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O saber filosófico Ferdinand Alquié

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O saber filosófico1

Ferdinand Alquié
Tradutor: Pedro Jonas de Almeida2

I. Projeto filosófico e filosofias constituídas
A oposição da filosofia e de sua história não se reduz à oposição de dois conceitos: ela se descobre hoje na dificuldade concreta sentida por quem se propõe a tornar-se filósofo. Com efeito, aquilo que sabemos das tentativas passadas só pode nos convidar a considerar todo projeto novo como vão. A exigência filosófica é a exigência de um saber rigoroso, comportando demonstrações e provas, podendo, portanto, comunicar-se, impor-se a todos, e que permite atingir a verdade com certeza integral. Ora, a história nos ensina que tal exigência, na medida em que conseguiu se satisfazer, sempre culminou na constituição de “filosofias”, isto é, de fato, na formulação de hipóteses sobre a Natureza e sobre o Homem, hipóteses relativamente coerentes no interior de cada sistema, mas que aparecem, logo que a consideremos em sistemas diversos, como opostas e contraditórias. Nenhuma filosofia, qualquer que seja sua riqueza e profundidade, parece responder ao projeto que a engendrou e que foi o projeto de constituir, não uma filosofia entre outras, certamente, mas verdadeiramente a filosofia como pensamento da Verdade. Assim, o sucesso de todo projeto filosófico é ainda fracasso. Ao romper com todas as filosofias do passado, Descartes acreditou formular um corpo doutrinal fundado na certeza. Mas o cartesianismo, malgrado o rigor de sua ordem, foi logo contestado. Kant pretendeu lançar os fundamentos de toda “metafísica futura que pretenda se estabelecer como ciência”. Mas as metafísicas que sucederam a filosofia kantiana não tiveram nenhuma preocupação com suas normas. Pode-se esperar sucesso ali onde tais
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In: L´Encyclopédie Française. Première Partie: Philosophie. Section A: Principales tendances de la philosophie contemporaine. Chapitre 1 : Science et savoir philosophique. Paris. Ed. Société Nouvelle de l ´Enciclopédie Française. 1957. 2 Pedro Jonas de Almeida é mestre em filosofia pela UFBA. Escreveu uma dissertação intitulada “Afetividade e Reflexão no Tratado de Hume” sob a orientação do Professor João Carlos Salles. O texto foi revisado por Ana Cláudia Gusmão, Professora da Ucsal.

se ela for a alma de seu projeto. sob diversos aspectos. vieram apenas enriquecer a lista das filosofias constituídas. desaparece tão logo o pensemos segundo a história. apenas como ilusória. E Bergson. Ceticismo filosófico e dogmatismo histórico O valor do projeto filosófico. Esse último a entende como expressão de algum interesse social. por sua vez. Ora. Mas nenhuma sutileza. ao tentar fundar enfim. evidente para aquele que o forma. no coração do ato. do valor incondicionado de uma possível filosofia da história. Tal ceticismo. a confiança que cada filósofo experimenta de poder atingir a verdade. e parece então ter sido. Aquele considera que ela traduz a intuição irredutível e mais ou menos poética de seu autor ou uma criação de sua liberdade. explica todas as filosofias como momentos da história. a filosofia é apenas o conjunto das hipóteses que prolongam arbitrariamente a ciência.2 filósofos falharam? Husserl o esperava. Mas a fenomenologia e o bergsonismo. após reflexão. imprime sua marca no pensamento contemporâneo. não pode mais ser reencontrada por aquele que pensa o ato. a filosofia como ciência rigorosa. as lições da história não podem ser esquecidas. quando um filósofo. Para outros. essa afirmação é frequentemente dissimulada sob desenvolvimentos complexos e sutis que a tornam irreconhecível. II. e não saber. evidente para aquele que age. parece poder ser considerada. e não concedem nenhuma confiança a seu projeto de certeza integral. através da fenomenologia. marxista ou hegeliano. ao estimar que todos os fracassos das filosofias precedentes se deviam ao fato de que se pensou o verídico do ponto de vista do eterno. Mas ambos admitem que a filosofia seja opinião. Assim. nascido da reflexão sobre filosofias passadas. em filosofia. apenas ilusão subjetiva. nenhuma complicação artificial poderia prevalecer sobre a exigência que habita todo pensamento humano e sobre as condições fundamentais do juízo. acreditou descobrir a realidade autêntica na intuição da duração criadora. ela é o conhecimento sem rigor que podemos obter em domínios nos quais a ciência ainda não conseguiu se satisfazer. só pode conferir à sua explicação um valor ou um sentido de verdade na medida em que faz uma exceção em favor de seu próprio . mais ou menos explícita. se entregar ao ceticismo? De fato. Não é preciso então. o ceticismo. Para alguns. Certamente. Assim como a liberdade. sempre supõe algum dogmatismo histórico e a afirmação.

