UNIrevista - Vol.

1, n° 2 : (abril 2006)

ISSN 1809-4651

Vygotsky e as teorias da aprendizagem
Rita de Araujo Neves
Aluna do Curso de Mestrado em Educação PPGE-FaE profrita@pop.com.br Universidade Federal de Pelotas, RS

Magda Floriana Damiani
Professora do Curso de Mestrado em Educação FaE-UFPel. magda@ufpel.tche.br Universidade Federal de Pelotas, RS

Resumo
Este artigo apresenta um estudo sobre a Teoria Sócio-Histórica de Vygotsky e o seu posicionamento diante das clássicas Teorias da Aprendizagem. Tal estudo é parte integrante do trabalho de dissertação de mestrado da autora que tem como foco principal a aprendizagem. Exatamente por não existir consenso no "enquadramento" da Teoria Vygotskyana entre as correntes epistemológicas foi que julgamos essencial uma abordagem crítica sobre o tema. Enquanto para alguns autores Vygotsky é interacionista, para outros é sócio-interacionista e, há, ainda, aqueles que afirmam que ele não se enquadra em nenhuma dessas duas classificações. Dessa forma, entendemos que este é um campo aberto para férteis discussões que devem ser fomentadas a partir dos estudos sobre a aprendizagem. Assim, ressalta-se que o trabalho que aqui se apresenta não tem a pretensão de ser conclusivo quanto a esse "enquadramento" da Teoria Sócio-Histórica, mas pretende, essencialmente, apresentar uma revisão teórica sobre as principais características de cada uma das correntes epistemológicas e, a partir daí, discutir qual seria o posicionamento da Teoria Vygotskyana dentro desse contexto. Portanto, este estudo propõe uma revisão das Teorias da Aprendizagem e uma discussão sobre onde está situada a Teoria Vygotskyana diante dessas teorias. Palavras-chave: Aprendizagem // Teorias da Aprendizagem // Teoria Sócio-Histórica

Introdução
São muitos os estudos sobre a aprendizagem e, especialmente, sobre a classificação das diferentes concepções de aprendizagem em diversas teorias, também denominadas correntes epistemológicas. Entretanto, ao longo desses estudos, os autores estão longe de um consenso sobre a localização da Teoria Sócio-Histórica de Vygotsky - já aceita por muitos como uma teoria da aprendizagem - nessas classificações. Desafiada por este questionamento: onde está Vygotsky, nas correntes epistemológicas?, foi que desenvolvi o presente estudo, teórico, sobre o tema. Nos estudos específicos sobre a aprendizagem, me deparei com a Teoria Sócio-Histórica de Lev Vygotsky,1que, se contrapondo às idéias vigentes à época, entendia que a aprendizagem não era uma mera aquisição de informações, não acontecia a partir de uma simples associação de idéias armazenadas na memória, mas era um processo interno, ativo e interpessoal. Mas para que pudesse compreender a originalidade do texto de Vygotsky para a área da Educação, foi necessário examinar, mesmo que brevemente, as teorias já formuladas sobre o conhecimento humano, ou correntes epistemológicas. Essas formas de aprender, ou abordagens que explicam a forma pela qual o sujeito aprende e se desenvolve,

1 Psicólogo russo, que viveu entre os anos de 1896 e 1934 e produziu trabalhos sobre o desenvolvimento psicológico e a aprendizagem (REGO, 2002).

