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A COMBINATÓRIA STRAIGHT BIND, UMA NOVA FERRAMENTA

MATERIALISTA E DECOLONIAL PARA O LESBIANISMO FEMINISTA1

Jules Falquet

Uma versão mais longa de este artigo foi publicada em francês em Bidet, Annie; Galerand,Elsa; Kergoat,
Danièle (eds.): 2016, "Actualité du féminisme matérialiste", Les Cahiers du Genre, Paris, pp.73-96.

Para construir alternativas à atual globalização neoliberal, os movimentos e a teoria


lesbico-feminista precisam integrar plenamente as teorias críticas do capitalismo, do racismo e do
(neo)colonialismo. Inspirada pelas perspectivas lésbicas e feministas materialistas francófonas que
emergiram ao final da década de 1970 ao redor da revista Questions Féministes, proponho aqui o
conceito de “combinatória straight bind”, com o fim de aprofundar simultaneamente as reflexões
lesbico-feministas, os debates sobre interseccionalidade2, e as perspectivas decoloniais produzidas
em Abya Yala3.
Sendo uma lésbica branca, francesa, de classe privilegiada, que a partir de 1989 viveu em
diferentes momentos no México e em El Salvador (América Central), ali começando suas primeiras
aprendizagens políticas na época das lutas populares revolucionárias, quero agradecer às numerosas
feministas e lésbicas Afros, Indígenas e Mestiças do Abya Yala, assim como as lésbicas políticas e
as feministas e lésbicas antirracistas na França, por quem aprendo até hoje. E a partir desse “ponto
de vista” especifico, proponho aqui revisitar a análise da economia política da
(hetero)sex(ualidade)4.
Lembrarei primeiro como as feministas materialistas francófonas tem transformado
radicalmente a conceitualização de “trabalho”, agregando ao conceito da exploração da força de
trabalho (que apenas levava a conhecida teoria das classes sociais), até a apropriaçãodo corpo-
como-máquina-de-(re)produção-de-força-de-trabalho(que faz aparecer tanto o sexo como a raça

1
Sou a única responsável das ideias aqui apresentadas e dos seus limites. Mas quero agradecer por seus comentários,
a Salima Amari, Paola Bacchetta, Annie Bidet, Dominique Bourque, Ochy Curiel, Silvia Federici, Dominique
Fougeyrollas, Elsa Galerand, Danièle Kergoat, Nasima Moujoud, Leïla Ouitis, Valeria Ribeiro Corrosacz e Damien
Trawale.
2 Como se verá aqui, prefiro utilizar o conceito de relações sociais imbricadas, que permite uma análise mais estrutural,

em vez de « interseccionalidade ».
3 Usado pelo povo Kuna de Colômbia e Panamá para se referir a sua terra antes da invasão europeia, esse termo foi

retomado por parte de diferentes movimentos sociais como uma forma decolonial para chamar o continente.
4
Jogo de palavra com o subtítulo do trabalho de Gayle Rubin de 1975:The political economy of sex.

1
como relações sociaisestruturais5), o que permite pensar a dinâmica conjunta das relações sociais
imbricadas. Logo, mostrarei como desnaturalizaram a sexualidade e sublinharam que para a maioria
das mulheres constitua fundamentalmente um tipo de trabalho. Finalmente, considerando também a
procriação como um verdadeiro trabalho organizado pelas lógicas eminentemente sociais da aliança
matrimonial e da filiação, introduzirei o straight bind como um conceito-chave para analisar a
produção e o intercâmbio da (e dos corpos-como-maquinas-de-(re)produção-de-) força de trabalho,
para entender tanto sincronicamente como historicamente (diacronicamente) a imbricação das
relações sociais de sexo, raça e classe.

