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CRÍTICA

marxista

COMENTÁRIOS
Darwin lido e aprovado
Últimas reflexões sobre
a antropologia darwiniana *

**
PATRICK TORT

Ter que tomar mais uma vez hoje a já enunciadas – e superadas – a partir da
palavra sobre o que não é mais uma segunda metade do século XIX (por
questão – o sentido verdadeiro da antro- exemplo, Denton repetindo a clássica
pologia darwiniana – indica que as de- objeção de Saint-George Mivart) confir-
monstrações mais acabadas no campo da ma no nível sintomal o poder permanente
leitura dos grandes textos científicos não dos temas do darwinismo: como um ou-
são mais protegidas pela evidência de sua tro grande pensador (Marx) que alguns,
lógica do que o são, pelos seus efeitos entretanto, acharam elegante reabilitar
confusionistas, as afirmações ideológi- após ter o cuidado de esperar que a con-
cas mais triviais e mais claramente refu- vicção da sua morte ou da sua supera-
tadas. ção fosse instalada, Darwin, ainda que
A volta (no campo de uma ciência- pleno de atualidade dentro do universo
espetáculo que, à falta de competência, daqueles que refletem de modo conve-
expõe seus falsos debates dentro dos es- niente a sua prática naturalista ou bioló-
paços que deveriam ser consagrados à gica em termos de inspiração teórica
partilha dos conhecimentos positivos e à global, deveria, de acordo com uma opi-
avaliação das hipóteses) de um “antidar- nião elaborada e vulgarizada como uma
winismo” que não passa, malgrado os moda à qual ninguém saberia se subtrair
seus defensores, da repetição de objeções totalmente, ser “caduco” ou “ultrapassa-

*
Texto publicado em Critique Communiste (revista da Liga Comunista Revolucionária/seção Fran-
cesa da IV Internacional) n. 146, 1996, por ocasião da publicação do Dictionnaire du Darwinisme et
de l’évolution (PUF, Paris, 1966, 3 volumes), coordenado por P. Tort. Critique Communiste também
solicitou a outros colaboradores do Dictionnaire uma intervenção escrita sobre a obra recém-lançada.
Tradução de Michèle Saes.

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Filósofo francês.

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do”. O interessante paradoxo (mas será Origem dos erros e seleção textual
mesmo um paradoxo?) é aqui que a Durante mais de um século – e para
idéia vulgar de uma idade de preempção a França isso remonta à tradução proble-
dos pensamentos fundadores em matéria mática da Origem das espécies, prefa-
de ciência é um dos tópicos mais cons- ciada de modo infeliz por Clémence
tantemente reiterados, e que se limita, Royer –, quis-se ver em Darwin o ins-
por sua parte, a organizar sua própria re- pirador das teorias desigualitárias moder-
petição, e por isso, só alimentando uma nas, o grande defensor do eugenismo nas
relação oportunista com a positividade suas versões mais duras, o teórico da eli-
inovadora das grandes teorias científicas, minação dos fracos, o grande legitimador
nunca é, infelizmente, de fato passível naturalista do expansionismo ocidental
de uma preempção por completo. e, especialmente, do imperialismo vito-
Não intervirei aqui para refutar a tese riano, o ideólogo fundador do “racismo
indefinidamente ressurgente (pelo fato científico”, o pai efetivo do “darwinismo
mesmo da sua inconsistência científica) social” e da quase totalidade das socio-
da pretensa incapacidade da teoria dar- logias biológicas evolucionistas, e o
winiana em dar conta dos mecanismos credenciado justificador do egoísmo
complexos da evolução dos organismos. triunfante dos possuintes. Viu-se nele, por
Outros o fizeram, e terão infelizmente inteiro, e sem preocupação com as
de refazê-lo a cada ressurgimento desta incompatibilidades ou as contradições,
sofística (muitas vezes matemática) no Herbert Spencer, Francis Galton, Cecil
horizonte criacionista, que só argumen- Rhodes, Arthur de Gobineau e Thomas
ta a partir da ignorância, real ou tática, R. Malthus. Ora, todas essas alegações
das leis genéticas da determinação dos não são só errôneas mas se situam bem
caracteres. Eu só me pronunciarei aqui precisamente nos antípodas da verdade
sobre o plano do conhecimento restituí- historiográfica mais atestada, bem como
do do texto e da lógica de Darwin, como da lógica da teoria da descendência,
ele emerge de um trabalho de quinze como o próprio Darwin a aplicou no cam-
anos, que me levou da Pensée po da antropologia.
hiérarchique et l’évolution (Paris, Au- Desta extraordinária confusão que
bier, 1983) ao Dictionnaire du darwi- ocultou a interpretação exata de Darwin
nisme et de l’évolution (Paris, PUF, durante tanto tempo, e da qual tantos
1996), e passando em particular pela comentários fundados sobre boatos e tan-
Misère de la sociobiologie (Paris, PUF, tos prefácios absurdos a uma obra não
1985), e por Darwinisme et société (Pa- lida são testemunhas, a responsabilida-
ris, PUF, 1992), e que presenciou um de cabe em primeiro lugar ao biombo
reagrupamento, em torno das suas con- postado à frente do darwinismo pelo
clusões, de um número considerável de evolucionismo filosófico de Spencer, sis-
cientistas, de teóricos e de historiadores tema de pensamento que serve como
das ciências, aos quais o meu esforço quadro de referência ideológica integra-
presente de explicação ampliada das evi- do ao ultraliberalismo radical do indus-
dências reconhecidas, hoje, por eles, de- trialismo vitoriano, e já instalado, quan-
veria ser uma homenagem. to a seus pólos essenciais, quando a teo-

