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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES


DEPARTAMENTO DE ARTES PLÁSTICAS

Análise do texto ARTE DO SÉCULO XX, de Giulio Carlo Argan

Trabalho final de Evolução das Artes Visuais III - Primeiro semestre de 2016
Docente: Sonia Salzstein Goldberg
Aluno: Bruno Ferreira (6009719)

O texto de Giulio Carlo Argan se propõe a analisar o arco histórico que vai de 1880 a
1940 através das transformações nas artes, entendida como um campo da cultura
que também abrange a arquitetura, o urbanismo, o teatro, a fotografia, o cinema e
as artes aplicadas (como o desenho gráfico e o desenho de objetos). O autor em
sua análise parte do princípio que a arte depende intrinsecamente dos eventos
significativos da história de um dado momento, mas ela, a arte, é também o meio de
conhecer e compreender a fundo os significados de um dado momento histórico.

No final do século 19, podemos listar uma série de mudanças que transformaram o
status da sociedade vigente na Europa. Segundo Argan, talvez a principal força
transformadora seja o impacto causado nas esferas políticas, econômicas e sociais,
pelo desenvolvimento do capitalismo industrial O que disparou uma série de
mudanças no modo de se fazer politica, na cultura e nos costumes na Europa. Pois
por volta desse momento, alteram-se o regime de trabalho, o modo de produção de
bens e produtos e o consumo dentro da sociedade.

Na prática o capitalismo industrial suscitará conflitos iniciados na Europa, como a


Comuna de Paris - resultado da luta da classe operária contra a dominação política
da burguesia; entretanto esses conflitos não se restringiram a Europa ocidental,
estendendo-se da Rússia (Revolução de 1917) a outros países em industrialização
ao redor do mundo.

O período analisado por Argan envolve ainda transformações profundas na


organização das cidades, no urbanismo e na arquitetura. O êxodo rural, estimulado
pela demanda de mão de obra, ocasiona a formação que um proletariado que não
se integra propriamente à vida urbana. Com o objetivo de resolver tais mazelas
surgidas do crescimento urbano, nessa época são levadas a cabo, por exemplo, as
reformas de Paris, capitaneadas pelo Barão de Hausmann. Essas transformações
são o fulcro de um novo meio de funcionamento das cidades europeias: em que o
automóvel é adotado como meio de transporte urbano, a cidade se expande
excessivamente e passa a ter múltiplos centros (comerciais e industriais)
espalhados por seu território. Além disso, surge a especulação imobiliária e os altos
preços fazem com que grandes massas de pessoas se transfiram de um lugar para
a periferia da malha urbana.
No campo do pensamento crítico, analisa-se a sociedade (mais precisamente o
proletariado) que passa por uma série de questionamentos próprios às novas
demandas do capitalismo. Fazem parte desse vocabulário, a denúncia da tradição
idealista, a recusa da metafísica e um profundo mergulho na percepção da
modernidade como crise. Tendo abdicado da tendência a formar grandes sistemas
unitários, o pensamento filosófico europeu deu espaço a análises interessadas na
condição psíquica do indivíduo e nos dramas existenciais do homem moderno.
Como objeto de análise, temos o estranhamento e alienação presentes no cerne
desse novo sistema de produção e consumo em massa. Caberá ao pensamento
crítico da época assimilar a perda da autenticidade e da identidade individual do
sujeito.

É no mínimo inquietante notar como o autor limita-se a um enfoque essencialmente


europeu do modernismo, tomando daí todos seus exemplos e ignorando a possível
relevância que o fenômeno teve em países periféricos, cujas manifestações
culturais, a despeito de suas singularidades, foram incansavelmente objeto de
colonização cultural eurocêntrica. Para Argan, no período histórico analisado, era
consenso a aspiração por ser absolutamente moderno e, consequentemente,
absolutamente europeu.

