Você está na página 1de 511

ACIDENTE

DO TRABALHO
AllllAIOICM\EIAEAILWZAIA

·--··----- - ... ... ··~


-__
- __
·--··-"-
---·
--··-·· -..... _
.... ........~---·
,
-·- ·_
"
Acidente
do Trabalho
CLÁUDIA SALLES VILELA VIANNA
Advogada. Mestra pela PUC/PR. Conferencista e Consultora jurídica Empresarial nas Áreas de Direito do Trabalho
e Direito Previdenciário. Professora universitária. Associada Benemérita do Instituto Brasileiro de Direito
Previdenciário e Associada do Instituto dos Advogados do Paraná - IAP.

Acidente
do Trabalho

L'G
EDITORA LTDA.
©Todos os direitos reservados

Rua Jaguaribe, 571


CEP 01224-001
Sao Paulo, SP - Brasil
Fone (11) 2167-1101
www.ltr.corn.br
Agosto, 2015

Producáo Gráfica e Editoracáo Eletrónica: RLUX


Projeto de capa: FABIO GIGLIO
Impressáo: BARTIRA

Versáo impressa - LTr 5317.6 - ISBN 978-85-361-8521-7


Versáo digital - LTr 8785.8 - ISBN 978-85-361-8555-2

Dados Internacionais de Catalogacáo na Publicacáo (CIP)


(Cámara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Vianna, Cláudia Salles Vilela


Acidente do trabalho : abordagem completa e atualizada / Claúdia Salles Vilela
Vianna. - Sao Paulo : LTr, 2015.

Bibliografía

l. Acidentes de trabalho 2. Direito do trabalho - Brasil 3. Empregadores -


Responsabilidade civil L Título

15-04573 CDU-34:331.823(81)

Índice para catálogo sistemático:


l. Brasil : Acidentes do trabalho : Direito do trabalho 34: 331.823(81)
,

Introduc;:ao.................................................................................................................................................................... 11

Capítulo l. Evolucáo histórica................................................................................................................................. 13

Capítulo 2. O conceito de acidente de trabalho e sua extensao......................................................................... 20


2.1. Dos requisitos necessários a caracterizacáo da natureza acidentária e do acidente típico....................... 20

2.2. Doenca profissional e doenca do trabalho - Nexo Profissional (NP) e Nexo Individual (NI) 23
2.3. Situacóes de excecáo 25
2.4. Nexo Técnico Epidemiológico - NTEP 26

Capítulo 3. Das ocorréncias equiparadas aos acidentes de trabalho................................................................ 34


3.1. Concausa............................................................................................................................................................... 37
3.2. Acidente de trajeto 39

Capítulo 4. Comunicacáo do Acidente de Trabalho - CAT 41


4.1. Emissáo - Obrigatoriedade e prazo . .. .. .. 41
4.2. Previsáo constante da CLT e previsáo em normas infralegais - Conflito.................................................. 46
4.2.1. CLT, art. 169 47

4.2.2. Portarías Ministeriais e Instrucóes Normativas 50

4.3. Formulário............................................................................................................................................................. 54

Capítulo 5. Da obrigacáo quanto ao cumprimento das normas de seguranca, medicina e higiene do trabalho... 55
5.1. Competencia do Ministerio do Trabalho e Emprego - Normas Regulamentadoras (NR) 55
5.2. Obrígacóes do empregador 57

5.3. Obrigacóes do trabalhador 59

Capítulo 6. Do procedimento administrativo para caracterizacáo dos acidentes de trabalho 60


6.1. Requerirnento do Benefício de Incapacidade junto ao INSS 60
6.2. Processo legal administrativo............................................................................................................................. 63
6.2.1. Partes interessadas e intimacáo dos atos................................................................................................ 63
6.2.2. Investígacáo técnica do nexo.................................................................................................................... 64
6.2.3. Aplicacáo do Nexo Técnico Epidemiológico - NTEP......................................................................... 67
6.2.4. Da prática cotidiana e sua absoluta inconstitucionalidade e ilegalidade 70
6.2.5. Recurso para a JRPS/CRPS 79

5
Capítulo 7. Da acáo judicial para caracterizacáo ou descaracterizacáo dos acidentes de trabalho 89
7.1. Acáo Judicial movida pelo trabalhador 89

7.1.1. Do empregador como terceiro interveniente no processo................................................................... 91


7.2. Acáo Judicial movida pelo empregador 92

Capítulo 8. Dos benefícios previdenciários devidos ao trabalhador acidentado 94


8.1. Auxílio-doen~a...................................................................................................................................................... 94
8.1.1. Qualidade de segurado............................................................................................................................. 94
8.1.2. Incapacidade ten1porária.......................................................................................................................... 97
8.1.3. Valor do benefício 97
8.1.4. Data de início do beneficio - pagamento, pela empresa, dos primeiros quinze días de afastamento.. 99
8.1.S. Manutencáo do benefício.......................................................................................................................... 101
8.1.6. Cancelamento do beneficio - alta irregular pelo INSS e procedimento das partes....................... 102
8.2. Aposentadoria por invalidez.............................................................................................................................. 108
8.2.1. Valor do benefício 109
8.2.2. Data de início do beneficio - pagamento, pela empresa, dos primeiros quínze dias de afastamento.. 110
8.2.3. Manutencáo e cancelarnento do benefício.............................................................................................. 110
8.3. Auxílio-acidente.................................................................................................................................................... 111
8.3.1. Valor do benefício 114
8.3.2. Data de inicio do beneficio....................................................................................................................... 114
8.3.3. Manutencáo e cancelamento do beneficio.............................................................................................. 115
8.4. Pensáo por marte 115
8.4.1. Data de início e valor do beneficio.......................................................................................................... 116
8.4.2. Cancelamento do beneficio...................................................................................................................... 117

Capítulo 9. Do servíco de reabilitacáo profissional............................................................................................. 119


9.1. Competencia da Previdéncia Social e fornecirnento obrigatórío aos segurados afastados 119
9.2. Abrangéncía do programa.................................................................................................................................. 120

9.3. Participacáo das empresas 121


9.4. Conclusáo da reabilitacáo - certificado concedido pelo INSS..................................................................... 124

9.5. Contratacáo de trabalhadores reabilitados por empresas com cem ou mais empregados....................... 125

9.6. Readaptacáo de trabalhadores 126

Capítulo 10. Dos direitos trabalhistas garantidos aos empregados acidentados........................................... 127
10.1. Pagamento dos prirneiros dias de afastamento............................................................................................. 127

10.2. Depósito de FGTS durante o afastamento...................................................................................................... 128


10.3. Complemento do valor do auxílio-doenca ou da aposentadoria por invalidez....................................... 129

10.4. Complemento da Cratificacáo Natalina (132 salário) 130

6
10.5. Repercussáo no direito a férias 132

10.6. Manutencáo de beneficios contratuais durante o afastamento - plano de saúde, vale alimentacáo e
outros .. .. .. .. .. .. .. .. .. 134

10.7. Direito a estabilidade provisória 141


10.8. Possibilidade de rescisáo contratual durante o curso do auxílio-doenca ou da aposentadoria por
invalidez.............................................................................................................................................................. 144
10.9. Ocorréncia do acidente no curso do aviso-prévio 147
10.10. Suspensáo do prazo prescricional para interposicáo da reclamatória trabalhista 148
10.11. Indenizacóes por dano - responsabilidade civil do empregador 149
10.11.l. Breve histórico - responsabilidade subjetiva e responsabilidade objetiva.............................. 149
10.11.2. Espécies de dano - acumulacáo da indenizacáo previdenciária com a indenizacáo civil,
extracontratua 1 .••... .. ..••.... ••..•. .. ... ..•.•.. .. .•. .•...• .. ...••.. .. ••. ... ..••...•. ... .. ..•.•.. ..•.. .. ...••.... •.. ... .. ... ..•. ... .. ... .•.. .••.. 160
10.11.3. Competencia e prescricáo 170

Capítulo 11. Do Seguro de Acidentes do Trabalho - SAT 173


11.1. Da previsáo legal e constitucional................................................................................................................... 173
11.2. Das alíquotas básicas e sua distribuicáo conforme a atividade económica desenvolvida pela e1npresa ... 174
11.3. Da possibilidade de reducáo conforme a realidade fática de cada empresa, individualmente............. 178
11.4. Dos reenquadramentos efetuados pelos Decretos ns. 6.042/2007 e 6.957/2009 - Ilegalidade............... 179
11.5. Da possibilidade de reducáo conforme dados estatísticos divulgados pela Uníáo 184
11.6. Do acréscimo devido para financiar a aposentadoria especial quando o trabalho é desenvolvido e1n
ambiente nocivo . 185

Capítulo 12. Do Fator Acidentário de Prevencáo - FAP . 187


12.1. Da criacáo do flexibilizador e da legislacáo atualmente vigente . 187
12.1.1. Regra de cálculo..................................................................................................................................... 190
12.1.2. Desconto de 25o/o para FAP superior a 1 199
12.1.3. FAP inferior a 1 200
12.1.4. Ausencia de cálculo para CNAE com até cinco empresas, para empresas optantes pelo
SIMPLES e para entidades filantrópicas............................................................................................ 202
12.1.5. Recusa expressa quanto a correcáo de erros 203
12.1.6. Defesa e recurso na esfera administrativa - efeito suspensivo..................................................... 203
12.2. Inconstitucionalidades 207
12.2.1. Principio da legalidade......................................................................................................................... 207
12.2.2. Princípios da isonomia e da equidade 213
12.2.3. Princípio da irretroatividade 217
12.2.4. Nao confisco - vedacáo do tributo com caráter sancionatorio 220
12.2.5. Principio da publicidade 226
12.2.6. Devido processo legal, ampla defesa e contraditório - razoabilidade e proporcionalidade 232

7
12.2.7. Ofensa ao art. 195, § 911•••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••• 236
12.3. Ilegalidades .. .. .. .. .. .. .. .. .. 237
12.3.1. Inexistencia do sujeito passivo - violacáo aos arts. 121 e 122 do CTN 237
12.3.2. Responsabilizacáo objetiva - víolacáo ao art. 22, inciso !.............................................................. 239
12.3.3. Inclusáo dos acidentes de trajeto......................................................................................................... 241
12.3.4. Inclusáo de ocorréncias que nao geraram qualquer afastamento ou incapacidade laborativa . 245
12.3.5. Inclusáo de ocorréncias que nao geraram a concessáo de benefício 247
12.3.6. Inclusáo de ocorréncias caracterizadas e beneficios concedidos sem observancia do devido
processo administrativo legal.............................................................................................................. 251
12.3.7. Inclusáo de ocorréncias e benefícios contestados administrativamente pela empresa, com éxi-
to ou ainda sem decísáo final por parte da Previdéncia Social....................................................... 252
12.3.8. Utilizacáo e metodología adotada para o cálculo do índice de custo............................................ 255
12.3.9. Adocáo de travas para aplícacáo do desconto 257
12.3.10. Empresas com baixa acidentalidade - ausencia do desconto correto no FAP aplicado no
período de janeiro a agosto de 2010 257
12.3.11. Ausencia de cálculo do FAP para determinadas atividades econcn11icas.................................... 258
12.4. Irregularidades................................................................................................................................................... 259
12.4.1. Erro nos valores de massa salarial e número medio de vínculos en1pregatícios......................... 259
12.4.2. Inclusáo de CATs e nexos em duplicidade 261
12.4.3. Inclusáo de empregado que nunca pertenceu aos quadros funcionáis da empresa................... 261
12.4.4. CAT nao emitida e nao conhecida pela empresa.............................................................................. 261
12.4.5. Inclusáo de ocorréncias e benefícios que se encontram forado período de apurac;iio................ 262
12.4.6. Nexo sem benefício correspondente................................................................................................... 264
12.4.7. Benefício de auxílio-doenca lancado em duplicidade...................................................................... 265
12.4.8. Benefício sem CAT ou nexo a ele correspondente............................................................................ 266
12.4.9. Erro no total de empresas de mesmo CNAE..................................................................................... 267

eap1ít u 1o 13. Das acoes


- regressrvas
. preV1id encianas
.' . . 269
13.1. Da previsáo legal e do questionamento sobre sua constitucionalidade . 269
13.2. Pressupostos lega is para o ingresso da acáo 277
132.1. A existencia de um acidente de trabalho que tenha como causa a negligencia do empregador., 278
13.2.2. A existencia do dano/prejuízo a ser ressarcido 281
13.3. Procedimento de Instrucáo Prévia - PIP 285
13.4. Ajuizamento da acáo 289
13.4.1. Acóes de pequeno valor........................................................................................................................ 289
13.4.2. Competencia jurisdícional.................................................................................................................... 290
13.4.3. Legitimidade ativa e passiva................................................................................................................ 298

8
13.5. Prescricáo 299

13.6. Culpa concorrente ou culpa exclusiva da vítima 306

13.7. PossibiJidade de acorde 307

Capítulo 14. Tabelas e anexos.................................................................................................................................. 309


14.1. Anexo 1I do Decreto n. 3.048/99 - Tabela inicial e Listas A e B - Agentes nocivos e fatores de risco
para caracterizacáo da doenca profissional e da doenca do trabalho 309

14.2. Anexo II do Decreto n. 3.048/99 - Lista C - Tabela relacionando CID e CNAE para enquadramento
do NTEP - Nexo Técnico Epidemiológico 339

14.3. Formulário CAT - Portaría MPS n. 5.817/1999 471

14.4. Formulário de encaminhamento do trabalhador para o INSS: Requerimento de Beneficio por Incapa-
cidade 478

14.5. Relatório conclusivo de análise de contestacáo do NTEP - Anexo VIII da 01 INSS/DIRBEN


n. 200/2008.......................................................................................................................................................... 479

14.6. Modelo de Oficio de (Deferimento/Indeferimento) da Contestacáo para a Empresa -Anexo 111da01


INSS/DIRBEN n. 200/2008................................................................................................................................. 480
14.7. Modelo de Oficio de Abertura de Prazo para Contrarrazóes do Segurado - Anexo 1 da 01 INSS/
DIRBEN n. 200/2008........................................................................................................................................... 481

14.8. Relatório conclusivo de análise de contestacáo do Nexo Técnico Epidemiológico - NTEP - Anexo
VII da 01 INSS/DIRBEN n. 200/2008 482
14.9. Alíquota Básica do SAT - Relacáo de Atividades Preponderantes e Correspondentes Graus de Risco
para Fins de Acídente do Trabalho (Anexo V do Decreto n. 3.048/99) 483

9
No cenário atual, o acidente de trabalho tem sido alvo de grandes debates, seja porque muitas
empresas permanecem a ignorar a conduta preventiva, trazendo lesóes e ocasionando óbito aos tra-
balhadores; seja porque o INSS, autarquía federal que possui a competencia administrativa para ca-
racterizar a natureza acidentária, nao tem observado a legíslacáo vigente para tais enquadramentos
e tem presumido o nexo por meio de uma tabela discutível, denominada NTEP; ou porque, desde
janeiro/2010, com a entrada em vigor do FAP - Fator Acidentário de Prevencáo, os acidentes passa-
ram a ter repercussáo no custo do tributo SAT - Seguro de Acidente do Trabalho, além das habituais
consequéncias trabalhistas e previdenciárias, inclusive acóes regressivas por parte da Previdéncia
Social.

No exercício de minha advocacia, lido diariamente com quest6es afetas ao Oireito do Trabalho
e ao Direito Previdenciário e, nesse último, atendendo trabalhadores e e1npresas que sofreram com
atos praticados pelo INSS ou pelo Ministério da Previdéncia Social. Os equívocos sao muitos, prati-
cados por empregadores, por trabalhadores, pelo INSS, pelo Ministerio da Previdéncia Social e por
aqueles que precisam conhecer a matéria para a prática da [ustica: advogados, promotores e juízes,
,
E importante analisarmos atenta.mente os textos legais e atribuirmos corretamente deveres e
responsabilidades, e é justamente nesse sentido que pretende a presente obra, humildemente, ser de
algum auxilio aos pesquisadores e operadores do Direito.

11
~íl
<..:.J[Y~~~~JL>-C..l~6
-~] ~~º-~
No Brasil, os primeiros textos legais sobre acidentes do trabalho de que se tem notícia datam do
século XIX e inicialmente eram dispostos de forma esparsa, corno exemplificam os arts. 79 e 560 da
Lei n. 556/1850 (Código Comercial):
Art. 79. Os acídentes imprevistos e inculpados, que impedirem aos prepostos o exercício de suas funcóes, nao
interromperáo o vencimento do seu salário, contante que a inabilitacáo nao exceda a 3 (tres) meses continuos.
Art. 560. Nao deixará de vencer a soldada ajustada qualquer indivíduo da trípulacáo que adoecer durante a viagem
em servíco do navío, e o curativo será por conta deste; se, porém, a doenca for adquirida fora do servico do navío,
cessará o vencimento da soldada enguanto ela durar, e a despesa do curativo será por contadas soldadas vencidas; e
se estas nao chegarem, por seus bens ou pelas soldadas que possam vir a vencer.

Urna preocupacáo maior com a seguranca e com a protecáo dos trabalhadores surgiu com a
Revolucáo Industrial, com origem na Inglaterra, mas que também alcancou a Alemanha por volta
de 1850. E foi justamente na Alernanha, a partir de 1881, que Otto von Bismarck impulsionou urna
legíslacáo social (para tentar contera onda revolucionaria) e, em 1884, criou a primeira lei específica
a respeito dos acidentes, criando um seguro protetivo.
,
Posteriormente, a ideia de protecáo acidentária foi adotada por outros países, como Austria
(1887), Finlandia (1895), Inglaterra (1897), Dinamarca, Itália e Franca (1898) e Espanha (1900).
O Brasil tambérn implantou urna protecáo acidentária específica, mas semente no ano de 1919,
por meio do Decreto n. 3.724, que regulou as obrígacóes resultantes dos acidentes de trabalho, com
destaque para os dois primeiros artigos, a seguir transcritos:
Art. lg Consideram-se acidentes no trabalho, para os fins da presente lei:
a) o produzido por urna causa súbita, violenta, externa e involuntaria no exerdcio do trabalho, determinando
lesóes corporais ou perturbacóes funcionais, que constituam a causa única da morte ou perda total, ou parcial,
permanente ou temporaria, da capacidade para o trabalho:
b) a moléstia contraída exclusívamente pelo exercício do trabalho, quando este for de na tu reza a só por si causa-la, e
desde que determine a morte do operario, ou perda total, ou parcial, permanente ou temporaria, da capacidade para
o trabalho.
Art. 2Q O acidente, nas condicóes do artigo anterior, quando ocorrido pelo facto do trabalho ou durante este, obriga
o patráo a pagar urna indenizacáo ao operario ou a sua familia, exceptuados apenas os casos de forca rnaior ou dolo
da própria vítima ou de estranhos.

Podemos observar que o conceito de acidente abrangia nao so mente os a cid entes tí picos, o corridos
no exercício do trabalho por causa súbita e involuntária, mas também as doencas profissionais,
contraídas exclusivamente pelo exercício do trabalho.
A indenizacáo devida pelo empregador variava conforme a gravidade do sinistro (Decreto
n. 3.724/1919, art. 5º) e compreendia, além da importancia em dinheiro, tambérn a prestacáo de
socorro médico, farmacéutico e hospitalar (art. 13). Nao havia, contudo, a garantía de recebimento
por parte do trabalhador, porque a legislacáo nao obrigava a contratacáo de seguro.
O art. 19 instituiu a obrigacáo de notificacáo por parte do empregador (ou qualquer outro,
inclusive a vítima) a autoridade policial, que naquela época era responsável pelo auto correspondente.
E o art. 20, por sua vez, criou a perícia médica judicial para averiguacáo da capacidade laborativa.
Confíram-se:
Art. 19. Todo o acidente de trabalho que obrigue o operario a suspender o servico ou se ausentar deverá ser
imediatamente comunicado á autoridade policial do lugar, pelo patráo, pelo próprio operario, ou qualquer outro.

13
A autoridade policial comparecerá sem demora ao lugar do acídente e ao em que se encontrar a vítima, tomando
as declaracóes desta, do patráo e das testemunhas, para lavrar o respectivo auto, indicando o nome, a qualidade, a
residencia do patráo, o nome, a qualidade. a residencia e o salério da vítirna. O lugar preciso, a hora e a natureza do
acidente. As circunstancias em que se deu e a natureza dos ferimentos, os no.mes e as residencias das testemunhas e
dos beneficiarios da vítima.
§ 1 Q No quinto dia, a contar do acidente, deve o patráo enviará autoridade policial, que tomou conhecimento do fato,
prova de que fez a vítima o fomecimento de socorros médicos e pharmaceuticos ou hospitalares, um atestado médico
sobre o estado da vítima, as consequéncias verificadas ou prováveis do acidente, e a época em que será possível
conhecer-lhe o resultado definitivo.
§ 2<.> Nesse mesmo dia a autoridade policial remeterá o inquérito com os documentos a que se refere o parágrafo
anterior, ao juízo competente, para a instauracáo do sumario.
Art. 20. Durante o tratarnento, é permitido, quer ao patráo, quer ao operario, requerer a verificacáo do estado de saúde
deste último, nomeando o juiz um médico para fazer o exame que se efetuará em presenca do médico assistente. Se
houver divergencia entre ambos sobre o estado da vítima as suas condicóes de capacidade para o trabalho, o juiz
nomeará um outro médico para fazer o exame e no seu laudo baseará o julgamento.

O juiz recebia os documentos e o inquérito e encerrava o processo judicial no prazo máximo de


12 días, contados da data do acidente. Na sentenca, era fixado o valor devido de indenizacáo a vítima
ou seus familiares (arts. 21a24).
A dinámica e a sensibilidade do tema, no entanto, nao permitiram sua estagnacáo. e várias
alteracóes legislativas foram promovidas posteriormente. Urna primeira modificacáo ocorreu pelo
Decreto n. 13.493, e seu regulamento, pelo Decreto n. 13.498, ambos de 1919.
Nova alteracáo adveio da Revolucáo de 1940, pelo Decreto n. 24.637/1934, que, revogando
tacitamente o Decreto n. 3.724/1919, estabeleceu sob novas moldes as obrigacóes resultantes dos
acidentes de trabalho, instituindo a garantía obrigatória da indenizacáo, por meio de seguro ou de
depósito. O conceito passou a abranger também as doencas do trabalho, relacionadas as condicóes
do ambiente onde é realizado:
Art. 1º Considera-se acidente do trabalho, para os fins da presente lei, toda lesáo corporal, perturbacáo funcional, ou
doenca produzida pelo exercício do trabalho ou em consequéncia dele, que determine a morta, ou a suspensáo ou
limitacáo, permanente ou temporária, total ou parcial, da capacidade para o trabalho,
§ ]!1 Sao doencas profissionais, para os efeitos da presente lei, alérn das inerentes ou peculiares a determinados ramos
de atividade, as resultantes exclusivamente do exercício do trabalho, as resultantes exclusivamente especiais ou
excepcionais em que o mesmo for realizado, nao sendo assim consideradas as endémicas quando por elas forem
atingidos empregados habitantes da regiáo.
§ 21l A relacáo das doencas profissionais inerentes ou peculiares a determinados ramos de atividade será organizada
e publicada pelo Ministério do Trabalho, Indústria e Comercio, e revista tri.enalmente, ouvidas as autoridades
competentes.

A nova regra isentava a responsabilidade das empresas no percurso entre a residencia e o


trabalho (art. 22), e o art. 12 determinava que a indenizacáo estipulada exonerava o empregador de
pagar, pelo mesmo acidente, qualquer outra indenizacáo de direito comum, mas a vítima ou seus
familiares, assim como também o empregador, podiarn ingressar judicialmente contra um terceiro
civilmente responsável pelo acidente (art. 13).
Merecem destaque também os arts. 23 e 26 do Decreto n. 24.637/1934.Note-se que em 1934 nao
existía um sistema de Previdéncia Social voltado a todos os trabalhadores (como é hojeo RGPS(1)), mas
sim algumas caixas de aposentadoria e pens6es específicas de algumas empresas ou de categorias,
como aquela dos empregados de e1npresas ferroviárias (Lei Eloy Chaves - Decreto n. 4.682/1923),
a dos portuários e marítimos (Lei n. 5.109/1923), a dos trabalhadores dos servicos telegráficos e
radiotelegráficos (Lei n. 5.485/1928), assim como o Instituto de Aposentadoria e Pensóes dos Marítimos
(Decreto n. 22.872/1933) e alguns outros. E a regra contida nos arts. 23 e 26 determinava que, havendo

(1) Regime Geral de Previdéncia Social.

14
inscricáo da vítima em algum desses seguros sociais oficialmente reconhecidos que lhe garantisse
o pagamento de pensáo, 2/3 da indenizacáo paga pelo empregador deveriam ser destinados a essa
instituicáo, cabendo ao próprio acidentado apenas 1/3 do montante. Eis os dispositivos:
Art. 23. Sempre que a vítima, tendo herdeiros ou beneficiarios, estiver inscrita em instituicáo de seguro social
oficialmente reconhecida que lhes garanta pensáo, a mesma instituicáo reverteráo dois tércos da indenizacáo a ser
paga, cabendo aos herdeiros ou beneficiários o terc;o restante, nos termos desta lei.
Parágrafo único. A pensáo, no caso <leste artigo, será concedida aos herdeiros ou beneficiários independentemente
dos prazos de carencia em vigor na legislacáo das caixas de aposentadoria e pensóes, ou outros que forem fixados no
seguro social."
Art. 26. Estando a vitima inscrita em instituicáo de seguro social oficialmente reconhecida, que garanta pensáo por
invalidez, e sendo a indenizacáo superior a 30 % (trinta por cento) de 900 (novecentos) salarios, dois tércos desta
reverteráo a favor da instituicáo referida, corno auxílio ao pagamento daquela pensáo,
Parágrafo único. Nao tendo direito a aposentadoria imediata, a vítima ficará, na hipótese <leste artigo, isenta da sua
contribuicáo para o seguro social, possúa este o título de caixa de aposentadoria e pensóes ou outro.

A obrigatoriedade de comunicacáo do sinistro a autoridade policial permanecía (art. 44) e,


caso o responsável nao cumprisse com suas obrigacóes integralmente, a vítima ou seus familiares
poderiam reclamar ao curador de Acidentes, ou correspondente órgáo do Ministério Público, ao qual
cabía também promover a abertura do inquérito policial, com encaminhamento dos autos ao juízo
competente (art. 45). O procedimento judicial, portante, passou a existir semente nos casos descritos
nos arts. 44 a 46 ou quando nao houvesse acorde quanto a indenizacáo ou qualidade do beneficiário
(art. 53).
Na sequéncia do Decreto n. 24.637 (DOU de 12.7.1934) foi promulgada a Constituicáo Federal
de 1934 (DOU de 26.7.1934), que, no art. 121, mencionou a protecáo contra acidentes e determinou
a instituicáo de previdéncia, mediante a forma tríplice de custeio (Uniáo, empresa e empregado ). A
garantía da reparacáo passou ao status de preceito constitucional, conforme segue:
Art 121. A lei promoverá o amparo da producáo e estabelecerá as condicóes do trabalho, na cidade e nos campos,
tendo em vista a protecáo social do trabalhador e os interesses económicos do País.
[... )
§ 1 °A legislacáo do trabalho observará os seguintes preceitos, além de outros que colimem melhorar as condicóes do
trabalhador:
[ ... )
h) assisténcia médica e sanitária ao trabalhador e a gestante, assegurando a esta descanso antes e depois do parto, sem
prejuízo do salário e do emprego, e instituicáo de previdéncia, mediante contribuicáo igual da Uniáo, do empregador
e do empregado, a favor da velhice, da invalidez, da maternidade e nos casos de acidentes de trabalho ou de morte;
[... )
§ 82 Nos acidentes do trabalho em obras públicas da Uniáo, dos Estados e dos Municipios, a indenizacáo será feíta
pela folha de pagamento, dentro de quinze dias depois da sentenca, da qua] nao se admitirá recurso ex-oficio.
[... )

Também o art, 170 da CF/34 tratou do acidente de trabalho ao prever aposentadoria com
vencimentos integrais aos funcionários públicos que se invalidassem em decorréncia de tal sinistro/"
Nova modificacáo ocorreu semente em 1944, pelo Decreto-Leí n. 7.036 (DOU de 13.11.1944),
reformando a legislacáo anterior. A novidade, em termos de conceito, foi a inclusáo da concausa e os
acidentes por equiparacáo (arts. 3º, 5º e 6º), mas sem incluir o acidente de trajeto (art. 7º). Destaque
tarnbém para o art. 14, que obrigava o empregador a manter um servico de assisténcia médica em
estabelecimentos com mais de quinhentos empregados.

(2) A Constituicáo Federal de 1937 tratou do acidente de trabalho nos arts. 137 e 156 e nao trouxe alteracóes relevantes.

15
Outra importante novidade resultou do art. 31, que possibilitou a acumulacáo da indenizacáo
acidentária com outra de direito civil quando da ocorréncia de dolo por parte do empregador ou seus
prepostos. Confira-se:
Art. 31. O pagamento da indenizacáo estabelecida pela presente lei exonera o empregador de qualquer outra
indenizacáo de direito comum, relativa ao mesmo acidente, a menos que este resulte de dolo seu ou de seus propostos.

Ajustíca, na interpretacáo do referido dispositivo, equiparou o dolo a falta grave, e o STF acabou
editando, em 13.12.1963, a Súmula n. 299, com a seguinte redacáo:
STF - Súmula n. 229: a indenizacáo acidentária nao exclui a do direito comum, ern caso de dolo ou culpa grave do
empregador.

A comunicacáo do acidente passou a observar o prazo de 24 horas (art. 45), e o empregador


passou a ser obrigado a proporcionar seguran<;a e higiene no trabalho (art. 77), fazendo remissáo a
CLT e outras normas do Ministério do Trabalho.w A recusa por parte do empregado em obedecer as
regras de seguran<;a passou a configurar ato de insubordinacáo (art. 79), e a organizacao de comissóes
internas (CIPA) passou a ser obrigatória para empregadores com mais de cem empregados.
Os arts. 90 a 93 criaram a readaptacáo profissional, que fica a cargo do Estado, e o art. 94 criou o
seguro obrigatório para acidentes, a cargo do empregador, a ser realizado no instituto de previdéncia
a que estivesse filiado o trabalhador.
A Constituicáo Federal de 1946 (18.9.1946) trouxe novidades, determinando no art. 123 que a
competencia para conciliar e julgar os dissídios relativos a acidentes do trabalho nao era da [ustica
do Trabalho, mas da [ustica ordinária.
Em 1960 foi publicada a Lei n. 3.807 (DOU de 5.9.1960), denominada LOPS - Lei Orgánica da
Previdéncia Social, unificando a legislacáo referente aos institutos de aposentadorias e pens6es e
seu regulamento consta do Decreto n. 48.959-A (10.9.1960). Determina seu art. 22 que a previdéncia
social se responsabilizaría em garantir aos segurados as prestacóes acidentárias, desde que o seguro
estivesse a seu cargo. Também merece destaque a previsáo do art. 64, isentando a carencia para o
auxílio-doenca, aposentadoria por invalidez e pensáo por morte nos casos de acidente do trabalho,
mas condicionando tal benesse a receber metade da indenizacáo acidentária.
A Constituicáo Federal de 1967 (DOU de 24.1.1967) nao trouxe alteracóes, e em 28.2.1967 foi
publicado o Decreto-leí n. 293, revogando o Decreto n. 7.036/1944. O seguro de acidentes do trabalho,
de contratacáo obrigatória pelos empregadores poderia ser operado pelo INPS,(4> mas em regime de
concorréncia com outras seguradoras (art. 32), que passaria a ser responsável pela indenizacáo ao
obreiro (ou seus familiares, em caso de óbito), índependentemente dos beneficios previdenciários de
direito (art. 22). Referido diploma legal utilizou a expressáo "doenca do trabalho" para diferenciar
essas ocorréncias das doencas profissionais (art. 42) e equiparou o acidente de trajeto aos acídentes de
trabalho (art. 52), entre outras modificacóes importantes.
Ainda em 1967, apenas seis meses depois do Decreto-leí n. 293, foi publicada a Lei n. 5.316
(DOU de 18.9.1967), integrando o seguro de acidentes exclusivamente a
Previdéncia Social, sem
concorréncia de outras seguradoras, e passando o Brasil a adorar; portanto, a teoría do risco social
e1n tema de infortunística. O art. 22 voltou a confundir os conceitos de doenca profissional e doenca
do trabalho, e o art. 62 garantíu ao trabalhador que o benefício previdenciário que fue fosse de direito
nao seria inferior ao seu último salário de contribuicáo.P' A comunicacáo do acidente passou a ser
obrigacáo da empresa (devendo ser feíta a Previdéncia Social), sob pena de multa (art. 11), e o art. 12
definiu as alíquotas devidas pelo ernpregador, conforme segue:

(3) A época, Ministério do Trabalho, lndústria e Comércio.


(4) O INPS - Instituto Nacional de Previdéncia Social foi criado pelo Decreto-Lei n. 72, de 21.11.1966, que reuniu num único os seis
Institutos de Aposentadorias e Penséies anteriormente existentes.
(S) Salário de contribuicáo, no direito previdenciário, é o valor utilizado como base de cálculo para a contribuicáo previdenciária e, via
de regra, corresponde a remuneracáo do trabalhador, observado um teto máximo fixado pelo legislador.

16
Art. 12. O custeio das prestacóes por acidente do trabalho, a cargo exclusivo da empresa. será atendido, conforme
estabelecer o regulamento, mediante:
I - urna contribuicáo de 0,4% (quatro décimos por cerito) ou de 0,8% (oito décimos por cerito) da folha de salários de
contribuicáo, conforme a natureza da atividade da empresa;
II - quando for o caso, urna contribuicáo adicional incidente sobre a mesma folha e variável, conforme a natureza
da atividade da empresa.
§ 1 Q A contribuicáo adicional de que trata o item II será objeto de fixacáo individual para as empresas cuja experiencia
ou condicóes de risco assim aconselharem.
§ 22 Na hipótese do art, 10, a contribuicáo de que trata o ítem 1 será de 0,5% (cinco décimos por cento) ou de 1º/o (um
por cento).
§ 3° As contribuicóes estabelecidas neste artigo seráo pagas juntamente coro as contribuicóes de que tratam os itens I e
III do art. 69 da Leí Orgánica da Previdéncia Social, na redacáo dada pelo Decreto-leí n. 66, de 21 de novembro de 1966.<6>

O Decreto n. 61.784 (DOU de 29.11.1967) aprovou o Regularnento do Seguro de Acidentes do


Trabalho (regulamentando a Lei n. 5.316/1967), e em 10/1969 foi publicada a Emenda Constitucional
n. 01/69, dando nova redacáo a CF/67 e passando a transformar totalmente o seguro-acidente em
seguro social, já que seu art. 165, XVI, passou a dispor que o risco seria assumido pela Previdéncia
Social, mediante contribuicáo tripartite:
Art. 165. A Constituicáo assegura aos trabalhadores os seguintes direitos, além de outros que, nos termos da leí,
visem a melhoria de sua condicáo social:
[... )
XVI - prevldéncia social nos casos de doenca, velhice, invalidez e morte, seguro-desemprego, seguro contra acidentes
do trabalho e protecáo da maternidade, mediante contribuicáo da Uniáo, do empregador e do empregado;
[ ... )
Em janeiro de 1976 foi publicado o Decreto n. 77.077, expedindo a Consolidacáo das Leis da
Previdéncia Socíal/" sem alteracóes relevantes e, nesse mesmo ano, houve alteracáo na matéria
acidentária, por meio da Lei n. 6.367 (DOU DE 21.10.1976), que básicamente manteve as mesmas
regras anteriores, com pequena ampliacáo no conceito de acidente de trabalho e aumento do custeio
devido pelas empresas, conforme redacáo do art. 15:
Art. 15. O custeío dos encargos decorrentes desta Lei será atendido pelas atuais contribuicóes previdenciárias a cargo
da Uniáo, da empresa e do segurado, com um acréscimo, a cargo exclusivo da empresa, das seguintes percentagens
do valor da folha de salário de contribuicáo dos segurados de que trata o art. 11.1:
1 - 0,4% (quatro décimos por cerito) para a empresa em cuja atívidade o risco de acidente do trabalho seja considerado
leve;
II - 1,2º/o (urn e dois décimos por cento) para a empresa em cuja atividade esse risco seja considerado médio:
III - 2,5% (dois e meio por cento) para a empresa em cuja atividade esse risco seja considerado grave.
§ 12 O acréscimo de que trata este artigo será recolhido juntamente com as demais contríbuicóes arrecadadas pelo
INPS.
§ 2° O Ministério da Previdéncia e Assisténcia Social - MPAS classificará os tres graus de risco em tabela própria
organizada de acordo com a atual experiencia de risco, na qua) as empresas seráo automaticamente enquadradas,
segundo a na tu reza da respectiva atividade.
§ 32 A tabela será revista trienal mente pelo Ministério da Previdéncia e Assisténcia Social, de acorde com a experiencia
de risco verificada no período.
§ 42 O enquadramento individual na tabela, de iniciativa da empresa, poderá ser revisto pelo INPS, a qualquer tempo.

(6) O Decreto-lei n. 66/1966 trouxe diversas alteracóes a Lei n. 3.807 /60 (LOPS), inclusive seu art. 69, que tratava das contribulcñes
de-
vidas a Previdéncia Social, por empregadores e empregados. Nao havia contrtbuicáo destinada ao custeio das prestacóes acidentárias,
que foi instituída somente coma Lei n. 5.316/67.
(7) Para os trabalhadores rurais, as normas constavam da Lei n. 5.889/73, com seguro de acidentes previsto no art. 19 e cuja atribuicáo
cabía ao FUNRURAL, conforme Leí n. 6.195/1974.

17
O regulamento da Lei n. 6.367 se deu pelo Decreto n. 79.037 (DOU de 28.12.1976), e ern 1977 a
Lei n. 6.439 instituiu o SINPAS - Sistema Nacional de Previdéncia e Assísténcia Social, cujo objetivo
era reorganizar a Previdéncia Social. Foram criados o INANPS e o IAPAS (autarquías vinculadas ao
Ministério da Previdéncia e Assisténcía Social) e integravam o SINPAS as seguintes entidades: INPS,
INAMPS, LBA, FUNABEM, DATAPREV, IAPAS E CEME.
Com a criacáo do SINPAS foi necessária a aprovacáo de um novo regulamento para a Previdéncia
Social, o que ocorreu por rneio do Decreto n. 83.080 (DOU de 29.1.1979), sem alteracóes quanto a
rnatéria acidentária. Seus anexos V a VIII traziam as tabelas pertinentes ao terna, com destaque para o
Anexo VIII, que tratou das doencas profissionais ou do trabalho dos rurais. O Decreto n. 83.081 (DOU
de 29.1.1979), por sua vez, regulamentou o custeio previdenciário, também sem alteracóes relevantes.
Ern 1984, o Decreto n. 89.312 (DOU de 24.1.1984) aprovou a nova Consolidacáo das Leis da
Previdéncia Social, sem modificacóes significativas em rnatéria acidentária, e ern 5.10.1988 foi
promulgada a Constituicáo Federal que ora se encentra em vigor. A nova Carta Magna garantiu
o direito ªº
seguro de acidentes para os trabalhadores, cumulativamente a indenizacáo quando da
ocorréncia de dolo ou culpa (art. 72), manteve o direito de aposentadoria integral aos servidores
públicos vítimas de acidente de trabalho (art, 40), assim corno a exclusáo de competencia da [ustica
Federal para os litigios envolvendo rnatéria acidentária (art. 109).
Ocorre que a Constituicáo de 1988 trouxe outras alteracóes de cunho previdenciário, corno
a uniformidade e equivalencia de direitos entre trabalhadores urbanos e rurais (art. 194), além
de determinar, no Ato das Disposicóes Constitucionais Transitórias - ADCT, art. 59, que fosse
apresentado um novo plano de custeio e beneficios.
Assim, surgiram em julho de 1991 as Leis ns. 8.212 e 8.213, a primeira referente ao plano de
custeio e a segunda referente ao plano de beneficios do que agora passaria a ser chamado de Regime
Geral de Previdéncia Social.v"
A Lei n. 8.212 (DOU de 25.7.1991) trouxe alteracóes quanto as contribuicóes destinadas ao
seguro de acidentes do trabalho, passando as alíquotas de 1 °lo, 2°/o e 3%, até hoje vigentes. Confira-se:
Art. 22. A contribuicáo a cargo da empresa, destinada a Seguridad e Social, alérn do disposto no art, 23, é de:

[... ]

U - para o financiamento da complementacáo das prestacóes por acidente do trabalho, dos seguintes percentuais,
incidentes sobre o total das remuneracóes pagas ou creditadas, no decorrer do mes, aos segurados empregados e
trabalhadores avulsos:

a) 1% (um por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante o risco de acidentes do trabalho seja
considerado leve;

b) 2% (dois por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante esse risco seja considerado médio¡

c) 3% (tres por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante esse risco seja considerado grave.

§ 1ºNo caso de bancos comerciais, bancos de in vestimentos, bancos de desenvolvimento, caixas económicas, sociedades
de crédito, financiamento e investimento, sociedades de crédito imobiliário, sociedades corretoras, distribuidoras de
títulos e valores mobiliarios, empresas de arrendamento mercantil, cooperativas de crédito, empresas de seguros
privados e de capitalizacáo, agentes autónomos de seguros privados e de crédito e entidades de previdéncia privada
abertas e fechadas, além das contribuicóes referidas neste artigo e no art. 23, devida a contribuicáo adicional de 2,S'Yo
é

(dois inteiros e cinco décimos por cento) sobre a base de cálculo definida no inciso 1 deste artigo.

§ 22 Nao íntegram a remuneracáo as parcelas de que trata o§ 82 do art. 28.

(8) O INSS - Instituto Nacional do Seguro Social foi criado pelo Decreto n. 99.350, de 27.6.1990, resultado da fusáo do IAPAS como
a
INPS. Trata-se de urna autarquía federal, época vinculada ao Ministério do Trabalho e da Previdéncia Social, cujo objetivo era cuidar
da arrecadacáo das contribuicóes previdenciárias, bem como da habilltacáo e rnanutencáo dos benefícios pagos aes segurados e de-
pendentes.

18
§ 32 O Ministerio do Trabalho e da Prevídéncia Social poderá alterar, com base nas estatísticas de acidentes do
trabalho, apuradas em inspecáo, o enquadramento de empresas para efeito da contribuicáo a que se refere o inciso lI
<leste artigo, a fim de estimular investimentos em prevencáo de acidentes.
[ ... ]
A Lei n. 8.213 (DOU de 25.7.1991), por sua vez, passou a conceituar os acidentes de trabalho
(arts. 19 a 21) e a determinar a obrigatoriedade da notificacáo (arts. 22 e 23) e, além de especificar
os benefícios existentes ao trabalhador acidentado, criou a estabilidade provisória (art. 118) e a acáo
regressiva por parte da Previdéncia Social, quando da inobservancia das normas de seguran<;a e
higiene do trabalho (art. 121).
Ocorre que, como já dito anteriormente, o direito e a rnatéria, especificadarnente, sao extre-
mamente dinámicos, e por óbvio que as Leis ns. 8.212 e 8.213, apesar de ainda vigentes, sofrerarn
inúrneras alteracóes relevantes. Tambérn a CF/88 foi diversas vezes alterada, por Ernendas Constitu-
cionais, com alteracáo significativa no direito previdenciário. No entanto, todas essas alteracóes seráo
analisadas nesta obra cuidadosa e separadamente, razáo pela qual deixo, aquí, de mencioná-las.
Confiro destaque, contudo, a Lei n. 10.666 (DOU de 9.5.2003), em seu art. 10, que criou urna
flexibilizacáo as alíquotas originais do SAT - Seguro de Acidentes do Trabalho, posteriormente
denominada FAP - Fator Acidentário de Prevencáo, objeto de grande polémica e que será abordado
no decorrer das próximas páginas, já que pode reduzir em até 50%, ou elevar em até 100°/o, as alíquotas
de 1 o/o, 2% ou 3% destinadas ao custeio dos benefícios acidentários. Por ora, eis a transcricáo do
referido dispositivo:
Art. 10. A alíquota de contribuicáo de urn, dois ou tres por cento, destinada ao financiamento do beneficio de
aposentadoria especial ou daqueles concedidos em razáo do grau de incidencia de incapacidade laborativa decorrente
dos riscos ambientáis do trabalho, poderá ser reduzida, em até cinquenta por cento, ou aumentada, em até cem por
cerito, conforme dispuser o regulamento, em razáo do desempenho da e1npresa em relacáo a respectiva atividade
económica, apurado em conformidade com os resultados obtidos a partir dos índices de frequéncia, gravidade e
custo, calculados segundo metodología aprovada pelo Conselho Nacional de Previdéncia Social.

Também merece distincáo a Leí n. 11.430 (DOU de 27.12.2006), que inseriu na Leí n. 8.213/91 o
art. 21-A, criando urna nova forma para o INSS caracterizar os acidentes de trabalho, denominada
Nexo Técnico Epidemiológico (NTEP) e que igualmente será objeto de estudo aprofundado e1n
momento posterior, dada sua relevancia para o terna em debate:
Art. 21-A. A pericia médica do INSS considerará caracterizada a natureza acidentária da incapacidade quando
constatar ocorréncia de nexo técnico epidemiológico entre o trabalho e o agravo, decorrente da relacáo entre a
atividade da empresa e a entidade mórbida motivadora da incapacidade elencada na Classificacáo Internacional de
Doencas - CID, em conforrnídade como que dispuser o regulamento.
§ 111 A perícia médica do INSS deixará de aplicar o disposto neste artigo quando demonstrada a inexistencia do nexo
de que trata o capui <leste artigo.
§ 2° A empresa poderá requerer a nao aplícacáo do nexo técnico epidemiológico, de cuja decisáo caberá recurso com
efeito suspensivo, da empresa ou do segurado, ao Conselho de Recursos da Previdéncia Social.

Por fim, ressalto a recente Lei Complementar n. 150, publicada no DOU de 2.6.2015 que, ao
dispor sobre o trabalho dos empregados domésticos, estendeu a eles diversos direitos, inclusive
aqueles que decorrem de acidente de trabalho, objeto desta obra.

19
~7J
®~- =i:.>~ ~;..:.tU-~ ~

2.1. Dos requisitos necessários a caracterizaciio da natureza acidentária


e do acidente típico

Possuem direito a caracterizacáo do acidente de trabalho os trabalhadores empregados (inclusive


o doméstico, por forca da LC 150/2015), os trabalhadores avulsos e os segurados especiaís/" e desde
o primeiro conceito trazido pelo Decreto n. 3.724/1919 se fazern necessários tres requisitos para que
urna determinada ocorréncia seja intitulada como acidentária:
a) que o trabalho (ou seu ambiente) terma sido a causa do sinistro.
b) que o trabalhador terma sofrido Iesáo corporal ou perturbacáo funcional.
e) que exista incapacidade laborativa, ainda que temporária.
É o que depreendemos ao ler os conceitos trazidos ao longo de todos esses anos, conforme
demonstro:
Decreto n. 3.724/1919: "Art. 1º Consideram-se accidentes no trabalho, para os fins da presente lei:Ia) o produzido
por urna causa súbita, violenta, externa e involuntaria no exercicio do trabalho, determinado lesóes corporaes
ou perturbacées funccionaes, que constituam a causa unica da morte ou perda total, ou parcial, permanente ou
temporaria, da capacidade para o trabalho; Tb) a molestia contrahida exclusivamente pelo exercicio do trabalho,
quando este fór de natureza a só por si causal-a, e desde que determine a morte do operario, ou perda total, ou
parcial, permanente ou temporaria, da capacidade para o trabalho."
Decreto n, 13.498/1919: "Art. 1 S! Consideram-se accidentes do trabalho: a) o accidente produzido por urna causa subita,
violenta, externa e involuntaria no exercicio do trabalho, determinando lesóes corporaes ou perturbacóes funccionaes
que constituam a causa unica da morte ou perda total ou parcial, permanente ou temporaria, da capacidade para o
trabalho: b) a molestia contrahida exclusivamente pelo exercicio do trabalho, quando este for de natureza asó por
si causa-la e desde que determine a morte do operario ou perda total ou parcial, permanente ou temporaria, da
capacidade para o trabalho. ·
Paragrapho unico, Consideram-se molestias profissionaes, entre outras, as seguintes: o envenenamento pelo chumbo,
mercurio, cobre, phosphoro, arsénico e seus derivados, a pneumoconiose, a tabacose pulmonar. a ophthalmia
amrnoniacal, o sulfocarbonismo e o hydrocarburismo."
Decreto n. 24.637/1934: "Art, lS! Considera-se addente do trabalho, para os fins da presente lei, toda lesáo corporal,
perturbacáo funcional, ou doenca produzida pelo exercício do trabalho ou em consequéncía dele, que determine a
morta, ou a suspensño ou lirnitacáo, permanente ou temporaria, total ou parcial, da capacídade para o trabalho."
Decreto-leí n. 7.036/1944: "Art. 1 Q Considera-se acidente do trabalho, para os fins da presente Leí, todo aquele que se
verifique pelo exerácio do trabalho, provocando, direta ou indiretamente, lesáo corporal, perturbacáo funcional, ou
doenca, que determine a morte, a perda total ou parcial, permanente ou temporaria, de capacidade para o trabalho:"
Decreto-leí n. 293/1967: "Art. 1º Para fins do presente Decreto-Leí. considera-se acidente do trabalho todo aquéle
que provocar lesáo corporal ou perturbacáo funcional no exercício do trabalho, a servico do empregador, resultante
de causa externa súbita, imprevista ou fortuita, determinando a morte do empregado ou sua incapacidade para o
trabalho, total ou parcial, permanente ou temporaria."
Lei n. 5.316/1967: "Art. 2º Acidente do trabalho será aquéle que ocorrer pelo exercício do trabalho, a servico da
empresa, provocando lesáo corporal, perturbacáo funcional ou doenca que cause a morte ou a perda ou reducáo,
permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho,
[... ]
§ 2° Será considerado corno do trabaJho o acidente que, embora nao tenha sido a causa única, haja contribuido
diretamente pai·a a morte ou a perda ou reducáo da capacidade para o trabalho."

(9) Pequenos produtores rurais, conceituados no art. 11, VII, da Lei n. 8.213/91.

20
Decreto n. 61.784/1967: "Art. 311 Acidente do trabalho será aquéle que ocorrer pelo exercício do trabalho, a servíco
da empresa, provocando leséo corporal, perturbacáo funcional ou doenca que cause a morte ou a perda ou reducáo,
permanente ou temporaria, da capacidade para o trabalho.
Parágrafo único. Será considerado com do trabalho o acidente que, embora nao tenha sido a causa única, haja
contribuido diretamente para a morte ou a perda ou reducáo da capacidade para o trabalho."
Decreto n. 77.077/1976: "Art 164. Entende-se como acidente do trabalho, para os efeitos desta Consolidacáo, o que
ocorrer pelo exercício do trabalho, a servico da empresa, provocando lesáo corporal, perturbacáo funcional ou doenca
que cause a morte ou a perda ou reducáo, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho.
[... )
§ 22 Será considerado como do trabalho o acidente que, embora nao tenha sido a causa única, haja contribuido
diretamente para a morte ou a perda ou reducáo de capacídade para o trabalho."
Leí n. 6.367/1976: "Art. 22 Acidente do trabalho aquele que ocorrer pelo exercício do trabalho a servico da empresa,
é

provocando lesáo corporal ou perturbacáo funcional que cause a morte, ou perda, ou reducáo, pennanente ou
temporaria, da capacidade para o trabalho,
§ lll Equíparam-se ao acidente do trabalho, para os fins desta Lei:
[ ... )
TI - o acidente que, ligado ao trabalho, embora nao tenha sido a causa única, baja contribuido diretamente para a
morte, ou a perda, ou reducáo da capacidade para o trabalho:
[ ... l"
Decreto n. 79.037/1976: "Art. 22 O Acidente de trabalho aquele que ocorrer pelo exercício do trabalho a servíco da
é

empresa, provocando lesáo corporal ou perturbacáo funcional que cause a morte, ou a perda ou reducáo, permanente
ou temporaria, da capacidade para o trabalho.
Parágrafo único. Equípararn-se ao acidente do trabalho, para os efeitos <leste Regulamento:
[... )
II - o acidente que, ligado ao trabalho, embora nao tenha sido a causa única, haja contribuído diretarnente para a
morte, ou a perda ou reducáo da capacidade para o trabalho:
[ ... l"
Decreto n. 83.080/1979: "Art. 221. Acidente do trabalho aquele que ocorre pelo exercício do trabalho a servico da
é

empresa, provocando lesáo corporal ou perturbacáo funcional que cause a morte, ou a perda ou reducáo, permanente
ou temporaria, da capacidade para o trabalho.
Parágrafo único. Equiparam-se ao acidente do trabalho, para os efeitos <leste título:
[... )
U - o acidente que, ligado ao trabalho, embora nao seja a causa única, tenha contribuído diretamente para a m.orte,
ou a perda ou reducáo da capacidade para o trabalho;
[ ... l"
Decreto n. 89.312/1984: "Art. 161. Acidente do trabalho é aquele que ocorre pelo exercício do rrabalho a servico da
empresa, provocando lesá.o corporal ou perturbacáo funcional que causa a morte ou a perda ou reducáo, permanente
ou temporária, da capacidade para o trabalho."

Note-se que toda a legislacáo pertinente ao tema traz essas mesmas exigencias para a atribuicáo de
urna natureza acidentária ao sinistro, e assim nao é diferente com o caput do art, 19 da Lei n. 8.213/91,
ora em vigor (redacáo dada pela LC 150/2015):
Art. 19. Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a servíco de empresa ou de ernpregador
doméstico ou pelo exercício do trabalho dos segurados referidos no inciso VII do art. 11 desta Leí, provocando
lesáo corporal ou perturbacáo funcional que cause a morte ou a perda ou reducáo, permanente ou temporaria, da
capacidade para o trabalho.

Ao estipular que acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do irabalno a seroico da empresa
ou do empregador doméstico o legislador deixou claro que o trabalho em si, ou o ambiente no qual é

desenvolvido, deve ser a causa do sinistro, direta ou indiretamente. O acidente precisa ocorrer pelo

21
trabalho, e nao por causa diversa. A utilizacáo da preposícáo pelo ( contracáo de per + o) nao deixa
dúvida quanto a essa interpretacáo, totalmente diversa da afirmativa de que acidente do trabalho é
tudo aquilo que ocorre no trabalho (onde a preposicáo seria a contracáo de em +o).
É preciso, pois, constatar-se que o sinistro só ocorreu em razáo do trabalho e que este colaborou,
de alguma forma, para seu acontecimento.
Se um trabalhador, ao sair para o almoco, opta por descer as escadas da empresa respondendo
mensagens particulares ern seu celular e cai, nao há por que caracterizar a ocorréncia como acidentária,
exceto se as escadas encontravam-se inapropriadas para o uso (sem corrimáo: molhadas: sem fita
antiderrapante e de piso escorregadio etc.). Nesse caso específico, podemos observar que o acidente
ocorreu nao em razáo do trabalho ou seu ambiente, mas sim em decorréncia da displicencia do
próprio trabalhador e, coincidentemente, no trabalho.
E1n caso semelhante, acertadamente decidiu o TRT da 4ª Regiáo quanto ao nao pagamento da
indenizacáo, mas podernos observar que inadequadamente caracterizou o ocorrido como acidente de
trabalho, em afronta as disposicóes do art. 19 da Leí n. 8.213/91, já que concluiu, em seu julgamento,
que a escada estava em perfeitas condícóes (com corrimáo, seca e corn lixa antiderrapante). Confira-
-se a ementa pertinente ao RO 00000265020125040451, publicado em 13.3.2014):
RECURSO ORDINÁRIO DA RECLA1\1ANTE. ACIDENTE DO TRABALHO.QUEDA EM ESCADA. CULPA
EXCLUSIVA DA VÍTIMA. O art. 71, XXII, da CF irnpóe ao empregador a obrigacáo de promover a reducáo de
todos os riscos a saúde do empregado no ambiente laboral, exatamente como procedeu a reclamada, afixando um
cartaz indicando a existencia de escada, instalando corrimáo e utilizando fita antiderrapante em cada degrau. A
reclamante, ao descera escada de acesso ao refeitório, nao fez uso do corrimáo e, além dísso, acentuando o risco que
a escada representa, parou no meio dela para conversar com urna colega, desequilibrando-se após retornar a descida.
Comprovada a culpa. exclusiva da vítima, a qual nao agiu com atencáo, de forma que era exigivel condura diversa da
adorada, especialmente no tocante a utilizacáo do corrimáo. Apelo negado.

Tratou-se o caso citado de um acidente no trabalho, e nao de um acidente do trabalho, e é de


extrema importancia a caracterizacáo correta, já que os acidentes de trabalho trazem consequéncias
outras alérn das indenizacóes trabalhistas, corno a repercussáo direta no cálculo do SAT (em face da
Leí n. 10.666/2003), o direito a estabilidade ou depósitos de FGTS e a possibilidade de ingresso de
acáo regressiva por parte do INSS.
É certo que em alguns casos, senáo na maioria deles, faz-se necessária urna investigacáo para
apurar se o trabalho ou suas condicóes tiveram alguma participacáo no sinistro ou se o trabalhador
seria dele acometido em lugar diverso. U1n operário que sofre um infarto, por exemplo, pode ter o
evento caracterizado como acidente de trabalho se restar comprovado que o stress ou a pressáo sofrida
no ambiente de trabalho foi um fator determinante para sua ocorréncia. Caso contrário, estaremos
<liante de urna fatalidade ocorrida no trabalho, sem estar presente a natureza acidentária no sentido
técnico-legal.
Também é preciso que essa ocorréncia (causada pelo trabalho, direta ou indiretamente)
machuque o trabalhador, ou seja, que lhe cause lesáo corporal (ferimento) ou perturbacáo funcional
(prejuízo do funcionarnento de qualquer parte do corpo) e que a gravidade seja suficiente a ensejar,
no mínimo, urna incapacidade temporária para o trabalho.v?'
Existir urna incapacidade nao significa que sempre será necessária a presenca de afastamento
indicado por atestado médico. É perfeitamente possível, e cotidiana, inclusive, a situacáo de traba-
lhadores que sofrem pequenos acidentes no local e/ou no exercício do trabalho e que permanecem
trabalhando, mas com restricóes impostas pelo servico médico que prestou o primeiro socorro. Essa
restricáo varia conforme a lesáo, mas via de regra se limita a nao subir escadas, nao carregar peso,
nao fazer esforco físico ou algo do genero, pelo restante do dia. Teríamos, nessas hipóteses, urna in-
capacidade temporaria para o trabalho sern necessidade de afastamento, o que nao afasta, repito, a
possibilidade de restar caracterizado o acidente de trabalho.

(10) Ver o Capítulo 4, subitem 4.2.2, sobre a previsáo disposta em portarias e instrucóes normativas.

22
O que impede tal caracterizacáo é a ausencia de qualquer incapacidade ou restricáo laborativa,
como cortar o dedo em folhas de papel, bater membros inferiores em mesas e gavetas (mesmo quando
da existencia de equimose) e outras situacóes semelhantes, sem gravidade, que podem ocorrer no
exercício das atividades profissionais.
Por óbvio, no entanto, que o trabalho ( ou o ambiente no qual é desenvolvido) pode machucar
o trabalhador nao semente na parte externa do corpo, mas também internamente, ocasionando-
-lhe doencas ou agravando aquelas já existentes. E com isso se preocupou o legislador, desde 1919,
colocando claramente nos textos legais que também as morbidades decorrentes do trabalho caracte-
rizam-se corno acidentes do trabalho.
Ternos, portanto, os acidentes típicos'l", que devem observar os requisitos contidos no art. 19
da Leí n. 8.213/91 e que tero por características a subitaneidade e o fato de serem eventos únicos,
ocorridos em um determinado momento, geralmente causando les6es imediatas nos trabalhadores;
e, além desses, as doencas ocupacionais, objeto do subitem seguinte.

2.2. Doenca proftsstonal e doenca do trabalho - Nexo Profissional (NP) e Nexo Individual (NI)
Inicialmente, os conceitos de doenca profissional e doenca do trabalho se confundiam, nao
diferenciando o legislador entre urna e outra, situacáo alterada semente quando da publicacáo do
Decreto-leí n. 7.036/1944.
Atualmente, trata do tema o art. 20 da Leí n. 8.213/91, com a seguinte redacáo:
Art. 20. Consideram-se acidente do trabalho, nos tennos do artigo anterior, as seguintes entidades mórbidas:
I - doenca profissional, assim entendida a produzida ou desencadeada pelo exercício do trabalho peculiar a
determinada atividade e constante da respectiva relacáo elaborada pelo Ministerio do Trabalho e da Previdéncia
Social;
IJ - doenca do trabalho, assirn entendida a adquirida ou desencadeada em funcáo de condícóes especiais em que o
rrabalho é realizado e com ele se relacione diretamente, constante da relacáo mencionada no inciso l.
§ 12 Nao sao consideradas como doenca do trabalho:
a) a doenca degenerativa;
b) a inerente a grupo etario:
e) a que nao produza incapacidade laborativa:
d) a doenca endémica adquirida por segurado habitante de regiáo em que ela se desenvolva, salvo comprovacáo de
que é resultante de exposicáo ou contato direto determinado pela natureza do trabalho.
§ 22 Em caso excepcional, constatando-se que a doenca nao incluída na relacáo prevista nos incisos I e II deste artigo
resultou das condicóes especiais em que o trabalho é executado e com ele se relaciona diretarnente, a Previdéncia
Social deve considerá-la acidente do trabalho.
Observe-se inicialmente, pela importancia extrema do fato, que já no capui o legislador determina
que devern ser observados os termos do art. 19 do mesmo diploma legal, ou seja, para que urna
doenca seja caracterizada como acidente do trabalho faz-se necessário que:
a) o trabalho (ou as condicóes em que é desenvolvido) tenha sido a causa da doenca.
b) essa doenca tenha ocasionado lesáo corporal ou perturbacáo funcional ao trabalhador.
e) essa lesáo ou perturbacáo tenha acarretado alguma incapacidade laborativa, ainda que
temporaria.
A necessidade de a doenca acarretar, obrigatoríamente, urna incapacidade laborativa é repetida
na alínea e do § 12, que novamente transcrevo:
Art. 20. Consideram-se acidente do trabalho, nos tennos do artigo anterior, as seguintes entidades mórbidas:
[••• J

(11) Também denominados por acidentes-tipo por alguns doutrinadores.

23
§ 111 Nao sao consideradas como doenca do trabalho:
[... ];
e) a que nao produza incapacidade laborativa:
[... ]

a
Observados, pois, os tres requisitos essenciais caracterizacáo do acidente de trabalho, ocupou-
-se o legislador em diferenciar as doencas profissionais das doencas do trabalho, o que fez nos incisos
1 e II do dispositivo em comento.
Por doencas profissionaís, também denominadas tecnopatias ou ergopatias, <levemos com preender
aquelas que sao produzidas ou desencadeadas pelo exercício do trabalho, peculiares a determinadas
atividades e geralmente associadas aos agentes químicos, físicos ou biológicos presentes no trabalho.
Sao, via de regra, mais fáceis de serem comprovadas, sendo necessário confirmar a presenc;a do agente
nocivo ( ou fator de risco) no ambiente de trabalho e o correto diagnóstico da enfermidade.
Por doencas do trabalho, ou mesopatias, te1nos aquelas comuns, que nao decorrem necessária e
exclusivamente do trabalho. Podem ser adquiridas ern outros locais, por outros fatores, mas tambérn
podem decorrer das condicóes em que o trabalho é desempenhado, geralmente irregulares, como um
mobiliário incorreto que pode trazer problema ortopédico.
Também importa observar que o art. 20 ordenou que essas doencas (profissionais e do trabalho)
devem constar de urna lista elaborada pelo Ministério da Previdéncia Social.í'"
O Decreto n. 13.498/1919 chegou a especificar as doencas profissionais no parágrafo único do
art. 1 º, citando, por exemplo, o envenenamento pelo chumbo, mercurio. cobre, fósforo e arsénio, bem
como a pneumoconíose-'" e a tabacose pulmonar'!". No entanto, a regra de especificar exaustivamente
as doencas dentro do texto legal nao salutar, até porque referida listagern merece revisáo periódica
é

para inclusáo de novas espécies e, por isso, o Decreto n. 24.637/34 e os diplomas legais posteriores
passaram a mencionar que a relacáo dessas doencas deveria ser elaborada pelo Ministério competente.
O Decreto-leí n. 293/1967 trouxe a primeira dessas tabelas ern seu anexo, e atualmente referida
relacáo consta do Anexo II do Decreto n. 3.048/99, que, contudo, traz em única tabela os agentes
patogénicos causadores das doencas profissionais e também das doencas do trabalho.
Ocorre que, como visto, as doencas profissionais tém no trabalho em si a sua causa (agentes
nocivos ou fatores de risco existentes no ambiente), enquanto que as doencas do trabalho possuem
causas diversas, podendo eventualmente decorrer das condicóes em que o trabalho é desenvolvido.
Colocar ambas as listas em único Anexo só fez confundir os conceitos, dificultando os operadores do
direito a boa técnica de enquadrar corretarnente as espécies.
O Anexo II é composto de urna primeíra tabela, genérica, que informa os agentes patogénícosv"
que podem causar as doencas profissionaís ou as doencas do trabalho. Na sequéncia, traz urna lista
A identificando quais as doencas podem ser causadas por esses agentes, inclusive informando o CID
(código da Classificacáo Internacional de Doencas). Por fim, traz urna lista B informando doencas
infecciosas relacionadas como trabalho.t'"
Seja corn relacáo as doencas profissionais, ou no que diz respeito áquelas do trabalho, nao pode
haver qualquer presuncáo, seja a favor do trabalhador (pela caracterizacáo do acidente) ou a favor

(12) O legislador, na redacáo do referido artigo, indica o Ministério do Trabalho e Prevldéncia Social. Contudo, em 1992, pela Lei n. 8.490,
houve seu desmembramento, passando a existir o Ministério do Trabalho e o Ministério da Previdéncia Social, com competencias distintas.
(13) Pneumoconiose é urna doenca respiratória causada pela lnalacáo de substancias químicas como alumínio, grafite ou asbestos,
entre outras.
(14) Tabacose é urna doenca pulmonar que acomete trabalhadores da indústria do tabaco/fumo.
(15) Agentes capazes de produzir doencas.
(16) Listas completas no Capítulo 14, subitem 14.l.

24
do empregador (pela nao caracterizacáo). Nao obstante as doencas profissionais sejam mais fáceis
de se comprovar, faz-se necessário identificar o agente nocivo no ambiente de trabalho e a efetiva
exposícáo do trabalhador enfermo a esse agente. Para as doencas do trabalho, a prova ainda mais é

complexa, já que fatores externos podem ter desencadeado a enfermidade, sem qualquer colaboracáo
do trabalho ou do ambiente em que é desenvolvido.
É preciso, pois, nao somente estarem presentes os requisitos do art. 19 (seja o trabalho a causa
e exista incapacidade laborativa) como também que essas doencas e seus fatores de risco estejam
listados no referido Anexo II e presentes no ambiente de trabalho onde está inserido o empregado,
comprovadamente. Assim ocorrendo, restará caracterizado o Nexo Profissional ou do Trabalho (NP),
denominacáo utilizada pelo INSS.
Caso a doenca e/ou o agente nocivo ou fator de risco nao estejam listados no Anexo 11, ainda assim
será possível caracterizar a ocorréncia como acidentária, com fundamento no § 22 do art. 20, caso reste
comprovado que a enfermidade resultou de condicóes especiais em que o trabalho era executado. Trata-
-se, no caso, do Nexo Individual (NI), assim denominado pelo INSS, e cujo permissivo legal transcrevo:
Art. 20. Consideram-se acidente do trabalho, nos tennos do artigo anterior, as seguintes entidades mórbidas:
[... ]
§ 22 Em caso excepcional, constatando-se que a doenca nao incluida na relacáo prevista nos incisos I e II deste artigo
resultou das condicóes especiais em que o trabalho executado e com ele se relaciona diretamente, a Previdéncia
é

Social deve consíderá-la acidente do trabalho.

2.3. Situaciies de exceciio

O § 12 do art. 20 da Lei n. 8.213/91 determina expressamente que nao sao consideradas como
doenca do trabalho:
a) a doenca degenerativa;
b) a inerente a grupo etário;
e) a que nao produza incapacidade laborativa:
d) a doenca endémica adquirida por segurado habitante de regiáo em que ela se desenvolva,
salvo comprovacáo de que é resultante de exposicáo ou contato direto determinado pela
natureza do trabalho.
Referida previsáo guarda absoluta relacáo coma ideia do legislador quanto ao conceito de "acidente
do trabalho", determinando sua ocorréncia somente quando o trabalho tiver sido a causa do sinistro.
Essa é a redacáo constante dos dispositivos desde o Decreto n. 3.724/1919, ao prever na alínea b
do art. 1 ºque a natureza do trabalho deveria causar a moléstia. Confira-se:
Art. 1º Consideram-se acidentes no trabalho, para os fins da presente leí:
[... ]
b) a moléstia contraída exclusivamente pelo exercício do trabalho, quando este for de natureza asó por si causá-la, e
desde que determine a morte do operario, ou perda total, ou parcial, permanente ou temporaria, da capacídade para
o trabalho.
Corno já abordado anteriormente, o conceito foi obtendo melhoras ao longo dos anos, e, desde o
Decreto n. 24.637/1934, ocupou-se o legislador em deixar claro que as doencas endémicas?" deveriam ser
excluídas de tal conceito ( art. 1 º, § 12), fato repetido pelo Decreto-leí n. 7.036/1944 ( art. 7º, parágrafo único).
Quando da Lei n. 5.316/1967, o legislador excluiu expressamente as doencas degenerativasv" e também
aquelas inerentes a determinado grupo etário, previsáo que se seguiu nos diplomas legais posteriores.

(17) Endemia é urna doenca que se manifesta apenas em urna determinada regiáo, de causa local, nao se espalhando ou atingindo
outras localidades. No Brasil, podemos citar o exemplo da febre amarela na regiáo da Amazonia.
(18) Doenca degenerativa é aquela que leva a urna gradual lesáo no organismo. Sao irreversíveis, permanentes e geralmente evoluem,
trazendo lirnitacáo nas funcñes do organismo. As causas nem sempre sao conhecidas.

25
Corretamente, pois, decidiu o TRT da 1 ª Regiáo, no Recurso Ordinário 00001309320115010343/
RJ, publicado em 18.11.2014:
DOEN<;A DEGENERATIVA. CONCAUSA. No caso de doenca degenerativa, essencial a prova de que a atividade
é

desenvolvida pelo empregado contribuiu de forma di reta para o agravarnento da patología, a fon de caracterizar a
concausa que enseja a reparacáo civil.

É clara, pois, a intencáo do legislador de caracterizar como acidente do trabalho semente aquelas
doencas que tiveram no trabalho sua causa e desde que acarretem ao obreiro uma incapacidade
laborativa, ainda que temporaria. E nao poderia ser diferente.
Toda a legislacáo acidentária se1npre teve por objetivo a protecáo do trabalhador. Corno
nao existía um regime previdenciário que abrangesse todos os trabalhadores e como nao existia
a obrigatoriedade de um seguro, criou-se inicialmente o direito a percepcáo de uma indenizacáo,
calculada conforme a gravidade das lesóes e que semente deveria ser paga se, por óbvio, o trabalho
tivesse ocasionado o sinistro. Posteriormente, foi criado o seguro, e atualmente há a possibilidade
de receber os benefícios acidentários ( custeados pelo seguro) e, simultaneamente, em alguns casos,
perceber urna indenizacáo paga pela empresa ern razáo do dano sofrido pelo obreiro.
Ora, se o seguro é para custear os beneficios decorrentes dos acidentes de trabalho, é justo que
semente as ocorréncias corretamente enquadradas se habilitem a tais prestacóes. E se a indenizacáo
paga pelo empregador objetiva a reparacáo do dano, por óbvio que o trabalho necessita ter participa-
<;ao na ocorréncia do dano para que o empregador seja condenado.
Se a doenca foi adquirida por causa diversa e evolui gradativamente (doenca degenerativa),
ou se inerente a grupo etário ou determinada regiáo (endemia), nao há que se falar em acidente do
trabalho, ressalvada a situacáo da concausa, que será abordada posteriormente.

2.4. Nexo Técnico Epidemiológico - NTEP

Criado pela Lei n. 11.430/2006, que inseriu o art. 21-A na Leí n. 8.213/91, o Nexo Técnico
Epidemiológico (NTEP) objetiva atender a urna necessidade do custeio da Previdéncia Social, mais
precisamente do cálculo do Fator Acidentário de Prevencáo (FAP), e para compreendermos bem o
tema, é preciso voltarmos um pouco no tempo e espa<;o da legíslacáo previdenciária referente ao
Seguro de Acidentes do Trabalho.
Conforme disposicóes constantes da Lei n. 8.212/91, art. 22, inciso II, para financiar os beneficios
decorrentes de acidente de trabalho as empresas se obrigam a pagar um seguro (SAT),<19> cuja alíquota
incide sobre o total da folha de pagamento (total de remuneracáo ), sem limite, e que varia conforme
o grau de risco de acidentes:
Art. 22. A contribuicáo a cargo da empresa, destinada a Seguridade Social, além do disposto no art. 23, de:
é

[... ]
IT - para o financiamento do benefício previsto nos arts. 57 e 58 da Lei n. 8.213, de 24 de julho de 1991, e daqueles
concedidos em razáo do grau de incidencia de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientáis do trabalho,
sobre o total das remuneracóes pagas ou creditadas, no decorrer do mes, aos segurados empregados e trabalhadores
avulsos:
a) lo/o (um por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante o risco de acidentes do trabalho seja
considerado leve;
b) 2% (dois por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante esse risco seja considerado médio;
e) 3% (tres por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante esse risco seja considerado grave.

(19) SAT - Seguro de Acidentes do Trabalho, previsto na CF/88, art. 7º, XXVIII e/e art. 201, § 10, também conhecido por RAT - Risco
Ambiental do Trabalho.

26
Para verificar qual a sua alíquota, cada empresa deve verificar no cartáo do CNPJ seu código
de atividade preponderante (CNAE) e, de posse desse número, verificar a distribuicáo feita pelo
Ministério da Previdéncia Social no Decreto que regulamenta o Regime Geral.<20)
Ainda se discute se essa atividade preponderante deve ser apurada considerando a e1npresa
como um todo (todos os CNPJs de mesma raiz) ou se isoladamente, por estabelecimento, tópico que
abordarei em capítulo separadov", masé certo que em 2002 o entendimento que prevalecía (disposto
nas normas legáis, inclusive) era no sentido de que deveria ser por empresa, em sua totalidade.
Cumpre observar, também, que prevalecía a categoria económica (CNAE), e nao a realidade
de cada e1npresa individualmente analisada. Se a atividade era de construcáo civil, por exemplo,
CNAE 4521-7/01, a alíquota a ser utilizada era a de 3o/o (grau máximo, conforme redacáo do Anexo
V do Decreto n. 3.048/99), ainda que urna determinada construtora nunca tivesse seus empregados
acidentados.
E1n dezembro de 2002, contudo, foi publicada a Medida Provisória n. 83 (DOU de 13.12.2002),
urna das últimas do governo Fernando Henrique Cardoso, cujo art. 10 trazia inovacáo ao tema,
propondo urna flexibilizacáo dessas alíquotas básicas (1 %, 2% e 3% ), que poderiam ser reduzidas
em até 50% ou majoradas em até 100°/o, conforme índices de frequéncia, gravidade e custo de cada
empresa, individualmente. Confira-se a explicacáo constante da exposicáo de motivos:
31. No art 10, faz-se proposta de flexibilizacáo de alíquotas de contribuicáo em razáo dos desernpenhos das empresas
na prevencáo dos acidentes de trabalho. A preocupacáo com a saúde e seguranca dos trabalhadores constituí-se em
um dos ternas de maís elevado poder aglutinador. Mesmo reconhecendo que a necessidade de proteger o trabalhador
que trabalha em ambiente ou servico perígoso, insalubre ou penoso é da empresa que assume o risco da atividade
económica e deve responsabilizar-se pelas consequéncias das enfermidades contraídas e acidentes do trabalho
sofridos pelos empregados, na prática que as suporta é o Governo, por meio do Ministério da Saúde em relacáo as
despesas médicas e hospitalares e do INSS em relacáo as incapacidades laborativas, temporárías ou permanentes e
as mortes.
32. A proposta visa introduzir mecanismos que estimulem os empresarios a investirem ero prevencáo e melhoria
das condicóes do ambiente de trabalho, mediante a reducáo, em até 50%, ou acréscimo, em até 100°/o, da alíquota
de contribuicáo destinada ao financiamento das aposentadorias especiais ou dos beneficios concedidos ern razáo
de acidentes ou de doencas ocupacionais, conforme a sua posicáo da empresa na classificacáo geral apurada em
conformidade com os índices de frequéncia, gravidade e custo das ocorréncías de acidentes, medidas segundo
metodología aprovada pelo Conselho Nacional de Previdéncia Social - Cl\JPS. A participacáo do CNPS na
validacáo desta metodología é de fundamental importáncia devido ao caráter quadripartite (governo, aposentados,
trabalhadores e ernpregadores) da sua cornposícáo.

E1n maio de 2003, essa Medida Provisória foi aprovada pelo Congresso Nacional e convertida na
Lei n. 10.666 (DOU de 9.5.2003), que manteve integralmente a redacáo do art. 10:
"Art. 10. A aliquota de contribuícáo de um, dois ou tres por cerito, destinada ao financiamento do beneficio de
aposentadoria especial ou daqueles concedidos em razáo do grau de incidencia de incapacidade labora ti va decorrente
dos riscos ambientais do trabalho, poderá ser reduzida, em até cinquenta por cento, ou aumentada, em até cem por
cento, conforme dispuser o regulamento, em razáo do desempenho da e1npresa em relacáo a respectiva atividade
económica, apurado em conformidade com os resultados obtidos a partir dos índices de frequéncía, gravidade e
custo, calculados segundo metodologia aprovada pelo Conselho Nacional de Previdéncia Social.
Era preciso, pois, que o Conselho Nacional de Previdéncia Social discutisse a matéria e editasse
as fórmulas correspondentes ao cálculo que deveria ser feíto, e questáo crucial era a Previdéncia
Social conhecer, de alguma forma, quantos e quais os acidentes ocorridos em cada empresa.
Na época (2003), a resposta óbvia para tal apuracáo era a verificacáo das CATs (Comunicacáo
de Acidente de Trabalho) existentes no INSS para cada urna das e1npresas, cujos nexos tivessem sido
legalmente investigados e caracterizados, mas o Ministério da Previdéncia Social sugeriu alternativa
diversa, alegando ser fato comum os acidentes acontecerem e a empresa nao notificá-los ao INSS,
descumprindo o comando legal disposto no art. 22 da Lei n. 8.213/91.

(20) Tabela disposta no Capítulo 14 desta obra, subitem 14.9.


(21) Ver o Capítulo 11 desta obra.

27
Muitas discussóes foram travadas naquela época sobre a desconsideracáo das CATs porque, nao
obstante seja verdadeira a informacáo de que muitas en1presas deixam de emitir tal documento, certo
é que a Lei n. 8.213/91, no mesmo art. 22, confere poderes a própria vítima para sua emissáo, assim
como ao médico que prestou o primeiro socorro, ao sindicato da categoría profissional ou a qualquer
autoridade pública. Assim, nao é porque a empresa se recusa a emitir o referido documento que o
INSS deixa de ter conhecimento do acidente acorrido, já que a CAT pode ser emitida por outra pessoa
e já que, nos tennos do próprio art. 22, o documento é válido qualquer que seja o emiten te autorizado.
De toda forma, em 10.5.2004 foi publicada a Resolucáo MPS/CNPS n. 1.236, que, pela primeira
vez, explicitava a ideia alternativa do Ministério da Previdéncia Social para a identificacáo dos
acidentes, em substituicáo a verificacáo das CATs e identificacáo dos nexos, conforme previsto na
Iegislacáo da época. A Resolucáo sugeria a realizacáo de um estudo epidemiológico, utilizando-se o
critério estatístico da razáo de chance (RC), vinculado o diagnóstico da doenca (código CID) como
código da atividade económica (CNAE). Confira-se o trecho pertinente:
4. O Código Internacional de Doenca - CID - como novo Parámetro
Busca-se, com base na frequéncia, gravidade e custo, um elemento primário que seja típicamente imune a sonegacáo,
nao declaratorio, que independa do desejo/poder do empregador sobre a informacáo dos dados e seja intrinsecarnente
relacionado a incapacidade laboral, a doenca ou a entidade mórbida ou registro. Algo cuja responsabilidade médica seja
pessoal, oferecendo o menor grau de manipulacáo, e consequentemente, urna maior seguran<;a para o gestor e a justica.
Diante dessas prernissas, descartou-se, de irnedíato, como elemento prirnário, os registros dos acidentes do trabalho,
informados por intermédio da CAT que, como antes afirmado, sao subnotificados, e, caso fossem utilizados, beneficiariam
sonegadores, em detrimento das empresas que tém desenvolvido acóes efetivas de protecáo do trabalhador.
[... ]
Na busca de outro elemento primário que pudesse ernbasar urna nova metodología, após a análise de dados sobre
acidentes e doencas ocupacionais e dos seus problemas, identificou-se que, em cada processo de solícítacáo de
benefício junto a Previdéncia Social, existe um dado requerido obrigatoriamente, que o registro do diagnóstico do
é

problema de saúde que motivou a solicítacáo.


Esse diagnóstico, de acordo com a Organizacáo Mundial da Saúde - OMS, padronizado e codificado, recebendo
é

o nome de Classificacáo Internacional de Doencas - CID, que se encentra atualrnente na 1ou Revisáo. Esse dado é

preenchido pelo médico que presten o atendirnento, sendo de sua responsabilidade profissional e exigido para a
concessáo de beneficio, seja ocupacional ou nao.
O CID, assím, nao padece do mesmo vício da CAT, urna vez que independe da comunicacáo da empresa. Se o segurado
for acometido de urna doenca ou lesáo e estas irnplicarem a incapacidade para o exercício de sua atividade, o beneficio será
concedido pela Previdéncia Social, independenternente de qualquer manífestacáo da empresa. A cornunícacáo destas tao
somente influencia na caracterizacáo da natureza da prestacáo - acidentária ou previdenciária (nao acidentária).
Desta forma, propóe-se a adocáo do CID como fonte primária estatística. Nesse sentido, cumpre selecionar entre os
benefícios da Previdéncia Social quais os que tém CID a eles atribuído. Sao eles auxílio-doenca previdenciário (B31);
aposentadoria por invalidez previdenciária (B32); auxílio-doenca acidentário (B91); aposentadoria por invalidez
acidentária (892); pensáo por morte acidentaria (B93); auxílio-acídente (B94).
Eleito o CID como base primária para o presente trabalho, a questáo que se coloca é saber se pertencer a um determinado
segmento económico (código CNAE) constituí fator de risco para o trabalhador apresentar urna determinada doenca. Se sim,
qual o tamanho desse risco? Como distinguir entre os beneficios com CID atribuído quais guardarn e quais nao guardam
assodacáo como fato de o segurado pertencer a um empreenditnento de um determinado seguimento económico?
O dado disponível obriga ao delineamento epidemiológico, observacional, transversal, descritivo e analítico.
Em primeiro lugar, é necessária urna bifurcacáo entre os beneficios auxílío-doenca e aposentadoria por invalidez, de
um lado, e dos beneficios pensáo por rnorte e auxílio-acidente, de outro, Essa bifurcacáo se imp6e, poís, em relacáo
aos últimos, a base formal dos registros previdenciários reconhecidamente idónea para sua vinculacáo ocupacional.
é

Quanto aos primeiros, contudo, exige-se um estudo mais acurado, cuja base é a epidemiología, mais específicamente
a estimativa da chamada razáo de chances (RC), como medida de associacáo estatística, empregada como um critério
para a definicáo de causalidade entre um fator (nesse caso, pertencer a urn determinado CNAE) e um desfecho de
saúde, nesse caso ter uro diagnóstico clínico para o acidente ou enfermidade. Essa medida por si só nao determina a
causalidade, até porque as doencas sao eventos multicausais complexos, todavía, é reconhecida como fundamental
para a inferencia causal (Hill, 1965).
[... ]
Adotou-se a medida de associacáo estatística, raza o de chances - RC, que satisfaz plenamente aos objetivos propostos,
com vantagens diferenciadas de outras assocíacóes pelo fato de apresentar melhores propriedades estatísticas.
[... ]

28
Quando da publícacáo dessa Resolucáo outra polémica foi levantada porque o cruzamento
dos dados do CID ocorreria com o código da atividade económica (CNAE), e nao com a funcáo
propriamente exercida pelo trabalhador (código CBO - Classificacáo Brasileira de Ocupacóes).
Se a pretensáo era criar urna tabela relacionando doencas com trabalho exercido, nada mais
apropriado do que relacionar o CID como CBO, e nao coma atividade económica em geral, porque
um operador de máquina, por exemplo, está sujeito a agente nocivo ou fator de risco ao qual a
recepcionista do estabelecimento certamente nao está.
Nao bastasse tal incoeréncia, a Resolucáo CNPS 1.236/2004 ainda determinava que nesse cálculo
estatístíco fossem utilizados dados do INSS e que, para o perfil de morbímortalidade, deveriam ser
adotados também os beneficios nao acidentários. Confira-se:
5. Fontes de Dados
[ ... J
Ente os 95 tipos de beneficios concedidos pelo INSS, para os quaís existe um código alfanumérico de tres dígitos,
11 deveriam receber um diagnóstico correspondente a' CID: B21, 31, 32, 36, 56, 80, 87, 91, 92, 93, 94. Desses 11 tipos,
excluíram-se o 821 (pensáo por morte nao ocupacional); 836 e 856, por náo existirem mais, e o 880, por se tratar de
auxílio maternidade, sem relevancia para o estudo da acidentabilidade. Restam, portante, seis tipos (B31, B32, B91,
892, 893 e 894) que cornpóem o perfil morbimortalidade, cuja totalizacáo de despacho alcancen 5.795.604, entre 1998
e 2002, o que representa 41,73°/o de todos os benefícios nesse mesmo período.
[ ... ]
RODAPÉ
1. Ao tempo que o risco relativo - RR está restrito ao evento de "sucesso", a RC trabalha as duas possibilidades,
"sucesso" e "fracasso", e por isso é mais incisiva)
2. Quadro I - Resumo dos Benefícios despachados que compóern o perfil de morbimortalidade.

ESPÉCIE DE BENEFÍCIO CID PERDIDO % PERDIDO CID CADASTRADO TOTAL


31:Auxílio-Doenc;a Previdenciário 758.371 18,35% 3.373.608 4.131.979
32:Aposentadoria Invalidez Previdenciária 231.979 29,33% 558.945 790.924
91:Auxílio-Doenc;a por Acidente do Trabalho 178.967 23,92% 569.225 748.192
94:Auxílio-Acidente 40.889 61,45% 25.647 66.536
92:Aposent. Invalidez Acidente Trabalho 12.483 29,35% 30.051 42.534
93:Pensao por Morte Acidente do Trabalho 15.436 99,98% 3 15.439
Total B 31:32:91:92:93:94 21,36% 4.557.479 5.795.604
Total geral 4.989.381 13.864.775

3. Os CID-10 relativos a gravidez e puerpério (CID15), bern como o período de peri na (CID16) foram desprezadas, pois
símplesmente nada tema ver com morbimortalidade ocupacional. Também foram desprezados os CID 18 (achados
nao classificados em outra parte) e 20 (causa externa de rnorbidade e mortalidade), por nao apresentarem registros.

Ora, corno utilizar no estudo beneficios nao acídentários, como os de código B31 (auxílio-doenca
previdenciário) e B32 (aposentadoria por invalidez previdenciária)? Como utilizar lOOo/o dos benefi-
cios de auxílio-acidente se este pode ser concedido também a segurados que sofreram acidentes de
qualquer natureza?
Justo seria adotar nos cálculos estatísticos apenas os benefícios acidentários e, ainda, nos quais
a caracterizacáo administrativa do nexo (pelo INSS) tivesse observado os termos legais. Ou seja, as
doencas legalmente caracterizadas como acidentárias pela pericia do INSS é que deveriam co1npor o
estudo, e nao todos os beneficios indistintamente.
O interesse da Resolucáo CNPS n. 1.236/2004, portanto, nos parece bastante claro: ao adotar o
CNAE como parámetro (e nao o código das ocupacóes, CBO) e ao utilizar no estudo epidemiológico
beneficios nao acidentários, ternos um maior número de ocorréncias acidentárias e, assim, urna
probabilidade maior de o SAT ser aumentado ern até lOOo/o, e nao reduzido, como previsto na Leí
n. 10.666/2003 em seu art. 10.

29
,
E certo que o Conselho Nacional de Previdéncia Social (CNPS) é composto de seis membros
do governo, tres representantes dos aposentados, tres representantes dos trabalhadores e tres
representantes das empresas e que, matematicamente, a sociedade possui a maioria de sua
composícáo.v" Certo também que os representantes das e1npresas deveriam ter observado tal
disparate e tentado impedir sua validacáo, mas, se o fizeram, acabaram vencidos, porque a Resolucáo
CNPS n. 1.269 (DOU de 21.2.2006) validou a regra anteriormente sugerida, agora co1n menos detalhes
no texto divulgado. Eis os trechos de destaque:
4. A Classificacán Internacional de Doenca - CID como Novo Parámetro
Na busca de outro elemento prirnário que pudesse embasar urna nova metodología, após a análise de dados sobre
acidentes e doencas ocupacionais e dos seus problemas, identificou-se que, em cada processo de solicitacáo de
a
beneficio junto Previdéncia Social, existe um dado requerido obrigatoriamente, que é o registro do diagnóstico
(CID-10) do problema de saúde que morivou a solícítacáo,
[... ]
A CID-10 nao padece dos vícios da CAT tuna vez que independe da comunicacáo da e1npresa. Se o segurado for
acometido de urna doenca ou lesáo e estas implícarem a incapacidade para o exercício de sua atividade, o beneficio
será concedido pela Previdéncia Social, independentemente de qualquer manifestacáo da empresa.
A comunicacáo dessas tao semente influencia na caracterizacáo da natureza da prestacáo pelo INSS como acidentária
ou previdenciária.
[... ]
6. Método
[ ... ]
Adotou-se a CNAE-classe preponderante da empresa como referencia de atividade economica para fins
epidemiológicos, que tarnbém usado pela Previdéncia Social brasileira para fins de definicáo do quantum tributário
é

ao custeio do acidente do trabalho.