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ria darwinianna emerge dentro do con- nos que só integrarão o darwinismo para
texto saturado de lutas ideológicas que é o trair) é a regra de sobrevivência no seio
o da Inglaterra dos anos 1860. de uma concorrência interindividual ge-
Quem é Spencer? Um engenheiro neralizada: os menos adaptados devem
inglês que dividiu sua vida entre inven- ser eliminados sem apelo e sem con-
ções técnicas já realizadas, o jornalismo, sideração. Spencer se oporá assim a toda
as estradas de ferro, e, a partir dos anos medida visando ajudar os mais desfavo-
1840, a constituição da filosofia e da recidos, e a qualquer forma de lei de as-
sociologia política requeridas pela repre- sistência. O que ele toma emprestado a
sentação ultraliberal do progresso. Apai- Darwin (mas neste nível, poderia ser
xonado pelas grandes visões sintéticas, também a Malthus) é portanto o “núcleo
preocupadas em legar a um princípio de duro” da teoria seletiva tal como ele o
inteligibilidade única o conjunto dos da- descobre no mês de outubro de 1858,
dos fenomenais acessíveis ao conheci- quando ele toma conhecimento da
mento, influenciado inicialmente pela lei intervenção conjunta de Darwin e
do desenvolvimento enunciada por Von Wallace ante a Linnean Society de Lon-
Baer no campo da embriologia, a seguir, dres. A partir daí, sua preocupação será
preocupado em encontrar para esta “lei” aplicá-la, não dentro do campo onde seu
uma formulação com um grau mais ele- uso seria legítimo (a evolução dos or-
vado de generalidade, ele expõe sua pró- ganismos), mas num universo no seio do
pria “lei de evolução” a partir de 1860 qual Darwin recusa precisamente sua
no “Prospectus” dos seus Primeiros prin- aplicação (a marcha das sociedades
cípios, publicados em 1862. A “lei de humanas).
evolução” define a passagem dos agre- Por razões de outra ordem, referen-
gados, através de um processo de integra- tes à luta comum contra o establishment
ção e de diferenciação, de um estado in- científico inglês conservador e anti-
definido, incoerente e homogêneo para transformista, Darwin aceitou uma co-
um estado definido, coerente e hetero- nivência remota com Spencer, que ele
gêneo (processo correspondente a um não apreciava (sua Autobiografia de 1876
acréscimo de complexidade, levando até é a este respeito inequívoca), e uma im-
os extremos refinamentos organizacio- portação terminológica (“sobrevivência
nais dos corpos vivos, da individualidade dos mais aptos”) que terão possivelmen-
humana e das sociedades). A “lei” assim te mais efeitos negativos a longo prazo
enunciada será aplicada a todas as cate- do que vantagens momentâneas. A
gorias de fenômenos e a todos os campos confusão entre Darwin e Spencer, entre
do saber, como também à teoria do pró- a teoria da descendência modificada por
prio conhecimento. A vertente sociológi- meio da seleção natural e o evolu-
ca do pensamento spenceriano é particu- cionismo filosófico-sociológico, terá de
larmente representativa das aspirações da fato as piores conseqüências conceituais,
burguesia industrial inglesa: a sociedade teóricas e políticas na Europa e no mun-
é um organismo, e evolui como um orga- do, até que a distinção e a oposição reais
nismo. A adaptação (pensada por Spencer entre as duas teorias cheguem a ser re-
em termos fundamentalmente lamarckia- conhecidas (ver P. Tort, 1983).

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É evidentemente a confusão que foi lamarckianos), mas usa-os como se fos-
selecionada em detrimento da distinção, sem a chave de uma antropologia social
no meio político-cultural da classe inte- evolucionista e de uma sociologia cujo
lectual vitoriana, pelo uso relativamente uso contradiz aquele, finalmente dialé-
indiferenciado de termos com relações tico, que será feito por Darwin.
confusas para o público, mas com car- É importante, portanto, identificar, na
gas semânticas e conotativas profunda- lógica da antropologia de Darwin como
mente diferentes. O deslizamento que se ela está exposta soberbamente no seio da
nota então atesta o poder de contamina- Descendance de l’Homme et la sélection
ção da ideologia spenceriana pela esco- sexuelle (1871), o que a opõe ao hiperse-
lha, que se tornará progressivamente lecionismo biológico-social de Spencer,
dominante entre os próprios biólogos, de verdadeiro inventor do impropriamente
um vocabulário de extração “filosófica”: denominado “darwinismo social”, e cria-
a evolução spenceriana (noção filosófi- dor de todos os paradigmas comuns às
ca) contra a descendência darwiniana “sociobiologias” ulteriores da história.
(conceito naturalista), o triunfo ou a so-
brevivência dos mais aptos – que se tor- O efeito reversivo da evolução (ou:
narão bem rapidamente os “melhores”, Darwin não era “darwinista social”)
os mais “merecedores” ou os mais “for- Para evitar paráfrases artificiais, eu
tes” – (noção de uso essencialmente so- recorrerei, mais uma vez aqui, ao desen-
ciológico em Spencer) contra a seleção volvimento que o Dictionnaire du darwi-
das variações orgânicas e instintuais van- nisme imprime ao conceito de efeito
tajosas (conceito que, quanto ao instin- reversivo da evolução.
tual, desaguará em 1871, em Darwin, em Conceito-chave da antropologia dar-
posições antropológicas – éticas, socio- winiana (a distinguir da antropologia
lógicas e políticas – diametralmente evolucionista), o efeito reversivo da evo-
opostas às do porta-voz do integrismo lução (designado como tal por nós em
liberal). 1983) é o que permite pensar em Darwin
O primeiro ato desta história é bastan- a passagem entre o que nomearemos, por
te claro: no texto darwiniano, Spencer, comodidade e aproximação, a esfera da
que já efetuou (Principes de biologie, natureza, dirigida pela lei estrita da se-
1864-1867) sua redução de Darwin até leção, e o estado de uma sociedade civi-
Malthus, fixa-se sobre a expressão “se- lizada, dentro da qual condutas, que se
leção natural”, faz dela uma crítica já opõem ao livre jogo desta lei, se genera-
clássica e amplamente aceita por Darwin lizam e se institucionalizam. Se este con-
(a crítica do excesso de “personalização” ceito não está mencionado em nenhuma
antropomórfica de uma expressão com parte na obra de Darwin, ele está todavia
ressonâncias voluntaristas, isto é, finalis- descrito e opera em certos desenvolvi-
tas), substitui-o por “sobrevivência dos mentos importantes (especialmente os ca-
mais aptos”, não o aplica no seu campo pítulos IV, V e XXI) de La Descendance
de legitimidade (a esfera do vivo, onde de l’homme de 1871, que devemos con-
ele permanece estreitamente partidário siderar como o seu terceiro maior traba-
da “ação direta” e dos “fatores primários” lho de síntese, e como o prosseguimento

