P. 1
bioethikos

bioethikos

|Views: 374|Likes:
Publicado porgopher7

More info:

Published by: gopher7 on Sep 09, 2010
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

01/30/2013

pdf

text

original

ISSN 1981-8254 - Publicação impressa

Centro Universitário São Camilo

Volume 1 Número 1 jan/jun 2007

BIOETHIKOS é uma publicação semestral de divulgação científica do Centro Universitário São Camilo voltada à veiculação de estudos e pesquisas na área Bioética. Tem entre suas finalidades possibilitar o exercício analítico e crítico de questões,sobretudo as emergentes que envolvem o ser humano na sua relação consigo mesmo, com o outro e com a realidade mais ampla. Sendo assim, apresenta-se como espaço plural e transdisciplinar no que concerne ao debate das questões ético-filosóficas do ser humano. MISSÃO: Disseminar o conhecimento científico da bioética por meio de estudos e pesquisas que contribuam para a expansão e consolidação desta área no país e na América Latina, ao mesmo tempo que estimular reflexão por parte dos especialistas e profissionais de diversas áreas do conhecimento que interagem fundamentalmente com a bioética.

EDITORES-CHEFE Leo Pessini William Saad Hossne ASSESSORIA EDITORIAL Leda Virgínia Alves Moreno ASSESSORIA TÉCNICA Marcus Vinícius Rios de Macedo – Gerente de Biblioteca Equipe de bibliotecários do Sistema Integrado de Bibliotecas Pe. Inocente Radrizzani TRADUÇÃO Adail Sobral ENVIO DE ARTIGOS Centro Universitário São Camilo • Setor de Publicações Avenida Nazaré, 1501 04263-200 • São Paulo • SP Tel: (0**11) 6169-4045 web: http://www.scamilo.edu.br e-mail: publica@scamilo.edu.br PRODUÇÃO EDITORIAL E ARTE Mantra Comunicação Tel: (0**11) 3159-4967 www.mantracomunicacao.com.br FOTOLITO E IMPRESSÃO EGB-Editora Gráfica Bernardi Tel: (0**11) 6422-6459 Rua Roberto Kriegel, 197 • Vila Itapegica • Guarulhos • SP CEP:07043-100 www.egb.com.br egb@egb.com.br Assinatura anual: R$ 45,00 Número avulso: R$ 25,00 Assinaturas e permutas Av. Nazaré, 1501 • São Paulo • SP • 04263-200 Informações: 0800-178585 PERIODICIDADE Semestral TIRAGEM 1.000 exemplares Os artigos publicados na Revista Bioethikos são de inteira responsabilidade dos autores. Proibida a reprodução, mesmo que parcial, sem a devida autorização do Editor. Proibida a utilização para fins comerciais de matéria publicada Copyright© Centro Universitário São Camilo. BIOETHIKOS Centro Universitário São Camilo. São Paulo, 2007. Semestral ISSN - 1981-8254

SOBRE A CAPA: A Bioética, a rigor, é mais que uma disciplina, constitui-se em "uma ciência", em "uma nova ética" já que sua prática e discurso situam-se na intersecção de vários campos do conhecimento: a) medicina, ciências biológicas, com suas múltiplas ramificações; b) ciências humanas (sociologia, psicologia, antropologia, entre outras; e c) filosofia, ética, direito, teologia. A complexidade da Bioética é, em certa medida, tríplice, uma vez que: a) é resultante do diálogo com e entre vários campos do conhecimento (visão inter e multidisciplinar); b) constitui-se em espaço de encontro até mesmo conflitivo das questões relacionadas a ideologias, moral, religiões, filosofia, entre outras; e c) representa lugar de embates tendo em vista a diversificação de interesses, de "poderes" institucionalizados, dos segmentos profissional, industrial, médico, associativo, entre outros. A partir desses pressupostos é que foi criada a identidade visual de Bioethikos. A representação gráfica da capa com círculos entreabertos sinaliza que por meio dos entrelaçamentos e movimentos das três instâncias acima mencionadas objetiva-se com a Bioética: a) compreender "conflitos"; b) estabelecer "interações humanas" abertas ao diálogo, buscar solucionar conflitos de interesses e de valores; e, por fim, c) compreender os exercícios multi, inter e transdisciplinar e da complexidade, presentes em sua dinamicidade.

ISSN 1981-8254 - Publicação impressa

Centro Universitário São Camilo

Volume 1 Número 1 jan/jun 2007

Sumário • Contents • Sumario
EDITORIAL Bioética: marco de uma nova época
Bioethics: the landmark of a new era La Bioética: el marco de una nueva era

Leo Pessini, William Saad Hossne........................................................................................................................................................................ 09

ARTIGOS ORIGINAIS/ RESEARCH REPORTS/ ARTÍCULOS As investigações científicas e a experimentação humana: aspectos bioéticos
Scientific research and human experimentation: bioethical aspects Investigación científica y experimentación humana: aspectos bioéticos

Newton Aquiles Von Zuben.................................................................................................................................................................................. 12

Ética e inovação tecnológica em medicina
Ethics and technological innovation in medicine Ética y innovación tecnológica em medicina

José Geraldo de Freitas Drumond .......................................................................................................................................................................... 24

A Formação em Cuidados Paliativos da equipe que atua em Unidade de Terapia Intensiva: um olhar da Bioética
The training in palliative care for the intensive care unit´s team: A bioethical perspective El entrenamiento en cuidados paliativos del equipo de la unidad de cuidados intensivos: Una perspectiva bioética

Karina Dias Guedes Machado, Leocir Pessini, William Saad Hossne............................................................................................................... 34

O cuidado espiritual ao paciente terminal no exercício da Enfermagem e a participação da Bioética
Spiritual care to the terminal patient in the practice of nursing and the participation of bioethics El cuidado espiritual al paciente terminal en el ejercicio de la enfermería y la participación de la bioética

Lucilda Selli, Joseane de Souza Alves.................................................................................................................................................................... 43

A clínica como instrumento de fortalecimento do sujeito: um debate ético-filosófico
Medical Clinic as a tool for strengthening subjects: an ethical-philosophical debate La clínica médica como herramienta para fortalecer el sujeto: una discusión ético-filosófica

Sabrina Helena Ferigato, Maria Luíza Gazabim Simões Ballarin..................................................................................................................... 53

Introdução às questões bioéticas suscitadas pela Nanotecnologia
Introduction to nanotechnology-provoked bioethical questions Introducción a las cuestiones bioéticas suscitadas por la nanotecnología

João Carlos Silva de Lêdo, William Saad Hossne, Margareth Zabeu Pedroso................................................................................................... 61

ARTIGOS DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLES/ DISCUSIONES CRÍTICA Bioética e profissionais de saúde: algumas reflexões
Bioethics and health professionals: Some reflections Bioética y profesionales de salud: Algunas reflexiones

Angela Cristina Pontes, Joelma Ana Espíndula, Elizabeth R. Martins do Valle............................................................................................ 68

.............................................................................................................................. Sueli Gandolfi Dallari.............................. Eliana Mara Braga..............ponte para a liberdade Bioethics ...............una puente para la liberdad William Saad Hossne..................................................................a bridge for freedom Bioética . 99 Bioética e espiritualidade Bioethics and spirituality Bioética y espiritualidad Júlio Cesar Massonetto.............124 ESTUDO DE CASO/ CASE STUDY/ ESTUDIO DE CASO Bioética ............................................................................................................................................e agora......... 76 Movendo-se entre o desejo e a prática da beneficência Moving from the desire to the practice of beneficence Marcha desde el deseo a la práctica del la beneficencia Heloisa Wey Berti........................................... 140 ................................. Ana Paula Pacheco Clemente............................................................................... Renata Santinelli e Débora Pedrolo.................................. Silvia Cristina M...........................................................Ensino da Bioética nas Faculdades de Medicina do Brasil Bioethics teaching in Brazil´s medical schools Ensenãnza de la bioética en las escuelas médicas de Brasil Homero Januário Caramico............ o que fazer? Bioethics: what are we to do now? Bioética: ¿ que hacer ahora? William Saad Hossne (coordenador) Colaboradores: Gláucia Rita Tittanegro...........91 Bioética ........ Margaréte May B...............Vera Lucia Zaher....................... 105 COMUNICAÇÕES/ COMMUNICATIONS/ NOTICIAS Que finalidade unifica a bioética? What Purpose Unifies Bioethics? ¿Qué Propósito Unifica la Bioética? Hubert Lepargneur............................................................................... Wilza Carla Spiri................................................................................................................ Rosito..... Mauro Angelo Reppetto................................................................................. Bocchi...................................................................... Ilda de Godoy.......138 ORIENTAÇÕES AOS COLABORADORES Instructions for contributors.................................................................. 132 NOTÍCIAS DO PROGRAMA DE MESTRADO EM BIOÉTICA A note about the master graduate program in bioethics Informacíon acerca del programa de maestría en bioética Dissertações defendidas: Programa de Mestrado stricto sensu em Bioética do Centro Universitário São Camilo................ 118 Avaliação do conhecimento dos alunos de graduação em enfermagem sobre temas emergentes em Bioética Evaluation of nursing undergraduate students about emergent subjects in bioethics Evaluación del conocimiento de estudiantes de pregrado en enfermera sobre temas emergentes en la bioética Pollyana Lira..................................................................................................113 Cooperar para o bem comum: Responsabilidade social da enfermaria Cooperate for the common good: social responsibility of nursing? Cooperar para el bien común: ¿responsabilidad social de la enfermería? Elma Lourdes Campos Pavone Zoboli....................................................

área Bioética Clínica. James Drane. Pós-doutor em Bioética pela Universidade do Chile. Daniel Romero Muñoz. pesquisadora do laboratório de investigação clínica da unidade de hipertensão do Instituto do Coração. presidente da Sociedade Brasileira de Bioética. consultor de Bioética do INCA. psicóloga e pedagoga. Eliane Elisa de Sousae Azevedo. Filósofo pela Universidade de São Paulo. membro da academia brasileira de ciências. presidente da Associação de Cuidados Paliativos de Ontário (Ontario Palliative Care Association) da Sociedade Canadense de Médicos Especialistas em Cuidados Paliatiavos . Pós-doutor em Bioética pela Universidade do Chile. São Paulo. Membro do Comitê Internacional de Bioética da UNESCO. professor titular do departamento de filosofia da Universidade de São Paulo. São Paulo. Hugh Lacely. Grazia Maria Guerra. Luke's Medical Center. UNESCO. José Eduardo de Siqueira. Enfermeiro. professora do departamento de saúde coletiva da Universidade de São Paulo. EUA. professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Vaticano. assessor do programa de bioética da Organização Pan-americana de Saúde. Superintendente da União Social Camiliana. Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo. Graduado em Letras. UNESP Botucatu. Jurista. Filósofa. professor no programa de mestrado em bioética no Centro Universitário São Camilo-SP.Canadian Society of Palliative Care Physicians. Cláudio Cohen. Professor emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista. Carol Taylor. EUA. Gabriel Wolf Oselka. Doutor em Medicina (Clínica Médica) pela Universidade Estadual de Londrina. professora do programa de mestrado em bioética Centro Universitário São Camilo. Joaquim Clotet. diretor do programa de bioética da Organização Pan-americana de Saúde e do centro interdisciplinar de estudos em bioética da Universidade do Chile. professor do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. Médico psiquiatra pela Universidade do Chile. Doutora em filosofia pela Universidade Gragoriana. Médico pela Universidade de São Paulo. Enfermeira. Fermin Roland Schramm. Enfermeira. assessor do conselho representativo de medicina de Santa Catarina. professor do programa de mestrado em bioética. membro da rede Latino-ame-ricana de Bioética. Livre Docente pela Universidade de São Paulo. Washington. professor associado da Universidade Estadual de Londrina. Gláucia Rita Tittanegro. EUA. Professora de bioética e genética da Universidade de Feira de Santana. ex-reitora da Universidade Federal da Bahia. Diretor do Centro de Bioética Russel Roth da Edinboro University. professor de direito internacional da Universidade de São Paulo. próreitoria acadêmica e professora do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. Professor do Departamento de Família e Medicina Comunitária. Christian de Paul de Barchifontaine. José Gregori. Dalmo de Abreu Dallari. Programa de cuidados paliativos do Canadá. professor da Universidade de São Paulo. Doutor em Ciência Política. Cirurgião dentista pela Universidade de São Paulo. Livre docente pela Universidade de São Paulo. Pensilvânia. Docente do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. Bruno Adolfo Schletmper Junior. Roma. professor da cadeira W. Doutora me Enfermagem pela Universidade de São Paulo. pesquisador titular de ética aplicada e bioética da Escola Nacional de Saúde Pública/FIOCRUZ. Médico cardiologista pela Universidade Católica de São Paulo. Santiago. Professor doutor do departamento de odontologia social da faculdade de odontologia. pesquisador sobre a gestão da dor em pacientes de câncer e educação. professora assistente de Enfermagem da Georgetown University.Conselho Editorial • Editorial Board Leo Pessini (editor-chefe). Doutor pela Universidade de São Paulo. Pesquisador do Swartmore College. Professor titular na Faculdade de Medicina da Universidade do Chile. . São Paulo. Doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Geógrafo e historiador. Doutor em Teologia Moral/Bioética. William Saad Hossne (editor-chefe). Doutor em Ciências/Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública/FIOCRUZ. Milwaukee. Ana Cristina de Sá. Presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais-FADEMIG e da Sociedade Ibero-americana de Direito Médico-SIDEME. membro da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. José Geraldo de Freitas Drumond. coordenadora do curso de filosofia do Centro Universitário São Camilo. Professor aposentado da Universidade de São Paulo. Médico. PR. Aziz Ab' Saber. São Paulo. Centro Universitário São Camilo. Centro Universitário São Camilo. Diretora do Center for Clinical Bioethics. Doutor em Filosofia e Letras pela Universidade de Barcelona. Centro Universitário São Camilo. Dalton Luiz de Paula Ramos. Lawrence Librach. professor do programa de mestrado em bioética. Ex-Ministro da Justiça. Professor de parasitologia na Universidade Federal de Santa Catarina. Darley Dalliagnol. Médico. Coordenador do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. Pósgraduado em Clinical Pastoral Education and Bioethics pelo St. professor do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. membro da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. Graduado em Direito. professor do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. professor do programa de mestrado em bioética. São Paulo. Doutora em saúde pública pela Universidade de São Paulo. Professor da faculdade de filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina. membro da Diretoria da Associação Internacional de Bioética. EUA. membro da Associação Internacional de Bioética. São Paulo. Doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo. Fernando Lolas Stepke. Doutor pela Universidade de São Paulo. DC. Enfermeira. membro da Pontifícia academia da vida. Médico. pesquisador do núcleo de bioética e membro do Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário São Camilo. vice-presidente da Sociedade Brasileira de Bioética. Gifford-Jones de Controle da dor e Cuidados Paliativos da University of Toronto. Franklin Leopoldo e Silva. Mestre em Administração Hospitalar e da Saúde. Itália. coordenadora do curso de especialização de enfermagem em UTI do Centro Universitário São Camilo. ex-reitor da Universidade Federal de Santa Catarina. Diretor do The Temmy Latner Centre for Palliative Care do Mount Sinai Hospital. Secretário de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo. Enfermeira. presidente da Sociedade Brasileira de Educação Continuada em Enfermagem. Celso Lafer. Elma Lourdes Campos Zoboli. professor de Semiótica pela Universidade de Genebra. São Paulo. Luciane Lucio Pereira.

diretor de unidade da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo FAPESP . membro da coordenação de aperfeiçoamento de pessoal de nível superior-CAPES. Doutor em Medicina pela Universidade Federal São Paulo. Volnei Garrafa. professor do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. membro da Câmara técnica de bioética do Conselho regional de medicina do estado de São Paulo. diretor de avaliação da coordenação de aperfeiçoamento de pessoal de nível superior. coordenador da Cátedra UNESCO de Bioética da Universidade de Brasília. CNPq e Capes. membro do comitê de bioética da UERJ. Professor adjunto da Universidade Federal de Santa Catarina. coordenadora adjunta do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. Doutor em teologia. professor do Centro de ciências sociais. Farmacêutico pela Universidade de São Paulo. departamento de Medicina preventiva e social da Universidade Estadual de Campinas. psicóloga. Renato Janine Ribeiro. Professora titular da Faculdade de Saúde Pública em Direito Sanitário da Universidade de São Paulo. Médica. professor do Centro de ciências exatas e tecnologia. Pós-doutor pela Universidade Católica de Louvain. Universidade Católica Portuguesa. Porto. Médico. São Paulo. Doutor em Filosofia pela Universitat München Ludwig Maximilian. coordenadora do curso de terapia ocupacional e professora do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. São Paulo. membro de comissão do Ministério da Ciência e Tecnologia. Olinto Antonio Pegoraro. da Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual de Campinas. Marcelo Perine. membro do Conselho Regional de Biologia. Doutora em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo. pesquisador do Instituto Ludwig sobre o câncer. professor titular da Universidade de São Paulo. Oswaldo Baptista Duarte Filho. da Universidade Federal de São Carlos. São Carlos. Keetering Câncer Center. São Paulo. Universidade Federal de São Paulo. São Paulo. Walter Oswald. Professor da Academia de teologia moral da Pontifícia Universidade Lateranense de Roma. Reinaldo Ayer de Oliveira. Margareth Rose Priel. Sonia Vieira. Livre-docente pela Universidade de São Paulo. professor titular em Farmacologia da UNICAMP. Nelson Rodrigues dos Santos. Vera Lúcia Zaher. departamento de filosofia da Universidade Federal do Ceará. Primeiro vice-presidente do Conselho Federal de Medicina. professora do programa de mestrado em bioética e diretora de pesquisa e pós-graduação do Centro Universitário São Camilo. professor titular do programa de pós-graduação em Ciências da Saúde da Universidade de Brasília. Universidade de São Paulo. São Paulo. . Médico. SP . Bélgica. SP . Marcos de Almeida. Doutora em Saúde pública pela Universidade de São Paulo. São Paulo. Alemanha. professor titular da Universidade de São Paulo. New York. Professor da Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. professor aposentado do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. Ministério da Saúde. Enfermeira. Médico. membro da comissão nacional de ética em pesquisa do Ministério da Saúde. professora titular . Paulo Antonio de Carvalho Fortes. São Paulo. Livre docente pela Universidade de São Paulo. EUA. Médico. consultor da Fapesp. Doutora em Neurociências. Médico. Doutora em psicologia experimental pela Universidade de São Paulo. coordenadora do comitê de ética em pesquisa e professora do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. Doutora pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Doutor em Engenharia química pela Universidade de São Paulo. Livre-docente pela Universidade Estadual de Campinas. professora do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. Marco Segre. Filósofo. Doutor em Ciências pela UNESP. Biomédica. supervisora do Projeto Tutores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. membro da Sociedade de Bioética. São Paulo e da Sociedade Brasileira de Bioética. deontologia e bioética na Universidade Federal São Paulo. ex-presidente da Associação Mundial de Médicos Católicos. Livre Docente em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública. professor da faculdade de ciências médicas. Professor associado da Faculdade de Saúde Pública. Médica. Filósofo.professora do Instituto Sedes Sapientiae. Centro Universitário São Camilo. Fonoaudióloga. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo. Marlene Boccatto. médica do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Ricardo Renzo Brentani. professor do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. professora titular do Centro de Pesquisas Odontológicas São Leopoldo Mandic. Pós-doutor em Bioética pela Universidade de Roma. Maria de Jesus Gonçalves. São Paulo. Médico PhD. Médico pediatra sa-nitarista. Roberto Luiz D'Avila. Terapeuta ocupacional e pedagoga. coordenadora do curso de fonoaudiologia e professora do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. professor da Universidade de São Paulo. UnB. Doutor em Filosofia. presidente da Fundação Antônio Prudente. Filósofo.Conselho Editorial • Editorial Board Manfredo Araújo de Oliveira. professor titular do Centro de humanidades. professora do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. Doutor em Patologia pela UNESP. Professor titular do departamento de medicina legal. Livre-docente pela Universidade de São Paulo.Chefe do departamento de psiquiatria de ciências comportamentais do Memorial Sloan. Brasil. conse-lheiro e coordenador da Câmara Técnica de Bioética do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo. Paulo Emílio Vanzolini.UNICAMP Pós-doutora pela Yale University. Doutora em Microbiologia pela Universidade Federal de São Paulo. ética médica e medicina social e do trabalho. professor de medicina legal. professor do programa de mestrado em bioética. Pós-doutora pela Universidade Federal de São Paulo. William Breitbart. Doutor em Farmacologia pela UNICAMP. Pedro Luiz Rosalen. Sueli Gandolfi Dallari. Maria Julia Paes da Silva. Márcio Fabri dos Anjos. Margareth Zabeu Pedroso. Maria Auxiliadora Cursino Ferrari. Cirurgião dentista. SP. Ex-diretor do Instituto de bioética. Instituto de filosofia e ciências humanas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo. Livre docente do Departamento de Enfermagem Médico-cirúrgica da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. secretário executivo nacional do Conselho Nacional de Saúde. Mestre em neurociências e comportamento.

Bioethikos tem por missão disseminar o conhecimento científico da bioética por meio de estudos e pesquisas que contribuam para a expansão e consolidação desta área do conhecimento humano.1(1):9-11 Bioética: marco de uma nova época Frente ao espetacular desenvolvimento da tecnociência e da comunicação. ** Médico e pesquisador. muitos pensadores contemporâneos afirmam que vivemos de fato. especialmente no âmbito das ciências da vida e da saúde que interagem com a bioética.CONEP. Membro da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa . que envolvem o ser humano na sua relação consigo mesmo. com expressividade nacional e internacional. Tudo o que se refere ao âmbito do "bios" (vida) tem hoje uma instigante novidade. mais do que em uma época de mudanças. com o outro e a realidade mais ampla. Além disso. Faltam no Brasil veículos de publicação que captem esta vitalidade criativa dos pesquisadores na área. Objetiva. com identidade e características próprias. 9 . Pós-graduado em Clinical Pastoral Education and Bioethics. "biologia molecular". quer estimular a reflexão por parte dos especialistas e profissionais das diversas áreas do conhecimento humano. numa mudança de época. surge a "bioética" como marco crítico de reflexão de valores humanos diante do que trouxe a revolução bio-técnico-científica. priorizando as emergentes. Superintendente da União Social Camiliana. também. UNESP. Dessa forma. Coordenador do Programa de Mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo. Membro do Comitê Internacional de Bioética da UNESCO. Em meio a esta explosão de questões ligadas à vida.Centro Universitário São Camilo deixa de existir e Bioethikos se apresenta como o mais novo veículo de publicação científica desta instituição universitária. podemos falar de "biogenética" ("recriação da vida"). Docente do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. campus Botucatu. Eis o motivo incisivo e fundamental que justifica o nascimento de Bioethikos. apresentar-se como espaço plural e transdisciplinar no que concerne ao debate das questões ético-filosóficas do ser humano. Bioethikos conta com um corpo editorial de primeiríssima grandeza. Professor emérito da Universidade Estadual Paulista. "bioterrorismo" ("armas biológicas destruindo a vida"). voltado à veiculação de estudos.2007. Assim. de "biotecnologia" (como motriz da "economia do século XXI). St Luke's Medical Center. Bioethikos é o mais novo periódico científico do Centro Universitário São Camilo. faculdade de medicina. Nesta perspectiva. entre outras. Concebida inicialmente para ser uma publicação semestral.Centro Universitário São Camilo . afinadas com os valores camilianos. Este periódico surge num momento de grande efervescência de reflexão na esfera da ainda jovem bioética brasileira. Tem entre suas finalidades possibilitar o exercício analítico e crítico de questões. a revista Cadernos . A partir deste momento. uma vez que o que está em jogo é a nossa vida e o futuro da vida no planeta. comunicações e pesquisas na área da bioética. Certas palavras-chave conseguem captar o espírito de uma época. Leo Pessini* William Saad Hossne** Editores-chefe * Doutor em Teologia/Bioética. Isto exige e provoca reflexão e posicionamento ético. no País e na América Latina.EDITORIAL . Bioethikos constitui-se em uma possibilidade real de participação de inúmeros profissionais da área e ampliação do debate ético.

Moreover. It purposes to make possible the analytical and critical exam of questions. Besides.Centro Universitário São Camilo . among others..UNESCO.1(1):9-11 Bioethics: the landmark of a new era Given the spectacular development technoscience and communication have been passing by. Thus. fundamental reason that justifies the birth of Bioethikos. He has done studies in Clinical Pastoral Education and Bioethics at St Luke's Medical Center. Emeritus professor of State University of São Paulo. with its own identity and characteristics.EDITORIAL . but in fact in a change of era. ** Physician and researcher. of "biotechnology" (as the moving force behind "the twenty-first century) economy. Cadernos Journal . communications and research in the area of the BIOETHICS. UNESP. many contemporary thinkers state that we live not properly at an era of changes. "Bioethics" appears as a critical landmark for reflection on human values before things brought by the biotechnical-scientific revolution.2007. with the others and reality as a whole.D. In the context of this explosion of questions linked to life. 10 . Here lies the incisive. Superintendent of União Social Camiliana. Coordinator of the Master course in Bioethics of University Center São Camilo. especially in the domain of life sciences and health that interact with Bioethics. Botucatu campus. Bioethikos has a highly qualified Editorial Board. Certain keywords are able to capture the spirit of an era. Member of the National Commission of Ethics in Research . Professor of the Master course in Bioethics of São Camilo University Center. Theology/Bioethics. this Journal comes to life at a moment when reflection in the domain of the young Brazilian Bioethics is flourishing like never before. There is in Brazil a lack of publications that capture this creative vitality of the researchers in the area. we can speak of "biogenetics" ("recreation of life"). From now on. besides making ethical debate broader yet.CONEP. Bioethikos has as its mission of disseminating scientific knowledge in the bioethical field by means of studies and research that contribute to the expansion and consolidation of this area of human knowledge."molecular biology". Bioethikos creates a real possibility for the participation of innumerable professionals of the area.Centro Universitário São Camilo ceases to be published and Bioethikos presents itself as the new scientific publication of this university institution. Member of the International Committee of Bioethics . with national and international recognition. Everything related to the domain of "bios" (life) has today an instigating freshness. Thus. mainly the emergent ones. Bioethikos is a new scientific journal from São Camilo University Center thatr aims at the propagation of studies. Conceived from the beginning to be a semestral publication. perfectly compatible with Camillian values. This demands and encourages reflections and the adoption of an ethical attitude. both in Brazil and Latin America. Medical School. it wants to encourage reflection by specialists and professionals of the different areas of human knowledge. that involve human beings in their relation with themselves. From this perspective. since what is in play is our life and the future of life in the planet. It also aims at presenting itself as a pluralistic and transdisciplinary space as concerns the debate of ethical-philosophical questions related to human beings." of bioterrorism "("life-destroying biological weapons"). Leo Pessini* William Saad Hossne** Editors-in-chief * Ph.

Centro Universitario São Camilo deja de ser publicado y Bioethikos se presenta como la nueva publicación científica de esta institución universitaria. En el contexto de esta explosión de cuestiones ligadas a la vida. pero de hecho en un cambio de era. entre otras. Además. También tiene como objetivo el presentarse como espacio pluralista y trasdisciplinario para la discusión de las cuestiones ético-filosóficas relacionadas con los seres humanos. Hay en el Brasil una carencia de publicaciones que capturen esa vitalidad creativa de los investigadores en el área. Profesor honorario de la Universidad Estadual de São Paulo. se puede hablar de "biogenética" ("reconstrucción de la vida").Centro Universitário São Camilo . la "Bioética" aparece como marco crítico para la reflexión acerca de valores humanos antes de las cosas que trae revolución bio-técnico-científica. Coordinador del curso de Maestría en Bioética del Centro Universitario São Camilo. Bioethikos tiene un Comité Editorial altamente cualificado. que acercan los seres humanos en su relación con sí mismos. Escuela de Medicina. desea animar la reflexión de los especialistas y de los profesionales de las diversas áreas del conocimiento humano.CONEP.EDITORIAL . comunicaciones y investigaciones en el área de la Bioética. con los otros y realidad en su totalidad. Así. dirigido a la propagación de estudios. el periódico Cadernos . especialmente en el dominio de las ciencias de la vida y de la salud que obran junto a la Bioética. este periódico viene a la vida en un momento en el que la reflexión en el dominio del la joven Bioética brasileña está prosperando como nunca antes.2007. Bioethikos tiene la misión de diseminar el conocimiento científico en el campo bioético de promedio estudios y investigaciones que contribuyan a la extensión y a la consolidación de esta área del conocimiento humano. Bioethikos es un periódico científico nuevo del Centro Universitario São Camilo. de "biología molecular ". Ha hecho estudios en Educación Pastoral Clínica y Bioética en el Centro Médico St Luke's Medical Center. Superintendente de União Social Camiliana. Leo Pessini* William Saad Hossne** Editores-jefes * Doctor en Teología/Bioética. Profesor del curso de Maestría en Bioética del Centro Universitario São Camilo. Concebida desde el principio como una publicación semestral. con miembros reconocidos nacional e internacionalmente. púes lo que está en juego es nuestra vida y el futuro de la vida en el planeta. Miembro de la Comisión Nacional de Ética de la Investigación . Su propósito es hacer posible el examen analítico y crítico de las cuestiones. Por otra parte. en el Brasil y la América latina. de "biotecnología" (como la fuerza motriz detrás "de la economía del siglo veintiuno").UNESCO. ** Médico e investigador. además de hacer la discusión ético más amplio todavía. del bioterrorismo" ("armas destruidoras de la vida"). 11 . Es esa la razón incisiva y fundamental que justifica el nacimiento de Bioethikos. Miembro del Comité Internacional de Bioética . muchos pensadores contemporáneos dicen que vivimos no propiamente en una era de cambios. Eso exige y anima reflexiones y la adopción de una actitud ética. Todo lo que se relaciona con el dominio de la "bios" (la vida) trae hoy una estimulante novedad. Hay palabras-llave capaces de capturar el espíritu de una era. Bioethikos crea una posibilidad verdadera de participación de los profesionales innumerables del área. UNESP. Desde ahora. principalmente emergentes. De esta perspectiva. Así.1(1):9-11 La Bioética: el marco de una nueva era Frente al espectacular desarrollo de la tecnociencia y la comunicación. perfectamente compatibles con los valores camilianos. con identidad y características propias. Botucatu.

y el Informe de Belmont. de modo sucinto. In its own development it creates its norms. Experimentación humana. no entanto. no reconociendo una norma necesaria a priori. ao mesmo tempo. its methods and criteria for an self-critique. O presente trabalho visa analisar. essa questão no cenário de documentos oficiais na área de Bioética como: O Código de Nuremberg. not recognizing an a priori necessary norm. Bioética. Membro Titular do Comitê de Ética em Pesquisa. but mainly the genesis of the procedures. ¿Mirando investigaciones que tienen seres humanos como sujetos. No desenvolvimento próprio cria suas normas. La investigación tiene como objetivo al mismo tiempo la construcción del conocimiento y la verificación constante de una metodología y la instauración de una norma.Centro Universitário São Camilo . Regarding researches that have human beings as subjects. Un análisis epistemológico intenta no solamente comprender la ciencia establecida y sus métodos. qual deve ser a posição a ser tomada? Sob que condições é plausível defender-se a direito e a liberdade de investigação respeitando-se a dignidade da pessoa humana? A Bioética tem entre outros objetivos o de analisar e avaliar as investigações com seres humanos nas áreas biomédicas. An epistemological analysis tries to only to understand established science and its methods. Its focus is "human experimentation". * Doutor e Mestre em Filosofia pela Universite Catholique de Louzain. The present work aims to briefly analyze this question in official bioethical documents: The Nuremberg Code.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . la Declaración de Helsinki-Edimburgo (2000) de la Asociación Médica Mundial (AMM). o Relatório Belmont. hace esfuerzos de no ceder oposición que es carácter arbitrario.br 12 . seja com objetivo terapêutico. sobretudo a gênese dos procedimentos. sus métodos y los criterios para una autocrítica. Uma análise epistemológica tenta compreender não meramente a ciência constituída e seus métodos. the Universal Declaration on the Human Genome and the Rights of Man by UNESCO (1997). esforça-se por não cair na cilada oposta da arbitrariedade.com. Bioethics. Bioética. intuitions. la Declaración Universal sobre el Genoma Humano y los Derechos del Hombre de la UNESCO (1997). PALABRAS LLAVE: Investigación Biotecnológica. suas condições de possibilidade. intuiciones. Experimentação humana. A Declaração de Helsinki-Edimburg (2000) da Associação Média Mundial (AMM). não reconhece uma norma precisa a priori. their conditions of possibility. pero principalmente la génesis de los procedimientos. tanto para adquirir nuevo conocimiento o con metas terapéuticas.2007. mas. seja com objetivo de adquirir novos conhecimentos. Su foco es la "experimentación humana". a apuração constante de uma metodologia e a instauração de uma norma. RESUMEN: La investigación científica es una actividad incoativa. Quanto às investigações que tomam por objeto o ser humano. ella crea sus normas. as intuições.1(1):12-23 As investigações científicas e a experimentação humana: aspectos bioéticos Scientific research and human experimentation: bioethical aspects Investigación científica y experimentación humana: aspectos bioéticos Newton Aquiles von Zuben* RESUMO: A pesquisa científica é uma atividade incoativa. Research aims at the same time both at the construction of knowledge and the constant verification of a methodology and the instauration of a norm. it makes efforts not to fall in the opposing ambush which is arbitrariness. a pesquisa envolvendo seres humanos. the Declaration of Helsinki-Edimburg (2000) of the World Medical Association (WMA). As pesquisas visam. que posición se debe tomar? ¿Bajo qué condiciones es razonable defender el derecho y la libertad de investigación respetando la dignidad humana? La bioética tiene entre otros objetivos analizar y evaluar la investigación con seres humanos en las áreas biomédicas. investigaciones con seres humanos. however. Email: nzuben@terra. and the Belmont Report. Professor Titular da Pontifícia Universidade Católica de Campinas . A Declaração Universal sobre o Genoma Humano e os Direitos do Homem da Unesco (1997). KEYWORDS: Biotechnological research. research involving human beings.PUC-Campinas. seus métodos e critérios de autocrítica. ABSTRACT: Scientific research is an inchoative activity. Human experimentation. sus condiciones de posibilidad. a construção de um saber. Este trabajo intenta analizar brevemente esta cuestión en documentos bioéticos oficiales: El Código de Nuremberg. En su propio desarrollo. Está em foco a "experimentação humana". Bélgica. both to acquire new knowledge or with therapeutic ends. sin embargo. which position must be taken? Under what conditions is it reasonable to defend the right and the freedom of research respecting human dignity? Bioethics has among other objectives to analyze and evaluate research with human beings in the biomedical areas. PALAVRAS-CHAVE: Pesquisa biotecnológica.

o homem em último lugar. a discussão sobre os limites e potencialidades das investigações científicas envolvendo seres humanos. mais uma vez. não só no plano científico. como um espaço paradigmático multidisciplinar. das ciências. mas real. Essa idéia de François Jacob. em todas as partes do mundo. AS INVESTIGAÇÕES CIENTÍFICAS Para ilustrar esse estado de coisas. a alocação de recursos diante do crescente fosso entre países desenvolvidos e os excluídos da humanidade. surgiu novo campo problemático. retomo a observação sibilina de Henri Atlan(5) eminente biólogo francês. entretanto revelando peculiar característica. duas importantes frentes deveriam ser preservadas: o reconhecimento do direito de pesquisa livre e responsável e. e Tchernobil. A tribo "homo sapiens sapiens" conheceria desde o último século a nova versão do antigo e sinistro destino ao transcender outros e mais misteriosos limites: convi-ver tanto com as inovações na engenharia genética e com a farmacologia que lhe renderiam eventualmente benefícios e riscos. do presente recebido de Prometeu. inaugurando uma era de inovações inauditas e. do caráter essencial da imprevisibilidade nas investigações científicas dignas desse nome. a nova genética e as conseqüências para o ser humano. A confiança sem limites. Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina. Pretende-se resolutamente assegurar o direito de se realizar pesquisas. a terapia gênica. Nagazaki. à época do surgimento desse fenômeno cultural na década de 1970. E a Bioética. provavelmente. deve se articular com tenacidade à salvaguarda do respeito da pessoa humana contra as formas invasivas da curiosidade científica na expressão de Anne Fagot(2). O ponto axial dessa relação dialética tem sido o conceito da "responsabilidade da ciência"(4). a crescente dependência da civilização ao domínio das tecnociências? A racionalidade científica está no epicentro de um intenso debate e de processos de crítica severa. Em sua conclusão nos alerta: o grande perigo para a humanidade não é desenvolver o conhecimento. o respeito da pessoa humana e seus direitos. As reflexões bioéticas têm como intenção a busca de articulações entre o saber científico e os valores humanos. ambos voltados para a instituição de uma sociedade justa. insistentemente. Acentuou-se. a profundidade de nossa ignorância da natureza. cristalizada numa atitude de recusa. ano de 1965.Centro Universitário São Camilo . justificado ou não. de sua importância. A com- 13 . para uma crescente fragilização da crença nesses poderes.2007. inscrita em sua obra " Entre o cristal e a fumaça". Daí o avanço considerável que conhecemos hoje no campo da Bioética cuja emergência se deu justamente em um cenário de mal-estar causado por investigações científicas na área das ciências biomédicas e de suas aplicações clínicas e terapêuticas. dos diversos patamares da investigação. de como nessa sabemos o que procuramos enquanto que naquela ignoramos completamente. As ciências. a preocupação com a dimensão ética das pesquisas científicas que estabelecem. estratégias experimentais envolvendo seres humanos. conclui sua interessante e agradavelmente provocadora obra O rato. de seus limites e desafios. Tudo isso girando em torno das investigações científicas.1(1):12-23 INTRODUÇÃO A principal descoberta deste século de pesquisa e de ciência é. com questões como: que dilemas estão presentes nas investigações científicas. Desenvolvo essas considerações no meu trabalho publicado recentemente(3). quanto o assombroso evento de Hiroshima. com impressionante rapidez. as manipulações do comportamento. Apresentam-se. Emblematicamente coloca no título da obra. Nesse cenário particularmente crisogênico. a mosca e o homem(1). no horizonte humano. Indiscutivelmente o "homo sapiens" fazia jus. rupturas e desconforto. Inúmeras obras são dedicadas aos "valores e limites da ciência". mas no campo moral e axiológico. no mesmo patamar de valoração. movida por um otimismo sem freios nos poderes e nas potencialidades das ciências cede o lugar. enfrenta-se com diversas questões relacionadas com as pesquisas tecnocientíficas tais como: a procriática e a tanatologia. para atingir seu objetivo. Toma corpo. as tecnociências em suma. da distinção e correlação entre pesquisa básica e pesquisa aplicada. no entanto. Nessa obra o eminente cientista trata da pesquisa.As investigações científicas e a experimentação humana: aspectos bioéticos . tal pretensão. É a ignorância. de medo. a ambivalência. hoje? Que relações as mais adequadas instituir entre ciência e a sociedade? Como entender e avaliar. Assim. o saber e a prática científicos realmente nos fazem pensar. O contexto no qual se inserem as reflexões de Jacob é o das ciências biológicas e a genética.

a regulamentação social das inovações tecnocientíficas. observar as preocupações com o "fazer-ciência" articulado com o pensar sobre esse fazer ciência.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . a situação colocada pelas inovações inauditas das tecnociências da área biomédica. E nesse cenário. Nesse cenário é igualmente relevante. às vezes beiramos os dois abismos da facilidade e do repouso que são a ciência universitária. na verdade. Nesse quadro geral. o impacto das aplicações dessas investigações na vida social. a bioética. fadada a se romper neste fim de século. douta. entre outros pontos. e os delírios-delícias da contracultura. que é ao mesmo tempo fim de milênio e de civilização! É verdade que. Assim. talvez. mais em busca de profecia que de teoria. no âmbito de debates democráticos. penso eu. Aí intervém igualmente o interesse que preside o enfoque escolhido: seja o da produção da ciência. Na realidade. para outros.Centro Universitário São Camilo .cristal e fumaça -. no "intervalo" entre o cristal e a fumaça.2007. enquanto que. mas o processo da construção. alicerçada por estímulos críticos da filosofia e das ciências humanas. sujeito das experimentações e dos cuidados terapêuticos e clínicos. Nesse horizonte situam-se. nota esse cientista. principalmente. só hão de parecer supérfluos àqueles que tiverem definitivamente escolhidos uma das bordas”(5). tornamse difíceis de se fixar. qualquer organização celular é dinâmica e de estrutura lábil como a chama de uma vela produzindo o tênue fio de fumaça. com o perigo que tal pretendida hegemonia representa para a liber- 14 . aprofundar. a dinâmica dos procedimentos e a própria gênese da atividade científica estão no centro das atenções das reflexões epistemológicas da atualidade. De início. com os limites e condições de reflexão crítica sobre as ciências em geral e sobre as tecnociências de modo especial. Daí surgem novas questões sobre a auto-regulamentação ou a hetero-regulamentação das atividades de investigação nas biociências. Esses debates. nota-se uma crise de consciência por parte dos próprios cientistas e pensadores no que diz respeito ao fundamento epistemológico de suas atividades. no caso de experimentação humana. discutir e oferecer pareceres sobre questões cruciais no campo das ciências biomédicas tanto no plano da pesquisas como no plano prático ou terapêutico. seja a divulgação de sua dinâmica assim como dos seus produtos (os constructos das tecnociências). de cunho secular como um "locus" multidisciplinar de debates democráticos com a intenção de analisar. Afirma ele: “Que a pesquisa científica e o método experimental não impeçam que se ouçam outras maneiras de pensar. da anticiência e da arte profética. na estrita correlação entre a avaliação de riscos e no respeito à autonomia da pessoa e de seu necessário consentimento livre. no meu entender com premência crescente. Mesmo com o risco de serem chamados de místicos. no próprio meio científico. ao contrário. O estudo visando redimensionar o binômio CiênciaSociedade tem como tarefa a instituição de novas políticas públicas visando. em buscar o sentido da vida e do viver a fim de resguardar seu valor assim como o respeito pela pessoa humana. Donde o caráter supostamente dominante das denominadas ciências exatas. Daí. a importância desses contatos desses distanciamentos entre parentes que assim se reconhecem como semelhantes. as organizações vivas são fluidas e móveis. da teologia e do direito. vale dizer. emerge na década de 1970 e se institucionaliza como uma prática de linguagem. não nos querendo encerrados. o consumo dessas inovações. Tais preocupações com o "fazer-ciência" são múltiplas e diferem segundo a perspectiva a partir da qual pensamos esse "fazer-ciência". é possível tentar analisar a partir da perspectiva bioética. Não só os efeitos. as investigações "bio-centradas" e as reflexões "bio-intencionadas". e por muitos sustentada. ou seja. As primeiras se ocuparão necessariamente em manipular e experimentar a vida em todas as suas dimensões. em seguida.1(1):12-23 paração não deixa de ser extremamente sagaz e ilustrativa. as segundas. ou os produtos da atividade científica e tecnológica. É o que se ensaia com o projeto de avaliação tecnológica (technological assesment dos anglo-saxãos) que se pauta. tratar-se-ia. cujo desafio consiste em não cair em nenhum desses abismos . finalmente. hierarquização dos domínios do saber e das disciplinas que são suas respectivas expressões e. conformista e institucionalizada. provenientes da filosofia e das mais antigas tradições. um profundo senso crítico com relação à questão da pretendida. um questionamento rigoroso dos métodos empregados à luz de novos meios de que dispõem as ciências graças ao mais recente desenvolvimento da técnica e da importância crescente que adquire a tecnologia para a aplicação dos princípios científicos. Por essa razão. de não ficarem prisioneiros de uma golilha obsoleta e mortífera. Ao contrário da ordenação do cristal. impõe-se.

(em que pese a extrema ambigüidade de tal expressão) realidade estética. a terapia e a investigação científica. e aquela com fins terapêuticos. Isso representa uma radical modificação da medicina como arte de curar. dos interesses e desejos.As investigações científicas e a experimentação humana: aspectos bioéticos . social. que supostamente contribui para a aquisição de novos conhecimentos. E experimentação humana é aquela que utiliza estratégias que envolvem testes com seres humanos. por assim dizer. tem sido objeto de intensos debates. de pronto surge o complexo universo das motivações. Dentre as questões pode-se notar em particular a incerteza relativa aos riscos prováveis e. estão mesmo na gênese do projeto bioético. econômica e. atualmente a atenção é dedicada mais especificamente com as investigações que são feitas com seres humanos nas áreas biomédicas. quando estamos no âmbito de uma investigação para a qual não é permitido evadir-se da linguagem do sentido. O campo de atividade passa a ser o cuidado. o vasto e ambíguo mundo do sentido (Sinnwelt) e da condição humana (Lebenswelt). psíquica. Muitos autores distinguem a experimentação com objetivos cognitivos. nacionais e internacionais. Tais processos investigativos. as investigações científicas com seres humanos é a experimentação. ou "direitos de pensar". em suma.Centro Universitário São Camilo . empregando para tanto a estratégia da experimentação. sobretudo as questões levantadas pelas pesquisas no campo das ciências biomédicas. Permito-me supor que na realidade histórica de seu "fazer-se". os processos científicos ou as práticas científicas estão animados por uma intencionalidade constituinte que. segundo novo modelo que responderá. pedra angular no empreendimento inaugural do ser humano ao transcender a animalidade em busca da racionalidade. passo a passo. o universo da dimensão simbólica. Há algumas décadas vem se impondo a convicção de que a arte do cuidado e a busca da cura de doenças que acometem a humanidade estão numa relação crescente de interdependência com a aquisição e aprofundamento de novos conhecimentos científicos adquiridos por meio de estratégias experimentais. Na esteira disso impõe-se a indagação: que abordagem a ser escolhida quando o que está no foco da investigação é uma realidade humana. sobretudo. São conhecidas atualmente diversas modalidades de pesquisas experimentais com seres humanos.1(1):12-23 dade da ciência. não tanto pelos aspectos técnicos. expressão eminente da consciência humana. Nesse horizonte adquire relevância especial a problematização das investigações dos fenômenos sociais. Em sentido lato experimentar significa submeter ao teste da experiência. Em toda investigação o objetivo é adquirir novos conhecimentos. ao mesmo tempo em que institui suas potencialidades e virtualidades. mas. de diagnóstico de prevenção e que visam beneficiar o paciente. da religação dos saberes. O equilíbrio instável a ser estabelecido em breve dependerá da gestão das conquistas científicas assim obtidas. Para a proteção da pessoa humana contra as formas invasivas da curiosidade científica. No entanto. Quanto as primeiras a questão que se apresenta é: qual a estrutura de significação própria ao conhecimento científico quando está em jogo uma realidade na qual o homem está presente como sujeito da ação? Ao se admitir a entrada em cena da "ação humana". confirma-se a si mesma na própria dinâmica dos procedimentos que traz à luz. ética. A EXPERIMENTAÇÃO HUMANA E A PROTEÇÃO DO HUMANO NAS DECLARAÇÕES A estratégia e o que sustenta. A experimentação humana põe à luz questões cruciais que estiveram na agenda de debates em inúmeras Comissões de bioética. Há mais de meio século práticas de pesquisas nessas áreas tem provocado inquietação e cuidado especiais. sua característica primordial e prioritária. liberdade que não pode se desvincular dos "direitos de pensamento". E mais. Comitês de Ética e Congressos científicos. É o que pretendo analisar a seguir limitando-me a breves considerações tendo como cenário os documentos acima citados. política. vale dizer.2007. embora o cenário desenhado pelas investigações na área das ciências sociais represente valiosa contribuição para a bioética. mas pelas inquietações morais que as envolvem. ao princípio já há muito conhecido da interdisciplinaridade e da complexidade. aquela que submete o ser humano a um teste de tratamento. dos valores. na expressão de Morin. sobretudo a delicada questão do "consentimento livre e informado" cujo conceito ainda permanece ambíguo e de contornos semânticos flácidos. do modo mais adequado possível. confiou-se 15 . Aliás.

informadas. convenções. embora não tenham força de lei. Tais textos. governamentais. uma razão de se crer que provocará a morte ou a invalidez do sujeito. componente obrigatório explícita ou implicita- mente. o princípio da cientificidade. no entanto. a maior aptidão e extrema atenção de todos os que a dirigem e dela participam (item 8). 99)(2). seus objetivos e os riscos eventuais e que tenha a capacidade de decidir livremente sobre sua participação. tornou-se ponto axial de primeira relevância a questão do consentimento esclarecido. As experiências não devem ser praticadas senão por pessoas cientificamente qualificadas.Centro Universitário São Camilo . todos seguindo o modelo primordial da filosofia dos Direitos Humanos presente na Declaração Universal dos Direitos Humanos. 16 . durante todo o transcorrer da experiência.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . lê-se já no seu primeiro artigo. relativos à ética médica e a bioética. Nesse Código já estão presentes alguns princípios que nortearão as pesquisas. a reversibilidade para evitar danos: A experiência não deve ser ensaiada quando houver. A seguir. o texto fundador e referência constante das Declarações nacionais e internacionais de ética médica é o Código de Nuremberg de 1946-1947. revelando a liberdade inalienável do sujeito durante todo o seu transcurso. Finalmente. fiel à tradição filosófica provinda do Iluminismo à qual as democracias modernas apreciam referir-se. nãogovernamentais e de textos nacionais e internacionais que foram dedicados a essa questão. responsáveis e voluntárias. Ele supõe que a pessoa entenda a natureza da experimentação. é razoável supor-se que sobre a questão da experimentação humana paira.1(1):12-23 durante longo tempo na consciência moral dos pesquisadores e nas tradições da ética profissional (p. impossíveis de serem obtidos por outro meio de pesquisa. Elas permanecem. tal princípio exige que sejam apresentadas ao sujeito as informações mais completas possíveis (item 1 do Código). desejos piedosos ou alibis encobrindo práticas nitidamente em retrocesso em relação ao que proclamam (p. intergovernamentais. A profissão médica foi a primeira a incluir explicitamente esses princípios nos fundamentos de sua deontologia sob a forma de declarações da AMM Associação Médica Mundial (p. O consentimento voluntário do sujeito humano é absolutamente essencial. São exigidas. a pessoas adultas. Em seguida. A esse item acrescentem-se os (itens 2 e 3). E justamente para a pessoa humana que se dirige o foco de atenção do Código ao limitar ou regular as pesquisas. depois da 2a Guerra Mundial. segundo o qual a responsabilidade pela condução da experimentação deve ser atribuída a um especialista qualificado. o complexo jogo da aceitação por princípio e rejeição de fato. pareceres e documentos posteriores da bioética. em grande parte. da possível distância entre os princípios e as práticas. 102)(2). O estupor mundial provocado pelas bárbaras experiências realizadas por médicos nazistas induziu a esse Código que em seus dez pontos define clara e objetivamente as condições de experimentação com seres humanos. o princípio da beneficência segundo o qual a pesquisa deve visar o bem do paciente e do sujeito da pesquisa e de todos os membros da sociedade. A experiência deve apresentar resultados práticos para o bem da sociedade. São pesquisas com indivíduos humanos visando o bem estar de todos. A . 97)(2). considerada uma ciência experimental com estreita ligação com a biologia para a qual a pessoa humana não é o centro das preocupações. o consentimento esclarecido. a priori.O Código de Nuremberg Na verdade. Tal consentimento representava a manifestação clara em favor do respeito e da dignidade da pessoa humana. (Artigo 9) Desde então. ponto culminante da clivagem entre a audácia destemida e a moderação prudente.2007. ela não deve ser praticada ao acaso e sem necessidade(item 2). como já dito. O Código indica uma perspectiva de experimentação não necessariamente terapêutica ou com seres humanos doentes que pudessem eventualmente se beneficiar com os resultados. em algumas circunstâncias. A esse respeito afirma Anne Fagot: A declaração internacional proclama uma doutrina esclarecida. É importante observar a grande diversidade de instâncias. De fato. inspiram os códigos de deontologia e diversas legislações nacionais. no entanto. Deve-se estar atento. pelas quais devem ser responsáveis cientistas qualificados. manifestação principal do princípio da autonomia de um paciente ou de um sujeito de pesquisa. Percebe-se que o Código deixa transparecer um entendimento moderno da medicina. de todas as declarações. Em primeiro lugar.

A Declaração de Helsinque Em 1964 a Associação Médica Mundial. foi acrescentado um item que tem norteado a avaliação dos protocolos de pesquisa. reunida para a 17 . (Declaração de Helsinque II . Já na sua introdução fica evidente a preocupação com a cientificidade da investigação aliada à "missão do médico" que é a de velar pela saúde do homem. inovações e progressos das tecnociências. se houver alguma razão de crer que sua continuação puder acarretar danos. O progresso da medicina é baseado na pesquisa que. no entanto. causar-lhe mal (princípio da não-maleficência). Outro ponto interessante refere-se à avaliação da correlação risco-benefício. comentário e parecer a um comitê designado especialmente para esse fim.2007. desde então. alguns pontos: a) o cuidado com a liberdade e o bem-estar do sujeito de pesquisa: Antes de empreender uma experiência deve-se avaliar comparativamente com cuidado os riscos e os benefícios previsíveis para o sujeito ou para outros indivíduos. iniciativa que se tornou. os riscos e inconvenientes potenciais de um novo método em relação aos melhores métodos diagnósticos e terapêuticos em uso(8). Propõe pela primeira vez a distinção entre pesquisa com intenção terapêutica ou clínica beneficiando pacientes. em Tókio (1975). Nos princípios básicos da Declaração pode-se ler: O projeto e a execução de cada fase da experimentação envolvendo o ser humano devem ser claramente definidos em um protocolo experimental que deve ser submetido para exame. B . O objeto de pesquisa biomédica sobre sujeitos humanos deve ser a melhoria dos métodos diagnósticos. exigências éticas como declaração do consentimento informado e esclarecido. Hong Kong em 1989 e 1996 na África do Sul. de certo modo. terapêuticos e profiláticos e a compreensão da etiologia e da patogênese. Ela não deve. A última edição data de 2000. No caso de uma experimentação não terapêutica a finalidade é a aquisição de um novo conhecimento ou a validação de uma hipótese. Tal item é a avaliação coletiva por um comitê independente. aprovada na 52ª. Essa Declaração de Helsinque-Tokio congrega basicamente recomendações aos médicos pesquisadores envolvidos no projeto de pesquisa das tecnociências biomédicas.introdução)(8). há que se justificar a intervenção por algum benefício potencial para o sujeito (princípio de beneficência). ou pesquisa biomédica não clínica.As investigações científicas e a experimentação humana: aspectos bioéticos . O texto que. também denominada pesquisa médica associada a cuidados médicos. como a cientificidade. qualquer protocolo de pesquisa envolvendo sujeitos humanos em seus diversos aspectos. invalidez ou a morte para o sujeito. Destacam-se.7). e isso se aplica de modo especial à pesquisa biomédica. terapêutico ou profilático comporta riscos. independente do pesquisador e do patrocinador(8). Em pesquisa terapêutica o objetivo principal é a melhora do estado do paciente. um dos critérios básicos da eticidade de um projeto de pesquisa e está incluído como cláusula necessária em todos os Códigos que regem os Comitês de Ética em Pesquisa de todos os países signatários da Declaração. A Associação Médica Mundial. e a pesquisa biomédica não terapêutica implicando sujeitos humanos. Esse ponto já está na introdução que aponta para o valor e a necessidade de pesquisas com seres humanos. Na prática médica corrente todo método diagnóstico. congrega o Código de Nuremberg e Helsinque I (1964) recebeu o nome de Helsinque II que por sua vez sofreu emendas em Veneza em 1983. reflexo do princípio de beneficência (item 5.1(1):12-23 Como reza o (item 5) combinado com (item 10) onde se lê: O cientista responsável pela experiência deve estar pronto a interromper a qualquer momento. Que se experimente no paciente um novo tratamento ou que se pretenda adquirir por seu caso individual um conhecimento de maior alcance. Item 5 de Helsinque I ao qual foi acrescentado posteriormente: Os interesses dos indivíduos devem sempre se sobrepor aos da ciência ou da sociedade. b) o valor das investigações. Embora contestada posteriormente tal distinção não deixa de apresentar um valor. Assembléia geral da AMM (Associação Médica Mundial) em Edimburgo(6. Permanece presente o espírito de Nuremberg. a ponderação risco-benefício. Assim. nessa Declaração. deve apoiar-se sobre a experimentação envolvendo sujeitos humanos.Centro Universitário São Camilo . 3: o médico deverá avaliar os benefícios. em sua XVIII Assembléia geral realizada em Helsinque aprovou a desde então denominada Declaração de Helsinque que foi reeditada com acréscimos por ocasião da Assembléia de Tókio em 1975. Na Assembléia da AMM. citado acima) combinado com item II. em última análise. será submetido a um Comitê. A pesquisa não visa um benefício direto para o sujeito.

O genoma humano subentende a unidade fundamental de todos os membros da família humana. C .ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO .Centro Universitário São Camilo . como fato significativo apontando. Ao lado da Declaração de Helsinque-Edimburgo (2000) da Associação Médica Mundial. o direito a confidencialidade. a honestidade intelectual e a integridade. Nota-se claramente. na condução a de suas pesquisas como na apresentação e utilização de seus resultados deveriam ser objeto de atenção particular no âmbito das pesquisas sobre o genoma humano. em 1981. do consentimento esclarecido dos sujeitos da pesquisa. públicas e privadas. Nos artigos 5 a 10 concentram-se as orientações sobre os direitos das pessoas vinculados à questão do genoma. variado e problemático na sociedade(8). da UNESCO. A liberdade de investigar é defendida incessantemente sob a condição de respeitar a pessoa humana. "Declaração sobre transplante de órgãos humanos". Gilbert Hottois aponta um fato relevante na história recente da medicina. Destacam-se a importância e a necessidade reconhecidas das investigações científicas no campo da genética e da biomedicina. "Declaração sobre a orientação genética e as manipulações genéticas"(8). a decisão que se institucionaliza de modo firme na bioética em reconhecer para si o caráter de independência assim como a nitidez e a força de seu compromisso com os direitos do homem. D . Em seus 25 artigos reitera basicamente princípios que vem se consolidando como pilares no domínio da bioética. que tomam decisões em matéria de políticas científicas têm igualmente responsabilidades quanto a isso(8). um grupo ou indivíduo com o intuito de se dedicar a uma atividade ou realizar um ato com objetivos contrários aos direitos do homem e às liberdades fundamentais. Trata-se da Assembléia geral da AMM em Madri realizada no ano de 1987. Em um sentido simbólico. em especial o rigor. na expressão de Hottois. Lê-se no artigo 25: Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada como podendo ser invocada de qualquer modo por algum Estado. 18 .O Relatório Belmont Em 1974 foi promulgado o National Research Act (USA) e se tornou lei pela qual foi criada a Comissão Nacional para a Proteção dos sujeitos humanos de pesquisa biomédica e behaviorista. As pessoas. no meu entendimento. inclusive aos princípios enunciados na presente Declaração. o direito de recusar um tratamento. a prudência. assim como o reconhecimento de sua dignidade intrínseca e de sua diversidade. Relevase o direito do enfermo de escolher livremente um médico livre. em vista de suas implicações éticas e sociais. (artigo 1).A Declaração Universal sobre o Genoma Humano e os Direitos do Homem A Declaração Universal sobre o Genoma Humano e os Direitos do Homem é um texto denso na conceituação e claro nas recomendações. Nessa ocasião foram aprovadas diversas resoluções denominadas Resoluções de Madri: "Declaração sobre fecundação in vitro e transferência de embriões". de 1997 e a Convenção sobre os Direitos do homem e a Biomedicina do Conselho da Europa também de 1997. A dignidade se declara mais expressamente no artigo 2. Retoma recomendações de outros textos bioéticos no que concerne o caráter relevante.1(1):12-23 Assembléia geral de Lisboa. de sua dignidade e de sua liberdade. aprova uma Declaração sobre os Direitos dos doentes. Afirma ele: Essa (Declaração) revela explicitamente que a perspectiva da ética médica evoluiu em algumas décadas no sentido de um abandono do "medicocentrismo" paternalista que caracteriza a deontologia tradicional. a avaliação coletiva prévia do protocolo e o direito à proteção da confidencialidade de dados genéticos da pessoa humana. uma abertura crescente da ética médica a questões de bioética e às questões de auto-regulamentação da profissão médica implicada de modo cada vez mais complexo. Já em seu primeiro artigo toma partido claro da dignidade do humano. Ainda convém registrar. o direito de morrer na dignidade e de receber ou recusar um auxílio espiritual. o que constitui um avanço considerável. "Declaração sobre eutanásia".2007. os outros textos significativos da bioética internacional são a Declaração Universal sobre o Genoma Humano e os Direitos do Homem da Comissão Internacional de bioética. diria quase obrigatório. ele é o patrimônio da humanidade. moral ou religioso(8). Nos seus artigos 13 a 16 estão arroladas as condições das atividades científicas: As responsabilidades inerentes às atividades dos pesquisadores.

Belmont era a designação do Centro de Conferências daquele Instituto.2007. b) o papel da avaliação dos critérios de risco/benefícios. ou. emprega o que se pode entender como uma das manifestações da autonomia ou a manifestação do respeito da pessoa que é o conceito de consentimento.1(1):12-23 Essa comissão foi encarregada de elaborar um documento com os princípios éticos fundamentais que deviam sustentar as pesquisas biomédicas e dar as diretrizes para a solução de problemas e dilemas éticos provenientes de pesquisas envolvendo sujeitos humanos. a segunda. autores como Beauchamp e Childress(9). a expressão respeito pelas pessoas implica. O Relatório aponta três princípios fundamentais: o respeito à pessoa. a principal contribuição dessa Comissão foi. Ryan e de Robert Cooke.Centro Universitário São Camilo . então. Para se referir ao primeiro princípio citado. e não sofra qualquer coerção para consentir. Por princípios fundamentais entendem-se os juízos de ordem geral que subsidiam a justificação de prescrições de ordem moral e as avaliações das ações do homem. Pela perspectiva ética a pessoa é respeitada se suas decisões são aceitas e protegidas contra qualquer dano e se há o cuidado de lhe oferecer o maior bem estar. seguindo a máxima de Hipócrates. a expressão negativa do princípio "não fazer o mal". o que implica. Na bioética o nome oficial passou a ser: Relatório Belmont: Princípios éticos e diretrizes para pesquisas envolvendo sujeitos humanos. salvo se essas ações representam qualquer dano à outra pessoa. dar crédito às suas opiniões e suas escolhas refletidas. E uma pessoa é autônoma na medida em que se mostra capacitada de deliberar sobre objetivos pessoais e agir no sentido dessa deliberação. o princípio de beneficência. Foi solicitado da Comissão que esclarecesse determinados conceitos. o que significa resultados benéficos ou resultados danosos à pessoa humana. antes do início da pesquisa. o respeito pela pessoa implica reconhecê-la como agente autônomo. Assim. Por essa razão a exigência de se apresentar. é necessário que o sujeito tenha a capacidade legal para consentir. ao contrário. A Comissão esclareceu: a) os limites entre a pesquisa biomédica e a prática médica. desde então. Os trabalhos da Comissão estavam sob a presidência de Kenneth J. c) estabeleceu diretrizes para a escolha dos sujeitos. as informações as mais amplas e mais adequadas possíveis ao sujeito da pesquisa para que esse possa em conhecimento de causa consentir em participar da pesquisa. E para que esse seja aceito como válido. duas exigências básicas: a primeira. proteger as pessoas com a autonomia reduzida. não exercer a força para impedir suas ações decorrentes dessa deliberação refletida. sem dúvida. segundo o Informe. Abandonou uma definição anteriormente admitida entre pesquisa terapêutica e pesquisa não-terapêutica. usam o conceito de autonomia. que as pessoas sejam tratadas como agentes autônomos. numa pesquisa científica o respeito se manifesta como a exigência de que o sujeito possa dar o seu consentimento. de fato. seguem o Informe Belmont e empregam o conceito de respeito pela pessoa. e. Esses princípios se tornaram. que compreenda essas informações. que receba informações sobre os procedimentos de pesquisa em todas as suas etapas. Isso impõe a consideração da existência de riscos que envolvem as pesquisas com seres humanos. As tecnociências são assinaladas com o índice da ambivalência. Na realidade não há divergências entre as leituras diversas do Informe. a beneficência e a justiça.As investigações científicas e a experimentação humana: aspectos bioéticos . como que por conseqüência. por conseguinte. a principal fonte de orientação para as avaliações críticas da pesquisa científica envolvendo sujeitos humanos. O objetivo visa fornecer uma estrutura analítica tendo como finalidade orientar a resolução de problemas de ética resultantes de pesquisas que envolvem sujeitos humanos". a de explicitar de modo claro e sucinto os princípios fundamentais de ética que serviriam de base para as recomendações e orientações de conduta nas pesquisas. uma vez que. em outros termos. Assim. Leo Pessini e Barchifontaine(11). No entanto. 19 . Apresentou uma definição clara do conceito de risco. Engelhardt(10). A esse princípio de respeito pela pessoa humana segue. Em 1976 como resultado de trabalhos em uma reunião de quatro dias intensivos no Instituto Smithsonian foi apresentado o denominado Relatório Belmont. d) definiu de modo claro a questão do consentimento esclarecido informado e livre e como se distinguem o consentimento e a obtenção do consentimento por parte do sujeito. Lemos no texto do Relatório: "Esses princípios não podem sempre ser aplicados de modo incontestável para resolver problemas particulares de ética. Muitos autores sugerem. indispensável para se estabelecer a eticidade da pesquisa. respeitar a livre escolha dos agentes morais.

