Você está na página 1de 3

Em Levítico 23.9-14, Deus apresenta a prescrição para a realização da Festa das Primícias.

Dois dias depois da Páscoa e um dia depois da Festa dos Pães Asmos, no décimo sexto dia de Nisã,
os israelitas comemorariam o dia das primícias. Essa era a terceira festa da primavera e, como as
outras duas, era uma representação da redenção. Na Páscoa, comemorava-se o livramento, na Festa
dos Pães Asmos, ressaltava-se o rompimento com o passado e, na Festa das Primícias, festejava-se a
nova vida.
Conforme as prescrições divinas, essa festa deveria ser celebrada na nova terra, em Canaã. No
deserto, o povo não necessitava nem tinha condições de plantar. Mas, na nova terra recebida por
herança, o cultivo da terra ocorreria. Por meio dessa ocupação, o povo obteria as provisões para o
sustento. No entanto, não menos do que no deserto, Deus continuaria a demonstrar sua graça
providencial. Por isso, no início das colheitas, o povo deveria festejar, agradecendo ao Senhor pelo
cuidado providencial.
No início, a Festa das Primícias era uma comemoração simples. No sétimo mês do calendário
agrícola, na primavera, quando as plantações demonstravam os primeiros sinais de amadurecimento,
o agricultor israelita ceifava o primeiro feixe de cereal maduro de sua colheita e o levava ao sacerdote.
O sacerdote, por sua vez, movia-o diante do Senhor, no dia depois do sábado, em sinal de gratidão e
louvor pela dádiva bondosa de Deus. Essa oferta movida era acompanhada de outro holocausto de
um cordeiro de um ano, sem defeito, bem como de uma oferta de manjares, constituída de 4,5 litros
de flor de farinha misturados com azeite e uma oferta de libação de um litro de vinho.
Deuteronômio 26.11 descreve o que acontecia em seguida. Em termos simples, Israel
festejava. O povo, os levitas e até mesmo os estrangeiros em seu meio alegravam-se “por todo bem”
que Deus havia concedido. Comiam até se fartar e celebravam com o coração repleto de alegria e
gratidão.
II. Sinais de esperança
A Festa das Primícias não era apenas uma celebração de ação de graças. Apesar de Israel ser,
de fato, agradecido pelas safras abundantes que haviam crescido nos campos ao longo dos meses, a
Festa das Primícias possuía um sentido espiritual. Israel apresentava feixes de cereais novos, uma
oferta que trazia em seu cerne sinais de esperança de uma nova vida.
Esse modo de abordar a festa da colheita com o olhar voltado para o futuro exigia fé, um modo
de encarar a vida que precisava não apenas dos olhos, mas também do coração para enxergar.
Contrastava nitidamente com as superstições repletas de medo que caracterizavam as nações vizinhas.
Em Canaã, os adoradores de Baal realizavam negociações angustiantes com seus deuses e, na
tentativa de persuadi-los, cortavam-se até sangrar (como fizeram os sacerdotes de Baal no monte
Carmelo) ou queimavam os filhos em sacrifícios para garantir prosperidade (como no hediondo culto
a Moloque). A cada ano, o sucesso religioso era medido pelo número de sacas de cereal por alqueire
e o insucesso, pelo número de mortes por família.
Israel não precisava negociar com Deus para garantir que ele cuidaria de suas necessidades
diárias e anuais; ele havia prometido fazê-lo como demonstração de amor. A cada dia, os israelitas
reconheciam agradecidos a provisão generosa, davam graças ao Senhor e desfrutavam a vida em
comunhão com ele. E, no entanto, mesmo na terra de leite e mel, nem tudo corria bem, como ficava
evidente para os de coração mais sensível. Muitos haviam se tornado escravos e se encontravam
empobrecidos pelas circunstâncias da vida. O estrangeiro, o órfão e a viúva que viviam em Israel
eram não apenas pobres, mas também indefesos e vulneráveis ao abuso dos inescrupulosos. Deus já
havia dito que se levantaria para defendê-los (Dt 10.17-18) e esperava que seu povo fizesse o mesmo.
O Senhor, a fim de tornar visível essa prescrição de misericórdia, estabeleceu na vida
comunitária de Israel várias práticas que refletiam o tema da Festa das Primícias. A lei acerca da
respiga (Dt 24.19-21), prescrevia que os proprietários de terra deixassem de ceifar os cantos dos
campos para manter os pobres e necessitados. Deuteronômio 26 associa as Primícias a outra expressão
do mesmo espírito de misericórdia, o dízimo. Um décimo de toda a fartura com a qual Deus havia
abençoado Israel devia ser entregue ao sacerdote no templo.