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Essa maneira de se conceber o conhecimento influenciou amplamente teorias psicológicas e pedagógicas que se traduziram em concepções de ensino e aprendizagem também empiristas. Marta Maria Pontin Darsie (1999). Agnela da Silva Giusta (1985). O modelo de ensino é fechado. que organiza as informações do meio externo que deverão ser internalizadas pelos alunos.Vol. Nessa concepção. 1985). Teresa Cristina Rego (2002) e Newton Duarte (1999). p. cujas impressões do mundo. segundo essas diferentes acepções teóricas. dando lugar ao conhecimento. por exemplo. livre da introspecção e fundada numa metodologia "materialista". Nessa concepção. assim como não são harmoniosas as sociedades no interior das quais ele vem sendo produzido. Proliferam as teorias que concebem o indivíduo como um ente desvinculado da história. o processo ensino-aprendizagem é centrado no professor. tomo como ponto de partida justamente o conceito de aprendizagem. ganha sentido a definição de aprendizagem como mudança de comportamento resultante do treino ou da experiência. cuja expressão mais imponente é o behaviorismo. 26): O conceito de aprendizagem emergiu das investigações empiristas em Psicologia. busco discutir as concepções de aprendizagem que subsidiam as práticas pedagógicas e as repercussões das mesmas. O conhecimento é. a qual. as características individuais são determinadas por fatores externos ao indivíduo. as teorias tornadas oficiais (GIUSTA. As Diferentes Abordagens Teóricas O conhecimento psicológico e pedagógico não se constitui em um todo harmonioso. tais investigações formam o corpo do que se chama associacionismo. portanto. desenvolvimento e aprendizagem se confundem e ocorrem simultaneamente. Nesse conceito. sendo esses apenas receptores de informações e do seu armazenamento na memória. por isso. Como conseqüência da corrente empirista. a partir das idéias de autores como Fernando Becker (1993 e 2003). Segundo Marta Darsie (1999. O primeiro é. de fato. que lhe garantisse a objetividade das ciências da natureza. 9): "Toda prática educativa traz em si uma teoria do conhecimento. Esta é uma afirmação incontestável e mais incontestável ainda quando referida à prática educativa escolar". Em decorrência de sua base epistemológica. e essas são. n° 2 : (abril 2006) . Partindo desse pressuposto. que. Igualmente. são associadas umas às outras. teoria psicológica derivada da concepção empirista. eram duas: o inatismo e o empirismo. segundo os diferentes teóricos. a dissolução entre sujeito e conhecimento é evidente. de investigações levadas a termo com base no pressuposto de que todo conhecimento provém da experiência. aquela tábula rasa e. Sobre esse tema. 1985). acabado.Vygotsky e as teorias da aprendizagem Rita de Araujo Neves e Magda Floriana Damiani vigentes à época em que Vygotsky propôs um novo modelo para a educação. Para a primeira corrente analisada. por razões políticas. a seguir. Isso significa afirmar o primado absoluto do objeto e considerar o sujeito como uma tábula rasa. considerando o movimento e as contradições que são inerentes a tal discussão. p. formadas pelos órgãos dos sentidos. tinha como meta a construção de uma "psicologia científica". a aprendizagem é identificada com condicionamento (GIUSTA. uma cadeia de idéias atomisticamente formada a partir do registro dos fatos e se reduz a uma simples cópia do real. 1. Para tanto. nas palavras de Agnela Giusta (1985. ou seja. é chamada de: ambientalismo ou empirismo. passo a tecer algumas considerações. 2 UNIrevista . Maria Teresa de Assunção Freitas (2000). uma cera mole.

