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Gregório Palamas - Confissão de Fé

Creio em um Único Deus que existe antes de todas as coisas, acima de todas as coisas,
presente em todas as coisas e transcendente em relação a tudo, que é confessado e
adorado no Pai, no Filho e no Espírito Santo: Mônada na Trindade e Trindade na
Mônada, unidas sem confusão e distintas sem separação: a mesma é Mônada e
Trindade Todo-poderosa. O Pai é sem princípio ou origem, não apenas porque ele está
fora do tempo, mas também por ser absolutamente sem causa; somente ele é causa,
raiz e fonte da Divindade considerada no Filho e no Espírito Santo; somente ele é causa
primordial das coisas criadas; ele não é apenas Criador, mas é o único Pai do Filho
Único e somente ele projetou o Único Espírito Santo, sendo seu único Projetor; ele
existe eternnamene e eternamente Pai, eternamente Único Pai e Projetor; maior do que
o Filho e o Espírito, mas apenas enquanto causa; para todas as demais coisas, idêntico a
eles e junto com eles honrado.

Desse Pai, o Filho é único, sem começo, na medida em que ele está fora do tempo, mas
não na medida em que ele tem o Pai como princípio, raiz e fonte: apenas do Pai, antes
de todos os séculos, incorporeamente, sem fluxo, sem paixão, ele saiu por
engendramento, mas sem se separar Dele, como Deus saído de Deus; ele não é uma
coisa enquanto Deus e outra coisa como Filho; ele existe eternamente, e eternamente
Filho e Filho Único; eternamente perante Deus sem confusão, ele não é causa nem
princípio da Divindade contemplada na Trindade, por que ele existe a partir do Pai,
como de sua causa e seu princípio; mas ele é causa e princípio de todas as coisas
criadas, pois por ele tudo foi feito. Ele, que existe em forma de Deus, não viu como uma
usurpação o fato de ser igual a Deus; mas quando chegou a plenitude dos tempos ele
esvaziou-se de si, tomando forma a partir da Sempre Virgem Maria, e, pela
benevolência do Pai e a cooperação do Espírito Santo, foi carregado e gerado segundo a
lei da natureza, Deus e Homem a um só tempo; e fazendo-se verdadeiramente homem,
ele se tornou semelhante a nós em tudo salvo o pecado, enquanto permanecia sendo o
que era, Deus verdadeiro, tendo unido sem confusão nem mutação as duas naturezas,
as duas vontades e as duas energias, e permanecendo Filho Único em uma só hipóstase
depois da Encarnação; ele realizou todas as obras divinas como Deus, e todos os atos
humanos como Homem, e se submeteu às paixões humanas irrepreensíveis: como
Deus, ele permaneceu impassível e imortal, mas por sua própria vontade, como
Homem, ele sofreu segundo a carne. Ele foi crucificado, morto e enterrado, e
ressuscitou no terceiro dia.

Tendo aparecido aos discípulos após a Ressurreição, ele lhes prometeu a força do Alto e
lhes ordenou que ensinassem a todas as nações, que batizassem em Nome do Pai, do
Filho e do Espírito Santo, e que ensinassem a guardar tudo o que lhes foi ordenado;
depois ele foi levado ao céu e assentou-se à direita do Pai, fazendo com que nossa
massa – a natureza humana – participasse do mesmo trono e da mesma divindade.
Com essa massa [humana] ele retornará em glória para julgar os vivos e os mortos e
retribuir a cada um segundo suas obras.
Tendo subido para junto do Pai, ele enviou sobre seus santos Discípulos e Apóstolos o
Espírito Santo, o qual procede do Pai; ele é, juntamente com o Pai e o Filho, sem
princípio, na medida em que também ele tem o Pai como raiz, fonte e causa, e não
como tendo sido engendrado, mas como procedendo dele.

Também ele saiu do Pai, antes de todos os séculos, sem fluxo, sem paixão, não por
engendramento, mas por processão, inseparável do Pai e do Filho, porque ele saiu do
Pai e repousa no Filho; ele está unido a eles sem confusão e se distingue deles sem
separação. Ele é também Deus saído de Deus, não uma coisa enquanto Deus e outra
coisa como Paráclito; Espírito auto-hipostático – que é uma pessoa em si – procedente
do Pai e enviado, ou seja, tornado manifesto, pelo Filho; ele também é causa de todas as
coisas criadas, pois nele tudo foi terminado. Ele possui, com o Pai e o Filho, a mesma
honra, exceto o não-nascimento e o nascimento.