(p.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . No âmbito de sua deontologia tais pesquisadores permaneciam antes na defensiva. movidas por certa desconfiança em relação às preocupações éticas provocadas por muitas pesquisas que contrasta como o dinamismo de sua audácia científica. É um avanço apreciável e relevante. O elemento axial de sustentação de um Comitê de Ética é sua autonomia e independência. isto é. sobretudo no âmbito das ciências biomédicas. Não é aceitável qualquer tipo de constrangimento no desenvolvimento de suas atividades e nas deliberações de seus membros. deveriam permanecer incógnitos. infelizmente. a elaboração de recomendações racionais tendo em vista uma política apresentando declarações oficiais sobre os princípios éticos fundamentais que serviriam de base a essas recomendações(12). Seguindo as recomendações do Comitê Internacional de bioética (CIB) aqui em nosso país o Ministério da Saúde criou o CONEP (Comitê Nacional de Ética em Pesquisa) que em 1996 aprovou Resolução para servir de fundamento e orientação às avaliações do caráter ético dos protocolos das investigações envolvendo sujeitos humanos. E o Informe refere-se ao conceito de justiça como distribuição eqüitativa. Deve-se entender que essa Comissão Nacional foi criada como um organismo essencialmente consultivo e não com função legislativa. Na realidade ocupa lugar relevante na agenda da bioética a questão da regulamentação ou da auto-regulamentação no campo das pesquisas com seres humanos. sobretudo que as restrições impostas atravancariam a liberdade de pesquisa. o princípio de justiça. comprometeria sua fecundidade. Muitos pesquisadores dessas áreas há bem pouco tempo se opunham a essa preocupação com a eticidade da pesquisa alegando defenderem a autonomia de pensamento. que projetos de pesquisa são submetidos aos Comitês."[. decorridos trinta anos desse Informe. Como suas recomendações não tinham força de lei. seja constrangimento no que se relaciona a prazos e exigências externas por parte de interessados nos diversos protocolos a serem avaliados. Nós estamos todos prontos em propor que se deva limitar a liberdade de outros e lentos em admitir como bem fundadas as restrições impostas às nossas próprias liberdades..2007. não por convicção sobre a relevância em se assegurar a eticidade necessária para o bom desenvolvimento dessa experimentação com seres humanos. Percebe-se mesmo uma resistência de muitos pesquisadores dessa área em explicar detalhes de seu projeto de investigação que.. tendo em vista a ambivalência dos resultados e das aplicações. que se lê expressa no Relatório Belmont: Quem deve colher as vantagens da pesquisa e quem deve arcar com os riscos? Entra em cena. pareceres e deliberações da bioética. É próprio de problemas difíceis de ética não oferecer soluções fáceis(13). 115)(2). Quanto. No entanto.Centro Universitário São Camilo .1(1):12-23 Agora surge a indagação. Essa iniciativa já está consolidada dado o número de Comitês de Ética que se institucionalizaram nos anos recentes. Segundo esse princípio os benefícios ou vantagens e desvantagens ou inconvenientes devem ser distribuídos eqüitativamente. a saber. Disso se pode concluir a relevância a o sentido da tarefa dos Comitês de Ética em esquisa com seres humanos na atualidade. creio que se pode hoje. na maior parte dos países foram aprovadas legislações específicas sobre a questão. resta saber a posição que tomaram os organismos administrativos e legislativos de posse dessas recomendações. prejudicaria a objetividade do trabalho científico (p. 20 . De qualquer modo. observa Lebacqz. seja algum constrangimento institucional. Uma de suas principais conquistas na maior parte dos países é o sentido de sua liberdade. de fato. por exemplo. Infelizmente constata-se. Nas palavras de Anne Fagot: Os profissionais protestaram. no caso de uma Universidade. como todas as recomendações. mas. 106)(2). mas simplesmente para assegurar créditos indispensáveis à publicação dos resultados. Levine observa apropriadamente: A Comissão pôde atingir os objetivos que havia proposto. aliás. pois as resistências são ainda fortíssimas não só lastreadas em certo desconhecimento do significado das exigências con- tidas nesses documentos e declarações de princípios.]se a Comissão encontrou o justo equilíbrio na interpretação e na aplicação dos princípios. ainda permanece muito a ser feito. Comitês de Ética em Pesquisa foram instituídos garantindo que os esforços de instituições públicas ou privadas de pesquisa tivessem êxito na proteção dos sujeitos humanos envolvidos nas pesquisas. a questão pode ainda ser discutida". A prática nos Comitês de Ética em Pesquisa mostra. muitas vezes. seguindo eles.

nesse domínio impõe-se uma nova articulação entre o plano teórico reflexivo ou especulativo e a plano prático concreto. 117-118)(2). as reações emocionais se acalmem. Creio que a indagação básica que continua presente para a sociedade atual diz respeito ao significado e alcance das investigações biomédicas e a experimentação humana. só percebidos durante a caminhada. Devem-se reconhecer nos inúmeros estudos críticos e aprofundados que têm sido apresentados o sinal da relevância dessa questão. Conhecer perfeitamente os códigos de trânsito não garante a ninguém o aprendizado de como dirigir adequadamente. de desconfiança paranóide para outros. mas. a força constrangedora de uma lei.As investigações científicas e a experimentação humana: aspectos bioéticos . Nos primórdios desse novo paradigma. exigem atenção redobrada da reflexão crítica. CONCLUSÃO O caminho é feito ao se caminhar. Apela-se ao direito de autonomia de investigação. lhe dizem respeito? Que limites deveriam ser esperados para esse poder? Em que condições pode transcender o âmbito tecnocientífico. Pode-se indagar se as inovações espantosas das tecnociências concedem ao pesquisador um poder desmesurado e imune a qualquer limitação? Afinal. Muitos atalhos. sob os auspícios da bioética. normas e valores éticos? A solução seria uma auto-regulamentação? As Declarações e os documentos até hoje instituídos em concerto representam uma solução válida. O tema é complexo e ambíguo na medida em que 21 . Por qual razão um pesquisador atenderia o recomendado por um "princípio"? "Inútil insistir sobre a fragilidade de uma moral sem obrigações nem sanções" (p. Potter já preconizava um projeto inovador quando sugeriu uma aliança renovada entre a Biologia e a Sabedoria em ação(14). De certo modo. Apesar de todas as dificuldades percebe-se um avanço considerável no sentido de se tentar encaminhar soluções com traços de prudência e sabedoria. fazendo do pesquisador um ente isento de qualquer relação com os condicionamentos sociais. Dr. permite antever como é complexo e longo o caminho para a compreensão visada. 108)(2). ao mesmo tempo. Outra questão que exige todo o cuidado reflexivo da bioética é a do consentimento livre e esclarecido. no entanto. mas perplexidades. beneficência e justiça. Anne Fagot em tom otimista afirma: "O que se pode esperar é que após um período de entusiasmo regulamentador para alguns. acrescentam-se os de dignidade da ciência. seja em situação de pesquisa como em situação de cuidado clínico. Uma análise crítica levada a efeito pela epistemologia tenta compreender não meramente a ciência constituída e a miríade de seus métodos. As pesquisas visam. especialmente no domínio da investigação biomédica. Não têm. e os impactos oriundos de suas inovações fantásticas. Ela é o eixo axial de uma nova visão das investigações com seres humanos. Nessas condições poderá fazer frente aos abalos provocados pelos efeitos de suas próprias transformações. afinal.2007. E mais. e o de utilidade para a sociedade cuja idéia básica é a da maximização do bem estar de todos. suas condições de possibilidade. sobretudo orientar seu foco de análise à gênese dos procedimentos. Incertezas se revelam a montante e a jusante. Nem sempre o destino é conhecido ou mesmo cognoscível. essa posição de resistência de muitos pesquisadores. que as normas já instituídas de interiorizem e que as normas a serem criadas sejam discutidas entre as partes num espírito de livre crítica e de responsabilidade" (p. em um dos textos fundadores da bioética. Do mesmo modo. Como considerações finais tenho a impressão de ter percebido não respostas a questões. entendo que além dos princípios já consagrados de respeito à pessoa humana (autonomia). a apuração constante de uma metodologia e a instauração de uma norma. Os próprios Comitês se sentam incentivados pela crescente conscientização da própria sociedade civil atenta às questões cruciais que se colocam nesse campo. a construção de um saber. sobre os "princípios" que orientam as ações nesse domínio. às intuições. a sociedade deveria permanecer numa posição de pura passividade em relação a essas investigações que. Estéril qualquer tentativa de listagem exaustiva.Centro Universitário São Camilo . O volume imenso de estudos científicos e filosóficos.1(1):12-23 senão abertamente pelo menos de modo velado. Penso prudente pensar sobre ao alargamento do cenário que doravante inclui outros agentes além do especialista médio. indica a necessidade de se repensar o efetivo sentido da medicalidade da situação. aos seus méto- dos e critérios de autocrítica. Novas questões foram descobertas.

não se limita a um certo número de indivíduos na sociedade. para além do imperativo de normas e regras com pretensão de universalidade. mas não mostram tão bem em nome de que se deve escolher o que se deve fazer" (p. para a busca de regulamentações mais precisas seguidas de leis mais inteligentes promulgadas pelo poder competente. Para o encaminhamento das questões. ocupa lugar proeminente na agenda de debates da bioética a questão densamente complexa do conflito entre a "proteção do ser humano" ou o respeito da pessoa humana. que a eticidade seja elemento fundante. apesar do seu caráter indeterminado e evolutivo. O esforço manifesto nas diversas Declarações proclamadas sob os auspícios da Unesco resulta inegavelmente em transformações significativas no cenário das investigações tecnocientíficas..1(1):12-23 extrapola o plano tecnocientífico e atinge a própria situação existencial do ser humano em todas as suas dimensões. e isso é um significativo avanço no campo das pesquisas biotecnológicas. 22 . a expressiva conquista da bioética como uma nova manifestação de atitude ética. de pertinência conceitual e ética e de aceitabilidade dos recentes documentos da Bioética proclamados sob os auspícios da UNESCO. Essa avaliação epistemológica só será eficaz se aliada à rigorosa avaliação de ordem ética. 108)(2). de investigar. está profundamente vinculada à condição humana na sua finitude e fragilidade. desde tempos imemoriais. A bioética. Atingimos um nível de compreensão a respeito da avaliação de cunho epistemológico sobre as condições de possibilidade das investigações científicas da experimentação humana seja com o objetivo de adquirir conhecimento geral a partir de um caso particular. o que segundo as conquistas da bioética é realizado como tarefa essencial e institucional pelos Comitês de Ética em Pesquisa. modelo eminente de saber rigoroso e especializado.. Ilustra esses avanços o alto nível de abrangência. os princípios de beneficência e justiça e o dever de experimentar. Mesmo como investigação científica. Diversos fatores intervêm na dinâmica das decisões e dos procedimentos quando as duas principais facetas se entrecruzam: a pesquisa e a terapêutica. A fragilidade e o sofrimento do enfermo devem receber o cuidado especial e a eventual cura. Na realidade. orientações e balizas que têm norteado as ações.Centro Universitário São Camilo . Nas palavras de Anne Fagot: "[. diante de reveses e desvios condenáveis no passado recente da humanidade. as ciências biomédicas para atingir seus objetivos valeram-se da estratégia da experimentação com seres humanos.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO .2007. necessário e indispensável para o caráter científico de uma pesquisa envolvendo o ser humano em todas as suas dimensões. Decisão eminentemente valiosa como conquista na busca do bem-estar da humanidade. ampliou-se o cenário do diálogo. as deliberações e os processos de decisórios relacionados a esse campo dilemático das pesquisas biotecnológicas envolvendo seres humanos. penso eu. na dialética da saúde-doença. Mais recentemente a medicina. A convicção da relevância dessa avaliação postula. seja com o objetivo terapêutico. A exigência da bioética atual se volta agora. como investigação visando novos conhecimentos e prática terapêutica. Ainda se nota no homem como ser cultural o "desejo de conhecer" de que falava Aristóteles na sua Metafísica. como prática discursiva tem instituído com sucesso. Mas aí está uma nova questão a ser debatida.]Elas indicam muito bem o que não se deve fazer. Esse tem sido. Reconhece-se com fundada razão que a medicina. O argumento que se pode reclamar se baseia no caráter ainda ambíguo das declarações de princípio. Esse empreendimento não se faz sem conflitos e dilemas.

Bruxelles: De Boeck.Centro Universitário São Camilo . Potter VR. 2006. 9. 1982.As investigações científicas e a experimentação humana: aspectos bioéticos . Atlan H. 1992 6. Childress JF.Médicine et expérimentation).97-118. 2000. Associação Médica Mundial. Québec: Université de Laval. Biol med 1970.1(1):12-23 REFERÊNCIAS 1. Fundamentos da bioética.4 Médicine et expérimentaiton). 7ª ed. Fagot A. Barchifontaine CP. 2005. Bioethics. Nouvelle encyclopédie de bioéthique. Pessini L. Entre o cristal e a fumaça. Edimburg. 4. 1982. Quebec: L´Université de Laval. 4. Loyola. rev ampl. Lebacqz K. Madrid: Technos. Levine RJ. 2001. São Paulo: Loyola. 11. Zuben NAV. Problemas atuais de bioética. Princípios de ética biomédica. Québec: Université de Laval. Engelhardt HT. Bioética e tecnociências: a saga de Prometeu e a esperança paradoxal. Declaration d´Helsinki. 12. the science of survival. Hottois G. Université. 23 . (Cahiers de Bioéthique. Missa JN. São Paulo: Loyola. 5. O rato.1982. (Cahiers de Bioéthique. el mal y la ciencia: las dimensiones éticas da le empresa científico-tecnológica. El bien. 1998. 2. São Paulo: Centro Universitário São Camilo. Edimburg. La protection du sujet humain: des déclarations aux directives.14(1):127-153. 14. 3. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Beauchamp TL. Associação Médica Mundial. São Paulo: Companhia das Letras.4 Médicine et expérimentaiton). Código de Nuremberg:1946-1947. 13. 10. Jacob F. a mosca e o homem.1998.2007. p.Profil et analyse critique des recommendations de la Comission Nationale. organizadores. Clarifier les concepts de l´éthique de la recherche. Agazzi E. 2002. Bauru: EDUSC. 2000. 7. (Cahiers de Bioéthique. 1996. 8.

PALABRAS LLAVE: Ética. Medicine.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . Medicina. RESUMEN: Este artículo propone una reflexión sobre las repercusiones provocadas por las innovaciones tecnológicas en la práctica asistencial médica. Technological-innovations. Considera as extraordinárias aplicações das inovações em Medicina face ao que denomina de perplexidade científica e ética.Centro Universitário São Camilo . questioning whether the advances in science and technology are not inducing a shift of the role played by the doctor as a promoter of health in the direction of manipulating human life. seguida de un análisis de la economía de la tecnología con relación al sector salud. Medicina. seguida de uma análise da economia da tecnologia em relação ao setor saúde. 24 .1(1):24-33 Ética e inovação tecnológica em medicina Ethics and technological innovation in medicine Ética y innovación tecnológica en medicina José Geraldo de Freitas Drumond* RESUMO: Este artigo propõe uma reflexão sobre as repercussões provocadas pelas inovações tecnológicas na prática assistencial médica. Tecnologia-inovação. It starts from a historical perspective of the Medicine as a science. Considera las extraordinarias aplicaciones de las innovaciones en Medicina cara al que denomina de perplejidad científica y ética.FAPEMIG e da Sociedade Ibero-americana de Direito Médico -SIDEME. PALAVRAS-CHAVE: Ética. cuestionando si los avances de la ciencia y de la tecnología no estuviesen induciendo un cambio de la misión del médico de promotor de la salud en dirección a la manipulación de la vida humana. ABSTRACT: This paper aims at drawing the attention to the impacts caused by the technological innovations to the medical welfare practice. partindo de uma introdução histórica da Medicina como ciência. questionando se os avanços da ciência e da tecnologia não estariam induzindo uma mudança da missão do médico de promotor da saúde em direção à manipulação da vida humana. partiendo de una introducción histórica de la Medicina como ciencia. KEYWORDS: Ethics. * Presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais . Tecnologia-innovación. followed by an analysis of the economical aspects of the technology in relation to the health sector. The author considers the extraordinary applications of innovations in Medicine named scientific and ethical perplexity.2007.

como afirma Albuquerque(1). tecnologia e inovação Entende-se por ciência toda atividade humana desenvolvida de modo sistemático e que tem por finalidade ampliar a base do conhecimento do homem. essencial para as ciências humanas e sociais. decorrentes dos avanços conquistados pelas ciências médico-biológicas. por ter sido essa a época que propiciou a aceleração das manifestações intelectuais em praticamente todos os campos da criatividade e intelectualidade humanas e. A inovação tecnológica se depreende da apropriação pela sociedade de novos conhecimentos e a utilização das descobertas da ciência e da tecnologia nos diferentes setores da sociedade como a indústria. No setor saúde. A infra-estrutura científica deste setor é "origem de um fluxo de informações que apóia o surgimento de inovações que afetam a prática médica e a saúde". enfim. que possuem uma forte interação com a ciência e a tecnologia. mediante a utilização de produtos e procedimentos com vistas a evitar o aparecimento de enfermidades ou erradicá-las.2007. e derivada de cada disciplina que afeta as pessoas e a sociedade. a inovação deve ter por finalidade a melhoria da qualidade de vida das pessoas. Em suma. surgidas principalmente desde a metade do século XX. refletiu as metamorfoses de um empreendimento científico ao longo dos tempos. Esta realidade promove. o setor saúde tem características peculiares que. a transformação de pessoas e instituições. de um lado o vincula intimamente ao desenvolvimento científico-tecnológico.Centro Universitário São Camilo . Tomaremos como marco inicial do desenvolvimento científico das ciências médicas o Renascimento. gerando impactos na economia e na sociedade em geral e. que é a criação de novos conceitos que estruturam a percepção da realidade.Ética e inovação tecnológica em medicina . no que se refere à natureza. se deu de modo gradual e por vezes paradoxal. conforme exige a sua complexidade. através de avanços e recuos que. A primeira. promove conseqüências diretas sobre a saúde individual e na qualidade de vida das populações. no entanto. no entanto. Pesquisa se refere ao processo social que produz conhecimento de forma válida e generalizável e proporciona a renovação das bases disciplinares intelectuais e profissionais. compõem um acervo de novas informações que conferem ao setor da saúde ser um dos setores da economia mundial que mais tem crescido nos últimos tempos. O termo inovação se refere à produção de novos processos dentro dos já existentes "que ampliam o escopo e o nível das aplicações de conceitos e constructos". assevera que a pesquisa envolve três processos sociais. inovações essas materializadas sob a forma de novos equipamentos. além dos procedimentos eticamente questionáveis que tais inovações têm suscitado. Finalmente. através da pesquisa científica e do desenvolvimento tecnológico. O conhecimento se conceitua como uma informação organizada que produz efeitos sociais e individuais para aqueles que dela fazem uso. Lolas(2). novos procedimentos clínicos e novas medidas profiláticas que. A invenção. mormente. devido a sua contribuição para a constituição deste fabuloso patrimônio cultural da humanidade que representa a medicina contemporânea. O seu desenvolvimento. não a causa e daí porque tradicionalmente a pesquisa resultante da invenção ou baseada nela é denominada de pesquisa básica ou pura. segundo Potter(3). na Conceitos de ciência.1(1):24-33 INTRODUÇÃO O setor saúde compreende atividades de atenção médico-hospitalar e ambulatorial. razão pela qual requer uma análise de um modo sistêmico. a um só tempo. a educação e a saúde. do qual é o produto da percepção. Daí porque os conhecimentos têm por finalidade a promoção e o progresso da espécie humana e da humanidade. Importa destacar alguns desses avanços históricos. tem suscitado discussões polêmicas a cerca da relação entre custos e benefícios auferidos pela sociedade em geral levando-se em conta o crescente ônus financeiro assumido pelos sistemas nacionais de saúde para incorporar as ditas inovações. a segunda. à sociedade e ao próprio homem. em razão dos inúmeros benefícios que as inovações tecnológicas vêm propiciando em relação à saúde e ao bem-estar das pessoas. de caráter otimista. de outro. Atualmente existe um contínuo desfilar de novidades tecnológicas. Aspectos históricos da ciência médica O nascimento da medicina ocidental como ciência remonta à Antiga Grécia e ao aparecimento da "tekné" helênica. 25 . duas constatações.

Rosemberg(4). o histologista Marie-François Xavier Bichat. rivalizando-se com os mais modernos equipamentos sensoriais. a ciência médica se dicotomiza. além de ensino para os estudantes de medicina(3). pois o esplendor nas artes e na literatura foi acompanhado. na Grécia do séculoV antes de Cristo. os mais espetaculares feitos do desenvolvimento científico em geral ocorreram durante o transcorrer do século XX. O século XVI ficou consagrado como o século do nascimento da anatomia humana como uma disciplina. também. De sedibus et causis morborum per anatomen indagatis que. publicou o seu célebre. No entanto. a arqueologia e a economia. para a saúde dos outros. levando-se em conta os rumos que tomaram as medicinas francesa e alemã. instrumento este que. que trouxe um real avanço no conhecimento médico a partir da descrição da circulação sangüínea por meio do inglês William Harvey e complementada pelo italiano Marcelo Malpighi. os hospitais se viram libertados do domínio eclesiástico. eminente médico alemão de personalidade multifacética. isto é. Igualmente. O século XVII tornou-se o berço da fisiologia. Esta revolução foi tão importante que mereceu de Rosemberg (1976). No século XVIII a Europa presenciou o nascimento da anatomia patológica pelas mãos de um médico de Pádua. mas o médico do indivíduo humano". No século XIX.2007. Indiscutivelmente. e em conseqüência da Revolução liberal. graças ao belga Andreas Vesalius que realizou as primeiras dissecações em cadáver humano e propôs a sua configuração anatômica em seu famoso De Humani Corporis Fabrica. nas necropsias que realizo. cientista que consagrou o aparecimento de um triunvirato que seria a base das ciências médicas atuais: a fisiologia. continuando a ser um instrumento indispensável da prática médica até os dias atuais. alçou o patamar da política nacional. dividindo com Pasteur o título de fundador da moderna bacteriologia. Virchow é considerado fundador da moderna patologia por ter sido o primeiro a utilizar o microscópio com a finalidade precípua de diagnosticar uma doença pelo exame de células e tecidos lesados. O médico não é o médico dos seres vivos em geral.1(1):24-33 arte hipocrática. a figura de Rudolf Virchow. Na França. foram tornados públicos e transformados em centros de investigação científica para as enfermidades. ao substituir toda a especulação teórica e fantasiosa sobre a natureza do processo mórbido pela correlação anatômica entre os sintomas apresentados pelos pacientes com os achados post mortem. também conhecido como pai da histologia. de fato significou uma mudança paradigmática do conhecimento médico de então. denominado Giovanni Battista Morgagni que. nem mesmo o médico do gênero humano. considera que "o progresso médico não foi responsável por qualquer redução significativa da mortalidade humana antes do século XX". Neste período inicial de desenvolvimento científico da medicina francesa destacaram-se. grande histologista e cultor da anatomia patológica e RenéThéophile-Hyacinthe Laennec.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . a patologia e a farmacologia. dentre outros. curiosa e extraordinariamente. ficando consagrado como o Pai da moderna anatomia. Ressalta-se. historiador da tecnologia. vindo a ocupar uma cadeira no parlamento germânico por mais de 30 anos. física e biologia. Interessandose pelos problemas sociais de sua pátria. simultaneamente com os avanços nas áreas a química. Outro destacado cientista alemão foi Robert Koch. vem resistindo à natural obsolescência que o tempo impõe às novidades. nesta época. daí sua denominação de 26 . esta assertiva é admitida pelo Banco Mundial. foi a Alemanha que consignou o século XIX como o mais reluzente para o desenvolvimento de uma medicina com bases científicas. A revolução da bacteriologia ocasionou uma mudança de paradigma na ciência médica desde o aparecimento da arte hipocrática como um "saber autônomo". aos 79 anos de idade.Centro Universitário São Camilo . Notoriedade deve ser conferida. transbordando-se para a antropologia. só que a situando nos anos 1930 do século pretérito(5). impulsionador de rumos novos para a bacteriologia. Não obstante. em determinado momento pelos avanços do conhecimento médico-biológico. cuja inquietude intelectual ultrapassou o conhecimento médico propriamente dito. ao fisiologista francês Claude Bernard. descobridor da função glicogênica do fígado e precursor da medicina experi- mental. a afirmação de que "o progresso na medicina teve de aguardar o desenvolvimento da ciência da bacteriologia". mesmo que esse resultado seja altamente vantajoso para a ciência. inventor do estetoscópio. Claude Bernard dizia que "o princípio da moralidade médica e cirúrgica consiste em nunca executar no homem uma experiência que possa produzir nele malefício de qualquer espécie.

com a finalidade de vencer os desafios atuais da Medicina. Quando se focaliza as inúmeras inovações tecno- 27 . Em razão do progresso científico provocado pelo desenvolvimento da genômica. milhares de empresas de biotecnologia. perplexidades científicas e éticas. Um bom exemplo das benéficas aplicações dos resultados da pesquisa biotecnológica atual foi o desenvolvimento de kits diagnósticos para a detecção de vírus e agentes patogênicos diversos. saúde e desenvolvimento social. garantindo-se maior segurança do tratamento hemoterápico. a matriz do conhecimento humano viesse a ser completamente reformulada a cada período de cinco anos. a ficção pudesse. por meio da inseminação artificial.2 milhões de acres de plantas geneticamente modificadas. pois imprimiu uma velocidade tão grande na aplicação do conhecimento humano. doença de Alzheimer. Uma outra área da aplicação dos conhecimentos da biotecnologia desenvolveu a utilização de microrganismos para limpeza de resíduos e o desenvolvimento de processos menos poluentes para indústrias têxtil. já que foi durante esta última centúria que o homem e a humanidade experimentaram um caudal de conhecimentos jamais observado em toda a sua história. o que levou a uma conseqüente redução do emprego de pesticidas químicos que tantos malefícios já provocou ao meio ambiente. uma espécie de tomate resistente a vírus. alcançando em um total de 18 países. em 1953. O século XX ficou. representados por enfermidades como câncer. o setor saúde é responsável por cerca de 85% de todos os recursos investidos em biotecnologia. Por seu turno. quer pela descoberta de plantas resistentes a pragas e com maior valor nutricional. a partir dos estudos de difração de raios X desenvolvidos por Wilkins e Franklin.1(1):24-33 século da tecnologia. ser confundida com a realidade. atualmente. a um só tempo. que contribuiu para que a partir da metade do século passado. o suficiente para revolucionar os hábitos das pessoas em praticamente todos os quadrantes do planeta. Atualmente. então. dentre outras. em todo o planeta.área especializada na decifração do código genético dos seres vivos . acontece. Um marco considerado decisivo para o nascimento da biotecnologia moderna foi a descoberta da estrutura duplamente helicoidal do ADN . A partir desta data. mas a sua capacidade de transformação da natureza e intervenção no homem vem causando. esclerose múltipla e AIDS. ano de 1987. A perplexidade científica decorre da constatação de uma abrupta redução no interstício da renovação da matriz do conhecimento humano. o primeiro teste em campo de uma planta geneticamente modificada. fazendo com que tanto neste como em outros ramos da ciência. até que no ano de 2003 já era possível contabilizar a existência de 167. Este fato acelerou de modo irreversível o desenvolvimento da genômica . Cerca de quatro centenas de drogas e vacinas de origem biotecnológica acham-se em estudo clínico para sua aplicação em humanos. com mudanças no teor nutritivo das carnes e do leite. diabetes. Avalia-se que este setor de indústria e negócios seja responsável por um movimento financeiro da ordem de 30 bilhões de dólares anuais. Foi no século XX que a ciência se ampliou com a inauguração de outras áreas do saber como a biotecnologia. Nunca o homem foi tão longe em conquistas. retirando-lhes as gorduras nocivas à saúde humana.2007. tem início a disseminação destes experimentos na agronomia. como se constata pelo desenvolvimento do agronegócio. tanto no macro quanto no microcosmo. seja pelo desenvolvimento de técnicas para a destruição das diferentes formas de vida. em sangue e derivados. um terço das quais com ações negociadas nas bolsas de valores e transações financeiras estimadas em mais de 300 bilhões de dólares.Ética e inovação tecnológica em medicina . o setor da economia tem colhido generosos frutos da aplicação do conhecimento em biotecnologia.Ácido Desoxirribonucléico . Nos Estados Unidos da América existem. e nestes alvores do século XXI. cardiopatias. seja pela produção de novas formas de vida. conhecido como o século da tecnologia. recém completou meio século de desenvolvimento. Desde então os avanços da biotecnologia têm sido tão espetaculares quanto os desafios colocados pelo próprio ser humano para desenvolver técnicas no sentido de mitigar as suas necessidades básicas de nutrição. Esta extraordinária revolução "tecnocientífica". alimentos etc. finalmente. química industrial e a produção de papel. no início do século passado em torno de cinqüenta anos.Centro Universitário São Camilo . abreviada para cerca de uma década.determinando definitivamente sua inserção entre as maiores descobertas de todos os tempos.realizada por James Watson e Francis Crick. quer pela melhoria genética dos diferentes rebanhos.

um esquema sob a forma de U invertido. O segundo estudo foi realizado por Lichtenberg(7).. concluindo que o crescimento de 1% no esforço de pesquisa nesta área determinava uma queda de 0. É o caso dos transplantes. somados à inovação na área da química fina. resultando em baixa recuperação. percebe-se a amplitude dos novos conhecimentos trazidos pela genômica e pela imunologia que. do tratamento de câncer através de cirurgias. com as suas repercussões na saúde da população e as demandas por inovações. começando em 1800. emergem as divergências entre aqueles que consideram as inovações tecnológicas as únicas responsáveis pelo encarecimento da prática médica(9).) Na década de 1970 a expectativa de vida nas duas regiões ultrapassou 60 anos. O exemplo escolhido para demonstrar a lógica do esquema é o da evolução da poliomielite: inicialmente a paralisia determinava rapidamente a morte dos pacientes afetados. 2 . mormente a médica. esclerose múltipla e cirrose hepática avançada. depois de estabelecidas. concluindo-se que havia uma relação evidente entre o aumento da expectativa de vida em relação á introdução de novas drogas habilitadas pela agência americana Food and Drugs Administration (FDA). e os que as consideram. a saber: 1 . situações ou enfermidadescujos mecanismos fisiopatológicos são conhecidos e cuja prevenção e tratamento são possíveis. onde se encontram os procedimentos relativos aos cuidados com doenças e seus efeitos incapacitantes. demorou um século e meio". O Relatório sobre o Desenvolvimento Humano UNDP(8). Pesquisa. conseguindo em quatro décadas o que na Europa.estágio da "não-tecnologia" ("nontechnology"). por exemplo. cujas drogas ampliaram a expectativa de vida entre 0. no período compreendido entre 1900 a 1978. compara os custos de vacinas e transplantes. Também são considerados recentes o uso de novos materiais e medicamentos nas áreas de estética e sexologia. propõe. no qual a situação descrita como não-tecnologia . ao mesmo tempo. 3 . com relação à redução da taxa de mortalidade.75% a 1% ao ano.. Com base nesse esquema. ou seja. parte do problema ou da solução. e tratou de avaliar o impacto dos gastos com pesquisa e desenvolvimento (P&D) na indústria farmacêutica.10% na taxa de mortalidade e que variava entre 23% a 48% a magnitude da contribuição dessas pesquisas para a redução da taxa de mortalidade. no período compreendido entre 1970 e 1990.estágio das "tecnologias intermediárias" ("halfway technology"). enquanto na situação das "tecnologias intermediárias" estariam os maiores custos financeiros. retornando-se ao patamar de gastos (baixos) na terceira situação. com repercussões imediatas sobre a vida e a saúde do cidadão. ou ambos(10). radiação e quimioterapia. o desenvolvimento de novas técnicas cirúrgicas (principalmente no campo dos transplantes).ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . dos quais dois são freqüentemente referenciados. em que o paciente e doença apresentam vínculos pouco compreendidos e pouco pode ser feito em relação ao paciente. então. uso de antibióticos e prevenção de desordens nutricionais.estágio denominado de "alta tecnologia" materializado pela imunização.1(1):24-33 lógicas na área de saúde.Centro Universitário São Camilo . determinaram o aparecimento de antibióticos mais potentes. que estabelece a relação entre desenvolvimento tecnológico e desenvolvimento humano afirma que "avanços médicos como imunizações e antibióticos resultaram no século 20 em ganhos mais rápidos na América Latina e Ásia Oriental do que os alcançados na Europa durante o século 19 através da nutrição e de saneamento melhores".2007.implicaria em gastos baixos. Ao correlacionar custos e benefícios. a reprodução assistida e a terapia genética. denominada de "alta tecnologia". Weisbrod(9). Em seu estudo utilizou os critérios do biólogo Lewis Thomas que estabelece três estágios do desenvolvimento tecnológico na medicina.onde haveria pouco ou nada a ser feito . além do desenvolvimento de incríveis-máquinas de diagnóstico que esquadrinham toda a intimidade biológica do corpo humano. E conclui: "(. depois viria a fase da "tecnologia intermediária" com o aparecimento 28 . artrite reumatóide severa. Cita como exemplos desse estágio câncer não tratável. no entanto. nas quais as tecnologias teriam por finalidade ajustar o paciente à doença como medida para adiar a sua morte. O primeiro se refere ao estudo estatístico de Vehorn e colaboradores(6). tecnologia e inovação em saúde O impacto dos investimentos em pesquisas no setor saúde em relação à melhoria da qualidade de vida das populações tem sido avaliado por vários estudos. que consistiu em avaliar a contribuição da pesquisa biomédica em relação à "produção da saúde". além de hospitalização e cuidados de enfermagem. Weisbrod(9).

por si mesmo. diferencia esta prática das demais atividades econômicas mais convencionais.técnicas de tratamento e diagnóstico menos invasivas (como a endoscopia. mesmo que estatisticamente sejam pouco freqüentes os traumas que exijam sua intervenção. cujo desenvolvimento tem propiciado melhoria tanto na quantidade quanto na qualidade de tratamentos e nos métodos de diagnóstico. Outra situação semelhante ocorre com a necessidade de prover de soros antiofídicos nas unidades de saúde para um eventual atendimento de um paciente mordido por serpente.inovação tecnológica e aumento de gastos . por sua vez. Tal esquema. pois na medida em que se amplia a expectativa de vida. com o desenvolvimento das vacinas Sabin e Salk chega-se à fase da "alta tecnologia".desenvolvimento de vacinas em conseqüência do maior conhecimento sobre a natureza humana. Toma-se por empréstimo o 29 . para a mesma terapêutica. Como exemplo o fato de que qualquer serviço de emergência está obrigado a dispor de determinados especialistas (como o neurocirurgião). que se encontram em geral padronizados.Ética e inovação tecnológica em medicina . ao ser comparada como uma categoria econômica(12). o que determina a ampliação de sua capacidade ao mesmo tempo em que se tornam mais baratos. Os estudiosos da economia da inovação têm apontado para uma relação estreita entre ciência e tecnologia no setor saúde(13). A explicação para este fato . 2 . Dosi(11). entre uma radioterapia e uma quimioterapia. no setor saúde. que pode ser feita com um anti-helmíntico de amplo espectro. que conseguia prolongar a vida das vítimas da pólio a custos elevados e. no caso em que seus recursos poderem custear apenas uma das terapias.tendência à miniaturização de equipamentos hospitalares.À diferença do que ocorre nos processos industriais. as teorias propostas. pois. Não haveria possibilidade do paciente vir a decidir. que é basicamente artesanal. já determina a quebra de uma das regras de mercado para a alocação recursos adequados. responsável pela elevação dos custos da assistência médica.não há na assistência médica. reforçam esta assertiva explicitando três situações: 1 . 2 . embora tenham o mérito de apontar para algumas direções no exercício de equacionar o problema. sem prévios exames até submeter o paciente a uma bateria de exames. concomitantemente.Centro Universitário São Camilo . haveria uma tendência ascendente de custos para cada ano novo acrescido. finalmente.desenvolvimento de medicamentos mais eficazes que substituiriam cirurgias e internações prolongadas. que é a simetria de informações. O exemplo vai desde o tratamento de uma simples verminose. ainda são limitadas. 5 . diferentemente dos demais setores de produção. A verdade é que o caráter sui generis da prestação de serviços através da assistência médica.a mudança de hábitos e condições de vida propiciados pela educação. Campos e Albuquerque(12). por exemplo. resultando em relativa monotonia da produção. principalmente através dos meios de comunicação (redução de gastos. é questionado porque seria válido apenas para o caso das doenças transmissíveis e para doenças crônicas que atingem pessoas abaixo dos 65 anos de idade.a inexistência. 3 . onde a introdução de uma nova tecnologia acarreta a substituição das antigas. "limites para racionalizar a produção". Estas e outras constatações permitem confirmar a singularidade da assistência médica. tendo que assumir o ônus da manutenção rigorosa da qualidade e validade do produto. no setor saúde.2007. da capacidade do consumidor em decidir que produtos deve adquirir. pois não se pode admitir negar tal atendimento em decorrência de estatísticas. nem insumos nem processos são padronizáveis: é fato que pacientes atendidos por diferentes agentes de saúde ou mesmo em diferentes equipes médicas. não obstante serem objetivas muitas das informações obtidas. Este fato. pois não detém a informação necessária para tomar uma decisão. como caminhos que se abrem em direção à redução de custos com a assistência médica.se dá em razão da especificidade do setor saúde.1(1):24-33 do pulmão artificial. por exemplo. o ultra-som e imageologia cardíaca). é importante salientar que em sendo a Medicina uma prática tão complexa e dependente de interações da ciência e suas limitações. no entanto. pela diminuição do número de fumantes e de alcoólicos). 4 . Ao fim e ao cabo. descreve o que chamou de "trajetórias tecnológicas" a serem identificadas em Medicina. Isto decorre do predomínio da subjetividade no processo de trabalho em saúde. à semelhança do que ocorreu na indústria de computadores e telecomunicações. embora esta relação seja. como ocorre em outros setores econômicos. 3 . podem ter abordagem diferente. no setor da saúde o fenômeno é cumulativo. a saber: 1 . reduzindo-se acentuadamente os custos da pólio.

doenças tipo III. a um só tempo. Para o Global Forum for Health Research(17) 10% dos gastos mundiais em pesquisa na área da saúde dizem respeito a doenças e condições que representam mais de 90% da carga mundial da doença. Destarte. apelidando o fato de "hiato 10/90". e a intervenção na própria essência do ser humano. Os desafios éticos da inovação em medicina Os avanços científico-tecnológicos na Medicina são responsáveis pelo florescimento de três grandes utopias humanas. analisam a temática da inovação em saúde sobre o prisma da economia da tecnologia e sugerem que esta discussão ocorra em duas vertentes: em uma delas.2007. Para a OMS (WHO. em países ricos e pobres.2% dos fundos globais destinados à pesquisa em saúde e este fato é devido em boa parte à ausência de sistemas de inovação completo em tais países. e praticamente nada dos países ricos. Como acentua Lucian Sfez (19). onde existem expressivas populações vulneráveis a elas. como AIDS e tuberculose. É em razão destes fatos que Morin(20) adverte: "A humanidade corre o risco de naufragar no momento em que dá a luz ao seu futuro". não obstante o tamanho do progresso experimentado. acelerando sua deterioração. como a hepatite B e gripe ou. a utopia da beleza (pelas mudanças de padrões cosméticos) e a utopia do prazer (pelo aparecimento de novas drogas que suprimem a dor e promovem o prazer físico e psíquico). onde é manipulado o DNA humano. a leishmaniose. que dizem respeito àquelas exclusivas ou predominantes em países pobres.que obteve na 30 . mas com uma parte evidente em paises pobres. recebem somente 0. principalmente através da manipulação de sua identidade genética.2% dos recursos de P&D. 2001)(16) propôs. daí a importância de iniciativas de cooperativas internacionais com vistas a esforços de pesquisa e apoio à constituição de sistemas de saúde que garantam a efetiva difusão de conquistas científicas e tecnológicas mundiais. A perplexidade ética provocada pela "tecnociência" contemporânea é conseqüente ao fato de que o mundo. então. as duas maiores causas de morte em todo o mundo. em um cenário de distribuição desigual. se encontra na fronteira de graves responsabilidades morais. A outra vertente se refere à importância do esforço científico interno de países em desenvolvimento. também.Centro Universitário São Camilo .doenças tipo I. as inovações tecnológicas podem não só beneficiar a humanidade. que não lograram substituir a clássica ausculta cardíaca e nem sequer se substituem entre si. em especial à "carga da doença evitável". também presentes em países ricos e pobres. 1996)(15) os países de baixa e média renda são responsáveis apenas por 2. pela ecografia e pelo Doppler. 2 .1(1):24-33 exemplo da evolução da propedêutica cardiovascular os métodos propedêuticos propiciados pela tecnologia do eletrocardiograma. As doenças do tipo I contam com P&D público e privado. doenças não transmissíveis como diabetes e doenças cardiovasculares. responsáveis por 15.doenças tipo II. que são a utopia da eternidade (pelo aumento da longevidade). 1999)(14). então. por exemplo. Há no setor saúde "uma desconexão monumental" entre a carga da doença e os gastos em pesquisa e desenvolvimento: pneumonia e diarréias que são. por exemplo. no entanto a difusão desses produtos para países pobres se torna restrita por causa dos custos ou proteção patentária. Doenças do tipo II contam com recursos menores e as doenças do tipo III recebem menos ainda em P&D. determinadas pelo processo de intervenção cada vez mais agressivo do homem na biosfera. a nova obsessão humana é a utopia da saúde e do corpo perfeitos. como exemplificam a esquistossomose. a filariose e a doença de Chagas. e 3 . Desafios éticos da tecnologia médica Já é conhecida a grande disparidade entre a carga de doença e os investimentos em pesquisa no cenário mundial. que são encontradas.4% da carga da doença e. já se tornando uma certeza que a última batalha em defesa da dignidade humana está sendo travada nos laboratórios de genética molecular. Comissão da OMS (WHO. com conseqüente incremento de novos produtos. a divisão de doenças em relação a recursos de P&D em três grupos: 1 . mas também serem utilizadas contra ela. ressalvando que nenhum país do mundo pode deixar de participar das redes internacionais de pesquisa e difusão das inovações.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . como foi descrito pela Organização Mundial de Saúde-OMS (WHO. Albuquerque et al(18). a necessidade de a saúde ser compreendida como um fenômeno mundial. O mais terrível para a humanidade .

Ética e inovação tecnológica em medicina
- Centro Universitário São Camilo - 2007;1(1):24-33

ciência a desmistificação dos fenômenos naturais - é exatamente a perda dos valores espirituais provocada pelo poder fascinantemente corrosivo que a tecnologia exerce sobre o pensamento humano, principalmente devido à luta desigual entre a velocidade das descobertas e a capacidade de reflexão moral sobre elas. Se o progresso da ciência é, de fato, bem mais veloz do que as reflexões sobre as suas repercussões na biosfera e na vida humana, este fato torna mais angustiante e premente a discussão sobre os limites da intervenção da tecnologia médica sobre a vida humana. Daí porque Bobbio(21) justifica a geração sucessiva dos direitos como instrumentos de proteção do homem contra o poder, principalmente se representado pelo conhecimento, através da tecnologia: "Os direitos nascem quando o aumento do poder do homem sobre o homem - que acompanha, inevitavelmente, o processo tecnológico (a capacidade do homem de dominar a natureza e os outros homens) - ou cria novas ameaças à liberdade do indivíduo, ou permite novas remédios para suas indigências". Do igual modo como não se discute mais que a ciência e a tecnologia constituem hodiernamente um dos processos fundamentais para o progresso dos povos distanciando aqueles que já detêm conhecimento e os que deles depende para obtê-lo -, não se pode utilizar o poder do conhecimento para a submeter os semelhantes. A tecnologia, pelo fato de significar um bem simultaneamente público e privado (devido ao seu duplo financiamento), tem um custo que nem todos os países podem assumir, razão pela qual dever-se-ia estimular o desenvolvimento ou a maturação de sistemas nacionais de inovação tecnológica e sua conseqüente inserção internacional, especialmente sob a forma de cooperativas de pesquisa e tecnologia, a fim de se diminuir o fosso que separa nações que, em se tratando de saúde humana, tem significado a distância entre a vida e a morte para milhões de humanos. Deve ser desenvolvida a consciência de uma ética da responsabilidade, quer no plano individual, quer em instâncias institucionais e de governos, pois do mesmo modo que o não desenvolvimento da ciência e da tecnologia pode-se tornar uma estratégia imoral de manter povos submissos, o desenvolvimento da ciência e da tecnologia só poderá ser utilizado com a finalidade de contribuir para o progresso individual e coletivo, ou seja, para a felicidade dos homens. Por muito tempo a Medicina esteve balizada em con-

hecimento empírico, muitas vezes misterioso e transcendental, como bem demonstra a sua história desde a Antiga Grécia até um tempo recente, quando, no século 19 iniciou-se, de fato, o seu desenvolvimento científico. Até então, praticava-se uma medicina baseada nas manifestações sintomáticas e nos dados objetivos, voltada para os cuidados do enfermo e que visava minorar-lhe os sofrimentos. Hoje a extraordinária competência adquirida através do conhecimento médico pode colocar o profissional frente a inúmeros dilemas éticos conflitantes em relação ao clássico mister da Medicina com respeito à melhoria das condições de saúde, cujos avanços científicos podem induzir o médico a se transformar em mero manipulador da vida humana. Não se pode coadunar com os que, a pretexto de utilizar a tecnologia mais recente, tenham por propósito sanar as doenças ou manter a vida do paciente, a qualquer custo, mesmo depois de exauridas todas as possibilidades biológicas para a manutenção de uma qualidade de vida digna, além de contribuir para o encarecimento da assistência médica e de saúde. As tecnologias modernas só estarão plenamente justificadas se estiverem condicionadas a uma efetiva melhoria da qualidade de vida e da saúde do ser humano, e não representar uma forma de dominação e usurpação da cultura médica pela máquina ou, ainda, pela submissão do paciente à ideologia do cientificismo ou à lógica de mercado, que contribuem para a ampliação dos lucros da indústria da saúde, enquanto se olvida de avaliar prudentemente a relação entre custo, riscos e os possíveis benefícios a serem auferidos pelo paciente.

CONCLUSÕES
O desenvolvimento da ciência e da tecnologia no último quartel de século, foi responsável pelo extraordinário progresso alcançado pelos diferentes setores da sociedade moderna, de modo que atualmente a tecnologia permeia praticamente todos os setores da vida humana. Mais recentemente, o desenvolvimento da biotecnologia trouxe enorme contribuição ao setor saúde, canalizando a maior parte dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) nos setores públicos e privados. Exemplos deste progresso, a genômica e a farmaco-

31

ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO
- Centro Universitário São Camilo - 2007;1(1):24-33

genômica floresceram com a intenção de tornar a medicina cada vez mais preditiva, com benefícios não só para a saúde individual, mas, também, para as políticas de saúde pública em geral. A literatura internacional especializada em economia da tecnologia, ao focar o subsistema saúde, comprova uma estreita relação entre a melhoria dos indicadores sanitários e investimentos em pesquisa e inovação em saúde. Entretanto, persistem questões não resolvidas e polêmicas, como a relação dos custos das inovações e os benefícios delas auferidos pelas populações, o que provoca a interrogação se a tecnologia é um fator de encarecimento dos custos da assistência à saúde, ou é parte do problema, ou ambos. Por outro lado, a distribuição desigual da apreensão do conhecimento e da informação em saúde se encontra acumulada nos países centrais, em razão da concentração dos investimentos no setor (cerca de 98%) com relação aos países em desenvolvimento ou periféricos, causa um agudo descompasso em relação à prevalência nosológica nas regiões mais pobres do planeta, traduzido pelo famoso hiato 10/90, designado pelo Global Forum for Health Research(17). Daí a necessidade de estabelecer políticas e estraté-

gias de apoio ao desenvolvimento de sistemas nacionais de inovação em saúde nos países que ainda não dispõem de um sistema científico-tecnológico amadurecido (ou o tenha de modo incompleto) e propiciar a conexão internacional dos sistemas maduros ou completos com os países subdesenvolvidos. De modo similar é necessário que os países em desenvolvimento estabeleçam políticas de ciência e tecnologia em saúde, com inovação tecnológica voltada preferencialmente para o dar soluções aos problemas predominantes nestas regiões. Do ponto de vista da práxis médica, seja ela ambulatorial ou hospitalar, suas intimas relações com as inovações tecnológicas têm ocasionado o aumento de dilemas éticos, tendo a Medicina, neste limiar do século 21, se tornado instrumento da nova utopia da humanidade, qual seja a utopia da saúde e do corpo perfeitos. De tudo resulta que os avanços tecnológicos podem estar induzindo uma cultura de transformar o profissional médico mais num manipulador de vidas do que em promotor da saúde humana.

32

Ética e inovação tecnológica em medicina
- Centro Universitário São Camilo - 2007;1(1):24-33

REFERÊNCIAS
1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. 18. 19. 20. 21. Albuquerque EM, Souza SGA, Baessa AR. Pesquisa e inovação em saúde: uma discussão a partir da literatura sobre economia da tecnologia. Ciênc Saúde Coletiva 2004; 9 (8): 277-294. Lolas F, Agar L, editors. Interfaces between bioethics and the empirical sciences. Santiago de Chile: Programa Regional de Bioética, Organização Panamericana de la Salud; 2002. PotterR. The greatest benefit of mankind: a medical history of humanity. New York:W.W. Norton; 1998. Rosemberg N. Perspectives in technology. Cambridge: Cambridge University; 1976. World Bank. World development report 1993: investing in health. Oxford: Oxford University; 1993. Verhorn C et al. Measuring the contribution of biomedical research to the production of health. Research Policy 1982; 11 (1): 3-13. Lichtenberg F. Pharmaceutical innovation, mortality reduction, and economic growth. Cambridge: National Bureau of Economic Research; 1998. (Working Paper 6569). UNDP-United Nations Development Program. Human Development Report: making new technologies work for human devel opment. Nova York; 2001. Disponível em: URL:http:www.undp.org Weisbrod B. The health care quadrilemma: an essay on technological change, insurance, quality of care, and cost containment. J Econ Lit 1991; 29 (2): 523-552. Economic aspects of biothecnology related to humans health;1998.Disponível em URL:http//www.oecd.org Dosi G. Technical change and industrial transformation: the theory and an application to the semiconductor industry. London: Macmillan;1984. Campos FE,Albuquerque E.As especificidades do trabalho no setor saúde.In:Castro J,Santana JP. Negociação coletiva do trabalho em saúde. Brasília/Natal: OPAS/OMS,NESC,UFRN;1998. Nelson R.The intertwining of public and proprietary in medical technology,In:Rosenberg N et al.Sources fo medical technology : universities and industry.Washigton:National Academy;1995.(Medical Innovation at the Crossroads v.5). WHO-World Health Organization. World health report: making a difference. Geneve; 1999. Disponível em: URL: http:www.who.org WHO-World Health Organization. Investing in health research and development. Geneve: TDR;1996. Disponível em: URL:http: www.who.org WHO-World Health Organization. Macroeconomics and health: investing in health for economic development. Report of the Comission on Macroeconomics and Health. Geneve; 2001. Disponível em: URL:http: www.who.org Global Forum for Health Research -GFHR. The 10/90 Report of health research 2001-2002. Geneve; 2002. Albuquerque EM, Cassiolato JE. As especificidades do sistema de inovação no setor saúde. Rev Econ Polít 2002; 22 (4): 88. Sfez L. La Santé parfaite. Paris: Le Seuil; 1979. Morin E. Ciência com consciência. 7ª.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil; 2003. Bobbio N. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Campus; 1992.

33

Se ha adoptado un acercamiento cuantitativo. Nesse aspecto existe uma lacuna na formação dos profissionais de saúde principalmente quando se refere ao processo da terminalidade e cuidados paliativos. there is a gap in the education of health professionals.1(1):34-42 A formação em cuidados paliativos da equipe que atua em unidade de terapia intensiva: um olhar da bioética The training in palliative care for the intensive care unit´s team: A bioethical perspective El entrenamiento en cuidados paliativos del equipo de la unidad de cuidados intensivos: Una perspectiva bioética Karina Dias Guedes Machado* Leo Pessini** William Saad Hossne*** RESUMO: A medicina ao longo dos séculos.A atual pesquisa mostra que se tornam necessárias alterações urgentes na grade curricular dos profissionais de saúde. 12 de médicos e 25 de enfermeiros. vem passando por transformações em relação ao avanço da tecnologia que trouxe melhorias significativas na área da saúde. In this regard.br ** Doutor em Teologia Moral. which brought significant improvement to the health area. utilizando a análise estatística do Chi 2 Foram obtidos 58 questionários sendo 21 de fisioterapeutas. En este sentido. Fifty-eight questionnaires have been obtained. porém também trouxe à tona dilemas éticos acerca da atitude dos profissionais quando nos referimos a condutas em pacientes fora de possibilidades terapêuticas. Mestre em Bioética pelo Centro Universitário São Camilo. ABSTRACT: Medicine has been going through transformations throughout the centuries in relation to the advance in technology. Los datos han sido sometidos a un análisis descriptivo de frecuencia absoluta y relativa y a asociaciones entre variables cuantitativas aplicando el análisis estadístico Chi2. Se han obtenido cincuenta y ocho cuestionarios. hay un hiato en la educación de los profesionales de salud. *** Médico. de los cuales 21 eran de fisioterapeutas. Intensive care unit. desses profissionais quanto a cuidados paliativos. Bioética-ensino. aunque también han destacado los dilemas éticos que afectan la actitud de los profesionales frente a los procedimientos en pacientes sín posibilidades terapéuticas. mostly when one refers to the end-stage process and palliative care. contemplando o ensino de cuidados paliativos e auxiliando os profissionais nas reflexões bioéticas para a melhor tomada de decisão frente ao paciente fora de possibilidades terapêuticas. The data have been submitted to a descriptive absolute and relative frequency analysis and to associations among quantitative variables by applying Chi2 statistical analysis. Unidad de cuidados intensivos. Coordenador do Programa Stricto Sensu de Mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo. RESUMEN: La medicina ha pasado por transformaciones a través de los siglos en lo referente a los avances tecnológicos. The aim of this research has been to analyze and discuss these professionals' skills and education in palliative care. which has been carried out by means of the application of a questionnaire to multidisciplinary teams working in Intensive Care Units.2007. que trajeron mejoras significativas al área de la salud. e associações entre variáveis quantitativas. que se ha realizado promedio un cuestionario aplicado a equipos multidisciplinarios que trabajaban en unidades de cuidados intensivos.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . PALAVRAS-CHAVE: Cuidados paliativos. The current research reveals that urgent changes should be made in health professionals' curriculum grid. La meta de esta investigación fue analizar y discutir las habilidades y entrenamiento de estos profesionales para los cuidados paliativos. A quantitative approach has been adopted in this study. E-mail: karinadiasguedes@terra.com. 34 . Os dados sofreram análise descritiva de freqüência absoluta e relativa. Unidade de terapia intensiva.Centro Universitário São Camilo . 12 from physicians and 25 from nurses. out of which 21 were from physiotherapists. cubriendo la práctica de los cuidados paliativos y las reflexiones bioéticas que les ayudarán en una toma de decisión mejor. O objetivo da atual pesquisa foi analisar o preparo e formação. 12 de médicos y 25 de enfermeros.Esse estudo foi realizado de forma quantitativa por meio da aplicação de um questionário à equipe multidisciplinar que atua em Unidades de Terapia Intensiva. * Fisioterapeuta. PALABRAS LLAVE: Cuidados paliativos. KEYWORDS: Palliative care. Bioethics-teaching. sobre todo cuando referente al proceso de los cuidados paliativos en el final de la vida. although it has also highlighted ethical dilemmas over the professionals' attitude when it comes to procedures in patients out of therapeutic possibilities. covering palliative care practice and bioethical reflections that will help them with better decision-making. Bioética-enseñanza. Professor do Programa de Mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo. La investigación revela que se deben realizar cambios urgentes en el plan de estudios de los profesionales de salud.

deve agir com esses pacientes fora de possibilidades terapêuticas (FPTs) e suas famílias na fase da terminalidade? Certamente. Segundo Doyle et al(12) algumas abordagens australianas têm descrito competências para médicos em termos de metas para os cuidados. O trabalho ainda é árduo. a preocupação com a alma humana. Assim sendo. mas de outro.6. assim como o seu reconhecimento da necessidade dessa formação(5.8). torna-se necessário que o profissional de saúde alie para além da competência técnico-científica uma competência humana e ética. coerente e responsável. ampliam as perspectivas terapêuticas em diversas situações clínicas. desde que bem indicados e utilizados.2007. a utilização de medidas fúteis ocorre por desconhecimento dos profissionais sobre cuidados paliativos.1(1):34-42 INTRODUÇÃO A medicina em todo o mundo passou por profundas transformações ao longo do século XX. a procura e a formação de profissionais tecnicamente capazes são cada vez maiores. provavelmente. ética e humana. Estudos realizados em diversos países mostram uma lacuna na formação dos profissionais de saúde no que tange aos cuidados paliativos. A responsabilidade ética individual é o coração da competência clínica para todos que cuidam de doenças(12). desenvolver plano de direção com equipe interdisciplinar. ensejam a possibilidade de prolongamento da vida a qualquer custo. Sabe-se da necessidade de formação de competência para um bom cuidado paliativo. nas quais os profissionais de saúde muitas vezes se aperfeiçoam em apenas um segmento do corpo e podem esquecer completamente da pessoa como um ser único dotado de corpo e alma.Centro Universitário São Camilo . Formação dos profissionais de saúde Parte-se do princípio de que a pessoa não nasce ética. porém tudo isso traz à tona decisões éticas acerca das condutas dos profissionais de saúde(1). em termos de mudanças.4). não há como colocar em dúvida os benefícios promovidos pelos avanços tecnológicos. vivenciando os verdadeiros valores da bioética para um agir competente.7. controle ou eliminação de doenças. revisar. e desenvolver principalmente a capacidade de "estar ao lado" quando a morte for inevitável(10). além de especialidades. 35 . De acordo com Goic(5). assim. Azulay(9) diz que. sua estruturação ética ocorre através do seu desenvolvimento(2). monitorizar e atualizar o plano de direção com equipe interdisciplinar. O conhecimento técnico nos cursos da área de saúde tem sido muito enfatizado em detrimento de uma formação mais humanista(3. Estabelecer limites aos atos é um desafio ético-educacional.A formação em cuidados paliativos da equipe que atua em unidade de terapia intensiva: um olhar da bioética . Com os avanços da tecnologia. Como um profissional de saúde que atua em UTIs. oferecendo. deixando-se de lado. as subespecialidades. De um lado. administrar a fase terminal e luto. requeridas ou necessárias para atender adequadamente às necessidades médicas e humanas críticas de enfermo terminal. As Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) associadas ao avanço da tecnologia médica. São elas: administrar o ingresso nos cuidados paliativos. necessária a mudança de mentalidade dos profissionais que nem sempre estão dispostos e disponíveis para uma nova organização(10). Os profissionais devem ter preparo ético para saber lidar com os desafios que surgirão no campo do trabalho. têm crescido de forma substancial. existem vários desafios a serem vencidos e dentro deles está a possível deficiência na educação de profissionais de saúde no que diz respeito à terminalidade. com certa freqüência. Competência profissional é simplesmente um rótulo enganoso para descrever um cenário complexo de atributos e comportamentos necessários aos profissionais de saúde que cuidam de pessoas com doenças incuráveis. Os avanços tanto na prática médica. como na tecnologia têm trazido melhorias significativas na saúde. há uma interrogação se durante os estudos formais ou posteriores (Educação Continuada) os profissionais de saúde recebem formações técnica. dar suporte ativo a todos os membros da equipe interdisciplinar. No Brasil. A medicina tem se segmentado cada vez mais. A equipe de saúde e os demais seres humanos precisam entender o processo de morte. tendo em suas mãos a alta tecnologia. implicando muitas vezes em tratamentos fúteis. Para o dia-a-dia dentro de uma UTI. iniciando pelos aparelhos formadores que moldam profissionais com esmerada preparação técnica e nenhuma ênfase humanística(11).

portanto pode ser feito.. se não estiver não pode ser feito. ou quatro princípios. exigem uma abordagem em equipe. Essa equipe deve ter preparo para lidar com os medos..ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . profissionalismo. a serviço do prolongamento da vida. são aplicáveis no estágio inicial da doença"(17). Contudo a sociedade vem mudando e se abrindo cada vez mais a novos conceitos e argumentações(18). que. não se dando a devida ênfase a um dos postulados básicos da medicina. Segundo Costa(13) cita: "[. mas sim.2007. intervenção ou procedimento que não atinge o objetivo de beneficiar a pessoa na fase final de vida e que prolonga inútil e sofridamente o processo de morrer.]apesar de a morte fazer parte do cotidiano médico. segundo Azulay(19). nos faz exercitar a capacidade de reflexão na escolha das melhores condutas para o paciente.Centro Universitário São Camilo . que não traz respostas prontas. Em suma. com sua visão pluralista.]". habilidade de aconselhamento. Os cuidados paliativos não se referem primariamente a cuidados institucionais. É praticamente uma constante nas escolas médicas. afirmam a vida e encaram o morrer como um processo normal. Esse preparo pode ter como base as reflexões bioéticas onde procura-se o melhor para o ser humano fundamentando-se nos referenciais discutidos a seguir. o conceito de medicina curativa. visama a primorar a qualidade de vida." A bioética principialista ressalta quatro balizas. procurando distanciar a morte. O Conselho da Europa. aqui. o esforço da Comissão Nacional de Residência Médica. Não devemos aceitar algo como verdade absoluta. ela é grande ausente do ensino médico. ajudam a família a lidar com a doença do paciente e com luto. anterior a isso se trata de uma filosofia de cuidados aplicáveis em todas as instituições. na sua recomendação nº24 do Comitê de Ministros para os estados membros. o sofrimento e a espiritualidade são tratados pelos cuidados paliativos. É importante citar os esforços que algumas sociedades e instituições de ensino têm feito para que os cuidados paliativos sejam do conhecimento de todos. qualidade humanística e ética médica(12). É sabido que os profissionais de saúde que participam do processo da morte não recebem formação suficiente sobre o tema da terminalidade e sobre inúmeros dilemas da bioética. não apressam. Integram aspectos psicológicos e espirituais dos cuidados com o paciente. como a corrente Principialista. avaliação e administração do controle da dor e sintomas. O desenvolvimento da medicina paliativa ocorreu frente à ameaça da medicina moderna. até o momento da sua morte. Sua ênfase está em um trabalho multidisciplinar com atitudes de cuidados frente à realidade da finitude humana. "consiste em conseguir um método sistemático de reflexão que permita eleger uma solução correta frente um dilema bioético. os cuidados paliativos são de responsabilidade de uma equipe multidisciplinar e não de um só profissional. que buscam atender o ser humano na sua globalidade de ser na fase final de vida. Salienta-se. tecnicista em priorizar sempre a cura em vez do cuidado. Bioética Existe uma linha tênue entre a moralidade e a legalidade do exercício médico voltado a cuidados paliativos. que é a diminuição do sofrimento humano[. Hoje existem mais de oito mil serviços de cuidados paliativos pelo mundo(12). equipe próxima.. se algum ato estiver no código profissional é legal. é nesse momento que entra a bioética. Segundo Pessini(14). angústias e sofrimentos do paciente e sua família. Cuidados paliativos Os cuidados paliativos entram como uma alternativa para que não seja realizada a tão temida eutanásia nem a distanásia." A dor. Já a distanásia ou obstinação terapêutica.. Devido a estas características citadas anteriormente. bem como em domicílio(16). tendo sempre em mente agir com respeito frente à realidade da finitude humana e às necessidades do paciente.1(1):34-42 As competências unem: conhecimento médico. encarniçamento terapêutico e tratamento fútil são entendidos como "ação.] Em nosso sistema universitário sobra informação. Seu valor central baseia-se na dignidade humana(14). que marcam o território da morali- 36 . em conjunto com a Sociedade Brasileira de Clínica Médica para uma possível mudança no currículo dessa especialidade(15). tem como princípios fundamentais de cuidados paliativos: a manutenção de um nível ótimo de dor e administração dos sintomas.. falta formação[. oferecem um sistema de apoio para ajudar os pacientes a viver tão ativamente quanto possível. nem adiam a morte.. a bioética possui correntes diversas. eutanásia é "um ato médico que tem como finalidade eliminar a dor e a indignidade na doença crônica e no morrer eliminando o portador da dor".

à luz da bioética.Centro Universitário São Camilo . Nessa teoria dos referenciais. inter e transdisciplinar. porém. então. Estes princípios. são reconhecidos e formulados desde a antiguidade pela tradição da filosofia moral cristã e também pela teologia moral cristã e foram resumidos numa proposta coerente pelos autores Ferrer e Alvarez(20). confidencialidade etc. o preparo e a formação em cuidados paliativos dos profissionais da equipe de saúde (médicos. O presente estudo teve por objetivo analisar e discutir. beneficência. A sensibilidade e a compaixão devem estar presentes na relação entre profissionais da saúde e pacientes.. já que o estudo analisou sua formação acadêmica e posterior. A amostra era composta de 67% do sexo feminino e 33% do sexo masculino. conforme a situação bioética exigir. justiça) e virtudes (compaixão. a formação do médico. As respostas sofreram análise descritiva de freqüências absoluta e relativa e associações entre as variáveis quantitativas. à compaixão(23).. solidariedade. 37 . fisioterapeutas e enfermeiros que atuavam nessas UTIs. Outro fator considerado muito importante para a inclusão desses profissionais no estudo é que eles são os profissionais mais próximos e que mais "tocam" os pacientes. insuficiente". fundada em um corpo teórico centrado em etapa terminal. fisioterapeutas e enfermeiros) que trabalha em unidade de terapia intensiva. nãomaleficência. O referencial da beneficência diz respeito a ações realizadas em benefício de outros(22). não somente em princípios. A preferência por esses profissionais foi por possuírem curso superior. pois quando analisada a teoria principialista. Para tanto foi realizado levantamento em unidades de terapia intensiva para adultos de três hospitais privados da cidade de São Paulo. partir para retirar a causa do sofrimento. segundo Hossne(21). No Brasil. Esse contato mais próximo é muito significativo quando se avalia o contexto de todos os envolvidos nos cuidados paliativos. Este referencial manda fazer o bem e permite que a atuação do profissional seja benéfica ao paciente. que aqui tomamos a liberdade de alterá-la para relação profissional saúde-paciente. sanando suas dores e confortando o paciente. em que o paciente confia no profissional e em sua promessa de colocar suas habilidades a serviço do bem do paciente(20).2007. deve-se. ainda é eminentemente paternalista. O referencial da não-maleficência implica não causar dano. há total liberdade entre eles de atuarem e interagirem de forma pluralista. A especialidade dos cuidados paliativos foi construída. Princípios da Ética Biomédica. assim os princípios deixam de ser princípios (direito e ou deveres) e passam a ser ponto de referência".) entre outros. na maioria das instituições de ensino. Esse referencial ainda é ignorado na cultura latina quando nos deparamos com um paciente com o diagnóstico fora de possibilidades terapêuticas(19). ainda: "os referenciais seriam como o próprio nome indica. Hossne(21) cita. ela tem forte fundamentação deontológica. "a teoria dos princípios [. e a bioética necessita mais que isso. A autonomia e o direito dos pacientes devem ter destaque frente ao paternalismo e comportamento autoritário da medicina que ainda ocorre nos dias atuais. associada a uma nova forma na relação equipe de saúde/paciente/familiares. baseados em valores e referenciais. Contudo. após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa e consentimento dos profissionais com preenchimento do termo de consentimento livre e esclarecido.] é importante e necessária. 88% tinha idade inferior a 40 anos e 12% idade igual ou superior a 41 anos. sendo necessário haver compromisso ético dos profissionais de saúde para não causar sofrimento desnecessário ao paciente(4). 47% tinha tempo de formação igual ou inferior a 10 anos e 53% superior a 11anos com tempo de atuação em unidade de terapia intensiva de 83% da amostra inferior ou igual a 10 anos e somente 13% superior ou igual a 11 anos. capaz de prestar uma assistência à totalidade baseando-se na bioética.A formação em cuidados paliativos da equipe que atua em unidade de terapia intensiva: um olhar da bioética . A fidelidade à promessa é um referencial exigido da relação médico-paciente. Utilizando esse referencial. as pontes de referência para a reflexão bioética. nos quais devemos nos fundamentar para elaborar a reflexão bioética. em especial.1(1):34-42 dade. utilizando a análise estatística do Chi(2). Os profissionais incluídos neste estudo eram médicos. que engloba os previamente denominados princípios (autonomia. Há necessidade de reflexão e juízo crítico. enunciados no livro de Beauchamp e Childress. A legitimação da especialidade de cuidados paliativos é constituída pela aquisição de conhecimentos técnicos. aliada a valores humanísticos. uma vez encerrado o cuidado da cura da doença.

onde 90% relataram que não lhes foi oferecido o conhecimento necessário durante a formação profissional. chama a atenção alta porcentagem (73%) daqueles que desconheciam o tema distanásia. é necessário o desenvolvimento de competências de cada membro da equipe.Centro Universitário São Camilo . 66% afirmaram não ter o conhecimento necessário para lidar com o processo de morte dos pacientes e os conflitos daí decorrentes. porém insuficiente nesses temas para os diversos segmentos da equipe. Nas respostas dos fisioterapeutas. Todavia pode-se afirmar por meio dos dados colhidos que há um desequilíbrio entre o conhecimento geral dos diversos segmentos profissionais que atuam em UTI com pacientes fora de possibilidades terapêuticas. 62 % 38 . que é a que mais referiu existir abordagem desses temas em seu curso superior. constatamos que os fisioterapeutas são os profissionais que menos receberam formação acerca desses temas. os profissionais que atuam em UTI devem ter conhecimento quanto a finitude de alguns tratamentos. pode-se observar que isso ocorreu quanto aos temas final de vida. Os dados evidenciaram que houve diferença signifiGráfico 1 Kovács(10) quando diz que "ocorre no Brasil uma grande deficiência na educação dos profissionais da equipe de saúde nesses temas. MORT E. vale ressaltar que 81% negaram a abordagem do tema final de vida. Essa diferença pode ser visualizada na (Tabela 1) a seguir. Quando analisada por categoria profissional essa diferença tornou-se evidente na resposta dos fisioterapeutas. já a equipe médica manteve equilíbrio em suas respostas. assim. fazendo com que os mesmos se afastem desses pacientes. Gráfico 2 F ORMAÇÃO SOBRE TEMAS D E F I NAL D E VIDA.05).1(1):34-42 Cuidados paliativos na perspectiva da equipe de UTI A obra Oxford Textbook of Palliative Medicine(12) reconhece que os cuidados paliativos dependem de uma equipe multiprofissional treinada e não apenas de um só segmento profissional. CUIDADOS PALIATIVOS E DISTANÁSIA F ORMAÇÃO PROFISSIONAL PARA LIDAR COM A MORT E E CONFLITOS DAÍ DECORRENTES cante entre os três segmentos de profissionais (p < 0. evitando. Ao serem avaliados o preparo e a formação recebidos pela equipe (Gráfico 1). as práticas que levam à distanásia. Ao observar as equipes isoladamente. Tabela 1 F ORMAÇÃO PROFISSIONAL PARA LIDAR NossosCOM A MORT E E SEUS CONFLITOS dados corroboram com a opinião de Sim Não Médicos nº (%) 5 (42) 7 (58) Fisioterapeutas nº (%) 2 (10) 19 (90) Enfermeiros nº (%) 13 (52) 12 (48) Equipe nº (%) 20 (34) 38 (66) Ao se considerar toda a equipe.2007. em contraste com a equipe de enfermagem. morte e distanásia (p< 0.05). Quando questionados se houve abordagem específica de tais temas (Gráfico 2 e Tabela 2) verifica-se que houve abordagem. Quando analisados se houve diferença significante entre as respostas." Para Moritz e Nassar(24).ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO .

que correspondem a 42 profissionais. conforme evidenciam nossos resultados. 73% da equipe. subvalorizando os aspectos humanistas(25). pode ser evidenciada na Tabela 4.05). como pode ser observado no Gráfico 3. CUIDADOS PALIATIVOS E DISTANÁSIA Médicos nº (%) Fisioterapeutas nº (%) Enfermeiros nº (%) Final de vida Sim Não Morte Sim Não Cuidados Paliativos Sim Não Distanásia Sim Não 4 (33) 8 (67) 1 (5) 20 (95) 11 (44) 14 (56) 16 (27) 42 (73) 6 (50) 6 (50) 6 (29) 15 (71) 14 (56) 11 (44) 26 (45) 32 (55) 7 (58) 5 (42) 8 (38) 13 (62) 23 (92) 2 (8) 38 (65) 20 (35) 6 (50) 6 (50) 4 (19) 17 (81) 18 (72) 7 (28) 28 (48) 30 (52) Equipe nº (%) Sim Não F ORMAÇÃO DOS PROFISSIONAIS SOBRE ÉTICA E OU DEONTO LOGIA DA MORT E Médicos nº (%) 10 (83) 2 (17) Fisioterapeutas nº (%) Enfermeiros nº (%) 7 (33) 25 (100) 0 14 (67) Equipe nº (%) 42 (73) 16 (27) Durante os cursos de formação profissional.Centro Universitário São Camilo . Técnica Sim Não Atualiz. primase pela qualidade técnico-científica. 71% negaram sobre cuidados paliativos e 95% negaram a abordagem da distanásia (Tabela 2).1(1):34-42 negaram a abordagem do tema morte. o que pode ser observado na Tabela 3. Gráfico 3 Ética e Bioética Sim Não Cuidados Paliativos Sim Não Humanização Sim Não Distanásia Sim Não Atualiz. responderam que sim.A formação em cuidados paliativos da equipe que atua em unidade de terapia intensiva: um olhar da bioética . Tabela 2 freqüentemente situações de óbito e.2007. em 1981. 39 .CIENTÍFICAS Médicos nº (%) Fisioterapeutas nº (%) Enfermeiros nº (%) Equipe nº (%) Quando os profissionais foram interrogados se durante sua formação acadêmica tiveram aulas sobre ética e/ou deontologia da morte. no entanto nem todos estão preparados para isso. destacando-se os profissionais fisioterapeutas com 67% das respostas negativas. Porém nessa questão obteve-se também diferença significante (p< 0. principalmente quando relacionados a terminalidade. Tabela 3 F ORMAÇÃO SOBRE TEMAS D E F I NAL D E VIDA. Científica Sim Não 12 (100) 0 20 (95) 1 (5) 20 (80) 5 (20) 52 (90) 6 (10) 12 (100) 0 19 (91) 2 (9) 20 (80) 5 (20) 51 (88) 7 (12) 5 (42) 7 (58) 1 (5) 20 (95) 4 (16) 21 (84) 10 (17) 48 (83) 6 (50) 6 (50) 15 (71) 6 (29) 24 (96) 1 (4) 45 (78) 13 (22) 5 (42) 7 (58) 3 (14) 18 (86) 5 (20) 20 (80) 13 (22) 45 (78) 4 (33) 8 (67) 4 (19) 17 (81) 13 (52) 12 (48) 21 (36) 37 (64) F ORMAÇÃO DOS PROFISSIONAIS SOBRE ÉTICA E OU DEONTO LOGIA DA MORT E Os profissionais de saúde estão sujeitos a presenciar A Assembléia parlamentar do Conselho da Europa e a Assembléia Médica Mundial de Lisboa. MORT E. Essa priorização de atualização técnico-científica sobre os aspectos humanistas. Tabela 4 E DUCAÇÃO CONTINUADA RELACIONADA COM QUESTÕES HUMANÍSTICAS E TÉCNICO.

