre historicamente situada. reconstrói (no seu pensamento) este mundo. que resulta de um modelo essencialmente biológico. para ele. Assim. Não se trata de que Piaget tenha desconsiderado a influência do meio social. ele nega uma natureza humana apartada do meio. é um sujeito ativo que em sua relação com o mundo. Para Vygotsky (1982). com seu objeto de estudo. mas apenas um sujeito que é social em essência. que só reage frente às pressões do meio. Mas. relacionando-se. o sujeito é ativo. enquanto a teoria desenvolvida 8 UNIrevista . pois. ao fato de que a Epistemologia estuda como se desenvolve o conhecimento científico. Para ele. não podendo ser separado ou compreendido fora do âmbito social. O homem é sua realidade social. p. acumulados e transmitidos (DUARTE. Portanto. 1. nessa abordagem. 1999). inclusive. dependendo desta. Dessa forma. se para Vygotsky. 98). pelo contrário. E essa dificuldade de "enquadramento" talvez se deva. o homem já é produto do meio. de renovar a própria cultura. entendemos melhor não chamá-lo de sócio interacionista. não é possível dizer que a psicologia histórico-cultural seja uma variante do interacionismo contrutivista. apesar de suas idéias também se oporem ao empirismo e ao inatismo. justamente. o indivíduo não é resultado de um determinismo cultural. produzem o conhecimento. o problema não está em trazer o social para o construtivismo. qual é a diferença entre a sua teoria e o empirismo? Para Vygotsky (1982). para caracterizar a escola de Vygotsky. afirmar que trazer Vygotsky para o interacionismo-construtivista seria trazer "o social" para essa corrente também não procede. devido à natureza dialética de seu pensamento. ou seja. Vygotsky. 1999). não há a "natureza humana". Somos primeiro sociais e depois nos individualizamos. Logo. Vimos que o interacionismo pressupõe a existência desses dois elementos que. e sua ecologia cognitiva pode assumir diferentes características. e sim um sujeito que realiza uma atividade organizadora na sua interação com o mundo. capaz. mais que superar os unilateralismos na análise da relação sujeito-objeto. Assim. ao descrever a Teoria Vygotskyana: Em síntese. porque para que exista interação é necessário que haja dois elementos: a natureza humana e o meio. Não é possível compreender essas especificidades quando se adota o modelo biológico da interação entre organismos e meio-ambiente. não devem ser confundidas com o interacionismo. Nas palavras de Teresa Cristina Rego (2002. O conhecimento envolve sempre um fazer. não admite dois pólos distintos. Uma leitura atenta de Vygotsky demonstra que a sua concepção de social não incluía apenas a interação entre pessoas. Para ele. a "essência humana". o sujeito produtor de conhecimento não é um mero receptáculo que absorve e contempla o real nem o portador de verdades oriundas de um plano ideal. No mesmo sentido. (grifo meu) Por outro lado. não dá conta das especificidades desse psiquismo enquanto um fenômeno histórico-social. mas de como ele a considerou. um atuar do homem. ele age sobre o meio.

Defende. seja classificar sua teoria como uma quarta concepção epistemológica. de Teoria Sócio-Histórica da Aprendizagem. de ajuda. tanto quanto do desenvolvimento. Cuiabá. procurando criar Zonas de Desenvolvimento Proximal (ZDP's).1: 24-31. provocando avanços que não ocorreriam espontaneamente. F. M. Ela defende não se tratar Vygotsky de um construtivista. N. O professor pode interferir no processo de aprendizagem do aluno e contribuir para a transmissão do conhecimento acumulado historicamente pela Humanidade. interferindo no desenvolvimento dos alunos. em seu esforço pedagógico. Editora UNESP.ou sociointeracionismo e educação. GIUSTA.5:18-23. A autora concorda com a crítica feita por Newton Duarte (1999) quanto à apresentação de Vygotsky como um construtivista que se diferencia de Piaget apenas pela ênfase que dá ao meio social. Belo Horizonte. Quanto ao "professor vygotskyano". L. 1999. pois ele procura a relação dialética entre o ensinar e o aprender. BECKER. 1993. Referências BECKER. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia da Educação. Freitas (2000) explica que é aquele que. v. n. Educação escolar. T. Formação de Educadores. In: Psicologia da Educação. Autores Associados. a idéia de que esses dois autores são inconciliáveis. funciona intervindo e mediando a relação do aluno com o conhecimento. BARBOSA (org. Como o ponto essencial da escola de Vygotsky reside justamente na abordagem historicizadora do psiquismo humano. P. DARSIE. por partirem de perspectivas epistemológicas e filosóficas diferentes. possivelmente. DUARTE. para essa escola. dessa forma. o professor atua de forma explícita. ainda. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. o mais correto. In: R. 2000. isto é. São Paulo. Porto Alegre.10/11: 9-28.Vol. somente uma psicologia marxista poderia realizar isso plenamente. n° 2 : (abril 2006) .Rev. v3: 9-21. M. L. Vygotsky. como o próprio autor e seus adeptos já o faziam. Uniciências. Na ZDP. mais uma vez. Ele está sempre. 98 p. É nesse sentido que as idéias de Vygotsky sobre a Educação constituem-se em uma abordagem da transmissão cultural. As apropriações do pensamento de Vygotsky no Brasil: um tema em debate. Paixão de Aprender. Concepções de Aprendizagem e Práticas Pedagógicas. ou seja. resgata a importância da escola e do papel do professor como agentes indispensáveis do processo de ensinoaprendizagem. Vygotsky versus Piaget .7:69-81. Maria Teresa Freitas (2000) argumenta que não considerar a obra de Vygotsky a partir do materialismo histórico dialético impede a sua real compreensão. 9 UNIrevista .Vygotsky e as teorias da aprendizagem Rita de Araujo Neves e Magda Floriana Damiani por Vygotsky é um estudo sobre Psicologia Geral. n. teoria do cotidiano e a escola de Vygotsky. 1985. In: Educ. mas sobre o desenvolvimento humano. da S. denominada. parafraseando. n. 1999. detendo mais experiência. Assim. M. Modelos Pedagógicos e Modelos Epistemológicos.). sua teoria não é sobre o conhecimento. São Paulo. Newton Duarte (1999). 1. F. atuando como elemento de intervenção. 2003. Desafios e Perspectivas. Perspectivas Epistemológicas e suas Implicações no Processo de Ensino e de Aprendizagem. FREITAS. de A. A.

2004. Vozes. 1999. São Paulo: Martins Fontes. S. Manuscritos econômicos . A Formação Social da Mente. L. 1982. Madrid. K. 1987. 138 p. Gráficas Rogar. VYGOTSKY. n° 2 : (abril 2006) . 1. 10 UNIrevista .filosóficos. Pensamento e Linguagem. Fuenlabrada. L. 73 p.Vol. Martin Claret. T. VYGOTSKY.S. Obras Escogidas: problemas de psicologia geral. 387 p. 132 p. 157 p. VYGOTSKY. C. 1984.Vygotsky e as teorias da aprendizagem Rita de Araujo Neves e Magda Floriana Damiani MARX. L. São Paulo. Rio de Janeiro. Martins Fontes. São Paulo. S. REGO. Vygotsky: uma perspectiva Histórico-Cultural da Educação.

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