Quer as Primícias fossem uma forma de dízimo ou o dízimo e as respigas fossem formas da
celebração das Primícias, fica evidente que os três constituíam manifestações do mesmo coração
repleto de fé. O gesto de devolver uma porção a Deus visava dar forma ao desejo de Israel de ter
misericórdia e justiça. Os três eram dádivas jubilosas que expressavam o vislumbre da fé, ofertas que
revelavam o anseio da alma por uma nova existência, na qual o amor por Deus e por outros substituiria
o egoísmo como modo de vida.
Com o passar do tempo, contudo, o povo se esqueceu da prescrição de misericórdia e as ofertas
que Deus havia instruído Israel a apresentar perderam o sentido, passando a ser uma prática mecânica.
O profeta Malaquias denunciou essa atitude pecaminosa, que não só afetava o culto no templo com a
falta de recursos, mas também resultava em injustiça social, ou seja, órfão, viúvas e estrangeiros eram
negligenciados (Ml 3.5, 8-10).
A igreja é composta por pecadores. A Festa das Primícias era um protótipo, um modelo da
redenção mais plena que viria com Cristo. O Senhor Jesus foi oferecido como Cordeiro pascal e
sepultado na véspera da Festa dos Pães Asmos. A data da ressurreição de Jesus ocorreu em uma das
festas judaicas e isso não foi acidental. Deus planejou tudo de modo que Jesus não apenas
permanecesse na sepultura até o terceiro dia (Mt 12.39-41), mas especialmente irrompesse do túmulo
na Festa das Primícias.
A festa define, portanto, o significado da ressurreição: não foi apenas o milagre da vida depois
da morte, mas também o início de um novo mundo depois da morte do antigo.
1. Primícias da sepultura
Em primeiro lugar, sua ressurreição foi as primícias da sepultura física: “E, se Cristo não
ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados […] Mas, de fato, Cristo
ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem” (1Co 15.17-20).
Trata-se de uma notícia maravilhosa para todos nós que vivemos na fragilidade da carne
humana. Há muito, a morte marca nossa vida e nosso mundo e, um dia, todos nós teremos de encarar
o fim de nossa existência física. A morte causa dor e separação, mas ela não põe fim a nossa
esperança, pois Cristo venceu a morte. Por isso, as Escrituras declaram: “Tragada foi a morte pela
vitória” (1Co 15.54).
A ressurreição de Cristo foi as primícias da ressurreição do corpo. Moveu os primeiros feixes
de uma nova vida e abriu um caminho além da morte para aqueles que morrem no Senhor. Uma
colheita ainda mais abundante virá quando as sepulturas forem abertas e os mortos ressuscitados. A
igreja, ao longo das eras, confessa seu anseio em uma das frases do Credo Apostólico: “Creio na
ressurreição do corpo”.
Não há verdade mais confortadora do que esta para aquele que crê em Cristo Jesus. Não é à
toa que os crentes em Cristo, mesmo diante da morte, conseguem louvar a Deus. A certeza da
ressurreição futura, inaugurada por Cristo Jesus, produz conforto e satisfação.
2. Primícias de um novo mundo
A ressurreição de Jesus deu início a algo maior do que a vida depois da morte física. De acordo
com 1Coríntios 15.45, Jesus foi “o último Adão”. Sua cruz marcou a morte do mundo do primeiro
Adão, sujeito ao poder da morte, desde a queda em pecado. Constituiu, portanto, o início de um novo
mundo, um novo céu e nova terra. A obra de Cristo não traz somente esperança de redenção para o
seu povo, mas também para todo o cosmos. Toda criação de Deus está sujeita a morte por causa do
pecado e aguarda o dia da sua redenção: “A própria criação será redimida do cativeiro da corrupção,
para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.18-21).
Este novo mundo já teve início e será plenamente manifestado na vinda de Cristo. A
ressurreição de Cristo como primícias, porém, significa que o novo mundo já se iniciou.
Nas Escrituras, o novo mundo é um reino de graça que um dia se estenderá por todo o universo.
