Você está na página 1de 25

UNIVERSIDADE GUARULHOS

CURSO DE PSICOLOGIA

NOÇÕES DE BIOÉTICA
Texto elaborado pelo Prof. Franklin M. Villela para o acompanhamento das aulas de Bioética

GUARULHOS - OUTUBRO DE 2006

BIOÉTICA
1. INTRODUTÓRIOS A palavra Bioética, hoje bastante usada, não é muito antiga. Segundo Warren T. Reich foi van Rensselaer Potter quem primeiro cunhou o termo bioethics (bioética) ao escrever o livro Bioethics: bridge to the future, em 1971 (cf. PESSINI e BARCHIFONTAINE1, 24). Seu significado foi aos poucos sendo delimitado. Para compreendê-lo melhor, pode-se começar pelo estudo da composição da palavra. Bioética é uma palavra composta de BIOS, palavra grega que significa vida e ÉTICA, que indica uma parte da Filosofia, precisamente a parte da Filosofia que questiona as atividades do ser humano para possibilitar-lhe a realização (o fazer) do Bem. Etimologicamente, portanto, Bioética significa uma Ética que tem como preocupação fundamental as manifestações de vida (Bio). Para alcançar com maior amplitude e profundidade o que se pode entender com a palavra Bioética, será oportuno e necessário verificar o significado de Ética. Para isso cumpre lembrar que no linguajar cotidiano aparecem diversas palavras que, usadas indiscriminadamente, podem levar a confusões. Entre estas palavras estão os termos moral e ética, que não indicam exatamente a mesma coisa, embora seja bastante difundido o emprego das duas palavras como se fossem sinônimos2. A palavra Moral, se origina do latim mos, que significa costume. E Ética, de onde vem? Qual o seu significado original? A palavra Ética é uma palavra muito interessante na sua origem, pois o grego possui dois termos muito parecidos – não iguais! – dos quais derivam o nosso termo ética: ethos (escrita com a vogal longa eta) significa costume; ethos (escrita com a vogal breve epsilon) significa caráter, índole natural, temperamento. Como se percebe, no primeiro caso, a palavra ética deriva de um conceito com preocupações sociais. No segundo caso, ética acentua uma questão pessoal, se refere a características pessoais de cada um que determinam quais virtudes e quais vícios cada um é capaz de praticar (CHAUI, 340). Entre os gregos, sobretudo a partir e por influência de Sócrates, parece ter prevalecido o significado mais ligado ao caráter pessoal: ética (com epsilon) seria o caminho que cada um escolheria a partir de uma reflexão e de uma decisão pessoal. A ética (com eta) indicaria a escolha de um caminho, fortemente influenciada pelo ambiente em que a pessoa vive, o que aconteceria sobretudo a partir do predomínio do modo de viver dos romanos, que passaram a se preocupar quase que exclusivamente com esta modalidade de ética e a chamaram de moral. Hoje é preciso fazer uma distinção quanto ao
1 2

Estes autores, PASSINI e BARCHIFONTAINE, serão citados neste trabalho pelas iniciais P e B. Marilena Chauí, na sua obra Convite à Filosofia, p. 334 a 356, apresenta um estudo bastante detalhado sobre os temas moral e ética, incluindo uma visão histórica da aplicação dos conceitos.

ApBioética.01 – Franklin M. Villela, UnG: 2006

2

01 – Franklin M. uma reflexão. pode-se definir: Ética é uma reflexão sobre os princípios que orientam a ação humana para possibilitar ao ser humano realizar cada vez mais plenamente a sua natureza. Não no sentido de impor: a ação moral supõe a liberdade para ser moral. por quê são justos ou injustos. Para isso ele precisa conhecer a si mesmo e as possibilidades que se lhe apresentam. Esta definição distingue a ética da moral. Pergunta por quê certos atos podem ser considerados bons e outros não. Como 3 Veja no apêndice dessa parte da exposição um quadro geral da divisão da Filosofia. quer dizer. enquanto uma atividade que nos permite conhecer. UnG: 2006 3 . Saviani define: Filosofia é uma reflexão radical. sem uma manifestação de escolha. se conduzem ou não ao bem. como a moral versam sobre a ação humana. → Ética: o que é Ética? Etimologicamente. A moral se fundamenta na ética. inconscientemente. rigorosa e de conjunto sobre os problemas da realidade. já foi visto. Ora. O verdadeiro ato moral resulta sempre de uma livre escolha do ser humano! É preciso observar que tanto a ética. a palavra ética indicaria a capacidade de cada ser humano escolher e determinar o seu caminho. o conhecimento é o resultado de uma das posturas fundamentais do ser humano: a filosofia. Uma reflexão radical sobre uma propriedade humana. aquele não é bom. → Moral: A moral tem um caráter normativo: é um conjunto de normas e prescrições que visam regular a ação ou o comportamento do indivíduo dentro da sociedade. A moral é um conjunto de normas que visam a prática do bem. A moral apresenta essas normas partindo da idéia de que o ser humano busca sempre o melhor. A isto é preciso acrescentar a necessidade de distinguir também norma moral de norma jurídica. sem a presença de uma reflexão. É prescritiva no sentido de apontar o certo e. portanto. mas é prescritiva: esse ato é bom. a Ética é uma parte da Filosofia 3. dir-se-ia. se caracteriza por uma postura reflexiva. a vivência daquilo que é melhor para o ser humano. A Ética é. Os atos do homem são aqueles que são realizados. Vale dizer: o ato humano é um ato consciente e livre que supõe uma reflexão (ética) sobre o seu significado e o seu alcance e que supõe também uma decisão (moral): eu quero agir assim. “automaticamente”. a Ética. antes de tudo. por ser uma parte da Filosofia é. Por isso a moral nunca prevê um castigo.significado de Ética e Moral. Enquanto disciplina. o agir. como acontece nas reações instintivas. Os atos humanos se caracterizam pela consciência e pela liberdade. pois mostra o seu caráter nitidamente especulativo: caracteriza-se a ética por perguntar por quê os atos efetuados pelo ser humano estão certos ou errados. o faz sabendo o que está fazendo e porque quer fazê-lo. Quem os pratica. A ética questiona a validade dos atos humanos. Assim. ApBioética. principalmente porque em muitos ambientes não há clareza quanto a estes conceitos. de sugerir um caminho. uma escolha. portanto. antes de mais nada uma postura filosófica. Há uma diferença entre atos humanos e atos do homem. sobre os atos humanos. Assim. Villela.

Já tem um começo ao definir a sua direção e sua possível contribuição. UnG: 2006 4 . buscando melhor definição de si própria. São morais porque podem ou não ser realizados. Villela.01 – Franklin M. os atos mecânicos e instintivos não são atos humanos e sobre eles não cabe uma reflexão no sentido de julgá-los bons ou maus nem tampouco uma escolha. mas já nos indica que estamos diante de uma novidade que promete. Toda norma jurídica adequada supõe um bom embasamento ético e moral. bem como redefinição de seus métodos. Como se percebe. a norma jurídica pode ser facilmente contestada e. possivelmente. Quando este embasamento é fraco. deva ser modificada4. Não são atos morais. 4 Veja no apêndice deste estudo um quadro apontando as diferenças entre norma moral e norma jurídica. ApBioética. mas uma novidade que precisa ser trabalhada. A norma jurídica prevê sempre uma punição no caso de sua transgressão. (P e B.se percebe. Dependem do conhecimento que o ser humano tem de si mesmo e da sociedade em que vive. a Moral e a Norma Jurídica como pano de fundo. 25). que se fundamenta na reflexão ética. nesta frase. seja individual. 2. Os atos humanos são atos morais porque visam o bem do ser humano. CONCEITUAÇÃO DE BIOÉTICA ► “INCOMPLETUDE” E AFIRMAÇÕES GENÉRICAS Tendo essas reflexões sobre a Ética. Callahan não diz o que é Bioética. seja social. é preciso buscar o significado de Bioética. Daniel Callahan afirmou: A Bioética é um campo novo. mas ainda é um início. → Norma Jurídica: é um conjunto de regras ou estatutos impostos ao ser humano para orientar a sua ação tendo em vista o bem comum. Dependem de uma escolha.

