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Filosofos

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Sections

  • CONTEXTO
  • I – Pensamento Clássico
  • II – Pensamento Cristão
  • III – Pensamento Latino
  • IV – Pensamento Moderno
  • V – Pensamento Contemporâneo
  • VI - Bibliografia
  • I - CLÁSSICOS
  • Os Pré-socráticos
  • Dualismo Grego
  • O Gênio Grego
  • Primeiro Período
  • Escola Jônica
  • Tales de Mileto (624-548 A.C.) "Água"
  • Anaximandro de Mileto (611-547 A.C.) "Ápeiron"
  • Fragmentos
  • Anaxímenes de Mileto (588-524 A.C.) "Ar"
  • Heráclito de Éfeso
  • Vida de Heráclito
  • Filosofia de Heráclito
  • O Princípio Lógico
  • Os Modos da Realidade
  • Pitágoras de Samos
  • Notas Biográficas sobre Pitágoras
  • O Pitagorismo
  • A Pátria Estelar
  • Salvação pela Matemática
  • O Escândalo dos "Irracionais"
  • Zenão de Eléia
  • Anotações sobre Demócrito
  • Características do Pensamento de Demócrito
  • Demócrito e suas Teorias
  • Teoria do Conhecimento
  • Teoria do Comportamento
  • Os Sofistas
  • Período Sistemático
  • A Sofística
  • Protágoras de Abdera
  • Górgias de Leôncio
  • Sócrates
  • A Vida
  • Método de Sócrates
  • Doutrinas Filosóficas
  • Gnosiologia
  • A Moral
  • Escolas Socráticas Menores
  • Introdução à Apologia de Sócrates
  • Preâmbulo
  • A Defesa de Sócrates
  • Enunciado
  • Diversidade Entre Duas Categorias de Acusadores: os Antigos e os Recentes
  • Defesa Contra os Antigos Acusadores
  • Calúnia a Respeito do Saber de Sócrates
  • O Que é o Saber de Sócrates
  • O Oráculo de Delfos
  • Pesquisa Junto aos Políticos
  • Pesquisa Junto aos Poetas
  • Pesquisa Junto aos Artesãos
  • O Verdadeiro Saber Consiste em Saber Que Não se Sabe
  • As Muitas Inimizades e a Acusação
  • Defesa Contra Meleto
  • Meleto Não Sabe o Que é Educar Nem Corromper
  • Meleto Acusa Sócrates de Ateísmo e se Contradiz
  • A Missão Divina
  • Repugnância e Abstenção Socrática da Política Comum
  • Sócrates não quer Misericórdia
  • Do Esperado da Pena
  • Aos que Votaram Contra
  • Platão
  • A Vida e as Obras
  • O Pensamento: A Gnosiologia
  • Teoria das Idéias
  • A Metafísica
  • Moral
  • A Política
  • A Religião e a Arte
  • A Academia
  • Para Entender Platão
  • Aristóteles
  • Filosofia de Aristóteles
  • A Teologia
  • A Psicologia
  • A Cosmologia
  • Juízo sobre Aristóteles
  • Vista Retrospectiva
  • O Epicurismo
  • O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica
  • A Moral e a Religião
  • Ceticismo e Ecletismo
  • O Período Ético (300 a.C. - 529 D.C.)
  • Características Gerais
  • O Estoicismo
  • A Moral e a Política
  • II - Cristão
  • O Neoplatonismo
  • Características Gerais do Neoplatonismo
  • Filon de Alexandria
  • Plutarco de Queronéia
  • Plotino
  • A Gnosiologia
  • A Religião
  • As Características Filosóficas do Cristianismo
  • Características Gerais do Pensamento Cristão
  • A Filosofia Medieval e o Cristianismo
  • Conflitos e Conciliação entre a Fé e Saber
  • Patrística
  • Escolástica
  • A Questão dos Universais: O que há entre as palavras e as coisas
  • Os Precedentes do Cristianismo
  • Jesus Cristo
  • O Novo Testamento
  • A Solução do Problema do Mal
  • O Pecado Original
  • A Redenção pela Cruz
  • O Cristianismo - Conseqüente Praxe Ascética
  • A Patrística Pré-agostiniana
  • O II Século: Os Apologistas e os Controvertistas
  • O III Século: Os Alexandrinos e os Africanos
  • O IV Século: Os Luminares de Capadócia
  • O Mal
  • A História
  • A Escolástica
  • Educação e Cultura na Idade Média
  • A Escolástica Pré-Tomista
  • O Século XIII: O Triunfo de Aristóteles
  • Os Filósofos Franciscanos
  • A Escolástica Pós-Tomista
  • Rogério Bacon
  • João Duns Scoto
  • Guilherme de Occam
  • Tomás de Aquino
  • A Natureza
  • O Espírito
  • Deus
  • Filosofia e Teologia
  • O Tomismo
  • A Existência de Deus é Evidente?
  • A Vontade Quer Necessariamente Tudo o Que Deseja?
  • III - Latino
  • As Ciências Naturais da Idade Helenista
  • Ecletismo e Estoicismo
  • Direito e Educação
  • O Direito Romano
  • A Educação Romana
  • Período Religioso
  • IV - O Pensamento Moderno
  • Transcendência Cristã e Imanência Moderna
  • Os Precedentes do Pensamento Moderno
  • Os Períodos do Pensamento Moderno
  • Os Pensadores Renascentistas
  • Os Pensadores
  • Nicolau de Cusa
  • Bernardino Telésio
  • Giordano Bruno
  • Tomás Campanella
  • Baruch Spinoza
  • Considerações Gerais
  • O Pensamento: Deus
  • O Homem
  • A Política e a Religião
  • De Aristóteles à Renascença
  • René Descartes
  • O Problema do Homem: a Moral
  • O Programa Cartesiano
  • "De acordo com o prefácio dos Princípios"
  • O Empirismo - Bacon
  • Os Ensaios
  • O Pensamento: A "Instauratio Magna"
  • O "Novum Organum"
  • O Empirismo - Locke
  • John Locke
  • Idéias Metafísicas
  • Moral e Política
  • Idéias Pedagógicas
  • O Empirismo - Berkeley
  • Jorge Berkeley
  • Nominalismo de Berkeley
  • O Imaterialismo
  • Realismo ou Idealismo?
  • Imaterialismo e Teologia
  • O Problema da Evolução em Berkeley
  • Jean-Jacques Rosseau
  • O Iluminismo Francês
  • Os Homens e os Problemas
  • A Consciência segundo Rosseau
  • Leibniz
  • Vida e Obra
  • Racionalismo e Finalismo
  • Os Fundamentos da Monadologia
  • O Melhor dos Mundos Possíveis
  • A Renascença
  • O Renovamento das Antigas Escolas Filosóficas
  • O Platonismo
  • O Aristotelismo
  • O Ceticismo
  • A Política Nova e a Ciência Nova
  • Nicolau Machiavelli
  • Galileu Galilei
  • A Ciência Nova e a Metafísica Tradicional
  • O Cartesianismo
  • Nicolau Malebranche
  • Guilherme Leibniz
  • Cristiano Wolff
  • O Pensamento
  • A Filosofia de Descartes
  • Sua Vida
  • O Método
  • 1.ª Meditação Descartes resolve duvidar de todas as suas opiniões:
  • Eu Sou Uma Coisa Que Pensa 2.ª Meditação
  • O Pedaço De Cera 3.ª Meditação
  • A Liberdade 4.ª Meditação
  • O Argumento Ontológico 5.ª Meditação
  • O Empirismo - Hume
  • David Hume
  • O Método de Hume
  • A Análise da Idéia de Causa
  • O Ceticismo de Hume
  • Hume e o Problema da Religião
  • Textos de Hume
  • O Problema da Causalidade (Segundo a Investigação sobre o Entendimento)
  • O Empirismo - Hobbes
  • Tomás Hobbes
  • Condillac (1715-1780)
  • Montesquieu (1689-1755)
  • Voltaire (1694-1778)
  • Blaise Pascal
  • Vida e Obras
  • Entre a Ciência e a Religião
  • Jansenismo e Monarquia Absoluta
  • Da Militância ao Recolhimento
  • V - Contemporâneo
  • Emmanuel Kant
  • A Ciência e a Metafísica
  • O Alcance da Crítica Kantiana (Prefácio da 2.ª edição da Crítica da Razão Pura)
  • O Rigorismo de Kant (Fundamento da Metafísica dos Costumes)
  • Hegel
  • O Idealismo Lógico: Hegel
  • A Dialética
  • Textos de Hegel
  • Dialética Hegeliana: A Contradição é o Motor do Pensamento
  • O Absoluto Por Fim Não é Senão Aquilo Que Ele é na Realidade
  • O Senhor e o Escravo
  • Concepção Dialética da História da Filosofia
  • Nietzsche
  • Kierkegaard
  • Filósofo ou Religioso?
  • O Sofrimento Necessário
  • O Salto da Fé
  • A Moral de Kant
  • Moral e Metafísica
  • A Crítica do Juízo
  • O Idealismo Pós-Kantiano
  • O Desenvolvimento do Idealismo
  • O Idealismo Ético: Fichte
  • O Idealismo Estético: Schelling
  • O Idealismo Religioso: Schleiermacher
  • O Positivismo - Comte
  • Características Gerais do Positivismo
  • Augusto Comte - Vida e Obras
  • A Lei dos Três Estados
  • A Classificação das Ciências
  • A Humanidade
  • VI - Referências Bibliográficas

O MUNDO DOS FILÓSOFOS

CONTEXTO I – Pensamento Clássico Os pré-socráticos Heráclito de Éfeso Pitágoras de Samos Zenão de Eléia Demócrito de Abdera Os sofistas Sócrates Platão Aristóteles Epicurismo, Ceticismo e Ecletismo O Estoicismo II – Pensamento Cristão Neoplatonismo – Plutarco de Queronéia O pensamento cristão O cristianismo A praxe ascética do cristianismo Santo Agostinho e a patrística pré-agostiniana Santo Agostinho A escolástica pré-tomista Santo Tomás de Aquino III – Pensamento Latino As ciências naturais na idade helenista e o pensamento latino O direito romano e a educação romana IV – Pensamento Moderno O pensamento moderno Os pensadores renascentistas – Giordano Bruno, Nicolau de Cusa O cartesianismo – Baruch Spinoza De Aristóteles à renascença René Descartes O empirismo – Francis Bacon, John Locke, George Berkeley O iluminismo francês – Jean-Jacques Rosseau Leibniz A renascença – o renovamento das antigas escolas filosóficas Nicolau Machiavelli, Galileu Galilei O cartesianismo – Malebranche, Leibniz, Wolff René Descartes O empirismo – David Hume, Thomás Hobbes O iluminismo francês – Condillac, Montesquieu, Voltaire Blaise Pascal

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V – Pensamento Contemporâneo Emmanuel Kant Hegel – o idealismo lógico Nietzsche Kierkegaard Kant – moral, metafísica e crítica do juízo O idealismo pós-kantiano – Fichte, Schelling e Schleiermacher Hegel – a idéia, a natureza, o espírito O positivismo – Auguste Comte VI - Bibliografia

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I - CLÁSSICOS Os Pré-socráticos Dualismo Grego A característica fundamental do pensamento grego está na solução dualista do problema metafísicoteológico, isto é, na solução das relações entre a realidade empírica e o Absoluto que a explique, entre o mundo e Deus, em que Deus e mundo ficam separados um do outro. Conseqüência desse dualismo é o irracionalismo, em que fatalmente finaliza a serena concepção grega do mundo e da vida. O mundo real dos indivíduos e do vir-a-ser depende do princípio eterno da matéria obscura, que tende para Deus como o imperfeito para o perfeito; assimila em parte, a racionalidade de Deus, mas nunca pode chegar até ele porque dele não deriva. E a conseqüência desse irracionalismo outra não pode ser senão o pessimismo: um pessimismo desesperado, porque o grego tinha conhecimento de um absoluto racional, de Deus, mas estava também convicto de que ele não cuida do mundo e da humanidade, que não criou, não conhece, nem governa; e pensava, pelo contrário, que a humanidade é governada pelo Fado, pelo Destino, a saber, pela necessidade irracional. O último remédio desse mal da existência será procurado no ascetismo, considerando-o como a solidão interior e a indiferença heróica para com tudo, a resignação e a renúncia absoluta. O Gênio Grego A característica do gênio filosófico grego pode-se compendiar em alguns traços fundamentais: racionalismo, ou seja, a consciência do valor supremo do conhecimento racional; esse racionalismo não é, porém, abstrato, absoluto, mas se integra na experiência, no conhecimento sensível; o conhecimento, pois, não é fechado em si mesmo, mas aberto para o ser, é apreensão (realismo); e esse realismo não se restringe ao âmbito da experiência, mas a transpõe, a transcende para o absoluto, do mundo a Deus, sem o qual o mundo não tem explicação; embora, para os gregos, o "conhecer" - a contemplação, o teorético, o intelecto - tenham a primazia sobre o "operar" - a ação, o prático, a vontade - o segundo elemento todavia, não é anulado pelo primeiro, mas está a ele subordinado; e o otimismo grego, conseqüência lógica do seu próprio racionalismo, cederá lugar ao pessimismo, quando se manifestar toda a irracionalidade da realidade, quando o realismo impuser tal concepção. Todos esses elementos vêm sendo, ainda, organizados numa síntese insuperável, numa unidade harmônica, realizada por meio de um desenvolvimento também harmônico, aperfeiçoado mediante uma crítica profunda. Entre as raças gregas, a cultura, a filosofia são devidas, sobretudo, aos jônios, sendo jônios também os atenienses.

Os Períodos Principais do Pensamento Grego
Consoante a ordem cronológica e a marcha evolutiva das idéias pode dividir-se a história da filosofia grega em três períodos: I. Período pré-socrático (séc. VII-V a.C.) - Problemas cosmológicos. Período Naturalista: pré-socrático, em que o interesse filosófico é voltado para o mundo da natureza; II. Período socrático (séc. IV a.C.) - Problemas metafísicos. Período Sistemático ou Antropológico: o período mais importante da história do pensamento grego (Sócrates, Platão, Aristóteles), em que o interesse pela natureza é integrado com o interesse pelo espírito e são construídos os maiores sistemas filosóficos, culminando com Aristóteles; III. Período pós-socrático (séc. IV a.C. - VI p.C.) - Problemas morais. Período Ético: em que o interesse filosófico é voltado para os problemas morais, decaindo entretanto a metafísica; IV. Período Religioso: assim chamado pela importância dada à religião, para resolver o problema da vida, que a razão não resolve integralmente. O primeiro período é de formação, o segundo de apogeu, o terceiro de decadência.

Divisão da História da Filosofia Grega

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Primeiro Período O primeiro período do pensamento grego toma a denominação substancial de período naturalista, porque a nascente especulação dos filósofos é instintivamente voltada para o mundo exterior, julgando-se encontrar aí também o princípio unitário de todas as coisas; e toma, outrossim, a denominação cronológica de período pré-socrático, porque precede Sócrates e os sofistas, que marcam uma mudança e um desenvolvimento e, por conseguinte, o começo de um novo período na história do pensamento grego. Esse primeiro período tem início no alvor do VI século a.C., e termina dois séculos depois, mais ou menos, nos fins do século V. Surge e floresce fora da Grécia propriamente dita, nas prósperas colônias gregas da Ásia Menor, do Egeu (Jônia) e da Itália meridional, da Sicília, favorecido sem dúvida na sua obra crítica e especulativa pelas liberdades democráticas e pelo bem-estar econômico. Os filósofos deste período preocuparam-se quase exclusivamente com os problemas cosmológicos. Estudar o mundo exterior nos elementos que o constituem, na sua origem e nas contínuas mudanças a que está sujeito, é a grande questão que dá a este período seu caráter de unidade. Pelo modo de a encarar e resolver, classificam-se os filósofos que nele floresceram em quatro escolas: Escola Jônica; Escola Itálica; Escola Eleática; Escola Atomística. Escola Jônica A Escola Jônica, assim chamada por ter florescido nas colônias jônicas da Ásia Menor, compreende os jônios antigos e os jônios posteriores ou juniores. A escola jônica, é também a primeira do período naturalista, preocupando-se os seus expoentes com achar a substância única, a causa, o princípio do mundo natural vário, múltiplo e mutável. Essa escola floresceu precisamente em Mileto, colônia grega do litoral da Ásia Menor, durante todo o VI século, até a destruição da cidade pelos persas no ano de 494 a.C., prolongando-se porém ainda pelo V século. Os jônicos julgaram encontrar a substância última das coisas em uma matéria única; e pensaram que nessa matéria fosse imanente uma força ativa, de cuja ação derivariam precisamente a variedade, a multiplicidade, a sucessão dos fenômenos na matéria una. Daí ser chamada esta doutrina hilozoísmo (matéria animada). Os jônios antigos consideram o Universo do ponto de vista estático, procurando determinar o elemento primordial, a matéria primitiva de que são compostos todos os seres. Os mais conhecidos são: Tales de Mileto, Anaximandro de Mileto, Anaxímenes de Mileto. Os jônios posteriores distinguem-se dos antigos não só por virem cronologicamente depois, senão principalmente por imprimirem outra orientação aos estudos cosmológicos, encarando o Universo no seu aspecto dinâmico, e procurando resolver o problema do movimento e da transformação dos corpos. Os mais conhecidos são: Heráclito de Éfeso, Empédocles de Agrigento, Anaxágoras de Clazômenas. Tales de Mileto (624-548 A.C.) "Água" Tales de Mileto, fenício de origem, é considerado o fundador da escola jônica. É o mais antigo filósofo grego. Tales não deixou nada escrito mas sabemos que ele ensinava ser a água a substância única de todas as coisas. A terra era concebida como um disco boiando sobre a água, no oceano. Cultivou também as matemáticas e a astronomia, predizendo, pela primeira vez, entre os gregos, os eclipses do sol e da lua. No plano da astronomia, fez estudos sobre solstícios a fim de elaborar um calendário, e examinou o movimento dos astros para orientar a navegação. Provavelmente nada escreveu. Por isso, do seu pensamento só restam interpretações formuladas por outros filósofos que lhe atribuíram uma idéia básica: a de que tudo se origina da água. Segundo Tales, a água, ao se resfriar, torna-se densa e dá origem à terra; ao se aquecer transforma-se em vapor e ar, que retornam como chuva quando novamente esfriados. Desse ciclo de seu movimento (vapor, chuva, rio, mar, terra) nascem as diversas formas de vida, vegetal e animal. A cosmologia de Tales pode ser resumida nas seguintes proposições: A terra flutua sobre a água; A água é a causa material de todas as coisas. Todas as coisas estão cheias de deuses. O imã possui vida, pois atrai o ferro.

Eterno. etc. Com essa concepção. Diz-se também. põe como princípio universal uma substância indefinida. um elemento não tão abstrato como o ápeiron. ele diz que) é sem idade e sem velhice.que constituem o mundo. Elemento Dinâmico .5 Segundo Aristóteles sobre a teoria de Tales: elemento estático e elemento dinâmico.) "Ápeiron" Anaximandro de Mileto. Ampliando a visão de Tales. a introdução na Grécia do uso do gnômon (relógio de sol) e a medição das distâncias entre as estrelas e o cálculo de sua magnitude (é o iniciador da astronomia grega). reduzem-se a variações quantitativas (mais raro. o fogo é o ar rarefeito. matemático. mesmo apresentando qualidades diferentes entre si. isto é. por um processo de separação ou "segregação" derivam os diferentes corpos.água e fogo. nem palpável demais como a água. porém dando um passo a mais na direção da independência do "princípio" em relação às coisas particulares.C. e o ralo e o frouxo (é assim que ele expressa) é quente. a água. que preveniu o povo de Esparta de um terremoto. os antigos jônios professavam o hilozoísmo e o panteísmo naturalista.a flutuação sobre a água. " Com nossa alma. Tudo provém do ar.. Supõe também a geração espontânea dos seres vivos e a transformação dos peixes em homens. Hipólito.. Esta (a natureza do ilimitado. Refutação. Anaxímenes de Mileto (588-524 A. Fragmentos "Imortal. Anaximandro imagina a terra como um disco suspenso no ar. Deste ápeiron (ilimitado) primitivo. soberanamente nos mantém unidos. dotado de vida e imortalidade. que é ar. Anaximandro prossegue na mesma via de Tales. Anaximandro de Mileto (611-547 A. o princípio da "physis" (natureza) é o ápeiron (ilimitado). frio e calor. .a geração e nutrição de todas as coisas pela água. Para ele.) "Ar" Segundo Anaxímenes. Tales acreditava em uma "alma do mundo".C. (Aécio).e imperecível (o ilimitado enquanto o divino) .Aristóteles. Física". . a arkhé (comando) que comanda o mundo é o ar. o ápeiron (ilimitado). e disto resulta uma série de pares opostos . Anaximandro julga que o elemento primordial seria o indeterminado (ápeiron). Foi o primeiro a afirmar que a Lua recebe sua luz do Sol. a terra. mais denso) desse único elemento. Tales sustentava ser a água a substância de todas as coisas. discípulo e sucessor de Tales e autor de um tratado Da Natureza. Fragmentos "O contraído e condensado da matéria ele diz que é frio. infinito e em movimento perpétuo. o ápeiron está em constante movimento. O ápeiron é assim algo abstrato. assim também todo o cosmo sopro e ar o mantém. Dedicou-se especialmente à meteorologia. havia um espírito divino que formava todas as coisas da água. foi o primeiro a formular o conceito de uma lei universal presidindo o processo cósmico total. Anaxímenes julga que o elemento primordial das coisas é o ar. geógrafo. quantitativamente infinita e qualitativamente indeterminada. As diversas coisas que existem. através de seus movimentos: o ar é respiração e é vida. que não se fixa diretamente em nenhum elemento palpável da natureza. (Plutarco). a pedra são formas cada vez mais condensadas do ar. astrônomo e político. Atribuindo vida à matéria e identificando a divindade com o elemento primitivo gerador dos seres. Atribui-se a Anaximandro a confecção de um mapa do mundo habitado. Elemento Estático .

As determinações absolutamente opostas estão ligadas numa unidade. Aristóteles diz que Heráclito afirma que é apenas um o que permanece. pela primeira vez. harmonia feita de tensões. Além . nem permanece o mesmo". ausência de pensamento. compreender a própria dialética como princípio. que todo o resto fora deste um flui. isto é. Este espírito arrojado pronunciou pela primeira vez esta palavra profunda: "O ser não é mais que o não-ser". Nele encontra-se. este devir é o princípio. O ser é o um. o Obscuro. isto é.uma consumação da idéia na totalidade que é o início da Filosofia ou expressa a essência da idéia. produzir muito sentido. contra os filósofos de seu tempo e até contra a religião. Os eleatas dizem: só o ser é. . como a própria dialética. o segundo é o devir até esta determinação avançou ele. Isto é o primeiro concreto. situando-se. "como a do arco e da lira". muito contraditório. E Platão ainda diz de Heráclito: "Ele disso. O verdadeiro é apenas como a unidade dos opostos. porém. Heráclito diz: Tudo é devir. Dela faz parte não apenas o surgir. misantrópico e melancólico ficou proverbial em toda a antigüidade. a verdade do ser é o devir. temos apenas o entendimento abstrato. então. ao mesmo tempo já novamente não é. nela temos o ser e também o não-ser. o absoluto enquanto nele se dá a unidade dos opostos. porém. de família que ainda conservava prerrogativas reais (descendentes do fundador da cidade). B. portanto. Objetividade de Heráclito. e é aquele que Heráclito fez. isto é. apenas destruição universal. um homem de profundos pensamentos. ou ser e nada são o mesmo. Seus sucessores dizem até que nele nem se pode mesmo entrar. disto todo o resto é formado. cidade da Jônia. à primeira vista. Floresceu em 504-500 a. Sem ter sido mestre. ainda uma outra expressão que aponta mais exatamente o sentido do princípio. o primeiro. O que nos é relatado da filosofia de Heráclito parece. Estabeleceu a existência de uma lei universal e fixa (o Lógos). Temos. ser é o primeiro pensamento enquanto imediato. que nada é firme. é o verdadeiro. por formular com vigor o problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade e mutabilidade das coisas particulares e transitórias.Heráclito é por muitos considerados o mais eminente pensador pré-socrático. a essência é mudança. por isso Heráclito foi tido como filósofo profundo e obscuro e como tal criticado. um raciocinar de cá para lá e não a alma da coisa dissolvendo-se a si mesma. apenas o ser é. Dizemos.C. Isto está na expressão: "O ser é tão pouco como o não-ser. Ele é a plenitude da consciência até ele . o raciocínio de Parmênides e Zenão é entendimento abstrato. mas são idênticos. A dialética é: A. Se ouvimos aquela frase "O ser não é mais que o não-ser". o rio corre e toca-se outra água. Filosofia de Heráclito Heráclito concebe o próprio absoluto como processo. o infinito. C. O Princípio Lógico O princípio universal. não parece. mas também o desaparecer. a idéia filosófica em sua forma especulativa. em prosa. Desprezava a plebe. o que é. na contemplação do sujeito. Pois Heráclito diz: "Tudo flui (panta rei). ambos não são para si. em Heráclito. o devir é e também não é". modificado.6 Heráclito de Éfeso Vida de Heráclito Heráclito nasceu em Éfeso. mas de forma tão concisa que recebeu o cognome de Skoteinós. mas nela se pode penetrar com o conceito e assim descobrir. o verdadeiro é o devir. não o ser . Seu caráter altivo. Dialética exterior.a determinação mais exata para este conteúdo universal é o devir. transformado. aquilo que é. Recusou-se sempre a intervir na política. desta maneira. É isto compara as coisas com a corrente de um rio . Manifestou desprezo pelos antigos poetas. que nada se demora. É o progresso necessário. no dialeto jônico. pois que imediatamente se transforma. regedora de todos os acontecimentos particulares e fundamento da harmonia universal. Dialética imanente do objeto. em lugar da expressão de Heráclito: O absoluto é a unidade do ser e do não-ser.que não se pode entrar duas vezes na mesma corrente". Heráclito escreveu um livro Sobre a Natureza. nos eleatas. nem é menos. nada persiste.

ser e não-ser. e nisto reside sua identidade. de objetivo e subjetivo. Estas estão inquietas nesta relação.todos estes elementos concretos estão contidos nesta determinação. Este verdadeiro é o processo do devir.e isto os sons são em si. e o não-ser é. critique o fato de a harmonia ser desarmônica ou se componha de opostos. une-se consigo mesmo" . a repetição de um único som não é harmonia. é preciso que haja essencial e absolutamente uma diferença. agora mesmo. ao mesmo tempo. Este um não é o abstrato.mas não de um abstrato qualquer outro. A subjetividade é o outro da objetividade. o absolutamente negativo . O espírito relaciona-se na consciência com o sensível e este sensível é seu outro. este e o outro. que justamente quer isto. o "que se une e se opõe". um ser. É uma grande convicção que se adquiriu. mas de tal maneira que também possam ser unidos . também é o primeiro concreto. assim o puro ser é o pensamento simples. é a unidade dos opostos e. ninguém negará que os sãos dizem do mel que é doce. Mudança é unidade. do pleno. reconhece um no outro. É um grande pensamento passar do ser para o devir. Zenão começa a sobressumir os predicados opostos e aponta no movimento aquilo que se opõe . que num está contido seu outro e assim o todo. seu oposto. "o que concorda e o dissonante". Assim também no caso dos sons. O não ser é. e de que de tudo (que se opõe) resulta um. ao qual Zenão não chegou! "Do nada. gerado seu Filho.o absurdo disto logo se mostra . a unidade essencial. Esta harmonia é precisamente o absoluto devir. agora este. Com isto está preenchido o vazio que Aristóteles apontou nas antigas filosofias . como. este movimento é aqui. que fala no Banquete. Da harmonia faz parte a diferença.. isto é a verdade da identidade de ambos. não de um pedaço de papel .. mas de seu outro. cada particular seja diferente de um outro . Sexto observa: Heráclito parte. pode parecer obscuro. na verdade. do mesmo modo. Heráclito expressou de modo determinado este pôr-se numa unidade das diferenças. não poderia modificar sua natureza através de outra coisa e assim também para os que sofrem de icterícia seria doce. a atividade de dirimirse. mas. em seu conceito. é ainda abstrato. o absoluto deve ser determinado como o devir. Da harmonia faz parte determinada oposição. que é em si e para si. mas é especulativo. O fato de Deus ter criado o mundo Ter-se dividido a si mesmo. também Heráclito concebeu as oposições de maneira mais determinada. cada um apenas é. Deixa então que Erixímaco. pensamos a mudança. e . da pura oposição. a primeira unidade de determinações opostas. .um por limites e um sobressumir os limites. e de um tudo.nada é o mesmo. princípio. em seu Banquete. Este é o grande princípio de Heráclito. etc. não a representação do ente. O essencial é que cada diferente. e os que sofrem de icterícia que é amargo .o todo se torna parte e a parte o é para se tornar o todo . pelo contrário. devem ser diferentes.. deve ser seu outro. na medida em que seu outro em si esteja consigo. transformar-se . que o primeiro elemento verdadeiro é o devir. É esta unidade de real e ideal. como o não verdadeiro. apenas este igual a si mesmo .se fosse apenas doce. Sexto Empírico cita o seguinte que Heráclito teria dito: A parte é algo diferente do todo. "o mel é doce e amargo" . que Heráclito "ligou o todo e o não-todo" (parte) . a razão. mas da unidade pela arte da música. por causa de sua contradição.7 que Heráclito expressou com suas sentenças. mas é também o mesmo que o todo é. porém. Heráclito também diz que os opostos são características do mesmo.a falta de movimento.ser e não-ser ligam-se ao mesmo. por isso é o ser. Mas isto não contradiz Heráclito. por exemplo. Em Heráclito. O simples. Aristóteles diz.. pois que a harmonia se formaria de altos e baixos. "como a harmonia do arco e da lira". a morta infinitude é uma má abstração em oposição a esta profundidade que vemos em Heráclito. Tomamos nós o ente em si e para si. vemos. dos universalmente opostos. sobre o princípio de Heráclito: "O um. por isso é o não-ser. vemos o infinito como tal expresso como conceito e essência: o infinito. como nas harmonia das cores. disto trata o conceito de toda a Filosofia. quando se reconheceu que o ser e o nada são abstrações sem verdade. Primeiro tivemos a abstração de ser e não-ser. numa forma bem imediata e universal. em que todo o determinado é negado. relação de ambos a um. nela está o princípio da vida.este é o processo da vida. a substância é o todo e a parte. diferenciado de si mesmo. assim cada coisa é o outro do outro enquanto seu outro. Zenão só exprimiu o infinito pelo seu lado negativo . mais exatamente. depois aquele. como os céticos. das representações correntes dos homens. O entendimento separa a ambos como verdadeiros e de valor. nada vem.não devir outro." Em Heráclito o momento da negatividade é imanente. por exemplo. o objetivo somente é o devir subjetivo. Na harmonia e no pensamento concordamos que seja assim. passagem absoluta para o oposto. Platão diz.

que a água ou o ar ou coisa semelhante seria a essência absoluta. então levanta-se a questão: que ser físico corresponde a esta determinação? O tempo. outros dizem que como ar. o simples. A questão é a seguinte: Como compreender esta diversidade? Não se deve absolutamente crer que se deva atribuir estas notícias à negligência dos escritores.Processo abstrato. Mas. mas inteiramente abstrata. Sua essência é ser e não-ser. e não o podia afirmar como um primeiro donde emanaria o outro. ou sua forma é mais a forma natural. mas deu a seu princípio a forma de um ente. Se tivéssemos de dizer como aquilo que Heráclito reconheceu como a essência existe para a consciência. e com isto deu novos impulsos à filosofia da natureza. na medida em que pensou ser como idêntico como o não-ser ou no conceito infinito. pois precisamente. é o processo. A maioria diz que ele teria posto a essência ontológica como fogo.ser puro e abstrato nãoser. é o puro conceito. no que se pode ver. portanto. que não falam destas formas de passagem. pois ele é. para o ser. Heráclito. no conceito profundo de Heráclito acha-se a verdadeira saída deste empecilho. enquanto é para nós. mas além desta forma universal. como Aristóteles e Sexto Empírico. Este é o elemento verdadeiro de Heráclito e o verdadeiro conceito. o real e o ideal. pois as testemunhas são as melhores. como subsistente. que é harmônico a partir de absolutamente opostos. e este é. De maneira alguma podia Heráclito afirmar. Além disso. como o primeiro ser do ente. No tempo não é o passado e o futuro. sem. Os céticos escolhiam muitas vezes as expressões mais grosseiras ou tornavam os pensamentos grosseiros para mais facilmente liquidá-los. o qual. postos imediatamente numa unidade e ao mesmo tempo separados. O fogo. Os Modos da Realidade Heráclito não ficou parado. em Sexto. sempre obscuro. "Corpóreo" é uma expressão inadequada. não estão de acordo entre si. O tempo é puro transformar-se. mas a água enquanto se transforma. o tempo é o puro devir. . por isso. o tempo é o primeiro que se oferece como o devir. de modo real. dotado de tais momentos. Na medida em que Heráclito não parou na expressão lógica do devir. Mas este puro conceito objetivo deve realizar-se mais. por exemplo. O tempo. pois eles mesmos não são (isto é o próximo) o processo. somente o agora. Esta figura pura é precipuamente de natureza cosmológica. porém. mesmo o tempo é citado. Não como se o tempo fosse e não fosse. a água. .esta mudança de ser para não-ser. na qual expôs seu princípio. no puro lógico. não haveria outra que nomear a não ser o tempo. mas de modo bem determinado. assim isto se liga ao princípio do pensamento de Heráclito. visto de maneira objetiva. para não ser. disse que o tempo é o primeiro ser corpóreo. no sensível. do mesmo modo. como Tales. é a primeira forma do devir. expressar ambos os momentos como uma totalidade para si. esta dificuldade desaparece. Enquanto intuído. fogo. o não-ser. isto é. chamar a atenção para estas diferenças e contradições. portanto. para o entendimento que segura para si o ser. portanto. Assim. em sua exposição. nesta pura forma em que ele o reconheceu. é. passado . Heráclito determinou o processo de um modo mais físico. No tempo estão os momentos. Uma outra razão mais próxima parece-nos resultar da obscuridade do escrito de Heráclito. Se quisermos representar-nos o que ele é. na confusão de seu modo de expressão. é a essência verdadeira. deu à sua idéia também uma expressão real. "Corpóreo" significa sensibilidade abstrata.A forma real como processo. considerando mais detidamente. diz que ele é o primeiro ser sensível. poderia dar motivos para mal-entendidos. deduz-se disto que primeiro tinha que oferecer-se a forma do tempo. ou apenas o processo. . está logo destruído. É a abstrata contemplação desta mudança. ser e não-ser. compreender a natureza significa apresentá-la como processo. logo compreendemos que Heráclito não podia dizer que a essência é o ar ou a água ou coisas semelhantes. o tempo é a intuição abstrata do processo. nesta expressão em conceitos. Sobre esta forma real de seu princípio os historiadores. o subjetivo e objetivo. contudo. B. a essência absoluta que é não pode surgir nele como uma determinidade existente. por isso. absolutamente certo que a primeira forma do que devém é o tempo. este conceito abstrato. outros dizem que antes o vapor que o ar. por conseguinte. mas o tempo é isto: no ser imediatamente não-ser e no não-ser imediatamente ser . O tempo é intuição. A.8 isto é. no entanto. sem outra determinação . é incluído ainda na Escola Jônica. tempo.e este não-ser passa. como exprime Sexto. é. postos apenas negativamente ou como momentos que imediatamente desaparecem. esta mostra-se mais para uma análise superficial.

o fogo é a alma. o puro momento negativo. o princípio era a alma. uma associação científico-éticopolítica. não distinguindo ainda bem forma. Justamente no processo distinguem-se os momentos. sua essência como processo. e fundou em Crotona. o fundador da escola pitagórica. ou seja. por ser ela a evaporação. é mudança. mas a própria vida. a mais viva. transformação em fumaça. aí morrendo provavelmente em 497-96 a. Este é universal e muito obscuro. falhas e contraditórias. mas. a totalidade em repouso. o pôr desta oposição. e este não é a negação do vivo. viver é-lhes morte e morrer é-lhes vida". isto é. que segundo suas próprias leis (métro) se acende e se apaga. ele é esta absoluta inquietude. enquanto o metamorfosear-se das coisas corpóreas.C. Aristóteles diz de Heráclito que.9 porém. Sob este ponto de vista. que a alma mais seca é a melhor. ele não é permanente. seco quer dizer aqui cheio de fogo: assim a alma mais seca é o fogo puro. pelo contrário. o emergir de tudo. a alma e a substância do processo da natureza. somos e não somos". A natureza é assim esse círculo. terra. "Os homens são deuses mortais e os deuses. o queimar da oposição subsistente. consideraram o número como sendo a união de um e outro elemento.a fazer com que a educação ética da escola se ampliasse e se tornasse reforma política. que é a mesma em todos os filósofos até os dias de hoje. O fogo é o tempo físico.C. transformação do determinado. ele é para si o processo real. água e ar. destes momentos . vapores do sol). pois ele é. como no movimento: 1. as relações matemáticas. . a essência. Neste sentido ouvimo-lo dizer: "Nem um deus nem um homem fabricou o universo mas sempre foi e é e será um fogo sempre vivo. o raio" .é mais: passagem. no processo. e 3. sua realidade é o processo todo no qual. colônia grega. Nós certamente não tomamos a alma mais molhada como a melhor. Por isso compreendemos (é inteiramente conseqüente) por que Heráclito pode nomear o fogo como o conceito do processo de sua determinação fundamental. seria o incorpóreo e sempre fluído. C. os momentos da oposição subsistente. é o número. que Heráclito teria determinado o processo assim: "As formas (mudanças) do fogo são. A vida da natureza é o processo destes momentos: a divisão da totalidade em repouso da terra na oposição. a alma. os momentos são determinados mais exata e concretamente. a metade disto. ele é a idéia permanente.O fogo está agora mais precisamente determinado. Compreendemos o que Aristóteles cita.". e a outra metade.e também conseguiu . que o princípio é a alma. em algumas notícias. As determinações mais próximas deste processo real são. Em 532-31 foi para a Itália. assim como foi a idéia de Platão e Aristóteles. o princípio essencial de que são compostas todas as coisas. o retorno para a unidade. o mar e. mas também de si mesmo. então. Sob este ponto de vista.e este é o modo real do processo heracliteano. na Magna Grécia. homens imortais. O fogo. levantou oposições contra ele e foi constrangido a deixar Crotona. Para retornar a Heráclito: ele é aquele que primeiro expressou a natureza do infinito e que compreendeu a natureza como sendo em si infinita. isto. nasceu em Samos pelos anos 571-70 a. lei e matéria. por ser a evaporação.o desaparecer de outros. este processo do mundo que a si mesmo se move. encontra-se uma expressão que pode parecer bizarra. devir. Da . evaporação é aqui apenas a significação superficial . mais explicitado como processo real. Pitágoras de Samos Pitágoras. substância das coisas. mudando-se para Metaponto. não tanto o ar como antes a evaporação. absoluta dissolução do que persiste .e a unidade negativa. a terra. segundo sua exposição. é o processo: assim afirmou o fogo como a primeira essência . É a partir dele que se deve datar o começo da existência da Filosofia. então. No que se refere ao fato de Heráclito afirmar que o fogo é vivificante. Os pitagóricos. primeiro. porém. em parte. Para este processo Heráclito utilizou uma palavra muito singular: evaporação (anathymíasis) (fumaça. que foi o centro de irradiação da escola e encontrou partidários entre os gregos da Itália meridional e da Sicília. e este evaporar-se. "Nos mesmos rios entramos e não entramos. afirma-se.o fogo em sua eclosão. Pitágoras aspirava . evaporação. Segundo o pitagorismo. isto é. 2. o momento abstrato do mesmo.

Portanto. modo dórico. identificam o não-ser ao Ápeiron de Anaximandro.o ilimitado e o limitado. e as práticas ascéticas e abstinenciais. O ponto de partida me parece ser a apologia da ciência matemática contra o eleatismo. o imperfeito e o perfeito. Os matemáticos pitagóricos acreditavam na realidade das leis que haviam descoberto. De fato. De outro lado. com relação à metempsicose e à reincarnação das almas. Dizem. é uma especulação totalmente insólita. bastava-lhes que fosse afirmada a existência da Unidade para deduzir dela também a pluralidade. e a delimitação. logo. trevas. direita. e. que governa e deve governar o mundo material e moral. o pior e o melhor. 4) que não pode nem mover-se nem estar em repouso. À primeira vista. é preciso partir do eleatismo. o não-ser é noite e. nesse caso. Portanto. portanto: delimitado. Lembramo-nos da dialética de Parmênides. os pitagóricos se acham em dificuldades para explicar a multiplicidade e o vir-a-ser. Notável quadro estabelecido por Aristóteles (Metaf. Mas. determinado. etc. que não está em parte nenhuma. mau. que explicaria o vir-a-ser e o múltiplice. o ilimitado e o limitado. agitado. Os pitagóricos: "A própria unidade é o resultado de um ser e de um não-ser. Isso lembra o quadro-modelo de Parmênides. por outro lado. as superfícies e os corpos. portanto a diversidade. luz. O número divide-se em par. esquerda. impossível. Os elementos constitutivos de cada coisa . que seriam reconduzidos à concordância e à unidade pela fundamental harmonia (matemática). há também uma pluralidade. a Unidade veio a ser. portanto. ilimitado. que põe limites à divisão por dois e. denso. Como a filosofia da natureza. Mas. etc. par. da unidade procede a série dos números aritméticos (monádicos). E acreditavam discernir a essência verdadeira das coisas em suas relações numéricas. a linha. sutil. tudo é uma unidade". ilimitado. que não põe limites à divisão por dois. passa-se à visão fantástica de que o número seja a essência das coisas. 3) portanto. relação de intervalos. que são . I. múltiplo. par. portanto. assim a astronomia pitagórica representa um progresso sobre a jônica. um conceito contraditório. etc. portanto. uno. esquerda. não-ser e. àquilo que não tem nenhuma qualidade. é ilimitado (quer dizer. os pitagóricos afirmaram a esfericidade da Terra e dos demais corpos celestes. que não se deve confundir com o Sol. este é análogo ao ser potencial da hyle de Aristóteles. portanto.] . imóvel. E julgam poder explicar a variedade do mundo mediante o concurso dos opostos. Mas ambos compõem o Uno. mau. feminino. e o número. também uma pluralidade". portanto há. 5): delimitado.10 racional concepção de que tudo é regulado segundo relações numéricas. bem como a rotação da Terra. Nela. precisamente mediante o uno e o imutável.). a qual via a perfeição na determinação). e ímpar. foi em todo caso formado por dois princípios. ímpar. bom. achada a substância una e imutável das coisas. Desde que se têm o ponto. De novo. e afirmaram também a revolução dos corpos celestes em torno de um foco central. logicamente conexo com a filosofia pitagórica. se o Uno existe. ou seja. depois os números geométricos ou grandezas (formas espaciais). masculino. Como é possível uma pluralidade? Pelo fato de o não-ser ter um ser. o número é a essência própria das coisas.sendo cada coisa número são o par e o ímpar. do Ápeiron. e as partes múltiplas. imperfeito. Pelo que diz respeito à moral. Os eleatas dizem: "Não há não-ser. dominam no pitagorismo o conceito de harmonia. múltiplo. ímpar. portanto. dualismo. feminino. não quantidades de elementos (água. do qual se pode dizer que é impar. pois. quadrado. quente. fogo. reto. Radical oposição esta. Para compreendermos seus princípios fundamentais. é limitado. delimitado e ilimitado. é dito da Unidade (supondo que não existe pluralidade): 1) que ela não tem partes e não é um todo. pois. contra o eleatismo. É um procedimento análogo: ataca-se o conceito da Unidade existente porque comporta os predicados contraditórios e é. têm-se também os objetos materiais. perfeito. o par e o ímpar. inqualificado e qualificado. e a pluralidade do ser. o Péras. ao absolutamente Indeterminado. quadrado. portanto. em todo caso. O ser é luz e. ablongo. explicando assim o dia e a noite. segundo a concepção grega. astronômico e sonoro. imóvel. uno. direita. o Ser e a Unidade dão a Unidade existente. por conseguinte.segundo os pitagóricos . que. toda coisa nasce de dois fatores opostos. curvo. passivo. frio. [Teoria das cordas sonoras. não há qualidades. O ponto de partida que permite afirmar que tudo o que é qualitativo é quantitativo encontra-se na acústica. reto. De um lado têm-se. trevas. luz. bom. não há nada além de quantidades. há também uma pluralidade. Portanto. 2) que tampouco tem limites. agitado. curvo. enfim. ablongo. masculino. mas delimitações do ilimitado. a isso opõe-se o absolutamente Determinado. Assim. ativo. aqui.

pelo menos em certo sentido. A harmonia das esferas. dois é a linha. agora. uma invenção extremamente importante: a significação do número e.] Se se pergunta a que se pode vincular a filosofia pitagórica. mas sem poder dizer quem faz o cálculo. é o melhor exemplo do que queriam dizer os pitagóricos. Nos outros sistemas de física.11 A música. tratava-se sempre de elementos e de sua combinação. (¹) O exercício de aritmética oculto do espírito que não sabe calcular. desde os tempos da antiguidade. davam nascimento a uma série limitada de números. a imagem. o primeiro sistema de Parmênides. Identificaram essas noções com termos filosóficos já usuais. isso porque os ímpares. dois a opinião. conforme se considere o elemento harmônico ou o elemento rítmico. evidentemente. cuja tarefa é. encontra-se. Tal é a resposta dada ao problema de Anaximandro. na origem há a descoberta das analogias numéricas no universo. não impede que seja o pitagorismo uma realidade empolgante na história da filosofia. há 2. como tal. Se houvessem tomado emprestado de Heráclito a palavra lógos. poderosamente. etc. a possibilidade de uma investigação exata em física. Trata-se de encontrar fórmulas matemáticas para as forças absolutamente impenetráveis. Contentou-se. Nossa ciência é. afirma-se que as qualidades residem na diversidade das proporções. se se trata de sua quantidade. ao dizer que a música é exercitium arithmeticae occultum nescientis se numerare animi (¹). enfim. estritamente. a doutrina pitagórica foi a que mais se difundiu na antiguidade. ponto de vista inteiramente novo. cinco o casamento. os gnómones.600 anos vem. muito de histórico do que é fruto da imaginação e da cooperação ficcional dos que se dedicaram a descrever a vida do famoso filósofo de Samos. como o Péras fixa o limite). nessas descrições. três a superfície. A contribuição original dos pitagóricos é. Remetem-se. e quanto à tonalidade. Não consideramos apenas lenda o que se escreveu sobre essa vida maravilhosa. No mesmo sentido. se se trata de sua qualidade. provisoriamente. o domínio da química e das ciências naturais. Cosmogonia. peremptoriamente. influindo no pensamento Ocidentel. e da Harmonia que une as qualidades opostas. Mas identificam esse limite com o fogo de Heráclito. Decompuseram os dois elementos de que nasce o número em par e ímpar. pai de todas as coisas. E tal é. por não se ter às mãos documentação bastante. pois. a essa força. dissolver o indeterminado em tantas relações numéricas determinadas. Sua idéia fundamental é esta: a matéria. Mas estes são apenas. tiveram de erigir a noção de número. Os pitagóricos teriam podido dizer o mesmo do universo. . Para defender essa idéia contra a doutrina unitária dos eleatas. a Anaximandro. nesse sentido. portanto. Parmênides chamava Aphrodite. que reaparece aqui pela última vez. é essencialmente uma força calculadora. Notas Biográficas sobre Pitágoras A doutrina e a vida de Pitágoras. exclusivamente com o auxílio de números. retomaram então a idéia heraclitiana do pólemos. teriam entendido por ela a proporção (aquilo que fixa as proporções. assim. Chamar o Ápeiron de Par é sua grande inovação. foi preciso que também a Unidade tivesse vindo a ser. problemas secundários. depois. jaz envolta num véu de mistério. do qual a música é. para a qual Ecphantus na Antiguidade passa por ter aberto o caminho. com analogias fantasiosas. cuja influência atravessa os séculos até nossos dias. só existe em nossos nervos e em nosso cérebro. O fato de negar-se. Isso lembra a palavra de Leibniz. que é representada inteiramente destituída de qualidade. Simbolizava a gênese de todas as coisas a partir da oitava. pitagórica. delimitado e movido pelo fogo de Heráclito. porque há. de caráter iniciático.. os números quadrados. sem dúvida. quatro a justiça. que fazia nascer todas as coisas de uma dualidade. compõe-se somente das relações numéricas quanto ao ritmo. O vir-a-ser é um cálculo. fora de nós ou em si mesma (no sentido de Locke). inicialmente. Mas esse presentimento estava ainda longe da aplicação exata. somente por relações numéricas adquire tal ou tal qualidade determinada. A força mística do grande filósofo e reformador religioso. quatro o volume. temos uma mistura de atomismo e de pitagorismo. [Simbolismo dos números pitagóricos: um é a razão. A música. O Universo e os planetas esféricos. Na química. o Ápeiron de Anaximandro. agora. poder-se-ia exprimir o ser do universo. um é o ponto. a historicidade de Pitágoras (como alguns o fazem). Dentre as religiões de mistérios. con efeito. As qualidades nasciam por combinação ou por dissociação. dez a perfeição.

chamava-se Pitágoras. afirma-se. em sua juventude. em Babilônia. Dióspolis e Heliópolis. foi finalmente destruído. posteriormente. cujo nome significa o Anunciador pítico (Pythios). segundo uns. porque aí é que funda o seu famoso Instituto. Conta-nos. também. essa ordem. em nossos dias. Em 1917. Afirma-se. era filho de Menesarco e de Partêmis. onde. e que. mebora esteja. onde se reuniam os membros de uma seita misteriosa. enquanto outros afirmam que conseguiu fugir. em Crotona. um sacerdote egípcio. perto de Porta Maggiori. quando foi feito prisioneiro pelas tropas de Cambísis. mas provocaram. ou seja. que ainda existe e tem seus seguidores. fundou o seu famoso Instituto. por volta de 41 a 54 d. afinal. e freqüentou as aulas ministradas por famosos mestres de então. que antes. junto com os seus mais amados discípulos. Relata a lenda que Pitágoras. tendo voltado para Samos já com a idade de 56 anos. em todas as fontes que nos relatam a vida de Pitágoras. Foi em sua viagem a essa metrópole da Antiguidade. Consta que Pitágoras. que se realizaram sobre a doutrina de Pitágoras. teve como primeiros mestres a Hermodamas de Samos até os 18 anos. combatido pelos democratas de então. conhecido Zaratos. que se julgou a princípio fosse a porta de uma capela cristã subterrânea. que desde criança se revelava prodigioso. foi descoberta uma cripta. porém. vamos a seguir relatar algo. em Mileto. houve com certeza alguém que construiu essa doutrina. relata-se que esteve em contato com os órficos. Confúcio e Lao Tsé. ao nosso ver. a inimizade de Policrates. que. no Peloponeso. ou Pythaia. como já esteve no passado. por casualidade. deve-se mais ao fato de ser secreta do que propriamente por suas idéias. tomando um rumo que permaneceu ignorado. levado o filho à Pítia de Delfos. em seu incêndio. pondo de lado esses escrúpulos ingênuos de certos autores. tendo sido daí conduzido para a Babilônia. onde. sob os trilhos da estrada de ferro. natural de Tiro. como foi Gautama Buda. Sabe-se hoje. contando-nos a lenda que. que conheceu o pensamento das antigas religiões do Oriente. e ouvinte das conferências de Anaximandro. outros. o que fez o sábio exilar-se na Magna Grécia (Itália). foi iniciado nos mistérios egípcios. aluno de Tales. também. certa vez. que realizou um retiro no Monte Carmelo e na Caldéia. pois uns afirmam ter sido ele de origem egípcia. e se essa seita foi tão combatida.C. Mas. averigou-se ser pitagórica. o assírio Zaratustra ou Zoroastro. ademais. ainda. durante vinte e cinco séculos. Zoroastro (Zaratustra). naquele mesmo século em que surgiram tantos grandes condutores de povos e criadores de religiões. como se houvesse maior validez na negação da sua historicidade do que na sua afirmação. recomendado ao faraó Amom. em torno dessa lenda. proliferavam os templos pitagóricos. desvirtuam o pensamento genuíno de Pitágoras de Samos. inúmeras viagens e peregrinações. tendo então conhecido a famosa sacerdotiza Teocléia de Delfos.12 Acontece com Pitágoras o que aconteceu com Shakespeare. quando de sua estada nessa grande metrópole da antiguidade. pereceu Pitágoras. os quais tendem a mostrar o grande papel que exerceu na história. . já em decadência. Numa obra. Tendo esta. Inúmeras são as divergências sobre a verdadeira nacionalidade de Pitágoras. É aceito quase sem divergência por todos que se debruçaram a estudar a sua vida. entre 592 a 570 antes da nossa era. que liga Roma a Nápoles. esta sacerdotiza vaticinou-lhe um grande papel. E foi inegavelmente essa descoberta tão importante que impulsionou novos estudos. e que nada mais era do que um templo. depois Ferécides de Siros. com base histórica. o que levou a mãe a devotar-se com o máximo carinho à sua educação. que este realizou. Carcopino (La Brasilique pythagoricienne de la Porte Majeure) dá-nos um amplo relato desse templo. que Pitágoras nasceu em Samos. Se não existiu Pitágoras de Samos. tendo. síria ou. irremediavelmente infectada de idéias estranhas que.. Posteriormente verificou-se que se tratava de uma construção realizada nos tempos de Cláudio. hoje cara aos pitagóricos. ainda. Observa-se. tendo sido. Mas é na Itália que desempenha um papel extraordinário. cuja existência foi tantas vezes negada. então tirano de Samos. sinteticamente. Suas lições atraíram-lhe muitos discípulos. nos santuários de Mênfis. Foi depois discípulo de Sonchi. o qual. Podemos assim parafrasear o que foi dito quanto a Shakespeare. já em tempos de César. Antes de sua localização na Magna Grécia. a lenda que o hierofante Adonai aconselhou-o a ir ao Egito. que preferem declará-lo como não existente.

sustentada pela ordem e pela proporção.não só de natureza como também de valor . que descobre a estrutura numérica das coisas e torna.13 Segundo as melhores fontes. entendido como unidade harmônica. em lugar do deus Dioniso colocou a matemática. já que ela foi objeto de uma série de relatos tardios e fantasiosos. Partindo de idéias órficas. a retornar à sua pátria celeste. do ciclo das reincarnações. depois da derrota da liga crotoniata. mas não a carregues".de Orfeu. as regras da vida individual e do governo das cidades. porque basicamente intelectual. na segunda metade do século VI a. sobretudo. "Ajuda teus semelhantes a levantar sua carga. que ele teria deixado Samos (na Jônia). a alma semelhante ao cosmo. "O que fala.C. de onde caíra. uma distinção . A religião órfica pressupunha. Pitágoras criou um sistema global de doutrinas. como os referentes às suas viagens e a seus contatos com culturas orientais. transferindo-se para Crotona (na Magna Grécia) fundou uma confraria científico-religiosa.C. que se tornou figura legendária na própria Antiguidade. Para libertar-se. contudo. semeia . transformando o sentido da "via de salvação". e que passou a constituir o núcleo da religião órfica. que. originário da Trácia.que se supunha descendente dos deuses protetores das polis. garantida pela presença do divino em tudo. pois realizou uma modificação fundamental na doutrina órfica. Os historiadores mostram que um dos fatores concorreram para esse fenômeno foi a linha política adotada. A alma aspiraria. tendo desaparecido quando do famoso massacre de Metaponto. que primeiro teria recebido a revelação de certos mistérios e os teria confiado a iniciados sob a forma de poemas musicais . Parece certo. A grande novidade introduzida certamente pelo próprio Pitágoras na religiosidade órfica foi a tranformação do processo de libertação da alma num esforço puramente humano. e que se manifesta como beleza.entre a alma ignea e imortal e os corpos pereciveis através dos quais ela realizava sua purificação. A purificação resultaria do trabalho intelectual. (Pitágoras) O Pitagorismo Durante o século VI a. das divindades "oficiais" -. assim. ou seja. às estrelas. a fim de efetivar sua purificação. cuja finalidade era descobrir a harmonia que preside à constituição do cosmo e traçar. Os órficos acreditavam na imortalidade da alma e na metempsicose. Natural que dentro de tal concepção vista por alguns autores como o fundamento do "mito helênico" . Essa similitude profunda entre os vários existentes era sentida pelo homem sob a forma de um "acordo com a natureza". porém.o que escuta. de acordo com ela. recolhe". os tiranos favoreciam a expansão de cultos populares ou estrangeiros. em algumas regiões do mundo grego. para garantir seu papel de líderes populares e para enfraquecer a antiga aristocracia . (Pitágoras) A Pátria Estelar Dentre as religiões de mistério. Pitágoras deve ter falecido entre 510 e 480. de natureza divina. portanto. entre todos os seres. . verificou-se. em geral. Da vida de Pitágoras quase nada pode ser afirmado com certeza. por sua própria natureza. depois do pitagórico Filolau. A sociedade pitagórica continuou após a sua morte. (Pitágoras) Salvação pela Matemática Pitágoras de Samos. de caráter iniciático. deus libertador que completava a libertação preparada pelas práticas catárticas (entre as quais se incluia a abstinência de certos alimentos). teria sido antes de mais nada um reformador religioso. será qualificada como uma "harmonia". uma teve enorme difusão: o culto de Dionisio. O orfismo . o homem necessitaria da ajuda de Dioniso.o mal seja entendido sempre como desarmonia.era uma religião essencialmente esotérica. o pitagorismo pressupunha uma identidade fundamental. uma revivescência da vida religiosa. pelos tiranos. fugindo à tirania de Polícrates. na transmigração da alma através de vários corpos. "Com ordem e com tempo encontra-se o segredo de fazer tudo e tudo fazer bem".

esse "intervalo" resultaria da respiração do universo que. quando os pitagóricos falam que as coisas imitam os números estariam entendendo essa imitação (mimesis) num sentido realista: as coisas manifestariam externamente a estrutura numérica inerente. pressupondo o universo harmonicamente constituído por astros que desenvolvem trajetórias. a relação entre o lado e a diagonal do quadrado (que é a da hipotenusa do triângulo retângulo isósceles com o cateto) tornava-se "irracional". às concepções musicais também desenvolvidas pela escola: separadas por intervalos equivalentes aos . Assim. onde se processa a purificação da alma . vivo. faze aquilo que te parece justo". Os primeiros números. quando se pressupunha que os valores correspondentes à hipotenusa e aos catetos eram números primos entre si. (Pitágoras) O Escândalo dos "Irracionais" A primitiva concepção pitagórica de número apresentava limitações que logo exigiriam dos próprios pitagóricos tentativas de reformulação. de valores sem possibilidade de determinação exaustiva. O "escândalo" dos irracionais manifestava-se no próprio teorema de Pitágoras (o quadrado construído sobre a hipotenusa é igual a soma dos quadrados construídos sobre os catetos). da música. quanto na base mesma da matemática. em substituição às representações literais mais arcaicas. o pitagorismo primitivo concebe a extensão como descontínua: constituída por unidades indivisíveis e separadas por um "intervalo". aquelas linhas não apresentavam "razão comum" ou "comum medida". estreitamente vinculada à sua religião astral foi o ponto de partida das várias doutrinas que os gregos formulariam. a hipotenusa seria igual a V¯². como V¯². Assim. Tanto na relação entre certos valores musicais (expressos matematicamente). os números são reais. acabava-se por se concluir pelo absurdo de que um deles não era afinal nem par nem ímpar. unidade de extensão. representados figurativamente. Segundo a cosmologia pitagórica . "Todas as coisas são números". mínimo de corpo. o dois determina a linha. enquanto o quatro produz o volume. o Número A partir do próprio Pitágoras. Apesar desses impasses . são essências realizadas (usando-se um vocabulário filosófico posterior). portanto .que descreve o cenário cósmico. a quantidade e sua expressão espacial.e em grande parte por causa deles . De acordo com essa concepção. usadas pelos gregos e depois pelos romanos. são entidades corpóreas constituídas por unidades contíguas e a prenunciar os átomos de Leucipo e Demócrito. descobriu que há uma dependência do som em relação à extensão. o três gera a superfície. desde que se atribuísse valor 1 ao cateto de um triângulo isósceles. Essa geometrização do cosmo estava aliada. Ou seja. as unidades comporiam os números.14 Pitágoras teria chegado à concepção de que todas as coisas são números através inclusive de uma observação no campo musical: verificou no monocórdio que o som produzido varia de acordo com a extensão da corda sonora. os pitagóricos adotaram uma representação figurada dos números. são a própria "alma das coisas". O principal impasse enfrentado por essa aritmo-geometria baseada em inteiros (já que as unidades seriam indivisíveis) foi o levantado pelo números irracionais. Sua astronomia. (tão importante como propiciadora de vivências religiosas estáticas) em relação à matemática. "Pensem o que quiserem de ti. (Pitágoras) Em Todas as Coisas. Ou então. A representação figurada permitia explicitar a lei de composição dos números e torna-se um fator de avanço das investigações matemáticas dos pitagóricos.como virão a ser mais tarde -. surgem grandezas inexprimíveis naquela concepção de número. o que se evidenciava pelo aparecimento na tradução aritmética da relação entre elas.o pensamento pitagórico evoluiu e expandiu-se. Mínimo de extensão e mínimo de corpo. presos a esferas homocêntricas. Já por sua própria notação figurativa evidencia-se que a primitiva matemática pitagórica constitui uma aritmo-geometria. no pitagorismo. influenciando praticamente todo o desenncolcimento da ciência e da filosofia gregas. Estes não seriam. Com efeito. inalaria o ar infinito (pneuma ápeiron) em que estaria imerso. a associar intimamente os aspectos numéricos e geométrico. meros símbolos a exprimir o valor das grandezas: para os pitagóricos. bastavam para justificar o que há de essencial no universo: o um é o ponto.

para lá colher fama. 1) Segundo seu elemento tético. para lhe mostrar que dele nada arrancaria. é a razão que realiza o começo . a fortaleza de sua alma tornou-se célebre pela sua morte. Seu pai verdadeiro chamava-se Teleutágoras. também descobrimos tal afirmar e sobressumir daquilo que o contradiz. (Pitágoras) Zenão de Eléia Vida. pleno para aquela mudança. as poderosas admoestações ou também as torturas horríveis e a morte de Zenão ergueram os cidadãos e levantaram-lhes o ânimo. Zenão. Ela teria salvo um Estado (não se sabe se sua pátria Eléia ou se Sicília) de seu tirano.ela aponta. mordendo-lhe. Ele é o mestre da Escola Eleática. chamando então o tirano mesmo a peste do Estado. pelo contrário.Escreveu várias obras em prosa: Discussões. apenas com esta diferença fundamental. Tendo conspirado contra a tirania e o tirano (Nearco?). Obras e Pensamento Zenão floresceu cerca de 464/461 a. contínuo e indivisível de Parmênides contra o ser múltiplo. no entanto. pelo fato de (exceto sua viagem a Atenas) ter sua residência fixa em Eléia. em seu movimento. ao mesmo tempo. Nisto consistia o movimento determinado. para arrancarlhe a confissão dos nomes dos outros conjuradores. perdeu a vida. Também Zenão era um eleata. Em Zenão. Parmênides afirmou: "O universo é imutável. liquidá-lo e assim libertar-se. no 'não-ser é' se contradizem sujeito e predicado". . por não revelar o nome dos comparsas. a alma pura da ciência . Diz-se que ele se postou como se quisesse dizer ainda algo aos ouvidos do tirano. Em sua vida não apenas era algo de muito respeito em seu Estado. "Educai as crianças e não será preciso punir os homens". pelo contrário. porém. diz: "Afirmai vossa mudança: nela enquanto mudança. interveio na política. e aquilo que é surgir e desaparecer cai fora". Nasceu em Eléia (Itália). o fez torturar de todos os modos. Outros ainda dizem que. sons de acorde perfeito. em seu conteúdo. principalmente os pitagóricos. seria a própria tessitura do que o homem considera "silêncio". ou ela não é nada".C. Contra os Físicos. a orelha e cerrando os dentes até ter sido trucidado pelos outros. começar com esta afirmação. mas não o vemos. Segundo muitas lendas. é o mais jovem e viveu particularmente em convívio com Parmênides. Zenão falou e voltou-se contra o movimento como tal ou puro movimento. é o nada para ela. Sobre a Natureza. . e ao perguntar pelos inimigos do Estado. esta sido traída. Dessa maneira. para caírem sobre o tirano. Zenão delatou primeiro todos os amigos do tirano como participantes da conjuração. ele cortou a língua com os próprios dentes e a cuspiu no rosto do tirano. sacrificando da seguinte maneira sua vida: Teria participado de uma conjuração para derrubar o tirano. Explicação Crítica de Empédocles. tranqüila em si mesma. segurando-o assim. Ao contrário de Heráclito. Já em seu elemento tético vemos progresso. que os momentos e as oposições são expressos mais como conceitos e pensamentos.Considerado criador da dialética (entendida como argumentação combativa ou erística). Parmênides. nela seu puro pensamento torna-se o movimento do conceito em si mesmo. Pois até agora só vimos nos eleatas a proposição: "O nada não possui realidade. Essa "harmonia das esferas". permanentemente soante. Zenão erigiu-se em defensor de seu mestre. a filosofia de Zenão é. tendo suas respostas sido seguidas de enormes torturas. De modo violento e furioso de sua reação. dando leis à sua pátria. diante de seu povo. pois na mudança seria posto o nãoser daquilo que é. depois disso teria sido triturado num pilão. A característica de Zenão é a dialética. aquelas esferas produziram. Platão o lembra: de Atenas e de outros lugares vinham homens a ele para entregar-se à sua formação. não é. mas somente é ser. torturado e. inteiramente igual à que vimos em Xenófanes e Parmênides. acabou preso.é o iniciador da dialética. Atribuiu-se-lhe orgulhosa auto-suficiência. negando-se a viver por mais tempo na grande e poderosa Atenas.15 intervalos musicais. contra as críticas dos adversários. Defendeu o ser uno. tendo. mas também em geral era célebre e muito respeitado como professor. Outros narram que ele teria ferrado os dentes em seu nariz. naquilo que é afirmado como sendo sua destruição. . ele já está mais avançado no sobressumir das oposições e determinações. Este o amava muito e o adotou como filho. descontínuo e divisível dos pitagóricos. Quando o tirano.

se houvesse diversos. uma parte teria determinações que faltariam às outras). é em toda parte igual. seria o não-ente. devem ser mantidas afastadas do ser positivo e apenas real. por exemplo. nosso caminho é trivial e mais óbvio." Isto foi denominado panteísmo (spinozismo). e é assim. porém. as partes de Deus dominariam uma sobre a outra" (uma estaria onde a outra não está. pois o igual não é nem pior nem melhor que o igual . este afundar-se no abismo da identidade do entendimento. os outros sentimentos. Ambas as coisas são. Aristóteles conclui que. ele não é limitado. é o não-ente. enquanto algo negativo. nem vice-versa. a partir daí. Do nada é imediatamente nada. em outra parte de outro modo." Com a aceitação da igualdade. nem fim. de um lado temos. nas assim chamadas demonstrações da unidade de Deus. ou se. Em Zenão a desigualdade é o outro membro em oposição a igualdade. não seria capaz de tudo o que quisesse. Já que os iguais devem ter entre si as mesmas determinações. Deus é e se ele é de tal natureza. a) ilimitado é o não-ente. não fosse assim. 0 ilimitado é o indeterminado. Este modo. somente é o múltiplo. O ser. o negativo. não está nem em repouso nem se movimenta. originar-se-ia o não-ser do ente. pois um dever-se-ia mover para o outro. o um da Escola Eleática é apenas esta abstração. mas. quando algo é. portanto. então só há um Deus. a supressão do ser. pressupõe-se uma multiplicidade de tempo. raciocinando-se. porém. "O um. que dele se produza mais do que deve ser produzido. nem em repouso nem em movimento." Assim Zenão também mostra: "O um não se move. nem uma parte . com a falta de movimento estaria posto o não-ser ou o vazio. estes diferentes não são expressos como diferentes." Movido só é o que é diferente de outro. "pois para ele nenhuma outra coisa advém. ou nada existe fora de Deus. idêntico a si mesmo e esférico nem ilimitado nem limitado. igualdade como igualdade pressupõe o movimento do pensamento e a mediação. o imóvel é negativo. mas em toda parte igual. se houvesse mais deuses". portanto. sem que sua unidade seja concebida como a de diferentes. porém. a reflexão em si. mas enquanto Ihe faltasse o poder sobre os outros não seria Deus. portanto. reprimi-la-ia. Em Xenófanes e Parmênides tínhamos ser e nada. Nós dizemos que Deus é imutável. houvesse mais deuses. do ser." Do fato de nada poder provir. ele não teria poder sobre eles. b) Dar-se-ia delimitação mútua. Em seguida. Ser e não-ser situam-se assim. Como. na medida em que dele houvesse dois ou ainda mais. espaço. Esta a maneira comum de nós raciocinarmos. do igual. pois não é aqui assim. portanto.ou não se distingue dele. o pior viesse do melhor. então Ihe é próprio que seja um. No que se refere às determinações deve-se observar que elas. nem é imóvel. pelo contrário. de argumentar é ainda. inversamente. negando-se predicados. a mudança apenas se atribui às coisas finitas (isto como que sendo uma proposição empírica). ao igual. não passa para o ser. impossíveis. não utilizamos a dialética que usa a Escola Eleática. "que. pois. Deus é eterno. em tal tipo de raciocínio. que repousaria sobre a proposição ex nihilo nihil fit. Ser é a igualdade expressa como imediata. as coisas finitas .16 "É impossível". Se. Deus se comporta assim. o que é impossível. por exemplo. um e esférico. pois não se parece nem com o não-ente nem com o múltiplo." Diz ainda: "Já que é eterno. A isto vemos ligada uma outra espécie de raciocínio metafísico: são feitas pressuposições. Em tudo isto.tal coisa é o ilimitado. "Sendo um. Como Deus é em toda parte igual. ele mesmo. pois. em toda parte. quer do igual quer do desigual. "pois teria que surgir ou do igual ou do desigual. portanto. o mais antigo. surja" (ele relaciona isto com a divindade). pois faz parte da natureza de Deus não ter acima de si nada mais poderoso. ele nao é nem infinito (ilimitado) nem limitado. determinado como algo unilateral. Pois. eles seriam mais poderosos e mais fracos um em face do outro. diz ele. Pois imóvel é a) o não-ente" (no não-ente não se realiza nenhum movimento. ser. Para ir a esta abstração fazemos um outro caminho. assim. nem começo. pois se do mais fraco se originasse o mais forte ou do menor o maior ou do pior o melhor. pois não se pode atribuir. "o que é impossível. até o dia de hoje. o poder de Deus. mas assim já é. pois este não possui nem meio. 0 princípio da identidade Ihe serve de fundamento: "O nada é igual ao nada. deuses. ou tudo é eterno. não seriam. vê e possui também. uma dialética que se pode denominar de raciocínio metafísico. Vemos. b) Movido. nem vai para coisa alguma. como é apenas um. lado a lado. possui ele a forma esférica. nada pode provir". Se. desaparece a diferença entre o que produz e aquilo que é produzido. pois ele é eterno e um. "Tampouco pode surgir o desigual do desigual. assim não é o ente. ouve. é demonstrada a unidade de Deus: "Se Deus é o mais poderoso de tudo. por conseguinte. válido.

isto é. eles afirmam um dos predicados que se opõem. gêneros. esta somente se suprime através de um outro. também o ser em oposição ao não-ser é uma determinação. assim como se pressupõe o ser. pois ele nega predicados que se opõem. Sendo a essência absoluta posta como o um ou o ser. demonstrei isto. portanto. mas sem qualquer determinação. parte em Heráclito e. é. então. ela é posta através da negação. nos sofistas. Mas uma outra consciência não verifica aquilo. Eles põem-no fixamente. passo a passo. é apenas afirmativamente. e ao nada se atribuem os mesmos predicados que ao ser: o puro ser não é movimento. em seu pensamento. ou seja. através de minha afirmação. que deixa o finito de lado. a imutabilidade nesta unidade abstrata e absoluta consigo mesma. também ela finita. mas o outro sistema tem o mesmo direito de dizer assim. não menos. e deixamos. a outra consciência tem razão em afirmar uma outra: coisa como imediatamente verdadeira. na negação absoluta. avançando até a afirmação de que só o um é e de que o negativo não é . algo incompreensível: pois do um. só que nós deixamos valer como ser também o finito. ao menos é quem está em seu começo. Ou também partimos das coisas finitas para as espécies. Isto. no movimento. É a mesma separação. numa determinação. da multiplicidade. assim. devendo então. de outro lado. a multiplicidade está sobressumida. Assim a coisa é facilitada: "O outro sistema não possui verdade. porém. Do mesmo modo. ou o igual (como diz Melisso) é a essência. o primeiro sistema é posto como fundamento e a partir dele se entra em debate contra o outro. ou é negada enquanto finita. o que os eleatas desprezaram. assim negou ele do um o que deveria dizer-se do nada. é o nada do movimento. Parmênides. o descobridor da dialética em sua plenitude. o outro sem importância (nulo) (parte-se de uma determinada proposição). 0 um é o mais poderoso e nisto determinado propriamente como o destruir absoluto.conseqüência que. não ser negada apenas uma determinação. em Zenão. o oposto. mas ambas as negações que se opõem. o negativo de lado. Antes é negado o movimento e a essência absoluta aparece como em repouso. já há a consciência mais alta de que uma determinação é negada de que esta negação mesma é novamente uma determinação. Zenão possui o aspecto importante de ser o descobridor da dialética: se não é ele propriamente. Isto pressentiu Zenão. em nossa representação. porque não concorda com o meu". Como movimento: Verifiquei algo e vejo que é o nulo. em seu Parmênides. eu declaro isto como imediatamente verdadeiro. isto se dá. e o gênero mais alto é então Deus. Em todas estas formas que nos são bem familiares está contida a mesma dificuldade da questão que se levanta no que diz respeito ao pensamento eleático: De onde vem a determinação. e. uma grande abstração Particularmente digno de nota é o fato de que. Enquanto nós deixamos valer. Zenão põem como fundamento a proposição: Nada é nada. do ser. enquanto limitado. serem-si. desta maneira. 2) Já lembramos que também encontramos a verdadeira dialética objetiva igualmente em Zenão. contudo. a realidade do mundo finito. o vazio. como deve ela ser concebida. que. como a essência. pelo fato de terem posto mãos à obra de maneira especulativa . onde encontram. sua nulidade não aparece nela mesma. a certeza da consciência individual e a certeza como refutação . tanto no um mesmo. é determinada como o negativo e. 0 um é igualmente o não dos muitos: tanto no nada como no um. os eleatas foram mais conseqüentes. e então é puramente infinita. a mudança é em si contradição. terem mostrado que. suprimem com isto essa determinação. Mas o mesmo deveria acontecer com o resto. o nada não é. de nosso modo de refletir comum. ainda que deva ser por nós admirada. está afastada a determinação do negativo.o lado negativo da dialética. A consciência mais alta é a consciência sobre a nulidade do ser enquanto algo determinado em face do nada. Xenófanes. através da distinção que faço de que um lado é o verdadeiro. com isto não permanece verdade alguma.o especulativo tem lugar no fato de afirmarem que a mudança não é . Portanto. deve ter seu fundamento no infinito. no que vimos. que ele é o nulo. Aqui isto surge apenas referido a algumas determinações não com referência às determinações do um e do ser mesmo. conclui-se. o movimento. pois o poder é também o não-ser absoluto de um outro.17 e a mudança.e pelo fato de. Mas. porque previu que o ser é o oposto do nada. também é determinação. enquanto o ser supremo. segundo o pressuposto. Esta dialética mais alta encontramo-la em Platão. dizendo que o finito. isto é. assim. Eu não . por exemplo. não de maneira que se suprima a si mesma. Como sempre é o caso quando um sistema filosófico refuta o outro. como no modo como o infinito se manifesta no finito? Os eleatas distinguem-se. que contenha em si uma contradição. como o nada. mas apenas o ser para o outro é. Ou passamos do finito para o infinito.

o movimento foi tratado particularmente por Zenão. nem massa (ónkos). o outro não seria por isso diminuído. De nada ajuda demonstrar meu sistema ou minha proposição e então concluir: portanto. torna-se norma quando se concede: "No correto está o incorreto e no falso também o verdadeiro". e o movimento é: tornar-se outro. Mas junto a eles ainda não vingou a determinação. O fato de a dialética ter tido atraída sua atenção primeiro para o movimento é a razão de a dialética mesma ser este movimento ou o movimento mesmo ser a dialética de todo ente. nem mais múltiplo. A dialética subjetiva. assim o que foi acrescentado não é nada. para demonstrar que disto resultariam muito mais coisas discordantes que da proposição de Parmênides. Zenão responde que escreveu isto. leis. Vemos desaparecer para a consciência de Zenão o simples pensamento imóvel para tornar-se ele mesmo movimento pensante. não é. Podem ser então razões bem exteriores. átomos. mostra que possui determinações opostas. considera o objeto em si mesmo e o toma segundo as determinações que possui. fortalecido. A esta dialética verdadeira pode juntar-se o que os eleatas fizeram. Pois se fosse acrescentado a um outro não aumentaria a este. isto é. ligação através de mediação. segundo a grandeza" (tò mégethos). No Parmênides de Platão (127-128). razões. mas a partir da coisa mesma. pelo contrário. deve-se ultrapassar a multiplicidade. de tal modo que apresentaria falhas apenas de um lado. demonstrada para o puro conceito do conteúdo. A coisa tem. mas em si mesmo. o sistema que se opõe está errado. não segundo circunstâncias exteriores. ele o dá a si. nada poderia acrescentar ao tamanho do outro. a essência do com-preender. A outra dialética. enquanto se move. 0 resultado desta dialética é zero. de neles apontar razões e aspectos. O mesmo aconteceria ao ser retirado. Diz que combateu aqueles que afirmam o ser do múltiplo. O falso não deve ser apresentado corno falso porque o oposto é verdadeiro. mas ela deve ser considerada também de seu lado positivo. quando mostram quantas coisas ridículas e que contradições contra si mesmos resultam de suas afirmações.devo demonstrar sua não-ver dade através de um outro. pois. levar a guerra para território inimigo. quando é o múltiplo. mas. através dos quais se torna vacilante o que em geral vale como firme. infinito é o negativo do múltiplo. também não é. baseando-se em razões exteriores. procurando dar a impressão de que está dizendo algo de novo. então é grande e pequeno: grande. Conforme a representação corrente da ciência. Isto é a determinação mais exata da dialética objetiva. porém. o não-ente. idéia. não se conseguiu ainda passar além dela e a questão fica esquecida no indeterminado. sobressumir-se. ele se demonstra a si mesmo. A dialética verdadeira não deixa nada sobrando em seu objeto. que tudo é um: mas que nos procura enganar com uma expressão. Nesta dialética não vemos afirmar-se o pensamento simples para si mesmo. esta dialética é muito bem descrita. o que é infinito não é mais grande. que se suprime (sobressume): esta dialética encontramos precipuamente junto aos antigos. de maneira objetiva e dialética. Mas o caráter exaustivo que vemos no Parmênides de Platão não Ihe corresponde. "pequeno. Sócrates diz que Parmênides afirma em seu poema que tudo é um: Zenão. que o múltiplo não é. A gente se põe inteiramente dentro da coisa. em que proposições são resultado da demonstração. na medida em que combate o movimento sensível. "Aqui mostra ele que o que não tem tamanho. ficaram parados na idéia de que através da contradição o objeto se torna nulo. de maneira que não tem mais grandeza". A dialética como tal é a) dialética exterior. se não tem tamanho e grandeza. b) não é um movimento apenas de nossa intuição. assim o múltiplo é infinito. portanto. mas ele se dissolve segundo sua natureza inteira. antes contra aqueles que procuram tornar ridícula (komodeiñ) a proposição de Parmênides. nada". é a demonstração o movimento da convicção. é a consideração imanente do objeto: ele é tomado para si. Esta convicção racional vemos despertar em Zenão. para passar para o infinito. dever-ser. este movimento distinto do compreender deste movimento. Este lado possui a dialética na consciência de Zenão. nem espessura. sua dialética mesma em si. que raciocina. mas em si mesmo. o negativo. Aristóteles afirma que Zenão teria negado o movimento pelo fato de possuir contradição 18 . A dialética da matéria de Zenão não foi até hoje ainda refutada. sem pressuposições. isto é. para esta proposição aquela sempre parecerá algo de estranho. Aquela dialética é uma mania de contemplar objetos. algo exterior. enquanto limite indiferente. Platão fá-lo falar assim sobre isto: faz Sócrates dizer que Zenão afirma em seu escrito o mesmo que Parmênides. Os aspectos mais exatos desta dialética nos conservou Aristóteles. "Ele demonstra que. o afirmativo que nela se esconde ainda não aparece. Nesta consideração.

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interna. Mas não se deve entender isto assim como se o movimento não fosse - como nós dizemos, não há elefantes, não há rinocerontes. Que o movimento existe, que ele é fenômeno, isto nem está em questão; o movimento possui certeza sensível, como existem elefantes. Neste sentido, Zenão nem teve a idéia de negar o movimento. Pelo contrário, seu questionar vai em busca de sua verdade; mas o movimento é não verdadeiro, pois ele é contradição. Com isto quer ele dizer que não se Ihe deveria atribuir verdadeiro ser. Zenão mostra então que a representação do movimento contém uma contradição e apresenta quatro modos de refutação do movimento. Os argumentos repousam sobre a infinita divisão do espaço e do tempo. 1) Primeira forma: Zenão diz que o movimento não tem verdade alguma, porque o movido deveria atingir primeiro a metade do espaço como sua meta. Aristóteles diz isto de maneira tão breve por ter tratado antes amplamente o objeto e tê-lo exposto detidamente. Isto deve ser compreendido de maneira mais universal; é pressuposta a continuidade do espaço. O que se move deve atingir uma determinada meta; este caminho é um todo. Para percorrer o todo, o que é movido deve antes ter percorrido a metade. Agora a meta é o fim desta metade. Mas esta metade é novamente um todo, este espaço possui assim uma metade; deve, portanto, ter atingido antes a metade desta metade, e assim até o infinito. Zenão toca aqui na divisibilidade infinita do espaço. Pelo fato de espaço e tempo serem absolutamente contínuos, nunca se pode parar com a divisão. Cada grandeza - e cada tempo e espaço sempre tem uma grandeza - é novamente divisível em duas metades; estas devem ser percorridas e, mesmo onde colocamos um espaço o menor possível, sempre surge este mesmo estado de coisas. O movimento que seria o percurso destes momentos infinitos nunca termina; portanto, o que é movido nunca atinge sua meta. É conhecido como Diógenes de Sínope, o Cínico, refutou tais provas da contradição do movimento, de maneira muito simples; levantou-se em silêncio e caminhou de cá para lá - ele as refutou pela ação. Mas a estória é continuada também assim: a um aluno que se contentara com esta refutação, Diógenes o castigou pela simples razão de que, se o professor havia discutido com argumentos, ele só poderia deixar valer uma refutação também com argumentos. Da mesma maneira a gente não deve satisfazer-se com a certeza sensível; mas é preciso compreender. Vemos aqui desenvolvido o infinito aparecer. primeiro em sua contradição - uma consciência dele. O movimento, o puro aparecer em si mesmo é o objeto e surge como um pensado, um posto segundo sua essência, a saber, (consideramos a forma dos momentos) em suas diferenças da pura igualdade consigo mesmo e da pura negatividade - do ponto contra a continuidade. Na nossa representação não parece contraditório que o ponto no espaço ou, do mesmo modo, o momento no tempo contínuo seja posto ou que seja afirmado o agora do tempo como uma continuidade, uma duração (dia, ano); mas seu conceito contradiz-se a si mesmo. A igualdade consigo mesmo, a continuidade é absoluta homogeneidade, é eliminação de toda diferença, de todo negativo, de todo ser para si; o ponto é, pelo contrário, o puro ser para si, o absoluto distinguir-se e a supressão de toda igualdade e homogeneidade com outro. Mas estes dois estão postos numa unidade, no espaço e no tempo, espaço e tempo, portanto, a contradição. O mais fácil é mostrá-la no movimento; pois, no movimento, o oposto é também posto para a representação. Pois o movimento e a essência, a realidade do tempo e do espaço; e, enquanto esta aparece, é posta, também é posto já o fenômeno da contradição. É para esta contradição que Zenão chama a atenção. É a continuidade de um espaço, é o positivo que é posto; e nele o limite que o divide ao meio. Mas o limite que divide ao meio não é limite absoluto ou em si e para si, mas é algo limitado, é novamente continuidade. Mas esta continuidade também novamente nada é de absoluto, mas põe o oposto nela limite que divide ao meio; mas com isto novamente não é posto o limite da continuidade, a metade ainda é continuidade e assim até o infinito. Até o infinito - com isto nos representamos um além, que não pode ser atingido, fora da representação que não pode atingi-lo. É um inacabado ultrapassar, mas presente no conceito - um passar além de uma determinação oposta para outra, de continuidade para negatividade, de negatividade para continuidade; elas estão diante de nós. Destes dois momentos pode, no processo, ser afirmado um deles como o essencial. Primeiro Zenão põe o progresso contínuo de maneira tal que não se atinge nada igual a si, um determinado - nenhum espaço limitado, portanto, continuidade; ou Zenão afirma o avanço neste limitar.

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A resposta geral e a solução de Aristóteles é que espaço e tempo não são divididos infinitamente, mas apenas divisíveis. Parece, entretanto, que, enquanto são divisíveis (potentia, dynámei, não actu, energeía), também devem estar efetivamente divididos infinitamente; pois, de outro modo, não poderiam ser divididos ao infinito - uma resposta geral para a representação. 2) "O segundo argumento" (que também é pressuposição da continuidade e posição da divisão) chama-se "argumento de Aquiles", o homem dos pés velozes. Os antigos gostavam de vestir as dificuldades com representações sensíveis. De dois corpos que se movem numa direção, dos quais um está na frente e outro o segue numa determinada distância, movendo-se, porém, mais rapidamente que aquele, sabemos que o segundo alcançará o primeiro. Zenão, porém, diz: "O mais vagaroso nunca poderá ser alcançado nem mesmo pelo mais rápido"; e isto ele demonstra assim: o que segue necessita de uma determinada parte do tempo para "alcançar o lugar de onde partiu o que está em fuga", no começo desta determinada parte do tempo. Durante o tempo em que o segundo atingiu o ponto onde o primeiro se achava, este já avançou para mais longe, deixou atrás de si novo espaço que o segundo novamente deverá percorrer numa parte desta parte do tempo; e assim se vai até o infinito. B percorre numa hora duas milhas, A, no mesmo tempo, uma milha. Se estão separados entre si por duas milhas, então B chegou numa hora onde A estava no começo da hora. Mas o espaço (uma milha), vencido por A, será percorrido por B na metade de uma hora, e assim ao infinito. Desta maneira, o movimento mais rápido nada ajuda ao segundo corpo para percorrer o espaço intermediário que o separa do outro; o tempo de que necessita, também o mais vagaroso sempre tem à sua disposição, e "com isto ele já sempre conseguiu uma vantagem". Aristóteles, que trata disto, diz brevemente sobre o mesmo: "Este argumento representa a mesma divisão infinita'' ou o infinito ser dividido através do movimento. "É algo não verdadeiro; pois o rápido, contudo, alcançará o vagaroso, se Ihe for permitido ultrapassar o limite, o limitado." A resposta é correta e contém tudo. Nesta representação são admitidos dois pontos de tempo e dois de espaço que estão separados entre si - isto é, são limitados, são limites um para o outro. Se, ao contrário, se admite que tempo e espaço são contínuos, de maneira tal que dois pontos do tempo ou dois pontos de espaço se relacionam entre si de maneira contínua, então eles são, igualmente, na medida em que são dois também não dois - são idênticos. Zenão apenas faz valer o limite, a divisão, o momento da separação de espaço e tempo em sua total determinação; por isto surge a contradição. O que gera a dificuldade sempre é o pensamento, porque separa em sua distinção aqueles momentos de um objeto, na realidade unidos. 0 pensamento produziu a queda original, quando o homem comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal; mas também ressarce este prejuízo. É uma dificuldade superar o pensamento e é somente ele que causa esta dificuldade. 3) "O terceiro argumento" tem a forma que Zenão descreve assim: "A flecha em vôo repousa", e isto porque "o que se move sempre está no mesmo agora" e no aqui igual a si mesmo, no "não-distinguível" (en tõ nyn, katà tò íson); ele está aqui, e aqui e aqui. Assim que dizemos que sempre é o mesmo; a isto, porém, não chamamos movimento, mas repouso: o que sempre está no aqui e agora, repousa. Ou devese dizer da flecha que sempre está no mesmo espaço e no mesmo tempo; não consegue ultrapassar seu espaço, não conquista um outro espaço, isto é, um espaço maior ou menor. Aqui o tornar-se outro foi sobressumido; o ser limitado é posto como tal, mas o limitar é, contudo, um momento. No aqui agora como tais, não há diferença. No espaço, um ponto é tão bem um aqui como o outro, isto aqui e isto aqui e mais um outro, etc.; e, contudo, o aqui é sempre o mesmo aqui; não são distintos entre si. A continuidade, a igualdade do aqui e afirmada aqui contra a opinião da diferença. Cada lugar é lugar diferente - portanto, o mesmo; a diferença é apenas aparente. Não é neste estado de coisas. mas no mundo do espirito que se manifesta a verdadeira e objetiva diferença. Isto acontece também na mecânica: pergunta-se qual se move de dois corpos. Para determinar qual deles se move é preciso mais de dois lugares, ao menos três. Mas uma coisa é correta: o movimento é absolutamente relativo; se, no espaço absoluto, por exemplo, o olho repousa ou se move, é inteiramente o mesmo. Ou, conforme uma proposição de Newton: se dois corpos giram, em círculo, um em torno do outro, surge a pergunta se um repousa ou se ambos se movem. Newton quer decidir isto por uma circunstância exterior, os fios estendidos (tensio filorum). Se num navio caminho na direção oposta da

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direção em que se move o navio, o mover-me é movimento com relação ao navio, mas repouso com relação a outra coisa. Nos dois primeiros argumentos a continuidade no avançar é o que predomina: não existe limite absoluto, nem espaço limitado, mas apenas continuidade absoluta, transgredir todos os limites. No argumento agora em questão é retido o aspecto inverso, a saber, o absoluto ser-limitado, a interrupção da continuidade, nenhuma passagem para outro. Sobre este terceiro argumento diz Aristóteles que ele se origina do fato de se aceitar que o tempo consiste de "agoras"; pois, se não se concede isto, não se pode tirar a conclusão a que Zenão chegou. 4) "O quarto argumento" e tomado de corpos iguais que se movem no estádio ao lado de um igual, com velocidade igual, um a partir do fim do estádio, o outro a partir do meio, um em direção do outro; disto se deveria concluir que a metade do tempo é igual ao dobro. O erro da conclusão consiste no fato de admitir que, no que se move e no que está em repouso, a coisa percorre uma mesma extensão em tempo igual, com velocidade igual; isto, porém, é falso. Esta quarta forma diz respeito à contradição no movimento oposto. A oposição possui aqui uma outra forma: a) mas também novamente o universo, o comum, que deve ser atribuído inteiramente a cada parte, enquanto realiza para si apenas uma parte; b) é apenas posto como verdadeiro (como sendo) o que cada parte faz para si. Aqui a distância de um corpo é a soma do afastar se de ambos; é o que acontece quando caminho dois pés para o leste e outro, partindo do mesmo ponto, caminha dois pés para o oeste; assim estamos distantes um do outro quatro pés - aqui ambos devem ser somados; na distância de ambos, ambos são positivos. Ou avancei e retrocedi dois pés - no mesmo ponto; ainda que tenha andado quatro pés, não saí do ponto em que estava. 0 movimento é, portanto, nulo; pois pelo movimento de ir para frente e para trás há aqui coisas opostas que se suprimem. Isto é então a dialética de Zenão. Ele captou as determinações que contém nossa representação do espaço e tempo; ele as tinha em sua consciência e nelas mostra o aspecto contraditório. As antinomias de Kant nada mais são do que aquilo que Zenão aqui já fizera. O elemento universal da dialética, a proposição universal da escola eleática foi, portanto: "0 verdadeiro é apenas o um, todo o resto é não-verdadeiro"; como a filosofia kantiana chegou ao resultado: "Conhecemos apenas fenômenos". No todo é o mesmo princípio: "O conteúdo da consciência é apenas um fenômeno, nada verdadeiro"; mas nisto também reside uma diferença. Pois Zenão e os Eleatas afirmaram sua proposição com a seguinte significação: "O mundo sensível é em si mesmo apenas mundo fenomenal, com suas formas infinitamente diversas - este lado não possui verdade em si mesmo". Nào é, porém, isto que pensa Kant. Ele afirma: Voltando-se para o mundo, quando o pensamento se dirige para o mundo exterior (para o pensamento também o mundo dado no interior é algo exterior), voltando-se para ele, fazemos dele um fenômeno; é a atividade de nosso pensamento que atribui ao exterior tantas determinações: o sensível, determinações da reflexão, etc. Só nosso conhecimento é fenômeno, o mundo é em si absolutamente verdadeiro; só nossa aplicação, nosso acréscimo o arruína para nós; o que acrescentamos, nada vale. O mundo torna-se não-verdadeiro pelo fato de Ihe jogarmos em cima uma massa de determinações. Isto é então a grande diferença. Este conteúdo também é nulo em Zenão; mas, em Kant, porque é obra nossa. Em Kant é o elemento espiritual que arruína o mundo; segundo Zenão, é o mundo, o que aparece em si que é não-verdadeiro. Segundo Kant, é nosso pensar, a atividade de nosso espírito o elemento mau - é uma enorme humildade do espírito não ter confiança no conhecimento. Na Bíblia diz Cristo: "Pois não sois melhores que os pardais?" Nós o somos enquanto pensamos - enquanto seres sensíveis, tão bons ou tão maus como os pardais. O sentido da dialética de Zenão possui maior objetividade que esta dialética moderna. A dialética de Zenão ainda se conteve nos limites da metafísica: mais tarde, com os sofistas, tornou se universal. 1.5 - Demócrito de Abdera De sua vida sabemos poucas coisas seguras. mas muitas lendas. Viagens extraordinárias, a ruína material, as honras que recebeu de seus concidadãos, sua solidão, seu grande poder de trabalho. Uma tradição tardia afirma que ele ria de tudo. . .

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Demócrito e Leucipo partem do eleatismo. Mas o ponto de partida de Demócrito é acreditar na realidade do movimento porque o pensamento é um movimento. Esse é seu ponto de ataque: o movimento existe porque eu penso e o pensamento tem realidade. Mas se há movimento deve haver um espaço vazio, o que eqüivale a dizer que o não-ser é tão real quanto o ser. Se o espaço é absolutamente pleno, não pode haver movimento. Com efeito: 1) o movimento espacial só pode ter lugar no vazio, pois o pleno não pode acolher em si nada que Ihe seja heterogêneo; se dois corpos pudessem ocupar o mesmo lugar no espaço, poderia haver uma infinidade deles, pois o menor poderia acolher em si o maior; 2) a rarefação e a condensação só se explicam pelo espaço vazio; 3) o crescimento só se explica porque o alimento penetra nos interstícios do corpo; 4) em um vaso cheio de cinza pode-se ainda derramar tanta água quanta se ele estivesse vazio, a cinza desaparece nos interstícios vazios da água. O não ser é, portanto, também o pleno, nastón (de nasso, ou aperto), o stereón. O pleno é aquilo que não contém nenhum Kenón. Se toda grandeza fosse divisível ao infinito, não haveria mais nenhuma grandeza, não haveria mais ser. Se deve subsistir um pleno, isto é, um ser, é preciso que a divisão não possa ir ao infinito. Mas o movimento demonstra o ser, tanto quanto o não-ser. Se somente o não ser existisse, não haveria movimento. O que resta são os átomos. O ser é a unidade indivisível. Mas, se esses seres devem agir uns sobre os outros pelo choque, é preciso que sejam de natureza idêntica. Demócrito afirma, portanto, como Pitágoras, que o ser deve ser semelhante a si mesmo em todos os pontos. O ser não pertence mais a um ponto do que a outro. Se um átomo fosse o que o outro não é, haveria um não-ser, o que é uma contradição. Somente nossos sentidos nos mostram coisas qualitativamente diferentes. São chamadas também idéai ou skhémata. Todas as qualidades são nómo, os seres só diferem pela quantidade. É preciso, pois, remeter todas as qualidades a diferenças quantitativas. Elas só se distinguem pela forma (rhysmós, skhéma), pela ordem (diathigé, táxis), peia posição (tropé, thésis). A difere de N pela forma, AN de NA pela ordem, Z de N pela posição. A principal diferença está na forma, que indica diferença de grandeza e de peso. O peso pertence a cada corpo (como medida de todas as quantidades). Como todos os seres são da mesma natureza, o peso deve pertencer igualmente a todos, isto é, à mesma massa, o mesmo peso. O ser, portanto, é definido como pleno, dotado de uma forma, pesado; os corpos são idênticos a esses predicados. Temos aqui a distinção que reaparece em Locke: as qualidades primárias pertencem às coisas em si mesmas, fora de nossa representação; não se pode fazer abstração delas; são: a extensão, a impermeabilidade, a forma, o número. Todas as outras qualidades são secundárias, produzidas pela ação das qualidades primárias sobre os órgãos de nossos sentidos, dos quais são apenas as impressões: cor, som, gosto, odor, dureza, moleza, polido, rugoso, etc. Pode-se, portanto, fazer abstração da natureza dos corpos na medida em que é apenas a ação dos nervos sobre os órgãos sensoriais. Uma coisa nasce quando se produz um certo agrupamento de átomos; desaparece quando esse grupo se desfaz, muda quando muda a situação ou a disposição desse grupo ou quando uma parte é substituida por outra. Cresce quando Ihe são acrescentados novos átomos. Toda ação de uma coisa sobre outra se produz pelo choque dos átomos; se há separação no espaço, recorre-se à teoria das aporrhoaí. Percebese, pois, que Empédocles foi utilizado a fundo, pois este havia discernido o dualismo do movimento em Anaxágoras e recorrido à ação mágica. Demócrito adota uma posição adversa. Anaxágoras reconhecia quatro elementos; Demócrito esforçou-se por caracterizá-los a partir de seus átomos da mesma natureza. O fogo é feito de átomos pequenos e redondos; nos outros elementos estão misturados átomos diversos; os elementos distinguem-se apenas pela grandeza de suas partes. É por isso que a água, a terra e o ar podem nascer um do outro por dissociação. Demócrito pensa, com Empédocles, que somente o semelhante age sobre o semelhante. A teoria dos poros e das aporrhoaí preparava a do kenón. O ponto de partida de Demócrito, a realidade do movimento, Ihe é comum com Anaxágoras e Empédocles, provavelmente também sua dedução a partir da realidade do pensamento. Com Anaxágoras, tem em comum os ápeira ou matérias originais. Naturalmente, é antes de tudo de Parmênides que ele procede, é este que domina todas as suas concepções fundamentais. Ele retorna ao primeiro sistema de Parmênides, segundo o qual o mundo se compunha de ser e de não-ser. Toma emprestado de Heráclito a crença absoluta no movimento, a idéia de que todo movimento pressupõe uma contradição e de que o conflito é o pai de todas as coisas.

O pensamento é um movimento. É a concepção mais terra-a-terra. Epicuro. tem-se. e esse todo é tão semelhante ao universo que temos sob os olhos que não posso impedir-me de tomá-lo por ele mesmo. uma hipótese cientificamente utilizável. esta hipótese. Não há acaso. da espécie mais comum. o que é de mesma natureza.. 48. A essência da alma reside em sua força animadora. embora não racionais. censurou-se desde a Antigüidade esse ponto de partida. o materialismo. em certo sentido. quando ela era ainda pequena e leve.. Demócrito. neste eles secam pouco a pouco e se inflamam pela rapidez do movimento (astros). certas partes sendo atraídas para o centro pela rotação. as partículas do corpo terrestre são pouco a pouco arrancadas pelos ventos e pelos astros e se acumulam em água nos ocos. é que uma massa produzida pelo choque de átomos heterogêneos se separou. a velocidade sendo desigual. Pouco a pouco ela tomou uma posição fixa no centro do universo. Os átomos centrais formam a terra. em um estágio antigo de sua formação. bem entendido. parte das qualidades reais da matéria. O movimento original é. Assim a terra se solidifica. Cada um desses conglomerados que se separam da massa dos corpos primitivos é um mundo. p. eles se encontram. como o espaço é infinito e a queda regular não há medida para essa velocidade. Esse turbilhão aproxima. Leucipo. Sinto o prazer de ver um todo bem ordenado nascer sem o auxílio de fábulas arbitrárias. A alma deve. vertical. movia-se de um lado para outro. pois. e eu vos farei um mundo' ". não há nem interrupção brusca nem intervenção estranha no curso natural das coisas. mas o ar que os leva é por sua vez levado em um rápido turbilhão. pelo choque. Eis como Demócrito se representa a formação de um mundo dado: os átomos flutuam. o fogo. O sol e a lua. História Natural do Céu. no começo. Estes nasceram e perecerão. as partes mais leves são empurradas para o alto. produz-se um movimento giratório. o ar. é esta que move os seres animados. efeitos que parecem os desígnios de uma sabedoria suprema. que o "acaso cego" reinaria entre os materialistas. Só então o pensamento se desprende de toda a concepção antropomórfica do mito. no espaço infinito. sob o efeito combinado de forças opostas. Esta é uma maneira muito pouco filosófica de se exprimir.23 De todos os sistemas antigos. A matéria que se move segundo as Ieis mais gerais produz. É um grande pensamento reconduzir às manifestações inumeráveis de uma força única. Cada vez que nasce um mundo. ultrapassar as forças mais simples. com o auxílio de um mecanismo cego. Essas partículas de fogo estão espalhadas por todo o corpo. Quando os átomos em equilíbrio são tão numerosos que não podem mais se mover. Nascimento dos seres animados. mas um conjunto de leis rigorosas. lisos e arredondados (de fogo). os outros permanecem juntos. pelo efeito de leis mecânicas bem conhecidas. Vejo as substâncias se formarem em virtude de leis conhecidas de atração e modificarem. não procura logo de início. Os átomos pesados caem e fazem subir os átomos leves com sua pressão. O que é preciso dizer é que há uma causalidade sem finalidade. dizendo que o mundo teria sido movido e teria nascido por "acaso".: ''Admito que a matéria de todo o universo está em um estado de dispersão geral e faço dele um perfeito caos. Estes se movem perpetuamente. sem muita imprudência: 'Dai-me a matéria. Como os átomos vieram a operar movimentos laterais. Do mesmo modo. não se pode indicar sua velocidade. a massa entra em rotação. o de Demócrito é o mais lógico: pressupõe a mais estrita necessidade presente em toda parte. há infinitos mundos. entre todos os átomos corporais se intercala um átomo de alma. de átomos sutis. Esse invólucro vai-se tornando cada vez mais fino. Não contestarei então que a teoria de Lucrécio ou de seus predecessores. todo esse universo cheio de ordem e de exata finalidade. Parece-me que se poderia dizer aqui. seu movimento. como se fossem expulsos. Por causa de sua sutileza e de sua mobilidade arriscam-se a serem arrancados do corpo pelo ar . isso seria equivalente ao repouso absoluto.. Alguns formam massas espessas. perpetuamente agitados. os elementos repelidos para fora depositam-se no exterior como uma película. aqueles que se elevam formam o céu. pois. anánke sem intenções. foram apanhados pelas massas que se moviam em torno do núcleo terrestre e desse modo viram-se atraídos para nosso sistema sideral. primeiramente. Demócrito deduz todo movimento do espaço vazio e do peso. Rosenkr. ser feita da matéria mais móvel. sempre foi da maior utilidade. tem muita analogia com a minha. uma queda regular e eterna no infinito do espaço. entrelaçando-se e formando uma espécie de conglomerado. como a hipótese do Nous ou as causas finais de Aristóteles. a formar turbilhões na regularidade das combinações que se faziam e se desfaziam? Se tudo caía na mesma velocidade. concursu quodam fortuito. enfim. os mais leves são repelidos para o vazio exterior.. Leia-se Kant. alguns são repelidos.

na verdade. Trata-se do mundo que é o nosso. como a encarnação do paganismo. quando atravessava o rio a cavalo. e todos os seus resultados permanecem verdadeiros para nós. aqui e ali. deduzir o único dado imediato. para cuja produção cooperamos sempre. podemos entretanto atribuir também a Demócrito uma grande diversidade de concepções. tudo aquilo que o materialismo considera como seu fundamento mais solido. Assim. foi reservado à nossa época negar também a grandeza filosófica do homem e atribuir-lhe um temperamento de sofista. se a alma é levada por esse movimento à temperatura conveniente. Isso não acontece em um instante. Todos esses ataques se desenrolam em um terreno que não podemos mais defender. percebe exatamente os objetos. o contrabando de seus escritos de magia e de alquimia. Tudo o que é objetivo. que o veneno já estava por demais alastrado. O sono . É aqui que começam as verdadeiras dificuldades do materialismo. e sem dúvida um século anticósmico devia considerar os escritos de Demócrito. o que imputou ao pai de todas as tendências racionais uma reputação de grande mágico. É disso que nos preserva a respiração. O divino Platão chegou mesmo a considerar seus escritos tão perigosos que pretendia destruí-los em um auto-de-fé privado e só foi impedido disso por considerar que já era tarde demais.. um tom desenvolto de homem do mundo e uma bela forma. que. Duas condições são necessárias: uma certa força da impressão e a afinidade do órgão que a recebe. A tradição não prova nada. . . pode ocorrer que a vida seja restaurada depois da desaparição de uma parte da alma.. potanto material. É de um tal dado que o materialismo quer. é raro que um escritor considerável tenha tido de sofrer tantos ataques devidos o razões diversas. mas. Teoria das percepções dos sentidos. . simplesmente para reparar os erros do passado para com ele. A percepção é idêntica ao pensamento. lembram Aristóteles e sua metropathía. O cristianismo nascente. que nos traz constantemente de fora novos átomos de fogo e de alma para substituir os átomos desaparecidos e que prende no interior do corpo aqueles que quereriam escapar. Mais tarde. introduzindo. agora. O contato não é imediato. opera-se por meio das aporrhoaí. Junta-se a isso a obscuridade em que nos encontramos a respeito de Leucipo. Somente o semelhante sente o semelhante. é uma representação cômoda nas ciências naturais. comparou-se o materialismo ao Barão de Crac (sic). sob sua marca. disso nasce a representação das coisas. o materialismo é uma hipótese preciosa e de uma verdade relativa. de repente. . Anotações sobre Demócrito Deveríamos a Demócrito muitos sacrifícios fúnebres. as representações são falsas e o pensamento é malsão. Por outro lado. a representação. todo dado objetivo é determinado de várias maneiras pelo sujeito pensante e desaparece totalmente quando se faz abstração do sujeito. Estas penetram no corpo pelos sentidos e espalham-se por todas as partes. que puxava para cima.24 circundante. .morte aparente. Não são indignos de Demócrito. Se o movimento a aquece ou a esfria excessivamente. do espaço e da causalidade. extenso. percebemos as coisas por meio das partes de nosso ser que Ihes são análogas. Os fragmentos de Moral (= Estudos Éticos) têm. os obscurantistas da Antigüidade se vingaram dele. o pensamento é sadio. suspendia sua montaria apertando-a entre as pernas e se suspendia a si mesmo por meio de sua peruca. É um problema psicológico saber se foi ele que os escreveu. mesmo depois que se descobriu o prõton pseudos. não passa de um dado extremamente mediato. É uma prodigiosa petição de princípios. Disso resulta a morte. Enfim. enquanto. o fogo interior escapa. um concreto extremamente relativo. Uma e outro são modificações mecânicas da matéria da alma. o último elo aparece como o ponto de partida de que já dependia o primeiro elo da corrente. se não no absoluto. Se este é o inventor da idéia principal. Com efeito. que passou pelo mecanismo do cérebro e acomodou-se às formas do tempo. porque ele próprio começa a sentir seu prõton pseudos. logrou executar o enérgico desígnio de Platão. agente. por um lado. O absurdo consiste em partir do dado objetivo. Se a respiração cessa. enfim. Não recendem a estoicismo nem a platonismo. Teólogos e metafísicos acumularam sobre seu nome suas acusações inveteradas contra o rmaterialismo. assim como os de Epicuro. graças às quais se apresenta como extenso no espaço e agente no tempo.

O Mal excluído de seu sistema. É o que prova sua própria descrição.. pois deixavam subsistir um elemento irracional. Vauvenargues diz com razão que os grandes pensamentos vêm do coração. se o homem é infeliz. uma abundância infinita de pontos de vista diversos. ao passar em revista os sistemas anteriores. mas sentimos sua força poética. é por não conhecer a natureza. aquilo que lhe parecia inteligível e simples. seu juízo sobre os poetas. Aversão ao bizarro. ele não perde o senso da poesia. Sentir-se liberto de todo Incognoscível. e a terra acaba por ser o que é. de uma completa clareza. sem dúvida. quase morrera de fome. Inquietações míticas: racionalismo. etc. O materialismo é o elemento conservador na ciência como na vida. Entretanto. Viagens. Queria sentir-se no mundo como em um quarto claro. conservou. . a queda e o choque. Demócrito é perfeitamente claro. Sentimento de um progresso poderoso. igualmente. Simplicidade do método. como um mendigo. Paz de espírito. que considera como profetas da verdade (isso Ihe parece um fato natural). pois. deve igualmente ser incluído entre os melancólicos. de seus raros predecessores. Uma plena virilidade do pensamento e da investigação aparece cm Demócrito. É na moral que está a chave da física de Demócrito. Inquietações políticas: quietismo. Os problemas mais profundos Ihe permanecem ocultos. Ele se atrela a este. A ética de Demócrito é conservadora. Assim o Sistema da Natureza começa nestes termos: "O homem é infeliz porque não conhece a natureza". Fé absoluta em seu sistema.25 Todos os materialistas pensam que. Sobre o problema da origem do mundo. pai do racionalismo. até o dia em que seus parentes tomam as dores do morto e em que se elevam monumentos em honra daquele que. É que sua vontade é a mola de sua investigação. a viver das esmolas de seu irmão. desprezado em vida. Demócrito. Uma seqüência infinita de anos. "Contenta-te com o mundo tal como é". Sobre a questão da criação do mundo. é o cânon moral que o materialismo produziu. Racionalista encarnado. É. Arrojo poético (poesia do atomismo). Recusam-lhe uma sepultura honrada. Inquietações morais: ascetismo. crê na capacidade liberadora de seu sistema e elimina dele tudo aquilo que é mau e imperfeito. reduzido. – É a meta de sua filosofia. Os sistemas anteriores não Ihe davam isso. esse Humboldt do mundo antigo. Pitágoras.aquilo que Ihe era homogêneo. Sente-se impelido a correr o mundo. Sua cidade natal o toma por um pródigo. Características do Pensamento de Demócrito Gosto pela ciência. Retorna pobre e sem recursos. Ele se desempenha com excessiva rapidez dos encargos de construir o mundo e a moral. Ainda não havia notado.. Eis por que ele procurou remeter tudo àquilo que é mais fácil de compreender. Não acreditamos nos contos. Clareza. Inquietações conjugais: adoção de filhos.. o espetáculo dos sacrifícios. acomodava à sua maneira os deuses. a cada mil anos uma pedrinha é juntada às outras. e condenou sem indulgência a intrusão de um mundo mítico. o que quer é terminá-la e atingir o conhecimento último. um racionalista confiante. Aitíai. resultado do estudo cientifico. A meta é o otium litteratum: "ter a paz" Demócrito. ele foi. e é isso que Ihe dá sua segurança e sua confiança em si.

. então é possível que este fragmento também seja apócrifo. que era um dos maiores escritores da Antigüidade. Apolodoro de Quizico. Em uma das principais obras. cumpre-nos encontrar um espaço para Leucipo entre eles [Demócrito] e Zenão. bem como. Isto deve-se ao fato de ele ter escrito em Abdera. através dos scus fragmentos. Isto esclarece o seu conhecimento geométrico. Como Protágoras. detestavam qualquer tipo de estudo. Ao contrário de Sócrates. Isto pode referir se à explicação dos eclipses. Os epicuristas. Mesmo isso não foi suficiente para preservá-las. isto ocorrera. Por isso. sabemos menos a seu respeito do que de Sócrates. que Demócrito falou nas obras das doutrinas de Parmênides e Zenão. pois era também jônio do Norte. e a expressão "jovem" sugere menos que esta idade. Como Sócrates. Um membro posterior da escola. com a idade de noventa ou cem anos. não sabemos. por outro lado. Fez menção a Anaxágoras. ainda que Demócrito naturalmente estivesse ciente de ser ela pitagórica. Diz-se ter visitado o Egito.26 Demócrito e suas Teorias Demócrito fez uma tentativa bem independente de reconstrução. levantadas pelo seu concidadão Protágoras e outros. Demais. ao qual também os sofistas deram impulsos. fazer uma edição das obras de Demócrito. porém. Quanto à data do seu nascimento. que as obras completas de Demócrito (que incluem as obras de Leucipo e outros. porém. visto estar baseado na hipótese de que tinha quarenta anos quando se encontrou com Anaxágoras. são facilmente explicadas pelas influências pitagóricas que afetaram a ambos.C. entretanto. era natural de Abdera na Trácia. Há um outro (fragmento 116) no qual ele diz: "Eu fui a Atenas e ninguém tomou conhecimento de mim". É certo. seu contemporâneo. Parece. de fato. deu grande atenção ao problema do comportamento. ele deve ter despendido a maior parte do seu tempo no estudo. afirmou que elas foram escritas 730 anos após a queda de Tróia. a de Glauco de Régio. Não é certo que Platão haja conhecido alguma coisa sobre Demócrito. e as suas obras na realidade nunca foram bem conhecidas em Atenas. Demócrito foi discípulo de Leucipo. o que parece muito provável. Não era um sofista itinerante do tipo moderno. Demétrio de Falerão afirmou que Demócrito jamais visitou Atenas. Aristóteles. outrossim. é falso classificar Demócrito entre os predecessores de Sócrates. sem dúvida deu a entender que não conseguira causar uma impressão tal como o fizera o seu mais brilhante concidadão Protágoras. que chegou a conhecê-las através de Leucipo. Por outro lado. e nós ainda podemos constatar. e provavelmente nem se preocuparam em multiplicar os exemplares de um escritor cujas obras teriam sido um testemunho permanente para a carência de originalidade que caracterizou o próprio sistema deles. conhece bem Demócrito. uma cidade que nem mereceria a reputação proverbial de embotamento. ele tentou responder ao seu distinto concidadão Protágoras. considerando que pode dar origem a dois homens de tanta envergadura. Sabemos. é como se não tivesse escrito quase nada. Se Demócrito morreu. da mesma forma que ele. outros aspectos do seu sistema. como se diz. contudo. exatamente como sua edição dos diálogos de Platão. e sem dúvida alguma na Jonia. ele era jovem. a Anaxágoras. Mesmo a partir de fundamentos meramente cronológicos. sob o reinado de Tibério. Seja como for. quando Anaxágoras era velho. mas há uma certa razão para se acreditar que o fragmento onde isto é mencionado (fragmento 298 b) é apócrifo. organizada em tetralogias. temos apenas conjeturas para nos orientar. no qual parece que o reproduz. Para nos. que tinham a obrigação de ter estudado o homem a quem deviam tanto. defrontou-se com as dificuldades referentes ao conhecimento. que geralmente fora atribuída em Atenas. e parece ter dito que a sua teoria do sol e da lua não era original. como aquelas de Anaxágoras e outrem. pois que as poucas passagens no Timeu e alhures. e temos uma prova contemporânea. como Sócrates. Se disse isto. ensinando e escrevendo em Abdera. bem como as de Demócrito) continuaram a existir. mas sim o cabeça de uma escola regular. segundo a suposição dele. onde teriam tido a possibilidade de serem preservadas. porquanto a escola as conservou em Abdera e Teos ao longo dos tempos helenísticos. na biblioteca da Academia. quando. Havia nessa época e posteriormente diversas eras em uso. ele era um autor volumoso. Disse também algures que. e. que também os pitagóricos foram seus mestres. foi possível para Trasilo. cedo demais. diz que tomou conhecimento por intermédio de Filolau. Sabemos extremamente pouco sobre a vida de Demócrito. e obscurece o fato de que. e a partir dai concluiu-se que nasceu em 460 a. de qualquer maneira ainda vivia quando Platão fundara a Academia. não obstante.