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coerente, no campo da história evolutiva altruísmo, assiste-se a uma derrubada
do Homem natural e social, da teoria cada vez mais acentuada das condutas
seletiva desenvolvida em A origem das individuais e sociais em relação ao que
espécies. Ele resulta de um paradoxo seria o prosseguimento puro e simples
identificado por Darwin no decorrer de do funcionamento seletivo anterior: no
seu ensaio de extensão ao Homem da lugar da eliminação dos menos aptos,
teoria da descendência, e de seu esforço aparece, junto com a civilização, o de-
para pensar o devir social e moral da ver de assistência que põe em operação,
humanidade como uma conseqüência e no seu lugar, múltiplos recursos de aju-
um desenvolvimento particular da apli- da e de reabilitação; no lugar da extinção
cação anterior e universal da lei seletiva natural dos doentes e dos enfermos, a
à esfera do vivo. proteção deles pela mobilização de tec-
Este paradoxo pode ser formulado nologias e de saberes (higiene, medicina,
assim: a seleção natural, princípio dire- esporte) tendo como objetivo a redução
tor da evolução que implica a elimina- e a compensação dos déficits orgânicos;
ção dos menos aptos na luta pela vida, no lugar da aceitação das conseqüências
seleciona na humanidade uma forma de destrutivas das hierarquias naturais da
vida social cuja marcha para a civiliza- força, do número e da aptidão vital, um
ção tende a excluir cada vez mais, pelo intervencionismo reequilibrador que se
jogo interligado da ética e das institui- opõe à desqualificação social. Pelo viés
ções, os comportamentos eliminatórios. dos instintos sociais, a seleção natural, sem
Em termos simplificados, a seleção na- “salto” nem ruptura, selecionou assim seu
tural seleciona a civilização, que se opõe contrário, ou seja: um conjunto normali-
à seleção natural. Como resolver este zado, e por extensão, um conjunto de
paradoxo aparente? comportamentos antieliminatórios – por-
Nós o resolveremos desenvolvendo tanto anti-seletivos no sentido assumido
simplesmente a própria lógica da teoria pelo termo seleção na teoria desenvol-
seletiva. A seleção natural – trata-se em vida por A origem das espécies –, como
Darwin de um ponto fundamental – se- também, correlatamente, uma ética anti-
leciona não só variações orgânicas apre- selecionista (= antieliminatória) tradu-
sentando uma vantagem adaptativa mas zida em princípios, em regras de condu-
também instintos. Entre esses instintos ta e em leis. A emergência progressiva
vantajosos, aqueles que Darwin denomi- da moral aparece então como um fenô-
na os instintos sociais foram particular- meno indissociável da evolução e é aqui
mente retidos e desenvolvidos, como o uma continuação normal do materialis-
triunfo universal do modo de vida social mo de Darwin, e da inevitável extensão
no seio da humanidade e a tendencial da teoria da seleção natural à explica-
hegemonia dos povos “civilizados” o ção do devir das sociedades humanas.
provam. Ora, no estado de “civilização”, Mas esta extensão, que muitos teóricos,
resultado complexo de um acréscimo da enganados pelo biombo colocado dian-
racionalidade, da dominação crescente te de Darwin pela filosofia evolucionista
do sentimento de “simpatia” e das dife- de Spencer, interpretaram de modo
rentes formas morais e institucionais do apressado segundo o modelo simplista