[... ]
Todas as entidades mórbidas causadoras dos beneficios incapacitantes para o trabaJho foram a:nalisadas -
temporários e permanentes, tipo auxílio doenca previdenciário (831 ), auxilio doenca acidentário (891), aposentadoria
por invalidez previdenciária (832), aposentadoria por invalidez acidentária (892) - segundo os capítulos da
Classificacáo Internacional de Doencas, décima revisáo (CID-10), exceto capítulos 15, 16, 17, 18, 20 e 21 por nao
comporem o perfil mórbido ocupacional que se deseja estudar.
Utiliza-se a codificacáo de 00-10 ao nível de tres dígitos, posteriormente agregados conforme os 152 agrupamentos
definidos pela CID 10, excetuando-se os57 agrupamentos dos capítulos 15, 16, 17, 18, 20 e 21. Os dados populacionais
oriundos do CNIS referem-se aos trabalhadores com vínculos formais de en1prego cadastrados e atualizados,
mensalrnente, por forca legal pelas empresas empregadoras.
Houve, ainda, a exclusáo dos agrupamentos CID-10 (820-824), doenca pelo virus da imunodeficiéncia humana, e
(C00-048), neoplasias, devido a complexa etiogenia e ao forte estigma social.
[... )
Faz-se urna bífurcacáo entre os beneficios auxílío-doenca e aposentadoria por invalidez, (31, 32, 91 e 92) de um lado,
e dos benefícios pensáo por morte e auxílio-acidente (893 e 894), de outro.
Em relacáo aos últimos, a base formal dos registros previdenciários é reconhecidamente idónea para sua vinculacáo
ocupacional por afericáo di reta. Quanto aos primeiros, devido ao sub-registro da CAT, a aferícáo di reta nao é possível,
por isso lanca-se máo da aferlcáo indireta por estimacáo de risco, aproveitando-se o ferramental epidemiológico.

En1 agosto de 2006 o Poder Executivo publicou a Medida Provisória n. 316 (DOU de 11.8.2006),
acrescentando a
Leí n. 8.213/91 o art. 21-A, mas com redacáo totalmente sucinta e sem explicar
detalhadamente o estudo que seria feito. Confira-se:
Art. 21-A. Presume-se caracterizada incapacidade acidentária quando estabelecido o nexo técnico epidemiológico
entre o trabalho e o agravo, decorrente da relacáo entre a atividade da empresa e a entidade mórbida motivadora da
incapacidade, em conformidade com o que dispuser o regula mento. (NR)

Na exposicáo de motivos, o ministro da Previdéncia Social na época, Carlos Eduardo Gabas, se


limita a explicacóes imprecisas e equivocadas, porque afirma no ítem 6, por exemplo, que semente

(22) Resolucáo CNPS n. 1.212/2002, art. 3!! e Lei n. 8.213/91, art. 3!!.

30
se a CAT for emitida pela empresa é que o beneficio tem natureza acidentária, o que contraria,
frontalmente, as disposicóes do art. 22 da Leí n. 8.213/91. Omite a questáo do custeio (e potencial
aumento do tributo SAT se aumentada a quantidade de ocorréncias acidentárias) e reflete apenas
uma preocupacáo com o trabalhador, dando a entender que as empresas, por nao emitirem as CATs,
os impedem de receber os direitos decorrentes do acidente de trabalho. Eis o teor do documento, nos
trechos pertinentes:
5. Urna outra medida proposta diz respeito a presuncáo de incapacidade acidentária quando for estabelecido nexo
técnico epidemiológico entre o trabalho e o agravo, considerando-se o ramo de atividade da empresa e a entidade
m6rbida elencada na Classíficacáo Internacional de Doencas - CID motivadora da incapacidade, em conformidade
com o que dispuser o Regulamento.

6. Atualrnente, a caractenzacáo de um beneficio como acidentário decorre da ernissáo da Comunicacáo de Acídentes


do Trabalho - CAT por parte da empresa. Se a empresa comunica o acidente e este gera o afastamento do segurado
por mais de 15 días, o beneficio concedido pela Previdéncia Social é tido como acidentário. Nao sendo a CAT emitida,
mas havendo a necessidade de afastamento do trabalho, normalmente o benefício é tido como previdenciário (ou
comurn). Tal classificacáo é crucial para o trabalhador, tendo em vista os correspondentes efeitos. Senda o beneficio
caracterizado corno acidentário, durante o afastamento do trabalho o segura.do faz jus ao depósito do FGTS e goza
de estabilídade de 12 meses após a cessacáo do auxílio-doenca. Senda o beneficio caracterizado como comum, tais
direitos nao lhe sao assegurados.
7. Diante do descumprimento sistemático da regras que determinam a emissáo da CAT, e da dificuldade de fiscalizacáo
por se tratar de fato individualizado, os trabalhadores acabam prejudicados nos seus direitos, em face da incorreta
caracterizacáo de seu beneficio. Necessário, pois, que a Previdéncia Social adore um novo mecanismo de segregue os
benefícios acídentários dos comuns, de forma a neutralizar os efeitos da sonegacáo da CAT.

8. Para atender a tal míster, e por se tratar de presuncáo, matéria regulada por lei e nao por meio de regulamento,
está-se presumindo o estabelecimento do, nexo entre o trabalho e o agravo, e consequentemente o evento será consi-
derado como acidentário, sempre que se verificar nexo técnico epidemiológico entre o ramo de atividade da empresa
e a entidade mórbida relacionada na CID motivadora da incapacidade,

9. Essa metodología está embasada na CID, que se encentra atuahnente na 10~ Revisáo. E1n cada processo de soli-
citacáo de beneficio por incapacidade junto a Previdéncia Social, consta obrigatoriamente o registro do diagnóstico
(OD-10) identificador do problema de saúde que motivou a solícitacáo. Esse dado, que é exigido para a concessáo de
beneficio por incapacidade laborativa, independentemente de sua natureza acidentária ou previdenciária, e cujo re-
gistro é de responsabílidade do médico que prestou o atendimento ao segurado, estabelece a relacáo intrínseca entre
a incapacidade laboral e a entidade mórbida que a provocou,
10. Assim, denomina-se Nexo Técnico Epidemiológico a relacáo entre Classificacáo Nacional de Atividades
Económicas - CNAE e o agrupamento CID-10. É, na verdade, uma medida de assoclacáo estatística, que serve
como um dos requisitos de causalidade entre um fator (nesse caso, pertencer a um determinado CNAE-classe) e
um desfecho de saúde, mediante um agrupamento CID, como diagnóstico clínico. Por meio desse nexo, chega-se a
conclusáo de que pertencer a um determinado segmento económico (CNAE-dasse) constitui fator de risco para o
trabalhador apresentar urna determinada patología (agruparnento CID-10).

Boa parte do texto nao reflete a legislacáo vigente. O próprio trabalhador pode (e se1npre pode)
emitir a CAT, assim como seu sindicato, o médico que prestou o primeiro socorro ou qualquer
autoridade pública. Essas CATs possuem exatamente a mesma validade da CAT emitida pela
empresa e o INSS, ao recebe-las, deve conferir a todas elas o mesmo trata mento, qual seja. iniciar urna
investigacáo técnica para aferir se há nexo entre a doenca e o trabalho e, assim, concluir de forma
positiva ou negativa pela natureza acidentária da ocorréncia.
Se assim nao procedía (e ainda nao procede) o INSS é porque referida autarquia descumpria (e
ainda descumpre) os comandos legais que !he sao atinentes, problema fácil de resolver co1n urna boa
administracáo pública.
De toda forma, a crítica nao é a criacáo de urna tabela epidemiológica que, presumidamente,
poderia ser utilizada pelo INSS para a caracterizacáo dos acidentes, mas sim a forma adotada
para essa metodologia. É pela utilizacáo indistinta do CNAE, em vez do CBO, e pela utilizacáo de
beneficios nao acidentários no estudo feíto, criando urna tabela totalmente dissocíada da realidade, o
que acabou por ocorrer na prática.

31
Isso porque ern 27.12.2006 foi publicada a Lei n. 11.430, acrescentando o art. 21-A a Lei n. 8.213/91,
com o seguinte teor:
Art. 21-A. A perícia médica do lNSS considerará caracterizada a natureza acidentária da incapacidade quando
constatar ocorréncia de nexo técnico epidemiológico entre o trabalho e o agravo, decorrente da relacáo entre a
atividade da empresa e a entidade mórbida motivadora da íncapacidade elencada na Classificacáo Internacional de
Doencas - CID, em conformidade com o que dispuser o regulamento,
§ 12 A pericia médica do INSS deixará de aplicar o disposto neste artigo quando demonstrada a inexistencia do nexo
de que trata o capui deste artigo.
§ 2° A empresa poderá requerer a nao aplícacáo do nexo técnico epidemiológico, de cuja decisáo caberá recurso com
efeito suspensivo, da empresa ou do segurado, ao Conselho de Recursos da Previdéncia Social.

O Congresso nao conhecia a metodología que seria adotada, tampouco viu a tabela quando da
aprovacáo da referida norma legal. Pela redacáo anterior presume-se a existencia deum estudo estatístico
sério e correto (que nunca foi demonstrado e que acredito nao existir) e apenas urna presuncáo inicial
por parte da perícia do INSS, com direito de defesa e contraditório garantido a empresa.
O que ternos na prática em termos de processo administrativo previdenciário, no ámbito da
caracterizacáo dos acidentes, deixa de observar toda e qualquer legislacáo vigente, e o direito das
partes (trabalhador e empresa) e o direito de defesa e contraditório nao sao, via de regra, observados,
mas disso tratarei em tópico apartado, mais a frente.P"
No momento, interessa-nos saber que depois de aprovada a Lei n. 11.430/2006, o Ministério
da Previdéncia Social só publicou a tabela no Decreto n. 6.042 (DOU de 13.2.2007), sem qualquer
divulgacáo do estudo epidemiológico estatístico que lhe deveria servir por fundamento.
Trata-se da Lista C, constante do Anexo II do Decreto n. 3.048/99,C24J cuja aplicacáo foi adotada
pelo INSS a contar de 12.4.2007. Desde entáo, mediante apresentacáo de simples atestado médico,
se o CID apontado estiver relacionado ao CNAE da atividade empregadora (conforme Lista C), o
perito do INSS pode enquadrar presumidamente o acidente de trabalho, cabendo a e1npresa a prova
contrária, nao sendo necessária a emissáo de CAT nessa hipótese.
Como observado, nao se trata de um novo tipo de acidente de trabalho, mas sim de urna nova
forma de o INSS caracterizá-lo, presumidamente, sem necessidade de investigacáo técnica do nexo
num primeiro momento, porque o "estudo epidemiológico" autorizaria tal enquadramento. Apenas
se o nexo for contestado pela empresa é que o perito deverá iniciar a investigacáo, apontando, ao final
do processo administrativo de primeira instancia, urna decisáo sobre a permanencia (ou nao) do nexo
inicialmente atribuído.
A ideia seria fantástica, se houvesse um mínimo de seriedade e transparencia no estudo
epidemiológico feito pelo Ministério da Prevídéncia Social, bem como no cumprimento da legislacáo
por parte da perícia do INSS quando da caracterizacáo das ocorréncias acidentárias, especialmente
quanto ao devido processo legal administrativo e quanto ao dever de investigacáo técnica do nexo. O
que ternos na prática é, pois, urna tabela referta de erres, vinculando doencas que em absolutamente
nada se relacionam com a atividade profissional desenvolvida, conforme ilustram alguns exemplos:
• CID A15 a A19 - tuberculose: CNAE 4711 (supermercados e hipermercados), CNAE 4721
(padaria, comércio de doces), CNAE 4789 (comércio varejista de obras de arte), CNAE 5611
(casas de chá, casas de suco).
•CID ElO a E-14 - diabetes: CNAE 1091 (fabricacáo de produtos de paníficacáo), CNAE 4399
(administracáo de obras), CNAE 4721 (padarias, comércio varejista de laticínios e fries, comércio
varejista de doces), CNAE 4923 (servicos de táxi), CNAE 8011 (adestramento de caes de guarda),
CNAE 8411 (administracáo pública em geral).

(23) Ver o Capítulo 6 desta obra.


(24) Íntegra da tabela no Capítulo 14, subitem 14.2.

32
Ou, ainda, lende a referida tabela em sua ordem invertida ( quais doencas sao causadas por um
determinado CNAE) ternos por exemplos:
CNAE 1411 (confeccáo de roupa íntima): CID F-20 a F-48 (esquizofrenia, psicose, episódio ma-
níaco, transtorno bipolar, depressáo, TOC, transtorno neurótico); CID G-40 a G-47 (epilepsia,
enxaqueca, AVC, distúrbio do sono); CID I-10 a I-15 (hipertensáo): CID I-30 a I-52 (doencas
do pericardio, transtornos de valva mitral, aórtica, tricúspide, cardiomiopatías, parada cardí-
aca, etc); CID K-35 a K-38 (apendicite e outras doencas do apéndice): CID L-80 a L-99 (vitiligo,
sardas, ceratose seborreica, calosidades, lúpus e outras afeccóes da pele); CID S-40 a S-69 (trau-
matismo e ferimentos no ombro, braco, cotovelo e antebraco, punho e máo ); CID S-80 a S-99
(traumatismo e ferimentos da peina, tornozelo e pé).
CNAE 4721 (comércio varejista de balas e bombons): CID A15 a A 19 (tuberculose); CID
E-10 a E-14 (diabetes); CID I-80 a I-89 (flebite, trombose, varizes, hemorroidas); CID S-40 a
S-59 (traumatismos e ferimentos no ombro, braco, cotovelo e antebraco): CID S-60 a S-69
(traumatismos e ferimentos no punho e máo).
CNAE 4789 (cornércio varejista de suvenires, bijuterias, artesanatos): CID A15 a A 19
(tuberculose); CID H-53 e H-54 (distúrbios visuais e cegueira); CID S-00 a S-69 (traumatismo e
ferimentos da cabeca, tórax, coracáo, abdome, dorso, pelve, ombro, braco, cotovelo, antebraco,
punho e máo): CID S-80 a S-89 (traumatismo e ferimentos da perna).
CNAE 9420 (atividades sindicais): CID F-10 a F-29 (transtornos mentais e comportamentais
devido ao uso de álcool ou drogas, esquizofrenia e psicose); CID I-60 a I-69 (hemorragias
intracranianas, cerebrais, AVC e outros); CID I-80 a I-89 (flebite, trombose, varizes, hemorroidas
e outros); CID K-40 a K-46 (hérnias); CID M-40 a M-54 (cifose, lordose, escoliose, dorsopatias
deformantes, espondilopatias, dorsalgía e outros); CID M-60 a M-79 (miosite, transtornos
musculares, sinovite, tenossinovite, bursopatias, les6es do ombro, etc); CID S-00 a S-99
(traumatismo e ferimentos da cabeca, tórax, coracáo, abdome, dorso, pelve, ombro, braco,
cotovelo, antebraco, punho, máo, quadril, coxa, perna, tornozelo e pé).
A tabela completa pode ser visualizada no subitem 14.2 desta obra, e as conclusóes sobre a
seriedade do trabalho cabem ao próprio leitor, operador do direito. Tenho por opiniáo que, da forma
feita (especialmente quanto ao tramite do processo administrativo e o direito de defesa das empresas),
o interesse era puramente aumentar o número de ocorréncias acidentárias e, com isso, aumentar a
alíquota do SAT (por meio do cálculo do FAP).
Por fim, cumpre registrar apenas a recente alteracáo promovida pela LC 150/2015 que, estendendo
a possíbilidade de aplicacáo do NTEP também aos trabalhadores domésticos, conferiu ao art. 21-A da
Lei n. 8.213/91 a seguinte redacáo:
Art. 21-A. A perícia médica do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) considerará caracterizada a natureza acidentá-
ria da incapacidade quando constatar ocorréncia de nexo técnico epidemiológico entre o trabalho e o agravo, decorrente
da relacáo entre a atividade da empresa ou do empregado doméstico e a entidade mórbida motivadora da incapacidade
elencada na Classificacáo Internacional de Doencas (OD), em conformidade como que dispuser o regulamento.
§ 1 !) A pericia médica do INSS deixará de aplicar o disposto neste artigo quando demonstrada a inexistencia do nexo
de que trata o caput <leste artigo.
§ 2° A empresa ou o empregador doméstico poderáo requerer a nao aplicacáo do nexo técnico epidemiológico, de cuja
decisáo caberá recurso com efeito suspensivo, da empresa, do empregador doméstico ou do segurado ao Conselho
de Recursos da Previdéncia Social."

Nao obstante a alteracáo de tal dispositivo, certo é que ainda nao poderá ser aplicado o NTEP
para os trabalhadores domésticos porque a Lista C, constante do Anexo II do Decreto n. 3.048/99 ainda
nao contempla o CNAE das residencias e, assim, nao associa qualquer enfennidade a esse ambiente.
De toda forma, enquanto a Previdéncia Social nao divulgar publicamente o estudo que serviu
de base aos cálculos estatísticos, bern corno divulgar os próprios cálculos e a base para eles adotada, a
tabela constante da Lista C nao <leve servir sequer como indício de prova, cabendo ao INSS investigar
tecnicamente todos os nexos e, as partes, comprovar o direito por elas defendido.

33
~~

~ o ,04,=-............ ~~,~ ~

&{§10D~~-JD]*-

Desde o Decreto-lei n. 7.036/1944 o legislador preocupou-se em proteger, com indenizacóes


e beneficios. a1gumas sítuacóes que nao sao consideradas como acidente de trabalho em sentido
estrito, mas que a elas podern ser equiparadas porque envolvem o local de trabalho ou a prestacáo de
servicos, conforme podemos observar dos arts. SQ a 7Q do referido diploma legal:
Art. 511 Incluem-se entre os acidentes do trabalho por que responde o empregador, de conformidade com o disposto
nos artígos anteriores, todos os sofridos pelo empregado no local e durante o trabalho, em consequéncia de:
a) aros de sabotagem ou terrorismo levados a efeito por terceiros, inclusive cornpanheiros de trabalho;
b) ofensas físicas intencionais, causadas por cornpanheiros de trabalho do empregado, ou nao, em virtude de disputas
relacionadas com o trabalho:
e) qualquer ato de imprudencia, de negligencia ou brincadeira de terceiros, inclusive companheiros de trabalho:
d) atos de terceiros privados do uso da razáo:
e) desabamentos, inundacóes ou incendios, respeitado o disposto na letra «b» do art, 7Q.
Art. 69 Ficam igualmente abrangidos por esta leí, considerados como produzídos pelos exercício do trabalho ou em
consequéncia dele, embora ocorridos fora do local e do horario do trabalho, os acidentes sofridos pelo empregado:
a) na execucáo de ordens ou realizacáo de servicos soba autoridade do empregador:
b) pela prestacáo expontánea de qualquer servico ao empregador com o fim de lhe evitar prejuízos ou de lhe
proporcionar proveito económico:
e) em viagem a servico do empregador, seja qua! for o meio de locornocáo utilizado, inclusive veículo de sua
propriedad e.
Parágrafo único. No período de tempo destinado as refeícóes, ao descanso ou na sarisfacáo de outras necessidades
fisiológicas, no local ou durante o trabalho, é o empregado considerado, para os efeitos desta leí, como a servico do
empregador.
Art. 7° Nao é acidente do trabalho:
a) o que resultar de dolo do próprio acidentado, compreendida neste a desobediencia a ordens expressas do
ernpregador:
b) o que provier de forca maior, salvo o caso de ac;ao de fenómenos naturais determinados ou agravada pelas
instalacóes do estabelecimento ou pela natureza do servíco.
c) o que ocorrer na ida do empregado para o local de sua ocupacáo eu na volta dali, salvo se houver condueño especial
fornecida pelo empregador, ou se a locomocáo do empregado se fizer necessariamente por vías e meíos que oferecam
reais perigos, a que nao esteja sujeito o público em geral.
Parágrafo único. Tambérn nao sao amparadas por esta lei as doencas endémicas adquiridas por empregados habitantes
das regióes em que elas se desenvolvem, exceto quando ficar comprovado que a doenca resultou de urna exposícáo
ou contato direto que a natureza do trabalho houver determinado.
Com a evolucáo do direito, incluiu o legislador nessa listagem, pelo Decreto-leí n. 293/1967, o
acidente de trajeto (também conhecido por acidente in ítínere), ocorrido no percurso entre a residencia
e o trabalho ou <leste para aquela.
Atualmente, disciplina sobre o tema o art. 21 da Lei n. 8.213/91, com a seguinte redac;ao<25>:
Art. 21. Equiparam-se também ao acidente do traba1ho, para efeitos desta Lei:
I - o acidente ligado ao trabalho que, embora nao tenha sido a causa única, haja contribuído diretamente para a
morte do segurado, para reducáo ou perda da sua capacidade para o trabalho, ou produzido lesáo que exija atencáo
médica para a sua recuperacáo:

(25) Nao obstante a redacáo do art. 21 nao tenha sido alterada pela LC 150/2015 para incluir as figuras do empregador doméstico, do
ámbito residencial e do trabalhador doméstico, compreendo que o caput do referido dispositivo, ao equiparar as ocorréncias listadas
ao acidente de trabalho, está a falar do acidente conceituado no art, 19 e que, assim sendo, deve ser aplicado também a essa categoria
de trabalhadores a contar de 02.06.2015 (data de publicacáo da LC 150), sem distíncáo.

34
IJ - o acidente sofrido pelo segurado no local e no horario do trabalho, em consequéncia de:

a) ato de agressáo, sabotagem ou terrorismo praticado por terceiro ou companheiro de trabalho;

b) ofensa física intencional, inclusive de terceíro, por motivo de disputa relacionada ao trabalho;

e) ato de imprudencia, de negligencia ou de impericia de terceiro ou de companheiro de trabalho;

d) ato de pessoa privada do uso da razáo:

e) desabamento, inundacáo, incendio e outros casos fortuitos ou decorrentes de forca maior;


IJI - a doenca proveniente de contarninacáo acidental do empregado no exercício de sua atividade;

IV - o acidente sofrido pelo segurado ainda que fora do local e horario de trabalho:
a) na execucáo de ordem ou na realizacáo de servíco soba autoridade da empresa:

b) na prestacáo espontanea de qualquer servíco a empresa para lhe evitar prejuízo ou proporcionar proveito;
e) em viagem a servico da empresa, inclusive para estudo quando financiada por esta dentro de seus planos para
melhor capacitacáo da máo de obra, independentemente do meio de locomocáo utilizado, inclusive veículo de
propriedade do segurado;
d) no percurso da residencia para o local de trabalho ou deste para aquela, qualquer que seja o meio de locomocáo,
inclusive veículo de propriedade do segurado.
§ 12 Nos períodos destinados a refeicáo ou descanso, ou por ocasiáo da satisfacáo de outras necessidades fisiológicas,
no local do trabalho ou durante este, o empregado é considerado no exercício do trabalho.
§ 21! Nao é considerada agravacáo ou complicacáo de acidente do trabalho a lesáo que, resultante de acidente de outra
origem, se associe ou se superponha as consequéncias do anterior."

Podemos observar que, entre as hipóteses listadas nos incisos II e IV, em muitas delas o
empregador nao tem qualquer relacáo com o acidente sofrido, como no caso de desabamento ou
inundacáo decorrente de forca maior, fazendo-nos questionar por qual razáo teria o legislador
equiparado tal hipótese ao acidente de trabalho.
Precisamos compreender a finalidade da norma, que nao guarda dificuldade. E1n 1944,
quando surgiram essas situacóes equiparadas, nao existía a Previdéncia Social da forma que hoje
a conhecemos. Inicialmente, algumas empresas criaram suas "caixas de aposentadorias e pens6es",
que só beneficiavam os funcionários daquela mesma empresa. Posteriormente, esses sistemas foram
unificados e passaram a abranger toda urna categoría, o que fez o Decreto n. 22.872/1933 ao criar
o Instituto de Aposentadoria e Pens6es dos Marítimos - IAPM, considerado como a primeira
instituicáo brasileira de Previdéncia Social de ámbito nacional, estruturado por categoría profissional,
e nao por empresa. Outros institutos surgiram, como o IAPI (industriários) e o IAPC (comerciários).
Semente en11960, com a Lei n. 3.807 (LOPS - Lei Orgánica da Previdéncia Social), esses institutos
por categoría foram unificados e passamos a ter um sistema que abrangia todos os trabalhadores
urbanos.
Assim, quando um trabalhador se machucava ou adoecia, antes de 1960, nao havia beneficio que
pudesse substituir seu rendimento mensal, exceto se participante de urna empresa ou de urna categoría
que tivesse protegida por um instituto de aposentadoria. Por essa razáo é que o Decreto n. 3.724/1919
criou urna protecáo para as vítimas de acidentes de trabalho (em forma de indenizacáo, <losada conforme
a gravidade da ocorréncia), e tambérn por essa razáo é que protegeram algumas sítuacóes que envolvíam
a relacáo de emprego, ainda que nao fossem consideradas tipicamente corno acidentes de trabalho.
Era nada mais que instituir urna forma de proteger essas situacóes com indenizacóes que
objetivavam substituir o rendimento mensa! normalmente auferido. Podemos identificar claramente
essa intencáo na redacáo dos arts. 17 e seguintes do próprio Decreto-leí n. 7.036/44, conforme ilustro
com os seguintes excertos:

35
Art. 17. Entende-se por incapacidade total e permanente a invalidez incurável para o trabalho.
[... ]

§ 21l Quando do acidente resultar urna incapacidade total e permanente, a indenizacáo devida ao acidentado
corresponderá a urna quantia igual a quatro (4) anos de diaria, calculada esta segundo o prescrito no parágrafo único
do art. 19.

§ 3'1 Nos casos de cegueira total, perda ou paralisia dos membros superiores ou inferiores e de alíenacáo mental,
receberá o acidentado, além da indenizacáo de que trata o parágrafo anterior, a quantia de Cr$ 3.200,00, paga de urna
só vez.

Art. 18. Entende-se por incapacidade parcial e permanente, a reducáo por toda a vida, da capacidade de trabalho.

§ 111 Quando do acidente resultar tuna incapacidade parcial e permanente, a indenizacáo devida ao acidentado
variará, em proporcáo ao grau dessa incapacidade, entre tres (3) e oitenta (80) centésimos de quantia correspondente
a quatro (4) anos de diárias, observado, quanto a esta, o disposto no parágrafo único do art. 19.

[... ]

Art. 19. Entende-se por incapacidade temporaria a perda total da capacidade do trabalho por um período limitado de
tempo, nunca superior a um (1) ano.

Parágrafo único. Quando do acidente resultar urna incapacidade temporaria, a indenizacáo devida ao acidentado
corresponderá, durante todo o período em que perdurar essa incapacidade, a urna diária igual a 70 centésimos de
sua remuneracáo diária, calculada esta conforme o disposto no Capítulo VI excetuados os domingos e días feriados,
e observado ainda o que díspóe o art. 27.

Art. 20. Permanecendo por mais de urn (1) ano, a incapacidade temporaria será automaticamente considerada
permanente, total ou parcial, e como tal indenizada, cessando desde logo para o empregador a obrígacáo do
pagamento da indenizacáo correspondente a incapacidade temporaria, bem corno da prestacáo da assisténcia médica,
farmacéutica e hospitalar.

Art. 21. Quando do acidente resultar a rnorte, a indenizacáo devida aos beneficiarios da vítima corresponderá a urna
soma calculada entre o máximo de quatro (4) anos e o mínimo de dois (2) anos da diária do acidentado, e será devida
aos beneficiarios, de acorde com as seguintes bases:

[... ]

Art. 22. Urna vez que exceda a Cr$ 5.000,00 (cinco mil cruzeiros), a indenizacáo que tiver direito o acidentado, nos
casos de incapacidade permanente, ou seus beneficiarios. no caso de sua morte, será destinada a instituicáo da
prevídéncía social a que ele pertencer, para o fim de ser concedido um acréscimo na aposentadoria ou na pensáo,

[... ]

Art. 23. Sendo a indenizacáo igual ou inferior a Cr$ 5.000,00 (cinco mil cruzeiros) ou nao estando a vítima cornpreendida
no regime de prevídéncía de Instituto ou Caixa de Aposentadoria e Pensóes criado por Lei Federal, a indenizacáo
ser-lhe-á paga ou aos beneficiarios, diretamente e de urna só vez.

Corn a melhor estruturacáo do sistema previdenciário, essa indenizacáo deixou de existir. As


empresas e os trabalhadores passararn a contribuir obrigatoriarnente para a Previdéncia Social, qtle,
por sua vez, passou a atender as situacóes de necessidade como pagamento de diversos benefícios
corno auxílio-doenca, aposentadoria por invalidez e auxílio-acidente.
Para o custeio dos benefícios acidentários, decorrentes de acidente do trabalho, foi criada
urna contribuicáo separada, hoje fixada em 1 %, 2% ou 3°/o, que incide sobre o total da folha de
pagamento, sem limite. E esses benefícios acidentários possuíam regras diferentes e mais benéficas
aos trabalhadores até 28.4.1995, dia anterior a publícacáo da Lei n. 9.032.
A ideia era, portanto, proteger, primeiramente com as indenizacóes e, posteriormente, corn
benefícios financeiramente rnais vantajosos, o trabalhador empregado que se machucasse, mas nao
necessariarnente em razáo do exercício da atividade profíssional.
No Brasil, pela legíslacáo vigente, o ocorrido com o World Trade Center em 2011 (ato de terrorismo
contra as torres gémeas, ern New York) seria equiparado a acidente de trabalho corn fundamento no

36
inciso II, alínea a. E tambérn o tsunami que atingiu a Indonésia em 2004 ( com fundamento no inciso 11,
e), devastando hotéis e outros estabelecimentos comerciáis, ferindo e matando centenas de pessoas.
lsso nao significa dizer que o trabalhador (ou seus familiares) terá direito a receber indenizacáo
por dano em todas essas situacóes porque, para que exista condenacáo do empregador ao pagamento
desses valores é necessário que esse tenha alguma colaboracáo no ocorrido, <26l o que nem sempre
ocorre comas hipóteses descritas no art. 21. Trata-se, apenas, de proteger esses trabalhadores com a
legislacáo de benefícios da Previdéncia Social, ou seja, coma protecáo especificada na Lei n. 8.213/91,
conforme taxativamente dispóe o caput do referido artigo:
Art. 21. Equiparam-se tambérn ao acidente do trabalho, para efeitos desta Lei:
[... )

Atualmente, e porque a Lei n. 9.032/95 se encarregou de equiparar os benefícios decorrentes de


acidente com aqueles decorrentes de outros fatores (quanto as regras de cálculo), nao há muito que
se aplicar em termos de vantagens, senáo:
a) a isencáo de carencia para obter auxílio-doenca e aposentadoria por invalidez;
b) o direito de receber auxílio-acidente, se o trabalhador permanecer com sequela incapacitante
(e definitiva) após a alta do auxílio-doenca: e
e) o direito a estabilidade provisória no emprego.
Duas situacóes descritas no art. 21 merecern, contudo, urna atencáo especial, quais sejam, a
concausa (inciso I) e o acidente de trajeto (inciso IV), que abordarei com maiores detalhes nos subitens
que seguem.

3.1. Concausa

A concausa foi incluida em nosso ordenamento jurídico pelo Decreto-leí n. 7.036/1944 e,


atualmente, consta do inciso I do art. 21 da Lei n. 8.213/91, com a seguinte redacáo:
Art. 21. Equiparam-se também ao acidente do trabalho, para efeitos desta Lei:

[... )
I - o acidente ligado ao trabalho que, embora nao tenha sido a causa única, haja contribuído diretarnente para a
morte do segurado, para reducáo ou perda da sua capacidade para o trabalho, ou produzido lesáo que exija atencáo
médica para a sua recuperacáo:

[... )

A preocupacáo do legislador era, e ainda é, o trabalho como fator desencadeante ou agravante


de algumas doencas e aqui, com relacáo a concausa, colaborando diretamenie para esse fato.
,
E possível que o trabalhador tenha predisposicáo a urna determinada doenca ou dela já
seja portador antes mesmo de ingressar em determinado e1nprego, e esses fatos devem, sempre,
ser minuciosamente investigados no exame médico admissional.P" para que o trabalho a ser
desenvolvido nao desencadeie ou agrave o problema já existente, ainda que essa enfermidade seja
degenerativa. Podemos citar o exemplo de um trabalhador com problema degenerativo de coluna
que é contratado para carregar peso manualmente e que sofre agravamento de sua enfermidade por
essa atividade profissional. Note-se, no exemplo citado, que um outro trabalhador sem problemas
de coluna poderia carregar o mesmo peso sem qualquer consequéncia <lanosa a sua saúde. Também

(26) Sobre as indenizacóes de natureza civil e a necessidade de comprovar culpa por parte do empregador, ver o Capítulo 10, subitem
10.11, desta obra.
(27) O exame médico admissional é um dos exames de realizacáo obrigatória pelas empresas, conforme Norma Regulamentadora 07
- PCMSO - Programa de Controle Médico e Saúde Ocupacional, subitem 7.4.l.

37
que esse trabalhador já enfermo nao teria sua doenca agravada se nao fosse o fato de carregar peso, e
se esse fato restar comprovado por perícia médica, estaremos <liante de urna concausa preexistente.
Esse foi, inclusive, o entendimento do TST no AIRR 1067020105020085, publicado em 12.9.2014:
AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECURSO DE REVISTA. DOEN<;A DEGENERATIVA.CONCAUSA. GARANTIA
PROVISÓRIA NO EMPREGO. Nos termos do art. 20, § 12, a, da Lei n. 8.213/91, nao se enquadra na hipótese de
acidente de trabalho a doenca degenerativa, Todavia, na jurisprudencia desta Corte Superior, admite-se a
confíguracáo do acidente de trabalho quando as atividades exercidas sao suficientes para potencializar ou agravar
a doenca degenerativa (concausa), nos termos do art. 21, 1, da Lei n. 8.213/91. Fica configurada a concausa quando
o laudo pericial, transcrito no acórdáo recorrido, dernonstra que as atividades exercídas contribuíram para a piora
dos síntomas da doenca e as premissas fáticas informam que o reclamante, que tinha problemas degenerativos de
coluna, foi submetido a atividade específica de esforco físico, tais como transportar manualmente carga e puxar
carrinho em piso irregular. Portante, o reclamante faz jus a garantía provisória no emprego, ern razáo do acidente de
trabalho (doenca corn nexo causal com as atividades exercidas - lombociatalgia). Agravo de instrumento a que se
nega provimento.

É importante, contudo, que a prova pericial médica nao se limite ao exame clínico porque, numa
ínvestigacáo de acidente de trabalho, nao estáo as partes na busca somente da inforrnacáo sobre o
diagnóstico e sua real existencia (se o trabalhador está mesmo doente da coluna), mas principalmente
se o trabalho desenvolvido é que a desencadeou ou agravou.
E a única forma de o perito constatar esse nexo é conhecendo o trabalho e o ambiente no qua!
foi desenvolvido. No caso exernplificado, é importante restar comprovado que de fato o trabalhador
carregava peso no exercício das atividades que foi esse fato (nenhum outro) que agravou a enfermidade
existente.
Essa é, inclusive, a orientacáo expressa do Conselho Federal de Medicina, ao dispor no art. 2º da
Resolucáo CFM 1488/1998 que, para estabelecer o nexo causal, deve o médico considerar o estudo do
local e da organizacáo do trabalho, além do depoimento e da experiencia de outros trabalh.adores:
Art. 212 Para o estabelecimento do nexo causal entre os transtornos de saúde e as atividades do trabalhador, além do
exame clínico (físico e mental) e os exames complementares, quando necessários, deve o médico considerar:
I - a historia clínica e ocupacional, decisiva em qualquer diagnóstico e/ou invesrigacáo de nexo causal;
II - o estudo do local de trabalho;
III - o estudo da organizacáo do trabalho:
IV - os dados epidemiológicos;
V - a literatura atualizada:
VI - a ocorréncia de quadro clínico ou subclinico ern trabalhador exposto a condicóes agressivas;
vrr - a identificacáo de riscos físicos, qui micos, biológicos, mecánicos, estressantes e outros:
vm - o depoimento e a experiencia dos trabalhadores;
IX - os conhecimentos e as prátícas de outras disciplinas e de seus profíssionais, sejam ou nao da área da saúde.

Entendo, portante, que as perícias médicas destinadas a investigacáo do nexo jamais devem ser
limitadas ao consultório clínico, sendo imperativo que o expert conheca o ambiente de trabalho onde
as funcóes eram desenvolvidas, bem como que com.preenda exatamente as tarefas exercidas nessa
funcáo,
No exemplo posto, sobre o agravamento do problema de coluna em decorréncia de carregamento
de peso (esforco físico), compreendo que as perguntas corretas a serem feítas a perícia técnica, no
caso, senam:
a) Entre as atividades desenvolv.idas pelo trabalhador, havia carregamento de peso? Caso
positivo, de quantos quilos? Favor fundamentar a resposta, identificando a carga carregada e a
forma utilizada para medicáo.

38
b) De que forma se dava esse carregamento de peso? As tarefas que envolviam esse esforco físico
ocorriam durante toda a jornada de trabalho? Favor fundamentar a resposta, identificando a
forma utilizada para medicáo.
c) Essa atividade específica, conforme dados apurados acima, foi o que contribuiu diretamente
para o agravamento da enfennidade? Favor fundamentar a resposta.
d) Outras atividades cotidianas poderiam causar o mesmo efeito? Favor indicar, ilustrativamente,
quais seriam essas atividades e fundamentar a resposta.
Se o perito indicado responder que outros fatores cotidianos também poderiam gerar o mesmo
agravamento (permanecer sentado, carregar compras de supermercado, pennanecer em pé por
longo período etc.), nao estamos falando de concausa porque, para que esta reste caracterizada, faz-
-se necessário que aquela atividade profissional desenvolvida, nas exatas condicóes impostas pelo
empregador e comprovadas pelo perito, tenha contribuido diretamente para o desencadeamento ou
agravamento da lesáo.
Também é possível a existencia de concausa concomitante ou simultanea, quando o trabalhador
nao apresenta enfermidade pré-existente. Podemos exemplificar com um operário que, sem qualquer
antecedente clínico nesse sentido e sem que tal fato tenha, absolutamente, qualquer relacáo com
o trabalho, sofre um desmaio enquanto opera determinada máquina e, ao cair, nela se machuca
gravemente, com amputacáo de urna das máos. O desmaio nao tem qualquer relacáo como trabalho,
mas por sua causa, e porque a máquina nao centava com protecáo suficiente para prevenir tal sinistro,
houve a amputacáo do membro.
Por fim, ternos ainda a concausa superveniente, quando o acidente de trabalho ocorre
, sem
maiores cornplicacóes no momento, mas que, depois, há agravamento por fatores diversos. E o caso
de queda com necessidade de procedimento cirúrgico, com posterior infeccáo hospitalar. Note-se
que, ainda que para a infeccáo hospitalar nao teve o trabalho qualquer relacáo, mas esta se deu
apenas em razáo da cirurgia necessária em face do acidente sofrido, restando caracterizada a
concausa superveniente. Esse o entendimento já consolidado em nossos tribunais, conforme ilustra
é

o seguinte julgado (trecho do acórdáo):


[... ] lnviável o seguímento do recurso, diante da conclusáo da Turma no sentido de que a enfermidade que vitimou
a empregada falecida durante a cirurgia é urna concausa superveniente. Embora o tromboembolismo tenha sido a
causa imediata da morte, a intervencáo cirúrgica seria desnecessária caso o sinistro nao tivesse ocorrido, [ ... ) (AIRR -
1085-08.2013.5.03.0050, Relator Desembargador Convocado: José Ribarnar Oliveira Lima Júnior, Data de Julgamento:
19.11.2014, 4~ Turma, Data de Publicacáo: DEJT 21.11.2014)

Em qualquer das modalidades de concausa, portante, faz-se indispensável prova conclusiva de


que o trabalho específico, desenvolvido pela vítima, concorreu diretamente para o desencadeamento
ou o agravamento da doenca, e nao tenho como compreender que essa preva se faz exclusivamente
pelo exame clínico.
Corno já mencionado anteriormente, o exame clínico, em consultório médico, se presta a
co1nprovar a veracidade do diagnóstico (qual é a doenca) e se existe ou nao incapacidade laborativa.
Para confirmar se houve agravamento ou desencadeamento é necessário histórico médico, e
para comprovar que o trabalho tem relacáo com tal fato, se faz necessário conhecer as atividades
desenvolvidas e/ou o local onde é exercido, o que, na maior parte das vezes, demandará visita física
ao estabelecimento empregador.

3.2. Acidente de trajeto

O acidente ocorrido no trajeto entre a residencia e o trabalho passou a ser equiparado ao acidente
de trabalho semente como Decreto-leí n. 293/1967 (art. 5°), e atualmente consta do inciso N do art.
21 da Lei n. 8.213/91, in verbis:

39
Art. 21. Equiparam-se também ao acidente do trabalho, para efeitos desta Lei:

[ ... J
IV - o acidente sofrido pelo segurado ainda que fora do local e horário de trabalho:

[ ... J
d) no percurso da residencia para o local de trabalho ou <leste para aquela, qualquer que seja o meio de locomocáo,
inclusive veículo de propriedade do segurado."

Há muito mantérn-se o entendimento de que tal dispositivo abrange nao somente o trajeto entre
a residencia em si e o trabalho, mas entre qualquer lugar habitual que o obreiro frequente, antes ou
depoís do expediente. Assim, se o empregado tero o costume de frequentar Luna faculdade após
o horário de trabalho, o percurso de responsabilidade do empregador refere-se ao trajeto entre o
trabaJho e a faculdade, encerrando-se quando da chegada dele a esse primeiro destino. Se depois
das aulas é que o trabalhador vai para sua residencia, tal percurso nao é mais de responsabilidade da
empresa ou do empregador doméstico.
Também importa registrar que o percurso deve ser o habitual e que muitos empregadores
se veem impedidos de descaracterizar o sinistro como equiparado a acidente de trabalho porque
desconhecem qual é o trajeto habitualmente realizado pelo empregado. Seria necessária, portanto,
a adocáo de um modelo de ficha onde o trabalhador regístrasse qual(is) o(s) trajeto(s) habitual(ais)
para o trabalho, ida e volta, coro indicacáo das ruas e meios de locomocáo que usualmente adota.
Uma atualizacáo anual desse documento seria recomendável, e, na ocorréncia de um acidente, seria
mais fácil identificar se ocorrido, ou nao, no percurso de rotina.
Qualquer desvío na rota de costume serve para descaracterizar o acidente in iiinere, exceto se
o trabalhador conseguir comprovar um motivo justificado para a alteracáo do percurso, corno um
acidente com congestionamento, bloqueio de pista por greve ou outro fator adverso, alheio a vontade
do empregado. Esse é o entendimento consolidado em nossos tribunais, como ilustra a recente
decisáo do TST:
- .... ..
AODENTE DE TRAJETO. NAO CARACTERIZA<;AO. DIREITO A ESTABILIDADE ACIDENT ARIA NAO CONSTI-
,, -
TUÍDO. MATÉRIA FÁ TICA. ÓBICE DA SÚMULA N. 126, DO C. TST. VIOLA<;ÁO AOS ARTS. 21, IV, "D" E 118, DA
LEI N. 8.213/91, E CONTRARIEDADE Á SÚMULA N. 378, I E II, DO C. TST, NÁO CONFIGURADA. Convenceu-se
a Corte Regional de que o acidente sofrido pelo autor ocorreu fora do trajere normal entre trabalho e residencia, o que
exdui qualquer responsabilidade da empresa por seu advento. Observa o Tribunal a quo, com amparo na preva dos
autos, que a mudanca de rota para reabastecimento de combustível nao tem ligar;ao com a atividade profissional e
decorreu de motivos exclusivamente pessoais, traduzídos na intencáo do reclamante de buscar seu filho na saída de
instituicáo de ensino, nao se tratando, portante, de natural e inevitável desdobramento do percurso entre trabalho
e casa, para escala de reabastecimento, mas de desvío de rota <litado por razóes puramente pessoaís, de exclusivo
interesse do obreiro e alheias ao pacto laboral, sob qualquer angulo de visáo. Assinala, ainda, o Tribunal de Origem
que o beneficio previdenciário concedido ao autor assurniu a natureza de auxílio-doenca comum ou ordinário, e nao
acidentário, o que, em definitivo, a fasta a hipótese de estabilidade no emprego e consequente direito a reintegracáo ou
indenizacáo substitutiva. Cuida-se de fatos e prevas do processo, insuscetíveis de revolvímento em sede de recurso de
revista, na forma da Súmula n. 126, do C. TST. Afasta-se a arguicáo de afronta aos arts, 21, IV, d, e 118, da Lei n. 8.213/91,
bem corno de contrariedade a Súmula n. 378, I e Il, do C. TST. Agravo de Instrumento conhecido e desprovido. (TST
- AIRR 2035-84.2012.5.15.0125 - Sil Turma - Relatora Desernbargadora Convocada Jane Granzoto Torres da Silva -
Julgamento em5.11.2014 - DEJT de 7.11.2014).

Pequenos desvios para abastecimento do veículo, por exernplo, nao tero o condáo de afastar a
equiparacáo acidentária, masé preciso restar claro e comprovado que o destino final - e imediato
- deve ser a residencia do traba1hador ou seu local de trabalho, Um clássico exemplo pode ser
o trabalhador que, indo embora a pé, opta por parar em urna lanchonete porque está com sede.
Se apenas interrompe o percurso, compra e ingere a bebida, e segue novamente para casa, nao há
descaracterizacáo da equiparacáo ao acidente de trabalho. Se, ao contrário, o empregado opta por
sentar-se e ficar ali por algum período, seu destino imediato nao foi a residencia, e siro a lanchonete,
perdendo a protecáo legal consubstanciada no art. 21 da Lei n. 8.213/91.

