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1.

O Tempo
Os acontecimentos narrados têm de ser contextualizados num determinado espaço e num determinado momento. O tempo não só estabelece a
duração da acção como marca a sucessão cronológica dos vários acontecimentos – tempo da história – e os contextualiza historicamente
– tempo histórico. É importante distinguir ordem temporal de ordem textual, pois se os acontecimentos se registam numa determinada ordem
cronológica – ordem temporal – isso não implica ue tenham de ser relatados por essa ordem de sucessão – ordem textual ou tempo do
discurso. !uando há um desencontro entre a ordem temporal e a ordem pela ual os acontecimentos são narrados, ou se"a, entre o tempo da
história e o tempo do discurso, diz#se ue há anacronia. $ara este desencontro – anacronia – podem contribuir a analepse, ou se"a, um recuo no
tempo atrav%s da evocação e relato de &actos passados' a prolepse, ou se"a, um avanço no tempo, pela antecipação de acontecimentos &uturos.
$or outro lado, por vezes, o tempo do discurso % menor do ue o tempo da história. !uando o tempo da história não coincide com o tempo do
discurso, diz#se ue há anisocronia. $ara tal, podem contribuir o resumo, uando o narrador conta sumariamente o ue ocorreu para depois
prosseguir a narrativa de modo a ue a estrutura &ormal e ideológica da mesma se"a percet(vel' a elipse, uando o narrador omite per(odos
temporais ue são sugeridos ao n(vel da história' e a isocronia, ou se"a, a tentativa de &azer coincidir o tempo do discurso com o tempo da
história, vis(vel atrav%s do diálogo e da descrição de personagens.
)istingamos o *+,$O )- ./0*12/- 3tempo cronológico ou tempo dieg%tico4 e o *+,$O )O )/05620O 3tempo da narrativa4.
a) Tempo da História – O tempo diegético ou tempo da história % auele ue se desdobra em dias, meses e anos e ue % vivido pelas
personagens. 7esta obra, o autor dá#nos re&erências cronológicas concretas da história de três geraç8es de uma &am(lia, embora não tendo todas
o mesmo destaue e re&ere#se a acontecimentos reais da evolução da sociedade portuguesa dessa %poca.
É &ácil delimitar n9 Os Maias o tempo da história, o ual, como tempo cronológico, % linear e uni&orme. - acção d9 Os ,aias decorre no s%culo :/:,
de ;<=> a ;<<?.
-ssim, % &ácil identi&icar#se, embora não com rigor, a altura em ue -&onso da ,aia, para desgosto de seu pai, 5aetano da ,aia, miguelista, &ora
@o mais feroz jacobino de PortugalA e @atirava foguetes de lágrimas à ConstituiçãoA 3entre ;<=> e ;<==4' % clara a indicação da data de ;<?B, em
ue -&onso da ,aia e 5arlos começaram a habitar o 2amalhete 3@- casa ue os ,aias vieram habitar no Outono de ;<?BA4' a data de @Caneiro de
;<??A, em ue 5arlos e +ga partem para o estrangeiro, tamb%m % &acilmente identi&icável 3@nos primeiros dias do -no 7ovoA4' &inalmente, surge a
Dltima data, a de ;<<? 3no Dltimo cap(tulo4, ue marca o reencontro de 5arlos e +ga, após o termo da ausência dauele no estrangeiro 3@numa
luminosa e macia manhã de Caneiro de ;<<?A4.
18! – 18"# – Ereves re&erências ao absolutismo de 5aetano da ,aia e F "uventude liberal de -&onso' história da educação de $edro da ,aia e
de seus amores trágicos, em ritmo rápido de novela.
18"# – 18"" – -cção centralG história dos amores trágicos de 5arlos e ,aria +duarda, alternando com os episódios de cr(tica social, em ritmo lento
de romance.
18"" – 188" – -usência de 5arlos no estrangeiro e seu regresso.
$) Tempo do %iscurso – 79 Os ,aias, a narração dos acontecimentos ao n(vel do discurso não apresenta a mesma ordem em ue estes
sucederam ao n(vel da história.