Quando considerada toda a equipe. Quando interrogados se acreditariam que a realização de reuniões específicas no ambiente de trabalho auxiliariam na resolução de dilemas bioéticos. 51 profissionais já buscaram fazer cursos de atualização técnica e 90%. sendo as três inseparáveis e complementares(5). "o profissional deve estar preparado para fazer reflexões que só são possíveis através do diálogo com todos os envolvidos no processo". correspondendo a 53 profissionais. 53 (91%) profissionais responderam que sim (Gráfico 5). éticas e humanísticas. essa porcentagem aumenta consideravelmente para 88%. ou seja. Quando questionados sobre a busca de atualização técnico-científica. chama a atenção que somente 21 (36%) já participaram de curso ou congresso de ética e bioética. afirmar com base nos dados colhidos que os profissionais não buscaram atualização nesse assunto.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . e 10 (17%) de cursos de distanásia. porém quando foram interrogados sobre a oportunidade de realizá-la. que correspondem a 52 profissionais. afirmaram que alteraria sim. pois atingiram valores percentuais maiores que 75%. 13 (22%) já participaram de cursos de cuidados paliativos. incluindo temas relacionados à morte. Pode-se.2007. A tabela 5 mostra as respostas quanto aos temas que a equipe assinalou que deveriam ser discutidos nessas reuniões. 97% da equipe. ou seja. todos os temas obtiveram grande importância.Centro Universitário São Camilo . portanto. e aqui estão incluídos os outros profissionais de saúde.1(1):34-42 recomendaram que o médico. já 2% alterariam-na incluindo temas relacionados à medicina de alta tecnologia e 1% respondeu que não faria alterações (Gráfico 4). Tabela 5 E SCOLHA POR ALTERAÇÃO N A GRADE CURRICULAR T EMAS D E INTERESSE DA E QUIPE A SEREM DISCUTIDOS E M REUNIÕES ESPECÍFICAS Assistência a esses pacientes Prognóstico Decisões de reanimação ou não Humanização em cuidados paliativos Aspectos éticos Aspectos psicológicos Aspectos legais nº 54 46 47 54 51 52 51 Equipe (%) (93) (79) (81) (93) (88) (90) (88) Goic et al (1997) sugerem que a melhor forma de aprendizado sobre esse tema seria o docente realizar reuniões de reflexão com seus alunos. devem aprender que os aspectos envolvidos na terminalidade são das situações mais difíceis que enfrenta o trabalho clínico e que têm implicações técnicas. relatar sua Esses dados reafirmam estudo de campo prévio realizado por Moritz (2004) em que foi avaliada a atitude dos profissionais de saúde diante da morte e mostrou que o segmento dos médicos e de enfermagem sente a necessi- 40 . Gráfico 5 I MPORTÂNCIA DAS REUNIÕES N A RESOLUÇÃO D E DILEMAS BIOÉTICOS Na opinião de Mota 26. tentaram realizar cursos sobre atualização científica. Gráfico 4 experiência pessoal e acompanhá-los em suas relações com os pacientes fora de possibilidades terapêuticas e com seus familiares. se alterariam a grade curricular de suas profissões. 58 profissionais avaliados.

mas talvez não consiga pôr em prática os cuidados pertinentes ou não suspenda tratamentos considerados fúteis por desconhecimento. porém nem todos são tão eficazes quando se fala em manejar o processo da terminalidade. especialmente quando falamos em sofrimento humano e morte.A formação em cuidados paliativos da equipe que atua em unidade de terapia intensiva: um olhar da bioética . acima de tudo. sempre buscando respeitar a sua autonomia. O preparo e a formação desses profissionais. Caso isso não seja possível. não importa o lugar. por meio de algumas atitudes que visem ao controle dos sintomas. estão em geral voltados para formar profissionais técnicos. Sugerimos então que cursos de humanização. O que importa é a filosofia da humanização no resgate da dignidade durante o processo da terminalidade. Muito se fala na eficiência dos avanços tecnológicos . oferecer conforto ao paciente e ao seu familiar. a temida distanásia. experiência e conhecimento necessários ao atendimento de casos sem possibilidades terapêuticas. Torna-se necessário que as instituições de saúde realizem reuniões específicas para a discussão de dilemas. em casa. torna-se imprescindível que os profissionais de saúde. a discutir os temas embasados sempre na ética e. nas unidades de internação. ainda há muito do ponto de vista humano. o que acaba interferindo no morrer com dignidade.1(1):34-42 dade de debater com maior freqüência o tema morte e morrer. assim. É necessário o resgate urgente do verdadeiro sentido do cuidar e deve-se lembrar que nem sempre curar é possível. Essas reuniões podem discutir e levar os profissionais a refletirem sobre o que é melhor para o paciente. mas também durante sua vida profissional. Os cuidados paliativos podem ser instituídos na UTI. adquiram habilidade. que seja respeitada a autonomia de seus familiares. principalmente os que atuam em Unidades de Terapia Intensiva e vivenciam o processo de morte e sofrimento humano em seu cotidiano. A participação de toda a equipe multidisciplinar é muito importante. 41 . há a necessidade de instigar o profissional a reflexões bioéticas acerca do tema. criando uma lacuna na formação humanística. A equipe. A atuação da equipe multidisciplinar deve ocorrer de forma individualizada e focada na dignidade do paciente. causando-se. com sua alta tecnologia. A qualidade de vida e o conforto desses pacientes antes da morte podem e devem ser melhorados. cuidados paliativos e bioética sejam inseridos como disciplina fundamental durante a graduação. principalmente os que envolvem cuidados e condutas com pacientes fora de possibilidades terapêuticas e seus familiares. uma relação honesta com apoio emocional e comunicação com o doente e seus familiares. As mentes do profissional e da família devem estar abertas para entenderem que quando não há nada do ponto de vista técnico-científico a se fazer. Porém.principalmente voltados à área da saúde e pouco se tem falado na arte da humanização. no respeito à dignidade humana. deve-se cuidar da pessoa e não da doença. CONSIDERAÇÕES FINAIS A medicina dos tempos modernos. O conhecimento geral da equipe multidisciplinar (médicos. não se mostra suficiente para satisfazer as demandas da população.2007. da qual o profissional sente falta ao se deparar com dilemas que requerem tomadas de decisão no seu dia-a-dia. A finitude humana deve ser aceita por todos da forma mais digna possível. em que o ideal da "boa morte" não se torne uma mera miragem. senão realizando mudanças na política educacional dos profissionais que atuam nesse contexto?! É necessário cada vez mais à promoção de reflexões bioéticas que auxiliem os profissionais nas tomadas de decisão e em seus comportamentos frente aos cuidados de pacientes fora de possibilidades terapêuticas. O profissional de saúde sabe manejar de forma eficaz a alta tecnologia. Como instituir uma cultura de qualidade de cuidados no final da vida. fisioterapeutas e enfermeiros) acerca de temas relacionados à terminalidade ainda é muito deficiente. pós-graduação e treinamento desses profissionais.Centro Universitário São Camilo . assim como outros aspectos relacionados a esse tema. com esse aumento do número de doenças crônico-degenerativas. preocupa-se com o respeito à autonomia e com a dignidade do paciente. Os dilemas vividos no cotidiano dos hospitais requerem que não só haja preocupação na educação do profissional durante seu curso de graduação. seja durante a graduação ou em educação continuada. só a teoria não é suficiente. em geral. Nos dias de hoje. além de profissionais capacitados. Manejar no sentido de humanizar o morrer.

São Paulo: Edusp.Aspectos Éticos e Cuidados Paliativos. 22. 24. Segre M. 7:35-39. 12:39-60. Gilmer T. Souza MTM. São Paulo. Mota JAC. et al.Distanásia: algumas reflexões bioéticas a partir da realidade brasileira. Disponível em: http/www. O papel da fisioterapia nos cuidados paliativos a pacientes com câncer.Para fundamentar a bioética: teorias e paradigmas teóricos na bioética contemporânea.net/. 6. Doyle D. 2.Childress JF.A morte na formação dos profissionais de saúde.portalmedico. São Paulo: Loyola. Kovács MJ. Hossne WS. 125: 1517-1525. et al. 2006. Prática Hospitalar 2006. Crit Care Med 1999.Bioética-Princípios ou Referenciais? O mundo da Saúde 2006. et al.Educação para a Morte: desafio na formação de profissionais de saúde e educação.Reflexiones èticas An Med Interna 2004. Brasil. Disponível em: http//www. Brasileira de Cancerologia 2005.wma. FAPESP. Silva CHD: A moralidade dos cuidados paliativos.Auto evaluación sobre formación en medicina paliativa en una cohorte de residentes. 11. 42 . Universidade Federal de São Paulo. O setor em noticias. Ferrer JJ. 132: 445-452. 30: 673-676. Rev Med Chile 2004. UTI: Muito além da técnica: a humanização e arte do intensivismo. 2006.org. 16.com/ Pessini L.Paciente terminal e médico capacitado: parceria pela qualidade de vida. 4. Cohen C.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . São Paulo. 50: 330-333.Forgoing life support in western.br/.São Paulo: Casa do Psicólogo. 25. 16: 14-21. 5. Siqueira JE. Moritz RD. Unifesp inaugura ambulatório de cuidados paliativos. New York: Oxford University Press. Pessini L. Council of Europe. The rights of patients. Azulay TA.Revista Bras Terapia Intensiva 2004. 15. 2002. Health Affairs 2005. Goic A et al. 19.Princípios de Ética Biomédica. Brasil. 45:164-166. 2005. Rev. 26. Rev. Brasileira de Cancerologia 2004. 21. Vincent JL. Disponível em http//www. 2005. 13. Problemas Atuais de Bioética. 51: 67-77. 12.The costs of nonbeneficial treatment in the intensive care setting. 2005. 27:1626-1633. Rev Méd Chile 1997. Azulay Ta A. 20.br/. 3. Bioética 2003. 18. Vial P. 2004. 8. Bifulco VA. Barchifontaine CP. European intensive care units: the results of an ethical questionnaire. 7. 1999.Quando um Tratamento torna-se Fútil? Bioética 1999. 9.Oxford Textbook of Palliative Medicine.2007. Nassar SMA Atitude dos Profissionais de Saúde Diante da Morte. 21: 355-358.El Cuidado del enfermo terminal. 24: 961-971. São Paulo.hospitalar. 14. Los principios bioéticos: se aplican en la situación de enfermedad terminal? An Med Interna 2001. 18: 650-654. 10. Brasil.Centro Universitário São Camilo .São Paulo: Loyola. (Org). Silva LMG. Costa OJM. 23.1(1):34-42 REFERÊNCIAS 1. 2001.cuidadospaliativos. Rio de Janeiro: Garamond FioCruz. 3rd ed.A terminalidade da vida. 2ª ed.7a ed. 11: 183-100. 2003. São Paulo: Loyola.São Paulo: Atheneu. Las diferentes formas de morir.Em busca da boa morte: Antropologia dos Cuidados Paliativos. 17. Menezes RA.com. Alvarez JC. Disponível em http//www. Lemonica L. Bioética. Marcucci FCI. 2006. Beauchamp TL. Bioética 2004.

el esfuerzo por captar las peculiaridades vividas por el paciente. Se necesita que las funciones de la capellanía sean bien definidas e integradas a la enfermería para que el paciente terminal pueda recibir un cuidado espiritual adecuado. Se aplicó un cuestionario y una entrevista individual semiestructurada a siete personas pastoralistas de hospitales de la Gran Porto Alegre.2007. without unduly interferences. Terminal patient. as it is evidenced in the implied senses of the analyzed utterances. 43 .Universidade do Vale do Rio dos Sinos . inclusão do cuidado espiritual ao paciente terminal no trabalho da enfermagem e integração enfermagem e capelania. PALAVRAS-CHAVE: Bioética. Enfermagem. Foi aplicado um questionário e uma entrevista individual semi-estruturada a sete pessoas pastoralistas de hospitais da grande porto alegre. captar as peculiaridades vivenciadas pelo paciente. * Enfermeira Obstetra. for nurses have more contact with patients and so know more what their needs are. A bioética é uma área de conhecimento isenta de determinismos e constitui campo fértil a guiar as pessoas nas suas condutas. spirituality and bioethics. conhecer suas necessidades de modo mais abrangente. sem sofrer interferências. nas situações concretas. KEYWORDS: Bioethical. O esforço de.br ** Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva . E-mail: lucilda@unisinos. Enfermería. O estudo conclui que a enfermagem não tem preparo adequado para atender as necessidades espirituais do paciente terminal.Centro Universitário São Camilo . de ese modo. elegidas intencionalmente. como se evidencia nas entrelinhas das falas analisadas. preparo da enfermagem para o cuidado espiritual ao paciente terminal. conocer sus necesidades de forma más abarcadora. Nursing. Los resultados son presentados en cinco unidades temáticas: perfil pastoral de los agentes espirituales. En las situaciones concretas.capellanía. dessa forma. características del cuidado espiritual al paciente terminal. reflects the integration among health. sin sufrir interferencias indebidas. como es evidente en las entrelíneas de las hablas analizadas. spiritual care should be included in their tasks. The results are presented in five thematic units: the spiritual agents' pastoral profile. Paciente terminal. por el hecho de esta tener más contacto con el paciente y. escolhidas intencionalmente. Paciente terminal. reflete a implicação saúde. The study concludes that nurses dare not appropriately trained to assist the terminal patient's spiritual needs. El estudio concluye que la enfermería no tiene preparación adecuada para atender a las necesidades espirituales del paciente terminal. RESUMEN: Estudio cualitativo que aborda el papel de la enfermería en el cuidado espiritual al paciente terminal y la implicación de la bioética en el proceso de la salud. preparación de la enfermería para el cuidado espiritual al paciente terminal. Os resultados são apresentados em cinco unidades temáticas: perfil pastoral dos agentes espirituais. Universidade do vale do Rio dos Sinos. Doutora em Ciências da Saúde pela Universidade de Brasília. The effort to capture in concrete situations the peculiarities lived by the patient. characteristics of spiritual care to the terminal patient. Aunque la enfermería no está preparada. Even then. UnB. Bioethics is a knowledge area free from determinisms and it constitutes a fertile field to guide people in their conducts. UNISINOS. refleja la imbricación salud. A questionnaire and a semi-structured individual interview were applied to seven people intentionally chosen that act in the pastoral area of hospitals of Metropolitan Porto Alegre. ABSTRACT: A qualitative study that approaches the role of nursing in the spiritual care to the terminal patient and the implication of bioethics in the health process. É preciso que as funções de capelania sejam bem definidas e integradas à enfermagem para que o paciente terminal possa receber o cuidado espiritual adequado. o cuidado espiritual deve ser incluso em suas tarefas. características do cuidado espiritual ao paciente terminal. training of nursing professionals for spiritual care to the terminal patient. La bioética es un área de conocimiento exenta de determinismos y constituye un campo fértil para guiar a las personas en sus conductas.1(1):43-52 O cuidado espiritual ao paciente terminal no exercício da enfermagem e a participação da bioética Spiritual care to the terminal patient in the practice of nursing and the participation of bioethics El cuidado espiritual al paciente terminal en el ejercicio de la enfermería y la participación de la bioética Lucilda Selli* Joseane de Souza Alves** RESUMO: Estudo qualitativo que aborda o papel da enfermagem no cuidado espiritual ao paciente terminal e a implicação da bioética no processo saúde. pelo fato de ter maior contato com o paciente e.UNISINOS. Mesmo que esta não esteja preparada.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . Professora Titular do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva. el cuidado espiritual debe estar incluso en sus tareas. inclusión del cuidado al paciente terminal en el trabajo de la enfermería y integración enfermería . inclusion of spiritual care to the terminal patient in the work of nursing and integration of nursing and chaplaincy. It is necessary that chaplaincy functions are well defined and integrated into nursing so that the terminal patient can receive the appropriate spiritual care. PALABRAS LLAVE: Bioética. espiritualidade e bioética. espiritualidad y bioética.

pois prima pelo caráter plural na análise e discussão de situações concretas. Estudos recentes têm valorizado muito o conceito de espiritualidade e no Brasil. Entende-se saúde para além da visão restrita à ausência de doenças. Para que o paciente terminal possa receber um cuidado completo na fase final de sua vida. Constitui campo de elaboração subjetiva no qual a pessoa constrói de forma simbólica o sentido de sua vida e busca fazer frente à vulnerabilidade desencadeada por situações que apontam para a fragilidade da vida humana. desse modo. não é possível desvincular os papéis dos diferentes atores em saúde. Não propomos um discurso religioso. Sempre que se pensa em cuidado. Também. Este aspecto tem reflexos na atuação dos profissionais de enfermagem que exercem sua profissão junto a pessoas fragilizadas. social e espiritual. como muito bem teoriza Pessini(4). pois são conceitos que se implicam e se interpenetram. Verspieren(8) apresenta uma visão integral de saúde. A bioética é uma área do conhecimento com pouca expressão. quando aponta o papel da bioética na terminalidade da vida. pois o respeito à crença de cada pessoa é indiscutível. Um fator que dificulta o cuidado espiritual é a influência do materialismo por valorizar sobremaneira a beleza. a bioética pode ser definida como a guardiã na terminalidade da vida. saúde e bioética estão inclusos. indi-viduais e/ou. no campo do agir em saúde. Mesmo que o elemento religioso esteja presente no modo como os pacientes elaboram suas crises. emoção e acuidade de percepção sensível. pode-se pensar que o lugar do profissional de enfermagem. responsável e digno.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . número significativo de profissionais da saúde vêm se interessando pelo tema. é o produto de condições objetivas de existência. inteligente. em seus estudos. Atualmente. psíquica. transitoriamente. como é o caso dos pacientes terminais. O sentido final do trabalho em saúde é defender a vida das pessoas. respeitados e tratados pela equipe de enfermagem. este aspecto traz à pauta a característica interdisciplinar da bioética(6). por meio da produção do cuidado(10). É preciso agregar ao saber científico intuição. Resulta das condições de vida e das relações que as pessoas estabelecem entre si e com a natureza por meio do trabalho. compreendendo-a enquanto realidade somática. No entanto. assim. Assim. Pensamos em um acolhimento abrangente. os quais devem ser identificados. o material. O ato de saúde precisa ser um ato de cuidado dirigido. esvaziando o ser humano do valor que ele tem em si. é preciso haver sincronia entre estas áreas do conhecimento e ação. ainda. muitas vezes. mental e social. Na terminalidade. a espiritualidade é algo inerente ao ser humano(1). o poder. 44 . um corpo físico. as ações dos profissionais e pastoralistas estão interligadas e traduzem processos de trabalho em formas de produção coletiva de saúde. A bioética e a espiritualidade constituem ferramentas no sentido de ajudarem a ultrapassar a idéia curativa da saúde e voltar-se para a potencialização do sujeito visto em suas múltiplas dimensões.Centro Universitário São Camilo . como ser único. manifestam-se. aquela que aposta na necessidade de se estar atenta à qualidade do cuidado no adeus à vida. Barchifontaine e Pessini(9) acrescentam que a saúde não pode ser entendida apenas como ausência de doença. além da razão(2). sendo capaz de envolver a subjetividade e o conhecimento prático do profissional. Portanto. e não a simples ausência de doença(7). O corpo físico é apenas um reflexo do espírito.2007. no campo da espiritualidade e sua interlocução se dá efetiva tanto com as doutrinas éticas de inspiração teológica quanto com as doutrinas éticas de inspiração leiga(3). os aspectos espiritualidade. as práticas religiosas têm estado presentes no trabalho em saúde de forma pouco crítica e elaborada. os profissionais de enfermagem não têm preparo para discutir e como lidar com a religiosidade e lançam mão de suas convicções religiosas pessoais de forma acrítica(2). também. têm endossado essa afirmação. livre.1(1):43-52 INTRODUÇÃO Falando sobre o tema A espiritualidade traduz-se em sermos seres espirituais e possuirmos. A bioética subsidia o respeito aos aspectos espirituais e religiosos. compreende mais do que a realização de procedimentos e técnicas. A partir destas idéias. como a física e a biologia. Novas competências são exigidas dele em relação ao trabalho realizado na perspectiva da visão integral de saúde e do bem-estar físico. Pesquisas realizadas pelas ciências naturais. como prevêem tanto a espiritualidade quanto a bioética. sentimentos de medo e angústia. à dimensão espiritual do paciente. no paciente. entendida como capacidade de reagir a elementos desestabilizadores do equilíbrio vital. evitando assumir posições sectárias(5).

O pastor que integrou a pesquisa é membro de uma Igreja Batista da Grande Porto Alegre. um seminário. na maneira do profissional de enfermagem estar presente. até mesmo num leito de morte. pela pesquisadora. um atendimento mais abrangente. o consolo. respeitando sua confidencialidade e seu anonimato. no seu trabalho com o paciente terminal. Os participantes foram denominados entrevistados. Foi feito novo contato para marcar os encontros e para a entrega do questionário. para aprofundar o tema em estudo. assim. saber de seu interesse em participar e obter o Consentimento Livre e Esclarecido. Existe um aumento de interesse em compreender o efeito da fé na saúde. Os sujeitos pesquisados exercem a função de pastores. fez estágio em um hospital evangélico. o presente estudo. no Rio de Janeiro. uma instituição de ensino e duas igrejas (Igreja Evangélica Batista e Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil). experiência espiritual do entrevistado. após o recolhimento e a leitura das respostas foram realizadas entrevistas para coleta de dados adicionais ao questionário. foi elaborado o material para a análise. conforme preconiza a Resolução 196/96 do Ministério da Saúde(12). Dessa forma. a enfermagem deve se instrumentalizar para integrá-lo em sua atividade diária. caracterização do cuidado espiritual ao paciente terminal. conservando. Instrumentos de coleta de dados Foi aplicado um questionário e seguido de entrevista individual semi-estruturada. Esse cuidado mais abrangente do que somente tratar o corpo pode estar incluso nas tarefas da enfermagem. resultado de uma pesquisa feita com pessoas que trabalham no campo da espiritualidade. além de alguns serem profissionais da saúde. considerando a subjetividade do tema. Resultados e Discussão Perfil pastoral dos agentes espirituais Com relação à preparação específica de cada um dos entrevistados. Coleta e Análise dos Dados Após contatar com os interagentes que compõem a amostra de pesquisa. e capelania e enfermagem poderiam organizar e desenvolver um trabalho integrado no sentido de oferecer ajuda espiritual sincronizada ao paciente que está morrendo? Além da aplicação do questionário. Esta deu-se no local de trabalho de cada integrante da pesquisa.O cuidado espiritual ao paciente terminal no exercício da enfermagem e a participação da bioética . visa a refletir sobre a necessidade da enfermagem integrar. dando a ele. As respostas foram organizadas de forma que não fosse modificado seu conteúdo. Esse cuidado não supõe um tempo específico.1(1):43-52 como qual podemos demonstrar amor e interesse pela sua vida. ou seja.2007. o conforto. assim. Os locais foram dois hospitais. residem e atuam na Grande Porto Alegre. Há interesse e maior abertura para o estudo e a inclusão do tema em nível acadêmico e de pesquisa(11). mas se faz presente na relação. Foram escolhidos intencionalmente para compor a amostra de estudo por terem formação em pastoral e experiência em capelania hospitalar. com pacientes terminais. Sendo o cuidado espiritual importante. Foi empregada a abordagem qualitativa. a coleta de dados foi complementada com perguntas dirigidas aos pesquisados. o cuidado espiritual ao paciente terminal deveria estar incluso no trabalho da enfermagem e por quê?. o descanso e a paz que pode encontrar. Procedemos a entrega dos questionários e. sobre o jeito de transmitir ao paciente que está morrendo. auxiliando-o a tornar sua morte mais serena.Centro Universitário São Camilo . o cuidado espiritual. experiência no cuidado espiritual ao paciente em fase terminal. tem 13 anos de formação em teologia e fez curso de especialização em capelania hospitalar. preparo dos profissionais de enfermagem para cuidar das necessidades espirituais do paciente terminal. principalmente. procedeu-se a coleta de dados. Em seguida. sacerdotes e pastoralistas. referenciada por Minayo(13). todos relataram terem formação empastoral e experiências práticas no atendimento espiritual ao paciente em fase terminal. orientar e exercer técnicas junto ao paciente. porque a mesma tem mais contato com o paciente do que o profissional que exerce a função de assistente espiritual. Os itens investigados foram: 45 . Metodologia Sujeitos e Locais do Estudo A coleta de dados para o estudo desenvolveu-se junto a sete profissionais que atuam na área da pastoral da saúde. RS. ouvir. os termos peculiares da linguagem dos sujeitos.

em UTIs e durante doze anos exerceu o serviço de assistente espiritual a pacientes terminais. faz parte da equipe diretiva. Fez diversos cursos e encontros de Pastoral da Saúde e Pastoral dos Enfermos. a justiça e a ética formarão novo paradigma social(15). um dos entrevistados considera desafiador. alimentos e brinquedos). Tem curso de formação superior em teologia e diz ler muito sobre o tema da espiritualidade. Fez preparação específica durante o curso de teologia. sendo solicitada pelos pacientes. A teóloga e educadora é formada há 15 anos em um Instituto Evangélico de Educação Religiosa do Rio de Janeiro. Neste período. deve caracterizar as relações interpessoais e intergrupais na sociedade do terceiro milênio. Tem formação em ética e bioética. relata que é um estágio particular e de muita importância para o paciente. dedicando-se de forma mais específica a pacientes terminais. É professor de religião na mesma instituição. Da mesma forma. há 5 anos. serenidade e entender reações e estágios frente à morte. assistiu e auxiliou muitos pacientes terminais por meio do Serviço de Pastoral da Saúde Hospitalar. nos quais exerce o ministério da Pastoral da Saúde. pois o paciente nesta fase deseja receber atenção e tratamento personalizado". Pequenos gestos de afeto e atenção influenciam a recuperação do paciente. A enfermeira exerce a função de supervisora em um hospital de Porto Alegre. outra entrevistada enfatiza que o cuidado espiritual é um momento de fé. exigindo habilidade e sensibilidade. pais e professores de uma instituição de ensino. Fez curso de especialização em capelania hospitalar durante um ano. uma entrevistada refere ser um trabalho muito delicado e. Participou de cursos. tem experiência profissional construída ao longo de vinte e quatro anos. Outra entrevistada. ao longo de nove anos. familiares e serviço de enfermagem para dar atendimento pastoral a pacientes terminais e a outros pacientes em suas necessidades. atendendo pacientes no serviço de pastoral. Trabalha na área de aconselhamento com os alunos. conforto. importante. conforto. Atuou. quando a cidadania. Tem vinte e dois anos de experiência e vivência em ambiente hospitalar. realiza projetos de solidariedade à comunidade carente do vale dos sinos (campanhas de agasalho. A dimensão espiritual da pessoa. O outro pastor é capelão da Igreja Luterana da Grande Porto Alegre. Primeira unidade temática Características do cuidado espiritual ao paciente terminal Quanto à caracterização do cuidado espiritual ao paciente terminal. Ainda. Visita pacientes em hospitais há um longo período de tempo. Lê e participa de palestras e encontros que abordam o tema da Pastoral da Saúde e sua aplicabilidade prática. A evolução da medicina como ramo de comércio foi o elemento mais decisivo para que os profissionais da saúde se afastassem da espiritualidade. que é da mesma instituição da religiosa. Trabalha em uma instituição de ensino de Porto Alegre como capelã. A entrevistada de um dos hospitais complementa dizendo que é um momento que exige muita maturidade e serenidade. também. realizou trabalho de conclusão de curso abordando o tema do paciente terminal. com estágio em um hospital da mesma localidade. na sua transcendência como ser integral. conforme seu relato: "Creio que este atendimento traz um referencial de fé. Fez preparação em Pastoral de Saúde junto aos capelães em hospitais. esperança e é uma manifestação de presença. É membro integrante do grupo de apoio à criança terminal do hospital no qual atua. é generalista e inclui em seu serviço a supervisão da equipe de Serviço de Pastoral da Saúde. A religiosa é auxiliar de enfermagem e exerce sua função em um hospital da Grande Porto Alegre. congressos e seminários onde foram abordados temas sobre a Pastoral da Saúde e o paciente em suas necessidades biopsicoespirituais. 46 . carinho e cuidado relevante neste momento".1(1):43-52 O frei é professor e assistente espiritual em um Seminário do Rio Grande do Sul.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . O paciente precisa encontrar pessoas solidárias que o auxiliem no enfrentamento de seu mal físico e de suas necessidades espirituais.Centro Universitário São Camilo . porém sublime. como podemos ver em seu depoimento: "O cuidado espiritual ao paciente terminal requer maturidade. esperança e carinho para com o paciente.2007. A enfermeira. ao mesmo tempo. realiza cultos e programas de datas comemorativas na instituição em que trabalha e organiza os painéis de datas come-morativas. Isso vai depender de nossa avaliação sobre a vida e responsabilidade diante dos pacientes em suas diferentes necessidades(14). Fez curso de capelania hospitalar num Seminário no Rio de Janeiro e estágio em um hospital da mesma região.

É assim que deve ser a medicina hoje e sempre(17). A espiritualidade.. Nos séculos passados. e oferecer-lhes assistência médica de excelência para que desfrutem de uma vida digna e de qualidade. muitos não". O outro entrevistado refere que a causa da enfermagem não estar preparada não se relaciona ao preparo. pois a espiritualidade faz diferença em sua saúde. Persiste forte ainda a concepção de prova e castigo". evitando que se assuma a atitude usual de fuga destas situações ou de criação de mecanismos de bloqueio da sensibilidade para poder preservar sua própria estabilidade emocional(2). até mesmo. Creio que alguns profissionais. uma vivência pessoal significativa. em função de sua formação e. Através da espiritualidade. para cuidar das necessidades espirituais dos pacientes terminais. como podemos identificar em suas palavras: "Posso dizer o quanto é benéfico ser presença junto ao paciente terminal. esta questão estimulou ainda mais o debate nos meios científicos: cada vez mais médicos reconhecem que a fé das pessoas ajuda no processo de sua cura física. todos os entrevistados referem que a enfermagem. a dedicação. porém falta toda uma formação de base teológica pastoral para a equipe. sua capacidade de mobilizar energias intensas e de encontrar significados para as situações de crise. sem nos preocuparmos tanto com as palavras. bem como os sutis significados de seus gestos. A mesma diz que persiste a idéia entre os profissionais e a sociedade de que a doença é prova e castigo de Deus. experimentam-se pessoalmente os misteriosos caminhos do eu profundo. o que dizer. Uma das entrevistadas falou que a causa da enfermagem não estar preparada para esta ação fundamentase na falta de formação específica dos profissionais. a comunidade científica considerava fé e espiritualidade como sinais de crendice e de ignorância.2007. assim como a seus familiares. ou seja. como equipe multicategorial. com a religiosidade. serenidade e carinho. Os instrumentos para compreender os caminhos da alma dos pacientes aparecem. mas sim ao ambiente de pressão e sofrimento. [. a indiferença pela vida humana. mas ser presença que transmita conforto. É muito gra. tornando 47 . além disso. Para alguns profissionais. Ela relata: "O carinho. acaba sendo um modo de não entrar em contato com as suas próprias dores e medo da morte. estão preparados. o que fica evidenciado na fala a seguir: "Diria que alguns sim e muitos não. suas formas simbólicas de expressão. A espiritualidade não finaliza no religioso e.Centro Universitário São Camilo . a doação. Por esta unidade de análise. tem uma função terapêutica(18). É relevante que o profissional desta área tenha um acompanhamento de maneira a 'estar se dando conta' de como as situações que lida afetam sua própria existência.tificante sermos instrumentos mediadores para o encontro definitivo com Deus". em geral. mas pesquisas recentes começaram a relacionar fé com uma boa saúde(16).1(1):43-52 Recentemente.]o ser humano utiliza muitos mecanismos de defesa para fugir daquilo que assusta e faz sofrer. foi possível constatar que o cuidado espiritual é importante para o paciente. Mais que uma formação acadêmica. Segunda unidade temática Preparo da enfermagem para o cuidado espiritual ao paciente terminal Quanto ao preparo dos profissionais de enfermagem. A ligação entre corpo e espírito é reconhecida pela humanidade há muito tempo. amadurecimento pessoal. Trabalhar com momentos tão dolorosos da vida humana e estar preparado para cuidar das necessidades espirituais dos pacientes terminais implicam num processo pessoal de autoconhecimento. espiritual e emocional. causando ansiedade e. de suas vivências. A espiritualidade capacita o profissional para lidar com as emoções intensas e os questionamentos angustiados dos pacientes e seus familiares em crise existencial. É um momento de maturidade. não está preparada para auxiliar o paciente em suas necessidades espirituais. compreensão da situação. um contato rico e produtivo com as próprias dores e conflitos. segurança. suas contradições e mecanismos internos. Uma das entrevistadas refere o cuidado espiritual como sendo um momento benéfico para o paciente e gratificante para o pastoralista. como elementos de conforto para o paciente terminal.. Outra entrevistada complementa dizendo que falta uma formação específica e base teológica pastoral. às vezes. indiferença. principalmente. beneficiando a saúde integral do homem(19). O cuidado com os pacientes deve ser digno. dar a eles todo o suporte psicológico. fazem parte do cuidado espiritual. de modo geral para o enfrentamento e elaboração das reações pessoais e de equipe frente ao paciente terminal.O cuidado espiritual ao paciente terminal no exercício da enfermagem e a participação da bioética . é uma fonte importante de apoio existencial. Um dos entrevistados comenta que faltam aos profissionais cursos preparatórios para o acompanhamento a pacientes terminais em suas necessidades espirituais. uma experiência de fé significativa".

deixando de lado osoutros aspectos que envolvem outras necessidades do paciente: "Penso que. o paciente fica no asilo ou hospital e não morre mais em casa. Segundo ele: "O cuidado espiritual ao paciente terminal deveria estar incluído no trabalho da enfermagem pelo contato cons-tante com o paciente. dos desejos. isto é. Outro fator que interfere. além da especificidade. de uma nova forma de atuar frente a essa realidade. cultivando o diálogo personalizador em vários âmbitos. As reações de estresse do paciente variam de indivíduo a indivíduo.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . é a falta de conscientização da enfermagem com relação à importância do cuidado espiritual ao paciente e a clareza da contribuição dos profissionais de saúde no cuidado. Para isso. Vejo a necessidade de incluir cuidados espirituais nos cursos acadêmicos". A família e amigos não têm mais um contato pessoal com o paciente. mas tem que haver vocação. ao fazer isso. Uma das entrevistadas disse que. pois exige pessoas preparadas para tal. A partir das falas dos sujeitos entrevistados. A sociedade tem contribuído para que rejeitemos a morte. precisamos nos humanizar. é necessária uma vivência pessoal significativa. há pouco diálogo e muito remédio curativo". pois os profissionais de saúde também se sentem despreparados para dar a assistência integral ao paciente(24). promovendo o bem-estar e protegendo os interesses deste. constata-se que a enfermagem não está preparada para exercer este cuidado devido à falta de formação específica no curso acadêmico e outros complementares. O outro entrevistado afirma que é possível a enfermagem também participar do cuidado espiritual do paciente terminal. Atualmente. é necessário superar esta "condição". busca o que entende ser bom para o paciente..]a preocupação está mais na parte técnica. principalmente nas situações de sofrimento e final de vida. evidente a necessidade de acolhimento e valorização da pessoa neste momento(20). por ser uma tarefa séria e cuidadosa.2007. de uma forma mais abrangente. não pode desconsiderar a manifestação da vontade. Outra entrevistada ressalta que a preocupação da enfermagem se restringe à parte técnica. dizendo que o contato constante que a enfermeira tem com os pacientes a favorece perceber essa necessidade e auxiliá-lo. comprometendo o cuidado espiritual. na imortalidade. dedicação. mediante a valorização do ser humano em sua dignidade plena. A enfermeira deve somente auxiliar. Em um tempo histórico de fascínio pela tecnociência e por suas descobertas que podem tornar o ser humano um mero detalhe ou objeto. tornando-se. Para isso. Terceira unidade temática Inclusão do cuidado espiritual ao paciente terminal no trabalho da enfermagem Com relação à inclusão do cuidado espiritual ao paciente terminal no trabalho de enfermagem só um dos entrevistados pensa não ser um cuidado para a enfermagem. tornando muito mais fácil cuidar deste assunto com os pacientes". Verificamos isso em suas palavras: "Há carência neste campo. dos sentimentos. com base nos fundamentos de seu saber técnico.Centro Universitário São Camilo . Porém. assim. distancia-se do conviver com alguém que está morrendo diferente de tempos anteriores. Um dos entrevistados justifica esta possibilidade. das crenças e das opções de cada um(25). uma experiência de vida. é preciso o desenvolvimento de um novo olhar.. bem como sermos protagonistas de ações humanizantes. ensino e treinamento. buscando uma articulação baseada nos princípios éticos. A enfermeira. É neste cenário que se dá a necessidade do resgate dos valores subjetivos. isto é. que foram diminuindo com os avanços da ciência. Os outros entrevistados referem que o cuidado espiritual deve estar incluso no trabalho de enfermagem. a religião tem perdido adeptos entre os que acreditavam numa vida após a morte. calejados. Não se trata de deixar de lado as inovações científicas e tecnológicas.1(1):43-52 os mesmos insensíveis. os profissionais de enfermagem não estão preparados para cuidar das neces-sidades espirituais dos pacientes terminais [. Seis dos entrevistados defendem que deveria haver 48 . além de uma formação acadêmica que favoreça também um preparo teológico espiritual. Agora. na grande maioria. mas sim de agregar valores humanos às relações que ocorrem nas instituições de saúde. trazendo desvantagem ao paciente(22). respeitando e valorizando as pessoas envolvidas(23). Humanizar é garantir dignidade ética diante do sofrimento humano(21).

A tendência crescente da enfermagem em ver o indivíduo de uma maneira holística gera questionamentos sobre o cuidado nessa dimensão. Isso remete à sua essência básica como um fator de saúde e realça sua importância nos processos de prevenção de doenças. Muitos estudos têm fornecido uma atenção mais acurada para a dimensão espiritual(28). principalmente. A integração 49 . espiritual(4). e também treinamento. seja no decorrer do curso ou até mesmo no local de trabalho. Quarta unidade temática Integração enfermagem e capelania A espiritualidade pode surgir. ouvir verdadeiramente quais são nossas necessidades. perceber a nossa subjetividade(26). essas dimensões interagem e. tanto para os profissionais como para os pacientes. social e espiritual. na sua profissão. acompanhar e supervisionar a enfermagem no cuidado espiritual. Nos relatos dos entrevistados. A fé. pois é uma questão de perceber a pessoa na sua totalidade. percebermo-nos em nossas necessidades físicas e emocionais. Só é possível cuidar integralmente do outro se todas as dimensões são consideradas. Mas para ser capaz disso devemos ser capazes de olhar para nós mesmos. a aceitação de sentimentos dolorosos. Uma das entrevistadas relata que a fé cuida da pessoa toda. esquecer de si e perceber o outro em suas necessidades físicas e emocionais. diante das situações difíceis de assistir um paciente em fase terminal. o empenho no restabelecimento. O cuidado ao paciente deve ser altamente técnico e científico. o contato e o aproveitamento da ajuda das outras pessoas e até a própria reabilitação. A enfermeira tem uma convivência mais simples com a morte. estar incluídos no currículo e serem praticados. tão importante e necessário. o que nos faz bem e o que nos faz mal. se ouvisse da equipe de enfermagem que a fé também cura". O corpo. Então. preparando-os para capacitação no encaminhamento de questões desta ordem no próprio local de trabalho. por pessoas habilitadas e experientes na área. mente e espírito são mais do que a soma de suas partes. O conceito de saúde também tem mudado e tornase cada vez mais complexo. Precisa conscientização neste aspecto para os profissionais de enfermagem. sua insegurança. Este cuidado supõe fé e experiência de vida na dimensão espiritual. um dos entrevistados ressalta que a capelania pode atender os profissionais também. proporciona-se o cuidado espiritual. as demais serão afetadas. isso também faz parte do processo de cuidado. e os remédios somente do corpo. porém é importante a capacidade de se sentar junto à sua cabeceira. Continuando. sua história de vida. tratando uma delas.O cuidado espiritual ao paciente terminal no exercício da enfermagem e a participação da bioética .1(1):43-52 treinamentos para os profissionais de enfermagem. O outro entrevistado complementa dizendo que a fé proporcionaria mais serenidade e felicidade ao paciente. Pode-se começar simplesmente com um olhar: olhando verdadeiramente para o outro. segundo eles. a enfermagem pode dar assistência integral aos pacientes. como um recurso interno que favorece a aceitação. O vínculo criado entre a enfermeira e o paciente facilita este cuidado espiritual por ampliar a confiança e comunicação enfermeira-paciente. oferecer aos pacientes terminais cuidados que venham ao encontro de suas necessidades(24). mas para isso é preciso que perceba como ser espiritual e desvende maneiras de. psíquico e. Olhar para o outro é calar. de ter tempo e paciência para ouvir suas queixas. na doença. as intervenções de enfermagem são escolhidas e implementadas segundo as alterações associadas a cada dimensão(27). fitar seu olhar.2007. constata-se que há a possibilidade da enfermagem prestar o cuidado espiritual aos seus pacientes. Esses treinamentos deveriam.Centro Universitário São Camilo . Ele refere: "O paciente sentir-se-ia mais sereno e feliz. assim. é importante prestar o cuidado social. Portanto. Embora esta interdependência exista. falar em bioética é falar em medidas que englobam a pessoa de uma forma integral: biológica (física). seminários. que se inicia sensibilizando a todos da existência dessas dimensões em si mesmo. A enfermagem teria que aproveitar esse contato mais direto. ouvir verdadeiramente o que o outro tem para dizer. emocional e mental (psicológica). manutenção da saúde ou de reabilitação e cura. Nessas condições. apresenta-se como fonte de paz e esperança. Outro entrevistado coloca que os assistentes espirituais podem oferecer cursos. Juntamente ao cuidado com o corpo. pois faz parte do seu dia-a-dia e não representa para ela uma derrota profissional. pessoal e contínuo com os pacientes e ajudar o paciente terminal a ter uma morte tranqüila.

Em relação à temática de pesquisa. estando atento às suas emoções e aos seus sentimentos. Entretanto. Quem contata todos os dias com os pacientes e com o seu sofrimento. muitos. havendo colaboração. no cuidado ao paciente terminal. tem uma espiritualidade própria(29). restringem-se somente à parte técnica. fé. Um outro motivo que traduz o despreparo da enfermagem em lidar com o paciente terminal é a falta de formação específica para o enfrentamento e elaboração das reações pessoais frente ao paciente terminal. Para atender as necessidades espirituais do paciente. essa dimensão deve ser diferenciada do aspecto religioso e do comportamento psicossocial. acima de tudo. Entende-se que as reuniões para trocar informações e para traçar linhas de ação são muito importantes. O vínculo criado entre enfermagem e paciente facilita o cuidado espiritual. Esses treinamentos podem ser dados pela própria capelania. isso é mais importante que qualquer terapêutica. Este cuidado implica um processo pessoal de autoconhecimento e amadurecimento. não está preparada para prestar o cuidado espiritual ao paciente terminal. Considerações Finais O cuidado espiritual ao paciente terminal caracteriza um desafio. diálogo e integração entre os setores. o paciente poderá receber um cuidado espiritual adequado e contínuo. não há uma regra nem uma fórmula. no geral. habilidade. Nesta perspectiva. uma maneira da enfermagem e capelania realizarem um trabalho integrado é.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . O cuidado espiritual supõe permanecer sensíveis e abertos para falar aquilo que sentimos ser o melhor para o paciente. É necessário considerar a pessoa como ser holístico para se entender a espiritualidade como um aspecto importante no processo terapêutico e essencial para o bem-estar. A enfermagem deve buscar mais condições para praticar o cuidado espiritual. Muitas vezes. uma experiência de fé significativa. ainda. O fundamento para tal inclusão reside no fato da enfermagem estar em constante contato com o paciente. É importante que estejam bem definidas as tarefas da enfermagem e da capelania. por meio do diálogo e respeito mútuo. É nessa relação que encontramos e descobrimos a forma e o momento corretos de falar. Cada vez mais se reconhece que a fé ajuda no processo de recuperação da saúde e enfrentamento da doença. tem um objetivo de vida próprio. sendo importante para os enfermeiros avaliá-la e nela intervir quando necessário. A enfermagem. tanto por meio de seminários e cursos como de leituras complementares. dedicação. Supõe formação. Traduz um momento importante para o paciente e gratificante para o pastoralista. Todos os entrevistados trouxeram a importância de incluir o cuidado espiritual às tarefas técnicas prestadas ao paciente terminal pela enfermagem. também. como também para a coletividade(2). facilitando seu trabalho. sabe que cada pessoa sente de uma forma diferente. É necessária uma preparação acadêmica que reforce o respeito pela pessoa e por sua crença. abertura e um grande amor às pessoas. A espiritualidade beneficia a saúde integral da pessoa e capacita o profissional a lidar com o paciente terminal. o serviço de pastoral implica em respeito. O profissional de saúde pode ajudar o paciente ouvindo-o. é importante que haja estudos que definam a espiritualidade por reflexões em que sua especificidade seja levada em conta(27). É preciso saber entrar em contato com as próprias dores e medo da morte. a dimensão espiritual. No momento em que as funções da capelania e enfermagem estão definidas. tem reforçado a dificuldade da enfermagem de lidar com o paciente terminal. deve dar as informações biopsicossociais e espirituais do paciente aos assistentes espirituais. maturidade. A revolução do conhecimento científico. treinamento e uma experiência de vida para incluir. A dimensão espiritual formará um novo paradigma social. como foi relatado pelos entrevistados. bem como os treina-mentos para a enfermagem. Para diferenciar esse aspecto. A enfermagem.Centro Universitário São Camilo .1(1):43-52 entre ciência e espiritualidade tem grande importância no enfrentamento dos problemas de saúde não só para os indivíduos. É preciso humanizar e resgatar os valores subjetivos. É preciso vocação. Os profissionais de enfermagem tornaram-se calejados e insensíveis frente ao ambiente de sofrimento em que trabalham e. voltada para a tecnociência. pois amplia a confiança e comu- 50 . preservando sempre sua privacidade. serenidade e sensibilidade às reais necessidades do outro. tem uma vivência própria.2007. como falar e o que falar. A dimensão espiritual é inerente ao indivíduo.

A enfermagem também deve ser habilitada. Para a enfermagem integrar o cuidado espiritual ao rol de suas práticas diárias precisa habituar-se a ver o paciente na sua totalidade. a importância da continuidade ao cuidado espiritual prestada pelos agentes de pastoral e capelania. É importante a definição de tarefas de cada um e colaboração e integração entre os setores. o pluralismo.O cuidado espiritual ao paciente terminal no exercício da enfermagem e a participação da bioética . também. Muitos estudos têm fornecido uma atenção mais especial à dimensão espiritual. supõe capacidade de captar relações de significado entre as diferentes instâncias de saber. pois não representa para si uma derrota profissional.2007.Centro Universitário São Camilo . espiritualidade e bioética implicam-se. bem como o fornecimento de informações do paciente em um trabalho integrado entre enfermagem e capelania. A enfermagem tem um contato pessoal e contínuo com o paciente e tem uma convivência mais simples com a morte. A integração entre ciência e espiritualidade tem grande importância para o paciente terminal. Os dois setores têm que falar a mesma linguagem e deve haver. 51 . a troca de conhecimento. Saúde. pois a espiritualidade pode surgir como um recurso interno de aceitação da doença e de sentimentos dolorosos para o paciente terminal. como mais um aporte do saber/fazer da enfermagem. O cuidado espiritual. entre ambas as partes. diálogo e respeito. É necessária uma preparação acadêmica que reforce o respeito pelo paciente e sua crença. A integração entre enfermagem e capelania no cuidado espiritual ao paciente terminal é uma tarefa difícil. Constatou-se. Neste estudo. a superação de posturas sectárias e a preservação do caráter plural da discussão. com o repasse de aspectos significativos colhidos pela enfermagem para o serviço de pastoral. É preciso haver interesse comum pelo paciente.1(1):43-52 nicação entre ambos. a bioética faz-se presente nos relatos dos entrevistados quando apontam a necessidade de responsabilidade.

São Paulo: Hucitec. Bioética: solidariedade critica e voluntariado orgânico (tese). Pessini L. 4. 2006. Brasil. Aconselhamento a pacientes terminais.clinionco. 29. Rev Saúde Pública [online] 2005. 2001.br/f%(3%A9. A espiritualidade no processo terapêutico . Gestos finais: como compreender as mensagens e a condição especial das pessoas que estão morrendo. Verspieren P.br/scielo. In: Initiation à la pratique de la théologie.ed. Disponível em: URL:www. A influência da visão holística no processo de humanização hospitalar. Um dos grandes desafios para os gestores do SUS: apostar em novos modos de fabricar os modelos de atenção. A espiritualidade no trabalho em saúde. Zini LW. 6.2007. São Paulo: Roma.com. Rádio Vaticano . A bioética: natureza. Disponível em: rlae@eerp.br/areas/corpo. São Paulo: Aplicada. rede dos Megapaíses. 12. Disponível em: www.br. 30(3):384-5. In: Merhy EE et al. Projeto promoção da saúde: declaração de Alma-Ata. Sartório NA. 39(3):473-8. 22. Lopes AC. Disponível em: www. Marques LF.br/informativo/capa_setembro. São Paulo: Loyola. 2006. Vie.4. Zoboli EL.com.org. Programa de atendimento da enfermagem na admissão e alta hospitalar. 1983. 1983. Brasília: Universidade de Brasília. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. 2004. 16. Benko MA. declaração do México. declaração de Jacarta. Faculdade de Ciências da Saúde. 1990.infobase. Capote PS. Disponível em: URL:www.com.camilianos. Garrafa V. 2000. Diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Acesso em: 12/08/06. 23. 28. Strong MI. 13. A saúde e o bem-estar espiritual em adultos Porto-Alegrenses. Disponível em: URL:www. 20. Disponível em: URL:www. solidariedade crítica e voluntariado orgânico. 2006. Paris: Cerf. Resolução 196/96. Rev O mundo da saúde.Realidade e importância. Barchifontaine CP. Disponível em: www. Pe. ciências e profissão 2006. Conselho Nacional de Saúde. 15. 24. Neme CM. In: Noé SV (org).htm. Província Camiliana Brasileira. Arlindo Fávero. 8.ufrgs. Kulber-Ross E.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89102005000300020&lng=pt&nrm=iso>. Gibran VM. 21. 2. Aparecida do Norte.1(1):43-52 REFERÊNCIAS 1. São Paulo: Presbiteriana. 17. 5ª. Psicologia. 2003. Selli L. 2006.scielo. Secretaria da Fazenda do município de Fortaleza .idademaior. declaração de Santafé de Bogotá. 7.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . Problemas atuais de bioética. Disponível em: URL:www.Centro Universitário São Camilo .Cláudio Roberto. São paulo: Nobel. Selli L. (731). Saúde e espiritualidade. 26. O trabalho em saúde: olhando e experienciando o SUS no cotidiano. 18.br. Gestão humanizada. 30(2):207.15-35. uma nova visão do ser humano. 1994. como ajudar o paciente terminal. 25. Glanzner CH. Bioética e enfermagem: uma interface no cuidado. 11. Lautert L. São Paulo.br/publicações. Leite TA. Minayo SC. O desafio do conhecimento: a pesquisa qualitativa em saúde. Ministério da Saúde. 52 .htm. Calannam N. Lichtenfels H. Carta de Ottawa. Sobre a morte e o morrer. 27. Brasília: Ministério da Saúde.oecumene. 5.2it. p. p. 10. Pensando a espiritualidade no ensino de graduação. 27:95. Conselho Regional de Psicologia. Lourenço I. Trad. 2ª.asp?c=108787.com. declaração de Adelaide. 19. O milagre da fé. Morrer com dignidade. Durand G. 2000. Disponível em: www. Merhy EE. 3.a voz do papa e da igreja em diálogo com o mundo.radiovaticana. Brasil. Horta CR. 14. Vasconcelos EM. Clinionco 2005 ago/set. 9.htm#cinf. Rev O mundo da saúde. Bioética. São Paulo: Hucitec. Disponível em: revista@pol. t. Saúde e espiritualidade: sentido de vida no envelhecimento.misacor. Rev Latino-Americana de Enfermagem. Pessini L.quarteto t/olivro/defaut. São Paulo: Paulus. Revista Salette. 2(8).usp. santé et mort.br/bioética/res19696. O papel da fé no enfrentamento do câncer. São Leopoldo: Sinodal. 2003. 2006.359-401.ed. Rev Gaúcha Enfermagem 2006.htm.asp. 2001. Espiritualidade e saúde-da cura d'al mas ao cuidado integral. AFECES. SP: Santuário. Prioridade aos cuidados paliativos.afecesconsultoria.br.org/Articolo.asp?pnIdLivro=319. declaração de Sundvall. Disponível em: www.com/pace. 1995. Porphírio Figueira de Aguiar Netto. princípios objetivos. São Paulo: Martins Fontes. Silva MJ. São Paulo. Cavalcanti EV.org.

Health care. o fortalecimento dos Sujeitos envolvidos na situação terapêutica e o investimento em sua autonomia. que agranda las posibilidades de nuevas formas de producción de subjetividad desde una reformulación ética del cuidado médico. buscando estabelecer um diálogo com a filosofia genealógica de Michel Foucault.1(1):53-60 A clínica como instrumento de fortalecimento do sujeito: um debate ético-filosófico Medical Clinic as a tool for strengthening subjects: an ethical-philosophical debate La clínica médica como herramienta para fortalecer el sujeto: una discusión ético-filosófica Sabrina Helena Ferigato* Maria Luisa Gazabim Simões Ballarin** RESUMO: Para a elaboração deste trabalho. that is. ** Doutora em Saúde Mental pela UNICAMP e docente da Faculdade de Terapia Ocupacional da PUC-Campinas. permaneceram. mantienen las relaciones de poder. e por maiores que tenham sido estas alterações.Centro Universitário São Camilo . Atenção em saúde. we propose strengthening all subjects involved in the therapeutic situation and the investment in their autonomy.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . on the theoretical construction. Mestre em Filosofia Social pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas. nos apoyaremos. el poder se utiliza verticalmente por quién trata sobre el que se trata. PALABRAS LLAVE: Clínica. imanentes ao processo relacional da clínica. ABSTRACT: In this work. Sujetos-autonomía. visando demonstrar que nas últimas décadas. we shall first present a brief report about Public Health recent history and its care policies. nos apoiaremos em construções teóricas de alguns ícones da Saúde Coletiva no Brasil. in a dialogue with the genealogical philosophy of Michel Foucault. 53 . has remained with the same structure. as relações de poder. proponemos el fortalecimiento de todos los sujetos implicados en la situación terapéutica y la inversión en su autonomía. aiming to show that in the last decades the health-disease process has suffered several changes from the practical and theoretical point of view and. * Terapeuta ocupacional . which enlarges the possibilities of new forms of subjectivity production from an ethical reformulation of health care. Para ofrecer una alternativa posible a esta racionalidad hegemónica. interfering in the relational clinic process. To offer a possible alternative to this hegemonic rationality. en algunos iconos de la salud pública en Brasil en diálogo con la filosofía genealógica de Michel Foucault.2007. Cuidado médico. KEYWORDS: Clinic. interfiriendo en el proceso emparentado de la clínica. ou seja. Subjects-autonomy. we shall be supported. power is used vertically from the one who treats over the one who is treated. en la construcción teórica. como para demostrar que en las décadas pasadas el proceso salud-enfermedad ha sufrido varios cambios del punto de vista práctico y teórico y que estos cambios. With this object in mind. Sujeito-autonomia. o entendimento do processo saúde-doença sofreu diversas alterações do ponto de vista prático-teórico. Para proporcionar um possível desvio a essa "racionalidade hegemônica". by some icons of Public Health in Brazil. power relationships. Con este objeto en mente. inicialmente realizaremos um breve relato sobre a história recente da saúde pública suas políticas de atenção. con la misma estructura. o poder sendo exercido verticalmente de quem trata sobre quem é tratado. o que amplia as possibilidades de novas formas de produção de subjetividade a partir de uma reformulação ética da atenção em saúde. es decir. aunque grandes. primero presentaremos un breve informe sobre la historia reciente de la Salud Pública y sus políticas del cuidado. no matter how great these changes have been. propomos como alternativa. com a mesma estrutura. RESUMEN: En este trabajo.Hospital e Maternidade Celso Pierrô. PALAVRAS-CHAVE: Clínica. Desta forma.

o aspecto relacional da clínica. e por isso. hora com maior ênfase em um. higiene social. a resolutividade. o tratamento baseado no modelo da evolução natural da doença. não necessariamente a. resgatarmos a construção histórica em torno dos modelos de intervenção em saúde. por exemplo. e quando falamos em pessoas falamos necessariamente em relações. ampliando a participação dos cidadãos na construção das políticas de saúde(a).2007. consequentemente. Ao longo da maior parte da história recente da medicina. hora com maior ênfase em outro. desenvolvimento farmacológico. em primeiro lugar. gostaríamos. de expor algumas de suas diretrizes. centrados na tríade agente patológico. entre outras. número de inscrição na instituição de saúde e que tenha realizado os exames previamente solicitados. culminando com a constituição de 1988. hospedeiro e meio ambiente. a partir da metodologia de revisão bibliográfica. buscaram de alguma forma. este panorama começa a mudar. tornando os serviços mais acessíveis e mais democráticos. analisando os diversos modelos de intervenção que estão em construção. avaliação e construção das políticas do SUS é efetivada. De um modo ou outro. No entanto. ampliando também sua potência. No entanto. as tecnologias organicistas ou farmacológicas. estamos falando em pessoas. que precederam o processo de estabelecimento do SUS. faz-se necessário. pela influência das correntes estruturais marxistas. tudo isso tendo como pano de fundo. ainda em construção. as estratégias parecem imediatas e. refletindo sobre aspectos que ainda nos escapa. etc. 54 . como dos movimentos sociais. recuperação e reabilitação da saúde. com nome. distritais e municipais de saúde. No entanto. O Sistema único de saúde e as práticas clínicas Sem a pretensão de nos aprofundarmos nas questões históricas da saúde pública e da Saúde Coletiva. regulamentam uma forma de garantia de acesso à saúde como direito de todo cidadão e buscam garantir a boa qualidade dos serviços oferecidos à população. são de valor: vacinas. particularmente as relações estabelecidas na situação clínica entre usuários e profissionais da saúde. Naquele momento houve um profundo investimento no social e no meio ambiente. além dos investimentos nas políticas campanhistas como os mutirões "mata mosquito". com a ênfase dada ao fator econômico-social como determinante dos processos patológicos. manteve-se centrado no modelo ecológico de explicação do processo saúde-doença com os investimentos do saber científico. das assembléias populares etc. Vislumbrou-se do então modelo. com as origens da Reforma Sanitária e a tentativa da consolidação do processo democrático da saúde. Quando pensamos na ênfase maior do tratamento centrado no agente patológico. minimizar as injustiças e o controle das burocracias existente nas políticas pré-existentes de saúde.1(1):53-60 INTRODUÇÃO Para pensarmos a clínica como instrumento de fortalecimento dos sujeitos nela envolvidos. O controle social. a fluidez de poderes e saberes imanentes a ela. bem como os atendimentos pontuais à queixa apresentada são respostas satisfatórias para um hospedeiro. não é regulamentado. ini- ciando-se um processo significativo de crescimento tanto da Epidemiologia Social e das políticas sanitárias de saneamento básico. Aspectos que.Centro Universitário São Camilo . miséria e ao sistema privatista-elitista da saúde. pretendemos refletir sobre as práticas clínicas introduzidas no Sistema Único de Saúde. podo-se observar que a evolução dos tratamentos relacionados às diferentes patologias. com enfoque dado nas relações de poder imanentes a esse processo. a eqüidade. a integralidade. das campanhas de combate à desigualdade. Podemos citar como exemplo das diretrizes do SUS. segundo Carvalho(1) no início da década de 70. a hierarquização. Neste caso. que se dividia. constituindo-se como base para a formação das diretrizes principais para o Sistema Único de Saúde . quando falamos em população.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO .a participação popular na regulamentação. dos fóruns coletivos.SUS e a garantia da saúde como "direito de todos e dever do Estado". Da mesma forma. sem história. desejos e necessidades. o acesso universal. Em segundo lugar. Tal perspectiva. prevenção. a descentralização. ofereceu teoricamente um sistema de proteção social de caráter universal-redistributivo. o cenário pós 1975. o controle social. nos diferentes estágios de promoção. na tentativa de ampliar o conceito de clínica. as políticas do SUS. através dos conselhos locais. porém possivelmente. quando a ênfase é dada ao hospedeiro enquanto corpo individual. dos núcleos de saúde coletiva.

A clínica como instrumento de fortalecimento do sujeito: um debate ético-filosófico
- Centro Universitário São Camilo - 2007;1(1):53-60

modificado neste processo. Segundo Campos(2) ao falarmos em pessoas e relações interpessoais, estamos automaticamente falando em desejos, poderes, saberes e singularidades. Com a ênfase da saúde pública estrutural marxista focada no modelo de determinação social da doença, lutando em contrapartida ao modelo médico organicista, positivista tradicional, gerou-se um contexto em que, em ambos os casos, embora tenham muitos aspectos que devam ser valorizados e preservados, se operou uma espécie de "abolição" do sujeito adoecido. No primeiro caso, por considerar a doença apenas como produto das desigualdades sociais e das lutas de classes, e no segundo por considerar a doença sem sujeito(3) e o indivíduo apenas como objeto de intervenção de um determinado saber técnico sobre a doença(b). Em ambos os casos, saber e poder, como nos mostra Foucault(4) se sustentam mutuamente, pois, as possíveis respostas encontradas para determinar o processo de adoecimento já estão previamente dadas e definidas por um conjunto de saberes dos quais o sujeito adoecido não fez parte da construção, muitas vezes, nem mesmo os profissionais atuantes na clínica fizeram parte dela, apenas o reproduzem. Neste caso, a maioria dos saberes não científicos que o sujeito adoecido possa vir a ter em sua carga de experiência é subestimada, quando não desconsiderada. Esta forma de racionalidade fundamenta-se na verticalidade de poder existente entre quem trata e quem é tratado, sendo que os primeiros impõem uma objetividade aos usuários restringindo as possibilidades de expressão da subjetividade, e conseqüentemente, de desejos, interesses, necessidades e singularidades e ao mesmo tempo, profissionais permanecem aprisionados a determinados discursos que embora lhe atribuam uma carga de poder, pouco oferecem margem à expressão de sua singularidade, criatividade.

A Construção de uma nova prática clínica
Com isso, nos propomos a refletir sobre a clínica queremos, ou melhor; em qual método de intervenção seria possível resgatar o sujeito como aspecto central no tratamento, evidentemente, sem desconsiderar os aspectos construídos na história pelos modelos vigentes até então? Sabemos que a Psicanálise caracteriza-se em sua essência, por este resgate do sujeito no tratamento, e por isso, utilizaremos muitos de seus aspectos para a construção desta nova clínica; no entanto, apoiados na tese defendida por autores como Nietzsche, Foucault, entre outros, acreditamos que, embora se considere a existência do sujeito, ainda nesta construção de saber, se opera a concentração do poder nas mãos de quem trata sobre quem é tratado. Por exemplo, para Foucault(4) quando falamos em doença mental e tratamento entendemos que se por um lado, Freud retomou a loucura ao nível de sua linguagem, reconstituindo um dos elementos essenciais de sua experiência reduzida ao silencio pelo período das internações, por outro, tornou o doente mental submisso a uma outra ordem de saber: o analista sabe da sua loucura, mais do que ele próprio. A cura pela palavra, em sua abordagem ortodoxa, se dá num monólogo, quase uma confissão, onde quem escuta é o detentor da verdade de quem fala e quem fala é o objeto de saber de quem ouve, numa relação onde saber e poder se alimentam. Desta forma, o que procuraremos propor, é a reflexão sobre uma forma de clínica(5), onde não apenas a concepção de doença se altere, mas onde a concepção de sujeito(c) seja modificada e os fluxos de poder(d) possam ser desviados e utilizados para a produção de subjetividade e em produtos com "valores de uso" para os coletivos.

b. Temos como exemplo o estudo do corpo humano nas aulas de anatomia, disciplina que os profissionais da saúde estudam para tornarem-se curadores de homens. "O homem é a imagem de si mesmo, mas a imagem de si mesmo morto (...). A vida do homem e sua organização social são expulsas totalmente daquilo que é seu corpo doente. Uma coisa é o corpo, outra coisa é a doença e outra a vida" (p.52)(3). c. Trabalhamos com a premissa de que "sujeito é uma síntese singular, resultante do eletrochoque entre determinantes e condicionantes particulares e universais e a capacidade do próprio sujeito de alterá-los, mediante processos de análise e intervenção sobre estes fatores" (Campos;2005. p.235), o que, em nossa análise, não contradiz a concepção de Foucault, que ao teorizar a respeito da subjetivação, introduz o conceito de sujeito forma, ou seja, um sujeito apontado para o processo de sua constituição, sujeito como atividade, em devir, que visa sua multiformidade histórica. Neste sentido, para Foucault, na leitura de Paiva 5 quem somos, não é uma questão meramente pessoal, psicológica, existencial, mas engaja a pergunta pelo que viemos a ser com relação às práticas que nos constituem, as quais organizam nossa relação conosco e com os outros. d. Para Foucault 4, é preciso "deixar de descrever sempre os efeitos do poder em termos negativos: ele exclui, reprime, censura. Na verdade, além disso, o poder produz; ele produz realidade; produz campos de objetos e rituais da verdade. O indivíduo e o conhecimento que dele se pode ter se originam nessa produção"(p.161)(4).