Por isso. Cada vez mais clara. Esse conjunto de afirmações sobre a Bioética. dentro da linguagem dos direitos. contrariamente. (Já existe hoje o Movimento dos Direitos do Enfermo!) → Uma introdução ao conteúdo da Bioética não pode prescindir de uma breve explicação dos princípios básicos (o mantra7 da Bioética) que compõem a sua estrutura reguladora. → A Bioética ocupa-se principalmente dos problemas éticos referentes ao início e fim da vida humana. ao transplante dos órgãos. da sua vida. à maternidade substitutiva. à seleção do sexo. mesmo a sua conceituação ainda é uma busca. Vejamos algumas “explicações” de Bioética e a tentativa de três definições. → A Bioética teria como uma das suas preocupações específicas o tema dos agrotóxicos ou o uso indiscriminado de animais em pesquisa ou experimentos biológicos. UnG: 2006 5 . → A Bioética precisa de um paradigma de referência antropológicomoral: o valor supremo da pessoa. no momento atual da nossa cultura e civilização. à eutanásia. pois ela busca antes a resposta da ética aos novos casos e situações originados no âmbito da saúde5. está em segundo plano) → Segundo Clouser. saúde e morte do ser humano. o primeiro a colocá-la como um tema necessário a ser desenvolvido.Essa idéia de incompletude. instrumento para conduzir o pensamento). afirmações essas muitas vezes contraditórias. aparece em outras afirmações referentes à disciplina em questão. entre outros temas atuais.01 – Franklin M. liberdade e autonomia. essa preocupação. a Bioética seria a ciência que garantiria a sobrevivência do planeta. às pesquisas em seres humanos. Villela. Filos. 6 Clotet usa homem ou mulher em vez de ser humano. ApBioética. → A Bioética deve ser compreendida. em situações especiais. 5 Clotet faz a seguinte observação: Bioética é a expressão crítica do nosso interesse em usar convenientemente os poderes da medicina para conseguir um atendimento eficaz dos problemas referentes à vida. reconhecendo que esta tarefa terá que ser dialogada. hoje. → O desenvolvimento da Bioética exige a atitude reflexiva que descobre se é o ser humano6 que usa a ciência ou se. → Constitui uma tarefa da Bioética fornecer os meios para fazer uma opção racional de caráter moral referente à vida. aos novos métodos de fecundação. aquela expressão foi substituída por esta. (Segundo Clotet.: No tantrismo. é usado por ela. a Bioética não é direcionada para a busca de princípios. mantra. à engenharia genética. fórmula encantatória que tem o poder de materializar a divindade. 7 Para o verbete Mantra o Aurélio diz: (Do sânscrito. de obra iniciada mas ainda não acabada. mas ainda não totalmente clara. saúde ou morte. compartilhada e decidida entre pessoas com valores morais diferentes. como se pode ver a seguir: → Segundo Potter. aos pacientes terminais. mas como isto pode dificultar o entendimento da frase. mostra claramente um novo ramo do saber em construção.

envolvendo questões morais teóricas e práticas.01 – Franklin M. em P e B. (GALVÃO. (Clotet) 2. UnG: 2006 6 . A Enciclopédia de Bioética (Encyclopedia of Bioethics) busca apresentar uma definição: Bioética é o estudo sistemático das dimensões morais – incluindo visão. Não diz. faz a seguinte consideração: O termo Bioética diz respeito ao campo de estudo sistemático. (Potter. porém. decisão. Antonio Mesquita Galvão. também muito utilizadas. A Bioética é o estudo sistemático da conduta humana na área das ciências da vida e no cuidado da saúde. são: 1. a água que ele bebe e a qualidade de vida da cidade onde ele mora. levantadas pela medicina e ciências da vida.► NOÇÕES E DEFINIÇÕES A UNESCO. utilizando uma variedade de metodologias éticas num contexto interdisciplinar. Aqui aparece a idéia de que a Bioética é um ramo do estudo que se preocupa com as ciências da vida e com a saúde para propor uma direção segura (dimensão moral) tanto no que se refere às pesquisas quanto ao acompanhamento das situações problemáticas. na Declaração das Normas Universais referentes à Bioética. 23) Aqui. (P e B 23). Outras definições. Especifica-se também o seu campo de origem: a medicina e as ciências da vida. pode-se perceber uma delimitação do significado de Bioética: é um estudo sistemático de questões morais aplicadas aos seres humanos e à sua relação com a biosfera. o chão que ele pisa. conduta e normas morais – das ciências da vida e do cuidado da saúde. 13) Também aqui encontramos o campo de aplicação da Bioética e não a sua definição. desde o ar que o homem respira. È seguramente a definição mais utilizada pelos estudiosos da Bioética. faz uma colocação interessante. A Bioética é a ciência da sobrevivência humana. o que é Bioética.. a partir da qual todos procuram entendê-la melhor. ampliando o alcance do âmbito atingido pela Bioética: Entendo que Bioética não é somente o trato das ciências médicas. Villela. mas prioritariamente o aporte da ética sobre tudo aquilo que se refere à vida humana. enquanto aplicadas aos seres humanos e à relação destes com a biosfera. enquanto essa conduta é examinada à luz dos valores e princípios morais. plural e interdisciplinar. 34) ☼ ☼ ☼ ☼ ☼ PARA REFLETIR SOBREVALORES E MUDANÇAS MULHER !!!! No princípio eu era a Eva Muito tempo depois decidi: ApBioética. (in P e B.

ao buscar precisar o significado da Bioética. → A emancipação do paciente. Por que Bioética?. Passei a ser Amélia A mulher de verdade Para a sociedade Não tinha a menor vaidade Mas sonhava com a igualdade. o que exige uma democratização da medicina a concretizar-se através do percentual a ser destinado à saúde nos orçamentos federal. O reconhecimento do direito de todo cidadão de ser atendido na sua saúde implica no reconhecimento dos direitos e deveres de pacientes e de profissionais da saúde. 3.. clínica médica. A medicina está deixando aos poucos de ser uma questão emergencial para tornar-se cada vez mais um acompanhamento das diversas etapas da vida: neonatologia. UnG: 2006 7 . → O inquestionável progresso das ciências biológicas e biomédicas que altera os processos da medicina tradicional e que apresenta novidades insuspeitas. Este fato novo vai exigir uma colocação de prioridades no atendimento.. ORIGEM E DESENVOLVIMENTO COMPLEMENTARES Não dá mais! Quero minha dignidade Tenho meus ideais! Hoje não sou só esposa ou filha Sou pai. A progressiva democratização da sociedade atinge também o campo da medicina. A concepção extra-uterina. obstetrícia.. taxista. pediatria. Piloto de avião. estaduais e municipais. → A socialização do atendimento médico. em seguida. a mãe-de-aluguel. Primeiro menciona alguns pressupostos que exigiram a Bioética para. arrimo de família Sou caminhoneira. Operária em construção. todos estes fatos são resultado do progresso da ciência biomédica que tem exigido novas posturas morais e mesmo jurídicas: Certamente o aperfeiçoamento das biociências implica a renovação das formas costumeiras de agir e decidir dos envolvidos no mundo da medicina. exigindo dos ApBioética. mãe. gereatria e cirurgia estética. Villela. apresenta algumas considerações que ajudam a compreendê-la melhor.!!!! DA BIOÉTICA: VISÕES ► INTRODUÇÃO: PRESSUPOSTOS QUE EXIGIRAM A BIOÉTICA Joaquim Clotet. Implica também numa resposta comunitária e política às necessidades de atendimento adequado de todos os níveis da população. policial feminina. a vida vegetativa de um ser humano mantida por vários anos. → A progressiva medicalização da vida. Ao mundo peço licença Para atuar onde quiser Meu sobrenome é COMPETÊNCIA E meu nome é MULHER. em seu artigo. colocar algumas “afirmações” gerais a seu respeito.Criada para a felicidade de Adão Mais tarde fui Maria Dando à luz Àquele Que traria a salvação Mas isso não bastaria Para eu encontrar perdão. a geração de um filho para ser o salvador de outro. sobretudo quando os meios disponíveis são insuficientes.01 – Franklin M.

