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LU A
ÇÃ MÚ
O SIC
A
Os
loucos
Anos
20
PERIODICIDADE BIMESTRAL

As noites frenéticas de Lisboa


CONTINENTE – €4,90
N.º 36 · JULHO 2016

A maldita cocaína • A nova mulher


Os primeiros concursos de beleza
O nascimento dos voos comerciais
A paixão pelo futebol
A estreia da Volta a Portugal
em bicicleta
Anos 20 || Sumário

IMAGENS 4
CRONOLOGIA A década louca 12
INTRODUÇÃO O tempo das ilusões 16
INFOGRAFIA As grandes
cidades do mundo 20
MODA As mulheres preferem o ‘chic’ 22
CINEMA Os anos loucos tinham
filmes nos olhos 28
BELEZA A primeira Miss Portugal 34
VEVA DE LIMA A anfitriã de Lisboa 37
ESTILO No coração do Art Déco 38
ALMADA NEGREIROS A Década louca 44
MÚSICA A revolução do jazz 46
DANÇA Os passos do charleston 50
CLUBS O som das noites de Lisboa 52
DROGAS Os anos da ‘maldita’ 58

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ANTÓNIO FERRO Cronista Produção de moda para a Vogue, 1928
dos tempos modernos 61
FRAUDE A gigantesca burla
de Alves dos Reis 64
CRISE Quando as câmaras

ESTÚDIOS NOVAIS/ BIBLIOTECA DE ARTE DA FUNDAÇÃO GULBENKIAN


municipais faziam de banco 68
INFOGRAFIA Portugal em números 70
AVIAÇÃO COMERCIAL Voar é preciso 72
LISBOA Os voos para Madrid
e as aventuras dos aviadores 78
AUTOMÓVEIS A cem à hora 82
INFOGRAFIA Grandes inovações 86
DESPORTO A primeira Volta
a Portugal em bicicleta 88
FUTEBOL A loucura da bola 93
LITERATURA Cinco livros que
marcaram a década 96
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1928 Chiado, 1928


CARTOON Penteados 98

LINHA DIRETA Com efeito, se os contornos materiais do nosso quotidiano


foram sendo traçados ao longo das quatro décadas que vão
Chegam os tempos modernos de 1890 a 1930, foi depois da I Guerra Mundial que a «vida
moderna» como a entendemos deu os seus primeiros – mas

D
epois de uma edição (a nº 35, de maio) dedicada à situa- já firmes – passos. Os anúncios que reproduzimos em muitas
ção política que pôs fim à I República em Portugal e à páginas são retirados da revista semanal ABC, o magazine
instauração da ditadura, a VISÃO História regressa aos português mais representativo da época.
Anos 20, desta vez para prolongar noutras áreas – da moda Mas a festa que se seguia ao pesadelo da Grande Guerra du-
aos costumes e ao fait-divers – a força inovadora de uma década raria, pouco tempo. No horizonte divisavam-se já as sombras
prodigiosa. A arquitetura ganhou linhas retas, a música e a dança de novas tormentas.
«enlouqueceram», as saias subiram, os cabelos encurtaram,
os aviões banalizaram-se, a literatura reinventou-se, o futebol Os títulos e destaques são da responsabilidade da redação.
entrou no dia-a-dia, o cinema começou a falar… Foto da capa: Getty images

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Anos 20 || ????????
DELIUS/LEEMAGE/FOTOBANCO

4 VISÃO H I S T Ó R I A
Nova Iorque, 1925
Para preencher um momento
de ócio, dois casais de
americanos endinheirados
disputam uma partida de
deck-tennis no terraço
de um prédio rodeado de
arranha-céus

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Anos 20 || ????????
DELIUS/LEEMAGE / FOTOBANCO

6 VISÃO H I S T Ó R I A
14 de Julho
Bailarico em em plena
rua, junto da esplanada
de um bistrot parisiense,
comemorando a festa
nacional francesa. Nesta
foto não datada com rigor,
mas seguramente de
meados dos anos 20, é de
notar a atenção com que
um público predominante-
mente masculino segue as
evoluções das duas jovens
que formam o par central
da imagem

VISÃO H I S T Ó R I A 7
Anos 20 || ????????

Josephine Baker
Natural de St. Louis, no
estado norte-americano do
Missouri, foi nos palcos de
variedades de Paris que,
a partir de 1925, a «Vénus
Negra» triunfou, vindo a
tornar-se fulgurantemente
num dos ícones estilísticos da
década. Conhecida também
como «Pérola Negra» e a
«Deusa Crioula», a cantora
e dançarina era considerada
pelo escritor Ernest
Hemingway «a mulher mais
bela do mundo». Adotaria
12 órfãos de várias etnias e
viria atuar por diversas vezes
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em Portugal

8 VISÃO H I S T Ó R I A
Louise Brooks
Imagem icónica do tipo de
beleza feminina dos Anos
20, foi uma das grandes
vedeta do cinema mudo e
inspiradora de arrebatadas
paixões. Acerca dela disse um
dia, já na década de 50, Henri
Langlois, o célebre «pai» da
Cinemateca de Paris: «Não
existe Garbo. Não existe
Dietrich. Existe apenas Louise
Brooks.» Viria a ser cultuada
noutras artes, entre as quais
a banda desenhada, quer
como interveniente na série
Corto Maltese, de Hugo Pratt,
quer através da personagem
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de Valentina, de Guido Crepax

VISÃO H I S T Ó R I A 9
Anos 20 || ????????

Lisboa ‘à la page’
Organizado pela revista
Voga no salão da Sociedade
Nacional de Belas Artes, na
capital portuguesa, o I Salão
de Outono da Elegância
Feminina & Artes Decorativas
foi, durante os vinte dias
em que esteve patente ao
público, um dos principais
acontecimentos da saison
de 1928. No primeiro plano, a
artista de variedades Natacha

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VISÃO H I S T Ó R I A
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ESTÚDIOS NOVAIS/BIBLIOTECA DE ARTE DA FUNDAÇÃO GULBENKIAN
Anos 20 || Cronologia

A década louca 1

1920 EUA termina abruptamente a política


internacionalista do seu antecessor, o
• Nove anos depois da instauração da
República Chinesa, e em clima de gran-
JAN Entra em vigor nos EUA a Lei da democrático Woodrow Wilson, grande de turbulência militar, Mao Tsé-Tung
Proibição («Lei Seca»), que impede em mentor da Sociedade das Nações (SdN); funda, em Xangai, o Partido Comunista
todo o território nacional a produ- os EUA encerram-se no isolacionismo, da China
ção, a importação, o transporte alheiam-se totalmente dos proble-
e a venda de quaisquer bebi- mas europeus (atitude que manterão AGO O explorador polar
das alcoólicas; a medida está durante mais de duas décadas) e nem norueguês Fritzjof Nansen
na origem de grande parte sequer aderem à SdN, cuja primeira funda um comité de ajuda aos
do crime organizado que assembleia-geral tem lugar este mês, refugiados, inicialmente
caracterizará toda a década na cidade suíça de Genebra, escolhida dirigido para o auxílio
nos EUA, com destaque para para sede aos «russos brancos»,
a figura do gangster Al Capone considerados «apátridas»
1921 pelo novo governo de
MAR Na Índia Britânica, um ano depois Moscovo
do massacre de Amritstar, em que MAR Para combater • Ao longo de meses, e
centenas de civis foram abatidos pelo a escassez de alimen- quatro anos depois da
exército, o líder nacionalista Mohandas tos em clima de guer- Revolução bolchevista,
Gandhi, mais conhecido por Mahatma ra civil e de agres- a Rússia lambe as
(«Grande Alma») Gandhi, é condenado a são internacional, feridas mas o executivo
seis meses de prisão e lança o Movimen- Vladimir Lenine põe revolucionário

1920 1921
to (pacifista) de Não-Cooperação com em marcha, na Rússia, a Nova Política consegue pôr termo à guerra civil
as autoridades coloniais Económica (NEP), que contempla alguns entre «vermelhos» e «brancos», bem
elementos da economia de mercado como vencer e anexar, em conflitos
ABR Pelo Tratado de Rapallo, a Alema- separados, a Polónia, a Ucrânia, a
nha derrotada na Grande Guerra (1914- MAI A Alemanha (transformada em 1919 Arménia e a Geórgia (aliás, partes do
-1918) e a nova Rússia soviética atacada em República embora mantendo antigo império czarista)
pelas potências ocidentais (a revolução a designação oficial de Deutsche Reich)
bolchevique triunfara em 1917) com- compromete-se a pagar 132 mil milhões OUT Num
prometem-se a colaborar, sobretudo no de marcos de indemnizações de guerra clima de insta-
campo militar; no futuro, os alemães, às potências vencedoras; avultados bilidade política
embora fortemente desmilitarizados empréstimos americanos e britânicos galopante,
por imposição do Tratado de Versalhes, agravarão ainda mais a situação interna, em Lisboa, na
farão exercícios de blindados na região favorecendo os extremismos «Noite San-
de Kazan grenta», são
JUN Começa a disputar-se o Cam- assassinados
MAI-NOV As Repúblicas Democráticas peonato de Portugal de Futebol, um em circunstân-
do Azerbaijão e da Arménia, criadas em antepassado do Campeonato Nacional cias nunca bem
1918 após a queda do império czarista e e da atual I Liga, então disputado por eli- esclarecidas,
que desde então se encontravam minatórias; o vencedor será o FC Porto entre outros,
em guerra entre si, são invadida o primeiro-mi-
pelo Exército Vermelho soviético; JUL Adolf Hitler nistro António
a Arménia saíra de um conflito assume a liderança Granjo, e os re-
armado com o Império Otomano do pequeno Partido publicanos históricos Machado Santos
Nacional-Socialista e Carlos da Maia
JUN Termina a Revolução dos Trabalhadores • Em Portugal, publica-se o primeiro
Mexicana, na verdade uma san- Alemães (NSDAP), número da revista
grenta guerra civil que durava fundado por Anton republicana de
desde 1910 e que nascera da Drexler e mais esquerda Seara Nova
rebelião contra a longa ditadura conhecido por
de Porfírio Díaz, e em que se Partido Nazi; a DEZ Albert Einstein
destacaram como líderes da hiperinflação irá recebe o Prémio
causa popular Emiliano depois propor- Nobel
Zapata e Pancho Villa cionar terreno da Física, pela
fértil ao seu descoberta
NOV Com a eleição do republicano desenvolvi- do efeito
Warren Harding para Presidente dos mento fotoelétrico

12 V I S Ã O H I S T Ó R I A
1. Assinatura do Tratado
Naval de Washington
2. Descoberta do túmulo
do faraó Tutank-Amon
3. Mahatma Ghandhi dando
uma entrevista 4. Uma
parada militar na Praça
2 3 4 Vermelha, em Moscovo

1922 «camisas negras», a Marcha sobre Roma


e toma o poder em Itália, com a cober-
MAR Começa a
publicar-se, nos
JAN Com a morte de Bento XV, é eleito tura do rei Vítor Manuel III; o figurino por EUA, a revista
papa o cardeal Achille Ratti, com o nome ele criado servirá de modelo a todos os semanal Time,
de Pio XI (ambos italianos); permanece- estados fascistas diferente das
rá na cadeira de S. Pedro até 1939 e será • No mesmo mês termina a Guerra «ilustrações» até
o primeiro chefe de Estado do Vaticano Greco-Turca, que durava desde 1920, então existentes
perdendo a Grécia as ilusões de e modelo dos
FEV O Tratado Naval de Washington, estender as suas fronteiras ao interior modernos
ratificado por EUA, Inglaterra, França, da Anatólia newsmagazines
Itália e Japão, estabelece limites à tone- • Em Portugal, Manuel Teixeira Gomes
lagem dos navios de guerra, numa tenta- toma posse como Presidente da JUN O primeiro-ministro búlgaro Alexan-
tiva de evitar uma corrida armamentista República der Stamboliysky é derrubado num golpe
semelhante à que precedera o conflito militar e fuzilado; fizera o país aderir à
de 1914-1918 NOV Com a destituição do sultão SdN, defendia uma reforma agrária e já
Mehmed VI, o Império Otomano antes da Grande Guerra se opunha ao
MAR O Egito deixa de ser oficialmente é abolido e substituído pela alinhamento com os Impérios Centrais
um protetorado da Grã-Bretanha e o ocidentalizada República da Turquia,
ex-sultão Fuad I recebe o título de rei, provisoriamente governada pela Grande AGO Com a morte de Harding, sucede-
mas os ingleses continuam a controlar Assembleia Nacional de Ankara, sob a -lhe na Presidência dos EUA o até
militarmente o canal de Suez liderança de Mustafá Kemal, conhecido

1922 1923
JUN Principia a guerra civil na Irlanda, por Atatürk («Pai dos então vice-presidente Calvin Coolidge,
submetida à Grã-Bretanha desde o início Turcos») que prossegue uma política exterior
do séc. XIX, que levará à criação de um • É descoberto no semelhante
Estado Livre Irlandês (República da Vale dos Reis, por
Irlanda a partir de 1949) e, concomitan- Howard Carter, o SET Em Espanha, com a cobertura do
temente, de uma Irlanda do Norte ligada túmulo intacto rei Afonso XIII, o general Miguel Primo
a Londres do faraó egípcio de Rivera comanda um golpe, suspende
Tutank-Amon, a Constituição de 1876, instaura uma
SET O irlandês James Joyce publica em um das mais ditadura governada por um Diretório
Paris, pela mão da americana expatria- mediáticos Militar e funda o partido único Unión
da Syvia Beach, fundadora da livraria achados Patriotica
Shakespeare and Company, o romance arqueológicos de
modernista Ulysses, que revoluciona a sempre OUT Atatürk
literatura torna-se o
DEZ É fundada a União das Repúblicas primeiro
Socialistas Soviéticas (URSS), através Presidente da
da união inicial das repúblicas soviéticas República da
da Rússia, da Ucrânia, da Bielorrússia e Turquia e a
da Transcaucásia capital passa
de Istambul para
Ankara
1923
JAN Contrariando o ponto de vista da NOV Falha o «Putsch da Cervejaria»,
Inglaterra e dos EUA, a França, secun- uma tentativa de tomada de
dada pela Bélgica, ocupa militarmente poder na Alemanha pelos nazis;
a bacia do Ruhr, como retaliação à Hitler é condenado a uma pena de
Alemanha pelo não pagamento das re- prisão de cinco anos, mas cumprirá
parações de guerra segundo as normas apenas um, durante o qual escreverá
impostas; na Alemanha, mergulhada na o seu famoso livro Mein Kampf
hiperinflação, é criado, como moeda de (O Meu Combate)
transição, o Rentenmark, que permite
retirar 12 zeros ao marco corrente; no DEZ O primeiro tubo eletrónico de
ano seguinte surgirá o Reichsmark, televisão é patenteado pelo físico
OUT O ex-socialista Benito Mussolini, que circulará juntamente com o Ren- Vladimir K. Zworkyin, nascido na Rússia
fundador dos Fasci Italiani di Comba- tenmark até ao imediato pós-II Guerra mas radicado nos EUA na sequência da
ttimento, conduz, à frente dos seus Mundial revolução soviética

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Anos 20 || Cronologia

1 2

1924 1925 NOV Abre, em Paris, a primeira Exposi-


ção Surrealista
JAN A morte de Lenine, que assumira JAN Mussolini
um papel de liderança na Rússia desde proíbe os partidos de DEZ Bernardino Machado, do Partido
a revolução, desencadeia uma luta sem oposição em Itália; Democrático, é eleito pela segunda vez
quartel pelo poder entre Trotsky e Es- ao longo do ano irá (não consecutiva) Presidente da Repú-
taline no interior do Partido Comunista assumindo poderes blica Portuguesa
e do aparelho do Estado, confronto que ditatoriais, criando uma polícia política • Na Pérsia (futuro Irão), quatro anos
só terminará 16 anos depois, com o e adotando o título de «presidente depois do golpe de estado em que
assassínio do primeiro do Conselho de Ministros» em vez tomara o poder, o general Reza Pahlavi
• No mesmo mês, Ramsay MacDonald do «chefe do Governo» (no que será faz-se coroar Xá (rei) e funda a
passa a chefiar o primeiro Governo tra- mais tarde copiado por Salazar, em dinastia Pahlavi
balhista da História da Grã-Bretanha Portugal). • Em Portugal, o jornal O Sé-
• No mesmo mês, o engenheiro escocês culo revela a grande burla de
FEV O compositor John Logie Bird apresenta publicamente Alves dos Reis, que pusera
americano George o primeiro sistema de televisão a cores em circulação 200 mil notas
Gershwin apresen- falsas de 500 escudos fraudu-
ta, em Nova Iorque, ABR Abre em Paris a Exposition In- lentamente encomendadas
a sua famosa ternationale des Arts Décoratifs, que à própria firma britânica
Rapsody in Blue transmitirá ao mundo o gosto pelo estilo que as produzia
Art Déco

1924 1925 1926


MAR Nos EUA, Edgar Hoover assume
• Scott Fitzgerald publica o romance O 1926
Grande Gatsby, que fixará o retrato das
a direção do Bureau of Investigation, classes abastadas nos Roaring Twenties, MAI Eclode em Portugal o movimento
antecessor do FBI, que fundará em ou «Loucos Anos 20» militar de «28 de Maio», que derruba
1935 e que dirigirá com plenos poderes a I República e conduzirá à instauração
até à sua morte, em 1972 da Ditadura Militar e, a longo prazo,
JUL Adolf Hitler publica
o primeiro volume de do Estado Novo salazarista (a partir
MAI Nos EUA é aprovada uma lei que de 1933)
limita o número de candidatos a imigran- Mein Kampf, escrito na
prisão; o segundo surgi- • No mesmo mês, o marechal Pilsudsky
tes provenientes da Ásia, da América assume-se como ditador da Polónia
Latina e da Europa do Sul; este Immigra- rá no ano seguinte
tion Act só será revogado em 1965 JUL Na China, as tropas
AGO As tropas france-
de Chang Kai-Chek
JUN O Indian Citizenship Act concede sas retiram do Ruhr, por
desencadeiam a
a cidadania dos EUA às populações pressão anglo-ameri-
Campanha do Norte,
nativas, ou ameríndias cana
destinada a combater
os comunistas de Mao
AGO Eclode, na Geórgia, uma mal suce- SET Uma força hispa- Tsé-Tung
dida tentativa de sublevação contra a o no-francesa desem-
Estado soviético barca em Alhucemas, AGO A importa-
no Norte de África, ção e a comer-
SET Começam, a título experimental, desencadeando a fase cialização de drogas são proibidas em
as emissões de rádio em Portugal, por final da guerra do Rif, Portugal
iniciativa de Abílio dos Santos Júnior contra os independentis-
• Também em Portugal, é lançado neste tas berberes liderados por Abd el-Krim SET Oito anos depois do fim da Grande
ano o primeiro volume do Guia de Por- Guerra, a Alemanha é admitida na Socie-
tugal, de Raul Proença OUT Começam as negociações que dade das Nações
conduzirão à assinatura do Tratado
NOV O republicano Calvin de Locarno, pelo qual a Alemanha NOV Através da Declaração Balfour, os
Coolidge, que já estava na prescinde dos direitos à Alsácia e à domínios britânicos obtêm autonomia
Casa Branca, é eleito Presi- Lorena política, embora continuem simbolica-
dente dos EUA • Em Lisboa, o jornal O Século mente sujeitos à Coroa, nascendo assim
denuncia a fraude de Alves dos Reis, a Commonwealth
DEZ Na Turquia, a Grande que encomendara fraudulentamente
Assembleia Nacional aprova aos fabricantes britânicos, em nome DEZ Hirohito ascende ao trono imperial
formalmente a dissolução do Banco de Portugal, uma emissão de do Japão, que ocupará até à morte,
oficial do Califado notas falsas de 500 escudos em 1989

14 V I S Ã O H I S T Ó R I A
1. Exposição das Artes
Decorativas, em Paris
2. Golpe do 28 de Maio
em Portugal 3. Entrega
dos primeiros Oscars de
Hollywood 4. A «Quinta-
-feira Negra» de Wall Street
5. O Dornier X sobrevoando
3 4 5
Nova Iorque

1927 1928 1929


FEV Em Portugal, fracassa, após comba- ABR O parlamento turco vota favora- JAN O escritor alemão Erich Maria Re-
tes no Porto e em Lisboa, um movimento velmente à criação de um Estado laico, marque publica o seu influente romance
revolucionário contra a ditadura sem qualquer referência ao Islão na pacifista A Oeste Nada de Novo
Constituição • Expulso da URSS, Trotsky fixa-se tem-
ABR Após assegurar o controlo de porariamente na Turquia
Xangai, reprimindo violentamente os MAI Em Inglater- • O desenhador belga Hergé
comunistas urbanos, Chang Kai-Chek ra, as mulheres (pseudónimo de Georges
instala um Governo «nacionalista» chi- são equiparadas Rémy) cria a personagem
nês em Nanquim aos homens em de Tintin nas páginas de Le
• Realiza-se a I Volta a Portugal em Bici- termos de lei Petit Vingtième, suplemento
cleta, organizada pelos jornais Diário de eleitoral infantil do diário Le Vingtième
Notícias e Os Sports; o modelo é o então Siècle; a primeira aventura do
já célebre Tour de França JUN As tropas repórter é vivida exatamente
de Chang Kai- na misteriosa URSS
MAI O americano Charles Lindbergh -Chek conquis-
efetua, no seu avião monomotor Spirit tam Pequim, FEV Pelo Tratado de Latrão, a Itália reco-
of St. Louis, o primeiro voo sem escala pondo termo à nhece o Estado do Vaticano, sob a plena
sobre o Atlântico Norte, entre Long Campanha do soberania do Papa
Island (EUA) e Paris Norte da China • No «Massacre do Dia de S. Valentiam»

1927 1928 1929


• A seleção portuguesa de futebol enfrentam-se sangrentamente dois
atinge os quartos-de-final do Torneio gangues na Chicago da «Lei Seca», onde
Olímpico da modalidade, disputado no pontifica Al Capone
âmbito dos JO de Amesterdão; o futebol
arrebata as multidões e transforma-se MAI São atribuídos em Hollywood, pela
no «desporto-rei» primeira vez, os Oscars da Academia de
Ciências e Artes Cinematográficas
AGO Através da assinatura, em Paris,
do Pacto Kellog-Briand (dos nomes JUN Renegociando, em Paris, os termos
do secretário de Estado dos EUA e do do Tratado de Versalhes, assinado em
ministro dos Negócios Estrangeiros 1919, o Plano Young estabelece que a
francês), as principais potências Alemanha poderá pagar as reparações de
AGO Apesar dos protestos internacio- comprometem-se a renunciar à guerra guerra em prestações anuais até 1988;
nais, são executados nos EUA os anar- como instrumento de política nacional o advento do nazismo e a eclosão da II
quistas ítalo-americanos Nicola Sacco Guerra Mundial virão a transformar estas
e Bartolomeo Vanzetti, acusados de um SET O biólogo escocês disposições em letra morta
homicídio que não tinham cometido Alexander Fleming
descobre e efeito OUT O crash da bolsa de Nova Iorque, no
OUT Com a estreia, nos EUA, do pri- bactericida da dia 25 (a famosa «Quinta-Feira Negra» de
meiro filme sonoro – The Jazz Singer (O penicilina, dando início Wall Street), desencadeia uma crise eco-
Cantor de Jazz), de Alan Crossland – o à era dos antibióticos nómica mundial de grandes dimensões,
cinema deixa de ser mudo (que no entanto apenas que marcará o mundo durante a primeira
terão difusão generalizada metade da década seguinte
DEZ No seu XV Congresso, o PC soviéti- depois da II Guerra Mundial)
co aprova a coletivização da agricultura, • Nasce o Rato Mickey, criação de Walt NOV O almirante ame-
lança o primeiro Plano Quinquenal Disney no filme de animação Steamboat ricano Richard E. Byrd
com vista à industrialização e expulsa Willie sobrevoa, pela primeira
Trotsky e os seus partidários «es- vez, o Polo Norte
querdistas», ficando todo o poder NOV • O grande hidroavião
nas mãos de Estaline; Trotsky fica O republicano alemão Dornier Do X
com residência fixa em Alma Ata, Edgar Hoover é parte para uma viagem
no Cazaquistão eleito Presidente inaugural interconti-
• Travam-se violentos combates dos EUA, derrotan- nental e fica retido em
em torno de Xangai, tendo os co- do por larga margem Lisboa durante seis
munistas reconquistado episodica- o democrático Al semanas, por avaria
mente a cidade Smith Luís Almeida Martins

VISÃO H I S T Ó R I A 15
Anos 20 || Introdução

O tempo
das ilusões
Saídos exaustos, em 1918, da absurda e traumática I Guerra Mundial,
os europeus e os norte-americanos mergulharam, na década de 1920, numa
euforia de notório progresso material, consumismo e inconsciência. Foram
os Roaring Twenties, as Années Folles – os «Loucos Anos 20»
por Luís Almeida Martins
UIG / BRIDGEMAN IMAGES/FOTOBANCO

16 V I S Ã O H I S T Ó R I A
VISÃO H I S T Ó R I A 17
Anos 20 || Introdução

E
m 1914, quando os homens ain-
da ostentavam fartos bigodes e
as mulheres usavam espartilho
e saia a rojar o chão, os mais
otimistas – sobretudo em Ingla-
terra – viviam na ilusão de que
a guerra que então principiava
estava destinada a acabar com
todas as guerras. A expressão «the war
to end the war», utilizada pela primeira
vez pelo pensador e pioneiro da ficção
científica moderna H.G. Wells, tornar-se-
-ia um bordão recorrente em discursos e
artigos de jornal. Com o passar dos anos
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e o sanguinário impasse nas trincheiras,


o otimismo cederia depois lugar à iro-
nia, sem que a expressão deixasse de ser funcionaria a prazo como um elemento de Idade de ouro do ténis René Lacoste, o
utilizada ou tenha alguma vez caído no dissolvência interna que se voltaria contra «Crocodilo» para os fãs, disputa um jogo de
esquecimento – até hoje. Mas a verdade é os triunfadores de 1918. pares ao lado de Suzanne Lenglen, em 1925
que, em 1919 e 1920, já ninguém duvidava Na charneira do conflito terminava a
de que outras guerras viriam a caminho Belle Époque, e a rutura do equilíbrio, senvolvendo com frequência nacionalis-
se as grandes potências não fossem capa- fosse ele justo ou injusto, manifestava-se mos por vezes exacerbados e facilmente
zes de chegar a um entendimento capaz em todos os domínios, do político ao eco- dirigidos para soluções políticas de força.
de criar uma ordem nova, sucessora da nómico, passando pelo social. Exigia-se Nasciam as ditaduras de ferro, os regimes
que se esfarrapara no arame farpado e se um prolongado esforço para recuperar militares conducente aos fascismos e essa
esfumara nas explosões dos obuses e no esse equilíbrio perdido, e esse esforço só verdadeiramente excecional e inovadora
crepitar das metralhadoras. daria frutos se as potências vencedoras ocorrência que foi a Revolução Russa, os
trabalhassem em conjunto, o que nem dez dias que abalaram o mundo.
Adeus, ‘Belle Époque’ sempre aconteceu. Os bens de consumo surgiram na dé-
Mas, houvesse ou não receio de que ou- Em 1914 o mundo vivia nume econo- cada de 20, com reflexos mais visíveis no
tras conflagrações de idêntica escala se mia capitalista, com um predomínio cres- setor dos eletrodomésticos, o que repre-
seguissem, é indesmentível que a Grande cente dos detentores dos capitais e uma sentou também a entrada em cena de um
Guerra – mais tarde chamada I Guerra livre concorrência que quase anulava o certo american way of live que se esten-
Mundial – marcou o início de uma nova papel do estado. Esse modelo económico deu a áreas do comportamento como o
era. Foram tais as dimensões do cataclismo mantinha-se, é certo, em 1918, mas com vestuário feminino, o corte de cabelo à
que o mundo dele emergente, sobretudo a diferença de que a Europa perdera a garçonne, a liberalização de algumas prá-
a Europa, passou a viver em permanente hegemonia que lhe dera toda a sua força ticas de relacionamento (ainda que nem
estado de crise e instabilidade. Os grandes no século XIX, e que agora era cada vez sempre consonantes com uma autêntica
impérios que englobavam as nacionalida- mais partilhada com os EUA e o Japão, libertação da mulher), o gosto pela música
des europeias foram levados pelo vento e ao mesmo tempo que países emergentes de jazz (como se chamava a todos os ritmos
os acordos políticos assinados às mesas das como o Brasil e a Argentina ou, sobretu- modernos), a evolução da grande literatura
conversações de paz nem sempre foram os do, os domínios britânicos do Canadá, da para o discurso da consciência, a moda do
mais pragmáticos tendo em vista a pre- Austrália e da África do Sul começavam consumo de aditivos, a entrada do cinema
servação da frágil paz. Nem a Alemanha, a pesar no prato da balança. O salto dos nos hábitos do cidadão comum, o apare-
sujeita a pesadas e humilhantes indem- EUA foi sobretudo notável. Devedores cimento do desporto como espetáculo de
nizações de guerra, estava tão esmagada em 1914, passaram a credores em 1919. massas, os grandes saltos da aviação co-
e anulada como poderia parecer (afinal, Na «Velha Europa», o reforço das bar- mercial. Tudo, enfim, era novo e diferente
era tudo uma questão de tempo) nem os reiras alfandegárias ocorrido durante a nos «Loucos» Anos 20».
vencedores (Inglaterra, França, EUA) fa- guerra permaneceu em tempo de paz,
lavam a uma só voz. Winston Churchill, e cada Estado preocupou-se com o de- ‘Flappers’ e Art Déco
por exemplo, era de opinião que o Império senvolvimento da sua própria indústria, O brilho das lantejoulas, o modelo dos
Austro-Húngaro nunca deveria ter sido criando postos de trabalho e acumulando chapéus em cloche e o rodopio dos colares
desmembrado e defendia que a decisão de reservas de bens para o caso de eclodir das flappers (designação que os america-
transformar a Alemanha numa república outro conflito e, simultaneamente, de- nos deram às mulheres emancipadas cujo

18 V I S Ã O H I S T Ó R I A
GETTY

Fumando na gárgula Operários fazem uma balançada pelo reconhecimento por parte grande escala, as perturbações políticas e
pausa na construção do Chrysler Building, dos governos de que os operários tinham o endurecimento das ditaduras (no caso
símbolo nova-iorquino da Art Déco, iniciada direito a um nível de vida minimamente americano, um simples reforço da inter-
em 1928 sobre o traço de Van Alen
digno, mas esse foi o corolário de uma venção estatal com o New Deal de Franklin
luta laboral, de raiz anarquista e depois D. Roosevelt) foram corolários dessa crise
modelo físico de beleza na tela é a atriz comunista, que nunca deixou de correr que viria a conferir o tom sombrio à década
Louise Brooks) puseram no entanto em em pista própria (até à década de 1990, seguinte, prenunciadora já de uma nova
destaque as desigualdades de um mundo sabemo-lo hoje…). guerra. Filmes de propaganda concebidos
onde se agravara o já de si larguíssimo Por todos estes motivos, a «loucura» dos segundo técnicas requintadas de controlo
fosso entre ricos e pobres. Para preencher Anos 20 era mais uma fuga em frente do das massas e apelativos cartazes de con-
o vácuo provocado pelo quase desapareci- que a celebração efetiva e consciente de um ceção modernista iam, já nos Anos 20,
mento da «sólida» classe média composta triunfo. Paradoxalmente, ou talvez não, o abrindo caminho à instalação de sistemas
pelo funcionalismo que dera o seu charme excesso de produtos manufaturados levou policiais tentaculares que aos poucos mi-
discreto à Belle Époque e cuja estrutura a uma crise de superprodução, ou seja, ao navam os cantos mais recônditos da vida
a Grande Guerra arruinara, surgiu de desemprego e à miséria. A crise bolsista de das nações.
rompante uma classe de novos-ricos que 1929, que rebentou nos EUA e se prolon- Definitivamente, o mundo das Années
acendiam charutos em notas de banco, os- gou na Europa, logo adquiriu as dimensões Folles nada teve já que ver com esse pro-
tentava «cachuchos» com grandes pedras de catástrofe mundial. O desemprego em longamento do século XIX que fora a
preciosas nos dedos das mãos e sustentava Belle Époque, sem no entanto ser ainda
os «caprichos» de mulheres afinal não tão assombrado pela tenebrosa escuridão da
emancipadas como hoje pensamos e elas
próprias se julgavam. O verbo governar,
O mundo dos década de 30.
Na sua luminosidade própria e irreve-
com efeito, continuava a ser conjugado ‘Loucos Anos rente, nos seus contornos retos e geomé-
no masculino, não obstante as brisas de
liberdade que sopravam nos bas-fonds.
20’ nada teve já tricos de Art Déco, no encanto das saias
curtas e dos colares longos, os Roaring
E com o advento dos novos-ricos, o do- que ver com esse Twenties ainda hoje rugem aos nossos ou-
mínio dos «patos-bravos», o poder cres- prolongamento do vidos como a mais inconsequente das mar-
cente da aristocracia do dinheiro foi-se
depreciando o valor do trabalho intelec-
séc. XIX que fora chas guerreiras: o hino a uma paz vivida
com intensidade mas irremediavelmente
tual. É certo que esta tendência foi contra- a ‘Belle Époque’ condenada à perdição.