55

ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO
- Centro Universitário São Camilo - 2007;1(1):53-60

É importante ressaltar que não pretendemos aqui, dar conta de toda complexidade da clínica, nem mesmo negar seus aspectos objetivos e orgânicos, tão relevantes quanto seus aspectos filosófico-ideológicos. Por isso, neste trabalho, para discutirmos a clínica, estaremos enfocando, especificamente, as relações de poder, existentes na situação terapêutica e a possibilidade de desviarmos das lógicas hegemônicas o fluxo deste poder, a partir da conquista de autonomia e do fortalecimento dos sujeitos nela envolvidos. Em Saúde Paidéia, Campos(6) trás um novo conceito de clínica, por ele denominado clínica ampliada que, de acordo com Onoko Campos(7) não nega as técnicas da clínica strictus sensu, mas as incorporam em um conjunto mais amplo de ações, entrelaçando clínica e política, tratamento, organização institucional, gestão e subjetividade. Os cuidados buscam a produção de novos valores de saúde e cidadania. Este cuidado não é reproduzido em série, normativo; ao contrário a cada usuário é oferecido e construído juntamente a ele um projeto terapêutico individualizado, conforme suas necessidades - Esta idéia me parece bastante próxima do conceito de "programa vazio" introduzido por Foucault, termo que sugere, nas palavras de Ortega(8), a existência humana como uma cavidade que pudesse ser preenchida por cada indivíduo segundo suas necessidades, renunciando a qualquer pretensão de prescritividade e de universalidade, para possibilitar a experimentação e a criação de novas formas de existência. Quando estes autores incitam a criação de novas formas de se operar à clínica, se propõe ao mesmo tempo, a

reformulação do papel de controle dos micropoderes(e), e, além disso, são abertas possibilidades para a experimentação de novos tipos de relações sociais, denominadas por Foucault como relações agonísticas, que nada mais são que "relações livres, que apontam para o desafio e para a incitação recíproca e não para a submissão ao outro"(p.89)(8). Esta proposição não permitiria, por exemplo, que as relações de poder inevitavelmente existentes entre profissionais de saúde e usuários, se transformassem em estados de dominação. Há aqui, um apelo pela criação de novas formas de vida, que mantenha minimamente o direito relacional entre os seres humanos nos espaços públicos, possibilitando novas formas de subjetivação. Neste caso, ao profissional de saúde, é fundamental a aquisição de uma postura terapêutica que ultrapasse o saber do seu núcleo profissional e o manejo das melhores técnicas para aplicá-lo, é preciso "um investimento que trabalhe até o limite a necessidade da defesa da vida", neste caso, a postura terapêutica é como aponta Onoko(9) necessariamente, uma postura ético-política; que vislumbre a transformação daquilo que é dado como universal. Neste sentido, não se trata de um profissional modificando um usuário, mas do profissional se revendo o tempo todo, ao mesmo tempo em que revê a posição do usuário e também o conduz a essa revisão. Para Benevides(10) quando colocamos em questão a naturalidade ahistórica de categorias com as quais nos identificamos e indagamos seu processo de constituição realizamos um exercício crítico-clínico que nos desvia da natureza humana na qual acreditamos nos definir, e por tanto, realizamos um exercício de liberdade(f).

e. Denominamos como micropoder "a mecânica do poder que se expande por toda sociedade, assumindo as formas mais regionais e concretas, investindo em instituições, tomando corpo em técnicas de dominação. Poder este que intervém materialmente, atingindo a realidade mais concreta dos indivíduos - o seu corpo - o que se situa ao nível do próprio corpo social, e não a cima dele, penetrando na vida cotidiana, e por isso podendo ser caracterizado como micropoder" (p. XII)(4). f. Para Benevides 10 a noção de liberdade em Foucault tem um sentido nominalista e um sentido real. "É por uma história nominalista dos sentidos da liberdade que podemos alcançar uma liberdade real. Para cada concepção instituída de liberdade, é preciso realizar a inversão nominalista, que consiste em afirmar criticamente que o que se alcançou tem tão somente um nome de liberdade não sendo efetivamente liberdade real(...). O nominalismo de Foucault faz da liberdade não uma coisa ou um estado, mas um processo, uma libertação" ( p.12)(10).

56

A clínica como instrumento de fortalecimento do sujeito: um debate ético-filosófico
- Centro Universitário São Camilo - 2007;1(1):53-60

Assim, acreditamos que, tanto a proposta de clínica ampliada quanto à proposta dada por Foucault, em sua conceituação oferecida sobre programa vazio e sobre a constituição de relações agonísticas, apontam para uma modelagem de clínica que buscam o fortalecimento do sujeito adoecido, não apenas em sua relação com a doença, mas em sua relação com quem o trata, com o mundo e com as pessoas ao seu redor. O fortalecimento do sujeito pode ser entendido de diversas maneiras de acordo com a apresentação de cada teoria. Para nós, este fortalecimento tem o sentido de potencialização da autonomia, do controle sobre si mesmo e sobre suas ações no mundo. Campos(2) ao apresentar o método da roda(g), explica que o fortalecimento dos sujeitos só é possível a partir do momento em que são ampliadas suas capacidades de análise e de intervenção nas atividades ou processos em que estão inseridos. Este fortalecimento, associado à democratização das instituições, seria os dois principais caminhos para a reformulação das racionalidades hegemônicas e para se democratizarem as relações de poder. Para Foucault(11) quando falamos em fortalecimento ou empoderamento dos sujeitos, estamos discorrendo também sobre o uso público ou privado das nossas atitudes. Por isso, vale dizer, que este fortalecimento implica em ampliação de poderes e o uso desses poderes, pode coincidir ou não, com os interesses coletivos e sociais, pode se dar de forma construtiva, mas também perversa e destrutiva, pois, afinal, "não é simples a articulação entre vínculo social e narcísico em cada sujeito"(p.118)(2). Assim, esta articulação pode produzir contradições e conflitos em decorrência da duplicidade dos objetivos individuais e coletivos. Põe-se desta forma um desafio. Como estabelecer o fortalecimento do sujeito sem fortalecer os conflitos gerados pela ampliação dos poderes individuais no coletivo? Em outros termos: como "constituir uma sociedade justa, habitada por seres humanos concretos com coeficientes crescentes de liberdade, mas

também, com capacidade para assumir compromissos e responsabilidades"?(p. 123)(2). Para apontar possíveis soluções para esse desafio, acredito ser bastante potente a teoria da Ética de si preconizada por Foucault(11), que se fundamenta na proposição de que a constituição subjetiva do sujeito coletivo deve ser essencialmente como uma constituição ética. Para ele, uma possível saída para este dilema, não estaria, nem mesmo em nenhuma das teorias levantadas anteriormente, nem mesmo em nenhum a atitude Estadual sobre a regulamentação acerca o uso ideal do poder, mas os efeitos negativos deste empoderamento, poderiam ser minimizados, a partir de uma "ontologia histórica de nós mesmos"(h), uma crítica do que dizemos, pensamos e fazemos, a análise sobre nossos possíveis limites e a reflexão sobre eles, conjuntamente a uma crítica prática sob a forma de ultrapassagem possível. Ou seja, acredito que tanto o ethos filosófico quanto o método da roda procuram "romper com a tradição instituída, tratando de combinar compromisso social com liberdade"(p.34)(2), entendendo que "seres humanos menos alienados ou com maior capacidade analítica, ou reflexiva serão, sempre, mais capazes de construir a felicidade humana"(p.107)(2). Podemos dizer que na situação clínica, poderiam ser estimuladas, verdadeiras técnicas de si, termo foucaultiano que se referem às técnicas "que permitem aos indivíduos efetuarem sozinhos ou com a ajuda de outros, um certo número de operações sobre seu próprio pensamento, sobre sua própria conduta, e isso, de tal maneira a transformarem-se e produzir a verdade à cerca de si próprios"(p.129)(5). A partir deste referencial, como profissionais, trataríamos de tomar como domínio homogêneo de referência não apenas as representações que os saberes e os homens se dão de si mesmos, nem as condições que determinam os usuários sem que eles o saibam, mas sim, o que fazemos e a maneira como fazemos; a forma com

g. "É um método crítico a racionalidade gerencial hegemônica, propondo uma reconstrução operacional dos modos para fazer a co-gestão de instituições e a constituição de sujeitos com capacidade de análise e de intervenção" (p.234)(2). h. Isso é o que Foucault 11 denomina êthos filosófico.

57

o fortalecimento do Sujeito e a ampliação de sua autonomia se caracterizam. além de culminar com o fortalecimento dos sujeitos.2007. 208)(2). permanece até o fim como um "sujeito de ação". a partir do fortalecimento da liberdade e da autonomia dos sujeitos na situação clínica é bem diferente do discurso da aceitação às diferenças. Segundo Paiva(5) tal processo de fortalecimento do sujeito. como aponta Rolnik(13). não certamente como uma teoria. de influência mútua. situação imaginária e utópica. muitas vezes. é necessário aliar-se com as forças da processualidade.sujeitos individuais ou coletivos que têm diante de si um campo de possibilidades onde diversas condutas. I.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . Portanto. em não "domesticar" as forças de instabilização. Assim. onde se desviaria aos efeitos da vontade de saber-poder e ao mesmo tempo. modificando até certo ponto. no viver. Constatamos portanto. mais capazes de lidar com relações de dependência e para administrar conflitos de forma positiva para si mesmos e para o coletivo(p. um êthos. Governo como "modos de ação mais ou menos refletidos e calculados. nem sempre a busca da estabilização. bem como "pensar uma sociedade sem relações de poder só pode ser uma abstração". do controle das doenças ou a exclusão das diferenças se constitui como o melhor caminho. viver em sociedade exige sempre que alguns ajam sobre a ação dos outros. se fortaleceria formas de resistência ao biopoder(j). Isso porque. uma doutrina. na situação clínica. "a liberdade é vista agora como um elemento fundamental incluído na própria definição do exercício do poder"(p. Biopoder é uma expressão introduzida por Foucault. o que anularia o papel das relações de saber e das singularidades humanas que diferenciam as pessoas entre si e as fortalecem perante o coletivo. não significa o enfraquecimento do profissional e. Ou. pela capacidade dos sujeitos de entrarem e saírem de situações. as regras do jogo. e passam a ser movimentos agosnísticos. seja. 58 . pertinentes à construção teórica sobre às práticas clínicas. nem significa dizer que construiríamos uma situação clínica onde as relações de poder se anulem ou tornem-se invertidas. não pela eliminação de qualquer relação de dependência.244)12 e não se referindo às estruturas políticas dos Estados. Essa aliança depende . o que só faz "brecar" os processos da subjetividade nos termos de sua produção. uma via filosófica em que a crítica do que somos é simultaneamente análise histórica dos limites em que são colocados e prova de sua ultrapassagem possível (p. aquele sobre o qual o poder se exerce. culminaria automaticamente com uma forma de reversão de caminhos que conferem à redefinição de um projeto ético de convivência. pensar a situação clínica. de instituições ou teorias em que experimentariam distintos graus de dependência. é preciso considerar a ontologia crítica de nós mesmos. Assim. portanto. da capacidade de suportar e de improvisar formas que dêem sentido e valor àquilo que essa incômoda sensação nos sopra. de resistência . 239)(12). reações ou diversos modos de comportamento podem acontecer. na leitura foucaultiana. 126)(5) Libertação e relações de poder deixam de ser situações antagônicas. criando condições para realizar a conquista de uma certa serenidade no sempre devir do outro(p. Tudo isso. J. poder que incide sobre o próprio processo de vida. pois afinal. Desta forma.Centro Universitário São Camilo . nem mesmo um corpo permanente de saber que se acumula. necessário pensar uma forma de clínica que não seja totalmente capturada pelas instituições de poder agenciadoras de nossa subjetividade. para caracterizar a forma típica de poder que se dá na sociedade contemporânea.1(1):53-60 que reagimos ou permitimos que os usuários reajam ao que os outros fazem ou ao que fazemos.mais do que de qualquer outro tipo de aprendizado . 351)(11). 32)(13). que este discurso de desconstrução do estabelecido. CONCLUSÃO Depreende-se dos aspectos descritos. e não como um objeto passivo ou puro produto de atitudes terapêuticas. Torna-se. do governo de si(i) e dos outros. do discurso cristão que prega a igualdade entre todos os homens e também da utopia de uma relação de poder na clínica sem diferenciação entre usuários e profissionais."sujeitos livres" . é preciso concebe-la como uma atitude. Desta forma. Mas sim. que o fortalecimento dos sujeitos adoecidos em seu papel ativo no tratamento. porém todos destinados a agir sobre as possibilidades de ação" (p.de estar à escuta do mal-estar mobilizado pela desestabilização em nós mesmos. "temos que promover novas formas de subjetividade através da recusa desse tipo de individualidade que nos foi imposta há vários séculos"(p. implica em abrir mão do vício em identidades. Sujeitos autônomos seriam em tese.

modificando-os. como nos mostra Campos(2) seres com desejos e interesses a serem considerados. reinventar novas verdades sem aprisionar-se a elas. ambos reconhecendo-se mutuamente como sujeitos. mas que a retomada da questão das relações de poder e do "agonismo" entre relações de poder e intransitividade da liberdade é uma tarefa política incessante e que é exatamente esta a tarefa política inerente a toda existência social (p. mas mesmo tempo. a ética de si proposta por Foucault. autorizando-se a interferir e questionar as práticas aplicadas sobre o tratamento que passará a interferir em maior ou menor grau em sua vida.2007. inaugurando uma nova estilística da existência. estamos falando sobre a possibilidade de construção de novas figuras de subjetividade.a possibilidade de um jogo de trocas com o outro e de um sistema de obrigações recíprocas. desconstruir o universalmente aceito. 59 . uma perspectiva ativa de trabalhar as necessidades sociais para modificá-las ou administra-las segundo os interesses dos interessados(. 119)(2). Porém. não mais assentada numa estética da vida em conformidade com o status.espaço social complexo com novas condições para o exercício do poder . No entanto. enfim. nem assistencialista.. isso não pode ser utilizado como instrumento argumentativo para a manutenção de relações autoritárias e dominadoras. nem que de qualquer modo o "poder" constitua no centro das sociedades uma fatalidade incontornável. é estabelecida uma relação concreta que permite gozar de si como que de uma coisa que ao mesmo tempo necessita e pode usufruir os cuidados oferecidos por outrem. É importante sinalizar que. propomos uma situação de clínica ampliada. pois. reescrever-se no cotidiano.no dizer de Foucault..1(1):53-60 Ao mesmo tempo. do método da roda ou da ética de si. experimentar-se outro. 219)(5). representa a possibilidade de redefinição da relação consigo. De acordo com Paiva(5) é preciso sublinhar que esse maciço investimento sobre o eu. no entanto. implica que o sujeito se constitua em face de si próprio como um indivíduo que sofre de certos males e que deve fazê-los cuidar. é o único trabalho que vale a pena. ou seja. acrescentar à importância de analisar-se reconhecendo necessidades e cadeias que prendem o Sujeito. onde profissionais e usuários.A clínica como instrumento de fortalecimento do sujeito: um debate ético-filosófico . para esse eu em estado de mobilização subjetiva permanente"(p. Quando analisado superficialmente. este método pode sugerir uma forma individualista de se causar transformações individuais. trafeguem com autonomia. ou em termos foucaultianos. com possibilidade de se expressar e de agir e interagir dialeticamente.) analisar e intervir na produção da própria demanda. não quer dizer nem que aquelas que são dadas são necessárias. podemos entender esta estratégia como um potente instrumento de transformação social se.Centro Universitário São Camilo . em termos clínicos. nunca sonhou com um happy end para a humanidade a partir da clínica ampliada. 246)(12). "Não há garantias para este trabalho de autoestilização. dizer que não pode existir clínica ou sociedade sem relação de poder. a possibilidade de agir-se sobre esses condicionantes. pensar e participar ativamente do que é ativamente buscado(p. Assim. nem autoritário. repensar nossa prática de trabalho. O desafio constitui-se na situação de possibilitar ao usuário uma ampliação de sua capacidade de interferir e negociar com a realidade de seu processo de adoecimento. possibilitando na terapêutica . Foucault e imaginamos que nenhum dos autores citados anteriormente. ou com o cientificamente aceito. reconhecendo pontuais situações de dependência em relação ao profissional de um determinado saber. um método centrado no indivíduo olhando apenas para si mesmo. os primeiros sem se aprisionarem ás suas técnicas e obrigações institucionais e os segundos sem subordinarem-se a elas. Assim.

1997. 11. Derrida. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 1995. In: Rabivow P. Foucault MA. [Curso de Aprimoramento em Saúde Mental]. Para uma política da amizade: Arendt.2 Foucault M. Paiva ACS. Clínica: a palavra negada . 2004. Basaglia F. Carvalho SR. A Psiquiatria alternativa: contra o pessimismo da razão. Fortaleza CE: Secretaria de Cultura e Desporto do Estado. Campinas: Papirus. Raquel Ramalhete. 2000.Centro Universitário São Camilo . O inter "esse" dos programas de aprimoramento: comunicação pessoal . 12. 13. 2005. São Paulo: Brasil Debates. Trad. 25 (58): 98-111. 2003. 3. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 1. Foucault M..Uma trajetória filosófica . A história da loucura.O que são as luzes? In: Ditos e escritos: arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamentos. Elisa Monteiro. 19a ed. v. 2. 60 . Dreyfus H. 2004 jul. Rio de Janeiro: Relume Dumará. 4. Campos GWS. Rolnik S. Clínica e biopolítica na experiência do contemporâneo. Rio de Janeiro: Forense Universitária.A genealogia de Foucault e suas contribuições para a crítica da sociedade e para as políticas de atenção à saúde mental. José Teixeira Coelho Neto. A clínica do sujeito: por uma clínica reformulada e ampliada. 7. 1979. 9. Traduzido por: Sônia Soianesi e Maria Celeste Marcondes. Foucault. Rodrigues A et al.Revista de Ética. Benevides R. 10. In: Lins D. Campinas: Unicamp FCM. 7a ed. 6. 8. Uma insólita viagem à subjetividade: fronteiras com a ética e a cultura. São Paulo: Hucitec. 2005. São Paulo: Hucitec. 13(1):89-100. Phrónesis . Trad. 6(2): 43-55.sobre as práticas clínicas nos serviços substitutivos de saúde mental. 2a ed.Rev Psicol Clín 2001. Campos GWS.para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Relume Dumará. Traduzido por: Roberto Machado. Onoko CR./dez. Trad. Saúde coletiva e promoção à saúde: uma reflexão sobre os temas do sujeito e da mudança. Ferigato S.O sujeito e o poder. Vigiar e punir: a história da violência nas prisões.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . 2000. In: Saúde Paidéia. 2004. Onoko CR. Foucault M. 5. 2000. o otimismo da prática. São Paulo: Perspectiva. Ortega F.. 2. 2003. Cultura e subjetividade: saberes nômades. Sujeito e laço social: a produção de subjetividade na genealogia de Michel Foucault. São Paulo: Hucitec. 2004. Rio de Janeiro: Graal. Passos E. organizador. Um método para análise e co-gestão de coletivos. 2a ed. 3. Foucault M. Petrópolis: Vozes.1(1):53-60 REFERÊNCIAS 1.2007. 29a ed. Saúde debate 2001 maio/ago. Microfísica do poder.

Los riesgos y las ventajas ocurren en varios campos de actividad: económico. en el sentido pluralista más amplio posible. la base para una reflexión crítica ulterior. Nanobiotecnología.. sociais.Fica cada vez mais evidente a importância do pluralismo. em particular as questões advindas da nanobiotecnologia. If on the one hand scientific and technological advances are praiseworthy and unequal under multiple aspects.Centro Universitário São Camilo . It is ever more evident the importance of pluralism. the basis for a ulterior critical reflection. if the advances are inexorable and desirable under some perspectives. El trabajo fue desarrollado analizando lo que se levantó en la bibliografía técnico-científica disponible presente sobre los riesgos y las cuestiones bioéticas suscitadas por la nanotecnología. *** Bióloga. KEYWORDS: Nanotecnology. se o avanço é inexorável e desejável sob vários ângulos. Se de um lado o avanço científico e tecnológico é louvável e desigual sob múltiplos aspectos. no sentido pluralístico o mais amplo possível. é urgente e absolutamente necessário o levantamento das questões éticas e. social.. Coordenador do Programa de Mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo. Nanobiotechnology. it is urgent and absolutely necessary to survey ethical and mainly bioethical questions that can be raised by technological advances. in the amplest pluralistic sense possible. Tal estudo buscou conhecer os benefícios e os riscos que essa tecnologia apresenta no presente e suas perspectivas no futuro. over all of nanobiotechnology.1(1):61-67 Introdução às questões bioéticas suscitadas pela nanotecnologia Introduction to nanotechnology-provoked bioethical questions Introducción a las cuestiones bioéticas suscitadas por la nanotecnología João Carlos Silva de Lêdo* William Saad Hossne** Margareth Zabeu Pedroso*** RESUMO: O presente artigo objetivou apresentar uma introdução às questões bioéticas suscitadas pela nanotecnologia a partir do estudo teórico da bibliografia existente. ** Médico.2007. Botucatu. La revolución científica debe ter el paralelo de "la evolución de la ética".ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . mas os riscos começam a surgir e serem identificados. deve ser balizado pela reflexão bioética a partir da conscientização da problemática seguida da devida reflexão crítica. en particular las cuestiones vinculadas a la nanobiotecnología. 61 . característica essencial da Bioética. para a devida avaliação dos avanços da nanotecnologia. biológico. sobretudo da nanobiotecnologia. social. es urgente y absolutamente necesario examinar cuestiones éticas y principalmente bioéticas que puedan plantear los avances tecnológicos. Tanto riscos como benefícios ocorrem em vários campos das atividades: econômicas. él se debe sin embargo dirigir por la reflexión bioética desde el conocimiento de la problemática. Bioética. sanitários. Mestre em Bioética pelo Centro Universitário São Camilo. sanitario. sobre todo en nanobiotecnología. in particular questions linked nanobiotechnology.Ao lado da revolução científica deve ocorrer a "evolução da ética".O trabalho desenvolveu-se ao analisar a partir da bibliografia técnico-científica disponível. that is. Nanobiotecnologia. Both risks and benefits occur in several fields of activity: economic.. The work was developed by analyzing what the available technical-scientific bibliography present about the risks and bioethical questions raised by nanotechnology. Such study searched to identify the benefits and risks that this technology presents currently and its perspectives in the future. para la evaluación de avances en nanotecnología. biological.Benefícios já se fizeram sentir. PALABRAS LLAVE: Nanotecnología. * Engenheiro. es decir. Docente do Programa de Mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo. una característica esencial de la bioética. PALAVRAS-CHAVE: Nanotecnologia. Doutora em Ciências (Micro-imuno e Ultra estrutura) pela Universidade Federal de São Paulo. si los avances son inexorables y deseables desde algunas perspectivas.. Existen innegables ventajas pero los riesgos comienzan a aparecer y a ser identificados. Los datos recogidos demuestran una gama amplia de cuestiones bioéticas que la revolución de la nanotecnología trae a la delantera. Collected data show an ample gamma of bioethical questions that the revolution of nanotechnology brings to the fore. ABSTRACT: The present article aims to present an introduction to nanotechnology-provoked bioethical questions from the theoretical study of the existing bibliography. biológica. Es siempre más evidente la importancia del pluralismo. Si los avances científicos y tecnológicos son de una parte loables y desiguales. Bioética. Tal estudio buscó identificar las ventajas y los riesgos que esta tecnología presenta actualmente y sus perspectivas en el futuro. Scientific revolution must be paralleled by "the evolution of ethics". sanitary. os riscos e questões bioéticas suscitadas pela nanotecnologia. an essential characteristic of Bioethics. Bioethics. There have been undeniably benefits but risks begin to appear and to be identified. it must nevertheless be guided by the bioethical reflection from the awareness of the problematic. isto é. RESUMEN: Este artículo pretende presentar una introducción a las cuestiones bioéticas suscitadas por la nanotecnología desde el estudio teórico de la bibliografía existente.Os dados obtidos evidenciam ampla gama de questões bioéticas que a revolução da nanotecnologia suscita. for the evaluation of advances in nanotechnology. sobretudo bioéticas que possam surgir a partir dos avanços tecnológicos. Professor emérito da UNESP.

desenvolvimento e inovação em todos os países industrializados. Já há alguns produtos industriais nanotecnológicos e o seu número aumenta rapidamente. um nanômetro (1nm) corresponde a um bilionésimo de um metro. Nano (do grego: "anão") é um prefixo usado nas ciências para designar uma parte em um bilhão e. O objetivo da nanotecnologia é o de criar novos materiais. um fio de cabelo tem cerca de 100x10-6m por 0. O Brasil tem em seu Programa de Desenvolvimento da Nanociência e da Nanotecnologia. cuja palavra explica que a vida (bios) é manipulada pelo engenho humano (teknê). reformas de existentes(37) e implantação de redes (R$ 284 milhões). A National Science Foundation (NSF) estimava que em um período de 10 a 15 anos haveria um mercado de cerca de US$ 1 trilhão para produtos e processos fundamentados na nanotecnologia e. assim. Proposta do Grupo de Trabalho criado pela Portaria do Ministério de Ciência e Tecnologia MCT n. o mercado mundial para materiais. como subsídio ao Programa de Desenvolvimento da Nanociência e da Nanotecnologia do PPA 2004-2007": "A nanotecnologia é hoje um dos principais focos das atividades de pesquisa. Segundo a National Science Foundation(6) a estimativa de mercados para produtos e processos fundamentados na nanotecnologia. Reino Unido: 45 milhões de libras por ano de 2003 a 2009 investidos pelo governo britânico na iniciativa em nanotecnologia em 2003. Somente para se ter uma idéia de tamanho. Diferentemente de "biotecnologia". Outros países menores. ou seja. em ordem decrescente de sua importância econômica. Conforme descrito por Nazareno(7). é uma medida e não um objeto. b) apoio às redes e laboratórios (R$ 30 milhões). Os investimentos na área têm sido crescentes e atingiram.7 bilhões de dólares de 2005 a 2008 pela "Lei do Século XXI da Pesquisa e Desenvolvimento em Nanotecnologia" (excluindo substanciais despesas relacionadas com defesa). Indústria Eletrônica: U$ 300 bilhões. de 2010 a 2015. 252(3).2007. e Indústria Instrumental: U$ 22 bilhões. segundo a mesma organização. Taiwan.PPA . uma série de investimentos previstos ao lado de dotação orçamentária de porte bastante importante. esperando-se um incremento de 20% em 2004.Centro Universitário São Camilo . estima-se que o total de investimento global em nanotecnologia seja por volta de 5 bilhões de euros . Austrália. e divididos entre os grandes setores da economia. algumas dezenas de nanômetros. Estima-se que.1mm de diâmetro. desenvolver novos produtos e processos fundamentados na crescente capacidade da tecnologia moderna de ver e manipular átomos e moléculas. nanotecnologia indica somente o tamanho envolvido(1). EUA: 750 milhões de dólares em 2003 e 3. Indústria química: U$ 100 bilhões. mundialmente. crescendo para 800 milhões em 2003.(2) Conforme assinala o documento oficial "Desenvolvimento da Nanociência e da Nanotecnologia. Israel e Canadá também incrementaram substancialmente seus investimentos em nanotecnologia(6). 62 . respectivamente.de 2004-2007. seria: Indústria de Materiais: U$ 340 bilhões. portanto. o orçamento total previsto até 2007 está assim distribuído: a) implantação de novos laboratórios(6). em 2002 esse mercado já teria atingido a marca de U$ 200 bilhões(6). "Nano". Japão: 400 milhões de dólares em 2001.1(1):61-67 INTRODUÇÃO Os termos nanociências e nanotecnologias se referem. incluído no Plano Pluri Anual . um valor de 5 bilhões de dólares em 2002. conforme The Royal Society & The Royal Academy of Engineering(4) sendo que 2 bilhões de euros vêm da iniciativa privada. sendo dois terços em programas nacionais e regionais. que tradicionalmente mais investem em pesquisa e desenvolvimento. ou da ordem de. produtos e processos industriais baseados em nanotecnologia será de 1 trilhão de dólares" Importância econômica A nanociência e a nanotecnologia estão atraindo rapidamente crescentes investimentos de governos e empresas privadas em várias partes do mundo. Indústria Aeroespacial: U$ 70 bilhões. ao estudo e às aplicações tecnológicas de objetos e dispositivos que tenham ao menos uma de suas dimensões físicas menor que. Segundo a European Comission(5) os investimentos públicos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) em nanociência e nanotecnologia foram: Europa: 1 bilhão de euros. Indústria Farmacêutica: U$ 180 bilhões. é 100.000 vezes maior que um nanômetro. como Coréia do Sul.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO .

63 . seja pela existência de grandes grupos empresariais nacionais (indústria química). em termos de mercados. Os dados aqui sumarizados traduzem a importância econômica e a perspectiva crescente da pesquisa em nanotecnologia. a princípio. A nanotecnologia. Recentemente. Devido à mudança de tamanho (escala nanométrica) e sem mudança na substância. Destacando-se entre eles os instrumentos da nanotecnologia: a microscopia eletrônica de alta resolução. sobretudo quanto a benefícios e eventuais riscos. os investimentos em pesquisa. associados ao desenvolvimento de novos conceitos que são agregados à nanotecnologia fazem surgir uma nova fase do conhecimento e da tecnologia do homem sobre a matéria. são previstos. em princípio. Abaixo de 50nm entra em ação o que os cientistas chamam de efeito do tamanho quântico: a mecânica quântica assume as propriedades físicas da matéria. as microscopias de varredura (tunelamento e força atômica) e as fontes de luz síncotron. de porte médio. apesar de existirem nichos a serem explorados como. como uma nova revolução. Importância tecnológica O final da década de 50 do século XX (1959) tornouse o período simbólico do inicio da nanotecnologia. E porque na nanotecnologia o tamanho faz tanta diferença? Ocorre que a matéria. De acordo com Silva(6). abrangendo desde fertilizantes e defensivos agrícolas menos agressivos ao meio ambiente até embalagens "inteligentes" que informam ao consumidor sobre o estado do produto adquirido(6). o desenvolvimento de instrumentais que permitissem esse tipo de manipulação só realmente aconteceu no fim dos anos 70. porém não é citado nos estudos da National Science Foundation (NSF). Na área aeroespacial. Entretanto. setores nos quais o Brasil tem interesses estratégicos. prevalecendo sobre a mecânica clássica que domina o macro e o micro-mundo(1). chegar a formar novos átomos(1). características fundamentais da matéria. O agronegócio é um setor que deverá ser de grande relevância para o Brasil. Outros dois setores importantes são os de produtos farmacêuticos e da indústria química. é importante que seja dito que já existem estruturas nanotecnológicas em nossa vida cotidiana. pois o átomo seria o limite da matéria. por exemplo. tais como os microprocessadores dos computadores ou dos lasers semicondutores de nossos CD e DVD "players". Daí se origina o interesse industrial pela nanotecnologia. existe a limitação de contarmos com apenas uma empresa na área. poderia ser considerada. pois ela não seria a mais recente revolução em termos de materiais. se considerarmos a referência dos padrões internacionais. seja pelas dimensões e demandas de seu mercado interno (indústria farmacêutica). Apesar da nanotecnologia apresentarse. porém tem poucas possibilidades na área de eletrônica. porque já existe na literatura quem afirme que o homem possa manipular as partículas formadoras dos átomos e. ainda que de ponto de vista sócio-economico. mas a diferença que ocorre na matéria é muito maior que simplesmente tamanho. principalmente quando nos referimos aos componentes microeletrônicos. mas.4 milhões). o limite final para o projeto e a criação de novos materiais.Centro Universitário São Camilo . Quando se trata de nanotecnologia é sempre difícil falar sobre limites. sim. a última. por manipular átomos.1(1):61-67 c) gestão do programa (R$ 1. na maioria das vezes. O potencial dos produtos e processos nanotecnológicos e nanobiotecnológicos para o setor de agronegócio do Brasil é vasto e merece atenção. que o Brasil tem possibilidades realistas de competir internacionalmente na área de materiais. assim. na forma que conhecemos. Um micrômetro (µm) é mil vezes maior que um nanômetro (nm). o que faz prever a possibilidade do surgimento de questões bioéticas daí decorrentes. 1965) proferiu uma palestra no Instituto de Tecnologia da Califórnia intitulada "Há muito espaço lá embaixo" na qual apresentou a possibilidade de projetar e criar novos materiais com propriedades físicas e químicas previamente determinadas mediante a manipulação de átomos. tem propriedades físicas e químicas completamente diferentes das propriedades do mesmo material quando analisada em dimensões nanométricas. quando o físico Richard Feynman (prêmio Nobel.Introdução às questões bioéticas suscitadas pela nanotecnologia . sensores. d) P&D (R$ 86 milhões).2007. As estruturas nanotecnológicas estão cada vez mais sendo desenvolvidas e modificadas pela redução de tamanho quer pela formação de estruturas supramoleculares bem definidas. cada vez mais complexas e capazes de desempenhar funções também complexas.

que seria um passo a frente em relação à biotecnologia. O carbono puro em escala macrométrica. e no caso. Assim. . de um grão de areia a um ser humano. estamos nos referindo à questão de estender o controle humano a todos os objetos. a Nanotecnologia (Átomos). . cobertos por um "verniz" de razão. a Neurociência Cognitiva (Neurônios) e a Biotecnologia (Genes). por exemplo. o "nano" ouro é vermelho. as referências de natureza tecnológica. seria feito da mesma matéria prima. O fato é que. políticos e ambientais para a sociedade em que vivemos(8). uma mudança de paradigma. É preciso ressaltar que a nanotecnologia faz parte do grupo de tecnologias que se encontra em processo de convergência de diversos ramos da ciência e da tecnologia. adaptabilidade). A convergência demonstrada entre estas tecnologias. ponto de fusão. a nanotecnologia. O impacto que a nanotecnologia poderá ter sobre a visão que a sociedade do futuro terá de nosso lugar no universo deverá ser enorme já que tudo o que conhecemos em termos materiais.em conseqüência a centralidade da criação no Universo e uma hierarquia de uma sociedade estruturada em castas. a humanidade viu serem retirados seus privilégios sem nenhuma compensação especial.Materiais frágeis e maleáveis em escala macrométrica podem ser mais duros que o aço quando em escala nanométrica.1(1):61-67 tais como condutividade elétrica.seríamos movidos por instintos. tornando cada vez mais singela a diferença entre o que é natural e o que é sintético. A nanobiotecnologia tem como meta avançar. por exemplo. materializados num organismo híbrido. desenhar e fundir materiais vivos e não vivos. o diamante. mas produto de uma evolução genética contingente. Isto traz importantes impactos sociais.Um grama de um catalisador feito de partículas de 10nm de diâmetro é 100 vezes mais reativo que o mesmo material em partículas de 1µm de diâmetro. é sabido que a matéria viva ou não-viva é originada na nano-escala. cujo poder seria recebido diretamente de Deus. uma evolução em outro. O homem não é mais um ser criado "a imagem e semelhança de Deus". Alguns destes aspectos negativos poderiam ser pre- 64 . prometem muito. Implicações filosóficas Boa parte das tecnologias. Esta já tinha rompido a barreira das espécies e consolidado a chamada "indústria da vida" dando inicio ao seu comércio(8).O carbono puro em escala nanométrica pode ser condutor ou semi-condutor de eletricidade.A revolução darwiniana: colocou em polêmica a criação bíblica. dureza.A revolução freudiana: retirou do homem a última muralha que o separa do resto da criação . prometem mudanças geralmente enfatizadas como positivas. A importância tecnológica da nanotecnologia pode ser fortemente demonstrada por uma de suas especialidades .a ilusão da racionalidade . cor. à vida e ao conhecimento. Conforme descrito por Silva(6). o carbonato de cálcio (giz). controlável e que faça o trabalho das máquinas. O paleontólogo Gold citado em Silva (2003) enumera 3 grandes revoluções conceituais que mudaram a maneira da humanidade perceber o universo e o lugar da espécie humana a saber: . evoca suas sinergias. a não ser novo o conhecimento adquirido. combinando as capacidades não biológicas da matéria inorgânica (como condutividade elétrica e força). Ainda que de forma sumarizada.2007. particularmente as relacionadas à nanobiotecnologia. quando as promessas oferecidas pela tecnologia se concretizam. a nanotecnologia pode ter uma outra dimensão. sendo comercialmente viável.A revolução copernicana: a remoção da Terra como centro do universo tocou no cerne de um conceito religioso e social da idade média. bastante intrigante. previsível. . não raramente. por exemplo: . seus potenciais de inovações e transformações. são acompanhados também de aspectos negativos.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . Nos dias atuais. porém.nanobiotecnologia . Estas são a Tecnologia da Informação (Bits). o que vemos posteriormente é que os objetivos propostos foram alcançados e muitas vezes até superados. Quando as consideramos todas juntas. . segundo Gold citado em Silva(6). com as capacidades do biomaterial (auto-reprodução.Centro Universitário São Camilo . Busca-se portanto. . em geral. aqui apresentadas parecem-nos suficientemente sugestivas da ampla gama de questões bioéticas que podem surgir. podem sofrer mudanças totais. tirando a espécie humana do centro da criação.O ouro normalmente é amarelo. autoreparação. não tem tais características(1). Prometem uma vida melhor em um determinado aspecto.

também nos países em desenvolvimento em escala global. o acorrentasse em um rochedo no Cáucaso. o mal e a luz. A saga de Prometeu pode.1(1):61-67 vistos e providências para prevení-los poderiam ser executadas. A saga de prometeu De acordo com Zuben(10). Para os humanos. acompanhada de conseqüências negativas. irmão de Atlas e de Epitemeu. como anteriormente ocorrido com a biotecnologia. na esperança de alcançar os grandes benefícios de determinada tecnologia. Movida pela curiosidade. mas. deusa da sabedoria. a mitologia grega nos fornece uma figura (Prometeu) que serve de emblema para a técnica. Para castigá-lo. no dia seguinte. emblematicamente. e tomou partido da Terra e dos humanos que nela viviam sob o olhar invejoso e de desprezo dos deuses. Para estes. que a desposou. descendente dos titãs que estavam em batalha constante contra Zeus. Agindo assim. tentava ajudar. e na vida dos humanos o contraste. herói civilizador por excelência. Com o fogo surgiu a cultura. Assim. de muitos deles só se toma conhecimento após a tecnologia ter alcançado um estágio de maturidade. enquanto a sociedade civil e os governos focavam a atenção nas modificações genéticas e nas questões da biotecnologia (em particular o uso das células tronco). Zeus deu a Pandora uma caixa que deveria ficar fechada. Prometeu apresentava uma estratégia fundada na astúcia. mas que em sua inconseqüência trouxe a dor e a morte a essa mesma humanidade que ele. a mistura: o bem pode trazer consigo. simplesmente não são abordadas ou são negligenciadas. Poucos cientistas e um número ainda menor de governos reconheciam em 2003 que a nanotecnologia 65 . Esta saga da busca de uma evolução positiva. deus do fogo e do metal. nos remete ao Mito de Prometeu(9) que. os deuses criaram uma jovem atraente dotada por Atenas. inseparáveis"(11). terá rapidamente conseqüências em termos econômicos e ambientais. aplicável portanto à nanotecnologia. ilustrar as implicações filosóficas das tecnociências em geral. desta revolução prevê-se. Prometeu. Prometeu é o único a desafiar o chefe do Panteão revelando as fraquezas e precariedades dos deuses. Prometeu rebelou-se abertamente contra o mundo dos Imortais ao qual pertencia. uma fonte e um instrumento para o equilíbrio? Riscos e questões éticas Segundo o Action Group on Erosion. permitindo aos humanos compensar as insuficiências da natureza. a sombra. para seu sentido e impacto sobre a vida dos humanos e seus desafios no decorrer da história. o trabalho árduo como necessidade. rouba o fogo do céu e o entrega aos humanos. mas indissoluvelmente ligados. "Zeus quis que o bem e o mal nascidos do conhecimento fossem não somente misturados. em geral. e todos os males que ali estavam encerrados escaparam e se espalharam pela Terra. se regenerava. mas a nanotecnologia. aparecerão primeiramente nos países do Norte. em sua audácia. só não suspeitavam que no seio de tudo isso se encontrava o germe de desagradáveis surpresas e armadilhas. em contraponto. uma impressionante série de empresas e centros de pesquisa estavam desenvolvendo uma revolução científica que pode modificar a matéria e transformar cada aspecto do trabalho e da vida neste nosso planeta. Os primeiros impactos. onde um abutre vinha dilacerar-lhe o fígado durante a noite. Deveremos forçosamente vivenciar a revolução nanotecnológica como uma saga prometeica? Não seria a busca do saber enquanto forma de sabedoria (philosophia) aliada à bioética. o sofrimento. a doença e a morte(10). e ordenou que a levasse à Terra onde foi acolhida por Epimeteu. Prometeu. Mais que isso.2007. Mas. Technology and Concentration(1). protetor da humanidade contra a ira de Zeus.Centro Universitário São Camilo . Pandora lança no mundo uma ambigüidade. trouxe dos deuses o fogo que permitiu à humanidade a evolução.Introdução às questões bioéticas suscitadas pela nanotecnologia . com todos os talentos e graça para seduzir os humanos: Pandora. os humanos conheceram a fadiga. Prometeu era neto de Urano e Gaia. pois os benefícios seriam consideradas maiores que os malefícios. abriu a caixa. na qual para cada evolução alcançada haverá sempre uma conseqüência negativa que deveria ter sido pensada antes. essa era a melhor proteção e fonte de inúmeras atividades. Zeus ordenou que Hefáistos. filho de Jápeto e de Clímene. Enquanto os Gigantes contavam com sua força bruta na guerra contra o rei do Olimpo. tais aspectos negativos poderiam estar mais ligados a uma questão inerente da natureza humana. que.

O ETC já afirmava que a nanotecnologia poderia permitir que a indústria monopolizasse as plataformas de manufatura de nível atômico que suportam todas as matérias animadas ou inanimadas. Como já apresentado. Assim. incluindo mecanismos para monitorar seu desenvolvimento. nenhuma agência governamental de qualquer país estaria em 2003 mantendo algum controle sobre as pesquisas. a produção em massa de materiais totalmente novos e criação das nano-máquinas auto-replicantes indicam a probabilidade de riscos incalculáveis e até imprevisíveis. envolvendo diversos segmentos da sociedade. se o avanço é inexorável e desejável sob vários ângulos. Isto exigiria a promoção e a explicitação de diálogo sobre a escala de valores e as diferentes opções sociais. outras se insinuam e outras certamente surgirão. é urgente e absolutamente necessário o levantamento das questões éticas e. Percebemos ser oportuna uma reflexão sobre essa problemática à luz da bioética. num sistema de comunicação em duas vias. O impacto das tecnologias convergentes a nanoescala é desconhecido e foi subestimado no fórum inter-governamental(1). Devido ao fato dessas tecnologias serem aplicadas nos mais diversos setores da ciência e da tecnologia. Jacob(11) assinalava que. mas nem sempre recebem os benefícios resultantes da nanotecnologia. deve ser balizado pela reflexão bioética a partir da conscientização da problemática seguida da devida reflexão crítica. e a nanobiotecnologia. os governos e organizações da sociedade civil deveriam estabelecer uma Convenção Internacional para a avaliação de novas tecnologias. autonomia. Algumas questões bioéticas já estão sendo postas. sobretudo bioéticas que possam surgir a partir dos avanços tecnológicos. Os riscos inerentes à introdução de novas tecnologias exigem um diálogo constante com a sociedade civil. A produção de materiais e novas formas de carbono com características não estudadas constituem. o respeito à dignidade humana. Também a indústria. Já nesta ocasião. em especial.2007. isto é.ARTIGO ORIGINAL/ ORIGINAL REPORT/ ARTÍCULO . Essa reflexão pressupõe um diálogo entre todas as partes envolvidas. segurança do trabalho. se de um lado o avanço científico e tecnológico é louvável e desigual sob múltiplos aspectos. multi e transdisciplinar. têm fortes implicações sociais e bioéticas. Deveria ser exigido. área acadêmica e o governo deveriam ouvir o público. sob enfoque pluralista. um acordo sobre os referenciais éticos. A nanotecnologia poderia também representar a criação e a combinação de novos elementos para a amplificação das armas de destruição em massa. Entre outros problemas que deveria ter maior envolvimento da sociedade nesta área destacam-se as decisões sobre alocação de recursos para Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e a avaliação de projetos e seu monitoramento. no sentido pluralístico o mais amplo possível.Centro Universitário São Camilo . 66 . a maior preocupação. Ao lado da revolução científica deve ocorrer a "evolução da ética". a obrigação de não ferir e fazer o bem (riscos versus benefícios). particularmente nas áreas de saúde.1(1):61-67 tanto apresentava tremendas oportunidades como sérios riscos sociais e ambientais(12). que é quem sofre os riscos. CONCLUSÃO As considerações até aqui feitas. privacidade e preservação do meio ambiente. no entanto. com base nos dados da literatura evidenciam claramente que a nanotecnologia em geral.

10. Ésquilo. 2.Portaria MCT n. Technology and Concentration. Nanocience and Nanotechnologies: Opportunities and Uncertainties. A Saga da Prometeu: Ambivalência das Tecnociências e Implicações Éticas. p. Consultoria Legislativa. July 2004. Cadernos de Estudos Avançados.org. 2006. The Big Down: From Genomes to Atoms. 7. Uma Introdução à Nanotecnologia. Nazareno C. Bauru: Edusc.br/encontro/segundo/papers/GT/GT09/paulo_martins.pdf 9.A invasão invisível do campo: o impacto das nanotecnologias na alimentação e na agricultura.htm 6. 2003.lu/nanotechnology/actionplan.comciencia. Editora Martin Claret. 2004. 67 .Action Group on Erosion. 1.gov. ano? 4. Martins PR. 2. Available from: URL: http://www. Silva CG.Centro Universitário São Camilo . Towards a European Strategy for Nanotechnology. Ministério da Ciência e Tecnologia. The Royal Society & The Royal Academy of Engineering. 2002. 12. Prometeu Acorrentado. 10:1. Brasil.anppas.cordis. Nanotecnologia. Jacob F.05-16 Silva CG.2007.Brasília:Ministério da Ciência e Tecnologia. Câmara dos Deputados 2004. a mosca e o homem. 1998.br/reportagens/nanotecnologia/nano10. 2004. ETC Group .htm 3. Available from: URL: http://www. In: Bioética e Tecnociências: a saga de Prometeu e a esperança paradoxal. Estabelece subsídio ao Programa de Desenvolvimento da Nanociência e da Nanotecnologia do PPA 2004/2007. 1:14. São Paulo: Companhia das Letras. European Comission.31-59 11.camara. Zuben NA. p. 6:6. Nanotecnologia. 2003. 5.1(1):61-67 REFERÊNCIAS ETC Group . 2004. Available from: URL: http://www. Sociedade e meio ambiente no Brasil: Perspectivas e Desafios.br/publicacoes/estnottec/tema4 8.25-55. Available from: URL: http://www2.252 .p100. O que é nanotecnologia. 2003.Introdução às questões bioéticas suscitadas pela nanotecnologia . O rato. p.

entendida como el bien más grande y digno de respecto. RESUMEN: El objetivo del actual estudio fue aprender y reflejar sobre qué se está publicando en la literatura científica respecto al tema de la muerte o el morir mirando sus aspectos bioéticos.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . to reunite the fragments and recompose the wholeness of the individual. estableciendo así un pacto con la vida. Health care. with no condition to reflect and to program a sustained action in the presence of the bioethical dilemmas imposed on his/her daily practice. The difficulty in doctor-patient communication. the fear of one's feelings. bem como o modo como os profissionais de saúde estão enfrentando e discutindo tais aspectos. as well as about the way health professionals face and discuss these aspects. o temor dos sentimentos. ** Doutoranda em Enfermagem. Ou ainda. PALABRAS LLAVE: Profesionales de salud. Faz-se indispensável ao profissional de saúde superar as dificuldades inerentes a uma relação médico/paciente baseada "tentação tecnológica". estabelecer um compromisso com a vida. Es imprescindible que el profesional de salud supere las dificultades inherentes a una relación doctor/paciente basada en la "tentación tecnológica". adotando uma postura mecânica. Assistência à saúde. This is a qualitativedescriptive study based on a bibliographic survey. são alguns dos fatores que assombram a assistência à saúde. o que é mais perigoso. thus establishing a pact with life. compartilhar com seu paciente experiências e vivências que culminem na ampliação do foco de atenção do cuidador. 68 . It is indispensable for the health professional to overcome the difficulties inherent in a doctor/patient relationship based on "technological temptation". sin perder de vista la comprensión de la persona enferma en su singularidad. Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP).Centro Universitário São Camilo . *** Professora Livre Docente do Programa de Pós-graduação em Enfermagem Psiquiátrica da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP-USP). tão violentado e. sin condiciones para reflejar y para planear una acción sostenida en la presencia de los dilemas bioéticos impuestos ante su práctica diaria. muitas vezes. En esta trayectoria comenzada desde algunas décadas por el binomio vida/muerte. **** Professor Doutor do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Faculdade de Filosofia. debido a esto. the isolation (neutrality) of one's emotions and the dynamics of omnipotency and idealization (medical identification with the image of plenitude) are some of the factors that negatively affect health care. el aislamiento (neutralidad) de sus emociones y las dinámicas de la omnipotencia e la idealización (identificación de los doctores con una imagen de plenitud) son algunos de los factores que afectan negativamente el cuidado médico. Trata-se de um estudo qualitativo-descritivo. el miedo de sus sensaciones. desse modo. La dificultad en la comunicación doctor-paciente. Cuidado médico. KEYWORDS: Health professionals. A dificuldade na comunicação médico-paciente. Martins doValle*** Manoel dos Santos**** RESUMO: O objetivo do estudo é conhecer e refletir sobre o que está sendo publicado na literatura científica sobre a questão da morte e o morrer em suas nuances bioéticas. entendida como o bem maior e digna de respeito. Es un estudio cualitativo-descriptivo basado en un examen bibliográfico. Bioética. dissociada de seus aspectos humanos mais intrínsecos. often so violently aggressed. um profissional autômato. percebe-se que o cuidar exige. que junte los fragmentos y recomponga la integridad del individuo. sem perder de vista a compreensão da pessoa que adoece em sua singularidade e dignidade. * Doutoranda em Psicologia. In this trajectory followed a few decades ago by the life/death binomial. a menudo agredido muy violentamente.2007. uno puede percibir que el cuidado esencialmente requiere compartir experiencias con los pacientes que culminan en la extensión del foco de la atención del cuidador. Bioethics. is paralyzed. ABSTRACT: The objective of the present study was to learn and reflect about what is being published in the scientific literature regarding the question of death or dying in its bioethical nuances. essencialmente. Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). está paralizado. it can be perceived that caregiving essentially requires sharing experiences with the patients that culminate in the expansion of the focus of attention of the caregiver. understood as the greatest good and worthy of respect. así bien sobre la manera cómo los profesionales de salud hacen frente y discuten a estos aspectos. without losing sight of the understanding of the person who falls ill in his singularity. o isolamento das emoções (neutralidade) e a dinâmica de onipotência e idealização (identificação médica com a imagem de plenitude). because of this. reunir os fragmentos e compor novamente o todo desse indivíduo. What is noted in health practice is a professional immersed in this ample context who. Bioética. através do levantamento bibliográfico. PALAVRAS-CHAVE: Profissionais de saúde. Nessa trajetória empreendida a algumas décadas pelo binômio vida/morte. Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia.1(1):68-75 Bioética e profissionais de saúde: algumas reflexões Bioethics and health professionals: some reflections Bioética y profesionales de salud: algunas reflexiones Angela Cristina Pontes* Joelma Ana Espíndula** Elizabeth R. Lo qué se observa en la práctica de la salud es un profesional sumergido en este contexto amplio que. Departamento de Enfermagem Psiquiátrica da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP-USP).

sobre o custo desse prolongamento da vida. psicossocial e espiritual"(2). Em 1990 a Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu cuidado paliativo como: o cuidado ativo total dos pacientes cuja doença não responde mais ao tratamento curativo.. necessário trilhar um caminho além do mérito existencial. que percebem não encontrar respostas prontas. Visa a uma concepção integral do indivíduo e recusa propostas ideológicas. em busca de uma compreensão do indivíduo que adoece. o conceito de cuidados paliativos tem como essência aliviar os sintomas.]a questão do cuidado da vida humana no seu final tornou-se uma questão de primeira grandeza em nossa sociedade atual. até mesmo. através da prevenção e alívio do sofrimento.Bioética e profissionais de saúde: algumas reflexões . se apresentam aos profissionais de saúde (sobretudo ao médico). e do aprimoramento de sua qualidade de vida (3. suscitando a discussão e reflexão sobre a legitimidade e. hoje são passíveis de tratamentos e intervenções que prolongam.. de maneira significativa. pois. assim. ou "Qual o objetivo da medicina: cuidar de índices fisiológicos ou de pessoas?". na busca de promover a defesa de todo o bem da pessoa(9). ou seja. com seus diversos profissionais. de modo a compreender a complexidade desse tema. Questões ainda não esclarecidas no âmbito da psicologia e o direito não esclarecem completamente o assunto. por exemplo). Além disso.5. Mais recentemente. Essa dimensão valoriza a experiência elementar. pois.2007. pois se tratam de questões relacionadas com a condição humana. Nesse sentido. provenientes de sua formação acadêmica. propõe a oferta de um sistema de apoio aos familiares dos pacientes. por meio de identificação precoce. o morrer. afetivos e culturais. Adentramos. Trata-se de uma filosofia de cuidados que pode ser empregada em diferentes contextos (instituições de saúde ou na casa do paciente ou estilo hospice. o luto e suas perdas. parciais e contingentes.6). buscando o controle da dor e de outros sintomas. a mesma organização redefiniu o conceito. a decisão quanto à prescrição de sedativos ou opióides no alívio da dor. nos seguintes termos: "[. como "Até quando prolongar a vida?". social e espiritual. entrar em aspectos da filosofia e da antropologia. Diante. constituída de corpo e alma. 69 .Centro Universitário São Camilo . a dor e o sofrimento de pacientes fora de perspectivas terapêuticas. Na busca de um olhar mais aprofundado.1(1):68-75 INTRODUÇÃO Atualmente. principalmente na área da medicina" (p.16). o campo da bioética. O cuidado com a dor e o sofrimento humano figura no grande desafio a ser trabalhado pela área da saúde e um dos objetivos centrais da filosofia dos cuidados paliativos. Questões limites sobre vida e morte. avaliação correta e tratamento da dor e outros problemas de ordem física. "E quando o tratamento causa mais sofrimento do que benefício?". bem como atenção aos problemas de ordem psicológica. tornando-se. incerteza e transitoriedade(7). que é o conhecimento da própria experiência. O objetivo do cuidado paliativo é conseguir a melhor qualidade de vida possível para os pacientes e suas famílias(2).. integrando os aspectos psicológicos e espirituais envolvidos no cuidado e buscando encarar a morte como um processo normal da vida humana. o momento e a forma de informar os familiares sobre esta verdade e. a partir do desenvolvimento da medicina e da tecnologia nas três últimas décadas.. em seus aspectos pessoais. sua finitude. viu-se envolvido em inesperadas e complexas decisões morais e éticas. ainda. Muitos outros problemas bioéticos podem ser levantados. "[. cuja fundamentação é a pessoa humana na sua unidade. sociais. no sentido de lidar com o adoecimento. Doenças que antes eram tidas como brutalmente letais. em várias regiões do mundo. destaca-se aqui o modelo bioético personalista de Elio Sgreccia(8). o campo da saúde. Nas palavras de Pessini(1). com o aumento da expectativa de vida e sobrevida dos indivíduos acometidos por doenças crônicas e/ou degenerativas. como a escolha do tratamento mais vantajoso para o paciente que está diante de uma fase aguda de sua doença.]cuidados paliativos é uma abordagem que aprimora a qualidade de vida dos pacientes e famílias que enfrentam problemas associados com doenças ameaçadoras de vida.4. que procura tomar o ser humano em sua totalidade frente às questões da morte e do morrer. dando ênfase à prevenção do sofrimento. a vida dos pacientes. a bioética tem sido muito discutida nas questões de humanização e bem-estar total nas relações interpessoais e de cuidado. a dor e o sofrimento. dessa concepção. Faz-se necessário aos profissionais de saúde uma maior compreensão sobre os cuidados com a vida e as dimensões da morte.

nas discussões dos profissionais e em muitos documentos da OMS.Centro Universitário São Camilo . foi realizado por meio do levantamento bibliográfico manual de livros e publicações indexadas e pelo acesso ao banco de dados LILACS (Literatura Latino Americana de Ciências de Saúde) e Scielo. assistentes sociais etc. Iniciando-se com uma grande preocupação.2007. disponibilizados pela formação acadêmica. As releituras se deram quantas vezes se fizeram necessárias e visaram à detecção de temas relacionados à proposta do estudo(12. bioética e profissionais de saúde. bem como o modo como os profissionais de saúde estão enfrentando e discutindo tais aspectos. é o paradigma principialista desenvolvido por Tom Beauchamp e James Childress(10). e profissionais de saúde: principais dilemas enfrentados. eutanásia e suicídio assistido"(p. enfermeiros. Em uma terceira fase. mas. morrer com dignidade. Angústia esta que.117). Nas ciências da saúde. de modo que não se percam os referenciais ontológico e antropológico do ser humano. as leituras foram direcionadas ao objetivo do trabalho e embasadas em uma análise compreensiva dos dados. não apenas recursos técnicos. idioma de publicação: português. seus dilemas e seus recursos para lidar com as situações limites entre vida e morte. Diante do exposto. utilizando os descritores "bioética. conhecer e refletir sobre o que está sendo publicado na literatura científica sobre a questão da morte e do morrer em suas nuances bioéticas. os princípios da beneficência (e como uma conseqüência a não-maleficência). recursos humanos. com valores humanos. Sabe-se que esta não é uma tarefa fácil. com exceção de alguns livros clássicos. antropologia. artigos teóricos e de revisão.) no contexto da morte e morrer e seus dilemas éticos. o presente artigo tem por objetivo. sob pena de transformá-los em princípios estéreis e confusos(8. sobretudo. Para inclusão no estudo foram mencionados os seguintes critérios: meio de publicação: periódicos e livros. ou seja. dentro da teologia. justiça e autonomia. invariavelmente. ciências sociais.9). cuidados paliativos e assistência à saúde". Em seguida o trabalho abordará a vivência do profissional de saúde dentro desse complexo contexto. psicologia e outras). em sua relação com o outro em situação de profunda angústia (paciente). especificamente. Método Este estudo qualitativo-descritivo. as dis- 70 . Desse trabalho emergiram duas grandes temáticas. A maioria das referências nacionais citadas datam a partir de 2000.1(1):68-75 Um outro modelo de paradigma bioético difundido nos comitês de Ética dos hospitais. também é vivenciada pelo profissional e que quando não elaborada acaba por contribuir para a despersonalização do atendimento ao paciente e sua família. propondo discussões sobre alguns temas. em 1971. gerando distanciamento. intrínsecos ao próprio indivíduo (profissional de saúde). que exige. as questões sobre eutanásia. autores do livro Principles of biomedical ethics.13). Frente aos problemas cotidianos vividos no contexto hospitalar. BIOÉTICA: CONCEITUALIZAÇÃO E PRINCIPAIS DISCUSSÕES O termo bioética foi apresentado pela primeira vez pelo oncologista Potter. É definida como "o ramo da ética que enfoca questões relativas à vida e à morte. que serão desenvolvidas a seguir: bioética: conceitualização e principais discussões. em sua característica de estudo bibliográfico. foi realizada uma leitura geral. faz-se necessária uma reflexão embasada nesses princípios norteadores da ação. será tratado o conceito de bioética. seus paradigmas e principais focos de discussão na atualidade. Para tanto. a bioética estendeu-se pela filosofia. entre os quais: prolongamento da vida. preocupou-se com as condutas médicas e a relação médico-paciente. o morrer. psicólogos. Após esse contato inicial. Este paradigma propõe o que Pessini e Barchifontaine denominaram de trindade bioética. a fim de se obter um panorama das publicações científicas envolvendo os temas sobre a morte. distanásia e ortotanásia. referências que enfocam como objeto de estudo questões sobre a morte e o morrer no juízo (a)bioético para os profissionais da saúde. adquiriu um caráter multidisciplinar (direito. a serem discutidos mais adiante(11). estresse e mais sofrimento para ambos da dupla relacional.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . na busca de uma maior compreensão da realidade vivenciada pelos profissionais de saúde (médicos. modalidade de produção científica: trabalhos empíricos. ou seja. De posse dos textos. em sua obra Bioethics Bridge to the Future(7).

que têm como objeto principal aliviar os sintomas e promover a qualidade de vida. no nível das intenções e no nível dos métodos empregados"(p. não se pode privá-la de sua autonomia. sob o referencial principialista. sendo dever do médico assim atuar no benefício do enfermo(12). 71 . refere-se à pessoa como indivíduo consciente. Se formos capazes de aceitar que ele pode ser formado por muitos componentes e reconhecermos nesses sua complexidade. Isto pode acontecer até no momento final da vida. mas "vidas humanas". por outro lado.1(1):68-75 cussões bioéticas centram-se na macropolítica da saúde. O valor do ser humano advém. Para ser pessoa é preciso ter consciência. para o autor. Sgreccia(8) cita duas atitudes que impedem o homem de dar sentido à morte. reconhecendo que todas as pessoas devem ter suas necessidades atendidas. A primeira. natureza e verdade. a declaração sobre a eutanásia a descreve como "uma ação ou omissão que. em sua essência. desde que ele esteja consciente de suas decisões. passivo e de duplo efeito. Ainda destacando as colocações de Kovács(7).] Nossa história pessoal começa com dependência .2007. conceitualizada por Engelhardt Jr.. sobretudo com relação à beneficência e autonomia do paciente diante de sua própria vida. é necessário atenção a um método que direciona para a pessoa humana. tais como. tornou-se comum definir a pessoalidade segundo determinadas capacidades. em 1980. Nas palavras de Meilaener. O princípio da beneficência diz respeito ao fazer o bem e evitar o sofrimento adicional. Existem diferentes definições. evitando a consciência de sua presença. na busca de decisões sábias diante do paciente em situação limite. em nome da beneficência de cunho "paternalista". preservadas suas diferenças e singularidades. o desenvolvimento da bioética funda-se em um tripé. provoca a morte a fim de eliminar toda a dor. A eutanásia situa-se. 1998 apud Ramos(2003)(13). é importantíssimo se ter claro o conceito de pessoa. por sua natureza ou nas intenções. mas vamos nos ater à duas concepções essenciais. Frente à questão ontológica do ser humano. 406)(12). que prioriza apenas a visão do médico e não consegue vislumbrar o desejo do paciente. Há que se levar em conta autodeterminação do paciente e sua autonomia. A bioética personalista amplia essa visão ao afirmar que o valor da pessoa provém da própria estrutura ontológica do ser humano. 1997 apud Ramos(2003)(15): Em décadas passadas. como efeito secundário. Sobre a questão do respeito aos princípios bioéticos. embora esta possa ocorrer(7). se tornaria possível respeitá-lo em tudo o que ele representa. Segundo o modelo bioético personalista. é apressada e imediatamente afastada. A condição de pessoa não é algo que possuímos em determinado ponto dessa história. o ato da eutanásia pode ser ativo. discute-se a eutanásia como um tema complexo que tem sido alvo das atuais reflexões na área.Bioética e profissionais de saúde: algumas reflexões . economia e na questão dos excluídos(7). da cultura. Um exemplo disso seria a analgesia e a sedação. livre para escolher e possuidor de um sentido moral.primeiramente no ventre materno e depois como recém-nascidos. de seus atos e de seus aspectos psicológicos e empíricos. [. [. autoconsciência e ser produtivo. o doente mental. ao óbito. Em termos de caracterização. Basicamente são esses três os elementos que constituem o indivíduo.. utilizadas em pacientes sem possibilidades terapêuticas. o segundo (eutanásia passiva) consiste na retirada dos procedimentos terapêuticos que prolongam a vida. ou seja. Aqueles que não comparti-lham destas características psicológicas não seriam sujeitos.. a pessoa em estado vegetativa. Muitas vezes nossa vida termina também na dependência da velhice e na perda das capacidades que tínhamos. Em relação ao respeito pela pessoa doente. A autonomia refere-se ao direito do indivíduo de autogovernar-se. Assinada pela igreja católica. Cada indivíduo é singular e único e responsável pelos seus atos. sendo os dois últimos os mais aceitos na sociedade atual. beneficência e justiça. isto é. e não provocar a morte..] A dependência faz parte da história da vida das pessoas. portanto. nos princípios da autonomia. A eutanásia de duplo efeito consiste em uma ação de cuidados realizada que acaba conduzindo.Centro Universitário São Camilo . O primeiro (eutanásia ativa) é a ação que causa ou acelera a morte. da vida e rejeitada como critério de verdade e avaliação da existência cotidiana. O princípio da justiça deve ser entendido como eqüidade. De um lado ela é negada e retirada da consciência. exercer a função de protagonista em seu processo de saúde e doença. Sgreccia(8) afirma que o ser humano é antes de tudo um corpo espiritualizado. racional. denominado de “trindade bioética”. um espírito encarnado que vale por aquilo que é e não somente pelas escolhas que faz.

evitando. Assim. Amparando tal atitude médica. no qual constatou que 17% de pacientes com câncer em estágio terminal têm um forte desejo de uma morte imediata.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . assim. recentemente. mas de centenas de milhares por violência. sobretudo. Diante. que fala da obrigação do médico em "utilizar todos os meios disponíveis de diagnóstico e tratamento a seu alcance em favor do paciente[.. Sobre essa questão da espiritualidade no âmbito da morte e sofrimento. tornando banal o sofrimento humano e rejeitando o simbolismo religioso da morte.2007. principalmente para pacientes fora de possibilidades terapêuticas. a ortotanásia busca enfrentar a realidade da existência com aceitação e encarar a morte não como uma doença a curar. tendo como base entrevistas com psicólogos. sem cair nas ciladas da eutanásia e muito menos da distanásia" (p. o alívio da dor é um bem. Breitbart(16) cita em seu artigo um estudo próprio. Na contramão dessa perspectiva.]"(p. qualquer que seja a natureza deste. que rejeita toda forma de mistanásia (morte infeliz. de Deus e. 28). mas muito vinculado à medicina moderna e seu paradigma. ou seja. Pessini(14) define o conceito de distanásia como o prolongamento exagerado da agonia. no âmbito de um tratamento "inútil e fútil". Para o Papa Pio XII. também. destaca-se o estudo realizado por Teixeira e Lefèvre(20).1(1):68-75 Nesse contexto. No Brasil. concluíram que a fé. essencialmente biopsicossocial e espiritual. exclusão e pobreza).19. que ultrapassa o reducionismo biológico e nos remete a uma concepção humana. com o desenvolvimento da 72 . que.. impõe-se o aspecto espiritual que.20). 63). À medida que o objetivo das intervenções em saúde passe a ser focado. consiste em uma profunda afirmação da vida. também no Brasil. Como o resultado dessas reflexões. pautada na perspectiva de um compromisso com a promoção do bem-estar do doente crônico e terminal. Ocorre que muitos médicos ainda interpretam tais prescrições legais baseados na concepção da medicina moderna (exclusivamente curativa). reconhecer sua dimensão espiritual. Trata-se dos profissionais de saúde à exigência de uma especial atenção à realidade da dor e do sofrimento humano. o artigo 56 do Código de Ética Médica(16) autoriza a distanásia ao dizer "que é vedado ao médico: desrespeitar o direito do paciente de decidir livremente sobre a execução de práticas diagnósticas ou terapêuticas. paz. sentindo-se obrigados a fazerem tudo pelo paciente e em qualquer circunstância. Pessini(17) retoma o conceito de ortotanásia. Conclui-se pela necessidade do profissional de saúde estar atento aos sentimentos religiosos do paciente. sofrimento e morrer. traz ao paciente maior força de vontade para o enfrentamento da doença. pelo contrário. diante de uma grave enfermidade. na medida em que esta lhe traz estímulo para o tratamento. mas. esperança e sentido. vida abreviada não apenas de algumas pessoas. não apenas no cuidado. quando preciso. Trata-se de um conceito novo que adquiriu visibilidade pública na Espanha através de alguns teólogos moralistas e vem crescendo sua aceitação no meio da saúde.] A arte de bem morrer. no sentido mencionado anteriormente. Todavia. conseqüentemente. pois o progresso tecnológico está sendo fundamental para a resolução de problemas e para a manutenção da vida das pessoas. distanciando-se. das questões bioéticas envolvendo a vida e morte humana. baseado na "obstinação terapêutica". mas sim como algo que faz parte da vida. amparada pela lei. o desengano da obstinação terapêutica. como importante dimensão humana. que prevê crime à omissão de socorro(12). definido como: "[. no artigo 57 do Código de Ética Medica Brasileiro(16). Isso fica evidente. Percebe-se que a consideração das questões espirituais. Assim. soma-se o artigo 133 do Código Brasileiro. 62). salvo de iminente perigo de vida"(p. Não há um culto à dor ou ao dolorismo. assim. tem sido objeto de estudo por parte de alguns estudiosos(18. a saúde poderá se orgulhar de vislumbrar a vida que há na morte. é reconhecido o valor salvífico do sofrimento humano. a eutanásia é vista como um processo que supervaloriza a independência do homem na tomada de decisões.. até mesmo quando a morte é inevitável. no resgate da dignidade humana associada ao cuidado. a tradição médica tem a tendência de validar a prática da distanásia. mas não há nenhum compromisso de deixar de utilizar analgésico.. o aumento progressivo e acelerado das especialidades médicas.Centro Universitário São Camilo . Sabe-se que a fé proporciona conforto. pois. PROFISSIONAIS DE SAÚDE: PRINCIPAIS DILEMAS ENFRENTADOS Os benefícios introduzidos pela tecnologia científica na área de saúde são indiscutíveis. Para Sgreccia(8).

enquanto tal. ela requer maior empenho dos profissionais de saúde para compor tanto o objeto de pesquisa ou de tratamento (a doença). não apenas no momento científico e de pesquisa de base. quanto a unidade de consciência no indivíduo doente e. entendida como o bem maior.Centro Universitário São Camilo . Outro aspecto importante marca a vivência do profissional de saúde no contexto hospitalar. do poder conferido ao fazer do médico e à sua idealização como detentor do conhecimento. imersa e entregue à "tentação tecnológica". traz como conseqüências o aumento. mais precisamente. influenciando. não está fadado ao fim.. superando o reducionismo e a "tentação tecnológica" e abrindo espaço para a inserção de uma visão mais global e humana da assistência à saúde. da morte e da terapia (p. Carvalho(23). uma redução da escuta e do diálogo entre a díade. sobre o qual tudo o mais deve ser construído. o que é mais perigoso. por isso mesmo. tal como nos colocam Bettinelli. acarretando. ética: o desvanecimento da visão global. faz-se indispensável ao profissional de saúde superar essa dispersão.. sustenta uma idolatria da vida física e busca retardar a morte.] a tentação reducionista está presente dentro da medicina. são marcadas pelo "paradigma da cura". De acordo com Pessini(22). por outro. ao contrário do que. de maneira cada vez mais nítida. desse modo.2007. a díade médico-paciente. 197). 89). por outro ela abre a possibilidade de um aprofundamento dessa relação humana. Waskievicz e Erdmann(22): "[. A relação médico-paciente.. conseqüentemente.22). um profissional autômato. refere que 73 . Pessini(21) resume com maestria tal concepção ao afirmar que: [. Se por um lado essa "superespecialização" da ciência médica tem a vantagem de aumentar o número de dados sobre a doença. Dentro desse contexto. Nesse sentido.1(1):68-75 ciência médica. por isso. o eixo da problemática bioética na área da saúde. o que se nota nas práticas em saúde é um profissional mergulhado nesse complexo contexto e. reprodutora do perigoso reducionismo mencionado anteriormente. a medicalização da vida e da morte e uma significativa imprecisão entre os limites do viver e do morrer(8. na atualidade.. cada vez maior. de maneira direta..] Não se pode explicar uma casa construída descrevendo-se apenas os tijolos e o plano pela qual eles se justapõem uns aos outros. bem como a preocupação com a pessoa doente. mas também no momento aplicativo e de assistência ao doente. todas as vezes que a ótica da relação médico-paciente se tornar reducionista. dissociada de seus aspectos humanos mais intrínsecos e. estabelecer um compromisso com a vida. a dualidade da relação médico-paciente.]urge discutir o que representam para a vida do ser humano os avanços técnico-científicos e a tecnologização das relações" (p. que por sua concepção humanista. prioriza o cuidado sobre a cura. numa perspectiva em que a preocupação das intervenções em saúde se dá com a "pessoa doente" e não com a "doença da pessoa". inviolável e digna de respeito. Por outro lado. concebe como fundamentais o alívio do sofrimento e do cuidado. as ações de saúde. [. e é por esse caminho que toda relação terapêutica. Delineia-se. em decorrência disso. Trata-se do "reducionismo científico". o binômio médicopaciente. a palavra. da dor. Nas palavras de Sgreccia:(8) [. dentro do contexto dos cuidados paliativos. muitas vezes. que é tida como uma falha da medicina moderna.]O cuidado é a pedra fundamental do respeito e da valorização da dignidade humana. paralisado. Pensar no profissional de saúde enquanto cuidador traz à tona a questão dos seus aspectos pessoais e profissionais para lidar com a impactante realidade das instituições hospitalares.. a setorização do diagnóstico e a despersonalização da doença. em seu artigo sobre os profissionais de saúde que lidam com pacientes portadores de doenças graves ou fora de possibilidades terapêuticas. mas de forma especial neste contexto crítico de final de vida (p. 188). Apesar disso. mas se torna por isso filosófico. comporta problemas não só de ordem epistemológico-didática. eliminando o "espirit". O problema não é mais apenas científico-descritivo. uma outra posição baseia-se na aceitação benevolente da morte como parte da condição humana e. cuja concepção afirma o foco das intervenções na doença e não no indivíduo que adoece. Ou. assim.. se supõe na medicina moderna. o diálogo e a leitura pluridimensional e não apenas biológica da doença. reunir os fragmentos e compor novamente o todo desse indivíduo tão violentado e. por sua vez. sem condições de refletir e programar uma ação sustentada frente aos dilemas bioéticos que lhe são impostos em sua prática cotidiana.Bioética e profissionais de saúde: algumas reflexões . a saber: os paradigmas assistenciais em saúde. sobre o diagnóstico e sobre o tratamento do paciente. É o chamado "paradigma do cuidado". ainda. sobretudo. adotando uma postura mecânica.. deveria se caracterizar. Essa não é uma tarefa fácil. Se por um lado a situação de terminalidade inviabiliza a tão sonhada cura. da concepção holística e da história pessoal do paciente. É no cuidar que mais expressamos nossa solidariedade para com os outros. mas.