→ A criação e funcionamento dos comitês de ética hospitalar e dos comitês de ética para pesquisa em seres humanos. 24) ApBioética. Esses comitês. a vida é um dom. desde Hipócrates já existe ética da medicina. o termo ética se referia a uma reflexão puramente abstrata. era: Bioética: un ponte verso il futuro. nas palavras de Lockwood) e a presença mais vivenciada de expressões como consentimento informado. nos novos tempos aparecem novas perguntas. portanto. Isto exige. pois. mas não tem avançado suficientemente no campo da ética e da moral. mais ainda os teólogos. sobretudo no campo da economia. → A necessidade de um padrão moral que possa ser compartilhado por pessoas de moralidades diferentes. tenderam a esquecer o ser humano concreto e seus problemas mais imediatos. No entanto. A globalização tem aproximado as pessoas e levado a condutas de compartilhamento. como citado por Sgreccia. princípios de independência ou de respeito da autonomia do paciente.profissionais da saúde a superação de posturas autoritárias (de déspota benigno. Villela. ela busca o alcance daquelas afirmações. → Da ética médica à bioética O termo bioética poderia ser considerado supérfluo. esta última. nem policiar). Ou no original em inglês. reprodução e morte do ser humano. Até então. na visão de Potter.01 – Franklin M. como citado por outros autores Bioethics: bridge to the future (P e B. qual o seu significado exato e qual a sua validade para os seres humanos de hoje. por primeiro. Muito preocupados com a salvação. em 19718. muitos filósofos e. Assim. Qual o significado das expressões: a fecundidade é uma benção. parte da filosofia. Aqui surge de modo enfático a validade da Bioética: enquanto expressão particular da ética e. o que aconteceu nas reflexões que se seguiram. ► A VISÃO DE SGRECCIA: O NASCIMENTO DE UMA DISCIPLINA → Crítica e proposta de Potter: O termo bioética teria aparecido como termo específico da literatura científica. Potter não precisou o campo próprio dessa nova disciplina. cultivando símbolos que o progresso tecnológico e da medicina tem questionado. segundo Potter. a morte é uma passagem. papel esse a ser ocupado pela Bioética. em uma obra de van Renssenlaer Potter. visam orientar e proteger (nem decidir. O desenvolvimento da biotecnologia. sobretudo no âmbito da vida e da saúde uma busca mais intensa de padrões comuns para orientar a atividade dos profissionais dessas áreas em qualquer situação e em qualquer lugar. a doença é uma prova. No entanto. de composição pluralista. a 8 O nome da obra. por isso. veio colocar uma exigência: os valores éticos não podiam mais ser separados dos fatos biológicos e. Trabalham para que seja limitado o imperativo tecnológico. →O crescente interesse da ética filosófica e da ética teológica nos temas que se referem à vida. muito próxima das discussões da estética e da metafísica. tornou-se necessário a criação de uma ciência da sobrevivência. UnG: 2006 8 . segundo o qual seria permitido realizar tudo aquilo que a ciência ou a tecnologia tem capacidade de fazer.

a ética passa a ter um papel dominante. vai muito além. → Bioética Filosófica (1972-1985): Neste período a linguagem utilizada é a da ética filosófica. Pellegrino. notadamente médicos e enfermeiros. pois o rápido desenvolvimento da pesquisa biológica fez surgir dilemas mais complexos. mas.moral médica. Aparecem os eticistas. por mais que tenha se desenvolvido. a medicina estava altamente desumanizada.01 – Franklin M. por isso. levaram à grande pergunta filosófica: até que ponto o homem pode impulsionar o seu domínio sobre a vida dos seres vivos e sobre a própria vida? Em outras palavras: A ciência experimental tem uma autonomia ilimitada ou. 53). Villela. que filosoficamente treinados. 232) Assim. De fato. A Bioética foi oficialmente batizada em 1972 (P e B. procurava estabelecer os fundamentos racionais de tais direitos. por causa do desenvolvimento da ciência e da tecnologia. que podem ser resumidas em três períodos: protobioética. incluindo reflexões sobre os progressos da ciência em geral. mas surgiu uma década antes e. tem um campo limitado. inclui a ética medica. buscou-se infundir valores humanos na formação dos profissionais da saúde. Foi no âmbito dessas reflexões que se descobriu que em muitos hospitais ocidentais. → Proto-bioética (1960-1972): É o período em que predomina a linguagem dos valores humanos. sofreu uma série de transformações conceituais. mas não era a dominante. foram realizados experimentos médicos que em nada se diferenciavam daqueles realizados pelos nazistas condenados em Nuremberg. de natureza jurídica. caracterizada pela interdisciplinaridade. a bioética não pode ser considerada como parte da ética médica. pois a partir de então se fizeram presentes duas linhas de reflexão: uma. A bioética. por sua vez. tal como é conhecida hoje. para a preservação da vida e da espécie humana. sobretudo dos EE UU. exigindo posturas mais bem fundamentadas. de natureza filosófica. após o Julgamento de Nuremberg. A ética já fazia parte das disciplinas marcantes. e. buscava a formulação dos direitos do homem. mas sobretudo as experiências realizadas no campo da genética. ► A CONTRIBUIÇÃO DE PELLEGRINO Segundo Edmund D. a ciência e a tecnologia devem dar-se um estatuto ético? (SGRECCIA. a outra. Conseqüentemente. Tudo isso. Era necessário um esforço multi e interdisciplinar mais intenso. escrever e influenciar profundamente ApBioética. havia um sentimento de que. mas esta é que está contida naquela. começam a ensinar. bioética filosófica e bioética global. que a enriquece e completa usando inclusive uma nova metodologia. Fortemente influenciado pelo pensamento religioso e teológico. a bioética surgiu antes do aparecimento do termo: alguns colocam o seu nascimento em 1946. UnG: 2006 9 .

NY. em 1969. religião. Mas. um ginecólogoobstetra. criado em Hastings (Hudson). → Bioética Global (1985 até o presente9): É a fase em que os problemas referentes à saúde explodiram para além dos limites dessa área e para além das preocupações puramente ético-filosóficas. Em 1971. A Escola de Wisconsin. economia . inclui principalmente preocupações biológicas. as questões de cunho propriamente filosófico ficam momentaneamente na penumbra. todas sob o prisma da ética. do Instituto Kennedy. mais conhecido como Hastings Center. a moral e a ética permanecem centrais na busca de normas de boa conduta e do que é certo. Assim. 54) A preocupação com soluções práticas pressionam tanto que. voltam sempre a ocupar um papel primordial na afirmação da Bioética. por vezes. a partir de 1979 denominado de Kennedy Institute of Ethics. antropologia. UnG: 2006 10 . a ética clínica surgiu como um ramo prático da Bioética. Nesse sentido. (P e B. por iniciativa de André E. encabeçada por Potter. ecológicas e ambientalistas. Ethics and Life Sciences.a educação e a prática no âmbito da medicina (idem. ApBioética. com o apoio de Paul RAMSEY. Quer dizer: a filosofia. Hellegers. A Escola de Georgetown. EUA. passam pela ética profissional no leito do doente e englobam também as políticas sociais e a ética da saúde. e com ela a ética. pelo filósofo Daniel CALLAHAN e pelo psiquiatra Williard GAYLING. o que levou os filósofos a se ocuparem também com as políticas públicas. teólogo moralista protestante. ibidem). Nessa fase as questões vão desde genética e biologia molecular. publicou as obras The patient as a person e Fabricated 9 Este texto de Pellegrino foi publicado em 1999. com a ética organizacional e com os métodos de elaboração da ética voltada para a saúde.01 – Franklin M. o termo Bioética engloba cada vez mais enfaticamente o movimento de humanização da medicina. Resultado disso são as duas linhas de atuação da Bioética. Nos dois casos ganharam muita importância e evidência as questões de origem e natureza filosófica. HELLEGERS. desde o final da década de 70. As ciências de cunho social e/ou comportamental como direito. por causa dos princípios que fundamentariam as ações práticas. ciência política e psicologia ganham espaço na Bioética e esta ganha força e caracteriza-se mais como um movimento que como uma disciplina. surgiu na Georgetown University o The Joseph and Rose Kennedy Institute for the Study of Human Reproduction and Bioethics. ►OS CENTROS DE BIOÉTICA NO MUNDO A primeira instituição dedicada ao estudo sistemático de questões relacionadas à Bioética foi o Institute of Society. Villela. vê a Bioética essencialmente como um ramo da ética.