de forma precisa. mas não refutado. pragmática e de má-fé. . Assim. Para que um saber diferente do seu pudesse chegar a perturbá-lo verdadeiramente. nem subtrair essa afirmação das leis constitutivas de todo pensamento. com eles. ou melhor. III. e só é mal-compreendida na medida em que os homens. Neste século. que as críticas endereçadas por eles à realidade objetiva continuam todas válidas. se podemos afirmar o primado da história. em sua inalienável universalidade de direito. É justamente a solidão de uma exigência que permanece sempre em sua pureza radical. Portanto. é suficiente conduzir seus pensamentos por ordem e recusar a sacrificar o mais certo pelo menos certo. não refutadas. mesmo que possa ser incomodado pela história. seria suficiente para constituir a filosofia como saber rigoroso e universal. recusam-se a tomar consciência dela. Sua solidão não é afetiva e análoga àquela do poeta. Com efeito. para que desapareçam os prestígios do dogmatismo histórico e. É por isso que o filósofo. o filósofo pode até se sentir solitário e incompreendido. não podemos fazer com que. Se pensar. presente até mesmo em sua negação. e a dirigir seus pensamentos em sua direção. sob o nome de ciência. não pode ser desencorajado por ela. todo saber que pretende ultrapassar ou criticar a filosofia remete ao saber filosófico. portador de uma visão pessoal que não pode comunicar por causa de sua subjetividade. seria necessário. não seja o pensamento que o afirma. Saber filosófico e crítica da realidade objetiva A exigência de uma verdade absoluta e a crítica. irrefutáveis. a solidão da razão. o pensamento opera esquecendo que ele é sua fonte. e o invencível primado do cogito. Sócrates se considerava o mais sábio dos gregos ao dizer que não sabia o que os outros acreditavam saber. E muitas vezes não notamos. ou o da matéria.3 sistema. a crítica que ele opera dos outros filósofos aparecerá apenas como polêmica. É a solidão de uma certeza. ao evitar colocar em questão os princípios e os fundamentos. os de toda construção espontânea que. que esse saber fosse filosoficamente fundado. é sempre reencontrado. em que a idéia de história reina. ao continuarem a nela se sacrificar confusamente. em nome dessa exigência. mais uma vez. da tendência que têm os homens de descobrir o Ser naquilo que é apenas o mundo dependente de seus pensamentos. como sua condição e seu fundamento. ao contrário. esse próprio sistema como sendo historicamente determinado. quando condenamos os filósofos.