Da apropriação racializada e sexualizada à globalização neoliberal: centralidade do trabalho


de reprodução social

Apropriação, sexagem e as dinâmicas imbricadas das relações sociais estruturais

A recém falecida (em maio de 2017) socióloga francesa Colette Guillaumin foi central na
desnaturalização tanto das relações sociais estruturais de sexo como de raça, e para sua
conceitualização não naturalista, histórica e dialética. Seu trabalho fundacional sobre o racismo
“moderno” revelou que a ideia atual de raça é um constructo social recente, que organiza
materialmente e legitima ideologicamente o modo de produção escravista colonial (Guillaumin,
2002 [1972]). Ela desconstrói metodicamente essa ideologia naturalista, e expõe a “raça” como um
sistema de marcas físicas arbitrárias que criam individuxs e grupos ao impor uma “diferença”
supostamente natural em seus corpos para justificar desigualdades sociais. Guillaumin se voltou
depois para o sexo produzindo na confluência do feminismo radical e do feminismo marxista, para a
tese da apropriação social das mulheres (1992 [1978]). Fez-se ver que existe uma lógica similar de
naturalização e de apropriação física direta, que afeta diferentes grupos sociais dependo do modo
de produção ou do período histórico. Para sublinhar sua semelhança com a servidão medieval
europeia [servage] e com a escravidão colonial de plantação [esclavage]6, chamou de sexage a

5
« Relações sociais » é um termo que pode ser utilizado para compreender dois conceitos que em francês são distintos:
rapports sociauxerelations sociales. Aqui, « Relações sociais estruturais» significam "rapports sociaux"; ou seja, algo
que organiza o Sistema social como um todo e cria dois sexos como dois grupos sociais opostos, ou classes definidas
por suas posições na divisão sexual do trabalho (trabalho “de mulher e de homem”). "Relations sociales" refere-se a
relações (e interações) microssociais diárias entre mulheres e homens em sua individualidade.
6 Apesar disso, os mecanismos concretos de apropriação são diferentes. Por exemplo, pessoas sob o regime de

servidão não eram apropriadas diretamente, mas através do território ao qual estavam anexadas.

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relação social de apropriação das mulheres que produz tanto as mulheres como os homens enquanto
classes de sexo.
Guillaumin distinguiu duas modalidades de apropriação: a apropriação privada,
organizada pela instituição do matrimônio, e a apropriação coletiva, tal como existe na prostituição
ou nos conventos católicos, mas também através do trabalho assalariado barato de hoje. Muito
profunda e antiga, a apropriação coletiva é o que permite a apropriação privada, mesmo que a
contradizendo, sendo essa contradição o que permite a transformação dinâmica das duas.
Identificando o acesso ao trabalho assalariado (a exploração, como xs demais proletárixs) como um
fator-chave na transformação simultânea das “sociedades patriarcais” e do capitalismo, do mesmo
jeito que o acesso ao trabalho assalariado permitiu a algunxs escravxs “comprar” sua liberdade e
sair da apropriação privada, Guillaumin sugeriu a possibilidade de realizar uma análise dinâmica,
histórica e sobretudo holística da transformação imbricada das relações sociais estruturais de sexo,
raça e classe.

Reprodução social global e globalização neoliberal

Meu próprio ponto de partida é a reorganização neoliberal global do trabalho, a qual estou
concebendo como uma reconfiguração das relações sociais estruturais imbricadas de sexo, raça e
classe que organizam conjuntamente a divisão local e internacional do trabalho. Em especial, a
privatização da terra e o desengajamento do Estado tem transformado profundamente a reprodução
social, criando e deslocando dentro e através das fronteiras a uma vasta “reserva de mão de obra”
que tem sido em parte o total desmonte de recursos e direitos. Observando que uma significativa
porção das mulheres não privilegiadas eram empurradas até trabalho industrial mal pago nas novas
“zonas econômicas especiais”, bem como até atividades domésticas, de “cuidado” e sexuais no
setor de “serviços” (Falquet 2006), propus as noções de trabalho desvalorizado e trabalho
considerado como feminino para analisar esses novos trabalhos informais e assalariados (Falquet
2009).
Algunxs autorxs argumentaram que migrantes, institucionalmente privados dos direitos
mínimos por meio de sua “indocumentação” organizada por lei (quer dizer, sua “racialização”) tem
se tornado o coração da classe proletária. Sugiro melhor observar a convergência significativa das
lógicas das relações estruturais de sexo e raça. Mulheres empobrecidas e proletarizadas de todas as

