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Aula 3

GIDDENS. A. As conseqüências da modernidade. São Paulo: UNESP, 1991.


Introdução. Até página 59

• A tese básica do autor é a de que a modernidade ainda está ditando o modo de


vida da contemporaneidade, náo havendo razão para se falar em nova era.
• A modernidade, ainda em ação, como vivëncia da sensação de segurança X
perigo e confiança X risco.
• O otimismo da modernidade. Crença básica dos modernos de que a
modernidade, apesar da turbulência, traria um futuro melhor, de paz, progresso e
bem estar.
• O lado sombrio da modernidade no século XX. As guerras, os totalitarismos, a
violência social....os tempos sombrios atuais ou o tempo da barbárie? a violência
doméstica, o chamado “esgarçamento do tecido social”, o medo, o pânico....o
mundo parece estar novamente ã beira do abismo, porém, diferentemente do
século XX, quando se imagina a “destruição criativa”,agora se vislumbra o
apocalipse final.
• As forças da ordem industrial, realçadas por Durkeim; as forças do capitalismo,
realçadas por Marx; as forças do racionalidade capitalista técnica transformada
em burocracia, realçadas por Weber, na impulsão da modernidade.
• O tempo e o espaço, segundo Giddens, como categorias fundamentais para se
pensar a sociedade.
• O dinamismo da modernidade, não se dá propriamente pelo capitalismo em si,
pela administração burocrática do homem ou pela ordem industrial, mas pela
separação tempo/espaço; pelos desencaixes e pela reflexividade.
• Tempo e espaço
- na pré-modernidade o tempo estava vinculado ao espaço: os marcadores do
tempo se baseavam em eventos da natureza ou em acontecimentos sociais
(estações do ano, período de chuvas ou estiagem, sol, lua, festejos, tal como
ainda se faz hoje com algumas datas do calendário).
- A popularização do relógio mecânico (fins do século XVIII, sendo que os
primeiros relógios mecânicos datam do final do século XIII) é um marco
importante do advento do tempo abstrato e da separação tempo/espaço.
- o tempo abstrato (do relógio) como tempo vazio. Não está aprisionado à
duração de um acontecimento local, portanto, pode organizar qualquer atividade.
Por exemplo, o tempo para a refeição ou de uma aula passa a ser medido pelo
relógio e náo pela duração do ritual de comer de uma cultura ou pela duração da
aula de um determinado professor.
- A ligação tempo-espaço produz tempos e espaços singulares, não equivalentes
a outros tempos e espaços. Ex. dificilmente o tempo de uma aula ou de uma
sessão de psicoterapia, se náo fossem medidos pelo relógio seriam equivalentes.
- O tempo do relógio como um tempo padronizado, que pode sincronizar
atividades
- O relógio e a universalização do tempo. Um tempo único para todo o planeta e
para toda a humanidade, apesar do fuso horário. O calendário universal.
- O esvaziamento do tempo corresponde ao esvaziamento do espaço. O espaço é
o lugar “desabitado”, “não identitário”, “vazio”, “uniforme”, que pode ser
preenchido por qualquer objeto ou por qualquer pessoa, como o espaço de uma
rodoviária ou de uma rua. O lugar tem “dono”, é preenchido, ocupado, habitado,
tem uma identidade, como é o caso de uma asilo. Porém um lugar pode se
transformar em espaço e vice-versa. Um lugar passa a ser um espaço quando
somos colocados nele como passageiros submetidos a comandos que nos
