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“The People v. O. J.

Simpson” e o jogo de interesses”


Por Yasmine Evaristo - 4 de Fevereiro de 2018
Publicado originalmente em ​www.planoaberto.com.br

O seriado ​“American Crime Story – The People v. O.J.


Simpson” ​representa a investigação e julgamento do assassinato de Nicole
Brown Simpson, ex-esposa do jogador de futebol americano Orenthal James
“The Juice.” Simpson.

No ano de 1994, o jogador foi acusado de assassinar a ex-esposa,Nicole


Bronw e, um amigo, Ronald Goldman, na casa da vítima. O caso é até hoje
comentado, pois O. J. foi inocentado. A controvérsias na investigação. Por ser
tratar de uma pessoa pública os pré-julgamentos e a manipulação das
informações veiculadas na mídia e no tribunal, são vistos como influências que
alteraram a percepção sobre a verdade. A série, foi idealizada e dirigida por
Ryan Murphy. Um de seus produtores é o ator John Travolta, que interpreta um
dos advogados do jogador Robert Shapiro. Seu roteiro é baseado no
livro ​“American Crime Story – o Povo Contra O.J. Simpson”​ de Jeffrey
Toobin e Lucas Magdiel.
“The Juice” era uma figura muito popular na época. Sua carreira no esporte
ascendeu na década de 1970, sendo que ele foi incluído no ​Pro Football Hall of
Fame​ em 1985. Ele foi jogador dos times ​Bufallo Bills​ e ​San Francisco 49ers​,
se destacando por sua velocidade. Essa visibilidade, levou o astro a outros
meios de comunicação como o cinema. O. J. estrelou campanhas publicitárias,
séries (​“Raízes”​, 1979) e filmes (trilogia ​“Corra que a Polícia Vem Aí”​)​.​ Uma
pessoa como ele, envolvida em um caso tão hediondo, não poderia chamar
menos atenção.

Nos dez episódios de “American Crime Story – The People v. O.J. Simpson”​ ​o
que é abordado não é apenas a aplicação da lei em uma investigação e sim os
interesses dos envolvidos. Da promotora Márcia Clark (Sarah Paulson) ao
advogado de defesa Johnnie Cochran (Courteny B. Vance) os envolvidos
tinham nomes e imagens a serem construídas – ou destruídas – que
importavam mais que as realidade do caso. O conceito de verdade é algo que
percebemos ser maleável nessa situação. Não importa o que exista de prova e
para onde ela lhe guie se, há margens de erros que possibilitem questionar se
são genuínas ou não.
Agressão contra a mulher ou intolerância racial?

Algo que é apontado em toda a narrativa é como o casal Simpson se


relacionava A relação de O. J. com Nicole era conturbada. Já haviam
acusações de agressão, comprovadas por denúncias a polícia, enquanto
casados. O jogador era uma pessoa de comportamento explosivo. A promotora
Clark baseia toda a sua acusação nesses antecedentes que comprovam que a
bomba-relógio na qual Orenthon havia se transformado, seria capaz de tal
agressão.

Outro questionamento feito era sobre a influência da etnia dele nas ações da
polícia e da justiça. O caso aconteceu durante um período de grande tensão
racial. Há alguns anos, a polícia de Los Angeles já era acusada de abordagens
violentas contra a população negra. Esse assunto ainda é bem atual, como
podemos perceber nos casos de​ abusos policiais veiculados na mídia nos anos
de 2016/17​. Atrelada a essa situação, julgar a culpa ou não de O. J. é algo que
esteve além da análise das provas. O quanto essa investigação não foi
direcionada para culpa dele devido cor da sua pele? Não puni-lo pelas
agressões à esposa foram atos para não “manchar” sua persona pública? Em
seu roteiro, a série mantém essas questões em foco.

Manipulação dos fatos: apelo a emoção

A população se divide em apoiar ou rechaçar o jogador, pautado nas questões


raciais. A mídia enxerga nisso um “prato cheio” para o sensacionalismo,
aumentando assim a venda de jornais e revistas e, da audiência dos
programas televisivos. O caso chegou a ofuscar eventos como a Copa do
Mundo de Futebol de 1994. Foram um ano desse assunto recebendo atenção
nacional e internacional.

O judiciário, também usa dessa questão para delimitar a inocência dele,


alegando conspiração para prender um homem negro que ascendeu a uma
camada social mais alta. O. J. e seus advogados tinham certeza de que as
constantes ações discriminatórias contra a população negra os fariam ganhar a
causa.