VISÃO H I S T Ó R I A 19
Anos 20 || População

As grandes
metrópoles
Nova Iorque, Londres e Paris eram as megalópoles, num mundo
ainda decidamente centralizado no Ocidente. A localização de
todas as cidades que contavam mais de um milhão de habitantes
por volta de 1920

BOSTON
CHICAGO
NOVA IORQUE
FILADÉLFIA
LOS ANGELES

N O VA I O R Q U E TÓQUIO FILADÉLFIA

LONDRES BERLIM BUENOS AIRES


RIO DE JANEIRO

BUENOS AIRES

PA R I S CHICAGO OSAKA

FONTE in Growth of the world’s urban and rural population, 1920-1960, United Nations: New York, 1969

20 V I S Ã O H I S T Ó R I A
Mais de Mais de Mais de Mais de Mais de Mais de Mais de Mais de
1 1,5 2 3 4 5 6 7
Milhão Milhões Milhões Milhões Milhões Milhões Milhões Milhões

LONDRES MOSCOVO

BERLIM
PARIS

PEQUIM
OSAKA
TIANJIN TÓQUIO
CAIRO
XANGAI

CALCUTÁ
BOMBAIM

CAIRO PEQUIM BOSTON RIO DE JANEIRO

C A L C U TÁ XANGAI MOSCOVO BOMBAIM LOS ANGELES TIANJIN

FONTE AR/VISÃO

VISÃO H I S T Ó R I A 21
Trabalho || Moda
ESTÚDIOS NOVAIS

22 V I S Ã O H I S T Ó R I A
As mulheres
preferem o
‘chic’ Ao mesmo tempo que cortava
o comprimento do cabelo, a altura das saias
e o tamanho das abas dos chapéus, a moda cortou
também as amarras às mulheres
por Cláudia Lobo
ANTÓNIO NOVAES

Descubra as diferenças Grupo de mulheres


no hipódromo de Lisboa, em 1928, à esquerda
e em cima, uma garden party no Palácio das
Necessidades em 1906: não foi só a roupa que
mudou, foi também a atitude

VISÃO H I S T Ó R I A 23
Trabalho || Moda

A
duas semanas do casa-
mento, a jovem parisiense
Monique Lerbier desco-
briu que o seu noivo, um
industrial que iria ser só-
cio do seu pai, a engana-
va. Estávamos no final da
primeira década do século
XX. Irritada com a hipocrisia da socie-
dade mundana em que vivia, a rapariga
rompeu o noivado e decidiu gozar os
mesmos prazeres da vida de que usu-
fruíam os rapazes. Tornou-se decoradora
e financeiramente independente. Passou
a amar como os homens, livremente.
A sua história chocou a França e o mun-
do – e nem o facto de Monique ser apenas
uma personagem de romance tornou o
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caso menos grave. Pouco depois de o livro


ter sido publicado, em 1922, foi retirada ao
Bocas em forma de Cupido Inventado
seu autor, Victor Margueritte, a comenda em 1915, o bâton retrátil passou a andar
da Legião de Honra. A Comissão de Censu- nas carteiras. E para pintar os lábios
ra francesa proibiu a sua exportação. Mas já usava-se até um molde
não havia nada a fazer: o mundo conhecera
a personagem que se tornaria, até hoje, no
símbolo da libertação da mulher dos Anos entra em força no mercado de trabalho,
20, com o nome «roubado» ao título do descobrindo o mundo que a rodeia fora
romance: La Garçonne. de casa. E quem consegue trabalhar
No mesmo ano, mas do outro lado do como um homem usando saias até aos
Atlântico, seria também através de uma pés, blusas com laços até ao pescoço e
personagem de literatura que chegaria cabelos compridos até à cintura? Con-
a definição da palavra que nos Estados forme os vestidos deixam de ser cinta-
Unidos designava a nova mulher. Zelda dos, as mulheres livram-se do corpete
Fitzgerald, que o seu marido, Scott Fitz- e reinventam a liberdade de um corpo
gerald, incluiria mais tarde em O Grande que agora até já pode esticar a perna na

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Gatsby, explicava numa revista o que era pista de dança. Na proporção inversa ao
a mulher flapper: «A flapper acordou da comprimento dos cabelos, o rosto ma-
sua letargia, cortou o cabelo, escolheu um quilha-se. À medida que as saias sobem O fenómeno ganha força em países
par de brincos, pôs uma grande dose de até ao joelho e descobrem as pernas, as como a Inglaterra, que em 1918 concede
audácia e rouge e entrou na batalha. Ela mulheres descobrem-se sedutoras. Mor- o direito de voto às mulheres com mais
flirta porque é divertido flirtar e usa fato re a mulher vitoriana, definitivamente, de 30 anos (a universalidade do voto fe-
de banho de uma só peça porque tem boa e nasce a mulher moderna. Glamorosa, minino só chegaria dez anos depois), e
figura (…) Tem consciência de que as coisas frívola, coquette. os Estados Unidos, cuja 19ª emenda da
que faz são aquelas que sempre quis fazer. «A necessidade dura da vida lançou Constituição, em 1920, permite às mulhe-
As mães não aprovam que os seus filhos le- a mulher à conquista dos empregos até res irem às urnas. Além disso, a liberdade
vem as flappers a dançar e, sobretudo, não então exclusivos do homem», lê-se num de ação estende-se a outros campos da
aprovam que elas levem os seus corações.» artigo da revista portuguesa ABC de 1926, vida social: fazem desporto como os ho-
intitulado A mulher, rival do homem. mens, guiam como os homens, pilotam
Vão-se os corpetes, vêm os votos «Hoje há mulheres polícias, mulheres aviões como os homens, fumam como os
Garçonnes ou flappers, a nova moda barbeiros, mulheres pedreiros, mulheres homens, dançam como os homens.
não simbolizou apenas uma revolução chauffeurs. E a verdade é que, apesar dos «O progresso e a guerra mataram para
nas roupas – mas nos costumes. Com prognósticos pessimistas dos filósofos de sempre, quer-nos parecer, a deliciosa se-
a falta de mão-de-obra provocada pela calças, elas se desempenham maravilho- paração que distinguia os homens das
I Guerra Mundial (1914-1918), a mulher samente das suas novas profissões.» mulheres», lê-se no mesmo texto da ABC.

24 V I S Ã O H I S T Ó R I A
Estilo Com as pernas à mostra nos
vestidos tubulares, ou tapadas pelas
calças que agora também usam, as
mulheres passam de seduzidas a
sedutoras

de Hollywood. A Maybelline comercia-


liza uma caixa de rimmel com espelho,
instruções, escova e uma fotografia da
atriz dos filmes mudos Mildred Davis.
Fazem-se mais expressivos os olhos gra-
ças ao revirador de pestanas inventado
por William Beldue em 1923.
A invenção do bâton retrátil, em 1915,
torna o vermelho que toda a gente quer
nos lábios transportável na carteira. Pin-
ta-se a boca em forma de coração, tal
como a atriz e dançarina Mae Murray
– e em 1926 Helena Rubinstein lança
até um lápis e um molde em papel que
permitem delinear na perfeição a forma.
Um pouco mais tarde, aparece o eyeliner,
inspirado no interesse que o antigo Egito
desperta depois da descoberta do túmulo
de Tuntakamon.
A cor chega também às mãos graças…
aos automóveis! Ao ver o esmalte usado
nos carros cada vez mais em maior nú-
SCHERL / BRIDGEMAN IMAGES/FOTOBANCO

mero nas ruas de Paris, a jovem Michel-


le Ménard pergunta-se se será possível
criar algo semelhante para as unhas e
fala com Charles Revson, dono da com-
panhia que viria depois a chamar-se Re-
vlon. Nasce assim o verniz para as unhas,
comercializado ainda pela Cutex e pela
Max Factor.
Mas obrigatório mesmo é o rouge
(hoje vulgarmente conhecido por blush),
O aparecimento da maquilhagem aplicado em círculos nas bochechas do
As mulheres fazem tudo como os ho- rosto, de preferência, segundo Coco Cha-
mens, menos, talvez, seduzir. nel, por cima de uma pele bronzeada.
Com a liberdade dos vestidos esvoa- A quantidade usada tinha a ver com a
çantes de cintura baixa, as pernas e os pés forma como se queria ser vista. Afinal
pela primeira vez na história da moda de contas, a palavra flapper tinha duas
a descoberto, os braços à mostra e os Quem consegue origens distintas: referia-se ao movi-
rostos emoldurados pelos chapéus de
feltros colados à cabeça, descobre-se a
trabalhar mento que um pássaro faz quando está
a aprender a voar; e significava também
comunicação não-verbal. como um homem uma mulher imoral.
O cinema influencia os comportamen-
tos, aprende-se a beijar com o que se vê
usando saias Arte e moda
na tela e a usar a maquilhagem como até aos pés, Crescida num orfanato onde aprendeu
as atrizes. E há novas armas de sedu- blusas até ao a costurar, cantora num club ainda
ção: a indústria cosmética, tal como a antes da guerra onde ganhará o pe-
conhecemos hoje, nasceu nos Anos 20,
pescoço e cabelos tit nom pelo qual será conhecida por
graças, também em parte, à indústria até à cintura? todo o mundo, amante de um oficial,

VISÃO H I S T Ó R I A 25
Trabalho || Moda

Glamour Produção de moda para a


revista Vogue, 1929: o corpo liberta-se
também na praia
Coco Chanel é a primeira a desenhar
roupa desportiva para mulher a in-
troduzir no guarda-roupa feminino
peças de jersey, tecido até aí exclusivo
da roupa de homem. Amiga de figu-
ras como Picasso, Braque e Stravinsky
(foi ela quem desenhou os figurinos de
A Sagração da Primavera), o seu tra-
balho é o espelho de como a moda se
cruzou com todas as artes, nomeada-
mente a pintura, o bailado e o cinema.
Chanel, que abrirá a sua loja de Paris
em 1919 (no mesmo local onde ainda
hoje existe, Rue Cambron, 21), é, junta-
mente com Jean Patou, Jeanne Lanvin Legenda Odio iusam nus, cupis
e a italiana Elsa Schiaparelli, uma das apicide lestem nosam volupta pa
mais influentes figuras da moda, cujo
ciclo de produção industrial (ou seja, a
ideia de coleções relacionadas com as
estações) fica estabelecido nesta altu-
ra. A roupa de ténis de Jean Lanvin, o
criador do primeiro bronzeador solar,
ajuda a moldar a silhueta tubular que se
viria a impor de forma massiva a partir
de 1925. Em 1926, ano em que Cha-
nel lança o seu famoso ‘pequeno ves-
tido preto’ – brilhante e esvoaçante –,
Schiaparelli, amiga de surrealistas
como Salvador Dalí, cria camisolas

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com efeitos trompe l’oeil.

‘Lesbian chic’ revista ABC em 1927, num artigo sobre


A nova silhueta feminina gera impactos duas versões daquela peça de vestuário.
laterais: agora que as mulheres não se «A excentricidade dos modelos exige a
querem tão curvilíneas, a gordura dei- expressão garota da figura juvenil que a
xa de ser formosura e surgem os trata- veste, parecendo desafiar a censura e a
mentos contra o peso, ministrados nos crítica com o seu bonito olhar cheio de
mesmos locais onde se aplicam máscaras malícia e intenção. Apesar do trajo, ape-
de rosto. Desaparece o corpete e surgem sar dessa toilette de atitude masculina,
novas peças de lingerie, nomeadamen- apesar do penteado, toda a travessura
te soutiens que, em vez de realçarem endiabrada do seu sorriso de mulher
o peito, o apertam de forma a não ter ficou feminina!»
volume. O look andrógino ganha adep- Andrógina, sim, mas coquette, gla-
tos – afinal, a garçonne Monique amava morosa e sedutora. Ou, na palavra que
Chanel nº5 Em 1921, homens e mulheres, indistintamente. As a escritora americana Anita Loos ajuda-
Coco convidou os mulheres até vestem calças, imagine-se ria a popularizar com o seu romance de
amigos para um jantar – e, pior, cometem a audácia de usar tom humorístico Os Homens Preferem
e borrifou-os com a
smoking, moda vinda de Inglaterra, e as Loiras, o segundo livro mais vendido
fragrância. Queria que
o perfume fosse uma pijama. «O pijama é das toilettes femi- em 1926 nos EUA (e que nós depois re-
surpresa ninas a mais discutida, pela sua atitude cordaremos através de Marilyn Monroe):
masculina», ficam a saber as leitoras da chic.

26 V I S Ã O H I S T Ó R I A
VESTIDOS SAPATOS
A cintura descaída muda Até aí dentro de botas, os pés das mulheres
a silhueta da mulher, e o também deixam de estar escondidos. Com
corpete é substituído pelo uma tira passando pelo peito do pé, os
soutien. As saias sobem sapatos dos Anos 20 são «todo-o-terreno»,
até abaixo do joelho, pois tanto servem para o passeio matinal
mostrando, pela primeira como para o chá das 5 ou para ir ao dancing.
vez, as pernas. Com Varia a pele e a cor – «mas a mulher prática
vestidos de linha tubular e e económica foge sempre dos exibicionismo
de saia curta, pode esticar- espetáculos que denotam originalidade e
-se a perna ao dançar o ostentação, aproveitando a moda no aspeto
charleston. A liberdade de geral, compatível com os seus meios de
movimentos é enorme. fortuna e apropriada à moderna exigência,
sem desmedida ambição de ficar em foco»,
lê-se na revista ABC.

MEIAS
A produção industrial de
seda artificial, conhecida
como rayon, popularizou
as meias transparentes
(que podiam ter padrões
Art Déco). As flappers
usavam-nas não com ligas,
mas enroladas na zona do
joelho. Como o rayon era
muito brilhante, havia quem
pusesse pó nas pernas para
BIJUTERIA ficarem menos lustrosas.
Longos colares de pérolas,
para abanarem com o
corpo ao som da música;
muitas pulseiras e brincos
compridos.

CHAPÉUS
Desaparecem as capelines e os
chapéus com grandes abas e aparecem
os cloches, colados à cabeça, que
emolduram e fazem realçar o rosto. Há
vários modelos diferentes. Claro que só
os pode usar quem tem o cabelo curto.

CAPAS
De dia usam-se usa-se
manteaux (a palavra «casacos»
nunca é usada em Portugal)
com o traje de passeio; à noite,
para as festas, é obrigatória a
capa, debruada a veludo ou a
pele de animal. Prende-se com
as mãos, enrugando-a,
e é perfeita para dançar.

VISÃO H I S T Ó R I A 27
Anos 20 || Cinema

Os Anos Loucos mundo, as coisas e as pessoas do mundo.


Numa tela aparecia o espelho, a cópia, mas

tinham filmes também a re-criação do mundo. O poder


inventivo do homem roçava o ombro pelo
poder criador de Deus. A omnisciente

nos olhos potestade criara o mundo em sete dias,


agora o ardiloso homem criava paraísos
à velocidade de 24 imagens por segundo.
Embora já existente há duas décadas, arte e a linguagem
A ágil língua americana do cinema
das salas escuras atingiram a maturidade nos Anos 20 Saltemos, à mesma velocidade, vinte anos.
por Manuel S. Fonseca Estamos em 1920 e o cinema é cada vez

M
mais uma indústria, a ganhar, desde 1915,
eteu-se pelos olhos ociden- O cinema chegara, hesitante, no virar as conspícuas cores da arte. Um americano,
tais dentro e o olho do mundo do século. Ainda começou por ser coisa D. W. Griffith, agarra a epopeia pela gar-
nunca mais foi o mesmo. Há de voyeur, caixa de imagens numa colu- ganta e arrasta-a para dentro de um filme,
uma imagem de Un Chien nazinha para dentro da qual o espectador Birth of a Nation, fixando os princípios da
Andalou que resume exem- solitário espreitava por um óculo. Era a linguagem cinematográfica – plano, se-
plarmente tudo: dois dedos visão peeping tom de Thomas Edison, quência, montagem paralela –, habilitando
abrem bem as pálpebras do olho de uma americano arrivista, a fingir que nada sa- o filme a transformar-se na mais popular
mulher, uma mão segura uma navalha de bia da projeção em sala, convivial e france- e legível forma narrativa do século XX.
barbear. No plano seguinte, uma apres- sa, que os irmãos Lumière inauguraram, a E o primeiro filme de 1920 que escolho
sada nuvem passa pela gloriosa lua cheia, 28 de dezembro de 1895, no salão indiano é mesmo desse Griffith, desse americano
roubando-lhe luz, recortando-a de sinis- do Grand Café do hotel Scribe, no nº 14 que inventou o suspense cinematográfico,
tras sombras. Novo corte, novo plano, e do Boulevard des Capucines, em Paris. pondo a correr na tela duas ações para-
já vemos, num raccord arrepiante com a Nascia a inconfessável sala escura. Es- lelas e obrigando o rabo do espectador
nuvem lunar, a lâmina dilacerar impiedo- tavam lá 33 espectadores e o que viram a saltar na cadeira, ao mostrar primeiro
samente o globo ocular da mulher. Esse deixou-os em estupor e transe. Numa tela, a imagem de uma desprotegida heroína
plano cru e sangrento, que os espanhóis reproduzia-se o mundo e a luz do mundo, em fuga e na imagem seguinte um mons-
Luis Buñuel e Salvador Dalí conceberam o mundo e o movimento do mundo, o truoso perseguidor, o que cria no nosso
nas suas artísticas e retorcidas mentes espírito o temor de que a besta esteja cada
de 1928, é a melhor metáfora para o que vez mais perto de trucidar o anjo.
o cinema dos anos 20 fez aos olhos do Way Down East leva a fórmula melo-
mundo e do Ocidente em particular. Ras- dramática de Griffith ao sublime. Lilian
gou-lhes a inocência. Gish, figurinha tremente e frágil em que o
O mundo vinha de uma Grande Guer- corpo de mulher é só pura inocência, apai-
ra. Na Rússia, a revolução bolchevique xonou-se pelo filho do patrão e ele, como
criara a União das Repúblicas Socialistas todos nós, por ela. Amor indesejado que
Soviéticas, enquanto a Alemanha passava o patrão não aceita, expulsando-a da sua
pelo agónico esplendor da República de quinta, no meio de uma tempestade de
Weimar, em cujas catacumbas já o rato neve e fim do mundo. O amado, mal des-
nazi se alimentava do lixo que para lá cobre, parte para a salvar, lançando-se a
caísse. Uma vontade de crescer e mu- O plano de Luis Buñuel um rio que o monstruoso inverno encheu
dar bombeava o coração de um mundo e Salvador Dalí em de perigos e armadilhas, de gigantescos
a florir em contrários: eram os Roaring
Twenties, potentes na sua mecanização,
Un Chien Andalou blocos de gelo em convulsão, levados pela
loucura paroxística dos rápidos. Chega-
na explosão do automóvel, rádio, aviões, é a melhor metáfora rá o amado a salvar a coisinha amada?
eletricidade, telefone, crescimento das
bolsas, exponencial concentração urbana.
para o que o cinema É uma sequência pasmosa, tão épica
como a primeira estrofe de Os Lusíadas,
E essas cidades apocalípticas tinham o dos Anos 20 fez tão lírica como um soneto de alma gentil.
que estavam mesmo a pedir: a esfuziante aos olhos do mundo. O cinema americano, nesse começo dos
e sexualizada disseminação do espetáculo anos 20, instalara já as bases do que, de-
popular, da música e da dança, do teatro,
Rasgou-lhes pois, viria a ser a sua matriz hegemónica:
do café e do cabaret. a inocência empresas cinematográficas sólidas, a figura

28 V I S Ã O H I S T Ó R I A
Greta Garbo A atriz
sueca que triunfou em
Hollywood numa foto
promocional do filme
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O Beijo, de 1929

VISÃO H I S T Ó R I A 29
Anos 20 || Cinema

do produtor dinâmico e investidor, os ta-


lentos do realizador, que Griffith define e
consagra como protagonista criativo do
filme. O cinema americano complementa
tudo isso com a invenção do ator-ídolo.
Um produtor, imigrante húngaro-judeu,
Adolph Zukor, tirou da sua inocência
empreendedora um rosto e um corpo, os
de Mary Pickford, e fez dela «a noiva da
América». E fez-se a star.
Ao heroísmo, à identificação do espec-
tador com os nobres valores da beleza e do
sonho que a star representa, o cinema ame-
ricano acrescentou o riso, a anárquica ação
burlesca. Arrisco dizer que o mundo nunca
tinha rido tanto e tão bem. Sobretudo nun-
ca o mundo inteiro tinha rido ao mesmo
tempo. Dois atores obsessivos, Charlie Cha-
plin e Buster Keaton, conferem ao riso a
ingenuidade e a iniquidade, a inteligência
e a irreverência que seduziriam mesmo as
mais transgressoras vanguardas da arte e
do pensamento europeus. Chaplin e Kea-
ton, Charlot e Pamplinas, foram cantados e
reverenciados pelos surrealistas, claro, mas
sobretudo pelo imenso povo a que damos
o singular nome de humanidade.
Estética O expressionismo de O Gabinete
A Alemanha vai à guerra pela do Dr. Caligari, estreado em 1920, marcou o
calada da noite começo de uma época que se estenderia até
E onde é que estava a Europa? Alguma Metropolis, de 1929. À direita: Greta Garbo em
já estava na América e, nesses anos 20, A Lenda de Gosta Berling (1924)
muito mais Europa haveria de emigrar
para a nascente e crescente Hollywood. empresarial, focado no entretenimento.
Mas havia também Europa na Europa Com um produtor «à americana», Erich
BRIDGEMAN IMAGES/FOTOBANCO

e havia mesmo grandes cinematografias Pommer, a UFA transforma-se no maior


europeias. Superando as cinematografias estúdio do mundo, e atinge a produção
escandinavas, exímias na utilização psico- anual de 600 filmes. Nos corredores do
lógica da paisagem nos anos 10, superando estúdio acotovelavam-se stars como Emil
o cinema italiano que nessa década cruzara Jannings e Pola Negri, realizadores como
o vanguardismo futurista com a invenção Ernst Lubitsch, F.W. Murnau, Fritz Lang
do blockbuster, de que foram exemplo Quo e G.W. Pabst.
Vadis e Cabiria, monumentais filmes his- Na memória coletiva, ou pelo menos
tóricos, a Alemanha foi, ao longo dos anos Perdida a Grande na memória dos cinéfilos e historiadores
20, uma cinematografia capaz de disputar
a primazia ao cinema americano.
Guerra, os alemães de cinema, dos filmes alemães que ven-
ceram a barreira do tempo, que aroma
Perdida a I Guerra, os alemães criaram, delinearam, como é que, hoje, deles se evola? Eis o que o
BRIDGEMAN IMAGES/FOTOBANCO

em 1918, um conglomerado de produção,


a UFA, para o qual desenharam uma es-
propaganda nacional, meu nariz tem para vos dizer: cheiram
a fantasmas, cheiram a noite e a medo.
tratégia quase militar de ataque ao merca- uma estratégia É esse o perfume alemão dos anos 20 por
do, fundada num objetivo de propaganda quase militar de oposição ao heroísmo, ao melodrama e ao
nacional. Mas a intervenção de um dos riso, por vezes cruel, dos americanos. Que
principais acionistas, o Deutsche Bank,
ataque ao mercado a vossa pituitária não tema: é um grande
trouxe depressa o estúdio para o modelo cinematográfico cheiro, é um cheiro para a eternidade.

30 V I S Ã O H I S T Ó R I A
Venham e visitem comigo O Gabinete lidade contando-a só com luz e sombras
do Dr. Caligari, filme de Robert Wiene e dando primado às personagens, por
que inaugura essa gloriosa década ale- mais humildes que as personagens fos-
mã. É um filme de feira e hospício, de sem. É esse o caso do velho porteiro de
sonâmbula adivinhação e de loucura. O Último dos Homens, de Murnau, que
Nessa atmosfera de fundo sucedem-se o peso da idade afasta da esplendorosa e
os crimes, tão aleatórios como irracionais, nobre entrada do hotel onde pontificava,
características que reforçam o terror que para o mergulhar em servil limpeza nas
aquelas imagens nos inspiram. Este é um humilhantes latrinas de umas caves sem
terror como nunca se vira, projetado pelo glória. Ao estilo chamou-se Kammerspiel,
cinema, diferente do terror do romance mas essa música de câmara não deixava
gótico, que a literatura inventara no século de ser pessimista, tão pessimista como
XVIII. Começa antes da própria ação do o exuberante expressionismo. Era um
filme, no seu estranhíssimo estilo visual. pessimismo despojado, de uma violência
O mundo que O Gabinete do Dr. Caligari trágica, que submetia as personagens à
oferece não se parece com o nosso mundo. inexorável vontade do destino. Lembro
As casas e as ruas são de uma deformação A Morte Cansada, de Fritz Lang, filme
aterradora e porém bela, se pudermos cha- do alegórico diálogo de uma jovem noiva
mar belo ao que é sinistro e bizarro. São com a Morte. A maiúscula Morte roubou-
casas e ruas geométricas e curvadamente -lhe o amado e só o devolverá à vida se
ameaçadoras, tão curvadas como os retor- a noiva salvar do já certo fim um de três
cidos atores que emprestam, como Conrad seres humanos que, como três trémulas
Veidt empresta, o corpo às personagens. velas, estão em risco de se apagar.
É um prodigioso trabalho de estúdio, uma Falar do grandioso e arrepiante cinema
conceção arquitetónica que nos espeta alemão dos anos 20 é falar do fantasma
oblíquas agulhas de medo, mesmo antes de Nosferatu, do pacto com o diabo do
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de sabermos o que vai acontecer. A rea- Fausto, das sociedades secretas de As Ara-
lização é retrógrada, alguns passos atrás nhas, desse demoníaco e manipulador Dr.
Legenda Odio iusam nus, cupis da agilidade americana desses anos, mas Mabuse que corrompe, destrói e mata.
apicide lestem nosam volupta pa os cenários, puro design em estúdio, ge- São filmes negros, de uma escuridão de
conet volori ut aut aut mil mi
ram os ambientes que tornam ainda mais breu rasgada a raios de desesperada luz.
perturbante a história de um sonâmbulo Os espectadores enchiam as salas para os
a sair de um caixão, a história de crimes verem com um excitado frémito de horror.
inexplicáveis, doutores loucos ou de loucos E o que estavam a ver? A memória do
que chegamos a pensar serem doutores. homérico sofrimento das trincheiras, da
Devemos a Hermann Warm essa ino- carne para canhão, do passado ainda tão
vação. Era um artista ligado à revista recente da I Guerra? Há quem diga que
modernista Der Sturm e trouxe outros viam já o futuro próximo, tanto estes fil-
dois pintores, Walter Reimann e Walter mes parecem antecipar o mal e a barbárie
Röhrig, para o filme. O expressionismo nazis. Mas é sobretudo o presente que os
punha, assim, um pé na história do ci- inspira, esses anos da envenenada Repú-
nema, enchendo Caligari de desenhadas blica de Weimar, da Alemanha de joelhos
sombras e de gráficos augúrios de fatali- no pátio das nações, da maré vergonhosa
dade e dessa desordem física e mental que de desemprego, dos sórdidos bastidores
gera monstros, num forte contraste com políticos em que a violência comunista e
a luz californiana do cândido Grifitth. nazi era um tapete estendido só para ser
calcado pelas botas sujas do caos.
Já estamos a ver os nazis
que aí vêm? Matam-se os arcanjos, riem-se os anjos
Não era o único estilo do cinema alemão. Ia dizer que na América não era assim.
A par desta novíssima intervenção dos Mas há um filme que me desmente. Cha-
decoradores e dos seus dominantes ce- ma-se Greed. E não se sabe muito bem
nários pintados, um outro tipo de filmes, que filme é esse. É do tamanho de uma
quase intimistas, aproximava-se da rea- pirâmide plantada no meio da história do

VISÃO H I S T Ó R I A 31
Anos 20 || Cinema

cinema. Um monumento à rapacidade e 1924, morria Lenine, que tanto defen-


à crueldade humanas. Para quê contar- dera o cinema como a mais importante
-vos a história: o tema é o nauseabundo das artes para a revolução, e um sueco,
dinheiro e mistura-se-lhe ciúme, crime Maurice Stiller, criava Greta Garbo, em
e o Vale da Morte no deserto de Mojave. Gösta Berlings Saga. Depois, um alemão,
E é preciso saber o que se passou com a Pabst, abriu a Garbo, em Berlim, a estrada
produção: Stroheim, o realizador, filmou de sofrimento da Rua sem Sol, que havia
mais de 80 horas de película e montou um de ser a sua sina. O erotismo de Greta
filme de dez horas. Armou-se, entre ele Garbo, que logo a seguir Hollywood rapta,
e o produtor, Irving Thalberg, a mesma é feito de solidão e dor, de um consentido
guerra que entre os arcanjos Gabriel e e procurado masoquismo. Foi a essa be-
Lúcifer, entre a mais megalómana liber- leza macerada que homens e mulheres se
dade artística e a implacável realidade renderam, fiéis, em todo o mundo. Uma
financeira. Os espectadores viram apenas Nossa Senhora de aflição no baixo-ventre.
um filme de duas horas e meia, montado Pode beijar, fumar um cigarro aristocrata,
por Thalberg. Quem ganhou, Gabriel ou reclinar-se em cama lânguida, mas no fim
Lúcifer? No filme, ganha a bestialidade é a imagem dela, solitária, indefinível, que
humana, na talvez única tragédia negra persiste. Greta Garbo, The Temptress,
que o cinema americano fez nos anos 20. Flesh and the Devil ou Divine Woman,
E quem seria esse Stroheim que a fez tão foi só essa pura imagem, como muitos
dantesca e escabrosa? Alguém me desco- místicos gostariam de ser só puro espírito,
bre uma certidão de nascimento dele? sem nunca o terem conseguido.
Não era este o cinema americano dos O tónus erótico do cinema dos anos
anos 20. Cruéis embora, os filmes de Cha- 20 tem mais de uma centena de grandes GETTY
plin e Keaton, inseridos numa tradição de intérpretes, de Rudolfo Valentino, John
burlesco, que já vinha dos anos 10, faziam Gilbert e Douglas Fairbanks a Gloria
Ícones da tela
o mundo rir. Não é que o humor deles não Swanson, Clara Bow, Norma Shearer, Louise Brooks
tivesse gagues de sem dó nem piedade. Ti- Vilma Banky, Asta Nielsen. Mas se des- configurou a
nha. Realizadores e atores, controladores taquei a Garbo, deixem-me reservar uma imagem da mulher
ferozes das obras que fizeram, Chaplin e palavra cheia das mais perversas inten- emancipada dos
Keaton incarnam eles mesmos operários, ções para Louise Brooks. Percebeu-se o anos 20.
À direita: Charlie
delinquentes, fugitivos, em obras-primas que dela podia vir em A Girl in Every Port,
Chaplin na pele
como The Kid e The Gold Rush, ou como de Howard Hawks. Entrava pelos olhos do vagabundo
Sherlock Jr. e The General. Se Chaplin dentro: a beleza dela era de um mundo ‘Charlot’
reinventa um ser humano em que se ca- que ainda estava por nascer. Moderna,
sam a maldade e o lirismo, Keaton rein-
venta o espaço e o que nele é a absurda
ação humana. (Ah, e já chegou a certidão
de nascimento do tal Stroheim. Nasceu
em Viena, no meio da Mitteleuropa, Erich
von Stroheim de seu nome completo. Fala
alemão. Bem me parecia que o negrume
de Greed tinha sotaque.)