40
~41

~~~,[U~~~fl.l·~o~IPXIDz'A'@IDI:W~ñruLLfi))@ =@@]

4.1. Emissii.o - Obriqatoriedade e prazo

A obrígacáo de comunicar o acidente de trabalho a urna autoridade surgiu juntamente com a


primeira norma sobre acidentes no Brasil, ou seja, como Decreto n. 3.724/1919, determinando seu
art. 20 que o patráo, o próprio operário ou qualquer outro deveriam informá-lo a autoridade policial
do local. Confira-se:
Art. 19. Todo o acidente de trabalho que obrigue o operario a suspender o servico ou se ausentar deverá ser
imediatamente comunicado autoridade policial do lugar, pelo patráo, pelo próprio operário, ou qualquer outro.
á

A autoridade policial comparecerá sem demora ao lugar do acidente e ao em que se encontrar a vítima, tornando
as declaracóes desta, do patráo e das testernunhas, para lavrar o respectivo auto, indicando o nome, a qualidade, a
residencia do patráo, o neme, a qualidade. a residencia e o salário da vítima. O lugar preciso, a hora e a natureza do
acidente. As circunstáncias em que se deu e a natureza dos ferimentos, os nemes e as residencias das testemunhas e
dos beneficiarios da vítirna.
§ Jl! No quinto día, a contar do acidente, <leve o patráo enviará autoridade policial, que tomou conhecimento do fato,
prova de que fez a vítima o fornecimento de socorros médicos e pharmaceuticos ou hospítalares, um atestado médico
sobre o estado da vítirna, as consequéncias verificadas ou prováveis do acidente, e a época em que será possível
conhecer-Ihe o resultado definitivo.
§ 2° Nesse mesmo dia a autoridade policial remeterá o inquérito comos documentos a que se refere o paragrapho
anterior, ao juízo competente, para a instauracáo do sumario.

Referida obrigacáo foi mantída nas normas acidentárias posteriores, até a publicacáo do
Decreto-lei n. 293/1967 (que criou o seguro de acidentes obrigatório, conforme determinacáo da
CF/1967, possibilitando que fosse operado pelo INPS ou por seguradoras privadas), inclusive.
Em setembro de 1967 a Leí n. 5.316 integrou o seguro de acidentes de trabalho a Previdéncia Social,
exclusivamente, e somente a partir dessa data os acidentes passaram a ser comunicados diretamente
aPrevidéncia Social, pelo empregador, no prazo de 24 horas. Eis o teor do dispositivo em comento:
Art. 11. A empresa deverá, salvo em caso de impossibilidade absoluta, comunicar o acidente do trabalho a previdéncia
social dentro de 24 (vinte e quatro) horas, sob pena de multa variável de 1 (urna) a 10 (dez) vezes o maior salario-
mínimo vigente no País.

O Decreto n. 61.784/1967, e os institutos legais posteriores, trouxeram a mesma obrígacáo,


esclarecendo que a comunicacáo do acidente deve conter informacóes minuciosas sobre o ocorrido.
A contar de 29.1.1979, data de publicacáo do Decreto n. 83.080, a comunicacáo voltou a serefetuada
também a autoridade policial nos casos de óbito e assim se manteve até a edicáo da Lei n, 8.213/91,
inclusive, com a diferenca de que essa norma, que atualmente se encentra ern vigor, permite que a
vítima e outras pessoas autorizadas também emitam o documento, assim como determina o envio de
cópia para o acidentado e para o sindicato profissional, conforme previsáo do art. 22<28>:
Art. 22. A empresa ou o empregador doméstico deveráo comunicar o acidente do trabalho á Previdéncia Social até o
primeiro día útil seguinte ao da ocorréncia e, em caso de morte, de imediato, á autoridade competente, sob pena de
multa variável entre o limite mínimo e o limite máximo do salário de conrríbuicáo, sucessivarnente aumentada nas
reincidencias, aplicada e cobrada pela Previdéncia Social.
§ 1° Da comunicacáo a que se refere este artigo receberáo cópía fiel o acidentado ou seus dependentes, bem como o
sindicato a que corresponda a sua categoría.

(28) Reda~ao conferida pela LC 150/2015.

41
§ 22 Na falta de cornunicacáo por parte da empresa, podem formalizá-la o próprio acidentado, seus dependentes, a
entidade sindical competente, o médico que o assistiu ou qualquer autoridade pública, nao prevalecendo nestes casos
o prazo previsto neste artigo.
§ 32 A comunicacáo a que se refere o§ 22 nao exime a empresa de responsabilidade pela falta do cumprimento do
disposto neste artigo.
§ 4° Os sindicatos e entidades representativas de classe poderáo acornpanhar a cobranca, pela Previdéncia Social, das
multas previstas neste artigo.
§ 511 A multa de que trata este artigo nao se aplica na hipótese do caput do art. 21-A. (lncluido pela Lei n. 11.430, de 2006)

A obrigacáo é, pois, do empregador (inclusive o doméstico, a contar da LC 150/2015) e caso nao


emita o documento e fique posteriormente comprovado de que se tratava, de fato, de acidente do
trabalho, lhe será imposta multa administrativa.v?' prevista no art, 286 do Decreto n. 3.048/99:
Art. 286. A infracáo ao disposto no art. 336 sujeita o responsável a multa variável entre os limites mínimo e máximo
do salario de contribuic;ao(3<1l, por acidente que tenha deixado de comunicar nesse prazo.
§ 12 Em caso de rnorte, a comunicacáo a que se refere este artigo deverá ser efetuada de imediato a autoridade
competente.
§ 29 A multa será elevada em duas vezes o seu valor a cada reincidencia.
§ 32 A multa será aplicada no seu grau mínimo na ocorréncia da primeira comunicacáo feita forado prazo estabelecido
neste artigo, ou nao comunicada, observado o disposto nos arts. 290 a 292!31l.

Como o trabalhador avulso e o segurado especial (pequeno produtor rural) tambérn possuem
direito a caracterizacáo do acidente de trabalho e os beneficios decorrentes, o art. 330 da Instrucáo
Normativa INSS 77/2015 distribuí a responsabilidade de emissáo do documento da seguinte forma
(art. 330):
Art. 330. Sao responsáveís pelo preenchimento e encaminhamento da CAT:
I - no caso de segurado empregado, a empresa empregadora:
JI - para o segurado especial, o próprio acidentado, seus dependentes, a entidade sindical da categoría, o médico
assistente ou qualquer autoridade pública;
Ill - no caso do trabalhador avulso, a empresa tomadora de servico e, na falta dela, o sindicato da categoria ou o
órgáo gestor de máo de obra; e
IV - no caso de segurado desempregado, nas situacóes em que a doenca profissional ou do trabalho manifestou-se
ou foi diagnosticada após a dernissáo, as pessoas ou as entidades constantes do§ 12 do art. 331.
§ 12 No caso do segurado empregado e trabalhador avulso exercerem atividades concomitantes e vierem a sofrer
acidente de trajeto entre urna e outra empresa na qua! trabalhe, será obrigatória a ernissáo da CAT pelas duas
empresas.
§ 2~É considerado como agravamento do acidente aquele sofrido pelo acidentado quando estiversob a responsabilidade
da reabilitacáo profissional, neste caso, caberá ao técnico da reabilitacáo profissional comunicar a pericia médica o
ocorrido.

Nao obstante seja a comunicacáo urna atribuicáo do empregador e do tomador dos servicos.
nao há como a legislacáo obrigá-los, contudo, a comunicar a ocorréncia como acidentária se estes nao
concordarem como nexo entre o sinistro e o trabalho. O art. 22 da Leí n. 8.213/91 nao determina dessa
forma, e nem o poderia, sob pena de afronta direta aos princípios de ampla defesa e contraditório
(CF/88, art. 5, LV), no momento em que, se assim o fizesse, estaria a obrigar o empregador a confessar,
por meio da emissáo do documento de notificacáo, um nexo causal com o qual nao concorda.

(29) Cabe ao setor de benefícios do INSS comunicar a ocorréncia ao setor de ñscalizacáo, para a aplicacáo e cobranca da multa devida
- Decreto n. 3.048/99, art. 336, § 22.
(30) Conforme Porta ria lnterministerial MPS/MF n. 13/2015, o valor mínimo do salário de contribuicáo corresponde ao salário mínimo
(R$ 788,00), e o valor máximo, a R$ 4.663,75.
(31) Os arts. 290 a 292 tratam das circunstancias agravantes da penalidade, entre as quais encontra-se a reincidencia.

42
Expor o trabalhador a qualquer tipo de risco ou perigo ou deixar de cumprir com normas de
seguran<;a sao ilícitos penáis, conforme disposícóes expressas no§ 22 do art. 19 da Lei n. 8.213/91, no
art. 343 do Decreto n. 3.048/99(32) e também no art. 132 do Código Penal.P" e obrigar o empregador
a reconhecer a natureza acidentária da ocorréncia, por meio da emissáo da CAT, seria também urna
afronta ao princípio da nao autoincriminacáo, adotado pelo Brasil pelo Decreto n. 592/1992, quando
da promulgacáo do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (art. 14, 3, g):
Art.14.

[... )
3. Toda pessoa acusada de um delito terá direito, em plena igualmente, a, pelo menos, as seguintes garantías:

[... )
g) De nao ser obrigada a depor contra si mesma, nem a confessar-se culpada.

[... )

Referido princípio se repete no Decreto n. 678/1992, que promulgou a Convencáo Americana


sobre Direitos Humanos (Pacto Sao José da Costa Rica), sendo a redacáo de seu art. 82 a seguinte:
Art. 8.

Garantías Judiciais
[ ... )

2. Toda pessoa acusada de delito tem direito a que se presuma sua inocencia enquanto nao se comprove legalmente
sua culpa. Durante o processo, toda pessoa tem direito, em plena igualdade, as seguintes garantias mínimas:

[... )
g) direito de nao ser obrigado a depor contra si mesma, nem a declarar-se culpada; e

h) direito de recorrer da sentenca para juiz ou tribunal superior.


3. A confissáo do acusado só é válida se feita sem coacáo de nenhuma natureza.

[... )

Assim, é certo que a legislacáo nao obriga o empregador a comunicar algo como acidente do
trabalho sem que com isso concorde.
Por outro lado, também nao pode o trabalhador restar prejudicado em seus eventuais direitos em
razáo de seu empregador discordar do nexo por ele alegado e, justamente por essa razáo, previu a Lei
n. 8.2113/91 que também podern preencher e encaminhar a CAT a própria vítima, seus dependentes,
o sindicato da categoria profissional, o médico que prestou o primeiro atendimento ou qualquer
autoridade pública (art. 22, § 22).
Isso nao significa, no entanto, que o trabalhador, o sindicato ou qualquer das pessoas
autorizadas no § 22 tenham competencia para caracterizar urna ocorréncia como acidentária. A
CAT - Comunicacáo de Acidente do Trabalho - é apenas um documento que informa ao INSS
urna ocorréncia que o emiiente entende preencher os requisitos para o reconhecimento da natureza
acidentária, e cabe ao INSS, sempre, investigar tecnicamente o nexo entre o trabalho e o agravo. É o
que podemos depreender do art. 337 do Decreto n. 3.048/99, conforme segue:
Art. 337. O acidente do trabalho será caracterizado técnicamente pela pericia médica do INSS, mediante a identificacáo
do nexo entre o trabalho e o agravo.

(32) Art. 343. Constituí contravencáo penal, punível com multa, deixar a empresa de cumprir as normas de seguranca e saúde do
trabalho.
(33) Art. 132. Expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente:
Pena - detencáo, de tres meses a um ano, se o fato nao constituí crime mais grave.

43
1 - o acidente e a lesáo:
IT - a doenca e o trabalho; e
nr - a causa mortis e o acidente.
[ ... J

§ 3° Considera-se estabelecido o nexo entre o trabalho e o agravo quando se verificar nexo técnico epidemiológico entre
a atividade da empresa e a entidade mórbida motivadora da incapacidade, elencada na Classificacáo Internacional de
Doencas - CID em conforrnidade como disposto na Lista C do Anexo II deste Regulamento.
§ 42Para os fins des te artigo, considera-se agravo a lesáo, doenca, transtorno de saúde, distúrbio, disfuncáo ou síndrome
de evolucáo aguda, subaguda ou crónica, de natureza clínica ou subclínica. inclusive morte, independentemente do
tempo de latencia.
§ 5º Reconhecidos pela pericia médica do INSS a incapacidade para o trabalho e o nexo entre o trabalho e o agravo,
na forma do§ 32, seráo devidas as prestacóes acidentárias a que o beneficiário tenha direito."
Também os arts. 322 e 325 da Instrucáo Normativa INSS n. 77/2015 dispóem no 1nesmo sentido.
Confiram-se:
Art. 322. Para a identificacáo do nexo entre o trabaJho e o agravo, que caracteriza o acidente do trabalho, a pericia
médica do INSS, se necessario, poderá ouvir testemunhas, efetuar pesquisa ou realizar vistoria do local de trabalho
ou solicitar o PPP diretarnente ao ernpregador para o esclarecimento dos fatos.
Art. 325. Quando do requerimento da pensáo, o reconhecimento técnico do nexo entre a causa mortis e o acidente
ou a doenca, será realizado pela pericia médica, mediante análise documental, nos casos de óbitos decorrentes de
acidente do trabaJho ou de doenca ocupacional, independente de o segurado haver falecido em gozo de beneficio
acidentário, devendo ser encaminhado aquele setor os seguintes documentos:
I - cópia da CAT;
TI - Certidáo de Óbito;
III - Laudo do Exarne Cadavérico, se houver: e
IV - Boletim de Registro Policial, se houver.
Parágrafo (mico. Após a análise documental, a avaliacáo do local de trabalho ficará a criterio da pericia médica do INSS.

Na esfera administrativa cabe ao perito médico do INSS, e somente a ele, decidir sobre a existencia
do nexo e caracterizar, ou nao, a ocorréncia noticiada (pela CAT) como acidentária. E nao poderia
ser diferente porque o agravo, se caracterizado corno acidente do trabalho, proporciona ao segurado
isencáo de carencia para o recebimento dos beneficios por incapacidade, assim como eventual direito
de receber auxílio-acidente se permanecer com sequela e, por isso, no intuito de evitar fraudes de
qualquer tipo, a competencia deve ser de fato atribuída somente ao perito do INSS.
O empregador nao tem o poder de decidir, a seu critério, o que é e o que nao é acidente do
trabalho e nem tampouco pode fazé-lo o trabalhador ou qualquer terceiro, estranho a relacáo de
emprego. O correto é, de fato, o procedimento que consta na legíslacáo de regencia, sendo a CAT um
documento que informa a ocorréncia que, na opiniáo de quema emitiu,preenche os requisitos para a
caracterizacáo da natureza acidentária, cabendo a perícia médica do INSS a investigacáo do nexo e o
pagamento dos benefícios correspondentes.
Por óbvio que nesse processo administrativo, para caracterizacáo do nexo acidentário,
empregador e trabalhador devem figurar como partes interessadas, garantindo-se o díreito a defesa
e contraditório, bem como as demais disposicóes da Lei n. 9.784/99, que regulamenta o processo
administrativo federal. Contudo, nao é o que se ve na prática, tema que será abordado posteriormente,
no Capítulo 6 desta obra.
A regra é, poís, bastante simples. Se o afastamento perdurar por mais de quinze di.as e o
a
empregado tiver direito a receber beneficio previdenciário, cabe perícia investigar tecnicamente
o nexo entre o agravo(34> e o trabalho, concluindo ou nao pela natureza acidentária da lesáo ou da

(34) Considera-se agravo a lesáo, doenca, transtorno de saúde, distúrbio, disfuncáo ou síndrome de evolucáo aguda, subaguda
ou crónica, de natureza clínica ou subclínica, inclusive morte, independentemente do tempo de latencia - Decreto n. 3.048/99,
art. 337, § 42.

44
enfermidade. Se o afastarnento tiver duracáo de até quinze dias,<35> nao haverá direito ao recebimento
de benefício e a CAT, nesse caso, servirá apenas como prova documental do acidente, mas nao como
prova plena (IN INSS 77/2015, art. 318, § 22).
O segurado especial e o trabalhador avulso que sofrerem acidente de trabalho com incapacidade
para a sua atividade habitual devem ser encaminhados a perícia médica do INSS para avaliacáo do
grau de incapacidade e o estabelecimento do nexo técnico logo após o acidente, sem necessidade de
aguardar os trinta días consecutivos de afastamento (IN INSS n. 77/2015, art. 318, § 32).
Assim, e nao obstante seja a emissáo do referido documento urna obrigacáo do empregador, nao
deixa de servir como prova documental e semente <leve ser emitida se o empregador concordar com
a existencia de nexo. Caso contrário, deve deixar que o próprio obreiro a preencha, ou qualquer das
pessoas autorizadas na Lei n. 8.213/91, art. 22, como já visto. Repita-se, pela importáncia do terna e
pelo entendimento equivocado de muitos operadores do direito e muitos trabalhadores, que o fato
da CAT ser emitida por qualquer outro que nao seja o empregador nao impede, absolutamente, o
trabalhador de obter os benefícios que lhe sao de direito.
A diferenca entre a CAT emitida pelo empregador e a CAT emitida pelo trabalhador ou qualquer
terceiro autorizado limita-se, tao semente, ao trabalho que terá o perito do INSS na investigacáo
do nexo técnico. Por óbvio que se o documento foi emitido pelo empregador, e considerando-se as
consequéncias trabalhistas, previdenciárias e tributárias que lhe sao consequentes, o perito do INSS
mais facilmente irá compreender pela existencia do nexo, sem necessitar de grandes investigacóes
porque concluirá que o empregador nao iría falsear tal informacáo em seu próprio desfavor. Por outro
lado, se a CAT foi emitida por qualquer outro que nao o empregador, faz-se necessário investigar
tecnicamente (e amplamente) a existencia do nexo, porque formada está a lide e se faz necessário
garantir a ampla defesa e o contraditório. Num e noutro caso, contudo, a investigacáo do nexo pela
perícia do INSS se faz obrigatória, e o direito do trabalhador aos benefícios nao é prejudícado.P"
Uma vez preenchida a CAT, seu ernitente <leve assegurar que o INSS, o próprio acidentado
(ou seus dependentes), o empregador e o sindicato da categoría receba1n cópia fiel, sendo aviado
INSS enviada preferencialmente na forma eletrónica. Nos casos de óbito, também a policía deve ser
notificada.
Quanto ao prazo de emissáo, fixa o legislador que a comunicacáo <leve ocorrer no primeíro día útil
seguinte ao da ocorréncia e que, no caso de óbito, deve ser feíta de imediato (Lei n. 8.213/91, art. 22), se
emitida pelo empregador. Se emitida pelo empregado ou qualquer terceiro autorizado, nao há prazo
fixado. Para fins da CAT referente a doenca profissional ou do trabalho, o diado acidente corresponderá
ao início da incapacídade laborativa, o dia da segregacáo compulsória ou o dia em que for realizado o
diagnóstico, o que ocorrer primeiro (art. 23).
Para a Previdéncia Social, existem tres modalidades de inforrnacáo, quais sejarn (IN INSS
77/2015, art. 327):
I - CAT inicial: acidente do trabalho típico, trajeto, doenca profissional, do trabalho ou óbito imediato:
II - CAT de reabertura'F': afastamento por agravamentc de lesáo de acidente do trabalho ou de doenca profissional
ou do trabalho: ou

(35) Até 28.2.2015 as empresas se encontravam obrigadas a pagar apenas os primeiros 15 dias de afastamento. A contar de 1º.3.2015,
por forc;a das dísposicóes contidas na MP n. 664/2014, esse prazo passou a ser de até 30 dias, mas o Congresso Nacional rejeitou tal
alteracáo, voltando a vigorar a redacáo original da Lei n. 8.213/91 quanto ao tópico.
(36) Se reconhecido o nexo, o beneficiário receberá os beneficios de espécie acidentária: auxílio-doenc;a acidentário (B91), aposen-
tadoria por invalidez acidentária (B92), auxílio-acidente por acidente de trabalho (B94) e pensáo por morte acidentária (B93). Se nao
reconhecido o nexo, o beneficiário receberá os beneficios de espécie previdenciária: auxílio-doenc;a previdenciário (B31), aposentado-
ria por invalidez previdenciária (B32), auxílio-acidente decorrente de acidente diverso (B36) e pensáo por morte previdenciária (B21).
Sobre os beneficios e sua codificacáo, ver <http://wwwl.previdencia.gov.br/aeps2006/15_01_01_01.asp>. Acesso em: 12.4.2015.
(37) Na CAT de reabertura de acidente do trabalho deveráo constar as mesmas lnforrnacóes da época do acidente, exceto quanto ao
afastamento, último dia trabalhado, atestado médico e data da ernissáo, que seráo relativos a data da reabertura (IN INSS 77/2015, art.
329, § 62). Nao seráo consideradas CAT de reabertura para situacóes de simples assisténcia médica ou de afastamento com menos de
15 días consecutivos(§ 7º). A contar de 12.3.2015, por forc;a da MP 664/2014, esse prazo passou a ser de trinta dias.

45
JU - CAT de comunicacáo de óbito<:lSl: falecimento decorrente de acidente ou doenca profissional ou do trabalho,
após o registro da CAT inicial.

O formulário, contudo, único, aprovado pelaPortaria MPSn. 5.817/1999 (DOU de7.10.1999),


é

mas a IN INSS n. 77/2015 preve expressamente que aquele poderá ser substituído por impresso
do próprio empregador, desde que contenha todos os campos necessários ao seu preenchimento
(art. 329, § 4Q).
Via de regra, o emissor deverá transcrever as informacóes constantes no atestado médico no
respectivo campo da CAT (campo 11). Caso esse campo nao seja preenchido e assinado pelo mé-
dico assistente, o trabalhador deverá apresentar na perícia médica, junto com a CAT, o atestado
médico correspondente, desde que nele conste a descricáo do atendimento realizado, inclusive
o diagnóstico com o CID e o período provável para o tratamento, contendo assinatura, número do
CRM, data e carimbo do profissional médico, seja particular, de convenio ou do SUS (IN INSS
n. 77/2015, art. 329, § SQ).

4.2. Previsiio constante da CLT e previsiio em normas infraleqais - Conflito

Como observado, os arts. 19 a 21 da Leí n. 8.213/91 exigem, para a caracterizacáo de uma


ocorréncia como acidente do trabalho, que exista no mínimo uma incapacidade laborativa temporária.
Pela importancia extrema do tema, e já me desculpando pela repeticáo, transcrevo novamente
os dispositivos pertinentes, nos trechos que destaco:
Art. 19. Acidente do trabalho o que ocorre pelo exercício do trabalho a servico da empresa ou pelo exercicio do
é

trabalho dos segurados referidos no inciso VII do art. 11 desta Lei, provocando lesáo corporal ou perturbacáo
funcional que cause a morte ou a perda ou reducáo, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho.

[... ]
Art. 20. Consideram-se acidente do trabalho, nos termos do artigo anterior, as seguintes entidades mórbidas:
§ 1 °Nao sao consideradas como doenca do trabalho:
[... )
e) a que nao produza incapacidade laborativa;
[... ]
Art. 21. Equiparam-se também ao acidente do trabalho, para efeitos desta Lei:
I - o acidente ligado ao trabalho que, embora nao tenha sido a causa única, haja contribuido diretamente para a
morte do segurado, para reducáo ou perda da sua capacidade para o trabalho, ou produzido Iesáo que exija atencáo
médica para a sua recuperacáo:
[... )

Devem ser informados por meio de CAT, portanto, os acidentes típicos, as doencas ocupacionais
e as situacóes equiparadas, assim caracterizados nos tennos dos artigos supra e, como já <lito, desde
que assim reconhecido pelo empregador. Caso contrário, o próprio acidentado ou qualquer terceiro
autorizado pode emitir o mesmo documento que, para fins previdenciários, terá a mesma finalidade
daquele preenchido pelo empregador.
Registre-se, contudo, e urna vez mais, que em se tratando de Nexo Técnico Epidemiológico
(NTEP), cuja tabela consta da Lista C do Anexo TI do Decreto n. 3.048/99, a emissáo e entrega da CAT
ao INSS nao se faz obrigatóría, sequer havendo imposicáo de multa ao empregador que nao a emite.

(38) O óbito decorrente de acidente ou de doenca profissional ou do trabalho, ocorrido após a ernissáo da CAT inicial ou de reabertura,
será comunicado ao INSS, por CAT de comunicacáo de óbito, constando a data do óbito e os dados relativos ao acidente inicial (IN INSS
77/2015, art. 329, § 82).

46
Frequentemente, contudo, há questionamento sobre a previsáo constante no art. 169 da CLT,
que determina a comunicacáo quando da mera suspeita, assim como quanto a previsáo em portarias
e instrucóes normativas, que exigem a ernissáo do formulário ainda que inexistente qualquer
íncapacidade ou, ainda, qualquer sintoma por parte do trabalhador.

4.2.1. CLT, art. 169

Com referencia a CLT, a previsáo se refere a notificacáo das doencas profissionais ou do trabalho
e consta do art. 169, quando alterado pelo Decreto-leí n. 229/1967, já que a redacáo original do referido
dispositivo tratava apenas da manutencáo de refeitório. Confira-se:
Redacáo original:
Art 169. Nos estabelecimentos em que trabalhem mais de trezentos operarlos, será obrígatório a existencia de
refeitório, nao sendo permitido aos trabaJhadores tomarem suas refeícóes fora daquele local.
§ 1º O refeitório a que se refere o presente artigo obedecerá as normas expedidas pelo ministro do Trabalho, lndústria
e Comércio.
§ 2º Nos estabelecimentos, nos qua is nao seja o refeitório exigido, deveráo ser asseguradas aos trabalhadores condicóes
suficientes de conforto para a ocasiáo de suas refeícóes.
Redacáo dada pelo Decreto-leí n. 229/1967:
Art.169. Será obrigatória a notificacáo das doencas profissionais e das produzidas por condicóes especíais de trabalho,
comprovadas ou suspeitas.
§ 111 Incumbe a notificacáo:
a) ao médico da empresa;
b) ao médico assistente do empregado ou participante de conferencia médica;
e) aos responsáveis pelos estabelecimentos onde as doencas ocorrerem,
§ 2Sl As notificacóes deveráo ser feítas as Delegadas Regionaís do Trabalho, coma indicacáo do nome do empregado,
residencia, idade, local de trabalho, causa da doenca, provável ou confirmada.
§ 3Q As notificacóes recebidas pelas autoridades referidas no § 22 seráo registradas em livro especial e, alérn das
providencias cabíveis no caso, comunicadas ao Departamento Nacional de Seguranca e Higiene do Trabalho e ao
Servico de Estatística da Previdéncia e do Trabalho.

Nova alteracáo ocorreu pela Lei n. 6.514, de 22.12.1977, a qual se mantém até a presente data:
Art. 169. Será obrigatória a notificacáo das doencas profissionais e das produzidas em virtude de condicóes especiais
de trabalho, comprovadas ou objeto de suspeita, de conformidade com as instrucóes expedidas pelo Ministério do
Trabalho.

Numa primeira e rápida leitura, sem a antecedencia de qualquer estudo, parece-nos que está
o legislador a obrígar as empresas a emissáo da CAT, encaminhando-a ao INSS, se1npre que o
trabalhador suspeitar da existencia do nexo e assim requerer que o faca, mas, absolutamente, nao é
nada disso que determina o referido artigo.
Primeiramente, cumpre destacar que a CLT data de 1943, quando os institutos de previdén-
cia social serviam apenas a algumas categorias, sem abrangéncia a todos os trabalhadores. Naquela
época, portante, existiam institutos, como o Instituto de Aposentadoria e Pens6es dos Marítimos
(IAPM), criado pelo Decreto n. 22.872/1933, o Instituto de Aposentadoria e Pens6es dos Comer-
ciários (IAPC), criado pelo Decreto n. 24.272/1934, e o Instituto de Aposentadoria e Pens6es dos
Bancários IAPB), criado pelo Decreto n. 24.615/1934, entre outros.
E1n 1967, quando alterada a redacáo do art. 169, já era vigente a LOPS - Lei Orgáníca da
Previdéncia Social (Leí n. 3.807/1960), que unificou todos os institutos entáo vigentes e criou um
regime único, aplicável obrigatoriamente a todos os empregados urbanos. Sobre acidentes do trabalho
encontrava-se em vigor o Decreto-lei n. 7.036/1944, determinando os arts. 45, 48 e 49 o seguinte:

47
Art. 45. Todo acidente do trabalho será obrigatoríamente comunicado ao empregador pelo acidentado, ou por
qualquer pessoa que dela tenha conhecimento, irnediatamente, após a sua ocorréncia, nao podendo essa comunicacáo
exceder o prazo de 24 horas, salvo impossibilidade absoluta.

Art. 48. Nos casos de doenca profissional, responderse pelas obrigacóes resultantes desta leí todos os empregadores
sob cuja dependencia tiver trabalhado o acidentado, na mesma profissáo, dentro dos 2 (dois) últimos anos,
proporcionalmente ao tempo de servico a cada um prestado, exceto quando a doenca resultar diretamente da
inobservancia, por parte de um dos referidos empregadores, das disposicóes legais relativas a prevencáo de acidentes
a
e higiene do trabalho, hipótese na qua! sobre ele recairáo todos os ónus decorrentes da doenca, sem prejuízo das
demais combinacóes da leí.

Parágrafo único. O disposto neste artigo nao impede que o acidentado exija a totalidade das indenizacóes do seu
último empregador, que, nesse caso, ficará com direito regressivo contra os anteriores.
Art. 49. Nao recebendo a autoridade judiciaria competente do empregador a participacáo de que trata o art. 46 desta
leí, poderá tomar conhecimento do acidente por comunicacáo direta do acidentado ou de qualquer terceira pessoa.
Parágrafo único. No caso <leste artigo, a autoridade judiciária mandará dar vista ao representante do Ministério
Público competente, que requererá corno medida preliminar, alérn de outras desinencias que julgue necessárias, o
exame médico do acidentado, nao se tratando de morte, assim corno tomará as declaracóes dos interessados, e, dentro
do prazo de 10 (dez) dias, iniciará a respectiva acáo ou solicitará o arquivarnento.

Qualquer um poderia notificar o acidente, norma observada pelo Oecreto-lei n. 229/1967 ao


promover a primeira alteracáo no art. 169 da CLT.
E11112/1977, quando da segunda e última alteracáo, ainda era vigente a LOPS (Lei n. 3.807/1960),
e sobre os acidentes tratava a Lei n. 6.367/1976, sendo o seguro obrigatoriamente contratado junto ao
INPS. Seu regulamento constava do Decreto n. 79.037/1976,e sobre a notificacáo dos acidentes assim
era determinado:
Art. 42 O acidente de trabalho deverá ser comunicado a empresa imediatamente, quando possível pelo acidentado.
Art. 5° A empresa deverá, salvo em caso de impossibilidade absoluta. comunicar o acidente ao JNPS dentro de 24
(vinte a quatro) horas, sob pena de multa variável de 1 (urna) a 10 (dez) vezes o maior valor de referencia.

§ 12 Quando o acidente causar a morte do segurado, a empresa deverá comunicá-lo também a autoridade policial.

§ 22 A multa de que trata este artigo será aplicada e cobrada pelo INPS.
Art. 49. Considera-se como diado acidente, no caso de doenca profissional ou de trabalho, data da comunicacáo desta
a empresa ou, na sua falta, a data da entrada do pedido de beneficio acidentário no JNPS, a partir de quando seráo
devidas as prestacóes cabíveis.

Note-se, portante, que competia ao empregador comunicar o acidente ao INPS para que esse,
por sua vez, pagasse ao acidentado as indenizacóes e beneficios de direito, em decorréncia do seguro
pago pela empresa. E, quando da existencia de doenca ocupacional (profissional ou do trabalho)
competía ao trabalhador informar a e1npresa sobre sua ocorréncia.
Em 1977, contudo, pela Lei n. 6.514, várias alteracóes foram efetuadas no texto da CLT, sendo
criada no Capítulo V a Medicina do Trabalho, passando o art. 162 a obrigar a manutencáo de servicos
médicos especializados no ambiente de trabalho. Confira-se:
Art. 162. As empresas, de acordo com normas a serem expedidas pelo Ministerio do Trabalho, estaráo obrigadas a
manter servícos especializados em seguranca e em medicina do trabalho.
Parágrafo único. As normas a que se refere este artigo estabeleceráo:

a) classificacáo das empresas segundo o número de empregados e a natureza do risco de suas atividades;
b) o numero mínimo de profissionais especializados exigido de cada empresa. segundo o grupo em que se classifique,
na forma da alinea anterior;

c) a qualificacáo exigida para os profissionais e1n questáo e o seu regime de trabalho:


d) as dernais características e atribuicóes dos servícos especializados em seguranca e em medicina do trabalho, nas
empresas.

48
Os arts. 168 e 169 deveriam ser lidos conjuntamente, porque dispostos na Secáo V do referido
capítulo, de onde podemos observar a criacáo dos exames médicos admissionais, demissionais
e periódicos. Logicamente, se nesses exames o médico do trabalho suspeitasse ou comprovasse
que a doenca possuía nexo como trabalho desenvolvido (ou seu ambiente), obrigatória seria a
notificacáo a
entidade seguradora (INAMPS), para que o trabalhador recebesse os benefícios de
direito. Confiram-se:
SE<;AOV

Das Medidas Preventivas de Medicina do Trabalho

Art 168. Será obrigatório o exame médico do empregado, por contado empregador.
§ 12 Por ocasiáo da adrnissáo, o exame médico obrigatório compreenderá investigacáo clínica e, nas localidades em
que houver, abreugrafia.
§ 2° Em decorréncia da ínvestígacáo clínica ou da abreugrafia, outros exames complementares poderáo ser exigidos,
a critério médico, para apuracáo da capacidade ou aptidáo física e mental do empregado para a funcáo que deva
exercer.

§ 32 O exame médico será renovado, de seis ern seis meses, nas atividades e operacóes insalubres e, anualmente, nos
demais casos. A abreugrafia será repetida a cada dois anos.
§ 42 O mesmo exame médico de que trata o§ 1º será obrigatório por ocasíáo da cessacáo do contrato de trabalho, nas
atividades, a serem discriminadas pelo Ministério do Trabalho, desde que o último exame tenha sido realizado há
mais de 90 (noventa) dias.

§ 52 Todo estabelecimento deve estar equipado com material necessario a prestacáo de primeiros socorros médicos.
Art 169. Será obrigatóría a notificacáo das doencas profíssionaís e das produzidas ern virtude de condicóes especiais
de trabalho, comprovadas ou objeto de suspeita, de conforrnidade com as instrucóes expedidas pelo Ministerio do
Trabalho.

A suspeita, portanto, de que trata o art. 169 da CLT nao deve vir por parte do proprietário
da empresa, nem pelo trabalhador ou qualquer outro terceiro, senáo pelo médico do trabalho,
na oportunidade de realizacáo dos exames que foram referenciados no art. 168. Nem poderia ser
diferente, porque o único com conhecimento técnico científico suficiente para tal suspeita é, de fato,
o profissional da área médica, principalmente se especializado em medicina do trabalho.
Nao é possível retirar o art. 169 de todo o seu contexto (normativo, sequencial e histórico) e
interpretá-lo sem qualquer critério. Trata-se de urna sequéncia lógica, com a criacáo do servico de
medicina pela Lei n. 6.514/1977, a presen~a obrigatória do médico do trabalho nas empresas e a
realizacáo obrigatória de exames adrnissionais, demissionais e periódicos, mais tarde disciplinados
na Norma Regulamentadora n. 7, instituída no ámbito do Ministério do Trabalho no ano de 1978.
Note-se, pois, inexistir qualquer conflito entre as disposicóes do art. 169 da CLT e a redacáo
do art. 22 da Lei n. 8.213/91, já que, nesse último, também compete ao empregador a notificacáo do
acidente (inclusive doenca) se a suspeita ou a comprovacáo do nexo advir do PCMSO.
De toda forma, e ainda que assim nao entenda o leitor, cumpre observar que a CLT trata
genericamente do tema (lei geral), sendo o assunto tratado especificamente em momento posterior,
pela Lei n. 8.213/91 (lei especial), que <leve prevalecer.
Por qualquer análise que se faca. portante, o certo é que o empregador somente se encentra
obrigado a emissáo da CAT e, consequentemente, a comunicacáo do que entende ser um acidente do
trabalho ao INSS, se de fato cornpreender ou suspeitar (por seu servico médico) que existe nexo entre
a lesáo/eníermidade e o trabalho. Entendimento contrário, insisto, nao somente deixa de encontrar
qualquer fundamentacáo legal corno, inclusive, contraria princípios constitucionais de ampla defesa
e contraditório.

49
4.2.2. Portarias Ministeriais e Instrucñes Normativas

Na sequéncia da previsáo disposta na CLT foi publicada, em 1978, a Portaria GM/MTb


n. 3.214, trazendo diversas Normas Regulamentadoras sobre seguran<;a e med ici na do
trabalho, dentre as quais se destaca a NR-7, instituindo o PCMSO - Programa de Controle
Médico de Saúde Ocupacional.
O diploma que conceituava o acidente de trabalho, na época, era a Lei n. 6.367/76, determinando
expressamente seu art. 2° que, para tal caracterizacáo, se fazianecessária, no mínimo, urna incapacidade
laborativa temporaria. Confira-se (destaques meus):
Art. 2° Acidente do trabalho aquele que ocorrer pelo exercício do trabalho a servíco da empresa, provocando
é

lesáo corporal ou perturbacáo funcional que cause a morte, ou perda, ou reducáo, permanente ou temporária, da
capacidade para o trabalho.

[ ... J
§ 42 Nao poderño ser consideradas, para os fins do disposto no§ 32, a doenca degenerativa, a ínerente a grupo etário
e a que nao acarreta incapacidade para o trabalho.
[... ]

No entanto, o subitem 7.4.8 da NR-7 (Portaría MTb n. 3.214/78) acabou por alterar o conceito
legal, extrapolando sua funcáo regulamentar, ao informar que o médico do trabalho deve solicitar a
e1npresa a emissáo da CAT mesmo quando ausente qualquer síntoma por parte do trabalhador. Eis
a redacáo do referido dispositivo:
7.4.8. Sendo constatada a ocorréncía ou agravamento de doencas profissionais, através de exames médicos que
incluam os definidos nesta NR; ou sendo verificadas alteracées que revelem qualquer tipo de disfuncáo de órgáo ou
sistema biológico, através dos exames constantes dos Quadros I (apenas aqueles com interpretacáo SC) e IJ, e do ítem
7.4.2.3 da presente NR, mesmo sem sintomatologia, caberá ao médico-coordenador ou encarregado:
a) solicitar a empresa a emissáo da Comunícacáo de Acidente do Trabalho - CAT;
b) indicar, quando necessario, o afastamento do trabalhador da exposicáo ao risco, ou do trabalho:
e) encarninhar o trabalhador a Previdéncia Social para estabelecimento de nexo causal, avaliacáo de incapacidade e
definicáo da conduta previdenciária em relacáo ao trabalho;
d) orientar o empregador quanto a necessidade de adocáo de medidas de controle no ambiente de trabalho.

Observe-se que a funcáo da NR é justamente a de Norma Regulamentadora, com objetivo de


normatizar procedimentos fixados na lei ordinária e que, dada sua condicáo de regulamento, nao
poderia criar um novo conceito de acidente de trabalho e, tampouco, urna nova obrígacáo de fazer.
A edicáo de portaría compete ao ministro de Estado, vinculado ao Poder Executivo e qualquer
obrigacáo de fazer deve decorrer de lei ordinária, emanada do Poder Legislativo, conforme redacáo
expressa do art. 150, § 29, da Constituicáo Federal de 1967, princípio repetido no art. 52, II, da Carta
Constitucional de 1988.
Essa invasáo de poderes tem sido reiterada mesmo depois da publicacáo da Leí n. 8.213/91, que
nos arts. 19 a 21 repete, diversas vezes, a necessidade de, no mínimo, urna incapacidade laborativa
temporária para a caracterizacáo da ocorréncia como acidentária (ver subitern 4.2, supra).
Sequencialmente, ternos (destaques meus):

Ordem de Servico INSS n. 621/99

Manual de instrucñes para preenchimento da CAT


Campo 33. Houve afastamento? - informar se houve Oll nao afastamento do trabalho.
Obs.: É importante ressaltar que a CAT deverá ser emitida para todo acidente ou doenca relacionados ao trabalho,
ainda que nao haja afastamento ou incapacidade.

50
Portaría MPAS n. 5.051/99

Aprova novo formulário CAT

Campo 33. Houve afastamento - informar se houve ou nao afastamento do trabalho,


Obs.: é importante ressaltar gue a CAT deverá ser emitida para todos os acidentes ou doencas gue sejam relacionados
ªºtrabalho. ainda que nao haja afastamento ou incapacidade.

Portaría MPAS n. 5.817/99

Altera o formulário CAT


VERSO DA CAT - ORIENTA<;ÓES DE PREENCHIMENTO DO FORMULÁRIO CAT
Obs.: A CAT deverá ser emitida para todo acidente ou doenca relacionados com o trabalho ainda que nao haja
afastamento ou incapacidade.

Instrucáo Normativa INSS/DC n. 98/2003

Aprova norma técnica sobre LER ou DORT


8. DA NOTIFICA<;AO
[... )
Havendo suspeita de diagnóstico de LER/DORT, deve ser emitida a Comunicacáo de Acidente do Trabalho - CAT.
A CAT <leve ser emitida mesmo nos casos em que nao acarrete incapacidade laborativa para fins de registro e nao
necessariamente para o afastamento do trabalho. Segundo o art, 336 do Decreto n. 3.048/99, "para fins estatísticos
e epidemiológicos, a empresa deverá comunicar o acidente de gue tratam os arts. 19, 20, 21 e 23 da Leí n. 8.213, de
1991". Dentre esses acidentes, se encontram incluidas as doencas do trabalho nas quais se enquadram as LER/DORT.
[... )
SE<;AO II
[... )
Nenhuma CAT poderá ser recusada, devendo ser registrada independentemente da existencia de incapacidade
para o trabalho, para fins estatísticos e epidemiológicos.
[... ]

Portaría MTE n. 589/2014

Disciplina as medidas a serem adotadas em relacáo a notífícacáo de doencas e acidentes do trabalho


Art. 22 Todo acidente fatal relacionado ao trabalho, inclusive as doencas do trabalho que resultem morte, deve ser
comunicado a unida de do Minístério do Trabalho e Emprego mais próxima a ocorréncia no prazo de até vinte e quatro
horas após a constatacáo do óbito, além de informado no mesmo prazo por mensagem eletrónica ao Departamento de
Seguranca e Saúde no Trabalho, da Secretaria de Inspecáo do Trabalho, no enderece <dsst.sitspmte.gov.br> contendo
as informacóes listadas em anexo a esta norma.
Art. 3Q A comunicacáo de que trata o art. 2Q nao suprime a obrigacáo do empregador de notificar todos os acidentes do
trabalho e doencas relacionadas ao trabalho, com ou sem afastamento, comprovadas ou objeto de suspeita, mediante
a emissáo de Cornunicacáo de Acidente de Trabalho - CAT apresentada ao órgño competente do Ministério da
Previdéncia Social.
Nao há, absolutamente, qualquer problema em se criar forrnulários ou padronizar procedirnentos
por rneio de portarias e instrucóes normativas, como fez a Portaría MTE n. 589/2014 ao determinar
que os acidentes fatais devem também ser comunicados ao Ministério do Trabalho e Emprego, em 24
horas, por e-mail institucional.
O que nao se pode admitiré a modificacáo substancial de urna norma hierarquicamente superior
por outra inferior, como fizeram os normativos supra ao modificarem o conceito de acidente trazido
pela lei ordinária (que demanda, no mínimo, urna incapacidade temporária para sua caracterizacáo)
e a imposicáo de nova obrigacáo de fazer (o empregador comunicar essa ocorréncia sem afastamento,
sem incapacidade e sem síntoma). A administracáo pública é subordinada a leí, como se pode
depreender dos arts. 37 e 84, IV da CF/88, nao lhe sendo permitido, por atos normativos, definir
noves conceitos e obrígacóes.

51
Todo o conteúdo dessa obra deixa claro e indene de dúvidas que um acidente do trabalho
notificado, ainda que sem concessáo de benefício, traz gravosas repercussóes ao empregador, e
nao semente de ordem trabalhista (depósito de FGTS e indenizacóes), mas também consequéncias
tributárias diretas (SAT, FAP), alérn de poder implicar em responsabilízacáo criminal, ante o previsto
no§ 2Q do art. 19 da Lei n. 8.213/91, no art. 343 do Decreto n. 3.048/99 e tambérn no art. 132 do Código
Penal.
A nao observancia da reserva de poderes e da hierarquia das normas, prática que tem sido
reiterada pelo INSS e pelo Ministério do Trabalho e Emprego quanto a materia acidentária, fere
nao somente o art. 5º, 11, da Constituicáo Federal de 1988<39> como coloca em risco os princípios de
legalidade, ampla defesa, contraditório e seguranca jurídica.
Atos como portarias, ordens de servico, resolucóes e instrucóes normativas se destinam,
meramente, a regulamentar e instituir procedimentos administrativos destinados ao cumprimento
da lei, e jamáis, em nenhuma hipótese, sua extrapolacáo. Referida hierarquia pode ser verificada
no art. 59 da Carta Magna<40> e é, inclusive, recepcionada em nossos tribunais já há muitos anos,
conforme ilustram as seguintes decis6es (excertos, com destaques meus):
A<:;AO DIRETA DE TNCONSTITUCIONALIDADE - INSTRU<:;AO NORMATIVA N. 62, DO DEPARTAMENTO
DA RECEITA FEDERAL - SUA NATUREZA REGULAMENTAR - TMPOSSIBILIDADE DE CONTROLE
CONCENTRADO DE CONSTITUCIONALIDADE - SEGUIMENTO NEGADO POR DECISÁO SINGULAR -
COMPETENCIA DO RELATOR (RJSTF, ART. 21, § 1º; LEI N. 8.038, ART. 38) - PRINCÍPIO DA RESERVA DE
PLENÁRIO PRESERVADO (CF, ART. 97) - AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO. - [ ... ]. - As Instrucñes
Normativas, editadas por Órgáo competente da Administracáo Tributaria, constituem espécies jurídicas de caráter
secundário, cuja validade e efícácia resultam, imediatamente, de sua estrita observancia dos limites impostos
pelas leis, tratados, convencóes internacionais, ou decretos presidencíais, de que devem constituir normas
complementares. Nao se revelam, por isso mesmo, aptas a sofrerem o controle concentrado de constitucionalidade,
que pressupóe o confronto direto do ato impugnado com a Leí Fundamental. (STF - ADI 531 - AgR / DF -
Tribunal Pleno - Relator Ministro Celso de Mello - Julgamento en111/12/1991 - Publicacáo em: 3.4.1992)
A<;ao direta deinconstitucionalidade. 2. Arguícáo de inconstitucionalidade da Portarían. 1.455, de 29.11.1995do Ministério
da Educacáo e Desporto, editada "a título de regulamentar o Decreto n. 1.716, de 24.11.1995, e a Lei n. 9.131/1995."
3. Trata-se no caso, de juízo de ilegalidade e nao de inconstitucionalidade. 4. Sendo a Portaria norma de hierarquía
inferior a leí e ao decreto regulamentar, certo nao há de ser visualizada, autonomamente, em face da Constítuicáo,
cumprindo, por primeiro, ve-la em confronto com o Decreto e a Leí em referencia. 5. Se a Portaría impugnada nao
atenta contra o Decreto e a Lei , o juízo de invalidade há de ser dirigido contra os diplomas de hierarquía superior aos
quais o ato normativo, objeto da demanda, disciplina ern sua aplicacáo. 6. A<;ao direta de inconstitucionalidade nao
conhecida. (STF - ADI-MC 1388 DF - Tribunal Pleno - Relator Nérí da Silveira - [ulgamento em: 19.12.1995 -
Publicacáo em: 14.11.1996)
PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. DESCAMINHO. MERCADORIAS
IMPORTADAS. INSIGNIFICANCIA. PARÁMETRO. DÉBITO TRIBUTÁRIO SUPERIOR A DEZ MIL REAIS. NÁO
APLICA<:;AO DA PORTARIA N. 75/2012 DO MINJSTÉRIO DA FAZENDA. l. Em recente julgado desta Corte,
confirmou-se o entendimento de ser insignificante para a Adrninistracáo Pública o valor de dez mil reais, trazido
no art. 20 da Lei n. 10.522/2002, como já havia sido decidido pela Terceira Secáo deste Tribunal, ao julgar o REsp n.
1.112.748([0, representativo da controvérsia. 2. Portaría emanada do Poder Executivo nao possui forca normativa

(39) CF, art. 5!?: Todos sao iguais perante a leí, sem distincáo de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros
residentes no País a inviolabilidade do direito a vida, a liberdade, a igualdade, a seguranc;a e a propriedade, nos termos seguintes:
[ ... ]
11 - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa se nao em virtude de lei;
[ •.. J
(40) Art. 59 - O processo legislativo compreende a elaboracáo de:
1 - emendas a Constituicáo:
11 - leis complementares;
111 - leis ordinárias;
IV - leis delegadas;
V - medidas provisórias;
VI - decretos legislativos;
VII - resolucóes.
Parágrafo único. Lei complementar disporá sobre a elaboracáo, redacáo, alteracáo e consolidacáo das leis.

52
passível de revogar ou modificar lei em sentido estrito. Precedentes. 3. Agravo regimenta! impróvido. (STJ - AgRg
no AREsp 318688 PR 2013/0115582-6 - 61Turma - Relator Ministro Sebastiáo Reis Júnior - [ulgamento em: 6.2.2014
- DJ de 27.2.2014)
TRIBUTÁRIO. PROGRAMA DE ALIMENTA<;ÁO DO TRABALHADOR-PAT. IMPOSTO DE RENDA. INCENTIVO
FISCAL. LEI N. 6.321/76. LIMITA<;ÁO. PORTARIA INTERMINISTERIAL N. 326/77 E INSTRU<;ÁO NORMATIVA
N. 143/86. OFENSA. PRINCÍPIOS DA LEGALIDADE E DA HIERARQUIA DAS LEIS. l. A Portaria Interministerial
n. 326/77 e a Instrucáo Normativa n.143/86, ao fixarem custos máximos para as refeícñes individuais como condicáo
ao gozo do incentivo fiscal previsto na Lei n. 6.321/76, violaram o princípio da legalidade e da hierarquia das leis,
porque extrapolaram os limites do poder regulamentar. Precedentes. 2. Recurso especial nao prevido. (STJ - REsp
990313/SP - 2ª Turma - Relator Ministro Castro Meira - [ulgarnento em: 19.2.2008 - DJ de 6.3.2008)
PROCESSUAL CIVIL E TRIBUT ÁRIO. AUSENCIA DE PREQUESTIONAMENTO. EMBARGOS DE DECLARA<;AO.
OMISSÁO. INOCORRENOA. PROGRAMA DE ALIMENTA<;ÁO DO TRABALHADOR - PAT. AUXÍLIO-ALI-
MENTA<;AO PAGO EM ESPÉCIE AOS EMPREGADOS. OBRIGATORIEDADE DE RECOLHIMENTO DO FGTS.
LEI N. 6.321/76. LIMITA<;AO. PORTARIA N. 326/77. VIOLA<;ÁO AO PRINCÍPIO DA HIERARQUIA DAS LEIS.
CRÉDITO TRIBUTÁRIO. CORRE<;AO MONETÁRIA. JUROS MORATÓRIOS PELA TR/TRD. APLICABILIDADE.
[ ... ] 5. "As limitacóes impostas pela Portarían. 326/77 e pela Instrucáo Normativa n. 143/86, fixando custos máximos
para cada refeicáo individual oferecida pelo PAT, sao ilegaís, porquanto estabelecem restricñes que nao foram
previstas na Lei n. 6.321/76, nem no Decreto n. 78.676/76 que a regulamentou, violando, coro isso, o principio
da hierarquia das leis" (REsp 157.990/SP, Rel. Min. Francisco Falcáo, P Turma, DJ de 17.5.2004). 6. ( ... ) 7. Recursos
especiais aos quais se nega provimento." (STJ - REsp 719714/PR - 1 ª Turma - Relator Ministro Teori Albino
Zavascki - Julgamento em: 6.4.2006 - DJ de 24.4.2006 - p. 367)
ADMINISTRATIVO. IMPORTA<;AO DE BEBIDAS ALCÓOLICAS. PORTARIA N. 113/99, DO MINISTÉRIO DA
AGRICULTURA E DO AB.ASTECIMENTO. IMPOSI<;ÁO DE OBRIGA<;ÁO NÁO PREVISTA EM LEJ. AFRONTA
AO PRINCÍPIO DA LEGALIDADE. 6 l. O ato administrativo, no Estado Democrático de Direito, está subordinado
ao principio da legalidad e (CF/88, arts. 5°, JI, 37, caput, 84, IV), o que equivale assentar que a Adminístracáo só pode
atuar de acordo com o que a lei determina. Desta sorte, ao expedir um ato que tem por finalidade regulamentar a
lei (decreto, regulamento, instrucáo, portaría, etc.), nao pode a Administracáo inovar na ordem jurídica, impendo
obrigacóes ou limítacóes a direitos de terceiros. 2. Consoante a melhor doutrina, "é livre de qualquer dúvida ou
entredúvida que, entre nós, por forca dos arts. 5, JI, 84, IV, e 37 da Constituicáo, só por lei se regula liberdade e
propriedade; só por leí se ímpñem obrigacñes de fazer ou nao fazer. Vale dizer: restricáo alguma se impóem a
liberdade ou a propriedade pode ser imposta se nao estiver previamente delineada, configurada e estabelecida em
alguma lei, e só para cumprir dispositivos legais é que o Executivo pode expedir decretos e regulamentos." (MELLO,
Celso Antonio Bandeira de. Curso de direito administrativo. Sao Paulo: Malheiros Editores, 2002. p. 306/331) 3. A Portada
n. 113/99, do Ministério da Agricultura e do Abastecimento, a pretexto de regulamentar o cumprimento do disposto
na Leí n, 8.918/94 e no Decreto n. 2.314/97, sobre os requisitos para a irnportacáo de bebidas alcóolicas, inovou na
ordem jurídica, impondo obrigacáo nao prevista em Iei, in casu, a apresentacáo, para o desembarace aduaneiro das
mercadorias, da declaracáo consular da habilitacáo do importador pelo estabelecimento produtor, em afronta ao
prindpio da legalidade. 4. Deveras, a imposicáo de requisito para importacáo de bebidas alcóolicas nao pode ser
inaugurada por Portaría, por isso que, muito embora seja ato administrativo de caráter normativo, subordina-se
ao ordenamento jurídico hierarquicamente superior, in casu, a lei e a Constituicáo Federal, nao sendo admissível
que o poder regulamentar extrapole seus limites, ensejando a edícáo dos chamados "regulamentos autónomos",
vedados em nosso ordenamento jurídico, a nao ser pela excecáo do art. 84, VI, da Constituicáo Federal. 5. Recurso
especial a que se nega provimento. (STJ - REsp 584.798/PE - 1@ Turma - Relator Ministro Luiz Fux - Julgamento
em: 4.11.2004 - DJ de 6.12.2004 p. 205)
PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. CONHECIMENTO. FUNDAMENTO INFRA-
CONSTITUCIONAL AUTÓNOMO. DEMONSTRA<;ÁO DE DISSÍDIO ]URISPRUDENCIAL. IPI. PRAZO DE
RECOLHIMENTO. ALTERA<;ÁO POR PORTARJA. IMPOSSJBILIDADE. PRECEDENTES DO STJ. l. [... ) 2. "É
pacífica e remansosa a jurisprudencia do Superior Tribunal de [ustica no sentido de que norma de hierarquía inferior
(portaría) nao temo condáo de alterar/modificar disposicóes contidas em lei (in casu, prazo de recolhimento de IPI)
sem que haja expressa autorizacáo legal". (Resp, n. 386.420/PR, Relator Ministro José Delgado). 3. Agravo Regimenta!
desprovido. (STJ - AgRg no REsp 512182/DF - Ji Turma - Relator Ministro Luiz Fux - Julgamento em: 9.9.2003
- DJ de 29.9.2003 p. 168)
MANDADO DE SEGURAN<;A. ADMINISTRATIVO. CONCURSO DO ITA. OFENSA A DIREITO LÍQUIDO E
CERIO. PRINCÍPJO DA HIERARQUIA DAS NORMAS. ABUSO DE PODER. A portaría que instituiu as normas para
o Concurso, deu vigencia integral ao caput do art. 62, do Decreto n. 76.323/75, mas ignorou o disposto em seu § 12• Urna
portaria, por ser norma de hierarquía inferior e de cunho meramente complementar, nao tem o condáo de alterar
disposícóes emanadas de Decreto-Leí (princípio da hierarquia das normas). Se a Administracáo, mesmo no exercício
de seu poder díscricionário, nao atende ao fim legal, a que está obrigada, entende-se que abusou do poder. Quando
o administrador indeferiu o pedido de efetivacáo de matrícula do impetrante, tendo este sido considerado apto para

53
ingresso no ITA, em certame que seguiu as normas estabelecídas no Decreto n. 76.323/75, agiu ilegalmente, violando
direito líquido e certo, (STJ - MS 5.698/DF - 1n Secáo - Relatora Ministra Nancy Andrighi - Julgam.ento ero:
26.4.2000 - DJ de 30.10.2000 - p. 118)
AGRAVO. INSURGENCIA MINISTERIAL. REMic;Ao FICTA CONCEDIDA POR PORTARIA.JMPOSSIBILIDADE.
INEXISTENCIADEATIVIDADELABORAL.PREVALECEALEP.LEIFEDERAL.PRINCÍPIODAHIERARQUJADAS
LEIS. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO. l. A remicáo impóe o trabalho ou estudo efetivo do preso, devidamente
comprovado, nao sendo, por isso, admitida a remicáo ficta ou presumida; 2. Portaría é norma hierarquicamente
inferior a lei federal, motivo pelo qual o juiz nao pode expedir decisáo contrária ao que determina a Lei de
Execucóes Penáis. (TJ-PR 9452404 - s~ Cámara Criminal - Relatora Maria José de Toledo Marcondes Teixeira -
[ulgamento em: 29.11.2012)

Também a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional fez expressa referencia a esse entendimento,
conforme pode ser observado do Parecer PGFN/CRJ n. 2.623/2008<41>:
A Fazenda Nacional tem defendido, em juízo, a legalidade dos referidos atos normativos. Todavía, o e. Superior
Tribunal de [ustica entende que essas limitacóes sao ilegais, posto que estabelecidas por normas hierarquicamente
inferiores, que, indevidamente, restringem lei ordinaria: que a fixacáo dos valores máximos das refeicóes através de
portaria e instrucáo normativa viola o principio da hierarquía das normas, eis que extrapolam o poder regulamentar.

[... ]
Examinando-se a hipótese vertente, desde logo, concluí-se que: I) [ ... ];e II) as decisóes, citadas ao longo deste Parecer,
manifestam a pacífica e reiterada jurisprudencia do STJ, que reconhece violacño ao princípio da hierarquía das
normas quando ato ínfralegal (portaría e instrucáo normativa) exorbita o poder regulamentar, impendo restricóes
nao previstas em lei; assim, a ilegalidade da fixacáo de valores máximos para refeicóes oferecidas no ámbito do
PAT, através da Portaria Interministerial MTB/MF/MS n. 326/77 e da Instrucáo Normativa SRF n. 143/86, que teriam
extrapolado os limites da Lei n. 6.321/76.

Em resumo, compreendo que os atos normativos que orientam a emissáo da CAT quando da
ausencia de incapacidade ou sintoma estáo a inovar quanto ao conceito disposto na lei, e na qualidade
de normas inferiores e em respeito a hierarquia e reserva de poderes (Legislativo e Executivo), nao
necessitam ser observados.
Por certo, contudo, que a adocáo de tal procedimento pode trazer acáo administrativa por parte
do INSS ou do Ministério do Trabalho e Emprego, já que tais a tos normativos sao por eles publicados,
também havendo probabilidade de questionamento por parte de algum ente sindical.
Assim, é preciso que o empregador compreenda bem o tema e tenha conhecimento das con-
sequéncias advindas do procedimento escolhido. Pode optar por emitir as CATs na forma disposta
nesses atos normativos e sofrer as consequéncias tributárias imediatas no SAT/FAP (além de outras
de natureza trabalhista e previdenciária) ou pode obedecer apenas ao comando legal, comunicando
somente as ocorréncias acidentárias caracterizadas nos moldes dos arts. 19 a 21 da Lei n. 8.213/91 e, em
eventual questionamento ou acáo administrativa, defender-se conforme os fundamentos ora expostos.

4.3. Formulário

O formulário vigente, aprovado pela Portaría MPS n. 5.817/1999 (DOU de 7.10.1999),<42> bem como as
instrucóes de preenchimentopertinentes, pode ser visualizado no Capítulo 14, subitem 14.3.

(41) Íntegra disponível em: <http://www.pgfn.fazenda.gov.br/legislacao-e-normas/atos-declaratorios-arquivos/2008/parecer_2623_2008.


pdf>. Acesso em: 13.4.2015.
(42) Reitero que a IN INSS n. 77/2015 preve expressamente que o formulário poderá ser substituido por impresso da própria empresa,
desde que contenha todos os campos necessários ao seu preenchimento (art. 329, § 4!?)

54
~~

Ifilí\@Ifilill~ ®~!Nmo ~Jm@~


oo~~O@tOOCer~~&i8DKWiD®ro;:rnxID~@

5.1. Competencia do Ministério do Trabalho e Emprego - Normas Regulamentadoras (NR)

Por forca das disposicóes contidas na CF/88, art. 72, inciso XXII, bem como da CLT (art. 154 e
seguintes), da Lei n. 8.213/91 (art. 19) e também da Lei n. 8.212/91 (art. 15), todos os empregadores
se encontram obrigados ao cumprimento das normas referentes a seguran\:a, medicina e higiene do
trabalho.
Referidas normas constavam, inicialmente, do próprio corpo da CLT, Capítulo V, mas con1 a
evolucáo sistemática do Direito e o aperfeicoamento da matéria, se fez necessário delegar competencia
ao Ministério do Trabalho para a norrnatizacáo dessas obrígacóes, o que fez o legislador em 1977,
quando das alteracóes promovidas no Estatuto Laboral pela Lei n. 6.514.
Cabe, pois, ao Ministério do Trabalho e Emprego estabelecer as normas de seguran\:a,
medicina e higiene a serem observadas pelos empregadores e trabalhadores, bem corno fiscalizar os
estabelecimentos e impor as penalidades cabíveis (CLT, arts. 155 e 156).
Para disciplinar sobre o tema o Ministério do Trabalho editou Normas Regulamentadoras,
inicialmente publicadas pela Porta ria MTb n. 3.214/78 (28 normas origina is) e com inúmeras alteracóes
posteriores. Atualmente temos um arcabouco de 36 normas, com os seguintes temas:
• Norma Regulamentadora n. 01 - Disposicóes Gerais
• Norma Regulamentadora n. 02 - Inspecáo Previa
•Norma Regulamentadora n. 03 - Embargo ou Interdicáo
• Norma Regulamentadora n. 04 - Servicos Especializados ern Engenharia de Seguranca e em Medicina do Trabalho
• Norma Regulamentadora n. 05 - Comissáo Interna de Prevencáo de Acidentes
• Norma Regulamentadora n. 06 - Equípamentos de Protecáo Individual - EPI

• Norma Regulamentadora n. 07 - Programas de Controle Médico de Saúde Ocupacional - PCMSO


• Norma Regulamentadora n. 08 - Edificacóes
• Norma Regulamentadora n, 09 - Programas de Prevencáo de Riscos Ambientáis
• Norma Regulamentadora n. 10 - Seguranc;a em Instalacóes e Servicos ero Eletricidade

• Norma Regulamentadora n. 11 - Transporte, Movirnentacáo, Armazenagern e Manuseio de Materiais


• Norma Regularnentadora n. 12 -Seguranca no Trabalho em Máquinas e Equipamentos
• Norma Regulamentadora n. 13 - Caldeiras, Vasos de Pressáo e Tubulacóes

• Norma Regulamentadora n. 14 - Fomos


• Norma Regulamentadora n. 15 - Atividades e Operacóes Insalubres
• Norma Regulamentadora n. 16 - Atividades e Operacóes Perigosas
• Norma Regulamentadora n. 17 - Ergonomía/Trabalho dos Operadores de Checkouts - Trabalho em
Teleatend imento{f elemarketing
• Norma Regulamentadora n. 18 - Condicóes e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da Construcáo

55
• Norma Regularnentadora n. 19 - Explosivos
• Norma Regulamentadora n. 20 - Seguranca e Saúde no Trabalho com Tnflamáveis e Combustíveís

• Norma Regul.amentadora n. 21 - Trabalho a Céu Aberto


• Norma Regulamentadora n. 22 - Seguranca e Saúde Ocupacional na Mineracáo
• Norma Regulamentadora n. 23 - Protecáo Contra Incendios
• Norma Regulamentadora n, 24 - Condicóes Sanitárias e de Conforto nos Locais de Trabalho
• Norma Regulamentadora n. 25 - Resíduos Industriáis
• Norma Regulamentadora n. 26 - Sinalizacáo de Seguranca
• Norma Regulamentadora n. 27 - Revogada pela Portaria GM n. 262, 29.5.2008 - Tratava do Registro Profissional
do Técnico de Seguranca do Trabalho no MTB
• Norma Regulamentadora n. 28 - Fiscalizacáo e Penalidades

• Norma Regulamentadora n. 29 - Seguranca e Saúde no Trabalho Portuário


• Norma Regularnentadora n. 30 - Seguranca e Saúde no Trabalho Aquaviário
• Norma Regulamentadora n. 31 - Seguranca e Saúde no Trabalho na Agricultura, Pecuaria Silvicultura, Exploracáo
Florestal e Aquicultura
• Norma Regulamentadora n. 32 - Seguranca e Saúde no Trabalho ern Estabelecimentos de Saúde
• Norma Regulamentadora n. 33 - Seguranca e Saúde no Trabalho em Espacos Con.finados
• Norma Regulamentadora n. 34 - Condicóes e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da Construcáo e Reparacáo
Naval.
• Norma Regulamentadora n. 35 - Trabalho em Altura
• Norma Regulamentadora n. 36 - Segurani;a e Saúde no Trabalho em Empresas de Abate e Processamento de
Carnes e Derivados

Tais regulamentos podem ser encontrados na página eletrónica do Ministério do Trabalho e


Emprego (http://portal.mte.gov.br/legislacao/nonnas-regulamentadoras-1.htin) e, na medida de sua
aplicabilidade, todos eles devem ser observados, além das diretrizes especificadas na CLT, arts. 160
a 201, assim distribuidas:
• Arts. 160 a 161: Inspecáo prévía, embargo e interdicáo de estabelecimentos
• Arts. 162 a 165: Dos órgáos de seguranca e medicina do trabalho nas empresas (SESMT / CIPA)
• Arts. 166 a 167: Fornecimento de EPI - Equipamento de Protecáo Individual
• Arts. 168 a 169: Medidas preventivas de medicina do traba.lho (exames médicos, notificacáo das doencas)
• Arts. 170 a 174: Edificacóes
• Art. 175: Ilumínacáo

• Arts. 176 a 178: Conforto térmico


• Arts. 179 a 181: Instalacóes elétricas
• Arts. 182 a 183: Movimentacáo, armazenagem e manuseio de materiais
• Arts. 184 a 186: Máquinas e equipamentos
• Arts. 187 a 188: Caldeiras, fornos e recipientes sob pressáo
• Arts. 189 a 197: Arividades insalubres ou perigosas (insalubridade/periculosidade)
• Arts. 198 a 199: Prevencáo da fadiga
• Art. 200: Outras medidas especiais de protecáo

• Art. 201: Penalidades

56
Também compete ao empregador observar normas que estejam disciplinadas nas Convencóes
Internacionais que foram ratificadas pelo Brasil, sendo possível encontrá-las no enderece <http://
www .oitbrasil.org.br/convention>.

5.2. Obriqacoes do empregador

Constitui obrigacáo do empregador cumprir e fazer cumprir as normas de seguranca e medicina


do trabalho, além de (CLT, art. 157):
a) instruir os empregados, através de ordens de servico, quanto as precaucóes a tomar no sentido de evitar acidentes
do trabalho ou doencas ocupacionais:
b) adotar as medidas que lhes sejam determinadas pelo órgáo regional competente;
e) facilitar o exercício da fiscalizacáo pela autoridade competente.

Tarnbém os§§ 22 a 4!:l do art. 19 da Lei n. 8.213/91 atribuem responsabilidades ao ernpregador,


sendo sua redacáo a seguinte:
Art. 19. Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a servico de en1presa ou de empregador
doméstico ou pelo exercicio do trabalho dos segurados referidos no inciso VII do art. 11 desta Leí, provocando
lesáo corporal ou perturbacáo funcional que cause a rnorte ou a perda ou reducáo, permanente ou temporaria, da
capacidade para o trabalho.
§ 1 ªA empresa é responsável pela adocáo e uso das medidas coletivas e individuáis de protecáo e seguranca da saúde
do trabalhador,
§ 2º Constituí contravencáo penal, punível com multa, deixar a empresa de cumprir as normas de seguranc;a e higiene
do trabalho.
§ 3° É dever da empresa prestar inforrnacóes pormenorizadas sobre os riscos da operacáo a executar e do produto a
manipular.
§ 41l O Ministério do Trabalho e da Prevídéncia Social fiscalizará e os sindicatos e entidades representativas de classe
acompanharáo o fiel cumprimento do disposto nos parágrafos anteriores, conforme dispuser o Regulamento,

Disposicóes semelhantes constam, ainda, da Norma Regulamentadora n. 1 (subitern 1.7),


sendo dever dos empregadores, portante, observar e cumprir as disposícóes legais sobre seguranca,
higiene e medicina do trabalho, bem como as regras dispostas nas Normas Regularnentadoras (NR)
publicadas pelo Ministerio do Trabalho e Ernprego.
Permito-me, contudo, pequena crítica ao legislador, porque obriga o empregador nao semente
a cumprir corno, tambérn, a [azer cumprir as normas de protecáo. Entendo rnais que correto o
cumprimento de todas as normas e a ímplantacáo e adocáo de todas as medidas possíveis e
imagínáveís para a prevencáo de acidentes. A crítica, portante, refere-se ao [azer cumprir, e cito como
exemplo a norma referente ao Equiparnento de Protecáo Individual, comas seguintes dísposícóes na
Norma Regulamentadora n. 6:
6.6.1. Cabe ao empregador quanto ao EPI:
a) adquirir o adequado ao risco de cada atividade;
b) exigir seu uso;
e) fornecer ao trabalhador somente o aprovado pelo órgáo nacional competente ero materia de segurai1c;a e saúde no
trabalho:
d) orientar e treinar o trabalhador sobre o uso adequado, guarda e conservacáo:
e) substituir imediatarnente, quando danificado ou extraviado;
f) responsabilizar-se pela higienizacáo e manutencáo periódica; e,
g) comunicar ao MTE qualquer irregularidade observada.
h) registrar o seu fornecimento ao trabalhador, podendo ser adotados livros, fichas ou sistema eletrónico.

57
Quanto ao fornecimento de um EPI correto e eficaz e quanto ao treinamento para sua cerreta
utilizacáo, nenhum desmerecimento merece a Norma em comento. No entanto, o que significa,
efetivamente, exigir seu uso?
Pela interpretacáo conferida pela doutrina predominante e também pelo Poder [udiciário,
trata-se do empregador fiscalizar a efetiva utilizacáo do EPI por parte do trabalhador. Ou seja, o
empregador adquire o equipamento, fornece e treina o trabalhador quanto a cerreta utilizacáo, en-
sinando-o sobre a importáncia da protecáo a saúde, e deve, ainda, fiscalizar continuamente se esse
trabalhador está ou nao utilizando o equipamento que lhe foi fornecido.
O trabalhador, nesse contexto, passa a ser tratado como um ser totalmente desprovido de
inteligencia e, mais ainda, com total isencáo de responsabilidade sobre as consequéncias advindas de
sua própria estupidez'<.
Recebido o EPI e ciente de sua cerreta utilizacáo, cabe ao trabalhador zelar para com sua saúde,
adotando-o como elemento essencial ao desenvolvimento da funcáo. Ele <leve querer utilizar o EPI e,
se nao o faz, ainda que ciente de sua necessidade, é porque nao se interessa pela manutencáo de seu
estado saudável ou por sua integridade física. No entanto, se dessa atitude decorre um acidente de
trabalho, a responsabilidade será do empregador, porque deixou de fiscalizar a efetiva utilizacáo do
equipamento por seu empregado.
Ora, por qual razáo <leve o empregador responsabilizar-se mais com a saúde de seu empregado
do que esse próprio empregado? Nao consigo concordar com tal raciocinio porque essa "efetiva
fiscalizacáo" se faz inviável no cotidiano das empresas, como nas atividades de construcáo civil.
Corno fiscalizar se os pedreiros e outros profissionais estáo utilizando, todos e a todo momento,
capacete, óculos de protecáo, luvas e botas?
Cerreta foi a decisáo proferida pelo TRT da 1 !! Regiáo, que no RO 1281000420085010013/RJ
(publicado ern 26.4.2013) atribuiu também ao trabalhador a responsabilidade pela nao utilizacáo do
EPI recebido, reduzindo a indenizacáo que lhe era devida em face do acidente sofrido. Confira-se:
[ .. .]. Parcial provimento ao recurso da reclamada. Acidente do trabalho. Necessária parcela de culpa do empregado.
Se o empregado recebe óculos de protecáo e nao o usa, cabe-lhe grande parcela de culpa por ferimentos ocorridos na
regiáo que seria protegida pelo EPI. A falta de fiscalízacáo nao pode transferir para a empregadora a responsabilizacáo
total pelo evento danos. Reduz-se o valor da indenizacáo para R$ 5.000,00 e o período de férias resilitórias para 18
días. Tarnbérn se afasta a condenacáo por embargos protelatórios,

Urna ocasiáo específica chamou-me a atencáo certa vez, no banheiro feminino de um parque de
diversóes. A faxineira do local, na limpeza dos cestos de lixo, catava comas máos o papel higienice
(sujo) deixado no chao pelas frequentadoras. Ao questionar-lhe sobre a existencia de luvas, mostrou-
-me que estavam guardadas no arrnário e que nao gostava de usá-las: que já estava acostumada a
pegar comas máos. Como atribuir ao parque tal responsabilidade? Corno fiscalizar a efetiva utilizacáo
das luvas pela faxineira?
Penso que a responsabilidade do empregador nao é pequena, e nao se resume a aquisicáo e
distribuicáo dos equipamentos. Cabe a ele orientar o trabalhador sobre sua cerreta utilizacáo,
enfatizando a importáncia e os riscos do uso incorreto. E só. Daí para a frente a responsabilidade em
utilizar, em preocupar-se coro seu estado saudável, deveria ser do próprio trabalhador, mas essa nao
é a regra disposta na legislacáo vigente, e nem tampouco o entendimento do [udiciário, ainda que o
subitem 6.7.1 da mesma NR-6 atribua a ele tal dever:

(43) Mesma crítica faco as regras de fornecimento de vale-transporte e tíquete-alimentacáo, que, apesar de nao possuírem qualquer
relacáo como tema desta obra, ilustram como o trabalhador é tratado pela legislacáo, já que tals beneficios nao podem ser entregues
em espécie (dinheiro) porque o empregado pode utilizá-los para finalidade diversa daquela prevista nos diplomas legais. Vejo tal "pro-
tecáo", em verdade, como urna ofensa a inteligencia do trabalhador,

58
6.7.1. Cabe ao empregado quanto ao EPI:
a) usar, utilizando-o apenas para a finalidade a que se destina;
b) responsabilizar-se pela guarda e conservacáo:
e) comunicar ao empregador qualquer alteracáo que o torne impróprio para uso; e,
d) cumprir as deterrninacóes do empregador sobre o uso adequado.

Por tal razáo, recomenda-se aos empregadores que periodicamente inspecionem a efetiva
utilizacáo dos Equipamentos de Protecáo Individual, bem corno certifiquem-se de que as demais
obrigacóes impostas aos trabalhadores, pela CLT e pelas Normas Regulamentadoras do MTE, estáo
sendo cumpridas. Qualquer irregularidade ou recusa no cumprimento dessas obrígacóes <leve
ensejar a emissáo de advertencia expressa (por escrito) e, na reincidencia, suspensáo contratual ou até
mesmo dispensa por justa causa, com amparo nao semente nos arts. 158 e 482 da CLT como também
no subitem 1.8.1 da Norma Regularnentadora n. 1, sobre o terna ilustrando o seguinte julgado:
DISPENSA POR JUSTA CAUSA. RECUSA DO EMPREGADO AO USO DE EPIS. A reiterada recusa do reclamante
em usar os Equipamentos de Protecáo e Seguranca (EPis) representa falta gravíssima, autorizando a resolucáo
do contrato por justa causa, sem que houvesse excesso do empregador. A inércia patronal levaría a indesejável
reincidencia de atitudes dessa natureza, colocando em risco nao só a integridade física do próprio reclamante, como
atraindo para a reclamada possível responsabilizacáo civil por eventuais danos materiais e morais. (TRT 3~ Regiáo -
RO 0001721-28-2011-5-03-0087 - 9íl Turma - DETJ de 21.8.2013 - p. 132)

5.3. Obrtqacoes do trabalhador

Nos tennos do art. 158 da CLT, bem como do subitern 1.8 da Norma Regulamentadora n. 1,
ao trabalhador cabe observar todas as normas de seguranc;a e medicina do trabalho, inclusive
obedecer ao ernpregador quanto as instrucóes fornecidas (e utilizacáo de Equipamento de Protecáo
Individual - EPI), sob pena de sua recusa, se injustificada, ser suficiente para caracterizar ato faltoso
e, consequentemente, ensejar advertencia disciplinar, suspensáo contratual e até mesmo dispensa por
justa causa.
Caso a desobediencia seja leve, sem grandes consequéncias, correta é a emissáo de advertencia
disciplinar (por escrito), onde recomendamos detalhar o empregador a razáo de sua aplicacáo,
especificando qual norma foi ignorada pelo trabalhador.
Situacóes mais graves, ou reincidencia das leves, ensejarn a aplicacáo de suspensáo contratual,
quando o trabalhador será impedido de exercer a atividade profissional, obviamente com desconto
dos días de ausencia. O número de días de suspensáo <leveser fixado pelo empregador, observando-
-se coeréncia entre a gravidade da falta e da penalidade aplicada.
Situacóes gravíssímas, quando a desobediencia do trabalhador coloca em risco sua própria
seguranca ou a de outrern, podem ensejar a aplicacáo da dispensa por justa causa de imediato, sem
que antes terma sido emitida advertencia ou suspensáo disciplinar. Nos demais casos, a justa causa
somente é recomendada quando o empregador já tiver aplicado diversas penalidades mais leves,
insistindo o empregado no ato faltoso.

59

IQXID~~~~I~
• 6~·

6.1. Requerimento do Beneficio de lncapacidade junto ao INSS


Corno na esfera administrativa semente o perito médico do INSS tero competencia legal para
atribuir natureza acidentária a urna determinada ocorréncia, e como o perito só tero con.tato coro o
segurado se requerido por esse um beneficio previdenciário (em face da incapacidade laborativa),
o processo administrativo desse benefício é que será, tarnbém, o processo administrativo que
reconhecerá (ou nao) a existencia do acidente de trabalho que, como já observado no Capítulo 2 desta
obra, encentra-se conceituado nos arts. 19 a 21-A da Lei n. 8.213/91 e requer, para sua caracterizacáo,
os seguintes e concomitantes requisitos:
a) que o trabalhador esteja a servico de urna empresa (ou entidade a ela equiparada) ou de seu empregador doméstico.t'?
b) que o trabalho (ou seu ambiente) tenha sido a causa;
c) que o trabalhador tenha sofrido lesáo corporal ou perturbacáo funcional; e
d) que exista incapacidade laborativa, ainda que temporária.
Até 1 º.6.2015 a legislacáo excluía desse conceito os empregados domésticos e, coro isso, deixava
tal categoría de trabalhadores de ter direito as protecóes previstas na Lei n. 8.213/91, inclusive a
estabilidade no emprego . A Lei Complementar n. 150/2015 (publicada em 2.6.2015), contudo, alterou
a redacáo da Leí n. 8.213/91 e passou a estender aos domésticos o conceito e os direitos referentes ao
acidente de trabalho.
Assim, os segurados descritos no próprio dispositivo (art. 19) é que poderáo solicitar ao INSS
a natureza acidentária da ocorréncia, sendo eles os empregados, , os empregados domésticos, os
trabalhadores avulsos e os segurados especíaís.v" Referidos trabalhadores, quando vítimas de um
acidente de trabalho, devem solicitar ao empregador (se ernpregados), ao tomador dos servicos,
sindicato ou órgáo gestor de máo de obra (se avulsos) ou a qualquer pessoa autorizada no§ 2º do art.
19 da Lei n. 8.213/91,<46> o formulário CAT - Comunicacáo de Acidente de Trabalho. Esse documento é
indispensável para a caracterizacáo do acidente por parte do INSS e, assim, <leve ser obrigatoriamente
preenchido, ainda que pela própria vítima ou seus familiares. Nesses termos, confira-se a redacáo do
art. 327, I, da IN INSS n. 77/2015:
Art. 327. O acidente de trabalho ocorrido deverá ser comunicado ao INSS por meio da CAT, observado o art, 328, e
deve se referir as seguintes ocorréncias:
1 - CAT inicial: acidente do trabalho típico, trajeto, doenca profíssional, do trabalho ou óbito imediato;
[... ]

Se a doenca que acomete o trabalhador estiver relacionada com a atividade económica do


empregador (NTEP, conforme Lista C do Anexo II do Decreto n. 3.048/99),<47) nao será obrigatória a
apresentacáo da CAT. Nessas hipóteses é suficiente apresentar ao perito do INSS o atestado médico

(44) Nos termos do art. 15 da Lei n. 8.212/91, parágrafo único, bem como do art. 14 da Lei n. 8.213/91, equiparam-se as empresas o
contribuinte individual em relacáo a segurado que lhe presta servíco, bem como a cooperativa, a assoclacáo ou entidade de qualquer
natureza ou finalidade, a rnissáo diplomática e a repartícáo consular de carreira estrangeiras.
(45) Os segurados especiais sao pequenos produtores rurais, que trabalham sozinhos ou em regime de economia familiar (conforme
Lei n. 8.213/91, art. 11, VII) e, apesar de nao prestarem servicos a empresas, foram contemplados no conceito do art. 19.
(46) Art. 19. [ ... ] § 2!! Na falta de cornunícacáo por parte da empresa, podem formalizá-la o próprio acidentado, seus dependentes, a entidade
sindical competente, o médico que o assistiu ou qualquer autoridade pública, nao prevalecendo nestes casos o prazo previsto neste artigo.
(47) Sobre o NTEP, ver o Capítulo 2, subitem 2.4, desta obra.

60
como código CID, independentemente de ter sido emitido pelo médico assistente do trabalhador
(particular ou nao) ou médico da empresa.Eisa redacáo da IN INSS n. 77/2015, art. 331<48>:
Art. 331. A empresa deverá comunicar o acidente acorrido com o segurado empregado, exceto o doméstico, e o
trabalhador avulso até o primeiro dia útil seguinte ao da ocorréncia e, em caso de morte, de imediato, a autoridade
competente, sob pena de multa aplicada e cobrada na forma do art. 286 do RPS.

[... )

§ 52 Nao cabera aplicacáo de multa, por nao emissáo de CAT, quando o enquadramento decorrer de aplicacáo do
NTEP, conforme disposto no§ Sil, art. 22 da Lei n. 8.213, de 1991, redacáo dada pela Lei n. 11.430, de 2006.

Quando a vítima do acidente estiver desempregada (mas ainda na qualidade de segurado


empregado, em razáo do período de grac;a constante do art. 15 da Lei n. 8.213/91), ou quando se tratar
de segurados especiais, deverá ser requerida ao INSS a concessáo do beneficio de auxílio-doenca ou
aposentadoria por invalidez, com entrega da CAT (ou atestado, no caso do NTEP) ao perito médico
no día designado para a perícia.
Para os segura dos empregados (de empresa ou entidade equiparada), caso a incapacidade
laborativa possua duracáo de até 15 (quinze) días, caberá a própria empresa a remuneracáo dos días
de afastamento, conforme previsáo do art. 60 da Lei n. 8.213/91<49l.
Quando a empresa tiver médico próprio ou ern convenio, cabera a esse profissional examinar o
trabalhador (e a documentacáo médica por ele apresentada), confirmando ou nao a necessidade do
afastamento (e qual o período) e, consequentemente, o abono das faltas pelo empregador.
É possível e aconselhável, portan to, que em caso de dúvida o médico da empresa ( ou conveniado)
solicite inforrnacóes e esclarecimentos ao médico assistente do trabalhador (que emitiu o atestado
médico), bem como solicite exames complementares, desde que estes sejam totalmente custeados
pelo empregador ou plano de saúde fornecido.
A decísáo final sobre a existencia da incapacidade e o número de días correspondente cabe, pois,
ao médico da empresa, e nao ao médico assistente do empregado.v" Essa é a disposicáo constante
na leí e, também, o entendimento da mais prestigiosa jurisprudencia patria, conforme ilustram as
Súmulas ns. 15 e 282 do TST,<51> bem corno o seguinte julgado:
RECURSO ORDINÁRIO. ATESTADO MÉDICO DA EMPRESA. SÚMULA N. 282 DO TST. PREVALENCIA.
MUDAN<;A DE FUN<;ÁO NÁO CONFIRMADA. DANO MORAL NAO CONFIGURADO. Conforme as Súmulas
ns. 15 e 282, ambas do TST, o atestado médico da empresa tern prevalencia sobre o atestado de médico particular
da obreira. No caso, o médico da empresa nao confirmou o atestado médico particular que opinava pela mudanca
de funcáo da obreira, mas concluiu que a reclamante estava apta para o trabalho. Pelo exposto, de se afastar o dano
moral, visto que a empregadora observou os ditames lega is. Recurso ordinário conhecido e provido. (TRT 7~ Regiáo,
ROPS 0000576-37.2014.5.07.0016, 2ª Turma, Des. Francisco José Gomes da Silva, Publicacáo ern: 11.2.2015)

(48) Os direitos referentes ao acidente de trabalho passaram a ser aplicados aos trabalhadores domésticos a contar de 2.6.2015, data
de publicacáo da LC 150/2015.
(49) Até 28.2.2015 as empresas se encontravam obrigadas a pagar apenas os primeiros 15 días de afastamento. A contar de 1º.3.2015,
por forca das disposicóes contidas na MP 664/2014, esse prazo passou a ser de até 30 días, mas o Congresso Nacional rejeitou tal
alteracáo, voltando a vigorar a redacáo original da Leí 8.213/91 quanto ao tópico. É importante registrar que esse dispositivo se aplica
somente as empresas (e entidades a ela equiparadas, nos termos do art. 15 da Leí n. 8.212/91). Empregadores domésticos nao térn
obrígacáo de pagar días de atestado médico, devendo o benefício ser pago integralmente pelo INSS, a título de auxllio-doenca ou
auxltio-doenca acidentário.
(SO) Ao médico assistente cabe investígacáo e conclusáo sobre o diagnóstico e conduta terapéutica, devendo fornecer atestado médico
conforme o parágrafo único do art. 3!? da Resolucáo CFM n. 1.658/2002.
(51) Súmula n. 15: "ATESTADOMÉDICO (mantida) - Res. 121/2003, DJ 19, 20 e 21.11.2003 - Ajustiñcacáo da ausencia do empregado
motivada por doenca, para a percepcáo do salário-enfermidade e da remuneracáo do repouso semanal, deve observar a ordem prefe-
rencial dos atestados médicos estabelecida em leí".
Súmula n. 282: ''.ABONO DE FALTAS. SERVIC::O MÉDICO DA EMPRESA (mantida) - Res.121/2003, DJ 19 20 e 21.11.2003 -Ao servico médico
1

da empresa ou ao mantido por esta última mediante convenio compete abonar os primeiros 15 (quinze) días de ausencia ao trabalho",

61
A CAT (ou o atestado, no caso do NTEP), nesses afastamentos com duracáo de até quinze días,
poderá ser utilizada como prova pelo trabalhador em eventual acáo judicial, mas nunca como prova
plena, porque a competencia administrativa para caracterizar a natureza acidentária é exclusiva da
perícia do INSS, principalmente se emitida por outro que nao o empregador.
Nas hipóteses em que o afastamento ultrapassar quinze días consecutivos, o trabalhador deverá
ser encaminhado ao INSS a contar do 162 dia de incapacidade, para percepcáo de auxílio-doenca
ou aposentadoria por invalidez. Esse "encaminhamento" de que trata o § 4!2 do art. 60 refere-se, tao
semente, ao preenchimento e entrega, ao trabalhador, do formulário denominado "Requerimento de
Beneficio por Incapacidade", cujo modelo encentra-se disponível no link <http://www.previdencia.
gov.br/fonns/formularios/form019.html>, podendo ser visualizado também no Capítulo 14 desta
obra, subitem 14.4.
De posse desse formulario, <leve o trabalhador solicitar o beneficio de auxílio-doenca ou
aposentadoria por invalidez ao INSS, utilizando a internet (<http://agencia.previdencia.gov.br/e-aps/
servico/881>) ou o telefone 135 para essa finalidade. Em qualquer das modalidades, será agendado
dia e hora para que o trabalhador comparece a perícia médica, oportunidade em que deverá levar
consigo toda a documentacáo que possuir a respeito do acidente (CAT, inclusive) e da incapacidade
(atestados, exames etc).
Note-se que o requerimento do beneficio e a escolha da agencia do INSS onde será efetuada a
perícia médica cabero ao próprio trabalhador, e nao a empresa. Nao tem o empregador, ao contrário
do que observo ser o entendimento do senso comum, qualquer gerenciamento sobre o INSS, sobre
datas de pericia ou sobre decisóes administrativas.
Por óbvio que o ernpregador pode auxiliar, se quiser e se com isso concordar o trabalhador,
no requerimento pela internet ou pelo telefone, mas trata-se apenas de auxílio, sendo a solicitacáo
efetuada em nome do empregado (e nao da empresa).
A única hipótese em que a empresa pode requerer em seu próprio nome o benefício de seus
trabalhadores refere-se a possibilidade de um convenio, a ser firmado entre ela e o INSS para
essa finalidade, hipótese em que a solicitacáo deve ocorrer pela internet, no link <http://www010.
dataprev.gov.br/Benef_conve/auxdoe/auxdoe.hbn>. Ou seja, semente as empresas que tiverem
firmado convenio como INSS é que possuern autorizacáo para requerer beneficio ern nome de seus
trabalhadores. Ainda assim, trata-se apenas do requerimento inicial, já que o empregado é quem
deverá comparecer a perícia agendada e já que a decisáo sobre a íncapacidadev" e sobre a natureza
acidentária caberá, com exclusividade, ao perito do INSS.
Por fim, cumpre esclarecer que o fato de o INSS, porventura, entender pela inexistencia do
nexo acidentário nao retira do trabalhador o direito de receber o beneficio de auxílio-doenca ou
aposentadoria por invalidez que lhe sejam cabíveis em face da incapacidade existente, desde que
cumprido o requisito da carencia. De igual forma, nao é a simples existencia do nexo acidentário
que, por si, acarretará o direito a percepcáo do benefício, já que se faz necessária a present;a da
incapacidade. Confira-se, nesse sentido, a regra disposta no art. 10 da IN INSS n. 31/2008:
Art. 10. A existencia de nexo de qualquer espécie entre o trabalho e o agravo nao implica o reconhecimento automático
da incapacidade para o trabalho, que deverá ser definida pela perícia médica.
Parágrafo único. Reconhecida pela pericia médica do INSS a incapacidade para o trabalho e estabelecido o nexo
técnico entre o trabalho e o agravo, seráo devidas as prestacóes acidentárias a que o beneficiário tenha direito.

(52) Conforme disposicóes da Lei n. 11.907 /2009, art. 30, § 32, no ámbito do INSS e do MPS compete privativamente ao perito médico
do INSS concluir sobre a capacidade laboral para fins previdenciários.

62
6.2. Processo legal administrativo

6.2.1. Partes interessadas e íntimacáo dos atos


Como a caracterizacáo de um acidente de trabalho traz consequéncias gravosas ao empregador
(trabalhistas, previdenciárias e tributarias), deve o empregador, obrigatoriamente, ser considerado
parte interessada no processo administrativo correspondente, sendo essa a garantía constante no
art. 9º, II, da Leí n. 9.784/99, que regula o processo administrativo no ámbito da Adrninistracáo
Pública Federal:
Art. 9Q Sao legitimados como interessados no processo administrativo:
T - pessoas físicas ou jurídicas que o iniciern como titulares de direitos ou interesses individuais ou no exercício do
direito de representacáo;
IJ - aqueles que, sem terem iniciado o processo, térn direitos ou interesses que possan1 ser afetados pela decisáo a
ser adotada;
III - as organízacóes e associacóes representativas, no tocante a direitos e inte:resses coletivos;
IV - as pessoas ou as associacóes legalmente constituidas quanto a direitos ou interesses difusos.

Nao poderia ser diferente em face das garantías de ampla defesa e contraditório, previstos na
Carta Constitucional de 1988 (art. 5º, LV), bem co1no também no art. 2º da própria Lei n. 9.784/99:
Constituicáo Federal
Art. SQ Todos sao iguais perante a leí, sern distincáo de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e
aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito a vida, a liberdade, a igualdade, a seguranca e a
propriedade, nos termos seguintes:
[... )
LV - aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral sao assegurados o contraditório
e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes:
[... )
Lei n. 9.784/99
Art. 22 A Administracáo Pública obedecerá, dentre outros, aos principios da legalidade, finalidade, motivacáo,
razoabilidade, proporcionalídade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurani;a jurídica, interesse público e
eficiencia.
[... )

Certo é, pois, que trabalhador e empregador sao partes interessadas e, verificando o perito do
INSS o interesse do segurado em caracterizar a natureza acidentária da ocorréncia, deve assegurar
que ambas as partes participem efetivamente do processo administrativo, com intimacáo de todos os
atos e diligencias (Lei n. 9.784/99, art. 28):
Art. 28. Devem ser objeto de intirnacáo os atos do processo que resultern para o interessado em imposicáo de deveres,
ónus, sancóes ou restricáo ao exercícío de direitos e atividades e os atos de outra natureza, de seu interesse.

Nenhum ato que se refira a investigacáo do nexo entre a lesáo/enferrnidade e o trabalho pode
ser praticado pelo perito do INSS sem que as partes tenham dele ciencia ou, ainda, dele possam
participar ativamente, ainda que por seus assistentes técnicos (se assim desejarem).
Também <leve o INSS possibilitar (ao trabalhador e ao empregador) vista dos autos, cópia dos
documentos que o instruem e conhecimento de todas as decisóes proferidas, sendo garantido as
partes formular alegacóes e apresentar qualquer prova documental ou informacáo antes da decisáo
administrativa, além do direito de se fazerem representar por advogados. Nesses termos dispóe,
expressamente, o art. 32 da Leí n. 9.784/99:
Art. 3° O administrado tem os seguintes direitos perante a Administracáo, sem prejuízo de outros que lhe sejam
assegurados:

63
1 - ser tratado com respeito pelas autoridades e servidores, que deveráo facilitar o exercício de seus direitos e o
cumprimento de suas obrigacóes:
JT - ter ciencia da trarnitacáo dos processos administrativos em que tenha a condicáo de interessado, ter vista dos
autos, obter cópias de documentos neles contidos e conhecer as decisóes proferidas;
III - formular alegacóes e apresentar documentos antes da decisáo, os qua is serño objeto de consideracáo pelo órgao
competente:
IV - fazer-se assisrir, facultativamente, por advogado, salvo quando obrigatória a representacáo, por forca de lei.

A intimacáo das partes quanto as pericias, diligencias e decis6es <leve observar estritarnente
os arts. 26 e 27 da Lei n. 9.784/99, co1n antecedencia rnínima de tres días úteis para qualquer
comparecimento e, ainda, por via postal com aviso de recebimento, telegrama ou qualquer outro
meio que assegure a certeza da ciencia do interessado:
Art. 26. O órgáo competente perante o qual tramita o processo administrativo determinará a intimacáo do interessado
para ciencia de decísáo ou a efetivacáo de diligencias.
§ Jll A intirnacáo deverá conter:
I - identificacáo do intimado e neme do órgáo ou entidade administrativa;
lI - finalidade da intimacáo;
Ill - data, hora e local ero que deve comparecer;
IV - se o intimado deve comparecer pessoalrnente, ou fazer-se representar;
V - ínformacáo da continuidade do processo independentemente do seu comparecimento;
VI - indicacáo dos fatos e fundamentos legais pertinentes.
§ 2° A intimacáo observará a antecedencia mínima de tres días úteis quanto a data de comparecímento.
§ 3º A intirnacáo pode ser efetuada por ciencia no processo, por via postal com aviso de recebimento, por telegrama
ou outro meío que assegure a certeza da ciencia do interessado.
§ 4º No caso de interessados indeterminados, desconhecidos ou com domicílio indefinido, a intimacáo deve ser
efetuada por meio de publicacáo oficial.
§ SQ As intimacóes seráo nulas quando feítas sem observancia das prescricóes legais, mas o comparecimento do
administrado supre sua falta 01.1 irregularidade.
Art. 27. O desatendimento da intimacáo nao importa o reconhecimento da verdade dos fatos, nem a renúncia a
11

direito pelo administrado.


Parágrafo único. No prosseguimento do processo. será garantido direito de ampla defesa ao interessado,

6.2.2. Investígacáo técnica do nexo

A atribuicáo da natureza acidentária a urna lesáo ou a urna enfermidade agravov" deve ser
precedida por urna investigacáo técnica, realizada pelo perito do INSS, com o objetivo de identificar
o agente causador ou o fator de risco existente no ambiente de trabalho ou no próprio exercício da
atividade. Eisa disposicáo do art. 337 do Decreto n. 3.048/99:
Art. 337. O acidente do trabalho será caracterizado tecnicamente pela pericia médica do INSS, mediante a identificacáo
11

do nexo entre o trabalho e o agravo.


I - o acidente e a lesáo:
lI - a doenca e o trabalho; e
IlI - a causa mortis e o acidente
[... ]

(53) Considera-se agravo qualquer lesáo, doenca, transtorno de saúde, disturbio, disfuncáo ou síndrome de evolucáo aguda, subaguda
ou crónica, de natureza clínica ou subclínica, inclusive morte, independentemente do tempo de latencia - Decreto n. 3.048/99, art.
337, § 42.

64
Referida investigacáo será obrigatória para todas as modalidades de acidente, seja ele típico,
doenca ocupacional ou acidente por equiparacáo, mas, caso se trate de doenca que esteja relacionada
com o CNAE do empregador (conforme Anexo JI do Decreto n. 3.048/99, Lista C), estaremos diante
do NTEP - Nexo Técnico Epídemiológíco.P" e o nexo pode ser aplicado de imediato pelo perito, de
forma presumida, sem necessidade de investigacáo prévia.
Caso nao seja a hipótese de NTEP, portante, deve o perito buscar informacóes para confirmar
se há identidade de causa/efeito entre o trabalho desenvolvido pelo empregado (ou o ambiente
no qual é desenvolvido) e a lesáo ou enfermidade a presentada, e para o desenvolvimento dessa
investigacáo, lhe é permitido ouvir testemunhas, efetuar pesquisa, realizar vistoria no ambiente de
trabalho, solicitar documentos e inforrnacóes a empresa, bem como adotar qualquer outra diligencia
que julgar necessária ao esclarecimento dos fatos. Nesse sentido dispóe, inclusive, o art. 322 da IN
INSS n. 77/2015:
Art. 322. Para a identificacáo do nexo entre o trabalho e o agravo, que caracteriza o acidente do trabalho, a pericia
médica do INSS, se necessário, poderá ouvir testemunhas, efetuar pesquisa ou realizar vistoria do local de trabalho
ou solicitar o PPP diretamente ao empregador para o esclarecimento dos fatos.

Importa aquí um paréntese para urna questáo de relevancia, ainda que em repeticáo, haja vista
que já abordei a questáo no subitem 3.1 desta obra. O médico (perito do INSS, médico da empresa ou
médico assistente do empregado ), para concluir e colocar no documento por ele emitido afirmacáo
sobre a existencia do nexo, deve obrigatoriamente estudar o local e a organízacáo do trabalho, além
de identificar os riscos e tornar o depoimento e a experiencia dos demais trabalhadores, conforme
arts. 22e10 da Resolucáo CFM n. 1.488/1998 (destaques meus):
Art. 2° Para o estabelecimento do nexo causal entre os transtornos de saúde e as atividades do trabalhador, alérn do
exame clínico (físico e mental) e os exames complementares, quando necessários, deve o médico considerar:
I - a história clínica e ocupacional, decisiva em qualquer diagnóstico e/ou investigacáo de nexo causal;
11 - o estudo do local de trabalho;
III - o estudo da organízacáo do trabalho;
IV - os dados epidemiológicos;
V - a literatura atualizada;
VI - a ocorréncia de quadro clínico ou subclíníco ern trabalhador exposto a condicóes agressivas;
VII - a ídentíficacáo de riscos físicos, químicos, biológicos, mecánicos, estressantes e outros;
VIII - o depoimento e a experiencia dos trabalhadores;
IX - os conhecimentos e as práticas de outras disciplinas e de seus profissionais, sejarn ou nao da área da saúde.
[... )
Art. 10. Sao atribuicóes e deveres do perito-médico judicial e assistentes técnicos:
I - examinar clínicamente o trabalhador e solicitar os exames complementares necessários:
11 - o perito-médico judicial e assistentes técnicos, ao vistoriarem o local de trabalho, devem fazer-se acompanhar,
se possível, pelo próprio trabalhador que está sendo objeto da pericia, para melhor conhecimento do seu ambiente
de trabalho e funcáo:
111 - estabelecer o nexo causal, considerando o exposto no art. 22 e incisos.
Nao possível, pois, que um nexo acidentário seja reconhecido sem que o médico que está a
é

afirmar por sua existencia indique, expressamente, esses elementos que identificou no ambiente de
trabalho.
O acidente, quando típico, nao costuma guardar maior dificuldade na investigacáo do nexo,
porque, na maioria das vezes, é o proprio empregador o emitente da CAT, além de, vía de regra,
constituir ato único com lesáo imediata, no horário e local de trabalho.

(54) Sobre NTEP, ver o Capítulo 2, subitem 2.4.

65
Quando estamos a tratar, contudo, de doenca do trabalho ou doenca ocupacional (Nexo
Profissional - NP), faz-se indispensável que o perito do INSS constate, no trabalhador, a existencia
de urna doenca que esteja relacionada nas Listas A e B do Anexo II do Decreto n. 3.048/99, bem como
que comprove (por documentos ou inspecáo do local) a existencia do agente etiológico ou fator de
risco também ali relacionado.P"
Se a doenca ou o fator de risco nao estiverem relacionados nas listas A e B já mencionadas, o
perito poderá, ainda assim, classificar a ocorréncia como acidente de trabalho, mas o fará como Nexo
Individual (NI), com fundamento no § 2Q do art. 20 da Lei n. 8.213/91, especificando detalhadamente,
em sua decisáo, qual a condicáo especial de trabalho que foi verificada e que o levou a concluir pela
existencia de nexo.
Existem, poís, tres tipos de nexos que podem ser aplicados pela perícia do INSS: a) o nexo
profissional ou do trabalho (NP), quando a doenca e o agente de risco estiverem relacionados nas
listas A e B do Anexo II do Decreto n. 3.048/99; b) o nexo individual (NI), quando o perito se convencer
do nexo mas se1n que a doenca ou o fator de risco estejam previstos no referido anexo II e; e) o
Nexo Técnico Epidemiológico (NTEP), quando a enfermidade estiver associada ao CNAE, sendo este
último o único que pode ser aplicado de forma presumidas". Nesses termos, confira-se a redacáo do
art. 3Q da IN INSS n. 31/2008:
Art. 32 O nexo técnico previdenciário poderá ser de natureza causal ou nao, havendo tres espécies:
I - nexo técnico profissional ou do trabalho, fundamentado nas associacóes entre patologías e exposicóes constantes
das listas A e B do anexo 11 do Decreto n. 3.048, de 1999;
lI - nexo técnico por doenca equiparada a acidente de trabalho ou nexo técnico individual, decorrente de acidentes
de trabalho típicos ou de trajere, bem corno de condicóes especia is em que o trabalho é realizado e com ele relacionado
diretamente, nos termos do § 2!1 do art. 20 da Leí n. 8.213/91;
TII - nexo técnico epidemiológico previdenciário, aplícável quando houver significáncia estatística da assocíacáo entre
o código da Classificacáo Internacional de Doencas - CID, e o da Classificacáo Nacional de Atividade Económica -
CNAE, na parte inserida pelo Decreto n. 6.042/07, na lista B do anexo II do Decreto n. 3.048, de 1999.

Todo o procedirnento deve ser acompanhado pelo trabalhador e pelo empregador (partes
interessadas no processo administrativo), sendo ambos intimados de todos os atos, com possibilidade
de vistas de todos os documentos e decisóes. Confiram-se, ainda sobre o tema, os arts. 36, 38, 39, 41
e 46 da Lei n. 9.784/99:
Art. 36. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever atribuído ao órgáo competente
para a instrucáo e do disposto no art. 37 desta Lei.
[... ]
Art. 38. O interessado poderá, na fase instrutória e antes da tornada da decisáo, juntar documentos e pareceres,
a
requerer diligencias e pericias, bern como aduzir alegacóes referentes materia objeto do processo,
§ l110s elementos probatorios deveráo ser considerados na rnotivacáo do relatório e da decísáo.
§ 22 Somente poderáo ser recusadas, mediante decísáo fundamentada, as provas propostas pelos interessados quando
sejam ilícitas, impertinentes, desnecessárias ou protelatórias.
Art. 39. Quando for necessária a prestacáo de inforrnacóes ou a apresentacáo de prevas pelos interessados ou terceiros,
seráo expedidas intimacóes para esse fim, mencionando-se data, prazo, forma e condicées de atendimento,
Parágrafo único. Nao sendo atendida a intimacáo, poderá o órgáo competente, se entender relevante a materia, suprir
de oficio a ornissáo, nao se eximindo de proferir a decisáo.
[... ]

(SS) Tabelas disponíveis no Capítulo 2 desta obra, subitem 2.5.1. Em 9.7.201S foi publicada no Diário Oficial da Unlác a Resolucáo INSS
48S/201S, dispondo sobre a inspecáo do local de trabalho pela pericia médica do INSS. Se efetivamente o INSS cumprir o disposto na
referida norma, bem como na legislacáo de regencia (Leis ns. 8.213/91e9.784/99, principalmente), talvez na próxima edlcáo dessa
obra eu tenha como alterar a crítica feita quanto aos procedimentos praticados pelo INSS/MPS. Por ora, infelizmente, as normas em
vigor nao sao observadas, com forte violacáo de garantias constitucionais.
(S6) O fato de poder ser o NTEP aplicado de forma presumida nao significa que nao haverá a investigacáo do nexo por parte do INSS,
mas sim que essa investigacáo poderá ser efetuada semente quando (e se) a empresa apresentar defesa, discordando da natureza
acidentária.

66
Art. 41. Os interessados seráo intimados de prova ou diligencia ordenada, com antecedencia mínima de tres dias
úteis, mencionando-se data, hora e local de realizacáo,
[ ... ]
Art. 46. Os interessados tém direiro a vista do processo e a obter certidóes ou cópias reprográficas dos dados e
documentos que o integram, ressalvados os dados e documentos de terceiros protegidos por sigilo ou pelo direito a
privacidade, a honra e a imagem.

Empregador e trabalhador podem formular quesitos, apresentar ou impugnar documentos,


pedir vistas dos autos administrativos e obter as fotocopias que desejarem, salvo se protegidos por
sigilo ou direito de privacidade, honra e imagem, o que nao é o caso dos documentos que instruem
a matéria acidentária.
O trabalhador tem direito de ter acesso a integralidade do processo administrativo, especialmen-
te da parte instrutória e das decísóes proferidas pelo INSS. O empregador, por sua vez, possui igual
direito e interesse, já que no procedimento de caracterizacáo de um acidente de trabalho o que se pre-
tende atribuir a atividade ou ao ambiente no qual é desenvolvida a responsabilidade pelo ocorrido.
é

Encerrada a fase probatória, as partes devem ser intimadas para manifestacáo no prazo máximo
de dez días (Lei n. 9.784/99, art. 44), com decísáo proferida pelo INSS em até trinta dias, salvo
prorrogacáo por igual período expressamente motivada (art. 49).
Todas as decisóes, finais ou interlocutórias, devem ser motivadas e com indicacáo dos fatos e
fundamentos jurídicos que lhe serviram de base. Nesses termos, confira-se a redacáo do art. 50 da
Lei n. 9.784/99:
Art. 50. Os atos administrativos deveráo ser motivados, com indicacáo dos fatos e dos fundamentos jurídicos, quando:
I - neguem, limitem ou afetem direitos ou interesses:
JI - imponham ou agrave1n deveres, encargos ou sancóes:
III - decidam processos administrativos de concurso ou selecáo pública;
IV - dispensem ou declarem a inexigibilidade de processo licitatório;
V - decidam recursos administrativos;
VI - decorram de reexame de oficio;
VII - deixem de aplicar jurisprudencia firmada sobre a questáo ou discrepem de pareceres, laudos, propostas e
relatórios oficiais;
VIII - importern anulacáo, revogacáo, suspensáo ou convalidacáo de ato administrativo.
§ 12 A motivacáo deve ser explícita, clara e congruente, podendo consistir em declaracáo de concordancia com
fundamentos de anteriores pareceres, informacóes, decísóes ou propostas, que, neste caso, seráo parte integrante do ato.
§ 22 Na solucáo de vários assuntos da mesma natureza, pode ser utilizado meio mecánico que reproduza os
fundamentos das decisóes, desde que nao prejudique direito Oll garantía dos interessados.
§ 31! A motivacáo das decisóes de órgáos colegiados e comissóes ou de decisóes orais constará da respectiva ata ou de
termo escrito.

Da decisáo proferida cabe recurso por qualquer das partes, protocolado no prazo de trinta días
e destinado a Junta de Recursos da Previdéncia Social (JRPS), integrante do Conselho de Recursos
da Previdéncia Social (CRPS).

6.2.3. Aplícacáo do Nexo Técnico Epidemiológico - NTEP

Corno já abordado anteriormente, e com as ressalvas importantes sobre a elaboracáo da tabela


disposta na Lista C do Anexo II do Decreto n. 3.048/99,<57l a perícia do INSS encentra-se autorizada a
classificar presumidamente como acidentária, sem necessidade de ínvestigacáo prévia, a doenca que
estiver relacionada ao CNAE do empregador.

(57) Sobre o tema, ver o Capítulo 2, subitem 2.4 e subitem 2.5.2.

67
Penso que o descumprimento da lei por parte do Ministério da Previdéncia Social quanto a
ausencia do estudo epidemiológico adequado, inclusive utilizando nas estatísticas benefícios nao
acidentários, acarreta a nulidade da Tabela adotada pelo INSS (Lista C), disponibilizada no Decreto
n. 6.042/2007. No entanto, faz-se necessário pronunciamento judicial sobre o tema e, enquanto
inexistente, é fato que a tabela existe e está sendo aplicada pelo INSS para caracterizacáo dos acidentes
em todo o país.
Trata-se, em verdade, de facilitar o trabalho dos peritos da referida Autarquía, urna vez que
podem aplicar de forma presumida o nexo acidentário, sem necessidade de qualquer diligencia
adicional e sendo suficiente, apenas, que o trabalhador apresente atestado médico com um CID que,
pela Lista C, esteja relacionado ao CNAE do empregador.
O perito do INSS1 contudo, nao é obrigado a aplicar essa presuncáo e pode perfeitamente
deixar de fazé-la se tiver conhecimento de qualquer fato que impeca ou coloque em dúvida a
natureza acidentária da enfermidade, ou nos casos em que suas conviccóes médicas indiquem nao
se tratar de enfennidade laborativa. Ocorre que, para ter conhecimento desse fato, faz-se necessário
que a empresa participe do processo administrativo, inclusive para apresentacáo de documentos e
informacóes.
A participacáo efetiva do empregador nao sornen te cumpre comas disposicóes da CF/88 quanto
a
ampla defesa e contraditório, bem como também para com aquelas dispostas na Lei n. 9.784/99 e
já abordadas no subitem anterior, como, principalmente, em face da redacáo do próprio art. 21-A da
Lei n. 8.213/91,<58> que, expressamente, preve a situacáo:
Art. 21-A. A pericia médica do JNSS considerará caracterizada a natureza acidentária da incapacidade quando
constatar ocorréncia de nexo técnico epidemiológico entre o trabalho e o agravo, decorrente da relacáo entre a
atividade da empresa e a entidade mórbida motivadora da incapacidade elencada na Classificacáo Internacional de
Doencas - CID, em conformidade com o que dispuser o regulamento
§ 12 A perícia médica do INSS deixará de aplicar o disposto neste artigo quando demonstrada a inexistencia do nexo
de que trata o capui <leste artigo.
§ 22 A empresa poderá requerer a nao aplicacáo do nexo técnico epidemiológíco, de cuja decisáo caberá recurso com
efeito suspensivo, da empresa ou do segurado, ao Conselho de Recursos da Previdéncia Social.

Urna vez aplicada a presuncáo, <leve o perito do INSS intimar o ernpregador do ato, para que
esse apresente defesa no prazo de quinze dias, contado da entrega do formulário GFIP que registre
a movimentacáo do trabalhador. Confira-se, nesses tennos, a redacáo dos§§ 72 a 11 do Decreto n.
3.048/99:
Art. 337. O acidente do trabalho será caracterizado técnicamente pela pericia médica do INSS, mediante a identificacáo
do nexo entre o trabalho e o agravo.
[... ]
§ 7° A empresa poderá requerer ao INSS a nao aplicacáo do nexo técnico epidemiológico ao caso concreto mediante a
demonstracáo de inexistencia de correspondente nexo entre o trabalho e o agravo.
§ 82 O requerimento de que trata o § 72 poderá ser apresentado no prazo de quinze dias da data para a entrega, na
forma do inciso rv do art. 225, da GFIP que registre a movimentacáo do trabalhador, sob pena de nao conhecimento
da alegacáo em instancia administrativa.
§ 9° Caracterizada a impossibilidade de atendimento ao disposto no§ 8°, motivada pelo nao conhecimento tempestivo
do diagnóstico do agravo, o requerimento de que trata o§ 7"1 poderá ser apresentado no prazo de quinze días da data
em que a empresa tomar ciencia da decisáo da pericia médica do INSS referida no§ 5°.
§ 10. Juntamente com o requerimento de que tratarn os §§ 82 e 92, a empresa formulará as alegacóes que entender
necessárias e apresentará as provas que possuir demonstrando a inexistencia de nexo entre o trabalho e o agravo.
§ 11. A documentacáo probatória poderá trazer, entre outros meios de prova, evidencias técnicas circunstanciadas e
tempestivas a exposicáo do segurado, podendo ser produzidas no ámbito de progra1nas de gestáo de risco, a cargo
da empresa, que possuam responsável técnico legalmente habilitado.
[... )

(58) Artigo incluído na Lei n. 8.213/91 pela lei n. 11.430, publicada em 27.12.2006.

68
Ainda sobre o tema, confira-se o art. 12 da Orientacáo Interna INSS/DIRBEN 200/2008:
Art. 1ª Havendo discordancia quanto ao Nexo Técnico Epidemiológico - NTEP entre o trabalho e o agravo, a empresa
poderá requerer a nao aplicacáo do mesmo, no caso concreto, junto a APS de manutencáo do beneficio, devendo o mesmo
ser protocolizado no Sistema Integrado de Protocolo da Previdéncia Social - SIPPS, segundo os prazos:
I - quinze días após a data para a entrega da Guia de Recolhimento do Fundo de Garantía do Tempo de Servico e
Informacóes a Previdéncla Social - GFIP;

TI - quando comprovada a impossibilidade de cumprimento do prazo pelo nao conhecimento tempestivo da


natureza acidentária do beneficio, quinze días da data para entrega da GFIP do més de competencia da realizacáo da
pericia que estabeleceu o nexo entre o trabalho e o agravo.
Parágrafo único. A inforrnacáo quanto a natureza prevídencíária ou acidentária do beneficio será disponibilizada
para consulta pela empresa no sitio do Ministério da Previdéncia Social, por meio do enderece eletróníco <www.
previdencia.gov.br> ou, subsidiariamente, pela Comunicacáo de Decisáo entregue ao segurado, da qual consta a
espécie do nexo técnico aplicada ao beneficio e as possibilidades de rnanifestacáo do segurado e do empregador
quanto ao nexo. O prazo para contestacáo comeca a contar na data de ciencia de que a concessáo do beneficio se deu
em espécie acidentária.

A referida Orientacáo Interna INSS/DIRBEN n. 200/2008 traz, ainda, quais os documentos


que obrigatoriamente deveriam embasar a defesa, sob pena de indeferimento. Contudo, como a
lei ordinária nada especifica a respeito, qualquer exigencia nesse sentido está a violar o direito de
defesa e contraditório disposto na CF/88, art. 5º, nao cabendo ao INSS determinar quais os elementos
de defesa que devem ser utilizados. Cabe ao empregador, e semente a ele, defender-se com os
argumentos, fundamentos e documentos que entender necessários para comprovar suas alegacóes,
até porque a documentacáo exigida no art. S!l do referido normativo, em muitos casos, em nada
auxilia na investigacáo do nexo, além de constituir volume considerável de papel. Confira-se:
Art. 5ª A empresa, no ato do requerí mento da nao aplicacáo do nexo epidemiológico, deverá apresentar documentacáo
probatória, em duas vías, que demonstre que os agravos nao possuem nexo com o trabalho exercido pelo segurado.
§ 12 A nao apresentacáo de documentacáo probatória acarretará no indeferimento da contestacáo, cabendo nestes
casos recurso ao CRPS.
§ 22 Seráo considerados como documentacáo probatória as seguintes Demonstracóes Ambientáis, entre outras:
1 - Programa de Prevencáo de Riscos Ambientais - PPRA;

IJ - Programa de Gerenciamento de Riscos - PGR;

lII - Programa de Controle do Meio Ambiente de Trabalho - PCMAT;


IV - Programa de Controle Médico da Saúde Ocupacional - PCMSO;
V - Laudo Técnico de Condicóes Ambientáis de Trabalho - LTCAT;
VI - Perfil Profissiográfico Previdenciário - PPP;
VII - Comunicacáo de Acidente de Trabalho - CAT, e
VIII - relatórios e documentos médico-ocupacionaís.
§ 32 A documentacáo deverá obrigatoriamente ser contemporánea a época do agravo, devendo constar a assinatura
do profissional responsável por cada período, devidamente registrado, e comprovada sua regularidade em seu órgáo
de classe: número de registro, anotacáo técnica, ou equivalente.

Se apresentada a defesa pelo empregador, <leve o INSS intimar o trabalhador para contrarrazóes,
entregando-lhe cópia de toda a documentacáo apresentada pela empresa. O prazo para apresentar
essa ímpugnacáo é também de quinze dias e, na sequéncia, <leve o perito do INSS investigar
tecnicamente a existencia do nexo.
Note-se, pois, que a ausencia da investigacáo do nexo e a prevalencia da presuncáo inicialmente
atribuída somente ocorrerá se a e1npresa, urna vez intimada, nao oferecer defesa. Caso contrário,
formada está a lide, e, para cumprimento da CF/88 e da Lei n. 9.784/99, deve a perícia do INSS iniciar
o proced:imento de ínvestigacáo, com todas as garantías já descritas no subitem 6.2.2 supra.

69
Da decisáo proferida cabe recurso por qualquer das partes, a ser protocolado no prazo de
trinta dias e destinado a Junta de Recursos da Previdéncia Social (JRPS), integrante do Conselho de
Recursos da Previdéncia Social (CRPS).
Além da fundamentacáo aqui mencionada, também tratam do procedimento administrativo a
ser observado a Instrucáo Normativa INSS n. 16/2007 (DOU de 30.3.2007), posteriormente revogada
pela Instrucáo Normativa INSS n. 31/2008 (DOU de 11.9.2008), que passou a disciplinar sobre o tema.

6.2.4. Da prática cotidiana e sua absoluta inconstitucionalidade e ilegalidade

Nao obstante as claras disposicóes legais sobre o tema, conforme abordado nos subitens 6.2.1 a
6.2.3 <leste capítulo, deixa o INSS de cumprir, absolutamente, com todas elas.
De início, cumpre-nos informar que o empregador nao é considerado parte no processo
administrativo, em total afronta as disposicóes constitucionais que lhe garantem a defesa e, tarnbém,
a Lei n. 9.784/99.
Na sequéncia, nao há intimacáo das partes (nem mesmo do trabalhador) para acornpanhar a
investigacáo técnica do nexo, tampouco para manifestacáo sobre os documentos e sobre as decísóes
administrativas. O perito do INSS raramente solicita ao empregador alguma documentacáo e mais
raramente ainda faz inspecáo física do local de trabalho. Nao há oitiva de testemunhas, e as CATs
preenchidas pelo trabalhador ou terceiro autorizado nao sao encaminhadas ou sequer disponibilizadas
ao empregador.
Com referencia ao NTEP, nao bastasse a ausencia do estudo epidemiológico e a aplicacáo de
urna tabela totalmente incoerente, nao há intimacáo do empregador para a apresentacáo de defesa,
impossibilitando-o de participar ativamente do processo administrativo. O Comunicado de Decisáo,
informando as conclusóes obtidas pela pericia, é entregue semente ao trabalhador, que, por sua vez,
nao tem obrigacáo alguma de apresentá-lo no local de trabalho.
Esse Comunicado, que é entregue ao trabalhador, contém as informacóes básicas, mas quando
indefere o pedido de caracterizacáo do acidente, deixa de fundamentar a resposta e de se manifestar
sobre os documentos apresentados pelo empregado. Quando aplica a natureza acidentária, deixa de
informar qual o agente etiológico ou o fator de risco, conforme podernos verificar no art. 9º da IN
INSS 31/2008:
Art. 9Q A Comunicacáo de Decisáo qua.nto ao requerimento de beneficio por inca.pacida.de deverá conter informacóes
sobre:
I - a espécie de nexo técnico aplicada ao beneficio, bem corno a possibilidade de recurso pelo empregador, conforme
§§ 12 e 2º dos arts, 32 e 42 desta Instrucáo Normativa; e
JI - a associacáo entre CNAE e CID, e a conclusáo pericial sobre o nexo, em caso de nao aplicacáo do NTEP pela
perícia médica, bem como a possibilidade de contestacáo e/ou recurso pelo segurado, nos mesmos moldes previstos
para o empregador pelo art. 62•

Para os empregadores, em suposto cumprirnento as regras dispostas na IN INSS 31/2008, o


INSS disponibiliza em sua página eletrónica todos os beneficios por incapacidade (auxílio-doenca
e aposentadoria por invalidez) que concede aos ernpregados de um determinado empreendimento.
Eis, novamente, a redacáo do parágrafo único do art. 12 da OI INSS 200/2008, que comprova ser essa
a única forma de notificacáo adotada pelo INSS:
Art. lQ ( ... ]
[... )
Parágrafo único. A informacáo quanto a natureza previdenciária ou acidentária do benefício será disponíbilizada
para consulta pela empresa no sítio do Ministerio da Previdéncia Social, por meio do enderece eletrónico <www.
previdencia.gov.br> ou, subsidiariamente, pela Comunicacáo de Decisáo entregue ao segurado, da qua! consta a

70
espécie do nexo técnico aplicada ao beneficio e as possibilidades de manifestacáo do segurado e do empregador
quanto ao nexo. O prazo para contestacáo comeca a contar na data de ciencia de que a concessáo do benefícío se deu
em espécie acideutária.

O acesso feíto pelo site do Ministério da Previdéncia Social (cwww.mps.gov.brc-), clicando o


é

ernpregador no link "Todos os servicos das empresas", no lado esquerdo da página:

+- -. e D wwwJnss.fJ"'b<
rr • ........., o-_.....,... om Qom • ._,_ mm@~ llGootlt .::,.,.... ....... om
... •,•,l(llOCA ~,·.<A~

Previdéncia Social ., r»

Ao .. r 10.• •

cwu•~·~•cac.
e- .. _

--..-
C"'4lo....
-AS(P~~

_..._
E;d;t'O-~

fA:llOPl4r'S
de .....

jftd
dt

(ttJ ¡'\r 1! N~)A

~ ft.\11 O ',',1 [I

11 f N. 1 CON()S(,0
ÚLTIMAS DO BLOG

----
.-. .. ce-~¡Joh•~·CAT

NOTICIAS

Na sequéncia, deverá acessar o link "Consulta ao Requerirnento de Benefício Previdenciário


Empresa", cujo título, observe-se, nada tema ver como que pretende pesquisar:

.. , ..... ~ .... -X

+- ~ e lDwwwJ-.gov.bt/-·•~<W!Odo<-os.....w:.o.¡
::: ~ (IPJ'!IK ... t...yw or t& ftSS0C..t...,. str @u- 13GootJit. ¡J~l\tNrrao ist

A2encia
Eletrónica
~
Todos os servicos das empresas
CtiJ /\(~! NDA

"11 NO 1 1 C IJ\S
• A~ CS. Aiitndltnento na Prtvld6ftda Socbl
~ l~\DIO \M B
• •ptk~'o • doc· rtl411to1; do Sl~ltmap,.vt6tncürto6t Gfl&.io cM RitglmnNb11oosde Pr~ Sodlll-
11 11\11 C<>N()SC(> SlPReYIG""°
• AN>ll,...SO
Caduer>I
clo> R.....,..mo ..... Rog!IM>-•d< Pr_..,,.. SocW
• C:"4.l"rro daC~ dt Addffl~de ~- CAT
• C9ducroCS. Sf'tlh.1p.v<> ..,vio dt Otmonstrdvos• Comprov~ et. R~>H 1>~
• C.nffte.ado
dtRtVU~ P~ ... CRP
• Cons.uh.a"'°R~ CS. e.n.tlclo~ -!mpt.u
--1 -¡7 ' • Ebb«~ • Oemon~tradvos • Aootdoet. PM~O
• ~.,,- Oornffdco
•~ d» Unhbdff d.a Pr-..A6'ncü Sod»
• •SodJil

. ..._s..........-do,,,_ SocW
• fMor Addtndriodt P~ - FAP

.p~
• Rt<All"W et. 8+Mf'ido p~
• R~ln'wnto•A.uXlll~ P~ p.M".aé.mprn.lsC~
• RfiQUl~\ito ch- ~kS.>4s. ... Urb.vlo • Rutai
• Sl>ttn'lr.lld+C»wloCS.P~s-SfPAR
.. ,, 1 ,...., •• ~
,,. t1:tuenud+ Etr\ptffa1. COtl..,enbdll - M6cMo • Downlo.14 • O.MSos• Cfidl~o-s

71
Na sequéncia, abrirá tuna página onde as empresas conveniadas como INSS podern requerer os
benefícios por incapacidade para seus empregados e, ao final do texto, há um link para o acesso aos

-x
benefícios concedidos:

o e- ~ ........
+- -+ (! eJ ~r~.b</~~Mco/33Z
:;:........-
Q- - ......
~- Qt<SS·C ... T- !ftm ll!JCIF § ...... ll:t_,._ CTST
m-

_. _
_ .._ Consulta ao Requerimento de Benefício por lncapacidade -
-·--- Empresa
~ AC>l N()A
o. aie~ e°"' o"' 7$.A dO º•'' '-""'º • P)••idlld-1 Sodef..
fPO'l'«lo peto o.tt.co "304'9t. t r~ •.,,,..... J)tóloco&tt'"' ,m.,..111:0 dt
? HAlllOWl 11 NI~• OU dOC~ --~ 6t Mu-.~ OU dt~ ~ t tlot WIC\MdoGU 1 HQ~O. ttfldo OH t ~ ~
tdoCM .,. l'JC'C ~ 1$~141(, ~ M~ .o-nw.tt.WM dot, btntlidoil f~
..,._~E....,.

>
¡:¡ 1 Al 1 CONOSCO p.,.~ot 8enttldof por ft!C41>*<""'6tde uus .-t.is:M 1gtdo••w.•6do~o""*°do().l>J ••
Ct:MI ftlol ~ YOC". poditrj ~ tllYi. 011~1 ~ dt '*• F.S.,111do8m.lM ~- dO .. ll'c 1°1e'1161'tO ~

!._ C.-0.•*llll .. -- "°''"< ¡ ·~w "°'~

SI JNICO<; hOS (J11Afll•O~ 11 C:.l'i.l AV\,O

'I té @!j Q r:'I [ ·~ J ·~ w!J X j] o¡¿ P;j ~ • r, • •· •i .- < ,,. ,. ~:~;

Ao clicar nesse link a e1npresa acessará outra página, onde <leveinformar seu CNPJ e urna senha
previamente cadastrada no INSS ou na Receita Federal:

b°'--- _.. ,. f'-


+- -+ (!'tg www~.gov.br/~I~
b-·C:-T- !ft,Slf @a< ....... l il-- {)1$1'
--------
- - -
. '
.;. ' . 1
'

Consulta BeneOcios por Incapacldade por Empresa

De~ eom o""' 76-A do~ d. ~icWada $odaL •11«"-.do pdo DcuC"tO q• 304"99. é: !ac\llt.eido J. cmiwcw ~~de~
~ ou doc 'Odele ~ dr WV ~ OU de ~ iadi\;du,d • t'.Llo \'iac.v.lado 00 a W:U t;en'i;o. Mildo ~ a cmfitewt qoc- adot# ftW"
proccclimcoco ttri 9CCMO ti dcci..., admi::ai_~.._. do4 ~r.ao-, ~.
p.,.. Q':IM"ott. 0$. Bftw'Seio. Pi"' 1nc ' 'f·1c de .mt ~e oeic-cu4ño Wúon:xw'o llÜ!mc'to do <;?i."i>J <. "tQb;a 4- EmFrca. CIPIO olo ~. ~
~ MS" mirada jw:aeo ¡ ltccftta Ff:ddal do Btadl d.l jatitdi(.lé> do~ cMlnllí:udor (J"aíz.oo fttll~&tcimawo t<.., 'í•wLw).

ou diPe • ,..¡z do C'?'l."PJ:

~ e ...... F="'
r-='
-
r.> J ,., ,,1) X] os
V
P;} [.~,; . r0 •·•o , e

72
Na sequéncia, aparecern todos os beneficios de auxílio-doenca e aposentadoria por invalidez,
acidentários ou nao. Para a empresa saber quais deles tiveram o nexo reconhecido pelo INSS é preciso
abrir individualmente cada um dos nemes. Confíra-se.P"
Consulta Benefícios por Incapacídade por Empresa
CNPJ xx.xxx.xxx/xxxx-xx
NB Nome lllt. nasci mento Situa<;ao
1 Xxxxxxxxxx Xxxx xx/xx/xxxx Cessado
2 Xxxxxxxxxx Xxxx xx/xx/xxxx Cessado
3 Xxxxxxxxxx Xxxx xx/xx/xxxx Ativo
4 Xxxxxxxxxx Xxxx xx/xx/xxxx Cessado
s Xxxxxxxxxx Xxxx xx/xx/xxxx Ativo
6 Xxxxxxxxxx Xxxx xx/xx/xxxx Ativo
7 Xxxxxxxxxx Xxxx xx/xx/xxxx Ativo
8 Xxxxxxxxx,x Xxxx xx/xx/xxxx Cessado
9 Xxxxxxxxxx Xxxx xx/xx/xxxx Ativo
10 Xxxxxxxxxx Xxxx xx/xx/xxxx Ativo
11 Xxxxxxxxxx Xxxx xx/xx/xxxx Ativo
12 Xxxxxxxxxx xxxx xx/xx/xxxx Cessado
13 Xxxxxxxxxx xxxx xx/xx/xxxx Cessado
14 Xxxxxxxxxx Xxxx xx/xx/xxxx Cessado
15 Xxxxxxxxxx Xxxx x.x/xx/xxxx Cessado
16 Xxxxxxxxxx Xxxx xx/xx/xxxx Ativo
17 Xxxxxxxxxx Xxxx xx/xx/xxxx Ativo
18 Xxxxxxxxxx Xxxx xx/xx/xxxx Ativo
19 Xxxxxxxxxx Xxxx xx/xx/xxxx Cessado
20 xxxxxxxxxx Xxxx xx/xx/xxxx Ativo

Urna coisa é pesquisar constantemente os beneficios de urna pequena e1npresa, com poucos
afastamentos por incapacidade. Outra, bem diferente, é consultar de urna grande e1npresa, com 50 mil
empregados ou mais e, obviamente, corn um número bem maior de afastamentos, principahnente se
considerarmos que na tabela apresentada constam também aqueles nao acídentários.
Pois bem, abrindo cada um dos links e consultando cada um dos beneficios a empresa obtém a
informacáo que procura, mas nao de forma completa. Comprovamos com alguns exemplos:

NB: xxxxxxxxxx Nome: xxxx Dt. Nascimento: Xx/xx/xxxx

CPF: xxxxxxxxxxx NIT: xxxxxxxxxxx Espécie: 91 - Auxñio-Doenca Acidentário

Situa<;ao: Cessado Dt. Entrada Requerimento: 15.2.2012

Dt. lnício: 17.2.2012 Dt. Despacho: 29.5.2012

CID informado pela Empresa: CID informado pelo INSS: F41 Data de realiza.;ao da pericia: 6.1.2015

Conclusáo Per. Médica: Cessacáo do beneficio Dt. Limite: 7.1.2015

Dt. lndeferimento: Dt. Cessacáo: 7.1.2015

Nexo Técnico: Sem Nexo

Podemos observar que o INSS atribuiu natureza acidentária (espécie 91) para urna ocorréncia
cuja CAT, certamente, nao foi emitida pela empresa (porque nao está preenchido o campo ''CID
informado pela Empresa"). O CID informado pelo INSS é o F-41 (outros transtornos ansiosos), e o
perito entendeu que nao há mais incapacidade, posto que cessou o beneficio no dia seguinte a perícia.

(59) Suprimimos a identíficacáo da empresa, dos beneficios e dos trabalhadores por questáo de sigilo profissional.

73
No entanto, o campo destinado ao nexo técnico informou "sem nexo", ímpossibilitando a
e1npresa de conhecer qual dos tres tipos permitidos foi aplicado, já que nao se trata de acidente típico.
Corno saber qual o agente nocivo ou fator de risco? Como saber se é para apresentar urna defesa em
quinze días (caso de NTEP) ou um recurso para a JRPS/CRPS em trinta días? Onde protocolar essa
defesa ou esse recurso se na informacáo disponibilizada nao consta em qual agencia o trabalhador
postulou a concessáo do beneficio?
Mais importante: como e por que a perícia do INSS entendeu que esse transtorno ansioso decorre
do trabalho exercido pelo empregado? Quais provas e quais documentos foram analisados, já que
nao houve qualquer solicitacáo a empresa ou inspecáo no local de trabalho?
Esse outro exemplo, a seguir colacionado, mostra urna bancária com neoplasia benigna das
meninges (tumor cerebral), enfermidade caracterizada como acidentária pelo INSS. Confira:

NB: xxxxxxxxxxx Nome: xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx Dt. Nascimento: xxxxxxxxxxx

CPF: xxxxxxxxxxxxxx NIT: xxxxxxxxxx Espécie: 91 - Auxflío-Doenca Acidentário

Situa~ao: Ativo Dt. Entrada Requerimento: 4.6.2010

Dt. lnício: 4.6.2010 Dt. Despacho: 10.6.2010

CID informado pela Empresa: CID informado pelo INSS: 032 Data de reallzacáo da perícia: 12.3.2015

Conclusáo Per. Médica: Dt. Limite:

Dt. lndeferimento: Dt. Cessacáo:

Nexo Técnico: Sem Nexo

E1n rápida pesquisa científica, contudo, podemos verificar que nao há causa direta identificada
para o surgimento de tumores cerebrais. A medicina tem como causas prováveis a genética, radiacóes
utilizadas para tratamento de tumores anteriores, alguma exposicáo direta a substancia química
(ainda sem comprovacáo efetiva) e, em última hipótese, inducáo por vírus, já que alguns pacientes
eram portadores de herpes. Sendo assim, como atribuir o nexo de acidentalidade com a atividade
bancária? E como informar "sem nexo", sequer identificando as partes (empresa e empregada) qual
o agente de risco existente no ambiente de trabalho?
E1n alguns casos há a aplicacáo do NTEP, mas sem que o CID esteja relacionado ao CNAE,
conforme ilustra urna situacáo do segmento de transporte (CNAE 4922101), em gritante ilegalidade:

NB: xxxxxxxxxx Nome: XX.XX Dt. Nascimento: 19/12/1968

CPF: xxxxxxxxxxx NIT: xxxxxxxxxxx Espécie: 91 - Auxflio-Doenca Acidentário

Situa!;ao: Ativo Dt. Entrada Requerimento: 06.7.2012

Dt. lníeio: 30.6.2012 Dt. Despacho: 18.7.2012

CID informado pela Empresa: CID informado pelo INSS: A162 Data de realiza!;aO da perícia: 18. 7 .2015

Conclusáo Per. Mé.dica: Cessacáo do beneficio Dt. Limite: 18.10.2012

Dt. lndeferimento: Dt. Cessa!;ao: 18.10.2012

Nexo Técnico: Nexo Epidemiológico

74
Un1 último exemplo comprova que em outros casos o INSS, além de nao informar o tipo de nexo,
deixa de informar até mesmo o CID, estando a e1npresa impossibilitada de conhecer qual doenca o
ambiente de trabalho está acarretando:

NB: xxxxxxxxxx Nome: xxxx Dt. Nascimento: 26/10/1969

CPF: xxxxxxxxxxx NIT: xxxxxxxxxxx Espécie: 91 - Auxilio-Doenca Acidentário

Situacáo: Ativo Dt. Entrada Requerimento: 4.1.2012

Dt. Inicio: 23.11.2011 Dt. Despacho: 4.1.2012

CID informado pela Empresa: CID informado pelo INSS: Data de reatlzacáo da pericia: 6.1.2015

Conclusáo Per. Médica: Dt. Limite:

Dt. lndeferimento: Dt. Cessacáo:

Nexo Técnico: Sem Nexo

Também cumpre mencionarmos que nessas telas nao há informacáo alguma sobre a data em
que foram disponibilizadas, e muitas sao as situacóes em que o trabalhador já retornou ao trabalho
quando o INSS lanca as informacóes na internet. Ou seja, há um atraso na disponibilizacáo das
informacóes, impossíbilitando totalmente a participacáo no processo administrativo.
Nao obstante toda a dificuldade, o que nem de longe cu1npre a forma de intimacáo que se
encontra prevista na Lei n. 9.784/99, muitas empresas mantém um acesso constante a essas páginas e
conseguem descobrir a atribuicáo de um nexo acidentário como qual nao concordam.
Aí tem início outra batalha, porque o empregador precisa descobrir, de alguma forma, em qual
agencia se encontra tramitando o beneficio para poder ali protocolar sua defesa ou recurso, já que a
tela disponibilizada nao contém essa informacáo e nem tarnpouco é possível obté-la pelo telefone 135
ou outra página da internet.
Na sequéncia, a pior de todas as dificuldades: conseguir protocolar a defesa ou o recurso, nao
obstante seja um direito garantido pela própria legislacáo, inclusive nas Instrucóes Normativas que
disciplinam sobre a matéria, como a IN INSS n. 31/2008, arts. 42, 5º e 72•
Cada agencia coloca empecilhos nao especificados na legislacáo, corno exigir que quem está
entregando e protocolando o recurso tenha procuracáo específica para a finalidade, assínada e com
firma reconhecida. Outras exigem agendamento com urna antecedencia maior que o próprio prazo de
defesa ou recurso, e outras muitas se recusam firmemente ao protocolo, desconhecendo totalmente
o direito da parte.
É o que comprova urna resposta a urna defesa de nexo epidemiológico que recebemos, em 2014,
da Agencia 20.021.06.0/SC:

75
..
. . . . . :-. . ··. . ~.. . :. ....... . .. . . .
·, :" ... : '."

. .. ..
•• ·: "'. .: . '
.' .
'
'
.. .. ..
• •i ••

. . .. .:.

Ora, se houve um perito para classificar a enfermidade como acidentária por meio do Nexo
Técnico Epidemiológico (NTEP), porque semente o perito médico pode fazé-lo, por óbvio que
esse mesmo perito pode ler a defesa da empresa, bem como analisar seus documentos, intimar o
trabalhador para contrarraz6es e iniciar o procedimento de investigacáo para confirmar, ou nao, a
presuncáo inicialmente atribuida.
E, como assim, suprimir a participacáo da e1npresa na primeira instancia, orientando-a a
protocolar diretamente o recurso a JRPS/CRPS (segunda instancia)? E mais: se fazendo passar pelo
trabalhador para o agendamento desse recurso (crime de falsa identidade, conforme Código Penal,
art. 307) porque o sistema do INSS nao está preparado para recurso das empresas? Ora, mas a
possibilidade de recorrer dos nexos profissionais ou individuais sempre existiu, e, quanto ao NTEP,
existe desde sua criacáo e vigencia, em 2007.
Por fim, que prazo é esse de cinco dias para o agendarnento do recurso? Em que diploma legal
está contida essa necessidade de agendar o protocolo de u1n documento, já que o ato refere a simples
entrega de urna peticáo, sem qualquer análise ou atendimento por parte de um servidor do INSS?
As atrocidades contra a legislacáo nao cessam aí. Depois de protocolada a defesa referente ao
NTEP, deveria o INSS fornecer cópia ao trabalhador para contrarrazóes (prazo de quinze dias) e, na
sequéncia, iniciar a investigacáo técnica do nexo e, cumpridos os tramites formais para garantir a
efetiva participacáo as partes (conforme Lein. 9.784/99), proferir uma decisáo sobre a manutencáo ou
nao do nexo inicialmente atribuído. E na Lei n. 9.784/99 há fixacáo de prazo de cinco dias para esses
procedimentos do perito, conforme díspóe o art. 24, in verbis:
Art. 24. Inexistindo disposicáo específica, os a tos do órgáo ou autoridade responsável pelo processo e dos administrados
que dele participern devem ser praticados no prazo de cinco dias, salvo motivo de forca maior.
Parágrafo único. O prazo previsto neste artigo pode ser dilatado até o dobro, mediante comprovada justi ñcacáo.

Ocorre que ternos defesas protocoladas ainda no ano de 2007, quando instituído o procedimento
do NTEP, que até hoje nao foram decididas pelo INSS.

76
A ausencia de análise e resposta praxe comum, e para culminar as ilegalidades praticadas pelo
é

Ministério da Prevídéncia Social e pela Uniáo, essas ocorréncias (cujo nexo ainda nao foi decidido
em face da defesa das empresas e da ausencia de resposta do INSS) sao utilizadas como se acidentes
fossem para o cálculo do FAP - Fator Acidentário de Prevencáo, aumentando o tributo SAT
Seguro de Acidente do Trabalho pago pelas empresas.
Quando as respostas sao proferidas, deixam de conter qualquer motivacáo ou fundamento,
sequer analisando os documentos que foram entregues pelas partes (empregado e empregador),
cabendo a parte descontente recorrer a Junta de Recursos da Previdéncia Social (JRPS) ou ingressar
com acáo judicial para garantía do direito.
Eisa redacáo do art. 7º da IN INSS 31/2008 sobre a caracterizacáo do NTEP, que, nao obstante
reconheca a ausencia de intimacáo dos acidentes as empresas, tampouco é cumprida pelo INSS:
Art. 7º A empresa poderá requerer ao INSS, até quinze dias após a data para a entrega da Guia de Recolhimento do
a
Fundo de Garantía do Tempo de Servico e Informacóes Previdéncia Social- GFIP, a nao aplicacáo do nexo técnico
epidemiológico, ao caso concreto, quando dispuser de dados e informacóes que demonstrem que os agravos nao
possuem nexo técnico com o trabalho exercído pelo trabalhador, sob pena de nao conhecimento da alegacáo em
instancia administrativa, caso nao protocolize o requerimento tempestivamente
§ 1º Caracterizada a impossíbilidade de atendimento ao disposto no capui, motivada pelo nao conhecimento tempestivo
da informacáo do diagnóstico do agravo, o requerimento de que trata este artigo poderá ser apresentado no prazo
de quinze dias da data para entrega da GFIP do més de competencia da realizacáo da pericia que estabeleceu o nexo
entre o trabalho e o agravo.
§ 22 A informacáo de que trata o§ 12 será disponibilizada para consulta pela e1npresa, por meio do enderece eletrónico
<www.previdencia.gov.br> ou, subsidiariamente, pela Comunicacáo de Decisáo do requerimento de benefício por
incapacidade, entregue ao segurado.
§ 39 Como requerimento. a empresa formulará as alegacóes que entender necessárias e apresentará a documentacáo
probatória, em duas vías, para demonstrar a inexistencia do nexo técnico entre o trabalho e o agravo.
§ 4º A Agencia da Previdéncia Social - APS, mantenedora do beneficio, encaminhará o requerimento e as provas
produzidas a pericia médica, para análise prévia. Sernpre que a instrucáo do pedido evidenciar a possibilidade
de reconhecimento de inexistencia do nexo técnico entre o trabalho e o agravo, o segurado será oficiado sobre a
existencia do requerimento da empresa, inforrnando-lhe que poderá retirar urna das vias apresentada pela mesma
para, querendo, apresentar contra razóes no prazo de quinze dias da ciencia do requerimento.
§ 52 Comas contra razóes, o segurado formulará as alegacóes que entender necessárias e apresentará a documentacáo
probatória, com o objetivo de demonstrar a existencia do nexo técnico entre o trabalho e o agravo.
§ 62 A análise do requerimento e das provas produzidas será realizada pela pericia médica, cabendo ao setor
administrativo da APS comunicar o resultado da análise a empresa e ao segurado.
§ 7º Da decisáo do requerimento cabe recurso com efeito suspensivo, por parte da e1npresa ou, conforme o caso, do
segurado, ao CRPS.
a
§ 81.! O INSS procederá marcacáo eletrónica do beneficio no Sistema de Administracáo de Beneficios por Incapacidade
- SABI, que estará sob efeito suspensivo, deixando para alterar a espécie após o julgamento do recurso pelo CRPS,
quando for o caso.
§ 9º o disposto no§ 7º nao prejudíca o pagamento regular do beneficio, desde que atendidos os requisitos de carencia
que permitam a manutencáo do reconhecímento do direito ao benefício corno auxílio-doenca previdenciário.
§ 10. Será considerada apenas a documentacáo probante que contiver a indicacáo, assinatura e número de registro,
anotacáo técnica, ou equivalente do responsável legalmente habilitado, para os respectivos períodos e escopos,
perante o conselho de profissáo.
§ 11. O segurado em situacáo de desemprego, no período de grac;a, terá todos os direitos característicos da forma de
filiacáo de empregado.

O art. 6Q da Orientacáo Interna INSS/DIRBEN n. 200/2008 comprova algumas dessas inconsti-


tucionalidades e ilegalidades. Referida norma nao se encentra disponível para consulta pública.P"

(60) É possível comprovar essa afirmativa tentando pesquisar a referida norma no Sistema de t.egtslacáo da Prevldéncia Social: <http://
www3.dataprev.gov.br/sislex/index.asp>. Tentativa, sem sucesso, feita em 15.4.2015. Também é possível tentar obter o texto em qual-

77
sendo o acesso permitido semente aos servidores, já que se destina a orientar os peritos médicos
quanto aos procedimentos necessários. Eis o teor do referido artigo, com comentários meus em notas
de rodapé:
Art, 6A O processo físico referente a contestacáo ao nexo epidemiológico ou recurso aos nexos profíssional/do trabalho
e individual, deverá ser encaminhado a Pericia Médica com a documentacáo probatória das alegacóes da empresa
para análise formal e, cabendo, análise preliminar do mérito, na sequéncia:
I - o perito médico deverá identificar no Sistema de Adrninistracáo de Beneficios por Incapacidade-SABI a espécie
de nexo técnico aplicada ao benefício;<61>

IT - e1n caso de nexo técnico profissional/do trabalho ou individual, o processo deverá ser instruído como recurso a
Junta de Recursos do CRPS nos termos dos arts. 482 a 516 da Instrucáo Normativa n. 20 INSS/PRES, de 10 de outubro
de 2007;<62>
lll - em caso de nexo técnico epidemíológico, o perito médico deverá observar as demonstracóes ambientaís
apresentadas pela empresa para a contestacáo, bem como, a documentacáo de habilitacáo dos responsáveis técnicos
na elaboracáo desses documentos de acordo como§ 39 do art. 5º desta Orientacáo Interna e§ 10 do art. 72 da Instrucáo
Normativa n. 31 INSS/PRES, de 10 de setembro de 2008. Estando a forma de acordo, procederá a análise preliminar
do mérito;
IV - se da análise preliminar se concluir pelo indeferimento da contestacáo, o parecer técnico fundamentado emitido
pelo perito médico deverá ser relatado no formulário constante do Anexo VIJJ,<i>.>> que deverá ser anexado do processo
e encaminhado ao Setor Administrativo da APS, que comunicará a e1npresa a decisáo, por meio de Carta Registrada
com Aviso de Recebimento - AR (Anexo III);<6-I>
V - se da análise preliminar resultar tendencia de deferimento da contestacéo, o perito médico deverá consignar no
processo a necessidade de comunícacáo ao segurado quanto a contestacáo. A cornunicacáo ao segurado será efetuada
por meio de Carta Registrada com AR (Anexo I),<63> informando-o sobre a possibilidade de retirada de urna das vías
da docurnentacáo apresentada pela empresa para, a seu criterio, apresentar contra-razóes no prazo de quinze días;
VI - sendo apresentadas as contra razóes, o segurado deverá anexar ao processo a documentacáo probatoria, bem
como apresentar alegacóes como objetivo de demonstrar a existencia do nexo entre o trabalho e o agravo;
VII - após o curnprimento dos prazos, o Setor Administrativo da APS encaminhará o processo a Pericia Médica para
análise e emissáo de parecer técnico fundamentador'<
VIII - o parecer técnico fundamentado emitido pelo perito médico deverá ser relatado em formulario (Anexo VII
ou VIII), que deverá ser anexado ao processo e encaminhado ao Setor Administrativo da APS, o qua] comunicará a
decisáo, por meio de Carta Registrada CODl AR, a en1presa (Anexo III) e ªº
segurado (Anexo IV).
Parágrafo único. A competencia para essas análises compóe o conjunto de atividades para as quais os servidores
das carreiras de Perito Médico da Previdéncía Social e Supervisor Médico Pericial seráo designados pela chefia do
SGBENIN, conforme art. 42 da Resolucáo n, 161 INSS/DC, de 22 de junho de 2004, nao havendo impedimento a
realizacáo destas pelo mesmo profissional que aplícou o nexo técnico quando do exame pericial inicial.

Por fim, mas nao impeditivo de outras ilegalidades que ainda possam vir a ser observadas
e identificadas, veremos no Capítulo 8 desta obra os requisitos para concessáo e manutencáo dos
benefícios, onde será abordada a prática atual de alta programada e cancelamento automático dos
auxílios-doenca (subitem 8.1.6, especificadamente). Ali será possível observar que antes da data dessa

quer site oficial, mediante busca no google, sem sucesso. Todos os loca is que disponibilizam a íntegra do texto nao sao relacionados ao
INSS ou ao Ministério da Previdéncia Social e em todas as páginas oficiais o acesso é negado, solicitando senha para acesso. Consulta
em 15.4.2015.
(61) Vimos em algumas telas anteriores que o tipo de nexo nao está sendo identificado.
(62) Referido dispositivo confessa que a empresa nao está autorizada a participar do processo de primeira instancia; que o nexo é
arbitrariamente considerado pelo INSS e que qualquer contestacáo por parte da empresa (ou apresentacáo de documentos) deve ser
considerada como recurso para a segunda instancia (JRPS).
(63) Formulário disponibilizado, para vlsuallzacáo, no Capítulo 14 desta obra, subitem 14.5. Cumpre ressaltar, contudo, que esse
documento nao é enviado nem disponibilizado as partes (empresa e segurado).
(64) Modelo de correspondencia disponibilizado no Capítulo 14, subitem 14.6, desta obra. A empresa recebe apenas esse comunicado,
via de regra, sem explicacóes sobre o indeferimento de sua contestacéo e sem qualquer fundarnentacáo legal.
(65) Modelo de correspondencia disponível para visualizacáo no Capítulo 14, subitem 14.7.
(66) As partes, via de regra, nao recebem esse parecer técnico fundamentado e tampouco possuem acesso a tal documento, mesmo
quando solicitam cópia do processo administrativo.

78
alta que está programada o trabalhador pode solicitar urna prorrogacáo de seu beneficio (Pedido de
Prorrogacáo - PP) e, se a perícia de revisáo entender que a incapacidade nao persiste, é possível o
íngresso do Pedido de Reconsideracáo - PR, com nova perícia designada.
O que importa aqui registrar, quanto a esses pedidos de prorrogacáo ou reconsideracáo, é que
a Instrucáo Normativa INSS n. 31/2008 claramente expressa que, nessas perícias revisionais, nao é
permitido ao médico do INSS alterar a espécie do beneficio (de previdenciária para acidentária),
justamente porque o motivo da prorrogacáo do beneficio, se concedida, será simplesmente a
permanencia da incapacidade, sem qualquer investigacáo de nexo. Informa a referida IN 31/2008
que se o trabalhador pretende a alteracáo da espécie, <leve solicitar a modificacáo por meio de outra
ferramenta, denominada "Revisáo Médica". Confira-se:
Art, 11. Quando dos exames periciais por Pedido de Prorrogacáo - PP, ou Pedido de Reconsíderacáo - PR, de
benefícios em manutencáo, nao seráo apresentados ao Perito Médico os quesitos sobre as espécies de nexo técnico,
haja vista que a eventual prorrogacáo decorre da incapacidade para o trabalho e nao da natureza acidentária do
agravo.
Parágrafo único. Os requerimentos de revisáo e recurso tempestivos do segurado visando a transformacáo do
beneficio previdenciário em acidentário, seráo analisados pela perícia médica e operacionalizados no SABI pela
ferrarnenta Revisáo Médica."

Nao obstante a clareza da norma, nao há observancia pela pericia do INSS, sendo comum
(e regra, inclusive) a alteracáo da espécie nessas perícias revisionais decorrentes de Pedido de
Prorrogacáo (PP) ou Pedido de Reconsideracáo (PR), sem qualquer investigacáo técnica do nexo,
sem prova apresentada pelo trabalhador e sem qualquer notificacáo ou intimacáo da empresa para
que partícipe do processo administrativo e, assim, exerca seu direito de defesa e contraditório.
A ilegalídade é patente, seja qual foro tipo de acidente de trabalho pretendido ou caracterizado
(acidente típico, NI, NP ou NTEP), sendo necessária urna urgente remodelacáo do procedimento
por parte do Ministério da Previdéncia Social para o cumprimento integral das dísposícóes legáis e
constitucionaís.
Enguanto isso, cabe a parte prejudicada interpor o recurso administrativo ou ingressar com a
acáo judicial pertinente, para satisfacáo do direito que entende existir, até porque, como já dito, todos
esses acidentes, caracterizados a margem da Constituicáo Federal de 1988 e de toda a legislacáo de
regencia (inclusive normativa), repercutem em direitos trabalhistas, em acóes regressivas propostas
pelo INSS e, principalmente, diretarnente no cálculo do SAT/FAP, aumentando o tributo que seria
devido pelas empresas.

6.2.5. Recurso para a JRPS/CRPS

Das decisóes proferidas pelo INSS quanto a caracterizacáo do acidente de trabalho (típico, nexo
profissional, nexo individual ou NTEP) caberá, pela parte interessada, a interposicáo de recurso para
o Conselho de Recursos da Previdéncia Social, órgáo colegiado integrante da estrutura do Ministério
da Previdéncia Social a quem compete a jurisdicáo administrativa e o controle das decis6es do INSS.
Tém legitimidade para interpor o recurso administrativo os titulares de direitos e interesses que
forem parte no processo, bem como aqueles cujos direitos ou interesses forem indiretamente afetados
pela decisáo recorrida. Confira-se, nesses termos, o art. 58 da Lei n. 9.784/99:
Art. 58. Tém Legitimidade para interpor recurso administrativo:
I - os titulares de direitos e interesses que forem parte no processo¡
IJ - aqueles cujos direitos ou interesses forem indiretamente afetados pela decisáo recorrida;

lII - as organízacóes e assocíacóes representativas, no tocante a direitos e interesses coletivos¡


IV - os cidadáos ou associacóes, quanto a direitos ou interesses difusos.

79
A Leí n. 8.213/91 trata dos recursos no art. 21-A, § 22 (para o NTEP), e no art. 126 (para os demais
nexos), e a Instrucáo Normativa INSS n. 31/2008 é ainda mais específica, conforme podemos observar
dos seguintes dispositivos:
Art, 4Q Os agravos associados aos agentes etiológicos ou fatores de risco de natureza profissional e do trabalho das
listas A e B do anexo JI do Decreto n. 3.048/99; presentes nas atividades económicas dos empregadores, cujo segurado
tenha sido exposto, ainda que parcial e indiretamente, seráo considerados doencas profissionais ou do trabalho. nos
termos dos incisos I e II, art. 20 da Lei n. 8.213/91
§ 1° A empresa poderá interpor recurso ao Conselho de Recursos da Previdéncia Social (CRPS) até trinta días após a
data em que tomar conhecimento da concessáo do beneficio em espécie acídentária por nexo técnico profissional ou
do trabalho, conforme art. 126 da Lei n. 8.213/91 quando dispuser de dados e informacóes que demonstrem que os
agravos nao possuem nexo técnico com o trabalho exercido pelo trabalhador,
§ 22 O recurso interposto contra o estabelecimento de nexo técnico com base no anexo II do Decreto n. 3.048/99 nao
terá efeito suspensívo.v"
Art. 5° Os agravas decorrentes de condicóes especiais em que o trabalho executado seráo considerados doencas
é

profissionais ou do trabalho, ou ainda acidentes de trabalho, nos termos do§ 22 do art. 20 da Lei n. 8.213/91
§ 1 °A empresa poderá interpor recurso ao CRPS até trinta dias após a data em que tornar conhecimento da concessáo
