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1.

Uma reivindicação antiga


No dia 13 de agosto de 2005, data em que Teresina completa
153 anos, a programação de aniversário da cidade marca
também a inauguração do Teatro Municipal João Paulo II no
Dirceu Arcoverde, um dos bairros mais populosos de Teresina,
localizado na zona sudeste da capital. O censo 2000 do IBGE
prova em caráter oficial que são 41.526 habitantes.

A concretização do espaço foi a realização de um desejo dos


artistas da comunidade que começou a ser idealizado quando o
bairro ainda estava se formando. O conjunto habitacional foi
inaugurado em 1977, e a partir do surgimento dos primeiros
grupos de teatro, já na década de 80, começou a ser vislumbrada
a idéia da construção do primeiro teatro municipal a ser
construído em um bairro distante do centro da cidade.

Em 1984, há exatos 25 anos, nasce o grupo Flagelo,


coordenado pela atriz Remédios Silva. Nessa época, como
secretária de cultura da Associação de Moradores do Dirceu, ela
acabou se tornando uma das protagonistas das lutas pelo espaço
físico do teatro: “Nós começamos a fazer teatro na igreja, depois
passamos a fazer dramas trabalhando as questões sociais na
comunidade. Em 95, por aí assim, a gente tinha uma média de
nove grupos de teatro na comunidade, grupos de dança tinha

1
bastante. Eram aqueles grupos que ensaiavam nos quintais, em
escolas...”, relembra Remédios.

Em 1993, quando o professor Raimundo Wall Ferraz sucede


Heráclito Fortes na Prefeitura de Teresina para assumir o seu
terceiro mandato, os artistas do Dirceu, por meio de sua
Associação de Moradores, apresentam ao novo prefeito a idéia da
construção do teatro. O local já havia sido encontrado: um
terreno amplo localizado próximo à avenida principal do bairro,
justamente onde se concentram a maior quantidade de linhas de
ônibus que vêm de outras partes da cidade.

A própria comunidade, no entanto, por meio de um


plebiscito, escolheu a construção de uma maternidade no mesmo
local. Com a morte prematura do prefeito Wall Ferraz no dia 23
de março de 1995, em São Paulo, onde se tratava após um
acidente vascular cerebral a maternidade inaugurada cinco
meses depois recebeu seu nome.

Ainda não era o momento certo, mas permaneceu inalterado


o anseio dos grupos que devido à falta de espaço em outros
lugares da cidade almejavam ter um teatro-escola na própria
comunidade onde pudessem obter sua profissionalização e ao
mesmo tempo apresentar seus espetáculos.

Teresina já contava com o Teatro 4 de Setembro mantido


pelo governo estadual, localizado no centro da cidade, mas que já
2
não atendia a demanda das dezenas de grupos existentes. “Em 25
anos eu desconheço um grupo daqui que conseguiu uma pauta
no Teatro 4 de Setembro. Conhece Jota, Jotinha e Jotão,
repentistas aqui da região? Eles nunca conseguiram uma pauta
no 4 de Setembro. Nunca! Não foi por falta de tentativa não”,
assegura Sheyvan Lima, atual presidente da Associação de
Moradores da comunidade.
Em 1997 o projeto da construção do teatro foi contemplado
pelo Orçamento Popular Municipal, um projeto de políticas
públicas instituído por meio de um decreto do prefeito Firmino
Filho em seu segundo mandato. Através do Orçamento Popular
são as comunidades por meio de suas Associações de Moradores
que elegem as obras prioritárias para o seu bairro junto à
administração do município. O valor estimado para a construção
do TMJPII 1 foi de R$ 1.000.000,00 segundo a proposta
preenchida pela Associação dos Moradores na própria Prefeitura
(em anexo no final do livro).

Quatro anos mais tarde, em janeiro de 2005, o prédio


aparentemente parecia pronto. Mas quando alguns artistas da
comunidade, inclusive Remédios Silva, acompanhados pelo
diretor e cenógrafo José Nazareno decidem conferir in loco2 toda

1
Abreviação para o nome do teatro utilizada nos fôlderes bimestrais contendo a programação do
teatro
2
Expressão latina que significa “no local.” Fonte: Dicionário Aurélio
3
a estrutura física já pronta, se deparam com uma sala que nem
era um auditório, muito menos um teatro: o piso do palco era de
cimento, as duas entradas de acesso dos artistas ao palco eram
tão baixas a ponto de um ator que estivesse saindo de uma cena
com a luz no rosto corria o risco de bater a cabeça, não havia
sequer saídas de emergência. O teatro não havia custado nem a
metade do valor estimado conforme indica a placa durante a
construção da obra: apenas R$362.581,00.

Segundo o professor José Reis, presidente da Fundação


Cultural Monsenhor Chaves, na época o próprio órgão se
encarregou de trazer um engenheiro cênico da Funart a fim
reparar os erros. Mas ainda ficaram alguns defeitos graves que
não puderam ser reparados; por exemplo, até hoje não há
comunicação entre os camarins e a cabine do controle de som e
de luz.

Enquanto as reformas estavam em andamento, em protesto


pela demora na inauguração grupos de teatro, de dança,
repentistas e músicos reunidos decidiram montar em frente ao
TMJPII um palco de 4mx6m e realizar dois dias de espetáculos
com o título Enquanto o teatro não abre. “Qual era a cena que a
gente queria ver? Olha aí sociedade! Tá aqui o dinheiro público,
muito dinheiro público empregado há mais de três anos. E tá lá...
Tudo guardado, tudo trancado, o vento, as folhas, aranha, tudo...

4
Ou seja, o teatro feito com tudo pago pelo herário e nós
continuávamos no meio da rua”, lembra Sheyvan.

No dia 13 de agosto de 2005, a cerimônia oficial de


inauguração para o descerramento da placa, marcada para as
19h, contou com a presença do prefeito Sílvio Mendes, do
presidente da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, professor
José Reis e do Superintendente da SDU Sudeste, João Eulálio de
Pádua.

A queixa do presidente da Associação de Moradores nesse


dia se deve ao fato de não ter sido convidado oficialmente. Nem
ele, nem os próprios grupos de teatro da comunidade e nem o
vereador Anselmo Dias, outro protagonista da luta pelo TMJPII.

A inauguração daria visibilidade política a Anselmo , na época


em campanha de reeleição, e o atraso na entrega da obra,
segundo Sheyvan, teria se dado mais por questões políticas, do
que por falta de recursos para finalizar sua construção. “Era o
último ano do mandato de Anselmo, e a nossa impressão foi que
não inaugurou simplesmente com o intuito de derrubar
politicamente o companheiro Anselmo... Chamaram pra cortar a
fita uma vereadora chamada Teresa Brito, que pra chegar ao
teatro teve que ligar pra saber em que rua entrava”, conclui.

Antes da inauguração oficial houve ainda uma polêmica


relacionada ao nome do teatro. Contrariamente à Prefeitura que
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resolveu homenagear o papa João Paulo II no ano da sua morte a
intenção dos artistas era homenagear Raimundo Dias - ator,
dramaturgo, escritor, diretor de teatro e primeiro presidente da
Federação de Teatro Amador do Piauí - conhecido no teatro do
Piauí e de Timon como “Mundica Fuçura”.

Uma média de nove grupos de teatro e dança - dentre eles o


Grupo Harém de Teatro, o Grupo de Teatro do Monte Castelo e o
Grupo Raízes - afora outras entidades a exemplo da própria
Federação de Teatro Amador do Piauí fizeram um abaixo-
assinado (em anexo no final do livro) pedindo que o nome da
casa fosse alterado em homenagem a Raimundo Dias.

Remédios Silva lembra em detalhes como foi a convivência


com o artista, falecido em meados da década de 80. De acordo
com ela não havia um lugar em Timon ou Teresina que
Raimundo não andasse criando grupos. “Nós andamos muito.
Onde o grupo dizia: Nós não temos condições de fazer a peça!
Não, pois faça que a gente vai atrás dos recursos. Aí se ele não
conseguisse com alguém a gente fazia vaquinha, todos os grupos,
e colaborava com o grupo. Era uma pessoa que dava suporte,
mesmo sem ter condição. Então o ideal era que o teatro tivesse
sido em homenagem ao Raimundo Dias, mas...”, lamenta.

“Mundica Fuçura”, ainda hoje é lembrada com carinho por


dois artistas piauienses - Amauri Jucá e Dirceu Andrade - no
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quadro “Balaio de Gato” do jornal da Tv Cidade Verde
apresentado pelo jornalista Amadeu Campos. No quadro eles
imitam os trejeitos do personagem, aquele ator popular que
chegava na feira e se deliciava com as buchadas e paneladas,
iguarias tipicamente nordestinas hoje encontradas nos mais
chiques restaurantes de comida típica da cidade.

A razão do não acatamento da solicitação dos grupos pelo


prefeito, segundo o professor José Reis, se deu por uma falha de
comunicação. O pedido dos artistas não chegou a tempo ao
conhecimento do prefeito e ele se antecipou a homenagear o
papa. “Eu pessoalmente acho que não se deva reagir contra isso
não... O João Paulo II quase que ia sendo ator... Foi ator amador,
mas ele quase que se tornava um ator profissional... E depois qual
foi o papa que pisou no Piauí, em Teresina?”, justifica o professor
José Reis.