Villela. o Centre d’Études Bioéthiques. capazes de envolver um número significativo de pessoas interessadas no tema – na maioria das vezes. UnG: 2006 11 . Bélgica e o Centro de Bioética. Espanha.Porto Alegre (RS) Cátedra UNESCO de Bioética da Universidade de Brasília (UnB) . da Faculdade de Medicina A. jornadas.Brasília – DF Centro Universitário São Camilo . Índia. Na Europa podemos citar o Centro de Bioética da Universidade Católica de Roma. Desde 1986. já se contam só nos EUA mais de cinqüenta centros de estudos de Bioética.Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) Núcleo Interinstitucional de Bioética . da área Saúde. seminários e congressos. neste texto atualizado a partir do levantamento realizado pelo teólogo Léo Pessini. Direitos Humanos e Gênero ApBioética. ► BIOÉTICA NO BRASIL – INICIATIVAS INSTITUCIONAIS Existe um despertar de grande sensibilidade em relação a Bioética no país.São Paulo (SP) Núcleo de Ética Aplicada e Bioética/ Escola Nacional de Saúde Pública/FIOCRUZ Núcleo de Bioética da Universidade Estadual de Londrina (UEL) . Grécia. Conheça.Paraná Anis . Hoje.01 – Franklin M. Sociedade Brasileira de Bioética (SBB) Comissão de Bioética do Hospital das Clínicas – FMUSP Conselho Federal de Medicina (CFM) Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) Instituto Oscar Freire . cujo entusiasmo pela Bioética tem incentivado outros a seguirem o mesmo o exemplo.Universidade Federal do Rio Grande do Sul Núcleo de Estudos de Bioética da Pontifícia Universidade Católica (PUC) . responsáveis pela promoção de eventos. Gemelli da Universitá Católica del Sacro Cuore.man. Japão. em Roma.Instituto de Bioética. o trabalho de Centros já consolidados na realidade brasileira. em Barcelona. possuem os seus centros de estudos em Bioética. que podem ser consideradas as primeiras textos sobre Bioética nos EUA. de Louvain. o Instituto Borja de Bioética da Faculdade de Teologia. gerando várias iniciativas individuais e institucionais. muitos outros países como Austrália.

Quer dizer: principialismo é a primeira proposta de colocação de alguns elementos (princípios) que servissem de orientação para os profissionais que trabalhavam em pesquisas com seres humanos e em outras áreas da saúde. enfermeiros e outros profissionais da área da saúde. Além disso. alguma reflexão ao que se convencionou chamar de principialismo. os princípios10 éticos básicos surgiram para fornecer uma linguagem que traduzisse as reflexões abstratas e menos operacionais dos filósofos e teólogos e as colocasse à disposição de um novo público constituído por médicos.01 – Franklin M. por esta frase. o Relatório Belmont11 respondendo a uma preocupação com o controle da pesquisa em seres humanos (P e B. beneficência e justiça. afirmam : Em grande parte o que é a Bioética nestes poucos anos de existência (30 anos) é o resultado do trabalho principalmente de bioeticistas na perspectiva principialista. Por isso. Vê-se. e B. que constituem o núcleo fundamental do que veio a se chamar de principialismo. a importância do paradigma principialista. quase sempre resultantes da ética normativa. Villela. 61). (P e B. Veja no apêndice uma nota sobre este relatório ApBioética. Jonsen. UnG: 2006 12 . Os princípios. PRINCIPIALISMO E OS PRINCÍPIOS BÁSICOS DA BIOÉTICA → O QUE É PRINCIPIALISMO P. 56). 10 11 Veja no apêndice uma noção de princípio. em um capítulo especial sobre o paradigma principialista. estabelece os três princípios fundamentais da Bioética: respeito pelas pessoas (ou autonomia).4. inicialmente. constituíram um caminho mais adequado para a aplicação das visões da meta-ética (metafísica) e da ética teológica aos problemas da saúde. da moral. vale a pena dedicar. Segundo A. isto é.

segundo minha capacidade e juízo.. E continua: Para alguns. que haja uma preocupação em procurar o bem-estar das pessoas através da ciência médica. Clotet. 13 Aqui poderiam ser incluídos os orfanatos e os manicômios! ApBioética. todos esses esforços são vistos como potencial para um progresso no desenvolvimento destas forças tecnológicas. UnG: 2006 13 . que não é mais humano. também a todas as sociedades. os convênios e associações beneméritas como as associações em defesa da criança. a ambição dos pós-humanistas em criar um pós-humano. isto é. no sentido de buscar sempre o bem estar dos pacientes. Este princípio exige a aceitação da autonomia das pessoas. que a pessoa seja respeitada nas suas escolhas. PARADIGMAS OU MODELOS DE REFERÊNCIA DA BIOÉTICA Pessini e Barchifontaine dedicam um espaço do seu estudo para o que intitulam Novos tempos e novas questões surgem e são enfatizadas. afirma que estes princípios podem ser reduzidos a três: da autonomia. com ênfase especial. que propugnam (ou deveriam propugnar) em defesa da vida. Villela. os grupos de apoio aos excluídos (como os aidéticos)13. 45) 12 Usarei o tratamento para o bem dos enfermos. portanto. quando se falava sobre as afirmações genéricas sobre a Bioética. com o juramento de Hipócrates12. (P e B. Este princípio vincula não só as pessoas ligadas à pratica médica. os seus valores e as suas convicções.  Princípio da justiça: que haja uma distribuição eqüitativa de bens e benefícios no que se refere à área da saúde. nos seus valores morais e nas suas crenças. pretensiosa e que desconsidera a apreciação da dignidade humana natural. os profissionais da saúde. aí incluindo os governantes. Este princípio visa orientar. aliás. de acordo.  Princípio da beneficência: É a proposição ou norma que prega o atendimento dos interesses legítimos e importantes da pessoa (do paciente) e que sejam evitados os danos. 44) E para esclarecer o que se considera pós-humanismo afirmam: A natureza humana tal como a conhecemos. 5. que uma introdução ao conteúdo da Bioética não pode prescindir de uma breve explicação dos princípios básicos (o mantra da Bioética) que compõem a sua estrutura reguladora. é o pós-humanismo. levando-se em conta que uma pessoa é vítima de uma injustiça quando lhe é negado um bem a que tem direito e que. mas nunca para fazer o mal e a injustiça. mas. de modo especial. pois quer que todos os que lidam com ele levem em conta as suas necessidades. Para outros.  Princípio da autonomia. lhe é devido (Clotet). é uma atitude arrogante. pois quer estimular a vivência adequada da consciência moral.01 – Franklin M.→ OS PRINCÍPIOS BÁSICOS DA BIOÉTICA Foi dito acima. aceitando o uso mais comum. (P e B. E terminam este texto com estas palavras: Uma questão instigante . também chamado de princípio do respeito às pessoas. para uma mente pós-humanista é um mero obstáculo a ser superado. Este princípio é atribuído particularmente ao paciente. da beneficência e da justiça..