O que hoje assegura o prestígio da ciência não é a imparcialidade que. por exemplo. responder a apenas um dos argumentos que Berkeley opõe à existência em si da matéria. ou melhor. só as responderíamos desviando-as dos seus sentidos. Tanto é assim que é necessário abandonar a idéia. que só possui realidade pelo efeito de nossa percepção ou de nossos juízos. e de produzir. deixar nossa esperança se perder na finitude das coisas reencontradas. que erguem de forma mais possante que seus braços. no lugar de Hilas. para isso. ela serve. Portanto. um objeto de pensamento. então. em todo caso. que moldam ou que matam mais seguramente do que suas mãos? Aqui cada um reconhece seu próprio projeto fundamental e o enxerga melhor realizado do que a vida que. Nada do que a ciência descobriu desde o século XVIII serviria a esse último no propósito de demolir a argumentação de Filonous. ou a universalidade racional de suas demonstrações. satisfazer nosso desejo de eternidade pela ilusão de um passado redescoberto. Também não se responderia à crítica leibniziana do espaço. a pequena audiência do filósofo. A evidência filosófica é a evidência suprema. alguma coisa que não seja. Ao contrário. A filosofia não nasce das paixões e em nada as serve. de que o pouco crédito conferido aos raciocínios filosóficos se deve à falta de rigor da demonstração. sob o nome de matéria. É a paixão de dominar e de vencer das quais talvez tenha nascido e que. Confundir o Ser. a grande audiência do cientista? Pela atitude de espírito que a compreensão de um e de outro requer. o mais avisado dos físicos modernos. em primeiro lugar. E. Como se explica.4 Tentemos. às análises de Hume sobre a causalidade. que engendra as paixões e delas se nutre. ao qual toda consciência almeja. substituindo por outra questão a questão colocada por esses filósofos. ponhamos. subordinar nossas ações exclusivamente à . mas a atitude mental que ela supõe prolonga diretamente nossa atitude cotidiana e consagra nossa vontade de agir sobre o objeto. não há necessidade de muita persuasão para nos convencer. sua pesquisa supõe. ou as de Kant sobre o tempo. primeiramente. Ela é acessível a qualquer um que queira conduzir seus pensamentos com total honestidade. que se deslocam mais velozmente do que seus passos. de dominar o Mundo. Como não acreditariam os homens numa ciência cujas máquinas medem seus campos ou o tempo de seus trabalhos com mais eficiência do que seus olhos ou suas memórias. ela exige do homem que primeiro renuncie a esse projeto espontâneo de conquista do Mundo. mais uma vez. com esse Mundo objetivo. medir nosso dever pelo nosso interesse. A ciência pode ser difícil. o formou. ainda que tão vigente.

. Basta ter lido Leibniz para saber. toma a si mesma por esse ser que não conseguiu descobrir no objeto. ao estabelecer com razão que só há sensação através de uma consciência. segundo a medida última da evidência. Sobre esse ponto. iria gostar de um saber tão contrário a nosso saber comum? De um saber que exige um esforço tão contrário a nosso esforço cotidiano? E. Quem. Saber filosófico e crítica das ontologias Mas a filosofia não tem. Antes de tudo. são a ilusão idealista e a ilusão sistemática: elas provêm do fato de que a consciência. a contracorrente. a filosofia deverá evitar as ilusões ontológicas que nascem com freqüência de sua própria crítica. é então considerada como descoberta positiva do ser do sujeito. Do fato de que o objeto é para o sujeito. entretanto.5 exigência do grupo social ao qual pertencemos. relação através de um espírito. que um objeto extenso e. ela deve (como vemos. a partir de si. e se crê capaz de operar. A filosofia começa com o deslocamento e a inversão de tais atitudes. após ter estabelecido que nada que pertença ao mundo objetivo e histórico poderia ter sentido salvo por ela. de uma vez por todas. o discípulo de Kant deve realizar a revolução copernicana. das necessidades definitivas. A análise da objetividade. cultivar nossa nostalgia do Ser e de nos convencer. com Platão e Malebranche. se conclui que ele é pelo sujeito. compreende-se que é contra uma tentação interior à sua própria crítica que o saber filosófico deverá se erguer. Eis o domínio das evidencias irrecusáveis. o aluno de Husserl operar a redução fenomenológica. O prisioneiro da caverna deve se voltar. portanto. não é um ser. uma dedução completa do real. desprovidas de realidade ontológica. de que a verdadeira pátria de nossa alma está alhures. uma vez atingido. os frutos mais ordinários desse projeto e as fontes de nossas paixões essenciais. Em primeiro lugar. por exemplo. por fim último. Basta ter lido Berkeley para saber que aquilo que todos chamam de matéria não poderia existir em si. na Dialética transcendental de Kant) impedir que essa nostalgia nos induza ao erro ao produzir a ilusão permanente do Ser diante de idéias que são. divisível. Tudo aqui é a contra-senso. tais são. esse saber comporta uma certeza que não pode mais ser recusada. então. com efeito. Depois de ter destruído as ilusões ontológicas próprias ao realismo perceptivo e científico. o leitor de Descartes deve considerar falso o que antes acreditava ser evidente. IV. ao qual é atribuído um poder propriamente criador.