dirigem, como placas de tränsito, instruções de manuais de uso de equipamentos
ou sinalizações de supermercados. Habitar um lugar (espaço) significa colocar
nele o próprio ritmo, inscrever o tempo. Os espaços vazios da
contemporaneidade são, essencialmente, os espaços de circulação, de trânsito
(Marc Auge – Não lugares). A linguagem é o principal instrumento de produção
de permutação entre lugar e espaço e de conexão entre tempo e lugar.
• Desencaixe
- Nas sociedades pré-modernas as atividades e relações são locais, dominadas
pela “presença”; na sociedade moderna os relacionamentos são entre
“ausentes”, relações fantasmagóricas. O local é penetrado por relações bem
distantes (o global invade o local).
- Na disjunção tempo/espaço o lugar se torna fantasmagórico e admite a
penetração e intervenção em si de relações distantes. O local é invadido pelo
global. Os relacionamentos são estabelecidos à distância e não cara a cara,
como ocorre nos relacionamentos locais estabelecidos na junção entre tempo e
espaço. A comunicacão à distância é um bom exemplo de desencaixe.
- O desencaixe refere-se ao deslocamento das “relações dos contextos locais de
interação e seu reencaixe em outras unidades de tempo e espaço”. Podemos
também usar o exemplo da transferência na psicanálise.
- O desencaixe como recurso indispensável para o alcance de grandes
extensões do tempo e do espaço (mais uma vez a transferência pode ser um
exemplo, levando para todas as relações do sujeito um modelo de
relacionamento e seus conflitos). A universalização é outro exemplo.
- Estratégias de desencaixe:
- Fichas simbólicas: o dinheiro como principal ficha simbólica (ou abstração)
que abole as relações ou elimina qualquer presença dos atores que representa.
Abole a relação entre representante e representado ou dispensa a presença
daquilo que representa. Pode ligar-se ou referir-se a qualquer coisa (adquirir
qualquer objeto). Na verdade, não representa nada, não possui referente, é um
signo completamente arbitrário. É um poderoso instrumento de separação
tempo/ espaço, exo o produto do trabalho de seus pais realizado em outro lugar
é deslocado pra cá, sob a forma de dinheiro, para permitir que vocês usufruam
do trabalho de outros. Isso é feito sem que as pessoas envolvidas na barganha
tenham que estar presentes e realizar a troca dos produtos de seu trabalho
diretamente.
- O dinheiro permite romper com o imediatismo da troca de mercadoria por
mercadoria, permitindo adiar a transação dos bens, criando o débito/crédito
(presença e ausência). Permite também o endividamento, impossível quando a
troca de faz de forma imediata.
- O dinheiro permite separar espacialmente o indivíduo de sua posse (Simmel).
Ao possibilitar isso, facilita a acumulação (o indivíduo não precisa ter consigo
ou carregar todos seus bens materiais). Produz distância espacial e temporal
(virtualiza), segundo Giddens, é mais poderoso do que o poder e a linguagem
enquanto instrumento de desencaixe (virtualização: deslocamento das coisas no
tempo e espaço).
- O dinheiro é o grande ícone da “crise da representação”. Ele é capaz de se
vincular a qualquer referente, de representar qualquer coisa.
- O lastro principal do dinheiro é a confiança, tal como foi demonstrado pela
recente crise financeira. O valor de uma moeda ou de um título depende da