do beneficio em espécíe acidentária por nexo técnico por doenca equiparada a acidente de trabalho ou nexo técnico
individual, conforme art, 126 da Leí n. 8.213/91_quando dispuser de dados e informacóes que demonstrern que os
agravos nao possuern nexo técnico com o trabalho exercido pelo trabalhador.
§ 2º O recurso interposto contra o estabelecimento de nexo técnico corn base no § 22 do art. 20 da Lei n. 8.213/91 nao
terá efeito suspensivo.

Art. 7° A empresa poderá requerer ao INSS, até quinze días após a data para a entrega da Guia de Recolhimento
do Fundo de Garantía do Tempo de Servico e Informacóes a Prevídéncia Social - GFIP, a nao aplícacáo do nexo
técnico epidemiológico, ao caso concreto, quando dispuser de dados e informacóes que demonstrem que os agravas
nao possuem nexo técnico como trabalho exercído pelo trabalhador, sob pena de nao conhecimento da alegacáo em
instancia administrativa, caso nao protocolize o requerimento tempestivamente.

[... ]
§ 71> Da decisáo do requerimento cabe recurso com efeito suspensivo=", por parte da empresa ou, conforme o caso,
do segurado, ao CRPS.

[... ]

Regulamentado pelo Decreto n. 3.048/99 (arts, 303 e 304) e com Regimento Interno constante
da Portaría MPS n. 548/2011 (DOU de 14/09/2011), o Conselho de Recursos cornpreende os seguintes
' -
orgaos:
I - 29 Juntas de Recursos, com a competencia de julgar, em primeira instancia, os recursos interpostos contra as
decisóes proferidas pelos órgáos regionais do JNSS em matéria de interesse de seus beneficiários e contribuintes (do
RGP5<69l) e também nos processos referentes aos benefícios assístencíaís de prestacáo continuada. Constituem aleada
exclusiva da Junta de Recursos, nao comportando recurso a instancia superior, as seguintes decisóes colegiadas
(Portaría MPS n. 548/2011, art. 18):
a) fundamentada exclusivamente em matéria médica, quando os laudos ou pareceres emitidos pela Assessoria
Técnico-Médica da Junta de Recursos e pelos Médicos Peritos do JNSS apresentarem resultados convergentes; e

b) proferida sobre reajustamento de beneficio em rnanutencáo, em consonancia comos índices estabelecídos em leí,
exceto quando a diferenca na Renda Mensa! Atual - RiVIA decorrer de alteracáo da Renda Mensa! Inicial - RMI;

(67) Nao ter efeito suspensivo significa que, durante o tramite do recurso, a ocorréncia será considerada como acidentária pelo INSS,
especialmente quanto as regras de concessáo de benefícios como isencáo de carencia e possibilidade de percepcáo de auxílio-acidente.
O parágrafo único do art. 61 da Lei n. 9.784/99, contudo, preve que, havendo justo receio de prejuízo de difícil ou incerta reparacáo
decorrente da execucáo, a autoridade recorrida ou a imediatamente superior poderá, de ofício ou a pedido, dar efeito suspensivo ao
recurso.
(68) Ter efeito suspensivo significa que, enquanto o perito do INSS nao concluir a investígacáo do nexo e concluir se mantém ou nao a
presuncáo inicial, o INSS considerará a ocorréncia como nao acidentária.
(69) Regime Geral de Previdéncia Social.

80
IJ - 4 Cámaras de [ulgamento, com sede em Brasilia, coma competencia para julgar, em segunda instancia, os recursos
interpostos contra as decisóes proferidas pelas Juntas de Recursos que infringirem lei, regulamento, enunciado ou ato
normativo ministerial. O INSS, contudo, poderá recorrer das decísées das Juntas semente nas seguintes hípóteses:
a) quando violarern disposícáo de leí, de decreto ou de portaría ministerial:
b) quando divergirem de súmula ou de parecer do Advogado Geral da Uniáo, editado na forma da Leí Complementar
n. 73/1993;
e) quando divergirem de pareceres da Consultoría Jurídica do MPS ou da Procuradoria Federal Especializada -
INSS, aprovados pelo Procurador-Chefe:
d) quando dívergirem de enunciados editados pelo Conselho Pleno do CRPS;

e) quando tiverem sido fundamentadas em laudos ou pareceres médicos divergentes emitidos pela Assessoria
Técnico-Médica da Junta de Recursos e pelos Médicos peritos do JNSS; e
f) quando contiverern vicio insanável, considerado como tal as ocorréncias elencadas no§ lQ do art. 60 da Portaría
MPS n. 548/2011.
TII - Conselho Pleno, coma competéncia para uniformizar a jurisprudencia administrativa previdenciária mediante
enunciados, podendo ter outras competencias definidas no Regimento Interno do CRPS (Portaría MPS 548/2011), que
em seu art. 15 traz a seguinte redacáo:

"Art. 15. Compete ao Conselho Pleno:


I - uniforrnlzar, em tese, a jurisprudencia administrativa previdenciária, mediante ernissáo de enunciados:
JI - uníformízar, no caso concreto, as divergencias jurisprudenciais entre as Juntas de Recursos nas matérias de sua
aleada ou entre as Cámaras de julgamento em sede de recurso especial, mediante a emissáo de resolucáo: e

III - deliberar acerca da perda de mandato de Conselheiros, nos casos em que o Presidente do CRPS entender
necessario submeter a decísáo ao colegiado."

As Juntas (e as Cámaras) sao presididas por representantes do Governo e sao compostas por
quatro membros, denominados conselh.eiros, nomeados pelo Ministério da Previdéncia Social, sendo
dois representantes do Governo, um das empresas e um dos trabalhadores (Decreto n. 3,048/99, art.
303, § 4º).
O recurso que se refere a matéria acidentária deve ser direcionado a Junta de Recursos da
Previdéncia Social (JRPS) e o protocolo <leve ocorrer, preferencialmente, perante o órgáo do INSS
que proferiu a decisáo.F?' devendo ser observado o prazo de trinta dias, contados a partir da data da
intimacáo da decíséo"" que será recorrida.
É o INSS que instruirá o recurso e que o encamínhará a Junta de Recursos, sendo o prazo
para contrarrazóes também de trinta dias. Para o INSS esse prazo contado a partir da data daé

protocolizacáo do recurso ou da entrada do recurso pelo interessado (na unidade que proferiu
a decisáo), devendo essa ocorréncia ficar registrada nos autos e prevalecendo a data que ocorrer
primeiro (Portaria MPS n. 548/2011, art. 31).
Confira-se, ainda, a redacáo do art. 541 da IN INSS n. 77/2015:
Art. 541. O prazo para interposicáo de recurso ordinario e especial, bem como para o oferecimento de contrarrazóes, é
de trinta dias, contados de forma contínua, excluindo-se da contagem odia do início e incluindo-se o do vencimento.

§ 1° O prazo previsto no caput inicia-se:


I - para apresentacáo de contrarrazóes por parte do TNSS, a partir do protocolo do recurso, ou, quando encaminhado
por via postal, da data de recebimento na Unidade que proferiu a decisáo:

II - pai:a interposicáo de recurso especial por parte do INSS, a partir da data da entrada do processo na Unidade
competente para apresentacáo das razóes recursais: ou

(70) IN INSS n. 77 /2015, art. 537, § 2!?, e Porta ria MPS n. 548/2011, art. 31, § 1!?.
(71) Sobre a ausencia de intirnacño formal, ver neste Capítulo 6 o subitem 6.2.4.

81
III - para os demais interessados, a partir da data da intimacáo da decisáo ou da ciencia da ínterposicáo de recurso
pela parte contrária.
§ 2!! O prazo só se inicia ou vence em día de expediente normal no órgao em que tramita o recurso ou em que deva
ser praticado o ato.
§ 32 Considera-se prorrogado o prazo até o primeiro día útil seguinte se o vencimento ocorrer ern día ern que nao
houver expediente ou em que este for encerrado antes do horário normal.

Expirado o prazo de trinta días sern que sejarn oferecidas contrarrazóes, os autos seráo
imediatamente encaminhados para julgamento pelas Juntas de Recursos, sendo considerados como
contrarrazóes do INSS os motivos do indeferimento - IN INSS n. 77/2015, art. 542.
O INSS pode, contudo, ao receber o recurso do interessado, reconhecer parcial ou totalmente
seu erro, hipótese em que anulará o ato ilegal (Lei n. 9.784/99, art. 53) ou reconsiderará a decísáo
anteriormente adotada. Sao as hipóteses de procedimento previstas na IN INSSn. 77/2015, art. 539:
Art. 539. Quando houver interposicáo de recurso do interessado contra decisáo do INSS, o processo deverá ser
encaminhado para a Unidade que proferiu o ato recorrido e, no prazo estabelecido para contrarrazóes, será promovida
a re-análise, observando-se que:
I - se a decisáo questionada for mantida, seráo formuladas as contrarrazóes e o recurso deverá ser encaminhado a
Junta de Recursos;
II - em caso de reforma parcial da decisáo, o recurso será encaminhado para a Junta de Recursos para prosseguimento
em relacáo a matéria que permaneceu controversa; e
llI - em caso de reforma total da decisáo, deverá ser atendido o pedido formulado pelo recorrente e o recurso
perderá o seu objeto, sendo desnecessário o encarninhamento ao órgáo julgador.

Também o art. 34 da Portaría MPS n. 548/2011 trata da possibilidade de reconhecimento do erro


por parte do INSS, com o seguinte teor:
Art. 34. O INSS pode, enguanto nao tiver ocorrido a decadencia, reconhecer expressamente o direito do interessado e
reformar sua decisáo, observado o seguinte procedimento:
I - quando o reconhecimento ocorrer na fase de instrucáo do recurso ordinário o INSS deixará de encarninhar o
recurso ao órgáo julgador competente:
II - quando o reconhecimento ocorrer após a chegada do recurso no CRPS, mas antes de qualquer decísáo colegiada,
o INSS deverá encaminhar os autos ao respectivo órgáo julgador, devidamente instruido com a comprovacáo da
reforma de sua decísáo e do reconhecimento do direito do interessado, para fins de extincáo do processo com
resolucáo do mérito por reconhecimento do pedido.
lll - quando o reconhecimento ocorrer após o julgamento da Junta de Recurso ou da Cámara de Julgamento, o
INSS deverá encaminhar os autos ao órgáo julgador que proferiu a última decisáo, devidamente instruido com a
comprovacáo da reforma de sua decísáo e do reconhecimento do direito do interessado, para que, se foro caso, seja
proferida nova decisáo,
§ 1º Na hipótese prevista no Inciso JI, se da análise dos autos o órgáo julgador constatar que nao ocorreu o
reconhecimento expresso do direito do interessado pelo INSS, o processo terá seguirnento normal com o julgamento
do recurso de acordo como convencimento do colegiado.
§ 2° Na hipótese de reforma parcial de decisáo do INSS, o processo terá seguimento em relacáo a questáo objeto da
conrrovérsia rernanescente.

Mesmo quando o recurso é protocolado fora do prazo legal, e, portanto, intempestivo, deve
ser encaminhado pelo INSS a [unta de Recursos da Previdéncia Social, mas a constatacáo da
intempestividade nao impede a revisáo de ofício pelo próprio INSS quando incorreta a decisáo
administrativa (IN INSS n. 77/2015, art. 543).
Nao obstante o regramento claro e o dever do INSS encarninhar a JRPS os recursos no prazo
máximo de 30 dias, o INSS frequentemente deixa de cumprir tal obrigacáo, existindo recursos
protocolados há mais de dois anos que sequer foram encaminhados a Junta de Recursos. O CRPS tem
ciencia do acorrido e tenta, há algum tempo, solucionar a questáo por meio do protocolo eletrónico
dos recursos, mas o sistema ainda está sendo desenvolvido.

82
Quando solicitado pela parte, a Junta de Recursos deverá informar o local, a data e o horário
do julgamento, para fins de sustentacáo oral das razóes do recurso. O INSS poderá ser representado
pela Procuradoria Federal Especializada junto ao INSS, sendo igualmente facultada a sustentacáo oral
de suas razóes, com auxílio de assistentes técnicos do INSS. Até o anúncio do início dos trabalhos de
julgamento, a parte ou seu representante poderáo formular pedido para realizar sustentacáo oral ou
para apresentar alegacóes finais em forma de memoriais (Portaria MPS n. 548/2011, art. 32).
Essa inforrnacáo deve ocorrer por meio de intimacáo, assim como o resultado das decísóes
proferidas. Considera-se intimacáo o ato pelo qual se dá ciencia a alguém de um ato, um termo
ou urna decisáo do processo, como objetivo de que esse alguém faca ou deixe de fazer alguma
coisa, seja pessoalmente ou por seu representante, devidamente constituído nos autos (Portaría
MPS n. 548/2011, art. 27).
Por tal razáo, a intimacáo deve ser certa e segura, efetuada por ciencia no processo, por vía postal
com aviso de recebimento (AR), por telegrama ou quaJquer outro meio que assegure a regularidade
da ciencia do interessado ou seu representante legal, sem sujeicáo a ordem de preferencia. Assim
determina a Leí n. 9.784/99, como já mencionei anteriormente,bem como também o art. 28 da Portaría
MPS n. 548/2011:
Art. 28. A intimacáo será efetuada por ciencia no processo, por via postal com aviso de recebimento, por telegrama
ou por outro meio que assegure a regularidade da ciencia do interessado ou do seu representante, sem sujeicáo a
ordem de preferencia.
§ 12 Na irnpossibilidade de intimacáo nos tennos do caput, a cientificacáo será efetuada por meio de edital.
§ 2º Considera-se feíta a íntimacáo:
I - se pessoal, na data da ciencia do interessado ou de seu representante legal ou, caso haja recusa ou impossibilidade
de prestar a nota de ciente, a partir da data ero. que for dada a ciencia, declarada nos autos pelo servidor que realizar
a intimacáo:
IJ - se por via postal ou similar, na data do recebirnento aposta no comprovante, ou da nota de ciente do responsável:

nr - se por edital, quinze días após sua publícacáo ou afixacáo.


§ 3º Presumem-se válidas as intimacóes dirigidas ao enderece residencial ou profissional declinado nos autos pela
parte, beneficiário ou representante, cumprindo aos interessados atualizar o respectivo enderece sempre que houver
modificacáo temporada ou definitiva.
§ 42 A intimacáo será nula quando realizada sem observancia das prescricóes legaís, mas o cornparecimento do
interessado su pre sua falta ou irregularídade.

A sustentacáo oral é extremamente importante quando o que se discute é a caracterizacáo ( ou


nao) de um acidente do trabalho, porque é justamente nesse momento que o interessado ( ou seu
representante) destaca as ilegalidades e as irregularidades praticadas pelo INSS.
O processamento do recurso encentra-se disciplinado nos arts. 37 a 40 da Portaría MPS n. 548/2011,
e há, também, algumas observacóes nos arts. 551a558 da IN INSS n. 77/2015.
A sessáo de julgamento deverá observar, para fins de deliberacáo, o quórum mínimo de tres
mernbros, Apregoado o processo, o presidente da Junta dará a palavra ao conselheiro relator, que
apresentará o seu relatório. Após essa apresentacáo é que será facultada as partes a oportunidade
de sustentar oralmente suas razóes, pelo tempo de até quinze minutos cada. Na sequéncia, o
relator apresenta seu voto e, após, os demais Conselheiros poderáo usar a palavra e debater
sobre as quest6es referentes ao processo, proferindo seus votos na seguinte ordem (Portaría MPS
n. 548/2011, arts. 45 e 46):
a) representante do Govemo;
b) representante dos trabalhadores:
e) representante das empresas; e
d) presidente da composicáo de julgamento.

83
As decisóes devem ser redigidas pelo relator, na forma de acórdáo e, na forma prevista no art.
53 da Portaria MPS n. 548/2011, podem solicitar alguma diligencia ao INSS. Confira-se:
Art. 53. As decisóes proferidas pelas Cámaras de Julgamento e Juntas de Recursos poderáo ser de:
1 - conversáo em diligencia;
II - nao conhecimento:
ITI - conhecimento e nao provímento:
IV - conhecimento e provimento parcial;
V - conhecimento e provimento:
Vl - anulacáo: e
Vll - extincáo do processo com resolucáo do mérito por reconhecimento do pedido, nos termos do art, 34, JI, deste
Regimento.
§ 12 A conversáo em diligencia nao dependerá de lavratura de acórdáo e se dará para complementacáo da instrucáo
probatória, saneamento de falha processual, cumprirnento de normas administrativas ou legislacáo pertinente a
espécie e adotará preferencialmente a diligencia prévia, sem que haja prejulgamento.
§ 22 É de trinta días, prorrogáveís por mais trinta días, o prazo para que o INSS restitua os autos ao órgáo julgador
coma diligencia integralmente cumprida,
§ 32 O pedido de prorrogacáo de prazo de que trata o parágrafo anterior, acompanhado de justificativa, será
encaminhado via mensagem de correio eletrónico da previdéncia social ou por fax ao Presidente, do órgáo julgador
que na hipótese de deferimento estabelecerá o prazo final, sem prejuízo das providencias cabíveis se houver
descumprimento injustificado.
§ 42 A diligencia prévia deverá ser requisitada em forma simples e sucinta, pelo relator ou pelo Presidente da instancia
julgadora, antes da inclusáo do processo em pauta.
§ 52 A diligencia a ser cumprida diretamente por entidade, órgáo ou pessoa estranha ao ámbito de abrangéncía ou
da fiscalizacáo do Ministério da Previdéncia Social será solicitada pelo Presidente do CRPS ou, no ámbito de sua
jurisdicáo, pelos Presidentes das Juntas de Recursos.
§ 62 En1 se tratando de matéria médica deverá ser ouvida a Assessoria Técnico-Médica Especializada, prestada
por servidor lotado na instancia julgadora que, na qualidade de perito do colegiado, se pronunciará, de forma
fundamentada e conclusiva, no ámbito de sua competencia, hipótese ero. que será utilizado encaminhamento interno
por meio de despacho. (Suspenso pela Portarla MPS n. 591/2012, enquanto perdurar os efeitos da Portada MPS/SE n.
1.474, de 7.12.2012).
§ 7fl Nos casos em que a controvérsia for sobre o enquadramento de atividades exercidas sob condicóes especiais
que prejudiquem a saúde ou a integridade física, o Conselheiro Relator, mediante despacho fundamentado, poderá
submeter os autos a Assessoria Técnico-Médica, hipótese em que restringirá as consultas as situacóes de dúvidas
concretas.

§ 82 De acordo com os votos proferidos, as decisóes seráo tornadas por unanimidade, por maioria ou por desempate.

Ao reconhecer a Junta de Recursos, por exemplo, que a perícia médica do INSS nao realizou
a investigacáo técnica do nexo entre a enfermidade e o trabalho, nos termos da legíslacáo vigente,
é possível que baixe o processo em diligencia, solicitando ao perito explicacóes a respeito ou
determinando que realize o procedimento, em obediencia as leis de regencia.
Quando a matéria discutida, contudo, é puramente clínica, no sentido de verificar se o diagnóstico
está correto ou se existe mesmo a necessidade de afastamento das atividades (incapacidade), a
questáo se complica, poTque na composicáo da Junta de Recursos nao há um profissional da área
médica, lamentavelmente. Os conselheiros, via de regra, nao sao formados em medicina e, por isso,
nao detém conhecimento técnico para rebater ou questionar a decisáo clínica do perito do INSS, mas
podem, como já dito anteriormente, verificar se este cumpriu com suas obrigacóes legais quanto ao
processamento administrativo, e, se nao cumpriu, seus atos podem e devem ser anulados.
Se a decisáo da Junta de Recursos contrariar lei, regulamento, enunciado ou ato normativo
ministerial, é possível a interposicáo de recurso a Cámara de Julgamento, também no prazo de trinta

84
dias.<72> Também é possível a interposicáo de embargos de declaracáo quando houver nos acórdáos
alguma obscuridade, ambiguidade ou contradicáo, conforme art. 58 da Portaria MPS n. 548/2011.
Confira-se, ainda, a redacáo do art. 550 da IN INSS n. 77/2015:
Art. 550. Observado o disposto no Regimento Interno do CRPS, a matéria julgada pela Junta de Recurso em matéria
de alr;ada<;3¡ e pela Cámara de [ulgamento nao será objeto de novas discussóes por parte do INSS, ressalvadas as
seguintes hipóteses:
I - oposícáo de embargos de declaracáo:
U - revisáo de acórdáo:

III - alegacáo de erro material; ou


IV - pedido de uniformizacáo de jurisprudencia.
§ 111 A revísáo de acórdáo semente poderá ser suscitada se presentes os requisitos constantes no art. 60 do Regimento
Interno do CRPS, e nao suspende o cumprimento da decisáo.
§ 211 Sendo rejeitada pelo órgáo julgador a sugestáo de revisáo de acórdáo, a decisáo será mantida nos exatos termos
em que foi proferida.
§ 3° Se a revisáo de acórdáo ocasionar a cessacáo do beneficio concedido em fase de recurso, nao será efetuada a
cobranca administrativa dos valores já recebidos, exceto:
I - se a revisáo se deu em decorréncia de fraude, dolo ou máfé do recorrente: ou
II - em relacáo aos valores recebidos após a ciencia da decísáo por parte do interessado.

Também é importante destacar que a interposicáo de recurso as Cámaras de Julgamento


(denominado recurso especial) suspende os efeitos da decísáo de primeira instancia, proferida pela
Junta de Recursos, devolvendo a instancia superior o conhecimento integral da causa. Eisa redacáo
dos arts. 29 e 30 da Portaría MPS n. 548/2011 (Regimento Interno do CRPS) nesse sentido:
Art. 29. Denomina-se recurso ordinário aquele interposto pelo interessado, segurado ou beneficiário da Previdéncia
Social, em face de decísáo proferida pelo INSS, dirigido as Juntas de Recursos do CRPS, observada a competencia
prevista no art. 17 deste Regimento.

Parágrafo único. Considera-se decisáo de primeira instancia recursal os acórdáos proferidos pelas Juntas de Recursos,
exceto na matéria de aleada, definida pelo art. 18 deste Regimento, h.ipótese em que a decisáo será de única instancia.

Art. 30. Das decisóes proferidas no julgamento do recurso ordinário caberá recurso especial dirigido as Cámaras de
[ulgamento, órgáos de última instancia recursal administrativa, ressalvada a competencia exclusiva das Juntas de
Recursos definida no art. 18 <leste Regimento.

Parágrafo único. A interposicáo tempestiva do recurso especial suspende os efeitos da decisáo de prímeira instancia
e devolve a instancia superior o conhecimento integral da causa.
Seja qual for a decisáo do CRPS, cabe ao INSS acatá-la, no prazo de trinta días, sendo vedado
escusar-se de cumprir qualquer diligencia que lhe for solicitada, bem como de dar efetivo cumpri-
mento as decis6es definitivas daquele colegiado. Também nao pode reduzir ou ampliar o alcance das
decisóes ou executá-las de maneira que contrarie ou prejudique seu evidente sentido (Portaría MPS
n. 548/2011, art. 56 e IN INSS n. 77/2015, art. 549).

(72) Nos termos do art. 308 do Decreto n. 3.048/99, os recursos tempestivos contra decis5es das Juntas de Recursos tém efeito sus-
pensivo e devolutivo. Nao se considera recurso, contudo, o pedido de revisáo de acórdáo, enderecado as Juntas de Recursos e Cámaras
de Julgamento.
(73) Portaria MPS n. 548/2011, Art. 18. Constituem aleada exclusiva das Juntas de Recursos, nao comportando recurso a instancia
superior, as seguintes decis5es colegiadas: 1 - fundamentada exclusivamente em matéria médica, quando os laudos ou pareceres
emitidos pela Assessoria Técnico-Médica da Junta de Recursos e pelos Médicos Peritos do INSS apresentarem resultados convergen-
tes; e 11 - proferida sobre reajustamento de beneficio em rnanutencáo, em consonancia com os índices estabelecidos em leí, exceto
quando a diferenca na Renda Mensal Atual - RMA decorrer de alteracáo da Renda Mensal Inicial - RMI. Observe-se, contudo, que
as inconstitucionalidades e ilegalidades praticadas pelo INSS nao se limitam a matéria médica e, quando existentes, possibilitam sim o
recurso para a instancia administrativa superior.

85
Caso o INSS nao cumpra a decisáo definitiva do órgáo julgador do CRPS (Junta ou Cámara)
no prazo de trinta dias, é facultado a parte prejudicada formular urna reclamacáo, mediante
requerimento instruído com cópia da decisáo que foi descumprida e outros elementos necessários a
compreensáo do processo. Essa reclamacáo deve ser dirigida ao presidente do CRPS e será processada
pela Coordenacáo de Cestáo Técnica. O protocolo pode ocorrer no próprio INSS ou diretamente nos
órgáos que compóem a estrutura do CRPS.
Cabem a Cestáo Técnica as diligencias necessárias para verificar o ocorrido e, na ausencia
de resposta do INSS ou sendo as justificativas improcedentes, será expedido ofício firmado pelo
presidente do CRPS a Diretoria de Benefícios do INSS para adocáo das medidas cabíveis ao efetivo
cumprimento da decisáo e, se for o caso, instauracáo de procedimento administrativo para apuracáo
de falta funcional do servidor responsável pelo retardamento. A Coordenacáo de Cestáo Técnica
acompanhará os processos de reclamacáo até a solucáo final, mantendo registros em meio físico ou
eletrónico de todas as ocorréncias, devendo encaminhar relatório anual circunstanciado ao órgáo
competente de controle interno do Ministério da Previdéncia Social (Portaría MPS n. 548/2011, art. 57).
Quanto ao prazo para resposta, seja das defesas ou contestacóes do NTEP (direcionadas ao
perito do INSS) ou dos recursos apresentados a Junta de Recursos, nao há na legislacáo específica
qualquer mencáo a respeito e, por tal razáo, devem ser aplicadas as disposícóes da Lei n. 9.784/99
(que regula o processo administrativo no ámbito da Adrninistracáo Pública Federal), que preve prazo
de trinta dias<74>. Confiram-se os dispositivos pertinentes:
Art. 49. Concluída a instrucáo de processo administrativo, a Administracáo temo prazo de até trinta días para decidir,
salvo prorrogacáo por igual período expressamente motivada.
[... )
Art. 59. Salvo dísposícáo legal específica, é de dez días o prazo para interposicáo de recurso administrativo, contado
a partir da ciencia ou divulgacáo oficial da decisáo recorrida.

§ 12 Quando a lei nao fixar prazo diferente, o recurso administrativo deverá ser decidido no prazo máximo de trinta
días, a partir do recebimento dos autos pelo órgáo competente.

§ 211 O prazo mencionado no parágrafo anterior poderá ser prorrogado por igual período, ante justificativa explícita.

Também é importante registrar que, em qualquer fase do processo administrativo, desde


que antes de ser proferida a decisáo final, é possível a desistencia pelo interessado, que deve ser
manifestada expressamente (por escrito). Caso a parte interessada ingresse com acáo judicial com
o mesmo pedido, automáticamente estará desistindo do recurso administrativo interposto, sendo
essa a regra disposta no § 3Q do art. 126 da Lei n. 8.213/91 e regulamentada pelos arts. 545 a 548 da
Instrucáo Normativa INSS n. 77/2015:
Art, 545. A prepositura, pelo interessado, de a<;:ao judicial que tenha por objeto idéntico pedido sobre o qua! versa
o processo administrativo importa renúncia ao direito de recorrer na esfera administrativa e desistencia do recurso
interposto.
§ 12 Considera-se idéntica a acáo judicial que tiver as mesmas partes, a mesma causa de pedir e o mesmo pedido do
processo administrativo.
§ 22 Para identificar a existencia da a<;:ao judicial, é autorizada a utilizacáo de qualquer sistema informatizado de
consulta processual a disposicáo do INSS.
Art. 546. Se Ior localizada acáo judicial com as mesmas partes, mas os dados disponíveis nao puderern firmar a
convíccáo de que o objeto é idéntico ao do processo administrativo, o INSS dará prosseguimento ao recurso, cabendo
ao CRPS decidir sobre a sua admissibilidade, dispensado o procedimento do artigo seguinte.
Art. 547. Quando houver comprovacáo da existencia de acáo judicial com o mesmo objeto, o INSS dará ciencia ao
interessado para que se manifesté no prazo de trinta días, observado que:

(74) Na prática, esse prazo nao é observado. Algumas defesas de NTEP protocoladas em 2007 ainda nao foram respondidas, e quanto
aos recursos destinados a JRPS, o prazo de resposta varia bastante. A decisáo mais rápida de que tivemos ciencia ocorreu em tres
meses, mas há casos em que a demora chega a ultrapassar doze meses.

86
I - se o interessado nao comparecer, ou declarar que se trata de mesmo objeto, o INSS arquivará o processo; ou
JI - se o interessado alegar que se trata de objeto diverso, o processo será encaminhado ao órgáo julgador.
Art. 548. Caso o conhecimento da propositura da acáo judicial seja posterior ao encaminhamento do recurso ao CRPS,
o INSS observará os seguintes procedimentos:
I - se o recurso ainda nao tiver sido julgado, o INSS comunicará o fato a Junta ou Cámara incumbida da decisáo,
juntamente como cornprovante da acáo judicial com o mesmo objeto¡

IJ - se o recurso já tiver sido julgado, com decisáo favorável ao interessado. e nao houver transito em julgado da
decisáo judicial, o INSS comunicará o fato a Procuradoria Federal Especializada para orientacáo sobre como proceder
em relacáo ao cumprim.ento da decisáo administrativa; ou
III - se o recurso já tiver sido julgado, e houver decisáo judicial transitada em julgado, a coisa julgada prevalecerá
sobre a decísáo administrativa.

Assim, nao há necessidade de a parte ínteressada aguardar a decisáo final do recurso


administrativo para ingressar judicialmente com urna acáo que tenha por objeto o mesmo pedido,
mas ao fazé-lo deve estar ciente de que, automaticamente, estará desistindo da via administrativa.

Dificuldade
No ámbito do CRPS, a maior dificuldade encontrada reside no despreparo técnico de alguns
conselheiros, que ainda confundem os tipos de nexos (NP, NI, NTEP) e desconhecem a legíslacáo que
deveria ser observada em um processo administrativo (Leis ns. 8.213/91e9.784/99 e CF/88, arts. 52 e
37) e, por isso, proferem decisóes absurdamente ilegais, conforme ilustra o trecho a seguir copiado,
pertencente ao processo n. 44232.148792/2014-58, julgado pela 5ª Junta de Recursos. No caso em tela,
a empresa apresentou defesa discordando do nexo conferido pelo perito médico porque nao houve,
no processo administrativo, qualquer investigacáo técnica do nexo, tampouco sendo permitido a
empresa a apresentacáo de documentos ou defesa. A decisáo proferida pela JRPS, por unanimidade,
informa que, em face do encerramento do beneficio (recuperacáo do trabalhador), o recurso teria
perdido o objeto e nao precisaria ser julgado. Confira-se:

o~
EMENTA: 1
AUxflJO.DOEN~A POR ACl>ENTEDO TRABALHO. comesJ,A9AOPl!LA EMPRESA. PARECER
t.téOICO RECURSAL PAVORÁVB.ASEGURADA. CESSA9AQ DOBENEÁCIO. ARTIGOS9 A 64 DA L
82131t1 CONJUOADOCOU O AR11GO 71 1!78 00 3.048199.IPEJIOA 00 OBJETO DO RECURSO. HÁO
CONKECllEHTO. ARTIGOS 53, INCISO 11 E54, INCISOV DA TARIA MPS N. 548 DE 13 DE
SETEM8RO DE 2011. RECURSO NlO CONHEOlDO
e • eo o.ldln•110 1.ompesUw, lnleipot» no prazi>d• 30 (1llnta} dlu, conro provt o f , • do lll 305, do Ragutam
Pcevldéndo Sod•J. aprovadc> pdo Doeroto nt 8.048/i9, lendo em v(1 nlo oon&&unos autos a dala am q
le,líaada lomou clclncla da Clecblo.

11.Uím, rosta auitcC011zad4a ptrda do obJelO do recura>, uma ven que benollclo l50 encona c:o'6ado por n
Ne~ conformoltspOllo nos eft9)153. lndso11 o 54, IncisoV da Pol1ari PS n. s.43de13 de utambfo de 2G11.

on~uslo: VolD no &ontldo de nlo c:onhecardo 18QllSO por petda do


54fclso Vda PortariaMPSn.S48da 13de selemb-ode 2011.
obfer,conformedlep~ noe artgoa S3, ln

1
,sório
·~0:629/2015

1
ocuba VllAOS e rl4atadosos pr~ aulOS, •m s.tSlo realizada , ACOROAMos membroGda ~Junta
do CRPs. om NAO Ca-JHECER DO RECURSO, POR UNANMID E, do a.cordo com o '10t>do(a) Rela'8r
su¡fund~.

87
Note-se que a natureza acidentária (nexo profissional - NP) foi atribuída sem qualquer
investigacáo e sem qualquer participacáo da e1npresa no processo de primeira instancia, sendo
absolutamente ilegal e inconstitucional o procedimento. E1n sede de recurso a JRPS/CRPS, como
demorou a ser julgado, novamente foi violado o direito de defesa e contraditório do empregador,
já que os conselheiros (todos) compreenderam que em face do encerramento do beneficio (alta do
empregado) nao seria necessário seu julgamento.
Desconhecem esses conselheiros, certamente, que esse beneficio de natureza acidentária, por
assim ter sido caracterizado, repercutirá automaticamente no cálculo do SAT/FAP, possibilitará ao
trabalhador utilizar o documento como prova para fins de direitos trabalhistas e, ainda, ao INSS
ingressar com acáo regressiva previdenciária.
Faz-se necessário, com urgencia, um melhor aperfeicoarnento e conhecimento da matéria, no
intuito de nao mais existirem decisóes com esse teor. Enquanto isso, devem os empregadores e os
trabalhadores, na medida de seus interesses, comparecer para sustentacáo oral, apresentar embargos
de declaracáo e recorrer dessas decisóes, sempre, até que a legíslacáo seja observada e cumprida pelo
INSS.
Em último caso, como já <lito, e sem necessidade de esgotamento da via administrativa, é
possível o ingresso de acáo judicial pela parte que se sentir prejudicada, sendo esse o objeto do
capítulo seguinte.

88
~71
~~<->'),. ,. . ".~º ®TIU
D

Verificando o trabalhador ou o empregador que o INSS deixou de observar a legislacáo pertinente


a caracterizacáo dos acidentes de trabalho, é possível o ingresso de acáo judicial para a garantia do
direito, seja para configurar a natureza acidentária da lesáo ou enferrnidade, ou para desconfigurá-la.
A acáo deve ser interposta junto a [ustica Estadual, devendo o processo seguir o rito surnaríssimo
e sendo o procedirnento isento de quaisquer custas ou verbas de sucurnbéncia. Nesse sentido,
confiram-se o art. 109 da Constituicáo Federal e o art. 129 da Lei n. 8.213/91:
Constituicáo Federal:
Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar:
I - as causas em que a Uniáo, entidade autárquica ou empresa pública federal forem interessadas na condícáo de
autoras, rés, assistentes ou oponentes, exceto as de falencia, as de acidentes de trabalho e as sujeitas a [ustica Eleitoral
e a [ustica do Trabalho:
[ ... l"
Lei n. 8.213/91:
Art. 129. Os litigios e medidas cautelares relativos a acidentes do trabalho seráo apreciados:
I - na esfera administrativa, pelos órgáos da Previdéncía Social, segundo as regras e prazos aplicáveis as dernais
prestacóes, com prioridade para conclusáo: e
II - na via judicial, pela [ustica dos Estados e do Distrito Federal, segundo o rito sumaríssimo, inclusive durante as
férias forenses, mediante peticáo instruida pela prova de efetiva notificacáo do evento a Previdéncia Social, a través
de Comunicacáo de Acidente do Trabalho - CAT.
Parágrafo único. O procedimento judicial de que trata o inciso JI <leste artigo é isento do pagamento de quaisquer
custas e de verbas relativas a sucumbéncia.

7.1. A~aojudicial movida pelo trabalhador

O trabalhador terá interesse em caracterizar a natureza acidentária da lesáo ou da enfermidade


quando o INSS deixar de fazé-lo no processo administrativo, mas cumpre-rne destacar que, nessa
acáo, nada poderá obter do ernpregador já que o réu será, unicamente, a referida autarquia federal.
Para receber os direitos trabalhistas e a estabilidade provisória no e1nprego, além de possível
indenizacáo por perdas e danos, deverá o empregado ajuizar reclarnatória trabalhista, cuja
competencia é da [ustica do Trabalho, ali relatando os fatos e solicitando a caracterizacáo do acidente
de trabalho.
Na [ustica Estadual, a acáo, repita-se, é contra o INSS, e o éxito trará por benefícios apenas a
isencáo de carencia para obtencáo dos beneficios de auxílio-doenca ou aposentadoria por invalidez
e, ainda, a possibilidade de receber o beneficio de auxílio-acidente, se permanecer com sequela
definitiva e incapacitante.
A situacáo curiosa e absurda, mas real. Um trabalhador pode ingressar, simultaneamente,
é

com as duas acóes e, nao obstante seja única a legislacáo sobre o tema, obter procedencia numa delas
e improcedencia na outra. Para o cidadáo comum, leigo sobre a divísáo estrutural do [udiciário e a
competencia de cada um, a dificuldade de cornpreensáo é enorme, porque, em seu entendimento

89
existe um único Poder Judiciário. Corno pode, entáo, necessitar do ingresso de duas acóes distintas
para um mesmo objeto e causa de pedir, que é o reconhecimento do acidente de trabalho? Como
pode a decisáo obtida numa das esferas do Judiciário nao servir como prova plena para a outra
esfera? E, pior: como pode vencer numa das demandas e perder na outra, com a mesma producáo de
prova e a mesma legislacáo servindo como fundamento?
Pensó que o legislador constituinte nao raciocinou adequadamente quando da elaboracáo do
art. 109, porque certamente o melhor procedimento, mais justo, célere e económico seria atribuir a
competencia a [ustica do Trabalho, com participacáo obrigatória do INSS na composicáo da lide. Ou
seja, a acáo seria movida contra o INSS, porque deixou de obedecer a legislacáo, no ponto de vista do
obreiro, e contra o empregador, porque este terá consequéncias automáticas com o reconhecimento
do nexo e porque somente o empregador tem condicóes de apresentar defesa a esse pedido.
O INSS nao tem conhecimento do trabalho desenvolvido e, menos ainda, do ambiente onde é
desenvolvido, e, assim, sua defesa nas acóes acidentárias se limita a informar que o perito do INSS
entendeu pela inexistencia do nexo. Quem possui inforrnacóes que podem subsidiar a decisáo judicial
é o empregador, sendo indispensável, na maioria dos casos, urna inspecáo no local de trabalho.v'"
Nao é o que acorre na prática. Como já <lito, o trabalhador <leve ingressar com acáo contra o
INSS na [ustica Estadual se pretender algo relativo aos beneficios previdenciários, e deve ingressar
com outra acáo contra o empregador, na [ustica do Trabalho, se pretender direitos como FGTS,
estabilidade ou indenizacóes.
Na acáo contra o INSS o empregador nao é intimado para participar do processo e muito
raramente os juízes solicitam algum documento ou informacáo para instrucáo do processo. A perícia,
absurdamente, se limita a urna consulta clínica (sem inspecáo do local de trabalho), e a única prova é
aquela apresentada pelo trabalhador, já que somente suas testernunhas sao ouvidas e já que o INSS,
como também já informado, se limita a dizer que o seu perito médico entendeu pela inexistencia do
nexo.
Para o autor, portante, o processo corre muito tranquilamente, sem contraprova e com urna
grande facilidade para o éxito se, obviamente, seu pedido nao for totalmente infundado. o único
porém é a demora nos trámites processuais, já que, por alguma raza o, a [ustica Estadual é infinitamente
mais lenta que a [ustica do Trabalho e que a [ustica Federal.
Quanto ao empregador, nao deveria haver razáo para se preocupar com essas acóes contra
o INSS, porque, como nao é parte no referido processo, nenhuma consequéncia lhe poderia ser
imputada, conforme regra expressa do art. 472 do Código de Processo Civil:
Art. 472. A sentenca faz coisa julgada as partes entre as quais é dada, nao beneficiando, nem prejudicando terceiros.
Nas causas relativas ao estado de pessoa, se houverem sido citados no processo, e1n litisconsórcio necessario, todos
os interessados, a sentenca produz coisa julgada em relacáo a terceiros.

Ocorre que esse dispositivo nao tem sido observado pelo INSS, porque, urna vez caracterizado
na [ustica Estadual o acidente de trabalho, esse é utilizado para o cálculo do FAP e até mesmo
para o ingresso de acóes regressivas, ern evidente ilegalidade. E o ilícito, apesar de comunicado
posteriormente aos juízes federais (nas acóes pertinentes ao FAP e as acóes regressivas), infelizmente
nao tem sido observado, sendo bastante complicada a situacáo dos empregadores.
Repita-se que o empregador nao é chamado a participar da acáo judicial contra o INSS que
tramita na [ustica Estadual e, quando muito, é apenas intimado para apresentar alguma inforrnacáo

(75) Sobre o tema, ver o Capítulo 6, subitem 6.2.2, desta obra. Em 9.7.2015 foi publicada no Diário Oficial da Uniao a Resoluc;ao INSS
485/2015, dispondo sobre a inspecáo do local de trabalho pela perícia médica do INSS. Se efetivamente o INSS cumprir o disposto na
referida norma, bem como na legislacño de regencia (Leis ns. 8.213/91e9.784/99, principalmente), talvez na próxima edicáo dessa
obra eu tenha como alterar a crítica feita quanto aos procedimentos praticados pelo INSS/MPS. Por ora, infelizmente, as normas em
vigor nao sao observadas, com forte violacáo de garantias constitucionais.

90
ou documento para subsidiar o entendimento do magistrado. O processo corre sem sua defesa e a
margem de seu conhecimento e, ao final, sendo o trabalhador exitoso, esse acidente acaba sendo
usado para aumentar o tributo SAT (por aplicacáo do FAP) e as provas produzidas no processo (que
foram apresentadas apenas pelo trabalhador) utilizadas para a interposicáo da acáo regressiva. E, por
mais incrível que possa parecer, a alegacáo de que aquela sentenca nao pode trazer consequéncias
ao empregador, com fundamento no art. 472 do CPC, nem sempre é acolhida pela [ustica Federal.f"?
Por tal razáo, entendo de extrema importancia que os empregadores passem a acompanhar essas
acóes movidas por seus trabalhadores contra o INSS, nelas ingressando como assistentes de defesa.

7.1.1. Do empregador como terceiro interveniente no processo

Como salientado no subitem anterior, pode o empregador ingressar na acáo movida pelo
trabalhador contra o INSS como assistente de defesa, co1n fundamento nos arts. 50 a 55 do Código
de Processo Civil:
Art. SO. Pendendo urna causa entre duas ou mais pessoas, o terceiro, que tiver interesse jurídico em que a sentenca
seja favorável a urna delas, poderá intervir no processo para assisti-la.
Parágrafo único. A assisténcia tem lugar em qualquer dos tipos de procedirnento e em todos os graus da jurisdicáo:
mas o assistente recebe o processo no estado em que se encentra.
Art. Sl. Nao havendo ímpugnacáo dentro de 5 (cinco) días, o pedido do assistente será deferido. Se qualquer das
partes alegar, no entanto, que falece ao assistente interesse jurídico para intervir a bem do assistido, o juiz:
1 - determinará, sem suspensáo do processo, o desentranhamento da peticáo e da írnpugnacáo, a fim de serem
autuadas em apenso:
IJ - autorizará a producáo de provas;
nr - decidirá, dentro de 5 (cinco) días, o incidente.
Art. S2. O assistente atuará como auxiliar da parte principal, exercerá os mesmos poderes e sujeitar-se-á aos mesmos
ónus processuais que o assistido.
Parágrafo único. Sendo revel o assistido, o assistente será considerado seu gestor de negócios.
Art. S3. A assisténcia nao obsta a que a parte principal reconheca a procedencia do pedido, desista da acáo ou transija
sobre direitos controvertidos¡ casos em que, terminando o processo, cessa a intervencáo do assistente.
Art. S4. Considera-se litisconsorte da parte principal o assistente, toda vez que a sentenca houver de influir na relacáo
jurídica entre ele e o adversario do assistido.
Parágrafo único. Aplica-se ao assistente Iitisconsorcial, quanto ao pedido de intervencáo, sua impugnacáo e julgamento
do incidente, o disposto no art, 51.
Art, SS. Transitada em julgado a sentenca, na causa em que interveio o assistente, este nao poderá, e111 processo
posterior, discutir a justica da decisáo, salvo se alegar e provar que:
I - pelo estado em que recebera o processo, ou pelas declaracóes e atos do assistido, fora impedido de produzir
provas suscetíveis de influir na sentenca;
II - desconhecia a existencia de alegacóes ou de prevas, de que o assístído, por dolo ou culpa, nao se valeu.

Nessas acóes que tramitam na Iustica Estadual e que sao movidas pelo trabalhador contra o INSS
para caracterizacáo de um acidente de trabalho, o empregador, corno nao é autor ou réu, figura como
um terceiro, estranho ao processo, que nao faz parte da relacáo jurídica processual originalmente
instaurada.
Nao obstante seja estranho ao processo, tem o empregador interesse no deslinde da questáo
porque, se reconhecido o pedido da parte autora, ou seja, se caracterizado o acidente de trabalho,

(76) É da Justíca Federal a competencia para julgar sobre SAT, FAP e também sobre as acóes regressivas previdenciárias.

91
sofrerá consequéncias diretas que nao estáo sendo discutidas naquele processo, como o depósito de
FGTS para o trabalhador, o direito de estabilidade provisória, possível reparacáo indenizatória por
dano, acréscimo no FAP e, consequentemente, no tributo SAT, e, até mesmo, urna futura condenacáo
a ressarcir ao INSS toda a despesa coro os benefícios previdenciários, por meio da acáo regressiva
previdenciária.
O eropregador é, poís, titular de urna relacáo jurídica de direito material diferente daquela que
está sendo discutida na acáo movida pelo trabalhador, mas como seus efeitos podem lhe atíngir,
enquadra-se como "assistente", nos tennos perrnitidos pelo CPC.
Duas sao as modalidades de "assisténcia" permitidas em nossa legislacáo:
a) Assisténcia simples ou adesiva, prevista nos arts. 50 a 53 e no art. 55 do CPC, pela qual o
terceiro, interessado em nao ser futuramente atingido pela sentenca a ser proferida naqueles
autos onde nao figura como parte principal, intervém no processo no intuito de auxiliar urna das
partes (no caso dos acidentes de trabalho, auxiliar o INSS). Os efeitos da sentenca sao imediatos
para as partes principais e mediatos para o assistente (parte nao principal) e podem, inclusive,
nao acorrer para esse último, sendo suficiente comprovar ao juízo da causa sua possibilidade.
b) Assísténcía litisconsorcial, prevista nos arts. 54 e 55 do CPC, quando o terceiro será diretamente
atingido pelos efeitos da sentenca proferida, ou seja, há urna relacáo jurídica entre o terceiro
e o adversário do assistido que será alcancada pelos efeitos daquela sentenca, O assistente
litisconsorcial deveria ser parte no processo e, por alguma razáo, foi deixado de fora, e como
sofrerá indubitavelmente os efeitos da sentenca, pode fazer parte do processo e atuar corno
verdadeiro litisconsorte da demanda, contra o adversário do assistido.
Na situacáo específica dos acidentes de trabalho e sua caracterizacáo por meio de acáo judicial,
nao vejo qualquer efeito direto ao eropregador que o legitime como assistente litisconsorcial, porque,
nao obstante o interesse do autor ero caracterizar a ocorréncia como acidentária, nessa acáo (de
competencia da [ustica Estadual) o objetivo tem natureza eminentemente previdenciária, quanto aos
beneficios pagos pelo sistema (ísencáo de carencia e possibilidade de receber auxílio-acidente).
Os efeitos ao empregador existem, mas sao posteriores e dependem de ato posterior por
parte do eropregado (acáo judicial trabalhista postulando FGTS, estabilidade, indenizacóes) ou do
INSS (insercáo desse acidente na composicáo do SAT ou ingresso de acáo regressiva). Portanto,
entendo presentes os requisitos para urna assisténcia simples, sendo possível (e recomendável)
aos empregadores figurarem como assistentes de defesa do INSS, no intuito de comprovarem a
inexistencia do fator de risco ou nexo entre o trabalho e a enfennidade.

7.2. As;-ao judicial movida pelo empregador


Assim como o trabalhador pode ingressar com acño judicial contra o INSS para caracterizar a
natureza acidentária de urna ocorréncía, também pode fazé-lo o empregador para descaracterizá-la.
Sempre que o INSS descumprir coro a Iegislacáo (procedimento cotidiano e corriqueiro,
infelizmente) e sempre que o empregador tiver elementos de prova suficientes para coroprovar que
nao existe nexo entre a enferrnidade e o trabalho, pode e <leve questionar administrativamente (pelos
recursos a JRPS/CRPS) ou judicialmente a questáo.
A acáo deve ser protocolada na [ustíca Estadual, com fundamento na Constituicáo Federal,
art. 109, bem como na Lei n. 8.213/91, art. 129, sendo isenta de custas e verbas de sucumbéncia:
Constituícáo Federal:
Art. 109. Aos juízes federáis compete processar e julgar:
I - as causas em que a Uniáo, entidade autárquica ou empresa pública federal forem interessadas na condicáo de
autoras, rés, assistentes ou oponentes, exceto as de falencia, as de acidentes de trabalho e as sujeitas a [ustica Ele.itoral
e a [ustíca do Trabalho:

[... ]

92
Leí n. 8.213/91:
Art. 129. Os litígíos e medidas cautelares relativos a acídentes do trabalho seráo apreciados:
I - na esfera administrativa, pelos órgáos da Previdéncía Social, segundo as regras e prazos aplicáveis as demais
prestacóes, com príoridade para conclusáo: e

JI - na via judicial, pela [ustica dos Estados e do Distrito Federal, segundo o rito sumaríssimo, inclusive durante as
férias forenses, mediante peticáo instruida pela prova de efetiva notificacáo do evento a Previdéncia Social, a través
de Cornunicacáo de Acidente do Trabalho - CAT.
Parágrafo único. O procedimento judicial de que trata o inciso JI deste artigo é isento do pagamento de quaisquer
custas e de verbas relativas a sucumbéncía,

É extremamente importante que o ernpregador solicite prova pericial médica, mas com inspecáo
do local de trabalho para identificacáo (ou nao) do fator de risco ou agente etíológíco.'?'
Conforme a enfermidade apresentada pelo trabalhador, pode ser interessante a oitiva de
testernunhas, apresentacáo de metas da equipe e outras provas pertinentes a comprovacáo do direito
que está sendo pretendido.
Por fim, também de extrema importáncia solicitar liminar para que, enquanto nao encerrado o
processo judicial com decisáo transitada em julgado, abstenha-se o INSS de co1nputar a ocorréncia no
cálculo do FAP - Fator Acidentário de Prevencáo ou de ingressar com acáo regressiva para cobranca
dos valores gastos com os beneficios previdenciários.

{77) Sobre o tema ver o Capítulo 6, subitem 6.2.2 desta obra. Em 9.7.2015 foi publicada no Diário Oficial da Uniao a Resolucáo INSS
485/2015, dispondo sobre a inspecáo do local de trabalho pela perícia médica do INSS. Se efetivamente o INSS cumprir o disposto na
referida norma, bem como na legislacáo de regencia (Leis ns. 8.213/91 e 9.784/99, principalmente), talvez na próxima edicáo dessa
obra eu tenha como alterar a crítica feita quanto aos procedimentos praticados pelo INSS/MPS. Por ora, infelizmente, as normas em
vigor nao sao observadas, com forte víolacáo de garantías constitucionais.

93

~~©l~~l]füJ~~IID~
&fQJ

8.1. Auxilio-doenca
O benefício de auxílio-doenca é devido a todos os segurados do RGPS<78l que, em razáo de
algum acidente ou enfermidade, ficarem temporariamente incapacitados para o trabalho ou para as
atividades cotidianas.
Regra geral, para sua percepcáo o segurado precisa ter completado doze contribuicóes mensais
antes de ficar incapaz (prazo de carencia), e esse requisito somente nao será exigido quando a
enfermidade for grave<79l ou quando a incapacidade decorrer de acídente de qualquer natureza,
sendo a redacáo do art. 26 da Lei n. 8.213/91 a seguinte (redacáo dada pela MP 664/2014):
Art. 26. Independe de carencia a concessáo das seguintes prestacóes:
[... ]
TI - auxílio-doenca e aposentadoria por invalidez nos casos de acídente de qualquer natureza ou causa e de doenca
profissional ou do trabalho, bem corno nos casos de segurado que, após filiar-se ao Regime Geral de Previdéncia
Social, for acometido de alguma das doencas e afeccóes especificadas em lista elaborada pelos Ministérios da Saúde
e da Previdéncia Social, de acordo com os critérios de estigma, deformacáo, mutilacáo, deficiencia ou outro fator que
[he confira especificidade e gravidade que merecam tratamento particularizado:
[... ]
Note-se, poís, que se o trabalhador consegue reconhecer a natureza acidentária de sua
enfermidade (existencia de nexo entre a doenca e o trabalho ), terá direito a receber o beneficio de
auxílio-doenca comprovando apenas a qualidade de segurado e a incapacidade, nao se exigindo o
pagamento prévio das doze contribuicóes mensais (carencia).

8.1.1. Qualidade de segurado

Os trabalhadores ernpregados, os empregados domésticos, os avulsos e os segurados especiais


justificam perante o INSS sua qualidade de segurado por meio de comprovacáo do exercício da
atividade laborativa.
Para o empregado, por exemplo, é suficiente a apresentacáo da CTPS regularmente assinada ou,
em sua ausencia, de qualquer outro documento que possa comprovar a efetiva prestacáo de servicos
nessa modalidade, sendo a redacáo do art. 10 da IN INSS n. 77/2015 a seguinte:
Art. 10. Observado o disposto no art. 58, a comprovacáo do vínculo e das remuneracóes do empregado urbano ou
rural, far-se-á por um dos seguintes documentos:
I - da comprovacáo do vínculo empregatício:
a) Carteira Profissional - CP ou Carteira de Trabalho e Previdéncia Social - CTPS;
b) original ou cópia autenticada da Ficha de Registro de Empregados ou do Livro de Registro de Empregados, onde
conste o referido registro do trabalhador acompanhada de declaracáo fornecida pela empresa, devidamente assínada
e identificada por seu responsável:

(78) Regime Geral de Previdéncia Social.


(79) A lista dessas enfermidades consta do Anexo XLV da lnstrucáo Normativa INSS n. 77/2015, sendo ela a seguinte: a) Tuberculose
ativa; b) Hanseníase; c) Alíenacáo mental; d) Neoplasia maligna; e) Cegueira; f) Paralisia irreversível e incapacitante; g) Cardiopatía
grave; h) Doenc;a de Parkinson; i) Espondiloartrose anquilosante; j) Nefropatia grave; k) Estado avancado da doenca de Paget (osteíte
deformante); 1) Síndrome da Imunodeficiéncia Adquirida - AIDS; m) Contarninacáo por radiacáo com base em conclusáo da medicina
especializada; e n) Hepatopatia grave.

94
e) contrato individual de trabalho:
d) acordo coletivo de trabalho, desde que caracteriza o trabalhador como stgnatárío e comprove seu registro na
respectiva Delegacia Regional do Trabalho - DRT;
e) termo de rescisáo contratual ou comprovante de recebimento do Fundo de Garantía de Tempo de Servico - FGTS;
f) extrato analítico de conta vinculada do FGTS, carimbado e assinado por empregado da Caíxa, desde que constem
dados do empregador, data de admissáo, data de rescisáo, datas dos depósitos e atualizacóes monetarias do saldo,
ou seja, dados que remetam ao período em que se quer comprovar:
g) recibos de pagamento contemporáneos ao fato alegado, com a necessária identificacáo do empregador e do
empregado;
h) declaracáo fornecida pela empresa, devidamente assinada e identificada por seu responsável acompanhada de
cópia autenticada do cartáo, Iivro ou folha de ponto; ou
i) outros documentos contemporáneos que possam vira comprovar o exercício de atividade junto a empresa:
I1 - da comprovacáo das remuneracóes:
a) contracheque ou recibo de pagamento contemporáneos ao período que se pretende comprovar, com a identificacáo
do empregador e do empregado;
b) ficha financeira;
e) anotacóes contemporáneas acerca das alteracóes de remuneracáo constantes da CP ou da CTPS com anuencia do
filiado; ou
d) original ou cópia autenticada da folha do Livro de Registro de Empregados ou da Ficha de Registro de Empregados,
onde conste a anotacáo do nome do respectivo filiado, bem como das anotacóes de remuneracóes, com a anuencia
do filiado e acompanhada de declaracáo fornecida pela empresa, devidamente assinada e identificada por seu
responsável.
§ 12 Na impossibilidade de apresentacáo dos documentos previstos no capui, poderá ser aceita a declaracáo do
empregador ou seu preposto, atestado de empresa ainda existente, certificado ou certidáo de órgáo público ou
entidade representativa, devidarnente assinada e identificada por seu responsável, com afirmacáo expressa de que as
informacóes foram prestadas combase em documentacáo constante nos registros efetivamente existentes e acessíveis
para confirmacáo pelo INSS.
°
§ 22 A declaracáo referida no § 1 deste artigo deverá estar acompanhada de informacóes que contenham as
remuneracóes quando estas forem o objeto da comprovacáo,
§ 3° Nos casos de comprovacáo na forma prevista nos§§ 1° e 22 <leste artigo, deverá ser emitida Pesquisa Externa,
exceto nos casos de órgáo público ou entidades oficiáis por serem dotados de fé pública.
§ 4º A declaracáo do empregador, nos termos do§ 1°<leste artigo, no caso de trabalhador rural, também deverá conter:
I - a qualiftcacáo do declarante, inclusive os respectivos números do Cadastro de Pessoa Física - CPF e do Cadastro
Especifico do INSS - CEI, ou, quando foro caso, do Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica - CNPJ;
II - identificacáo e enderece completo do imóvel rural onde os servicos foram prestados, bem como, a que título
detinha a posse <leste Imóvel:
III - identificacáo do trabalhador e indicacáo das parcelas salaríais pagas, bem como das datas de início e término
da prestacáo de servicos; e
IV - informacáo sobre a existencia de registro em livros, folhas de salários ou qualquer outro documento que
comprove o vínculo.
§ SQ A comprovacáo da atividade rural para os segurados empregados para fins de aposentadoria por idade de que
trata o art. 143 da Leí n. 8.213, de 1991, até 31 de dezembro de 2010, além dos documentos constantes no caput, desde
que baseada em inicio de prova material, poderá ser feíta por meio de declaracáo fundamentada de sindicato que
represente os trabalhadores rurais ou por duas declaracóes de autoridades, na forma do inciso II do art. 47 ou do
art.100, respectivamente, homologadas pelo INSS.
§ 6° De acordo com o art. 14-A da Lei n. 5.889, de 8 de junho de 1973, com redacáo dada pela Lei n. 11.718, de
20 de [unho de 2008, a comprovacáo da relacáo de emprego do trabalhador rural por pequeno prazo, de natureza
temporaria, poderá ser feíta mediante contrato contendo no mínimo as seguintes informacóes:
I - expressa autorizacáo em acordo coletivo ou convencáo:
TI - identificacáo do produtor rural e do imóvel rural onde o trabalho foi realizado e identificacáo da respectiva
matrícula; e
III - ldentificacáo do trabalhador, corn a indicacáo do respectivo NIT.

95
§ r- O contrato de trabalho considerado nulo produz efeitos previdenciários até a data de sua nulidade, desde que
tenha havido a prestacáo efetiva de trabalho remunerado, observando que a ñlíacáo a Previdéncia Social está ligada
ao efetivo exercício da atividade, na forma do art, 20 do RPS, e nao a validade do contrato de trabalho.
[... ]
Para o trabalhador avulso, os arts.15e16 da IN INSS n. 77/2015 disciplinam sobre a documentacáo
necessária, com enfoque para a existencia de uro documento contemporáneo que co1nprove o
exercício de atividade e a remuneracáo, ou do certificado do órgáo de gestáo de máo de obra ou do
sindicato da categoría.
O ernpregado doméstico, por sua vez, tem a comprovacáo do vínculo norrnatizada pelo art. 19 da
IN INSS n. 77/2015, onde se pode observar a exigencia, por parte do INSS, do efetivo recolhimento das
contribuicóes. No entanto, por ser a responsabilidade de pagamento do empregador, compreendo que
a essa categoria devem ser aplicadas as mesmas regras dispostas para os empregados das empresas,
coro presuncáo do recolhimento (Lei n. 8.212/91, art. 33) e sendo necessária apenas a comprovacáo
da efetiva prestacáo dos servicos. Essa é a leitura, inclusive, que podemos extrair também da nova
redacáo dos arts. 27 e 34 da Lei n. 8.213/91, promovida pela LC 150/2015.
O segurado especial, por fim, igualmente precisa fazer prova de sua condicáo, mediante
apresentacáo de documentos contemporáneos que sirvam a essa finalidade, exemplifícadamente
descritos nos arts. 47 a 54 da IN INSS n. 77/2015.
Importa observar, contudo, que desde 31.12.2008 (data de publicacáo do Decreto n. 6.722/2008)
os dados constantes do CNIS - Cadastro Nacional de Informacóes Sociais servem como prova plena
para a cornprovacáo da qualidade de segurado (IN INSS n. 77/2015, art. 58 e seguintes). Referido
cadastro é mantido pelo INSS e alimentado pelos formulários GFIPs ( encaminhados mensalmente
pelas empresas) e pelas guias avulsas de recolhimento. Assim, somente se o Cadastro nao possuir
informacáo sobre o exercício da atividade (ou estiver coro informacáo incorreta) é que o segurado
necessitará apresentar a documentacáo mencionada, no intuito de comprovar sua qualidade de
segurado perante a Previdéncia Social.
Também é importante registrar que mesmo após a rescisáo contratual ( ou paralisacáo das
contribuicóes regulares) os trabalhadores permanecem protegidos pelo sistema, mantendo sua
qualidade de segurado por um determinado interregno, denominado "período de graca", conforme
protecáo constante do art. 15 da Lei n. 8.213/91. A regra é simples:
a) em qualquer modalidade de rescisáo contratual e independentemente das raz6es de paralisacáo do exercício da
atívidade, a qualidade de segurado se mantém pelo prazo de 12 meses.
b) conseguindo o trabalhador cornprovar situacáo de desemprego involuntárío, o prazo inicial se estenderá por mais
12 meses, o que também ocorrerá se tiver contribuído por mais de dez anos para a Previdéncia Social, antes da
paralisacáo das contribuicóes.
O § 4º do art. 15 da Lei n. 8.213/91 ainda dispóe que, encerrados os prazos de 12, 24 ou 36
meses de protecáo, a qualidade de segurado nao se encerrará automaticamente, mas sim no dia 16
do segundo més subsequente a esse encerramento. O prazo de 12 meses, portante, acaba sendo de
13 meses e 15 días: o prazo de 24 meses, de 25 meses e 15 dias e, consequentemente; o prazo de 36
meses, de 37 meses e 15 dias.
O conhecimento dessa regra é de extrema importancia, pois é comum encontrarmos sítuacóes
cotidianas ero que a e1npresa, nao concordando coro a natureza acidentária da enfennidade alegada
pelo trabalhador, promove sua rescisáo contratual ainda dentro do suposto período de estabilidade
a que teria direito, se de fato o ocorrido for uro acidente de trabalho. Esse trabalhador certamente
ingressará coro reclamatória trabalhista postulando pela caracterizacáo do acidente, nulidade da
dispensa, reintegracáo e, conforme o caso, até mesmo por indenizacóes. O benefício previdenciário
de auxílio-doenca, no entanto, nao lhe será negado pelo INSS em razáo da rescísáo praticada, sendo
perfeitamente possível (e devido) seu requerimento diretamente a autarquía federal.
Eventual rescisáo, portanto, nao impede o trabalhador de perceber da Previdéncia Social o
benefício a que possuí direito, sendo suficiente comprovar que exerceu atividade profissional naquela

96
modalidade (empregado, avulso ou segurado especial) e que se encentra, no momento do requerimento
ao INSS, ainda dentro do prazo de manutencáo da qualidade de segurado (período de graca).

8.1.2. Incapacidadetemporária

A incapacidade para o trabalho deverá ser cornprovada por meio de documentos médicos
(atestado, exarnes, receitas, relatórios, cópia do prontuário clínico etc.), apresentados ao perito médico
do INSS na data designada para tal finalidade.
Importa destacar que o benefício nao é pago em razáo da doenca ou do acidente em si, mas
sirn da incapacidade que ela proporciona por um determinado período. A preva médica, portante,
nao <leve se limitar ao diagnóstico, mas abranger, também, quais as limitacóes que sao impostas ao
trabalhador em face de sua existencia.
O art. 3Q da Resolucáo CFM n. 1658/2002 disp6e claramente sobre os requisitos de um atestado
médico para fins de pericia (administrativa ou judicial), sendo a redacáo do dispositivo a seguinte
(destaque rneu):
Art. 3u Na elaboracáo do atestado médico, o médico assistente observará os seguintes procedimentos:
[ ... )
Parágrafo único. Quando o atestado for solicitado pelo paciente ou seu representante legal para fins de pericia médica
deverá observar:
I - o diagnóstico;
II - os resultados dos exames complementares;
III - a conduta terapéutica;
IV - o prognóstico:
V - as consequéncias a saúde do paciente;
VI - o provável tempo de repouso estimado necessario para a sua recuperacáo, que complementará o parecer
fundamentado do médico perito, a quern cabe legalmente a decísáo do beneficio previdenciário, tais como:
aposentadoria, invalidez definitiva, readaptacáo:
VII - registrar os dados de maneira legível;
VIII - identificar-se como emissor, mediante assinatura e carimbo ou número de registro no CRM.

Caso seja de interesse, o trabalhador pode se fazer acompanhar de seu médico assistente no dia
da perícia.

8.1.3. Valor do benefício

Até a data de 28.4.1995, o beneficio de auxílio-doenca decorrente de acidente de trabalho possuía


tratarnento diferenciado, mais benéfico para o trabalhador, en1 relacáo ao cálculo.
O INSS deveria calcular a média aritmética simples dos últimos 36C80> salários de contribuicáo do
trabalhador, ou seja, últimos 36 valores de remuneracáo mensal, e comparar o resultado como último
salário de contribuicáo percebido antes do acidente (última rernuneracáo), utilizando corno base de
cálculo para o auxílio-doenca o maior dos valores. A renda mensal do auxílio-doenca correspondía
a 92°/o desse cálculo.
Referida regra constava da redacáo original do§ 12 do art. 28, c/c a alínea b do ar. 61, ambos da
Lei n. 8.213/91 que, infelizmente, foi alterada pela Lei n. 9.032, publicada em 29.4.1995, data a partir

(80) Esses 36 valores nao precisavam ser sequenciais e ininterruptos, sendo possível buscá-Ios num período de até 48 meses - Leí
n. 8.213/91, art. 29, redacáo original.

97
da qual extinguiu-se qualquer tratamento diferenciado aos benefícios acidentários, ern rnatéria de
cálculo. A base de cálculo (denominada corno salário de benefício) passou a corresponder a média
simples dos últimos 36 salários de contribuicáo sem qualquer cornparacáo com a remuneracáo da
ativa, e o percentual passou a ser de 91 o/o para toda e qualquer situacáo (acidente do trabalho ou nao).
A contar de 29.11.1999 nova alteracáo ocorreu pela Lei n. 9.784/99, que estendeu o prazo da
média aritmética. A nova regra, disposta no art. 29 da Lei n. 8.213/91, determinou a utilizacáo dos
salários de contribuicáo desde 07/1994 até o més anterior ao início do benefício, com exclusa o dos
20% menores valores e média efetiva apenas dos 80°/o que sobrarem (maiores valores, por óbvio). O
resultado desse cálculo é denominado como salário de beneficio, e o auxílio-doenca corresponde a
91 % do montante obtido.
Urna última alteracáo ocorreu corn a Medida Provisória n. 664, publicada em 30.12.2014 e,
posteriormente, convertida na Lei n. 13.135 (DOU de 18.6.2015)<81l, que acrescentou ao art. 29 o§ 10,
com a seguinte redacáo:
Art. 29. Art. 29. O salário de beneficio consiste:
[... ]
§ 10. O auxílio-doenca nao poderá exceder a média aritmética simples dos últimos doze salários de contribuicáo,
inclusive no caso de remuneracáo variável, ou, se nao alcancado o número de doze, a média aritmética simples dos
salários de contribuicáo existentes.

Essa comparacáo corn a média simples dos últimos doze salários de contribuícáo teve sua vigencia
iniciada em lQ.3.2015. O INSS continua sendo obrigado a calcular a média dos 80% maiores salários
de contribuicáo desde 07/04 e aplicar sobre esse montante os 91 ºlo do benefício, mas deve co1nparar o
resultado final coma média dos últimos doze meses, pagando ao trabalhador o menor valor.
Note-se, pois, que desde 29.4.1995 a regra de cálculo e o percentual de um auxílio-doenca
acidentário (decorrente de acidente de trabalho, codificado corno B-91 pelo INSS) sao exatamente os
mesmos dos benefícios de auxílio-doenca previdenciários (nao acidentários, codificados como B-31
pelo INSS), sern qualquer diferenca,
Tambérn é possível observannos que, como a média utiliza remuneracóes do trabalhador desde
07/1994, pode ser que o montante recebido de auxílio-doenca seja superior ou inferior ao salário
da ativa. Se inferior, nao há obrigacáo legal de o ernpregador completar a diferenca, exceto se a
isso estiver obrigado por forca de documento coletivo da categoria profissional. Confira-se, nesses
termos, o art. 63 da Lei n. 8.213/91:
Art. 63. O segurado empregado em gozo de auxílio-doenca será considerado pela empresa como licenciado.
Parágrafo único. A empresa que garantir ao segurado licenca remunerada ficará obrigada a pagar-lhe durante o
período de auxílio-doenca a eventual diferenca entre o valor <leste e a importancia garantida pela licenca.

Para o segurado especial, o auxílio-doenca corresponderá ao valor do salário mínimo.P" exceto


se esse trabalhador optou por contribuir para a Previdéncia Social, corno segurado facultativo.P"
com valores superiores, hipótese ern que será efetuado o mesmo cálculo adotado para os demais
trabalhadores. Eisa redacáo do art. 39 da Leí n. 8.213/91:
Art. 39. Para os segurados especiais, referidos no inciso VIT do art, 11 desta Leí, fica garantida a concessáo:
I - de aposentadoria por idade ou por invalidez, de auxílio-doenca, de auxílio-reclusáo ou de pensáo, no valor
de 1 (um) salário mínimo, e de auxílio-acidente, conforme disposto no art. 86, desde que comprove o exercício de
atividade rural, ainda que de forma descontinua, no período, imediatamente anterior ao requerimento do beneficio,
igual ao número de meses correspondentes a
carencia do beneficio requerido; ou

(81) A alteracáo pro posta pela MP 664, quanto a esse tópico, foi aprovada pelo Congresso Nacional. Como houve alteracóes em outros
dispositivos da Medida Provisória, essa foi transformada em Projeto de Lei de conversao (n. 04/2015) e encaminhado a Presidencia da
República. No Diário Oficial da Uniáo de 18.6.2015 foi publicada a Lei n. 13.135, ora em vigor.
(82) Atualmente, R$ 788,00.
(83) Segurado facultativo é aquele que nao está obrigado a contribuir para a Previdéncia Social, mas o faz por vontade própria. Esse
tipo de contribuinte pode escolher livremente o montante com o qual deseja contribuir, observando-se um valor mínimo (salário
mínimo) e um valor máximo (atualmente R$ 4.663, 75) de base de cálculo.

98
IJ - dos beneficios especificados nesta Leí, observados os critérios e a forma de cálculo estabelecidos, desde que
contribuam facultativamente para a Previdéncia Social, na forma estipulada no Plano de Custeio da Seguridade
Social.

8.1.4. Data de início do beneficio - Pagamento, pela empresa, dos primeiros quinze dias
de afastamento

a
Quando a incapacidade acomete um trabalhador empregado, cabe empresa, por forca da Lei
n. 8.213/91, o pagamento dos primeiros días de afastamento, independentemente de ser decorrente,
ou nao, de um acidente de trabalho.
Até 28.2.2015 o empregador se responsabilizava pela primeira quinzena de atestado médico,
sendo devido o benefício de auxílio-doenca, pelo INSS, somente a contar do 162 dia de afastamento.
Para os demais segurados (que nao sao classificados como empregados), ao INSS cabia o pagamento
de todo o período de incapacidade, desde o primeiro dia de atestado, desde que o afastamento tivesse
duracáo superior a quinze dias.
A contar de 1 Q.3.2015, por forca das alteracóes trazidas a Lei n. 8.213/91 pela Medida Provisória
n. 664/2014, duas modificacóes importantes foram introduzidas quanto ao tópico:
a) a empresa passou a se responsabilizar pelo pagamento dos afastamentos com duracáo de até 30 días: e
b) para os demais segurados, coma revogacáo expressa do art. 59, o INSS concederá o beneficio de auxílio-doenca
mesmo para incapacidades com duracáo inferior a 15 dias.
Confira-se como ficou a redacáo dos dispositivos em comento:
Art. 59. Revogado
Art. 60. O auxílio-doenca será devido ao segurado que ficar incapacitado para seu trabalho ou sua atividade habitual,
desde que cumprido, quando for o caso, o período de carencia exigido nesta Leí:
I - ao segurado empregado, a partir do trigésimo primeiro día do afastamento da atividade ou a partir da data de
entrada do requerimento, se entre o afastamento e a data de entrada do requerimento decorrerem mais de quarenta
e cinco días: e
IT - aos dernais segurados, a partir do início da incapacidade ou da data de entrada do requerímento, se entre essas
datas decorrerem mais de trinta dias.
§ 12 Quando requerido por segurado afastado da atividade por mais de 30 (trinta) días, o auxílío-doenca será devido
a contar da data da entrada do requerirnento.
§ 22 Revogado
§ 3° Durante os primeiros trinta dias consecutivos ao do afastamento da atividade por motivo de doenca ou de
acidente de trabalho ou de qualquer natureza, caberá a empresa pagar ao segurado empregado o seu salario integral.
[... )

Ocorre que tais alteracóes, propostas pela MP, nao foram aceitas pelo Congresso Nacional e, na
data de 18.6.2015, quando da publicacáo da Lei n. 13.135, voltou a vigorar a redacáo original dos arts.
59 e 60 da Lei n. 8.213/91. Assim, tao logo se encerre o prazo de 15 días de afastamento, pago pela
e1npresa, deve o trabalhador requerer junto ao INSS a concessáo do auxílio-doenca.
Os demais segurados (nao classificados como empregados de empresa) podem requerer o
benefício diretamente ao INSS e, sendo concedido, o beneficio retroagirá ao primeiro día de atestado.
Abro aqui u1n paréntese para abordar essa obrigatoriedade por parte das empresas, quanto ao
pagamento dos primeiros días de afastamento. U1n primeiro questionamento refere-se a competencia
da Lei n. 8.213/91 (e da MP 664/2014) quanto a fixar tal obrigacáo, porque, nos termos da CF/88, arts.
194, 195 e 201, cabe a Prevídéncia Social o pagamento dos benefícios e as empresas e trabalhadores o
custeio desse sístema.

99
A empresa contribuí, via de regra, coma alíquota de 20% para o custeio da Seguridade Social e
contribuí também para o Seguro de Acidentes de Trabalho (alíquotas de 1 °/o, 2°/o ou 3o/o, conforme a
atividade económica) para, justamente, custear os beneficios decorrentes dos acidentes de trabalho.
Cabe, pois, aSeguridade Social, mais específicamente a
Previdéncia Social, o pagamento dos
benefícios, em sua integralidade, assim como faz para os demais segurados que nao sao classificados
como empregados.
Entendo, pois, pela inconstitucionalidade desse pagamento por parte do empregador, inclusive
no período em que pennaneceu por 30 dias (vigencia da MP 664/2014), como gravame, ainda, de ter
sido fixado por Medida Provisória, sem qualquer relevancia ou urgencia.
Outro ponto de destaque é a ausencia de contribuicáo previdenciária sobre tal período, em
face das dísposicóes do art. 195 da CF/88 e do art. 22 da Lei n. 8.212/91. A Previdéncia Social insiste
na cobranca da contribuicáo (automática, inclusive, por GFIP), sendo necessário o ingresso de acáo
judicial para a observancia da legíslacáo e já sendo pacífico o entendimento do STJ a respeito. Sobre
o tema, ver o Capítulo 10, subitem 10.1, desta obra.
De toda forma, e até que se declare tal inconstitucionalidade e tal ilegalidade, é fato que a
empresa <leve arcar com esse pagamento, mas cabendo a ela, por seu servico médico (próprio ou em
convenio) o exame médico e o abono das faltas.
Cabe, poís, ao médico da empresa verificar a documentacáo trazida pelo trabalhador para
cornprovacáo da enfermidade/lesáo e do prazo de afastamento, bem como concordar ou nao corn
ela e fixar os días de ausencia que seráo abonados. Essa é a regra disposta no § 42 do art. 60 da Lei
n. 8.213/91:
Art. 60. O auxilio-doenca será devido ao segurado que ficar incapacitado para seu trabalho ou sua atividade habitual,
desde que cumprido, quando foro caso, o período de carencia exigido nesta Lei:
[... ]
§ 4il A empresa que dispuser de servico médico, próprio ou em convenio, terá a seu cargo o exame médico e o abono
a
das faltas correspondentes ao período referido no § 32 e semente deverá encaminhar o segurado pericia médica da
Previdéncia Social quando a incapacidade ultrapassar trinta días.
[... ]
,
E perfeitarnente possível, pois, que o médico analise esses documentos e que examine clínicamente
o trabalhador, sendo-lhe permitido, em caso de dúvida, entrar em contato como médico assistente e
obter dele os esclarecimentos necessários.
A preferencia do médico da e1npresa, em detrimento de qualquer outro, é reconhecida em nossos
Tribunais, conforme ilustra a decisáo proferida pelo TRT da 7ª Regiáo, bem como pela Súmula n. 282
do TST:
RECURSO ORDINARIO. ATESTADO MÉDICO DA EMPRESA. SÚMULA N. 282 DO TST. PREVALENCIA.
MUDAN\:A DE FUN\:ÁO NAO CONFTRJv1ADA. DANO MORAL NÁO CONFIGURADO. Conforme as Súmulas
ns. 15 e 282, ambas do TST, o atestado médico da empresa tem prevalencia sobre o atestado de médico particular
da obreira. No caso, o médico da empresa nao confirmou o atestado médico particular que opinava pela mudanca
de funcáo da obreira, mas concluiu que a reclamante estava apta para o trabalho. Pelo exposto, de se afastar o dano
moral, visto que a empregadora observou os ditames lega is. Recurso ordinario conhecido e provido. (TRT 7n Regíáo.
ROPS 0000576-37.2014.5.07.0016, 2ª Turma, Des. Francisco José Gomes da Silva, Publicacáo em 11.2.2015)
Súmula n. 282, TST: ABONO DE FALTAS. SERVI<;O MÉDICO DA EMPRESA - Ao servico médico da empresa ou
ªºmantido por esta última mediante convenio compete abonar os primeíros 15 (quinze) dias de auséncía ao trabalho.

Quando os afastamentos forem sucessivos, sem que completem trinta días consecutivos, deverá
ser aplicada a regra trazida pelo art. 75 do Decreto n. 3.048/99, combinada com os arts. 302 e 303 da
IN INSS n. 77/2015, qual seja:

100
• Se forem apresentados atestados com duracáo inferior a 30 dias (e retorno ao trabalho entre um e outro) deverá a
empresa verificar se informam a mesma doenca e se entre eles nao decorreu prazo superior a 60 dias. Se for a mesma
doenca e se estiver no prazo referido, deverá a empresa sornar um e outro atestado, até que se complete o prazo de 30
días. A contar do 312 de afastamento, o trabalhador deverá requerer o beneficio junto ao JNSS.

• Se o atestado for de exatos 30 días, com retorno ao trabalho e, posteriormente, for apresentado novo atestado,
deverá também verificar se se trata da mesma enfermidade e se entre os mesmos nao houve decurso de mais de 60
dias. Se for a mesma doenca e estiver no prazo referido, o trabalhador deverá requerer o beneficio de auxílio-doenca
ao INSS para recebimento desse segundo atestado médico.

• Se o atestado for superior a 30 días, a empresa pagar esse primeiro período e o trabalhador receber auxílio-doenca,
com retomo ao trabalho após a alta médica e seu cancelamento. Na sequéncia, após alguns días de trabalho, volta a
apresentar atestado médico. Nessa hipótese, também deverá a empresa verificar se se trata da mesma enfermidade
e se houve decurso de menos de 60 días entre a alta e o novo afastamento, hipótese ern que o trabalhador deverá ser
encamínhado diretarnente ao TNSS para reabertura do beneficio anterior.é"

É possível verificarmos, pois, que a obrigacáo da empresa se limita ao pagamento dos primeiros
quinze días quando se trata da mesma enfermidade e quando entre os atestados apresentados há
prazo de até sessenta días. Apenas registra a IN INSS n. 77/2015, em seu art. 302, que a e1npresa deve
informar essa ocorréncia ao INSS:
Art. 302. Nos casos de afastamentos sucessivos pela mesma doenca, dentro dos sessenta días, nos termos dos§§ 3° e
42 do art. 75 do RPS, a empresa deverá informar todos os períodos de afastarnento e retorno a atividade.

Reiteramos que, urna vez comprovada a necessidade de afastamento por mais de quinze días,
deve a e1npresa entregar ao trabalhador o formulario denominado "Requerimento de Benefício por
Incapacidade",(85> orientando-o de que <leve solicitar ao INSS a concessáo do beneficio de auxilio-
-doenca. E é nesse documento que deve informar os afastamentos sucessivos pela mesma doenca, se
existentes.
Esse requerimento por parte do trabalhador ao INSS pode ser efetuado pelo telefone 135 ou pela
intemet, conforme já abordado no subitem 6.1 desta obra.

Se o empregador concordar que se trata de acidente de trabalho, terá emitido a CAT, e esse
documento deverá ser entregue ao perito médico do INSS juntamente com os documentos médicos
que comprovam a incapacídade, na data agendada para a pericia. Caso a CAT nao tenha sido
emitida pelo empregador, pode o próprio empregado preencher o formulário e entregá-lo, assim
como também podem preenché-lo o médico que lhe prestou atendimento, o sindicato da categoria
ou qualquer autoridade pública.

8.1.5. Manutencáo do benefício

Para que o benefício seja mantido enquanto perdurar a situacáo de incapacídade, o


trabalhador deve se submeter as perícias médicas (a cargo da Previdéncia Social, realizadas pelo
INSS) sempre que for convocado a esse cornparecimento, bem corno participar de processo de
reabilitacáo profissional ou tratamento, prescrito pelo INSS e custeado pela Previdéncia Social,
exceto procedimentos cirúrgicos e transfusáo de sangue, que podern ser recusados pelo segurado
- Lei n. 8.213/91, art. 101.

(84) IN INSS n. 77/2015, art. 309: No caso de novo requerimento, se a pericia médica concluir que se trata de direito a mesma espécie
de beneficio, decorrente da mesma doenca e sendo ñxada a DIB até sessenta dias contados da data da DCB do anterior, será indeferido
o novo pedido, restabelecido o beneficio anterior e descontados os dias trabal hados, quando foro caso.
Parágrafo único. Na sltuacáo prevista no caput, a data de inicio do pagamento - DIP será ftxada no dia imediatamente seguinte ao da
cessacáo do beneficio anterior, ftcando a empresa, no caso de empregado, desobrigada do pagamento relativo aos quinze primeiros
dlas do novo afastamento, conforme previsto no § 32 do art. 75 do RPS.
(85) Modelo constante do Capítulo 14, subitem 14.4.

101
8.1.6. Cancelamento do beneficio - alta irregular pelo INSS e procedimento das partes

A Previdéncia Social deve manter o pagamento do auxílio-doenca até que o trabalhador nao
apresente mais incapacidade para o exercício da atividade habitualmente desenvolvida, ou seja, até
que possa retomar normalmente ao trabalho.
Se a perícia médica do INSS entender pela impossibilidade de retomo a mesma atividade, deve
encaminhar o trabalhador para o processo de reabilítacáo profissional, para que seja treinado para
atividade diversa.
Por fim, se entender pela impossibilidade de retorno até mesmo para profissáo diversa, deverá
cessar o pagamento do auxílio-doenca, mas conceder, imediatamente, o benefício de aposentadoria
por invalidez.
Pela regra disposta no art. 62 da Leí n. 8.213/91, bern como nos arts. 78 e 79 do Decreto n. 3.048/99,
a Previdéncia Social nao pode, de forma alguma, cancelar o benefício do trabalhador enquanto este
permanecer incapaz ou enquanto nao reabilitado para atividade diversa da habitual. Pode, contudo,
conforme permissáo do Decreto n. 3.048/99, art. 78, estabelecer um prazo que entende suficiente para
a recuperacáo da capacidade laborativa (prazo estabelecido pela perícia médica).
Trata-se da alta programada, praticada desde 2006 pelo INSS, em que o perito médico, ao
examinar o trabalhador, concede o benefício e, no mesmo ato, já indica a data em que o benefício
será cancelado, independentemente de nova pericia. Sendo o prazo insuficiente para a recuperacáo
do segurado, é possível um Pedido de Prorrogacáo (pelo telefone 135 ou internet), que deve ser
feito no prazo de até quinze dias antes da alta programada fixada originalmente. Se nessa perícia
de prorrogacáo o médico do INSS entender pela recuperacáo da capacidade e manutencáo da alta,
cabível um Pedido de Reconsideracáo, no prazo de trinta dias. Nesses termos confiram-se os arts.
é

304 a 306 da IN INSS n. 77/2015:


Art, 304. O INSS poderá estabelecer, mediante avaliacáo médico-pericial. o prazo suficiente para a recuperacáo da
capacidade para o trabalho do segurado.
§ J!!Na análise médico-pericial deverá ser fixada a data do inicio da doenca - DID ea data do inicio da incapacidade -
DII, devendo a decisáo ser fundamentada a partir de dados clínicos objetivos, exarnes complementares, comprovante
de internacáo hospitalar, atestados de tratamento ambularorial, entre outros elementos, conforme o caso, sendo que
os critérios utilizados para fixacáo dessas datas deveráo ficar consignados no relatório de conclusáo do exame.
§ 22 Caso o prazo fixado para a recuperacáo da capacidade para o seu trabalho ou para a sua atividade habitual se
revele insuficiente, o segurado poderá:
I - nos quinze dias que antecederetn a DCB, solicitar a realízacáo de nova perícia médica por meio de pedido de
prorrogacáo - PP;
H - após a DCB, solicitar pedido de reconsideracáo - PR, observado o disposto no § 32 do art. 303, até trinta
dias depois do prazo fixado, cuja pericia poderá ser realizada pelo mesmo profissional responsável pela avaliacáo
anterior; ou
III - no prazo de trinta dias da ciencia da decisáo, interpor recurso a JRPS.
Art. 305 - No caso de indeferimento de perícia inicial (AXl) e PP, poderá ser solicitado PR ou interposto recurso a
JR/CRPS no prazo de até trinta dias, contados da cornunicacáo da conclusáo contrária.
§ 12 O PR será apreciado por meío de novo exame médico pericial em face da apresentacáo de novos elementos por
parte do segurado, podendo ser realizado por qualquer perito médico, inclusive o responsável pela avaliacáo anterior.
§ 22 O prazo para apresentacáo do PR é de até trinta días, contados:
I - da data de realizacáo do exame de conclusáo contrária, nos casos de perícia inicial;
TI - do dia seguinte a Data da Cessacáo do Beneficio - DCB, ressalvada a existencia de PP nao atendido ou negado; e
IIT - da data da realizacáo do exarne da decisáo contrária do PP.
§ 32 Nao caberá solicitacáo de novo PR em beneficio no qual já tenha ocorrido outro PR.

102
§ 4º No caso de indeferimento do PR poderá ser interposto recurso á JR/CRPS no prazo de até trinta días, contados da
comunicacáo da conclusáo contrária.

Art. 306. Constatada incapacidade decorrente de doenca diversa da geradora do beneficio objeto de PP ou PR, com
alteracáo do Código Internacional de Doencas - CID devidamente justificado, o pedido será transformado em
requerimento de novo benefício, independente da data de fixacáo da DII, observando-se o cumprimento do requisito
carencia, se for o caso.
Parágrafo único. A DIB e a D.IP seráo fixadas:
I - no dia seguinte a DCB, se a DH for menor ou igual a data da cessacáo do beneficio anterior; e
U - na DII, se a DII for maior que a data da cessacáo do beneficio anterior.

Nao obstante essas sejam as disposicóes legais e normativas sobre o terna, a prática tem se
mostrado completamente diferente, sendo comum o INSS cancelar o pagamento do auxílio-doenca
de pessoas ainda enfermas, com incapacidade.
O que acontece nesses casos, quando se trata de trabalhador empregado, é o comparecimento ao
local de trabalho, com apresentacáo de dois documentos:
a) o cancelamento feito pelo INSS; e
b) um atestado médico (emitido pelo médico assistente) informando a persistencia da
enfennidade e da incapacidade laborativa.
Ternos, entáo, que trabalhar com duas possibilidades: ou o INSS agiu ilegalmente cancelando
o benefício ou o trabalhador (e seu médico assistente) está tentando fraudar a Previdéncia Social,
obtendo benefício ilegahnente.
Qualquer que seja a hipótese, nao temo empregador absolutamente nenhuma responsabilidade,
gerenciamento ou possibilidade de resolver a situacáo. Nao há jurídicamente qualquer forma da
empresa obrigar (ou mesmo solicitar) ao INSS que altere sua decísáo anterior e que proceda a
reabertura do benefício cancelado, ainda que nao se trate de fraude.
Quem precisa fazer algo a respeito é o próprio trabalhador, seja ingressando com os recursos
administrativos possíveis (pedido de reconsideracáo, recurso a JRPS) ou postulando judicialmente
(contra o INSS) pela reabertura do benefício até que esteja capaz para o retorno ao trabalho.
Sequer o exame médico de retorno deve ser providenciado pelo empregador, já que a Norma
Regulamentadora n. 07 (PCMSO - Programa de Controle Médico e Saúde Ocupacional) determina
que esse seja realizado no primeiro dia de retorno e já que o trabalhador, ao apresentar o atestado
de seu médico assistente, está a informar que permanece incapaz, sem possibilidade de retorno.
Confiram-se os exatos termos dos subitens que tratam do tema (destaque meu):
7.4.1. O PCMSO deve incluir, entre outros, a realizacáo obrigatória dos exames médicos:
a) admissional:
b) periódico;
e) de retomo ao trabalho:
d) de mudanca de funt;ao;
e) demissional.
[... )
7.4.3.3. No exame médico de retorno ao trabalho, deverá ser realizada obrigatoriamente no primeiro dia da volta ao
trabalho de trabalhador ausente por período igual ou superior a 30 (trinta) días por motivo de doenca ou acidente,
de natureza ocupacional ou nao, ou parto.

Nao havendo efetívo retorno ao trabalho, nao há, poís, que se falar ou pretender a realizacáo do
exame médico de retorno.

103
Tampouco é possível ao empregador permitir que o empregado retorne as atividades quando esse
apresentou atestado de seu médico assistente afirmando a persistencia da incapacidade. E nao há que
se argumentar ser obrigacáo da empresa analisar esse atestado e abonar novamente as faltas, porque,
nos tennos da Lei n. 8.213/91, como já observado no subitem 8.1.4, tal procedirnento existe sornen te nos
prirneiros dias de afastarnento de urna determinada enferrnidade, cabendo ao INSS, depois, manter o
beneficio até a recuperacáo da capacidade laborativa do segurado. Nao há, absolutamente, nenhum
dispositivo legal ou normativo determinando que o médico da empresa deva analisar e corroborar
com todos os atestados emitidos pelos médicos assistentes.P" durante o tratamento e a incapacídade.
Essa funcáo é, ao contrário, do perito médico do INSS, que semente pode contrariar a opiniáo do
médico assistente se tiver elementos que comprovem a recuperacáo para o trabalho.
E o trabalhador deve agir rapidamente, seja administrativamente ou com o ingresso de acáo
judicial, porque o INSS terá cancelado o pagamento, e a e1npresa1 por sua vez e como já explicado,
nao tero qualquer obrigacáo de remunerar esses dias de ausencia. Ou seja, em decorréncia do ato
ilegal praticado pela pericia médica do INSS (e inconstitucional, porque fere também o art. 194 e o
art. 201 da CF/88), o trabalhador ficará sem qualquer renda até que consiga reabrir o benefício que
foi cancelado.
Qualquer acáo de indenizacáo (pelos prejuízos sofridos no período sem a rernuneracáo, inclusive
morais) deve ser requerida em face do INSS, e nao do empregador, que, como já dito, nao tem como
interferir nos atos da Previdéncia Social e nem tampouco qualquer obrigacáo em remunerar, no lugar
do INSS1 os dias de incapacídade. Note-se que os empregadores e os trabalhadores pagam tributos
altíssimos (CF/88, art. 195) para que a Previdéncia Social pague o benefício durante o período de
incapacidade (CF/88, arts. 194 e 201), seja ela acidentária ou nao.
Pensar que o empregador é responsável pela situacáo de inconstitucionalidade e ilegalidade
praticada pelo INSS, responsabilizando-o pelo período de afastarnento, é contrariar toda e qualquer
legíslacáo trabalhista e previdenciária, além de, socialmente, deixar de resolver efetivamente o
problema, já que o INSS nao sofre qualquer punicáo e permanece praticando a alta para pessoas
ainda incapazes. É o que a [ustica do Trabalho está a fazer, infelizmente, nas decisóes que vém sendo
praticadas, como ilustra a noticia divulgada pelo TRT da 3ª Regiáo:
Publicado ern 13 de Setembro de 2013 as 10h13
TRT3 - Empregador é responsável por pagamento de parcelas contratuais após alta previdenciária
A [ustica do Trabalho mineira tem julgado muitas reclamacóes questíonando a decísáo do empregador de impedir
o retorno ao trabalho depois que o empregado recebe alta do INSS. É que tem sido comum a situacáo em que o
órgáo previdenciário concede alta ao trabalhador após o afastamento para tratamento de saúde e, quanto este se
apresenta de volta ao trabalho, o médico da empresa entende que ele continua inapto para reassumir suas funcóes.
Aí o empregado se ve numa situacáo difícil: sem poder voltar ao emprego, sem receber salario e ainda sem o beneficio
previdenciário.
O entendimento que tem prevalecido nos julgamentos do TRT de Minas é o de que o empregador deve arcar com
o pagamento das parcelas contratuais após a alta previdenciária. Nesse sentido também foi o posicionamento
adorado pela Turma Recursal de [uiz de Fora, ao analisar o recurso de urna trabalhadora que protestou contra a
decisáo que havia lhe negado esse direito. A reclamante contou que ficou afastada pelo JNSS por motivo de doenca e
quando foi liberada pela pericia para retornar ao trabalho, a empregadora nao permitiu, já que o servico médico da
empresa diagnosticou incapacidade laboral. Dando razáo a reclamante, a Turma de julgadores modificou a sentenca
e condenou aré, urna empresa de servícos, ao pagamento das verbas contratuais devidas no período do afastamento
previdenciário.
Conforme ponderou o relator, desembargador Luiz Antonio de Paula Iennaco, a iniciativa de impedir o retorno ao
trabalho após a cessacáo do beneficio previdenciá6rio foi do empregador. Este manteve o contrato de trabalho em
vigor, de modo que a reclamante perrnaneceu a sua disposicáo. Portante, a empresa deve responder pelos efeitos

(86) A maioria das empresas, inclusive, nao tem servíco médico interno (por nao serem obrigadas, em razáo do número de empre-
gados e grau de risco) e terceirizam o trabalho do PCMSO. Esses exames custarn valor considerável, e como sao costeados pelo em-
pregador, só precisam ser obrigatoriamente realizados nas hipóteses determinadas na própria NR-7, e nao conforme solicitacáo do
empregado nem tampouco para subsidiar pedido junto ao INSS. A docurnentacáo médica que será entregue no INSS deve ser fornecida
pelo médico assistente do trabalhador, seja particular, de convenio ou do SUS.

104
pecuniáríos dessa suspensáo contratual, ainda que nao tenha havido prestacáo de servico. O que nao se pode admitir
é que a reclamante nao receba salários para prever o seu sustento e ao mesmo tempo fique atrelada a um contrato cujo
empregador lhe recuse trabalho, ñcando, portante, sem receber salário nem beneficio, destacou no voto.
Segundo o desembargador, diante da conclusáo do JNSS de que a reclamante estava apta a exercer suas ativídades,
cabia a empresa permitir o seu retorno, ainda que em outra funcáo, compatível coma sua condicáo de saúde. O ma-
gistrado lernbrou que art, 89 da Lei n. 8.213/91 assegura a reabilitacáo profissional do trabalhador cuja capacidade
de trabalho tetilla sido reduzida. Nesse contexto, considerou que a perícia médica realizada pelo INSS, que concluiu
pela aptidáo da trabalhadora, deve prevalecer, ainda que o servico médico empresarial tenha chegado a conclusáo
diferente. De acordo como relator, o ordenamento jurídico ainpara a determinacáo de pagamento dos salários du-
rante esse período pela reclamada, já que, cessado o beneficio previdenciário, o contrato da reclamante encontrava-se
em vigor (art. 4º da CLT).
Citando decísóes anteriores do TRT mineiro com o mesmo entendímento, o desembargador relator decidiu
dar provimento ao recurso para condenar a ré ao pagamento dos salários devidos no período do afastamento
previdenciário, sendo acompanhado pela Turma de julgadores.
(0000245-34.2013.5.03.0038 RO)
Fonte: Tribunal Regional do Trabalho da 3i Regíáo

Coma devida venia, a única possibilidade que visualizo para tal condenacáo refere-se a hipótese
de a trabalhadora ter retornado ao trabalho, após a alta do INSS, sem apresentar qualquer atestado
médico informando pela incapacidade. Nesse caso, a empresa teria agido corretamente em fazé-
la passar pelo exame médico de retorno (porque ela retornou para assumir as funcóes, e nao para
apresentar outro atestado de incapacidade), e pode ser que, nesse exame, tenha o médico da e1npresa,
equivocadamente, concluído pela incapacidade.
Nao sendo essa a hipótese (a íntegra do acórdáo nao traz informacáo sobre a entrega, ou nao, de
atestado por parte da trabalhadora), a decisáo está totalmente dissonante da legislacáo, trabalhista
ou previdenciária. Primeiro porque, se a empregada nao apresentou atestado de incapacidade, a
empresa agiu corretarnente em providenciar o exame de retorno. Também porque, se comprovada
a incapacidade por parte da medicina do trabalho (médico da empresa), por óbvio que a e1npresa
nao poderia colocar a pessoa para trabalhar ( como trabalhar doente, incapaz?). Por fim, porque a
reabilitacáo mencionada na decísáo nao cabe a empresa, mas sim ao próprio INSS, nos tennos do art.
89 da Lei n. 8.213/91 e arts. 398 a 406 da IN INSS n. 77/2015.
Está ocorrendo, pois, um entendirnento totalmente equivocado sobre essa situacáo recorrente,
que, no Judiciário Trabalhista, foi apelidada de "limbo previdenciário". Nao há e nunca houve limbo
algum. A CF/88 e a Lei n. 8.213/91 sao bastante claras e garantem ao trabalhador o recebimento
do auxílio-doenca enquanto estiver incapaz para o exercício da profissáo habitualmente exercida. E
garantem, também, que a Previdéncia Social promova a reabilitacáo para profíssáo diversa, se nao
for possível recuperar a capacidade para a profissáo habitual, sem que o benefício de auxílio-doenca
seja suspenso.
Por óbvio, poís, que qualquer ac;ao judicial deveria ser direcionada ao INSS ( com pedido
liminar para reabertura imediata do benefício), mas por razóes que ainda desconheco, estáo sendo
direcionadas a pessoa errada (empresa/empregador), que nao tem como corrigir o ilícito praticado
pelo INSS e que, na maioria das vezes, está sendo injustamente condenada.
Talvez a solucáo mais acertada, em face da prepositura das acóes contra o empregador, seja o juiz
do trabalho intimar o INSS, para que apresente nos autos da reclamatória trabalhista cópia de toda
a documentacáo médica apresentada pelo trabalhador, bem como da conclusáo da pericia médica
do INSS e seus fundamentos, especialmente para apresentar as razóes pelas quais a documentacáo
a
médica foi desconsiderada e que levaram conclusáo pela alta e cancelamento do benefício. Referida
intimacáo encontra fundamento no art. 341 do CPC, in verbis:
Art. 341. Compete ao terceiro, em relacáo a qualquer pleito:
I - informar ao juiz os fatos e as circunstancias, de que tenha conhecimento;
JI - exibir coisa ou documento, que esteja em seu poder.

105
Caso reste comprovado pelos documentos da parte autora, pela prova pericial médica e pela
ausencia de fundamento por parte do INSS para o cancelamento do benefício que a incapacidade
persiste, estará igualmente comprovado que a lide foi proposta equivocadamente contra o empregador
e que o réu é, em verdade, o próprio INSS. O empregador nao deve figurar no polo passivo da acáo,
e a [ustica do Trabalho sequer tem competencia para julgá-la, devendo extinguir o processo sem
julgamento do mérito. Se o benefício foi decorrente de acidente de trabalho, a acáo deve ser proposta
contra o INSS na [ustica Estadual, e se for decorrente de doenca comum, nao relacionada ao trabalho,
na [ustica Federal.
Quanto aos empregadores, tenho por melhor procedimento o cumprimento, a risca, das regras
da NR-7 e semente encaminhar o trabalhador ao exame de retorno quando esse, ao comparecer na
e1npresa após a alta do INSS, nao apresentar qualquer documento médico que informe a persistencia
da incapacidade. Se apresentar, <leveo empregador apenas orientá-lo de que deve buscar seus direitos
junto ao INSS, seja por recurso administrativo ou ingresso de acáo judicial.
Ressalto, urna vez mais, que encaminhar o trabalhador para o exame médico de retorno ( quando
há o atestado do médico assistente), pelo entendimento atual da [ustica do Trabalho (equivocado, no
meu ponto de vista, mas existente), acaba por conferir ao empregador urna responsabilidade que nao
lhe pertence, passando a substituir o INSS no pagamento do benefício por incapacidade, já que está
constantemente sendo condenado a pagar os días de ausencia, mesmo sem a prestacáo dos servicos.
Se a pretensáo do empregador é auxiliar o empregado em obter junto ao INSS seus direitos, o
melhor caminho é fornecer-lhe descricáo detalhada das funcóes desempenhadas (formulário PPP,(8l)
por exemplo) para que o médico assistente, que trata da enfennidade, possa redigir um relatório
mais completo, nos termos da Resolucáo CFM n. 1.658/2002, art. 3º, que, pela importancia do tema,
ora transcrevo novamente:
Art. 3° Na elaboracáo do atestado médico, o médico assistente observará os seguintes procedimentos:
[... ]
Parágrafo único. Quando o atestado for solicitado pelo paciente ou seu representante legal para fins de pericia médica
deverá observar:
I - o diagnóstico;
IT - os resultados dos exames complementares:
III - a conduta terapéutica:
IV - o prognóstico;
V - as consequéncias a saúde do paciente;
VI - o provável tempo de repouso estimado necessario para a sua recuperacáo, que complementará o parecer
fundamentado do médico perito, a quem cabe legalmente a decisáo do benefícío previdenciário, tais como:
aposentadoria, invalidez definitiva, readaptacáo:
vrr - registrar os dados de maneira legível;
VIII - identificar-se como emissor, mediante assinatura e carimbo ou número de registro no CRM.

Registre-se, por exaustáo, que o trabalhador precisa comprovar perante o INSS nao a existencia
da doenca, mas sim a existencia de incapacidade para o exercício da profissáo habitualmente exercida.
E quem possui condicóes de atestar clinicamente essa incapacidade é o médico assistente, que tem
informacóes sobre a conduta terapéutica (e seus resultados), sobre o resultado de exames e o provável
tempo de repouso necessário a recuperacáo do paciente.
O departamento médico da empresa também pode, se assirn desejar, entrar em contato com
o médico assistente e solicitar que seja emitido atestado médico atualizado, informando que o

(87) Perfil Profissiográfico Previdenciário.

106
trabalhador deve permanecer afastado das atividades e justificando, se possível, as razóes. Esse
documento deve ser guardado pelo empregador porque serve como justificativa das faltas, impedindo
urna rescisáo por abandono de ernprego.
Um outro procedirnento possível é o departamento médico da en1presa, juntamente com o
departamento de recursos humanos, tentar encontrar alguma funcáo que possa ser exercida pelo
trabalhador, considerando a incapacidade ainda existente (restricóes). Se encontrada alguma funcáo
possível, é conveniente ter por escrito a concordancia do próprio trabalhador e também de seu médico
assistente, documentos que devem permanecer guardados para fins de cornprovar, eventuahnente,
a razáo de o trabalhador ter retornado as atividades profissionais mesmo estando doente. Trata-se
de saída possível e que vem sendo praticada por alguns médicos e algumas empresas, e ainda que
respalde o empregador em eventual reclamatória trabalhista, nao posso concordar e dizer que o
procedimento está correto.
A Constituicáo Federal (arts. 194 c/c 201) e a Lei n. 8.213/91 (arts. 59 e seguintes) garantern ao
trabalhador o direito de pennanecer af astado, receben do auxílio-doenca, enquanto está incapaz. E
tambérn garantern que o processo de reabilitacáo para funcáo diversa deve ser promovido pelo INSS,
durante a percepcáo do auxílio-doenca. Assim, nao pode o trabalhador ser obrígado a trabalhar (ainda
que ern outra funcáo) enguanto está incapaz, e nao tema empresa que aceitar um trabalhador doente,
que ainda nao se recuperou para o trabalho. Insisto que o INSS está descumprindo a Constituicáo
Federal e tarnbém a Lei e que a [ustica do Trabalho está cometendo grande equívoco em julgar tais
matérias, condenando os empregadores. De toda forma, nao é porque existe um erro que esse deve ser
perpetuado, cabendo a todos os operadores do Direito, além de trabalhadores e empresas, combater
de todas as formas possíveis para sua correcáo e para que a lei seja observada.
Também importa mencionar que, enquanto discute administrativa ou judicialmente com o
INSS sobre a reabertura do beneficio de auxílio-doenca, o trabalhador precisa manter o empregador
informado, justificando as ausencias com os atestados médicos que solicitam o afastamento das
atividades em razáo da permanencia da incapacidade. Sao esses documentos médicos que deixaráo
o contrato de trabalho suspenso, impedindo a empresa de entender as ausencias como abandono de
emprego e, consequenternente, aplicar a dispensa por justa causa (CLT, art. 482).
Novamente utilizo-me de notícia divulgada pelo TRT da 3ª Regiáo para ilustrarum entendimento
que entendo equivocado. Conforme demonstra a ementa a seguir, o trabalhador nao retornou ao
trabalho e, aoque parece, tampouco justificou as ausencias após a alta praticada pelo INSS, com o
consequente cancelamento do benefício. Assim, acertadamente decidiu o juízo de primeiro grau pela
manutencáo da justa causa, mas equivocadamente fundamentou sua decisáo no fato de o trabalhador
ser obrigado a retornar as atividades quando o INSS cancela o pagamento do beneficio. Confira-se:
TRT3 - Empregado que abandonou o emprego ao fim do auxílio-doenca nao consegue reverter justa causa
Um operador de telernarketing nao conseguíu reverter na J ustica do Trabalho a justa causa por abandono de emprego
aplicada pelo banco empregador, É que, depois de ficar afastado pelo INSS durante tres meses por motivo de doenca,
ele nao mais retornou ao trabalho após receber alta previdenciária.
As prevas apresentadas pelo banco para atestar o abandono de emprego convenceram a juíza substituta Andréa
Buttler, que julgou a reclamacáo na 9ª Vara do Trabalho de Belo Horizonte: foram anexados cartóes de ponto e
telegramas, sendo urn com recibo de entrega assinado pelo reclamante, demonstrando que ele foi notificado em
26.3.2014 e 14.4.2014 para retomar ao trabalho ou justificar a sua ausencia. Na mensagem, a empresa o advertiu a
respeito da possibilidade de caracterizacáo do abandono de emprego.
Na decísáo, a juíza ressaltou que o reclamante confirmou em audiencia seu enderece, para onde foram enviados os
telegramas. A magistrada nao encontrou nenhuma prova atestando a impossibilidade de retomo do ex-ernpregado
ao trabalho no banco.
Segundo destacou a julgadora, o próprio reclamante inforrnou que interpós recurso administrativo junto ao INSS,
mas a prorrogacáo do auxílio-doenca foi negada pela autarquía. Se o autor nao voltou ao trabalho após ter sido
considerado apto para tanto pelo INSS, ainda que estivesse discutindo esta decisáo administrativamente, nao poderia
se esquivar de comparecer ao trabalho, enquanto esperava pelo deslinde daquele recurso administrativo, pontuou.

107
Considerando o número de faltas injustificadas, superiores a 30 días, a julgadora presumiu a intencáo do reclamante
de nao mais trabalhar, reconhecendo a versáo de abandono de emprego, nos termos do 482, alinea i, da CLT. O
trabalhador também havia pedido urna indenizacáo por da110 moral, a qual foi negada, tendo em vista a ausencia
de abuso de direito e a correta aplicacáo da dispensa por justa causa. Nao houve recurso e a decisáo transitou em
julgado,
(n, 00666-2014-009-03-00-2)
Fonte: Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Regíáo

O que justifica a suspensáo nao é apenas o beneficio previdenciário concedido, mas também
o atestado médico apresentado que informa a incapacidade. Se assim nao fosse, o que fazer com
um trabalhador já aposentado que venha a adoecer, já que o INSS nao acumula o pagamento da
aposentadoria com o auxílio-doenca? Ou algum outro que adoece antes de cumprir a carencia de
doze contribuicóes mensais, necessárias a percepcáo do beneficio? Teriarn que trabalhar mesmo
estando enfermos, totalmente incapazes?
Parece-me óbvio que o entendimento se encentra equivocado, jamais sendo possível a empresa
aceitar para o exercício da atividade um trabalhador que ainda está incapaz. O contrário poderia nao
somente agravar o estado de saúde como colocar em risco o trabalhador e o ambiente onde exerce as
atividades, conforme o caso. Pode até ser que o magistrado possua igual entendimento, mas nao é o
que extraímos da sentenca proferida, que, inclusive, transitou em julgado.
Deve, pois, o trabalhador justificar as faltas com a apresentacáo dos atestados médicos se ainda
estiver incapaz e discutir junto ao INSS (na esfera administrativa ou judicial) a obtencáo de seu
direito. Se comprovar a incapacidade, o INSS será condenado a pagar todo o período de cessacáo do
benefício e, se nao comprovar, nada receberá do INSS e tampouco do empregador, devendo arcar
com as consequéncias da decísáo por ele adotada de nao retornar ao trabalho.

8.2. Aposentadoria por invalidez

Disciplinada nos arts. 42 a 47 da Lei n. 8.213/91, a aposentadoria por invalidez deve ser concedida
aos segurados do RGPS<88> sempre que a incapacidade existente for definitiva (pela medicina atual)
e impedir o trabalhador de exercer nao semente sua atividade profissional habitual, mas toda e
qualquer outra. Ou seja, a íncapacidade precisa ser total e definitiva, sem possibilidade de ser o
trabalhador reabilitado para atividade diversa.
Referido beneficio pode ser concedido aos trabalhadores que estejarn recebendo auxílio-doenca,
caso se verifique essa condicáo de incapacidade total e definitiva, mas a percepcáo deste nao é um
requisito a concessáo da aposentadoria, que, portante, pode ser paga ao trabalhador desde o primeiro
día de afastamento/atestado. Eis o teor dos arts. 42 e 43 da Lei de Beneficios:
Art. 42. A aposentadoria por invalidez, urna vez curnprida, quando foro caso, a carencia exigida, será devida ao
segurado que, estando ou nao em gozo de auxílio-doenca, for considerado incapaz e insusceptível de reabilitacáo
para o exercício de atividade que lhe garanta a subsistencia, e ser-lhe-á paga enquanto permanecer nesta condicáo.
§ lQ A concessáo de aposentadoria por invalidez dependerá da venficacáo da condicáo de incapacidade mediante
exarne médico-pericial a cargo da Previdéncia Social, podendo o segurado, as suas expensas, fazer-se acompanhar de
médico de sua confianca.
§ 2º A doenca ou lesáo de que o segurado já era portador ao filiar-se ao Regime Geral de Previdéncia Social nao lhe
conferirá direito a aposentadoria por invalidez, salvo quando a incapacidade sobrevier por motivo de progressáo ou
agravamento dessa doenca ou lesáo.
Art. 43. A aposentadoria por invalidez será devida a partir do dia imediato ao da cessacáo do auxílio-doenca,
ressalvado o disposto nos§§ 12, 2º e 32 <leste artigo.

(88) Regime Geral de Previdéncia Social

108
§ 12 Concluindo a perícia médica inicial pela existencia de incapacídade total e definitiva para o trabalho, a
aposentadoria por invalidez será devida:
a) ao segurado empregado, a contar do décimo sexto dia do afastamento da atividade ou a partir da entrada do
requerimento, se entre o afastamento e a entrada do requerimento decorrerern mais de tri.nta ctias;
b) ao segurado empregado doméstico, trabalhador avulso, contribuinte individual, especial e facultativo, a contar
da data do início da incapacidade ou da data da entrada do requerimento, se entre essas datas decorrerem mais de
trinta días.
[ ... )
Pelo teor dos artigos podemos compreender que os requisitos de carencia<89> e qualidade de
segurado sao exatamente os mesmos exigidos para a concessáo do benefício de auxílio-doenca, razáo
pela qual remetemos o leitor ao subitem 8.1 desta obra. O que vai determinar se o INSS irá conceder
um ou outro benefício é somente a duracáo da incapacidade (se é definitiva ou náo) e sua extensáo (se
impede o trabalhador de exercer apenas a profissáo habitual ou toda e qualquer profissáo).
A documentacáo médica deve, pois. ser robusta, de forma a nao deixar dúvidas sobre a inexis-
tencia de tratamento ou possibilidade de recuperacáo. Também deve mencionar, claramente, quais
as limitacóes impostas ao paciente, para que o perito do INSS compreenda pela incapacidade total.

8.2.1. Valor do beneficio

Até a data de 28.04.1995 a aposentadoria por invalidez, decorrente de acidentes de trabalho,


correspondia a 100°/o do salário de benefício ou do salário de contribuicáo vigente no día do acidente,
o que fosse mais vantajoso ao trabalhador. Para as demais situacóes, nao acidentárias, esse percentual
era de 80o/o, acrescido de mais 1 % para cada grupo de doze contríbuicóes pagas, observando-se o
limite de 100°/o.
Note-se, pois, que o INSS era obrígado a calcular a média dos últimos 36 salários de contribuicáo
(remuneracóes), comparando-a com a última remuneracáo recebida pelo trabalhador quando do
acidente, bem como a pagar-lhe o maior dos dois valores.
A contar de 29.04.1995, data de publicacáo da Lei n. 9.032, o percentual passou a ser de 100% para
toda e qualquer situacáo (acidentária ou nao), nao mais existindo a comparacáo coma remuneracáo
da ativa.
Por fim, em 29.11.1999, nova alteracáo ocorreu na regra de cálculo por forca da publicacáo
da Leí n. 9.876, determinando que a média deveria compreender 80% das maiores remuneracóes
desde 07/1994 até o mes anterior ao requerimento do beneficio, e nao mais dos últimos 36 meses
- Lei n. 8.213/91, arts. 29 e 44.
Tarnbém é importante destacar que, nos termos do art. 45 da Lei n. 8.213/91, o valor da
aposentadoria poderá ser acrescido de mais 25°/o caso o trabalhador consiga comprovar que, em razáo
do grau de incapacidade a que está acometido, necessita constantemente do auxílio de terceiros.
Confira-se:
Art. 45. O valor da aposentadoria por invalidez do segurado que necessitar da assísténcía permanente de outra
pessoa será acrescido de 25'Yo (vinte e cinco por cerito).
Parágrafo único. O acréscimo de que trata este artigo:
a) será devido ainda que o valor da aposentadoria atinja o limite máximo legal;
b) será recalculado quando o beneficio que lhe deu orígem for reajustado;
e) cessará com a morte do aposentado, nao sendo incorporável ao valor da pensáo.

(89) A carencia nao é exigida quando a incapacidade decorrer de acidente do trabalho.

109
Caso essa necessidade de auxílio este]a presente desde o início da incapacidade, o próprio perito
do INSS deverá atestá-la, recomendando o pagamento do adicional. Caso nao seja essa a situacáo e
essa necessidade se apresente semente em momento posterior, com o agravamento da enfermidade,
deverá o trabalhador requerer expressamente esse pagamento ao INSS e submeter-se a urna nova
perícia para comprovar suas alegacóes.
Da decisáo de indeferimento, se existente, caberá recurso administrativo a JRPS/CRPS ou íngresso
de a<;ao judicial para obtencáo direito, sendo importante destacar que, sendo a incapacidade decorrente
de acidente de trabalho, a competéncia para o trámite da acáo judicial será da [ustica Estadual.

8.2.2. Data de início do benefício - pagamento, pela empresa, dos primeiros


quinze dias de afastamento

Também nessa modalidade de benefício (aposentadoria por invalidez), determina o legislador


ordinário (Leí n. 8.213/91, art. 42, § 2º) que cabe a empresa o pagamento dos prirneiros dias de
afastamento.
Inicialmente, pela redacáo original da Lei de Benefícios, esse prazo foi fixado em quinze dias
e, comas alteracóes promovidas pela Medida Provisória n. 664/2014, passou a ser de trinta dias. No
entanto, como o Congresso Nacional nao aprovou tal alteracáo, voltou a vigorar a redacáo original
do art. 60 da Lei n. 8.213/91, com obrígacáo legal de pagamento apenas da primeira quinzena.
Trata-se da mesma regra aplicada ao auxílio-doenca e, por isso, mantenho o entendimento sobre
a inconstitucionalidade de tal obrigacáo, remetendo o leitor ao subitem 8.1.4 desta obra.

8.2.3. Manutencáo e cancelamento do benefício

Nao obstante seja necessário comprovar urna incapacidade total e definitiva para a obtencáo da
aposentadoria por invalidez, sua duracáo nao é vitalicia, podendo ser cancelada caso o trabalhador
recupere a capacidade laborativa.
Por tal razáo, o INSS pode convocar o segurado beneficíário a comparecer a perícias médicas de
revisáo, no intuito de co1nprovar se permanece a situacáo da incapacidade total e definitiva, conforme
permissivo constante do art. 101 da Lei n. 8.213/91. No entanto, referido dispositivo foi alterado em
dezembro/2014 pela Leí n. 13.063, que, incluindo os§§ 1º e 2º, isentou os aposentados coro mais de
sessenta anos dessa comprovacáo, conforme transcrevo:
Art. 101. O segura do em gozo de auxílio-doenca, aposentadoria por invalidez e o pensionista inválido estáo obrigados,
sob pena de suspensáo do beneficio, a submeter-se a exame médico a ca.rgo da Previdéncia Social, processo de
reabilitacáo profissional por ela prescrito e custeado, e tratamento dispensado gratuitamente, exceto o cirúrgico e a
transfusáo de sangue, que sao facultativos.
§ 1si O aposentado por invalidez e o pensionista inválido estaráo isentos do exame de que trata o caput após
completarem 60 (sessenta) anos de idade.
§ 2° A ísencáo de que trata o§ 1" nao se aplica quando o exame temas seguintes finalidades
I - verificar a necessidade de assisténcía permanente de outra pessoa para a concessáo do acréscimo de 25% (vinte
e cinco por cerito) sobre o valor do beneficio, conforme disp6e o art. 45;
JI - verificar a recuperacáo da capacídade de trabalho, mediante solicitacáo do aposentado ou pensionista que se
julga.r apto;
IH - subsidiar autoridade judiciária na concessáo de curatela, conforme díspóe o art. 110.
Verificando-se a recuperacáo da capacidade, o INSS semente poderá cancelar automaticamente
o benefício se o segurado tiver retornado voluntariamente ao trabalho (Leí n. 8.213/91, art. 46). Caso
contrário, deverá observar o pagamento das mensalidades de recuperacáo, conforme previsáo do art.
47 do mesmo diploma legal:

110
Art. 47. Verificada a recuperacáo da capacidade de trabalho do aposentado por invalidez, será observado o seguinte
procedimento:
1 - quando a recuperacáo ocorrer dentro de 5 (cinco) anos, contados da data do iníci.o da aposentado ria por invalidez
ou do auxílio-doenca que a anteceden sem interrupcáo, o beneficio cessará:
a
a) de irnediato, para o segurado ernpregado que tiver direito a retornar funcáo que desempenhava na empresa
quando se aposentou, na forma da legislacáo trabalhista, valendo como documento, para tal fim, o certificado de
capacidade fornecido pela Previdéncia Social; ou
b) após tantos meses quantos forem os anos de duracáo do auxílío-doenca ou da aposentadoria por invalidez, para
os demais segurados;
II - quando a recuperacáo for parcial, ou ocorrer após o período do inciso I, ou ainda quando o segurado for
declarado apto para o exerdcio de trabalho diverso do qua! habitualmente exercia, a aposentadoria será mantida,
sem prejuízo da volta a atividade:
a) no seu valor integral, durante 6 (seis) meses contados da data em que for verificada a recuperacáo da capacidade;
b) com reducáo de 50% (cinquenta por cento), no período seguinte de 6 (seis) meses;
e) com reducáo de 75% (setenta e cinco por cento), tarnbérn por igual período de 6 (seis) meses, ao término do qua!
cessará definitivamente.

8.3. Auxílio-acidente

O benefício de auxílio-acidente encontra prevísáo legal nos arts. 18, §12, e 86 da Lei n. 8.213/91
e é concedido somente para os segurados empregados, para os trabalhadores avulsos e para os
segurados especíais, ou seja, para os mesmos beneficiários que possuem direito a caracterizacáo
previdenciária de um acidente de trabalho. Os empregados domésticos passaram a ter direito a esse
benefício somente agora, a contar de 2.6.2015, em face da publicacáo da Lei Cornplementar n. 150.
No entanto, sua concessáo está atrelada a um acidente de qualquer natureza, podendo ser
decorrente do trabalho ou nao, como ocorre, por exemplo, com segurados que sofrem acidentes de
transito, acidentes domésticos e acidentes desportivos, entre outros.
Alérn da comprovacáo do acidente, o segurado precisa ter recebido do INSS o benefício de
auxílio-doenca (ou comprovar que a ele tinha direito) e, quando da alta e cancelamento de tal
prestacáo, fazer prova da existencia de urna sequela definitiva e que reduz sua capacidade laborativa.
Assim, e nos termos do § 4º do art. 104 do Decreto n. 3.048/99, nao daráo ensejo ao benefício as
seguintes situacóes:
I - que apresente danos funcionais ou reducáo da capacidade funcional sem repercussáo na capacidade laborativa: e
JI - de mudanca de funcáo, mediante readaptacáo profissional promovida pela empresa, como medida preventiva,
em decorréncia de inadequacáo do local de trabalho.

O Decreto n. 3.048/99, em seu Anexo III, traz exemplos de situacóes por ele admitidas para o
recebimento do beneficio, quais sejam:
QUADRO N. 1 - Aparelho visual
Si tuacóes:
a) acuidade visual, após correcáo, igual ou inferior a 0,2 no olho acídentado:
b) acuidade visual, após correcáo, igual ou inferior a 0,5 em ambos os olhos, quando ambos tiverern sido acidentados;
e) acuidade visual, após correcáo, igual ou inferior a 0,5 no olho acidentado, quando a do outro olho for igual a 0,5
ou menos, após correcáo:
d) lesáo da musculatura extrínseca do olho, acarretando paresia ou paralisia:
e) lesáo bilateral das vias lacrimais, com ou sem fístulas, ou unilateral com fístula.
NOTA 1 - A acuidade visual restante é avaliada pela escala de Wecker, em décimos, e após a correcáo por lentes.
NOTA 2 - A nubécula e o leucoma sao analisados em funcáo da reducáo da acuidade ou do prejuízo estético que
acarretam, de acorde com os quadros respectivos.

111
QUADRO N. 2 - Aparelho auditiuov"
TRAUMA ACÚSTICO
a) perda da audicáo no ouvido acidentado;
b) reducáo da audicáo em grau médío ou superior em ambos os ouvidos, quando os doís tiverem sido acidentados;

e) reducáo da audicáo, em grau médio ou superior, no ouvido acidentado, quando a audicáo do outro estiver também
reduzida em grau médio ou superior.
NOTA 1 - A capacidade auditiva ero cada ouvido é avaliada mediante audiometria apenas aérea,
nas frequéncias de 500, 1.000, 2.000 e 3.000 Hertz.
NOTA 2 - A reducáo da audicáo, em cada ouvido, é avaliada pela média aritmética dos valores, em decibéis,
encontrados nas frequéncias de 500, 1.000, 2.000 e 3.000 Hertz, segundo adaptacáo da classsificacáo de Davis &
Sílvermann, 1970.
Audicáo normal - até vinte e cinco decibéis,
Reducáo em grau mínimo - vinte e seis a quarenta decibéis;
Reducáo em grau médio - quarenta e tuna setenta decibéis;
Reducáo ero grau máximo - setenta e um a noventa decibéis;
Perda de audicáo - mais de noventa decibéis.
QUADRO N. 3 - Aparelho dafonacño
Situacáo:
Perturbacáo da palavra em grau médio ou máximo, desde que comprovada por métodos clínicos objetivos.
QUADRO N. 4 - Prejuizo estético
Situacóes:
Prejuízo estético, em grau médio ou máximo, quando atingidos cránios, e/ou tace. e/ou pescoco ou perda de dentes
quando há também deformacáo da arcada dentária que impede o uso de prótese.
NOTA 1 - 56 é considerada como prejuízo estético a lesáo que determina apreciável modificacáo estética do segmen-
to corpóreo atingido, acarretando aspecto desagradável, rendo-se em conta sexo, idade e profíssáo do acidentado.
NOTA 2 - A perda anatómica de mernbro, a reducáo de movimentos articulares ou a alteracáo da capacidade
funcional de membro nao sao considerados como prejuízo estético, podendo, porém, ser enquadradas, se foro caso,
nos quadros respectivos.
QUADRO N. 5 - Perdas de segmentos de membros
Situacóes:
a) perda de segmento ao nivel ou acima do carpo;
b) perda de segmento do primeiro quirodáctilo, desde que atíngida a falange proximal;
e) perda de segmentos de dois quirodáctílos, desde que atingida a falange proximal em pelo menos um deles;
d) perda de segmento do segundo quirodáctilo, desde que atingida a falange proximal:
e) perda de segmento de tres ou mais falanges, de tres ou mais quirodáctilos:
f) perda de segmento ao nivel ou acima do tarso;

g) perda de segmento do primeiro pododáctilo, desde que atíngída a falange proximal:


h) perda de segmento de dois pododáctilos, desde que atingida a falange proximal em ambos;
i) perda de segmento de tres ou mais falanges, de tres ou mais pododáctilos.

NOTA: Para efeito de enquadramento, a perda parcial de parte óssea de um segmento equivale a perda do segmento. A
perda parcial de partes moles sem perda de parte óssea do segmento nao é considerada para efeito de enquadrarnento.

(90) Determina o§ 42 do art. 86 da Lei n. 8.213/91 que "a perda da audicáo, em qualquer grau, somente proporcionará a concessáo
do auxílio-acidente, quando, além do reconhecimento de causalidade entre o trabalho e a doenca, resultar, comprovadamente, na
reducáo ou perda da capacidade para o trabalho que habitualmente exercia".

112
QUADRO N. 6 - Altera9óes articulares
Situacóes:
a) reducáo em grau médío ou superior dos movimentos da mandíbula;
b) reducáo em grau máximo dos movirnentos do segmento cervical da coluna vertebral;
e) reducáo em grau máximo dos movimentos do segmento lombo-sacro da coluna vertebral;
d) reducáo em grau médio ou superior dos movimentos das articulacóes do ombro ou do cotovelo;
e) reducáo em grau médio ou superior dos movimentos de pronacáo e/ou de supinacáo do antebraco:
f) reducáo em grau máximo dos movimentos do primeiro e/ou do segundo quirodáctílo, desde que atíngidas as
articulacóes metacarpo-íalangeana e falange-falangeana;
g) reducáo em grau rnédio ou superior dos movirnentos das artículacóes coxo-femural e/ou joelho, e/ou tíbio-társica.
NOTA 1 - Os graus de reducáo de movimentos articulares referidos neste quadro sao avaliados de acordo comos
seguintes critérios:
Grau máximo: reducáo acima de dois tercos da amplitude normal do movimento da articulacáo:
Grau médio: reducáo de mais de urn terco e até dois tercos da amplitude normal do movimento da articulacáo;
Grau mínimo: reducáo de até um terco da amplitude normal do movimento da articulacáo,
NOTA 2 - A reducáo de movimentos do cotovelo, de pronacáo e supinacáo do antebraco, punho, joelho e tíbio-
társica, secundaría a urna fratura de osso longo do membro, consolidada em posícáo viciosa e com desvío de eixo,
também enquadrada dentro dos limites estabelecidos.
é

QUADRO N. 7 - Encurtamento de membro inferior


Situacáo:
Encurtamento de mais de 4 cm (quatro centímetros).
NOTA: A preexistencia de lesao de bacía deve ser considerada quando da avaliacáo do encurtamento.
QUADRO N. 8 - Reduciio da forca elou da capacidade funcional dos membros
Situacóes:
a) reducáo da forca e/ou da capacidade funcional da máo, do punho, do antebraco ou de todo o membro superior em
grau sofrível ou inferior da classificacáo de desempenho muscular;
b) reducáo da torca e/ou da capacídade funcional do primeiro quirodáctilo em grau sofrível ou inferior;
c) reducáo da forca e/ou da capacidade funcional do pé, da perna ou de todo o mernbro inferior em grau sofrível ou
inferior.
NOTA 1 - Esta classificacáo se aplica a situacóes decorrentes de comprometimento muscular ou neurológico. Nao
se aplica a alteracóes decorrentes de lesóes articulares ou de perdas anatómicas constantes dos quadros próprios.
NOTA 2 - Na avaliacáo de reducáo da forca ou da capacidade funcional utilizada a classifícacáo da carta de
é

desempenho muscular da The National Foundatíon for Infantile Paralysis, adotada pelas Sociedades Internacionais
de Ortopedia e Traumatología, e a seguir transcrita:
Desentpenho muscular
Grau 5 - Normal - cem por cento - Arnplitude completa de movimento contra a gravidade e contra grande
resistencia.
Grau 4 - Born - setenta e cinco por cento - Amplitude completa de rnovimento contra a gravidade e contra algurna
resistencia.
Grau 3 - Sofrível - cinquenta por cento - Amplitude completa de rnovirnento contra a gravidade sem opor
resistencia.
Grau 2 - Pobre - vinte e cinco por cerito - Amplitude completa de movimento quando eliminada a gravidade.
Grau 1 - Traeos - dez por cento - Evidencia de leve contracáo, Nenhum rnovimento articular.
Grau O (zero) - zero por cento - Nenhuma evidencia de contracáo,
Grau E ou EG - zero por cerito - Espasmo ou espasmo grave.
Grau C ou CG - Contra tura ou contratura grave.
NOTA - O enquadramento dos casos de grau sofrível ou inferior abrange, na prática, os casos de reducáo ern que há
irnpossibilidade de movimento contra alguma forca de resistencia além da forca de gravidade.

113
QUADRO N. 9 - 011t1·os aparelkos e sistemas
Situacóes:
a) segmentectomia pulmonar que acarrete reducáo em grau médio ou superior da capacidade funcional respiratória:
devidamente correlacionada a sua atividade laborativa;
b) perda do segmento do aparelho digestivo cuja localízacáoou extensáo traz repercussóes sobre a nutricáo e o estado geral,
DOEN<;AS PROFISSIONAIS E AS DO TRABALHO
As doencas profissionaís e as do trabalho, que após consolídacóes das lesóes resultern sequelas permanentes com
reducáo da capacidade de trabalho, deveráo ser enquadradas conforme o art, 104 <leste Regulamento.
Referida listagem, registre-se, é exemplificativa, e outras situacóes, ainda que nao descritas no
Anexo III, podem proporcionar o recebimento do beneficio. O que o trabalhador precisará comprovar
é a irreversibilidade da sequela e o fato de ela reduzir sua capacidade para o trabalho.

8.3.1. Valor do benefício

A finalidade do auxílío-acidente, diferentemente do que ocorre com o auxílio-doenca ou a


aposentadoria por invalidez, nao é garantir ao segurado renda necessária a sua sobrevivéncia num
momento de incapacidade, mas sim indenizar-lhe pela existencia de sequela que é irreversível e que
reduziu sua capacidade para o traba1ho. Por se tratar de indenizacáo, seu valor pode ser inferior ao
salário mínimo mensa! e corresponde a 50%(91l do salário de beneficio que deu origem ao auxílio-
-doenca inicialmente percebido.
Da média das remuneracóes feíta pelo INSS quando da concessáo do auxílio-doenca é que se
calcula os 50%, obviamente com aplicacáo de reajuste.v"

8.3.2. Data de início do beneficio

Nos tennos do § 22 do art. 86 da Lei n. 8.213/91, o auxílio-acidente <leve ter início no dia
imediatamente posterior ao cancelamento do auxílio-doenca.
Antes da adocáo, pelo INSS, do sistema de alta programada,<93> o benefício de auxílio-doenca
somente poderia ser cancelado mediante constatacáo, em perícia, da recuperacáo da capacidade
laborativa. Nessa mesma perícia o médico do INSS verificava a existencia (ou nao) da sequela e
indicava ( ou nao) a concessáo do auxilio-acidente.
Agora o trabalhador nem sempre passa por essa perícia final e1 na maior parte das vezes, nao
há como o perito do INSS ter conhecimento da sequela a nao ser que o segurado, conhecedor desse
fato, solicite urna prorrogacáo de seu benefício de auxílio-doenca justamente para poder fazer
comprovacáo do direito a percepcáo do auxílio-acidente.
Nao sendo feíto o pedido de prorrogacáo, o benefício de auxílio-doenca será automaticamente
cancelado e, nesse caso, o requerimento do auxílio-acidente deverá ser efetuado pelo segurado (ao
INSS) mediante documento escrito, protocolado em alguma das agencias de atendimento. Em caso
de indeferimento, será necessário interpor recurso a JRPS/CRPS ou ingressar com acáo judicial, com
o alerta de que, se decorrente de acidente de trabalho o direito, essa acáo deverá ser protocolada na
[ustica Estadual.

a
(91) Até 28.04.1995, dia anterior publicacáo da Leí n. 9.032, o benefício de auxílio-acidente variava entre 30%, 40% ou 60% do salario
de contribuicáo do segurado no dia do acidente, conforme a gravidade da sequela. A Lei n. 9.032/95 fixou o percentual de 50% para
todas as situacóes.
(92) Reajustes anuais, concedidos em igual percentual aos demais benefícios de prestacáo continuada pagos pelo Regime Geral de
Previdéncla Social.
(93) Sobre esse procedimento, ver o subitem 8.1.6 desta obra.

114
8.3.3. Manutencáo e cancelamento do benefício

O auxílio-acidente será pago mensalmente ao segurado mesmo que este esteja trabalhando
e recebendo rernuneracáo mensal pelos servicos prestados. Seu cancelamento semente ocorrerá
quando da concessáo de alguma aposentadoria ao trabalhador, mas o valor mensal recebido será
sornado com eventual remuneracáo para fins de cálculo do novo benefício.
Confira-se, nestes termos, a redacáo do art. 86 da Lei n. 8.213/91:
Art. 86. O auxílio-acidente será concedido, como indenizacáo, ao segurado quando, após consolidacáo das lesóes
decorrentes de acidente de qualquer natureza, resultarem séquelas que impliquem reducáo da capacidade para o
trabalho que habitualmente exercia.
§ 111 O auxílio-acídente mensal corresponderá a cinquenta por cento do salário de beneficio e será devido, observado
o disposto no§ 52, até a véspera do inicio de qualquer aposentadoria ou até a data do óbito do segurado.
§ 22 O auxílio-acidente será devido a partir do día seguinte ao da cessacáo do auxílio-doenca, independentemente de
qualquer remuneracáo ou rendimento auferido pelo acidentado, vedada sua acumulacáo com qualquer aposentadoría.
§ 3Q O recebimento de salario ou concessáo de outro benefício, exceto de aposentadoria, observado o disposto no§ S!l,
nao prejudicará a continuidade do recebimento do auxílio-acidente.

8.4. Pensii.o por morte

O beneficio de pensáo por morte será pago aos dependentes do segurado que falecer, inclusive
vítima de acidente de trabalho.
Nos tennos da Medida Provisória n. 664/2014, que trouxe alteracóes a Lei n. 8.213/91, para a
percepcáo desse benefício seria preciso que o segurado tivesse contribuido por, no mínimo, 24 meses
antes do óbito, mas essa carencia nao seria exigida quando o óbito decorresse de acidente do trabalho.
O Congresso Nacional, contudo, nao aprovou tais alteracóes, voltando a vigorar a redacáo original
do art. 26 da Lei n. 8.213/91 quanto ao tópico, nao sendo exigida carencia para que os dependentes
tenham direito a esse benefício.
Assim, qualquer que tenha sido o período de filiacáo e contribuicáo ao RGPS, teráo os dependen-
tes do trabalhador falecido em decorréncia de acidente de trabalho direito a percepcáo do benefício,
devendo procurar o INSS com a documentacáo necessária para instruir o pedido, qual seja:
a) CTPS ou outro documento que comprove a condicáo de empregado; ou declaracáo do
sindicato ou órgáo gestor de máo de obra (ou outro documento), que comprove a condicáo de
trabalhador avulso; ou documentos rurais que comprovem o exercício da atividade de segurado
especial.
b) atestado de óbito.
e) documentos que comprovem a condicáo de dependencia.
Sao considerados dependentes, nos tennos do art. 16 da Lei n. 8.213/91 <94>:
Art. 16. Sao beneficiarios do Regime Geral de Previdéncia Social, na condicáo de dependentes do segurado:
I - o cónjuge, a companheira, o companheiro e o filho nao emancipado, de qualquer condicáo, menor de 21 (vinte e
um) anos ou inválido ou que tenha deficiencia intelectual ou mental que o torne absoluta ou relativamente incapaz,
assim declarado judicialmente;

U - os pais;

(94) O Congresso Nacional nao concordou integralmente comas alterac;5es propostas pela MP 664/2014 e essa foi convertida no Pro-
a
jeto de Lei de Conversáo n. 04/2015 e encaminhado Presidente da República. É importante verificar se houve raríñcacáo ou veto das
alterac;5es sugeridas pelo Congresso, certificando-se o leitor de como ficou, afinal, a redacáo do referido dispositivo. Até a data em que
conclui a redacáo do artigo com alterac;5es trazidas pela Lei n. 13.135/2015.

115
JU - o irrnáo nao emancipado, de qualquer condicáo, menor de 21 (vinte e um) anos ou inválido ou que tenha
deficiencia intelectual ou mental que o torne absoluta ou relativamente incapaz, assim declarado judicialmente;
§ 12 A existencia de dependente de qualquer das classes <leste artigo excluí do direito as prestacóes os das classes
seguintes.
§ 2° O enteado e o menor tutelado equíparam-se a filho mediante declaracáo do segurado e desde que comprovada a
dependencia económica na forma estabelecida no Regulamento
§ 3!! Considera-se companheira ou companheiro a pessoa que, sem ser casada, mantém uniáo estável corn o segurado
ou corn asegurada, de acordo como§ 32 do art. 226 da Constituicáo Federal.
§ 42 A dependencia económica das pessoas indicadas no inciso I é presumida e a das demais deve ser comprovada.
Note-se que os dependentes listados no inciso 1 (cónjuge/companheirota) e filhos) sao
preferenciais, e somente quando de sua inexistencia que os pais poderáo pretender o benefício
é

de pensáo por morte. Na sequéncia, semente na inexistencia dos país (como dependentes) é que os
irrnáos podern requerer o beneficio.
Até 28.02.2015, a legislacáo previdenciária nao fixava um tempo mínimo de casamento ou de
convivencia para a caracterizacáo da uniáo estável, mas a contar de 1 º.03.2015, por forca das alteracóes
trazidas pela MP 664/2015, o INSS passou a exigir cornprovacáo de uniáo por, no mínimo, dois anos
(anteriores ao óbito do segurado), salvo nas seguíntes hipóteses:
• Se o óbito do segurado decorrer de acidente posterior ao casamento ou início da uniáo estável; ou
• Se o cónjuge ou companheiro(a) for considerado incapaz e insuscetível de reabilitacáo para
o exercício de atividade remunerada que lhe garanta subsistencia, mediante exame médico a
cargo do INSS, por doenca ou acidente ocorrido após o casamento ou início da uniáo estável e
anterior ao óbito.
Ocorre que o Congresso Nacional nao aprovou a alteracáo trazida pela MP 664, nao mais sendo
exigido prazo mínimo de casamento ou uniáo estável.

8.4.1. Data de início e valor do benefício

Para que os dependentes recebam a pensáo por morte desde a data do óbito é preciso que facam
o requerimento junto ao INSS no prazo de até trinta días. Ultrapassado tal período, o benefício será
concedido a contar da data do requerimento, sem pagamento das competencias anteriores.
O valor do benefício é rateado em partes iguais conforme o número de dependentes habilitados
e, até 28.02.2015, correspondía a 100% da aposentadoria recebida pelo segurado falecido ou, se
ainda nao aposentado, a 100°/o de urna suposta aposentadoria por invalidez (media das 80o/o maiores
rernuneracóes/salários de contribuicáo desde 07/1994).
A contar de 1º.03.2015, em face das alteracóes trazidas pela MP 664/2014, o beneficio passou
a corresponder a 50% + 10°/o para cada dependente habilitado, limitando-se o total a 100% e, caso
um dos dependentes perdesse essa qualidade, sua quota (de lOo/o) nao seria revertida áqueles que
permaneceram nessa condicáo. Confira-se, nesses termos, a nova redacáo que foi conferida ao art, 75
da Leí n. 8.213/91:
Art. 75. O valor mensa! da pensáo por morte corresponde a cinquenta por cento do valor da aposentadoria que o
segurado recebia ou daquela a que teria direito se estivesse aposentado por invalidez na data de seu falecimento,
acrescido de tantas cotas índíviduais de dez por cento do valor da mesma aposentadoria, quantos forem os
dependentes do segurado, até o máximo de cinco, observado o disposto no art. 33.
§ 19 A cota individual cessa com a perda da qualidade de dependente, na forma estabelecida em regulamento,
observado o disposto no art. 77.
§ 22 O valor mensa] da pensáo por morte será acrescido de parcela equivalente a uma única cota individual de que
trata o caput, rateado entre os dependentes, no caso de haver filho do segurado ou pessoa a ele equiparada, que seja
órfáo de pai e máe na data da concessáo da pensáo ou durante o período de manutencáo desta, observado:

116
I - o limite máximo de 100% do valor da aposentadoria que o segurado recebia ou daquela a que teria direito se
estivesse aposentado por invalidez na data de seu falecimento; e
IJ - o disposto no inciso IT do§ 21! do art, 77.
§ 3° O disposto no§ 2º nao será aplicado quando for devida mais de urna pensáo aos dependentes do segurado.

Ocorre que o Congresso Nacional nao aprovou a alteracáo trazida pela MP 664, retornando o
art. 75 a redacáo anterior e garantindo-se aos dependen tes o benefício em sua integralidade (100%).(95>

8.4.2. Cancelamento do beneficio

Dispóe sobre o cancelamento da pensáo por morte o art. 77 da Lei n. 8.213/91, e desde 1 º.03.2015
(vigencia da MP 664/2014) ternos as seguintes regras. Ocorre que o Congresso Nacional nao aprovou
a alteracáo trazida pela MP 664 em sua integralidade e, por isso, tal medida foi convertida no Projeto
de Lei de Conversáo n. 04/2015 e encaminhado a Presidente da República. É importante verificar se
houve ratificacáo ou veto das alteracóes sugeridas pelo Congresso, certificando-se o leitor de como
ficou, afinal, a redacáo do referido dispositivo. Até a data em que conclui a redacáo dessa obra a
Presidente da República ainda nao havia se manifestado, mas seu prazo para análise encerra ainda
em junho/2015.
Por ora, ternos como certas as seguintes diretrizes:
a) A quota individual extingue-se, sempre, com a morte do pensionista e náo sendo esta a hipótese, nas seguintes
situacóes:
• para o filho (ou equiparado) ou o irmáo, de ambos os sexos, ao completar a idade de 21 anos, salvo se for inválido
ou com deficiencia; e
• para o pensionista inválido pela cessacáo da invalidez.
b) para o cónjuge ou companheiroía) o beneficio era vitalício até 28.2.2015. Para óbitos ocorridos a contar de 1 °.3.2015
(vigencia da MP 664/2014) esses dependentes receberáo a pensáo por um período de tempo determinado conforme
sua idade no momento do requerimento, bem como do tempo de sobrevida divulgado pelo IBGE. Confira-se a tabela
atualmente em vigor, em face da sobrevida divulgada em 12/2014:

ldade e sobrevida do dependente Duracáo do beneficio de pensño por morte

44 anos de idade ou mais (sobrevida de 3S anos ou menos) Vitalícia


Entre 39 e 43 anos de idade (sobrevida entre 3S e 40 anos) lS anos
Entre 33 e 38 anos de idade (sobrevida entre 40 e 4S anos) 12 anos
Entre 28 e 32 anos de idade (sobrevida entre 45 e SO anos) 09 anos
Entre 22 e 27 anos de idade (sobrevida entre SO e SS anos) 06 anos
21 anos de idade ou menos (sobrevida maior que SS anos) 03 anos
e) coma extincáo da parte devida ao último pensionista a pensáo será extinta.

As regras de duracáo do benefício constam dos arts. 77 a 79 da Lei n. 8.213/91 ( com as alteracóes
promovidas pela Lei n. 13.135/2015) e, com relacáo aos cónjuges e companheiros(as) o prazo varia
conforme a idade do dependente beneficiário. Confiram-se:
Art. 77. A pensáo por rnorte, havendo mais de um pensionista, será rateada entre todos em parte íguaís.
§ Jll Reverterá em favor dos demais a parte daquele cujo direito a pensáo cessar.

(9S) O Congresso Nacional nao concordou integralmente com as alteracóes propostas pela MP 664/2014 e essa foi convertida no
Projeto de Lei de Conversáo n. 04/201S e encaminhado a Presidente da República. É importante verificar se houve ratíñcacáo ou veto
das alteracóes sugeridas pelo Congresso, certificando-se o leitor de como ficou, afinal, a redacáo do referido dispositivo. Até a data
em que conclui a redacso dessa obra a Presidente da República ainda nao havia se manifestado, mas seu prazo para análise encerra
ainda em junho/201S.

117
§ 2!1 O direito a percepcáo de cada cota individual cessará:
I - pela morte do pensionista;
II - para filho, pessoa a ele equiparada ou irrnáo, de ambos os sexos, ao completar 21 (vinte e um) anos de idade,
salvo se for inválido ou com deficiencia;
Ill - para filho ou irmáo inválido, pela cessacáo da invalidez;

IV - pelo decurso do prazo de recebimento de pensáo pelo c6njuge, cornpanheiro ou companheira, nos tennos do
§ 52,

V - para cónjuge ou companheiro:


a) se inválido ou com deficiencia, pela cessacáo da invaJidez ou pelo afastamento da deficiencia, respeitados os
períodos mínimos decorrentes da aplicacáo das alineas "b" e "e";
b) em 4 (quatro) meses, se o óbito ocorrer sem que o segurado tenha vertido 18 (dezoito) contribuícóes mensais ou se
o casamento ou a uniáo estável tiverem sido iniciados em menos de 2 (dois) anos antes do óbito do segurado;
c) transcorridos os seguintes períodos, estabelecidos de acordo com a idade do beneficiario na data de óbito do
segurado, se o óbito ocorrer depois de vertidas 18 (dezoito) contribuícóes rnensais e pelo menos 2 (dois) anos após o
inicio do casamento ou da uniáo estável:
1) 3 (ti-es) anos, com menos de 21 (vinte e urn) anos de idade;
2) 6 (seis) anos, entre 21 (vinte e um) e 26 (vinte e seis) anos de idade;
3) 10 (dez) anos, entre 27 (vinte e sete) e 29 (vinte e nove) anos de idade;
4) 15 (quinze) anos, entre 30 (trinta) e 40 (quarenta) anos de idade;
5) 20 (vinte) anos, entre 41 (quarenta e urn) e 43 (quarenta e tres) anos de idade;
6) vitalicia, com 44 (quarenta e quatro) ou mais anos de idade.
§ 22-A. Seráo aplicados, conforme o caso, a regra contida na alínea "a" ou os prazos previstos na alínea "e", ambas do
inciso V do § 22, se o óbito do segurado decorrer de acidente de qualquer natureza ou de doenca profissional ou do
trabalho, independentemente do recolhímento de 18 (dezoito) contribuicóes mensais ou da comprovacáo de 2 (dois)
anos de casamento ou de uniáo estável.
§ 2!1-B. Após o transcurso de pelo menos 3 (trés) anos e desde que nesse período se verifique o incremento mínimo
de um ano inteiro na média nacional única, para ambos os sexos, correspondente a expectativa de sobrevida da
populacáo brasileira ao nascer, poderáo ser fixadas, em números inteiros, novas idades para os fins previstos na a línea
"e" do inciso V do§ 2°, etn ato do Ministro de Estado da Previdéncia Social, limitado o acréscimo na comparacáo com
as idades anteriores ao referido incremento.
§ 32 Com a extincáo da parte do último pensionista a pensáo extinguir-se-á,
§ 42 Revogado
§ 5<1 O tempo de contribuicáo a Regime Próprio de Previdéncia Social (RPPS) será considerado na contagem das 18
(dezoito) contribuicóes mensais de que tratam as a líneas "b" e "e" do inciso V do§ 2o.
Art, 78. Por morte presumida do segurado, declarada pela autoridade judicial competente, depois de 6 (seis) meses
de ausencia, será concedida pensáo provisória, na forma desta Subsecáo.
§ 1° Mediante prova do desaparecimento do segurado em conseqüéncia de acidente, desastre ou catástrofe, seus
dependentes faráo jus a pensáo provisória independentemente da declaracáo e do prazo <leste artigo.
§ 22 Verificado o reaparecimento do segurado, o pagamento da pensáo cessará imediatamente, desobrigados os
dependentes da reposicáo dos valores recebidos, salvo má-fé.
Art. 79. Nao se aplica o disposto no art. 103 desta Lei ao pensionista menor, incapaz ou ausente, na forma da leí.

118

