BIOLOGIA

GENÉTICA: POLIALELIA E GRUPOS SANGÜÍNEOS
1. POLIALELIA OU ALELOS MÚLTIPLOS

Nos casos de hereditariedade analisados até aqui, cada caráter é determinado por um gene que pode assumir apenas duas formas alélicas, que ocupam loci correspondentes em cromossomos homólogos. No entanto, para muitas características determinadas geneticamente, existem na população mais de duas formas alélicas que podem ocupar o mesmo locus nos cromossomos. Tal grupo de alelos é designado por série de alelos múltiplos ou polialelos. Cada indivíduo, no entanto, só pode apresentar duas dessas formas. Um exemplo clássico do que foi citado é o que ocorre na genética da pelagem dos coelhos domésticos, em que quatro alelos determinam o tipo de pelagem: c - selvagem cch - chinchila ch - himalaia Ca - albino A relação de dominância entre os genes alelos é: C > cch > ch > ca É importante frisar que, apesar de existirem 04 genes alelos determinando a pelagem dos coelhos, um animal possui apenas um par desses genes. Assim sendo, os seguintes genótipos são possíveis: CC ; Ccch ; Cch ; Cc⇒ Selvagem (aguti) Cchcch ; cchch, cchc ⇒ Chinchila chch, chc⇒ Himalaia cc ⇒ Albino. O tipo selvagem apresenta coloração uniforme, e tem uma pelagem da cor cinza-marrom. Um mutante, conhecido como albino, é bem distinto do tipo selvagem pela falta de pigmento. Além destes, há ainda outros mutantes, entre os quais o chinchila, totalmente colorido e com pelagem prateada, e o himalaia, todo branco com exceção das extremidades (nariz, cauda e patas).
2. GRUPOS SANGÜÍNEOS

estranhos os antígenos de um sangue diferente do seu. Quando os antígenos são introduzidos num organismo que não os possui, provocam a formação de anticorpos. Estes são moléculas protéicas específicas, sintetizadas pelo sistema imunológico do indivíduo, em resposta ao antígeno para o qual tem grande afinidade. Os anticorpos existentes no plasma reagem especificamente com os antígenos dos glóbulos vermelhos aglutinando-os no início e destruindo-os depois. A importância desta reação faz com que os antígenos dos eritrócitos sejam designados por aglutinogênios, dando-se o nome de aglutininas aos anticorpos que lhes correspondem no plasma. Os aglutinogênios das hemácias humanas, embora distintos, têm algumas características comuns agrupando-se em sistemas. No homem, já foram descritos pelo menos quinze sistemas de grupos sangüíneos diferentes, cada um deles, em regra, relativo a um locus gênico que determina a presença de antígenos nos eritrócitos. O grupo sangüíneo de cada pessoa é uma característica fenotípica fixa e que se transmite hereditariamente. No sistema ABO há três alelos possíveis: IA, IB e i, sendo que os dois primeiros genes não apresentam dominâncias entre si, mas dominam o terceiro, ou seja, IA = IB > i. Temos, então, seis combinações possíveis entre os genes. Daí, podemos estabelecer um quadro geral: Aglutinogênio Presente na hemácia A B AeB Não há Aglutinina Presente no plasma anti-B anti-A Não há Anti A e anti B

Genótipo IAIA ou IAi IBIB ou IBi IAIB ii

Fenótipo Tipo de Sangue Sangue A Sangue B Sangue AB Sangue O

Sistema ABO Os diferentes grupos sangüíneos, muitas vezes chamados tipos de sangue, são caracterizados pela presença, na superfície das membranas dos glóbulos vermelhos, de determinadas moléculas designadas por antígenos. Os antígenos são lipoproteínas específicas que variam conforme o tipo de sangue. O sistema imunológico do indivíduo reconhece como
Editora Exato 9

3. TRANSFUSÕES SANGÜÍNEAS

Como regra geral, ao se analisar uma transfusão, deve-se considerar o aglutinogênio do doador e as aglutininas do receptor. Observe o esquema a seguir, construído com base nessa regra:

o resultado é a aglutinação. embora seja desprovida de antígenos a e/ou b. então.0 O AB A B A O AB Transfusões Ao se realizar uma transfusão com incompatibilidade. devido ao fato de não possuir os genes ia e/ou ib. FENÔMENO DE BOMBAIM AB O 5. As reações no receptor podem variar de uma simples reação alérgica à morte. isto é. representamos o fenótipo. os grupos sangüíneos de uma família onde ocorre este fato: Em 1940. e foram denominados Rh positivo (Rh+). completamente inativo. por sua vez. Já os indivíduos com sangue do tipo AB não apresentam aglutininas em seu plasma. o gene dominante D determina a produção do fator Rh. pois. isto é. O antígeno das hemácias do macaco foi denominado fator-Rh. visto que não altera o substrato. Os aglomerados sangüíneos resultantes da aglutinação podem causar sérios prejuízos ao receptor. possui os genes IA e/ou IB. SISTEMA RH Os antígenos A e B são sintetizados a partir de um antígeno H sobre o qual agem os genes IA e IB. por não terem aglutinogênios em suas hemácias. não existe o antígeno h. Indivíduos com sangue do tipo O. mesmo que os genes ia e/ou ib estejam presentes. que tinha a propriedade de aglutinar as hemácias do macaco. o anticorpo produzido pelos coelhos foi chamado de anti-Rh. que esses indivíduos apresentavam. fenômeno decorrente da ação das aglutininas do receptor sobre as hemácias (com aglutinogênios) do receptor. No heredograma abaixo. uma pessoa pode ser desprovida de antígenos a e/ou b em suas hemácias tanto. Assim sendo. em suas hemácias. como por ser homozigota para o gene h. produzido pelos coelhos. não há produção dos antígenos a e/ou b. Quando este soro anti-Rh foi testado em mais de quatro centenas de indivíduos da população de Nova Iorque. podendo transmitilos à sua descendência. também neste caso o alelo h é amorfo. Ficou claro. são chamados de doadores universais. Neste último caso. é produzido pela ação de um gene H sobre uma substância precursora. Os indivíduos que não apresentaram o fator Rh foram denominados Rh negativo (Rh-). 4. A hipótese aceita atualmente para explicar a herança do sistema Rh é de que ele seja determinado pela ação de um par de genes alelos independentes dos genes que determinam o sistema ABO. as enzimas produzidas pelo genes ia e/ou ib não têm a substância sobre a qual agem. Quando indivíduos negativos recebem sangue Rh positivo podem produzir anticorpos anti – Rh. o gene i é amorfo. Dessa forma. o antígeno Rh. e obtiveram um anticorpo. Landsteiner e Wiener injetaram sangue de um macaco do gênero Rhesus em coelhos. O antígeno H. pois são capazes de obliterar vasos sangüíneos. Uma pessoa nessas condições será falsamente do grupo O. Observe a tabela a seguir: Genótipo DD ou Dd Grupo Hemácia Rh positivo Fator Rh Plasma ---Anticorpos anti Rh após o conSem o fator tato com Rh hemácias Rh positivas dd Rh negativo Editora Exato 10 . isto é. os pesquisadores percebem que 85% dessa amostra apresentavam hemácias que reagiam com o anti-Rh. enquanto seu alelo d não determina a produção desse antígeno. por isso. aceitam pequenas transfusões de qualquer tipo de sangue e são chamados de receptores universais.