Porque o sujeito bem o sabe que não pode “criar” a menor estrutura lógica. o prestígio que a filosofia redescobre vem com freqüência do fato de que ela trai sua missão da seguinte forma: ela não é mais saber da ausência. para muitos. do ponto de vista da ordem ontológica. Não poderia ser de outro modo em um século em que tudo parece ser bom para substituir a fé perdida e em que a própria arte se torna. mas não pode nem substituí-la.6 Isso significa esquecer a essência e o alcance de toda análise do conhecimento. a consciência da existência e a consciência da essência permanecem separadas. Desse modo. é preciso que o ser do cogito cartesiano se descubra primeiro como a pura negação que é a dúvida e que. Do Ser. se sente obrigado. A liberdade que o constitui não é nem o Ser nem a medida do Ser. Mas o Ser não se deixa apreender tão facilmente. para isso. entretanto. oferece. Ele é transcendente. e toda tentativa de dedução sistemática do real é apenas romance filosófico. podemos prestar algum favor à filosofia. em seguida. de nossas angústias. toda descrição exata de nossa consciência cognoscente ou moral dá testemunho disso. de nossas preocupações. nem ignorá-la nem rebaixar-se perante ela. seja contraposto ao primado inalienável da dúvida na ordem do conhecimento o ser de Deus e o das verdades que ele criou. mas instrumento de política. O objeto. Ele não se encontra aqui em baixo na existência. afastado das condições de um verdadeiro saber. verdades que fazem de nossa intelecção uma paixão. ou de consolação. é considerada um contato com a eternidade. está além: toda reflexão sincera. E sua capacidade de destacar a insuficiência de todo objeto em nada implica sua própria suficiência. o mínimo valor. ao esquecer essas lições rigorosas. ou mistificação. ainda que se mostre inadequado a qualquer investigação ontológica. Ele constata. Sem dúvida. é preciso que seja mantida a coisa em si e que toda realidade ontológica seja recusada ao “eu penso”. que re-introduz arbitrariamente o conteúdo empírico de que se pretende dar conta. O sujeito só se descobre no seio da experiência de uma insuficiência e por referência a uma privação. Mas. uma riqueza qualificada que não poderia ser deduzida de nenhum princípio subjetivo. ela é apenas o signo. E. Em Descartes e em Kant. em Kant. uma espécie de religião sem moral e sem Deus que permite esquecer os limites e as obrigações de nossa vida ao se deixar levar por emoções confusas: a ruptura com o tempo de nossos remorsos. a ciência permanece ao lado da metafísica. . Em nossa época. A filosofia pode identificar o lugar da ciência. lhe aparecem como se estivessem sobre ele e subtraídas de seu poder. A lei moral e a verdade o constrangem.