~~~~~~·~e~®ma

9.1. Competencia da Previdéncia Social e fornecimento obrigatório aos


segurados a/astados

Ao contrário do senso cornurn, cabe a Previdéncia Social (e nao aos empregadores) a reabilitacáo
profissional de seus segurados (e dependentes desses segurados), conforme regra expressa da Lei
n. 8.213/91, art. 18:
Art. 18. O Regime Geral de Previdéncia Social compreende as seguintes prestacóes, devidas inclusive em razáo de
eventos decorrentes de acidente do trabalho, expressas em benefícios e servícos:
[... )
III - quanto ao segurado e dependente:
[... )
e) reabilitacáo profissional.
[... )

Trata-se, pois, de um servico que <leve ser mantido pela Previdéncia Social para proporcionar
a pessoa incapacitada, parcial OU totalmente para O trabalho, bem COITIO as pessoas portadoras de
deficiencia, os meios para a (rejeducacáo e de (rejadaptacáo profissional e social, compreendendo
(Lei n. 8.213/91, art. 89):
a) o fornecimento de aparelho de prótese, órtese e instrumentos de auxílio para locomocáo quando a perda ou reducáo da
capacídade funcional puder ser atenuada por seu uso e dos equiparnentos necessáríos a habilitacáo e reabilitacáo social
e profissional;
b) a reparacáo ou a substituicáo dos aparelhos mencionados no inciso anterior, desgastados pelo uso normal ou por
ocorréncia estranha a vontade do beneficiario:
e) o transporte do acidentado do trabalho, quando necessario.

O art. 90 do mesmo diploma legal refere, ainda, que a prestacáo desse servico de reabilitacáo,
pela Previdéncia Social <leveser obrigatoriamente prestado aos segurados (inclusive já aposentados)
e, semente na medida das possibilidades, aos seus dependentes.
Também o art. 136 da Instrucáo Normativa INSS n. 77/2015 é taxativo quanto a obrígacáo ser da
Previdéncia Social, exercida por meio do INSS, conforme transcrevo:
Art. 136. A assisténcia (re)educativa e de (rejadaptacáo profíssional, instituida sob a denominacáo genérica de
habilitacáo e reabilitacáo profissional, visa proporcionar aos beneficiarios, incapacitados parcial ou totalmente para
o trabalho, em caráter obrigatório, independentemente de carencia, e as pessoas portadoras de deficiencia, os meios
indicados para proporcionar o reingresso no mercado de trabalho e no contexto em que vivem.
§ 12 Cabe ao Instituto Nacional do Seguro Social promover a prestacáo de que trata este artigo aos segurados, inclusive
aposentados, e, de acordo com as possibilidades administrativas, técnicas, financeiras e as condicñes locais do órgño,
aos seus dependentes, preferencialmente mediante a contratacáo de servícos especializados.
§ 29 As pessoas portadoras de deficiencia seráo atendidas mediante celebracáo de convenio de cooperacáo técnico-
-fínanceira,

Devem, obrigatoriamente, ser encaminhados ao Programa aqueles que se encontram em gozo


de auxílio-doenca (acidentário ou nao), o segurado sem carencia para a concessáo de auxílio-doenca

119
previdenciário e que esteja incapaz para o trabalho, o segurado em gozo de aposentadoria por
invalidez e o segurado aposentado (qualquer modalidade) que esteja trabalhando e que, por acidente
ou doenca, tenha reduzida sua capacidade laborativa (IN INSS n.77/2015, arts. 399 e 400)
Os dependentes do segurado e as pessoas com deficiencia (que nao sao contribuintes do RGPS
e, por isso, nao se encaixam no conceito de seguradas) seráo atendidas pelo Programa conforme as
possibilidades administrativas, financeiras e as características locais.

9.2. Abrangéncia do programa

Nos termos da IN INSS n. 77/2015<96>, o atendimento será descentralizado e prestado pelas


próprias Agencias da Previdéncia Social, conduzido por equipes multiprofissionais, com as seguintes
atribuicóes básicas (art. 401):
I - avaliacáo do potencial laborativo;

U - orientacáo e acompanhamento do progra1na profíssional;


ITI - articulacáo com a comunidade, inclusive mediante celebracáo de convenio para reabilitacáo integral, restrita
as pessoas que cumpriram os pressupostos de elegibilidade ao Programa de Reabilitacáo Profissional, com vistas ao
reingresso no mercado de trabalho;
IV - acompanhamento e pesquisa de fixacáo no mercado de trabalho; e
V - certificar ou homologar o processo de Habilitacáo e Reabílitacáo Profissional,

Sendo necessário o deslocamento do beneficiário para que seja atendido pela Reabilitacáo
Profissional, caberá ao INSS verificar a menor distancia em relacáo a localidade de seu domicílio,
sendo-lhe garantido o pagamento de todas as despesas correspondentes.
Além das atribuicóes básicas, o Programa também pode compreender, se indispensável a
recuperacáo dos beneficiários, órteses, próteses ou quaisquer outras tecnologías assistivas, conforme
dísposícóes do art. 137 do Decreto n. 3.048/99 e também do art, 402 da IN INSS n. 77/2015, que
transcrevo:
Art. 402. Quando indispensáveis ao desenvolvímento do programa de Reabilitacáo Profissional, o INSS fornecerá aos
beneficiários, inclusive aposentados, os seguintes recursos materiais:
I - órteses: tecnologia assistiva para correcáo ou cornplernentacáo de funcionalidade;

TI - próteses: tecnologia assistiva para substituicáo de membros ou parte destes;

IIT - outras tecnologías assistivas: produtos, recursos, metodologías, estratégias, práticas e servicos que objetivam
prmnover a funcionalidade, relacionada a atividade e participacáo, de pessoas com deficiencia, incapacidades ou
mobilidade reduzida, visando sua autonomía, independencia, qualidade de vida e inclusáo social;

IV - auxilio-transporte urbano, intermunicipal e interestadual: que consiste no pagamento de despesas coro o


deslocamento do beneficiário de seu domicilio para atendirnento na APS e para avaliacóes, cursos e/ou treinamentos
em empresas e/ou instituicóes na comunidade;

V - auxílio-alimentacáo: que consiste no pagamento de despesas referentes aos gastos coro alimentacáo (alrnoco ou
jantar) aos beneficiários em programa profissiona l com duracáo de oito horas;

VI - diárias: que seráo concedidas conforme o art. 171 do RPS;

VII - implemento profissional: recursos materiais necessários para o desenvolvimento da formacáo ou do treínamento
profissional, compreendendo material didático, uniforme, instrumentos e equípamentos técnicos, inclusive os de
protecáo individual (EPI); e

VIII - instrumento de trabalho: recursos materiais necessáríos ao exercício de urna atividade Jaborativa, de acordo
com o Programa de Habilitacáo/Reabilitacáo Profissional desenvolvido.

(96) O art. 137 do Decreto n. 3.048/99 dispóe no mesmo sentido.

120
a a
§ Jll Sao considerados corno equipamentos necessários Habilitacáo e Reabilitacáo Profíssional, previstos no§ 2Q
do art. 137 do RPS, desde que constatada a sua necessidade pela equipe de reabilitacáo, o implemento profissional e
o instrumento de trabalho.
§ 2Q O direito a concessáo dos recursos materiais de que trata o capui desse artigo, mediante os encaminhamentos
decorrentes da celebracáo de convénios de cooperacáo técnico-financeira, será garantido conforme descrito em
instrumento próprio.

9.3. Participaciio das empresas

A programacáo profissional (urna das atribuicóes básicas do Programa e, portante, obrigatória)


é desenvolvida mediante a frequéncia do beneficiário em cursos e/ou treinamentos na comunidade e,
para que a Previdéncia Social atenda a essa obrigacáo, o Decreto n. 3.048/99 (art. 139) e a Instrucáo
Normativa INSS n. 77/2015 (art. 404) preveem a possibilidade de serem firmados contratos, acordes
e convenios com instituicóes e empresas públicas ou privadas. Confira-se:
Decreto n. 3.048/99
Art. 139. A programacáo profissional será desenvolvida mediante cursos e/ou treinamentos, na comunidade, por
meio de contratos, acordos e convénios com instituicóes e empresas públicas ou privadas, na forma do art. 317.<97>
§ 1° O treinamento do reabilitando, quando realizado em empresa, nao estabelece qualquer vínculo empregatício ou
funcional entre o reabilitando e a empresa, bem como entre estese o Instituto Nacional do Seguro Social.
§ 211 Compete ao reabilitando, além de acatar e cumprir as normas estabelecidas nos contratos, acordos ou convenios,
pautar-se no regulamento daquelas organizacóes.

Esses convenios, contratos, acordes e parcerias podem ser firmados para finalidades diversas,
dispostas no art. 404 da IN INSS n. 77/2015, mas todos eles monitorados pela equipe de Reabilitacáo
Profissional do INSS. Sao as modalidades previstas:
I - atendimento e/ou avaliacáo nas áreas de fisioterapia, terapia ocupacional, psicología, fonoaudiologia, e outros
necessários ao processo de Reabilitacáo Profissional;
II - atendimento, preparacáo e treinamento para uso de próteses, órteses e demais tecnologías assistivas;
III - melhoria da escolaridade, com alfabétizacáo e elevacáo do grau de escolaridade;
IV - avaliacáo e treinamento profíssional:
V - capacitacáo e profissionalizacáo com vistas ao reingresso no mercado de trabalho;
VI - desenvolvimento de cursos profissionalizantes;
VII - disponibilízacáo de áreas e equipamentos para instituicóes/entidades/órgáos com atendimento prioritário a
clientela da Reabilitacáo Profissional;
VIII - estágios curriculares e extracurriculares para alunos em formacáo:
IX - fiscalizacáo do cumprimento da reserva de vagas; e
X - homologacáo do processo de reabílitacáo e/ou readaptacáo profissional.