Pertence inteiramente a uma outra geração que a desses homens. não podemos vê-las de modo algum. que asseverou serem todas as sensações igualmente verdadeiras para o objeto sensível." Não podemos conhecer a realidade deste modo. apesar de não haver razão de se acreditar que ele tenha elaborado uma teoria sobre o assunto. todavia. Aristóteles afirma que Demócrito reduziu todos os sentidos ao tato. que acima foi descrito. e é provável que ele seja o autor da doutrina minuciosa dos átomos com respeito a este assunto. e o olfato explica-se semelhantemente. e era isto que exigia uma solução. foinos preservada através de suas próprias palavras. as cores. e é realmente verdade se entendermos por tato o sentido que percebe qualidades. As diferenças de cor devem-se à lisura ou aspereza das imagens ao tato. Chegou. o molhado e o seco e outros que tais. cuja verdadeira natureza não pode ser apreendida pelos sentidos próprios. o problema do comportamento tornara-se premente. Se não houvesse ar. tais como forma. Menos ainda está no seu sistema cosmológico. pois "a verdade jaz num abismo" . "poderíamos ver uma formiga rastejando no firmamento". e os órgãos dos sentidos devem ser simplesmente ''passagens" (póroi = poros) através das quais estes átomos se introduzem. que deriva mormente de Anaxágoras. pois está sujeita às distorções causadas pela interferência do ar. deve ser cautelosamente distinguido do sentido próprio do tato.27 A verdadeira grandeza de Demócrito não está na teoria dos átomos e do vazio. se a distância for grande. mas somente o vazio. porém. "Por convenção (nómo)": disse ele (fragmento 125). De modo idêntico. naturalmente. e é bastante idêntico a Leucipo que disse algo de parecido. por convenção há a cor. O som é uma torrente de átomos que jorram do corpo sonante e produzem movimento no ar entre ele [corpo] e o ouvido. temos que considerar a doutrina do conhecimento "legítimo" e "ilegítimo". considera falsas todas as sensações dos sentidos próprios. na realidade (etee). e por que. considerado como o sentido pelo qual sentimos o calor e o frio. skhémata) dos átomos que entram em contato com os órgãos desse sentido. afirmou Demócrito (fragmento 9). A possibilidade de ciência havia sido negada. Uma vez que a alma se compõe de átomos como qualquer outra coisa. A questão à qual tinha que se dedicar era a de sua própria época. a sensação deve consistir no impacto dos átomos externos sobre os átomos da alma. sensações não representam nada de externo. entre nós e os objetos da visão. é afetado de acordo com a forma e o tamanho dos átomos chocando nele. está precisamente na mesma linha que a de Sócrates. por convenção há o amargo. As diferenças de paladar são devidas às diferenças nas figuras (eide. pelo contrário. Sua doutrina. apesar de serem causadas por algo fora de nós. Esta é a razão por que a mesma coisa às vezes dá a sensação de doce e às vezes de amargo. isto não seria assim. "nós na verdade não conhecemos nada de certo. que ele parece ter exposto bem conforme a tinha recebido de Leucipo. felizmente. A imagem na pupila do olho era considerada como a coisa essencial em visão. por convenção há o quente e por convenção há o frio. Teoria do Conhecimento Demócrito procedeu como Leucipo ao fazer uma avaliação puramente mecânica da sensação. A originalidade de Demócrito. ao ouvido junto com aquelas porções do ar que se Ihe assemelham. "Pelos sentidos". as nossas que muda de acordo com a disposição do corpo e das coisas que nele penetram ou Ihe opõem resistência. A audição explica-se de uma maneira similar. Demócrito foi obrigado a ser explícito com referência à questão. Deveras. Ademais. Para compreender esta questão. Seguindo o exemplo de Protágoras. o som e outros semelhantes eram apenas "nomes" (onómata). e não está preocupado de modo especial em encontrar uma resposta a Parmênides. Parmênides afirmara claramente que o paladar. Nisto. mas as "imagens" (deíkela. tamanho e peso. o tato. Disto decorre que os objetos da visão não são estritamente as coisas que nós mesmos presumimos ver. mas somente alguma coisa "há o doce. Este. eídola) que os corpos estão constantemente emitindo. embora não com os mesmos detalhes. está em conformidade com a tradição eleática onde repousa a teoria atômica. portanto. É aqui que Demócrito entra nitidamente em conflito com Protágoras. Não é. bem como todo o problema do conhecimento levantado por Protágoras. portanto. há os átomos e o vazio. Este é o motivo por que vemos as coisas a distância de um modo embaraçado e indistinto. Demócrito. posto que elas não têm uma contrapartida real fora do objeto sensível. uma semelhança exata do corpo do qual provém." Porém.

a doutrina da felicidade ensinada por Demócrito é intimamente afim com a de Sócrates. Sexto Empírico e Plutarco afirmaram claramente que Demócrito argüiu contra Protágoras. porém. rejeita a sensação como fonte de conhecimento. como foi dito. Foi utilizado livremente por Sêneca e Plutarco. cujo teorema foi demonstrado primeiro por Eudoxo. o paladar e o tato. Segundo um comentário de Arquimedes. é "não mais tal do que tal" (oudèn mãllon toion è toion). se pudéssemos restabelecê-las integralmente. ele o confirma desta forma: "Se um cone fosse cortado por um plano em linha paralela à base. Vê-se que esta doutrina tem muito em comum com a distinção moderna entre as qualidades primárias e secundárias da matéria. a alma é a moradia do daímon " (fragmento 171). que ele estava empenhado em problemas tais como aqueles que finalmente deram origem ao método infinitesimal do próprio Arquimedes. ter certeza sobre quais dos preceitos morais a ele atribuídos são genuínos. da mesma natureza do "ilegítimo". O legítimo. nem em ouro. que os átomos fora de nós poderiam afetar diretamente os átomos da nossa alma sem a intervenção dos órgãos dos sentidos. "O melhor para o homem é levar a vida com o máximo de alegria e o mínimo de aborrecimentos" (fragmento 189). embora dê mais ênfase ao prazer e à dor. e Demócrito recusou-se. exatamente como fizeram os pitagóricos e Sócrates. é tanto amargo quanto doce. por exemplo. pois. então as partes cortadas serão iguais." O conhecimento "legítimo" não é. parece que Demócrito prosseguiu afirmando que o volume do cone era a terça parte do volume do cilindro sobre a mesma base e do mesmo peso. tem sido usada no sentido equivalente de "boa sorte". Teoria do Comportamento As concepções de Demócrito sobre o comportamento seriam até mais interessantes do que a sua teoria do conhecimento. o aspecto individual de týkhe. diz ele (fragmento 11). como Sócrates. "Há". [O tratado] partia (fragmento 4) do princípio de que o prazer e a dor (térpsis e aterpsíe) são o que determina a felicidade. que significava propriamente um espírito protetor do homem. É. que é composto de círculos iguais e não desiguais. a fazer uma separação absoluta entre os sentidos e o conhecimento. "duas formas de conhecimento (gnóme): o legítimo (gnesíe) e o ilegítimo (skotíe). doce para mim e amargo para você. chegando assim a conhecê-los como realmente são. mas uma espécie de sentido interno. "é por causa de nós que conseguiste as provas com as quais atiras contra nós. Se forem iguais. ressalva a possibilidade de ciência. Para compreender isto. a audição. apesar de tudo. devemos lembrar que a palavra daímon. imagina ele os sentidos dizerem (fragmento 125). farão irregular o cone. e seus objetos são como os "sensíveis comuns" de Aristóteles. Vemos mais uma vez como foi importante a obra de Zenão como um fermento intelectual. pois. Na realidade.28 (fragmento 117). porém. o que se deveria pensar das superfícies das duas partes cortadas? Seriam iguais ou desiguais? Se forem desiguais. Teu tiro é uma capitulação. Defendeu. É muito difícil. Demócrito. o olfato. "Pobre Mente". Como seria de esperar de um seguidor dos pitagóricos e de Zenão. De um lado. pois ele terá muitas incisões em forma de degraus e muitas asperezas. o que é o maior absurdo". por conseguinte. não se pode ignorar que Demócrito dera uma explicação puramente mecânica deste conhecimento legítimo. É evidente. Em uma passagem digna de nota (fragmento 155). O "conhecimento legítimo" é. . Os átomos da alma não se restringem a algumas partes específicas do corpo. afinal de contas. como eles. afirmando que existe uma outra fonte de conhecimento que não a dos sentidos próprios. e alguns fragmentos importantes do tratado sobreviveram. Ele diz que o mel. pois. está separado daquele. Isto quer dizer fundamentalmente que a felicidade não deve ser procurada nos bens exteriores. pensamento. Não há dúvida de que o tratado Sobre a Boa Disposição ou Bem-Estar (Perí Euthymíes) era seu. com efeito. Ao ilegítimo pertencem todos estes: a visão. "A felicidade não reside em rebanhos. como o fizera do ilegítimo. Demócrito ocupou-se com o problema da continuidade. e não há nada que os impeça de ter contato imediato com os átomos externos." Esta é a resposta de Demócrito a Protágoras. Ao mesmo tempo. mas nele penetram em qualquer direção. e o fato. e o cone terá a aparência de um cilindro. está fora da discussão. e a palavra grega que traduzimos por "felicidade" (eudaimonía) baseia-se neste uso. contudo.

Além disso. porém. Para atingi-lo. como Leucipo houvera feito. Por outro lado. até então limitado à natureza exterior. nesse período realiza-se a sua grande e lógica sistematização. e é muito duvidoso se de fato conhecemos as suas idéias mais profundas.teve duração bastante curta. como Sócrates. que "a ignorância do melhor" (fragmento 83) é a causa do erro. não em torno da natureza. hedonismo vulgar. que fixam o conceito de ciência e de inteligível. substancialmente. o único fato importante com referência a Demócrito é que ele também sentiu a necessidade de uma resposta a Protágoras. se fosse preciso uma demonstração. cujo sossego se deve procurar principalmente nos bens da alma. cuja concepção Sócrates rejeita enfaticamente. poderemos alcançar o sossego. Este. as nossas informações são extremamente escassas para possibilitar mesmo uma reconstrução aproximada do seu sistema. e compreende um número relativamente pequeno de grandes pensadores: os sofistas e Sócrates. julgar e discernir o valor dos diferentes prazeres. O que temos dele foi preservado principalmente porque ele foi um grande criador de frases notáveis. o século IV a. o corpo). Com efeito. que é a alegria. Os homens puseram a culpa na sorte. É possível que tenham sido abandonadas à ruína porque Demócrito chegara a compartilhar do descrédito que o prendera aos epicureus. A idéia da forma esférica da Terra era amplamente difundida na época de Demócrito. o sossego do corpo. e Sócrates é descrito no Fédon tomando-a por certa. Tem-se a impressão de que ele se situa à parte da corrente principal da filosofia grega. de preferência. Para Demócrito.29 Isto não é. Abraça. Demócrito parece ter contribuído valiosamente à ciência natural. e é a esta que devemos agora retornar. Ela é totalmente retrógrada e demonstra.depois do qual começa a decadência . daí derivando as chamadas escolhas socráticas menores.C. O que devemos nos esforçar por conseguir é o "bem-estar" (euestó) ou a "alegria" (euthymíe). Os Sofistas Período Sistemático O segundo período da história do pensamento grego é o chamado período sistemático. que é a saúde. escolhe os humanos" . Ele também aderiu a Anaxágoras defendendo que a Terra era sustentada no ar "como a tampa de uma tina". Os prazeres dos sentidos são prazeres verdadeiros tão breves como as sensações são verdadeiro conhecimento. e este é um estado da alma. mas em torno do homem e do espírito. A perda da edição completa das suas obras feita por Trasilo é talvez a mais deplorável das muitas perdas desse tipo. quanto ao resto. Daí ser dado a esse segundo período do pensamento grego também o nome de antropológico. que foi um verdadeiro gênio neste campo. pitagórico. Para o nosso presente objetivo. "O bom e o verdadeiro são a mesma coisa para todos os homens. sendo principais a cínica e a cirenaica. "Quem escolhe os bens da alma. Ao mesmo tempo. 0 grande principio que nos deve guiar é o da "simetria" ou "harmonia". Este é. Nós somente podemos ter certeza de superar a dor pelo prazer se não procurarmos os nossos prazeres nas coisas "mortais" (fragmento 189). O interesse dos filósofos gira. pela importância e o lugar central destinado ao homem e ao espírito no sistema do mundo. mas esta é apenas uma "imagem" que inventaram para justificar a sua própria ignorância (fragmento 119). Deve ter conhecido ainda o sistema mais cientifico de Filolau. a Terra era ainda um disco. e o sossego da alma. que o seu real interesse está em outro sentido. quem escolhe os bens do 'tabernáculo' (isto é. (fragmento 37). através de Sócrates e Platão. não podemos deixar de reconhecer que é sobretudo pelo seu mérito literário que lamentamos a perda das obras.. sem dúvida. e através também da precedente crise cética da sofística. porém. que foram dignas de constar nas antologias. não é o tipo de material que se requer para a interpretação de um sistema filosófico. devemos ser capazes de ponderar. do estoicismo e do escolhe os mais divinos. Infelizmente. precursoras. Esse período esplêndido do pensamento grego . Ele herdara a teoria dos átomos e do vazio de Leucipo. não é necessário discutir detalhadamente a cosmologia de Demócrito. culminando em Aristóteles. respectivamente. Do nosso ponto de vista. da metafísica passa-se à gnosiologia e à moral. e. contentou-se em adotar a crua cosmologia dos jônios. os prazeres dos sentidos são de duração demasiado curta para preencher uma vida. e facilmente se transformam ao contrário. Demócrito afirmou. mas o agradável é diferente para gente diferente" (fragmento 69). Se aplicarmos este critério aos prazeres.

a sofística sustenta o relativismo prático. Os sofistas maiores foram quatro. animal. Os sofistas. portanto. A moral. Seria. interessado. por conseguinte. não a natureza humana racional. a cultura. atenienses. deles procedendo a Academia e o Liceu . na verdade tão mutável conforme os tempos e os lugares. Platão e Aristóteles. mas sobejamente retribuído. . Quanto ao direito e à religião. Diversamente dos filósofos gregos em geral. segundo o ideal dos sofistas. pois a verdadeira justiça conforme à natureza material. não está na ação ética e ascética. uma enciclopédia. aliás. É esta. pois grandes malvados. bem como a sua utilidade comumente celebrada: não é verdade . quer política. E visto que o domínio pessoal. como a lei que potencia profundamente a natureza humana. Os menores foram uma plêiade. à paixão de cada um em cada momento. muitas vezes arbitrário. Então a realização da humanidade perfeita. portanto. têm freqüentemente conseguido grande êxito no mundo e. contingente. tornaram-se mestres de eloqüência. mortificador. portanto. mas a natureza humana sensível. e entendendo por natureza. E tentam criticar a vaidade desta lei.é concebida pelos sofistas não como lei racional do agir humano. Ao sensualismo. a posição da sofística é extremista também. desinteressado.pode-se dizer . instintiva. houve um triunfo político da democracia. Mas este direito natural . quer moral. devia ter a oratória e. no domínio de si mesmo.apesar de o aristotelismo ter superado logicamente o platonismo. A sofística move uma justa crítica. visto estes bens serem limitados e ambicionados por outros homens. que sobreviverão também no período seguinte e além ainda. chefe de escola e teórico da sofística.que a submissão à lei torne os homens felizes. Esse domínio violento é necessário para possuir e gozar os bens terrenos. a única forma de vida social possível num mundo em que estão em jogo unicamente forças brutas. Moral.30 epicurismo do período seguinte. o ensinamento dos sofistas não era ideal. Desta maneira. Protágoras foi o maior de todos. tirânico. como na gnosiologia e na moral. oprima o fraco em seu proveito. A época de ouro da sofística foi . superficial. ao impulso.C. os sofistas estabelecem uma oposição especial entre natureza e lei. assim é bem o que satisfaz ao sentimento. a única regra de conduta é o interesse particular. a Atenas de Péricles. O conteúdo desse ensino abraçava todo o saber. A Sofística Após as grandes vitórias gregas. depende da capacidade de conquistar o povo pela persuasão. O centro foi Atenas. considerando a lei como fruto arbitrário. em nome do direito natural. mas como meio para fins práticos e empíricos e. a sua força. continuando até depois de Sócrates. ensinando aos homens ávidos de poder político a maneira de consegui-lo. um prejuízo a igualdade moral entre os fortes e os fracos. mediante graves crimes. compreende-se a importância que. mas como um empecilho que incomoda o homem. em situação semelhante. e em seus desenvolvimentos neoplatônicos em especial . que a causa seja justa ou não. Direito e Religião Em coerência com o ceticismo teórico.a segunda metade do século V a. aliás. mas prudência e habilidade. isto é. Górgias declara plena indiferença para com todo moralismo: ensina ele a seus discípulos unicamente a arte de vencer os adversários. de retórica. os mestres de eloqüência. especialmente a Academia por motivos éticos e religiosos. de repente. como acontece todas as vezes que o povo sente. não lhe interessa. embora sem importância filosófica. o poderoso. contra o império persa. uma pura convenção. materiais. exige que o forte. destruidor da moral. contra o direito positivo. capital democrática de um grande império marítimo e cultural. mas no engrandecimento ilimitado da própria personalidade. não para si mesma. naturalmente. a experiência ensina que para triunfar no mundo.bem como a moral . ao empirismo gnosiológicos correspondem o hedonismo e o utilitarismo ético: o único bem é o prazer.como norma universal de conduta . na justiça para com os outros. não é mister justiça e retidão. em tal regime. sequiosos de conquistar fama e riqueza no mundo. Como é verdadeiro o que tal ao sentido.dizem . destruidor da ciência. no prazer e no domínio violento dos homens.

escultor. No Górgias de Platão. não na sua realidade física. sutis uns. os sofistas não só trilham a mesma senda dos filósofos racionalistas gregos do período precedente e posterior.segundo os sofistas. passional. é mais ou menos o que acontece com o jornalismo moderno. ensinando na sua cidade natal. parteira. Os sofistas. até o ateísmo. até estabelecer-se em Larissa na Tessália. em outras cidades da Grécia.representa a maior expressão prática da sofística.). se a conhecêssemos não a poderíamos manifestar aos outros. outros pueris. não é o direito fundado sobre a natureza racional do homem. pelo menos praticamente. A respeito da religião e da divindade. dos quais. na Sicília. e especialmente em Atenas. Em suma. e sim sobre a sua natureza animal. mas . não obstante sua pobreza. segundo a via real do pensamento grego. Platão deu o nome de Protágoras a um dos seus diálogos. . em 480-375 a. inferiu Protágoras a relatividade do conhecimento. para negar que o mundo seja governado por uma providência divina. Em 427 foi embaixador de sua pátria em Atenas. cuja escola conheceu . o único sistema jurídico admissível. foi Sócrates. Dos princípios de Heráclito e das variações da sensação. instintiva. foi um filósofo ocasional.correlacionado com Empédocles .pátria de Demócrito . Refugiou-se então na Sicília. Então. relativismo e sensualismo são as notas características do seu sistema de ceticismo parcial. para pedir auxílio contra os siracusanos. A prova de cada uma destas proposições e um enredo de sofismas. em Atenas. teoricamente. se alguma coisa existisse não a poderíamos conhecer. e a um outro o de Górgias.de harmonia com o ceticismo deles . Desempenhou alguns cargos políticos e foi sempre modelo irrepreensível de bom cidadão. Aprendeu a arte paterna.. Nasceu Sócrates em 470 ou 469 a. Combateu a Potidéia. pois em uma sociedade em que estão em jogo apenas forças brutas. orientando-a para os valores universais. onde carregou aos ombros a Xenofonte. Protágoras recorre à convenção estatal. porém. partiu dos princípios da escola eleata e concluiu também pela absoluta impossibilidade do saber. Subjetivismo. social. e foi honrado e procurado por Péricles e Eurípedes.C. Esta doutrina enunciou-a com a célebre fórmula. Ensinou na Sicília. Górgias declara que a sua arte produz a persuasão que nos move a crer sem saber.C .chegam até o extremo. Górgias de Leôncio Górgias nasceu em Abdera. onde teria morrido com 109 anos de idade. e não a persuasão que nos instrui sobre as razões intrínsecas do objeto em questão. É autor duma obra intitulada "Do não ser". conforme as disposições subjetivas dos órgãos. teve de fugir de Atenas. porém. filho de Sofrônico. exagerador dos artifícios da dialética eleática. pois. sobretudo entre os jovens. na Magna Grécia. mas na sua forma conhecida. Esta máxima significava mais exatamente que de cada homem individualmente considerado dependem as coisas. onde salvou a vida de Alcebíades e em Delium. sem recompensa alguma. em Atenas. servem-se da injustiça e do muito mal que existe no mundo. Protágoras de Abdera Protágoras nasceu em Abdera . quarenta dedicados à sua profissão. na qual desenvolve as três teses: Nada existe. Menos profundo. mais eloqüente que Protágoras. Viajou por toda a Grécia. que deveria estabelecer o que é verdadeiro e o que é bem! Sócrates A Vida Quem valorizou a descoberta do homem feita pelos sofistas. o direito natural é o direito do mais poderoso. Acusado de ateísmo. onde morreu com setenta anos (410 a.31 natural .C. negador dos valores teoréticos e morais. mas dedicou-se inteiramente à meditação e ao ensino filosófico. e de Fenáreta. Para remediar este extremo individualismo. a força e a violência podem ser o único elemento organizador. onde foi processado e condenado por impiedade. onde teve grande êxito. e a sua obra sobre os deuses foi queimada em praça pública.pelo ano 480. mediante o ensinamento da retórica. o homem é a medida de todas as coisas.

irônica e a conseqüente educação por ele ministrada. com 71 anos de idade.diversamente dos sofistas. depois de ter sorvido tranqüilamente a cicuta. podemos dizer que Sócrates não teve. mas também ela não teve um marido ideal no filósofo. ocupado com outros cuidados que não os domésticos. a sua atitude crítica. conservou-se afastado da vida pública e da política contemporânea. temperados . Praticamente. Tinha ele diante dos olhos da alma não uma solução empírica para a vida terrena. É a ironia socrática. declarando não querer absolutamente desobedecer às leis da pátria. recusou. conforme se tratava de um adversário a confutar ou de um discípulo a instruir. determinando o verdadeiro objeto da ciência. é o inteligível. que agiam para o próprio proveito e formavam grandes egoístas. assumia humildemente a atitude de quem aprende e ia multiplicando as perguntas até colher o adversário presunçoso em evidente contradição e constrangê-lo à confissão humilhante de sua ignorância. E preferiu a morte. foram: "Devemos um galo a Esculápio". Sócrates. na exposição polêmica e didática destas idéias.32 gravemente ferido. que vai do fenômeno à lei. o particular. a feição austera de seu caráter. Sócrates desdenhou defender-se diante dos juizes e da justiça humana. E passou o tempo preparando-se para o passo extremo em palestras espirituais com os amigos. humilhando-se e desculpando-se mais ou menos. criaram descontentamento geral. Anito e Licon: de corromper a mocidade e negar os deuses da pátria introduzindo outros. Entretanto. Tendo que esperar mais de um mês a morte no cárcere . Este conceito ou idéia geral obtém-se por um processo dialético por ele chamado indução e que consiste em comparar vários indivíduos da mesma espécie. que remonta do indivíduo à noção universal. Suas últimas palavras dirigidas aos discípulos. multiplicava ainda as perguntas. que contrastavam com o seu temperamento crítico e com o seu reto juízo. No segundo caso. aparecia Sócrates como chefe de uma aristocracia intelectual. capazes unicamente de se acometerem uns contra os outros e escravizar o próximo. que o condenou à pena capital com o voto da maioria. vivendo justamente e formando cidadãos sábios. Quanto à família. a natureza. na acusação movida contra ele por Mileto. hostilidade popular. concluíram os sofistas pela impossibilidade absoluta e objetiva do saber. o conceito que se exprime pela definição. bem como de certos elementos racionários. eliminar-lhes as diferenças individuais.C. tratando-se de um discípulo (e era muitas vezes o próprio adversário vencido). porém. Especialmente famoso é o diálogo sobre a imortalidade da alma . Inteiramente absorvido pela sua vocação. que revestia uma dúplice forma. Diante da tirania popular. assentou-se com indômita fortaleza de ânimo diante do tribunal. honestos. o indivíduo que passa. uma mulher ideal na quérula Xantipa. a liberdade de seus discursos. a essência da coisa. Declarado culpado por uma pequena minoria. Sócrates adotava sempre o diálogo. O objeto da ciência não é o sensível. Por onde se vê que a indução socrática não tem o caráter demonstrativo do moderno processo lógico. Sócrates restabelece-lhe a possibilidade. na moldura da alta cultura ateniense da época. apesar de sua probidade. mas é um meio de generalização. inimizades pessoais. Quanto à política. para a imortalidade. dirigindo-as agora ao fim de . Mas. Formou a sua instrução sobretudo através da reflexão pessoal. em contato com o que de mais ilustre houve na cidade de Péricles. as qualidades mutáveis e reter-lhes o elemento comum.pois uma lei vedava as execuções capitais durante a viagem votiva de um navio a Delos .que se teria realizado pouco antes da morte e foi descrito por Platão no Fédon com arte incomparável. tomou forma jurídica. No primeiro caso. Morreu Sócrates em 399 a. por certo. Insistindo no perpétuo fluxo das coisas e na variabilidade extrema das impressões sensitivas determinadas pelos indivíduos que de contínuo se transformam. permanente. estável. Julgava que devia servir a pátria conforme suas atitudes. em geral. não se deixou distrair pelas preocupações domésticas nem pelos interesses políticos. É que o deus da medicina tinha-o livrado do mal da vida com o dom da morte. e sim o juízo eterno da razão. Esse estado de ânimo hostil a Sócrates concretizou-se. foi ele valoroso soldado e rígido magistrado. Método de Sócrates É a parte polêmica.o discípulo Criton preparou e propôs a fuga ao Mestre.

justo será o que sabe a justiça". É a parte culminante da sua filosofia. nem sempre é fácil discernir o fundo socrático das especulações acrescentadas por ele. Em teodicéia. sugere quase sempre a utilidade como motivo e estímulo da virtude. pelo contrário. a existência de uma lei natural independente do arbítrio humano. Com efeito. governa o mundo com sabedoria e o homem pode propiciá-lo com sacrifícios e orações. que facilitava a parturição das idéias. sensitivo e intelectual. Esta doutrina. uma das mais características da moral socrática. Xenofonte. Sublime nos lineamentos gerais de sua ética. em seus Ditos Memoráveis. E exprime-se no famoso lema conhece-te a ti mesmo . pode-se dizer que Sócrates é o protagonista de todas as obras platônicas embora Platão conhecesse Sócrates já com mais de sessenta anos de idade. virtude e ciência. uma definição geral do objeto em questão. também inteligente deve ser a causa que o produziu. fim supremo do homem. que a promulgou e sancionou. não entendeu o pensamento filosófico de Sócrates. Platão. denominava ele maiêutica ou engenhosa obstetrícia do espírito. Sócrates aceita em muitos pontos os preconceitos da mitologia corrente que ele aspira reformar. é conseqüência natural do erro psicológico de não distinguir a vontade da inteligência. o centro para o qual convergem todas as partes da filosofia. em geral. apenas esboçado. O perfeito conhecimento do homem é o objetivo de todas as suas especulações e a moral. Sócrates professa a espiritualidade e imortalidade da alma. espiritual. devemo-las especialmente aos seus dois discípulos Xenofonte e Platão . Como os sofistas. A virtude adquiri-se com a sabedoria ou. em memória da profissão materna. As notícias que temos de sua vida e de seu pensamento. é a prática da virtude. formulando claramente o princípio: tudo o que é adaptado a um fim é efeito de uma inteligência. com finalidades práticas. pedreiro o que sabe edificar. da causa eficiente: se o homem é inteligente. identificando a vontade com a inteligência. c) com o argumento moral: a lei natural supõe um ser superior ao homem. Sócrates reconhece também. universal. que se concretizava.o lema em que Sócrates cifra toda a sua vida de sábio. morais. Sócrates ensina a bem pensar para bem viver. "Conhece-te a ti mesmo" . Sócrates. mas é também Providência. um legislador.33 obter. não obstante a sua devoção para com o mestre e a exatidão das notícias. fonte primordial de todo direito positivo. Como é sabido. Deus não só existe. autor de Anábase. mas não define o livre arbítrio. de estilo simples e harmonioso. um conceito.isto é. estabelece a existência de Deus: a) com o argumento teológico.como sendo o ápice da sabedoria. a respeito da metafísica. A psicologia serve-lhe de preâmbulo. Seja como for. b) com o argumento. expressão da vontade divina promulgada pela voz interna da consciência. Sócrates não deixou nada escrito. Conclusão: grandeza moral e penetração especulativa. . legou-nos de preferência o aspecto prático e moral da doutrina do mestre. acima das leis mutáveis e escritas. por indução dos casos particulares e concretos. em prática. distingue as duas ordens de conhecimento. ignorância e vício são sinônimos. com ela se identifica. mas sem profundidade. torna-te consciente de tua ignorância . se personificava na voz interior divina do gênio ou demônio. A este processo pedagógico. E alcançava em Sócrates intensidade e profundidade tais. Doutrinas Filosóficas A introspecção é o característico da filosofia de Sócrates. Esta feição utilitarista empana-lhe a beleza moral do sistema. Xenofonte. Gnosiologia O interesse filosófico de Sócrates volta-se para o mundo humano. sendo mais um homem de ação do que um pensador. bem como o seu biógrafo genial. ele é cético a respeito da cosmologia e. Apesar destas doutrinas elevadas. Moral. a teodicéia de estímulo à virtude e de natural complemento da ética. "Se músico é o que sabe música. que é o desejo da ciência mediante a virtude. Em psicologia. cabe-lhe a glória e o privilégio de ter sido o grande historiador do pensamento de Sócrates. antes. de feição intelectual muito diferente. O meio único de alcançar a felicidade ou semelhança com Deus. foi filósofo grande demais para nos dar o preciso retrato histórico de Sócrates.

totalmente. em particular da ciência moral. portanto. do teorético. no entanto. lei positiva. cumpre desembaraçar o espírito dos conhecimentos errados. se o fim da filosofia é prático. A única ciência possível e útil é a ciência da prática. tradição. Entretanto.realizando-se o bem mediante a virtude. por conseguinte.patenteiam-se no famoso dito socrático "conhece-te a ti mesmo" que. rotina. consciência de si mesmo quer dizer. um poderoso impulso para o saber. razão. Isto quer dizer que a instrução não deve consistir na imposição extrínseca de uma doutrina ao discente. por Aristóteles. definição. sem metafísica. a gnosiologia deve preceder logicamente a moral. este é o momento da ironia. significa precisamente consciência racional de si mesmo. mas é a certeza objetiva da própria razão . portanto. limita-se à gnosiologia e à ética. pragmatismo. Sócrates. pois. e a virtude mediante o conhecimento . embora o pensamento socrático fique. mediante a razão.afora a teoria geral de que a ciência está nos conceitos . Esta interioridade do saber. mediante a doutrina de que eticidade significa racionalidade. nem pode precisar este bem. que declara auxiliar os partos do espírito. representando o ideal e a conclusão do processo gnosiológico socrático. partindo dos pressupostos socráticos. A Moral Como Sócrates é o fundador da ciência em geral. de um ceticismo de fato. Estes dois filósofos. dos preconceitos. ainda que com finalidade diversa. O moralismo socrático é equilibrado pelo mais radical intelectualismo. indução. é mister conhecê-lo. remontar do particular ao universal. ativismo. Se o fim do homem for o bem . no sentido de que o homem tanto opera quanto conhece: virtuoso é o sábio. a ciência.que não é absolutamente subjetivista. de par com os sofistas. não de direito. pode-se esquematicamente resumir nestes pontos fundamentais: ironia. antes de tudo. como sua mãe auxiliava os partos do corpo. A seguir será possível realizar o conhecimento verdadeiro. Traçou. opinião comum.Sócrates não sabe. precisamente porque lhe falta uma metafísica.bem como ignorância e vício . precisa . dada a sua revalidação da ciência. porém. não descendo até à animalidade . costume. que está contra todo voluntarismo. para construir uma ética é necessário uma teoria. a qual é um valor universal. antes de tudo.como ensinavam os sofistas. de fato. enfim. introspecção. determinado precisamente mediante a definição. da opinião à ciência. que se concretizava no seu ensinamento dialógico. conceptual é. A filosofia socrática. É a famosa maiêutica de Sócrates. mediante a doutrina do conceito. no dizer de Sócrates. a favor da reflexão livre e da convicção racional. por sua vez. O fim da filosofia é a moral. ciência.assim a ética socrática carece de um conteúdo racional. ignorância. uma grande metafísica e. da crítica. da experiência ao conceito. Mas. . o ignorante. não particulares. donde é preciso extraí-la.tornava impossível o livre arbítrio. pela razão imanente e constitutiva do espírito humano. Esta ignorância não é. logo. todavia. A gnosiologia de Sócrates. malvado. para organizar racionalmente a própria vida. Sócrates achou apenas a forma conceptual da ciência. a indução: isto é. o itinerário. subindo até à razão. mas dirigida para os valores universais. esta felicidade. superado. maiêutica. esta intimidade da ciência . assim é o fundador. Este conceito é.34 trata-se. no agnosticismo filosófico por falta de uma metafísica. mas apenas metódico. Virtude é inteligência. pela ausência de uma metafísica. opiniões. mas o mestre deve tirá-la da mente do discípulo. ceticismo sistemático. que será percorrido por Platão e acabado. racionalismo. O procedimento lógico para realizar o conhecimento verdadeiro. Antes de tudo. uma moral. não o seu conteúdo. Entretanto. consciência da própria ignorância inicial e. científico. isto é. sentimentalismo. depois.se baseia em normas objetivas e transcendentes à experiência. para realizar o próprio fim.bem como o conhecer humano . desenvolverão uma gnosiologia acabada. identificando conhecimento e virtude . necessidade de superá-la pela aquisição da ciência. ação racional. Tudo isto tem que ser criticado. no pensamento de Sócrates. como a gnosiologia socrática carece de uma especificação lógica. e nos dá a essência da realidade. não sentimento. o prático depende. É sabido que Sócrates levava a importância da razão para a ação moral até àquele intelectualismo que. Vale dizer que o agir humano . reivindica a independência da autoridade e da tradição.

hábil ou temível. onde fora afixada a acusação por Meleto. com os mesmos direitos à palavra no decorrer do processo. tenha. fundada por Antístenes (n.concordam todas pelo menos na característica doutrina socrática de que o maior bem do homem é a sabedoria. 445). alguns. de admirar que um homem. Fora desta escola começa a decadência e desenvolverse-ão as escolas socráticas menores. Sócrates é culpado de não aceitar os deuses que são reconhecidos pelo Estado. como Xenofonte. filho de Meleto. assumindo. que foi por ele zelosamente preparado nas reuniões dos diversos cidadãos. no entanto. como Alcibíades e Eurípedes. (n. mas um cidadão podia.35 Escolas Socráticas Menores A reforma socrática atingiu os alicerces da filosofia. havia verdadeiros filósofos que se formaram com os seus ensinamentos. vemos que Sócrates. contra Sócrates. mediante o pensamento socrático. saídos das escolas anteriores não lograram assimilar toda a doutrina do mestre.o conceito .mesmo diferenciando-se bastante entre si . No Eutífron. valoriza o pensamento dos pré-socráticos desenvolvendo-o em sistemas vários e originais. c. o herdeiro genuíno de suas idéias. exagerando a doutrina socrática do desapego das coisas exteriores.. que. já aureolado pela austera grandeza moral de sua vida. em verdadeiro desprezo das conveniências sociais. 2. mas não só ele. 3. porém. a acusação apresentada contra Sócrates. também Ânito e Lícon. ao se aproximar do Pórtico do Rei. pela novidade de suas idéias. foi a que segue: "A seguinte acusação escreve e jura Meleto. verdadeiros continuadores da tradição socrática. Dentre estes. Sócrates não elaborou um sistema filosófico acabado. o vértice e a conclusão da grande metafísica grega. a influência exercida por Ânito constituiu o elemento mais respeitável no desfecho do processo. de introduzir novos cultos. São fundadores das escolas socráticas menores. neste caso. São bem conhecidas as excentricidades de Diógenes. filho de Sofronisco. vegetaram na penumbra. fundada por Euclides (449-369). Não é. desenvolveram exageradamente algumas de suas partes com detrimento do conjunto. fundada por Aristipo. além dos vulgarizadores da sua moral (socratici viri). também. O acusador era Meleto. a ética une pela primeira vez e com laços indissolúveis a ciência dos costumes à filosofia especulativa. A escola cínica. porém.C. A doutrina do conceito determina para sempre o verdadeiro objeto da ciência: a indução dialética reforma o método filosófico. que tentou uma conciliação da nova ética com a metafísica dos eleatas e abusou dos processos dialéticos de Zenão. pois. Por isso. nem deixou algo de escrito. dele depende.juntamente com o elemento vital do pensamento precedente. c. direta ou indiretamente. respondeu: . do povoado de Alópece. E. Entre os seus numerosos discípulos. 425) que desenvolveu o utilitarismo do mestre em hedonismo ou moral do prazer. por último. mais tarde recresceram transformadas ou degeneradas em outras seitas filosóficas. e culmina em Aristóteles. Isto aparece imediatamente nas escolas socráticas. exercido sobre os contemporâneos tamanha influência. se a acusação não fosse considerada procedente pelo júri. Estas . ao ser inquirido pelo adivinho Eutífron a respeito de quem era aquele que o acusava. Dentre os herdeiros de Sócrates. A escola socrática maior é a platônica. toda a especulação grega que se seguiu. Introdução à Apologia de Sócrates De acordo com Diógenes Laércio. durante o segundo período. é culpado de corromper a juventude. total responsabilidade. degenerou. representa o desenvolvimento lógico do elemento central do pensamento socrático . dominado pelas altas especulações de Platão e Aristóteles . Pena: a morte" A cidade de Atenas não podia mover ações. das quais as mais conhecidas são: 1. do povoado de Piteo. que. em janeiro de 399 a. descobriu o método e fundou uma grande escola. A escola de Megara. a qual. Meleto era o acusador oficial. Estas escolas. além de simples amadores. sustentando-o com a autoridade de seu nome. porém nada exigia que o acusador oficial fosse o mais respeitável. A escola cirenaica ou hedonista. e. mas somente aquele que assinava a acusação. o seu mais ilustre continuador foi o sublime Platão.

C. tornou-se um dos mais eminentes cidadãos de Atenas. Mas não há elementos em que basear essa suposição. por ordem dos Trinta Tiranos. juntamente com outros quatro homens recebera a ordem de deter a Leon de Salamina. de acordo com a própria informação de Andócides: esse Meleto foi um dos que. que se vale do nome de Meleto. nascera por volta de – 150 a. mas sim por questões evidentemente políticas. e já havia exercido importantes cargos e magistraturas. por sua vez. comerciante de couro.C. O pouco que conhecemos ou podemos presumir a respeito de Lícon é que pouca importância e autoridade teve no decorrer do processo. isto é. se prestaram a deter Leon de Salamina. Após ter sido enviado ao exílio pelos Trinta Tiranos. condenado. sendo uma delas se se tratava do personagem citado por Aristófanes. A respeito de saber com exatidão quem era esse Meleto. sendo estratego em 410 a. Ânito manteve relação com Sócrates. Contudo.. onde manifesta uma ameaça velada a este: "Afigura-se-me. existem muitas dúvidas. Depois da restauração do regime democrático. e sim escrita por Platão.C. de cabelos lisos. como se deste tivesse se originado a idéia da pena de morte para persuadir Sócrates a abandonar a cidade antes que o processo tivesse seguimento. podemos considerar Meleto de Sócrates o mesmo Meleto de Andócides. mediante palavras e atos. é aquele que. o texto da sentença preocupa-se muito mais em esconder do que apresentar as verdadeiras causas. vemos o réu inverter a ordem das acusações e colocar em primeiro lugar a última imputação: corromper os jovens. Ânito. convinha afastar de Atenas o mestre de Crísias. do povoado de Piteo. logicamente. fora discípulo de Anaxágoras. que derrotara e expulsara esses mesmos Trinta Tiranos –. tendo sido o único a recusar-se a obedecer. Acredito chamar-se Meleto. . que tenhas cuidado". No que concerne à condenação por motivos religiosos. que conforme ele mesmo afirma na Apologia. chegou a tomar parte da acusação contra Andócides.C. se quiseres me ouvir. A bem da verdade. Ânito era filho de Antemione. além de considerar que Sócrates insiste no fato de que Meleto é desconhecido. A opinião de Platão a esse respeito é bem clara: não foi por razões religiosas que Sócrates recebeu a condenação. patente mostra de sua obstinada repulsa aos governos democráticos. dava a impressão de conhecer Sócrates. já que nada corrobora realmente esta pretensão. ó Sócrates. já então tido como um fanático religioso. afirmara-se o culto patriarcal. no célebre processo por causa da mutilação da estátua de Hermes e da profanação dos Mistérios. que a ele alude como se Meleto fosse seu subordinado.de partidário dos Trinta Tiranos tornar-se aliado de Ânito.C. Desde a época de Sócrates. regressou de File com estes e tomou parte da expedição armada contra o governo dos tiranos. talvez porque seja um homem jovem e desconhecido. Desse modo. poderíamos presumir que Sócrates teria adotado a defesa do culto da deusa. fique apenas no campo da suposição. por conseguinte. À parte o problema da mudança de lado . segundo comprova sua atuação no Mênon. em que Zeus era o deus-pai. sobra a dificuldade de explicar por que motivo Sócrates.. pouco provavelmente chamaria a atenção de Aristófanes em 405 a. embora. o homem que sempre se recordava de haver sido discípulo de Arquesilau. que em vez de escolher o exílio preferiu a proposta de uma multa irrisória. e se isso não ocorreu deveu-se à demasiada teimosia do próprio Sócrates. juntamente com Trasíbulo e outros. o mais importante dos acusadores. como o próprio Sócrates repete. Sócrates dera. seria muito conveniente. não era matá-lo. um movimento reacionário em termos de culto. existe outro obstáculo. o qual. Julgar tratar-se do Meleto que. vindo a ser. em 399 a. pois um jovem poeta de 399 a. expulso de Atenas em decorrência de um processo parecido com o seu. assim solucionando o problema que tanta discussão tem provocado. não disse que Meleto era um desses homens. com seu nome sendo citado sempre com evidente desapreço.C.36 "Sei bem pouco a respeito dele. por haver sido essa também uma acusação de impiedade.. e sim afastá-lo de Atenas. Mas é preciso frisar que o propósito. nessa época de instalação do regime democrático. Tanto isso é verdade que. em sua defesa. o líder máximo. Portanto. não resta dúvida. barba rala e nariz em forma de bico de pássaro". a fim de engrandecer o mestre desaparecido. e eu te aconselho. Exceto se reputarmos que essa defesa não seja de fato de Sócrates. em 404 a. da mesma maneira que se dá com condenações por motivos políticos. Se a acusação tivesse se dado em épocas mais antigas. que com muita facilidade te dedicas à maledicência.

era a suprema deusa e gerava uma vez por ano a Dionisos – Zagreus. quanto a Cérbero. a exigência de que o piloto do barco conheça seu ofício. ou o Agnos-Deus. me espantou das muitas perfídias que proferiram: a recomendação de precaução para não vos deixardes seduzir pelo orador formidável que sou. lunar e noturno. seus instrumentos de fertilização e prazer. Nessa fase seria de fato correto crer que alguém sofresse um processo por questões religiosas. revela-se. Ademais. Some-se a isto que Sócrates jamais desejou exercer nenhuma magistratura. Era todo o ensinamento socrático que se tornava perigoso. Crísias. isto é. que consistia em saber que não se sabe? Qual a postura dos políticos diante disso? Que direitos seriam mais opostos aos da democracia do que aqueles originados da experiência e da competência. que era sempre devorado pelo tempo. é necessário recordar que Sócrates manteve relações com os Trinta Tiranos: estes não Ihe teriam ordenado a prisão de Leon de Salamina se não o considerassem um deles. que juntamente com Trasíbulo fora seu principal defensor. e os jovens. durante o mandato dos Trinta. Anfitrite é esposa de Posêidon. insiste no fato de que. considerando-se a anistia garantida até mesmo pelo próprio Ânito. em cujas culturas o patriarcalismo era arraigado. outro aspecto de Zeus. e a superioridade da inteligência sobre os direitos da assembléia popular e soberana? É isso que causou a condenação de Sócrates. Réia vem a ser adorada como Hera. constituindo as sacerdotisas os verdadeiros líderes das povoações e os homens. que voltara a ser assunto pela recente inclusão de seu nome entre os envolvidos na profanação dos Mistérios. Ártemis e Cérbero. A Tripla Deusa. executando os trabalhos mais necessários à sobrevivência e à defesa. pelos testemunhos que possuímos. não era possível levar em conta as culpas passadas de Sócrates para condená-lo. portanto. assim. enquanto Sócrates pôde permanecer. mas à época de Sócrates tudo isso já se encontrava devidamente solidificado. venerada como Réia. lua cheia a lua minguante. que pode significar tanto o deus desconhecido quanto o deus-carneiro. quase me fizeram esquecer quem sou. sobretudo. o Deus-Agnes. Zagreus torna-se Zeus. e permanece virgem. Dessa maneira. Numerosas revoltas começaram a eclodir com a chegada de contínuas levas de dórios. Querofonte foi obrigado a se exilar. embora não seja verdade que permanecesse fora do âmbito do governo. porém. representa Hécate. quando afirma "que esses novos deuses da cosmologia jônica eram uma antiga história e que poderia ser uma violação da anistia colocálos de novo à luz do dia". proclamada superior até mesmo pelo oráculo. sendo fiel guardião dos domínios de Hades. em seu comentário à Apologia. Ártemis é filha de Zeus. de fato. O que significava aquela sabedoria. Uma. que fosse singularmente prudente ou diplomático em sua maneira de discutir. nem participar de alguma forma do governo de sua cidade. De verdades. pois com freqüência era visto discutindo em público. minianos e jônios. como Anfitrite. e era necessário arranjar o pretexto para executá-lo. bem pouco confiável. e a argumentação de Burnet. Portanto. tal o poder de persuasão de sua eloqüência. E mais: Sócrates menciona a seu favor sua participação no caso do exílio de Querofonte. um dos aspectos de Zeus. a superioridade do saber sobre a aclamação do povo. As mais importantes orientações da vida eram subvertidas por seu orgulho de ter consciência da sua ignorância. e não os novos fatos. Preâmbulo Desconheço atenienses. a mim próprio. que acabaram por fomentar a rebelião de Zagreus contra seu pai e mãe. as múltiplas facetas da deusa prevaleciam. que influência tiveram meus acusadores em vosso espírito.37 Coloquemos a questão com mais clareza: as lendas referem a revolta patriarcal contra o matriarcado. e não se pode afirmar. não disseram nenhuma. em seus três aspectos: lua crescente. Com efeito. havia sido seu discípulo. seu culto tendo sido de novo extinto durante o período de estabelecimento do culto olímpico. provocando ainda o desapreço por tudo que não buscasse a sabedoria. o mais feroz dos Tiranos. e também Alcebíades. desprezando a economia doméstica e a riqueza. seu filho. porém. esposa de Cronos. não corarem . e seus aspectos: marinho. isso presumindo que existisse alguma. iriam acabar desrespeitando qualquer autoridade que não se identificasse com a inteligência e a sabedoria.

porém. em estilo florido. sinto-me. e. sem que eu contasse com alguém para me defender. Portanto. na minha defesa. junto das bancas. e acusar de mentiroso a quem não responde. aprimorados em substantivos e verbos. atenienses. que propalaram essas coisas acerca de mim. E esses acusadores são muito numerosos e me acusaram há bastante tempo. a fim de me defender só posso lutar contra sombras. sempre faltando com a verdade. E o que é mais assombroso é que seus nomes não podem sequer ser citados. nos termos que me ocorrerem. Faço-vos. que poderia ser talvez pior. homem de muita sabedoria. Mas os primeiros são muito mais perigosos. E se eu for bem-sucedido. e. Bem sei quanto isto é difícil e tenho plena consciência da enorme dificuldade que me espera. talvez melhor. que esquadrinha todos os segredos obscuros. não ouvireis discursos como os deles. e assim descobrirei se aquela calúnia. de verdades eles não disseram alguma. são os acusadores que mais receio. . Seja como for. ao mostrar-me um orador nada formidável. que é de justiça a meu ver. não a estranheis nem vos revolteis por isso. ó atenienses. eu admitiria que. que martiriza meu coração há tanto tempo. atenienses. e que examineis com atenção se o que digo é justo ou não. sem dúvida me desculparíeis o sotaque e o linguajar de minha criação. se ouvirdes. e então reconhecereis que devo defender-me destes em primeiro lugar. senhores. por inveja ou por vício em fazer falsas acusações. porque deposito confiança na justiça do que digo. e assim. Defender-me-ei. Que tudo se passe de acordo com a vontade do Deus. em resumo. peço-vos nesta oportunidade a mesma tolerância. será excelente para vós e para mim. para a minha linguagem. exceto o de um comediógrafo. aqueles que convivendo com a maior parte de vós. Mas não por Zeus. assim. e depois das mais recentes acusações e dos novos acusadores. completamente estrangeiro à linguagem do local. Nisso reside o mérito de um juiz. ó atenienses. vós deveis vos certificar de que existem duas categorias de acusadores: de um lado. caluniaram-me quando vós tínheis aquela idade em que é bastante fácil – alguns de vós éreis crianças ou adolescentes – dar crédito às calúnias. o de um orador. ó atenienses. se conseguir acarretar-vos algum benefício com a minha defesa. onde tantos dentre vós me haveis escutado. os que já me acusam há bastante tempo e dos quais tenho falado a respeito. esses todos não podem ser encontrados.38 de me haver eu de desmentir prontamente com os fatos. Se eu fosse de fato um estrangeiro. possa ser extirpada. embora estes sejam acusadores perigosos. o que é mais grave. Ainda mais porque esses acusadores fizeram-se ouvir por vós antes e mais demoradamente do que aqueles que vieram depois. nem espere outra coisa qualquer um de vós. em dizer a verdade. em verdade. uma súplica premente. vós ouvireis a verdade inteira. as pessoas acreditam que quem se dedica a tais investigações não admite a existência dos deuses. A Defesa de Sócrates Enunciado Diversidade Entre Duas Categorias de Acusadores: os Antigos e os Recentes Em princípio. acusaram-me obstinadamente. Acontece que venho ao tribunal pela primeira vez aos setenta anos de idade. ou os que pretenderam convencer os outros por estarem verdadeiramente convencidos e de boa fé –. contudo. nem acusar ninguém por difamação. salvo se essa gente chama formidável a quem diz a verdade. porém os outros – os que. e esses me causam bem mais temor do que Ânito e seus amigos. e de outro. portanto. que especula a respeito das coisas do céu. Pois muitos que se encontram entre vós já me acusaram no passado. de mim. serão expressões espontâneas. ao ouvi-los. repito-o. eis o que me pareceu a maior de suas insolências. a mesma linguagem que habitualmente emprego na praça. porque. sou um orador. procuraram convencer-vos de acusações não menos caluniosas contra mim: que existe um certo Sócrates. não ficaria bem a um velho como eu vir diante de vós modelar seus discursos como um rapazinho. Verdadeiramente. embora deva fazê-lo em tão curto prazo. em contraste com eles. que transforma as razões mais fracas nas mais consistentes. nem se pode exigir que ao menos alguns deles venham até aqui. e em outros lugares. como crianças que deviam ser educadas. é legítimo que eu me defenda das calúnias das primeiras acusações que me foram dirigidas e dos primeiros acusadores. um pedido. os que me acusam há pouco tempo. procuraram colocar-vos contra mim. ó cidadãos. Estes. pois à lei é necessário obedecer e defender-se. se é o que entendem.

e recorro à maioria de vós para que sirvam de testemunhas. que tivesse a capacidade de Ihes ensinar as virtudes para serem acrescentadas à sua natureza. Eu mesmo me orgulharia se fosse capaz de tal coisa. não. Perguntei a ele: – Cálias. No íntimo. das virtudes do homem e cidadão? Acredito que pensaste a respeito disso quando puseste os filhos no mundo. e então compreendereis que tudo o mais que dizem sobre mim possui o mesmo valor. Procurarei esclarecer-vos a respeito da causa dessas calúnias contra mim. na qual um certo Sócrates aparece andando de lá para cá. e. Pródico de Ceo e Hípias de Élida. e outro amontoado de tolices. aos quais seria mais fácil. Existe alguém capaz de fazê-lo? – Claro que sim – respondeu-me. Assististes a alguma coisa semelhante na comédia de Aristófanes. Que afirmavam meus detratores? Façamos de conta que se trate de uma acusação juramentada de acusadores reais e dos quais seja preciso ler o texto: "Sócrates é réu de haver-se ocupado de assuntos que não eram de sua alçada. então: tencionas proporcionar-lhes? Quem entende das virtudes que Ihes são necessárias. de Paros. e investigando o que existe embaixo da terra e no céu. Mesmo que.39 Defesa Contra os Antigos Acusadores Calúnia a Respeito do Saber de Sócrates Vamos começar desde o início e examinar que tipo de acusação motivou essa calúnia. se é de fato possuidor dessa doutrina e a ensina a tão baixo preço. é verdade que adquiri renome por possuir certa sabedoria. Ao . E que tipo de sabedoria é essa? Possivelmente. A acusação possui mais ou menos este teor. fizesse contra mim uma acusação tão grave! Eu só vos asseguro. Esses valorosos homens percorrem as cidades com o propósito de instruir os jovens. se ouvistes alguém declarar que instruo os homens em troca de dinheiro. Não faltaria quem. o que fazes então? Que motivo originou essas calúnias? Com certeza. estou falando sério. Resumindo: nada existe em tudo isso que corresponda à verdade. se me afigure coisa em absoluto nada condenável. Ouvi também referências a outro homem. portanto. ó atenienses. mas teus filhos são homens. que educação. Ó atenienses. se alguém se propõe a instruir homens como fazem Górgias de Leontini. e convencem esses jovens a preferir a sua companhia à dos seus. uma sabedoria estritamente humana. E não digo isso por julgar aquelas ciências coisas vis. parabenizei esse tal de Eveno. contudo eu não sei. e eles se tomariam cavalariços ou agricultores. procurando transformar a mentira em verdade e ensinando-a às pessoas". terias de contratar e pagar uma pessoa que tomasse conta deles. ou seja. na qual Meleto se baseou para redigir sua acusação neste processo. filho de Hipônico. isto também não passa de mentira. Peço que revelem publicamente quantos de vós já me ouviram falar a respeito dessas coisas. se teus dois filhos fossem dois potros ou duas vitelas. que não consigo compreender nem um pouco. fazer-se instruir por um de seus concidadãos. não se deveu ao fato de que nada fizeste fora do comum. se é mesmo verdade que haja cientistas de tais ciências. e sem ter de gastar dinheiro. tantas vozes não teriam se erguido se tivesses te comportado como todos se comportam Conte o que fizestes. recebendo em troca dinheiro e ainda por cima gratidão. homem que gastou mais dinheiro com sofistas do que qualquer outro ateniense. se muitos te acusaram. – E quem é ele? – indaguei-lhe. mais ainda. pois não desejamos julgar-te irrefletidamente". e o soube por intermédio de Cálias. O Que é o Saber de Sócrates O Oráculo de Delfos Algum de vós poderia questionar-me: "Ó Sócrates. acompanhando Meleto. que não me ocupo desses assuntos. – de onde é e quanto cobra para ensinar? – Eveno de Paros. Escutai-me. afirmando que caminha em cima das nuvens. que possui muita sabedoria e veio morar em Atenas. E seu preço é cinco minas – respondeu-me. receio possuir esta única sabedoria. E a respeito de ser sábio. É possível que alguns entre vós creiam que eu esteja brincando. ó atenienses.

Como testemunho deste fato se prestará o irmão de Querefonte. refleti da seguinte maneira: "Que pretende o deus dizer? Qual é o significado oculto do enigma? Tendo em vista que eu não me considero sábio. ó atenienses. fosse mais sábio que ele. conforme a palavra do deus. mas talvez não o fosse de verdade. que nós. Resumindo. e tive a impressão de que. como também muitos dos que se encontravam presentes. Procurei fazê-lo compreender que embora se julgasse sábio. a partir daquele momento." Por isso. embora possais ter a impressão de que eu esteja proferindo palavras por demais fortes. se me afiguraram melhores e mais sábios. Mas desejo terminar de relatar-vos minhas peregrinações e as fadigas que sofri para convencer-me de que a palavra do oráculo era incontestável. fui procurar os poetas. Afastei-me dali e cheguei à conclusão de que era mais sábio que aquele homem. que quer dizer o deus ao afirmar que sou o mais sábio dos homens? Com certeza não mente. no entender de muitas pessoas e especialmente de si mesmo. mas o de uma testemunha que merece toda a vossa confiança. e de sua natureza. sem fama alguma. invocarei como testemunha. conforme minha pesquisa. E longamente me mantive nesta dúvida. A pitonisa respondeu que não existia ninguém. analisando e raciocinando em conjunto. também não julgava saber. De minha sabedoria. fiz a experiência que irei descrever-vos. Em vista disso. nem de belo. o próprio deus de Delfos. ó atenienses. "deves visitar todos aqueles que possuem reputação de sabedoria. Por fim. Fui ter com um daqueles que possuem reputação de sábios. não só ele passou a me odiar. e este homem aparentava ser sábio. afigurava-se-me impossível deixar de atentar para as palavras do deus. pareceram-me quase todos em maior erro. Peguei suas melhores poesias. de quem vos falava há pouco. talvez sejam possuidores de uma sabedoria sobrehumana. ao arrepio de minha vontade. porque não sei. enquanto eu. juntamente com muitos outros. e quem diz o contrário mente. "Se almejas saber o que o oráculo quer dizer". e me ocorreu exatamente a mesma coisa. as que considerava mais bem construídas. ou seja. e indaguei aos próprios poetas o que eles pretendiam dizer. julgando que somente assim poderia desmentir o oráculo e responder ao vaticínio: "Este é mais sábio que eu e afirmastes que era eu". mas afirmo que não a conheço. em virtude de este haver falecido. Aí procurei um outro. Era meu amigo desde o tempo da juventude e pertencente ao vosso partido popular. basta dizer que era um de nossos políticos –. com desagrado e assombro. continuei diligentemente com minha pesquisa. ó atenienses. pois ele não pode mentir". eu e ele. comecei a investigar acerca disso. ó cidadãos. Pesquisa Junto aos Políticos Saberão agora o motivo pelo qual vos relato isso: meu intento é pôr-vos a par de onde se originou a calúnia contra mim. como não sabia. Em seguida aos políticos. Estou com vergonha. ao contrário. ao menos numa pequena coisa. diante de vós. devo dizervos de novo a verdade. se de fato se trata de sabedoria. convencido de que diante daqueles confirmaria minha ignorância e sua superioridade. . não o era. e também este me dedicou ódio. apenas com o intuito de caluniar-me. todas as outras pessoas presentes discorriam melhor a respeito do que os poetas haviam escrito que os próprios autores. Após ter ouvido a resposta do oráculo. que todos passaram a me odiar e que. podíamos não saber nada de bom. juro-vos que este foi o resultado da minha pesquisa: os que eram famosos por possuírem maior sabedoria. partiu no último exílio em vossa companhia e regressou também em vossa companhia. que não é meu depoimento.40 passo que esses. neste sentido. E outros. contudo. tanto os que escreviam ditirambos' e tragédias como os demais. dizia a mim mesmo. Peço-vos para não fazer algazarra. Pesquisa Junto aos Poetas Não obstante isso. Sabeis que tipo de homem era Querofonte e de como era determinado em suas resoluções Dirigiu-se em certa ocasião a Delfos e atreveu-se a perguntar ao oráculo se existia alguém mais sábio que eu. Mas enquanto estava analisando este – o nome não é necessário que eu vos revele. embora notando. de contar-vos a verdade! Mas é obrigatório que eu a diga. nem acredito sabê-lo. porque dessa maneira aprenderia alguma coisa com eles. entre os que possuem reputação de serem mais sábios que aqueles. mas aquele acreditava saber e não sabia. este com que. Todos vós conheceis Querefonte. enfim.

o que faz e o que ensina este Sócrates para corromper os jovens?". os filhos das famílias mais ricas. como eles. e nisso eram mais sábios do que eu. A verdade. é que esses homens demonstraram ser pessoas que dão a impressão de saber tudo. A verdade. analisar alguma pessoa. além de afirmar que ele especula sobre as coisas que se encontram no céu e as que ficam embaixo da terra. dominados pela paixão e numerosos como são. como os adivinhos e vaticinadores. toda vez que participava de uma discussão. E não me equivoquei. inúmeras vezes procuram imitar-me e tentam. e isto eu percebi com clareza. e respondi a mim e ao oráculo que convinha continuar tal qual eu era. Sócrates. ao afirmar que Sócrates é sábio. declarando que Sócrates é homem por demais infame e corruptor dos jovens. e. por intermédio de seu oráculo. e a partir destas inimizades surgiram muitas calúnias. até mesmo em outros assuntos de maior realce e dificuldade. aqueles que são analisados por eles voltam-se contra mim e não contra quem os analisou. Então afastei-me deles. é muito sábio entre vós aquele que. é levo uma existência miserável por conta deste meu serviço ao deus. dirigi-me aos artesãos. e. de acordo com a palavra do deus. e entre as calúnias. cada um deles julgava-se extremamente sábio. também os artesãos famosos apresentavam o mesmo defeito dos poetas: por conhecerem muito bem sua arte. mas não conhecem nada do que dizem. só para não evidenciar que estão confusos. que dizem de fato muitas coisas belas. e este importante defeito deslustrava toda sua sabedoria. como se tivesse dito: "Ó homens. e então. dizem as coisas que comumente são ditas contra todos os filósofos. é outra. pelo mesmo motivo que era mais que os políticos. E tomado como estou por esta ânsia de pesquisa.41 diante disto. naturalmente. e que também ensina a não acreditar nos deuses e apresenta como melhores as piores razões. ambas as coisas. ó atenienses: quem sabe é apenas o deus. nada respondem. como acho que ninguém o seja. e todos da mesma opinião nesta difamação a meu respeito e com argumentos que podem parecer também convincentes. julgavam-se os mais sábios dos homens até mesmo em outras coisas em que realmente não o eram. náo se refere propriamente a mim. e aproximadamente o mesmo. E se alguém indaga: "Afinal. porém. indaguei a mim mesmo se deveria permanecer tal como era. não querem dizer a verdade. O Verdadeiro Saber Consiste em Saber Que Não se Sabe Em virtude desta pesquisa. em nome do oráculo. Porém. deparam-se com numerosos homens que julgam saber alguma coisa e sabem pouco ou nada. que de sua arte tinha a consciência de não conhecer nada. e se regozijam em assistir a esta minha análise dos homens. E compreendi também que os poetas. porque. porém. fiz numerosas e perigosíssimas inimizades. De forma que eu. porém. que muito pouco ou nada vale a sabedoria do homem. nem sabedor de minha sabedoria nem ignorante de minha ignorância. descobri que não era por nenhum tipo de sabedoria que eles faziam versos. ó atenienses. eles conheciam coisas que eu não conhecia. se existe alguém entre os atenienses ou estrangeiros que possa ser considerado sábio e. ambiciosos. seguem-me de livre e espontânea vontade. As Muitas Inimizades e a Acusação Vós tendes conhecimento de que os jovens que dispõem de mais tempo que os outros. mas por uma propensão e inspiração natural que eu desconheço. as pessoas julgavam que eu fosse sábio naqueles assuntos em que somente punha a descoberto a ignorância dos demais. e ele quer dizer. pelo fato de fazerem poesias. tenha admitido que sua sabedoria nao possui valor algum". É por esta razao que ainda hoje procuro e investigo. por sua própria conta. Pesquisa Junto aos Artesãos No final. sem escrúpulo . Logicamente. igualmente a Sócrates. com a certeza de ser mais sábio que eles. venho em ajuda ao deus provando que nao há sábio algum. é o que ocorre entre os poetas. mas só usa meu nome como exemplo. e eles sabiam que eu os considerava conhecedores de numerosas e belas coisas. porque o desconhecem. Desta maneira. não me restou mais tempo para realizar alguma coisa de importante nem pela cidade nem pela minha casa. a fama de sábio.

Ânito e Lícon: Meleto profundamente irado por causa dos poetas. sem saber o que dizer? E isto não te se afigura vergonhoso. agora ou depois. ó atenienses. Meleto. e eu a revelo por completo. Vou começar desde o início e como se na verdade dissesse respeito a outra espécie de acusadores. . SÓCRATES: — Não se trata disto. SÓCRATES: — Todos os atenienses que te ouvem tornam os jovens bons e belos. isso é o bastante para a defesa das culpas a mim atribuídas. de não crer nos deuses nos quais a cidade Analisemos esta acusação minuciosamente. como vos disse desde o início. SÓCRATES: — Quer dizer. embora saiba que sou odiado por muitos exatamente por isso. é outra prova de que digo a verdade. seria de fato um verdadeiro milagre se eu tivesse a capacidade de arrancar-vos do coração esta calúnia que possui raízes tão firmes e profundas. Meleto. na verdade. também estes.42 algum encheram vossos ouvidos com suas calúnias. e eu digo. porque aborda com leviandade assuntos sérios e tão inescrupulosamente leva homens diante do tribunal. Lícon por causa dos oradores. nunca se preocupou. Por sinal. procurarei em seguida defender-me de Meleto. que o réu é o próprio Meleto. Meleto. aos juizes o que os torna melhores. os juizes. sem ocultar-vos nada. Portanto. das leis. Esta é. todos. e prova suficiente do que afirmo: que nunca te preocupaste com estes assuntos? Vamos. Com certeza o sabes. Defesa Contra Meleto No que diz respeito aos meus primeiros acusadores. exceto eu. analisemos também o ato de acusação deste. Ânito por causa dos artesãos e dos políticos. responde: que os faz melhores? MELETO: — As leis. então. em primeiro lugar. e dos acusadores que virão depois. meu amigo. que estes possuem a capacidade de educar os jovens e torná-los melhores? MELETO: — Afirmo. com o intuito de fazer crer que se preocupa com coisas com as quais. e por este motivo citaste-me diante do tribunal e me acusaste. e recebereis sempre a mesma resposta. conforme dizes. SÓCRATES: — Dize. Vamos. então. ó cidadãos. SÓCRATES: — Afirmas. É isto que queres dizer? crê e também de praticar cultos religiosos extravagantes". Declarou mais ou menos isto: "Sócrates é réu de corromper os jovens. como ficas calado. Não julgas de suprema importância que os jovens consigam se tornar os melhores possíveis? MELETO: — Julgo. MELETO: — Estes. Este é o motivo pelo qual. deve ter conhecimento. então. lançaramse contra mim Meleto. SÓCRATES: — E os senadores? MELETO: — Também os senadores. Meleto Não Sabe o Que é Educar Nem Corromper Meleto. ou alguns sim e outros não? MELETO: — Todos. ó Sócrates. Indago-te qual é o homem que. E procurarei provar-vos que isso é a pura verdade. que talvez aqueles das Assembléias Populares corrompam os jovens? Ou também aqueles os tornam melhores? MELETO: — Também aqueles. dize aos juizes o que os faz melhores. por Hera! E grande a quantidade de bons educadores! Também estes que estão nos ouvindo tornam os jovens melhores ou não? MELETO: — Sim. finalmente. homem digno e patriota. SÓCRATES: — Crês que todos. mostra-te e responde. Indagai quanto quiserdes. sou eu quem os corrompe. Meleto afirma que corrompo a juventude. ó excelente homem. SÓCRATES: — Dizes bem. nem mesmo esquivando-me dela. Vês. Contudo. pois esta é uma preocupação tua e descobriste quem os corrompe. a verdade. como ele mesmo se define. e que esta é a calúnia contra mim e esta a causa. conforme afirmas.

eu digo exatamente isto. ó Meleto. ó juizes. ou. não existe lei alguma que poisa me obrigar a vir até aqui. e sim outros. MELETO: — Exatamente isto. por conseguinte. Os maus não prejudicam aqueles que Ihes são próximos? E os bons não Ihes fazem o bem? MELETO: — Com toda a certeza. é por causa disso que me trazes a este tribunal. ó Meleto. Nem acredito que possas persuadir a ninguém. SÓCRATES: — Então. cidadãos de Atenas. SÓCRATES: — Ó excelente Meleto! Por que dizes que não acredito. eu corrompo a juventude? Não o faço. no caso de saber disso. e é claro que. principalmente àqueles mais próximos deles. Apesar disso. Seria uma grande felicidade para os jovens se correspondesse à verdade que somente um Ihes causa danos e todos os outros os educam e melhoram. tua sabedoria sendo maior que a minha. não o quiseste fazer de forma alguma e me trazes aqui. tanto para mim como para estes juizes. então. prossegue. digam Ânito e tu mesmo que sim ou não. a fim de advertir-me ou censurar-me. trouxeste-me a este tribunal porque corrompo os jovens por querer è os torno maus. tendo eu os anos que tenho. mas sim que faça com que seja afastado. Mais ainda. mas em outras divindades novas? Não é. que o sol e a lua sejam deuses? MELETO: — Com certeza. Meleto. da mesma maneira que os outros homens.Que todos os homens os tornem melhores e somente um os mutile? Ou. por faltas involuntárias. embora as leis estabeleçam que aqui sejam trazidos somente os que devem ser castigados. demonstrei que nunca tiveste preocupação com as coisas pelas quais me trouxeste diante deste tribunal. Meleto Acusa Sócrates de Ateísmo e se Contradiz Neste momento. e que eu ignore essas coisas a ponto de não saber que se se torna mau a um deles corre-se o risco de receber algo mau dele e que. Também a lei deseja que respondas. ensinando estas coisas que os corrompo? MELETO: — Sim. de que maneira. faço-o sem querer. ó Meleto. responde. não mais farei o que fazia sem querer. eu me empenhe em torná-los maus? Não me persuadirás disto. realmente. e não censurados. na tua idade. SÓCRATES: — Em nome desses mesmos deuses a respeito dos quais agora falamos. de maneira que em ambos os casos mentes. excelente homem. Mas. ou poucos. SÓCRATES: — Quer dizer. se os corrompo. o que mais convém. aqueles que são peritos em cavalos. viver entre bons cidadãos ou entre maus cidadãos? Amigo. conforme dizes. ou faço isto sem querer? MELETO: — Afirmo que é por querer. já que demonstrei a contento que tu nunca te preocupaste com os jovens. Meleto. pois se naqueles que acredito são deuses. que pensas conhecer melhor do que eu que os maus sempre causam algum mal. SÓCRATES: — Pode existir alguém que esteja com eles e que prefira receber o mal em lugar do bem? Responde. que somente um os torne melhores. ó Meleto. pois afirma que o sol é uma pedra e a lua é feita de terra. Pode existir alguém que prefira receber o mal? MELETO: — Não. com os cavalos e com todos os seres vivos? Com certeza é assim. porque não consigo compreender a quais deuses eu ensino que os jovens devem acreditar. ensinando-os a não acreditar nos deuses nos quais a cidade acredita. Se eu os corrompo sem querer. mesmo que não sejam os da cidade. Tens evitado encontrar-te comigo e advertir-me. como afirma com clareza a acusação que apresentaste contra mim. uma vez advertido. não corrompo os jovens. e que os demais se sirvam dos cavalos e os mutilem? E não acontece assim. é bastante evidente aquilo que eu afirmava: que Meleto nunca se preocupou com essas coisas. e que os bons façam o bem. não sou ateu e. não posso ser culpado disso. ao contrário. de acordo com tua opinião. Agora dize-me. explica-te com maior clareza. Ou seja. não é difícil o que te pergunto. dize-nos. por que são outros ou por que afirmas que não acredito de maneira alguma nos deuses e ensino isto aos jovens? MELETO: — Eu afirmo que não acreditas de maneira alguma nos deuses. SÓCRATES: — Como sou infeliz! Mas responde-me a isto: também com os cavalos crês que seja assim? 43 .

ou é necessário dizer que não sabias do que me acusar? Mas que consiga convencer quem quer que seja. que a mesma pessoa que acredita em coisas demoníacas possa não acreditar em coisas divinas e. embora tenhas sido obrigado pelos juizes. Mas responde ao menos à pergunta seguinte: existe quem possa acreditar em coisas demoníacas. se estes demônios são filhos dos deuses. SÓCRATES: — Pensas. E isto significa desejo de se divertir. O que eu vos disse. já que não contestas. é neste ponto que eu digo que fazes enigmas e brincadeiras. Existe alguém. que o estou ridicularizando e me contradigo? Ou conseguirei enganá-lo e a todos aqueles que me ouvem?" Com efeito. como se declarasse: "Sócrates é réu de não acreditar nos deuses. mesmo se fraco de intelecto. que acredite na existência de fatos humanos e não em homens? Fazei com que responda. pensas de fato que eu não acredite em deus algum? MELETO: — Em nenhum. isto é impossível. são também filhos bastardos gerados por ninfas ou outras mães. ó atenienses. ainda mais sendo tão extravagantes? Por Zeus. ó atenienses. Permanecer no Lugar Adequado. em acusar também Anaxágoras? E tens em tão pouca 44 na existência de cavalos. Por isso. que a mesma pessoa que acredita em coisas demoníacas possa não acreditar nem em demônios. exceto que haja sido para pôr-me à prova. e vindo de muitas pessoas. se afirmas que existem demônios. Responde. de outra forma. SÓCRATES: — Quanta satisfação me proporcionou tua resposta. que tenhas escrito contra mim uma acusação como esta. e naquilo que afirmas. parece-me que Meleto se contradiz na acusação. isto é o bastante para demonstrar que não sou culpado das acusações de Meleto. analisai comigo de que maneira creio que ele se contradiz. creio que não consegues persuadir nem a ti mesmo. nem em heróis. é impossível. Mas se acredito em coisas demoníacas. Portanto. se estes demônios são deuses. meu bom Meleto. E não consideramos estes demônios filhos dos deuses? MELETO: — Logicamente. mas sim nas coisas relativas a cavalos? E que não acredite na existência de flautistas. A Missão Divina Fazer o Que é Justo. ó Meleto. SÓCRATES: — Ninguém acredita em ti. ó atenienses. afirmo a sua existência. se não queres responder. e não criai tanta agitação por causa de uma palavra. nem em deuses. acusas-me de acreditar em coisas demoníacas e de ensiná-las. E vós. e se algo me causará . não é assim? Com certeza é assim. é verdade. mas também de acreditar nos deuses". quando declaras que eu. eu mesmo Ó atenienses. É como se alguém desejasse por-me à prova compondo uma espécie de enigma: "Dar-se-á conta Sócrates. mas não em demônios? MELETO: — É completamente impossível. Parece-me que aceitas. devo obrigatoriamente crer em demônios. mas sim que existam sons de flauta? Não ha ninguém. Meleto. SÓCRATES: — Ora. desde o início. que um profundo ódio ergueu-se contra mim. a ponto de não saberem que os livros de Anaxágoras de Clazomena estão repletos destes ensinamentos? E por que motivo os jovens iriam aprender de mim estas coisas que por uma simples dracma podem comprar na ágora e zombarem de Sócrates. Obedecer ao Deus Chega. Na verdade. De outra forma. com certeza. ó Meleto. tudo isto se me afigura desaforado e atrevido. recordai-vos de não me interromper se continuo a raciocinar à minha maneira. pois não se faz necessária uma defesa muito longa. a ti e aos outros que aqui se encontram. embora não acreditando na existência dos deuses. uma vez que digo existirem demônios. quem poderá pensar que existam filhos de deuses e de deuses não? Seria disparate igual se pensasse que os mulos fossem filhos de jumentos e cavalos e que estes últimos não existissem. se este as apresentasse como suas. ó Meleto. Há quem não acredite respondo. então.aquele grande sábio. como já vos exortei no começo. vós sabeis. estima e reputas tão ignorantes nas letras a estes juizes. e quem escreveu esta acusação foi desaforado e a escreveu por atrevimento e desrespeito juvenil. é isto que afirmas e que juraste no teu ato de acusação.

ao ouvir este raciocínio de Ânito. por acaso. seja homem. não pararei de estimular-vos e censurar-vos. repito. lá fiquei. como ocorre diante dos males que sei que são nefastos. daquele momento em diante. ateniense. acompanhando este teu raciocínio. que. não te envergonhes de pensar em acumular o máximo de riquezas. o analisaria. se consigo safar-me da condenação. acredito distinguir-me por este motivo e precisamente neste ponto da maior parte dos homens.45 dano. acreditar saber o que não se sabe? Ora. agora. e enquanto tiver ânimo. declarava não ser necessário que eu viesse até este tribunal. ao receber ordens do deus. receiam-na como se soubessem que ela é a maior das desgraças. para que se tornem tão boas quanto possível?" E se algum de vós retrucasse que cuida de fato delas. logo após ter castigado a quem matou. tendo a capacidade de fazer algum bem. Aquiles negligenciou o perigo e a morte. que meu comportamento seria anormal e excêntrico se. o impugnaria. a mais vergonhosa das ignorâncias. somente por isto o diria. deve ficar e enfrentar os riscos e não pensar na morte. ao passo que em Potidéia. se bem me lembro: 'Ó filho. esta calúnia e esta raiva das pessoas. ou. mesmo sendo pequeno. contudo. tivesse desertado do posto a mim designado pelo deus. nem em outra desgraça qualquer. e declarou: 'Rapidamente eu morra. porque. e o mais néscio de todos seria o filho de Tétis que. assim diria: "E tu. Seria algo. mesmo que me concedesses a liberdade. ao contrário. se. Portanto. dado que significa pensar saber aquilo que não se sabe. que como não sei nada de preciso a respeito das coisas do Hades. seja deus. isto bem sei que é coisa vergonhosa e indecente. se. uma vez aqui trazido. nem que para isso me torne objeto de desprezo'. outros ainda irão perder. digo. morrerás". Declaro-vos. cidadão da maior cidade e mais célebre por sabedoria e poder. recear a morte não passa de julgar ser sábio e não sê-lo. pela qual deveria viver filosofando e dedicando-me a conhecer a mim mesmo e aos outros. atenção a Ânito e deixamos-te livre. e. não pararei de filosofar. ao menos conforme pude ouvir e interpretar essa mesma ordem. receia a morte e julga ser sábio sem sê-lo. Ao ouvir tais palavras. e se fores surpreendido a praticar ainda estas coisas. por temor à morte ou a outra desgraça semelhante. creio. em qualquer ocasião. mas sim este ódio. Com efeito. não o deixaria afastar-se nem iria embora. que era impossível não condenar-me à morte. mas o interrogaria. seus filhos prosseguindo a praticar os ensinamentos de Sócrates. ó cidadãos. sem te preocupar em cuidar da inteligência. contra a vontade de Ânito que. E não é ignorância. e a quem quer que eu encontrasse de vós. atenienses. quando sua mãe. Pessoas estas que já causaram a perda de tantos outros e valorosos homens. desde que não empregues mais teu tempo nessas pesquisas. conversando da minha maneira habitual. estando ele ávido do sangue de Heitor. da verdade e da tua alma. ninguém sabe se. e se me atrevesse a dizer que em alguma coisa sou mais sábio que os outros. aí. Algum de vós poderia talvez altercar-me: "Sócrates. não pretendemos dar. como dizia. anormal e. receando muito mais viver miseravelmente sem vingar o amigo. ou onde tenha sido instalado por quem ordena. com esta condição me deixásseis em liberdade. tamanho desdém mostrou pelo perigo. de fato. em verdade. que és o melhor dos homens. desde o começo. aqui. ó atenienses. que onde alguém se haja instalado. como qualquer outro. e se me afigurasse que não possui . ela não seja o maior de todos os bens que podem ser dados ao homem e. eu vos responderia: "Ó atenienses. tu. nem te ocupes mais de filosofia. Mas ser injusto e desobedecer a quem é melhor que nós. fama e honras. não havendo perigo que causem somente a minha perda. também nada penso saber a esse respeito. dizia. já que desobedece ao oráculo. deva calcular os riscos de vida ou de morte e não deva olhar o injusto e se pratica as ações de homem honesto e corajoso ou de infame e mau. existiriam então motivos para trazer-me aqui no tribunal como sendo um desumano que não cresse nos deuses. considerando ser aquele seu lugar mais honroso. uma deusa. eu vos amo. teriam sido néscios todos os heróis que morreram em Tróia. Anfípolis e Délio. acredito. Por outro lado. se vingares a morte do teu companheiro Pátroclo e matares Heitor. me dissésseis: "Ó Sócrates. Acreditas que Aquiles tenha pensado na morte e no perigo?" É assim que deve ser. atenienses. não será nem Meleto nem Ânito. mas obedecerei primeiro ao deus do que a vós. Por isso. E. sem se envergonhar. arriscando minha vida. não te envergonhas de haveres exercido tal atividade. quando os comandantes que vós elegestes me designaram uma posição. disse-lhe. também morrerás'. nunca acontecerá que eu fuja diante daqueles de que não sei se por acaso não são bens. à exceção de na desonra e na vergonha. e enquanto for capaz. que agora coloca em risco tua vida?" Eu responderia a este: "Não falas bem se pensas que alguém. estariam inapelavelmente perdidos e corrompidos.

e também com vós. Não promoveis algazarra. condenando-me à morte. para convencer-vos a buscar a virtude. Não penso que seja possível que um homem de bem receba o mal de um malvado. estando a vosso lado. de qualquer forma. Isto. ó cidadãos. que não necessitais pecar. um ferrão. me poreis a salvo. nunca paro de exortar-vos. não riam da comparação. às quais. e depois. que. condenar-me à morte. Assim parece-me que o deus me colocou aos flancos da cidade. mesmo que não só uma. pois. é ordem do deus e estou convencido de que haja para vós maior bem na cidade do que esta minha obediência ao deus. mas muito mais vezes devesse morrer. que provasse ter eu recebido uma única vez compensação ou de havê-la solicitado. também Meleto. mas da virtude se originam as riquezas e todas as outras coisas que são venturas para os homens. mas falo por vós. de falar-vos. ou não dareis. então me falte coragem. então diz coisas insensatas. de que não deveis vos preocupar nem com o corpo. Afirmo. por obediência a Ânito. de maneira alguma estou falando em minha defesa. dormireis tranqüilamente. absolver-me-eis ou não. E nem o poderiam. tenha sido colocado de fato pelo deus aos flancos da cidade como aos flancos de um cavalo grande e de boa raça. Pois se me matardes. Logo. A mim não causarão dano nem Meleto nem Ânito.46 virtude mas apenas afirma possuí-la. mas. talvez. podereis me reconhecer por isso: que não parece humano que haja descuidado todos os meus negócios e ainda agüentar por tantos anos que tenham sido descuidadas as coisas da minha casa. que existe em mim não sei que espírito divino e demoníaco. se o deus não vos mandar algum outro para substituir-me. estando por perto como estaria um pai ou irmão mais velho. Poderá sim. a respeito do qual. não me causareis maior dano que podeis causar a vós mesmos. jovens e velhos. aí sim haveria uma razão. Restam-me algumas outras coisas a dizer-vos. tudo em que este homem crer e outros crerem serão grandes males. espoliar-me dos direitos civis. condenar-me-eis à morte. mas que vos limitásseis a ouvir. erguereis a voz. tende a certeza de que nunca agirei de outra maneira que esta. creio que vos será útil escutar. a fim de que ela se torne excelente e muito virtuosa. Em verdade. mas pelo seu próprio tamanho. ó atenienses. lembrai-vos de meu pedido de que não causásseis balbúrdia diante do que eu dissesse. com jeito de estar se divertindo. pondo-me frente a frente com uma testemunha. ó atenienses. ao contrário. Repugnância e Abstenção Socrática da Política Comum É possível que pareça estranho eu me encontrar sempre próximo e me dar tanto ao trabalho de fornecer conselhos a este ou àquele em particular. não encontrarão facilmente um outro igual a mim. e se desejais me ouvir. E se for eu mesmo a pessoa indicada pelo deus para presentear a cidade. está certo. Convencei-vos: se me condenardes à morte. a mim que sou como vos disse. atenienses ou estrangeiros. ou ao desterro. um pouco lerdo e necessitado de estímulo. desta não tiveram o despudor de me acusar. não fazei assim. É como uma voz que possuo dentro de mim . com este meu caminhar não faço outra coisa a não ser convencer-vos. de convencer-vos. não o creio eu. Não. isto significará que minhas palavras são nocivas. no decorrer de todo o resto de vossa existência. e de que das riquezas não se origina a virtude. aponta no ato da acusação. eu o envergonharia demonstrando-lhe que considera infames as coisas mais estimáveis e de valor. e golpeais como a matar um inseto inoportuno. em todo lugar. ao se tratar de aconselhar a cidade e de ir à tribuna para falar ao povo. Se ao falar desta maneira corrompo os jovens. Mas se estais irritados comigo como o que está em vias de adormecer com quem o desperta. mas se alguém afirma que falo diferentemente e não deste modo. nem com as riquezas. permiti que vos diga. somente uma. as infames. vós não desconheceis. E o motivo disso me haveis ouvido dizer várias vezes e em vários lugares. que outro como eu não nascerá facilmente. ó cidadãos atenienses: ou dareis ouvidos a Ânito. Que se desta vida tirasse algum proveito e se pelos conselhos que dou recebesse alguma compensação. E a prova cabal de que é verdade o que vos declaro. Ânito. que me sois mais estritamente próximos. Ademais. eu dou: a minha pobreza. mas vistes que meus detratores. cuidando das vossas. que me acusaram tão despudoradamente de tantas outras culpas. contra o dom do deus. tanto para os cidadãos individualmente como para o Estado. um por um. E agiria assim com qualquer um que eu quisesse: jovens ou velhos. como alguém poderia achar. e sempre. Por tudo isso. se. penso que seja um mal bem mais grave aquele que é cometido por esses que tentam condenar à morte um homem inocente. nem com qualquer outra coisa antes e mais que com a alma.

nem nunca ensinei coisa alguma. como privadamente. não digo a vós. levaramnos à sala do Tolo e ordenaram que retirássemos de Salamina o Leon de Salamina. e votei contra. ó cidadãos. que se eu tivesse. quando falo ou atendo àquilo que acredito ser meu ofício. tanto em público. tivesse lutado em defesa da justiça e tivesse considerado esta defesa. fico calado. julguei que era meu dver correr aquele risco mantendo-me ao lado do direito e do justo em vez de apoiar-vos e deliberar o injusto por temer a prisão e a morte. mas de não cometer injustiças ou crueldades. e que. É essa voz que me impede de me ocupar das coisas do Estado. fazendo-o como homem de bem. em toda minha existência. E disto que relatei possuo muitas testemunhas. porque estou da mesma maneira à disposição de todos. deixei-os ir e voltei para casa. eu já teria morrido. quem quer que me indague e deseje ouvir as minhas respostas. apesar de prepotente. e tente impedir que muitas vezes se cometam injustiças as leis na cidade. lutando para que nada fosse feito contra a lei. atenienses. E isto ocorreu quando a cidade ainda era regida por uma democracia. se a palavra não soar por demais vulgar. eu falo e se não recebo. Não existe homem que possa se salvar ao opor-se com sinceridade. nem por vós nem por mim. por algum tempo. toda vez que eu a ouço. nas poucas vezes que me ocupei de coisas públicas. pois é a verdade. ó cidadãos. e. Os oradores habituais já estavam prontos para suspender-me da função e aprisionar-me. isto sim me importa acima de qualquer coisa. estou pronto a morrer. mas a qualquer outra multidão. e a mais outros quatros. Daquilo que afirmo eu mesmo posso oferecer-vos provas cabais. ó cidadãos. Nunca fui mestre de quem. de seus Pais e Irmãos Credes que eu teria vivido por tantos anos se houvesse me ocupado de assuntos públicos e. Diante disso. mas com sinceridade. na tentativa de envolver em seus atos cruéis o maior número de pessoas possível. Acredito que só por causa disso. depois que surgiu a oligarquia. E se há quem diga que aprendeu ou ouviu alguma coisa de mm. seja velho. se aquele governo não tivesse sido deposto logo em seguida. sempre fui o mesmo. O Testemunho dos Discípulos. além de não ceder. um se torne de boa formação moral ou não. se recebo dinheiro. um homem que diante do justo nunca cedeu a quem quer que fosse. e vós a intigá-los e a gritar. sempre faz com que eu desista do que estou para fazer. deseja escutar-me. e que. aqueles dez capitães que não haviam recolhidos os náufragos e os mortos depois da batalha naval das Arginusas. em particular. E não me desprezei se falo assim. de viver de forma privada e não exercer funções públicas. me ocupado dos negócios de Estado. como é possível que a alguns agrade estar comigo tanto tempo? Vós ouvistes. e nunca me convence a realizar qualquer outra coisa. alguma coisa que todos os outros não tenham aprendido ou ouvido. seja jovem. os Trinta mandaram-me chamar. não me obrigou a cometer um ato injusto. que eu disse toda a verdade: têm prazer de ouvir-me quando submeto à prova aqueles que pensam . não existe homem que o tivesse conseguido! Em verdade. não me atemorizou. quando saímos do Tolo e os outros quatro se dirigiram para Salamina a fim de retirar Leon. de que nunca exerci em nossa cidade magistratura alguma. e nem mesmo àqueles que os caluniadores chamam de meus discípulos. E davam ordens semelhantes a vários outros homens.Então eu me opus. Falarei um pouco grosseiramente. Mais tarde. como fazem alguns dos freqüentadores dos tribunais. já que não prometi ensinamento algum a ninguém. se de fato pretende escapar da morte. não com palavras. não será justo que eu receba elogios ou impropérios. para que este viesse a morrer.E aquele governo. E naquela ocasião. teria sido morto também num curto espaço de tempo e não teria realizado nada de útil. exceto uma vez em que fiz parte do Conselho. como é necessário. justamente no dia em que era o vosso desejo julgar em conjunto. tenhais a certeza de que este não diz a verdade.47 desde criança. e não é verdade que. mesmo que por breve tempo. Por conseguinte. Tendes conhecimento. pobres e ricos. principalmente se é uma pessoa que . e é também preciso que aquele que luta em defesa do que é justo. Sabeis perfeitamente. e parece-me que faz muito bem em agir dessa forma. demonstrei que a morte. não possui importância alguma para mim. a ninguém. e não palavras. nunca me refutaram. Escutai o que me sucedeu e vereis então que diante do que é justo não sou homem de ceder a ninguém por temor à morte. mas do que mais necessitais: fatos. e sim com fatos. quer que seja. e em seguida acolhestes todos ao meu parecer. se entre os homens que me freqüentam. meu dever mais alto? Com certeza. ao arrepio da lei.

Ali está Críton. que são agora anciãos. mas aqueles que não foram corrompidos. que temos fama de sermos ainda alguma coisa.e ainda Antífon de Cefísia. tenham alguma razão para me defender. ao ter de enfrentar um processo menos arriscado do que este. e.É possível que alguém. pela vossa e de toda a cidade. pai de Epígeno. atenienses. cumpro as ordens do deus. nem por desprezo. seria vergonhoso. mas sim mostrar a todos que julgais com . Nem vos conviria. e ali Adimanto. são verdadeiras e demonstráveis. se procedessem dessa maneira. envergonham a toda a cidade. e que viessem à tribuna para acusar-me e para exigir minha punição. algum dia. se nos comportássemos assim. não é desagradável. pais.48 serem sábios e não o são. e ali estão outros. E poderia nomear muitos outros. mas pela minha reputação. se aquele que entre vós possuem fama de se distinguirem pela sabedoria e coragem. e. eu também trouxe alguém da minha família. que talvez esteja entre vós. Eu também possuo família. meu contemporâneo e conterrâneo com sei filho Critóbulo. Com efeito. têm atitudes excepcionais. tanto que qualquer forasteiro poderia imaginar que aqueles atenienses que se distinguem por sua virtude e que seus concidadãos elegem à magistratura e outras honras não são em nada melhores que as mulheres. que se manifeste. ao que parece. irmão de Teódoto. que os apresente agora.de quem era irmão Teages. e por outros meios de que se serve a providência divina para ordenar ao homem que faça alguma coisa. cujos irmãos viveram comigo familiarmente. ao passo que eu não me porto desta maneira. A uma pessoa assim. emita seu voto com raiva. eu os vejo. repito-vos. não poderá falar com o irmão a meu favor. Por isso. deixar-nos fazê-lo. poderei responder da seguinte maneira: "Meu estimado amigo. Porém. irmãos. são estas. enraivecido com minha atitude. suplicou clemência aos juizes. É possível que alguém entre vós. Estes. que. ó atenienses. filho de Demódoco. desta forma. nem para provar que sou corajoso diante da mote. que é verdadeira e justa: a certeza de que Meleto mente e eu digo a verdade? Epílogo Sócrates não quer Misericórdia Cidadãos. embora possuíssem alguma boa reputação. E conseguiria indicar vários outros que Meleto poderia apresentar como testemunhas na sua acusação. ao fazer intimamente esta comparação. ao pensar em si mesmo. trouxe ao tribunal os filhos e vários de seus parentes e amigos. se os que lhe são caro sofreram algum mal por mim causado. se não quisessem fazê-lo diretamente. seria ainda necessário que estes. ou por outra virtude qualquer. um já crescido e dois ainda crianças. e também Lisânias de Esfeto. porque corre pela cidade que. filho de Aríston. são bem poucos diferentes destas. porém. se ele se esqueceu disso. quando eram réus em um processo. em defesa daquele que causa o mal de seus familiares. embora. os corrompidos. e pessoas desse tipo. de quem temos aqui o irmão Apolodoro. ainda mais na minha idade e com o meu nome. Ora. e outros. e como Teódoto faleceu. tomassem consciência de que quando eram jovens eu os aconselhei a praticar o mal. esteja arriscando a vida . possa irritar-se comigo se. Sócrates se distingue da maioria dos homens. Ao fazer isso. e Aantodoro. mas não os trouxe aqui para despertar vossa misericórdia e absolver-me". Talvez esses. Muitos destes estão presentes. além disso. não nos portamos dessa maneira é o que compete a nós. . filho de Teozótides. com seu filho Ésquino. ó atenienses. as razões que posso apresentar em minha defesa. como afirmam Meleto e Ânito. E estas coisas. tenho três filhos. Nicóstrato. que enviassem hoje para cá as pessoas de sua família. como se achassem que iriam sofrer sabe-se lá que tortura se devessem morrer e como se tornassem imortais se não fossem condenados à morte por vós. Se de fato eu corrompo os jovens. E não é por orgulho que me comporto assim. se deixe influenciar pelo amor-próprio ferido e. ao envelhecerem. verdadeiro ou falso que seja. e aqui caberia aquele dito de Homero: 'Que não de carvalho. vereis que todos farão o contrário. de quem ali se encontra o irmão Platão. se existe alguma testemunha deste tipo. se já corrompi algum. sim. enfim. eu mesmo presenciei muitas vezes. cedo-lhe o lugar. e algumas mais. dadas por intermédios de vaticínios e sonhos. que outra razão podem ter para me defender exceto esta. em quaisquer aspectos. não me pareceu honroso agir dessa maneira. todos falarão a favor do corruptor. e aí está Parálio. mas de criaturas humanas'. nem de pedra nasci. e que me fizessem pagar por isso. não afirmo categoricamente que há.

Porque estes vos proporcionam felicidade. e porque sempre acudi rapidamente aonde quer que eu reputasse poder proporcionar o maior bem a cada um de vós em particular. estaríeis convencidos. Porque é evidente que se eu. injustos e vis. nem vos nem eu. desta acusação. Contudo. Não iríeis querer então. E eu. tivemos muito pouco tempo para nos entendermos. que proíbem que uma pena de morte seja aplicada em apenas um dia. e deixo a vosso critério. talvez julgais notar quase o mesmo sentimento de ofensivo orgulho que acreditáveis ter percebido quando falava a respeito de suplicar e despertar comiseração. e não precisam ser sustentados como eu precioso. ó atenienses. ao longo da minha existência. atenienses não seria mantê-lo no Pritaneu com muito maior razão do que aqueles que. por não haver usufruído em paz. Este homem. O que. se é que devo ser recompensado como mereço. penso haver escapado das mãos de Meleto. biga ou quadriga. e. pois acreditava que seria condenado por muito mais votos. não faremos coisas boas e piedosas. o que é bastante evidente. eu que sou acusado por Meleto. e não só haver escapado delas. peço se alimentado no Pritaneu. com apenas mais trinta votos a meu favor teria sido absolvido. Se. ó atenienses. Ao que me parece. ao fato de não haver sido apanhado de surpresa. mas que farão justiça de acordo com as leis. e também a mim. ó cidadãos. se Ânito e Lícon não tivessem vindo para me acusar. Portanto. mas sim infomá-los e convencê-los. e mesmo assim não logrei convencer-vos. nem juraram que favorecerão a quem lhes paga. mesmo assim. Que mereço por sempre haver agido desta forma? Algum grande bem. eu teria sido multado em mil dracmas por não haver conseguido um quinto dos votos. Que será apropriado para um pobre benfeitor que precisa de tempo para aconselhar-vos nos vossos assuntos? O que mais seria conveniente a esse homem. que pena apresentarei em oposição à vossa. tentar influir nos juízes e. e ao do deus. não é fácil livrar-se em tão breve espaço de tempo de acusações tão graves. aquilo a que faço jus. isso deve-se. ó atenienses. devo pedir. e por ter desprezado aquilo que atrai a maioria. Não. mas. ó atenienses? Não é evidente que seja a mesma que me foi imposta? Qual será então? Que pena merecerei ou que multa. entre outras razões.49 maior rigor quem encena esses dramas lastimosos e cobre a cidade de ridículo do que quem suporta com serenidade o próprio destino. Não considero justo. então. pensa que mereço a pena capital. interesses particulares. aqui presente. E também pensa em prejudicar a mm mesmo ao declarar que sou merecedor da pena e pedir que esta pena seja aplicada a mim. me causa mais estranheza é o grande número de votos favoráveis a mm . livrar-me da condenação. e sim em mais. mesmo nestas minhas palavras de agora. antes de qualquer coisa e de vós mesmos. julgar o que será para vós e para mim o melhor. por meio de súplicas procurasse convencer-vos e obrigar-vos a violar o juramento. tenham conseguido triunfos nos Jogos Olímpicos. e que vos esforçásseis ao máximo para trabalhar em prol da cidade. Penso nunca haver prejudicado ninguém por querer. E acredito que se houvesse leis entre nós. que eu cometesse diante de vós atos que reputo desonestos. com o que acaba de ocorrer. Acredito nos deuses mais do que qualquer um dos meus acusadores. e eu menos ainda. E é justamente o contrário que sucede. com cavalo. não é necessário que vos habitueis a isso. procurásseis ser os melhores e mais sensatos possível. então. e as agitações e conspirações que acontecem nas cidades. seria culpado de não crer nos deuses. tentando convencer-vos de que. A Pena Do Esperado da Pena Se eu não estou abalado. Os juízes não se encontram aqui para favorecer o justo. mas para julgar o justo. eu vos ensinaria que. no entanto. riquezas. cargos militares e políticos e todas as outras magistraturas. Portanto. o que aprendi. o de terem votado pela minha condenação. e não por tão poucos. mediante súplicas. ó cidadãos. de impiedade. mas algo bastante diferente. não é isso. de acordo com o direito. pois sempre me considerei por demais honesto para conseguir salvar-me se me dedicasse a tais coisas e convencido de que não teria sido útil nem para mm nem para vós. E por temer o que eu deveria agir dessa forma? Talvez por temer sofrer aquilo que Meleto exige para mim e que eu declaro não saber se é bom ou mau? E em troca desta pena devo . como as que há entre outros povos.

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escolher outra entre aquelas que eu sei serem más? Deverei solicitar a prisão? E por que motivo deverei viver preso, a serviço da eterna magistratura dos Onze? Uma pena em dinheiro e permanecer enjaulado enquanto não for paga? Mas é exatamente a mesma coisa que a anterior, porque não possuo dinheiro para pagá-la. Pedirei o exílio? Sim, talvez seja precisamente esta pena que desejastes para mim. Porém, em verdade, ó atenienses, eu teria de estar imbuído de uma bem ingênua vontade de viver se fosse assim tão irracional a ponto de não poder nem mesmo fazer este raciocínio, que enquanto vós, embora sendo meus concidadãos, não fostes capazes de agüentar minha companhia e os meus discursos, e mais, que minha companhia foi tão desagradável que procuras agora livrar-vos dela, que outros a agüentariam de bom grado? E ainda, atenienses, que excelente vida seria a minha, nesta idade, exilado, mudando sempre de país para país, perseguido em todos os lugares. Porque sei muito bem que aonde quer que eu vá, os jovens acorrerão a fim de me ouvir, como aqui, e, se eu os repelir, serão estes mesmos que me farão perseguir, convencendo os mais velhos; e se não os repelir, serei perseguido por seus pais e demais parentes. Algum de vós talvez pudesse contestar-me: "Em silêncio e quieto, ó Sócrates, não poderias viver após ter saído de Atenas?" Isso seria simplesmente impossível. Porque, se vos dissesse que significaria desobedecer ao deus e que, por conseguinte, não seria possível que eu vivesse em silêncio, não acreditaríeis e pensaríeis que estivesse sendo sarcástico. Se vos dissesse que esse é o maior bem para o homem, meditar todos os dias sobre a virtude e acerca dos outros assuntos que me ouvistes discutindo e analisando a meu respeito e dos demais, e que uma vida desprovida de tais análises não é digna de ser vivida, se vos dissesse isto, acreditar-me-iam menos ainda. Contudo, é isto que vos digo, ó atenienses, porém é difícil convencer-vos. Por outro lado, não estou habituado a considerar-me merecedor de mal algum. Se eu possuísse dinheiro, poderia ter-me aplicado uma multa que conseguisse pagar, porque, assim, não teria me infligido mal algum. Mas não possuo dinheiro e não posso fazer isso, exceto se desejeis multar-me de uma quantia que eu tenha a possibilidade de pagar. Poderei pagar-vos apenas uma mina de prata. Portanto, multo-me em uma mina de prata. Mas vedes, ó atenienses, que Platão, Críton, Critóbulo e Apolodoro querem que eu me multe em trinta minas, que eles mesmos garantirão. Multo-me então em trinta minas. E esses homens, dignos de crédito e confiança, serão garantes dessa quantia.

Após a Condenação
Aos que Votaram Contra Por não haverdes aguardado mais um pouco, atenienses, aqueles que desejarem injuriar a cidade vos impingirão a fama e a acusação de terdes matado Sócrates, um sábio. Sim, chamar-me-ão de sábio, apesar de que eu não o seja, os que vos quiserem censurar. Se esperásseis mais algum tempo, a própria natureza satisfaria o vosso desejo. Bem sabeis a minha idade, já distante da vida e próxima da morte. Não dirijo essas palavras a todos vós, mas aos que votaram pela minha morte. Para esses mesmos, adito o seguinte: talvez imagineis, senhores, que me perdi por falta de discursos com que vos poderia persuadir, se na minha opinião se devesse tudo fazer e dizer para escapar à justiça. Engano! Perdi-me por falta, não de discursos, mas de atrevimento e descaramento, por me recusar a proferir o que mais gostais de ouvir, lamentos e gemidos, fazendo e dizendo uma porção de coisas que declaro indignas de mm, tais como costumais ouvir dos outros. Ora, se antes achei que o perigo não justificava indignidade alguma, tampouco me pesa agora da maneira por que me defendi; ao contrário, muito mais folgo em morrer após a defesa que fiz, do que folgaria em viver após fazê-la daquele outro modo. Quer no tribunal, quer na guerra, não devo eu, não deve ninguém lançar mão de todo e qualquer recurso para escapar à morte. Com efeito, é evidente que, nas batalhas, muitas vezes se pode escapar à morte arrojando as armas e suplicando piedade aos perseguidores; em cada perigo, tem muitos outros meios de escapar à morte quem ousa tudo fazer e dizer. Não se tenha por difícil escapar à morte, porque muito mais difícil é escapar à maldade; ela corre mais ligeira que a morte. Neste momento, fomos apanhados, eu, que sou um velho vagaroso, pela mais lenta das duas, eu e os meus acusadores, ágeis e velozes, pela mais ligeira, a malvadez. Agora, vamos partir; eu, condenado por vós à morte; eles,

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condenados pela verdade a seu pecado e a seu crime. Eu aceito a pena imposta; eles igualmente. Por certo, tinha de ser assim e penso que não houve excessos. Acerca do futuro, no entanto, quero fazer-vos um vaticínio, meus condenadores; de fato, eis-me chegado àquele momento em que os homens vaticinam melhor, quando estão para morrer. Eu vos afianço, homens que me mandais matar, que o castigo os vos alcançará logo após a minha morte e será, por Zeus, muito mais duro que a pena capital que me impusestes. Vós o fizestes supondo que vos livraríeis de dar boas contas de vossa vida; mas o resultado será inteiramente oposto, eu vo-lo asseguro. Serão mais numerosos os que vos pedirão contas; até agora eu os continha e vós não os percebíeis; eles serão tanto mais importunos quanto são mais jovens, e vossa irritação será maior. Se imaginais que, matando homens, evitareis que alguém vos repreenda a má vida, estais enganados; essa não é uma forma de libertação, enm é inteiramente eficaz nem honrosa; esta outra, sim, é a mais honrosa e mais fácil; em vez de tapar a boca dos outros, preparar-se para ser o melhor possível. Com este vaticínio, despeço-me de vós que me condenastes.