***

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2. Arte Contemporânea no Dirceu
Bem antes da inauguração do teatro, a Prefeitura através da
Fundação Cultural Monsenhor Chaves, já tinha planos sobre
quem deveria assumir a direção da casa, e para isso vinha
mantendo contato com o bailarino e coreógrafo Marcelo Evelin.

A experiência vasta de quase 30 anos na dança


contemporânea foi um dos principais requisitos para que o
Estrangeiro do Piauí - conforme foi chamado em uma entrevista
sua para a jornalista Deborah Rocha publicada na revista TAM
nas Nuvens - fosse convidado para o cargo. “Não tinha ninguém
do bairro que fosse fazer um trabalho bonito como aquele que tá
sendo feito lá, com toda sinceridade... Tem muita gente que faz
teatro lá no bairro, mas não tem qualidade, infelizmente...”,
explica José Reis.

Marcelo saiu do Piauí rumo ao Rio de Janeiro aos dois anos


de idade com os pais, e do Brasil rumo à Europa com apenas 24
anos, e finalmente em 2005 estaria de volta à terra natal para
assumir um projeto que sempre o instigou: levar a arte
contemporânea à periferia.

A cada primeiro bimestre do ano o coreógrafo ministra aulas


de improvisação na Escola Superior de Artes de Amsterdã, por
isso, enquanto ele não chegava da Europa, para assumir o cargo
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oficialmente, Francisco Castro, ator e coordenador da Casa da
Cultura do Piauí foi nomeado diretor provisório da casa. Ator
profissional a mais de 20 anos, começou a fazer dramas em 1983
sem nunca antes ter estado num teatro.

Ele fica encarregado de fazer o organograma da


programação, pensar na equipe de funcionários, organizar cursos
para a formação da equipe técnica, inicialmente toda composta
por pessoas da comunidade que já trabalhavam na área. Pelo
menos três entre os selecionados são do Grupo Flagelo: o
recepcionista, José de Ribamar, o contra-regra, José Ferreira e a
auxiliar de camareira, Fernanda Barreto.

Após a inauguração do teatro, a convite de Marcelo, recém-


chegado da Europa, Castro ainda permanece mais algum tempo.
“Eu preparava a programação mensal, ia pra Casa da Cultura
digitar esse material, eu imprimia, fazia xérox, a gente colocava
em alguns espaços, eu e os funcionários. Como eu já sabia que
seria implantado outro projeto fui muito cuidadoso de não
querer implantar alguma coisa que seria modificada.”, conta
Castro.

Em janeiro de 2006 Marcelo assume definitivamente a


diretoria da casa, e sua primeira iniciativa é reunir os artistas
locais tendo em vista conhecê-los, travar conhecimento com o
que já vinha sendo produzido e propor um diálogo. Nesse mesmo
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dia os grupos propõem a criação de um Conselho Gestor onde um
artista escolhido por votação deveria compor a direção do teatro,
mas o pedido não foi acatado devido à dificuldade já prevista
pela direção do teatro de reunir os grupos quando fosse
necessário tomar alguma decisão: “Acho que isso seria muito
problemático. E por isso foi a opção de não se ter esse conselho
gestor... Mas o teatro estava totalmente aberto pra discussão... É
tanto que se chamava sempre as pessoas que queriam as pautas.”
explica Castro.

Posteriormente Marcelo Evelin abre a casa convidando os


grupos locais para que se apresentassem gratuitamente para a
comunidade durante dois dias no palco do teatro. O objetivo era
imediatamente começar a divulgar os grupos, e ao final do
espetáculo promover um bate-papo com o público para discutir
que impressão haviam tido sobre as peças apresentadas, como
acontece normalmente após os espetáculos contemporâneos. A
programação segue dessa forma nos dois primeiros meses de
funcionamento do teatro.

Em março de 2006 Marcelo cria o Núcleo do Dirceu - um


coletivo de artistas formado por 18 integrantes, vindos de áreas
desde o balé clássico, dança de rua, grafite, artes gráficas até o
teatro – e pela primeira vez um grupo de artistas é contratado para

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criar, para fazer espetáculos, mediante um convênio firmado entre a
Prefeitura e a ONG de Marcelo Evelin, o Instituto Punaré.

Por meio desse contrato a organização não- governamental era


beneficiada mensalmente com R$8.000,00 destinados a projetos
permanentes dos 18 artistas do Núcleo de Criação, além de
R$5.000,00 mensais para projetos eventuais.

O Núcleo era encarregado de receber uma informação mais


concentrada nos workshops, mas com a responsabilidade de
multiplicá-la nas oficinas para a comunidade, de conversar, de
propor, de fazer intervenções nas praças públicas para que as
pessoas tomassem conhecimento do que era feito no teatro e de
fazer o blog com o objetivo de fomentar as discussões do qu e
vinha sendo produzido.

Posteriormente à criação do Núcleo do Dirceu, a estrutura


programática do teatro ficou pronta. Ele funcionaria como o
Centro de Criação do Dirceu, ou seja, toda a idéia do teatro escola
que abrangeria as oficinas, cursos, bate-papos e workshops
relacionados ao aprimoramento e troca de idéias entre artistas
locais, nacionais e estrangeiros. “Eu falei: Vamos fazer um Centro,
um Centro de Criação... Olha, eu não vou te ensinar, é um lugar
que eu proponho e as pessoas podem aprender com elas mesmas
e com os outros...”, explica Marcelo.

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Passados três anos de funcionamento o público oscila
bastante no teatro João Paulo II. A fim de diversificar o público,
paralelamente aos espetáculos mais populares, Marcelo Evelin
inseria durante a programação bimestral espetáculos de arte
contemporânea, fato que provoca comentários de que a falta de
espectadores especificamente em relação ao teatro do Dirceu
estaria ligada ao estilo dos espetáculos. “Porque é que a dona
Raimunda nunca foi num teatro? Tem 45 anos de idade, mora
detrás do teatro agora. Aí alguém convence ela de rodear ali e
entrar, com aquela roupinha simples dela... Aí aparece um rapaz
de cueca, uma muié sem sutiã, aí faz uns gestos, umas danças
contemporâneas, e os outros aplaudem... Ela não vai voltar nunca
mais naquele teatro!”, opina Sheyvan Lima.

Os borderôs – documento onde é anotado cada espetáculo e a


quantidade de público respectivo - dos três anos de
funcionamento do teatro, no entanto, registra a variação do
público como uma constante até mesmo nos espetáculos de
humor. Logo no primeiro ano de funcionamento do teatro, o
grupo Flagelo apresentou o espetáculo O Caipira que teve um
público de 59 pessoas. No final de 2005 a mesma peça teve um
público de apenas 26 pessoas, caindo para doze no mês de abril
de 2006. Da mesma forma o espetáculo Piadas e Paródias,
produzido e apresentado pelos humoristas Amauri Jucá e Dirceu

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Andrade, que em novembro de 2005 alcançou um público de 147
pessoas, em maio de 2006 contabilizou apenas 94 expectadores.

Em 2007 houve grandes momentos, a exemplo do espetáculo


humorístico Penélope e Charmosa, também de Amauri Jucá e
Dirceu Andrade, que por dois dias consecutivos alcançou
públicos de 327 e 273 pessoas. Diferentemente do público de
Esculhambação, com Bid Lima e Franklin Pires, outro espetáculo
de humor que em agosto de 2006 havia reunido um público de
258 pessoas, e agora, em 2007, reuniu apenas 44 expectadores.

Do total de ingressos de todos os espetáculos, dez eram


cortesias; e mesmo assim houve o caso do Grupo Mosay em
setembro de 2006 que durante a apresentação do espetáculo “Me
Poupem” atingiu um público de apenas 08 pessoas, e no dia
seguinte o mesmo espetáculo foi prestigiado por um público
considerável de 43 pessoas.

O primeiro diretor do Teatro João Paulo II, Castro, também


constatou a falta de público enquanto trabalhou lá. Mas atribui o
fato a falta de hábito de ir ao teatro por parte das pessoas da
comunidade local; ele mesmo, apesar de gostar de encenar desde
criança, improvisando peças com as irmãs e os vizinhos, confessa
não ter sido educado para gostar de freqüentar um teatro, tanto
que passou muito tempo até entrar pela primeira vez em um.

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Outro aspecto ressaltado por Castro foi a especificidade do
projeto de arte contemporânea. Durante os quase três anos em
que participou da gestão do teatro juntamente com Marcelo, ele
presenciou a reação dos artistas locais, antes e depois da adesão
a este projeto. E presenciou o afastamento de muitos deles
depois de algum tempo.

Ainda segundo ele, o que aconteceu foi que “ficaram as


pessoas que realmente tinham a ver com o projeto, que é a arte
contemporânea. É tanto que você tem um número bem grande de
pessoas que fazem esse trabalho, pessoas que discutem arte... O
que tá sendo feito, eu acho que isso é muito interessante, e isso é
mérito do projeto...”