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raças(e pessoas empobrecidas e proletarizadas de todos os sexos) são forçadas conjuntamente a
entrar ao trabalho de reprodução social e a outras atividades subvalorizadas e subpagas.
Logo, voltei a colocar essas transformações na história longa da colonialização, do tráfico
e da escravidão desde 1492.Afirmo que as contradições entre apropriação coletiva e privada(assim
como entre apropriação e exploração) produzem uma dinâmica de receptáculos comunicantes entre
as relações sociais estruturais de sexo, raça e classe (Falquet 2014a). Assim (em um exemplo muito
simplificado), o trabalho doméstico que muitas mulheres “em geral” são hoje obrigadas a realizar
poderia ser transferido aos homens “em geral”, ou a pessoas racializadas “em geral”. Muito mais
precisamente e concretamente, as atuais transformações neoliberais das migrações (crescimento,
feminização) e das políticas migratórias nacionais e internacionais (seleção, restrições) aparecem
então como uma reorganização da distribuição da força de trabalho em escala global — na qual
corpos feminizados e racializados (especialmente da classe proletária) são massivamente destinados
ao trabalho barato de reprodução, precisamente como esse trabalho tem sido historicamente imposto
para sua realização gratuita por populações escravizadas e por tanto racializadas por um lado, e
pessoas feminizadas, casadas e domesticadas pelo outro lado.

Sexualidade e procriação desde a perspectiva das mulheres: o straight mind e a economia


política do sexo

A sexualidade, imersa nas relações de poder estruturais

Desde 1969, Kate Millet escreve que a “revolução sexual” como definida pelos ícones da
literatura estadunidense estava baseada no desprezo e na brutalização das mulheres e que a
sexualidade era um fato social eminentemente político. Gayle Rubin (1975) foi logo uma das
primeiras em destacar que o emparelhamento heterossexual não era nem um pouco “natural”,
lembrando que o próprio Lévi-Strauss tinha escrito que a divisão sexual do trabalho (que criava
uma dependência mútua entre homens e mulheres) era uma criação cultural inventada para garantir
que unidades familiais incluíssem ao menos uma fêmea e um macho (para procriação).
As coisas mudaram na década de 1980. Espelhando a fascinação masculina para as
supostas virtudes liberadoras da “sexualidade”, parte do feminismo radical teve tendência a se
centrar no poder e na violência da sexualidade, e a hipostaziar essa última, colocando-a como a
principal causa da opressão (ou da libertação) das mulheres. Muito diferentemente, Guillaumin

4
colocou claramente a sexualidade entre outras dimensões das relações sociais estruturais de sexo.
Incluiu o que chamou a obrigação sexual entre as quatro expressões concretas da apropriação das
mulheres, junto à apropriação do tempo, dos produtos do corpo, e à carga físicade otrxs membrxs
do grupo (1992 [1978]). Em relação aos meios da apropriação, o constrangimento sexual é apenas
um deles, junto com o mercado de trabalho, o confinamento no espaço, a demonstração de força
(golpes) e a lei (tanto formal como consuetudinária). Para Guillaumin, a apropriação das mulheres
pelos homens não é essencialmente sexual. Homens se apropriam não apenas do corpo sexualizado
das mulheres, mas de forma muito mais global de seus corpos-como-máquina-de-(re)produção-de-
força-de-trabalho, o que lhes permite acessar muito mais “serviços”.