Louise Brooks, minha Nossa Senhora


BRIDGEMAN IMAGES/FOTOBANCO

É altura de levantarmos a ponta de outro


lençol. O cinema meteu a humanidade na
cama. O grandíssimo plano – o glorioso e
gigantesco close-up dos mais belos rostos
de homens e mulheres que a humanidade
já vira – nimbado a cendrada luz em telas
de dez metros, estarreceu os espectadores
cativos do escuro das salas e das cadeiras Na sala escura Kathryn McGuire e Buster Keaton
em que se enterravam e dissolviam. Em contracenam no filme mudo Sherlock Jr, de 1924

32 V I S Ã O H I S T Ó R I A
‘O Cantor de Jazz’ A estreia do primeiro filmado no ano em que Hitler publicou filmes de sempre, e Fritz Lang, ainda em
filme sonoro ocorreu em Nova Iorque, no o Mein Kampf, a A Mãe e a Arsenal, os Berlim, assinou o futurístico Metropolis.
Warners Theatre, em outubro de 1927 soviéticos oferecem uma mais-valia ao E, no entanto, apareceu um filme a anun-
capitalista cinema mundial: um conceito ciar, sem nenhuma ponta de exagero, a
um corpo e uma sexualidade seguríssima revolucionário e dinâmico de montagem. morte do mudo. Um filme meio pedestre,
de si – e a deixar, inseguríssimos fosse do A França já tinha Renoir e extasiava-se O Cantor de Jazz, trouxe uma inovação
que fosse, todos os homens sentados na com o megalómano Napoléon, de Abel fatal: pôs um ator, Al Jolson, a cantar e
sala escura. Pabst roubou-a a Hollywood Gance, exibido em três imagens paralelas a falar. Os espectadores ouviram e já não
e fez dela a Lulu de A Boceta de Pandora. e simultâneas. E tinha os vanguardistas, quiseram outra coisa.
Tal como a Garbo, Miss Brooks ficou para como Germaine Dullac, Epstein, Delluc Haverá ainda dois anos de obras-pri-
o resto dos seus dias amarrada à perso- e Man Ray, a quererem fazer um cine- mas do cinema mudo. Escolho, para
nagem de mulher fatal, a essa persona- ma de puras formas, género que Marcel fechar, um filme francês, Passion de
gem de mulher ainda tão jovem, mas de L’Herbier leva ao acúmen no cínico e im- Jeanne d’Arc, do dinamarquês Dreyer,
intrincada psicologia, riquissimamente parável L’Argent, combinação prodigiosa com alguns cenários gigantescos e outros
sexualizada, de êxtase e ruína, de desejo, da montagem soviética com uma narra- miniaturizados, conforme a cena o exigia,
concupiscência e consumação. O rosto e tiva quase sinfónica, que dão uma visão o rosto dos atores, e sobretudo o da tão
os gestos de Lulu dizem o que dizem: ela obscenamente sexualizada do dinheiro. bela Falconetti, convertido em paisagem
quer, ela faz. E revelam que ela sabe que O cinema mudo estava no céu. Em dolorosa, como na cena de martírio em
o quer é complexo e não linear. O que 1927, já em Hollywood, o alemão Mur- que rapa todo o cabelo e chora um inteiro
ela quer é da ordem do quântico, como a nau filmou Sunrise, um dos mais belos vale de lágrimas. Diz-se que, no fim da
física que essa década então desenvolveu. cena, Dreyer veio ao pé dela, recolheu com
um dedo uma das lágrimas, levando-a
Revolução, lágrimas e um beijo aos lábios. Beijava nessa lágrima a última
Os anos 20 viram nascer o cinema revo- Os espectadores lágrima do cinema mudo.
lucionário soviético, de que Eisenstein, ouviram O Cantor
Dziga Vertov, Pudovkine e Dovjenko são
os expoentes. À extraordinária beleza de
de Jazz e já não Manuel S. Fonseca foi programador
da Cinemateca Portuguesa e é colunista
alguns filmes, de O Couraçado Potemkine, quiseram outra coisa de cinema

VISÃO H I S T Ó R I A 33
A primeira Mas o grande destaque da década nos
concursos de beleza ocorre em 1927.

Miss Portugal
Nesse ano organiza-se em Galveston, no
Texas, a eleição da primeira Miss Univer-
so. O comité americano contacta países
potencialmente interessados. Portugal
Chamava-se Margarida Bastos Ferreira confirma de imediato o convite e prepa-
e representou o País em 1927 no concurso de Miss Universo, ra a eleição de uma Miss Portugal que
em Galveston, no Texas. O júri americano não lhe deu possa representar o País. Entre março
e junho desse ano o País para e une-se
o prémio a que muitos a julgavam com direito
num entusiasmo coletivo de colossal pro-
por Liliana Lopes Monteiro porção. Desde o povo aos intelectuais e

F
aos artistas, dos estudantes aos políticos,
oi em 8 de setembro de 1921, todos acreditam numa vitória nacional.
em Atlantic City, Nova Jérsia,
EUA, que foi eleita a primeira Miss Portugal, um dever patriótico
Miss América. Mais do que uma «É necessário que as mulheres bonitas
celebração da beleza americana, da nossa terra se apresentem para a se-
o concurso, realizado na semana dutora e patriótica viagem à América do
do feriado do Labor Day, pretendia atrair Norte», lê-se no Diário de Notícias de 16
turistas e prolongar a sua estada. de março de 1927.
A celebração da beleza não era assunto O jornal apela assim às portuguesas
novo ou desconhecido dos portugueses. para que participem no primeiro concur-
Paris já elegia as suas «rainhas». Nesse so de Miss Portugal. Publica na primeira
mesmo ano, o Diário de Notícias promo- página o telegrama proveniente de Gal-
via uma iniciativa que pretendia encon- veston convidando o diário a encontrar a
trar a mulher mais bonita de Portugal. mais bela do País, que iria competir pelo
Um dos redatores do jornal viajara pelo título de «mais bela do mundo». O apelo
País munido de uma objetiva da Portu- é lançado a todas as jovens solteiras entre
galia-Film, preparado para retratar as os 16 e os 25 anos, convidadas a enviar
mais belas. os seus retratos para a sede do Diário de
Quatro anos mais tarde, é eleita a pri- Notícias. As concorrentes selecionadas
meira Miss Lisboa na Festa dos Mercados, «Cabelos negros serão convidadas a comparecer na se-
um concurso organizado pelo Diário de
Lisboa no qual as estrelas são as mais bo-
cortados. Escultural. gunda eliminatória, na capital.
Os apelos são constantes e diários,
nitas vendedeiras da cidade. Ilda Fernan- Distinta.» Assim sempre na primeira página, geralmente
des, da Praça da Figueira, foi a vencedora, descrevia o DN acompanhados por um dos muitos re-
coroada na Câmara Municipal perante a tratos já recebidos. «É preciso honrar
euforia do povo que a aguardava à porta
Margarida Bastos Portugal. Vencer, no mundo, pela Beleza,
e a aclamava. Ferreira é a maior vitória», titula-se.

34 V I S Ã O H I S T Ó R I A
Galveston Na apresentação das
concorrentes em fato de banho, Margarida
é a 9.ª a contar da direita. À esquerda:
Uma multidão aguardava-a na estação
portuense de São Bento, quando ia a
caminho de Vigo para embarcar no Niagara

condições de comparecer no concurso»


deverá comparecer no dia da final, «ainda
para possível admissão».
Na Praça do Município, uma hora antes
do concurso, juntava-se uma multidão
que a polícia e a GNR mal conseguiam
conter e ali permaneceu ao sol durante
mais de quatro horas.
À sua chegada de automóvel, as con-
correntes eram cercadas e interpeladas
pelos transeuntes. E é assim que no Salão
Nobre dos Paços do Concelho se reúnem
O júri da primeira eliminatória é com- Saiba que... 21 das 23 candidatas escolhidas original-
posto pelo escritor Júlio Dantas, o pintor • Depois da eleição de Margarida
mente (uma do Porto e outra da Figueira
Columbano Bordalo Pinheiro, o professor Bastos Ferreira compôs-se um da Foz desistem) e mais 11, selecionadas
de Educação Física Carlos Gonçalves, fado em sua honra, com música apenas horas antes.
o aguarelista Alberto Sousa, o escultor de Ruy Coelho e letra de Rocha Inicialmente todas as concorrentes
Francisco Santos, o arquiteto Raul Lino e Júnior (com quem se casaria) compareceram na Sala dos Engenheiros,
o chefe de redação do DN, Rocha Júnior, • Margarida teve patrocínios a sala do júri, e depois apresentaram-se
que examinam mais de 500 retratos. São e presentes de empresas uma a uma. No final só restaram três, que
escolhidas as 23 mais belas, mas não se portuguesas e foi a estrela de o DN salientou na altura serem também
campanhas de publicidade (Per-
divulgam nomes, apenas as iniciais e a as favoritas do público. Margarida Bastos
fumes Nally, Armazéns Azevedo
origem de cada uma, nomeadamente de Tecidos) Ferreira, de 20 anos, da Amadora, seria
Ílhavo, Aveiro, Lisboa, Amadora, Santa a vencedora, enquanto Virgínia Lima e
• Não usou maquilhagem em
Comba Dão, Figueira da Foz, Viana do Maria Emília Casanova Ferreira, ambas
nenhuma das competições
Castelo, Porto e Açores. de 19 anos e de Lisboa, ocuparam o 2º e o
A campanha continua até aos dias que • A Miss Universo, Dorothy Bri- 3º lugares. Finalizada a eleição, a emoção
thon, assinou um contrato cine-
antecedem a final, sucedendo-se as entre- invade as ruas, enquanto Margarida des-
matográfico de 250 mil dólares
vistas às selecionadas e os testemunhos anuais e recebeu um prémio de fila no varandim do Salão Nobre, perante
dos entusiastas do concurso. 2 mil dólares palmas, acenos, ovações, e a agitação das
São tantas as jovens que após a pri- capas negras dos estudantes.
• Em 1929 realizaram-se nos
meira eliminatória continuam a enviar EUA dois concursos de beleza «Mulher portuguesa em todos os seus
os seus retratos que o jornal anuncia que para homens, com júris unica- detalhes. Cabelos negros cortados. Es-
«qualquer rapariga que se julgue nas mente femininos. cultural. Distinta», é assim que o DN de

VISÃO H I S T Ó R I A 35
Anos 20 || ????????

Belezas portuguesas Os atrativos das laram no Boulevard Seawall em traje de não se entender não ter obtido qualquer
concorrentes a Miss Portugal colocaram desporto, traje de passeio, fato-de-banho qualificação. Ferro criticava a preferência
o júri perante o embaraço da escolha e vestido de baile. A Miss América e Miss do júri pelas concorrentes americanas.
(páginas da revista ABC)
Nova Iorque, Dorothy Brithon, foi eleita A própria Margarida confessou que, ape-
Miss Universo. Nos segundos e terceiros sar da insegurança inicial, no segundo dia
31 de março descreve a vencedora. Co- lugares ficaram a Miss Florida e a Miss Lu- das provas era tal o clamor da multidão
meça a jornada seguinte. Dias depois, xemburgo. No DN, o enviado especial An- que chegou a acreditar na vitória.
acompanhada pela irmã, a Miss parte tónio Ferro escreve que a Miss Portugal foi
para o Porto, para daí seguir para Vigo «aclamadíssima em todas as provas», e daí Desilusão e polémica
e apanhar o paquete para os EUA. Na Rapidamente a polémica se instalou –
estação do Rossio e nos vários apeadei- em Portugal e não só. Afinal, a primei-
ros da capital onde o comboio parou, a ra e segunda classificadas eram ambas
multidão aguardava entusiasticamente casadas, e o regulamento determinava
Margarida, tendo inclusive rasgado-lhe que as candidatas teriam de ser solteiras.
parte do vestido. Ao chegar ao Porto, a Adicionalmente, cada país deveria ter
jovem desmaiou. apenas uma representante, o que não
Ao fim da tarde seguiu para Vigo, onde aconteceu no caso dos EUA. Finalmente,
dormiria no Hotel Continental. Um jor- veio a descobrir-se que a Miss Luxembur-
nalista do DN perguntou-lhe então no que go era afinal parisiense.
pensava. «Estou com medo da América. Margarida Bastos Ferreira regressou à
Afinal, para quê esta viagem? Que vou lá Europa por Paris no início de junho onde,
fazer? No vapor chegam amanhã três lin- segundo o DN, um encontro casual com o
das raparigas que valem mais do que eu. Ao político republicano exilado Afonso Costa
pé delas, nada serei, nada conquistarei.» apenas lhe confirmou a admiração dos
Na manhã seguinte embarcou no Nia- seus conterrâneos, declarando-lhe o an-
gara, onde se juntou à Miss Luxemburgo, tigo chefe do Governo que os americanos
à Miss França e à Miss Itália. tinham sido muito injustos e que ela seria
Festa dos Mercados, 1925 Ilda
A 1 de maio, Margarida chegou aos Fernandes foi a vencedora deste sempre a “Rainha de Portugal”. Sem título,
EUA, e o concurso em Galveston decor- concurso alfacinha organizado pelo mas não sem glória, Margarida regressou
reu entre 21 e 23. As concorrentes desfi- Diário de Lisboa a Portugal na véspera de Santo António.

36 V I S Ã O H I S T Ó R I A
Genoveva Lima Mayer
Numa das suas festas, recebeu os
convidados com uma chita aos pés

E fantasia não faltava à dona da casa.


Nas suas muitas horas vagas escrevia poe-
mas, peças de teatro, crónicas de viagens,
textos de opinião. Deixou cerca de três
dezenas de obras, que assinava como Veva
de Lima. «Era uma escritora típica do
princípio dos anos 20, na escolha dos te-
mas, por vezes etéreos. Escrevia bem, mas
digamos que era apenas uma escritora
média», comenta Magalhães Ramalho.
A literatura tinha sido uma tentação

A anfitriã de Lisboa de família. O pai, Carlos Mayer, embora


não fosse escritor, pertencia aos «Venci-
dos da Vida», o grupo literário e político
de que fizeram parte Eça de Queirós ou
Os salões das famílias abastadas, com as suas tertúlias de tipo
Ramalho Ortigão.
vário, eram um cenário comum na Lisboa dos Anos 20. Mas
nenhum deixou memória mais viva do que o de Veva de Lima Noites de glória
por Emília Caetano Mais do que à escrita, Veva de Lima deixa,

O
no entanto, o nome ligado à sua casa,
s convidados terão talvez pen- Déco. Mas não parece ter ficado particular- que foi centro de uma intensa atividade
sado que, naquele dia, a anfitriã mente adepta. São Art Déco algumas das mundana e cultural da cidade. Por lá pas-
excedera os limites. Já estavam peças, mas o grosso do mobiliário segue o saram António Ferro, Fernanda de Castro
habituados a que as festas no gosto do fim do século XIX, princípio do e consta que, ocasionalmente, Calouste
palacete dos Ulrich, no alto das XX. «Ela era muito ligada ao século XIX. Gulbenkian. «Ela era uma pessoa curio-
Amoreiras, em Lisboa, tivessem Não pode dizer-se que fosse propriamente sa, muito interessada em saber o que se
sempre o seu quê de exótico. Mas, dessa uma modernista», explica Alfredo de Ma- passava lá fora. E sentia-se muito ligada
vez, estava a aguardá-los Veva de Lima, galhães Ramalho, presidente da direção da aos artistas, empenhava-se na promoção
sentada na sala, com uma pequena chita Associação Casa Veva de Lima. de novos nomes», acrescenta Magalhães
aos pés, presa por uma trela. Pior ainda: A decoração, de que ela mesma se en- Ramalho.
a inquietante criatura estava para ficar. carregara, refletia todo um estilo de vida. Uma das festas memoráveis do palacete
Nascida em 1886, em Lisboa, Genoveva Muitos dos objetos eram trazidos das suas decorreu num jardim anexo, para onde
de Lima Mayer casara com Rui Ulrich, viagens. E Veva conhecia bastante da Eu- foram levados tendas e camelos. Nou-
um professor de Finanças, que foi tam- ropa, a que acrescentara, numa ocasião, tra ocasião, abria-se, a certa altura, uma
bém administrador do Banco de Portugal os EUA, de onde viera fascinada. Quase cortina na sala, para deixar aparecer a
e de empresas, além de embaixador em todas as obras que cobriam o palacete anfitriã, sentada num carrinho em forma
Londres. O casal alugara o palacete à casa eram de artistas estrangeiros e feitas, de cisne, puxado por Afonso Lopes Vieira.
de Anadia, em 1920. nalguns casos, por encomenda. E houve uma noite em que os convidados
A chita fora trazida de África por um Tanto ela como o marido eram origi- foram recebidos por supostos criados ne-
irmão de Veva. Mas ela própria tivera a nários de famílias da alta burguesia de gros, de cara engraxada, com peles sobre
sua experiência africana, que se saldara Lisboa. Os Lima Mayer descendiam de a libré e archotes na mão.
por um lote assinalável de peles com que um alsaciano que chegara com as Inva- Em 1963, Veva de Lima morria no pa-
forraria as escadarias do palacete. E que sões Francesas e por cá se casara com lacete. Por essa altura, o salão dos Ulrich
estavam longe de ser a única nota exótica uma senhora da sociedade. Quanto aos tinha há muito perdido a animação de
na decoração da casa, como prova um Ulrich, provinham de um alemão que outrora, sobretudo depois de que o filho,
gabinete de trabalho, todo ele decorado viera trabalhar na reconstrução da cidade Jorge, por volta dos 20 anos, se suicida-
ao estilo oriental. após o Terramoto. Nem num ramo nem ra, ali mesmo em casa, por desamores
Veva, que se gabava de ir a Paris renovar no outro da família havia sinais de no- com uma prima. Quanto à chita, cresce-
o guarda-roupa, ali visitara, em 1925, a breza, apesar das armas visíveis em duas ra e tornara-se tão assustadora para os
Exposição das Artes Decorativas, que foi cortinas do palacete: «São uma fantasia, convidados, que Veva se vira obrigada a
o momento definidor do novo gosto, a Art meramente decorativas.» oferecê-la ao Zoo de Lisboa.

VISÃO H I S T Ó R I A 37
Anos 20 || Artes
MUSEU CALOUSTE GULBENKIAN/COLEÇÃO MODERNA

38 V I S Ã O H I S T Ó R I A
No coração
do Art Déco
Festivo, feito de linhas retas, a tender para o abstracionismo,
o estilo mundialmente lançado em Paris na Exposição
de Artes Decorativas e Industriais Modernas de 1925 deixou
marcas em Portugal
por Rui Afonso Santos

‘Nu’ Este óleo sobre tela,


pintado por José de Almada
Negreiros para o Bristol Club
em 1926, é um expoente do
modernismo em Portugal

VISÃO H I S T Ó R I A 39
Anos 20 || Artes

E
m Portugal, a perpetuação das de Jorge Segurado, erguido na Rampa de filiação secessionista – exemplo a que
morosas estruturas mentais de Santos em reinvenção classicizante, até os tradicionalistas Rebelo de Andrade
oitocentistas na transição da anunciaram o novo gosto, que Pardal foram recetivos, no risco do Café Chiado,
Monarquia para a República, Monteiro praticaria com segurança na inaugurado em 1927, e também Cottinelli
associada à crise política e às Estação do Cais do Sodré (1928), numa Telmo, na Estação Fluvial do Sul e Sueste
dificuldades económicas vivi- requintada moradia nas Avenidas Novas, (1928-31).
das nos Anos 20, adiaram em Prémio Valmor em 1929, e no edifício Mas foi no Cine-Teatro Capitólio (1925-
grande parte para a década se- da Caixa Geral de Depósitos do Porto -31) que Cristino da Silva manifestou com
guinte a divulgação do Estilo Art Déco (1929-31), com requintados interiores maturidade o novo estilo, patente nos
– denominado segundo a Exposição de detalhes da sua prumada e pala exterior
Artes Decorativas e Industriais Moder- envidraçada e luminosa, com lettering
Grafismo inovador Fotomontagens,
nas, realizada em Paris em 1925. letterings e imagens em diagonal moderno, das suas paredes amovíveis
O novo estilo de raiz francesa – deco- revolucionaram, pelas mãos de Leitão de em vidro gravado e, até, na novidade
rativo, ortogonal (com predominância de Barros, o Notícias Ilustrado, em 1929 maquinista das suas escadas rolantes e
linhas e ângulos retos), festivo, assimila-
dor do fauvismo, cubismo expressionismo
e, até, do abstracionismo – fora, porém,
já anunciado por Raul Lino em interiores
que para si próprio concebeu, segundo
uma gramática de estilização secessio-
nista que estendeu à arquitetura, com
desenho integral dos interiores e equipa-
mentos, tal como sucede na Chapelaria
Gardénia (1917), no Chiado, primeira loja
moderna de Lisboa.
Outras obras de estilização moderna
erguidas em Lisboa, como o funcional
Edifício dos Telefones (1923), do constru-
tor René Touzet, a Agência Havas (1922)
do arquiteto Carlos Ramos ou o Edifí-
cio da Companhia dos Eléctricos (1927)

40 V I S Ã O H I S T Ó R I A
mobiliário metálico – que culminaria na empresa Electro-Reclamo, introdutora A década do design Capas e cartazes
Casa Bellard da Fonseca (1930-31), com da publicidade luminosa em 1928), e de António Soares (1920), Jorge
interiores expressamente desenhados e a com stands desenhados por ele e pelos Barradas (1926), Luiz (1929), Emmerico
Nunes (1927) e Leitão de Barros (1929)
novidade absoluta de mobiliário metálico artistas Fred Kradolfer, Albert Jourdain
bauhausiano por Franz Torka. e Roberto Nobre.
Contudo, ninguém praticou melhor o Ruy Vaz, Guilherme Filipe) e esculturas e
De Paris às Caldas da Rainha Estilo Art Déco do que o arquiteto e de- baixos-relevos (Canto da Maya, Leopoldo
A Exposição parisiense, que divulgou uni- corador vienense Franz Torka, discípulo de Almeida) estilisticamente acertados,
versalmente o Estilo Art Déco, da Europa dileto e chefe do ateliê do grande Otto constituíram marcos do novo gosto, tam-
às suas colónias, dos EUA ao Japão (e Wagner, com larga colaboração na obra- bém praticado por Jorge Segurado no
que deslumbrou os arquitetos Marques -prima do mestre que é a Caixa-Postal de projeto do York Bar (1929), decorado
da Silva e Paulino Montês, e também o Viena, e estabelecido em Lisboa em 1920, por Soares.
pintor António Soares), repercutiu-se na como diretor artístico das Fábricas e Lo- No Porto, o arquitecto Manuel Mar-
V Exposição das Caldas da Rainha (1927), jas da Companhia Alcobia, no Chiado. ques praticou também o novo estilo em
desenhada por Montês. Ela foi a génese Arquiteturas e decorações de interiores, projetos de arquitetura particular (Casa
de uma estética ortogonal e luminista mobiliário, equipamentos, iluminação, Domingos Fernandes, 1927) e espaços
inspirada na magna Exposição de Paris tecidos, tapetes, papéis de parede, cená- comerciais (Pastelaria do Bolhão, 1929;
que noutras manifestações de arquitetura rios para cinema, tudo desenhou Torka Portobar, 1930), associando-se também
efémera, como as exposições Industrial integralmente, numa aspiração de «obra ao arquiteto Amoroso Lopes e desenhan-
Médico Cirúrgica (1928), onde se desta- total». Em 1925, os seus interiores do Tea- do, desde 1927, móveis e decorações Art
cou o suíço Fred Kradolfer; o Salão de tro do Ginásio apresentavam um singular Déco para os Armazéns Nascimento.
Elegância Feminina e Artes Decorativas gosto Art Déco de filiação vienense que, Certos vitrais de Ricardo Leone (Ou-
(SNBA, 1928), que reuniu numerosos por volta de 1930, estendeu a magníficos rivesaria Marques, 1926; Frontaria da
arquitetos, pintores, escultores modernos móveis e painéis decorativos, com embu- Papelaria da Moda, ao Rato, 1929, consti-
(Paulino Montês, António da Costa, Ruy tidos em madeiras exóticas e aplicações de tuem, aliás, marcos assinaláveis do Estilo
Gameiro, Martins Barata, Carlos Botelho, laca e latão – para reinterpretar igualmen- Art Déco em Portugal, numa via estilística
Roberto Nobre, Emanuel Altberg, Albert te as vanguardas europeias no desenho atenta aos exemplos de Gaétan Jeannin e
Jourdain, etc.) com destaque para Soa- de mobiliário em tubo metálico cromado. de Jacques Gruber, divulgados por álbuns
res; e a Exposição da Luz Electricidade Os interiores Art Déco do cabaret publicados quando da Exposição de 1925.
Aplicada ao Lar (SNBA, 1930), dirigida Bristol Club (Carlos Ramos, 1925-26), No desenho, na ilustração, na pintura e
artisticamente por António Soares, coad- com pinturas de Almada, Soares, Viana, no cartaz, a personalidade marcante em
juvado pelo engenheiro Carlos Santos (da Barradas, Lino António, Francis Smith, Portugal é a de José de Almada Negreiros

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Anos 20 || Artes

(1893-1970), com desenhos no novo gosto


já em 1918, e maturado após estada em
Paris em 1919-20 num grafismo virtuo-
so, lembrado do Picasso «clássico», que
repartiu por um imaginário de Arlequins,
Columbinas, figuras de elegantes e atrizes
e numerosos autorretratos. Estreado na
pintura em 1925, com dois quadros para
a decoração da Brasileira do Chiado, figu-
rando duas estilizadas banhistas na praia
e um autorretrato num grupo sentado a
uma mesa (e a mundanidade elegante e
a alegria de viver caracteristicamente Art
BIBLIOTECA DE ARTE GULBENKIAN

Déco foram também partilhadas pelas


pinturas realizadas para o café por Eduar-
do Viana, Bernardo Marques e António
Soares), Almada deu com uma longilínea
garçonne nua pintada em 1926 para o
boudoir do Bristol Club a melhor pintura
Art Déco portuguesa, para dar depois,
em 1929, no mesmo gosto, excelentes
decorações relevadas em estuque pinta-
do para vários cinemas de Madrid – e o
2
4
gosto perdurou-lhe nos longos anos que 1
lhe restaram para viver.
O concorrente direto de Almada na
pintura foi António Soares, que, evoluin- 3
do do grafismo germânico que, nos anos
1910, marcara a sua prática humorística,
1 Interior da Caixa Geral de Depósitos
se mostrou depois recetivo à influência do Porto, de Pardal Monteiro (traçada
francesa (nas ilustrações-figurinos de em 1929) 2 Frontão luminoso da
moda que deu para as sofisticadas ca- Pastelaria Versailles, 1925 3 Cine-

BIBLIOTECA DE ARTE GULBENKIAN


pas da ABC e da Ilustração) sobretudo -Teatro Capitólio, de Cristino da Silva
após a visita à magna Exposição de 1925. 4 Estação do Cais do Sodré, de Pardal
Monteiro (1928)
Pintor de grupos de mulheres de luxo
e de intelectuais em manchas terrosas,
lembradas da pintura de Columbano,
para os quadros d’A Brasileira, Soares
abriu a sua paleta após a visita a Paris,
dando imagens de garçonnes em manchas
coloridas, num imaginário lembrado de Ninguém praticou grega arcaica, em figuras de cabelos e pre-
Raoul Dufy ou, sobretudo, de Van Don- gas graficamente tratados (baixo-relevo
gen, e que, nos anos 30, se aquietou num melhor o estilo A Dança e a Música para o Bristol Club,
imaginário neoclassicizante inserível no Art Déco do 1925) e com recuperação de materiais
«retorno à ordem».
que o arquiteto menosprezados como a terracota (Adão
e Eva, 1929) – e foi ele, naturalmente, o
Serralves, o remate e decorador único artista português a participar na
Na escultura, a grande figura portuguesa
foi Canto da Maya, discípulo de Bourdel-
vienense Franz Exposição de 1925.
Nas artes gráficas, destacam-se as
le e artista de longa carreira parisiense, Torka, discípulo capas, ilustrações, desenhos, vinhetas e
cidade onde se instalou definitivamente dileto e chefe do publicidade que artistas como Kradolfer,
em 1923. O gosto Art Déco, por ele já Soares, Barradas, Botelho, Bernardo Mar-
praticado em 1919, apurou-se depois for-
ateliê do grande ques, Almada, Sarah Afonso, Stuart de
malmente com referências à escultura Otto Wagner Carvalhais ou Mily Possoz davam a maga-

42 V I S Ã O H I S T Ó R I A
joias disponíveis, entre os anos 20 e 40,
nos ourives e joalheiros Leitão & Irmão em
Lisboa, ou na Casa José Rosas no Porto,
bem como as cerâmicas das Fábricas de
Sacavém, Coimbra, Lusitânia, Condal e
ElectroCerâmica, com moldes vindos do
estrangeiro, constituem outras marcas
relevantes neste breve inventário do Art
Déco em Portugal – e obra-prima absolu-
ta foi a Casa de Serralves, riscada para o
Conde de Vizela pelo francês Charles Siclis
em 1929, com jardins de Jacques Gréber,
e que levaria quase 20 anos a concluir-se,
constituindo a última grande encomenda
do Estilo Art Déco parisiense, que a II
Guerra Mundial eclipsaria.