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e falso do “darwinismo social” liberal Darwin permite assim, como já ex-
(aplicação às sociedades humanas do pliquei freqüentemente, pensar a rela-
princípio de eliminação dos menos ap- ção natureza/civilização, escapando ao
tos no seio de uma concorrência vital ge- duplo dogmatismo da continuidade (dis-
neralizada), só pode ser efetuada, a rigor, curso de tipo “sociobiológico”) e da rup-
sob a modalidade do efeito reversivo, que tura (discurso de tipo lévi-straussiano),
obriga a conceber a derrubada mesma da evitando tanto a exterioridade recíproca
operação seletiva como base e condição do biológico e do social (um sociolo-
do acesso à “civilização”. É o que impede gismo que excluiria metodologicamente
definitivamente que a sociobiologia, que a consideração de todo fator naturalis-
defende, ao contrário, em oposição a toda ta) quanto o reducionismo comum para
a lógica antropológica de Darwin, a idéia o qual todo o social só é a tradução de
de uma continuidade simples (sem derru- impulsos procedentes de um nível qual-
bada) entre natureza e sociedade, possa quer (variável de acordo com o estado
com todo direito reclamar-se do histórico das investigações sobre o vivo)
darwinismo. A operação reversiva é o que da biologia. Em suma, Darwin torna pos-
funda a justeza final da oposição natureza/ sível, no pensamento desta relação com-
cultura, evitando a armadilha de uma plexa, um continuísmo materialista que
“ruptura” magicamente instalada entre impõe a representação de uma destrui-
seus dois termos: a continuidade evo- ção progressiva (pensável em termos de
lutiva, através desta operação de derru- divergência selecionada dentro da sele-
bada progressiva, ligada ao desenvol- ção natural, ela mesma em evolução e
vimento (ele mesmo selecionado) dos submetendo-se por este fato à sua pró-
instintos sociais, não produz desta manei- pria lei antes de entrar em regressão) que
ra uma ruptura efetiva, mas um efeito de se afaste de artefatos teóricos como o
ruptura que provém do fato de que a sele- “salto qualitativo”, salvando ao mesmo
ção natural se encontrou, no decorrer da tempo, evolutivamente, a independência
própria evolução, submetida ela mesma à final das ciências do Homem e da soci-
sua própria lei – sua forma novamente se- edade. Correlatamente, Darwin produz,
lecionada, que favorece a proteção dos através do motivo dialético da seleção
“fracos”, prevalecendo, porque vantajosa, das condutas anti-seletivas e do senti-
sobre sua forma antiga, que privilegiava mento de simpatia acoplado ao do cres-
sua eliminação. A nova vantagem não é cimento da racionalidade e da importân-
mais então de ordem biológica: ela se tor- cia crescente atribuída pelo sujeito à
nou social. “opinião pública”, uma teoria materia-
Simbolizei esta derrubada progressi- lista dos fundamentos da moral que pre-
va através da imagem topológica da tor- serva da mesma forma a independência
são do anel de Möbius (P. Tort, 1992), conquistada pelas decisões e pela refle-
mesmo ressaltando que o verdadeiro mo- xão éticas (graças ao efeito de ruptura
delo darwiniano do fenômeno era o produzido pela derrubada), ao mesmo
modelo da divergência evolutiva selecio- tempo permitindo subtraí-las à domina-
nada no interior mesmo do devir do prin- ção dogmática das morais da obrigação
cípio seletivo. transcendente (ver P. Tort, 1995).

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As razões de um longo equívoco A resposta será enunciada em três
As considerações imediatamente pre- pontos
cedentes instalam o esquema dialético da O primeiro, já dissemos, refere-se à
“passagem” (para seguir oposições con- história do resgate inicial da lógica dar-
sagradas que recebem aqui um sentido winiana por uma “epistemologia” domi-
autenticamente evolutivo) entre o bioló- nante que se encarna no sistema spen-
gico e o cultural em Darwin. O fato é que, ceriano. O spencerismo turva a visão. Ele
com Darwin, levando-se em conta a for- impõe a formatação filosófica da nova
midável conversão do universo mental organização econômica e social sob o
que implica, uma vez compreendido, seu motivo programado de uma lei de evo-
continuísmo evolutivo, a distinção teori- lução que não passa de uma sofisticação,
zável entre os dois tipos de realidades com reforços científicos, da teoria do
(biológicas e culturais) se desvanece no progresso desenvolvida no século prece-
seu essencialismo para se reformular dente pelos primeiros teóricos do libera-
como distinção dialética. Há aí o efeito lismo. (Sobre as relações complexas
de uma teoria materialista conseqüente, entre Spencer, o positivismo comtiano e
e não há razões para ficar surpreso com os primeiros pensadores liberais do “pro-
isto. Mas o vocabulário e os esquemas gresso”, ver P. Tort, 1983; Spencer, 1987;
didáticos e ideológicos não se submetem e P. Tort, 1989.)
facilmente à dialética e preferem as opo- O segundo se refere ao compromisso
sições radicais, seja porque elas são mais darwino-spenceriano evocado antes.
acessíveis, seja porque elas são operacio- Enfim, o terceiro se refere à historio-
nais com relação a questões diante das grafia circum-darwiniana. Com uma ins-
quais a exatidão parece menos importan- tância e um poder de convicção propor-
te que a clareza. É bem exatamente o que cionais a seu compromisso com Darwin,
aconteceu com a interpretação da ele mesmo condicionado por uma con-
antropologia de Darwin. Nós a coloca- vergência de interesses às vezes bastante
mos, sem conhecê-la, em nome da infor- diversos, os adeptos de Darwin, tornan-
mação que acreditávamos ter sobre o do-se fortes pelo sucesso real, mas ainda
“núcleo” da teoria (continuísmo biosse- pouco firme, de A origem das espécies,
letivo simples e homogêneo), na catego- incitaram o seu autor a sair da sua reser-
ria das sociologias biológicas, isto é, de va quanto ao Homem e a incluir este úl-
novo, ao lado de Spencer (mas também timo no quadro da teoria da descendên-
de Espinas, até de Vacher de Lapouge, cia. Isto é: estender ao homem vivendo
etc.). Aí se esboça a resposta à questão em sociedade e a qualquer forma de ci-
que ainda colocam ingenuamente aque- vilização a teoria da descendência mo-
les que sentem uma última resistência dificada por meio da seleção natural.
em admitir a operação em Darwin da- Esperava-se portanto, simplesmente, que
quilo que nós acabamos de descrever sob Darwin, derrubando o último tabu, cru-
o conceito de efeito reversivo da evo- zasse a fronteira metafísica que ainda
lução: se ele existe mesmo em La separava o Homem do resto do Universo
Descendance de l’Homme, porque o efei- vivo, designando-o expressamente como
to reversivo não foi visto? um membro evoluído do reino animal,