relativamente flexível. Embora se aproxime da visão de Kuhn. Percebe-se. Agarrar-se a paradigmas ultrapassados pode nos deixar paralisados enquanto o mundo passa por nós. pelas três diferentes noções. Villela. 420 Seja como for. Aplicado à Bioética. não só nesta visão genérica de humanismo e pós-humanismo. Thomas Kuhn. modelos ou mapas que usamos para navegar na vida. A idéia platônica é um paradigma da realidade.. (. pode-se dizer que Paradigma é um modelo ou padrão. em qualquer hipótese. como parece propor Platão. O Monge e o Executivo.01 – Franklin M. Quer dizer: O paradigma estará fundamentado ApBioética. apresentadas anteriormente. o paradigma dependerá da visão de vida. Percebe-se aqui que Hunter vê o paradigma presente em muitos outros campos da vida. e relação ao verbete Paradigma. que orienta a conduta humana. sobretudo na área da saúde e da pesquisa que atinge a vida humana. do qual a coisa sensível participa de maneira imperfeita. (HUNTER. Hunter. do valor que cada pessoa atribui a cada coisa. orientam o desenvolvimento das pesquisas exclusivamente na busca de soluções para os problemas por elas suscitados. È por isso que os estudiosos falam em paradigmas e modelos de referência na Bioética. aproximando-se mais de Kuhn. um tipo exemplar.Este pequeno trecho já mostra que a busca da Bioética e seu desenvolvimento vai depender da importância que os estudiosos atribuem ao ser humano. 2. UnG: 2006 14 . Dourozoi e Roussel. Como se percebe. no seu Dicionário de Filosofia. O Paradigma não seria algo permanente. imutável. da noção de ser humano. ou seja. apresenta uma noção mais particularizada. O próprio conceito de humanismo enseja divergências e.). Termo com o qual Thomas Kuhn designou as realizações científicas que geram modelos que. Modelo. por período mais ou menos longo e de modo mais ou menos explícito. segundo o Aurélio é 1. Paradigma é um modelo que quer orientar as ações relacionadas à vida em geral. Nossos paradigmas podem ser valiosos e até salvar vidas quando usados adequadamente. padrão. Mas podem se tornar perigosos se os tomarmos como verdades absolutas.. não o restringe ao âmbito das ciências. conseqüentemente posturas concretas diferentes perante os problemas existentes e a surgirem na área da saúde e do cuidado da vida. restringindo a validade do paradigma a um período e atribuindo-lhe uma importância específica no campo da ciência. que. ► Noção de Paradigma Paradigma. afirma: Paradigmas são padrões psicológicos. com o objetivo de encontrar soluções para problemas que afetam a vida humana. se não aceitarmos qualquer possibilidade de mudança. faz as seguintes considerações: (Paradigma é) Modelo. imutável e perfeito. sobretudo no campo da pesquisa científica.

. pois este torna a atividade humana uma atividade escrava. pede a superação da liberdade civil. isto é. seja a conservação da vida.. os autores divergem até no número de paradigmas a serem estudados. Por isso. e da liberdade do necessário. mudança de sexo para os adultos. → Modelo liberal-radical: Tem como referência suprema e última a liberdade: é livre aquilo que é livremente querido. ►Os modelos de referência segundo Sgreccia Existem hoje quatro modelos de referência para os problemas de bioética. Parece esquecer que a liberdade supõe a vida e um objetivo a ser alcançado. A seguir duas colocações diferentes sobre as diversas posturas quanto aos problemas enfrentados pela Bioética. Esta (a responsabilidade) é sobretudo interior. liberdade de fecundação extracorpórea. (SGR. pois se refere a uma liberdade de. pois esta torna escrava a afetividade humana. Isto significa que a liberdade desemboca na responsabilidade. duas visões dos paradigmas ou modelos de referência da Bioética. pelo mesmo motivo. 239) Marcuse. É preciso observar que. duas linhas. é sempre um ato que aspira alguma coisa (SGR. isto e. proposta pela Revolução Francesa. Esta liberdade é uma “meia liberdade”. de decisão sobre o momento da morte. esses modelos estão em confronto entre si desde o princípio.na postura filosófica que cada um tem do valor do ser humano e da vida. 237). na sua obra Eros e Civilização. entremeadas de uma exposição mais ampla da postura personalista. de experimentação e pesquisa. pois esta determinaria os fins e os fins constringiriam a própria liberdade de escolha. seja o nascimento . liberdade sem referência a vínculos e a limites (constrições)14 e não uma liberdade para um projeto de vida e de sociedade. A vida vem antes da liberdade. seja a questão da morte.01 – Franklin M. UnG: 2006 15 .é uma calorosa participação na vida dos outros. Villela. esta responsabilidade interior 14 15 Sgreccia diz liberdade de vinculos e constrições (SGR. proposta da Revolução Russa. fala-se em paradigmas e. 237)15 Marcuse parece esquecer que toda liberdade tem limites. A liberdade – dizem Jaspers e Marcel .. Marcuse pede para o ser humano três liberdades: 1) Liberdade do trabalho. livremente aceito e que não lesa a liberdade de outrem. esta responsabilidade permanece mesmo quando a lei civil silencia e o magistrado não sabe e não indaga. modelos esses que buscam ser balizas. nas palavras de Sgreccia.. porque quem não é vivo não pode ser livre: a liberdade tem um conteúdo. 236) Conseqüências dessa postura são: liberalização do aborto. È uma liberdade sem responsabilidade. .. escolha do sexo do nascituro. (SGRECCIA. visão do suicídio como sinal e ênfase de liberdade. ApBioética. 2) Liberdade da família. marcos orientadores para a conduta dos profissionais que lidam com os fatos marcantes da vida humana.. 3) Liberdade da ética.

Esta postura utilitarista pode levar ao abandono de certos enfermos considerados irrecuperáveis. o equilíbrio da mutação da adaptação e do “ecossistema”. que inclui o utilitarismo da ciência. acidentalmente. (SGR. (Ver Dostoievski. (SGR. a Ética . (SGR. que nega qualquer unidade estável e qualquer universalidade dos valores. (SGR. ou social ou puramente científico. Isto não se verifica quando se coloca no prato custos da balança riscos para a vida humana e no outro. O ser humano continua a ser humano. 238). 241) → O modelo personalista A tradição personalista fundamenta-se na conceituação do ser humano e na sua característica mais significativa. ter matado uma velha usurária. se deve passar por cima dos danos à pessoa do nascituro. também os valores morais devem mudar (SGR.. em um caso concreto. Se fosse verdadeira essa colocação. Neste caso. a sua liberdade. Crime e Castigo) 17 Ver a propósito um texto de Maritain em Rumos da Educação. → O modelo sociobiológico ou naturalístico Inspirado em várias linhas culturais. o de benefícios. Em outras palavras a liberdade é antes uma construção que visa apoiar e defender os valores irrenunciáveis da pessoa humana. Mas não é isso que pensam os defensores do modelo liberal-radical que preferem viver o princípio vamos arriscar para ver onde podemos chegar. evoluem.pode se encontrar em contraste com a lei civil. pois seria como que um dinheiro jogado fora. a sede de verdade. exigindo colocações novas no Direito e posturas diferentes na Moral. relativismo fundamentado na ideologia heraclitiana. os delitos cometidos por Gengis Khan e os de Hitler não seriam delitos para os mesmos e para grande número de seus contemporâneos16. os estudiosos da antropologia cultural e os ecologistas. mas fatos e valores que acompanham o homem em todos os períodos históricos. Villela. 238).. o que poderia ser válido desde que aplicado a valores idênticos . É o modelo que parte da concepção de que o ser humano é antes de tudo pessoa. 240) Esta visão naturalística expressa um relativismo de toda a ética e de todos os valores humanos. com base na filosofia da práxis e que busca justificar o utilitarismo social. a solidariedade e a liberdade não são elaborações culturais. O princípio básico é a relação custos X benefícios. embora alguns componentes culturais e de costumes evoluam17: A morte. UnG: 2006 16 . ApBioética. que recusa um critério superior e “metafísico” como verdade universal. → O modelo pragmático: Este modelo surgiu a partir do empirismo e tem se manifestado como ética socialista. entre elas a vida social. que têm como eixo o pensamento evolucionista e que incluem. . um valor econômico.01 – Franklin M.. Este princípio poderia. tem a função de manter o equilíbrio evolutivo. 240). considerando-se a utilização econômica dos investimentos. o único ser no qual a vida torna-se 16 Nesta linha seria interessante incluir Napoleão como visto pelo estudante que foge da polícia por. pode ser assim traduzido: como o cosmo e as variadas formas de vida. a dor. ser expresso assim: para obter-se uma vantagem certa e importante.. isto é. hoje.