Rui Afonso Santos


é curador do Museu Nacional
de Arte Contemporânea

zines como Contemporânea, Civilização,


ABC, Ilustração, Ilustração Portuguesa,
Magazine Bertrand, Europa, Notícias
Ilustrado, Imagem, Kino, Sempre Fixe,
além dos cartazes modernos do Atelier
ARTA (Bristol Club, 1925, por Barradas;
Instale um Telefone, 1930, por Botelho)
e das produções da Imprensa Libânio
da Silva (Contemporânea) – antes que o
artista e cineasta Leitão de Barros assi-
nalasse, após um estágio de artes gráficas
em Frankhental, Alemanha, uma revo-
lução gráfica modernista em O Notícias
Ilustrado (1928-35), com largo recurso à
fotografia e fotomontagem, ou lettering e
imagens em diagonal, que os novos pro-
cessos de rotogravura propiciavam
A atividade dos decoradores Ventura
Júnior, Domingos e Lino do Nascimento e
Landerset Simões é igualmente assinalá-
vel, assim como a produção de mobiliário,
candeeiros e ornamentos das casas Jalco,
do decorador João Alcobia, Olaio, Fábrica
da Granja e Venâncio do Nascimento.
Os Tapetes de Beiriz, que, desde 1927,
o desenhador José Fonseca criava com
estilizações figurativas e padronagens
abstratas, as porcelanas da Vista Alegre
(particularmente as desenhadas por Ân-
gelo Chuva), os vidros desenhados (desde
1929) por Jorge Barradas para a Compa-
nhia Industrial Portuguesa e suas fábricas
na Marinha Grande, numerosas pratas e

VISÃO H I S T Ó R I A 43
Anos 20 || Artes

A década
louca
de Almada
Paris, Lisboa e Madrid são
as capitais onde José de
Almada Negreiros procura
a vanguarda essencial
a quem se diz «sempre
futuro». Escreve o seu único
romance, Nome de Guerra,
em 1925, um marco na
literatura portuguesa que é
uma porta de entrada para
a agitação da época
por Vânia Maia

N
o dia em que celebra 27 anos,
7 de abril de 1920, Almada Ne-
greiros regressa a Portugal ao fim
de um ano e meio em Paris, onde
retomou os estudos de pintura.
As primeiras impressões são es-
XXXXXXXXXXXXXXX

clarecedoras sobre o seu estado de espírito:


«Quando cheguei a Lisboa, tudo estava
mais pequenino. A estação do Rossio, o
Rossio e os polícias. […] Julguei que me
tinha enganado e que tinha descido em
Beja.» Contudo, a experiência parisiense tenho uma triste ideia dos meus compa- Irreverente Almada, aqui num
não fora isenta de contrariedades. É em triotas. Que longe de mil novecentos e emblemático retrato captado pelo
dramaturgo Vitoriano Braga, desilude-
França que Almada se confronta pela pri- vinte que estão os portugueses!»
-se com a falta de vitalidade do meio
meira vez com a falta de dinheiro, como É o retrato de uma Lisboa que procura artístico português nos anos 1920
revela Maria José Almada Negreiros (sua desembaraçar-se da sua ruralidade que
nora), em Identificar Almada (Assírio & Almada traça em Nome de Guerra, o seu
Alvim, 2015). Em Paris, chega a trabalhar único romance, escrito em 1925, apenas deste século [XX] que se podem ler sem
como bailarino de salão, operário de uma publicado em 1938. O manuscrito terá desbaratos de tempo». Em 1938, Vitorino
fábrica de velas de iluminação e domador ficado esquecido numa caixa de chapéus Nemésio seria dos poucos a elogiar a obra
de cavalos num circo. Durante a sua pas- guardada pelo seu irmão António, mas e a sua «clarividência psicológica».
sagem por Biarritz é relações públicas, Fernando Cabral Martins, 66 anos, espe- Nome de Guerra, romance de aprendiza-
bailarino numa boîte e, até, acompanhante cialista no período modernista português, gem, acompanha Antunes no seu percurso
de senhoras. Ocupações menores quando acredita que «não haveria quem publicasse de autoconhecimento na cidade, onde se
comparadas com a arte, que realmente o romance na altura em que foi escrito». encontra com D. Jorge, «o experimenta-
o motivava, apesar de não lhe garantir O docente universitário destaca o «rea- do», que vai ajudar o rapaz da província
o sustento. Como o próprio escreveria: lismo de tipo novo» trazido pelo livro e a a tornar-se «um homem». É através dele
«Fazer fortuna com a Arte não é o mesmo «criação de uma linguagem que descreve o que Antunes conhece Judite, uma pros-
que Arte para fazer fortuna. Só o primeiro universo de Lisboa nos anos 20 com uma tituta com esse «nome de guerra» que
é bom negócio.» É em Paris que constata grande frescura». Herberto Helder classi- nunca revela a sua verdadeira identidade.
o que já suspeitava sobre o país periférico ficava Nome de Guerra como «um dos ape- Judite desempenha um papel essencial ao
que amava: «Gosto muito de Portugal mas nas três ou quatro romances portugueses mostrar a Antunes que «perder o medo»

44 V I S Ã O H I S T Ó R I A
manifesta-se ao longo dos anos 20 das mais variadas formas

1921 Dá a
conferência A
Invenção do Dia 1928 Vence o concurso
Claro, apresentada de cartazes para a
por António Ferro representação portuguesa
e editada por na Exposição Universal
Fernando Pessoa. de Sevilha
Colabora com o
Diário de Lisboa

1920 Regressa a Lisboa 1925 Escreve o romance


vindo de Paris. Escreve Nome de Guerra (publicado
e ilustra a revista Parva. em 1938). Discursa numa
Participa no III Salão dos homenagem a Ramón Gómez
Humoristas Portugueses de la Serna no Café Tavares,
em Lisboa

era «ganhar o conhecimento da vida». clube a umas casas abertas toda a noite cena de pugilato entre ambos na Brasileira
Almada fazia assim um manifesto pela e nas quais a razão mais forte é o jogo», – revela António Valdemar em Almada,
autonomia pessoal, como revela o título escreve Almada no capítulo Às vezes o dia Os Painéis, a Geometria e Tudo (Assírio
de um dos capítulos da obra: A sociedade começa à noite. Adiante, acrescenta: «Es- & Alvim, 2015) – e seria mais um motivo
só tem que ver com todos, não tem nada tas raparigas tiveram todas a mesma vida para ele partir para Madrid em 1927.
que cheirar com cada um. José-Augusto mais ou menos fantasiada e uma única «Saí de Portugal muito arreliado, apesar
França escreveu a propósito do título do história absolutamente verídica e a qual de reconhecer que fui sempre um menino
romance que «o nome das pessoas se de- as levou todas a dançar na mesma sala. mimado nos meios em que vivi; saí des-
clara duplo para elas próprias e para a so- A história verídica é a única que vale e gostoso apenas com o panorama artístico»,
ciedade». A mesma revolução individual já pode-se contar: o primeiro homem que revelava num artigo da Ilustração com o
havia sido propalada na mítica conferência elas conheceram era um pulha!» título inequívoco: «José de Almada Ne-
A Invenção do Dia Claro (1921). greiros triunfa em Espanha». Na capital
O humor perpassa as aventuras de An- Pugilato na Brasileira espanhola encontra uma vida cultural
tunes e «é impossível ler Nome de Guerra O Bristol Club, situado no cruzamento da trepidante. A amizade com o modernis-
sem ver», garante a historiadora de arte Rua Jardim do Regedor com as Portas de ta Ramón Gómez de la Serna, que tinha
Sara Afonso Ferreira, 38 anos, estudiosa Santo Antão, em Lisboa, terá inspirado os vivido em Portugal, facilitou a sua entra-
da obra de Almada, referindo-se à escrita clubes de Nome de Guerra. É em 1926, o da nas tertúlias madrilenas. Frequenta
cinematográfica do autor. Outra das gran- ano seguinte a ter escrito o livro, que pinta os prestigiados cafés Pombo e Granja El
des inovações modernistas do romance é um sedutor nu feminino para o Bristol. Henar e o restaurante habitual de García
o «fluxo de consciência», ou seja, a forma Data também dessa altura uma das suas Lorca. Ao contrário do que acontecera em
como conduz o leitor através dos monó- conferências mais emblemáticas, Moder- Paris, não lhe falta trabalho na sua área.
logos interiores da personagem principal, nismo, proferida na festa de encerramen- No ano seguinte, em 1928, vence o
o que implica uma visão de Lisboa muito to do II Salão de Outono, na Sociedade concurso de cartazes para a Exposição
pessoal, por exemplo, quando se confronta Nacional de Belas-Artes, em Lisboa. «É Universal de Sevilha e vai mantendo co-
com os ritmos da época: «Os músicos pare- muito marcante porque define o termo laborações artísticas em Portugal. Seria o
ciam cada um para seu lado. […] Logo de ‘modernismo’ com o sentido que usamos prenúncio da Guerra Civil (1936-1939) a
entrada aquilo tudo fazia-lhe um bocado hoje», afirma Fernando Cabral Martins. fazê-lo regressar a Lisboa, ao fim de cinco
de impressão. Nunca ouvira tanto barulho Ainda em 1926, a sua obsessão pelos anos, consagrado como o vulto artístico
nem no Carnaval. Mas gostava.» Painéis de São Vicente de Fora, do século que sempre acreditou ser. «A data mais
Sara Afonso Ferreira assinala a audácia XV, atinge uma conflitualidade ímpar: memorável da minha individualidade será
do livro quando mergulha em realidades Almada disputa com José de Bragança, por certo 1993, quando universalmente se
que habitualmente não eram retratadas, diretor do Museu Nacional de Arte Anti- festejar o centenário do meu nascimento»,
como a vida nos cabarés, a sedução da ga, a descoberta de juntar os painéis num havia escrito em 1913 com o atrevimento
cocaína ou a condição da mulher, em políptico, baseando-se na perspetiva dos dos seus 20 anos. Almada bastava-lhe
particular das prostitutas. «Chama-se ladrilhos. A rivalidade dará origem a uma como o mais certeiro nome de guerra.

VISÃO H I S T Ó R I A 45
Anos 20 || Música

A revolução
do jazz
Nascido nos bairros de má fama de Nova Orleães,
nada faria supor que o jazz viesse a ter impacto mundial,
elevando a música popular a um inédito patamar
de excelência. Os Anos 20 foram o ponto de charneira
GETTY

por João Moreira dos Santos

46 V I S Ã O H I S T Ó R I A
Chicago, 1923
A King Oliver’s
Creole Jazz Band
e Louis Armstrong

VISÃO H I S T Ó R I A 47
Anos 20 || Música

H
erdeiro do legado cultural
africano, da tradição musi-
cal europeia e das primeiras
expressões de música afro-
-americana, o jazz começou
a ganhar forma nos encon-
tros sociais que os escravos
faziam por volta de 1860/80
na Congo Square. Era naquela praça de
Nova Orleães que, excecionalmente, se
fundiam, aos domingos, as várias tradi- Swing Duke
ções musicais e se ouviam as blue notes. Ellington (ao lado)
Na viragem para o século XX, encon- começou a tocar em
tramo-lo ainda indefinido, sem rótulo festas à noite em
próprio, subjacente ao ragtime, com o 1917 enquanto de
dia trabalhava como
seu ritmo sincopado tocado por pianistas pintor de tabuletas;
itinerantes que eram capazes de tradu- aos 11 anos, Louis
zir para o teclado a polirritmia africana. Armstrong (em
Canções como Maple leaf rag, de Scott baixo) tocava na rua
Joplin, ajudaram a popularizar o primeiro

BRIDGEMAN IMAGES/FOTOBANCO
género musical negro criado nos EUA.
A junção do ragtime com os blues, cujas
origens remontam ao século XIX, propi-
ciou o aparecimento do jazz, que no final
dos anos 1910 era já o estilo dominante.
Essa e outras fusões deram-se no caldo
cultural de Nova Orleães, que fez aportar
ainda ao jazz as influência musicais fran-
cesa e caribenha. O termo em si terá sido
empregado pela primeira vez em 1913 –
curiosamente, na coluna de baseball de
um jornal de San Francisco –, tendo-se
tornado corrente a partir de 1917, graças a
um disco gravado nesse mesmo ano pela
Original Dixieland Jazz Band.
Entre os pioneiros do jazz encontra-
vam-se músicos como o trompetista
Buddy Bolden, que em 1895 formou a
sua banda, atuando, nomeadamente, nos
cabarets de Storyville, bairro conhecido
pelas casas de prostituição e por empregar
pianistas, entre os quais o célebre Jelly
Roll Morton. As jazz bands, que atua- O jazz terá
vam em salões de baile, nos parques, nas chegado
procissões fúnebres e também nos barcos
a vapor que sulcavam o rio Mississippi,
à Europa
eram então essencialmente constituídas através dos
por um trio de instrumentos de sopro –
tipicamente, trompete/cornetim, trom-
soldados negros
bone e clarinete – e por um triunvirato do Exército
rítmico formado por bateria, baixo/tuba e americano que
um instrumento de cordas (piano, banjo
ou guitarra). No final dos Anos 20 au-
vieram combater
mentou o número de elementos, tendo a partir de 1917
48 V I S Ã O H I S T Ó R I A
Harlem, Nova Iorque, Anos 20
A multidão aguarda a chegada dos
músicos de uma banda de jazz ao
Teatro Lafayette

Reese Europe, que em 1918 percorreu


a França à frente dos Hellfighters, uma
banda integrada no 369º Regimento de
Infantaria dos EUA.
O fim da guerra, e em particular da
ameaça dos U-Boote alemães, reabriu o
Atlântico à navegação comercial e ao jazz.
Vários músicos, com destaque para Will
Marion Cook, Sidney Bechet, Sam Woo-
ding, Louis Mitchell e Josephine Baker
rumaram então ao Velho Continente. Era
o fim da pacatez das valsas e até do exo-
tismo do tango nos cabarets. A Jazz Age
estava prestes a começar e mostraria à
Europa uma exuberância interpretativa
e uma liberdade musical inéditas.
Paris foi, das capitais europeias, a mais
recetiva ao novel e irreverente jazz, ren-
dendo-se rapidamente aos seus ritmos.
Testemunharam-no dois portugueses
ilustres. De facto, o médico e higienista
Ricardo Jorge escrevia em 1919 que «o
fox-trot pateia-se aos sacões, ao compasso
GETTY

esbandalhado do jazz-band, orquestra de


negralhada, onde o músico da caixa e da
passado a integrar também o saxofone. de Paul Whiteman, de Fletcher Hender- pancada se descabeça e ulula terrorosa-
O fim de Storyville, encerrado em 1917 son e de Duke Ellington. Encontrou-o em mente. Este chinfrim de peles vermelhas
por pressão do Exército e da Marinha, 1927, no Cotton Club e no Small’s Paradise, e pretas a rechinar nas orelhas e a badalar
forçou a migração dos músicos para o um clube de jazz do bairro do Harlem, nas gâmbias, ensandeceu o Paris festei-
Norte dos EUA. Chicago e Nova Iorque berço do jazz na cidade. Impressionado, ro». Três anos depois, a revista Contem-
acolheram-nos de braços abertos. Con- o jornalista português reportou para o porânea publicou um poema do livro La
sequentemente, foi naquelas cidades que Diário de Notícias o «frenesi dos jazz- muse intrépide, que Alberto de Monsaraz
Jelly Roll Morton, King Oliver, Louis Ar- -bands», notando «os seus ritmos sinco- veio a editar em França em 1923. Afirma-
mstrong e Sidney Bechet gravaram nos pados, esfrangalhados, com os guinchos, va o poeta integralista que «negros mal
Anos 20 o jazz polifónico de Nova Orleães, com as melodias, com as gargalhadas e as arranjados, urrando, gritando, pulando,
vulgarmente conhecido por Dixieland. Ali súplicas, que nascem, espontaneamente fazem trotar as pessoas» nos dancings.
começaram também a desenvolver a im- daquele pandemónio, seiva borbulhante Com efeito, se compositores como Igor
provisação jazzística, apresentando-se ao e infatigável. A música não sai dos ins- Stravinski, Maurice Ravel, Erik Satie, Dmi-
vivo nos ballrooms e nos speakeasies, casas trumentos, sai dos seus esgares, das suas tri Shostakovich e, sobretudo, Darius Mi-
de consumo ilegal de bebidas alcoólicas contorções, dos seus pés enlouquecidos, lhaud se interessaram por ele e até o incor-
que a «Lei Seca», instituída em 1919, mul- dos seus olhos barulhentos…». poraram nas suas obras, a crítica musical
tiplicara por todo o país. Não obstante algumas incursões pon- destacou os seus intérpretes de exceção e os
BRIDGEMAN IMAGES/FOTOBANCO

tuais prévias, o jazz terá chegado à Europa amadores dedicaram-lhe livros e revistas.
Ritmos esfrangalhados através dos soldados negros do Exército O jazz estava instituído como género
António Ferro estava precisamente em americano que a partir de 1917 vieram musical.
Nova Iorque quando o jazz «fervia» em po- combater para as trincheiras em nome
pularidade através de músicos como Fats de uma liberdade de que eles próprios João Moreira dos Santos é autor de
Waller, Louis Armstrong, Art Tatum ou não beneficiavam na sua pátria. Conta- vários livros sobre jazz em Portugal e do
Cab Calloway, e swingava já nas big bands va-se entre eles o icónico tenente James programa ‘Jazz A Dois’, na Antena 2

VISÃO H I S T Ó R I A 49
Anos 20 || Charleston

A dança da moda
«Nas boites de nuit, o número sensação
é um preto mais ou menos engraxado
dançando o Charleston, que a seguir os brancos
imitam, no mesmo ritmo alegre e sacudido.
O Charleston conquistou Paris. E como decerto
também vai ter entre nós os seus cultores,
o ABC apressa-se a dar aos seus amigos a
verdadeira teoria dos seus passos»
Revista ABC, 6 de maio de 1926

«É preciso não
esquecer de
conservar em
todos os passos
a execução do
movimento
especial de
flexão do joelho,
que representa
a característica
desta dança»

50 V I S Ã O H I S T Ó R I A
«O Charleston
compreende
quatro passos
principais, que
o cavalheiro liga
e repete à sua
vontade»

VISÃO H I S T Ó R I A 51
Anos 20 || Música

O som das noites


de Lisboa
O jazz chegou a Portugal nos Anos 20, mas não teve vida fácil na capital do fado.
Restou-lhe o ambiente transgressivo dos clubs, sequiosos de excentricidade
por João Moreira dos Santos

52 V I S Ã O H I S T Ó R I A
Loucura A primeira página da
revista Ilustração de 1 de março
de 1927 e o desenho da capa da
revista ABC de fevereiro de 1927,
ambos da autoria de Emmerico

VISÃO H I S T Ó R I A 53
Anos 20 || Música

O
s primeiros sinais do jazz
chegaram a Portugal quando
a implantação da República
ainda fumegava e Sidónio Pais
já surgia no horizonte político.
Tê-los-á transmitido pionei-
ramente o jornalista, escritor e diplo-
mata Alfredo de Mesquita (1871-1931).
No livro A América do Norte, publicado
em 1917, deixou expresso o contacto que
em 1904 tivera, nos EUA, com a música
sincopada, afirmando que os fonógrafos
repetiam «indefinidamente a mesma
romanza ou o mesmo rag-time [sic]».
Dois anos depois, o jornal A Capital
estava já em condições de apresentar
ESTÚDIOS NOVAIS/BIBLIOTECA ARTE GULBENKIAN

aos leitores uma visão invulgarmente


esclarecida sobre as origens do jazz,
situando-as na Nova Orleães do início
do século XX. O periódico republicano
deixava, porém, claro que não se tratava
de «um novo passo de baile», mas sim
de «uma orquestra […] que além dos
instrumentos ‘antigos»’ juntou outros
‘modernos’», tendo adotado o ritmo do
«’rig-time’ [sic] ou música sincopada».
Iniciados os Anos 20, Lisboa queria,
como as suas congéneres europeias, di-
vertir-se impulsivamente, esquecendo Baile em Lisboa, 1928 O jazz não se
as agruras da I Guerra Mundial. Era a ouvia apenas nos clubs, mas também
jazz-age, período assim designado pelo nas festas e em alguns cafés
escritor F. Scott Fitzgerald. Entendeu-
-a bem J. Kix, que, em 1926, escreveu Remontando ao início do século XX,
no jornal A Tarde que «o Jazz-band é com a abertura em 1908 do Club dos
a música do nosso tempo […] porque é Restauradores (que em 1913 deu lugar
a única música que os nossos sentidos, ao Maxim’s) e do Clube dos Patos, os clubs
estropiados pela guerra, ainda podem viram a sua progressão acelerada graças às
entender». Assim o pensara também fortunas feitas durante a I Guerra Mun-
António Ferro, que no livro A Idade do dial. Despontaram nesse período, entre
Jazz-Band, de 1924, afirmou que «o Ja- outros, o Palace Club, o Majestic Club e o
zz-Band, a encarnado e negro, a todas Club Internacional (inaugurados em 1917),
as cores, é o relógio que melhor dá as o Bristol Club e o Clube Mayer (1918).
horas de hoje, as horas que passam a Nos Anos 20, marcados pelo cosmopoli-
dançar, horas fox-trotadas, nervosas… tismo e pela ânsia de importar e de viver
No Jazz-Band, como num écran, cabem a modernidade que o cinema, a rádio e a
todas as imagens da vida moderna». Imprensa já anunciavam à aldeia global
em construção, surgiram, nomeadamente,
Os ‘clubs’ o Monumental Club (que em 1920 sucedeu
Não obstante os espetáculos importan- ao Majestic), o Olímpia Club (1920), o
tes, mas pontuais, realizados no teatro Regaleira Club (1921), o Bal Tabarin Mon-
de São Carlos, no Salão Foz e, muito tanha (1923) e o Salão Alhambra (1925).
especialmente, no Teatro da Trindade, Espacialmente, a maioria dos clubs
o centro nevrálgico da idade do jazz lis- concentrou-se na Baixa de Lisboa, ocu-
boeta foram os clubs. pando um triângulo que tinha como

54 V I S Ã O H I S T Ó R I A
ESTÚDIOS NOVAIS/BIBLIOTECA ARTE GULBENKIAN

Clubs O Maxim's
ficava no Palácio
Foz (foto ao lado)
e o Bristol (em
baixo, à esquerda)
na Rua Jardim do
Regedor, não longe
do Regaleira, cuja
ficha de jogo se pode
também ver nesta
página (em baixo)

vértices os Restauradores/Avenida da Com efeito, a partir dos Anos 20, tais que pratica desporto e que frequenta os
Liberdade, a Rua das Portas de Santo clubs foram o espaço por excelência de dancings adotando uma expressão sexual
Antão e o Chiado. Se alguns se insta- todas as transgressões e experimentações mais liberal (incluindo as práticas ho-
laram em edifícios mais ou menos vul- associadas a um sentimento de moder- mossexuais e bissexuais), a prostituição,
gares, como sucedeu com o Bristol e o nidade. Testemunharam e propiciaram, através das papillons com os seus nomes
Olímpia, outros demandaram os palácios particularmente, a emancipação da mu- estrangeirados abreviados, e até o início
aristocráticos. Tal foi a opção do club lher personificada na garçonne, isto é, a do consumo de estupefacientes.
Restauradores/Maxim’s (Palácio Foz), mulher masculinizada, de cabelos curtos, Frequentavam-nos, sobretudo, as eli-
do Majestic/Monumental (Palácio Al- ativa, autónoma, que fuma, que conduz, tes políticas, diplomáticas e económi-
verca) e do Regaleira (Palácio Regaleira). cas, nomeadamente os novos-ricos, os
A sumptuosidade e o luxo destes últimos aristocratas e também artistas plásticos,
não escaparam ao olhar da Imprensa. atores, escritores e intelectuais, assim
Numa crónica para o Diário de Lisboa, Os clubs como cidadãos estrangeiros de passagem
publicada em 1927, Félix Correia (1901- por Lisboa. Ou, como escreveu Henrique
-1969) caracterizou-os por terem «ricas foram Roldão em crónica humorística publica-
escadarias de mármores caros, com bai- o espaço da em 1925 no semanário O Domingo
xos-relevos preciosos, colunas antigas,
quadros célebres de pintores como Co-
por excelência Ilustrado, aos clubs ia «o filho-família
que apanhou a distração dos pais para
lumbano, pátios à maneira mourisca, de todas as se escapulir com dez mil réis tirados do
espelhos, lindas talhas de artistas como
Leandro Braga, tetos de preço».
transgressões mealheiro da tia, o caixeiro da loja de
modas […], o burguês […], o velhote
Segundo o mesmo jornalista, sob uma e experimentações atiradiço e parvo e finalmente o rapaz
trindade formada pela «mulher, a dança e associadas fino dos bancos que não usa colete para
o ‘champanhe’» e alicerçada no jogo, por fingir de americano, que traz o cabelo
vezes ilícito, vivia-se nos clubs «a estúr-
a um sentimento curto para fingir que é inglês e que é
dia, a orgia, a loucura – o ‘jazz-band’». de modernidade estúpido para mostrar que é português».