não é aleatória. de hemácias imaturas. como se vê no quadro abaixo: Aglutinogênio Reação com ANTI-M + + ANTI-N + + M N MN MM NN MN Grupo sanguíneo (fenótipo) Genótipo M N MeN A herança desses grupos depende de um par de alelos co-dominantes M e N. O contato com as hemácias fetais Rh + faz com que a mãe se sensibilize contra o antígeno Rh. 8. são necesários alguns eventos: 1. dá-se a reação de aglutinação com destruição das hemácias fetais. ao penetrarem na circulação fetal. Caso o pai seja Rh+ e homozigoto. foram separados do soro de coelhos sensibilizados vários anticorpos. obrigatoriamente. Para combatê-la. destroem as hemácias do feto (hemólise). o DNA extraído da célula (geralmente glóbulos brancos do sangue) de um indivíduo é quebrado por ação enzimática em pequenos pedaços. 3. Uma vez que a mãe é sensibilizada. LEITURA COMPLEMENTAR b) O anticorpo anti-Rh é produzido pelo organismo materno. Como este anticorpo se forma lentamente. então. o que se pretende isolar são exatamente essas séries. a criança nascerá antes que ele atinja concentrações “perigosas”. que permanecerão em sua circulação. Atualmente. A necessidade de hemácias conduz ao lançamento. é direcionada para que ocorra em certos locais do DNA.6. no entanto. Esses grupos têm pequena importância tanto para transfusões como para a determinação de acidentes devido à incompatibilidade materno-fetal. mas não permitem confirmá-la. alguns milímetros cúbicos de sangue fetal caem na corrente circulatória da mãe. Essas seqüências são formadas por pequeno número de bases nitrogenadas (de 4 a 40). c) Passagem de anti-Rh para o feto a) Passagem de hemácias fetais para a mãe. que não codificam proteínas. Repetições dessas unidades podem estar espalhadas por todo o DNA ou concentradas em séries ao longo de trechos do DNA. devido a pequenas hemorragias das vilosidades placentárias. da mãe. c) Os anti-Rh. Isto porque se constatou que a extensão e a repetição dessas séries no DNA variam de indivíduo para indivíduo. As hemácias humanas podem reagir de três formas diferentes frente a esses anticorpos. 4. o filho será Rh+. Essa quebra. Sendo a mãe Rh. que determinam três genótipos (MM. não seja significativa no parto. na corrente sangüínea. a) Hemácias Rh do feto passam à circulação materna. Quando se quebra o DNA. Valendo-se dessas informações é que são feitos os testes de paternidade com base no DNA. Embora a quantidade de hemácias fetais que poderão passar para a circulação materna espontaneamente. A gênese da eritroblastose fetal Os testes de paternidade com base nos grupos sangüíneos não são definitivos. Nesses testes. passará a produzir anticorpos anti-Rh. Nesses testes. quando a placenta se desloca. Para que ocorra a doença.9% de certeza. Numa segunda gestação.e o pai Rh+. isolando trechos formados por seqüências de bases nitrogenadas que têm características muito peculiares. por exemplo: os anti-M e anti-N. Da mesma forma como se preparam anticorpos anti-Rh. b) O organismo materno produz anticorpos anti-Rh. pode-se conseguir a produção de outros anticorpos injetando sangue humano em coelhos. de tal modo que cada pessoa tem uma combinação que é só sua. NN e MN). passarão para a criança. o feto poderá ter o antígeno Rh em suas hemácias. constituindo unidades. ocorre uma hiperplasia medular (óssea) nas zonas hematopoiéticas do baço. SISTEMA RH E ERITROBLASTOSE FETAL 7. A partir daí. dos possíveis pais. 2. o que resulta em deficiência no transporte de oxigênio. Constatou-se também que o padrão de diferentes tamanhos dessas séries é herdado da mesma maneira que os genes: o indivíduo recebe metade do padrão do pai e metade da mãe. SISTEMA MN Doença conhecida também como Doença Hemolítica do Recém-nascido (DHRN) afeta ambos os sexos e se caracteriza pela destruição das hemácias fetais por anticorpos da mãe e conseqüente anemia. São seqüências de função ainda desconhecida. comparam-se o padrão de séries do DNA 11 Editora Exato . pois podem negar a paternidade. São testes feitos comparando-se os DNAs da criança. Assim. testes mais sofisticados permitem confirmar a paternidade com 99. caso a criança seja também de Rh+ os anticorpos pré-elaborados da mãe.

O rei. b) o genótipo da pessoa. marcando-os com a radiatividade. 2 Se Paulo fosse do grupo AB não poderia ser o pai da criança com sangue tipo O. cada série deixa sua impressão no filme. Esses códigos são tão exclusivos de um indivíduo como são suas impressões digitais. através de teste bioquímico. de sangue O. A seguir.da criança com o dos possíveis pais. d) que a pessoa é heterozigota. c) AB ou O. o grupo sangüíneo do pai deve ser: a) A. não existindo dois indivíduos com o mesmo “código de barras” (com exceção.9%. c) que a pessoa é homozigoto. o juiz não pôde chegar a nenhuma decisão conclusiva. e) AB não tem nenhuma das aglutininas. O único teste capaz de incluir Paulo na lista dos prováveis pais biológicos seria o teste de DNA. Após a separação. e) Nenhuma das alternativas. Após algum tempo. b) A tem aglutinogênio a e aglutinina A. está determinado. As bases dessas sondas pareiam-se com os segmentos isolados de DNA. a um homem chamado Paulo. uma das mulheres desistiu. que são trechos conhecidos de DNA. a placa de gelatina é colocada sob um filme fotográfico virgem. então. concluiu que aquela que havia desistido era de fato a mãe verdadeira. julgue os itens. 3 (IMS-SP) Em uma criança do grupo sangüíneo A e filha de uma mulher do grupo sangüíneo B. O resultado é uma imagem fotográfica semelhante a um código de barras. d) AB não tem nenhum dos aglutinogênios. de sangue A. ESTUDO DIRIGIDO AB A A AB O O B B A partir do esquema. pai do filho de Joana. um juiz pode utilizar a análise dos grupos sangüíneos e teste de DNA para ajudar a solucionar questões semelhantes. adicionamse ao meio sondas. Analisando uma situação em que uma mulher chamada Joana. Baseado no texto e em conhecimentos correlatos. sendo metade dos padrões igual ao da mãe e metade igual ao do pai. portanto. atribuía a paternidade de seu filho. de sangue B. A identificação dessas séries é feita. 4 Se Paulo e Joana forem os pais biológicos da criança com sangue tipo O. d) B ou O. em relação ao grupo ABO: a) o fenótipo da pessoa. com acerto de aproximadamente 99. 4 2 O que são antígenos? 3 Por que os indivíduos O são considerados doadores universais e os indivíduos AB receptores universais? 4 O que é Eritroblastose fetal? EXERCÍCIOS 1 (Unifor-CE) Determinando-se. por eletroforese. que uma pessoa pertence ao grupo sangüíneo A. do seguinte modo: os pedaços de DNA são quebrados uns dos outros. O rei Salomão resolveu uma disputa entre duas mulheres que reclamavam a posse de uma criança. em uma placa gelatinosa. Nos tribunais modernos. com bases nitrogenadas radiativas. Os pais verdadeiros são aqueles cujos padrões de repetição das unidades do DNA encontram-se registrados no DNA da criança. é claro dos gêmeos univitelinos). 3 A análise dos grupos sangüíneos do sistema ABO não apresenta nenhuma utilidade no esclarecimento de paternidade duvidosa. b) A ou AB. no escuro. haverá 25% de chances desse casal ter uma criança com sangue do tipo O ou B em uma próxima gestação. (Cesgranrio-RJ) O sistema abaixo apresenta possíveis transfusões entre indivíduos dos grupos sangüíneos do sistema ABO: 2 Editora Exato 12 . c) O tem aglutinogênio A e B. Ao propor dividir a criança ao meio. simplificadamente. podemos concluir que: a) B tem aglutinogênio A e aglutinina B. 1 Defina polialelia. e) que a pessoa só possui genes recessivos. que é capaz de comparar as seqüências de bases nitrogenadas de "pais" e "filhos". 1 Um homem do grupo sangüíneo B pode ser heterozigoto e.