A Bíblia usa vários termos para descrever a nova ordem mundial. Jesus a chamou de “reino de Deus”
(Mc 1.15) e “reino dos céus” (Mt 4.17). O Evangelho de João se refere ao novo tipo de vida como a
“vida eterna” (Jo 3.16). Em Apocalipse 21.1, é chamado simplesmente de “novo céu e nova terra”. A
surpresa da última passagem é que o novo céu e a nova terra não são apenas futuros, mas já se
manifestam aqui e agora. Por certo, precisamos ter fé para vê-los, pois, a cada dia, somos confrontados
com o mal e a desintegração, tão evidentes em nosso mundo. Não obstante, o novo mundo está se
abrindo.
A Igreja de Cristo na terra é uma manifestação visível deste novo mundo. No penúltimo
capítulo da Bíblia, João usa três metáforas para descrevê-las: “Nova Jerusalém”, “noiva adornada
para seu esposo” e “a esposa do Cordeiro”. As três metáforas bíblicas não se referem ao céu, mas à
igreja. João descreve a igreja atual, uma comunidade de fé apresentada como Deus a vê pela lente do
Messias: morta para os pecados por causa da cruz, santificada por causa do sepultamento e trazida de
volta dos mortos para uma nova vida, por causa da ressurreição.
3. Os cristãos como primícias
Aqueles que seguem a Cristo são primícias, e não apenas pessoas que esperam ir para o céu
quando morrerem. A vida deles já produz uma colheita diferente. São movidos pelos impulsos do
novo mundo; são diferentes por dentro. Não são mais marcados pela raiva, malícia, violência, cobiça,
concupiscência e egoísmo, ou seja, pela colheita característica da carne. Antes, sua vida revela o
início de uma transformação autêntica (Gl 5.22-24).
Ainda há mais por vir. Um dia, aquilo que se iniciou com a ressurreição de Cristo e começou
a produzir fruto em nós, renovará todas as coisas, em uma colheita abundante, muito além de todo
entendimento (1Co 2.9-10).
4. Primícias de nosso testemunho
Havia dois lados da moeda na Festa das Primícias no Antigo Testamento. Primeiro, era uma
celebração de gratidão a Deus por todas as bênçãos alcançadas na nova terra. Por outro lado, a festa
das primícias, associada à prática da respiga e dos dízimos, lembrava a Israel que havia um longo
caminho a percorrer, pois nem tudo ainda estava em ordem. Israel deveria desejar mais, olhar para
frente, em direção a um novo dia e, por meio de suas ofertas generosas, socorrer os carentes e
necessitados.
A ressurreição de Jesus Cristo, no décimo sexto dia de nisã, também ressoa nesses dois tons.
Por um lado, permite que os cristãos experimentem e, portanto, percebam e celebrem, já no presente,
as dádivas graciosas do Espírito Santo. Por outro lado, a ressurreição de Cristo deve fazer com que
olhem adiante e percebam que há muito a ser feito e que nem tudo está em ordem.
Jesus nos falou da nova vida que seria plantada e de como amadureceria. Por meio da parábola
do semeador, ele mostrou que a Palavra de Deus seria lançada no solo como uma pequena semente
e, no entanto, produziria “a cem, a sessenta e a trinta por um” (Mt 13.8). A Festa das Primícias
representa uma lição: cada cristão leva essa semente em sua nova vida de fé, pois a igreja do Cristo
ressurreto é constituída de pessoas com uma missão. Depois de terem sido, elas próprias,
transformadas pela graça, agora levam consigo a Palavra e plantam a semente do evangelho por onde
passam.
Conclusão
A Festa das Primícias não era apenas mais uma festa a ser celebrada por Israel. Trata-se de
uma celebração importante. Por meio dela o povo na nova terra celebrava o novo mundo, a nova vida.
Este novo mundo e esta nova vida não eram sentidos de maneira plena. Mas a cada celebração Israel
agradecia ao Senhor pelas dádivas alcançadas e colocava a esperança no futuro. Por meio dela o povo
era encorajado a ser frutuoso, refletindo cada um diante de seu irmão o cuidado misericordioso de
Deus.
A Festa das Primícias é uma celebração cujos significados repercutem até os dias de hoje,
visto que tem relação direta com a ressurreição de Cristo. Lembrá-la nos faz refletir e entender sobre
os propósitos redentivos de Deus que já se realizaram e que ainda estão por se completar.
Aplicação
A ressurreição de Cristo deu início à nova criação de Deus. Um novo mundo teve início,
sendo, os cristãos, primícias desta nova criação. Medite sobre isso por alguns instantes. Você
consegue identificar sinais desse novo mundo em sua vida e na vida de outros cristãos de seu
convívio?