VISÃO H I S T Ó R I A 55
Anos 20 || Música

Publicidade Várias das capas da sinalizam tão-só a presença do referido mancistas e novelistas, incluindo Alma-
revista ABC, com ilustrações de Jorge instrumento. da Negreiros, através do romance Nome
Barradas, que eram, na verdade, Conceitos à parte, o jazz fez-se ouvir de guerra (1938). Reinaldo Ferreira, o
anúncios ao Bristol Club
nos clubs lisboetas através de músicos e famoso Repórter X, referiu em A virgem
de grupos estrangeiros e nacionais. Dos do Bristol Club (1930) que «as marte-
primeiros pouco se sabe, já que a Imprensa ladas do jazz-band eram entrecortadas
Ao som do jazz-band olhava para o novo género musical como pelo estralejar das gargalhadas…». João
A sede de excentricidade e de origina- uma moda passageira e sem grande, ou Ameal, em Os noctívagos (1924), aludiu
lidade dos nightclubs dos Anos 20 foi nenhum, valor artístico, reduzindo os seus às «estridências doidas de jazz-band» e
alimentada pelos ritmos frenéticos do praticantes ao anonimato. Ainda assim, a um quinteto que praticava «um jazz
jazz. O casamento entre ambos era, aliás, são conhecidas as atuações de Argentina alacre, ruidoso, com grandes dissonân-
perfeito, pois como explicava em 1926 Triano e do «seu magnífico jazz-band ame- cias bárbaras, em girândola». Augusto
a revista ABC, «o jazz correspondeu a ricano», ocorrida no Bal Tabarin-Mon- Navarro, em Uma Rapariga Moderna
uma necessidade dos cabarets interna- tanha em 1925, do Jazz-Band Sul-Ame- (1927), viu o jazz como «música ultra-
cionais», ávidos «duma música canail- ricano de Romeu Silva, no Maxim’s e no modernista» e Carlos Valongo, perso-
le, bárbara, louca, que gritasse alegria e Monumental Club em 1926, da bailarina nagem de O preto do Charleston (1930),
desvairamento e que enchesse a noite negra Sadie Hopkins, que em 1927 (por- de Mário Domingues, percecionou «as
de tumulto folgazão». ventura acompanhada pela orquestra do mulheres, a intriga amorosa, o jazz-band,
O usufruto e o entendimento que se norte-americano Bubby Curry) causou o preto do charleston, os boémios» como
fazia então do jazz eram, porém, diferen- sensação no Bristol Club, e do jazz-band «elementos esplêndidos para uma novela
tes dos atuais. Desde logo, porque aquele do navio Ryndam, que em 1927 atuou no da nossa época», à qual pôs desde logo
género musical estava ainda longe de Maxim’s. Quanto aos músicos portugue- o título Ao som do jazz.
ser uma música de concerto ou sequer ses, destacaram-se o violinista Almeida
improvisada, servindo tão-só para em- Cruz, que fundou em 1926 a orquestra A ameaça negra
balar as sucessivas e exuberantes danças Cruz’s Dance, e Tavares Belo (1911-1993), Além dos clubs, nos Anos 20 o jazz da-
que os EUA desaguaram na Europa ao que em 1928 iniciou a sua carreira como va-se a ouvir nos bailes e bailaricos, na
longo da década, incluindo o fox-trot, pianista do Bal Tabarin Montanha. Havia novel rádio, nas estridentes grafonolas,
o shimmy, o black-bottom e o charles- também as orquestras dos clubs, nomeada- nos teatros, nas revistas à portuguesa,
ton. Depois, porque o termo utilizado mente o Bristol Setimino Jazz, do célebre nas leitarias e nos cafés, nomeadamente
era não o jazz, mas sim o jazz-band, o violinista Raul d’Oliveira, o Maxim’s Jazz no Chave d’Ouro, no Rossio, que servia
qual era popularmente utilizado como ou o Jazz-band Patos. mesmo torradas com sabor a charleston.
sinónimo da bateria. Tal significa que Globalmente, a prática jazzística nos Até o Palácio de Belém, sob a presidência
muitas das aparentes referências ao jazz nightclubs foi ilustrada por alguns ro- de Bernardino Machado, lhe abriu as

56 V I S Ã O H I S T Ó R I A
portas – ou a um seu sucedâneo – nas ou a escarumbocracia», chamou Mário
vésperas do golpe do 28 de Maio de 1926. Azenha em 1928, ao que Fernando de
Só o cinema escapou, porque era ainda Pamplona apelidou, nesse mesmo ano,
mudo. de «hora preta». Este último sentia, aliás,
O problema, dizia-se, era a «Invasão
americana», título do artigo que Félix
O jazz era uma «nos acordes estrídulos do «Jazz» […]
a voz das árvores e dos macacos, a voz
Correia publicou no Diário de Lisboa, «música bárbara, ébria, ruidosa, do sertão (…). Não foi,
em 1930, escassos anos antes de entre-
vistar Hitler em Berlim: «Nos bailes só
louca», que contudo, original, pois em 1924 já o es-
critor Ferreira de Castro se referira ao
se tocam charlestons, black-bottoms gritava «alegria jazz como «música de selvagens, donde
e tangos; tudo americano. E muitas e desvairamento» se levitam gritos de desbravadores de
das orquestras, brancas, negras ou café
com leite, também vieram da América
e enchia «a noite de selvas, onde há mãos que rufam tambo-
res como nos batuques africanos, mãos
[…]. E se damos um salto ao cabaret, tumulto folgazão» negras que tangem peles de veado dis-
lá está o jazz americano a ferir-nos os tendidas sobre troncos ocos».
ouvidos com o seu barulho infernal.» A decadência que os clubs conheceram
António Alves Martins, poeta e jorna- no final dos Anos 20 teve, porém, pouco
lista, não podia estar mais de acordo. a ver com a violência verbal das críticas.
No mesmo jornal, defendera em 1924 Contribuíram para tal a implantação de
que o jazz, com os «seus acordes infer- um regime ditatorial e conservador em
nais», não era senão «uma das muitas 1926 e a promulgação da lei do jogo,
invenções americanas, destinadas a em 1927, que proibiu os jogos de azar
dar cabo deste velho e cansadíssimo em Lisboa.
mundo europeu». Sobrinho de bispo, Assim se fecharam, uma a uma, as por-
estatuiu mesmo que «expulsar do seu tas das casas que nos Anos 20 alinharam
seio o jazz-band equivale a expulsar do – ainda que por breves momentos – os
seu corpo todos os pecados – da sua lisboetas com a modernidade que se vivia
alma todas as tentações». nas demais capitais da Europa. Quanto
A aludida profusão jazzística acabou ao jazz, migrou progressivamente dos
por ser demasiado intensa, sobretudo nightclubs para os teatros, passando a
a partir da implantação da ditadura. ser, a partir dos anos 40 e 50, uma mú-
Reagiram prontamente alguns cronis- sica para ver e ouvir em ambiente de
tas e jornalistas. O «triunfo dos negros concerto.

VISÃO H I S T Ó R I A 57
Anos 20 || Drogas

Reinaldo Ferreira O Repórter X


escrevendo um dos seus artigos, como o
que aqui se reproduz, publicado na ABC

Os anos toda a carreira, a sua imaginação, exerci-


tada desde criança em novelas policiais
e de aventuras, não conhecia limites.

da ‘maldita’ A morfina fazia o resto. Mas também é


difícil saber quanto das suas reportagens
seria, efetivamente, ficcionado.
Entre as façanhas que lhe são atribuí-
Lisboa dançava nos clubs noturnos entre nuvens de fumo.
das conta-se a de se ter feito fotografar
De substâncias várias, mas que não davam prisão, só má fama. disfarçado de pedinte, de barba por fazer
Por muito tempo, nenhumas foram declaradas ilícitas e mão estendida, para um inquérito à
por Emília Caetano mendicidade, publicado em A Manhã,

O
mas que nunca terá passado de uma en-
nome era Charlotte. Reinal- Nascido em 1897 em Lisboa, Reinaldo cenação. Noutra altura terá espalhado
do Ferreira descreve-a como Ferreira iniciou-se no jornalismo aos 17 sangue de galinha no quarto de uma pen-
«uma francesa extravagante, anos no diário A Capital e deixaria uma são, para a fotografia de uma sua história
antiga artista de circo, amante produção de dimensão invulgar para sobre uma estrangeira assassinada pelo
de um croupier», esquelética, quem só viveu 38 anos. De escrita fácil, marido numa pensão de Lisboa. E sempre
já de certa idade, cabelo curto, cedo considerado o maior repórter por- ficaram suspeitas de que a sua famosa
maquilhagem carregada, vestida de preto. tuguês, trabalhou em vários jornais, viveu série de reportagens sobre a Rússia dos
Terá sido ela a primeira vendedora de em Paris, Madrid, Barcelona, Bruxelas, ao Sovietes foi na realidade escrita em Paris.
cocaína em Lisboa. serviço da Agência Americana, escreveu O público reagia com alguma indulgên-
O já então popular Repórter X faz dela novelas, teatro, foi argumentista e realiza- cia a estes deslizes. Até porque a imagina-
um retrato minucioso, quer na revista ABC dor de cinema. A partir do Porto lançou o ção de Reinaldo Ferreira não era necessa-
quer em livros como Memórias de um semanário Repórter X, o seu pseudónimo, riamente um mal. Ajudou, por exemplo,
Ex-Morfinómano. Mas é difícil dizer até criado por lapso por um tipógrafo que não as autoridades a desvendar um caso que
onde vai a realidade e começa a ficção des- compreendera a assinatura. Ao longo de impressionou o País: o assassínio da atriz
te retrato, traçado por alguém que sempre Maria Alves, estrangulada num táxi e ati-
teve dificuldade em distinguir os limites rada para uma sargeta. Seguindo a lógica
de uma e de outra. São de sua autoria da literatura policial, ele concluiu que só
as últimas palavras atribuídas a Sidónio
Pais: «Morro bem. Salvem a Pátria!»
A extravagante podia ter sido o ex-empresário da vítima.
Mário Domingues, chefe de redacção
Mas parece seguro que o ex-Presidente francesa Charlotte do Repórter X, um velho amigo do liceu
terá sucumbido de imediato aos tiros com terá sido a primeira de quem havia de se afastar mais tar-
que foi alvejado, sem dizer nada. Como de, contaria, muito depois da morte de
parece igualmente seguro que o jornalista
vendedora de Reinaldo, que o início do seu descrédito
ainda nem tinha chegado ao local. cocaína em Lisboa começou com a reportagem sobre a sua

58 V I S Ã O H I S T Ó R I A
‘Prostitutas cheirando cocaína’ Esta
ilustração alemã, de Viktor Leyrer (1927),
restitui-nos o ambiente da época

de azuis e de violetas que se espalhavam


pelo sangue, que subiam aos olhos, que
perturbavam as imaginações.»
Mas o Repórter X confirma que, na-
quela época, «a entrada triunfal perten-
ceu à cocaína – esse pó prateado que en-
che o corpo humano de oxigénio e que o
ergue no espaço – para depois o deixar
cair de grande altura numa queda horrível
– duma queda que dura anos».
Cecília Santos Vaz, numa tese de mes-
trado sobre os clubes noturnos de Lisboa,
escrita para o ISCTE, explica que, nos
Anos 20, a cocaína era tema frequente
na imprensa: «Multiplicam-se os artigos
sobre «a fada branca», a ‘coca’, a côcô», a
‘neve’ ou simplesmente ‘a droga’, consta-
tando-se a sua crescente popularidade.»
O uso de coca passou então a atingir
«todos os grupos sociais e inclui os artis-
BRIDGEMAN IMAGES/FOTOBANCO
tas dramáticos, atores, homens e mulhe-
res, desportistas», com destaque para as
atrizes de revista e as papillons, raparigas
pagas pelos clubes para atrair clientela.
No entanto, acrescenta, a partir de mea-
dos da década a imprensa passa a divulgar
os efeitos nefastos. Em 1926, o ano da
introdução de sanções ao uso de droga, a
ABC descreve os cocainómanos como pes-
«descoberta» de que havia no subsolo coca às raparigas que trabalhavam no soas que «geralmente são magras, pálidas,
de Lisboa, desde o terramoto de 1755, Palace em supostas pastilhas de horte- cor de terça, enrugados os rostos, enve-
outra cidade, com uma população bem lã-pimenta, até as tornar dependentes, lhecidas e enlividecidas». Noutro texto, a
organizada, mas sem saber da existência «espumando de gozo ao vê-las agonizar, revista chega mesmo a pedir a intervenção
de vida à superfície. Aí sim, os leitores lentamente». Ela própria teria morrido das autoridades: «O tráfico de cocaína está
terão achado de mais. sem nunca experimentar a droga. na mão de meia dúzia de rufiões, porteiros
No artigo «Existem… fumeries de ópio de clubs ou escrocs cadastrados e bom será
Quando Lisboa ‘snifava’ em Lisboa?», publicado na ABC em 1926, que a polícia abra os olhos a tempo.»
Mas, nem pela sua própria dependência o Repórter X fala sobre as várias drogas
de droga, ele faz de Charlotte uma descri- então a circular. «Há quinze anos o máxi- Macau no epicentro da guerra
ção com alguma indulgência. A francesa, mo desequilíbrio boémio de Portugal era No final do século XIX e no início do sé-
que terá feito fortuna, centrava o seu ne- o uso e abuso de licores», mas, acrescenta, culo XX, a droga «sai do controlo médico
gócio no Palace, que passa por ter sido o «eis que chega com a guerra e com o falso e começa a estender-se a alguns grupos
primeiro dos clubes modernos de Lisboa, e verdadeiro cosmopolitismo que então sociais», diz Luís Vasconcelos, antropó-
um mundo que Reinaldo conhecia de cor. importamos um carregamento completo logo do Serviço de Intervenção nos Com-
«Introduzindo-se nas salas começou a ofe- de drogas. Foi a hora da loucura …». Fala portamento Aditivos e nas Dependências
recer um pó prateado, mágico, que muito assim da droga que conhece melhor: «Os (SICAD).Mas no Ocidente esses grupos
se usava em Paris e que era a garantia da morfinómanos em Portugal eram apenas, são ainda restritos e dificilmente poderá
máxima ventura, durante algumas horas.» até aquela época, os que já padeciam de falar-se num problema de saúde pública.
O Repórter X, que se refere sempre às velhas doenças; suicidas a longo prazo, que «O uso de droga é antiquíssimo. Mas a
drogas por «vício», atribui a Charlotte procuravam o alivio da dor física. A partir química moderna tornou possível isolar os
uma absoluta sordidez. Assim, ela daria de então passou a ser uma semente chic alcalóides em muito pequenas quantida-

VISÃO H I S T Ó R I A 59
Anos 20 || Drogas

des, com enorme efeito.» Surgem, assim, cana e dos missionários», escreve Carlos
os preparados psicoativos. Se a morfina Alberto Poiares em Análise Psicocrimi-

BRIDGEMAN IMAGES/FOTOBANCO
e a heroína são isoladas a partir do ópio, nal das Drogas, tese escrita para a Uni-
a cocaína é extraída das folhas de coca. versidade do Porto.
Sem que houvesse, durante algum tempo, Esse movimento seria em breve lidera-
qualquer problema legal com isso. Surgem do pelos EUA, que decidiram aproveitar
no mercado numerosas bebidas com al- a ocasião para voltar às boas graças da
gum teor de coca, como o vinho Mariani, China, já que tinham chegado a sus-
que contaria entre os seus apreciadores a pender durante uma década a entrada
rainha Vitória e o papa Leão XIII. ‘A droga que mata’ Assim titula uma de imigrantes daquele país. «Depois da
«Nos Anos 20 dá-se a mudança de pa- revista francesa, referindo-se à ‘coca’ adoção de medidas racistas no campo do
radigma. O consumidor de droga deixa de emprego, a droga funcionou, pois, como
ser visto como um dependente para ser moeda de troca», explica C. A. Poiares.
considerado um criminoso. Mas o movi- Lá longe, na China, o uso do ópio era Em 1909 reunia-se a Conferência de
mento proibicionista internacional surgiu tão generalizado que constituía um pro- Xangai, o primeiro encontro interna-
por causa dos opiáceos. A coca era a droga blema sanitário, a que as autoridades cional sobre droga, presidido pelo dele-
das festas e dos ricos. Não dava preocupa- queriam pôr fim. Levado da Índia pela gado dos EUA, o puritano bispo Brent.
ção de maior», diz ainda Luís Vasconcelos. Companhia das Índias Orientais, o ópio O alinhamento com a China permitia
Reinaldo Ferreira escreve sobre o ópio: dera lugar, entre 1839 e 1856, a duas guer- ainda aos norte-americanos «garantir o
«É, de todos os chaveiros dos tais paraísos ras entre a China e a Grã-Bretanha. Mas, domínio no Pacífico», já que tentavam fir-
artificiais, o mais antigo. Nasceu na deca- em ambos os casos, os ingleses saíram mar-se como primeira potência mundial.
dência da civilização chinesa.» Mas depois a ganhar, ficando até com Hong Kong. Entre os países menos entusiastas do
estendera-se ao Ocidente: «Aristocratas Portugal era parte no negócio devido proibicionismo estava Portugal. Daí que
degenerados criaram, nos seus palácios, a Macau. E algum do ópio que chegava nesta como nas conferências que se se-
recintos esconsos onde se fumava ópio. à China seria cultivado em Goa. guiram a sua posição tenha sido, segundo
E os amarelos que emigravam para Eu- aquele autor, «alvo de diversas críticas».
ropa traziam, entre outros planos de Os fumos proibidos No entanto, dada a pressão externa, Por-
negócios, o de montarem uma fumerie Os «amarelos» de que falava o Repórter tugal aprovaria, em 1923, a primeira lei
de ópio.» X eram os chineses que tinham emigrado de combate à droga. Publicada no ano se-
Em Paris não só surgiram numerosas para alguns países da Europa, mas sobre- guinte, era mesmo assim bastante branda:
fumeries, como seria criado, em 1844, o tudo para os EUA, onde foram trabalhar qualquer tipo de droga só podia ser ven-
Clube do Haxixe, que reunia la crème de na construção dos caminhos-de-ferro. dido às farmácias e a «estabelecimentos
la crème dos intelectuais: Baudelaire, que Alcunhados de coolies, um termo pejora- científicos».
escreveria sobre drogas, sobretudo em tivo de origem difícil de terminar, eram Bem mais restrita foi a legislação de
As Flores do Mal (1857), mas também mal vistos não só pelo hábito de fumarem agosto de 1926, que previa seis meses de
Alexandre Dumas, Alfred de Musset ou ópio, mas sobretudo por trabalharem prisão e multas de 3 mil a 5 mil escudos
Balzac. Também em Portugal, em 1915, por salários mais baixos do que os locais. para os importadores ou comerciantes de
Fernando Pessoa, através de Álvaro de «Um pouco por toda a Europa, por drogas que não tivessem autorização. As
Campos, publicava o Opiário. «Por isso vezes à revelia dos governos, começaram mesmas penas serão aplicadas aos consu-
eu tomo ópio/é um remédio.» No seu a manifestar-se movimentos de opinião midores e aos donos de «casas de reunião
caso, contra o tédio. contra a droga, partindo da Igreja Angli- ou divertimento, como clubes e cafés, ou de
casas de toleradas ou de passe», que per-
mitam estupefacientes. O estabelecimento
seria encerrado pelo mínimo de um ano.
Em 1935 morria Reinaldo Ferreira.
A pouco e pouco os leitores tinham-se
A imaginação de tornado menos indulgentes para com a
Reinaldo Ferreira não sua imaginação, que não conhecia limites.
E a sua fase de ex-morfinómano fora breve.
conhecia limites e é Mas até na sua morte o Repórter X foi
difícil saber quanto das símbolo de toda uma época. Cada vez mais
suas reportagens seria apertados pela nova legislação, os clubes
noturnos de Lisboa foram encerrando um
ficcionado a um. A festa tinha chegado ao fim.

60 V I S Ã O H I S T Ó R I A
FUNDAÇÃO ANTÓNIO QUADROS

Cronista Madrid, 1928 António Ferro com


a mulher, Fernanda de Castro, e
amigos, fotografados por Almada

dos tempos A Idade do Jazz-Band usa a músi-

modernos
ca como pretexto para traçar um re-
trato frenético da época que se vivia.
O conhecimento aprofundado sobre o
jazz, enquanto estilo musical, Ferro só
Antes de ser o mestre da propaganda do Estado Novo, o conquistaria «nas incursões furtivas
António Ferro deixou-se contaminar pela loucura aos caveaux parisienses» e «nos clubes
dos Anos 20, com o jazz e o cinema à cabeça, e ligou-se nova-iorquinos», escreve o investigador
Orlando Raimundo em António Ferro,
ao movimento modernista, produzindo textos que lhe
O Inventor do Salazarismo (D. Quixote,
valeram a censura da República 2015), antes de acrescentar que Ferro se
por Vânia Maia tornaria um «colecionador compulsivo de

‘O
discos». A neta Mafalda Ferro, 62 anos
jazz-band é o triunfo da disso- do pelas notas de uma orquestra de jazz (filha do poeta António Quadros), revela
nância, é a loucura instituída ao vivo e por bailarinas que irrompiam que o avô não era particularmente fã de
em juízo universal, essa calu- pelo palco. A façanha seria repetida em fado, apesar do uso propagandístico que
niada loucura que é a única várias cidades do Brasil, para deleite de dele fez. «Percebia que era a canção na-
renovação possível do velho uma burguesia perante a qual Ferro sur- cional, mas aquele lado sofrido não tinha
mundo… Ser louco é ser li- gia como representante do modernismo a ver com ele. Ele era mais jazz», afirma.
vre, é ser como a inteligência não sabe português, à boleia de ter figurado como À VISÃO História, Orlando Raimundo,
mas como a alma quer. Os loucos são editor dos dois números da mítica revista 67 anos, destaca a capacidade de dominar
os grandes triunfadores da criação.» A Orpheu, marca do modernismo luso, que a arte da retórica do futuro diretor do
irreverência destas palavras vociferadas juntara nomes como Fernando Pessoa, Secretariado de Propaganda Nacional
em 30 de julho de 1922 por António Fer- Almada Negreiros, Santa-Rita Pintor (Secretariado Nacional de Informação
ro, então com 26 anos, deixaria a plateia ou Mário Sá-Carneiro. Ferro aparecera após a II Guerra Mundial), que Ferro
brasileira do prestigiado Teatro Trianon, na qualidade de editor, já que à data de liderou de 1933 a 1949: «Usava as pala-
no Rio de Janeiro, de cara à banda. Era a lançamento da revista, em 1915, tinha 19 vras como objetos e sabia como as colocar
primeira vez que António Ferro apresen- anos e, sendo menor de idade, era o edi- para chocar e dar nas vistas.» Efeitos lar-
tava a conferência A Idade do Jazz-Band. tor «irresponsável» de que os arrojados gamente atingidos durante a sua estada
A espaços, o seu discurso era interrompi- modernistas precisavam… de um ano no Brasil, entre 1922 e 1923.

VISÃO H I S T Ó R I A 61
Retrato de
Mussolini com
dedicatória para
António Ferro

O intrépido
entrevistador
«A porta abre-se com violência,
com irritação, como se fosse
aberta por um pé-de-vento, eu
tenho Hitler, finalmente, diante
de mim.» A descrição dramática
de António Ferro assinala um
momento alto da sua carreira
jornalística – manchete de 23
de novembro de 1930 do Diário
de Notícias. O encontro, em
Munique, com Adolf Hitler, à
época ainda na oposição ao
Governo alemão, era o culmi-
nar de uma década de grandes
entrevistas que havia começado
em 1920 com a sua entrada para
O Século. Em 1923, já ao serviço
do Diário de Notícias, encontra-
-se pela primeira vez com Benito
Mussolini, em Roma.
O Duce diz-lhe que a única ma-
neira «de julgar se uma ditadura
é um bem ou um mal é aguardar
pelos seus resultados». O seu
périplo dá origem ao livro Viagem
à Volta das Ditaduras (1927). A
sua simpatia por este tipo de
regimes era evidente. Já depois
da publicação do livro dá-se a
entrevista a Hitler que, como
descreve Margarida Acciaiuoli,
em António Ferro, A Vertigem da
Palavra (Bizâncio, 2013), se resu-
me a três perguntas em francês
previamente aprovadas. Ferro
pergunta-lhe se o seu partido é
da paz ou da guerra, e a resposta
do futuro Führer dá título ao ar-
tigo: «O meu partido é o partido
da paz, mas não da paz de Ver-
salhes.» António Ferro admitia
que, por vezes, era necessário
«maquilhar» o entrevistado para
o apresentar «com interesse,
com novidade, com espírito», o
que torna difícil avaliar até aonde
poderá ter ido a sua criatividade,
que nada tinha de jornalístico.

62 V I S Ã O H I S T Ó R I A
Cortesão. Apesar de estes terem ganho a
causa, a peça não seria reposta.
A produção literária modernista de
António Ferro, concentrada até 1925,
andaria de mãos dadas com o choque e
a polémica: Teoria da Indiferença (onde
escreve que teve «a impressão de ter sido
plagiado» quando leu Oscar Wilde), Co-
lette (um perfil da arrojada romancista
francesa Colette Willy), o manifesto fu-
turista (fora de tempo) Nós, Leviana, que
traça o retrato de uma mulher frívola com
algum erotismo (ao estilo do modernista
espanhol Ramón Gómez de la Serna, seu
amigo), entre outros textos.
«Um velho sonho de Ferro era o de
tornar-se num protagonista da impor-
tação dessa nova cultura cosmopolita e
Família António Ferro com o filho -de-mel. Fernanda de Castro, com quem contribuir assim, patrioticamente, para
mais velho, António Quadros, em António Ferro teria dois filhos (António tornar Lisboa numa cidade à la page»,
1926 (à esq.), e a mulher, Fernanda de Quadros em 1923 e Fernando Quadros escreve o investigador José Barreto no
Castro com uma amiga (em cima)
Ferro em 1927), tem uma abundante ensaio António Ferro: Modernismo e
produção literária. «Se virmos as foto- Política (2011). A sua estratégia passava
A 1 de agosto de 1922 surpreende os grafias da época, o mundo artístico era pelas frequentes viagens a capitais eu-
amigos ao casar-se por procuração com masculino, mas a Fernanda de Castro ropeias, mas também pelas passagens
a namorada que tinha deixado em Lis- estava lá. Nunca passou pela cabeça do pelo Brasil e EUA, muitas vezes tendo
boa, a poetisa Fernanda de Castro. As meu avô que ela fosse apenas dona de como pretexto a sua carreira de repórter
suas testemunhas seriam a atriz Lucília casa», garante Mafalda Ferro. internacional (ver caixa). A expensas do
FOTOS: FUNDAÇÃO ANTÓNIO QUADROS

Simões, que o havia desafiado a fazer Diário de Notícias, que o autoriza a ficar
a viagem transatlântica, e o almiran- Vítima da censura dois meses nos EUA na primavera de
te Gago Coutinho, ainda a celebrar a Ainda no Brasil, Ferro dá a conferência 1927, dá largas à paixão pelo cinema e
sua travessia aérea do Atlântico Sul. Os A Arte de Bem Morrer, em que defende a visita Hollywood. Conhece Walt Disney
padrinhos brasileiros foram o escritor ideia perturbadora de que morrer é bom, e o produtor e ator Douglas Fairbanks,
Oswald de Andrade e a artista Tarsila alcançando grande impacto (o texto seria com quem partilhava a admiração por
do Amaral, que pintou o retrato da noiva editado com capa de Almada Negreiros, Mussolini. Na bagagem traz a ideia de
após a sua chegada ao Brasil para a lua- de quem era, na altura, próximo). Cau- seguir o exemplo norte-americano de usar
sa ainda grande sururu em São Paulo o cinema para promover ideais. Esteve
a estreia da sua peça Mar Alto, sobre próximo de várias tentativas de golpe con-
Literatura
As obras A Idade
uma história de adultério, incluída no tra a República, fruto da amizade com o
do Jazz-Band e reportório da Companhia de Teatro de comandante Filomeno da Câmara, com
Hollywood Capital Lucília Simões, fazendo parte do elenco o quem partilhava a nostalgia sidonista.
das Imagens, da próprio Ferro. Já de regresso a Portugal, Os ideais do golpe militar do 28 de
autoria de António a peça seria apresentada no Teatro de São Maio de 1926 obrigaram-no a trocar o
Ferro, mostram a
Carlos, em Lisboa, a 19 de junho de 1923. modernismo pelo «vanguardismo na-
sua paixão pela
música e pelo Sem meias medidas, o governador civil, cionalista», mais condizente com o re-
cinema. Os livros major Viriato Lobo, proíbe-a em nome gresso às tradições que o Estado Novo,
Leviana e Colette da ordem pública. Surge assim o Docu- a partir de 1933, defenderia. A Salazar,
seriam polémicos mento dos Homens de Letras contra a não agradava o seu passado irreverente,
devido ao seu
censura a Ferro, subscrito por autores o que levou Ferro a retratar-se: «A obra
pendor sensual
como Aquilino Ribeiro, Fernando Pes- que eu escrevi aos 20 anos não é minha,
soa e Raul Brandão, além de nomes que é dos meus 20 anos, é de alguém que
seriam mais tarde vítimas da censura morreu.» Uma obra hoje esquecida que
que o então jovem dramaturgo passaria ficou mesmo, para sempre, nos anos 20
a defender, como António Sérgio e Jaime dos seus 20 anos.

VISÃO H I S T Ó R I A 63
Anos 20 || Fraude

A grande burla
de Alves Reis
O maior falsificador de todos os tempos acreditava que só
havia uma maneira de enriquecer: emitindo dinheiro. Foi o que
fez. História de um burlão que enganou o Banco de Portugal e
que confiou quase até ao fim na sua «boa estrela»
por Clara Teixeira

A
rtur Virgílio Alves Reis começou moeda na metrópole – já não era obrigado
cedo a construir o mundo em a assegurar a contrapartida em ouro do di-
que queria viver. Aos 18 anos, nheiro que emitia. Alves Reis rodeou-se de
falsificou um diploma de Enge- abundante documentação e transformou a
nharia emitido por uma escola cela em «gabinete de trabalho». Aos pou-
politécnica de Oxford que nunca cos, «a simples curiosidade» que o movia
existiu. Perfecionista, deu-lhe existência transformou-se no «firme desejo de emitir
legal autenticando uma cópia do docu- notas», como conta Francisco Teixeira da
mento num cartório de Sintra e destruin- Mota, autor de Alves Reis – Uma História
do de seguida o «original». Como técnico
de Engenharia, emigrou em 1916 para
Angola com a jovem esposa, Maria Luísa
Jacobetti de Azevedo, que o acompanhará
na aventura colonial e em muitas outras
que o destino reservará ao casal.
Em poucos meses, alcançou um posto
de chefia na Companhia dos Caminhos
de Ferro de Moçâmedes. Não se ficou por
aí. As duvidosas reparações efetuadas
nas locomotivas não impediram a sua
nomeação para altos cargos técnicos na
antiga colónia, mas foi obrigado a recuar
já que o «diploma» de Oxford não o equi-
parava aos engenheiros saídos das escolas
portuguesas. Estreou-se nos negócios de
import-export e na exploração mineira,
mas as coisas não lhe correram bem. Em
1923 regressou de vez a Lisboa com a
mulher e dois filhos pequenos, sem ter
como pagar uma vida abastada. Recor-
reu a esquemas e comprou uma empresa Para eliminar o aspeto
ferroviária colonial com um cheque sem
provisão. As dívidas acumularam-se e
novo e o cheiro a tinta,
foi preso por burla no Aljube, no Porto. as notas foram passadas
E foi durante os dois meses passados na
prisão que gizou um crime quase perfeito.
por água com limão, mas
Em 1924, Portugal já tinha abandonado desbotaram e adquiriram
o padrão-ouro e as notas em circulação um tom avermelhado.
eram cada vez em maior número. O Banco
de Portugal (BdP) – uma instituição priva-
Ficaram conhecidas como
da que detinha o exclusivo da emissão de «camarões»
64 V I S Ã O H I S T Ó R I A
A encomenda foi entregue à casa in-
glesa Waterlow & Sons, fabricante ofi-
cial das notas do BdP. O presidente da
firma, Sir William Waterlow, acreditou
na narrativa e aceitou fabricar as notas
ao abrigo de um segredo de Estado para
auxiliar Angola. Ultrapassados alguns
episódios rocambolescos, a emissão
clandestina entrou em circulação em
fevereiro de 1925: uma primeira entrega
de 20 mil notas foi feita no dia 10 e uma
segunda, de 30 mil notas, no final do
mês. Seguiu-se uma terceira entrega de
150 mil notas em março. Os passapor-
tes diplomáticos de Marang e de José
Bandeira foram cruciais para que as
notas, acomodadas em pesadas malas,
viajassem entre Londres e Lisboa (depois
de uma escala na Holanda), sem serem
detetadas nas alfândegas.
Alves Reis confiava, como sempre, na
sua «boa estrela».