O tempo do discurso 3tempo da narrativa4 não % linear como sucede com o tempo da história. O discurso d9 Os ,aias começa assimG @- casa ue
os ,aias vieram habitar em Hisboa, no Outono de ;<?B, era conhecida na vizinhança da 2ua de 0. Irancisco de $aula, e em todo o bairro das
"anelas verdes, pela casa do 2amalheteJA 0e localizarmos esta data 3;<?B) no tempo histórico& notamos 'ue o discurso começa para lá do
meio do tempo histórico& isto é& (á no começo da acção central do romance. )o entanto& após uma $re*e história do +amalhete& da sua
reconstrução ,de- páginas)& o discurso *olta.se para os tempos mais antigos dos /aias. 0 assim 'ue& na pág. 11& começa esta longa
2)2345647 84sta exist9ncia nem sempre assim correra com a tran'uilidade larga e clara de um $elo rio de :erão;. <om este recuo no
tempo& de cerca de sessenta anos& o autor tem por =inalidade recuperar a história dos /aias no espaço de tr9s geraç>es ,a$solutismo de
<aetano da /aia& li$eralismo de 2=onso e seus ex?lios& romantismo e tragédia de 5edro da /aia). 0 so$re a história de 5edro da /aia&
sua educação tradicional e amores trágicos 'ue esta analepse incide mais directamente& constituindo como 'ue uma intriga introdutória
@ intriga central. %entro desta analepse& encontra.se ainda a =ormação de <arlos& incluindo os seus estudos e de*aneios em <oim$ra.
6ó na pág. A# ,cap. B:) é 'ue termina esta longa analepse& 'ue& numa perspeti*a naturalista& existe em =unção de <arlos& isto é& tem o =im
de explicar os seus antecedentes hereditários7 84 então <arlos 4duardo partira para uma longa *iagem pela 4uropa. Cm ano passou.
<hegara esse Outono de 18"#7 e o a*D& instalado en=im no +amalhete& espera*a por ele ansiosamente.;
+ecupera*a.se& portanto& a'ui o presente da história7 2=onso da /aia e <arlos instalados no +amalhete& o centro onde todos os
acontecimentos da trágica história de amor se ha*eriam de repercutir.
*oda esta analepse, ue se desenvolve ao longo dos primeiros uatro cap(tulos, não pretende explicar os antecedentes &amiliares de ,aria
+duarda, mas apenas de 5arlos. É certamente por isso ue se opera uma outra analepse 3da pág. B>K F B;B – cap. :L4 em ue ,aria +duarda
conta a 5arlos pormenores da sua in&Mncia, educação e atribulaç8es pessoais. )e notar ue, enuanto na primeira longa analepse o ponto de
vista era do narrador omnisciente, aui há focalização interna em ,aria +duarda, ue conta o ue sabe, e só o ue sabe, &icando portanto o
mist%rio, ue será revelado por Nuimarães 3o mist%rio era necessário para manter at% ao clímax o segredo da paternidade de ,aria +duarda4.
.á ainda outra analepse contida numa carta de ,aria ,on&orte encontrada no c%lebre co&re trazido por Nuimarães, em cu"o sobrescrito se liaG
@$ertence a minha &ilha ,aria +duardaA, ue acabava de esclarecer o mist%rio da paternidade desta personagem e ue +ga leu perante o espanto
de Lilaça.
O narrador omnisciente manteve#se F margem destas revelaç8es &eitas por ,aria +duarda, para ue não ultrapassem o conhecimento ue ela
tinha das suas origens, isto %, para ue não se revelasse o segredo da sua paternidade senão no momento exacto de uma intriga com
caracter(sticas de trag%dia.
c) +elação entre o Tempo da História e o Tempo do %iscurso – -o relacionarmos o tempo da história 3tempo cronológico4 com o tempo da
narrativa 3tempo do discurso, veri&icamos ue cerca de sessenta anos da vida dos ,aias 3tempo da história4 são narrados em menos de noventa
páginas 3tempo da narrativa4, ao passo ue pouco mais de um ano da vida de 5arlos 3de ;<?B at% ao princ(pio de ;<?? – tempo da história4 %
narrado em mais de seiscentos páginas 3tempo da narrativa4.