A atriz Remédios Silva foi um desses artistas locais que se


afastou do projeto por achar que os espetáculos produzidos não
tinham uma linguagem apropriada para o público do bairro .
Além de ter se apresentado algumas vezes no Teatro João Paulo
II, ela também assistia aos espetáculos contemporâneos trazidos
de fora. Porém, afirma que são “coisas de primeiro mundo” e que,
portanto, de difícil compreensão. “Na minha visão, eu acho que
ali no Dirceu a gente deveria trabalhar o teatro mais popular
mesmo. Essa linguagem da proposta do teatro tem que ter uma
compreensão lógica e clara”, justifica Remédios.

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Essa discussão em torno da adequação ou não das propostas
do teatro João Paulo II entre direção, artistas e comunidade
prossegue até janeiro de 2009 quando ocorre uma mudança na
direção da Fundação Cultural Monsenhor Chaves – órgão
municipal responsável pela administração das casas culturais de
Teresina.

O antigo diretor José Reis, que havia ficado durante oito anos
na diretoria da FCMC, é designado para assumir a Fundação Wall
Ferraz, e entra no exercício do cargo o professor de Língua
Portuguesa, Cinéas Santos, conhecido por todos os piauienses
pelo seu trabalho de aproximar a cultura dos teresinenses; seja
através da arte, da literatura ou da música.

Apesar de nunca antes ter exercido um cargo público na vida,


sua carreira abrange várias realizações importantes, que vão
desde a edição de livros de mais de cem escritores de expressão -
à exemplo de piauienses como da Costa e Silva e Willian Mello
Soares - até a produção de grande eventos culturais, com
destaque para o Salão do Livro do Piauí(SALIPI) e o Festival
Nacional de Violão.

Mesmo antes de assumir a Fundação Cultural Monsenhor


Chaves, ainda no final de 2008, o professor Cinéas já se sentia
bastante desconfortável devido aos comentários sobre suas
possíveis tomadas de decisão. No dia 22 de dezembro antecipa
15
em seu blog, no portal odia.com como seria sua administração
frente à casa:

“Muita Fumaça

Circula nos subterrâneos da internet uma batelada de


informações desencontradas (boatos) sobre o que pretendo fazer
ou deixar de fazer à frente da Fundação Mons. Chaves. Ainda nem
assumi, e já me atribuem exonerações e nomeações de pessoas dos
mais diversos estratos sociais. Pura fumaça!(...)Deixemos, pois, um
aviso aos navegantes, aventureiros e arrivistas: só trabalha comigo
quem sabe fazer, quem é capaz de fazer, quem está disposta a
fazer. Fazer bem feito, diga-se de passagem. Agora, se me
permitem, preciso assentar o juízo pra não fazer besteira além da
conta”.

Nove dias depois de assumir a Fundação, mais precisamente


no dia 9 de janeiro, o professor Cinéas toma sua primeira atitude
em relação ao Teatro João Paulo II. A fim de renovar o
compromisso entre o Teatro e a nova direção da Fundação
Cultural Monsenhor Chaves, Marcelo Evelin é reempossado na
diretoria do Teatro. Porém, a um pedido do professor Cinéas, a
programação de janeiro fica suspensa - enquanto ele analisa toda
a conjuntura cultural do município - sob a alegação de que a
administração do teatro estaria se comportando como algo
independente da Fundação Cultural Monsenhor Chaves.
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Surpreendentemente, no dia 08 de dezembro de 2008, esta
foi uma das razões que levaram a Prefeitura e o Teatro a
receberem o prêmio 3 da APCA (Associação dos Críticos de Arte
de São Paulo), na categoria Políticas Públicas para Dança,
justamente pelo fato da gestão municipal ter entregado a
responsabilidade da direção artística do teatro a um coletivo de
artistas, o Núcleo do Dirceu.

O antigo diretor, José Reis, também acompanhava os últimos


acontecimentos na expectativa de que tudo se ajustaria e expôs
sua opinião sobre o caso: “Apesar de ter saído o nome do Teatro
João Paulo II - o Núcleo do Dirceu que está ganhando o prêmio -
mas esse prêmio na verdade é da Prefeitura de Teresina, porque
é um prêmio de gestão pública, ou seja, de como tocar a coisa na
área de artes. É por isso que eu estou estranhando que tenha
acontecido isso...”, comenta.

Dois meses após a posse do professor Cinéas, durante uma


entrevista na Associação dos Moradores do Dirceu, Sheyvan Lima
havia me mostrado um compêndio sobre a história do teatro e
me fornecido uma cópia deste documento (em anexo no final do
livro), elaborado por Remédios Silva, que deveria ser
apresentado à Prefeitura nos próximos dias.

3
Teresina já recebeu dois prêmios da APCA. O primeiro prêmio foi conquistado em 2006 quando
“Sertão”, de Marcelo Evelin, foi escolhido como melhor espetáculo de dança do ano.

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No documento estavam anexados folhetos com os dizeres das
faixas que haviam sido confeccionadas durante o movimento de
abertura do teatro, informações sobre problemas estruturais
detectados durante sua construção, o abaixo assinado pedindo a
mudança do nome do teatro e finalmente uma lista de perguntas
questionando a direção do TMJPII. “O Marcelo tem o perfil dele.
Qual é? Como ele fala sempre: Europa! A Holanda! Então pra ele
tudo de lá é bom, daqui nada presta, né? Tem conquistas? Tem.
Foram muito bem num concurso que eu não lembro o nome, no
Rio de Janeiro. A minha crítica não é aos trabalhos realizados no
Teatro João Paulo II, a minha crítica é: esses trabalhos estão
mudando cultura na nossa comunidade?”, explica Sheyvan.

Este material chegou às mãos do professor Cinéas no dia 03


de março de 2009, e a princípio não causou repercussão alguma.
Ele mesmo se encarregou de encaminhar o documento a Marcelo
Evelin. Após três meses de negociações intensas entre o Núcleo
do Dirceu e o novo presidente da Fundação, a respeito do que iria
permanecer na programação do teatro, a casa voltou ao seu
funcionamento normal no dia 02 de abril de 2009.

***

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3. Berlim mostra o Dirceu
Vários projetos estavam programados para 2009, no Teatro
João Paulo II. Alguns já estavam até sendo discutidos com o
professor Cinéas, especialmente um, relacionado à possibilidade
de uma linha de ônibus que passasse uma hora antes dos
espetáculos, levando as pessoas ao teatro.

A Fundação Cultural Monsenhor Chaves implantou mais dois


projetos subvencionados pela Prefeitura: o “Viva o Sábado” -
levando ao teatro grandes intérpretes da música piauiense no
sábado à noite -, e o “Domingo de Graça”, com atividades também
gratuitas direcionadas ao público infantil.

Marcelo conseguiu, por conta própria, uma subvenção da


comunidade européia para fazer 12 residências artísticas com
pessoas gabaritadas, que trabalham com a linguagem do corpo,
no espaço do TMJPII.

Também já estão abertas as inscrições aos artistas


interessados em participar da terceira edição do Colaboratório.
Fazendo referência ao nome, este é um momento de troca entre
artistas de diversas partes do mundo, de uma maneira
colaborativa, com o objetivo de trocar referências e bolar
ferramentas de criação. Cristian Duarte, coreógrafo paulista, é o
primeiro dentre esses artistas que ainda virão da Europa, África
19
do Sul e de outras partes para contribuir com o projeto durante
três semanas. “O Colaboratório não é uma oficina, não é um
workshop, ele(Cristian Duarte) não vem aqui pra ensinar, é
muito mais como um tempo que a gente tem pra compartilhar
referências, métodos de trabalho, ferramentas...”, explica Janaína
Lobo, integrante do Núcleo de Criação.

Durante todo o ano, é comum esse intercâmbio do Núcleo de


Criação com artistas estrangeiros. Atualmente, ao mesmo tempo
em que Soraya Portela e Fábio Crazy estão obtendo
conhecimentos e experiência junto aos artistas holandeses, Klara
Alexova, aluna da Universidade da Escola Superior das Artes de
Amsterdã passará um mês aqui no teatro, fazendo residência e
realizando pesquisas para o seu trabalho de conclusão de curso.

Esse ano, pela primeira vez o Núcleo do Dirceu vai participar


da 4ª edição do Move Berlim 4 - Festival da Dança Contemporânea
Brasileira em Berlim - levando três espetáculos. Alexandre
Santos e César Costa, alunos do Teatro e moradores do Dirceu,
apresentarão pela primeira vez o espetáculo “2 Heterogêneo” em
um palco internacional.

4
O evento que ocorre anualmente é financiado pela Fundação Federal de Cultura na Alemanha,
Ministério da Cultura do Brasil e pela Fundação Nacional de Artes.

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Alexandre também é instrutor da oficina de break-dance no
João Paulo II. Começou sua carreira cedo, aos 8 anos de idade,
com a capoeira no grupo Abadá até receber o convite do diretor
Marcelo Evelin em 2005 para que integrasse o Núcleo de Criação.
“Pra gente é muito proveitoso porque não sai nada do nosso
bolso, é sempre gratuito... São ótimos esses workshops aqui. A
cada pessoa que vem é uma informação diferente que você
coloca no seu currículo, que enriquece cada vez mais”, explica
Alexandre.