E a Heterossexualidade criou a Mulher7

Apoiando-se firmemente em Guillaumin, Wittig abriu o caminho para o lesbianismo


materialista (2007 [1980]). Examinando as teorias sociais dominantes (especialmente Lacan e Lévi-
Strauss), trouxe à luz um dos maiores axiomas inquestionados da cultura ocidental contemporânea:
a ideologia da diferença sexual. Essa ideologia, que ela chamou de “pensamento straight8”, está
baseada na asseveração arbitrária a jamais comprovada existência de uma “diferença sexual”
absoluta e irredutível que separaria os dois sexos que naturalmente existiam. Wittig afirmou que era
em realidade a heterossexualização quotidianamente imposta às mulheres que construía sua
“alteridade”, cuja suposta naturalidade selava sua sorte como classe apropriada.
É importante compreender que Wittig analisou uma ideologia e um sistema político; não
falava de práticas sexuais individuais. Essa que chamou lésbicas (cuja existência constitui uma
refutação empírica da suposta naturalidade de ser mulher), não são homossexuais de sexo feminino
(as que geralmente continuam trabalhando de diversas formas para a classe dos homens), mais do
que seres humanxs que se recusam a se tornarem ou a se voltarem mulheres, no sentido de
Guillaumin. O que elas recusam não é o coito nem o corpo masculino, e nem sequer relações
interpessoais com homens. O que recusam é se ligarem a homens por relações sociais estruturais de
apropriação, sejam privadas (em matrimônio ou na família paterna) ou coletivas (em conventos ou
bordeis).

7
Jogo de palavra com o título do filme com Brigitte Bardot « Et Dieu créa la femme ».
8
Wittig usou straight ao invés de heterossexual propositadamente, para se livrar da medicalização e da
dimensão “sexual” do termo.

5
Sexualidade e procriação: para muitas, um trabalho

No final da década de 1980 a antropóloga Italiana Paola Tabet (2004) começou a estudar
um amplo repertório de relações sexuais (não-ocidentais e ocidentais, durante períodos coloniais e
contemporâneos), desde as consideradas como normais e obrigatórias (diferentes formas de
matrimônio) até as associadas com transgressão e desordem (sexualidade pré-marital e várias
formas de prostituição). Trazendo as aparentes oposições entre estas práticas, do ponto de vista
dominante dos homens, Tabet destacou a importância de compreender o contexto material em que a
sexualidade é praticada. Na verdade, quando mulheres como classe de sexo:
(1) têm acesso limitado a recursos,
(2) têm acesso limitado ao conhecimento, e
(3) estão sob permanente ameaça de violência ou sofrem violência de fato.
Nestes casos, elas têm poucas possibilidades para sobreviver e alimentar as crianças que
homens geralmente abandonam com elas, a não ser utilizar o que elas têm “entre as pernas”, como
afirma Tabet. Para isso, as mulheres têm que reificar sua “sexualidade” e transformá-la em um
“serviço” que pode ser negociado por bens materiais ou imateriais, ou dinheiro. Forçadas mais pela
necessidade do que por luxúria, tentam achar o melhor posto possível no que Tabet chamou o
continuum do intercâmbio econômico-sexual: numa extremidade, algumas mulheres na instituição
da prostituição trocam alguns “serviços sexuais” estritamente delimitados em troca de uma
quantidade fixa de dinheiro. Na outra extremidade, outras mulheres na instituição do matrimônio
recebem uma manutenção discricionária em espécie em troca do amálgama conjugal — ou seja, um
conjunto de serviços que se associam inextricavelmente a trabalho doméstico, procriativo,
emocional e sexual. Muitas mulheres oscilam entre esses extremos, passando por um conjunto de
outras possibilidades socialmente organizadas. Mas qualquer que seja o lugar que ocuparam as
mulheres no contínuo, no contexto (bastante comum) descrito por Tabet, sua “sexualidade” é
primeiro e sobretudo uma atividade de sobrevivência, que às vezes se torna um trabalho semi-
formalizado.
Em outro trabalho decisivo sobre a suposta fertilidade natural de mulheres humanas, que é
de fato muito baixa (1985), Tabet demonstrou que na grande maioria das sociedades passadas e
presentes o “controle de natalidade” não significava a limitação da capacidade das mulheres de
produzir bebês, mas sua maximização. Diferente de outras mamíferas, fêmeas humanas não
mostram coincidência nenhuma entre o desejo sexual e o período fértil, que também não produz