O jogo de manipulação é tanto que o julgamento do crime se perde na batalha


de egos dos envolvidos. A manipulação entre os participantes não permite uma
avaliação isenta do caso. Qualquer lado que se opte defender ou acusar será
escolhido pautado em emoções e não razões. Percebam que não ser trata
mais de comprovar que O. J. assassinou a esposa, mas garantir o respeito e o
status profissional dos advogados, dos promotores e do juiz envolvido.

Juízo de valor

Nos momentos que o olhar é deslocado do processo para a construção da


imagem das vítimas é perceptível duas posturas que afirmam esse descaso
com a investigação. Uma delas é o fato da morte de Ron Goldman não receber
tanta atenção quanto a de Nicole. Tudo é sobre os Simpsons e nada além
deles importa. A degradação de Nicole, por meio de revelações de sua vida
pessoal, recebe juízo de valor diferente das revelações sobre seu marido. Ela
fazer uso de ilícitos e ter uma vida sexual, tida como promíscua, é pior do que o
ex-esposo (que não vivia muito diferente dela) – citado em denúncias de
agressão contra ela nos 17 anos de relacionamento -, que era considerado
charmoso e másculo.

Outra mulher atacada constantemente é a promotora Márcia. Ela é exposta e


criticada, seja por suas roupas, penteados ou qualquer “vacilo” de sua vida
pessoal. Até o fato de ser mãe e estar em processo de divórcio se torna uma
arma para questionar a sua capacidade de atuação em um caso que demanda
dedicação constante. Somado isso a sua confiança, que a trai ao fazê-la
pensar que sabe qual a reação do público, ocorre o desgaste de sua imagem,
mais uma influência na maneira como o caso foi visto.

Enquanto isso, pessoas como Cochran e O. J. foram ovacionadas como os


detentores da verdade em suas representações impecáveis.

Como estabelecer as suas verdades

O trunfo da defesa foi a intolerância racial e as agressões da polícia de Los


Angeles contra a população afro-americana. Ao utilizar disso para afirmar a
inocência de seu cliente, Shapiro e Cochran conseguem expôr o racismo
omitido, mas também prestam um desserviço a causa.
Revelar a população as fitas nas quais um policial admite forjar provas e
agredir, deliberadamente negros, por que não gosta ou aceita a presença deles
é o ato mais grandioso proveniente dessa investigação. Essa prova expôs ao
mundo, que existe sim, uma perseguição a um grupo específico da população
e que ele é um ato de discriminação explícita.

O desserviço vem do fato desses mesmos advogados, aproveitarem do medo


de uma “guerra civil” para moldar a opinião pública. A etnia de Simpson é
sobreposta às provas, ao seus antecedentes de agressão e ao compromisso
com a verdade. O que faz com que ele seja inocente é o controle que se tem
dos sentimentos de um grupo que há muito tempo vem sendo exterminado. É o
controle do inocente útil, naquele momento, necessário àquela situação.

Do outro lado, a acusação também usa de uma outra pessoa negra, como
componente do “time” para afirmar que não pretende discriminar ninguém. A
postura dos envolvidos visa a manutenção de seus egos narcisistas e de suas
perfeitas carreiras. Mais uma vez, a afirmação de que naquele julgamento, o
que importa é a maneira como as coisas são vistas e não o que elas realmente
são.
Hoje, após 24 do ocorrido, diante de livros, filmes e outro materiais sobre o
caso, podemos perceber o quanto o julgamento de O. J. Simpson foi confuso.
Não há uma verdade, mas algumas necessidades que foram remediadas
naquele momento. Quanto a justiça, cada um a denomina da maneira que lhe
convém.

Ficha Técnica

American Crime Story - The People v. O. J. Simpson, 2016, Estados


Unidos

Direção:​ Ryan Murphy

Roteiro:​ Jeffrey Toobin, Scott Alexander

Elenco:​ Sterling K. Brown, Kenneth Choi, Christian Clemenson, Cuba Gooding


Jr, Bruce Greenwood, Nathan Lane, Sarah Paulson, David Schwimmer, John
Travolta, Courtney B. Vance, Chris Bauer, Selma Blair, Jordana Brewster

Yasmine Evaristo

Mineira, artista plástica, cinéfila e estudante de Letras. Ama


filmes mais que chocolate, até porque odeia chocolate. Gosta
de gatos, zumbis e Tarantino. Tenta ser menos ácida , tenta…

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