O mesmo Festival de Berlim, do qual Alexandre participará,


será aberto ao público com a apresentação do espetáculo Bull
Dancing criado Marcelo Evelin - uma co-produção entre o Teatro
João Paulo II e o Teatro Hetveem de Amsterdã. “Coloquei em
inglês justamente pra acessar o público internacional. Pra
acessar no mesmo nível, pra discutir o que é que o bumba-meu-
boi tem que discute pra todo mundo igual, porque eu não sou
bairrista, entende?”, justifica Marcelo.

Um fato muito discutido e que desperta a curiosidade por


parte dos expectadores é a respeito do modo como são
produzidos os espetáculos na arte contemporânea. Ao contrário
de um espetáculo de humor, por exemplo, em que o ator encena
um personagem dentro de uma história, dentro de um contexto
fechado, a arte contemporânea trabalha com as possibilidades.

21
O último trabalho chamado “Anatômico, Geométrico e
Pessoal”, resultante da oficina de dança contemporânea
ministrada por Weila Carvalho - integrante do Núcleo - dá uma
mostra do resultado interessante que pode surgir. O espetáculo
foi realizado em cima de exercícios das próprias aulas onde o
tema era o corpo em si dando destaque ao seu movimento, a sua
mecânica e a sua própria anatomia. Segundo Weila, “você pega
uma seqüência e troca a música e vê que muda também até o
jeito que as pessoas começam a dançar... Quer dizer, tudo tá
influenciando a coreografia; naquele momento nada é
negligenciado”,

Outra oficina do teatro que vem dando certo, e que envolve


bastante a comunidade é a chamada Alfabetização do Corpo,
ministrada por Bid Lima e Soraya Portela. Voltada para a terceira
idade, baseia-se em exercícios físicos e faciais, brincadeiras de
roda e trava-línguas. A conseqüência é uma melhora na
articulação das palavras, e o fácil aprendizado dos nomes e
funções de cada uma das partes do corpo. Durante o processo , os
alunos aprendem a utilizar o corpo e descobrem o limite máximo
até onde podem ir.

Ao final de cada período, que dura cerca de seis meses, as


instrutoras organizam uma seqüência baseada nos exercícios
praticados dentro da oficina, de tal forma que consigam montar

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uma história, e apresentam no palco. “Na verdade a gente tem o
intuito de fazê-las acordar e perceber que o corpo delas está vivo,
e sair dessa coisa de que eu sou velha, que meu corpo é velho,
que isso não existe. Corpo é corpo, independente da idade que
seja.”, explica Bid.

Afora as oficinas, o teatro abriga cinco grupos residentes,


companhias independentes que recebem orientação do Núcleo:
Interação Ralé(hip-hop), Bomber Crew (hip-hop), Grupo
Renascer de Teatro, o grupo de capoeira Cordão de Ouro e a
Companhia Dúbio de Teatro, que surgiu paralelamente às
oficinas oferecidas dentro do João Paulo II.

Os grupos têm toda autonomia e são chamados de residentes


porque estão dentro do teatro não só usando a sala5, mas
também contando com a divulgação, se precisarem, através de
flyers na internet ou da contribuição de outros profissionais,
como músicos, por exemplo.

Essas oficinas tiveram grande aceitação por parte da


comunidade. De 2006 para 2008 o número de participantes
quase triplicou, saltando de 150 para 369. Já o público anual
assistente dos espetáculos, que em 2006 era de 22.924 caiu para
19.809 em 2008.

5
No teatro o termo “sala” refere-se a palco e platéia, ou seja, a sala de espetáculos.

23
Esse decrescimento de público causou polêmica desde que
Marcelo Evelin assumiu o teatro. Por causa disso, as críticas
negativas não paravam, inclusive algumas partindo dos próprios
artistas da cidade, mas também haviam críticas favoráveis:
“Quando eu cheguei aqui um artista me procurou e disse assim:
Marcelo você não tem noção do estrago que você tá fazendo
porque você desestabiliza todos os modelos engessados, todos os
modelos quietinhos, todos os modelos tímidos... Mas eu acho que
arte é pra desestabilizar, arte não é pra compensar ninguém...”,
explica Marcelo.

***

24
4. O teatro é popular?
Uma semana após a primeira entrevista com Marcelo Evelin
voltei ao teatro para continuar minha pesquisa acompanhando
mais uma das oficinas, dessa vez a de Teatro Físico para
adolescentes, ministrada pelo instrutor do Núcleo, Jacob Alves.

A aula começou com uma breve explicação sobre o que


acontece com o teatro contemporâneo, antes de partir para as
dinâmicas. Nesse dia a turma era de apenas 6 alunos:
“Antigamente, na época mais forte do teatro naturalista a pessoa
mais importante era o autor. Ele mandava em tudo. Com o passar
do tempo o autor ao invés de dizer o que o iluminador vai fazer,
chama ele e pergunta o que ele propõe pra esse trabalho. É
completamente diferente. Depois chega pro cenógrafo e diz: o
espetáculo é esse, que proposta você tem pro cenário?”, explica
Jacob.

Na metade da aula a turma foi dispensada para um breve


intervalo; e logo quando voltávamos para a sala da oficina, a
coordenadora administrativa do teatro, Vanicleudi Queiroz, com
quem eu ainda não havia tido contato desde que passei a
freqüentar a casa, me chama para conversarmos em sua sala. A
notícia, que seria recebida com pasmo no dia seguinte pela
imprensa local, era que Marcelo Evelin acabara de pedir

25
demissão através de uma carta que deveria chegar à casa do
prefeito Sílvio Mendes por meio de um mototaxista. O motivo
alegado era incompatibilidade de idéias com o novo presidente
da Fundação Cultural Monsenhor Chaves.

Uma semana antes do pedido de demissão de Marcelo, eu já


havia agendado uma entrevista com o professor Cinéas. Eram 8h
da manhã quando cheguei à sede da Fundação. Uns quinze
minutos depois ele chegou acompanhado por Erisvaldo Borges,
que na nova administração da FCMC atua como assessor especial
do órgão.

Mais alguns minutos e a recepcionista anuncia que eu


poderia adentrar à sala do presidente. Após um total de seis
reuniões junto com Marcelo Evelin e o Núcleo do Dirceu ele
afirmou que tudo o que havia ficado decidido entre a direção do
teatro e a FCMC era que todos os espetáculos haveriam de ser
submetidos à Secretaria de Comunicação da Prefeitura, antes da
preparação do folder que continha a programação bimestral.
“Saiu matéria ontem que iam começar as atividades no teatro. E
de repente uma carta de demissão. Eu não sei... Uma atitude
unilateral. Eu nunca impus ao Marcelo, nada!”, afirma o professor
Cinéas.

Enquanto isso, no teatro, as oficinas ministradas pelo Núcleo


continuavam durante o tempo em que aguardavam a decisão do
26
prefeito sobre a carta de Marcelo. No dia seguinte, após assistir
um espetáculo de break-dance, que estava sendo apresentado em
frente ao teatro, me dirigi à sala da Vânia para saber dos rumos
que seriam tomados, tanto em relação ao Núcleo do Dirceu
quanto ao próprio Centro de Criação, devido aos últimos
acontecimentos.

No final da tarde, o prefeito Sílvio Mendes já havia


respondido oficialmente à carta de demissão de Marcelo Evelin
durante uma entrevista à repórter Yala Sena do Portal de
Notícias cidadeverde.com, declarando apoio total ao professor
Cinéas Santos.

Alexandre Santos, da oficina de break, consternado pela


situação irremediável, comenta sobre a repercussão que teve a
carta de Marcelo postada no blog do Núcleo de Criação cinco
horas após ter sido protocolada na Prefeitura: “Tem muitas
pessoas que viram aquilo e não acreditaram. Hoje à tarde muitos
me falaram, tristes de perder uma pessoa tão importante pro
Grande Dirceu. Perder uma pessoa como ele por causa de uma
ditadura”, argumenta.

Por volta das 19:30h do mesmo dia, um telefonema da


Prefeitura convoca todos os oficineiros para a apresentação da
nova diretoria no dia seguinte. Durante a posse, que ocorreu
rapidamente, sem muitas cerimônias, antes mesmo que
27
apresentasse a equipe técnica do teatro ao novo diretor - Maneco
Nascimento -, o professor Cinéas recebeu a carta de demissão
coletiva do Núcleo do Dirceu. Os únicos oficineiros que
permaneceram foram Eduardo Prazeres - com a oficina infanto-
juvenil de Teatro Físico - e Bid Lima com a Alfabetização do
Corpo.

Antes de assumir a direção do Teatro João Paulo II, Maneco já


possuía uma vida profissional bastante diversificada. Além de
ator e radialista profissional, é professor de Língua Portuguesa e
estudante de Jornalismo. Já fez algumas incursões em direção de
shows musicais e peças teatrais. Também escreve para teatro e
no jornal impresso faz comentários sobre estréia de espetáculos.
Consciente de que o desafio à frente da direção da casa seria
muito mais que conseguir substitutos 6 para os oficineiros que
pediram demissão, no momento a tarefa mais urgente para
Maneco era localizar os grupos amadores da comunidade, e
encaixá-los na programação. “Nós já estamos fazendo esse
contato... Felizmente a administração anterior teve o cuidado,
teve um trabalho excelente de formação de público pra essa casa;
e a gente precisa preservar esse hábito que a comunidade já
criou de vir ao teatro do Dirceu...”, destaca Maneco.