Ele foi enviado pelo Filho aos seus discípulos, ou seja, foi manifestado. Com efeito, de
que outro modo poderia ele ser enviado por Aquele do qual ele é inseparável? Como
poderia vir de outro modo Aquele que está presente em toda parte? É por isso que ele
foi enviado não apenas pelo Filho, mas ainda pelo Pai, por intermédio do Filho. E foi
também por si próprio que ele veio ao se manifestar. Pois o envio, ou seja, a
manifestação do Espírito, é uma obra comum.

Ele não se manifestou segundo a essência, porque “ninguém jamais viu nem relatou a
natureza de Deus”; mas sim na graça, na força e na energia, que é comum ao Pai, ao
Filho e ao Espírito. Com efeito, aquilo que cada qual possui de próprio, é sua hipóstase
e seus atributos particulares; ao contrário, eles possuem em comum não apenas a
essência supra essencial, que é absolutamente sem nome, não revelada e
imparticipável, porque ela transcende toda denominação, toda revelação e toda
participação, mas igualmente a Graça, a Força, a Energia, o Esplendor, o Reino, a
Incorruptibilidade e, numa palavra, todas as coisas segundo as quais Deus se comunica
e se une pela graça aos santos anjos e aos homens.

Nem a distinção, nem a diversidade das hipóstases, nem a separação e a variedade das
forças e das energias O fizeram perder sua simplicidade, de sorte que nós confessamos
um só Deus Todo-poderoso em uma só divindade. Com efeito, é absolutamente
impossível que hipóstases perfeitas possam dar lugar a uma composição; e é
igualmente impossível dizer que o que é simples feito de poder faz daquele que possui
este ou esses poderes, uma coisa composta.

Nós adoramos também, como uma adoração relativa, o Santo Ícone do Filho de Deus
descrito em sua humanidade, que ele tomou por nossa causa, e reportamos essa
adoração relativizando-a ao seu protótipo; adoramos semelhantemente o madeiro
precioso da Cruz e todos os símbolos de Seus sofrimentos, vendo neles os troféus
divinos recebidos contra o inimigo comum de nossa raça; o mesmo com relação à figura
salutar da preciosa Cruz, para os lugares e templos divinos, os objetos sagrados e as
palavras dadas por Deus, que habita todas essas coisas.

Também veneramos os ícones de todos os santos, por causa do amor que lhes temos e
por causa do Deus a quem eles serviram e amaram verdadeiramente. Na veneração
colocamos nossos pensamentos sobre as figuras dos ícones.

Também adoramos as relíquias dos santos, pois a graça santificante não se retira de
seus despojos santíssimos; do mesmo modo, com efeito, a Divindade do Senhor jamais
se separou de Seu Corpo durante a morte de três dias.

Nós não conhecemos nada que seja mau por essência, nem outro princípio do mal,
senão o desvio cometido por seres declaradamente racionais, quando utilizam mal a
autoridade sobre si mesmos que Deus lhes conferiu.

Nós veneramos todas as tradições, escritas e não escritas, da Igreja, e, acima de tudo, a
misteriosíssima e santíssima Comunhão, a Sinaxe, a Cerimônia Sacrificial da qual
derivam a perfeição e a sacralidade de todos os demais mistérios, e na qual, em
memória Daquele que se esvaziou sem se diminuir e que tomou a carne e sofreu por
nós – segundo o mandamento pronunciado por Sua voz divina –, e em memória do ato
realizado por Suas mãos, são consagrados e deificados os dons divinos, o Pão e o Cálice.
Neste sacramento se realiza o princípio da Vida, o Corpo e o Sangue do Senhor, e ele é
dado aos que dele se aproximam com pureza, para dele participar e dele comungar, de
uma maneira inefável.