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dividindo com o conjunto deste último, retamente, bem mais pelos efeitos do
e especialmente com seus representan- hábito, pelo raciocínio, pela instrução,
tes evolutivamente mais próximos, uma pela religião, etc., do que pela ação da
soma importante de características seleção natural, ainda que possamos atri-
comuns, orgânicas e, eventualmente, buir com certeza à ação desta última os
psíquicas e comportamentais. Assim, os instintos sociais, que são a base do de-
amigos de Darwin esperavam, e com eles senvolvimento do sentido moral.” (Ibid.,
todo o público junto ao qual esta expec- ch. XXI, p. 677).
tativa tinha sido criada, a seqüência de A antropologia darwiniana foi então
A origem das espécies. Assim, desde a interpretada antes de ser conhecida. O
sua publicação, La Descendance de “progressismo” naturalista – cujo inte-
l’Homme é saudada como esta continua- resse maior era dar um último golpe no
ção homogênea, e como o complemento dogma criacionista estabelecendo uma
esperado para a constituição de uma teoria da descendência unitária e com-
doutrina naturalista global e coerente ba- pleta – não podia adivinhar que, impon-
seada na aplicação da teoria seletiva à do-se neste terreno, ele ia se engajar na
totalidade das criaturas, uma vez cumpri- via de uma deriva biossociológica em
da a necessária transgressão dos obstá- que o darwinismo real ia se perder. E é
culos teológicos. Isto explica suficiente- rigorosamente verdade que o efeito prin-
mente porque ninguém a leu, cada um cipal da batalha em favor das idéias de
pensando saber o que estava escrito, ou Darwin, até a entrada do século XX, só
porque, lendo-a, cada comentarista só teve como efeito principal impor tenden-
atentou para os motivos explicitando as ciosamente o transformismo, sem por
ligações com a animalidade, sem perce- isso reconhecer a originalidade das idéias
ber o destino particular – a regressão – e do método darwinianos. Os “darwi-
que a seleção natural sofria na sua ver- nistas sociais” spencerianos ou haecke-
são estritamente biológica. “A seleção lianos prevaleciam num terreno – o Ho-
natural, escreveu Darwin, só parece exer- mem – em que Darwin ainda hesitava, a
cer uma influência bastante secundária despeito do seu magnífico trabalho de
sobre as nações civilizadas, quando só 1871, em aspirar a uma verdadeira ava-
se trata da produção a um nível de liação, enquanto Spencer preparava seu
moralidade mais elevado e dum número enorme Sociologie descriptive e Haeckel
mais considerável de homens bem dota- meditava seu Anthropogénie. O próprio
dos; todavia, devemos a ela a aquisição Marx, apressado em tirar conclusões da
original dos instintos sociais” (La leitura de A origem das espécies, e pas-
Descendance de l’Homme, Trad. Barbier, sado o momento do seu primeiro entu-
ch. V, p. 149-150). E ainda: “por mais siasmo materialista de 1860, responderá
importante que tenha sido a luta pela de preferência aos “darwinistas” do que
existência e ainda o seja, outras influên- a Darwin ao incriminar neste a projeção,
cias mais importantes intervieram no que sobre a natureza, dos esquemas funcio-
diz respeito à parte mais elevada da na- nais e dinâmicos da sociedade concor-
tureza humana. As qualidades morais rencialista liberal (carta a Engels de
progridem de fato diretamente ou indi- 1862). Engels terá menos desculpas em