confiança que se tem no país ou no banco emitente. Mais do que isso, depende
da confiança de que o outro irá corresponder da mesma forma e honrar o valor
da moeda. Funciona como uma crença coletiva. Confiança é uma fé, sobretudo,
a confiança no dinheiro.
- Sistemas peritos
- A organização e gerenciamento da vida pelos peritos: profissionais ou
técnicos especializados que ditam o que e como fazer (a psicologia e os
psicólogos como um sistema perito de comando da subjetividade). O cotidiano é
invadido pelos peritos/especialistas (advogados, médicos, juízes, professores,
psicólogos, nutricionistas....os “personal trainners, personal stylits etc.)
- Os sistemas peritos como reencaixe, em espaços e tempos locais (tornados
abstratos) de relações e conhecimentos produzidos em lugares distantes (na
verdade produzidos em espaços e tempos vazios. Trata-se de uma invasão do
“local”, das singularidades por conhecimentos e práticas padronizadoras que
substituem a cultura local pela global ou universal.
- Os sistemas peritos e a confiança: os peritos dependem da confiança dos
periciados, do reconhecimento do seu saber e de sua competência como
especialista. Delegamos ao outro ações sobre nós, extremamente importantes
(colocamos nossa vida nas mãos do outro).
- Mas a confiança não é propriamente nos peritos, mas sim no sistema do qual
fazem parte ou representam, confiança ou fé está depositada no suposto
conhecimento que os profissionais detêm e esse conhecimento é atestado pelo
“sistema” do qual participam ou representam ( o diploma é uma ficha simbólica
que atesta a competência do perito).
- A vida cotidiana está invadida de sistemas peritos – dos produtos de limpeza
aos eletrodomésticos e a própria casa. O sistema perito nos substitui na avaliação
das coisas. Denuncia nossa incompetência (dessubjetivação).
- O que importa destacar é que o sistema perito e as ficha simbólicas, são
mecanismos do desencaixe, da separação tempo espaço, da produção de
distanciamento. E o distanciamento impõe a confiança como seu sustentáculo
principal.
• Confiança e risco
- Confiança refere-se a uma expectativa, uma certeza ou previsibilidade de que
algo aconteça ou que uma pessoa faça ou se comporte de maneira esperada.
“Toda confiança, é confiança cega”, p.41, portanto, envolve uma crença, uma
credibilidade dada à priori.
- A confiança procura afastar a figura do risco. O mundo em ebulição da
modernidade é o mundo da incerteza e do risco. Boa parte dos riscos são
desconhecidos porque se confia no sistema perito. A potencialização do risco e
da incerteza no contemporâneo, o medo e a extrema dependência dos sistemas
peritos.
- O risco decorre das situações de perigo, significando isso a frustração dos
resultados esperados pela interveniência de fatores imprevisíveis e
incontroláveis.
- A gestão dos riscos como estratégia de controle e como tentativa de minimizar
a angustia da dúvida e da incerteza (os “projetos sociais”, a profilaxia, as
intervenções nas chamadas populações de “risco”)
- A confiança surge para minimizar o temor da ausência no tempo e no espaço.
Não seria necessário confiar naquilo que estive dado à visibilidade, que estivesse
presente (explo. A cozinha de um restaurante, a fabricação de comida enlatada, o
dinheiro deposita no banco etc.)