6
Em relação às oficinas cujos instrutores pediram demissão as de Dança Contemporânea e Break
Dance conseguiram substitutos. Apenas a de karatê/ inglês voltada para o público infanto-juvenil
não continuou.
28
Quatro dias após a posse do novo diretor, o Núcleo de
Criação posta em seu blog um abaixo-assinado a favor da
continuidade do projeto de arte contemporânea, onde foram
colhidas 475 assinaturas. E Marcelo Evelin também publica em
seu blog uma “Carta Aberta à Dança Brasileira” dirigida aos
artistas que acompanhavam o seu trabalho realizado no Dirceu,
esclarecendo o porquê do fim do Centro de Criação e
conseqüente pedido de demissão dos integrantes do Núcleo; e ao
final, disponibiliza o email do prefeito e de sua assessora
Cristiane Ventura propondo aos interessados que se
manifestassem em apoio ao coletivo de artistas. Mas o prefeito
ratifica mais uma vez sua decisão:

Sr. Marcelo Evelin,


Tenho recebido e respondido várias correspondências
reclamando o seu afastamento do Teatro João Paulo II, atendendo
ao seu pedido de nos endereçar “repúdios” pela “Carta Aberta” que
acabo de ler. Como não foi esse o tratamento que lhe dispensei , até
por respeito aos seus pais, nem ao lhe confiar, através do Zé Reis, a
direção daquele teatro, muito importante para nós, tanto que o
construí, comunico-lhe que não mais responderei aos seus amigos
solidários.
Desejo-lhe e aos seus companheiros boa sorte. E obrigado pelo
que fez de bom naquele teatro que pertence à cidade de Teresina.
...
Sílvio Mendes
(Texto extraído do email pessoal de Marcelo Evelin)

29
Uma semana após a posse de Maneco o projeto Viva o Sábado
estreou com a apresentação de Carol Castro cantando um
repertório de samba variado. O público da comunidade que
compareceu foi de aproximadamente quinze pessoas.

Quase no final do show, o professor Cinéas, que esperava


uma platéia numerosa, fez uma avaliação denotando certo
descontentamento sobre a estréia do projeto: “Bom, não poderia
ter sido pior... Agora, eu não sei quais são as razões que levam as
pessoas a não prestigiarem um show dessa magnitude, mas o que
nós vamos fazer é tentar diagnosticar por que as pessoas
preferem talvez outro tipo de programação a essa. A
programação prossegue...”, desabafa.

Enquanto isso as poucas oficinas que ainda possuíam


instrutores continuavam funcionando. A turma do Teatro Físico
ensaiava uma adaptação da obra Sonho de uma noite de verão,
um clássico do dramaturgo inglês William Shakespeare, que no
Piauí se transformou em “Sonho de uma noite no sertão”. A idéia
de Eduardo Prazeres, instrutor da oficina, seria transpor a
história para o contexto local inserindo personagens do folclore
brasileiro.

“A gente vai ambientar a peça aqui. O texto se passa em


Atenas, na Grécia. A história é de um casamento de casais nobres,
que na verdade acaba envolvendo a história de mais dois
30
casamentos, que é um amigo desse nobre que quer casar sua filha
com um rapaz que ela não gosta e daí vai ter uma confusão. Eu fiz
com eles uma pesquisa sobre o folclore brasileiro pra que ao
invés dos personagens fantásticos europeus a gente use
personagens do nosso folclore. O Saci já é participação
garantida”, explica Eduardo.

Passado algum tempo, já era o mês de abril, véspera de


Semana Santa. É quando a cidade vai parando aos poucos,
principalmente nas instituições públicas, onde nessas datas o
ponto é facultativo, e nas redações dos jornais as pautas diárias
começam a ficar escassas.

Uma das alternativas para levantar fatos noticiáveis é ligar


para as Associações de Moradores e fazer matérias nos bairros.
No dia 8 de abril, depois de vários contatos com os líderes de
bairro, entrei em contato com Sheyvan Lima, presidente da
Associação de Moradores do Dirceu pedindo sugestões de
matéria: a primeira proposta era para falar de um lixão no
mercado do Dirceu II que há muito tempo incomoda os
moradores.

A segunda proposta poderia surgir de uma reunião entre a


comunidade e os grupos de artistas que havia sido marcada para
as 19 horas, na Associação de Moradores. Lá seriam discutidos os
novos rumos do Teatro João Paulo II. No mesmo dia entrei em
31
contato com Regina Veloso, integrante e assessora do Núcleo do
Dirceu. Enquanto o teatro João Paulo II estava praticamente
parado por conta da demissão coletiva dos oficineiros, o Núcleo
estava na segunda semana do Colaboratório.

Cristian Duarte, coreógrafo paulista, já estava aqui há uma


semana e devido às circunstâncias, planejava uma maratona
junto com o Núcleo. Seria uma alternativa para entrar em contato
mais direto com a população. O objetivo era levar visibilidade
para o novo pólo de pesquisa que abrigaria as atividades do
Núcleo do Dirceu, um galpão localizado na Zona Leste de
Teresina7.

À noite, ao chegar à Associação de Moradores me identifiquei


como a estudante de jornalismo que havia ligado pela manhã
pedindo as sugestões de pauta. Chovia ininterruptamente e
tivemos que esperar quase uma hora pelos grupos da
comunidade que haviam sido convocados por Remédios Silva.
Enquanto isso ela me mostrava uma das peças que já havia
apresentado no teatro João Paulo II: uma adaptação da peça
infantil Pluft, O Fantasminha, de Maria Clara Machado.

Por volta das 19:30h, apenas cinco pessoas compareceram:

7
A uruguaia Tamara Cubas, segunda orientadora do Colabora tório já estava em Teresin a na nova
sede do Núcleo quando foi surpreendida junto com mais 6 integrantes do NCD por assaltantes que
levaram notebooks contendo arquivos importantes do que vinha sendo discutido no Colaboratório

32
Nena e Evaldo - dois músicos da região do Grande Dirceu -, o
dançarino Bibi, dois componentes do Grupo Flagelo e Sheyvan
Lima. Dos quatro grupos que também deveriam estar presentes -
Renascer, Nazaré, Flor de Liz e um grupo de hip hop do Parque
Itararé - nenhum compareceu.
Devido à dificuldade de reunir os grupos, Remédios inicia a
reunião muito preocupada, porque já recebera várias ligações do
professor Cinéas pedindo a ela que os apresentasse com urgência
à direção do teatro; a ordem da Fundação Cultural Monsenhor
Chaves é priorizar os artistas da comunidade que haviam ficado
distante do teatro.

A razão da maioria destes grupos, formados em sua maior parte


por estudantes, não terem se adonado do teatro - outros até
mesmo desapareceram a exemplo do “Anjos Cênicos” - decorre
da falta de recursos para arcar com as despesas da pauta e dos
figurinos; geralmente quem financia os espetáculos é o seu
próprio presidente, a exemplo do Flagelo. “Aqui no teatro do
Dirceu é R$70,00 lá no Teatro 4 de Setembro é R$100,00
R$150,00 pra você conseguir uma pauta pra se apresentar, e as
vezes a gente nem pede dinheiro na portaria...’’, explica
Remédios.

Ao final da reunião, as próximas ações ficam combinadas


para o dia 21 de abril: um bate-papo na sala de espetáculos do

33
TMJPII envolvendo artistas, comunidade e direção do teatro, e
desta vez os grupos seriam novamente convocados a fim de
planejar a programação da casa; proposição de um Conselho
Consultivo onde os integrantes deverão propor idéias para a
reestruturação dos cursos e oficinas do teatro e um abraço
simbólico ao TMJPII nesse mesmo dia.

No feriado de Tiradentes chegou o grande dia para o debate.


Logo na entrada do teatro dois adolescentes distribuíam folhetos
de uma moção de apoio (em anexo no final do livro) do Grupo
Flagelo ao professor Cinéas.

Na reunião que começou no palco do teatro, grupos de dança


e de teatro, músicos, estudantes e representantes de escolas do
bairro formavam a platéia. O presidente da Fundação Cultural
Monsenhor Chaves iniciou o debate referindo-se ao tratamento
dado pela imprensa aos últimos acontecimentos: havia sentido
uma pressão na mídia antes mesmo que assumisse a direção da
Fundação Monsenhor Chaves. ”Uma jornalista escreveu que o
teatro do Dirceu deixava de ser ”universal” pra tornar-se um
teatro municipal. O teatro deixa de ter uma projeção
internacional para tornar-se um teatrinho municipal. O objetivo
tá claro aí, uma ironia!”, desabafa o professor Cinéas.

Pela primeira vez, para um público de aproximadamente 50


pessoas Acy Campelo, que participou da gestão da FCMC durante
34
a construção do teatro e atualmente é diretor da Escola de Teatro
de Teresina revelou que a casa que abrigava 5 grupos residentes
e 11 oficinas em apenas duas salas não corresponde ao projeto
arquitetônico inicial.