Segundo a análise do autor, a arte do período tendia a desvencilhar-se de seu


passado conservador e buscava mostrar o que teria de mais atual, moderno e
transformador. Essa “vontade moderna” impulsiona a um regime de alternância de
tendências artísticas diversas, as vanguardas - sendo este um período fértil para o
debate do fazer artístico, com o surgimento de grupos organizados e focados em
dois polos culturais dialéticos da Europa: França e Europa Central. Tal negação do
passado conservador também ocorre na crítica, que toma um posicionamento a
favor da radicalidade dos modernos, não se bastando a um comentário jornalístico,
mas posicionando-se também de maneira inventiva. Esse é o momento de tomada
de uma posição de crítica também do artista em relação à sua condição, e,
consequentemente, o momento de em que surgem as primeiras vanguardas
modernas.

Assim como a revolução industrial trouxe novas acepções ao pensamento do artista


como um sujeito crítico, outros artistas buscaram se renovar e trazer novas
percepções para o sujeito moderno, inserido no novo paradigma cultural-urbano,
através de uma nova estética aplicada. Uma das tendências que almejavam a
renovação social é a junção total das artes, ou seja, fundir a arte à produção
industrial. Essa aspiração, que se chamou de Gesamtkunstwerk (Obra de arte total,
em alemão), foi central para o desenvolvimento das artes decorativas na Europa.

Um dos estilos procedentes desse laço entre arte e o meio industrial, o Art Nouveau,
reivindicou, através de suas peças, seu caráter poético, desenvolvendo o que se
denominou como a estetização da vida. O que trouxe, em seu bojo, a necessidade
de estimular artisticamente o consumo. É o momento em que se desenvolve a
publicidade como mais um gênero artístico.

Essa vontade de embelezamento da vida, através de objetos acessíveis ao mercado


(um mercado refinado e especializado, mas ainda assim, burguês), pode ser vista
como uma forma de compensar o embotamento causado pelo regime industrial,
podendo ser analisado como uma resposta do próprio capitalismo aos problemas
criados por ele mesmo (sobrecarga do trabalho, baixa qualidade de vida e
necessidade de crescimento de consumo). Na esteira dos efeitos que a arte
projetava sobre a vida, é preciso pensar também no viés socialdemocrata de
projetos como a Bauhaus e o De Stijl, que buscaram desenvolver fórmulas simples
de levar o pensamento artístico e caráter funcional do design à grande população.

Em linhas gerais, surge um mercado muito variável para as artes. A sociedade,


interessada pela arte como nunca antes, fomenta o surgimento de entidades
públicas para a organização de exposições (como por exemplo a Bienal de Veneza).
Esse impulso à arte do tempo presente, essencialmente moderna, é proporcional ao
desinteresse pelas antigas estruturas públicas (os Salões e Academias). Argan
evidencia ainda uma transformação crítica no próprio ofício do artista, cuja posição
passara do nível de um profissionalismo, integrado ao sistema, ao de atividades
intelectuais marginais, críticas e polêmicas em relação ao status quo. E é
interessante notar como o autor reitera que até essa crítica, efetuada pela arte, do
establishment burguês fora absorvida como produto, consumido em forma de arte
por uma burguesia avançada, convencida da necessidade de que seu progresso
implicava em ser qualificada como moderna e capaz de avaliar criticamente seu
próprio status quo.

O radicalismo crítico, em uma busca quase vertiginosa por estar a par de seu tempo,
incita a absorção de ideias científicas na arte, com no impressionismo de Seurat e
Signac, muito influenciados pela física óptica. Passando pelo drama interior do
homem que povoará a obra de Van Gogh, Munch e Gauguin. Chega-se então ao
final da primeira década do século XX e ao cubismo analítico de Picasso e Braque, e
na arte não-figurativa do Blaue Reiter.