Aos que o Absolveram
Com os que votaram pela absolvição, gostaria de conversar com respeito ao que se acaba de suceder, enquanto os magistrados estão ocupados e antes de ir para onde devo morrer. Por conseguinte, senhores, ficai comigo mais um pouco; nada obsta que nos entretenhamos enquanto dispomos de tempo. Quero explicar-vos, como a amigos, o sentido exato de que me aconteceu agora. O que me ocorreu senhores juízes, a vós é que chamo com tino de juízes, foi algo prodigioso. A usual inspiração, a da divindade, sempre foi rigorosamente assídua em opor-se a ações mínimas, quando eu ia cometer um erro; agora, porém, acaba de me ocorrer o que vós estais vendo, o que se poderia considerar, e há quem o faça, como o maior dos males; mas a advertência divina não se me opôs de manhã, ao sair de casa, nem enquanto subia aqui para o tribunal, nem quando ia dizer alguma coisa; no entanto, quantas vezes ela me conteve em meio de outros discursos! Mas hoje não se me opôs vez alguma no decorrer do julgamento, em nenhuma ação ou palavra. A que devo atribuir isso? Vou dizervos: é bem possível que seja um bem para mim o que aconteceu e não é forçoso acreditar que a morte seja um mal. Disso tenho agora uma boa prova, porque a usual advertência não poderia deixar de oporse, se não fosse uma ação boa o que eu estava para praticar. Façamos mais esta reflexão: há grande esperança de que isto seja um bem. Morrer é uma destas duas coisas: ou o morte é igual a nada, e não sente nenhuma sensação d coisa nenhuma; ou, então, como se costuma dizer, trata-se duma mudança, uma emigração da alma, do lugar deste mundo para outro lugar. Se não há nenhuma sensação, se é como um sono em que o adormecido nada vê nem sonha, que maravilhosa vantagem seria a morte! Bem posso imaginar que, se devêssemos identificar uma noite em que estivéssemos dormindo tão profundamente que nem mesmo sonhássemos e, contrapondo a essa as demais noites e dias de nossa vida, pensar e dizer quantos dias e noites de nossa existência vivemos melhor e mais agradavelmente do que naquela noite, bem posso imaginar que, já não digo um homem comum, mas o próprio rei da Pérsia acharia fácil enumerar tal noite entre as outras noites e dias. Logo, se a morte é isso, digo que é uma vantagem, porque, assim sendo, toda a duração do tempo se apresenta como nada mais que uma noite. Se, do outro lado, a morte é como a mudança daqui para outro lugar e está certa a tradição de que lá estão todos os mortos, que maior bem haveria que esse, senhores juízes? Se, ao chegar ao Hades, livre dessas pessoas que se intitulam juízes, a gente vai encontrar os verdadeiros juízes que, segundo consta, lá distribuem a justiça, Minos,¹ Radamanto, Éaco, Triptólemo e outros semideuses que foram justiceiros em vida, não valeria a pena a viagem? Quanto não daria qualquer de vós para estar na companhia de Orfeu,² Museu, Hesíodo e Homero? Por mm, estou pronto a morrer muitas vezes, se isso é verdade; eu de modo especial acharia lá um entretenimento maravilhoso, quando encontrasse Palamedes, Ajax de Telamon e outros dos antigos, que tenham morrido por um sentença iníqua; não me seria desagradável comparar com os deles os meus sofrimentos e, o que é mais, passar o tempo examinando e interrogando os de lá como aos de cá, a ver quem deles é sábio e quem, não o sendo, cuida que é. Quanto não se daria, senhores juízes, para sujeitar a exame aquele que

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comandou a imensa expedição contra Tróia, ou Ulisses, ou Sísifo? Milhares de outros se poderiam nomear, homens e mulheres, com quem seria uma felicidade indizível estar junto, conversando com eles, sujeitando-os a exame! Os de lá absolutamente não matam por uma razão dessas! Os de lá são mais felizes que os de cá, entre outros motivos, por serem imortais pelo resto do tempo, se a tradição está certa. Vós também, senhores juízes, deveis bem esperar da morte e considerar particularmente esta verdade: não há, para o homem bom, mal algum, quer na vida, quer na morte, e os deuses não descuidam de seu destino. O meu não é conseqüência do acaso; vejo claramente que era melhor para mim morrer agora e ficar livre de fadigas. Por isso é que a advertência nada me impediu. Não me insurjo absolutamente contra os que votaram contra mm ou me acusaram. Verdade é que não me acusaram e condenaram com esse modo de pensar, mas na suposição de que me causavam dano: nisso merecem censura. No entanto, só tenho um pedido a lhes fazer: quando meus filhos crescerem, castigai-os, atormentai-os com os mesmíssimos tormentos que eu vos infligi, se achardes que eles estejam cuidando mais da riqueza ou de outra coisa que da virtude; se estiverem supondo ter um valor que não tenham, repreendei-os, como vos fiz eu, por não cuidarem do que devem e por suporem méritos, sem ter nenhum. Se vós assim agirdes, eu terei recebido de vós justiça; eu, e meus filhos também. Bem, é chegada a hora de partirmos, eu para a morte, vós para a vida. Quem segue melhor destino, se eu, se vós, é segredo para todos, exceto para a divindade. ¹ Rei lendário de Creta, filho de Europa e de Zeus, marido de Pasífae, sábio legislador, juiz dos Infernos com Éaco e Triptólemo. ² Célebre aedo da era pré-homérica, cantava e tocava a lira com tal perfeição que até as feras se aquietavam e vinham deitar-se a seus pés. Atribuía-se-lhe a invenção da lira e dos rituais mágicos e divinatórios, origem de seitas místicas, a que se deu o nome de orfismo. Platão A Vida e as Obras Diversamente de Sócrates , que era filho do povo, Platão nasceu em Atenas, em 428 ou 427 a.C., de pais aristocráticos e abastados, de antiga e nobre prosápia. Temperamento artístico e dialético - manifestação característica e suma do gênio grego - deu, na mocidade, livre curso ao seu talento poético, que o acompanhou durante a vida toda, manifestando-se na expressão estética de seus escritos; entretanto isto prejudicou sem dúvida a precisão e a ordem do seu pensamento, tanto assim que várias partes de suas obras não têm verdadeira importância e valor filosófico. Aos vinte anos, Platão travou relação com Sócrates - mais velho do que ele quarenta anos - e gozou por oito anos do ensinamento e da amizade do mestre. Quando discípulo de Sócrates e ainda depois, Platão estudou também os maiores pré-socráticos. Depois da morte do mestre, Platão retirou-se com outros socráticos para junto de Euclides, em Mégara. Daí deu início a suas viagens, e fez um vasto giro pelo mundo para se instruir (390-388). Visitou o Egito, de que admirou a veneranda antigüidade e estabilidade política; a Itália meridional, onde teve ocasião de travar relações com os pitagóricos (tal contato será fecundo para o desenvolvimento do seu pensamento); a Sicília, onde conheceu Dionísio o Antigo, tirano de Siracusa e travou amizade profunda com Dion, cunhado daquele. Caído, porém, na desgraça do tirano pela sua fraqueza, foi vendido como escravo. Libertado graças a um amigo, voltou a Atenas. Em Atenas, pelo ano de 387, Platão fundava a sua célebre escola, que, dos jardins de Academo, onde surgiu, tomou o nome famoso de Academia. Adquiriu, perto de Colona, povoado da Ática, uma herdade, onde levantou um templo às Musas, que se tornou propriedade coletiva da escola e foi por ela conservada durante quase um milênio, até o tempo do imperador Justiniano (529 d.C.). Platão, ao contrário de Sócrates, interessou-se vivamente pela política e pela filosofia política. Foi assim que o filósofo, após a morte de Dionísio o Antigo, voltou duas vezes - em 366 e em 361 - à Dion, esperando poder experimentar o seu ideal político e realizar a sua política utopista. Estas duas viagens políticas a Siracusa, porém, não tiveram melhor êxito do que a precedente: a primeira viagem terminou

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com desterro de Dion; na segunda, Platão foi preso por Dionísio, e foi libertado por Arquitas e pelos seus amigos, estando, então, Arquistas no governo do poderoso estado de Tarento. Voltando para Atenas, Platão dedicou-se inteiramente à especulação metafísica, ao ensino filosófico e à redação de suas obras, atividade que não foi interrompida a não ser pela morte. Esta veio operar aquela libertação definitiva do cárcere do corpo, da qual a filosofia - como lemos no Fédon - não é senão uma assídua preparação e realização no tempo. Morreu o grande Platão em 348 ou 347 a.C., com oitenta anos de idade. Platão é o primeiro filósofo antigo de quem possuímos as obras completas. Dos 35 diálogos, porém, que correm sob o seu nome, muitos são apócrifos, outros de autenticidade duvidosa. A forma dos escritos platônicos é o diálogo, transição espontânea entre o ensinamento oral e fragmentário de Sócrates e o método estritamente didático de Aristóteles. No fundador da Academia, o mito e a poesia confundem-se muitas vezes com os elementos puramente racionais do sistema. Faltamlhe ainda o rigor, a precisão, o método, a terminologia científica que tanto caracterizam os escritos do sábio estagirita. A atividade literária de Platão abrange mais de cinqüenta anos da sua vida: desde a morte de Sócrates , até a sua morte. A parte mais importante da atividade literária de Platão é representada pelos diálogos em três grupos principais, segundo certa ordem cronológica, lógica e formal, que representa a evolução do pensamento platônico, do socratismo ao aristotelismo. O Pensamento: A Gnosiologia Como já em Sócrates, assim em Platão a filosofia tem um fim prático, moral; é a grande ciência que resolve o problema da vida. Este fim prático realiza-se, no entanto, intelectualmente, através da especulação, do conhecimento da ciência. Mas - diversamente de Sócrates, que limitava a pesquisa filosófica, conceptual, ao campo antropológico e moral - Platão estende tal indagação ao campo metafísico e cosmológico, isto é, a toda a realidade. Este caráter íntimo, humano, religioso da filosofia, em Platão é tornado especialmente vivo, angustioso, pela viva sensibilidade do filósofo em face do universal vir-a-ser, nascer e perecer de todas as coisas; em face do mal, da desordem que se manifesta em especial no homem, onde o corpo é inimigo do espírito, o sentido se opõe ao intelecto, a paixão contrasta com a razão. Assim, considera Platão o espírito humano peregrino neste mundo e prisioneiro na caverna do corpo. Deve, pois, transpor este mundo e libertar-se do corpo para realizar o seu fim, isto é, chegar à contemplação do inteligível, para o qual é atraído por um amor nostálgico, pelo eros platônico. Platão como Sócrates, parte do conhecimento empírico, sensível, da opinião do vulgo e dos sofistas, para chegar ao conhecimento intelectual, conceptual, universal e imutável. A gnosiologia platônica, porém, tem o caráter científico, filosófico, que falta a gnosiologia socrática, ainda que as conclusões sejam, mais ou menos, idênticas. O conhecimento sensível deve ser superado por um outro conhecimento, o conhecimento conceptual, porquanto no conhecimento humano, como efetivamente, apresentam-se elementos que não se podem explicar mediante a sensação. O conhecimento sensível, particular, mutável e relativo, não pode explicar o conhecimento intelectual, que tem por sua característica a universalidade, a imutabilidade, o absoluto (do conceito); e ainda menos pode o conhecimento sensível explicar o dever ser, os valores de beleza, verdade e bondade, que estão efetivamente presentes no espírito humano, e se distinguem diametralmente de seus opostos, fealdade, erro e mal-posição e distinção que o sentido não pode operar por si mesmo. Segundo Platão, o conhecimento humano integral fica nitidamente dividido em dois graus: o conhecimento sensível, particular, mutável e relativo, e o conhecimento intelectual, universal, imutável, absoluto, que ilumina o primeiro conhecimento, mas que dele não se pode derivar. A diferença essencial entre o conhecimento sensível, a opinião verdadeira e o conhecimento intelectual, racional em geral, está nisto: o conhecimento sensível, embora verdadeiro, não sabe que o é, donde pode passar indiferentemente o conhecimento diverso, cair no erro sem o saber; ao passo que o segundo, além de ser um conhecimento verdadeiro, sabe que o é, não podendo de modo algum ser substituído por um conhecimento diverso, errôneo. Poder-se-ia também dizer que o primeiro sabe que as coisas estão assim,

precisamente porque é ciência.particular.no dizer de Platão . para poder explicar verdadeiramente o conhecimento humano na . existir. Deste mundo material e contigente. As idéias não são. ao conhecimento certo deve corresponder a realidade. Este mundo ideal. no seu valor. A ciência é objetiva. todavia. Sócrates estava convencido. mas julgava. se impõe ao lado e acima do conhecimento sensível. o mundo dos inteligíveis. de que o saber intelectual transcende. Pode haver conhecimento apenas do mundo imaterial e racional das idéias pela sua natureza superior. exasperando a doutrina da maiêutica socrática. A certeza da sua existência funda-a Platão na necessidade de salvar o valor objetivo dos nossos conhecimentos e na importância de explicar os atributos do ente de Parmênides . necessários. conceptual.se possa de algum modo tirar o conceito universal. Teoria das Idéias Sócrates mostrara no conceito o verdadeiro objeto da ciência. que está no vértice. O divino platônico é representado pelo mundo das idéias e especialmente pela idéia do Bem. modelos e arquétipos eternos de que as coisas visíveis são cópias imperfeitas e fugazes. imutáveis e eternos (Sócrates). mutável. através de que desce das idéias à matéria aquilo de racionalidade que nesta matéria aparece. tudo no mundo é individual. como também Platão. Do mesmo modo. ou alguns conceitos da mente. Assim a idéia de homem é o homem abstrato perfeito e universal de que os indivíduos humanos são imitações transitórias e defeituosas. ao passo que o segundo sabe que as coisas devem estar necessariamente assim como estão. Deve. no máximo. ao contrário. Todas as idéias existem num mundo separado.que é precisamente o conhecimento adequado à sua natureza inferior. não há ciência. objetivamente dotadas dos mesmos atributos dos conceitos subjetivos que as representam. com ele. mas apenas é possível. conhecimento das coisas pelas causas. personalizados. Entre as idéias e a matéria estão o Demiurgo e as almas. que são os conceitos. um objeto adequado ao conhecimento conceptual.54 sem saber porque o estão. Esse conhecimento. sem. Platão aprofunda-lhe a teoria e procura determinar a relação entre o conceito e a realidade fazendo deste problema o ponto de partida da sua filosofia. pois. no sentido platônico. inatos no espírito humano. poder construir indutivamente o conceito da sensação. são realidades objetivas. e sim a ocasião para fazê-los reviver. diversamente de Sócrates. contigente e transitório (Heráclito). situado na esfera celeste. sensível. devido à sua natureza inferior. exagerando. à opinião verdadeira. Tal a célebre teoria das idéias. os nossos conceitos são universais. logo. um conhecimento sensível verdadeiro . A Metafísica As Idéias O sistema metafísico de Platão centraliza-se e culmina no mundo divino das idéias. racional . da opinião. Platão. um objeto próprio: as idéias eternas e universais. científico. material. centro em torno do qual gravita todo o seu sistema. não admite que da sensação . isto é. além do fenomenal. aliás. uma base e um fundamento reais. A existência desse mundo ideal seria provada pela necessidade de estabelecer uma base ontológica. como as concebiam Heráclito e os sotistas . diz que os conceitos são a priori. dá ao conhecimento empírico. absoluto. portanto. um outro mundo de realidades. desenvolvendo. Ora. uma base real. alma de toda filosofia platônica.opinião verdadeira . do outro. de um lado. imutável. relembrar conforme a lei da associação.transcende inteiramente o mundo empírico. e estas contrapõe-se a matéria obscura e incriada. relativa . formas abstratas do pensamento. um objeto próprio: as coisas particulares e mutáveis. E. o saber sensível. donde têm de ser oportunamente tirados. em que vivemos. Aqui devemos lembrar que Platão. e sustenta que as sensações correspondentes aos conceitos não lhes constituem a origem. negar a existência do fieri. Estas realidades chamam-se Idéias. representações intelectuais. dá ao conhecimento racional.

ordenadora . a idéia do Bem. melhor. em geral. sendo que a alma racional é. o seu instrumento adequado. é o ser sem o qual não se explica o vir-a-ser. O Demiurgo plasma o caos da matéria no modelo das idéias eternas. anima toda a realidade. de superioridade. todavia. haveria.é. Logo. Deve portanto. Portanto. serão universais. durante a vida terrena. deveria ser. a alma do corpo. que se obtém mediante a divisão e a classificação. Ele. lógicos e estéticos) que se manifestam no mundo sensível. caído no mundo material como que por uma espécie de queda original. começa e progride mediante a filosofia. terão consequentemente as características dos próprios conceitos: transcenderão a experiência. as idéias e a matéria. à qual comunica o movimento e a vida. Desta personalidade e atividade criadora . A alma não encontra no corpo o seu complemento. e da qual depende totalmente a ação moral. que residiria no peito. ontológica) esclarecer. que é papel da dialética (lógica real. segundo Platão. está entre o ser (idéia) e o não-ser (matéria). embora superior à matéria. E. E diga-se o mesmo da vontade a respeito das tendências. de um mal radical. dotado de atividade sensitiva e vegetativa. O mundo. religiosos e místicos. Entretanto. A faculdade principal. isto é. essencial da alma é a de conhecer o mundo ideal. é inferior às idéias. e se realiza com a morte. e é o devir ordenado. que devem ser trabalhosamente relembradas. Mas a alma está no corpo como num cárcere. deveria representar o verdadeiro Deus platônico. de natureza espiritual. inteligível.ou. Assim é que considera ele a alma humana como um ser eterno (coeterno às idéias. introduzindo no caos a alma. As Almas A alma. transferidos da ordem lógica à ontológica. que é separação espiritual da alma do corpo. uma alma do . transcendental: contemplação em que se realiza a natureza humana. como o adequado conhecimento sensível está entre o saber e o não-saber. imutáveis. o cosmos platônico. pois. então. como de um cárcere. na realidade. o intelecto é impedido pelo sentido da visão das idéias.ou partes da alma: a irascível (ímpeto). as idéias terão aquela mesma ordem lógica dos conceitos. de que este nosso mundo imperfeito participa e a que aspira. de fato.55 sua efetiva realidade. princípio de movimento e de ordem. Como a multiplicidade dos indivíduos é unificada nas idéias respectivas. E. Logo. donde dependem todas as demais idéias. separando-se. é a realidade suprema. o dever ser. quer dizer. estando no vértice a idéia do Bem. apenas mediante uma disciplina ascética do corpo. O Mundo O mundo material. o homem realiza a sua verdadeira natureza: a contemplação intuitiva do mundo ideal. e é a opinião verdadeira. Conforme a cosmologia pampsiquista platônica. que desvencilha para sempre a alma do corpo. no sistema platônico. antes de tudo. a união da alma espiritual com o corpo é extrínseca. resulta da síntese de dois princípios opostos. para ser verdadeiramente tal. de cujo modelo se serve para ordenar a matéria e transformar o caos em cosmos. a alma humana. assim a multiplicidade das idéias é unificada na idéia do Bem. assim como o Demiurgo. e a concupiscível (apetite). e todos os valores (éticos. que residiria no abdome . a ordem e a harmonia.assim como a alma racional residiria na cabeça. tanto no homem como nos outros seres. em vista dos seus impelentes interesses morais e ascéticos. ao Demiurgo e à matéria). unida a um corpo. porquanto Platão é um pampsiquista. em dependência de uma ação do Demiurgo sobre a alma. desempenha papel de mediador entre as idéias e a matéria. Além disso. são ordenadas em sistema hierárquico. Visto serem as idéias conceitos personalizados. libertar-se do corpo. pelo contrário. tais funções seriam desempenhadas por outras duas almas . e mediante a morte libertadora. deve existir um princípio de uma e outra. até violenta. o mundo ideal é provado pela necessidade de justificar os valores. esta libertação. Assim. No entanto. Naturalmente a alma sensitiva e a vegetativa são subordinadas à alma racional. dotado o Demiurgo o qual. Segundo Platão. falta-lhe a personalidade e a atividade criadora. que o mortifica inteiramente. dá à alma humana um lugar e um tratamento à parte.

dos filósofos. Então a realização da natureza humana não consiste em uma disciplina racional da sensibilidade. um ciclo de dez mil anos. a única virtude verdadeiramente humana e racional. libertados da vida temporal para sempre. 2. o inteligível. o mundo físico percorre uma grande evolução. A Política Os escritos em que Platão trata especificamente do problema da política. ao corpo. que é. para impedir que o primeiro seja obstáculo ao segundo. Consoante a astronomia platônica. dependentes e inferiores. e filosofar é suprimir o sensível. distingue ele três categorias de alma: 1. a virtude suma. e domine também a alma irascível. ao contrário.56 mundo e. em forma de esfera e. visto que a alma humana racional se acha. que domina também a grande concepção platônica. a natureza do homem é racional. e. o Político e as Leis. o universo sensível. as dos filósofos. passiva. chegado o grande ano do mundo. Segundo o pensamento que lemos no Fédon.sobre a base da metafísica platônica da alma. condenadas eternamente. Da idéia . espacial . conexa ao clássico dualismo grego. da razão. ao redor. por conseqüência. pois. felicidade e virtude. terminados os quais. temperança. destarte. depende da religião. chamadas depois cardeais . Temos. deve principiar a sua vida moral sujeitando o corpo ao espírito.indeterminada. Da matéria . .que Platão explica mediante um dualismo filosófico-religioso de alma e de corpo: o intelecto encontra um obstáculo nos sentidos. à espera de que a morte solte definitivamente a alma dos laços corpóreos. irracional. Na República. As que viveram conforme à justiça. tudo recomeça de novo. virtude fundamental. do bem e do mal. transparentes.ser. encarnam-se de novo. na separação da alma do corpo. a vontade no impulso. Tal harmônica distribuição de atividade na alma conforme a razão constituiria. embora a esta naturalmente inferior. as estrelas e os planetas. A terra está no centro. são esféricos. donde a virtude da fortaleza.depende. a saber. para que se realize a sabedoria. mas um obstáculo . Agir moralmente é agir racionalmente. o reino do espírito. seria mister acrescentar uma quarta categoria de almas. de racional no vir-a-ser da experiência. depois. uma dedução das famosas quatro virtudes naturais. dos mistérios órfico-dionisíacos. na morte. neste mundo. em especial. segundo Platão. verdade. a filosofia. bondade. esta natureza racional do homem encontra no corpo não um instrumento. na razão realiza o homem a sua humanidade: a ação racional realiza o sumo bem. antes de tudo. mutável. derivando daí a virtude da temperança. videntes de idéias. os astros. Em geral. etc. da ordem e da desordem. a contemplação. 3. fortaleza. a idéia. ao mundo. as almas dos astros. partes da alma. e assim por diante. em chocante contraste com os estados e a política deste mundo. o destino da alma depende da sua filosofia. É a clássica concepção grega do eterno retorno. ao mesmo tempo. cravados em esferas ou anéis rodantes. juntamente com a sapiência. a alma concupiscível. unida ao corpo e aos sentidos. Moral Segundo a psicologia platônica. para o espírito. Em todo caso. mas no da decadência. que aparecem no mundo. da razão. As que cometeram pecados expiáveis. para receber a pena ou o prêmio merecidos. é necessário que a alma racional domine. tudo que há de negativo na experiência. uma classificação. de fato. beleza depende tudo quanto há de positivo. informe. são a República. Noutras palavras. eis o pensamento de Platão: em geral. Entretanto. o mundo.prudência. As que cometeram pecados inexpiáveis. As almas destas últimas duas categorias nascem de novo. traça o seu estado ideal. a obra fundamental de Platão sobre o assunto. mas na sua final supressão. dos homens. justiça . O dualismo dos elementos constitutivos do mundo material resulta do ser e do não-ser. Quanto ao destino das almas depois da morte. não no sentido do progresso. No seu conjunto. explicando-se deste modo o movimento circular deles. morrer aos sentidos. e agir racionalmente é filosofar. a justiça.

a ordem ideal do mundo e. a riqueza. porquanto cada homem precisa do auxílio material e moral dos outros. por conseguinte. consistindo sua virtude apenas na obediência. a ordem da sociedade humana. pela plebe.agricultores e artesãos . enfim.diz Platão . estatais. da ginástica. espiritual.57 Qual é. fortificadora. materialismo. A música abrangendo também a poesia. Se a natureza do estado é. à primeira vista. a família. a dos produtores. como veículo dos valores transcendentais da Idéia. a dos guerreiros. . A educação das classes superiores importa. portanto. música e ginástica. por isso. mas pela grande importância e função moral por ele atribuída ao estado. pelo desprezo com que era considerado por Platão . À classe dos produtores. Esta educação é dispensada essencialmente às classes superiores especialmente aos filósofos. em geral. educá-los para a virtude. cuja formação é inteiramente material e subordinada. ética. E não hesita em sacrificar totalmente os interesses inferiores aos superiores. a distinção em classes. no organismo do estado. Ao contrário. Desta maneira é concebido o estado educador de homens virtuosos. Na hierarquia das classes. o estado em nada se interessa . porquanto representa precisamente . segundo as virtudes que se referem a cada classe. e estão. Platão foi levado a esta concepção política . a de organismo ético-transcendente.não certamente por estes motivos. estar substancialmente nas mãos do estado. portanto. cultivada apenas para fins práticos e morais. A essência do estado seria então. das mulheres e dos filhos. inteiramente entregues à conservação moral e física do estado. antes de tudo. a justificação da sociedade e do estado? Platão acha-a na própria natureza humana. de conformidade com a ordem estabelecida pelos filósofos. o comunismo dos bens. e. Os guerreiros representam a força a serviço do direito. e. Com efeito. Desta variedade de necessidades humanas origina-se a divisão do trabalho e. mas dessemelhantes e desiguais. À classe dos filósofos cabe dirigir a república. pois este fim supremo é unicamente a contemplação das idéias. pois. o pensador. a sua finalidade primordial é pedagógico-espiritual. Platão reconhece a importância da ginástica. domésticos. especialmente.submetida às duas precedentes. Segundo Platão. o indivíduo ao estado. que Platão propugna para as classes superiores. são incompatíveis com a condição de um homem livre em geral. não realiza tanto as obras exteriores. essencialmente. por conseqüência. a dominação e a riqueza. e ocupar-se com o seu bem estar material apenas secundária e instrumentalmente. ascética do estado platônico.pelo povo. em castas. mas. com a sua natureza gentil e civilizadora. as quais. político-religioso. os guerreiros receberam a educação.ao menos positivamente . dos quais e juntamente com os quais. estão efetivamente em contraste com os interesses coletivos.consoante seu pensamento . Entretanto. à altura de orientar racionalmente o homem e a sociedade para o fim verdadeiro. servis. corresponderiam respectivamente às almas racional. também das outras duas classes. cabe a conservação econômica do estado. Deveria ela equilibrar. pois. respectivamente. o fim supremo. se preocupa com espiritualizar os homens. é necessária porquanto os trabalhos materiais. À classe dos guerreiros cabe a defesa interna e externa do estado. a direção da república. todas as atividades presididas pelas Musas é. mas . sociais. a educação deve. então. todavia. O estado deve. a ação oposta.e pelos gregos em geral . contemplam eles o mundo das idéias. o verdadeiro político não é . consequentemente. pelo vulgo. fundamentalmente. privados. promover. o bem espiritual dos cidadãos.o homem prático e empírico. O grande. Na concepção ideal.. estas classes: a dos filósofos. pode causar impressão.tornada depois sinônimo de imanentismo. etc. irascível e concupiscível no organismo humano. mas o sábio. Platão tende a desvalorizar a grandeza militar e comercial. não uma sociedade de indivíduos semelhantes e iguais.eticamente considerados. Tal especificação e concretização da divisão do trabalho seria representada pela instituição da escravidão.o trabalho material. sobretudo. conhecem a realidade das coisas. sendo estes naturalmente superiores àqueles . econômicos e. a história. o estado ideal deveria ser dividido em classes sociais.um altíssimo valor moral terreno. porém. Tal atividade política constitui um dever para o filósofo. idolatrando a grandeza moral. representado pelos filósofos. a dos trabalhadores ocupa o ínfimo lugar. tal instituição. consoante Platão. ateísmo . como única e total expressão da eticidade transcendente. Tinha ele compreendido bem que os interesses particulares. visto a alma concupiscível estar sujeita à alma racional. Três são. que representam um desenvolvimento social e uma sistematização estável da divisão do trabalho no âmbito de um estado. e. a quem cabem as virtudes mais elevadas. não.

Costuma-se dividi-la . inferior à ciência. Ao lado. que foi um dos indícios da decadência grega. mais ou menos. uma espécie de revelação superior. conceptual. aquele mesmo ideal inteligível que a filosofia atinge abstratamente. A antiga academia dura até o ano de 260 a. a Academia. A ela pertencem homens insignes e de grande doutrina. É um politeísmo estranho. Por conseqüência. encontramos em Platão uma tentativa de valorização da arte em si. reitores. os assim chamados deuses visíveis. como religião do seu estado ideal. na sua pureza lógica. Seja como for. que toma uma orientação cética.dada esta sua inferior natureza teorética. semelhante à religião e ao amor. prevalece a desvalorização por dois motivos. narrados em torno dos deuses e dos heróis. dadas a sua impersonalidades e inatividade a respeito do mundo. .58 não passa de uma importância instrumental e parcial. O motivo teorético é que a arte resultaria como cópia de uma cópia: cópia do mundo empírico.torna-se outro tanto danosa no campo moral. animados e racionais. inclusive Homero. sucessores de Platão. pois . quase um século. porquanto deveria atingir intuitivamente. e subordinadas a esta espécie de Deus supremo. pois o prevalecer da cultura física do corpo torna os homens grosseiros e materiais. desenvolvendo o dualismo no panteísmo emanatista. a nova academia volta ao antigo dogmatismo e. cujas divindades são os astros e o cosmo. Apesar de repelir os deuses da mitologia popular e poética. como a ciência. bem como à idéia do Bem e às outras idéias.como o amor. como para o falso. depois. denominadas por Platão. pelos mitos fantásticos e imorais. encarnada em formas sensíveis. este absoluto . gnosiologicamente. média e nova. A Religião e a Arte A idéia do Bem seria o centro da religião platônica. a academia platônica sobreviverá ainda e tomará uma última forma e feição com o neoplatonismo. mas de fenômenos. subordinados ao Demiurgo. para o bem como para o mal.deveria ser um itinerário especial do espírito para o Absoluto e o inteligível. provavelmente também pela influência de Aristóteles . isto é. que é já uma cópia do mundo ideal.a religião helênica. prático outro. pela virtude que deriva necessariamente da ciência. impura fonte gnosiológica .C.cronologicamente e logicamente .C.em antiga. Entretanto. Em todo caso. não pode tornar-se objeto de religião. Platão hostiliza o antromorfismo. que tem por objeto a Beleza eterna e os graus que levam até ela . teorético um. de mania. A arte.embora transcendente. em oposição ao seu gênio e ao gênio artístico grego. O motivo prático é que a arte . estão as demais idéias. Quanto à avaliação da religião positiva. pois. A Academia A escola filosófica fundada por Platão. aceita francamente o politeísmo. nem sequer da religião assim chamada natural. segundo os interesses do último Platão. a arte deveria ser. ou seja. até querer banidos de seu estado ideal os poetas. Daí a sua aversão ao culto idolátrico dos exercícios físicos. que Platão já tinha valorizado no mito. espiritual e ético. É este o último esforço grandioso do pensamento grego para resolver o problema filosófico. a arte nos atrai para o verdadeiro. As doutrinas estéticas de Platão são algo oscilantes entre uma valorização e uma desvalorização da arte. No entanto. e valorizando o elemento religioso positivo. sobretudo graças a Carnéades (213-128 a. deuses eternos.o Bem e as idéias . Seu culto essencial é representado pela ciência e. até o VI século d. Vai-se acentuando a importância da experiência. Platão pode. Segue-se na média academia.reformada e purificada . sobreviveu-lhe por quase um milênio. como também uma tendência para uma sempre maior sistematização do pensamento platônico. cópia não de essências. no conjunto do seu pensamento. Finalmente. É governada por discípulos.. prevalecendo simpatias pitagóricas. orienta-se para o ecletismo. Chegamos assim ao princípio da era vulgar. conservar . Atuando cegamente sobre o sentimento. portanto.).C. sendo considerada a arte como uma espécie de loucura divina. algo como que uma filosofia.

Duas doutrinas se opõem radicalmente entre si. eterno. o arrasamento dos famosos muros (uniam a cidade ao Pireu) pelos esparciatas vencedores. imóvel. A doutrina pitagórica da salvação está muito próxima dos mistérios do orfismo. também é um místico. ar e fogo). Protágoras de Abdera. elementos eternos. é belo e vigoroso: apelidam-no "Platão" em virtude de seus ombros largos). Na realidade. Os pitagóricos acreditam na metempsicose. em 407. dissimulam relações numéricas que constituem o fundo das coisas: idéia capital. a obra de Platão só pode ser entendida em função de outros pensamentos. como punição de faltas passadas. é amargo para o enfermo).59 Para Entender Platão Platão. . com a capitulação de Atenas.. sua matemática desemboca numa metafísica. dizia. segundo um ritmo regular. A esta filosofia da mobilidade universal se opõem Parmênides e seu discípulo Zenão de Eléia: para eles. Demócrito tenta conciliar as duas doutrinas por intermédio de sua filosofia de átomos. tudo muda infinitivamente. Pitágoras (que teria inventado a palavra filosofia. infinitamente diversas. a mobilidade não passa de uma ilusão que engana nossos sentidos. portanto. que "o homem é a medida de todas as coisas". seu encontro com Sócrates. corpo = túmulo). acha que os elementos constitutivos do mundo são ordenados por uma Inteligência cósmica. Mas Atenas.de saída. Todavia. inicialmente. o Nous. fundador de sociedades iniciáticas que visam à salvação de seus membros. velho e muito feio (seus olhos salientes e seu nariz achatado são célebres). Para compreender isto. delicioso para o amador. como também o pensamento dos filósofos anteriores. recordemos o acontecimento fundamental da juventude de Platão. "Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio". "O Ser é. Diremos uma palavra sobre os sofistas. mereça ser finalmente libertada de toda materialização. o pensamento de seu mestre Sócrates. torna-se discípulo de um cidadão de origem modesta. já que Pitágoras acredita que os números são o princípio e a chave de todo o universo. "Planta rei". enquanto o ódio que dissocia e o amor que unifica seriam os princípios motores do universo. de um modo geral.com inigualável poder marítimo . Alain falou a propósito desse "choque dos contrários": Platão. assim como a natureza do som é função do comprimento da corda que vibra. a noite ao dia. Platão. Estava destinado. mas que está na origem da ciência moderna. Platão a ele se une. a vigília ao sono. o nascimento mais prestigioso: sua mãe descendia de Sólon. uma cidade que seja a encarnação da Justiça. é o primeiro grande filósofo da tradição ocidental a deixar uma obra escrita considerável. Anaxágoras. cujas combinações mutáveis são infinitas. tudo flui: a morte sucede à vida. precisamente denominados pré-socráticos. A morte anuncia o renascimento num outro corpo até que a alma. que viveu no século V antes de nossa era e que sabemos ter sido um ilustre matemático. que foi professor de Péricles. água. segundo o testemunho de Platão. aristocrata jovem e belo. A destruição da frota. seus ancestrais paternos. mas uma cidade cuja potência é antes moral e espiritual do que material. A encarnação é tão somente um encarceramento provisório para a alma. o não-ser é a mudança (mudar é deixar de ser o que se é para ser o que não se é). O fluxo que faz do universo uma torrente é constantemente produzido e destruído por um Fogo cósmico.. cujo ceticismo é engendrado pela multiplicidade de doutrinas contraditórias. simultaneamente purificada pela virtude e pela prática de ritos iniciáticos. as aparências coloridas do universo. o real é o Ser único. Platão tinha quatro anos quando começaram as guerras do Peloponeso e trinta e um quando eles terminaram. assinalam a importância da catástrofe. Empédocles vê na matéria quatro elementos (terra. que não só reencontramos em Platão. Sócrates tem sessenta e três anos quando. A alma. anteriores e contemporâneos . Para Heráclito de Éfeso. É um jovem aristocrata que une aos seus dons intelectuais e físicos (duas vezes coroado nos jogos atléticos nacionais. a uma brilhante carreira política. no entanto. o não-ser não é". Em outras palavras: não existe verdade absoluta. pelo incremento do individualismo e decadência dos costumes após Péricles. Platão vai sonhar com a reconstrução de uma cidade. mas tão somente opiniões relativas ao homem (este vinho. nascido em 428 a. Tratemos. amor à sabedoria). Um dos mais célebres.C. que por ocasião do nascimento de Platão se encontra no apogeu . torna-se prisioneira de um corpo (soma = sema. esboroa-se na época em que Platão atinge a idade adulta. a peste. pelo abuso da retórica (um orador hábil pode demonstrar o que quiser) e. de evocar Pitágoras de Samos. só reencontra a filosofia a partir de preocupações de caráter político. Muitas outras doutrinas dessa época tentam explicar o mundo. do último rei de Atenas.

Daí as resoluções que Platão nos apresenta na sétima carta. Encontrara aí um discípulo estusiasta na pessoa de Dion. um esforço de definição. segundo ele. É então que ele funda. Seu método é. o Teeteto. Ao mesmo tempo que convida o interlocutor a tomar consciência de seu próprio pensamento. o Timeu. Acontecimento político: é o partido popular. faz perguntas e sempre dá a impressão de buscar uma lição no interlocutor. Tal é o sonho que Platão tentaria realizar em Siracusa. Sócrates fá-lo compreender que. Devemos agora. Sócrates não pretende. 2. a obra escrita de Platão. Platão morre em 348 a. Nada ensinava e limitava-se a partejar os espíritos. o Fédon.É somente pela filosofia que se pode discernir todas as formas de justiça política e individual". Sócrates possui tal confiança no saber e na verdade que está firmemente persuadido que os injustos e os maus não passam de ignorantes. todavia. perto de Colona. reservado aos iniciados) dado por Platão a seus discípulos só nos é conhecido atualmente pelas críticas de Aristóteles. Esta máxima gravada no frontão do templo de Delfos. A verdade e a justiça (das quais Sócrates será o símbolo) não possuem bom aspecto. Este último. cunhado do novo tirano. que. Mas uma outra solução seria o próprio filósofo encarregar-se do governo da cidade (a Justiça reinará. "Reconheço que todos os Estados atuais. Muitas vezes. não se revelou muito adequado para se tornar o rei filósofo que Platão quisera fazer dele. Tal é a ironia. se Sócrates é o primeiro a reconhecer sua própria ignorância. Dionísio I. "Conhece-te a ti mesmo". devemos nos interessar. seus diálogos célebres tais como o Gógias. que era parteira. uma escola de filosofia à portas da cidade. ele procura depreender o conceito de justiça. não quer nos comunicar um saber que não possuiríamos. só há salvação pelo saber. restam-nos. diz Platão. Condenação injusta e escandalosa que exprime uma incompatibilidade trágica entre o poder político e a sabedoria do filósofo. nos jardins de Academos. dos problemas que eles colocam. filósofo puramente contemplativo que nem sabe onde se reúne o Conselho e cujo corpo está apenas presente na Cidade). condena Sócrates a beber a cicuta como corruptor da juventude e adversário dos deuses da cidade. de fato.C. Dionísio I prendeu Platão e. o Parmênides. a tomar consciência dos nossos próprios pensamentos. são meditação pura (tal é o filósofo cujo retrato nos é traçado no Teeteto. a República. que. secreto. Sócrates. o Banquete. eles a praticariam. Devemos representar a Academia como uma espécie de Universidade onde se ensina matemáticas (não entra aqui quem não for geômetra). portanto. E as perguntas feitas por Sócrates levam o interlocutor a descobrir as contradições de seus pensamentos e a profundidade de sua ignorância. Aborda com humildade fingida os sofistas inflados de falso-saber. ao pé da letra. mal governados. e constata que os Trinta acumulam injustiças e violências. no dia em que os filósofos forem reis ou no dia em que os reis forem filósofos). de novo no poder. o Político. porém. filosofia e a arte de governar as cidades segundo a justiça. o Fedro. aos quais traiu para assumir a liderança do outro partido). por aquilo que nos concerne diretamente. pertencem a um mundo que não o das aparências. de preferência. Tal é a maiêutica socrática.60 E isto é significativo e simbólico. Ajuda-nos tão somente a refletir. o Sofista. a idéia geral que contém os caracteres constitutivos da justiça. 4. na verdade. ignora o que acreditava saber. elaborar uma cosmologia. as Leis. o jovem Platão é convocado por parentes e amigos a participar do governo autoritário dos Trinta. aos quarenta anos. Por exemplo: partindo dos aspectos os mais diversos da justiça. isto é. 3. ele funda todas as suas esperanças na verdade tão somente. é a palavra-chave do humanismo socrático. caracterizar os grandes traços da filosofia de Sócrates: 1.C. Sócrates. antes de tudo. Platão retornou a Atenas. Se conhecessem verdadeiramente a justiça. Esses trabalhos esotéricos de Platão constituem a mais pura jóia da filosofia de todos os tempos. porém. todavia. Talvez a solução seja a evasão do filósofo que "foge daqui debaixo" para se refugiar na . por iniciativa de um certo Anytos (filho de um rico empreiteiro e antigo amigo dos Trinta. Resgatado por Anikeris de Cítera por vinte minas. significa a arte de interrogar. ele se comparava à sua mãe.. devese deixar aos deuses o cuidado de se ocupar com o universo. Segundo sua perspectiva racionalista. fê-lo expor no mercado de escravos para ser vendido. pois ninguém é "maus voluntariamente".. não pretende ensinar coisa alguma sobre a natureza humana. ajudá-los a trazer à luz o que já trazem em si mesmos. O ensino esotérico (isto é. O verdadeiro ponto de partida da filosofia de Platão é a morte de Sócrates em 399 a. Na realidade. como Empédocles ou Heráclito. ele se retrai. sem exceção. Na Atenas vencida. na ilha de Egina.

A teoria platônica da alma está ligada à doutrina das Idéias. A justiça política é uma harmonia semelhante à justiça do indivíduo. a emoção que rebata a alma diante da Beleza de todas as idéias a mais fácil de reconhecer .de seu antigo contato com as Idéias. o pensamento intuitivo. sobre o conceito. a iluminação direta pela Idéia (noesis). depois pelas belas almas e pelas belas virtudes conduz à redescoberta do Belo em si (leia-se o Banquete). podemos ligar à distinção dos dois mundos algumas observações sobre o mito platônico: . no mais alto grau. as opiniões estabelecidas (pistis). uma sombra. uma vez que as Idéias constituem absolutos referenciais .a sensibilidade. mais exatamente. É no mundo invisível que a justiça e a verdade triunfam". uma vez que guardaram uma lembrança obscura . um mundo de pernas para o ar". no fundo. a cidade que condena Sócrates à morte.é o meio de uma conversão dialética: o amor por um belo corpo. mas ele só existe porque participa do mundo das idéias do qual é uma cópia ou. poderíamos dizer que ela é fundamentalmente um dualismo. o único mundo verdadeiro. uma essência universal do homem. A morte de Sócrates feriu-o mortalmente. Platão dá realidade ao conceito socrático. Uma vez que a alma é feita para as Idéias . antes de tudo. o jovem escravo que Sócrates interroga no Mênon descobre propriedades geométricas quase sem ajuda. em seguida. A idéia platônica é uma promoção ontológica do conceito socrático. e o mundo das aparências sensíveis. Depois. Todavia. as Idéias. Entre todas as formas de governo. os militares nos quais a Justiça será coragem. Finalmente. Acrescenta-se que o mundo das Idéias é. Desse modo.não o homem. reconcilia Parmênides e Heráclito ao admitir a existência de dois mundos: o mundo das idéias imutáveis. o idealismo platônico "traz a marca de um grave traumatismo. no entanto. e.. Assim. a cidade que vê triunfar a injustiça e a mentira é "um mundo ao inverso. atesta a existência desse mundo invisível. As almas outrora contemplaram às Idéias à vontade. Em suma. para ele. para que haja. isto é. Como diz muito bem André Bonnard.por que não seria eterna como as Idéias que ela tem por vocação contemplar? Do mesmo modo. a Justiça em si. por exemplo. um outro mundo onde exista o Homem em si. em seguida pelos belos corpos. A política de Platão distingue. Sabedoria e que são filósofos longamente instruídos.que. por exemplo. é preciso tomar a palavra em seu sentido etimológico: governo dos melhores. um pouco mais acima.. é preciso que exista algo além dos homens particulares e diferentes entre si que nós reconhecemos. só é belo porque participa da Beleza em si. as simples impressões sensíveis (eikasia). as Idéias contam mais que a vida. Ela também se encontra em cada uma das virtudes particulares: a temperança nada mais é que uma sensibilidade regulamentada segundo a justiça. por punição de alguma falta.é preciso renunciar do oportunismo e à imoralidade dos sofistas. a vontade e o espírito. três classes sociais: os artesãos dos quais a Justiça exige a temperança. nele. Platão pensa igualmente que a emoção amorosa. segundo a doutrina órfico-pitagórica. mas Deus é que é a medida de todas as coisas. é o itinerário pelo qual nos levamos do mundo sensível ao mundo das Idéias: no mais baixo grau. A ascensão dialética. Platão concede ao mundo sensível uma certa realidade. finalmente. À doutrina das Idéias também se correlaciona a esperança da imortalidade da alma. o pensamento discursivo (dianoia) que constrói o raciocínio partindo de figuras. os chefes cuja Justiça é. à imagem de todas as sociedades indoeuropéias primitivas. objeta Platão a Protágoras . pela tranqüilidade quase contente de sua morte. a coragem é a justiça da vontade e a sabedoria é a justiça do espírito. Um belo efebo.visto que sua união com o corpo é acidental e monstruosa . de certo modo. E Sócrates. Platão sustenta contra Cálicles (no Górgias). pode ser redespertada . eternas. Podemos mostrar de duas maneiras que a intuição fundamental de Platão se prende ao ensinamento de Sócrates: a) Recordemos o ensinamento socrático sobre a definição. como fazem os geômetras. elas continuam capazes de reminiscência. Platão prefere a aristocracia e. como Sócrates o estabeleceu. por exemplo. perpetuamente mutáveis. uma definição do homem em geral. Os temas principais do platonismo podem ligar-se à distinção entre o mundo das Idéias eternas e o mundo das aparências mutáveis.61 Se quiséssemos resumir a filosofia de Platão em uma palavra. mostra que. contra Trasímaco e Gláucon (na República) o valor absoluto da Idéia de justiça. mas "escritas em caracteres mais fortes" na escala do Estado. Platão. elas foram aprisionadas no corpo. A justiça é a hierarquia harmônica das três partes da alma . b) Mas é sobretudo a vida e a morte de Sócrates que suscitam o idealismo platônico. "esse belo risco a ser corrido".

dependem também as vicissitudes exteriores das duas vidas. Nesse período estudou também os filósofos pré-platônicos. A primeira edição completa das obras de Aristóteles é a de Andronico de Rodes pela metade do último século a. em 335. em que. Aqui classificamos as obras doutrinais de Aristóteles do modo seguinte. então jovem de treze anos. organizando outras em corpo coerente de doutrinas e sobre todas espalhando as luzes de sua admirável inteligência. após enfermidade. estéticos e místicos tiveram grande influência. sem se deixar distrair por motivos práticos ou sentimentais. treze anos depois da morte de Platão. tendo presente a edição de Andronico de Rodes. social e política.C. variada e romanesca a de Platão. nasceu em Estagira. que Platão não conseguiu. no verão de 322. Aristóteles fundava. A respeito do caráter de Aristóteles. onde ficou por vinte anos. Aristóteles faleceu. também chamada peripatética devido ao costume de dar lições. traduz uma espécie de narração poética legendária. chefiada por Demóstenes. d) Finalmente. malvisto pelos atenienses. poder-se-á avaliar a sua prodigiosa atividade literária". colônia grega da Trácia. ao contrário.C. Daí o nome de Liceu dado à sua escola. Escreveu sobre todas as ciências. Tinha pouco mais de 60 anos de idade. mais uniforme e linear a de Aristóteles. faculdade de criação e invenção aliados a uma vasta erudição histórica e universalidade de conhecimentos científicos. filho de Nicômaco. que lhe foram úteis na construção do seu grande sistema. De volta a Atenas. sugerido pelo mundo das imagens! b) O mito é o único meio de exposição para os problemas de origem (acontecimentos sem testemunhos) e dos fins últimos (que ainda não existem!). Aristóteles. para se dedicar à investigação científica. A poesia mítica é uma mensagem metafísica. éticos. como a sua cultura e seu gênio universal. existem entre a poesia e a verdade. Pelo elenco dos principais escritos que dele ainda nos restam. procedimento pedagógico paradoxal. temos naturalmente muito menos a revelar do que em torno do caráter de Platão. A atividade literária de Aristóteles foi vasta e intensa. segundo Platão. em 367. como preceptor do Príncipe Alexandre. o mito ressalta as relações que. . Não lhe faltou nenhum dos dotes e requisitos que constituem o verdadeiro filósofo: profundidade e firmeza de inteligência. até à famosa expedição asiática. vigor de raciocínio. em Siracusa. rei da Macedônia. retirando-se voluntariamente para Eubéia. foi acusado de ateísmo. inteiramente recolhido na elaboração crítica do seu sistema filosófico. Aos dezoito anos. médico de Amintas. conseguindo um êxito na sua missão educativo-política. Do diferente caráter dos dois filósofos. os motivos políticos. Aristóteles foi essencialmente um homem de cultura. O grande estagirita explorou o mundo do pensamento em todas as suas direções. "Assimilou Aristóteles escreve magistralmente Leonel Franca todos os conhecimentos anteriores e acrescentou-lhes o trabalho próprio. agudeza de penetração. até à morte do Mestre. o belo não é senão o "esplendor do verdadeiro" e a arte está em segundo lugar em relação à filosofia. de estudo. Em 343 foi convidado pelo Rei Filipe para a corte de Macedônia. Esta escola seria a grande rival e a verdadeira herdeira da velha e gloriosa academia platônica. a sua escola. isto é. que se foi isolando da vida prática. numa linguagem de imagens uma verdade filosófica estranha ao mundo sensível! É o mundo das Idéias eternas transposto em imagens sensíveis. passeando nos umbrosos caminhos do ginásio de Apolo. em amena palestra. por certo. em 384 a. pois a inteligência abstrata só compreende o eterno e não pode bastar para evocar o que pertence à história. Aristóteles A Vida e as Obras Este grande filósofo grego. Preveniu ele a condenação. substancialmente autêntica. Morto Alexandre em 323.62 a) O mito. de pensamento. salvo uns apócrifos e umas interpolações. constituindo algumas desde os primeiros fundamentos. foi para Atenas e ingressou na academia platônica. Aí ficou três anos. perto do templo de Apolo Lício. de pesquisas. desfez-se politicamente o seu grande império e despertaram-se em Atenas os desejos de independência. fruto de muita observação e de profundas meditações. no ano seguinte. estourando uma reação nacional. no litoral setentrional do mar Egeu. c) O mito indica que o pensamento filosófico vem se abeberar nas fontes das crenças religiosas tradicionais. poder admirável de síntese.

refazimento da ética de Aristóteles. compêndio das duas precedentes. consoante Platão.I. por sua vez. onde o fenômeno particular depende da lei universal e o efeito da causa. As obras de Aristóteles as doutrinas que nos restam . não o problema da vida. a Grande Ética.tem como objeto o universal e o necessário. é essencialmente dedutiva. o objeto da ciência aristotélica é a forma.manifestam um grande rigor científico. A filosofia aristotélica é. é sempre verdadeira. perfeição maravilhosa da terminologia filosófica. os princípios supremos. incompleta. também os elementos primeiros do conhecimento . pois não pode haver ciência em torno do individual e do contingente. é dedutiva. racional. em face do qual a atitude inicial do espírito é o assombro do mistério. como o conceito. Os elementos primeiros. explicação do condicionado mediante a condição. sobre a base socrático-platônica. A ciência platônica e aristotélica são. é o silogismo. como ciência especial. segundo Aristóteles.devem ser. que. cuja verdade imediata ele defende. bem como segundo Platão . II. O nome. Segundo Aristóteles. que considerava a lógica instrumento da ciência. abrangendo. porquanto o primeiro elemento depende do segundo. III. portanto. devido a Eudemo. o necessário. de cujo sistema é banida toda forma de inatismo. é denominada por ele analítica e representa a metodologia científica. Limitar-nos-emos mais especialmente aos problemas gerais da lógica de Aristóteles. juntamente com a metafísica. conhecidos sensivelmente. ao qual é dedicada. o universal e o necessário. são fruto de uma visão imediata. todo o saber humano. demonstrativa. mas o ponto de partida da dedução é tirado . referentes à metafísica geral e à teologia. metafisicamente. Objeto essencial da lógica aristotélica é precisamente este processo de derivação ideal. conceptual como a de Platão mas parte da experiência. as verdades evidentes.conceito e juízos . de um modo e de outro. no seu estado atual. corresponde muito bem à intenção do autor. prática e poética. o universal. a filosofia prática divide-se em ética e política. realistas: tudo que se pode aprender precede a sensação e é independente dela. No sentido estrito. sem enfeites míticos ou poéticos. a filosofia é essencialmente teorética: deve decifrar o enigma do universo. porque aí está a sua gnosiologia. que a colocou depois da física. ambas objetivas. A filosofia. Escritos morais e políticos: a Ética a Nicômaco. exposição e expressão breve e aguda. O objeto próprio da filosofia. a Política. em geral. a poética em estética e técnica. em dez livros. bem como a platônica. e pertencentes à filosofia teorética. V. provavelmente publicada por Nicômaco. portanto. em dois livros. porquanto os sentidos por si nunca nos enganam. O seu processo característico. IV. o 63 . é apenas uma parte da obra de Aristóteles. Escritos sobre a física: abrangendo a hodierna cosmologia e a antropologia. entretanto. a ciência. Entretanto. Trata Aristóteles os problemas lógicos e gnosiológicos no conjunto daqueles escritos que tomaram mais tarde o nome de Órganon. Escritos retóricos e poéticos: a Retórica. em oito livros. divide-se em física. da representação sensível. apodíctica. nos indivíduos. entretanto. pois. O Pensamento: A Gnosiologia Segundo Aristóteles. portanto. de que foi ele o criador. em relação com a sua doutrina do contato imediato da alma com as idéias . Também aqui se segue a ordem da realidade. Aristóteles é o criador da lógica. a Poética. inacabada. dividir-se-ia em teorética. em três livros. clássico. A teorética. são as essências imutáveis e a razão última das coisas. isto é. a filosofia . É uma compilação feita depois da morte de Aristóteles mediante seus apontamentos manuscritos. matemática e filosofia primeira (metafísica e teologia). em que está a solução do seu problema. ontologicamente. seu filho. de que constituem a essência. que corresponde a uma derivação real. como idéia era o objeto da ciência platônica. tirados da experiência. clara e ordenada. Foi dito que. não por Aristóteles. Escritos lógicos: cujo conjunto foi denominado Órganon mais tarde. destarte. Escritos metafísicos: a Metafísica famosa. as formas e suas relações.conforme Aristóteles. Por certo.mediante o intelecto da experiência. intuição intelectual. as formas são imanentes na experiência. a filosofia aristotélica é dedução do particular pelo universal. O seu problema fundamental é o problema do ser. Sob o ponto de vista metafísico. em especial da segunda. a Ética a Eudemo. O erro começa de uma falsa elaboração dos dados dos sentidos: a sensação. A lógica aristotélica. em catorze livros. O nome de metafísica é devido ao lugar que ela ocupa na coleção de Andrônico.reminiscência.

Filosofia de Aristóteles Partindo como Platão do mesmo problema acerca do valor objetivo dos conceitos. c) propõe depois as dúvidas. os juízos imediatamente evidentes. Unidade do conjunto  Sua vasta obra filosófica constitui um verdadeiro sistema. porém. isto é. do inteligível. consequentemente. sem um primeiro motor imóvel. entretanto. necessidade objetiva. passagem da potência ao ato. tirada da experiência. se correspondem. isto é. uma doutrina da indução. colhido imediatamente pelo intelecto humano mediante a sua evidência. 2. Como é que se formam os princípios da demonstração. seja constrangido a elaborar. e. ela não está efetivamente acabada. realidade do vir-a-ser. requer finalmente um não-vir-a-ser. razão metafísica de todo devir. 3. a matéria. mas pode-se integrar logicamente segundo o espírito profundo da sua filosofia. Da análise do conceito de Deus. motor imóvel. rejeitara a experiência como fonte de conhecimento certo. que não tem princípio e fim no tempo. em estilo lapidar e conciso e criando uma terminologia filosófica de precisão admirável. é aquilo que move sem ser movido. do movimento. é anterior ao particular. gnosiologicamente. A formação do conceito é. mais positivo. da passagem da potência ao ato. que é o nosso primeiro conhecimento. um motor já em ato. a coisa parece simples: a indução nada mais é que a abstração do conceito. e) refuta. compreende-se que Aristóteles. toma sempre o fato como ponto de partida de suas teorias. indiscutível. isto é. a saber. no sentido de que os elementos do juízo os conceitos são tirados da experiência. Aristóteles procede por partes: a) começa a definir-lhe o objeto. um ato puro enfim. se confirmam. as sentenças contrárias. Observação fiel da natureza  Platão. isto é. antes de tudo. Rigor no método  Depois de estudas as leis do pensamento. passagem da potência ao ato. A Teologia Objeto próprio da teologia é o primeiro motor imóvel. b) passa a enumerar-lhes as soluções históricas. Pode considerar-se como o autor da metodologia e tecnologia científicas. em seguida. o processo dedutivo e indutivo aplicaos. a coisa parece mais complicada. em que o universal é imanente. o sensível. que constituem precisamente o objeto próprio do nosso conhecimento sensível. é aquilo que é movido. a quem Aristóteles chega através de uma sólida demonstração. o contigente. a própria solução. analítico.64 inteligível. ao sensível: mas. Este vir-a-ser. A necessidade deste primeiro motor imóvel não é absolutamente excluída pela eternidade do vir-a-ser. como pensamento de si mesmo. o possível puro. mesmo admitindo que o mundo seja eterno. uma verdadeira síntese. sem se mover a si mesmo. Com efeito. idealista. Quanto aos elementos primeiros do conhecimento racional. Quanto ao juízo. em que unicamente temos ou não temos a verdade. buscando na realidade um apoio sólido às suas mais elevadas especulações metafísicas. de outra forma teria que ser movido por sua vez. a posteriori. pois. origem extra-temporal. mas certíssima. Os caracteres desta grande síntese são: 1. fica eternamente inexplicável. ao contigente. Deus. é a priori. por último. os conceitos. no estudo de uma questão. Todas as partes se compõem. Então só resta possível uma indução incompleta. conquistado através do precedente raciocínio. uma resenha de todos os casos os fenômenos particulares para poder tirar com certeza absoluta leis universais abrangendo todas as essências. a posteriori. concebido. pode deduzir logicamente a natureza essencial de Deus. o real puro. Deus. em todas as suas obras. o pensamento do pensamento. Aristóteles constrói um sistema inteiramente original. do mundo. substituindo à linguagem imaginosa e figurada de Platão. na lógica. Deus é . como ato puro. ao lado e em conseqüência da doutrina de dedução. seu nexo. Por certo. baseada sobre a imediata experiência. d) indica. Aristóteles. enquanto é vir-a-ser. Geralmente. e que é o elemento constitutivo da ciência. Assim sendo. da representação sensível. psicologicamente existe primeiro o particular. mas abandonando a solução do mestre. donde temos a ciência? Aristóteles reconhece que é impossível uma indução completa. contraditório. com rara habilidade. ato puro. a "desindividualização" do universal do particular. Aristóteles. causa absoluta. concebido como primeiro motor imóvel.

e as dianoéticas. Visto ser a razão a essência característica do homem. e não pode. atividade teorética. que deve ser governado pela razão. As virtudes éticas. a que é necessária à virtude. voltando-se para ele.como o vício. que constituem propriamente o objeto da moral. conhecer a si próprio e pensar em si mesmo. não é criador. não é unicamente ciência. Noutras palavras. porém. isto é. não conhece o mundo imperfeito. ao contrário. todo ser tende necessariamente à realização da sua natureza. da filosofia. por conseqüência. e variável conforme as circunstâncias. Aristóteles sustenta o primado do conhecimento. Naturalmente. um costume moral. o fim do homem é a felicidade. teoréticas. o exercício e. mas unicamente como o fim último.65 unicamente pensamento. como queria o ascetismo platônico. mas uma aplicação da razão. realiza ele a sua natureza vivendo racionalmente e senso disto consciente. todavia. A Moral Aristóteles trata da moral em três Éticas. mais precisamente é ela um hábito segundo a razão. permanece o dualismo. tem. uma disposição constante. e menos ainda opera sobre ele. no mesmo tempo. incompatível com o ser perfeito. mas unicamente conhecer e pensar. uma vez adquirida. Logo. Pelo que diz respeito à virtude. popular. atraente. por conseqüência. a vontade. a racionalidade do mundo. isto é. à atualização plena da sua forma: e nisto está o seu fim. relativo a cada qual. embora se apresente especulativamente assaz discutível é aquela pela qual a virtude é precisamente concebida como um justo meio entre dois extremos. certamente. contemplativas. torna-se quase uma segunda natureza e. razão pura. com o pensamento e a vontade. auto-suficiente. . torna-se de fácil execução . pensamento de si. Aristóteles distingue duas categorias fundamentais de virtudes: as éticas. Deus não pode agir e querer. isto é. estabiliza-se. As virtudes intelectuais. que é pensamento puro. da natureza e do universo. passional. natureza segundo a qual e na qual o homem deve operar. que é precisamente uma atividade conforme à razão. Consoante sua doutrina metafísica fundamental. a sua felicidade. uma atividade segundo a razão. Uma doutrina aristotélica a respeito da virtude doutrina que teve muita doutrina prática. de que se falou quando das obras dele. mas. que exige o conhecimento absoluto. teoréticas. consegue a felicidade mediante a virtude. as diversas paixões predominantes dos vários indivíduos. maior valor uma outra doutrina aristotélica: precisamente a da virtude concebida como hábito racional. portanto. a sua lei. e a esta é necessária a razão. visto ser a virtude ação consciente segundo a razão. não são mera atividade racional. uma atividade que pressupõe o conhecimento racional. Se Deus é mera atividade teorética. Deus não atua sobre o mundo. por natureza. isto é. práticas. tendo como objeto unicamente a própria perfeição. que a transcendem. o seu bem. mas concreto. A virtude ética não é. não as aniquila e destrói. como as virtudes intelectuais. que têm uma importância essencial em relação a toda a filosofia e especialmente à moral. na ação de um homem. nem providência do mundo. A característica fundamental da moral aristotélica é. morais. metafísico. Se o agir. e. está a beatitude divina. enquanto qualquer outra atividade teria fim extrínseco. entre duas paixões opostas: porquanto o sentido poderia esmagar a razão ou não lhe dar forças suficientes. É uma distinção e uma hierarquia. a política. igual para todos e sempre. E nesta autocontemplação imutável e ativa. A razão aristotélica governa. são superiores às virtudes éticas. da vontade. mas implicam. que vem anular aquele mesmo Absoluto a que logicamente chegara. mecaniza-se. pois. logo. De Deus depende a ordem. como causa eficiente e formal (exemplar). do intelecto. ativas. como causa final. e. um elemento sentimental. pensamento de pensamento. domina as paixões. como não é inata a ciência. para dar uma explicação filosófica da relatividade do mundo pondo ao seu lado esta realidade independente dele. fundamentalmente. Deus é. E assim consegue ele a felicidade e a virtude. a prática. Em Aristóteles o pensamento grego conquista logicamente a transcendência de Deus. sobre a ação. ser completamente resolvido na razão. isto é. mas adquiri-se mediante a ação. este justo meio. o racionalismo. Como já foi mencionado. a virtude não é inata. portanto. e só assim. a vida. no dizer de Aristóteles. não é abstrato. reta. Se a virtude é. mas uma ação com ciência. ele. o querer têm objeto diverso do sujeito agente e "querente". afetivo.

sendo naturalmente animal social. Visto que o estado se compõe de uma comunidade de famílias. mediante um treinamento profissional. condena o estado que. será mister reduzir o estado à família e a família ao indivíduo. isto é. a aristocracia. Daí a escravidão. não pode realizar a sua perfeição sem a sociedade do estado. é-lhe essencial a propriedade. O estado não é uma unidade substancial. então. estes últimos seriam os escravos. para tanto. Deve fazer frutificar seus bens. porquanto a família. deve promover a virtude e. visa a conquista e a guerra. Desta ciência trata Aristóteles precisamente na Política. a formação moral dos cidadãos e o conjunto dos meios necessários para isso. aquela a coletividade. intelectuais e. porquanto a coletividade é superior ao indivíduo. duas classes reconhece: a dos homens livres. agora. A política. e não máquinas. O estado é um organismo moral. isto é. defesa e segurança. as materiais. conservação e engrandecimento. diversamente de Platão. isto é. os escravos. em razão da imperfeição destes. para que a propriedade seja produtora. A ética é a doutrina moral individual. são apenas meios para a paz e o lazer sapiente. que precede cronologicamente o estado. a política é a doutrina moral social. Segundo Aristóteles. Unicamente no estado efetua-se a satisfação de todas as necessidades. mas constata que na sociedade são necessários também os trabalhos materiais. precisamente. político. O fim da educação é formar homens mediante as artes liberais. os bens. de outro modo irrealizáveis. só este último possui aquela unidade substancial que falta aos dois precedentes. então. Se se quiser a unidade absoluta. sem direitos políticos. excluídas pelas próprias características qualidades materiais de tais indivíduos. como ao estado. como seja tarefa essencial do estado a educação. que é o governo de muitos. como Platão. Aristóteles. como o trabalho. Vejamos. Deve ele guiar os filhos e as mulheres. contudo. físicas. possuidores. e cuja degeneração é a demagogia. bem como aptas qualidades espirituais. ao invés de se preocupar com uma pacífica educação científica e moral. e cuja degeneração é a tirania. a . inicialmente. tempo e liberdade. é superior ao indivíduo. que faz da guerra a tarefa precípua do estado. que é o governo de um só. Aristóteles distingue três principais: a monarquia. importantíssimas a poesia e a música. Eis porque Aristóteles. Mas o seu fim essencial é espiritual. E. e. tem também um fim econômico. cujo caráter e valor estão na qualidade. As preferências de Aristóteles vão para uma forma de república democrático-intelectual. antes de tratar propriamente do estado será mister falar da família. e põe a conquista acima da virtude. o bem comum superior ao bem particular.66 A Política A política aristotélica é essencialmente unida à moral. e fundamento primeiro da suprema atividade contemplativa. Quanto à forma exterior do estado. pelo fato de ser o homem um animal naturalmente social. que exigem indivíduos particulares. dos trabalhadores. cujo caráter e valor estão na unidade. como as partes precedem o todo. a que fica assim tirada fatalmente a possibilidade de providenciar a cultura da alma. a satisfação daquelas necessidades materiais. que deve desenvolver harmônica e hierarquicamente todas as faculdades: antes de tudo as espirituais. e sim uma síntese de indivíduos substancialmente distintos. além. porquanto esta tem como objetivo o indivíduo. cujo caráter e valor estão na liberdade. Não obstante a sua concepção ética do estado. assim como estas se compõem de muitos indivíduos. do chefe a que pertence a direção da família. a felicidade dos súditos mediante a ciência. dessa forma. O estado provê. a propriedade particular e a família. político. que é o governo de poucos. O estado surge. a família compõe-se de quatro elementos: os filhos. negativas e positivas. O comunismo como resolução total dos indivíduos e dos valores no estado é fantástico e irrealizável. é distinta da moral. condição e complemento da atividade moral individual. salva o direito privado. subordinadamente. O estado. No entanto. a dos cidadãos e a dos escravos. naturalmente. de que acima se falou. a educação militar de Esparta. Compreende-se. além de um fim educativo. são necessários instrumentos inanimados e animados. visto ser necessário. a democracia. a mulher. pois os homens têm necessidades materiais. e cuja degeneração é a oligarquia. consequentemente. pois o homem. o estado em particular. enquanto a guerra. Aristóteles não nega a natureza humana ao escravo. porque o fim último do estado é a virtude. E critica. Reconhece Aristóteles a divisão platônica das castas.

platônicos. mítica. particularmente de Atenas. purificadora da arte. o imutável. ao lado do Ato Puro e a ele subordinado. metafísica especial. Deste seu conteúdo inteligível. num particular. num particular e. Podem-se reduzir fundamentalmente a quatro as questões gerais da metafísica aristotélica: potência e ato. movido e motor. o sensível. Por isso. não-ser atual. como Platão. o universal. Não obstante esta concepção filosófica da divindade. perfeição.67 forma de governo clássica da Grécia. necessária e universalmente. o mutável. A doutrina da potência e do ato é fundamental na metafísica aristotélica: potência significa possibilidade. portanto. No entanto. não está em condições de se tornar objeto de religião. Deus. antes de tudo. admite que os corpos celestes são animados por espíritos racionais. imitação da forma imanente na matéria. como superior à história e mais filosófica do que a história de Heródoto que tem como objeto o particular. às circunstâncias de um determinado povo. No entanto. este Deus. e a diferença entre as várias artes é estabelecida com base no objeto ou no instrumento de tal imitação. acontecer. mais tarde. além de imitação do universal verossimilhança e necessidade coerência interior dos elementos da representação artística. se exclui filosoficamente o antropomorfismo. porém. particular e universal. e ato significa realidade. não exclui uma espécie de politeísmo. e sim imitação direta da própria idéia. destarte. isto é. universal. Aristóteles considera a arte a poesia de Homero que tem por conteúdo o universal. evidência e vivacidade de expressão. com o seu profundo realismo. I. ainda que encarnado fantasticamente num particular. As leis da obra de arte serão. ser efetivo. A Metafísica A metafísica aristotélica é "a ciência do ser como ser. A Religião e a Arte Com Aristóteles afirma-se o teísmo do ato puro. Aristóteles como Platão considera a arte como imitação. em diversas . bem como o mundo mutável e material. a que o homem se teria facilmente elevado através do espetáculo da ordem celeste. Se bem que a arte seja imitação da realidade no seu elemento essencial. que não seja o Ser perfeitíssimo. graças ao artista. capacidade de ser. mais do que as transcendentes idéias platônicas. não cria. princípio dos movimentos e das formas do mundo. tradicional. seja embora real. e como fruto da tendência humana para as representações antropomórficas. íntimo sentimento do conteúdo. isto precisamente porque o inteligível. Também Aristóteles. Exporemos portanto. reconhece Aristóteles que a melhor forma de governo não é abstrata. matéria e forma. E não fica nenhum outro objeto religioso. Aristóteles admite a religião positiva do povo. tornando intuitivo. do inteligível imanente no sensível. que ele não conhece. os deuses astrais. Não. A arte é. Explica e justifica a religião positiva. o inteligível. mas o que por natureza deve. a forma. Ela abrange ainda o ser imóvel e incorpóreo. e admite. não governa. esses seres divinos não parecem e não podem ter função religiosa e sem física. Entretanto. De qualquer maneira a condição indispensável para uma boa constituição. Na arte. universal é encarnado. de conformidade com o fundamental realismo grego. A primeira e a última abraçam todo o ser. para depois chegarmos àquela que foi chamada. como obra política para moralizar o povo. a segunda e a terceira todo o ser em que está presente a matéria. deve ser encarnado. tem esta como objeto o mundo que vem-a-ser  natureza e homem  e culmina no que não pode vir-a-ser. as questões gerais da metafísica. depende a eficácia espiritual pedagógica. até sem correção alguma. concretizado num sensível. produção mediante a imitação. Todo ser. e sim concreta: deve ser relativa. pelo seu efetivo isolamento do mundo. concretizado pelo artista num sensível. como é o fenômeno. imitação de uma imitação. isto é. pois. este inteligível recebe como que uma nova vida através da fantasia criadora do artista. esse inteligível. acomodada às situações históricas. é portanto uma síntese  um sínolo  de potência e de ato. é que o fim da atividade estatal deve ser o bem comum e não a vantagem de quem governa despoticamente. mas em seus aspectos universais e necessários. ou dos princípios e das causas do ser e de seus atributos essenciais". e não diz que ela teria um fundamento racional na verdade filosófica da existência da divindade. O objeto da arte não é o que aconteceu uma vez como é o caso da história .

a forma é. que tanto atormenta Platão. A essência  igual em todos os indivíduos de uma mesma espécie  deriva da forma. portanto. e esta. produzindo esta síntese o indivíduo.por Aristóteles especialmente quando da doutrina da matéria e da forma. pois ela é também condição indispensável para concretizar a forma. Um substrato comum. Os elementos constitutivos da realidade são. já iniciada pelos últimos pré-socráticos e grandemente aperfeiçoada por Demócrito e Platão. a potência o ato. pela qual toda substância é original e se diferencia de todas as demais. portanto. matéria enformada. o imperfeito o perfeito. é um absolutamente interminado. para poder explicar a realidade efetiva das coisas. Mediante a doutrina da matéria e da forma. Então não existe. porém. matéria. passando da potência ao ato. por sua vez. portanto. Esta doutrina fundamental da potência e do ato é aplicada  e desenvolvida . depende da matéria. A matéria aristotélica. a natureza que ele assume. a que é submetido tudo que tem matéria. O primeiro elemento é chamado matéria (prima). Eis a grande doutrina aristotélica do motor . a essência. potência. imperfeição. Por exemplo. pressupõe uma realidade imutável. de uma potencialidade anterior. que é intuitiva. potência realizada. Ao contrário. por sua vez. IV. estes dois princípios não são suficientes para explicar o surgir dos indivíduos e das substâncias que não podem ser atuados  bem como a matéria não pode ser atuada  a não ser por um outro indivíduo. propriamente. forma. racional. a mudança. perfeição. nem o ser de Parmênides. Esta realização do possível. Desta doutrina da matéria e da forma. a individualidade. isto é. em que a forma introduz as determinações. ainda que a forma seja princípio de atuação e determinação da própria matéria. forma concretizada da matéria. a forma aristotélica não é separada da matéria. Segundo Aristóteles. Aristóteles explica o indivíduo. A síntese  o sinolo  da matéria e da forma constitui a substância. que fazia os dois elementos transcendentes e exteriores um ao outro. que possui já o que a coisa movida deve vir-a-ser. a substância física. em que se sucedem os acidentes. Aristóteles faz o primeiro  a idéia  imanente no segundo  a matéria. Um ser desenvolve-se. portanto. A realidade. A mudança. a forma e a matéria. consiste ou na sucessão de várias formas na mesma essência. Aristóteles não nega o vir-a-ser de Herácllito. conforme o grau de perfeição. A causa eficiente. universal particularizado. o segundo forma (substancial). O motor pode ser unicamente ato. que representam a potência e o ato no mundo. a realização do possível. Com respeito à matéria. as formas aristotélicas são universais. visto ser impossível que o menos produza o mais. inteligível. II. deve ser composto de um motor e de uma coisa movida. surge o movimento. as qualidades acidentais. é o substrato imutável. O primeiro é potência. de realidade dos vários seres. Por conseqüência. é composta de indivíduos. Da relação entre a potência e o ato. que são uma síntese  um sínolo  de matéria e forma. mas une-os em uma síntese conclusiva. portanto. aperfeiçoa-se. princípio de ordem e finalidade. é um mero possível. esta passagem da potência ao ato é atualização de uma possibilidade. a alma é que move o corpo. em que a mudança se realiza. Daí a necessidade de um terceiro princípio. o segundo é atualidade . entre a matéria e a forma. a coisa movida  enquanto tal  pode ser unicamente potência.68 proporções. substâncias. porém. A matéria sem forma. imutáveis. Mediante esta doutrina é explicado o problema do universal e do particular. como as idéias platônicas. pode ser levada a efeito unicamente por um ser que já está em ato. que constitui precisamente a substância. a causa final. não existe por si. não é o puro não-ser de Platão. que é de duas espécies. causa concomitante de todos os seres reais. e sim imanente e operante nela. que é precisamente a síntese da forma e da matéria. por uma substância em ato. ingrediente necessário para a existência da realidade material. a mudança. A mudança é. a forma sem a matéria. deve operar para um fim. Daí uma quarta causa. mas vice-versa. eternas. o vir-a-ser. vamos logo falar. aquilo que move deve ser diverso daquilo que é movido. na natureza em que vivemos. III. a causa eficiente. que é precisamente síntese  sínolo  de matéria e de forma.realizadora. Diversamente da idéia platônica. elemento imutável da mudança. chamada matéria-prima. possibilidade de assumir várias formas. a única realidade efetiva no mundo. O indivíduo é. e as determinações que se realizam neste substrato. porém. a pura matéria. mero princípio de decadência. depois de ter eficazmente criticado o dualismo platônico. especificadora da matéria  . Mesmo que um ser se mova a si mesmo. que dirige a causa eficiente para a atualização da matéria mediante a forma.

cognoscitiva. O sensível próprio é percebido por um só sentido. doutrina que culmina no motor primeiro. e é próprio da alma animal. cognoscitiva e operativa. as sensações específicas são percebidas. Enfim. que tem por objeto específico o homem. a sensação. porquanto se manifesta efetivamente com atos diversos. respectivamente. Objeto do intelecto é o universal. na sensação propriamente dita. sem idéias inatas. Aristóteles aceita a essencial distinção platônica entre sensação e pensamento. representações. por sua vez depende do conhecimento sensível. o corpo humano não é obstáculo. conhecendo o imaterial. que tem por princípio a alma e se distingue essencialmente do mundo inorgânico. contrapondo-lhe a concepção do intelecto como tabula rasa. como a cera recebe a impressão do selo sem a sua matéria. se se tiver presente que o homem é um animal racional. as formas das coisas e os princípios primeiros do ser. funções. em virtude da específica faculdade e atividade sensitivas da alma. sendo embora uma e única. o imutável. ainda que rejeite o inatismo platônico. dependente do sentimento. as qualidades gerais das coisas tamanho. isto é. movimento. ato puro. pelos vários sentidos. que a ele confluem. sendo superior a estas. a saber. Objeto do sentido é o particular. E assim. deve ser imperecível. sensitivo e intelectivo. não é um espírito puro. que. Mas a alma humana desempenha também as funções da alma sensitiva e vegetativa. pois. A característica da vida animal. ativa. a falsidade. De sorte que. são percebidas por mais sentidos. figura. que tem por princípio a alma racional. Analogamente às atividades teoréticas. O senso comum é uma faculdade interna. e se tornam. A Psicologia 69 Objeto geral da psicologia aristotélica é o mundo animado. quanto a tal. A sensação embora limitada é objetiva. A característica essencial e diferencial da vida e da planta. a característica da vida do homem. mas um espírito que anima um corpo animal. absolutamente imóvel. ainda que haja nele funções diversas faculdades diversas porquanto se dão atos diversos. tem várias faculdades. o necessário. Como se vê. Deus. a alma humana. que tem por princípio a alma sensitiva. Cada uma destas. as essências. por isso. percepções. Acima do conhecimento sensível está o conhecimento inteligível. ou a possibilidade da falsidade. quer dizer. Esse apetite é concebido precisamente como sendo um movimento finalista. segundo Aristóteles diversamente de Platão todo ser vivo tem uma só alma. o sensível comum. vivente. Por conseqüência. e dessa depende a prática. diversamente de Platão. tendo a função de coordenar. o pensamento. visto que a alma racional cumpre no homem também as funções da vida sensitiva e vegetativa. isto é. que é precisamente a alma. em que a primeira cumpre as funções de forma em relação à matéria. é a nutrição e a reprodução. que é constituída pelo segundo. através do movimento de um meio. etc. a ação do objeto sensível sobre o órgão que sente. segundo Aristóteles. especificamente diverso do primeiro. duas são as atividades práticas da alma: apetite e vontade. Aqui nos limitamos à psicologia racional. o material. o apetite guiado pela razão. isto é. começa com a síntese. e. repouso. o contingente. O conhecimento sensível. é precisamente a sensibilidade e a locomoção. a atividade fundamental da alma é teorética. pois. e é própria da alma racional. o ser vivo diversamente do ser inorgânico possui internamente o princípio da sua atividade. o imaterial. As faculdades fundamentais do espírito humano são duas: teorética e prática. conforme Aristóteles. O sentido recebe as qualidades materiais sem a matéria delas. o princípio superior cumpre as funções do princípio inferior. pressupões um fato físico.e da coisa movida. que tem por princípio a alma vegetativa. O homem é uma unidade substancial de alma e de corpo. no grau sensível bem como no grau inteligível. Assim. é o pensamento. com o juízo. o ser absoluto. forma do corpo. a inteligência. pelo que ela é espírito. unificar as várias sensações isoladas. A vontade é o impulso. deve ser espiritual e. contemplativa e ativa. imediata ou à distância. O que caracteriza a alma humana é a racionalidade. se desdobra em dois graus. isto é. em geral. O apetite é a tendência guiada pelo conhecimento sensível. Mas o fato físico transforma-se num fato psíquico. o mutável. a alma humana. Todas estas três almas são objeto da psicologia aristotélica. que é a forma do corpo. . mas instrumento da alma racional. sempre verdadeira com respeito ao próprio objeto.

porém. . ato puro. como enigma insolúvel e inexplicável. princípio potencial. o mais precioso legado da civilização grega que declinava à civilização ocidental que surgia. que entende com a metafísica. sempre o que é mais belo". Vista Retrospectiva Com Sócrates entre a filosofia em seu caminho definitivo. Platão dá um passo além. mas encalha. Aristóteles. a psicologia e a lógica. Especialmente célebre é a sua doutrina astronômica geocêntrica. político. como filosofia da natureza. e a matéria. Movimento qualitativo  mudança de propriedade. senão também à expressão dos sentimentos e das idéias na vida comum e habitual". enquanto possível. que já sabemos ser passagem da potência ao ato. Movimento quantitativo  acrescimento e diminuição. 3. uma idéia da envergadura de seu gênio excepcional. físicas e especialmente astronômicas. o aspecto. a existência dos seres fora de Deus. mudança. O dualismo primitivo e irredutível entre Deus. isto é. patriarca das ciências naturais. Movimento substancial . Movimento espacial  mudança de lugar. O problema do objeto e da possibilidade da ciência é posto em seus verdadeiros termos e resolvido. retoma o mesmo problema no pé em que o pusera Platão e dá-lhe. se vão desenvolvendo harmoniosamente as outras partes da filosofia até constituírem em Aristóteles esta grandiosa síntese do saber universal. que tem um valor teorético. sem obrigação nem sanção. nascimento e morte. de outro. a realização da forma na matéria. a medida  do movimento segundo a razão. Fim de todo devir é o desenvolvimento da potência ao ato. Juízo sobre Aristóteles É difícil aquilatar em sua justa medida o valor de Aristóteles. dum lado. é. em torno dos quais fez ele investigações profundas. moralista. sobretudo na parte que trata das relações de Deus com o mundo. ele é o verdadeiro fundador da ciência moderna e "ainda hoje está presente com sua linguagem científica não somente às nossas cogitações. Uma terceira questão fundamental da filosofia natural de Aristóteles é a concernente ao teleologismo  finalismo  por ele propugnado com base na finalidade. Aristóteles distingue quatro espécies de movimentos: 1. A influência intelectual por ele até hoje exercida sobre o pensamento humano e à qual se não pode comparar a de nenhum outro pensador dános. condicionando todas as demais espécies de mudança. com o seu espírito positivo e observador. Outra especial e importantíssima questão da física aristotélica é a concernente ao espaço e ao tempo. 4. de fenômenos  é evidente que fora do mundo não há espaço nem tempo: espaço e tempo vazios são impensáveis. O espaço é definido como sendo o limite do corpo. pela teoria da abstração e da inteligência ativa. o limite imóvel do corpo "circundante" com respeito ao corpo circundado. é defeituosa e mais gravemente defeituosa ainda que a teodicéia. realização de uma possibilidade. nas dificuldades insolúveis de um realismo exagerado. "A natureza faz. Nem por isso podemos deixar de apontar as lacunas do seu sistema. Sua moral. Em torno desta questão fundamental. e são logicamente separáveis da sua filosofia. 2. procurando determinar a relação entre o conceito e a realidade. nas suas linhas gerais. as doutrinas aristotélicas têm apenas um valor histórico. Quanto às ciências químicas. O tempo é definido como sendo o número  isto é. é a análise dos vários tipos de movimento. Criador da lógica. Admitidas as precedentes concepções de espaço e de tempo  como sendo relações de substâncias. uma solução satisfatória e definitiva nos grandes lineamentos. nas extravagâncias dum idealismo extremo. na própria teoria aristotélica. do "antes" e do "depois".mudança de forma. primeiro escritor da história da filosofia. uma verdadeira contradição e deixa subsistir.70 A Cosmologia Uma questão geral da física aristotélica. que ele descortina em a natureza. pela doutrina do conceito. autor do primeiro tratado de psicologia científica. metafísico. que prestará a estrutura física à Divina Comédia de Dante Alighieri.

discípulos e amigos. homens famosos. da morte. a sua filosofia foi considerada como uma religião.perece com o corpo. arrancar-se-iam destas e chegariam até à alma imediatamente. eternos.C. senso refinado. provavelmente.o poeta entusiasta. mediante uma estável constituição. A originalidade deveria manifestar-se na vida. rápida e vasta difusão no mundo romano. As amizades dos epicuristas ficaram famosas como as dos pitagóricos.C. a apatia. Se não houve pensadores epicuristas notáveis depois de Epicuro no mundo clássico nem depois. mas teve escasso desenvolvimento. que constitui a realidade originária. é tarefa do conhecimento do mundo. A escola epicurista durou até o IV século d. Como a sensação. a ciência à moral.desinteressam-se por completo dos homens. em que dominava o vínculo da amizade.como o estoicismo . em sua honra celebravam-se festas comemorativas. imutáveis. . Igualmente. pela qual também os deuses vêm a ser compostos de átomos. gravada nas jóias. onde encontramos. Faleceu em 270 a. que é imediata. Tito Lucrécio Caro . Em seus jardins. que se tornaram centro das reuniões aristocráticas dos seus admiradores. a evidência sensível é o único critério de verdade no campo teorético. A filosofia é a arte da vida. que queria os discípulos fiéis até a letra do sistema. feita de nobreza de sentimentos. O mestre pareceu aos discípulos como que um redentor. é uma complicação de sensações. a sua doutrina. da física . A ele devemos as melhores notícias sobre o sistema epicurista. mas sempre materiais . não é excluído o fato de que a necessidade universal oprimiria o homem ainda mais do que o arbítrio divino.C. mas conservou-se fortemente organizada. a serenidade. Em 306 abriu a sua famosa escola em Atenas. missões. evidente. também subordina a teoria à pratica. intuitiva. nos jardins da sua vila. para a cultura superior. e fruir dessa formosura na própria existência pessoal. invisíveis. semelhante ao dos deuses. O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica Também o epicurismo . os quais aplicaram a sua doutrina à vida e dela fizeram a substância de sua arte. com setenta anos de idade. a percepção sensível. Cedo dedicou-se à filosofia. canônica) epicurista é rigorosamente sensista. para garantir ao homem o bem supremo. recorre Epicuro à física atomista. Aliás.I século a. ou mediatamente através dos sentidos. O epicurismo teve. desde logo. em 341 a. de Deus e fazer com que ele atue de conformidade. a paz. nem com o além-túmulo: seria igualmente absurdo preocupar-se com aquilo que se segue à morte. gosto para a formosura.habitadores felizes de intermundos . Portanto. E foi um mestre eficaz de sabedoria aristocrática. A associação espalhou-se depois. resolve-se numa física. num sereno lazer. a alma formada de átomos sutis.. pertencentes a classes sociais elevadas. indivíduo material. Precisamente. concebe os elementos últimos constitutivos da realidade como corpúsculos inúmeros. a sua imagem. A mãe praticava a magia. é natural que o critério fundamental e único da verdade seja a sensação. Dada tal gnosiologia coerentemente sensista. a metafísica epicurista é rigorosamente materialista: quer dizer.71 O Epicurismo do ateniense Néocles. mecanicista. como com aquilo que precede o nascimento. conforme o desejo do mestre.diz Epicuro .divide a filosofia em lógica.C. Epicuro expôs a sua doutrina num grande número de escritos. sobretudo. seguindo as pegadas de Demócrito. O processo cognoscitivo da sensação é explicado mediante os assim chamados fantasmas.. nenhuma preocupação com a morte. e . resumida em catecismos. Como a gnosiologia epicurista é rigorosamente sensista. que seriam imagens em miniatura das coisas. deu vida a uma sociedade genial. Epicuro foi pessoa fidalga e refinada. do alémtúmulo. fundador da escola que tomou o seu nome. sendo iniciado por Nausífanes de Teo no sistema de Demócrito. mensais e anuais. que venerava Epicuro como uma divindade. democritiana. da mesma forma o sentimento (prazer e dor) será o critério supremo de valor no campo prático. houve todavia. em todos os tempos e lugares. cartas. . o ideal da fidalguia antiga: fazer da formosura o princípio inspirador da vida. Estas nos dão o ser. Todo o nosso conhecimento deriva da sensação. A gnosiologia (lógica. daí. nasceu em Atenas.libertar o homem dos grandes temores que ele tem a respeito da sua vida. autor de De rerum natura. física e ética. Epicuro. e foi criado em Samos. ajudas materiais. Epicuro. pela maior parte perdidos.

no movimento uniforme retilíneo para baixo introduz Epicuro desvios múltiplos. escolhido prudentemente. Não sofrer no corpo.no tamanho. perturbam a serenidade e a paz. O verdadeiro prazer não é positivo. refletido. que aspira a liberdade e à paz como bens supremos. Em que consiste. no isolamento do mundo. por conseguinte. esse prazer imediato. Epicuro divide os desejos em naturais e necessários . Em realidade. se ensina a renúncia. renunciando a todos os desejos possíveis. indispensável para que seja possível o movimento e. filosoficamente. os quais exigem muito pouco e cessam apenas satisfeito.por exemplo. mas negativo. a moral epicuristas. sabiamente. que é precisamente liberdade e paz. no peso. que encontra precisamente a mais perfeita realização nestes bens espirituais. não naturais e não necessários . a amizade genial. ou de nenhum sofrimento menor. visto ser o desejo inimigo do sossego: eis as condições fundamentais da felicidade. satisfazendo suas necessidades essenciais. Assim. no precaver-se contra as surpresas irracionais do sentimento. sem alma imortal. e nada mais seriam que complicações de prazeres sensíveis. a origem e a variedade das coisas. porquanto o primeiro se estenderia também ao passado e ao futuro e transcende o segundo. na quietude. refletido. ter a faculdade de gozar e não a necessidade de gozar. aos prazeres positivos. pelos mesmos motivos. na remoção do sofrimento. O mundo e a vida são um espetáculo: melhor é ser espectadores e atores. iguais qualitativamente e diversos quantitativamente . daí derivam encontros e choques de átomos e. a maneira grega. Este prazer imediato deveria ficar sempre essencialmente sensível. da emoção. deve adaptar-se para viver como melhor puder. Epicuro. não ser perturbado no espírito. a virtude ética de Aristóteles). de fato. Mediante o clinamen Epicuro justifica ainda o livre arbítrio. como é desejado pelo homem vulgar. Nesse mundo o homem. consistiria na renúncia a todos os desejos possíveis. . afinal. E sustenta isto em contradição com a sua ascética radical. O fim supremo da vida é o prazer sensível. consequentemente. critério único de moralidade é o sentimento. está certamente em contradição com a sua metafísica materialista. e na morte. os vórtices e os mundos. Mas precisamente ainda. para os quais não há lugar no seu sistema. na apatia. a não ser em vista de um prazer. para estar tranqüilo. que é uma simples combinação da contingência. Estes. Entretanto. sem causa. A filosofia toda está nesta função prática. como os mais altos prazeres. No entanto. mesmo quando Epicuro fala de prazeres espirituais. O prazer espiritual diferenciar-se-ia do prazer sensível. por conseqüência. racionado? Na satisfação de uma necessidade. não tem a coragem de ensinar a renúncia aos prazeres positivos espirituais. indivisíveis (átomos). infinito. mas também na ação (cfr. No epicurismo não se trata. trata-se do prazer imediato. Também segundo Epicuro. sem providência divina. e. nenhum prazer deve ser recusado. portanto. os átomos estão no espaço vazio. Nisto estão toda a sabedoria. do filósofo. na figura. e precisamente em uma vida curta e refinada. renuncia os segundos. esteticamente. quando for preciso. porquanto acarretam fatalmente inquietação e agitação. que nasce de exigências não satisfeitas. como o único mal é a dor. consistindo na ausência do sofrimento. Os átomos são animados de movimento necessário para baixo. sujeitos ao nascimento e à morte.72 homogêneos. Aqui. em vigiar-se. O universo não é concebido como finito e uno. estéticos e intelectuais. físicos e espirituais. a ambição. se ele faz uma afirmação profunda. a virtude dianoética de Aristóteles). espalhado pelo espaço infindo. no sono. bem como contradiz a sua metafísica materialista com a sua moral. mas ainda renuncia os terceiros. avaliado pela razão. melhor é conhecer do que agir. O sábio satisfaz os primeiros. O único bem é o prazer. a vida ideal do sábio. da paixão. mas infinito e resultante de mundos inúmeros divididos por intermundos. do indeterminismo universal. A Moral e a Religião A moral epicurista é uma moral hedonista. a virtude. que é unicamente presente. e não se deixar por eles dominar.por exemplo. que representa o ideal supremo na concepção grega da vida. não teriam explicações se os átomos caíssem todos com movimentos uniforme e retilíneos para baixo como pensava Demócrito. na insensibilidade. e nenhum sofrimento deve ser aceito. o instinto da reprodução. espontâneos (clinamen). a não ser por causa de conseqüências dolorosas. do prazer imediato. Verdade é que Epicuro mira os prazeres estéticos e intelectuais. porém. o bem espiritual não consiste unicamente na contemplação (cfr. É mister dominar os prazeres.

nos jardins de Epicuro. A serenidade do sábio não é perturbada pelo medo da morte. nem está no saber e não se pode alcançar mediante o saber. sutis e luzentes. O ceticismo visa sempre um fim último ético-ascético. Almejava. preenchida com as mais nobres ocupações . ideal que tem uma expressão concreta precisamente nas belas divindades do panteão helênico. É o ceticismo a última palavra da sabedoria antiga. portanto. ela não é. prática e teorética. O estoicismo procura realizar a apatia ainda mediante uma metafísica positiva. . nos espaços entre mundo e mundo. na unidade da amizade. O epicurismo. proclamado ateu. Vivem. para não serem contaminados. Os fantasmas dos deuses proviriam dos próprios deuses . porque quando nós somos. Epicuro é também hostil à atividade pública. especialmente durante o sono. teria praticado .sempre acordados e sentados em jovial convívio. até um verdadeiro pessimismo e ascetismo. à política considerando a família e a pátria como causas de agitações e inimigos da autarquia. paz e contemplação. A prova da existência da divindade estaria no fato de que temos na mente humana a sua idéia. perturbados. Através da mais absoluta indiferença. É preciso venerá-los para imitá-los. Substancialmente. no entanto. Dado este conceito da vida concebida como liberdade. portanto. à destruição de todos os valores. sorvendo ambrósia. A felicidade não é mais uma coisa positiva. que é inacessível ao homem". uma norma de vida ordinária e espiritual. dar uma unidade estética e racional à vida. uma religião desinteressada. se os deuses não proporcionam ao homem nenhuma vantagem prática. O epicurismo tende a realizar o mesmo fim com uma metafísica negativa. não defende o suicídio que poderia justificar com maior razão do que os estóicos.o mal da religião.segundo ideal grego da vida . pois todo mal e todo bem se acham na sensação. é natural que Epicuro seja hostil ao matrimônio e à família. É de fato. proporcionam-lhe contudo o bem da elevação. dotados de corpos luminosos. o objeto. incoerente. Os deuses de Epicuro são muitos.como as idéias transcendentes de Platão e ato puro de Aristóteles . existem. Persiste nos céticos uma fé nostálgica e realista e o conceito da objetividade da ciência: o ser. mas porque eles encarnam o ideal estético grego da vida. não para receber auxílio. Epicuro admite a divindade transcendente. mas não se podem conhecer por falta de meios. É uma teologia refinada de ateniense e de artista. mesmo negativa. imortais diversamente dos deuses estóicos .beatos.não atuam sobre o mundo e a humanidade. portanto. representa.como os fantasmas de todas as outras coisas . porém. mais do que ao mundo. escapando destarte a fatal destruição dos mundos. constituídos de átomos etéreos. a grande metafísica platônico-aristotélica é posta de lado. Chega-se. Epicuro venera os deuses. contemplados . de sofrimento. fora do mundo e dos mundos.entre os limites impostos pelo pensamento grego e pelo seu pensamento . e a morte é a ausência de sensibilidade. Diz Argesilau: "Deus unicamente conhece a verdade. Ceticismo e Ecletismo O ceticismo apresenta-se mais coerente do que as escolas precedentes. Epicuro. diversamente do imanentismo estóico. do sossego. Deste modo. que vive no mundo de estátuas divinas. que importa na contemplação do ideal. desesperada por não ter podido resolver o problema da vida mediante a razão.como na Academia e no Liceu. especialmente do que o estoicismo. sem qualquer metafísica. que não pode ser senão cópia de realidade. destarte.desceriam até nós dos intermundos.73 do vulgo. mas pode ser alcançada unicamente negando o saber. aliás geralmente desvalorizado no mundo grego. vivendo ocultamente. Não obstante o seu materialismo teórico e o seu ateísmo prático. a vida se inspirava nos mais requintados costumes. uma espécie de puro amor de Deus dos ascetas e dos místicos. mas não é atacada pelo ceticismo. Então. tendo forma humana belíssima. com os fins práticos de uma filosofia da renúncia. da indiferença. praticamente ateu. Nunca nos encontraremos com a morte. negando todo absoluto e transcendente. Epicuro. na conversa arguta e delicada: numa palavra. quando ela é nós não somos mais. procura-se realizar finalmente tão almejada paz. encarnando na serenidade do mármore o ideal grego contemplativo e estético da vida. embora imperfeita. considerado vulgarmente como propulsor de devassidão e sensualidade. inversamente. conversando em grego! Mas . na beata solidão dos intermundos.

desenvolve-se naturalmente a técnica.C. moralisticamente. o homem volta-se para o transcendente e para o eterno. e a sabedoria é desapego da ação. como opina Aristóteles. depois acadêmico e. mais ou menos). geralmente. cuja grande obra. faz uso da dialética eleática. e não justaposição mecânica de peças sem vida. Na história da civilização e da cultura. a terceira. cínica e cirenaica. O ceticismo critica o conhecimento sensível. peripatético. ciências naturais. retorna-se à metafísica naturalista dos pré-socráticos. O pragmatismo eclético foi. literatura.. substitui ao critério da verdade o da verossimilhança. E isto basta aos fins ético-empíricos dos ecléticos. geografia. O interesse teorético. Em conclusão. Encarna-se na média academia com Argesilau e Carnéades. O advento de uma semelhante filosofia foi favorecido pela permanência e pela coexistência. Tudo isto torna dolorosa a vida do homem. como julga Platão. E. E.de sorte que se torna fácil a síntese eclética. astronomia. esvaziadas do seu conteúdo original. como uma suma de elementos estóicos. e sim o jus. bem como o intelectual. física. da tese e da antítese. à erudição e às ciências especiais que se desenvolvem. encontrando-a na renúncia ao mundo e à própria vida. Contém muito menos elementos céticos e epicuristas. como o ceticismo. mas filologia. a segunda afirma-se de modo original graças a Carnéades.529 D. em princípios da era vulgar. medicina. helênica. O ecletismo apresenta-se como um sistema afim. e a coerência materialista do epicurismo. pois a filosofia é escolha. depois (ceticismo e ecletismo). surge de novo na forma pirroniana com Enesidemo e Sexto Empírico. embora imensamente inferior ao ceticismo. bem como à moral das escolas socráticas menores. de tendência pirroniana. enfim. significando a expansão da cultura grega. organismo especulativo. dada a natureza crítica do ceticismo. portanto será não a filosofia. característico . semelhantes e diversos ao mesmo tempo dos fins éticosascéticos dos céticos. ciência 74 . favorecido pelo contato do pensamento grego com a romanidade dominante. embora acriticamente. Os motivos desta filosofia pragmatista devem ser procurados na decadência espiritual e moral da época. história. em ordem cronológica. este período toma o nome de helenismo. melhor ainda. com relação às ciências especiais. anula-se toda metafísica e. O Período Ético (300 a. o vigor especulativo. voltando-se para a sofística. É o ecletismo filosofia de espíritos pragmáticos ou decadentes.C. matemática. nem a da afirmação.como acontece nos períodos de decadência especulativa . Também o ecletismo. cuja escola terminou pouco depois do seu discípulo Timon. restringem-se ao particular. acadêmicos e também peripatéticos. Primeiramente (estoicismo e epicurismo). enfim. ao passo que a metafísica esmorece. faltando ao homem interesse e a força para a especulação pura. e também a opinião. se nada é verdadeiro. menosprezando o grande desenvolvimento filosófico platônico-aristotélico. feita de abstratas generalidades ou de particularidades secundárias. Não filosofia teorética. na história da filosofia denomina-se período ético. enfim. O nem-nem dos céticos é mudado em e-e pelos ecléticos. do relativismo sofista. tudo vale igualmente. um ecletismo estóico. toda moral. a filosofia torna-se uma preparação para a morte. bem como na profunda tristeza dos tempos e na profunda sensibilidade diante do mal. sistema. porquanto o interesse filosófico é voltado para os problemas morais. que procura na filosofia um conforto. não filosóficos. que surgiram em tempos diferentes. Do contingente e do temporal. Temos precisamente. A arte resolve-se no virtuosismo e na imitação. de várias escolas filosóficas. e por demais despersonalizadas. no mundo civilizado. ou não têm a força da crítica. construção. O ecletismo apresenta-se como uma síntese prática ou.C.O ceticismo clássico começa com Pirro de Elis (365-275 a. A primeira escola cética serve-se. consequentemente. no período helenista e depois ainda. inteiramente voltada para a prática e para a ação. .) Características Gerais O terceiro período do pensamento grego abrange os três séculos que decorrem da morte de Aristóteles ao início da era vulgar. que concebem a filosofia popularmente. a cultura helenista reduz-se à erudição e ao virtuosismo. uma orientação moral. que implica sempre numa crítica. como na idade moderna. segundo os elementos de uma ou de outra escola na síntese prática do próprio ecletismo.

uma física. A mente humana é concebida como uma tabula rasa. o qual. pois. funda a sua escola. não obstante as repetidas e múltiplas declarações estóicas em louvor da razão. acaba não sendo mais filosofia. mas sim uma turma bastante uniforme de pensadores medíocres. metafísica. a saber. Finalmente. uma complicação quantitativa de elementos sensíveis. que lhe despertam o entusiasmo para com os estudos filosóficos. como a filosofia estóica chega a ser substancialmente pragmatista e. valor universal como a filosofia grega. pelo ano 300. seguindo-se o aniquilamento da ciência. Em seus escritos já se encontram a clássica divisão estóica da filosofia em lógica. o direito romano. Aos vinte e dois anos vai para Atenas. mais ou menos). da escola cética. Iniciou. o conhecimento é limitado ao âmbito dos sentidos.C. não como ciência. Os dois últimos. por conseguinte. anuladas.75 e técnica. como no precedente. libertar o homem das preocupações transcendentais. rigoristas. amiúde apresentando-se como a filosofia dos não filósofos que têm pretensões filosóficas. a filosofia é cultivada exclusivamente em vista da moral. para firmar a virtude e. freqüentando por algum tempo várias escolas e mestres. da escola estóica. da escola epicuréia. e. em que ainda há uma metafísica. No terceiro período do pensamento grego não se encontram mais alguns poucos e grandes pensadores.dedica-se à filosofia. O conceito. A grandeza verdadeira e original do pensamento latino é o jus. seguido por uma série de discípulos mais ou menos originais. diversamente de Aristóteles. entre os quais o cínico Crates. logo. pois. em correspondência com o discurso interior e exterior. não sistemas críticos. um período recente ou religioso. o helenismo. Entende-se. em contradição consigo mesma e com a moral. de Atenas. Como em Aristóteles. sacerdotal. mas vastas orientações e escolas. Nesta civilização cosmopolita encontram-se dois valores universais: o pensamento e a arte dos gregos. A escola estóica média ou eclética. bastante divergentes do estoicismo clássico. em segundo lugar. isto é. como na escola eclética. no fundo. os estóicos distinguem na filosofia uma lógica. stoá.. também da moral. aí . enfim exporemos o pensamento latino.Graecia capta ferum victorem cepit. moralizadoras. em que não há mais metafísica alguma. leva para ele. o conhecimento parte dos dados imediatos do sentido. mas afirmações dogmáticas. O conhecimento intelectual nada mais pode ser que uma combinação. mas. em outras palavras. Não obstante esse absorvente moralismo. o estoicismo pode-se dividir em três períodos: um período antigo ou ético. filosofia moral e moral prática. pois. Seu pai. para assegurar ao homem a felicidade. em que a metafísica tem apenas uma função negativa. e anacrônica. O fundador da antiga escola estóica é Zenão de Citium (334-262 a. o segundo a forma . inclusive da política e da religião. do temor de além-túmulo. porém. No dizer dos estóicos.perdidos seus bens . Os estóicos dividem a lógica em dialética e retórica. elementar. O primeiro valor dá o conteúdo. em que a metafísica e moral são sincretistas. mas como uma missão e uma prática religiosa. portanto. surge pela influência de outras escolas e para responder às objeções dessas escolas. por conseqüência. física e ética. é destruído. antes de tudo. juntamente com a atividade didática. Na lógica trata-se da gnosiologia. o jus e a política dos romanos. O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica O estoicismo não apresenta o fenômeno de um grande filósofo. a primazia da ética e a união de filosofia e vida. um período médio ou eclético. em terceiro lugar. a de escritor. nem moral. Trataremos. uns tratados socráticos. mercador. que se chamou estóica. do lugar onde ele costumava ensinar: pórtico em grego. da metafísica e. depende de cultura grega. E compreende-se o seu vasto êxito em todos os tempos. agrupar na escola estóica nova ou religiosa os que entendiam absolutamente a filosofia. a ética é o fim último e único de toda a filosofia. pelo que diz respeito à filosofia. Podem-se. o estoicismo. a tarefa essencial da filosofia é a solução do problema da vida. O Estoicismo Em seu conjunto. a física iguala a metafísica. uma ética. e precisamente desse terceiro período ecletismo e estoicismo. . e. logo.

a apatia dos estóicos seria. como precisamente afirmam os estóicos. não é nem bem nem mal. que são o verdadeiro. e nem se pode explicar racionalmente o suicídio. salvo o seu pensamento . na filosofia estóica. Tudo aquilo que não é virtude nem vício. que se manifesta no mundo. E não tanto pelo dano que pode acarretar ao vicioso.pois o prazer é julgado insana vaidade da alma. de tal maneira. a virtude acaba por se tornar meio para a felicidade da tranqüilidade. não é o prazer. à riqueza e à pobreza. fazendo emergir todas as qualidades da matéria. isto não se concilia. metafísicos. mas pragmatistas. Como se vê. quer se trate de piedade. destino. a felicidade. a virtude. fruto de uma fatigosa conquista. decadente. as propriedades das coisas. pois no sistema estóico. que constituem os únicos bens verdadeiros: indiferença e renúncia à vida e à morte. mecanicismo. Por conseguinte. naturalmente. como geralmente acontece. a única atitude do sábio estóico deve ser o aniquilamento da paixão. e se conforma com o demais. assim o mal único e absoluto é o vício.cujo conteúdo é. quando o homem se torna indiferente a tudo. a metafísica dos estóicos é uma metafísica elementar. ainda que se acabe por repudiá-lo como perturbador da indiferença. pois sabe que tudo é efeito de um determinismo universal. de uma dura virtude. sem dúvida. único bem da alma. pode tornar-se bem se for unido com a virtude. até a apatia. o vício. Dada a indiferença estóica do suicídio como voluntário e moral afastamento do mundo. da serenidade. Mas é uma virtude absolutamente negativa. donde derivam o desejo. conforme a concepção de Heráclito. a dor. é uma pura palavra. inteiramente fechado na sua torre de marfim. em definitivo. e a tudo renuncia. Deus. uma tendência irracional. salvo e pensamento. contraditória. A paixão. incoerentemente declaram racional o fogo substância metafísica da realidade -. destinada a . a indiferença e a renúncia a todos os bens do mundo que não dependem de nós. da autarquia do sábio. e a lei desse princípio material só pode ser. não a alma. à maneira de Demócrito. magoado pela possível e freqüente carência dos bens terrenos. quanto pela sua irracionalidade e desordem intrínseca. providência. atribuem-lhe arbitrariamente os atributos divinos da sabedoria e da providência. Esta matéria está em perpétuo vir-a-ser. necessidade. e sim como sendo ela própria um bem imediato. para dar lugar unicamente à razão: maravilhoso ideal de homem sem paixão. em especial no homem. a paixão. mal se for ligado ao vício. não é concebida como necessária condição para alcançar a felicidade. ordem são afirmados ao lado dos conceitos opostos de fado. o único bem do homem. De tal forma. Não Deus. da serenidade. todavia. como o Sol faz brotar da semente a planta. nada lhe acontece que não seja por ele querido. e dar uma explicação à razão. devem-se conceber materialisticamente também Deus. a tranqüilidade da alma. uma necessidade mecânica. que anda como um deus entre os homens. porque. não lhe resta efetivamente mais nada. inteiramente absorvidos na prática. Daí a guerra justificada do estoicismo contra o sentimento. a alma. Devendo os estóicos. a paz. mas apenas indiferença. A serenidade. uma emoção. a sabedoria. fornecer alguma base à sua ética do dever. mas a sua destruição total. é sempre e substancialmente má. espírito. porém. O ideal ético estóico não é o domínio racional da paixão. ao repouso e à fadiga. Com o desenvolvimento do estoicismo. às honras e à obscuridade. Como o bem absoluto e único é a virtude. ao prazer e ao sofrimento . A felicidade do homem virtuoso é a libertação de toda perturbação. pois é movimento irracional. O sábio é beato. que devem ser aniquilados. toda atividade é movimento.quer se trate de ódio. O estóico pratica esta indiferença e renúncia para não ser perturbado. a emoção. a serenidade. e cujo curso é fatalmente determinado. segundo uma ordem teológica. da indiferença universal. razão da vida. porquanto é radicalmente materialista: se tudo é material. o sossego. indiferença e renúncia a tudo. a autarquia. e os estóicos não são filósofos. no fundo. mas a virtude. isto é. à saúde e à doença.76 A metafísica estóica reduz-se à física. se a ordem do universo é racional. esta mesma renúncia -. a independência interior. A Moral e a Política No pensamento dos estóicos. que nasce da virtude negativa da apatia. sem saudades e sem esperanças. o fim supremo. e para não perder. todavia. imaginam-no como espírito ordenador. numa palavra. A virtude estóica é. Com efeito. supremo. com a virtude da fortaleza que o estoicismo reconhece e louva. moralistas. morbo e vício da alma . há o vício quando à indiferença se ajunta a paixão. na ética.

buscam a salvação. E até começam a nascer instituições caritativas para com os pobres e os doentes. Os filósofos. em civilização humana e moral. político por natureza. apenas para os concidadãos. cidade grega por excelência. nunca os homens foram tão famintos de Deus quanto nessa época. o culto de Mitra. integrar a filosofia mediante a religião. a Bíblia hebraica teria sido traduzida para o grego por setenta sábios. em relação com tal metafísica. clássico. Os homens piedosos querem fundamentar suas crenças filosoficamente. o racionalismo grego mediante o misticismo oriental. esse cosmopolitismo. e elevando. A cidade é povoada de pensadores que dispõem de uma admirável biblioteca. O racionalismo lúcido dos gregos se une . além da verdade suprema.) é bem representativo dos meios judeus helenizados que só sabiam ler a Bíblia na versão grega denominada dos Setenta (segundo a tradição. identificando. em segundo lugar. e julga poder superar. onde campeia solitária uma justiça. virtude corrosiva.C. Filon de Alexandria Filon de Alexandria (nascido por volta de 25 a. não tem mais sua capital tradicional em Atenas. em virtude da doutrina que afirma a identidade da natureza humana. se esforçará por unificar os pólos opostos da realidade. quanto Plutarco ou Plotino. de direito natural. Isto nos ajuda a compreender o caráter sincrético. a que os estóicos não podem fornecer uma base racional e metafísica. judeus. particularmente os intelectuais. Destarte. promove todavia os conceitos de sociedade universal. entre o mundo e Deus: primeiro. O centro do pensamento então se estabelece em Alexandria. ou sintético. Pelo que diz respeito à política. livres e íntegros. os estrangeiros e os inimigos. gregos e romanos. a qual.numa síntese muito original . elaborando uma moral ascética e mística. completar. por outro lado. cidade cosmopolita na qual vivem egípcios. Preocupações filosóficas e religiosas se unem estreitamente. na qual o aristotelismo fornece sobretudo os quadros lógicos. Tal cosmopolitismo foi fecundo em progresso. Abre-se caminho a um sentimento de caridade. de Ísis. da filosofia neoplatônica. fazendo com que da substância do Absoluto seja gerado todo o universo até a matéria obscura. torna-se cosmopolita por natureza. todavia. a matéria com o mal.77 resolver-se na matéria. Apesar das denegações dos céticos e da propaganda materialista dos epicuristas. que existe. que tinha encontrado um obstáculo intransponível no dualismo e racionalismo gregos . e o misticismo oriental o conteúdo. de lei racional. Tal é a atmosfera que vamos encontrar envolvendo tanto Filon de Alexandria. manifesta-se na filosofia estóica um racionalismo cosmopolita radical a propósito da sociedade estatal: o homem. É o local privilegiado de todos os intercâmbios. então se desenvolvem. por um lado. A sabedoria estóica é ação negadora da expansão das forças espirituais. Diz o estóico Musônio: "O mundo é a pátria comum de todos os homens". em Alexandria). proporcionando o racionalismo grego especialmente a forma.aos fervores do misticismo oriental. morte moral. As religiões de salvação. Será acentuado o dualismo platônico entre sensível e inteligível. entre finito e infinito. mediante o monismo estóico. II . porém. o vértice da realidade inteligível ao suprainteligível e. A filosofia antiga. O neoplatonismo julga poder superar o dualismo.dualismo e racionalismo que nem sequer o gênio sintético e profundo de Aristóteles conseguiu superar. até para os infelizes e os escravos. em seu último período.Cristão O Neoplatonismo Características Gerais do Neoplatonismo O neoplatonismo pode ser considerado como o último e supremo esforço do pensamento clássico para resolver o problema filosófico. conceitos que deveriam ser deduzidos da natureza racional do homem. entre matéria e espírito. de perdão. O cristianismo tomará impulso. Seus correligionários . sentimento este inteiramente desconhecido ao mundo antigo.

ao menos. a Bíblia e Platão. o espírito humano. Filon pretende fazer uma síntese entre os ensinamentos de Moisés. identificar Deus com o universo. Plutarco encontra simbolização de sua doutrina nos mitos da salvação comuns em sua época. Num sentido. psyche organon theou!" Plotino Plotino nasceu em Licópolis. A concepção que São João faz do Verbo divino muito deve às fórmulas e às idéias de Filon de Alexandria. à maneira dos estóicos. a voltá-la para as realidades sublimes). Todavia. mas escola de vida espiritual. dirigiu-se para Alexandria onde seguiu as lições do platônico Amônio Sacas. divina por essência. do conhecimento dos dois princípios rivais. . o grande problema da escolástica medieval. sobrevivendo aos seus desastres. que é a lei do nosso mundo.78 tinham-no encarregado de uma missão junto ao imperador Calígula (para serem dispensados do culto ao imperador. Para ele. Para Plutarco. aos 28 anos. envolvida por uma potência malfazeja num corpo radicalmente vicioso (a encarnação é uma encarceração) e de que a salvação provém do verdadeiro conhecimento (gnosis em grego). que o admirou. onde abriu uma escola. temos um primeiro esboço da teoria dos gêneros literários e das mentalidades! É com relação à inspiração sagrada da Pítia que Plutarco formulará sua célebre expressão: "O corpo é o instrumento da alma e a alma o instrumento de Deus. no Alto Egito. dirá seu discípulo Porfírio a seu respeito) um ensino muito brilhante. Como dirá mais tarde um discípulo de Filon. inacessível às nossas abordagens. Para Filon. estabeleceu-se definitivamente em Roma. Mas Tifon. ao princípio transcendente do Bem se opõe um princípio do mal. assim como entre os estóicos. que levou Joseph de Maistre. incompatível com o monoteísmo judaico). Isto porque. diretamente. destinada a transformar inteiramente a alma. Lagrange. Plutarco de Queronéia O autor da Vida dos Homens Ilustres também é um pensador religioso. ilumina o espírito de Pítia. dos meios que permitiriam a vitória do princípio do bem. seu filho primogênito (protógonos). A união dos dois explica a criação no que ela tem de bom. o da concordância entre razão e fé. cuja exegese ele propõe: á Apolo que. é uma herança legada por Filon (é nesse sentido que Wolfson dirá que a filosofia medieval é inteiramente filoniana). mas sob forma alegórica. uniu às práticas ascéticas ("Tinha vergonha de estar num corpo".. não podemos. Colocou em particular o problema do mal e da Providência em seu ensaio sobre as Dilações da Justiça Divina. Já Platão não houvera dito que é preciso morrer para o sensível. a fim de nascer para o inteligível? Se Deus é inacessível. com os seus hábitos de linguagem. Leva a sério as profecias de Pítia. de Platão e de Zenão de Citium. Platão traz a mesma mensagem sob forma filosófica. Ísis simboliza a matéria e Osíris o Logos. e purificá-la. a filosofia não era simples disciplina teórica. isto é. podemos nos aproximar d'Ele por intermédio da renúncia ao mundo e do recolhimento da alma. "Platão é um Moisés que fala grego". Dezoito séculos antes do Pe.. e. Essa filosofia dualista provém de Platão e a encontraremos em todos os sistemas denominados "gnósticos". Verbo eterno de Deus. Plutarco aceita tornar-se sacerdote de Apolo Pítico em Delfos. trabalha da melhor maneira possível para o renascimento do culto délfico. a Bíblia diz a verdade. Aí. Em 243. a fim de conhecer a filosofia dos persas. o princípio do mal. na escola neoplatônica. a traduzi-lo. estaria fadada a uma grande existência.ao qual Filon denomina Logos. pode participar do Inteligível . das causas que fizeram triunfar o princípio do mal. o próprio Deus é inefável. O conjunto compreende cinqüenta e quatro tratados agrupados em seis Enéadas (isto é. Plotino engajou-se no exército do imperador Giordano. grupos de nove). que o "converteu" à filosofia (pois. Porfírio anotou e publicou seus cursos. introduz a desordem e a perturbação: dispersa os membros divinos de Osíris que Ísis tenta reunir. A idéia essencial (já presente em Platão e Plutarco) é a de que somos formados de uma alma. mas esta exprime a Revelação segundo sua mentalidade e sua cultura. A idéia de Filon de harmonizar a revelação e a razão.