dicotomizou o homem. 3 UNIrevista . o papel do ensino e da escola é supervalorizado. de onde vem o seu conhecimento. tendo descartado a consciência. 19). 1. ficar quieto e repetir tantas vezes quantas forem necessárias. um falso materialismo. de fora para dentro. Nesses casos. Esse é o sujeito da visão epistemológica desse professor. quando o behaviorismo. 1999). Isso ocorre porque ele se baseia naquela concepção epistemológica que subjaz a sua prática. o professor dita e o aluno copia. em que fatos são armazenados por associação e. recuperados. já que o aluno é um receptáculo vazio. Logo. e somente ele. Mas por que o professor age assim? Porque ele acredita que o conhecimento pode ser transmitido para o aluno. Aqui. O impacto da abordagem ambientalista na educação pode ser verificado nos programas educacionais elaborados com o objetivo de estimular e intervir no desenvolvimento das crianças provenientes das camadas populares ou compensar. Ele acredita no mito da transmissão do conhecimento. como garantias para a apreensão do conhecimento (REGO. portanto. na Psicologia. uma tábula rasa. se. Segundo Giusta (1985). no que é observável e no que não é. o professor ensina. como também a incumbência de corrigir os problemas sociais. por uma epistemologia. lendo. não importa o nível de abstração ou de formalização. não só enquanto conteúdo. De acordo com as idéias de Becker (1993). imerso em simbolismos. porque procedendo a tal cisão e ocupando-se apenas da ação do objeto. no qual a noção de conhecimento consiste no acúmulo de fatos e informações isoladas. conseqüentemente. o fracasso das ações pedagógicas assentadas na concepção empirista de aprendizagem. uma vez que ignora as condições históricas dos sujeitos psicológicos. O compromisso da escola é com a transmissão da cultura e a modelagem comportamental dos alunos. escrevendo. Tudo que o aluno tem a fazer é submeter-se à fala do professor: ficar em silêncio.Vol. e escolheu ocupar-se do observável. o professor decide o que fazer e o aluno executa. enquanto forma ou estrutura. ficou constatada a sua fragilidade. Valoriza-se o trabalho individual. porque seu materialismo é uma forma de mecanismo. a subjetividade. O professor acredita no mito da transferência do conhecimento: o que ele sabe. o professor ensina e o aluno aprende. baseando-se na idéia de que "ensinando bem" o aluno aprende. até aderir em sua mente o que o professor deu. deixou o sujeito à mercê das especulações metafísicas. 2002). Nas exatas palavras do autor (1993. o que está subjacente é a idéia de que a escola tem. p. Há uma preocupação excessiva em organizar o ensino. quando necessário. o professor: No seu imaginário. e somente se. ao nascer. ao invés de provar seu caráter de síntese das relações sociais.Vygotsky e as teorias da aprendizagem Rita de Araujo Neves e Magda Floriana Damiani livresco. pode produzir algum novo conhecimento no aluno. n° 2 : (abril 2006) . a concentração. segundo a qual o sujeito é totalmente determinado pelo mundo do objeto ou meio físico e social. conforme já referido. O aluno aprende. numa concepção de memória associacionista/empirista. as carências sociais dos indivíduos. ele. etc. não somente o poder de transformar o indivíduo. pode ser transferido ou transmitido para o aluno. nada tem em termos de conhecimento: é uma folha de papel em branco. a sua capacidade de conhecer? Do meio físico e/ou social. na aula fundada nessa concepção epistemológica. segundo a qual o indivíduo. quadros cheios de cálculos e fórmulas ou definições a serem memorizadas sem significado real. prestar atenção. de forma assistencialista. Portanto. Todo o conhecimento está fora do sujeito. A transmissão de um grande número de conteúdos torna-se de extrema relevância. a atenção. O aluno é um recipiente vazio onde é necessário "despejar" o conhecimento (DARSIE. fragmentando a unidade indissolúvel do sujeito e do objeto. no professor e nos livros. a ação pedagógica desse professor não é gratuita. Essas considerações esclarecem. pelo menos por três razões: por separar o que é inseparável. o esforço e a disciplina. o professor fala e o aluno escuta. Ela é legitimada ou fundada teoricamente. ou.

das normas ditatoriais da instituição. imbuído de uma epistemologia apriorista – inconsciente. dos conferencistas. assume formas mais perversas que na forma explícita do modelo anterior. rechear de conteúdo. o poder exercido pelo professor. Como o fracasso é mais comum entre as camadas sociais mais desfavorecidas: os mal-nutridos. Esse professor acredita que o aluno aprende por si mesmo e o máximo que ele pode fazer é auxiliar a aprendizagem do aluno. apenas. e aprendem facilmente. ou. entendemos das práticas pedagógicas dominantes. das instruções programadas. Freqüentemente. que tem um fundamento epistemológico do tipo racionalista. trazer à consciência. no nascimento já está determinado quem será ou não inteligente. o fracasso é só deles (DARSIE. 1985). portanto. Para essa corrente. um facilitador. numa extrema oposição ao atomismo behaviorista (GIUSTA. Essa epistemologia acredita que o ser humano nasce com o conhecimento já programado na sua herança genética. Kohler e Koffka (GIUSTA. as interações sócio-culturais são excluídas na formação das estruturas comportamentais e cognitivas da pessoa. 1993). que. Então. Assim. pois o aluno já traz em si um saber que ele precisa. O professor deve interferir o mínimo possível. permite-nos ver que. outros não nasçam para o estudo e. pode-se pensar que isso ocorre porque lhes falta bagagem genética adequada. Assim. um ser humano desprovido da mesma capacidade (BECKER. dependendo das conveniências. ou seja. no caso em tela. no que tange ao impacto educacional trazido por essa acepção. dom ou maturidade. aptidão. No racionalismo (ou inatismo) é às variáveis biológicas e à situação imediata que se deve recorrer para explicar a conduta do sujeito. A análise. 4 UNIrevista .Vol. na medida em que seu sucesso ou fracasso depende quase exclusivamente de seu talento. o desempenho dos alunos na escola deixa de ser responsabilidade do sistema educacional. n° 2 : (abril 2006) . sendo fruto do exercício de estruturas racionais. Assim. se fracassam. esse paradigma promove uma expectativa significativamente limitada do papel da educação para o desenvolvimento individual (REGO. organizar. pela psicologia da gestalt 2 . Ambas as posições. conceberá também. cindem os dois pólos do conhecimento de modo irremediável. pode-se esperar que uns nasçam para aprender. Na concepção epistemológica racionalista. do que foi até aqui demonstrado. 1985). o entendimento é o de que a educação pouco ou quase nada altera as determinações inatas. Nessa perspectiva. despertando o conhecimento que já existe neste. o professor. Esse conceito positivista de aprendizagem que acabamos de verificar é inteiramente refutado. por exemplo. dos textos. pois essa mesma epistemologia que concebe o ser humano como dotado de um "saber de nascença". professores. enquanto totalidades organizadas. Desconfiam. 1999). Conseqüentemente. significativa "daquilo que é posto antes". 2002). a bagagem genética/hereditária. com Wertheimer. o professor é um auxiliar do aluno. A epistemologia que sustenta esse modelo pedagógico é também denominada apriorista. mesmo superficial. pré-formadas no sujeito. os marginalizados. isolam-nos e submetem-nos à autoridade do saber dos professores. na maioria das vezes – renuncia àquilo que seria a característica fundamental da ação docente: a intervenção no processo de aprendizagem do aluno. Essa corrente lida com o conceito de estruturas mentais.Vygotsky e as teorias da aprendizagem Rita de Araujo Neves e Magda Floriana Damiani as quais silenciam os alunos. ainda. nesse modelo. as referidas práticas se 2 Corrente psicológica que nasceu na Alemanha. É no regime do laissez-faire ("deixa fazer") que ele encontrará o seu caminho. associada ao que nós. dos livros. portanto. do valor da educação e do papel interveniente e mediador do professor. no princípio do século XX. em geral. Os postulados inatistas subestimam a capacidade intelectual do indivíduo. os pobres. se a unilateralidade do positivismo consiste em desprezar a ação do sujeito sobre o objeto. Isso significa pensar. palavra derivada da expressão a priori. que pressupõe que todo o conhecimento é anterior à experiência. 1. a do racionalismo consiste em desprezar a ação do objeto sobre o sujeito. em outras palavras. o que é um absurdo.