Já em 1906-07, Picasso confere ao cubismo um novo significado, no quadro Les


demoiselles d’Avignon o artista introduz o fragmento como parte constitutiva da
imagem. O que, segundo leitura de Apollinaire, confere à obra valores que
ultrapassam sua dimensão visual, e reposicionam o próprio valor histórico e europeu
de uma obra de arte, aproximando-se, por meio de uma montagem livremente
associativa, de documentos figurativos de outras sociedades ou de outros tempos.
Para Argan outra a grande novidade artística do cubismo é a colagem, combinando
sobre o quadro objetos oriundos do mundo real, o que seria capaz de igualar a
pintura às coisas que existem ao seu redor.

Com o fim da I Guerra Mundial, vemos o surgimento de uma vertente abstrata que
nega relações com a realidade direta, e preconiza uma fuga pra um universo interno,
um escape dos duros fardos causados pela guerra. É um pensamento semelhante
que rege também o Surrealismo, com sua valorização do inconsciente e da
psicanálise. Próximo dessa negação podemos situar o Dadaísmo, tomando uma
posição mais drástica de recusa à toda a sociedade e à própria arte.

É importante notar que a negação da realidade não necessariamente derivava de


alienação política ou conservadorismo, mas sim de sentimentos de revolta e
insatisfação. Em um lado oposto à essas vertentes, surgida na mesma época, está a
análise construtivista, que busca entender o conflito que acabara de passar (e
consequentemente, evitar seu retorno) e assim reconstruir uma Europa livre de
contradições.

São presentes nesse momento ainda artistas engajados politicamente - como é o


caso da Nova Objetividade Alemã - e artistas que não necessariamente se
envolviam com essas questões antes da guerra, mas que não veem outra escolha a
não ser um pensamento político das artes. É o caso de Picasso, Kokoscka e
Beckamnn, por exemplo. Captando o pensamento de sua época, os artistas
modernos não poupam críticas ao establishment, e pressentem uma nova crise, que
seria vista nos anos seguintes com o surgimento de nações totalitárias e na
Segunda Guerra Mundial.

A arte moderna foi considerada potencialmente subversiva pelos regimes


autoritários surgidos no entre guerras. Com exceção do Futurismo italiano, que
propagava uma orientação ligeiramente higienista, os demais movimentos artísticos
na antiga URSS e na Alemanha Nazista que, eventualmente, questionavam o
totalitarismo ou enalteciam o sentimento de liberdade, eram sumariamente
censurados.

Ainda na esteira do avanço técnico e científico, o advento da imagem produzida


foto-mecanicamente vem provocar mudanças cruciais na experiências de tempo e
espaço. Reconfigurando a imagem do mundo tanto para o artista quanto para a
sociedade, devido ao alto potencial de circulação que as técnicas reprográficas
passaram a ter nesse período, colocando em xeque mesmo as ideias de
exclusividade das artes plásticas como meio de produção de imagens no mundo.

A abordagem de Argan sobre a fotografia é muito crítica, e o autor se recusa a tratar


o surgimento de manifestações abstratas como consequências da fotografia. A
fotografia, que evoluíra rapidamente para o movimento do cinematógrafo, contribuía
para reduzir ainda mais o campo da narrativa, mas ao mesmo tempo inferia
profundas mudanças na concepção do espaço, agora descontínuo, e do tempo,
fragmentário. Sua difusão permitiu, ao fim, que a sociedade em massa pudesse
produzir e acessar imagens tanto da vida cotidiana, bem como imagens de cunho
surrealista.

Argan termina o texto com a explosão da II Guerra Mundial e com a obra Guernica
de Picasso. Para Argan, representativos “mesmo que por contradição dialética” do
esgotamento de um sistema de valores (culturais, sociais, políticos e geográficos).
Há aí, inclusive, o surgimento de um problema até então ausente do universo das
artes: a inquietante pergunta que colocava em dúvida o fazer artístico, e o período
de trevas que a guerra trazia consigo. Tempo em que se reafirma a dimensão
trágica da história da arte moderna: entre o mito da origem, do eterno recomeço, e a
ideia de superação contínua, que resultaria, por fim, no esgotamento, e na ideia de
morte da arte.

Bibliografia

ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna de Hogarth a Picasso. São Paulo: Companhia
das Letras, 2010, p. 438-494.