5onclui#se, portanto, ue não há correspondência entre o tempo da ist!ria e o tempo da narrativa. .á, pois, -7/0O52O7/-0 no tratamento do
tempo. - anisocronia mais evidente % a desproporção entre os sessenta anos da vida dos ,aias 3tempo da história4 e as cerca de noventa páginas
ue os cobrem 3tempo do discurso4. .á tentativas de /0O52O7/-0 mesmo na intriga introdutória, por exemplo no largo espaço do discurso
atribu(do F educação de $edro, mas sobretudo na intriga principal, em ue se atribui um largo espaço do discurso 3mais de seiscentas páginas4
aos amores de 5arlos e ,aria +duarda e aos epis!dios da vida rom"ntica.
*anto as anisocronias como as isocronias são perspectivadas sob o ponto de vista do narrador omniscienteG % ele ue decide uais os tempos
históricos ue merecem mais longa cobertura pelo tempo narrativo, ou tempo do discurso.
5omo % ue o narrador consegue reduzir o tempo narrativoO )e duas &ormasG pelo 06,P2/O ou resumo e pela +H/$0+. /sto %, os acontecimentos
ou são comprimidos 3re&eridos de modo abreviado4, como sucede, por exemplo, com a "uventude de -&onso, ou são simplesmente suprimidos
per(odos da história ue está a ser narrada, como deixam entender express8es como estasG @,as esse ano passou, outros anos passaramA 3pág.
BQ4' @outros anos tranuilos passaram sobre 0anta OláviaA 3pá. <B4.
+ como % ue o narrador consegue a&rouxar a velocidade narrativa do discurso, isto %, como % ue consegue con&erir ao tempo do discurso uma
duração idêntica F da história, ou se"a, como consegue a isocroniaO
-s cenas dialogadas são um dos processos mais usados para retardar o ritmo narrativo, pois assemelham#se F representação teatral, isto %, F
autêntica duração dos episódios. -ssim sucede em episódios como o jantar no #otel Central, as corridas, o sarau do $eatro da $rindade, etc., em
ue a descrição e o diálogo criam um ritmo narrativo ue tende a respeitar o tempo da história 3isocronia4.
-o longo do romance são várias as re&erências a acontecimentos históricos ue contribuem para a construção do e&eito do real, ou se"a,
induzem o leitor a aceitar ue a @históriaA d9 Os ,aias % tão real uanto os acontecimentos re&eridosG
@3-&onso atirara4 &oguetes de lágrimas F 5onstituição 3...4A # a <onstituição de 18.
82 <onstituição de 18 nasceu na seuência da 2evolução Hiberal de ;<=> e % um dos textos mais importantes e inovadores do
constitucionalismo português. - lei &undamental &oi votada pelas 5ortes +xtraordinárias e 5onstituintes, reunidas em ;<=; e "urada pelo rei ). Coão
L/. -pesar de muito bem elaborada, teve uma curt(ssima vigência em dois momentos distintosG o primeiro vai de 0etembro de ;<== a Cunho de
;<=Q 3golpe de +stado denominado Lila&rancada4 e o segundo inicia#se com a 2evolução de 0etembro, entrando em vigor de 0etembro de ;<QK a
-bril de ;<Q<.A
/n /n&op%dia
@+ no meio desta &estança, atravessada pelo sopro romMntico da 2egeneração, lá se via sempre, taciturno e encolhido, o papá ,on&orte 3...4A # a
+egeneração de 18#!.
@35arlos4 lia $roudhon, -ugusto 5omte, .erbert 0pencer 3...4A # os =ilóso=os da Eeração de "!.
@+sse mundo de &adistas, de &aias, parecia a 5arlos merecer um estudo, um romance... /sto levou logo a &alar#se do -ssommoir, de Rola e do
realismo 3...4A # 3F2ssomoir& romance naturalista de Gola& pu$licado em 18"1.
@,as eu lhe digo, meu uerido +ga, nas colónias todas as coisas belas, todas as coisas grandes estão &eitas. Hibertaram#se "á os escravos 3...4.A
# o =im da escra*atura nas colónia portuguesas& decretado em 18HA.
É sobretudo atrav%s do clima de desencanto, de desilusão generalizada, de constante cr(tica ao poder e Fs instituiç8es ue a .istória aparece ao
longo do romance, revelando#nos o $ortugal decadente e descaracterizado dos &inais do s%culo :/:.
d) O tempo psicológico – O tempo psicológico % auele ue exprime a vivência sub"ectiva das personagens, na medida em ue constitui a
percepção ue estas têm do decorrer do tempo.