ao comentar as conseqüências da visão empirista sobre a relação teoria/prática: É claro que essa cisão entre subjetividade e objetividade nada mais é que o reflexo da divisão social do trabalho. Freud. as quais são resultantes da relação sujeito x objeto. formando um todo único. Para esse estudioso. Wallon. passivamente. Afirma que o sujeito constrói o conhecimento na interação com o meio físico e social. sendo aquela que sabe. não há por que apelar para a atividade desse sujeito. n° 2 : (abril 2006) . se todo o conhecimento está fora do sujeito. A perspectiva epistemológica do interacionismo. Após apresentar as concepções de aprendizagem de cunho mecanicista (empirista) e idealista (racionalista). E dada a falsidade da relação de dominação entre teoria x prática. essas duas teorias com bases epistemológicas completamente diversas podem levar a práticas e efeitos semelhantes do ponto de vista pedagógico. se as estruturas são. na Psicologia. as práticas pedagógicas racionalistas apóiam-se em posturas que não apelam para a atividade do sujeito e. pudesse ter encarado a transmissão do conhecimento de uma forma diversa daquelas que impedem a autonomia intelectual e a produção de um conhecimento verdadeiro e. porque. Luria. 5 UNIrevista . da separação entre o fazer e o pensar. Paulo Freire. Assim. Baktin e Freinet. Becker (1993). nem de uma ampla programação inata. não poderíamos esperar que a escola. assistese a uma supervalorização da teoria. 1. denomina uma terceira concepção epistemológica. sendo. de interacionismo. A idéia central da teoria de Piaget é a de que o conhecimento não procede nem da experiência única dos objetos. Vejamos. de fato. Para o racionalismo. antes de tudo. classificando-a como uma teoria do desenvolvimento. pré-formada no sujeito. da mesma forma. Piaget discorda das concepções anteriormente discutidas tendo sido essas discussões exaustivamente expressas em toda a sua obra. e simplesmente o absorva. E. nada mais resta do que obedecer à teoria.Vol. para a sua vida concreta. colocada no cerne do processo de aprendizagem. Nas palavras de Giusta (1985. libertador. cumpre averigüar se existem. A esta. instituição legitimadora e produtora desse tipo de dominação. admite o seu uso para o entendimento do processo de aprendizagem (GIUSTA. muitas vezes. para o empirismo. portanto. O autor põe em xeque as idéias de que o conhecimento nasce com o indivíduo ou é dado pelo meio social. 1985). Embora ele negue que sua obra se constitua em uma teoria de aprendizagem. onde um dos termos não se opõe ao outro. E. no que tange a uma concepção de aprendizagem. sem atividade. 1999). e essa construção vai depender tanto das condições do indivíduo como das condições do meio (DARSIE. Vygotsky. Assim. pré-formadas e não fruto da ação do sujeito sobre o mundo objetivo e do mundo objetivo sobre o sujeito. p. nesses casos. por isso. formulações que as superem. – embora sua teoria baseie-se na existência de alguns elementos inatos – mas de construções sucessivas com elaborações constantes de estruturas novas. da prática e da teoria. reducionista: o empirismo reduz o sujeito ao objeto. 28). tem o direito de comandar a prática. como ignorante.Vygotsky e as teorias da aprendizagem Rita de Araujo Neves e Magda Floriana Damiani debatem entre as duas concepções de aprendizagem apresentadas. mas se solidarizam. representada pelo pensamento de Piaget. é possível aproximar autores como Piaget. difícil identificar se o ensino está fundado numa teoria ou noutra. que supera as anteriores. construtivismo ou de dialética. porque todos eles têm um ponto em comum: a ação do sujeito. tratada freqüentemente como prática ou práxis. Apesar de soar estranho. basta que esse fique inerte. enquanto o racionalismo faz o contrário. é uma síntese do empirismo e do racionalismo. Isso ocorre porque o tratamento dado à aprendizagem pelas duas correntes em foco é.