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1873 em O Anti-Dühring ao falar de proteção e uma reprodução das existên-
“descuido malthusiano” a propósito de cias medíocres. Portanto, é preciso lan-
Darwin, e repetirá a mesma crítica em çar uma ação de seleção artificial ins-
1875 na Dialética da natureza, de qua- titucionalizada para compensar esse dé-
tro anos posterior a La Descendance de ficit e aliviar esse peso. À luz de La
l’Homme. Assim, tanto hoje como on- Descendance de 1871, entende-se que
tem, e pelo jogo de pressões históricas essa atitude era inconciliável com o que
facilmente identificáveis, uma esquerda ia ser a antropologia de Darwin, e contra-
de inspiração marxista, a despeito do seu ditória com o darwinismo estritamente
interesse por uma teoria materialista fun- compreendido (aquele, eu o repito, de
damental do devir e das analogias que Darwin), para o qual a seleção artificial
ela pode encontrar entre a luta histórica só pode ser aplicada às plantas cultiva-
das classes e a luta natural pela existên- das e aos animais de criação. De fato,
cia, ainda hostiliza, às vezes, Darwin; para Darwin, aquele que considerasse um
como também, do lado oposto, a direita outro ser humano, qualquer que fosse seu
ultraliberal (social-darwinista ou euge- grau de afastamento racio-cultural, ou
nista) elogia-o, cometendo o mesmo erro, sua fragilidade física ou psíquica, como
isto é, o de confundir a antropologia de algo diferente de “seu semelhante” trans-
Darwin com o “darwinismo social” dos grediria a lei civilizacional de extensão
seus epígonos. progressiva da simpatia, e regressaria, na
A segunda causa de equívoco e de escala de evolução humana, até o estado
confusão foi o nascimento do eugenismo. de selvageria ancestral. Galton, que não
Seu primeiro e principal teórico foi um será, menos do que outros, consciente
primo de Darwin, Francis Galton, esta- sobre o que Darwin escreverá em 1871 e
tístico apaixonado em particular pelo não podendo o ser, com toda razão, nos
estudo dos fenômenos hereditários. Ele anos 1860, persegue então sua tarefa de
fez alguns estudos médicos, foi profun- explicação militante da urgência duma
damente marcado em 1859 pela leitura política eugenista científica para frear a
de A origem das espécies, e desde 1865 degenerescência provável do grupo social,
começou a produzir as teses fundamen- tentando demonstrar o caráter hereditário
tais do que ia tomar com ele, sobre a base das qualidades intelectuais, e estabelecer
do hereditarismo e da seleção artificial estatisticamente a estrita hereditariedade
aplicada à humanidade, o nome de do gênio (Hereditary Genius, 1869), fa-
eugenismo. A proposta de base é bastan- zendo totalmente abstração dos fatores
te simples: a seleção natural asseguran- educativos. O eugenismo de Galton, como
do, dentro do conjunto do mundo vivo, a o próprio Darwin o relata (Descendance,
diversidade das espécies e a promoção ch. V), era hostil à reprodução dos “po-
dos mais aptos a partir da triagem das bres e dos indolentes”, pensada como um
variações vantajosas, o mesmo devia pro- obstáculo ao aumento numérico dos ho-
duzir-se na sociedade humana em rela- mens “superiores”. Darwin, quanto a ele,
ção aos caracteres intelectuais. Ora, a concluirá o inverso, defendendo o princí-
civilização desenvolvida entrava o livre pio oposto duma igualdade de chances na
jogo da seleção natural, permitindo uma concorrência social.

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Refinando a aplicação dos métodos sobre a vida e a reprodução dos indiví-
estatísticos à biologia, os prosseguidores duos, em nome da qualidade biológica
de Galton – os “biométricos” filiados ao da comunidade, e isso tanto mais pelo
princípio da seleção darwiniana, em par- fato de que, no seu principal inspirador
ticular Karl Pearson – compartilharam (Galton), a tendência elitista era embrio-
com ele a responsabilidade histórica pela nária, e de que seu principal prosseguidor
elaboração primeira da doutrina euge- (Pearson) optava claramente por uma
nista. Podemos notar aqui que a inflexão “modificação da fertilidade relativa das
própria do trabalho de Galton, que subs- boas e más origens” do grupo social (fór-
titui a importância em Darwin da indivi- mula que, de passagem, torna problemá-
dualidade biológica e dos seus avatares tica e sempre instável a distinção entre
evolutivos pela de um conjunto popula- um eugenismo “positivo” e um euge-
cional submetido como tal à seleção, fa- nismo “negativo”). Correlatamente, a
vorece duma vez todos os discursos e ciência quantitativa nascente alimenta-
empresas por vir que vão, em nome do va já o projeto duma anexação das ciên-
melhoramento da qualidade biológica do cias sociais. A genética mendeliana, após
grupo, recomendar como necessária a eli- um debate agitado com a biometria,
minação de certas categorias de indiví- integrá-la-á progressivamente ao seu lado
duos portadores de “más” variações. quantitativo, e geneticistas tomarão então
Aliás, a oposição entre a concepção gal- o lugar do eugenismo, defendido
toniana e a concepção darwiniana da igualmente por numerosos médicos, na-
variação eclode no final dos anos de turalistas e sociólogos biologistas no
1870, no seio duma história complexa decorrer dos primeiros decênios do sé-
que é ao mesmo tempo a história da culo XX.
emergência da biologia matemática e a A questão das relações entre darwi-
história das ideologias da otimização nismo social, eugenismo e racismo está
normalizante do nível biológico das po- sendo desenvolvida no Dictionnaire du
pulações. Reteremos aqui somente a darwinisme com uma acuidade que é tal-
idéia de um risco constante do fechamen- vez sem precedente. Distinções históri-
to da racionalidade matemática em si cas e teóricas existem entre essas três cor-
mesma, do esquecimento das realidades rentes, ao mesmo tempo que resgates
biológicas do organismo e do desapare- parciais. Algo está fora de dúvida: o
cimento do indivíduo por trás das medi- eugenismo, no seu ato de fundação mo-
das, dos caracteres quantificáveis e das derna (galtoniano), está profundamente
abstrações estáticas. Como num outro penetrado pela idéia, que será universal-
nível a antropologia física, a biometria, mente retomada, de que nas sociedades
possuindo o traço constitucional duma civilizadas a seleção natural, por obra de
desumanização metodológica relativa do diversas medidas de proteção social e
seu objeto, era perfeitamente suscetível, sanitária, como também das condições
sob a ação de certas forças político-ideo- gerais de conforto que mantêm as exis-
lógicas, de servir de instrumento para tências individuais afastadas de qualquer
prescrições e práticas intervencionistas risco maior, não desempenha mais o pa-