Durante a construção do teatro, assim como o professor José


Reis, Acir também presenciou os problemas estruturais
detectados pelo engenheiro cênico. “Foi criado um projeto pra
tomar todo esse espaço, se eu não me engano tinham mais de 8
salas pra aula teórica e aula prática. Aqui ia ser um teatro escola,
de acordo com o encarregado do projeto arquitetônico. É claro
que quando chegou na Eturb os técnicos deturparam tudo e
fizeram o que fizeram”, lembra Acir ao final de seu discurso.

Quando Carmen Carvalho - atriz do grupo Raízes de Teatro -


assume a palavra, a discussão passa para uma análise sobre as
possíveis causas da escassez de público durante os três anos d e
existência do teatro e sugestões de como estar incentivando as
pessoas a freqüentarem os espetáculos. Os fôlderes bimestrais
distribuídos na comunidade e os anúncios diários dos
espetáculos nas rádios locais não foram suficientes para atrair os
moradores.

Além de ter acompanhado toda a programação do Teatro


João Paulo II desde a inauguração, participando tanto no palco
como na platéia, Carmen relembra que presenciou várias vezes
35
em que a casa ficava praticamente vazia e outras ocasiões em que
ficava lotada a ponto de ter que impedir o público de entrar
porque não havia mais lugares.

Outro aspecto ressaltado por Carmen estava relacionado a


um termo colocado na moção de apoio ao novo presidente da
FCMC que terminou gerando um debate diferente do que estava
proposto para ser discutido: a expressão “resgate do teatro para
a comunidade” era uma crítica à priorização da arte
contemporânea no teatro durante a administração anterior , que
segundo Remédios teria sido responsável pelo afastamento dos
grupos locais em relação ao teatro. “Resgatando é uma palavra
muito feia e um desrespeito muito grande. O que nós temos como
artistas em vez de estarmos dizendo se produto tal é bom ou é ou
é ruim é que a gente divulgue às pessoas, à escola, na igreja,
participe e veja,”finaliza Carmen.

Retomando a discussão sobre o público, Walfrido Salmito,


coordenador do Festival de Teatro, Pipoca e Guaraná, promovido
pelo SESC sugere uma parceria com o teatro durante o mês de
outubro, o mês das crianças. Durante os três anos de existência
do TMJPII, o público infantil foi um dos que mais lotou o teatro e
o incentivo do Festival é que além do espetáculo a baixo custo - o
valor do ingresso custa R$2 - ainda é distribuído entre a platéia
refrigerantes e salgadinhos.

36
O projeto funciona em parceria com os grupos. O SESC paga
as pautas, e ao final do espetáculo o dinheiro que seria destinado
ao pagamento da pauta é destinado ao financiamento de
ingressos a serem distribuídos nas comunidades carentes. “Essa
maneira faz com o que o grupo não fique só esperando a platéia,
mas que ele vá de encontro à população, pra que possa
conscientizar a formação de platéia e também a ter seu trabalho
reconhecido,” sugere Walfrido.

No dia anterior ao bate-papo Remédios Silva havia


promovido uma reunião com representações de dezessete
escolas públicas da comunidade onde foi feito um levantamento
de todas as que já possuíam grupos de teatro, levando a idéia de
articular as atividades escolares de crianças e adolescentes com o
Teatro Municipal João Paulo II.

O bate-papo foi encerrado com uma apresentação do grupo


de hip-hop do bairro Deus Quer, “Os inocentes”. O abraço ao
teatro que estava previsto para o final não aconteceu porque não
havia pessoas suficientes que envolvessem o prédio, e nos
próximos dias haverá uma reunião que tratará da formação do
Conselho Consultivo, que havia sido proposto pelo Grupo Flagelo
de Teatro ainda durante a gestão do professor José Reis na
Fundação Cultural Monsenhor Chaves, que servirá para tratar da
política dentro do teatro. “Não sou eu que vou dizer que a

37
comunidade deva assistir ao espetáculo tal para subir o nível
cultural, não! Eu nem sei qual é o nível cultural do Dirceu!”,
finaliza o professor Cineás sob aplausos da platéia.

***

38
Trechos das principais entrevistas
Trecho da entrevista gravada com Sheyvan Lima na
Associação de Moradores sobre o histórico protocolado na
Prefeitura, redigido por Remédios Silva.

Gisele Cardoso: Eu ouvi falar, foi boato, que o Cinéas Santos


queria acabar com o Núcleo de Criação, inclusive porque ele
disse que nem ele mesmo entende essa arte...

Sheyvan Lima: Eu estou sabendo de boatos, também, que o


Cinéas Santos, quando assumiu, já chamou o Marcelo Evelin pra
conversar várias vezes, mas o Marcelo não está nem aí pra ele...

G.C.: Não quer conversar...?

S.L.: Não, não quer conversar com ele...

G.C.:Talvez justamente porque saiba que o Cinéas...

S.L.: O Marcelo caiu aí como um artista global, isso é uma coisa


perigosa... O global... E aí ele ignora a situação. Então, eu estou
torcendo pro Cinéas, pela pessoa que é, que ele tenha essa
sensibilidade...

G.C.: De tornar o teatro mais popular?

S.L.: Essa intenção, ela está em todas as atividades da Prefeitura,


só que são contraditórias ao comportamento do teatro,

39
entendeu? A gente pediu audiência ontem com ele, mas houve
um probleminha de agenda com o Cinéas. Não aconteceu.

G.C.: Uma audiência com o Marcelo?

S.L.: Não, com o Cinéas. A Remédios tem um histórico pra chamar


o Cinéas, já que o José Reis já estava lá encalejado, não atendia
mais nada. Nós vimos na posse do Cinéas essa possibilidade. O
que nós queremos é que a Fundação chame pra discussão, pra
gente discutir o que tá errado, o que não deu certo, e o que está
dando.

G.C.: Nessa audiência, quem vai estar envolvido?

S.L.: Quem convocou foi a Remédios, do grupo Flagelo de teatro.


Chamou as entidades e veio chamar a Associação. Mas, não
houve, por problemas da agenda do Cinéas... Eu acho que vai ser
remarcada...

G.C: Sim....

S.C.: E também, o Marcelo iniciou com as discussões, só que


nossas idéias não tinham penetração nenhuma. Isso também
causou o afastamento, né? Ele, na verdade não chamava pro
debate, chamava pra comunicar atitudes. Então acabou esse
grupo também se achando fora literalmente do teatro.

40
Trecho da entrevista com Marcelo Evelin sobre a
experiência de trabalhar arte contemporânea no Dirceu, no
dia em que a programação teatro volta ao normal após a
paralisação.

Gisele Cardoso: Então me diz: arte contemporânea é discutir os


assuntos que estão aí em pauta, só que de uma maneira
diferente?

Marcelo Evelin: Em pauta não! É gerar o assunto! Qual é a sua


colocação? De que maneira você quer falar do que, entende?

G.C.: Fala, por exemplo, da violência não é? Só que de uma


maneira diferente que provoque reflexão...

M.E.: Uma maneira que realmente provoque reflexão. É tentar


traduzir de uma outra maneira questões... Seja violência, seja a
discriminação contra a mulher, contra o negro, contra o gay...
Então, isso é arte contemporânea. É uma arte que discute, que
propõe possibilidades. Eu acho que isso a gente já ta conseguindo
no Brasil, eu digo no Brasil inteiro, eu acho que a gente já é
considerado um país do futuro...

G.C.: Eu vi, acho que foi no blog, que 90% dos artistas são daqui
do Dirceu...

M.E.: Sim. E do público também! Infelizmente! Mas depois de um


ano eu comecei a adorar! Eu, por mim só vem gente do bairro...
41
Pra isso nós criamos o espetáculo que se chama Paisagens do
Corpo, que é um projeto de intervenção no bairro pra tentar
fazer com que as pessoas de alguma maneira liguem as ações que
estão sendo feitas com teatro e comecem a vir...

G.C.: Quem é mais que vem pra cá pro teatro? Que tipo de classe
social vem mais ao teatro?

M.E: O pessoal da comunidade.

G.C.: Porque que tu acha que as pessoas de fora não vêm?

M.C.: Na classe social mais alta de Teresina, eu já conversei com


várias pessoas. Eles falam que acham longe. E é uma coisa que a
gente tem feito campanha, inclusive a gente já desenhou mapa,
colocamos referência dizendo que é perto, dizendo você pode ir
de carro, de bicicleta, de ônibus, de qualquer jeito, a pé... O Dirceu
é bem aí, e tal... Eles não vêm com medo dos carros deles serem
arranhados... Eu tô te dizendo o que eu já ouvi... Eles têm medo
de serem assaltados, de serem roubados, mortos esfaqueados,
porque existe um estigma de que o Dirceu é um bairro vio lento.
Você sabe disso, na cidade existe um estigma...

G.C.: Vêm pessoas de outros países, inclusive da Holanda


também, de outros estados... Com relação a outros países o que
permanece da cultura do Piauí?

42
M.E.: Da cultura do Piauí permanece o Piauí. Eu não sei o que é
que significa “a cultura do Piauí”, entende?

G.C.: Não, eu tô me referindo...

M.E.: Ao cabeça de cuia?

G.C.: Ao bumba-meu-boi, ao cabeça de cuia...