206). sejam médicos.lança mão dos únicos mecanismos de que dispõe: dissociar a doença daquele que a padece. apesar das possíveis diferenças filosóficas e ideológicas. 74 . pode não ser um verdadeiro desejo de eutanásia. Torna-se fundamental na assistência à saúde a ênfase nas relações humanas. Espera-se que estes mesmos profissionais se perguntem se não terão o direito de buscar para si mesmos.] É que estamos na presença de um ser humano que. desse modo. que auxiliam a análise frente aos dilemas da prática profissional no contexto da morte. essencialmente. que é estar quotidianamente em contato com a morte. que une competência técnico-científica e humanidade. amor e afeto. o isolamento das emoções (neutralidade) e a dinâmica de onipotência e idealização (identificação médica com a imagem de plenitude). comprometendo. uma "morte suave". às questões da falta de possibilidades terapêuticas. muitas vezes. que exige dos profissionais uma extrapolação da competência meramente técnica e acadêmica.. não ser preparado para lidar com ela" (p. sendo que todos são unânimes ao afirmar que se trata de um tema permeado por angústias e inseguranças. Dentro dessa dinâmica. do sofrimento frente à morte do outro(24). principalmente em situações extremas na fronteira entre a vida e a morte" (p.25. Outros autores enfatizam a questão do preparo do profissional de saúde para lidar com a morte em suas várias facetas nas instituições de saúde(24. psicólogos. depressão e queixas físicas. podem levar ao surgimento da síndrome da sobrecarga no trabalho. o pedido do paciente para abreviação de sua vida. são alguns dos fatores que assombram a assistência à saúde. Explicam os autores: "[. assim. com espaços reservados para a reflexão e discussão envolvendo questões bioéticas. compartilhar com ele experiências e vivências que culminem na ampliação do foco de atenção do cuidador. Fazendo uma apropriação das palavras de Pessini(22). à velhice extrema e à morte. protegendo-se. que transpõe o âmbito dos cuidados médicos físicos e que. talvez. pais. Acreditamos que. diante dos perigos de um envolvimento que escaparia a seu controle por não dispor de ferramentas adequadas para com ele lidar. por essa razão. se mostrem conscientes e atentos aos direitos da pessoa humana.2007. CONCLUSÃO Ao longo de toda essa trajetória empreendida nos caminhos traçados pelo binômio vida/morte. os pilares da filosofia dos cuidados paliativos. ao real significado dos conceitos de saúde e doença.Centro Universitário São Camilo . um anseio angustiado por ajuda. digna. Essa síndrome tem uma expressão denominada pelos profissionais de saúde de Burn-out. Desse modo. muitas vezes. ao cuidarem de pacientes graves. mas. irritabilidade. trata-se da "necessidade imperiosa de cuidado solidário. filhos ou amigos. o isolamento das emoções é uma forma privilegiada que a medicina encontra para fazer frente a essa armadilha da profissão médica. distúrbios do sono e concentração. tal como para seus semelhantes. o profissional omite informações do paciente e imprime a si mesmo uma dinâmica de exclusão das emoções. 12). mas.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA .26).1(1):68-75 a concepção da morte como um fracasso (paradigma da cura). caracterizada por fadiga. Com efeito. atenção. Por isso. a insalubridade do ambiente e a alta exposição a diferentes fontes de estresse (como indisponibilidade de recursos financeiros. do morrer e do cuidado no hospital(4). contraditoriamente. que justifica a falta de relacionamento com aquele que adoece. enquanto profissionais de saúde percebem-se que o cuidar de paciente em estado grave/terminal exige. faz-se necessário que os profissionais de saúde. enfermeiros. complexidade tecnológica. facilitando a compreensão da pessoa que adoece em sua singularidade e dignidade. riscos ocupacionais e baixa remuneração). deve ser escutado por todos que o cercam. na tentativa de fugir dos sentimentos que a morte provoca. profissional de saúde acaba por perder a possibilidade de prestar ajuda ao paciente sem possibilidades terapêuticas. o temor dos sentimentos.. A dificuldade na comunicação médico-paciente.

Childress 1979 Caparelli ABF. Starzewski Junior A. 12. O preparo para lidar coma morte na formação do profissional de Medicina. 93-108. 87-100. Nada sobre mim sem mim: estudos sobre vida e morte. 8. Rev latino-am Enfermagem (2004). 22. Santos SRB. gerontologia. 18. Ética e bioética. Rev Bras Educação Médica 2002. Brasília: Ministério da Saúde. Funesti-Esh J. In: Franco MHP. Galietta M.Centro Universitário São Camilo . A passagem entre a vida e a morte: uma perspectiva psico-espiritual em cuidados paliativos domiciliares. 284: 2907-2911. Bettinelli L. 75 . 21. 1991.comunicação e espiritualidade. 27(1): 15-32. Campinas: Livro Pleno. Waskievicz. Kovács MJ. 14(2): 115-167. p. Pessini L. 27(1): 15-32. 20. O Mundo da Saúde 2003. O Mundo da Saúde 2003. Gimenes MGG. 27(1): 147-154. 2001. 27(1): 138-147. O Mundo da Saúde 2003. Ramos DLP. Pessini L. Ramos D L. Zago MMF. 27(1): 45-57. In: Pessini L. Organização Mundial de Saúde. O Mundo da Saúde 2003. Manual de bioética: fundamentos e ética biomédica. 2003? Breitbart W. Notandum 2002. Fundamentos e princípios de bioética. Humanização nos cuidados de saúde e a importância da espiritualidade: o discurso do sujeito coletivo psicólogo. Bertachini L. P. 26(3): 204-210. L. 26. 27(1): 153-158. Bioética nas questões da vida e da morte. Cecim P S. Caliri MH. Posicionamento dos enfermeiros relativo à revelação de prognóstico fora de possibilidade terapêutica: uma questão bioética. Pessini L A filosofia dos cuidados paliativos: uma reposta diante da obstinação terapêutica.Bioética e profissionais de saúde: algumas reflexões . Bertachini L. 3. O Mundo da Saúde 2003. 10. Henn C G. São Paulo: Loyola. Leite MA. Massarollo MCKB. Humanização e cuidados paliativos. 23. 7. Pessini L. Pessini L A filosofia dos cuidados paliativos: uma reposta diante da obstinação terapêutica. 1996. Beauchamp . 11. p. Teixeira JJV. Cuidados paliativos e o luto no contexto hospitalar.. 2004. Rodrigues IG. 17. Humanização do cuidado no ambiente hospitalar. 16. Breitbart W. Morrone LC. O Mundo da Saúde 2005.(9).2007. São Paulo: Loyola. A. Até quando prolongar a vida? São Paulo: Editora Centro Universitário São Camilo.1(1):68-75 REFERÊNCIAS 1. 4. O Mundo da Saúde 2003. 51(1): 11-16. Rolim LC. Latino-am Enfermagem 2005. 27(1): 362-368. Quintana A M. Cuidados com o cuidador. Rosenfeld B. Tese de Livre-Docência. 29(4): 491-509. J. Novas perspectivas em cuidados paliativos: ética. 13. Alívio da dor no câncer. Psicologia USP 2003. 2004. JAMA 2000. 12(5): 790-796. Lefèvre F. 13(2): 145-150. 25. Humanização e cuidados paliativos. e Erdmann. Vila VSC Dificuldades vivenciadas pela equipe multiprofissional na unidade terapia intensiva. and desire for hastened death in terminally ill cancer patients. 2. 9. Kaim M. 19. Universidade de São Paulo. geriatria. Faculdade de odontologia. A. 24. O Mundo da Saúde 2003. hopelessness. Pessini H. 37-46. O Mundo da Saúde 2003. 2005. Distanásia. (2004). 5. Rev Associ Medica Bras 2005. O preparo do médico e a comunicação com familiares dobre a morte. Depression. Espiritualidade e sentido nos cuidados paliativos. Sgreccia E. A preocupação com a ética na pesquisa em seres humanos representadas na redação de teses apresentadas à facul dade de odontologia da Universidade de São Paulo. Uma análise do conceito de cuidados paliativos no Brasil. Santos DV. Carvalho VA. 6. São Paulo: Loyola. 27(1): 182-191. Franco MHP. Rev.

Constatou-se também que os estudantes de medicina anseiam por aprender algo mais que a técnica. searching for senses other than traditional ones. Depreendemos que após três décadas de Potter. diz respeito à ética médica.2007. como campo de conhecimento. Pretende demostrar la escasez de estudios relacionados con la bioética como campo del conocimiento.como forma de superar uma série de fatores peculiares advindos do modelo tradicional de ensino -aprendizagem. Medical ethics-teaching. Médica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. as the basis for a medical behavior that honors the medical art. Ha evidenciado que la mayoría de los trabajos en esta área mira la ética médico e incluso confunde la bioética con la ética médica. Doutora pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.O ensino de bioética nas faculdades de medicina no Brasil necessita da construção de uma identidade própria. a bioética ainda é tratada ora como ética ora como disciplina autônoma.1(1):76-90 Ensino da bioética nas faculdades de medicina do Brasil Bioethics teaching in Brazil´s medical schools Ensenãnza de la bioética en las escuelas médicas de Brasil Homero Januário Caramico* Vera Lucia Zaher** Margaréte May B. la bioética en las escuelas médicas brasileñas es tratada a veces como ética y a veces como disciplina autónoma. Bioethics teaching in medical schools in Brazil requires the construction of an identity of its own. KEYWORDS: Bioethics-teaching. Deducimos que después de tres décadas de las propuestas de Potter. También fue evidenciado que los estudiantes de medicina anhelan a aprender algo más que técnica. *** Pedagoga. RESUMEN: Este trabajo se ocupa de la enseñanza de la bioética en las escuelas médicas de Brasil. Psicóloga. Coordenadora adjunta do Curso de Mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo. Bioética-medicina. * Médico. Hay mucho a hacer para consolidar la bioética en cursos de pregrado e de postgrado como la base para un comportamiento médico que honre el arte médico. We infer that after three decades of Potter's proposals. PALABRAS LLAVE: Bioética-enseñanza. It has evidenced that the majority of the works in this area regards medical ethics and even comes to confused bioethics with medical ethics.Centro Universitário São Camilo . It was also evidenced that medical students yearn for learning something more than technique. Ética médica-ensino. PALAVRAS-CHAVE: Bioética-ensino.como fundamentação do comportamento médico condizente com a arte médica. nas faculdades brasileiras de Medicina. buscando sentidos que van más allá de los tradicionales.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . Supervisora no Projeto Tutores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. There is much to do for strengthening bioethics in undergraduate and graduate courses. Ética médica-enseñanza. Cirurgião e Docente de Bioética no Curso de Medicina. como una manera de sobrepasar una serie de factores peculiares presentados en el modelo tradicional de enseño-aprendizaje. in Brazilian Medical Schools bioethics is treated sometimes as an ethics and sometimes as an autonomous discipline. Rosito*** RESUMO: Este trabalho trata do ensino de Bioética nas faculdades de medicina no Brasil. ** Médica. ABSTRACT: This work deals with Bioethics teaching in Brazil's medical schools. Bioética-medicina.chegando até mesmo a ser confundida bioética com ética médica.indo em busca de novos sentidos do que está tradicionalmente posto. Constatou-se que a maioria dos trabalhos nesta área. Docente no Curso de Pedagogia do Centro Universitário São Camilo. It aims to demonstrate the scarcity of studies related to Bioethics as a knowledge field.Objetiva demonstrar a escassez de estudos relacionados à Bioética. 76 . Bioethics-medicine. Há muito o que fazer para o fortalecimento da bioética na graduação e pósgraduação. Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas-Unicamp. as a way to surpass a series of peculiar factors present in the traditional model of teaching-learning. La enseñanza de la bioética en escuelas médicas en el Brasil requiere la construcción de una identidad propia. Mestre em Bioética pelo Centro Universitário São Camilo-SP.

Centro Universitário São Camilo . que estudava a doença para compreender o doente e o presente em que a medicina. foi apoiado pelas fundações privadas americanas e pela AMA (American Medical Association). buscamos também técnicas para superar os limites ou exatamente para explorar os interesses que se descobrem neles(3). nos quais a influência da sociedade em que se vive acarreta no jovem um confronto em relação a esses desafios que surgem durante o curso de medicina. cultura e outras. liberdade e evolução. Como definiu Potter. sabemos como somos. responsabilidade e uma competência interdisciplinar. etnia.1(1):76-90 INTRODUÇÃO Os cursos de Medicina. gerando uma nova característica de relacionamento entre o ensinar-aprender na faculdade de medicina entre médico e paciente. à segurança e à propriedade. aplicam a esse tema um colorido das mais variadas nuances como iniciar-se-ia a vida na concepção. como os fetos anencefálicos. o sentido da vida. A vida é o supremo bem pelo qual devemos zelar e entendemos em primeiro lugar que não há direito à vida sem liberdade. Depois. necessita-se conhecer os conceitos vindos com os alunos ingressantes ao curso de Medicina para podermos abrir um leque de discussão sobre esses temas para evitar o maniqueísmo e idéias fixas. Temas bioéticos.Ensino da bioética nas faculdades de medicina do Brasil . à igualdade. Em outro momento. Mas a ciência e a tecnologia são antes um instrumento com o qual exercemos a liberdade ou desenvolvemos a liberdade. educacionais e psíquicas do doente. após 35 anos da revolução introduzida pelo termo Bioética por Potter. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida. quando alunos dos últimos anos de graduação achavam normais e rotineiros problemas éticos que eram detectados por eles nos primeiros anos da faculdade(7). "bioética como nova ciência ética que combina humildade. Nesse clima de pensamento científico que clama por progresso. aleijado ou mentalmente débil. dia a dia."não se está admitindo a indicação eugênica do aborto com o propósito de melhorar a raça ou evitar que o ser em gestação venha a nascer logo. porém muito menos humanista. que não dão maleabilidade à reflexão ética. mais técnica. inteiramente desprovido de cérebro e incapaz de existir por si só"(4). Os tempos tecnológicos em que vivemos trazem a sensação de uma liberdade supernutrida. que suscitam as mais diversas afirmações. vem de 1910 quando Flexner(1) encabeçando uma série de relatórios que na ocasião se reportavam contra a criação de faculdades de Medicina nos Estados Unidos. voltou-se mais para a doença sem a relação com as estruturas sociais. Na medida em que. abrem uma discussão inacabada que se iniciou há séculos. Os próprios limites da doença e da morte são espantados para cada vez mais longe. a busca da verdade e a busca da felicidade. A valorização da ciência e do cientificismo é um imperativo. antes de tudo. a sua supervalorização implica capitulações graves em relação à atitude humanista. temos no aborto um motivo emergente de discussão. igualdade segurança e propriedade. à liberdade. por exemplo. Busca-se evitar o nascimento de um feto cientificamente sem vida. como o início de vida. As questões que angustiam o ser humano são o direito à vida. Crescendo na capacidade de fazer e agir. 77 . sendo uma que eleva o pensamento ético . intercultural e que potencializa o senso de humanidade"(5). ampliamos o campo da liberdade nas escolhas. encaram o desafio de criar uma ponte entre o passado hipocrático. com seus médicos-cientistas. em vista que os avanços tecnológicos vêm ocorrendo despidos de qualquer reflexão ética(2).2007. Isto não é um fato novo. para defender o direito à vida. Assim. ou como quando o ser humano nasce? tendo entre estas variantes uma gama de pensamentos e correntes a serem discutidas e é nesse momento que se aplica áquilo que a bioética tem de especial. a capacidade de abrir horizontes e disseminar o respeito pelas idéias do outro. porém nos Estados Unidos e no Canadá a situação foi detectada inversamente. como religião. sem distinção de qualquer natureza. Existe a crença de que a sensibilidade de detectar problemas éticos em casos padronizados é maior nos alunos dos últimos anos do que nos ingressantes dos primeiros anos. pelas ciências. encontram-se pontos ético-morais discutíveis. Mas. Variabilidades múltiplas. precisamos nos perguntar: que valor atribuímos à vida? De que modo podemos proteger e tornar melhor esse bem? Como melhorar nossa convivência humana? Eis o verdadeiro sentido do direito à vida(6). lembramos que o Artigo 50 da Constituição da República Federativa do Brasil reza: todos são iguais perante a lei. porém.

autônoma.7% somente.15). alcançando assim. que procura nortear o médico em seus deveres e direitos.Centro Universitário São Camilo . Neste mesmo trabalho. Assim pode-se dizer que a formação da Ética Médica se constitui de dois pilares. surgindotermos como a bioética pós-moderna por exemplo. medicina legal e deontologia são complementares e não excludentes. a modelagem de virtudes para uma conduta profissional adequada(8). obrigam-o a buscar uma abertura de visão par estes fatos e interagir de uma maneira direcionada para com esta nova realidade.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . Este mesmo autor infere que os estudos da bioética. já marcada pela deontologia médica. além do próprio aprendizado escolar na faculdade de medicina(19). Assim a bioética tem a função de complementação `aquilo tudo que é explanado na deontologia e medicina legal. humana e política que a sociedade se depara pressionam no ensino médico algo mais que somente as disciplinas de medicina legal e deontologia.7% era denominada deontologia. Pois segundo Kohlberg as pessoas evoluem conforme seu amadurecimento na participação e tomada de decisões(15). com a tolerância. É a partir desta multiplicidade de opções que observaremos o ensino da bioética nas faculdades de medicina. multiplicam-se pensamentos para adaptá-la à realidade do cotidiano. o autor infere que devemos mudar muito o modelo atual de ensino para que se possa ofertar uma formação ética aos alunos do curso médico. A bioética abre uma porta para reflexões e atitudes sobre novos problemas na área da medicina que surgem no dia-a-dia devido ao progresso tecnológico e sua interferência no cotidiano das pessoas. 4º ano por exemplo.1(1):76-90 Então. gerenciamento de cuidados com a saúde e medicina alternativa ou complementar(17). antropologia. como devemos entender o ensino da bioética no contexto de uma faculdade de medicina? Desta forma."disciplina que combina humildade. Assim como toda disciplina de área médica. prudência e poder de discriminação que lhe é característica(16). literatura ética e boas artes como uma forma de conhecimento ampliado para melhoria no aprendizado médico. o período de em que se leciona a matéria é por demais diferente. um que representado pela deontologia. Com isto pretendem que um profissional com maior sentido de humanização poderá traba-lhar melhor o outro nas suas plenitudes de tratamento(18). intercultural e que potencializa o senso de humanidade"(10).2007. o ensino da bioética tem como conteúdo programático a reflexão ética. Autores tendem a formatar as idéias conforme suas realidades. Hoje a denominação de bioética é utilizada em 26. responsabilidade e uma competência interdisciplinar. destacando a grande diferença entre elas em situações como independência como disciplina. Neste mesmo estudo os autores relatam que há uma década a ética era administrada como disciplina autônoma em 33. Muñoz e Muñoz(8) realizaram um levantamento sobre o ensino da Ética nas Faculdades de Medicina no país. estudo dos deveres profissionais e outro pela bioética. a bioética vem no intuito de complementariedade com a cadeira de ética médica. Autores de outros países também incluem uma educação médica aprimorada com historia da medicina. como citado no trabalho publicado por Munõz e Munõz e Siqueira(8. e somente 3 faculdades lecionam em período integral. podemos dizer que a função primordial da bioética é ter como objetivo indicar valores. observando a ética atualmente como uma reflexão da vida(9).4%). Este pensamento é compartilhado em outros países nos quais. que passou a ser vista posteriormente como ética médica. sendo independente em 37. respeito pela dignidade do outro e do meio ambiente(11). com ênfase para bioética. Devendo a bioética ocupar toda a grade de ensino médico. de 1993 a 2000. promovendo os princípios básicos e primários. Alguns autores relatam que a evolução social. No Brasil. associado a uma pluralidade de morais e costumes gerados pela miscigenação de raças e credos.7%(8). foram introduzidos novos currículos escolares nas escolas médicas. e que o desenvolvimento ideológico do caráter moralista da ética passou para uma visão mais abrangente. A bioética tem como estrutura a ética.algumas lecionam em determinados períodos somente. Algumas faculdades enquadram a bioética como uma sucessora da antiga deontologia médica. Surgem metodologias alternativas como trabalhos comunitários e comunidades de apoio humano. Neste clima atual de desenvolvimento das tecnologias e da bioética. tendo como caráter principal. da atividade profissional. O número de professores difere varia mas existe uma maioria que dispensa o trabalho de dois professores (67. não havia até então a denominação de bioética.3% das faculdades e em 67. 78 .pois ela avança em conjunto com o conhecimento técnico adquirido e o crescer intelectual do aluno em questão. As novas experiências vividas pelo médico no seu cotidiano.

absorvem as substâncias que encontram. A variabilidade de idéias é enorme. ou seja. mas seu objetivo permanece dentro do mesmo quadro de referência da pesquisa disciplinar(25). mas correm o risco de se esvaziar e não apresentar mais nenhum significado(26). o epistemológico e o de geração de novas disciplinas(25). acompanhando o aluno e discutindo os problemas éticos na medida que surgem(7. Não basta passarmos somente à parte técnica do processo de formação.Ensino da bioética nas faculdades de medicina do Brasil . suceda-me o contrário" 79 . porém poucos se adiantaram ao tempo e foram ás bases discutir ou ouvir suas necessidades.. uma matéria de ensino?(23).Centro Universitário São Camilo . assim teremos distinguido três graus de interdisciplinaridade. pois servem como exem-plos para-digmáticos. Podemos definir interdisciplinaridade como transfe- rência de métodos de uma disciplina à outra. um conceito de interdisciplinaridade para se atingir uma nova sabedoria(1971). Somado aos fatos acima. mas também alimentá-lo com uma boa base de conhecimento e ideal médico que irão cada vez mais se aprimorarem na medida de sua experiência médica. Mas. surge neste momento um aluno que ingressa em uma faculdade de Medicina trazendo em seu bojo a moral adquirida no seio familiar e social até então vividos. Historia da Medicina e etc. Existem escolas que entendem que no ensino da bioética deva existir uma formação de núcleo.15). Os dilemas éticos clássicos como aborto. minha vida e a minha arte de boa reputação entre os homens.2 Histórico do Ensino de Bioética nas Faculdades do Brasil Desde o juramento de Hipócrates lemos em suas entrelinhas a deontologia e a diceologia ditas com o ardor de sentimento encarnado na frase "Se eu cumprir este juramento com fidelidade. um ramo do conhecimento que se aprende. cujo resultado levaria a uma reflexão protocolada com normas e casuísticas morais. o professor de bioética se encontra em uma encruzilhada entre a forma interdisciplinar e a disciplinar. A interdisciplinaridade ultrapassa as disciplinas. Quanto a gerar novas disciplinas temos como exemplo quando transferimos métodos da física de partículas para a astrofísica assim produzindo a física quântica.desde 1970 até 1998. que é imprescindível. pensa-se nos assuntos a serem discutidos com os alunos e as formas de ensino. ou como definiu Potter(24). Agora sua trajetória de interesses entra em conflito com as necessidades e os interesses do outro (o paciente) e como ele responderá a esse apelo? A responsabilidade do professor é fundamental para dar-lhe as ferramentas adequadas para tal momento. uma ponte interligando éticas (1970) ou uma nova ciência. goze eu. Alguns docentes preconizam o inicio do curso de bioética no curso de Medicina desde o 1º semestre com ênfase na Antropologia. eutanásia. o de aplicação. como devemos pensar a Bioética? Como uma disciplina. De esta forma observar somente critérios didáticos para a programação da bioética nas faculdades de medicina é incorrer em submete-la a ser uma disciplina a mais no currículo médico. o aluno. como veremos a seguir que pode surgir dos conhecimentos interdisciplinares. porém não devemos deixar de possibilitar ao estudante a oportunidade de discussão de casos do seu cotidiano e as quais ele tem uma parcela ou totalidade de decisão(20).2007. testemunhas de Jeová.1 O Ensino da Bioética O ensino da bioética vem abrindo um debate de como se deve realizar a sua ementa e sua metodologia. 1. Este também é o pensamento de ou-tros que a Ética deveria ser lecionada nos seis anos do curso. existem palavras que são como esponjas. que tem o propósito de ampliar as discussões e o ensino de bioética em toda a comunidade em que se insere(22). se enriquecem dos sentidos atribuídos. aumentando a carga de conhecimentos progressivamente até os últimos semestres quando seriam observadas suas necessidades de interação com os casos à medida que forem surgindo(21). se eu o infringir ou dele me afastar.1(1):76-90 1. é dever portanto ser observado aquele que é o fator multiplicador de uma arte. as quais poderiam interessar somente à sociedade que as criou ou a uma variedade mais ampla na qual os resultados destas casuísticas abarcassem em seu resultado uma diretriz maior que impingisse um caráter ético à questão. Desta forma. devem ser analisados sempre. Como exemplo de grau de aplicação surge quando transferimos métodos da física nuclear para a medicina. Rebuscando no passado. resultando novos tratamentos para câncer.

criam uma característica própria no ensino da bioética. com predominância de ênfase para cadeiras ditas mais importantes em detrimento de um ensino voltado à parte social e ética na medicina. social e observadora da presença e das necessidades do outro.Centro Universitário São Camilo . Na enciclopédia de bioética. Reich infere que Hellegers procurou relacionar a pessoa como uma ponte entre a medicina. que levou a uma medicina mais científica. criando uma tecnocracia médica que resultou em uma formação médica essencialmente baseada em fatos. honestidade e coragem. Esta visão dada por estes pioneiros foi devida aos fatos que sucederam a teoria de Claude Bernard a respeito da biologia experimental associada ao conceito pós-relatório Flexner. André Hellegers utilizou a palavra bioética na inauguração do Joseph and Rose Kennedy Institute for the study of human reproduction and bioethics. uma ética internacional. uma ética geriátrica. entre o valor tecnológico agregado ao tratamento do paciente e pensamento médico envolvido no raciocínio diagnóstico e na sua conduta perante o paciente. Inúmeras descobertas são realizadas em todos os campos da medicina. Assim sendo temos duas correntes iniciais para a bioética(28). Sob a visão de Hellegers a bioética tem uma ligação estreita e de certa forma herdeira de valores que a própria ética médica não conseguiu se impor até então. quanto a ponto de ser o norteador e alicerce de sua psique. sentimentos e adesão a esta fase de sua vida. física e outras. transplantes de órgãos. A visão de Potter que imaginava a bioética em uma amplitude abarcando o conhecimento cientifico e filosófico e não somente o relacionamento da medicina com a ética. a filosofia e a ética. porém sem uma humanização nos tratamentos realizados. projetos como o Genoma. enfim uma ética da vida. tudo aliado a um espírito de sacrifício enorme ou seja sempre pronto para o bem. a preservação da vida. e com isto criando um sentido bioético mais adequado a suas morais tanto sociais como culturais. Com isso houve uma inversão de valores. É óbvio 80 . pois a necessidade de todo conhecimento técnico é imprescindível para a formulação de um conceito. a índole para alívio de sofrimentos(8). os países ditos ricos têm problema de ordem bioética quanto à reprodução assistida. abrindo um caminho de reflexão aberta a respeito de uma visão científica.2007. Acompanham este coro de desmandos a formação médica humanitária atual nas faculdades de medicina. Como a própria definição implica a interdisciplinaridade é evidente. um novo conhecimento científico ou mesmo com uma nova abordagem terapêutica. O ensino da ética médica no Brasil data do final do século XIX com nomes dentro dos anais da medicina legal/deontologia como Flamínio Fávero. por exemplo. a bioética. A bioética foi criada para se tornar um norteador nos avanços tecnológicos de todas as áreas para o uso em beneficio da humanidade interessando a maioria possível da sociedade.'' Após seis meses do lançamento do livro de Potter. não poderia ser de outra forma que não a deontologia/diceologia fosse a partida para o ensino da ética em uma faculdade de medicina. aliviar e consolar os necessitados. Oscar Freire e outros. que escreviam sobre as qualidades morais que o médico deveria apresentar para exercitar sua carreira na medicina. que envolveria tanto a ciência como as cadeiras humanas(24). contra a fome. conhecimento novo e sua abrangência pela maioria da sociedade. lutando por saneamento básico.Flamínio Fávero citava como estas qualidades à vocação médica. que são notificadas e poucos da sociedade têm a felicidade de desfrutar ou aproveitar para seu bem ocasionando assim uma nova característica no relacionamento ciência/benefício humanitário. guardando ainda os resquícios da medicina tecnocrata Nossa referência com a bioética data seu inicio na década de 1970. Assim chegamos no ponto de existir um sentimento social de os médicos não terem um comportamento digno e de serem pouco humanos. aqui quero deixar minha preferência em relação às palavras comportamento e postura em relação à ética. tornando-se a bioética um estudo revitalizador da ética médica(27). Poucos são aqueles que possuem tamanha formação acadêmica para poder discorrer sobre todos assuntos que abrange a bioética e que diariamente se modifica perante uma lei. Isto acabou se impondo. Enquanto paises vivem como no passado. biologia. racismo e outros males. As sociedades divididas em pobres e ricos. porém com distanciamento entre a medicina e a ética. o sigilo. e mais ainda fundamental. hoje conhecido como Bioethics Kennedy Institute.1(1):76-90 Portanto. a dignidade. com o paciente tanto quanto o ponto de vista clínico-técnico. Gomes ampliou estas qualidades associando princípios de Beauchamp e Childress a solidariedade.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . Esta conduta médica envolve seu comportamento. quando Potter proferiu a definição de bioética como a ética da terra.

já que o fator de humanidade deve ser sempre a liga junto ao respeito e ao conhecimento técnico da arte de ser médico. para propor uma base curricular ao ensino de ética nas faculdades de medicina. OBJETIVO GERAL Conhecer a literatura científica a respeito do ensino de bioética nas Faculdades de Medicina no Brasil OBJETIVOS ESPECÍFICOS Discutir a implantação do ensino de Bioética nas Faculdades de Medicina Relatar uma experiência de ensino em uma Faculdade de Medicina na cidade de São Paulo e as observações dos alunos. levando mais tarde. monografias. como por exemplo. formar profissionais com comportamento ético mais compatível com os ideais da profissão e ensinar as normas que regem a profissão. não possuindo espaço próprio para ser ministrada. outros com mescla de professores médicos e não médicos. a uma reunião em 1983. A partir deste instante deu-se a largada para uma pontuação crescente de temas para tornar a medicina uma carreira mais humana. Embase. mediante resolução nº 101. descritivo de um fenômeno com técnica padro-nizadas na coleta de dados. Na década de 60 houve um crescimento do estudo de ética nas faculdades de medicina. de 29 de Janeiro de 2002. entre outros. o efeito estufa e suas discussões. à melhoria do conhecimento pela população. assim como as médicas com as médicas. por exemplo.1(1):76-90 que os interesses nestes casos são inteiramente contraditórios. A inclusão da bioética possibilitou uma nova face ao ensino da ética médica. a ética médica ainda é ensinada junto com Medicina Legal. Esta concepção de uma bioética de “fórmulas prontas” vai contra mão aos interesses destes países. em Dartmouth College.2007. fizeram com que as entidades de classe como os conselhos (em 1975 o Conselho Federal de Medicina) emitissem resoluções no intuito de que o ensino de ética médica fosse ensinado ao longo dos 6 anos. o número de horas/aula. O início do ensino de ética médica nas faculdades de medicina foi gradual e com número de horas/aula reduzido e sempre ligado à cadeira de medicina legal. ministrando estas aulas.Centro Universitário São Camilo . Os objetivos mais importantes do curso de ética na graduação são formar profissionais mais humanos. justificada pela relação entre a lei e o exercício profissional. Hoje já temos cerca de 26. Faculdades de Medicina. e em relação aos alunos que saem de escolas médicas com preparo abaixo da crítica. médicas e não médicas. na maioria das escolas médicas(27). através do Scielo. Scopus e Medline. propostas dos países ricos são adaptadas aos países pobres(29). trouxe mais respeito para com o outro (que para alguns autores é denominada humanização) e o que é muito importante também inter-relacionou as especialidades. abriu horizontes.Ensino da bioética nas faculdades de medicina do Brasil . a maioria. Scirus. PROCEDIMENTO METODOLÓGICO Tipo de estudo: Esta pesquisa é um estudo bibliográfico. alguns cursos com professores médicos. no final do século XIX a ética médica era ensinada durante o curso de medicina na cadeira de medicina legal. assim como. Ética. expandiu e modificou tratamentos médicos. 81 . Como foi exposto acima. que era de caráter deontológico(30). revistas e teses. Em algumas faculdades. em um período de 15 anos. Fontes de buscas: O levantamento de dados utilizados foi através de pesquisas nos portais Bireme. o que na década passada era denominada ética médica em 33% das faculdades e em 68% denominada deontologia(8). protocolou temas para reflexão. Cursos com número de professores reduzidos. Atualmente alguns movimentos sociais reivindicatórios à autonomia do ensino. Neste momento impõe-se à medicina o aprofundamento de questões humanísticas. Temos cursos com número de professores variados. decidiu colaborar com o ensino de Ética Médica e Bioética nas Faculdades de Medicina. Até o momento vemos que não existe um padrão de ensino de bioética nas faculdades de medicina. Identificação das fontes: Foram pesquisados artigos científicos. Os unitermos utilizados foram: Ensino de Bioética.7% das faculdades de medicina com a cadeira denominada bioética. O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (CREMESP). Este cruzamento resultou nas seguintes seqüências: Faculdade de medicina e ensino de bioética e faculdade de medicina e ética.

como o de vários outros direcionam-se ao termo “ética” e “não bioética”. inculcando no comportamento socio-cultural reflexões a respeito do futuro tecnológico. Siqueira(16) da Faculdade de Medicina de Londrina. Na PubMed com "Teaching bioethics on medical schools" foram encontrados 131 ítens. E ele relata. Cerca de 13 trabalhos referem-se ao ensino de bioética em países.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . foram encontrados 32 trabalhos de bioética em faculdades de medicina de outros países como Sri Lanka. No Scirus foram encontrados 37. quando cunhou o nome bioética. DISCUSSÃO O ensino da bioética foi agregado na esteira dos ensinamentos prévios de ética médica que vieram também agregados dos ensinamentos hipocráticos da medicina. por exemplo. A bioética veio da preocupação e da angústia de Potter com os acontecimentos tecnológicos. Portanto. Portanto nada mais lógico que a relação do médico com o campo da bioética também se fizesse. Refinando para Teaching Bioethics on Medical School in Brasil. a maioria mencionando ensino de ética ou humanização. e problemáticas com conseqüências profundas em futuro próximo.Centro Universitário São Camilo . se este não fosse coordenado universalmente. exceto Brasil. via de regra. existe um grande número de trabalhos catalogados como ensino da bioética nas faculdades de medicina. Foram encontrados no Scopus somente 13 trabalhos internacionais a respeito de ensino da bioética nas faculdades de medicina. fato já definido pela maioria. no Paraná. Mesmo Potter quando deu a partida para a discussão da bioética na década de 1970. Como ele cita neste discurso a bioética ponte teve a função de ligar várias disciplinas. Se a disciplina é Ética Médica por que então mencionar a disciplina como Bioética?(8) cação da obra segundo os dados: cabeçalho com referência bibliográfica segundo a ABNT (NBR6023:2002). se refinarmos para "medical education" este número diminui para 50 artigos e não conseguimos visualizar nenhum relacionado com bioética e Faculdade de Medicina no Brasil. Ora. espaço reservado para transcrições selecionadas a respeito dos objetivos já mencionados. É nesse momento afirmamos que a Bioética pode resgatar o tempo perdido pelo avanço tecnológico na tentativa humanizá-lo. sendo os 131 da pesquisa acima também mencionados. No Google acadêmico cruzando as informações com "O ensino da bioética nas Faculdades de Medicina do Brasil" encontramos 102. porém a grande maioria destas refere-se ao estudo de ética nas faculdades de medicina. teria a dupla função exposta acima? Esta é uma das questões que me intriga.840 para Teaching Bioethics on Medical Schools.1(1):76-90 Obtenção do material O material obtido foi então submetido a uma leitura interpretativa e exploratória no sentido de atender às necessidades dos objetivos do estudo. interdisciplinar mencionada. Como se trata de um buscador generalista tem pouco valor científico. por várias visões no mesmo problema a ser solucionado. de uma maneira passiva. suas evoluções. Com isto Potter pretendia retomar um rumo mais controlado e humano. E na tradução deste tre- Organização do material obtido Todo material submetido à leitura foi catalogado uma parte em fichas do software Word Pad com identifi- 82 . tome-se como exemplo o efeito estufa em nossa atmosfera. que a palavra ponte era usada porque a bioética era vista como uma nova disciplina. mesmo assim o título do trabalho "The teaching of ethics in medical schools". este número cai para 227. tendo em vista o estudo em foco. porém dentro do texto é mencionada a ética médica como bioética ou como se esta estivesse integrada dentro da ética. outros trabalhos foram considerados em sua íntegra.000 páginas. pensou em uma ligação. uma ponte entre a ciência biológica e a ética. Achamos somente um trabalho brasileiro indexado que é referido neste estudo. em seu discurso dirigido ao IV Congresso Mundial de Bioética. espaço reservado para um resumo da obra. Quando cruzamos "teaching ethics in medical schools" resultaram 315 ítens. a palavra disciplina aqui utilizada tem o sentido de uma nova ordem que convém ao bom funcionamento de uma sociedade ou o sentido de um nascimento de um ramo do conhecimento como matéria de ensino? Ou melhor ainda. daí a dimensão pluralista. contudo a própria natureza da bioética não permite somente uma visão de um fenômeno e sim visões que a tornam com o enfoque pluridisciplinar.2007.

formulando protocolos que tentam criar ferramentas para facilitar as decisões sobre os casos que vão surgindo no dia a dia da comunidade biológica. de fusão. ora transdisciplinar para outros. pois seus membros são convidados ou eleitos por um período determinado e não somente convidados para opinar determinado caso. numa forma descente e sustentável de civilização. Pellegrino e Thomasma (virtude). A tendência da cultura americana quanto à presença de normas e protocolos volta-se sempre a uma indicação de resultado que tende a uma moralização da ética. Joonsen e Toulmin (casuístico). mais reflexivas sem dualidade de resultados é maior. que por dar uma grande ênfase à beneficência. temos a necessidade de conhecer os conceitos vindos com os alunos ingressantes ao curso de Medicina para podermos abrir um leque de discussão sobre esses temas para evitar o maniqueísmo e idéias fixas. teoricamente. pois os membros que refletem sobre um caso a solucionar compõem um comitê. concepção nossa à junção entre ser humano e meio ambiente. aumento progressivo de novidades tecnológicas com novos casos surgindo diariamente. porém sem desvios de conduta respeitosa para com o futuro. Este sistema tem como função a definição e desenvolvimento em longo prazo de uma ética para sobrevivência humana sustentável(32). dentro de um padrão de respeito tanto pelo outro como pela natureza que o cerca. protocolar uma ementa de ensino para a bioética? Podemos e devemos orientar valores que. Aqui notamos um direcionamento da palavra disciplina para uma forma de comportamento. A americana tem como tendência a tecnização. arroubos de egoísmos científicos que atinjam a ordem maior que é a sobrevivência da humanidade. autonomia. para uma nova ordem no pensar. tanto pela pessoa humana como pelos seus valores em virtudes. progressista. que é a orientação de um padrão ético de trabalho para as ciências e para aqueles que com elas coexistam. união. colocando-o no centro das atenções. que não dão maleabilidade à reflexão ética. Atualmente. devido à multiplicidade de disciplinas envolvidas.2007. Então como devemos entender o ensino da bioética no contexto de uma faculdade de medicina? Seria mais uma disciplina isolada ou uma disciplina que agregaria outras disciplinas ao seu redor formando um núcleo de pensamentos voltados ao ensino. quer científica como social. independente da situação evolutiva. exigindo o desenvolvimento e manutenção de um sistema de ética(32). Partindo desta premissa devemos ter em mente que a bioética implica em responsabilidade. Assim. formação de profissionais que observassem com capacitação e respeito. objetivando a dignidade do ser humano. Até este momento a bioética tinha um caráter orientador. 83 . portanto com visões múltiplas de um mesmo fenômeno. Já na Europa predomina um modelo baseado em raízes contemporâneas. tem uma aceitação quase que universal como modelo na prática médica(33). sem acarretar dano ou destruição ao ambiente de vida. Sendo assim a chance de se tomar atitudes mais direcionadas. justiça e não-maleficência. tanto na sua profissão como no seu dia a dia? Como poderemos então. Porém outros modelos coexistem como o de Engelhart (liberalismo). cria uma linhagem de pensamento que pode ser entendida como uma divergência no seu conteúdo e talvez na elaboração da finalização. a pessoa torna-se o fundamento metafísico da ordem ética e a antropologia o fundamento da Bioética(14). proporcionando um caráter mais ético para a casuística final. de criação de um novo comportamento nas áreas biológicas. agir destas ciências biológicas.Centro Universitário São Camilo . Veatch (contratualista) baseado no relacionamento médico-paciente-sociedade. que difere de uma comissão.Ensino da bioética nas faculdades de medicina do Brasil . baseada na filosofia Ocidental. ou seja: o principialismo de Beauchamp e Childress. Ao sistema aqui mencionado Potter classificou como a bioética global. social. no sentido de evitar agressões. Com estes direcionamentos a bioética americana caminha para uma Bioética de fundamentação baseada em princípios. Porém esta dicotomia de abordagem de um mesmo fenômeno. para um direcionamento dentro dos ditames dignos de uma sociedade científica progressista. contudo o pensamento bioético permite que se façam conjunturas para ampliar sua reflexão a respeito do fenômeno em questão. Talvez neste ponto devemos buscar na filosofia oriental o elo entre o homem e a natureza que existe de uma forma forte e contundente nesta linha filosófica. a bioética tem como propostas duas vertentes próprias de suas morais e culturas. permitam uma atitude correta. que são a americana e a européia.1(1):76-90 cho do discurso temos como função principal da bioética ponte a sobrevivência da espécie humana. orientação. A bioética européia espelha um compasso menos técnico. já por si só. Assim sendo notamos que a bioética se torna ora multidisciplinar para alguns autores.

84 . Experiência como docente A reflexão da experiência como professor de bioética passa pela análise da opinião dos alunos percebida no seu conteúdo explícito e implícito de carga moral e ética na respostas dadas no questionários aplicados com os alunos do Curso de Medicina. que é dicotomizado como vimos acima e que conceitos básicos originam-se de diferentes fundamentos filosóficos e que estes possuem várias correntes de pensamentos. organizando assim o que é chamada educação humanizada. a bioética. os países com legislações pertinentes ou não com problemas como a liberação do aborto? Como o aluno confrontará estes novos conceitos. com isso foi observado que não havia professores em número suficiente para tal. apresentam um sentido comunitário mais desenvolvido e outros não. Mas seria esta a função primordial da Bioética? Apresentar os conceitos aos alunos. Escolas de outros continentes ampliam seu espectro de informação e colocam a bioética juntamente com cuidados humanos em seu currículo nas faculdades de medicina. Percebe-se foram educados com obediência `a moral da família. a vivência do profissional e principalmente seu respeito para com o outro. religião.1(1):76-90 Quanto ao ensino da bioética. porém nos Estados Unidos no Canadá a situação foi detectada inversamente. assim como. neste primeiro contato procuramos mostrar que esta carreira escolhida tem uma história milenar e que desde seu início foi pautada por situações que devem ser vistas como um momento de reflexão.7% das faculdades de medicina com o curso denominado Bioética no seu currículo. Flamínio Fávero e outros. Em agosto de 2003 foi iniciado o curso de medicina em uma Universidade na cidade de São Paulo. quando submetidos `a liberdade de escolha em uma situação de reflexão. seus benefícios sociais e de saúde. que é o respeito pelo outro. Portanto. soma-se a esta diversidade um aluno que já traz uma moral familiar que difere de outras tantas que coexistem na mesma sala de aula e ambiente de trabalho. sua amplitude no seio da sociedade. como priorizar necessidades? Como ensinar virtudes? É possível ensiná-las? Os alunos. antropologia cultural e social e jurisprudência. às vezes. Tal necessidade levou à formação de clínicos para suporte na matéria. ou seja. Assim sendo. filosofia. Algumas escolas preconizam que somente ensinar bioética e cuidados médicos não conseguem passar ao aluno conceitos de humanização suficiente. fato que não existia há 10 anos passados(8). a resposta pode ser o momento de libertação de toda a moral adquirida. essa submissão aos pensamentos dos familiares foram acatados sem sequer uma discussão.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . como parte de um todo maior denominado ética médica. ética. sendo que no começo de cada primeiro semestre existe um contato com o aluno no sentido de demonstrar a existência de um diferencial importantíssimo na carreira que estão iniciando e que o norteamento deste diferencial tem no seu conteúdo um conhecimento além do curar/cuidar.Centro Universitário São Camilo . a prioridade de cada reflexão a ser realizadas. sendo que neste momento é que entra o conhecimento da matéria em questão. quando alunos dos últimos anos de graduação achavam normais e rotineiros problemas éticos que eram detectados por eles nos primeiros anos da faculdade(7). como ensinar a bioética como uma disciplina única como em algumas faculdades. Portanto. Hoje já temos 26. ou seja. este ainda resquício do início do ensino da Ética Médica ensinada anteriormente nos cursos de medicina por mestres como Oscar Freire. os casos paradigmáticos. fazendo parte de uma cadeira de humanização médica? Além de que. como um programa a ser ministrado para grupos menores de alunos. como ensinar bioética? O que ensinar em bioética? Quando ensinar a bioética no curso médico? Existe a crença de que a sensibilidade de detectar problemas éticos em casos padronizados é maior nos alunos dos últimos anos do que nos ingressantes dos primeiros anos. sendo necessário acrescentar também conceitos de artes e literatura a fim de alcançar objetivos mais ampliados nestas áreas. com abordagem de temas como literatura.2007. como foi dito. uma demonstração de que o passado fala mais forte nos seus julgamentos ao trazê-lo à tona. No Canadá em todas as escolas médicas é ensinada a matéria de bioética. Trabalhos de abrangência maior nos mostram que as faculdades de medicina ainda organizam seus cursos na maioria dos casos com a denominação Deontologia. história da medicina. Neste início de curso a cadeira de bioética foi programada para ser administrada no 4º semestre (2º ano) segundo a ementa aprovada pelo MEC. a humanização de procedimentos dentro da sua ciência médica.

leva a uma nova reflexão em relação ao advir desta situação. Estes vêm de lares com uma moral de certa forma já estabelecida. Muitos já trazem uma carga genética forte para a arte médica. Começamos a instigar a necessidade do aprimoramento técnico como médico.a ética? A formação social deste aluno. próprio ou em parte semelhante e que no período de formação como ser humano social será submetido a uma maratona de matérias. transplantes. os alunos observam que apesar do tempo passado. Quando nos foi dada a incumbência de ministrar bioética para os alunos da faculdade de medicina. a sua inserção em um mundo que age de uma forma e o cobrará de outra. ou seja. que em cada momento histórico. não só com ênfase de uma melhoria clinica para seu paciente.os alunos encontram-se em uma fase de auto-afirmação importante. passam a se reunir com uma série de outros alunos que também possuem este tipo de modo de vida. Após este inicio voltamos a nos encontrar no 4º semestre. importantíssimas. com os ditames de Harvard (protocolo de morte cerebral) e não marcamos o "início da vida" quando se completa o sistema nervoso ao redor da décima segunda semana? As indagações se avolumam à medida que seus conhecimentos vão crescendo e que sua moral entra em rota de colisão com algo novo e que nunca tinha sido observado daquela forma e que nunca tinham tido a percepção de que neste momento estariam se defrontando e tendo que agir. Ao demonstrarmos o início das leis no código de Hamurabi. considerando até onde esta disciplina pode influenciar suas carreiras. não existe diferença dos tempos atuais. Então como trazer para estes jovens das mais variadas formações um pensamento que os faça refletir de uma maneira mais coletiva possível em relação à carreira médica. e neste 85 . aproveitar de seu pensamento e daí cultivar as diretrizes da bioética? Aproveitar a moral para direcionar para algo maior. a sua visão da área médica atual. mas de uma necessidade de conhecimento para poder confortá-lo além do curar. a sua possibilidade econômica de subsistência para sua formação profissional. Alguns vêm de famílias abastadas. quando partimos para a introdução da bioética como matéria curricular. ou apresentar todas as possibilidades e deixar que ele forme sua opinião para depois conversar o direcionamento da questão? Ou então ainda. imaginam a carreira médica das mais variadas formas possíveis. não somente a teoria principalista de Beauchamp e Childress.1(1):76-90 Passeamos pela história médica e seus períodos no tempo. tolerância e outros. Exatamente como estamos passando agora com células tronco. de uma diferenciação médica na qualidade profissional. Aí então foi nosso primeiro impacto com o ensino da bioética: deve o professor interferir no pensamento do aluno e tentar modifica-lo. sabendo dos limites da medicina atual. nos perguntam por que marcamos o "final da vida" como a morte cerebral. E então nos pedem coisas mais concretas. por vezes tentando impor seu ponto de vista ao invés de abrir uma discussão a respeito. Explanando sobre a democracia e Péricles e depois o seu final. posições sociais. religiosas. pois vêm de um lar com pais médicos e portanto com um norteador muito forte ou para ser seguido. o respeito pelo outro. ou seja o universo formado tem uma gama fenomenal de pensamentos. cada descoberta.Centro Universitário São Camilo . Então daremos ao aluno armas para se equilibrarem na reflexão de um problema. tudo isto tentamos discutir com eles para a verificação da importância na sua escolha profissional. seus credos. uma vez que iniciamos a reflexão do ponto de vista do aluno. outros não têm este aparato na sua formação. começamos a pensar e vivenciar o quão é difícil esta missão. outros de famílias que fazem verdadeiro malabarismo para custear seus estudos. Alguns indagam o porque dos médicos terem que observar os preceitos éticos e outros profissionais nem tanto. marcando o seu princípio nas mais variadas fases do desenvolvimento embrionário. assinalando cada época com seus dilemas e instantes reflexivos. notam que desde então existia nítida diferença entre ações médicas em escravos e gentios. que de certa forma moldou seu caráter até então. tentando resgatar para o aluno o principal do pensamento. seja de nova patologia ou nova terapia. Introduzimos os conceitos de princípios. ou melhor.2007. transgênicos e outros. sua cultura. Ao discutirmos "início de vida". e que darão rumo à sua vida desde então.Ensino da bioética nas faculdades de medicina do Brasil . mas princípios como utilitarismo. políticas e culturais estabelecidas e vividas no seio da família e. Cada um traz dentro de si uma carga de sentimentos. Falamos sobre o início da bioética com Potter e suas intenções quanto ao futuro da ciência se não houver um norteador para as pessoas que trabalham com ela. Ao mesmo tempo. ou opinar sobre o fato. o mundo atual. com forte caráter curativo às vezes e outras com grande penetração social e ascensão social.

fome. que foi explanada de várias formas. mas que em poucas vezes durante sua vida acadêmica foi mostrada a importância da sua opinião e até onde ela pode acarretar conseqüências importantíssimas na vida de um outro ser humano. e estamos obtendo um gratificante retorno de idéias. como poderemos viabilizar uma regra universal de conduta (postura) ética neste caso? nações têm culturas diferentes. dando a ele condições de vivência médica. sem discussão prévia de problemas sociais como miséria. que é o congraçamento entre as disciplinas técnicas. como no próprio lar. verificamos que desde o início dos pontos citados na ética. Então como poderão conversar com familiares de paciente nestas condições? Explicarão somente os dados clínicos da patologia e seu desenrolar estatístico. Neste momento vemos a dificuldade que existe para raciocinarem sem terem sido apresentados às escolas filosóficas e seus pensamentos ou pensadores. Portanto se os próprios seres humanos diferenciam em alguns mais humanos que outros. é impossível de ser aplicada "Não faça ao outro o que não quer que lhe façam". procurando o não envolvimento com a situação emocional dos envolvidos? Temos então o primeiro óbice a transpor. e com isso a ética. de varias partes do mundo e que por sua enorme simplicidade e pela enorme gama de "centrismos" do ser humano. Associa-se a tudo isto um aluno que chega na faculdade de medicina sabidamente ávido para os conhecimentos médicos e trazendo dentro de si uma moral que até então foi inculcada durante anos e que nesse momento vai se defrontar com morais de outros alunos. conhecimento em artes. Um segundo ponto é tentar mostrar para o aluno a importância de observar as alterações ao seu redor e filtrar aquelas que por ventura possam distorcer sua convivência com o outro no seu trabalho. o progresso cultural. mediante o progresso cientifico-tecnológico. como em grupos de análise. pois são tabus difíceis de serem conversados sem causarem mal estar ou constrangimento. e demais cadeiras que são necessárias para a formação profissional. seu semelhante em todos aspectos e esperanças. a grande quantidade de alunos que chegam. final de vida e outros. Neste momento fazemos a observação de um pensamento ético universal para que eles compreendam o que é multidisciplinaridade na chamada "lei de ouro".Centro Universitário São Camilo . pelos mais variados iluminados. uma simplicidade que é peculiar à ética. Vivemos em um mundo que diariamente surgem situações conflitantes de interesses.2007. como código de Hamurabi por exemplo. abarca tudo e todos. sentidos e "conceitos" mais simplistas. porém com uma grande coerência lógica. bem ou mal informados.entre outras. houve diferenciações nas diversas sociedades em relação à classe social dos indivíduos e às suas implicações referentes à conduta a ser tomada perante fatos similares e julgamentos diferenciados.pensamos que devemos encarar a bioética como uma parte em um todo muito maior. os novos aspectos religiosos. os quais demonstram cada vez mais o poder da força e do poder econômico na vida das pessoas. discutindo os temas éticos à luz destas premissas. tanto nas escolas. mesmo assim. solicitando a participação ativa. na sua vida social e mesmo espiritual. mesas e discussão com outros profissionais das áreas correlatas à ementa de bioética. o crescente aumento de conhecimento pelo aluno de sua imensa responsabilidade social. Partindo desta proposição devemos ver o ensino da bioética considerando variáveis que se multiplicam dia-adia. e ainda com situações conflitantes com sua moral 86 . Avolumam-se fatos nos quais a morte de uma pessoa se tornou uma banalidade. uma guerra se tornou uma banalidade! Como fazer este aluno pensar nisto sem ocasionar uma mudança nos conceitos já embargados? Até o momento utilizamos estudo em grupo. com regras médicas-legais estabelecidas e codificadas. exemplo Estados Unidos e Iraque. prolongamento de estado vegetativo. o cuidar depois de cessado todas possibilidades terapêuticas. Mas. CONSIDERAÇÕES FINAIS Após esta explanação acima.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . algo que traduz o conhecimento humano com todas suas linhas de pensamento e que se chama filosofia. Sem saberem como pensam seus familiares mais próximos sobre patologias limitantes. que devem ser compreendidas e respeitadas.1(1):76-90 momento temos que observar e iniciarmos um trabalho para que eles entendam que existe algo acima do pensamento material do maniqueísmo do certo e do errado.

reafirmado em Potter. porém tiveram que ministrar curso de bioética para outros médicos que se identificaram com a disciplina para suprir professores médicos nestas faculdades. No meu ponto de vista. Em algumas escolas internacionais a bioética faz parte de um contexto maior. que tenham um pensamento em comum em relação às virtudes contidas na bioética. a solidariedade no campo social. O docente teria que ser um expert em diversas especialidades. o que não é de se estranhar pois desde a sua concepção a bioética tem para alguns a impressão digital da ética com uma roupagem nova que veio para reavivar esta última. a participação dos alunos. O docente deve manter um rol de colegas de cadeiras médicas. Mas como isto poderá ser realizado. no meu entender. sobretudo quando da constatação de que é praticamente impossível alguém deter todos os conhecimentos necessários para o ensinamento de bioética. no qual em certas escolas o tema ética médica é fundido com o tema bioética. Canadá. no qual iniciar-se-ia uma estruturação no comportamento do aluno.uma vez que bioética em sua dimensão e pela própria definição é de caráter interdisciplinar. como não médicas. sociólogos. vibradora e reflexiva que constantemente deve ser reavaliada.27). propiciando ao aluno um constante e enriquecedor alicerce para seu futuro. para ampliarmos as fronteiras da aceitação mais abrangente possível para fatos novos e situações inusitadas. na mídia e com o contato com os pacientes. ética A formação do docente é de suma importância. antropologia social e humana. sem deixar de considerar elementos que permitam introduzir a filosofia. médicos. envolvendo em seu bojo. penso que seja mais um fator de diferenciação das escolas médicas entre si. ampliando com suas indagações e abrindo novas perspectivas de reflexão. possuindo currículo próprio. aproveitando a moral trazida consigo. Mas em que tempo deveria ser ministrada a bioética? Neste ponto temos até o momento uma variada gama de instantes que a ética/bioética é ministrada nos cursos de medicina como foi demonstrado(8. Um contexto em que se aplicam outras facetas que se tornarão importantíssimas após não haver mais solução técnica para o fato. Isto vem de encontro com a proposta da World Medical Association que recomendou a inclusão da ética médica no currículo das faculdades de medicina. pois o ensino de bioética muito bem direcionado formará profissionais com uma visão clinico e cuidadora mais moldada às necessidades do ser humano em todas as fases da sua vida. a ação do cuidar na medicina. abrindo um leque maior de conhecimento para suas reflexões. a inserção da bioética dentro de um contexto muito maior e não vê-la de uma maneira isolada. O relacionamento entre o corpo docente. a bioética é ministrada desde o primeiro ano do curso de medicina.2007. ao referirse ao caráter multidisciplinar da bioética. história e penetração ampliada em relação à ética médica. literatura. em um ir e vir. pois uma mesma aula em dois grupos diferentes pode ter um desfecho mais abrangente em um que outro por sua participação.Centro Universitário São Camilo . um fator importante na qualificação de uma faculdade. como de biólogos.entre outros. bioética deveria fazer parte de um complexo maior de disciplinas englobadas em um bloco.Ensino da bioética nas faculdades de medicina do Brasil . até certo ponto. sua vivência e suas experiências profissionais. um conjunto de aprendizado que passa pela filosofia. 87 .1(1):76-90 prévia. seu engajamento com a ética médica. apresenta uma vida pulsante. porém pontos de reflexão que dêem uma visão pluralista ao fato em questão. várias especialidades. Mas não vejo isso como algo desanimador. assim como com aqueles que surgem diariamente com o progresso científico. religião. se acima foi dito que será praticamente impossível fazê-lo? A resposta está no preparo da ementa do curso de bioética. A aplicação da ementa deve ser progressiva e embasadora. muito pelo contrário. Outra resposta está na formação do corpo docente da matéria. Neste momento temos algo que é comum. o que se caracteriza como praticamente impossível devido à complexidade de informações em cada especialidade. as artes relativas com a especialidade e a religião. Sob este prisma o docente deve observar o conteúdo programático. Em alguns países. a complementação entre a técnica e a ética a ser observada. Ao planejar um cronograma de bioética propomos mesclar conhecimentos clássicos da bioética aos conhecimentos que os alunos desejam refletir. pois assim sendo o aluno terá mais uma vertente para observar e refletir. Para outros a bioética tem um caráter mais especifico dentro da cadeira de Ética Médica dentro da faculdade de medicina. Portanto mais vários óbices para uma regra universal de ensino. artes. assim criando uma nova cultura na profissão médica. Será. filósofos.

Porém. conferências simultâneas. Em algumas localidades o mesmo professor ministra aula de ética médica nas duas faculdades existentes no local(27). Esta proposta de ensino parece ser viável. aos preços fixados pelo trabalho. deveria ser introduzida e acompanharia o aluno até o final do curso com ênfase ao que é chamado de bioética ao lado do leito. discussão em grupos. Hoje contamos com uma vasta gama de recurso para ilustração de aulas. no início do curso. acrescentando reflexões com novos conhecimentos. paciente e familiar. raciais e outros. A avaliação do aprendizado pode ser realizada de várias formas como por exemplo. Como dito anteriormente. pois para um bom profissional sempre haverá o reconhecimento pelo outro. em vista de que professores de outras áreas já ministram aulas nestas casas. não dão um devido valor à matéria. como por exemplo a história da bioética. A filosofia e suas correntes principais relacionadas com o pensamento humano e com a medicina. pois em suas concepções o curso é para formar médicos. história da medicina. aqueles que irão salvar vidas.Centro Universitário São Camilo . haja vista o Canadá como mencionado acima. sua sociedade responderá diferentemente à fenômenos culturais. as mudanças comportamentais relacionadas à evolução social fazem com que sejam revistas as condições sob as quais o comércio deva ser considerado. literatura. prova subjetiva. Fisiologia. com reciclagem em congressos e cursos de atualização da especialidade (não como um curso somente de bioética). Como avaliar essa passagem de informações entre os dois? O primeiro desafio é aquele que muitos estudantes. As artes. em conseguir o número de professores necessários.e as resoluções e leis que advieram após o aumento das reflexões bioéticas no mundo. Outra condição que geralmente ocorre é que a maioria dos alunos é jovem e não tiveram contato ainda com pacientes. Quanto mais diferenciada economicamente a região terá diferentes problemas para se resolver. para outros uma forma de ascensão social com melhoria de proventos. desde filmes. os casos paradigmáticos. A forma que deve ser ministrada a bioética é outro ponto a ser muito bem elaborado. Até em países ditos de primeiro mundo para um curso mais próximo do ideal. que acompanhe o aluno desde o seu ingresso na faculdade de medicina. relacionando-o. o comércio não tem local na profissão de médico(37). que na maioria das vezes não surge naquele instante. chegando até à drama- tização. que além de podermos observar o conteúdo do fato podemos observar o sentido de criatividade e a força com que o fato está atingindo o representante.2007. A ementa neste caso pode e deve variar quanto a regionalidade da faculdade de medicina. O aproveitamento de docentes de outras áreas não aumentaria o ônus da universidade. Porém os tópicos fundamentais devem ser mantidos. talvez faz com que dêem valor maior para as cadeiras com enfoque utilitarista. cuidados humanos. antropologia seriam ministrados com especialistas e em formato de mesas redondas dirimir dúvidas. neste momento devemos orientá-los que como profissionais devem pensar nesta ascensão como uma conseqüência e não um objetivo a ser incansavelmente perseguido.entre outros. na deontologia e confirmado pela maioria dos professores médicos de todo o mundo. diapositivos eletrônicos estáticos ou dinâmicos. até a tradicional aula magistral. como Anatomia. procuram objetivar suas atenções para os fatos citados nas aulas de ética/bioética anteriores(27).1(1):76-90 associando-a a um estudo desde o início do curso até o final da residência médica. para conhecerem os deveres e direitos médicos. Aí teríamos alcançado nosso objetivo. Ao passar dos anos e com contatos com pacientes e com fatos sabidos de outros colegas que tiveram problemas junto aos conselhos de medicina. etc. deontologia e diceologia.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . em detrimento a cadeira subjetiva como é a Bioética. às formas de publicidade. mas devemos levar em consideração as dificuldades administrativas que as faculdades ou as localidades onde estão situadas as faculdades. do que aquelas menos diferenciadas. seminários. provas objetivas e trabalhos realizados com consulta em biblioteca e via on-line. Apesar desta variabilidade de recursos devemos ter sempre em mente que devemos suscitar no aluno a importância de sua reflexão para o fato em questão. com conseqüente valor agregado de seu trabalho. porque os problemas locais têm uma razão direta de ocorrência com a qualificação do local vivido pela sociedade nativa. por exemplo. simpósios via internet. não existe número suficiente de professores de bioética com preparo adequado para tal.. os princípios.em conformidade a um padrão ético-social adequado. porém sempre de difí- 88 . com seminários. não ligadas a uma universidade. mas que ao se ver na situação referida se recorde e aplique de uma maneira correta o aprendizado reflexivo adquirido. Então chegaríamos no ponto mais difícil desta troca de informações entre professor e aluno.

sem observar a moral dos alunos e compreende-la.2007. assim como na pós-graduação. Nosso intuito maior é abrir um espaço dentro de toda a enxurrada de informações médicas que são expostos estes alunos para uma ilha. Principalmente quando esta lei vai de encontro à nossa moral e ditames da nossa profissão. Após as explanações pedimos que os 5 representantes se reunissem e deliberassem um momento para o inicio de vida. sem a observância do período contínuo do 1º ao 6º ano do curso. Portanto falar em universalização da bioética.1(1):76-90 cil quantificação pois é de caráter subjetivo muitas das ações bioéticas até o momento. “Bioética nada mais é do que os deveres do ser humano para com outro ser humano e de todos para com a humanidade”. (André Comte-Sponville) 89 . devem ser muito bem estruturadas estas ações. desde a concepção até o nascimento. como por exemplo caracterizar com exatidão o início da vida. a respeito de que momento. sempre é de difícil aceitação desta realidade. sem observar fatores como a regionalização da faculdade. pois aquela minoria que não teve sua opinião aceita como a decisão final. onde poderão encontrar algo que os apóie e conforte nos momentos mais importantes de sua carreira profissional: Curar sempre que possível. Feito isso observamos como seria esperada uma variação de respostas para o mesmo fato. como a discriminização do aborto. cumprí-las. ementa única de ensino. pois não somente existe o ato de ensinar. Posteriormente cada grupo traria sua classificação e nomearia um representante do grupo que faria a exposição dos motivos que levaram o grupo àquela escolha. Certa feita realizamos um trabalho em grupo com 50 alunos do 4º semestre da faculdade de medicina. mas algumas outras ações são objetivas. lembrar que sempre é possível cuidar e fazê-los sempre com respeito e conhecimento. ou seja a arte de ser médico. que seria tido como uma lei para aquela turma em relação aos demais fatos que pudessem vir após a concepção como os embriões excedentes. como é difícil fazê-las para satisfazer a todos e o que também é muito difícil.Ensino da bioética nas faculdades de medicina do Brasil . o que foi muito divulgado na obra de pedagogia conscientizadora de Paulo Freire. ensiná-la como outra matéria do currículo médico. dividindo-os em 5 grupos de 10 alunos e solicitando para que eles refletissem. por exemplo. mas existe também o ato de aprender com o aluno. Nesse momento eles observaram como são feitas as leis. conforme os critérios de Harvard. inicio de vida. cada grupo. como a morte encefálica de um paciente.Centro Universitário São Camilo . haveria vida no ser humano.