é. C. Já no Timeu de Platão está colocada a questão de uma gênese do mundo. cuja ordem é constituída por ela. Esse arrebatamento da alma.embora elas derivem. rival do mundo do bem.A doutrina fundamental de Plotino é a das três hipóstases. da qual ela procede. ainda que menores. . Todavia. o qual não é o conhecimento (uma vez que este supõe a dualidade do sujeito cognoscente e do objeto cognoscível . é só o procurado pelo reflexo do bem que fracamente ainda brilha nele. não pode desejar coisa alguma . toda vida e todo valor. Segue-se. e ele é plenitude. A Inteligência é que faz a realidade ter uma forma. B. e o mundo sensível. com respeito ao pensamento. Para ele. para Plotino. As almas individuais emanam dessa alma universal. é superior a tudo e fonte absoluta de tudo. das três realidades eternas . nem a vida. Em ambos os métodos de purificação. O mal. a idéia do Belo desempenha importante papel. das três substâncias. A perfeição suprema se difunde em si mesma. não é absolutamente nova. em termos plotinianos.pois.A realidade suprema. Essa Inteligência é o princípio de toda justiça. embora elas procedam uma das outras. de toda virtude e. a Inteligência. isto é. mas antes encontrar a si mesmo em sua verdade. assim ocorre com os seres emanados do Uno. mas antes a fonte inefável de todo ser e de todo pensamento. na medida em que ela é coerente e harmoniosa. Reservemo-nos. o que explica o fato de o autor das Duas Fontes Ter colocado Plotino acima de todos os filósofos. terceira hipóstase (que evoca o tema platônico da alma do mundo. o que é capital para Plotino. este último aspira à reconquista da unidade. opinião. generosidade sublime.Da Inteligência procede a Alma. A. destruir um universo para dar nascimento a outro. não existe um mundo do mal. como para os gnósticos. como diz Plotino. a razão: conhecimento mediato. Ao movimento de procedência corresponde o impulso de conversão pelo qual a alma. o desejo e o esforço de uma alma que quer se encontrar e ao mesmo tempo se perder no Uno universal e inefável. Todavia. enquanto o Uno dispersou-se. Ele é todas as coisas e nenhuma delas. dialético. o Deus de Plotino. de ver no plotinismo um dualismo gnóstico. A alma que dizem prisioneira do mal é apenas uma alma que se ignora. o ponto extremo onde morre a luz. É aquilo de que promana toda existência. nem a essência. caída no corpo. o mundo material representa o último estágio dessa "difusão" divina. manifestando-se nela obscuros vestígios da verdade. arrancará o jovem Agostinho de suas crenças dualistas abeberadas no maniqueísmo. Não esqueçamos que é a leitura de Plotino que. que atinge as idéias. todavia. Mas o Uno é riqueza infinita. o peso da matéria. de toda beleza. abismou-se no múltiplo. se assume e tenta se elevar até o Princípio original. a conversão plotiniana lembra a dialética ascendente de Platão. superior à sensibilidade. demonstrativo. para Plotino. A Gnosiologia A gnosiologia de Plotino é semelhante à de Platão. como até então não se sentira ainda. livrar-se do mal. é o Uno. pela desvalorização da sensibilidade como aparência. Essa filosofia. é aqui que encontramos a opacidade da carne. à luz e ao repouso na fonte sublime. a obra de Plotino possui uma tônica de misticismo que é nova. as essências das coisas. A alam humana também é uma parcela do próprio Deus presente em nós. Abaixo das três hipóstases. Assim como de um fogo ardente as chamas se irradiam. obscureceu-se. discursivo. O mal não é uma substância original. não é. obscurecida no mal. .Por que existem outras hipóstases? Por que esse Deus plotiniano. por outro lado. mas ele próprio é de tal ordem que nada podemos afirmar a seu respeito. O próprio Plotino escreveu uma tratado contra as seitas gnósticas. uma luz mergulhada na bruma. A sensação representa o primeiro grau de conhecimento humano. por que o Uno não é único. .nem o Ser. esse êxtase foi que impressionou Bergson ao ler as Enéadas. 79 . A Alma é a mediação entre a Inteligência. O primogênito de Deus é o Logos. desejar é sentir falta de algo. no entanto. sente-se aí. na medida em que ela é Beleza (nesta segunda hipóstase encontramos algo das Idéias de Platão e do pensamento que se pensa de Aristóteles). as trevas do mal. tende a engendrar outros seres que se lhe assemelham. um dia. nada tem de uma substância positiva: "O mal não é senão o apequenamento da sabedoria e uma diminuição progressiva e contínua do bem". assim como o deus cósmico dos estóicos). Nesse sentido. por que se degrada na multiplicidade? É certo que não está submetido a qualquer necessidade.

intelecto. O Cristianismo . em que este é imaginado como o suprainteligível. irracionalidade. inteligência subsistente. microcosmo. não é apenas potencialidade. Os graus dessa libertação são representados. A segunda emanação do Uno é a alma.que estão no noûs . o Uno. É conhecimento intuitivo. Nesse grau de conhecimento o espírito compreende. inconsciente. e nunca erra. radicalmente ascética: libertação. superior à filosofia.. À razão segue-se o pensamento imediato.há a subida. a alma do mundo. que conhece enquanto vem iluminado pelo pensamento propriamente dito. pelas virtudes éticas. que é uma fulguração divina. precisamente pelo fato de ser. A alma universal. que é autocontemplação do espírito pensante. por sua vez se multiplica e especifica nas várias almas individuais. o qual é superior ao espírito. dianoéticas . de sorte que é inteiramente indeterminado e inefável.teologia negativa. mas o mundo é da sua mesma natureza. A Moral Depois da descida . mas também mal. a que são assimiladas as divindades das religiões tradicionais. pois.80 A razão é a atividade do espírito. Nisto consiste a moral plotiniana.representa uma atividade do espírito humano participada do pensamento absoluto.assim quatro são os graus do ser: matéria. Deus certamente transcende o mundo. material. Com a alma termina o mundo inteligível. que procede de Deus degradando-se até à matéria. não por criação consciente e livre. do corpo. em linha ascendente. em si mesmo. como este procede do Uno. o conhecimento participado.sensibilidade. O conhecimento humano. a inteligência. Uno. ela procede do pensamento. Por isso. tudo depende dele. Deus . mas por emanação inconsciente e necessária. em que o espírito humano se torna passivo.a emanação das coisas do Uno . transcende toda essência e todo o conhecimento. que se conhece a si mesma e em si as coisas. está sempre em ato de conhecer. intuitiva e imutável. alma. também ensina a metempsicose e a conversão. e em torno dele pode-se dizer apenas o que não é . isto é. A matéria plotiniana. compêndio do universo. culminando no êxtase. êxtase . E outro caminho parece abrir-se na doutrina dos intermediários. e começa o mundo sensível. do sentido. o pensamento vem a ser intermitente e sujeito ao erro. que é identificação do espírito humano com o espírito absoluto. O Uno. o noûs. da Inteligência . noûs. O pensamento absoluto. em que é afirmada uma relação específica com a Divindade. que estão em escala decrescente do céu até os homens. A alma contempla as idéias . mas. Deus.noûs. No entanto. imediato.é a raiz de todo ser e de todo conhecer. A primeira emanação é representada pelo noûs. nele. Efetua-se ela através do homem. não discursivo e sucessivo. divino. é inefável e pode ser atingido na sua plenitude unicamente mediante o êxtase. A Religião O neoplatonismo afirma certa transcendência de Deus. a conversão do mundo para Deus. Também o pensamento . razão. Também Plotino sustenta que as almas humanas caíram de uma vida pré-mundana para o cárcere corpóreo. para a valorização da religião positiva. e por Plotino distintos em deuses invisíveis e visíveis. parece abrir-se o caminho para uma nova filosofia religiosa. que estão entre Deus e o homem. Com esta doutrina do êxtase.e enforma a matéria. A Metafísica Como os graus de conhecimento são quatro . ao mesmo tempo. a si e as coisas. purificação da matéria. O universo deriva de Deus.o intelecto . finalmente.segundo Plotino .arte e filosofia . no espírito humano. se completa e atinge a sua perfeição no êxtase. indeterminação. segundo o modelo delas.

o pensamento cristão desde o II ao VIII século. criadora da filosofia cristã verdadeira e própria. por exemplo. solução que constitui a integração filosófica proporcionada pelo cristianismo ao pensamento antigo  que sentiu profundamente. o pensamento do Novo Testamento. E é nesse esforço que Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino trazem à luz reflexões fundamentais para a história do pensamento cristão. pressupõe uma precisa solução do problema filosófico. o máximo valor. Pelo que diz respeito à solução do problema do mal. confinada nos mosteiros religiosos. Foi esta. o pensamento cristão tomará na grande tradição especulativa grega esta justificação e a filosofia em geral. O cristianismo fornece ainda uma  imprescindível  integração à filosofia. Sob a influência da Igreja. o pensamento cristão desde o século IX até o século XV. Pelo que diz respeito ao teísmo. Depois vieram as guerras. será. de Agostinho. mas como uma religião. sistematização racional do próprio conteúdo sobrenatural da Revelação. mediante uma disciplina específica. como uma filosofia. este problema sem o poder solucionar  frisamos que essa representa a grande originalidade teórica e prática. e as obras de Aristóteles são traduzidas para o latim. ocorre a fusão de elementos culturais greco-romanos. da dogmática católica. E. o cristianismo implica uma determinação. como se acreditava. sistematização racional do conteúdo da mesma. e sim a religião. que será a teologia dogmática. Esta parte. Finalmente. a justificação da Revelação em geral. a "Idade das Trevas". A avalancha dos bárbaros arrasou também grande parte das conquistas culturais do mundo antigo. agora transformado num mosaico de reinos bárbaros. especialmente. É o teísmo e o cristianismo. pressupõe uma específica concepção do mundo e da vida. Mas entre os hebreus o teísmo não tem uma justificação. isto é. do cristianismo. porém. a que é devida particularmente a construção da teologia. Soluciona este o problema do mal precisamente mediante os dogmas fundamentais do pecado original e da redenção da cruz. em definitivo. pois no pensamento cristão. Características Gerais do Pensamento Cristão Foi conquistada a cidade que conquistou o universo. O cristianismo propaga-se por diversos povos. fundam-se as primeiras universidades. porquanto implicam sempre numa intervenção da razão.81 As Características Filosóficas do Cristianismo Não há propriamente uma história da filosofia cristã. salientamos que o cristianismo o deve. sobretudo. de fato. Era a invasão de Roma pelos germanos e a queda do Império Romano. fazendo florescer os estudos filosóficos e as realizações científicas. A diminuição da atividade cultural transforma o homem comum num ser dominado por crenças e superstições. não é a filosofia. enquanto soluciona o problema filosófico do mal. a obra da Patrística e. a saber. Assim definiu São Jerônimo o momento que marcaria a virada de uma época. cristãos e germânicos. No Ocidente. se o cristianismo não se apresenta. o interesse central. . Isto se realizará graças especialmente à Escolástica e. têm uma importância indireta com respeito à filosofia. enfim. a Tomás de Aquino. a Israel. a fome e as grandes epidemias. mediante os dogmas do pecado original e da redenção pela cruz. econômica e social do Ocidente. elucidação. no tocante à solução do problema do mal. em Aristóteles. assim como há uma história da filosofia grega ou da filosofia moderna. historicamente. e a determinação. sobretudo. uma demonstração racional. Entretanto. O período medieval não foi. de sorte que. a Patrística. O aristotelismo dissemina-se pelo Oriente bizantino. dividida do seguinte modo: o Cristianismo. uma doutrina. as especulações se concentram em questões filosófico-teológicas. como. além de uma justificação histórica e doutrinal da revelação judaico-cristã em geral. tentando conciliar a fé e a razão. a Escolástica. portanto. A filosofia clássica sobrevive. A Idade Média inicia-se com a desorganização da vida política. a saber. dedicada à história do pensamento cristão. uma sabedoria. filosófica e moral. dramaticamente. dilucidação.

a Igreja católica conseguiu manter-se como instituição social mais organizada.C. em grande parte. que corresponde ao período medieval. o Império Romano do Ocidente sofreu ataques constantes dos povos bárbaros. em termos de fé). Não foram poucos. por exemplo. Ela consolidou sua estrutura religiosa e difundiu o cristianismo entre os povos bárbaros. decorrente. dita por quem quer que seja. O objetivo era convencer os descrentes. a Igreja passou a exercer importante papel político na sociedade medieval. De acordo com a doutrina católica. Patrística "A fé em busca de argumentos racionais a partir de uma matriz platônica" . trançando um quadro intelectual em que a fé cristã era o pressuposto fundamental de toda sabedoria humana. "A Bíblia era tão preciosa que recebia as mais ricas encadernações". somente acessíveis à fé. apenas. política e econômica. também. Eles foram os responsáveis pelo resgate cristão das filosofias de Platão e de Aristóteles.. preservando muitos elementos da cultura pagã greco-romana. sobretudo porque viam nessa forma pagã de pensamento uma porta aberta para o pecado. vasta riqueza material: tornou-se dona de aproximadamente um terço das áreas cultiváveis da Europa ocidental. contrariar as verdades estabelecidas pela fé católica. conciliador das elites dominantes. Do confronto desses povos invasores com a civilização romana decadente desenvolveu-se uma nova estruturação européia de vida social. numa época em que a terra era a principal base de riqueza. Desempenhou. Segundo essa orientação. de modo algum. Por outro lado. o estudo da filosofia grega permitiria à Igreja enfrentar os descrentes e demolir os hereges com as armas racionais da argumentação lógica. segundo os elementos do mundo. Apoiada em sua crescente influência religiosa. Assim. "Tomai cuidado para que ninguém vos escravize por vãs e enganadoras especulações da "filosofia". Eram os religiosos que desprezavam a filosofia grega. Em que consistia essa fé? Consistia na crença irrestrita ou na adesão incondicional às verdades reveladas por Deus aos homens. os filósofos não precisavam se dedicar à busca da verdade. pôde estender seu manto de poder "universalista" sobre diferentes regiões européias. surgiram pensadores cristãos que defendiam o conhecimento da filosofia grega. aqueles que dispensaram até mesmo essa comprovação racional da fé. afirmava Santo Ambrósio (340-397. Entre os grandes nomes da filosofia católica medieval destacam-se Agostinho e Tomás de Aquino. a Igreja exerceu amplo domínio." (São Paulo). para depois fazê-los aceitar a imensidão dos mistérios divinos. Restava-lhes. a fé representava a fonte mais elevada das verdades reveladas  especialmente aquelas verdades essenciais ao homem e que dizem respeito à sua salvação. toda investigação filosófica ou científica não poderia. respectivamente. Em meio ao esfacelamento do Império Romano. a dúvida. e não segundo Cristo. Conquistou. segundo a tradição dos homens. a função de órgão supranacional. Assim. aproximadamente): Toda verdade. o descaminho e a heresia (doutrina contrária ao estabelecido pela Igreja. na medida em que sentiam a possibilidade de utilizá-la como instrumento a serviço do cristianismo. pela razão. Conciliado com a fé cristã. é do Espírito Santo. porém. pois ela já havia sido revelada por Deus aos homens.82 A Filosofia Medieval e o Cristianismo Ao longo do século V d. demonstrar racionalmente as verdades da fé. contornando os problemas da fragmentação política e das rivalidades internas da nobreza feudal. das invasões germânicas. Conflitos e Conciliação entre a Fé e Saber No plano cultural. Neste sentido. Verdades expressas nas Sagradas Escrituras (Bíblia) e devidamente interpretadas segundo a autoridade da Igreja. tento quanto possível.

caracterizada pela afirmação das diferenças fundamentais entre fé e razão. A Questão dos Universais: O que há entre as palavras e as coisas O método escolástico de investigação. A fundação dessas escolas e das primeiras universidades do século XI fez surgir uma produção filosóficoteológica denominada escolástica (de escola). como problema básico de especulação filosófica. isto é. retórica e dialética (o trivium) e geometria. marcando-o definitivamente. aritmética. a palavra rosa continua existindo. nem. Esse problema filosófico gerou muitas disputas. O conjunto desses textos ficou conhecido como patrística por terem sido escritos principalmente pelos grandes Padres da Igreja. passando a Ter uma influência mais marcante nas reflexões da época. Mas como isso acontece? O grande inspirador da questão foi o inspirador neoplatônico Porfírio. Nesta fase. formando parte dos mesmos". o período escolástico pode ser dividido em três fases: Primeira fase  (do século IX ao fim do século XII): caracterizada pela confiança na perfeita harmonia entre fé e razão. em sua obra Isagoge: "Não tentarei "Os caminhos de inspiração aristotélica levam até Deus". o aristotelismo penetrou de forma profunda no pensamento escolástico. astronomia e música (o quadrivium). descobertas até então. de uma idéia geral. tentou munir a fé de argumentos racionais. Segunda fase  (do século XIII ao princípio do século XIV): caracterizada pela elaboração de grandes sistemas filosóficos. Uma das principais correntes da filosofia patrística. Quando a flor morre. se são corpóreos ou incorpóreos. guardada nos mosteiros até então. crer para compreender".83 Desde que surgiu o cristianismo. Esse projeto de conciliação entre o cristianismo e o pensamento pagão teve como principal expoente o Padre Agostinho. por exemplo. inspirada na filosofia greco-romana. enunciar se os gêneros e as espécies existem por si mesmos ou na pura inteligência. no entanto. Carlos Magno resolveu organizar o ensino por todo o seu império e fundar escolas ligadas às instituições católicas. Era a grande discussão sobre a existência ou não das . idéias gerais. considera-se que a harmonização entre fé e razão pôde ser parcialmente obtida. Era a renascença carolíngia. Foi assim que os primeiros Padres da Igreja se empenharam na elaboração de inúmeros textos sobre a fé e a revelação cristãs. mediante um trabalho de conquista espiritual. começaram a ser ensinadas as seguintes matérias: gramática. Todas elas estavam. privilegiava o estudo da linguagem (o trivium) para depois passar para o exame das coisas (o quadrivium). merecendo destaques nas obras de Tomás de Aquino. Eles tinham de ser apresentados de maneira convincente. tornou-se necessário explicar seus ensinamentos às autoridades romanas e ao povo em geral. A cultura greco-romana. no entanto. Nesse sentido. Nesse caso. no caso de subsistirem. e à tradução para o latim de algumas delas. Tendo a educação romana como modelo. (Santo Agostinho) Escolástica No século VIII. "Compreender para crer. Desse modo surgiu a seguinte pergunta: qual a relação entre as palavras e as coisas? Rosa. nem se existem separados dos objetos sensíveis ou nestes objetos. voltou a ser divulgada. A busca da harmonização entre a fé cristã e a razão manteve-se. A partir do século XIII. Terceira fase  (do século XIV até o século XVI): decadência da escolástica. é o nome de uma flor. diretamente do grego. os chamados universais de Aristóteles. Isso se deveu à descoberta de muitas obras de Aristóteles. submetidas à teologia. segundo o historiador francês Jacques Le Goff. a palavra fala de uma coisa inexistente. a Igreja católica sabia que esses preceitos não podiam simplesmente ser impostos pela força. Mesmo com o estabelecimento e a consolidação da doutrina cristã.

os documentos fundamentais. religiosamente. uma vez admitido e firmado o teísmo. como elemento constitutivo. como a estóica e todas as demais soluções filosóficas de tal problema. caberá interpretar infalivelmente a revelação judaico-cristã e. o pensamento grego e. ou. Diferentemente. Pode ele dar plena solução ao problema do mal . as satisfações conjugais e domésticas. para determinar a personalidade de Cristo. o triste sentido da vaidade do mundo. humanista e imanentista em especial. idéia peculiar ao cristianismo e desconhecida pelo mundo antigo. que são próprios e originais do cristianismo. E achamo-nos diante de uma personalidade extraordinária . que é desenvolvimento providencial da humanidade.unicamente se é Homem-Deus. portanto. também se responsabiliza por uma instituição que a ele se segue . E como Jesus Cristo se torna garantia de toda uma tradição que o precedeu . históricos.a Igreja católica. que ficaria. filosóficos. que ensina uma grande doutrina. Daí a idéia de uma história. afirma-se a si mesma como divina e comprova explicitamente com prodígios e sinais . filosófico e histórico.Novo Testamento. ainda que poderosos e ilustres. deve-se dizer que entrará no cristianismo como sistematizador do novo organismo social. e também o conceito de um Messias. ainda que contra a sua vontade. básico. obscuro e desprezado. Na revelação cristã é filosoficamente fundamental. Quanto ao pensamento grego. sem solução alguma.cristã do problema do mal seria vã. humanamente. em geral.o Velho Testamento . também. e recalcitrou contra os flagelos com que Jeová o castigava.necessário complemento do mistério do pecado original. mas apriorísticos.ascética . Conceitos indispensáveis para explicar o problema do mal. em segundo lugar. um reparador. e. por certo.84 Os Precedentes do Cristianismo Os fatores históricos do cristianismo são: em primeiro lugar. a várias interpretações. Jesus Cristo Entretanto. Basta lembrar que. o Verbo de Deus encarnado e redentor pela cruz. o estado autônomo e privilegiado. a solução . especialmente pelo mundo grego. Os argumentos em contrário não são positivos. E. também a parte que diz respeito à queda original e à relativa reparação. politeístas. a religião israelita. o verdadeiro criador do cristianismo. à idéia de uma moral ascética. E quanto ao direito romano. quer dizer. relativos à revelação cristã . .. através de dolorosas experiências. porquanto este é hebraico e cristão. De Israel o cristianismo toma o teísmo.os milagres e as profecias . o mundano e carnal Israel resistiu tenaz e longamente a esta idéia de uma radical miséria humana -. o poder e a glória . essencial e característico. deve-se dizer que entrará no cristianismo como sistematizador das verdades reveladas. um redentor. no máximo dualistas ou panteístas. De Israel toma o cristianismo. e como justificador dos pressupostos metafísicos do cristianismo. não. por conseqüência. até que Israel. propriamente. as riquezas da natureza e a prosperidade dos negócios. Devem ser examinados à luz da crítica histórica. é Jesus Cristo. para tanto não precisando. o direito romano. No entanto. os outros povos e civilizações. pode dar origem. A solução integral do problema do mal viria unicamente do mistério da redenção pela cruz .solução que representa o maior valor filosófico no cristianismo . Não é este o momento de fazer um exame crítico. Idolatrou a vida longa e próspera. a pessoa de Cristo tornar-se-ia inteiramente ininteligível. foi submetido à sujeição e à renúncia.esta sua divindade. e não como constitutivo de seus elementos essenciais e característicos. antes de tudo. dependem de uma filosofia racionalista e atéia em geral.até esquecer-se de Deus. tendo adquirido. porém. a qual. É o teísmo um privilégio único deste povo pequeno. em sua novidade e originalidade.Jesus Cristo . A esta. se ele não fosse Homem-Deus. evidentemente. são. racionalmente premente e racionalmente insolúvel. o conceito de uma queda original do homem no começo da sua história. Eis o esquema lógico da demonstração da divindade de Jesus Cristo. o conceito de uma revelação e assistência especial de Deus. enfim. logo se segue a possibilidade de uma revelação divina e da divindade de Cristo. senão de provas históricas. que o chamavam ao temor de Deus e à penitência. Perseguiu os Profetas. a Igreja. leva uma vida santa. portanto..

Cristo não deixou nada escrito. o mal assim chamado metafísico. convertido ao cristianismo e mudado o nome de Saulo para o de Paulo. do sofrimento. Para o mesmo fim escreveu Paulo as famosas cartas às comunidades cristãs dos vários centros da Antigüidade. preocupa Paulo é o do mal. pois. O quarto evangelho. companheiro de Paulo.escritas em grego devemos dizer que não são cartas logicamente orgânicas e ordenadas. relacionados com ele.chamados evangelhos sinópticos . Destarte ele se pôs em contato com todas as formas de civilização do Oriente helenista e do mundo greco-romano. do pecado. Os Evangelhos de Mateus. visto ser o mal um problema racionalmente insolúvel. tanto assim que podiam desagradar a um helenista refinado como Porfírio. revelando-lhes em Cristo crucificado o Deus padecente. os quais . Deus. nesta língua. tornando o homem consciente de sua falta. Também ele não foi discípulo imediato de Cristo. não tirava o pecado. em aramaico e destinado ao ambiente palestino. Quanto às Epístolas . As grandes viagens apostólicas de Paulo são três e têm como ponto de irradiação Antioquia. cronologicamente. por certa característica histórica e didática. que não foi discípulo direto de Cristo. tornou-se o maior apóstolo do cristianismo entre os gentios ou pagãos.e não acharam. que os torna comuns e os distingue do quarto evangelho.formam um grupo à parte. que Paulo sentia tão profundamente. Cronologicamente. os Evangelhos sinópticos e o Evangelho de São João. de forma incisiva e eficaz. Estas últimas. que tem o poder de tornar teoricamente inexplicável a realidade. que o chamava o caro médico. o predileto do Mestre. e. No Novo Testamento. que eles procuravam em suas religiões misteriosóficas . o publicano. são elas as seguintes: Paulo de Tarso. precisamente este mal.85 O Novo Testamento Como é notório. Não conheceu Jesus Cristo durante sua vida terrena. Foi escrito em grego e destinado a um público não palestino. são porém.como o primeiro . por certo. O primeiro em ordem de tempo é o Evangelho de Mateus.podem se considerar compostos na Segunda metade do primeiro século. além das testemunhas cristãs. Como Paulo pode ser considerado o teólogo da Redenção. realizadas para finalidades apostólicas. Marcos e Lucas . como qualquer outra filosofia. O problema que. foi em seguida traduzido para o grego e. É o mais amplos dos Evangelhos e relata amplamente os ensinamentos de Cristo. um dos doze apóstolos: João. são fundamentais e mais do que suficientes para o nosso fim. fôra um inteligente e zeloso israelita. é o último dos Evangelhos e dos escritos do Novo Testamento. mediante a graça de Cristo. densas de conteúdo. crucificado e ressuscitado. embora nos deixando na luta e no sofrimento. pelo contrário.no seu conjunto . A vida de Paulo é caracterizada por muitas e longas viagens. Também o Evangelho de João foi escrito em grego. tocando os centros mais importantes do mundo antigo: Jerusalém. na Cilícia. devido à miséria do homem decaído. de sorte que é ele. e praticamente dolorosa a vida? Não é. o de João. A Solução do Problema do Mal Não há dúvida de que o problema do mal foi o escolho contra o qual debalde se bateu a grande filosofia grega. de sorte que o nosso conhecimento mais imediato em torno da sua personalidade se realiza através dos escritos dos seus discípulos. É este o aspecto do cristianismo que mais o impressionou. tornando em seguida um dos doze apóstolos. a necessária limitação de todo ser criado: porquanto esta limitação nada tira à perfeição dos vários seres a eles devida . tomada com certa amplidão. Escrito. por excelência. O terceiro dos Evangelhos sinópticos é. o de Lucas. vítima e Salvador. estas são extracanônicas e canônicas. de caráter mais especulativo e teológico. tem um especial valor especulativo. O segundo é o Evangelho de Marcos. originariamente. transmitido. sobretudo. até o agradava. juntamente com este valor histórico. a saber. Temos de Cristo testemunhas também pagãs. embora fosse uma lei moral. de que acha a solução em Cristo redentor. João pode ser considerado o teólogo da Encarnação. porém. mas nos transmitiu o ensinamento de Pedro. teológico. tira o pecado do mundo. enfim. O quarto Evangelho. mas. inversamente . Cristo é o Verbo de Deus encarnado para a redenção do gênero humano. No Velho Testamento Deus tinha dado aos homens a lei que. e o seu evangelho foi também escrito em grego. testemunha da sua vida e da sua morte. Que coisa é.foi escrito por um discípulo direto de Cristo. o teólogo da Redenção. Atenas e Roma. nem literariamente aprimoradas. Paulo de Tarso. Nesta cidade encerra a sua vida mortal com o martírio.

por ele criado? Deve-se entender. evidencia-se. Isto significa exigir que os sentidos sejam instrumentos do intelecto e o instinto seja instrumento da vontade. deve reconhecer os próprios limites. mas. que nos parece desordenada. o chamado físico e moral. uma natureza. mas ignora-lhe a causa. porquanto é limitação da natureza. isto é. a coisa é ainda mais patente: basta lembrar o sofrimento e a morte. enveredando pelo não-ser.bem como todo o sistema dos seus dogmas como divinamente revelada. Este é o mal moral. mas unicamente se quer frisar que a dor e a morte . do pecado. É antiga e famosa a objeção: de que modo concordar a absoluta sabedoria e poder de Deus com todo o mal que há no mundo. precisamente se se considerar a natureza específica do homem. remetemos ao fato da Revelação em que é contida. a qual nos fala de uma queda do homem no começo de sua história.bem como a ignorância e a concupiscência . e este propriamente em relação ao homem.que são. mas apenas aquela plenitude do ser. rigorosamente. chegada ao seu vértice. proporciona-lhe o modo de desviar-se efetivamente do ser. espiritual. etc.em sua atual intensidade. indispensáveis para uma solução humana do problema da vida. é um problema. com um conveniente conjunto de dons preternaturais. Pelo que diz respeito ao mal físico. quanto à possibilidade do mal moral. Não pode. E bem poucos homens e só com muitas dificuldades e não sem graves erros. a qual é a natureza do animal racional.86 por natureza. porventura. o problema da vida. o que não significa certamente lhe pertença a racionalidade pura. contra as exigências da própria natureza racional.com uma natureza extraordinariamente dotada . a alma. Ora. o instinto assenhoreia-se da vontade. pois esse gênero de mal.sobrepuja o intelecto. à ordem sobrenatural. que domina o mundo humano. a psicologia e a história. pela irracionalidade. não por direito. naquele característico processo que é o conhecimento e a operação humana. Temos. o mal físico e moral. deve reconhecer-lhe também a desordem. mas por graça. Não resta. sem preconceitos. da racionalidade. de que agora é privado. a natureza humana. Da Escritura e da Tradição. todavia. desviar-se da ordem: porquanto há nele algo de não-ser. se evidenciam como um estado inatural com respeito ao nosso ser espiritual e racional.devido a uma culpa . físico e moral.do qual o conhecimento deve no entanto partir . devida ao puro espírito. mas certamente exige a subordinação do sensível ao inteligível. Noutras palavras. deve tornar-se crítica. mesmo quando a verdade é conhecida pelo intelecto. Com isto. porquanto não consegue resolver plenamente o seu problema. exige que o corpo humano e a natureza em geral sejam submetidos às imposições do espírito. então. isto é. mas teria sido outrossim elevado. naturalmente.da vida de Deus. como tal. basta lembrar que o ser criado pode. metafísica. Quanto à realidade de uma queda original do homem. teisticamente concebido como transcendente e criador. fundamentalmente. E. garantidas pela interpretação da Igreja e sistematizadas pela teologia. O mal. por sua natureza. é plenamente explicável. chegam ao conhecimento daquelas verdades racionais . entretanto. que pertence unicamente a Deus. em geral. A filosofia conhece a essência metafísica dessa natureza humana. demais vezes o sentido .Deus. a saber. as coisas serão bem diferentes. como deveria ser em uma hierarquia racional dos valores. no teísmo. isto é. já que. o indivíduo e a humanidade. precisamente por causa do mal. mais freqüentemente ainda. e especialmente uma religião entre as religiões. E o livre arbítrio proporciona-lhe o modo de realizar essa possibilidade. . verdadeira imperfeição de um determinado ser. comprometeria também a sua maior conquista: Deus. e afirma esta verdade . e a maioria dos homens viveu e vive cegamente. Com efeito. como que por nova criação. precisamente pelo fato de ser ele um ser criado. A filosofia é certamente construtiva. Quanto à possibilidade de uma queda do espírito. se se considerar. pois. o homem teria participado . renunciar absolutamente à solução deste problema. senão o mal. como o homem primigênio não só teria possuído aquela harmonia natural. naturalmente. de potência. desta maneira. há. do material ao espiritual. outro meio a que pode o espírito humano razoavelmente recorrer para a solução de um problema tão premente? Apresenta-se a religião. teria gozado de uma espécie de deificação. O Pecado Original Se a filosofia é impotente para resolver plenamente o seu próprio problema. E evidencia-se também que . não se quer dizer que a impassibilidade e a imortalidade sejam uma exigência da natureza humana.

no conceito de criação. A razão humana constata. e não pelo fato de o sobrenatural oprimir a natureza. O Cristianismo . pois. ele se sacrifica até à morte de cruz. A Redenção pela Cruz Mas. devido à dignidade do operante. nem a perda dos dons praternaturais. sendo criatura e portanto dependendo totalmente de Deus. Sendo. não podia causar vulneração em a natureza humana. E Deus.voluntário e culpado em Adão. por conseqüência. isto é. Fez isto para dar toda a glória possível à infinita majestade de Deus no reino do mal e da dor proveniente do pecado. ingressando na Igreja. a privação da mesma. teria sido suficiente o mínimo ato expiatório de Cristo. uma debilitação espiritual e física na natureza humana. seria culpado em seus descendentes. a raiz metafísica desta praxe ascética acha-se no próprio teísmo. ser herdada. Visto a ofensa feita a Deus pelo pecado ser infinita com respeito ao Infinito ofendido. essencial desde o nosso nascimento. pela natureza humana.87 de orgulho contra Deus. juntamente com os dons conexos.Conseqüente Praxe Ascética Ascetismo e Teísmo Das precedentes considerações segue-se que o cristianismo importa sempre e essencialmente numa praxe ascética com respeito ao mundo. tendo todo ato seu um valor infinito. por exemplo. é preciso chegar até Deus. bem como a nenhuma natureza criada. O aspecto da condição primitiva do homem. Em verdade. logo. E. se podem transmitir deficiências materiais e. até à vulneração da própria natureza . precisamente. a glória de Deus o fim último de toda atividade divina. para que seja verdadeiramente a explicação do mundo. que unicamente Deus podia dar. frustar o plano divino da criação? Ou o próprio mal soube Deus tirar. portanto. por mais supereminente e central que seja no cristianismo. pela lei da hereditariedade. aqui não interessa. até ao sofrimento e à concupiscência. e que deve. o bem e até um bem maior? É o que explica um segundo dogma da revelação cristã. mas por causa da desordem introduzida na ordem da natureza pelo pecado original. nem pode deixar de constatar. a relação entre Deus e o mundo deve ser concebida segundo o conceito de criação. devia descender toda a humanidade . o que eqüivale dizer. uma enfermidade. quer dizer. também morais: deficiências que não dependem dos indivíduos. é. concernente à elevação sobrenatural. que sentido tem o mal no mundo? Conseguiu o homem. o dogma da redenção operada por Cristo. a elevação à ordem sobrenatural sendo. Deus. retamente definido como uma produção das coisas do nada por parte de Deus. entende-se como o verbo de Deus assuma em Cristo a natureza humana. por conseguinte. . que o mundo. para que o problema do mundo tenha verdadeiramente solução. por conseguinte. mediante o pecado.teria o homem perdido aquela harmonia e a dignidade sobrenatural. Há.que importa na privação da ordem sobrenatural. gratuita. isto é. que temos considerado insolúvel pela filosofia. de que temos imediatamente experiência. o homem que devia pagar. enquanto não quiserem servir-se das misérias provindas do pecado original como estímulo para a Redenção. Para a Redenção. cometida pelo primeiro homem. e. do qual. Deus precisava de uma reparação infinita. porém. precisamente para reparar o pecado original e. O pecado original. Basta. este seu nada ser por si. mas deve ser transcendente e criador. deve reconhecer praticamente esta sua dependência absoluta. não podia suscitar o problema do mal. não pode certamente ser imanente. visto que eles a sofrem. Entretanto. a Segunda pessoa da Trindade divina. pois . provinda do pecado. não se pode explicar por si mesmo. por definição. Segundo este dogma. Com efeito. isto é. o Verbo de Deus. mas no sentido de que o homem. mediante uma divina dialética. Ao contrário. tomando-se esta palavra "ascética" não no sentido rigoroso de renúncia aos bens criados. logo. assume natureza humana. na privação do único fim humano efetivo. lembrar como. suas conseqüências naturais também. exige absolutamente uma explicação. não devida à natureza humana. e. praticando o Cristianismo.

não mais Deus. formado pela mesma natureza de Deus. pode única e absolutamente criá-lo para a sua glória  embora esta já seja interiormente infinita. não mais ato-puro. Compreende-se. e não de humildade e sofrimento. pois. mas já é a única via de salvação e de santificação. Cristo. Os Gentios julgavam naturalmente loucura a renúncia cristã. pode criar este ou um outro mundo. Não Deus. Deus. através do sacrifício mais completo por parte de Cristo. assistido por algumas pobres mulheres. assim. foi abandonado pelos próprios e mais chegados discípulos. deste modo. exigindo ao mesmo tempo que a sua justiça fosse dignamente satisfeita mediante uma expiação infinita por parte do Verbo humanado. neste caso. E o homem faz parte dessa criação. sendo negação. mas apenas tornava possível a expiação por parte do homem. Esta  tão significativa  praxe ascética tem a sua primeira e perfeita realização em Cristo. Então. não em si. criando. querendo criar o mundo. do bem. a saber: Deus teria necessidade do mundo que ele deve explicar. Contrariamente a quanto pensava o dualismo grego. propondo-se como modelo de todos os cristãos: Eu sou o caminho. então. fundamental. o modelo e o ideal da vida cristã. mas enquanto querida por Deus. nas relações práticas com Deus  que constituem o objeto da religião em geral  e também nas relações com a remanente realidade. E morreu abandonado sobre a cruz. se ela fosse necessária. de modo que nenhum ser criado pode. Cristo  realizando a sua obra  foi julgado justo. não mais explicação do mundo. evidentemente. proveniente do pecado. não só na ordem do ser. Aqui falamos. pode ou não pode criar. mas também na ordem de operar. mas o cria livremente e para a sua glória. que repugna à natureza. Contrariamente ao que pensa o panteísmo. por isso. portanto. Com efeito. e não o tira de sua substância. Mas. menosprezando a prudência e a fortaleza humanas. A vida . Deus. Deus cria toda a realidade. de qualquer modo. ao contrário. Humanamente e também racionalmente falando. a procura em Deus.88 Ora. extrínseca. e confirmou a doutrina com o exemplo. esta praxe ascética será loucura e escândalo. Deus. tal definição exclui que Deus organize uma pressuposta matéria qualquer. A este segundo princípio é conexa a absoluta liberdade da criação. de modo nenhum. Esta expiação divina. porquanto o mal. com todas as conseqüências acima mencionadas. dispõe uma realidade essencialmente distinta de si. Se se admitisse para a obra de Deus uma finalidade diversa. sendo Deus a atualidade. cria o mundo do nada. envereda pelo caminho da cruz. a verdade e a vida. haveria a contradição de que Deus seria da mesma natureza do mundo. a perfeição plena. portanto. Unicamente deste modo o homem era redimido. Além disso. seria também preciso admitir em Deus uma indigência. não tem causa eficiente. unicamente através da justiça se manifestava a misericórdia de Deus. do operar positivo. com respeito à qual Deus seria passivo e. Cristo não apenas realizou na sua pessoa o sacrifício redentor. precisamente através dos sofrimentos provenientes da desordem decorrida do pecado. mas também apontou aos homens este caminho como sendo o caminho único para a salvação e a perfeição. e um outro o traiu de morte. Daí nada se poder levantar contra ele e proclamar a sua autonomia. da criatura racional deva ser. uma atitude de reconhecimento do próprio nada. logo. dada sempre a desordem das coisas. bem como por parte do homem. Antes. um dos quais  o que devia ser seu vigário  até o renegou. redentor pela cruz. exigir de participar da natureza divina e enaltecer como tal a sua natureza. como a atitude prática. E. mas deficiente. mas não lhe foi feita justiça pela majestade do direito. privação. de modo que Deus. como o orgulho será o pecado essencial do estulto. isto é. foi condenado pelo povo que ele viera remir. é excluído que o mundo seja. não dispensava. entre infinitos mundos possíveis. unicamente desta maneira se realizava a glória de Deus e a redenção do homem em toda a sua plenitude. que não tem em si a sua explicação e. porque nada de quanto é real pode escapar à absoluta causalidade de Deus. como diz Agostinho. ter-se-ia uma contradição semelhante à precedente. a humildade será a virtude essencial do sábio. quis Deus que fosse juntamente realizada a sua maior glória e o maior bem do homem. mas o homem é o autor do mal. em conseqüência do conceito de criação. Ascetismo e Cristianismo Deus quis remir o homem. Tornando-se ele. Os próprios israelitas sonhavam o Redentor cercado de grandeza e poder. por conseqüência. porém. para o mundo.

destarte. moral. sempre idêntica e imutável na substância. Menos ainda conseguem isto a filantropia e os demais equivalentes humanistas. a convivência social. os velhos. E esta a chamada via dos conselhos evangélicos.cristã será. a fraude. e exaltados não os ricos. renuncia-se a si mesmo. racional. como renúncia à própria vontade. A questão econômica não se pode resolver naturalmente. à plenitude da vida cristã. . os poderosos. ao homem. não fica senão a obediência no sentido cristão. mas também na religiosa. E também não se pode resolver naturalmente o problema árduo da sujeição à autoridade. aos que aspiram à santidade. em lugar do clássico conceito de justiça. A caridade cristã favoreceu ainda obras numerosas e fecundas para os infelizes. à perfeita imitação dele. dominante na moral cristã. por exemplo. e de uma felicidade que transcende toda aspiração e capacidade humana.  por causa da renúncia ao mundo devastado pelo mal  isolar fatalmente os homens dos seus semelhantes? E este isolamento não é ainda mais acentuado. ao contrário. a castidade. Entretanto. ascético. a violência. já que não se apresenta mais como inesperado e trágico. mais ou menos intensamente. Garante. segundo os graus de perfeição cristã e as concretas diferenças individuais. Em segundo lugar. Com efeito  prescindindo do fato de que o trabalho. das lutas dos gladiadores. os gozadores. porquanto torna conformada e voluntária a aceitação do sofrimento. como claramente o prova a dura experiência. como condição necessária para a salvação  se alguém quer vir após mim. que procuremos a sua imagem. freqüentemente mais fortes em quem domina. no egoísmo de toda civilização puramente humana. apesar das aparências contrárias. a imitação de Cristo crucificado  diversamente embora. é uma pena. e nem sequer quem entende de gozar livremente dos bens da terra. então. e isto é evidente se se examinam as paixões humanas. E isto acontece não apenas na sociedade civil. que preocupam tão profundamente a sociedade humana. em concreto. que o mundo inveja. Deste modo Cristo dirá que o busquemos  isto é. para gozarmos a vida em sua companhia. portanto. a sua imitação  não no homem feliz. Este ensinamento. O fato de a autoridade ser necessária à existência da sociedade. o que à orgulhosa razão humana parece estultícia. mas nem sequer a caridade. e a Revelação disto dá explicação e justificação  não somente a justiça não consegue abolir a pobreza. Na vida temporal esta moral ascética apresenta-se também como a mais sábia. a consecução da felicidade na vida eterna. os doentes. os sofredores. impõe Cristo a renúncia total aos grandes bens do mundo: renúncia à riqueza. mas especialmente no sermão da montanha. valorizando a dor. para abraçar a pobreza. 89 Ascetismo e Caridade Esta moral ascética cristã é racionalmente fundada sobre o teísmo e a Revelação. exaltando o sofrimento: bem-aventurados os pobres. tal egoísmo está em franco contraste com o conceito de caridade. Provê igualmente esta moral ascética o bem dos outros. Resolve isto verdadeiramente só a ascética cristã. se acha em toda a sua vida e. embora variável nas aplicações concretas. em seus termos atuais. mas os pobres. E realiza-se na clássica praxe cristã dos votos religiosos. E. especialmente o orgulho. A caridade cristã purificou a civilização antiga da barbárie da exposição das crianças. a caridade. que se pode considerar o compêndio do espírito do Cristianismo. barbárie que se repete. não é argumento suficiente para que todos obedeçam à autoridade. o sermão das bem-aventuranças. consegue tirar a humilhação do receber. os pobres. Aí são invertidos os valores terrenos. acharemos alimento ascético. à liberdade. Tal renúncia não é imoral. Tal ensinamento ascético de Cristo  que. em especial. a própria caridade cristã. a obediência. mais ou menos desprezados e negligenciados na civilização antiga. à família. a humildade. conforme a sabedoria cristã. os mesquinhos. Antes de tudo. pois não fica certamente dispensado da dor quem neste mundo entende de viver apenas moralmente e não heroicamente. com o qual e para o qual sofremos e. não é possível nas atuais condições de egoísmo e malvadez humana. da escravidão. na sua morte  em abstrato se acha em toda a sua doutrina. porquanto formada de homens. ou não parece. Considere-se. quando a perfeição se eleva dos preceitos aos conselhos? Poderia assim parecer. tome a sua cruz e siga-me. mas faz-se mister a ascética cristã para vencer este egoísmo mediante a paciência. Cristo dirige a todos os seus seguidores. mas no homem sofredor. bem como em toda civilização mundana em geral. a questão econômica e o problema da autoridade. mas assim não é. pois. em contraposição com a vida comum dos preceitos. no entanto necessária para que a sociedade possa sustentar-se.

ou os conheceram diretamente. Seus autores. pela defesa racional do cristianismo contra o paganismo. entretanto dele diferenciado-se profundamente. sobretudo como o teísmo se diferencia do panteísmo. A ética cristã da renúncia perfeita ao mundo é a mais proveitosa para a sociedade  familiar. todavia. A Patrística é contemporânea do último período do pensamento grego. Este período da cultura cristã é designado com o nome de Patrística. ou foram discípulos imediatos deles. que criou o homem à sua imagem. desde o fim do primeiro século até a metade do segundo. visto ser o maior dos Padres. período em que. mas uma oportunidade de engrandecimento mediante o sacrifício. De fato. os apologistas e os controversistas. os super-homens do cristianismo: o caminho dos conselhos evangélicos. Finalmente. Não considera. conforme os tempos. os temperamentos pessoais e as necessidades sociais. mas conforme à transcendente vontade de Deus. Seus . da renúncia ao mundo. E é também contemporâneo do império romano. se a Patrística interessa sumamente à história do dogma. a prescindir dos demais. a Patrística será dividida em três períodos: antes de Agostinho. interessa assaz menos à história. cheio de boa vontade para sacrificar-se inteiramente para com todos. de modo nenhum. Interessam-nos particularmente os segundos. e que terminará por se cristianizar depois de Constantino. ao passo que os primeiros e os últimos têm uma importância religiosa. mesmo razoáveis. mas o contrário. o hebraísmo e as heresias. e o remiu com a Paixão do seu Verbo encarnado. como divina. que nos legaram as duas primeiras gerações cristãs. mestres da doutrina cristã. porquanto representa o pensamento dos Padres da Igreja. que procuram de um lado demonstrar a inocência dos cristãos para obter em favor deles a tolerância das autoridades públicas. cada qual realizando este ascetismo cristão com diversa intensidade. Este será o caminho percorrido  embora de modos diferentes  pelos santos. interessam especialmente os chamados apologistas e os padres alexandrinos. unicamente quem é indiferente às qualidades alheias. depois de Agostinho vem o período que. transpor os confins da ética. A Patrística Pré-agostiniana Características Gerais Com o nome de patrística entende-se o período do pensamento cristão que se seguiu à época neotestamentária. que merece um desenvolvimento à parte. motivos de altruísmo. e chega até ao começo da Escolástica: isto é. nem pode objetivamente. Os padres deste período podem-se dividir em três grupos: os chamados padres apostólicos. os lugares. renunciando a si mesmo e dando-se em holocausto a Deus. guias. Precisamente pelo fato de que o homem. universal. recebem o apelido de padres apostólicos. porquanto floresceram no templo dos Apóstolos. não encontra limites no altruísmo. de modos muito diferentes. nacional. é disposto.90 porque tem como objeto não a pessoa. Portanto. no heroísmo. no âmbito do próprio cristianismo. quando conhecidos. e provar do outro lado o valor da religião cristã para lhe granjear discípulos. o período religioso. logo após a sistematização. E é mediante e através desta renúncia ascética. Agostinho. precisamente porque é característica das Ordens Religiosas a via dos conselhos. E os santos mais facilmente florescem nas Ordens Religiosas. a humanidade como fim último. Dada a culminante grandeza de Agostinho. até desejoso. que é o caminho mais perfeito do que o dos preceitos. filosoficamente. Costuma-se designar como o nome de apologistas os escritores cristãos dos fins do segundo século. a renúncia ascética não é estéril egoísmo. em que terá importância fundamental a Escolástica. dogmática. imensamente capaz. representa a decadência da Patrística. mas o ofício. até solícito dos mais miseráveis. que os santos se tornam os grandes benfeitores da humanidade. O II Século: Os Apologistas e os Controvertistas A Patrística do II século é caracterizada pela defesa que faz do cristianismo contra o paganismo. os séculos II-VIII da era vulgar. com o qual também polemiza. com o qual tem fecundo contato. Chamam-se apostólicos os escritos não canônicos. que são os construtores da teologia católica.

entre filosofia e revelação. pelo ano 180. por vezes. Os Padres deste período polemizam filosoficamente com os pensadores pagãos. aliás. São Justino Mártir . cabendo-lhe a glória de ter o grande Orígines entre seus discípulos. naquela celebrizada escola catequética. do espírito prático. obras de controvérsia. a Síria e a Palestina. Depois de ter visitado a Magna Grécia. freqüentemente são filósofos . gradualmente. O cristianismo filosófico é próprio e característico dos padres alexandrinos. O maior dos apologistas é certamente São Justino. Converteu-se ao cristianismo talvez levado por exigências filosóficas.não apresentam interesse particular para a história da filosofia. ao Egito. Clemente teve de suspender o seu ensino alguns anos depois. jurídico. Imitando os filósofos. Para bem compreendê-lo. Flávio Justino Mártir nasceu em Siquém na Palestina em princípios do segundo século. foi.Tito Flávio Clemente . graças a Orígenes. E apresentavam o cristianismo como uma sabedoria.por exemplo.bem como os padres latinos em geral . depois da doutrina famosa dos germes do Verbo. empreendeu uma série de viagens em busca de mestres cristãos.e um Diálogo com o judeu Trifão . Ufana-se ele de ser filósofo e cristão. levados a estimarem seus adversários. abriu em Roma uma escola para o ensino da doutrina cristã. uma filosofia. encarnado pessoalmente em Cristo. onde o seu espírito achou finalmente paz junto do eminente mestre Panteno. pitagórica . sem mudar a sua fisionomia original. para Alexandria do Egito. abandonando o platonismo. mas difundidos mais ou menos em todos os filósofos antigos. Naquele famoso didascaléion. último estádio da sua peregrinação filosófica. Tentouse um renovamento do paganismo com bases no panteísmo neoplatônico e nos cultos orientais. entre o cristianismo e a filosofia. espécie de faculdade teológica. . por em focos os pontos de contato existentes entre o cristianismo e a razão.nasceu no ano 150. como por exemplo Tertuliano. pragmatista. leigo embora. que se ressentem. É. Retirou-se . Este gnosticismo cristão se afirmou especialmente em Alexandria do Egito. que representarão a sua essência doutrinal. os padres africanos . até à conversão os pagãos. é mister lembrar que o escopo por eles visado era. O cristianismo.em busca da verdade para a solução do problema da vida. na crença de que os filósofos clássicos . para levarem. mais cultos do que os padres apostólicos. e morreu mártir no ano 170. onde encontrou a paz.sábios . que mandou fechar a escola.que produziu os estóicos e os cínicos romanos .especialmente Platão . Clemente foi chamado para dirigir a famosa escola catequética. enaltecedora e potenciadora dos valores intelectuais. mas África ocidental. em tempo oportuno. estóica. pertencentes não à África oriental. sobretudo. que já ia afirmando mesmo culturalmente. Suas obras são duas Apologias . por conseguinte. o grande centro cultural da época. Justino dedicou sua vida à difusão e ao ensino do cristianismo. E são dirigidas às vezes contra os pagãos.contra os hebreus. Se bem que entres os padres africano-latinos apareçam vulto notáveis. primeiro. entrou no cristianismo. por vezes. Falecido este no ano 200. de família pagã. O III Século: Os Alexandrinos e os Africanos O terceiro século apresenta um interesse particular pelo que diz respeito ao pensamento cristão. Clemente Alexandrino . Devido às perseguições anticristãs do imperador Setímio Severo. entretanto.em oposição ao gênio grego. Daí a distinção que então se afirmou entre os simples fiéis e os gnósticos .ainda que não apresentem uma unidade sistemática. outras vezes contra os hebreus. a conciliação entre paganismo e cristianismo. apologias propriamente ditas. uma teologia.cristãos. e se esforçam por defender a fé mediante a filosofia. provavelmente em Atenas. são. Justino procura a unidade. mesmo do ponto de vista católico. fundidos numa característica síntese filosófico-religiosa em oposição ao cristianismo. teoréticos. dos quais teremos. como a sabedoria mais perfeita. especulativos. hostilizado pelos padres chamados africanos.contra os pagãos . portanto. o primeiro sistema orgânico de teologia cristã. desejoso de um conhecimento mais profundo do cristianismo. moralista latino . teses. Depois de Ter peregrinado pelas mais diversas escolas filosóficas – peripatética. Os apologistas.dependem de Moisés e dos profetas. latina. continuam filósofos também depois da conversão. que vivem na tradição cultural helenista. às vezes. está em condições de desenvolver do seu seio um pensamento. Escreveu suas obras nos meados do segundo século. foram luminares Clemente e Orígenes. metafísicos. E julga achá-la.91 escritos.

Antes de tudo. Discípulo de Clemente. Orígenes pode ser considerado o verdadeiro fundador da teologia científica.tapetes . perfeitamente acabada na forma e no conteúdo.pequena apologia em doze capítulos. o malho do arianismo. representa a idade de ouro da Patrística. contra a vontade de seu bispo. em três livros. justificando-a e organizando-a racionalmente. Por princípios Orígenes entende os artigos principais do ensino da Igreja. a primeira grande síntese doutrinal da Igreja. considerações. A maior parte do escrito é. à maneira de Justino. isto é. escutou . bem como uma fé inabalável. sendo ademais dotado de uma erudição prodigiosa e de uma cultura incomparável. chamado adamantino por sua energia incomparável. diversamente do simples fiel ou crente. "Querendo harmonizar a doutrina cristã com a filosofia pagã. Atanásio.. A obra Sobre os Princípios nos proporciona a ciência baseada na Revelação.92 para a Ásia Menor. e morreu nessa cidade entre 211 e 216. junto de um seu antigo discípulo. os luminares de Capadócia . por falta de revelação formal. As obras principais de Clemente são: o Protréptico . Empreendeu então longas viagens para se instruir. segundo a tendência metafísica dos doutores orientais. de volta à pátria. valoriza ele também. abrindo em Cesaréia uma escola teológica ( chamada depois neo-alexandrina . o Verbo promotor da vida cristã . é o maior expoente filosófico da escola alexandrina. Prescindindo dos escritos exegéticos e as céticos. dos milagres e das afirmações solenes de Cristo. que o seu mestre Clemente teve que abandonar.como Plotino . foi proibido por este de ensinar e foi condenado. uma serenidade nobre e inigualável. bem como o primeiro sistematizador do pensamento cristão em uma vasta síntese filosófica. sentindo a necessidade de conhecer profundamente as doutrinas que desejava combater e querendo completar a sua formação. satisfatoriamente. o bispo Alexandre de Capadócia.as lições de Amônio Saca. talvez. Durante a perseguição de Septímio Severo. devido também a algumas opiniões heterodoxas contidas na sua grande obra Sobre os Princípios. sábios. o Pedagogo. Nasceu em Alexandria do Egito. e representa uma suma teológica verdadeira e própria. Aos vinte e cinco. perfeitos. dissertações filosóficas. atribuindo-se-lhe milhares de obras. Demétrio. e também por ciúme. A atividade literária de Orígenes não conhece igual. de interesse especialmente ético. mencionamos a obra Sobre os Princípios e os oito livros Contra Celso. especialmente a Segunda metade. e as verdades primordiais deduzidas mediante a razão teológica das premissas reveladas. sobretudo. O gnóstico cristão. morais e religiosas. Embora as preocupações de Clemente sejam sobretudo morais e pedagógicas. que tinha estudado as fontes do cristianismo. falecendo em Tiro pelo ano 254. A obra Contra Celso é a mais célebre de Orígenes sob o aspecto apologético. acentuava demasiadamente a última. e os meios empregados. O IV Século: Os Luminares de Capadócia O século quarto. é consciente de sua fé. filósofo pagão. desprezando os mais graves perigos. que não nos interessam. Leônidas. pela sua força e virtude para a reforma moral dos homens e pela sua difusão universal. e indicando nos demais dois livros os vícios mais graves. Aí lecionou ainda durante vinte anos. de família cristã. que os cristãos devem evitar. Ordenado sacerdote no ano 230 pelos bispos de Cesaréia e de Jerusalém. negligenciando um tanto a Sagrada Escritura e a Tradição". É uma resposta à obra Sermão Verdadeiro de Celso. dedicada ao exame atento e pormenorizado das profecias.Basílio. para a igreja oriental. Orígenes. O precoce menino recebeu do pai. Orígenes. filosoficamente. da direção da famosa escola didascaléion. Granjeou ao autor grande nomeada e contém o origenismo. que depois suscitou a grande polêmica origenista. os Strômata . e para atender aos desejos de grandes personagens que queriam consultá-lo. religiosa. Retirou-se então Orígenes para a Palestina. a primeira formação literária e. sobretudo. o ataca em todos os pontos. Representa. isto é.que é uma coleção de pensamentos. que superou a de Alexandria pelo seu caráter científico. todavia. Orígenes ostenta uma erudição extraordinária. religiosamente. visto que Celso. apesar dos ataques dos adversários. Basta lembrar.isto é. Tinha então Orígenes dezoito anos. apresentado no primeiro o Verbo como educador das almas. pelo ano 185. Nesta obra. Filosoficamente importante e característica é a distinção que faz Clemente dos cristãos em simples fiéis e gnósticos. . declara Orígenes que a melhor apologia do cristianismo é constituída pela vitalidade divina da Igreja. no dizer de São Jerônimo. e grandemente. religiosos e cristãos sobretudo. foi encarregado pelo bispo de Alexandria. a filosofia. talvez.

insigne promotor da beneficência cristã quando bispo de Cesaréia. fez longos e aprofundados estudos. A igreja católica. destinadas a um monaquismo culto. deixou-se desviar da sua vocação. primando pela sua cultura teológica e filosófica. devido naturalmente à filosofia. depois de batizado. chamado Nizianzeno. Bispo de Sásima antes e. Santo Agostinho . que. Os padres dessa época se exprimem em aprimorada forma clássica e possuem uma profunda cultura filosófica. pelo que será considerado o legislador do monaquismo oriental. Ambrósio de Milão e Jerônimo. faleceu em 379. concebido como ascética. o estudo..93 Gregório Nazianzeno e Gregório de Nissa . para a igreja ocidental. em filosofia é neoplatônico. Em seguida. sobretudo graças aos luminares de Capadócia. faleceu. Grande admirador de Orígenes. Irmão de Basílio. sendo Atanásio o mais destacado e forte opositor. que proporcionam o instrumento. em 407. nascido em Cesaréia de Capadócia pelo ano de 330 de família rica e cristã. nasceu pelo ano 330 em Capadócia. Entretanto. foi destinado ao estado eclesiástico. São Basílio. em que a atividade dos monges é distribuída entre o trabalho. em conformidade com o seu ideal ascético e contemplativo. no quarto século. pelo ano 344. filosofia. As grandes heresias da época obrigaram os padres a defender racionalmente. falecendo pelo ano 390. Os maiores dentre eles são solidamente formados na solidão monástica e ascética e pertencem. geralmente. Como em teologia é origenista. torna-se uma construção intelectual sistemática. que aperfeiçoou em Atenas. A teologia. a grandeza da Patrística. em 395. São João Crisóstomo. Possui. e depois bispo de Constantinopla. Recebeu uma educação clássica aprimorada. os luminares de Capadócia. e escrevendo uma Grande Regra e uma Pequena Regra. Estas condições de paz e de privilégio. para a precisão e a organização do dogma. quanto dogmática. não é tanto científica. às altas classes sociais. e organizador da vida monástica na Capadócia. As exortações do irmão e de Gregório Nazianzeno persuadiram-no da vaidade do mundo. organizando a vida solitária dos que o seguiram. Também os grandes representantes da escola neo-alexandrina. como verdadeiro filósofo. de regras morais. eram certamente favoráveis à cultura cristã. provavelmente. a doutrina católica. porém. abandona o mundo e se retira para a vida ascética. em seguida. imponente. Faleceu. foi feito bispo de Nissa. negador da divindade do Verbo. mas se harmonizam reciprocamente. protegida por Constantino. direito. Também São Gregório. Também ele admirou e praticou a vida ascética com o amigo Basílio. padre alexandrino oriundo da Líbia. Gregório de Nissa é o maior filósofo dos padres gregos. degredado pela fé. à lógica aristotélica. nasceu pelo ano 355 em Cesaréia e recebida uma informação cultural aprimorada. atacada especialmente por Ário (256-336). de família cristã. de Antioquia. pouco afeito à vida prática. entretanto.foi condenada pelo concílio de Nicéia (325). torna-se religião do estado com Teodósio. aperfeiçoando-se em Atenas. cidadezinha da Capadócia. declarada livre pelo Edito de Milão. retirou-se depois para a solidão. para a vida monástica. inflamou os fiéis com a sua pregação brilhante e comovedora. Recebido o batismo. nasceu de família ilustre. foi professor de retórica e casou-se. retirou-se para a vida ascética contemplativa. a oração. estudando retórica. foram grandes testemunhas do caráter fundamentalmente ascético do Cristianismo. e a grande estima do cristianismo. e não jurídicas. e João Crisóstomo. Trata-se. compartilhando com ele a admiração para com Orígenes. teológica. talvez. o mais celebrado representante da escola de Antioquia. Esforça-se para mostrar que os dados da razão e os ensinamentos da fé não se hostilizam. abandonando a cátedra de retórica. o método. Aristocrático e delicado. o gosto das definições claras e das classificações metódicas. de Constantinopla. São Gregório de Nissa foi o maior dos luminares de Capadócia e. Padre em Antioquia. filosoficamente. de todos os padres gregos sob o aspecto especulativo e filosófico. É significativo neste grande prelado o senso profundo da vaidade do mundo. valorizou cristãmente na solidão e no ascetismo. A heresia ariana . fez estudos aprofundados. aristocrático.arianismo . até que afinal.

a fim de aperfeiçoar seus estudos. a predestinação. Aurélio Agostinho nasceu em Tagasta. para Milão. a liberdade. porém. Indo para Cartago. especialmente: Da Verdadeira Religião. sobretudo. por conseqüência.depois de maduro exame crítico . e. Entretanto a conversão moral demorou ainda. e. perto de Milão. julgando achar neste dualismo maniqueu a solução do problema do mal e. Caiu em uma profunda sensualidade. era pagão. ele conquista uma certeza: a certeza da . no neoplatonismo. pelo contrário. Mônica. por razões de saúde e. falecida a mãe em Óstia. Todo o seu interesse central está portanto.abandonara o maniqueísmo. sobreveio a conversão moral e absoluta. por razões de ordem espiritual. e exercia sobre o filho uma notável influência religiosa. em companhia da mãe. que. Da Trindade. e à redação de suas obras. Da vida beata. durante alguns meses. Da natureza do bem. a 13 de novembro do ano 354. em seguida. ao matrimônio. na Páscoa do ano 387. ao qual só o cristianismo pode dar uma solução integral. visto serem os mais importantes e os mais imediatos para a solução integral do problema da vida. para a solidão e o recolhimento. Inicialmente. cidade da Numídia. platonicamente. Agostinho renuncia inteiramente ao mundo. aos trinta e dois anos. A Cidade de Deus. Interessam também à filosofia os escritos contra os maniqueus: Sobre os costumes. Tendo terminado os estudos. Sobre as duas almas. retira-se. Aí vendeu todos os haveres e. dominou-o longamente. volta para Tagasta. Agostinho abandona Milão. Aí escreveu seus diálogos filosóficos. Sobre a imortalidade da alma. Ordenado padre em 391. Sobre a música. a graça.94 A Vida e as Obras Aurélio Agostinho destaca-se entre os Padres como Tomás de Aquino se destaca entre os Escolásticos. a mentalidade agostiniana. ainda que os problemas que fundamentalmente o preocupam sejam sempre os problemas práticos e morais: o mal. As Confissões. os diálogos filosóficos: Contra os acadêmicos. Destarte chegara a uma concepção cristã da vida . do filho e dalguns discípulos. juntamente com o filho Adeodato e o amigo Alípio. Tinha trinta e três anos de idade. ou melhor. que o resolve. uma justificação da sua vida. cuja doutrina e eloqüência muito contribuíram para a sua conversão. como por uma fulguração do céu. Afastou-se definitivamente do ensino em 386. é uma das maiores conseqüências do pecado original. Patrício. fundiu em si mesmo o caráter especulativo da patrística grega com o caráter prático da patrística latina. Tinha setenta e cinco anos de idade. Agostinho inspira-se em Platão. superando o ceticismo acadêmico mediante o iluminismo platônico. Depois da conversão. que atribuía realidade substancial tanto ao bem como ao mal. em que a filosofia e a teologia andam juntas. abriu uma escola em Cartago. Os solilóquios. recebeu o batismo em Milão das mãos de Santo Ambrósio. distribuído o dinheiro entre os pobres. Finalmente. era uma cristã fervorosa. por razões de luxúria. Sobre a quantidade da alma. As obras de Agostinho que apresentam interesse filosófico são. fazendo com que aderisse ao maniqueísmo. donde partiu para Roma e. recebido o batismo pouco antes de morrer. à carreira. Do livre arbítrio. Agostinho. de uma família burguesa. segundo ele. E como Tomás de Aquino se inspira na filosofia de Aristóteles. Agostinho dedicou-se inteiramente ao estudo da Sagrada Escritura. da teologia revelada. entre as quais têm lugar de destaque as filosóficas. Da Mentira. começados na pátria. Seu pai. como solucionadora do problema da vida.no começo do ano 386. mais ainda. e será o maior vulto da filosofia metafísica cristã. Sobre o mestre. governou a igreja de Hipona até à morte. Entrementes . sua mãe. moral e intelectualmente. Após a sua conversão. desviou-se moralmente. O problema gnosiológico é profundamente sentido por Agostinho. O Pensamento: A Gnosiologia Agostinho considera a filosofia praticamente. compreende-se que interessam à filosofia também as obras teológicas e religiosas. e consagrado bispo em 395. funda um mosteiro numa das suas propriedades alienadas. abraçando a filosofia neoplatônica que lhe ensinou a espiritualidade de Deus e a negatividade do mal. pela profundidade do seu sentir e pelo seu gênio compreensivo. a 28 de agosto do ano 430. que se deu durante o assédio da cidade pelos vândalos. no mês de setembro do ano 386. Dada. circunscrito aos problemas de Deus e da alma.

negação. preso pelos problemas éticos. como o intelecto. desenvolvendo-se. Entretanto. para que se realize o conhecimento intelectual humano. do mesmo modo. Quanto à cosmologia. mais tarde. consciência. Quanto. Agostinho fica indeciso entre o criacionismo e o traducionismo. mas afirma que elas são fundidas em uma substância humana. eterno. platonicamente. metafisicamente. é necessária a luz física. o Verbo de Deus. as idéias.agostiniano temos ainda um dualismo. porém moral. No cristianismo. pelo pecado dos espíritos livres. não nega Agostinho as provas a posteriori da existência de Deus. Quanto à natureza de Deus. da reminiscência platônica. que fez boas todas as coisas. portanto. Mencionaremos a sua famosa doutrina dos germes específicos dos seres . de outros criou as causas que. nos seres inferiores cego apetite. criou alguns seres já completamente realizados. Deus não é no tempo. Por certo. . sendo criada por Deus. os princípios formais das coisas. extrínseca. o conhecimento sensível em relação ao conhecimento intelectual. que distingue a gnosiologia platônica da aristotélica e tomista. Embora desvalorizando. como na concepção aristotélico-tomista. segundo a gnosiologia platônicaagostiniana. porém.95 própria existência espiritual. substancial. o corpo não é mau por natureza. é a Verdade de Deus. se a alma é criada diretamente por Deus. Mas a união do corpo com a alma é. tínhamos um dualismo metafísico. é uma específica criatura divina. sensitiva e intelectiva. porém. às relações com o mundo. No Verbo de Deus existem as verdades eternas. E como para a visão sensível além do olho e da coisa. platonicamente. amor. dependendo o tempo da existência de coisas que vem-a-ser e são. imutável. pois. moralmente. fundamentalmente. absolutamente. cristã: Deus é poder racional infinito. admite Agostinho que os sentidos. No homem a vontade é amor. pessoa. deram origem às existências dos seres específicos. porquanto Agostinho admite a imutabilidade das espécies. em virtude da doutrina da forma e da matéria. não bastam. e dependente dela. Certo é que a alma é imortal. portanto. simples. o qual é uma criatura de Deus: o tempo começa com a criação. e conhecemos as verdades eternas e as idéias das coisas reais por meio da luz intelectual a nós participada pelo Verbo de Deus. Como já mais acima se salientou. aberrante de Deus. saber. espírito. A inteligência é divina em intelecto intuitivo e razão discursiva. o mal é. para o qual são transferidas as idéias platônicas. como todas as demais. distingue. pouco temos a dizer. Esta concepção nada tem que ver com o moderno evolucionismo. Agostinho possui uma noção exata. de certo modo. ortodoxa. em especial a que se afirma sobre a mudança e a imperfeição de todas as coisas. porquanto a matéria não pode ser essencialmente má. isto é. a priori. no animal é instinto. em sentido teísta e cristão. para o conhecimento intelectual. mas é mister uma particular e direta iluminação de Deus. Deus é concebido exatamente como livre criador. Permanece. e são os modelos dos seres criados. condição e origem de toda verdade particular. é o das relações entre Deus e o tempo. a característica fundamental. A alma nasce com o indivíduo humano e. acidental: alma e corpo não formam aquela unidade metafísica. Agostinho. religiosos. a alma em vegetativa. Também a psicologia agostiniana harmonizou-se com o seu platonismo cristão. Antes da criação não há tempo. No pensamento clássico grego. tem uma realidade na vontade má. insurgidos orgulhosamente contra Deus e. preferindo o mundo a Deus. as forças naturais do espírito. pela sua simplicidade. Deus é ainda ser. negada pelo moderno evolucionismo. enquanto no espírito humano haveria uma presença particular de Deus. Deus e a alma. e é atribuída a primazia à vontade. são fontes de conhecimento. a natureza não entra nos interesses filosóficos de Agostinho. enfim. no pensamento cristão . pois. o que era excluído pelo platonismo. imutável. é a transformação do inatismo. seria necessária uma luz espiritual. Ao lado desta prova a priori. como alguns erroneamente pensaram. as espécies. a existência de Deus é provada. daí tira uma verdade superior. Como se vê. Deus. em especial. ou provém da alma dos pais. criadas. privação. O problema que Agostinho tratou. a princípio. Esta vem de Deus. A Metafísica Em relação com esta gnosiologia.rationes seminales.

Mas é esta a parte menos afortunada da doutrina agostiniana do mal.antes do pecado original . como dizia Aristóteles. não é causa eficiente. determinando a dilaceração da sua natureza. e não de Deus. porquanto não tira aos seres o lhes é devido por natureza. enquanto criado. tende a descurar o segundo. digamos assim. asceticamente. porém. como meio de purificação e expiação. e não natural. tem em si mesmo imanente a pena da sua desordem. a saber. imoralmente. Agostinho. é possuído por um ato de inteligência. e marca uma diferença fundamental entre o pensamento grego e o pensamento cristão. Como se vê. não podendo lesar a Deus. Antes de tudo.de que dá uma vasta e viva fenomenologia. o mal físico tem. mas conseqüência do pecado original. A solução deste problema por ele achada foi a sua libertação e a sua grande descoberta filosófico-teológica.próprio do pensamento grego. por isso. além de um interesse teológico. mas precede-o. Agostinho tem também atitudes teoréticas como. O pecado. Como é sabido. livre e limitado. pode ser superada sobrenaturalmente. pois. hábito conforme à razão. a humanidade foi punida com o sofrimento. sendo o mal não-ser. que restituiu à humanidade os dons sobrenaturais e a possibilidade do bem moral. mas deixou permanecer o sofrimento. além de o ter sido com a perda dos dons gratuitos de Deus. deste modo. para salvar o primeiro elemento. do conhecimento . O mal não é ser. contra a vontade de Deus. O Mal Agostinho foi profundamente impressionado pelo problema do mal . portanto. Não obstante. mas privação de ser. A virtude não é uma ordem de razão. como a obscuridade é ausência de luz. como da passagem do tempo para a eternidade.é: poder não pecar. da ação . limitado. Agostinho procura justificá-lo mediante um velho argumento. E a explicação última de tudo isso . O problema da graça . e pode querer o mal. nega a realidade metafísica do mal. já é impotente sem a graça. Entretanto a vontade é livre. Foi também longamente desviado pela solução dualista dos maniqueus. porquanto se trata de conciliar a causalidade absoluta de Deus com o livre arbítrio do homem. porquanto a criatura. Quanto à política. estético: o contraste dos seres contribuiria para a harmonia do conjunto. que perturbou a natureza humana. contrariamente ao primado do teorético. racionalmente. Quanto ao mal físico. que é puro ser e produz unicamente o ser. Este não-ser pode unicamente provir do homem. A vontade humana. também um interesse filosófico. Destarte é explicado o assim chamado mal metafísico. mas uma ordem do amor. que atinge também a perfeição natural dos seres. mas deficiente. finalmente existe realmente a má vontade que livremente faz o mal. A fórmula agostiniana em torno da liberdade em Adão . o Estado seria inútil. ele tem uma concepção negativa da função estatal. ele alegrar-se-ia. prejudica a si mesma. que lhe impediu o conhecimento do justo conceito de Deus e da possibilidade da vida moral. conseqüência do pecado. A vontade não é determinada pelo intelecto.própria do pensamento latino . Consoante Agostinho. Quanto à família. porquanto o mal não tem realidade metafísica. Nota característica da sua moral é o voluntarismo. Quanto ao mal moral. Remediou este mal moral a redenção de Cristo. Nem a escravidão é de direito natural. como Paulo apóstolo. a moral agostiniana é teísta e cristã e. pois é um ser limitado. Tal privação é imprescindível em todo ser que não seja Deus. transcendente e ascética.estaria no fato de que é mais glorioso para Deus tirar o bem do mal. nos bem-aventurados será: não poder pecar. considera o celibato superior ao matrimônio. fim último das criaturas.96 A Moral Evidentemente. ela.que tanto preocupa Agostinho . quando afirma que Deus. por exemplo. E deve-se considerar não causa eficiente. do que não permitir o mal. O mal moral entrou no mundo humano pelo pecado original e atual. a primazia do prático. mas deficiente da sua ação viciosa. se não houvesse pecado e os homens fossem todos justos.tem. a propriedade seria de direito positivo. Resumindo a doutrina agostiniana a .. físico e moral. logo. depois do pecado original é: não poder não pecar. mediante a conformação cristã de quem é escravo e a caridade de quem é amo. porquanto a natureza humana já é corrompida.do mal moral e de suas conseqüências . podendo agir desordenadamente. uma outra explicação mais profunda. individual e social. que não é verdadeiro mal. se o mundo terminasse por causa do celibato. Agostinho. Homem-Deus. Ela não pode ser superada naturalmente.

até que ficaram confundidas em um único caos humano. recolhida e configurada em Israel. e pela Igreja depois de seu advento. de pecado original e de Redenção. o maior monumento da antigüidade cristã e. que vai do começo do século IX até o fim do século XVI. e resolve-o ainda com os conceitos de criação. predestinados e ímpios. plenamente. satânica. não uma filosofia da história. ao fim da Idade Média. pois. Esta não é limitada por nenhuma divisão política. com a diferença. é mister a Redenção. O conceito de criação é indispensável para o conceito de providência. e chega até a Abraão. a cidade de Deus. absoluta. por causa do basilar dualismo metafísico. pelos mestres. no fundo. a obra prima de Agostinho.a divisão definitiva. sempre mais claramente. desde Abraão. mas supera todas as sociedades políticas na universal unidade dos homens e na unidade dos homens com Deus. para tratar paralela e separadamente da Cidade do mundo. isto é. para entender realmente. de que já não é mais união caótica. depois da morte. Agostinho distingue em três grandes seções a história antes de Cristo. visto que todos. para o triunfo da Cidade de Deus . privação de bem (de ser). a narrativa do ponto em que começa a história da Cidade de Deus separada. elas se confundem como nos primeiros tempos da humanidade. porquanto era a filosofia ensinada nas escolas da época. o plano da história. fragmentária e dividida. justíssima. de Abraão até Cristo. e profetizado também. mas teológica: é uma teologia. isto é. por isso. onde parece que Satanás e o mal têm o seu reino. se o bem é devido nasce o verdadeiro problema do mal. Nesta obra é contida a metafísica original do cristianismo. em separado. dela não podem participar. Agostinho trata do problema da história na Cidade de Deus. É o progresso para Cristo. uma unidade e um progresso. este bem pode ser não devido (mal metafísico) ou devido (mal físico e moral) a uma determinada natureza. que se assinala geralmente com a descoberta da América (1492). depois do juízo universal. mas configurada na unidade da Igreja. A Cidade de Deus representa. que será absolutamente separada e eternamente punida nos fins dos tempos. Cristo tornara-se o centro sobrenatural da história: o seu reino. divididas em trívio . A Igreja transcende. fundamentalmente. invisivelmente. A Escolástica Características Gerais A Escolástica representa o último período do pensamento cristão. que.ainda que só na unidade dialética das duas cidades. que é o governo divino do mundo. não é uma visão filosófica. pelos povos pagãos. A História Como é notório. além do qual está a pátria verdadeira. lhe preparavam diretamente o caminho. chamados. a solução deste problema é estética para o mal físico. os confins do mundo terreno. também às almas de boa vontade que. necessário. pois. após o pecado original. realizar-se-á nos fins dos tempos. Contra este cidade se ergue a cidade terrena. certamente. Este período do pensamento cristão se designa com o nome de escolástica. conscientemente e divinamente esperado e profetizado em Israel. A terceira retoma. diremos: o mal é. é acessível. mundana. graças aos quais é explicado o enigma da existência do mal no mundo e a sua função. por sua vez. que culmina no império romano. Entretanto. moral (pecado original e Redenção) para o mal moral (e físico). talvez. A primeira concerne à história das duas cidades. no paraíso e no inferno. se encontram empiricamente confundidos na Igreja . que é uma visão orgânica e inteligível da história humana. eterna. É uma grande visão unitária da história.gramática. Na Segunda descreve Agostinho a história da cidade de Deus. As matérias ensinadas nas escolas medievais eram representadas pelas chamadas artes liberais. ainda. da constituição do sacro romano império bárbaro. escolásticos. dialética .e . este conceito de providência é.97 respeito do mal. a fim de que a história seja suscetível de racionalidade. consciente ou inconscientemente. exteriormente. representa. O conceito de providência era impossível no pensamento clássico. A Igreja. Depois de Cristo cessa a divisão política entre as duas cidades. porém. é representada pelo povo de Israel antes da sua vinda sobre a terra. Esta história. a seu modo. Entretanto. retórica. época em que começou a separação.

seu escopo final. uma outra forma de conhecimento. tendências novas para a experiência e a concretidade. séculos XI e XII (místicos e dialéticos). representando como que o prelúdio do pensamento moderno. historicamente. os funcionários do império. mas também na orientação denominada dialética do pensamento medieval pré-tomista. em especial. à filosofia ensinadas. e. Deste modo restauraria a civilização e a religião. a escolástica declina como metafísica (séculos XIV e XV). a formação dos leigos cultos (escolas externas). e pode ser assim dividido: séculos IX e X (Scoto Erígena e a questão dos universais). astronomia.visavam. este período coincide com a Segunda metade do século XIII. mas levantar esta à compreensão do supra-inteligível. A falta dessa distinção . inicialmente. em conformidade com as tendências positivas e práticas do espírito anglo-saxônio. e o clero se apresentava como o mais apto e preparado docente. antes de tudo. colocando o período central da escolástica a figura soberana de Tomás de Aquino. Duns Scoto. A tendência mística. devido a um anacrônico e ilógico retorno ao agostinianismo. um clero culto. As escolas episcopais . finalizando uma espécie de racionalismo (Anselmo de Aosta e Pedro Abelardo). fundará junto da corte imperial a assim chamada escola palatina. a massa popular. com efeito. todavia. a uma espécie de intuição mística. O segundo. assim. de experiência do Divino: o sentimento. quer pelo seu imanente caráter de mestre do povo. a cultura clássica e o catolicismo e lhes daria incremento.que surgem nas cidades. a formação do clero secular e também de leigos instruídos. para a vida civil. quer pela cultura de que era dotado. Depois destas premissas. educar intelectual. Para tanto. um racionalismo inconsciente. entretanto. Havia nos mosteiros beneditinos escolas monásticas. complexo devia ser o papel das escolas. a vontade. mesmo que os resultados lógicos pudessem ser os mesmos do racionalismo verdadeiro e próprio. Este primeiro período da escolástica vai do começo do século IX (Carlos Magno) até à metade do século XIII (Tomás de Aquino). que ele ia fundando e desenvolvendo: formar. música. Presidia a estas escolas um eclesiástico chamado scholasticus. até procurar as razões necessárias dos mistérios. o meio natural eram as escolas. em especial. proveniente da ignorância da verdadeira natureza e dos verdadeiros limites da razão. o ensino religioso e os rudimentos das ciências profanas. Na intenção de Carlos Magno.Rogério Bacon. o escopo não era reduzir a religião aos limites da razão humana. As escolas monásticas dos mosteiros visavam. no êxtase. do especial desenvolvimento da dialética. É. imitações atualizadas das escolas catequéticas do cristianismo primitivo. toma-os como dados e pretende penetrá-los mediante a filosofia. acima e contra a razão e o intelecto. a fé. é devido em especial aos franciscanos ingleses de Osford . século XIII (o triunfo do aristotelismo). ao seu vasto e vário império e.manifesta-se não apenas na corrente chamada mística. O segundo período da escolástica é dominado pela figura soberana de Tomás de Aquino. O programa de ensino era. dependente diretamente do bispo. Misticismo e dialeticismo. mestres adequados para as escolas. isto é. Carlos Magno dará muito incremento a ambas as escolas e. o amor. portanto. Teremos. donde o nome de escolástica à doutrina e. Afirmam-se. moral e religiosamente os povos bárbaros que o constituíam. Depois de Tomás de Aquino. pelo contrário. preparar uma classe dirigente em geral e. Tal desenvolvimento da escolástica no sentido da experiência e da concretidade. embora parta da revelação e do sobrenatural. educar.aritmética. Educação e Cultura na Idade Média Carlos Magno pretendia dar uma unidade interior. geometria. (São Pedro Damião e São Bernardo de Claraval) põe. porém. por conseguinte.específica do pensamento agostiniano . a formação dos monges futuros (escolas internas). canto orfeônico e um tanto de aritmética. E. se diferenciam profundamente entre si. um período pré-tomista em que persiste a tendência teológica-agostiniana. ao passo que as escolas monásticas surgem nos mosteiros afastados das cidades . Os docentes eram também eclesiásticos e denominados também scholastici. depois. podemos dividir a escolástica em três períodos. Guilherme de Occam -. ao mesmo tempo. ademais. A escolástica surge.quadrívio . antes de tudo. Paulatinamente espalharam-se também as escolas episcopais. o Aristóteles do pensamento filosófico cristão. que pode ser considerada como a 98 . espiritual. em seguida. surgidas da própria exigência de uma observância adequada da Regra de São Bento. aprender a escrever. bastante elementar: leitura. culminando na união mística. ao mesmo tempo. proporcionando.

Mencionamos também como. a partir do ano 787. Como é sabido. depois.A natureza que é criada e não cria (as coisas. a medicina. retórica. dialética. em cinco livros. Foi condenada pela Igreja (1225). destinadas a ensinar ao povo os primeiros elementos do saber. esta última desenvolvendo-se. penetrar os mistérios mediante a razão iluminada por Deus. e. que Erígena traduziu do grego para o latim.A natureza que é criada e cria (o Verbo de Deus. geometria. às espécies. o quadrívio abraçava as disciplinas reais: aritmética. Freqüentavam esta escolas o próprio imperador. as fases primeira e Quarta coincidem (Deus = não criado). imprimiu também a esta educação uma orientação ética. 3°.A natureza que não é criada e cria (Deus Padre). música. foi constituída junto da corte de Carlos Magno a famosa escola palatina. porém. Ao lado desta instrução e educação eclesiásticas. modeladas na escola palatina. Eriu em língua céltica. . religiosa.99 primeira universidade medieval. mais tarde. Erígena parte da revelação divina para. em que são contidas as idéias eternas. sobretudo. podemos dizer. econômica. João Scoto Erígena nasceu na Irlanda. Deus. com o correr do tempo. A Escolástica Pré-Tomista Os Séculos IX e X: Scoto Erígena e o Problema dos Universais A história da filosofia escolástica começa propriamente com o nome de Scoto Erígena. o viveiro da cultura naquela época. inicialmente baseada na força. Eminentemente neoplatônico é o esquema especulativo de Da Divisão da Natureza: a descida da Unidade à multiplicidade. por exemplo. aos gêneros. segundo o espírito dos bárbaros dominadores. astronomia. mais ou menos). . no âmbito das paróquias. de que acima falamos. donde o nome de Scoto Erígena. . durante toda a Idade Média. o gramático Pedro de Pisa. bem como coincidem as fases Segunda e terceira (mundo = criado). E sob a sua inspiração. repartidas no trívio e no quadrívio. política. 2°. Deste modo. . Sob a direção de Alcuíno. a Igreja. na supressão do sobrenatural. termo. Tal pretensão de penetrar racionalmente os mistérios revelados devia acabar logicamente no racionalismo e. como. princípio). em seguida. bem cedo. Outras escolas surgiram. Para elaborar o seu vasto plano de política escolar. e retorno da multiplicidade à Unidade. Parece Ter falecido em França pelo ano 877. exemplares e causas das coisas). militar. especialmente na França. ministradas por eclesiásticos e. da realidade. . e vice-versa. como ômega. ministrada por militares e a militares. o historiador Paulo Diácono. a eclesiásticos. O trívio abraçava as disciplinas formais: gramática. dita Scotia maior. por mais ortodoxa que fosse a intenção do autor. A sua obra principal é Da Divisão da Natureza (847). 4°. O programa de Alcuíno abraçava as sete artes liberais. as escolas paroquiais. concebido. fim da realidade. os príncipes e os jovens da nobreza. católica. fica assim configurada: 1°.A natureza que não é criada e não cria (isto é. Pelo ano de 874 é chamado à corte culta e brilhante de Carlos o Calvo. realizadas mediante o Espírito de Deus). por conseqüência. De Deus desce-se às idéias supremas. o feudalismo é uma organização social. na filosofia. Carlos Magno chamou à corte Alcuíno (735-804. que veio da Inglaterra. enquanto o douto inglês ditava-lhes o programa relativo. é um diálogo entre mestre e discípulo e se inspira no neoplatonismo do pseudo Dionísio Areopagita. aos indivíduos. que se espalhou pelo vasto império e perdurou invariado. a divisão da natureza. temos na Idade Média uma educação militar. e pode-se dizer que representa a falência definitiva das tentativas de síntese entre neoplatonismo emanatista e criacionismo cristão. o teólogo Paulino de Aquiléia. para presidir e lecionar na escola palatina. mais tarde. foram emanados os decretos capitulares para a organização das escolas. Nela ensinaram os homens mais famosos da época. Como se vê. e não como alfa.

mas também fora do objeto (universal ante rem): . não existe apenas fora da mente. São Pedro Damião. o universal tem em si uma realidade objetiva. Deus deve também existir realmente. onde se propõe demonstrar a existência de Deus com um argumento simples e evidente. Também ele é um platônico-agostiniano. isto é. particulares? O problema tem uma importância fundamental filosófica. ou até puramente nominal (nominalismo) . epicuristas. mas é imanente nos objetos singulares de que é essência. pelas gnosiologias empirista e sensitista. fora da mente. portanto. da ordem real à ordem ideal. cardeal e arcebispo ostiense. Os maiores representantes da corrente mística são: São Pedro Damião no século XI. este argumento é contido no Proslogium.corresponde à posição aristotélica. natural de Bretanha. começa e se manifesta nos séculos XI e XII um renascimento especulativo. contra os filósofos. escreveu Da Divina Onipotência. O nome de Anselmo de Aosta é ligado ao famoso argumento ontológico. O conceito que temos de Deus é o de um ser perfeitíssimo e. o saber profano como um perigo e um luxo. das idéias. As suas obras principais são: O Monologium. partindo do mero conceito de Deus.no mundo clássico esta posição é defendida pelos sofistas. estudante e. de Cristo crucificado. a solução nominalista. tornou-se religioso e foi peregrinando por muitos mosteiros e cátedras. 100 Os Séculos XI e XII: Místicos e Dialéticos Depois da decadência cultural que se seguiu à renascença carolíngia. com a doutrina da forma que determina a matéria. da corrente dialética os maiores expoentes são: Santo Anselmo de Aosta no século XI e Pedro Abelardo no século XII. forma. Nesta obra enaltece a onipotência de Deus. geralmente adotada pela escolástica incipiente. o universal. em relação e enquanto representativos das coisas. que são universais. teve uma solução radical no pensamento escotista. da fé e não da razão. passar da ordem lógica para a ordem ontológica. o que significa partir da revelação divina. . mais tarde Papa Gregório VII. arcebispo de Canterbury na Inglaterra. três: a solução chamada do realismo transcendente (platônica). até colocá-la acima de toda lei racional. e os dialéticos que a cultivavam. estóicos. contra a ciência (a filosofia) por eles considerada um resíduo pagão. que são. mas deve-se passar das coisas às idéias. da filosofia para entender Deus e as suas obras. princípio ativo (universal in re): . Pretende ele demonstrar a existência de Deus. e culmina no êxtase. o argumento ontológico não vale: porquanto não podemos. logo. A verdadeira sabedoria consiste no conhecimento da própria miséria. dos divinos mistérios. daí a vaidade da ciência. capaz de convencer imediatamente o ateu. na contemplação de Deus. a priori. e. As soluções desse problema oferecidas pela escolástica são substancialmente. depois. E isto não obstante a luta dos teólogos. A solução conceptualista-nominalista sustenta que o universal não tem nenhuma existência objetiva. isto é. vaidade e orgulho. Santo Anselmo (1033-1109) nasceu em Aosta. problema que tão cedo e tão longamente interessou a escolástica. ao contrário. O caminho da sabedoria é a humildade. a solução do realismo moderado. Pedro Abelardo (1097-1142). mas apenas mental (universal post rem). Em realidade. mais tarde. no nosso conhecimento. não apenas lógica e dialética. dos místicos. faltando-lhe a existência. centro cultural do mundo católico. mas é preciso penetrar depois a fé mediante a razão. asceticamente. São Bernardo de Claraval rejeita. Anselmo de Aosta é o primeiro grande filósofo medieval. uma distração mundana.O problema dos universais. Segundo a solução do realismo transcendente. inclusive o princípio de contradição. das idéias aos fatos. após Scoto Erígena. conselheiro do monge Hildebrando. Que valor têm os conceitos. Segundo a solução do realismo moderado. mas também gnosiológica e metafísica. do contrário não mais seria perfeitíssimo. céticos. São Bernardo de Claraval no século XII. imanente. para demonstrar a existência de Deus.é a solução platônica. O seu lema é: creio para compreender. professor famoso em Paris. imanente (aristotélica). foi monge prior e abade do mosteiro beneditino de Bec na Normandia e. a idéia de uma realidade em si. na compaixão para com a miséria do próximo. do valor dos conceitos.

o século de ouro da escolástica e do pensamento filosófico cristão. ao mesmo tempo. .o famoso comentador de Aristóteles . foram Avicena e Averroés. Este movimento cultural e filosófico se desenvolveu especialmente no âmbito das universidades. chamado precisamente magister sententiarum. conto biográfico da sua aventura com Heloísa.das doutrinas das Padres. Mais tarde . apaixonou-se pela filosofia aristotélica. No ensaio ético Conhece-te a ti mesmo valoriza.e secundariamente os hebreus . que foi identificado com a própria razão humana e preferido. Abelardo sustenta ser mais moral um ato executado com reta intenção. por sua vez. um culto idolátrico para com o Estagirita. isto é. que lhe acarretou trágicas conseqüências. trouxeram-lhe a própria cultura impregnada de aristotelismo. E tal conteúdo lhe foi proporcionado pela descoberta do sistema aristotélico integral. Os maiores filósofos árabes conhecedores de Aristóteles e que influíram profundamente sobre o Ocidente latino-cristão. após terem conquistado o oriente helenista. A atitude do mundo latino-cristão perante Aristóteles foi tríplice: uma decidida aversão à filosofia que queria constituir-se unicamente com meios racionais. mas em harmonia hierárquica com a fé (Tomás de Aquino).afirmava ao invés a subordinação da religião a filosofia quando as argumentações delas fossem contrastantes. com um grande pendor para a crítica e a dialética. filosófico. que são construções sistemáticas elaboradas criticamente. logo. pelo qual se chegou à construção de uma filosofia distinta e autônoma. Sic et non. Averroés. do que um ato executado conforme a lei. escolástico. Preparam as grandes sumas medievais. especialmente na Síria. Abelardo é. aristotélico. Conhece-te a ti mesmo. à revelação cristã. no fundo. Foi o que fez. Dialética. foi condenado por dois concílios. entraram em contato com a cultura grega.elemento descurado na Idade Média . intencional. graças aos pensadores pertencentes às ordens religiosas. Em conclusão. Os árabes foram admiradores de Aristóteles e da sua filosofia. Também interessante é a sua posição crítica na pesquisa filosófica: a dúvida nos leva para a investigação. que representa o ápice do pensamento helênico. mesmo faltando-lhe a profundidade e a capacidade sistemática de Santo Anselmo. Abelardo é uma das mais originais figuras do mundo medieval. O mundo latino-cristão. Acusado de heresia. especialmente as tomistas.mais ou menos críticas . Encerra-se assim o século XII e está nos albores o século XIII. uma aceitação e valorização do sistema aristotélico. Os árabes. formal. os árabes.que levaram ao conhecimento do mundo latino-cristão a filosofia de Aristóteles. e considerava a religião como uma filosofia simbólica para o vulgo. na vida moral. ordenadas segundo o esquema: Deus. Escreveu as obras seguintes: História das Calamidades.Abelardo se integra nas fileiras dos sentenciários. Era preciso traduzir do árabe para o latim as obras de Aristóteles e os comentários árabes. que salvaram das invasões bárbaras durante as trevas medievais do Ocidente latino. Esta atividade formal. Em seguida. cético e sistemático. que estudou intensamente.101 após uma aventura amorosa com Heloísa. O Século XIII: O Triunfo de Aristóteles A atividade filosófica da escolástica pré-tomista foi essencialmente lógico-dialética e. Os livros das sentenças eram coleções sistemáticas . filósofo e teólogo. os quais a tudo renunciaram. uma sociedade de homens cultos surgida em Toledo.em confronto com o elemento objetivo. Reconhecendo embora que são necessários os dois elementos. (século XII). foram civilizados pelo pensamento grego. criação. . racional. esperava um conteúdo adequado. a fim de que haja ação plenamente moral. então surgidas e organizadas eficientemente. depois de conhecido Aristóteles através da cultura árabe.coleção de sentenças contrastantes dos padres sobre assuntos da Escritura e da teologia . estendendo suas conquistas até o ocidente europeu. Na obra Sic et non . dos autores dos libri sententiarum entre os quais o mais famoso é Pedro Lombardo. mas com intenção má. Como dissemos. intensa e penetrante. na Espanha. redenção. ainda que objetivamente mau. a investigação nos leva à ciência. o elemento subjetivo. Avicena tentou harmonizar a filosofia aristotélica com a religião islâmica. queda. E assim. grego e cristão. meios de salvação. foram os árabes . nos meados do século XII. legal. e um retorno ao agostianismo (São Boaventura). mas crítica e racional. quando não concordava com a razão (averroísmo latino). originariamente bárbaros eles mesmos. salvo à ciência e à caridade.

constituiu um corpo único. fundados por São Domingos de Gusmão. uma universitas única. mais tarde. donde o nome de mendicantes a elas atribuído. entraram e tiveram preponderância professores pertencentes as duas ordens religiosas surgidas no século XIII: os Dominicanos. A característica nova e comum destas duas ordens religiosas foi a pobreza individual e coletiva. e não chegar até subordinar a religião à filosofia. propuseram-se como finalidade principal a caridade ativa e tiveram uma enorme influência sobre o povo. com o seu misticismo e voluntarismo . composta de forma e matéria. sentimental do Pobrezinho de Assis que entrevia Deus e Jesus Cristo em todas as coisas. para melhor facultar o cultivo do estudo e a pregação apostólica entre o povo. o empirismo e o intelectualismo aristotélicos. estudou em Paris e. O conjunto dos professores e dos alunos da universidade de Paris. foi geral da sua ordem e depois cardeal de Albano. afirma três princípios diretamente opostos ao aristotelismo tomista: a existência de uma matéria geral sem as formas específicas. O maior . e. Especialmente os papas protegeram a universidade de Paris. sobre a Redução das Artes à Teologia. inspirando-se na mentalidade agostiniana. A metafísica de Boaventura. sua maior influência entre as classes sociais elevadas. foram as universidades de Paris e de Oxford. Os dominicanos dedicaram-se mais ao estudo. Esta orientação filosófica é chamada averroísta. que proporcionou aos latinos o conhecimento do genuíno pensamento do Estagirita. exercendo. Guilherme de Maerbeke (falecido em 1286) fez essa tradução. para tanto. o Itinerário da Mente para Deus. inspirando-se na mentalidade aristotélica. à ciência. se prestasse o agostinianismo. Suas obras principais são: os Comentários a Pedro Lombardo. contra a vontade dos leigos e por desejo dos papas. bem cedo. em princípios do século XII. enquanto ele é imediatamente presente ao espírito humano. O maior representante do agostinianismo antiaristotélico foi São Boaventura (1221-1274). ainda que pareça limitar-se a sustentar a existência de duas verdades paralelas e contrastantes. é o aristotelismo exagerado averroísta.julgando inapto para esse fim o racionalismo. isto é. a pluralidade das formas em um mesmo ser. auto-suficiente. que aceita o sistema aristotélico sem crítica nenhuma. por conselho de Tomás de Aquino. desenvolveu especialmente a filosofia e a teologia. porquanto admite .102 sentiu-se a necessidade de traduzir diretamente do grego as obras de Aristóteles. os franciscanos. ao contrário. famosas mais que todas as outras. sustenta que a alma humana é uma substância completa independentemente do corpo. porque todos os seres são compostos de matéria e de forma. o seminário dos filósofos e dos teólogos de todo mundo. Nessas universidades recém-organizadas. por conseqüência. Ao mesmo tempo se desenvolveram as universidades. inspirando-se no pensamento aristotélico. Desta sorte. inspirando-se na mentalidade agostiniana. as grandes universidades medievais. A psicologia de Boaventura. afetiva. será inteiramente infecundo. como ele descreve no Itinerário. e também certa liberdade a respeito das obrigações conventuais. e os Franciscanos.que haja teses filosóficas em contraste com o teísmo da religião. a mais ilustre universidade da Idade Média. destarte. nasceu na Itália. tal universidade se tornou como que a cidadela cultural da ortodoxia católica. a tarefa da filosofia não é teórica e racional. devido à importância que tinha naquele estabelecimento do ensino superior universitário a teologia. espanhol. que lhe sugeriu a prova intuitiva da existência de Deus. a filosofia deve levar a Deus. A universidade de Paris. pois. tantas quantas são as suas propriedades essenciais. a universalidade da matéria fora de Deus. mas prática e religiosa.como admitia Averroés . A gnosiologia de Boaventura inspira-se no iluminismo agostiniano. fundados por São Francisco de Assis. ao passo que a universidade de Oxford dedicou-se especialmente às ciências naturais. e. pois. Segundo São Boaventura. Diametralmente oposto a este aristotelismo agostiniano. que se atinge imediatamente em todas as coisas e se possui pela união mística. Os Filósofos Franciscanos Os filósofos franciscanos julgaram fosse mister dar uma forma teórica à atitude prática. inclusive as essências angélicas e as almas humanas. surgidas geralmente das escolas episcopais. e obteve das autoridades civis e religiosas reconhecimento jurídico e grandes privilégios. E julgaram os filósofos franciscanos que. italiano.

como julga Tomás de Aquino. sentiu profundamente o problema da concretidade e da experiência.com suas técnicas . Nestas obras revela-se um crítico e um pensador de muito superior a São Boaventura. todavia. Do agostinianismo. Faleceu em 1308.representante do averroísmo latino é Siger de Brabante (falecido pelo ano de 1284). medeia Tomás de Aquino. a teologia não é . deve-se entender por experiência não apenas a que se alcança pelos sentidos externos e nos oferece o mundo corpóreo. professor na universidade parisiense.a respeito de Aristóteles.como julga Aquinate . O centro desta escolástica pós-tomista é a universidade de Oxford. inglês e franciscano. antes de tudo. Bacon aceita também a unidade entre filosofia e teologia. . Entre estas duas posições extremadas .segundo Scoto . um retorno especulativo ao agostinianismo.de idolatria ou de irredutível hostilidade . nascido na Inglaterra. a razão. portanto. não consegue distinguir o sofisma da demonstração verdadeira. foi aluno e professor nas universidades de Oxford e de Paris. a fé não porém a ciência. são conhecidas. foi um temperamento genial e original. Entretanto esse movimento terminará nas posições fideístas do pré-tomismo. João Duns Scoto. Segundo Bacon. o tradicional comentário das sentenças de Pedro Lombardo. da ciência. A ciência experimental constitui a fonte mais sólida da certeza. Crítico agressivo das maiores autoridades da sua época. donde surgirão a história e a ciência modernas . A razão proporciona essa compreensão. acentuadas e tornadas piores após a poderosa construção crítica e racional do Aquinate. logo depois de uma reação violenta contra o tomismo. as Questões Várias. A sua obra principal é Da Alma Intelectiva. um movimento excessivamente novo e arrojado. três são as fontes do saber: a autoridade. publicou ainda a Obra Menor e a Terceira Obra. a afirmação da eternidade do mundo. indubitavelmente negligenciado pela escolástica clássica.que constituem o valor do pensamento moderno. positivas. Após Ter lecionado algum tempo em Oxford. As teses mais notáveis de Siger em contraste com o cristianismo são: a negação da providência divina. os Teoremas Sutilíssimos. enciclopédico e místico. na Inglaterra. cientista e supersticioso. da filosofia.mas unicamente prática. que realizará a justificação da filosofia e da teologia. a ciência. isto é. entendida como instrumento para entender a fé e não como obra autônoma do espírito. para poder súbita e definitivamente impor-se no âmbito do pensamento cristão medieval. práticas. talvez. entrou na ordem franciscana e estudou nas universidades de Oxford e de Paris. que Tomás tinha distinguido. condenado mais tarde pela Igreja. cujas características tendências empiristas. mas também a experiência proporcionada pela iluminação interior de Deus. Também ele. tentando uma superação do racionalismo tomista. por sua vez. a Obra Parisiense. A escolástica pós-tomista. Suas obras principais são: a Obra Oxoniense. E. porquanto não nos fornece a compreensão das coisas que formam o objeto da crença. sem dúvida. o doutor sutil. A Escolástica Pós-Tomista O tomismo era. no entanto. A sua obra mais importante é a chamada Obra Maior. no mesmo século XIII. a experiência. É. A autoridade dá-nos a crença.disciplina essencialmente especulativa . João Duns Scoto O maior expoente da escolástica pós-tomista é. na ruína da metafísica. foi obrigado a deixar a cátedra. no conceito de filosofia. e terminará. como se vê. O agostinianismo de Scoto manifesta-se. que julgou encobrir o seu anacronismo. se não achar fundamento e confirmação na experiência. consequentemente. a afirmação da unidade do intelecto na espécie humana e a conseqüente negação da imortalidade pessoal do homem. onde levou uma vida agitada e foi condenado à prisão pelos próprios superiores da sua ordem. Estabeleceu-se então em Paris. contudo. Conforme Bacon. quer dizer. em conformidade com o espírito do voluntarismo agostiniano. Houve. experimentais. um vestígio do agostinianismo tradicional. Rogério Bacon 103 Rogério Bacon (1210-1294).

no sentido de que desenvolve o individualismo de haecceitas escotista no nominalismo. e. e imorais as ações opostas. A individuação não depende da matéria (pelo que o indivíduo fica incognoscível intelectualmente). E a própria ordem ética não é intrinsecamente boa por motivo racional. O conceito.à escravidão da alma com respeito ao corpo. Scoto concede. as coisas criadas por Deus não dependem fundamentalmente da razão divina. a mentira. ao passo que o segundo nos dá apenas as semelhanças entre seres reais (as idéias gerais). por conseguinte. ao passo que o segundo é abstrato. Suas obras especulativas são. mas tem uma realidade sua própria. Pelo contrário. conhecer diretamente as essências. representado pelo nome que é. . que se conhece só pela experiência). o conhecimento sensível é superior ao conhecimento intelectual. a forma não é única. Na teodicéia. Guilherme nasceu em Occam na Inglaterra pouco antes do ano de 1300. quanto como sendo a espontaneidade e a independência do intelecto com respeito ao sentido. um opositor e um discípulo de Scoto: discípulo. mas o intelecto depende da vontade. a sensação é o sinal de um objeto na alma. em linha de fato. refugiou-se junto do Imperador. Segundo Occam. depois do realismo imanente aristotélico-tomista. A tarefa do homem é conhecer para querer e amar. Deus seria atingido. O conhecimento sensível dá-nos as relações reais entre as coisas reais (o nexo causal. inexistente sem a forma. por sua natureza. variável segundo as diversas línguas. mesmos os espirituais. está contra o chamado empirismo aristotélico-tomista. pelo amor e não pelo intelecto. mas há multiplicidade de formas em cada indivíduo. concreta e individual. Contra o intelectualismo tomista. na vida eterna. então em luta contra o Papa. um conhecimento vago e confuso deles. por natureza. A matéria não é mera potência. e escreveu várias obras para defender o imperador contra a Santa Sé. estudou e lecionou na Universidade de Oxford.. não o admite em linha de direito. o homicídio. Com efeito. que poderia impor uma ordem moral oposta. e sim da vontade divina. como exige o tomismo. princípio de todos os demais conhecimentos. na visão beatífica. Em conclusão. uma substância completa. o furto. mas unicamente porquanto é querida por Deus. Faleceu pelo ano 1350. Centilóquio Teológico. Scoto põe também em Deus esse primado de vontade sobre o intelecto. um sinal artificial. ao passo que o conhecimento intelectual nos proporciona conhecer as relações lógicas entre conceitos abstratos. chamado haecceitas (que se sobrepõe à matéria por si subsistente e à hierarquia das formas). pela vontade. mas de um elemento formal individual. a existência de Deus é demonstrável apenas com argumentos a posteriori.104 A gnosiologia iluminista-intuicionista agostiniana firma-se no escotismo não tanto como participação da inteligência humana na luz divina. Em todo caso. fez-se franciscano. por exemplo. o indivíduo se tornaria intelectualmente cognoscível. Desse modo. pois. não só as materiais mas também as espirituais.segundo o doutor sutil . destarte. Quanto à natureza divina. todos os seres. o adultério. são compostos de matéria e de forma. em que. deveria a alma. o conceito é sinal de mais objetos percebidos como semelhantes. segundo Scoto. E também inspira-se no agostinianismo a doutrina de certa independência da alma com respeito ao corpo. Scoto (contra a corrente agostiniana e em harmonia com o tomismo) ensina que Deus não é conhecido por intuição. Guilherme de Occam Guilherme de Occam é. seria a alma. E isso seria devido . além do Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo: Sete Várias Questões. o atributo essencial de Deus seria a infinidade. Na psicologia escotista aparece ainda uma doutrina inspirada no agostinianismo. conforme o qual o nosso conhecimento começa pela sensibilidade. o primeiro dá-nos a realidade. sem nada nos dizer em torno da realidade das coisas. embora procure também combinar esta demonstração com o argumento ontológico. o empirismo do nosso conhecimento. Processado por heresia pela Santa Sé. porquanto o primeiro é intuitivo. que não nos permite distingui-los um do outro. ao mesmo tempo. É a doutrina do conhecimento intuitivo da essência da alma. a priori. é um sinal natural. porém. Scoto sustenta a primazia da vontade: a vontade não depende do intelecto. seriam ações morais. Suma de Toda a Lógica. que ele fez reviver no ambiente experimental da universidade de Oxford. etc. decorrente do pecado.

historicamente. Friburgo. Depois de ter estudado as artes liberais. válido empiricamente. filosofia. Pelo fato de a alma e Deus não serem sensíveis. passando a mocidade em Nápoles como aluno daquela universidade. Sicília e Aragão. Com o diminuir da fé medieval e com o firmar-se do humanismo moderno. especialmente árabes. Tomás de Aquino A Vida e as Obras Após uma longa preparação e um desenvolvimento promissor. o Verbo poderia Ter-se encarnado num burro). bem cedo a razão se porá contra a fé e a substituirá. pois. e dado outrossim o voluntarismo divino escotista. à fé (fideísmo). na Campânia. A atividade científica de Alberto Magno é vastíssima: trinta e oito volumes tratando dos assuntos mais variados . bem mais importante. renunciando a tudo. na sistematização imponente de Aristóteles. Recebeu a primeira educação no grande mosteiro de Montecassino. da filosofia. filho da nobre família de duques de Bollstädt (1207-1280). em 1274. conseqüentemente. a vontade de Deus é absolutamente livre para criar uma moral mesmo oposta à presente. é abandonado inteiramente à Revelação. onde lutou contra o averroísmo de Siger de Brabante. e deste deriva logicamente a ruína do conceito e. Tal acontecimento determinou uma forte reação por parte de sua família. tendo como mestre Alberto Magno. ascética. Em 1269 foi de novo à universidade de Paris. Dado que em torno de Deus nada conhecemos filosoficamente. que o acompanhou a Colônia. chamado à corte papal. da ciência. faleceu no mosteiro de Fossanova. Com ele declina e. por ordem de Gregório X. e proporciona finalmente ao pensamento cristão uma filosofia. Adquire plena consciência dos poderes da razão. porém. etc. Portanto. se Deus quisesse. O ocamismo tem um êxito vasto e imediato nos séculos XIV e XV. etc. da família feudal dos condes de Aquino. e também não se pode provar . exegese. Também Alberto. Para Tomás de Aquino. primeiro na universidade de Paris (1245-1248) e depois em Colônia. desse experimentalismo deriva o empirismo. converge para Tomás de Aquino não apenas o pensamento escolástico. O pensamento de Aristóteles. Em 1252 Tomás voltou para a universidade de Paris. de que é impossível demonstrar cientificamente a imortalidade. entrou na ordem dominicana. a escolástica chega ao seu ápice com Tomás de Aquino. onde teve entre os seus discípulos também Tomás de Aquino. Dois anos depois. rico de elementos helenistas e neoplatônicos. entretanto. mas logo declina. porquanto essas noções de substância e causa não são experimentáveis. Estrasburgo. mas também o pensamento patrístico. nenhuma metafísica: o conhecimento de Deus. a ciência humana reduz-se à física. da alma. As obras do Aquinate podem-se dividir em quatro grupos: . Assim. onde lecionou teologia. onde ensinou até 1269. salvo à ciência. chega a Tomás de Aquino enriquecido com os comentários pormenorizados. segue-se que não são cognoscíveis. sensíveis. entre Nápoles e Roma. E deriva também a ruína das próprias noções de substância e causa. Ensinou em Colônia.105 Estamos na linha do experimentalismo inglês da Universidade de Oxford. a lógica que nos ilustra as relações entre os conceitos. da moral. da moral. lecionou teologia na universidade de Paris. Deus não se pode provar a posteriori mediante o princípio de causalidade. Nasceu Tomás em 1225.ciências naturais. viajando para tomar parte no Concílio de Lião. Tinha apenas quarenta e nove anos de idade. Esta absoluta divisão entre a razão e a fé. no castelo de Roccasecca. e para estabelecer uma outra ordem sobrenatural (por exemplo. em 1272. coloca o ocamismo em uma posição afim à do averroísmo da dupla verdade. Era unido pelos laços de sangue à família imperial e às famílias reais de França. indispensáveis à própria ciência natural. aonde Alberto foi chamado para lecionar no estudo geral de sua ordem.pela via de causalidade . termina a escolástica medieval. Destarte.a alma. voltou a Nápoles. que culminou com Agostinho. que nos faz conhecer os seres materiais. degenerando num formalismo lógico.. converge diretamente o pensamento helênico. abandonou o mundo e entrou na ordem dominicana. além do patrimônio de revelação judaico-cristã. Tomás triunfou da oposição e se dedicou ao estudo assíduo da teologia. quando regressou à Itália. teologia.

a espécie inteligível. destarte. Do mal. 2. acontece no conhecimento intelectual. Da alma. Considera também a filosofia como absolutamente distinta da teologia.o inteligível. a imagem. à física. a espécie inteligível não é a coisa entendida.que representa o objeto material na sua individualidade. atual. sem inatismos e iluminações divinas. sobre os quais exerce a sua atividade. o espírito se torna todas as coisas. neste caso. deste modo. elaborar as ciências até à filosofia. O Pensamento: A Gnosiologia Diversamente do agostinianismo. Suma Teológica. Questões: Questões Disputadas (Da verdade. e é justificado experimentalmente e racionalmente. formam uma unidade mediante a espécie sensível. tem em si mesmo imanentes todas as coisas. potencialmente. desindividualize o inteligível do fantasma ou representação sensível. Mas. é absolutamente desprovido de conteúdo ideal. Tomás considera a filosofia como uma disciplina essencialmente teorética. entre o objeto conhecido e o sujeito que conhece. desindividualizá-lo das condições materiais. O conhecimento intelectual depende do conhecimento sensível. acabando. mas as coisas podem ser conhecidas apenas através das espécies e das imagens. na filosofia de Tomás de Aquino. realiza-se mediante a assim chamada espécie sensível. O conceito tomista de verdade é perfeitamente harmonizado com esta concepção realista do mundo. o da filosofia evidente e racional. Como no conhecimento sensível.visto ser o conteúdo da teologia arcano e revelado. no fenomenismo. possui em si. a coisa sentida e o sujeito que sente. a cor do ouro percebido pelo olho. a forma universal das coisas.diversamente da agostiniana e em harmonia com a aristotélica . e o segundo pressupõe o primeiro. mas sem a matéria . a essência. que contêm um elemento inteligível. Pelo fato de que o inteligível é contido apenas potencialmente no sensível. mas transcende-o. a essência. a essência das coisas é contida apenas implicitamente. A verdade lógica não está nas coisas e nem sequer no mero intelecto. baseada substancialmente em demonstrações racionais. sem a materialidade do ouro. feita explícita. temporalidade. espacialidade. Esta é a impressão. 3. a que pertencem as operações racionais humanas: conceber. Questões várias. que está fora de nós.é empírica e racional. Este intelecto agente é como que uma luz espiritual da alma. começada em 1265. Opúsculos: Da Unidade do Intelecto Contra os Averroístas. compreendendo-lhes as essências. Da Eternidade do Mundo. julgar. E. o objeto sem a matéria: como a impressão do sinete na cera. O sinal pelo qual a verdade se manifesta à nossa mente.não oposta . . O intelecto vê em a natureza das coisas . etc. e não podem entrar fisicamente no nosso cérebro. raciocinar. quer dizer.1. a representação da coisa (id quod intelligitur). a idéia. do mesmo modo e ainda mais perfeitamente. que nos garante conhecermos coisas e não idéias.mais profundamente do que os sentidos. Na espécie sensível . id quo intelligitur). mediante a espécie inteligível. é a 106 . o universal. é mister um intelecto agente que abstraia. mas os conhecimentos das coisas. O conhecimento humano tem dois momentos.intus legit . ademais. a forma do objeto material na alma. como pretendiam ainda i iluminismo agostiniano e o panteísmo averroísta. é uma faculdade da alma individual. mas na adequação entre a coisa e o intelecto: veritas est adaequatio speculativa mentis et rei. Comentários: à lógica. etc. conheceríamos não as coisas. para resolver o problema do mundo. a Dionísio pseudo-areopagita. abstraí-lo. à ética de Aristóteles. é preciso extraí-lo. A gnosiologia tomista . desindividualizada pelo intelecto agente. e em harmonia com o pensamento aristotélico. pois. no entanto. Para que tal inteligível se torne explícito. desmaterialize. sem conceitos diferentemente de quanto pretendia o inatismo agostiniano. a espécie inteligível é o meio pelo qual a mente entende as coisas extramentais (é. e não noa advém de fora.. 4. mediante a qual ilumina ela o mundo sensível para conhecê-lo. É preciso claramente salientar que. representando precisamente o elemento essencial. isto é. sensível e intelectual. Sumas: Suma Contra os Gentios. a idéia.). sem a materialidade do sinete. ficando inacabada devido à morte prematura do autor. O intelecto que propriamente entende o inteligível. etc. à Sagrada Escritura. E isto corresponde perfeitamente aos dados do conhecimento. O conhecimento sensível do objeto. aos quatro livros das sentenças de Pedro Lombardo. Compreendendo as coisas. à metafísica. as formas. logo. isto é. Tem-se. é o intelecto passivo. a forma. E tal adequação é possível pela semelhança entre o intelecto e as coisas.