• Reflexividade
- “Pensamento e ação estão constantemente refratados entre si” (p.45). Não é
mais a tradição ou o costume que dirigem o pensar e o fazer do homem no seu
cotidiano, mas sim o pensamento e a ação continuamente interrogados, postos
em intenção e submetidos ao exame e à critica.
- O homem como sujeito e objeto. O homem como centro, Senhor (e ao
mesmo tempo servo) de si mesmo. A renovação constante de si mesmo e do
mundo pelo conhecimento e pelas práticas ( A psicanálise com ação reflexiva).
Todo conhecimento é auto-conhecimento. As ciências humanas como
paradigma da reflexividade moderna. A reflexão faz com que (tal como na
psicanálise) a atividade de pensar e simbolizar que parte da experiência retorne
a ela modificando-a). A iatrogenia: a interpretação cria o sentido, em vez de
apenas revelá-lo (na psicanálise); as instituições “criam” o objeto ou o
problema do qual se ocupam (doença, velhice, adolescente em conflito com a
lei, loucura etc.).
- Os peritos e o esvaziamento do tempo e do espaço como produtores daquilo
que julgam combater; produtores de demandas locais para responder a
problemas globais.

• Subjetivações das experiências de confiança, perigo e risco


- o sentimento de confiança é a base da estruturação psicológica: fornece a
crença básica em si mesmo e no mundo; fornece a crença ontológica da
existência (da presença e continuidade do sujeito de do mundo).
- a confiança no mundo é essencial para o estabelecimento de relações objetais,
para a busca do outro.
- as experiências primevas de confiança se constituem nas relações cara a cara,
mediante a presença do outro. A ausência ou a distância gera a desconfiança e
o temor do desamparo (a ansiedade depressiva).
- a crença no amor do outro é fundamental para a formação de um sólido
sentimento de confiança ontológica. A confiança é, no plano psicológico, a
confiança no amor, nos laços afetivos e emocionais. (por isso mesmo os
amantes se entregam cegamente um ao outro).
- O amor romântico - reação da modernidade aos casamentos “arranjados” da
pré-modernidade - como solo propicio para a exacerbação da confiança (a
entrega total ao outro; a eternidade; a certeza; crença nos sentimentos do outro)
- O perigo e o medo como sentimentos despertados pela falta ou perda de
confiança, decorrentes da ausência primária do outro. Desencaixes e
disjunções tempo e espaço como fontes da sensação de perigo e de medo.
- Perigo, medo e risco como sentimentos emergentes na modernidade e
acentuados na contemporaneidade.
- As fobias como subjetivação do medo proveniente de uma insegurança
ontológica
- A paranóia como subjetivação do perigo (a persecutoriedade)
Tese de Bauman: a modernidade exigia a renúncia à realização dos desejos em
troca da segurança e confiança; a pós-modernidade propõe a realização dos
desejos com a contra-partida da insegurança.
Confiança e modernidade
- O distanciamento pela disjunção tempo e espaço, as ficha simbólicas e o sistema perito
criam uma situação de “desatenção civil” (não é a indiferença blasé do Simmel), uma
atenção desconcentrada (flutuante?) típica das cenas urbanas. As pessoas se cruzam nas
ruas, não prestam atenção umas nas outras, mas subsiste entre elas um clima de
“confiança”
- A confiança na modernidade é assegurada (ou prometida) pelos sistemas abstratos e
não pelos encontros individuais face a face. A modernidade produz de tal modo a
dependência dos sistemas abstratos e do sistema perito que é difícil abdicar deles. Os
sistemas abstratos e peritos asseguram a diminuição do risco e, consequentemente,
afastam o perigo. O sistema abstrato/perito é profundamente reflexivo, ele produz seus
resultados a partir da aplicação dos conhecimentos que cria, por isso gera eventos que
asseguram a confiabilidade.
- Existem os pontos de acesso aos sistemas abstratos. Mesmo quando nesses pontos de
acesso há encontro cara a cara o que provê a confiança é o sistema abstrato que o
profissional representa. Por explo. Um médico como representante da medicina.
- O sistema perito opera em dois planos: o do palco onde há o contato e se mostra o que
se faz para o público e o bastidor onde se esconde o que se faz. O essencial nos peritos é
a passagem entre o “palco” e “bastidor”, entre o que se mostra e o que se oculta (é um
autêntico teatro ou espetacularização).
- A confiança não se estabeleceria se o usuário tivesse acesso a todas as operações e
ações do perito. Por isso exames, testes etc são mantidos em sigilo, assim como outras
atividades do perito/profissional.
- vez ou outra o sistema perito/abstrato se realimenta de reencaixes (relações pessoais,
fixadas no tempo e espaço) como em encontros pessoais entre profissionais e clientes ou
mediante o uso de intermediários como por exemplo, secretárias.
- a confiança funda-se numa crença, num ato de fé, e é mais um sentimento do que uma
produção racional. No plano pessoal ou das relações cara a cara, o sentimento de
confiança se remonta às relações primevas entre a mãe e o bebê.
- A confiança ontológica decorre das experiências de presença/ausência no
relacionamento do bebê com seu protetor. Portanto, é uma experiência de tempo e
espaço, da vivência do distanciamento no tempo e no espaço. No plano ontogenético o
oposto da confiança é a angustia ou o pavor existencial.
- O pré-moderno e o moderno relativamente à confiança p. 104