o personalismo propõe. 422) Superando aquele personalismo caracterizado por um individualismo subjetivista que enfatiza quase exclusivamente a capacidade de escolha – e que está muito presente no mundo protestante e existencialista e em algumas correntes teológicas americanas – o personalismo clássico do tipo realista e tomista. (SGR. uma unidade de corpo e espírito. (242) Isto porque em cada escolha existe não somente o exercício da escolha. ser é amar (Mounier in H e V. 241) É o modelo que parte da visão de que em cada homem. Desde o momento da concepção até a morte. Villela. (242) O personalismo realista vê na pessoa a unitotalidade. Mesmo a reflexão racional laica tem como ponto de referência a pessoa. 241) A própria sociedade tem como fonte a pessoa e existe para a pessoa. no âmbito da bioética o desenvolvimento dos seguintes temas: o valor personalístico da corporeidade. é o único vivente que tem a capacidade de captar e descobrir o sentido das coisas e de dar significado às suas expressões e à sua linguagem consciente. (SGR. mas o cosmo ao mesmo tempo é transposto e transcendido. afirma prioritariamente que a pessoa é antes de tudo um corpo espiritualizado ou um espírito encarnado. o mundo inteiro se recapitula e toma sentido. Todo homem encerra o sentido do universo e todo o valor da humanidade: a pessoa humana é uma unidade. o valor ético de um ato deverá ser considerado sob a ótica subjetiva da intencionalidade. o seu valor objetivo. Em suma. (243) Com este fundamento.01 – Franklin M. UnG: 2006 17 . o direito. um todo. (SGR. seja com relação a ela mesma seja com relação à pessoa dos outros. em cada pessoa humana. ApBioética. 242) ►LINHAS DA BIOÉTICA PERSONALISTA Só existo na medida que existo para o outro. que vale por aquilo que é e não somente pelas escolhas que faz. de um lado. o valor fundamental da vida física. sem negar a capacidade de escolha. a faculdade de escolher. È por causa dela e para ela que existem a economia. os meios. que representa. a história e também a medicina e a bioética. o princípio terapêutico. o princípio de liberdaderesponsabilidade e o princípio de sociabilidade-subsidiariedade. do qual a subjetividade se faz responsável. isto é. mas também um contexto da escolha: um fim. de autodeterminação. os valores. Quer dizer: para o personalismo. em cada situação de sofrimento e de saúde é a pessoa humana o ponto de referência ou de medida entre o lícito e o não-lícito. mas (também) deverá ser considerado no seu conteúdo objetivo e nas conseqüências. e não uma parte de um todo.capaz de “reflexão” sobre si.

mas com ele vive uma unidade substancial. sensorial ou neurológica da pessoa. 246) 18 Com relação a este tema. é mais rica que o corpo e o transcende. 244) O corpo se manifesta também como tecnologia que é a extensão mecânica. condição fundamental do exercício da liberdade. espiritual. seja do paciente.→ O valor personalístico da corporeidade O corpo não é apenas um objeto que se pode tocar. Nem o chamado consenso coincidente é critério válido para dirimir a responsabilidade. isto é. a pena de morte e a legítima defesa como temas conexos e merecedores de uma discussão maior. → O valor fundamental da vida física A vida física. seja do médico. Por isso o princípio fundamental da ética médica poderia ser expresso assim: nada pode ser feito contra a vontade do paciente (ver p. Isto vale também para a vida sexual e para a consideração da procriação. 244). é um bem objetivo do qual ele. o “eu”. O médico. O ato sexual. é o envolvimento da totalidade das pessoas. em primeiro lugar é a responsável por ele. O eu humano. (SGR. parte de uma pessoa e toca uma outra pessoa na sua respectiva totalidade. Corolário dessa exigência de responsabilidade é a necessidade do diálogo (informação e escuta) sobre os limites e as condições das terapias obrigatórias. o autor cita (e até certo ponto apresenta um viés justificativo) o martírio. Esta visão do corpo. Mas. é um responsável qualificado. (SGR. o que leva a interrogações quanto às técnicas de fecundação extracorpórea. é a fonte energética e vital para o corpo e é a corporeidade. é o “bem fundamental” de todos os outros valores da pessoa. parte coessencial da pessoa. mesmo embrional. é chamado a cuidar. Villela. È nele e com ele que a pessoa se manifesta. no corpo e com o corpo se encarna no tempo e no espaço. tem que buscar sempre o bem maior do paciente: vida. significa privar a pessoa de seu bem fundamental18. morte). pois significaria anular a objetividade do valor-pessoa. A pessoa. se comunica usando de sinais. a vida. (SGR. por sua vez não é um mero instrumento (executor sanitário!) a serviço do paciente. È nele que a pessoa encontra o seu limita (dor física. È responsável por aquilo que faz para atender às solicitações que o paciente lhe propôs. 244) Vale dizer: tirar a vida física. porque todos os outros bens e valores . pressupõem a existência física do indivíduohomem. O corpo. um bem intangível que sobreexcede a ambos (paciente e médico).01 – Franklin M. A pessoa. para além do fato biológico e da expressão do sentimento. É uma parte coessencial da pessoa (sujeito). 245). → O princípio de liberdade e responsabilidade O corpo é da pessoa e ela. embora não seja a pessoa toda. porém. de lionguagem. o paciente... O mesmo vale para a sociedade que não pode ultrapassar a responsabilidade com relação ao bem fundamental. (SGR. tem como corolário que qualquer ato médico ultrapasse o aspecto puramente tecnológico: é totalmente personalizado. UnG: 2006 18 . ApBioética.

A este princípio terapêutico acrescenta-se o princípio da sociabilidade (intervenções e experimentos feitos visando beneficiar a sociedade).01 – Franklin M. por exemplo. ► Paradigmas da Bioética segundo Pessini e Barchifontaine Diferentemente de Sgreccia. mas esta é chamada também a contribuir na construção daquela. Paradigma narrativo Paradigma do cuidado Paradigma do direito natural Paradigma contratualista Paradigma antropológico personalista → Paradigma principialista: Proposto por Beuchamp e Childress. Villela.→ O princípio terapêutico A medicina apóia suas atividades no princípio terapêutico. P e B falam de dez diferentes modelos de análise bioética19. que é o princípio de subsidiariedade: chama os seres humanos a se ajudarem e a reconhecerem a igualdade de dignidade. 08. 05. a medicina não pode esquecer de que poderá estar diante de uma trágica escolha: quais pacientes devem ser deixados morrer. este paradigma afirma que a Bioética estabelece quatro princípios orientadores da ação: beneficência. Conseqüência: preocupação com os mais fracos e mais necessitados e respeito para com as inciativas individuais no âmbito do respeito ao bem comum. 46-49. a saber 01. fundado na visão de unitotalidade da pessoa: é lícito intervir no corpo de uma pessoa . que tem os seus limites: não pode visar apenas o bem da ciência e não pode ser realizado sem o consentimento do sujeito. 03. como. 07.. Assim procedendo ele estará superando um certo princípio economicístico e afirmando o primeiro bem social: a pessoa humana. 02. esses princípios tiveram 19 Ver P e B. O princípio de sociabilidade tem uma especificação. 248) Quer dizer: o médico é chamado a ser ao mesmo tempo médico do homem e médico da sociedade. que apresenta os paradigmas agrupados em quatro modelos de referência. em caso de possível dano grave a ele. (SGR. se a intervenção na “parte” for em benefício do “todo”(SGR. (SGR. Paradigma principialista Paradigma libertário Paradigma das virtudes Paradigma “casuístico” Paradigma fenomenológico e hermenêutico 06. 10. ApBioética. 09. justiça e autonomia. UnG: 2006 19 . 04. o que acontece de maneira muito emblemática na medicina. 247) Este princípio de subsidiariedade tem exigências muito pertinentes: a medicina não pode se restringir a uma postura puramente utilitarista.. não-maleficência. o reconhecimento às obras e instituições privadas e aos grupos de voluntariado. → O princípio de sociabilidade-subsidiariedade A pessoa é valor primário em relação à sociedade: da sociedade a pessoa pode receber meios e estímulos. 246). Amplamente aplicados.