O privil%gio do ponto de vista de certas personagens, como 5arlos e +ga, &az por vezes ue o tempo se"a como ue filtrado pelas suas vivências
sub"ectivasG um ano pode parecer uma eternidade e muitos anos, um momento. É esse tempo psicológico ue ressalta de express8es como estasG
@5omo tudo passaSA 35arlos4' @5arlos recordava auela tardeJ 5omo tudo isto era "á vago e remotoSA' @5omo tudo passaraSA 3+ga recordando a
alegre casa dos Olivais4' @É curioso, só vivi dois anos nesta casa, e % nela ue me parece estar metida a minha existência inteiraSA 35arlos ao
visitar o 2amalhete4.
- sub"etividade do tempo, mani&estada sobretudo por estas duas personagens, re&lete bem o amargo pessimismo ue se instala sobretudo no &inal
do romance, nauela cena em ue 5arlos e +ga, ao visitarem o 2amalhete abandonado, sentem vivamente a nostalgia do tempo perdidoG @5omo
tudo passavaSA
)e notar ue, no desenrolar da intriga central, enredada nos episódios de cr(tica social, uase não se dá conta da passagem do tempo. 0ó uando
o leitor se apercebe do envelhecimento das personagens 3-&onso aluebrado, 5arlos mais gordo, +ga careca4 % ue se dá conta da passagem do
tempo.
O tempo apresenta#se, assim, neste romance, como o s(mbolo do marasmo social, da estagnação, de uma sociedade estática em ue o presente
% apenas o repisar do passado, sem perspetivas para o &uturo.
5omo s(ntese, reve"amos, neste esuema, a estrutura interna d9 Os MaiasG
• /7*2O)6TUOG introdução da acção, história do 2amalhete, retrato de -&onso.
*empoG Outono de ;<?B.
+spaço &ocadoG Hisboa, o 2amalhete.
• -7-H+$0+G
a4 %uventude de &fonso.
+spaço &ocadoG Hisboa, 0anta Olávia, /nglaterra.
b' (nf"ncia de Pedro
+spaço &ocadoG /nglaterra, /tália, Hisboa 3sobretudo Een&ica4.
c' )ducação* amores e suicídio de Pedro
+spaço &ocadoG Hisboa 3Een&ica e -rroios4, /tália, Irança.
d' (nf"ncia e educação de Carlos
+spaço &ocadoG 0anta Olávia.
e' %uventude de Carlos em Coimbra
+spaço &ocadoG 5oimbra 3$aço de 5elas4.
f' +iagem de Carlos pela )uropa ap!s a formatura
+spaço &ocadoG /nglaterra, +scócia, ,ilão, etc.
*empoG toda esta analepse estende#se de ;<=> at% ao Outono de ;<?B.
• -5TUO 5+7*2-HG - vida de 5arlos após a viagem pela +uropa, com especial incidência na sua trágica paixão amorosa.
+spaço &ocadoG Hisboa, com especial incidência sobre o 2amalhete e sobre determinados ambientes, como o "antar no .otel 5entral,
as corridas de cavalos, o episódio do "ornal - *arde, o sarau do *eatro da *rindade' Olivais, 0intra, etc.
*empoG do Outono de ;<?B a &ins de ;<?K.
• +$VHONOG os acontecimentos ue se seguiram ao desvendar do segredo, com destaue para o incesto consciente, morte de
-&onso e separação de 5arlos e ,aria +duarda.
+spaço &ocadoG Hisboa 3sobretudo a baixa lisboeta do tempo – do Hargo 5am8es F -venida da Hiberdade4, o 2amalhete, etc.
*empoG de ;<?? a ;<?< 3viagem de 5arlos e +ga' de ;<?< a Caneiro de ;<<? 3da &ixação de 5arlos em $aris at% ao seu regresso e
estada em Hisboa4.