pois ele critica as teorias que separam a aprendizagem do desenvolvimento (GIUSTA. pela mediação da linguagem. agindo internamente no homem. a concepção interacionista conduz. como fundamento para toda e qualquer investigação. a importância dos estudos de Vygotsky é inquestionável. Assim. do ponto de vista da aprendizagem. provocam-lhe transformações internas. construção: ação e tomada de consciência da coordenação das ações. se ele agir e problematizar a sua ação e esse processo far-se-á por reflexionamento e reflexão. Assim. a objetividade do mundo e a subjetividade. que não tenham sido engendrados na trama ideológica semiótica da sociedade. segundo Freitas (2000). a partir das relações que os homens estabelecem entre si. na qual o signo. Não existem signos internos. que o fazem passar de ser biológico a ser sócio-histórico. Utilizando-se do método histórico-crítico. Alguns vêem nele o psicolingüista. sóciohistórica. concebe o homem como um ser histórico e produto de um conjunto de relações sociais. Vygotsky e seus colaboradores se empenham em recuperar o estudo da consciência. que não estabelecem com clareza as bases diversas que fundamentam o pensamento dos dois autores (Piaget e Vygotsky). n° 2 : (abril 2006) . inevitavelmente. que ocorre por imitação. porque permite resgatar: a unidade do conhecimento. por meio de uma atividade sígnica. outros o psicólogo.Vygotsky e as teorias da aprendizagem Rita de Araujo Neves e Magda Floriana Damiani Segundo Becker (1993). O autor considera que a consciência é engendrada no social. ao mesmo tempo. penso que esse autor. 1985). Dessa maneira. Logo. por excelência. embora também tenha se oposto às concepções empirista e racionalista. na pedagogia derivada dessa epistemologia interacionista (Pedagogia Relacional.Vol. divergindo quanto a sua filiação às diversas correntes: behaviorista. Aprendizagem é. portanto. não podendo ser produzido na solidão do sujeito. mesmo porque essa solidão é impossível (GIUSTA. Talvez a culpa disso esteja também nos textos publicados. à superação da dicotomia transmissão x produção do saber. apresenta características diferentes das de Piaget. 1985). Vygotsky (1982) aparece afirmando que o meio social é determinante do desenvolvimento humano e que isso acontece fundamentalmente pela aprendizagem da linguagem. através de uma visão da relação sujeito/objeto. conforme o autor) o professor acredita que o aluno só aprenderá alguma coisa. construirá algum conhecimento novo. Vygotsky empreende um estudo original e profundo do desenvolvimento intelectual do homem. 1. Embora alguns autores identifiquem Vygotsky com a concepção epistemológica interacionista/construtivista. como um produto social. na consciência. tem uma função geradora e organizadora dos processos psicológicos. nem estabelecem as 6 UNIrevista . chega-se à conclusão de que as práticas pedagógicas que se fundamentam na concepção interacionista de aprendizagem devem apoiar-se em duas verdades fundamentais: a de que todo conhecimento provém da prática social e a ela retorna e a de que o conhecimento é um empreendimento coletivo. em que se afirma. Ele se pergunta como os fatores sociais podem modelar a mente e construir o psiquismo e a resposta que apresenta nasce de uma perspectiva semiológica. inserindo as contribuições de Pavlov (que era empirista) numa perspectiva mais ampla de investigações e contrapondo-se às idéias vigentes no período de seus estudos (REGO. considerada como um momento individual de internalização da objetividade e a realidade concreta da vida dos indivíduos. isto é. não se pode exagerar a importância da bagagem hereditária nem a importância do meio social. Os signos são os instrumentos que. construtivista. cujos resultados demonstram ser o desenvolvimento das funções psicointelectuais superiores um processo absolutamente único. Vygotsky. 2002). Visando a desenvolver uma psicologia materialista. Vários autores interpretam a obra de Vygotsky de formas diferentes.