A matéria não é absoluto. ao passo que a ciência experimental estuda a natureza em suas causas segundas).ou ontologia . A metafísica especial estuda o ser em suas grandes especificações: Deus. mas imperfeição relativa de mente e capacidade de conseguir uma determinada perfeição. uma passagem necessária do universal para o particular. Daí temos a teologia racional .assim chamada.). que depende do ser que é ato puro. e. É necessária para a forma. porém. mas se tiram fundamentalmente da experiência. A demonstração é um processo dedutivo. é nada. Todos os conhecimentos sensíveis são evidentes. Não significa. a concretização da forma. toda substância corpórea é um composto de duas partes substanciais complementares. que é ciência experimental). São certamente evidentes os princípios primeiros (identidade. é a que realiza o sínolo. que só realmente existem (esta água. este vidro). contradição. por conseqüência. Tal passagem da potência ao ato é o vir-a-ser. etc. A causa eficiente é a que faz surgir um determinado ser na realidade. de per si. capacidade de concretizar-se. A Natureza Uma determinação. mas pode tornar-se todas as coisas. Pelo contrário. mediante a indução. válida para toda a realidade. e chama-se matéria. naturalmente é irreal. potência quer dizer não-realidade. não-ente. e. os seres materiais têm outras duas causas: a causa eficiente e a causa final. pela qual é determinada. formal.tem como objeto o ser em geral e as atribuições e leis relativas. Ato significa realidade. Os conhecimentos não evidentes são reconduzidos à evidência mediante a demonstração. irrealidade absoluta. que colhe a essência das coisas. A individuação. tornam-se verdadeiros quando levados à evidência mediante a demonstração. a fim de que possa existir um ser completo e real (substância). o mundo. verdadeiros. como já dissemos. A Metafísica A metafísica tomista pode-se dividir em geral e especial. vidro) e é universal. ouro. intuitivos. por si. isto é. no campo intelectual. A forma é a essência das coisas (água. a saber. a síntese daquela determinada matéria com a forma que a especifica. uma passiva e em si mesma absolutamente indeterminada (a matéria). os conceitos. depende da matéria. e levando. Em conclusão: todo ser material existe pelo concurso de quatro causas . intuitivos. a cosmologia ou filosofia da natureza (que estuda a natureza em suas causas primeiras. universal e necessária. poucos são os nossos conhecimentos evidentes. e interessa portanto especialmente à cosmologia tomista. outra ativa e determinante (a forma)". imperfeição. perfeição. como pretendia o agostinianismo. os universais. . A causa final é o fim para que opera a causa eficiente. como a potência é determinada pelo ato. o espírito. é esta causa final que determina a ordem observada no universo. porém. porquanto é filosofia e se deve distinguir da moderna psicologia empírica. No entanto. para distinguila da teologia revelada. A metafísica geral . devidas ao intelecto.material. especificação do princípio de potência e ato. Além destas duas causas constitutivas (matéria e forma). consistindo em uma falsa passagem na demonstração. para o mundo físico. como a potência é determinada. não são inatas na mente humana. todos os conhecimentos sensíveis são. é. e nem sequer são inatas suas relações lógicas. A ciência tem como objeto esta essência das coisas. irreal sem a forma. visto que muitos conhecimentos nossos não são evidentes.107 evidência. à discrepância entre o intelecto e as coisas. é o princípio da matéria e de forma. este não muda e faz com que tudo exista e venha-a-ser. destarte. que portanto representa o princípio de individuação no mundo físico. Este princípio vale unicamente para a realidade material. O princípio básico da ontologia tomista é a especificação do ser em potência e ato. as idéias. este ouro. Opõe-se ao ato puro a potência pura que. É neste processo demonstrativo que se pode insinuar o erro. em vários indivíduos. a psicologia racional (racional. Resume claramente Maritain esta doutrina com as palavras seguintes: "Na filosofia de Aristóteles e Tomás de Aquino. Os chamados erros dos sentidos nada mais são que falsas interpretações dos dados sensíveis. essência.

a mais da alma vegetativa. isto é. ainda que imortal. como os conceitos. é unida substancialmente ao corpo material. Segundo o Aquinate. se manifestam nele também atividades espirituais. cuja solidez e evidência são igualmente incontestáveis: uma experiência sensível. do contingente. Mas.porquanto além das atividades vegetativa e sensitiva. e. é imortal. têm uma alma as plantas (alma vegetativa: que se alimenta. Desse modo o corpo não pode existir sem a alma. E. para proceder à demonstração. As provas tomistas da experiência de Deus são cinco: mas todas têm em comum a característica de se firmar em evidência (sensível e racional). mas transcendendo-o . que sem Deus seria contraditória. a existência de Deus.eficiente. espiritual embora. as . A atividade intelectiva é orientada para entidades imateriais. chama-se alma. Esta doutrina é solidamente baseada no fato de que o conhecimento certo de Deus se deve realizar partindo das criaturas. interessa apenas a alma racional. como a lógica exige. é imortal. E a primeira dessas provas . não tem uma vida plena sem o corpo. partindo da experiência. como o ato do intelecto e o ato da vontade. assim a teologia racional tomista depende . e os animais (alma sensitiva: que. o imperfeito ao perfeito. que suspende o movimento ao imóvel. como a mais contém o menos. espiritual. existe uma forma só e. Contrariamente à doutrina agostiniana que pretendia ser Deus conhecido imediatamente por intuição. Se conhecermos apenas indiretamente. Além de desempenhar as funções da alma vegetativa e sensitiva. que é uma atividade cuja origem está dentro do ser. A doutrina da analogia consiste precisamente em atribuir a Deus as perfeições criadas positivas. Tomás sustenta que Deus não é conhecido por intuição. e uma aplicação do princípio de causalidade. indeterminada . nem viver. o contingente ao necessário.unida com o corpo. que pelo fato de ser imaterial. esta atividade tem que depender de um princípio imaterial. espiritual. portanto. tirando. cresce e se reproduz). das causas. as causas segundas à causa primeira. Assim. ainda mais limitado é o conhecimento que temos da essência divina. pelas provas. a vontade humana é livre. a ordem à inteligência ordenadora". espiritual. e a alma superior cumpre as funções da alma inferior. que são materiais.baseia-se diretamente na doutrina da potência e do ato. por conseqüência.ao passo que o mundo material é regido por leis necessárias. a alma racional entende e quer. final. que pode ser a constatação do movimento. por sua vez.da doutrina da potência e do ato. que é o seu instrumento indispensável. Como a alma espiritual transcende a vida do corpo depois da morte deste. No homem existe uma alma espiritual . isto é. dos graus de perfeição das coisas ou da ordem que entre elas reina. porquanto o efeito deve Ter semelhança com a causa. por conseguinte. que é precisamente a alma racional. Entretanto. mediante a doutrina da matéria e da forma. mas é cognoscível unicamente por demonstração. com relação ao respectivo corpo já formado. assim transcende a origem material do corpo e é criada imediatamente por Deus. Deus Como a cosmologia e a psicologia tomistas dependem da doutrina fundamental da potência e do ato. por conseguinte. entretanto conhecemos também algo de positivo em torno da natureza de Deus. uma alma só em cada indivíduo. O Espírito 108 Quando a forma é princípio da vida. não é composta de partes e. não recorre a argumentações a priori. da alma racional. que a individualiza. como sendo a que transcende infinitamente o intelecto humano.e mais intimamente ainda . ou seja. porém. mas unicamente a posteriori. estas causas constituem todo ser na realidade e na ordem com os demais seres do universo físico. a psicologia racional. diversamente do dualismo platônico-agostiniano. pois segundo Tomás de Aquino. Portanto. sente e se move). Tomás sustenta que a alma. e também a alma. a vontade não pode ser senão a faculdade de um princípio imaterial. "Cada uma delas se firma em dois elementos. antes de tudo sabemos o que Deus não é (teologia negativa). graças precisamente à famosa doutrina da analogia. que diz respeito ao homem.que é fundamental e como que norma para as outras . de que é a forma. entretanto esta demonstração é sólida e racional.

se compreende como o indivíduo não é um meio para o estado. que Deus quis realizar no mundo. E compreende-se. é eliminada a doutrina da iluminação. que se atinge mediante a razão. em tudo quanto diz respeito à religião e à moral. . quer dizer. não com argumentos intrínsecos. mas apenas incompleto. portanto. ao passo que a moral agostiniana é voluntarista. à Igreja. O que conhecemos a respeito de Deus é. Com base no sólido sistema aristotélico. agir moralmente significa agir racionalmente. a vontade seria determinada por este bem infinito. que consiste numa produção do mundo por parte de Deus. Segundo Tomás de Aquino. toda limitação e toda potencialidade. Tomás de Aquino dá uma solução precisa e definitiva mediante uma distinção clara entre as duas ordens. razão e revelação. deve a razão desempenhar os papéis seguintes: 1. de que depende o bem comum dos indivíduos. E. A ordem moral. e sim da necessidade racional da divina essência. livre e do nada. e igualmente ininteligíveis suas condições lógicas. Sendo que apenas o indivíduo tem realidade substancial e transcendente. que é uma determinada imagem da essência divina. mas tem como fim o conhecimento. Entretanto. Se o intelecto tivesse a intuição do bem absoluto. A Moral Também no campo da moral. ciência e fé. não evidentes. conhecido intuitivamente pelo intelecto. fica. são necessários dois elementos: o elemento objetivo. A primeira forma da sociedade humana é a família. portanto. e mais precisamente em torno do problema da função da razão no âmbito da fé. isto é. portanto. não podem determinar a sua infinita capacidade de bem. de credibilidade (profecias. etc. a lei. e o elemento subjetivo. agostiniana. ciência e filosofia: é um lógico procedimento de princípios evidentes para conclusões inteligíveis. e não é falso.109 imperfeições. total. um conjunto de negações e de analogias. pois. para a integridade do ato moral. de que depende a conservação do gênero humano. no mundo a vontade está em relação imediata apenas com seres e bens finitos que. A demonstração da fé. Filosofia e Teologia Em torno do problema das relações entre filosofia e teologia. em harmonia com a natureza racional do homem. onde os princípios são. Em todo caso. mas também positiva (organizadora) e espiritual (moral). isto é. essencial. é finalmente conquistada a consciência do que é conhecimento racional e demonstração racional. que não é possível demonstração racional em matéria de fé. o que é impossível. porquanto procede da mesma Verdade eterna. Tomás se distingue do agostinianismo. a intenção. é resolvido com base no conceito de criação. transcendentes à razão. que levava inevitavelmente a uma confusão da teologia com a filosofia. ao passo que o estado tem apenas como escopo o bem temporal dos indivíduos. A vontade tende necessariamente para o bem em geral. subordinado. mas o estado um meio para o indivíduo. Ao invés. para nós. a razão não é estranha à fé. mas com argumentos extrínsecos. Destarte.). que depende da vontade. de Deus. Tomás afirma e demonstra a liberdade da vontade. mistérios. inseparável da natureza humana. de evidência. mediante argumentos prováveis. Analisando a natureza humana. Embora o estado seja completo em seu gênero. o estado não tem apenas função negativa (repressiva) e material (econômica). a Segunda forma é o estado. Desta sorte. porém. a vontade não é condição de conhecimento. Quanto ao problemas das relações entre Deus e o mundo. Não é mister acrescentar que. pois a moral tomista é essencialmente intelectualista. A demonstração da não irracionalidade do mistério e da sua conveniência. isto é. recorrendo a um argumento metafísico fundamental. milagres. segundo o sistema tomista. é livre. se a vontade não determina a ordem moral. não depende da vontade arbitrária de Deus. resulta que o homem é um animal social (político) e portanto forçado a viver em sociedade com os outros homens. que garantem a autenticidade divina da Revelação. logo. a ordem moral é imanente. que tem como escopo o bem eterno das almas. 2. é a vontade todavia que executa livremente esta ordem moral. com relação à fé.

enquanto a filosofia é concebida qual construção autônoma e crítica da razão humana. precisamente como as inteligências angélicas. ao misticismo agostiniano. este intelecto atinge. o espírito humano está em relação imediata com o inteligível. por conseguinte. portanto. que pareceu um escândalo. Esta doutrina é aplicada tanto na ordem natural como na ordem sobrenatural. Por isso a alma era concebida quase como um ser autônomo. de certo modo. no campo católico. Ademais. O conhecimento. os dogmas do pecado original e da redenção pela cruz. Tomás. que. A esta gnosiologia inatista. e o inteligível nada mais é que a forma imanente às coisas materiais. é o intelectualismo. esta determinação tomista do conceito metafísico de natureza humana tornou possível a averiguação das reais. A determinação. com a primazia do intelecto sobre a vontade. a alma é concebida como a forma substancial do corpo. precisamente. mas distingue-as e as harmoniza. a uma antropologia. Sabemos que. e a materialidade do corpo era-lhe mais de obstáculo do que instrumento. é mais perfeito do que a ação. com todas as conseqüências de correntes da primazia da vontade sobre o intelecto. unida extrinsecamente a um corpo. segundo a concepção platônico-agostiniana. E demandam. ao passo que. no homem. que conhecem mediante as espécies impressas. Terceira característica do agostinianismo é o assim chamado voluntarismo. três questões se colocam: 1. porquanto essencialmente especulativa. Vice-versa. o conhecimento humano se realizava não através dos sentidos. uma espécie de natureza angélica. o conhecimento humano depende de uma particular iluminação divina. a Revelação e. sem idéias inatas  é uma tabula rasa. por conseguinte. enucleação e sistematização das verdades de fé. mas é um intelecto concebido como uma faculdade vazia. portanto. Ela pode ser demonstrada? 3. segundo a antropologia aristotélico-tomista. Por conseguinte. abstraída pelo intelecto das coisas materiais sensíveis. assim como a gnosiologia platônico-agostiniana era conexa a uma correspondente metafísica e antropologia. ao contrário. sim. logo. portanto. Acima do sentido há. O Tomismo O tomismo afirma-se e caracteriza-se como uma crítica que valoriza a orientação do pensamento platônico-agostiniano em nome do racionalismo aristotélico. pelo que a sacra teologia é ciência. estas vulnerações são filosoficamente. é essencialmente prática. e tem. em virtude da qual o campo do conhecimento humano verdadeiro e próprio é limitado ao mundo sensível. segundo a famosa expressão  . e ciência em grau eminente. um intelecto. tem o seu ponto de partida nos sentidos. mediante contato direto com o mundo inteligível.nem opõe  como faz o averroísmo  razão e fé. intuição do inteligível. efetivas vulnerações da natureza humana. A existência de Deus é uma verdade evidente? 2. A característica do tomismo. ainda que destinada a sobreviver-lhe pela sua natureza racional. tal unidade dialética nasce da determinação tomista do conceito metafísico de natureza humana. Essa forma é enucleada. sobre a base metafísica geral da grande doutrina da forma. o corpo é um instrumento indispensável ao conhecimento humano. como o início do pensamento moderno. para os agostinianos. porquanto o intelecto possui o próprio objeto. mas ao lado e acima dos sentidos. de sorte que a bem-aventurança não consiste no gozo afetivo de Deus. pois. com todas as relativas conseqüências. ao passo que a vontade o persegue sem conquistá-lo. Essa gnosiologia é naturalmente conexa a uma metafísica e. por conseqüência. De modo que nasce uma unidade dialética profunda entre a razão e a fé. idéias inatas. sim. o tomismo se afirma e se caracteriza como o início da filosofia no pensamento cristão e.110 3. não confunde  como faz o agostinianismo . Deus existe? . mas na visão beatífica da Essência divina. segundo esta doutrina. racionalmente. inexplicáveis. um inteligível. A alma é. em especial. incompleta sem o corpo. Tomás opõe francamente a gnosiologia empírica aristotélica. A Existência de Deus é Evidente? Sobre a existência de Deus.

exatamente como se pudéssemos saber que alguém chega. essa proposição será conhecida de todos. o todo e a parte. É o que o Filósofo (Últimos Analíticos. pelos princípios das demonstrações. Mas isto não é. uma proposição é evidente quanto o atributo está incluído no sujeito. a não-existência da verdade é uma afirmação verdadeira. que Deus existe. propriamente falando. E não se pode concluir sua existência real salvo se se admite que essa coisa existe realmente.  Além disso. por exemplo: o homem é um animal. aquele que nega a existência da verdade. que o todo é maior que a parte. 6: "Eu sou o caminho. Mas como não sabemos o que é Deus. Mas se a verdade não existe. ninguém pode pensar o oposto do que é evidente. podemos responder que aquele que ouve pronunciar a palavra Deus pode ignorar que essa palavra designa uma coisa tal que não se possa conceber algo que lhe seja maior. É por isso que Boécio diz: "Certos juízos só são conhecidos pelos sábios. a propósito dos primeiros princípios da demonstração. 1: "O insensato diz em seu coração que não há Deus". De fato. segundo o que diz São João. a existência de Deus é evidente. De fato. Por conseguinte. Mesmo que sustentemos que todos entendem a palavra Deus nesse sentido. quando é o próprio Pedro que chega. Deus. 10). essa palavra designa uma coisa de tal ordem que não podemos conceber algo que lhe seja maior. que os termos são coisas gerais que todos conhecem. de acordo com o que diz Damasceno: "O conhecimento da existência de Deus é inato em todos". Ora. menos conhecidas na realidade. Ela o pode ser em si mesma e não por nós. Ora. aquele segundo o qual os seres incorpóreos não estão num mesmo lugar". Animal. De fato. isso não é admitido por aqueles que rejeitam a existência de Deus. quando sabemos o significado de todo o significado da parte. de fato. 14. outros o colocam nos prazeres. em compensação. ela não é evidente para nós. conhecer a existência de Deus. acreditaram que Deus fosse um corpo. de imediato. Daí resulta que o objeto designado pela palavra Deus. I. devemos responder que a existência da verdade indeterminada é evidente por si mesma. por exemplo. a existência de Deus é evidente. ele conhece naturalmente. de fato. E se alguma coisa há de verdadeira. a existência da verdade é evidente. Resposta  Temos duas maneiras para dizer que uma coisa é evidente. como o ser e o não-ser. conforme diz o salmo 52. a existência de Deus não é evidente. Muitos. que existe no pensamento.  Parece que a existência de Deus é evidente. concorda que a verdade não existe. etc. o oposto da existência de Deus pode ser pensado. Mas. portanto. isto não significa que todos representam a existência dessa coisa como real e não como representação da inteligência. pertence à noção de homem. o que existe na realidade e no pensamento é maior do que o que existe apenas no pensamento.  Por outro lado. isto é. Ora. Ora. mas não para aqueles que ignoram o que são sujeito e atributo. no sentido de uma coisa tal que não se possa conceber algo que lhe seja maior. uma vez que Deus é a felicidade do homem. isto é. considerada em si mesma. desde que se compreenda a palavra. Alguns. sem conhecer Pedro. uma vez que o atributo é idêntico ao sujeito. de imediato. 4 e Últimos Analíticos. se alguns não sabem o que são o atributo e o sujeito de uma proposição. Por conseguinte. Ora. é seu ser. . Se. eu afirmo que a proposição "Deus é". pelos efeitos. são ditas evidentes as verdades que conhecemos desde que compreendamos os termos que as exprimem. com efeito. Pois. o são mais para nós. É verdadeiro. mas que a existência da primeira verdade não é evidente em si mesma para nós. À segunda. colocam o supremo bem do homem nas riquezas. sabemos. de fato. o homem deseja naturalmente a felicidade e. todos sabem o que são o sujeito e o atributo de uma proposição. Por conseguinte. tem necessidade de ser demonstrada pelas coisas que. a verdade e a vida". é certo que a proposição será evidente em si mesma. I. Logo. é evidente por si mesma. Com efeito. 3) atribui aos primeiros princípios da demonstração. conforme nos mostra o Filósofo (Metafísica. em estado vago e confuso. também existe na realidade. 2. À primeira objeção devemos responder que. De fato. a verdade existe. Mas. Ora. a existência de Deus é evidente. Por conseguinte. 3. À terceira.111 1. outros alhures. desde que tenhamos compreendido o sentido da palavra "Deus". chamamos verdades evidentes aquelas cujo conhecimento está em nós naturalmente. aquilo que ele deseja naturalmente. ela o pode ser em si mesma e por nós. estabelece-se. como é o caso dos primeiros princípios. o conhecimento da existência é naturalmente inato em nós. Deus é a própria verdade.

na idade helenista declina o vigor especulativo filosófico até ao ceticismo. necessariamente. Dificuldades: Isso parece exato. Por conseguinte. Desse modo. por necessidade. O centro principal dessa cultura científica é Alexandria . ela não é necessariamente determinada por um só. de fato Dionísio diz que o mal está fora do objeto da vontade. antes que essa conexão seja demonstrada como necessária pela certeza da visão divina. necessariamente. o movimento do móvel segue. graças às expedições de Alexandre. Ora. visto que se pode ser feliz sem eles. Por . a vontade não adere necessariamente. ela tende necessariamente para o bem que lhe é proposto. tais são as conclusões demonstrativas cuja negação significa a negação dos princípios. existem verdades que não possuem relação necessária com os primeiros princípios. não pode estar inteiramente subordinada a qualquer bem particular. e daí partiam cientistas de todo o mundo civilizado.112 A Vontade Quer Necessariamente Tudo o Que Deseja? conseguinte. tudo o que deseja. A causa motora produz. necessariamente. Mas o objeto dos sentidos move. Mas existem outros bens que implicam nessa relação.Latino As Ciências Naturais da Idade Helenista Como já salientamos. (Euclides. necessariamente. ela é capaz de desejar coisas contrárias. Por conseguinte. Solução: A vontade não pode tender para nenhum objeto. no caso em que a força dessa causa ultrapassa de tal maneira o móvel que toda capacidade que este tem de agir fica submetida à causa. porquanto é impossível a consistência teórica dessas ciências sem a filosofia. na medida em que se dirige para o bem universal e perfeito. o impulso do motor. O mesmo acontece com relação à vontade. Mas como existe uma infinidade de bens. se este não se lhe apresenta como um bem. A inteligência não concede. atingindo esta cidade seu maior esplendor nos séculos III e II a. a vontade não adere necessariamente a Deus nem aos bens que a ele se relacionam. Existem bens particulares que não possuem relação necessária com a felicidade. O objeto está para a vontade assim como o motor está para o móvel. parece que o objeto conhecido pela inteligência move a vontade necessariamente. A tais bens. Hiparco) e no II século d. Assim como a inteligência adere. aos primeiros princípios. Entretanto: Santo Agostinho diz que a vontade é a faculdade pela qual pecamos ou vivemos segundo a justiça. que chega até as Índias. assim o que é conhecido pela inteligência é objeto do apetite intelectual ou vontade. vão terminar fatalmente na prática. III . Por conseguinte. o movimento do móvel. Por conseguinte. para a satisfação das necessidades imediatas da vida empírica. são aqueles pelos quais o homem adere a Deus. do mesmo modo como agora nós queremos. Arquimedes. necessariamente. Mas a capacidade da vontade. na técnica. tudo o que deseja. ela não quer. a afetividade sensível. pois é só nele que se acha a verdadeira felicidade. Todavia. tornando-se empírico nas ciências particulares. acionada por ele. ser felizes. Em Alexandria congregavam-se.como Atenas foi o grande centro da especulação filosófica. é evidente que a vontade não quer. Mas a vontade daquele que vê Deus em sua essência adere necessariamente a Ele. Assim como o que é conhecido pelos sentidos é objeto da afetividade sensível.C. A estas últimas a inteligência concede seu assentimento necessariamente. As ciências particulares. Concretiza-se nestas ciências o interesse teorético da época.C. na medida em que reconhece a conexão das conclusões com os princípios por meio de uma demonstração. Desse modo. os animais são arrastados pelo que vêem. por necessidade. assim a vontade adere ao fim último. Faltando isto. fenômenos e fatos novos. necessariamente. segundo Santo Agostinho. incentivado também pela descoberta de países novos. Conclusão: Eis como podemos prová-lo. e se despedaça. Ora. necessária e naturalmente. o assentimento não é necessário. Mas existem proposições necessárias que possuem esta relação necessária. ela não é. por sua vez. o objeto da vontade move-a necessariamente. seu assentimento a tais verdades. tais são as proposições contingentes cuja negação não implica na negação desses princípios.

floresceu antes e mais viçosamente aquela do que esta.30 d. só com Estrabão afirmou-se o caráter antrópico da geografia. o qual viveu em Alexandria e em Rodes.nascido no Ponto.C. em defesa de Siracusa cercada pelos romanos durante a II guerra púnica. jardins zoológicos. e também.) discípulo de Platão. mas aderiu. estudou em Alexandria.que.C. A seguir foi desenvolvido e corrigido por Apolônio de Perga (260-200 a. pouco posterior a Aristóteles e de pouco anterior a Arquimedes . voltando depois à pátria.. Em Alexandria havia o famoso Museu.63 a. afirmam-se no século III a. A geografia começou a ser cultivada no seu aspecto astronômico-matemático. a qual explicava o organismo animal mediante a relação dos quatro humores fundamentais e é chamada escola dos dogmáticos. depois pelas grandes coleções do Museu de Alexandria.Europa. por Hiparco de Nicéia do II século a. Quanto à astronomia e à geografia. salas anatômicas.C. física. mais ou menos .particularmente em relação com o saber enciclopédico. A hipótese heliocêntrica é devida a Aristarco de Samos.III século a. por meio das expedições militares de Alexandre. o sistematizador definitivo do geocentrismo é Ptolomeu. Ptolomeu julgou que devia integrar a astronomia com a astrologia.séculos II e II d. geometria e mecânica. ao geocentrismo. aritmética e estereogrande matemático e físico. que ensinou em Alexandria e em Pérgamo e foi um grande geômetra da Antigüidade juntamente com Euclides e Arquimedes. onde se trata com grande clareza e rigor científico de geometria plana. vivido em Alexandria no II século d. autor do assim chamado Almagesto. teriam sido as suas últimas palavras. Dos dois ramos da matemática floresceu. A contribuição da filosofia clássica. Natural de Siracusa. "Noli turbare circulos meos".bibliotecas.C. O geocentrismo foi elaborado por Eudóxio de Cnido (408-355 a. É o autor dos afamados Elementos de Geometria. técnicos.C.C. Apesar de ter o cônsul Marcelo ordenado aos soldados poupar a vida ao grande sábio.C. A matemática e a física tiveram grandes cultores em Euclides e Arquimedes. durante o saque da cidade foi morto por um soldado ignorante. para poder explicar melhor e mais simplesmente os movimentos celestes. mediante a teoria dos excêntricos. repreendido pelo grande sábio porque perturbava seus estudos. tiveram incremento na idade helenista. Entretanto. dotada de jardins botânicos e zoológicos. já famosa no III século a. tal contribuição limita-se essencialmente à matemática. sobre as vicissitudes humanas. gabinetes. As ciências naturais progrediram entretanto na idade helenista particularmente como ciências auxiliares da medicina . já cultivadas por Aristóteles (zoologia) e Teofrasto (botânica). Ao lado da antiga escola de Hipócrates. Euclides viveu em Alexandria no III século a. após um interesse teórico para com esta ciência.C.anatomia e fisiologia . Ásia. medicina . nesta época fez grandes progressos. Esta teoria desloca a terra do centro das órbitas astrais para a circunferência. jardins botânicos. geografia. a sistematização das descobertas matemáticas de seus predecessores e as suas pesquisas originais. em dezessete livros. ciência no sentido estrito como a filosofia. particularmente. máquinas de guerra acionadas por ar comprimido..C. e depois a aritmética . . que serão valorizadas e sistematizadas na ciência moderna.C.C. De suas descobertas aproveitou-se também para a construção de máquinas de guerra. que seria o estudo dos influxos astrais sobre os fenômenos terrestres e.C. As ciências naturais propriamente ditas.pondo especialmente em foco a influência do clima sobre o temperamento e o caráter humanos e sobre a organização social e política.III e II séculos a. No presente parágrafo examinamos brevemente as principais ciências naturais cultivadas nesta época matemática. prevaleceram interesses práticos. etc. máquinas hidráulicas. o sistema astronômico era composto de cinqüenta e seis esferas concêntricas. e a um certo complexo de observações empíricas. por sua vez.).(Ptolomeu). no mundo antigo. mediante o qual a astronomia antiga foi transmitida e seguida até à Renascença. astronomia.e que teve uma longa e gloriosa vida desde o III século a.. Primeiro. Lembre-se a escola mecânica de Alexandria. onde descreve sistematicamente. em geral.. as regiões então conhecidas . observatórios. em 113 . até o IV século d. Escreveu uma grande obra de Geografia. onde passou a vida toda entre o ensino. ciências naturais. em que foram inventados relógios de água. aí dedicando-se por toda a vida a estudos e pesquisas de matemática.C. rico de recursos científicos .C. Estrabão . estudou em Alexandria e em Roma. as quais levaram ao conhecimento da flora e da fauna das regiões novas. etc. como acima já dissemos. A astronomia antiga conheceu a hipótese heliocêntrica. .. África . Quanto à física. primeiro a geometria . e por Aristóteles no sistema das esferas homocêntricas.

a Grécia tornava-se efetivamente parte do império romano. Entre Roma e a Grécia estabelecem-se e desenvolvem-se intensas relações culturais. elemento indispensável da alta cultura romana.os romanos se interessaram propriamente apenas pelo segundo. estóico. porquanto também o pensamento romano depende .C.da filosofia grega. começados geralmente na pátria sob direção de educadores gregos. favorecidas pelo partido iluminado chefiado por Cipião Emiliano. Aliás. dos dois quesitos fundamentais da filosofia moral grega . segundo os gregos. para explicar a formação e o funcionamento dos órgãos. da observação dos sintomas do mal e do efeito dos remédios. o maior médico da Antigüidade. e precisamente depende da filosofia grega do terceiro período. O gênio romano é oposto ao gênio grego. portanto. finalista. despertou grande contrariedade no velho Catão. representavam a mais alta tarefa da vida . políticos. autor de De rerum natura. Quíncio Flamínio. testemunho do entusiasmo vivo e sincero com . humana. base e germe de toda sólida construção especulativa e de toda verdadeira obra artística. moda. esta escola fez descobertas importantes sobre a circulação do sangue e sobre o sistema nervoso. E fazem isto não por interesses científicos. em oposição a todos os desvios passados e presentes.. Atenas e Rodes. reconhece a vis medicatrix como fator essencial da terapia. a especulação. de permeio a toda a barbárie antiga e moderna. o frio. a contemplação . acadêmico. aristotelismo .o calor.C. Características Gerais Julgamos seja preciso tratar do pensamento romano juntamente com a filosofia grega. O gênio romano cultua a primazia da prática. a escola que tenta explicar os fenômenos da vida pelas quatro forças fundamentais. que dominaram a cultura médica européia até além da Idade Média. Foi.em seus motivos teóricos. a influência grega sobre o mundo romano.. considerando o estudo. segue-se que foi também um filósofo.C. universal. metafísicos . Com meios coativos. que sobrevivem imperecíveis ao acontecimento empírico da queda política da Grécia. também a filosofia grega dirige-se para Roma. peripatético e Diógenes. que colimava com o temperamento prático dos romanos. a umidade. Um senatus-consulto. sobretudo. firmadas em princípios diferentes. acelerada pelo contato com a refinada civilização helenista. o direito. A sua filosofia é uma síntese do platonismo. não podendo o médico fazer outra coisa senão auxiliar esta força medicatrix. O epicurismo teve imediata. Roma procede fatalmente para o Império. em oposição à orientação teórica e especulativa das escolas precedentes. Alicerça a medicina na fisiologia e na anatomia.114 Alexandria outras escolas. porém. Antes de tudo. a famosa embaixada dos filósofos gregos ao senado romano em 155 a. o Antigo . lazeres. mas porque o helenismo é considerado bom gosto.que coisa é o sumo bem. para se aperfeiçoarem nos estudos. juntamente com Critolaus. otia. a idéia imperial. afirma uma fisiologia teleológica. o epicurista foi o primeiro romano que nos deixou um escrito filosófico: Lucrécio Caro. É esta uma das maiores obras da literatura latina. a última vitória dos conservadores. viveu longamente em Roma na qualidade de médico imperial e deixou numerosos escritos. da atividade. por exemplo. rápida e grande influência em Roma. elegância. inversamente. Tendo Galeno procurado coligar os fatos particulares observados no mundo biológico aos princípios da física e da metafísica. justa. Começa. Tenta ele sintetizar a doutrina hipocrática dos quatro humores com a física aristotélica dos quatro elementos e das quatro qualidades fundamentais da matéria . em 161 a. Temos. composta de Carnéades. Mais importante é a escola médica chamada empírica que.os quais justamente percebiam o perigo da perversão dos costumes na vida romana. Antes. razoável. nos quartéis. vedava a morada em Roma aos filósofos.que. que sobrevivem imperecíveis ao empírico fim político do império romano . no foro). e. do negotium (nos campos. Paulo Emílio.). E como as obras primas do gênio grego foram a filosofia e a arte. a secura. norma e fundamento de uma vida civilizada ideal. a qual segundo Plutarco. de caráter pregmatista e moral. afirma o valor da experiência direta. assim a obraprima do gênio romano é o jus. estoicismo e.). é.como passatempos. apesar de ambos os povos se originarem do mesmo tronco indo-europeu. Natural de Pérgamo. por conseqüência. e como se realiza .estando à frente Catão.do Ocidente e do Oriente -. especulativos. Após a conquista romana da Macedônia (168 a. eclético com tendências dogmáticas e hipocráticas Cláudio Galeno (131-210 d.C. é impedida pelos conservadores . Os jovens mais conspícuos das famílias aristocráticas romanas vão à Grécia e à Ásia Menor.

que no Oriente foi a religião. Não é. Cícero foi discípulo de Filo. entre estes. Os romanos. a profunda praxe ascética do estoicismo recebe. . O direito romano não é uma filosofia do direito. que fazem parte da oposição e se apegam à liberdade espiritual do pensamento.115 que foi aceito em Roma o epicurismo por um determinado grupo cultural . o direito romano no corpus juris justiniano é o lógico desenvolvimento do original germe jurídico. humano. Carece de interesse especulativo. quase religiosa. Ecletismo e Estoicismo As duas correntes mais importantes do pensamento romano são o ecletismo e o estoicismo. Ambos correspondem à índole prática do gênio romano: o primeiro condiz com o pragmatismo positivo. podem considerar-se quase naturalmente estóicos. numa filosofia do direito. jurídico. Sêneca e Epicteto pertencem a esta classe de diretores espirituais. têm uma personalidade própria. aliás. otimista. que o pensamento grego pode deduzir da sistematização jurídica romana. Daí uma superioridade do estoicismo romano sobre o estoicismo grego. Procurar-se-á um filósofo. prática. como mais tarde terá o seu capelão. o sistema filosófico de Cícero é uma forma de pragmatismo eclético. pela sua aceitação por parte de uma mentalidade positiva. criando um verdadeiro dicionário filosófico latino. moralista e escritor epigramático. Cícero tem mérito também como historiador da filosofia antiga. implica numa concepção filosófica. um ecletismo com tendências acadêmicas e para finalidades morais . e de Fedro epicurista. às vezes a única fonte. de crítica e de sistema. Não é de admirar. tendo renunciado a todo o resto. Em Atenas e em Rodes. pessimista. caput mundi. que. como os cristãos procurarão um padre. acadêmico. portanto. Roma não desnatura o seu gênio político original. moral. porém. da idade imperial. mas a codificação de uma longa e vasta prática. expande-se através da cidade e do . todavia. para chegar à construção de um direito universal. pelo menos os romanos da idade imperial. em Roma foi o direito. O seu pensamento é. O pensamento grego serviu à codificação do direito romano próprio e verdadeiro. Sêneca é o maior como pensador. porquanto . E. sendo critério de verdade o útil moral. segundo a índole prática do gênio romano. O estoicismo romano difere do estoicismo grego. traduzindo-o para a língua latina. aonde não pode chegar o poder exterior.conforme a segunda escola estóica grega. toda grande casa terá um filósofo. O mais destacado expoente da primeira corrente é Marco Túlio Cícero (106-43 a. de que representa uma fonte essencial. por conseguinte.terem os estóicos romanos exercido uma função prática. o segundo condiz com o pragmatismo negativo. paralelamente. mas realiza-o. Instaurado o Império. Certamente. Epicteto e Marco Aurélio pertencentes ao primeiro e segundo século d. pois Roma era naturalmente feita para se tornar a capital do mundo.deixando na sombra as questões teoréticas . realista. estóico. não é uma construção teórica. na Grécia a filosofia. dada a sua cultura vasta e eclética. racional. uma confirmação de alto valor. Seu mérito principal está no fato de que ele fez ampla e eficazmente conhecer a Roma o pensamento helênico. igualmente ilustre no mundo filosófico.C. apenas Sêneca. jurista e homem político literato e orador famoso. surgindo na família. E. natural.segundo a índole prática do gênio romano limita-se quase exclusivamente aos problemas morais. Entre os numerosos estóicos da idade imperial. da idade republicana. que no estoicismo são resolvidos segundo uma metafísica elementar e contraditória.C. descuidando quase que completamente dos problemas teoréticos. qual era a mentalidade romana. do mesmo modo que Roma sozinha construiu o seu império.ainda que a obra lucreciana seja desprovida de importância especulativa. Musônio Rufo. valoriza-o. político. Direito e Educação O Direito Romano A obra universal e imperecível. assim. de Possidônio.). Tal sistematização jurídica. que constituem o caráter essencial do estoicismo. mas uma sistematização jurídica. num direito natural. desenvolve-o. -. Roma teve que superar a própria nacionalidade. se bem que os grandes jurisconsultos romanos teriam chegado sozinhos a esta codificação.

o ideal supremo.116 estado.pedagogus ou litteratus. aos poucos. A sua finalidade era formar o orador. o ensino da eloqüência abrangia toda a cultura. A primeira e fundamental instituição romana de educação é a família de tipo patriarcal. que vai da cidade ao império: os patres governam a coisa pública. em que a instrução. Acabam. escrever e calcular. em relação com a seriedade da ação. prático-social era o próprio conteúdo teorético da educação. econômica. O orador romano será o tipo do homem de ação. vão-se.salus reipublicae suprema lex esto.a escola do grammaticus . concisas e conceituosas . entra e se espalha a concepção grega da vida . do guerreiro .por exemplo. A Educação Romana O espírito prático romano manifesta-se também na educação. especialmente em Atenas. porquanto a carreira política representava. e não simples distração . sendo a religião. enquanto a elite dos jovens romanos vai se aperfeiçoar nos centros de cultura helenista. coisa muito séria. desenvolvendo-se e expandindo-se para a nova forma do estado imperial .entre o terceiro e o segundo século a. portanto. E. e a cultura helênica e os mestres gregos afluem a Roma sempre mais numerosos e bem acolhidos. o treinamento ministrado pelo pai que faz o filho participar na sua atividade agrícola. antes. em Roma. através das quais se aprendia a cultura helênica em geral. a princípio é a literatura grega que se difunde em Roma. a instrução propriamente dita. enfim. e é definida até como ludus impudentiae. sendo.de instituição privada sem ingerência alguma do estado.onde se ensinava a língua latina e a grega.porquanto estava pelo menos nas possibilidades do caráter latino. do político culto. médias . até aquele direito natural. por ser "novidade contrária aos costumes e aos preceitos dos maiores". a família não estava mais à altura de ministrar esta nova e mais elevada instrução.C. e a religião . constituindo escolas . quando o antigo estado-cidade. E. Um terceiro grau será. a Odisséia -. O fim da educação é prático-social: a formação do agricultor. mais considerada a mulher do que na Grécia.ludi . Primeiro são traduzidas para o latim as obras literárias e poéticas gregas .a escola do litterator onde se aprendia a ler. se estudavam os autores das duas literaturas. Essencialmente práticos e sociais são os meios: o exemplo. Sentiu-se então a exigência de um novo sistema educativo. Educador é o pai. helenista-republicana. que se reduzia a uma aprendizagem mnemônica de prescrições jurídicas. Essas escolas são de dois graus: elementares . especialmente literária.). cuja irresistível fascinação também Roma sofreu.entendida como prática litúrgica. . a tradição doméstica e política . Na história da educação romana podem-se distinguir três fases principais: préhelenista. . para o espírito prático romano.veio em contato com a nova civilização helênica.paterfamilias. em que a cultura é instrumento de ação . nos ideais práticos e sociais. deste modo. Esta instrução literária partiu precisamente da cultura helênica.as leis das doze tábuas . logo. depois. sumamente pobre de arte e de pensamento. em Roma. Do direito civil chega até ao direito das gentes.pietas .otium. todavia. que se inspirou.C. e afinal. As famílias das mais altas classes sociais hospedam em casa um mestre. E. dadas as suas predominantes qualidades práticas. é o pensamento grego que penetra e se difunde. Nesta obra educativa colaborava também a mãe. constituído mediante as escolas de retórica. Na reação dos conservadores contra a helenização da vida romana. geralmente grego .que regulavam os direitos e os deveres recíprocos naquela elementar mas forte sociedade agrícola-político-militar. enfim se forma pouco a pouco uma literatura nacional romana sobre o modelo formal da grega. uma espécie de institutos universitários. mediante a literatura. helenista-imperial. a que chega a filosofia pelos caminhos da razão. para os romanos. Evidentemente. tivesse o seu lugar. militar e civil. germe de uma sociedade mais vasta. por triunfar os inovadores. os censores publicavam um decreto que condenava a escola latina de retórica (92 a. que surgem com uma diferenciação e uma especialização superior da escola de gramática. que na sociedade familiar romana desempenha também as funções de senhor e de sacerdote . do cidadão. para atender às exigências culturais e pedagógicas das famílias menos abastadas. E tudo isso sob uma disciplina severa. e culmina no Império. Enfim.mos maiorum. através do pensamento. depois estudamse os autores gregos no texto original.negotium e. diversamente do que era na Grécia. especialmente nos primeiros anos e no concernente aos primeiros cuidados dos filhos. do direito até à filosofia. A educação romana sofreu necessariamente uma profunda modificação. entre os romanos.

foi professor de retórica em Roma. mas singularmente acentuados. que partiu de uma religião . Faz Quintiliano uma exposição completa. original. o primeiro docente pago pelo estado. de resolver os grandes problemas transcendentes . Começam os imperadores romanos por conceder imunidade e retribuições aos mestres de retórica ainda docentes em casas particulares. enfim são fundadas cátedras imperiais.do mal. um instrumento de penetração e de expansão da língua e dos jus romano. Na Instituição Oratória.Lívio .Vergílio e Homero . e. dianoético. a interpretação dos poetas . que muitas sobreviveram à queda do império romano ocidental. imediato. O problema da vida é agudamente sentido. Nasceu na Espanha no II século d. o direito e a filosofia. para a religião. especialmente propensas a estes problemas e fecundas em soluções do mais vivo interesse.a que o helenismo não pudera chegar.e as noções necessárias para este fim. místicas. Grã-Bretanha. vem a faltar o interesse político da cultura. olímpica. e mais precisamente . No curso de retórica ensinam-se a interpretação dos historiadores . relativamente ao espírito prático-social romano. significa uma decadência para o diletantismo. volta. do racionalismo aristotélico. do pecado . e a demoliu paulatina e criticamente nos grandes sistemas clássicos. o pensamento grego. o estado romano mostra agora apreciar a cultura.C. Um dos principais motivos de interesse imperial pela cultura e a sua difusão foi o fato de se ver nela um eficaz instrumento de romanização dos povos. Já não se trata. quando Vespasiano era imperador. pelo fato de ser profundamente sentido o problema do mal. transformando-se em meios de ornamento intelectual entre os lazeres de uma aristocracia cultural. humanistas. políticos. em doze livros. misteriosóficas. expõe o processo de formação do orador . da dor. preparadora dos esplêndidos renascimentos posteriores. Período Religioso Características Gerais O quarto e último período do pensamento grego denomina-se religioso. e de uma purificação e libertação ascética e mística. semitas. das religiões orientais. da velha religião grega. A desconfiança do conhecimento racional impede à evasão para um conhecimento supra-racional.que nem sequer se propõe. No curso de gramática ensinam-se a língua latina e a língua grega. racionalmente.Cícero -. uma explicação plena. absolutamente falando. ao contrário. grego. transformando-se em escolas eclesiásticas graças ao monaquismo cristão. o fim supremo da educação romana. Por certo. Tentar-se-á a síntese filosófica do dualismo platônico.cuja figura ideal já delineara Cícero no De Oratore. segundo o espírito prático-político romana.. Trata-se. Gália. no seu término. Germânia. mas. se recorre à concepção de uma queda arcana. procura-se-lhes a solução mediante uma metafísica completada pela religião. da morte. No período religioso permanecem os problemas do período ético. enquanto fornecem o conteúdo essencial à arte oratória. místico. Tais escolas municipais foram tão vitais nas províncias. por conseguinte. E o resultado foi fecundo também para a cultura como tal. depois o estado passa a favorecer e promover a instituição de escolas municipais de gramática e de retórica nas províncias.positiva -. porquanto foi ela levada. representa uma purificação da cultura no sentido especulativo.e dos oradores . aqueles povos Espanha. embora modestamente. províncias danubianas. de um conseqüente encarceramento do espírito no corpo. e conservaram acesa na noite barbárica a chama da cultura clássica. absolutamente incapaz.117 Juntamente com a organização do império organizam-se também as escolas romanas. Deste problema não se acha. um meio. nos grandes institutos universitários. Seja como for. as escolas de retórica perdem a função prática e social. propondo programas e métodos que foram em grande parte adotados sucessivamente nas escolas do império. África setentrional . o que. intuitivo. o êxtase. Um lugar de destaque ocupam as normas e as exercitações de eloqüência. devido aos seus limites naturalistas. da realidade absoluta. especialmente de direito. porque o espírito humano procura a solução integral do problema da vida na religião ou nas religiões. para o engrandecimento do império. Assim. do espírito. para a revelação. vindo a faltar a liberdade. do monismo estóico. porém. em suma. O teórico da pedagogia romana pode ser considerado Quintiliano. homérica. A instituição escolástica compreende os dois graus tradicionais de gramática e retórica.

com a sua extrema transcendência da divindade. encontrará nos grandes valores da civilização moderna (a ciência natural. em Filo de Alexandria. tem rumos precursores nos primeiros séculos da era vulgar: I . 118 . imanentista. a política) sua integração lógica.na chamada escola ateniense. interpretada à luz do pensamento grego. Nesta síntese metafísica prevalece o platonismo. a passagem da concepção tradicional. em uma característica espécie de trindade divina.O Pensamento Moderno Transcendência Cristã e Imanência Moderna Achamos a característica específica do pensamento clássico na solução dualista do problema metafísico. cuja mais notável expressão é Jâmblico.C. a idade do império romano. cultural. mas Deus é resolvido num mundo natural e humano. que sistematizou definitivamente e transmitiu aos pósteros o pensamento neoplatônico. Entretanto. É evidente que a passagem da concepção dualista (clássica) à concepção teísta (cristã) é um desenvolvimento lógico. característica do clássico dualismo grego. religiosa do mundo cosmopolita helenista-romano. de que a filosofia religiosa neoplatônica forma como que a estruturação ideal. da alma estóica do mundo. no novo pitagorismo. 2°. etc. e exerceu também certa influência política com o imperador Juliano Apóstata. com que o neoplatonismo tem contatos. em virtude da qual é ainda afirmada a realidade e a distinção entre o mundo e Deus. O sistema metafísico predominante no período religioso é o neoplatonismo. Mas na metafísica neoplatônica . cujo maior expoente é Plutarco de Queronéia. intercâmbio e polêmicas. o pensamento grego. . tem seu precedente lógico no panteísmo neoplatônico. cujo maior representante é Apolônio de Tiana. não se pode mais falar em transcendência de valores teoréticos e morais. a técnica.o pensamento platônico. e a sua parte vital tinha sido transfundida e valorizada no cristianismo. terminará no monismo emanatista. mas são separados entre si: Deus não conhece. com a sua religiosidade e o seu misticismo. II . capital comercial. mas desenvolvido no pensamento cristão mediante o conceito de criação. não cria. cuja vida e pensamento nos foram transmitidos pelo discípulo Porfírio. o pensamento grego . com a sua radical separação entre o mundo sensível e inteligível. com a sua doutrina de uma queda original. O neoplatonismo. religiosos e políticos. Mestre Eckart.). encruzilhada entre o Ocidente e o Oriente. sede do famoso Museu. ao contrário. pelo menos . em uma forma de triteísmo. mas a este supra-ordenada. representa teoricamente uma ruptura. O centro deste movimento filosófico é Alexandria do Egito. O pensamento moderno.). O último período do pensamento grego abrange os primeiros cinco séculos da era vulgar: substancialmente. helênico-escolástico. Existem o mundo e Deus. e no platonismo religioso.tal transcendência. . especialmente o pensamento da Renascença. o pensamento tradicional. aristotélico-tomista. todavia. O pensamento moderno. pois "ser" e "dever ser" são a mesma coisa. Tal dualismo não será negado. Pelo contrário. e o seu maior expoente é Plotino (III século d. pelo encerramento dessa escola ordenado por Justiniano imperador (529 d. IV . Consequentemente. do logos racional aristotélico.ocidental. que  após ter-se afirmado como extrema expressão do pensamento clássico  permanece através de todo o pensamento cristão em tentativas mais ou menos ortodoxas de síntese entre cristianismo e neoplatonismo (Pseudo Dionísio.já tinha sido assimilado pelo pensamento cristão patrístico. finaliza em uma concepção monistaimanentista do mundo e da vida: não somente Deus e o mundo são a mesma coisa.do transcendente divino platônico. o "dever ser" coincide com o "ser". cuja mais notável expressão é Proclo. também historicamente. Com a escola ateniense acaba.C. E também teve o neoplatonismo desenvolvimento nos últimos séculos do império romano: 1°. que se manifesta especulativamente no desenvolvimento tomista de Aristóteles. a história. todavia. Scoto Erígena. mas Deus é feito criador e regedor do mundo: o mundo não pode ter explicação a não ser em um Deus que transcende o mundo. e também a idade da patrística cristã. teísta.obra-prima deste período religioso .oriental.). à concepção moderna.na assim chamada escola siríaca. E. que tenta a síntese do pensamento grego com a revelação hebraica. não governa o mundo. por outra parte.

a este respeito. sem dúvida. o seu profundo senso histórico. era escasso na mentalidade medieval o senso da concretidade e da individualidade. compreensiva e ativa com respeito ao Estado. o comércio. como tal. à metafísica. religiosos  que pode decidir do valor de uma civilização. mas cristão. Mas a concepção medieval da história. E destes conhecimentos experimentais e matemáticos de fenômenos naturais derivava ele as primeiras grandes aplicações técnicas da ciência moderna. alimentou suspeitas e combateu longamente contra a nascente ciência moderna. e. Costuma-se inculpar a civilização medieval por ter aniquilado o estado nacional concreto. Além disso. católico. a nova escolástica. Galileu Galilei. podemos dizê-lo analogamente da história. no período bárbaro. a metafísica tomista. de fato. morais. quando os homens e os tempos estivessem maduros. experimentalmente provados e matematicamente conexos. pois. espirituais. O que dissemos da ciência. naturalmente. mas incapaz de resolver os problemas máximos da vida. o seu interesse pela concretidade. E a ciência natural da Idade Média não está absolutamente em conexão com o pensamento filosófico medieval. indiferente à filosofia. o próprio Tomás de Aquino julgava logicamente que a filosofia podia ser uma só. imanentista. e sim os fenômenos naturais. E é na Idade Média que se formam as grandes nações modernas. a Igreja católica estava apta e disposta  a prescindir-se das intenções dos homens e de suas fraquezas fatais  a livrar-se desses cuidados estranhos gravosos e perigosos para o seu ministério transcendente e sobrenatural. ao passo que admitia a possibilidade de uma ciência natural diversa daquela do seu tempo.. Nem se deve esquecer que precisamente na comuna medieval se encontra a primeira origem do estado moderno. a instrução cultural. que é a cristã e já teve a sua expressão clássica na Cidade de Deus de Agostinho é perfeitamente conciliável com a indagação histórica moderna. é na Idade Média que se formou o Estado distinto da Igreja. em adequação à realidade. decadente. Basta lembrar. as comunicações. nos séculos de ferro. por exemplo. mas não leigo. a igreja romana e o clero católico desempenharam funções também leigas e profanas. O valor da ciência moderna não é teorético. Em seguida virá a . o novo tomismo. E é devido a isso que a civilização não pereceu. isto não foi senão uma expressão exterior daquela estrutura profunda que se chama a cristandade: equivalente civil da igreja católica. e foi conservada para a idade moderna. como o Sacro Império Romano. etc. uma utopia universalista. e. e até a agricultura. não se podem achar causas racionais dessa mudança. Aplicações técnicas que possuem também um valor espiritual.119 Não se julgue demolir a filosofia medieval. a indústria. especulativo. romano. como. Tal era também o pensamento do grande fundador da ciência moderna. devendo esta última fornecer à primeira a sua rica contribuição de fatos. No entanto. o do domínio natural do homem sobre a natureza: contanto que o homem reconheça. teísta. praticamente liberal. orgânico. na alta Idade Média. capaz de abraçar os mais diversos organismos políticos. acima de si e de tudo. insuficiente. pois não é a ciência natural  capaz apenas de resolver os problemas da vida material. ingênua. mas empírico e técnico. Mas cumpre ter presente que. se. sem o qual não é possível a história verdadeira e própria. descuidada. como tal. Deus. a escolástica pós-tomista. bem como o laicado distinto do clero e organizado civilmente em graus de corporações. Os Precedentes do Pensamento Moderno Dada a ruptura lógica entre o pensamento tradicional. que afirmava ser o objeto da ciência não as essências metafísicas das coisas. a assistência hospitalar. interiormente organizado e politicamente soberano. porquanto esta representa uma valor infra-filosófico. isto é. Poder-se-ia fazer notar que tal efetiva distinção e relativa autonomia do Estado (e do laicado) com respeito à Igreja (e ao clero) foram alcançadas através de uma longa luta contra o predomínio e a invasão destes últimos. metafísico. desde os comunas medievais até às grandes monarquias européias do século XVII e ainda além. não teve dificuldade alguma em aceitar toda a ciência natural moderna. ateu. mas abstrata. A historiografia medieval é. para construir uma unidade política grandiosa. a atitude da Igreja. imanentista. mas apenas práticas e morais. Aliás. pelo fato de que ninguém estava em condições de fazê-lo. a favor da velha ciência natural aristotélica. e o pensamento moderno. opondo à sua elementar e fantástica ciência da natureza a ciência moderna com suas grandes aplicações técnicas. Noutras palavras.

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justificação teórica da nova atitude espiritual, que será constituída por todo o pensamento moderno em seu desenvolvimento lógico. O grandioso edifício ideal da Idade Média, em que a religião e civilização, teologia e filosofia, Igreja e Estado, clero e laicado, estavam harmonizados na transcendente unidade cristã, foi, de fato, destruído pelo humanismo imanentista, que constitui o espírito característico do pensamento moderno. Este pensamento começa com a prevalência dada aos interesses e aos ideais materiais e terrenos, com o conseqüente esquecimento dos interesses e ideais espirituais e religiosos; e torna-se completo com a justificação dos primeiros e a exclusão dos segundos. É precisamente o que acontece com os homens inteiramente entregues aos cuidados mundanos: primeiro se esquecem das coisas transcendentes, e, em seguida, querendo ser coerentes, negam-nas. Entretanto, se não há causas lógicas do pensamento moderno, há, porém, precedentes especulativos, que, valorizados pela nova atitude espiritual, se tornarão fontes especulativas do próprio pensamento moderno. Tais precedentes especulativos podem ser resumidos desta forma: o panteísmo neoplatônico, o aristotelismo averroísta e o nominalismo ocamista, os quais foram-se afirmando contemporaneamente a uma gradual decadência do genuíno pensamento escolástico (racional, teísta, cristão), especialmente tomista, com que se acham em oposição. E tal decadência cultural é acompanhada, por sua vez, pela decadência da Igreja e do Papado  o exílio avinhonês e o cisma do ocidente. O panteísmo neoplatônico teve a sua primeira grande manifestação, no âmbito do cristianismo, com Scoto Erígena. Tentará afirmar-se de novo na própria época de Tomás de Aquino com Mestre Eckart, o iniciador da mística alemã. E receberá uma nova original elaboração do Humanismo com Nicolau de Cusa, que não pouco deve aos precedentes; e, sobretudo, com Giordano Bruno, o maior pensador da Renascença, o qual depende, por sua vez, de Nicolau de Cusa. O averroísmo latino afirmara na Idade Média a sua famosa doutrina das duas verdades: o que não é verdadeiro em filosofia pode ser verdadeiro em religião e vice-versa. Em uma idade cristã, como a Idade Média, a afirmação religiosa podia Ter a prevalência sobre a negação filosófica; obscurecendo-se a fé, como na Renascença, devia prevalecer uma concepção anti-cristã, aristotélica ou não. O occamismo marca a conclusão lógica da decadente esolástica pós-tomista, apesar de seus partidários se comprazerem em denominá-la via modernorum. E, ao mesmo tempo, apresenta um elemento fundamental da filosofia moderna com o seu empirismo e nominalismo. Nicolau de Cusa, Telésio, Bruno, Campanella serão também herdeiros do nominalismo empirista de Occam, que se combina, nos sistemas deles, com uma metafísica aventurosa de cunho particularmente neoplatônico. Como é sabido, segundo Occam, o conhecimento humano é reduzido ao conhecimento sensível do singular e, portanto, ao nominalismo. Conseqüência lógica e consciente é a destruição da metafísica, que transcende o mundo empírico, sensível, bem como da ciência, que é entretecida de conceitos, impossíveis de nominalismo, de sorte que se esvai da teodicéia, porquanto não se pode provar racionalmente a existência de Deus, nem conhecer a sua natureza; e a psicologia racional, pelo mesmo motivo. E, consequentemente, torna-se impossível a ética racional, porque  sendo desconhecida a essência de Deus e destruída a do homem  a moral fica reduzida a um conjunto de preceitos arbitrários de Deus, que o homem tem que observar por fé. Occam procurará salvar-se do ceticismo  conclusão do seu sistema, com todas as conseqüências práticas  mediante a fé. Entretanto é uma posição insustentável, porquanto a fé  não podendo mais ser um racional obséquio  torna-se uma adesão cega. Em época de religiosidade ainda viva, esse fideísmo ocamista pôde praticamente ficar de pé. Mas ruirá quando a fé vier a faltar, deixando o terreno livre ao empirismo, ao naturalismo, ao nominalismo, ao ceticismo, imanentes ao ocamismo, e que constituirão tão grande parte do pensamento da Renascença, da Reforma e também do pensamento posterior. Os Períodos do Pensamento Moderno Este grande movimento especulativo, que é o pensamento moderno, naturalmente não se manifesta na sua significação imanentista senão na plenitude do seu desenvolvimento. Portanto, manifesta-se através de uma série de períodos, que se podem historicamente (e dialeticamente) indicar assim:

1.  Antes de tudo a Renascença, em que a concepção imanentista, humanista ou naturalista, é potentemente afirmada e vivida. Trata-se, porém, de uma afirmação ainda não plenamente consciente e sistemática, em que o novo é misturado com o velho. Este, muitas vezes, prevalece, ao menos na exterioridade da forma lógica e literária. A Renascença é preparada pelo Humanismo, e tem como seu equivalente religioso a reforma protestante. 2.  A este primeiro período do pensamento moderno, que, substancialmente, abrange os séculos XV e XVI, se seguem o racionalismo e o empirismo, que abrangem os séculos XVII e XVIII. Após a revolução renascentista e protestante, sente-se a necessidade de uma séria indagação crítica, não para demolir aquelas intuições revolucionárias, mas, ao contrário, para dar-lhes uma sistematização lógica. É o que fará especialmente o racionalismo em relação ao conhecimento racional. 3.  E outro tanto fará e empirismo em relação ao conhecimento sensível. Empirismo e racionalismo são tendências especulativas, gnosiológicas, opostas entre si, como a gnosiologia sensista está certamente em oposição à gnosiologia intelectualista. Entretanto, concordam em um comum fenomenismo, pois, em ambos, o sujeito é isolado do ser e fechado no mundo das suas representações. Não se conhecem as coisas e sim o nosso conhecimento das coisas. 4.  Empirismo e racionalismo, após uma lenta, gradual e silenciosa maturação, encontrarão uma saída prática, social, política, moral, religiosa no iluminismo e, portanto, na revolução francesa (Segunda metade do século XVIII); esta representa a concreta realização do pensamento moderno na civilização moderna. Esse movimento começa na Inglaterra, triunfa na França e se espalha, em seguida, na Alemanha e na Itália. Os Pensadores Renascentistas Os Pensadores Do fundo eclético-neoplatônico do pensamento da Renascença se destacavam algumas figuras de maior vulto, cuja série começa com Nicolau de Cusa e termina com Giordano Bruno. É uma nova concepção filosófica do mundo e da vida, ainda não bem claramente esboçada, de que seus próprios autores, às vezes, não têm clara consciência. É uma época de transição, em que novo e velho se entretecem mutuamente. Os sistemas filosóficos da época conservam a linguagem (latim) e a estrutura (silogística) da idade precedente. As intuições e afirmações naturalistas, humanistas e imanentistas estão ao lado das profissões de fé católica, feitas por motivos práticos, éticos e utilitários. Entretanto, debaixo dessas aparências, germina o pensamento moderno. É o crepúsculo que prenuncia a alvorada de um novo dia. Nicolau de Cusa

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Universidade de Heidelberg, foco de nominalismo, e na de Pádua, onde aprendeu a matemática, o direito, a astronomia. Ordenado padre, teve parte notável no concílio de Basiléia (1432); foi, a seguir, legado pontifício, cardeal, bispo. Viveu seus últimos anos na Itália, onde faleceu em 1464. As obras fundamentais de Nicolau de Cusa são três: De docta ignorantia, De conjecturis, Apologia doctae ignorantiae. As fontes prediletas e principais são o misticismo alemão (Mestre Eckart), o platonismo e o neoplatonismo cristão (Santo Agostinho, Pseudo Dionísio, Scoto Erígena, São Boaventura), e os autores de tendência neoplatônica, em geral. Nicolau de Cusa admite, acima dos sentidos, dois graus do saber humano; a ratio e o intellectus. A ratio  ou intelecto discursivo  é a faculdade que abstrai das noções particulares os conceitos universais, e forma, em seguida, os juízos e os raciocínios. O seu objeto próprio é o conhecimento da multíplice e do finito. No entanto, também a coisas finitas são imperfeitamente representadas pela ratio, cujo conhecimento se realiza mediante conceitos universais, ao passo que a realidade é constituída por seres

Nicolau Krebs nasceu em 1401 em Cusa, de família modesta. Foi educado junto dos Irmãos da vida comum em Deventer, onde sofreu a influência do misticismo alemão; em seguida estudou na

individuais. Deus, uno e infinito, não pode certamente ser conhecido pela ratio, cujo objeto é o multíplice e o finito. Acima da ratio está o intellectus, atividade supra-racional iluminada pela fé ou pela mística, cujo objeto próprio é o Uno e o infinito, Deus. O agnosticismo de Nicolau de Cusa é, portanto, corrigido pelo fideísmo e pelo misticismo. A docta ignorantia consiste precisamente na consciência dos limites e da relatividade da ratio, cujas deficiências são supridas pelo intellectus. Entretanto, esta iluminação é sobrenatural e nada tem que ver com a filosofia, nem é de modo nenhum fundamentada por Cusano. Admitindo, pois, ele, que a razão não nos dá a realidade, segue-se logicamente que a sua filosofia deve finalizar no agnosticismo gnosiológico, e no panteísmo metafísico. Por certo, o piedoso cardeal foi, na intenção, ortodoxo, teísta, católico. Entretanto, o seu sistema encerra fatalmente uma tendência para o panteísmo. De fato, foi ele acusado de panteísmo emanatista, quando ainda vivia. Bernardino Telésio Mais claramente manifesta-se o imanentismo da Renascença  em seu aspecto naturalista  em Bernardino Telésio. Nasceu em 1509 em Cosenza, estudou especialmente em Pádua e faleceu em 1588. A sua obra fundamental é De rerum natura iuxta propria principia. O pensamento de Telésio representa uma sistematização do naturalismo da Renascença: a saber, uma tentativa para explicar a natureza mediante os princípios universais imanentes à mesma natureza. O mundo natural é constituído de matéria e de força. A matéria é homogênea, preenche o espaço (que existe antes da matéria) e é por si mesma inerte. A força anima, penetra, move, transforma continuamente toda a matéria. O intelecto é reduzido aos sentidos, bem como o conceito universal é reduzido à sensação. Como é naturalizado o pensamento, é também naturalizada a vontade, no sentido materialista e hedonista. Entretanto, haveria no homem também uma alma que transcende a natureza e o mundo material, criada e infundida por Deus. Por conseguinte, o homem pode pensar e querer o supra-sensível, o eterno, e dominar com a vontade livre as tendências naturais. Desse modo, acima da ciência é posta e justificada a fé e a revelação. Giordano Bruno na Ordem dos Dominicanos aos 15 anos. Acusado de heresia e afastado de sua ordem, iniciou uma vida giróvaga através da Europa. De volta a Veneza, foi processado pelo tribunal da Inquisição e reconheceu os seus erros. Entregue à Inquisição romana, foi de novo processado; mas, desta vez, recusou qualquer retratação e foi condenado à morte, que lhe foi infligida em 1600. As obras principais de Bruno são: De la causa principio e uno; De l'infinito, universo e mondi; Eroici furori; De immenso et innumerabilibus. As fontes de Bruno são: o monismo eleático e heraclíteo; o atomismo democríteo; o panteísmo estóico; o emanatismo neoplatônico; o naturalismo telesiano. A metafísica de Bruno é decididamente monista, pampsiquista e pan-materialista. A realidade é una e infinita, constituída por dois princípios fundamentais, ativo um  a alma do mundo  , passivo o outro  a matéria. São dois aspectos da mesma substância. A alma do mundo é concebida como sendo inteligente, ordenadora do mundo; mas não é transcendente, como o motor primeiro de Aristóteles e o Deus do cristianismo, e sim imanente ao mundo, de que é precisamente a alma. O Deus de Bruno é, pois, esta alma do mundo, concebida como imutável e infinita, gerando eternamente o mundo finito e que se acha em perpétuo vir-a-ser. As almas particulares não passam de individuações passageiras dessa alma cósmica. Acima desse Deus imanente, também Bruno afirma a existência de um Deus transcendente, apreendido só por fé, trata-se, porém, de uma fé imanente naturalista, bem diversa da fé cristã. Com a metafísica de Bruno estão em conexão a sua gnosiologia e a sua moral. Na sua teoria do conhecimento Bruno distingue  neoplatonicamente  quatro graus, em ordem hierárquica ascendente. São eles:

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Giordano Bruno é a maior expressão do imanentismo renascentista. Nasceu em Nola em 1548, entrou

imanentismo e o humanismo do pensador. Bruno, em oposição à moral ascética e transcendente do cristianismo, sustenta que o homem realiza a sua natureza, atinge a sua perfeição no furor heróico, a saber, na sua imanente e jubilosa participação racional na vida do Todo-um. É, pois, natural, que Bruno considere toda religião histórica, positiva (inclusive o cristianismo), como um saber infra-racional, mítico, simbólico, útil para dirigir moralmente o vulgo ignorante, e não como uma revelação supra-racional de um Deus transcendente. Pois não é isto possível no seu sistema imanentista. Tomás Campanella dos Dominicanos. É o maior continuador de Telésio. Várias vezes processado por heresia, foi, porém, absolvido; entretanto, condenaram-no por motivos políticos e passou no cárcere 27 anos, sendo, enfim, libertado. Suas obras principais são: Civitas solis; Universalis philosophia seu metaphisicarum rerum iuxta propria dogmata partes tres; De sensu rerum et magia libri X. As fontes principais do seu pensamento são: o naturalismo telesiano e o idealismo neoplatônico. Mais do que os pensadores precedentes, Campanella parece oscilar entre imanentismo e catolicismo, devido ao fato de que se acha ele já no clima espiritual da contra reforma católica. E como Giordano Bruno prenuncia a Spinoza, assim Campanella prenuncia a Descartes, Malenbranche e Leibniz, marcando destarte a passagem da Renascença à Idade Moderna. Quanto à gnosiologia, Campanella diz o seguinte: Admite ele um sensus inditus e um sensus additus. O primeiro oferece um conhecimento imediato de si mesmo; é um conhecimento fundamental, certíssimo, visto que o objeto coincide com o sujeito. Entretanto, o conhecimento do eu, a consciência, revela imediatamente as limitações do eu e, logo, a existência as coisas que limitam o eu. Estas coisas são conhecidas pela percepção externa, isto é, pelo sensus additus que nos dá um conhecimento mediato das coisas. Este, porém, não nos revela a natureza das coisas, e sim o sujeito modificado pelas coisas. Ainda inferiores ao sensus additus, pela certeza, são o intelecto e a razão, porque ainda mais se afastam do sensus inditus, da imediata intuição de si mesmo. A razão, a saber, o poder de inferir o semelhante do semelhante, é um sentido imperfeito; o intelecto, a saber, o conhecimento do universal é um sentido elanguescido, pois o universal é uma noção genérica e confusa, cujo valor é unicamente prático, cômodo para resumir vários particulares. Campanella, como Telésio, desvaloriza a razão e o intelecto e admite, ao lado e acima deles, um princípio divino, uma mente, o pensamento, que desempenha a função de garantir o nosso conhecimento e libertar-nos do ceticismo. Quanto à metafísica, salientamos que Campanella afirma de novo e acentua a animação universal, o pampsiquismo telesiano. Propriamente, a metafísica de Campanella é a doutrina dos primeiros princípios do ser; são eles o poder, a sabedoria, o amor. Tais princípios são absolutos e puros em Deus, relativos e imperfeitos nas criaturas. Daí as coisas e o espírito serem uma mistura de ser e de não-ser (ser limitado), ao passo que Deus é puro ser (ser infinito). Sobre essa nossa limitação ontológica, Campanella alicerça a religião, que é aspiração do ser limitado para o ser infinito. Para Campanella, a religião fundamental é a religião natural, racional; as religiões positivas, históricas, seriam expressões empíricas da religião natural. A característica essencial da própria revelação cristã e da igreja católica seria a restauração da religião natural, racional, universal, obscurecida pela ignorância e pela concupiscência. Portanto, o cristianismo seria reduzido à religião natural, a que a Renascença em geral aspira. Tal concepção filosófico-religiosa de Campanella teve uma expressão prática, política e pedagógica, na Cidade do Sol (Civitas solis), em que é exposta a sua utopia teocrático-comunista. Imagina ele uma república ideal, professando uma religião natural, governada por leis universais, em que, à maneira de Platão, o sábio é, ao mesmo tempo, monarca e sacerdote. Mais tarde, essa sua utopia teocrático-

os sentidos, cujo objeto é o sensível, e a verdade que manifesta é mera aparência; a razão, mediante a qual a verdade é atingida por processo dialético, discursivo, sucessivo; o intelecto, que tem a intuição imediata da verdade; a mente, que atinge a verdade na sua unidade e simplicidade absoluta. Quanto à moral deve-se dizer o seguinte: na moral de Bruno aparece de um modo característico o

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Tomás Campanella nasceu em Stilo, na Calábria, em 1568, e também ele entrou ainda moço na ordem

nas suas preocupações práticas. O desenvolvimento lógico do cartesianismo é representado por alguns grandes pensadores originais: Spinoza. O problema das relações entre Deus e o mundo é por ele resolvido em sentido monista: de um lado. mecanismo e infinidade do universo. mas de um profundo sentimento religioso e cristão. Entretanto. o século de ouro da civilização francesa. o pensamento de Bayle. Nesses ambientes houve a intuição de um perigo revolucionário para a religião e a ordem social. particularmente na França na segunda metade do século XVII. Significativa é a influência que o criticismo e o racionalismo cartesianos exerceram sobre a cultura do século de Luís XIV. religiosas e políticas. uma animação universal. sobre a arte de Racine e de La Fontaine. por causa do criticismo. afastado da vida real. quanto especialmente pelo espírito crítico.que vale para o mundo natural mas não chega até Deus. fazendo da matéria e do espírito dois atributos da única substância divina. a harmonia preestabelecida de Leibniz e o panteísmo psicofísico de Spinoza. contrapõe a razão integral . Malebranche. suas obras.espírito geométrico . Spinoza é a mais coerente e extrema expressão do racionalismo moderno depois do fundador e antes de Kant. Baruch Spinoza O racionalismo cartesiano é levado a uma rápida. "Tumultuária e aventurosa em muitos pontos  escreve Leonel Franca  a obra de Campanella encerra não poucas idéias aproveitáveis. Leibniz. quer católico quer protestante. Cabe-lhe a prioridade de várias teorias. de outro lado introduzindo na corrente racionalista-cartesiana uma preformada concepção neoplatônica de Deus. Malebranche e Leibniz encontram. próprios daquela filosofia. a saber. a saber: a relação entre substância finita de um lado. o cartesianismo forjou a mentalidade (racionalista-matemática) dos maiores filósofos até Kant. a divina. diretamente até Kant e indiretamente até Hegel. desenvolvendo o conceito de substância cartesiana. idealista. Descartes teve numerosos adversários e críticos no campo filosófico. uma forma . Brás Pascal. pois. À razão matemática. pelo que há uma só verdadeira e própria substância. Entretanto. sobre a poética de Boileau.124 filosófica tomará uma forma teocrático-católica. Campanella viveu longamente na prisão. entre os quais Hobbes. E exerceu tal influência não tanto como sistema metafísico.esprit de finesse . extrema conclusão por Spinoza. com o papa à frente.que leva até o cristianismo. no entanto. E. Daí surgiram o ontologismo e o ocasionalismo de Malebranche. do que como chefe de uma religião positiva e sobrenatural. E também propôs os grandes problemas em torno dos quais girou a especulação desses filósofos. em que falta a experiência de uma vida social-concreta. grande físico e matemático. jansenista). o papa é concebido mais como chefe concreto de uma religião natural. Ladeia estes três pensadores uma turma numerosa de cartesianos mais ou menos ortodoxos. utópica. uma concepção panteísta-emanatista. Une os dois na mesma substância segundo um paralelismo psicofísico. a ética de La Bruyère. em parte. porém (se bem que. científica . manifestam uma mentalidade fantástica. e entre espírito e matéria do outro. pelo método racionalista. implícito nas premissas do sistema e realizado apenas parcialmente pelo filósofo. Os dois centros principais desse sincretismo são representados pelo Jansenismo e pelo Oratório. das relações entre o espírito e a matéria é resolvido por Spinoza. lógica. escritas no cárcere. mais ou menos ortodoxos. limitações ao desenvolvimento lógico e despreocupado do racionalismo. as oposições maiores contra o cartesianismo surgiram evidentemente no ambiente eclesiástico e político. parece ter tido intuição da falha da filosofia cartesiana. Baruch Spinoza Considerações Gerais O pensamento de Descartes exercerá uma influência vasta no mundo cultural francês e europeu. O problema. como o cristianismo. atribuídas depois a Descartes e Bacon". ao contrário. Descartes teve seguidores também em determinados meios religiosos de orientação platônicoagostiniana.

depois de se manifestar o seu racionalismo e tendo ele recusado qualquer retratação. Recebeu uma educação hebraica na academia israelita de Amsterdam. como solucionadora última do problema da vida. Uma tuberculose enfraquecera seu corpo. como aparece pela . emigrados para a Holanda. mas a sua herança mal chegou para pagar as despesas do funeral e as poucas dívidas contraídas durante a enfermidade. arte que aprendera durante a sua formação rabínica. sem riqueza. intelectualmente. preparando lentes ópticas para microscópios e telescópios.de chegar até às extremas conseqüências e conclusões racionalista-monista. O Pensamento: Deus A teologia de Spinoza é contida. cronologicamente. lógico-geométrico. de modesta condição social.em especial Malebranche . foi iniciado na filosofia hebraica (medieval-neoplatônico-panteísta) e destinado a ser rabino. primeiro. naturalmente filtrado através da crítica kantiana. Spinoza reitrou-se. Para não comprometer a sua independência especulativa e a sua paz. médico e livre pensador. As obras filosóficas principais de Spinoza são: a Ethica (publicada postumamente em Amsterdam em 1677). pois não têm a ousadia . nas línguas clássicas. Deixou uma notável biblioteca filosófica. cujo conteúdo monista. em 1677. Por exemplo. com base especialmente nas Sagradas Escrituras. que lhe propusera Carlos Ludovico. se acha também isolado religiosamente. entretanto. sem pátria. Goethe. por parte deles. detidos por motivos práticos-religiosos e morais. no primeiro livro da Ethica (De Deo). eleitor palatino. na cultura da Renascença. em seguida para perto de Leida e enfim refugiou-se em Haia. em Haia. estão antes dele.125 de pampsiquismo. recusou uma pensão oferecida pelo "grande Condé" e uma cátedra universitária em Heidelberg. em parte deriva da tradição neoplatônica. Os demais racionalistas de maior envergadura da corrente cartesiana se seguem. para os arredores de Amsterdam. etc. filho de hebreus portugueses. Em geral. que não se encontram em Spinoza. A princípio desconhecido e atacado. Mas. através do conhecimento e da contemplação filosófica da realidade. Vida e Obras Baruch Spinoza nasceu em Amsterdam em 1632. sem saúde. Provia pois às suas limitadas necessidades materiais. Além destes fatos exteriores. Demonstrando muita inteligência. Com isto não se excluem. logicamente. e nos meios religiosos holandeses aprendeu um cristianismo sem dogmas. Hegel. foi excomungado pela Sinagoga em 1656. em parte do próprio Descartes. exigidas pelas premissas cartesianas. proporcionando ao idealismo o elemento metafísico monista. o pensamento de Spinoza acabou por interessar e influenciar particularmente a cultura moderna depois de Kant (Lessing. substancialmente. Van den Ende iniciou-o no pensamento cartesiano. sem família.). não se excluem os desenvolvimentos idealistas do fenomenismo racionalista por parte de Leibniz. ao mesmo tempo. depois de Spinoza. desenvolvimentos em outro sentido. de filosofia. pode-se dizer que Descartes fornece a Spinoza o elemento arquitetônico. para a construção do seu sistema. Um traço característico e fundamental do caráter de Spinoza é a sua concepção prática. logicamente. geometricamente toda a realidade. Spinoza faleceu aos quarenta e quatro anos de idade. que contém a sua filosofia religiosa e política. Schleiermacher. Aos vinte e cinco anos de idade esse filósofo. moral. e também aceitando alguma ajuda do pequeno grupo de amigos e discípulos. Após alguns meses de cama. o Tractatus theologivo-politicus (publicado anônimo em Hamburgo em 1670). as relações travadas com alguns meios cristãoprotestantes. a sua firme convicção de que a solução desse problema não é possível senão teoreticamente. Schelling. Spinoza quereria deduzir de Deus racionalmente. E. Os outros acontecimentos mais notáveis na formação espiritual especulativa de Spinoza são: o contacto com Francisco van den Ende. nada encontramos de notável exteriormente na breve vida de Spinoza. de conteúdo essencialmente moralista. Também as autoridades protestantes o desterraram como blasfemador contra a Sagrada Escritura. inteiramente dedicada à meditação filosófica e à redação de suas obras. que constitui precisamente o seu sistema filosófico.

dada a universal correspondência spinoziana entre teorético e prático. A assim chamada alma nada mais é que um conjunto de modos derivados.cujo objeto é Deus . como cada alma tem um corpo. quer primitivos quer derivados. Das limitações do conhecimento sensível decorrem o sofrimento e a paixão.como dizia também Descartes . na sua unidade racional. melhor. A ordem oferecida pelo conhecimento racional particular nada mais é que a substância divina. isto é. o conhecimento racional em dois graus: conhecimento racional universal e conhecimento racional particular. está fora do tempo e se desdobra em número infinito de perfeições ou atributos infinitos. cada uma tendo um grau sensível e um grau racional. o intelecto e a vontade. Descartes diminuiu estas substâncias. tudo é necessitado. sustenta Spinoza que é ele inteiramente subjetivo: no sentido de que o conhecimento sensível não representa a natureza da coisa conhecida. do atributo pensamento da substância única. isto é. Não é preciso repetir que. Desses atributos. Da natura naturans (Deus) procede o mundo das coisas. e Spinoza chama-os natura naturata (o mundo). este corpo constituiria o conteúdo fundamental do conhecimento da alma.própria estrutura exterior da Ethica ordine geometrico demonstrata. Mesmo negando a alma e as suas faculdades. por sua vez. mas oferece uma representação em que são fundidas as qualidades do objeto conhecido e do sujeito que conhece e dispõe tais representações numa ordem fragmentária. regem naturalmente todo o mundo dos modos. . E desse conhecimento racional intuitivo. A respeito do conhecimento sensível (imaginatio). mesmo que a alma e o corpo não possam agir mutuamente uma sobre o outro. As leis do paralelismo psicofísico. pois. mas nela unificadas e correspondentes. corresponde um estado ou mudança do corpo. e no monismo spinoziano descem à condição de simples atributos da substância única. abrange ela. a saber: a cada modo de ser e de operar na extensão corresponde um modo de ser e de operar do pensamento. Os modos primitivos representam as determinações mais imediatas e universais dos atributos e são eternos e infinitos: por exemplo. do atributo extensão da mesma substância. em que. os modos. Pensamento e extensão são expressões diversas e irredutíveis da substância absoluta. O Homem Do primeiro livro da Ethica . o intelecto humano conhece dois apenas: o espírito e a matéria. é resolvido num complexo de fenômenos psicofísicos. o intellectus infinitus é um modo primitivo do atributo do pensamento. no segundo livro (De mente). ou. derivam necessariamente a felicidade e virtude supremas. a cogitatio e a extensio. Como tudo é necessário na natura naturans. para Spinoza. E igualmente necessário é o liame que une entre si natura naturans e natura naturata. A substância e os atributos constituem a natura naturans. E. a matéria e o espírito. Spinoza reconhece várias atividades psíquicas: atividade teorética e atividade prática. o espírito humano. graças à doutrina spinoziana do paralelismo psicofísico. assim tudo também é necessário na natura naturata. Não nos esqueçamos de que o Deus spinoziano é a substância única e a causa única. O homem. Nenhuma ação é possível entre a alma e o corpo . A substância divina é eterna e infinita: quer dizer. alma e corpo. mas se manifesta necessariamente no mundo. os atributos infinitos e os infinitos modos que a determinam. A lei suprema da realidade única e universal de Spinoza é a necessidade. Eles são modificações dos atributos. igualmente o corpo nada mais é que um complexo de modos derivados. como já se viu. A cada estado ou mudança da 126 alma. elementares. Deus não somente é racionalmente necessitado na sua vida interior. Spinoza distingue. estamos em cheio no panteísmo. elementares. o homem não é uma substância. Os modos distinguem-se em primitivos e derivados. corpo e alma. místico.Spinoza passa a considerar. Cada corpo tem uma alma. entretanto.e como Spinoza sustenta até o fundo. irracional e incompleta. e o motus infinitus é um modo primitivo do atributo extensão. o homem integral. que governam o mundo dos atributos.

são paixões irracionais. Este amor do homem para com Deus. como que limitados ao conhecimento e à vida sensíveis. entretanto. os homens não cessam de ser. Spinoza dedica ao problema moral e à sua solução os livros III. Elas. as superfícies. pelo qual prometem renunciar a toda violência. amará necessariamente a Deus. sed intelligere. mas no sentido de que o homem é idêntico panteisticamente a Deus. isto é. logo. e sim da natureza particular de que somos dotados. em virtude da qual o mecanismo das paixões humanas é necessário como o mecanismo físicomatemático. pelo que o homem considera as coisas finitas como absolutas e. o amor de Deus para consigo mesmo (por causa precisamente do panteísmo). é retribuído por Deus ao homem. Considera ele o estado e a igreja como meios irracionais para o advento da racionalidade. isto é. causa da sua felicidade e poder. que pertencem à substância divina. em uma luta de todos contra todos.em vista das penas ou dos prêmios temporais e eternos.o sábio. é favorecida pela concepção universalmente determinista da realidade. devemos dizer que é excluída naturalmente por Spinoza como sobrevivência pessoal porquanto pessoa e memória pertencem à imaginação. neque detestari. entretanto. O sábio realiza a felicidade e a virtude simultânea e juntamente com o conhecimento racional. No entanto. o sábio vive já na eternidade. assim se exprime Spinoza energicamente no proêmio ao II livro da Ethica. Depois de nos ter oferecido um sistema do mecanismo das paixões no IV livro da Ethica. a condição do sábio. aí chegado. antes da organização política. IV e V da Ethica. Spinoza esclarece. No estado de natureza. que. Chegado ao conhecimento e à vida racionais. E. em especial. Tal amor intelectual de Deus é precisamente o júbilo unido com a causa racional que o produz. libertado da escravidão das paixões e da ignorância. auxiliando-se mutuamente. do conhecimento racional intuitivo . A imortalidade. De sorte que imortais. não poderá ser entendida senão como a eternidade das idéias verdadeiras. não é um amor como o que existe entre duas pessoas. cientificamente. ameaçados ou prometidos pelo estado e pela igreja. Tal atitude rigidamente científica. dependem do temor e da esperança. É o próprio egoísmo que impede os homens a se unirem. Essa escravidão depende do erro do conhecimento sensível. A respeito da imortalidade da alma. em definitivo.ou não feitas . é claro que o conhecimento. no sentido de que tem conhecimento eterno do eterno. este conhecimento racional não depende. no sistema spinoziano. servem para a tranquilidade do sábio e para o treinamento do homem vulgar. não basta o pacto apenas: precisa o homem do arrimo da força para sustentar-se. Então a libertação das paixões dependerá do conhecimento racional. ou eternas. pois. mais ou . considera as paixões teoricamente. De fato. as figuras geométricas. Visto que a felicidade depende da ciência. As ações feitas . A Moral Como é sabido. o amor dos homens para com Deus é idêntico ao amor de Deus para com os homens. do nosso livre-arbítrio. entretanto. ao passo que às almas e aos pensamentos dos homens vulgares. No livro III faz ele uma história natural das paixões.127 Visto o paralelismo psicofísico de Spinoza. é destinado o quase total aniquilamento no sistema racional da substância divina. não é constituído pela relação de adequação entre a mente e a coisa. em choque entre si e com ele. e as paixões podem ser tratadas com a mesma serena indiferença que as linhas. por conseguinte. serão as almas ou os pensamentos dos sábios. a se acordarem entre si numa espécie de pacto social. mesmo depois do pacto social. verdadeiro.que é. segundo Spinoza. os homens se encontravam em uma guerra perpétua. em Spinoza. ou pela máxima parte imortais. mas pela relação de adequação da mens do sujeito que conhece a mens do objeto conhecido. A Política e a Religião Spinoza tratou particularmente do problema político e religioso no Tractatus theologico-politicus. pois a personalidade é excluída da metafísica spinoziana. Spinoza esclarece precisamente e particularmente a escravidão do homem sujeito às paixões. o conhecimento das coisas em Deus . No V e último livro da Ethica. non lugere. então. e não moralisticamente. Deus. que é. O filósofo deve humanas actiones non ridere.

representaria sensivelmente. portanto. pondo obstáculos ao desenvolvimento racional da sociedade. casou-se (dentre várias damas) com a filha de Dario. Sócrates foi executado. tais verdades podem aproveitar ao bem desse último. segundo Spinoza. violariam. pois o conhecimento filosófico de Deus decairia em uma revelação mítica. revelada. porque o escopo dos dogmas é essencialmente prático a saber: induzir à submissão a Deus e ao amor ao próximo. o soberano podem fazer tudo o que querem: para isso têm o poder e.128 menos. A morte de Alexandre (323 a. do qual os súditos saíram. a não ser uma força superior. E quando Felipe da Macedônia derrotou os atenienses em Queronéia em 388 a. é racional. Portanto. a religião. na onda de seus exércitos vitoriosos.C.C. e a massa e a profundidade da cultura oriental. se o estado se mantivesse na violência e irracionalidade primitivas. revelada. mas é a forma que seria absolutamente irracional. e se acham eles ainda no estado de pura natureza. a religião positiva. o governo. nem se deveria procurar neles sentidos metafísicos arcanos. que deveria derivar do conhecimento racional com a mesma necessidade pela qual a luz emana do sol. Entretanto. Spinoza deduz do estado naturalista o estado racional. Mas ele subestimara a inércia e a resistência da mentalidade oriental. a saber. portanto. porém. O desenvolvimento do comércio grego e a multiplicação dos postos de comercialização gregos por toda a Ásia Menor haviam proporcionado uma base econômica para a unificação daquela região como parte de um império helênico. ainda que continuasse bárbaro depois de toda educação recebida de Aristóteles. o direito. as verdades racionais. O conteúdo da religião positiva. Seu fim supremo é conhecer a Deus por meio da razão e agir de conformidade. foi conquistado pela alma do Oriente. que representaria um sucedâneo da filosofia para o vulgo. Quando.rebelarse-ão necessariamente contra ele. decairia no mandamento divino heterônomo. filosóficas acerca de Deus e do homem. e por fim assombrou uma Grécia cética ao . de um modo apto para a mentalidade popular. Nem há quem possa opor-se a eles. assim. E. logo. introduziu na Europa a idéia oriental do divino direito dos reis. o estado. e o estado cairá fatalmente. supor que uma civilização tão imatura e instável quanto a da Grécia pudesse ser imposta a uma civilização incomensuravelmente mais dufundida e enraizada nas mais veneráveis tradições. O próprio Alexandre.. adotou o diadema e o manto de gala persas. O estado. sem mais. e Alexandre tinha a esperança de que. a supremacia política saiu das mãos da mãe da filosofia e da arte gregas. mais poderosos do que ele . irracionais e. porquanto não é o fim supremo do homem. não é dominador supremo. afinal. quando encarnadas nos dogmas. o pacto. e Alexandre incendiou a grande cidade de Tebas por completo três anos depois. nem mesmo o fato de a casa de Píndaro ter sido ostensivamente poupada conseguiu encobrir a realidade de que a independência ateniense. O menino-imperador. tanto o pensamento grego como os produtos gregos fossem irradiar-se e conquistar o mundo.quando mais racionais e. Faltando-lhe a força. porquanto o direito sem a força não tem eficácia. De Aristóteles à Renascença Quando Esparta bloqueou e derrotou Atenas em fins do século V a.. Por conseguinte. faltar-lhe-á também o direito. na unificação final de tudo e de todos em Deus. e o vigor e a independência da inteligência ateniense decaíram.C. quando lhes fosse cômodo e tivessem a força. a alma de Atenas morreu com ele. dando-lhe a incumbência e o modo de proteger os direitos de cada um. a partir daqueles movimentados postos. no que se referia a governo e pensamento. havia aprendido a reverenciar a rica cultura da Grécia e sonhara em divulgar essa cultura pelo Oriente. na hora de seu triunfo. o que vale nos dogmas não seria a sua formulação exterior. e sim o conteúdo moral.) acelerou esse processo de decadência. em 399 a. E de suas ruínas deverá surgir um estado mais conforme à razão. estava destruída de maneira irrevogável. O domínio da filosofia grega pelo macedônio Aristóteles refletia a sujeição política da Grécia pelos povos viris e mais jovens do norte.C. a ação racional. O papel do estado é auxiliar na consecução racional de Deus. de sorte que será a razão a norma suprema da vida humana. Não passava de um sonho juvenil. Só então o estado e verdadeiramente constituído. O outro grande instituto irracional a serviço da racionalidade é. simbolicamente. A quantidade da Ásia mostrou-se demasiada para a qualidade da Grécia. sobrevivendo apenas em seu orgulhoso discípulo. Platão. os súditos . Então os componentes devem confiar a um poder central a força de que dispõem.

levaram de volta para Roma essas filosofias. ao contrário. à qual. e.129 anunciar. e quando a glória havia partido de Atenas. No entanto. disse o estóico romano Sêneca (m..C. então. Os romanos. mesmo que você possua o mundo. seja em Marco Aurélio. Mas quando a Grécia havia visto Queronéia em sangue e Tebas em cinzas.. ela estava no ponto para Zenon e Epicuro. que a apatia é impossível. juntamente com outros produtos do seu saque. Um princípio desses bradava aos céus pelo seu oposto. e Alexandre bebeu até morrer. mas baixar nossos desejos ao nível de nossas realizações.é a única finalidade concebível. não é epicurista. Essa sultil infusão de uma alma asiática no corpo fatigado do senhor dos gregos foi seguida rapidamente da abundante entrada de cultos e fés orientais na Grécia. Seu ponto de partida é uma convicção de . Demócrito. Quando Zenon. previne contra os prazeres que excitem e disturbem a alma. a cometer aquela falta. A introdução da filosofia estóica em Atenas. mas selecioná-los. sem terem tempo nem sutileza para especulações. com a calma de um sábio. os diques rompidos deixaram o oceano do pensamento ocidental inundar as terras baixas da ainda adolescente mente européia. passou a ouvir Diógenes. ou em Epíteto. ele. o imperador. e até Lucrécio difundia estoicamente o epicurismo (como instalou sua escola. Zenon ergueu sua filosofia da apatheia sobre um determinismo que um estóico posterior. 65 d. deve ser desdenhada. forneceu-o. tendem a estados de espírito estóicos: é difícil ser senhor ou servo se a pessoa for sensível.C. segundo a filosofia de seu senhor. foi apenas uma das inúmeras infiltrações orientais. uma escola. aos quais ensinava enquanto andava e trabalhava. ele exalta os prazeres do intelecto. e perfeitamente legítima. os símbolos de uma Revolução despedaçada e uma França quebrada. da vida e da atividade. todos os quais oscilam à beira da "apatia" de Zenon. No fim. e vemos os discípulos de Sócrates dividindo-se em cínicos e cirenaicos sob a chefia de Antístenes e Aristipo e exaltando.. mais do que os dos sentidos. embora subjugado ou escravizado. embora tão estóico em vida quanto Zenon.. O segredo da paz não é tornar nossas realizações iguais aos nossos desejos. pelas mesmas linhas de comunicação que o jovem conquistador havia aberto. mas a ataraxia . que ele mesmo cultivava. Tanto o estoicismo como o epicurismo . num magnífico estilo oriental. e Epicuro. que ele era um deus. a felicidade. Afirmava que nada havia de mais nobre do que uma pessoa dedicar-se à filosofia". ele tinha sido destinado." Epicuro. tanto quanto os escravos inevitáveis. achou difícil distinguir do fatalismo oriental. ao que Zenon replicou. equanimidade.eram teorias sobre como o indivíduo ainda poderia ser feliz.). encontraram essas escolas rivais dividindo o campo filosófico. e que o prazer . e o espírito oriental de apatia e resignação encontrou um solo pronto na Grécia decadente e abatida. Os grandes organizadores. então. o escravo alegou como atenuante que.tranqülidade. por toda a aternidade. ainda irá sentirse infeliz"..embora não necessariamente o prazer sensual . no século XIX. As crenças místicas e supersticiosas que haviam adquirido raízes entre os povos mais pobres de Hélade foram reforçadas e divulgadas. Crisipo. o escravo. até mesmo o estóico sente um prazer sutil na renúncia. de acordo com a mesma filosofia. pelo mercador fenício Zenon (cerca de 310 a. da escola de Zenon. Foi lá que "Se o que você possui lhe parece insuficiente. Por isso. a apatia. a paz do espírito. Epicuro. Zenon. Se a vitória for inteiramente impossível.) Era delicado e afável para com todos os homens. que.C. os estóicos alegavam que a indiferença filosófica era a única atitude razoável para com uma vida na qual a luta pela existência está tão injustamente condenada a uma derrota inevitável. "A natureza faz com que cada organismo prefira o seu próprio bem a qualquer outro". quando foram saquear Heléia em 146 a.). A Grécia caiu na gargalhada. propõe que se procure não o prazer no seu sentido usual. Assim como Schopenhauer achava inútil a vontade individual lutar contra a vontade universal. diz Fenelon. mesmo naquela época tratava-se de modos quase exóticos de pensamento: a Atenas imperial não aderiu a eles. em sua maioria. e a outra. Não que essas antíteses naturais da teoria ética fossem de todo novas para a Grécia. deveriam acalmar e tranqülizar.a apática aceitação da derrota e o esforço para esquecer a derrota nos braços do prazer . a filosofia que Roma adotava era. estava batendo num escravo seu por causa de algum delito. precisamente como o pessimista estoicismo oriental de Schopenhauer e o desalentado epicurismo de Renan foram. e ali vivia uma vida tranqüila e agradável com seus discípulos. "Não devemos evitar os prazeres. que não acreditava na escravidão. Nós a encontramos no sombrio Heráclito e no "filósofo que ri". tinha sido destinado a bater nele por causa dela.(. "comprou um belo jardim.

) Mais e mais monstros (. morrem: "algumas nações prosperam. como corredores. Aqui."encarar todas as coisas com serenidade de espírito"." Não há dúvida de que é possível assim. outros mais sem olhos.) desse tipo a Terra tentou produzir. e a lei das leis é a da evolução e da dissolução em toda parte Coisa alguma perdura. Segundo consta o senhor de Epíteto. ditar o futuro e fingir que dominamos . como os indivíduos. Alma e mente desenvolvem-se com o corpo.) e muitas raças de coisas vivas devem ter se extinguido. eles não podiam alcançar a cobiçada flor da idade.) alguns sem pés. Também as nações. divertindo-se melancolicamente). nem ser unidos em casamento. certo dia Muitos monstros também a Terra de antigamente tentou produzir. as coisas crescem assim.. mas em vão. outros mares irão. Sobre a Natureza das Coisas. e até os sistemas e seus sóis Irão voltar lentamente à eterna deriva. e que não existem deuses. até que a natureza extinguisse a sua espécia. ele viveu em meio a torverlinhos e alarmes. ele opõe um materialismo implacável. Aos poucos Elas se dissolvem e já não são mais as coisas que conhecemos. como aquelas também tu Irás. espaço e lei... Ao crescente culto do céu e do inferno entre o povo de Roma.teus impérios. ficado impossibilitadas de procriar e continuar e continuar a linhagem. Nada. toda a velha alegria pagã de viver desapareceu. Teus mares. por sua vez.. exceto aqui. a cada hora. crescem lentamente e. Vejo os sóis. Nós o imaginamos como uma alma tímida cuja juventude havia sido obscurecida por temores religiosos. imaginem o inebriante otimismo de estóicos declarados como Aurélio ou Epíteto. e concluiu sua vigorosa pregação do prazer cometendo suicídio. mas prefira que elas aconteçam como têm de acontecer. evidentemente.. Cortar com suas alvas foices outras baías. Desaparecem. e um espírito quase exótico toca uma lira quebrada. cresem com o seu crescimento. Sua nobre epopéia. a astúcia. de todas as galáxias. Estás indo. Fragmento se agarra a fragmento. Até que ficamos conhecendo-as e lhes damos nomes. ó Terra . Porque no caso de todas as coisas que vós vedes respirando o sopro da vida. e assim viverá com prosperidade. alguns sem mãos. exceto deuses cavalheirescos. passam adiante a lâmpada da vida". a menos que se trate das Meditações do imperador. e morrem com a sua morte. como aquelas. (. com toda certeza. com tuas estrelas. outros sem bocas. que o tratava com uma crueldade inalterável. E se for esse o espírito do adepto de Epicuro. não há sabedoria a não ser a ataraxia . "Não procure fazer com que as coisas o universo.) Aqueles aos quais a natureza não concedeu nenhuma dessas qualidades ficavam expostos para servirem de vítima e presa de outros. que vivem em um jardim de Epicuro nas nuvens e nunca se intrometem nos negócios dos homens. porque a natureza proibiu o aumento do número deles. sua pena nervosa está eternamente compondo orações à tranqülidade e à paz. (.. porque ele nunca se cansa de dizer a seus leitores que não existe inferno. aquelas areias lunares abandonam seu lugar. (. Quase contemporâneo de César e Pompéia. caindo devagar ou depressa. A história. aconteçam segundo a sua preferência. coisas de estranhas caras e membros.130 o inglês de Heine... em suave neblina. Englobados por átomos. E onde estão. Englobada da deriva como aquelas.. terras e mares A menor. Nada existe a não ser átomos. Tu também. (. nunca foi tão brincalhona como quando deu a esse abstêmio e épico pessimista o nome de epicurista. vejo os sistemas erguerem Suas formas. Nada perdura. acrescentem a origem e a eliminação das espécies. e em pouco tempo as raças das coisas vivas são alteradas e. mas todas as coisas fluem. em toda a literatura. acompanha Epicuro em condenar o prazer ao elogiá-lo sem entusiasmo. sofrem com seus sofrimentos. é tão deprimente quanto as Dissertações do escravo. que nada é a não ser humorista. À evolução e à dissolução astronômicas. a coragem ou a velocidade vêm desde o início protegendo e preservando cada raça. outras decaem.. Diante da guerra e da morte inevitável. nem procurar comida.

de fato. aumentou ficarão limitados. disse Epíteto com calma. chegava barato do Egito. o império se transformou em papado. "Eu não lhe disse". observadores pacientes. a transformação de Aristóteles em um teólogo medieval. o solo voltou a florescer. e sim. O resultado foi a sutileza. Enquanto isso. através de Tomás de Aquino e outros. Dessas Dissertações e das Meditações de Aurélio há apenas um passo para A Imitação de Cristo. A Igreja. admiráveis pela delicadeza do fio e do trabalho. O despertar começou com Roger Bacon (m. 'perdi isso assim. aventuraram-se para além dos confins do dogma e conquistaram a ignorância do homem quanto ao céu. 1294). na riqueza e no raio de influência. No século XIII. Era dentro dessa concha que a filosofia escolástica se deslocava acanhadamente entre fé e razão e vice-versa." O senhor continuou. a imprensa. O papel. e seus cofres estavam inchados com donativos de ricos e pobres. toda a cristandade ficou assustada e estimulada por traduções árabes e judaicas de Aristóteles. o ambiente histórico derretia-se para formar cenas mais novas.modo. o poder e o orgulho em decadência e apatia. mas não a sabedoria. mas o poder da Igreja ainda era suficiente para garantir. uma organização tão difundida e tão pacífica. não eram a ética cristã da abnegação. Perdeste os teus bens? Também não foram restituídos?" Em trechos assim. armados de telescópios. por via indireta. a alquimia foi transformada em química. a maior parte dos povos de um continente. homens deixaram de disputar e começaram a investigar. de qualquer sentimos a proximidade do cristianismo e seus intrépidos mártires. em número. estourou como um explosivo libertado e espalhou sua influência destruidora e esclarecedora por toda parte. o intelecto da Europa iria irromper de dentro dessa concha. as estradas ficaram sem manutenção e já não ecoavam a agitação do comércio. nunca houve. "Se continuar". e. mas se trabalharem consigo mesmo. "A inteligência e a mentalidade do homem". Tua filha morreu? Foi restituída. as pequenas famílias dos romanos de instrução eram ultrapassadas. aventuraram-se na imensidão dos mares e conquistaram a ignorância do homem a respeito da Terra. agora. Mas essa unidade exigia. a riqueza de Roma transformou-se em pobreza. assim'. e o comércio em suas encruzilhadas voltou a construir grandes cidades nas quais os homens podiam cooperar para estimular a cultura e reconstruir a civilização. decidiu torcer-lhe a perna para passar o tempo. No século XIII. num desconcertante circuito de pressupostos não criticados e conclusões pré-ordenadas. definitivo e definido. Aqui e ali. Bravos navegantes. uma fé comum exaltada por sanções sobrenaturais acima das mudanças e das corrosões do tempo. o ideal político cristão de uma fraternidade quase comunista do homem. ela uniu. serão intermináveis e produzirão realmente teias de saber. As Cruzadas abriram os caminhos para o Oriente e permitiram a entrada de uma torrente de artigos de luxo e heresias que condenaram à morte e ascetismo e o dogma. portanto. apoiada nos primeiros séculos pelos imperadores cujos poderes ela absorveu aos poucos. "vai quebrar a minha perna. já possuía um terço do solo da Europa. a fronteira. fragmentos da doutrina estóica flutuando na corrente do pensamento? Em Epíteto. a organização em desintegração. o dogma. 'eu restituí tal coisa'. como disse Bacon. armados agora de bússolas. e das fábulas dos animais que falavam veio a ciência da zoologia. Há um notável trecho em Lucrécio que descreve a decadência da agricultura no Estado romano e a atribui à exaustão do solo. os bens se multiplicaram. como na tranqülia coragem de um pacifista dostoievskiano. pelos vigorosos alemães sem instrução que cruzavam. ano após ano. substituindo o caro pergaminho que tornara o saber um monopólio dos sacerdotes. "se trabalharem com a matéria. os homens foram tateando com tímida ousadia para a astronomia." Mais cedo ou . mosteiros e retiros escondidos. "Nunca diga. "que o senhor iria quebrar minha perna?" No entanto. que durante muito tempo esperava por um meio barato. foi colocado como uma concha sobre a mentalidade adolescente da Europa medieval. a cultura pagã cedeu aos cultos orientais. com a magia de uma crença invariável. graças aos esforços no sentido de transformar metais inferiores em ouro. criando excedentes que levaram ao comércio. quase que imperceptivelmente. e a perna se quebrou. mas sem substância ou proveito. Seja qual for a causa. teve um aumento rápido no número de adeptos. Cidades voltaram a fundir-se com o interior sem distinção. e a escatologia cristã da conflagração final do mundo inteiro. Durante mil anos. Depois de mil anos de cultivo. Tua mulher morreu? Foi restituída. em universidades. Seu livro teve a distinção de ser adotado como manual religioso pela primitiva Igrja Cristã. da astrologia. há uma certa nobilidade mística nessa filosofia. observou Epíteto mansamente. a alma greco-romana perdeu o seu paganismo e está pronta para uma nova fé. como pensava a Igreja. trabalham segundo a substância desta e por ela 131 mais tarde. antes ou depois.

Toda finalidade desaparece e a natureza é reduzida a um mecanicismo inteiramente transparente para a linguagem matemática. uma alma sintética para resumir o seu espírito e decidir. O homem é livre. que tocou a sineta que reuniu as inteligências" e anunciou que a Europa havia atingido a maioridade. o inventor da geometria analítica) constituem incontestável contribuição científica. Descartes pode eliminar as noções aristotélicas e medievais de forma. em virtude da vontade do criador. "a mais poderosa inteligência dos tempos modernos. dessa liberdade que é antes um estado de libertação do que uma decisão pura. Mesland. pode dizer sim ou não às ordens de Deus. é um objeto criado. os homens pensavam menos em adorar o desconhecido. o poder de recusar a Verdade e o Bem até mesmo na presença da evidência que se manifesta. Todo dinamismo pertence ao criador. e. para Descartes. já o vimos. As leis da natureza só são o que são a cada momento. O livre-arbítrio humano e a independência da ciência. era uma era que esperava por uma voz. O entendimento concebe a verdade e é a vontade que dá as costas a ou afirma essa verdade. alma. 1. Deus Foi "inteiramente indiferente ao criar as coisas que criou". assim. não possui dinamismo próprio. Deus propõe e o homem. e de Harvey (1578-1657) sobre a circulação do sangue. sua física (dada. Meu livre-arbítrio me faz merecedor ou culpado. de 2 de maio de 1644 e 9 de fevereiro de 1645. ato e potência. por intermédio de seu livre-arbítrio. A natureza nada tem de divino. Não se submeteu a nenhuma verdade prévia. Se sua ótica e suas considerações sobre a expressão algébrica das curvas (ele é. é a felicidade da nossa era. mais como uma possibilidade . criou as verdades. como os corpos celestes. segundo Descartes. Descartes afirma radicalmente o livre-arbítrio.°  O homem não é uma parte de Deus. ao mesmo tempo. o Deus criador transcende radicalmente a natureza. juntamente com Fermat. a) A natureza. plus ultra" (mais além) "onde os antigos usavam non plus ultra. É certo que. O homem. "O fato de pequenos navios. alcançou sua plenitude na astronomia de Copérnico (14731543) e Galileu (1564-1642). navegarem à volta do mundo inteiro. À medida que aumentava o conhecimento. de Vesálio (1514-1564) em anatomia. para o que o homem poderia fazer. O tempo é descontínuo e a natureza não tem nenhum poder próprio. Descartes fala da liberdade esclarecida. esperança e vigor. mas não o compreendo). aliás. Em virtude do poder de seu livre-arbítrio. dispõe. Foi Francis Bacon. de novos começos e empreendimentos em todos os campos. agora.132 com o ilimitado Leonardo (1452-1519).°  Do mesmo modo. sou eu que peco. por conseguinte. É importante compreender que essa transcendência radical de Deus possui duas conseqüências fundamentais. Deus não é o culpado dos meus erros nem dos meus pecados. simples criatura ultrapassada por seu criador (concebo Deus porque descubro em mim a marca de sua infinitude. na Quarta Meditação. Deus criou o mundo instante por instante (é a "criação contínua"). a transcendência de Deus vai tornar possível uma ciência puramente racional e mecanicista da natureza. dessa liberdade que não pode tratar da verdade ou do bem. Mas nos Princípios e sobretudo nas cartas ao Pe. 2. Isto consiste. barreiras foram derrubadas. não havia limites. Acrescentemos que. situada além de todas as razões. Na medida em que a natureza é despojada de toda profundidade metafísica. situado no mesmo plano da inteligência humana. com toda justiça. nas pesquisas de Gilbert (1544-1603) sobre magnetismo e eletricidade. Eis por que Deus quer que a soma dos ângulos de um triângulo seja igual a dois ângulos retos. A transcendência do criador afasta qualquer panteísmo. Todo espírito vital foi estimulado por uma nova confiança. uma autonomia que será perdida no sistema panteísta de Spinoza. b) Nem tudo tem o mesmo valor na obra científica de Descartes. Esses textos esclarecem a teoria do juízo presente na Quarta meditação. diminuía o medo." Foi uma era de realizações. recebo. inteiramente entregue à sua exploração. e mais em dominá-lo. Sou eu que me engano. Desse modo. na rejeição de todo naturalismo pagão (a natureza não é uma deusa) e na fundamentação metafísica do racionalismo científico. a Ciência e o Livre-arbítrio Para Descartes. René Descartes Deus. Esta época pode usar.

Influências estóicas. também deve estudar lógica. a medicina desempenha importante papel. Primeiramente. o ponto de aplicação da alma ao corpo é a glândula pineal. E Ele. Descartes adota uma moral provisória  pois a ação não pode esperar que a filosofia cartesiana engendre uma nova moral! Recordemos seus três preceitos: a) Submeter-se aos usos e costumes de seu país. epicuristas e cristãs estão presentes nela. Mas a direção tomada é a ciência moderna. antes de tudo. ele coloca. ao invés de ficar fazendo voltas. enquanto espírito. as ligações harmoniosas entre os espíritos animais e os pensamentos humanos são altamente desejáveis. a afetividade em sentido amplo. nessa técnica. a do corpo é ser um objeto no espaço. Isso porque ele se coloca do ponto de vista da felicidade. (Para Descartes. O bom funcionamento do corpo. e em parte no sentimento de uma firme e constante resolução de bem usá-la. tudo o que o corpo determina na alma. que nada tem de asceta. Para Descartes. isto é. ou quando se ocupa do composto humano.°  No Discurso dobre o Método. devemos seguir para que nos instruamos. adota uma direção qualquer e nela se mantém! (O cartesianismo. O Problema do Homem: a Moral 1. a epífise. b) Se considerarmos o homem enquanto espírito unido a um corpo. porque isso não deve ser adiado e porque devemos sobretudo procurar viver bem.. o mundo físico não possui mistérios. isto é. o homem que ainda só possui conhecimento vulgar e imperfeito. à semelhança do viajante perdido na floresta que. alma e corpo: a essência da alma é pensar. Após isso. para Descartes. não a da Escola  pois ela nada mais é do que uma dialética que ensina os meios para fazer . "A verdadeira generosidade que faz com que um homem se estime. na consciência de que nada lhe pertence verdadeiramente. em princípio. Mas o espírito dessa física e da fisiologia cartesiana  que não passa de um capítulo da física  nada mais é do que o espírito do mecanicismo. no ponto máximo em que ele pode legitimamente estimar-se.. antes de ser uma filosofia da inteligência. A moral surge aqui como uma aplicação direta ao mecanicismo cartesiano. c) Ser sempre firme e resoluto em suas ações. o que é seguir a virtude perfeitamente". sua moral assume aspectos diferentes: a) Consideremos o homem enquanto espírito. enquanto liberdade: o valor supremo é a generosidade. saber decidir-se mesmo na ausência de toda evidência. parece-me. essa complexidade reflete a própria complexidade da condição humana. num espaço em que não existe o vazio. de nunca lhe faltar vontade para empreender e executar todas as coisas que julgar melhores. O Programa Cartesiano "De acordo com o prefácio dos Princípios" Gostaria de explicar aqui a ordem que.) Mas isso não esclarece a união da alma e do corpo. Na plano das idéias claras e distintas. o pensamento está preso a esse fragmento de extensão. acha que devemos antes dominá-las do que desenvolvê-las. consiste.°  É certo que a moral definitiva de Descartes não apresenta uma unidade perfeita. encarregar-se de formar uma moral que seja suficiente para ordenar as ações da vida. exceto essa livre disposição de suas vontades. b) Antes mudar os próprios desejos que a ordem do mundo e vencer-se a si próprio do que à fortuna. por contato direto. deve. Na medida em que Descartes considera o homem no que ele tem de essencial. somos obrigados a levar em conta as paixões. Quando Descartes declara que os animais são máquinas. é uma filosofia da vontade). em parte. A alma age sobre o corpo e este age sobre ela. 2. O detalhe das explicações não passa de um sonho.133 racional do que como a verdade certa) não passa de um romance. isto é. que é um fato de experiência. Mas. puramente vivido e ininteligível. como uma técnica de felicidade e. então. Descartes separa claramente as duas substâncias. As coisas se determinam reciprocamente (leis do choque). na realidade. A moral surge. que é possível explicar as funções fisiológicas por intermédio de mecanismos semelhantes àqueles que fazem mover os autômatos que vemos "nos jardins de nossos reis". E no entanto. Paixão é.

a filosofia é como uma árvore cujas raízes são a metafísica. por muito tempo. As outras partes foram três tratados: um da Dióptrica. dos animais e. procurei fazer com que se reconhecesse a diferença existente entre a filosofia que eu cultivo e aquela ensinada nas escolas em que se tem o hábito de tratar da mesma matéria. depois. fazer acreditar que ainda podemos. alguns ensaios sobre as coisas que me parecera ter aprendido. da imaterialidade de nossas almas e de todas as noções claras e simples que estão em nós. O Empirismo . eu acho que a mais elevada e mais perfeita moral. o tronco a física e os ramos que daí saem todas as outras ciências. que eu aí explico. Pelos Meteoros. assim como não é das raízes nem do tronco que colhemos os frutos. a fim de que se seja capaz de. pretendi demonstrar que eu descobrira várias coisas ignoradas até então e. pretendi mostrar que se pode avançar bastante em filosofia para se chegar. que pressupõe inteiro conhecimento das outras ciências. ele deve começar a aplicar-se à verdadeira filosofia cuja primeira parte é a metafísica. dividi o livro em quatro partes. mas cujo volume foi aumentado e cuja matéria foi muito clarificada pelas objeções que várias pessoas muito doutas me enviaram sobre o assunto e pelas respostas que lhes dei. o fogo. Finalmente. As outras três partes contêm tudo o que há de mais geral na física. desse modo. na qual apresentei sumariamente as principais regras da lógica e de uma moral imperfeita que pode ser seguida provisoriamente. a fim de bem compreendê-la.Bacon Francis Bacon . Após o que também é necessário examinar em particular a natureza das plantas. dessa forma. assim a principal utilidade da filosofia depende das utilidades de suas partes. embora eu as ignore quase todas. Finalmente. que se reduzem a três principais. E porque ela depende muito do uso. a água. A segunda é a física. Desse modo. nesse campo. em particular. na qual. os planetas. qual a natureza da terra e de todos os corpos que se encontram mais comumente em torno dela como o ar. eu os publiquei então. pela Geometria. Depois disso. Eis por que. ela antes corrompe o bom-senso do que o desenvolve  mas aquela que ensina a bem conduzir a razão na descoberta de verdades que se ignora. sobretudo. examinamos em geral como o universo é composto. incitando. Depois. o peso e semelhantes. a explicação das primeiras leis ou princípios da natureza e a maneira pela qual os céus. por meio disso. prevendo a dificuldade que muitos teriam para conceber os fundamentos da metafísica. Ora. em particular. ao conhecimento das artes que são úteis à vida e porque a invenção das lunetas de aproximação. que contém os princípios do conhecimento. encontrar as outras ciências que lhe são úteis. do fogo e do ímã  que são os corpos que podemos encontrar mais comumente em torno dela  e de todas as qualidades que observamos nesses corpos como o são a luz. do ar. as quais só podemos aprender por último. há uns dez ou doze anos. procurei explicar seus pontos principais num livro de Meditações que não é grande. Pela Dióptrica. quando já tiver adquirido o hábito de encontrar a verdade nessas questões. é o último grau da sabedoria. o ímã e outros minerais. o zelo que sempre tive no sentido de prestar algum serviço ao público levou-me a publicar. outro dos Meteoros e o último da Geometria. sobre as que não se sabe. desse modo. penso ter começado a explicar toda a filosofia ordenadamente. depois. do homem. é preciso ler antes as Meditações que escrevi sobre o mesmo assunto. mas da extremidade dos ramos. todos os homens a procurarem a verdade.134 entender a outrem as coisas que já se sabe ou então de emitir opiniões. na prática de regras pernitentes a questões fáceis e simples como as da matemática. sem ter admitido nenhuma das coisas que devem preceder as últimas sobre as quais escrevi. descobrir várias outras. da água. A primeira parte desses ensaios foi um discurso sobre o método de bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências. a saber: a medicina. é uma das mais difíceis das que já foram procuradas. a saber. das quais a primeira contém os princípios do conhecimento e que podemos denominar filosofia primeira ou metafísica. as estrelas fixas. por seu intermédio. depois. entre as quais está a explicação dos principais atributos de Deus. enquanto ainda não se estabelece algo de melhor. a natureza desta terra. o calor. a mecânica e a moral. quando me pareceu que esses tratados procedentes haviam preparado bem o espírito dos leitores para receber os Princípios da Filosofia. é bom que ele se exercite. após ter encontrado os verdadeiros princípios das coisas materiais. Mas. os cometas e o universo em geral são compostos. sem julgamento.

vasta síntese que deveria ter compreendido seis grandes partes.. Entretanto. "Dedicar-se em demasia aos estudos é indolência. Foi agraciado por Jaime I com os títulos de Barão de Verulamo e Visconde de S. Tornou-se instrutora do filho e não poupou esforços para que ele tivesse instrução. Não conseguia chegar a uma conclusão sobre se gostava mais da vida contemplativa ou da ativa. "foi ofuscada pela do filh". e o que acontecerá a muitos outros pensadores do empirismo e do racionalismo: isto é.. obtida graças à observação.isto é. e viveu também em Paris. Entretanto foi acusado de concussão e condenado pelo Parlamento a uma multa avultuada. fazer julgamentos seguindo inteiramente suas regras é o capricho de um scholar. embora desconfiasse de que essa dupla direção de sua vida fosse encurtar o seu alcance e reduzir suas realizações. e que o conhecimento não aplicado em ação era uma pálida vaidade acadêmica. Começou a sua carreira de homem político e jurista. para lançar as bases lógicas da nova ciência.) Os homens astutos condenam os estudos. e. subindo até aos mais altos cargos: advogado geral em 1613. Mas sir Nicholas não era um homem comum. lorde Burghley. que o transcendente e a razão acabam por desaparecer na sombra.mais ou menos logicamente .135 O iniciador do empirismo é Francis Bacon. passo a passo com a sua subida para o poder político. Enalteceu ele a experiência e o método dedutivo de tal modo. Vida e Obras Francis Bacon nasceu no dia 22 de janeiro de 1561 na York House. a consciência crítica do empirismo. sob Jaime I. Albano. Faleceu em 1626. e "se a mistura de contemplações com uma vida ativa ou o retiro inteiramente dedicado a contemplações é o que mais incapacita ou prejudica a ment. Era seu lema que se vivia melhor na vida oculta . cunhada de sir William Cecil. também. A obra principal de Bacon é a Instauratio magna scientiarum. Ademais. acontece em Bacon o que aconteceu a muitos pensadores da Renascença. e mais ainda pelo conteúdo. Sua esperança era de ser filósofo e estadista. e os homens sábios se utilizam deles." Achava que os estudos não podiam ser um fim ou a sabedoria por si sós. escreve ele. convencido da sua missão de cientista. Bacon estivera escalando os píncaros da filosofia. Bacon freqüentou a Universidade de Cambridge. diz Maucaulay. Perdoado pelo rei. continua a considerar a filosofia como esclarecedora da essência da realidade. II . É quase inacreditável que o imenso saber e as realizações literárias desse homem fossem apenas os incidentes e as digressões de uma turbulenta carreira política. Porque. Como se vê pelos títulos.De dignitate et argumentis scientiarum.o mundo transcendente e cristão. dedicando-se inteiramente aos estudos. Mas terminou apenas duas. "A fama do pai". residência de seu pai sir Nicholas Bacon. Falta-lhe. As duas partes acabadas são precisamente: I .Novum organum scientiarum. o . a metafísica tradicional persiste neles todos histórica e praticamente ao lado da nova filosofia. acabada e consciente de si mesma. que foi tesoureiro-mor de Elizabeth e um dos homens mais poderosos da Inglaterra. e não tinha dificuldade em se corresponder em grego com bispos. que deveria dar ao homem o domínio da realidade. que nos primeiros vinte anos do reinado de Elizabeth tinha sido o Guardião do Sinete." A mãe de Bacon foi lady Anne Cooke. (. retirouse para as suas terras. usá-los em demasia como ornamento é afetação. grega e escolástica. tanto mais quanto esta é menos elaborada. Os Ensaios Sua ascensão parecia tornar realidade os sonhos de Platão de um rei-filósofo. no entanto. os homens simples os admiram." Eis uma nova nota que marca o fim da escolástica . depois. como Sêneca. O pai dela tinha sido o tutor-chefe do rei Eduardo VI. Bacon continua afirmando . aristotélica e tomista. que foram aos poucos conquistando os seus sucessores e discípulos até Hume. chanceler do reino em 1618. trata-se de pesquisas gnosiológicas. É uma posição filosófica que apela para a metafísica tradicional.bene vixit qui bene latuit. sustentáculo e causa dos fenômenos sensíveis. segundo o espírito positivo e prático da mentalidade anglo-saxônia. críticas e metodológicas. ela mesma era lingüista e teóloga. membro do Conselho particular em 1616. Londres. da nova filosofia. das formas. antes. "É difícil dizer". deixando sobre o resto esboços e fragmentos. Teve uma inteligência muito esclarecida. antes sob a rainha Isabel.

na literatura inglesa. a política e a filosofia. todos esses grupos formam. Raramente se encontrará uma refeição tão substanciosa. é tão fértil em comparações significativas e substanciosas. Bacon abomina os recheios e detesta desperdiçar uma palavra.. e culmina no pragmatismo. de um verdadeiro e natural prazer do qual não há saciedade? Não é só esse conhecimento que livra a mente de todas as perturbações? Quantas coisas existem que imaginamos não existirem? Quantas coisas estimamos e valorizamos mais do que são? Essas vãs imaginações. Quase que a sua primeira publicação recebeu o título de O Elogio do Conhecimento (1592). voam para o fim sem consideração para com os meios e os graus. compacto mas refinado. Não que Bacon tivesse. que não pode ser digerido em grandes quantidades de uma só vez. em uma ou duas páginas. não quero viver".. Não há dúvida de que os Ensaios devem ser incluídos entre os poucos livros que merecem ser mastigados e digeridos. por um instante.. e descreve a si mesmo como. Os Ensaios são como um alimento rico e pesado. o que provoca transtornos desconhecidos. constituem o melhor alimento intelectual. É um estilo como o do vigoroso Tácito. o entusiasmo do trabalho pela filosofia nos obriga a uma citação. mas em coisas novas. e a crença na verdade. arrependem-se cedo demais e raramente "A indagação da verdade. No Ensaio sobre a Honra e a Reputação. e alguns poucos para serem mastigados e digeridos". mostram-no ainda indeciso entre dois amores. porque ali se acha uma linguagem de tão alta qualidade na prosa quanto é a de Shakespeare em verso." Nos livros. os Ensaios (1597-1623). deixado de amar os livros e a meditação. "Certos livros são para serem provados". essas avaliações desproporcionadas. "um homem naturalmente mais propenso à literatura do que a qualquer outra coisa. "a vida ativa". (. e não são os prazeres do intelecto maiores do que os prazeres das afeições? Não se trata. ele escreve: .. envenenado e afogado. A excessiva sucessão dessas comparações constitui o único defeito do estilo de Bacon: as intermináveis metáforas. contra a inclinação de seu gênio" (isto é caráter). aptos para inventar do que para julgar. abraçam mais do que podem segurar. os maltrata.136 divórcio entre o conhecimento e o uso e a observação . e na verdade uma parte de sua concisão se deve a uma habilidosa adaptação do idioma e do frasear latinos. através dela. ele dá todos os graus de honra a realizações políticas e militares. e o conhecimento é a mente. em palavras que lembram Sócrates. ele nos oferece uma infinita riqueza numa pequena frase. produzir efeitos dignos e dotar a vida do homem com uma infinidade de coisas úteis?" Sua mais bela produção literária. cada um desses ensaios fornece.) Os homens maduros fazem objeções demais. que é gozá-la. arriscam-se muito pouco.. então. felicidade igual à possibilidade da mente do homem elevar-se acima da confusão das coisas de onde ele possa ter uma atenção especial para com a ordem da natureza e o erro dos homens? De contentamento e não de benefício? Será que não devemos perceber tanto a riqueza do armazém da natureza quanto a beleza de sua loja? Será estéril a verdade? Não poderemos. porque a experiência da idade em coisas que estejam ao alcance dessa idade os dirige. Isto é. são o bem soberano das naturezas humanas. apenas. o conhecimento da verdade. perseguem absurdamente alguns princípios com que toparam por acaso. uma porção infinitesimal dos oceanos e cataratas de tinta nos quais o mundo é diariamente banhado. mais aptos para a execução do que para o assessoramento. e levado por algum destino.e coloca aquela ênfase na experiência e nos resultados que distingue a filosofia inglesa. Mas no ensaio Da Verdade.) Os jovens. (. agitam mais do que podem acalmar. na conduta e na administração dos atos. um homem é apenas aquilo que ele sabe. É difícil dizer o que é mais excelente. são as nuvens do erro que se transformam nas tempestades das perturbações. nenhum homem. ele escreve: "sem filosofia. sem dúvida. a destilada sutileza de uma mente de mestre sobre um importante aspecto da vida. se a matéria ou o estilo.. nenhum a literárias e filosóficas. No ensaio "Da Juventude e da Idade" ele condensa um livro em um parágrafo. como na ação conversamos com tolos". (.) Não são os prazeres das afeições maiores do que os prazeres dos sentidos. A mente é o homem. tão admiravelmente preparada e temperada. Existirá. em como)" inovar. "Os jovens são mais "Meu elogio será dedicado à própria mente. que é namorá-la ou cortejá-la. mas tomados quatro ou cinco de cada vez. se soubermos escolher os nossos livros. "conversamos com os sábios. em um prato tão pequeno. demoram-se demais em consultas. afinal de contas. alegorias e alusões caem como chicotes sobre os nossos nervos e acabam por nos exaurir. outros para serem engolidos. não se importam em "(isto é. e mais aptos para novos projetos do que para atividades já estabelecidas. que é o elogio a ela. Mas a sua riqueza no que se refere a metáforas é caracteristicamente elizabetana e reflete a exuberância da Renascença.