2006. Palestra apresentada em vídeo no IV Congresso Mundial de Bioética. Cohen C. 17. Bombi JA. 5. 21.ed. Neves NC. Curitiba: Posigraf. 12.51(1). Thailand. Rego SA. Rio de Janeiro 2003. Camargo MCA.1910. 11. 1997. Bioética 1996.Pessini L(Orgs. São Paulo 2005. nov.Resolução n 101. 6. 16. Princípios de ética biomédica. 4. Minidicionário da lingua portuguesa. London 2003. the science of survival.P Promover o ensino de bioética no mundo.11(2):34-42.Como ensinar bioética. Brasília. 20.140. poder e injustiça: por uma ética de intervenção.Pessini L.) Bioética: alguns desafios. 23. A fundamentação antropológica da bioética.Bioética. 24. 28. Chicago 1970. Medical education.2003. A formação ética dos médicos: saindo da adolescência com a vida ( dos outros) nas mãos. Pessini L.Medical education i United States and Canadá.2002. (Discurso de abertura). 22 (6):370-374. Siqueira JE. São Paulo: Loyola/Centro Universitário São Camilo.Rio de Janeiro: Fiocruz.Giordan A.Situações eticamente conflituosas vivenciadas por estudantes de medicina. 1987.1(1):76-90 REFERÊNCIAS 1. Bioética e longevidade humana. Perspectives in Biology and Medicine.ed. 14. Barchifontaine CP.29 (3): 438-43.Don`t cry for us argentinians: two decades of teaching medicals humanities. Bioética 2002. Revista Brasileira de Educação Médica. Bioética.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA .In: Barchifontaine CP. 2. Felice J. O ensino da bioética nas escolas médicas. Stella R et al. 2006. São Paulo: Centro Universitário São Camilo/Loyola. 4 (1): 65-70. São Paulo:Loyola. 25 (4) :428-432.Muñoz DR. p. 27 (2):114-124.São Paulo:Cremesp. Acuña LE.Childress JF. Tong R.2002. Barbosa de Deus B.Rev Assoc Méd Bras 2005. 25.2007. Jacquard A.10 (1):85-95.639. Potter VR. 29. Neves MC. 26. Discurso gravado no IV Congresso Mundial de Bioética. p. Flexner A. Waltham. O ensino da ética médica e o horizonte da bioética. 18. Felice J.Bioética 1993. p. 31. Patrão.Pessini L. Bankok. São Paulo 2005. 6. Paris: Hachette.Ética para os futuros médicos: é possível ensinar? Brasília: Conselho Federal de Medicina. Potter VR. Muñoz D. Palestra apresentada em vídeo no IV Congresso Mundial de Bioética.A evolução transdisciplinar na universidade: condição para o desenvolvimento sustentável. In:Congresso Mundial de Bioética.Ética médica e bioética: a disciplina em falta na graduação médica. Potter VR. 14). 30.profissionalism.Teaching bioethics in the new millennium: holding theories accountable to actual pratices and real peolple.10 (1): 97-114.Dallari SG.348-55.14 :127-153. O ensino da ética no curso de medicina: a experiência na Universidade Estadual de Londrina. In: Barchifontaine CP.In: Barchifontaine CP.2004. Tóquio. 22. Siqueira JE. 7. 1985.(Orgs.4(1) :47-51. O Mundo da Saúde. Ferreira ABH. Sistema Júpiter. 2007.(Orgs. 2006. Paris: Unesco. Grisard N. Chicago2002. Conselho Regional de Medicina de São Paulo. 90 . São Paulo 1998.Carnegie Foudation for the advancement of teaching. (nov 12-14).Bioethics. (Environmental Education. Bioética 2002. 4-7. 1998. Nicolescu B. Massachusetts. nov. London 2000. São Paulo: Centro Universitário São Camilo: Loyola. São Paulo: Departamento de Informática da Codage/USP. 5. New England Journal of Medicine. Medical Teacher.Bioética e Direito. 8. 13.Interdisciplinary approaches to environmental education.2002. O Mundo da Saúde 1998.Eisele RL. Beauchamp TL. Barr DA. O ensino da bioética no curso médico. cidadania e controle social. Bioética.91-102. 2001. In: Congresso Internacional A responsabilidade da Universidade para com a sociedade.2001. O Mundo da Saúde. 15.Language scientifique et discours politique.Giordan A. 1985.4 (1): 7-16.129.1999-2007 Potter VR.1998. 32. Bioética 1996. Bioética 1996. O Mundo da Saúde. 10.Souchon C. 22 (6):370-374. Garrafa V. p. 19. Anjos MF.Japão. 4-7.Hiromi M. p. Cohen C. 27 (4): 417-432. Paris: Unesco. Bioética e longevidade humana. Lenoir N. p. Journal of Medicine and Philosophy.1:91-95.Centro Universitário São Camilo . 3. Muñoz DR.). 6. Tóquio. 33. São Paulo: Centro Universitário São Camilo/Loyola. Disciplina: MLS0413.Teaching in spanish medical schools.). Medical Humanities. 34.29 (3):432-37. 27. 337-47.Interdisciplinary approaches to environmental education. 9.Problemas atuais da bioética. de 29 jan 2002.O ensino da ética nas faculdades de medicina do Brasil. Bioética 2003.11-30.Souchon C.Japão.26 (2): 66-70.

RESUMEN: Se estudiaran referencias de la beneficencia y su práctica según enfermeros recién-graduados que trabajan en un hospital del Estado. however timid. identificar e problematizar aspectos da prática assistencial frente à observância dos referenciais bioéticos de beneficência e não-maleficência e apontar caminhos para a superação dos problemas identificados.Marchar hacia la observancia de la beneficencia. KEYWORDS: Nursing.com.El ocuparse de las situaciones que frustran la práctica de la beneficencia y 2 . *** Professora Assistente Doutora. Foram identificados dois fenômenos: Convivendo com situações que impedem a prática da beneficência e Movendo-se em direção à observância da beneficência. It aimed to show how participating nurses interpret the reality of their practice.Dealing with situations that frustrate the practice of beneficence and 2 . embora ainda tímidos. tendem a se tornar mais eficientes à medida que forem criadas oportunidades para problematização da prática profissional. ***** Professora Assistente Doutora. Actions towards beneficence. Este estudo evidenciou alguns fatores que impedem os enfermeiros de praticar a beneficência.1(1):91-98 Movendo-se entre o desejo e a prática da beneficência Moving from the desire to the practice of beneficence Marcha desde el deseo a la práctica del la beneficencia Heloisa Wey Berti* Eliana Mara Braga** Ilda de Godoy*** Wilza Carla Spiri**** Silvia Cristina Mangini Bocchi***** RESUMO: O estudo enfocou o referencial da beneficência e sua observância por enfermeiros recém formados que se encontram trabalhando em um hospital público estadual. Pretende demostrar cómo los enfermeros participantes interpretan la realidad de su práctica.UNESP. Departamento de Enfermagem. Beneficence. La asociación de los dos fenómenos levantó la categoría central .UNESP. their involvement and resistance attitudes. The association of the two phenomena raised the central category . tend to become more efficient as opportunities regarding the discussion of professional practice and studies arise. Beneficencia. PALAVRAS-CHAVE: Enfermagem. O método foi qualitativo. aunque tímida.Movendo-se entre o desejo e a prática da beneficência. Faculdade de Medicina de Botucatu . utilizando-se a técnica de grupo focal para coleta de dados. Departamento de Enfermagem.2007. Teve os objetivos de apreender como os enfermeiros participantes do estudo interpretam a realidade da sua prática. tienden a ser más eficientes mientras que se crean oportunidades respecto a la discusión de la práctica y de los estudios profesionales. it also identified and problematized aspects of social practice regarding the bioethical principles of beneficence and nonmaleficence and pointed out paths for overcoming the identified problems. PALABRAS LLAVE: Enfermería. seus envolvimentos e suas atitudes de resistência. Bioética.Moving from the desire to the practice of beneficence. Beneficência.UNESP. and the focal group technique was the tool chosen for collecting data. Os movimentos em direção à beneficência. 91 . E-mail: weybe@uol. **** Professora Assistente Doutora. Grounded Theory was the method used for data organization and analysis. Departamento de Enfermagem. Departamento de Enfermagem. La Grounded Theory fue el método usado para la organización y el análisis de los datos. Este estudio revela algunos factores que perjudican los esfuerzos de los enfermeros en practicar la beneficencia.UNESP.marchando desde el deseo a la práctica de la beneficencia. A qualitative analysis method was used. Two different phenomena were observed: 1 . ABSTRACT: This study examined beneficence references and its practice as followed by newly graduated nurses that work in a State hospital. Faculdade de Medicina de Botucatu . Bioética. A organização dos dados registrados e análise foi feita à luz da Grounded Theory. Faculdade de Medicina de Botucatu . O inter-relacionamento desses dois fenômenos fez emergir a categoria central . * Professora Assistente Doutora. Faculdade de Medicina de Botucatu . Faculdade de Medicina de Botucatu . Se utilizó un método cualitativo de análisis. también identificó y problematizó aspectos de la práctica social respecto a los principios bioéticos de la beneficencia y de la non-maleficencia y precisó las trayectorias para superar los problemas identificados. y la técnica del grupo focal fue la herramienta elegida para recoger datos.Centro Universitário São Camilo . This study brought up some factors that hold back nurses efforts to practice beneficence.Moving towards the observance of beneficence.UNESP. Bioethics. su involucración y sus actitudes de resistencia. Se observaran dos fenómenos fueron observados: 1 .br ** Professora Assistente Doutora. Las acciones hacia la beneficencia.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . Departamento de Enfermagem.

ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . identificar e problematizar aspectos da prática assistencial frente à observância dos referenciais bioéticos de beneficência e não-maleficência e apontar caminhos para a superação dos problemas identificados. ao menos. O registro da discussão foi feito por escrito pelos observadores e por meio de gravação em fitas cassete(6. 91). Os temas que compõem o fenômeno . c) foi apresentado o relatório do estudo aos participantes e discutido o tema: "Caminhos para a superação dos problemas evidenciados". transversal e qualitativo. A finalidade deste trabalho foi a de criar espaços comunicativos e de reflexão ética sobre a beneficência e nãomaleficência no exercício profissional. Neste estudo.Centro Universitário São Camilo . decisão e descoberta(8). Convivendo com situações que impedem a prática da beneficência. até com o objetivo de alcançar a própria salvação(4). assinando o Termo de Consen-timento Livre e Esclarecido. fim em si mesma e não meio. sendo ela.serão apre- 92 . cujo valor íntimo é a dignidade. dos objetivos do estudo e dos referenciais da Bioética. inquietação e sentido de responsabilidade"(p. 160). encaminhamento do projeto ao Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de Botucatu UNESP. b) os autores se reuniram para transcrição dos diálogos.7). utilizou-se a técnica de grupo focal para coleta de dados. bom trato. o qual não permite equivalente. Os códigos de ética que orientam o agir dos profissionais de saúde contêm grande número de prescrições referentes à promoção de benefícios e prevenção de danos à saúde. que nem sempre questiona a ordem estabelecida. que prevê o alívio dos sofrimentos. "é a base do que se poderia chamar de moralidade de assistência social e solidariedade" (p. Movendo-se em direção à observância da beneficência Foi possível a identificação de dois fenômenos: 1 Convivendo com situações que impedem a prática da beneficência e 2 . Apreender como os enfermeiros participantes do estudo interpretam a realidade da sua prática. tendo sido aprovada sua execução. significa atenção.Convivendo com situações que impedem a prática da beneficência . o grupo foi convidado e estimulado a falar sobre sua prática assistencial e suas experiências na instituição e em seguida a refletir sobre essa prática. Procedimentos Metodológicos Adotou-se a abordagem metodológica qualitativa indutiva de exploração. segundo Engelhardt(2). as autoras deste estudo propõem a apropriação destes por enfermeiros de um Hospital Estadual para análise problematizadora da sua prática assistencial. consideramos que os profissionais devam se pautar por práticas responsáveis e solidárias. utilizando os referenciais bioéticos da beneficência e nãomaleficência. Exploratório. ainda persiste uma ética alienada. solicitude. não causar danos".2007.Movendo-se em direção à observância da beneficência. de tamanho reduzido. Grupo focal é um grupo de discussão informal. Os participantes selecionados para comporem o grupo foram 15 enfermeiros que se encontravam atuando em diferentes áreas da instituição e que concordaram em participar da pesquisa. desvelo. Entendendo que o exercício da enfermagem deve fazer uso dos referenciais bioéticos nas reflexões sobre sua prática. e uma ética utilitarista. solicitando e obtendo autorização para o desenvolvimento do estudo. com o propósito de obter informações de caráter qualitativo e em profundidade. a vida. maximizando benefícios e minimizando prejuízos(5). A atitude de cuidado pode provocar "preocupação. à luz da Grounded Theory. Foram obedecidas as seguintes etapas: a) após as apresentações dos participantes. o enfoque será dado ao referencial da beneficência e sua observância por enfermeiros recémformados que se encontram trabalhando em um hospital público estadual. revelando as percepções dos participantes sobre os tópicos em discussão. O referencial bioético da beneficência diz respeito ao bem comum e à solidariedade humana que. A origem do princípio da não-maleficência encontrase em Hipócrates: "cria o hábito de duas coisas: socorrer ou. Embora esses códigos destaquem o compromisso dos profissionais com a transformação da realidade. Foram seguidas as seguintes etapas: encaminhamento do projeto ao diretor do hospital. de acordo com Boff(3).1(1):91-98 INTRODUÇÃO Os referenciais bioéticos têm sido instrumentos importantes para análise de dilemas e conflitos morais que surgem no cotidiano dos profissionais de saúde(1). Entendendo a vida como um valor ético. Socorrer ou cuidar. organização dos dados registrados e análise. Neste estudo. respeitando diversidades.

Observando a falta de comprometimento de funcionários com a assistência Há dificuldades para a prestação de assistência devido à falta de responsabilidade por vezes observada entre o pessoal auxiliar.]então será necessário fazer uma escolha de pacientes e isto não vai atender a todos os que necessitam" Constatando que as ausências de funcionários ao trabalho e escassez de pessoal dificultam a assistência e impedem a beneficência A falta de funcionários gera a necessidade de se estabelecer prioridades para as decisões relacionadas à assistência..]a família observa a necessidade do paciente e nos critica porque não podemos dar conta em razão do reduzido número de funcionários".]a ausência de funcionários no plantão dificulta a assis-tência aos pacientes.]nossa principal dificuldade é a escassez de pessoal de enfermagem porque impede a assistência adequada".. Percebendo que a falta de material impede a adoção de medidas de prevenção aos agravos O número insuficiente de alguns materiais leva o enfermeiro a ter que escolher qual o paciente será beneficiado pelo usodesses materiais. "[. como mudanças de decúbito. "A gente prioriza os cuidados...]com a falta de pessoal preciso estabelecer prioridades para tomada de decisão sobre o cuidado".. "Nessas situações de excesso de pacientes e falta de pessoal de enfermagem há também prejuízos do ponto de vista psicológico". "[.. dificuldades para prestar assistência pela falta de responsabilidade por parte de certos funcionários".... O encaminhamento desses pacientes para serviços com mais recursos nem sempre é possível.. "[.. "[.. não contribuindo. o adiamento de alguns cuidados.Movendo-se entre o desejo e a prática da beneficência .. "C" e "D" e respectivas categorias. "Muitas vezes o melhor seria o encaminhamento dos pacientes para serviços com mais recursos.. O enfermeiro convive muitas vezes com funcionários indiferentes e displicentes. "Temos funcionários que são indiferentes ao trabalho[... que não consideram as necessidades de cuidados de seus pacientes.]" "São muito freqüentes as faltas e licenças de funcionários e isso tem prejudicado a assistência". mas isso pode não contemplar todos os necessários". "[. suscitando críticas pelos familiares que percebem a relação entre as necessidades dos pacientes e a falta de pessoal. "[. porém nem sempre existe esta possibilidade". ainda. mas não há".. a úlcera de decúbito poderia ser prevenida se houvesse colchão de ar para todos os que necessitam. "[.. sendo que as escolhas feitas em benefício de um paciente poderão ser em detrimento da atenção a outro paciente. auxílio ao paciente nas deambulações... Com isso. mas a gente não consegue colocálas em prática[... muitas vezes. A ... 93 . com prejuízos para os pacientes. e isso é que é o pior". para a beneficência. causando malefícios". "[.]se houvesse o especialista o atendimento seria adequado e erros seriam evitados".. com isso.2007.]" "[. impedindo a realização de todas as atividades necessárias".]para muitos pacientes seria possível tomar algumas medidas preventivas.1(1):91-98 sentados a seguir nas letras "A".]qualquer escolha que eu faça poderá beneficiar um paciente em detrimento de outro... "[.. "Quando abrem leitos extras a gente não consegue fazer as mudanças de decúbito conforme as necessidades dos pacientes".]por exemplo. "Temos. sendo necessário. Refletindo sobre a incompatibilidade entre número de leitos e número de funcionários Abrir leitos extras sem o número de funcionários necessários para os cuidados impede a prestação de assistência adequada.. que faltam ao serviço e tiram licenças freqüentes. "B". os quais são internados já apresentando comprometimentos devido ao atendimento inadequado.]o médico plantonista do PS era de outra especialidade sem experiência no diagnóstico de enfarto[..]é freqüente a gente receber paciente enfartado procedente do PS sem uso de medicação específica já tendo desenvolvido complicações.]" "[. a beneficência fica comprometida.]" "Também há funcionários displicentes que não consi-deram que os pacientes necessitam de cuidados[.Centro Universitário São Camilo . "[.Impedimentos à beneficência Percebendo dificuldades decorrentes da desorganização do sistema A falta de diversos especialistas em serviços de prontosocorro gera complicações maiores no estado de saúde dos pacientes..]existem ainda as situações onde se abrem leitos extras sem o aumento de funcionários e isso impossibilita a adequada assistência"..

Centro Universitário São Camilo . certos cuidados são adiados e isso não beneficiará o paciente. deixo de fazer outras coisas para atendê-lo". Muitas vezes. "[..]desejando oferecer alimentação para o paciente ou minimamente conhecer se este tem condições para se alimentar. verificam que são estabelecidas prioridades de cuidados. podendo caracterizar uma situação desumana e maleficente. opta por atender o médico para não gerar conflitos. "Deixo de realizar atividades de contato direto com o paciente para fazer outras coisas que consideram mais importantes". podendo trazer prejuízos ao paciente. Percebendo que rotinas estabelecidas impedem a prática da beneficência e invertem prioridades Os enfermeiros são cobrados por atividades administrativas e burocráticas. B .. dificultando o trabalho desse enfermeiro que. abdicando o enfermeiro do contato direto com o paciente. "Muitas vezes temos que priorizar o banho diurno para os pacientes conscientes e o noturno para os pacientes entubados e isto é desumano"[. resolução de problemas.]temos que desempenhar muitas atividades administrativas/burocráticas". "[. "Às vezes... "A rotina na UTI estabelece que o banho deve ser no plantão noturno e isso é ruim para o paciente". especialmente os burocráticos. entendidas pela instituição como prioritárias. com freqüência. devido a essas prioridades. entendem certas situações como desumanas. "[. "[... com isso. e acabamos delegando as atividades assistenciais para auxiliares e técnicos de enfermagem". os banhos são dados na UTI depois da meia..Envolvimentos do enfermeiro com a não observância da beneficência Delegando o cuidado do paciente a outro membro da equipe por não poder fazê-lo. "[.. sentindo-se. acabei solicitando aos funcionários da equipe de enfermagem para darem a assistência porque eu não poderia fazê-lo" "[. os enfermeiros acabam delegando a assistência aos técnicos e auxiliares de enfermagem. para evitar isso.. "[. "[. "Caso eu me recuse a permanecer ao lado do médico quando ele me solicita..2007... "[.]somos muito solicitados a resolver os mais diversos problemas. as rotinas estabelecidas nos impedem de praticar a beneficência e isso pode causar sofrimento ao paciente".]às vezes o médico me pede que o ajude em tarefas burocráticas que são dele".1(1):91-98 Percebendo a dependência que o médico tem do enfermeiro e suas implicações Há médicos que exigem a presença constante e nem sempre necessária do enfermeiro ao seu lado. como as UTIs. pois se assumirmos o cuidado direto da alimentação do paciente deixaremos de atuar em uma outra situação problemá-tica para a qual estamos sendo solicitados". "Muitas vezes. causando prejuízo ao paciente pela demora do atendimento e prejuízos para o hospital"...] 94 . "Sou cobrada para realizar atividades consideradas prioritárias pela instituição". "[. três conjuntos de materiais para uso em respiradores foram abertos e não puderam ser usados. então.]essas coisas acontecem por imperícia do profissional e comprometem a assistência".noite em situação difícil porque o paciente está apresentando dor"..]um médico utilizou para o procedimento de entubação sete cânulas".. Observando desperdício de material e implicações para a beneficência Situações de imperícia profissional levam ao desperdício de materiais. "Outro dia.]esta é uma situação que nos deixa em conflito...]como enfermeiros temos que realizar múltiplas atividades: assistência.... "Existem médicos que exigem minha presença permanente ao seu lado e isso dificulta meu trabalho.]entre mudar de decúbito e introduzir sonda para alimentação a prioridade é a sondagem". mas sentindo-se em conflito consigo mesmo Ao serem solicitados a realizar múltiplas atividades e tendo que resolver problemas burocráticos diversos. Tendo que estabelecer prioridades nas unidades mais complexas. vai gerar um grande conflito.. Em Unidades mais complexas.]mesmo que a gente explique que está fazendo outra atividade há insistência por parte dele (médico) em ser atendido". em conflito.. burocracia"...ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA .. "[.]a UTI tem pacientes complexos e é necessário estabelecer prioridades para os cuidados"[.]o cuidado acaba sendo é deixado de lado". até porque minha presença nem sempre é necessária".

"[. D . "[. "[.]o gostar do que se faz permite ampliar a percepção das necessidades do paciente". Se a escolha for não comparecer a reu-nião.]a confiança vai depender de se sentir seguro na instituição". porém necessário ao benefício do paciente. fica muito angustiada". quando tenho que optar"[. o enfermeiro não é bem visto Enfermeiros ficam "mal vistos" em situações de quebra de rotinas ou normas da instituição em favor de pacientes. 95 . Percebendo-se angustiado quando não pode fazer o bem Angústia.]não é reconhecida a beneficência quando se faz o mínimo"... O fenômeno .Movimento do enfermeiro em direção à beneficência e não maleficência Percebendo a necessidade de cobrar de outros profissionais o cumprimento de suas obrigações e suas limitações profissionais O enfermeiro cobra dos outros profissionais da equipe de saúde o cumprimento de atribuições.. e passar visitas aos pacientes internados para avaliar necessidades de cuidados têm a ver com a segurança da permanência do profissional na instituição.Centro Universitário São Camilo .2007.] "[. mas isso gera importante consumo de tempo. "A falta de envolvimento com o trabalho e com o paciente leva à falta de percepção". mas sentem-se impotentes quando o profissional solicitado não considera seus pedidos e observações.]tenho conflitos sobre o que fazer para contribuir mais com a assistência.Sentimentos expressados pelos enfermeiros.movendo-se em direção à observância da beneficência . "Tem muitas situações do nosso cotidiano profissional que impedem o benefício aos pacientes com conseqüente angústia. quando estou sozinha. rotineiramente. mas apenas com as atividades burocráticas". decorrentes do seu envolvimento em práticas que não observam a beneficência Questionando escolhas e prioridades que lhes são impostas Os conflitos que surgem entre escolher participar de uma reunião para a qual foram convocados. frustração e revolta da gente". Exercem um papel fiscalizador. há profissionais sem envolvimento com a profissão". não fazer o bem.. porém sempre há como melhorar e não apenas realizar uma obrigação".. a seguir: C . "[....Movendo-se entre o desejo e a prática da beneficência .]existem diferentes métodos de trabalho. Percebem que é preciso gostar do que se faz para se estar mais envolvido e compromissado com a profissão. ficando sujeitos a certos julgamentos caso não compareçam. contrariando normas do hospital".]a gente tem dificuldades para se sentir confiante A . Pessoas que optaram pela enfermagem como profissão pela facilidade de se conseguir emprego envolvem-se mais com as atividades burocráticas.. "[. o que possibilita uma percepção ampliada das necessidades do paciente..1(1):91-98 Percebendo o envolvimento do profissional com o seu trabalho como condição para a beneficência e para sua própria satisfação Entendem que o envolvimento do profissional com a sua profissão tem uma dimensão ética.é apresentado no tema "A" e suas categorias. "A gente.Atitudes de resistência do enfermeiro e enfrentamento de julgamentos Percebendo que alterando rotinas pré-estabelecidas em benefício dos pacientes. "Como coordenadora de unidade. frustração.. revolta e impotência são sentimentos decorrentes das impossibilidades de no dia-a-dia fazer o bem.. "Sou tida como chata por permitir a entrada de vários membros da família para a visita. preciso escolher entre participar de reuniões ou visitar os pacientes. "Vocação é uma questão ética pois quando se faz aquilo que a gente gosta o benefício é maior. "Os pacientes internados na minha unidade incomodam outras pessoas de outras unidades porque têm mais liberdade". "É a empregabilidade no setor da enfermagem que conduz pessoas a esta profissão".. no entanto.. Percebem que esse estado emocional acaba tendo reflexos nos seus relacionamentos familiares e/ou sociais. "A gente se sente impotente e isso vai ter reflexo no nosso relacionamento pessoal e familiar". serei considerada não participativa e se a escolha for deixar a assistência haverá problemas com a minha consciência". apenas o mínimo. "Os profissionais que têm esta visão só do emprego não se preocupam com o atendimento das necessidades bio-psico-sócio-espirituais dos pacientes.

agregando intervenções específicas (cuidar dual).]muitos consideram isto como fiscalização do trabalho deles". Em tais circunstâncias.. aponta não apenas para uma condição profissional frágil. porém essa preocupação não é percebida em relação aos materiais de uso mais rotineiro para o cuidado.1(1):91-98 "Perco muito tempo correndo atrás do médico e do serviço de nutrição para que prescrevam. pode ser conceituado como"seqüência dinâmica e sistematizada de ações necessárias e suficientes para a construção.]". mas que poderão ter conseqüências nefastas para o seu futuro na instituição.].. 159). Porém. ações complementares e interdependentes do conjunto multiprofissional (assistir-cuidar) desenvolvidas em contextos institucionais peculiares. na qual muitos enfermeiros com certa freqüência se percebem. Existe demora excessiva para consertos de materiais e equipamentos... A angústia em ter que fazer sua escolha entre as opções que lhes são apresentadas surge do conflito íntimo entre proporcionar o bem ou omití-lo. de acordo com Ide(9). desempenho e validação do trabalho em equipe de enfermagem. em determinadas situações..ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . porém. explicados pelas dificuldades com o trabalho em equipe multiprofissional e pelo seu reduzido espaço de governabilidade.Centro Universitário São Camilo . "Muitas atividades poderiam ser feitas pelo oficial administrativo ou mesmo por outro membro da equipe como receber documentos." (p. A observância das regras morais sobre o agir profissional estabelecidas nos códigos de ética.]entendo que muitas vezes necessito exercer este papel fiscalizador.movendo-se entre o desejo e a prática da beneficência. pois eles se esquecem de tomar suas condutas". A situação de baixa auto-estima e essa posição subalterna na equipe multiprofissional. os enfermeiros vão se envolvendo com a não observância do princípio da beneficência. existem equipamentos para cateterismo cardíaco que quebram e necessitam aguardar um período prolongado para o conserto causando demora e adiamento da cirurgia". Isto faz emergir sentimentos de impotência. escolhendo a opção mais próxima dos centros de poder.. Nesta pesquisa.. a disposição para fazer o bem e agir de forma correta podem. "[. com certa freqüência. Nessas situações assumem seu papel de coordenador do processo de cuidar que. não pelo enfermeiro". os enfermeiros comportam-se passivamente.o cuidado. em outras situações. Atuando nesse cenário. atender telefone. advogando em favor do doente ao exigirem dos demais profissionais envolvidos com a assistência para que cumpram com seus deveres e obrigações perante o doente. a desorganização do sistema de saúde regional. Delegam suas atribuições ligadas ao cuidado do doente para outros membros da equipe de enfermagem sem o mesmo preparo e estabelecem certas prioridades para dispensar sua atenção. para que corrijam etc. Discutindo a temática A identificação desses dois fenômenos e seu inter-relacionamento fez emergir a categoria central . Ao mesmo tempo em que se percebem tímidos em suas atitudes. as carências de recursos humanos e materiais. os quais são de custos bem menores.. "[. "A gente nota que nesta instituição há mais organização. agem de maneira ambígua.[.. em diversas situações ou condições do cotidiano profissional. Os profissionais de saúde de maneira geral. as quais eles mesmos questionam. que são importantes para a assistência. se sentem impotentes para praticar o bem e impedir o que se considera mau para o doente sob seus cuidados. equipamentos mais simples para a prestação de cuidados de enfermagem estão sempre em falta". inclusive alienando-se do seu objeto . mas também para uma 96 .]e a gente ainda se sente impotente quando não consideram as informações e pedidos que estamos fazendo pelo paciente". porém no aspecto burocrático precisa haver uma reor-ganização".. receber recados[. o despreparo e a falta de compromisso social e ético de alguns profissionais foram fatores apontados como responsáveis pelos impedimentos à beneficência. "Nesta instituição existem equipamentos de alta tecno-logia e de alto custo.. atribuindo-se funções burocráticas a um oficial administrativo e não ao enfermeiro. A instituição está muito atenta à aquisição de equipamentos de alto custo. podendo causar prejuízos ao doente. porém é função das pessoas realizar suas atividades corretamente". serem dificultadas e até mesmo inviabilizadas. "Acho que resolver o que não ficou adequado é minha função. executam movimentos em direção à beneficência.]por outro lado. frustração e culpa pelo não realizado.2007. temendo atitudes mais coerentes.. atrasando o tratamento e a recuperação do doente. Avaliando criticamente a instituição onde trabalham Há a necessidade de uma reorganização administrativa da instituição. "[. "[.

seu senso de cidadania e de poder.Movendo-se entre o desejo e a prática da beneficência . sentem-se excluídos do sistema e submetidos a uma ordem estabelecida. para uma condição de cidadãos submissos a uma dada realidade. na qual a vontade humana se submete. sua autoestima. seus envolvimentos e suas atitudes de resistência. Observa-se. durante toda a fase de formação do enfermeiro. Como docentes de um curso de graduação em enfermagem. embora ainda tímidos. profissionais de saúde e doentes hospitalizados. a vulnerabilidade de todos: instituição hospitalar. se revelou bastante eficiente para a criação de espaços comunicativos e de reflexão. Seus movimentos em direção à beneficência. passo importante para a superação das dificuldades. se compartilhada. por meio do desenvolvimento de sua força moral e das competências necessárias à atuação profissional centrada na coordenação do processo de cuidar. 97 . Nesse sentido.1(1):91-98 cidadania comprometida. acabam por se envolver com práticas que ferem a moral e a dignidade. este estudo nos trouxe como contribuição o despertar para a necessidade de fortalecer ainda mais. Por outro lado. embora sejam capazes de avaliálos criticamente. não se descarta que os demais membros da equipe de saúde e a administração sintam-se desamparados sem a atuação cuidadosa e preparada do enfermeiro. tendem a se tornar mais eficientes à medida que forem criadas oportunidades para problematização da sua prática. assim. Estes não se vêem como sujeitos de processos de mudanças. Nesta realidade. por nós utilizada. Essa vulnerabilidade. da instituição e dos profissionais que nela atuam. CONCLUSÃO Este estudo possibilitou-nos compreender a experiência de enfermeiros frente à observância do referencial da beneficência.Centro Universitário São Camilo . ao contrário.2007. a estratégia de grupo focal. ou seja. O poder de resistência dos enfermeiros se mostra ainda pequeno e estes se sentem em desvantagem em relação a outros membros da equipe e às instâncias administrativas superiores da instituição. evidenciou fatores que impedem os enfermeiros de praticá-la. poderá encorajá-los a buscar condições adequadas para otimizar a beneficência do cuidado a todos os doentes e a promover a integridade e dignidade do doente.

ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . 2001. 1986. Beck. André MEA. Rev. 7ª ed. Problemas atuais de Bioética. Carlini-Cotrim B. 8. A ética e o ensino de ética na enfermagem do Brasil. Pereira MLD. Ide CAC. Lüdke M. Berti HW. Engelhardt Jr HT. Santa Maria: Palotti. 3 Boff Fundamentos da bioética. 98 . Ensinando e aprendendo um novo estilo de cuidar.2007. A coordenação do processo de cuidar. Barchifontaine CP. In: Ide CAC. Saber cuidar. Spiri WC. 1998. O Mundo da Saúde.ed. 1993. Metodologia da pesquisa na saúde. L. Petrópolis: Vozes. 551p. 3. 30(3): 448-454. São Paulo: Loyola. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: Loyola. Nietsche. 30(3): 285-293. 1996.1(1):91-98 REFERÊNCIAS 1. 6. E A. Domenico EBLD. 9.199p.Centro Universitário São Camilo . 141p.2001. São Paulo: Atheneu. Pessini L. 1996. São Paulo: EPU. 2001. Potencialidades da técnica qualitativa grupo focal em investigações sobre abuso de substâncias. Leopardi MT. 2. 518p. Os princípios bioéticos e os direitos dos usuários de serviços de saúde. 2006. 7. MLC. Germano RM. 5. Saúde Pública. São Paulo: Cortez. 4.

Bioética-liberdade. Ésta es la belleza y la especificidad de la libertad.Centro Universitário São Camilo . ABSTRACT: Freedom in bioethics knowledge. Membro do Comitê internacional de bioética da UNESCO. Bioética-libertação. Botucatu. opção de valores. Bioethics-liberation. Universidade Estadual Paulista. que tem a bioética como ponte. Esta é a beleza e a especificidade da liberdade. although not absolute.un puente para la libertad William Saad Hossne* RESUMO: A liberdade na bioética. This is freedom's beauty and specificity. because it has as a limiting factor only ethics. PALAVRAS-CHAVE: Bioética-referenciais. aunque es no absoluta. embora não absoluta. es una libertad organizadora especial. Bioética-libertad. São Paulo. 99 . which has bioethics as a bridge. RESUMEN: La libertad en el conocimiento bioético. and also because it is a freedom for opting in terms of values.a bridge to freedom Bioética . KEYWORDS: Bioethics-guidelines.2007. UNESP. y esta por definición exige la libertad.1(1):99-104 Bioética . Professor emérito da Faculdade de Medicina. é uma liberdade categorizada especial. que tiene la bioética como puente. porque tiene solamente la ética como factor limitador. Bioética-libertación. e também porque é uma liberdade para opção. PALABRAS LLAVE: Bioética-pautas. y también porque es una libertad para optar en términos de valores. Coordenador do programa de mestrado em bioética do Centro Universitário São Camilo. * Médico. which by definition demands freedom.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA .ponte para a liberdade Bioethics . Bioethics-freedom. porque tem como fator limitante apenas a ética. is a special categorizing freedom. exige liberdade. que por essência.

A liberdade aparece. 1.faculdade de cada um se decidir ou agir segundo a própria determinação. Pelo uso comum. De acordo com o dicionário. porém. ilegítima. como preconizava Potter (1971)(1). intimamente associadas. ela nunca é tida como "absoluta" (que não depende de outrem ou de uma coisa. mas sempre com alguns limites. isto é. como forma de poder. Mesmo aqui. assinalada como facul- dade. faz-se. dentro dos limites impostos por normas definidas". ou que efetivamente expressa. e libertar significa "dar liberdade a. pois. mas que. um ser que não está impedido de expressar. agora não pela afirmação "positiva". pela negativa. consistem em restrições à liberdade" e continua "e a liberdade é o maior dos bens políticos". ainda que de passagem. pode ser entendida. Continuando a utilizar como ponto de referência o dicionarista. prática. mas desde já fica assinalada a expressão "autodeterminação". Para tornar mais explícita a proposição. segundo ele: "o governo e o direito. conseqüente à libertação. a expressão liberdade. associação com a idéia de ser livre. significa: "caráter ou condição de. bem político. no sentido filosófico. mas estabelece limitações ao conceito de absoluto. digamos. poder agir. Libertação é o ato ou efeito de libertar-se. mas o que não é proibido por lei fator limitante. algum aspecto de sua essência ou natureza". vemos que liberdade. analisemos. a autodeterminação). Com a libertação pode-se vir a ter a faculdade da liberdade. não tudo. quando não se tem liberdade é preciso. antes de mais nada. Contudo. libertar-se. tem limites e condicionantes "normas definidas". Este poder agir. autodeterminação seria "princípio segundo o qual um Estado tem o direito de escolher sua própria forma de governo ou ideologia". aqui. ainda. imoral". Ao passo que liberdade é uma faculdade . mas têm significado próprio. ainda. Por essa rápida intromissão no campo do dicionarista.Generalidade Libertação e liberdade estão. liberdade traz associadas faculdade e poder efetivo (praticar. de imediato. em sua própria essência. mas pela "negativa".. liberdade seria equivalente a autodeterminação. na medida em que tem limitação "anormal". Esta acepção será retomada mais adiante ao falarmos de bioética. e continua: "quanto à liberdade humana. temos aqui. além de ser ponte para o futuro. Bertrand Russel(3)... "ilegítima". cria outro qualificativo para liberdade . Contudo quando se consegue a libertação é preciso ter condições para exercer a liberdade. outra acepção para liberdade. A bioética pode ser ponte para se obter liberdade por meio da libertação e pode ser a ponte para o exercício da liberdade já existente ou conquistada pela libertação. que liberdade pode ser entendida como faculdade de praticar tudo quanto não é proibido por lei. vale enfatizar. obviamente. livrar(se) da influência de(2).a liberdade é um bem. determinação e autodeterminação). repetindo os dicionaristas(2). Prosseguindo nesta linha. se verifica que a liberdade também não é absoluta. o problema consiste quer na determinação dos limites. mas este poder. estendeu-se este princípio para o indivíduo que goza de liberdade.2007.1(1):99-104 INTRODUÇÃO Creio que. Mas. pois é faculdade para praticar. verificamos que liberdade está associada à noção de "faculdade. Aqui. pois "liberdade é poder agir". de acordo com o dicionário. começando por uma. livrar(se). Neste sentido. não é absoluto. Quando se fala de liberdade. em seu livro "Caminhos para a liberdade". tem condicionantes. condição. 100 . também. Em outras palavras. o dicionarista assinala. alguns aspectos relativos à liberdade. por outra. É evidente que para se ter liberdade é preciso libertar-se. como condição. "imoral". mesmo nessa condição a liberdade tem limitantes.. segundo a própria determinação (novamente. na seio de uma sociedade organizada. pois liberdade é apresentada como "supressão ou ausência de toda a opressão considerada anormal. sem entrarmos na avaliação de cada um destes termos. independente).). Mas livre para o quê? Dissemos. poder. O dicionarista dá.1 Liberdade e libertação . A liberdade permite exercer um poder.Centro Universitário São Camilo . a bioética é uma ponte para a liberdade e para a libertação. ou por ambas (liberdade e libertação) ao mesmo tempo. tornar livre".ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . implica "estabelecer limites". que liberdade é uma faculdade para decidir ou agir segundo a própria determinação. quer na definição das potencialidades".

Em seu artigo 1º. e no artigo 20. liberdade de crença. Assim.1(1):99-104 Não é. . é também um direito. Em seu preâmbulo. ao estipular "Ninguém será mantido em escravidão ou servidão". seja de Rousseau. Ele é taxativo: não matarás. "liberdade comercial". de certa forma são disposições limitantes ou condicionantes da liberdade. a idéia aqui contida é melhor explicitada no artigo 4º. No artigo 14. E. Assim. liberdade da associação e não raramente. Finalmente no artigo 30 se estabelece que "Estado. poder de agir. A Declaração Universal dos Direitos Humanos faz várias referências explícitas quanto a liberdade. Mais adiante. Tomemos como ponto de referência a Declaração Universal dos Direitos Humanos. para ilustrar. porém não absoluto. Note-se. Assim. No artigo 19. liberdade de reunião e associação pacíficas. liberdade de imprensa. de Hobbes tais do ser humano. se expressa o direito à liberdade de pensamento. sempre. Vale repetir. Ai estão. liberdade de religião. liberdade de opinião e expressão. o "de" é substituído ou sub-entendido como "para" (liberdade para falar. "liberdade provisória".. A esta altura.2007. vale indagar se liberdade. o mandamento não seria somente imperativo (ou mesmo recomendativo) se o verbo fosse colocado no presente (não mates. sejam de natureza contratual.de residência. b) liberdades estas que seriam: . Deus disse: "A toda árvore do jardim comerás livremente. se expressa o direito à liberdade de locomoção e residência. parcial. afirma o "advento de um mundo em que os homens gozem de liberdade de palavra. Já o artigo 29 reza que "no exercício de seus direitos e liberdades. além de faculdade. consciência e religião. e sua enunciação se inicia com NÃO. não é absoluta. disse Deus: "Façamos o homem à nossa imagem. de limitantes ou condicionantes. Portanto a liberdade concedida por Deus ao homem. grupo ou pessoa não pode praticar qualquer ato destinado à destruição de qualquer direito e liberdade aqui estabelecidas". "liberdade financeira" e o mais comum: "liberdade de pensamento. de liberdade) imenso.. liberdade de linguagem.de locomoção. Mas também sem caráter absoluto. sobre as aves dos céus.Centro Universitário São Camilo . importante-a do livre-arbítrio. liberdade para viajar). o homem surge dotado de domínio (vale dizer. É verdade que. ainda no Prêambulo. em cada uma dessas esferas ou áreas determinadas pelo adjetivo ou pelas expressões "de" e "para". prática. desde o surgimento do ser humano. exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem". criatura à imagem de Deus. sobre a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra". os 10 mandamentos que. sempre foi assim. fala em "liberdades fundamentais do homem". ao que tudo indica.de pensamento. Em Gênesis 1 (1-3)(4). reduzida. é liberdade para algo ou alguma esfera. não é absoluta. Vale assinalar.de consciência. não apenas pelo NÃO mas pelo uso do verbo no tempo futuro. "liberdade didática". ainda que. legal ou moral. de crença e de liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade. é colocado que "todo homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidas nesta Declaração. . mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás". condição. não roubes). dos 10 mandamentos 8 são absolutamente restritivos ou proibitivos. pois. a Declaração dos Direitos Humanos estabelece: a) a existência de liberdades fundamen- 101 . pois em Gênesis 2 (2:17)(4). . mas afirma-se que "todos os homens nascem livres". a liberdade pode ser plena. ou de Locke. conforme nossa semelhança. sem razão que a expressão liberdade é quase sempre adjetivada ou seguida das expressões "de" e/ou "para". Cometido o pecado de Adão e Eva. sobre os animais domésticos. todo homem estará sujeito apenas (grifo meu)? às limitações determinadas pela lei. pois. ainda. o caráter nitidamente restritivo. hão de convir que a noção de liberdade embutida nas idéias desses autores é também acompanhada. bem. Em suma. com limitações. Há. tenha ele domínio sobre os peixes do mar. um limite ao domínio (à liberdade). 1948(5). Os adeptos das idéias.Bioética: ponte para a liberdade . "liberdade vigiada". A liberdade não é absoluta. ampla. total ou restrita. ao homem foi ainda concedida uma liberdade enorme. não roubarás. No artigo 18. não aparece a palavra liberdade. No artigo 2º.

ao se referir à liberdade de pensamento. A "angústia da opção". isto é. exercitar ética.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . se não definir. estatutos de direitos e deveres (deontologia). é muito mais complexo do que simplesmente obedecer a Códigos de moral e/ou a disposições legais segundo padrões já estabelecidos. de qualquer preconceito. em que valores podem estar em conflito. exigem algumas condições importantes para o devido processo de avaliação e opção. ética implica avaliação. porém. nada. acatá-los. pois. livremente.de religião. completa ou pode ser restrita (mesmo após limites). em determinada situação. Mas não é absoluta. Em suma. é. A expressão pré-conceito deve aqui ser entendida em Liberdade e libertação . exige liberdade e. A ética (e a bioética) não admite restrição à liberdade de opção. fazer opção. e) em vários artigos. enquanto cidadão daquela sociedade. Pode ser plena. escamoteada. portanto. Não se deve em nome da angústia (repita-se. no que se refere à sua essência. cabendo a cada um de nós. Moral e ética têm em comum o fato de lidarem com valores. poder. Na ética. . aprender a elaborar essa "angústia" é um processo de libertação. levando à opção e não à obediência pura e simples de normas de moralidade. vale repetir. no exercício da bioética. e daí bioética. . faculdade.de opinião. fazer opção. direito.bioética como ponte E o que tudo isso tem a ver com Bioética e como Bioética pode ser ponte para liberdade e libertação? Antes de mais nada há que. Em primeiro lugar. A ética (e a bioética) é livre. Em sua essência. Sem liberdade não há. . fazer opção. procure se despir. antes de mais nada. prática. juízo de valores. diferente da antigamente denominada "neurose de angustia" freudiana. além do seu campo de atuação. se a mesma é examinada.Centro Universitário São Camilo . deve ser "elaborada". mas sempre vinculado à determinada área e. levando cada um de nós a "mergulhar" para dentro e para fora de si. não absoluta. de locomoção. Ao passo que ética. como tal. poder. São valores que devem ser introjetados. de novo: liberdade. É incompatível a liberdade de opção. de crença etc. no exame do conflito de valores.de expressão.2007. condição. Diante de situações de conflito entre valores. Fazer opção entre valores tem. antes de mais 102 . total. à qual se soma a angústia da responsabilidade. mas sempre seguida de algum fator ou condição limitante. Não são "escolhidos" individualmente e sim pela sociedade. que cada um de nós. "preconceitual" e/ou "preconceituoso". avaliada e/ou anali-sada com juízo pré-concebido. Esta elaboração obriga a revisão e reflexão crítica de valores. constitui um processo de reflexão e de juízo crítico sobre situações. reflexão crítica. nem ética. liberdade pode ser entendida como faculdade. distingue-se de moral. ao menos caracterizar a bioética. porém. o juízo e/ou a reflexão crítica. o "valor" é extrojetado. cabendo a "escolha" a cada um de nós. d) esta limitação é apenas restrita àquelas determinadas pela lei e exclusivamente para o fim de assegurar o devido reconhecimento às liberdades (o direito) de outrem. Assim. é indispensável. Mas valores morais são valores consagrados pelos usos e costumes. Por outro lado. O exercício da bioética pressupõe. mas estão sujeitas a limitação. A angústia da opção. nem bioética. E a liberdade é "de" ou "para". próprias da ética (bioética). coerção e/ou falsidade. não se pode confundir ética (e bioética) com códigos moralistas. mesmo porque a liberdade de um pode interferir na liberdade do outro. para o quê? Para se poder. . trabalhada. expressando a liberdade como direito. Em outras palavras. A ética (e a bioética) não admitem coação. uma contrapartida: a liberdade se acompanha de "angústia" e de responsabilidade. longe de ser camuflada. para poder equacionar os conflitos de valores que estão em jogo e ao fim realizar a opção". livremente. Mas liberdade para o quê? Liberdade para se poder.1(1):99-104 c) essas liberdades são amplas. bioética é ética e. tanto quanto for humanamente possível. parcial ou reduzida. como condição sine qua non.de reunião e de associação. Pelo contrário. salutar) abrir-se mão da liberdade. condição. liberdade como direito. A Declaração é clara. bem.

a priori. como já referido no início do texto. Sem dúvida. Qual liberdade. como condicionamento prévio. sem dúvida. mas podem ser "limitantes". Além do mais. do comunitarismo e outras tantas. em nossa opção. para a opção. do pragmatismo ou do individualismo ou do comunitarismo etc. Mas deve ser liberdade ampla. conflito de valores com a idéia preconcebida ("parti pris") de que o equacionamento deverá. a alteração da opção se a mesma se evidenciar equivocada ou a menos adequada. O exercício da bioética nos leva constante e continuamente a nos "revermos". este preceito é forte fator para libertação. melhor "condicionantes". pois. porque dela fazem parte. dizendo que em matéria de bioética deve-se adotar a máxima "Penso. A expressão se aplica pois ao preconceito no sentido pejorativo de intolerância. mas não é. seja qual for o significado da palavra. a beneficência. ainda que não tenha caráter pejorativo. o "parti-pris". a opinião do outro e obviamente o outro.Bioética: ponte para a liberdade . pois. a austeridade. estar vinculada e/ou subordinada a "conclaves". a ideologias partidárias e nem pode servir de instrumento a qualquer outro fim que não seja ético. Mas libertação para quê? Para. a solidariedade.Centro Universitário São Camilo . a opção de valores deve levar em conta a autonomia (autodeterminação) do ser humano. pré-concebida. a não maleficência. logo. no caso. conquistar liberdade. a rever valores e daí à busca de mais "sabedoria". a priori. a prudência. a justiça. na verdade. Contudo. verifica-se que tais "condicionantes" são. Assim posta a questão. do utopismo. também. suspeita. ela não é absoluta. religiões etc. lidando com valores humanos. Na verdade. "limitantes éticos". como libertação. tais como agradar ou desagradar a quem quer que seja.1(1):99-104 suas diversas acepções. parece um jogo de palavras. A opção não pode. levando à opção. por isso. diferentemente do que foi dito a respeito das outras formas de liberdade. da liberdade de opção. Pode soar como paradoxal tal afirmação. Esta liberdade. o exercício ético.2007. também. isto é. é um processo e/ou mecanismo de libertação. creio válido incluir uma outra forma de preconceito. a eqüidade. É o "porti pris" atuando como fator limitante. prevê "grandeza" por parte de cada um de nós para refazer e reconhecer a inadequação da opção realizada. por outro lado. A meu ver. uma ponte para libertação. É uma liberdade especial. ser exclusivamente elaborado à luz do utilitarismo. É preciso ter-se humildade para respeitar e levar em conta. o estado de vulnerabilidade. "princípios" ou "referenciais conceituais e doutrinários da própria bioética". plena. como opinião fechada. é um processo de libertação. esta da bioética. pode-se parodiar Descartes. O respeito judicioso ao pluralismo e a outro são também outros processos ou mecanismos fundamentais de libertação. Como força de expressão. do ponto de vista bioético. respeito ao outro e à opinião do outro. Assim. os limitantes ou condicionantes" são os "fundamentos". a bioética exige. abre-se mão. antes de mais nada. A liberdade da ética também tem limitantes. seria. Além disso. Aprender e desenvolver tal preceito da "grandeza" é um bom processo de libertação. intolerância. a ética (e a bioética) pressupõe outra condição essencial. têm papel relevante na ética as correntes do utilitarismo. aversão a outras raças. o juízo de valor. não pode subordinar-se a questões espúrias. A bioética. 103 . para o equacionamento de conflitos de. do pragmatismo. 1: idéia pré concebida. Ora. absoluta? Também esta liberdade não é absoluta. o outro existe". Que condicionantes e limitantes existem? De que natureza são? São todos de natureza e de essência ética (e bioética). credos. em conseqüência. os elementos guias. o processo de desprendimento ou despojamento do pré conceito. analisar. por isso mesmo preferimos denominá-los de referenciais(6) e não de princípios. Liberdade "de" ou "para" o quê? Liberdade para opção. A bioética é. Não deixa de ser uma espécie de préconceito. como também à qualquer idéia de opção. Os condicionantes e os limitantes não são para a bioética em si. Neste último sentido. o respeito ao pluralismo e. do individualismo. Por que não é absoluta? O que lhe tira esse caráter? Existem condicionantes ou elementos limitantes? Existem e. Isso.

101. Esta é a beleza e a especificidade da liberdade que tem a bioética como ponte. Bioetics: bridge to the future.São Paulo: Martins Fontes. p. por essência. 6.1998. 3. pois. digamos. uma biografia. ponte para libertação e ponte para a verdadeira liberdade. USA: Prentice. REFERÊNCIAS 1. embora não absoluta é uma liberdade. p. Hall.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . Russel B. a liberdade para opção. exige liberdade) e é especial porque é uma liberdade para opção.41-43. 30:673-676. Deus. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 104 .2007. Especial porque tem como fator limitante apenas a ética (que. 1986. opção de valores. A bioética é. PotterVR. 5. ela é uma liberdade sublime. Miles J.1(1):99-104 A liberdade na bioética.2005. Ela é muito mais do que liberdade para isso ou para aquilo. Ferreira ABH.Centro Universitário São Camilo . Hossne WS. São Paulo: Editora Ministério da Justiça/ Secretaria Nacional dos Direitos Humanos/UNESCO/Universidade de São Paulo. 2.1995. Direitos Humanos no Cotidiano. 2ª ed.1971. Bioética: Princípios ou referenciais? O Mundo da Saúde 2006. 4. São Paulo: Nova Fronteira. São Paulo: Companhia das Letras. de categoria especial. Caminhos para a liberdade.

Spirituality.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . Espiritualidad. the author makes a reflective analysis on concepts and philosophical aspects involving bioethics and spirituality. seus conceitos e aspectos filosóficos. Aborda também reflexões sobre como a bioética pode auxiliar na evolução da ciência e nortear os profissionais envolvidos em pesquisas com células.1(1):105-112 Bioética e espiritualidade Bioethics and spirituality Bioética y espiritualidad Júlio Cesar Massonetto* RESUMO: O autor faz uma análise reflexiva sobre bioética e espiritualidade. Medical clinic. * Doutor em Medicina pela UNIFESP . Describe brevemente algunos de los aspectos históricos de la bioética y acerca a casos verdaderos en el ejercicio de la profesión médica y a ejemplos de la ficción de cine para ilustrar los conflictos de los profesionales de salud cuando están enfrentados con conceptos bioéticos y a valores de su propia espiritualidad. como son las actuales indicaciones jurídicas de interrupción del embarazo o procedimientos médicos innecesarios tales como cesarianas concertadas. Coordenador adjunto do Curso de Medicina do Centro Universitário São Camilo. PALAVRAS-CHAVE: Bioética. KEYWORDS: Bioethics. Clínica médica. ou procedimentos médicos desnecessários como cesárea a pedido.tronco e fertilização assistida.Escola Paulista de Medicina. He briefly describes some of bioethics historical aspects and approaches real cases in the exercise of the medical profession tracing a parallel between them and the fiction in the movies to illustrate conflicts faced by health professionals when confronted with bioethical concepts and spirituality's own values. como pacientes que apresentam indicações juridicamente legais de interrupção da gestação. Espiritualidade. Descreve brevemente alguns aspectos históricos da bioética e aborda casos reais do exercício da profissão médica e a ficção do cinema para ilustrar conflitos vividos por profissionais de saúde frente aos conceitos bioéticos e aos valores de sua própria espiritualidade. He also approaches reflections on how bioethics can help in the evolution of science and lead professionals dealing with stem cell researches and assisted fertilization. Hace también reflexiones acerca de cómo la bioética puede ayudar en la evolución de la ciencia y los profesionales que se ocupan de las células-tronco y de la fertilización asistida. Ética médica. PALABRAS LLAVE: Bioética. RESUMEN: En el ensayo. 105 .2007. as patients present legal arguments to interrupt pregnancy or plead to undergo unnecessary medical procedures such as pre-arranged C-sections. ABSTRACT: In the essay.Centro Universitário São Camilo . el autor refleja en los conceptos y los aspectos filosóficos que implican la bioética y espiritualidad.

Princípios da ética biomédica. financeiros ou outros interfiram na relação médico-paciente. A Bioética reconhece a pluralidade de opções morais presentes nas sociedades e propõe o estabelecimento de * Beauchamp TL & Childress JF. New York. por ser racional . seja por serem parciais. Potter pensava que a sobrevivência de grande parte da espécie humana. evitando ao máximo que aspectos sociais. Há diversos conceitos descritos para a bioética. diferença e preponderância em relação ao corpo material. a alma não pode ser reduzida a um mero epifenômeno do corpo. que consiste na afirmação da existência de Deus e na realidade substancial do espírito. O princípio da autonomia refere-se ao direito que toda pessoa tem de decidir por si própria ou o que deseja ou não para si. das ciências da vida e da saúde. caso a opção do paciente resultasse em resultado negativo (como óbito). publicou o livro Bioethics: bridge to the future. O profissional deve ter a maior convicção e informação técnica possíveis que assegurem ser o ato médico benéfico ao paciente (ação que faz o bem). para a preservação de nossa própria espécie. poderíamos construir uma ponte para o futuro construindo a bioética como uma ponte entre as duas culturas" (Potter. O espiritualismo é uma doutrina que nos remete à origem grega da filosofia. Uma das definições mais abrangentes é a da Encyclopedia of Byoethics(5). conseqüentemente nos remete ao célebre filósofo alemão Immanuel Kant(9). onde escreve na introdução: "Se existem duas culturas que parecem incapazes de dialogar . O princípio da beneficência refere-se à obrigação ética de maximizar o benefício e minimizar o prejuízo. que estabelece que a ação do médico sempre deve causar o menor prejuízo ou agravos à saúde do paciente e é universalmente consagrado através do aforismo hipocrático primum non nocere (primeiro não prejudicar). numa civilização decente e sustentável. ninguém está habilitado como autoridade a definir o que é bioética(4). nenhum com unanimidade. de dar a cada um o que lhe é devido. estamos vivendo a espiritualidade. 1994. e de sua autonomia. Em 1978. então. Como o princípio da beneficência proíbe causar dano deliberado. No exercício da Medicina contemporânea. Na visão de Kemp bioética é o cuidado das formas de vida em seu ambiente(6). Oxford University Press.2007. Como marco conceitual. A esta chamamos de teoria principialista.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA .Centro Universitário São Camilo .e se isto se apresenta como uma razão pela qual o futuro se apresenta duvidoso. Tradução da 4th edição americana. a beneficência. O princípio da justiça estabelece como condição fundamental a eqüidade.as ciências e as humanidades . A importância da Bioética está patente em seu enorme sucesso mundial com pouco mais de 30 anos de vida(7) e reflete a necessidade urgente das sociedades atuais de discutirem e imporem limites para o comportamento e desenvolvimento humanos. Em 1971. são distintos e incondicionados em relação ao caráter mecânico da matéria exterior. 106 . utilizando uma variedade de metodologias éticas num contexto interdisciplinar. para quem o ser humano tem obrigação de ser ético. Nascido em 1911. seus direitos e nossos limites ("trate os outros da mesma maneira que você gostaria de ser tratado"). tais como a liberdade e o pensamento. Na visão de Duran. 1971)(2). sua essência e seus atributos. a não maleficência e a justiça. Nos pensamentos modernos. Como valioso referencial moderno. com o objetivo de proteger as equipes médicas de potenciais processos judiciais. em artigo publicado pelo médico e cientista norte-americano Van Rensselaer Potter(1). porém. culturais.1(1):105-112 INTRODUÇÃO Segundo dicionários. que define a bioética como o estudo sistemático das dimensões morais. o neologismo bioética foi cunhado pela primeira vez em 1970. teve como conseqüência funesta a criação de autorização de qualquer procedimento pelo paciente ou seu responsável. Beauchamp e Childress consagram em seu livro*(8) o uso de quatro princípios na abordagem de dilemas e problemas éticos: a autonomia. dependia do desenvolvimento e manutenção de um sistema ético. as condutas médicas empregadas devem estar sempre baseadas nas melhores evidências científicas. como no bergsonismo. os profissionais de saúde devem tratar cada indivíduo conforme o que é moralmente correto e adequado. seja por serem vastos demais(3). espiritualidade significa qualidade do que ou de quem é espiritual. religiosos. Podemos dizer que quando agimos ou pensamos com base em conceitos harmônicos de respeito ao ser humano. pois ao contrário das suposições materialistas. Devemos atuar com imparcialidade. publicada sob o título Principles of biomedical ethics. chamando assim a bioética de "ciência da sobrevivência humana". Assim. esse fato é destacado pelo princípio da não maleficência. possivelmente.

e ter que viver sem suas duas pernas. c) que ambos os efeitos devam fluir simultaneamente (na ordem da causalidade. ou seja. Refiro-me a este episódio para ilustrar a teoria da reflexão autônoma a que o prof. É o encerramento de uma vida plena. implorou a Forrest para que o deixasse morrer lá. vem "de dentro" ("eu posso tomar uma decisão. embora condene a eutanásia. Sob esta perspectiva. que efeito bom não deva ser produzido por meio do efeito mau. Este princípio tem sua origem na Summa Theologiae de São Tomás de Aquino(12). No filme Forrest Gump.Centro Universitário São Camilo . Na visão do tenente. Como exemplos de conflitos modernos. Quando não há este acordo.(11) consagrado bioeticista brasileiro. mas não necessariamente da temporalidade).Bioética e espiritualidade . Um médico psiquiatra. o Direito deverá estabelecer os limites para o que é permitido(10). o Marco Segre. que significa a morte digna. grávida por ter sido vítima de violência sexual dentro da própria família? Como ser justo e escolher uma entre duas vidas quando esta escolha for necessária? O princípio. a condição de ser autônomo. a conduta médica segue os princípios descritos e não deveria criar conflito com nossa espiritualidade. a morte é parte integrante da vida. um sociólogo ou uma psicóloga analisam e concluem se um paciente é capaz de tomar decisões em relação à sua vida ou sua saúde e lhe conferem. Porém. caso esta trompa sofra uma rotura e cause uma grande hemorragia abdominal). que se dá de forma digna e humana. independente da autonomia do tenente. ou seja. eu quero tomar esta decisão"). o tenente Dan passa grande parte de sua vida revoltado e inconformado pelo fato do soldado Forrest tê-lo salvo no Vietnã. Já a visão filosófica de autonomia é indefinível. após um sangrento combate entre eles e os vietnamitas. com objetivo único de preservar a vida materna (que pode estar em risco. que o efeito bom deva compensar o efeito mau que o acompanha. motivo pelo qual não deve ser acelerada ou provocada (eutanásia). admite a utilização de medicação com o efeito de minimizar a dor e o sofrimento. mesmo que a conseqüência possa ser a morte do ser humano. O princípio do duplo efeito é proposto e defendido pela Santa Sé(13) que. a fertilização assistida. Já em 1957.1(1):105-112 mínimos acordos. exigise quatro condições necessárias para a sua aplicação: a) que o ato em si deva ser moralmente bom ou ao menos indiferente. descrita por Beauchamp e Childress. no tempo e lugar corretos. o Papa Pio XII declara a aceitação do uso de medicação para dores 107 . Com base nesta reflexão. vem "de fora". como o paciente Testemunha de Jeová que não aceita a transfusão de sangue em situações críticas. mesmo correndo risco de morte. a conduta é a interrupção desta gestação. teoria. ou doutrina do duplo efeito é uma regra ética que se refere à permissibilidade de ações das quais dois efeitos seguem-se simultaneamente. citamos a clonagem humana. Ao diagnosticar uma gravidez na trompa de uma mulher. Tal tese funda-se na Ética das Virtudes e é referencial para a grande maioria dos estudiosos que defendem a ortotanásia. Embora estejamos interrompendo uma vida. deva ser objeto da intenção. a interrupção de gestação. ou não. e não o efeito mau. perdidas neste episódio. sendo um bom e outro mau. o tenente Dan emocionadamente agradece a Forrest por ter salvo sua vida no Vietnã. os conceitos profundamente enraizados por Forrest através de sua educação materna e dos ensinamentos do Exército nortearam sua ação no salvamento do tenente. a manutenção da vida e a ortotanásia. são ações que possuem 'duplo efeito'.2007. Em uma de suas entrevistas. Os procedimentos que permitam decisões consensuais têm uma importância fundamental. Anos após. o contador de histórias. Forrest não havia respeitado sua autonomia quando ele. Destaca a importância da intenção da ação e que necessariamente não deve haver vínculo causal entre o processo de minimização da dor e a morte. b) que o efeito bom. Logo. Geralmente. d) que haja uma razão proporcionalmente grave para a permissão do efeito mau. Como aplicar os princípios básicos da bioética na vida diária pessoal e profissional? Até onde vai a autonomia de um paciente sem ferir nossa própria espirituali- dade? É possível aplicar os princípios da beneficência e da não maleficência frente a uma jovem adolescente com retardo mental severo e deficiência auditiva. reflete que a visão pragmática da autonomia (quase sempre utilizada pelos profissionais de saúde). podemos dizer que a autonomia do paciente é limitada e deve ser confrontada com evidências científicas e até mesmo com nossa espiritualidade e nossos códigos de éticas profissionais. a engenharia genética. Marcos Segre se refere freqüentemente e que nos coloca em situações clínicas conflituosas no exercício da medicina. nem evitada a todo o custo (distanásia)(3). ferido no campo de batalha. já utilizando duas modernas próteses de membros inferiores.

Dna. sob seu amplo aspecto psíquico. não sei! Comecei a observar que muitas pacientes submetidas à cesárea anteriormente não tinham "passagem".ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . Com as modernas técnicas de analgesia de parto e com os avanços na monitorização do bem estar do feto durante o trabalho de parto. Além disso. Como médico. é um proce-dimento de extrema valia. resguardando a paciente de qualquer risco desnecessário. Os profissionais de saúde que trabalham diariamente com o ser humano fragilizado pela doença. Eduardo Gaspar Siebold (15). como alguns médicos alegam. . como o médico poderia saber que ela não "teria passagem" para um parto normal? Não existe índice considerado normal de partos resolvidos por cesáreas. quando necessário. .. historiador de obstetrícia. de forma aguda ou crônica. Em nome da autonomia da paciente.". Se a Dna. Tânia não entrou em trabalho de parto. dificilmente. estes conflitos iniciais foram resolvidos e transformados em soluções para outras pessoas em oportunidades futuras. a passos largos. no mínimo. trabalhando com protocolos de atendimento bem definidos e desenvolvimento profissional permanente.. Por que esta perversão se praticamos no país obstetrícia de altíssima qualidade (uma das melhores do mundo). variam de 7 a 12%.Centro Universitário São Camilo . A Mulher sem passagem Começo de carreira.Duas cesáreas. muitas mulheres optam pela cesárea. assim. sendo assim.o grau de civilização e moral de um povo é refletido pela obstetrícia. foi porque eu não tinha "passagem". mas não deve ser a sua causa.1(1):105-112 consideradas insuportáveis ao ser humano. o segundo. com recursos humanos e tecnológicos da mais alta expressão? A cesárea é uma cirurgia indicada quando o parto normal não é possível por razões maternas ou quando há risco de vida ou agravo à saúde fetal. interrogatório no plantão a uma gestante com dor: . vivenciei diversas situações onde.A senhora sabe por que? . e evoco de forma simples e objetiva o princípio da não maleficência.Dna.Partos normais ou cesareanas? . teríamos o direito de submetê-la a "cesárea a pedido"? Acredito que não. eu os demais profissionais de saúde nos sentimos dentro de conflitos indissolúveis. Por causa da ansiedade e medo da dor associados ao trabalho de parto. Um pouco desta experiência pessoal e alguns conflitos vividos pela ciência procurei trazer para esta leitura (os nomes citados não são reais). para a melhoria social e cultural. o trabalho de parto e o parto normal completam. escreveu que ".No primeiro. com experiência na área da gestação de alto risco e medicina fetal.Não. Eu havia aprendido sobre a tal "prova de trabalho de parto" a que toda paciente deveria ser submetida se nunca tivesse dado à luz. afirmando que a redução da dor pode levar a morte. submeter as mulheres a este risco sem uma indicação técnica precisa fere severamente o princípio da não maleficência. de maneira incomparável. o médico do Pré-Natal disse que. Após reflexões. muitas vezes sem perspectiva de cura. Nossa obstetrícia deve acompanhar esta direção e transformar o modelo existente de assistência ao parto centrada no obstetra privado para trabalho de equipes multiprofissionais (com médicos e enfermeiras obstetrizes) adequadamente remunerados. leituras e trocas de experiências.Tenho dois. pois revela o zelo que se tributa à mãe e ao futuro cidadão. a senhora foi operada no primeiro parto porque não tinha passagem. mas certamente nossos números são elevadíssimos e refletem uma perversão da assistência obstétrica brasileira. a maternidade e a feminilidade. a senhora já tem filhos? . e não pode ser banalizada e seus riscos e consequências serem subestimados. de 15 a 25% e no Brasil aproximam-se dos 40% (média nacional entre serviços públicos e privados. Mas a senhora entrou em trabalho de parto? . Há evidências científicas suficientes na literatura médica demonstrando que as complicações da cesárea são maiores que as que ocorrem após um parto normal... não há por que temer este momento. com alguma freqüência estarão de frente a situações. pois em maternidades privadas de São Paulo atingem 90%). incentivadas ou não por seus médicos. Na Europa. Márcia. nos Estados Unidos.2007. Acredito que o Brasil caminha. Tânia. Por que não tinham "passagem" ? Será que o que eu tinha aprendido estava errado? Ia mais a fundo em meu interrogatório: . 108 . eu teria parto normal e marcou a Cesárea. reflexivas. à primeira vista.