em sua lucidez. após tê-las comparado e constatado sua diversidade e oposição. em Descartes. Só se poderia falar da história de um saber supondo um sujeito único nos momentos diversos desse saber. dessa hierarquia. Após ter reconstituído. em sua totalidade sistemática. de Fichte. em Platão. e há apenas um passo a dar para considerar toda filosofia constituída como um “momento” da Filosofia. o saber filosófico. e o Ser não pode ser descoberto nem no objeto. Aqui estamos nas veredas da dialética. É por isso que o historiador das idéias sempre irá se sentir atraído por Hegel. É legítimo falar de . Ele não deixa de ser o saber supremo. Seria mais conveniente. a forjar o mito de um sujeito único da filosofia. Essa maneira de compreender os filósofos do passado. que se pretende eterno. Nossas verdades. nem no sujeito nem em sua síntese impensável.7 Portanto. por outras vias. as filosofias de Espinosa. tentar descobrir os caracteres específicos da história da filosofia e interrogar em que medida o saber filosófico. tudo aquilo pelo qual somos humanos. essa oposição da filosofia e de sua história que nos pareceu ser a fonte do atual mal-estar da metafísica. então. para escapar desse mal-estar. de Kant. toda afirmação idealista. a declarar que aquilo que em um instante apareceu como verdade a esse sujeito. Ele é o eterno ausente a partir do qual tudo se organiza. segundo tais critérios? É preciso. possui uma história própria. em última análise. de Hume. sob o nome de sabedoria ou de moralidade. seguindo Kant e Descartes. condenar Hegel e Espinosa como estrangeiros do saber filosófico? Isso seria voltar a um dogmatismo insustentável e restabelecer. às vezes vista como “científica”. Aqui se encontra salvo. não será mais do que a tomada de consciência da própria História. nossos valores devem seu sentido ao Ser. em Malebranche ou em Kant. Filosofia e história da filosofia É preciso. na realidade repousa sobre o preconceito e a confusão. aquele que permite evitar todo dogmatismo e toda idolatria e realizar o justo equilíbrio dos pensamentos ao colocar as coisas em seus lugares. V. os frutos desse equilíbrio. distinguir filosofias do saber e filosofias da ilusão. É fácil perceber. a qual. como saber do Ser. toda constituição de sistema são estranhos a nosso saber. Dessa maneira. ele tenderá a dotar a própria história da filosofia de uma consciência. lhe pareceu errado em seguida. aparece como não sendo saber de nada quando queremos submetêlo às normas da objetividade científica.

Descartes se livrou da física aristotélica ao compreender que acreditar que há qualidades nas coisas é pensar confusamente que as coisas têm consciência dessas qualidades. quando muito. deve ser sempre retomada. não é esse saber feito de idéias objetivas que. e. também não há razão para estimar que a consciência filosófica. uma espécie de sujeito coletivo. para isso. é sem conseqüência. Portanto. o que. o historicismo nunca serão outra coisa senão idealismos que se ignoram. A partir daí. O realismo. não temos motivo algum de preferir aquilo que um pós-kantiano pensa de Kant àquilo que pensava o próprio Kant. Tal purificação. portanto. de uma consciência que nunca foi a consciência de ninguém e que aparece. após ter sido empirista. Os discípulos de Hegel às vezes só se deixam levar pela ilusão de formar tal idéia quando confundem a Consciência universal da História com suas próprias consciências pensando a História. Aqueles que condenam Descartes compreenderam-no? Tudo leva a crer que não. quando Kant assinala um erro em Hume. os sucessores de Descartes só puderam pensar que Descartes havia errado porque suas consciências diferiam da dele. se livrar do mito de um sujeito da história da filosofia. Portanto. a idéia de uma consciência simultaneamente histórica e filosófica é simplesmente contraditória. destacadas do movimento do pensamento individual que primeiramente lhes deu um sentido. que é a tarefa eterna da filosofia. De qualquer forma. Hume tomava sua filosofia como verdade e é verossímil que aqueles que a filosofia de Hume não satisfez não a compreenderam como a compreendia Hume. Da mesma forma. reencontram logo uma espécie de universalidade abstrata? Mas uma verdade filosófica não poderia ser separada da reação total de uma consciência pessoal diante do mundo objetivo que a percepção ou a ciência constituíram. de odores e de cores descobre que os dados sensíveis são apenas seus estados. primeiro é importante retornar aos pensamentos efetivos dos filósofos. Atualmente. . um sujeito que tinha a impressão de se encontrar em um mundo de sons. o materialismo.8 uma história das ciências na medida em que o saber científico é o resultado de uma pesquisa comum. Suas críticas não poderiam nos incomodar. quando deveriam se contentar em dizer que os sucessores de Descartes consideraram falso o cartesianismo. que é o de atribuir consciência àquilo que não a possui. E. Além disso. Pela dúvida e pelo cogito. com efeito. eles não têm receio de afirmar que aquilo que era verdade na época de Descartes se torna erro em seguida. se tornou kantiana. como aquela do historiador. se aperfeiçoa sem cessar e supõe. convenhamos. Reencontramos aqui a fonte mais comum do erro realista.