118 • DARWIN LIDO E APROVADO


pel discriminante e eliminatório que ela tárias” e os pobres são o alvo deste terrí-
assegurava na “natureza”, e cujo efeito vel movimento. Práticas similares foram
era privilegiar as melhores camadas no desenvolvidas nos países escandinavos.
plano da sobrevivência diferencial e da Na Alemanha, a grande figura de Ernst
reprodução. Daí o receio, sustentado por Haeckel, naturalista lamarckiano, funda-
mil exemplos, de uma “degenerescência” dor do “Sozial-Darwinismus” nacional
global (tema já aclimatado pela psiquia- se mistura com o eugenismo e o comba-
tria hereditarista) das populações huma- te contra a cultura alemã, desenvolven-
nas no nível das suas características bio- do nos seus trabalhos de vulgarização os
lógicas. Daí enfim a recomendação de temas da eutanásia e da “seleção es-
medidas institucionais de intervenção partana” que se encontrarão no coração
corretora e compensadora tendo como dos motivos-chave do nazismo, que se-
finalidade restaurar a qualidade biológi- rão preparados pelos “higienistas raciais”
ca do grupo pela introdução duma sele- Ploetz, Rüdin, Eugen Fischer e muitos
ção artificial aplicada a seus membros. outros. As medidas nazistas de esteri-
Ali se encontra o núcleo teórico do eu- lizacão humana se espalharão entre 1933
genismo moderno; e vimos até que pon- e 1940, e o programa de eliminação dos
to Darwin se opunha a ele. judeus, considerados como disgenéticos,
A complexidade extraordinária das será aplicado em seguida...
relações entre eugenismo e darwinismo Na França, o eugenismo de um
social nos diferentes países que foram o Vacher de Lapouge permanece estrita-
teatro da difusão das idéias nascidas da mente ligado às palavras de ordem de um
biologia moderna é tal que nenhuma re- “darwinismo social” pouco nuançado, e
gra absolutamente constante poderia ser as declarações eugenistas permanecerão
formulada quanto a uma homogeneidade essencialmente não aplicativas, ainda que
doutrinária realmente estável, com a ex- a proximidade da Alemanha e da depu-
ceção talvez do esquema de base que ração nazista tenha feito sonhar alguns
acabou de ser descrito (defeito de sele- médicos como o gobiniano René Martial.
ção natural = degenerescência = seleção O eugenista mais conhecido foi, talvez,
artificial). Nos Estados Unidos, que ao na França, o médico (emigrado para os
mesmo tempo são o território da expor- EUA) Alexis Carrel, autor do famoso tra-
tação maciça do “darwinismo social” balho L’Homme, cet inconnu (1935), re-
ultraliberal de Spencer (que não compor- petidor medíocre do discurso ordinário
tava, pelo menos para o seu fundador, a da higiene racial alemã e do eugenismo
prescrição de medidas eugenistas ou ra- esterilizador americano, simpatizante
cistas) e uma terra de imigração multir- declarado em 1936 das medidas nazis-
racial, de escravidão e de segregação, o tas de depuração biológica da raça, e
eugenismo esterilizador dos Davenport promotor do uso das câmaras de gás para
e dos Laughlin se difundiu cruelmente o tratamento “humano e econômico” do
durante um longo período que começa problema colocado à sociedade por al-
por volta de 1904. Os “fracos de espí- guns delinqüentes e doentes mentais.
rito”, os portadores de doenças “heredi- Carrel , criando e dirigindo sob Petain

CRÍTICA MARXISTA • 119


uma “Fundação francesa para o estudo Descendance de l’Homme seja lida com
dos problemas humanos” com vocação a inteligência requisitada por sua articu-
eugenista muito próxima da do Norue- lação no seio da coerência dialética da
guês Mjoëm, tinha elaborado o projeto teoria, que Darwin não era eugenista,
em 1915 e mandado suas equipes nem racista, nem neomalthusiano, nem
pesquisar, durante a Ocupação, a “quali- imperialista, nem pró-escravista, mas
dade biológica” das famílias imigradas; muito exatamente o inimigo de todos es-
Carrel sonhando com uma “aristocracia ses dispositivos de forças ideológicas que
biológica hereditária” e com o fim da tentaram recursivamente utilizar sua in-
democracia; Carrel, de quem a França fluência científica para se dar a ancora-
hoje limpa suas ruas e suas universida- gem naturalista de que eles precisavam
des, num movimento de tomada de cons- para cada uma das suas ressurgências.
ciência, para o qual estou feliz de ter con- Darwin tomou claramente posição con-
tribuído (ver Bonnafé et Tort, 1992); tra a eugenia proposta por Galton (ver
Carrel que hoje só tem como admirado- Anexos), ele se engajou pessoalmente
res e defensores furiosos alguns médi- contra o racismo opondo-se, como mem-
cos de extrema-direita, um pálido histo- bro de L’Ethnological Society, ao racis-
riador do CNRS, e os ideólogos do Front mo reivindicado por James Hunt e ao
national. racismo da Anthropological Society, e ar-
De Darwin até o nazismo, o caminho gumentando a favor dessa posição ética
é sinuoso e cortado por correntes cuja em La Descendance (ver Anexos); de
característica comum é a traição do pen- resto, mesmo tendo tomado emprestado
samento integralmente desenvolvido de a Malthus um elemento de modelização
Darwin. A verdade sobre o que Darwin matemática que ele aplicou às dinâmi-
escreveu a respeito do Homem não deve cas de crescimento das populações
ser procurada no trabalho em que ele não vegetais e animais sobre territórios li-
diz nada a respeito (A origem das espé- mitados quanto aos recursos, ele recu-
cies), mas naquele em que o assunto é sou a aplicação das recomendações
tratado (La Descendance de l’Homme). malthusianas às sociedades humanas
O transformismo darwiniano em antro- (ver Anexos); ele combateu também os
pologia era um humanismo materialista efeitos de extenuação física e moral das
aberto para uma ética assimilativa e populações indígenas, introduzidos no
oposta a qualquer forma de opressão e ultramar pelo flagelo mortífero da do-
de coerção desigualitárias. Um dos mé- minação colonial; ele odiava a escravi-
ritos do Dictionnaire é sem dúvida per- dão e qualquer forma de dominação e
mitir aos leitores o acesso aos textos que, de humilhação do homem pelo homem,
definitivamente, efetuam a demonstra- como podemos nos convencer lendo Le
ção disso. voyage d’un naturaliste, as cartas para
Asa Gray sobre a escravidão dos Negros
Conclusão nos Estados do Sul dos EUA durante a
Será preciso repetir ainda por muito Guerra de Secessão (ver Anexo), e tam-
tempo, à falta de conseguir que La bém, La Descendance.