E como se faz? . este conflito com nossa espiritualidade foi revivido. fizemos a fertilização "in vitro" e foram gerados oito embriões. mas respeitei a decisão do casal quando optaram pela redução embrionária ao estarem grávidos de quatro embriões.Bioética e espiritualidade . podemos evocar o princípio da beneficência. Com base nesta conduta.Centro Universitário São Camilo . sobre as Normas Éticas para a utilização das Técnicas de reprodução assistida. enquanto seus auxiliares terminamos a cirurgia. Transpondo este caso para hoje e tendo como base os atuais princípios bioéticos. Além disso.Como grávida. Iremos implantar cinco no útero da Dna. com o intuito de não aumentar os riscos já existentes de multiparidade" (gravidez múltipla) e que em caso de gravidez múltipla decorrente do uso das técnicas de reprodução assistida. não há fiscalização suficiente 109 .1(1):105-112 A Interrupção da gestação da jovem adolescente Também começo de carreira: . procurando maximizar o bem destinado a ela e. Nesta época a que me refiro. aquele feto era como qualquer outro que nasceu naquele dia.Pode-se fazer a redução embrionária. foi uma decisão dificílima para o casal e tentei causar certa resistência. Francisca. tem retardo mental. A pedido de dona Maria. Apesar desta resolução. milhares de embriões humanos têm sido "gerados" nos laboratórios de fertilização assistida e depois "retirados" nas clínicas especializadas em medicina fetal ao longo dos últimos vinte anos. da responsável pela Renata) para justificarmos nossa conduta de interrupção. não fala. mesmo com dúvida se estava tendo uma atitude correta.Dona Maria. Nesta. . Renata. Francisca e preparação do esperma do Sr. os conceitos bioéticos atuais ainda não existiam em nosso meio. Poderíamos. Paulo. realmente estava grávida (depois viemos a saber que foi de um tio que freqüentava a casa esporadicamente). O código penal brasileiro. devido ao retardo mental severo e à sua idade. normatizou que "o número ideal de oócitos e préembriões a serem transferidos para a receptora não devem ser superior a quatro. de 11 de Novembro de 1992. a gestação foi interrompida por uma microcesárea. em seu artigo 128. em todas as situações semelhantes pelas quais passamos. trazendo este caso para os nossos dias. deixava Renata sendo cuidada por uma moça em sua casa. o Conselho Federal de Medicina(16). iniciamos todos os procedimentos técnicos e jurídicos para a interrupção daquela gestação. Mas. uma pessoa humilde e trabalhadora que. pois estatisticamente sua chance de gravidez irá aumentar. ela tem apenas 13 anos. publicou em Diário Oficial a resolução 1. não escuta. Embora estivéssemos interrompendo uma vida sem transgredir o código penal brasileiro. pois Renata já se encontrava entre o 4º e o 5º mês de gestação. por conseguinte. . ficará para sempre em minha memória seu semblante ao retirar aquele feto do útero materno. a Renata está grávida. é proibida a utilização de procedimentos que visem à redução embrionária. . ainda. E a situação estava caracterizada como violência sexual. levando-se em consideração a angústia de poder perder a vida dos quatro. após a coleta de oócitos de Dna. o casal optou por aumentar a chance de dois dos embriões. também estaríamos tranqüilos e confortáveis em nossa conduta. reduzir o mal a ela causado. A Redução embrionária na fertilização assistida Com alguns anos de carreira: . referir-nos ao princípio da não maleficência para justificarmos a interrupção daquela gestação para evitarmos todos os danos sociais e psicológicos previsíveis à Renata e dona Maria.E se houver uma gravidez com mais de dois embriões? . considera o aborto impunível em apenas duas situações: quando não há outro meio de salvar a vida da mãe (como em algumas pacientes com doença cardíaca grave) e quando a gravidez resulta de estupro. ao reconhecermos o valor moral de Renata. Mas. Sem dúvida. Porém.Olha colega. cobrí-lo com uma compressa e pedir licença para deixar o procedimento. Sabíamos que aquele procedimento técnico era um alívio para dona Maria e provavelmente para Renata também. Para coibir esta conduta. entre outros princípios. Após alguns dias. mas nossa espiritualidade estava em conflito. como está grávida? Dona Maria era funcionária do serviço de higiene e limpeza do Hospital.2007. como tantos outros brasileiros. OK. Por mais experiente e frio que fosse o cirurgião (meu chefe e professor) que liderou todo o processo e a cirurgia. Eu ainda não conhecia os princípios bioéticos descritos acima. nos baseamos no princípio da autonomia (no caso.Provoca-se a morte dos dois embriões mais próximos da agulha de punção para preservar os outros dois.358. apesar de pouca comunicação com as pessoas a seu redor.

Bush vetou um projeto de lei que permitiria o uso de verbas públicas federais para pesquisa com células-tronco. muitas vezes esgotados física e psicologicamente por já terem sido submetidos a outras tentativas de gravidez. diabetes insulino dependente (tipo 1). Até onde pode chegar a autonomia do ser humano? Aplicar a redução embrionária com o argumento de salvaguardar a vida dos outros embriões conflita com os resultados práticos em nossas maternidades (mesmo nas públicas). Em Julho de 2006. Os resultados foram encorajadores. Mas todo o mundo não diz que estas células-tronco serão a futura cura para as doenças degenerativas (como a doença de Parkinson e o mal de Alzheimer). para pacientes com lesão de tecidos como traumas na medula espinhal ou infarto do miocárdio? Então por que criar barreiras à evolução da ciência? O veto obrigou os cientistas a correrem atrás do prejuízo. pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Wake Forest. As células-tronco. cientistas e conservadores republicanos. sempre houve uma posição conservadora em relação aos atuais assuntos científicos. Após constatarem seu potencial de transformação em ampla variedade de células.2007. no Estado americano da Carolina do Norte. alguns cientistas já teriam clonado humanos aos milhares. enquanto estas questões não forem discutidas com a sociedade e diretamente com os pais nas clínicas de fertilização assistida. O principal objetivo das pesquisas com células-tronco é usá-las para recuperar tecidos danificados por essas doenças e traumas.Centro Universitário São Camilo .ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA . permitem a implantação de mais de quatro embriões para "aumentar a chance de gravidez". como ossos. transplantaram-nas para ratos de laboratório e realizaram mais testes para observarem como reagiam quando incorporadas a um ser vivo. os "clientes" que procuram estas clínicas conhecem as técnicas. no sangue. são células que possuem a capacidade de se dividir dando origem a células semelhantes às progenitoras e de se transformar (num processo também conhecido por diferenciação celular) em outros tecidos do corpo. No atual governo republicano dos EUA. também conhecidas como células-mãe ou células estaminais. São encontradas em células embrionárias e em vários locais do corpo. sua chance de gravidez e as potenciais complicações dos procedimentos. seus riscos. Porém. por exemplo. entre eles a gravidez múltipla. conseguiram extrair as células do líquido amniótico que envolve o feto no útero de mulheres grávidas e cultivaram-nas em laboratório. princípios bioéticos estarão sendo omitidos ou utilizados de maneira distorcida justificar tais procedimentos "científicos". não. A grande discussão é que os tipos mais úteis de células-tronco até agora descobertas eram originárias de embriões humanos especialmente criados para isso. os descrevem que extraíram estas células de amostras do líquido retirado como parte de exames regulares feitos durante a gravidez e fizeram uma cultura em laboratório. Nos primeiros dias de 2007. Mesmo assim. Felizmente. o governo George W. eliminando o risco da gestação múltipla e a potencial redução embrionária(18). nos últimos anos os cientistas desenvolveram técnicas que aumentam a chance de gravidez com a implantação de apenas um embrião. medula óssea. as células-tronco são potencialmente úteis em tratamentos de combate a doenças cardiovasculares neurodegenerativas. o presidente norte-americano George W. embora ainda seja conduta controversa entre os especialistas. pois as células-tronco se propagaram e começaram a produzir substâncias 110 . Bush ofereceu resistência à pesquisa com células-tronco.1(1):105-112 e sabemos que diversos profissionais ainda não respeitam o mais elementar dos princípios éticos: o respeito à vida. Existe então justiça quando se escolhe entre os embriões quais serão "sacrificados" e quais permanecerão vivos? Definitivamente. onde se consegue preservar a vida de recém-nascidos com mais de 750g em mais de 80% das vezes. Uma das maiores descobertas da ciência na última década foi o uso terapêutico das células tronco. nervos. no fígado e na placenta. doenças hematológicas. como no cordão umbilical. acidentes vasculares cerebrais. Se não fosse por isso. Porém. há outra questão a ser refletida: com tanta informação disponível atualmente. Em artigo na publicação Nature Biotechnology(19). músculos e sangue. país que mais investe em pesquisa no mundo. Devido a essa característica. mas a prática gerou temores de ordem ética porque eles eram destruídos no processo. traumas da medula espinhal e nefropatias. O uso de células-tronco É muito saudável o equilíbrio entre espiritualistas. à clonagem e à fertilização assistida. que ocorre atualmente em pelo menos 25% dos casos de fertilização assistida(17).

A ciência não pode parar de evoluir. suas formas de proceder.Centro Universitário São Camilo . "A religião e a ciência hão de preservar sua autonomia e seu caráter distintos. 1988 111 . até a obrigação de tudo fazermos para ser felizes. Todos os profissionais de saúde devem viver a espiritualidade em sua vida pessoal e no exercício da profissão. Apesar de ter sido escrita há pouco mais de duzentos anos.cada uma possui seus próprios princípios.1(1):105-112 importantes no cérebro e fígado. por isso.Bioética e espiritualidade . sua diversidade de interpretação e suas próprias conclusões. Cada uma pode e deve ajudar a outra com uma dimensão diferente de uma mesma cultura humana e nenhuma deve assumir que constitui premissa necessária para a outra. pois. é estranha ao capitalismo consumista. na sua razão e na sua liberdade.pelo menos até a próxima descoberta científica que utilizem embriões. E ao falar também na busca dos bens materiais. A felicidade de que Kant fala é a da consciência do dever cumprido. Temos. não precisaremos mais nos preocupar com a morte dos embriões para conseguirmos o tratamento de tantas doenças no futuro. a fim de realmente contribuir para melhorar a saúde das pessoas. novos Bushs terão assumido cargos de presidência para novos vetos! CONCLUSÃO Os profissionais que trabalham nas unidades de terapia intensiva e nos pronto socorros vivenciam diariamente dramas semelhantes e conhecem. Papa João Paulo II. e nisto coincide com o surgimento e a ascensão da sociedade industrial e capitalista. Então. Estas células se mostraram tão boas quanto as embrionárias! Pronto. na medida em que não dá grande valor ao gozo dos prazeres. desde que seja tudo o que possa ser universal. acentuando privilegiadamente os deveres. Os milhares de embriões congelados nas clínicas de fertilização assistida do mundo poderão descansar em "paz". mas pode ser um grande referencial para nossas vidas. a dificuldade de se utilizar os princípios bioéticos em todas as situações. É a ética do homem empreendedor.. A teoria principialista abordada anteriormente não tem unanimidade. uma vez que um homem frustrado faz mal a si e aos outros. a necessidade de que tenhamos compaixão (nos coloquemos sempre no lugar do paciente). A oportunidade que temos hoje é a de uma relação interativa comum". é porque considera que ser feliz é um dever do homem. porém os aspectos éticos e espirituais não podem deixar de ser discutidos e referenciados.2007. Porém. a ética kantiana é extremamente moderna(13). na prática.. Sua ética do dever é moderna porque confia no homem. dentro do respeito aos demais. Que tenhamos a sabedoria de usar estes referenciais no dia a dia com nossos pacientes.

São Paulo. q. 8(2): 183-93. Diário Oficial da União Resolução 1. 14: 127-53.1(1):105-112 REFERÊNCIAS 1. Tradução: Artur Mourão. Paris. Andersen AN. Sousa AD. 1995.newadvent. Centro Universitário São Camilo: Loyola. New Jersey: Prentice Hall. II-II. Principles of biomedical ethics. 2nd ed. 11. Hum Reprod 2006. Felberbaum R. 112 . 13. 2005. Assisted reproductive technology in Europe. Steinheil. Eutanásia. 1971. Trounson A. Acesso em 10 de Janeiro de 2007.2007. 1985. por que abreviar a vida? São Paulo. Centro Universitário São Camilo: Loyola. Gynecol Obstet Fertil 2006. In http://www.358. 20. 21(7): 1680-97. 4(1): 505-22. Persp Biol Med 1970. Segre M. Cignetti L. Drane J & Pessini L. A fluid means of stem cells generation. Introdução geral à Bioética: história. Tradução: Nicolas Nyimi Campanário. Immanuel. Crítica da Razão Pura. 62-3. 2002. São Paulo 2004. Maria Stela Gonçalves.3ª edição. 18. Nygren KG. Potter VR. a. De HERRGOTT.Obstetrícia Normal Briquet . 8.. Gonzáles MC . Bioethics: bridge to the future. L'irremplaçable. 34(9): 786-92. 2003. 2003. 7. Charles O. 15. Revised edition.ARTIGO DE REVISÃO/ REVIEW ARTICLE/ DISCUSSIÓN CRÍTICA .J. 2. Gianaroli L.org/summa/306407. Potter VR. Roulier R. São Paulo. 1983. Centro Universitário São Camilo: Loyola. 14. Reich WT (editor in chief). 10. Durand G. Sarvier. Fr. Pelotas. Trad. Centro Universitário São Camilo: Loyola. 2006. Siebold EG. 6. Rev Esc Direito.European Society of Human Reproduction and Embriology. Kemp P. 1997. Trans / Form / Ação. Essai d'une Histoire de l'Obstétrique. 7. Terriou P. Pessini L. Beauchamp TL & Childress JF. Results generated from European registers by ESHRE . 1884-1892. Ed. 5. Variáveis conceituais da eutanásia. conceitos e instrumentos. New York. 17. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Crítica da Razão Prática. Conselho Federal de Medicina. Pessini L & Barchifontaine CP. Hans E.org.. 16. 31-50. Kant I. Comment améliorer nos résultats en AMP? La France est-elle en retard? Stratégie congélation embryonnaire. Fornazari SK. 11 de Novembro de 1992. ¿Por qué bioética y derecho? Acta bioeth 2002. Simon & Schuster MacMillan. São Paulo. Lisboa: Edições 70. São Paulo. 1986. Normas Éticas para a utilização das Técnicas de reprodução assistida. Tradução: Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Morujão. Bioética e longevidade humana. Acesso em 10/01/2007 in: <http://www. Tradução: Adail Sobral. Kant. Giorgetti C. 2004. 2007. 9. Georgetown University.htm>. 12. Avon C. 27(2). 3. Summa Theologiae. Salzmann J. 19.br/?siteAcao=Entrevista&exibir=integra&id=36.Centro Universitário São Camilo . 1981. de Mouzon J. Paris: Du Cerf. F. 64. Bioethics: science of survival. Oxford University Press. Encyclopedia of bioethics. Bioética medicina e tecnologia: desafios éticos na fronteira do conhecimento humano.bioetica. Nature biotechnology 25(1). 4. In Delascio D & Guariento A. 2 1.

COMUNICAÇÕES/ COMMUNICATIONS/ NOTICIAS . a la tolerancia que da una atención verdadera a las acciones y a las explicaciones y las justificaciones ideológicas. tolerance .that gives a real attention to actions and ideological. Dignidad humana. pero en una ventaja verdadera para cada persona y la comunidad. Solidariedade. mas também com uma solidariedade vivenciada até economicamente.2007. pero también una solidaridad profunda incluso económicamente vivida. mas um verdadeiro benefício para cada pessoa e para a coletividade. empíricas o morales de los otros. but a true benefit for each person and community. Solidaridad. com a tolerância que presta atenção real às ações. PALAVRAS-CHAVE: Bioética. even economically. Dignidade humana. * Teólogo moralista.1(1):113-117 Que finalidade unifica a bioética? What Purpose Unifies Bioethics? ¿Qué Propósito Unifica la Bioética? Hubert Lepargneur * RESUMO: A bioética apresenta-se vinculada não apenas com os progressos das ciências e das técnicas. Solidarity.Centro Universitário São Camilo . explicações e justificações ideológicas. ABSTRACT: Bioethics concerns not only sciences advances and techniques. that turns competition not in a barren duel. empíricas ou morais dos outros. que torna a competição não um estéril duelo. que convierte la competición no en un duelo estéril. 113 . Doutor em Direito. KEYWORDS: Bioethics. PALABRAS LLAVE: Bioética. Human dignity. RESUMEN: La bioética se refiere no solamente a avances y técnicas de las ciencias. empirical or moral explanations and justifications of others. but also a deeply lived solidarity.

O universo ético. em jogo em cada caso.000 reais cada um ao tesouro público. por deficiência de sadia e corajosa gestão dos políticos. não pode ser menosprezada: seu papel é fundamental na evolução cultural de nossa espécie. cedo ou tarde. característica do ser humano. espontânea ou refletida. Reparamos algumas das inúmeras incoerências persistentes. No seu livro "Como temos arruinado nossos filhos". representam uma soma superior ao custo que exigiria o acesso ao ensino de todas as crianças do mundo. Além de serem indemonstráveis. A priori todos os agentes são bem intencionados para adotar as melhores soluções em cada caso: esta é a finalidade principal e específica da bioética. pacífica. deve buscar sua finalidade. em 114 . Esta visão de conjunto reclama algumas precisões porque o inevitável conflito dos valores. muitas das quais levantando interrogações éticas. Quando se passa do mundo natural ao mundo humano. ainda que não totalmente. escolhendo entre as alternativas de meios que cada situação deixa entrever. Os vários presos. o processo da bioética como lugar de trocas de comportamentos e de idéias no campo da biomedicina era não apenas previsível mas inevitável. legitima as trocas de saberes. Mas. avanços nas situações em que os seres vivos apresentam dificuldades como no pluralismo das soluções propostas. Trata-se de processos. no qual ele recusa suspeitar uma finalidade natural. aprisionados por furto de um real. que repercute incessantemente na evolução cósmica. Artus e Virard(1) salientam a incoerência francesa de multiplicar para os descendentes uma dívida que cedo ou tarde explodirá. o que implica a referência a alguma finalização prevalente. Do outro lado inexiste uma autoridade cujo veredicto se imporia sem muita dificuldade no mundo inteiro. nem a Organização Mundial da Saúde sonha com tal meta e a diversidade das crenças religiosas sempre constituirá uma barreira instransponível para unificar as soluções sobre alguns pontos delicados.1(1):113-117 INTRODUÇÃO Com o recuo da história percebemos que a bioética integra a globalização que estreita as relações e vínculos dos habitantes desta terra: nesta conhecida evolução. anualmente. em produtos cosméticos.Centro Universitário São Camilo . provém do dinamismo da finalidade mais alta ou mais globalizante. mas aconteceram rápidos e complexos. Qualquer que seja nossa explicação do fenômeno. a bioética não pode admitir este gênero de multiplicação indefinível da hipoteca que muitos países estão egoisticamente engrossando. a bioética se propõe visar o bem do ser humano. sendo ética. consciente ou inconsciente. qual seria? Como meta-ética. Por que uma finalidade? Não deixa de ser estranho para um cientista materialista que o cosmo. entretida. a plena e feliz coerência do gênero humano numa terra respeitada. exige uma certa hierarquização. reclamam a consciência e a justificação de sua própria função. As deontologias clássicas não tinham respostas adequadas para inúmeras destas situações. no sul do Brasil. e consagra nossa responsabilidade. afinal. os princípios têm a propensão de suscitar mais oposições do que os valores. No entanto isto suponha preparações. Práticas e reflexões éticas deram aos poucos emergência à bioética que mobiliza um vasto leque de disciplinas. não se sabendo como.COMUNICAÇÕES/ COMMUNICATIONS/ NOTICIAS .2007. tanto mais que os instrumentos de conhecimento e de ação eficaz cresceram por seu lado com uma velocidade que ainda não diminuiu. em qualquer área que seja. O conceito de ciência que progride independentemente de toda ética não é mais aceitável após o processo de Nuremberg. provoque a emergência de uma finalidade como consciência básica do ser humano. Isto significa que o papel e a finalidade da bioética não são destinados a cedo acabar. Os próprios valores exprimem um dinamismo espiritual que. o lugar do sentido está na cabeça humana e se chama finalidade. inseridas em regiões e culturas bastante diversas. individual e coletivo. após ter desempenhado felizmente uma honrável função crítica e mediadora. O interior do corpo humano e os mecanismos de suas muitas funções são muito melhor conhecidos. cedo ou tarde. isto é. ainda não julgados após dois anos. Sendo harmonização racional. Como a ética. própria a alimentar e suportar a indefinível seqüência das gerações humanas. que caracteriza a espécie humana. a finalidade. de experiências e das avaliações humanitárias que lhe dizem respeito. não pode desprezar a finalidade. A própria complexidade das situações. Esta finalidade constitui a invisível força de aglutinação de disciplinas em torno de valores que. Os nove bilhões de dólares gastos nos Estados Unidos. a bioética não passa de um esforço que nunca tocará sua meta final. custam mais de 2.

ideologias ou religiões inconciliáveis. "Não carecemos de ética. e menos ainda pelos adeptos de um secularismo que recusa toda afiliação religiosa institucional que lhe imporia soluções pré-fabricadas.2007. Neste sentido o filósofo Luc Ferry(2). Mas isso exige uma fé religiosa compartilhada socialmente . portanto. como um princípio pode justificar várias normas. Multiplicam-se indícios da urgência em fixar uma meta clara à bioética. da concentração dos recursos de todo tipo. Aliás um valor pode fundamentar vários princípios. cuja maioria depende direta ou indireta- mente da atuação humana. mas carente de sentido". mas de espiritualidade" repete o livre-pensador Luc Ferry. Verifica-se a sentença de A. Isto valida certa passagem da problemática de princípios indemonstráveis para valores compartilhados pelo coração de multidões. sua resposta aponta "uma sabedoria do amor". nenhuma economia poderá resistir à combinação do esgotamento dos recursos naturais. das guerras inúteis.Centro Universitário São Camilo . relativo. de porto de salvação . de maneiras de agir. político aos acionistas agrupados nos maiores Fundos de investimento. e a forte necessidade não muda nada disso. se jamais existiu para a humanidade.1(1):113-117 nome de qual princípio ou valor estamos chocados por tais ocorrências? Um dos benefícios das religiões é de apontar finalidades tanto para o crente individual quanto para a humanidade. Na sua procura do enfrentamento do mal e da morte. nesta " inteligência do coração" valorizada por Pascal. na reflexão.Que finalidade unifica a bioética? . a Bioética tenta resolver os problemas existenciais que a concernem. basicamente financeiros. agnóstico. das convulsões climáticas e da pobreza. A globalização acelera o individualismo e a segmentação entre regiões: nem tanto em nome da raça ou da nacionalidade quanto em razão da posse econômica e portanto política dos cidadãos mais bem sucedidos. da decrepitude individual. Einstein: "Nossa época se caracteriza pela profusão dos meios e a confusão das intenções. Como a ética. mas que a estrada de sua caminhada está livre. assim resumiu o desafio global: "Nenhuma democracia. O agravamento da situação. De fato trata-se essencialmente da vida humana. A própria moral já está a serviço da vida humana situada no seu contexto ambiental social. É precisamente a finalidade que cria o sentido. em princípio. pode se coordenar com outras intenções imediatas para se fundir ou convergir na própria finalidade da bioética. sejam eles de pura especulação ou de aposentadoria. mas sem responder a desafios tais como o sentido da velhice. sempre existiu e sempre existirá. não obstante o valor. O cientista Nicolas Hulot(3). Neste livro o autor. completada por um poder excessivo dos maiores dirigentes das transnacionais na auto-determinação de seus proventos e privilégios de toda sorte. que asfixia a percentagem crescente da população mundial que carece dos meios de sobrevivência. que não pode escapar a uma percepção global da bioética. A força de um valor reside na percepção de seus agentes convencidos e na força de sua atração. ou da morte. na área da defesa e promoção da vida. Seriamente problemático é o excesso. "Quando a China e a Coréia do Sul o decidirão. nenhum projeto social. especial e prioritariamente da vida humana. denuncia (talvez com certo otimismo) "uma sociedade cheia de moral. Não saímos do contexto de uma bioética amplamente considerada: tudo isso está a serviço da vida. A espiral resultante escapará provavelmente à humanidade". natural e histórico. propõe uma "doutrina de salvação sem deus". cultural. como da construção de um novo humanismo. do que de justificações teóricas repousando sobre filosofias. numa extensão que não mais existe. Afinal sabemos que a Bioética procura mais convergências de normas. ex-ministro da educação. de incentivo e ânimo. Como super e abrangente ética. antes de constituir um princípio ou um valor. o regime do Norte desmoronará". Isto não significa que terminou a tarefa da bioética. Não é a desigualdade que cria problema em si: não apenas ela é universalmente natural. no dia a dia. 115 . isto é. a serviço da própria dinâmica dos seres históricos." Em toda pendência bioética podemos distinguir uma intenção imediata que. dos outros seres vivos neste planeta. em "Vencer os medos". se origina na última evolução do liberalismo capitalista que confere um crescente poder econômico e. atual e progressivo. Que finalidade escolher para a bioética? Vimos que a finalidade capaz de englobar os esforços bioéticos reside mais num valor do que num princípio. a bioética está à procura de um valor que lhe sirva de farol e meta. As intersolidariedades são um dado. A fraqueza ou o esvaziamento da maioria das religiões tradicionais (mesmo no Japão) não está preenchida pela multiplicação de seitas evanescentes.

acumular referências éticas? Parece mais razoável incluir. clausurada num conceito de libertação que tem de deixar clara a visão dos inimigos ou obstáculos de que ela se esforça de se livrar. arriscamos ver bioéticas racistas ou declaradamente machistas. Na esteira da teologia da libertação. Por isso achamos insuficientes certas qualificações pouco exaustivas. Se o perito achar que há muito para reformar no campo bioético do momento. na discussão global. elevação perigosa do nível dos mares e da temperatura. Se sua sensibilidade o leva a acentuar a proteção aos seres mais vulneráveis. liquefação das geleiras. em benefício do maior número possível de pessoas. Assim a bioética pode ser laica ou religiosa. que ela seja eticamente dirigida para compensar as desigualdades sociais excessivas e cuidar com empenho do caso dos menos privilegiados. Se não. então. Se houver entre nós uma preferência. combatendo inimigos verdadeiros ou supostos. Trata-se de operar as melhores escolhas para cuidar da saúde de todos. Ao negligenciar drásticas reformas que se afigurariam como necessárias. do qual nenhum ser 116 . todas bioéticas. ocultando outros não menos importantes. deve ser um princípio de ação. A bioética constitui uma plataforma de escolha para promover mais vida saudável. que temos demonstrado solidárias.1(1):113-117 O cultivo universal do melhoramento da vida não pode prescindir de suas bases econômicas.Centro Universitário São Camilo . de qualquer maneira. ele pode falar em "bioética de intervenção" ("bioética dura" que deve precisar ainda a direção geral de seu voluntarismo proclamado). peritos prevêem o que nos espera no fim do século: quatro bilhões de seres humanos com falta de água. A elevação do nível de CO² e da temperatura parece inexorável. a ética tout-court. para não dizer com a justiça. mas criando equívocos. são autônomas cada uma das contribuições e não tanto a própria bioética. sem atender à globalidade desta disciplina. mas uma porção de intervenções escapam deste temário e são suscetíveis de melhorar a condição humana. Nisso está inscrito sua relação com a ecologia e com a economia. afinal. centro real da preocupação em questão. Isto não significa que seja fácil conciliar a luta pelo meio ambiente. ou apontam uma subdivisão excludente de outras. A abrangência da bioética. sem omitir as necessárias pesquisas suscetíveis de melhorar nossa saúde e a das gerações futuras.2007. sugere a expressão da "bioética de reflexão autônoma". este bioeticista deverá precisar quem ele entende proteger e de que perigos. Enfrentamos de fato várias proposições. Ponto de vista mais abrangente seria falar em "bioética de referências éticas": a expressão é incontestável. mas não define nem sua essência nem sua finalidade. evocando por isso a solidariedade que nos afeta e une. isto é. Sugestões para definir a Bioética Nosso preâmbulo significa que estamos procurando uma definição da bioética que expresse ao mesmo tempo sua essência e sua finalidade. a referência fundamental ao ser humano que é pessoa. pedindo ajuda de muitas disciplinas conexas. na expressão sintética que desejamos. mas a experiência parece confirmar que toda hierarquização de valores é problemática. em contra-ataque. mais do que um título honorífico. eliminação de povos. sobretudo potável. A bioética nos parece antes essencialmente construtiva e não na defensiva. por importantes e legítimas que sejam. podemos falar em "bioética de libertação". porque ressaltam um aspecto. Como exprimir este dinamismo para o bem vital? Existem várias proposições. a urgência social e sanitária e o crescimento econômico sustentável. que temos também chamado de super-ética. Nossa opção: o personalismo solidário Com o personalismo está realçada a dignidade da pessoa humana que. o perito pode falar em "Biologia de proteção". Por que. Falar em "bioética feminina" é privilegiar um ponto de vista que ninguém julgará auto-suficiente e suficientemente abrangente. Se a bioética é divina. Constituiria uma proposição ao lado de outras. mas tal temática parece muito ideologizada. salientando a superação de um individualismo estreito. sem prejudicar aportes de crenças minoritárias. (como toda obra de arte) deve ser autônoma no espaço de sua competência. segundo uma ordem de urgência adaptada a nossos meios e necessidades vitais. sem dispensar a necessidade de classificar a periculosidade dos inimigos de que se deve defender. mas o estatuto próprio da bioética lhe atribui o encargo de debates entre proposições incompatíveis. mas ficamos aqui no terreno secular. não é seguro que a divindade seja uma mulher. O valor-fim procurado deveria servir para hierarquizar tais necessidades vitais individuais e comunitárias. isto é.COMUNICAÇÕES/ COMMUNICATIONS/ NOTICIAS . Toda pesquisa científica.

Le Nouvel Observateur de 20 dez 2006. repetia este eminente sábio. Como os desafios são concretos. na bioética como no direito. 2006. 3. mais exigem respeito e atendimento. a bioética constitui um instrumento para tentar recuperar os excluídos salváveis. O ser humano é o ser vivo mais importante do planeta e. como também a bioética.Que finalidade unifica a bioética? . Artus P.Centro Universitário São Camilo . 2006. no caso. lembramos que as construções normativas.1(1):113-117 humano deveria ser excluído. apesar das importantes desigualdades. Virard. Em muitos países substanciais progressos foram realizados. sem excluir nenhum deles: fatos. que permanece aberta. Ferry L. Todas as pendências com as quais a bioética é levada a tratar repousam sobre dados factuais de nossa história. têm por fim o bem comum. na sua falta. Comment nous avons ruiné nos enfants? Paris: La Découverte. MP. notadamente porque nenhum desfruta de tanta consciência e assume tanta responsabilidade. resta muito por fazer.2007. Toda instituição do Estado. tanto factual quanto normativa. por isso o personalismo implicado na bioética deve ressaltar explicitamente sua dimensão de solidariedade. Hulot N. A avaliação requerida da atuação mais conveniente neste contexto faz apelo a juízos de valor. Nunca o ser humano pode deixar de ser solidário com seu ambiente e sobretudo com as comunidades às quais pertence. exigem quadros de avaliação que a cultura providencia ou. normas expressivas dos valores que. valores e normas. situações reais de crise ou de alternativas embaraçosas e complexas. Paris: Odile Jacob. trazendo dilemas que exigem extrema atenção aos dados e fatos. já incluídas no biodireito já constituído ou em formação. cuja explicitação não entra nesta exposição de bioética secular. deve aliciar-se sobre três pontos básicos. A moral é disciplina humana. Vale conferir esta proposição com a teoria tridimensional do jurista Miguel Reale. Nenhum outro animal merece tanta consideração e cuidados. que inclui as condições de vida humana dos cidadãos menos providos. Por fim. A tais normas da sociedade civil. das omissões políticas ou sociológicas. do regime político vigente. REFERÊNCIAS 1. que o pesquisador deve montar. 2. sabemos que as religiões institucionalizadas acrescentam normas às quais aderem ou deveriam aderir os crentes de tais denominações. cultural e moralmente confiáveis. 117 .Vaincre les peurs.

realizado nos dias 28.Centro Universitário São Camilo . The changes in the ways of organizing and structuring health services do not change social expectations about health professionals. Responsabilidade social. 1 . Enfoca el rol y la responsabilidad social de los profesionales y de las organizaciones sanitarias en la construcción de un sistema de salud justo. KEYWORDS: Bioethics. que respeite os direitos humanos e os direitos dos usuários. pois devem cuidado às pessoas.COMUNICAÇÕES/ COMMUNICATIONS/ NOTICIAS . Enfoca o papel e a responsabilidade social dos profissionais e das organizações de saúde na construção de um sistema sanitário justo. A prática da enfermagem tem sido marcada pelo cuidado às pessoas. equitativo. El ideal de profesionalismo de las enfermeras debe contemplar la búsqueda del bien de la comunidad por acciones cooperativas y solidarias. Doutora em Saúde Pública pela USP. impone al hospital el compromiso moral de construir una imagen ética para la organización que incluya como su responsabilidad moral suprema el bien del enfermo. Responsabilidad social. Vice-presidente de Bioética (2005-2007).1(1):118-123 Cooperar para el bien común: ¿Responsabilidad social de la enfermería?1 Cooperate for the common good: social responsibility of nursing? Cooperar para o bem comum: responsabilidade social da enfermagem? Elma Lourdes Campos Pavone Zoboli* RESUMEN: Ética social es la aplicación crítica del razonamiento ético a los problemas sociales. Membro da Diretoria da Associação Internacional de Bioética (2003-2007) (2007-2010). The present paper brings an analysis of health services from the perspective. impõe ao hospital o compromisso ético de construir uma imagem ética para a organização que tenha como sua responsabilidade suprema o bem de seus usuários. eqüitativo. Los cambios en la forma de organizar y de estructurar los servicios de salud no alteran las expectativas sociales acerca de los profesionales de salud. Sick people as human beings needing help requires from hospitals the moral compromise of creating an ethical character for the organization that includes as its supreme moral responsibility the well-being of sick people.2007. O ideal de profissionalismo da enfermagem tem de contemplar a busca do bem comum da comunidade por meio de ações cooperativas e solidárias. 29 e 30 de setembro e 01 de outubro de 1999 e promovido pela Escola de Enfermagem e Faculdade de Medicina da Universidade do Chile. Caring is the most powerful symbol of nursing as the basis of its ethics. Este artigo faz uma análise dos serviços de saúde sob a ótica da ética social. Institutional ethics. Nurses must take seriously the challenge of applying their expert knowledge to contribute for the common well-being of society. E-mail: elma@usp. Ética Institucional. Cuidar es el más poderoso símbolo de la enfermería en el fundamentar de su ética. for they have to care for people. Cuidar é o símbolo mais poderoso no fundamento de sua ética. RESUMO: Ética social é a aplicação do equacionamento ético aos problemas sociais. A enfermagem e a medicina seguem sendo respostas humanas e éticas à vulnerabilidade da pessoa enferma. Nurses' professional ideal must consider the search for community well-being through actions marked by cooperation and solidarity. ABSTRACT: Social ethics is the critical application of ethical reasoning to social problems. Nursing practice has always been characterized by caring for people. Enfermería y medicina son respuestas humanas y éticas a la vulnerabilidad de la persona enferma. * Enfermeira. PALAVRAS-CHAVE: Bioética. El enfermo. PALABRAS LLAVE: Bioética. As enfermeiras devem levar a sério o desafio de aplicar seus conhecimentos de expertas de forma a contribuir para o bem estar comum da sociedade. Nursing and medicine are human and ethical responses to sick people vulnerability. Ética Institucional. Las enfermeras deben tomar en serio el reto de aplicar sus conocimientos de expertas de manera a contribuir para el bien estar común de la sociedad. pues deben cuidar a las personas. As transformações na forma de organizar e na estruturação dos serviços de saúde não modificaram as expectativas sociais em relação aos profissionais de saúde. Social responsibility.br 118 .Conferencia proferida no III Encuentro Latinoamericano de Ética y Bioética en Enfermería. Congreso de Ética y Bioética de profesionales de salud . como un ser humano necesitado de ayuda. O paciente. focusing on the role and the social responsibility of professionals and medical organizations on the construction of a fair and equitable health system that respect human rights and the rights of sick people. que respete los derechos humanos y los derechos de los enfermos. Professora Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. como um ser humano necessitado de ajuda. La práctica de la enfermería ha sido siempre marcada por el cuidado a las personas. Este artículo trae un análisis de los servicios de salud bajo la óptica de la ética social.

La ética social puede ser pensada como una rama de la ética aplicada. su elemento fundamental y constante es el ser humano que sufre y que clama por cuidados. En este momento vamos a detenernos en el análisis de los problemas del sistema sanitario y de los servicios de salud bajo la óptica de la ética social.2007. equitativo y que respete los derechos humanos y especialmente los derechos de los enfermos. los crímines y las puniciones. en lo cual este conflicto gana proporciones aun más grandes por la misión y finalidad social del hospital. es la aplicación del razonamiento ético a los problemas sociales.Centro Universitário São Camilo . Las decisiones tomadas en los límites de la estructura de cualquier organización no afectan solamente su vida. pues no se puede olvidar 119 . Pero no se puede olvidar que es justamente la función social del hospital que es determinada por sus orígenes y por su mision que hace esencial el planteamiento de la ética social en los servicios de salud. Sin embargo. calidad y satisfacción del cliente(2). necesitan de la dirección de personas calificadas para su administración. . Afectan también a la vida de todos sus participantes: los trabajadores. la relación de los profesionales de salud con los enfermos. administrativas y económicas generales própias de los negocios y como tal. la eutanasia. el aborto. En este sentido será dispensada una especial atención al rol de la administración sanitária. Este cambio trae para la cotidianidad de los servicios de salud nuevas preocupaciones como lucro. los consumidores. los inversores y los ciudadanos. o sea es mediada por este complejo con caracteristicas empresariales y por los actos administrativos en lo cual se han trasformado los servicios de salud.Cooperar para el bien común: ¿Responsabilidad social de la enfermería? . Aun podríamos incluir en esta extensa relación el sistema de salud y las cuestiones como el acceso a la asistencia médico-sanitaria o el impacto para la salud de una población o una comunidad de las decisones tomadas por los gestores. eficiencia.examinar las condiciones sociales.1(1):118-123 Por ética social comprendemos la reflexión sistemática acerca de las dimensiones morales de las estructuras y de los sistemas sociales. interfiriendo en la relación de cuidados que se establece entre los profesionales de salud y las personas que sufren. Historicamente las actividades que tienen como reto ganar dinero parecen tener una relación conflictuosa con la ética y esto no ocurre solo en el mundo de la salud. no ocurre fuera de una instituición. ¿Como garantizar la sobrevivencia económico-financiera de la organización sanitaria y al mismo tiempo adoptar principios y valores éticos? Es bien verdad que algunas veces las decisiones administrativas pueden estar en conflicto con aquellas del personal sanitario. Sus tareas abarcan: .analisar las acciones posibles que podrían alterar las condiciones entendidas como problemáticas y . hoy día. A primera vista los conceptos que acompañam las preocupaciones con eficacia y eficiencia parecen oponerse a este rol social. Actualmente el hospital y demás organizaciones sanitarias son instituiciones de servicios con una importante función social y características técnicas. Entre los temas ubicados como retos de la ética social encontramos la pobreza. Para esta discusión no se puede olvidar que el hospital al cambiar de abrigo para pobres y viajeros a centro de diagnóstico y tratamiento de alta tecnología necesita cada vez más recursos para su financiamiento y exige cambios en su organización administrativa con la introducción de la forma empresarial de organizar y estructurar el trabajo y la incorporación de profesionales con formación en administración y economía en sus actividades de apoyo administrativo o mismo en su dirección y gestión. Pero la ética social no se resume a la aplicación automática de la teoría a determinados problemas sociales en particular. su relación con los profesionales de salud y el impacto que las decisiones administrativas pueden ejercer en las actividades asistenciales. la guerra y la paz. la investigación con sujetos humanos. pues no obstante todos los cambios y trasformaciones por las cuales esta instituición tiene pasado. determinando cuales de ellas son problemáticas a la luz de la justicia o de la equidad. los derechos de los animales. la discriminación. Vamos también intentar enfocar el rol y la responsabilidad social de los profesionales de salud como agentes activos para la construcción de un sistema de salud justo.prescribir soluciones basadas en el exámen de los problemas y en el análisis de los cursos de acciones posibles(1). Esto es especialmente importante en las organizaciones hospitalarias. El rol socialmente aceptado del hospital es el de cuidar a los enfermos. Hay una línea demarcadora que pone de un lado los que cuidan directamente a los enfermos y del otro los que dan el apoyo administrativo o proveen los servicios de infraestructura.

bajo el riesgo de él perder su función social. En America Latina esta cuestión adquiere un sentido especial. La mayor aspiración de la administración sanitaria debe ser el desarrollo de un servicio eficaz. a la falta de equidad y a la ineficiencia. Ellos siguen teniendo la misma obligación moral de siempre: buscar la excelencia. Lo que cambia es 120 . Los cambios en la forma de organizar y de estructurar los servicios de salud no modifican las expectativas de la sociedad acerca de los profesionales de salud. Es cuando el hospital que tiene la misión social específica de curar en la practica se desvia en la dirección opuesta o se distancia de esta misión y sólo cura cuando el curar representa un negocio rentable(4). que los desafia a lograr retos de justicia y equidad y los lleva a cuestionar cuales son las responsabilidades sociales de su profesionalismo.1(1):118-123 que ellas lidan con los limiares críticos y preciosos: la vida y la muerte de las personas. en segundo lugar a las necesidades de la organización y sólo después a las necesidades individuales de los empleados. Cuando esta ordenación se invierte. tender hacia ella. no se preocupan con la ética. Es triste observar que hoy día el hospital y muchos de los profesionales que los dirigen o de los que trabajan en estos servicios no están conscientes de sus responsabilidades humanas. muchos administradores. pero principalmente en los aspectos médico-asistenciales o sea en el nivel de salud y calidad de vida de la población. Este hecho impone a los profesionales de salud dilemas éticos. alegando que hay una imensa área gris entre lo que es cierto o errado. activa. con gran capacidad de liderazgo. El hospital abarca un universo de recursos y elementos variados que se articulan en una acción coordinada y hacen de esta organización una de las más complejas de la sociedad actual.COMUNICAÇÕES/ COMMUNICATIONS/ NOTICIAS . pues en la mayoria de los países de este continente el sector de salud se vio obligado a reflexionar y cambiar el modelo de "beneficencia-caridad" que los hospitales traían desde su inicio. La palabra administración se origina del latín y significa aquel que hace servicios a otro. mismo aquellos que actuan en el campo de la salud. diversificados en razón de la posición que este profesional ocupa en la instituición(3). habilidosa. La impaciencia y la prisa para llegar a los objetivos y a las metas trazadas constituyen factores para la negligencia en el trato de las cuestiones éticas dentro de estas organizaciones. haciendo imposible conceber su desarrollo institucional y su gestión de manera aislada del enfoque empresarial. de decidir. Administrar un hospital no es tarea fácil. con todos sus componentes funcionando como un equipo para atender primeramente a las necesidades de salud de la comunidad. de la enfermera. Administrar es el arte de pensar. los hospitales pierden su objetivo social y se tornan poco efectivos. Es cuando él se retrae de su razón de ser y de lo que es esperado para su tipo de actividad. de actuar. No se espera que ignoren las consideraciones materiales sino que subordinen los ganos financieros a valores más nobles como la responsabilidad con la vida de los enfermos y la responsabilidad con la salud de la comunidad. Para hacer frente a las dificultades financieras. Un administrador ético es aquel que se conduce eticamente todo el tiempo y no solamente cuando le conviene. Esto exige una dirección bien preparada. con autoridad. sensata. Esto pone en riesgo la satisfacción de todos: de los profesionales de salud. sea individual o colectivamente.Centro Universitário São Camilo . íntegra y que actue basada en principios y valores éticos. El hospital que actua como un organismo ético es aquel que persigue inteligentemente sus metas y al mismo tiempo respeta los valores y los derechos compartidos por la comunidad a que sirve. a pesar de todo el movimiento por la ética en los negocios. del médico y del administrador. Es en este momento que se instala en el servicio de salud lo que se conoce como la perversidad moral de la organización. sociales y comunitarias y tampoco evaluan el impacto que sus actividades ejercen en la sociedad y en la salud o en la calidad de vida de la población. de los enfermos y consecuentemente de la comunidad. el sector salud viene implantando la propuesta del hospital como una empresa social de salud. La finalidad del trabajo del administrador hospitalario es alcanzar resultados positivos no sólo en el sentido económico. de hacer acontecer y de obtener resultados. Así. olvindandose que muchas veces la toma de decisiones exige el analisis de una serie de factores que van allá de los números por más exactos que estos sean.2007. las decisiones de los administradores que actuan en el área de la salud son actos de naturaleza ética. Por lo tanto lo que se debe buscar es el desarrollo de un servicio de salud eficaz que atienda primeramente a las necessidades de las personas. Transfieren la atención de los dilemas éticos para los problemas administrativos. Sin embargo. a la mala calidad.

El cuidado es toda la acción que contribuye para promover y desarollar lo que hace viver las personas y la comunidad. pues la enfermería y la medicina son respuestas humanas y éticas a la vulnerabilidad de la persona enferma. El cuidado es todo que contribuye para promover y fomentar la vida y la salud. Es necesario construir una imagen ética de la organización hospitalaria. Fundamenta su ética. y la mayoria de la sociedad argumentará que ésta no solo es la mejor sino la única solución posible. no importa cuales sean las razones porque quiere un nuevo coche o cuales sean sus necesi- dades. La enorme dureza de la actividad asistencial requiere que los profesionales de salud puedan contar con un soporte institucional que promueva la excelencia. Cuidar es el más poderoso símbolo de la enfermería. será conducido hacia la puerta de salida. sea previniendo alguna enfermedad o asistiendo a las personas que ya se encuentran enfermas. eficiente y efectiva de los recursos(5). Los dilemas morales enfrentados en la cotidianidad de los servicios de salud no son ni pocos ni sencillos. equivale a pedirle para que deje de lado su identidad profesional. si alguien necesitando de cuidados de salud que valen el precio de muchos coches nuevos llega al hospital sin un peso y pide para ser atendido. Veamos un ejemplo . Los profesionales de salud han siempre buscado su identidad profesional por la vía de la excelencia. 121 . los servicios de salud funcionan mal o no funcionan. Sin embargo. Hay una insatisfacción que surge de la expectativa social de que estas organizaciones no deben comportarse como negocios comunes. A cada día la enfermería es más reconocida como proveedora de cuidados a la salud de las personas(6). Se impone de esta forma un conflicto de intereses para los profesionales de salud por las amenazas al canon de lealtad . El hospital no puede correr el riesgo de ser visto como una organización que interpone sus preocupaciones económicas como impedimento para la excelencia del actuar de los profesionales de salud. Cuando el gestor desconoce esto las consecuencias en la moral de los profesionales son desastrosas. Se confunde con ella. y que pasa no solo por la búsqueda del beneficio del paciente. Así como los gastos aumentan y los recursos son finitos es inevitable hablar de la racionalización de los costes en salud. Esto porque los hospitales lidan con beneficios singulares como la salud/ enfermedad y la vida/muerte de las personas. Los cambios por los cuales tienen pasado el área sanitaria con la incorporación de la tecnología trae muchos nuevos dilemas para los profesionales.2007.Cooperar para el bien común: ¿Responsabilidad social de la enfermería? . principalmente para los que pertenecen al sector privado de la salud. de la beneficencia equivale a pedirle para que se olvide del bien interno de su profesión.Centro Universitário São Camilo .1(1):118-123 la vía para lograrla que es distinta de épocas anteriores. Hay muy pocas personas que piensan que debería ser de otro modo. La responsabilidad moral suprema del hospital es con el enfermo. La práctica de la enfermería ha sido siempre marcada por el cuidado a las personas. Es el enfermo como un ser humano necesitado de ayuda quien impone al hospital la obligación de comprometerse moralmente. La elevación de los costes es tal que una decisión en la asistencia envolucra grandes cantidades de dinero. sólo debe esperar ser atendido. Pedir a la enfermera que abandone el reto del cuidado. El bien interno de la enfermería es el cuidado a las personas. Al adoptaren algunas practicas propias de los negocios tanto los hospitales con ánimo de lucro como aquellos sin ánimo de lucro tienen perjudicado la imagen de benevolencia que la sociedad espera para este tipo de organización social. Posiblemente el más fundamental de estes dilemas sea el relacionado con su identidad y misión. económicos o comerciales? Estas tensiones entre el rol de servidor de la comunidad y el de negocio son constantes para el hospital. pues tienen una propuesta superior. Para la enfermería este conflicto adquiere un sentido especial.estos pueden ver su lealtad dividida entre el enfermo y la exigencia de ahorrar.alguien que aparezca en un salón de demostración de una tienda de coches sin un peso y pide por un nuevo coche. sino también por la gestión eficaz. la imagen cultivada debe transparentar una actitud de celo en la defensa de las personas con problemas de salud. Este conflicto de intereses tiende a aumentar con la introducción del managed care o medicina gestionada. La representa. Debe darse justo el contrario. En caso contrario. y la sociedad siente estes beneficios como algo entre un derecho y una obligación. ¿El hospital es una instituición social destinada a atender las necesidades de salud de la comunidad? ¿O es un negocio como otro cualquier que cuando se vincula al segmento privado se somete a las presiones del mercado y primeramente se motiva por los lucros y incentivos financieros. El primer objetivo de la enfermera tiene que seguir siendo el cuidado al paciente y no el ahorro.

Lo que sí parece necesario es organizar el sistema de tal manera que no se premie directamente el ahorro económico que el profesional logre para el sistema sino su correcto ejercicio profesional. Hay muchos tipos distintos de managed care y no todos merecen el mismo juicio moral. pero usted debe mirar más allá y cumplir integralmente con las obligaciones extraordinarias de cuidados que tiene con sus pacientes y con la sociedad. los derechos.2007. En una situación conflictuosa la ética tiene precedencia sobre la economia. Costes incontrolables y personas sin ningún tipo de atención a la la salud. el respeto a las personas y a la justicia conforman un mensaje conflictuoso para la enfermera: Mira. Los efectos más deletéreos de esto van a ser sentidos donde ellos deberían ser más benéficos: junto a la cama de la persona enferma. Es sumamente importante no imponer el peso moral del managed care exclusivamente a la conciencia individual de los profesionales de salud. El managed care es más agresivo y peligroso en las instituiciones con ánimo de lucro. poco específicas y que traen un pequeño beneficio a un gran coste. Los recursos son controlados por via de la influencia en los actos asistenciales. Estamos delante de la paradoja del exceso y de la privación. Algunos de estes objetivos son moralmente sostenibles y otros son imorales. Se supone la conversión de ellos en gestores de recursos. la instituición y la sociedad pusieron en ella. Aquí es donde aparece la posible perversión moral de este sistema. sean estos practicados por las enfermeras. Así el managed care es moral solamente si persigue el reto de servir a las necesidades de salud de la sociedad y especialmente de las personas que ya se encuentran enfermas.COMUNICAÇÕES/ COMMUNICATIONS/ NOTICIAS . Se le pide a la enfermera que incluya el criterio de asignación de recursos entre los objetivos de la asistencia de enfermería. En otras palabras la cuestión es como conciliar los reclamos de la economia y las demandas de la ética. pues la racionalización de la asistencia a la salud basada solamente en los costes limita el acceso a algunos procedimientos que pueden ser benéficos para el paciente. Esto porque ella posibilita a la sociedad lograr las propuestas deseadas con eficiencia por la vía del mejor uso de los recursos. Sin duda.1(1):118-123 pues esta forma de gestionar el sistema de salud trae nuevos elementos para este debate. La medicina gestionada envolucra un sistema de atención a la salud que administra los recursos. La sociedad debe trazar políticas públicas determinando unos estándares mínimos para la conducta moral del managed care. como ya dijimos el primer objetivo a ser perseguido por la enfermera debe ser el mayor bien del paciente y no el ahorro. Un sistema de managed care que no plantee conjuntamente estas dos cuestiones impone sacrificios sin la promisa de más equidad en cambio. Sin embargo. Parece obvio que la enfermera debe preocuparse en usar bien los recursos disponibles. Así parece claro que los problemas de coste y acceso deben ser tratados de manera conjunta. el beneficio personal del paciente. el bien de la sociedad o la ganancia en el negocio. Se olvida que una de las pocas justificativas éticas para la racionalización costo/beneficio en los servicios de salud es la justicia distributiva.Centro Universitário São Camilo . la calidad y el acceso a los servicios de salud. Esto porque si de un lado tenemos el problema de los costes crescientes de otro tenemos el problema del acceso a la asistencia a la salud. los negocios y el comercio dirijam el sistema de salud. la contención de los costes. Las metas pueden incluir la calidad de la asistencia a un paciente individualmente. Si el imperativo ético de actuar en el mejor bien del paciente fuera interpretado en su literalidad puede llevar a esfuerzos y tentativas costosas. La ética del managed care está en la posibilidad de conciliarse la búsqueda del mejor bien para el paciente con la realidad de perseguir cada último procedimiento disponibilizado por la tecnología. contrabalancear la eficiencia en el uso de los recursos con las consideraciones acerca de las consecuencias. En caso 122 . Sin embargo. usted debe ser competente para bajar los costes con la asistencia de enfermería. los médicos o los demás profesionales de salud. entonces está faltando a la confianza que el paciente. Bajo la presión y la tensión de la probabilidad de un desastre económico que puede ser provocado por el constante aumento de los costes con la atención a la salud se corre el riesgo de permitir que la economia. pero no puede olvidarla. pues si ahorra cuando no debe hacerlo o despilfarra sin necessidad. la economia no debe determinar los fines y los objetivos de las vidas de las personas y de las sociedades ni tampoco debe determinar si estes fines y objetivos son morales o imorales. Su moralidad va a depender de los objetivos propuestos y de los medios usados para conseguirlos.

la ética social para los servicios de salud. 4. San Diego: Academic Press. La solidariedad exige preocupación con el bien estar del prójimo(8).1(1):118-123 contrario no sólo se puede esperar que muchos sigan teniendo el futil antes que haga el esencial para todos. 123 . Para hacer frente a la realidad en que vivimos en America Latina.1995.2007. 3ª ed. Santiago de Chile. La actitud solidaria ocurre cuando las personas sienten que comparten la vida en todos sus aspectos. para el placer del cuidado. Managed care: how economic incentive reforms went wrong. overview In: Chadwick R.1993. Madrid:McGraw-Hill.Entre a moral e a técnica:ambiguidades dos cuidados de enfermagem. 7. Kennedy Institute of Ethics Journal 1997. Facultad de Medicina. Cortina A. Como enfermeras debemos tomar en serio el reto de aplicar nuestros conocimientos de expertas de manera a contribuir para el bien estar comun de la sociedad.Cooperar para el bien común: ¿Responsabilidad social de la enfermería? . Encyclopedia of applied ethics. Los sistemas perversos y la corrupción institucionalizada. Gracia D. Ejercicio de la medicina y gestión de la salud. AdSaúde Jornal 1994.(editor). Problemas éticos de la gestión sanitaria. Debemos cultivar la solidariedad para que pasemos de la obligación de cuidar. 7(4): 353-360. 2 (2). Pero es igualmente indispensable la solidariedad. Responsabilidade ética do administrador de serviços de saúde: a realidade do micro-sistema hospitalar brasileiro. Nuestro ideal de profesionalismo debe incluir la búsqueda del bien de la comunidad actuando con una relación más cooperativa y solidaria.4: 143-151.(199-). [Tese apresentada a Universidad de Chile. Ética sin moral. [material didático del Ciclo de Bioética Clínica del I Magíster en Bioética de la Universidade de Chile y del Programa Regional de Bioética para la América Latina y Caribe OPAS/OMS] 6. 1994. Facultad de Filosofía para obtención del grado de Magíster en Bioética] 3. 5. La justicia es necesaria para proteger a las personas como sujetos autónomos que son. Zoboli ELCP. Social ethics. cuando sentimos que somos responsables unos por otros. 8. capaces de decidir acerca de su propia vida y su salud. pues debemos cuidar a las personas. La justicia postula la igualdad en el respeto y en los derechos de las personas. como muchos de los que hoy tienen el esencial pueden contar con la probabilidad de tener menos en el futuro(6). 2. Las barreras para el acceso a la asistencia a la salud son aún muchas y para los ciudadanos que son los excluidos hablar de un sistema de salud justo es como hablar de algo irreal y muy distante. Responsabilidade ética do administrador de saúde. para el sistema sanitario y para los profesionales de salud debe colaborar para la promoción de la autonomia de las personas permitiendo que ellas desarrollen sus capacidades. Etkin JR. Madrid:Tecnos.1998. La doble moral de las organizaciones.Centro Universitário São Camilo . Leopardi EMT. Powers M. 1998. Fortes PAC. Welch DD. Debemos cultivar la solidariedad para que pasemos del deber de hacer el bien para el placer de hacerlo. Chile:Universidad de Chile. pues los seres humanos solo pueden reconocer y realizar su potencial completo en la vida comunitaria. Florianópolis:Editora da UFSC. REFERÊNCIAS 1.

COMUNICAÇÕES/ COMMUNICATIONS/ NOTICIAS
- Centro Universitário São Camilo - 2007;1(1):124-131

Avaliação do conhecimento dos alunos de graduação em enfermagem sobre temas emergentes em bioética1
Evaluation of nursing undergraduate students about emergent subjects in bioethics Evaluación del conocimiento de estudiantes de pregrado en enfermera sobre temas emergentes en la bioética
Pollyana Lira* Maria Angela Reppetto** RESUMO: A bioética é um tema de intensa discussão nas mais variadas áreas do saber e de suma importância no ensino superior. Os três princí-

pios éticos que formam a trindade bioética são: autonomia, beneficência e justiça. Após refletirmos sobre o conceito de bioética, seus princípios e aplicações na prática do enfermeiro, abordaremos os seguintes temas emergentes em bioética: células-tronco, eutanásia e aborto. Este estudo tipo descritivo teve como objetivos: identificar o conhecimento dos alunos de graduação em enfermagem, sobre temas emergentes em bioética, especificamente células-tronco, eutanásia e aborto; descrever o entendimento dos alunos sobre bioética, sua importância e seus princípios de autonomia, beneficência e justiça; e averiguar o tipo de meio de comunicação utilizado pelos alunos para adquirir informação sobre os temas relacionados. Após a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa e aceitação dos alunos para participar do estudo, preenchendo o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, foi realizada a coleta de dados, por meio de questionários, aplicados aos discentes do 4º ao 6º semestres de um curso de enfermagem, totalizando 53 acadêmicos. Após a análise dos dados, concluímos que: existe pouco conhecimento dos alunos sobre temas emergentes em bioética, já que a maioria das respostas obtidas foram inadequadas ou em branco, somando 72% sobre eutanásia, 79% sobre células-tronco e 77% sobre aborto; existe um bom entendimento por parte dos alunos por bioética, pois (68%) responderam que têm importância na atitude ético-profissional do enfermeiro, considerando desde o comportamento do enfermeiro, suas atitudes, até o conhecimento das leis para tal atuação. Porém, a respeito dos princípios de autonomia, beneficência e justiça, foi predominante as respostas inadequadas e em branco, obtendo respectivamente 68% , 72% e 75%. O meio de comunicação mais citado foi a internet - 47%, seguida de revista e revista científica. PALAVRAS-CHAVE: Enfermagem. Bioética. Ensino.

ABSTRACT: Bioethics is subject of an intense argument in the most diversified areas of knowledge and it is of utmost importance in superior edu-

cation. The three ethical principles that form the bioethical trinity are autonomy, beneficence and justice. After reflecting on the concept of bioethics, its principles and applications in nursing practice, we will approach the following emergent subjects in bioethics: stem-cells, euthanasia and abortion. This descriptive study had as its aim to identify the knowledge nursing undergraduate students have about emergent subjects in bioethics, specifically about stem-cells, euthanasia and abortion; to describe how students understand bioethics, its importance and its principles of autonomy, beneficence and justice; and to inquire about the type of media used by students to get information on the said subjects. After the approval of the project by the Ethics in Research Committee and the acceptance of participation in the study by students, who filled and signed the Term of Free and Informed Consent, we collected data by means of questionnaires, applied to 53 4th to 6th semester nursing students. After data analysis, we conclude that students know very little about emergent subjects in bioethics, since most either gave wrong answers or simply did not answer - 72% on euthanasia, 79% on stem-cells and 77% on abortion. A good knowledge by students about bioethics exists, for 68% answered that it has importance in nurse's ethical-professional attitude, considering nurses behavior, their attitudes and the knowledge of laws regulating professional practice. However, regarding the principles of autonomy, beneficence and justice, we observed a predominance of inadequate answers and no answers: 68%, 72% and 75% respectively. The most cited media for getting information was the Internet - 47%-, followed by magazines and scientific journals. KEYWORDS: Nursing. Bioethics. Teaching.

RESUMEN: La bioética es tema de discusiones intensas en diversificadas áreas del conocimiento y es de importancia extrema en la educación supe-

rior. Los tres principios éticos que forman la trinidad bioética son la autonomía, la beneficencia y la justicia. Después de reflejar sobre el concepto de la bioética, sus principios y usos en la práctica de enfermería, nosotros acercamos a los siguientes temas emergentes en la bioética: células troncales, eutanasia y aborto. Este estudio de tipo descriptivo tenía como meta identificar el conocimiento que tienen estudiantes de enfermería sobre temas emergentes en la bioética, específicamente sobre las células troncales, la eutanasia y el aborto; describir cómo los estudiantes entienden la bioética, su importancia y sus principios de autonomía, beneficencia y justicia; y investigar el tipo de medios usados por los estudiantes para conseguir informaciones sobre dichos temas. Después de la aprobación del proyecto por el Comité de Ética de Investigación y de la aceptación de la participación en el estudio por los estudiantes, que llenaron y firmaron el Término del Consentimiento Libre e Informado, recogimos datos por medio de cuestionarios, aplicados a 53 estudiantes de enfermería del cuarto e el sexto semestre de curso. Después de la análisis de los datos, concluimos que los estudiantes saben muy poco sobre temas emergentes en la bioética, puesto que la mayoría de los estudiantes o dieron respuestas incorrectas o simplemente no contestaran: 72% acerca de la eutanasia, 79% acerca de las células troncales y 77% acerca del aborto; existe un buen conocimiento de los estudiantes sobre la bioética, porque 68% contestaran que la bioética tiene importancia en la actitud ético-profesional de los enfermeros, considerando su comportamiento, sus actitudes y también el conocimiento de las leyes que regulan la práctica profesional. Sin embargo, respecto a los principios de la autonomía, de la beneficencia y de la justicia, observamos un predominio de respuestas inadecuadas y de ningunas respuestas: 68%, 72% y 75% respectivamente. Lo medio más citado para conseguir informaciones fue la Internet - 47% -, seguido por las revistas y los periódicos científicos. PALABRAS LLAVE: Enfermería. Bioética. Educación.
1 - Artigo resultante do trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em Enfermagem. (Escola de Enfermagem da Irmandade da Santa Casa de São Camilo. * Enfermeira. Graduada na FCMSCSP. Docente da Escola de Enfermagem da Irmandade da Santa Casa de São Paulo. ** Enfermeira. Doutora em Ciências. Professor Adjunto do Curso de Graduação em Enfermagem - FCMSCSP.

124

Avaliação do conhecimento dos alunos de graduação em enfermagem sobre temas emergentes em bioética
- Centro Universitário São Camilo - 2007;1(1):124-131

INTRODUÇÃO
Diante dos conflitos éticos que vivemos na atualidade em resposta aos avanços científicos, a bioética passou a ser tema de intensa discussão nas mais variadas áreas do saber e de suma importância no ensino superior. E, como não poderia deixar de ser, também na graduação em enfermagem, pois reflete diretamente no exercício profissional do enfermeiro. Segundo Segre(1) "[...] bioética é a parte da ética, ramo da filosofia, que enfoca as questões referentes à vida humana (e, portanto à saúde)". Garrafa(2) refere que, no sentido amplo do conceito que se pretende dar a bioética, seus verdadeiros fundamentos somente podem ser encontrados por meio de uma ação multidisciplinar que inclua, além das ciências médicas e biológicas, também a filosofia, o direito, a teologia, a antropologia, a ciência política, a sociologia, a economia. Assim, o estudo da bioética não pode ser minimizado às ciências biológicas, pois todas as ciências, como as sociais, econômicas, humanas e outras, estão envolvidas nestas questões. Para Drane, Pessini(3), nenhum outro campo de estudo reflete a época contemporânea mais fielmente do que a bioética, um estudo sistemático da conduta moral das ciências da vida e na medicina. A bioética une numa única disciplina os dilemas éticos associados com a pesquisa biocientífica contemporânea e sua aplicação na medicina. Ao refletirmos sobre as diferentes áreas do saber comprometidas com a bioética, enxergamos o ser humano como um ser bio-psico-socio-político-espiritual no universo e a riqueza dessa relação de áreas tão diversas, tão próximas e tão dinâmicas inerentes a ele. Sempre com o objetivo, segundo Siqueira(4), de alcançar no campo da bioética um discurso que aspire ser o mais universal e conseqüente possível. Os três princípios éticos que formam a trindade bioética são: autonomia, beneficência e justiça. Para Massarolo et al(5), autonomia é um termo derivado do grego autos (próprio) e nomós (lei, regra, norma) e referese ao poder da pessoa de tomar decisões que afetam sua vida, sua saúde e seu bem-estar, mediante valores, crenças, expectativas e prioridades, de forma livre e esclarecida, dentre as alternativas a ela apresentadas. O princípio da beneficência, segundo o Informe

Belmont* (1978), reforça a idéia da beneficência com caridade (citado por Pessini)(6). Ainda, Pessini(6) refere que a partir disso foram desenvolvidas duas regras: 1ª) não causar dano; 2ª) maximizar os benefícios e minimizar os possíveis riscos. Para Zoboli(7), por beneficência entende-se "fazer o bem", "cuidar da saúde", "favorecer a qualidade de vida", enfim, dilatar os benefícios, evitar ou, ao menos, minorar os danos. A autora completa, ainda, que no escopo do princípio da beneficência encontra-se um conjunto de regras morais mais específicas, como proteger e defender o direito dos outros; prevenir danos que possam ocorrer a outros; eliminar condições que causarão danos a outros; ajudar pessoas com incapacidades e resgatar pessoas em perigo. O princípio da justiça, segundo o Informe Belmont* (1978), é definido como a imparcialidade na distribuição dos riscos e benefícios, ou seja, os iguais devem ser tratados igualmente. O enfermeiro tem posse de um poder não institucional que lhe é conferido pela sua proximidade com o paciente e/ou sua família. Seu poder é, na verdade, instituído, sendo assim, o enfermeiro vivencia o conflito entre beneficência (médico) e autonomia (paciente), permitindo ao último ter consciência de seus direitos enquanto ser humano e paciente, fortalecendo-o e possibilitando-lhe o exercício de sua autonomia(8). Após refletirmos sobre o conceito de bioética, seus princípios e aplicações na prática do enfermeiro, abordaremos e conceituaremos os seguintes temas emergentes em bioética: células-tronco, eutanásia e aborto. São temas presentes na atuação profissional do enfermeiro, e sua reflexão norteia a tomada de decisão tanto do usuário do serviço de saúde como do enfermeiro. Alonso(9), acredita que, para o que se afirma em ética possa ser levado à prática no exercício profissional, é preciso levar em consideração todos os aspectos da vida profissional relevantes para orientar as decisões, assim a fundamentação das afirmações éticas e o que acontece com a ética quando ela é levada à prática são as duas pedras de toque tanto da ética pensada como da moral vivida, é necessário estar atento com o que acontece com os princípios quando eles são aplicados. Neri(10) sabiamente refere que o problema da bioética começa quando as divergências morais que as pessoas razoáveis podem manifestar sobre várias temáticas se tornam uma questão pública que exige uma solução.