As notas ‘camarões’
As notas novas foram rapidamente trans-
formadas em «dinheiro lavado», ou seja,
Recolha de dinheiro As filas à porta do notas no estrangeiro. Faltava criar uma trocadas no mercado negro por divisas
Banco de Portugal para troca das notas narrativa para acabar com desconfianças, (libras, dólares) e cheques em moeda
de 500 escudos duraram vários dias
e nisso Alves Reis era mestre. estrangeira – até por licenças de impor-
tação. Outro estratagema consistia em
Portuguesa (Oficina do Livro). Ao ler um Empréstimo secreto fazer depósitos de notas novas em ban-
discurso do deputado Cunha Leal, profe- A pretexto de um imaginário empréstimo cos e, dias depois, levantar esses mesmos
rido em 29 de outubro de 1923, percebeu secreto de um milhão de libras (cerca de depósitos na íntegra, pagos em dinhei-
que as tentativas desesperadas do Governo cem mil contos) para resolver a delicada ro «velho». A compra de joias também
para controlar a inflação davam liberda- situação financeira de Angola, feito por um foi usada na conversão, especialmente
de ao Banco de Portugal para aumentar sindicato de empresas holandesas, Alves através de uma ourivesaria do Porto com
a quantidade de dinheiro em circulação Reis planeou uma emissão clandestina ligações à casa cambista que, mais tarde,
sem «dar conta disso» ao poder executivo. de notas de 500 escudos, com a efígie de viria a detetar a burla.
O BdP não só emitia notas à revelia do Go- Vasco da Gama, que seria usada para pa- Para eliminar o aspeto novo e o cheiro
verno e do Parlamento como nem sequer gar esse mesmo empréstimo aos credores. a tinta, Alves Reis, com a ajuda do grupo
controlava as que estavam em circulação. Redigiu contratos e cartas autorizando a de «colaboradores», mergulhou notas
Emitir dinheiro parecia ser uma boa emissão, falsificou as assinaturas do novo no valor de 1980 contos, uma a uma,
maneira de enriquecer. alto-comissário em Angola, Rego Cha- em água com sumo de limão deitada
Como o BdP detinha o exclusivo das ves, do delegado do Governo de Angola na banheira da casa de banho do es-
emissões, Alves Reis teria de atuar em e deputado da nação, Delfim Costa, do critório. Patrão e empregados saíram
nome da instituição. Com a ajuda de ministro das Finanças, Daniel Rodrigues, para jantar, mas quando voltaram ao
Adolph Hennies, um homem de negócios e do próprio governador do BdP, Inocêncio 1º andar da Rua de São Nicolau as no-
suíço de reputação duvidosa com inte- Camacho Rodrigues. Rodeou-se de todos tas tinham desbotado e adquirido um
resses em Angola, do seu sócio holandês os cuidados e estudou as notas em circu- tom avermelhado. O Banco de Portugal
Karel Marang, detentor de passaporte lação ao pormenor. As notas clandestinas conserva alguns destes espécimes, bati-
diplomático, e de José Bandeira, irmão tinham de ser iguais às que já circulavam, zados como «camarões», no espólio do
do ministro de Portugal em Haia, forjou obedecendo à mesma ordem numérica Museu do Dinheiro, em Lisboa.
um documento em que o BdP lhes dava e alfabética e aos critérios de sequência Imparável, o burlão não desistiu e ten-
poderes para encomendar o fabrico de das assinaturas dos responsáveis do BdP. tou nova experiência, mergulhando as

VISÃO H I S T Ó R I A 65
Anos 20 || Fraude

notas apenas em água, para disfarçar o


cheiro a tinta. O mais difícil foi secá-las.
Em Haia, Paris e Lisboa, José Bandeira
e Alves Reis exibiam a riqueza recente.
Compravam palacetes, quintas e carros
vistosos, joias e roupas caras para as mu-
lheres, hospedavam-se em bons hotéis.
O dinheiro corria fácil e Alves Reis dispu-
nha finalmente dos fundos para resolver
os negócios em Angola. Mas espalhara-se
o boato de que havia notas falsas de 500
escudos e tornava-se mais difícil fazê-las
entrar em circulação – apesar de o próprio
BdP ter desmentido o rumor. Só havia
uma maneira de introduzir no sistema tão
grande volume de notas. Como assinala
Teixeira da Mota, «o mais importante já
existia: dinheiro. Havia, agora, que cons-
truir o banco». Em julho de 1925, é criado
o Banco Angola & Metrópole.
A ganância não tem limites e uma nova
emissão de 380 mil notas novas foi en-
comendada à Waterlow & Sons. As duas
emissões perfizeram 290 mil contos, qual- Em tribunal Alves Reis comove a movimentação de notas «Vasco da Gama»,
quer coisa como 100 milhões de euros ao audiência com um relato de cinco que, apesar de serem novas, não vinham
horas sobre a sua tragédia pessoal
câmbio atual. Dessa vez, a casa inglesa em maços com numeração seguida, como
questionou o valor, superior ao previs- era procedimento habitual no Banco de
to, e também a coincidência de séries e depósitos. Havia muito por esclarecer, e Portugal. Para evitar desconfianças, Alves
números com uma anterior emissão do o jornal O Século começou a investigar. Reis ordenava ao seu séquito que bara-
BdP em 1922. Apesar do cuidado em não Eis que tudo se precipita a partir de lhassem o dinheiro, evitando a entrada
repetir os números das notas, isso acabou novembro de 1925. A campanha jorna- em circulação de notas com números se-
por suceder, o que não agradou ao cérebro lística não passou despercebida na casa guidos, mas acabou por atrair as atenções
da operação. Quase ao mesmo tempo, o de câmbios Pinto da Cunha, no Porto, do cambista que partilha as suas dúvidas
descuido de um funcionário, que depo- utilizada pelos funcionários do Angola com um amigo tesoureiro que, por sua
sitou centenas de contos em notas novas & Metrópole para trocar divisas ou para vez, as transmite ao Banco de Portugal.
no Banco do Minho, tornou-se tema de realizar avultadas transferências para Numa inspeção surpresa à filial do
conversa entre bancários. Lisboa. A mesma firma tinha ligações Angola & Metrópole no Porto, os fun-
A preocupação de Alves Reis era agora familiares à ourivesaria do Porto onde, cionários do BdP descobrem um cofre
a de legalizar as emissões clandestinas. ao longo desse ano, Alves Reis comprara com 1200 contos em notas novas de
Impunha-se conquistar o controlo acio- joias no valor de 840 contos, pagando 500 escudos não registadas no balan-
nista do BdP, de capitais privados. Em sempre com notas novas de 500 escudos. ço. Mas algo não batia certo: apesar das
setembro, começou a comprar grandes O cambista Manuel Lutero de Sousa irregularidades contabilísticas, as notas
lotes de ações do banco emissor, dando notara, nos últimos meses, uma estranha apreendidas não eram falsas. O mistério
um novo passo para tornar real a fábula permanecia: como explicar o enorme vo-
em que vivia desde há meses. lume de dinheiro em circulação?
Na sede do BdP, as notas são inspecio-
A descoberta das notas duplicadas Na véspera da noite nadas e detetados os primeiros quatro
O avanço sobre o BdP atraiu as atenções de Natal, o burlão exemplares duplicados. Apesar dos cuida-
sobre a estratégia do Angola & Metrópole. dos de Alves Reis, as séries e a numeração
Um dos mais intrigados era Alfredo da cai na armadilha coincidam com uma anterior emissão do
Silva. Desconfiado, o fundador da CUF dos investigadores e BdP. Mas ainda faltava perceber como
interrogava-se como é que o Angola &
Metrópole emprestava tanto dinheiro
confessa finalmente é que a «falsificação» tinha acontecido.
Alves Reis, então com 27 anos e três filhos
aos clientes sem se preocupar em captar o crime pequenos, é detido no regresso de uma

66 V I S Ã O H I S T Ó R I A
viagem a Luanda. O mundo paciente-
mente construído à medida dos seus so-
nhos começava a desabar. O governador, o
gerente da filial do Porto e um diretor do
BdP e um alto funcionário público pas-
sam por cúmplices e também são presos
– eram suas as assinaturas nos contratos
enviados à Waterlow & Sons. A 7 de de-
zembro, o BdP iniciou a recolha de todas
as notas Vasco da Gama em circulação,
já que era impossível distinguir entre as
das diferentes emissões. Durante dias,
formaram-se filas à porta da instituição.
Na sequência das revelações, o ministro
do Comércio demitiu-se e a desconfiança
alastrou ao Governo, correndo rumores
sobre alegadas listas de políticos suborna-
dos pelo Angola & Metrópole. Mas con-
tinuava por apurar quem teria falseado
as assinaturas dos diretores e fornecido
a numeração das notas aos falsificadores.
Na noite de 23 para 24 de dezembro
de 1925, Alves Reis confessa finalmente
a burla. Cai na armadilha dos investiga-
dores, acreditando que a mulher estava
presa numa cela com ratos.

O julgamento
Burlão, falsário, mitómano, Alves Reis
vê a vida desabar, e a 31 de maio de 1928
tenta suicidar-se na cela. Abraça o cato-
licismo, depois o protestantismo e, aos
poucos, desiste de atribuir as emissões
clandestinas ao BdP. Começa a ser jul-
gado em maio de 1930, quatro anos e
meio depois da detenção. É acusado de
falsificação e uso de contratos e cartas
falsos, exercício ilegal de profissão e burla
por cheques. Comove o tribunal com um
relato de cinco horas sobre a sua tragédia
pessoal, que mais tarde publica em livro.
É condenado a oito anos de prisão, segui-
dos de 12 anos de degredo. Ao jornalista e
seu antigo colega de liceu António Ferro,
declarou, no final da leitura da sentença:
«Pode dizer que me resigno.»
O maior burlão que Portugal conheceu
foi libertado a 5 de maio de 1945. Tinha
47 anos e voltou a dedicar-se aos negócios.
Uns correram mal e conduziram-no de
novo à barra do tribunal. Morreria em
1955, de ataque cardíaco, quando a sua
«boa estrela» já o tinha abandonado para
sempre.
Anos 20 || Inflação

Dinheiro louco
Para combater a inflação, imprimia-se dinheiro de forma
descontrolada, à revelia dos governos e do Parlamento.
As «emissões surdas» de moeda e os talões e os vales de
trocos tomavam o País de assalto
por Clara Teixeira

D
epois da loucura da Grande controlo. Com custos para a economia, Dos vales à nota de
Guerra, a vida no Portugal como se verá. mil Para acompanhar
dos anos 20 fervilhava. Nem O escudo, criado em 1911 pelo regi- a subida dos preços, é
lançada a nota de mil
o dinheiro escapava. Sujeito a me republicano, desvalorizou-se tanto escudos em 1920. Mas
desvalorizações acentuadas e em 15 anos como o real em 500 anos, o dinheiro vale cada vez
a especulações desenfreadas, como notou o investigador Nuno Valério. menos e os municípios
ele era caro e escasso. A inflação subia Para comprar algo que custava 1 escu- começam a emitir
de forma vertiginosa e o câmbio do escu- do (1$00) em 1911, eram precisos 1$01 cédulas de 2, 5 e 10
centavos para substituir
do batia no fundo. Faziam-se apostas de em 1914, 2$96 em 1918, 5$86 em 1920 a moeda que escasseava
risco e construíam-se fortunas. Surgiam e 24$25 em 1924. Ou seja, o poder de
empresas e fábricas novas a um ritmo compra da moeda nacional era 24 vezes
nunca visto. Entre 1920 e 1926, seriam menor do que 13 anos antes, em 1911.
criados 18 novos bancos. O ambiente de O dinheiro valia cada vez menos. Para Moeda descontrolada
negócios era febril. tentar acompanhar a subida de preços, O Banco de Portugal (BdP) não ficava
«A vida», escreveu Raul Brandão, foi lançada a nota de mil escudos no final indiferente perante o descalabro da eco-
«modificou-se nos últimos vinte anos, de 1920. Ninguém poupava. Estima- nomia. De capitais privados, a instituição
primeiro com lentidão, e depois da -se que o valor dos depósitos bancários detinha o exclusivo da emissão de moeda
guerra, num tropel que mete medo.» tenha diminuído de 44 contos (44 mil no continente e ilhas. As suas emissões fi-
Os efeitos financeiros da I Guerra Mun- escudos, ou 44 000$00) em 1922 para duciárias (notas de banco) destinavam-se
dial (1914-18) não pouparam Portugal, menos de 29 contos em 1923. quase exclusivamente ao financiamento
que acumulou uma crise económica com A depreciação interna do escudo, re- da despesa e da dívida públicas. A in-
uma crise política. A espiral inflacionista sultante da inflação, era acompanhada vestigadora Maria Eugénia Mata anali-
só era comparável à dos países perde- na frente externa pela descida do câmbio. sou como os défices públicos forçavam
dores da guerra – Alemanha, Áustria e Em finais de 1918, a libra trocava-se a o Estado a contrair empréstimos junto
Hungria. Os bens essenciais aumenta- 7$12. Este valor foi superado em mais de do BdP. Este, obrigado a fabricar moeda
vam de um dia para o outro. Durante o 20 vezes em 1924, quando a divisa inglesa para satisfazer as necessidades do Estado,
conflito, os preços mais do que dupli- atingiu o valor máximo de 155$54, esta- alimentava, com as suas emissões, a forte
caram. Entre 1920 e 1924, cresceram bilizando em seguida perto dos 110$00. inflação do pós-guerra. Cerca de 90% das
quase três vezes, obrigando aqueles que
dependiam de rendimentos fixos – como
pensões, juros, títulos, até salários – a
deitar contas à vida.
O esforço de guerra fez crescer o défice Sem moedas
e também a dívida pública, que passou de
um milhão de contos em 1918 para 8 mi-
de trocos, o País
lhões em 1924. A crise nas finanças pú- funcionava
blicas foi agravada pela diminuição das
reexportações das matérias-primas das
à custa de vales
colónias, a escassez de bens essenciais, improvisados
a redução das remessas dos emigrantes em pequenos
e a fuga de capitais. Perante a pressão
inflacionista, a solução encontrada foi
pedaços de papel
o fabrico de dinheiro sem qualquer e cartão
68 V I S Ã O H I S T Ó R I A
notas em circulação constituíam dívida do emissões também eram feitas através de Talões de trocos
Estado ao BdP, segundo assinala Manuel «portarias surdas» assentes em acordos Confrontado com a escassez de trocos, o
Mira Godinho. escritos entre o Governo e o BDP, de Governo autorizou a Santa Casa da Mi-
Em 1924, a oferta de moeda era já 15 portarias elaboradas mas não publica- sericórdia de Lisboa e a Casa da Moeda
vezes maior do que em 1914. A moeda em das, de acordos sem portaria elaborada a emitirem cédulas de 2,5 e 10 centavos.
circulação aumentou de 128 mil contos e de «um quinto processo que consiste Um total de 178 municípios foi também
em 1913 para 1,846 milhões de contos em em o Banco não dar cavaco ao Governo, autorizado a criar as suas próprias cédulas,
1925. A emissão de notas tentava acompa- aumentar a circulação fiduciária e o Go- válidas nas respetivas áreas geográficas.
nhar a subida dos preços, mas por detrás verno, a certa altura, dar conta disso e Mas não foi suficiente. À revelia do Mi-
estava a necessidade de imprimir dinheiro não se importar». nistério das Finanças, surgiram por todo
para o Estado poder pagar as suas pró- Com efeito, o BdP não só emitia notas o lado talões de trocos ou vales improvi-
prias despesas. sem autorização do Parlamento como sados em pequenos pedaços de papel e
Desesperados com a dívida e impo- também passou a fazê-lo sem o aval dos cartão, ostentando apenas o carimbo e
tentes perante o aumento dos preços, governos. A instituição nem sequer con- a assinatura do comerciante. O País fun-
os sucessivos governos começam a dar trolava os exemplares que já estavam em cionava à custa deste dinheiro informal.
luz verde ao Banco de Portugal para circulação. Ao perceber isto, um inspirado A desvalorização abrupta da moeda foi
aumentar a quantidade de dinheiro em Alves Reis começou a preparar a maior travada a partir de 1924, quando o primei-
circulação sem autorização legislativa. burla que Portugal conheceu no século ro-ministro (e simultaneamente ministro
São elaboradas portarias ilegais pelos XX (ler, nesta edição, o texto A Grande das Finanças) Álvaro de Castro proibiu as
governos, não publicadas no Diário do Burla de Alves Reis). emissões fiduciárias para alimentar défice
Governo (atual Diário da República), en- Mas o escudo continuava a desvalo- e dívida. A medida, a par de um forte
quadrando novas emissões de notas que rizar-se mais depressa do que o ritmo a aumento de impostos para equilibrar as
ficavam à espera de uma oportunidade que se fabricavam notas novas. A infla- contas públicas e do aumento das reservas
política para fazer passar no Parlamento ção anulou este aumento, provocando cambiais do BdP para travar a descida
as autorizações necessárias. uma redução efetiva do valor da moeda. do escudo, ainda tardará a produzir o
A 29 de outubro de 1923, o deputa- O dinheiro físico começou a escassear efeito desejado. O controlo da inflação,
do Cunha Leal desfere no Parlamento nas transações comerciais mais banais. a estabilização monetária e a disciplina
um ataque à política monetária do BdP, As moedas de prata e bronze rareavam, já orçamental foram alcançadas durante a
denunciando as «cinco maneiras» de que o metal era mais valioso do que o seu República, mas o regime liberal, deposto
aumentar a circulação de moeda em Por- valor facial. Cerca de 99% do dinheiro pela Ditadura Militar em 1926, já não be-
tugal. Para além das emissões legais, as em circulação era constituído por notas. neficiaria desse «milagre» económico.

VISÃO H I S T Ó R I A 69
Anos 20 || Estatísticas

Portugal
em números
Na década em que os casamentos diminuíram e os divórcios aumentaram,
ainda eram muito poucas as mulheres na universidade

LIVROS E JORNAIS SERVIÇOS AÉREOS


PORTUGUESES
611 PRIMEIRAS EDIÇÕES de livros, em 1929
875
691 JORNAIS em 1929
31 JORNAIS DIÁRIOS em 1929
CAMINHOS-DE-FERRO 443
carreiras
3 380 DE QUILÓMETROS passageiros
explorados em 1929 229
195
33 273 086 PASSAGEIROS em 1929 52 79
1927 1928 1929
VEÍCULOS EM 1925

9 283 Carruagens, landaus, caleches, coupés, mylords, vitórias, 1 515 Camiões, camionetas, automóveis, side-cars
dog-carts, phaetons, tilburys, char-à-bancs, ómnibus e semelhantes e semelhantes

8 912 AUTOMÓVEIS, motocicletas, side-cars e outros com motor 137 838 CARROÇAS, galeras,
carros para bois e semelhantes
468 Elétricos
4 190 Carroças ou carros de mão
15 375 Bicicletas, velocípedes e semelhantes
6 milhões
32 mil e 991
HABITANTES
CASAMENTOS em Portugal em 1920
E DIVÓRCIOS 1 milhão 755 mil e 650 ENSINO
53 024 sabiam ler (1920)
51 213
50 043 49 104 7 126
46 242 46 801 ESCOLAS OFICIAIS DE ENSINO
45 550 45 347
44 525 29 070
41 776
ESTRANGEIROS PRIMÁRIO elementar, em 1925-26
em Portugal em 1925
561 501 588 632 555 568 477 449
909
(17 813 espanhóis, 316 888
4 969 brasileiros e ALUNOS do ensino primário
n/d elementar, no mesmo ano
2 300 ingleses)
1920 1929
EM LISBOA 33
casamentos divórcios LICEUS em Portugal em 1927-28
529 524
232 HABITANTES
12 128
DIVÓRCIOS por adultério da mulher em 1925
e 174 POR ADULTÉRIO do marido, RAPAZES matriculados no liceu em
1927-28
em 1929 13 257
ELEMENTOS
69 da GNR, policia 3 808
RAPARIGAS matriculadas no liceu no
DIVÓRCIOS decretados por mútuo e guarda-fiscal
mesmo ano letivo
consentimento, em 1929 em Lisboa em 1925

269 4 117
185 321 ALUNOS matriculados nas
SENTENÇAS originadas por injúrias e LISBOETAS universidades de Lisboa, Coimbra e
sevícias, em 1929 dedicavam-se Porto, em 1925-26
exclusivamente a
trabalhos domésticos
SAÚDE em 1925 11
52 MULHERES frequentavam o curso de
POSTOS DE SOCORRO MÉDICOS 8 561 Direito na Universidade de Coimbra,
existentes em Portugal em 1929, pessoas em 1925-26
30 dos quais no distrito de Lisboa estavam registadas
em Lisboa como 1
10 mendigos, vagabundos MULHER concluiu a licenciatura e
MATERNIDADES em Portugal e meretrizes outra o doutoramento em Medicina
continental e ilhas, em 1929 na Universidade
13 884 de Coimbra, em 1925-26
38 ESTRANGEIROS
CRECHES em Portugal continental em Lisboa (8 866 1 MULHER
e ilhas em 1929 espanhóis, 1 783 concluiu a licenciatura em Ciências
brasileiros, 831 Físico-Químicas na Universidade de
147 franceses) Coimbra, em 1925-26
INSTITUIÇÕES SOCIAIS (asilos,
albergues…) NO PORTO 3 MULHERES
215 625 licenciaram-se em Farmácia
11 HABITANTES na Universidade de Coimbra, em
ORFANATOS, em 1929 em 1925 1925-26
FONTES: Censos de 1920 e anuários estatísticos do Instituto
Nacional de Estatística (INE)
Anos 20 || Aviação
SZPHOTOS/FOTOBANCO

72 V I S Ã O H I S T Ó R I A
Voar
era preciso
Foi na década de 1920 que a espécie humana adquiriu asas
como os pássaros, ou seja, começou a deslocar-se pelos ares
tanto quanto possível tranquilamente e de forma «natural»…
Até então, as experiências pioneiras mais não tinham sido
do que loucuras de alto risco
por Luís Almeida Martins

A bordo de um
Junkers G-31, em 1928
Uma passageira toma
o pequeno-almoço
enquanto sobrevoa
os telhados de Berlim

VISÃO H I S T Ó R I A 73
Anos 20 || Aviação

LEEMAGE/FOTOBANCO
1 2

G
osta das histórias de Agatha
Christie? Então, por muito 3
2
1
concentrado(a) que esteja
na tentativa de descobrir o 4 5
6
criminoso, é impossível que
não se aperceba de que o 1 Em Los Angeles, 1929, controlo
ambiente em que elas de- de passageiros da Western Air Express
correm é mais «estrangei- provenientes do México
ro» do que os países estrangeiros de hoje. 2 Jantar requintado a bordo de um
aparelho da Lufthansa 3 Em 17/3/29,
O fictício «Hercule Poirot» começou – passageiros aguardam, em Newark,
para nós, público – a pôr a funcionar as o embarque num Ford que dentro de
GETTY

suas celulazinhas cinzentas na década minutos colidiria tragicamente com 8


de 1920, e alguns dos mistérios por ele um camião, ainda na pista
desvendados envolvem viagens aéreas 4 Foi a Lufthansa a primeira comandos do seu monomotor Spirit of St
companhia a projetar filmes a bordo
(que lhe provocavam, aliás, pânico). Mas, 5 Alguns dos 169 passageiros do
Louis, uniu em linha reta Long Island
«Poirot» à parte, a imagem que retemos gigantesco DO-X, em 1929 6 A bordo (EUA) a Paris, atravessando pela primeira
dos aviões desse tempo é que, embora de um Handley Page de 40 lugares, vez o Atlântico sem escalas.
estranhos como insetos deselegantes, len- da Imperial Airways Em termos rigorosos, esta nova forma
tos, frágeis e efetivamente inseguros, eles de viajar acessível a cidadãos comuns
eram quase hotéis de luxo O glamour da foi inaugurada – sem fanfarra – em 8 de
aviação comercial manter-se-ia intacto fevereiro de 1919, quando um ex-bom-
até décadas recentes, quando a indústria bardeiro Farman Goliath sobrevivente da
do turismo de massas o veio anular por recente I Guerra Mundial, adaptado às
completo, mais foi nos «Anos Loucos» que O ‘glamour’ necessidades requeridas pelo transporte
levantou voo rumo ao céu azul da lenda.
As primeiras carreiras coabitavam ain-
da aviação comercial de passageiros, levantou voo do aeródro-
mo do Bourget, nos arredores de Paris,
da com os raides pioneiros empreendidos duraria até à era da para daí a pouco aterrar em Croydon, nas
por «gloriosos malucos das máquinas
voadoras», pelo que houve assim uma
indústria do turismo imediações de Londres. Aí, sim, houve
brindes. Mas o mês foi fértil em estreias,
época em que nem sempre era fácil dis- de massas, mas foi já que passados dois dias um Caudron
tinguir a aventura da rotina. É sabido que nos Anos 20 que C-23 inaugurava a linha Paris-Bruxelas
o mais famoso dos voos aventureiros foi transportando 16 passageiros sentados
o empreendido em maio de 1927 pelo
levantou voo para em poltronas de palhinha que podiam
americano Charles Lindberg, quando, aos o céu da lenda contemplar a paisagem à vontade, pois

74 V I S Ã O H I S T Ó R I A
LEEMAGE/FOTOBANCO
GETTY

10
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as janelas eram tão grandes que mais comboio continuava a ser o rei dos meios e 1939. Neste último ano fundir-se-ia com
pareciam paredes envidraçadas. O pior, de transporte (e continuaria a reinar até a British Airways para dar lugar à BOAC,
tanto no caso do Goliath como no Cau- bastante depois da II Guerra Mundial), também já extinta há muito, mas isso são
dron, era o ensurdecedor ruído provocado mas é também verdade que a aviação ia contos mais largos. Em 1924, a Imperial
pelos motores e pelo próprio girar das entrando cada vez mais nos hábitos. colocou ao serviço o estranhamente belo
hélices, uma vez que a carcaça de madeira biplano Handley Page, com os dois enor-
dos aparelhos era apenas revestida de O sonho imperial mes motores alinhados na asa superior,
contraplacado e de tela. Uma das mais antigas e emblemáticas muito acima da fuselagem. A prioridade
Mas, com ou sem barulheira nos ou- companhias aéreas da idade heróica da da companhia era o transporte postal,
vidos, muitos homens de negócios cedo aviação comercial foi a britânica Imperial cuja relativa celeridade aproximava da
se habituaram a utilizar este meio de Airways, cujos aparelhos cheios de encan- metrópole albiónica os rincões perdidos
transporte rápido nas suas meteóricas to mas semelhantes a gafanhotos, hoje da Malásia ou as ilhas remotas dos Mares
deslocações, o que fez que, entrada a dé- tão romanticamente obsoletos, ligavam o do Sul onde as personagens de Somer-
cada de 20, rara fosse a semana em que relvado aeródromo de Croydon às pistas set Mangham viviam as suas histórias
não nascesse nos cartórios tabeliónicos de terra batida da Índia, da África, da Ma- passionais entre goladas de gin, mas os
uma nova companhia aérea. A criação lásia ou da Austrália. Resultou da decisão aparelhos tinham capacidade para 15 pas-
da IATA (International Air Traffic Asso- governamental tomada em 1923 de fundir sageiros, e partiam lotados. As hélices
ciation), ainda antes de os calendários as três pequenas companhias então exis- eram postas a funcionar manualmente
de 1919 serem substituídos nas paredes tentes na Grã-Bretanha, e transportaria e, com os seus dois motores de 440 CV,
pelos de 1920, foi apenas o mais eviden- senhoras perfumadas, cavalheiros de co- o Handley podia voar a 140 km/h, o que
te reflexo dessa realidade. É claro que o larinhos duros e alguma carga entre 1924 batia de longe a velocidade de qualquer

VISÃO H I S T Ó R I A 75
Anos 20 || Aviação

navio e explorava ainda a vantagem de


o percurso poder ser feito praticamente
em linha reta – ainda que as escalas para
reabastecimento tivessem de ser múlti-
plas. Este tipo de avião de asa dupla não
cessaria de ser aperfeiçoado até ao final
dos anos 30, mas os estudos e a prática
ensinariam que o futuro pertencia aos
monoplanos, ou seja, aos aviões de duas
asas como desde há muito os entendemos.