sua abordagem históricosocial do psiquismo humano. no Brasil. Contudo. que gera uma síntese. XVII). O Materialismo Histórico vem a ser uma síntese filosófica elaborada por Marx. é necessário que se faça uma breve consideração acerca dos fundamentos filosóficos subjacentes as suas idéias. desde o nascimento. mas sim como produto de trocas recíprocas. entre outros (MARX. 1999). n° 2 : (abril 2006) . Contudo. Ele rejeita os modelos baseados em pressupostos inatistas que determinam características comportamentais universais do ser humano. o homem é visto como alguém que transforma e é transformado nas relações que acontecem em uma determinada cultura. superestruturas e classes sociais correspondentes ao seu tipo de formação social. penso. mas sim um novo produto. meios de produção. que também será negada (MARX. não entende que essa diferença seja determinante para a aprendizagem. sendo a sociedade dividida em burguesia e proletariado. a denominação mais usada era Teoria Sócio-Histórica. nem tampouco de fatores ambientais que agem sobre o organismo controlando seu comportamento. a Política Francesa (Comuna de Paris. que. A fim de compreender as contribuições do pensamento vygotskyano para a Educação. para cada tese. Iluminismo Francês – séc. 2004). Vygotsky (1982) não nega que exista diferença entre os indivíduos. que se estabelecem durante toda a vida. o Estado possui a ideologia liberal-conservadora. que estão implicadas na adoção das idéias de cada um deles (FREITAS. “classes sociais”. XVIII). conforme Newton Duarte (DUARTE. que uns estejam mais predispostos a algumas atividades do que outros. sociointeracionismo. em termos da prática pedagógica. analisa o movimento dos contrários. postula que cada modo de produção possui relações de produção. Marx também reformulou conceitos como “valor”. O modo de produção capitalista é baseado em relações fundadas na divisão social do trabalho. como. O último termo mencionado – a dialética – interessa particularmente aqui. O autor procurou.Vygotsky e as teorias da aprendizagem Rita de Araujo Neves e Magda Floriana Damiani diferenças. já que é um dos pontos que fundamenta a teoria vygotskyana. 1. construir uma psicologia marxista. entre outras. O método dialético materialista de Marx. É impossível querer entendê-las sem deixar de reconhecer o caráter marxista que fundamenta suas investigações. de Marx e Engels. uma nova tese. O que ocorre não é uma somatória entre fatores inatos e adquiridos e sim uma interação dialética que se dá. em que. O Materialismo Histórico.Vol. entre indivíduo e meio. “dialética”. XVIII) e a Filosofia Alemã (Hegel – séc. deve ser mantida. “Estado”. sociointeracionismo-contrutivista e construtivismo pós-piagetiano. por entender que o homem é um sujeito datado. há uma negação (antítese). a partir de três tradições teóricas existentes até então: a Economia Política Inglesa (Smith – séc. cada aspecto influindo sobre o outro. é possível constatar que o ponto de vista de Vygotsky é que o desenvolvimento humano é compreendido não como a decorrência de fatores isolados que amadurecem. Discorda 7 UNIrevista . expressam as definições de comportamento por faixa etária. ou seja. 2000). atrelado às determinações de sua estrutura biológica e de sua conjuntura histórica. Na abordagem vygotskyana. Por isso. nenhuma dessas denominações aparece na obra de Vygotsky. encontramos: socioconstrutivismo. Essa síntese não é meramente a soma dos dois momentos anteriores. Assim. os meios de produção são a terra e a mecanização da indústria. Além de elaborar uma síntese dessas três tradições. São diversas as denominações e classificações atribuídas ao pensamento de Vygotsky. em razão do fator físico ou genético. Os teóricos vinculados a essa corrente de pensamento preocupavam-se sempre em caracterizá-la naquilo em que ela se diferenciava das demais. assumidamente. entre o ser humano e o meio social e cultural em que se insere. buscando as bases dessa teoria para explicar a formação da mente (VYGOTSKY. 1984). por exemplo. 2004).