6
sinal visível. Por isso, muitas sociedades inventaram diferentes mecanismos sociais para maximizar
a produção de bebês por parte das mulheres —especialmente, impondo o coito genital heterossexual
como “A Sexualidade”— e criando uma lógica de exposição permanente a esse coito através da
instituição matrimonial. Tabet também demonstrou que a procriação (cuja quantidade, ritmo e
condições são em muitos casos impostos às mulheres), pode ser analisada como um verdadeiro
trabalho, num sentido marxista.
Em resumo, as perspectivas materialistas permitem ver por um lado que todas as
atividades apresentadas como naturais para mulheres podem ser analisadas como trabalho. Isso
questiona profundamente a perspectiva marxista clássica. Primeiro, em vez de proletarixs que só
tem sua ‘força de trabalho” para vender na esfera “produtiva”, a maioria da classe proletária é ao
mesmo tempo forçada a trabalhar na esfera “reprodutiva”, realizando trabalho sexual, procriativo,
doméstico e emocional. Em segundo lugar, a apropriação privada e coletiva que caracteriza as
mulheres constringe severamente a sua possibilidade de vender sua força de trabalho, na medida em
que esta não lhes pertence. Terceiro, os diferentes componentes do trabalho que estão forçadas a
realizar (doméstico, emocional, sexual, procriativo… e ‘produtivo’) são governados por lógicas
diferentes que são muitas vezes contraditórias e bastante difíceis de desamalgamar (Falquet 2014b).

A combinatória straight bind: produção e intercâmbio de pessoas e de corpo-como-máquina-


de-(re)produção-de-força-de-trabalho

Agora, podemos analisar o trabalho procriativo de um ponto de vista diacrônico para


decifrar a permanente produção de novas gerações e sua classificação social. Essa perspectiva
transforma profundamente o debate marxista sobre “a reprodução da força de trabalho” — na qual
crianças automaticamente pertencem a estruturas familiais que nunca são problematizadas.

No ponto de encontro entre aliança matrimonial e filiação: a maternidade, um trabalho


intensamente vigiado

Através de uma análise fascinante do incesto, Mathieu evidenciou o caráter eminentemente


social da maternidade (1991 [1977]). Tabet descontrói em seguida a fertilidade feminina “natural”,
visto anteriormente (1985). Alguns pontos importantes da organização social do trabalho
procriativo foram estudados, como o controle dos maridos ou do Estado sobre a fertilidade das

7
mulheres. Mas, mais profundamente, precisamos compreender como as trabalhadoras da procriação
são postas em contato com os provedores de matéria prima (espermatozoides, comida) e com xs
beneficiarixs finais do produto (por exemplo, a família do marido, ou contratadorxs externxs como
famílias de aluguel). E, mais importante: quais leis consuetudinárias ou formais governam a
propriedade do produto final?
Para responder a essas perguntas, é preciso adotar uma perspectiva socio-antropológica
sobre as instituições da aliança matrimonial e da filiação e nos deslocar fora do marco redutor das
sociedades patrilineares e virilocais — onde as estruturas e a ideologia do pensamento straight
surgiu, especialmente o paradigma levistraussiano do intercâmbio das mulheres. Isso foi o objetivo
de Mathieu e Gestin ao editar em 2007 o primeiro livro publicado em francês juntando quatorze
sociedades uxorilocais9e matrilineares. Essas sociedades não constituem de maneira alguma um
“matriarcado”, e são longe de ser idílicas para as mulheres. Mas nessas sociedades as “mulheres
intercambiadoras” são as que organizam as alianças e as cerimônias matrimoniais, e são também as
principais beneficiárias das atividades econômicas e políticas realizadas nestas ocasiões. Mathieu e
Gestin propõem substituir a teoria do “intercâmbio de mulheres”, pelo exame das lógicas de
circulação de todas as pessoas (mulheres e homens). A partir dali, podemos dar o último e decisivo
passo à frente, integrando a análise da aliança matrimonial (circulação horizontal) com aquela da
filiação (circulação vertical).