Do regulamento e do diploma normativo podernos concluir, poís, que semente mediante termo
firmado entre o INSS e a empresa (convenio, contrato, parceria ou acordo) é que a empresa participa
atívamente do processo de reabilitacáo dos seguradosv" e, ainda assim, sob efetiva coordenacáo e
acompanhamento da equipe de Reabilitacáo do INSS.

(97) Decreto n. 3.048/99, art. 317: Nos casos de impossibilidade de instalacáo de órgáo ou setor próprio competente do Instituto
Nacional do Seguro Social, assim como de efetiva incapacidade física ou técnica de irnplernentacáo das atividades e atendimento ade-
a
quado clientela da previdéncia social, as unidades executivas de reabiíitacáo profissional poderáo solicitar a celebracáo de convenios,
contratos ou acordos com entidades públicas ou privadas de comprovada idoneidade financeira e técnica, ou seu credenciamento,
para prestacáo de servlco, por delegacáo ou simples cooperacáo técnica, sob coordenacáo e supervisáo dos órgáos competentes do
Instituto Nacional do Seguro Social.
(98) A empresa empregadora encontra-se abrigada a fornecer o formulário PPP - Perfil Profissiográfico Previdenciário, caso seja soli-
citado pela equipe de Reabilitacáo do INSS - IN INSS n. 77/2015, art. 405.

121
Sendo necessário treinamento da nova funcáo dentro de alguma empresa nao necessário que esta seja a empresa
é

empregadora do trabalhador. Muito pelo contrarío, a empregadora somente pode participar do processo de
reabilitacáo se tiver o convenio, o acordó, o contrato ou a parceria com o INSS, o que nao a regra geral.
é

O trabalhador faz esse treinamento em empresas diversas e, durante esse período, tem mantido
o paga1nento do auxílio-doenca. Nao há vínculo empregatício com a empresa, nem tampouco com
o INSS, apesar de ser a autarquia quem fará o acompanhamento e a avaliacáo do progresso na nova
atividade.
Inúmeros sao os casos, no entanto, em que o INSS encaminha correspondencia as e1npresas
ernpregadoras (nao conveniadas, nao contratadas e sem qualquer ajuste ou acorde firmado)
informando-as de que devem receber o empregado e proporcionar sua reabilitacáo para funcáo
diversa, apontando restricóes que, inclusive, irnpossibilitam o trabalhador de permanecer na mesma
funcáo anterior. Confiram-se os dois casos a seguir exemplificados:

Ofleto n• 21.033.030/0iCMl2014
tNSS-Ge,.nela Executiva do Santo.
Agancla da Previdfnda Soc¡af d• I ha'"'1Equ
lpe de RubUJta~oPtoftaalonat
Ender~: Ru. Jolo Martano, 32t Cfftro-ttanha6m-SP
. CEP: 11740-000
E-mail: lu101. - . .
Telefono: C13) 3871·

ttanha«n, 08 de aetembro do 2014

Prezldo (a)~ (a) ~

A segured SANDRA . NB-31"507 .


CPF: . vinculada a e11a empresa na ~ do MOTORlSTA. foe
avallada pela Equipe de R ~ Profuional • consldctada e1e9i 1 pata o
programa ptOflSSIOnal do INSS, uma vez que BPf918'1tll potenccat lab<QtNo p ra
tetomar oo trabelho, apreaentando 1egu restft;Ces· dlrtglr proftaatonatmente.

Soliatamos a~ ~o de nova fufl9IO/atividade. rnp«tando s contra


indcai;iOes menclonld ecama, enviando-nos • ~o das novn at.ribui96eS quo
l\o serlo propostas.
tnformamoe que, dul8nte o periodo de roa ptOflUional
( v ~ treinamenlo) o aegurado contnmrj aob • rcsponsab1hdade do
INSS e cm ~ de auxí~ nlo ntabel9cendo qu lquer vi~
empreganao ou funcional entre o reabillandoe a emprctOJentkfade . bern como entr&
esta e o INSS ( §1•. Art. 139. do Oocroto 3.048/99).

tnfonn mos que • b de vepa nao deY& ser constdef'ada como


impedimento para " b o prof!SSJOn , ndo em vista o ettabefeado na ~
que transaewimos baixo

&Al 8.213, de 2.,_,711H1


·M 93. A «nptO com 100 (oom) ou mais el17(Jl'flpdo$estd obrigada •
~de 2" (dois po1 oettto) • 5"
(clr>CO por t»nto) dos us calpOf com
beneliciá~ IHbiMados ou pesS011 pott.adoras dtl dtll1cíllnt:ia. . na
seguinte~
1- ª" 200 mpt9fJIHlo.$•
ll-do201 •500~
~.
~
111- do 501 ti 1 000 ~........
IV· de 1 001 o.m (janto
·"·
5". •
on
~

122
S!<;AO O! SAUD! DO TRABAlHADOll
EQUIPE ttCNICA OE ~fAllUTA<;AO PROFISSIOHAl
h '"' Gt!U o V1191t n' SSl • andar Ctntro Horlt CulabtilolT - CCP 1t 00< · 905
OFICIO/INSS/SST/ETRP/Nº 237 DE 08 DE NOVEMBRO DE 2012.
Prezado(a) SenhOr(a)
o segurado(a) l!IJUU . vlnculodo(a) a esse empresa, na fu~lo de •
~OC<Y1StO"', rol avahado pela ETRP e etegível para o programa de reablllt~o profiss1onal do INSS, um;i
1ez Que apresenta potencial laboratlvo paro retomar ao ttabalhO, apresenllldo as segulntes
:ontralndlca~es: *-At:Mdades de desencodeiem crlses oevosas.::
Para darmos continuldadc ao processe reabllltatório, sollotamos lndlca~l!o de nova fun~!o
1t1vldade. respe1tando as contralndlcoc;6es mencionadas acime, enviando-nos a descrl~ dos novas
}atnbul~6cs que lhe scr3o propostas. Caso a nova hm~o exija avall~l!o/curso/trelnamento, o 5e9Urado
estar! neste periodo, soba responsabllldade do INSS (§ 10, Art. 139, do Decreto 3.048/99).
Informamos que, a refenda resposta, ptN"KI» o FICHA DE Rli(Á<XJe1 Oll'll!CDAS - ~ 1 ' o
OUADRO OEMONSTTlAT'NO et IUlf;(JES Ll4 ~ - ~ 2l deverá ser enviada no prow m~xlmo de 15
(qulnze) dlas, aos cuidados do Responsável Pela Orienta~!o Profissional, sito ~ Avenida ~esl~nte
Getúllo Vargas no 553 - 50 andar - Centro Norte - Cep.: 78.005·905 - Culabá/MT. TeVfax.: (65) 3928
1582/1585/ l 779(FAX).
Na oportunldade, transcrevemos abalxo, os aspectos legals a serem consklercidos, no retorno do
segurado(a) a empresa de vincule, após o proccsso de reablhta~l!o profisslonal:
, IAUJJ•1Ulll"I
41'1 ....

~-,,
,,,_...,.,_,~~-

~
.. ,,.,.,,

.. ..,.,,......,. , ......
............ ~.""'~

-----~
.. rw-~u.;~,c::,.,=~..;,:..=;::-:

,..
..
I ._ ,V,oy:qcJ e

11 •:i11K•'•+•: ... •
,..•••
, ,""',.. .....
,,, .,.,.,..,...,. (e

'"

No primeiro exemplo o INSS ordena a tuna determinada empresa (de transporte coletivo) que
reabilite a empregada, cuja funcáo anteriormente exercida era a de motorista de ónibus, para funcáo
totalmente diversa, chegando a informar que a ausencia de vaga (nessa possível nova funcáo) nao
pode ser considerada impedimento para a reabilitacáo.
No segundo caso, também referente a urna empresa de transporte coletivo, o INSS solicita
indicacáo de nova funcáo para o trabalhador que exercia atividade como motorista, co1n restricáo
para atividades que desencadeiem crises nervosas.
Tais práticas sao absolutamente ilegais, ferindo inclusive as disposicóes constantes na própria
Instrucáo Normativa do INSS (77/2015), já que:
a) durante a reabilitacáo o beneficio de auxílio-doenca deve ser mantido;
b) cabe ao próprio INSS promover (e coordenar) a reabilitacáo, encontrando a func;ao adequada as restricóes
existentes, e nao a empresa;
e) a empresa nao é obrigada a encontrar e disponibilizar urna funcáo diferente daquela inicialmente exercida pelo
trabalhador;
d) a empresa nao é obrigada a colaborar com a reabilitacáo, mas tao semente a contratar pessoas que [á possuem o
certificado emitido pelo INSS (de habilitacáo ou de reabilitacáo) nos tennos do art. 93 da Leí n. 8.213/91;
e) se o INSS nao possui a estrutura e o dinheiro necessárío ao implemento do Programa, deve firmar convenio,
parceria ou acorde com a empresa, antes de encamínhar o trabalhador, constando nesse documento as obrigacóes
das partes.

É certo que nos últimos anos pouquíssimo investimento foi feito pelo Governo Federal no setor
de Reabilitacáo Profissional, num raciocinio totahnente equivocado do ponto de vista económico e
financeiro. Prefere o Ministério da Previdéncia Social gastar milhóes com os beneficios de auxilio-
doenca e aposentadorias por invalidez em manutencáo do que investir esses mesmos milhóes na
estrutura adequada e necessária para urna eficiente reabilitacáo desses profissionais.

123
No entanto, nao é possível ou lícito que, sob o argumento de falta de estrutura ou equipes
multiprofissionais no RGPS, a obrigacáo seja transferida as e1npresas, em total e absoluta afronta as
disposicóes legais e constitucionais vigentes.
Muitas empresas possuem interesse em colaborar com o INSS no que se refere a reabilitacáo
profissional e estáo dispostas a oferecer nao somente a estrutura para o treinamento como arcar com
as despesas correspondentes. No entanto, cabe ao INSS procurar essas parcerias, firmar os convenios
ou os acordos necessários e destacar, nesses documentos, obrigacóes e responsabilidades das partes
(empresa, trabalhadores e INSS), bem como detalhar como se dará o efetivo funcionamento do
programa.
Nao poderia ser diferente porque ao pensarmos no empregador precisamos compreender que
existem grandes, médias e pequenas empresas, algumas com estrutura gigantesca e faturamento
mensal milionário e outras com apenas urna portinha comercial e único empregado. Como pretender
que esse pequeno empreendimento arque com a reabilitacáo de um trabalhador, ainda que seu
empregado? Com qual estrutura e conhecimento?
E, para aqueles que defendem que esse pequeno empregador estaría dispensado de tal
obrígacáo, co1no afirmar que semente os trabalhadores de grandes empresas é que possuem direito
a reabilitacáo?
Ser reabilitado para a mesma funcáo anteriormente exercida ou para atividade diversa é

direito de todos os segurados do Regime Geral de Previdéncia Social, independentemente do porte


economice e estrutural de seu empregador e, até mesmo, de serem esses segurados empregados e
registrados em alguma empresa, já que autónomos, empresários e até os contribuintes facultativos
(que nao trabalham) possuern a mesma protecáo legal.
Por tal razáo é que a Iegislacáo atribuiu a responsabilidade (e o custo) a Previdéncia Social e,
como para o treinamento profissional (que é urna parte do Programa) é preciso a partícipacáo de
empresas, possibilitou a celebracáo de convenios, contratos, acordos e parcerias junto a instituicóes
públicas e privadas. Trata-se, pois, de urna possibilidade, e nao de urna ordem,
Por mais recomendável que seja urna empresa participar desse processo, oferecendo estrutura,
treinamento e custeando despesas, nao se trata de urna obrigacáo legal, mas sim de tuna faculdade,
sem qualquer punicáo para os empreendimentos que nao quiserem ou nao puderem, por qualquer
motivo, participar.
Os trabalhadores, por sua vez, e como já dito em exaustáo, possuem direito a essa reabilitacáo
nos moldes previstos pela legislacáo (e nao como, infelizmente, tem sido praticada pelo INSS) e nao
somente podem, como devem, exigí-la na esfera administrativa ou judicial.

9.4. Concluséi.o da reabilitacao - certificado concedido pelo INSS

Concluído o processo de reabilitacáo profíssíonal, a Previdéncia Social deverá emitir e fornecer


ao trabalhador um certificado individual, no qual deveráo constar expressamente todas as atividades
que poderáo ser exercidas pelo beneficiário. Confira-se tal obrigatoriedade no art. 92 da Lei n. 8.213/91:
Art. 92. Concluido o processo de habilitacáo ou reabilitacáo social e profissíonal, a Previdéncia Social emitirá
certificado individual, indicando as atividades que poderáo ser exercidas pelo beneficiário, nada irnpedindo que este
exerca outra atividade para a qua! se capacitar.

Importa registrar, contudo, que a Previdéncia Social encontra-se obrigada a reabilitar o


trabalhador, mas nao amante-lo no mesmo emprego anterior ou, ainda, recolocá-lo em outro para o
qual foi reabilitado.

124
O processo encerra-se coma emissáo do certificado, mas o§ 2Q do art. 140 da IN INSS n. 77/2015
dispóe que cabe a Previdéncia Social articular com a comunidade para levantamento da oferta do
mercado de trabalho, direcionamento da prograrnacáo profissional e possibilidade de reingresso
do reabilitando no mercado formal:
Art. 140. Concluido o processo de reabilitacáo profíssional, o Instituto Nacional do Seguro Social emitirá certificado
individual indicando a funcáo para a qua! o reabilitando foi capacitado profissionalmente, sem prejuízo do exercício
de outra para a qual se julgue capacitado.
§ lQ Nao constituí obrigacáo da previdéncia social a manutencáo do segurado no mesmo e1nprego ou a sua colocacáo
em outro para o qua! foi reabilitado, cessando o processo de reabilítacáo profissional coma ernissáo do certificado a
que se refere o caput.
§2Q Cabe a previdéncia social a articulacáo coma comunidade, com vistas ao levantamento da oferta do mercado de trabalho, ao
direcionamento da programacáo profissional e a possibílídade de reingresso do reabilitando no mercado formal.
§ 32 O acompanhamento e a pesquisa de que trata o inciso IV do art. 137 é obrigatório e tern como finalidade a
comprovacáo da efetividade do processo de reabilitacáo profissional.

9.5. Contratacáo de trabalhadores reabilitados por empresas com cem ou mais


empregados
Empresas maiores, com cem ou mais empregados, encontram-se obrigadas a manter em seus
quadros funcionais um percentual de trabalhadores reabilitados pelo INSS ou deficientes também
por ele habilitados (todos portadores do certificado, conforme visto no subitem anterior).
Referida obrígacáo consta do art. 93 da Lei n. 8.213/91, e os percentuais sao distribuídos conforme
o número de empregados da empresa, na seguinte proporcáo:
I - até 200 empregados 2%;
U - de 201 a 500 3%;
IIT - de501a1.000 4%;
IV - de 1.001 em diante .5°/o

Preencher essa quota nem sempre é tarefa fácil ou, mesmo, possível. Note-se que semente
empresas de porte maior, com mais de cem empregados, é que se encontram obrigadas a contratar
esses trabalhadores, justamente porque, muitas vezes, é preciso fornecer estrutura diferenciada para
recebe-los, o que demanda custo e treinamento.
No entanto, as empresas nem sempre estáo preparadas, e tampouco os trabalhadores, já que,
na prática, o progra1na de reabilitacáo nao vem sendo desenvolvido nos moldes previstos pelo
legislador. Em alguns casos ou localidades, sequer é possível encontrar no mercado de trabalho esses
profissionais, qualificados ou habilitados a exercer as atividades.
Como é o INSS, atualmente, quem deve manteras equipes multiprofissionais e os Programas de
Reabilitacáo e Habilitacáo Profission.ais, e corno se encentra obrigado a articular com a comunidade
sobre as ofertas de trabalho, direcionamento do programa e possíbilidade de reingresso dessas
pessoas, o correto seria manter, também, um servico pelo qual empresas e trabalhadores pudessem
ter inforrnacáo sobre os profissionais e vagas disponíveis, como um banco de dados, por exemplo.
Contudo, essa informacáo nao se encentra disponível, e as partes precisam utilizar os meios comuns
de busca e oferta de emprego.
O que se recomenda as empresas é, em primeiro lugar, manter estrutura e pessoal treinado
a receber os trabalhadores reabilitados (e deficientes habilitados). Em segundo lugar, manter
preenchidos os percentuais fixados na Iegislacáo e, nao sendo possível, comprovar documentalmente
que tentou buscar esses profissionais junto ao INSS, ao Ministério do Trabalho e Emprego e até
mesmo na localidade, por meio de avisos e publicacáo em jornais locais.

125
Para os trabalhadores, é importante que o currículo mencione a existencia do Programa e, se,
possível, que contenha anexado o certificado emitido pelo INSS. Também importa registrar que,
urna vez contratados, semente podem ser demitidos sem justa causa ou por término do período de
experiencia se a empresa tiver contratado substituto em condicáo semelhante (também reabilitado
ou habilitado pelo INSS).
Nao se trata de urna estabilidade no emprego propriamente dita, mas sim da obrigatoriedade da
e1npresa em manter o percentual de reabilitados ou habilitados devidamente preenchido. Se possui
150 empregados, por exemplo, precisa ter 3 trabalhadores reabilitados ou deficientes habilitados,
permanentemente. Se dispensar um deles, ficará em situacáo irregular e, por isso, precisa ter contratado
alguém para essa vaga antes de proceder a rescisáo pretendida. Se assim nao procedeu, encentra-se a
empresa impedida de efetivar a dispensa do referido trabalhador e, se desobedecer, nao semente estará
sujeita a multa administrativa pelo descumprimento da legislacáo vigente como certamente se obrigará a
anular a dispensa e reintegrar o trabalhador se este ingressar com acáo judicial.

9.6. Readaptaciio de trabalhadores

Os conceitos de reabilitacáo e readaptacáo sao, por vezes, confundidos, gerando interpretacáo


equivocada da legislacáo vigente.
Por Reabilitacáo Profissional <levemos compreender aquela de obrigacáo da Previdéncia Social,
atualmente oferecida pelo INSS por equipes multiprofissionais que devem avaliar o potencial
laborativo do trabalhador, orientá-lo e acompanhá-lo no programa profissional (oferecendo cursos e
treinamentos na comunidade), entre outras atribuicóes vistas nos subitens anteriores.
A readaptacáo, ao contrário, deve ser promovida pela própria empresa, sem interferencia do INSS.
Trata-se de identificar, pelos exames médicos que integram o PCMSO - Programa de Controle Médico
e Saúde Ocupacional (NR-7) -, ou por qualquer outro meio, os trabalhadores que necessitam de troca
de funcáo para que nao adoecam ou nao tenham algum problema já existente agravado em razáo da
atividade laborativa. A prática deve ser utilizada, poís, como medida preventiva dos riscos relacionados
aos postes de trabalho, justamente para evitar acidentes de trabalho, ainda que por concausa.
Além de identificar os trabalhadores, a empresa também identifica as funcóes compatíveis
com a capacidade laborativa residual desses empregados, preparando-os profissionahnente para o
exercício da nova atividade.
É possível, poís, que a readaptacáo ocorra com um trabalhador que nunca chegou a se afastar
das atividades e que, consequentemente, nunca chegou a receber da Previdéncia Social o beneficio de
auxílio-doenca ou o servico de reabilitacáo profissional. Para estés, <leve a e1npresa cuidar para que a
indicacáo médica reste bem documentada, de forma a evitar problemas futuros com questionamentos
de" desvío de funcáo". Também deve estar atenta a questáo salarial, porque nao podern sofrer reducáo
em sua remuneracáo mensa}, e como nao se tratam de trabalhadores reabilitados ou habilitados pelo
INSS, servern de paradigma para outros trabalhadores postularem a equiparacáo salarial.
Nos casos em que a readaptacáo ocorrer após o trabalhador retornar do auxilio-doenca e do
servico de Reabilitacáo promovido pelo INSS, co1n o objetivo de identificar dentre as novas aptidóes
do obreiro a funcáo mais compatível e isenta de riscos ao agravamento da enfermidade ou lesáo, a
preocupacáo se restringe apenas a nao reduzir a remuneracáo porque, nos termos do art. 461 da CLT,
§42, nao poderá servir de paradigma a equiparacáo salarial. Confira-se:
Art. 461. Sendo idéntica a funcáo, a todo trabalho de igual valor, prestado ao mesmo empregador, na mesma
localidade, corresponderá igual salário, sem distincáo de sexo, nacionalidade ou idade.
[... ]
§ 411 O trabalhadorreadaptado em nova funcáo por motivo de deficiencia física ou mental atestada pelo órgáo
competente da Previdéncia Social nao servirá de paradigma para fins de equiparacáo salarial.

126
~11®
~]])~~80 ~~ DO ~
~:&'í®~D~

10.1. Pagamento dos primeiros días de afastamento

O primeiro direito do trabalhador, quando da ocorréncia de acidente de trabalho, refere-se ao


pagamento, pela empresa, dos primeiros dias de afastamento e sobre o qual já me manifestei nos
subitens 8.1.4 e 8.2.2 desta obra, quando tratei especifícadamente das características do auxílio-doenca
e da aposentadoria por invalidez.
Assim, para que nao fique repetitivo o conteúdo abordado, mas considerando a importancia
do tema, remeto o leitor a tais consideracóes, até porque entendo pela inconstitucionalidade dos
dispositivos, devendo competir a Previdéncia Social o pagamento de todo o período, assim como
ocorre para os demais segurados do Regime Geral de Previdéncia Social.
Cumpre aqui destacar, apenas, que sobre esse pagamento nao <leve incidir contribuicáo
previdenciária (nem pela empresa, nem pelo trabalhador), porque nao se trata de parcela
remuneratória, destinada ao pagamento da prestacáo de servícos. Trata-se de beneficio, cujo
pagamento foi atribuído a empresa por forca da Lei n. 8.213/91, mas que nao guarda qualquer relacáo
coma previsáo de contribuicáo social disposta no art. 195, I, a, da CF/88. Confira-se:
Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a socíedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei,
mediante recursos provenientes dos orcamentos da Uníáo, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municipios, e das
seguintes contribuicóes sociaís:

I - do empregador, da empresa e da entidade a ela equiparada na forma da leí, incidentes sobre:


a) a folha de salários e demais rendimentos do trabalho pagos ou creditados, a qualquer título, a pessoa física que lhe
preste servico, mesmo sern vínculo empregatício;

Por nao se enquadrar no conceito de "rendimentos do trabalho" e, assim, nao possuir natureza
remuneratória, referido pagamento nao poderia integrar o conceito de salário de contribuicáo, como
assim prevé, inclusive, a própria redacáo do inciso I, art. 28, da Leí n. 8.212/91. Confira-se:
Art. 28. Entende-se por salário de contribuicáo:
I - para o empregado e trabalhador avulso: a remuneracáo auferida em uma ou mais empresas, assim entendida
a totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título, durante o mes, destinados a retribuir
o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e
os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos servicos efetivamente prestados, quer pelo tempo a
disposicáo do empregador ou tomador de servícos nos termos da Jei ou do contrato ou, ainda, de convencáo ou
acordo coletivo de trabalho ou sentenca normativa;
[ ... ]

Na prática cotidiana, contudo, há a cobranca de contribuicáo previdenciária sobre tal parcela,


de forma inclusive automática, pormeio do preenchimento da informacáo no formulário GFIP/SEFIP
que é mensalmente encaminhado a Previdéncía Social.
Sobre o tema, o STJ já mantém entendimento pacificado quanto a ilegalidade, mas as decis6es
se aplicam somente as empresas que ajuizaram as respectivas acóes judiciais, nao havendo efeito erga
omnes.

127
Trabalhadores e empresas prejudicados podem e devem, portanto, ingressar com as acóes
judiciais necessárias a recuperacáo da contribuicáo que foi indevidamente paga, sendo pacífico o
entendimento jurisprudencia! no Superior Tribunal de [ustica, como já dito, e conforme ilustra o
seguinte julgado (destaque meu):
PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. TRIBUTÁRIO. CONTRIBUT<;ÁO
PREVIDENCIÁRIA A CARGO DA EMPRESA. INCIDÉNCIA SOBRE FALTAS ABONADAS.
l. A jurisprudencia desta Corte no sentido de que incide contribuicáo prevídenclária sobre os valores relativos ao
é

abono de faltas, diferentemente do que ocorre coma importancia paga nos quinze días que antecedem o auxilio-
doenca, que nao detém caráter salarial, de modo que nao é qualquer afastamento do empregado que implica sua
nao incidéncia.

2. Agravo regimenta! nao provido.


(STJ - AgRg no REsp 1489916/PR - P Turma - Relator Ministro Benedito Concalves - Dje de 11.3.2015)

10.2. Depósito de FGTSdurante o a/astamento

Preve expressamente a Leí n. 8.036/90, no art. 15, § 5º,<99> a obrigatoriedade do depósito de FGTS
durante a licenca por acidente de trabalho, sendo a redacáo expressa do dispositivo a seguinte:
Art. 15. Para os fins previstos nesta lei, todos os empregadores ficam obrigados a depositar, até odia 7 (sete) de cada
mes, em conta bancaria vinculada, a importancia correspondente a 8 (oito) por cento da rernuneracáo paga ou devida,
no mes anterior, a cada trabalhador, incluídas na remuneracáo as parcelas de que tratam os arts, 457 e 458 da CLT e
a gratificacáo de Natal a que se refere a Lei n. 4.090, de 13 de julho de 1962, comas modificacóes da Lei n. 4.749, de
12 de agosto de 1965.
[... ]
§ 5º O depósito de que trata o capui deste artigo obrigatório nos casos de afastamento para prestacáo do servico
é

militar obrigatório e licenca por acidente do trabalho,


[... ]

Já o regulamento. constante do art. 28 do Decreto n. 99.684/90, repete os mesmos tennos da leí


ordinária, assim dispondo sobre o tópico:
Art. 28. O depósito na conta vinculada do FGTS é obrígatório também nos casos de interrupcáo do contrato de trabalho
prevista em leí, tais como:
[... ]
III - licenca por acidente de trabalho:
[... )

É certo, pois, o direito aos depósitos fundiários durante os primeiros dias de a.fastamento (pagos
pela empresa, em face da Lei n. 8.213/91), bem como também enquanto perdurar o benefício de
auxílio-doenca acidentário concedido pelo INSS (espécie B91).
A questáo que se impóe é a existencia desse direito quando, impossibilitado de recuperar
a capacidade laborativa para a profissáo habitual ou de ser reabilitado pelo INSS para atividade
diversa, passa o trabalhador a receber o benefício de aposentadoria por invalidez e, para elucidacáo
do direito, cumpre transcrever as dísposícóes contidas na CLT:
Art. 475. O empregado que for aposentado por invalidez terá suspenso o seu contrato de trabalho durante o prazo
fixado pelas leis de previdéncia social para a efetivacáo do beneficio.
§ 1° Recuperando o empregado a capacidade de trabalho e sendo a aposentadoria cancelada, ser-lhe-á assegurado o
direito a funcáo que ocupava ªº
tempo da aposentadoria, facultado, porém, ªº
empregador. o direito de indenizá-
lo por rescisáo do contrato de trabalho, nos tennos dos arts. 477 e 4781 salvo na hipótese de ser ele portador de
estabilidade, quando a indenizacáo deverá ser paga na forma do art. 497.

(99) O § 5!! foi incluído ao art. 15 da Leí n. 8.036/90 pela Lei n. 9.711/98.

128
§ 2Q Se o empregador houver admitido substituto para o aposentado, poderá rescindir, com este, o respectivo contrato
de trabalho sem indenizacáo, desde que tenha havido ciencia inequívoca da interinidade ao ser celebrado o contrato.
Art. 476. E1n caso de seguro-doenca ou auxílio-enfermidade, o empregado é considerado em licenca nao remunerada,
durante o prazo desse beneficio.
É possível observarmos que, no art. 475, ao mencionar a aposentadoria por invalidez, a CLT
informa a ocorréncia de suspensáo contratual, e no art. 476, quando se refere ao auxílío-doenca,
menciona urna situacáo de licenca nao remunerada.
Assim também faz referencia o art. 63 da Lei n. 8.213/91. Confira-se:
Art. 63. O segurado empregado, inclusive o doméstico, em gozo de auxílio-doenca será considerado pela empresa e
pelo empregador doméstico como licenciado.
Parágrafo único. A empresa que garantir ao segurado licenca remunerada ficará abrigada a pagar-lhe durante o
periodo de auxílio-doenca a eventual diferenca entre o valor deste e a importáncla garantida pela Iicenca.
Por tais razóes, e porque o vocábulo "licenca" refere um afastamento temporário, o Tribunal
Superior do Trabalho vem mantendo o entendimento de interpretar restritivamente as disposicóes
do inciso 111 do art. 28 da Lei n, 8.036/90, mantendo a obrigatoriedade do depósito fundiário tao
somente no período do auxílio-doenca, sem abrangéncia do período de aposentadoria, conforme
ilustra a seguinte ementa:
RECURSO DE REVISTA. DEPÓSITOS DE FGTS. APOSENTADORIA POR INVALIDEZ DECORRENTE DE
ACIDENTE DE TRABALHO OU DOEN~A OCUPACIONAL. SUSPENSÁO DO CONTRATO DE TRABALHO.
Suspenso o contrato de trabalho em decorréncia de aposentadoría por invalidez, nao há obrígatoriedade do
empregador de efetuar os depósitos do FGTS, na medida em que o art. 15, § 52, da Lei n. 8.036/90 refere-se a tal
obrigatoriedade apenas nos casos de afastamento para prestacáo do servico militar obrigatório e de licenca por
acidente do trabalho. Recurso de revista conhecido e provido. (TST - RR - 1019-36.2012.5.05.0461 - 2il Turma -
Relatora Ministra Delaíde Miranda Arantes - Julgamento em 25/02/2015- DEJT de 6.3.2015)
Entendo que essa é, de fato, a melhor interpretacáo que deve ser conferida as regras vigentes,
mas acredito que, havendo comprovacáo de culpa ou dolo na ocorréncía do sinistro, por parte do
empregador, terá a vítima o direito de postular o valor correspondente a esses depósitos em acáo
indenizatória.

10.3. Complemento do valor do auxilio-doenca ou da aposentadoria por invalidez


Corno observado no subitem 8.1.3 desta obra, o valor que o trabalhador receberá a título de bene-
fício previdenciário pode nao corresponder ao valor que recebe na ativa. Para o cálculo do benefício
o INSS fará urna média das remuneracóes do trabalhador desde julho/1994, e no caso do auxílio-
-doenca, ainda será aplicado um percentual (91 %) sobre o resultado obtido. A contar de 1 º.3.2015,
por forca da MP 664 e da Lei n. 13.135, o INSS irá comparar o resultado desse cálculo coma médía
dos últimos 12 salários-de-contribuicáo, pagando ao trabalhador af astado o menor dos valores.
Na maior parte das vezes, portanto, o valor do benefício acaba sendo inferior áquele que o
trabalhador receberia se permanecesse na ativa, mas, infelizmente, nao há na legislacáo vigente
qualquer dispositivo que abrigue o empregador a complementar tal montante, ainda que se trate de
acidente de trabalho.
Assim, nao havendo previsáo legal, deve a matéria ser objeto de negocíacáo em documento
coletivo (acordo ou convencáo), e se tal documento nada referir sobre o tópico, durante o período
de afastamento o trabalhador receberá apenas o benefício previdenciário, sem direito a qualquer
complementacáo por parte de seu empregador. No entanto, e como já <lito no subitem interior,
compreendo que caso exista comprovacáo de culpa ou dolo na ocorréncia do sinistro, por parte do
empregador, terá a vítima o direito de postular o valor correspondente a essa complementacáo em
acáo indenizatória.
Havendo mencáo a tal complemento, ou se assim desejar proceder o empregador por liberalidade
(pagando o complemento a todos os trabalhadores afastados), sobre tal montante nao incidirá
qualquer contribuicáo previdenciária (tampouco FGTS), dada sua natureza indenizatória, conforme

129
previsáo expressa, inclusive, na Lei n. 8.212/91, art. 28, § 9º, alinea n.<100> Sendo paga a complementacáo
nos termos da lei, esta também nao integrará o direito do trabalhador para qua1quer outra finalidade,
e nao servirá como fundamento para descaracterizar a suspensáo contratual ocorrente, caso se trate
de aposentadoria.

10.4. Complemento da cratiftcacao Natalína (13!! salárío)


Instituída pela Lei n. 4.090/62 e também regulada pela Lei n. 4.749/65, a Cratificacáo Natalina
é devida a todo trabalhador empregado, no valor equivalente a um doze avos (1/12) da remunera-
<;ao devida em dezembro, por mes de servico do ano correspondente, ou fracáo igual ou superior a
quinze días.
Quando o empregado se afasta por motivo de incapacidade, recebendo da Previdéncía Social
benefício de auxílio-doenca ou aposentadoria por invalidez, o pagamento da gratíficacáo natalina
passa a ser de competencia do INSS, recebendo denominacáo de "abono anual", conforme previsáo
constante do art. 40 da Lei n. 8.213/91. Confira-se:
Art. 40. É devido abono anual ao segurado e ao dependen te da Previdéncía Social que, durante o ano, recebeu auxilio-
-doenca, auxilio-acidente ou aposentadoria, pensáo por morte ou auxílio-reclusáo.

Parágrafo único. O abono anual será calculado, no que couber, da mesma forma que a Cratificacáo de Natal dos
trabalhadores, tendo por base o valor da renda mensa! do beneficio do mes de dezernbro de cada ano.

Caberá ao empregador, portante, semente o pagamento dos avos correspondentes ao período


trabalhado, computando-se nessa contagem o primeiro mes de afastamento.w" com fundamento nas
disposícóes constantes do art. 2º da Lei n. 4.090/62:
Art. 1º No mes de dezernbro de cada ano, a todo empregado será paga, pelo empregador, urna gratíficacáo salarial,
independentemente da remuneracáo a que fizer jus,

§ 1° A gratificacáo corresponderá a 1/12 avos da remuneracáo devida e1n dezembro, por mes de servico, do ano
correspondente.
§ 2Q A fracáo igual ou superior a 15 (quinze) días de trabalho será havida corno mes integral para os efeitos do
parágrafo anterior,
[... )
Art. 2° As faltas legais e justificadas ao servico nao seráo deduzidas para os fins previstos no§ 12 do art. 1º desta Lei.

A Previdéncia Social será responsável pelo pagamento correspondente ao período de


afastamento, a contar do 31º dia de incapacidade e até a data de cessacáo do beneficio, parcela que
obtém a denominacáo "Abono Anual", conforme visto. O pagamento é efetuado geralmente em
dezembro de cada ano ou juntamente a úJtima parcela do beneficio previdenciário (mes da alta ou da
cessacáo do beneficio), caso este tenha sido encerrado antes da competencia dezembro.
Confiram-se, ainda, as disposícóes constantes da Instrucáo Normativa INSS n. 77/2015:
Art. 396. O abono anual, conhecido corno décimo terceiro salário ou gratificacáo natalina, corresponde ao valor da
renda mensal do beneficio no mes de dezembro ou no mes da alta ou da cessacáo do beneficio, para o segurado que
recebeu auxílio-doenca, auxilio addente, aposentadoria, salário-maternidade, pensáo por morte ou auxílio-reclusáo,
na forma do que dispóe o art. 120 do RPS.

(100) A necessidade de o beneficio ser estendido a todos os trabalhadores do estabelecimento afirma o princípio constitucional da
universalidade do atendimento e da cobertura, preconizado no art. 194, 1, da Carta Magna. Assim, somente se a benesse for estendida
a todos os trabalhadores da empresa, incluindo os gerentes e os diretores, é que terá efetivamente natureza de beneficio, nao inte-
grando a base de cálculo das contnbuicñes previdenciárias e, por consequéncia, conforme previsáo da Lei n. 8.036/90 (art. 15, § 62),
também dos depósitos de FGTS.
(101) Até 28.02.2015 a responsabilidade era apenas até a primeira quinzena de afastamento, cujo pagamento ficava a cargo do ern-
pregador, conforme disposicóes do art. 60 da Lei n. 8.213/91. A contar de 12.03.2015, por forca das alteracóes promovidas no referido
artigo pela MP n. 664/2014, esse prazo passou a ser de trinta dias.

130
§ 1° O recebimento de benefício por período inferior a doze meses, dentro do mesmo ano, determina o cálculo do
abono anual de forma proporcional.
§ 2° O período igual ou superior a quinze días, dentro do mes, será considerado como mes integral para efeito de
cálculo do abono anual.
§ 3° O valor do abono anual correspondente ao período de duracáo do salário-maternidade será pago, em cada
exercício, juntamente coma última parcela do beneficio nele devido.
§ 42 O abono anual incidirá sobre a parcela de acréscimo de 25% (vinte e cinco por cerito), referente ao auxílio
acornpanhante, observado o disposto no art. 120 do RPS.

§ 5° O pagamento do abono anual de que trata o art, 40 da Lei n. 8.213, de 1991, poderá ser realizado de forma
parcelada.
Art. 397. Autorizado o pagamento parcelado do abono anual, o parcelamento será realizado da seguinte forma:
I - para os beneficios permanentes:
a) 50% (cinquenta por cento) do valor devido até a competencia dezembro ou da cessacáo do beneficio, caso prevista,
na competéncia agosto; e

b) lOO°lo (cem por cento) do valor devido até a competencia dezembro, na competencia novembro, descontado o valor
da parcela paga anteriormente no ano;

JI - para os beneficios temporários:


a) 50°/o (cinquenta por cento) do valor devido até a competencia agosto ou da cessacáo do beneficio, caso prevista,
na competencia agosto, descontados os valores pagos anteriormente no ano decorrentes de cessacéo de beneficio
posteriormente restabelecido; e
b) 100% (cem por cento) do valor devido até a competencia dezembro ou da cessacáo do beneficio, caso prevista, na
competencia novembro, descontado o valor das parcelas pagas anteriormente no ano.

Cumpre destacar, por fim, que em se tratando de Auxílio-Doenca Acidentário decorrente de


acidente do trabalho e estando, assim, interrompido o contrato firmado entre as partes, as ausencias
do obreiro nao poderáo ser consideradas para fins de aquisicáo do 13º Salário (cf. art. 2º da Lei
n. 4.090/62) e nem tampouco para efeito do cálculo correspondente, senda este o entendimento
consubstanciado, inclusive, na Súmula n. 46 do Tribunal Superior do Trabalho. Confira-se:
Súmula n. 46 - Acidente de trabalho. As faltas ou ausencias decorrentes de acidente do trabalho nao sao consideradas
para os efeitos de duracáo de férias e cálculo da gratíñcacáo natalina.

E1n face de tais prevísóes, e porque o valor pago a título do Abono Anual pode vir a ser inferior
aoque o trabalhador receberia se nao tivesse se afastado por motivo do acidente, compreendo correto
o seguinte procedimento:
a) a empresa efetuará pagamento proporcional ao período efetivamente trabalhado no ano
base (anterior e posterior ao afastamento), sendo considerados para esta apuracáo também os
primeiros quinze días de afastamento;
b) a Previdéncia Social efetuará pagamento proporcional ao período de afastamento, a contar do
162 dia de incapacidade e até odia anterior ao retorno do obreiro as suas atividades profissionais,
parcela que receberá a denominacáo de "Abono Anual", geralmente paga em dezembrot'?"
ou quando do pagamento da última parcela do benefício, se este acorrer anteriormente a
competencia dezembro;
c) o empregador deverá verificar o valor pago pela Previdéncia Social a título de Abono Anual
e, se o valor total recebido pelo empregado for inferior ao montante que perceberia se houvesse
trabalhado durante todo o ano base (conforme cálculo comparativo a ser efetuado pela empresa),
caberá o pagamento dessa diferenca sob a denominacáo de "complernentacáo de 13º Salário".

(102) Atualmente, o pagamento é feito em duas parcelas, sendo a primeira em agosto (a título de antecipacáo), e a segunda,
em dezembro.

131
10.5. Repercussii.o no direito aférias

O direito ao gozo de férias anuais remuneradas encontra-se expresso no Capítulo IV da


Consolidacáo das Leis do Trabalho, especificamente nos arts. 129 a 153, sendo devido depois de
decorridos doze meses de vigencia contratuaI. Confiram-se, inicialmente, os arts. 129e130 do referido
Estatuto Laboral:
Art. 129. Todo empregado terá direito anualmente ao gozo de um período de férias, sem prejuízo da remuneracáo,

Art. 130. Após cada período de 12 (doze) meses de vigencia do contrato de trabalho, o ernpregado terá direito a férias,
na seguinte proporcáo:

I - 30 (trinta) días corridos, quando nao houver faltado ao servíco mais de 5 (cinco) vezes:

IT - 24 (vinte e quatro) dias corridos, quando houver tido de 6 (seis) a 14 (quatorze) faltas;

Ill - 18 (dezoito) dias corridos, quando houver tido de 15 (quinze) a 23 (vinre e tres) faltas;

IV - 12 (doze) dias corridos, quando houver tido de 24 (vinte e quatro) a 32 (trinta e duas) faltas.
§ 1° É vedado descontar, do período de férias, as faltas do empregado ao servico.
§ 22 O período das Iérias será computado, para todos os efeitos, como tempo de servico,
,
E importante observarmos que o art. 130 menciona expressamente "12 ( doze) meses de vigencia do
contrato de trabalho" e nao doze meses de efetiva prestacáo de servícos. Por tal razáo, e considerando
os termos da Súmula n. 46 do TST,l103l compreendo que as faltas justificadas em face do acidente de
trabalho (com ou sem percepcáo de beneficio previdenciáriov?") nao podem ser computadas para a
reducáo do direito. Assim, inclusive, disp6e expressamente o art. 131, inciso lll.
Art. 131. Nao será considerada falta ao servíco, para os efeitos do artigo anterior, a ausencia do empregado:

[ ... J

lll - por motivo de acidente do trabalho ou enfermidade atestada pelo Instituto Nacional do Seguro Social - INSS,
excetuada a hipótese do inciso IV do art, 133;
[... )

No entanto, se o período de ausencia superar seis meses dentro de um mesmo período aquisitivo,
disp6e a CLT que haverá a perda do direito de férias, sendo a redacáo do art. 133, IV, a seguinte:
Art, 133. Nao terá direito a férias o empregado que, no curso do período aquisitivo:

[... )
IV - tiver percebido da Previdéncia Social prestacóes de acidente de trabalho ou de auxílio-doenca por mais de 6
(seis) meses, embora descontinuos.

[... ]

§ 2<> Inícíar-se-á o decurso de novo período aquisitivo quando o empregado, após o implemento de qualquer das
condicóes previstas neste artigo, retornar ao servico.
[... ]

O que determina a CLT, portanto, é que, permanecendo o trabaihador afastado de suas atividades
profissionais ( durante o período aquisitivo) por período inferior a seis meses, esse período nao trará
qualquer alteracáo no direito de férias, devendo ser computado normalmente pelo empregador.

(103) TST, Sumula n. 46: "Acidente de trabalho. As faltas ou ausencias decorrentes de acidente do trabalho nao sao consideradas para
os efeitos de duracáo de férias e cálculo da gratifícacáo natalina".
(104) O trabalhador já aposentado (por idade ou tempo de contribulcño] que sofre acidente do trabalho nao terá direito a receber da
Previdéncia Social o auxílio-doenca (em face da proibicáo de acumulacáo desses beneficios) e justificará suas ausencias apenas com
atestados médicos informando a existencia de incapacidade laborativa.

132
No entanto, se o período de afastamento (dentro do mesmo período aquisitivo) for superior a seis
meses, perderá o trabalhador o direito as férias do correspondente período, inclusive com prejuízo
do período trabalhado, devendo iniciar-se o decurso de novo período aquisitivo quando do retorno
as atividades profissionais.
Essa determinante, contudo, nao é a que consta da Convencáo n. 132 da Organizacáo
Internacional do Trabalho, concluída em Genebra na data de 24.06.1970 e aprovada pelo Congresso
Nacional Brasileiro por meio do Decreto Legislativo n. 47, em 23.09.1981. O depósito do instrumento
de ratificacáo desta Convencáo junto ao Bureau Internacional do Trabalho - BIT - se deu em
23.09.1998 e o texto oficial se tornou público por meio do Decreto n. 3.197, de 05.10.1999, publicado
no Diário Oficial da Uniáo em 06.10.1999.
Por ser a Convencáo um Tratado Internacional e desde que norma autoexecutável, após
sua incorporacáo ao ordenamento jurídico interno, passa a constituir um direito e urna garantia
constitucional, complementando, alterando e até mesmo revogando a legíslacáo preexistente. Esse
é o comando do § 2Q do art. 52 da Carta Constitucional de 1988, que, sornado ao inciso I do art. 49,
inciso VIII do art. 84 e alínea "a" do inciso III do art. 105, fundamenta de forma suficiente a vigencia
da Convencáo OIT n. 132 no ordenamento jurídico nacional.
A discussáo sobre sua vigencia e aplicabilidade decorrem, contudo, da possibilidade de
utilizarmos um ou outro artigo mais benéfico (teoría da incidibilidade dos institutos jurídicos) ou se
estaríamos obrigados a analisar o conjunto de normas do referido Tratado (teoría do conglobarnento ),
em comparacáo as regras dispostas na CLT.
Posiciono-me a favor da incidibilidade dos institutos, sendo possível a aplicacáo de um ou
outro artigo que seja mais favorável ao trabalhador, em detrimento do previsto na CLT, nao sendo
necessário analisar conjuntamente todo o previsto na Convencáo n. 132. Este, contudo, nao tem sido
o entendimento adotado pelo TST, que parece ser adepto da teoria do conglobamento, conforme
ilustra o seguinte julgado (destaque meu):
RECURSO DE REVISTA. DISPENSA POR JUSTA CAUSA. PAGAMENTO DE FÉRIAS PROPORCIONAIS
ACRESCIDA DO TER<;:O CONSTITUCIONAL. CONVEN<;:AO N. 132/0IT E ART. 146 DA CLT. CONFLITO
DE NORMAS. SÚMULA N. 171/TST. Os tratados internacionais devem ser interpretados a vista do principio da
especialidade das leis, segundo o qua) certas normas de direito interno nao podem ser derrogadas in absoluto pelo
conteúdo do tratado, ainda que sejam aparentemente conflitantes entre si. Tal hipótese verifica-se quando as leis -
(nova e anterior) forem gerais, ou especiais. No conflito entre o art. 146, parágrafo único, da CLT, e os arts. 42 e 11 da
Convencáo n. 138/0IT deve-se considerar o conjunto normativo relativo a cada quaestio iuris apresentada a exame e
a realidade fática dos autos. Nesse contexto, considerando as peculiaridades de que se reveste a Convencáo n. 132 da
OIT no ordenamento jurídico brasileíro. este Tribunal Superior do Trabalho solucionou a questáo por meio da reedicáo
da Súmula n. 171 que se posicionou no sentido de que o empregado dispensado por justa causa nao tem direito as
férias proporcionáis. Recurso de revista conhecido e provido. [ ... ] (TST - RR 1545-89.2012.5.04.0021 - 6Q Turma -
Relator Ministro Aloysio Correa da Veiga - Julgamento em 25.3.2015 - DEJT de 31.3.2015)

Entendendo-se pela vigencia e aplicabilidade da Convencáo OIT n. 132, <leve ser observada
a redacáo constante em seu art. 52, que expressa a possibilidade de o legislador interno exigir um
período mínimo de servico (nao superior a seis meses) para a obtencáo, pelo trabalhador, do direito
ao período de férias anuais remuneradas. Confira-se a íntegra do dispositivo:
Art. SQ

1 - Um período mínimo de servico poderá ser exigido para a obtencáo de direito a um período de férias remuneradas
anuais,

2 - Cabe a autoridade competente e ao órgáo apropriado do país interessado ñxar a duracáo mínima de tal. período
de servico, que nao poderá em caso algu1n ultrapassar 6 (seis) meses.

3 - O modo de calcular o período de servíco para determinar o direi to a férias será fixado pela au toridade competente
ou pelo órgáo apropriado de cada país.

133
4 - Nas condícóes a serem determinadas pela autoridade competente ou pelo órgáo apropriado de cada país, as
faltas ao rrabalho por motivos independentes da vontade individual da pessoa empregada interessada tais como
faltas devidas a doencas, a acidente, ou a licenca para gestantes, nao poderáo ser computadas como parte das férias
remuneradas anuais mínimas previstas no§ 3° do art. 3° da presente Convencáo.

[á o art. 4º da citada Convencáo Internacional dispóe que o ernpregado, nao tendo trabalhado o
período mínimo fixado pelo legislador, no período aquisitivo de férias, terá direito ao recebimento
de férias proporcionalmente reduzidas. In verbis:
Art. 42
1 - Toda pessoa que tenha completado, no curso de 1 (um) ano determinado, um período de servico de duracáo
inferior ao período necessario a obtencáo de direito a totalidade das férias prescritas no Artigo terceiro acima terá
direito, nesse ano, a férias de duracáo proporcionalmente reduzidas.
2 - Para os fins <leste Artigo o termo "ano" significa ano civil ou qualquer outro período de igual duracáo fixado pela
autoridade ou órgáo apropriado do país interessado.

Dos dispositivos da OIT é possível observarmos ser possível o gozo proporcional das férias
quando o empregado nao trabalhar, durante o periodo aquisitivo, o tempo mínimo suficiente para
obté-las de forma integral. Logo, ficaria prejudicado parcialmente o inciso IV do art. 133 da CLT, ao
determinar a perda do direito de férias quando o empregado, "no curso do período aquisitivo, tiver
percebido da Previdéncia Social prestacóes de acidente do trabalho ou de auxílio-doenca por mais de
seis meses, embora descontinuos".
Nos termos do Tratado Internacional, que entendo vigente e perfeitarnente aplicável, o
empregado nao mais perderia o direito de férias, mas faria jus ao gozo proporcional destas porque
nao trabalhou, durante o período aquisitivo, o tempo mínimo exigido pelo legislador para adquirí-
las integralmente.
Assim, por forca de o art. 131 da CLT expressar que as faltas decorrentes de acidente do trabalho
ou enfermidade nao devem ser consideradas para a reducáo do direito de férias, teríamos as seguintes
situacóes:
a) afastamento inferior a seis meses no período aquisitivo: direito a integralidade do período de férias, com
remuneracáo integral pelo empregador;
b) afastamento superior a seis meses no período aquisitivo: direito proporcional de férias, sem perda do período
trabalhado anteriormente ao afastamento.

Entendendo-se pela nao aplicabilidade da Convencáo OIT n. 132, <leve ser mantido o disposto
no art. 133 da CLT, perdendo o trabalhador todo o direito de férias relativo ao período aquisitivo
em que ficou afastado mais de seis meses. Novamente registro, contudo, como já fiz nos subitens
anteriores, que sendo comprovada culpa ou dolo por parte do empregador na ocorréncia do acidente
do trabalho, esse prejuízo pode ser cobrado em acáo indenizatória.

10.6. Manutencüo de benefícios contratuais durante o afastamento -plano de


saúde, vale alimentacüo e outros

Antes de adentrar o tema proposto, sobre a obrigatoriedade de o empregador manter beneficios


como plano de saúde e vale-alimentacáo durante os períodos de afastamento, importante é

diferenciarmos conceitualmente a paralisacáo total da execucáo do contrato (suspensáo contratual)


da paralisacáo parcial (interrupcáo contratual), posto que provocarn efeitos diversos na relacáo de
emprego.
Como o vínculo empregatício subsiste em qualquer hipótese, nao ocorrendo a rescisáo do
contrato de trabalho, a paralísacáo (total ou parcial) será sempre temporaria. No entanto, a suspensáo
contratual importa, como mencionado, na paralísacáo total do contrato de trabalho, aqui se aplicando

134
urna visáo mais ampla do contrato e nao se restringindo apenas ao pagamento dos salários. Assim,
para que se caracterize a suspensáo, o contrato <leve estar totalmente paralisado, sem obrigacáo
contratual para qualquer das partes contratantes. Nao haverá a prestacáo de servicos e nao subsistirá
qualquer obrigacáo patronal, de forma que o contrato nao produzirá, consequentemente, qualquer
efeito para fins de Direito do Trabalho ou de Direito Previdenciário.
[á a interrupcáo contratual refere uma paralisacáo parcial do contrato de trabalho, também aqui
devendo ser adotada urna visáo mais ampla dos direitos existentes em um vínculo empregatício e
náo se restríngindo somente ao pagamento dos salários. Nesta linha de raciocínio, se o empregador
pennanecer com obrigacóes contratuais, apesar da nao prestacáo dos servicos contratados, restará
caracterizada a interrupcáo contratual, situacáo em que o período decorrido integra o tempo de
servico para toda e qualquer finalidade.
Referidos conceitos, contudo, nao sao pacíficos entre os doutrinadores, existindo correntes a eles
favoráveis e, também, contrárias. Alguns se posícíonam no sentido de que apenas o pagamento dos salários
<leveser o fator determinante para caracterizar a interrupcáo contratual, conforme já tive a oportunidade
de abordar na obra intitulada A relacdo de emprego e os impactos decorrentes dos beneficios preoidenciários, 2~
edicáo, também de minha autoria, publicada pela LTr Editora em 2010.
Penso que a melhor interpretacáo implica urna visáo mais abran.gente dos direitos decorrentes
do vínculo empregatício, no sentido de ser o fator determinante de um ou de outro evento nao apenas
o pagamento dos salários, mas de toda e qualquer obrigacáo legal decorrente do contrato firmado
entre as partes. Nesta esteira, nao seria possível afirmar que um empregado afastado para a prestacáo
de servico militar estaría com seu contrato suspenso, ern face do pagamento obrigatório, pela empresa
contratante, dos depósitos fundiários.PP" Trata-se, nesta hipótese, de interrupcáo contratual, ainda
que nao esteja o salário sendo pago pelo empregador.
Também o período de afastamento pago pelo empregador (atualmente, na ordem de trinta dias,
conforme MP n. 664/2014) <leve ser considerado corno interrupcáo contratual, justamente porque,
nao obstante a ausencia da prestacáo de servicos, há obrigacáo legal quanto ao pagamento dos dias
de atestado.
Partindo dessa premissa, e por dísposícáo expressa do art. 475 da CLT, capui, compreendo
que a concessáo do benefício de aposentadoria por invalidez implica na suspensáo contratual, com
paralisacáo total dos efeitos decorrentes da relacáo de emprego, nao subsistindo qualquer obrigacáo
patronal a empresa contratante.
Art. 475. O ernpregado que for aposentado por invalidez terá suspenso o seu contrato de trabalho durante o prazo
fixado pelas leis de previdéncia social para a efetívacáo do beneficio.

Quanto ao auxílio-doenca, compreendo tratar-se de suspensáo contratual somente quando


nao decorrer de acidente do trabalho porque, nessa hipótese, nenhuma obrigacáo subsistirá ao
empregador, assim fazendo referencia, inclusive, o ca.put do art. 63 da Lei n. 8.213/91:
Art. 63. O segurado empregado, inclusive o doméstico, em gozo de auxílio-doenca será considerado pela empresa e
pelo empregador doméstico como licenciado.

Note-se, contudo, ser possível que, por forca de documento normativo da categoría profissional
ou até mesmo por liberalidade do empregador, esse conceda o pagamento de parcela suplementar,
complementando o valor de auxílio-doenca pago pelo INSS. Igualmente possível, conforme se
verá adiante, a manutencáo de benefícios contratuais, como plano de saúde, tíquetes-alimentacáo e
outros. Nessas hipóteses, ainda que subsistam obrígacóes pela empresa (pagamento complementar,
pagamento dos benefícios, Iancamento das parcelas em folha de pagamento e documentos contábeis

(105) Leí n. 8.036/90, art. 15.

135
etc.), estas nao possuem forca suficiente para descaracterizar a suspensáo ocorrente, pesto que nao se
referem a obrigacóes legais, impostas de forma obrigatória pelo legislador positivo, mas sim encargos
decorrentes de ajuste coletivo ou liberalidade do empregador.
A situacáo que caracteriza a interrupcáo contratual, conforme meu entendimento, refere-se ao
beneficio de Auxílio-Doenca Acidentário, quando a incapacidade decorre de acidente do trabalho
ou doencas ocupacionais. Nessa hipótese, determina a Leí n. 8.036/90, em seu art. 15, § 52, que a
e1npresa <leve permanecer com os depósitos fundiários durante todo o período de afastamento, fato
que, por se tratar de obrigacáo legal, acarreta a interrupcáo do contrato de trabalho. Essa é, inclusive,
a caracterizacáo expressa no Decreto n. 99.684/90, art. 28, III (destaque meu):
Art. 28. O depósito na conta vinculada do FGTS é obrigatório também nos casos de interrupcáo do contrato de
traba:lho prevista em leí, tais como:

[... )
ITI - lícenca por addente de trabalho;

[... )

Nao bastasse a obrigacáo quanto ao depósito fundiário, há a necessidade do complemento da


Cratificacáo Natalina e o computo do período de afastarnento para fins de indenizacáo e estabilidade,
conforme previsáo expressa no parágrafo único do art. 42 da CLT:
Art. 4° Considera-se como de servico efetivo o período em que o empregado esteja a disposicáo do empregador,
aguardando ou executando ordens, salvo dísposicáo especial expressamente consignada.
Parágrafo único. Computar-se-áo, na contagem de tempo de servíco, para efeito de indenizacáo e estabilidade, os
períodos em que o empregado estiver afastado do trabalho prestando servico militar ... (VETADO) ... e por motivo
de acidente do trabalho.

Nao obstante parecer-me óbvia a caracterizacáo da interrupcáo contratual nessa hipótese de


auxílio-doenca acidentário, referido posicíonamento é compartilhado apenas pela minoría da doutrina
e da jurisprudencia, conforme, reitero, tive a oportunidade de detalhar na obra A relaciio de emprego e
os impactos decorrentes dos beneficios previdenciários, 2ª edicáo, também de minha autoría, publicada pela
LTr Editora em 2010.
O entendimento que atualmente predom.ina entre nossos juristas e tribunais, inclusive no
ámbito do Tribunal Superior do Trabalho, refere tratar-se de urna situacáo excepcional de suspensáo
contratual, conforme ilustra o seguinte julgado (excerto, com destaques meus):
RECURSO DE REVISTA DO RECLAMANTE. 1) DOEN<;A OCUPACIONAL. NEXO CONCAUSAL CONSTATADO
EM A<;ÁO JUDICIAL. ESTABILIDADE ACIDENTÁRIA. Para a aquisicáo da estabilidade acidentária prevista no art.
118 da Lei n. 8.213/91, é necessario, em príncipío, que o empregado tenha se afastado do emprego, com suspensáo
contratual, por mais de 15 días, tendo recebido o auxílío-doenca acidentário. Todavía, a jurisprudencia desta Corte
evoluiu no sentido de nao considerar imprescindíveis ao reconhecimento da estabilidade acidentária o afastamento
superior a quinze dias e a percepcáo de auxílio-doenca acidentário, desde que constatada, após a despedida, doenca
profíssíonal que guarde relacáo de causalidade com a execucáo do contrato de trabalho (Súmula n. 378, II, do TST).
( ... ) (TST - RR - 1354-36.2010.5.15.0012 - 3ª Turma - Relator Ministro Mauricio Godinho Delgado - [ulgamento
em 30.4.2014 - DEJT de 9.5.2014)

Com a devida <inia, nao vejo razáo para tratar a hipótese em comento corno exceciio a regra da
suspensiio contraiual. Trata-se de regra simples, que pode ser utilizada em qualquer situacáo fática
e que em nada interferirá na prática trabalhista: se inexistente obrigacáo legal para qualquer das
partes, a situacáo será de suspensáo contratual; se existente obrígacáo legal para qualquer das partes,
mesmo que nao se trate de pagamento de salárío, a situacáo será de interrupcáo contratual.
De toda forma, inúmeros efeitos emergem também da suspensáo do contrato de emprego, como
a persistencia da relacáo empregatícia, o direito ao retorno, a impossibilidade de extincáo contratual
por ato unilateral e, ainda, eventual direito a manutencáo de vantagens e beneficios de ordem geral
durante o afastamento.

136
E é justamente sobre a manutencáo desses benefícios contratuais que se refere o presente
subitem, sendo relevante destacar, inicialmente, a diferenca entre o salário-utilidade e os benefícios
contratuais de natureza nao salarial. Determina o art. 458 da Consolidacáo das Leis do Trabalho que
as utilidades fornecidas habitualmente ao trabalhador, nao sendo necessárias ao desenvolvimento
dos trabalhos, sao consideradas como integrantes do salário, para todos os efeitos legais. Confira-se:
Art. 458. Além do pagamento em dinheiro, compreende-se no salário, para todos os efeitos legais, a alimentacáo,
habitacáo, vestuário ou outras prestacóes "in natura" que a empresa, por fórca do contrato ou do costume, fornecer
habitualmente ao empregado. Em caso algum será permitido o pagamento corn bebidas alcoólicas ou drogas nocivas.
§ lQ Os valores atribuídos as prestacóes «in natura» deveráo ser justos e razoáveis, nao podendo exceder, em cada
caso, os dos percentuais das parcelas componentes do salário-mínimo (arts, 81 e 82).
§ 2Q Para os efeitos previstos neste artigo, nao seráo consideradas corno salário as seguintes utilidades concedidas
pelo empregador:
1 - vestuarios, equipamentos e outros acessórios fornecidos aos empregados e utilizados no local de trabalho, para
a prestacáo do servico:
II - educacáo, em estabelecimento de ensino próprio ou de terceiros, compreendendo os valores relativos a matrícula,
mensalidade, anuidade, livros e material didático;

111 - transporte destinado ao deslocarnento para o trabalho e retorno, em percurso servido ou nao por transporte
público;
IV - assísténcia médica, hospitalar e odontológica, prestada diretamente ou mediante seguro-saúde:
V - seguros de vida e de acide:ntes pessoaís:
VI - previdéncia privada¡

VII - Vetado

VIII - o valor correspondente ao vale-cultura.


§ 32 A habitacáo e a alimentacáo fornecidas corno salário-utilidade deveráo atender aos fins a que se destinam e nao
poderáo exceder, respectivamente, a 25% (vinte e cinco por cento) e 20'Yo (vinte por cento) do salário-contratual.
§ 4º Tratando-se de habitacáo coletiva, o valor do salário-utilidade a ela correspondente será obtido mediante a
divisáo do justo valor da habitacáo pelo número de ce-habitantes, vedada, em qualquer hípótese, a utilizacáo da
mesma unidade residencial por mais de urna familia.

Assim, urna vez atendidos os requisitos expressos no Estatuto Laboral (habitualidade da


utilizacáo, fundamento contratual ou nos costumes, onerosidade no fornecimento e atendimento as
necessidades individuais do trabalhador e nao as necessidades do servico), as utilidades fomecidas
seráo consideradas como salário, mas essa tarefa de identificacáo nem sempre é fácil.
Via de regra, se a utilidade concedida for indispensável para a consecucáo do servico, nao terá
natureza salarial. Ou seja, se fornecida para a prestacáo do servíco, nao será considerada salário e, se
fornecida pelo servico prestado, co1no forma de melhor gratificar ou remunerar o trabalhador, atrairá
a natureza salarial.
Certo é, por conseguinte, que utilidades como o uniforme exigido para a prestacáo dos servicos,
as ferramentas, o vale-transporte e o veículo ou o celular cedido ao trabalhador externo, que o
utiliza para a consecucáo das tarefas diárias, dentre outras, nao seráo consideradas como salário,
e certo também que, quando da suspensáo ou interrupcáo do contrato de trabalho, deixam de ser
fornecidas justamente porque estáo atreladas as tarefas desenvolvidas pelo trabalhador, as quais nao
permanece1n quando da concessáo de aposentadoria por invalidez ou mesmo de auxílio-doenca.
Interessa-nos, poís, as utilidades consideradas como salário, as utilidades excluídas de tal
natureza por forca do§ 22 do art. 458 da CLT (educacáo, assisténcia médica e odontológica, seguros
de vida ou acidentes pessoais e previdéncia privada) e a alimentacáo fornecida pelo Programa de
Alimentacáo ao Trabalhador - PAT -, que, igualmente, nao possui natureza salarial.

137
En1 se tratando de utilidades de natureza salarial (alimentacáo concedida fora do Programa
de Alimentacáo, auxílio-aluguel, assinatura de periódicos, auxílio-combustivel, cartees corporativos
etc.), concedidas corno forma de melhor gratificar o trabalhador (pelo trabalho) e sem qualqu.er
relacáo direta com a atividade ou as tarefas desenvolvidas (para o trabalho), é certo que o valor
desembolsado pelo empregador integrará o cálculo do valor devido, nos casos de ínterrupcáo
contratual, como ocorre, por exemplo, nos primeiros dias de afastamento do trabalho.
O empregador, dessa forma, deverá adicionar ao salário básico contratual o valor correspondente
as parcelas de utilidade, sendo esta a base de cálculo para o pagamento dos días de afastamento.
[á as utilidades de natureza nao salarial (plano de saúde, plano odontológico, medicamentos,
tíquetes-alimentacáo, previdéncia privada etc.) nao podem integrar, por óbvio, o cálculo do valor
devido nos dias de falta, justamente porque nao sao consideradas como salário.
Resta-nos, ainda, saber se o fornecimento dessas utilidades <leve permanecer durante os períodos
de aposentadoria por invalidez e auxílio-doenca, ou se poderia o empregador suprimí-las, pesto que
nao haverá a prestacáo dos servicos.
Com referencia ao benefício de aposentadoria, registro novamente que o art. 475 da CLT
determina expressamente que o contrato se manterá suspenso e que a suspensáo implica a ausencia
de qualquer obrigacáo legal por parte do empregador, como a manutencáo dos benefícios ajustados
contratualmente (plano de saúde, tíquetes-alimentacáo, viagem anual de férias e outros). Quanto
ao auxílio-doenca acidentário, conforme exposto, entendem os Tribunais Pátrios, em sua maioria,
igualmente tratar-se de suspensáo contratual e, consequentemente, com os mesmos efeitos de uma
aposentadoria por invalidez.
De outro lado, ternos o art. 468 do mesmo Estatuto Laboral proibindo toda e qualquer alteracáo
que resulte ern prejuízos ao obreiro. Considerando-se, entáo, as disposicóes do art. 468 da CLT, estaria
o empregador obrigado a manteros benefícios ou utilidades concedidas anteriormente?
Compreendo que o cancelamento das benesses ou utilidades nao caracteriza urna alteracáo
contratual promovida pelo empregador, mas sim urna suspensa o prevista expressamente na Iegíslacáo,
decorrente de urna incapacidade laborativa que propicia a percepcáo de u.m beneficio previdenciário
de aposentadoria ou de auxílio-doenca. A esse fato se somam as dísposícóes constantes do art. 476 da
CLT, no sentido de que, quando afastados por enfennidade os empregados se encontram em licenca
nao remunerada. Assim, se durante a suspensáo contratual nao sao devidos os valores referentes ao
salário ou a remuneracáo, nao há razáo ou sequer fundamentacáo legal no sentido de se pretender
manter benefícios contratuais, tenham eles natureza salarial (salário-utilidade) ou nao.
Considerando-se, pois, a fundamentacáo legal existente sobre as utilidades (que aqui chamo de
benefícios contratuais), concluo nao haver qualquer norma imperativa que obrigue o empregador a
mantero pagamento ou a concessáo de todas as utilidades, quando do afastamento de seu empregado
por motivo de doenca ou acidente, percebendo benefício previdenciário de auxílio-doenca ou de
aposentadoria por invalidez.
Para o pagamento dos primeiros dias de afastamento (período de interrupcáo contratual), deverá
a e1npresa computar o valor real apenas das utilidades que possuem natureza salarial (porque sao
consideradas corno salário, nos termos do art. 458, capui) e adicioná-lo ao salário contratual básico.
A contar do 162 dia de afastamento, o trabalhador terá seu contrato suspenso, ficando a empresa
desobrigada do pagamento dos salários correspondentes ao período, bem como de qualquer outra
obrigacáo contratual, inclusive manutencáo dos benefícios contratuais (utilidades).
Registro, ainda, que nao há absolutamente nenhuma legislacáo obrigando o ernpregador a con-
ceder algum tipo de beneficio ou. utilidade a seu empregado. Assim, a concessáo de plano de saúde,

138
tíquetes para alimentacáo, planos educacionais ou qualquer outra parcela decorre de liberalidade do
empregador ou de ajuste firmado em negocíacáo coletiva. E se assim é (e é, por ausencia de previsáo
legal sobre tal obrigatoriedade), como pretender que tais benefícios devem ser mantidos indefinida-
mente, se sequer existe obrigacáo de sua concessáo?
Por todo o exposto, compreendo que, se inexistente cláusula normativa em documento coletivo
que discipline a concessáo ou manutencáo dessas utilidades (benefícios contratuais), quando da
suspensáo contratual por auxílio-doenca ou aposentadoria por invalidez, constitui liberalidade
do empregador o procedimento, sendo este livre para normatizar sobre a permanencia de planos
de saúde, convenios, tíquetes-alimentacáo e outros benefícios integrantes da política empresarial.
Importa esclarecer, apenas, que optando o empregador por manteros benefícios, há que se atentar
para as disposicóes constantes do art. 468 da CLT, que nao permitirá o cancelamento futuro das
respectivas parcelas, caso nao exista qualquer regulamentacáo que indique o prazo de manutencáo
dessas utilidades. Assim, para o empregador nao ficar obrigado a manter um plano de saúde, por
exemplo, até o óbito de seu trabalhador, é conveniente que possua cláusula no regulamento interno
com abordagem da situacáo que ora se apresenta, com estipulacáo dos benefícios a serem mantidos,
bem como a periodicidade e o valor a que se referem, facilitando, assim, eventual lida com quest6es
de direito adquirido e alteracáo contratual com prejuizos.
A questáo, no entanto, encentra-se longe de ser considerada pacífica. O entendimento que
atuahnente predomina na doutrina e na jurisprudencia tem sido no sentido de que a empresa nao pode
suprimir essas benesses nas hipóteses legais de interrupcáo e suspensáo contratual, compreendendo
que estas utilidades, se concedidas, incorporam o contrato de trabalho, sendo vedada sua alteracáo
unilateral pelo empregador. As decisóes judiciais abordam mais a questáo do plano de saúde, sendo
difícil encontrarmos discussáo envolvendo outros tipos de benefício contratual, mas considerando-se
a idéntica natureza de tais parcelas, é possível ilustrarmos com a Súmula n. 440 do TST, publicada
em 2012:
Súmula n. 440 - Auxílio-doenca acidentário. Aposentadoria por invalidez. Suspensáo do contrato de trabalho.
Reconhecimento do direito a rnanutencáo do plano de saúde ou de assisténcía médica. Resolucáo 185/2012 - DEJT
de 25, 26 e 27.9.2012.

Também nao entendo possível fundamentar tal direito na protecáo social porque, nao obstante
determinar a Constituicáo Federal, no art. 194, capui, ser essa um dever conjunto do Estado e da
Sociedade, esta última contribuí nao de forma direta, corn a prestacáo dos servicos de saúde,
assísténcia e prevídéncia, mas por meio de contribuicóes as quais se encentra obrigada.
As empresas, como parte integrante da sociedade, participam dos direitos sociais, de forma
obrigatória, inclusive, por meio de elevadas contribuicóes sociais que incidem sobre a folha de salários,
o lucro e o faturamento (CF/88, art. 195). Dessa forma, os empregadores contribuem financeiramente
para que o Estado forneca saúde, educacáo, alimentacáo, lazer e todos os outros direitos sociais
necessários a subsistencia, consubstanciados no art. 6º da própria Carta Constitucional. E também
contribuem para tal sistema de protecáo, inclusive de forma obrigatória (por fazerem parte, também,
da sociedade) os trabalhadores.
Nas circunstancias, e ainda que seja louvável (e até mesmo recomendável) a manutencáo das
utilidades durante os períodos de afastamento, nao se pode pretender que o empregador, qualqu.er
que seja seu porte economice ou o número de empregados que compóem o quadro funcional, esteja
abrigado a custear plano de saúde, tíquetes-alimentacáo, planos de previdéncia complementar, seguros
de qualquer natureza e nutras utilidades contratuais, pactuadas entre as partes, durante período
incerto de duracáo dos benefícios previdenciários, especialmente quando se tratar de aposentadoria
por invalidez, que pode permanecer, inclusive, até o óbito do trabalhador. Tal entendimento,
lamentavelmente, apenas colabora para que nenhum empregador implemente plano de benefícios,
posto que se sujeita a eventualmente ter que arcar co1n custos elevados de direitos sociais sem a
respectiva contraprestacáo ern servicos pelo trabalhador.

139
A favor da supressáo dos benefícios, confira-se julgado análogo do Supremo Tribunal Federal:
Recurso Extraordinario. Constitucional, Administrativo. Leí n. 10.002/93, do Estado do Río Grande do Sul. Vale-
-refeicáo. Benefício concedido aos servidores em atividade. Extensáo aos aposentados. Incidencia do art. 40, § 4°, da
Constíruicáo Federal. Pressupostos. Inexistencia. l. A extensáo aos aposentados de beneficio concedido aos ativos in-
duz a necessária observancia de dois pressupostos: se a vantagem integra a remuneracáo dos servidores em atividade
e se esta compatível coru a situacáo dos inativos. 2. Vale-refeicáo. Extensáo aos inativos. CF/88, art. 40, § 4°. Inaplí-
é

cabilidade da norma, dada a natureza indenizatória do beneficio, que apenas visa ressarcir valores despendidos com
alimentacáo pelo servidor em atividade, sem, contudo, integrar sua remuneracáo". (STF - 2ª Turma - RE 236.449-1/
RS - Relator Ministro Maurício Correa).

Em resumo, tenho por equivocado o entendimento refletido por nossos tribunais, em face dos
seguintes argumentos:
• Trata-se de suspensáo contratual, com total e absoluta inoperancia do contrato de trabalho.
Nao há prestacáo de servicos, nem obrígacáo imposta ao empregador.
• Nao há obrigacáo legal quanto ao fornecimento de plano de saúde, tíquetes, planos
educacionais, previdéncía complementar, seguros ou qualquer outro benefício contratual ou
utilidade. O fornecimento dessas benesses decorre de liberalidade do empregador ou de ajuste
em documento normativo da categoría (acorde ou convencáo coletivos).

• Se o fomecimento acorre por liberalidade ou ajuste normativo, é perfeitamente possível que


seja regulamentada sua concessáo, com indicacáo expressa, em documento, de como se dará
o pagamento, por qual prazo, em que condícóes e, especialmente, como ficará a concessáo em
casos de afastamento por doenca ou invalidez, ainda que decorrentes de acidente de trabalho.
• A saúde, a educacáo, a alimentacáo e outros benefícios concedidos pelo empregador, que nao
possuem natureza salarial, sao direitos que deveriam ser fornecidos, na totalidade, pelo Estado,
mediante contríbuicáo paga por empregadores e trabalhadores, conforme regra disposta na
Constituicáo Federal. Nao é o empregador, portante, que tem obrigacáo de proporcionar saúde
ao trabalhador, mas sim o Estado, por forca de disposícáo expressa e clara, constante do art. 196
da CF/88.
• O dever de protecáo social igualmente compete ao Estado, por forca das contribuicóes sociais
impostas a empregadores e trabalhadores, conforme arts. 194 a 203 da CF/88.
Compreendo, na sequéncia, ser possível o cancelamento dos beneficios e utilidades, nos moldes
previamente ajustados entre as partes (quando de seu fornecimento ou concessáo), mas atentando-se
o empregador, sempre, ao seguinte;
•Se cancelado o plano de saúde e a assisténcia quanto a medicamentos quando o trabalhador
adoecer e se afastar por auxílio-doenca, de imediato, sem o fornecimento de tais prestacóes
por prazo razoável, restará claro e evidente que o interesse do empregador nao era proteger o
empregado por meio da utilidade fomecida, mas sim remunerá-lo melhor mediante a concessáo
do referido benefício, o que, de plano, atrairá a natureza remuneratória de tal parcela, com
consequente integracáo ao salário e incidencia de contribuicáo previdenciária e fundiária.
• Se inexistente qualquer norma expressa disciplinando sobre a concessáo dos benefícios e
utilidades, e se opta o empregador por sua manutencáo durante o período de auxílio-doenca,
entendo que nao será possível o cancelamento caso o empregado passe a perceber aposentadoria
por invalidez. Isso porque, nos termos do entendimento dominante, durante o auxílio-doenca
(inclusive acidentário) o contrato de trabalho encentra-se suspenso, o mesmo ocorrendo quando
passa a perceber aposentadoria por invalidez. Nao havendo alteracáo das condicóes de trabalho,
qualquer modificacáo imposta unilateralmente pelo empregador que acarrete prejuízos ao
obreiro será nula de pleno direito, com fundamento na CLT, arts. 468 c/c 99.

140
Também compreendo que, ha vendo comprovacáo de culpa ou dolo do empregador na ocorréncia
do acidente de trabalho, todo e qualquer benefício <leve ser mantido, sendo possível ao empregado
solicitar o direito em acáo indenizatória.

1O.7. Direito a estabilidade provisória

Conforme já tive oportunidade de me manifestar, na obra intitulada A relaciio de emprego e os


impactos decorrentes dos benefícios preoidenciários, 2~ edicáo, também de minha autoría, publicada pela LTr
Editora em 2010, o orden.amento jurídico atualmente vigente nao contempla o direito de estabilidade
no e1nprego para trabalhadores que pennaneceram afastados das atividades profissionais quando a
incapacidade nao decorrer de acidente de trabalho. No entanto, cornum a existencia de cláusula em
é

convencáo coletiva do trabalho trazendo garantía de emprego a esses profissionais, a qual deverá ser
obrigatoriamente observada pelas partes contratantes.
Já para os afastamentos decorrentes de acidente do trabalho, a legislacáo previdenciária é
expressa em conceder estabilidade provisória no e1nprego, com duracáo de um ano a contar do retorno
as atividades e cujo objetivo precípuo assegurar trabalho e emprego ao empregado acidentado que,
é

por ter permanecido afastado das atividades profissionais por determinado período (do acidente
a recuperacáo plena ou parcial), poderia encontrar dificuldades na obtencáo de nova colocacáo no
mercado de trabalho.
,
E a redacáo do art. 118 da Lei n, 8.213/91:
Art. 118. O segurado que sofreu acidente do trabalho tem garantida, pelo prazo mínimo de doze meses, a manutencáo
do seu contrato de trabalho na empresa, após a cessacáo do auxílio-doenca acidentário, independentemente de
percepcáo de auxílio-acidente.

Registre-se, pela importancia do fato, que, quando da publicacáo da Leí n. 8.213/91, foi o
dispositivo em comento objeto de Acáo Direta de Inconstitucionalidade, na qual a Confederacáo
Nacional da Indústria interpreta va que qualquer protecáo do emprego perante a despedida arbitraria
dever-se-ia implementar por meio de lei complementar, nos termos do inciso I do art. 79 da Carta
Constitucional, e nao por via de lei ordinária. No entanto, a Suprema Corte indeferiu liminarmente o
pedido, com voto proferido pelo relator ministro Moreira Alves.
E1n 02.06.2005, em análise de mérito, o STF manteve a constitucionalidade do art. 118, entendendo
que esse dispositivo fixa os limites de urna garantía específica atribuída ao trabalhador que sofreu
acidente do trabalho, e nao trata do regime de estabilidade a que se refere o art. 72 da Constituicáo
Federal. Confira-se a ementa, in uerbis:
EMENTA: A(.Á.0 DIRETA DE INCONSTITUCJONALIDADE. ART. 118 DA LEI N. 8.213/1991. Norma que
assegura ao trabalhador a manutencáo de contrato de trabalho por doze meses após a cessáo do auxílio-doenca,
independentemente de percepcáo de auxílío-acidente. Alegacáo de ofensa a reserva de lei complementar, prevista no
art. 7'1, I, da Constituicáo federal, para a disciplina da protecáo da relacáo de emprego contra despedida arbitraria ou
sem justa causa. Norma que se refere as garantías constitucionais do trabalhador em face de acidentes de trabalho e
nao guarda pertinencia com a protecáo da relacáo de emprego nos termos do art, 72, J, da Constituicáo. Ac,;ao julgada
improcedente. (STF - ADI 639-8 - Tribunal Pleno - Relator: Ministro [oaquim Barbosa - DJ de 2.6.2005).

A matéria encentra-se atualmente pacificada, tendo o Tribunal Superior do Trabalho, inclusive,


publicado a Súmula n. 378 (conversáo das antigas Orientacóes Jurisprudenciais ns. 105 e 230), como
seguinte teor:
Súmula n. 378 - ESTABILTDADE PROVISÓRIA. ACIDENTE DO TRABALHO. ART. 118 DA LEI N. 8.213/1991.
I - É constitucional o art. 118 da Lei n. 8.213/1991 que assegura o direito a esrabilidade provisoria por período de 12
meses após a cessacáo do auxílío-doenca ao empregado acidentado.
TI - Sao pressupostos para a concessáo da estabilidade o afastamento superior a 15 dias e a consequente percepcáo
do auxílio-doenca acidentário, salvo se constatada, após a despedida, doenca profissional que guarde relacáo de
causalidade coma execucáo do contrato de emprego.

141
III - O empregado submetido a contrato de trabalho por tempo determinado goza da garantía provisoria de e1nprego
decorrente de addente de trabalho prevista no art. 118 da Lei n, 8.213/91.l106>

Considerando, pois, como constitucional e aplicável o art. 118 da Lei n. 8.213/91, cumpre destacar
que todo e qualquer acidente de trabalho legalmente caracterizado estará apto a proporcionar ao
trabalhador o direito de estabilidade, seja ele típico, decorrente de doencas profissionais ou do
trabalho, decorrente de situacóes individuais ou, ainda, de ocorréncias a ele equiparadas, conforme
abordado nos capítulos 2 e 3 desta obra.
Importa observar, ainda, que nos termos do art. 118 da Lei n. 8.213/91 o direito a estabilidade
provisória exige a percepcáo, pelo empregado, do benefício previdenciário de Auxílio-Doenca
Acidentário, posto que a garantía de doze meses somente terá início a contar da cessacáo desse
benefício. Dessa forma, é necessário que a incapacidade laborativa decorrente do acidente seja superior
a quinze dias,<107l posto que esta é a regra para a concessáo do benefício, conforme já detalhado no
subitem 8.1 desta obra.
A natureza dessa exigencia reside na caracterizacáo do próprio acidente corno sendo ou nao
proveniente do trabalho, visto que, como a estabilidade somente existirá para os casos de acidente do
trabalho, necessário que nao restem dúvidas quanto a sua caracterizacáo (principalmente quando
é

o empregador nao reconhece o fato corno sendo acidente do trabalho), razáo pela qual exigiu o
legislador positivo a percepcáo do benefício de auxílio-doenca acidentário.
Note-se que, conforme disposicóes expressas constantes do art. 337 do Decreto n. 3.048/99, e
nos termos já abordados exaustivamente nos capítulos anteriores desta obra, os acidentes devem ser
caracterizados tecnicamente pela pericia médica do INSS, que possui competencia exclusiva para
reconhecer o nexo causal entre o acidente e a lesáo, a doenca e o trabalho e a causa mortis e o acidente.
Assim, semente quando analisado o fato pela perícia médica do INSS é que poderá o acidente do
trabalho ser realmente caracterizado, ainda que exista Comunicacáo de Acidente do Trabalho (CAT)
emitida pelo empregador.
Na esfera administrativa, portanto, e nos termos da legíslacáo vigente, o acidente de trabalho
deve ser caracterizado pelo perito médico do INSS, após investigacáo técnica do nexo. Considerando
que o perito somente analisará a situacáo quando houver requerimento de auxílio-doenca, se faz
necessária sua percepcáo para que o trabalhador tenha direito a estabilidade provisória.
Na esfera judicial, contudo, sempre será possível comprovar a natureza acidentária da ocorréncia
e, urna vez assim caracterizada, terá o trabalhador direito a estabilidade provisória, sendo este,
inclusive, o entendimento disposto no ítem II da Súmula n. 378 do TST.
A exigencia de percepcáo do benefício acidentário traz, nao obstante, alguns complicadores na
prática cotidiana, urna vez que nem todos os acidentados exercem o direito de solicitar (e perceber) o
benefício previdenciário e considerando-se, ainda, que nem todos os trabalhadores possuem direito
a perceber tal benefício.
Assim, surge a situacáo, por exemplo, de um acidente do trabalho que gerou incapacidade
laborativa pelo período de apenas 35 dias, sendo os primeíros 30 pagos pelo empregador (conforme
já observado). Nesta hipótese, e interpretando-se restritivamente o dispositivo legal, o empregado
estaría obrigado a exercer o direito de percepcáo do beneficio de auxílio-doenca acidentário, pago
pelo período restante de cinco dias, para fazer jus a estabilidade provisória no emprego.
Outra situacáo se refere ao trabalhador aposentado que jamáis poderá perceber o benefício de
auxílio-doenca acidentário em decorréncia da nao acurnulacáo de benefícios (aposentadoria e auxílio-

(106) O ítem 111 foi inserido semente em 2012, pela Resolu~ao 185, publicada no DEJT de 25, 26 e 27.09.2012.
(107) Até 28.02.2015 as empresas se encontravam obrigadas a pagar apenas os primeiros 15 días de afastamento. A contar de
1º.03.2015, por forca das dlsposicóes contidas na MP 664/2014, esse prazo passou a ser de até 30 días, mas o Congresso Nacional
rejeitou tal alteracáo, voltando a vigorar a redacáo original da Lei 8.213/91 quanto ao tópico.

142
doenca) prevista no art. 124 da Lei n. 8.213/91. Nesse caso, se utilizada a interpretacáo restritiva,
mesmo que se trate de acidente típico reconhecido pelo empregador, o trabalhador nao faria jus ao
direito de estabilidade provisória.
Com todo o respeito aos doutrinadores e magistrados que assim interpretam, tenho que esta
nao é, todavía, a melhor interpretacáo sobre o tema. Retornando ao objetivo da exigencia legal como
sendo apenas para nao subsistirem dúvidas quanto a caracterizacáo do acidente, depreendo que,
se este foi reconhecido e confessado pelo empregador por meio da Comunicacáo de Acidente do
Trabalho - CAT -, nao há corno se pretender por sua inexistencia ou descaracterizacáo.
Na mesma linha de raciocínio, a exigencia de percepcáo do beneficio previdenciário de auxílio-
doenca (acidentário) semente seria indispensável quando o empregador nao reconhecer o sinistro
como decorrente do trabalho, recusando-se a ernissáo da CAT. Nesta hipótese, semente a perícia
médica do INSS teria competencia técnica, na esfera administrativa, para investigar os fatos e concluir
pela caracterizacáo do acidente corno sendo ou nao do trabalho, conclusáo esta que, se positiva,
propiciaria ao trabalhador o direito de estabilidade. Quando se tratar de CAT emitida pelo próprio
empregador, reconhecendo o fato como acidente do trabalho, desnecessária se faz a real percepcáo
do benefício previdenciário para se ver reconhecido o direito de estabilidade, sendo suficiente que a
incapacidade supere o lapso temporal de quinze dias.
Por ocasiáo da 1 íl Jornada de Direito Material e Processual na [ustica do Trabalho, realizada em
2007, foi aprovado o Enunciado n. 43, que, ainda que se trate de tema diverso, dispóe aproximadamente
nesse sentido. Confira-se:
Enunciado n. 43. Estabilidade acidentária. Ausencia de emissáo de CAT. A ausencia de emissáo de CAT -
Comunicacáo de Acidente do Trabalho pelo empregador nao ímpede o direito a estabilidade do art. 118 da Leí
n. 8.213/91, desde que comprovado que o trabalhador deveria ter se afastado em razáo do acidente por período
superior a quinze días.

Também merece atencáo o fato de determinar o art. 118 em referencia que o direito de
estabilidade independe da percepcáo do benefício de auxílio-acidente. Ora, considerando que esse
beneficio pago semente aqueles que sofrem acidente e que permanecem com seque las que reduzem
é

a capacidade laborativa, quando da alta médica, conforme abordado no subitem 8.3 desta obra, o
que verdadeiramente quis dizer o legislador positivo é que a estabilidade será devida ainda que o
trabalhador se recupere de forma plena, sem a subsistencia de qualquer sequela. Se a intencáo do art.
118, em comento, fosse conceder a estabilidade semente aos trabalhadores que1 em face de acidente
do trabalho, sofressem reducáo da capacidade laborativa, tal requisito deveria constar expressamente
do texto legal, o que, de fato, e como visto, nao ocorre.
Por fim, quanto a estabilidade e a aposentadoria por invalidez, a legíslacáo previdenciária
igualmente se omite sobre a questáo, existindo disposicáo expressa quanto a estabilidade semente
nos casos de percepcáo do beneficio de auxílio-doenca. O único diploma em vigor que menciona o
direito de estabilidade é a CLT, no art. 4º, parágrafo único, mas esta se refere a estabilidade definitiva,
que existía antes da CF/88 para os trabalhadores nao optantes pelo FGTS.
E1n decorréncia da ausencia de previsáo a respeito no art. 118 da Lei n. 8.213/91, bem co1no em
qualquer outra norma vigente, posiciona-se a doutrina e a jurisprudencia, de forma predominante,
sobre a ausencia de direito, sendo possível ao trabalhador que retorna de uma aposentadoria por
invalidez ser aplicada dispensa sem justa causa, nos termos do art. 475, § 1 º, da própria CLT.
,
E necessário observarrnos, contudo, que o real objetivo da norma protetora assegurar trabalho
é

e emprego ao trabalhador acidentado, que, por ter permanecido afastado das atividades profissionais
por determinado período (do acidente a recuperacáo plena ou parcial), poderia encontrar dificuldades
na obtencáo de nova colocacáo no mercado de trabalho. Assim considerando, permito-me discordar de
tal posicionamento, nao havendo qualquer razáo para afastar tal direito daqueles que permaneceram
afastados ainda por mais tempo, sítuacáo da aposentadoria por invalidez.

143
Melhor interpretacáo é, pois, compreender que o art. 118 da Leí n. 8.213/91 nao estendeu o
direito de estabilidade provisória para os beneficiários de aposentadoria por invalidez tao somente
porque, como esta exige comprovacáo de incapacidade definitiva em seu requerimento, pressupóe-
-se ausencia de alta posterior. No entanto, sendo verificada a recuperacáo do obreiro acidentado,
<leve este beneficiar-se do direito de estabilidade com fundamento típico (e nao por analogía) no
próprio art. 118 da Leí de Benefícios.

