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Análise do poema XXIII do "Guardador de Rebanhos"

Como nos diz Gaspar Simões, primeiro biógrafo de Pessoa, O Guardador de Rebanhos não é “poesia sincera”. Ou
seja, não é poesia verdadeira, no sentido em que poesia verdadeira apela ao que de humano o poeta sente, quando a
escreve. Pessoa-Caeiro não é sincero, porque na realidade a única poesia sincera de Pessoa não é aquele poesia
bucólica e primitiva de Caeiro, que fala de não querer conhecer, de não se poder conhecer, mas antes a poesia de
Álvaro de Campos, que chora pelos aniversários que celebra sozinho, ou dele mesmo hortónimo, que lamenta “o
menino de sua mãe”, perdido para as noites do seu passado sem regresso.
Esta poesia “insincera” de Caeiro nada mais era que uma necessidade higiénica, de escrever algo puro e limpo, que
livrasse o mundo de todas as filosofias, de toda a metafísica, de toda a confusão de ter de interpretar o mundo e fazer
um sentido de tudo o que nos rodeia. Isto explica que o Guardador de Rebanhos seja escrito num impulso, num só
dia, sem reflexão, e que mais tarde pouco ou nada volte a surgir de Caeiro. Ele esgotara a sua necessidade (e a sua
utilidade).
Esta é a interpretação psicológica do fenómeno Caeiro. Outra será a interpretação alquímica, operada sobretudo por
António Quadros, em Fernando Pessoa, vida, personalidade e génio. Quadros diz-nos que Caeiro é o elemento Terra
no grande processo alquímico que é a obra pessoana, em busca de significados e conhecimento. O necessário percurso
alquímico é um percurso de purga, de filtragem de sentimentos. Tudo começa, evidentemente com Caeiro, com a
Terra, com tudo aquilo que é ingénuo e imediato, sem imaginação além da realidade absoluta dos sentidos, do
exterior. Reis é ar – memória e anamnese; Campos é água – energia vital e inquietude.
Analisando em concreto o poema XXIII“O meu olhar azul…” assim se inicia o poema. De facto era azul o olhar de
Caeiro, como testemunha o próprio Álvaro de Campos, nas suas «notas para a recordação do meu mestre Caeiro»
publicadas na revista Presença em 1931. De saúde frágil, olhos azuis e cabelo louro. Este azul que Pessoa identifica
com o céu, com a natureza e de seguida liga ao seu próprio olhar, como se entre o olhar e a natureza não existissem
obstáculos, nomeadamente o intelecto, a análise, o pensamento. Pensar-se-ia que quando Caeiro olha, os seus olhos
são uma continuação da própria natureza, o azul do seu olhar, o mesmo azul do céu que ele perscruta, calmo e
silencioso. “azul e calmo porque não se interroga nem se espanta”. Azul e calmo, porque não tem de pensar porque
o céu é azul, como os seus olhos o são.
Porque não pensa Caeiro no porquê do céu ser azul? – talvez a primeira pergunta que terá assolado mentes humanas e
que simboliza todas as perguntas.
Ele próprio nos responde: “Se eu interrogasse e me espantasse, não nasciam flores novas nos prados…”. É inútil, e
sobretudo inconsequente, pensar no porquê das coisas, pois as coisas são o que são. É de uma brutal objectividade esta
visão filosófica da realidade. Ele próprio o diz – nas suas palavras – de seguida. Mesmo que o Sol mudasse e flores
nascessem de novo no prado, ele preferia não as ter e preferia o Sol antigo, pois tudo é como é, tudo deve ser aceite
como é, nada deve ser intelectualizado. Aceitar é uma forma de pacificar, pois pensar, para Caeiro, é ser inimigo da
Natureza, que não quer ser entendida, só contemplada. Pois nós mesmos somos Natureza, e se a questionamos, só nos
questionamos a nós próprios, enredamo-nos mais profundamente nas questões que pensamos nos poderão salvar da
ignorância. Quando a verdadeira ignorância é querer saber mais, não estar contente com a realidade, com a maneira
singela e absoluta da realidade. Nós somos passageiros, fenómenos como um raio ou chuva que cai, participantes,
parte de uma intrincada sinfonia, que não tem de ser escrita para ser compreendida, que não tem de ser analisada para
ser mais bela. Caeiro é simples como a Natureza que chama casa e mãe. Repare-se que é a mesma Natureza certa e
imutável que lhe dá a segurança, algo triste é certo, de ter sempre certeza, de nunca poder ser abandonado, talvez
rancoroso da traição e abandono da sua “mãe humana”, rancoroso e temente da traição “da vida em sociedade”, que
tarda sempre em o realizar a ele, talvez porque ele busque demasiado essa realização”.