entendo não ser possível "enquadrar" o pensamento de Vygotsky em nenhuma das três clássicas concepções epistemológicas. há os que afirmam que Vygotsky não é interacionista. pelo contrário. Não é possível compreender essas especificidades quando se adota o modelo biológico da interação entre organismos e meio-ambiente. de renovar a própria cultura. para ele. essa interação entre subjetividades era sempre historicamente situada. produzem o conhecimento. mas de como ele a considerou. o homem já é produto do meio. não é um receptáculo vazio. dependendo desta. o sujeito é ativo. O homem é sua realidade social. que só reage frente às pressões do meio. 1999). ele nega uma natureza humana apartada do meio. justamente. enquanto a teoria desenvolvida 8 UNIrevista . relacionando-se. Em razão disso. Vygotsky. O conhecimento envolve sempre um fazer. Vimos que o interacionismo pressupõe a existência desses dois elementos que. não podendo ser separado ou compreendido fora do âmbito social. se usamos a categoria do interacionismo. ou seja. Uma leitura atenta de Vygotsky demonstra que a sua concepção de social não incluía apenas a interação entre pessoas. estaremos tentando enquadrar essa escola num modelo que contraria a pretensão fundamental de construir uma psicologia histórico-cultural do homem (DUARTE. reconstrói (no seu pensamento) este mundo. que resulta de um modelo essencialmente biológico. devido à natureza dialética de seu pensamento. acumulados e transmitidos (DUARTE.Vol. Para Vygotsky (1982). não devem ser confundidas com o interacionismo. mas em buscar outro modelo epistemológico. Contudo. e sua ecologia cognitiva pode assumir diferentes características. Portanto. mas apenas um sujeito que é social em essência. um ser passivo.Vygotsky e as teorias da aprendizagem Rita de Araujo Neves e Magda Floriana Damiani também da visão ambientalista. 1999). não há a "natureza humana". Para ele. Somos primeiro sociais e depois nos individualizamos. qual é a diferença entre a sua teoria e o empirismo? Para Vygotsky (1982). um atuar do homem. 98). afirmar que trazer Vygotsky para o interacionismo-construtivista seria trazer "o social" para essa corrente também não procede. Assim. pois. capaz. Nas palavras de Teresa Cristina Rego (2002. se para Vygotsky. o problema não está em trazer o social para o construtivismo. diferente do modelo biológico que está na base do interacionismo. a "essência humana". E essa dificuldade de "enquadramento" talvez se deva. (grifo meu) Por outro lado. p. n° 2 : (abril 2006) . Não se trata de que Piaget tenha desconsiderado a influência do meio social. o sujeito produtor de conhecimento não é um mero receptáculo que absorve e contempla o real nem o portador de verdades oriundas de um plano ideal. nessa abordagem. Logo. não é possível dizer que a psicologia histórico-cultural seja uma variante do interacionismo contrutivista. entendemos melhor não chamá-lo de sócio interacionista. não admite dois pólos distintos. ou seja. pois esse é um modelo epistemológico que aborda o psiquismo humano de forma biológica. Mas. No mesmo sentido. Para ele. para caracterizar a escola de Vygotsky. Assim. 1. inclusive. apesar de suas idéias também se oporem ao empirismo e ao inatismo. é um sujeito ativo que em sua relação com o mundo. porque para que exista interação é necessário que haja dois elementos: a natureza humana e o meio. ele age sobre o meio. com seu objeto de estudo. o importante é buscar compreender as especificidades dessa relação quando sujeito e objeto são históricos e quando a relação entre eles também é histórica. não dá conta das especificidades desse psiquismo enquanto um fenômeno histórico-social. ao descrever a Teoria Vygotskyana: Em síntese. mais que superar os unilateralismos na análise da relação sujeito-objeto. ao fato de que a Epistemologia estuda como se desenvolve o conhecimento científico. mediatizada por ferramentas sociais – desde os objetos até os conhecimentos historicamente produzidos. e sim um sujeito que realiza uma atividade organizadora na sua interação com o mundo. Dessa forma. o indivíduo não é resultado de um determinismo cultural.