125

COMUNICAÇÕES/ COMMUNICATIONS/ NOTICIAS
- Centro Universitário São Camilo - 2007;1(1):124-131

E, como freqüentemente essas divergências nascem de crenças morais e religiosas mais profundas, a tarefa de encontrar uma solução não é, certamente fácil. A questão da pesquisa com células-tronco é um exemplo disso, mas não o único. Antes de discutir qualquer dilema ético relacionado ao tema das células-tronco é necessário conceituá-las. Células-tronco embrionárias são aquelas provenientes da massa celular interna do embrião (blastocisto). São chamadas de células-tronco embrionárias humanas porque provém do embrião e porque são as células-mãe do ser humano. Para se usar essas células, que constituem a massa interna do blastocisto, é destruído o embrião. As células-tronco adultas são aquelas encontradas em todos os órgãos e em maior quantidade na medula óssea (tutano do osso) e no cordão-umbilical-placenta. No tutano dos ossos tem-se a produção de milhões de células por dia, que substituem as que morrem diariamente no sangue(11). Com relação à eutanásia, Drane, Pessini(12) referem que esse termo é relativamente novo em seu sentido presente. Sua etimologia é simples. Eu em grego significa "bem" ou "bom". Thanatos significa "morte". Eu Thanatos tem o sentido de "boa morte" ou "morte fácil". Os autores continuam afirmando que o termo eutanásia pode ser relativamente novo (séc XVII), mas não as práticas de apressar e de causar a morte. A aceitabilidade moral dessa prática dependeu de crenças religiosas e dos costumes das comunidades que evoluíram com o passar dos anos. As crenças, as atitudes e os costumes culturais passaram por evoluções e o mesmo ocorreu, por consegüinte, com o sentido do termo eutanásia. Etimologicamente, aborto, do latim abortus, significa "privação" de nascimento porque vem de ab, que quer dizer privação, e ortus, nascimento. Distingui-se aborto espontâneo, quele que acontece por causas naturais; e aborto provocado ou induzido, aquele que acontece por intervenção especial do homem(13). Segre(14), refere que contra uma eventual liberação do aborto há os que falam no risco de esterilidade da mãe após a prática abortiva, ou então, retornando-se a uma justificativa ideológica, na perda do senso de responsabilidade da mulher ao entreter uma relação sexual, em decorrência da qual, ela sabe, poderá engravidar. Ainda cita o autor que a respeito da liberação (ou não) do aborto, soa como extremamente traiçoeiro que uma sociedade que oferece à mãe os meios de saber ante-

cipadamente ao nascimento, as características do seu filho, queira negar-lhe a possibilidade de eliminar um filho indesejado. Posição essa questionável do ponto de vista ético, pois o fato da mãe saber das características do seu filho previamente, não justifica moralmente a eliminação de sua vida. Reconhece-se, atualmente, na sociedade, uma forte tendência à aceitação da descriminação do aborto em situações específicas. Já nossa Lei Penal, de 1940, não prevê punição para o aborto praticado quando não haja outro meio para salvar a vida da mãe, ou quando a gravidez tenha ocorrido de estupro(14). Nós, no curso superior, temos a oportunidade de conhecer fontes de informações seguras e até temos subsídios para ter entendimento crítico das notícias que chegam a nós. Mas a pergunta é: será que os graduandos buscam os meios fidedignos para se informarem sobre temas de bioética? É um questionamento que fazemos, pois, na faculdade, percebemos que freqüentemente erramos ao tomar como corretas informações de qualquer fonte, por serem de mais fácil acesso e normalmente persuasivas. Entretanto, como formadores de opinião, não podemos nos permitir tal erro, pois o nosso papel é esclarecer a comunidade da qual fazemos parte e, se não interferirmos não estaremos cumprindo de forma ética o nosso papel na sociedade. Existe a preocupação de estudar essas questões, realizando estudos com vistas a identificar qual o preparo que os graduandos de enfermagem estão tendo em seus cursos para lidar, na prática, com dilemas bioéticos(15). Para Germano(16), a temática a ser abordada nos cursos de ética, não somente na enfermagem, mas na saúde como um todo, precisa ultrapassar os muros do corporativismo (muito bem representado nos códigos e leis) e apontar para questões cruciais que limitam o ser humano e lhe roubam a vida. Neste caso, continua Germano(16), são muitos os autores cujas publicações vêm contribuindo com uma nova dimensão do tema incluindo, diferentes concepções filosóficas acerca da ética, o porquê de agir moralmente e assuntos polêmicos (como aborto, eutanásia, morte, contracepção, entre tantos outros temas da atualidade). Simino, Boemer(17) citam que a enfermagem possui periódicos de grande contribuição para o estímulo e divulgação de sua produção científica. No entanto, não existe um periódico de enfermagem especificamente para temas bioéticos. É importante ressaltar tais periódi-

126

dos temas emergentes de bioética e sua importância para a enfermagem.CEP. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS O estudo foi do tipo survey descritivo/exploratório e foi realizado numa faculdade de enfermagem localizada na região central da cidade de São Paulo.1(1):124-131 cos e. "é essencial no curso de enfermagem". seguidos da discussão. Outra hipótese. o conhecimento dos alunos sobre temas emergentes em bioética. Para as questões fechadas. "parcial". Outra hipótese. eutanásia e aborto. 25 (vinte e cinco) do 5º semestre e 11 (onze) do 6º semestre. para autorização da Diretoria do Curso e em seguida para o Comitê de Ética em Pesquisa . sobre células-tronco: "estudo e administração em humano". Segue alguns exemplos de respostas incoerentes para melhor ilustrar a discussão: 4º semestre: . os questionários foram aplicados em sala de aula. pois muitas vezes tal avanço fica estagnado por questões éticas". Sobre o conhecimento dos alunos questionados a respeito dos temas emergentes em bioética. mas realizada". beneficência e justiça. pois são muitos os meios de comunicação usados pelos estudantes de enfermagem para adquirir informação sobre o assunto.sobre eutanásia: "total". os resultados foram apresentados de forma descritiva. uma delas é a não compreensão da questão por parte dos alunos. Este estudo teve por objetivo identificar o conhecimento dos alunos de graduação em enfermagem sobre temas emergentes em bioética. Boemer(15) acreditam que estudos dessa natureza possam ser realizados nas diferentes regiões do país.Avaliação do conhecimento dos alunos de graduação em enfermagem sobre temas emergentes em bioética . "importante". 5º semestre: . nos alunos que aceitaram participar do estudo e após preencherem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. é a falta de motivação dos alunos em responder questões filosóficas de um questionário para uma pesquisa. composto por sete questões abertas e quatro questões fechadas. ainda a ser considerada. 77%. especificamente células-tronco. sobre o conhecimento de bioética. e a respeito de aborto 41 alunos. os resultados serão apresentados na forma de gráficos. 42 alunos. sendo que somadas tais respostas. "básico". Algumas hipóteses podem ser consideradas ao analisarmos tais resultados.Centro Universitário São Camilo . Para as questões abertas. será abordado. obteve-se maior número as respostas inadequadas e em branco. beneficência e justiça. "preconceitos acabados". de forma a podermos ter um diagnóstico da inserção da bioética nos cursos de graduação em enfermagem. averiguar o tipo de meio de comunicação utilizado pelos alunos para adquirir informação sobre os temas relacionados. e sobre aborto: "proibido". pelas próprias autoras. "polêmica". Nessa questão foi solicitada a descrição dos conceitos de eutanásia. é a falta do exercício/prática de reflexão filosófica dos alunos no momento que se deparam com o ato. portanto. aborto e eutanásia. 5º e 6º semestres. obtivemos a respeito da eutanásia 38 (trinta e oito) alunos. sobre aborto: "grande". equivalente a 72%: ou não responderam ou deram respostas incoerentes. Por fim. 127 . "média". sobre células-tronco: "só trás confusão.2007. CONSIDERANDO OS DADOS LEVANTADOS Neste estudo foi realizada a análise descritiva dos dados e calculadas as freqüências absoluta e relativa. "total". num total de 53 (cinqüenta e três) alunos (presentes na sala de aula no dia da coleta de dados) que responderam ao questionário. sobre células-tronco: "o problema é ter uma sobrevida muito curta". descre-ver o entendimento dos alunos sobre bioética. especificamente células-tronco.sobre eutanásia: "não concordo". Num total de 53 (cinqüenta e três) alunos. sobre aborto: "a partir de princípios religiosos". Nesse trabalho. também.sobre eutanásia: "proibida. 6º semestre: . será verificado o tipo de meio de comunicação usado pelos alunos para obter informação sobre os temas relacionados. sendo 17 (dezessete) do 4º semestre. o que nos encaminha à aplicação de um instrumento piloto numa próxima pesquisa. bem como os princípios de autonomia. serão também o que os alunos compreendem por bioética e sua importância. 79%. tal observação das autoras. cursando 4º. a respeito de células-tronco. "pouquíssimo". Após a aprovação do CEP. O projeto foi encaminhado à Comissão Científica. por diferentes pesquisadores. após sua aprovação. sua importância e seus princípios de autonomia. sendo que a população inicial era de 75 (setenta e cindo) alunos. células-tronco e aborto a partir da influência do ensino da ética no curso de enfermagem. A amostra foi constituída por alunos da graduação de enfermagem. porém muitos desses meios utilizados não são fidedignos e acabam por desinformar. Zanatta. que nos remete mais uma vez à premissa de que o ensino de bioética deve ser transdisciplinar ou pelo menos interdisciplinar.

a maior parte dos alunos questionados (51 96. Azevedo(19) afirma que o ensino da bioética tornou-se uma nova experiência sem modelo didático definido. SP. 128 . Já na questão que pedia para descrever o conceito de bioética a partir da influência do ensino da ética no curso de enfermagem. com os "emergentes" e os "persistentes". por sua vez. Afirmam. Sem dúvida nos mostra o quanto é uma área atual e emergente. Gráfico 1 Gráfico 2 DISTRIBUIÇÃO DA OPINIÃO DOS ALUNOS DO CURSO D E GRADUAÇÃO E M E NFERMAGEM SOBRE O CONHECIMENTO D E BIOÉTICA. É oportuno acentuar que toda essa dificuldade decorre. 35 alunos (66%) deram respostas inadequadas ou não responderam. A transdisciplinaridade é considerada extremamente difícil de ser alcançada. SÃO PAU LO. Pessini e Barchifontaine(18) citam que há pouco mais de trinta anos surgiu a bioética como uma "nova área de conhecimento". 36 (68%) responderam que tem importância na atitude éticoprofissional do enfermeiro. suas atitudes. os quais descaracterizam a unidade existente na ciência"(19). é o olhar sobre novas questões. E M PORC E N TAGEM. Assim podemos perceber pelo número de respostas positivas que os alunos demonstraram entender a relação entre avanços tecnológicos e problemas éticos como problemática da bioética. consciente e responsavelmente a competência profissional que a formação universitária e técnica lhes outorga. porém é a marca de certas áreas do saber.2007. 2006. da tradição histórica de produzir e transmitir conhecimento em pacotes chamados disciplinas. devido à ausência de conhecimentos profundos em mais de uma disciplina prevista para a integração.Centro Universitário São Camilo . e também com os problemas já existentes. que a bioética se preocupa com os problemas dos avanços. SÃO PAU LO. Pessini e Barchifontaine(18) cita que a bioética surgiu há pouco mais de trinta anos e que guarda forte relação com o avanço científico. exatamente. ainda. geologia. A interdiscilplinaridade. química. mas é também o olhar sobre questões já existentes. física etc. considerando desde o comportamento do enfermeiro. 2006. DISTRIBUIÇÃO DA OPINIÃO DOS ALUNOS DO 4º AO 6º SEMESTRE DO CURSO D E GRADUAÇÃO E M E NFERMAGEM SOBRE A EXISTÊNCIA DA RELAÇÃO E N T R E OS AVANÇOS TECNOLÓGICOS E OS PROBLEMAS ÉTICOS N A ÁREA DA SAÚDE.1(1):124-131 "Na elaboração geral de cursos e currículos. a qual traz desafios de ordem acadêmica. é um pouco mais difícil. No que diz respeito à existência de relação entre os avanços tecnológicos e os problemas éticos na área da saúde. todos já ouviram falar.COMUNICAÇÕES/ COMMUNICATIONS/ NOTICIAS . Referente ao papel da bioética na formação profissional pessoal dos alunos questionados.22%) afirmaram existir essa. até ao conhecimento das leis para tal atuação. Sobre o conhecimento de bioética. assim. 53 (100%) alunos questionados tiveram algum contato com a bioética. como a biologia. ou seja. SP. a multidisciplinaridade é a forma mais simples e freqüentemente usada em qualquer parte do mundo. Oguisso(20) afirma que se espera que os enfermeiros e demais membros da equipe de enfermagem possam compreender efetivamente a dimensão do trabalho que executam e.

6º semestre: . 2006 Sobre a relação entre o conhecimento de bioética e os dilemas da vida profissional. 51 (cinqüenta e um) (96. SÃO PAU LO.Avaliação do conhecimento dos alunos de graduação em enfermagem sobre temas emergentes em bioética . somadas tais respostas. "grande".22%) alunos responderam que há relação.sobre autonomia: "influente". mas não é descartada. sendo que. Neves(21) afirma que a euforia inebriadora de um poder aparentemente infinito conquistado pelo homem por meio dos desenvolvimentos tecnológicos. 5º semestre: . "muito". tivemos a respeito do conceito de autonomia 36 alunos (68%) que ou não responderam ou deram respostas incoerentes. "influência total". norteando suas condutas. sendo. 38 alunos (72%). "importante". As mesmas hipóteses que foram consideradas na análise das respostas a respeito dos temas emergentes serão abordadas aqui. SÃO PAU LO. "empatia profissional". "importante". Schramm(22) afirma que o foco da bioética é a qualidade das práticas humanas sobre os fenômenos da vida. a hipótese que falta exercício/prática de reflexão filosófica dos alunos e discutir bioética e seus princípios sem o exercício de reflexão filosófica é incompatível. Segue alguns exemplos de respostas inadequadas para ilustrar a discussão: 4º semestre: . "influente". obteve-se a maioria de respostas incoerentes e respostas em branco. enquanto 2 (dois) (3. Gráfico 4 DISTRIBUIÇÃO DA OPINIÃO DOS ALUNOS DO 4º AO 6º SEMESTRE DO CURSO D E GRADUAÇÃO E M E NFERMAGEM SOBRE O MEIO D E COMUNICAÇÃO N O QUAL ADQUIRIRAM PRIMEIRAMENTE INFORMAÇÃO SOBRE BIOÉTICA. legais e técnicos. sobre justiça: "grande". porém é imprescindível que os profissionais estejam em constante atualização sobre os aspectos éticos. e a respeito da justiça. sobre justiça: "muito importante e deve ser levado em conta". SP.78%) alunos referiram não existir relação. sobre justiça: "fundamentada na vazão e na ética". por isso. cedeu lugar a um sentimento de angústia pela sua manifesta impotência perante às situações produzidas. pois é a mesma questão. "muito importante e deve ser levado em conta". sobre beneficência: "muito importante e deve ser levado em conta". sobre beneficência: "entendi na graduação". então. beneficência e justiça. 40 alunos (75%). Fica nítida a necessidade da aplicação de um instrumento piloto numa próxima pesquisa.Centro Universitário São Camilo . "parcial".1(1):124-131 Gráfico 3 DISTRIBUIÇÃO DA OPINIÃO DOS ALUNOS DO 4º AO 6º SEMESTRE DO CURSO D E GRADUAÇÃO E M E NFERMAGEM SOBRE O MEIO D E COMUNICAÇÃO N O QUAL ADQUIRIRAM PRIMEIRAMENTE INFORMAÇÃO SOBRE BIOÉTICA. Neves(21) cita que só a fundamentação antropológica da bioética lhe permitirá desenvolver harmoniosamente enquanto reflexão e prática. Freitas(23) cita que não basta ter exímio tecnicamente. desse ambiente marcado por grandes evoluções e sentimentos contraditórios que emerge a bioética como novo domínio da reflexão e da prática.2007. a respeito da beneficência.sobre autonomia: "a importância". 2006 Faculd ade Televisão Palestra Médio Ensino Jorna l Revista m coerênc Se ia Outros 129 . posicionando-se de forma crítica e reflexiva diante dos dilemas éticos e morais que permeiam seu cotidiano. sobre beneficência: "parcial". Em relação ao entendimento dos alunos questionados sobre os princípios de autonomia.sobre autonomia: "moderada". SP. A questão pedia para descrever os conceitos citados a partir da influência do ensino da ética no curso de enfermagem (questão 7 do instrumento de coleta).

tornando distante a formação de atitude reflexiva para uma ética relacional. Mas infelizmente 130 . a qual conduz a reflexões éticas da prática profissional. o graduando vivencia em estágios práticos questões éticas que precisam ser discutidas no momento da ocorrência dessa. É importante observar tal dado.Centro Universitário São Camilo . a respeito dos princípios de autonomia. e tenha mais cautela em meios como a internet e a revista. Silva(24) de que a construção da consciência profissional da(o) enfermeira(o) é intensamente influenciada pelo órgão formador. Miguel(25) diz que se destaca a presença entre os códigos de conduta do jornalista termos como "verdade dos fatos" como compromisso fundamental do profissional e sem ela o jornalista passaria longe de seu papel social. pois ilustra a afirmação de Silva. 19% (10) referiram utilizar a revista científica como fonte de informação segura.2007. pois além de terem vivenciado mais estágios. com o uso de instrumento piloto para o questionário aplicado. 26% (14) dos alunos citaram a revista como meio seguro. será feita uma nova pesquisa. SP. somando 72% (38) sobre eutanásia. obtendo respectivamente 68% (36). 29 alunos (vinte e nove). Espera-se que na graduação o aluno utilize como fonte de informação meios mais seguros e fidedignos. como a revista científica. é necessário existir um ensino. palestras. SÃO PAU LO. 2006. sem opinião. e 19% (10) referiram utilizar a revista.1(1):124-131 A respeito do meio de comunicação da primeira informação sobre bioética. acreditamos ser desenvolvido o pensamento filosófico reflexivo. assim. enquanto 17% (9) referiram como meio não seguro. beneficência e justiça. pois. Quanto aos meios de comunicação utilizados pelos alunos. suas atitudes. científica como fonte de informação. "não leio". em bioética. porém o que ocorre é o ensino multidisciplinar e tais questões são discutidas somente no momento da disciplina específica (Exercício de Enfermagem). Porém. a internet foi o meio mais citado 47% (25). com isso trazem temas para discussões de situações vivenciadas desde o 3º semestre. pois para acontecer o entendimento do aluno. com objetivos semelhantes com os alunos do 7º semestre do curso de graduação em enfermagem da mesma faculdade. Outro ponto a ser colocado é a proposta pedagógica de elaboração geral do curso e do currículo. equivalente a 55%. já que 68% responderam que tem importância na atitude ético-profissional do enfermeiro. Fonte de informação Internet Revista Revista Científica Outros* Jornal Livro Televisão Sim N 16 14 10 7 4 3 3 % 30 26 19 13 7 6 6 N 9 6 0 4 2 12 Não % 17 11 0 7 4 23 * Indicações do professor. considerando desde o comportamento do enfermeiro. a faculdade foi o mais citado. Então. sem respostas. ao menos interdisciplinar. 11% (6) como não seguro. Tabela 1 na atualidade referente a temas de bioética não observamos reportagens seguram em meios não-científicos. Quanto à seguridade dos meios de comunicação utilizados pelos alunos. as escolas de enfermagem. 79% (42) sobre células-tronco e 77% (41) sobre aborto. a internet foi o meio mais citado como seguro 30% (16). até ao conhecimento das leis para tal atuação. 38% (20) dos alunos citaram a revista. foi predominante as respostas incoerentes e em branco. esses não têm sido meios seguros. Assim. Esse trabalho nos conduziu a realizar nova pesquisa com os alunos de 7º semestre da faculdade. 72% (38) e 75% (40). que existe um bom entendimento por parte dos alunos por bioética. já que a maioria das respostas obtidas foram incoerentes ou em branco.COMUNICAÇÕES/ COMMUNICATIONS/ NOTICIAS . já estão cursando a disciplina de exercício de Enfermagem II. DISTRIBUIÇÃO DA OPINIÃO DOS ALUNOS DO 4ºAO 6º SEMESTRE DO CURSO D E GRADUAÇÃO E M E NFERMAGEM SEGUNDO A SEGURIDADE DAS FONTES D E INFORMAÇÕES UTILIZADAS PARA ADQUIRIR CONHECIMENTO SOBRE BIOÉTICA. na prática. CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesse trabalho concluímos que existe pouco conhecimento dos alunos sobre temas emergentes em bioética.

A evolução do ensino da ética para enfermeiros. 8. 2005a. Vida: O primeiro direito de cidadania. Disponível em: http://www. clonagem e saúde humana. Negligência: fator de risco no cuidar. 2004. medicina e tecnologia . Miguel MM.html Simino GPR. p. 24. 2006. Rev Latino-am Enf 1997.101-115. São Paulo: Centro Universitário São Camilo e Edições Loyola. Pessini L.Avaliação do conhecimento dos alunos de graduação em enfermagem sobre temas emergentes em bioética . Bioética. p.deontologia e diceologia. Ramos DLP. 12. Bioética. 14. In: Néri D. Definição de bioética e sua relação com a ética. Problemas atuais de bioética. EPU: São Paulo. A eutanásia. Os princípios da bioética . Aborto. In: Neves MCP. 11(2):83-88. conceituação e enfoques. Neves MCP. In: Oguisso T. 7ª ed.htm (24 outubro 2006) Germano RM. Rev Técnico-Científica de Enfermagem 2003. Autonomia.33-34.html (14 abril 2005) Schramm FR. Disponível em: http://www.23-29. In: Pessini L. Zoboli ELCP.br/revista/bio1v4/evolucao. 2005. p. Garrafa V. Os valores éticos e os paradigmas da Enfermagem.9-15. beneficência e autonomia. Fundamentos da bioética. Educação 1998. Pessini L. São Paulo: Centro Universitário São Camilo e Edições Loyola. p. EPU: São Paulo. São Paulo: Loyola. Barchifontaine CP. Ética. São Paulo: Paulus. Limites éticos da intervenção sobre o ser humano. 2 (2): 127-137. O que são os princípios. Oguisso T. Barchifontaine CP. 2ª ed. Barchifontaine CP. 6. 5(2): 33-38.311-331. p. enfatizamos o modelo teórico baseado em Barbosa(26). Zoboli ELCP. p.portalmedico. 13. Segre M. 57 (1): 40-3. 3. In: Pessini L. Pessini L. Brandão DS. Bioética. Siqueira JE. Vulnerabilidade na Prática Clínica na Saúde do Adulto. 4. p. In: Segre M. 2006. Interface . O que é bioética? In: Drane J. 3 (1): 224-27.org.1(1):124-131 Também relevante comentar a importância da atitude reflexiva e a busca de fontes seguras pelo enfermeiro. 2005. p. medicina e tecnologia Desafios éticos na fronteira do conhecimento humano. Segre M. Por onde andará a verdade dos fatos? Uma reflexão sobre a função social do jornalista à luz de seu código de ética. Problemas atuais de bioética. 1996. Zoboli ELCP.Desafios éticos na fronteira do conhecimento humano. 2006. A atitude reflexiva de uma ética relacional é a base que conduz a tomada de decisão frente aos temas emergentes pautada na tríade justiça.org. Pessini L. 7. 20. Saúde. Rev Bioética 1996. Para finalizar. Neri D. Disponível em: http://www. que coloca o sujeito como autor da história (considera-se sujeito o usuário do serviço de saúde e a equipe multiprofissional) e centro da prática assistencial. Cohen C. p.fen. São Paulo: Loyola.Comunicação. Pessini L. Barbosa A. Drane J. Lima M. Martins A. O exercício da enfermagem em sua dimensão bioética. Alonso HÁ. 2002. REFERÊNCIAS 1. Loyola: São Paulo. In: Drane J. Saccardo DP. Humanidades (UnB) 1994. Batista CMC. Azevedo EES. Vozes: Petrópolis. Zoboli ELCP. In: Alonso HÁ. Eutanásia: por que abreviar a vida? In: Pessini L. Apresentando a bioética.ufg. 16. 17. p. confiança e partilha respectivamente. Ética e bioética: desafios para a enfermagem e a saúde. Boemer MR. p. 2006. 25.79-101. 1999a. privacidade e confidencialidade. Barueri: Manole. 7ª ed. 26. 1999. Questões bioéticas. 2006. 2 ª ed. 2005a.de Enfermagem 2004. Barchifontaine CP.br/Revista/revista7_3/revisao_01. Barchifontaine CP. Boemer MR. As diferentes abordagens da bioética. Ensino de bioética: um desafio transdisciplinar. p. 22. In: Anais do IV Encontro Luso-Brasileiro de Bioética/ II Fórum Brasileiro de Bioética/ II Encontro Luso-Brasileiro de Enfermagem. 11. São Paulo (SP).p. Silva EM. Coimbra: Centro Universitário São Camilo e Gráfica Coimbra. 19 a 22 set. Enfoue bioética na produção científica de enfermeiros: caracterização e análise.breve nota histórica. envolvendo eficiência. Pessini L. Prefácio. 2005.2007. 18. Massarolo MCKB. Drane J. A fundamentação antropológica da bioética.51-55. Revista Bras.28-45.Centro Universitário São Camilo . Cohen C. A bioética em laboratório: células-tronco. Soares AMM. Zanatta JM. Freitas GF. 2005. Cerqueira EK et al. In: Anais do IV Encontro Luso-Brasileiro de Bioética/ II Fórum Brasileiro de Bioética/ II Encontro Luso-Brasileiro de Enfermagem. Ética das profissões. Zoboli ELCP.na evolução das sociedades. Pegoraro AO. Ética e bioética: Desafios para a enfermagem e a saúde. 2006a. Ética e bioética: Desafios para a enfermagem e a saúde. In: Palácios M. ética e legal do profissional de enfermagem. Boemer MR. In: Oguisso T. Ferreira AT. 4 (1).17-35.371-406. 5. Revista Eletrônica de Enfermagem 2005. 21. ciência e saúde: desafios da bioética. 23. p. In: Segre M. 131 . Pessini L.br/revista/bio1v4/fundament. Acta Paul Enf 1998. 19. São Paulo (SP).68-90. Bioética ou bioéticas . 7(3):351-354. 10. pois as mudanças na área são contínuas e influenciam diretamente a prática profissional do enfermeiro.136-152.portalmedico.111-135. p. 9. Bioética . 2. Silva MAPD. 15. Barueri: Manole. Sampaio MA.um ensaio sobre sua inserção nos cursos de graduação em enfermagem.111-115. 19 a 22 set.141-162. Que são células-tronco? Qual a diferença entre células-tronco embrionárias e células-tronco adultas? Para que servem? In: Ferreira AT. Bioética: Gênese. In: Oguisso T. 9 (4): 322-3. Bioética. Responsabilidade. 2 ª ed. Barueri: Manole. São Paulo: Edições Loyola. Goiânia: Editora Bandeirante.

são questões bioéticas que devem ser tratadas de modo diferenciado na reflexão. visando sempre o bem . Botucatu. a tomada de decisão sempre foi um dilema nas discussões nos momentos de grande sofrimento. cuja principal manifestação clínica é cianose. a formação da pessoa. o que fazer? Bioethics: what are we to do now? Bioética: ¿ que hacer ahora? William Saad Hossne (coordenador)* Colaboradores: Gláucia Rita Tittanegro Sueli Gandolfi Dallari Débora Sanches Pedrolo Renata Santinelli (Caso enviado pela mestranda Beatriz Carneiro F. principalmente quando esta decisão é feita a partir da doença.Centro Universitário São Camilo . pois tem-se a preocupação com a dignidade humana. O caso relatado trata-se de um caso comum dos corredores hospitalares. Feminina. porém. sem se ater a modelos heróicos ou paternalistas. O procedimento recomendado é a * Médico. momento onde todos os próximos ao enfermo sentem-se vulneráveis e desprovidos de condições para deliberar sobre qualquer assunto. do mundo. gerando alto risco de mortalidade para ambos: mãe e feto. 16 anos. A pessoa. Exercer a bioética é uma atitude viva e desejosa de responsabilidade. sobre os riscos e benefícios ao ser determinado certo procedimento.1(1):132-137 Bioética . a escolha deve ser feita. refletir sobre os pontos positivos e negativos. como busca de garantir a integridade do outro. Desse modo. em situação de desumanidade.e agora. Assim.P. o médico cardiologista indicou a interrupção da gestação. quanto para o feto. da criação. à dignidade humana. apesar da insistência dos pais e do próprio médico. adaptado do caso apresentado no Congresso de Cardiologia do E. Muito se fala na tomada de decisão livre de qualquer influência externa. Por isso. Bioética é um sempre movimento de reflexão.S.2007. culturais. 132 . a espiritualidade. à beneficência. uma sempre busca pela dignidade do ser nas grandes situações da vida. de causa congênita. Diante do fato. muitas vezes não se verem respeitadas em seus direitos básicos. não sem influência externa. filosóficas. No campo prático. .estar de um modo geral. jovem é portadora de uma enfermidade cardíaca grave. Por qualquer razão. tanto para a mãe. se recusa a ser submetida ao abortamento terapêutico. Ou seja. A paciente. gestante de oito semanas. Qual a conduta do cardiologista? O que fazer? Comentário 1 A pessoa enquanto passa pela vida.ESTUDO DE CASO/ CASE STUDY/ ESTUDIO DE CASO . tomar decisões em questões que estão diretamente ligadas ao bem-estar. à autonomia e à justiça. quer sejam as razões: religiosas. deve-se sempre lembrar que toda pessoa está suscetível a qualquer situação que implique na escolha do momento da decisão. Segundo o cardiologista há alto risco de mortalidade. que se define como um ser especial diante da natureza. portadora de miocardiopatia grave. acabam por. encontra-se diante de inúmeras situações que trazem certa angústia e inconformismo. Docente e Coordenador do Programa de Mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo. ao mesmo tempo. uma gestante de oito semanas. aprender sobre bioética contempla necessariamente duas dimensões: campo teórico e prático. Professor emérito da UNESP. principalmente. busca-se olhar o outro e reconhecer nele. sociológicas. e o acesso da mesma à informação a respeito da situação a qual se submete a decisão. Porém. Seja.maio de 2006) CNS. mas de acordo com a cultura. de passar do campo teórico para o campo prático. Fernandes.

A prudência é a virtude que facilita a escolha dos meios certos para um bom resultado. o que teria também implicação com um terceiro. autonomia e justiça. Já na questão ética. incentivado pelo médico e pelos pais da gestante. propedêuticas e terapêuticas. mas não sobre a vida: ele tem plena autonomia para viver. num primeiro momento. Cabe aos pais o ingresso da ação por tratar-se a gestante de menor. deixando claro os riscos desta gravidez e os benefícios da interrupção prematura da gravidez. regra) autogoverno. porém tem o peso suficiente para decidir prioritariamente em todos os conflitos morais. "Todo ser humano na vida adulta e com a mente sã tem o direito de determinar o que deve ser feito com seu próprio corpo.1(1):132-137 interrupção da gravidez. com suas crenças e valores. o pai biológico da criança. é livre de coações internas e externas para escolher entre as alternativas que lhe são apresentadas. O fato de ser pai e mãe biológicos não quer dizer que sejam presentes na vida uns dos outros a ponto de decidir ou não pela antecipação terapêutica. porém. sugerindo. buscando não o melhor de um ponto de vista externo. O princípio da beneficência tenta.Bioética . A beneficência cria dupla obrigação. Renata Santinelli Bacharel em Direito. portanto o caso requer alguns desmembramentos para depois sugerir uma solução que melhor traduza a aplicação dos referenciais da bioética: beneficência.e agora. a maturidade dos envolvidos (independente da idade). Professora de Ética na Faculdade de Direito e membro da comissão de ética do Instituto Machadense de Ensino Superior. Nenhum dos princípios. Muitas mulheres de 16 anos hoje já assumiram suas responsabilidades e tomaram as rédeas de suas próprias vidas completamente independentes dos pais. mas não para morrer. Este laudo servirá de base para que os pais da gestante possam ingressar judicialmente. Além disso. que sempre deveria acompanhar toda atividade e decisão do profissional da saúde. o que se pode observar? A reestruturação da dignidade desta jovem.2007. a gestante de jovem idade poderá num futuro buscar outras formas de suprir seu desejo de maternidade. a de maximizar o número possível de benefícios e minimizar os prejuízos. o primeiro dos quais seria a dignidade individual intrínseca de todo ser humano. A pessoa autônoma é aquela que tem liberdade de pensamentos. Quanto ao médico deverá ele construir um laudo técnico. Do ponto de vista jurídico este é o procedimento mais acertado para que se preserve a vida da gestante. a promoção da saúde e a prevenção da doença de forma teleológica. É devido a todas as pessoas e envolve abstenção. em segundo lugar. a espiritualidade e/ou religiosidade bem como o vínculo dos envolvidos. com problemas cardíacos. e o seu direito sobre a informação sobre o diagnóstico. sua integridade físico-psíquica. autodeterminação para tomar decisões que afetam sua vida. É preciso avaliar entre outras coisas. A aplicação correta dos princípios da beneficência e da não-maleficência é o resultado do exercício da prudência. Refere-se à capacidade do ser humano decidir "o que é bom" ou "o que é seu bemestar". não-maleficência. O princípio da não-maleficência. Ela pauta pelo princípio da busca do que é bom e pela recusa do que é mau. inclusive a urgência do feito. prognóstico. que não podem ser ignorados. a mesma se recusa a tal procedimento. primeiramente de não causar danos e. os riscos e objetivos. Autonomia (auto=próprio e nomos=lei. superando este momento de sua história e construindo através deste verdadeiro aprendizado para o futuro. A beneficência tem seus limites. suas relações sociais. detalhado. não tem caráter absoluto e nem sempre terá prioridade em todos os conflitos. grávida. o constrangimento da vítima deixa de ser crime em função do risco de morte. Mestre em Bioética pelo Centro Universitário São Camilo.Centro Universitário São Camilo . solicitando do juiz competente uma liminar para o procedimento. O que fazer? Grande dilema a ser discutido sob vários aspectos. mas o melhor do ponto de vista de preservar sua saúde para que possa ter vida em abundância. "O consenti- 133 . relativamente incapaz devido sua idade (16 anos). sua saúde. Comentário 2 No presente caso não é possível tratar apenas a doença. o que fazer? . mas sim voltar os olhos para a pessoa. A constituição garante ao cidadão o direito à vida. Não existe a informação se a paciente é casada ou não.

é isso o que acontece.ESTUDO DE CASO/ CASE STUDY/ ESTUDIO DE CASO . entre outros a troca de médico e o uso de outras medidas terapêuticas.2007. entendimento e voluntariedade. e. À luz do nosso ordenamento jurídico deve-se ressaltar a idade da gestante. as 'seqüelas' poderão ser maiores. deve-se notar que a dignidade da pessoa humana é um dos fundamentos da Constituição da República Federativa do Brasil (art. a dignidade humana e principalmente pela defesa do cidadão no que diz respeito à saúde. inclusive aumentando o risco de esterilidade da menor. primeiramente. igualmente importantes. traz como benefício a salvaguarda da vida da gestante. os grandes códigos. também reduz significativamente o custo do seu tratamento (cardiopatia) assim como do controle desta gravidez. ela é relativamente incapaz a certos atos. Há uma série de situações na prática médica nas quais o princípio da beneficência deve ser aplicado com cautela para não prejudicar o paciente ou as pessoas com ele relacionadas. com relação ao custo. prima pela integridade física. Porém. além da redução dos riscos de morte da gestante e do feto com a manutenção da gravidez. Deve-se oferecer aos envolvidos. 5º.art. da justiça e da responsabilidade. a realização da antecipação terapêutica do parto. já que o caso é de "risco de vida". admitem condutas de exceção. Torna-se necessário. 16 anos. devem esclarecer os meios e os modos de proteção daqueles valores e. por último. a informação e a autonomia do cidadão fica de lado. observando que todos os atos possuem guarida legal e moral. então. 1º). ou à maneira de os exercer. traz menos riscos à gestante que com maior tempo de gravidez. em suas repercussões jurídicas. Assim. tanto civil como penal. ou seja. haverá. dando direito a escolhas. o médico proceda à interrupção da gravidez. devidamente esclarecida pelo profissional de saúde. portanto. Em relação ao médico esse tem resguardado pelo Código de Ética Médica a realização de procedimentos que julgar necessários para salvar a vida dos pacientes. gestante e familiares. Desse ângulo de observação. de não malefício profissional-paciente. este desrespeito deve ser visto com ressalvas. sob vários ângulos. deve o médico intervir quando conseqüências serão mortais para o paciente desde que tenha dado ao mesmo direito de escolha. em detrimento de interesse dos "poderosos". alcança-se assim a tão sonhada justiça. é preciso.F. da legitimidade. reconhecer que a sociedade brasileira considera justo que. cabe a decisão final em cada procedimento. segundo artigo 4º do Código Civil. a garantia da inviolabilidade do direito à vida e à liberdade. caput). Basicamente. o exercício da pluralidade. Em conseqüência. No Brasil. da tolerância. É preciso aprender a tomar decisões de caráter profissional e moral em situações de incerteza. a bioética. o comportamento do médico encontra respaldo na legislação nacional. a oportunidade de conversar com a assistente social. entre outros valores igualmente protegidos (C. talvez um desrespeito à autonomia da menor. Ana Paula Pacheco Clemente Mestre em Bioética pelo Centro Universitário São Camilo Comentário 3 A situação proposta deverá ser examinada. Mas a relação hoje profissional paciente está muito mais embasada na co-responsabilidade o que facilita o processo para todos os envolvidos. Dessa forma apresentando alternativas. se não há outro meio de 134 . portanto a vontade dos pais passa a ter um peso maior na hora de solucionar o conflito.Centro Universitário São Camilo . "não se pune o aborto praticado por médico. portanto. em razão desta ser relativamente capaz. todos. porém. A beneficência deveria tentar esgotar todos os recursos. quando o feto já estiver mais desenvolvido e com isto. que consagra entre as garantias de direitos fundamentais.1(1):132-137 mento só moralmente aceitável quando está fundamentado em quatro elementos: informação. de fato. Portando. na hipótese de haver risco de morte da gestante. ou mesmo ter um acompanhamento emocional que possa ser um facilitador nas decisões. faz-se necessário saber qual é o vínculo ou o grau de envolvimento desses com a paciente. a organização do Estado implica que toda a legislação infra-constitucional proteja os valores abrigados na Constituição. O tempo de gestação também influi já que o aborto nesse caso. e. competência. À manifestação autônoma da sua vontade. e seus pais serem favoráveis ao aborto. então. Na situação em exame. No caso de recusa do tratamento pelo paciente. pois conforme dispõe o Código Penal Brasileiro. Ressalve-se que todos esses princípios não são absolutos e. portanto. evita que seja feito a redução fetal em outra oportunidade.

1634. ajudá-los a compreender todas as implicações dos seus atos. o que fazer? . a introdução da preocupação ética.Universidade de São Paulo. seria prudente e conveniente que o médico obtivesse a participação de mais colegas seus (pelo menos mais dois especialistas) que confirmassem o quadro clínico e certificassem a inequívoca manifestação de CNS.1(1):132-137 salvar a vida da gestante" (art. Mais especificamente. mas estão legalmente obrigados a respeitar a escolha de sua filha. a constatação .Diretora do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário. V). arts. para responder imediatamente à pergunta formulada. art. Isso significa que a decisão de CNS deve ser respeitada. 135 . Universidade de São Paulo. para que eles confirmassem o quadro clínico e certificassem que CNS. Seria. Sob outro prisma. em defesa de sua escolha. art.C. manifestou. como também.se for necessário ser apreciada pelo sistema judicial . Assim. os avanços da Medicina permitem um maior cuidado com o paciente. dispôs o legislador nacional que seus pais devem assisti-los nos atos da vida civil (C.2007. apenas.de que a interrupção da gravidez é o meio mais eficiente para salvar a vida de CNS. VII). expressa no art. que decorre exclusivamente da inexperiência. Desse modo. que toda essa situação . visando evitar que o despreparo natural para certos atos da vida civil. Faculdade de Saúde Pública. então.médica . respeito e os serviços próprios de sua idade e condição" (C. cujas idades variam entre dezesseis e dezoito anos. eles podem .C.128. ainda. art. uma vez que estes só podem "assisti-la". no caso em exame.P. a garantia de que ninguém poderá ser constrangido a submeter-se a intervenção cirúrgica. é preciso lembrar que a sociedade brasileira julgou conveniente dar uma proteção especial para as pessoas maiores de dezesseis e menores de dezoito anos.C.110 e 112). Por outro lado. portanto. Sueli Gandolfi Dallari Professora titular. os pais não poderiam legalmente impor a CNS a realização da intervenção cirúrgica destinada a interromper a gestação. ainda que contra a vontade de seus pais. I). emocionais e sociais do prosseguimento da gravidez.634. art. na situação proposta. É parte deste cuidado refletir sobre os direitos do paciente e.depende de prova. os filhos.Bioética . Assim. Aqui. uma vez que a gestante pode invocar. pudesse causar prejuízos a essas pessoas. deve-se considerar a própria situação da gestante: trata-se de uma pessoa relativamente incapaz (Código Civil Brasileiro. Enfocando. sobretudo. apenas.Livre-docente em Direito Sanitário. Com efeito. impor suas vontades aos filhos. a situação exige que o médico respeite a escolha de CNS até o limite em que possa ser caracterizada a situação de omissão de socorro (C. 107. sociais e legais de suas escolhas e ampará-los enquanto eles. devidamente esclarecida sobre todas as implicações médicas.e agora. Comentário 4 Como sabemos. contudo. não poderiam impedi-la. ou seja. Seria necessária. portanto. também. I). mesmo quando a linguagem expressar coisa diferente da intenção (C. creio que o car-diologista deveria obter a participação de mais dois colegas seus. 135). de modo inequívoco. a adequada compreensão da disciplina jurídica da relação entre os pais e os filhos. Os pais não podem. 1.e devem esclarecer a gestante sobre todas as implicações emocionais e sociais que a decisão de manter a gestação contém. 15 do Código Civil Brasileiro. o caso de os pais de CNS exigirem que ela se submeta ao aborto em nome da obediência devida? Não me parece. implica orientar-lhes sobre as possíveis conseqüências emocionais. Ela considera que as pessoas devem ser livres para manifestar sua vontade e que qualquer negócio jurídico deverá respeitar a vontade livremente manifestada. realizam os atos decorrentes dessa opção. em nada invalida a avaliação jurídica realizada. sua não concordância com a adoção do procedimento de interrupção da gestação. mas. expressamente que compete aos pais exigir que os filhos menores "lhes prestem obediência. Ainda na ótica do médico. Considerando. Isso porque toda a disciplina legal em questão está diretamente baseada na discussão ética a respeito dos comportamentos que mais adequadamente permitem o império do valor dignidade humana na sociedade brasileira. importa recordar que nossa sociedade preza sobremaneira o valor liberdade de formação e manifestação da vontade.4º. o relacionamento de CNS com seus pais.Centro Universitário São Camilo . acerca da melhor forma de salvaguardá-los. é importante notar que a sociedade brasileira quis proteger a autoridade dos pais sobre os filhos menores de dezoito anos ao declarar.

pensando na saúde materna. a indicação de um aborto terapêutico não se tornaria também um risco para a paciente. Em primeiro lugar. Assim. a humanização dos cuidados em saúde pressupõe. Mas é preciso olhar um pouco mais deperto as várias possibilidades que este caso nos oferece. seria realizado. os quais devem auxiliar os familiares na aceitação da decisão da paciente.ESTUDO DE CASO/ CASE STUDY/ ESTUDIO DE CASO . seria indiscutível a alguns anos atrás. o respeito à individualidade.1(1):132-137 O caso de CNS. temos um leque de questões que envolvem a interdisciplinaridade. em auxiliar que essa mãe vivencie essa experiência de forma positiva. ou seja. De forma geral. com o suposto consentimento dos pais ou responsáveis. entendemos que a sua decisão deve ser acolhida pelos profissionais. ao tomar o tempo necessário para que as questões sejam colocadas e para que se busque respostas a estas questões. que tem apenas dezesseis anos e está grávida de oito semanas. O respeito da autonomia é um profundo respeito ao Outro. ao mesmo tempo. pois seria oportuno chamar para o seio da discussão a figura do obstetra. com sangramento. se os momentos mais críticos para a gestante pudessem ser contornados pela interação das especialidades médicas. A reflexão bioética parte de um profundo respeito pela pessoa humana. Assim. indicado pelo cardiologista. o obstetra. Em persistindo a recusa do paciente em se submeter ao abortamento terapêutico. a constatação de uma gestação de risco. isto é. pois. respostas estas que esclareçam e auxiliem na decisão. Gláucia Rita Tittanegro Doutora em Filosofia. uma profunda Hospitalidade. Trata-se de esclarecer sem induzir. segundo o relato. melhor dizendo. o aborto terapêutico. de colocar-se em paz. Outras vezes. seria preciso analisar até que ponto. a maioridade sanitária. Às vezes ele pode ser entendido como um "lavar as mãos" diante do problema do outro. O respeito da autonomia é um desafio que se impõe sempre mais aos profissionais de saúde. e é portadora de uma miocardiopatia congênita. Trata-se de oferecer suporte aos familiares ou àqueles que estão envolvidos na questão do paciente. Mas o verdadeiro ato do respeito da autonomia é uma acolhida e uma assistência ao Outro. para responder a questão sobre a conduta do cardiologista. da maturidade para tomar decisões.Coordenadora do Curso de Filosofia do Centro Universitário São Camilo Comentário 5 O caso apresentado demonstra duas situações extremas: por um lado o direito de uma mãe em prosseguir com sua gestação. sobretudo no âmbito da pesquisa com seres humanos. posto que a mesma não se encontra.Centro Universitário São Camilo . por exemplo. não seria possível que esta mesma interação auxiliasse também o bebê? Por último.2007. neste caso. de viver o peso da decisão do Outro e. ser induzido? Quais seriam os riscos desta indução? Entendemos que estas questões deveriam ser discutidas entre os vários atores desta cena: o cardiologista. 136 . acabou nos apresentando uma situação nova. apesar da discordância da paciente. enten- demos que este deve convocar os profissionais que possam auxiliar no esclarecimento da situação. a paciente e os familiares. Qual seria a indicação deste profissional? A interdisciplinaridade não ajudaria a perceber melhor quais seriam os riscos efetivos para a paciente? Os avanços da medicina nos âmbitos da ginecologia e da obstetrícia continuam apontando este caso como um risco de morte ou haveria momentos mais difíceis da gestação que poderiam ser contornados no esforço conjunto entre os profissionais em torno da paciente? Quais seriam estes momentos mais críticos e que conduta tomar? É preciso também verificar quais seriam os riscos para a criança. os profissionais estão propiciando a autonomia dos sujeitos envolvidos na ação. Ao explorar todas as nuances do caso. de instruir sem manipular. e por outro lado. o debate nos comitês de ética. ele aparece como a impotência do profissional diante da vontade do Outro. Ainda que não tenhamos um consenso sobre a questão da maioridade ou. considerar a essência do ser. E é este respeito que nos faz hesitar diante desta posição. A dificuldade no caso apresentado. e que a pessoa vulnerabilizada enfrente positivamente os seus desafios. o aborto terapêutico deveria. com a conseguinte orientação médica de possível interrupção da gestação. A conduta seria clara: CNS é menor de idade e a vontade dos responsáveis legais deve prevalecer.

mas de uma mulher que prefere abrir mão de sua vida em prol de seu filho. Porém. a responsabilidade recai sobre seus familiares (legalmente responsáveis) ou um procurador legal.1(1):132-137 encontra-se na questão principal do risco de morte. é considerada "incapaz" para tomar tais decisões. Débora Sanches Pedrolo Mestre em Bioética pelo Centro Universitário São Camilo 137 . aspirações e valores próprios.e agora. se essa menor pode engravidar. possui o direito de receber uma segunda opinião médica.Bioética . pode consentir ou não para a realização de procedimentos diagnósticos e terapêuticos. deve decidir o que será feito com o seu corpo. seguindo o princípio da autonomia. Se falecer. e acima de tudo. O termo autonomia refere-se à condição de quem é autor de sua própria lei. Acredito que a melhor decisão a ser tomada estaria baseada em: consultar outros especialistas. se for vontade dos pais escolher a interrupção da gestação pensando na sobrevivência de sua filha. no caso apresentado por se tratar de uma menor de 16 anos. com vontade própria. que. O respeito pela autonomia do indivíduo deve considerar que cada um possui pontos de vista e expectativas próprias quanto ao seu destino.2007. como capaz de se auto-governar. verificar a situação real da gestante. Portanto. e de tomar decisões próprias. o doente adulto. essas decisões cabem apenas ao doente adulto e sem complicações psiquiátricas. ou na ausência destes o médico passa a ser o responsável por tomar as decisões. está interrupção poderá ser realizada.Centro Universitário São Camilo . respeitar a vontade não apenas de uma menor. mas sim como mulher. portanto. e que cada um deve tomar suas decisões baseadas em suas crenças. com capacidade mental preservada. Se essa gestante for informada de sua situação de risco. oferecer o atendimento pré-natal adequado. entre outros. por outro lado. sem a interferência dos pais. deve ser tratada não como incapaz ou em situação de autonomia reduzida. De forma geral. o que fazer? . ou seja. como será a sobrevivência de seu filho? Quem cuidará dessa criança? Seus pais? O pai biológico? Será que seu filho poderá nascer com alguma deficiência ou seqüela? Além das inseguranças citadas e vivenciadas pela gestante deve ser ressaltada a questão da autonomia. e optar em manter sua gestação em benefício de seu filho passará por um período de extrema angústia.

Centro Universitário São Camilo . João Carlos Silva de Ledo "Questões Bioéticas suscitadas pela Nanotecnologia".2007. Adriana Amaral Haas "O direito à saúde nas constituições de 1967 e 1988: uma reflexão a partir do referencial ético da justiça distributiva". Júlio César Batista Santana "Dilemas éticos vivenciados por acadêmicos de Enfermagem em Unidades de Terapia Intensiva". 138 . dos processos de cassação do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo". Maria de Lourdes Neves Fonseca Azevedo "Opinião dos profissionais de saúde de uma instituição privada sobre processo seletivo: uma aproximação com a Bioética". Raul Marino Júnior "Avaliação de métodos confirmatórios e complementares no diagnóstico da morte encefálica". José Raimundo Evangelista da Costa "Respeito à autonomia do doente mental no atendimento de auxiliares e técnicos em Enfermagem: um estudo bioético em clínica psiquiátrica".NOTÍCIAS DO PROGRAMA DE MESTRADO EM BIOÉTICA . Mônica Hussni Messetti "Análise das Resoluções do Conselho Nacional de Saúde (1995 2005) sob a perspectiva da Bioética". Biossegurança e Direito". sob o olhar da Bioética. José Marques Filho "A pena máxima: cassação do exercício profissional médico. Marcelo da Silva Sechinato "Opinião de um grupo de professores de Medicina de uma faculdade privada de Minas Gerais sobre o respeito à autonomia do paciente". do morrer e da humanização para enfermeiros que trabalham no processo de doação de órgãos para transplante".1(1):138-139 Notícias do programa de Mestrado em Bioética A note about the master graduate program in bioethics Informacíon acerca del programa de maestría en bioética Dissertações defendidas: Programa de Mestrado stricto sensu em Bioética do Centro Universitário São Camilo (agosto 2004/junho 2007) Adriana Aparecida de Faria Lima "Sofrimento e contradição: o significado da morte. Conceição Alice Volkart Boueri "Conflitos éticos vivenciados por pais de crianças portadoras de síndromes com prognóstico de vida limitante". Tânia Heloísa Anderman Silva Barison "Liderança em enfermagem: a justiça como horizonte ético nas relações interpessoais entre o enfermeiro líder e os colaboradores". Análise. Daiane Fiorina Spalvieri "Distrofia Muscular de Duchenne: opinião de mães sobre a interrupção da gravidez". Ana Paula Pacheco Clemente "Uso de embriões humanos excedentes de fertilização in vitro como fonte de células-tronco: diálogo entre Bioética. Renata Santinelli "A relevância do conceito de dignidade para a Bioética". Karina Dias Guedes "O profissional de saúde na Unidade de Terapia Intensiva frente ao paciente fora de possibilidades terapêuticas: um olhar da bioética".

Viviane Hanshkov "Pesquisa Clínica no Brasil: da Bioética à responsabilidade civil".a poluição atmosférica como fator determinante para a diminuição da qualidade de vida da população". Homero Januário Caramico "O ensino de Bioética nas faculdades de medicina do Brasil".1(1):138-139 Beatriz Carneiro Ferreira Fernandes "Quando começa a vida? A incoerência da legislação brasileira ao tratar da matéria". Valdomiro Barbosa da Rosa "Ser ou não ser: eis o embrião". Elvira Barbosa Miranda "Perfil de publicações científicas (ano 2005) referentes às pesquisas clínicas (fase III) à luz da Bioética".2007. 139 .Centro Universitário São Camilo . Fernanda Maria Ferreira Carvalho "Bioética ambiental: falta de autonomia sobre o ar respirado na cidade de São Paulo .Dissertações defendidas: Programa de Mestrado strictosensu em Bioética do Centro Universitário São Camilo . Débora Gomes "Reflexões bioéticas da atuação da fisioterapia em Cuidados Paliativos". Carlos Luis Benites Canhada "O entendimento dos responsáveis técnicos de enfermagem sobre a aplicação da Bioética na prática profissional". Débora Sanches Pedrolo "Estudo qualitativo com pacientes vítimas de trauma raqui medular cervical: perda da autonomia associada a seqüelas físicas".

Sua extensão limita-se a 15 páginas. Declaração de responsabilidade e 2. Os resumos deverão ser apresentados em português. devendo conter os procedimentos adotados ao desenvolvimento do tema. contendo dados inéditos e relevantes para a bioética. traduzidas sob o título "Requisitos uniformes para manuscritos apresentados aos periódicos biomédicos". mencionando objetivos da pesquisa. incluindo possíveis gráficos. tabelas. CARACTERÍSTICAS As orientações de Bioethikos baseiam-se nas normas propostas de Vancouver elaboradas pelo International Committee of Medical Journal Editors. Neste caso. procedimentos adotados. artigos de atualização e relatos de experiência: trabalhos descritivos e interpretativos. não sendo permitida sua apresentação simultânea a outro periódico.Centro Universitário São Camilo . imagens etc. considerando os avanços tecnocientíficos e as questões ético-ambientais do tempo presente. com fundamentação sobre a situação em que se encontra determinado assunto investigado.incluindo o departamento/ setor.scamilo.o referido trabalho será reavaliado pelo Conselho Editorial e Editores.br/publicações/bioethikos. artigos de revisão: contribuições resultantes de avaliação crítica sistematizada da literatura ou reflexão sobre determinado assunto. podendo apresentar sugestões ao(s) autor(es) para as alterações necessárias. os autores deverão apresentar uma Declaração de que foi obtido o Consentimento dos sujeitos por escrito (Consentimento Livre e Esclarecido). relacionados à existência e à convivência do ser humano. Destaca-se que os nomes dos pareceristas permanecerão em sigilo. Sua extensão limita-se a 5 páginas. Os conceitos emitidos nos manuscritos são de inteira responsabilidade do(s) autor(es). Para obtê-los acessar o site www. limitando-se a 5 páginas. desde que anexados texto em CD-Rom e duas vias impressas. não refletindo obrigatoriamente a opinião do Conselho Editorial e da chefia de Editoria.edu. Os manuscritos deverão ser enviados juntamente com a documentação necessária: 1. SOBRE A PREPARAÇÃO E ENCAMINHAMENTO DE MANUSCRITOS Página de identificação: esta página deverá conter: titulo do artigo e subtítulo(se houver) em português. resultados e conclusões. Consultar no site: www. nome(s) do(s) autor(es) por extenso.2007. parcial ou integralmente.scamilo. Transferência de Direitos Autorais.br Os manuscritos devem destinar-se exclusivamente à Revista Bioethikos. A apresentação deve seguir as mesmas normas para artigos originais. bem como sua delimitação. O encaminhamento dos manuscritos e documentação poderá ser on-line ou via correio. inglês e espanhol. provenientes de investigação experimental. sobretudo emergentes.edu. Pesquisas envolvendo seres vivos: quando a investigação envolver sujeitos humanos. originais ou notas prévias de pesquisa. documental ou conceitual relacionado a um tema pertinente ao campo da bioética e afins. da mesma forma que o(s) nome(s) do(s) autor(es) com relação aos avaliadores. Sua extensão deve de ser no máximo 17 páginas.filiação institucional. CATEGORIAS DOS MANUSCRITOS Bioethikos caracteriza-se por ser uma publicação científica que veicula trabalhos arbitrados relacionados às seguintes seções: artigos originais: contribuições destinadas a divulgar resultados de pesquisa original. promover a disseminação do conhecimento científico da bioética por meio de estudos e pesquisas que contribuam para a expansão e consolidação desta área no país e na América Latina. com indicação na nota de rodapé da qualificação de cada autor(titulação da graduação e atual.1(1):140-143 ORIENTAÇÕES AOS COLABORADORES BIOETHIKOS é um periódico semestral voltado à veiculação de estudos e pesquisas na área bioética. inglês e espanhol. Objetiva contribuir na reflexão dos problemas. cargo/ função que exerce e endereço de correspondência e eletrônico). 140 . com destaque para com os pontos mais importantes do estudo. inédita. anexado de cópia da aprovação do Comitê de Ética que considerou a pesquisa. A publicação dos manuscritos dependerá da observância das normas da Revista e da apreciação do Conselho Editorial e chefia de Editoria que dispõem de plena autoridade para decidir sobre sua aceitação. comunicações e relatos de caso: estudos avaliativos. e estimular a reflexão por parte dos especialistas e profissionais de diversas áreas do conhecimento que interagem fundamentalmente com a bioética.ORIENTAÇÕES PARA COLABORADORES . Resumo: deverá conter até 250 palavras.

. As normas específicas às referências bibliográficas têm como base as de Vancouver elaboradas pelo International Committee of Medical Journal Editors. com espaço duplo e possibilidade de impressão em folha de papel A4.discussão e conclusão. formatado em Word for Windows. Os manuscritos serão considerados inicialmente pela chefia editorial quanto à pertinência e natureza de contribuição de cada obra para a área em questão e o público leitor. elaborada pela Bireme e/ou pelo Medical Subject Heading .at. Tabelas. entendidas como desenhos. Em relação às referências bibliográficas. recomendase o limite de até 15 citações.2007. b)texto digitado em Times New Roman 12.apresentadas em ordem seqüencial com algarismos arábicos e legendadas. A estrutura do manuscrito deve basicamente conter: introdução. 1501 CEP:04263-200 . O processo constitui-se sigiloso com total isenção de identificação de autor e revisor. Só então encaminhará cada obra a dois pareceristas que procederão a avaliação com base em informações em instrumento elaborado pela Assessoria editorial e aprovado pela editoria. Para a atribuição das palavras-chave consultar a listagem dos Descritores em Ciências da Saúde . necessidade de reformulação ou recusa justificada.ORIENTAÇÕES PARA COLABORADORES . porém com previsão de flexibilidade. com algarismos arábicos e título conciso.Brasil e-mail: publica@scamilo.1(1):140-143 Palavras-chave: mencionar três palavras-chave como referência à indexação do artigo.br Para mais informações: Fale com a Assessoria Editorial Tel: 55 0**11. ou em língua inglesa ou espanhola (no caso de autores estrangeiros). e 15 páginas para artigos de revisão.61694045 55 0**11. os editores responsáveis tomam ciência dos relatórios e indicam à assessoria editorial os procedimentos em relação aos encaminhamentos relacionados à aceitação do artigo.Comprehensive Medline. traduzidas sob o título "requisitos uniformes para manuscritos apresentados aos periódicos biomédicos".edu. Assessoria editorial Avenida Nazaré.DECS / LILACS. Quando da inclusão de depoimentos de sujeitos de pesquisa apresentar as falas em itálico. Ilustrações: devem ser enviadas somente mediante a permissão. Diante dos pareceres emitidos pelos avaliadores. fotografias etc. Figuras. com fonte 10. tabelas etc. Os autores de manuscritos recusados para publicação serão notificados e devolvidos pela assessoria editorial. Corpo do texto: o manuscrito a ser submetido deve apresentar as seguintes características técnicas: a) texto redigido preferencialmente em português.Centro Universitário São Camilo .61694066 141 . procedimentos metodológicos. incluindo possíveis gráficos. análise dos resultados. por escrito. Manuscritos com mais de cinco autores devem seacompanhados por declaração certificando explicitamente a contribuição de cada um dos autores elencados. AUTORIA O conceito de autoria está consubstanciado na contribuição de cada uma das pessoas mencionadas como autores no manuscrito enviado. Notas de rodapé: indicadas por asterisco e apresentadas restritivamente como forma complementar e/ou explicativa à citação enunciada no texto. Quando da transcrição direta do autor (apresentação ipsis litteris) utilizar aspas e inserir na seqüência do texto. dos autores (7. Agradecimentos: ao final do manuscrito podem ser mencionados os agradecimentos destacando as contribuições de profissionais por orientações técnicas e/ou apoio financeiro ou material.5cm -largura correspondente à coluna do texto).para artigos originais. quadros. PROCESSO DE APRECIAÇÃO DOS MANUSCRITOS Os critérios de veiculação estabelecidos pela Revista Bioethikos visam garantir a qualidade das publicações. na seqüência do texto. figuras e ilustrações: devem ser numerados seguindo ordem seqüencial de apresentação. No caso de haver notas explicativas estas deverão ser apresentadas no rodapé das tabelas e ou quadros e não junto ao título. Referências bibliográficas: apresentadas numérica e consecutivamente à ordem de citação no texto. Encaminhamento dos originais: Centro Universitário São Camilo Setor de Publicações . devem ser desenhadas por profissionais.São Paulo-SP.com extensão máxima de 17 páginas. As citações no texto devem ser identificadas com números arábicos entre parêntesis e sobrescritas. especificando a sua natureza.

Keywords: three keywords for manuscript indexation. CHARACTERISTICS BIOETHIKOS follows Vancouver editorial rules elaborated by the International Committee of Medical Journal Editors.Centro Universitário São Camilo . 142 . including department/sector. They must have a maximum 5 pages. in Portuguese. containing non-published and relevant data regarding bioethics.DECS / LILACS. tables. taking into account technoscientific advances and current ethical-environmental questions. Communications and Case Reports: evaluative and original studies or working papers about ongoing research. English and Spanish. a CDRom copy and two printed copies are mandatory. in this last case.br/publicações/bioethikos. and simultaneous submission of a manuscript or part of it to other publications is not allowed. position and mailing and ameial address. non-published research stemming from scientific experiments and/or documental or conceptual studies about themes related to bioethics or associated fields.2007. Bioethikos aims to contribute for reflecting on problems. such as translated in the document "requisitos uniformes para manuscritos apresentados aos periódicos biomédicos".edu.edu. that have full authority for deciding on manuscript publication and may make suggestions to authors should alterations be necessary. and encouraging reflections by experts and professionals from the different knowledge fields that fundamentally interact with bioethics. as well as a copy of the Ethics Committee approval document of the Institution where research was done. full authors' names and a footnote with academic degrees (undergraduate and the highest one). They must have a maximum 15 pages. institutional affiliations. They must have a maximum 17 pages. authors must send a Statement that a written Consent form was signed by research subjects (Free and Informed Consent form). In these cases. or the Medical Subject Heading Comprehensive Medline. Abstract: up to 250 words. MANUSCRIPT CATEGORIES BIOETHIKOS publish peer-reviewed scientific papers distributed in the following categories: Original papers: contributions aiming to show results of original. (See www. including graphs.). nor will author names be disclosed to reviewers.scamilo. They must follow rules for original papers except that they must have a maximum 5 pages. images etc. Manuscripts must be submitted only to Bioethikos. by Bireme. Publication is contingent on following the Journal rules and the evaluation of the Editorial Board and the Editor(s).1(1):140-143 INSTRUCTIONS FOR CONTRIBUTORS BIOETHIKOS is a Journal publishing every six months bioethical studies and researches.INSTRUCTIONS FOR CONTRIBUTORS . if any. Research Involving Living Beings: when research involves living beings. Authors are responsible for their opinions and statements.) Manuscripts and the said documents may be sent online or by conventional mail. In no circumstances will peer reviewers have their identity disclosed. and must present procedures regarding theme development and delimitation. Updating papers and reports of experiences: descriptive and/or interpretative papers about the stateof-the art condition of some studied problem.scamilo. please see www. (For getting them. manuscripts will be resubmitted to the Editorial Board and the Editor(s). methods and conclusions. it should mention objectives of the research. mainly newly emerging ones. Manuscripts must be submitted together with the following documents: a Statement of Author Responsibility and a Copyright Cession form of submitted manuscripts. English and Spanish. RULES FOR MANUSCRIPT PRESENTATION AND SUBMISSION Identification Page: this page should carry the following information: the title of the article and subtitle. Please see Descritores em Ciências da Saúde . Abstracts must be in Portuguese. associated with human beings' existence and conviviality. Review articles: contributions stemming from critical evaluations of the literature or reflections on some topic. and publication in the Journal do not in any way reflect an endorsement by the Editorial Board or the Editor(s). emphasizing the most important points of the study.br. to promote the dissemination of scientific knowledge in bioethics by means of studies and researches that contribute for broadening and consolidating bioethics in Brazil and Latin America.

References must preferentially be no more than 15. For specific rules see "Uniform Requirements for Manuscripts Submitted to Biomedical Journals: Writing and Editing for Biomedical Publications" (Vancouver). meaning drawings. but there may be exceptions. The authors of refused manuscripts are informed and the manuscripts are sent back. Manuscripts must present basically introduction. 10 font size. charts.61694066 143 . the chosen manuscripts will be sent to reviewers for evaluation according to an instrument created by the Editorial Consultancy and approved by the Editor.br For more information. must be done by professionals. Tables. methods. Illustrations: should only be sent with written permission of their authors (they must up to be 7. graphs etc. discussion and conclusion. Body text quotations must have references indicated by Arabic numerals inside parenthesis and superscript. in the case of Brazilian authors.. Manuscripts must be sent to: Centro Universitário São Camilo Setor de Publicações .Brasil e-mail: publica@scamilo. presented in Arabic numbers in order of appearance and have legends. double space. who instructs the Editorial Consultancy about procedures for accepted manuscripts. No authors or reviewers are identified to each other. figures.1(1):140-143 Body Text:manuscripts must be prepared according to the following rules: a) text written in Portuguese. See the descriptions of the sections of the Journal above for number of pages. Authors must specify their character.INSTRUCTIONS FOR CONTRIBUTORS . which include eventual tables. Submitted manuscripts will have a first evaluation by the Editor regarding their relevance and the nature of their contribution both for the field and the readers. Assessoria editorial Avenida Nazaré. results. References: must be presented in Arabic numerals in the order of presentation in the text. graphs. Research subjects' speech must be quoted in italics.Centro Universitário São Camilo .61694045 55 0**11. in the text sequence. manuscripts needing reformulations for being accepted and justifiably refused manuscripts. Authors' quotations (ipsis litteris quoting) must be indicated by quotation marks and inserted in the text sequence. illustrations: tables and charts must be numbered by order of presentation with Arabic numerals and concise titles.edu. contact the Editorial Consultancy staff: Phone: 55 0**11. 1501 CEP: 04263-200 . Manuscripts having more than 5 authors must present a statement explaining clearly what each author contribution was.São Paulo-SP.at. Latter. MANUSCRIPT EVALUATION Bioethikos have criteria established for assuring the good quality of published papers. A4 paper format using Word for Windows. Footnotes: indicated by asterisks and only presented when really necessary for supplementing and/or explained something quoted in the text. by the International Committee of Medical Journal Editors. Notes must be presented after the table or chart they refer to and not as part of the title.2007.5 cm wide to fit the Journal columns). Reviewers' evaluations are sent to the Editor.. AUTHORSHIP Authorship is determined by the contribution of each person presented as authors of some manuscript. photographs etc. b) Times New Roman 12 font. or English or Spanish (for foreign authors). Figures. Acknowledgments: they may be presented at the end of the manuscript and may include contributions of profes- sionals regarding technical instructions and material and financial support.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->