10.8. Possibilidade de rescisiio contratual durante o curso do auxilio-doenca ou da


aposentadoria por invalidez
Enquanto afastado por doenca, o contrato de trabalho do empregado estará suspenso ou
interrompido, nao possuindo eficácia plena. Por tal razáo, compreendo nao ser possível operar-se a
demissáo por parte do obreiro e nem tampouco a dispensa injustificada pelo empregador. A rescisáo
se admite, no entanto, quando se tratar de falta grave praticada durante o afastamento Gusta causa)
ou quando do encerramento das atividades empresariais.
Referido entendimento, contudo, nao é pacífico, existindo posicionamento favorável a rescisáo
contratual quando solicitada pelo trabalhador, já que inexiste proíbicáo legal expressa a respeito.
Entendo que nao se trata, de existir ou nao urna prevísáo expressa permitindo ou impedindo as
rescisóes contratuais, mas sim do fato de estar o contrato paralisado (total ou parcialmente) em face
da suspensáo ou da interrupcáo decorrente do afastamento e que, por tal razáo, nao possui plena
eficácia. Por conseguinte, apenas as rescisóes que nao dependem da vontade unilateral das partes
é que sao susceptíveis de ocorréncia, como ocorre, por exernplo, com a extincáo do estabelecimento
empregador, o cometimento de falta grave nos termos do art. 482 da CLT, o falecimento do trabalhador
e outras hipóteses de forca maior.
Igualmente, compreendo pela possibilidade de rescísáo contratual quando se tratar de término
de contrato a prazo, posto que as partes contratantes fixaram, desde o início, o prazo de duracáo do
respectivo contrato. Tanto o período de suspensáo quanto o de interrupcáo contratual devem ser
computados na duracáo do prazo ajustado, independentemente de ser o contrato decorrente de servico
transitório (CLT, art. 443, § 2º, "a") ou da transitoriedade relacionar-se coma atividade empresarial (art.
443, § 2Q, "b").
Corn referencia ao contrato de experiencia, permitido na alínea "e" do§ 2º do art. 443 do Estatuto
Laboral, o entendimento nao pode permanecer o mesmo, eis que sua finalidade é justamente verificar
se as partes contratantes se adaptarn as realidades do vínculo firmado, se o trabalhador possui
condicóes a desenvolver a funcáo que lhe foi atribuída e se há adaptacáo as normas e condicóes de
trabalho, bem como também de o empregado verificar se o ambiente de trabalho lhe é favorável e se
as pron1essas iniciais anunciadas, quando da admissáo, foram, de fato, efetivadas. Por tais razóes,
nao é de se computar o período de suspensáo contratual em decorréncia da paralisacáo total do
contrato de emprego.
A rescisáo contratual somente será possível se o dia exato da terminacáo ocorrer justamente
durante os primeiros días a cargo da empresa ou na hipótese de se tratar de auxílio-doenca
acidentário, situacóes que, no meu entendimento, caracterizam a interrupcáo contratual. Isto porque
o contrato, enguanto interrornpido, nao para de produzir efeitos na relacáo de emprego, sendo o
período computado no tempo fixado entre as partes para sua duracáo, razáo pela qual a rescisáo a
termo será possível para qualquer das partes.
No ámbito jurisprudencial, há divergencia de entendimento, sendo possível encontrarmos
decísóes no sentido de que o prazo dos contratos <leve ser prorrogado e outras compreendendo
que o curso se dá de forma contínua e ininterrupta, salvo se houver ajuste contrário entre as partes,
conforme regra do art. 472, § 2º, da CLT:

144
Art. 472. O afastamento do ernpregado em virtude das exigencias do servico militar, ou de outro encargo público, nao
constituirá motivo para alteracáo ou rescisáo do contrato de trabalho por parte do empregador.

[... )

§ 22 Nos contratos por prazo determinado, o tempo de afastamento, se assirn acordarern as partes interessadas, nao
será computado na contagem do prazo para a respectiva terminacáo.

[... )

Havendo ou nao a interrupcáo da contagem e a prorrogacáo, o certo é que o TST mantém firme
entendimento de que, caso se trate de acidente de trabalho com percepcáo do benefício acidentário, o
direito de estabilidade provisória persistirá, ainda que se trate de contrato a termo, conforme ilustra
a seguinte ementa:
RECURSO DE REVISTA. ESTABILIDADE PROVISÓRIA. AODENTE DE TRABALHO. CONTRATO DE
EXPERIENCIA. A jurisprudencia desta Corte pacificou o entendimento, nos termos da Súmula n. 378, III, do TST, de
que a garantia de emprego prevista no art. 118 da Lei n. 8.213/91 é devida ainda que o contrato de trabalho celebrado
entre as partes tenha se dado por tempo determinado ou a título de experiencia, exegese que se harmoniza com o
art. 72, XXII, da Constituicáo da República. Impóe-se verificar que a norma nao distingue a modalidade adotada
para o contrato de trabalho - seja este por prazo determinado ou indeterminado - ressaltando-se, ainda, que a
circunstancia da qual se origina o direito decorre de fato alheio a vontade do empregado. Isso porque o dano deriva
diretamente da atividade económica, cujos riscos pertencem ao empregador (CLT, art. 2º), a quen1 cabe, aliás, adorar
medidas eficazes a preservacáo da saúde, higiene e seguranca do trabalhador (CRFB, art. 7°, XXVIII). Precedentes.
Recurso de revista conhecido e provido. (TST - RR 178200-97.2009.5.15.0025 - 2~ Turma - Relatora Ministra
Delaíde Miranda Arantes - Julgamento em 4.3.2015 - DEJT de 13.3.2015)

Discute-se, ainda, se a suspensáo deve prevalecer indeterminadamente ou se é possível a


resilicáo contratual após cinco anos de vigencia da aposentadoria por invalidez.
Corno observado nos subitens anteriores, o art. 475 do Estatuto Laboral determina que o
contrato de trabalho deverá permanecer suspenso durante o prazo fixado pela Previdéncia Social
para efetivacáo do benefício, prazo este nunca estipulado pela legislacáo previdenciária.
A discussáo pauta-se, por conseguinte, no conflito existente entre a redacáo expressa no caput do
art. 475 da CLT coma Súmula n. 217 do Supremo Tribunal Federal, que data de 16/12/1963 e possui
o seguinte teor:
Súmula n. 217 - Tem direito de retornar ao emprego, ou ser indenizado em caso de recusa do empregador, o
aposentado que recupera a capacidade de rrabalho dentro de cinco anos, a contar da aposentadoria, que se torna
definitiva após esse prazo.

O Supremo Tribunal Federal, como se pode observar, conferiu um caráter definitivo ao benefício
de aposentadoria por invalidez se esta perdurar por mais de cinco anos, contrariando frontalmente a
legislacáo previdenciária sobre o tema. Quando da publicacáo da Súmula, em 1963, encontrava-se em
vigor a Lei n. 3.807 /60 (Lei Orgánica da Previdéncia Social - LOPS), cujo art. 29 previa expressamente
a possibilidade de recuperacáo da capacidade profissional após cinco anos de aposentadoria. Idéntica
disposicáo consta da legislacáo atualmente em vigor, expressa no art. 47 da Leí n. 8.213/91.
Considerando-se, entáo, os dispositivos legais sobre a matéria e a ausencia de mencáo de um
prazo determinado para a provisoriedade do benefício, mais correto seria considerar suspenso o
contrato durante toda a vigencia da referida aposentadoria, indeterminadamente, como o fez o
Tribunal Superior do Trabalho quando aprovou, em 1982, a Súmula n. 160. Confira-se, in verbis:
Súmula n. 160 - Aposentadoria por invalidez. Cancelada a aposentadoria por invalidez, mesmo após cinco anos, o
trabalhador terá direito de retornar ao emprego, facultado, porém, ao empregador, indenizá-lo na forma da lei. Ex-
prejulgado n. 37.

Enquanto suspenso o contrato, nao é possível a prática de rescisáo unilateral pelo empregador,
e tampouco a demissáo pelo empregado. Isto porque o contrato de emprego, ainda que vigente, nao
produz eficácia durante a suspensáo contratual, fato que impede sua extincáo por ato unilateral de

145
qualquer das partes. Novamente reitero que, também nesse caso, admite-se a rescisáo justificada, seja
por encerramento da empresa ou quando comprovada a falta grave cometida pelo obreiro durante o
período de suspensáo. E1n que pese ser fato incomum e nao corriqueiro, é possível a caracterizacáo
de faltas graves tipificadas no art. 482 da CLT no período de afastarnento, e nesses casos, será possível
a rescisáo contratual do empregado afastado, sob pena de se ver caracterizado o perdáo tácito.
Recuperada a capacidade laborativa, possui o empregado direito a retornar a funcáo que
anteriormente desempenhava, no estabelecimento do empregador, nos termos do§ 12 do art. 475 da
CLT. Nao se trata de estabilidade provisória ou definitiva, sendo possível ao ernpregador optar pela
rescisáo contratual imotivada, mediante o pagamento das indenizacóes legais.
Caso a empresa tenha contratado um substituto para o aposentado, poderá rescindir com este o
respectivo contrato laboral sem a obrigatoriedade de indenizacáo por qualquer das partes, desde que
tenha havido, quando da admissáo, ciencia inequívoca da referida interinidade. Como a legíslacáo
previdenciária nao impós prazo de temporalidade ao benefício, pode ocorrer de o substituto
permanecer por longos anos no exercício "interino" da funcáo anteriormente desenvolvida pelo
trabalhador afastado. A rescísáo por terminacáo e sem o pagamento das indenizacóes legais, neste
caso, acaba sendo injusta, sendo esse meu entendimento.
A rescisáo por acordo das partes ou a imposicáo, pelo legislador, de um tempo máximo de
suspensáo contratuaJ, seriam, sem dúvida, as alternativas mais coerentes para o problema em questáo.
Na forma atual, a empresa se obriga a manter o vínculo em aberto por tempo indeterminado,
gerando, inclusive, total inseguranca ao substituto contratado. Já o trabalhador sofrerá a perda
automática do beneficio de aposentadoria, posto que a ausencia da rescisáo contratual lhe garante
o retorno a funcáo anteriormente desempenhada, conforme art. 475 da CLT. Dessa forma, nos
termos do art. 47 da Lei n. 8.213/91, seu beneficio cessará automáticamente (independentemente
de o trabalhador ser despedido logo após o retorno), enquanto o segurado que nao tiver o direito
de retornar a [uncdo anterior ainda receberá o beneficie, mesmo após a alta, por período variável,
conforme a duracáo da aposentadoria percebida. Eis a redacáo do referido dispositivo:
Art. 47. Verificada a recuperacáo da capacidade de trabalho do aposentado por invalidez, será observado o seguinte
procedimento:

I - quando a recuperacáo ocorrer dentro de 5 (cinco) anos, contados da data do início da aposentadoria por invalidez
ou do auxílio-doenca que a anteceden sem interrupcáo, o beneficio cessará:
a) de irnediato, para o segurado empregado que tiver direito a retornar a funcáo que desernpenhava na en1presa
quando se aposentou, na forma da legíslacáo trabalhista, valendo como documento, para tal fim, o certificado de
capacídade fornecido pela Previdéncia Social; ou
b) após tantos meses quantos forem os anos de duracáo do auxílio-doenca ou da aposentadoria por invalidez, para
os demais segurados¡
U - quando a recuperacáo for parcial, ou ocorrer após o período do inciso 1, ou ainda quando o segurado for
declarado apto para o exercício de trabalho diverso do qua! habitualmente exercia, a aposentadoria será mantida,
sem prejuízo da volta a atividade:
a) no seu valor integral, durante 6 (seis) meses contados da data em que for verificada a recuperacáo da capacidade;
b) com reducáo de 50% (cinquenta por cerito), no período seguinte de 6 (seis) meses;
e) com reducáo de 75% (setenta e cinco por cento), também por igual período de 6 (seis) meses, ao término do qua]
cessará definitivamente.

Por fim, cumpre mencionar as recentes alteracóes promovidas pela Lei n. 13.063/2014.
Nao obstante seja necessário comprovar urna incapacidade total e definitiva para a obtencáo da
aposentadoria por invalidez, sua duracáo nao é vitalicia, podendo ser cancelada caso o trabalhador
recupere a capacidade laborativa. Por tal razáo, o INSS pode (e sempre pode) convocar o segurado
beneficiario a comparecer a perícias médicas de revisáo, no intuito de comprovar se permanece

146
a situacáo da incapacidade total e definitiva, conforme permissivo constante do art. 101 da Leí n.
8.213/91. No entanto, referido dispositivo foi alterado em dezembro/2014 pela Lei n. 13.063 que,
incluindo os§§ 1º e 2º, isentou os aposentados com mais de 60 anos dessa comprovacáo, conforme
transcrevo:
Art. 101. O segurado em gozo de auxílio-doenca, aposentadoria por invalidez e o pensionista inválido es tao obrigados,
sob pena de suspensáo do beneficio, a submeter-se a exame médico a cargo da Previdéncia Social, processo de
reabilitacáo profissional por ela prescrito e custeado, e tratamento dispensado gratuitamente, exceto o cirúrgico e a
transfusáo de sa.ngue, que sao facultativos.

§ 111 O aposentado por invalidez e o pensionista inválido estaráo isentos do exame de que trata o caput após
completarem 60 (sessenta) anos de idade.
§ 2º A ísencáo de que trata o§ 12 nao se aplica quando o exame temas seguintes finalidades
T - verificar a necessidade de assísténcia permanente de outra pessoa para a concessáo do acréscimo de 25% (vinte e
cinco por cento) sobre o valor do beneficio, conforme dispóe o art. 45;
11 - verificar a recuperacáo da capacidade de trabalho, mediante solícitacáo do aposentado ou pensionista que se
julgar apto;
III - subsidiar autoridade judiciária na concessáo de curatela, conforme dispóe o art. 110.

O que fez a Leí n. 13.063/2014, portan to, foi conferir definitividade aos benefícios de aposentadoria
por invalidez percebidos por segurados com idade superior a 60 anos, eliminando, automaticamente,
a razáo que mantinha suspenso o contrato de trabalho, nos termos do capui do art. 475 da CLT, que
transcrevo para melhor compreensáo da matéria:
Art. 475. O empregado que for aposentado por invalidez terá suspenso o seu contrato de trabalho durante o prazo
fixado pelas leis de previdéncia social para a efetivacáo do beneficio.

Compreendo, assim, ser possível a rescisáo contratual, motivada pela empresa ou pelo
trabalhador, de todos os trabalhadores com idade superior a 60 anos que se encontram aposentados
por invalidez e que nao tenham solicitado ao INSS, em perícia de revisáo, o cancelamento do benefício
em face da recuperacáo da capacídade laborativa (Leí n. 8.213/91, art. 101, § 2º, inciso II).
Trata-se, a meu ver, de terminacáo contratual, em face da extincáo do motivo que lhe
proporcionava a suspensáo, de forma que nao deve haver qualquer penalidade as partes, em termos
de indenizacáo, seja quanto ao aviso prévio ou, ainda, multa fundiária, institutos próprios das
dispensas imotivadas, que nao se aplica ao caso em tela.

1O.9. Ocorréncia do acidente no curso do aviso-prévio

Situacáo peculiar e que merece cuidadosa análise se refere a ocorréncia do acidente de trabalho
no curso do aviso prévio trabalhado, quando se tratar de dispensa sem justa causa ou de rescisáo a
pedido do próprio empregado (pedido de demissáo).
Primeiramente, importa ressaltar que a finalidade do referido instituto, quando se trata de
dispensa sem justa causa, é proporcionar ao obreiro tempo e remuneracáo para a procura de nova
colocacáo no mercado de trabalho. Dessa forma, ocorrendo situacáo de incapacidade, no curso do
referido período, impossibilitado estará o trabalhador desaira procura de novo emprego, prejud icando
a finalidade do aviso-prévio concedido. Procedimento mais justo é, portanto, a suspensáo do curso
do aviso, com reinício no retorno do empregado as atividades profissionais e descontando-se, por
óbvio, os dias de aviso plenamente gozados anteriormente ao sinistro. Esse o entendimento constante,
inclusive, da Súmula n. 371 do Tribunal Superior do Trabalho. Confira-se:
, ..... ,
Súmula n. 371 - AVISO PREVIO INDENTZADO. EFEITOS. SUPERVENIENCIA DE AUXILIO-DOEN<;:A NO
CURSO DESTE - A projecáo do contrato de trabalho para o futuro, pela concessáo do aviso prévio indenizado,

147
tem efeitos limitados as vantagens econórnícas obtidas no período de pré-avíso, ou seja, salarios, reflexos e verbas
rescisórias. No caso de concessáo de auxílio-doenca no curso do aviso prévio, todavía, só se concretizam os efeitos da
dispensa depois de expirado o beneficio previdenciário.

Nao obstante a finalidade do aviso seja inteiramente inversa, nos casos de demissáo voluntária,
permanece no Judiciário a mesma interpretacáo. Note-se que, comunicando o trabalhador seu
desligamento, a finalidade do aviso é permitir ao empregador que encontre outro trabalhador para
assumir as funcóes, sem que necessite arcar com a perda produtiva. O beneficiário do instituto
passa a ser, pois, o empregador, e no entanto, se durante o aviso prévio o trabalhador se afasta por
motivo de incapacidade, deve seu curso ser suspendido, paralisando-se a contagern do prazo. Ao
término da incapacidade e, consequentemente, do benefício previdenciário concedido pelo INSS,
retoma-se a contagem do aviso e, ao final de seu termo, é possível operar-se a rescisáo contratual,
caso nao se trate de acidente de trabalho.

Sendo a hipótese um acidente de trabalho, e1n qualquer de suas modalidades, será direito do
trabalhador a estabilidade provisória, nos tennos da Súmula n. 371 do TST1 c/c o itern II da Súmula
n. 378 do mes1no Tribunal Superior.

10.10. Suspensiio do prazo prescricional para interposiciio da reclamatória trabalhista

Define o inciso XXIX do art. 7º da Carta Constitucional de 1988 que "os trabalhadores possuem
direito de acáo, quanto a créditos resultantes das relacóes de trabalho, com prazo prescricional de
cinco anos, até o limite de dois anos após a extincáo do contrato de trabalho".

Discute-se, pois, na esfera doutrinária e também em nossos tribunais, se a suspensáo contratual


decorrente da aposentadoria por invalidez ou de um auxílio-doenca nao teria forca para suspender,
tambérn, o prazo prescricional, e sobre o tema já me manifestei na obra intitulada A relai;éio de emprego
e os impactos decorrentes dos beneficios preoidenciários, 2ª edicáo, também de minha autoría, publicada
pela LTr Editora em 2010, argumentos que ora reitero, já que mantenho a mesma opiniáo ali esposada.

Compreendo que míster se faz, primeiramente, ter em conta que a prescricáo tem por escopo
trazer estabilidade e seguranca as relacóes jurídicas, extinguindo o direito de acáo de determinado
agente por dela nao se ter utilizado para defender seus direitos por longo período de tempo (inércia).
O que se perde ou se extingue nao é propriamente o direito, mas sim a acáo possível para sua defesa,
e sobre o tema me manifesto no subitem 13.5 desta obra, ao abordar a prescricáo para as acóes
regressivas acidentárias.
Assim, a prescricáo, para o detentor do direito nao deixa de ser urna forma de castigo por sua
inércia, pelo nao exercício do direito de agir quando poderia fazé-lo no prazo fixado pelo legislador.
Seguindo o mesmo raciocinio, para que possa correr o prazo prescricional, é necessário que o agente
tenha condicóes de exercer seu direito de acáo no interregno predeterminado, fato que1 se inexistente,
pode acarretar a suspensáo da prescricáo ou até mesmo ser a ela fato impeditivo.

Note-se, por exemplo, que a menoridade (18 anos) é fator impeditivo da prescricáo (CLT, art.
440), também o sendo o estado de incapacidade absoluta (nos termos do art. 3º do Código Civil'P").
Como fatos suspensivos é possível citar a ausencia no Brasil do titular do direito, quando em servico
da Uniáo, estados ou municipios ou, ainda, quando estiver a servico das Percas Armadas em tempo
de guerra (CC, art. 198).

(108) Código Civil, art. 3º: "Sao absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil:
1 - os menores de dezesseis anos;
11 - os que, por enfermidade ou deficiencia mental, nao tiverem o necessário discernimento para a prática desses ates:
111 - os que, mesmo por causa transitória, nao puderem exprimir sua vontade".

148
Em que pese a ausencia de disposicáo legal expressa sobre o tema, mas por analogia as determi-
nacóes existentes e, em especial, considerando-se a finalidade da prescricáo extintiva, compreendo
que deve ser reconhecida a suspensáo do prazo prescricional quando, em decorréncia da doenca ou
acidente, o trabalhador estiver impossibilitado de exercer seu direito de acáo.
A incapacidade absoluta do titular da acáo deve, portanto, ser considerada como causa impeditiva
da prescricáo se acorrer antes de seu início e deve ser considerada corno causa suspensiva se acorrer
depois de já iniciado o transcurso do prazo, tolhendo seu prosseguimento, mas sem desconsiderar o
tempo já decorrido antes da suspensáo.
No entanto, quando se tratar de acidente que nao acarreta incapacidade absoluta, nao há razáo
ou fundamento em suspender o prazo prescricional, já que o trabalhador pode perfeitamente exercer
os atos da vida civil, inclusive quanto a propositura da reclamatória trabalhista no prazo fixado pelo
legislador.
A jurisprudencia oscila sobre o tema, mas o entendimento predominante no Tribunal Superior
Trabalho no sentido de nao haver suspensáo do prazo prescricional, chegando a editar em 2010 a
é

Súmula n. 375 da SDI 1, como seguinte teor:


SDI 1, Súmula n. 375 - AUXÍLIO-DOEN<;A. APOSENTADORIA POR INVALIDEZ. SUSPENSAO DO
CONTRATO DE TRABA LHO.PRESCRI\:ÁO. CONTAGEM.Asuspensaodo contrato de trabalho,em virtude
da percepcáo do auxílio-doenca ou da aposentadoria por invalidez, nao ímpede a fluencia da prescricáo quinquenal,
ressalvada a hipótese de absoluta impossíbilidade de acesso ao Judiciário.

Confira-se, ainda, e ilustrativamente, o seguinte julgado:


I - AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECURSO DE REVISTA. PERCEP<:;:AO DE AUXÍLIO-DOEN<;A. SUSPENSÁO
DO CONTRATO DE TRABALHO. SUSPENSÁO DO PRAZO PRESCRICIONAL. I. O Tribunal Regional entendeu
que, estando suspenso o contrato de trabalho com a percepcáo de auxílio-doenca, a contagern do prazo quinquenal
previsto no art.70, XXIX, da CF/88 "<leve ser feíta. excluindo-se o período de afastamento do autor pelo INSS, quando
o contrato de trabalho ficou suspenso e, igualmente, suspenso o lapso prescricional". II. O Recorrente demonstra
divergencia jurisprudencial específica pormeio do ares to proveniente do Tribunal Regional do Trabalho da 15" Regiáo,
cuja tese é de que "a suspensáo do contrato de trabalho ainda que por doenca, nao trazo mesmo efeito com relacáo
ao fluxo do prazo prescricional, pois durante essa suspensáo do contrato o empregado nao está necessariamente
impedido de ajuizar acóes para a defesa de seus direitos. A CLT é omissa quanto a suspensáo da prescricáo e o CC nao
contempla a suspensáo da prescricáo, valendo destacar que a hipótese de condicáo suspensiva a que alude o inciso I
do art, 199 do CC nao abrange a situacáo de suspensa o do contrato de trabalho". Ill. Agravo de instrumento de que se
conhece e a que se dá provimento, para determinar o processamento do recurso de revista, observando-se o disposto
na Resolucáo Administrativa n. 928/2003.

Il - RECURSO DE REVISTA. PERCEP<:;:ÁO DE AUXÍLIO-DOEN<:;:A. SUSPENSA O DO CONTRATO DE TRABALHO.


SUSPENSA.O DO PRAZO PRESCRICIONAL J. Por meio da Orientacáo Jurisprudencia! n, 375 da SBDI-1, esta Corte
Superior consolidou entendimento no sentido de que a contagem da prescricáo quinquenal trabalhista nao se
suspende durante o gozo de auxilio doenca ou aposentadoria por invalidez pelo empregado, salvo se comprovada
a impossibilidade absoluta do exercício do direito de acáo perante o Poder Judiciário. II. Nao tendo sido registrada
pelo Tribunal Regional a impossibilidade absoluta de o Reclamante acionar o Reclamado durante o gozo do auxilio-
doenca e da aposentadoria por invalidez, nao se justifica a suspensáo da contagem do prazo prescricional quinquenal.
III. Recurso de revista de que se conhece e a que se dá provimento.

(TST - RR 102100-91.2007.5.02.0071 - 4il Turma - Relator Ministro Fernando Eizo Ono - [ulgamento em 25.3.2015
- DEJT de 31.3.2015)

10.11. Indenizacoes por dano - responsabilidade civil do empregador

10.11.1. Breve histórico - responsabilidade subjetiva e responsabilidade objetiva

Ainda que o Capítulo 1 desta obra traga breve histórico sobre a legislacáo acidentária no Brasil,
é importante iniciarmos o tema das indenizacóes devidas pelos empregadores, no ámbito de sua

149
responsabilidade civil, com urna análise igualmente sucinta dos diplomas que trouxeram tal previsáo
e das teorías a respeito do terna, no intuito de bem compreendermos sua aplicabilidade e extensáo.
A primeira teoría de que se tem notícia foi desenvolvida em 1884 por Sauzet, na Franca. e por
Sainctelette, na Bélgica, baseando-se na responsabilidade contratual, de forma que o contrato de
trabalho firmado entre as partes é que tinha o condáo de garantir seguran<;a a prestacáo do servíco.
A principal crítica a esse posicionamento veio por Salleiles, tambérn francés, no sentido de que,
sendo a responsabilidade decorrente do contrato entre as partes, urna simples cláusula exonerando
o empregador seria suficiente para afastá-la, o que nao se poderia permitir. Pela teoría de Salieiles,
a responsabilidade do empregador deveria existir mesmo sem culpa, sendo decorrente do risco-
proveito, ou seja, pelo fato de o empregador lucrar como trabalho prestado por seu operário.
No entanto, referido entendimento também mereceu crítica porque a geracáo de emprego e a
permanencia do trabalhador no mercado interessam nao somente ao empregador, mas também, e
principalmente, ao próprio Estado, em face do interesse político, social e económico decorrentes.
Autores franceses como Rouast e Givord também fízeram duras críticas a teoria do risco-proveito
porque, se a responsabilidade do empregador decorre do proveito/lucro auferido com o trabalho,
seria suficiente para sua extincáo comprovar que o trabalhador nao trouxe qualquer resultado ou
que a empresa nao auferiu lucro no período. Para tais juristas, o correto seria um risco-autoridade,
de forma que a indenizacáo deveria advir simplesmente da existencia de urna subordinacáo entre
as partes (empregado/empregador), mas creio ser essa a pior das teorías, porque nao há relacáo
direta entre a subordinacáo e os acidentes ou a necessidade de indenizacáo dos danos sofridos pelos
trabalhadores. No entanto, cada qual pensava de um jeito e todos encontravam argumentos para
rebater as teorías discordantes.
Era preciso encontrar urna forma justa para solucionar a questáo, sem impor ao empregador um
dever de indenizar em todo e qualquer caso e sem deixar desamparado o trabalhador acidentado.
Surgiu, entáo, a teoría do risco social, retirando a responsabilidade exclusiva do empregador (ámbito
privado) e passando-a para toda a sociedade (ámbito público). Criava-se, entáo, a figura de um seguro
mantido pelo Estado, para o qual os empregadores deveriam contribuir e ao qual competía assistir os
trabalhadores acidentados. O seguro-acidente passava a substituir, assim, as indenizacóes anteriormente
existentes, reconhecendo o Estado que o acidente é, muitas vezes, um infortunio decorrente do próprio
trabalho, razáo pela qual assume a responsabilidade pelo risco existente.
Em nosso país, o direito de receber tuna indenizacáo em decorréncia do acidente de trabalho
sofrido teve origem em 1919, quando da publicacáo do Decreto n. 3.274, primeira norma a tratar
de acidentes do trabalho no Brasil, conforme já observado no Capítulo l. Nao havia necessidade
de comprovar culpa, e a indenizacáo somente nao seria devida caso restasse comprovado dolo da
própria vítima (ou de terceiros) ou caso de forca maior (art. 2º).
Naquela época nao existía um sistema de previdéncia social organizado, corno ternos hoje,
e a indenizacáo era paga pelo próprio empregador, conforme a gravidade das consequéncias do
acidente, alérn de despesas com primeiros socorros, medicamentos ou procedimentos hospitalares.
Para incapacidades totais, mas temporárias, o empregador se obrigava a pagar metade do salário
diário, até o período máximo de um ano, e se o trabalhador necessitasse permanecer afastado por mais
tempo, teria direito a receber a indenizacáo que era devida nos casos de incapacidade permanente. Na
vigencia dessa norma, nao era possível ao trabalhador pretender qualquer indenizacáo de natureza
civil, existindo apenas, e exclusivamente, a responsabilidade acidentária.
O Decreto n. 13.498, publicado em mar<;o/1919, regulamentou a matéria e possibilitou ao
empregador a contratacáo de um seguro para o pagamento da indenizacáo e das despesas médicas
e hospitalares (art. 28).

150
O Decreto n. 24.637/1934 manteve a mesma linha de protecáo e raciocínio e deixou claro, no art.
12, a regra que antes estava implícita, ou seja, que a indenizacáo prevista legalmente exonerava o
empregador de pagar ao trabalhador acidentado, pelo mesmo acidente, qualquer outra indenizacáo
de direito comum. A contratacáo de um seguro permanecía sendo possível ao empregador, mas nao
era obrigatória.
A Constituicáo Federal de 1937 nao trouxe novidade sobre o tema e, em 1944, o Decreto-leí n. 7.036
manteve as indenizacóes conforme a gravidade das consequéncias do acidente, determinou que o seguro
de acidentes deveria ser obrigatoriamente contratado junto a instituicáo de previdéncia a que estivesse
filiado o trabalhador (arts. 94 e 95)<1()<)> e trouxe novidade importante, passando a prever indenizacáo de
direito comum, relativa ao mesmo acidente. Eis a redacáo de seus arts. 31 e 32:
Art. 31. O pagamento da indenizacáo estabelecida pela presente leí exonera o empregador de qualquer outra
indenizacáo de direito comum, relativa ao mesmo acidente, a menos que este resulte de dolo seu ou de seus propostos.
Art. 32. A indenizacáo paga pelo ernpregador nao excluí o direito do acidentado, seus herdeiros ou beneficiários, de
promover, segundo o direito comum, ar;ao contra terceiro civilmente responsável pelo acidente,
§ 12 A ar;ao de que trata o presente artigo poderá ser proposta pelo empregador ou pelo acidentado, seus herdeiros ou
beneficiarios, ou por urn e outros conjuntamente.
§ 22 Na mesma decisáo condenatória de terceiros, será adjudicada ao empregador a importancia por este paga
com fundamento na presente leí, computando-se igualmente a seu crédito tudo quanto houver despendido ern
consequéncia do acidente.

O "direito comum" disciplinava sobre o tema no art. 159 (Código Civil/1916) e exigía a
comprovacáo de dolo ou culpa por parte do causador do dano, sendo sua redacáo a seguinte:
Art. 159. Aquele que, por ar;ao ou omíssáo voluntaria, negligencia, ou imprudencia, violar direito, ou causar prejuízc
a outrem, fica obrigado a reparar o dano
A verificacáo da culpa e a avaliacáo da responsabilidade regulam-se pelo disposto neste Código, arts, 1.521 a 1.532 e
1.542 a 1.553.

Tratou-se de importante avance na legislacáo acidentária porque a indenizacáo prevista


nos diplomas legaís, muitas vezes, nao era suficiente para cobrir todos os prejuízos sofridos pelo
trabalhador. No entanto, a instituicáo dessa responsabilidade civil por parte do empregador suscitou
grandes debates a época, com diversas acóes judiciais questionando a validade do dispositivo.
Observe-se que o seguro deve ser pago pelo empregador independentemente da questáo de
haver ou nao culpa, de haver ou nao perigo no ambiente de trabalho ou nas tarefas desenvolvidas,
refletindo urna responsabilidade contratual objetiva, com fundamento apenas na teoría da
infortunística e do risco decorrente do próprio trabalho (risco profissional). Mediante tal pagamento,
o instituto de previdéncia passava a assumir a responsabilidade pela indenizacáo, socializando o
risco-profissional, já que o interesse no trabalho e na producáo de riquezas é de interesse de toda a
sociedade.
Nenhuma inovacáo trouxe a Constituicáo de 1946, e em 1960 foi publicada a LOPS - Lei
Orgánica da Previdéncia Social, unificando a legislacáo referente aos institutos de aposentadorias
e pens6es responsabilizando-se em garantir aos segurados as prestacóes acidentárias, desde que o
seguro estivesse a seu cargo. Também merece destaque a previsáo do art. 64, isentando a carencia
para o auxílio-doenca, aposentadoria por invalidez e pensáo por morte nos casos de acidente do
trabalho, mas condicionando tal benesse a receber metade da indenizacáo acidentária.
,
E importante atentarmos, aqui, para a previsáo legal referente a existencia de beneficios de
incapacidade (auxílio-doenca e aposentadoria por invalidez), bem corno de pensáo por morte aos

(109) Nos termos do art. 100 do mesmo diploma legal, o empregador, ao transferir as responsabilidades para as entidades segurado-
ras, ficava desonerado das responsabilidades previstas no Decreto-leí n. 7.036/44, ressalvado apenas o direito regressivo das segura-
doras contra ele, na hipótese de infracáo do contrato de seguro.

151
familiares da vítima, sem exclusáo do direito as indenizacóes previstas na legislacáo securitária. Ou
seja, a existencia desses beneficios previdenciários nao substituía ou excluía o direito do trabalhador
de receber as indenizacóes que lhe eram devidas conforme a gravidade do acidente. A exigencia, por
parte da Previdéncia Social, em receber metade dessa indenizacáo refería-se somente a isencáo da
carencia, conforme previsáo expressa do art. 64, II.
Ero 1963, na Sessáo Plenária de 13 de dezembro, o Supremo Tribunal Federal aprovou a
redacáo da Súmula n. 229, firmando entendimento de que a indenizacáo acidentária nao excluía
aquela prevista no direito comum, quando constatada culpa grave ou dolo por parte do empregador.
Confíra-se:
Súmula n. 229 - A indenizacáo acidentária nao exclui a do direito comum, em caso de dolo ou culpa grave do
empregador.
Validava, pois, o STF, a previsáo constante do Decreto-leí n. 7.036/1944, no sentido de acumulacáo
das índenizacóes, colocando fim as discuss6es sobre as penalidades recaírem sobre um único fato
gerador.
Na sequéncia histórica de nossa legislacáo, a Constituicáo Federal de 1967 nao trouxe alteracóes,
e em 28.02.1967 foi publicado o Decreto-leí n. 293, revogando o Decreto n. 7.036/1944, mas reiterando
o direito quanto a acumulacáo das indenizacóes quando da existencia de dolo. Eis a redacáo do art.
11 do referido diploma legal:
Art. 11. O pagamento das indenizacóes previstas neste Decreto-Leí exonera o empregador de qualquer outra
indenizacáo de direito comum, relativa ao mesmo acidente, a menos que este resulte de dolo seu ou de seus prepostos.

O Decreto-leí n. 293/67 manteve a previsáo de que o seguro de acidentes do trabalho, de


contratacáo obrigatória pelos empregadores, poderia ser operado pelo instituto de prevídéncia (na
época, INPS), mas ern regime de concorréncia com outras seguradoras (art. 3º). Urna vez contratado
o seguro, passaría a seguradora a ser responsável pela indenizacáo ao obreiro (ou seus familiares, em
caso de óbito), independentemente dos benefícios previdenciários de direito (art. 2º).
Nova regra foi publicada no mesmo ano de 1967, constante da Lei n. 5.316 (DOU de 18.9.1967),
que integrou o seguro de acidentes exclusivamente a Previdéncia Social, sem concorréncía de outras
seguradoras. Houve revogacáo expressa do Decreto-leí n. 293/67 e a nova norma nada dispós sobre as
indenizacóes previstas no Código Civil, também nao havendo qualquer mencáo no Decreto n. 61.784/67,
que a regularnentou.
Na verdade, a Lei n. 5.316/67 acabou com a forma de indenizacáo anteriormente prevista,
criando, em seu lugar, o beneficio de auxílio-acidente (art. 7º), uro pecúlio específico (arts. 8º e 9º), e o
programa de reabilitacáo profissional, alérn de manter os demais já existentes como auxílio-doenca,
aposentadoria por invalidez e pensáo por morte. A única previsáo de acáo judicial consta do Capítulo
VI, mas conferindo toda a responsabilidade ao INPS, conforme podemos observar da redacáo do art.
55 do Decreto n. 61.784/67:
Art. 55. O acidentado, seus dependentes, a empresa ou qualquer pessoa corn legítimo interésse económico ou moral
poderáo, diretamente ou por intermedio de advogado ou do Ministerio Público, mover acáo contra o INPS para a
reclamacáo de direito referente ao seguro de acidentes do trabalho.
§ 12 Se a acáo tiver sido iniciada diretamente pelo interessado, caberá ao órgáo do Ministerio Público prestar-lhe
assisténcia no curso do processo.
§ 22 A acáo movida pelo acidentado ou seus dependentes terá preferencia sobre as demais e será gratuita quando
vencidos os autores.
§ 312 Ressalvado o disposto no§ 211, a acáo fundada neste Regulamento ficará sujeita ao pagamento das custas fixadas
pelo regimento do [uízo onde tiver curso, respeitada a isencáo de que goza o lNPS perante a [ustica Federa].

Em janeiro/1976 foi publicado o Decreto n. 77.077, expedindo a Consolidacáo das Leis da Pre-
videncia Social, e em outubro do mesmo ano tivemos a Leí n. 6.367,(110> dispondo sobre o seguro de

(110) A Lei n. 6.367 foi regula mentada pelo Decreto n. 79.037/1976.

152
acidentes do trabalho a cargo do INPS, corn revogacáo expressa das normas anteriores e, novarnente,
a
sem qualquer mencáo possibilidade de indenizacáo civil por parte do empregador.
Note-se que a legislacáo, agora, referia-se semente ao seguro que era contratado pelo
empregador junto a Previdéncia Social e, consequentemente, as obrigacóes da seguradora perante os
trabalhadores acidentados, e por isso nenhum desses diplomas mencionou a reparacáo civil que seria
devida pelo empregador em caso de dolo ou culpa grave. Os diplomas legais nao era1n apropriados
para abordagern do terna, já que se referiam ao seguro e os benefícios decorrentes.
Assim, nao obstante a revogacáo expressa do Decreto-leí n. 7.036/1944, perrnaneceu o Judiciário
entendendo pela aplicacáo do direito, com diversas decisóes proferidas, inclusive pelo Supremo
Tribunal Federal. O próprio art. 159 do Código Civil, por si, já autorizava o íngresso da acáo civil
para indenizacáo do dano, sendo rnantida a aplicacáo da Súrnula n. 229 do STF, ainda que a lei do
seguro de acidentes silenciasse sobre o tema.
Referido direito tem sua origem na Lex Aquilia de Damno,<111> lei que data, aproximadamente, do
ano 286 a.C e que cuidou de estabelecer, no Direito romano, as bases jurídicas de responsabilidade
civil, ao instituir urna forma pecuniária de indenizar danos injustamente provocados, independen-
temente de alguma relacáo obrigacional preexistente. Surgiam ai, portante, as primeiras linhas da
responsabílidade extracontratual, punindo mediante o pagamento de uma indenizacáo pecuniaria
aquele que comete ato ilícito e, com isso, acarreta prejuízo a alguém. Por tal razáo, a responsabilida-
de extracontratual é tarnbérn conhecida por responsabilidade aquiliana, ainda que o art. 159 do Código
Civil/1916, por sua redacáo expressa, nao condicione a reparacáo do dano semente aos casos de vio-
lacáo da lei.
Semente em 1988 o Direito foi novamente positivado de forma específica, desta feíta no corpo da
própria Constituicáo Federal, sendo a redacáo do inciso XXVIII do art. 72 a seguinte:
Art. 7° Sao direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem a melhoria de sua condicáo social:
[... )
XXVIII - seguro contra acidentes de trabalho, a cargo do empregador, sem excluir a indenízacáo a que este está
obrigado, quando incorrer em dolo ou culpa;
[ ... )
Novo avance é possível de ser observado porque a nova regra nao mais exigiu que a culpa fosse
grave, corno antes constava da Súrnula n. 229 do STF. Havendo comprovacáo de culpa, ainda que
leve, haverá direito do trabalhador de solicitar a reparacáo do dano sofrido, nos exatos tennos do que
determinava o art. 159 do Código Civil.
Art. 159. Aquele que, por a-;ao ou omissáo voluntária, negligencia, ou imprudencia, violar direito, ou causar prejuízo
a outrem, fica obrigado a reparar o dano
A verificacáo da culpa e a avaliacáo da responsabilidade regulam-se pelo disposto neste Código, arts. 1.521 a 1.532 e
1.542 a 1.553.

A presen<;a de culpa (ainda que leve) ou dolo por parte do empregador restou expressa no inciso
XXVIII do art. 7º da CF/88 e, por isso, referida responsabilidade possui natureza subjetiva. Ainda que
o texto assim nao diga claramente, a expressáo "verificacáo da culpa e avaliacáo da responsabilidade"
nos faz presumir que quanto maior a culpa, maior a responsabilidade e, consequenternente, maior a
reparacáo do dano causado.

(111) Conforme consulta ao site <http://www2.trt3.jus.br/cgi-bin/om_isapi.dll?clientlD=325697&infobase=vocabulario.nfo&jump=Lex%20


Aquilia&softpage=ref_Doc>,a "A Lei Aquília continha tres capítulos: 12¡ previa o fato de matar, sem direito, um escravo ou um animal, perten-
cente a categoria dos quadrúpedes, vivendo em grupos: é um delito punido por multa ftxada em valor superior ao escravo ou animal no ano
que precedeu ao delito... 22) o segundo capítulo pune o credor acessório (adstipulator) que em lugar de exigir o pagamento, fez o desconto
da divida ao devedor, com prejuízo dos direitos do credor principal. 32) O terceiro capítulo tinha um campo de aplicacáo muito mais largo:
reprimia todos os danos resultantes do fato de queimar, de quebrar ou de deteriorar uma coisa pertencente a outrem".

153
En1 1991, quando da publicacáo da Lei n. 8.213 (que trata dos beneficios previdenciários pagos
pelo Regime Geral), dispós o art. 121 que o fato de o segurado receber essas prestacóes nao excluí a
responsabilidade civil da empresa. Confira-se:
Art. 121. O pagamento, pela Previdéncia Social, das prestacóes por acidente do trabalho nao excluí a responsabilidade
civil da en1presa ou de outrem,

A questáo ganhou novo contorno com a alteracáo do Código Civil, ocorrida no ano de 2002 (Lei
n. 10.406), passando a matéria a ser regulada, basicamente, nos seguintes artigos:
Art. 186. Aquele que, por a~ao ou omissáo voluntaria, negligencia ou imprudencia, violar direito e causar dano a
outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.
[... ]
Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186e187), causar dano a outrern, fica obrigado a repará-lo,
Parágrafo único. Haverá obrigacáo de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em
leí, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os
direitos de outrem.
[... )
Art. 944. A índenizacáo mede-se pela extensáo do dano.
Parágrafo único. Se houver excessíva desproporcáo entre a gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir,
equitativamente, a indenízacáo.
Art. 945. Se a vítima tiver concorrido culposamente para o evento danoso, a sua índenizacáo será fixada tendo-se em
con ta a gravidade de sua culpa e1n confronto coma do autor do dano.

Note-se que permanece a responsabilidade civil extracontratual, mas agora ficando claro que
a indenizacáo deve ser medida pela extensáo do dano (art. 944). É relevante e imprescindível, pois,
aferir-se corretamente o quanto a culpa do empregador contribuiu para a ocorréncia do dano,
cabendo-me destacar que, nos termos do art. 186, supra, a culpa pode decorrer de negligencia
(omissáo), imprudéncía ou impericia (acáo).
Outra novidade decorrente do novo Código Civil (2002) refere urna indenizacáo independente
de culpa, caso a atividade desenvolvida pelo autor do dano implique, por sua natureza, risco para o
direito de outra pessoa (art. 927, parágrafo único). Trata o legislador, aquí, de urna responsabilidade
objetiva, prevista tambérn na Constituicáo Federal, art. 21, XXIII, d, ao prever a responsabilidade civil
da Uniáo por danos nucleares.
A questáo que se impóe, portante, é se a responsabilidade objetiva, prevista no parágrafo único
do art. 927, pode ser aplicada para os acidentes de trabalho, já que a previsáo expressa do inciso
X.XVIII art. 7º da CF/88 exige a presen<;a de culpa ou dolo.
Parte da doutrina e da jurisprudencia tem entendimento favorável, no sentido de que o art. 7º
da Carta Magna lista direitos mínimos, assegurando outros que objetivem a melhoria de sua condidio
social. Confira-se:
Art. 7Q Sao direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem a melhoria de sua condicáo social:
[... ]

É certa a redacáo do caput nesse sentido, mas nao consigo visualizar qualquer melhoria na
condicüo social dos trabalhadores com a aplicacáo da norma em comento. Por condicáo social <levemos
compreender a situacáo do trabalhador perante a sociedade, e é nesse sentido que dispós o constituinte
no art. 7º, ao conferir direitos relacionados ao salário, duracáo máxima de jornada, direito de férias,
licenca-maternidade, protecáo contra automacáo e proibicáo de qualquer espécie de discriminacáo,
entre outros.
Sao direitos que, de alguma forma, proporcionam melhora na qualidade de vida, na participacáo
ativa na sociedade, entre os quais nao se encaixa a indenizacáo paga por algo que o empregador nao
concorreu com dolo ou culpa. Em que sentido o recebimento dessa indenizacáo (reparatória de dano)

154
faria com que melhorasse a condicáo social do trabalhador, se seu objetivo nao é urna melhora, mas
sim o de evitar a piora, já que repara os danos sofridos pela vítima ou seus familiares?
Acredito que a aplicacáo do inciso XXVIII pode ser afastada, mas em face dos principios
constitucionais de igualdade, isonomia (art. 5º) e valorizacáo do trabalho (art. 12). Urna pessoa,
apenas porque se encontra na condicáo de empregada, nao pode ter menores direitos do que aquele
que assim nao se apresenta, aplicando-se, a ambos, direitos iguais e isonómicos.
De toda forma, e até que o Supremo Tribunal Federal tenha a oportunidade de se manifestar
sobre o terna, é certo que a [ustica do Trabalho tem aplicado tal teoria,<112> sendo importante analisar
o alcance do art. 927, que, pela importancia do tema, novamente transcrevo:
Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.
Parágrafo único. Haverá obrigacáo de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em
lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os
direitos de outrem.

É possível observarrnos que o parágrafo único se refere a um risco criado pela própria atividade
desenvolvida, de forma a abranger somente atividades de extremo perigo, em que o risco do acidente
encentra-se sempre presente. Seria a situacáo, por exemplo, do trabalho de mineracáo subterránea, de
limpeza de vidros em fachada de edifícios (alpinismo industrial), trabalhos em redes de alta tensáo,
entre outros.
E nao visualizo, de forma alguma, corno pretender equiparar a atividade de risco, prevista no
parágrafo único do art. 927 do Código Civil, com o risco da aiiuidade econiimica de que trata o caput art.
2º da CLT. Eis o teor desse último dispositivo:
Art. 2ª Considera-se empregador a empresa, individual ou coletiva, que, assumindo os riscos da atividade económica,
admite, assalaria e dirige a prestacáo pessoal de servico.

Tratam-se de riscos totalmente diferentes, de express6es que nao guardarn absolutamente


qualquer semelhanca. No Código Civil está o legislador a prever situacóes em que a atividade
desenvolvida por alguém coloca um terceiro em situacáo de risco, como ocorreu em fevereiro/2012,
quando urna estudante de 14 anos caiu do brinquedo "La Tour Eiffel", um elevador de 69,5 metros de
altura, com assentos que sobem a cinco metros por segundo para, depois, após um tranco no assento,
despencarem em queda livre, com velocidade de até 94 Km/h.
A atividade oferecida pelo parque, por sí, coloca pessoas em situacáo de risco, e o dever de
indenizacáo, nos tennos do parágrafo único do art. 927 do Código Civil, independe da comprovacáo
de culpa.
[á o art. 2º da CLT se refere ao risco existente em administraruma atividade económica, em termos
puramente negocial, envolvendo quest6es corno lucro, faturamento, adimpléncia dos consumidores
ou clientes. O empregador assume, pois, as consequéncias positivas (lucro) ou negativas (prejuízo)
de riscos financeiros, operacionais, estratégicos, e outros que variam conforme a atividade exercida,
nao sendo lícito transferí-los aos empregados.
Nao é possível enumerar os riscos existentes a todas as empresas porque, como dito, estes
dependem da atividade exercida e da forma corno é exercida. Entre os riscos financeiros é possível
citar o risco de crédito (quando o cliente/consumidor nao honra seu compromisso), o risco de liquidez

(112) Assim dispoe o Enunciado n. 37 da ENAMAT/ANAMATRA, aprovado pela Sessáo Plenária da li! Jornada de Direito Material e
Processual na Justíca do Trabalho, ilustrando o entendimento adotado quanto ao tema: "Enunciado n. 37. RESPONSABILIDADE CIVIL
OBJETIVA NO ACIDENTE DE TRABALHO. ATIVIDADE DE RISCO. Aplica-se o art. 927, parágrafo único, do Código Civil nos acidentes do
a
trabalho. O art. 7º, XXVIII, da Constítuicáo da República, nao constitui óbice aplicacáo desse dispositivo legal, visto que seu caput
a
garante a inclusáo de outros direitos que visem melhoria da condicáo social dos trabalhadores".

155
(quando a empresa nao consegue pagar suas contas), o risco de mercado (perdas em decorréncía
de flutuacóes gerais). No ámbito dos riscos operacionais encontram-se problemas decorrentes de
funcionamento inadequado de sistemas de informática, problemas decorrentes de processos de producáo
incorretos, contaminacáo de produtos, atraso na entrega ao consumidor final etc. Por fim, decorre o risco
estratégico, via de regra, de decisóes equivocadas, como no lancamento de um produto, retirada de
operacóes do mercado, má escolha do ponto de atuacáo. Na página eletrónica do Banco do Brasil<113>
podemos encontrar alguns riscos aos quais se sujeitam a atividade bancária/financeira:
Risco de Mercado: decorre da possibilidade de perdas que podem ser ocasionadas por mudancas no comportamento
das taxas de juros, do cambio, dos prei;os das acóes e dos prei;os de commodities.

Risco de Liquidez: este tipo de risco assume duas formas: risco de liquidez de mercado e risco de liquidez de fluxo
de caixa (funding). O primeiro é a possibilidade de perda decorrente da incapacidade de realizar urna transacáo em
tempo razoável e sem perda significativa de valor. O segundo está associado a possibilidade de falta de recursos para
honrar os compromissos assumidos em funcáo do descasamento entre os ativos e passivos.
Risco de Crédito: definido como a possíbilidade de perda resultante da incerteza quanto ao recebimento de valores
pactuados com tomadores de empréstimos, contrapartes de contratos ou emissóes de títulos.

Risco Operacional: é definido como a possibilidade de ocorréncia de perdas resultantes de falha, deficiencia ou
inadequacáo de processos internos, pessoas e sistemas, ou de eventos externos. Este conceito incluí o risco legal.
Risco Legal: pode ser definido como a possibilidade de perdas decorrentes de multas, penalidades ou indenizacóes
resultantes de acóes de órgáos de supervisáo e controle, bern como perdas decorrentes de decísáo desfavorável em
processos judiciais ou administrativos.
Risco de Conjuntura: decorre da possibilidade de perdas decorrentes de mudancas verificadas nas condicées
políticas, culturáis, sociais, económicas ou financeiras do Brasil ou de outros países.

a) Risco Estratégico - risco de perdas pelo insucesso das estrategias adotadas, levando-se em conta a dinámica dos
negocios e da concorréncia, as alteracóes políticas no País e fora dele e as alteracóes na economía nacional e mundial.

b) Risco-País - risco de perdas em funcáo de alteracóes políticas, culturáis, socíais, financeiras /fluxo de capítais/
ou económicas em outros países com os quais haja algum tipo de relacíonamento económico, principalmente
in vestimentos.
c) Risco Sistémico - risco de perdas em virtude de dificuldades financeiras de urna ou maís instituicóes que
provoquem danos substancia is a outras, ou ruptura na condueño operacional de normalidade do Sistema Financeiro
Nacional - SFN.
Risco de Imagem: possibilidade de perdas decorrentes de a instituicáo ter seu nome desgastado junto ao mercado ou
as autoridades, em razáo de publicidade negativa, verdadeira ou nao.

Assim, o que traz a CLT no art. 2º é nada mais que o conceito de ernpregador, especificando
ser ele quem gerencia o empreendimento, assumindo esses riscos que sao inerentes a atividade
económica. Consequentemente, nao lhe é permitido condicionar direitos dos trabalhadores (salário,
comissóes etc) ao sucesso ou insucesso do negócio, razáo pela qual as verbas rescisórias sao devidas,
em sua totalidade, inclusive nos casos de falencia.
Esse é o sentido de tal dispositivo, que, inclusive, tem sido bem aplicado pelos Tribunais do
Trabalho, conforme ilustra o seguinte julgado:
AGRAVO DE INSTRUMENTO EM RECURSO DE REVISTA - DESCONTOS SALARIAIS - SÚMULA N. 126
DO TST. A Corte regional consignou que os descontos efetuados para compensar inadimplemento dos clientes
configuraram transferencia dos riscos da atividade económica ao ernpregado, e nao a hipótese de ressarcimento
de dano causado pelo trabalhador, na qua] se dá a incidencia do art. 462, § 12, da CLT. Isso porque nao constatou
ocorréncias eventuais a que o trabalhador tenha dado causa culposarnente, e sim a prática empresarial habitual de
transferir o referido ónus ao obreiro. Na forma como pos to, portan to, nao se há de falar em afronta ao art. 462, § 1 °,da
CLT. Conclusáo diversa esbarra na Súmula n. 126 do TST. Agravo de instrumento desprovído." (TST - AIRR 55600-
68.2009.5.17.0009 - 7~ Turma - Relator Luiz Philippe Vieira de Mello Filho - Julgamento em 29.5.2013 - DEJT de
7.6.2013)

(113) Disponível em: <http://www.bb.com.br/portalbb/page3,136,2545,0,0,l,8.bb>. Consulta em: 09.04.2015.

156
Compreendo, pois, que a responsabilidade objetiva deve ser aplicada semente quando a atividade
desenvolvida pelo empregador causar, por si, risco a saúde ou integridade física do empregado, nao
sendo cerreta urna interpretacáo elastecida para aplicá-la a toda e qualquer situacáo, nem tampouco
a todo e qualquer risco.
Permito-me discordar, portante, do entendimento esposado pela 2ª Turma do TRT da 9ª Regíáo,
que aplicou o disposto no art. 927 para condenar urna Usina em um acidente de transito causado por
terceiro. Confira-se:
AODENTE DE TRÁNSITO FATAL. f\TECESSIDADE DE DESLOCAMENTOS CONSTANTES DO EX-EMPREGADO
POR MEIO DE VEÍCULO DA EMPRESA. DINÁMICA LABORATIVA QUE EXPUNHA O TRABALHADOR A RISCO.
RESPONSABILIDADE OBJETIVA DA EMPREGADORA PELO ACJDENTE DE TRABALHO. CULPA EXCLUSIVA
DE TERCEIRO DESCARACTERIZADA. O risco da atividade exercida pelo filho falecido dos Autores, ex-Empregado
da Ré, foi presumido, considerando os constantes deslocamentos entre as propriedades da Usina, e, portante, em que
pese ser encarregado de aplicacáo de herbicida, desenvolvía atividades típicas de motorista, atendendo necessidades da
Reclamada. O acidente de transito sofrido pelo de cujus, assim, representa hipótese clássica de exposícáo a risco em face
da dinámica laborativa. Aplicada a teoría do risco, que atrai a responsabilidade objetiva, toma-se irrelevante auferir dolo
ou culpa do empregador, bastando a demonstracáo do dano e do nexo de causalidade, advindos de atividade de risco
ao trabalhador, afastando-se, portante, a análise do grau de culpa da empresa Reclamada. Ausente, outrossim, culpa da
vítima, por inexistir nos autos qualquer indicio de que o infortúnio ocorrera por imperfcia, imprudencia ou negligéncia
do ex-Empregado. Finalmente, descartado o fato de terceiro, pois, ainda que a Usina Ré comprovasse a culpa exclusiva
de terceiro, a jurisprudencia do TST evidencia que acidente de transito decorrente de culpa exclusiva de outrem íntegra o
próprio conceito do risco da atividade desenvolvida pelo Obreiro vitimado junto a Empresa. O fato de terceiro capaz de
romper o nexo causal é aquele completamente alheio ao risco inerente a atividade desenvolvida, situacáo nao caracterizada
no presente caso, em que o sinistrado, deslocando-se entre propriedades da Usina, dirigía constantemente veículo da
Empregadora. Recurso da Ré a que se nega provimento. (TRT 9@ Regíáo - Processo 00769-2013-092-09-00-0 - ACO 42167
- 2n Turma - DE]T de 2.12.2014)

Note-se que no caso em tela a atividade de risco nao é aquela normalmente exercida pelo
empregador, como exige o parágrafo único do art. 927, mas sim o próprio transito cotidiano, urbano,
sem envolvirnento de carga perigosa ou direcáo defensiva. Trata-se de condenar o empregador por
sinistro que foge totalmente ao seu controle e gerenciamento, nao lhe sendo possível implementar
qualquer regra de seguran~a em via pública.
Penso que o conceito de responsabilidad e civil extracontratual está sendo totalrnente desvirtuado,
conferindo-se interpretacáo elastecida a norma punitiva e criando, assim, obrigacáo de indenizar nao
prevista em leí, fato que contraria nao semente as disposicóes do art. 52 e 72 da Constituicáo Federal
corno, também, os princípios de legalidade, proporcionalidade, razoabilidade e seguranca jurídica,
alérn, obviamente, do próprio parágrafo único do art, 927 que, com as escusas pela repeticáo, mas
pela importancia do tópico, novarnente transcrevo (destaque meu):
Art. 927. [ ... )
Parágrafo único. Haverá obrigacáo de reparar o dano, indepeudentemente de culpa, nos casos especificados em leí,
ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os
direitos de outrem,

Assim, acredito que o melhor entendimento foi o esposado pelo TST em 2010 pelo ministro Luiz
Philíppe Vieira de Mello Filho, ern ernenta a seguir transcrita:
RECURSO DE REVISTA- DANOSMATERIALEMORAL-ACJDENTEDETRABALHO- RESPONSABILIDADE
OBJETIVA DO EMPREGADOR - ART. 927, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CÓDIGO CIVIL - CONCEITO DE
ATIVIDADE HABITUALMENTE DESENVOLVIDA - DIREITO DO CONSUM1DOR - DIREITO DO TRABALHO
- PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL SOLIDARISTA - INCIDENCIA. O sistema de responsabilidade civil adotado
pelo ordenamento jurídico é um dos reflexos da preocupacáo do legislador com a tutela dos direitos pertencentes
aqueles que nao podem negociar, em condicóes de igualdad e, os seus interesses coma outra parte da relacáo contratual.
Nesse passo, o Código Civil, em seu art. 927, parágrafo único, estabelece que será objetiva a responsabilidade daquele
que, em face do desenvolvimento normal de sua atividade, puder causar dano a outrem. Atividade, no sentido
utilizado na norma, <leve ser entendida como a conduta habitualmente desernpenhada, de maneira comercial ou
empresarial, para a realízacáo dos fins económicos visados pelo autor do dano, Entretanto, dado o caráter excepcional
de que se reveste a responsabilidade objetiva em nosso ordenarnento jurídico (já que a regra é de que semente haverá

157
a imputacáo de condura lesiva a alguém se provada a sua atuacáo culposa), semente nos casos em que os produtos e
servicos fomecidos pelo causador do dano apresentarem perigo anormal e imprevisível ao sujeito que deles se utiliza
haverá espaco para a incidencia do citado diploma legal. Ressalte-se, ainda, que o Código Civil, por torca dos arts.
82, parágrafo único, da CLT e 72 do CDC, ostenta a condicáo de norma geral em tennos de responsabilidade civil,
motivo pelo qua! a sua aplicacáo aos demais ramos do direito depende da inexistencia de legislacáo específica sobre o
assunto, assim como de sua compatibilidade corn os principios inerentes a parcela do direito a que se visa a insercáo
da aludida regra geral. No direito do consumidor, a responsabilidade do fornecedor pelos defeitos dos produtos e
servicos despejados no mercado é objetiva, independentemente de a atividade por ele normalmente desenvolvida
apresentar risco a direito de outrern, Assim, desnecessária a aplicacáo da norma civil as relacóes de consumo, dado o
caráter mais benéfico desta. No Direito do Trabalho, entretanto, no art. 72, XXVIII, da Carta Magna determina-se, tao
semente, que o empregador responderá pelos danos moráis e materiais causados aos seus empregados, desde que
comprovada a culpa daquele que suporta os riscos da atividade produtiva. A Constituicáo Federal, como se percebe,
nao faz mencáo a possíbilídade de se responsabilizar objetivamente o ernpregador pelos aludidos danos. Apesar
disso, tendo em vista o disposto no capui do aludido dispositivo constitucional e o principio da norma mais benéfica,
a outra conclusáo nao se pode chegar, senáo de que nao se vedou a criacáo de um sistema de responsabilidade
mais favorável ao empregado, ainda que fora da legislacáo específicamente destinada a reger as relacóes laboráis,
mormente se considerarmos que o trabalhador, premido pela necessidade de auferir meíos para a sua sobrevivéncia,
apresenta-se, em relacáo ao seu empregador, na posicáo mais desigual dentre aquelas que se pode conceber nas
interacóes humanas. Dessa forma, a fim de evitar o paradoxo de se responsabilizar o mesmo indívíduo (ora na
condicáo de empregador, ora na condicáo de fornecedor) de forma diversa (objetiva ou subjetivamente) em face do
mesmo evento danoso, semente pelo fato das suas consequéncias terem atingido vítimas em diferentes estágios da
atividade produtiva, necessária se faz a aplicacáo do art. 927, parágrafo único, do Código Ovil ao direito do trabalho,
desde que, no momento do acidente, o empregado esteja inserido na atividade empresarialmente desenvolvida pelo
seu empregador. A adocáo de tal entendimento confere plena eficácia ao principio constitucional solidarista, segundo
o qua! a reparacáo da vítima afigura-se mais importante do que a individualizacáo de um culpado pelo evento <lanoso.
Na hipótese dos autos, restam presentes os elementos necessários a incidencia do dispositivo civilista, motivo pelo
qua] deve ser mantida a decísáo do Tribunal Regional do Trabalho. (TST - RR 77300-64.2004.5.05.0121 - 1 ~ Turma
- Relator Ministro Luiz Philíppe Vieira de Mello Filho - Julgamento em 06/10/2010 - DEJT de 15.10.2010)

Correto, pois, o relator ministro Luiz Philippe em sua interpretacáo, porque é exatamente esse
o contexto do parágrafo único do art. 927, se o aplicarmos as relacóes de emprego. No momento
do acidente o trabalhador precisa estar inserido na aiioidade empresarialmente desenvolvida pelo seu
empregador, e essa atividade, imperiosamente, precisa, por si mesma, colocá-lo em risco, seja quanto
a saúde ou a integridade física. Lógicamente, também se faz necessário o nexo causal entre a lesáo/
enferrnidade e a atividade de risco.
Via de regra, os trabalhos perigosos e insalubres já sao reconhecidos e constam das Normas
Regulamentadoras (NRs) 15e16 do Ministério do Trabalho e Emprego, e entendo que, afastando-se
a inconstitucionalidade em face da restricáo imposta pelo inciso XXVIII do art. 7º da CF/88, a simples
presen<;a desses agentes no ambiente de trabalho e a percepcáo dos adicionais, por si, já seriam sufi-
cientes a acarretar a responsabilidade objetiva.
E isso porque refere o parágrafo único do art. 927, genericamente, a risco para todo e qualquer
direito, seja o de manter-se em estado saudável ou, principalmente, de manter-se íntegro e vivo.
Consequentemente, se nas atividades habitualmente desenvolvidas pelo empregador há a presenca
de agente insalubre ou nocivo, sem EPI ou. EPC que possa, comprovadamente, neutralizá-lo ou
eliminá-lo, presente também estará o risco de o trabalhador contraír enfermidades ou lesóes, inclusive
fatais, corno ocorre com aqueles que opera1n explosivos, inflamáveis ou eletricidade ern alta tensáo,
entre outros.
O objetivo de tais adicionáis é, justamente, remunerar o trabalho exposto a risco, devidamente
comprovado por Laudo Técnico, realizado por engenheiro de seguran<;a do trabalho ou médico do
trabalho (CLT, art. 195). Assim, nao há como afastarmos a aplícacáo da responsabilidade objetiva
nessas atividades, desde que, repito, o acidente sofrido tenha relacáo de causa/efeito com esses riscos
específicos. Eis os conceitos, dispostos na CLT, que nao deixam dúvida sobre o risco existente:
Art. 189. Seráo consideradas atividades ou operacóes insalubres aquelas que, por sua natureza, condicóes ou métodos
de trabalho, expon.ham os empregados a agentes nocivos a saúde, acima dos limites de tolerancia fixados em razáo
da natureza e da intensidade do agente e do tempo de exposicáo aos seus efeitos.

158
Art. 192. O exercício de trabalho ern condícóes insalubres, acima dos limites de tolerancia estabelecidos pelo Ministério
do Trabalho, assegura a percepcáo de adicional respectivamente de 40% (quarenta por cento), 20% (vinte por cento)
e 10% (dez por cento) do salário-mínimo da regiáo, segundo se classifiquem nos graus máximo, médio e mínimo.

Art. 193. Sao consideradas atividades ou operacées perigosas, na forma da regulamentacáo aprovada pelo Ministério
do Trabalho e Emprego, aquelas que, por sua natureza ou métodos de trabalho, impliquem risco acentuado em
virtude de exposicáo permanente do trabalhador a:

I - inflamáveis, explosivos ou energía elétrica;

11 - roubos ou outras espécies de violencia física nas atividades profissionais de seguranca pessoal ou patrimonial.
§ J!l O trabalho em condicóes de periculosidade assegura ao empregado um adicional de 30% (trinta por cento) sobre
o salário sem os acréscimos resultantes de gratífícacóes, premios ou participacóes nos lucros da en1presa.

§ 22 O empregado poderá optar pelo adicional de insalubridade que porventura lhe seja devido.
§ 32 Seráo descontados ou compensados do adicional outros da mesma natureza eventualmente já concedidos ao
vigilante por meio de acorde coletivo.
§ 41) Sao também consideradas perigosas as atividades de trabalhador em motocicleta.
Art. 194. O direito do empregado ao adicional de insalubridade ou de periculosidade cessará coma eliminacáo do
risco a sua saúde ou integridade física, nos tennos desta Secáo e das normas expedidas pelo Ministerio do Trabalho.
,
E certo, pois, que os acidentes decorrentes de insalubridade ou periculosidade atraem
automaticamente a responsabilidade objetiva, masé errado limitarrnos sua aplicacáo somente quando
o trabalhador, efetivamente, receber tais adicionais. Assirn entendo porque a Constituicáo Federal,
ao garantir ao trabalhador empregado uma remuneracáo rnaior quando da exposícáo a risco (art. 72,
inciso XXIII),nao limitou quais seriam essas atividades, de forma que a listagem trazida pela CLT ou
pelas portarias emanadas do Ministério do Trabalho e Ernprego nao pode ser considerada exaustiva.
Outras atividades que nao se encontrarn listadas nas NRs podern perfeitamente ser cornprovadas
como perigosas ou insalubres na esfera judicial e acarretar, assim, tambérn a responsabilidade objetiva
do empregador, hipótese que implicará, automaticamente, tarnbém no reconhecimento do direito
ao adicional correspondente. Ero face dos princípios de igualdade, isonornia, proporcionalidade,
razoabilidade e ainda outros que possam vira ser aplicados, nao pode o juiz do trabalho compreender
que as atividades de risco nao se limitam aquelas relacionadas nos arts. 189 e 193 da CLT para fins
de aplicar a responsabilidade objetiva e, ao revés, entender pela exaustividade de tais dispositivos
quando estiver a julgar o direito de percepcáo dos adicionais compensatórios.
Se entender o magistrado que existe risco para o trabalhador na atividade desenvolvida pela
empresa, de forma a afastar a exigencia de culpa e dolo de que trata o inciso XXVIIIdo art. 7º da Carta
Magna e aplicar a responsabilidade objetiva disposta no parágrafo único do art. 927 do Código Civil,
necessariamente <leve cornpreender pela remuneracáo compensatória dessa exposicáo, aplicando
o adicional de ínsalubridade quando o risco envolver a saúde do empregado ou o adicional de
periculosidade quando estiver relacionado a sua integridade física.
As empresas que possuírem trabalhos nocivos ou periculosos, por sua vez, devem estar cientes de
que se tais condicóes nao forem neutralizadas ou eliminadas, acarretaráo o pagamento dos adicionáis ao
trabalhador (insalubridade ou periculosidade, conforme o caso), a contribuicáo adicional ao SAT de 6°/o,
9% ou 12% (conforme subitem 11.6 desta obra) e1 provavelrnente, a responsabilidade objetiva quanto a
eventual indenizacáo acidentária, sem falar na repercussáo desses acidentes na alíquota básica do SAT, no
cálculo do FAP e na possibilidade de acáo regressiva previdenciária, proposta pelo INSS.
Por fim, e ainda que seja a responsabilidade objetiva, sem análise quanto a existencia ou nao
de culpa por parte do empregador, compreendo que nao <leve ser desconsiderada a previsáo do
art. 944 do Código Civil, no sentido de que a indenizacáo deve ser medida pela extensáo do dano, e
tampouco serern afastadas atenuantes como a comprovacáo de culpa exclusiva ou concorrente por

159
parte da vítima. Entendimento diverso seria conferir ao empregador urna responsabilidade maior
que aquela conferida ao empregado em relacáo a sua própria saúde e integridade física, o que nao se
pode admitir, sob pena de violacáo, inclusive, aos princípios constitucionais de proporcionalidade,
razoabilidade e, principalmente, equidade.

10.11.2. Espécies de dano - acumulacáo da índenízacáo previdenciária coma


índenízacáo civil, extracontratual

Os danos sofridos por um trabalhador acometido por acidente de trabalho nao se limitam,
muitas vezes, apenas a remuneracáo dos dias de ausencia e despesas médicas. Cada situacáo deve
merecer criteriosa análise e comprovacáo, sendo possível postular, dentre outras mais específicas,
indenizacóes por dano material, dano moral e dano estético.

Dano material
Por dano material devem ser compreendidos todos os prejuízos financeiros suportados (e
que seráo suportados) pela vítima ou seus familiares (em caso de óbito), sejam eles emergentes ou
cessantes, conforme regra disposta no art. 402 do Código Civil:
Art. 402. Salvo as excecóes expressamente previstas e1n leí, as perdas e danos devidas ao credor abrangem, alérn do
que ele efetivamente perdeu, o que razoavelmente deixou de lucrar.

A título de exemplo, portante, ternos as seguintes hipóteses:


• Despesas com medicamentos, hospital, honorários médicos, tratamentos fisioterápicos ou
de outra natureza, órteses, próteses, enfermeiros ou cuidadores que eventualmente sejam
necessários. <114>
• Diferenca entre a remuneracáo que receberia na ativa (inclusive considerando promocóes
possíveis se existente plano de cargos e salários na empresa) e o valor do benefício pago pelo
INSS (auxílio-doenca ou aposentadoria por invalidez) - Código Civil, art. 950;
• Contribuicáo previdenciária incidente sobre a diferenca entre o salário de benefício do auxilio-
-doenca e a remuneracáo que seria devida na ativa, já que em futuro cálculo de aposentadoria o
INSS considerará apenas o salário de beneficio do auxílio-doenca (Lei n. 8.213/91, art. 29, § 52).
• Manutencáo de benefícios contratuais como plano de saúde, plano odontológico, tíquetes-ali-
mentacáo, seguros, previdéncia complementar ou qualquer outro mantido pelo empregador,
durante todo o período de afastamento, ainda que se trate de aposentadoria por invalidez.
• Manutencáo do depósito de FGTS durante o período de aposentadoria por invalidez.
• Despesas com funeral, luto, jazigo, remocáo do corpo ou qualquer outra despesa comprovada
em decorréncia do óbito - ce, art. 948.
• Prestacáo de alimentos aos dependentes, e1n caso de óbito do trabalhador, considerando-se a
expectativa de sobrevida da vítima - ce, art. 948.
Todas as despesas podem ser devidamente comprovadas corn as notas fiscais e recibos, assim
como também é possível co1nprovar, com apresentacáo de contracheques, a diferenca entre o benefício
recebido pelo INSS e a remuneracáo da ativa.
A questáo mais complicada refere-se, pois, a indenizacáo referente a pensáo de alimentos aos
dependentes, quando do óbito do empregado, em razáo da ausencia de parámetros objetivos para

(114) Código Civil: "Art. 949. No caso de lesáo ou outra ofensa a saúde, o ofensor
indenizará o ofendido das despesas do tratamento
e dos lucros cessantes até ao fim da convalescenca, além de algum outro prejuízo que o ofendido prove haver sofrido".

160
a fixacáo desse montante. Tenho como razoável a divisáo da remuneracáo bruta percebida em vida
pelo número de membros da familia (cónjuge e filhos), de forma a apurar, aproximadamente, em
termos percentuais, quanto dessa remuneracáo era utilizada pelo próprio trabalhador e quanto era
utilizada pelo restante da familia.
Nesse sentido foi, inclusive, a decísáo proferida pelo TST no processo 0000333-63.2012.5.04.0205,
em decisáo monocrática proferida pelo ministro Emmanoel Pereira em 19.12.2014, publicada em
09.02.2015, numa situacáo em que a vítima possuía cónjuge e tres filhos:
Quanto ao pensionamento se mostra razoável a fixacáo de pensáo mensa) no montante de 60% da remuneracáo
que o trabalhador percebia na época do acidente (R$ 1.489,94 por mes, conforme TRCT da fls. 51/52), corrigidas
pelos critérios de atualizacáo dos débitos trabalhistas, acrescidas do 132 salário anual (a razáo de 60%) e majoradas
a razáo de 5°/o ao ano a título de ganho real anual correspondente a expectativa de melhoria dos rendimentos pelo
aperfeícoamento profissional. (sentenca, fl. 209).

Assim, deve ser mantida a sentenca de origern, por seus próprios fundamentos, in uerbis:

Dessa forma, tenho que o dano material (perda/diminuicáo de alimentos) decorrente do acidente de trabalho deve
ser indenizado mediante o deferimento de urna pensáo mensal, sob responsabilidade daré, em parcelas vencidas e
vincendas, equivalentes, cada, a 60% da remuneracáo que o trabalhador percebia na época do acidente (R$ 1.489,94
por mes, conforme TRCT da fls, 51/52), corrigidas pelos critérios de atualizacáo dos débitos trabalhistas, acrescidas
do 13º salário anual (a razáo de 60%) e majoradas a razáo de 5% ao ano a título de ganho real anual correspondente
a expectativa de melhoria dos rendirnentos pelo aperfeícoamento profissional. Quanto as parcelas vencidas até a
inclusáo em folha de pagamento, a pensáo mensa) será acrescida, ainda, de juros moratórios desde o ajuizamento da
acáo (art. 883 da CLT), que deveráo ser contados a razáo de 1% ao mes (art. 39, § lQ, da Leí n. 8.177/91), decrescentes
para as parcelas vencidas após o ajuizarnento da acáo.

É fixada a proporcáo de 60'Yo em razáo de que o acidente de trabalho agiu como concausa, levando-se em consíderacáo
a culpa da reclamada no evento danoso (antes e após), bem como em face do falecimento do trabalhador, o que
representa diminuicáo nos gastos habituáis da familia.

Tarnbém importa destacar que a previsáo legal refere-se ao pagamento da pensáo aqueles a
quema vítima os devia, de forma a acarretar a aplicacáo dos arts. 1.694, 1.696 e 1.697 do Código Civil:
Art. 1.694. Podem os patentes, os cónjuges ou cornpanheiros pedir uns aos outros os alimentos de que necessitem
para viver de modo compatível com a sua condicáo social, inclusive para atender as necessidades de sua educacáo.

§ lQ Os alimentos devem ser fixados na proporcáo das necessidades do reclamante e dos recursos da pessoa obrigada.
§ 22 Os alimentos seráo apenas os indispensáveis a subsistencia, quando a situacáo de necessidade resultar de culpa
de quem os pleiteia.

Art. 1.696. O direito a prestacáo de alimentos recíproco entre país e filhos, e extensivo a todos os ascendentes,
é

recaindo a obrigacáo nos mais próximos em grau, uns em falta de outros.

Art. 1.697. Na falta dos ascendentes cabe a obrigacáo aos descendentes, guardada a ordem de sucessáo e, faltando
estes, aos irmáos, assim germanos como unilaterais.

Compreendo, pois, que os beneficiários da indenizacáo devem corresponder as pessoas


e condicóes de preferencia de que tratarn os artigos supra, inclusive quanto a verificacáo de
dependencia económica. Tais dispositivos sao mais benéficos do que a previsáo contida na legislacáo
previdenciária (Leí n. 8.213/91, art. 16) e sao os que devem ser utilizados para verificacáo do direito,
já que se trata de indenizacáo de natureza civil, extracontratual, sem qualquer relacáo com o seguro
de acidentes (pago pela empresa a Previdéncia Social) e, especialmente, porque o art. 948 do Código
Civil menciona expressamente que os beneficiários sao aqueles que teriam direito a prestacáo de
alimentos. Confira-se:
Art. 948. No caso de homicidio, a indenizacáo consiste, sem excluir outras reparacóes:

[... )
JI - na prestacáo de alimentos as pessoas a quemo morto os devia, levando-se em conta a duracáo provável da vida
da vítima.

161
Com referencia a sobrevida da vítima, mencionada na parte final do inciso II, supra, um bom
indicador que pode ser utilizado é a tábua de sobrevida divulgada anualmente (dezernbro de cada
ano) pelo IBGE. Referido indicador, inclusive, tem sido utilizado pela Previdéncia Social desde
29.11.1999 (Leí n. 9.876/99) para o cálculo do fator previdenciário, componente utilizado para se
apurar o valor da aposentadoria por tempo de contribuicáo (Leí n. 8.213/91, art. 29).
Situacáo interessante, contudo, refere-se ao cónjuge sobrevivente, caso aufira renda própria
suficiente ao próprio sustento. Pelas disposicóes expressas do Código Civil, pode ser que essa pessoa
nao possua dependencia económica em relacáo aoíá) trabalhador(a) falecido(a) e, que, provavelmente,
dele(a) nao teria direito a alimentos, No entanto, as decisóes da [ustica do Trabalho tem sido no
sentido da condenacáo, com o fundamento de que a indenizacáo postulada tem natureza reparatória
de dano, e nao alimentar, ainda que o art. 948 trate expressamente de alimentos. Nesse sentido,
confira-se trecho da decisáo proferida pelo TST no RR 0001241-40.2010.5.12.0053 - 32 Turma -, cuja
relatoría coube ao ministro Alexandre Agra Belmonte (publicacáo em 10.10.2014):
Melhor serte nao assiste a recorrente quando ela sustenta que a pensáo nao é devida porque nao foi comprovada a
dependencia económica da autora em relacáo ao de cujus.
Conforme já afirmado acima, apesar de o inciso II do art. 948 do CC estabelecer a obrigacáo do culpado pela morte
a prestar alimentos, essa parcela nao possui natureza alimentar, mas sim indenizatória, diante do que é devida
independentemente da comprovacáo da sua necessidade.

Coma devida venia ao entendimento praticado, permito-me discordar, porque, se é verdade


que se trata de acáo com natureza indenizatória, também o é o fato de essa indenizacáo se referir
a um prejuízo material, devidamente comprovado ou passível de apuracáo pelo juízo, bem como
o fato de se tratar de norma punitiva, que imp6e obrigacáo de fazer e que, por tal razáo, merece
interpretacáo restritiva, e nao extensiva.
Compreendo que o cónjuge supérstite, mesmo com renda própria, pode vir a ter direito a
indenizacáo referida, mas nao co1n o fundamento praticado pelo TST quanto a natureza indenizatória.
Tenho que o fundamento encentra-se no próprio art. 1.694 do Código Civil, caput, no momento em
que permite que os "alimentos" se destinem nao semente a subsistencia, mas também a manutencáo
do padráo de vida anteriormente existente (condicáo social). Confira-se:
Art. 1.694. Podem os parentes, os cónjuges ou companheiros pedir uns aos outros os alimentos de que necessitem
para viver de modo compatível coma sua condícáo social, inclusive para atender as necessidades de sua educacáo.
[... ]

Verificado, pois, que o rendimento do cónjuge nao suficiente a manutencáo desse padráo anterior
é

e que a renda daquele falecido era indispensável para tal, devido será o pagamento da indenizacáo
pretendida, pois comprovado o prejuízo/dano material imposto pelo acidente de trabalho.
Seguindo o mesmo raciocínio, creio que os benefícios previdenciários decorrentes do acidente
nao podem deixar de ser considerados, quando se está apurando o dano material.
Nao se trata, absolutamente, de impedir a acumulacáo da indenizacáo acidentária com a
indenizacáo civil, porque, como visto anteriormente, tal direito se permite em nosso ordenamento
jurídico desde muito antes da Constituicáo Federal de 1988. Trata-se, isso sirn, de apurar corretamente
ou aproximadamente o dano, de forma a nao se permitir o enriquecimento do trabalhador (ou seus
dependentes) como sinistro, e tampouco condenar o empregador a ressarcir um prejuízo inexistente.
Se o trabalhador se machuca gravemente e fica impedido de trabalhar de forma definitiva, por
a
exemplo, certamente possui direito reparacáo dos danos, o que nao se discute. No entanto, para
aferir o dano material e condenar o empregador a reparar totalmente o prejuízo suportado, julgo
correto apurar, com a maior proxirnidade possível, qua! foi efetivarnente esse prejuízo. Se todo o
tratamento e todo o medicamento foi fornecido pelo SUS (servico incluído no ámbito da Seguridade
Social, assim como a Previdéncia Social, conforme CF/88, arts. 194 e ss), nao houve prejuízo material

162
nesse sentido e, logicamente, nada haverá que se condenar a respeito. E se o valor do beneficio,
pago pelo INSS for superior a
remuneracáo percebida na ativa, igualmente nao terá havido prejuízo
material, nada havendo a ser reparado pelo empregador também quanto a esse tópico, o que nao
impede, de forma alguma, a condenacáo quanto ao dano moral e o dano estético.
A questáo, portanto, é que aqui estamos a discutir o dano material, o prejuízo financeiro
efetivamente sofrido pelo trabalhador e que precisa e deve ser reparado quando da ocorréncia
de culpa por parte do empregador ou quando da existencia de atividade de risco, nos moldes do
parágrafo único do art. 927 do Código Civil. Refere o dano material, insista-se, um prejuízo de ordem
económica, suscetível de valoracáo, cuja reparacáo objetiva retornar ao status quo ante.
Historicamente, conforme já abordado nos capítulos anteriores, vimos que o empregador era
quem assumia, diretamente, o pagamento desses "prejuízos". Ocorre que muitas empresas deixa-
vam de cumprir integralmente com tais direitos, e muitos trabalhadores acabam a margem de toda
e qualquer protecáo, Assim, com a evolucáo da sociedade, da seguridade social e do próprio di-
reito, foi instituído um seguro, de pagamento obrigatório pelo ernpregador, justamente para essa
finalidade, ficando a cargo da seguradora o pagamento dessas despesas. Atualmente, esse seguro é
pago a Previdéncia Social, em alíquotas que variam de 1 °/o, 2% ou 3% e, desde 2010, com a incidencia
do Fator Acidentário de Prevencáo (FAP), cabendo ao INSS, autarquía que gerencia o pagamento dos
beneficios, proteger o trabalhador acidentado com o pagamento dos benefícios de auxílio-doenca,
aposentadoria por invalidez, auxílio-acidente e pensáo por morte, bem como por meio do servico de
reabilitacáo profissional.
O seguro pago pela empresa, portanto, possui exatamente a finalidade de proteger o trabalhador
corn esses beneficios e com o servico de reabilitacáo e foi instituído pelo legislador justamente para
desobrigar diretamente o empregador de tais responsabilidades, nao sendo possível a [ustica do
Trabalho desconsiderar esse fato quando da apuracáo do dano material.
O que pode acontecer, e daí a permissáo expressa da indenizacáo acidentária ser acumulada
com a indenizacáo civil, inclusive na própria CF/88, art. 72, inciso XXVIII, é a insuficiencia dessa
indenizacáo acidentária para a cobertura de todo o prejuízo material, além, obviamente, da
probabilidade de existirem danos morais ou estéticos, nao cobertos pela primeira.
Nao pretendeu o legislador ordinário ou constituinte desconsiderar total e absolutamente a
indenizacáo acidentária coberta pelo seguro que, repito, é pago pelo empregador justamente para tal
finalidade. O que se garante, com toda a propriedade, é a reparacáo total do prejuízo suportado, mas
desde que efetivamente existente.
Se, mesmo considerando os beneficios rece bid os (e o servico de reabilitacáo profissional), for apurada
a existencia de algum prejuízo material, deve o empregador ser condenado a ressarci-lo, mas na exata ou
aproximada medida dessa diferenca, tao semente. Desconsiderar a [ustica do Trabalho, totahnente, os
benefícios decorrentes desse seguro imp6e ao empregador urna obrigacáo nao prevista em lei (porque
nao está a reparar so mente o dano sofrido ), proporciona a vítima ou seus familiares um enriquecimento
como sinistro e, ainda, retira a finalidade específica do tributo imposto, com violacáo ao § 52 do art. 195
da CF/88 (principio da referibilidade), o que nao se pode permitir.
Assim, e por se tratar de indenizacáo por dano material, compreendo ser imprescindível a
presenca do dano/prejuízo, sem o qual nao se verá presente o objetivo da reparacáo, com violacáo
literal das disposicóes legais e, consequentemente, de direitos e principios constitucionahnente
garantidos, como o da justica (art. 32), da legalidade (art. 52, lle LV) e da referibilidade (art. 195, § 3º),
além, obviamente, daqueles atinentes a proporcionalidade e razoabilidade.

Dano moral
a
Por dano moral <leve ser compreendido todo e qualquer prejuízo pessoa do ofendido, sem
qualquer referencia ao seu patrimonio. Trata-se de violacáo aos direitos da personalidade e que, por

163
isso, sao personalíssimos, irrenunciáveis e intransmissíveis, relacionados ao aspecto físico e utilizacáo
do corpo, nome e imagem, moral, honra, intimidade, segurani;a, tranquilidade ou a qualquer outro
bem imaterial relacionado a dignidade que, urna vez desrespeitados, traga a vítima humilhacáo,
tristeza ou sofrimento.
Referidos direitos sao garantidos na Constituicáo Federal de 1988, a exemplo da previsáo que
consta no art. 1 Q' III e no art. SQ, incisos III, V e X, protegidos por meio de indenizacáo compensatória,
que <leveser paga pelo ofensor.
Art. lg A República Federativa do Brasil, formada pela uniáo indisso1úvel dos Estados e Municípios e do Distrito
Federal, constituí-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
[... )
IIT - a dignidade da pessoa humana;
[... ]
Art. 5º Todos sao iguais perante a lei, sem distincáo de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e
aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito a vida, a liberdade, a igua1dade, a seguranca e a
propriedade, nos termos seguintes:
[... ]
III - ninguém será submetido a tortura nema tratamento desumano ou degradante;
[ ... J
V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenizacáo por dano material, moral ou a
imagem;
[... ]
X - sao invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a irnagem das pessoas, assegurado o direito a indenizacáo
pelo dano material ou moral decorrente de sua violacáo:
[... )

Corno a indenizacáo por dano material tem por objetivo urna reparacáo financeira, dos prejuízos
efetivamente suportados pelo ofendido, e como a indenizacáo por dano moral repara a violacáo
de direito relacionado a personalidade e dignidade, a acumulacáo é perfeitamente possível, como,
inclusive, foi reconhecido pelo STJ na Súmula n. 37:
Súmula n. 37 - Sao cumuláveis as indenizacóes por dano material e dano moral oriundos do mesmo fato.

Também o Código Civil assim o permite, ao expressar, nos arts. 948 e 949, a possibilidade de repara-
<;ao de outros prejuízos. Confiram-se (destaques meus):
Art. 948. No caso de homicidio, a indenizacáo consiste, sem excluir outras reparacóes:
[... ]
Art. 949. No caso de lesáo ou outra ofensa a saúde, o ofensor indenizará o ofendido das despesas do tratamento e dos
lucros cessantes até ao fim da convalescenca, além de algum outro prejuízo que o ofendido prove haver sofrido.
,
E certo, pois, que na ocorréncia de um acidente de trabalho, comprovando-se culpa ou dolo
por parte do empregador ou, ainda, nas situacóes de atividade de risco (parágrafo único do art.
927 do Código Civil), pode o trabalhador ser ressarcido, cumulativamente, dos prejuízos materiais
e do dano moral suportado, o mesmo se aplicando aos familiares da vítima, em caso de óbito. E
cumpre aquí observar que, diferentemente do que ocorre com o dano material, aqui nao é relevante a
indenizacáo acidentária coberta pelo seguro de acidentes de trabalho (SAT), na forma das prestacóes
previdenciárias pagas pelo INSS.
Ocorre que, por se tratar de direito relacionado a intimidade e ao sentimento, impossível fica a
producáo de prova direta desse dano, pois como traduzir em documentos ou exames periciais uma
dor, urna humilhacáo ou urna angústia?

164
O que precisa ser comprovado, portante, é o acidente sofrido pelo trabalhador e urna gravidade
suficiente para provocar a violacáo de algum direito de intimidade ou personalidade, sendo o dano
moral, assim, presumído.P"? Caberá ao magistrado, pois, analisar devidamente as prevas pertinentes
a caracterizacáo acidentária do agravo, bem como a gravidade dele decorrente, no intuito de
identificar a presenca (ou nao) do dano moral e, se existente, quantificar a indenizacáo reparatória,
com fundamento no art. 946 do Código Civil, c/c art. 475-C, II do Código de Processo Civil:
Código Civil:
Art. 946. Se a obrigacáo for indeterminada, e nao houver na leí ou no contrato disposícáo fixando a indenizacáo
devida pelo inadimplente, apurar-se-á o valor das perdas e danos na forma que a lei processual determinar.
Código de Processo Civil:
Art. 475-C. Far-se-á a Iiquidacáo por arbitramento quando:
[... )
TI - o exigir a natureza do objeto da liquidacáo.