Vygotsky e as teorias da aprendizagem Rita de Araujo Neves e Magda Floriana Damiani por Vygotsky é um estudo sobre Psicologia Geral. A. por partirem de perspectivas epistemológicas e filosóficas diferentes. ainda. isto é. BARBOSA (org. M. Assim. da S. 1999. P. de Teoria Sócio-Histórica da Aprendizagem. Defende. 9 UNIrevista . N. Belo Horizonte. Vygotsky. 1985. DUARTE. de A. O professor pode interferir no processo de aprendizagem do aluno e contribuir para a transmissão do conhecimento acumulado historicamente pela Humanidade. Cuiabá. É nesse sentido que as idéias de Vygotsky sobre a Educação constituem-se em uma abordagem da transmissão cultural. n. pois ele procura a relação dialética entre o ensinar e o aprender. denominada. de ajuda. In: R. teoria do cotidiano e a escola de Vygotsky. Uniciências. Ele está sempre. v3: 9-21.Vol. T. interferindo no desenvolvimento dos alunos. mas sobre o desenvolvimento humano. 98 p. Desafios e Perspectivas. provocando avanços que não ocorreriam espontaneamente. ou seja. L. procurando criar Zonas de Desenvolvimento Proximal (ZDP's). Modelos Pedagógicos e Modelos Epistemológicos. para essa escola. Vygotsky versus Piaget . A autora concorda com a crítica feita por Newton Duarte (1999) quanto à apresentação de Vygotsky como um construtivista que se diferencia de Piaget apenas pela ênfase que dá ao meio social. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. tanto quanto do desenvolvimento. DARSIE. Perspectivas Epistemológicas e suas Implicações no Processo de Ensino e de Aprendizagem. BECKER. seja classificar sua teoria como uma quarta concepção epistemológica. Na ZDP. M. Educação escolar. M. Quanto ao "professor vygotskyano". Newton Duarte (1999). GIUSTA. n. Ela defende não se tratar Vygotsky de um construtivista. funciona intervindo e mediando a relação do aluno com o conhecimento. Referências BECKER. dessa forma. In: Educ. Autores Associados. 1993. sua teoria não é sobre o conhecimento.1: 24-31.ou sociointeracionismo e educação. o professor atua de forma explícita. In: Psicologia da Educação. o mais correto. detendo mais experiência. em seu esforço pedagógico. parafraseando.). Formação de Educadores.10/11: 9-28. atuando como elemento de intervenção. mais uma vez. L. somente uma psicologia marxista poderia realizar isso plenamente.7:69-81. n° 2 : (abril 2006) . 2003. 1999. 2000. possivelmente. Concepções de Aprendizagem e Práticas Pedagógicas.5:18-23. F. Maria Teresa Freitas (2000) argumenta que não considerar a obra de Vygotsky a partir do materialismo histórico dialético impede a sua real compreensão.Rev. n. As apropriações do pensamento de Vygotsky no Brasil: um tema em debate. v. Como o ponto essencial da escola de Vygotsky reside justamente na abordagem historicizadora do psiquismo humano. como o próprio autor e seus adeptos já o faziam. F. São Paulo. Porto Alegre. FREITAS. São Paulo. Freitas (2000) explica que é aquele que. Paixão de Aprender. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia da Educação. Editora UNESP. resgata a importância da escola e do papel do professor como agentes indispensáveis do processo de ensinoaprendizagem. a idéia de que esses dois autores são inconciliáveis. 1.

São Paulo. Pensamento e Linguagem. L. Martin Claret. K. VYGOTSKY. São Paulo. 10 UNIrevista . São Paulo: Martins Fontes. VYGOTSKY. REGO.S. T. 1987. 132 p. Rio de Janeiro. Obras Escogidas: problemas de psicologia geral. C. Martins Fontes.Vol. A Formação Social da Mente. 1982.filosóficos.Vygotsky e as teorias da aprendizagem Rita de Araujo Neves e Magda Floriana Damiani MARX. Fuenlabrada. S. 1. S. Vozes. 138 p. n° 2 : (abril 2006) . VYGOTSKY. Manuscritos econômicos . Gráficas Rogar. 2004. Vygotsky: uma perspectiva Histórico-Cultural da Educação. 387 p. 157 p. Madrid. L. L. 73 p. 1984. 1999.