A combinatória Straight Bind

Uma vez que a heterossexualidadeseja desnaturalizada, pode-se observar que a aliança


matrimonial e a filiação não dizem respeito apenas a mulheres e homens, mas também a pessoas de
diferentes classes e “raças”, cujas lógicas de aliança matrimonial e a filiação não são tão naturais
quanto entre os sexos. Pelo contrário, são cuidadosamente organizadas por diversas instituições que
produzem e fazem respeitar todo um conjunto de leis — contraditórias em si e em constante
transformação. Proponho chamar de “combinatória straight bind” esse conjunto de instituições, leis
e regras que conjuntamente organizam a aliança matrimonial e a filiação através de lógicas
simultâneas de sexo, raça e classe. Como o pensamento straight mind, a combinatória straight bing

9 Uxorilocalidade significa que o esposo segue a esposa após o casamento.Isso tem impacto profundo em relações de
poder estruturais entre cônjuges, possivelmente até mais do que a matrilinearidade (que significa que a filiação passa a
partir da mulher). Culturas ‘uxori-matri’ constituem até um terço de todas as sociedades em alguns continentes, e quase
todas são não-ocidentais.

8
cria continuamente grupos humanos considerados diferentes, cujas hierarquias e
(in)compatibilidades são logo apresentadas como rigorosamente naturais (como pilares
fundamentais da cultura). A combinatória straight bind é então o operador central das dinâmicas
imbricadas das relações sociais estruturais de sexo, raça e classe.
Em vários aspectos, essa proposta converge com as perspectivas feministas decoloniais da
Abya Yala, cuja afirmação central é que a colonização europeia racializou e sexualizou a força de
trabalho desde os primeiros momentos do futuro capitalismo, antes mesmo da aparição das classes
no sentido marxista (Lugones, 2008; Mendoza, 2014). A combinatória straight bind ajuda a
aprofundar temáticas de especial interesse para feministas decoloniais da Abya Yala.
Primeiro, em relação à construção das nações mestiças, a combinatória straight bind
permite analisarem nível de aliança matrimonial, ao invés do matrimônio formal (reservado para
mulheres “brancas” e burguesas), a importância dos estupros em massa (Mendoza 2001) e de uniões
impostas por séculos a mulheres Indígenas e Negras por parte de homens brancos ou mais claros;
em nível de filiação, ao invés de um status de seres humanxs e cidadãos/legítimxs (para filhos
machos, brancos ou mais claros), as complexas hierarquias da ilegitimidade baseadas em fenótipos
racializados e sexualizados.
Segundo, a combinatória straight bind permite repensar as análises da colonialidade do
gênero. Lugones (2008) afirmou que a empresa colonial impôs lógicas heterossexuais e binárias que
eram alheias às culturas indígenas e afros. A feminista indígena boliviana Julieta Paredes
(2010)insistiu melhor na ideia de que colonizadores se uniram com homens indígenas dominantes
no que ela demoninou entronque patriarcal, enquanto a feminista indígena guatemalteca Lorena
Cabnal (2015) fala de reconfiguração patriarcal. Em todos os casos, a combinatória straight bind
ajuda a compreender essas imposições e suas lógicas imbricadas, e pode se unir ao trabalho da
feminista lésbica Afro-Dominicana Ochy Curiel sobre a construção do Estado-nação colombiano
contemporâneo (2014).
Finalmente, a combinatória straight bind se junta com os interesses do movimento lésbico-
feminista da Abya Yala para com o papel do sistema político da heterossexualidade na criação das
lógicas do “racismo moderno” (miscigenação forçada, branqueamento, ocidentalização), tanto com
a relegação de populações racializadas a certos tipos de atividades e mobilidade, quanto com as
lógicas militarizadas do extrativismo transnacional e da recolonização 10. De fato, tanto o passado