M.E.: O bumba-meu-boi é o que vai abrir esse festival alemão. Eu


fiz um trabalho que se chama Bull Dancing. Porque que é em
inglês? Bull dancing significaria Bumba meu Boi. Se eu chamar
Bumba meu Boi, no português as pessoas vão esperar o povo
exótico do Brasil. Que muitos europeus acham que nós não
pensamos, que nós só somos um povo que faz sexo bem e que
rebola a bunda muito bem, e que fica nu no Carnaval. São muitos
estigmas que tem do nosso Brasil. Essa imagem já está sendo
modificada. Essa imagem... As pessoas começaram a dizer que
nós somos o país do futuro. E a Europa tem acompanhado isso...

G.C.: Como foi a sua ida pra Holanda? Você foi patrocinado por
alguém?

M.E.: Não, eu não fui patrocinado por ninguém. Como eu tinha


crescido no Rio voltei para estudar lá, e aí comecei a fazer teatro -
dança, e nessa época meu pai me ajudou um pouco, os meus tios
me ajudaram, e eu pude trabalhar... Depois ganhei um premio em
São Paulo, Mambembe, do governador do Estado pela primeira
43
coreografia que eu fiz em 85. E aí eu tive dinheiro pra comprar
uma passagem... Eu já tinha idéia de morar fora pelo menos por
um ano ou dois, mas fiquei 23. E ainda trabalho, dou aula na
Universidade de Amsterdã, trabalho em vários lugares na
Europa, e foi essa minha formação... Foi assim... Fui na época que
a gente não tinha internet pra gente conseguir falar com as
pessoas, entende? Eu ficava até três semanas sem conseguir falar
com meus pais porque era muito caro o telefone...

G.C.: Não é só aqui no Piauí, mas no Brasil inteiro vocês lidam


com a falta de público pra arte contemporânea. A que você
atribui essa falta de público pra arte contemporânea?

M.E: Ao desconhecimento, ainda. Agora eu acho que o problema


de público não é só na arte contemporânea, é em qualquer arte.
Porque hoje em dia as pessoas têm internet, tem 50 novelas pra
ver... Então assim, o espetáculo, a idéia de espetáculo, ela tem
sido ameaçada pelo próprio desenvolvimento do mundo... Agora,
por exemplo, sushi, já comeu sushi?

G.C.: Nunca.

M.E.: Nunca? Mas tu sabe que agora tá na moda aqui o sushi, que
o povo considera chique?

G.C: Eu fiz uma matéria um dia desses que tava ficando bastante
barato, bastante acessível...

44
M.E: Pronto! Todo mundo ta comendo sushi agora! Há cinco
anos atrás, Gisele, o povo olhava na minha cara e dizia: Como é
que tu come isso? E hoje em dia é a coisa mais chique. É a mesma
coisa com o público, entende? Eu acho que é uma questão da
gente estar devagarinho, abrindo esse espaço... Eu acho que arte
contemporânea é uma coisa que não pode se impor não.

G.C.: O público geralmente não gosta da arte contemporânea...


Será que o problema está nas pessoas que não entendem arte
contemporânea, ou isso é genuíno?

M.E.: Eu acho que você está exagerando um pouco ao dizer que o


público não gosta da arte contemporânea. É a mesma coisa de eu
dizer que o público aqui só gosta do Calcinha Preta... Você gosta
do Calcinha Preta?

G.C.: Não.

M.E.: Nem eu. Eu tenho horror...

Regina Veloso: E o Instantâneo é uma prova disso.

M.E.: Instantâneo é projeto que nós temos as quarta feiras que dá


muita gente...

G.C.: Eu sei. É um projeto de improvisação.

M.E.: É. Tem um público bem cativo, eles participam... É... eu


também não gosto do Calcinha Preta. Eu acho que nem todo

45
mundo gosta do gosta do Calcinha Preta assim como você não
pode dizer que o público não gosta da arte contemporânea,
entende? Como era a tua pergunta mesmo? Porque que o público
não gosta, é isso? Há se o problema é com o público ou é com o
artista!

G.C.: É. Porque exige um esforço do público pra poder entender...

Marcelo: Pois é... Pois exatamente tu pegou num ponto... Este


esforço, eu sou apaixonado por esse esforço, porque esse esforço
mexe com o pensamento. Eu sou apaixonado quando a pessoa sai
sem entender, porque ela... Isso é emancipação do ser humano!
Isso quer dizer que o ser humano pensou! Porque a arte é uma
coisa do sensível da pessoa. Ela organiza a maneira da pessoa
viver no mundo, da pessoa dialogar com o mundo, dela entender
o outro no mundo. Isso é a parte mais importante do todo! Isso é
de uma potencia enorme!

G.C.: Então você acha que depende do tempo pra que as pessoas
passem a freqüentar o teatro?

M.E.: Eu acho que é uma questão de tempo, mas eu acho que


também é um trabalho que nós todos, artistas, gestores, diretores
de teatro, temos que cada vez mais trabalhar pra conseguir fazer
isso... Eu não sei exatamente o que a Layane tá fazendo agora,
mas eu acho que a Layane tá, é...

46
Layane Holanda: Fazendo o blog .

M.E.: Tá fazendo o blog. Tá tentando colocar uma informação de


que a gente voltou, de que a gente tá aberto, de que quarta-feira
tem o Instantâneo, que a gente vai fazer um heavy metal no
quintal. Então é isso que a gente tá fazendo.

G.C: Novos grupos?

M.E.: A gente tá aberto pra todo mundo!

G.C: Certo.

M.E: Todo mundo! Independente do nível do que é o espetáculo.


Com exceção de igreja e de partido político..

G.C: Eu vi uma matéria...

M.E: Qual matéria?

G.C.: Uma matéria que saiu no Portal Acesse Piauí, na Coluna do


Dirceu, tem uma coluna assinada pelo Humberto Coelho falando
que não podiam ser feitas apresentações religiosas...

M.E: Por quê? Porque religião induz a pessoa a um determinado


ponto. A arte contemporânea, ela não impõe nada a ninguém, ela
não induz. A igreja católica diz pra você assim: Que maravilha
que a D. Maria morreu porque ela está sentada agora ao lado do
Pai. O que a ciência consegue provar hoje é que o corpo da D.
Maria, o sistema imunológico da D. Maria parou. E que ela

47
acabou! Não adianta dizer que vai pro Inferno que também não
tem inferno.

G.C.: Então você não acredita nem em Céu nem em Inferno?

M.E.: Nem em Deus, nem em religião, nem em nada... Agora isso é


uma questão pessoal... Eu não posso abrir a percepção da pessoa
e trazer uma pessoa aqui dentro pra dizer que essas pessoas vão
pro céu... Ou se elas fizerem “não sei o que” elas estão fazendo
parte do demônio. Eles enganam! A arte não engana ninguém! A
arte propõe!

G.C.: Há esse choque das pessoas verem uma pessoa nua dentro
do teatro. As pessoas estão acostumadas a ver aquelas peças... E
se chocam com um homem nu e uma mulher nua dentro do
teatro. Com é que tu vê esse choque?

_M.E.: As pessoas estão acostumadas também Gisele, a passarem


fome aqui no Dirceu, as pessoas estão acostumadas a ter que
entrar na fila do SUS pra conseguir uma consulta, as pessoas
estão acostumadas a serem tratadas mal, serem humilhadas... Tu
acha que isso pode continuar?

G.C.: Não pode...

M.E.: Não pode? E porque é que tem que continuar com o mesmo
teatro? Como é que eu posso separar a condição das pessoas da

48
condição do teatro, se o teatro é sobre a construção humana? Se
eu não mudar o teatro porque eu vou mudar as pessoas?

Trecho da entrevista com o presidente da Fundação Cultural


Monsenhor Chaves, Cinéas Santos, um dia antes da demissão
de Marcelo Evelin:

Gisele Cardoso: A Fundação Cultural implantou mais dois


programas, não é isso?

Cinéas Santos: Segundo as informações que eu tive dois espaços


estavam vagos. A noite de sábado e a manhã de domingo. Nos
dias de sábado com shows com artistas populares de Teresina.
De graça para a população. Você pergunta por que de graça?
Porque a prefeitura já está pagando pra aquela coisa existir . E no
domingo de manhã, Domingo de Graça, com a programação
específica para as crianças do Dirceu.

G.C.: Mas não já havia o Musicálogo voltado para as crianças?

C.S.: Não. Eu não estou dizendo que não tivesse não. Eu tô


dizendo que vamos fazer um novo...

G.C.: Não, porque você disse estava aberta.

C.S.: Foi a informação que eu tive. Como é que ia saber dessa vaga
lá? Eu não conheço a programação do Dirceu, eu não sei. Pelo
folder que ele me manda? Não, não. Eu não sabia disso não...

49
G.C.: Então quem implantou esses programas foi...

C.S.: Não. Quem implantou esses programas fui eu. Nós. A partir
do momento que eu soube que esses espaços tava vagos...

G.C.: Mas o folder vai continuar sendo produzido naquele mesmo


modelo?

C.S.: Naquele modelo não! O folder vai ser escrito numa


linguagem que... Você mora no Dirceu?

G.C: Moro.

C.S.: Aquele teatro é popular? Só uma pergunta, aquele teatro do


Dirceu, o povo vai lá?