Eternidade do saber filosófico Portanto. nenhum meio de colocá-las em dúvida e de englobá-las. segundo as exigências de uma saber científico. de fato. se a história só se torna um Todo na consciência do historiador que. Com efeito. não é preciso temer afirmar que. Entretanto. é declarar que ela atingirá a perfeição de seu gênero ao ignorar aquilo de que trata. não temos mais nenhuma razão de preferir às certezas que tiveram Descartes e Kant aquilo que pensamos dessas certezas. no passado. é tomar um pensamento por uma coisa. possuíram de fato. ao se criticarem uns aos outros. é esquecer. Mas se não houver nem parte nem todo. reduz os pensamentos dos outros ao seu. a vitória da ciência sobre todas as outras tentativas de . nos levaram a confundir frequentemente a filosofia com a cosmologia e a considerar a ciência e a filosofia como duas explicações rivais do mesmo mundo. contrariamente à opinião comum. eles só triunfam sobre sua caricatura. Pretender que a história da filosofia seja. Entretanto. porque as partes estão contidas no todo. objetivar é precisamente deixar de compreender. a ciência ultrapassa aquilo que ela compreende. que o cogito não pode ser ultrapassado. Para ela. ao recusar compreender aquilo de que fala: a filosofia. é preciso logo acrescentar que os filósofos raramente souberam proteger seu saber de toda contaminação: ao nos apresentá-lo sob a forma de sistema. Certamente. uma ciência. em alguma síntese mais compreensiva. quando crêem triunfar sobre a filosofia. mas só compreende objetivando e todo objeto é objeto de pensamento. evitamos a ilusão e descobrimos a verdade dos filósofos. no sentido estrito. Sabe-se que partido hoje tomam os inimigos da filosofia nessa oposição. isto é. No domínio da objetividade. mais uma vez. como momentos. se as filosofias do passado tivessem sido pensadas (ou pudessem ser efetivamente pensadas) por um sujeito único. a metafísica é a verdade absoluta e todos os filósofos que. estiveram convencidos de possuir a verdade. salvo a individual. É por isso que o mundo da ciência é verdadeiro pelo fato de não ter um ser. a história da filosofia não poderia ser uma ciência porque se debruça sobre pensamentos. ao nos impelir a considerar seu conteúdo sob forma objetiva. Ao enxotar toda consciência. não é mais o mundo de qualidades que convém exorcizar: é o da história. e isso com valor de prova. Porém. é claro que veriam suas verdades se reduzirem àquela da História. pela consciência da História que as conteve.9 entretanto. VI.

descobre o pensamento como o sujeito de tal extrapolação e conclui que o cogito é. com rigor. contra os dados da astronomia moderna. no sistema. Ninguém consideraria rigorosa a dedução espinozista das paixões. Portanto. por ela implicada. de Kant se revelam estritamente idênticas. na verdade. o saber filosófico. simultaneamente.10 explicação cosmológica é tão necessária quanto desejável. a condição de todo conhecimento e o signo de Deus. não poderíamos negar que Malebranche. Elas nos conduzem. E a idéia kantiana de legislação não está distante da inspiração pietista. Ninguém imaginaria. Assim. reencontra à sua maneira a imagem bíblica do Gênese. que não poderiam encontrar seu lugar entre as evidências essenciais que constituem a metafísica. portanto. as teorias de Malebranche. Hume se adéqua às tendências de um ateísmo à moda de sua época. segundo suas conclusões e segundo seus métodos. as evidências que nos tornam homens e. Além disso. É muito mais notável constatar que. que nenhuma sucessão objetiva e temporal poderia nos oferecer aquilo que entendemos por causa. Mas. uma mesma verdade é encontrada. pensa segundo sua religião e sua fé. uma mesma essência. mas que seja constituinte em relação a essa ordem. Pois. no que diz respeito à causalidade. por exemplo. não é de surpreender que os sistemas desses filósofos sejam opostos. ao ver no Mundo a linguagem que nos fala Deus. a defesa do “Mundo” cartesiano. de Berkeley. a pesquisa empirista de Berkeley e a de Hume diferem muito da análise malebranchista e da análise kantiana. as construções cosmológicas não são as únicas a contaminar. usar. de toda idéia propriamente dita. de Hume. e que . quando. ele nos propõe uma metafísica em relação à qual não há nada a retomar e contra a qual nenhuma descoberta posterior conseguiria prevalecer. E. de acordo com nossa exigência irrecusável. por exemplo. ressaltando a eternidade e a necessidade de um saber que não poderia ser contestado sem que se perdesse. descobre o Ser como fonte de todas as verdades dessa ciência. Berkeley. após ter constituído sua ciência do mundo. Ninguém poderia descobrir a verdade do saber filosófico se primeiro não compreendesse que todo sistema é a expressão de uma filosofia na linguagem. ao mesmo tempo. quando Descartes. depuradas da linguagem que as sistematiza. para alguma coisa que não seja da ordem do objeto. liberadas dos pré-conceitos que as objetiva. as condições de qualquer outro saber. ao situar toda causa no Deus dos cristãos. Ao descobrir a fonte da causalidade na natureza humana. Pois elas estabelecem. A psicologia e a teologia positiva são igualmente fontes de afirmações de ordem objetiva. ao refletir sobre essa própria descoberta e sobre a extrapolação.