"Quando não há exemplos de que um governo não tenha prosperado com governos cultos. é bom não contrariá-los.. tinha a esperança de que aos nomes deles a posteridade acrescentasse o seu.. mesmo.) A substância da sedição é de dois tipos: muita pobreza e muito descontentamento. ao ser aplaudido pela multidão..) Tampouco se segue que a supressão dos rumores" (isto é. pensando que estes irão dedicar-se melhor àquilo para que estejam mais inclinados. os impostos. mas em geral.) As causas e motivos das sedições são as inovações na religião. é bom o preceito" dos pitagóricos: "Optimum lege. porque se o combustível estiver preparado. (. (. reconhece a importância das matérias-primas: "Sólon disse a Creso (quando. "O meio mais seguro de evitar sedições (. e a conclusão" (ou execução). ou exame. "a mais baixa das lisonjas é a lisonja do homem do povo". assim.. ele será dono de todo esse ouro." A política dos Ensaios prega um conservantismo natural em que aspira ao governo. Creso lhe mostrou o seu ouro): "Senhor. Bacon dá alguns conselhos para se evitarem revoluções. não é um dos piores remédios. baseada no respectivo predomínio das três faculdades que presidem à organização do saber: memória." A sugestão de todos os líderes. "Se quiserdes presteza. e lançado o fundamento do regnum hominis. e tudo aquilo que.) contrárias ao Estado.. primeiro. um rei-filósofo. e acima de todos. "Que os pais escolhem cedo as vocações e os cursos que pretendem que seus filhos sigam. que só o do meio fique a cargo de muitos. deplora o crescimento da indústria por considerar que isso deixa os homens despreparados para a guerra.. apesar de tudo. É verdade que se os pendores ou a aptidão dos filhos forem extraordinários. que na sua época praticamente não tinha acesso à educação." Ele é um militarista confesso. é difícil dizer de onde virá a fagulha que irá atear-lhe fogo.escolha o melhor. as modificações de leis e costumes. "Deve haver três pontos essenciais nas atividades" do governo: "a preparação. e as providências para reprimi-los só fazem dar vida longa à especulação. e que não se concentrem demais no pensor dos filhos. a opressão generalizada. da discussão) "com demasiada severidade deva ser o remédio para os problemas.. o cancelamento de privilégios. porque as virtudes de qualquer um deles poderão corrigir os defeitos dos dois. perguntou o que tinha feito de errado. soldados desmobilizados. Começa-se. uma pequena burguesia de proprietários rurais.liberdade demasiada e. e colocá-las longe uma das outras.. com o primeiro e o último ficando a cargo de uns poucos. e em geral. suave et facile illud faciet consuetudo" . é dividir seus inimigos e unir os amigos. Bacon não confia no povo. levam o empreendimento até o fim. fantasia. o hábito irá torná-lo agradável e fácil. Não há dúvida de que é bom forçar o emprego de ambos (. uma aristocracia para a administração. se chegar qualquer outro que tenha melhor ferro do que vós." Uma receita melhor para evitar as revoluções é uma distribuição eqüitativa da riqueza: "O dinheiro é como o esterco. Bacon quer um forte poder central. mas se contentam com uma mediocridade de sucesso. "De modo geral. estranhas. por aplacar o guerreiro que existe no homem. tão audazmente iniciado pela ciência e pela política da Renascença..) é afastar a causa." Ele cita Sêneca. Antonio Pio e Aurélio. o progresso de pessoas indignas. crescer desordenadas e relaxadas. Apesar disso. porque é desesperador o caso em que aqueles que apóiam o governo estão cheios de discórdia e cisões. democracia." Bacon acha.. (. com a classificação geral das disciplinas humanas. só é bom se for espalhado. as privações." O que Bacon quer é. O Pensamento: A "Instauratio Magna" A Instauratio magna scientiarum deveria ter precisamente representado a reforma do saber. e os que estão contra ele estão inteiros e unidos." Mas isso não significa socialismo ou.. pois é nessa fase que eles são mais flexíveis. portanto. A monarquia é a melhor forma de governo." Tal como Aristóteles. a eficiência de um Estado varia com a concentração do poder.. e lamenta uma paz prolongada. é dividir e enfraquecer todas as facções (. deveria ter constituído a summa philosophica dos tempos novos. por ostentação. faz com que ele se una em uma casa comum. ou pelo menos semear a desconfiança entre elas. Porque "o hábito é o principal magistrado da vida do homem. facções desesperadas. que a juventude e a infância podem ter uma 137 . porque muitas vezes o desprezo é a melhor forma de contê-los. Essa obra deveria ter abraçado a enciclopédia das ciências e compreendido também as técnicas. e "Fócion compreendeu bem quando. ao ofender um povo. claro. o debate. segundo o novo ideal humano e prático e imanentista.). depois.

e uma parte positiva ou construtiva. nas famosas tabulae baconianas.). não sendo fácil. a princípio. denominando-a philosophia prima. do homem e da natureza. em que. 1) História tanto civil quanto natural. É evidente que nos casos onde uma determinada natureza ou fenômeno aparecem. os princípios imanentes. o verdadeiro método da indução científica compreende uma parte negativa ou crítica. Como é sabido.138 razão. o método indutivo. 3) Ciência ou filosofia.e os divide em quatro grupos fundamentais. que registra (memória) os dados de fato. construtiva.isto é. entretanto a eles interessavam muito mais as causas do que a experiência. e em metafísica ("que procura a causa final e a forma"). Têm-se. fantasmas . elaboração imaginativa desses dados.idola . A segunda diz respeito à arte de governar e às relações sociais e aos negócios. Na sua linguagem imaginosa Bacon chama as causas destes erros comuns. isto é. espírito e matéria. em que um determinado fenômeno aparece. em alertar a mente contra os erros comuns. Acima das ciências filosóficas particulares. Bacon põe uma ciência filosófica comum. com base nos fenômenos presentes na primeira tabela. Essa classificação é baseada não no objeto do conhecimento. Esta pesquisa. A filosofia natural ou física. por um jogo cênico. 2) Poesia. Aristóteles e Tomás de Aquino afirmaram claramente este método. os erroa da raça humana "fundamentados em a natureza como tal" (não se sabe. o Novum organum. e em ciência da sociedade humana (philosophia civilis). desta maneira. nos casos em que o fenômeno não se manifesta. e. A parte negativa consiste. 2) tabelas de ausência. pois.Bacon recolhe. mas prescinde da revelação cristã e da religião positiva. As naturezas são precisamente os fenômenos experimentais. 3) Idola fori. porém. quer no mesmo objeto. conhecimento racional de Deus. causa e lei da ação e da ordem das naturezas. muito mais a metafísica do que a ciência. Pertencem pois à física operativa as artes mecânicas. aí aumentará ou diminuirá também a sua causa e lei. A teologia natural de Bacon não exclui. ter-se . é mister conhecer as que Bacon chama de formas. da genuína interpretação da natureza para dominá-la. esta passagem das naturezas às formas. O "Novum Organum" Entretanto.bem conhecida pela filosofia tradicional . e até o reconheceram como único procedimento inicial do conhecimento humano. se divide em física especial ("que procura a causa eficiente e material"). isto é. A primeira. divide-se em especulativa e operativa. depois enumera os casos que mais se assemelham às primeiras. provenientes do comércio social ou da linguagem imperfeita. A primeira diz respeito ao homem todo. aí se encontrará também a sua causa e lei. a saber. Para determinar de um modo certo as causas e as leis dos fenômenos . A causa (forma) dos fenômenos (naturezas) será procurada. isto é. Esta não é a ontologia tradicional. o maior número possível de exemplos. o verdadeiro porquê). quando procura a conquista da ciência verdadeira. 1) Idola tribus. Bacon reivindica. as formas são leis genéticas e organizadoras das naturezas. Mas. mas a ciência dos princípios comuns às várias ciências. a ciência do ser em geral. antes de tudo. calor. Bacon passa a tratar da natureza positiva. para tanto. aí faltará também a sua causa e lei. os erros provenientes das escolas filosóficas. portanto. pêso. 3) tabelas de gradações.é determinada por Bacon. 4) Idola theatri. o que interessa mais a Bacon não é esta ciência dos princípios comuns. objeto da metafísica de Bacon. portanto. contra Aristóteles e a Escolástica. e sim a ciência da natureza. objeto da física especial (luz. Enfim registra o aumentar ou o diminuir do fenômeno em questão. dos fenômenos às essências . segundo um método preciso. e nos casos onde o fenômeno aumenta ou diminui. 2) Idola specus (por alusão à caverna de Platão) determinados pelas disposições subjetivas de cada um. A ciência do homem divide-se em ciência do homem individual (philosophia humanitatis). etc. quer em objetos diferentes. por sua vez. Segundo Bacon. desconhecido dos predecessores. as essências ou causas formais. Desembaraçado o terreno destes erros. o mesmo fenômeno não aparece. antes de tudo. as formas das naturezas . erros da praça. que substituem o mundo real por um mundo fantástico. três espécies de registros ou tabelas: 1) tabelas de presença. que deveria conter precisamente as regras para a construção da ciência da natureza. e sim no sujeito que conhece. o que transcende a experiência do que a experiência.

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tabelas completas e isolar as naturezas simples, e desta maneira pôr em evidência a causa, é mister estabelecê-la por hipótese, que será, em seguida, averiguada pelas experimentações. Essa gnosiologia, metodologia (empírica) é baseada em uma metafísica, uma física materialista e, mais precisamente, atomista, bastante semelhante à de Demócrito. O mundo material é constituído de corpúsculos, qualitativamente idênticos, diversos apenas por grandeza, forma e posição. Estes corpúsculos são animados por uma força, em virtude da qual se agrupam em determinados complexos, que constituem as formas baconianas. O Empirismo - Locke John Locke Sobre a linha do desenvolvimento do empirismo, Locke representa um progresso em confronto com os precedentes: no sentido de que a sua gnosiologia fenomenista-empirista não é dogmaticamente acompanhada de uma metafísica mais ou menos materialista. Limita-se a nos oferecer, filosoficamente, uma teoria do conhecimento, mesmo aceitando a metafísica tradicional, e do senso comum pelo que concerne a Deus, à alma, à moral e à religião. Com relação à religião natural, não muito diferente do deísmo abstrato da época; o poder político tem o direito de impor essa religião, porquanto é baseada na razão. Locke professa a tolerância e o respeito às religiões particulares, históricas, positivas. Locke viajou fora da Inglaterra, especialmente em França, onde ampliou o seu horizonte cultural, entrou em contato com movimentos filosóficos diversos, em especial com o racionalismo. Tornou-se mais consciente do seu empirismo, que procurou completar com elementos racionalistas (o que, entretanto, representa um desvio na linha do desenvolvimento do empirismo, procedente de Bacon até Hume). Vida e Obras

João Locke nasceu em Wrington, em 1632. Estudou na Universidade de Oxford filosofia, ciências naturais e medicina. Em 1665 foi enviado para Brandenburgo como secretário de legação. Passou, em seguida, ao serviço de Loed Ashley, futuro conde de Shaftesbury, a quem ficou fiel também nas desgraças políticas. Foi, portanto, para a França, onde conheceu as personalidades mais destacadas da cultura francesa do "grand siècle". Em 1683 refugiou-se na Holanda, aí participando no movimento político que levou ao trono da Inglaterra Guilherme de Orange. De volta à pátria, recusou o cargo de embaixador e dedicou-se inteiramente aos estudos filosóficos, morais, políticos. Passou seus últimos anos de vida no castelo de Oates (Essex), junto de Sir Francisco Masham. Faleceu em 1704. As suas obras filosóficas mais notáveis são: o Tratado do Governo Civil (1689); o Ensaio sobre o Intelecto Humano (1690); os Pensamentos sobre a Educação (1693). As dontes principais do pensamento de Locke são: o nominalismo escolástico, cujo centro famoso era Oxford; o empirismo inglês da época; o racionalismo cartesiano e a filosofia de Malebranche.
O Pensamento: A Gnosiologia Locke julga, como Bacon, que o fim da filosofia é prático. Entretanto - diversamente de Bacon, que julgava fim da filosofia o conhecimento da natureza para dominá-la (fim econômico) - Locke pensa que o fim da filosofia é essencialmente moral; quer dizer: a filosofia deve proporcionar uma norma racional para a vida do homem. E, como os seus predecessores empiristas, ele sente, antes de mais nada, a necessidade de instituir uma investigação sobre o conhecimento humano, elaborar uma gnosiologia, para achar um critério de verdade. Podemos dizer que a sua filosofia se limita a este problema gnosiológico, para logo passar a uma filosofia moral (e política, pedagógica, religiosa), sem uma adequada e intermédia metafísica. Locke não parte, realisticamente, do ser, e sim, fenomenisticamente, do pensamento. No nosso pensamento acham-se apenas idéias (no sentido genérico das representações): qual é a sua origem e o

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seu valor? Locke exclui absolutamente as idéias e os princípios que deles se formam, derivam da experiência; antes da experiência o espírito é como uma folha em branco, uma tabula rasa. No entanto, a experiência é dúplice: externa e interna. A primeira realiza-se através da sensação, e nos proporciona a representação dos objetos (chamados) externos: cores, sons, odores, sabores, extensão, forma, movimento, etc. A segunda realiza-se através da reflexão, que nos proporciona a representação das próprias operações exercidas pelo espírito sobre os objetos da sensação, como: conhecer, crer, lembrar, duvidar, querer, etc. Nas idéias proporcionadas pela sensibilidade externa, Locke distingue as qualidades primárias, absolutamente objetivas, e as qualidades secundárias, subjetivas (objetivas apenas em sua causa). As idéias ou representações dividem-se em idéias simples e idéias complexas, que são uma combinação das primeiras. Perante as idéias simples - que constituem o material primitivo e fundamental do conhecimento - o espírito é puramente passivo; pelo contrário, é ele ativo na formação das idéias complexas. Entre estas últimas, a mais importante é a substância: que nada mais seria que uma coleção constante de idéias simples, referida pelo espírito a um misterioso substrato unificador. O espírito é também ativo nas sínteses que são as idéias de relação, e nas análises que são as idéias gerais. Às idéias de ralação pertencem as relações temporais e espaciais e de idéias simples dos complexos a que pertencem e da universalização da idéia assim isolada, obtendo-se, desse modo, a idéia abstrata (por exemplo, a brancura). Locke é, mais ou menos, nominalista: existem, propriamente, só indivíduos com uma essência individual, e as idéias gerais não passam de nomes, que designam caracteres comuns a muitos indivíduos. Entretanto, os nomes que designam uma idéia abstrata, isto é, uma propriedade semelhante em muitas coisas, têm um valor e um escopo práticos: auxiliar os homens a se conduzirem na vida. Dado o nominalismo de Locke, compreende-se como, para ele, é impossível a ciência verdadeira da natureza, considerada como conhecimento das leis universais e necessárias. Locke julga também inaplicável à natureza a matemática - reconhecendo-lhe embora o caráter de verdadeira ciência - isto é, não acredita na físico-matemática, à maneira de Galileu. Entretanto, mesmo que a ciência da natureza não nos desse senão a probabilidade, a opinião, seria útil enquanto prática. Até aqui foram analisados e descritos os conteúdos de consciência. É mister agora propor a questão do seu valor lógico. Costuma-se dizer que as idéias são "verdadeiras ou falsas"; melhor seria chamá-las "justas ou erradas", porque, propriamente, "a verdade e a falsidade pertencem às proposições", em que se afirma ou se nega uma relação entre duas idéias. E esta relação, afirmada ou negada, pode ser precisamente falsa ou verdadeira. O conhecimento da relação positiva ou negativa entre as idéias é, segundo Locke, de dois tipos: intuitivo e demonstrativo. No primeiro caso a relação é colhida intuitiva, imediata e evidentemente. Por exemplo: 3 = 2 + 1. No segundo caso a relação é colhida mediatamente, recorrendo às idéias intermediárias, ao raciocínio. Por exemplo: a existência de Deus demonstrada pela nossa existência e pelo princípio de causalidade. Naturalmente, a demonstração é inferior à intuição. Idéias Metafísicas Estamos, porém, ainda fechados no mundo subjetivo, fenomênico; de fato, tratou-se, até agora, de relações positivas ou negativas, concordes ou desacordes com as idéias. Podemos nós sair desse mundo subjetivo e atingir o mundo objetivo, isto é, podemos conhecê-lo imediatamente ou mediatamente na sua existência e na sua natureza? Locke afirma-o, sem mostrar, entretanto, como este conhecimento do mundo externo possa concordar com a sua geral (fenomenista) concepção e definição do conhecimento. É a sólita posição de um fenomenismo ainda não plenamente consciente de si mesmo. Corta as relações com o ser e vai para o fenomenismo absoluto, mas tem ainda saudade desse ser do qual se isolou. Em todo caso, Locke acredita poder atingir, antes de tudo, o nosso ser, depois o de Deus, e, finalmente, o das coisas. O nosso ser seria intuitivamente percebido através da reflexão. A existência de Deus seria racionalmente demonstrada mediante o princípio de causa, partindo do conhecimento imediato de uma outra existência (a nossa). A existência das coisas, alfim, seria sentida invencivelmente, porque nos sentimos passivos em nossas sensações, que deveriam ser causadas por seres externos a nós.

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Entretanto, pelo que diz respeito ao nosso ser, é mister ter presente que nós não conhecemos intuitivamente a substância da alma, e sim as suas atividades. Pelo que diz respeito a Deus, a prova da sua existência vale, se vale absolutamente o princípio de causa - o que Locke não demonstrou. Enfim, pelo que diz respeito às coisas externas, mesmo admitida a prova aduzida por Locke - segundo a confissão do próprio filósofo - tal prova vale apenas pelo que concerne à existência das coisas, e não pelo que concerne à natureza delas. De fato, segundo a filosofia de Locke, não sabemos se as idéias da natureza das coisas correspondem à realidade das coisas. Moral e Política Locke não admite, naturalmente, idéias e princípios inatos nem sequer no campo da moral. A sua moral, todavia, é muito mais intelectualista do que empirista, pois ele lhe reconhece o caráter de verdadeira ciência, universal e necessária. Entretanto, não basta ter construído uma moral em abstrato, embora racional. É preciso torná-la praticamente eficaz, isto é, faz-se mister uma obrigação moral, que se imponha à nossa vontade. Ora, visto que é natural, no homem, a tendência para o próprio bem-estar, é natural que ele seja atingido pelas penas, pelas sanções, que precisamente lhe impedem tal realização. Que parte tem a liberdade da vontade em tudo isto? Locke nega, propriamente, o livre arbítrio, porquanto nós nos inclinamos necessariamente para um bem determinado e devemos desejar o bem maior. Quanto à política, Locke deriva a lei civil da lei natural, racional, moral, em virtude da qual todos os homens - como seres racionais - são livre iguais, têm direito à vida e à propriedade; e, entretanto na vida política, não podem renunciar a estes direitos, sem renunciar à própria dignidade, à natureza humana. Locke admite um originário estado de natureza antes do estado civilizado. Não, porém, no sentido brutal e egoísta de inimizade universal, como dizia Hobbes; mas em um sentido moral, em virtude do qual cada um sente o dever racional de respeitar nos outros a mesma personalidade que nele se encontra. Também Locke admite a passagem do estado de natureza ao estado civilizado, porquanto, no primeiro, falta a certeza e a regularidade da defesa e da punição, que existe no segundo, graças à autoridade do superior. Entretanto, estipulando este contrato social, os indivíduos não renunciam a todos os direitos, porquanto os direitos que constituem a natureza humana (vida, liberdade, bens), são inalienáveis; mas renunciam unicamente ao direito de defesa e de fazer justiça, para conseguir que os direitos inalienáveis sejam melhor garantidos. Antes, se o estado violasse esses direitos inalienáveis, os indivíduos teriam o direito e o dever de a ele resistir e de se revoltar contra o poder usurpador. A doutrina política de Locke, contida no seu Tratado sobre o Governo Civil, é a expressão teórica do constitucionalismo liberal inglês, em contraste com a doutrina do absolutismo naturalista de Hobbes. Idéias Pedagógicas Com respeito à religião, Locke toma uma atitude racionalista moderada. Admite uma religião natural, exigível também politicamente, porquanto fundamentada na razão. E professa a tolerância a respeito das religiões particulares, históricas, positivas. Locke interessou-se especialmente pelos problemas pedagógicos, escrevendo os Pensamentos sobre a Educação. Aí afirma a nossa passividade, pois nascemos todos ignorantes e recebemos tudo da experiência; mas, ao mesmo tempo, afirma a nossa parte ativa, enquanto o intelecto constrói a experiência, elaborando as idéias simples. Afirma-se que todos nascemos iguais, dotados de razão; mas, ao mesmo tempo, todos temos temperamentos diferentes, que devem ser desenvolvidos de conformidade com o temperamento de cada um. Esta educação individual não exclui, mas implica a educação, a formação social, para ampliar, enriquecer a própria personalidade. Tem muita importância a obra do educador, mas é fundamental a colaboração do discípulo, pois trata-se da formação do intelecto, da razão, que é, necessariamente, autônoma. A formação educacional consiste, portanto, fundamentalmente, no desenvolvimento do intelecto mediante a moral, precisamente pelo fato de que se trata de formar seres conscientes, livres, senhores de si mesmos. Por conseguinte, a educação deve ser formativa, desenvolvendo o intelecto, e

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não informativa, erudita, mnemônica. Igualmente Locke é fautor de educação física, mas como o meio para o domínio de si mesmo. O Empirismo - Berkeley Jorge Berkeley Uma etapa ulterior do fenomenismo empirista é representada por Berkeley. Ele suprime, criticamente, as qualidades primárias, as sensações objetivas de Locke, evidenciando que são semelhantes às secundárias e, logo, também elas subjetivas. E suprime também, definitivamente, o conceito lockiano de substância material, que deveria ter sido a causa misteriosa de nossas sensações, objetivas, visto que, no empirismo, a substância não passa de um nome. Isto não impede que Berkeley - por motivos práticos, morais e religiosos - incoerentemente, conserve ainda no seu empirismo os conceitos de substância, causa e espírito, isto é, os conceitos de substância e causa espiritual. Este resíduo realista e transcendente será definitivamente eliminado pela crítica radical e coerente de Hume, o último e o maior dos empiristas prá-kantianos. Vida e Obras Estudou no Trinity College em Dublin, formando-se mestre em artes em 1707. Ordenado pela Igreja anglicana, a princípio ensina grego (sua obra, um dia, assumirá um tom platônico), em seguida hebreu e teologia no Trinity College. Entre 1702 e 1710, podemos seguir, em seu caderno de anotações (Commonplace book), a formação de seu pensamento. Desde 1709 ele escreve sua Nova teoria da Visão. Seu Tratado sobre os Princípios do Conhecimento Humano é publicado em 1710. As intenções apologéticas de sua obra aparecem claramente nos artigos polêmicos, que escreveu em 1713, no jornal The Guardian, contra as idéias de um célebre livre-pensador, Arthur Collins. Em 1713, igualmente, aparece os Diálogos entre Hylas e Philonous. Berkeley então viaja pela França e pela Itália; em seguida se decide a propagar o pensamento cristão nas possessões americanas da Inglaterra, partindo para as Bermudas, onde sonha fundar um colégio, idéia à qual deve renunciar, posto que o governo inglês não lhe envia os fundos prometidos. Nessa época, ele lê Plotino sobretudo. Ao retornar, é nomeado bispo anglicano de Cloyne. Publica uma nova obra contra os livres-pensadores, "Alciphrom ou o filosofúsculo" (Alciphrom or the minute philosopher). Em 1740, sobrevém uma epidemia na Irlanda, que o improvisa como médico; cuida de suas ovelhas com água de alcatrão (receita que conheceu na América), na qual vê um remédio universal, o que o leva a uma cadeia (seiris, em grego) de reflexões muito platônicas sobre a natureza, a Providência e Deus, que ele nos oferece em sua última obra, "Síris ou Reflexões e pelo físico Molyneux): Como podemos ver a distância de um objeto? O raio luminoso, orientado perpendicularmente ao olho, só projeta um ponto que invariavelmente é o mesmo, quer a distância seja longa ou curta. Por conseguinte, falando estritamente, não vemos a distância. Um cego de nascença, afirma Berkeley, ao qual fosse dado ver repentinamente, teria a impressão de que todos os objetos tocavam seus olhos (vinte anos após o obra de Berkeley, o cirurgião Cheselden publicará, nas Philosophical Transactions of the Royal Society, a observação de um menino de quatorze anos, operado de catarata, que parece confirmar o ponto de vista de Berkeley. Voltaire, em sua Filosofia de Newton, 1741, torna conhecida essa experiência que Condillac e Diderot discutirão em sua Carta sobre os cegos para uso dos que vêem). Para Berkeley, a distância, portanto, não é percebida, mas julgada a partir de signos tais como a grandeza aparente ou da luminosidade mais ou menos viva dos objetos. Esse homem pequenino e pouco visível está longe de mim, porque a experiência mostra que quando um homem tem essa grandeza aparente, deve andar por alguns momentos a fim de o tocar. Por conseguinte, a experiência me ensina a interpretar aparências visuais como o sinal da distância maior ou menor dos objetos.

Jorge Berkeley nasceu em 1685 perto de Dysert Castle, na Irlanda, de uma família de origem inglesa.

pesquisas filosóficas concernentes às virtudes da água de alcatrão e diversos outros temas conexos entre si e originados um do outro" (1744). Na Teoria da Visão, Berkeley parte do seguinte problema (colocado

exceto a que existe entre o cubo em que toco e a palavra de quatro letras com que o designo. pois. toda linguagem é a instituição de um espírito. uma linguagem universal da natureza (como aquela que faz dos dados visuais o signo das experiências táteis) só pode ser obra de um Espírito universal. Por exemplo: que é a idéia abstrata de Homem? Um nome. tão cara aos cartesianos. o que me ensina a decifrar as correspondências entre esses dois tipos de sensações (visuais e táteis). O Imaterialismo É a outra doutrina fundamental de Berkeley que facilmente vemos estar ligada ao seu nominalismo. Esta porta nada mais é do que uma soma de representações mentais. Compreendemos bem que." Eis uma porta alta e sólida. Tudo o que a experiência me fornece é uma multidão de sensações diversas entre as quais existem correspondências. é preciso que essa imagem seja a de um homem particular.a) Não existe espaço objetivo. os "signos" desempenham um grande papel. na origem. ao passo que a cor é subjetiva. "Não posso representar em meus pensamentos uma coisa sensível ou um objeto isolados da sensação que deles tenho. fora de minhas sensações! Absolutamente. isto é. e um espaço tátil (a exploração tátil me revela. Não tenho a menor razão de abstrair da realidade sensível que é a dos meus estados de Dessa análise psicológica. Ora. simultaneamente percebido pela visão e pelo tato. Por isso ele se aproxima de Locke e do ponto de vista de todos os outros empiristas ingleses. quando represento mentalmente um homem. disforme ou bem proporcionado. uma idéia concreta (para Berkeley. O espaço não é o "sensível-comum". para Berkeley. um conjunto de "idéias". por conseguinte. etc. mas passar de uma imagem a outra graças à função simbólica. pintada de verde e contra a qual me choco dolorosamente. idéia e imagem são a mesma coisa. lida ou ouvida). Não possuo mais o direito de dizer que tenho uma ou várias idéias da porta. responde Berkeley. em substituto de outras imagens concretas. Nominalismo de Berkeley a) Ele declara não compreender o que seja uma idéia abstrata. as distâncias dos objetos). essa palavra "homem" que pronuncio não passa. espaço "em-si". Existem dois espaços distintos: um visual. de uma imagem sonora concreta. Mas essa imagem sonora. De um modo mais geral. aprender uma essência abstrata. exatamente como a experiência. Para ele. Não é verdadeiramente uma coisa material que existe como tal. por abstração. A imagem concreta se torna geral quando se transforma em signo. que me faz conhecer a ligação entre uma mudança de claridade e uma mudança de distância. toda abstração é ilegítima. As correspondências entre o atlas tátil e o atlas visual simplesmente manifestam a Providência de Deus. em suma. No universo de Berkeley. sua cor verde uma sensação visual. posto que ela não passa de um conjunto de idéias. e só ela. b) Todavia. para ele. como Descartes. que a extensão existe objetivamente. É por preconceito que acredito na existência de "objetos". não tenho o direito de dizer. a palavra idéia significa representação mental) é o símbolo de outras idéias concretas. o contato de minha mão com ela uma sensação tátil e a própria dor que sinto após o choque é um estado de consciência. Por exemplo. nada me autoriza a imaginar. e o que possui apenas duas dimensões. o cubo que vejo e aquele em que toco não são um só e mesmo objeto!! Não mais existem relações entre um e outro. grande ou pequeno. b) As correspondências existentes entre os dados visuais e a distância dos objetos não podem ser previstas a priori. Uma imagem concreta. como dizia a filosofia escolástica. Os dados visuais são o signo dos dados táteis. É a experiência. a existência de pretensos objetos materiais fora de meus estados de consciência. nem a extensão geométrica. para Berkeley. uma simples palavra (uma imagem concreta. ele admite a idéia geral. por exemplo. pois todos os objetos me são dados simultaneamente como extensos e coloridos. o objeto e a sensação são idênticos e não podem ser abstraídos um do outro. se Berkeley nega a idéia abstrata. Sua forma e a extensão que ela ocupa são sensações. relativo ao sentido da visão. E. a aprendizagem da língua natal me faz conhecer a ligação convencional entre os objetos e as palavras que os designam. eu a faço corresponder a um sem-número de imagens visuais (as de todos os homens que posso ver). Berkeley tira conclusões importantes: 143 . Pensar não é.

porta-voz de Berkeley. O único tempo real é o tempo concretamente percebido. nada envolve. que ela não tem interior. segundo você. era ele o autor dessa linguagem universal e benfazeja da natureza. O espaço dado aos sentidos não pode ser divisível ao infinito. no mesmo lugar. Berkeley não nega. Não aceita a "extensão inteligível" de Malebranche e só admite um espaço sensível. Se . Mas. é a filosofia do realismo concreto levada às suas últimas conseqüências: o que existe é o que vemos e tocamos. pretensas coisas materiais que. significa amigo do espírito). o imaterialismo de Berkeley suscita uma dificuldade. portanto. segundo a qual a realidade se reduz ao que nos é dado concretamente. É o que. chamará de "a ilusão dos além-mundos". o mundo da audição é verdadeiramente sonoro.rejeita como ficção o tempo abstrato. homogêneo e mensurável dos físicos. quer nos libertar daquilo que Nietzche. Berkeley rejeita todas as "abstrações" dos matemáticos e dos físicos. que ela nada oculta. nossas "idéias". as pessoas que neste momento se encontram em meu escritório podem dizer que aí existe uma poltrona de couro. Imaterialismo e Teologia a) Tal como expusemos. como é possível que vários espectadores vejam juntos. Por conseguinte. "Esse est percipi". quero antes transformar as idéias em coisas. Berkeley recusa todo ceticismo e aceita o dado tal qual é: "O cavalo está na cocheira e os livros estão na biblioteca como antes". O que ele não admite é a coisa que estaria oculta sob nossas representações. o imaterialista Philonous (esse nome.como pensava Hylas . se o objeto nada mais é do que a representação que dele tenho. Como diz Bergson muito bem: "O que o idealismo de Berkeley significa é que a matéria é coextensiva à nossa representação. A filosofia de Berkeley. E agora Berkeley nos diz que Deus é quem nos envia. O mundo visual tem realmente as cores que aparenta ter. invisível. É certo que o ser não se reduz ao que é passivamente percebido e que eu. impalpável. como é que todas as pessoas presentes podem pretender ver a mesma coisa? b) Berkeley responde a isso. Berkeley reclama o bom-senso popular e se ri de Descartes que duvidava de seus sentidos. não quero transformar as coisas em idéias. a existência das coisas sob a condição de que se aceite que existir é "ser percebido" e nada mais. Não há no mundo senão idéias e espíritos. Se não há nenhuma transcendência das coisas. eu os considero coisas reais". Como Philonous declara a Hylas: "Você se engana. isto é. portanto. A ordem de minhas "idéias".antes de Bergson . etc. Berkeley . estão erigidas como prova do poder e da bondade do Criador. Realismo ou Idealismo? O que Berkeley rejeita é a realidade de uma substância material que seria o suporte misterioso. significa matéria). serão falsas a seus olhos. "mais longo na dor do que no prazer". é um além material que transcenderia o percebido. demonstra a Hylas (cujo nome. uma vez divisível ao infinito seria admitir que um fragmento de extensão existe sem ser percebido. não há dificuldade. sua admirável concordância com as "idéias". que ativamente percebo. portanto. mais tarde. portanto. isto é . nossas sensações não remetem a um objeto exterior.Dado esse detalhe. das qualidades sensíveis. com as percepções dos outros espíritos. não tem suporte. se como pensa Philonous-Berkeley. Para Berkeley. O que não vemos e não tocamos não existe. pois os objetos imediatos da percepção que. nossas percepções. fazendo com que Deus intervenha. misteriosamente. em grego. Sua filosofia. Deus já estava encarregado de explicar as admiráveis correspondências entre dados táteis e visuais. são apenas as aparências das coisas. o chamado idealismo de Berkeley não passa de um realismo ingênuo. a mesma coisa? Por exemplo. que se estende superficialmente e que se coloca inteira a todo instante no que ela dá". As novas matemáticas do infinitesimal. em grego. ser é ser percebido ou perceber: "Esse est percipi vel percipere". numa ordem harmoniosa. Do mesmo modo. A aparência é que é a verdadeira realidade. nos célebres diálogos. existiriam além de minhas percepções.144 consciência. também existo. A única realidade das coisas é serem percebidas.a poltrona de couro existe materialmente e nossas sensações a refletem. .

entre empirismo e espiritualismo. Ele atribui à pessoa humana uma verdadeira "eficácia". O mundo é uma mensagem de Deus. de força. erigindo-a em entidade independente. são essencialmente passivas. Assim. afastariam nossa atenção do sentido do som e nos impediriam de acompanhar a palavra divina". A Providência . colocam uma tela de pesadas ficções entre Deus e essa palavra cotidiana de Deus que é o mundo. as representações mentais. Thonnard.-J. assim. . Aos materialistas. então. a sua terra clássica é a França. Este último que. podemos conhecê-lo? A segunda edição traz uma resposta a esse problema e Siris vem explicitar essa resposta: temos uma noção de Deus. Berkeley não aceita que a vontade das criaturas seja uma simples causa ocasional." Todavia. mas o signo da idéia tangível que Deus produz em mim). nas primeiras obras. era um Deus cartesiano. com efeito. E logo se desperta na França uma verdadeira anglomania: pelo constitucionalismo inglês. aceita a teoria das causas ocasionais na matéria (a idéia visível não é a causa. que Deus criou a matéria e que o homem a conhece por meio de "idéias"? Não se pode fazer economia dessa entidade misteriosa? Basta pensar que o espetáculo do universo. se finalmente recai no tema da visão de Deus. É Deus quem nos fornece nossas "idéias". Berkeley aprofunda sua reflexão sobre o conhecimento dessas realidades. por tudo isso. se a terra de origem do iluminismo é a Inglaterra. escrevendo as famosas Lettres sur les Anglais. no fundo. Aí assumirá aquele caráter extremado e difusivo pelo qual o iluminismo ficará definitivamente individuado. já bem disposta para assimilá-lo e valorizá-lo. Quando as metafísicas materialistas falam de substância. É um "discurso que Deus faz aos Homens". b) Por outro lado. com uma evolução cada vez mais acentuada em sua velhice para o malebranchismo. isto é. posto que ele é atividade suprema. se chega mesmo a ir mais além de Malebranche ao negar a existência das coisas materiais (que Malebranche aceita de acordo com o testemunho da Bíblia). Berkeley então nos propõe uma espécie de síntese muito original entre as filosofias de Locke e de Malebranche. O Problema da Evolução em Berkeley a) Em Siris. Como. entre gosto pelo sensível e aversão pela matéria. mas morada das Idéias.145 c) Por que dizer. dando-lhe um destino. Entre ele e nossas representações sensíveis surgem (como nas filosofias neoplatônicas) intermediários. mas não temos idéia do próprio Deus. As metafísicas da matéria. Na primeira edição. aos ateus que proclamam: Deus não existe. à maneira dos neoplatônicos. tornando espessa cada sílaba. ele me fala diretamente quando decifro o mundo sensível. seguimos facilmente o aprofundamento de seu pensamento. criador das idéias em nossas consciências. no espiritualismo tradicional. "Curiosa síntese. torna-se um Deus malebranchiano.de quem as virtudes terapêuticas da água de alcatrão lhe recordam a benevolência ativa . Berkeley mostra que as idéias. como sublinhou Gueroult.surge-lhe. desde então. não apenas causa das idéias. Berkeley responde: "É a matéria que não existe. longe de ressaltar de maneira ininteligível uma matéria opaca. vemos. pela ciência nova. uma liberdade real. Em todo caso. como um fluido vital que o penetra inteiramente. pelo livre pensamento. Berkeley enriquece seu imaterialismo com uma dimensão nova. Bergson apreende efetivamente o que há de essencial na doutrina de Berkeley quando a comenta nos seguintes termos: "A matéria seria uma língua em que Deus nos fala. arquétipos em que Deus se fundamenta para produzir nossas representações. Jean-Jacques Rosseau O Iluminismo Francês Voltaire traz o iluminismo da Inglaterra para a França. por Locke e Newton. Berkeley nunca seguirá Malebranche até o fim. Se. Da primeira à segunda edição de seus Princípios do Conhecimento. de extensão abstrata. é diretamente imprimido pelo Criador na consciência das criaturas. inspirado pelos platônicos que pregam a libertação quanto aos sentidos e insistem no conhecimento das realidades espirituais. a alma não existe. o alcance apologético que Berkeley pretende dar a seu imaterialismo. Só Deus e os espíritos existem". diz muito bem F. que lera na América. recaindo. como um fogo sutil que circula através do Universo.

religioso. realizado o seu ideal racional no começo da humanidade.O traço específico do iluminismo francês é o culto da razão. Pelo que concerne aos problemas sociais e políticos. Bayle propagou a incredulidade pela Europa toda. mas não no povo que se quer elevar. sustentando a irracionalidade da Revelação: mesmo contra a própria intenção do autor. à história e à tradição em geral. Entretanto colaboraram na enciclopédia os iluministas mais famosos. às divisões nacionais e à guerra. no homem primitivo para o qual se deverá. ou mais ou menos. onde o materialismo se manifesta em cheio. Os Homens e os Problemas A obra fundamental do iluminismo francês e europeu. na imortalidade da alma. Julião Offrai de La Mettrie (1709-1751) é o autor do famoso livro L'homme machine. em geral. Foi publicada entre 1751 e 1780. E se ele demole toda religião positiva. sendo a razão humana impotente para solucioná-los. Réponse ou Système de la nature (1777). É o que fez desabusadamente e desapiedadamente a revolução francesa. des arts et des métiers. Daí a necessidade da força a serviço da razão. Se o iluminismo demole toda a história. Caído na desgraça do Rei e da Corte da França. a esta religião a religião humanista e imanentista da razão. inclusive o cristianismo. Entre as suas obras.Pensées sur l'interprétation de la nature 146 (1754). segundo o ideal deísta (Voltaire). Pelo que diz respeito ao problema filosófico em geral. como sendo necessárias para a conservação da ordem moral e política. político. é o autor do não menos famoso Système de la nature. Foi dirigida por João D'Alembert (1717-1783). Acerca do problema religioso. um alemão que viveu em Paris. A figura dominante do iluminismo francês é Francisco Maria Arouet. tudo isto levará à demolição. autor do livro De l'Esprit. déspota absoluta. chamados por isso enciclopedistas. Esta corrente. porém. Pertence a esta última tendência Pedro Bayle (1647-1706). à destruição da ordem constituída. pelo contrário. também a religião natural de um Deus transcendente. como. é a Enciclopédia: Enciclopédie ou dictionaire des sciences. que pretendia mostrar a necessidade de se apoiar na Fé em face dos máximos problemas. voltar. trazendo para a França o iluminismo. etc. o mecanismo (empirista e racionalista) é levado até o materialismo por La Mettrie e D'Holbach. todavia. são: Lettres sur les Anglais (1734). Métaphysique de Newton (1740). ou até no ceticismo. Candide ou de L'optimisme (1756). meio eficaz de difusão do iluminismo antes da grande enciclopédia. às desigualdades sociais. o iluminismo francês adere ao empirismo de Locke desenvolvido no sensismo de Condillac. cujo reino. por exemplo. a corrente iluminista chefiada por Cláudio Helvetius (1715-1771). manifestam-se também duas atitudes: a do assim chamado despotismo iluminado. Assim. ao sentimento. as que mais interessam à filosofia. autor do famoso Discours préliminaire. autor do Dictionnaire Historique et Critique. em 1755. e por Denis Diderot (1713-1784) autor também de alguns escritos filosóficos . enfim. A outra atitude ou tendência é a que deriva do liberalismo constitucional. todavia. o barão Teodorico D'Holbach (1723-1789). quando conculca os direitos naturais do indivíduo. Entre eles Voltaire e Rosseau. econômico. nas sanções ultraterrenas. No campo social. Daí a guerra a qualquer atividade e instituição que não sejam puramente racionais. Viveu em Londres entre 1726 e 1729. retirou-se para Ferney. à paixão. para o bem dos povos e da humanidade acredita-se na razão. porque a razão é universal. dito Voltaire (1694-1778). se encontra neste mundo e na vida terrena. com a crença em Deus. e. manifesta confiança no povo ou. para os quais o iluminismo tinha naturalmente um interesse especial. substitui. a deusa razão da revolução francesa. melhor. foi acolhido (1750-1753) por Frederico II. a atitude iluminista é decididamente hostil à igreja católica e se propõe a si mesma esmagá-la (écraser l'infâme): quer admita uma religião natural. em definitivo. A razão (humana) deve dominar acima de tudo e acima de todos. na França e no estrangeiro. Éléments de la Philosophie de Newton (1741). isto é. em 34 volumes. ao estado. quer chegue até ao ateísmo e ao hedonismo. O movimento dos enciclopedistas foi um poderoso meio para a difusão e vulgarização das idéias iluministas. desejosa e capaz de liberdade. do absolutismo racional. em que a razão certamente não domina. e aí escreveu as famosas Lettres sur les Anglais. perto de Genebra. atacados por Voltaire. à fantasia. daí dominando o mundo da cultura européia. Característica . Dictionnaire Philosophique (1764). na burguesia. julga.

pelo sentido de variedade das leis em relação às condições dos povos. ete. corrompendo sua natureza íntima. . Para ele. é uma exigência inata em nós e não. aliás. É o autor das Lettres persanes. Freqüentemente se resume a tese de Rosseau aos seguintes termos: o homem é bom por natureza. desenvolvido em sentido historicista. dessa "lei divina do dever e da virtude" em nome da qual a paixão amorosa se sacrifica heroicamente. Nestes escritos se manifesta um racionalismo iluminista temperado. concreto. desses filósofos do "conventículo holbáquico" que ele destacava e pelos quais era odiado. Discurso sobre as Ciências e as Artes. junto a Hume. se desentenderá pouco depois). a pedagogia da chamada Escola Nova. Para Rosseau. prende-se ao ensinamento de Jesus. e do Esprit des lois. Na realidade. segundo ele. Por conseguinte. como dizia Montaigne. a moral e a filosofia de Rosseau. O arcebispo de Paris condena-lo-á em célebre ordenação (perseguido por toda parte. Não se fará. com quem. Entenda-se bem: "cada indivíduo pode. ao passo que o justo é infeliz. Jean-Jacques Rosseau A obra de Rosseau (1712-1778) que foi mal compreendida e que ainda o é nos meios do catolicismo tradicional. Não há dúvida de que ele declara que todas as religiões são boas e que cada crente pode conseguir a salvação na sua (o que é contrário ao que. Barão de Montesquieu (1689-1755). o progresso das ciências e das artes tornou o homem vicioso e mau. são melhores atestados do que os da vida de Sócrates. o pacto social não tem por fim conciliar todos os interesses egoístas. Todavia. Rosseau pesquisa as condições de um Estado social que fosse legítimo. nos debates do povo reunido) uma vontade geral. como homem. senão a si próprio e permaneça tão livre quanto antes. um mês apenas após sua publicação. O maior expoente dessa corrente é Carlos de Secondat. É censurado por escolher a religião natural (aquela que o homem encontra no próprio coração) e rejeitar a religião revelada. A teoria política de Rosseau. Rosseau adota o dualismo moral popular. A Nova Heloísa apresenta-se como uma apologia da religião e da moral. cujos atos. dirá Dewey em nossos dias. a sociedade o corrompeu. No entanto. no Emílio. essa consciência moral que. Em seu primeiro livro. Rosseau só encontra refúgio na Inglaterra. o reflexo do costume. que atende às suas necessidades mais profundas. era pensado nas igrejas católicas e protestantes). O problema que ele coloca recai no de Locke ou de d'Holbach: "Encontrar uma forma de associação que defenda e proteja de toda força comum 147 a pessoa e os bens da cada associado e pela qual cada um. que não mais corrompesse o homem. deve ser uma resposta"). não obedeça. Esta última faz abstração dos interesses divergentes e das paixões de cada um para só cuidar do bem comum. É certo que a profissão de fé do Vigário suscitou as iras dos poderes públicos e das igrejas constituídas. aparentemente ao menos. recaem nos temas do espiritualismo mais tradicional. a justiça divina recompensará os bons ("a vida da alma só começa com a morte do corpo") e punirá os maus que são culpados de serem assim ("dependia deles não se tornarem maus"). Mas seria uma grave erro confundir o "naturalismo" de Rosseau com o dos filósofos das luzes. A obra será solenemente queimada. na época. unindo-se a todos. na realidade representa uma reação espiritualista contra a filosofia das luzes e o otimismo dos enciclopedistas. ter uma vontade particular contrária ou dessemelhante da vontade geral que ele tem como cidadão". porém. os maus triunfam neste mundo. "Somos tentados pelas paixões e detidos pela consciência". exposta no Contrato Social. aproxima-se bastante. é uma pedagogia rousseauniana: "Toda lição. o problema fundamental cuja solução é dada pelo contrato social". diz.desta concepção política é a divisão absoluta dos poderes supremos: legislativo. executivo e juduciário. Também é certo que ele desconfia das interpretações que a Igreja possa dar dos Evangelhos ("quantos homens entre mim e Deus!"). fundada nas tendências e nos centros de interesse espontâneos da criança. das idéias dos filósofos racionalistas. ao invés de submetê-la a constrangimentos difíceis? (Nesse sentido. peça mestra do Emílio (1762). tais como se encontram em seu romance A Nova Heloísa (1761) e na Profissão de fé do Vigário saboiano. em Paris e em Genebra. das Considérations sur les causes de la grandeur des Romains et de leur décadence. mas antes depreender (o que é possível com a maioria das vozes. o campeão de uma pedagogia naturalista que confia nas tendências espontâneas da criança. ele escreve para responder a uma questão que a Academia de Dijon colocara em concurso: Rosseau declara-se inimigo do progresso. Nessa obra. Todavia.

assim como o lobo para devorar sua presa. no sentido de algum fim. esse juízo inato do bem e do mal que cada um descobre em si mesmo. ao contrário. para onde nossas tendências nos conduzem. sem que jamais alguém o . ao fazer nosso bem a expensas de outrem. meu jovem amigo! Examinemos. que tirareis todo o encanto da vida. quando. Se nada existe de moral no coração do homem. os princípios de uma alta filosofia. provêm esses transportes de admiração pelas ações heróicas. estaríamos demaisados sós e seríamos demasiados miseráveis se não tivéssemos com quem os dividir. à paciência com que as guarda. Qual o espetáculo que mais nos envaidece. deixando à parte qualquer interesse pessoal. o homem não poderia ser são de espírito. escritas pela natureza em caracteres indeléveis. então. um ato benfazejo ou um ato malfazejo? Por quem vos interessais mais em vossos teatros? É com a maldade que vos divertis? É com seus autores punidos que derramais lágrimas? Tudo nos é indiferente. o desejo de felicidade. tudo o que sinto ser bem é bem e tudo o que sinto ser mal é mal: o melhor de todos os casuístas é a consciência. Aquele cujas paixões vis sufocaram esses sentimentos deliciosos em sua alma estreita. etc. O instinto. o infeliz não sente mais. o dos tormentos ou o da felicidade de outrem? Que é que nos é mais doce fazer e que nos deixa agradável impressão após o ter feito. A Consciência segundo Rosseau (Profissão de Fé do Vigário Saboiano) Não tiro dessas regras. matando-as em seguida para deixá-las ali. Este ponto é importante. o homem humano seria um animal tão depravado quanto um lobo desprezível. pergunto que nome devo dar ao ardor com que meu cão faz guerra às toupeiras que não come. Se a bondade moral concorda com nossa natureza. mas a consciência nunca engana. no fundo do meu coração. fazemos o mal! Acreditamos seguir o impulso da natureza e lhe resistimos. jogando-as por terra no momento em que saltam. à força de se concentrar dentro de si. as paixões são a voz do corpo. as doçuras da amizade humana nos consolam em nossas penas. então o homem é naturalmente mau e não o pode deixar de ser sem se corromper. nem bem constituído. já está morto. quantas vezes a voz interior nos diz que. e a virtude só nos deixaria remorsos. o ser ativo obedece e o ser passivo ordena. aquele que. Se é verdade que o bem seja bem. obedece a natureza e não teme se perder. O primeiro de todos os cuidados é o consigo mesmo: todavia. mas adquirido por reflexão. desprezamos o que diz aos nossos corações. se não fosse bom. de onde. quem a segue.148 nessa vontade geral descobriremos outra coisa que não o interesse. e só quando se comercia com ela é que se recorre às sutilezas do raciocínio. exceto nosso interesse. Sem entrar aqui nessa discussão. não deixa de admitir essa obscura faculdade chamada instinto que parece guiar os animais. Se não concorda. ele o deve ser tanto no fundo de nossos corações quanto em nossas obras. paradoxo muito estranho para valer a pena ser examinado. acaba por amar apenas a si mesmo. esses transportes de amor pelas grandes almas. a regra da consciência. segundo um de nossos mais sábios filósofos (Condillac). qual a relação que ele tem com nosso interesse privado? Por que eu preferiria ser Catão. é o verdadeiro guia do homem: ela está para a alma assim como o instinto está para o corpo(¹). (¹) A filosofia moderna. Penetremos em nós mesmos. e mesmo em nossos prazeres. dizem eles. não vive mais. Feito para prejudicar seus semelhantes. não goza mais nada. do que César triunfante? Tirai de nossos corações esse amor ao belo. escutando o que ela diz dos nossos sentidos. não temos senão o direito de recusá-la. Encontraremos aí. não mais tem transportes e seu coração congelado não mais palpita de alegria. Basta-me consultar-me sobre o que quero fazer. sem qualquer conhecimento adquirido. Esse entusiasmo da virtude. a maneira pela qual ele explica esse progresso obriga-nos a concluir que as crianças refletem mais do que os adultos. quando dissipa seus desejos egoístas "no silêncio das paixões". É espantoso que muitas vezes essas duas linguagens se contradigam? A qual delas se deve ouvir? A razão freqüentemente nos engana. mas as encontro. no fundo. vendo que eu ia interrompê-lo: esperai que eu me detenha um pouco mais a esclarecê-lo. nada mais é do que um hábito privado de reflexão. que só admite o que explica. assim como uma doce trnura nunca umedece seus olhos. que rasga as entranhas. oh. e o maior prêmio da justiça é sentir que a praticamos. A consciência é a voz da alma. proseguiu meu benfeitor. A moralidade de nossas ações está no juízo que delas fazemos. a bondade não seria senão um vício contra a natureza.

depois foi para Iena. um novo método de cálculo. que. e nada falo aqui que não possa ser verificado por todos. as patas dobradas. Desde essa época. com filósofos e escritores antigos. que o expliquem de maneira satisfatória para todo homem sensato. ele se atirou de costas no chão. Com esse título. desviar as atenções do rei e evitar que ele utilizasse sua potência militar contra a Alemanha. Aristóteles (384-322 a. Entrou em contato com alguns dos mais conhecidos intelectuais da época: Arnauld (1612-1694). com quem discute problemas metafísicos. Huygens (1629-1695). Leibniz encontra-se em Amsterdam com Espinosa. numa atitude suplicante e mais própria para me comover. Em 1676. a 1° de julho de 1646. Por causa desse trabalho. Desde muito cedo. e com a filosofia e a teologia escolásticas. permitiu que ele se iniciasse na vida política. sendo.149 tenha dirigido para essa caça ou lhe ensinado que existem toupeiras. Nos anos seguintes. sendo dotado também daquela "ardente ambição que levara Bacon à ruína". abandonando-se assim à minha discrição? Todos os cães do mundo fazem quase o mesmo no mesmo caso. em 1672. pequenino. Galileu (15641642) e Descartes (1596-1650). embora sob ponto de vista diferente. Por outro lado. Seu projeto foi rejeitado. (Nota de Rosseau) Leibniz Vida e Obra Gottfried Wilhelm Leibniz nasceu em Leipzig. Leibniz encontrou os elementos que o levaram à idéia de uma análise combinatória filosófica. Em 1670. Nesse trabalho procurou encontrar para a filosofia leis tão certas quanto as matemáticas e esboçou as premissas do cálculo diferencial.). Em Newton. Leibniz se preocupou em vincular a filosofia às matemáticas escrevendo uma Dissertação Sobre a Arte Combinatória. sem me deixar dobrar. um trabalho sobre o princípio da individuação.C. Esperava. assim. como Platão (428-347 a. no entanto. doutorou-se em direito na Universidade de Altdorf e.). foi convidado para fazer a revisão do "corpus juris latini". precedido por Newton. o método das fluxões. ao que tudo indica. aniquilando. já inventara. as variações das funções são comparadas ao movimento dos corpos. ao contrário. vislumbrando a possibilidade de cria um alfabeto dos pensamentos humanos.C. Leibniz. teve contato.C. 70-19 a. situando-se entre os maiores matemáticos da época. a vida de Leibniz. eu lhe batesse. Que os filósofos. que inventaria ao mesmo tempo que Newton. cidade na qual passaria ao restantes quarenta . portanto. postura em que não permaneceria se. Fora. Leibniz dedicou ao príncipe-eleitor de Mogúncia um trabalho no qual mostrava a necessidade de uma filosofia e uma aritmética do direito e uma tabela de correspondência jurídica. No mesmo ano torna-se bibliotecário-chefe em Hanôver. na primeira vez em que ameacei esse mesmo cão. por que. desse modo. escreveu. mas os três anos de estada em Paris não lhe foram inúteis. Em 1676. que tão desdenhosamente rejeitam o instinto. mal acabado de nascer. A partir de então. Pretendia convencer o rei Luís XIV a conquistar o Egito. então não teria mais nada a dizer e não mais falarei de instinto. Leibniz descobriu o cálculo diferencial. em 1663. Leibniz foi encarregado de uma missão em Paris. Aos quinze anos começou a ler Bacon (1561-1626). apresenta muitas semelhanças com a de Bacon: Leibniz sabia mover-se agilmente em meio às intrigas da corte a fim de realizar seus grandes planos. foi nomeado conselheiro da Alta Corte de Justiça de Mogúncia. já teria adquirido idéias morais? Sabia o que era clemência e generosidade? Em virtude de que luzes adquiridas esperava me acalmar. a Turquia e protegendo a Europa das invasões "bárbaras". a fim de seguir os cursos do matemático Ehrard Wigel. segundo o historiador Windelband. queiram explicar esse fato apenas pelo jogo das sensações e dos conhecimentos que elas nos fazem adquirir. o que o leva a empregar o algoritmo. O ingresso nessa Sociedade valeu-lhe uma pensão e.) e Virgílio (c. Ainda aluno da Universidade de Leipzig. com o qual tudo poderia ser descoberto. e isso é mais importante. filiou-se à Sociedade Rosa-Cruz. desde 1665. passando a dedicar-se às matemáticas. Hobbes (1588-1679). Em 1667. Quê?! meu cão. Pergunto ainda. filho de um professor de filosofia moral. parte de uma colocação metafísica. a idéia de velocidade que fundamentava seu cálculo. em Nuremberg. introduzindo a noção de quantidades infinitamente pequenas. na biblioteca paterna. no estudo da lógica aristotélica.

Saiu de Hanôver apenas para percorrer. a princesa Sofia. aparecendo unificadas na concepção de Deus. Ensaio de Teodicéia. Descartes forneceu-lhe o ideal de uma explicação matemática do mundo. Sobre a Sabedoria. onde conheceu o príncipe Eugênio de Savóia. Leibniz deixou uma obra extensa. realizando pesquisas em bibliotecas e arquivos destinadas a fundamentar suas missões diplomáticas. A Segunda exigência consiste em que. durante três anos. Relativamente esquecido e isolado dos assuntos públicos. Correspondência com Arnauld. Cálculo Diferencial e Integral. Sobre o Verdadeiro Método em Filosofia e Teologia. viajou para a Rússia a fim de propor ao czar Pedro. O primeiro desses princípios é o de razão. pode-se tomar para ponto de partida da compreensão da sua filosofia dois temas provenientes de fontes distintas: um da filosofia de Descartes. fazendo todas as conciliações possíveis. esteve em Viena. De volta a Hanôver. o Grande. O princípio de razão consiste em submeter toda e qualquer explicação ou demonstração a duas exigências. Para Leibniz. cumprindo objetivos propostos pela mente divina. é a razão necessária ou princípio de não-contradição. Sobre a Origem Radical das Coisas. apesar de ter sido um dos maiores responsáveis para que Hanôver se transformasse em eleitorado e para que fosse criada a Academia de Ciências de Berlim. com os quais – segundo muitos historiadores – tentava apenas obter favores dos governantes. Leibniz encontrou diminuído seu prestígio. Sobre as Noções de Direito e de Justiça. Característica Universal. Correspondência com Clarke. tudo aquilo que acontece. além de explicado ou demonstrado não ser contraditório (e sendo. Leibniz conservou a concepção segundo a qual o universo está organizado de maneira teleológica. Parte considerável da obra de Leibniz e constituída por escritos de circunstância. com a morte de sua protetora. houver uma causa que a faça existir. dos quais se poderiam deduzir uma concepção do mundo e uma ética dotada inclusive de implicações políticas. além de não ser contraditória.150 anos de sua vida. portanto. que uma coisa só pode existir necessariamente se. possível sua existência). Deus não pode romper Sua própria lógica e agir sem razões. Dentre seus escritos destacam-se: Sobre a Arte Combinatória. a coisa em questão também existe realmente. ou seja. é a razão suficiente. De Aristóteles e da escolástica. Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano. ao contrário. acontece para cumprir determinados fins. a partir dessa idéia. científicos e filosóficos de seu tempo. outro de Aristóteles e da escolástica medieval. Monadologia. Em seguida. . Outra parte (a volumosíssima correspondência e os trabalhos publicados somente após sua morte) revela – segundo Russel e outros – um pensador bastante diferente do Leibniz público Acrescentando-se a essa dupla face de seus escritos o fato de que muitos deles sequer foram concluídos. O que é Idéia. um plano de organização civil e moral para o país. considera que Leibniz perseguia um sincero ideal de síntese de todos os conhecimentos e das diferentes confissões religiosas de seu tempo. espécie de cálculo filosófico que lhe permitiria encontrar o verdadeiro conhecimento e desvendar a natureza das coisas. Racionalismo e Finalismo Apesar de sua intensa e agitada vida pública. As duas doutrinas foram sintetizadas pela filosofia de Leibniz. em que trata de quase todos os assuntos políticos. Em 1711. a vontade do Criador (na qual se fundamenta o finalismo) submete-se ao Seu entendimento (racionalismo). Nessa época. O princípio de razão afirma. torna-se bastante difícil uma interpretação da filosofia leibniziana que não dê margem a dúvida e não suscite polêmica. Discurso de Metafísica. realizou seus principais trabalhos filosóficos. portanto. Essa síntese entre o racionalismo cartesiano e o finalismo aristotélico apresenta como núcleo uma série de princípios de conhecimento. Conseqüentemente. ao qual dedicaria a Monadologia. a Alemanha e a Itália. Dilthey. Sobre a Liberdade e Correspondência com Padre Bosses. De qualquer modo – e embora Leibniz tenha criado um amplo sistema de idéias dotado de "múltiplas entradas" –. Leibniz veio a falecer a 14 de novembro de 1716. Leibniz pretendia lançar as bases de uma combinatória universal. pois estas constituem Sua natureza imutável. A primeira funda-se no caráter não-contraditório daquilo que é explicado ou demonstrado. Considerações Sobre o Princípio da Vida. o mundo criado por Deus estaria impregnado de racionalidade.

mas têm o poder interno de exprimir o resto do universo. por Leibniz. enquanto toda a . O princípio dos indiscerníveis daria conta da multiplicidade e individualidade das coisas existentes. contudo. As notas que caracterizam as mônadas leibnizianas são a percepção. O finalismo sustenta. formulado por Descartes.151 Para Leibniz. embora apenas virtualmente. Isto se deve ao fato de que o universo é múltiplo e infinito. a mônada é a consciência. Leibniz faz com que intervenham também os princípios da continuidade e dos indiscerníveis. Os princípios do melhor. cada uma de per si espelha o universo todo. as mônadas. desse modo. por outro lado. explica os seres não como máquinas que se movem. a experiência indica que o que se conserva num ciclo de movimento não é – como pensava Descartes – a quantidade do movimento. A primeira é de tipo matemático e mecânico. mas é bastante que as descubramos em nós por um esforço de atenção. jamais havendo consciência clara de todas as impressões. O princípio da continuidade afirma que a natureza não dá saltos. não se esgota na adição do atributo força ao conceito da matéria. como o édito do pretor é lido em seu caderno. Por isso. intervém também nessa produção a causa final. que dão conta da produção das coisas. A partir da noção de matéria como essencialmente atividade. Leibniz rejeita a teoria empirista de Locke (1632-1704). mas a quantidade de força viva". da continuidade e dos indiscerníveis são considerados. Leibniz chega à idéia de que o universo é composto por unidades de força. Enquanto Descartes formula uma concepção geométrica e mecânica dos corpos. mas intrínseca. com ele Leibniz pretende demonstrar que o mal é a simples sombra necessária do bem. sem mundo sensível. A apercepção é a capacidade que a mônada espiritual tem de auto-representar-se. Além dos princípios de razão (não-contadição e suficiência) e do princípio do melhor. Leibniz constrói uma concepção dinâmica. que as plantas não passam de animais imperfeitos. Os Fundamentos da Monadologia esforços e sem pesquisa. Cada representação por parte das mônadas é um reflexo obscuro. O finalismo é que sustenta o princípio do melhor: Deus calcula vários mundos possíveis. mas como forças vivas: "Os corpos materiais. ao contrário. inatos. A apetição consiste na tendência de cada mônada de fugir da dor e desejar o prazer. Nesse sentido. Para Leibniz. uma folha de papel em branco. Leibniz completa a fórmula de Locke – "Nada há no intelecto que não tenha passado primeiro pelos sentidos" – com o adendo "a não ser o próprio intelecto". Leibniz afirma. passando de uma percepção para outra. de refletir. isto é. da não-contradição. apenas uma "tabula rasa". por sua resistência e impenetrabilidade. não recebem seus conhecimentos de fora. que deseja essa produção. assim também não existem descontinuidades na hierarquia dos seres. Leibniz afirma que não há no universo dois seres idênticos e que sua diferença não é numérica nem espacial ou temporal. revelam-se não como extensão mas como forças. o otimismo leibniziano do melhor dos mundos possíveis. Pela percepção as mônadas representam as coisas do universo. mas errariam ao esquecer o papel do espírito. a apetição e a expressão. boa e perfeita de Deus. além da causa eficiente que produz as coisas segundo o princípio de razão (nãocontadição e suficiência). a partir de si mesmas. noção fundamental de sua metafísica. Leibniz chega também à noção de mônada mediante a experiência interior que cada indivíduo tem de si mesmo e que o revela como uma substância ao mesmo tempo una e indivisível. por exemplo. cada ser é em si diferente de qualquer outro. Nos Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano. não tendo "portas sem janelas". da razão suficiente. Essa noção. constitutivos da própria razão humana e. O fim da produção das coisas é a vontade justa. uma vez que as ocasiões são fornecidas pelos sentidos". as mônadas. A diferença é de essência e manifesta-se no plano visível das próprias coisas. portanto. assim como não há vazios no espaço. segundo a qual a origem das idéias encontra-se na experiência. a Segunda é dinâmica e moral. a experiência só fornece a ocasião para o conhecimento dos princípios inatos ao intelecto: "Não se deve imaginar que se possa ler na alma. mas faz existir o melhor desses mundos. isto é. essas eternas leis da razão. O critério do melhor é sobretudo moral. a mônada é um ponto de vista. Finalmente. a apercepção. Os empiristas teriam razão ao afirmar que as idéias surgem do contato com o Os princípios do conhecimento formulados por Leibniz levaram-no a uma concepção do mundo oposta à cartesiana.

pertencente apenas aos espíritos enquanto não são apenas espelhos. por conseguinte. apenas como uma não- explicar a presença do mal no mundo? . exatamente ao de todas as outras. o trabalho da imaginação nos "bastidores da consciência".152 substância. isto é. Portanto. diz Leibniz. A percepção consciente (apercepção) resulta do conjunto das "pequenas percepções". A imperfeição metafísica original de definiria. Assim. "É verdade". O inconsciente seria inerente a todas as substâncias criadas e seus diferentes graus seriam paralelos aos graus de perfeição dessas substâncias. Para Leibniz. Coloca-se então a questão: como Leibniz tentou responder a esse problema. a fim de poder me aperceber daquilo que resulta de seu conjunto.. afirmando inicialmente que o mal se manifesta de três modos: metafísico. sua posição. de alguma forma. a cada instante. e deste decorreria o mal físico. os pontos de vista de cada mônada sobre o universo concordariam entre si. a continuidade existente entre os seres não anula a diferença de natureza entre as simples mônadas e os espíritos. em Leibniz. isso constituiria a harmonia preestabelecida. mas espelhos dotados de reflexão. A noção de ordem. a alma também tem algum pensamento de todos os movimentos do universo. "que não nos apercebemos distintamente de todos os movimentos de nosso corpo. os estados sucessivos da alma estariam ligados uns aos outros e a todo universo. isto é. organiza-os com perfeição de maneira a marcarem sempre a mesma hora e dá-lhes corda a partir do mesmo instante. deixando em seguida que seus mecanismos operem sozinhos. é necessariamente finita. como o ruído do choque de duas gotas de água. toda mônada. o conjunto todo organiza-se numa topologia. pela mudança de todos os outros. todavia. com consciência e vontade. os atos de cada mônada foram antecipadamente regulados de modo a estarem adequados aos atos de todas as outras. com exceção de Deus.). pois se ela não fosse imperfeita. como por exemplo o da linfa (. O mal metafísico seria a fonte do mal moral.. encontra-se no fato de que as mônadas não possuem o mesmo grau de perfeição: acima das "mônadas nuas" (corpos brutos que só têm percepções inconscientes e apetições cegas) existem "mônadas sensitivas" (animais dotados de apercepções e desejos) e as "mônadas racionais". assim estruturado. Deus teria colocado em cada mônada. Isso explicaria a conservação das lembranças. no instante da criação. e o inconsciente da imitação. O sistema todo. assim. assim como a realidade dos sonhos. Em Leibniz. dentro da complexa teia. conduz à possibilidade de tradução de uma ordem em outra. A razão dessa diferença. próprio das simples mônadas enquanto são apenas "espelhos do universo". esse grande ruído que se escuta perto do mar". revive o modelo estóico: o universo é concebido à semelhança de um organismo pleno. corresponde. Leibniz afirma ainda que existem dois tipos de inconscientes: o inconsciente de percepção. não é possível "que nossa alma (mônada superior) possa atingir tudo em particular". Deus escolhe o melhor dos mundos dentre todos aqueles que se apresentam como possíveis. seu desenvolvimento. assume feição diferente da que possuía em Descartes: desliga-se da de nexo linear e passa a se vincular à noção de "situação" (as situações resultantes das diversas séries que se entrecruzam). A doutrina leibniziana da harmonia preestabelecida sustenta que Deus cria as mônadas como se fossem relógios. é afetado. para Leibniz. Assim. mas é preciso que eu tenha alguma percepção do movimento de cada vaga de um rio. Ao mesmo tempo. físico e moral. mesmo quando esquecidos no estado de vigília. o sistema de Leibniz estrutura-se como um conjunto de múltiplas séries que convergem e se entrecruzam. que se deve ouvir mesmo sem ter consciência. O corpo humano. criando-as de tal modo que cada uma se desenvolve como se estivesse só. Dessa forma. todos os seus movimentos correspondem certas "percepções" ou pensamentos mais ou menos confusos da alma. Graças a essa harmonia preestabelecida. O Melhor dos Mundos Possíveis O racionalismo leibniziano tende à constituição de um saber globalizador. cujas partes convivem numa harmonia natural e onde tudo é análogo a tudo. Do ponto de vista lógico. cada ponto de uma das séries é definido. todas as suas percepções. de uma mathesis universalis. por seu lugar. seria o próprio Deus. O mal metafísico é a imperfeição inerente à própria essência da criatura. O pluralismo das séries convergentes que constituem o universo pode assim apresentar-se como pluralismo conciliado e harmônico.

. deixam uma réstia de dúvida sobre seu otimismo: "Pode-se duvidar se o mundo avança sempre em perfeição ou se avança e recua por períodos. ou avançam depois de terem recuado. que recuam depois de terem avançado. O mal metafísico é a raiz do mal moral. dando origem àquela duplicidade especulativa e prática. isto é. dominador da natureza. celebrado. gozar com meios humanos. ou mecânica metafísica. O mal físico é entendido por Leibniz como conseqüência do mal moral. O Humanismo pode. Não se deveria. assim. uma conseqüência física da limitação original e uma conseqüência ética. porque Deus proporciona a todos as mesmas graças. Leibniz afirma que. em que se entretecem motivos multíplices. imanentista. livre de si mesmo. contudo. apenas como uma não-perfeição. É. com razão. definir-se pela palavra: o homem potenciado. tem percepções inadequadas e se deixa envolver pelo confuso. a dor física seria expressão da dor metafísica. outras. um não-ser. pelo seu ardente interesse pelo mundo a conquistar. entretanto. retomando Leibniz a concepção neoplatônica e agostiniana. Na própria origem das coisas. outras que voltam sem avançar ou recuar. se existem aquelas que realizam períodos no final dos quais percebem não ter ganho nem perdido. tão característica dos homens da época. na Idade Média.153 perfeição. contudo. de tal forma que o mundo comporta o máximo de bem e o mínimo de mal. sobretudo. falta ao Humanismo moderno a espontaneidade e a serenidade do paganismo antigo: o Humanismo moderno não descansará em um tranqüilo gozo da vida. Algumas passagens das obras do próprio Leibniz. como a espiral. sem possibilidade de erro. isto é. particularmente no campo da prática.. característico da idade moderna. ou. que a alma experimenta por causa de sua imperfeição. de fato. Em decorrência da harmonia preestabelecida. formulada por Leibniz. o que é manifestado pelo seu individualismo. Segundo Leibniz. senhor do mundo. o velho persiste ao lado do novo. ao mesmo tempo. É uma multiplicidade de motivos indiscutivelmente dominada pelo espírito panteísta do neoplatonismo. pois aquilo que é perfeito pode contemplar o Bem. (. ao menos no final de seus períodos. Deus autoriza o sofrimento porque este é necessário para a produção de um Bem Superior: "Experimenta-se suficientemente a saúde. mas não de seus defeitos. ou se existem também aquelas que perdem e recuam sempre. para o qual o Humanismo. religiosamente.como já aconteceu no paganismo antigo. dominar. assim também Deus é a causa da perfeição da Natureza. em que se poderá claramente conhecer a árvore pelos frutos. mas não de seu atraso. mas cada um pode se beneficiar delas de acordo com sua limitação original. . de humanismo e de imanentismo. logo. Entretanto. porquanto espiritual e interior. como a reta. como as ovais". responsável pela determinação do máximo de existência. mas procurará alimento no ativismo agitado e sem meta. pelo seu estetismo. podendo ser considerado. mas uma substância imperfeita não é capaz de aprender o todo. Ao produzir o mundo tal como ele é. e. que atravessou toda a Idade Média. imanentista. exerce-se uma certa matemática divina. da mesma forma que existem linhas que avançam sempre. punição do pecado. concluiria assim sua tentativa de síntese sistemática de uma filosofia que concebe o mundo como rigorosamente racional e como o melhor dos mundos possíveis. pois trata-se de um período inicial. outras que voltam e avançam ao mesmo tempo. Maior?" A teoria do Mal. Mas o início do Humanismo e da Renascença é rico de todos os germes que se desenvolverão no sucessivo período moderno.) Pode-se pois questionar se todas as criaturas avançam sempre. tal espírito era corrigido. enfim. e de que parece um retorno. Deus escolheu o menor dos males. apela. do Humanismo e da Renascença não é coisa fácil. Dar uma documentação formal desse caráter pagão. metafísica original se definiria. finalmente. A Renascença Características Gerais A Renascença é uma poderosa afirmação. pelo seu naturalismo que diviniza o homem material . assim como a correnteza é a causa do movimento do barco. exaltado até à divindade. sem nunca se ter estado doente? Não é preciso que um pouco de Mal torne o Bem sensível. um paganismo ainda mais radical que o antigo. como a circular. responsabilizar o criador pela existência do mal. diz Leibniz. tão rigorosa quanto as dos máximos e mínimos matemáticos ou as leis do equilíbrio.

Scoto Erígena. E os elementos novos do humanismo . mera obra do homem. ao lado do humanismo pagão. que chamava virtude a força. não obstante a variedade de suas orientações. Especialmente as duas primeiras e. o qual parece reconhecer a obscuridade e a incoerência do seu pensamento. do Humanismo e da Renascença: uma alma pagã. a história. em geral. não o valor. em geral. a técnica. em si mesmos. realçando-lhes o conteúdo de humanidade. volta-se à sancta antiquitas. Em 1404 Leonardo Bruni aretino (1369-1440) publicava a primeira tradução parcial de Platão. se se pensar em Giordano Bruno. nem podiam ser. devido à queda de Constantinopla . Na Renascença são representadas. em oposição ao espírito cristão. O platonismo é. clássicas. e prefere o paganismo ao cristianismo. o maior filósofo da época. se se tiver presente Nicolau Machiavelli. mais propriamente. Esse Concílio foi convocado para a união da igreja grega com a igreja latina. a interpretação de Aristóteles dada por Tomás de Aquino. entre estas. O renascimento cristão. são infrafilosóficos. Na Renascença. teórico do amor e da beleza. em especial a Aristóteles. pela escolástica tomista. indiferentes a qualquer concepção da realidade. que . O Renovamento das Antigas Escolas Filosóficas Uma das manifestações características da Renascença é o renovamento das antigas escolas filosóficas. medeiam quinze séculos. e sustenta ou a interpretação naturalista de Alexandre de Afrodísia. o estoicismo. o ceticismo e o ecletismo. conhecedores profundos de Platão. ao contrário.é um crepúsculo preludiando o dia e não a noite. No entanto. a política .era já um fato consumado. todas as escolas filosóficas antigas: o platonismo. entre a classicidade e a Renascença. pois. o epicurismo. mais ou menos.não se podem dizer imanentistas antes que cristãos. Naturalmente não são. as escolas filosóficas clássicas em sua espontaneidade original. O Platonismo O ídolo da Renascença é Platão: artista e dialético. Mestre Eckart). E. o aristotelismo. Em 1429 o camaldulense frei Ambrósio Traversari. iniciando. estando acima da religião e da moral transcendente.a ciência. já não é mais possível o retorno à serenidade clássica de Aristóteles ou ao ascetismo imanentista dos estóicos. Essa é a alma.racionalista. e viu Francisco de Assis e Antonio de Lisboa. é o vértice da humanidade. presente em todas elas. Domingos de Gusmão e Tomás de Aquino. precipuamente a primeira.154 pela teologia católica e. mas tem consciência de que a sua doutrina . não é obra dos séculos XV e XVI. e chamou para a Itália vários doutores orientais. profundamente influenciados pela mensagem cristã.do pensamento grego e do jus romano . em que não será difícil separar o elemento interior do elemento exterior: se se considerar. racionalmente. Esses elementos são essencialmente formais e estéticos porque a grande valorização cristã da civilização clássica . destarte. um humanismo cristão. É uma dualidade composta de velho e de novo. ou a panteísta de Averroés. monista e humanista . naturalmente. a renascença platônica. iniciador da ciência matemática da natureza. que seria uma contradição em termos. o ideal da vida daquela época. mas do século que se abre com Inocêncio III e se encerra com Dante. já porque a sua fundamental concepção panteísta e o seu potenciamento do espírito humano podiam melhor corresponder ao imanentismo e humanismo da Renascença. após o aparecimento da Cruz.está persuadido de que o Estado. E valorizam-se as antigas escolas filosóficas. e. O aristotelismo da Renascença exclui. o significado. de volta de Constantinopla. pois. levava para a Itália o conjunto completo dos escritos platônicos. gregas. Não há. a unidade real e potencial dos grandes valores da civilização no valor sumo da religião.sem possuir uma metafísica consciente . Na Idade Média o pensamento clássico foi bem conhecido e valorizado. portanto. e enaltecia não o Pobrezinho de Assis e sim o Príncipe Valentino. neoplatonismo: já porque assim se tinha fixado na antigüidade e neste sentido influenciara toda a Idade Média (pseudo Dionísio Areopagita. tal conhecimento e valorização diziam respeito aos maiores filósofos gregos. Outros vieram pouco depois. Entretanto foi o Concílio de Florença (1439) que deu um impulso decisivo aos estudos platônicos na Itália ¾ bem como aos estudos aristotélicos e dos filósofos clássicos.

tradutores de Aristóteles e dos seus comentadores. João Pico della Mirandola e o próprio Lourenço. 155 . Orfeu. ambas contrárias à interpretação tomista-cristã. cooperando eficazmente para o incremento do ressuscitado helenismo. o Magnífico. Foi feito cardeal pelo Papa Eugênio IV e permaneceu na Itália. que é a tendência especulativa dominante na época. animador da célebre academia platônica florentina. no século XV. com o cristianismo.(1453) em mãos dos turcos. cujo imanentismo naturalista é mais conforme ao espírito do Renascimento. entre os quais lembramos.Zoroastro. Famoso é Jorge Gemistos Pleton (1355-1450). após várias peregrinações. Aos 18 anos sabia 22 línguas"! O Aristotelismo Não é sempre fácil distinguir o aristotelismo do platonismo da Renascença. Este filósofo . de que era entusiasta. Como já foi dito. o mais famoso platônico pode ser considerado João Pico della Mirandolla (1463-1494). para tratar da unificação da igreja grega com a igreja latina. equilibrando-o filosófica e religiosamente. contrasta o humanismo imanentista da mesma Renascença. neoplatônico. que professa verdadeiramente um ecletismo baseado no platonismo e no cabalismo. na Segunda metade do século XV surge e firma-se um platonismo italiano. para o latim. O centro foi precisamente Florença. freqüentemente. Fizeram parte deste cenáculo Poliziano. Expôs o seu pensamento em uma grande obra (Theologia platonica de immortalitate animorum . que influiu no seu temperamento exuberante e passional. Prevalece a escola alexandrina. onde foi celebrado o famoso Concílio. que. porquanto. replicou contra Jorge de Trebizonda o seu concidadão Basílio Bessarione (1403-1472) com o escrito In calumniatorem Platonis. Teodoro de Gaza e o já mencionado Jorge de Trebizonda. veio para a Itália com o séqüito do imperador João VII Paleólogo. considerando o intelecto humano como sendo a atividade de uma essência transcendente e divina. em que procura concordar o platonismo. mas que teve no humanismo do Renascimento um valor e um significado particulares. Entretanto não foi um metafísico. Traduziu elegantemente. Protegido por Cosme De Médices. Depois desse platonismo de importação oriental.e foi tido por seus contemporâneos como um prodígio de memória. Sua atividade principal foi traduzir.1491).apelando também para Tomás de Aquino . "Blasonava de poder disputar de omni rescibili . eminente prelado da igreja oriental. Bessarione. entretanto. Faleceu em 1499. artistas e pensadores. Marcílio Ficino nasceu em 1433 em Figline Valdarno. Em 1473 foi ordenado padre e a sua vida foi muito austera no meio de Florença do século XV. Seu principal representante foi Marsílio Ficino. Também o aristotelismo. inspirando-se em Averroés. o Magnífico. Pulci. pode consagrar toda a sua vida aos prediletos estudos filosóficos. Da parte platônica. Depois de Marsílio Ficino. é uma polêmica antiaristotélica. Sua idéia animadora é a exaltação do homem como microcosmo.até o cristianismo: expressão do universalismo religioso da Renascença. autor da obra Sobre a Diferença da Filosofia Platônica e Aristotélica.escreve Franca . Pitágoras. síntese do universo: conceito antigo. Aí entrou em contato com Marsílio Ficino. A escola averroísta. Platão . realmente. onde teve sua sede a academia platônica. Esta academia nasceu graças a um cenáculo de literatos.sustenta a superioridade de Aristóteles sobre Platão pelo seu espírito científico. em que acreditava seriamente. e pela conseqüente possibilidade de concordar a sua filosofia com o cristianismo. teve impulso. o aristotelismo da Renascença se distingue em duas correntes principais: a naturalista inspirando-se em Alexandre Afrodísio. que vai desde os antigos sábios e filósofos . como o platonismo. Outra idéia sua inspiradora é o conceito de uma continuidade do desenvolvimento religioso. autor de De dignitate hominis. mas um eclético e suas finalidades eram morais. Dotado da mais vasta e heterogênea cultura. e a panteísta-neoplatônica. Platão (1477) e Plotino (1485). além de outros neoplatônicos. pela sua doutrina em torno de Deus e da alma. amigos da casa De Médicis. aparecem confusos no sincretismo neoplatônico. Esse escrito provocou uma resposta violenta ao aristotélico Jorge de Trebizonda (Comparatio Platonis et Aristotelis). graças aos sábios gregos vindos para a Itália. estabeleceu-se em Florença junto de Lourenço. que o presenteou com uma Quinta.

em especial por parte dos literatos. publicado em Bolonha em 1516. Para conciliar. a arte é superior à história. em especial na vida gozadora e requintada. a moral estóica. naturalmente. professor de filosofia nas universidades de Pádua. O Ceticismo Também o ceticismo da Renascença foi inspirado pelo ceticismo clássico. a mentalidade literária da época. que julgava salvar a fé deprimindo a razão. em oposição ao pensamento antigo e medieval. no século XV. porém. são duas expressões práticas desse espírito epicurista. em o século XIV. alexandrista.bem como a história . voluptuosa e artística da cortes esplêndidas da época. Seja como for. contra a concepção transcendente e ascética cristã. imanentista e mundano da Renascença. quer estóico. e também na literatura e no pensamento. por obra de Jorge Valla. Em torno deste tema se travam as disputas mais variadas. onde faleceu em 1525. freqüente e violentamente. simpatizando. da concretidade. Nifo (averroísta) e Contarini (tomista) com dois ensaios tendo o mesmo título (Sobre a Imortalidade da Alma). Parte-se da Poética de Aristóteles. a religião. e de Manuductio ad stoicam philosophiam. professor em Lovaina. O estoicismo renascentista enaltece o homem. no fundo. autor do Decamerone. O Epicurismo O epicurismo. o Magnífico. autor do famoso livro De voluptate ac de vero bono. a paixão pela observação detalhada própria do pensamento moderno em geral. negador da ação. esse seu racionalismo com a religião cristã.O mais famoso entre esses novos aristotélicos é Pedro Pomponazzi. literária. Valla oscila entre a sua negação e uma representação no sentido hedonista. a essência das coisas. voltados para o universo e o abstrato. Os motivos mais específicos que deram origem ao ceticismo da Renascença foram: a sede do individual. é preso pela ação. a vida. ao passo que a história tem como objeto o particular. Respondiam a Pomponazzi. quer cristão. E também este novo ceticismo renascentista surgiu mais por fins práticos do que por motivos teoréticos. autor de De Constantia. O estoicismo da Renascença. pois. mas fica decididamente hostil ao ascetismo. É célebre o seu opúsculo Sobre a Imortalidade da Alma. e tente. Ferrara e Bolonha. justificada como sendo a filosofia do vulgo. Aristóteles sustentara ser a arte . nascido em Mântua em 1462. uma fortuna especial no campo da estética. o necessário. Dominador das coisas e dos eventos. na Renascença. o contraste entre a 156 . Entretanto. o contingente. apaixonada pela estética. para finalidade prática e pedagógica. desfrutou de grande favor junto dos filósofos das mais diferentes tendências nos séculos XVI e XVII. tendo esta atacado. onde o autor compara a moral estóica e a epicurista. a variedade e o contraste das diversas escolas e tradições (filosóficas e religiosas). diversamente do estoicismo clássico. o mundo. a religiosidade persistente. melhor do que o estoicismo. cuja primeira tradução remonta ao ano de 1498. uma certa conciliação entre epicurismo e cristianismo. o acidental. O estoicismo não foi apenas objeto de admiração cultural. O expoente mais notável dessa tendência epicurista é Lourenço Valla (1407-1459). e Pomponazzi replica como uma Apologia (contra Contarini) e com um Defensorium (contra Nifo). Quanto à vida futura. João Boccaccio. Nem a morte pôs termo àquela polêmica.uma imitação da realidade. Neste opúsculo conclui em favor da mortalidade da alma. sustentando que esta realiza o seu fim último na vida terrena. escola de energia e de conforto. O aristotelismo teve. e Lourenço. mais ou menos ajustada ao cristianismo. em torno de que se disputou longa e fervidamente. porquanto tem como objeto o universal. O Estoicismo O espírito autônomo da Renascença devia provar viva simpatia para o sábio estóico. da poética. impassível. com esta última. condizia com o espírito humanista. e incapaz de levantar grandes construções sistemáticas. recorre a certas distinções que relembram a velha teoria averroísta das duas verdades: a religião é. O estóico mais notável da Renascença foi o belga Justo Lípsio (1547-1606). mas tornou-se ideal de vida moral em lugar do cristianismo. considerada causa de perturbação.

a maior conquista do pensamento da Renascença. Então é preciso organizar naturalisticamente e subordinar mecanicamente um complexo de paixões e de egoísmos a um egoísmo maior. partindo do terreno realista da experiência e prescindindo de qualquer valor espiritual e transcendente. Faleceu em 1527. não como substância espiritual. Foi secretário e historiador da república florentina. e podem ser aniquilados pelo estado. Daí derivam. mesmo que tenha veleidades e faça afirmações de alcance metafísico. em seguida. Machiavelli propõe-se o problema: como constituir um estado. . inteiramente absorvidos pelo universal e pela transcendência. mundanas. obscuro e abandonado. a ciência política e a técnica científica (ciência aplicada) que tiveram. Este . são independentes de qualquer filosofia: porquanto. O fim último é o estado. ético e religioso. tem que transcender o próprio campo da experiência. A experiência histórica lhe diz que a natureza do homem é profundamente egoísta e malvada. é o autor dos famosos Essais: "Que sais-je"? O seu interesse é voltado para o estudo do eu. Precisamente pelo fato de que o paganismo representa uma concepção e uma praxe humanistas. o grande valor.como já pensavam os céticos antigos . Tudo o mais lhe parece incerto: os sentidos enganamnos. ainda que o seu pensamento seja alicerçado na metafísica do humanismo e do imanentismo renascentista. não resolvem. a moral varia conforme os tempos e os lugares. o do príncipe e do estado. ao passo que o cristianismo é uma concepção e uma praxe transcendentes e ascéticas. naturalista da época. história e ciência. semelhante à cristã. voltou ainda à pátria. até os morais e religiosos. o seu grande início. Daí a necessidade da fé. não filósofo. Entre seus escritos têm particular interesse filosófico Il Principe e os Discorsi sopra la prima deca di Tito Livio. ficando no âmbito da experiência.atinge a paz abandonando-se à diretriz da natureza. Destituído e exilado. a razão perde-se num labirinto infindo. chamado pelos amigos. como. É o fruto do vivo interesse e da penetrante observação da experiência e da concretidade. Ele também não foi filósofo. Miguel de Montaigne (1533-1592). e sim como caráter. quase que desconhecidos do pensamento clássico e do pensamento medieval. Indivíduos e valores devem servir unicamente como instrumentos de governo. O ceticismo da Renascença tem seus maiores expoentes fora da Itália. mas de uma fé em que Deus serve ao homem. A Renascença A Política Nova e a Ciência Nova A prescindir da arte e da literatura. aliás. e sim teórico da técnica política. mas sem a explicação (o pecado original) e sem o remédio (a redenção pela cruz). e o maior é Montaigne. francês. humanista. centro unitário das mais variadas experiências humanas. E a maior expressão da ciência nova é Galileu Galilei. nem podem resolver o problema filosófico. a que tudo deve ser subordinado. Estas duas grandes conquistas  história e ciência  embora se apresentem em conexão com a filosofia imanentista. que o cristianismo oferece. Daí a máxima famosa: o fim justifica os meios. necessariamente. O que especialmente emerge em Montaigne é o individualismo da Renascença. de direito são dela independentes. concluindo em favor da superioridade (política) do segundo. A expressão clássica da nova ciência política é Nicolau Machiavelli. Ele tem do homem uma concepção pessimista. tanto os indivíduos como todos os valores. É preciso constituir uma ciência política sobre a base de um utilitarismo rigoroso. A este propósito é característica e intuitiva a comparação que Machiavelli faz entre o cristianismo católico e o paganismo antigo. está na história humana.157 exigência religiosa e o paganismo da vida que surgia de novo. Nicolau Machiavelli Nicolau Machiavelli nasceu em Florença em 1469. e não reconhece poder algum humano superior a ele. mas teórico e técnico da renovada ciência da natureza. cuja solução. na Renascença. e na ciência natural. em que tudo é subordinado ao estado.

Galileu fica no âmbito da própria experiência. Como Aristóteles e Tomás de Aquino. que foi causa do segundo processo. pelo que diz respeito em especial à astronomia. de conformidade com o espírito católico e concreto da Contra-Reforma. indispensável para tornar politicamente dóceis os homens. Passou seus últimos anos de vida na vila de Arcetri. disciplinar. em geral. seus princípios teóricos. instrumento precioso. o que é verdade. . será preciso subordinar um princípio moral a outro princípio superior da moral (como. e sim uma grande quantidade de apontamentos e bosquejos preciosos. Leonardo fez uma notável quantidade de pesquisas e de invenções preciosas no campo das ciências: em matemática. em harmonia com os ideais e as conquistas da idade nova. essencialmente imutável. mas fisicamente. embora receba de Deus a sua eticidade transcendente. diversamente daqueles dois filósofos que partem da experiência para transcendê-la e construir uma metafísica geral e especial. Pela sua defesa do sistema astronômico de Copérnico (heliocêntrico) foi para Roma onde foi processado pelo Santo Ofício. círculos. se se confrontar com uma concepção transcendente e ascética do mundo e da vida. botânica. pisar na realidade concreta. tendo defendido com persistência o supradito sistema. Por isso. Leonardo da Vinci. o livro da natureza é escrito com caracteres que são "triângulos. aconselha-o a respeitar plenamente a religião (católica). variável. porquanto a moralidade. técnico e teórico da ciência. em que se revela um gênio soberano e um teórico genial. que não tem fins transcendentes e leis morais estáveis. histórica. ainda que deva mirar a um ideal superior e imutável. astronomia. e sim transcendentes (como todos os valores absolutos). Entre suas obras são famosas: O Saggiatore (1623). Galileu está convencido de que o conhecimento humano deve firmar-se na experiência. onde faleceu em 1642. conserva um grande valor também para a concepção transcendente do mundo e da vida. nascido perto de Florença em 1452. isto é. tem que ter os pés sobre a terra. isto é. foi processado e condenado novamente em 1633. em Florença. de imoralidade. o Diálogo sopra i due massimi sistemi del mondo (1632). o grande metodólogo da ciência natural é Galileu Galilei. livro polêmico contra os aristotélicos. Neste sentido conceberá a política o piemontês João Botero (1540-1617) na sua obra Della ragione di stato. física. perto de Florença. para a concretização dessa concepção transcendente da vida. por exemplo aconselha ele ao Príncipe ocultar prudentemente suas fraquezas eventuais. em Florença. a política de Machiavelli não está em contraste com uma ética humanista e imanentista. aliás. têm na Renascença a sua maior expressão em Leonardo da Vinci e. Entretanto. Aplicou a matemática à física. como matemático e filósofo. E. nascido em Tosacana (Pisa) em 1564. e o Diálogo delle scienze nuove (1638). para chegar à razão. como é a teísta e a cristã. Tais leis julga Galileu sejam as matemáticas. para conservar a reputação real. em Copérnico e Kepler. dependem todos os valores e todo o ser. as seguir. exercitou a sua profissão de artista e técnico em Milão. convencido de que era mister partir da experiência. na sua essência. Galileu estuda o mundo não para conhecê-lo metafisicamente. pois o estado. Galileu.158 A política de Machiavelli foi acusada. e os meios para atingir o fim último não são substancialmente variáveis conforme as circunstâncias dos tempos e dos lugares. aliás. valorizar os homens efetivamente egoístas e inclinados ao mal. deriva da natureza racional do homem. Nesta obra. bem como o aconselha a encaminhar para a milícia e para a guerra. etc. não é o estado e sim Deus. que condenou aquele sistema (1616). por vezes. com base na profunda experiência humana. mas. quadrados. Não nos interessa como artista. para colher as essências imutáveis das coisas. muitas vezes. geologia. ao domínio da natureza. Aplicou ele imediatamente à técnica. Entretanto. o estado. anatomia. à matemática. Deve organizar. acontece também na moral individual no caso do assim chamado conflito dos deveres). pois. mas como cientista. sobretudo em Galileu Galilei. mecânica. inclinados profundamente para o mal. para colher os fenômenos e suas leis. publicados mais tarde. deverá ser leão ou raposa  no dizer de Machiavelli. isto é. é indispensável a fim de que o homem realize a sua natureza racional: é ético o estado. A doutrina política de Machiavelli todavia. terá de agir com força decidida e com refinada prudência. que seria a razão que governa o mundo natural. fisiologia. Ensinou nas universidades de Pisa e de Pádua. como de Deus. a instintiva ferocidade humana. em Roma e na França onde faleceu em 1519. Entretanto. Galileu Galilei As ciências físicas e naturais. Leonardo não deixou obras sistemáticas e editadas.

E destarte será ela inteiramente valorizável e conciliável com a metafísica tradicional aristotélico-tomista. Deste modo. e não pretenda tornar-se metafísica. os sistemas. Será mister.de reduzir a metafísica à física. transforma-se em lei. julgava-se erroneamente. pirâmides e outras figuras matemáticas muito aptas para tal leitura". permanecendo entre os limites da experiência. anual em volta do Sol. uma ciência . Esta. e será tão fecundo em resultados práticos. sem razão. o tamanho. sobremaneira prejudicou à metafísica tradicional na idade moderna. mesmo no seu aspecto racional-matemático. E tal atomismo mecânico está logicamente em contraste com a convicção religiosa de Galileu. de um lado. Ele também segue o princípio de que a natureza é governada por leis matemáticas: ubi materia. ao passo que considera subjetivas (transformação das objetivas por obra dos nossos órgãos sensoriais) as propriedades qualitativas: a cor. Nicolau Copérnico nasceu em Thorn. entre os quais se destaca São Roberto Belarmino. Com Galileu começa a tendência da filosofia moderna . o seu princípio racional é matemático: é físico-matemática. técnicos. especialmente na Itália. contrariamente ao afirmado agnosticismo galileiano sob este aspecto cientificamente fecundo. por conseguinte. finito. a doutrina astronômica heliocêntrica chama-se copernicana. c) a experimentação. o movimento. porquanto não se podem reduzir à quantidade o espirito. etc. cujo resultado publicou na famosa obra De obrium coelestium revolutionibus. que explica o equilíbrio dos corpos celestes. Em todo caso devemos prescindir de tais questões práticas. Daí a explicação da matemática à física. está evidentemente em contraste com o seu fenomenismo. E temos. De volta à pátria. cujo objeto próprio são as idéias. e não os homens e suas intenções. universal e necessário da ciência moderna. resultando assim a físico-matemática: o que constituirá o elemento verdadeiramente racional. escapando ao alcance da físico-matemática. historicamente. do outro lado. A ciência galileiana é. é mister a experiência e a razão. na Polônia. porquanto constitui sempre uma filosofia da natureza. Deus. em 1473. que não concernem à história da filosofia. o calor . O seu sistema astronômico pode ser assim resumido: o mundo é esférico. mecânica. cuja ruína. Estudou em vários lugares. Galileu considera objetivas as propriedades geométrico-mecânicas: a figura. quantitativa. Neste processo não há duvidar da boa fé de Galileu. e dedicou-se às meditações astronômicas. o número . pois o atomismo mecânico implica evidentemente uma concepção materialista da realidade. nem da dos seus juizes. uma sólida filosofia.159 esferas. b) a hipótese. o sabor. a posição. que se julgava. como diz Galileu. Como é sabido. Pretensão evidentemente infundada. que constituía a base racional da religião. Esta. como ficou evidente também pelo famoso processo de Galileu. . Quanto ao procedimento metódico e particular para construir a ciência. pela pretensão de explicar tudo matematicamente e considerar a ordem matemática como a ordem ideal da realidade. todos os corpos celestes são esféricos. o frio. por sua parte. conexa necessariamente com a ciência da época. O que é irredutível à quantidade é considerado como subjetivo. com que estava de fato. publicada em 1543 e dedicada ao papa. a alma nem sequer o elemento qualitativo da realidade empírica. retirou-se para Frauenburg. liame este que. e se julgava de direito. pessoais. o som. A Ciência Nova e a Metafísica Tradicional O atomismo mecânico. ligada. que Galileu pressupôs para a sua gnosiologia empirista-matemática. sendo seu verdadeiro fundador Copérnico. portanto.que serão mais tarde chamadas qualidades secundárias. o movimento dos corpos celestes é circular e uniforme. onde era cônego. Temos.que serão mais tarde chamadas qualidades primárias. Leibniz. que a ciência moderna. católico convicto. o Sol está imóvel no centro do sistema e giram-lhe em volta os planetas e também a Terra que tem duplo movimento: diurno em volta do próprio eixo. a saber. acarretaria consigo a ruína da filosofia. que é a verificação da hipótese.que se manifestará claramente no racionalismo de Descartes. Galileu distingue três momentos principais: a) a observação. portanto. metafísica. Caberá mais tarde a Newton completar o sistema com a grande lei da gravitação universal. adquira consciência da sua limitação. ibi geometria. terá de se libertar de igualmente infundada pretensão de que também a ciência natural seja filosofia. cones. poderá logicamente separar-se da física aristotélica e da astronomia ptolemaica. sentido e discurso. quando confirmada experimentalmente. Para constituir a ciência. Spinoza.

Estudou filosofia no colégio "De la Marche" e teologia na Sorbona. o segundo. pelo que diz respeito ao segundo. da ciência. cujo objeto é metafísico. pois. As obras de Malebranche tiveram grande êxito e levaram-no a várias polêmicas. se punha em contradição com a filosofia tradicional e em conexão com a nova filosofia humanista e imanentista. que. com suas inevitáveis conseqüências materialistas. Méditations chrétiennes et métaphysiques (1683). ao mesmo tempo. conseqüentemente pode-se e deve-se compor a filosofia tradicional com a ciência nova. e a outra tese da infinidade dos mundos. sofre um regresso sobre a linha do seu lógico desenvolvimento panteísta e racionalista. entretanto não ousa afirmá-lo como substância única. E se compreenderá então historicamente o processo e a condenação de Galileu. entre a filosofia tradicional e a ciência nova. Pisando as pegadas de Agostinho e de Descartes. Spinoza resolvera o primeiro mediante o seu rígido monismo da substância. As principais obras são: Recherche de la vérité (1674-1675). Tenha-se. nega também ele . Dos dois problemas fundamentais deixados em herança por Descartes (relações entre Deus e mundo. Entrando jovem na Congregação do Oratório. nada mais são que o próprio objeto inteligível presente ao nosso pensamento: são idéias ontológicas. acima de tudo. afilosófica. mediante o famoso paralelismo dos atributos extensão e pensamento na substância. Vida e Obras Nicolau Malebranche nasceu em Paris em 1638. chega a conceber Deus como causa única. indiferente. o racionalismo cartesiano entra em síntese com o panteísmo neoplatônico. não só não podem derivar da sensação. se permanecer nos limites da experiência . A ciência.como Descartes e Spinoza . cessaria no dia em que se adquirisse consciência da natureza infrafilosófica. Visto essas idéias serem necessárias e universais. por parte de Galileu. Faleceu em 1715. se julgava derivar do sistema copernicano. que. Com Malebranche. A oposição entre sistema ptoleimaco e sistema copernicano. foi ordenado padre em 1664.como deve ser . claras e distintas e. pelo que diz respeito ao primeiro problema. Entretiens sur la métaphysique et sur la religion (1688). As idéias. verdadeiras objetivamente. e pelo cartesianismo. Foi profundamente influenciado pelo agostinianismo dominante no Oratório. sobre a base de um inicial platonismo comum. são os arquétipos . especialmente os sentidos externos e atribui às idéias todo o valor do conhecimento. e também ele recorre a Deus para explicar as relações entre o espírito e a matéria. não pode vir a estar em contraste com a filosofia e a teologia. em 1660. entre espírito e matéria).e se tivesse consciência da sua relatividade. Acrescenta-se a tudo isso. heliocêntrico. mas nem sequer ser produzidas pelo espírito humano.160 prodigiosa. é particular e contingente.temor confirmado pela veleidade de interpretação da Sagrada Escritura. erradamente. que teve tão grave manifestação no livre exame protestante . Malebranche. Mas. como a sensação. portanto. Estas são as duas fontes principais do seu pensamento. devido ao teísmo e ao cristianismo que Malebranche se esforça por conciliar com o cartesianismo. O Cartesianismo Nicolau Malebranche Com Spinoza. a gnosiologia de Malebranche desvaloriza o conhecimento sensível. o cartesianismo entra em síntese com o agostinianismo. por parte da igreja católica. a saber. exteriores ao sujeito que conhece. o temor da crítica demolidora. O Pensamento: A Gnosiologia Como Descartes e o conseqüente racionalismo. para ajustá-la à nova astronomia. erradamente.toda interação entre espírito e matéria. declara as idéias eternas e imutáveis. Traité de morale (1684). procurando conciliá-las no seu sistema filosófico. portanto. presente a tese geral do matematismo universal.

A única idéia clara e distinta que temos é a de extensão inteligível (e de seus modos). nem do corpo sobre a alma. logo. isto é. admite uma pluralidade de substância. Esta visão é possível porque Deus está intimamente presente ao nosso espírito e lhe pode revelar a sua essência porquanto é comunicável. Temos dele uma idéia clara. bem como o erro no conhecimento. A Moral Malebranche procura conciliar essa atividade universal divina com o live arbítrio humano. mas. nem da alma sobre o corpo. e tal idéia se torna representativa de Deus pelo seu caráter de infinidade.ao contrário das idéias . em psicologia. pois só ela pode tirá-los do embaraço em que se encontram". Malebranche baseia esta doutrina em duas teses de origem cartesiana: em física. Assim. para o pecado original. mas no sentido de que é capaz de suspender a ação divina em si: suspensão (antes de que produção) de efeitos. caro aos platônicos e aos agostinianos. Temos uma intuição da sua existência.é racionalmente confuso. em todo caso. a fim de explicar plena e verdadeiramente o homem na sua realidade atual. material. ele só atinge a existência contingente. Para demonstrar a existência de Deus.161 eternos e imutáveis. isto é. pois nós não temos uma idéia clara e distinta do infinito. entre alma e corpo . o que as idéias não podem fazer. porque temos a idéia clara de extensão inteligível. quer dizer. O homem é livre não no sentido de que seja capaz de fazer. A Metafísica Se bem que malebranche afirme que Deus está intimamente presente ao nosso espírito como revelador das idéias. os filósofos "são obrigados à religião (revelada). Aspecto característico da moral de Malebranche é o apelo para o cristianismo e. Diversamente afirma a unidade da causa. A respeito da natureza de Deus. Noutras palavras: nós vemos. Dessa maneira.dependem de Deus e são produzidas diretamente por ele segundo a doutrina do ocasionalismo. As relações . vemos a extensão inteligível em Deus. livre embora. sente ele a necessidade de provar a existência de Deus na sua realidade subsistente e de determinar-lhe a natureza. encontram só no pecado original a causa única que os explica. Como não temos uma idéia clara de Deus. . impulso e vontade. Malebranche teística e cristãmente afirma Deus criador dos espíritos e da matéria: quer dizer. precisamente. Não há. tais idéias estão na mente de Deus e nele nós temos a intuição delas (ontologismo). A desordem das paixões. não propriamente a Deus. sensibilidade e pensamento. causalidade ativa nem dos corpos entre si. único elemento constitutivo das coisas materiais. que nos diz ter Deus criado o mundo. a impossibilidade de uma interação entre corpo e alma. que . trata-se de uma percepção sensível inferior à da existência do espírito. produzir alguma coisa. inércia natural da extensão. não é causa produtora. das coisas. para que estejamos propriamente certos da sua existência. Sem o pecado haveria perfeita harmonia entre corpo e espírito. e as assim chamadas causas segundas não passam de ocasiões para o operar da causa única divina (ocasionalismo). um sentimento. a vontade. A respeito das relações entre Deus e o mundo. mas apenas o que há nele de imitável. Acontece o contrário a respeito do mundo físico. Toda energia produtora de ser e de atividade pertence propriamente a Deus. tanto assim que é mister a revelação cristã. da sua natureza. assim não temos uma idéia clara da nossa alma. porquanto não há causas segundas. necessários e universais. espírito e matéria. Malebranche recorre substancialmente ao sólito argumento ontológico. um sentimento confuso da existência atual do mundo material. julga ele que seja essencialmente incognoscível. Deus opera diretamente em todas as criaturas. ele só é causa e atividade. Temos. porém.a interação entre as coisas materiais de um lado e os espíritos humanos do outro.

Realizou outras viagens a Viena e Berlim. Vida e Obras universidade. Roma e Nápoles. Seu sistema é uma afirmação do monismo spinoziano. que constituía um perigo contínuo contra a Alemanha. e. Indo de Paris para a sua nova sede. em especial o neoplatonismo renascentista. logo. escrevendo contra o Ensaio sobre o Intelecto Humano de Locke os seus Novos Ensaios sobre o Intelecto Humano. com a supressão do mundo físico. Mais profundamente ainda. e que. onde fundou a Sociedade das Ciências. parou na Holanda e visitou Spinoza. Entre os filósofos antigos preferiu Platão e Plotino. da res extensa. resolvendo a realidade material em uma aparência fenomênica do espírito. As fontes culturais e filosóficas de Leibniz são muitas e várias. professor de moral na . que ele fundiu em um ecletismo superior. Entretanto. O barão de Boinebourg convertido ao catolicismo . Diversamente de Spinoza e de acordo com Malebranche. As obras de Leibniz. também antigas e medievais. a do pensamento aristotélico-tomista com o empirismo moderno. chamada. visitando Veneza. correspondendo-se com Bossuet para este fim. tanto assim que do ocasionalismo de Malebranche surgirá a harmonia preestabelecida de Leibniz. que ele procurou conciliar com uma concepção dinâmica da realidade. formando-se em direito em Altorf em 1666-1667. Florença. mas de grande penetração e agudeza crítica. São ensaios ocasionais e esporádicos. para os quais teve estima no que concerne ao pensamento. estudou filosofia e história da filosofia. Eis as principais: Novos Ensaios sobre o Intelecto Humano (crítica ao Ensaio de Locke. em seguida. Pádua. Entre 1672 e 1676. criticando entretanto a forma deles. Em 1676 foi convidado por João Frederico de Brunschwig para a corte ducal de Hannover. escrita para resolver o problema do mal e publicada em 1710. Guilherme Leibniz nasceu em Leipzig. como conselheiro áulico e bibliotecário. Faleceu em Hannover em 1716. Deve-se ainda acrescentar uma copiosa correspondência filosófica. escritas pela maior parte em francês e em latim. Seu pai era um jurista. composta em 1701. Entretanto foi o cartesianismo o sistema filosófico que influiu mais profundamente sobre Leibniz. conheceu também Newton. Estudou também o empirismo. matemática e jurisprudência.iniciou-o no conhecimento da igreja católica e introduziu-o na Corte eleitoral de Mogúncia. o racionalismo abre as portas ao idealismo. chefiou uma missão diplomática junto de Luís XIV. E chegará também à negação da realidade material. para induzir o Rei Sol a dirigir contra os turcos a sua atividade de expansão. ainda que sobre um plano mais rico e superior. que pode ser considerado spinoziano de fato se não de intenção. Academia Prussiana. inventor. mas publicada postumamente em 1765). Fez tentativas para a união das igrejas protestante e católica e para a federalização política das nações cristãs. ocupando-se com escrever a história da casa Brunschwig foi à Itália. Teodicéia.162 Guilherme Leibniz Spinoza tentara a síntese do racionalismo cartesiano com o panteísmo neoplatônico. O resultado é que a necessidade universal permanece. Estudou Suarez e Tomás de Aquino. Ficou até à morte naquele emprego. do cálculo infinitesimal. Leibniz tentará uma síntese mais vasta. Aristóteles influiu nele sobretudo pelo que diz respeito à lógica. escrita em francês para o príncipe Eugênio de Sabóia em 1714 e publicada postumamente. também o panteísmo. Malebranche tentara a síntese do racionalismo com o platonismo agostiniano. Também Malebranche influenciou profundamente Leibniz. procurará compor a necessidade racionalista-matemática com a contingência e a liberdade. devido sobretudo ao racionalismo matemático. Entre outros. como ele. Foi um autodidata desejoso de tudo conhecer. Monadologia. não constituem uma elaboração sistemática e completa do seu pensamento. A missão fracassou. Durante uma viagem a Londres. Conheceu certamente o pensamento da Renascença. Leibniz travou relações com os maiores filósofos e cientistas da época. Spinoza influiu sobre Leibniz. em 1646. tomou contacto com Malebranche.

A matéria. da ínfima mônada até à suprema. universal. constituem as almas dos brutos. o conceito tradicional de Deus. O homem. com respeito a nós. As mônadas são eternas. uma sobre as outras. As verdades de razão fundamentam-se sobre o princípio de indentidade. "A substância é um ser capaz de ação". ab aeterno. Deus seria a mônada suprema.realidade única informada por uma alma côsmica recorda a tão combatida Substância spinoziana. Entretanto. que colheriam o primeiro aspecto da realidade. em que o predicado tem identidade com o sujeito. Leibniz distingue quatro grandes ordens: 1. porém. e as verdades de fato (juízos da existência contingente). "Nesta escala. a matéria. entretanto. Afirma Leibniz. não há duas mônadas perfeitamente iguais. regularizou todas as ações das mônadas de tal forma que . 4. ativa. As verdades de fato seriam representadas por juízos de experiência. Para Leibniz. Leibniz distingue. um fundamento. A uma mônada central. absolutamente perfeita.ª) mônada suprema. é um fenômeno. Deus. que colheriam o segundo aspecto. A definição do sujeito. isto é. como explicar a ordem do universo? Leibniz responde com a célebre teoria da harmonia preestabelecida. Leibniz chama-os mônadas. as verdades de razão (juízos necessários de essência). se pode ser tirado analiticamente dele. uma aparência da psiquicidade. estes juízos escapam às pretensões da necessidade racionalista. que constituem o corpo. ou Deus. 3. em virtude da qual a uma modificação física corresponde uma modificação psíquica e vice-versa. A realidade apresenta-se indiscutivelmente sob dois aspectos: um idêntico. devido à nossa ignorância. A Metafísica A Metafísica de Leibniz é a doutrina das mônadas (monadologia). Este todo é regulado pela harmonia preestabelecida. porque o predicado é contido na noção adequada do sujeito. Negada às mônadas a faculdade de agirem transitivamente.ª) mônadas sensitivas. consciente.163 O Pensamento: A Gnosiologia A gnosiologia de Leibniz é fundamentalmente representada pela ciência geral ou lógica universal. que constituem o reino mineral e as plantas. não tem existência real. causa eficiente de todas as outras". mais ou menos. Deus. o mundo físico. pois o corpo não atua diretamente sobre a alma. o princípio de razão suficiente na realidade criada. criadora e ordenadora de todas as outras. desenvolvendo-se não apenas matematicamente. mas também finalisticamente. necessário. reflete todo o universo de um determinado ponto de vista. a corporeidade. A natureza das mônadas é espiritual. fundamentais. e são concebidos como átomos espirituais dotados de atividade. quoad se. unem-se mônadas subconscientes e mônadas inconscientes. mais ou menos elevado. Não apenas o homem é um microcosmo. seria verdadeiramente o antecendente lógico infalível de cada um dos predicados. mas cada ser é um microcosmo. representativa: cada uma representa. dotada de percepção. a sua imensa série se dispõe em escala hierárquica ascendente. substâncias-forças. A ordem entre elas é explicada pela harmonia preestabelecida. constituindo a alma. tais verdades reduzíveis a juízos. Então Leibniz procura conciliar a necessidade do racionalismo com as exigências da contingência: as verdades de fato seriam contingentes quoad nos. Conforme o seu conteúdo representativo. dotadas de representação insconsciente (pampsiquismo). imediatamente evidente. nem todas percebem conscientemente. seriam necessárias como as outras. 2. Os elementos primeiros. e o outro diverso. ou almas humanas. em que o predicado não se pode extrair analiticamente do sujeito. que Deus introduziu na criação. para quem a penetrasse até o fundo. o indivíduo humano. teria. da realidade.ª) mônadas racionais. esta deve proporcionar o método para inventar e demonstrar todas as ciências. de um ponto de vista absoluto. também as proposições contingentes verdadeiras seriam racionais e demonstráveis. portanto. Elas não têm relações recíproca: "as mônadas são sem janelas" . Isto quer dizer. contínua. capazes de representação consciente ou apercepção. contingente.diz Leibniz. inúmeras. seria um conjunto de mônadas de grau diverso. as mônadas são dotadas de propriedade de perceber (pampsiquismo). Mas. Este Absoluto . enriquecidas de conhecimento científico e consciência reflexa. nem esta sobre o corpo.ª) mônadas nuas. particular. feita por Leibniz dinâmica.