O holandês voador
Contudo, a Imperial não foi pioneira no
ramo. A mais antiga das companhias aéreas
permanece ainda hoje em atividade, e é
a holandesa KLM, uma feliz sigla para o
nome Koninklijke Luchtvaart Maatscha-

GETTY
Graf Zeppelin O carismático dirigível fez o seu primeiro voo em 1928 ppij (Real Companhia Aérea). Fundada
no final de 1919, o seu primeiro aparelho
saltou logo de Croydon para Amesterdão
Os elefantes brancos prateados com passageiros a bordo, para espanto e
A década de 1920 – e a seguinte – foi também o tempo dos grandes diri- gáudios gerais. Em 1924 levantaria voo
gíveis, esses «mais leves do que o ar» que desde o início do século vinham para Batávia (Jacarta), na Indonésia, então
travando uma guerra tecnológica e comercial de antemão perdida contra os Índias Orientais Holandesas – e a bem dizer
«mais pesados do que o ar», ou seja, os aviões. Verdadeiros navios voado- ainda não aterrou, apesar de um recente ca-
res, os dirigíveis ainda hoje fascinam a nossa imaginação. Também conheci-
dos por zepelins – do nome do seu inventor, o barão alemão Von Zeppelin –, samento de conveniência com a Air France.
eram uma espécie de bazófias, com o seu reservatório de gás enorme em O Fokker holandês, fosse ele da KLM
proporção com o reduzido habitáculo destinado aos passageiros. ou de outra companhia, era por volta de
Julio Verne, no romance Robur o Conquistador, apresenta aos leitores o di- 1925 o aparelho mais utilizado na Europa.
rigível Albatroz, na verdade um navio, com quilha e tudo, mantido no ar pela Monoplano de madeira revestida de tela,
ação de inúmeras hélices horizontais. A novidade era poder ser conduzido,
ou dirigido, para onde se quisesse (dai a palavra «dirigível»), o que não con- podia, com as suas asas colocadas sobre a
seguiam os já existentes balões de ar quente ou gás, que arrastavam os pas- fuselagem e o seu único motor espetado
sageiros segundo os caprichos das correntes de ar. No tempo da fantasia de no «nariz», atingir a velocidade eston-
Verne ainda não havia forma de dirigir um aparelho aéreo mais pesado do teante de 210 km/h. Uma das companhias
que o ar, e daí que, na prática, todos os dirigíveis fossem balões alongados não holandesas que adquiriram aviões
com um pequeno habitáculo junto da barriga. O problema é que os balões
de gás eram muito perigosos, uma vez que – já para não falar dos perigos de
Fokker foi a «lendária» embora hoje já
explosão – se a pressão diminuía, o aparelho deformava-se e caía.
Depois de muitas experiências pioneiras, anteriores à década de 1920,
entramos assim, após a Grande Guerra, na conceção do dirigível semirrígido
de grandes dimensões. Um exemplo deste tipo de geringonça foi o Norge, a
bordo do qual o italiano Umberto Nobile, o norueguês Roal Amundsen e uma
equipa de sete dezenas de tripulantes sobrevoaram o Polo Norte, em maio
de 1926. O pior foi daí a dois anos, quando uma tentativa de repetir o feito,
agora com o dirigível Italia, redundou na morte de Amundsen.
Os ingleses construíram nos Anos 20 uma série de dirigíveis rígidos rechea-
dos de hidrogénio, e um deles atravessou o Atlântico. Mas foram os alemães
que, na senda de Zeppelin, inauguraram as carreiras regulares destes apa-
relhos, entre Berlim e Friedrischsafen. Em agosto de 1927, o gigantesco Graf
Zeppelin deu a volta ao mundo a uma média de 114 km/h, passando por
Tóquio, Los Angeles e Nova Iorque, mas só na década seguinte as carreiras
dos dirigíveis germânicos, já com a suástica pintada na cauda, se abalança-
SMITHSOMIAN MUSEUM

riam a atravessar o Atlântico – e acabariam mal, com o catastrófico incên-


dio do Hindenburg no campo de aviação de Lakehurst (Nova Iorque).
Indubitavelmente, o futuro do transporte aéreo estava no «mais pesado do
que o ar» com trem de aterragem. Os aperfeiçoamentos tecnológicos de-
sembocariam mais tarde no motor a jato, mas de 1960 para cá os avanços
têm sido pouco significativos.

76 V I S Ã O H I S T Ó R I A
Charles Lindberg Apelidado de
«Águia Solitária», o aviador americano
seria, em maio de 1927, o primeiro a
atravessar o Atlântico sem escala,
pilotando o seu Spirit of St. Louis

alemã Lufthansa, que surgiu em 1926


como fusão de duas companhias mais
pequenas, continua ativa.
Outra companhia antiga e sobrevivente

BIBLIOTECA DO CONGRESSO DOS EUA


é a espanhola Iberia, fundada em 1927
por um empresário basco associado à
Lufthansa. Em França só em 1933 quatro
pequenas companhias se uniriam para
formar a Air France. Mas o aeroporto do
Bourget já existia desde 1919, e ainda hoje
acolhe viajantes, embora em muito menor
escala do que Orly e Charles de Gaulle.
A TAP só nasceria muito mais tarde,
extinta Pan American, fundada em 1927 à mesa e sobre toalha branca, servidas em 1945, por iniciativa de Humberto
e que tantos progressos significativos in- por empregados hirtos nos seus casacos Delgado.
troduziria até 1950 na aviação comercial. igualmente brancos e bonés de pala dura.
O avião que maior sucesso obteria na Por este tempo, já a companhia belga Baleias voadoras
Europa dos Anos 20 seria, contudo, o Sabena, criada em 1923 e inicialmente No que toca às linhas transoceânicas,
alemão Junkers na sua versão monomo- destinada a ligar Bruxelas a Londres e eram preferidos os hidroaviões, de que
tor (F-13). Posteriormente, o bimotor a Roterdão, voava para as profundezas na década de 20 se construíram grandes
Junkers (Ju-502), já inteiramente me- do Congo, inaugurando em fevereiro de modelos, nem sempre satisfatórios. Os
tálico, tornar-se-ia também uma referên- 1925 os voos comerciais da Europa para a italianos, tradicionalmente dados a en-
cia. Tanto um como outro, com as suas África com a aventurosa e exótica carreira cenações operáticas, apresentaram em
carlingas prateadas de chapa ondulada, que unia a capital belga a Léopoldeville. 1919 o gigantesco Caproni, com nove asas
a fazerem lembrar as célebres carrinhas Escusado será dizer que a maioria dos e lotação para 100 passageiros, mas…
Citroën ou até as carruagens da CP (estas, passageiros continuava a preferir o ripan- não conseguiram fazê-lo levantar voo.
aliás, de modelo americano), os Junkers ço do navio, como o faria ainda em 1930 Nove anos depois, em 1928, o alemão
oferecem ainda hoje uma imagem da o imaginário mas muito nosso familiar Claudius Dornier concebeu o também
aviação entre guerras. Neste transporte «Tintin» na sua viagem ao Congo. enorme Do-X, de 52 toneladas, para 70
de luxo, as refeições eram degustadas Se a Sabena faliu recentemente, a velha passageiros. Era uma maravilha no que
toca a acabamentos interiores e a conforto
(dispunha até de camas), e conseguiram
Publicidade efetivamente pô-lo a voar à força dos seus
Em 1927, a Imperial 12 motores de 600 CV cada um, mas re-
Airways voava velou-se lento e pouco rentável. Fez uma
regularmente para
o Egito e a Índia.
escala prolongada em Lisboa e dele se fala
Quanto à Lufthansa, noutro local desta revista.
anunciava, em 1928, Só nos últimos anos da década de 30 a
voos para vários Pan America poria no ar os seus famosos
destinos europeus. Clippers (que escalavam Lisboa e a Horta)
Em 1927, a KLM
mas até mesmo esses estavam condenados
ressuscitava a lenda
do navio fantasma a serem definitivamente substituídos pelos
«Holandês Voador». aviões com trem de aterragem, dado o avan-
E mesmo no final da ço técnico na construção de pistas de betão.
década, a Sabena Neste domínio da viagem aérea, nasci-
ligava Bruxelas
da do sonho de Ícaro, também os Anos 20
com Londres e a
Escandinávia foram, pelo seu pioneirismo e iniciativa,
a década prodigiosa.

VISÃO H I S T Ó R I A 77
Anos 20 || Aviação

ESTÚDIOS NOVAIS/BIBLIOTECA DE
ARTE DA FUNDAÇÃO GULBENKIAN
Para malucos Em Alverca O diretor da Ilustração,
João de Sousa Fonseca, dá as boas-
-vindas ao jornalista espanhol Luis

ou ricos Oteyza, desembarcado do Junkers

terior, a SAP não deixava de ser algo de


Ir ao campo de aviação de Alverca ver o novo – e perigoso – arrojado. O que tinha ela para oferecer?
transporte levantar voo para Madrid chegou a ser «programa» A tal ligação Lisboa – Madrid – Sevilha.
da sociedade lisboeta no final dos Anos 20. Por pouco tempo… A viagem inaugural, a partir do Campo
Internacional de Aterragem de Alverca,
por Luís Almeida Martins acoplado às instalações militares da base

N
do Grupo Independente de Aviação de
a década de 1920, poderiam os «Relativa» porque os tempos eram mes- Bombardeamento (GIAB) e das Oficinas
portugueses comuns, se assim o mo inseguros no Portugal de então, com Gerais de Material Aeronáutico (OGMA),
entendessem, viajar de avião a uma conjuntura político-social marcada em funcionamento desde 1919, fez-se com
partir do território nacional? Ou pela instauração da Ditadura Militar, em um aeroplano monomotor Junkers F-13 de
essa «aventura» estava apenas maio de 1926, e as desesperadas, embora asa baixa com lotação para oito passageiros,
reservada aos aviadores, que, mal sucedidas, tentativas para derrubá- batizado de Lisboa. As aeronaves utilizadas
como era voz corrente, não passavam -la pela força das armas, sobretudo em nos primeiros tempos seriam todas da Unión
de doidos varridos por cuja salvaguarda fevereiro do ano seguinte. Aerea Española, empresa sedeada em Ma-
mães, mulheres e namoradas murmura- E foi exatamente a 19 de maio de drid de que a casa Junkers Flugzeugwerk
vam orações?... A resposta é: sim, podiam, 1927 que se fundou uma empresa «de AG era acionista maioritária e que possuía
desde que tivessem dinheiro para pagar o malucos» denominada Serviços Aéreos uma frota de dois trimotores Junkers G-24
bilhete, o seu destino imediato não fosse Portugueses (SAP). Económica e estatu- e três monomototres Junkers F-13.
além de Madrid ou Sevilha e, evidente- tariamente subsidiária da alemã Junkers De início, nenhum destes aparelhos in-
mente, possuíssem também aquele grão- Luftverkehr, uma das pequenas compa- teiramente metálicos e revestidos de cha-
zinho de «loucura» indispensável a quem nhias germânicas que tinham ficado de pa ondulada era propriamente português,
abandona a relativa segurança do solo. fora da Lufthansa, fundada no ano an- mas em maio de 1929 a empresa acabaria

78 V I S Ã O H I S T Ó R I A
Carreira Lisboa-
-Madrid Um dos
aparelhos que
asseguravam a ligação
proporcionou, em 1927,
‘batismos de voo’ sobre
a capital portuguesa,
conforme reportou na
altura o semanário ABC

por ter um avião registado em Portugal:


um Junkers F-13 proveniente da Suécia,
que recebeu a matrícula C-PAAC.
A função primordial da SAP era o trans-
porte postal, mas o comboio batia esmaga-
doramente o incipiente transporte aéreo,
que se ressentia de falta de passageiros.
Seria preciso esperar por 1934 para que
surgisse a mais sólida Aero Portuguesa,
empresa que contava inicialmente com
a participação maioritária da Air France
mas passaria em breve a ter capitais ex-
clusivamente nacionais. Seria ela a operar
mais tarde os voos de Lisboa para Tânger e
Casablanca, que o célebre filme de Michael Sul levado a cabo por Gago Coutinho e 23 dias e teve múltiplas escalas, entre as
Curtiz, com Ingrid Bergman e Humphrey Sacadura Cabral. A primavera de 1922, quais os Açores. Mas já no mês anterior
Bogart, imortalizaria em 1942. Quanto à vésperas das comemorações do cente- os britânicos John Alcock e Arthur Brown
TAP, apenas haveria de ser fundada em nário da independência do Brasil, iria tinham vencido o Atlântico Norte, ao voa-
1945, operando logo desde o início a partir oferecer pretexto para nova aproximação rem 16 horas consecutivas entre os EUA e
do Aeroporto da Portela, inaugurado em simbólica dos dois países, quando a avia- a Irlanda. Continuava, porém, em aberto
1940 e rebatizado de Aeroporto Hum- ção, vencida a prova de fogo da Grande o desafio do Atlântico Sul, e foi a esse que
berto Delgado em 15 maio de 2015, em Guerra, se abalançava a voos mais largos. dois portugueses decidiram responder.
homenagem ao fundador da companhia. O território português estava, aliás, na Um dos problemas da navegação aérea,
Mas durante um par de anos, nesse rota de grandes proezas aeronáuticas. para além da fragilidade e da reduzida
final da década de 1920, foi de bom-tom Em maio de 1919, uma travessia aérea autonomia dos aparelhos, era então a
dar um passeio a Alverca para ver os entre a Terra Nova (Canadá) e a capi- dificuldade em manter o rumo. Antes de
aviões. Senhoras de saia curta e chapéu tal portuguesa foi concretizada por três se lançarem no desconhecido, era pois
cloche faziam-se acompanhar de cava- hidroaviões Curtiss (o NC-1, o NC-2 e o conveniente que os dois aventureiros en-
lheiros que, se fosse verão, levariam o seu NC-3) tripulados por pessoal na marinha contrassem uma solução para o problema.
«palhinhas». Mas foi sol de pouca dura: dos EUA. A viagem prolongou-se por Após reflexão, Gago Coutinho adaptou
a SAP extinguir-se-ia em breve. o sextante náutico à aviação, através do
acrescento de um nível de bolha de ar
Asas sobre o Atlântico que funcionava como horizonte artificial.
Vivia-se, de qualquer modo, um tempo
É impossível Foi então posto à disposição dos avia-
em que as proezas da aeronáutica eram evocar a aviação dores um hidroavião Fairey F III-D MkII
manchetes da imprensa e suplantavam
as (embora cada vez mais frequentes e
em Portugal nos equipado com um motor Rolls-Royce e
batizado de Lusitânia. Sacadura seria o
rotineiras) notícias da fundação de novas anos 20 sem piloto e Coutinho o navegador.
companhias de transporte aéreo. recordar o voo A aventura principiou na manhã de 30
É, por exemplo, impossível evocar a de março de 1922, quando o Lusitânia
aviação em Portugal nos anos 20 sem
de Gago Coutinho levantou voo da Doca do Bom Sucesso, em
recordar o voo pioneiro sobre o Atlântico e Sacadura Cabral Belém. E a primeira etapa, até às Canárias,

VISÃO H I S T Ó R I A 79
Anos 20 || Aviação

foi concluída sem incidente de maior. Só


no dia 5 de abril prosseguiram rumo a
Cabo Verde, onde se demoraram até 17
para proceder a reparações. A terceira
etapa tinha por destino os penedos de
S. Pedro e S. Paulo, já território brasileiro.
Aí, a amaragem correu mal, e o hidro afun-
dou-se, tendo os aviadores sido recolhidos
pelo cruzador República, que os transpor-
tou para a ilha de Fernando de Noronha.
O Governo português decidiu enviar
um segundo Fairey. A 11 de maio, Couti-
nho e Cabral partiram para nova tirada,
mas pouco depois uma avaria no motor
obrigava-os a amarar em pleno oceano.
Desta vez, seriam resgatados pelo navio
inglês Paris City.
Reconduzidos a Fernando de Noronha,
aguardaram a chegada de um terceiro
Fairey, o Santa Cruz, este adquirido por
subscrição pública. Levantaram a 5 de
junho e finalmente alcançaram a costa
brasileira fazendo diversas escalas antes
ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO

de alcançarem o Rio de Janeiro, onde a


viagem terminou a 17 de junho, no meio
de entusiasmo popular e de cerimónias
oficiais. No regresso a Lisboa, Coutinho
e Cabral foram alvos de uma grande ma-
nifestação espontânea na Baixa.
Claro que este primeiro raide sobre o
Atlântico Sul não foi um sucesso total, já
que necessitou de três aparelhos e de mais
de dois meses para ser concluído. Mesmo
assim, o feito vem sendo cada vez mais aérea Paris-Lisboa, a bordo de um Bré- Por esta altura já Coutinho e Cabral
reconhecido internacionalmente. guet, de construção francesa. Mas no ano planeavam a viagem que os tornaria mun-
seguinte – 1920, e portanto já na década dialmente famosos e procuravam formas
Outros feitos que nos interessa –, Sacadura Cabral e de resolver os problemas levantados pela
Foi ainda no final dos anos 10, em 1919, Azevedo Silva, acompanhados dos mecâ- orientação num voo de longo curso sobre
que Lelo Portela e António Maia, acom- nicos Roger Soubirou e Domingos Barrei- o oceano, onde não existiam as referên-
panhados de Manuel Gouveia e Fernando ros, voaram de Inglaterra para Portugal cias visuais utilizadas nesse tempo nos
Sousa, estabeleceram a primeira ligação num Fairey, de fabrico britânico. voos sobre terra. Com efeito, os pilotos
Ainda nesse mesmo ano de 1920 fa- das primeiras carreiras aéreas europeias
lharia a tentativa de voar entre Lisboa e seguiam muitas vezes o percurso das li-
Em 1927, a Madeira empreendida por Sarmento de nhas férreas e procuravam identificar
Sarmento de Beires, Beires e Brito de Pais num Bréguet. Mas
em 1921 esse feito seria concluído com
com o olhar (e com a ajuda de mapas)
as localidades a que se destinavam ou
Jorge Castilho êxito, sendo desta vez o aparelho utilizado que sobrevoavam. Sobre a imensidão da
e Manuel Gouveia um hidroavião bimotor Fairey 3 levando
a bordo Gago Coutinho, Sacadura Cabral,
monotonia líquida, tudo era diferente.

atravessaram Ortins de Betencourt e Roger Soubirou. Um novo entusiasmo


de novo o Atlântico A viagem durou sete horas e 40 minutos Cinco anos mais tarde, em 1927, seria a
e constituiu um duplo sucesso, pois serviu vez de Sarmento de Beires, Jorge Castilho
Sul, agora em voo também para comprovar a eficácia do e Manuel Gouveia repetirem a façanha da
noturno sextante de Gago Coutinho. travessia do Atlântico Sul, desta vez em

80 V I S Ã O H I S T Ó R I A
da Aviação, com alguma ligação como
Portugal: o lançamento, pelos alemães,
do gigantesco hidroavião Dornier Do X,
com seis motores elevados sobre a fu-
selagem, que em 1929 bateu o recorde
de capacidade de transporte, levando a
bordo 169 pessoas. No ano seguinte (já
no dealbar da década de 30, é certo), a
enorme aeronave empreendeu um voo
transatlântico com escala em Lisboa. Com
tanto azar (ou «sorte» para os mirones
alfacinhas) que ficou retido três semanas

ARQUIVO HISTÓRICO DA FORÇA AÉREA


no Tejo, avariado e à espera de peças de
substituição. Os rapazes fizeram do «dor-
niaxis» local de romaria e nasceria então
um entusiasmo juvenil pela aeronáutica,
traduzido pela profusão de construções de
papel para recortar e armar distribuídas
pelos jornais infantojuvenis.
Mas tudo voa, a começar pelo tempo.

Aventuras Coutinho e
Cabral à partida de Belém
e uma notícia francesa do
afundamento do Lusitânia.
À esquerda: Em outubro
de 1927, um hidroavião
Junkers com rumo à
América, a bordo do qual
seguia a atriz austríaca Lilli
Dillenz, fez uma amaragem
de emergência na praia de
Santa Cruz (Torres Vedras)

voo noturno. Descolaram de Alverca num


hidroavião Dornier Wal batizado de Argos
no dia 3 de março e amararam em Natal,
na costa brasileira a 18. Até Bolama, na
então Guiné Portuguesa (Guiné-Bissau),
Duvalle Portugal fez também parte da
expedição, mas não seguiu viagem para
reduzir o peso do aparelho e poupar com-
bustível na etapa transatlântica. Se esta
travessia é incomparavelmente menos
famosa do que a de Gago Coutinho e Sa-
cadura Cabral em 1922, nem para isso
ela deixa de ter relevância na História
da Aeronáutica, já que foi no seu âmbito
que, pela primeira vez, uma aeronave se
manteve a voar sobre o mar durante uma
noite inteira. À sua relativa discrição não é
alheio o facto de Portugal viver mergulha-
do na já recordada instabilidade política.
A década não terminaria sem um acon-
tecimento de certo impacto na História

VISÃO H I S T Ó R I A 81
Anos 20 || Automóveis

A cem
à hora
Na década de 1920,
o número de automóveis
em Portugal quase
quadruplicou. Com a
revolução nas comunicações
nasciam também um estilo
de vida e um estatuto novos
por Humberto Brito

A

utomóvel contra um candeeiro.
O passageiro fica com o crânio
fraturado e o chauffeur também
ferido.» «Mortas por atrope-
lamento. Uma camionette dos
correios, que hoje seguia pela
Rua do Patrocínio, colheu ali um menor
de 6 anos. Também no Beato foi morta
uma criança, que aparenta ter 6 anos,
por um camion.» «Criança morta por
automóvel. Na morgue deu entrada um
menor de 10 anos atropelado por um au-
ESTÚDIOS NOVAIS/BIBLIOTECA GULBENKIAN

-tomóvel na Rua do Diário de Notícias»


Etc. Ao abrirmos a imprensa portuguesa
dos anos 20, para lá das parangonas sobre
atritos internacionais e as zaragatas que
nos conduziram da I República à Dita-
dura e ao Estado Novo, deparamos com
dezenas de mortos e feridos provocados
por acidentes de viação. Três grandes
motivos parecem estar por detrás desta
nova realidade.
Em primeiro lugar, o parque auto- Corridas de automóveis O desporto adequadas, de acordo com um código
móvel aumentava descontroladamente. motorizado animava as festas estivais da feito para um mundo que tinha deixado
O número de veículos quase quadripli- Curia na segunda metade da década de 20 de existir.
cou entre 1920 e 1929, havendo ao final
da década cerca de 20 mil automóveis. condutores; por outro lado, a generalida- Um setor em transição
(Números que, mesmo assim, nos farão de da população não estava alertada para Dominado pela indústria americana, gra-
sorrir um pouco se considerarmos que os perigos que isto acarretava. ças à produção em série e à estandardiza-
havia, no final da década, 26,7 milhões Se a esta equação juntarmos, em tercei- ção de componentes iniciadas pela Ford
de automóveis registados nos Estados ro lugar, o estado do sistema rodoviário, na década anterior, o setor automóvel
Unidos.) miserável de acordo com todos os relatos, prosperava, reconvertendo várias fábricas
Em segundo lugar, as pessoas não es- é até de espantar que os números não de armamento. Procurando restabelecer-
tavam preparadas para tal transforma- sejam ainda mais funestos. -se da recessão deflacionária de 1920-21,
ção. Por um lado, não é evidente que o Resumindo: cada vez mais pessoas pas- a empresa de Henry Ford começa aos
Regulamento de Circulação de 1911, que saram a conduzir carros cada vez mais poucos a perder terreno para a General
se tornara obsoleto, fosse aplicado pelos potentes por estradas cada vez menos Motors e a Chrysler, que compreendem

82 V I S Ã O H I S T Ó R I A
que as pessoas já não querem apenas um rádio. Contudo, a partir de certa altura reacendem-se esforços para organizar
meio de transporte: passaram a dese- as inovações mecânicas vão perdendo Salões Automóvel.
jar um estilo de vida. Por exemplo, um terreno para as inovações estéticas. As
anúncio publicado na revista Ilustração, linhas arredondam-se e os automóveis Na pista do Coliseu
nº 59, garante que «o Buick é o carro de vão-se tornando gradualmente mais «Como organização, um fracasso; como
luxo aceite sem reserva pelos homens de baixos e aerodinâmicos. Torna-se mais decoração, uma vergonha», protesta o
mais destaque social». frequente veículos serem trocados antes Domingo Ilustrado acerca do IV Salão
Verifica-se, no entanto, uma estagnação de atingirem o fim de vida; as vendas a Automóvel, o primeiro realizado em Lis-
da tecnologia. É certo que o travão de mão crédito, por isso, disparam. boa, no Coliseu dos Recreios, em julho de
e a alavanca das mudanças passam a estar Reforçado pelo cinema, pela rádio e 1925. «O mais pífio, o mais rosinhas de
situados na zona central; que surgem os pela literatura, o automóvel torna-se um papel de arraial saloio que se possa ima-
travões às quatro rodas acionados por marcador de classe, um símbolo de poder. ginar, colchas apanhadas em estilo Rua
um pedal; que nasce a direção assistida; O automobilismo começa a surgir em da Palma, e tudo do mais pior, do mais
que se generaliza o uso de pneumáticos; Portugal como desporto de alta socie- reles de que há memória.» Lastimando a
que se introduz o aquecimento e o autor- dade e, mais ou menos em simultâneo, falta de diversões e motivos de interesse

VISÃO H I S T Ó R I A 83
Anos 20 || Automóveis

extraautomóvel, este IV Salão — a que a


imprensa atribuiu muito pouca impor-
tância — é criticado por se concentrar
exclusivamente na exploração comercial.
«O que se apresenta no Coliseu não é
mais do que uma mal arrumada garage
sem atrações nem ambiente.»
O êxito retumbante dos primeiros três
Salões, organizados no Porto, no Palácio
de Cristal, havia colocado bem alta a fas-
quia para o Automóvel Club de Portugal.
Após um hiato, motivado pela I Guerra
Mundial, entre 1914 e 1922, o III Salão
Automóvel reunira, em junho de 1924,
«todas as boas marcas mundiais», mos-
trando os últimos modelos e os «grandes
carros de luxo» (desde «os soberbos Alfa
Romeo, aos admiráveis Buick, Packard,
Berliet, Ansaldo, Mercedes, Citroën, Benz,
Fiat, Studebaker, Aurea», etc.) A Revista
de Turismo relata que o III Salão Automó-
vel produzira «a melhor e mais satisfatória
impressão em todos — nacionais e estran-
geiros — que em considerável número ali
acorreram», proporcionando «uma das
mais belas demonstrações industriais que
se têm realizado em Portugal» e, como se
não bastasse, um êxito de vendas.
O fracasso da exposição de Lisboa em
1925 (segundo testemunhos prestados ao
Domingo Ilustrado, um «zero absoluto do
ponto de vista comercial») levou a orga-
nização a responder à pressa com uma

ESTÚDIOS NOVAIS/BIBLIOTECA GULBENKIAN


festa e um concerto-mistério, anunciados
no último dia. Tal não inverteu, porém, o
declínio de José Dias na presidência do
ACP. Ao mesmo tempo, aumentavam de
volume as críticas quanto às proporções
dos acidentes rodoviários e persistiam
campanhas para melhorar as condições
das estradas nacionais («ainda e sempre
o mesmo cancro», brame a Revista de Tu-
rismo). Alguma mudança estava prestes
a acontecer. Ao volante de çosamente numa bomba de fornecimen-
to Auto-Gazo, instalada pela petrolífera
Direita, volver
um Chevrolet pela americana Vacuum Oil Company, a futura
É sabido que, no poema de Álvaro de estrada de Sintra, Mobil. Com efeito, era esta companhia que
Campos Ao Volante, este heterónimo de
Fernando Pessoa se analisa enquanto con-
Álvaro de Campos detinha o monopólio do fornecimento de
combustível, a ela se devendo também a
duz um Chevrolet pela Estrada de Sintra… abastecera-se primeira grande campanha de sinalização
Mas, relacionadas com esta composição, na Auto-Gazo nas estradas portuguesas, traduzida na im-
podem ser apontadas duas curiosidades, plantação de placas indicativas um pouco
nunca referidas. A primeira é que o poeta
e conduzia pela por todo o País. A segunda curiosidade
(pseudo) automobilista se abastecera for- esquerda... relacionada com o poema é que, tratando-

84 V I S Ã O H I S T Ó R I A
ESTÚDIOS NOVAIS/BIBLIOTECA GULBENKIAN

IV Salão Automóvel A mostra do Coliseu


foi muito criticada. Ao lado: Grupo de
automobilistas posando no Estoril

-se de uma obra escrita em maio de 1928,


Álvaro de Campos conduzia certamente
pela esquerda.
Efetivamente, foi o Decreto nº 14 988,
de 6 de fevereiro de 1928, que estipulou
que a partir das zero horas de 1 de junho
desse ano o sentido de circulação em Por-
tugal decorreria pela direita, passando a
aplicar-se a cedência de passagem a quem
se apresentasse por esse lado. Alterações
que causaram o ceticismo de muitos e,
como seria de prever, mais do que um
acidente…
Este é, no entanto, um ponto de vira-
gem na história rodoviária nacional. Dele
resulta no imediato um novo Código da
Estrada, que seria revisto um mês e meio
depois. Nasce também a Junta Autóno-
ma das Estradas, incumbida de reparar e
renovar o mapa rodoviário. Concretiza-se
igualmente a protelada nomeação de um
novo presidente do Automóvel Club de
Portugal, Ricardo O’Neill. Finalmente,
desta união de esforços com o Automóvel
Club, nasce, em 1929, o primeiro Mapa das
Estradas de Portugal propriamente dito.
Anos 20 || Tecnologia

Grandes
inovações
No dia-a-dia, muitos aspetos dos «tempos modernos»
começaram nos Anos 20. Apesar de algo estranhos,
estes aparelhos anunciavam uma autêntica revolução
no quotidiano das classes médias e altas

FOGÃO DE PETRÓLEO VACUUM


ASPIRADOR ELECTROLUX Muito publicitado na década de 1920 e depois
O modelo XI desta marca sueca, lançado reproduzido por outras marcas, inclusive
em 1928, vendia, de acordo com os seus portuguesas, revolucionou a cozinha, até então
representantes em Portugal, uma média assente na lenha e do carvão, pela «higiene» e
diária de 1120 unidades em todo o mundo pela «rapidez» com que funcionava

CÂMARA LEICA 1
Fabricada na Alemanha
entre 1925 e 1936, foi
uma das primeiras
máquinas fotográficas
de 35 milímetros
com lente fixa de 50
milímetros

86 V I S Ã O H I S T Ó R I A
ERIKA S&N
Segundo um
folheto publicitário,
esta máquina de
escrever portátil
pesava quatro quilos,
tinha um estojo de
«couro legítimo»
e era facilmente
transportável
em viagem

ICONOSCÓPIO
Antecessor das
câmaras de TV e
verdadeira «lâmpada
mágica», permitiu
concretizar as
primeiras emissões
de imagens
televisivas, ainda em
fase experimental

RÁDIO PORTÁTIL
Embora transportável, o pequeno
aparelho de telefonia de J. M.
McGuire não possuía bateria, pelo
que tinha de estar ligado à corrente
para funcionar

CINÉGRAFO BOL
Pequena câmara de filmar e de
projetar, punha ao alcance de quem
podia adquiri-lo a capacidade de
tornar indeléveis as recordações

VISÃO H I S T Ó R I A 87
Anos 20 || Ciclismo

A estreia da
Volta a Portugal
em Bicicleta
ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO

Foi organizada em 1927 pelos jornais Diário de Notícias


e Os Sports. Com ciclistas pouco preparados, coices de mula, mordidelas
de cão e caminhos por onde foi preciso levar
a bicicleta às costas, suscitou enorme entusiasmo popular
por João Pacheco

88 V I S Ã O H I S T Ó R I A
Emoção Os ciclistas
dão, na Praça dos
Restauradores, em
Lisboa, as primeiras
pedaladas, que os
levarão até ao cacilheiro

VISÃO H I S T Ó R I A 89
Anos 20 || Ciclismo

ARQUIVO DIÁRIO DE NOTICIAS


E
m Cacilhas, aquele barco da «valentíssima jornada». E corroborou as quando o campeão José Bento Pessoa do-
Parceria dos Vapores Lisbo- descrições da multidão emocionada que minava as provas nacionais e dava cartas
nenses, carregado de máquinas, assistiu à partida dos ciclistas de Lisboa nas competições internacionais.
homens e incerteza, era espe- para Cacilhas. Segundo o relato do Diá- Em 1927 já tinham passado mais de
rado sobretudo por mulheres. rio de Lisboa, organizou-se «um cortejo 20 anos desde que terminara a carreira
A curiosidade justificava-se. Ia luzido, que pôs em alvoroço toda a parte brilhante desse ciclista profissional, e a
começar uma competição que baixa da cidade; correu, de todos os can- modalidade já não era praticado por uma
se previa dura, com dezenas de tos, gente curiosa, ou amiga, a ver desfilar elite em velódromos inaugurados pela
ciclistas a percorrerem 1958 quilómetros os 42 campeões; encheu-se o caminho de família real. Mas talvez a presença de
por caminhos e estradas de Portugal. A bicicletas, porque se juntaram, às cente- muitas mulheres em Cacilhas se expli-
1ª etapa começaria ali para terminar em nas, os ciclistas montados, para dar, numa que com a fama deixada pelos primeiros
Setúbal, onde os ciclistas jantariam con- afirmação bonita de solidariedade, um ciclistas no final do século XIX, como
servas oferecidas por um industrial e uma brilho maior ao acontecimento». escreve Romeu Correia no livro José Bento
caldeirada feita por um especialista. Engana-se o jornal no número de con- Pessoa – Biografia: «O nome do jovem
À partida de Lisboa soaram três sil- correntes. Dos 42 admitidos desistiram figueirense anda na boca de toda a gente.
vos festivos de rebocadores. «Até meio logo quatro ainda antes da partida. Após É um belo homem, e isso amplia ainda a
do rio a multidão, ao longo dos molhes, as restantes desistências por motivos téc- sua rápida popularidade, pois o apoio fe-
acenou sempre com lenços, saudações nicos ou físicos, chegariam ao final da minino jamais lhe faltará. As suas feições
essas que eram correspondidas de bordo última etapa apenas 20 ciclistas. corretas, o corpo harmonioso, a bravura
pelos corredores.» A cena é descrita no das vitórias, provocam onde quer que
Diário de Notícias de 27 de abril de 1927. O Coxo dos Pneus apareça inconsoláveis paixões.»
Era este diário que, em conjunto com o A partida foi triunfal. No Rossio havia Agora, na década de 1920, o ciclismo
jornal Os Sports, organizava a I Volta a fotógrafos e um operador a filmar. Os começava a popularizar-se e havia des-
Portugal em Bicicleta, com o apoio téc- ciclistas preparavam-se para o cortejo até portistas para todos os gostos. O pelo-
nico da União Velocipédica Portuguesa, ao Cais do Sodré, acompanhados por uma tão da primeira Volta estava dividido em
fundada em 1889. multidão de entusiastas e de curiosos. três categorias: fortes, fracos e militares.
Logo na tarde da partida, o concorrente Terão marcado presença muitos sócios de O equipamento obrigatório incluía cal-
Diário de Lisboa usou o editorial para clubes de futebol, por haver representan- ções e sapatos pretos. E «todos levavam os
qualificar a Volta como «prova despor- tes a concorrer. E entre a multidão havia seus bidon de folha, com água ou cerveja,
tiva de violência», mas também como quem recordasse as corridas em Palhavã, amarrados aos guiadores».