120 • DARWIN LIDO E APROVADO


O discurso opiniático, contra a evi- desde sempre a possibilidade de ter aces-
dência lógica, histórica e textual dos er- so às fontes e constatar a inanidade des-
ros que consistem em tornar Darwin res- ses requisitórios sem fundamento. É con-
ponsável por todos os males desiguali- tra esses “erros”, entre outros, que se
tários e supremacistas, não poderia ser erige hoje Le Dictionnaire du darwinisme
totalmente inocente naqueles que detêm e de l’évolution.

Bibliografia
a) Livros:
L. Bonnafé, P. Tort, L’homme, cet inconnu?, Paris, Syllepse, 1992.
Ch. Darwin, Voyage d’un naturaliste autour du monde; L’origine des espèces; La
Descendance de l’Homme, essencialmente os capítulos IV, V e XXI;
Autobiographie.
M. Denton, Evolution: ume théorie en crise, Paris, Flammarion, 1992 [1985].
F. Engels, Anti-dühring, Paris, Editions sociales, 1977; Dialectique de la nature,
Paris, Editions sociales, 1968.
F. Galton, “Hereditary Talent and Character”, MacMillan’s Magazine, junho e agos-
to 1865; Hereditary Genius, Londres, MacMillan, 1869.
E. Haeckel, Anthropogenie, Leipzig, W. Engelmann, 1874; Die Lebenswunder,
Stuttgart, A Kröner, 1904.
T. R. Malthus, Essai sur le principe de population, 1978.
K. Marx, F. Engels, Lettre sur les sciences de la nature, Paris, Editions sociales,
1973.
S. G. J. Mivart, Genesis of species, 1871; Lessons from Nature, 1876.
H. Spencer, Firsts Principles, 1862; Principles of Biology, 1864-1867, 2 vol.;
Principles of Ethics, 1879-1893, 2 vol.; Essays, 1857-1874, 3 vol.
Autobiographie (“naissance de l’évolutionnisme libéral”), precedido de Spencer et
le système des sciences, por P. Tort, Paris, PUF, 1987; P. Tort, La Pensée hierar-
chique et l’évolution, Paris, Aubier, 1983, p. 165-197 (“L’effet réversif et sa
logique”), e o capítulo sobre Spencer; P. Tort (coord.), Misère de la sociobiologie,
Paris, PUF, 1985; P. Tort (coord.), Darwinisme et société, Paris, PUF, 1992; P.
Tort, “Nouveaux Fondements pour une éthique évolutive”, Diogène, n. 172,
dezembro 1995; P. Tort, (coord.), Dictionnaire du darwinisme et de l’évolution,
Paris, PUF, 1996, 3 vol., 5.000 p.
Herbert Spencer et l’évolutionnisme philosophique, Paris, PUF, “Ed. Que sais-je?”,
1996 (no prelo).

CRÍTICA MARXISTA • 121


b) Artigos:
“Antropologie darwinienne” (P. T.), “Carrel” (P. T.), “Civilisation” (P. T.),
“Compensation – Technologie de”– (P. T.), “Croisements” (P. T.), “Darwinisme
anglo-saxon” (M. Di Gregorio); “Darwinisme et évolutionnisme philosophique”,
(P. T.), “Darwinisme social” (D. Becquemont). “Davenport” (P. T.), “Domestication”
(P. T.), “Effet réversif de l’évolution” (P. T.), “Espinas” (A La Vergata), “Eugénisme”
(D. Becquemont), “Evolution – Système de l’” – (P. T.), “Fischer” [Eugen] (B.
Rupp-Eisenreich), “Galton” (Ch. Lenay), “Haeckel” (B. Rupp-Eisenreich), “Hunt”
(B. Rupp- Eisenreich), “Instincts sociaux” (P. T.), “Laughlin” (P. T.), “Malthus”
(J. Dupâquier) e “Addition” (P. T.), “Marx-Engels e Darwin” (B. Naccache), “Organicis-
me sociologique” (P. T.), “Progrès” (P. T.), “Sociobiologie” (G. Guille-Escuret),
“Nature/culture” (Y. Quiniou) e “Addition” (P. T.), “Ploetz, Schallmayer” (B. Massin),
“Vacher de Lapouge” (A. Béjin), – P. Tort, “Sur le matérialisme darwinien en éthique”,
L’Inactuel, primavera de 1996; P. Tort, “Le Dictionnaire du darwinisme ou les
raisons d’une encyclopédie”, Gradhiva, primavera de 1996.

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