Sem esta limitação não haveria sequer o mundo. A primeira acusação tem um fundamento na afirmação de Wolff de que a moral estaria de pé igualmente. mesmo prescindindo da existência de Deus. no seu sistema subsiste a liberdade metafísica. esta explicação não serve no caso do homem. a qual concebe. voltando. compreende-se como ele se diferencia profundamente da escolástica clássica. desde logo. Também o mal moral é uma privação de ser. da idéia inata de ser. O seu ensino claro e metódico. Leibniz interessou-se especialmente pelo problema do mal e da liberdade. Leibniz . a livre escolha. . Afirma ele a liberdade. que pretendia ser válido para a realidade concreta um sistema construído a priori: um mundo de idéias para um mundo de coisas. Compreende-se. Entrou. em que a liberdade de Deus e do homem vêm fornecer. em relações com Leibniz. "Assim. à ação de Deus. partindo dedutivamente. A Moral A moralidade é reconduzida à atividade. analiticamente. porquanto constitui a limitação necessária dos seres criados. para a Universidade de Halle. sim. Wolff retirou-se então para a Universidade de Marburgo. A filosofia. a reação kantiana e a acusação de dogmatismo movida contra essa orientação filosófica. um hábil relojoeiro constrói dois relógios. por certo. Mas vem fenecer o livre arbítrio. na resistência humana à ação de Deus. é devido à resistência voluntária dos entes criados. No campo da moral. quer no homem quer em Deus. portanto. Cristiano Wolff O racionalismo moderno toma uma sistematização rígida. pois cada homem não é um meio e sim um fim. Dedicou-se aos problemas morais e religiosos. Dado esse caráter apriorístico. se se considerar que os manuais de Wolff invadiram a cultura alemã da época. O mal dos vários seres se torna um bem para o conjunto. porquanto ambos atuam necessariamente. as desarmonias particulares realçam a harmonia do todo. e Kant lecionava na universidade servindo-se da Metaphysica de Baumgarten. no homem. vulgarizador do pensamento de Leibniz. é consciente e racional. Formou-se em filosofia em Leipzig em 1703. mas estes se baseiam no terreno sólido da experiência. que tinha condensado e ordenado em mil parágrafos o prolixo sistema de Wolff. A segunda explica-se pela sua adesão ao determinismo racionalista de Leibniz. enquanto são criados. racionalista. a ciência como uma dedução necessária de elementos e princípios primeiros. pois a natureza destes seres é necessariamente limitada. com Cristiano Wolff. a metafísica deveria ser construída a priori. do pensamento de Wolff. aí ensinando até à morte (1754).como é sabido . devido à sua tese da ação necessariamente dirigida para o melhor. sendo um ser racional. em seguida. Leibniz explica o mal físico mediante a estética. graças ao qual teve em 1707 uma cátedra de matemática e filosofia na Universidade de Halle. do modo melhor. estudando também matemática. moral e físico. que. o racionalismo moderno manifesta explicitamente o seu caráter fenomenista abstrato. Em Wolff. sistemático teve um êxito imenso. a espontaneidade racional. foi demitido sob acusação de ateísmo em religião e determinismo em moral. sem uma relação real entre as duas ordens. Entretanto. sem se influenciarem mutuamente. A reação é facilmente compreensível. Se é que Wolff teve algum conhecimento particular da escolástica aristotélico-tomista. racionalista-matemático. Pelo que diz respeito à solução do problema do mal. como o mal metafísico: tem uma causa deficiente e não eficiente.164 se correspondessem como se realmente houvesse entre elas um influxo mútuo de causalidade recíproca.distingue o mal em metafísico. O mal moral. humanos. aristotélico-tomista. marcam ao mesmo tempo as mesmas horas". formal. e. em 1723. O primeiro não é verdadeiro mal. No entanto. certamente não compreendeu o espírito íntimo desse sistema. que. Vida e Obras Cristiano Wolff nasceu em Breslau em 1679. ao contrário.

longe dos livros e dos regentes de colégio. Philosophia moralis seu ethica. Mas as matemáticas são uma exceção. especulativa e prática. Wolff não nega Deus. logo. em ver cortes e exércitos. Cosmologia generalis. porém. Na Holanda. a filosofia prática geral e o direito natural e. Diversamente. Desta o filósofo prescinde. antes de tudo. mas é absoluta. a saber. De 1604 a 1614. Wolff é o pai do Aufklärung. ao contrário. a economia. A filosofia prática abrange. É dessa época (tem cerca de 23 anos) que data . É notável o critério de verdade segundo Wolff: a verdade consiste exclusivamente na coerência entre as idéias. Jus gentium. Psychologia rationalis. e resolvendo não procurar outra ciência que aquela que poderia ser encontrada em mim mesmo ou no grande livro do mundo. parte à procura de novas fontes de conhecimento. a psicologia. Quanto à idéia de ética. decepcionado com a escola. no "Discurso sobre o Método". ocupa-se sobretudo com matemática. hoje perdido). É bem diverso o critério de verdade do sistema aristotélico-tomista. mas um povoado da Touraine. necessária. nascido em 1596 em La Haye  não a cidade dos Países-Baixos. decepcionado com o ensino que lhe foi ministrado: a filosofia escolástica não conduz a nenhuma verdade indiscutível. Jus naturae. onde se ocupa com equitação e esgrima (chega mesmo a redigir um tratado de esgrima. Apesar de apreciado por seus professores. pelo qual não há relação entre pensamento e ser. conviver com pessoas de diversos temperamentos e condições". a cosmologia geral. O Pensamento Wolff divide a filosofia em lógica. a filosofia que conhece a religião natural. Mas é um estranho oficial que recusa qualquer soldo. a teologia natural. pequeno domínio do Poitou. Eis por que o jovem Descartes. Tais manuais tiveram um grande êxito. uma vez que ainda não se tentou aplicar seu rigoroso método a outros domínios. Aí gozará de um regime de privilégio. Só as matemáticas demonstram o que afirmam: "As matemáticas agradavam-me sobretudo por causa da certeza e da evidência de seus raciocínios". e finaliza na negação desta última. A série dos manuais em latim. que mantém seus equipamentos e suas despesas e que se declara menos um "ator" do que um "espectador": antes ouvinte numa escola de guerra do que verdadeiro militar. diríamos. a política. abandonei inteiramente o estudo das letras. Em todo caso. Wolff diz justamente que a lei moral não pode depender ao arbítrio divino. empreguei o resto de minha juventude em viajar. o que o leva a adquirir um hábito que o acompanhará por toda sua vida: meditar no próprio leito. A Filosofia de Descartes Sua Vida René Descartes. nem a religião natural. Philosophia prima seu ontologia. Psychologia practica universalis.As obras filosóficas de Wolff são constituídas por duas séries de manuais. ou revelada. primitiva (isto é. a metafísica. A filosofia especulativa é. pois levanta-se quando quer. numa família nobre  terá o título de senhor de Perron. Psychologia empirica. abrangendo a ontologia. "Não encontramos aí nenhuma coisa sobre a qual não se dispute". a ética. Após alguns meses de elegante lazer com sua família em Rennes. É a revelação completa so fenomenismo racionalista. e a outra em alemão. ele se declara. que sustenta o divórcio entre a religião natural e a religião positiva. do iluminismo racionalista alemão. compreende precisamente: Philosophia rationalis sive logica. ao lado de Isaac Beeckman. fundamentalmente. pelo qual a verdade é. a adequação especulativa da mente com a coisa. daí o aposto "fidalgo poitevino". da religião positiva. admite a obrigação absoluta da lei moral. derivante da própria natureza de Deus e das coisas por ele criadas). estuda no colégio jesuíta de La Flèche. uma em latim. Oeconomia. Separa. tomisticamente. vamos encontrá-lo na Holanda engajado no exército do príncipe Maurício de Nassau. a experiência da vida e a reflexão pessoal: "Assim que a idade me permitiu 165 sair da sujeição a meus preceptores. mesmo no caso do ateísmo (como se a negação de Deus não implicasse necessariamente na negação de todos os valores).

 A primeira regra é a evidência: não admitir "nenhuma coisa como verdadeira se não a reconheço evidentemente como tal". para antes do outono. o diretor de consciência e com quem troca importante correspondência. "uma evidência juvenil. que sofre atrozmente com o frio. ei-lo a serviço do Duque de Baviera. inspirado no rigor matemático e em suas "longas cadeias de razão". Descartes. Por conseguinte. país protestante. Descartes prepara uma obra de física. Após muitas tergiversações. Em 1644. Mas Descartes. de quem ele é. ele quer preparar os espíritos para. Podemos facilmente imaginá-lo alojado "numa estufa". que o põe em contato com a rainha Cristina. A idéia fundamental que aí se encontra é a de que a unidade do espírito humano (qualquer que seja a diversidade dos objetos da pesquisa) deve permitir a invenção de um método universal. Descartes encontra o embaixador da frança junto à corte sueca. de outro. um dia. Esses resumos. colocará todas as suas obras no Index. acompanhadas de respostas às objeções. logo se arrepende. para Descartes. aquartela-se às margens do Danúbio. evitar toda "precipitação" e toda "prevenção" (preconceitos) e só ter por verdadeiro o que for claro e distinto. será transportado para a França. de um lado é católico sincero (embora pouco devoto). é capaz de provar rigorosamente a existência de Deus e o primado da alma sobre o corpo. servido por um criado e inteiramente entregue à meditação. de ter vindo "viver no país dos ursos. Ele faz ver que o seu método. a evidência é o que salta aos olhos. Em 1619. a cuja publicação ele renuncia visto que em 1633 toma conhecimento da condenação de Galileu. apesar de todos os meus esforços. um simples acessório. Em virtude do inverno. não antes de encarregar seu editor de imprimir. o filósofo. mas quadragenária". É ao surgir da aurora (5 da manhã!) que ele dá lições de filosofia cartesiana à sua real discípula. como diz bem Jankélévitch. entre rochedos e geleiras". Muito pelo contrário! Em 1641. por ocasião da rápida viagem a Paris. seu Tratado das Paixões  embarca para Amsterdã e chega a Estocolmo em outubro de 1649. à qual ele parece Ter-se submetido sempre e com humildade. dedicado à princesa palatina Elisabeth. Esta última chama Descartes para junto de si. Os Princípios de Filosofia. A 10 de novembro de 1619. Entre 1629 e 1649. ele se decide a publicar três pequenos resumos de sua obra científica: A Dióptrica. isto é. 166 . Contrai uma pneumonia e se recusa a ingerir as drogas dos charlatões e a sofrer sangrias sistemáticas ("Poupai o sangue francês. sonhos maravilhosos advertem que está destinado a unificar todos os conhecimentos humanos por meio de uma "ciência admirável" da qual será o inventor. Em seguida. o Tratado do Mundo. é o que resiste a todos os assaltos da dúvida. o produto do espírito crítico. é a regra da análise: "dividir cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas forem possíveis". aceitarem todas as conseqüências do método  inclusive o movimento da Terra em torno do Sol! Isto não quer dizer que a metafísica seja. Os Meteoros e A Geometria. Em outras palavras. morrendo a 9 de fevereiro de 1650.sua misteriosa divisa "Larvatus prodeo". isto é. ele antes de tudo quer fugir às querelas e preservar a própria paz.  A segunda. Segundo Pierre Frederix. aparecem as Meditações Metafísicas. em 1637. ele que "nasceu nos jardins da Touraine". alguns anos mais tarde. Eu caminho mascarado. as "Regras para a direção do espírito" (Regulae ad directionem ingenii). 1. num quarto bem aquecido por um desses fogareiros de porcelana cujo uso começa a se difundir. Chanut. que quase não são lidos atualmente. inspirado nas matemáticas. Luís XIV proibirá os funerais solenes e o elogio público do defunto: desde 1662 a Igreja Católica Romana. Mas ele aguardará até 1628 para escrever um pequeno livro em latim. Descartes quer apenas significar que é um jovem sábio disfarçado de soldado. Mas é demasiado tarde. Finalmente. É certo que ele nada tem a temer da Inquisição. o que "eu não tenho a menor oportunidade de duvidar". são acompanhados por um prefácio e esse prefácio foi que se tornou famoso: é o Discurso sobre o Método. apesar de todos os resíduos. Em 1644. Seu ataúde. 2. Não. sua obra-prima. ele vive na Holanda. senhores"). em certo sentido. é aquilo de que não posso duvidar. Desse modo. O Método Descartes quer estabelecer um método universal. ele publica uma espécie de manual cartesiano.

Não é um raciocínio (apesar do logo. que. a evidência sensível e empírica. Ego cogito (e o ego. "Penso. chamamos de idealismo (o sujeito pensante e suas idéias como o fundamento de todo conhecimento). ergo sum". a alma. °  Existe. 4. a evidência intuitiva das "naturezas simples". Duvidemos dos sentidos.. O cogito de Descartes. °  Nesse nível. sempre posso duvidar do objeto (permitam-me retomar os termos do mais lúcido intérprete de Descartes. sempre duvido desse objeto que é meu corpo. aos mais complexos". suas indicações são confusas e obscuras. b) O método é racionalista porque a evidência de que Descartes parte não é. Descartes é solipsista. Nenhum objeto de pensamento resiste à dúvida. Ele só tem certeza de seu ser. pois é uma intuição metafísica. E nota-se que se trata de um Deus perfeito. mas o próprio ato de duvidar é indubitável. aos poucos. é a regra da síntese: "concluir por ordem meus pensamentos. Os filósofos do século XVIII estenderão esse método a dois domínios de que Descartes. pois. resta a certeza de que eu penso. "estava despido em meu leito").°  Todos sabem que Descartes inicia seu itinerário espiritual com a dúvida. Duvidemos também das próprias evidências científicas e das verdades matemáticas! Mas quê? Não é verdade  quer eu sonhe ou esteja desperto  que 2 + 2 = 4? Mas se um gênio maligno me enganasse. mas a descoberta do domínio ontológico (estes objetos que são as evidências matemáticas remetem a este ser que é meu pensamento). como já se disse. A dedução limita-se a veicular. entretanto. por conseguinte. desde que possa encontrar um argumento. só posso tê-la recebido de um Ser perfeito que me ultrapassa e que é o autor do meu ser. porém. é necessário ler as Meditações. O ato da razão que percebe diretamente os primeiros princípios é a intuição. o ato de nascimento do que. É a idéia de perfeição. a ponto de estar certo de nada ter omitido". de modo algum. Mas é necessário compreender que essa dúvida tem um outro alcance que a dúvida metódica do cientista. não é. A dedução nada mais é do que uma intuição continuada.  A última á a dos "desmembramentos tão complexos. metamatemática. como que por meio de degraus. de seu ser pensante (pois. do ergo). ascender. em filosofia. diz Descartes nesse sentido. só as idéias da razão são claras e distintas. portanto. e mais sólida que a do matemático. nesse momento de seu itinerário espiritual. foi porque os séculos posteriores viram nele uma manifestação do livre exame e do racionalismo. eis demonstrada a existência de Deus.  A terceira. os instrumentos da dúvida nada mais são do que os auxiliares psicológicos. Por conseguinte. mas de um ser.3. uma vez que eles freqüentemente nos enganam. o excluiu expressamente: o político e o religioso (Descartes é conservador em política e coloca as "verdades da fé" ao abrigo de seu método). Eu. mas uma intuição. uma coisa de que não posso duvidar. que tenho a idéia de Perfeição. é importante ressaltar. de infinito. Descartes pensa sobretudo na ciência. É pelo aprofundamento de sua solidão que Descartes escapará dessa solidão. 167 . Descartes duvida voluntária e sistematicamente de tudo. logo existo. Os sentidos nos enganam. mesmo que o demônio queira sempre me enganar. Para bem compreender sua metafísica. é muito mais que um simples acidente gramatical do verbo cogitare). ocupado em escrever algo junto à lareira. 1. Mesmo que tudo o que penso seja falso. de uma ascese. começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer para. nunca tenho certeza de estar sonhando ou de estar desperto! (Quantas vezes acreditei-me vestido com o "robe de chambre". Ferdinand Alquié). tão imperfeito. Se esse método tornou-se muito célebre. se Deus fosse mau e me iludisse quanto às minhas evidências matemáticas e físicas? Tanto quanto duvido do Ser. diz Descartes. sem aborrecer Brunschvicg. isto é. na verdade. por mais frágil que seja. Não posso tê-la tirado de mim mesmo. cogito. os instrumentos de um verdadeiro "exército espiritual". "é mais fácil de ser conhecida que o corpo"). Dentre as idéias do meu cogito existe uma inteiramente extraordinária. a) Ele não afirma a independência da razão e a rejeição de qualquer autoridade? "Aristóteles disse" não é mais um argumento sem réplica! Só contam a clareza e a distinção das idéias. Ela trata não de um objeto. 3. Por conseguinte. visto que sou finito e imperfeito. ao longo das belas cadeias da razão. 2. Eu penso. A Metafísica No Discurso sobre o Método..

ele não pode ter querido enganar-me e todas as minhas idéias claras e distintas são garantidas pela veracidade divina. como não tendo nenhum dos sentidos. para tanto. não pode ser geômetra!). se por esse medo. Suporei. não menos ardiloso e enganador do que poderoso. então. a terra. nem sangue. É o argumento ontológico. tendo de tal modo avaliado meus preconceitos. nem olhos. como acabei de provar. uma vez que. isto é. no entanto. pois essas antigas e comuns opiniões freqüentemente revivem em meu pensamento. que é a soberana fonte da verdade. de nenhuma verdade. que há. o ar. eu então posso crer na existência do mundo. pelo cogito. enquanto eu as considerar tais como efetivamente são. e certa preguiça arrasta-me insensivelmente para o ritmo de minha vida comum. É ela que fundamenta a ciência (um ateu. ainda aqui. o que lhes dá o direito de ocupar o meu espírito sem que eu o queira e de quase se tornarem senhoras de minha crença. mais de uma intuição. Apreender a idéia de perfeição e afirmar a existência do ser perfeito é a mesma coisa. A evidência ontológica que. Não mais se trata de partir de mim. não um verdadeiro Deus. mas antes da idéia de Deus que há em mim. Alguns acham que Descartes fazia um circulo vicioso: a evidência me conduz a Deus e Deus me garante a evidência! Mas não se trata da mesma evidência. me conduz a Deus fundamenta a evidência dos objetos matemáticos. e todas as coisas exteriores que vemos não passam de ilusões e enganos de que ele se serve para surpreender minha credulidade. pelo menos estará em meu poder fazer a suspensão de meu juízo. e. Considerar-me-ei a mim mesmo como não tendo mãos. isto é. Compreenda-se que. E. para Descartes. Se Deus é perfeito. as figuras. tomando um partido contrário.ª Meditação Descartes resolve duvidar de todas as suas opiniões: Mas não basta ter feito essas observações. a extensão e o movimento). 4. Permanecerei obstinadamente apegado a esse pensamento. uma evidência mais profunda que a ciência. e prepararei tão bem meu espírito em face de todos os ardis desse grande enganador que. no entanto. no momento. O caminho é exatamente o inverso do seguido por São Tomás. Exercício Espiritual 1. Uma vez que Deus existe. de uma experiência espiritual (a de um infinito que me ultrapassa) do que de um raciocínio. mas acreditando falsamente possuir todas essas coisas. que tenho a idéia de Deus. a metafísica tem. Eis o fantasma do gênio maligno exorcizado.168 é todo bondade. e. fingindo que todos esses pensamentos são falsos e imaginários. Pois uma perfeição nãoexistente não seria uma perfeição. Eis por que cuidarei zelosamente de não receber em minha crença nenhuma falsidade. nunca poderá impor-me coisa alguma. Mas esse desígnio é árduo e trabalhoso. as cores. Eis por que penso que as utilizarei mais prudentemente se. de maneira que se tenha mais razão em acreditar nelas do que em negá-las. a longa e familiar convivência que tiveram comigo. Pois estou certo de que. não pode haver perigo nem erro nesse caminho e de que eu hoje não poderia conceder muito à minha desconfiança. dominado por maus usos e afastado do caminho reto que o pode conduzir ao conhecimento da verdade. nem carne. mas somente de meditar e de conhecer. os sons. o que existe verdadeiramente é o que é claramente pensável. E nunca me desacostumarei a essa aquiescência e a confiar nelas. e meu julgamento não mais seja. muito prováveis. que empregou toda sua indústria em enganar-me. mas certo gênio maligno. exatamente como o escravo que se comprazia no sonho de uma liberdade imaginaria e que. é preciso ainda que eu cuide de não me esquecer delas. quando começa a suspeitar que essa liberdade é apenas um sonho. dirá Descartes. °  A Quinta meditação apresenta uma outra maneira de provar a existência de Deus. não estiver em meu poder atingir o conhecimento. de certo modo duvidosas. empregar todos os esforços no sentido de enganar-me a mim mesmo. Pensarei que o céu. René Descartes A Dúvida. até que. teme ser . não se trata d agir. por mais poderoso e astucioso que seja. não tenho o direito de guiar-me pelos sentidos (cujas mensagens permanecem confusas e que só têm um valor de sinal para os instintos do ser vivo). daqui por diante. Só posso crer no que me é claro e distinto (por exemplo: na matéria. eles não possam fazer com que minha opinião tenda mais para um lado do que para outro. Por conseguinte. o argumento de Santo Anselmo que Descartes (que não leu Santo Anselmo) reencontra: trata-se.

não há a menor dúvida de que sou. Por conseguinte. se aí me demorava. agora que suponho que há alguém que é extremamente poderoso e. Por outro lado. mas não me detinha em pensar o que era essa alma ou. Eis por que considerarei de novo o que acreditava ser. para não tomar imprudentemente alguma outra coisa por mim e assim não me equivocar nesse conhecimento que sustento ser mais certo e mais evidente do que todos os que tive até o momento. e não encontro nenhuma que possa dizer que existe em mim. relacionando todas essas ações à alma. eu pensei que era um homem. que emprega toda a sua indústria em enganar-me sempre. pois seria necessário que em seguida pesquisasse o que é animal e o que é racional e assim. que não havia nenhum céu. que pode ser compreendido em qualquer lugar e preencher um espaço de tal maneira que todo outro corpo seja dela excluído. ou pela audição. De maneira que. entendo tudo o que pode ser limitado por alguma figura. deter-me-ei em considerar aqui os pensamentos que anteriormente nasciam por si mesmos em meu espírito e que eram inspirados apenas por minha natureza quando eu me empenhava na consideração de meu ser. de maneira que. ou pelo olfato. eu não duvidava de modo algum de sua natureza. mãos. antes. cairíamos insensivelmente numa infinidade de outras mais difíceis e embaraçosas. enganador muito poderoso e astucioso. ou pelo paladar. eu. tal como ela aparece num cadáver e a qual eu designava pelo nome de corpo. todas as vezes em que a enuncio ou em que a concebo em meu espírito. ao invés de propiciarem alguma luz ou alguma clareza no conhecimento da verdade. uma chama ou um ar muito tênue. Por conseguinte. braços e toda essa máquina composta de osso e carne. que emprega todas as suas forças e toda a sua indústria em enganar-me? Poderei ter a certeza de possuir a menor de todas as coisas que acima atribuí à natureza corpórea? Detenho-me a pensar nisso em meu espírito. como tendo um rosto. é necessariamente verdadeira. que pode ser movido por diversas maneiras. que sentia e que pensava. que andava. Mas há um não sei quem. espíritos alguns. antes de penetrar nesses últimos pensamentos. retorno invisivelmente às minhas antigas opiniões e receio despertar dessa sonolência. que sou eu. que estava insinuado e disseminado nas minhas partes mais grosseiras. se ele me engana. Mas que é um homem? Direi que é um animal racional? Não. que pode ser sentido pelo tato. enquanto eu pensar ser alguma coisa. de agora em diante. certamente. se quisesse explicá-la segundo as noções que tinha dela. "Eu sou. e. Mas eu. Por conseguinte. Mas ainda não conheço bastante o que sou. é preciso que eu atente cuidadosamente. então.ª Meditação Eu me persuadi de que nada existia no mundo. se é que me persuadi ou somente pensei alguma coisa. também não me persuadi de que eu não existia? É certo que não.169 despertado e conspira com essas agradáveis ilusões para ser mais longamente enganado. temendo que as vigílias laboriosas que se sucederiam à tranqüilidade de tal repouso. não fossem suficientes para aclarar as trevas das dificuldades que acabam de ser tratadas. empregando-o em desvendar semelhantes sutilezas. nunca poderá fazer com que eu nada seja. nenhuma terra. e eu não gostaria de abusar do pouco tempo e do lazer que me resta. por mim mesmo. tê-laia descrito da seguinte maneira: por corpo. ao contrário. de uma só questão. de maneira a só permanecer precisamente o que é inteiramente indubitável. passemos aos atributos da alma . malicioso e astucioso. se ouso dizelo. imaginava que ela era algo de extremamente raro e sutil. Eu Sou Uma Coisa Que Pensa 2. mas por algo alheio pelo qual seja tocado e do qual se pudesse atribuir à natureza corpórea vantagens como a de ter o poder de mover-se a si própria. por mais que ele queira enganar-me. e de minhas antigas opiniões abolirei tudo o que pode ser combatido pelas razões que há pouco aleguei. pois eu pensava conhecê-la mui distintamente e. espantava-me antes ao ver que semelhantes faculdades se encontravam em certos corpos. não por si mesmo. No que se referia ao corpo. que é que eu acreditava ser até aqui? Sem dificuldade. corpos alguns. como um vento. ou pela visão. Considerava-me. eu existia sem dúvida. após ter pensado bastante nisto e ter cuidadosamente examinado todas as coisas. assim eu. eu existo". que estou certo de que sou. primeiramente. há que concluir finalmente e ter por constante que esta proposição. considerava que eu me alimentava. Não é necessário que me demore a enumerá-las. Mas.

sua cor se modifica. nem essa figura. pois poderia ocorrer que. outrora eu pensei sentir várias coisas durante o sono e verifiquei. o odor se desvanece. Que é. ao despertar. o que é a cera. este pedaço de cera que acaba de ser tirado da colmeia: ele ainda não perdeu a doçura do mel que continha.170 e vejamos se há alguns que existam em mim. todas as coisas que podem distintamente fazer conhecer um corpo. Mas eis que. um entendimento ou uma razão. Agora eu nada admito que não seja necessariamente verdadeiro: portanto. para verificar ainda se não sou algo mais. não sou um vento. se apresentava sob essas formas e que agora se faz notar sob outras. sua cor. nem esse agradável perfume das flores. e ninguém o pode negar. Ora. no entanto. a saber. mas se é verdade que não tenho corpo algum. que conhecíamos nesse pedaço de cera com tanta distinção? Certamente não pode ser nada do que observei nela por intermédio dos sentidos. e constato aqui que o pensamento é um atributo que me pertence. ou à audição se encontram modificadas e. consequentemente. que a cera não era essa doçura do mel. Mas o que será. de flexível e mutável. Não pretendo falar dos corpos em geral. Um outro é sentir. um espírito. uma vez que todas as coisas que se apresentavam ao paladar. não produzirá som algum. senão uma coisa que pensa. ainda que batamos nele. É certo que não permanece senão algo de extenso. Tomemos. nem esse som. Ora. mas de qualquer corpo em particular. eu existo. uma vez que essas noções gerais comumente são mais confusas. uma vez que supus que tudo isso não era nada e que. eu não poderia percorrer essa infinidade com minha imaginação e. e segundo a verdade. por exemplo. ainda retém algo do odor das flores de que foi recolhido. isso é certo. que não as sentira efetivamente. mal podemos tocá-lo. alguém o aproxima do fogo: o que nele restava de sabor. encontram-se neste. ou ao olfato. não é isso. sendo redonda. vejamos o que resta. um sopro. e. também é verdade que não posso andar nem me alimentar. que é isso: flexível e mutável? Não estarei imaginando que esta cera. constato que não deixo de estar certo de que sou alguma coisa. eu sou uma coisa verdadeira e verdadeiramente existente. mas por quanto tempo? A saber. E. é capaz de se tornar quadrada e de passar do quadrado para uma figura triangular? É certo que não. produzirá algum som. então. se eu deixasse de pensar. eu não sou. Eu não sou essa reunião de membros que se chama corpo humano. . eu deixaria ao mesmo tempo de ser ou de existir. que é essa extensão? Não será também desconhecida. Um outro é pensar. mas apenas um corpo que. ele se torna líquido. A mesma cera permanece após essa transformação? Cumpre confessar que sim. não sou um ar tênue e penetrante. além disso. se nele batermos. e que só meu entendimento é quem o concebe. Os primeiros são alimentar-me e andar. precisamente falando. ou à visão. enquanto falo. afastando todas as coisas que não pertencem à cera. a mesma cera permanece. Por conseguinte. somente ele não pode ser separado de mim. precisamente falando. e saber. Talvez fosse o que penso a atualmente. disseminado por todos esses membros. no entanto. os corpos que tocamos e que vemos. isto é. que são termos cuja significação me era desconhecida anteriormente. essa concepção que tenho da cera não se realiza pela faculdade de imaginar. que eu imagino quando a concebo dessa maneira? Consideremo-la atentamente e. uma vez que a concebo capaz de receber uma infinidade de transformações semelhantes e. exala-se. esquenta-se. agora. nem essa brancura. um vapor nem nada que possa fingir e imaginar. Enfim. pouco antes. sua figura e sua grandeza são evidentes: ele é duro e frio quando o tocamos e. sua figura se perde. é preciso que eu concorde que não poderia mesmo conceber pela imaginação o que é essa cera. Eu sou. mas não se pode sentir também sem o corpo. sem modificar tal suposição. sua grandeza aumenta.ª Meditação Comecemos pelas considerações das coisas mais comuns e que julgamos compreender mais distintamente. ou ao tato. O Pedaço De Cera 3. E que mais? Excitarei ainda minha imaginação. por todo o tempo em que eu penso. se não pensasse que é capaz de receber mais variedades segundo a extensão do que nunca imaginei. mas que coisa? Já o disse: uma coisa que pensa. visto que na cera que se funde ela aumenta e fica ainda maior quando aquela está inteiramente fundida e muito mais ainda quando o calor aumenta mais? E eu não conceberia claramente.

bem longe de diminuírem minha vontade. ela não me parece todavia maior se eu a considero formal e precisamente em si mesma. ainda que efetivamente eu não possa conceber um Deus sem existência. sem nunca ser indiferente. se possa conceber Deus como não existindo atualmente.171 A Liberdade 4. parece que isso não implica em que haja algum Deus existente. a tornam mais firme e mais eficaz . quando não sou de maneira alguma impelido mais para um lado do que para outro pelo peso de alguma razão. embora não exista nenhum dotado de asas. um ser soberanamente perfeito) ao qual falta a existência (isto é. O Argumento Ontológico 5. para afirmar ou negar. a existência de Deus deve apresentar-se em meu espírito pelo menos como tão certa quanto considerei até aqui todas as verdades da matemática. persuado-me facilmente de que a existência pode ser separada da essência de Deus e que. e faz antes parecer uma carência de conhecimento do que uma perfeição na vontade. E. Pois. Mas. segue-se que tudo o que eu reconheço pertencer clara e distintamente a essa coisa. ainda que Deus . verifico claramente que a existência não pode ser separada da essência de um triângulo retilíneo não pode ser separada a grandeza de seus três ângulos iguais a dois retos ou. isto é. antes. que não concebo de modo algum a idéia de nenhuma outra mais ampla e mais extensa: de maneira que é ela. pertence-lhe efetivamente. perseguir ou fugir as coisas que o entendimento nos propõe. da idéia de uma montanha. ainda que ela seja incomparavelmente maior em Deus do que em mim. assim como uma montanha sem vale. tanto mais livremente o escolherei e o abraçarei. somente em que. na verdade. não posso tirar daí um argumento e uma prova demonstrativa da existência de Deus? É certo que não encontro menos em mim sua. se eu sempre conhecesse claramente o que é verdadeiro e o que é bom. a idéia de um ser soberanamente perfeito. Pois. Pois. assim eu talvez pudesse atribuir existência a Deus. embora eu conceba Deus com existência. ainda o que tudo que concluí nas Meditações precedentes não fosse absolutamente verdadeiro. quanto mais eu tender para um. Todavia. nunca teria dificuldade em deliberar qual juízo e qual escolha deveria fazer. De modo que essa indiferença que sinto. seja porque Deus disponha assim o interior do meu pensamento. pois. antes. e. não é necessário que eu seja indiferente na escolha de um ou outro dos dois contrários. perseguir ou fugir). mas. a idéia de um vale. é o mais baixo grau de liberdade. para que eu seja livre. principalmente que me faz conhecer que trago a imagem e a semelhança de Deus.seja em virtude do objeto.que. É certo que a graça divina e o conhecimento natural. não pareça inteiramente manifesto. seja porque eu conheça evidentemente que o bem e o verdadeiro aí se encontram. de maneira que não há menos repugnância em conceber um Deus (isto é. pois. seja em virtude do conhecimento e do poder . como do simples fato de eu conceber uma montanha com um vale não se segue que haja qualquer montanha no mundo. todavia. que só dizem respeito aos números e às figuras: se bem que. encontrando-se juntos aí. isso. meu pensamento não impõe necessidade alguma às coisas. na medida em que ela se dirige e se estende infinitamente a mais coisas. de início. e como só depende de mim imaginar um cavalo alado. estando habituado em todas as outras coisas a fazer distinção entre existência e essência. que se afigure com alguma aparência de sofisma. assim. portanto. ou. se do simples fato de que posso tirar de meu pensamento a idéia de alguma coisa. E não conheço menos clara e distintamente que uma atual e eterna existência pertence à sua natureza do que conheço que tudo o que posso demonstrar de qualquer figura ou de qualquer número pertence verdadeiramente à natureza dessa figura ou desse número. do mesmo modo.ª Meditação Ora. Pois ela consiste somente em que podemos fazer uma coisa ou deixar de fazê-la (isto é. antes a aumentam e a fortalecem. agora. do que a idéia de qualquer figura ou de qualquer número que seja. quando penso nisso com mais atenção. assim. eu seria inteiramente livre. afirmar ou negar. ao qual falta alguma perfeição) do que em conceber uma montanha que não tenha um vale.ª Meditação O que existe unicamente é a vontade que sinto ser tão grande em mim. agimos de tal modo que não sentimos de maneira alguma força exterior que nos obrigue a isso.

em seguida transformado em universidade -. seu Tratado da Natureza Humana. A obra. de princípios. quer existam. Stewart. em Edimburgo em 1711. do simples fato de eu não poder conceber Deus sem existência. Fala-se de substância. à primeira vista. Ele acabará por fazer uma bela carreira na diplomacia. indispondo-se com ele em seguida. o método de Hume pode ser apresentado de maneira mais moderna. em 1739. nesse sentido. Somente após sua morte (1776) é que foram publicados.um dos melhores da Escócia. sob o nome de "impressões".172 nenhum existisse. Gaton Berger escrevia: "É preciso ir dos conceitos vazios. e Hume vê lhe recusarem uma cadeira de filosofia na Universidade de Glasgow. diz-nos o autor. Não é este o ponto de vista tradicional do empirismo que vê na experiência a fonte de todo saber? Na realidade. não podem. rapidamente renuncia aos estudos jurídicos e comerciais. mas apenas que a montanha e o vale. muito próxima da de Locke. Fez bons estudos no colégio de Edimburgo . segue-se que a existência lhe é inseparável. mas não deixa de inquietar os cristãos. Pois. ele existe verdadeiramente. em 1779. pelos quais uma idéia é apenas visada. Para Hume. Ele parte do princípio de que todas as nossas "idéias" são ópias das nossas "impressões". Hume se esforça por simplificar e vulgarizar a filosofia de seu tratado e publica então os Ensaios Filosóficos sobre o Entendimento Humano (1748). publicou uma Investigação sobre os Princípios Morais (1751). isto é. Em 1768. mas. Hume pertencia a uma família abastada. ir da idéia à impressão consiste em apenas perguntar qual é o conteúdo da consciência que se oculta sob as palavras. Nesse meio tempo. era um cientista discípulo de Newton. não está em minha liberdade conceber um Deus sem existência (isto é. cujo professor de "filosofia". O Empirismo . Em 1766 ele hospeda Rosseau na Inglaterra. quer não existam. ao passo que. Sua filosofia coloca. A obra obtém sucesso. também. mas. à intuição direta e concreta da idéia. porque a própria coisa. isto é. a existência de Deus. um ser soberanamente perfeito sem uma soberana perfeição). uma volumosa História da Inglaterra (1754-1759) e uma História Natural da Religião (1757).Hume David Hume David Hume nasceu na Escócia. Que existe verdadeiramente no pensamento quando se discorre sobre isso? As quais impressões vividas correspondem todas essas palavras? Aquilo que Hume chama de . impressões de reflexão (emoções e paixões). cujo título definitivo surgirá em edição seguinte (1758): Investigação (Inquiry) sobre o Entendimento Humano. do fato de eu não poder conceber uma montanha sem vale. O subtítulo de seu Tratado da Natureza Humana é. notadamente em La Flèche. não se segue que haja no mundo montanha alguma. pois aqui há um sofisma escondido sob a aparência dessa objeção. "já nasceu morta para a imprensa". ao contrário. ele é Secretário de Estado em Londres. de maneira alguma. como me é dada a liberdade de imaginar um cavalo com ou sem asas. Mas não é assim. não que meu pensamento possa fazer com que isso seja assim e que ele imponha alguma necessidade às coisas. portanto. Esse fracasso deu a Hume a idéia de escrever livros curtos. O Método de Hume Hume quis ser o Newton da psicologia. estar separados um do outro. Seus Ensaios Morais e Políticos (1742) conhecem vivo sucesso. determina meu pensamento a concebê-lo dessa maneira. editado em Londres. e que. que sonha tornar-se homem de letras e filósofo célebre. brilhantes. acessíveis ao público mundano. pois. A análise psicológica do entendimento operada por Hume parece. bastante esclarecedor: "Uma tentativa de introdução do método de raciocínio experimental nas ciências morais. aquilo que Bergson mais tarde denominará os dados imediatos da consciência e que os fenomenologistas denominarão a intuição originária ou o vivido. De 1763 a 1765 ele é secretário da Embaixada em Paris e festejado no mundo dos filósofos. onde compõe. passa alguns anos na França. nem vale algum. O jovem Hume. Ao falar de fenomenologia contemporânea. seus Diálogos sobre a Religião Natural. a saber. de causas e efeitos etc. exatamente como Hume nos ensina a retornar das idéias para as impressões". dos dados empíricos: impressões de sensação. de física e ciências naturais. aos vinte e três anos.

em seguida. há uma conjunção constante. vasculham todos os lugares vizinhos sem visão nem propósitos determinados. constato com surpresa que quero efetuar certos movimentos e depois que esses movimentos se realizam. ao procurarem um objeto que lhes está oculto e quando não o encontram no lugar que esperavam. elas ocorrem melhor do que à tarde (em alguns) e melhor antes da refeição do que após. Mas não constato que B aparece porque A se mostra. Pela manhã.). Constato duas coisas: inicialmente. Se quero levantar o braço. repousa nesse princípio de causalidade. Vejo bem que. Mas não constato o porquê. Lembramo-nos como a sucessão de meu querer e de meus movimentos espantava Malebranche a tal ponto que ele via em minha vontade apenas uma ocasião a partir da qual Deus produzia o movimento de meu corpo. Todo raciocínio experimental. Não é evidente que minha vontade é a causa do movimento de meu corpo? Mas. Permanece enigmática a ação da alma sobre o corpo: "Se tivéssemos o poder de afastar as montanhas ou controlar os planetas. Constato que A se mostra e que. uma impressão concreta de causalidade que torne legítima essa idéia de causa que pretendemos ter: a) Consideremos. De onde me vem esse princípio? A qual impressão corresponde essa idéia? A "investigação" filosófica vai se apresentar aqui como uma pesquisa em todas as direções: "Nós devemos proceder como essas pessoas que. como eu. para surpresa sua. as idéias ocorrem ou não. portanto. em nome desse princípio de causalidade. a todo momento afirmamos mais do que vemos. Mas isto não esclarece nada. que o fenômeno A é seguido do fenômeno B. Não terei aqui a chave do princípio de causalidade. afirmo que a água que acabo de pôr no fogo vai ferver. pelo qual do presente se conclui o futuro (a água vai ferver. Por exemplo. cuja língua ou cujos dedos se movem segundo minha vontade. simultaneamente interna e externa. em nome do princípio de causalidade (as mesmas causas produzem os mesmos efeitos ou o aquecimento da água é causa da ebulição). esse poder não seria mais extraordinário". em nenhum setor da experiência. E eu. não tenho experiência de uma conexão necessária. a barra de metal vai se dilatar. de início. 173 . que faço a todo momento em que sinto o poder da minha consciência sobre meu corpo. filósofo do século XVIII. constata que nenhum movimento se segue ao seu desejo. entre os fenômenos A e B. "liveliness" é o pensamento atual. Um paralítico. É certo que posso repetir a experiência e que. amanhã fará dia etc. não cessamos de ultrapassar a experiência imediata. c) Quer dizer enfim da esperiência puramente interior da sucessão de minhas próprias idéias? Deve admitir que minha reflexão atenta é causa das idéias que me ocorrem? Mas. de saída.impressão e que ele caracteriza pelos termos "vividness". Hume não encontrará. A experiência externa apenas me fornece o e depois. que quero levantar o braço. quer levantar o braço e. Não sei absolutamente por meio de que engrenagem neuromuscular complexa se opera o movimento de meu braço. mas não vejo conexão necessária. que se precisa redescobrir sob as palavras (no empirismo de Hume. tiro "de um objeto uma conclusão que o ultrapassa". cada vez em que a repito. b) Examinemos agora essa experiência. Aos olhos de Hume. A repetição constante de um enigma não é o mesmo que sua solução. Ainda aqui constato a existência de uma sucessão entre meu esforço de atenção e minhas idéias. A Análise da Idéia de Causa Aos olhos de Hume. na esperança de que sua boa sorte irá orientá-las no sentido do objeto de suas buscas". vivo. prevejo a ebulição dessa água. segundo os casos ou os momentos. Ainda aqui. B aparece. Vejamos para onde nos conduzirá essa busca filosófica. assim como vejo que o aquecimento é seguido da ebulição: vejo. essa experiência não é menos clara do que a precedente. diz Laporte. mas ele retém a análise psicológica do grande filósofo francês. depois. não me dá a origem do porquê. a noção de causalidade é muito enigmática porque. que ele se levanta. há que ver "antes o ódio ao verbalismo do que o preconceito do sensualismo"). Mas o que não vejo é o porquê dessa sucessão. então. mas não vejo conexão necessária entre os dois fatos. a experiência externa: vejo que o movimento de uma bola de bilhar é seguido do movimento de outra bola com que a primeira se chocou. se refletirmos bem. não tenho o menor poder sobre meu coração ou sobre meu fígado. levanto-o. o fenômeno B se segue ao fenômeno A. essa hipótese é extravagante.

ousou dizer que convinha a um cavalheiro pensar como os whigs. como todo mundo. Ninguém mais do que ele separou filosofia e vida. Coloco a água no fogo e afirmo. em virtude de poderoso hábito: vai ferver. Em todos os princípios do conhecimento ele descobre as ilusões da imaginação e do hábito. Podemos então qualificar. Só que Hume é o primeiro a reconhecer que seu ceticismo. não tem o menor valor de verdade. Se estabeleço "uma conclusão que projeta no futuro os casos passados de que tive experiência". eu tenho reputação e mesmo lembranças. ou então sou eu mesmo e nada mais. de certo modo. resvala de um evento dado àquele que comumente o acompanha. partindo do hábito e da associação das idéias. De fato. diz ele curiosamente. Pascal." O Ceticismo de Hume O empirismo de Hume surge então como um ceticismo. pode produzir qualquer coisa. como dizemos. "após três ou quatro horas de diversão. portanto. Ele filosofa ceticamente segundo uma reflexão rigorosa e dissolvente. O princípio de causalidade. é simultaneamente um dogmatismo instintivo e um ceticismo reflexivo. ele é cético.174 Por conseguinte. idéias e sonhos do mesmo modo que tenho esta roupa ou esta casa. "A necessidade é algo que existe no espírito. Hume. lança a suspeita em toda ciência experimental. o ser e o ter.de que Hume seria o corifeu . não nos objetos. senão o peso do meu hábito e da minha expectativa. surge-nos. dizia em fórmula surpreendente: "Quem reduz o costume a seu princípio. coleção de haveres heteróclitos que é dado como um ser. não existe. . cedo a uma tendência criada pelo hábito. Na realidade. Ceticismo e dogmatismo não se apresentam nele segundo os domínios do saber. por mais absoluto que seja. Se. a conclusão se impõe. eu quisesse retornar às minhas especulações. os rios se tornavam tão duros que se podia fazer deslizar trenós sobre os mesmos!!). diz Hume.. a necessidade causal não existe realmente nas coisas. por conseguinte. A teoria de Hume. no inverno. por outro lado.sem contradição que essa água aquecida se transformasse em gelo! "Qualquer coisa. é porque a imaginação.é ilusória para ele. Mas nas "matters of fact". Por que será que espero ver a água ferver quando a aqueço? É porque. Aparento antecipar a experiência quando. dirá Hegel mais tarde. poderia ocorrer . inteiramente explicado por uma ilusão psicológica. solidamente. tão forçadas e ridículas que não poderia encontrar coragem e retomá-las por pouco que fosse".que se nos apresenta ingenuamente como uma evidência . na verdade. Em última instância. O que acontece é que eu acredito na causalidade e Hume explica essa crença. as verdades da ciência experimental. Não existe nenhuma impressão autêntica da causalidade. é artificial. Espero invencivelmente a ebulição da água que coloquei no fogo. Por conseguinte. é natural. suas "conclusões filosóficas parecem desvanecer-se como os fantasmas da noite ao nascer do dia". Até a unidade do eu . que já esboçara essa análise psicológica da indução. O ceticismo de Hume. explicar psicologicamente a crença no princípio de causalidade é recusar todo valor a esse princípio. É simplesmente a imaginação. mas segundo os níveis do pensamento. Aquele rei de Sião. na idéia de causalidade. está persuadido de que ela vai ferver. em seu gabinete.que nega apenas as afirmações da metafísica e fundamenta. Quando reflete como filósofo. Pois. responde Hume. é também a imaginação que identifica o eu com o que ele possui ou. Segundo Hume." No domínio das proposições lógicas. A crença no princípio de causalidade. Mas essa expectativa não tem fundamento racional. que duvida sobretudo dos sentidos para preparar a conversão do espírito ao mundo das verdades eternas. como "humorístico" o ceticismo desse filósofo inglês que. ao ceticismo antigo. opõe-se um ceticismo moderno .. errara muito ao negar um fato contrário à sua experiência. hábil em mascarar a descontinuidade de todas as coisas. e votar como os tories. Quando mergulha na vida corrente. quando coloca a água no fogo. anula-o". que condenara à morte o embaixador norueguês em sua corte (porque este último zombara dele ao afirmar que em seu país. Em suma. o ceticismo de Hume. Para Hegel. tudo pode acontecer. que facilmente desliza de um estado psíquico a outro e constrói o mito da personalidade. estas me pareceriam tão frias. irresistivelmente arrastada pelo peso do costume. como um ceticismo absoluto. ao abolir o princípio de causalidade. absurda no plano da reflexão. instintiva. ou eu sou meus "estados" e minhas "qualidades" e não sou eu mesmo. aquecimento e ebulição sempre estiveram associados em minha experiência e essa associação determinou um hábito em mim. A não pode ser não-A.

ele declara que. Os Diálogos sobre a Religião Natural são difíceis de interpretar porque se trata de verdadeiros diálogos.é muito natural! "A velhacaria e a idiotice humanas são fenômenos tão correntes. no momento da redação de seus Diálogos. prevalecerá sobre os raciocínios abstratos. A noção de um Deus-Providência parece-lhe pouco compatível com os sofrimentos e os males de que os homens são vítimas neste mundo. Ele parece ter sido escrito sob a ótica da filosofia das luzes: o milagre é impossível porque contraria a experiência. sua falta torna o outro impossível: popular maneira de julgar" Quando Hume rejeita o milagre. ao invés de admitir uma inverossímil violação das leis da natureza". Consideremos. em que cada personagem sustenta seu ponto de vista com argumentos sérios.pela pesquisa de origem psicológica da crença. Hume se apóia no determinismo físico para rejeitar a realidade do milagre e no determinismo psicológico para explicar sua ilusão tenaz. Hume afirma que está mais próximo de Cleanto. o antropomorfismo e o otimismo de Cleanto.175 Hume e o Problema da Religião Essa complexidade da filosofia de Hume torna mais difícil a elucidação de sua filosofia religiosa. Se o espírito não está obrigado a dar esse passo por meio de um argumento. portanto. Por outro lado. Em compensação. e o cético Filon. não é mais misterioso do que nascer. tal . Mas como Hume pode apoiar-se no determinismo. místico anti-racionalista. se a verdade do sofrimento humano é. Mesmo que concluamos. O ceticismo de Hume é um psicologismo. que para o filósofo é uma objeção maior à religião. no povo. não há nenhum perigo que esses raciocínios. possibilidade do milagre. o próprio Hume afirma ter "querido evitar esse erro vulgar que consiste em só colocar absurdos na boca dos adversários". como a forca essencial da crença! Finalmente. dizia. a crítica da razão teológica tem. que eu antes acreditaria que os acontecimentos mais extraordinários nascem do seu concurso. não estará julgando "popularmente"? Seu combate pelas luzes situar-se-ia então no plano da reflexão filosófica que justamente anula o prestígio do costume e do bom-senso indutivo. Demea. por exemplo. a crença popular nos milagres . um argumento decisivo contra a Providência. argumentos para a religião natural. o papel de Filon e Demea estão sempre de acordo quando se trata de demolir o racionalismo. para o filósofo. Os três personagens são: um deísta racionalista. o célebre Ensaio Sobre os Milagres. O Textos de Hume O Problema da Causalidade (Segundo a Investigação sobre o Entendimento) Não temos necessidade de temer que esta filosofia. Em ambos os casos. sejam afetados por tal descoberta. Em suma. dos quais depende quase todo conhecimento. nunca destrua os raciocínios de vida corrente e leve suas dúvidas tão longe a ponto de destruir toda ação como toda especulação. "O costume torna um fácil. em Hume. tem-se a impressão de que Hume multiplica suas críticas "céticas" à religião natural. por exemplo. na medida em que tenta limitar nossas pesquisas à vida corrente. uma vez que sua crítica da causalidade fez desse próprio determinismo uma ilusão psicológica? Pascal. numa carta de 1751 a Gilbert Elliot of Minto. observa Hume sutilmente. Cleanto. no fim. fundamentava-se precisamente numa crítica análoga à de Hume para afirmar a mesmo fato. não estará pensando ao nível da imaginação e do costume. Ressuscitar. na finalidade. A natureza sempre manterá seus direitos e. ele deve ser conduzido por outro princípio igual em peso e em autoridade. ele substitui a pesquisa de um fundamento lógico que se apresenta impossível .perfeitamente explicável pelas leis que governam a imaginação crédula dos homens . que demonstra a existência de Deus partindo das maravilhas do universo. Ao fim da obra. Mas. é precisamente esse sofrimento que conduz o povo a buscar as consolações da religião. surge. Enquanto muitos filósofos do século das luzes reservam sua ironia crítica para a religião revelada e encontram na ordem do mundo. o mesmo sentido que a crítica da razão experimental. que em todos os raciocínios tirados da experiência o espírito dá um passo que não é sustentado por nenhum progresso do entendimento. as leis da natureza.

tanto quanto são. nunca faria conjecturas ou raciocínios sobre qualquer questão de fato. Não existe razão para se inferir a existência de um pela aparição do outro. Sua formação pode ser arbitrária e acidental. com toda sua experiência. seja subitamente transportado por este mundo. para sua própria felicidade! . mas poderiam facilmente.176 princípio conservará sua influência por tanto tempo que a natureza humana permanecerá a mesma. ele não adquiriu. que um seja a causa e o outro o efeito. e não é razoável concluir. Ao empregar esta palavra não pretendemos ter dado a razão última de tal tendência. Apenas designamos um princípio de natureza humana. Todavia. por mais deploráveis que fossem. Numa palavra. A natureza desse princípio bem merece que nos entrguemos ao esforço de investigar sobre ela. nenhuma idéia. e. Suponha-se ainda que este homem tenha adquirido mais experiência e que tenha vivido por muito tempo no mundo para que tenha observado a conjugação constante de objetos e de acontecimentos familiares. Tal conclusão não poderia resultar do ceticismo: é preciso que ela provenha dos fenômenos e de nossa confiança nos raciocínios que deles deduzimos. mas deve ser inferida segundo os fenômenos. só estaria certo do que está imediatamente presente em sua memória e em seus sentidos. não obstante todos os meus raciocínios. Suponha-se que um homem. Que diremos então nesta ocasião? Diremos que tais circunstâncias não são necessárias e que facilmente poderiam ter sido mudadas no arranjo do universo? Tal decisão parece demasiado presunçosa para criaturas tão cegas e ignorantes como nós.pudesse ser estabelecida por razões a priori admissíveis. podem ser compatíveis com tais atributos. aquele homem. afirmamos que. Pois. De saída. esses fenômenos. Vejam este universo em torno de vocês. capítulo XI) Se todas as criaturas vivas fossem incapazes de sofrer ou se o mundo fosse administrado por volições particulares. nenhum conhecimento do poder oculto pelo qual um dos objetos produz o outro. pois os poderes particulares que concretizam todas as operações naturais nunca se apresentam aos sentidos. Existe um outro princípio que o determina a estabelecer tal conclusão. o hábito. de algum modo desconhecido. se a bondade divina . Como são hostis e destruidoras umas para as outras! Como são insuficientes. universalmente reconhecido e bem conhecido por seus efeitos. e se os animais fossem dotados de uma ampla provisão de forças e de faculdades.entendo uma bondade tal qual a do homem . mas seria incapaz de descobrir outra coisa. Sejamos mais modestos em nossas conclusões. O Problema do Mal (Discurso de Filon nos Diálogos sobre a Religião Natural. quando existem tantos males no universo. que resulta dessa experiência? Ele imediatamente infere a existência de um dos objetos pela aparição do outro. Que imensa profusão de seres animados e organizados. Mas examinem um pouco mais de perto essas existências vivas. todas a vezes que a repetição de uma operação ou de um ato particular produz uma tendência no sentido de renovar o mesmo ato ou a mesma operação sem o impulso de qualquer raciocínio ou progresso do entendimento. não pode haver nenhum motivo em favor de tal inferência. por meio de algum raciocínio. ele seria incapaz. unicamente porque um acontecimento precede outro em um único caso. um acontecimento seguir-se a outro. e que teria sido tão fácil remediar isto para tanto que o entendimento humano possa ser admitido a julgar em tal assunto. o mal nunca teria acesso ao universo. como essa bondade não é previamente estabelecida. sem mais experiência. necessariamente teria havido muito pouco mal em comparação ao de que nos ressentimos efetivamente. Todavia. ele continuaria a ter o mesmo pensamento. Convenhamos que. mesmo que o convencêssemos que seu entendimento de modo algum participa na operação. se conciliar com ele. de atingir a idéia de causa e efeito. Mas ele sempre se acha determinado a tirá-la. as únicas que vale a pena considerar. Esse princípio é o costume. Sou suficientemente cético para convir que as más aparências. se as diversas forças e princípios do universo fossem exatamente construídos para sempre conservar o temperamento justo e o justo meio. dizemos sempre que essa tendência é o efeito do costume. dotado das mais poderosas faculdades de razão e de reflexão. e não é por nenhum progresso de raciocínio que ele é obrigado a chegar a esta conclusão. não bastariam para perturbar o dito princípio. certamente ele observaria de imediato uma contínua sucessão de objetos. sensíveis e agentes! Vocês admiram esta variedade e esta fecundidade prodigiosa.

que são opostas e ao mesmo tempo possuem bondade e maldade e que não possuem bondade nem maldade. Antes mesmo da revolução de 1648. em inglês. de afirmação e de crescimento de si próprio. O Empirismo . Existem quatro hipóteses possíveis no que se refere às primeiras causas do universo: que são dotadas de perfeita bondade. que da experiência passada conclui. ele publica em Paris o De Cive e. O Leviatã será traduzido para o latim em 1688. em 1651.177 Quão desprezíveis ou odiosas para o espectador! O todo só suscita a idéia de uma natureza cega. onde se sente ameaçado por causa de suas convicções monarquistas. impregnada por um princípio vivificante e que deixa cair de seu regaço. A filosofia de Hobbes é materialista e mecanicista. O absolutismo da época de Hobbes geralmente se apóia na teologia (Deus teria investido os reis de seu poder absoluto). se considerarmos a uniformidade e a concordância perfeitas das partes do universo. mas nunca foi integralmente traduzido para o francês. Hobbes. Filho de clérigo. estranho às realidades concretas. A uniformidade e a firmeza das leis gerais parecem se opor ao terceiro. que vai suprimir o poder real. Mas.Hobbes Tomás Hobbes Tomás Hobbes nasceu em Westport. notadamente pela Itália (encontrará Galileu em Florença) e sobretudo pela França (encontrará o padre Mersenne em Paris). Retornará à Inglaterra por ocasião da restauração de Carlos II em 1660. Durante toda sua vida. Mas trata-se de um jogo do pensamento. o quarto parece muito mais provável. Por conseguinte. isto é. ele foge da Inglaterra. faz publicar em Londres o Leviatã ou matéria. Se definirmos rigorosamente as palavras e as regras do emprego dos signos. na medida em que dá uma explicação plausível da estranha mistura de bem e de mal que surge na vida. sem prova decisiva. em latim. perfeitamente racional. Ao lado de uma indução empírica aproximativa. em Amsterdam. palavras (Hobbes é nominalista). isto é. Fenômenos mistos nunca poderiam provar os dois primeiros princípios. em 1608. princípio original do conhecimento dos próprios princípios: a imaginação é um agrupamento inédito de fragmentos de sensação e a memória nada mais é do que o reflexo de antigas sensações. the trayan of imagination). sem dúvida. e conatus. o seco ao úmido ou o leve ao pesado. o que se passará amanhã (e que não tem outro fundamento além da associação de idéias. Hobbes é um empirista inglês e nele encontramos os temas fundamentais que serão sempre os da escola. que possuem perfeita maldade. É partindo de tais fundamentos psicológicos que Hobbes elabora sua justificação do despotismo. É certo que existe uma oposição entre dores e prazeres nas afecções das criaturas sensíveis. e. idênticas aos princípios de que partimos. não descobriremos aí qualquer marca do combate de um ser malfazejo contra um ser benfazejo. Todavia. leve e pesado! A verdadeira conclusão é que a fonte original de todas as coisas é inteiramente indiferente a todos esses princípios e prefere tanto o bem ao mal quanto o quente ao frio. Em 1642. sem discernimento nem cuidados maternos. Hobbes crê na possibilidade de uma lógica pura. podemos chegar a conclusões rigorosas. ele é mais especioso e apresenta mais probabilidades do que a hipótese comum. por outro lado. ele será o amigo devotado dos Stuarts. descobre-lhe uma origem natural. Na fonte de todos os nossos valores. o instinto de conservação ou. num certo sentido. Mas a essa lógica só concernem símbolos. Viajará por diversos países da Europa. forma e autoridade de uma comunidade eclesiástica e civil. que são isentos de mistura. mais exatamente. seus filhos estropiados e abortados! Aqui o sistema maniqueu se apresenta como uma hipótese adequada para resolver a dificuldade. sai da Universidade de Oxford e se torna preceptor do filho de Lord Cavendish. úmido e seco. ao justificar o poder absoluto do soberano. mas todas as operações da natureza não se realizam por uma oposição de princípios como quente e frio. Hobbes admite a existência de uma lógica pura. Assim como a percepção é explicada mecanicamente a partir das excitações transmitidas pelo cérebro. esforço próprio a todos os seres para unir-se ao que lhes agrada e fugir do que lhes desagrada (esse tema do conatus será reencontrado no spinozismo). Hobbes. há o que Hobbes denomina endeavour. de um raciocínio demonstrativo muito rigoroso. A origem de todo conhecimento é a sensação. em 1588. . assim a moral se reduz ao interesse e à paixão.

Para Hobbes.o poder religioso ao poder político.sempre é o suficientemente forte para vencer o mais forte.comumente não deseja a morte de seu adversário e deseja seu cativeiro a fim de poder ler. a força é a única medida do direito. em seu olhar atemorizado e submisso. cruel e invencível que é o rei dos orgulhosos.observa Hobbes. o monopólio da força pertence ao soberano. Assim sendo. o maior interesse em fazer reinar a ordem se quiser permanecer no poder. é a paixão que vai dar a palavra à razão. Finalmente. uma atemorizada renúncia do seu próprio poder. reduz-se à força. como diz Halbwachs. esta á a origem psicológica que Hobbes atribui ao poder despótico. Houve. Para compreender como o homem se resolve a criar a instituição artificial do governo. Os homens. o homem se distingue dos insetos sociais. (Essa psicologia da vaidade e do medo é. Ele chama de Leviatã ao seu estado totalitário em lembrança de uma passagem da Bíblia (Jó XLI) em que tal palavra designa um animal monstruoso. portanto. Em todo caso. mas distingue dois momentos na história da humanidade: o estado natural e o estado político. Isto só será possível se cada um abdicar de seus direitos absolutos em favor de um soberano que. Apesar de tudo. querem usurpar". como no de natureza. No estado de sociedade. em todos os casos. O efeito comum do poder consistirá. Só haverá paz concretizável se cada um renunciar ao direito absoluto que tem sobre todas as coisas. ele é o senhor absoluto desde então. é a guerra de todos contra todos. para todos. Simplesmente o medo é maior do que a vaidade e os homens concordam em transmitir todos os seus poderes a um soberano. antecipando aqui os temas hegelianos . foi "uma alienação e não uma delegação de poderes". Aquele que possui grande força muscular não está ao abrigo da astúcia do mais fraco. Não pensemos que mesmo os homens mais robustos desfrutem tranqüilamente as vitórias que sua força lhe assegura. Pois. Este último .) É o medo. ao menos a sujeição do outro. o totalitarismo de Hobbes submete . em definitivo. mas . Por conseguinte. o que houve. O maior sofrimento é ser desprezado. As expressões pelas quais Hobbes o descreve são célebres: "Homo homini lupus". uma espécie de laicização da oposição teológica entre o orgulho espiritual e o temor a Deus ou humildade. No estado social. ninguém está protegido. cada um tem exatamente tanto de direito quanto de força e todos só pensam na própria conservação e nos interesses pessoais. o poder de cada um é medido por seu poder real. na segurança. o homem. Ele não é sociável por natureza e só o será por acidente. em Hobbes. da parte de cada indivíduo. o estado natural é. em suas dioceses. ao herdar os direitos de todos. mas não possui o menor compromisso em relação a seus súditos. em que cada um procura senão a morte. o homem é o lobo do homem.178 Para ele. ao invés de uma desigualdade. uma vez que o soberano terá. basta descrever o que se passa no estado natural. vão se encarregar de estabelecer a paz e a segurança.por maquinação secreta ou a partir de hábeis alianças . notemo-lo bem. . portanto. Não existe aí a intervenção de uma exigência moral. No estado natural. "Bellum omnium contra omnes". de fato. é um estado extremamente infeliz. o homem sempre tem medo de ser morto ou escravizado e esse temor. por isso. Assim é que ele exclui o "papismo" e o "presbiterianismo" por causa "dessa autoridade que alguns concedem ao papa em reinos que não lhe pertencem ou que alguns bispos.apesar de prudentes reservas . um estado de insegurança e de angústia. terá um poder absoluto. o direito. Mas não houve pacto nem contrato. que vai obrigar os homens a fundarem um estado social e a autoridade política. É claro que esse estado. em última instância mais poderoso do que o orgulho. procura ultrapassar todos os seus semelhantes: ele não busca apenas a satisfação de suas necessidades naturais. esse poder absoluto permanece um poder de fato que encontrará seus limites no dia em que os súditos preferirem morrer do que obedecer. o reconhecimento de sua própria superioridade. como as abelhas e as formigas. Quanto a este último. é uma espécie de igualdade dos homens no estado natural que faz sua infelicidade. por natureza. o homem não possui instinto social. o ofendido procura vingar-se. para todos. Seu direito não tem outro limite que seu poder e sua vontade. mas sobretudo as alegrias da vaidade (pride). Assim sendo.

não há injustiça: força e astúcia são virtudes cardeais na guerra. O Estado de natureza. onde não há Estado. por exemplo. E não existe tal poder constrangedor antes da instituição de um Estado. nesse caso. se apóia na Paixões e. A substância doutrinal de quase todos os filósofos desse século provém de sistemas anteriores. E a Razão sugere artigos de paz convenientes sobre os quais os homens podem ser levados a concordar. a triste condição em que o homem é colocado pela natureza com a possibilidade. segundo d'Alembert.. e por muito tempo. XIV . enquanto não há Estado. por outro. mesmo até o corpo dos outros. possantes e originais. ela ignora as grandes sínteses. e os do século XIX . . não há injustiça.179 O Estado Natural e o Pacto Social Leviatã. de sair dela.. As noções de certo e errado. e onde não há Poder Constrangedor estabelecido. cada um tem direito sobre todas as coisas.a filosofia do século XVIII ocupa um lugar original. em sua Razão. inicialmente. Cap.. XV .. não ao homem solitário. Por conseguinte. Leibnitz.. quando não há propriedade.. mas apenas no fato de que a cada um pertence aquilo que for capaz de o guardar.. A mesma situação de guerra não implica na existência da propriedade. Onde não há Poder comum. não há Propriedade e cada homem tem direito a todas as coisas. não há lei. nem na distinção entre o Meu e o Teu. as grandes "visões do mundo". isto é. Malebranche. nada há que seja Injusto. sua própria vida. "Newton criou a física e Locke a metafísica". não pode existir para nenhum homem (por mais forte ou astucioso que seja) a menor segurança. Enquanto dura esse direito natural de cada um sobre tudo e todos. 1. em seguida. ou seja. possibilidade que. para forçar os homens a executar seus pactos pelo temor de uma punição maior do que o benefício que poderiam esperar se os violassem. Eis então.. para salvaguardar sua própria natureza.. Cap. É o que também resulta da definição que as Escolas dão geralmente da justiça... para garantir-lhes a propriedade do que adquirem por Contrato mútuo em substituição e no lugar do Direito universal que perdem. por um lado. como os de Spinoza. em outras palavras.ª parte: Do Homem Cap. a saber. Antes que se possa utilizar das palavras justo e injusto. elas poderiam ser encontradas num homem que estivesse sozinho no mundo (como acontece com seus sentidos ou suas paixões). pois. Justiça e injustiça não pertencem à lista das faculdades naturais do Espírito ou do Corpo. é bem verdade.. essa guerra de todos contra todos tem por conseqüência o fato de nada ser injusto. onde não há lei.doutrinas de Hegel ou de Augusto Comte . e marca o triunfo da inteligência crítica. daí resulta que. O Iluminismo Francês O Iluminismo Francês Entre os grandes sistemas do século XVII. E porque a condição humana é uma condição de guerra de cada um contra cada um. que a justiça é a vontade de atribuir a cada um o que lhe cabe pertencer. de justiça e de injustiça não têm lugar nessa situação... XIII . é preciso que haja um Poder constrangedor.. pois.. quando nada é próprio. Na realidade. O direito natural que os escritores comumente chamam de Jus naturale é a Liberdade que tem cada um de se servir da própria força segundo sua vontade. nessa situação. justiça e injustiça são qualidades relativas aos homens em sociedade. As paixões que inclinam o homem para a paz são o temor à morte violenta e o desejo de tudo o que é necessário a uma vida confortável.

simultaneamente racionalista e experimental. Condillac exerceu uma influência particular sobre a cultura italiana. constituindo a sensação o primeiro grau. "Hypotheses non fingo". a existência. prodígios. mas cujo método racionalista é bem acolhido). entretanto. o mundo externo é afirmado dogmaticamente. nasce a distinção entre presente e passado. a abstração. a distinção entre atividade (na memória) e passividade (na sensação). encontram. a realidade. isto é. Com as idéias de Newton. a física de Newton destrona a de Descartes. preceptor. Ele desenvolveu o empirismo de Locke num sentido francamente sensista. durante um decênio (1758-1767). o exercício de todas as suas faculdades. (É o século das luzes. na corte de Parma. em que desenvolve a sua concepção sensista. contra a Igreja. e a generalização. Paralelamente ao desenvolvimento teórico do espírito procede o desenvolvimento prático.Deus sive natura . mediante o tato. há que acrescentar a influência capital de Spinoza. Comparando a sensação atual com a sensação lembrada. e que querem criar movimentos de opinião: a ironia e a clareza do estilo adquirem eficácia particular para tais empreendimentos. o olfato. que é o mais pobre dos sentidos. ao relatar os fatos reais em linguagem matemática. devido ao fato de ter ele sido. A sensação odorosa (de uma rosa) torna-se memória. em dado momento.idéia ou relação. e também de Descartes (cuja "visão"metafísica é rejeitada. b) Locke passa por ser o criador da "metafísica". tornam-se desejo. mediante um só sentido. de Locke.em uma série de idéias e juízos. do próprio corpo e dos demais corpos. O espírito adquire. na trapaça de uns e na credulidade de outros.180 a) Já na metade do século. adquire consciência do mundo físico. pela resistência que o nosso esforço encontra no mundo externo. a memória o segundo. dir-se-ia hoje. Podemos dizer que a física de Newton contribuiu largamente para a formação do espírito moderno. que é uma coleção de sensações atuais e lembradas. estamos perante um ceticismo metafísico. a direção voluntária de atenção sobre uma determinada sensação . isto é. deste modo. mas que é regido pelas leis de todo o universo. contudo. Uma lembrança vivaz torna-se imaginação. c) Sem dúvida. de atividade do espírito.) Daí o tom particular desses filósofos que fazem panfletos contra o poder. Consideramse os artífices da felicidade humana e se empenham na destruição dos preconceitos e na difusão das "luzes". a separação de uma idéia de outra. juízo . filósofos engajados. Tem-se. quando. herdeiro daquele trono. do racionalismo. uma série de três graus de atenção. "o esforço de perseverar em seu ser". O século XVIII caracteriza-se por uma tendência empírica e analítica: procura-se explicar as idéias complexas a partir das simples e as idéias a partir dos fatos. dizia Newton. Condillac imagina o homem como uma estátua. de Spinoza. as marés. a consciência. que é comparação entre sensações presentes e passadas. a idéia de que o motor de todos os sêres é o desejo. profecias. A lembrança de sensações agradáveis e a comparação com as presentes. a capacidade de noções gerais. milagres. De sua doutrina evidenciar-se-á sobretudo o naturalismo. a imaginação o terceiro. Aufklärung. a gravidade. os pensadores do século XVIII farão suas armas: eles são. Newton não faz o romance da matéria. a idéia de que o homem não é "um império num império". a primeira permanece com uma intensidade atenuada. A obra filosófica mais importante de Condillac é o Traité des sensations. isto é. de sorte que. o desejo estável torna-se vontade. o juízo. porquanto se trata sempre de sensações. não forjo imagens metafísicas. do mundo externo. a reflexão. mas exprime os fatos realmente dados na linguagem rigorosa da matemática. orientando-a paa o sensismo. afastada a primeira sensação e sobrevindo outra. isto é. o desejo preponderante torna-se paixão. da ciência do espírito humano. ele explica o movimento dos planetas. Deus é identificado com a natureza . começa a ter uma sensação de olfato. privada de toda sensação (tabula rasa) e que. filosoficamente.toda a experiência. explicação suficiente e perfeitamente natural. Da sensação (agradável ou dolorosa) nasce o sentimento (de prazer ou de dor). assim. O espírito. o eu. ao descrever o "como" dos fenômenos. renunciando a imaginar o longínquo "por que" metafísico. Isto não prova. de Fernando de Bourbon. A matemática do infinitesimal descreve adequadamente as variações contínuas dos fenômenos. derivando da mera sensação sem reflexão . .e as leis ditas eventos sobrenaturais. Condillac (1715-1780) O filósofo mais notável do iluminismo francês é Estevão Bannot de Condillac (1715-1780). isto é.

realizarão o conjunto mais justo. permanece otimista. O célebre verso de Voltaire "Se Deus não existisse precisaria ser inventado" deve. não são originais. esta ou aquela psicologia para com os cidadãos: a democracia da cidade antiga só é viável em função da "virtude". é uma prodigiosa colocação de teses que testemunha sua incomparável erudição e que será possuído por todos os intelectuais do século XVIII). É certo que esse Deus policial é sobretudo requisitado para manter a ordem social e as vantagens econômicas aproveitadas por Voltaire e os outros grandes burgueses. Não vemos como na Inglaterra a liberdade política conduz à existência de leis particulares que não encontramos em outros regimes? As leis obedecem a um determinismo racional. isto é. antes de Voltaire. harmônica. porém. O "direito natural". de certo modo. só se explicam pela existência de um Criador inteligente ("Este mundo me espanta e não posso imaginar / Que este relógio exista e não tenha relojoeiro"). todos os raios eram desiguais". a fim de ressaltar de suas contradições a necessidade da tolerância (o Dicionário histórico e crítico de Bayle. quais aquelas que. ao passo que o despotismo só subsiste com a manutenção. Para que ninguém possa abusar da autoridade. Voltaire (1694-1778) Voltaire. contra Pascal. para ser bem compreendido. são muito menos a expressão de um determinismo sociológico de tipo materialista do que a afirmação de uma ligação ideal. sendo que as melhores pertencem a este ou aquele governo. é um deísta convicto: a organização do mundo. é o tipo acabado do "filósofo" do século XVIII. estas ou aquelas instituições. necessariamente. inimigo encarniçado do cristianismo. Criticou Leibnitz e seu "melhor dos mundos possíveis" que. exposta no Espírito das Leis (1748). em cada circunstância em que se está colocado. após o terremoto de Lisboa. Ela se caracteriza pela busca de um justo equilíbrio entre a autoridade do poder e a liberdade do cidadão. as "relações necessárias". em sua crítica aos prodígios e superstições populares. tirada de Locke e de Newton. uma vez que lhes servem de guia. entre certos tipos de governo e certas leis possíveis. 1697. no entanto. Montesquieu. opor os sistemas metafísicos entre si. Apesar de negar o pecado original. Voltaire. Assim é que cada forma de governo determina. nunca afirmou que o clima determina. civil e outras são as funções". . sua finalidade interna. necessariamente. quais as leis melhor adaptadas. As idéias filosóficas de Voltaire. A monarquia tradicional repousa num sistema hierárquico de suseranos e vassalos que só funciona a partir de uma moral da honra. em toda parte. este ou aquele tipo de lei. Daí a separação entre poder legislativo. Montesquieu. de que fala Montesquieu. Bayle já apresenta ardis tipicamente voltairianos para comprometer. mantém o princípio de um Deus justiceiro. pela disposição das coisas. possuía a arte de. possui sobretudo concepção racionalista das leis que não resultam dos caprichos arbitrários do soberano. significa dizer que. antes de Voltaire. pelo espírito cívico da população. "misantropo sublime". Só os maus legisladores favorecem os vícios do clima. da força do medo. Todavia. na situação considerada. pode estabelecer uma certa justiça sobre a terra e alcançar uma certa felicidade. a fé nos milagres do cristianismo. surge como essencialmente racionalista. o poder detenha o poder".181 Montesquieu (1689-1755) A política de Montesquieu. "A verdadeira lei da humanidade é a razão humana enquanto governa todos os povos da terra. dizer que só o que as leis positivas ordenam ou proíbem é que constitui o que há de justo e injusto. O próprio espírito voltairiano teve seus precursores. "é preciso que. mais harmonioso. E Fontenelle já colocara (Conversações sobre a pluralidade dos mundos) a nova astronomia ao alcance dos marqueses. Como diz muito bem Brehier. em cada forma de governo. cabendo ao legislador descobri-las e aplicá-las. ser citado com seu comentário: "e teu novo arrendatário / Por não crer em Deus. antes que se tivesse traçado os círculos. Em seus Pensamentos sobre o cometa. reduzido apenas aos seus recursos. que a história se explica mais pelo jogo das paixões humanas do que pelo decreto da Providência. por exemplo. poder executivo e poder judiciário. ele acha que o homem. protestante francês exilado em Roterdam. a justiça ideal preexistem às leis escritas. "a variável aqui é a forma de governo de que as legislações políticas. Fontenelle (1657-1757) mostrou. Voltaire. Pierre Bayle (1647-1707). mas são "relações necessárias que derivam da natureza das coisas". É preciso encontrar em cada clima.

evitou por muito tempo que o filho a conhecesse. Essa precaução serviu apenas para aumentar a curiosidade de Blaise. passava a pesquisar por conta própria até encontrar uma resposta satisfatória e. o pai verificou que o filho descobrira sozinho a matemática. para que aprendesse com maior facilidade. que queria saber a razão de todas as coisas e não se satisfazia diante de explicações incompletas ou superficiais. suas experiências sobre os sons levaram-no a escrever um pequeno tratado. no entanto. a família Pascal mudou-se para Paris. A irmã Gilberte escreverá mais tarde: "A máxima dessa educação consistia em manter a criança acima das tarefas que lhe eram impostas. Essa idéia geral esclarecia-lhe o espírito e fazia-o compreender o motivo das regras da gramática. Recusa-se a crer nos fósseis de animais marinhos descobertos nas montanhas por aquela época. Nas demais ciências realizou surpreendentes progressos e aos dezenove anos inventou a máquina aritmética. Como queria que Blaise estudasse línguas e. a estrutura geográfica da terra. Com isso chegou até a 32ª proposição do livro I de Euclides. de sorte que quando veio a aprendê-las sabia o que fazia e dedicava-se aos aspectos que lhe exigiam maior dedicação". Gilberte Périer.providencial. Pascal revelou desde cedo um espírito extraordinário. as espécies vivas são fixas. Assim. a educação de Blaise permaneceu ao encargo do pai. o pai apegou-se muito a ele e encarregou-se de sua instrução. e de Antoinette Bégon. que. presidente da Corte de Apelação. Segundo sua irmã e biógrafa. Os avanços foram rápidos: aos dezesseis anos escreveu Tratado Sobre as Cônicas. Durante esse intervalo não o deixou ocioso. Procurava tracá-las corretamente. Étienne Pascal ensinava outras coisas ao filho: dava-lhe rudimentos sobre as leis da natureza e sobre as técnicas humanas. em nome desse finalismo estático. Admitir que as montanhas outrora estiveram submersas. ele rejeita as idéias evolucionistas que começam a se difundir. por esse motivo só deixou que aprendesse latim aos doze anos. e que por esses meios todas as línguas haviam podido ser comunicadas de um país para outro. Além das línguas. pois o ocupava com todas as coisas de que o julgava capaz. Étienne Pascal era matemático e sua casa era muito freqüentada por geômetras. afinal. Para ele. pagar-te-á melhor?" É certo. não o largava até resolvê-lo plenamente. numa finalidade 182 . Aos onze anos. não foi impresso na época. Estarrecido. sem que se soubesse qualquer regra de aritmética. quando se defrontava com um problema. Blaise recebeu os livros dos Elementos de Euclides e pôde dedicar-se à vontade ao estudo da geometria. Entre a Ciência e a Religião Não apenas na matemática revelou-se o gênio precoce de Pascal. a 19 de junho de 1623. seria negar a estabilidade e a finalidade da ordem atual do mundo. Blaise Pascal Vida e Obras Nascido em Clermont-Ferrand. Mesmo quando. era o único filho do sexo masculino. mas sobretudo pelas questões que ele próprio levantava a respeito da natureza das coisas. que permitia que se fizesse nenenhuma operação sem lápis nem papel. dedicou-se a fazer demonstrações exatas. ensinou-lhe como haviam sido reduzidas as gramáticas sob certas regras. Blaise Pascal era filho de Étienne Pascal. considerado muito bom para sua idade. A partir de então. por sua própria vontade. prometendo-lhe que a ensinaria quando ele já soubesse grego e latim. que passou a se divertir com as figuras geométricas que o pai lhe havia mostrado. Perdeu a mãe aos três anos de idade. Diante de uma explicação insuficiente. (Ele também teme que esses fósseis marinhos nas montanhas só sirvam para os cristãos provarem a história do dilúvio!). em 1631. que Voltaire crê na ordem do mundo. sabendo como a matemática é apaixonante e absorvente. no entanto. nunca o enviando a colégios. Tudo isso aguçava ainda mais a curiosidade do menino. que tais regras tinham exceções assinaladas com cuidade. depois de propor axiomas relativos às figuras. Mostrava-lhe de um modo geral o que eram as línguas. não só pelas respostas que dava a certas questões. depois passou a buscar as proporções entre elas e.

realizada por Leibniz (1646-1716) e Newton (16421727). provando que os efeitos comumente atribuídos ao vácuo eram. foi.. e os trabalhos de cunho apologético Colóquios com o Senhor de Saci Sobre Epicteto e Montaigne e as Províncias. para melhor romper com seus hábitos. como seu espírito ocupava-se de tudo com muita reflexão. tomou conhecimento da experiência de Torricelli (1608-1647) referente à pressão atmostérica e realizou uma outra. esse milagre foi a ocasião para que nele se produzissem muitos pensamentos importantes sobre milagres em geral". permite calcular as combinações possíveis de m objetos agrupados n a n. Pascal foi decisivamente marcado por um acontecimento.183 mas com segurança infalível. Na verdade. As pesquisas que fez a esse respeito conduziram-no à formulação do cálculo das probabilidades. que havia entrado para o convento. quando "resolveu desistir dos compromissos sociais. senhor de SaintAnge-Montcard. A construção da máquina. com quem teve as primeiras discussões a respeito da Bíblia. para onde se havia mudado a família Pascal. pois determinam o centro de todas as suas reflexões religiosas e filosóficas: a figura de Cristo. todavia. seus amigos. ele ficou emocionado com o milagre porque nele Deus era gloorificado e porque ocorria num tempo em que a fé da maioria era medíocre. e enfim Deus permitiu que ela se curasse tocando o Santo Espinho que existe em Port-Royal. obra mística. sob a influência de sua irmã. ciência que reside inteiramente no espírito. Jacqueline Pascal. Um dos últimos trabalhos científicos de Pascal nesse período é o Tratado Sobre as Potências Numéricas. A idéia central de Pascal . cujo sacrifício infunde a graça santificante no coração dos homens e os redime. dos dogmas e da Igreja católica e da teologia em geral. O invento de Pascal foi considerado uma verdadeira revolução. resultantes do peso do ar.. Blaise e outros jovens. que ele denominou Aleae Geometria (Geometria do Acaso). pois transformava uma máquina em ciência. O fato é narrado pela irmã de Pascal. que determinou a mudança de sua trajetória espiritual: o "milagre do Santo Espinho". A cura de sua sobrinha e afilhada repercuriu profundamente em Pascal: ". depois do período em que procurou a verdade científica e a glória humana no domínio da natureza e da razão. onde tanto fez para abandonar o mundo que o mundo afinal o abandonou". A alegria que experimentou foi tão grande que se sentiu completamente penetrado por ela. denominada "a experiência do vácuo". e reconhecido pelo juízo solene da Igreja". na verdade. Pascal estabelece a verdadeira relação entre os dois Testamentos: o Antigo revelaria a justiça de Deus. Em Ruão. Assim. A essa questão voltará mais uma vez em 1658. Pascal dirigiu seu interesse para as questões da Igreja e da Revelação. Blaise conheceu Jacques Forton. Mais tarde .a partir de 1652 -. perante a qual todos os homens seriam culpados pela transmissão do pecado original. e. o Novo revelaria a misericórdia de Deus. mediador entre o finito (as criaturas) e o infinito (Deus criador). Jacqueline conseguiu persuaadir o irmão de que "a salvação devia ser preferível a todas as coisas e que era um erro atentar para um bem passageiro do corpo quando se tratava do bem eterno da alma". Começou mudando de bairro e. Pascal tinha então trinta anos. curva descrita por um ponto da circunferência que rola sem deslizar sobre uma reta. quando ele se une aos jansenistas do Port-Royal. O método aplicado por Pascal para estabelecer essa área abriu caminho à descoberta. num derradeiro estudo científico sobre a área de ciclóide. Essa fístula era maligna e os maiores cirurgiões de Paris consideravam incurável. Aos 23 anos. logo consideraram Saint-AngeMontcard um herético pernicioso. e esse milagre foi atestado por vários cirurgiões e médicos. que o leva a descer entre os homens por intermédio de seu Filho. Começa então a fase apologética da obra de Pascal. Essa fadiga comprometeu definitivamente sua saúde. Nesse período escreve o Memorial. do cálculo integral. As análises sobre o milagre são fundamentais no pensamento de Pascal. muito complicada e Pascal levou dois anos trabalhando com os artesãos. Segundo o relato de Gilberte. Gilberte Périer: "Foi por esse tempo que aprouve a Deus curar minha filha de uma fístula lacrimal que a afligia havia três anos e meio. O chamado Triângulo de Pascal foi um dos resultados dessas pesquisas sobre jogos de azar: trata-se de uma tabela numérica que. que se tornou muito frágil daí por diante. acalentando o projeto de reunir a sociedade laica e a cristã e de combater a corrupção que teria sido causada pela evolução dos últimos séculos. Em função de Cristo. em que aborda a questão dos "infinitamente pequenos". entre outras propriedades. passou a sse interessaar pelos problemas matemáticos relacionados aos jogos de dados. foi morar no campo.

os judeus e os cristãos: os pagãos (isto é.pertenciam à nobreza togada e em especial a um grupo desses nobres que esperavam passar à condição de comissários do rei. Os indicadores do movimento jansenista na França . E a ideologia que vai diversificar o interior desse grupo apresenta como núcleo a afirmação da impossibilidade radical de se realizar uma vida válida neste mundo. Jansênio. instalaram-se em Port-Royal. que faz com que eles sintam interiormente a miséria em que vivem e a infinita misericórdia de quem os criou. na virtude e na luz. Submetidos à lei férrea desse dúplice amor. a oposição entre o grupo e Richilieu não consistia em indagar se a vida cristã era ou não compatível com a política. Antoine Le Maître . futuro abade de Saint-Cyran. portanto. Somente aquele que chega ao fundo da miséria e da indignidade e que sabe do mediador (Cristo). que. os seres humanos tornaram-se escravos da Terra ou do Céu. arrastados para a condenação ou para a salvação. Baseando em Santo Agostinho sua doutrina do dúplice amor. Jansênio . declarava que a razão filosófica era "a mãe de todas as heresias". que estivessem dentro ou fora do país. a de que sem Cristo o homem está no vício e na miséria. os judeus seriam os que acreditam num Deus que exerce sua providência sobre a vida e os bens dos homens a fim de dar-lhes um seqüência de anos felizes. antes de pecar. O jansenismo expandiu-se principalmente na França. pois só o mediador poderia reparar a miséria do homem. Descontente com o exagerado raacionalismo dos teólogos escolásticos. embora dele discordassem quanto a alguns pontos importantes: preconizavam uma aliança com a Espanha católica e luta mortal contra os huguenotes. independentemente das ações que comete. buscando nas obras de Santo Agostinho (354-430) elementos que permitissem conciliar as teses dos partidários da Reforma com a doutrina católica. na prisão do castelo de Vincennes. Jansenismo e Monarquia Absoluta Com o intuito de reformular globalmente a vida cristã. sustentava que Adão. já os cristãos seriam os que crêem num Deus de amor e de consolação. Ali o jansenismo assumiu forma ascética e polêmica. no sentido corrente do termo. graças ao apoio do Terceiro Estado. os mais destacados integrantes do grupo de Port-Royal eram amigos e companheiros do cardeal Richelieu. está na felicidade. A partir de então é que nasce o jansenismo propriamente dito: afirmação de que é impossível para o verdadeiro cristão e para o verdadeiro eclesiástico participar da vida . o holandês Cornélio Jansênio (1585-1638) deu início a um movimento que abalou a Igreja caatólica durante os séculos XVII e XVIII.Saint-Cyran. passava de monarquia temperada do Antigo Regime (caracterizada pela primazia da realeza sobre os senhores. que o arrastou para o mal. de adminstradores e de oficiais) à monarquia absoluta. Era uma época de profundas transformações políticas na França. na obra Augustinus. era livre.sobre o problema religioso é. juntamente com outros intelectuais. chegando por intermédio dele a conhecer o verdadeiro Deus. graças à atuação do abade de Saint-Cyran e de Antoine Arnauld (1612-1694). Os jansenistas dedicaram-se particularmente à discussão do problema da graça. 184 A figura de Cristo permite ainda a Pascal distinguir os pagãos. isso leva homens e mulheres não apenas a abandonar a vida mundana. Até 1637. com Cristo. em sua evolução. que o orienta infalivelmente para o bem. pelo pecado perdeu a liberdade e tornou-se escravo da concupiscência. mas a abandonar toda e qualquer função social. durante dez anos. que também pretendia o retorno so catolicismo à disciplina e à moral religiosa dos primórdios do cristianismo. do corpo de legistas. na qual as atribuições dos oficiais e das cortes são transferidas para o corpo de comissários do rei. A monarquia. mas sim qual era a política cristã. A vitória de Richilieu desencadeou a ruptura com o grupo e um de seus membros (Saint-Cyran) permaneceu. o homem não pode deixar de pecar. Em conseqüência disso.uniu-se a Jean Duvergier de Hauranne. Antes do início dpo movimento. apresentando-se como um verdadeiro cisma.doutor em teologia pela universidade de Louvain e bispo de Ypres . os filósofos) seriam aqueles que acreditam num Deus que é si mplesmente o autor das verdade geométricas e da ordem dos elementos. a não ser que intervenha a caridade (amor celeste). Desse modo. que logo foi atingido pelos anátemas do papa. Arnauld d'Andilly. o homem estaria predestinado para o céu ou para o inferno.

Enquanto nobreza togada. e a realidade prática de uma vida consagrada ao mundo. Nessa terceira fase de sua vida. Esse encontro permite a Pascal estabelecer o acordo entre a consciência e a vida. advogados e membros das cortes supremas. Essa mudança é determinada pela condenação do jansenismo pelo papa Alexandre VI. porém. Da Militância ao Recolhimento O jansenismo podia propor uma atitude abstencionista em relação à política porque estava constituído por pessoas que pertenciam a um grupo social cuja base econômica dependia diretamente do Estado. seguidos de discussões com vários sábios da época). À fase apologética daas Proncinciais segue-se então a fase dos Pensamentos.que Pascal pôde escrever os Pensamentos e abrir um capítulo novo na história do pensamento filosófico". A vanguarda jansenista era constituída por advogados e suas famílias. Esse acordo. dele se afastassem e a ele se opusessem. à uma hora da madrugada. Pascal transita.e isso significa que a militância religiosa não mais pode ser efetuada. através da militância religiosa que procura o triunfo da verdade (ciência) na Igreja e o triunfo da fé (religião na sociedade laica. entre as duas atitudes que já existiam entre os próprios jansenistas da militância (Arnauld. os simpatizantes do movimento eram. que lhe permitiu exprimir melhor sua sede de absoluto e de transcendência. Até o encontro com o jansenismo havia na vida de Pascal uma contradição entre a primazia atribuída. que passaram a exercer as antigas funções dos oficiais e das cortes. Deve-se notar que o pai de Pascal era membro da Corte Suprema de Clermont-Ferrand. à monarquia e que contará com maior número de adeptos depois da Fronda (sublevação contra o primeiroministro Mazarin.e por isso afirmam tragicamente a vaidade essencial do mundo e a salvação pelo retiro e pela solidão. "a incerteza radical e certa. .que para o homem é certo e incerto. A vocação religiosa de Pascal encontra no jansenismo o solo favorável para sua expansão. Os jansenistas são trágicos porque vivem uma situação trágica . poder desejar sua destruição ou sua transformação radical. de 1648 a 1652). dependiam economicamente do Estado.incompatibilizaram com a política de Richilieu. Jacqueline Pascal). Nicole) passa ao retiro (Barcos. no século XVIII. escreve Lucien Goldmann. na época. não se manterá. em geral.como escreve sua irmã Gilberte. que se 185 Pascal morreu em 29 de agosto de 1662. Mas jansenismo aapresentou duas vertentes: uma preconizava o retiro completo. Pascal exprime uma só certeza: a de que a única verdadeira grandeza do homem reside na consciência de seus limites e de suas fraquezas. assim. o paradoxo. paradoxal: exprime o descontentamento em face da monarquia absoluta. em momentos diversos de sua vida. ideologicamente. assim. em princípio. a luta contra a monarquia absoluta. embora. sem. O centro da trajetória espiritual de Pascal reside no seu encontro com o jansenismo. Tinha 39 anos de idade. " Pascal política e social. Esta última é que terá maior sucesso depois da Fronda e é ela que prossegue. Todavia. Pascal participa de ambas as correntes. contudo. os oficiais. será ainda entre os jansenistas que Pascal chegará à conclusão de que é importante retirar-se definitivamente do mundo e até mesmo da militância religiosa. A oposição dos jansenistas constituía apenas uma das modalidades de oposição que se fazia. presente e ausente. à religião. a recusa intramundana do mundo e o apelo de Deus. mas seus escritos religiosos perdem o tom apologético para se tornar trágicos. esperança e risco . Os Pensamentos revelam ser os escritos de um homem a quem "o silêncio eterno dos espaços infinitos apavora". Pascal volta a dedicar-se à ciência (estudos sobre a ciclóide e sobre a roleta. Na fase final de sua vida e de sua obra. A situação dos jansenistas é. descobre a tragédia". os membros das Cortes. E é estendendo o paradoxo até o próprio Deus . que se estendeu de Paris às províncias. Pascal acaba submetendo-se ao poder papal . a segunda optava pela militância religiosa. O "milagre do Santo Espinho" reforçou-lhe a tendência mística e a certeza de que "há alguma coisa acima daquilo que chamamos natureza" . desgostosos com o poder dos comissários do rei. oficiais.

estudou. A moral de Kant é exposta nas obras que se seguem: o Fundamento da Metafísica dos Costumes (1785) e a Crítica da Razão Prática (1788). ingleses. Após uma obra em que Kant critica as ilusões de "visionário" de Swedenborg (que pretende tudo saber sobre o além). assim como do da Aufklärung. no Conflito das Faculdades (1798). A doutrina da virtude e seu Ensaio filosófico sobre a paz perpétua (1795). Kant. A primeira obra importante de Kant . Ele fez com que Kant se obrigasse a nunca mais escrever sobre religião. segue-se a Dissertação de 1770. Segundo Fichte. e a notícia da vitória francesa em Valmy. Kant sofreu duas influências contraditórias: a influência do pietismo. Acrescentemos a literatura de Hume que "despertou Kant de seu sono dogmático" e a literatura de Russeau. Em seguida. Jamais deixou essa grande cidade da Prússia Oriental. e a influência do racionalismo: o de Leibnitz. uma passagem que una o mundo da natureza. do problema das relações entre a religião natural e a religião revelada! Dentre suas últimas obras citamos A doutrina do direito. Duas circunstâncias fizeram-no perder a hora: a publicação do Contrato Social de Rosseau. Nela. explicará suas intenções "críticas" (um estudo sobre os limites do conhecimento). o Ensaio sobre o mal radical consagra-o ao problema do mal: o Ensaio para introduzir em filosofia a noção de grandeza negativa (1763) opõe-se ao otimismo de Leibnitz. a Crítica do Juízo (1790) trata das noções de beleza (e da arte) e de finalidade. surgem as grandes obras da maturidade. após o advento de Frederico-Guilherme III. em 1787. que o sensibilizou em relação do poder interior da consciência moral.186 V . A Crítica da Razão Pura explica essencialmente porque as metafísicas são voltadas ao fracasso e porque a razão humana é impotente para conhecer o fundo das coisas. O mal não é a simples "privatio bone". não hesitou em tratar. holandeses. Frederico-Guilherme II. e o da Aufklärung (a Universidade de Koenigsberg mantinha relações com a Academia Real de Berlim. Em 1781. Seu sucessor. por mais inimigo que fosse da restrição mental.assim como uma das últimas. em 1762. herdeiro do otimismo dos escoláticos. desse modo. inquietou-se com a obra publicada por Kant em 1793 e que. buscando. Levantava-se às 5 horas da manhã. tomada pelas novas idéias). Kant distingue o conhecimento sensível (que abrange as instituições sensíveis) e o conhecimento inteligível (que trata das idéias metafísicas). A vida de Kant foi austera (e regular como um relógio). cuja segunda edição. Kant encontrara proteção e admiração em Frederico II. como se diz nas universidades alemãs). achou que essa promessa só o obrigaria durante o reinado desse príncipe! E. apesar do título. Finalmente. menos independente dos meios devotos. "como súdito fiel de Sua Majestade". lecionou e morreu em Koenigsberg. . cidade universitária e também centro comercial muito ativo para onde afluíam homens de nacionalidade diversa: poloneses. temos a Crítica da Razão Pura. mas o objeto muito positivo de uma liberdade malfazeja. que Wolf ensinara brilhantemente. submetido à necessidade. ao mundo moral onde reina a liberdade. era profundamente espiritualista e anti-Aufklärung: A religião nos limites da simples razão. fosse inverno ou verão. onde o criticismo kantiano é exposto. protestantismo luterano de tendência mística e pessimista (que põe em relevo o poder do pecado e a necessidade de regeneração).Contemporâneo Emmanuel Kant Vida e Obras Kant nasceu. que vale a seu autor a nomeação para o cargo de professor titular (professor "ordinário". Kant foi "a razão pura encarnada". em 1792. deitava-se todas as noites às dez horas e seguia o mesmo itinerário para ir de sua casa à Universidade. Os prolegômenos a toda metafísica futura (1783) estão para a Crítica da Razão Pura assim como a Investigação sobre o entendimento de Hume está para o Tratado da Natureza Humana: uma simplificação brilhante para o uso de um público mais amplo. que foi a religião da mãe de Kant e de vários de seus mestres.

aquisições da experiência. as categorias. por mais sintéticas que sejam. Eis um juízo sintético (o valor dessa soma de ângulos acrescenta algo à idéia de triângulo) que. denominada Estética transcendental. etc. ainda. antes de toda experiência concreta... as verdades da metafísica são objeto de incessantes discussões. assim como as verdades morais. Como. São quadros a priori de meu espírito. só sei que a régua é verde porque a vi. são a priori. são naturalmente a posteriori. isto é independentes dos azares da experiência. Em nenhum momento Kant duvida da verdade da física de Newton.. são necessárias (não podem não ser) e universais (valem para todos os homens e em todos os tempos). os juízos do físico podem ser a priori. Os maiores pensadores estão em desacordo quanto às proposições da metafísica. Os fenômenos. necessárias e universais. eu digo que o aquecimento da água é a causa necessária de sua ebulição (se não houvesse aí senão uma constatação empírica. Não estão. Estética significa teoria da percepção. toda ciência. O espaço e o tempo não são. À primeira vista. dos próprios fenômenos que nela ocorrem. isto é. que não se deve mentir. Assim sendo. é um quadro que faz parte da própria estrutura de meu espírito. Juízo analítico é aquele cujo predicado está contido no sujeito. Mas. também existem (este enigma é o ponto de partida de Kant) juízos que são. a análise reflexiva. enquanto transcendental significa a priori. os juízos sintéticos. imprime-lhe . Mas por que a demonstração se opera tão bem em minha folha de papel quanto no quadro negro. as regras. de acordo quanto à verdade das leis de Newton? Do mesmo modo todos concordam que é preciso ser justo. necessários e universais de minha percepção (o que Kant mostra na primeira parte da Crítica da Razão Pura. ao pretender que o hábito é a causa de nossa crença na causalidade. aqueles cujo atributo enriquece o sujeito (por exemplo: esta régua é verde). simultaneamente anterior à experiência e condição da experiência). mas é nosso espírito que. assim como do valor das regras morais que sua mãe e seus mestres lhe haviam ensinado. por outro. Consiste em remontar do conhecimento às condições que o tornam eventualmente legítimo. todos os bons espíritos. Tomo conhecimento dela sem ter necessidade de medir os ângulos com um transferidor. O próprio Hume. nos quais a experiência vem se depositar.187 A Ciência e a Metafísica O método de Kant é a "crítica". mas. dispõe a experiência em seu quadro espacio-temporal (o que Kant mostrará na Estética transcendental) e. Como se explica que tais juízos sintéticos e a priori sejam possíveis? Eu demonstro o valor da soma dos ângulos do triângulo fazendo uma construção no espaço. ou quanto no solo em que Sócrates traçava figuras geométricas para um escravo? É porque o espaço.. para mim. Mas o caso da física é mais complexo. ao mesmo tempo. por um lado. Por que esse fracasso? Os juízos rigorosamente verdadeiros. As verdades da ciência newtoniana. Essas categorias são necessárias e universais. Também em física. mas o espírito possui. estaria anulada). isto é. assim como o tempo. Eis por que as construções espaciais do geômetra. Eis um conhecimento sintético a posteirori que nada tem de necessário (pois sei que a régua poderia não ser verde) nem de universal (pois todas as réguas não são verdes). pelas quais unificamos os fenômenos esparsos na experiência. necessários e universais? É porque. De fato eu não tenho necessidade de uma constatação experimental para conhecer essa propriedade. Em compensação. sobre que se fundam tais verdades? Em que condições são elas racionalmente justificadas? Em compensação. isto é. Entretanto. responde Kant. enquanto verdade necessária e universal. sintéticos e a priori! Por exemplo:a soma dos ângulos de um triângulo equivale a dois retos. são exigências a priori do nosso espírito. Para dizer que o calor faz ferver a água. são a priori. que a coragem vale mais do que do que a covardia. é preciso que eu constate. Faço-o por intermédio de uma demonstração rigorosa. uma exigência de explicação por meio de causas e efeitos. sempre particular e contigente. O espaço e o tempo são quadros a priori. parece evidente que esses juízos a priori são juízos analíticos. então. necessários e universais. é a priori. uma exigência de unificação dos fenômenos entre si. Aqui. no entanto. não emprega necessariamente a categoria a priori de causa na crítica que nos oferece? "Todas as intuições sensíveis estão submetidas às categorias como às únicas condições sob as quais a diversidade da intuição pode unificar-se em uma consciência". como acreditou Hume. a experiência nos fornece a matéria de nosso conhecimento. são dados a posteriori. eles próprios. eu falo não só do quadro a priori da experiência. Um triângulo é uma figura de três ângulos: basta-me analisar a própria definição desse termo para dizê-lo.

contrária e favoravelmente. Tudo o que nos aparece bem relacionado na natureza. Ora. a razão não deixa de construir sistemas metafísicos porque sua vocação própria é buscar unificar incessantemente.ordem e coerência por intermédio de suas categorias (o que Kant mostra na Analítica transcendental). O conhecimento. bem negativa. Não. pelo fato mesmo de os princípios sobre os quais se apóia a razão especulativa. apesar de todos os seus esforços. pois eu sempre posso me perguntar: que havia antes do começo do universo?). olhando mais de perto. dissera Copérnico. Não é o Sol. que se limita a por em ordem. tal como cera mole. as intuições sensíveis seriam "cegas". É o próprio espírito que. que gira em torno da Terra. desordenadas e confusas. como louca. As únicas intuições de que dispomos são as intuições sensíveis. Não se apercebia que. da qual propriamente dependem. Entretanto. nos espaços vazios da razão pura. Kant se interroga sobre o valor do conhecimento metafísico. a restrição do uso de nossa razão. constrói a ordem do universo. Só conhecemos os fenômenos e não as coisas em si ou noumenos. É o próprio espírito humano que constrói . Mas logo se perceberá também que sua utilidade é positiva.o objeto do seu saber. ao suprimir com um mesmo golpe o obstáculo que restringe seu uso prático ou que até ameaça anulá-la. É o que se reconhecerá logo 188 . daí a necessidade de um ponto de partida. na realidade terem por conseqüência inevitável não a extensão. demonstrando. os materiais que lhe são fornecidos pela intuição sensível. uma crítica que limita a razão em seu uso especulativo é. não teriam nada para unificar. graças às suas estruturas a priori. Sem as categorias.. é por isso que não conhecemos o fundo das coisas. e assim reduzir a nada o uso puro (prático) da razão. diz Kant. Emmanuel Kant O Alcance da Crítica Kantiana (Prefácio da 2. Pretender como Platão. graças às categorias. poderia imaginar que voaria ainda melhor no vácuo. de início.com os dados do conhecimento sensível . mas é esta que gira em torno daquele. não é o reflexo do objeto exterior. esses princípios ameaçam de tudo enfeixar nos limites da sensibilidade. a razão. No entanto. pois so o mundo é objeto de minha experiência). É a isto que Kant chama de sua revolução copernicana. afasto-me da experiência. O princípio da causalidade. mas sem as intuições sensíveis concretas as categorias seriam "vazias". Aquilo a que denominamos experiência não é algo que o espírito. Mas privada de qualquer ponto de apoio na experiência. essa crítica. que ele emprega para unificar fenômenos dados na experiência (aquecimento e ebulição). que em seu vôo livre fende os ares de cuja resistência se ressente. ao fundamentar solidamente o conhecimento. O que é fundamentado é o conhecimento científico. tem uma utilidade positiva da mais alta importância. e é isso que lhe dá sua primeira utilidade. não abria nenhum caminho. isto é. Descartes ou Spinoza que a razão humana tem intuições fora e acima do mundo sensível. na dialética transcendental. As análises precedentes. diz Kant. mas. de fato. foi relacionado pelo espírito humano. por esse lado. que sua utilidade é inteiramente negativa ou que ela só serve para nos impedir de conduzir a razão especulativa além dos limites da experiência. convite à descoberta. o metafísico abusa da causalidade na medida em que se afasta deliberadamente da experiência concreta (quando imagino um Deus como causa do mundo. Ela inventa o mito de uma "almasubstância" porque supõe realizada a unificação completa dos meus estados d'alma no tempo e o mito de um Deus criador porque busca um fundamento do mundo que seja a unificação total do que se passa neste mundo. Só conhecemos o mundo refratado através dos quadros subjetivos do espaço e do tempo. uma vez que não tinha ponto de apoio em que pudesse aplicar suas forças". É que. é passar por "visionário" e se iludir com quimeras: "A pomba ligeira.. receberia passivamente. para se aventurar fora de seus limites. Enquanto o cientista faz um uso legítimo da causalidade. tanto a tese quanto a antítese (por exemplo: o universo tem um começo? Sim pois o infinito para trás é impossível. mas. mesmo além de toda experiência possível. não deve servir de permissão para inventar. com efeito. Na terceira parte de sua Crítica da Razão Pura.ª edição da Crítica da Razão Pura) Um rápido olhar lançado nesta obra levará a pensar. limitam o seu alcance. Foi assim que Platão se aventurou nas asas das idéias. isto é. perde-se nas antinomias.

será preciso então que se estenda a todas as coisas em geral. conseqüentemente. colocando a priori como dados da razão princípios práticos que dela se originam e que. de um lado. será preciso então que necessariamente a suposição moral dê lugar àquela cujo contrário implica em evidente contradição. do ponto de vista da moral. a fim de que cada um possa realizar seus negócios tranqüilamente e em segurança. como escapando a essa lei. como estando necessariamente submetida. sem que uma intuição correspondente nos seja dada. como não sendo livre e. por conseguinte.posto que seria necessário que eu a conhecesse de uma maneira determinada em sua existência. sem para isso ter necessidade do auxílio da razão especulativa. Admitamos agora que a moral supõe necessariamente a liberdade (no sentido mais estrito) como uma propriedade de nossa vontade. sem contradição. quer estar assegurada contra toda oposição de sua parte. no entanto. chegaríamos à absurda proposição de que existem fenômenos ou aparências sem que haja nada que apareça. como fenômeno. podemos ao menos pensá-los como tais. conseqüentemente. o princípio da causalidade só se aplica às coisas no primeiro sentido. não poderia encará-la de outro modo. seriam absolutamente impossíveis. ao prestar-nos esse serviço. Ora. eu também possa conhecer a liberdade como a propriedade de um ser ao qual atribuo efeitos no mundo sensível . porém. desde que não se coloque como obstáculo ao mecanismo natural da própria ação (tomados num outro sentido). isto é. se não podemos conhecer esses objetos como coisas em si. que sua idéia não contém a menor contradição. como é suficiente que. da alma humana. como livre. sem essa suposição. nas duas proposições. e com ela a moralidade (cujo contrário não implica em contradição. Mas. e que. entretanto. embora sob esse último ponto de vista eu não possa conhecer minha alma por intermédio da razão especulativa (e ainda menos pela observação empírica) e. conseqüentemente. isto é. a moral pode manter sua posição enquanto a física conserva a sua. quando não se supõe a liberdade previamente). tomei a alma no mesmo sentido. Todavia. isto é. de outro. o mecanismo natural que ele determina. como fenômeno e como coisa em si. aos princípios decorrentes desses conceitos. e como.eu posso. à lei física. mas admitamos também que a razão especulativa tenha provado que a liberdade não fosse de modo algum concebida. sem as advertências da crítica. não há necessidade de se lhe ter um conhecimento mais amplo. é o que não teríamos descoberto se a crítica não nos houvesse previamente instruído sobre nossa inevitável ignorância relativamente às coisas em si e se ela não houvesse limitado . que sua vontade é livre e que. Se assim não fora. a mesma vontade pode ser concebida. por exemplo. conseqüentemente. a razão prática. Por conseguinte. portanto. surge aí uma reserva: é que. quaisquer elementos para o conhecimento das coisas. mas não no tempo (o que é impossível.189 que se esteja convencido de que a razão pura tem um uso prático absolutamente necessário (quero significar o uso moral). ela possa ser concebida. no qual ela se estende inevitavelmente além dos limites da sensibilidade e no qual. das condições da existência das coisas como fenômenos. está submetida à necessidade física. isto é. pois aqui nenhuma intuição pode ser submetida ao meu conceito) . desaparecem no mecanismo da natureza. o princípio da causalidade e. assim como a restrição que daí deriva relativamente aos conceitos puros do entendimento e. ao passo que no segundo sentido essas mesmas coisas não mais lhe estejam submetidas. que a liberdade. não tenhamos conceitos do entendimento e. a liberdade não seja contraditória e que. enquanto faz parte das coisas em si. mas apenas como objeto da intuição sensível. sem cair em evidente contradição. Que o espaço e o tempo só sejam formas da intuição sensível e. que não é livre. Mas se a crítica não se enganou ao ensinar-nos a considerar o objeto em dois sentidos diferentes. do ponto de vista fenomenal (em seus atos visíveis). conseqüentemente. que. como uma coisa em geral (como objeto em si) e. desde que admita nossa distinção crítica dos dois modos de representação (o modo sensível e o intelectual). tenha uma utilidade positiva. o que é preciso marcar bem. se a dedução dos conceitos do entendimento é exata e se. Negar que a crítica. por conseguinte. consideradas como causas eficientes. pensar a liberdade. É que. além disso. conseqüentemente. Ora. é o que será provado na parte analítica e daí resultará que todo conhecimento especulativo possível da razão se reduz unicamente aos objetos da experiência. isto é. porque sua função consiste unicamente em fechar as portas à violência que os cidadãos poderiam temer uns aos outros. por conseguinte. Quando se supõe que nossa crítica não tenha feito a distinção que ela estabelece necessariamente entre as coisas como objetos de experiência e essas coisas como objetos em si. a fim de não cair em contradição consigo mesma. eu não poderia dizer do próprio ser. não possamos conhecer nenhum objeto como coisa em si.

alguma coisa com relação a todo meu estado intelectual. ao contrário. mas algo além do que pensei no conceito. eu não poderia confundir a existência da coisa com seu simples conceito. lhe é necessário empregar princípios que na realidade só se aplicam a objetos da experiência sensível e que sempre transformam em fenômenos aquilo a que se aplicam. sem que os cem táleres concebidos sejam aumentados por este ser que está situado fora do meu conceito. e se uma existência fora desse campo não deve ser tida por absolutamente impossível. e pelo fato de dizer que essa coisa defeituosa existe. Se. que o conhecimento de um objeto seja possível a posteriori. quaisquer que sejam e por mais numerosos que sejam os predicados por meio dos quais eu a concebo (mesmo que a determine completamente). e só por isso eu acrescente que essa coisa existe. eu concebo um ser como a suprema realidade (sem falhas). o objeto na realidade não está simplesmente contido de uma maneira analítica em meu conceito. se eles são simplesmente possíveis). meu conceito não exprimiria o objeto inteiramente e conseqüentemente não estaria de acordo com ele. mas ele enriqueceu sinteticamente meu conceito (que é uma determinação do meu estado). De fato. e eu não mais poderia dizer que é exatamente o objeto do meu conceito que existe. Se se tratasse de um objeto dos sentidos. É certo que . como os táleres possíveis exprimem o conceito e os reais o objeto e sua posição em si mesma. para chegar aí. não existiria mais a mesma coisa. pois. a saber. mas ela existe precisamente tão defeituosa quanto a concebo. ela também não deixa de ser uma suposição que nada pode justificar. existiria outra coisa diferente do que concebi. sem rechaçar ao mesmo tempo as pretensões da razão especulativa em suas visões transcendentes. eu concebo uma coisa.190 aos simples fenômenos todo nosso conhecimento teórico. pois. sempre resta saber se esse ser existe ou não. exceto uma. Crítica ao Argumento Ontológico (Crítica da Razão Pura. eu não estarei acrescentando absolutamente nada à coisa. Qualquer que seja a natureza e a extensão do conteúdo de nosso conceito de um objeto. o conceito só me faz conceber o objeto como concordante com as condições universais de um conhecimento empírico possível em geral. nossa consciência de toda existência (quer ela resulte imediatamente da percepção. então. enquanto a existência me faz concebê-lo como compreendido no contexto de toda experiência. Se numa coisa eu concebo toda realidade. não existe nenhum meio de reconhecer sua existência. ele é inteiramente incapaz de estender a si só nosso conhecimento com relação ao que existe. para os objetos do pensamento puro. Quando. E aqui se mostra a causa da dificuldade que reina nesse ponto. pode-se mostrar essa mesma utilidade dos princípios críticos da razão pura relativamente à idéia de Deus. Desse modo. e desse modo declaram impossível toda extensão prática da razão pura. a liberdade e a imoratalidade segundo a necessidade que minha razão tem em seu uso prático necessário. Se assim fora. Nem pode mesmo nos instruir o suficiente com relação à possibilidade. Dialética Transcendental) Cem táleres reais não contêm mais do que cem táleres possíveis. mas. de outro modo. Se. se o conceito do objeto não é de modo algum aumentado para sua ligação com o conteúdo de toda experiência. porém. já que seria preciso reconhecê-la inteiramente a priori. quer resulte de raciocínios que unem alguma coisa à percepção) pertence inteiramente à unidade da experiência. De fato. segundo as leis empíricas. a passagem se faz por meio do encadeamento que liga o conceito a alguma de minhas percepções. ainda falta. Pois. por conseguinte. O conceito de um ser supremo é uma idéia muito útil com relação a muitas coisas. não será de espantar que não possamos indicar nenhum critério que sirva para distingui-la da simples possibilidade. a realidade que lhe falta não lhe será acrescentada por isto. Tive então que suprimir o saber para substituí-lo pela crença. precisamente porque é apenas uma idéia. mas. Com relação a objetos sensíveis. Mas sou mais rico com cem táleres reais do que com sua idéia (isto é. e. quisermos pensar a existência unicamente por intermédio da pura categoria. somos obrigados a sair desse conceito para lhe atribuir a existência. De fato. nosso pensamento dele recebe em acréscimo mais percepção possível. embora em meu conceito não falte nada do conteúdo real possível de uma coisa em geral. mesmo que esse algo não possa ser um objeto de experiência. caso o objeto contivesse mais do que o conceito.

pois. com o pensamento de aumentar sua fortuna. que. que não resultaria daí nenhum juízo. não por inclinação ou temor. e. ele acrescentasse alguns zeros em seu livro de caixa. valor moral e incomparavelmente o mais elevado. Essa prova ontológica (cartesiana) tão glorificada. só então sua ação terá verdadeiro valor moral. Mas eu acho que no caso de uma ação desse tipo. Ser bom. se deseja a morte e. com ânimo forte. além disso. ele porém se arranque dessa insensibilidade mortal e aja. não é menos desprovida de todo valor intrínseco e é por isso que sua máxima não possui nenhum valor moral. Mas. por eles próprios. com o viver pressionado por inúmeros cuidados em meio de necessidades não satisfeitas. não encontraria ele. à qual o objeto de uma idéia não pode pertencer. todos os homens já têm.não lhe pode ser contestado. existem certas almas tão capacitadas para a simpatia que. pois. mas por dever. e que nessas condições em que nenhuma inclinação não mais o leve a isso. chegar a conhecer a priori a possibilidade de um ser ideal tão elevado. tendo para com seus próprios sofrimentos um dom especial de resistência e de paciente energia. o fato de que essas ações sejam feitas não por inclinação. talvez porque. ele suponha que também nos outros. freqüentemente inquieta. com o que. mas. por estar demasiado absorvido pelo seu próprio. poderia facilmente tornar-se uma grande tentação de violar seus deveres. isto é. então sua máxima possui um valor moral. o fato de não estar contente com a própria situação. já que ela se coloca no mesmo plano de outras inclinações. por exemplo. elas experimentam uma satisfação íntima em irradiar alegria em torno de si e vivem o contentamento de outrem. é um dever e. mas não por dever. posto que as realidades não nos são dadas especificamente. isto é. Assegurar a própria felicidade é um dever (indireto. todo seu valor e não nos tornaremos mais ricos em conhecimentos com simples idéias quanto um comerciante não se tornaria em dinheiro se. com que a maior parte dos homens se dedica a isso. merece louvor e encorajamento. mas por dever. perde. que provém daquele que faz o bem não por inclinação. mas não respeito. que pretende demonstrar por meio de conceitos a existência de um ser supremo. mesmo que isso acontecesse. é por isso que a solicitude. como a ligação de todas as propriedades reais numa coisa é uma síntese cuja possibilidade não podemos julgar a priori. ou deles exija as mesmas qualidades. ademais. faz-se muito necessário que o ilustre Leibnitz tenha feito aquilo de que se orgulhava. precisamente nessa idéia de felicidade. aqui ainda. É certo que eles conservam sua vida de acordo com o dever. então. conserva a vida sem amá-la. a inclinação para a felicidade mais duradoura e mais íntima. mas que não seja tocado pelo infortúnio dos outros. o caráter da possibilidade dos conhecimentos sintéticos que deve ser sempre buscado na experiência. mesmo sem qualquer motivo de vaidade ou de interesse. se a natureza não tivesse formado esse homem particularmente o que na verdade não seria sua obra pior) para fazer dele um filantropo. em si próprio o meio de se dar um valor muito superior ao que possa ter um temperamento naturalmente bonsoso? Certamente! E á aqui precisamente que surge o valor do caráter. livre da influência de qualquer inclinação. a ambição. unicamente por dever. no entanto. O Rigorismo de Kant (Fundamento da Metafísica dos Costumes) Conservar a própria vida é um dever e. fica muito mais indignado com sua sorte do que desencorajado ou abatido. pois falta a essa máxima o valor moral. por mais de acordo com o dever e mais amável que seja. quando contrariedades ou uma aflição sem esperança tenha roubado de um homem todo gosto de viver e se o infeliz. quando se pode.191 o caráter analítico da possibilidade . quando coincide com o que realmente está de acordo com o interesse público e o dever. é honorável. sem pensar no dever. Suponha-se então que a alma daquele filantropo esteja ensombrada por um desses desgostos pessoais que sufocam toda simpatia pela sorte de outrem e que ele sempre ainda tenha o poder de fazer bem a outros infelizes. se aquele homem (honesto de resto) fosse frio por temperamento e indiferente aos sofrimentos de outrem. então. então. Ora. mas por dever. ao menos).que consiste no fato de que simples posições (realidades) não engendram contradição . não possui porém verdadeiro valor moral. por conseguinte. é uma coisa para a qual todos possuem uma inclinação imediata. as inclinações se unificam numa . na medida em que ele é obra sua. Em compensação. E digo mais: se a natureza tivesse colocado no coração deste ou daquele um pouco de simpatia.

o homem não pode fazer um conceito definido e certo dessa soma de satisfações a ser dada a todas a que chama de felicidade. desenvolvimento. Idéia. se a saúde. o amor como inclinação não pode ser ordenado. e sim um processo circular. o futuro mostraria amplamente que a filosofia do pensador oficial da monarquia escondia um grande poder explosivo! Como a filosofia de Spinoza. não há por que se surpreender que uma inclinação única. não fosse coisa tão importante de fazer entrar em seus cálculos.192 totalidade. Ela é não só um modo de pensar as coisas. . ora. considerar Hegel como o filósofo idealista por excelência. Espírito. e este processo dialético não é um movimento a quo adi quod. como em todos os outros casos. Na realidade. o conjunto dos princípios e das regras segundo as quais pensamos o mundo. para ele. a essência do próprio Ser. afastando-se deles em seguida até combatê-los quando professor nas universidades de Jena. para ela ao menos. aos ideais revolucionários e críticos. ainda que inimigo. porém. Heidelberg e Berlim. que. por exemplo. por causa da talvez enganosa esperança de uma felicidade a ser encontrada na saúde. a de Hegel é uma filosofia da inteligibilidade total. o que restaria ainda aqui. contudo. Estudou teologia e filosofia. em princípios da ação e não numa compaixão debilitante. Hegel era ao mesmo tempo suficientemente prudente e sufucientemente hermético para que se tornasse muito difícil fazer-lhe acusações precisas dessa ordem! O poeta Heinrich Heine. Interessou-se pelos problemas religiosos e políticos. se atendência universal não determinasse sua vontade. devem ser certa e igualmente compreendidas as passagens da Escritura em que é ordenado amar ao próximo. o entendimento humano. para favorecer as tendências absolutistas e intransigentes do estado prussiano. respondeu bruscamente a um estudante que lhe falava do Paraíso: "O senhor então precisa de uma gorjeta porque cuidou de sua mãe enferma e porque não envenenou ninguém!" Em todo caso. emanentista. mas fazer o bem precisamente por dever. A razão aqui não é apenas. que ele. torna-se suspeito de panteísmo. Mas. alguns o ridicularizaram (apelidando-o de Absolutus von Hegelingen). em 1770. o idealismo fenomênico kantiano alcança logicamente o seu vértice metafísico. esse amor é o único que pode ser ordenado. Hegel fica fiel ao historicismo romântico. um retorno à ontologia. um dia. o fundo do Ser (longe de ser uma coisa em si inacessível) é. Podemos. conta. que traz grande prejuízo a algumas inclinações. Aproximou-se dos sistemas de Fichte e de Schelling. uma pessoa que sofre de gota possa gostar mais de saborear o que é de seu gosto e sofra em seguida. determinada quanto ao que promete e quanto à época em que pode ser satisfeita. e. desse modo. elevado a processo dialético. mas por dever. ao menos nessa circunstância ela não se privou. concebendo a realidade como vir-a-ser. em seguida se dedicou ao historicismo romântico. eis aí um amor prático e não patológico. seria uma lei. Nessa última universidade lecionou até há morte. Assim. É o ser em sua totalidade que é significativo e cada acontecimento particular no mundo só tem sentido finalmente em função do Absoluto do qual não é mais do que um aspecto ou um momento. Sua filosofia representa. possa levar vantagem sobre uma idéia flutuante. com relação à crítica kantiana do conhecimento. como em Kant. Renunciara. Ocorre apenas que o preceito que ordena o tornar-se feliz muitas vezes assume tal caráter. na medida em que não há inclinação que nos conduza a isso. e é por isto somente que sua conduta possui um verdadeiro valor moral. Em seus últimos anos. nesse caso igualmente. em definitivo. Hegel O Idealismo Lógico: Hegel Com o idealismo absoluto de Hegel. corre o boato de que ele duvida da imortalidade da alma. Este vir-a-ser. simpatizando-se pelo criticismo e pelo iluminismo. pois. do gozo do momento presente. da imanência absoluta. Pois. que reside na vontade e não na tendência da sensibilidade. mas o próprio modo de ser das coisas: "O racional é real e o real é racional". Faleceu em 1831 vítima de cólera. Ela é igualmente a realidade profunda das coisas. no entanto. uma lei que ordena trabalhar para a própria felicidade não por inclinação. é racionalizado por Hegel. entrementes. ao mesmo tempo. adquirindo grande renome e exercendo vasta influência. Jorge Guilherme Frederico Hegel nasceu em Stutgart. uma vez que. e mesmo que uma aversão natural e invencível a isto se oponha. segundo seu cálculo. que seguiu seus cursos de 1821 a 1823. portanto.

simultaneamente. no final.ao menos só é parcial e muito provisoriamente o que atualmente é . se nos permitem o jogo de palavras. Ora. contrariando tudo isso. a história. a plena posse. tanto assim que se pode considerar o Aristóteles e o Tomás de Aquino do pensamento contemporâneo. Não temos a impressão de que seres cada vez mais complexos. que no fundo tudo permanece idêntico. depois. Aplicar a razão à história seria negar a história. a história. Desse modo. seria mostrar que a mudança é aparente. A história. O vir-a-ser de muitas peripécias não é senão a história do Espírito universal que se desenvolve e se realiza por etapas sucessivas para atingir. A Filosofia do Direito. tem por missão realizar uma etapa desse progresso do Espírito. logo como consciência. O panteísmo de Spinoza identificava Deus com a natureza: Deus sive natura. O acontecimento de hoje é diferente do de ontem. O Espírito humano é de início uma consciência confusa. uma "teodisséia". por conseguinte. ao contrário. o Espírito se descobre mais claramente na consciência artística e na consciência religiosa para finalmente apreender-se na Filosofia (notadamente na filosofia de Hegel. diz Hegel.193 Hegel porém se distingue de Spinoza e surge para nós como um filósofo essencialmente moderno. já que esta última não é . que dizia que a leitura dos jornais era "sua prece matinal cotidiana". como todos os seus contemporâneos. para Hegel. e esta lhe mostra que as estruturas sociais. A lógica vai do idêntico ao idêntico. totaliza todas as obras da cultura (é só no crepúsculo. de instituições organizadas. O panteísmo hegeliano identifica Deus com a História. em suma. identificada a uma proposição já admitida. ao contrário.o processo dialético . naquele momento. que aquele que é vitorioso na História é. recusar o tempo. pois. De fato. Tal é o espírito objetivo que se realiza naquilo que Hegel chama de "o mundo da cultura". mas. para ele. Por conseguinte. se transforma no próprio motor do pensamento. o mais dotado de valor e que a virtude. A Enciclopédia das Ciências Filosóficas. a filosofia é o saber de todos os saberes: a sabedoria suprema que. Segundo as normas da lógica clássica. subvertidas no decurso da história. é o domínio do mutável. Hegel verá no estado prussiano de seu tempo a expressão mais perfeita do Espírito Absoluto. Compreendemos bem. Enfim. nessa filosofia puramente imanentista. diz Hegel. para Hegel. A Lógica. "exprime o curso do mundo". Por conseguinte.no qual a contradição não mais é o que deve ser evitado a qualquer preço. a plena consciência de si mesmo. muito meditou sobre a Revolução Francesa. Ele o contradiz. de certo modo. Deus não é o que é .Deus é o que se realizará na História. Esse progresso do Espírito continua e se concluirá através da história dos homens. podem ser modificadas. É preciso compreender também que a história é um progresso. ele consegue encarnar-se. bem como a sua capacidade sistemática. um espírito puramente subjetivo. Em outras palavras. ao mesmo tempo em que é o motor da história. a forma de civilização que triunfa a cada etapa da história é aquela que. a idéia se manifesta como processo histórico: "A história universal nada mais é do que a manifestação da razão". só no final será o que ele é na realidade". "O absoluto. Consideremos a história da terra. O que há de original em seu idealismo é que. em seguida. nada significa). Depois. dissimulado e como que estranho a si mesmo. De início só existem minerais. que o pássaro de Minerva levanta vôo). o racionalismo de Hegel coloca o devir. em primeiro plano. "alienado" no universo. como ele diz. cada vez mais organizados. objetivar-se sob a forma de civilizações. freqüentemente deforma os fatos para enquadrá-los no esquema lógico do seu sistema racionalista-dialético. Aplicar a razão à história. vegetais e. a lógica clássica considera que uma proposição fica demonstrada quando é reduzida. surge cada vez mais manifestamente como ordem. de início adormecido. Como isso é possível? É possível porque Hegel concebe um processo racional original . o mundo que manifesta a Idéia não é uma natureza semelhante a si mesma em todos os tempos. (Neste sentido. bem como altera este por interesses práticos e políticos. Após ter saudado em Napoleão "o espírito universal a cavalo". em todo caso. abusivamente atribuída a Bismarck. essa identificação da Razão com o Devir histórico é absolutamente paradoxal. que pretende totalizar sob sua alçada todas as outras filosofias) como Saber Absoluto. é uma odisséia do Espírito Universal". No entanto. que. Deus só se realiza na história. animais. assim como os pensamentos dos homens. Foi um gênio poderoso. mas que o exprime. Cada povo cada civilização. cada vez mais autônomos surgem no Universo? O Espírito. no final. é a sensação imediata. ainda há algo de hegeliano na filosofia de Teilhard de Chardin). As principais obras de Hegel são: A Fenomenologia do Espírito. sua cultura foi vastíssima. Hegel é daqueles que acham que a força não "oprime" o direito (essa fórmula. como liberdade. melhor exprime o Espírito.

