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Universidade Federal do Maranhão – UFMA

São Luís, 04 de junho de 2018

Ciro Leonardo Campos Pinheiro

Curso de Ciências Sociais

Disciplina: Relações Sociais de Gênero

ATIVIDADE AVALIATIVA
RESENHA DO FILME “MILK: A VOZ DA IGUALDADE”

Em Milk: A voz da Igualdade, filme de 2008, a discussão central gira em torno da

construção de identidade da comunidade gay de São Francisco (EUA) na década de 70. Nesse

cenário, uma figura de grande importância é Harvey Milk, ativista do movimento gay, que lutava

pela conquista de direitos e espaço para a comunidade.

Antes de chegar à cidade de São Francisco, Milk deixa seu emprego a fim de, junto ao

seu companheiro, abrir uma loja de artigos fotográficos na cidade. Passado um tempo, percebe-se

que aquele espaço figurava uma espécie de gueto onde a comunidade gay poderia se refugiar, haja

vista que, cada vez mais, Milk incorporava as defesas políticas da comunidade. Sempre atuante em

seu distrito e representando um grande número de pessoas, se candidata por três vezes, até que na

última, é eleito supervisor da cidade de São Francisco. Nesse processo de seguidas candidaturas,

algo interessante pode ser visto: Milk precisa de adequar, corta os cabelos, tira a barba, passa a usar

ternos etc. Para acessar um ambiente é preciso, no mínimo, seguir as regras impostas por ele, caso

contrário, você será, como propõe Judith Butler (2000), um “corpo abjeto”.

Certamente, no caso de Milk, a condição de homossexualidade impunha a ele,

independente de cargos ou aparência, o lugar de abjeção. O curioso, então, é perceber como, para

sujeitos considerados abjetos, a cobrança pelo reenquadramento se torna uma constante e qualquer

falha na performance soa como indicativo de desvio. E aqui, a performance se mostra como outra

categoria importante. Também muito utilizada por Butler (2017), a performatividade diz respeito à

prática reiterada e contínua de comportamentos referentes às figuras de gênero interpretadas como


correspondentes pela sociedade.

Harvey Milk serve como exemplo da categoria de performatividade quando, para além

do vestuário, precisa trabalhar toda uma série de elementos que vão ser demonstrativos do gênero

ao qual se identifica e é identificado: a luta é por direitos dos homossexuais, mas os signos da

masculinidades precisam estar presentes para que ele possa ser aceito como político. Esse processo

de reconstrução e reiteração da performatividade masculina não é a única no filme. O próprio

conceito do que é “ser gay” também vai sendo construído discursivamente, a partir da interação

com outros membros da comunidade homossexual – à época, como mostra o filme, até

participavam das discussões pessoas lésbicas e transsexuais, mas o movimento não se identificava

como LGBT, apenas gay.

Aqui podemos lembrar de Foucault (2016) em A História da Sexualidade quando da

construção de diversas categorias que levam em consideração as diferenciações do padrão cis-

heteronormativo. Milk, junto dos outros ativistas, estavam, àquela época, definindo o que era

representativo da comunidade gay, construindo discursos. Estudos americanos apresentados por

Carole Vance (1995) mostram documentos datados do século XVIII onde os casos de relações

sexuais entre pessoas do mesmo sexo eram classificadas como uma parafilia genérica e não como

homossexualidade, já que essa categoria não existia. Foram os movimentos por liberdade sexual das

décadas de 60 e 70, tais qual o encabeçado por Harvey Milk, quem construíram a identidade gay o

discurso sobre o que é o “ser gay”.

Esse processo de construção e inserção na vida social, no entanto, como se reproduz

ainda hoje, causava incômodo. Um corpo homossexual, um corpo abjeto, não poderia estar no

espaço em que ocupava. Inúmeras foram as manifestações de ódio e intolerância contra as pautas

levantadas por Milk que, certo dia, um político conservador o assassinou na Assembleia da cidade.

O desenrolar do assassinato não é mostrado no filme, mas nas cenas onde os dois aparecem em

interação, o incômodo do assassino, Dan White, é visível. A ele, era inconcebível a ideia de Milk ser

gay e ter um cargo político. O discurso sobre a sexualidade produz essas reações porque liga a
orientação sexual ao gênero, criando padrões normativos, e tornando abjetas todas as formas que

destoam dessa regra. Pessoas que têm pênis são homens, logo, devem se relacionar apenas com

pessoas que têm vagina, que devem ser mulheres – o oposto se repete. Sendo assim, esquece-se que

toda essa naturalidade apresenta, na verdade, um forte componente que é mediado socialmente.

Esse esquecimento produz consequências desastrosas na vida daqueles que são marcados pelos

traços da abjeção.

Lugares de exclusão são definidos, profissões são definidas, espaços sociais, e todo um

arcabouço de segregação se forma, para demarcar o lugar dessas pessoas. Quando chega-se a casos

extremos, repete-se – de maneira até comum – o destino de Milk: a morte.

REFERÊNCIAS

BUTLER, Judith. Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do ‘sexo’. In: LOURO, Guacira

Lopes (org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p.

151­172.

BUTLER,  Judith.  Problemas   de gênero:  feminismo  e  subversão  da  identidade.  15 ed.  Rio  de

Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.

FOUCAULT, Michel.  História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. Rio de Janeiro, Edições

Graal, 2016.

VANCE, Carole. A Antropologia redescobre a sexualidade: um comentário teórico. Physis –

Revista de Saúde Coletiva. Rio de Janeiro, vol. 5, n. 1, 1995. p. 7 – 31.