→ Paradigma do direito natural: Apresentado por John Finnis. A narrativa será um poderoso auxílio na busca de posturas adequadas debtro da vivência de cada comunidade. ApBioética. Cada caso pode colocar o profissional em uma perplexidade moral. evidentemente. UnG: 2006 20 . radicalizando. isto é. isto é. Estes princípios acabam se tornando instrumentos para interpretar determinadas facetas morais de situações e . o mesmo pode usá-lo para a venda dos órgãos e do sangue. como elemento mais fundamental para o desenvolvimento moral do que a justiça. Toda ação terá um caráter moral. guias para a ação (P e B. o que supõe levar em conta pelo menos quatro diferentes dados: 1º: o significado que o sujeito atribui a uma situação ou fato subjetividade). será moralmente válida.. pois a ética clínica opera num nível pré-teórico que é mais básico que qualquer axioma teórico ou princípio (P e B. pois incentivam a busca do respeito pela dignidade da pessoa. São bens que todo e qualquer ser humano tem direito de vivê-los. Villela. tendo em vista. a vida. vai além dos meros fatos (P e B. a racionalidade prática. o valor central da autonomia e do indivíduo. este modelo de referência põe ênfase na solicitude.. → Paradigma fenomenológico e hermenêutico: Fundamentado na fenomenologia. → Paradigma casuístico: É o modelo de referência ética que recusa qualquer princípio orientador da ação. a religiosidade. uma preocupação especial com a educação dos profissionais da saúde. A riqueza da história. a responsabilidade pelo outro. pois não possuem consciência de si. 47). parte da idéia de que existem alguns bens que são válidos por si mesmos: o conhecimento. os embriões e fetos não são pessoa. muito embora haja discussão sobre os fundamentos e o alcance de cada um deles. o profissional decidirá cada caso baseado na experiência. Quer dizer: Toda experiência está sujeita a interpretação (P e B. na cultura que os seres humanos expressam nas suas narrativas. coloca a preocupação com o outro. uma característica mais feminina. a alteridade. que buscarão integrar o paciente ao seu processo de decisão. não para orientação! Autores de referência são Albert Jonsen e Stephen Toulmin. portanto.resultados bastante positivos. 61). a amizade (P e P. → Paradigma narrativo: Este paradigma se fundamenta na idéia de que os dilemas morais se fundamentam na experiência humana. Bioeticistas de referência são Pellegrino. sustenta a necessidade de reconhecer que em cada situação existem sempre duas dimensões. → Paradigma do Cuidado: Contrapondo-se a preocupações puramente técnicas. a vida lúdica. Fundamentado na filosofia do liberalismo norte-americano. e sua capacidade de fazer surgir sentido. A Bioética. Para este grupo. → Paradigma das virtudes: É o paradigma que atribui responsabilidade maior aos profissionais da saúde. Quer dizer. não só defende o direito de expressão livre da vontade do paciente. se contribuir para o desenvolvimento desses valores. além de oferecer uma linguagem comum. Baseado na psicologia evolutiva. a vida estética. 48). 3º: este significado é expresso numa determinada linguagem (subjetividade cultural) e 4º: o significado pode ser aprofundado e tornado cada vez mais exato (objetividade). este modelo. sempre a prática do bem. 2º: o significado real da situação ou fato (objetividade). isto é a virtude. subjetiva uma e objetiva outra. A narrativa é uma parte inseparável da vida. Thomasma e Alisdair McIntyre. Este paradigma é defendido por Carol Gilligan. 47). 48). → Paradigma libertário: È o paradigma que afirma. numa plataforma comum para comparação e contraste. se interessa por cultivar estes valores.01 – Franklin M. como sustentam que o corpo é propriedade do paciente e que. Contrapondo-se ao individualismo do modelo libertário querem que os profissionais da saúde adquiram o hábito (virtude) de integrar os pacientes à sua decisão Propõe. Tristan Engelhardt é sua principal referência.

.. caráter relacional da intersubjetividade (. o de dizer a verdade e o de manter as promessas (P e B. UnG: 2006 21 .. P e B concluem esta sucinta exposição sobre a diversidade dos paradigmas com estas palavras: As similitudes e diferenças entre os vários modelos para trabalhar a bioética levam-nos a uma conclusão inevitável: as dimensões morais da experiência humana não podem ser capturadas por uma única perspectiva. em todas as ações. Este paradigma busca levar em conta. Villela. 49).) e comunicação e solidariedade em sociedade (.) A grandeza e a profundidade da experiência humana sempre estarão além de qualquer sistema filosófico ou teológico.. APÊNDICES 1..01 – Franklin M.. → Paradigma antropológico personalista: Fundamenta-se na idéia de que o ser humano é o valor supremo de qualquer ação.→ Paradigma contratualista: Este paradigma parte do fato de que existe um tríplice relacionamento: entre o médico e os pacientes... Na sua ação o profissional deverá levar em conta estes princípios que. Por isso procura enunciar as características da pessoa: unicidade da subjetividade (. Divisão da Filosofia Filosofia da Natureza Cosmologia Psicologia FILOSOFIA ESPECULATIVA Filosofia Metafísica Crítica do Conhecimento Ontologia Teodicéia FILOSOFIA Filosofia sobre o agir humano → Ética FILOSOFIA PRÁTICA Filosofia sobre o fazer humano → Estética 2. pois ele é antes de tudo uma pessoa. Norma Moral e Norma Jurídica . o da proibição de matar. Os diversos paradigmas . (. são caminhos diferentes para uma plataforma comum.). entre os médicos e a sociedade e com os princípios orientadores da relação médico-paciente. 49)..Diferenças ApBioética. (P e B. de alguma maneira estão presentes na sua atividade..) (P e B. o ser humano e seu desenvolvimento. Essas relações têm como balizas alguns princípios fundamentais: o da beneficência. 49).

eventualmente moral. mesmo antes da existência do Estado. Outras reflexões Sobre Paradigma ApBioética. meteorológico e biológico. não é preciso que se concorde interiormente com ela. (Dicionário Aurélio) Princípios: Quanto à conceituação de princípio. durou quatro anos. Vocabulário elucidativo: Biosfera = conjunto de todos os ecossistemas da terra Ecossistema = conjunto dos relacionamentos mútuos entre determinado meio ambiente e a fauna. Termo com o qual Thomas Kuhn designou as realizações científicas que geram modelos que. ou seja. Supõe uma interiorização. basta apenas que seja cumprida → A norma jurídica freqüentemente é cumprida por medo de um castigo. pois a convivência humana sempre exigiu a necessidade de normas. → A norma moral é cumprida por convicção íntima da pessoa. segundo o Aurélio é 1. (conjunto de relacionamentos entre meio ambiente e os seres que nele estão. 382) Relatório Belmont é o nome dado ao resultado do trabalho realizado por uma comissão criada pelo governo dos EE UU (via Congresso). 3. NORMA JURÍDICA → É externa e procede do Estado → A norma jurídica caracteriza-se pela exterioridade.01 – Franklin M. para identificar os princípios éticos básicos que deveriam nortear a experimentação em seres humanos nas ciências do comportamento e na biomedicina (P e B. Este trabalho. deveria durar alguns meses. Dourozoi e Roussel. toda uma teoria ou até todas as ciências da natureza. a flora e os microorganismos que nele habitam e que incluem os fatores de equilíbrio geológico. Villela. padrão. E afirma ainda: No sentido normativo. em seu Dicionário de Filosofia. Neste último caso designa uma proposição que comanda um setor da ciência. (D e R. Modelo. Mantra → Instrumento para conduzir o pensamento → Fórmula encantatória que tem o poder de materializar a divindade invocada.NORMA MORAL → È interna e advém da consciência. PARADIGMA: Paradigma. UnG: 2006 22 . atmosférico. 56). distinguem vários significados: sinônimo de começo e significados usados na lógica e na epistemologia. visando o equilíbrio) Meio ambiente = o conjunto de condições naturais e de influências que atuam sobre os organismos vivos e os seres humanos. por período mais ou menos longo e de modo mais ou menos explícito. regra ou norma de ação. → A norma moral é anterior à norma jurídica. em 1974. 2. enunciada numa fórmula simples. orientam o desenvolvimento das pesquisas exclusivamente na busca de soluções para os problemas por elas suscitados 4.