90 V I S Ã O H I S T Ó R I A
ARQUIVO DIÁRIO DE NOTICIAS

No Alentejo e na Beira Baixa Muitos que bebiam ao pequeno-almoço os ases o tal reconstituinte. Esta era uma das
curiosos iam ver passar os ciclistas, ao longo do pedal: «Esta manhã, os corredores dificuldades que os organizadores tinham
de uma prova onde abundaram os furos ciclistas da I Volta a Portugal partiram de ultrapassar «nestas terras pequenas
para Sines, tendo todos tomado antes o onde o leite mal chega para o consumo
Na Rua Augusta abriu-se passagem a poderoso reconstituinte Ovomaltine, que local». A propósito, por aqueles dias – e
custo, tanta era a gente. Um dos alvos de o Diário de Notícias adquiriu expressa- apesar da censura – a fome no Algarve
atenção foi, desde o início, Augusto dos mente.» Nas páginas de publicidade do era outro dos assuntos que iam marcando
Santos, «o Coxo dos Pneus», que teve mesmo jornal, lá estão os anúncios ao lugar nas páginas do jornal.
fotografias publicadas em vários jornais. reconstituinte. E aos combustíveis, ao
Apesar de não ter a perna direita, parti- automóvel e a várias marcas de bicicleta. Preparação e improviso
cipou na Volta como ciclista não inscrito, No final da Volta abundaram anúncios As dificuldades da organização devem
sendo dos poucos a chegar ao fim, a 15 em que fabricantes ou distribuidores de ter sido tantas que até a existência de
de maio. Pelo caminho, foi recebido com bicicletas chamavam a atenção para os comidas e bebidas no controlo de alimen-
emoção nas terras por onde passava a bons desempenhos nesta ou naquela eta- tação de Almodôvar mereceu os elogios
caravana. E o DN ia dando conta das suas pa, ou mesmo na classificação geral, omi- do jornalista que cobria a Volta para o
boas prestações, com destaque logo para tindo os nomes dos ciclistas vencedores. DN, Oldemiro César: «Excelente servi-
a 3ª etapa, Sines-Odemira, quando foi À partida de Beja, a dificuldade foi ar- ço. Cervejas, refrescos, águas minerais,
o primeiro ciclista a passar pelo Cercal. ranjar leite para todos os atletas beberem sanduíches de paio aos montões.» Pelo
Após a partida dos ciclistas, a maior caminho a regra ia sendo o improviso,
parte das publicações quase abandona- daí o espanto.
ram a Volta à sua sorte. A acompanhar o
pelotão seguiram apenas dois repórteres
Na década Foi preciso improvisar oficinas em
quartos de pensões, inventar pensões
dos jornais organizadores, a bordo de um de 1920 o ciclismo em teatros, plantar bandeirolas e pintar
«esplêndido carro Dodge», alimentado
por «gasolina e óleos Shell».
deixava de ser marcas no chão que indicassem o cami-
nho ao pelotão. Na etapa Castelo Branco
Sim, a publicidade a alguns produtos o desporto de elite -Guarda, o atleta que liderava teve de
será uma constante na cobertura jorna- de fins do século percorrer vários quilómetros sem selim,
lística feita ao longo dos 18 dias da Volta apoiado nos pedais e no guiador. O herói
nas páginas do DN. Por exemplo, à partida
XIX e começava foi Quirino de Oliveira, do Clube Atlético
da 2ª etapa os leitores ficaram a saber o a popularizar-se de Campo de Ourique, descrito no DN

VISÃO H I S T Ó R I A 91
Anos 20 || Ciclismo

como tendo «asas nos pés e a robustez rimónias com a presença das autoridades dessa primeira Volta os organizadores
física de um atleta completo». Foi ele o locais e prémios especiais criados em cima «não tinham muitos meios de averiguar
comandante do pelotão durante várias da hora para quem vencesse determi- das possibilidades dos estradistas, pois
etapas, mas devido a uma queda acabou nada etapa. E com presentes oferecidos só duas provas se realizavam então: os
por perder a liderança nos últimos dias, por particulares a serem entregues até 100 quilómetros e o Porto-Lisboa». Em
chegando em 3º à meta final, em Lisboa. dias depois do final da Volta, em nome prefácio ao mesmo guia, o administrador
Quem venceu a Volta foi Augusto de de determinados ciclistas – ficando em do DN Caetano Beirão da Veiga fala de
Carvalho, em parte graças à «pastelei- exposição em Lisboa, nas montras dos maledicências sofridas pela organização
ra» cedida por um popular, quando o Armazéns do Chiado. e justifica assim a pertinência da pri-
ciclista do Grupo Sportivo de Carcavelos Fosse ou não por motivos económicos, meira Volta a Portugal em Bicicleta, que
ficou com a bicicleta avariada na etapa a segunda edição só se realizaria passados faria falta «porque o Diário de Notícias,
Braga-Porto. Outra explicação para a quatro anos. Ainda houve uma tentativa preocupando-se sempre com o aperfei-
sua vitória final terá sido o facto de fazer de imitação daí a dois meses, com uma çoamento da raça, e, por consequência,
parte da única equipa que se preparou a Volta a ser promovida pelo jornal Spor- com a melhoria das suas condições físicas,
sério, dando-se ao trabalho de percorrer ting, do Porto. Mas foi um insucesso, já julgou oportuno organizar uma grande
previamente todo o percurso da Volta, competição atlética que, percorrendo o
em ritmo de treino. A preparação viria a País, o acordasse do pernicioso letargo em
render também ao Carcavelos o primeiro que havia caído». O letargo aqui são os
lugar por equipas. anos anteriores à revolução de 28 de Maio
A organização da Volta errou no cálculo de 1926, que viria a resultar na Ditadura
do tempo necessário para percorrer algu- Militar e depois Estado Novo.
mas das distâncias. Por exemplo na etapa Mas apesar de em 1935, neste guia da
Porto-Coimbra os ciclistas chegaram já de VI Volta, ficar melhor uma explicação
noite à meta, com os faróis dos carros de apenas épica e política, a génese da Volta
apoio a iluminarem a estrada. Mas pior foi em Portugal terá mais a ver com o impac-
o facto de muitas vezes não haver sequer to do Tour francês. Conta Gil Moreira,
estrada, sendo os campeões obrigados a em A História do Cliclismo Português,
carregar às costas as bicicletas – à época que terá sido grande o impacto em Raul
muito pesadas. de Oliveira, que combatera em França
A descrição do DN estará longe do na Grande Guerra e que por lá ficara co-
exagero: «O aspeto de ciclistas e auto- brindo a prova francesa como jornalista.
mobilistas à chegada a qualquer parte Regressou para a redação de Os Sports e
é, na verdade, arrepiante pela porcaria tentou convencer os administradores a
que cada um traz sobre si! Há rostos ir- organizarem com o DN uma Volta por cá,
reconhecíveis. A máscara de poeira nada à semelhança do que se fazia em França
Cobertura A 1.ª Volta teve eco noutros órgãos
tem de cómica. É trágica de repelência! de informação, para além do DN e de Os Sports por iniciativa de jornais desportivos. Sem
Há além disso a registar vários desastres. sucesso, pois parecia caro e arriscado.
Temos um corredor ferido pelo coice de Até que, ao ganhar dinheiro na lotaria,
uma muar, outro mordido por um cão, que foi recebida com menos entusiasmo Raul de Oliveira decidiu gastá-lo numa
dois forçados a desistir porque se lhes popular, em parte pela menor competiti- Volta a Lisboa, em 1923, organizada ofi-
partiram as máquinas no caminho.» vidade entre os ciclistas que concorreram. cialmente pelo DN. Correu bem e abriu
«Em 1927, quando o Diário de Notícias caminho para o início de uma competição
Em franca decadência e Os Sports lançaram a Volta a Portugal, à escala nacional, que parecia ter condi-
No Diário de Notícias proclamou-se des- o campo era sáfaro e mau. Perdera-se ções para angariar leitores fora de Lisboa
de o início o prognóstico de que «a sen- o prestígio dos Pessoas e dos Crespos, e anunciantes em geral.
sacional prova» iria «prender a atenção dos Mouras e o ciclismo mostrava-se Sobretudo depois do sucesso de uma
de todo o País». Mas não se cumpriu o em franca decadência, sem nomes no- volta ao País a cavalo também organizada
objetivo declarado pelos organizadores vos que o erguessem.» É o que escreve pelo DN, seguindo os passos da Ilustra-
de que se tornasse um acontecimento o jornalista Belo Redondo no Guia da ção Portuguesa, 20 anos antes. Portugal
desportivo anual. Isto apesar da grande Volta a Portugal em Bicicleta – História estava pronto para assistir a uma versão
atenção dada à primeira Volta em muitas da ‘Volta’, apresentado em 1935 como portuguesa do Tour. E mesmo sem selim
terras, onde passava o pelotão ou onde «o mais completo guia ilustrado da VI ou sem estrada, com mordidelas de cão
terminavam e começavam etapas, com Volta a Portugal, indispensável a todos ou coices de mula, a Volta a Portugal de
discursos, jantares comemorativos, ce- os desportistas». Segundo o autor, antes 1927 viria a ser a primeira de muitas.

92 V I S Ã O H I S T Ó R I A
ANTT

A loucura Entrecampos, Lisboa Uma multidão


aguardava a seleção, que seguiria
depois em cortejo até ao município

do futebol como o «Sparta de Alcântara», pela dinâ-


mica de jogo coletivo a lembrar o estilo da
equipa do Sparta de Praga, que passara por
Tudo começou nos Jogos Olímpicos de 1928. Mal instalados
e habituados a jogar em pelados, os jogadores portugueses Portugal deixando muito boa impressão.
O estilo rápido do Carcavelinhos baseava-
acabariam, mesmo assim, por obter esplendor na relva
-se mais na inspiração dos artistas da bola
por João Pacheco do que numa organização tática rígida.

S
Chamavam-lhe o «rapa, tira, põe e deixa»,
ortearam o futuro conforme os preendente vitória do Olhanense na final como se conta no livro A Paixão do Povo –
lugares que cada um ocupava no do Campeonato de Portugal. Voltaria para História do Futebol em Portugal, de João
comboio. A brincadeira servia o clube algarvio nesse ano. Nuno Coelho e Francisco Pinheiro.
para passar o tempo, mas resul- Seguia a bordo um avançado jovem,
tou num bom augúrio. Ditava baixo, franzino e talentoso, que um ano Desporto já de massas
um futuro brilhante ao grupo antes fora transportado em ombros pelos No campeonato de 1928, a média foi de
de futebolistas que iria defender as co- adeptos, depois uma vitória portuguesa quase seis golos por jogo. Eram comuns
res portuguesas nos Jogos Olímpicos de sobre a França por 4-0. Chamava-se José as goleadas. Embora disputando ainda
Amesterdão. A realidade não seria tão Manuel Soares, mas era conhecido por espaço regular nos jornais à tauromaquia
gloriosa como no recentíssimo Europeu «Pepe». Fora campeão pelo Belenenses ou ao boxe, foot-ball (como então e escre-
de 2016... mas quase. no ano anterior e voltaria a sê-lo no ano via) transformarva-se num desporto de
Seguia no comboio o guarda-redes do seguinte. Morreria em 1931, envenenado massas, abandonando a vertente elitista
Casa Pia António Roquete, «o Zamora por uma sande de chouriço, em circuns- praticado por sportsmen elegantes no
português», o rapaz que usara um nome tâncias nunca totalmente esclarecidas. final do século XIX.
falso para poder saltar para a baliza logo Entre os ídolos mais conhecidos, era ain- Neste contexto, embora a equipa por-
aos 16 anos, num jogo amigável contra o da passageiro do comboio o defesa direito tuguesa de esgrima viesse a conquistar
Belenenses, a contar para a Taça Vende- Carlos Alves, o primeiro «Luvas Pretas», nas Olimpíadas a Medalha de Bronze, o
dores de Jornais. avó do futuro craque homónimo, que aca- que apaixonou mais pessoas foi a chegada
Viajava também o médio Raul Figuei- bara de conquistar o título de campeão inesperada da geração de Amesterdão
redo «Tamanqueiro», à época no Benfica, nacional pelo Carcavelinhos, um pequeno aos quartos-de-final da competição de
mas que anos antes fora o obreiro da sur- clube de operários conhecido nessa altura futebol, ficando entre as oito primeiras.

VISÃO H I S T Ó R I A 93
Anos 20 || Futebol

Longe da unanimidade, a febre popular


à volta do futebol era alvo de críticas como
a do escritor Vitorino Nemésio (então
com 26 anos) publicada em junho no
Diário de Lisboa. No artigo de opinião
O Stadium contra o Forum?, Nemésio
termina em tom jocoso imaginando um
futuro «Foot-ball Cícero Club», numa
crítica à rapidez e à superficialidade da
época, simbolizada na obsessão crescente
com o futebol.
Ainda a propósito de jornais – e ape-
sar da Censura instaurada em 1926 – o
semanário humorístico Sempre Fixe
aproveitaria o pretexto para publicar
ilustrações satíricas viradas para o fu-
ANTT

tebol como alegoria da política inter-


nacional, ao longo da preparação para
os JO e durante a estada da seleção em ‘Fanzone’ de 1929 Quando ainda não
Amesterdão. estavam generalizadas as telefonias, muita
gente juntou-se no Terreiro do Paço para
escutar o relato de um França-Portugal
Truques de magia e fado
Lá fora passavam ainda pelas janelas pai-
sagens de Espanha, de França, da Bélgi- Os jogadores da seleção partiram com
ca… E segundo o sorteio feito entre os bastante desconfiança em relação aos
jogadores, Portugal iria à final contra o campos relvados, em que não estavam
Uruguai, depois de eliminar as seleções habituados a jogar. De Portugal levavam
do Chile, da Jugoslávia, da Bélgica e da também a autoconfiança e a fama inter-
Itália. E ditava a sorte que Portugal ven- nacional conquistadas nos últimos meses,
ceria a final. em jogos de preparação que correram
Quem assim descreve, no Diário de muito bem, contra Espanha, França, Itá-
Lisboa, o sorteio e a viagem é o treinador lia e Argentina, nalguns casos em relva- ainda a braços com convulsões políticas
e jornalista Cândido de Oliveira, à época dos onde se fartavam de escorregar e cair que resultavam em feridos, mortos, presos
redator do jornal e um dos quatro mem- mesmo à boca da baliza. Aliás, mesmo e deportados.
bros do Comité de Selecionadores – ele durante a competição na Holanda terá Nesse clima, o ministro da Instrução
que anos antes fora o primeiro capitão sido maior o brilhantismo do que eficiên- Duarte Pacheco decretou a proibição do
da seleção. E que continuaria a marcar o cia junto às redes adversárias... futebol no verão, entre 1 de julho e 15
futebol português durante décadas, com Por cá, a revolução de 28 de Maio de de setembro, numa medida em prol da
uma interrupção breve por sido preso 1926 ainda não resultara num regime higiene e da moral. A lei foi cumprida
político no campo de concentração do sólido. Salazar acabara de ser nomeado em Lisboa mas desrespeitada no resto
Tarrafal em meados dos anos 40, antes ministro das Finanças. E os futebolistas do País. Com o regime a ter de adaptar-se
de fundar o jornal desportivo A Bola. portugueses deixavam para trás um País ao facto de o futebol ser já algo demasia-
Escreveu Cândido de Oliveira: «Estes do popular para ser vencido, apostou-se
rapazes sabem como ninguém passar o anos depois na construção do Estádio
tempo em viagem… Têm um reportório Nacional.
incomparável – de pequenina compa- Apesar de o futebol já mover multidões,
nhia de variedades. Cada um deles tem O futebol foi em Portugal ainda não havia jogadores
um número para entreter os camaradas.
E há de tudo: prestidigitadores, canta-
proibido pela profissionais, vivendo-se um profissiona-
lismo encapotado em que os clubes acaba-
dores de fado, tocadores de guitarra, jon- Ditadura no verão vam por pagar aos futebolistas de forma
gleurs, clowns… O Figueiredo e o Carlos de 1928, mas a lei não assumida, muitas vezes arranjando-
Alves são as primeiras figuras. Tocando -lhes empregos. A propósito, nos JO só
guitarra e cantando o fado, puseram o
só foi cumprida podiam participar futebolistas amadores,
comboio em alvoroço.» em Lisboa o que explica a ausência de seleções como

94 V I S Ã O H I S T Ó R I A
GETTY
Amesterdão, 1928 Pepe ameaça as Fixe, onde se ironizava com as «grandes ternacionais, contando com os jogos de
redes do Chile. À esquerda: Um cartaz reportagens magras de um jornalista gor- preparação, como sublinharia Cândido
com a seleção olímpica portuguesa do, em Amesterdão». de Oliveira na crónica sobre o jogo. Tinha
Tal como a sorte ditara no comboio, o sido uma campanha brilhante.
Uruguai foi mesmo à final. E venceu-a, Mesmo sem chegarem à final, «Pepe»,
as da Áustria, Checoslováquia, Hungria contra a Argentina. Eram duas das sele- «Tamanqueiro» & Cª acabariam por en-
ou Inglaterra, onde os campeonatos já ções mais fortes do mundo. trar para a História do futebol português,
estavam profissionalizados. Portugal ultrapassou as expectativas e sendo recebidos no regresso por multi-
O debate entre os defensores do pro- chegou aos quartos-de-final. Apesar de dões. No editorial do Diário de Lisboa
fissionalismo e os do amadorismo foi um ter muito mais técnica do que físico, num de 11 de Junho conta-se que a chegada
dos temas que marcaram o congresso da futebol em que as substituições durante o foi apoteótica, com um trajeto triunfal a
FIFA, agendado também para Amester- jogo ainda não eram permitidas, perdeu ser feito da Estação de Entrecampos e os
dão e para as mesmas datas dos JO. Ali foi apenas no terceiro desafio, contra o Egi- Paços do Concelho de Lisboa. O impacto
discutida e aprovada a futura realização to. Logo no primeiro encontro, Portugal político foi grande, como ali se escreve: «A
de um Campeonato do Mundo aberto a jogou durante 12 minutos sem Armando propaganda do nosso país realizada pelos
profissionais e amadores. Martins (que se lesionou e teve de recu- simpáticos e modestos rapazes que da-
perar fora do campo) quando a seleção qui se deslocaram à Holanda valeu mais
Reportagens magras já perdia por 2-0 contra o Chile. Mas do que muitas platónicas manifestações
Longe dessas negociações sobre o futuro voltou e Portugal marcou dois golos num diplomáticas de problemático efeito.»
do futebol e logo à chegada a Amester- minuto, acabando por ganhar por 4-2. A guitarra que viajou com a equipa
dão, a comitiva lusa ficou desiludida com Seguiu-se a Jugoslávia, que Portugal recebeu no regresso uma placa de ouro
as condições em que ficou alojada, num também derrotou, por 2-1. Só depois aca- comemorativa, por ocasião de um jantar
hotel sobrelotado. Quase não havia adep- bou o sonho sorteado no comboio, quan- de homenagem no restaurante Ferro de
tos nem jornalistas nacionais. Ainda por do a seleção perdeu com o Egito, por 2-1. Engomar, em Benfica. Ainda na Holanda,
cima, o Diário de Notícias enviou António Nesse encontro, a geração de Amesterdão a dita guitarra tinha servido para acompa-
Ferro, que se confessava feliz na igno- terá sido prejudicada pela arbitragem. nhar o Hino Nacional. Nascera a geração
rância sobre o assunto, o que mereceu a Desde 1927 que Portugal não era der- de Amesterdão – e, como ela, a «loucura»
sátira ilustrada nas páginas do Sempre rotado, tendo disputado sete desafios in- pelo futebol.

VISÃO H I S T Ó R I A 95
Anos 20 || Literatura

Mortos,
feridos
e ‘glamour’
Guerra, crise, psicanálise e feminismo Ulisses
– a literatura dos Anos 20 adianta-se DE JAMES JOYCE (1922)
às contradições e emancipações A trama do livro – com
da época personagens da Odisseia
Para Além do Prazer de Homero a viverem
por Isabel Nery em Dublin – é complexa,
DE SIGMUND FREUD (1920)
mas os efeitos que

É
As baias sociais começam teve na altura da sua
tempo de jazz, pós-guerra, aparecimento a aligeirar-se e as teorias publicação fazem
de Freud vêm contribuir jus à originalidade
dos primeiros eletrodomésticos. E isso quer para essa mudança. A ideia da obra. Chocados
também dizer que é tempo de uma nova li- – então revolucionária – com as descrições
teratura. A escrita rebuscada do século XIX de que as mulheres tinham das vivências
dá lugar a textos que privilegiam a ação e os mesmos impulsos de Bloom, que se
os diálogos. Temas como a sexualidade e os sexuais e desejos que masturba enquanto
os homens questiona observa uma vizinha, os
direitos das mulheres entram pela ficção adentro e a forma como era americanos e os ingleses
dão origem a escândalos. encarada a sexualidade. decidem banir a obra.
Assim ia o mundo dos Anos 20: entre os horrores O neurologista, nascido na Seria necessária a
das memórias da Grande Guerra, de que Hemingway Morávia (atual República decisão de um juiz (um
se tornou um relator clássico em O Adeus às Armas, Checa, então pertencente precedente inédito
ao Império Austro- no que toca a uma
e a mudança de costumes, espelhada nos excessos de
-Húngaro) defende que obra considerada
Gatsby, uma personagem de Scott Fitzgerald. Entre os desejos sexuais são «pornográfica»)
uma economia americana que passa de 69 para 93 mil centrais para os humanos para, quase uma
milhões de produto interno bruto (PIB) e o culto das e entende que muitos década depois,
celebridades, ao mesmo tempo que se revitaliza o Ku problemas começam na ser permitida
repressão desses desejos. a venda do
Klux Klan e se faz sentir a «Lei Seca», banindo o álcool.
Este livro significaria romance nos
Deste lado do Atlântico, o francês André Gide, uma viragem nas Estados Unidos.
mais tarde fundador da editora Gallimard, publica teorias médicas, dando A história
Corydon, em 1920, com o objetivo assumido de de- origem às hoje comuns passa-se num
nunciar os preconceitos contra a homossexualidade. psicoterapias. único dia e
No mesmo ano, Agatha Christie lança o seu primeiro é um retrato
minucioso da
romance, O Misterioso Caso de Styles, introduzindo cidade de Dublin,
o detetive Hercule Poirot. capital da Irlanda
A literatura vai refletir toda a ebulição – e contra- que então acedia
dição – dos Anos 20. Umas vezes olhando para os à independência
costumes (Francis Scott Fitzegerald), outras para relativamente
ao reino Unido,
as evoluções da Medicina (Sigmund Freud) ou para
mas também
os traumas da guerra (Ernest Hemingway). Com da classe
Thomas Mann viaja-se no tempo e com James Joyce média baixa
vive-se o choque das cenas sexualizadas. europeia da
Embora tivessem um papel cada vez mais ati- época.
vo, as mulheres continuavam a ser discriminadas,
e mesmo excluídas. Disso mesmo trata o texto de
Virginia Woolf, ainda hoje, quase um século depois,
considerado um tratado do feminismo.

96 V I S Ã O H I S T Ó R I A
A Montanha Mágica
DE THOMAS MANN (1924)

Para alguns é um clássico Um Quarto


mais comentado do que Que Seja Seu
O Adeus às Armas DE VIRGINIA WOOLF (1929)
lido, e a culpa não será O Grande Gatsby DE ERNEST HEMINGWAY (1929)
certamente alheia às cerca DE F. SCOTT FITZGERALD (1925) «Não preciso de odiar
de mil páginas (800 na «Uma história imortal de
nenhum homem. Ele
versão portuguesa) que Se fosse preciso um amor e guerra», é assim
não me pode fazer mal.
ocupa a história do jovem romance para estabelecer que se apresenta a versão
Não preciso de lisonjear
engenheiro Hans Castorp. um paralelo entre a crise adaptada para cinema,
nenhum homem. Ele não
Depois de rumar a Davos, económico do início do protagonizada por Rock
tem nada para me dar.» A
na Suíça, para visitar um século XXI e a do século Hudson, em 1957. Amor e
frase lida nas conferências
primo em tratamento XX, seria este. guerra estão no centro do
onde Woolf começou por
contra a tuberculose, À euforia do crescimento livro, mas antes estiveram
apresentar o texto, com
acaba por ficar sete anos, do pós-guerra – refletida no centro da vida do
o título inicial Mulheres e
numa primeira metáfora do no uso generalizado autor norte-americano.
Ficção, chocou a audiência.
aprisionamento que pode de eletricidade e de Hemingway serviu na
Era um tempo em que
significar uma doença. automóvel ou na escolha Cruz Vermelha durante a
apenas as mulheres
Mann decide escrever o das cidades como lugar Primeira Guerra Mundial,
ricas – caso da escritora
livro depois de visitar a para viver – segue-se o foi ferido com apenas 19
– podiam imaginar-se a
mulher num sanatório crash da bolsa, em 1929. anos e apaixonou-se pela
escrever livros. As poucas
e ser aconselhado pelo E O Grande Gatsby, escrito enfermeira que o tratou.
que o faziam usavam
médico a ficar lá também. por Fitzgerald a ver o O mesmo acontece ao
nomes falsos (em geral
«Se tivesse seguido o mar, na costa francesa, seu personagem Frederic
masculinos), e a escritora,
conselho talvez ainda lá é isso tudo. Primeiro o Henry.
que foi considerada
estivesse em cima. Preferi enriquecimento baseado Mas este Adeus é muito
maníaco-depressiva,
escrever A Montanha Má- numa mentira, depois a mais do que uma história
queria mudar o estado
gica», explicou o próprio opulência das festas em de amor. A maioria lê
da arte. As suas posições
autor. Embora passado na Long Island, que obrigavam nele um protesto de
foram consideradas
mesma época, o livro é um à contratação de oito Hemingway contra todas
provocatórias. Mas a
contraste absoluto com as criados para limpar tudo as guerras – e todos os
verdade é que Woolf era
excentricidades de Gatsby. no dia seguinte, e um triste horrores que elas trazem
impedida de frequentar
Nos Alpes suíços, a viagem fim, repleto de traições. Tal dentro e fora do campo
bibliotecas por ser mulher.
é essencialmente interior. como se poderia escrever de batalha. Mais tarde, o
Ao exigir um quarto só
O tempo não corre. É re- hoje, o romance retrata autor de outros clássicos,
seu, reivindicava para
lativo. Lento. Paralelo. Tal a decadência que vem como Por Quem os Sinos
as mulheres um espaço
como o sentem as pessoas depois da riqueza – e os Dobram, diria: «Quando
(literal e metafórico) onde
«lá de baixo», as que vivem efeitos perversos de uma se vai para a guerra jovem
pudessem brilhar nas
fora do sanatório. Mas esta desigual distribuição da tem-se uma grande ilusão
letras. Pelo menos, tanto
montanha é também uma riqueza. sobre a imortalidade. Os
como os homens.
viagem pela realidade polí- outros são mortos, nós
tica da Europa de então, a não... Quando se é ferido
caminho do fascismo. pela primeira vez perde-se
essa ilusão.»

VISÃO H I S T Ó R I A 97
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