A mulher é do grupo sangüíneo O e as crianças são dos grupos A. d) 7. Um banco de sangue possui 5 litros de sangue tipo AB. o homem é do grupo sangüíneo A. foi constatado que o fator Rh era responsável pela doença do recémnascido chamada eritroblastose fetal (ou doença hemolítica do recém nascido). C. no início do século 20. Exercícios 1 2 3 4 5 6 7 8 A E B C.5 Em uma família. que variam conforme o tipo de sangue. ninguém previa as aplicações práticas de seu trabalho. descobriu os grupos sangüíneos ABO. afeta ambos os sexos.e o pai Rh+ c) a mãe é Rh+ e o pai é Rh+ d) a mãe é Rh. Para transfusões em indivíduos tipo O. 5 e 8 litros. c) 18. C A A A B 8 Editora Exato 13 . AB e O. Ela é caracterizada pela destruição das hemácias do feto. 5. A. é CORRETO afirmar: a) Os filhos serão Rh+ e Rh-. Em relação aos filhos do casal.e o pai é Rh- GABARITO Estudo Dirigido 1 2 3 Quando existe 3 ou mais tipos de alelos diversos para o mesmo locus cromossômico. Em 1940. 6 4 7 Doença conhecida também como Doença Hemolítica do Recém-nascido (DHRN). se for acentuada. b) 2. B e AB. estão disponíveis. Um homem com Rh+ heterozigótico casa-se com uma mulher Rh-. por anticorpos da mãe. são chamados de doadores universais. homozigoto. 8. “brincando” com sangue de macaco. Quando Kal Landsteiner. c) A e AB. naquele momento mera curiosidade científica. 10 e 11 litros. A eritroblastose fetal pode ocorrer apenas num tipo de situação: a) a mãe é Rh+ e o pai é Rhb) a mãe é Rh. aceitam pequenas transfusões de qualquer tipo de sangue e são chamados de receptores universais. descobriram o Sistema Rh. d) O primeiro filho será Rh+. e conseqüente anemia. Quais das crianças são adotivas? a) AB e O. b) Todos os filhos serão Rh+ c) Não há possibilidade de terem filhos com eritroblastose fetal. b) A e O. Logo após a descoberta. 5. 3 litros tipo A. ele mesmo. respectivamente: a) 2. acarretará uma série de conseqüências. junto com Winer. Indivíduos com sangue do tipo O. 10 e 18 litros. Já os indivíduos com sangue do tipo AB não apresentam aglutininas em seu plasma. d) O e B. 3. E. e se caracteriza pela destruição das hemácias fetais. que. 13 e 5 litros. 8 litros tipo B e 2 litros tipo O. São lipoproteínas específicas. por não terem aglutinogênios em suas hemácias.