G.C.: Vai.

C.S.: Que povo vai lá?

G.C.: O pessoal que mora lá perto.

C.S.: Lá perto né? Pois eu fui e até agora nunca vi ninguém lá. Eu
nunca fui a um espetáculo naquela casa que tivesse trinta
pessoas! Então as vezes que eu fui lá não havia público, não me
pergunte por que, eu não sou do Dirceu, eu conheço pouco a
realidade do Dirceu. Agora o que eu vou fazer é colocar uma
direção e chamar o público.

G.C.: Será que não é o hábito que as pessoas não tem de ir ao


teatro?
50
C.S.: Eu não sei minha filha! Nós ainda vamos saber! Eu não tô
dizendo que o espetáculo era ruim. Eu não tenho competência
pra isso. O Marcelo é uma estrela internacional, eu sou um
animal da província! Eu sou um provinciano! Eu tenho que
trabalhar em função dessas pessoas. Eu não posso estar com os
pés em Teresina e a cabeça em Marte! Meu mundo é esse aqui!
Então é simples de entender!

G.C.: Eu vou só checar se tá gravando, ok? Tudo bem!

C.S.: Então, o quê que nós vamos fazer? Primeiro: abrir o teatro
aos grupos do Dirceu. Todos os grupos do Dirceu que quiserem
participar de espetáculos lá basta marcar a pauta!

G.C.: Não já era aberta?

C.S.: Não sei. Eu não tô dizendo que não era. Quem é de lá é você!
Eu tô dizendo como é que vai ser! Entenda bem! Como é que vai
ser! Os grupos serão convidados! Eu recebi comunicado de
grupos do Dirceu que eles estavam insatisfeitos...

G.C.: Com a saída do Marcelo, caso eles saia mesmo do teatro, não
corre risco de ficar igual ao que já tem por aqui?

C.S.: Você mora onde?

G.C.: No Dirceu.

51
C.S.: Você mora no Dirceu ou na Holanda? A minha pergunta é: eu
tenho algum compromisso com a Holanda, com o Japão, com a
China, com a Índia, se eu conseguir servir bem a minha aldeia?
Se não tem repercussão nenhuma, se o mundo nunca mais vai
ouvir falar do Dirceu, não tem problema nenhum! A relação do
Dirceu é com Teresina não é com a Holanda não!

G.C.: Mas não é que seja uma imposição. É que precisa haver um
diálogo entre a arte daqui e a arte da Holanda, por exemplo.

C.S.: E quem é que impede! É só a Holanda querer! Se a Holanda


quiser dialogar conosco...

G.C.: E não há esse diálogo?

C.S.: Eu não preciso ir a Holanda, se a Holanda quiser conversar


comigo! Deixa eu lhe contar a história do Patativa do Assaré, você
sabe quem é esse cara?

G.C.: Sei.

C.S.: A mulher do presidente Fernando Henrique, dona Ruth


Cardoso, queria conhecer o Patativa do Assaré! Como em Assaré
não existe aeroporto, ela ficou numa cidade distante uns 60
quilômetros e mandou o motorista dela ir buscar o Patativa do
Assaré. Chegou lá disse o Patativa disse “Quem é que quer falar
comigo?, “A D. Ruth”, “Quem é Ruth?”“, “Mulher do presidente,
“Ela quer o que? “Quer conhecer o senhor”, “Quer me conhecer?
52
Diga a ela que venha aqui”. Se alguém tiver interesse no Dirceu,
que venha no Dirceu!

***

53
Referências
BELO, Eduardo. Livro reportagem, São Paulo, Contexto, 2006

DUARTE, Jorge. Entrevista em profundidade. In: DUARTE, Jorge e


BARROS, Antonio (org.). Métodos e técnicas de pesquisa em
comunicação. São Paulo, Atlas, 2008

HALL, Stuart. Quem precisa de identidade?. In: SILVA, Tomaz


Tadeu da(org.), HALL, Stuart e WOODWORD, Hathryn.
Identidade e diferença: A perspectiva dos Estudos Culturais,
Petrópolis, 2000

LIMA, Edvaldo Pereira, Páginas Ampliadas: o livro-reportagem


como extensão do jornalismo e da literatura, Barueri, Manole,
2004

STEINBERG, Leo. A arte contemporânea e a situação do seu


público. In: BATTCOCK, Gregory. A nova arte. Trad. Cecília Prada
e Vera de Campos Toledo, São Paulo, Perspectiva, 2008

WEB-SITES

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http://www.vidasimples.abril.com.br/edicoes/057/equilibrio/c
onteudo_257334.shtml – Acesso em: 15/ 12/ 08

FARRA, Danilo Dal, RIOS, Lívia. Reflexões sobre o teatro físico.


Disponível em:
54
http://www.opalco.com.br/foco.cfm?persona=materias&control
e=176 - 33k – Acesso em: 15/ 12/ 08

LIMA, Raquel Souza. O conceito de cultura em Raymond Williams


e Edward P. Thompson: breve apresentação das idéias de
materialismo cultural e experiência Disponível em:
http://www.historia.uff.br/cantareira/edic_passadas/V8/artigo
02.htm - 107k. Acesso em 22/ 12/ 08

VILARINHO, Marco. Marcelo Evelin: “Temos uma auto-estima


muito baixa” Disponível em
http://www.tmjp2.blogspot.com/2008/12/marcelo-evelin-em-
entrevista-no-jornal.html - 171k - Acesso em 15/ 12/ 08

MARANHÃO, Natacha, Entendendo a arte como conhecimento


[entrevista com Sônia Sobral]. Disponível em: http://www.
tmjp2.blogspot.com/2008_02_01_archive.html - 288k -. Acesso
em 17/01/09

MARANHÃO, Natacha, Artistas falam sobre o projeto Mapas do


Corpo para a jornalista Programação do Teatro João Paulo II.
Disponível em: http://www.fcmc.pi.gov.br/base.asp?ID=2427 -
14k – Acesso em 15/1/2009.

O Teatro-Dança. Disponível em:


http://www.descubracuritiba.com.br/?s=teatro&ss=peca&id=39
3 - 105k – Acesso em 16/ 12/ 08

55
Entendendo a arte como conhecimento [entrevista com Sônia
Sobral]. Disponível em:
http://www.tmjp2.blogspot.com/2008_02_01_archive.html -
288k – Acesso em 22/ 12/ 08

Programação do Teatro João Paulo II. Disponível em:


http://www.fcmc.pi.gov.br/base.asp?ID=2427 - 14k – Acesso em
15/1/2009

ROCHA, Débora, Estrangeiro do Piauí. Disponível


em:http://idanca.net/lang/pt-br/2009/01/08/estrangeiro-do-
piaui/9642/

SANTOS, Cinéas, Muita Fumaça. Disponível em


http://www.sistemaodia.com/blogs/muita-fumaca-5842.html

TITO, Willian, Presidente da FCMC manda parar programação do


Teatro do Dirceu. Disponível em:
http://www.sistemaodia.com/noticias/presidente-da-fcmc-
manda-parar-programacao-do-teatro-do-dirceu-10160.html

56
Anexos
 PROPOSTA DO ORÇAMENTO POPULAR DE TERESINA PARA O TEATRO MUNICIPAL JOÃO
PAULO II

57
 COMPÊNDIO ELABORADO POR REMÉDIOS SILVA PROTOCOLADO NA PREFEITURA NO DIA 03
DE MARÇO DE 2009

58
59
60
 ABAIXO-ASSINADO ELABORADO PELOS GRUPOS ARTÍSTICOS DA CIDADE SOLICITANDO QUE O
NOME DO TEATRO HOMENAGEASSE O ATOR RAIMUNDO DIAS.

61
 MOÇÃ O DE A POI O AO PR OFESSOR CI NÉA S, ELAB ORA DO POR REMÉDI OS SILVA ,
DI STR UIB UÍDO NA ENTR A DA DO T EAT RO NO DIA DO BAT E- PA PO ENV OLV ENDO
DIR EÇÃ O, ARTI STA S E COMUNIDADE .

MOÇÃO DE APOIO AO PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO


CULTURAL MONSENHOR CHAVES
FCMC
O Grupo de Teatro FLAGELO do Itararé, entidade
que trabalha a 25 anos na comunidade no
desenvolvimento de Teatro, Dança e Associação de
Moradores do Itararé – AMI, vem ao público manifestar
seu irrestrito APOIO à posição corajosa do atual
presidente da Fundação Cultural Monsenhor Chaves –
PMT, por sua determinação e sensibilidade em resgatar
o Teatro Escola do Itararé, para uma maior valorização
da arte e cultura do povo do grande Itararé.
Neste sentido os artistas e as entidades dos
movimentos sociais esperam que agora o teatro seja de
fato um espaço voltado aos interesses da comunidade,
diante da abertura da democratização entre o poder
público, artistas e entidades.
Assim a Associação de Moradores e os grupos de
artes esperam que seja criado um Conselho no Espaço
do Teatro com a participação do teatro com a
participação da comunidade, com o intuito de atender
os anseios do povo do Itararé, como uma proposta
concreta para o atendimento as reivindicações da
comunidade, numa administração voltadas para a
construção coletiva de políticas públicas sociais e
culturais.

62