Estes foram os temas de seu décimo Encuentro, realizado na Colômbia em 2014: http://elflac.org/wp-
10

content/uploads/2014/11/DOCUMENTOS-DEBATE.pdf

9
colonial da Abya Yala como o seu presente podem ser analisados com proveito através do conceito
de combinatória straight bind, que também tem muito a nos dizer tanto sobre o desenvolvimento do
capitalismo desde 1492 quanto sobre o neoliberalismo contemporâneo —sendo que algumas das
análises mais interessantes deste provém de lésbicas políticas, especialmente racializadas e
proletarizadas (Espinosa Miñoso et al. 2014).
Mais geralmente, a combinatória straight permite examinar como certxs individuxs e
grupos são produzidxs como “plenamente humanxs”, quando outrxs são reduzidxs a serem corpos-
como-máquinas-de-(re)produção-de-força-de-trabalho — cujas capacidades de trabalho socialmente
construídas vão muito mais além do que a economia política marxista clássica conhecia: alguns
corpos também são capazes de produzir outras maquinas-de-re-produzir-força-de-trabalho. Isso abre
uma história integrada do trabalho, incluindo o trabalho procriativo e a reprodução social em geral,
mais além do marco estreito do “trabalho produtivo”tão caro aos marxistas. Segundo, a
combinatória straight bind permite examinar a capacidade de mudar de status ou de mudar os
status dxs demais através de lutas individuais ou coletivas, incluindo estratégias de alianças
matrimoniais e de filiação, ligadas a leis e normas cambiantes. Por exemplo, certas mulheres
reduzidas a escravidão (ou, hoje em dia, indocumentadas), adaptaram suas lógicas procriativas aos
desenvolvimentos legais: desde abortar o produto de estupros, até tentar obter a própria libertação
(legalização) por meio da procriação com homens livres (autóctones) que reconheçam a sua
paternidade ou sua relação com a mulher. Levem a mudanças imediatas ou progressivas (para a
prole) no status das pessoas, das linhagens, ou ainda para um grupo étnico, de sexo, ou de classe,
essas estratégias individuais ou coletivas combinam lógicas de sexo, raça e classe.

Tentei aqui mostrar como diferentes ramos dos movimentos e das análises (implícita ou
explicitamente) lesbico-feministas (materialismo feminista francófono, teoria lésbica na linha de
Wittig, perspectivas decoloniais da Abya Yala) oferecem uma compreensão ampla e rica tanto da
escravidão e do modo de produção colonial passado, como do capitalismo neoliberal presente. Com
a combinatória straight, também proponho um novo conceito que poderia ajudar a ponderar nessas
três direções, assim como reforçar a ação e a reflexão lesbico-feminista.

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A combinatória straight bind também pode ser utilizada ao menos em três campos
importantes. Primeiro, para renovar os debates sobre interseccionalidade, propondo uma perspectiva
mais estrutural, retomando a velha proposta do Coletivo Combahee River dos sistemas imbricados.
Longe de ser apenas identidades individuais fluidas e lúdicas, sexo, raça e classe aparecem como as
bases de uma história em longo prazo, na qual as estratégias individuais e as estratégias coletivas
criam dinâmicas complexas. Segundo, a combinatória straight bind constitui uma ferramenta
robusta para questionar profundamente e aprofundar a teoria marxista da produção e da reprodução,
que segue sendo um horizonte decisivo para a compreensão da história global e a abolição de todas
as classes (de sexo, de raça e social). Terceiro, a combinatória straight bind nos permite
compreender e combater os perigos imediatos da globalização neoliberal, como por exemplo as
violências imbricadas das guerras de recolonização — assim como já estão fazendo as mulheres, as
feministas e as lésbicas de Abya Yala, que contribuem através de suas ações diretas e coletivas,
tanto para a teoria como para o melhoramento da vida para todxs (buen vivir).

Revisão da tradução para a língua portuguesa por Meggie Fornazari

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