O pensamento não é mais estático. ao passo que ele próprio goza os prazeres da vida. reconciliados. o escravo. não faz cozer seus alimentos. equivale ao não-ser (eis a antítese). é livre. Como é que o ser. sobretudo. à sintese. transformado pelas provações e pelo próprio trabalho. ao mesmo tempo. mas também o mais pobre. sem qualquer qualidade ou determinação . que era mais ainda o escravo da vida do que o escravo de seu senhor (foi por medo de morrer que se submeteu). O senhor não cultiva seu jardim. Vejamos um exemplo muito célebre da dialética hegeliana que será um dos pontos de partida da reflexão de Karl Marx. numa situação de submissão absoluta. foi conservado. ao pé da letra.é. É fácil ver que essa contradição se resolve no vir-a-ser (posto que vir-a-ser é não mais ser o que se era). dialético. aí se reencontram fundidos. o do senhor e o escravo. ao passo que este último se vê despojado dos frutos de seu trabalho. a liberdade estóica se apresenta a Hegel como a reconciliação entre o domínio e a servidão. repetimo-la. c) De fato. Vejamos. nada mais podemos dizer). é não ser! O ser. O conceito de ser é o mais geral. Um deles é pleno de coragem. aquele que. b) Entretanto. não acende seu fogo: ele tem o escravo para isso. uma ligação. A Dialética A dialética para Hegel é o procedimento superior do pensamento é. em última análise. A primeira proposição encontrar-se-á finalmente transformada e enriquecida numa nova fórmula que era. O outro. desenvolvendo uma consciência pessoal. O senhor só o é porque é reconhecido como tal pela consciência do escravo e também porque vive do trabalho desse escravo. o escravo incessantemente ocupado com o trabalho. como num diálogo em que a verdade surge a partir da discussão e das contradições. Os dois contrários que engendram o devir (síntese). é vencido. ao contrário. Por uma conversão dialética exemplar. . não ser absolutamente nada. a mais vazia e a mais compreensiva (essa noção em que o velho Parmênides se fechava: o ser é. Ser. Aceita arriscar sua vida no combate. uma "mediação" (síntese). O vencedor não mata o prisioneiro. em que o espírito é constituído substancialmente como sendo o construtor da realidade e toda a sua atividade é reduzida ao âmbito da experiência. superior à sua vida. transforma-se em outra coisa? É em virtude da contradição que esse conceito envolve. vai encontrar uma nova forma de liberdade. essa noção simultaneamente a mais abstrata e a mais real. Hegel devia. ao mesmo tempo. o trabalho servil devolve-lhe a liberdade. Nesse sentido. de modo nenhum. Trata-se de um episódio dialético tirado da Fenomenologia do Espírito. porquanto é da íntima natureza da síntese a priori não poder. deviam se achar na realidade única da experiência as características divinas do antigo Deus transcendente. Desse modo. a) O senhor obriga o escravo. Dois homens lutam entre si. uma vez que interpôs um escravo entre ele e o mundo. O senhor não conhece mais os rigores do mundo material. daí. a libertar-se de tudo o que o oprime. da síntese a priori de Kant. que não ousa arriscar a vida. destruído por Kant. não ser. por exemplo. fundamentalmente. em virtude do qual uma coisa não pode ser e. Hegel põe a contradição no próprio núcleo do pensamento e das coisas simultaneamente. Tal é o escravo. que devia necessariamente tornar-se panlogista. conserva-o cuidadosamente como testemunha e espelho de sua vitória. aprende a se afastar de todos os eventos exteriores. que condiciona a sua. Assim. ensina a seu senhor a verdadeira liberdade que é o domínio de si mesmo. transformada em outra que não ela mesma ("alienada"). Repudiando o princípio da contradição de Aristóteles e de Leibnitz. puro e simples. de sorte que Hegel se achava fatalmente impelido a um monismo imanentista. essa situação vai se transformar dialeticamente porque a posição do senhor abriga uma contradição interna: o senhor só o é em função da existência do escravo. mostrando assim que é um homem livre. Mas. da tese à antítese e. aprende a vencer a natureza ao utilizar as leis da matéria e recupera uma certa forma de liberdade (o domínio da natureza) por intermédio de seu trabalho. transcender a experiência. como o conceito fundamental de ser se enriquece dialeticamente. entre as duas precedentes. porque lê o reconhecimento de sua superioridade no olhar submisso de seu escravo. Assim. o escravo.194 senão o Pensamento que se realiza. Hegel parte. Uma proposição (tese) não pode se pôr sem se opor a outra (antítese) em que a primeira é negada. Colocado numa situação infeliz em que só conhece provações. o "servus". ele é uma espécie de escravo de seu escravo. O senhor. ele procede por meio de contradições superadas. "a marcha e o ritmo das próprias coisas".

como faz o pensamento de Deus. de modo nenhum. isto é. E. não somente pela negação do princípio de identidade e de contradição . isto é.° . e onde a limitação. a necessidade da invenção de uma nova lógica. mas em toda particularidade da história. A nova lógica hegeliana difere da antiga. com efeito. enquanto apreende o ser imutável. dinamicamente. Isto é. coincide com a ontologia. a realidade deveria transformar-se rigorosamente na racionalidade em um sistema coerente de pensamento idealista e imanentista. ao passo que a lógica hegeliana coincide com a ontologia. Apresentava-se. Hegel julgou dever deduzir a priori o desenvolvimento lógico da idéia. e sim dinâmico. Dispensa-se acrescentar como. para poder racionalizar o elemento potencial e negativo da experiência. 2. não podia. Essa dialética dos opostos resolve e compõe em si mesma o elemento positivo da tese e da antítese.° . isto é. idêntico a si mesmo e excluindo o seu oposto. a autoconsciência racional de Deus. gerar naturalmente valores positivos de bem verdadeiro. que representa o elemento universal e comum dos particulares.ainda que entendido dialeticamente. Podemos resumir assim: 1. e sendo também vir-a-ser. a experiência sendo a realidade absoluta. antítese e síntese. declarará nada mais ser que ateísmo imanentista. logo. portanto. Visto que a realidade é o vir-a-ser dialético da Idéia. nos momentos essenciais. a negação. e a negação e o mal são condições de positividade e de bem. porquanto a realidade é o desenvolvimento dialético do próprio "logos" divino. que no espírito humano adquire plena consciência de si mesmo. divina. mas o devir absoluto. ao passo que a lógica hegeliana assimila a filosofia com a história. da história. cuja característica fundamental é a negação. em que a Idéia teria acabado a .A lógica tradicional afirma que o ser é idêntico a si mesmo e exclui o seu oposto (princípio de identidade e de contradição). o particular conexo historicamente com o todo. Quer dizer. chegar ao panteísmo imanentista. antítese e síntese. tudo que há no mundo de arracional e de irracional. todo elemento da realidade. em que o próprio objeto já não é mais o ser. estabelecendo-se a si mesmo absolutamente (tese) e não esgotando o Absoluto de que é um momento.195 portanto. Estamos. realmente. onde tudo é essencialmente conexo com tudo. devir. para daqui começar de novo o processo dialético.A lógica tradicional distingue substancialmente a filosofia. igualmente não é preciso salientar como o conceito concreto. não só nos aspectos gerais. Tal história dialética deveria. não podem. enfim. cujo objeto é o particular e o mutável. passagem de um elemento ao seu oposto.A lógica tradicional afirma que o conceito é universal abstrato. em que a positividade se realiza através da negatividade. perante um panlogismo. Mas essa racionalidade absoluta da realidade da experiência devia ser concebida mediante o vir-a-ser absoluto (de Heráclito). para poder elevar a realidade da experiência à ordem da realidade absoluta. que nega e o qual integra. o mal.° . que Schopenhauer. Hegel se achava obrigado a mostrar a racionalidade absoluta da realidade da experiência. se apreende o ser. em uma possível assimilação do devir empírico do desenvolvimento lógico .mas também porquanto a nova lógica é considerada como sendo a própria lei do ser. em uma realidade mais rica (síntese). segundo a conhecida tríade de tese. por causa do assim chamado mal metafísico. No entanto. cujo objeto é o universal e o imutável. ainda que não totalmente.° .como eram concebidos na lógica antiga .A lógica tradicional distingue-se da ontologia. do ritmo famoso de tese. em que . Não é mister dizer que essa história dialética nada mais é que a história empírica. não estático. ao passo que a lógica hegeliana sustenta que o conceito é universal concreto. toma o lugar do conceito abstrato. sendo o mundo da experiência limitado e deficiente. 4. enquanto o nosso pensamento. o grande crítico do idealismo racionalista e otimista. por certo. E por isso Hegel inventou a dialética dos opostos. enquanto o ser é vir-a-ser. que Hegel considerava panteísmo. como o de Spinoza. onde um elemento gera o seu oposto. a qual. conexão histórica do particular com a totalidade do real. arbitrariamente potenciada segundo a não menos arbitrária lógica hegeliana. 3. terminar com o advento da filosofia hegeliana. e demonstrar a necessidade racional da história natural e humana. a história em geral se valoriza na filosofia.o monismo. demanda o seu oposto (antítese). é levado às suas extremas conseqüências metafísicas imanentistas.através do idealismo absoluto . ser concebida mediante o ser (da filosofia aristotélica). não o esgota totalmente . ao passo que a lógica hegeliana sustenta que a realidade é essencialmente mudança. físico e moral.

Mas comumente não é assim que se compreende a contradição entre sistemas filosóficos. por isso. mas não atingiu a verdade desse reconhecimento como consciência de si independente. ser definidos como um jogo de amor para consigo mesmo. a paciência e o trabalho do negativo. O broto desaparece na eclosão da flor e poder-se-ia dizer que aquele é refutado por esta. habitualmente ele espera que se aprove ou se rejeite em bloco um sistema filosófico existente. a oposição entre verdadeiro e falso é algo de fixo. e. e é nisto precisamente que consiste sua natureza de ser sujeito atual ou Devir de si. viria a ser negada a própria essência da filosofia hegeliana. Não concebe a diferença entre os sistemas filosóficos como o desenvolvimento progressivo da verdade. não se deve apreendê-la ou exprimi-la apenas como essência. a dor.196 sua odisséia. ele só admite uma ou outra dessas atitudes. momentos mutuamente necessários. da sua divindade. nem com a superação dessa alienação. Só assim é que alguém se assegura de que a natureza da consciência de si não é o ser puro. Só então é que ela é concebida e exprimida como atual. não é senão puro ser para-si. em-si. sua certeza de existir para si. como substância imediata ou pura intuição de si do divino. Precisamente porque a forma é tão essencial à essência quanto a essência a si própria. mas se suplantam como incompatíveis. Só arriscando a própria vida é que se conquista a liberdade. pois são forçadas a elevar ao nível da verdade sua certeza de si. sua natureza cambiante faz delas momentos da unidade orgânica em que não só não estão em conflito mas onde tanto um quanto outro é necessário. isto é. então. o espírito que apreende a contradição habitualmente não sabe liberá-la ou conservá-la livre de sua unilateralidade. para a qual o ser. Mas. essa idéia cai no nível da edificação e mesmo da insipidez. Mas o todo não é senão a essência que se conclui por seu desenvolvimento. isto é. o pensamento. é a serena igualdade e a unidade consigo que nada têm a fazer com o ser-outro e a alienação. que ele não é senão por fim o que ele é em verdade. cada uma deve experimentar essa certeza em si mesma e na outra. Por conseguinte. Há que dizer do absoluto que ele é essencialmente resultado. está além de seu puro conceito: ela é consciência para-si que é mediada consigo mesma por uma outra consciência(²). portanto. aqui. O indivíduo que não arriscou sua vida pode certametne ser reconhecido como pessoa. A verdade é o todo. do que parece se combater e se contradizer. . Essa luta prova que nada existe na consciência que não seja perecível para ela. numa explicação sobre tal sistema. se se quiser. desse modo. Não podem evitar essa luta. e essa igual necessidade faz a vida do conjunto. no espírito humano. do mesmo modo. que o conhecimento possa se satisfazer com o em-si ou a intuição absoluta da primeira dispensam o acabamento da primeira e o desenvolvimento da segunda. prova que ela. O Absoluto Por Fim Não é Senão Aquilo Que Ele é na Realidade A vida e o reconhecimento divinos podem. o fruto declara que a flor é uma falsa existência da planta e a substitui enquanto verdade da planta. Essa vida. nada mais é que o infinito vir-a-ser dialético. Essas formas não só se distinguem. É inexato crer. e reconhecer na forma. a luta entre duas consciências de si é determinada do seguinte modo: elas se experimentam a elas próprias e entre si por meio de uma luta de morte. se lhe retirarmos a seriedade. diversidade significa unicamente contradição. O Senhor e o Escravo Buscar a morte do outro implica em arriscar a própria vida. não é a forma imediata de sua manifestação. o movimento espontâneo da forma. mas também como forma e em toda riqueza da forma desenvolvida. não é sua imersão no oceano da vida. como absoluto. para ele. No entanto. ao declarar a forma como igual à essência. Textos de Hegel Dialética Hegeliana: A Contradição é o Motor do Pensamento Para o senso comum. ademais. Mas esse em-si é universalidade abstrata caso negligenciemos sua natureza de ser para-si e. mas essa consciência. isto é. e. adquirindo consciência de si mesma.(¹) O senhor é a consciência que é por si mesma.

pois é precisamente a ela que o escravo está preso. a uma etapa na conquista do espírito absoluto. ao colocar o escravo contra ela e si próprio. deixa o aspecto independente da coisa para o escravo que a trabalha. Por conseguinte. uma relação. aquele que se rendeu. a fim de se fazer reconhecer como consciência. O vencido. Com efeito. enquanto consciência de si. posto que no campo de batalha ele se mostrou corajoso. mas ao mesmo tempo a coisa é para ele independente e o escravo não pode. (³) Graças ao trabalho do escravo. Ele inspirou amplamente as análises de nossos contemporâneos sobre as relações do eu com o outro. cada filosofia corresponde a um momento da história. tem medo de perder a vida. aquilo que o apetite não conseguiu. chegar a suprimi-la. fruindo-a puramente. aquele que é vitorioso no combate.(³) (¹) Este difícil texto de é característico do método hegeliano. Uma vez que o senhor (a). ele é mais do que ela. Entretanto. mas o senhor. Torna-se tembém escravo do senhor que o conserva (servus = conservado) a fim de ler em seu olhar temeroso e submisso o reflexo de sua vitória. graças a essa mediação. a filosofia encontra-se toda nos sistemas dos filósofos. (²) Hegel quer dizer que o senhor não é senhor "em-si". o senhor também o domina. Hegel examina simultaneamente a relação de dois "eu" e a relação de cada eu com sua própria vida. ele se relaciona (a) imediatamente com os dois e (b) imediatamente com cada um por intermédio do outro. Na realidade. só entra em contato com o aspecto dependente da coisa. Concepção Dialética da História da Filosofia Em suas lições sobre a história da filosofia. o eterno. pois provou na luta que o considera como puramente negativo. ela é sua cadeia e da qual não pode se desprender na luta. o senhor domina os objetos por mediação do escravo que trabalha. por meio de sua negação. a relação imediata torna-se a pura negação da coisa ou o seu gozo. ele o consegue. Por conseguinte. ele é. "a filosofia quer conhecer o imperecível. objeto do apetite. O senhor tem. ele é a potência que domina esse ser externo. O apetite não chega a isso por causa da independência da coisa. superior à sua vida. mas por meio de uma mediação. com o escravo. ela própria. Se a verdade é eterna. seu fim é a verdade. que transforma os objetos materiais em objetos de consumo e de fruição para o senhor. Quanto ao senhor. isto é. ele só faz trabalhar. substituído por outra coisa". portanto. posto que possuía sua independência numa coisa externa. Ela surge "no devido momento. Secundariamente. Mas a história conta o que foi numa época e que desapareceu em outra. de início. O senhor se define por sua relação com o escravo (e por sua relação com os objetos que depende. aceitou arriscar a vida. o que o levou a mostrar-se dependente. Desse modo o senhor se relaciona com a coisa por mediação do escravo. O "senhor". O senhor está em relação com esses dois momentos: com a coisa enquanto tal. para o senhor.197 notadamente por uma consciência cuja natureza implica no fato de ela estar unida a um ser independente ou às coisas em geral. e com a consciência cujo caráter essencial é a coisa externa. escravo da vida e de seus objetos empíricos. a relação do senhor com a coisa é uma relação de simples gozo que equivale à negação da coisa. uma vez que ele domina esse ser e que esse ser domina o escravo. é relação imediata do ser para-si. A idéia geral de filosofia permanece abstrata se não se confunde com os diversos sistemas dos filósofos no decurso da história. Na luta de duas consciências. Cada filosofia é "o espírito da época existente como espírito que se pensa". relaciona-se negativamente com a coisa e a ultrapassa. mas (b) é simultaneamente mediação. isto é. Pensamos nos versos de Valéry: Como o fruto se funde em fruição Como em delícias ele muda sua ausência Numa boca em que sua forma se extingue. um ser para-si que só o é por meio do outro. ameixas ou uvas". domina a coisa e se satisfaz na fruição. . em outras palavras. uma relação mediata em virtude da existência independente. assim como a noção geral de fruto só se explicita quando efetivamente se trata de "cerejas. por sua coragem colocou-se acima dos objetos comuns da necessidade e da existência empírica. o senhor domina os objetos da necessidade. este último. Hegel assinalava que a noção de História da Filosofia "envolve uma contradição interna". da relação com o escravo). enquanto conceito da consciência de si. No ponto de partida. "ela não penetra na esfera do que passa e não tem história". Em compensação. aos objetos das necessidades.

a essência da história da filosofia consiste em que princípios exclusivos transformam-se em momentos. é o fundamento de tudo. na seguinte. pessoa culta e delicada. citaremos um excerto das lições sobre a História da Filosofia: A razão é una e essa racionalidade una. Não se refuta uma filosofia.. A dificuldade consiste em ver o que os sistemas filosóficos contêm de verdadeiro. por exemplo. (¹) Encontramos essa idéia em Marx. para o segundo.. Limitar-se a refutar uma filosofia é não compreendê-la. uma união em uma viva unidade do pensamento. A história da filosofia oferece momentos privilegiados ou. de seu povo. seu pai. apenas sua posição é que é refutada. ela é assumida sem ser rejeitada. mais profundo. Sua união é a verdade. ele sim. opondo-se. é o geral e para outro o particular. A história de Platão não é um ecletismo. A filosofia não é exterior ao mundo". o próprio Nietzsche pensou em seguir a mesma carreira. a determinação precedente torna-se apenas um ingrediente da nova. o homem sensível. mas o epicurismo proclama vedadeiro o princípio diretamente oposto: o sentimento. e seus dois avós eram pastores protestantes. eles são os frutos de seu tempo. do que ver em alguma parte o caráter negativo. aquilo que se desenvolve na razão progride na unidade dessa razão. Somente sua reunião constitui a totalidade da noção e o homem. supera-se-o sem que se encontre no interior. um sistema e. cujas forças mais sutis e mais ocultas se traduzem em idéias filosóficas. o Uno. conhecer os princípios dos sistemas filosóficos e em seguida reconhecer cada um deles como necessário. a unidade. o que dá no mesmo.. Nada mais fácil do que criticar. Mas ambas se manifestam. isto é sobretudo gosto característico dos jovens. É importante. de início. "nós" em que vêm se reconciliar dialeticamente os contraditórios. mas se só se vê a negação. Karl Ludwig. todos os princípios são conservados. aliás. O estoicismo faz do pensamento um princípio. o princípio das concepções subseqüentes é superior ou. compõe-se dos dois elementos. As folhas. A filosofia de Platão. mas uma reunião das filosofias precedentes que então formam um todo vivo. mas engana-se quando acredita os ter eliminado. o individual: para o primeiro. depois é o botão e o cálice que. portanto. Desse modo. Um estudo mais avançado mostrar-nos-á como progridem seus princípios. O princípio de uma filosofia passa. só quando são justificados em si próprios é que se pode falar de seu limites.. ignora-se o conteúdo que. é a síntese do imóvel ser parmenídico com a mobilidade heracliteana. uma após outra. localidade próxima a Leipzig. pois ambos são necessários. ele se apresenta em sua época como superior. As filosofias são as formas do Uno.. Nesse sentido.198 nenhuma ultrapassou seu tempo" (¹). mas as novas filosofias mostram as anteriores como verdades parciais passíveis de serem integradas numa síntese mais ampla que se elabora com o tempo.. O ceticismo é o princípio negativo que se eleva contra os dois precedentes. sendo necessário. de maneira que o seguinte é uma nova determinação do precedente. num nó. é afirmativo. por isso. antes de tudo... Conhecer verdadeiramente um sistema é tê-lo justificado em-si. do pensamento e da sensibilidade. O mesmo espírito fabrica as teorias filosóficas na mente dos filósofos e constrói as estradas de ferro com as mãos dos operários. por assim dizer. é assim que o primeiro elemento é colocado numa categoria inferior pelo seguinte. como diz Hegel. ele afasta o caráter exclusivo de um e outro. Se se for mais adiante. é o homem pensante. As filosofias sucessivas não se refutam. em elementos concretos e se conservam. num contexto materialista: "Os filósofos não brotam da terra como cogumelos. Desse modo. . se transformam em envoltório a serviço do fruto. para a categoria de um momento. são o modo de existência mais elevado da planta. Os princípios gerais surgem segundo a necessidade da noção fundamental. a evolução das determinações do pensamento é igualmente racional. Nietzsche Vida e Obra Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu a 15 de outubro de 1844 em Röcken. do geral e do particular. o prazer para um. Assim. é preciso ver a verdade que ela contém. A posição dos precedentes é determinada pelo que se segue. de suas deficiências. em seguida.

Nietzsche pergunta como. entre o poeta e o filósofo.). coisa tão querida pelos gregos. a respeito da qual se costuma dizer que o verdadeiro Nietzsche fala através das figuras de Schopenhauer e de Wagner. complementares entre si. em obra posterior. Dioniso.-399 a.C. professor de filologia em Basiléia. VI a. Na universidade. e . por causa disso a mãe mudou-se com a família para Naumburg. às margens do lago de Lucerna. mas um acidente em exercício de montaria livrou-o dessa obrigação. entre Eros e Logos. isto é. Criança feliz. que viria a ser.C. Na mesma época. O Filósofo e o Músico Em 1870. Durante o último ano em Pforta. com eles criou uma pequena sociedade artística e literária.C.) e Ésquilo (525-456 a. nessa ocasião. desistiu desses estudos e passou a residir em Leipzig. sob a influência "decadente" de Sócrates. uma nova forma de disputa (ágon). aluno modelo. escrevia: "Minha Itália chama-se Tribschen e sinto-me ali como em minha própria casa". seu pai e seu irmão faleceram. foi invadida pelo racionalismo. a da cidade-Estado. mas estudos das instituições e do pensamento. em 1869. Segundo Nietzsche.199 Em 1849. alemão e latim. de Schopenhauer (1788-1860). que tinha quase 55 anos e vivia então com Cosima. Nietzsche encantou-se com a música de Wagner e com seu drama musical.) e Homero. para a qual compôs melodias e escreveu seus primeiros versos. onde se dedicou aos estudos de teologia e filosofia. da desordem e da música. onde Wagner morava. pois logo adoeceu. filha de Liszt (1811-1886). dedicando-se à filologia. A partir desses trabalhos foi nomeado. Excelente aluno em grego e brilhante em estudos bíblicos. começou a declinar quando. Partiu em seguida para Bonn. a Alemanha entrou em guerra com a França. assinalou o fim da Grécia antiga e de sua força criadora. publicou O Nascimento da Tragédia. Em 1871. Nietzsche seguiu-lhe as pegadas e realizou investigações originais sobre Diógenes Laércio (séc. Em cartas ao amigo Erwin Rohde. considera Sócrates (470 ou 469 a. esboçando seu livro O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música. seus colegas de escola o chamavam "pequeno pastor". A tragédia grega. Datam dessa época suas leituras de Schiller (1759-1805). Hesíodo (séc. em companhia da mãe. Nietzsche começou a afastar-se do cristianismo.C. VIII a. a do Logos e da lógica. o deus da exuberância. onde permaneceu por dez anos. III). dócil e leal. seus autores favoritos. Nietzsche obteve uma bolsa de estudos na então famosa escola de Pforta. onde haviam estudado o poeta Novalis o filósofo Fichte (1762-1814). apaixonou-se por Cosima. depois de ter atingido sua perfeição pela reconciliação da "embriaguez e da forma". a "sonhada Ariane". Voltou então aos estudos na cidade de Leipzig. mas. diz Nietzsche. por ter feito triunfar junto à juventude ateniense o mundo abstrato do pensamento.). Ritschl considerava a filologia não apenas história das formas literárias. Nietzsche foi chamado para prestar o serviço militar. sobretudo pelo significado metafísico que atribui à música. Nessa obra. entre o cidadão e o político. Sócrates pôde atrair os jovens com a dialética. Para ele a Grécia socrática. entre os clássicos. Nietzsche responde que isso aconteceu porque a existência grega já tinha perdido sua "bela imediatez". tornou-se para Nietzsche lugar d "refúgio e consolação". A casa de campo de Tribschen. influenciado por seu professor predileto. principalmente com Tristão e Isolda e com Os Mestres Cantores. Nietzsche serviu o exército como enfermeiro. Hölderlin (1770-1843) e Byron (1788-1824). escreveu um trabalho sobre o poeta Teógnis (séc. sob essa influência e a de alguns professores. foram separados pela civilização. onde Nietzsche cresceu. o apolíneo e o dionisíaco. Nietzsche estabeleceu uma distinção entre o apolíneo e o dionisíaco: Apolo é o deus da clareza. passou a tratar das relações entre a música e a tragédia grega. de Dioniso e Apolo. mas por pouco tempo. Nietzsche foi atraído pelo ateísmo de Schopenhauer.C. Nessa época teve início sua amizade com Richard Wagner (1813-1883).) um "sedutor". Assim. Em 1867. foram Platão (428-348 a. duas tias e da avó. pequena cidade às margens do Saale. aos poucos. contraindo difteria e disenteria. num povo amante da beleza. da harmonia e da ordem. Ritschl. Em 1858. Nietzsche trata da Grécia antes da separação entre o trabalho manual e o intelectual.C. A filosofia somente passou a interessá-lo a partir da leitura de O Mundo como Vontade e Representação. Nietzsche restabeleceu-se lentamente e voltou a Basiléia a fim de prosseguir seus cursos. assim como pela posição essencial que a experiência estética ocupa em sua filosofia. Essa doença parece ter sido a origem das dores de cabeça e de estômago que acompanharam o filósofo durante toda a vida.

porém. Em seguida. Nietzsche desprezava o anti-semitismo. da alegria e do sofrimento. dificuldades na fala. mas Lou Andreas Salomé desejou continuar sua amiga e discípula. demasiado humano". Nietzsche residiu em Haute-Engandine. Nietzsche contra Wagner (1888). Em 1882. Interrompeu assim sua carreira universitária por um ano. isso lhe parecia necessário para destruir os obstáculos da moral e da metafísica. Nietzsche escreveu: "Não há nada de exausto. Nietzsche voltou à cátedra. Em 1882. da fraqueza e da negação. O Caso Wagner. mostrava-se muito contrariado. No outono de 1883 voltou para a Alemanha e passou a residir em Naumburg. Ecce Homo. pediu demissão do cargo. Solidão. depois Assim falou Zaratustra (1884). no outono de 1881. Nietzsche transferiu-se para Gênova. "foi durante o inverno e no meio desse desconforto que nasceu o meu nobre Zaratustra". Mesmo doente foi até Bayreuth. em companhia da mãe e da irmã. O Anticristo e Vontade de Potência só apareceram depois de sua morte. Nietzsche não se encontrava bem instalado. Crepúsculo dos Ídolos. não houve a esperada adesão à filosofia nietzschiana e. nada de caduco. onde permaneceu por insistência de Fräulein von Meysenburg. de Wagner. outrora tão brilhantes. durante um passeio. Erwin Rohde nem chegou a agradecer-lhe o recebimento da obra. e. Nietzsche propôs-lhe casamento e foi recusado. iniciou sua grande crítica dos valores. dizia Nietzsche. veio à luz A Gaia Ciência. Mais uma vez. O homem. a fim de dominar os instintos contraditórios. Para Além de Bem e Mal (1886). .200 tornou-se necessário que a vida ameaçada de dissolução lançasse mão de uma "razão tirânica". nem respondeu à carta que Nietzsche lhe enviara. acaricia toda a forma de cristianismo e toda expressão religiosa de decadência" . e. Mas o "entusiasmo grosseiro" da multidão e a atitude de Wagner embriagado pelo sucesso o irritaram. que até então interpretara a música de Wagner como o "renascimento da grande arte da Grécia". teve a intuição de O Eterno Retorno. recusando sua noção de "vontade culpada" e substituindo-a pela de "vontade alegre". Irritado com o antigo amigo. Mas sua voz agora era tão imperceptível que os ouvintes deixaram de freqüentar seus cursos. sentia-se cada vez mais só. mudou de opinião. do bem e do mal. para Nietzsche. ao mesmo tempo. Além disso. ambos são parentes porque são a manifestação da decadência. Em 1879. na pequena aldeia de Silvaplana. passando o inverno de 1882-1883 na baía de Rapallo. Agonia e Morte Em 1880. ao mesmo tempo. pois sua irmã tencionava casar-se com Herr Foster. como reduto da cristandade teutônica. Encontraram-se mais tarde na Alemanha. seu trabalho não foi bem acolhido por seus amigos. porém. é o criador dos valores. Nietzsche publicou O Andarilho e sua Sombra: um ano depois apareceu Aurora. retornou à Itália. Rompeu as relações de amizade que o ligavam a Wagner e. isto é. Demasiado Humano. não conseguindo influenciar a irmã. Nessa época Wagner voltara-se. De Silvaplana. afastou-se da filosofia de Schopenhauer. o que o impeliu a refletir sobre a incompatibilidade entre o "pensador privado" e o "professor público". quando os valores não são mais do que algo "humano. que pretendia casá-lo com uma jovem finlandesa. mas esquece sua própria criação e vê neles algo de "transcendente". Seu livro foi mal acolhido pela crítica. escrevendo Humano. Apesar da companhia dos familiares. Nessa ocasião. abandonou Naumburg. Ao mesmo tempo. ele dissimula o mais negro obscurantismo nos orbes luminosos do ideal. nada que calunie o mundo no reino do espírito. que não tenha encontrado secretamente abrigo em sua arte. Em Rapallo. Lou Andreas Salomé. para assistir à apresentação de O Anel dos Nibelungos. acabaram por se afastar definitivamente. perturbações oculares. nada de perigoso para a vida. Ele acaricia todo o instinto niilista (budista) e embeleza-o com a música. esperava-se com seu estado de saúde: dores de cabeça. agitador anti-semita. Nessa obra defendeu a tese de que o mundo passa indefinidamente pela alternância da criação e da destruição. a recusa do cristianismo e de Schopenhauer. que pretendia fundar uma empresa colonial no Paraguai. Nietzsche. redigido logo depois. seus amigos não o compreenderam. Durante o verão de 1881. Ditirambos Dionisíacos. e depois para Roma. assim. achando que Wagner inclinava-se ao pessimismo sob a influência de Schopenhauer. de "eterno" e "verdadeiro". Terminada a licença da universidade para que tratasse da saúde. com a qual se empenhou "numa luta contra a moral da auto-renúncia".

Por seu lado. e. verdadeiro e falso. isto é. criou-se. atenuar ou suprimir a pluralidade. teria surgido um tipo de filósofo voluntário e sutilmente "submisso". e o pensamento "afirmando" a vida. veio a público a Quarta parte de Assim falou Zaratustra. totalizando os fragmentos. simultaneamente. condenando-a. onde foi diagnosticada uma "paralisia progressiva". onde veio a conhecer o intelectual alemão Paul Lanzky. o Belo. a filosofia ter-se-ia proposto como tarefa "julgar a vida". Em lugar do filósofo-legislador. cada vez mais isolado. Mas o desenvolvimento da filosofia teria trazido consigo a progressiva degeneração dessa característica. . Sócrates "inventou" a metafísica. em Turim. partindo depois para a Suíça. pela oposição entre essencial e aparente. aquele que considera os fenômenos como sintomas e fala por aforismos. Segundo Sócrates. no "verdadeiro mundo". A interpretação procuraria fixar o sentido de um fenômeno. Para Nietzsche. sempre parcial e fragmentário. em nome de valores "superiores" como o Divino. mas sim de interpretar e avaliar. corresponde ao aforismo "só o homem que concebe o bem é virtuoso". O intérprete seria uma espécie de fisiologista e de médico. ora "o Crucificado" e acabou sendo internado em Basiléia. e o poema constitui a arte de avaliar e a própria coisa a ser avaliada. um tipo de filósofo encontra-se entre os pré-socráticos. nesse sentido. Provavelmente de origem sifilítica. medido. enfrentou o auge da crise. ao mesmo tempo. a grande tragédia grega apresenta como característica o saber místico da unidade da vida e da morte e. falando pelo poema. inaugurando a época da razão e do homem teórico. O Dionisíaco e o Socrático Nietzsche enriqueceu a filosofia moderna com meios de expressão: o aforismo e o poema. Essa degeneração. Lanzky se dirigiu a Nietzsche tratando-o de "mestre" e Nietzsche lhe respondeu: "Sois o primeiro que me trata dessa maneira". o Verdadeiro. diz Nietzsche. Nietzsche viu no rapaz um discípulo capaz de compreender o seu Zaratustra. sem. Mas Sócrates interpretou a arte trágica como algo irracional. esta "estimulando" o pensamento. escrevia cartas ora assinando "Dioniso". o autor só encontrou sete pessoas a quem enviála. talvez pretendendo ser o mediador para que Nietzsche não publicasse seu ataque contra Wagner. a 25 de agosto de 1900. veio a falecer muito cedo. surgiu o filósofo metafísico.201 Em princípio de abril de 1884 chegou a Veneza. Von Stein. Isso trouxe como conseqüência uma nova concepção da filosofia e do filósofo: não se trata mais de procurar o ideal de um conhecimento verdadeiro. viajou para Nice. Com tal concepção. Depois de 1888. em lugar de uma vida ativa e de um pensamento afirmativo. limitado. no entanto. que se opôs ao sentido místico de toda a tradição da época da tragédia. Nietzsche faleceu em Weimar. apareceu claramente com Sócrates. Esse bem ideal concebido por Sócrates existiria em um mundo supra-sensível. Von Stein esperava que o filósofo o acompanhasse a Bayreuth para ouvir o Parsifal. Reunindo as duas capacidades. Por isso Sócrates colocou a tragédia na categoria das artes aduladoras que representam o agradável e não o útil e pedia a seus discípulos que se abstivessem dessas emoções "indignas de filósofos". o que o amargurou profundamente. Certa vez. Em 1885. formula que. publicado em um jornal de Leipzig e na Revista Européia de Florença. segundo Nietzsche. a avaliação tentaria determinar o valor hierárquico desses sentidos. inacessível ao conhecimento dos sentidos. jovem discípulo de Wagner. a arte da tragédia desvia o homem do caminho da verdade: "uma obra só é bela se obedecer à razão". fazendo da vida aquilo que deve ser julgado. onde recebeu a visita do barão Heinrich von Stein. Com Sócrates. o avaliador seria o artista que considera e cria perspectivas. constitui uma "chave" que abre o caminho essencial do mundo. Depois disso. afirma Nietzsche. os quais só revelariam o aparente e irreal. Nietzsche passou a escrever cartas estranhas. o filósofo do futuro deveria ser artista e médico-legislador. Assim. tudo de maneira tão confusa que deveria ser ignorada. opondo a ela valores pretensamente superiores. Um ano mais tarde. inteligível e sensível. quando se estabeleceu a distinção entre dois mundos. que lera Assim falou Zaratustra e escrevera um artigo. mediando-a por eles. impondo-lhes limites. no entanto. Para Nietzsche. o aforismo nietzschiano é. crítico de todos os valores estabelecidos e criador de novos. algo que apresenta efeitos sem causas e causas sem efeitos. a moléstia progrediu lentamente até a apatia e a agonia. a arte de interpretar e a coisa a ser interpretada. sucedendo-se alternâncias entre euforia e depressão. nos quais existe unidade entre o pensamento e a vida. o Bem.

202 segundo Nietzsche. forjaram o mito da salvação da alma porque não possuíam o corpo.. uma luta acirrada contra o cristianismo. ao mesmo tempo. a consciência da culpa (momento em que as formas negativas se interiorizam. é a forma acabada da perversão dos instintos que caracteriza o platonismo. Para Nietzsche essas etapas são o ressentimento ("é tua culpa se sou fraco e infeliz"). Assim. em oposição ao mundo da felicidade eterna do além. de uma vulgarização da metafísica. triunfando o negativo e a reação contra a ação. inventaram falsos valores para se consolar da impossibilidade de participação nos valores dos senhores e dos fortes. desejo mesmo. um significado esquecido da palavra "bom". Trata-se. foi o único verdadeiro contrário do homem trágico e com ele teve início uma verdadeira mutação no entendimento do Ser. à dor e à luta. diz Nietzsche. por exemplo. é a aparência e seu reverso não é mais o Ser. recusa em se admitir as condições fundamentais da própria vida". dizem-se culpadas e voltam-se contra si mesmas). o método filológico. restou a Sócrates apenas um aspecto da vida do espírito. bonus significa também o "guerreiro". porém. e a consciência uma força crítica e negativa. que é preciso desmistificar. o corpo. à luz das idéias do outro mundo. pois procura "fazer falar aquilo que gostaria de permanecer mudo". O Vôo da Águia. possuído que foi pelo instinto irrefreado de tudo transformar em pensamento abstrato. morte. Assim como esse. na medida em que abandonou o fenômeno do trágico. a vontade de potência torna-se vontade de nada e a vida transforma-se em fraqueza e mutilação. São os escravos e os vencidos da vida que inventaram o além para compensar a miséria. vontade de aniquilamento. segundo Nietzsche. A única existência. este desejo de fugir de tudo que é aparência. dever. como o provisório. uma verdadeira oposição dialética entre Sócrates e Dioniso: "enquanto em todos os homens produtivos o instinto é uma força afirmativa e criadora. continua Nietzsche. essa é a maneira como o escravo a concebe. O cristianismo. o aspecto lógico-racional. "de tudo que é 'animal' e mais ainda de tudo que é 'matéria'. distinguindo o verdadeiro do aparente e do erro era. Sócrates. lógico. diz Nietzsche. o homem se afastou cada vez mais desse conhecimento. logo eu sou bom". o "homem teórico". faltou-lhe a visão mística. Por essa razão. verdadeira natureza da realidade. para Sócrates. por ele concebido como um método crítico e que se constitui no nível da patologia. portanto. na fórmula "tu és mau. A imagem da tocha simboliza. Assim. o cristianismo concebe o mundo terrestre como um vale de lágrimas. esse tipo de conhecimento não tarda a encontrar seus limites: "esta sublime ilusão metafísica de um pensamento puramente racional associa-se ao conhecimento como um instinto e o conduz incessantemente a seus limites onde este se transforma em arte". hostilidade à vida. e impondo a resignação e a renúncia como virtudes. "Este ódio de tudo que é humano". retirando do mundo supra-sensível todo e qualquer valor eficiente. este temor dos sentidos. Para Nietzsche. Com ele. Em latim. este horror da felicidade e da beleza. e o ideal ascético (momento de sublimação do sofrimento e de negação da vida). para Nietzsche. o homem está destinado à multiplicidade. Quando esse niilismo triunfa. em Sócrates o instinto torna-se crítico e a consciência criadora"... com isso se poderia constituir uma genealogia da moral que explicaria as etapas das noções de "bem" e de "mal". Penetrar a própria razão das coisas. e a única coisa permitida é sua interpretação. de "um platonismo para o povo". A partir daqui. Nietzsche combateu a metafísica. Nietzsche vê o triunfo da moral dos fracos . mas como "sinais". Nietzsche traz à tona. Nietzsche propôs a si mesmo a tarefa de recuperar a vida e transmutar todos os valores do cristianismo: "munido de uma tocha cuja luz não treme. levo uma claridade intensa aos subterrâneos do ideal". a Ascensão da Montanha A crítica nietzschiana à metafísica tem um sentido ontológico e um sentido moral: o combate à teoria das idéias socrático-platônicas é. significado este que foi sepultado pelo cristianismo. Perdendo-se a sabedoria instintiva da arte trágica. repousando em dogmas e crenças que permitem à consciência fraca e escava escapar à vida. o sensível. o inautêntico e o aparente. tudo isso significa. esforço. diz Nietzsche. Segundo Nietzsche. Essa concepção constitui uma metafísica que. mudança. autêntico e verdadeiro.. e entendendo as idéias não mais como "verdades" ou "falsidades". no pensamento de Nietzsche. a única atividade digna do homem. criaram a ficção do pecado porque não podiam participar das alegrias terrestres e da plena satisfação dos instintos da vida. entende o terrestre. a vontade de potência deixa de querer significar "criar" para querer dizer "dominar". racional. outros significados precisariam ser recuperados.

E o eterno retorno. Em dois momentos de Assim falou Zaratustra (Zaratustra doente e Zaratustra convalescente). do bem e do mal. A etimologia nietzschiana mostra que não existe um "sentido original". a morte e o declínio são apenas a outra face da alegria. do "guerreiro". diz Nietzsche. o vôo da águia. . Por outro lado. "os homens não têm de fugir à vida como os pessimistas". o eterno retorno causa ao personagem-título. faz-se dela algo dependente dos valores estabelecidos. As palavras. segundo Nietzsche. a ascensão da montanha e todas as imagens de verticalidade que se encontram em Assim falou Zaratustra representam a inversão da profundidade e a descoberta de que ela não passa de um jogo de superfície. significa "criar". Fazer isso é "aliviar o que vive. o verdadeiro oposto a Dioniso não é mais Sócrates. uma "saída fora da mentira de dois mil anos". concebendo o primeiro como o triunfo da afirmação da vontade de potência e o segundo como símbolo do mundo como vontade. o testemunho contra a vida e o empreendimento de vingança que consiste em negar a vida. o eterno retorno nietzschiano é essencialmente seletivo. ao percorrer os signos para denunciá-las. "dar" e "avaliar". como alegres convivas de um banquete que desejam suas taças novamente cheias. a verdadeira oposição é a que contrapõe. não significa uma volta do mesmo nem uma volta ao mesmo.203 que negam a vida. do arauto de um apelo perpétuo à verdadeira ultrapassagem dos valores estabelecidos. como desejo de dominar. amoral e superior ao lógico. totalmente irresponsável. mas o Crucificado. diz Nietzsche. a baixeza transforma-se em nobreza. hipocrisia e máscara. da alegria e do sofrimento. Do ponto de vista do intérprete que desça até os bas-fonds da consciência. mesmo do mais pequeno. dirão à vida: uma vez mais". que faz do futuro numa repetição. apesar de tudo. no entanto. se Zaratustra se cura é porque compreende que o eterno retorno abrange o desigual e a seleção. diz Nietzsche. Nietzsche responde ao pessimismo de Schopenhauer: em lugar do desespero de uma vida para a qual tudo se tornou vão. de um lado. e se elas só significam porque são "interpretações essenciais". eu negam a "afirmação". Vontade de potência. é o além-do-homem. o intérprete por excelência. a arte trágica é concebida por Nietzsche como oposta à decadência e enraizada na antinomia entre a vontade de potência. Nietzsche assimila Zaratustra a Dioniso. Para Nietzsche. a afirmação do devir e do múltiplo. criar". Com essa concepção. interpretação. esta. dançar. como um deus artista. entendida esta expressão no sentido de um ser humano que transpõe os limites do humano. e a transmutação dos valores traz consigo o novo homem que se situa além do próprio homem. de outro. O grande desgosto do homem. portanto. do super-homem. diz Nietzsche. mesmo o homem. e que ele faria tudo voltar. mesmo na dilaceração dos membros dispersos de Dioniso. neles tudo é invertido: os fracos passam a se chamar fortes. primeiramente. oferece. O trabalho do etimologista. uma repulsa e um medo intoleráveis que desaparecem por ocasião de sua cura. antes mesmo de serem signos. aí está o que me sufocou e que me tinha entrado na garganta e também o que me tinha profetizado o adivinho: tudo é igual. deve centralizar-se no problema de saber o que existe para ser interpretado. Assim. e o "eterno retorno". na medida em que tudo é máscara. aí está a causa de meu cansaço e de toda a existência. sempre foram inventadas pelas classes superiores e. pois o que o tornava doente era a idéia de que o eterno retorno estava ligado. Com isso. e o intérprete-filólogo. Os Limites do Humano: O Além-do-Homem Em Ecce Homo. a um ciclo. Dessa forma. cuja vontade "deseje dominar". Zaratustra. desconhece-se a natureza da vontade de potência como princípio plástico de todas as avaliações e como força criadora de novos valores. Esse super-homem nietzschiano não é um ser. portanto. Para Dioniso. o Bem é a vontade do mais forte. da ressurreição e da volta. diz Zaratustra. e apenas ele. O eterno retorno. mas impõem uma interpretação. pois as próprias palavras não passam de interpretações. diz Nietzsche. o "homem pequeno". avaliação. assim. deve ser um escavador dos submundos a fim de mostrar que a "profundidade da interioridade" é coisa diferente do que ela mesma pretende ser. aberta para o futuro. Se se interpreta vontade de potência. é como Dioniso. Em outros termos. A "profundidade da consciência" que busca o Bem e a Verdade. Por isso. implica resignação. não indicam um significado. o homem descobre no eterno retorno a plenitude de uma existência ritmada pela alternância da criação e da destruição. o sofrimento. "mas.

O negativo subsiste nela apenas como agressividade própria à afirmação. pelo orgulho. até o anti-semitismo". desde sua participação na guerra francoprussiana (1870-1871). Uma Filosofia Confiscada Apoiado na crítica nietzschiana aos valores da moral cristã. porque Nietzsche desacredita das doutrinas igualitárias. e. A moral do além-do-homem. retendo até 1908 Ecce Homo. a vitória da Alemanha sobre a França teria como conseqüência "um poder altamente perigoso para a cultura". que leva a negação a seu último grau. ao contrário. mas em Vontade de Potência exorta os operários a reagirem "como soldados". Por ocasião desse conflito. fazendo dela uma ação. portanto. que lhe parecem "imorais". organizando o Nietzsche-Archiv. impondo-se sua substituição pela virtù dos renascentistas italianos. pela personalidade criadora. em sua teoria da vontade de potência e no seu elogio do super-homem. Assim. que só sabem obedecer pesadamente. Por outro lado. O forte é aquele em que a transmutação dos valores faz triunfar o afirmativo na vontade de potência. assim. em Weimar. Nietzsche foi ao mesmo tempo um antidemocrático e um antitotalitário. que vive esse constante perigo e fazendo de sua vida uma permanente luta. o Estado tem uma origem "terrível".204 Nesse sentido. Para compreender corretamente as idéias políticas de Nietzsche. Zaratustra. uma instância a serviço daquele que cria. A principal responsável por essa deformação foi sua irmã Elisabeth. Nietzsche revela o desejo de uma Europa unida para enfrentar o nacionalismo ("essa neurose") que ameaçava subverter a cultura européia. portanto. é a moral oposta à do escravo e à do rebanho. Jacob Burckhardt (1818-1897). pelo risco. que não se coaduna com o nacionalismo e o racismo germânicos. bondade. aplaudia as palavras de seu colega em Basiléia. Em Considerações Extemporâneas essa tese é reforçada: "estamos sofrendo as conseqüências das doutrinas pregadas ultimamente por todos os lados. Nietzsche não aceitava as considerações de que a origem do Estado seja o contrato ou a convenção. E acabou rompendo definitivamente com Wagner. entendendo por decadência tudo aquilo que escraviza o pensamento. afirmou Nietzsche. depois do suicídio do marido. pelo amor ao distante. Considero tal fato não um retrocesso ao paganismo mas um retrocesso à estupidez". constituem valores inferiores. como a crítica total que acompanha a criação. Nietzsche alistou-se no exército alemão. Elisabeth.. humildade. mas seu ardor patriótico logo se dissolveu. No mesmo sentido. Nietzsche caracterizou os heróis wagnerianos como germanos que não passam de "obediência e longas pernas". que insistia junto a seus alunos para que não tomassem o triunfo militar e a expansão de um Estado como indício de verdadeira grandeza. disciplinados como uma cifre oculta em um número". da piedade. de tal forma que se passou a ver no autor de Assim Falou Zaratustra um percursor do nazismo. o profeta do além-do-homem. Oposta. para ele. da doçura feminina e cristã. para ele.. Nietzsche levou até a caricatura seu desprezo pelos alemães. amor ao próximo. "A democracia é a forma histórica de decadência do Estado". Esta obra constitui uma interpretação. de sua própria filosofia. para Nietzsche. que fracassara em um projeto colonial no Paraguai. que. tentou colocá-lo a serviço do nacional-socialismo. pois. não há mais elevado fim do que servilo. reuniu arbitrariamente notas e rascunhos do irmão. Em Para Além de Bem e Mal. assim. segundo as quais o estado é o mais alto fim do homem. piedade. Compreende-se. fazendo publicar Vontade de Potência como a última e a mais representativa das obras de Nietzsche. à moral da compaixão. Nietzsche recusa o socialismo. objetividade. purificá-lo de todos os desvios posteriores que foram cometidos em seu nome. é a pura afirmação. feita por Nietzsche. é necessário. por causa do nacionalismo e anti-semitismo do autor de Tristão e Isolda: "Wagner condescende a tudo que desprezo. Ambos foram combatidos pelo filósofo. quando confiou ao "louro" a tarefa de "virilizar a Europa". desenvolveu-se um pensamento nacionalista e racista. a vontade de potência do super-homem nietzschiano o situa muito além do bem e do mal e o faz desprender-se de todos os produtos de uma cultura decadente. sobretudo um Estado que pensa em si em lugar de pensar na cultura. Nessa época. essas teorias seriam apenas "fantásticas". . homens "que introduziram no lugar da cultura a loucura política e nacional. ao assegurar a difusão de seu pensamento. assim. pois impossibilitam que se pense a diferença entre os valores dos "senhores e dos escravos". Por outro lado. escrita em 1888. que afirma.

. Isso levou muitos a considerarem sua obra como anormal e desqualificada pela loucura. "Por que sou tão sábio?". É dentro dessa perspectiva. "Por que sou tão inteligente?". diz Nietzsche. Sétimo filho de um casamento que já durava muitos anos – nasceu em 1813. portanto. Sua crise final apenas marcou o momento em que a "doença" saiu de sua obra e interrompeu seu prosseguimento. Para ele. Há uma continuidade. pois é a loucura que torna mais plano o caminho para as idéias novas. A loucura não passa de uma máscara que esconde alguma coisa. onde entrara em 1830 para estudar filosofia e teologia. rico comerciante de Copenhague. é necessário colocar-se dentro do próprio núcleo de sua concepção da filosofia: Nietzsche inverteu o sentido tradicional da filosofia. tinha 56 e a mãe 44 –.205 sendo criação da violência e da conquista e. para ele. doença e saúde são apenas jogos de superfície.. pertencem ao conjunto de sua obra e de seu pensamento.. assim. a fisiologia e a patologia são uma única coisa. As últimos cartas de Nietzsche são o testemunho desse momento extremo e. que consiste em enfraquecer os instintos e expulsar as paixões. a sensualidade e o livre florescimento do eu são considerados "manifestações diabólicas". Não fui um doente nem mesmo por ocasião da maior enfermidade". usurpação e violência". Assim Falou Zaratustra Em Ecce Homo. portanto. no entanto. O Estado. a vontade de potência. seus alicerces encontram-se na máxima que diz: "o poder dá o primeiro direito e não há direito que no fundo não seja arrogância. nem a saúde. verdadeiro e falso. Kierkegaard Kierkegaard é um dos raros autores cuja vida exerceu profunda influência no desenvolvimento da obra. a vida social. Nietzsche intitulou seus capítulos: "Por que sou tão finalista?". o Estado deveria ser apenas um meio para a realização da cultura e para fazer nascer o além-dohomem. sendo a doença um desvio interior à própria vida. Para entendê-lo corretamente. chamava a si mesmo de "filho da velhice" e teria seguido a carreira de pastor caso não houvesse se revelado um estudante indisciplinado e boêmio. para Nietzsche. Em suma. tendência a impedir o desenvolvimento da cultura livre. diz Nietzsche. entre a doença e a saúde e a diferença entre as duas é apenas de grau. que se deve compreender a presença da loucura na obra de Nietzsche. e a loucura deveria cumprir a tarefa de fazer a crítica escondida da decadência dos valores e aniquilamento: "Na verdade. com isso. não há fato patológico. os teatros. A técnica utilizada pelas classes sacerdotais para a cura da loucura é a "meditação ascética". da saúde à doença. a não ser o de proclamar as novas leis e quebrar o jugo da moralidade. incluindo a relação de angústia e sofrimento que ele manteve com o cristianismo – herança de um pai extremamente religioso. Essa opinião. Trocou a Universidade de Copenhague. aos emissários dos novos valores e da nova moral não resta outro recurso. Ao contrário disso. pelos cafés da cidade. diz Nietzsche. como tal. sob o travestimento da loucura. As inquietações e angústias que o acompanharam estão expressas em seus textos. Mas. nem a doença são entidades. está sempre interessado na formação de cidadãos obedientes e tem. aos "filósofos além de bem e mal". Para Nietzsche. tornando-a estática e estereotipada. as oposições entre bem e mal. alguma coisa de divino: "Pela loucura os maiores feitos foram espalhados foram espalhados pela Grécia". a doença pode ser útil a um homem ou a uma tarefa. aniquilar as paixões é uma "triste loucura". "Por que escrevo livros tão bons?". religião de Estado. revela um superficial entendimento de seu pensamento. quando o pai. esconde um saber fatal e "demasiado certo". como conseqüência. os homens do passado estiveram mais próximos da idéia de que onde existe loucura há um grão de gênio e de sabedoria. rompendo os costumes e as superstições veneradas e constituindo uma verdadeira subversão dos valores. a arte de deslocar as perspectivas. ainda que para outros signifique doença. fazendo dela um discurso ao nível da patologia e considerando a doença "um ponto de vista" sobre a saúde e vice-versa. A filosofia foi. cuja decifração cabe à filosofia. que cultuava a maneira exacerbada os rígidos princípios do protestantismo dinamarquês.

Não se trata de questionar as incorreções ou as inconsistências do sistema hegeliano. em 1850. A partir daí seus textos tornaram-se mais profundos e seu pensamento. e em 1843 publica A Alternativa. Rompido o noivado. essa era a única maneira de vivenciar sua fé. Esse é o momento da segunda grande mudança em sua vida. de Copenhague. mas como a solidão característica do homem que se coloca como finito perante o infinito. Polemista por excelência. Volta a Copenhague em 1842. na raiz das tentativas filosóficas que se deram ao longo da história. Em Kierkegaard não encontramos. é editado As Etapas no Caminho da Vida e. o particular pelo geral. sim. Filósofo ou Religioso? A posição de Kierkegaard leva algumas pessoas a levantar dúvidas a respeito do caráter filosófico de seu pensamento. da moral. Kierkegaard criticou a Igreja oficial da Dinamarca. para a Alemanha. mas. a filosofia assume. mais religioso. por exemplo. Na Alemanha. qual a finalidade que ele intencionalmente deu à sua obra. Também em 1840 ele conclui o curso de teologia. em que analisa a deterioração do sentimento religioso. Para Kierkegaard. com a morte do pai e o relacionamento com Regina Oslen (de quem se tornaria noivo em 1840). ou. . sua tese de doutorado. Em 1849. ele encontra sua realização. Escola do Cristianismo. Kierkegaard escolheu a solidão. o infinito. está em Diários. Estamos habituados a ver. estritamente. nenhuma dessas motivações tradicionais. a partir de uma dimensão sobre-humana. Isso fica bem evidenciado quando ele reage às filosofias de sua época – em especial à de Hegel. Não devemos buscar o sentido do indivíduo numa harmonia racional que anula as singularidades. a divindade. quais as questões fundamentais que lhe motivam a reflexão. descobre a necessidade da solidão e do distanciamento mundano. no mundo e perante aquilo que o ultrapassa. enquanto ser individual. Em Kierkegaard há um forte sentimento de irredutibilidade do indivíduo. cabe verificar o que ela pode trazer de esclarecedor acerca do estilo de pensamento de Kierkegaard. cujo sentido é infinito. foi aluno de Schelling e esboça alguns de seus textos mais importantes. o caráter socrático do autoconhecimento e o esclarecimento reflexivo da posição do indivíduo diante da verdade cristã. os paradoxos da existência religiosa. ao optar pelo compromisso radical com a transcendência. Pra elas. Temor e Tremor e A Repetição. da política. então. A individualidade define a existência. Assim. ainda em 1841. que sua vida mudou. O individual se explica pelo sistema. Ora. em particular. A individualidade não deve portanto ser entendida primordialmente como um conceito lógico. é dissolver a singularidade do destino humano num curso histórico guiado por uma finalidade que. e a ele mesmo. ao mesmo tempo. mas de uma concepção muito profunda da situação do homem.206 Foi só em 1837. exerceria uma influência decisiva em sua obra. comprazer-se na finitude é admitir a necessidade lógica de nossa condição. de sua especificidade e do caráter insuperável de sua realidade. Para Hegel. Para além das minúcias que essa distinção envolveria. essa defesa arraigada daquilo que é único? Não de uma contraposição teórico-filosófica a Hegel. De onde provém. O noivado. razões da ordem da reforma do conhecimento. no entanto. e foi execrado pelo semanário satírico O Corsário. na afirmação radical da própria individualidade. Trata-se muito mais de rebelar-se contra a própria idéia de sistema e aquilo que ela representa. A maior parte desses textos constitui uma tentativa de explicar a Regina. Kierkegaard elabora seu pensamento a partir do exame concreto do homem religioso historicamente situado. Para ele. dá coerência ao sistema e aplaca as vicissitudes do tempo. tratar-se-ia muito mais de um pensador religioso do que de um filósofo. o indivíduo é um momento de uma totalidade sistemática que o ultrapassa e na qual. Em 1844 saem Migalhas Filosóficas e O Conceito de Angústia. o homem que se reconhece finito enquanto parte e momento da realização de uma totalidade infinita se compraz na finitude. publicou Doença Mortal e. a um só tempo. Pode-se perguntar. o Post-scriptum a Migalhas Filosóficas. Morreu em 1855. com a qual travou um debate acirrado. e um ano depois apresentava "Sobre o Conceito de Ironia". porque a vê como uma etapa de algo maior. em 1846. viajou. Em vez de pastor e pai de família. A crise vivida por um homem que. Um ano depois.

é o mediador entre o homem e Deus. Abraão é colocado diante do incompreensível e diante do infinito. nesse caso. O acesso à Verdade suprema depende pois da crença no absurdo. É por meio de Cristo que o homem se situa existencialmente perante Deus. E esse modo me põe imediatamente em relação com o absurdo e o paradoxo. estaria ilustrada no episódio do sacrifício de Abraão. Foi a mediação do paradoxo e do absurdo que recolocou o homem em comunicação com Deus. Por isso a religião só tem sentido se for vivida como comunhão com o sofrimento da cruz. no entender de Kierkegaard. dotado. Ela foi encarnada por um homem obscuro que morreu na cruz como um criminoso. é o absurdo que possibilita a Verdade. de posse da verdade humana do cristianismo. É. ou seja.207 Mas o homem que se coloca frente a si e a seu destino desnudado do aparato lógico não se vê diante de um sistema de idéias mas diante de fatos. Se permanecesse a distância infinita que separa Deus e o homem. tampouco é um estágio provisório que dure apenas enquanto não se completam e fortalecem as luzes da razão. se realiza na vivência da religiosidade cristã. penetrado. exceto a relação com Deus. conseqüentemente. O cristão é aquele que se sente continuamente em presença de Deus pela mediação do Cristo. Seu profundo significado a-histórico tem a ver. Por isso devemos dizer: creio porque é absurdo. este jamais teria acesso à Verdade. A subjetividade de Kierkegaard não é tributária apenas da atmosfera romântica que envolvia sua época. jamais nos situaremos verdadeiramente perante o fato da redenção e. de optar entre dois códigos de ética. minimiza a distância entre Deus e o homem e sufoca o sentimento de angústia que acompanha a fé. O Sofrimento Necessário A subjetividade não significa a fuga da generalidade objetiva: ao contrário. outro caminho para a Verdade a não ser o da interioridade. E a compreensão irradia luz sobre a redenção e a graça. Tudo está suspenso. principalmente o protestantismo dinamarquês. e o fato igualmente incompreensível do sacrifício na cruz. enquanto Deus tornado homem. Essa angústia. Não há. Cristo é portanto o fato primordial para a compreensão que o homem tem de si. naquilo que São Paulo já havia chamado de "loucura". com uma concepção de existência que torna todos os homens contemporâneos de Cristo. de conceituação filosófica que esconde a brutalidade do fato religioso. A mediação é o Cristo vivo. ou entre dois sistemas de valores. Somente dessa maneira nos colocamos no caminho da recuperação de uma certa afinidade com o absoluto. definitivamente. possui uma dimensão que o torna referência intemporal para se vivenciar a fé. algum tipo de prova racional que me transporte para a compreensão da divindade. mais precisamente de um fato fundamental que nenhuma lógica pode explicar: a fé. histórico. um modo de existir. Aqui se situam as circunstâncias que fazem do advento da Verdade um absurdo: a Verdade não nos foi revelada com as pompas do conceito e do sistema. Por isso é que Kierkegaard critica o cristianismo de sua época. Não se trata. O paradoxo de Deus feito homem e o absurdo das circunstâncias do advento da Verdade. Isso porque a individualidade autêntica supõe a vivência profunda da culpa: sem esse sentimento. insuperável modo de existir. Ele não possui razões para medir ou avaliar qual deve ser sua conduta. Esse relato bíblico indica a solidão e o abandono do indivíduo voltado unicamente para a vivência da fé. mais do que com essa característica do Romantismo. somente aprofundando a subjetividade e a culpa a ela inerente é que nos aproximaremos da compreensão original de nossa natureza: o pecado original. o aprofundamento da subjetividade. No entanto. Esta não é o sucedâneo afetivo daquilo que não posso compreender racionalmente. A autêntica subjetividade. Não há portanto uma mediação conceitual. portanto. da mediação do Cristo. segundo ele. O fato da redenção. igualmente fundamentais para nos sentirmos verdadeiramente humanos. Cristo. Mas o próprio Cristo é incompreensível. embora histórico. . O que Deus pede a Abraão – que ele sacrifique o único filho para demonstrar sua fé – é absurdo e desumano segundo a ética dos homens.

legitimamente. é estranha à moral. mesmo que essa ação seja materialmente boa. o paradoxo de ser o pecado ao mesmo tempo a condição de salvação. que afinal são derivadas de estar o finito e o infinito em presença um do outro. Existir é existir diante de Deus. Não se pode apreender racionalmente a contemporaneidade do Cristo. Deus não está testando a sabedoria de Abraão. Qualquer filosofia que não leve em conta essas tensões. mas. a procura infindável e a visão instantânea da Verdade. amanhã. Kant se opõe não só ao naturalismo dos filósofos iluministas. No entanto Abraão não hesitou: a fé fez com que ele saltasse imediatamente da razão e da ética para o plano do absoluto. ela não pode ser elucidada pelo conceito. à ontologia otimista de São Tomás. mas o imperativo categórico: Cumpre teu dever incondicionalmente. A fé reúne a reflexão e o êxtase. A força de sua fé fez com que Abraão optasse pelo infinito. e a incompreensibilidade da infinitude divina faz com que a consciência vacile como diante de um abismo. há o que Hegel mais tarde denominará uma visão oral do mundo que afasta a ética dos equívocos da natureza. não constituirá fundamento adequado da vida e da ação. fica submetida às flutuações de minha natureza. A vontade que tem por fim o prazer. minha conduta não é moral. se teus sentimentos espontâneos a ele te conduzem). precisamente porque não pode haver transição racional entre o finito e o infinito. tudo que seja sensível ou empírico. âmbito em que o entendimento é cego. Nesse ponto. para ser ela própria. Por exemplo: se me empenho por alguém por cálculo interessado ou mesmo por afeição. a não ser ele mesmo e a sua fé. Continuaria sendo o assassino de seu filho. deve ao contrário. Com efeito. Em Kant. Abraão ainda assim não teria como justificá-lo à luz de uma ética humana. A filosofia deve ser imanente à vida. como no caso da tragédia grega. as regras morais só podem consistir na própria forma da lei. "Age sempre de tal maneira que a máxima de tua ação possa ser erigida em regra universal" (primeira regra). A crença é inseparável da angústia. a dúvida permaneceria para sempre. em nenhum caso. a ausência de mediação humana. Por tudo o que a existência envolve de afirmação de fé. receber um conteúdo da experiência e que devem exprimir a autonomia da razão pura prática. Poderia permanecer durante toda a vida indagando acerca das razões do sacrifício e não obteria resposta. manifestar-se em toda sua pujança. para quem a felicidade é o fim legítimo de todas as nossas ações. meus cálculos e meus sentimentos espontâneos poderiam levar-me a atos contrários. Nada está em jogo. caso o sacrifício se tivesse consumado. A razão teórica tinha necessidade da experiência para não se perder no vácuo da metafísica. Em que consiste esse dever? Uma vez que as leis que a Razão se impõe não podem. da mesma forma como os deuses testavam a sabedoria de Édipo ou de Agamenon. Toda ação que toma seus móveis da sensibilidade. mas por alternativas e saltos. A razão prática. já que foi por causa do pecado original que Cristo veio ao mundo. Mas.208 O Salto da Fé Abraão não está na situação do herói trágico que deve escolher entre valores subjetivos (individuais e familiares) e valores objetivos (a cidade. que faz com que a existência cristã se consuma num instante e ao mesmo tempo se estenda pela eternidade. Este jamais daria conta das tensões e contradições que marcam a vida individual. Emmanuel Kant A Moral de Kant É só no domínio da moral que a razão poderá. a felicidade. também. muito simplesmente porque as decisões humanas não se ordenam por conceitos. ética. A especulação desgarrada da realidade concreta não orientará a ação. O imperativo moral não é um imperativo hipotético que submeteria o bem ao desejo (cumpre teu dever se nele satisfazes teu interesse. Do ponto de vista humano. ultrapassar. dos desejos empíricos. o temor de Deus é inseparável do tremor. A fé representa um salto. Abraão ilustra na sua radicalidade a situação de homem religioso. a comunidade). ou então. isto é. O respeito pela razão estende-se ao sujeito racional: "Age sempre de maneira a tratares a humanidade em ti e nos outros sempre ao mesmo tempo .

A razão fala sobre a forma severa do dever porque é preciso impor silêncio à natureza carnal. Por exemplo. eu vejo que meus atos. Todavia. Por conseguinte. no entanto. passional. Por exemplo: o dever me prescreve a realização de certa perfeição moral que não consigo atingir na vida presente (posto que não chego a purificar totalmente a determinação de querer dos móveis sensíveis). ele me engrandece. Ele então postula que um Deus justiceiro. como diz Kant. Ser moralmente obrigado é ter o poder de responder sim ou não à regra moral. de um modo geral. os maus são muito prósperos. vejo de imediato que não tenho o direito de mentir. ao contrário.. por conseguinte. apresenta-se como essencialmente negativa. é um mundo de aparências. o domínio da moral não é o da natureza (submissão animal aos instintos) nem o da santidade (em que a natureza. essa consciência que é essencialmente razão. do que hoje denominamos ciência psicológica. pelo fato de ser puramente formal. Desse modo. por conseguinte. Mesmo que o universo não tenha o menor sentido. o homem se sente responsável. ele me realiza como ser racional que obedece à lei moral. partindo da consciência da obrigação moral. a título de "postulados da razão prática". Por outro lado. ao privilegiar a razão humana. ele vai estabelecer os fundamentos de uma metafísica na moral. é ter a liberdade de escolher entre o bem e o mal. Vimos que. ao preço de grande esforço. Para se unirem numa justa reciprocidade de direitos e obrigações. Moral e Metafísica A moral de Kant é o que chamamos de uma moral independente. submeter a humana vontade à lei do dever.. O único sentimento que tem por si mesmo um valor moral nessa ética racionalista é o sentimento do respeito. neste mundo em que. os homens só têm que obedecer às exigências de sua própria razão: "Age como se fosses ao mesmo tempo legislador e súdito na república das vontades" (terceira regra). A moral formal. o princípio do dever. etc. Não esqueçamos que o mundo dos fenômenos. por intermédio de um sistema de recompensa e punições. essa moral não me propõe.essa metafísica cuja demonstração era impossível. E. que o mau escolheu livremente o seu caráter de mau. pelo qual o mundo se me apresenta no conhecimento. Kant vai reerguer a metafísica . ao invés de buscar os fundamentos de sua moral na metafísica. A originalidade de Kant está no fato de que. 209 . A obrigação não teria o menor sentido se minha conduta fosse automaticamente determinada por minhas tendências ou pelas influências que sofri. são determinados uns pelos outros no tempo. patológico. porque é preciso. sentiria uma atração instintiva e irresistível pelos valores morais). No plano dos fenômenos. como diz Kant. Por conseguinte. ou. isto é. Ela não possui outro fundamento além da consciência humana. é nas profundezas do ser inacessível ao saber científico. O mérito moral é medido precisamente pelo esforço que fazemos para submeter nossa natureza às exigências do dever. exprime sua desconfiança com relação à natureza humana. pela deplorável educação que recebeu. mesmo que me diga: e se todos fizessem o mesmo? A mentira de todos para com todos é contraditória. Por trás desse determinismo aparente. portanto. proibída. é fora do tempo. mesmo que a alma seja mortal. segunda a crítica da razão pura. Tal é o rigoríssimo kantiano. a obrigação moral exclui a necessidade dos atos humanos. do determinismo.para ser absolutamente rigoroso. da experiência. livre. o imperativo categórico é um "proibitivo categórico". diz Kant. Finalmente. Kant então postula a imortalidade da alma. como um fim e jamais como um simples meio" (segunda regra). Aquele crime pode ser explicado pelas paixões de seu autor. passivo. mas é a própria lei moral que o produz em mim. aos instintos. então podes. efetivamente. Com efeito. Ela simplesmente autoriza ou proíbe este ou aquele ato que tenho vontade de praticar. em nenhuma "heteronomia". restabelecerá no além a harmonia entre virtude e felicidade." Esta liberdade não poderia ser demonstrada. transfigurada pela graça. o discípulo de Kant se sabe obrigado a respeitas as máximas da razão. Em tal sistema. não implica em nenhuma "alienação". Como diz Jan Kélévitch. A moral de Kant. pois não é anterior à lei. às tendências de tudo o que é empírico. como diríamos hoje. esconde-se a realidade numenal de minha liberdade. isto é. Kant vai postular a liberdade humana. Kant constata que a virtude e a felicidade quase não estão juntas. "Tu deves. um ato concreto a realizar.

de Spinoza. a irredutível oposição entre a coisa e o espírito será eliminada. Kant representa o centro do pensamento moderno. Dele depende todo pensamento posterior. harmonia pura. mas uma coisa apenas é certa: o pássaro voa porque é constituído de tal maneira. igualmente nos oferecem uma espécie de reconciliação entre a razão e a imaginação. puramente regulador (posso interpretar o agrupamento de certas condições como a manifestação de um fim). para uma forma de monismo imanentista. me "arrebata". dele me liberta e. de modo diferente. o momento privilegiado em que uma emoção. não podemos conhecer nem designar? Os sucessores de Kant. bem como dele dependem artistas. em que toda realidade se resolve nos limites da experiência. Com efeito. longe de manifestar meu egoísmo dominador. Todavia. Finalidade sem fim (isto é. já que afirma simultaneamente a necessidade da natureza (na Crítica da Razão Pura) e a exigência de uma liberdade absoluta (na Crítica da Razão Prática). o princípio de finalidade permanece facultativo. literatos. se o princípio de causalidade (determinismo) é constitutivo da experiência (não posso dispensá-lo para explicar a natureza). a filosofia de Kant nos surge como uma filosofia essencialmente trágica. a beleza oferece à nossa imaginação a oportunidade de uma satisfação inteiramente desinteressada. como se diz muito bem. Schelling. segundo afirma. Nessas condições. Em sua terceira grande obra. o entendimento não pode conhecer o fundo das coisas e se limita a "soletrar os fenômenos". a outra fonte essencial do idealismo alemão é Spinoza. poetas. por conseguinte. Todos os filósofos idealistas (Fichte. Paralelo e correspondente ao movimento filosófico do idealismo pode ser considerado o romantismo. Os valores de beleza. A Crítica do Juízo Desse modo. idealismo objetivo e idealismo absoluto. fenômeno artístico e literário. Para ele convergem e nele se compõem em um fenomenismo absoluto o fenomenismo racionalista e o fenomenismo empírico. vão propor sistemas em que. particularmente o idealismo clássico alemão. Este filósofo é arrancado do desprezo e do esquecimento em que jazia. se ordenado pelas categorias do espírito? E por que Kant mantém essa coisa em si que. seríamos totalmente livres em nossa realidade numenal: daí se segue que nenhum pecado poderia ser escusável. não existe liberdade parcial nem meia-responsabilidade. para o qual já fora orientado por Kant. Como é então que o mundo sensível se deixa organizar. e o seu pensamento encaminha decisivamente o idealismo para a trilha do monismo imanentista. Tudo se passa como se o pássaro fosse feito para voar. mais ou menos. Schopenhauer) dependem. com Goethe à frente. a bela aparência que admiramos parece inteiramente penetrada dos valores do espírito. especialmente alemão. Kant se esforça por mostrar a possibilidade de uma reconciliação entre o mundo natural e o da liberdade. e esta é totalmente produzida pelo espírito. fora de todo móvel exterior à obra de arte). a empresa kantiana só pode deixar os filósofos insatisfeitos: para Kant. O Idealismo Pós-Kantiano Considerações Gerais A maior parte dos filósofos (é sua vocação mais preciosa. de Schelling. Hegel. que desenvolve o conceito de criatividade do sujeito.210 portanto. mas também o da finalidade que aparece notadamente na organização harmoniosa dos seres vivos. presentes na obra de arte. A Crítica do Juízo. na contemplação estética. caracteriza-os sucessivamente como idealismo subjetivo. Hegel. ao definir em uma palavra os sistemas de Fichte. de síntese a priori. o exemplo único de uma satisfação ao mesmo tempo sensível e pura de todo egoísmo. também o romantismo é denominado . já que. de autonomia do espírito. no mundo kantiano. ao mesmo tempo que o seu próprio. Ela é. Além de Kant. A natureza não seja talvez não seja apenas o domínio do determinismo. a menos que não seja seu pecado original) visa à inteligibilidade perfeita e à unidade total. Schleiermacher. Totalmente determinados nas aparências fenomenais.

tiveram intuição do seu anticristianismo e ateísmo. pela íntima unidade espiritual do romantismo e do idealismo. significaria atividade. em que está a sua divindade infinita. independência. do realismo. como uma produção do eu. se concretiza a si mesmo indefinita e livremente.protestantes embora . Assentado isto. e ter travado relações com um círculo romântico. que são produtos históricos. na universidade de Berlim. Aí teve que enfrentar a oposição das autoridades religiosas e políticas. é uma criação inconsciente do espírito. enfim teve Fichte que deixar o ensino universitário. em geral. de um eu universal. no qual unicamente. debilidade. opera. em face dos quais o espírito é passivo: o mundo dos noumenons. Faleceu em Berlim. em 1810. de que o eu empírico. no mundo empírico. das sensações. vive. O Desenvolvimento do Idealismo Apesar do seu conceito de criatividade do espírito. . e não em uma metafísica transcendente e teísta.com respeito à multiplicidade e ao vir-a-ser do mundo empírico. este é transcendental . isto é. moral.211 pelo conceito de criatividade e liberdade do espírito. que encaminhou decididamente o criticismo pela senda do idealismo imanentista. Dogmatismo significa passividade. que . no dizer de Kant. portanto. precisamente no conceito do espírito como eticidade. o conceito de desenvolvimento. O Idealismo Ético: Fichte O primeiro e maior discípulo de Kant. acomodação. ou coisa em si. depois dedicou-se entusiasticamente à filosofia kantiana. imanentismo. naturalmente. Depois de ter peregrinado por várias universidades. pois. é representado especialmente de um lado por aquela misteriosa matéria. fraqueza. em um processo infinito. e de outro lado por aquele mundo inteligível. e portanto nega o transcendente mundo kantiano dos noumenons. E. Trata-se. onde pronunciou os famosos Discursos à Nação Alemã. donde derivaria toda a atividade organizadora e criadora do espírito.e não transcendente . como o idealismo. mas pertencem também ao movimento romântico. isto é. de fato. transcendental. é Fichte. no mundo da natureza. o Eu puro vive. pelo qual se decide em favor do idealismo e não em favor do dogmatismo. esse mundo de dados. Apesar das suas desculpas. e. Ora. O mundo da matéria. o idealismo clássico nega todo dado. Eu puro. os diversos "eus empíricos" seriam concretizações particulares. ficou sendo a base do idealismo posterior. entretanto. moral. em Rommenau. desenvolve-se. da natureza. e unicamente neles. absoluto. posse de si mesmo. pois Fichte mantém o conceito kantiano do primado da razão prática. e é plenamente cognoscível a si mesmo. João Amadeu Fichte nasceu em 1762. por conseguinte. estabeleceu-se definitivamente. Nesses eus empíricos. a principal é Fundamentos da doutrina da ciência. perante o qual. e com o idealismo tem em comum o historicismo. ao passo que se deu o contrário com o racionalismo precedente. procurou a sua justificação teorética em uma metafísica monista-imanentista. Resolve ele o mundo kantiano da sensibilidade. filósofos idealistas. propriamente. Esse mundo de coisa em si. Este. este motivo prático. liberdade. para incitar os seus patrícios contra Napoleão que humilhara e vencera a Alemanha. no tempo e no espaço. em 1814. a valorização da nacionalidade e da religião. o espírito se realiza. tanto espiritual quanto material. e conheceu pessoalmente Kant. mais para a arte e a poesia. uma questão de caráter. propende. perante o qual o espírito é passivo. que. o espírito seria passivo. ético. Os maiores românticos alemães são Schlegel e Novalis. do que para as ciências e a matemática. isto é. Kant deixara ainda uns dados. e reduz tudo à mais absoluta imanência do espírito. Entre as suas obras. Primeiro estudou teologia na universidade de Jena. A estes podem-se acrescentar Schelling e Schleiermacher. onde expõe sistematicamente o seu pensamento. criado pelo espírito para se realizar a si mesmo como eticidade e liberdade. em suma. ao passo que idealismo. seria prático. Fichte concebe idealisticamente toda a realidade. que o espírito não consegue conhecer. Em 1794 foi convidado a lecionar na universidade de Jena. Sustenta Fichte que o motivo fundamental. são eles. de síntese a priori.

criador. natural. a dualidade do eu teorético e do eu prático. isto é. do eu (reflexão). a qual é atividade. oporia a si mesmo o não-eu. quando. como justamente observa Schopenhauer. encarnando a idéia da humanidade. religioso e cultural. no estado. as acusações de ateísmo levantadas contra Fichte. que deveriam ter culminado em um estado alemão. No conhecimento começa a manifestar-se aquela atividade consciente do espírito. deveria ser a ordem moral do mundo. Compreendem-se. porquanto em um sistema de idealismo absoluto deveria ser tudo racionalmente justificado . primado moral e civil. pois. o eu criaria o mundo da natureza. a dominação de Napoleão. é necessário que a natureza seja conhecida pelo espírito. inconsciente no momento da produção da natureza. que era. mundo que. eticidade. que é precisamente eticidade. assim. em Berlim . do eu. Tal série ideal da atividade do espírito. mas é imanente. Schelling está logicamente entre Fichte e Hegel. isto é. O Idealismo Estético: Schelling Embora colega de Fichte e mais velho que Hegel. a consciência da sua natureza absoluta e divina. Tal processo ascendente. temos. .212 Desenvolvendo a doutrina kantiana do primado da razão prática. superestado em face de outros estados. originária do eu seja atividade. apagar-se-ia a vida do espírito. em um sistema imanentista . das nações. deduzido do eu o mundo da matéria. pessoa. Essa atividade utópica-política de Fichte tem certa semelhança com a atividade desenvolvida alguns anos depois na Itália. Consciência e liberdade que encontram um progresso na sociedade humana. prevalece o segundo elemento. Naturalmente. É um mito romântico da Alemanha. como o Deus do teísmo e do cristianismo. Segundo ele. impessoal e gerador do mundo. não é Deus no sentido verdadeiro e próprio. do eu cognoscitivo e do eu ativo. do mundo. Não é preciso lembrar que o Deus de Fichte não é transcendente. ideal para o qual tende o afanoso evolucionar humano. ao invés. em que o "deve ser" é reduzido ao "ser". o eu prático quando prevalece o primeiro elemento. isto é. porque. consciente e inconsciente. na antítese eu não-eu. minerais. Daqui se pode compreender a ação política exercida por Fichte na Prússia. para que o espírito possa aplicar a ele a sua atividade. tal produção da natureza por parte do espírito é inconsciente. procurará fazer Hegel. Entretanto. animais. para que seja superado e vencido esse mundo natural. julga Fichte ter justificado. uma consciência de unidade e autonomia nacionais. uma nação.acaba por coincidir com a ordem real. em uma sociedade de seres livres. moralidade.como mais tarde.como é o de Fichte . em uma segunda fase do seu pensamento. Mas. como herdeira da cultura clássica e sede do cristianismo católico romano. Fichte tem uma concepção ética do estado. um estado ideal. vegetais. todavia. Para realizá-la. dos povos. que indiscutivelmente ela possui. E. deva ser guiada e ensinada por um povo. volta ele para uma concepção de Deus absoluto e imutável. Daí uma terceira duplicação do eu. teorética e prática. do não-eu (imaginação produtora). bem como na multiplicação do "eu puro" nos "eus empíricos". Fichte pensa que a natureza íntima. o obstáculo a superar para realizar a sua eticidade. causa de humilhação para o povo germânico . isto é. O próprio Fichte notou essa grave deficiência. Fica. e cada indivíduo e cada ação sua. pelo menos na primeira grande fase da sua especulação filosófica. mas também procura evidenciar o seu primado no mundo. se terminasse. tem por fim a sempre mais perfeita realização do próprio espírito. isto é. pelo contrário. esse estado seria a Alemanha. profunda. o espírito. e a realidade cairia do nada. denominada filosofia da identidade. Mas. Este seria precisamente como que o campo da sua atividade. a fim de que seja possível a síntese ética. O Deus de Fichte é apenas ordo ordinans. a antítese que ele põe como tese. a sua liberdade. de sorte que o verdadeiro conceito de Deus é logicamente anulado. da natureza. era um dado e inexplicável. despedaçado e dominado. destarte.durante a ocupação. em que o povo alemão é considerado como o povo puro e originário. que aspira aos valores espirituais e morais. por Gioberti que escreveu o famoso livro Primato morale e civile degli Italiani. não tem fim. tal produção do não-eu por parte do eu. racionalmente indeduzível o conteúdo desse mundo da natureza. Nesta obra Gioberti não somente quer dar à Itália unidade e independência nacional e política.com os Discursos à Nação Alemã. essa demolição de Deus. Temos o eu teorético. Nestes discursos esforça-se Fichte para despertar no povo alemão. para Kant.

a natureza e o espírito. mas é o próprio universo. que é um progresso. e como exemplares universais e imutáveis das existências particulares e in fieri. fundamentalmente. Como Fichte. Dessa identidade. Deus. Foi sucessivamente professor nas universidades de Jena. Essa realização de racionalidade. admite que a natureza é uma produção necessária do espírito. com o qual. idealista: o espírito. porém. Ao surgir a sensibilidade. a natureza embora concebida idealisticamente . propende para a primeira solução: o idêntico não é a causa do universo. a um sistema irracional. Nele influíram também as turvas fantasias da mística alemã. Representação do meu Sistema (primeira fase. filosofia da identidade). No primeiro caso. mesmo ilusória. As suas obras principais são: o Sistema do idealismo Transcendental. enquanto Schelling assume no seu sistema a concepção romântica. do qual deriva a sua concepção idealista. e o espírito humano atinge a essência metafísica da realidade através de uma intuição estética. representa ele a filosofia do romantismo. e o da filosofia da liberdade. Schelling julga demonstrá-lo mediante a racionalidade imanente na própria natureza. Que a natureza seja espiritualidade latente e progressiva. que é a obra do gênio. uma continuação com respeito ao desenvolvimento da natureza. afastando-se entretanto dele em seguida. mas como seu desenvolvimento e consciência. Schelling foi um autor variado e fecundo. o sujeito puro). Nessa segunda fase. não no científico. nasce no universo a consciência espiritual. objeto e sujeito: unidade de uma multiplicidade. a identidade profunda entre natureza e espírito deveria. a realidade absoluta é identidade entre natureza e espírito. E o gênio se encontra só no campo estético. Würzburg. que constitui o pressuposto imediato do seu pensamento. vontade inconsciente que aspira à racionalidade. o sujeito. ao uno imutável. e nada existe fora dela. Em Tubinga teve Hegel como condiscípulo. Logo. em virtude da qual toda a natureza é espiritualizada. Munique e Berlim. anterior ao eu e ao não-eu: será precisamente a identidade absoluta do eu e do não-eu. Tal passagem é representada pela segunda fase do seu pensamento. como indiferença de irracional e racional. revelação de Deus a si mesmo. de Fichte. no segundo. e precisamente mediante a sua finalidade. a multiplicidade e o devir do mundo. começa o desenvolvimento do espírito humano. segundo Schelling. Unicamente o gênio artístico atinge e revela o artista misterioso que atua no universo. . e depois o espírito com toda a sua história. à própria autorevelação. à consciência. do universo que aparece múltiplo e in fieri? Se a realidade absoluta é una e imutável. Pesquisas Filosóficas sobre a Essência da Liberdade Humana e os Objetos Conexos com Esta (segunda fase. essa revelação de Deus a si mesmo se realizam na determinação das idéias eternas em Deus. onde dominara o seu adversário Hegel.tem uma realidade autônoma com respeito ao sujeito. decorrerá. de um sistema racional. As faces do seu pensamento são fundamentalmente duas: o período da filosofia da identidade. ou o multíplice. Schelling imagina o ser absoluto. Para ele. Faleceu em Berlim. Passou da teologia à filosofia e dedicou-se ao estudo de Spinoza. ao indistinto. filosofia da liberdade). é princípio de tudo. a natureza e o seu desenvolvimento. primeiro. A natureza é o espírito na fase de consciência obscura. Então o princípio da realidade não é mais o eu de Fichte (o eu absoluto. ser aprendida pela intuição estética expressa na obra de arte. não como sendo oposição e negação da natureza. o conceito de Fichte de que a natureza tenha uma existência puramente relativa ao espírito. A unidade. sustentou pesada polêmica. sujeito e objeto. como o espírito é a natureza na fase de consciência clara. A filosofia de Schelling é. em Leonberg. Mas então surge o problema que assoma em toda concepção monista da realidade: ou a realidade verdadeira cabe ao idêntico.213 Ademais. possibilidade do irracional e do racional. recusa. são meras aparências subjetivas. Mas então como se explica a visão. espírito e natureza. Erlangen. cujo racionalismo ele demole. Schelling concebe as idéias eternas ao mesmo tempo como verbo de Deus. o devir do mundo tem uma realidade verdadeira. passando da filosofia da identidade à filosofia da liberdade. Em Leipzig integrou a sua cultura humanista e literária com estudos científicos. em seguida. em 1854. Frederico Guilherme Schelling nasceu em 1775. Filosofia e Religião. princípio absoluto da realidade. quando o idealismo já estava esfacelado. mas deverá ser um princípio mais profundo. o eu. como e donde pode surgir essa visão destruidora do Absoluto? Schelling procura resolver esse problema.

o retorno das coisas a Deus.é atingido pelo sentimento: não pelo simples sentimento entendido em sentido psicológico. idealista. dada a sua concepção panlogista-imanentista da realidade (toda a realidade é racional e toda a racionalidade é real): daí a lógica coincidir com a ontologia. assim. e a religião aniquilada na filosofia. mediante a qual o autor procura justificar a religião em geral e o cristianismo em especial. difícil e proteiforme.segundo Scheleiermacher . em 1768. revelando-se plenamente a si mesmo. como julgava Kant. O Idealismo Religioso: Schleiermacher A Schelling pode-se ligar Schleiermacher. para Schelling. E. mas implicam também numa concepção metafísica do mundo e da vida. do mundo ideal. mas também da moral. Juntamente com o Romantismo. As suas obras principais. Daí o primado da razão prática. Monólogos. A Fé Cristã. o particular. elas se podem destacar do Absoluto. o Absoluto não é atingível por via prática. E isto é possível. mas pelo sentimento potenciado romanticamente em sentido metafísico. tal separação aconteceu e constitui o mundo material e espiritual. portanto. conquistando a sua racionalidade. dependente e limitado. a atividade que atinge o Absoluto é a vontade moral. daí ser a metafísica substituída pela moral. a razão prática. da individualidade. porquanto há essencial heterogeneidade entre o perfeito. Scheleiermacher quer libertar a religião não só da ciência. Embora Scheleiermacher pense que não podemos conhecer nada a respeito de Deus. a que Schleiermacher julga poder dar um específico valor religioso. Compreende-se. de sorte que a religião se torna necessariamente e ainda mais radicalmente demolida. uma valorização no sentido imanentista. da história da natureza e da humanidade. racional. da multiplicidade à Unidade. secundário. do devir. mas irracional o mundo da existência. Mas o Absoluto não é atingível sequer por via teorética. repete de muitos modos que a realidade é una. o imutável. o universal e o imperfeito. das idéias. com todo o mal que nele existe. porque as idéias eternas participam da natureza divina. porquanto ele também é ligado estritamente ao movimento romântico. da realidade. Frederico Scheleiermacher nasceu em Breslau. é racional o mundo das ciências. Estes críticos têm um interesse religioso. justificar a religião. não se pode realizar mediante uma dedução lógica. a ética ser resolvida na dialética. elucidando o princípio da experiência interior. e é. o temporal. Crítica das Doutrinas. elemento germinal da Reforma luterana. para celebrar uma religiosidade estética. Essa redenção redimiria não só e não tanto o mundo e o homem. como julgava Hegel. como. do finito ao Infinito. Tal passagem se explica então mediante um ato arracional. deveria realizar-se progressivamente a redenção dessa queda original. teoreticamente. embora muito inferior a Schelling como metafísico. Scheleiermacher teve uma influência vasta e duradoura sobre o protestantismo liberal alemão. Com relação ao primeiro é possível conhecimento racional. e é. a do idealismo romântico. Através. irracional da vontade. do monismo imanentista. ao passo que o segundo pode ser unicamente descrito com base na experiência. com efeito. Segundo Scheleiermacher. Scheleiermacher procura valorizar. superaria o seu fundo originário arracional e irracional. A concepção filosófica de Scheleiermacher é. são: Discursos sobre a Religião. e que o espírito humano na sua plena atualidade é a consciência de Deus imanente. do Uno. ciência. pelo que se vê. natural e humano. de liberdade. isto é. moral. Foi professor em Halle e Berlim. .214 A passagem de Deus. portanto. É. que é uma atividade coordenada ao conhecimento e à vontade. decair no mundo empírico da multiplicidade. onde faleceu em 1831. ele. em ordem cronológica. O Absoluto . Por conseguinte. como o conhecimento e a vontade. filosofia. daí ser a religião reduzida aos limites da razão prática. pois. desprezada e expulsa da vida do espírito pelo racionalismo iluminista. e a raiz comum das outras atividades psíquicas. que é liberdade e vontade.como Schelling que o Absoluto é atingido mediante a intuição estética. tal queda. Pensa ele . filósofo do Romantismo. isto é. O pensamento de Schelling é. mas o próprio Deus: porquanto. Para Kant. do contingente. sentimento este que seria precisamente a faculdade do Absoluto. ao mundo empírico e contingente. fundamentalmente. porém. resolvida na moral.

Nisto consistiria a religiosidade verdadeira e própria. seria explicada a relação religiosa. no sentimento. mas não se compreende como no Absoluto. portanto.215 Scheleiermacher sustenta que o conhecimento e a vontade . o espírito é o retorno da idéia para si mesma. E como na vida espiritual o conhecimento e a vontade seriam secundários e derivados com respeito ao sentimento. Segundo a experiência religiosa. mas apenas logicamente. todavia. que. a idéia torna-se natureza. que é abstrata unidade. estética? Scheleiermacher parece proceder deste modo. contra o qual Scheleiermacher em vão se bateu. segundo Scheleiermacher. mas como dualidade na unidade. e nem sequer pela vontade. Essa relação não é. que deveria ser a plena consciência do Absoluto? Propriamente pela referência do sujeito empírico . o espírito. estético-romântica. seriam expressões inadequadas e simbólicas da religiosidade. também na ordem da natureza. Hegel A Idéia. que é uno. Chegada ao fim de seu desenvolvimento abstrato. por sua vez. ele define. ao mais alto e mais puro Eu. E julga que o privilégio de apreender a unidade metafísica do ser é devido ao sentimento. como de criatura a Criador. pela ética. A filosofia religiosa de Scheleiermacher teve uma grande influência sobre o protestantismo liberal alemão do século XIX. do sentimento. pela consciência imediata do eu . A idéia. a saber. ao Uno. esta fase representa a grande antítese à grande tese. que é precisamente a idéia.não podem atingir o Absoluto. Que relação existe entre sentimento e religião. E como se realiza uma relação. E conclui finalizando na equação sentimento-religião. ao Eu. se desenvolve interiormente em um processo dialético. não arbitrariamente. para Scheleiermacher. evidentemente. (sujeito e objeto). portanto. antítese. que representam os esquemas do mundo natural e do espiritual.ao Absoluto. e uma religiosidade em sentido específico. Em a natureza a idéia perde como que a sua pureza lógica. A prescindir das críticas externas e internas que se podem fazer a essa construção metafísicoimanentista. o qual deveria ser apreendido pelo sentimento em sentido metafísico. uma multiplicidade. A Natureza. que é uno. É o escolho fatal do monismo. por exemplo. se determine essa dualidade. A primeira grande fase no absoluto devir do espírito é representada pela idéia. a idéia é o sistema dos conceitos puros. a religião ocupa o mais alto grau da atividade humana. uma expressão da distinção geral idealista entre eu empírico e eu transcendental. que seria a referência das várias e mutáveis determinações da autoconsciência ao Absoluto. que constitui a nossa essência. portanto. e no sentimento. assim como o sentimento ocupa o vértice da vida espiritual. síntese). a doutrina e a moral. porquanto o conhecimento e a vontade implicam a multiplicidade decorrente da relativa mudança dos estados de consciência e a dualidade de duas atividades. E por que esta atividade deve ser considerada religiosa e não. a religião como sendo a relação do finito com o infinito. Mediante a doutrina desses dois sentimentos. acaba admitindo o primado da religião. a natureza.apreendido imediatamente pelo sentimento psicológico. segundo Scheleiermacher. deveria desenvolver-se mais ou . como sentimento indeterminado da Unidade indeterminada. é certo que. mas em compensação adquire uma concretidade que antes não tinha. de fato. O Espírito Os três grandes momentos hegelianos no devir dialético da realidade são a idéia. anterior a estes. entre os quais Scheleiermacher institui uma equação? O Absoluto não é atingido pelo conhecimento. isto é. cujo complexo é obejto da Lógica. uma excluindo a outra. que é a consciência do Absoluto. a relação do finito com o infinito não pode ser senão dependência absoluta. e.a ciência e a moral . (empírico e metafísico). É. assim na atividade religiosa a teoria e a prática. poder-se distinguir em Scheleiermacher uma religiosidade em sentido amplo. passa da fase em si à fase fora de si. pela ciência. porquanto. Ao sentimento ele reconhece o valor particular de imediata autoconsciência e transforma-o metafisicamente. e sim pelo sentimento. a natureza é a exteriorização da idéia no espaço e no tempo. Parece. A idéia constitui o princípio inteligível da realidade. segundo o sólito esquema triádico (tese. valorizado metafisicamente. indiferença absoluta.

psicologia propriamente dita. O espírito subjetivo compreende três graus dialéticos: consciência. que é precisamente a idéia por si: a grande síntese dos opostos (idéia e natureza).verdadeiro-falso. Hegel traça uma classificação das religiões. põe dialeticamente acima do espírito objetivo o espírito absoluto. A história do mundo . ao contrário. assim concretizada. no seu complexo. imanente no primeiro. na sociedade civil. nasce a consciência do mundo. a idéia. pois. no fundo. No espírito objetivo. mas pode regular apenas a conduta externa dos homens). Na religião. naturalmente a sucessão e o predomínio dos vários estados na história da humanidade são necessários. toma consciência se si no espírito. . em uma plena adequação consigo mesmo. segundo o processo dialético. devido precisamente à sua maior universalidade e amplitude. ao predomínio de um estado se segue o predomínio de um outro. no momento estético. Na arte o espírito tem intuição. a individualidade empírica. religião. pelo contrário. Segundo a dialética hegeliana. religião (expressão do absoluto na representação mítica). Nessa classificação das religiões o cristianismo é colocado no vértice como religião absoluta. segundo a metafísica monista-imanentista de Hegel. não porque seja um instrumento mais perfeito para a realização dos fins materiais e espirituais da pessoa humana (a qual unicamente tem realidade metafísica). e aquele tem culpa unicamente porque é vencido. etc. porquanto igualmente necessários para a realização da idéia). graças à dialética dos opostos. isto é. em um objeto sensível.com todo o mal. absoluto (Deus). de realizar a plena consciência e liberdade do espírito.seria destarte o tribunal do mundo. mas em forma sentimental. surge e se afirma a fase do espírito objetivo. Com o espírito subjetivo. mítica. mas porque. lógica. plena do absoluto). volta para si. no seu isolamento. . a sociedade.216 menos. que se divide em antropologia. bem-mal. fenomenologia do espírito. ele vê. segundo Hegel. das formas ínfimas do mundo físico até às formas mais perfeitas da vida orgânica. as injustiças. denominada por Hegel espírito vivente. em sentido vasto. Finalmente. Este. a qual é estudada em seus desenvolvimentos pela Filosofia do Espírito. tendo a natureza esgotado a sua fecundidade. nas concretizações da sociedade. a moralidade (que subordina interiormente o espírito humano à lei do dever). se efetua a unidade do finito e do infinito. um valor ético superior ao valor particular e privado das sociedades precedentes. como acontece de fato no sistema hegeliano. que é um conjunto de interesses econômicos e se diferencia em classes e corporações. através de uma última hierarquia ternária de graus (arte. o belo é a idéia concretizada sensivelmente. O espírito desenvolve-se através dos momentos dialéticos de subjetivo (indivíduo). Hegel distingue ainda três graus dialéticos: o direito (que reconhece a personalidade em cada homem. em que. da sua essência absoluta. pela psicologia. a consciência que o espírito (humano) adquire da sua natureza divina. racionais e progressivos. a guerra. a eticidade ou moralidade social (que atribui uma finalidade concreta à ação moral. filosofia). os fins do espírito. os crimes de que está cheia . quando se faz coincidir o "ser" com o "deve ser". o infinito é visto como finito. pela Filosofia da natureza. e necessária. com esta última é atingida a consciência da unidade do eu e do não-eu. tem ele mesmo uma realidade metafísica. segundo o seu sólito método dialético. (O que se compreende. A sociedade do estado transcende a sociedade familiar bem como a sociedade civil. daí derivando uma concepção ético-humanista do estado. enquanto no ministério da encarnação do Verbo. deus terreno. por sua vez. razão encarnada. O estado transcende estas sociedades. e se determina hierarquicamente na família. da humanação de Deus. em que os valores . Portanto. que não passa de uma história das mesmas. no estado). Esta hierarquia dinâmica é estudada. em arte (expressão do absoluto na intuição estética). da sua natureza divina. Não estando. quer dizer. racional e progressiva é a luta. o espírito individual em condição de alcançar. a um povo eleito sucede um outro. objetivo (sociedade). grças à qual. Se bem que no sistema hegeliano a vida do espírito culmine efetivamente no estado. o espírito realizaria finalmente a consciência plena da sua infinidade. tem razão sobre o vencido unicamente porque é vencedor. é uma superior objetivação do espírito. este último se desenvolve. isto é. imaginativa.são nivelados. autoconsciência e razão. filosofia (expressão conceptual. O espírito subjetivo é estudado.

sensível. como interpretação. Dada essa objetividade da ciência e da história do pensamento positivista. substancialmente. produtora de bens materiais. ao sensismo (e ao naturalismo) dos séculos XVII e XVIII. da quantidade. Dessas premissas teoréticas decorrem necessariamente as concepções morais hedonistas e utilitárias. Diferencia-se. como resolvedora do problema do mundo e da vida.Acima da religião e do cristianismo está a filosofia. técnico. E delas dependem. a segunda metade do mesmo século. enfim. Na filosofia o espírito se torna inteiramente autotransparente. que se encontram na história da filosofia. o centro da vida humana está na atividade econômica. o absoluto do fenômeno. é a evolução necessária de uma indefectível energia naturalista. é natural se procure uma base filosófica positiva. também os sistemas políticoeconômico-sociais. isto é. materialista. também pelo país clássico de sua floração (a Inglaterra) e porquanto reduz. representariam os momentos necessários para o advento da filosofia absoluta. dizia Ardigò. produtora de bens materiais. Tenta-se aplicar os princípios e os métodos daquelas ciências à filosofia. que dominaram o mesmo século XIX. o conhecimento humano ao conhecimento sensível. 217 . desses sistemas por um elemento característico: o conceito de vir-a-ser. O Positivismo . o positivismo é ainda devido ao grande progresso das ciências naturais. florescidos igualmente no âmbito natural do positivismo. conquista a sua absoluta liberdade. para as ideologias econômico-sociais. a ciência e a história. o idealismo. do conflito material das forças econômicas. mas também o seu maior valor como descrição e análise objetiva da experiência . que ocupa. Gnosiologicamente. que tem o mesmo conteúdo da religião.a vontade popular se manifesta através do número. infinidade. Enfim. Daí a sua pobreza filosófica. a metafísica à ciência.enquanto não lesar a liberdade alheia sustenta também a livre concorrência econômica através da lida mecânica. como resulta das ciências naturais. Como as várias religiões representam um processo dialético para a religião absoluta. pura.Comte Características Gerais do Positivismo Ao idealismo da primeira metade do século XIX se segue o positivismo. Nenhuma metafísica. Na democracia moderna que é a concepção política. mais ou menos. O liberalismo. aplicado. mas em forma racional. em que a soberania é atribuída ao povo. que domina o mundo concebido positivisticamente. Além de ser uma reação contra o idealismo. defendendo. "O fato é divino". Para o socialismo. particularmente das biológicas e fisiológicas. à massa . com esta diferença. A filosofia é reduzida à metodologia e à sistematização das ciências. com as relativas conseqüências práticas. que alterava a experiência. lógica. o formalismo. considerada como lei fundamental dos fenômenos empíricos. de evolução. econômicos (materialismo histórico). como fonte única de conhecimento e critério de verdade. que seria o idealismo absoluto de Hegel. conceptual.com respeito ao idealismo. A lei única e suprema. e não por interesses espirituais. o espírito à natureza. os diversos sistemas filosóficos. assim. ao contrário. e a história da humanidade é acionada por interesses materiais. o positivismo admite. que florescem no seio do positivismo. mais ou menos. portanto. porém. utilitários. justificação transcendente ou imanente. a experiência. morais e religiosos. da experiência. o segundo. Sendo grandemente valorizada a atividade econômica. mais ou menos. autoconsciente. espalhado em todo o mundo civilizado. com a esperança de conseguir os mesmos fecundos resultados. A diferença fundamental entre idealismo e positivismo é a seguinte: o primeiro procura uma interpretação. o positivismo teve impulso. O positivismo representa uma reação contra o apriorismo. o positivismo fica no mesmo âmbito imanentista do idealismo e do pensamento moderno em geral. que sustenta a liberdade completa do indivíduo . como já fizera o empirismo. os fatos positivos. quer limitar-se à experiência imediata. os dados sensíveis. O positivismo do século XIX pode semelhar ao empirismo.através da história e da ciência . compreende-se porque elas são fecundas no campo prático. da enumeração material dos votos (sufrágio universal). graças ao desenvolvimento dos problemas econômico-sociais. uma unificação da experiência mediante a razão. Tal conceito representa um equivalente naturalista do historicismo romântico da primeira metade do século XIX. do século XIX. Entretanto. exigindo maior respeito para a experiência e os dados positivos. de todos os fatos humanos e naturais. naturalista.

desde 1826. ou não implica uma metafísica naturalista inconsciente e. por causas. de reconstrução filosófica. esposa abandonada de um cobrador de impostos (que fugira para a Bélgica após algumas irregularidades financeiras). Daí uma revisão e uma crítica da ciência por parte dos mesmos cientistas. sobrevivendo o mais perfeito. um Curso de filosofia positiva . pode-se distinguir duas fases principais: uma negativa. A obra de Comte guarda estreitas relações com os acontecimentos de sua vida. "Viver para o próximo". Na primavera de 1845. o cognoscível. a única realidade existente. nem mesmo a cátedra de história geral das ciências positivas no Collège de France. O último volume sobre o Futuro humano prevê uma reformulação total da obra sob o título de Síntese Subjetiva. nada de espírito e valores espirituais. uma eliminação do organismo mais imperfeito. não obterá o desejado cargo de professor da Politécnica. outra positiva. nosso filósofo de 47 anos declara a esta mulher de 30 seu amor fervoroso. É o "ano sem par" que termina com a morte de Clotilde a 6 de abril de 1846. a criação de uma ciência social e de uma política científica. discutível pelo menos tanto quanto a metafísica espiritualista? Nos fins do século passado e nos princípios deste século se determina uma crise interior da ciência mecaniscista. a ordem por base. Comte é nomeado em 1832 explicador de análise e de mecânica nessa mesma escola e. que é a experiência? E a ciência positivista é pura ciência. que será uma revisão e uma crítica do positivismo. Comte abre em sua casa. quer nos meios quer no fim. é a realidade física. Clotilde de Vaux. "O amor por princípio. Portanto. A publicação do Curso inicia-se em 1830 e se distribui em 6 volumes até 1842. de um progresso concebido naturalisticamente. mediante a luta pela existência. Retoma o ensino em 1829. Mas.(que lhe vale ser internado durante algum tempo no serviço de Esquirol). Entre 1851 e 1854 aparecem os enormes volumes do Sistema de política positiva ou Tratado de sociologia que intitui a religião da humanidade. Nessa crítica e vitória sobre o positivsmo. nada de metafísica e filosofia. o Sistema Industrial. ideal e ídolo do positivismo. para dar lugar a outras interpretações do mundo natural no âmbito das próprias ciências positivas. mas entrega-se corajosamente ao trabalho. de Saint-Simon: O Organizador. como no âmbito do idealismo se determinou uma crítica ao idealismo. e concebe. no âmbito do positivismo. Desde 1847 Comte proclamou-se grande sacerdote da Religião da Humanidade. um curso público e gratuito de astronomia elementar destinado aos "operários de Paris". Daí acreditar o positismo firmemente no progresso . É em outubro de 1844 que se situa o segundo encontro capital que vai marcar uma reviravolta na filosofia de Augusto Comte.218 entretanto. ele conhece H. que quisera criar em benefício próprio. o que se pode atingir cientificamente. Dois encontros capitais presidem as duas grandes etapas desta obra. que o idealismo concebia o vir-a-ser como desenvolvimento racional.rapidamente interrompido por uma depressão nervosa . Já de posse. o progresso por fim". Trata-se. Em 1817. de crítica à ciência e ao positivismo. funda numerosas igrejas positivistas (ainda existem algumas como exemplo no . Em 1844 publica o prefácio do curso sob o título: Discurso dobre o espírito positivo. Apesar de seus reiterados pedidos.° distrito. em relação com exigências mais ou menos metafísicas ou espiritualistas. determina-se uma seleção natural. das grandes linhas de seu sistema. Institui o "Calendário positivista" (cujos santos são os grandes pensadores da história). depois. teológico. curso este que ele levaria avante por sete anos consecutivos. Através de um conflito mecânico de seres e de forças. "Eu a considero como minha única e verdadeira esposa não apenas futura. involuntariamente. examinador de vestibular. No entanto. forja divisas "Ordem e Progresso". numa sala da prefeitura do 3. para o bem-estar material. Augusto Comte . ao passo que o positivismo o concebe como evolução. Trata-se da irmã de um de seus alunos. mas atual e eterna". Ver-se-á retirado desta última função em 1844 e de seu posto de explicador em 1851. Comte sente então sua razão vacilar. igualmente. a partir daí. porém. rua do Faubourg Montmartre.como nele já acreditava o idealismo. Clotilde oferece-lhe sua amizade. atinge a ciência fielmente a sua realidade.Vida e Obras Estudante da Politécnica aos 16 anos. em 1837. Desde 1831 Comte abrirá.

O espírito humano. que em 1851 abandona a sociedade positivista. A noção de causa (transposição abusiva de nossa expeirência interior do querer para a natureza) é por ele substituída pela noção de lei. Como Hegel ainda. Littré . os revolucionários de 1789 são "metafísicos" quando evocam os "direitos" do homem . por longo tempo atribuído à natureza. A criança dá explicações . b) O estado metafísico substitui os deuses por princípios abstratos como "o horror ao vazio". e