Todos aqueles que não confessam nem creem no que o Espírito Santo predisse por
intermédio dos Profetas, nem naquilo que o Senhor, que apareceu a nós na carne,
decretou, nem naquilo que os Apóstolos, seus enviados, pregaram, nem no que os
nossos Padres e seus sucessores nos ensinaram, mas que tomaram a iniciativa de uma
heresia individual e que seguiram os miseráveis inventores de tais sistemas, a esses nos
rejeitamos e lhes votamos o anátema.

Nós aceitamos e recebemos com fervor os santos Concílios Ecumênicos: o dos trezentos
e dezoito Padres teóforos de Nicéia, reunidos contra Arius, que em sua impiedade e
falsa doutrina, relegou o Filho de Deus ao nível da criatura e cindiu em criada e
incriada a Divindade que é adorada no Pai, no Filho e no Espírito; o seguinte, dos cento
e cinquenta Padres santos de Constantinopla, contra Macedonius de Constantinopla,
que, em sua impiedade, relegava o Espírito Santo ao nível da criatura e, exatamente
como Arius, também cingia em criada e incriada a Divindade una; o seguinte, dos
duzentos Padres de Éfeso, contra Nestorius, Patriarca de Constantinopla, que rejeitava,
em Cristo, a união hipostática da Divindade com a Humanidade, e se recusava
categoricamente a chamar de Mãe de Deus a Virgem que verdadeiramente gerou a
Deus; o quarto, o dos seiscentos Padres da Calcedônia, contra Euticus e Dióscoro, que
dogmatizavam erradamente uma única natureza em Cristo; o seguinte, dos cento e
sessenta e cinco Padres de Constantinopla, posicionado contra Teodoro e Deodoro, que
partilhavam das opiniões de Nestorius e se esforçavam por afirmá-las em seus escritos,
e contra Orígenes, Dídimo e um certo Evagro, autores antigos, que haviam tentado
introduzir fraudulentamente na Igreja de Deus quimeras de sua invenção; o seguinte,
reunido na mesma cidade, de cento e setenta Padres, contra Sérgio, Pirro e Paulo, de
Constantinopla, que rejeitavam, em Cristo, as duas energias e as duas vontades, que
correspondem às duas naturezas; enfim, o segundo Concílio de Nicéia, com seus
trezentos e sessenta e sete Padres, reunidos contra os iconoclastas.

Nós reconhecemos igualmente todos os santos Concílios reunidos pela graça de Deus
em diversos tempos e lugares para afirmar a piedade justa e a vida evangélica, dentre os
quais contamos os concílios reunidos nesta grande Cidade, no famoso templo de Santa
Sofia de Deus, contra Barlaam o Calabrês, e contra aquele que, na sequência, adotou
suas ideias e colocou todo seu zelo e astúcia em defendê-las; falo de Acendino. Eles
dogmatizaram que a graça comum do Pai, do Filho e do Espírito, bem como a luz do
século futuro, na qual os justos brilharão como o sol (luz que Cristo mostrou desde já
brilhando sobre a Montanha), e, enfim falando de modo geral, que toda força e toda
energia da Divindade em três hipóstases, na medida em que ela difere, por pouco que
seja, da natureza divina, é uma coisa criada; de sorte que também eles cindem, de modo
ímpio, a Divindade una em criada e incriada.

Os espíritos piedosos confessam que esta luz divina é incriada, e que todas as forças e
as energias em questão são igualmente divinas e incriadas, pois nenhum dos atributos
naturais de Deus começou no tempo. Os barlaamitas consideram os Ortodoxos como
diteístas e politeístas, nome que também nos atribuem os Judeus, os Arianos e os
Sabelianos. Mas nós, rejeitando uns e outros, como ateus e politeístas, os declaramos
excluídos do pleroma dos fiéis piedosos, assim como o fez, pela voz do Tomo sinodal da
Santa Montanha, a Santa Igreja católica e apostólica de Cristo; e nós mantemos nossa
fé em uma Divindade una, três vezes hipostática e todo-poderosa, que não perde
absolutamente sua Unidade e sua Simplicidade por causa das Forças ou das Hipóstases.

Finalmente, nós esperamos a ressurreição dos mortos e a vida eterna no século futuro.
Amém.