Esse é o entendimento consolidado em nossos Tribunais, conforme ilustro com a seguinte e


recente decisáo, proferida pelo TST no AIRR 1053-81.2010.5.09.0004 em 09.10.2013, cuja relatoria
coube ao desembargador convocado José Maria Quadros de Alencar (excerto):
Frise-se, ainda, que a caracterizacáo do dano moral prescinde da comprovacáo objetiva de dor, sofrimento ou abalo
psicológico, especialmente <liante da impossibilidade de sua comprovacáo material. Considera-se, assim, a ocorréncia
do dano in re ipsa, como bem ressaltado pelo eminente Ministro Wahnir Oliveira da Costa, na oportunidade do
julgamento do RR-1957740-59.2003.5.09.0011, cujo acórdáo foi publicado no DEJT de 4.2.2011:
O dano moral em si nao suscetível de prova, em face da impossibilidade de fazer demonstracáo, em juízo, da dor,
é

do abalo moral e da angústia sofridos, O dano ocorre in re ipsa, ou seja, o dano moral consequéncia do próprío fato
é

ofensivo, de modo que, comprovado o evento lesivo, tem-se, corno consequéncia lógica, a configuracáo de dano
moral, exsurgindo a obrigacáo de pagar indenizacáo, nos termos do art. 5111 X, da Consrituicáo Federal.
[... )
Diante da ausencia de critérios objetivos norteando a fixacáo do qunntum. devido a título de indenizacáo compensatória
por dano moral, cabe ao julgador arbitrá-lo de forma equitativa, pautando-se nos princípios da razoabilidade e
proporcionalidade, bem como nas especificidades de cada caso concreto, tais como a situacáo do ofendido, a extensáo
e gravidade do dano suportado e a capacidade económica do ofensor. Deve o julgador, portanto, buscar o equilíbrio
entre o dano sofrido e o valor arbitrado a indenizacáo, de modo que o quantum fixado revele-se apto a constituir
punícáo efetiva ao ofensor sem, no entanto, ocasionar o enriquecimento sem causa do ofendido.
Tem-se, de outro lado, que o exame da prova produzida nos autos é atividade restrita as instancias ordinárias,
soberanas no seu exarne. Com efeito, a proximidade do julgador, em sede ordinaria, corn a realidade cotidiana em
que contextualizada a controvérsia a ser dirimida, habilita-o a equacionar o litígio com maior precísáo, sobretudo no
que diz respeito a afericáo de elementos de fato sujeítos a avaliacáo subjetiva, necessária a estipulacáo do valor da
indenizacáo.
Concluí-se, num tal contexto, que nao cabe a esta instancia superior, em regra, rever a valoracáo emanada das
instancias ordinarias em relacáo ao montante arbitrado a título de indenizacáo compensatória por dano moral, para o
que se faria necessário o reexame dos elementos de fato e das provas constantes dos autos. Excepcionam-se, todavía,
de tal regra as hipóteses em que o quanium indenizatório se revele extremamente irrisório ou nítidamente exagerado,
denotando manifesta inobservancia aos principios da razoabilidade e da proporcionalidade, aferível de plano, sem
necessidade de incursáo na preva.
[... )
No caso dos autos, tem-se que o Tribunal Regional, ao fixar o valor atribuído a indenizacáo compensatoria devida
por dano moral, levou em consideracáo a culpa da reclamada na lesáo, a extensáo do dano suportado pela obreira -
lesáo na coluna (espondiloartrose lombar e hérnia discal) -, a relacáo de concausalidade entre o labor e a doenca que

(115) CPC, art. 334 - "Nao dependem de prova os fatos:


1 - notórios;
[ ... ]
IV - em cujo favor milita presuncáo legal de existencia ou de veracidade".

165
acometera a reclamante e a capacidad e económica do ofensor, resultando observados os critérios da proporcionalidade
e da razoabilidade. Nao se cogita, portante, na revisáo do valor da condenacáo, para o que se faria necessário rever os
a a
critérios subjetivos que levararn o julgador conclusáo ora combatida, luz das circunstancias de fato reveladas nos
autos. Resultam incólumes os arts, 884 e 885 do Código Civil.
[... ]

Para a fixacáo do valor devido pode o magistrado aferir o dano utilizando-se da prova pericial
produzida ou, ainda, da aplicacáo dos percentuais fixados na tabela da SUSEP, por analogía, entre
outros critérios específicos a cada situacáo apresentada.t'!" inclusive a natureza pedagógica da
reparacáo para que o empregador nao volte a praticar o mesmo ilícito, desde que presentes, sempre,
os critérios de proporcionalidade e razoabilidade.
[ ... ] 2. ACIDENTE DE TRABALHO. AMPUTA<;AO PARCIAL DE DEDO. DANOS MORAL E ESTÉTICO.
CABIMENTO. POSSIBILIDADE DE CUMULA<;AO DAS INDENIZA<';ÓES. CONFIGURA<;AO. 2.1. O dano moral
prescinde, para sua configuracáo, de prova, bastando, para que surja o dever de indenizar, a dernonstracáo do fato
objetivo que revele a violacáo do direito de personalidade. 2.2. Evidenciadas as conduras negligentes e displicentes do
empregador, bem corno o dano permanente de 4% pela tabela SUSEP, resta caracterizada a ocorréncia de dano moral.
Cabível, assim, a indenizacáo respectiva, a cargo do empregador. Recurso de revista nao conhecido. 2.3. Além disso,
incontroverso que houve lesáo desfíguradora, decorrente de acidente de trabalho, que tornou a pessoa visualmente
desarmónica - dano estético - , e, ainda, desconforto íntimo - dano moral - , direitos distintos foram tesados,
nao configurando bis in ideni a cumulacáo das indenizacóes. 3. [ ... ]. II - RECURSO DE REVISTA ADESIVO DO
RECLA1\11ANTE. DANOS MORAL E ESTÉTICO. INDENIZA<;ÁO. VALOR. CRITÉRIOS PARA ARBITRAMENTO.
A indenizacáo por dano moral guarda conteúdo de interesse público. O valor fixado <leve observar a extensáo do
dano sofrido, o grau de comprometimento dos envolvidos no evento, os perfis financeiros do autor do ilícito e da
vítima, além de aspectos secundários pertinentes a cada caso. Incumbe ao juiz fixá-lo com prudencia, bom senso e
razoabilidade. Recurso de revista nao conhecido. (TST - RR 7160220115030012 - 3ª Turma - Relator Alberto Luiz
Bresciani de Fontan Pereira - Julgamento em 12.6.2013 - DEJT de 14.6.2013)
RECURSO DE REVISTA. ACIDENTE DE TRABALHO. INDENIZA<;AO POR DANOS MORAIS. VALOR
ARBITRADO EXCESSIVAMENTE MÓDICO. CARÁTER REPARADOR E TAMBÉM PEDAGÓGICO DA
INDENIZA<;ÁO. Nao há na legislacáo pátria delineamento do quru1tum. a ser fixado a título de dano moral. Caberá
ao juiz fixá-lo, equitativamente, sem se afastar da máxima cautela e sopesando todo o conjunto probatório constante
dos autos. A lacuna legislativa na seara laboral quanto aos critérios para fixacáo leva o julgador a lancar máo do
principio da razoabilidade, cujo corolário o principio da proporcionalídade, pelo qual se estabelece a relacáo de
é

equivalencia entre a gravidade da lesáo e o valor monetário da indenizacáo imposta, de modo que o ato ofensor seja
reparado e, ao mesmo tempo, nao gere a sensacáo de irnpunidade, servindo de d.esestímul.o a repeticáo da conduta
(natureza reparadora e também pedagógica da indenizacáo). No caso dos autos, tem-se que o valor arbitrado a título
de indenizacáo por danos moraís (tres mil reais) é excessivamente módico. Considerados os elementos expostos
no acórdáo regional, tais como a gravidade da lesáo, o grau de culpa do ofensor e a sua condicáo económica, bem
como o nao enriquecimento indevido do ofendido, o valor arbitrado pelo Tribunal Regional apresenta-se módico.
Assim, utilizando-se dos principios da razoabilidade e da proporcionalidade, pelo qual se estabelece a relacáo de
equivalencia entre a gravidade da lesáo e o valor monetario da indenizacáo imposta, mostra-se razoável o valor
arbitrado na sentenca - R$18.000,00 (dezoito mil reais) - a título de indenizacáo por danos morais . Recurso de
revista conhecido e provido. (TST - RR 15955520125090093 - 3~ Turma - Relator Mauricio Godinho Delgado -
Julgamento em 25.2.2015 - DEJT de 27.2.2015)

Com referencia ao caráter pedagógico da indenizacáo, contudo, nao deve servir tal critério para
diferenciar quantitativamente o dano moral daquele que trabalha em grandes empresas em relacáo
ao de outro que mantém vínculo em pequeno estabelecimento.
O dano material permite diferenca de valores porque está a reparar, justamente, o prejuízo
financeiro comprovado, mas o dano moral deve ser equitativo e justo a todos que o recebem. Nao
pode, por exemplo, o dano moral de urna determinada família ser arbitrado em menos da metade
do dano moral de outra familia, quando ocorre o óbito de um trabalhador, mas é o que podemos
observar nos dois julgados, ambos do TST (destaques meus):

(116) Por analogía, confira-se a redacáo do parágrafo único do art. 953 do Código Civil: "Art. 953. A lndenízacáo por injúria, difarnacáo
ou calúnia consistirá na reparacáo do dano que delas resulte ao ofendido.
Parágrafo único. Se o ofendido nao puder provar prejuízo material, caberá ao juiz fixar, equitativamente, o valor da indenizacáo, na
conformidade das circunstancias do caso".

166
RECURSO DE REVISTA. DANOS MORAIS. ACIDENTE DE TRABALHO. MORTE DO EMPREGADO. VALOR DA
INDENIZA(:ÁO. l. O e. TRT noticiou que em 13.9.2010, o reclamante, que atuava na empresa corno motorista de
caminháo, sofreu grave acidente na estrada e, "em decorréncia dísso, o autor faleceu e oseu aj u dante ficou tetraplégico".
Registrado, por sua vez, que "o trabalhador falecido era um motorista experiente, que a empresa acionada nao fazia
a adequada rnanutencáo dos seus carninhóes - apesar de se utilizar de veículos antigos, corno o caminháo usado
no diado acidente (fabricado em 1978) - e, ainda, que a demandada permitia a carga excessíva nos caminhóes". 2.
Nao obstante o quadro fático descrito, a Corte de origem houve por bem reduzir o quantum indenizatório, fixado
na sentenca em R$ 150.000,00 (cento e cinquenta mil reais), para R$ 40.000,00 (quarenta mil reais), "considerando a
natureza e extensáo do dano, grau de culpa e capacidade financeira do ofensor, condicáo social da vítima" e rendo em
conta o caráter pedagógico da condenacáo que "visa estimular o ofensor a nao reincidir". 3. Coro base nas premissas
consignadas na espécie e atentando sobretudo para o fato de que o infortúnio causou a morte do ex-empregado,
marido e paí dos reclamantes, conclui.-se que o valor fixado no acórdáo regional nao respeitou os principios da
razoabilidade e proporcionalidade, a que alude o art. 944 do CCB, resultando imperioso o restabelecimento dos
valores fixados na sentenca, em compensacáo pelos danos morais . Recurso de revista conhecido e prevido, no tema.
[ ... ) (TST - RR 5075820125050621 - P Turma - Relator Hugo Carlos Scheuermann - [ulgamento em 4.3.2015 -
DEJT de 13.3.2015)
RECURSO DE REVISTA. ( ... ). ACTDENTE DE TRABALHO COM ÓBITO. EXPLOSÁO EM TANQUE DE ÓLEO DE
COMBUSTÍVEL. INDENIZA<;Ao POR DANOS MORAIS. LIMITA<;Ao DA CONDENA<;Ao AOS DEPENDENTES
DIRETOS (COMPANHEIRA E FILHA DO FALECIDO). O eg. Tribunal Regional excluiu a máe e os irrnáos da vítima
do direito a indenizacáo por dano moral decorrente do acidente de trabalho que causou a morte do ex-empregado
da reclamada, determinando o pagamento da reparacáo apenas a companheira e a filha do de cujus, no importe de
R$ 80.000,00, para cada uma, no total de R$160.000,00, por serem estas as únicas dependentes diretas do falecido. A
decisáo, como posta, nao ofende a literalidade dos arts. 186 do Código Civil e 52, V e X, da Constituicáo Federal, eis
que amparada a condenacáo, justamente, na responsabilidade das reclamadas, quanto a ausencia nas condicóes de
segurani;a para o trabalho do empregado falecido. Inservíveis os arestos acostados para exame, eis que originários
de Turmas do c. TST. Recurso de revista nao conhecido, ( ... ) (TST - RR 2442003620095150007 - 6ª Turma - Relator
Aloysio Correa da Veiga - [ulgamento em 19.2.2014 - DEJT de 21.2.2014)

No primeiro processo, onde houve dano moral arbitrado no valor de R$ 40.000,00, os requerentes
sao a esposa e um filho. No segundo processo a indenizacáo ficou estabelecida em R$ 160.000,00,
sendo requerentes a companheira e urna filha. Por qual razáo? O dano moral de cada membro da
primeira família merece menor indenizacáo (R$ 20.000,00 para cada um) simplesmente porque no
segundo caso (R$ 80.000,00 para cada um) a empresa é de porte maior?
Insisto que o caráter pedagógico da pena é critério relevante, que pode ser adotado pelo
magistrado na condenacáo para coibir o empregador de reiterar na prática do ilícito, mas como
pretender como justa urna indenizacáo ser quatro vezes superior, sendo o mesmo fato gerador, o
mesmo grau de culpa e o mesmo número de dependentes?
Para aferir o quanium da indenizacáo, o magistrado buscar verificar qual o efetivo prejuízo
financeiro (dano material) e qual o provável dano moral, combase nas características da ocorréncia
e nas provas produzidas pelas partes. Trata-se da reparacáo devida em razáo do dano causado
(compensatoru dan1ages), prevista expressarnente na Carta Constitucional de 1988 e no Código Civil,
corno já visto. O caráter pedagógico da punícáo, contudo, nao tem o objetivo de reparar o dano, mas
punir a empresa de forma a incentiva-la quanto ao cumprimento das normas de seguranca, evitando
novos acidentes (exemplary damages). Assim, penso que tal parcela nao <leve ser destinada a vítima ou
aos seus dependentes, mas a toda sociedade, já que o objetivo de sua fixacáo é justamente evitar que
a empresa repita o mesmo erro com outras pessoas.
A protecáo objetivada pertence a coletividade, sem qualquer cunho reparatório de dano.
Logicamente, penso que o valor de tal indenizacáo deve ser revertido também coletividade, a
nao havendo fundamento jurídico para que esse montante seja percebido apenas pela vítima ou
seus familiares, sob pena de afronta aos princípios de igualdade e isonomia, bem corno de afronta
ao próprio art. 927 do Código Civil, já que a condenacáo imposta nao tem por objetivo qualquer
ressarcimento de dano.
A indenizacáo de caráter exemplar, portante, serve a garantía dos direitos fundamentais,
impedindo que o ofensor volte a praticar o ilícito causador do dano a outros cídadáos, além da

167
vítima. Note-se que a reparacáo da vítima já estará contemplada nas indenizacóes por dano material,
moral e estético que porventura venha a receber, destinando-se a parcela pedagógica da indenizacáo,
repito, a outros trabalhadores que, por ora, sequer podem ser identificados.
Tanto é assim que a referida concepcáo consta, inclusive, da proposta de alteracáo do Código
Civil (insercáo do§ 22), disposta no Projeto de Lei n. 276/2010, de autoría do deputado Leo Alcantara,
a qual possui o seguinte teor:
Art. 944. [ ... J
§ 1º Se houver excessiva desproporcáo entre a gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir, equitativamente,
a indenizacáo:
§ 22 A reparacáo do dano moral deve constituir-se em compensacáo ao lesado e adequado desestímulo ao lesante.
(NR)

O projeto, atualmente, encentra-se arquivado em face do art. 105 do Regimento Interno da


Cámara dos Deputados (término da legislatura), mas seu conteúdo expressa justamente a compensaioru
damage que vem sendo praticada nas indenizacóes por dano moral, ao positivar, como objetivo da
pena, também o deeestimulo ao lesante.
Nao há como olvidar-se, ainda, que a responsabilidade civil possui urna funcáo social, como
expressa, inclusive, o próprio Código Civil no parágrafo único do art. 883, ao tratar da repeticáo de
um pagamento indevido:
Art. 883. Nao terá direito a repeticáo aquele que deu alguma coisa para obter fim ilícito, irnoral, ou proibido por leí.
Parágrafo único. No caso deste artigo, o que se deu reverterá em favor de estabelecimento local de beneficencia, a
critério do juiz.

Observe-se que, no referido artigo, o legislador ultrapassou a esfera do direito privado originária,
ampliando-a para beneficiar urna instituicáo cuja finalidade se estende a toda a sociedade (local de
beneficencia), determinando que o cidadáo nao receba de volta o valor pago, justamente para que
nao volte a repetir o ato ilícito anteriormente praticado.
Concluindo, entendo que a parcela destinada ao caráter pedagógico da pena <leve ser destinada
a qualquer entidade local que exerca tuna funcáo pública, ou seja, que ofereca servicos socíaís, de
caráter assistencial, de forma a beneficiar toda a comunidade onde o ilícito foi praticado, por analogía
ao disposto no art. 883 do Código Civil.
Também pode o valor ser destinado ao FAT - Fundo de Amparo ao Trabalhador, instituido
pela Lei n. 7.998/90 e vinculado ao Ministério do Trabalho e Emprego, cujos valores sao destinados
ao custeio do seguro-desemprego, do abono salarial e de progra1nas de desenvolvimento economice.
Via de regra, as condenacóes por dano moral coletivo, em acóes propostas pelo Ministério Público
do Trabalho, sao destinadas ao FAT em face das disposícóes do art. 13 da Lei n. 7.347/85,<117> mas
sequer nesses casos há tal obrigatoriedade, sendo possível destinacáo diversa, conforme ilustra a
reportagem publicada em 20.08.2007:<118)

(117) "Art. 13. Havendo condenacéo em dinheiro, a mdenlzacáo pelo dano causado reverterá a um fundo gerido por um Conselho
Federal ou por Conselhos Estaduais de que participaráo necessariamente o Ministério Público e representantes da comunidade, sendo
seus recursos destinados a reconstttuicáo dos bens lesados.
§ 12 Enquanto o fundo nao for regulamentado, o dinheiro ficará depositado em estabelecimento oficial de crédito, em conta com
correcáo rnonetárla.
§ 22 Havendo acordo ou condenacáo com fundamento em dano causado por ato de discrirninacáo étnica nos termos do disposto no
art. 1º desta Lei, a prestacáo em dinheiro reverterá direta mente ao fundo de que trata o caput e será utilizada para acóes de prornocáo
da igualdade étnica, conforme deñnicáo do Conselho Nacional de Prornocáo da lgualdade Racial, na hipótese de extensño nacional,
ou dos Conselhos de Promocáo de lgualdade Racial estaduais ou locals, nas hipóteses de danos com extensáo regional ou local, res-
pectivamente."
(118) Disponível em: <http://reporterbrasil.org.br/2007 /08/indenizacoes-direcionadas-pelo-mpt-beneficiam-comunidades/>. Acesso
em: 12.04.2015.

168
No Mato Grosso, um dos estados que mais sofre com o trabalho escravo, esse tipo de destinacáo de verbas vem
acontecendo desde 2003. Ao longo desses quatro anos, já foram beneficiados, entre outros, organízacóes nao
governamentais (ONGs) que dáo cursos de música para jovens, hospitais e delegadas regionais do trabalho.
Procuradores da regiáo afirmam que aplicar os recursos dessa forma é urna maneira de fazer urna reparacáo direta e
irnediata no local onde o dano foi causado.
"Pelo menos desde 2000, os colegas da Conaete [Coordenadoria de Combate ao Traba1ho Escravo, órgáo do MPT]
comecaram a reverter esses valores para a compra, por exemplo, de equipamentos que complementem a ac;ao do
grupo móvel [de fiscalizacáo]. Como passar do tempo, fomos evoluindo nessa ideia de reverter esses valores para
atender a comunidade", explica Erlan do Prado, procurador do MPT e vice-coordenador da Conaete.
[... )
A Leí n. 7.347/1985, que regulamenta as ACPs, preve que esse tipo de indenizacáo deve ser depositada em um fundo
para a corrigir o prejuízo causado: "Art. 13. Havendo condenacáo em dinheiro, a indenízacáo pelo dano causado
reverterá a um fundo gerldo por um Conselho Federal ou por Conselhos Estaduais de que partíciparáo necessariamente
o Ministério Público e representantes da comunidade, sendo seus recursos destinados a reconstituicáo dos bens
tesados." Esse fundo, contudo, nunca chegou a ser criado. "Na ausencia desse fundo, históricamente os valores foram
destinados ao FAT, que seria o fundo que mais é próximo a nossa realidade", conta Erlan.
[ ... ]
Apesar do FAT prever investimentos no combate a escravidáo, muitos procuradores do Trabalho entendem que nao
é urna boa opcáo direcionar as indenizacóes por danos rnorais coletivos para o fundo, já que nao há garantias de
que o dinheiro será canalizado para as vítímas diretas da infracáo. "Nos preocupamos muito ao perceber que nao
há nenhurn programa de qualificacáo profissional voltado diretamente para resgatados da escravidáo que utilizasse
dinheiro do FAT", afirma Erlan.
Quando a opcáo aplicar em projetos locais, a comunidade beneficiada tem acesso as inforrnacóes e sabe como anda a
é

aplícacáo dos recursos, podendo, inclusive, denunciar a J ustica do Trabalho caso haja algo saindo errado ou deixando
de ser curnprido.
[... ]

Destinar o valor a vítima ou aos seus dependentes, como fez o TST nos julgados anteriormente
colacionados, nao fere de forma expressa semente a redacáo do art. 927 do Código Civil (porque
nao está o valor a reparar o dano do particular) como tambérn, e por consequéncia, os principios
constitucionais de legalidade, solidariedade, isonomia, razoabilidade e justica.

Dano estético
O termo estética tem sua origem no vocábulo grego aisthesis, que significa "sensacáo" ou
"percepcáo", e como disciplina, foi criado por Alexander Gottlieb Baumgarten, filósofo alernáo,
designando a ciencia que trata do conhecimento sensorial que chega a compreensáo do que é belo.<n9>
o dano estético refere-se, pois, a beleza e a fealdade, podendo assim ser caracterizado qualquer
prejuízo que comprometa a harmonía do corpo físico, agredindo a vítima em seus sentimentos e
sua percepcáo de autoestima. Pode se referir, portante, a mutilacóes, cicatrizes, feridas repulsivas
ou outras deformidades, ainda que mínimas e ainda que possam ser cobertas ou disfarcadas pelo
portador.
Nao há que se confundí-lo com o dano material (que envolve reparacáo de prejuízo financeiro) e
nem tampouco com o dano moral, porque a existencia desse último nao demanda, necessariamente,
um prejuízo estético. Na verdade, o que se pode afirmar é que a ocorréncia de um dano estético
acarreta, sempre, um dano moral, já que acarreta ao portador um sofrimento interno e psicológico,
relacionado aos padr6es de beleza impostes pela sociedade.
Por tal razáo, sempre que o acidente de trabalho acarretar um prejuízo estético, presente estará,
também, o dever de indenizá-lo, se comprovada culpa ou dolo por parte do empregador na ocorréncia

(119) Enciclopédia Barsa Universal. Editora Planeta, v. 7.

169
do sinistro ou, ainda, ern se tratando de atividade de risco, de forma a atrair a responsabilidade
objetiva (CC, art. 927, parágrafo único).
A acumulacáo dessa indenizacáo corn a indenizacáo por dano moral encentra amparo na
doutrina e na jurisprudencia pátria, estando a previsáo, inclusive, expressa na Súmula n. 387 do
Superior Tribunal de [ustica, aprovada ern 2009:
Súmula n. 387 - É lícita a curnulacáo das indenizacóes de dano estético e moral.

Merece registro também o Enunciado 192, aprovado no ano de 2004 na III Jornada de Direito
Civil, realizada pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da [ustica Federal, com o seguinte
teor:
Enunciado 192: Arts. 949 e 950: Os danos oriundos das situacóes previstas nos arts. 949 e 950 do Código Civil de 2002
devern ser analisados em conjunto, para o efeito de atribuir indenizacáo por perdas e danos materiais, cumulada com
dano moral e estético.

Quanto a fixacáo do valor, deve o magistrado seguir os mesmos parámetros utilizados para
o arbitramento do dano moral, nao havendo em nosso ordenamento jurídico um critério rígido
e objetivo que possa ser adotado para um valor exato.<120> O juiz, contudo, nao pode valer-se
puramente de seu subjetivismo, devendo levar em conta a natureza efetivamente acidentária da
lesáo, o grau de culpa, a extensáo do dano, a capacidade económica das partes e, principalmente,
os princípios de proporcionalidade e razoabilidade, conforme muitíssimo bem abordado na
ementa redigida nos autos de RO 25201103623009/MT, TRT da 23ª Regíáo, cuja relatoria coube
ao desembargador Osmair Couto:
DANOS MORAL E ESTÉTfCO. CRITÉRIOS RECOMENTADOS PARA FIXA\:ÁO DOS VALORES DAS
INDENlZA\:ÓES CORRESPONDENTES. O nosso sistema positivo de direito nao conta comcritério rígido e objetivo
que permita fixar valor exato a cornpensacáo de danos moral e estético. lsso nao significa que o órgáo julgador
está livre para criá-lo. Este nao está autorizado a valer-se de seu subjetivismo. Algumas balizas objetivas hao de
ser observadas para, assim, haver controle social quanto a justica das decisóes judiciais e, tarnbém, permita a parte
ou ao terceiro prejudicado buscar a revisáo de tais decisóes mediante recursos. Doutrina e jurisprudencia, que se
desenvolveram ao longo do tempo e numa espécie de processo de amadurecimento, sugeren1 que os valores das
indenizacóes de danos moral e estéticos devem levar em con ta: a) onde, como e quando ocorreu o evento <lanoso; b) a
extensáo do dano sofrido pela vítirna e a possibilidade de consolidacáo ou de desaparecimento corn passar do tempo;
e) o grau de culpa de urna ou de ambas as partes; d) a capacidade económica e social de ambas as partes, de modo
que os valores fixados nao sejam insignificantes a urna delas nem onerosa a outra, e ao mesmo nao sirva de fonte
de enriquecímento: e e) que cun1pra aos principios da razoabilidade e da proporcionalidade. E, por fim, que atenda
ao caráter pedagógico - que, no caso concreto, deva ser bilateral em razáo do reconhecimento da culpa reciproca
- da compensacáo. Todas estas balizas foram respeitadas no caso concreto, pelo que fica mantida a sentenca neste
ponto. (TRT-23 - RO 25201103623009 Mf - P Turma - Relator Desembargador Osmair Couto - [ulgarnento em:
26.6.2012 - Publicacáo em: 12.8.2012)

10.11.3. Competencia e prescrícáo

Antes das alteracóes promovidas pela Emenda Constitucional n. 45/2004, a competencia para
julgarnento de acóes indenizatórias, mesmo quando decorrentes de acidente de trabalho, cabia a
justica comurn e, por tal razáo, firmou-se entendimento ero nossos tribunais pela aplicacáo das regras
dispostas no Código Civil, sem observancia do prazo prescricional trabalhista (de dois ou cinco anos).
Previa o Código Civil de 1916, no art. 177, o prazo prescricional de vinte anos para as acóes
pessoais. Confira-se:
Art. 177. As acóes pessoais prescrevern, ordinariamente, em vinte anos, as reais em dez, entre presentes e entre
ausentes, em quinze, contados da data em que poderiam ter sido propostas.

(120) Da mesma forma abordada para o dano moral, também para o dano estético nao é relevante a lndenlzacáo acidentária coberta
pelo seguro de acidentes de trabalho (SAT), na forma das prestacóes previdenciárias pagas pelo INSS.

170
Com a alteracáo promovida pela Lei n. 10.406/2002, passou o Código Civil a tratar do terna no
art. 206, determinando prazo de apenas tres anos:
Art. 206. Prescreve:
[ ... )
§ 3º Em tres anos:
[... ]
V - a pretensáo de reparacáo civil;
[... )

Para definir qual prazo seria aplicado, em face da modificacáo substancial promovida (de vinte
para trés anos), disciplinou o art. 2.028 do novo diploma que o prazo antigo semente seria aplicado
se em 11.01.2002 (data de publicacáo da nova leí) já houvesse transcorrido mais de dez anos, prazo
esse contado do fato gerador do direito. Confíra-se:
Art. 2.028. Seráo os da lei anterior os prazos, quando reduzidos por este Código, e se, na data de sua entrada em vigor,
já houver transcorrido mais da metade do tempo estabelecido na leí revogada.
Na sequéncia, quando da publicacáo da Emenda Constitucional n. 45/2004, houve alteracáo na
redacáo do art. 114 da Constituicáo Federal, e a competencia para o julgamento dessas acóes passou a
ser da [ustica do Trabalho, com aplicacáo dos prazos prescricionais afetos ao direito do trabalho para
fatos geradores ocorridos a contar de sua publicacáo, ocorrida em 31/12/2004, sendo estes dispostos
no inciso XXIX do art. 72 da CF/88:
Art. 7° Sao direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem a melhoria de sua condicáo social:
[... )
XXIX - acáo, quanto aos créditos resultantes das relacées de trabalho, com prazo prescricional de cinco anos para os
trabalhadores urbanos e rurais, até o limite de dois anos após a extincáo do contrato de trabalho;
[...)

E1n se tratando de acáo judicial cujo objeto é a reparacáo por dano em decorréncia de um acidente
de trabalho (material, moral ou estético), o fato gerador desse direito, obviamente, nao pode ser a
data do acidente ou, tampouco, a data de rescisáo contratual, mas sim a data em que o trabalhador
teve conhecimento/ciéncia do dano por ele sofrido.
Pode ser que o dano tenha início exatamente no dia do acidente (amputacáo de membro, por
exemplo), mas pode ser que tenha origem semente tempos depois, como sói ocorrer nos casos de
doenca ocupacional diagnosticada semente após o encerrarnento da relacáo de emprego ou, ainda,
quando concedida a aposentadoria por invalidez pelo INSS, pois nessa data é que o trabalhador tem
conhecimento de que a incapacidade foi considerada total e irreversível.
Sobre o tema existem entendimentos já fixados pelos Tribunais Superiores, conforme ilustro:
STF, Súmula n. 230 - A prescricáo da acáo de acidente do rrabalho conta-se do exame pericial que comprovar a
enfermidade ou verificar a natureza da incapacidade.
STJ, Súmula n. 278 - O termo inicialdo prazo prescricional, na ac;ao de indenizacáo, é a data em que o segurado teve
ciencia inequívoca da incapacidade laboral.

No ámbito da [ustica do Trabalho, específicamente na 1 ªJornada de Direito Material e Processual


na [ustica do Trabalho, foi aprovado em 2007 o Enunciado 46, sendo sua redacáo a que segue:
Enunciado n. 46 - ACIDENTE DO TRABALHO. PRESCRI<;AO. TERMO INICIAL. O termo inicial do prazo
prescricional da indenizacáo por danos decorrentes de acidente do trabalho é a data em que o trabalhador teve
ciencia inequívoca da incapacidade laboral ou do resultado gravoso para a saúde física e/ou mental.

É certo, pois, que o prazo de prescricáo a ser adotado dependerá de a ciencia do dano ter
ocorrido antes ou depois da publícacáo do Código Civil/2002 (11.1.2002) e, também, se ocorreu antes
ou depois da EC n. 45/2004 (31.12.2004).

171
Assim, e ern resumo, urna vez identificada a data inequívoca da ciencia do dano para o qual se
pretende reparacáo, sao os prazos aplicáveis os seguintes:
• Até 10.01.2002: prazo de vinte anos, se já transcorridos mais de dez anos do fato gerador
(CC/1916, art. 177 c/c CC/2002, art. 2.028), ou prazo de tres anos, se transcorrido tempo inferior
(CC/2002, arts. 206 e 2.028);
•Entre 11.01.2002 e 30.12.2004: prazo de tres anos (CC/2002, art. 206);
•A contar de 31.12.2004:prazo de cinco anos. Observa-se o prazo de até dois anos após a extincáo do
contrato somente se o dano já era conhecido antes do encerramento do vínculo (CF/88, art. '79-, XXIX).
Confiram-se, ilustrativarnente, os seguintes julgados:
RECURSO DE REVISTA - ACTDE1\1TE DO TRABALHO - DOEN<;A PROFJSSIONAL - DANOS MATERJAIS E
MORAIS - PRESCRJ<;:ÁO - MARCO INICIAL. Embora seja tormentosa a questáo relativa a data que seja considerada
para se definir o início da fluencia do prazo prescricional, em se tratando de doenca ocupacional - equiparada por lei
ao acidente de trabalho +. o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de [ustica consagraram entendimentos
consubstanciados nas respectivas Súmulas ns. 230 e 278 de que o termo inicial do prazo prescricional a data em que o
é

empregado teve ciencia inequívoca da incapacidade laboral, sendo que, por se tratar a doenca ocupacional de um processo
gradativo, com possibilidade de recuperacáo ou de a gravamen to, nao se deve considerar o conhecimento, pelo empregado,
dos síntomas iniciais da doenca ou mesmo do afastamento por auxílio-doenca como momento da ciencia inequívoca de
sua íncapacidade, A discussáo relativa a prescrícáo nao se confunde com aquela afeta ao mérito da demanda, no caso,
a verificacáo dos elementos da responsabilidade civil, confirmacáo do dano, nexo de causalidade entre a molestia e o
trabalho desempenhado, e a culpa do ex-empregador. Na espécie, ao que se extrai da dedsáo recorrida e elementos
incontroversos, nao há sequer certeza quanto a incapacidade laborativa da autora, porquanto pendente a solucáo da ac;ao
previdenciária proposta pela autora. Dessa serte, a prescricáo aplicável a quinquenal, estabelecida no art. '71, inciso XXIX,
é

da Constituicáo Federal. Ajuizada a presente ac;ao em 19.2.2010, nao há prescricáo a ser pronunciada relativamente a
pretensáo de reparacáo por danos morais e patrimoniais decorrentes de doenca profissíonal equiparada a acidente do
trabalho. Recurso de revista conhecido e próvido. (TST - RR 1852020105050003 - 7~ Turma - Relator: Luiz Philippe
Vieira de Mello Filho - [ulgamento em 29.4.2014 - DEJT de5.5.2014) ·
AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECURSO DE REVISTA. PRESCRI<;:ÁO. DOEN<;A OCUPAOONAL CONSTATA-
DA ANTES DA EMENDA CONSTITUCIONAL N. 45/2004. INDENIZA<;ÁO POR DANOS MORAIS E MATERIAJS.
A<;ÁO A]UIZADA NA JUSTIC::A DO TRABALHO APÓS A EMENDA CONSTITUCIONAL N. 45/2004. PRAZO PRES-
CRJCIONAL APLICÁVEL. Afastada a regra geral de aplicacáo da prescricáo trabalhista, e1n atencáo aos principios da
razoabilidade e da segurani;:a jurídica, ante a verifícacáo de que o evento ocorreu antes da EC n. 45/2004, a prescrícáo aplicável
in. casu a pretensáo de indenizacáo por danos morais e materiais decorrentes de acidente de trabalho é a prevista na legislacáo
civil. No caso, a ciencia inequívoca da lesáo se deu em 31.8.2000e ai;:ao foí ajuizada na [ustica do Trabalho em 28.3.2011. Ocorrido
o evento danoso, quando estava em plena vigencia o Código Civil de 1916, <leve ser aplicada a regra de transicáo do art. 2.028
do Código Civil de 2002. E como na data da entrada em vigor do Código Civil de 2002 ainda nao havia transcorrido mais da
metade do prazo de vinte anos estabelecido no art. 177 do Código Civil de 1916, o prazo de prescrícáo aplicável, in casu, é o de
tres anos, do art. 206, §3°, V, do CCB/2002,contados da data da entrada em vigor do Código Civil de 2002. Assim, impertinente
a invocacáo do prazo decenal previsto no art. 205 do CC/2002, porque esse se aplica apenas quando a lei nao fixa prazo menor,
o que nao ocon:ena espécie. Precedentes. Agravo de instnunento conhecido e desprovido. (TST - AIRR-629-54.2011.5.02.0471
- 3~ Turma - Relator Ministro Alexandre de Souza Agra Belmonte - DEJT de 21.11.2014)
RECURSO DE REVISTA. PRESCRI<;ÁO. DANO MORAL. ACIDENTE DE TRABALHO OCORRJDO APÓS A
VIGENCIA DA EMENDA CONSTITUCIONAL N. 45/2004. Esta Corte já pacificou entendimento de que é aplicável o
prazo prescricional trabalhista as pretensóes de indenizacáo por dano moral e/ou material decorrente de acidente do
trabalho, quando a lesáo for posterior a vigencia da Emenda Constitucional n. 45/2004. No caso, restou consignado
nov. acórdáo regional que a data da ciencia inequívoca da lesáo se deu ern 31.1.2008, depois, portante, da publícacáo
da Emenda Constitucional n. 45, de 31.12.2004 e da vigencia do novo Código Civil (11.1.2003), razáo pela qua! se
aplicam as regras da prescricáo trabalhista. É cedíco que, constatada a lesáo após o término do contrato de trabalho,
nao há falar em prazo prescricional quinquenal, mas apenas bienal. Assim, tendo em vista que a ciencia inequívoca
da lesáo se deu quando já estava extinto o contrato de trabalho (em 4.6.2007), e essa (a ciencia inequívoca) deve ser
o marco inicial para a afericáo da observancia do prazo bienal previsto no art. '71, XXIX, da Constituicáo Federal,
<leve ser pronunciada a prescricáo da pretensáo da autora, urna vez que ajuizou a presente reclarnacáo trabalhista
em 25.10.2010, fora, portante, do referido prazo. Recurso de revista nao conhecido, (TST - RR 6923120105040351 -
Relator: Cuilherme Augusto Caputo Bastos - Sª Turma - Julgamento em 22.5.2013 - DEJT de 31.5.2013)

Por fim, quanto a suspensáo do prazo em face do afastamento por doenca ou invalidez,
compreendo que sua ocorréncia depende da verificacáo e comprovacáo da incapacidade absoluta,
nos termos do Código Civil e conforme assim dispóe a parte final da Súmula n. 375 da SDI 1 do TST,
tema já tratado no item 10.10 e ao qual remeto o leitor desta obra, para nao incorrer em repeticáo.

172
~ílíl
~~c.l\~º2)]~ 0 DMfilj *2 [[@_:_~@= ~

11.1. Da previsiio legal e constitucional

O pagamento pelos empregadores de um seguro ao Instituto de Previdéncia para que este ofereca
protecáo aos trabalhadores vítimas de acidente de trabalho advém do Decreto-lei n. 7.036/1944,
determinando o art. 94 daquele diploma que o pagamento deveria ocorrer ao instituto ao qua! estivesse
filiado o trabalhador.
Naquela época nao existia um Instituto único de previdéncia social que atendesse e protegesse
todos os trabalhadores, sendo estruturado por en1presa ou por categoria profissional ( comerciários,
industriários, marítimos etc).
Somente em 1960, pela Lei n. 3.807, esses institutos foram unificados, e seu art. 22 determinava
que a previdéncia social se responsabilizaría em garantir aos segurados as prestacóes acidentárias,
desde que o seguro estivesse a seu cargo.
Conforme já abordado no histórico constante do Capítulo 1 desta obra, no curto espa~o de
tempo entre 02/1967 (Decreto-leí n. 293) e 09/1967 (Lei n. 5.316), o seguro, de contratacáo obrigatória
pelos empregadores, poderia ser operado pelo INPS,<121> mas em regime de concorréncia com outras
seguradoras, que passaria a ser responsável pela indenizacáo ao obreiro ( ou seus familiares, em caso
de óbito), independentemente dos beneficios previdenciários de direito.
Desde a Lei n. 5.316/1967, portante, o seguro de acidentes pertence exclusivamente a Previdéncia
Social, sem concorréncía de outras seguradoras, sendo essa também a previsáo constante na Lei n. 8.212/91
(art. 22), atualmente em vigor, ainda que a Constituicáo Federal de 1988 tenha previsáo de atendimento
também pelo setor privado. Confira-se:
Art. 7u Sao direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem a melhoria de sua condicáo social:

[ ... J
XXVIII - seguro contra acidentes de trabalho, a cargo do empregador, sem excluir a indenizacáo a que este está
obrigado, quando incorrer ern dolo ou culpa;

[... ]
Art. 201. A previdéncia social será organizada sob a forma de regime geral, de caráter contributivo e de filiacáo
obrigatória, observados critérios que preservem o equilibrio financeiro e atuarial, e atenderá, nos termos da leí, a:

[... )

§ 10. Leí disciplinará a cobertura do risco de acidente do trabalho, a ser atendida concorrenternente pelo regime geral
de previdéncia social e pelo setor privado.

[... )

Inicialmente, quando da publicacáo da Leí n. 8.212/91, as alíquotas serviam nao para custear
totalmente os beneficios acidentários, mas apenas para complementé-los, sendo a redacáo original
do inciso TI do art. 22 a seguinte (destaque meu):

(121) O INPS - Instituto Nacional de Previdéncia Social foi criado pelo Decreto-Lei n. 72, de 21.11.1966, que reuniu num único os seis
institutos de aposentadorias e pensóes anteriormente existentes.

173
Art. 22. A contribuicáo a cargo da empresa, destinada a Seguridade Social, além do disposto no art. 23, é de:
[... ]
JT - para o financiamento da complementacáo das prestacóes por acidente de trabalho, os seguintes percentuais,
incidentes sobre o total das remuneracóes pagas ou creditadas, no decorrer do mes, aos segurados empregados e
trabalhadores avulsos:
a) 1% (um por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante o risco de acidentes de trabalho seja
considerado leve;
b) 2% (dois por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante esse risco seja considerado médio;
c) 3% (tres por cento) para as empresas ern cuja atívidade preponderante esse risco seja considerado grave.
[... ]

E1n 1997 a Leí n. 9.528 alterou a redacáo desse inciso e passou a determinar que essa contribuicáo
devida pelas empresas passaría a financiar nao apenas a complementacáo dos beneficios acidentários,
mas sim sua totalidade (destaque meu):
Art. 22. A contribuicáo a cargo da empresa, destinada a Seguridade Social, além do disposto no art. 23, é de:
[... )
II - para o financiamento dos beneficios concedidos em razáo do grau de incidencia de incapacidade laborativa
decorrente dos riscos ambientais do trabalho, conforme dispuser o regulamento, nos seguintes percenruais, sobre o
total das remuneracóes pagas ou creditadas, no decorrer do mes, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos:
[... ]

Coma criacáo das alíquotas adicionais de 12o/o, 9% e 6% pela Lei n. 9.732/98, destinadas a custear
a aposentadoria especial,(122> urna última alteracáo ocorreu na redacáo do inciso 11 do art. 22 em
referencia, sendo o texto atuahnente em vigor o seguinte (destaque meu):
Art. 22.
[... ]
U - para o financiamento do benefício previsto nos arts. 57 e 58 da Lei n. 8.213, de 24 de julho de 1991, e daqueles
concedidos em razáo do grau de incidencia de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientaís do
trabalho, sobre o total das remuneracóes pagas ou credítadas, no decorrer do mes, aos segurados empregados e
trabalhadores avulsos:
[ ... ]

Tenho, pois, que as alíquotas básicas de 1 %, 2% e 3°/o permanecem destinadas a custear a


totalidade dos benefícios acidentários e que os acréscimos instituídos pela Lei n. 9.732/98 servem ao
financiamento da aposentadoria especial, prevista nos arts. 57 e 58 da Leí n. 8.213/91.
Os empregadores domésticos também deveráo contribuir com o SAT (alíquota de 0,8%), con-
forme disposicóes trazidas pela LC 150/2015. Contu.do, essa contríbuicáo será paga juntamente com
a contribuicáo previdenciária das partes (empregador e empregado) e juntamente comos depósitos
de FGTS devidos, dentro de um único regime de pagamento intitulado SIMPLES DOMÉSTICO, que
deverá ser regulamentado e que, portante, ainda nao se encentra em vigor.

11.2. Das alíquotas básicas e sua distribuicdo conforme a atividade económica


desenvolvida pela empresa
Pela regra vigente existem tres alíquotas básicas para o financiamento do Seguro de Acidentes
de Trabalho (SAT), tarnbém conhecido por Risco Ambiental do Trabalho (RAT), que incidern sobre o
total da remuneracáo paga ou creditada, a qualquer título, aos segurados empregados e trabalhadores
avulsos, sendo elas as seguintes (Lei n. 8.212/91, art. 22, II):(123>

(122) Sobre o tema, ver o subitem 11.6 desta obra.


(123) O contribuinte individual pessoa física, proprietária ou nao, que explora atívldade agropecuária ou pesqueira, diretamente ou
por intermédio de prepostos e com auxílio de empregados, ainda que de forma nao continua, nao se encentra abrigado ao pagamen-

174
a) 1 % para atividades de risco leve;
b) 2% para atividades de risco médio:
e) 3% para atívidades de risco grave.

A distribuicáo dos percentuais cabe ao Ministério da Previdéncia Social, que o faz por meio de
decreto e conforme a atividade preponderante da e1npresa (CNPJ raiz).
O enquadramento é de responsabilidade da própria empresa ( ou entidade equiparada), devendo
ser revisto mensalmente. A lista consta do Anexo V do Decreto n. 3.048/99, atual Regulamento da
Previdéncia Social, sendo suficiente ter ern máos, para localizar a alíquota a ser aplicada, o código da
atividade económica principal (CNAE).<124) Confira-se, nesses termos, a redacáo do art. 202 do citado
regu lamento:
Art. 202. A contribuicáo da empresa, destinada ao financiamento da aposentadoria especial, nos termos dos arts. 64
a 70, e dos beneficios concedidos em razáo do grau de incidencia de incapacidade laborativa decorrente dos riscos
ambíentais do trabalho corresponde a aplicacáo dos seguintes percentuais, incidentes sobre o total da remuneracáo
paga, devida ou creditada a qualquer título, no decorrer do mes, ao segurado empregado e trabalhador avulso:
T - um por cento para a e1npresa em cuja atividade preponderante o risco de acidente do trabalho seja considerado leve;
JI - dois por cerito para a empresa em cuja atividade preponderante o risco de acidente do trabalho seja considerado
médio: ou
UI - tres por cento para a empresa em cuja atividade preponderante o risco de acidente do trabalho seja considerado
grave.
[... )
§ 31! Considera-se preponderante a atividade que ocupa, na empresa, o maior número de segurados empregados e
trabalhadores avulsos.
§ 4° A atividade económica preponderante da empresa e os respectivos riscos de acidentes do trabalho compóem a
Relacáo de Atividades Preponderantes e correspondentes Graus de Risco, prevista no Anexo V.
§ 5º É de responsabilidade da empresa realizar o enquadramento na atividade preponderante, cabendo a Secretaria
da Receita Previdenciária do Ministério da Previdéncia Social revé-lo a qualquer tempo.
§ 6º Verificado erro no auto-enquadrarnento, a Secretaria da Receita Previdenciária adotará as medidas necessárias a
sua correcáo, orientará o responsável pela empresa ern caso de recolhimento indevido e procederá a notificacáo dos
valores devidos,
[... )

Íntegra da tabela pode ser visualizada no Capítulo 14, subitem 14.9, e se faz necessário, portanto,
que o empregador verifique corretamente qual, dentre as ativídades exercidas, pode ser classificada
por preponderante.
Até a competencia junho/1997, considera va-se preponderante a ativídade económica que ocupa va,
em cada estabelecimento da empresa, o maior número de segurados empregados, trabalhadores
avulsos e médicos-residentes, considerando-se estabelecimento da empresa a dependencia, matriz
ou filial, que possuía número de CGC próprio, bem como a obra de construcáo civil executada sob
sua responsabilidade (Decreto n. 612/1992).
A partir da competencia julho/1997 (vigencia do Decreto n. 2.173/1997), a atividade económica
preponderante da e1npresa, para fins de enquadrarnento na alíquota de grau de risco destinada
a arrecadar recursos para custear o financiamento dos benefícios concedidos em razáo de maior

to dessas alíquotas (Decreto n. 3.048/99, art. 202, § 7º). Já o produtor rural pessoa jurídica que se dedicar a producáo rural e que
contribua aos cofres da previdéncia na alíquota de 2,5% sobre o total da receita bruta proveniente da comerclalizacáo da producáo
rural deverá contribuir para o financiamento dos beneficios por incapacidade no percentual de 0,1% (incidentes sobre a receita bruta
proveniente da cornerciahzacáo da producáo) - Decreto n. 3.048/99, art. 202, § 8º.
(124) Com a revogacáo do § 9º do art. 202 do Regulamento da Prevldéncia Social (aprovado pelo Decreto n. 3.048/99) pelo art. 4º
do Decreto n. 3.265/99, a microempresa e a empresa de pequeno porte nao optantes pelo SIMPLES nao mais se beneficiam da con-
tribuicáo correspondente ao percentual mínimo (1%), ficando sujeitas, portante, as alíquotas normais de 1%, 2% ou 3%, conforme o
enquadramento.

175
incidencia de incapacidade laborativa decorrente de riscos ambientais do trabalho, passou a ser
aquela que ocupa, na e1npresa, o maior número de segurados empregados e trabalhadores avuJsos
(Decreto n. 3.048/99 e Instrucáo Normativa SRF n. 971/2009, art. 72, § 12, II).
Alteracóes foram promovidas na IN SRF n. 971 pela IN SRF n. 1.071/201O, pela IN SRF n. 1.080/201 O e
também pela IN SRF n. 1.238/2012, mas sempre mantendo, contudo, o entendimento de que a atividade
preponderante deveria ser aferida pela empresa como um todo (CNPJ raíz), e nao por estabelecimento
(CNPJ completo ).
Referido entendimento, no entanto, nao vinha sendo mantido pelo Poder [udiciário, sendo
frequentes as decisóes do STJ no sentido de que o enquadramento deveria ocorrer pelo grau de risco
de cada empresa individualizada por seu CNPJ (conceito de estabelecimento), semente adotando-se
o critério da atividade preponderante quando houvesse apenas um único registro de CNPJ. Nesses
termos foi editada, inclusive, a Súmula n. 351 em 2008:
Súmula n. 351 - A alíquota de contribuicáo para o Seguro de Acidente do Trabalho (SAT) é aferida pelo grau de risco
desenvolvido em cada empresa, individualizada pelo seu CNPJ, ou pelo grau de risco da atividade preponderante
quando houver apenas urn registro

Com reiteradas decísóes nesse sentido, a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional - PGFN
- publicou o Ato Declaratório n. 11/2011, dispensando a apresentacáo de contestacáo ou recurso
quando a acáo judicial tivesse esse objeto.
Em 25.02.2014 a Secretaria da Refeita Federal publicou, entáo, a IN SRF n. 1.453, alterando
novamente a IN SRF n. 971/2009, e, desta vez, determinando no art. 72 que (destaque meu):
I - o enquadramento nos correspondentes graus de risco é de responsabílidade da empresa, e deve ser Jeito mensalinenie,
de ncordo com a sua atividade económica preponderante, conforme a Relacáo de Atividades Preponderantes e
Correspondentes Graus de Risco, elaborada combase na CNAE, prevista no Anexo V do RPS, que foi reproduzida
no Anexo J desta Instrucáo Normativa, obedecendo as seguintes disposicóes:

[ ... J
b) a empresa com estabelecimento único e mais de 11111a atiuidade económica, simulará o enquadramento em cada
atividade e prevalecerá, como preponderante, aqueta que tem o maior número de segurados empregados e
trabalhadores avulsos:
c) a en1presa com mais de 1 (um) esiabelecimento e com mais de 1 (unta) atiuidade económica deverá apurar a atividade
preponderante em cada estabelecimento, na forma da alinea "b", exceto com relacáo as obras de construcáo civil, para
as quais será observado o inciso III deste parágrafo.
U - considera-se preponderante a. atividade económica que ocupa, no estabeiecimento, o maior número de segurados
empregados e trabalhadores avulsos, observado que na ocorréncia de mesmo número de segurados empregados
e trabalhadores avulsos em atividades económicas distintas, será considerada como preponderante aquela que
corresponder ao maior grau de risco;
[... )

A Receita Federal passou a compreender, portante, no mesmo sentido já consolidado pelo STJ,
ou seja, que a análise da atividade preponderante deve ser feíta por estabelecimento (CNPJ completo ),
e nao por e1npresa (todos estabelecimentos de um mesmo CNPJ raiz).
A questáo nao guarda maior dificuldade para e1npresas que possue1n mais de urna atividade
económica (indústria e comércio, por exemplo), sendo certo que, a contar de 25.02.2014 o
enquadramento das alíquotas básicas do SAT (1 o/o, 2°/o ou 3°/o) pode ser efetuado por estabelecimento.
Nesse sentido foi publicada, inclusive, a Solucáo de Consulta COSIT n. 71 (DOU de 17.04.2014), com
a seguinte ementa:
Ementa: GILRAT. PERCENTUAL. GRAU DE RISCO. EMPRESA. ESTABELECIMENTO. OP<;ÁO. Com o advento
do Ato Declaratório PGFN n. 11, de 2011, e do Parecer PGFN/CRJ n. 2.120, de 2011, e tendo em vista o§ 3° do art.
202 do Regulamento da Previdéncia Social, aprovado pelo Decreto n. 3.048, de 1999, é facultado a pessoa jurídica,
para fins de cálculo do percentual referente a contribuicáo prevídencíária destinada ao fina.nciamento dos beneficios

176
concedidos em razáo do grau de incidencia de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientáis do trabalho,
aferir o grau de risco de forma individual, por estabelecimento inscrito no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica, ou
unificada, pela empresa como um todo.

O problema reside, ainda, nas empresas de única atividade económica, mas com estabelecimentos
diversos e onde, em alguns deles, se exerce apenas atividades administrativas, sem maior risco, e cujo
grau pode vir a ser menor que aquele devido pela atividade empresarial, como:

CNAE Descri~ao Alíquota SAT


6209-1/00 Suporte técnico, rnanutencáo e outros servic;os em tecnologia da informacáo 2%
6499-9/99 Outras atividades de serv.financeiros nao especificados anteriormente 1%
6619-3/99 Outras atividades auxiliares dos serv financeiros nao espec. anteriormente 2%
6911-7/01 Servic;os advocatícios 1%
6920-6/01 Atividades de contabilidade 1%
8211-3/00 Servicos combinados de escritório e apoio administrativo 2%

A Instrucáo Normativa SRF n. 1.470/2014, que disp6e sobre o Cadastro Nacional da Pessoa
Jurídica (CNPJ), pode auxiliar na elucidacáo da questáo porque no§ 2Q de seu art. 3Q conceitua o que
é estabelecimento. Confira-se:
Art. 3Q Todas as pessoas jurídicas domiciliadas no Brasil, inclusive as equiparadas pela legislacáo do Imposto sobre
a renda, estáo obrigadas a inscrever no CNPJ cada um de seus estabelecimentos localizados no Brasil ou no exterior,
antes do inicio de suas atividades.
[... )

§ 25) No ámbito do CNPJ, estabelecimento o local, privado ou público, edificado ou nao, móvel ou imóvel, próprio
é

ou de terceiro, onde a entidade exerce, em caráter temporario ou permanente, suas atividades, inclusive as unidades
auxiliares constantes do Anexo vucn5¡ desta Instrucáo Normativa, bern como onde se encontram armazenadas
mercadorias.
[... )

Note-se que o conceito de estabelecirnento abrange nao semente o local onde a empresa exerce
sua atividade principal, mas também aquele destinado a atividade auxiliar. É certo que o§ 2Q menciona
as atividades auxiliares descritas no Anexo VII, mas compreendo que assim o faz porque está a
determinar, no capui do art. 3Q, quem se encontra obrigado a inscricáo no CNPJ. Assim, entendo que
as atividades listadas no anexo se encontram obrigadas a referida inscricáo, mas isso nao significa
que outras que ali nao se encontram descritas estejam proibidas de fazé-lo.
Compreendo, pois, que urna determinada empresa, atualmente enquadrada no grau de risco
máximo (alíquota de 3°/o) em razáo de sua atividade preponderante, pode separar a máo de obra
administrativa e colocá-la ern estabelecimento próprio, corn CNPJ individualizado, pagando sobre
essa folha de pagamento a alíquota de 2o/o (CNAE 8211-3/00). Também poderia separar, dentre outras
atividades, o departamento jurídico (CNAE 6911-7/01) e sobre o total dessa remuneracáo contribuir
com a alíquota mínima de 1 %, correspondente ao grau mínimo.
Verificada a alíquota a ser aplicada, a empresa deverá informá-la mensalmente, por meio da
Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo, de Servico e Informacóes a Previdéncia
Social - GFIP, bem como o CNAE a ela correspondente. E muito importante que essas informacóes
sejam prestadas corretamente, porque delas o Ministério da Previdéncia Social se utilizará para o
cálculo do FAP - Fator Acidentário de Prevencáo, como veremos oportunamente.

(125) O Anexo VII lista as seguintes atividades auxiliares: sede, escritório administrativo, depósito fechado, almoxarifado, oficina de
reparacáo, garagem, unida de de abastecimento de combustíveis, posto de coleta, ponto de expostcáo, centro de treinamento e centro
de processamento de dados.

177
11.3. Da possibilidade de reducáo conforme a realidade [ática de cada
empresa, individualmente

Nao obstante o enquadramento e a distribuicáo das alíquotas que cabe ao Ministério da Previ-
déncia Social devam ocorrer conforme a atividade preponderante, compreendo pela possibilidade
de, individualmente, ser analisada a situacáo e a realidade de cada empresa e, se comprovada a baixa
acidentalidade, ser aplicada a ela alíquota diferenciada, inferior aquela aplicada a sua categoría eco-
norruca.
A •

A Uniáo divulga, desde 2009, por meio de Portaria Ministerial, os índices médios de frequéncia,
gravidade e custo (referentes aos acídentes de trabalho) para cada atividade económica (código
CNAE). No Anexo dessas portarías é possível conhecerrnos esses indicadores, que podem ser
utilizados para verificacáo se os índices de urna determinada empresa se encontram abaixo daqueles
que foram divulgados e, se assim restar comprovado, solicitarmos um reenquadrarnento, com
fundamento no§ 3Q do art. 22 da Leí n. 8.212/91 c/c o art. 203 do Decreto n. 3.048/99. Confiram-se:
Lei n. 8.212/91:
Art, 22. A contribuicáo a cargo da empresa, destinada á Seguridade Social, além do disposto no art. 23, é de:

[... )

II - para o financiamento do beneficio previsto nos arts. 57 e 58 da Leí n. 8.213, de 24 de julho de 1991, e daqueles
concedidos em razáo do grau de incidencia de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientáis do trabalho,
sobre o total das remuneracóes pagas ou creditadas, no decorrer do mes, aos segurados empregados e trabalhadores
avulsos:
a) lo/o (um por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante o risco de acidentes do trabalho seja
considerado leve;

b) 2% (dois por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante esse risco seja considerado médio;

e) 3% (tres por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante esse risco seja considerado grave.

[... ]

§ 32 O Ministério do Trabalho e da Previdéncia Social poderá alterar, com base nas estatísticas de acidentes do
trabalho, apuradas em inspecáo, o enquadramento de empresas para efeito da contribuicáo a que se refere o inciso TI
deste artigo, a fim de estimular investimentos em prevencáo de acidentes.

Decreto n. 3.048/99:

"Art, 203. A fim de estimular investimentos destinados a diminuir os riscos ambienta is no trabalho, o Ministério da
Previdéncia e Assisténcia Social poderá alterar o enquadramento de en1presa que demonstre a melhoria das condicóes
do trabalho, com reducáo dos agravos a saúde do trabalhador, obtida através de investimentos em prevencáo e em
sistemas gerenciais de risco.
§ 12 A alteracáo do enquadramento estará condicionada a inexistencia de débitos em relacáo as contribuicóes devidas
ao Instituto Nacional do Seguro Social e aos demais requisitos estabelecidos pelo .Ministério da Previdéncia e
Assisténcia Social.

§ 2!!0 Instituto Nacional do Seguro Social, combase principalmente na comunicacáo prevista no art. 336, implementará
sistema de controle e acompanharnento de acidentes do trabalho.

§ 32 Verificado o descurnprirnento por parte da empresa dos requisitos fixados pelo Ministério da Prevídéncia e
Assisténcia Social, para fins de enquadramento de que trata o artigo anterior, o Instituto Nacional do Seguro Social
procederá a notificacáo dos valores devidos.

Assim, se determinada empresa de construcáo civil, por exemplo, comprovar que seus índices
de acidentalidade encontrarn-se reduzidos e que em seus ambientes de trabalho o risco nao pode ser
considerado grave (ainda que nas demais construtoras do país o sejam, conforme enquadramento
do CNAE), é possível a reducáo da alíquota básica do SAT (atualmente fixada ern 3%) para um risco
médio (2o/o) ou leve (1%).

178
,
Nao pode ser diferente. E certo que o SAT destina-se, exclusivamente, ao financiamento dos
benefícios concedidos pela Previdéncia Social para trabalhadores que sao acometidos de acidente
de trabalho e que as aliquotas previstas na legíslacáo (1 <Yo, 2% ou 3o/o) sao distribuídas conforme
índices médios de cada categoría económica, conhecidos pelo Ministério da Previdéncia Social, mas
isso nao impede que determinada empresa invista na melhoria de seu ambiente e que, reduzindo a
gravidade do risco, tenha também reduzida a alíquota básica destinada a esse seguro. A ideia é, poís,
muito mais ampla que a mera arrecadacáo de valores. O § 3Q do art. 22 da Lei n. 8.212/91 autoriza o
Ministério da Previdéncia Social a pro1nover alteracóes nessa distribuicáo das alíquotas sempre que
restar comprovado, por estatísticas (feítas por inspecáo), urna alteracáo nos riscos de acidentalidade
das categorías económicas (visáo macro), e o Decreto n. 3.048/99, no art. 203 garante esse direito 1

individualmente a cada empresa (visáo micro), no intuito de incentivar cada empreendimento a


investir em um ambiente seguro de trabalho. Do contrario, nao haveria estímulo ao empregador
porque, por mais que sua acidentalidade restasse zerada, seria condenado a permanecer na alíquota
básica de 3% indefinidamente, em razáo de seus concorrentes (empresas do mesmo CNAE) nao
adotarem a mesma postura de procedimento.
Tenho, pois, que a possibilidade das alíquotas básicas do SAT (1%, 2% e 3%) serem distribuídas
conforme a acidentalidade apresentada e comprovada individualmente nao semente encentra
respaldo legal na Iegíslacáo vigente como também no princípio constitucional de equidade,
consubstanciado no art. 194 da Constituicáo Federal de 1988.

11.4. Dos reenquadramentos efetuados pelos Decretos ns. 6.042/2007 e


6.957/2009 - Ilegalidade
Como já observado anteriormente, inclusive no subitem 11.3, supra, o legislador ordinário (Leí
n. 8.212/91) fixou as alíquotas básicas do seguro, mas conferiu poderes ao Ministério da Previdéncia
Social para distribuir e alterar essas alíquotas conforme as estatísticas acidentárias de cada atividade
economica.
A •

A instituicáo das alíquotas por meio de lei ordinária e a competencia do Ministério da Previdéncia
Social para distribuí-las conforme as estatísticas de acidentalidade já eram regra mesmo antes de
1991 e ambos os temas foram discutidos judicialmente e chegaram a análise do STF, no RE 343.446.
A Leí n. 7.787/89 tratava dessa contribuicáo em seu art. 3Q, inciso Il, e o art. 4Q trazia
alíquotas de acréscimo para e1npresas cuja acidentalidade fosse superior a do respectivo setor. A
constitucionalidade desse dispositivo foi questionada judicialmente em 10.03.1999 (acáo ordinária
n. 99.01.01001-2) e, recebendo sentenca de improcedencia, a empresa autora interpós recurso de
apelacáo (AC n. 2000.04.01.0600070-0) que igualmente nao mereceu provimento. Em fevereiro/2001
a empresa protocolou o Recurso Extraordinário (RE 343.446), que, sob relatoria do ministro Carlos
Velloso, mereceu a seguinte ementa:
EMENTA: - CONSTITUCIONAL.TRIBUTÁRIO. CONTRIBUI<;AO: SEGURO DE ACIDENTE DO TRABALHO -
SAT. Leí n. 7.787/89, arts. 32 e 42; Lei n. 8.212/91, art. 22, U, redacáo da Lei n. 9.732/98. Decretos ns. 612/92, 2.173/97 e
3.048/99. C.F., art. 195, § 4°; art. 154, 11; art, 5°, II; art.150, l.
I - Contribuicáo para o custeio do Seguro de Acidente do Trabalho - SAT: Lei n. 7.787/89, art, 3°, II; Lei n. 8.212/91, art,
22, II: alegacáo no sentido de que sao ofensivos ao art. 195, § 42, c/c art. 154, I, da Constituicáo Federal: improcedéncía.
Desnecessidade de observancia da técnica da competéncia residual da Uniáo, C.F., art, 154, l. Desnecessidade de lei
complementar para a instituicáo da contribuicáo para o SAT.
Il. - O art. 32, JI, da Leí n. 7.787/89, nao é ofensivo ao princípio da igualdade, por isso que o art, 42 da mencionada Lei
n. 7.787/89 cuidou de tratar desigualmente aos desiguais.
TII - As Leis ns. 7.787/89, art. 3!.', JI, e 8.212/91, art, 22, II, definem, satisfatoriamente, todos os elementos capazes de
fazer nascer a obrigacáo tributaria válida. O fato de a lei deixar para o regulamento a cornplementacáo dos conceitos
de "atividade preponderante" e "grau de risco leve, médio e grave", nao implica ofensa ao principio da legalidade
genérica, C.F., art. 52, II, e da legalidade tributaria, C.F., art. 150, l.

179
IV - Se o regulamento vai além do conteúdo da lei, a questáo nao é de inconstitucionalidade, mas de ilegalidade,
matéria que nao integra o contencioso constitucional

V - Recurso extraordinario nao conhecido.

Na referida acáo, questionou a empresa contribuinte ofensa ao § 4º do art. 195 da Constituicáo


Federal c/c art. 154, I (necessidade de lei complementar para instituicáo de novas fontes de custeio
destinadas a Seguridade Social). Houve também alegacáo sobre o art. 150, I (princípio da legalidade
tributária), já que coube aos Decretos (612/92 e 2.173/97) a definicáo do conceito de "atividade
preponderante". Por fim, questionou-se a isonomia (CF, art. 5º, caput e art. 150, II), em razáo da
alíquota única de 2o/o a todas as empresas.
O STF, conforme ementado, decidiu que o Seguro de Acidente do Trabalho nao era tuna "nova
contribuicáo" (já se encontrava previsto no art. 7º da CF/88) e que nao cabia ao caso a competencia
residual da Uniáo e nem tampouco a necessidade de Lei Complementar (inciso Ida ementa). Entendeu
que as Leis ns. 7.787/89 e 8.212/91, também objeto da acáo proposta, traziam expressamente todos
os elementos necessários a urna obrígacáo tributária válida e que a delegacáo de poder ao Decreto
regularnentador para definir o conceito de "atividade preponderante" e também distribuir os graus
de risco nao ofendiam o principio da legalidade genérica ou da legalidade tributária.
Cumpre ressaltar, aqui, a competencia dada pelo legislador ao Ministério da Previdéncia Social
para a distribuicáo e a alteracáo dessas alíquotas básicas, que, como visto, foi validada pelo Supremo
Tribunal Federal e com o que concorde plenamente.
No ámbito administrativo, é o perito do INSS o único competente para determinar se urna ocorréncia
é ou nao acidentária. Corno já abordado nos capítulos anteriores a CAT - Cornunicacáo de Acidente de
Trabalho -, emitida pela empresa ou por qualquer autorizado nos termos da Lei n. 8.213/91 (inclusive
a própria vítima ou seus familiares), serve apenas para comunicar ao INSS o que pode ter sido uro
acidente de trabalho, mas cabe ao perito do INSS, e somente a ele, a investigacáo técnica no nexo e a
conclusáo final sobre a natureza da lesáo ou da enfennidade.
E se assim é, porque assim dispóe a legislacáo vigente, o único órgáo que possui registro de
todos os acidentes de trabalho existentes é o INSS, autarquía federal vinculada ao Ministério da
Previdéncia Social.
É o Ministério da Previdéncia Social que possuí, portante, as informacóes estatísticas necessárias a
distribuicáo e a alteracáo dessas alíquotas, porque o legislador determina que estas decorram de inspecáo
(§ 3º do art. 22 da Lei n. 8.213/91), e o perito do INSS, para caracterizar urna ocorréncía como acidentária,
precisa obrigatoriarnente fazer a investigacáo técnica do nexo (Decreto n. 3.048/99, art. 337).
Com a ressalva de que na prática cotidiana a leí nao vem sendo observada pelo INSS para
a caracterizacáo dos acídentes.v"? pelo teor da legislacáo vigente o procedirnento é perfeito, senáo
vejarnos:
I - As ocorréncias sao notificadas ao INSS por meio do formulario CAT;(127>
Il - O INSS, por sua pericia médica, investiga a existencia de nexo entre a lesáo/enfermidade e o trabalho, garantindo-
se as partes um processo administrativo legal (Leis ns. 8.213/91 e 9.784/99), e profere decisáo sobre a natureza
acidentária;
IH - O Ministério da Previdéncia Social monta um banco de dados com as ocorréncias acidentárias, separando-as por
atividade económica (código CNAE) e, de posse desse conhecimento, tem condicées de distribuir adequadamente o
risco (leve, médio ou grave) e as correspondentes alíquotas (1%, 2% e 3%).

(126) Sobre o tema, ver o subitem 6.2.4 desta obra.


(127) A natureza acidentária pode ser presumida pelo perito do INSS nos casos do NTEP (Lista C do Anexo 11 do Decreto n. 3.048/99) e,
nessa hipótese, somente será necessária a investigacáo técnica do nexo se houver contestacáo/defesa a presentada pelo empregador.
Sobre o tema, ver o subitem 2.4 desta obra.

180
É certo, pois, que o órgáo mais apropriado para essa distribuicáo das alíquotas básicas é o
Ministério da Previdéncia Social, porque é ele quem possui o conhecimento estatístico necessário
para tal finalidade,
Nao obstante, nao é demais ressaltar, ainda que por repeticáo, que a alteracáo das alíquotas
<leve pautar-se, sempre, nas estatísticas feítas por inspecáo, e nao na vontade soberana do Poder
Executivo. Confira-se, uma vez mais, a redacáo do§ 3º do art. 22 da Lei n. 8.212/91 (destaque meu):
Art. 22. A contribuicáo a cargo da empresa, destinada a Seguridade Social, alérn do dísposto no art. 23, de:
é

[... )

JI - para o financiamento do beneficio previsto nos arts. 57 e 58 da Lei n. 8.213, de 24 de julho de 1991, e daqueles
concedidos em razáo do grau de incidencia de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho,
sobre o total das rernuneracóes pagas ou creditadas, no decorrer do mes, aos segurados empregados e trabalhadores
avulsos:
a) lo/o (um por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante o risco de acidentes do trabalho seja
considerado leve;
b) 2% (dois por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante esse risco seja considerado médio;
e) 3% (tres por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante esse risco seja considerado grave.
[... )
§ 31l O Ministério do Trabalho e da Previdéncia Social poderá alterar, com base nas estatísticas de acidentes do
trabalho, apuradas em inspecáo, o enquadrarnento de empresas para efeito da contribuicáo a que se refere o inciso
U deste artigo, a fim de estimular investimentos em prevencáo de acidentes.

Nao foi o que ocorreu, contudo, quando das alteracóes promovidas pelos Decretos ns. 6.042/2007
e 6.957/2009.
Publicado em 13.02.2007 e com vigencia a contar de abril daquele mesmo ano, o Decreto n. 6.042
promoveu alteracóes na distribuicáo das alíquotas do seguro, mas nao divulgou os estudos estatísticos
que lhe serviram de fundamento.
A ausencia das estatísticas corretas, que justificassem o aumento da receita, restou fortemente
evidenciada quando das alteracóes promovidas pelo Decreto n. 6.957/2009 (DOU de 10.9.2009), com
vigencia a contar de janeiro/2010, já que mais de 80o/o das atividades económicas passaram a alíquota
de 3º/c>.
Evidenciou-se, pelo Decreto de 2009, o nao cumprimento da legíslacáo vigente e, menos ainda, a
incorreta distribuicáo das alíquotas, sendo certo apenas o intuito de, com o procedimento, aumentar
a arrecadacáo do sistema. Dois requisitos emergem do§ 3º do art. 22 da Lei n. 8.212/91, que autoriza
essa alteracáo de alíquotas, e ambos precisam restar claramente visualizados pelo contribuinte:
a) que a alteracáo terma por fundamento urna inspecáo que apure estatisticamente os acidentes
de trabalho por atividade económica; e
b) que o objetivo da alteracáo seja estimular as empresas a investir na prevencáo de acidentes.
É certo que nern se1npre as estatísticas porventura existentes guardam relacáo com a lógica
ou com o senso comum, mas, justamente por isso, devem ser publicadas e demonstradas com
transparencia ao contribuinte, até mesmo em face do direito de inforrnacáo, previsto no art. 5º, inciso
XXIII e no art. 37, § 3º, inciso II da Constituicáo Federal, bem como na Lei n. 12.527/2011. Do contrário,
a incoeréncia salta aos olhos e suscita desconfianca por parte do contribuinte de que o Ministério da
Previdéncia Social, além de nao cumprir o disposto na legislacáo, eleva arbitrariamente
, o tributo em
até 200% interessado tao sornen te no enriquecimento dos cofres públicos. E o que contém o Anexo V
do Decreto n. 3.048/99, cuja redacáo foi dada pelo Decreto n. 6.957/2009, conforme ilustram alguns
exemplos:

181
CNAE 2.0 Descric;ao Alíquota
4721-1/04 Comércio varejista de doces, balas, bombo ns e semelhantes 3
4754-7/01 Comércio varejista de móveis 2
4761-0/01 Comércio varejista de livros 1

5611-2/01 Restaurantes e similares 2


5611-2/03 Lanchonetes, casas de chá, de sucos e similares 3

5811-5/00 Edic;ao de livros 2


5813-1/00 Edic;ao de revistas 3

6422-1/00 Bancos múltiplos, com carteira comercial 3


6423-9/00 Caixas económicas 2

6920-6/01 Atividades de contabilidade 1


6920-6/02 Atividades de consultoria e auditoria contábil e tributária 2

Será que, de fato, existem estatísticas feitas por inspecáo que comprovarn que urna empresa
cuja atividade é a de comércio varejista de bombons tem muito mais acidentes de trabalho que
que outra que comercializa móveis ou, ainda, livros? Urn restaurante tern muito menos aci-
dentes que urna casa de chá ou suco? A Caixa Económica Federal tem bem menos ocorréncias
acidentárias que um banco privado, mesmo sendo idéntica a prestacáo de servico a populacáo?
E por qual razáo prestar consultoría contábil proporciona mais acidentes do que exercer, efetiva-
mente, a atividade de contabilidade?
,
E preciso que o Ministério da Previdéncia Social apresente junto com os reenquadrarnentos os
fundamentos estatísticos que amparam a alteracáo das alíquotas, principalmente quando estamos a
tratar de majoracáo de alíquota, na ordem de 100°/o a 200%.
Referida base estatística, como já dito, nao foi publicada ou disponibilizada e tampouco é
apresentada nas acóes judiciais que discutem a legalidade do reenquadramento. Por essa razáo,
decidiu recenternente o STJ no REsp 1.425.090 pela ilegalidade do procedimento, com destaque para
o seguinte trecho do acórdáo:
[... ]

11. Observa-se, assirn, que, a despeito de o art. 22, § 39, da Lei n. 8.212/91 permitir ao Poder Executivo promover
o adequado reenquadramento da empresa, tal ato administrativo encentra-se estritamente subordinado as
exigencias legais constantes na lei cuja aplicacáo almejada e da qual aquele dependente. E assim
é é porque o
é,

Poder Regulamentar da Administracáo encontra limites no principio da legalidade, morrnente quando se leva em
consíderacáo a natureza de fonte secundaria de Direito, característica do regulamento, cuja expedicáo destina-se a fiel
execucáo da lei a que se encontra atrelado. 12. Dessa maneira, qualquer expedicáo de decreto, pelo Poder Executivo,
que nao obedece aos ditames lega is, configura evidente abuso do poder regulamentar , viabilizando-se, desbarte, sua
sindicabilidade pelo Poder [udiciário.

[... ]
26. Na prudente visáo <leste Relator, o entendimento esposado pelo Juízo Sentenciante é o que deve prevalecer, poís,
ao contrário da conclusáo exarada no acórdáo de origem, compete ao Poder Judiciário analisar os fundamentos que
ensejam o reenquadramento da empresa, decorrente da alteracáo promovida no Anexo V do Decreto n. 3.048/99 pelo
Decreto n. 6.957/09, pois a questáo trazida a baila nao diz respeito ao mérito administrativo I mas, sirn, ao controle de
legalidade do exercício do poder regulamentar exercido Poder Executivo , já que a leí taxativamente impóe critérios
a serem observados pela Administracáo, para fins de alteracáo do grau de risco das empresas ernpregadoras (art.
22, § 32, da Leí n. 8.212/91). 27. Nesse descortino, ausente a comprovacáo de elementos estatísticos que justifiquem

182
a majoracáo dos custos dos beneficios acídentários, decorrentes do aumento da frequéncia ou da gravidade dos
acidentes de trabalho, de rigor o restabe1ecimento da Sentenca de fls. 261/267, urna vez que a inexistencia de prevas
de tal natureza configura alteracáo prejudicial imotivada da condicáo da empresa e, consequentemente, abuso do
exercído do poder regulamentar.
[... )

Decidiu, pois, acertadamente o STJ ao declarar a ilegalidade do reenquadramento em face do


descumprirnento da Lei n. 8.212/91 e, consequentemente, abuso do exercício do poder regu1amentar.
Ao final, assim restou redigida a ementa, cuja relatoría coube ao ministro Napoleáo Nunes Maia
Filho (REsp 1.425.090/PR):
EMENTA TRIBUTÁRIA E PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. (!) OFENSA AO ART. 535 DO CPC.
INOCORRENCIA. (JI) SEGURO DE ACIDENTE DE TRABALHO (SAT). ART. 22, lJ E § 32, DA LEI N. 8.212/91.
GRAU DE PERICULOSIDADE E ALÍQUOTAS FIXADAS POR DECRETO. REENQUADRAMENTO DA EMPRESA
RECORRENTE PELO DECRETO N. 6.957/09. MAJORA(:AO DA ALÍQUOTA DE 2% PARA 3%. AUSENCIA DE
DEMONSTRA(:AO DE DADOS ESTATÍSTICOS QUE JUSTIFICASSEM ALTERA(:AO DE TAL NATUREZA.
ABUSO DO EXERCÍCIO DO PODER REGULAMENTAR. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE. RESTABELEOMENTO
DA SENTEN(:A. RECURSO ESPECIAL PROVIDO.
l. Inexiste ofensa ao art. 535, I, do CPC, quando o Tribunal de origem aprecia fundamentadamente a controvérsia,
sem incorrer em qualquer omíssáo, contradicáo ou obscuridade.
2. O financiamento do Seguro de Acidente de Trabalho (SAT) vem disciplinado pelo art. 22 da Leí n. 8.212/91, cuja
redacáo atual fixa alíquotas variáveis de 1 %, 2% e 3%, conforme o risco de acidentalidade (leve, médio ou grave) da
atividade preponderante desenvolvida pela empresa ernpregadora, Nesse díapasáo, a fixacáo das alíquotas deve
levar em consideracáo os índices de frequéncía, gravidade e custo dos beneficios acidentários, conforme critérios
metodológicos disciplinados nas Resolucóes CNPS 1308 e 1309.
3. O§ 32 do art. 22 da Leí n. 8.212/91 permite que o Poder Executivo, mediante o exercício do poder regulamentador,
altere o enquadramento de empresas nos graus de risco definidos no inciso Il do art. 22, desde que fundamentado em
ínspecáo que apure estatisticamente os acidentes do trabalho, objetivando o estimulo de investimentos em prevencáo
de acidentes.
4. Neste caso, intimada a UNIAO, pelo [uízo Sentencian te, para a presentar documentos que comprovassem a avaliacáo
estatística atinente a frequéncia, a gravidade e ªº custo dos acidentes de trabalho que justificasse a majoracáo do
grau de risco da atividade da recorrente, o ente estatal limitou-se a trazer manifestacóes insuficientes para tanto.
O Magistrado destacen, ainda, que as ínformacóes trazidas a baila pela própria UNIÁO apontam que, em termos
absolutos, houve a reducáo do número de acidentes de trabalho (fls. 265).
5. Compete ao Poder Iudiciário analisar os fundamentos que ensejam o reenquadramento da empresa, decorrente da
alteracáo promovida no Anexo V do Decreto n. 3.048/99 pelo Decreto n. 6.957/09, pois tal materia nao diz respeito ao
mérito Documento: 1329587 - Inteiro Teor do Acórdáo - Site certificado - DJe: 9.10.2014 Página 1 de 31 Superior
Tribunal de [ustica administrativo, mas, sim, ao controle de legalidade do exercício do poder regulamentar pelo
Poder Executivo, já que a leí taxativamente impóe critérios a serem observados pela Administracáo, para fins de
alteracáo do grau de risco das empresas empregadoras (art. 22, § 32, da Lei n. 8.212/91).
6. No presente caso, o reenquadramento oneroso da empresa (aumento da alíquota de 2% para 3%), com esteio
em documentos que, paradoxalmente, atestam a reducáo dos acidentes de trabalho, configura alteracño pesada e
imotivada da condicáo da Empresa e, consequentemente, abuso do exercício do poder regulamentar - ofensa ao
principio da Iegalidade formal ou sistémica - portanto induvidosa e plenamente sindicável pelo Poder [udiciário,
para aquilatar da sua legitirnidade substantiva.
7. Recurso Especial prevido, para restabelecer os tennos da Sentenca que desconsiderou a reclassificacáo da atividade
da empresa para 3%, mantendo, desbarre, seu enquadramento no grau de risco anterior (medio, com a cobranca da
alíquota de 2%).

Assustou-me, contudo, o posicionamento adotado pelo TRF da 4!! Regiáo nos mesmos autos.
Conforme relata o acórdáo do STJ, em sede de Apelacáo (proposta pela Uniáo, já que a sentenca
monocrática havia julgado procedente o pedido da empresa), o TRF, sob relatoría do desembargador
Rómulo Pizzolatti, reformou o entendimento, sobo seguinte argumento:
[ ... )se o Decreto 6.957/09 classificou em nivel mais elevado o grau de risco ambiental do trabalho (grave - 3º/o) da
atividade preponderante [ ... ], isso certamente se deve a que a classíñcecáo antiga já estava em descompasso coro a
realidade, e por isso devia mesmo ser modificada (fls. 451).

183
20. Destacou, ainda, que os motivos que justificaram o reenquadramento da atividade empresaria nao podem ser
investigados pelo Poder judiciário, por constituírem o chamado mérito desse ato administrativo, devendo o [udiciário
limitar-se, portante, ao exame da legalidade dos atos regulamentares do Poder Executivo (ob. cit.).

Como assim, nao pode o Judiciário investigar as razóes de urna majoracáo de tributo (no caso
específico, na ordem de 50o/o) se a Leí é clara em colocar regras para essa majoracáo? Como pode o
Judiciário alegar, como fundamento jurídico de sua decisáo, que se o Poder Executivo aumentou o
tributo é porque certamente precisava fazé-lo?
É importante termos em mente que a majoracáo trazida pelos Decretos, especialmente a
última, de 2009 (Decreto n. 6.957), representa milhóes de reais. Nao se está a falar de um aumento
insignificante de 1%ou2o/o que pode ser desconsiderado, principalmente pelo Judiciário.
Quando há aumento de 1 % para 2%, o acréscimo é de 100%. U1n reenquadramento de 1 %
para 3% representa acréscimo de 200% no tributo, e por fim, quando ternos majoracáo de 2% para
3°/o, estamos a falar de acréscimo de 50°/o na carga tributaria, incidente sobre o total da folha de
pagamento, sem limite máximo.
Aumentos dessa ordem chegam a inviabilizar a atividade económica em alguns casos, e ainda
que assim nao fosse e ainda que estivéssemos a falar de acréscimos menores, nao pode o TRF
ridicularizar a pretensáo da parte autora, como me parece ter ocorrido ao mencionarem que "nao
cabe ao Judiciário investigar os motivos e que se aumentararn é porque precisavam fazé-lo".
Felizmente houve recurso ao STJ e felizmente os ministros daquela corte nao compartilharam
desse absurdo posicionamento. Muito pelo contrário, regístrou o ministro Napoleáo Nunes Maia
Filho que cabe, sím, ao Poder [udiciário analisar os fundamentos que ensejararn o reenquadramento
do SAT e que isso nao diz respeito ao mérito administrativo, mas, sim, ao controle de legalidade do
exercício do poder regulamentar exercido pelo Poder Executivo.
As empresas prejudicadas pelo reenquadramento devem, poís, ingressar o quanto antes coro a
acáo judicial competente, já que as novas alíquotas tiveram inicio em janeiro de 2010 e, ero razáo do
prazo prescricional de cinco anos, algumas competencias já nao podem rnais ser recuperadas.

11.5. Da possibilidade de reducáo conforme dados estatísticos divulgados pela Uniiio

Também com fundamento no§ 32 do art. 22 da Lei n, 8.212/91 e do art. 203 do Decreto n. 3.048/99, as
empresas, individualmente, ou as associacóes representativas das respectivas categorías económicas,
podem solicitar judicialmente a alteracáo de sua alíquota básica do SAT (1%, 2% ou 3%) utilizando
como prova os índices acidentários divulgados pela Uniáo desde 2009.
Anualmente o Ministério da Previdéncia Social e o Ministério da Fazenda publicam, por meio
de Portaria Interministerial, os índices de frequéncia, gravidade e custo dos acidentes de trabalho.
Historicarnente, ternos:
• Portaría MPS/MF n. 254/2009
• Portaría MPS/MF n. 451/2010
• Portaría MPS/MF n. 579/2011
• Portaría MPS/MF n. 424/2012
• Portaría MPS/MF n. 413/2013
= Portaria MPS/MF n. 438/2014
Referidas portarías objetivara atender ao FAP - Fator Acidentário de Prevencáo e trazem, em
seus anexos, os percentis de frequéncia, gravidade e custo separados por subclasse do CNAE.

184
Se utilizarmos a mesma valoracáo existente nas Resolucóes que tratam do FAP (0,35 para o
índice de frequéncia, 0,50 para o índice de gravidade e 0,15 para o índice de custo) e calcularmos a
média desses percentis, podemos firmar o seguinte raciocínio matemático:
• Resultados entre O e 33,33: risco leve - alíquota de 1 o/o
• Resultados entre 33,34 e 66,66: risco médio - alíquota de 2%
• Resultados a partir de 66,67: risco alto - alíquota de 3%
Ocorre que nas Portarías publicadas essa lógica nern sempre observada e ternos inúmeras
é

atividades económicas que deveriam estar enquadradas nas alíquotas de 1 % ou 2% e que,


equivocadamente, o foram na alíquota máxima de 3°/o. Cito alguns exemplos, calculados com base na
Portaría MPS/MF n. 438/2014:

Subclasse da CNAE 2.1 Percentil de Frequencia Percentil de Gravidade Percentil de Custo SATvigente SATcorreto
4511103 41,82 20,29 15,67 2% 1%
4637107 19,46 27,93 49,59 3% 1%

As a ti vida des ilustradas nao possuem acidentalidade significativa que justifique o enquadramento
do SAT nas alíquotas de 2% ou 3°/o. Trata-se de risco leve, com direito a utilizacáo da alíquota mínima
de 1 º/o, estando incorreto o percentual fixado pelo Decreto n. 6.957/2009.
Os dados sao fornecidos pela própria Uniáo em suas Portarías Interministeriais e comprovam a
baixa acidentalidade de inúmeros segmentos, bem como o excesso de arrecadacáo, já que a maioria
das empresas paga, atualmente, a alíquota máxima de 3%.
Entendo possível, pois, o ingresso de acáo judicial com objetivo de reducáo da alíquota destinada
ao seguro, com possibilidade, conforme o caso, de restituicáo ou compensacáo do excesso pago nos
últimos cinco anos.

11.6. Do acréscimo devido para financiar a aposentadoria especial quando o trabalho é


desenvolvido em ambiente nocivo
Com excecáo das ressalvas expressamente previstas na legíslacáo, via de regra os trabalhadores
precisam trabalhar (e contribuir) pelo período de 30 ou 35 anos para a obtencáo do beneficio de apo-
sentadoria por tempo de contribuicáo, antigamente denominada aposentadoria por tempo de servico.
Homens devem comprovar o tempo de 35 anos, e mulheres, 30 anos.
No entanto, se o exercício da atividade profissional se deu sob condicóes nocivas a saúde ou
a integridade física, a CF/88, art. 201 e a Leí n. 8.213/91, art. 57, conferem ao segurado do RGPS<128>
o direito a urna aposentadoria especial, cujo tempo de servico dependerá da gravidade do agente.
Confira-se:
Lei n. 8.213/91:
Art. 57. A aposentadoria especial será devida, urna vez cumprida a carencia exigida nesta Lei, ao segurado que tiver
trabalhado sujeito a condicóes especiais que prejudiquem a saúde ou a integridade física, durante 15 (quinze), 20
(vinte) ou 25 (vinte e cinco) anos, conforme dispuser a leí,
[... ]

A classificacáo desses agentes e o tempo necessário de trabalho para a aposentacáo constam do


Anexo IV do Decreto n. 3.048/99 e o trabalho permanente no subsolo de mineracóes subterráneas,
por exemplo, por ser extremamente nocivo, permite a obtencáo do beneficio com apenas quinze anos
de atividade.

(128) Regime Geral de Previdéncia Social.

185
Note-se, pois, que a regra é o homem trabalhar e contribuir por 35 anos (e a mulher, por 30 anos)
para depois obter do sistema um beneficio de aposentadoria. E se o exercício dessa atividade se der
na condicáo de empregado, também a empresa empregadora terá contribuído por igual período. E
voltando ao exemplo da mineradora, atividade subterránea, a contribuicáo (empregado e empresa)
se dará apenas por 15 anos, período bem inferior a regra geral do sistema.
Nao obstante tal discrepancia, as contribuicóes destinadas ao custeio da Seguridade Social devidas
por urna e outra empresa eram absolutamente iguais (20o/o para a Seguridade Social+ alíquota do SAT),
situacáo corrigida com a publicacáo da Lei n. 9.732/98 (DOU de 14.12.1998) que acrescentou ao SAT
alíquotas adicionais para o custeio dessa aposentadoria especial. Confira-se a redacáo dos §§ 6º e 7º do
art. 57 da Leí n. 8.213/91, conferida pela citada Lei n. 9.732:
Art. 57. A aposentadoria especial será devida, urna vez cumprida a carencia exigida nesta Leí, ao segurado que tiver
trabalhado sujeito a condicóes especiais que prejudiquem a saúde ou a integridade física, durante 15 (quinze), 20
(vinte) ou 25 (vinte e cinco) anos, conforme dispuser a lei.

[ •.• J
§ 62 O beneficio previsto neste artigo será financiado com os recursos provenientes da contribuicáo de que trata
o inciso II do art. 22 da Leí n. 8.212, de 24 de julho de 1991, cujas alíquotas seráo acrescidas de doze, nove ou seis
pontos percentuaís, conforme a atividade exercida pelo segurado a servico da empresa permita a concessáo de