inseparável da idéia de sabedoria. a se tornar aquela da objetividade. Os exemplos mais desconcertantes de crueldade organizada não conseguem nos desembaraçar da ilusão que nos faz crer no progresso moral da humanidade. ao considerar o kantismo “historicamente”. é apenas em uma démarche. inseparável de um movimento de nosso ser inteiro. não se confunde com nenhum resultado. sem dúvida. Só concebemos um saber que seja científico. é inseparável de uma démarche total e efetivamente vivida da consciência. Ora. por isso. que só é percebida por alguns. e que sucede uma alienação primeira. a filosofia não é saber da objetividade. fazer de tal saber a medida do homem e do Ser é subordinar a ele o que o torna possível e negar. e se os filósofos corrigiram com freqüência seus sistemas segundo suas intuições. entretanto. em um movimento da consciência inteira que se revela a filosofia. os Estóicos ou Espinosa. porque não temos do Ser. Quantas vezes. de progresso têm em nossos dias uma força quase invencível: as emoções mais perturbadoras da arte ou do amor não conseguem nos convencer da existência de vínculos não científicos entre o homem e o real. desde o princípio. Dessa negação. isto é. em seus discursos. os sistemas. o esforço para constituir uma história científica e objetiva da própria filosofia é. só deixa sua sombra em suas mãos. ela se furta a suas abordagens. é verdade sem ser ciência e . Esse saber não pode ser objetivado ou isolado. Hegel. a filosofia. O saber filosófico também não é intuição. escaparia aos historiadores? E. e mesmo do nosso ser. as hipóteses e os erros dos filósofos. segundo suas leis constitutivas. e a idéia de filosofia é. no pensamento dos homens. mais contraditória. nenhuma intuição objetiva. as idéias de ciência. de história. Na verdade. ao ler Platão. Ele deve ser incessantemente redescoberto. Ao querer tratar dela. nos abandonou. os pré-conceitos.11 uma linguagem tende sempre. nos fala de um “momento moral” que não tem mais nada a ver com a consciência kantiana. a moralidade e a felicidade! É que a idéia de um saber verdadeiramente filosófico. nos flagramos sem levar a sério o que eles dizem do vínculo entre o conhecimento. em falar de outra coisa. à atitude pela qual escolhemos só considerar o Mundo e interpretá-lo como um conjunto de objetos cognoscíveis e manejáveis. Todavia. eles se contentaram. Como a evidência filosófica. a forma mais paradoxal. E outros. ao estudarem “cientificamente” aquilo que foram as intuições. que se concentra sobre um conteúdo que nos é exterior. esquecem ou negligenciam o saber do homem e do Ser que esses possuíram. também corrigiram com freqüência suas intuições primeiras segundo a exigência de coerência de um sistema. Entretanto. mas daquilo que torna a objetividade possível. Ele é aquilo que.

Toda “natureza” é objeto de ciência e se realiza em uma história. Mas o saber dos filósofos é metafísico.12 experiência sem ser história. .

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