Paulo Freire foi um homem. não sabem o que dizer. Algo que você tirou da Bíblia? Simeão assumiu a direção. Se é verdade que nosso principal dever consiste em nos tornarmos no que somos20.. Paradigma é uma boa palavra. os animais. o mar. o homem da era industrial. que começa com a terra. o homem operário. nada é mais importante para cada um de nós. se ela o transferir para o mundo adulto. antes de tudo. Antes de ser um homem civilizado e um brasileiro educado nos meios intelectuais do Recife. tenha grandes dificuldades com os homens. cuja razão suficiente é viver e gerar mais vida. A ética funciona como um escudo que protege e defende a vida. p. pregador? – resmungou o sargento. C. brasileira ou africana.) ApBioética. A principal tarefa da educação está. o homem da Renascença. UnG: 2006 23 . é provável que. e por último o homem. o homem do Nordeste. Paradigmas são padrões psicológicos. pense na visão de mundo que uma garotinha vítima de um pai abusivo poderia desenvolver. Mas podem se tornar perigosos se os tomarmos como verdades absolutas. se não aceitarmos qualquer possibilidade de mudança. nem mais difícil. mas. é filha do homem. Tudo o que se converta em ameaça à vida recebe a oposição da ética e da moral. Enquanto ela fosse criança. o homem burguês. quando crescer. formando um conjunto ordenado e harmônico. (Maritain.01 – Franklin M. e deixarmos que eles filtrem as novas informações e as mudanças que acontecem no correr da vida. antes de ser uma criança paulista do século 21. Provavelmente desenvolveria ela a idéia – o paradigma – de que os homens adultos não devem ser confiáveis. a tarefa da educação não está em formar o homem abstrato de Platão. as florestas. se falarmos do homem. de determinado meio social e época histórica. com adaptações) Sobre a VIDA e temas congêneres É sabido que no princípio está a vida. 42-43 Sobre o Homem e sua Educação Muitos de nossos contemporâneos conhecem o homem primitivo. do que nos tornarmos um homem. colocando-se a seu serviço. HUNTER . Villela. Sem dúvida. Nossos paradigmas podem ser valiosos e até salvar vidas quando usados adequadamente. o homem criminoso. em formar o homem ou alimentar o dinamismo por meio do qual o homem se faz homem. esse paradigma a levaria a afastar-se do pai. mas em formar uma criança de determinada nação.. James C. inteligente ou retardada. (. Agarrar-se a paradigmas ultrapassados pode nos deixar paralisados enquanto o mundo passa por nós.) Como exemplo de paradigma perigoso. modelos ou mapas que usamos para navegar na vida.O Monge e o Executivo Rio: Sextante. 2004. Assim como a ética 20 Este pensamento é do grande poeta grego Píndaro (518-438 a. Essa criança.E o que é um paradigma. 13-14. Entretanto. p.

em quaisquer estágios ou circunstâncias. Toda a atitude que deixe de respeitar a vida humana. (GALVÃO. Na alteridade. e muitas vezes pelo outro. Geneticamente. UnG: 2006 24 .insurgiu-se contra os campos de extermínio. 66) Esse debate da cronologia do ser ainda é conturbado.. Muitos não conseguem encontrar um sentido para suas vidas porque os outros. a sociedade. precisa ser vivida da maneira mais ética possível. ou outros fatores. entende-se o que é privativo do doente e que não pode tornar-se público sem sua anuência. em comunicação e afetividade. a vida começa na fecundação.. E por onde se pode determinar o fim da vida? Antes de 1960. comércio e desrespeito? Ou uma realidade humana que o substabelecimento do biológico encerra? A pessoa humana é um ser (sagrado) ou um objeto (instrumento)? As diversas correntes que cotejam a vida.. a política. . A vida começa aí. Villela. pré-embrião. como bem maior. está o critério organizador da bioética. (GALVÃO. feto. . associava-se o fim da vida a uma parada cardíaca e/ou respiratória. é a resposta. mais do que ninguém defender a vida. Quando começa a vida? Nos gametas? Na fecundação? Dois meses depois (como postulam os abortistas)? O embrião é um ser vivo ou não? Quando ocorre a vida.. é um ato que viola a ética e atenta contra a moral social.. E por que não? Por que o ser humano é o único que viola o projeto para o qual foi criado? As respostas são muitas e variadas. o biológico torna-se pessoa. também hoje ela se rebela contra o genocídio do aborto. há que se respeitar as suas escolhas. A vida. Poderiam ser sintetizadas naquelas atitudes de desrespeito que o homem tem. impedem. O homem foi criado para viver uma vida digna.. o respeito ao outro. células fecundadas. O ser humano nasceu para amar e ser feliz? Todos amam.. cujo valor nunca pode ser perdido de vista.. passível de experiências. Dizia-se morte do córtex igual à morte total do cérebro. abundante. boa parte da ciência enxerga a vida na seguinte seqüência: célula-ovo. Por sigilo. seus direitos e suas vontades. praticado em clínicas e hospitais. Já a revelação liga-se ao direito que o paciente tem de conhecer seu real estado de saúde. que chamamos de sigilo e revelação.. 65) A vida para ser vivida precisa ser respeitada e esse respeito passa pela identificação do seu sentido. Empregava-se a reanimação. as atenções voltaram-se para a função cerebral (morte detectada pelo EEG). contra as manipulações criminosas da genética. Nada que se faça sem sentido é capaz de prosperar. cujo ato contínuo é a primeira divisão celular. Será? . com o encontro dos gametas (células vivas). são amados e tornam-se felizes? Não. mas um acordo de vontades humanas (ou deveria ser). Vendo a vida como um bem maior do indivíduo. têm teorias a respeito da origem da vida.01 – Franklin M. . criança. há dois pontos fundamentais no respeito à pessoa. Depois de 1960. Desde ApBioética. A vida humana tem um sentido. às vezes por si próprio. a perfuração ou a respiração artificial para prolongar a vida. O que é a vida? Um fato biológico bruto. Não é um fato espontâneo. olhos cúmplices dos órgãos públicos e da lei. sujeito a um projeto infinito.. e executado a mando de quem deveria. mesmo a vida. Nesse sentido. Hoje. sob os olhos complacentes de alguns segmentos da medicina. sejam as pró e as contra.

UnG: 2006 25 . 73-4) Outros temas estudados na Bioética – e que merecem uma atenção especial . Paulo. 2004 KIRCHNER.) – Questões atuais de Bioética. Ainda mais que a medicina atual.são a eutanásia. morte isenta de dores e sofrimentos. 70) (A permissão legislativa para antecipar o parto e com isto a morte das crianças que apresentam más formações incuráveis) abre as portas para que a ciência médica. Além disso . São Paulo: Edições Loyola. “o aumento da eficácia e a segurança das novas modalidades terapêuticas motivam também questionamentos quanto aos aspectos econômicos. 83) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GALVÃO. contradizendo o seu juramento hipocrático. 1990 PESSINI. em lugar de eliminar a enfermidade. Villela.01 – Franklin M.Aristóteles . SP: Ed. SP: Ed.. – Bioética: a ética a serviço da vida. 2000 LADUSÃNS. (GALVÃO. O verbete eutanásia vem do grego e significa literalmente boa morte ou morte feliz. cria inevitavelmente complexos dilemas éticos que permitam maiores dificuldades para um conceito mais ajustado para o fim da existência . da preservação da vida e o alívio do sofrimento (GALVÃO. e BARCHIFONTAINE – Problemas atuais de Bioética. Santuário. 2005 ApBioética. organizar e tematizar toda a bioética. Stanislavs (Coord. por motivo de compaixão e diante de um sofrimento penoso e insuportável. além de abrir um caminho para a boa reflexão. Antonio M. O ato de promover a morte antes do que seria de esperar. L. Santuário. levando em conta os princípios. no respeito e na construção social. a filosofia ética tem se preocupado com o outro. EdiçõesLoyola. 7ª edição. terminará eliminando o enfermo. Aparecida. S. no convívio. Luis – Bioética: O que é? Para que serve? Aparecida.. constata o Instituto Bioético de uma importante universidade argentina. Com a alteridade podemos. o desenvolvimento sustentável (45) e a qualidade de vida (48). sempre foi mptovp de reflexão por parte da sociedade. à medida que avança na possibilidade de salvar mais vidas. (GALVÃO. éticos e legais resultantes do emprego exagerado de tais medidas e das possíveis indicações inadequadas de sua aplicação”. às vezes antagônicos. O cenário da morte e a situação de paciente terminal são as condições que ensejam maiores conflitos neste contexto.